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- Exposições: Monet à Beira d'Água - A mostra interativa do precursor do Impressionismo
Em cartaz no Parque Villa-Lobos até o final de março, o evento multimídia desenvolvido pelo Museu Itinerante de Artes Imersivas (MIRA) permite o mergulho sinestésico no trabalho de Claude Monet. Entre um bloquinho e outro do Carnaval de 2023, a turma achou interessante visitar a exposição “Monet à Beira d´Água”, em cartaz desde 1º de novembro de 2022 no Parque Villa-Lobos. Nada como uma lufada de arte e um tempero de pintura clássica em meio à folia pelas ruas de São Paulo (que vitimou meu agora falecido e até então estimado e cheirosinho tênis), né? E nada como ter amigos com gostos tão ecléticos, hein? Empolgado com a proposta cultural durante a festa pagã (como vocês sabem, sou mais as visitas aos cinemas, às livrarias, aos museus e aos espaços artísticos do que os cortejos musicais atrás dos trios elétricos) e vislumbrando uma boa pauta para o Bonas Histórias (algo sempre bem-vindo), não pensei duas vezes e fui com o grupo de animados foliões conferir a mostra interativa de Claude Monet em pleno Sabadão de Carnaval. Confesso que estava há um tempão querendo ver “Monet à Beira d´Água”. Cheguei até a rondar o local em janeiro, em minhas férias no trabalho da Dança & Expressão, tamanha era a minha disposição para conhecer a intitulada maior exposição multimídia do pintor francês que fora o precursor do Impressionismo. Na certa, calculei no auge do Verão paulistano, a visita renderia um ótimo post para a coluna Exposições, inativa desde abril de 2022, quando analisei a mostra fotográfica “Amazônia”, de Sebastião Salgado. Contudo, não sei o porquê, acabei não entrando naquele momento no novíssimo espaço artístico da cidade e na mostra digital de Monet. Talvez tenha sido seduzido, no mês retrasado, pela novidade da Roda Gigante ali perto (que também vale a visita!), pela continuação da caminhada pelo Parque Villa-Lobos (o meu favorito na capital paulista) ou mesmo por mais uma visita à Biblioteca do Parque Villa-Lobos (um local de parada obrigatória para quem curte literatura). Vai saber! Dessa vez o lance foi totalmente diferente. Ao lado de quase uma dezena de amigos (dinâmica social em que nossas vontades pessoais são provisoriamente suprimidas pelas decisões do grupo), tendo comprado os ingressos antecipadamente (presente da Marcelinha – obrigado!!!) e querendo uma folga dos bloquinhos (assassinos da dignidade humana, do bom gosto musical e dos pares de tênis que não são à prova de água), era impossível declinar em cima da hora pela segunda vez a visita à “Monet à Beira d´Água”. Ainda bem! Porque curti pra valer o programa e a programação do evento, um dos mais inusitados em cartaz na cidade entre o final de 2022 e o início de 2023. É verdade que a boa companhia (abraços, Paulo, Mara, Rose, Caio, Marcela, Daniela e Markus!) também contribuiu para potencializar a experiência imersiva. A exposição chegou a São Paulo depois de ter feito muito sucesso no Rio de Janeiro, onde bateu recorde de público. A tenda montada perto do Boulevard Olímpico, ao lado do belíssimo Museu do Amanhã, exibiu a mostra interativa sobre Claude Monet para os cariocas entre março e junho de 2022. Desenvolvido pelo Museu Itinerante de Artes Imersivas (MIRA), startup brasileira voltada para eventos artísticos com pegada multimídia e tom imersivo, “Monet à Beira d´Água” tem como proposta mostrar a relação do pintor francês com a água. Daí o nome do evento, claro! Vale a pena dizer que Claude Monet revolucionou a arte pictórica justamente pela técnica de pincelar traços que se aproximassem da realidade (daí o termo “passar a impressão”, que virou, obviamente, Impressionismo), mas sem a preocupação de emular a vida real tão fielmente (como era feito, por exemplo, pelos artistas do Realismo). Para os pintores impressionistas (além de Monet, Pierre-Auguste Renoir, Édouard Manet, Edgar Degas, Berthe Morisot, Joaquín Sorolla, Olga Boznańska, Mary Cassatt e Max Liebermann foram figuras emblemáticas), uma tela deve sempre se parecer uma tela, mas também precisa transmitir a imagem da paisagem retratada, o que gera um efeito dúbio na plateia (realidade versus irrealidade). O ideal para eles é transmitir uma determinada imagem com o mínimo de pinceladas. Já para os pintores realistas (como Gustave Courbet, Édouard Manet, Jean-François Millet, Edgar Degas, Honoré Daumier, Rosa Bonheur, Winslow Homer e Isabel Quintanilla), um quadro tem que dialogar exclusivamente com os cenários, as pessoas e os objetos enfocados. Para eles, o público diante da pintura precisa se esquecer que está vendo uma recriação artística (efeito parecido com o que a fotografia faz), independentemente da quantidade de pinceladas. Aí o que vale é a aproximação ao máximo da realidade objetiva. Quanto mais fidedigno, melhor! É importante dizer que o Impressionismo surgiu como oposição ao Realismo, que congregava as convenções da pintura acadêmica e oficial daquela época. Exatamente por isso, o novo estilo sofreu tanto preconceito do mercado das artes em meados do século XIX. A proposta impressionista estava ligada à pintura ao ar livre (en plein air). Os pintores queriam captar as mudanças dos efeitos luminosos sobre a paisagem. Para tal, eles utilizavam pinceladas largas e velozes, feitas com pequenos toques separados e que visavam reproduzir os efeitos das cores e das luzes no cenário recriado. Ou seja, no Impressionismo, a pintura era mais abstrata (do que no Realismo), com linhas sintéticas e rápidas. As telas de Oscar-Claude Monet ganham mais força dramática quando têm como temática as paisagens (tanto os cenários naturais e rurais quanto os cenários artificiais e urbanos) e quando retratam diretamente a natureza nua e crua, principalmente o reflexo da água (rios, mares, praias, lagoas e lagos), o céu (nuvens, pôr do sol e nascer do sol), a vegetação (flores, plantas e árvores) e as montanhas (curvas sutis no horizonte). Não por acaso, suas criações mais famosas são: “Impressão, Nascer do Sol” (1872), “Ponte sobre uma Lagoa de Lírios d´Água” (1899), “Mulher com Sombrinha” (1875), “Lírios d'Água” (1919), “Catedral de Rouen” (1894), “Campo de Papoulas Perto de Argenteuil” (1875), “A Lagoa das Ninfeias, Harmonia Verde” (1899), “Ensaio de Figuras ao Ar-livre” (1886), “À Beira D´Água, Bennecourt (1868) e “Meules” (1890). Aposto que pelo menos uma ou duas pinturas dessa relação você conhece, certo? “Monet à Beira d´Água” é uma mostra quase 100% digital (contudo, todos os direitos de exibição das imagens foram adquiridos pelos organizadores e produtores do evento). Os únicos elementos físicos são os objetos e os móveis que emulam a casa do pintor francês (mais à frente neste post da coluna Exposições, falarei com mais detalhes sobre isso). Dessa maneira, o público é impactado fundamentalmente pelo mix de luzes, imagens, cores e músicas que dialoga com o portfólio artístico e com a estética das pinturas de Claude Monet. A exposição traz 285 obras do artista impressionista que retratam paisagens como rios, lagos, mares, montanhas, moinhos, trens, neve, pessoas, flores, construções rurais e igrejas. O conteúdo de “Monet à Beira d´Água” está dividido basicamente em oito tipos de narrativa: (1) “Uma Viagem de Trem”; (2) “Campos e Moinhos”; (3) “O Mar e a Luz”; (4) “Horizonte Nevado”; (5) “Um Passeio pelo Lago”; (6) “Arquitetura do Tempo”; (7) “Paisagem en Vert”; e (8) “Flores de Tintas”. A partir das animações e das reproduções de imagens em 2D e 3D, o visitante da mostra pode acompanhar uma releitura (ou seria uma interpretação contemporânea e libertária, hein?!) do legado impressionista do artista francês. Portanto, não espere uma experiência didática e/ou convencional. A ordem aqui é a imersão sinestésica e interpretativa. O diretor-executivo da exposição é Leo Rea Lé, um dos membros do MIRA (Museu Itinerante de Artes Imersivas). A criação de “Monet à Beira d´Água” exigiu o trabalho de aproximadamente 60 profissionais e demandou pouco mais de dois anos de produção. Entre as principais obras de Claude Monet contempladas na mostra, podemos citar as séries “Estação Saint-Lazare” (1877), “Catedral de Rouen” (1893), “Lago das Ninfas” (1895 a 1926), “Palacio de Westminster” (1904), “Grand Canal de Veneza” (1908) e “Ninfeias” (1906). Curiosamente, por mais que tenha a temática aquática em seu nome, a exposição “Monet à Beira d´Água” não fica restrita a esse elemento do estilo e da proposta de trabalho de Claude. A pegada de fato da mostra é ser mais generalista do que específica. Gostei disso! Até porque algumas das pinturas mais famosas do artista não tratam objetivamente da água, como “Mulher com Sombrinha”, “Catedral de Rouen”, “Campo de Papoulas Perto de Argenteuil” e “Meules”. Seria um pecado excluir boa parte de seu portfólio só para encaixotarmos o espetáculo em uma determinada vertente temática, né? Ponto favorável para o bom senso dos organizadores e produtores do evento! O segundo elemento positivo que preciso tratar com vocês sobre “Monet à Beira d´Água” é o espaço montado para o evento no Parque Villa-Lobos. A infraestrutura da exposição é invejável e não deixa nada a desejar a 95% dos museus nacionais e casas artísticas convencionais do nosso país. E olha que fui conservador no meu comentário. Poderia ter dito que o local da mostra está à altura da estrutura da maioria dos eventos internacionais do gênero. Porém, preferi a comparação doméstica. Não nos esqueçamos que vivemos em uma nação onde as praças artístico-culturais sofrem com o descaso e o abandono da esfera pública (é só ver a quantidade de locais que pegaram fogo nos últimos anos). Até pela necessidade de um lugar grande, confortável e 100% personalizado, a MIRA optou pela construção de um espaço próprio e acho que provisório (que de provisório não tem nenhuma aparência!) tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. “Monet à Beira d´Água” está sendo exibido em uma tenda com cerca de 4 mil metros quadrados. Se você já acha o Parque Villa-Lobos bonito, amplo e agradável (apesar da falta crônica de árvores), você precisa conhecer então a infraestrutura da mostra interativa de Claude Monet. Antes de falarmos da exposição em si, preciso destacar o espaço de apoio aos visitantes. O público tem à disposição um bistrô (pode chamá-lo de lanchonete ou café que dá no mesmo), em uma espécie de praça de alimentação anexa ao museu. Além de ser lindo, o espaço de comes e bebes é grande, confortável e possui uma estética visual que dialoga diretamente com o país do artista retratado. O que a gente mais ouve ali são frases como: “nossa, que lugar bonito!”; “que espaço mais gostoso!”; e “pessoal, venham ver que fofinha é a praça de alimentação da exposição”. O mais legal é que o cuidado com a experiência do visitante não para por aí. Ainda temos uma lojinha com um bom acervo (só não olhe os preços, tá?), espaços específicos para fotos (tanto pagas quanto gratuitas), banheiros bem cuidados, bilheteria de bom porte, lugares para informações aos visitantes, local de espera-descanso e um belo deck de madeira para acesso/trânsito de pessoas. Alguém aí pode até alegar: mas isso tudo é uma estrutura mínima que esperamos de um museu, Ricardo. É verdade, querido(a) e exigente leitor(a) do Bonas Histórias. Eu sei disso e concordo em gênero, número e grau com você. Mesmo assim, eu confesso que fico positivamente impressionado quando recebo uma avalanche do que vejo como agrados e mimos, mas que deveriam ser requisitos básicos de qualquer praça artística e cultural. Logo na entrada de “Monet à Beira d´Água”, o público é recebido por um conjunto de andaimes que revestem a tenda branca que encobre o local. No alto das estruturas metálicas, a logomarca do evento fica quase que escondida, oculta de certa maneira dos olhares mais furtivos e despreocupados. Para acessarem o local da exposição, depois de passarem pela bilheteria e pelo hall de entrada, os visitantes atravessam uma ponte emoldurada por um belo cenário de luzes e formas geométricas. Não à toa, há uma equipe de fotógrafos profissionais tirando fotos de quem passa por ali (as fotos serão vendidas por R$ 100,00 cada uma na saída da mostra). Dentro do espaço principal de “Monet à Beira d´Água”, no caso a parte do museu onde rola a exposição pra valer, temos salas que estimulam a experiência multissensorial do visitante. Nos primeiros cômodos, em uma espécie de conjuntos de túneis temporais, acompanhamos quadros digitais que brincam com a ilusão de ótica e as perspectivas em 3D. Na sequência, a plateia é levada para mais simulações dos principais quadros de Claude Monet e encara uma rápida retrospectiva textual da carreira do artista francês. Nesse momento, há diferentes tipos de atividades e interações. Uma das mais populares é aquela que permite ao visitante fingir que está pincelando os quadros de Monet. É algo simples e meio pueril, mas funciona. A galera parece curtir bastante. Outro espaço disputado é a réplica da casa de Giverny, na região da Normandia, em que o pintor viveu e usou como cenário de várias de suas pinturas. O cuidado com cada detalhe é algo que merece ser apreciado. Sei disso porque brinquei com uma das funcionárias do museu dizendo que duvidava que a residência de Monet em Giverny fosse realmente parecida com aquela que estava sendo exibida na exposição brasileira. Rapidamente, a moça sacou o aparelho celular do bolso e começou a me mostrar fotos da casa original, que existe até hoje no interior da França e que é um espaço cultural bastante popular (no caso, é a sede da Fundação Claude Monet). Além de mostrar o quão fidedigno era o espaço da mostra, a funcionária relatou várias particularidades muito interessantes sobre a vida e sobre a carreira de Claude Monet. Achei incrível o conhecimento, a simpatia e a didática da moça. Em questão de segundos, uma multidão já havia se formado ao nosso redor para ouvi-la. Por falar na casa de Monet, note a grande quantidade de referências à cultura japonesa contidas ali. É incrível perceber que já no final do século XIX, Claude Monet já tinha ciência e, principalmente, apreciava muitos elementos estéticos da arte oriental. O pintor impressionista ficou fã da cultura japonesa, principalmente das xilogravuras de Hiroshige e Hokusai, quando morou na Holanda, que tinha um intenso intercâmbio cultural com a Ásia naquela época (muito maior do que a França tinha). Observe também o cuidado no qual o escritório (ou seria ateliê?) do artista francês foi montado. Nas paredes e nos cavaletes, conferimos de um jeito bem sutil algumas de suas pinturas mais famosas. Ao lado da réplica da residência do pintor em Giverny, temos uma seção da exposição “Monet à Beira d´Água” que relaciona as obras do pintor impressionista às paisagens reais do Rio Sena. A mostra tem a preocupação de apontar ponto a ponto os cenários do icônico rio francês no final do século XIX com as criações pictóricas de Claude Monet. Vale a pena conferir as correlações e o mapa. A visita termina no cômodo maior e mais midiático. É nesse gigantesco espaço com telas enormes para todos os lados que o público assiste às projeções audiovisuais em 360 graus (nas paredes e no chão) que servem de mote para a exposição. Precisamos reconhecer que há ali bastante tecnologia embarcada (totalmente nacional, vale a pena frisar) e ótimos efeitos de multimídia (fruto da sensibilidade dos curadores que souberam unir as imagens das pinturas de Claude Monet com músicas contemporâneas que se casam perfeitamente com o estilo do francês). Nessa parte da mostra (se fosse um livro ou um filme, diria que chegamos ao clímax), a plateia de “Monet à Beira d´Água” acompanha dois vídeos chamados de Passeio 1 e Passeio 2. Há um rápido intervalo entre as sessões de cinema (ops, sessões de vídeo) e elas duram ao todo de 30 a 40 minutos, se eu não estiver enganado (acabei não cronometrando). Sem dúvida nenhuma, essa é a parte mais impactante do evento. Sabemos disso pela quantidade de flashes das câmeras fotográficas dos celulares e pelas poses das pessoas na hora de serem clicadas. Repare que nessa seção da exposição, temos vários elementos arquitetônicos e paisagísticos que dão um colorido especial às projeções. No centro da sala maior, há uma lua gigantesca, que confere um efeito quase que sobrenatural ao lugar e permite uma conexão íntima com a natureza. Adorei também a ponte sobre o lago, que é uma referência intertextual óbvia à tela mais famosa de Monet, e ao pequeno mirante que fica ao fundo do espaço, que emula a curiosidade do artista em contemplar a paisagem por todas as perspectivas. É inegável que “Monet à Beira d´Água” seja uma exposição interativa com vários pontos positivos. Por isso, acredito que ele mereça sim ser visitado (mesmo no Carnaval). Para início de exaltação, é preciso dizer que a tecnologia empregada é realmente interessante e extremamente impactante (ainda mais quando sabemos que ela é inteiramente nacional). Os recursos tecnológicos acabam sendo ressaltados ainda mais com o cuidado e a sensibilidade dos artistas brasileiros responsáveis por fazer a releitura da estética do pintor impressionista. Ou seja, não temos aqui a tecnologia pela tecnologia (um equívoco comum em eventos digitais e em espetáculos interativos). Não! Ela foi empregada por uma finalidade artístico-cultural maior. Incrível, né? A transformação dos quadros de Claude Monet em projeções audiovisuais que simulam uma sessão de cinema (no caso, o correto seria dizer “duas sessões cinematográficas consecutivas”) é uma ideia genial e, obviamente, rende os momentos de maior emoção da exposição. Além de ser bastante tocante, tal proposta apresenta um processo de reinterpretação artístico muito exitoso. Repare na harmonia entre músicas e imagens e na história contada através da sucessão de pinturas que aparecem na tela. É verdade que para apreciar esse efeito em “Monet à Beira d´Água”, o público precisa de atenção e concentração (dueto cada vez mais raro no século XXI, ainda mais em uma atividade interativa e pouco linear) e de algum repertório sobre o portfólio de Monet. Em relação a esse último aspecto (o repertório da plateia), é legal dizer que a primeira parte da mostra serve justamente de preparação do público para a obtenção desse conhecimento. Ou você acha que se apresentou uma grande quantidade de trabalhos de Claude Monet por nenhuma razão, hein? Ninguém precisa chegar à última ala do espaço cultural sabendo tudo sobre o artista francês. Porém, é válida e indicada a imersão prévia. Quanto mais os visitantes explorarem as partes iniciais da exposição, mais preparados eles estarão para degustar o pot-pourri audiovisual ofertado na sala final. O problema é a ansiedade do público. Ávidas para assistir à melhor parte do espetáculo, várias pessoas não se aguentam e passam de forma batida pelos cômodos informacionais. Aí é óbvio que faltarão subsídios para se aproveitar mais intensamente a experiência cinematográfica de “Monet à Beira d´Água”, né? Por isso, não tenham pressa para percorrer todas as salas da exposição, senhoras e senhores. Falo sobre isso porque o grupo em que eu estava (desculpa, pessoal, mas preciso contar...) cometeu justamente tal equívoco. Eles correram na parte inicial e acabaram ficando um pouco frustrados com o resultado da mostra. Talvez a mania de pular atrás do trio elétrico nos últimos dias os tenha influenciado negativamente no processo de interagir com as obras artísticas em um museu. Ao constatar o vacilo, juro que pensei: mas é claro! Quem manda não degustar os pratos iniciais do banquete antes da sobremesa. Alguns dos meus amigos chegaram à sessão audiovisual sem ter atinado sobre a técnica, os principais quadros e o estilo de Claude Monet. Aí como eles poderiam compreender a releitura do trabalho do francês feita pela união de música e imagens em movimento, né? É verdade que a curiosidade do público sobre o trabalho do pintor impressionista se torna maior depois de assistir às projeções do que no início da visitação. Exatamente por isso, acredito que a exposição poderia ter uma movimentação mais cíclica, algo que não é permitido. Em “Monet à Beira d´Água”, você não pode retornar às partes iniciais depois de ter conferido os Passeios 1 e 2 na sala de projeções – o único caminho permitido é a porta de saída. Como assim não podemos voltar às alas prévias?! Justamente agora que ficamos realmente curiosos para mergulhar de cabeça (no caso, com mais atenção e mais concentração) no portfólio de Claude Monet, somos impedidos. Ai, ai, ai. Não gostei disso. Se fosse permitido o retorno às salas iniciais da exposição (algo facilmente viabilizado já que a estrutura da tenda é circular), creio que a plateia iria aproveitar mais e melhor as atividades lúdicas ali apresentadas. Até porque elas são ótimas. Elas fazem o público interagir com as obras de um jeito diferente, pouco usual em um museu. O problema, como disse, é a ansiedade do povo. Uma vez saciada a curiosidade desmedida pela sessão audiovisual, na certa os visitantes iriam curtir mais as partes do começo da mostra. Em se tratando de infraestrutura, não tenho nenhum outro ponto para comentar (além da possibilidade de retorno às salas já visitadas) em “Monet à Beira d´Água”. Há muito tempo não ia a um local artístico-cultural tão bem montado e tão bem-preparado para receber o público. O MIRA está de parabéns! O trabalho da equipe do Museu Itinerante de Artes Imersivas foi tão bem-feito que mesmo que você não goste do Impressionismo, de Claude Monet, de arte, de cultura e da civilização humana (nesse caso, até sei em quem você votou nas últimas eleições!), na certa você ainda gostará da experiência da mostra. Quando enalteço a infraestrutura, preciso destacar a preocupação dos organizadores com a questão da acessibilidade. Quase todas as partes da exposição possuem leitura em braile. Há também piso tátil e QR Code com áudio descrição para quem não tem visão. O espaço também é adaptado para cadeirantes, que podem transitar por quase todo o local (a exceção é o mirante na sala principal). Completa a estrutura impecável a presença de uma equipe numerosa, simpática e altamente treinada. De aspectos negativos em “Monet à Beira d´Água”, achei o valor dos ingressos um pouco caro. Isso porque eu não paguei (lembram que foi presente?!). Imagine se eu tivesse pagado... Apesar da bilheteria dizer que as entradas começam em R$ 30,00, é bom saber que provavelmente você pagará de R$ 75,00 a R$ 85,00. Essa quantia é aproximadamente o que você pagará por pelo menos dois ingressos de cinema. É salgadinho, meus amigos. Até porque você gastará mais na visita (como não tomar café na praça de alimentação tão bonita e não levar uma lembrancinha da loja com tantas coisas legais). Também achei que faltou um conforto maior na sala principal de projeções. O público acaba precisando se sentar no chão ou se encostar na parede para apreciar o audiovisual. Sim, você leu corretamente. A maioria das pessoas fica atirada ao léu. Se por um lado essa característica dá um ar de informalidade e descontração ao ambiente, por outro lado traz um enorme desconforto, algo inadmissível para o valor investido no ingresso. Além de permitir o fluxo cíclico dos visitantes (como já comentei), “Monet à Beira d´Água” se tornaria uma experiência mais enriquecedora se tivesse um pouco mais de elementos didáticos e conceituais. A interatividade é muito legal e estimulante. Mesmo assim, acredito que não se deva abrir mão totalmente das informações sobre as pinturas, a escola artística e o pintor estudados. Jamais deve-se priorizar a forma em detrimento ao conteúdo. Até porque lá na frente, na hora de acompanhar o Passeio 1 e o Passeio 2 na sala de projeções, os visitantes precisarão de embasamento para curtir pra valer o audiovisual. Outra questão que preciso comentar é o estacionamento. Quem não estiver acostumado a frequentar o Parque Villa-Lobos, saiba que você precisará achar o local da exposição dentro do complexo do parque após parar o carro. E o Villa-Lobos é gigantesco. Em outras palavras, você precisará andar bastante do estacionamento até a mostra. O bom é que há sinalizações por todos os lados indicando o caminho correto. Além disso, segundo reza a lenda, o público de “Monet à Beira d´Água” tem à disposição carrinhos elétricos para facilitar a jornada do estacionamento até o espaço da exposição. A questão é encontrá-los. Confesso que não vi nenhum na minha visita. Resolvi tratar aqui dessa questão da distância do estacionamento porque as sessões da mostra interativa de Claude Monet são à princípio com horário marcado. Então, não chegue tão em cima da hora nem atrasado ao estacionamento. Se fizer isso, você entrará na exposição com pelo menos meia hora além do horário marcado. Se bem que pelo que vi em “Monet à Beira d´Água”, não parece existir um controle tão rígido assim com relação ao horário do ingresso. É verdade que não chegamos atrasados para saber exatamente os problemas acarretados. Não sei se tivéssemos entrado além do prazo teríamos algum tipo de problema. De qualquer forma, é bom não se atrasar, né? Por falar no Parque Villa-Lobos, achei que a experiência do público em São Paulo é totalmente diferente daquela obtida pelos visitantes da versão do evento no Rio de Janeiro, apesar de contemplarem o mesmo acervo. Na capital fluminense, a tenda montada no meio da cidade e ao lado do mar valorizava mais a estrutura esférica do teto e as paredes brancas do espaço. Da calçada com vista para o Boulevard Olímpico, era possível ver boa parte da construção. Por lá, também havia um contato maior com a água, grande mote da mostra (afinal, o mar estava ali do lado, sendo possível com algum esforço ouvir as ondas quebrando no antigo porto). Em São Paulo, perdeu-se a dinâmica arquitetônica do espaço (não é possível vê-lo na entrada) e desapareceu a relação concreta com a água (neste parque paulistano não há um lago, diferente por exemplo do Ibirapuera). Por outro lado, temos no Parque Villa-Lobos uma maior imersão com a natureza. E o espaço dedicado ao evento é pelo menos o dobro da edição carioca. Perde-se em alguns pontos, mas ganha-se em outros. Terminada a visita à exposição, não é preciso dizer que meus amigos voltaram instantaneamente para o clima de Carnaval. Mal saíram de “Monet à Beira d´Água”, eles recomeçaram à busca incessante pelo bloquinho mais animado. É isso, senhoras e senhores. Em época de folia, a concorrência que os programas mais culturais têm chega a ser desleal. Fazer o quê? É esperar o retorno aos dias normais, quando as ruas da cidade voltam a pertencer exclusivamente aos endiabrados veículos. O que parece não mudar nunca é a atemporalidade e o impacto da arte de Claude Monet. Independentemente da forma e do meio de reprodução, a estética impressionista é, desculpe-me pelo inevitável trocadilho, impressionante!!! A exposição “Monet à Beira d´Água” seguirá em cartaz na capital paulista até 26 de março de 2023 (não sei se ela irá para outra cidade brasileira na sequência). O palco da mostra é o Parque Villa-Lobos, localizado no bairro do Alto de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. Quem gosta de esporte e arte, dá para unir os dois elementos em uma visita simultânea ao parque. As sessões de “Monet à Beira d´Água” acontecem basicamente de terça a domingo das 10h às 21h. A duração média do passeio gira em torno de uma hora, uma hora e meia. O acesso à exposição é para todas as idades (crianças de até cinco anos não pagam) e os ingressos (que custam de R$ 30,00 a R$ 85,00 por pessoa) podem ser adquiridos tanto na bilheteria física quanto na bilheteria virtual. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: É Hoje - 40 anos do samba-enredo memorável de Didi e Mestrinho
Lançado pela União da Ilha em 1982, É Hoje saiu do Carnaval e entrou para o hall dos clássicos da música popular brasileira. Na maioria das vezes, os sambas-enredo ficam restritos ao período do Carnaval. Entoadas pelas escolas de samba nos sambódromos ou ecoadas pelos blocos nas ruas desde que Cabral por aqui aportou, as canções carnavalescas acabam esquecidas tão logo a Quarta-feira de Cinzas pinta na folhinha do calendário. Entretanto, algumas dessas criações conseguiram ao longo do tempo superar o esquecimento popular e adentrar na primeira prateleira do cenário musical brasileiro. Não à toa, são conhecidas até hoje e integram nosso DNA cultural. De cabeça, posso citar como clássicos do samba-enredo “Liberdade, Liberdade, Abre As Asas Sobre Nós” (Imperatriz em 1989), “Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu” (Mangueira em 1994), “Aquarela Brasileira” (Império Serrano em 1964), “Coisa Boa é Pra Sempre” (Gaviões da Fiel em 1995), “Peguei um Ita no Norte” (Salgueiro em 1993), “A Rainha, À Noite Tudo Transforma” (Vai-Vai em 1996) e “Sonhar Não Custa Nada! Ou Quase Nada” (Mocidade em 1992). Na certa, você deve se lembrar de outras mais. Repare que citei apenas os sambas-enredo. Se fosse regressar mais no tempo, poderia listar uma série emblemática de marchinhas que permanece intacta no imaginário popular. Aí vamos de “Ô Abre Alas!”, criação de 1899, “Para Você Gostar de Mim”, sucesso em 1930, “Linda Morena”, composição que estourou em 1932, “Linda Lourinha”, canção memorável de 1933 (e minha favorita!!!), “Cidade Maravilhosa”, sucesso no Carnaval de 1935 que virou uma espécie de hino do Rio de Janeiro, “Pierrô Apaixonado”, marcha de 1936, “Mamãe Eu Quero”, hit em 1941, “Aurora”, febre nos festejos de 1942, “Cachaça”, marchinha divertidíssima de 1953, e “Me Dá Um Dinheiro Aí”, sucesso desde 1959. E olha que não coloquei na roda as músicas carnavalescas que atualmente são vistas como politicamente incorretas como “Maria Sapatão”, criação dos anos 1950, “Cabeleira do Zezé”, “Coração de Jacaré”, ambas composições da década de 1960, e “A Pipa do Vovó”, canção dos anos 1980. Cada uma delas dá tanto pano para manga que seria difícil tratar de todas superficialmente aqui. Por isso, é melhor nem comentá-las de maneira mais profunda no Bonas Histórias (corro o risco de ser apedrejado na praça pública da Internet). Nesse novo post da coluna Músicas, gostaria de falar do samba-enredo dos sambas-enredo. Ele é um legítimo clássico da música popular brasileira que ao invés de trazer polêmica se tornou unanimidade nacional desde que foi lançado na Marquês de Sapucaí em 1982. Estou me referindo à “É Hoje”, composição mais famosa de Didi e Mestrinho – não confundir, por favor, com “Hoje”, hit recente da Ludmilla! O samba antológico foi apresentado pela União da Ilha do Governador no Carnaval de 40 anos atrás e imediatamente se incorporou à cultura musical nacional. Acho difícil alguém que tenha nascido ou vivido por essas bandas não conhecer os versos “É hoje o dia/ da alegria/ E a tristeza/ nem pode pensar em chegar” e “Diga espelho meu/ Se há na avenida/ alguém mais feliz que eu”. É ou não é uma obra-prima, hein? Para contar a história por trás da criação de “É Hoje” (afinal o nome desse blog é Bonas Histórias!), precisamos voltar para o Carnaval de 1982. A União da Ilha, pequena agremiação da Ilha do Governador, vivia seu período mais próspero. A escola vinha fazendo excelentes desfiles desde 1977, o que culminou com um inédito vice-campeonato em 1980 (sua melhor posição na história). O sonho do título no Carnaval carioca nunca pareceu tão próximo como naquela época, apesar do orçamento bem inferior às maiores rivais. Considerada uma das agremiações mais simpáticas do Rio de Janeiro, a União da Ilha sempre se caracterizou por ótimos sambas-enredo e por fantasias leves e práticas. Não por acaso, essa receita de sucesso foi replicada para os festejos de 1982. A grande diferença (que poderíamos chamar até de surpresa) daquele ano foi a escolha de Max Lopes como carnavalesco. Depois de vários anos com Adalberto Sampaio e Maria Augusta se revezando à frente da direção do Carnaval, a escola optou por um novato advindo da Imperatriz Leopoldinense. Para não gerar ainda mais rupturas na dinâmica de trabalho da escola, optou-se por um samba-enredo criado por duas figuras tradicionais da Ilha do Governador: Didi e Mestrinho. A dupla de sambistas apresentou “É Hoje”. A letra é de Didi e a melodia é de Mestrinho. Obviamente, o intérprete escalado foi o bom (ou seria excelente?!) e velho Aroldo Melodia (pai de Ito Melodia). Comandando o microfone da União da Ilha desde 1970, Aroldo só largaria definitivamente tal posto em 1996. O enredo da União da Ilha do Governador em 1982 retratava o dia a dia de um sambista durante o Carnaval. A inspiração temática da escola partiu do livro “É Hoje!” (Irmãos Vitale) de Haroldo Costa (autor) e de Lan (ilustrador). A obra foi publicada em 1978. Se o desfile foi meio decepcionante (a União da Ilha terminou em quinto lugar, muito aquém para quem almejava o título do Grupo A-1) e teve vários problemas técnicos (o carro abre-alas, por exemplo, entrou na pista com quase uma hora de atraso), o samba-enredo da escola entraria para a história do Carnaval e da música brasileira. O que torna “É Hoje” uma canção incrível é sua letra simples, os versos poéticos e o enredo atemporal. Utilizando-se da metalinguagem, a canção fala do esplendor que é o Carnaval para os passistas. Se no dia a dia eles são pessoas comuns, com vidas aparentemente banais e com rotinas muitas vezes sofridas, nos dias de folia todos se transformam em protagonistas, figuras admiradas e invejadas no país inteiro. A beleza dessa faixa está justamente ao mostrar essa inversão de valores e de escala social. O Carnaval é o momento mágico em que os súditos mais humildes se tornam reis e rainhas nas ruas do Brasil inteiro. É nesse instante em que vemos “o riso chorar”. Veja, a seguir, a letra de “É Hoje” e, logo depois, sua execução original, conforme cantada por Aroldo Melodia em 1982. “É Hoje” – Didi e Mestrinho (1982) A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela. Fez um desembarque fascinante no maior show da Terra. Será que eu serei o dono desta festa? Um rei no meio de uma gente tão modesta. Eu vim descendo a serra, cheio de euforia para desfilar. O mundo inteiro espera. Hoje é dia do riso chorar. Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar. Contra o mau olhado carrego o meu patuá Acredito ser o mais valente nesta luta do rochedo com o mar E com o mar. É hoje o dia da alegria. E a tristeza nem pode pensar em chegar. Diga, espelho meu: se há na avenida alguém mais feliz que eu? Alguns aspectos interessantes precisam ser ditos sobre os versos de “É Hoje”. Em primeiro lugar, as inversões dos papéis que a música enaltece fazem parte da essência do Carnaval. Nos dias da maior festa do planeta, homens se vestem de mulheres e mulheres se caracterizam de homens. As pessoas mais simples se transmutam em faraós e imperadores e os endinheirados posam alegremente de mendigos. Os velhos colocam roupas de criança e a meninada sai vestida de adulto. Essa alteração na dinâmica social surge nos versos: “Será que eu serei/ o dono desta festa?/ Um rei/ no meio de uma gente tão modesta”. Obviamente, o questionamento é de um passista, alguém que anseia pelo Carnaval para, enfim, viver um lampejo de felicidade, glória e importância. O mais legal é saber que o próprio letrista de “É Hoje” é o exemplo concreto dessa transmutação social. Sim, Didi, cujo nome verdadeiro era Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, tinha uma vida dupla (se assim podemos dizer, né?). E isso ocorria não apenas no Carnaval. Nos dias de semana e no horário comercial, ele era um respeitável e sério promotor federal. O Sr. Neves batia ponto em uma repartição no centro do Rio de Janeiro. Contudo, à noite e aos finais de semana, ele virava Didi, o músico boêmio que não perdia uma roda de samba. Compositor de mão cheia (a maioria das canções ele preferiu não assinar temendo represálias – lembremos que no outro turno o sambista era Gustavo Adolfo, funcionário público seríssimo!), Didi é coautor também de “O Amanhã” (samba-enredo da União da Ilha em 1978) e “O Que Será?” (samba-enredo da União da Ilha em 1979). Outra questão que precisa ser comentada sobre “É Hoje” é a polissemia de sua letra. Em muitos momentos, os versos do samba possuem mais de uma interpretação, o que torna seu conteúdo atemporal e riquíssimo. Vejamos o começo da canção: “A minha alegria atravessou o mar/ e ancorou na passarela/ Fez um desembarque fascinante/ no maior show da Terra”. Note que esse trecho pode significar tanto a chegada dos passistas da escola (que saíram da Ilha do Governador) à Marquês de Sapucaí (que em 1982 ainda não abrigava o sambódromo – ele seria construído pouco tempo depois por Leonel Brizola) quanto a viagem dos africanos (origem da maioria dos passistas) para o Brasil (o maior show da Terra seria, nesse caso, o nosso país). Muito bonito esse jogo semântico, não é? As referências africanas são mais fortes nos versos: “Levei o meu samba/ pra mãe-de-santo rezar/ Contra o mau olhado/ carrego o meu patuá”. E a pegada de crítica social surge de maneira mais acentuada em: “Acredito/ ser o mais valente/ nesta luta do rochedo com o mar/ E com o mar”. O que seria, afinal de contas, a luta do rochedo com o mar? Na minha visão, esse embate é justamente os perrengues diários e intermináveis que os passistas da escola vivenciam no cotidiano. Longe dos holofotes da passarela, eles precisam matar um leão por dia para sobreviver. Por outro lado, a luta do rochedo com o mar pode ser vista como simplesmente um detalhe da geografia da ilha em que a escola está localizada. Não falei que as possibilidades de leitura são variadas, hein? Porém, a maior beleza poética de “É Hoje” está reservada para a dupla de quartetos finais: “É hoje o dia/ da alegria/ E a tristeza/ nem pode pensar em chegar” e Diga/ espelho meu/ Se há na avenida/ alguém mais feliz que eu”. No contexto da música, fica evidente que esse lampejo de alegria é o desfile carnavalesco. Mesmo assim, esse momento efêmero de felicidade do povão pode ser associado às outras ocasiões especiais e passageiras do dia a dia: beijo no(a) amado(a), recebimento do salário, vitória do time do coração, chegada de uma ótima notícia, risada ao ouvir uma piada etc. Por essa perspectiva mais geral, o termo “avenida” do penúltimo verso é sinônimo de rua, cidade. Essa música é ou não é incrível, né? Prova cabal da relevância de “É Hoje” está no fato que já em 1983, um ano depois do desfile da União da Ilha, Caetano Veloso gravou a canção de Didi e Mestrinho no álbum “Uns”. Não à toa, essa é a versão mais conhecida atualmente da música (e a melhor, para mim, depois da original de Aroldo Melodia). Mais tarde, outros importantes cantores brasileiros regravaram “É Hoje”. Fernanda Abreu, em 1997, e Dudu Nobre, em 2007, deixaram suas marcas nesse que é um dos sambas-enredo mais famosos de todos os tempos. Para homenagear Didi, a União da Ilha alçou o compositor ao posto de enredo do desfile de 1991. Intitulado como “De Bar em Bar, Didi um Poeta”, o Carnaval da escola naquele ano apresentou a trajetória do sambista (e promotor de justiça). Ainda no clima de revival e de homenagens à canção mais lembrada da agremiação da Ilha do Governador, em 2008, a escola reeditou “É Hoje” como seu samba-enredo no desfile da Série A (o nome da segunda divisão do Carnaval carioca naquela época). Por falar nisso, a simpática agremiação está, infelizmente, longe do Grupo Especial (a primeira divisão) desde o rebaixamento de 2020. Em 2022, a União da Ilha do Governador ficou em terceiro lugar na Sério Ouro (novo nome da segundona) e mais uma vez se ausentará do desfile do Grupo Especial em 2023. É uma pena! Como celebramos, em 2022, 40 anos da criação de “É Hoje”, resolvi detalhar a trajetória dessa faixa e também, como é praxe da coluna Músicas, analisar detalhadamente o sambinha mais adorável de Didi e Mestrinho. Espero que você tenha gostado desse post do Bonas Histórias e da nossa viagem histórica pelo universo do samba e do Carnaval carioca. E até o próximo mergulho no passado e no presente de nossa cultura. Até lá! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. 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- Músicas: Ouro de Tolo - Cinquenta anos do primeiro sucesso de Raul Seixas
Gravada no antológico álbum “Krig-ha, Bandolo!” de 1973, essa composição autobiográfica do Pai do Rock Nacional expõe a melancolia do sujeito de classe média engolido pela rotina banal. Quem acompanha a coluna Músicas desde dezembro de 2014 (ela nasceu poucos dias depois do próprio Bonas Histórias) deve ter notado que nunca analisei uma canção de Raul Seixas, o Pai do Rock Brasileiro. Na certa o Ricardo não deve curtir o som do Maluco Beleza, pensariam nossos(as) leitores(as) desavisados(as). As almas mais inadvertidas quanto ao meu gosto musical poderiam fazer suposições até mais absurdas: acho que ele nem mesmo ouve Rock and Roll. Nada mais equivocado, senhoras e senhores, senhoritas e senhoritos! Como sou do comecinho da década de 1980 (a fase de ouro do Rock Nacional) e passei a adolescência inteira nos anos 1990, eu ouvi muuuuuuuuuuito Raul e as principais figuras desse gênero musical. Minha vida é Rock, bebê! E hoje é sim dia do bom e velho Rock ́n Roll Brasileiro!!! Sem dúvida nenhuma, o bom baiano foi o cantor que mais tocou no meu toca-fitas (não ria, por favor; na época a tecnologia mais bacana e portátil era a fita cassete) e, depois, no meu cd player (tô ficando com medo para onde meu texto está rumando...). Munido com as dezenas de cassetes (acho melhor escrever K7 para evitar problemas de interpretação) que ganhava do Tio Luís Carlos (o músico profissional da família e fã incondicional de Raulzito) e com os cds que me presenteavam (em determinado período da vida, eu só recebia coisas de Raul Seixas de presente de aniversário e de Natal), quase levei minha irmã e meus pais ao desespero. Na minha casa, a frase mais gritada era: tira Raul! Tira Raul! Tira Raul! Qual foi a minha surpresa quando, anos depois, comecei a ouvir por aí exatamente o contrário: toca Raul! Toca Raul! Toca Raul! Vai entender, né? Fiz essa longa introdução para dizer que vou comentar hoje na coluna Músicas uma canção do meu artista favorito na infância e, principalmente, na adolescência. Só não digo que será a estreia de Raul Seixas no Bonas Histórias porque já discuti um pouco da vida e da discografia do roqueiro em outras colunas do blog. Em Livros – Crítica Literária, por exemplo, debati “Conte Outra Vez” (ebook independente), a coletânea de contos inspirada nas músicas de Raulzito que foi organizada por T. K. Pereira. Se não estiver enganado, analisei “Raul – O Início, o Fim e o Meio” (2012), o documentário premiado de Walter Carvalho, na coluna Cinema. Por falar em filmes, Raulzito também apareceu quando tratamos de “Não Pare na Pista” (2013), a cinebiografia de Paulo Coelho, grande amigo e maior parceiro musical do roqueiro. Decidi produzir este post sobre o Maluco Beleza porque em breve teremos uma efeméride pesada. Em julho de 2023 (ou seja, daqui a quatro meses e pouquinho), “Ouro de Tolo”, a mais aclamada música de Raul Seixas (e nosso assunto de momento no Bonas Histórias), completará 50 anos de seu lançamento. É ou não é uma data para ser comemorada pelos fãs de Raul e pelos amantes da música brasileira, hein? E para celebrarmos o quinquagésimo aniversário de “Ouro de Tolo”, nada melhor do que comentar em detalhes esta que é a canção mais autobiográfica e mais ácida do Pai do Rock Brasileiro. Não à toa, ela é apontada pela crítica musical como a melhor composição do roqueiro, um legítimo clássico nacional. Antes que pedras voem em minha direção, preciso ressaltar que Raul Seixas teve outras faixas mais famosas. Entre suas composições mais populares, podemos citar “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” (sim, com erro de português e tudo no título!), “Sociedade Alternativa”, “Maluco Beleza”, “Gita” (a música com mais grafias diferentes que conheço: já a vi escrita “Gitâ”, “Gitá”, “Gitã” e até mesmo “Gîtâ”), “Tente Outra Vez”, “Cowboy Fora da Lei”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Al Capone” e “Medo da Chuva”. Contudo, nenhuma supera em qualidade e em apuro técnico a saga melancólica do homem comum entorpecido pela realidade enfadonha e mergulhado na rotina castradora. Aos olhos (ou seriam aos ouvidos?!) da crítica musical, “Ouro de Tolo” se torna incomparável no alto do pódio das grandes criações de Raulzito e uma das melhores do portfólio da música popular brasileira. Está duvidando de mim?! Então veja essas informações. A Revista Bravo elegeu, em 2008, “Ouro de Tolo” a 50ª principal música nacional da história. Um ano antes, a Revista Rolling Stone Brasil foi ainda mais enfática: colocou essa faixa de Raul na 16ª posição entre as maiores criações musicais do nosso país. Nada mal para quem devia estar contente porque tinha um emprego e era considerado um cidadão respeitável que ganhava quatro mil cruzeiros por mês, né? Se vivo, Raul deveria estar orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, apesar de provavelmente achar isso tudo uma grande piada e um tanto quanto perigoso. “Ouro de Tolo” foi o primeiro grande sucesso de Raul Seixas. Esse hit catapultou a carreira do roqueiro e o tornou conhecido nacionalmente. Criada em 1972 e lançada no ano seguinte no primeiro álbum independente do artista, a canção fazia uma reflexão ácida dos caminhos que a vida burguesa de Raul estava tomando no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que ele progredia profissional e financeiramente como executivo de uma gravadora, algo internamente passou a incomodá-lo. A rotina confortável e abastada de Raul Seixas trazia dissabores para o dono de uma alma contestadora, libertária e pouquíssimo conservadora. Para entendermos a letra autobiográfica de “Ouro de Tolo”, precisamos voltar meio século no tempo e olhar para os acontecimentos em torno da trajetória do Maluco Beleza. Raul Seixas lançou, em 1968, o álbum “Raulzito e os Panteras”. O disco era o primeiro trabalho comercial da primeira banda do compositor soteropolitano. Então com 23 anos, Raul contribuiu com oito das 12 faixas do disco. Formada também por Eládio Gilbraz, Mariano Lanat e Carleba, Raulzito e os Panteras era um conjunto de rock de Salvador que se mudou no final dos anos 1960 para o Rio de Janeiro. Na ânsia de fazer sucesso nacionalmente, o grupo embarcou para a capital fluminense na cara e na coragem. Porém, a realidade foi atroz com os músicos baianos. As vendas do LP de estreia não embalaram e os integrantes de Raulzito e os Panteras tiveram que sobreviver com a ajuda financeira da família e dos amigos. Não é errado, portanto, dizer que Raul Seixas passou fome por dois anos na Cidade Maravilhosa. As coisas só não foram mais trágicas porque a banda conseguiu trabalhar ocasionalmente para Jerry Adriani, então um figurão da Jovem Guarda e muito amigo de Raul Seixas. Nem mesmo os bicos para Adriani evitou o desmantelamento do Raulzito e os Panteras e o retorno dos músicos para Salvador. Em 1970, a sorte de Raul começou a mudar. Com a ajuda de Jerry Adriani (sempre ele!), Raul Seixas conseguiu o emprego de produtor musical na CBS. Assim, ele voltou ao Rio de Janeiro por cima. Na época, a CBS era uma das principais gravadoras do Brasil. A responsabilidade de Raulzito na empresa carioca era revelar novos talentos musicais e ajudá-los na produção dos álbuns. E ele fez isso relativamente bem. Suas maiores façanhas como produtor fonográfico foram os lançamentos dos discos da dupla Leno & Lilian e de Diana. O empregão na gravadora representou o fim dos tempos das vacas magras. Agora havia dinheiro (no caso, muito dinheiro!) na carteira de Raul. E, o que poderia parecer interessante aos olhos de quem não conhecia a alma inquietante do artista, ele conseguia, enfim, se dedicar a algo que realmente adorava: a música. Contudo, não era esse o verdadeiro sonho de Raul Seixas quando deixou Salvador. Ele não se mudou para o Rio para ficar no escritório de terno e gravata e no lado de fora do estúdio de gravação. Como um legítimo cantor que sempre foi, Raulzito queria mesmo era cantar a plenos pulmões. Seu lugar era no lado de dentro do estúdio, com o microfone na mão no alto do palco e dedilhando as cordas do violão na frente da plateia. De preferência, ele queria divulgar suas letras e mostrar para o mundo suas composições. Raul almejava ser uma grande estrela do Rock and Roll. Sua inspiração era Elvis Presley, que na década anterior revolucionara o cenário musical norte-americano e ainda era figura máxima do show business internacional naquele momento. A vida abastada de executivo da CBS (fruto de um salário de quadro mil cruzeiros por mês) permitia que Raul Seixas comprasse o carro do ano (Corcel 73) e vivesse perto do mar (morava em Ipanema). O problema é que a nova rotina cobrava um preço elevado e amargo: a perda da liberdade pessoal e artística (devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas confessava que estava decepcionado) e o estabelecimento de um cotidiano pra lá de tedioso (macaco, praia, carro, jornal, tobogã, ele achava isso tudo um saco). Para completar o drama do músico, a riqueza obtida há pouco em um país injusto e desigual também o expunha a insegurança pública (achava essa ascensão uma grande piada e o quanto perigosa). Estava criado o paradoxo existencialista do roqueiro. Enquanto Raul queria bater asas e voar (tinha uma porção de coisas grandes para conquistar), ele precisava ficar preso ao dia a dia do emprego burocrático (com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar) e à família convencional (ao ponto de ir ao zoológico ver macacos). Por outro lado, se voltasse à vida de músico como antes, aí as chances de flertar com a miséria e de reencontrar as dificuldades financeiras eram gigantescas. O que fazer nessa situação?! Aposto que quem conhece de cabeça a letra de “Ouro de Tolo” já consegue entender boa parte de seus versos agora. A inquietação de Raul Seixas para virar músico profissional e fazer sucesso era tamanha que ele se aproveitou do cargo na CBS para se lançar no mercado fonográfico de uma maneira um tanto polêmica. Em julho de 1971, durante a viagem ao exterior do presidente da gravadora, o produtor Raul Santos Seixas lançou o álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, de uma jovem e até então desconhecida banda. O grupo de rock era formado por Sérgio Sampaio, Edy Star, Miriam Batucada e, acredite se quiser, pelo próprio Raul Seixas. Quando o presidente da CBS soube, dois meses após o lançamento do disco, que o seu produtor estava envolvido diretamente com a execução daquele trabalho, que até tinha boas músicas, como “Dr. Paxeco” (mais tarde rebatizada de “Dr. Pacheco”), “Sessão das Dez”, "Todo Mundo Está Feliz" e "Chorinho Inconsequente", ele retirou o LP das lojas e demitiu o executivo. Apesar do pé na bunda, Raul Seixas ficou empolgado com a qualidade do trabalho como cantor e compositor. As primeiras críticas a “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” foram positivas, o que encheu o músico baiano de otimismo. Não por acaso, em 1972, ele se destacou no VII Festival Internacional da Canção com a interpretação de “Let Me Sing, Let Me Sing”, clássico de Elvis Presley. Aí ele entrou no radar da Philips Record, a outra grande gravadora da época (e rival da CBS). Ela procurava um roqueiro carismático que soubesse cantar em inglês com naturalidade e vitalidade. Pela Philips, Raul lançou “Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock” em maio de 1973. Como o próprio título indica, o disco reunia clássicos nacionais (“É Proibido Fumar”, “Rua Augusta”, “Banho de Lua” e “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”) e clássicos internacionais (“Rock Around The Clock”, “Tutti Frutti”, “Oh! Carol!” e “Only You”) do gênero. Curiosamente, Raul Seixas participou tanto da produção do álbum quanto da interpretação da maioria das canções em inglês e português. Pelo visto, na Philips Record não havia problema de o produtor adentrar o estúdio de gravação e atuar também como cantor. Curiosamente, o nome de Raul não foi divulgado como o intérprete principal das faixas do disco (afinal, ele era completamente desconhecido do grande público). A ideia da gravadora não era, naquele momento, promover a carreira do músico novato e sim atender aos anseios do público brasileiro pelas principais canções do rock. Raul Seixas só seria reconhecido efetivamente como responsável por “Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock” anos depois, quando já era famoso e seu nome vendia discos espontaneamente. Aí ele foi inserido em letras garrafais nas capas das novas edições do álbum. Não demorou e a Philips Record deu a oportunidade para o jovem roqueiro mostrar seu valor como compositor. Já em julho de 1973, Raul apresentava seu primeiro trabalho autoral como cantor solo: “Krig-ha, Bandolo!”. Com esse disco, Raul Seixas explodia nacionalmente e colocava o Rock nacional novamente em destaque. Vale a pena dizer que a Jovem Guarda já estava em decadência e a juventude da época estava um tanto órfão de ídolos musicais. E a canção que fez de “Krig-ha, Bandolo!” um dos grandes sucessos daquele ano foi justamente “Ouro de Tolo”. Dá para cogitarmos o que pensou o presidente da CBS assim que soube que seu antigo produtor estava fazendo sucesso como cantor na gravadora rival, hein? E imaginar que ele havia demitido Raulzito porque o funcionário não se limitara a atuar como produtor e ousou assumir o vocal e cantar suas composições. Ai, ai, ai. O cara tinha Raul Seixas em seu quadro de colaboradores administrativos e não quis vê-lo no quadro de talentos artísticos. Vai entender a cabeça e as aptidões musicais de um sujeito assim, né?! Em poucos dias, “Krig-ha, Bandolo!” se tornou uma febre nacional e alçou o nome de Raul Seixas ao topo das paradas das rádios. Em uma trajetória pouquíssimo comum até hoje, o músico novato se transformava da noite para o dia em uma das principais estrelas de sua gravadora e do show business nacional como um todo. E realmente “Krig-ha, Bandolo!” era bom. Na verdade, esse disco de Raulzito não era apenas bom ou muito bom. Ele era excelente!!! Sei que sou suspeito para falar sobre isso já que sou um velho fã de Raul Seixas. Por isso, trago a opinião imparcial da crítica musical nacional sobre a estreia autoral e solo do roqueiro baiano. Em qualquer lista dos melhores álbuns da história da música brasileira, lá está “Krig-ha, Bandolo!”. Em outubro de 2007, a Revista Rolling Stone Brasil colocou o primeiro disco de Raulzito na 12ª posição entre as principais criações nacionais. Repare o que eu disse: ele está na 12ª colocação da Revista Rolling Stone!!! Com aproximadamente meia hora de duração (para ser preciso em meu texto, são 29 minutos), “Krig-ha, Bandolo!” reúne dez faixas e dois fragmentos musicais (um fragmento na introdução e outro no fechamento). Com exceção da introdução (“Good Rockin´Tonight”, de Roy Brown, que Raul canta rapidamente, à capela e com a qualidade de som que flerta com o amadorismo e a improvisação), todas as músicas do álbum são de autoria de Raulzito (cinco são apenas dele e cinco foram feitas em parceria com Paulo Coelho). Repare que o disco, cujo nome foi extraído de uma expressão dos gibis de Tarzan (“Krig-ha, Bandolo!” significa “Cuidado, aí vem o inimigo”), traz alguns dos clássicos máximos do roqueiro baiano: “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Al Capone”, “As Minas do Rei Salomão” e, claro, “Ouro de Tolo”. Por isso, a sensação de ouvir hoje “Krig-ha, Bandolo!” é de estarmos conferindo uma coletânea com as melhores músicas de Raul (o que não deixa de ser verdade) e não um mero álbum individual. Há também outras canções deste disco que entraram para a história do portfólio musical de Seixas: “Dentadura Postiça” e “Rockixe”. Elas são conhecidas pelos fãs contemporâneos de primeira fileira do cantor (coloque o dedo aqui que já vai fechar!). Entretanto, três músicas do álbum de estreia de Raulzito acabaram um tanto esquecidas pelo público: “A Hora do Trem Passar”, “How Could I Know” e “Cachorro Urubu”. Mesmo assim, nota-se que elas são criações criativas, fortes e interessantes. No fechamento de “Krig-ha, Bandolo!”, acompanhamos “Meu Nome é Raul Santos Seixas”, vinheta meio promocional, meio de brincadeira do jovem músico. Por mais absurdo que possa parecer ao público atual, “Ouro de Tolo” quase não foi inserido em “Krig-ha, Bandolo!”. O compositor tinha dúvidas da qualidade e da força mercadológica de uma música tão melancólica e com uma visão tão negativa do mundo capitalista, da sociedade brasileira e das inquietações do eu lírico. Quem incentivou o cantor baiano a colocar a canção no disco foi Paulo Coelho, então o grande parceiro musical de Raul Seixas. Depois de ouvi-la, o futuro autor de “O Alquimista” (Rocco) foi categórico: “Tá muito boa, Raulzito! Ela precisa entrar no disco”. Ainda reticente, o Maluco Beleza a colocou no álbum, mas deixou a música lá no final. “Ouro de Tolo” é, acredite se quiser, a última música do lado B de “Krig-ha, Bandolo!”, a pior posição possível. Ela só vem antes de “Meu Nome é Raul Santos Seixas”, que é a vinheta de fechamento do disco (e não pode ser chamada de uma canção propriamente dita). Indo contra a percepção inicial de Raul Seixas, “Ouro de Tolo” explodiu nas rádios brasileiras tão logo o disco chegou às lojas. A faixa se tornou o principal hit de “Krig-ha, Bandolo!”. E olha que ela concorria internamente com canções como “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Al Capone” e “As Minas do Rei Salomão”, clássicos de primeira grandeza do rock nacional. Para conseguirmos analisar em profundidade a letra e a melodia de “Ouro de Tolo”, precisamos ver antes e na íntegra essa música de Raulzito. Abaixo, apresento os versos da canção que completará, em julho de 2023, 50 anos de lançamento. Logo a seguir, deixo também um vídeo com a interpretação original da mais celebrada criação do maior roqueiro nacional de todos os tempos. Confira: Ouro de Tolo (1973) – Raul Seixas Eu devia estar contente Porque eu tenho um emprego Sou o dito cidadão respeitável E ganho quatro mil cruzeiros por mês Eu devia agradecer ao Senhor Por ter tido sucesso na vida como artista Eu devia estar feliz Porque consegui comprar um Corcel 73 Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema Depois de ter passado fome por dois anos Aqui na Cidade Maravilhosa Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso Por ter finalmente vencido na vida Mas eu acho isso uma grande piada E um tanto quanto perigosa Eu devia estar contente Por ter conseguido tudo o que eu quis Mas confesso abestalhado Que eu estou decepcionado Porque foi tão fácil conseguir E agora eu me pergunto: e daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar E eu não posso ficar aí parado Eu devia estar feliz pelo Senhor Ter me concedido o domingo Para ir com a família no jardim zoológico Dar pipoca aos macacos Ah, mas que sujeito chato sou eu Que não acha nada engraçado Macaco, praia, carro, jornal, tobogã Eu acho tudo isso um saco É você olhar no espelho Se sentir um grandessíssimo idiota Saber que é humano, ridículo, limitado Que só usa dez por cento de sua cabeça, animal E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial Que está contribuindo com sua parte Para o nosso belo quadro social Eu é que não me sento No trono de um apartamento Com a boca escancarada cheia de dentes Esperando a morte chegar Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais No cume calmo do meu olho que vê Assenta a sombra sonora de um disco voador Ah, eu é que não me sento No trono de um apartamento Com a boca escancarada cheia de dentes Esperando a morte chegar Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais No cume calmo do meu olho que vê Assenta a sombra sonora de um disco voador Comecemos nossa análise pra valer pela melodia de “Ouro de Tolo”. Pouca gente sabe atualmente, mas essa música de Raul é uma paródia de “Sentado à Beira do Caminho”, canção de 1969 composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Muito antes dos Mamonas Assassinas assombrarem o Brasil no começo da década de 1990, Raul Seixas já era mestre em parodiar os diferentes gêneros musicais. E ele fez isso nos anos 1970 com o Bolero (“Sessão das Dez” e “Maluco Beleza”), com o Baião (“Mosca na Sopa” e “Let Me Sing, Let Me Sing”), com a música romântica brega (“Tu És o MDC da Minha Vida”), com a música romântica mais tradicional e dramática, aquela típica da Era de Ouro do Rádio (“Medo da Chuva” e “A Maçã”), com o Forró (“Eu Também Vou Reclamar”), com o Rap (“Metro Linha 743”, “Abre-te Sésamo” e “Paranoia”), com o Samba/Pagode (“Aos Trancos e Barrancos”) etc. Para ser justo com os fatos, preciso dizer que Raulzito misturava esses vários ritmos ao rock, tornando seu som único e extremamente original. A melodia de “Ouro de Tolo” é propositadamente muito parecida a “Sentado à Beira do Caminho” (aquela de “Preciso acabar/logo com isso/Preciso lembrar/que eu existo/ que eu existo/que eu existo”). Creio que a ideia de Raul Seixas era debochar da crise existencial dos artistas da Jovem Guarda, garotos e garotas da classe média alta de São Paulo e do Rio de Janeiro que cantavam seus dramas amorosos como se aquilo fosse a pior coisa do mundo. Indiferentes ao terrível quadro social brasileiro (país devastado pela miséria e pela fome endêmicas), eles dirigiam carangos em alta velocidade pelas estradas e ruas e se divertiam em festões de arromba com os brotos mais legais da época. De certa maneira, Raul estava comparando seu drama pessoal (que ele entendia ser banal pelo que seus conterrâneos vivenciavam na realidade) às inquietações pueris dos adolescentes da Jovem Guarda. Faz sentido! Repare que o som de “Ouro de Tolo” explora os mesmos acordes o tempo inteiro e usa ao máximo a repetição melódica como estrutura estética. Como consequência, a sensação do ouvinte é que a canção não sai do lugar. Em outras palavras, a música de Raul Seixas é propositadamente melancólica e claustrofóbica. “Ouro de Tolo” emula os sentimentos de angústia e de aprisionamento do eu lírico. Se você ficou deprimido e amargurado ouvindo essa faixa monocórdia, imagine só como não se sentia o compositor (e a banda que o acompanhava) ao repetir infinitamente a mesma batida! O mesmo expediente musical foi usado em outras canções de Raul, como em boa parte de “Meu Amigo Pedro”, “A Maçã”, “Maluco Beleza” e “Medo da Chuva”, mas sem um efeito tão avassalador quanto aqui. Em relação à letra de “Ouro de Tolo”, seu título é um dos grandes acertos musicais de Raul e possui uma poesia profunda. Expressão típica dos garimpos nacionais (um mal que aterroriza o Brasil e os brasileiros desde 1500), ela serve para designar a pirita, mineral que apesar de ser dourado não tem qualquer valor comercial. Curiosamente, esse termo pode muito bem ser exportado para a realidade capitalista contemporânea. O sujeito endinheirado tem uma rotina abastada, confortável e tranquila e acredita que com isso será feliz. Nada mais ilusório. Sem saber, ele está comprando a pirita da sociedade moderna. A riqueza material dá a impressão de que sua vida é dourada e satisfatória. Contudo, lá no fundo, sabemos que o ouro de tolo não tem valor. Como consequência, surgem a apatia, a depressão e a crise existencial. Qualquer semelhança com a realidade que vivemos atualmente não é mera coincidência!!! É interessante reafirmar que a letra de “Ouro de Tolo” é profundamente autobiográfica. Essa característica fica evidente desde o início da canção pois seus 56 versos estão em primeira pessoa. Raul Seixas tinha mesmo um Corcel zero quilômetro na virada de 1972 para 1973. Ele vivia em Ipanema com a família e ganhava um salário de 4 mil cruzeiros como produtor fonográfico da CBS. O roqueiro tinha passado fome no Rio de Janeiro por dois anos e, o que é mais incrível, tinha mesmo visitado o zoológico carioca com a família (no caso, com Edith Wisne, a esposa norte-americana, e com Simone Andrea, a filha pequena do casal). Lá os Seixas viram macacos ganharem pipoca do público. Incrível, né? A vida abastada que Raul levava no Rio de Janeiro deveria ser comemorada. O músico sabia disso. Não à toa, boa parte dos quartetos iniciais de “Ouro de Tolo” começam exatamente com frases no subjuntivo: “Eu devia estar contente...”, “Eu devia agradecer ao Senhor...”, “Eu devia estar alegre e satisfeito...”, “Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso...” e “Eu devia estar feliz pelo Senhor...”. Todavia, ele não estava nem um pouco satisfeito com o conforto material que obtivera com a nova rotina. Para o eu lírico, faltava algo importantíssimo em sua vida. O que valia uma existência tranquila e confortável sem emoção, sem correr atrás dos sonhos e sem ir em busca do que realmente o motivava, hein? Aí está justamente o paradoxo existencialista que torna “Ouro de Tolo” uma obra-prima. O músico ganhara algo importante no Rio de Janeiro (“Porque eu tenho um emprego/Sou o dito cidadão respeitável”), mas perdera justamente o essencial, as coisas mais importantes que tinha – a liberdade e, por consequência, a felicidade. Os versos que resumem essa angústia é: “Porque foi tão fácil conseguir/E agora eu me pergunto: e daí?/Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar/E eu não posso ficar aí parado”. A sensação é que ele ficou refém da nova rotina. O eu lírico de “Ouro de Tolo” é agora um prisioneiro da engrenagem capitalista, à la uma personagem da fábrica de Charlie Chaplin. Os leitores mais atentos da coluna Músicas deverão ter percebido que registrei os versos desta canção de Raul Seixas em quartetos (mais especificamente em 14 quartetos). Sinceramente, é assim que vejo a estrutura poética de “Ouro de Tolo”, apesar de encontrar por aí o registro dela em uma mistura de quintetos e sextetos. A explicação para eu enxergar essa música como uma sucessão harmônica de quartetos (e não a alternância de quintetos ou sextetos) está na característica de alguns versos. Note que em alguns momentos da faixa (mais propriamente na metade dela e em seu final), Raulzito dá uma alongada nas frases (como se elas não quisessem terminar nunca). Ele faz isso imprimindo um ritmo mais acelerado à voz, o que só potencializa a sensação de angústia e o ar de desabafo de suas palavras. Aí temos, em alguns quartetos, um verso mais comprido ao lado de três versos mais curtos. Achei incrível esse efeito. O destempero emocional do eu lírico não se dá apenas pelo tamanho desproporcional dos versos da canção. A ausência completa de rima em “Ouro de Tolo” também mostra o quanto há algo muito errado aqui (errado do ponto de vista sentimental e psicológico da personagem/narrador/compositor). Em minha visão, a nova vida do eu lírico é tão triste, enfadonha e incompleta que ele não consegue sequer fazer versos rimados. É espetacular assistirmos à transmutação da emoção do criador de “Ouro de Tolo” na estrutura poética da música. Curiosamente, a falta de rima não afeta a cadência e a beleza da canção, algo que só alguém com enorme habilidade musical consegue fazer com naturalidade e enorme qualidade. Os fãs de longa data de Raul Seixas já devem ter percebido que não há refrão nesta música, o que é algo bem atípico em se tratando do portfólio artístico do Pai do Rock Brasileiro. O Maluco Beleza sempre foi chegadinho a um bom e infalível refrão, capaz de cair na boca do povo rapidamente. “Viva!/Viva!/Viva a sociedade alternativa”, “Eu nasci/há dez mil anos atrás/E não tem nada nesse mundo/que eu não saiba demais”, “Ei, Al Capone/vê se te orienta/Assim dessa maneira, nego/Chicago não aguenta”, “Nós não vamo pagar nada/Nós não vamo pagar nada/É tudo free!/Tá na hora, é tudo free/Vamo embora dá lugar pros gringos entrar/Esse imóvel tá pra alugar” e “Prefiro ser/essa metamorfose ambulante/Prefiro ser/essa metamorfose ambulante/do que ter aquela velha opinião/formada sobre tudo/do que ter aquela velha opinião/formada sobre tudo” e “Vou ficar/ficar com certeza/maluco beleza/Vou ficar/ficar com certeza/maluco beleza” são alguns exemplos do uso desse recurso por Raul. Querendo ou não, a ausência de versos repetitivos (chame de refrão se preferir) em “Ouro de Tolo” dá um verniz de maior refinamento à canção e potencializa o tom melancólico da música. Afinal, não dava para querer transmitir a sensação de tédio e de marasmo que o eu lírico vivencia com um refrão forte e vibrante, né? Nesse sentido, “Ouro de Tolo” está perfeita na maneira como foi concebida (sem refrão e sem rima). Para quem ainda não vê semelhanças melódicas desta música com “Sentado à Beira do Caminho”, é legal observar que Raul Seixas inseriu referências religiosas à sua letra para fazer uma intertextualidade musical com as composições de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Se nunca foi um cara lá muito religioso (ele sempre pendeu mais para o esoterismo e para a magia), por que Raul cantaria, então, “Eu devia agradecer ao Senhor/Por ter tido sucesso na vida como artista” e “Eu devia estar feliz pelo Senhor/Ter me concedido o domingo/Para ir com a família no jardim zoológico/Dar pipoca aos macacos”, hein? A explicação para isso é que o roqueiro baiano queria imitar as citações religiosas que a dupla de compositores da Jovem Guarda, que ele estava parodiando, fazia corriqueiramente. Quem leu o post de “Se Eu Quiser Falar com Deus”, obra-prima de Gilberto Gil, entenderá que os músicos brasileiros que eram ateus gostavam de fustigar Roberto Carlos quando o assunto era religião. Raulzito sabia disso e aproveitou a oportunidade para dar a sua beliscadinha no Rei. Por fim, “Ouro de Tolo” possui alguns versos meio esotéricos e mais poéticos que Raul Seixas puxou aleatoriamente de seu caderno de poesias. Eles surgem no finalzinho da canção, depois que Raulzito já transmitiu a mensagem principal de seu conflito íntimo. Apesar de destoar do restante da música, o último quarteto dá uma beleza ímpar à letra. Aí o roqueiro abre mão do relato nu e cru do seu drama pessoal e expõe suas maluquices interplanetárias. Obviamente, estou me referindo ao seguinte quarteto: “Porque longe das cercas embandeiradas/que separam quintais/No cume calmo do meu olho que vê/Assenta a sombra sonora de um disco voador”. Essas palavras até podem não dizer muitas coisas lógicas (eu pelo menos não as entendi!), mas elas são belíssimas. Isso é inegável. Quem ganha com tal inserção poética na letra de “Ouro de Tolo” são os ouvintes de Raul Seixas e a música brasileira como um todo. Não é errado ver esse trecho como um dos mais bonitos e impactantes da nossa cultura popular. “Porque longe das cercas embandeiradas/que separam quintais/No cume calmo do meu olho que vê/Assenta a sombra sonora de um disco voador”. Fale a verdade: esses versos são perfeitos, não são?! Paradoxalmente, Raul Seixas queria ser a versão brasileira de Elvis Presley e acabou sendo, pelo menos em “Ouro de Tolo”, uma espécie de Bob Dylan nacional. Algo que ajudou bastante na divulgação da música e de “Krig-ha, Bandolo!” foi a inusitada e eficiente estratégia de Marketing concebida por Paulo Coelho e promovida perfeitamente por Raul Seixas. No dia do lançamento do álbum, Raulzito foi até o centro do Rio com um grupo de amigos e começou a tocar no violão suas novas canções. O povão parou para ver (e ouvir). O burburinho chamou a atenção da imprensa, que fora avisada previamente pela gravadora do que ocorreria nas ruas cariocas naquele dia e horário. Assim, os jornalistas puderam conferir a união direta de um jovem roqueiro com seu público. Como consequência, à noite saiu uma reportagem no Jornal Nacional, o principal programa jornalístico da TV brasileira na época, mostrando Raul Seixas tocando “Ouro de Tolo” e falando do lançamento do disco. Na manhã seguinte, os principais jornais do país relatavam o fuzuê no Centrão do Rio de Janeiro e apresentavam aos seus leitores a proeza de Raul, a nova promessa da música nacional. Não foi surpresa, portanto, que alguns dias depois, “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa” e “Metamorfose Ambulante” estavam tocando repetidamente nas rádios. Era o início do surgimento da lenda, do maior nome do rock do Brasil. É verdade que a maior evidência profissional de Raul também chamou a atenção dos militares que tinham se apropriado há quase uma década do governo federal. Na primeira metade dos anos 1970, o país vivia o momento mais violento e intransigente da Ditadura Militar Brasileira. Com a decretação do AI-5 em 1969, milhares de pessoas foram presas, torturadas e mortas pelo regime de exceção. A censura mostrava sua força proibindo reportagens jornalísticas e manifestações culturais. Nesse cenário de enorme instabilidade, “Ouro de Tolo” acabou sendo inicialmente liberada pelos censores, mas depois que ficou famosa ela foi reavaliada pelos profissionais da Censura Artística. Aí os milicos do órgão de controle de comunicação acharam que a letra da música era por demais crítica e ácida. Como ela já havia caído na boca do povo, não dava mais para censurá-la. Porém, Raul Seixas foi colocado em observação. Na visão dos governantes, o roqueiro baiano era mais um dos subversivos que queria destruir a nação com imoralidades. Raulzito só foi expulso do país no ano seguinte, pouco depois de lançar seu segundo álbum solo, “Gita”. Convidado a se retirar do Brasil pelos militares em 1974, ele foi morar com Edith, Paulo Coelho e Adalgisa Rios, a esposa do mago, nos Estados Unidos. Entretanto, aquela estada na América (ele voltaria para lá depois) durou poucas semanas. O sucesso de “Gita”, maior sucesso comercial de Raul Seixas com mais de meio milhão de unidades vendidas, e o clamor popular pelas apresentações do roqueiro fizeram a Ditadura Militar aceitar a volta do músico. Assim, ele e Paulo Coelho retornaram nos braços do povão. Apesar de achar incrível esse aspecto da vida do Maluco Beleza, essa é outra história, que merece um post exclusivo na coluna Músicas. Quem sabe eu não volte a falar de Raul Seixas no Bonas Histórias só para contá-la, hein? Hoje, nos limitemos à celebração dos 50 anos do lançamento de “Ouro de Tolo”, o primeiro grande sucesso de Raul e a música mais representativa de seu portfólio artístico na visão da crítica musical. Eu a acho simplesmente brilhante. E você, o que acha desta canção? “Ouro de Tolo” merece ou não merece o rótulo de obra-prima do rock brasileiro? Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Coração do Imperador - O segundo romance de Guilherme Santos
Lançada em agosto de 2022, a nova obra ficcional do escritor mineiro é uma trama policial baseada no roubo do coração de D. Pedro I e nos bastidores da Maçonaria. No segundo semestre do ano passado, conheci o trabalho literário de Guilherme Santos, um autor mineiro de enorme qualidade e de muito potencial. Com apenas dois romances publicados até aqui, “A Morte do Filho do Rei” (Adelante), de 2018, e “O Coração do Imperador” (Gulliver), de 2022, o jovem escritor, que é natural de Santo Antônio do Monte, já desponta como uma das boas revelações da literatura brasileira contemporânea. A especialidade de Guilherme Santos é o thriller dramático. De alguma forma, suas obras me lembraram bastante a produção literária de Sidney Sheldon, norte-americano que era mestre em criar suspenses com muita ação, incríveis reviravoltas nas tramas e enredos com fortíssima pegada cinematográfica. Impossível não gostarmos dessa combinação, né? Curti tanto as narrativas de Guilherme Santos que resolvi fazer um post na coluna Livros – Crítica Literária com a análise aprofundada de seu mais recente trabalho ficcional. Publicado em agosto de 2022, “O Coração do Imperador” é o segundo título de Guilherme e seu primeiro romance policial. Os leitores mais atentos do Bonas Histórias vão se lembrar que comentei o lançamento deste thriller na coluna Mercado Editorial em setembro. Naquela oportunidade, apresentei as publicações literárias que chegaram às livrarias brasileiras no quinto bimestre do ano passado e, se eu não estiver enganado, destaquei “O Coração do Imperador” como uma das boas novidades recém-lançadas na estante da ficção nacional. Agora com mais calma e espaço (nada como o começo de ano!), vou conseguir debater os detalhes dessa obra com a atenção e a dedicação que ela merece. Se você já leu “A Morte do Filho do Rei”, a estreia do autor na literatura, saiba que o novo título de Guilherme Santos é tão bom quanto o primeiro. Confesso que até fiquei na dúvida sobre qual dos romances seria melhor. Acho que gostei mais da história de “A Morte do Filho do Rei” – essa obra vale até uma análise completa no Bonas Histórias! Porém, é inegável que o texto e a narrativa de “O Coração do Imperador” foram desenvolvidos com mais cuidado e excelência. Se pensarmos bem, trata-se de um processo natural. Os escritores talentosos e comprometidos com o ofício literário vivenciam, salvo exceções, francas evoluções no início de carreira. Por isso, é normal o segundo livro sair melhor do que o primeiro, o terceiro ter mais qualidade do que o segundo e assim sucessivamente. Além de escritor, Guilherme de Castro Couto Santos é jornalista e redator. Especializado em Gestão Pública, ele trabalhou por mais de quinze anos como assessor de imprensa e assessor parlamentar. Depois de atuar na Assembleia Legislativa em Belo Horizonte e na Câmara dos Deputados em Brasília, Guilherme foi por quatro anos secretário-executivo do diretório estadual do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em Minas Gerais. Na última eleição, ele saiu candidato a Deputado Estadual em Minas pelo partido Democracia Cristã (DC), mas não foi eleito. Mesmo jovem (tem apenas 34 anos) e ainda novato no fazer literário (são só dois livros publicados até agora), Guilherme Santos é membro da Academia Santantoniense de Letras (ACADSAL). Nascido no interior de Minas Gerais (Santo Antônio do Monte fica próximo a Divinópolis, no Oeste do estado, e está a 180 quilômetros da capital mineira), o autor se mudou para BH para estudar. Formado em jornalismo pela PUC-MG, Guilherme também integra o Grande Oriente do Brasil (GOB), a mais tradicional e conceituada organização maçônica do país. Vale a pena dizer que desde pequeno Guilherme esteve envolvido com a Maçonaria. Filho de maçons, ele já frequentava a Ordem DeMolay na infância. E hoje ocupa o cargo de secretário-geral de Entidades Paramaçônicas da GOB. É legal comentar que a atuação de Guilherme Santos tanto na política quanto na Maçonaria foram fundamentais para a criação de seus primeiros romances. Em “A Morte do Filho do Rei”, acompanhamos a campanha política de Gamaliel Brasil, um senador baiano ambicioso e carismático que deseja chegar à Presidência da República. No centro da trama, temos a dupla formada por Amélia Ribeiro, assessora parlamentar, e João Carlos Assis, assessor de imprensa. Ambos os funcionários trabalham no gabinete do senador baiano em Brasília e estão envolvidos diretamente com a eleição de Gamaliel. Na reta final da campanha, nada pode dar errado. O problema é que Gamaliel Brasil, uma figura de caráter ilibado perante a opinião pública, esconde segredinhos (e segredões) que podem dinamitar sua imagem perante o eleitorado nacional. Juro que me lembrei bastante do senador mineiro Aécio Neves durante essa leitura. Para mim, Gamaliel seria a versão soteropolitana e ficcional do ex-candidato do PSDB à Presidência da República. No caso de “O Coração do Imperador”, a essência da obra está nos bastidores da Maçonaria. O conhecimento e a prática de Guilherme Santos no Grande Oriente do Brasil foram decisivos para a construção dos cenários, dos rituais e da dinâmica da sociedade secreta. Na trama da nova publicação, a alta cúpula do GOB é a principal suspeita do roubo de uma relíquia histórica portuguesa que fora contrabandeada para nosso país. Para descobrir quem são os responsáveis pelo crime, a Polícia Judiciária (de Portugal) e a Polícia Federal (do Brasil) precisarão unir forças e mergulhar no passado do Período Imperial Luso-brasileiro. Em uma brincadeira de misturar o universo da ficção com a biografia do autor, diria que o trio de protagonistas de “A Morte do Filho do Rei” – Gamaliel Brasil (político), Amélia Ribeiro (assessora parlamentar) e João Carlos Assis (jornalista) – possui as mesmas profissões e as mesmas rotinas de Guilherme Santos. E os principais suspeitos de cometer o roubo em “O Coração do Imperador” têm os mesmos cargos e as mesmas atribuições do escritor mineiro no GOB. Não à toa, uma das características mais legais da literatura de Guilherme é a verossimilhança das personagens ficcionais, a fidedignidade da ambientação dos romances e a veracidade de situações e cenas dos livros. Outro elemento muito positivo de “A Morte do Filho do Rei” e “O Coração do Imperador” é o mergulho aprofundado em temas que fogem do dia a dia das pessoas comuns e que o romancista tem total domínio. Por exemplo, eu não conhecia os detalhes da dinâmica de um gabinete político em Brasília. Para ser sincero, jamais tinha parado para pensar como as coisas funcionam (ou não funcionam) por lá. E, para completar, me surpreendi com a estrutura e a ambição da Maçonaria no Brasil. Na minha concepção, a sociedade secreta (não tão secreta assim, vale destacar!) era algo que tinha ficado no passado e agia (quando agia) bem sutilmente. Em outras palavras, além de trazer narrativas gostosas, conflitos empolgantes e personagens carismáticas, os livros de Guilherme Santos fogem dos enredos mais convencionais. Se isso não representar a síntese da boa literatura, não sei mais o que poderia agradar aos leitores mais exigentes. A ideia para produzir o enredo de “O Coração do Imperador” surgiu mais ou menos na metade de 2020. Foi a partir de uma reportagem da Revista Aventuras na História que o autor teve a sacada criativa para o novo romance. Na leitura da matéria jornalística, Guilherme Santos descobriu o que aconteceu com D. Pedro I quando ele voltou para Portugal. Em sua terra natal após a expulsão do Brasil, Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon (ufa! Acho que não me esqueci de nenhum dos nomes do filho de D. João VI) recuperou o trono usurpado pelo irmão, virou para os lusitanos D. Pedro IV, o Rei Soldado, e se tornou definitivamente herói nacional. Logo após a morte do monarca, seu coração foi colocado em um relicário de prata e guardado com pompas imperiais na Igreja da Lapa, na cidade do Porto. O órgão embalsamado de D. Pedro I (ou de D. Pedro IV, como preferir) está lá até hoje e se constitui em uma peça que molda o orgulho e a identidade dos portuenses. Achando aquela história sensacional, Guilherme pensou: e se alguém roubasse a relíquia histórica do imperador luso-brasileiro, hein?! Estava criado o mote da segunda obra do autor. Contudo, como estávamos vivenciando o ápice da pandemia da Covid-19 na metade de 2020 e a proposta da publicação ficcional precisava ainda ser amadurecida na mente do escritor mineiro, a produção do texto do livro não aconteceu de maneira tão imediata. Os trabalhos efetivos de Guilherme Santos em “O Coração do Imperador” só começaram para valer em dezembro de 2022, quando ele realizou pesquisas mais aprofundadas sobre os temas do enredo e planejou a estrutura da narrativa. De tão empolgado que ficou com a proposta do novo livro, Guilherme precisou interromper os outros projetos literários (um título infantojuvenil e a continuação da saga de “A Morte do Filho do Rei”) para mergulhar na produção do segundo romance, cujo título só foi definido no processo final da confecção da obra. O desenvolvimento da escrita propriamente dito de “O Coração do Imperador” ocorreu de fevereiro de 2021 a fevereiro de 2022. A partir daí, foram dois meses de revisão do autor, dois meses de trabalho final da editora (revisão, criação do projeto gráfico e diagramação) e dois meses entre a impressão do livro e o lançamento efetivo nas livrarias. Quem publicou “O Coração do Imperador”, assim como “A Morte do Filho do Rei”, foi a Gulliver Editora, uma casa editorial localizada em Divinópolis, a Princesinha do Oeste. A empresa possui três selos: Gulliver (para títulos literários), Artigo A (para obras técnicas e acadêmicas) e Adelante (para autopublicações). Fundada em agosto de 2011 por Joubert Caetano Amaral, publisher, professor universitário da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais) e um dos organizadores da FLID (Festa Literária de Divinópolis), a Gulliver se destaca como uma das principais promotoras da literatura no interior de Minas Gerais. Diferentemente da obra de estreia de Guilherme Santos que foi uma autopublicação (“A Morte do Filho do Rei” saiu originalmente pelo selo Adelante), o segundo romance já representou um investimento por parte da editora e não do escritor (“O Coração do Imperador” saiu pelo selo principal da Gulliver). Por acompanhar atentamente a dinâmica deste mercado, eu gosto de assistir ao amadurecimento dos autores ficcionais brasileiros e à evolução de seus trabalhos dentro da literatura comercial. Guilherme é um ótimo exemplo de um jovem romancista que conseguiu escalar as íngremes e desafiantes encostas do mercado editorial nacional com seu talento e dedicação. E há ainda quem diga que os livros autopublicados não abrem as portas das boas editoras para as promessas literárias. Sabe de nada, inocente! Falemos agora mais detalhadamente do enredo de “O Coração do Imperador”. Essa história se passa nos dez primeiros dias de setembro de 2022. A trama inicia-se no Porto. Na madrugada de 1º de setembro, alguém roubou o coração de D. Pedro I (como os brasileiros o conhecem) ou de D. Pedro IV (como preferem os portugueses). O órgão embalsamado do monarca luso-brasileiro estava alojado em um monumento na Igreja da Lapa e, por ser uma relíquia histórica para Portugal e para a cidade do Porto, estava sob rigoroso sistema de proteção. Para efetuar o furto, o criminoso assassinou Mendes Rocha, o Presidente da Câmara local, que era o responsável por guardar as chaves do monumento. Em posse do artefato e ainda com as mãos sujas de sangue, o criminoso fugiu da Europa. Ou seja, tão logo deixou a Igreja da Lapa, o misterioso ladrão embarcou em um avião rumo (adivinhe para onde, senhoras e senhores?!) ao Brasil. Não é preciso dizer que o crime de tal dimensão mobilizou instantaneamente os principais políticos portugueses e a cúpula da polícia local. Tadeu Tomás, diretor da Polícia Judiciária (uma espécie de Polícia Federal lusitana), foi acionado na própria madrugada do roubo pela Ministra da Justiça. A ordem era capturar o ladrão custe o que custasse e reaver o coração de D. Pedro I (no caso, D. Pedro IV – você já entendeu, né?!). Para essa investigação, Tadeu convocou Maria Gomes e Afonso Henriques, dois inspetores muito experientes e competentes da PJ. O problema é que a dupla de policiais nunca se bicou e cada um preferiu trabalhar sozinho. Dessa maneira, a investigação praticamente se dividiu em duas linhas logo no começo: uma comandada por Maria Gomes e outra por Afonso Henriques. Afonso Henriques, o protagonista deste romance, é o clássico investigador excêntrico. Aos 51 anos, ele está na polícia há 30. Especializado no combate aos crimes contra o patrimônio histórico e cultural, Afonso não desgruda de Dom Egas, seu gatinho persa. O inspetor leva o bichano para todos os lugares, independentemente se está no horário de trabalho ou no horário de lazer. Além de se vestir de maneira peculiar e se expressar de um jeito pitoresco, o policial português é cheio de manias. Ele adora genealogia, é apaixonado por História e é um exímio observador. Nada parece escapar de sua visão bem treinada e aguçadíssima. Por outro lado, Afonso Henriques tem tique nervoso na sobrancelha quando algo importante vai acontecer, é portador de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o que exige o uso de Ritalina, e adora mascar chiclete de menta. Em outras palavras, é uma figuraça!!! Em menos de 24 horas, Afonso Henriques descobre que o ladrão do coração do imperador fugiu em um voo particular para o Brasil. O inspetor pode ter lá suas esquisitices, mas sabe muito bem o que está fazendo. Assim, o profissional da Polícia Judiciária (PJ para os íntimos, tá?) parte para o outro lado do Oceano Atlântico. Sua intenção é solucionar o quanto antes o crime que está deixando Portugal em rebuliço. Como Maria Gomes avança sobre outras pistas, ela continua investigando o roubo da Igreja da Lapa em Porto mesmo. A partir do que seus funcionários informam, Tadeu Tomás precisará unir as duas pontas do quebra-cabeça. Ao chegar em São Paulo (trazendo obviamente Dom Egas a tiracolo), Afonso Henriques ganha a companhia de dois brasileiros nos trabalhos investigativos. O primeiro deles é João Inácio Valença, agente da Polícia Federal na capital paulista. O policial brasileiro tem a incumbência de acompanhar o colega português em nossas terras. A dupla (ou seria o trio, se considerarmos que o gato persa acompanha os policiais em todos os lugares) recebe a ajuda providencial de Isabel Sarmento L`Accole, uma das historiadoras mais respeitadas do país. Professora da USP (Universidade de São Paulo) e especialista no Período Imperial Brasileiro, Isabel é quem fornece as explicações históricas para as charadas e pistas deixadas pelo(s) criminoso(s). Pelo visto, o roubo do coração de D. Pedro I/D. Pedro IV está relacionado a intrigas que remontam ao século XIX, quando Brasil e Portugal ainda viviam sob regimes monárquicos. A investigação do trio (ou quarteto – não nos esqueçamos de Dom Egas, por favor!!!) logo levanta as suspeitas para a existência de uma célula criminosa operando no Grande Oriente do Brasil, a mais antiga e importante casa maçônica brasileira. Fundado por D. Pedro I há 200 anos, o Grande Oriente do Brasil, também chamado de GOB, poderia estar, segundo indicam as pistas mais fortes obtidas pelos policiais, por trás do roubo do órgão do imperador luso-brasileiro em Porto e seu envio para o Brasil. A desconfiança de Afonso Henriques, João Inácio Valença e Isabel Sarmento L`Accole é que Alberto Clemente, o grão-mestre da Ordem da Maçonaria, tenha patrocinado o crime. Afinal, o GOB tem um evento importante marcado para as comemorações de 7 de setembro, data do bicentenário da Independência do Brasil. E, pelo que parece, a autoridade máxima da casa maçônica quer apresentar aos seus seguidores uma relíquia histórica de valor imensurável do fundador mais famoso do Grande Oriente do Brasil. Ai, ai, ai. Acho que tem caroço nesse angu, meus amigos! O problema do grupo de investigadores é que os inimigos estão cientes de seus passos. Por onde andem, seja em São Paulo, seja em Brasília e no Rio de Janeiro, Afonso, João Inácio e Isabel (e, por que não, Dom Egas) são seguidos de perto e correm sérios riscos de morte. Não à toa, estamos falando de uma organização secreta e poderosa, né? Será que o inspetor da Polícia Judiciária, o agente da Polícia Federal, a historiadora da USP e o simpático gatinho vão conseguir pegar os criminosos antes de serem pegos por eles?! Essa é a dúvida que motiva os leitores. E esse é o pontapé da leitura que culminará em várias e várias surpresas. Se prepare para as revelações bombásticas que estão por vir nos capítulos seguintes deste romance policial. “O Coração do Imperador” tem 248 páginas e está dividido em 91 capítulos. Ele também possui introdução (chamada de “Fatos”), prólogo e epílogo. Levei em torno de cinco horas e meia para percorrer todo o seu conteúdo no último domingo. Sim, li esta obra em um único dia. Para tal, precisei de quatro sessões de leitura de uma hora e vinte minutos cada. Basicamente, foram uma sessão de manhã, duas à tarde e uma à noite. Quem não gosta de longas imersões literárias, saiba que dá para concluir o livro tranquilamente em dois dias ou em três noites consecutivas. Confesso que tinha pensado em lê-lo com mais calma, em dois dias talvez. Contudo, acabei me empolgando com a história e aí você já viu, né? Devorei o romance de Guilherme Santos de bate-pronto nesse comecinho de janeiro! A primeira questão que chamou minha atenção em “O Coração do Imperador” foi a enorme qualidade de sua narrativa ficcional. Do contrário, não faria um post sobre este título na coluna Livros – Crítica Literária, né? Há várias surpresas e reviravoltas na trama; a construção das personagens está impecável; e a ambientação do romance é excelente! Gostei tanto dessa obra quanto da anterior de Guilherme Santos, “A Morte do Filho do Rei”. Ou seja, estamos falando de um jovem romancista com um trabalho que mesmo incipiente (são só duas publicações por enquanto) já consegue empolgar quem gosta da boa literatura. Tenho certeza de que os leitores do Bonas Histórias que curtem narrativas policiais, suspenses dramáticos e tramas de aventura vão adorar o novo lançamento de Guilherme. Comecemos falando da excelente ambientação de “O Coração do Imperador”. O autor constrói cenários e cria atmosferas com enorme fidelidade. A sensação que o leitor tem é de estar caminhando com as personagens pelas cenas e pelos lugares descritos no livro. Além disso, o mergulho no universo da Maçonaria e no panorama da história luso-brasileira está impecável. Não tenho pudores em afirmar que a ambientação do romance policial de Guilherme Santos está perfeita!!! Outra questão digna de muitos elogios é a construção das personagens ficcionais. Nota-se que elas foram bem desenvolvidas porque, mesmo com o excesso de pessoas na trama, não ficamos confusos em nenhum momento sobre quem é quem (algo que acontece às vezes em enredos com muitas figuras em cena). O mais interessante é que, de forma rápida e elaborada, Guilherme Santos consegue caracterizar cada personagem muito bem. E basicamente não temos figuras planas e sim redondas nesta narrativa. À medida que a leitura evolui, mais e mais os indivíduos retratados nas páginas ganham em dimensão psicológica e em contradição, elementos indispensáveis da ficção da melhor qualidade. Achei a maneira como o autor cria suas personagens espetacular. Ele é direto e preciso, sem abrir mão da profundidade. E vale a pena dizer que o título anterior do autor já tinha excelentes personagens. Já que estamos falando das personagens, o que dizer então do protagonista de “O Coração do Imperador”, hein? O inspetor Afonso Henriques é uma figuraça, digna dos melhores romances policiais. Importante salientar que a construção desta personalidade ficcional de Guilherme Santos bebe das características mais marcantes das personagens clássicas do gênero, como Hercule Poirot e Sherlock Holmes. Gostei dessa intertextualidade literária. Não duvido que as semelhanças estilísticas tenham sido propositais. Por isso mesmo, é até aceitável o perfil um tanto estereotipado da figura central do livro. Repare que Afonso Henriques possui muitas características chamativas: tique nervoso na sobrancelha quando algo importante está para acontecer; comportamento excêntrico; gosto pelas histórias dos sobrenomes tradicionais; perfil monarquista; hábito de mascar chiclete de menta; portador de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH); crises de epilepsia; memória acima da média; raciocínio rápido para desvendar nuances e pequenas pistas deixadas (quando ele não se esqueceu de tomar a Ritalina); guarda-roupa pouco ortodoxo etc. É ou não é uma figura peculiar, hein? Ainda focando nas características inusitadas do inspetor português, preciso relembrar que Afonso Henriques sempre carrega consigo Dom Egas, o esperto e corajoso gato persa. À medida que os capítulos evoluem, o felino se torna uma personagem de destaque da trama. É legal notar isso e ver que os dois (Afonso Henriques e Dom Egas) trabalham como uma legítima dupla de policiais. Impossível não nos encantarmos e não nos emocionarmos com o pequeno Dom Egas em ação! O ponto alto de “O Coração do Imperador” está no desfecho surpreendente. E quando uso o termo surpreendente, põe surpreendente nisso!!! O último quarto da obra é de tirar o fôlego. Nada é o que parece. E até as últimas páginas, temos novidades capazes de tirar o chão do leitor. Repare que o último capítulo (91) é de uma sagacidade incalculável. Não me lembro de ter lido um romance policial tão surpreendente quanto esse nos últimos dois anos. É claro que não coloquei nessa conta a leitura de “A Morte do Filho do Rei”, que tem um desenlace tão ou até mesmo mais inesperado do que “O Coração do Imperador”. Portanto, Guilherme Santos é daquele tipo de romancista capaz de assombrar a gente com finais incríveis e com reviravoltas incalculáveis! O que torna essa publicação tão maravilhosa é a quebra de expectativa. Sobre isso, preciso dedicar algumas linhas em minha análise para tratar do efeito que a narrativa de Guilherme Santos tem no leitor. Até o terceiro quarto da obra, confesso que estranhei a construção narrativa do autor mineiro. Achei até que Guilherme quebrou o pacto ficcional que sustenta os romances policiais. Ao acompanharmos simultaneamente a investigação do inspetor da Polícia Judiciária e as ações dos criminosos (o narrador em terceira pessoa fica flutuando livremente entre cenários e personagens), assistimos naturalmente a perda (aparente!) do mistério. Afinal, qual a graça de seguirmos com uma trama investigativa quando já sabemos quem são os culpados? E aí está justamente a beleza e a força narrativa de “O Coração do Imperador”. Os últimos capítulos do livro reservam várias (eu disse várias!!!) surpresas. Talvez a impressão inicial de quem tenha roubado o coração de D. Pedro I não seja tão óbvia como os leitores mais apressadinhos (preciso confessar que acabei caindo nesse nada honroso grupo) poderiam supor. E quando percebemos que a obviedade não faz parte da literatura de Guilherme Santos, o pacto ficcional volta com tudo e o romance ganha em originalidade, consistência e dramaticidade. Achei espetacular essa quebra de expectativa e adorei as surpresas reservadas para o desfecho da obra. Sinceramente, não sei qual título de Guilherme Santos é melhor: se “O Coração do Imperador” ou se “A Morte do Filho do Rei”. Como já disse no início deste post, eu adorei os dois. Eles são muito bons mesmo! O que achei é que “O Coração do Imperador” tem um texto que foi trabalhado com mais cuidado e precisão. Ele também tem uma narrativa mais redondinha e com maior velocidade narrativa (elementos fundamentais para qualquer thriller e/ou romance policial). Mas como trama em si, meu livro favorito do autor continua sendo “A Morte do Filho do Rei”. Apesar de ter algumas passagens inverossímeis, alguns equívocos textuais e longas descrições de cenários (muitas vezes desnecessárias – algo que também aparece em “O Coração do Imperador”, mas com menor intensidade), o romance de estreia de Guilherme Santos tem uma história deliciosa, que me encantou. Ele mistura drama, romance, ação, teoria da conspiração e suspense. Mesmo com as várias qualidades positivas que empolgam a maioria dos leitores, “O Coração do Imperador” (voltei a falar do segundo romance, tá?) tem alguns problemas que devem ser apontados nessa análise da coluna Livros – Crítica Literária. Um dos principais tropeços da nova publicação de Guilherme Santos está no discurso pouco verossímil das personagens portuguesas. Por que elas falam o português brasileiro e não o português de Portugal?! Juro que não entendi. É verdade que o livro até traz um ou outro termo lusitano e explora os verbos na segunda pessoa durante os diálogos dos portugueses. Mesmo assim, as falas das figuras europeias não condizem, de forma geral, com a realidade. Achei que o autor deveria ter investido mais nesse aspecto da obra. Acredito que Guilherme não precisaria ter ido para Portugal para entender o quão inverossímil estava o discurso de parte das personagens de seu novo romance. Bastaria ele ter lido alguns romancistas lusitanos contemporâneos, por exemplo, para notar o poder da variante geográfica da nossa língua. Um passeio rápido pelo portfólio literário de José Vieira/Teresa Vieira Lobo, de “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books) e “A Verdade e a Vertigem” (Emporium), pela ficção de Gonçalo J. Nunes Dias, da trilogia “O Bom Ditador” (Ebook independente), pelos romances de Ana Teresa Pereira, do espetacular “Karen” (Todavia), ou mesmo pela literatura de José Eduardo Agualusa (que possui um pé em Portugal e outro em Angola), de “O Vendedor de Passados” (Tusquets), já teria fornecido pistas suficientes de que o gato (querido Dom Egas, desculpe-me pelo uso de tal expressão idiomática) subiu no telhado. Por falar no intercâmbio internacional assistido em “O Coração do Imperador”, outros elementos que o autor poderia ter explorado com mais intensidade, e que não foram trazidos com tanta contundência para a narrativa, são as diferenças culturais e linguísticas entre Brasil e Portugal. Na certa, a inclusão desses componentes daria mais colorido, leveza e humor à trama. Juro que fiquei imaginando o choque cultural que um senhorzinho português tradicional e conservador da cidade de Porto teria ao chegar na caótica e amalucada São Paulo. Entretanto, a questão mais delicada deste romance é outra. Apesar de impecável, o enredo de “O Coração do Imperador” me lembrou as tramas dos livros de Dan Brown. Mesmo tendo adorado essa publicação de Guilherme Santos, como aspecto negativo devo relatar a sensação de déjà vu que tive durante a leitura. Afinal, a mistura de elementos históricos, sociedades secretas, assassinatos e crimes simbólicos, viagens internacionais e investigadores excêntricos (abraço, Robert Langdon!) é o ingrediente principal que fez de Brown um dos escritores best-sellers da literatura contemporânea. Impossível não lembrarmos do autor norte-americano e de seu portfólio ficcional quando assistimos a um receituário narrativo tão parecido. Por esse ponto de vista, “A Morte do Filho do Rei” me pareceu uma trama mais original e com uma linha narrativa muito mais sagaz (com direito a uma teoria da conspiração deliciosa e muitíssimo pertinente para os tempos atuais do nosso país). Por falar em enredo, há também um probleminha na história de “O Coração do Imperador” quando associada à realidade. Guilherme Santos produziu uma trama que se passa de maneira geral entre 1º de setembro de 2022 e 10 de setembro de 2022. Até aí beleza. E a narrativa do romance, que mistura personagens e fatos verídicos com elementos e figuras ficcionais, trata do roubo do coração de D. Pedro I no período do festejo do bicentenário da Independência do Brasil (e da celebração do bicentenário da fundação do Grande Oriente do Brasil, principal organização maçônica do nosso país). O problema é que, justamente nessa data, o coração do imperador luso-brasileiro não estava na realidade em Porto, algo que o autor não poderia ter previsto quando começou a produzir o livro em fevereiro de 2021. E onde estava o órgão embalsamado nessa data, hein? No Brasil. Esse é um dos riscos de se produzir uma trama que acontece no tempo futuro. Para quem não se lembra, em 22 de agosto de 2022, o coração de D. Pedro I chegou à Brasília, após acordo diplomático entre Brasil e Portugal, para os festejos do 7 de setembro de 2022. Dessa maneira, quando misturamos realidade e ficção, não fazia sentido o órgão do primeiro monarca nacional estar em Porto no dia 1º de setembro de 2022, como relatado no romance. Achei também alguns pequenos deslizes na revisão textual desta obra. Por exemplo, a grafia mais comum da droga feita com base na cocaína é crack e não craque. Apesar de não estar errado o uso da expressão craque, é estranha sua utilização fora do universo médico-psiquiátrico (para o público em geral, craque é o jogador bom de bola e crack é a droga). Há também a falta de um acento aqui e outro ali. Um exemplo disso é a palavra déficit (e não deficit). Quando encontro tropeços desse tipo em uma publicação ficcional, normalmente coloco na conta da editora e não do autor. Porém, é importante dizer que a falta de uma revisão mais caprichada não prejudica a experiência literária. De forma geral, a narrativa é de excelente nível (mesmo com um ou outro equívoco textual). Ao final da leitura, tive a sensação de que “O Coração do Imperador” adquiriu certo caráter de propaganda da Maçonaria. Sabe quando o título é do tipo chapa-branca? Pois foi essa a impressão que tive. Apesar de eu não ter uma visão nem positiva nem negativa da instituição (para mim, ela pode já ter tido alguma importância no passado, mas hoje em dia é totalmente irrelevante), achei uma forçação de barra danada colocar a Maçonaria no centro dos acontecimentos político-sociais do país ou do mundo em pleno século XXI. Mesmo com a superestima de seu alcance atual, é uma delícia acompanharmos de perto os rituais, símbolos, estruturas organizacionais, concepções, instalações e doutrinas do Grande Oriente do Brasil. Por fim, outro aspecto que me incomodou um pouco em “O Coração do Imperador” (e muito em “A Morte do Filho do Rei”!) foi a mania do autor em descrever excessivamente cenários, passagens históricas e situações corriqueiras. Vários detalhamentos são desnecessários e acabam prejudicando o ritmo narrativo do romance. Chamamos isso na crítica literária de “levar para as páginas do livro a pesquisa feita pelo escritor”. Infelizmente, Guilherme Santos se empolga um pouco e parece ter vontade de explicar tudo para os leitores, até mesmo coisas que já sabemos ou que são irrelevantes para a evolução da trama. O aspecto positivo é que deu para ver que o autor evoluiu bastante da primeira para a segunda obra. Se “A Morte do Filho do Rei” tinha muitas (não estou exagerando quando digo muitas!!!) passagens desnecessárias (faltou um trabalho de edição mais acurado na obra de estreia), “O Coração do Imperador” já possui bem menos partes supérfluas (o trabalho de edição aqui foi melhor). Mesmo assim, há ainda um pouco de excesso descritivo na primeira metade do romance. Por tudo isso, reconheço que estou aguardando com ansiedade os próximos passos de Guilherme Santos na literatura comercial. Se ele mantiver o grau de evolução apresentado até o momento, na certa sua terceira publicação ficcional será um livrão. Vamos torcer para que o autor mineiro continue no ofício da produção narrativa, mesmo tendo muitas atividades profissionais em paralelo. A literatura brasileira contemporânea agradece! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: O Tesouro do Pequeno Nicolau - O terceiro longa-metragem da série de Goscinny e Sempé
Lançada nos cinemas brasileiros perto do Natal, a comédia franco-belga foi dirigida por Julien Rappeneau e estrelada pelo jovem Ilan Debrabant. No último final de semana, dias derradeiros das minhas férias de virada de ano, fui ao Espaço Itaú de Cinema do Bourbon Shopping Pompeia para conferir “O Tesouro do Pequeno Nicolau” (Le Trésor du Petit Nicolas: 2021). A comédia dirigida por Julien Rappeneau é a terceira adaptação para as telonas da obra-prima do escritor René Goscinny e do desenhista Jean-Jacques Sempé, falecido recentemente. Criadas nas décadas de 1950 e 1960, as histórias de “O Pequeno Nicolau” se tornaram clássicos da literatura francesa e da literatura infantojuvenil. E, desde 2009, elas vêm sendo levadas de maneira bem-sucedida para o formato audiovisual. Não é preciso dizer que a chegada das tramas de Goscinny e Sempé às salas de cinemas internacionais ajudou a popularizá-las ainda mais, principalmente em relação às novas gerações e ao público de fora da França. Vale a pena comentar que as duas primeiras produções cinematográficas da série foram o incrível “O Pequeno Nicolau” (Le Petit Nicolas: 2009), um dos mais divertidos filmes que vi na minha vida (juro que cheguei a chorar de tanto rir na sessão!!!), e o ótimo “As Férias do Pequeno Nicolau” (Les Vacances du Petit Nicolas: 2014). Se você gosta de enredos divertidos, humor inteligente, personagens sensíveis e conflitos hilários sobre o universo infantil, na certa irá curtir tanto os livros quanto os longas-metragens da coleção de “O Pequeno Nicolau”. Sou suspeito para falar, mas adoro essas histórias há um tempão. Exatamente por ser fãnzaço do universo ficcional criado pela dupla René Goscinny e Jean-Jacques Sempé, não consegui ignorar o lançamento nas telonas da terceira parte (ou seria terceiro capítulo?!) da saga dos mais carismáticos e endiabrados meninos franceses da literatura (e agora do cinema). E mesmo tendo ficado bastante decepcionado com o que conferi em “O Tesouro do Pequeno Nicolau” (saiba que não costumamos fazer críticas prioritariamente negativas no Bonas Histórias – se não gostamos de algo, simplesmente não falamos a respeito e ponto final), resolvi comentar hoje com vocês o novo filme de Rappeneau na coluna Cinema. Afinal, gosto tanto, mas gosto tanto das tramas de “O Pequeno Nicolau” que me sinto à vontade para dizer o que gostei e o que não gostei em suas adaptações para a sétima arte. Talvez o maior problema da nova produção cinematográfica desta coleção não tenha sido a baixa qualidade em si (o longa-metragem está longe de proporcionar uma experiência ruim ao espectador), mas a expectativa muito elevada com a qual entrei na sessão de cinema entornou o caldo (aí a decepção me abraçou com tanta força que quase perdi o ar!). Em uma comparação com as comédias anteriores da série, é inegável que “O Tesouro do Pequeno Nicolau” esteja em um nível inferior nos quesitos entretenimento, graça e humor. Porém, não sei se podemos dizer que ele é um título ruim. Acho que ele só não está no patamar do inesquecível “O Pequeno Nicolau” e do excelente “As Férias do Pequeno Nicolau”. Antes de falar do novo filme propriamente dito, me sinto na obrigação de tecer algumas palavras sobre a literatura de René Goscinny e Jean-Jacques Sempé. A coletânea do menino Nicolau e sua trupe de amiguinhos foi criada entre 1956 e 1965. A dupla francesa publicou uma espécie de contos ilustrados sobre os garotos de um colégio parisiense em uma coluna do jornal Southwest Sunday (apesar do nome em inglês, trata-se de um periódico da região de Bordeaux). O sucesso das histórias e dos desenhos de “O Pequeno Nicolau” se deu por misturar a linguagem infantil, o universo da infância, a inocência dos pequenos, a imaginação das crianças e os traços simples que emulam as ilustrações feitas pela meninada às piadas sagazes, às tramas afiadas e aos conflitos que os adultos compreendem tão bem. Em outras palavras, apesar do retrato da infância e das aventuras de um grupo de meninos, o conteúdo da coluna de Goscinny e Sempé era direcionado aos leitores mais velhos (desde quando crianças leem jornal, hein?). Nos anos 1960, os contos de “O Pequeno Nicolau” foram publicados em livros ilustrados. A coleção abrange originalmente cinco obras: “O Pequeno Nicolau” (Martins Fontes), “O Pequeno Nicolau e Seus Colegas” (Martins Fontes), “Novas Aventuras do Pequeno Nicolau” (Martins Fontes), “As Surpresas do Pequeno Nicolau” (Martins Fontes) e “O Pequeno Nicolau no Recreio” (Martins Fontes). Quando ganharam as estantes das livrarias francesas e belgas, aí sim os textos de Goscinny e os desenhos de Sempé conquistaram também o público infantojuvenil e se tornaram definitivamente patrimônio cultural da língua francesa. Hoje, as narrativas de René Goscinny e os desenhos de Jean-Jacques Sempé são apreciados por toda a família. Explicada a trajetória de “O Pequeno Nicolau” das páginas dos jornais para as páginas dos livros, falemos agora do capítulo mais recente da série: o cinema. O filme “O Tesouro do Pequeno Nicolau” foi roteirizado pelo diretor Julien Rappeneau e por Mathias Gavarry. Orçada em aproximadamente 17 milhões de euros, a produção franco-belga foi gravada entre o finalzinho de 2020 e o início de 2021, tão logo a quarentena da pandemia de Covid-19 foi atenuada na Europa. O lançamento do longa-metragem no circuito comercial de cinema ocorreu essencialmente no segundo semestre de 2021 nos países de língua francesa – leia-se França, Bélgica, Suíça e Canadá (Quebec). No exterior, ele chegou para o público a partir da metade de 2022. E nas salas de cinema do Brasil, “O Tesouro do Pequeno Nicolau” foi lançado há quatro semanas, em 22 de dezembro. Ou seja, para os fãs brasileiros da série de Goscinny e Sempé, esse foi o presente de Natal do último ano. Como é típico dos filmes de “O Pequeno Nicolau”, a terceira produção cinematográfica da coletânea teve a mescla bem azeitada de atores experientes e novatos. No primeiro grupo, os destaques vão para Jean-Paul Rouve, de “Piaf – Um Hino ao Amor” (La Môme: 2007), Audrey Lamy, de “Um Amor de Mãe” (Ma Reum: 2017), Pierre Arditti, de “Belle Époque” (La Belle Époque: 2019), Grégory Gadebois, de “Marvin” (Marvin ou La Belle Éducation: 2017), e Noémie Lvovsky, de “Um Belo Verão” (Le Belle Saison: 2015). No elenco mirim, Ilan Debrabant foi o encarregado de protagonizar o longa-metragem (responsabilidade que outrora foi desempenhada com êxito por Maxime Godart e Mathéo Boisselier). O enredo de “O Tesouro do Pequeno Nicolau” se passa entre as décadas de 1950 e 1960 em Paris. A rotina de Nicolau (interpretado por Ilan Bebrabant), um menino de aproximadamente 9 anos, é recheada de momentos gratificantes ao lado de seus amiguinhos e colegas de escola. O garoto integra um grupo autointitulado de Os Invencíveis. Formada por Agnaldo (o nerd), Alceu (o gordinho), Clotário (o burro), Rufino (o ligeirinho), Godofredo (o riquinho), Maximiliano (o corajoso) e Eudes (o brigão), além de Nicolau (é claro!), a trupe mirim é inseparável e se diverte bastante seja no colégio, seja pelas ruas do bairro onde vive. Na escola, os membros de Os Invencíveis adoram aprontar com o bedel (Grégory Gadebois), que se torna uma vítima fácil das traquinagens dos pequenos. Os meninos também se aproveitam do bom coração da professora (Noémie Lvovsky), que acaba acatando todas as vontades e caprichos dos alunos. Depois das aulas, a diversão da molecada é no terreno baldio. Distante dos olhos dos adultos, os integrantes de Os Invencíveis jogam bola (diferente do que o nome do grupo diz, eles perdem muitas vezes as partidas), brigam bastante entre si (é brincadeira de criança, tá?), correm do cachorro de uma vizinha mal-humorada etc. Ou seja, a infância não poderia ser melhor para Nicolau e seus melhores amiguinhos do que aquela que eles vivem tão intensamente. O conflito do filme surge quando o pai de Nicolau (Jean-Paul Rouve), um grande paspalho que trabalha como funcionário burocrático em uma empresa na capital francesa, é promovido à diretor. O Sr. Mouchebourne (Pierre Arditti), o patrão, comprou uma empresa concorrente em Aubagne, na Provença, e escalou justamente o pai de Nicolau para comandar a operação da companhia recém-adquirida. Assim, a família do protagonista precisará se mudar para o sul do país. O drama de Nicolau é deixar o colégio e os amiguinhos que tanto gosta. Como viver longe de Os Invencíveis, hein? Pela primeira vez na vida, o garoto percebe que seu grupo não é tão inseparável quanto eles pensavam. Como resolver tal impasse?! A trupe tem uma brilhante (ou não) ideia após a visita escolar a um museu da região. Se eles encontrarem um tesouro que está escondido há anos nas redondezas do bairro, os garotos ficarão milionários. E uma vez ricos, eles poderão dar o dinheiro que o pai de Nicolau tanto precisa (afinal, mal foi promovido, ele já está gastando a rodo). Aí com bastante dinheiro no bolso, o funcionário predileto do Sr. Mouchebourne não precisará mais do cargo de diretor, o que fará com que a mudança da família para longe de Paris seja automaticamente cancelada. O plano de Os Invencíveis parece infalível (ao menos na cabeça da criançada, né?). Inicia-se, assim, a busca obstinada dos moleques pelo tesouro no subsolo da capital francesa. O destino de Nicolau e a sequência de sua infância até então perfeita dependem do resultado daquela operação perpetrada pelos valentes e corajosos meninos. Conseguirá o grupo de amigos evitar a mudança de um de seus integrantes mais queridos para longe de Paris, hein? Tananananã! “O Tesouro do Pequeno Nicolau” tem pouco mais de 1 hora e 40 minutos de duração. Assisti à versão dublada, a única disponível nas salas do Espaço Itaú de Cinema. Como estamos em férias escolares, a opção por exibir o filme francês sem legendas visava, obviamente, atrair a criançada para as sessões. Parece que a estratégia foi bem-sucedida. O público na minha sala era formado prioritariamente por famílias com pequenos espectadores a tiracolo. Curiosamente, fiquei surpreso com o excesso de crianças no cinema. Quando vi “O Pequeno Nicolau” e “As Férias do Pequeno Nicolau” há alguns anos, lembro que o público era prioritariamente adulto. E olha que os lançamentos de ambos os títulos coincidiram em nosso país com as férias escolares (o primeiro aconteceu em julho de 2010 e o segundo em janeiro de 2015). Esta é justamente a primeira questão que gostaria de comentar neste post da coluna Cinema. Achei “O Tesouro do Pequeno Nicolau” o filme mais infantil da série até aqui. E, paradoxalmente, nessa tentativa de angariar a atenção e o interesse do público mirim, o diretor (e roteirista) Julien Rappeneau atrapalhou o longa-metragem em vários quesitos. Sabe quando você tenta agradar a todos e não consegue agradar ninguém? Foi exatamente essa a sensação que tive ao final da sessão. Na certa, os adultos saíram da sala de cinema um tanto decepcionados (algo que não ocorreu, por exemplo, com “O Pequeno Nicolau” e “As Férias do Pequeno Nicolau”). E a meninada não foi totalmente contemplada com uma trama feita exclusivamente para ela (a molecadinha iria curtir muito mais outros títulos que estão em cartaz ou que vão entrar no nosso circuito comercial de cinema). Entretanto, o que me incomodou mais em “O Tesouro do Pequeno Nicolau” foi o roteiro vacilante. Pela primeira vez nessa série cinematográfica, achei o ritmo narrativo do filme um tanto lento. Demora-se demais contextualizando a trama e apresentando as personagens. Aí o conflito tarda para surgir na tela e, como consequência, as aventuras da garotada para superar as adversidades ficam restritas à parte final da produção. Por isso, não se surpreenda se você lutar contra possíveis cochiladas durante a sessão. Se por um lado a contextualização excessiva e a apresentação pormenorizada das personagens atrapalham o ritmo da trama em “O Tesouro do Pequeno Nicolau”, por outro lado esses recursos permitem que os espectadores que não viram “O Pequeno Nicolau” e “As Férias do Pequeno Nicolau” possam acompanhar o novo longa numa boa. Se bem que acredito ser um sacrilégio ter perdido os títulos anteriores da saga do mais travesso estudante francês da ficção do século XX. Outro ponto que precisa ser esclarecido é a mudança completa do elenco do novo filme em relação aos títulos anteriores da série. A novidade aqui não foi tanto a alteração dos intérpretes mirins, algo já esperado. Afinal, não dava para manter as crianças que contracenaram em “As Férias do Pequeno Nicolau”, longa-metragem produzido em 2014. Hoje, eles já são adultos. Quem for bom de memória, irá se recordar que de “O Pequeno Nicolau”, filme de 2009, para “As Férias do Pequeno Nicolau”, os atores que fizeram o jovem protagonista e seus amiguinhos também mudaram. A grande novidade de “O Tesouro do Pequeno Nicolau” foi a alteração de quem fez as personagens adultas. Por exemplo, o pai e a mãe de Nicolau agora são, respectivamente, Jean-Paul Rouve e Audrey Lamy. Confesso que gostava mais de Kad Merad e Valérie Lemercier para esses papéis (a dupla fez tanto “O Pequeno Nicolau” quanto “As Férias do Pequeno Nicolau”). E o que dizer do ótimo François-Xavier Demaison que fez o bedel nos dois longas anteriores, hein? Ele foi substituído por Grégory Gadebois. Não sendo possível manter os atores mirins de um filme para outro, acredito que a manutenção dos atores e atrizes adultos nos papéis principais (pais de Nicolau, professora, bedel, diretor da escola etc.) poderia ter dado um ar maior de continuidade às tramas da série. Como todo mundo mudou em “O Tesouro do Pequeno Nicolau”, a sensação que temos é que esta produção está deslocada das anteriores. Em outras palavras, se “O Pequeno Nicolau” e “As Férias do Pequeno Nicolau” dialogam de certa maneira entre si, o novo longa-metragem não conversa com nenhum dos outros. Nesse sentido, não teria sido ruim a permanência de Laurent Tirard na direção e no roteiro. Foi uma pena o troca-troca generalizado no elenco e na equipe técnica do filme. Outro vacilo imperdoável foi a forte caricatura das personagens adultas. Enquanto as personagens mirins são espontâneas e agem com enorme fidedignidade (ajudadas, é claro, pelas excelentes atuações dos jovens atores e atrizes), os grandões são artificiais e exagerados em cena (aí nem o elenco experiente conseguiu atenuar as falhas do roteiro). É verdade que a visão estereotipada dos adultos é uma marca da série “O Pequeno Nicolau”. O problema é que, em “O Tesouro do Pequeno Nicolau”, o tom caricato foi potencializado ao extremo e aí o que deveria ser engraçado acabou soando esquisito, muito esquisito. Então quer dizer que não há nada legal neste filme, Ricardo? Pera aí! Não sejamos injustos com esta produção de Julien Rappeneau. “O Tesouro do Pequeno Nicolau” pode até não ser uma comédia memorável, daquelas que vamos nos lembrar por muitos anos, mas ele é engraçado sim, senhoras e senhores. Se não dá para gargalhar com a intensidade e com a mesma frequência de “O Pequeno Nicolau” e “As Férias do Pequeno Nicolau”, dá para dar algumas risadinhas. O humor do filme segue a linha cômica eternizada por René Goscinny e Jean-Jacques Sempé: sacadas inteligentes, piadas sutis e visão bem-humorada do universo infantil. Ou seja, temos aqui um humor mais refinado e menos popularesco. Há também, em “O Tesouro do Pequeno Nicolau”, boas cenas, trama gostosa, ambientação impecável e ótimas personagens do universo escolar. Não por acaso, as melhores partes do longa-metragem são passadas dentro do colégio parisiense. Quando a criançada de Os Invencíveis está dentro dos muros da escola, seja diante do bedel ou da professora, seja em aula ou no recreio, pode esperar que vem coisa engraçada por aí. Não posso me esquecer de elogiar a fotografia de “O Tesouro do Pequeno Nicolau”. Achei os aspectos estéticos do novo filme simplesmente fantásticos (até mesmo superiores aos presentes nos títulos anteriores da saga de “O Pequeno Nicolau”). Repare no contraste das cores, na composição dos cenários, na atmosfera das décadas de 1950 e 1960 e na riqueza visual desta produção. O responsável por essa proeza foi Vicente Mathias, diretor de fotografia de sucessos como “Que Mal Eu Fiz a Deus?” (Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?: 2014) e “Adeus Lá Em Cima” (Goodbye Up There: 2017). Mathias é genial e sua genialidade ficam evidentes na sua estreia nos filmes da coletânea de Goscinny e Sempé. Exatamente por isso, não podemos dizer que todas as trocas na equipe técnica se mostraram negativa, né? Na direção de fotografia tivemos uma nítida evolução. Também é preciso destacar o final poético e bonito de “O Tesouro do Pequeno Nicolau”. Nos minutos derradeiros do filme (calma que não damos os spoilers das obras analisadas no Bonas Histórias!!!), o humor dá lugar à visão saudosista da infância, à beleza e perenidade das melhores amizades, à força da passagem do tempo e à importância dos tempos felizes vividos na escola. Impossível não derramar algumas lágrimas quando Nicolau reflete sobre como e onde estarão os integrantes de Os Invencíveis dali a três décadas. Veja, a seguir, o trailer legendado de “O Tesouro do Pequeno Nicolau” (Le Trésor du Petit Nicolas: 2021): No mês que vem, trarei mais novidades para a coluna Cinema. Não por acaso, nas próximas semanas teremos ótimos lançamentos chegando às telonas brasileiras. Juro que estou louquinho para assistir a “Babilônia” (Babylon: 2022), saga histórica dirigida por Damien Chazelle, “Tár” (2022), drama de Todd Field, “M3gan” (2022), terror de Gerard Johnstone, “Um Filho” (The Son: 2022), suspense de Florian Zeller, e “Os Banshees de Inisherin” (The Banshees of Inisherin: 2022). Em um primeiro momento, acho que esses são os títulos que poderão agradar mais os cinéfilos brasileiros. Vamos ver se consigo trazer em fevereiro ao Bonas Histórias o melhor longa-metragem desta lista. Até lá! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Ted 2 - A volta do ursinho de pelúcia mais desbocado do cinema
O filme "Ted" (2012) chegou aos cinemas brasileiros há quatro anos e representou uma grande inovação nas comédias norte-americanas. Dirigido por Seth MacFarlane, que mais tarde faria o engraçadíssimo "Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola" (A Million Ways to Die in the West: 2014), e estrelado por Mark Wahlberg, de "O Grande Herói" (Lone Survivor: 2013), o longa-metragem foi um grande sucesso de bilheteria e provocou muitas polêmicas na época do seu lançamento. O humor totalmente escrachado e politicamente incorreto era algo novo e diferente do que o praticado pelo cinema comercial. Até hoje, o filme divide opiniões daqueles que o adoram e daqueles que o detestam. O enredo de "Ted" é sobre um ursinho de pelúcia que, após o pedido do seu dono, um menino chamado John Bennett (interpretado por Mark Wahlberg), ganha vida. A partir daí, o que era um brinquedinho se torna um ursinho real. Ted, como o pelúcia é chamado, vira o melhor amigo de John. Os dois fazem tudo juntos: vão para a escola, ingressam na faculdade, começam a namorar e caem no mundo das drogas e das bebidas. O problema surge quando John decide, aos trinta e cinco anos, se casar. Como seu amigo irá reagir? Este é o mote do primeiro filme da série. No ano passado, Seth MacFarlane e Mark Wahlberg se juntaram outra vez e resolveram filmar a continuação desta história. Aí surgiu "Ted 2" (2015). O que parecia a princípio ser mero oportunismo se transformou em novo sucesso. "Ted 2" não apenas suplantou a versão inicial nas bilheterias como parece ser uma longa-metragem ainda melhor (para aqueles que apreciaram o primeiro). Neste novo enredo, temos John e Ted sofrendo com suas relações amorosas. John está separado de Lori Collins (dessa vez, Mila Kunis, que interpretou a esposa do personagem principal no filme anterior, não aparece) e não consegue superar o divórcio. Ted, por sua vez, se casa com a gatíssima Tami-Lynn (interpretada por Jessica Barth). Contudo, o marasmo do casamento logo atinge o casal e os dois começam a ter problemas matrimoniais. Para apimentar a relação, os dois decidem ter um filho. Como Ted é um urso de pelúcia, a única alternativa é a adoção. Preocupado com o fato de um ursinho está requerendo uma criança para cuidar, o governo norte-americano abre um processo legal para verificar se Ted é um ser vivo ou se é um mero brinquedo. Dependendo da sentença do juiz, o casamento pode ser cancelado e emprego que ele tinha pode ser perdido. Para provar que Ted é sim um ser vivo como qualquer homem e mulher, os amigos lançam-se em uma batalha nos tribunais. Sinceramente, achei "Ted 2" ainda melhor do que o primeiro filme. Aqui temos novamente a mesma receita: humor escrachado, piadas politicamente incorretas e linguajar de baixo calão. Porém, a responsável por fazer o longa-metragem ser acima da média e provocar muitas risadas na plateia é a sua história engraçadíssima. De tão surreal é o fato de um urso querer provar que é humano que tudo se torna possível. Tudo é motivo para se tirar um sarro: das características verdadeiras dos atores até os sobrenomes deles da vida real. "Ted 2" representou um investimento de US$ 68 milhões do estúdio. Assim, vários nomes do primeiro escalão do cinema vieram participar desta produção. Destaque para Amanda Seyfried e Morgan Freeman, além de muita gente conhecida da cultura pop dos Estados Unidos. Apesar de o desfecho ser previsível e a trama conter o sentimentalismo barato que uma comédia comercial precisa ter, o filme é muito bom. Não dá para não rir das situações esdrúxulas que os personagens precisam passar. É verdade que às vezes os roteiristas ultrapassam os limites do mau gosto e do exagero. Mesmo assim, o expectador, entre uma risada e outra, perdoa os deslizes que podem aparecer ocasionalmente. Admito que se descobrir, daqui alguns anos, que fizeram o "Ted 3", irei correr para o cinema para assisti-lo. Só espero que a nova versão, se houver, seja como as anteriores: engraçada, polêmica e recheada de cenas de um humor corajoso e politicamente incorreto. Veja o trailer de "Ted 2": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SethMacFarlane #MarkWahlberg
- Filmes: Não Pare na Pista - A cinebiografia de Paulo Coelho
Para terminar o mês de setembro, nada melhor do que assistir à "Não Pare na Pista - A Melhor História de Paulo Coelho" (2013). Depois de ter lido e analisado, nos últimos trinta dias, as obras de Paulo Coelho, o último passo era ver o filme sobre sua vida. "Não Pare na Pista" é a cinebiografia do escritor. Esta produção hispano-brasileira teve um orçamento de 12,5 milhões de dólares e foi filmada entre abril e julho de 2013 no Rio de Janeiro e em Santiago de Compostela, na Espanha. A direção ficou a cargo de Daniel Augusto e o roteiro foi de Carolina Kotscho, de "Dois Filhos de Francisco" (2005) e "Flores Raras" (2012). O roteiro foi produzido por Kotscho depois de conversas e entrevistas realizadas com o próprio Paulo Coelho. Os atores que interpretaram o escritor foram Ravel Andrade (quando criança e adolescente) e Júlio Andrade (adulto). O longa-metragem mostra três momentos da vida de Paulo Coelho: na década de 1960, quando ele era um adolescente problemático, na década de 1980, anos antes de estourar como compositor e escritor, e, por fim, no ano de 2013, quando o autor passa por uma cirurgia no coração e já é um best-seller mundial. Estes diferentes momentos são intercalados o tempo inteiro durante o filme. Na infância e adolescência, passados na década de 1960, Paulo tem um péssimo relacionamento com o pai (interpretado por Enrique Díaz). O sonho do garoto é ser escritor. O patriarca acha que esta atividade não é uma profissão digna e rentável. O filho é introspectivo e tem vários complexos de inferioridade, o que só agrava a situação. Por isso, a família acaba internando Paulo duas vezes em um hospício no Rio de Janeiro. As sessões de choque e o tratamento clínico não mudam em nada a opinião do rapaz: ele quer ser escritor. Esta sua postura firme é vista como contestadora pelo pai, o que só piora ainda mais o relacionamento entre eles. Na década de 1980, Paulo entra em várias seitas religiosas obscuras e se especializa em temas transcendentais como ufologia, telepatia, espiritismo. É a fase em que ele mergulha nas drogas, na orgia e nas bebidas. O resultado é que ele passa a produzir uma revista sobre estes temas. Um dia um jovem músico aparece em sua casa propondo uma parceria musical. O visitante é Raul Seixas (Lucci Ferreira). O sucesso como compositor leva Paulo Coelho a se tornar um importante executivo de uma gravadora. Ele passa a trabalhar de maneira conservadora, algo que sempre criticou. É nesta fase da vida em que ele conhece Christina Oiticicca (Fabiana Guglielmetti) e se casa com ela. A reviravolta na trama acontece quando Coelho, apoiado pela esposa, viaja para a Europa e conhece seu mestre no RAM, um tipo de seita religiosa dentro do catolicismo. A partir daí, ele faz o Caminho de Santiago e lança o livro "Diário de um Mago" (Rocco). O sucesso definitivo demora mais um pouco. A aprovação do livro seguinte, "O Alquimista" (Planeta), seu grande sucesso, é recusado por uma editora, o que desanima o autor. Em 2013, já vemos um autor consagrado e milionário. Ele continua casado com Christina e suas preocupações são mais mundanas: sair do hospital onde fora operado, chegar a uma festa e se livrar de um motorista chato. Mesmo assim, percebe-se que Coelho ainda é um homem influenciado pela fé e um tanto dependente dos rituais transcendentais. "Não Pare na Pista" é um filme interessante. Ele consegue enfocar muito bem os principais momentos da vida do escritor. Para quem gosta de Raul Seixas, como eu, a trilha sonora é excelente. É possível compreender o sentido de boa parte das músicas criadas por Paulo Coelho e Raul Seixas na década de 1970. A narrativa entrecortada com as três fases da vida do autor deixa a trama mais dinâmica, mas não sei se pode confundir quem não conheça mais a fundo a história de Paulo Coelho. Imagino que sim. Esta confusão fica mais clara na parte em que o protagonista faz o Caminho de Santiago e é acompanhado por um guia espiritual que não está presente fisicamente (apenas em pensamento) - diferentemente do que é abordado no livro "Diário de um Mago". Ravel Andrade e Júlio Andrade conseguem convencer no papel principal. Eles são acompanhados por um bom elenco: Enrique Díaz, Fabiula Nascimento, Lucci Ferreira, Letícia Colin e Fabiana Guglielmetti. Fica evidente a boa escolha e preparação dos atores para o longa-metragem. O principal aspecto negativo da obra é a visão unilateral da trama. O filme é uma autobiografia e não uma biografia. A história é contada unicamente sob o ponto de vista de Coelho. Assim, sua figura torna-se a única "certa", enquanto os demais personagens estão "errados". O pai, Pedro Souza, e o amigo Raul Seixas são retratados de maneira negativa, considerados como os vilões. Será mesmo que foram? Tenho minhas dúvidas. Apesar da sua visão unilateral, "Não Pare na Pista - A Melhor História de Paulo Coelho" é um bom filme para quem quer conhecer melhor a vida de Paulo Coelho. Veja o trailer deste longa-metragem: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PauloCoelho #DanielAugusto #CarolinaKotscho #RavelAndrade #JúlioAndrade
- Livros: A Biblioteca da Meia-noite - O best-seller internacional de Matt Haig
Publicada em agosto de 2020 na Inglaterra e lançada no Brasil em setembro de 2021, a ficção científica de Haig mistura conceitos filosóficos com a dinâmica dos universos paralelos. No final de semana passado, li “A Biblioteca da Meia-noite” (Bertrand Brasil), o romance de maior sucesso de Matt Haig. Best-seller mundial com mais de dois milhões de exemplares comercializados, o livro do escritor inglês foi lançado no Brasil na segunda metade de 2021 e rapidamente alcançou as primeiras posições entre os mais vendidos em nossas livrarias. Para termos ideia de seu êxito comercial, “A Biblioteca da Meia-noite” foi o 10º título ficcional mais adquirido pelos leitores brasileiros no ano passado e ficou na 31ª posição no ranking geral das obras mais comercializadas por aqui na última temporada. Os dados são do Publishnews, a principal fonte do mercado editorial brasileiro na atualidade. Vale a pena dizer que “A Biblioteca da Meia-noite” só não entrou no post dos livros mais vendidos no Brasil em 2022, que publiquei no mês passado na coluna Mercado Editorial, porque listei apenas os 20 títulos de maior saída independentemente da categoria. Se eu tivesse feito, por exemplo, o top 35 ou o top 40 dos best-sellers das livrarias nacionais no ano passado ou mesmo o top 10 da ficção literária em nosso país em 2022, essa obra de Matt Haig teria sido citada sem dúvida nenhuma. Diante do enorme sucesso comercial e das críticas positivas que vi sobre “A Biblioteca da Meia-noite” desde o lançamento, eu estava curioso para conhecer esse romance em profundidade. Confesso que queria lê-lo há um tempão e ansiava por comentá-lo no Bonas Histórias. E agora consegui, enfim, me embrenhar em sua leitura e analisá-lo com o rigor necessário na coluna Livros – Crítica Literária. Para quem diz que eu dou prioridade aos clássicos da literatura ou privilégio aos títulos mais cults dos escritores renomados, hoje teremos o debate de um típico exemplar da ficção literária contemporânea da categoria entretenimento. Viu como o blog é eclético, hein?! Classificado como ficção científica pelo autor e pela editora inglesa que o publicou originalmente, “A Biblioteca da Meia-noite” mistura de forma bem azeitada conceitos filosóficos (diferentes formas de se enxergar a vida, razão da existência humana, debate sobre arrependimento, drama dos suicidas, reflexos de nossas rotinas no dia a dia das outras pessoas etc.), elementos da física quântica (no caso, a dinâmica dos universos paralelos) e certa intertextualidade literária (relação da biblioteca com o purgatório e da vida humana com a produção de histórias infinitas). O resultado é uma narrativa sensível, inteligente e inspiradora. Se o roteiro do romance não é lá muito original (esse é justamente o principal defeito da publicação de Haig: ele acaba sendo uma coletânea de clichês ficcionais e o pot-pourri de vários enredos dramáticos famosos), ao menos temos a boa execução da proposta editorial. Acredito que o livro conseguirá agradar aos leitores menos experientes e menos exigentes. Não à toa, “A Biblioteca da Meia-noite” pode ser visto como um título da literatura infantojuvenil ou da literatura young adult, como preferem os profissionais do mercado editorial. Nascido em julho de 1975 em Sheffield, centro-norte da Inglaterra, Matt Haig cresceu em Newark, em Nottinghamshire. Após estudar Inglês e História nas Universidades de Hull e Leeds, o agora escritor viveu em Brighton & Hove, cidade litorânea no sul do Reino Unido, em York, município de North Yorkshire, e na Espanha. Depois de trabalhar em empregos comuns e empreender no ramo do Marketing Digital (numa época em que a Internet era uma novidade), Haig é atualmente romancista e escreve regularmente para jornais britânicos como The Guardian e The Independent. Sua carreira no mercado editorial começou com o lançamento, em 2002, da obra não ficcional “How Come You Don´t Have an E-Strategy”, um guia de como usar a Internet nos negócios. Nos anos seguintes, ele publicou uma série de títulos sobre marcas e Marketing: “Brand Failures – The Truth about the 100 Biggest Branding Mistakes of All Time”, “Brand Royalty – How the World´s Top 100 Brands Thrive and Survive” e “Brand Sucess – How The World´s Top 100 Brands Thrive and Survive”. Nenhum desses livros foi traduzido para o português nem foi lançado no Brasil e em Portugal. O sucesso de Matt Haig nas livrarias só veio quando ele largou as produções editoriais do universo empresarial e ingressou no mundo dos romances e da literatura infantojuvenil. Seu primeiro título ficcional foi o inusitado “The Last Family in England” (sem edição em português), a releitura de uma história shakespeariana. Na nova versão, a trama do Bardo foi contada pelo ponto de vista de um cachorro Labrador. Hilário!!! Essa obra foi publicada em 2004. Dois anos mais tarde, no segundo romance, o escritor inglês adaptou a trama de Hamlet para os tempos atuais. Em “Dead Fathers Club” (não publicado no Brasil), um menino de 11 anos recebe a visita do fantasma do pai recém-falecido. Nessas conversas, o finado revela ao protagonista que foi assassinado e que espera que o filho ainda criança vingue sua morte. Sinistro. Muito sinistro!!! O primeiro trabalho infantojuvenil de Matt Haig foi o premiado “A Floresta Sombria” (Galera Record), de 2007. Vencedor do Gold Award no Nestlé Children´s Book Prize e indicado para o Waterstone´s Children´s Book Prize e para o Carnegie Medal, esse livro narra o drama de um casal de irmãos ingleses que vai morar na Noruega após ficar órfão. No novo país, o irmão precisa salvar a irmã que acabou aprisionada no mundo mágico e soturno de uma floresta. O sucesso de “A Floresta Sombria” foi tão grande que Haig lançou, em 2008, a sequência dessa história: “Runaway Troll” (sem edição em português). Aliando elogios empolgados da crítica literária com o interesse ávido do público leitor, Matt Haig já tem 27 obras publicadas entre títulos ficcionais para adultos e crianças e títulos não ficcionais. Curiosamente, suas narrativas envolvem invariavelmente crianças órfãs, mortes trágicas, fantasia (elementos sobrenaturais), violências físicas ou psicológicas, doenças mentais e suicídio. Ou seja, o leque temático do autor britânico não é dos mais tranquilos e agradáveis. Os maiores êxitos comerciais de Haig são “A Floresta Sombria”, “A Possessão do Sr. Cave” (Record), “Os Radley” (Record), “A Sociedade dos Pais Mortos” (Record), “How to Stop Time” (sem edição em português), “Razões para Continuar Vivo” (Intrínseca) e “Observações Sobre Um Planeta Nervoso” (Intrínseca). E, obviamente, nessa lista está o best-seller internacional “A Biblioteca da Meia-noite”, seu último e portentoso sucesso. “A Biblioteca da Meia-noite” foi publicado na Inglaterra em agosto de 2020, justamente no ápice da pandemia da Covid-19, e rapidamente alcançou as primeiras posições dos livros mais vendidos no Reino Unido. Em dezembro daquele ano, a BBC Radio 4 lançou um programa com dez episódios em que narra o drama da protagonista deste romance. Já no ano seguinte, a obra de Haig foi publicada em outros idiomas e se tornou um fenômeno do mercado editorial internacional com vendas na casa dos sete dígitos. Nos Estados Unidos, o principal mercado de livros do planeta, “A Biblioteca da Meia-noite” entrou na lista dos mais vendidos do New York Times, do Boston Globe e do Washington Post. Para completar a saga bem-sucedida de Matt Haig, “A Biblioteca da Meia-noite” conquistou o Goodreads Choice Awards de 2020 na categoria ficção, foi finalista do Audie Award de 2020 (entre as obras ficcionais) e recebeu a indicação ao Livro de Ficção do Ano do British Book Award de 2021. Vale a pena dizer que essas são algumas das principais premiações literárias da Grã-Bretanha. No Brasil, “A Biblioteca da Meia-noite” foi lançado nas livrarias em setembro de 2021 pela Editora Record através do selo Bertrand Brasil. A tradução para o nosso idioma foi realizada de maneira direta (do original “The Midnight Library”) por Adriana Fidalgo, tradutora, copy-editora, revisora de originais e assessora de imprensa graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para quem gosta de novidades, há uma edição nacional do livro de Haig que foi produzida pela Editora Record com verniz na capa. Com esse recurso extra, ele brilha no escuro. Contudo, eu não encontrei essa versão disponível à venda em 2023. Acho que ela se esgotou. Em 2022, a ficção científica de Matt Haig vendeu aproximadamente 30 mil unidades em nosso país (segundo o Publishnews). Se eu não estiver enganado, a Tag Livros também teve uma edição especial de “A Biblioteca da Meia-noite”, que saiu no meio do ano retrasado, antes mesmo que o romance chegasse às livrarias brasileiras. A publicação foi enviada, se minha memória não estiver falhando, aos assinantes da Tag Inéditos em julho ou agosto de 2021. Em Portugal, “A Biblioteca da Meia-noite” chegou aos leitores lusitanos um pouco mais cedo, em maio de 2021. O romance foi editado pela TopSeller, selo de ficção da Penguin Random House Grupo Editorial. Falando nisso, o público português tem muito mais títulos de Matt Haig disponíveis no idioma local do que o público brasileiro. Por lá, o escritor inglês tem aproximadamente uma dezena de obras traduzidas para o português, entre livros infantojuvenis, adultos e de não ficção. Posso citar “Os Humanos” (TopSeller), “Como Parar o Tempo” (TopSeller), “O Livro do Conforto” (Albatroz), “O Papai Natal e Eu” (Booksmile) e “A Rapariga que Salvou o Natal” (Booksmile). Todas essas publicações são inéditas no Brasil. O enredo de “A Biblioteca da Meia-noite” começa há 19 anos em Bedford, uma pequena cidade no interior da Inglaterra. Nora Seed é ainda uma criança e estuda no Hazeldene School. Prodígio na natação, com muito talento para a música e bastante inteligente, a menina tem vários sonhos e enorme potencial. O que Nora mais gosta na escola é poder conversar, nos horários dos intervalos das aulas, com a Sra. Elm, a bibliotecária. Na pequena biblioteca da instituição, as duas amigas conversam sobre tudo e jogam partidas desafiadoras de xadrez. A dupla adora pesquisar sobre o Ártico e ver imagens do Polo Norte. Aos olhos da pequena estudante, Sra. Elm é uma fonte inesgotável de conhecimento, inspiração e gentileza. A partir da cena inicial do romance, a trama avança no tempo até os dias atuais. Agora Nora Seed é uma mulher de 35 anos. Contra todos os prognósticos da infância e adolescência, a protagonista de “A Biblioteca da Meia-noite” tem uma rotina extremamente melancólica e frustrante. Ela não se tornou a nadadora olímpica que o pai tanto almejava. Ela não explodiu na música com a Labyrinths, como sonhava o irmão Joe, um dos integrantes da banda juvenil de maior potencial do interior da Inglaterra. Ela não se casou com Dan Lord (Nora terminou o noivado dois dias antes do casório!) como acreditou que faria. Ela também não virou glaciologista e, assim, frustrou a previsão da Sra. Elm nos tempos de escola. A menina sonhadora e talentosa de outrora deu lugar a uma adulta ressentida que ainda vive na minúscula e pacata Bedford. Graduada em filosofia, Nora Seed jamais atuou na área de formação. Ela trabalha há 13 anos como vendedora na Teoria das Cordas, uma loja de instrumentos musicais. Uma vez por semana, a moça dá aula de piano para Leo Thompson, um adolescente local. Sem falar com o irmão há dois anos (Joe jamais perdoou a irmã por ela ter desistido do Labyrinths justamente quando a banda ia assinar o primeiro contrato profissional), com os pais falecidos (ambos morreram precocemente), sem amigos (Izzy, sua melhor amiga, se mudou para a Austrália) e sem namorado (depois da frustação com Dan, ela nunca mais quis saber de ninguém), Nora tem uma rotina solitária e pacata. Sua única companhia parece ser Voltaire, o gatinho de estimação. O gritante choque entre o que imaginou para si lá atrás e a vida que tem atualmente se mostrou um fardo demasiado para a personagem principal do livro de Matt Haig. Não por acaso, Nora Seed tem fortes crises depressivas e já tentou se suicidar. O quadro psicológico da moça se agrava quando uma série de infortúnios acontecem sucessivamente. Logo de cara, ela descobre que Voltaire morreu em uma das saídas de casa. Provavelmente, o gatinho foi atropelado na rua. Algumas horas mais tarde, Nora é demitida da Teoria das Cordas. O patrão não aguenta mais o mau-humor da funcionária, que espanta a freguesia. Para completar o que podemos chamar de “Um Dia de Fúria” da Srta. Seed, ela perde o único aluno de piano. A mãe de Leo se revolta com o não cumprimento dos horários da professora e cancela definitivamente as aulas do filho. Provando que tragédia pouca é bobagem, Nora tem mais algumas revelações bombásticas que fazem daquele dia o fundo do poço de sua existência. O vizinho idoso que ela ajudava disse que não precisava mais de seu auxílio. Ele arranjou outra pessoa para fazer as compras no supermercado e na farmácia. Em mensagens de celular, Dan Lord revela à ex-noiva que jamais superou o trauma de ter sido abandonado pouco antes do casamento. Ravi, amigo de infância de Nora e Joe e ex-integrante de Labyrinths, parece nutrir ressentimento pelo que eles deixaram de vivenciar como músicos. Por falar em Joe, ele visitou Bedford há poucos dias, mas não quis ver a irmã. Ele é outro que não perdoa Nora por ela ter desistido da carreira do show business musical e, por consequência, ter atirado a todos em uma rotina sem dinheiro e fama. Ao saber que Joe não quis vê-la, a protagonista de “A Biblioteca da Meia-noite” se afunda em pensamentos sombrios. E para completar a escalada em direção à tragédia pessoal, Nora é ignorada pela melhor amiga. Vivendo na Austrália, Izzy parece não ter tempo ou paciência para responder as mensagens dos compatriotas. E imaginar que o plano de Nora e Izzy eram se mudar juntas para a Oceania. Não é preciso dizer que na última hora, Nora pulou fora do barco (no caso, do avião!) e Izzy acabou viajando sozinha. Diante do que acredita ser o fim da linha, Nora Seed resolve se suicidar. E assim que toma a atitude mais radical possível, que colocará um ponto final em seus problemas mundano-existenciais, ela acorda em uma biblioteca. Mas aquele não é um lugar comum. Ele está situado entre a vida e a morte. Por isso mesmo, o tempo não avança lá dentro. Os relógios estão eternamente parados à meia-noite. Daí o nome do local: Biblioteca da Meia-noite. Para perplexidade de Nora, a Sra. Elm está ali para atendê-la. A antiga funcionária da Hazeldene School explica à nova visitante que as estantes infinitas do estabelecimento contêm livros que narram as diferentes trajetórias de vida de Nora. Cada obra relata o que a moça fez a partir das várias decisões tomadas desde que nasceu. Como são incontáveis os caminhos escolhidos ao longo de 35 anos e cada decisão leva a múltiplas outras decisões dali para frente, o acervo bibliográfico é infinito. Além dessas publicações, a biblioteca acolhe o Livro dos Arrependimentos. Como o próprio nome diz, ele registra todas (das pequenas às maiores) frustrações, amarguras e lamentações de Nora. Em outras palavras, a Biblioteca da Meia-Noite guarda as várias vidas paralelas das pessoas. Aquela ali é exclusivamente de Nora Seed. O mais interessante é que a moça pode escolher qualquer título da estante para vivenciar a nova realidade. E se ela tivesse se casado com Dan Lord? Será que ela seria feliz, hein?! E se não tivesse abandonado o Labyrinths? E se tivesse seguido a carreira de nadadora profissional? E se não tivesse deixado Voltaire sair de casa naquele fatídico dia? E se tivesse embarcado na profissão de glaciologista? E se fosse morar com Izzy na Austrália? E se, e se, e se... O legal de tal processo é que uma vez curtindo a nova vida, Nora poderia viver para sempre naquele universo paralelo. Contudo, se ela sentisse qualquer tipo de arrependimento, ela voltaria para a Biblioteca da Meia-noite para escolher uma nova vida. E em hipótese nenhuma, ela poderia voltar para a vida que já experimentara (e abandonara). Podendo escolher o melhor caminho e com a chance de selecionar apenas as melhores decisões, na certa Nora Seed será a mulher mais feliz do mundo, né? Sabe de nada, inocente! Aí estão as surpresas da publicação de Matt Haig. Mesmo com todas as possibilidades em mãos, ainda sim a protagonista do romance passará por maus bocados. “A Biblioteca da Meia-noite” possui 308 páginas e está dividido em 75 capítulos. Levei em torno de cinco horas e meia para concluir integralmente seu conteúdo no último final de semana (fiz algumas paradas no meio do caminho). Comecei a leitura na noite de sábado e terminei no domingo à tarde. Ou seja, dá para lê-lo em um único dia. Quem não gosta de longas sessões de leitura, aí a opção mais adequada é utilizar dois dias ou mesmo três noites consecutivas para percorrer as páginas deste romance. De maneira geral, gostei de “A Biblioteca da Meia-noite”. Apesar de não possuir um enredo muito original (tenho a impressão que a temática dos universos paralelos está um tanto batida atualmente) e de trazer um desfecho extremamente previsível (dá para sacar qual será o final do romance antes mesmo de se chegar à metade do livro), a obra de Matt Haig permite reflexões interessantes (com um pé na autoajuda). “A Biblioteca da Meia-noite” também tem uma narrativa gostosa (permitindo a leitura acelerada), apresenta um drama genuíno (muita gente se enxergará no conflito vivenciado por Nora Seed), exibe personagens verossímeis (que poderiam ter sido extraídos da realidade) e possui forte intertextualidade filosófica (componente sempre charmoso e enriquecedor). Em suma, esse título de Haig não é uma produção memorável capaz de entrar para os cânones da literatura internacional. Contudo, o livro do escritor inglês é sim uma publicação ficcional leve e contundente com capacidade para arrebatar o gosto dos leitores contemporâneos por enredos que dialogam com conceitos mais comerciais da Filosofia. Não por acaso, temos aqui um best-seller mundial, que encantou o público e a crítica literária nos quatro cantos do planeta. Comecemos falando dos pontos positivos de “A Biblioteca da Meia-noite” neste post da coluna Livros – Crítica Literária. Adorei a construção das personagens do romance. As figuras retratadas por Matt Haig são normalmente indivíduos melancólicos, fracassados, desiludidos e infelizes. Repare que não é apenas Nora Seed, a protagonista, que possui tais características. As principais personagens parecem carregar enormes fardos nas costas e uma infinidade de ressentimentos e frustrações. Por isso mesmo, acabei me lembrando bastante das obras literárias de Nick Hornby, romancista inglês célebre por construir tramas com pessoas amargas e infelizes. Do ponto de vista da lógica narrativa, as figuras ficcionais de “A Biblioteca da Meia-noite” remetem aos protagonistas de “Alta Fidelidade” (Companhia das Letras), “Uma Longa Queda” (Companhia das Letras) e “Um Grande Garoto” (Rocco). Por tal perspectiva, Nora seria a versão feminina e contemporânea de Rob (de “Alta Fidelidade”), JJ (de “Uma Longa Queda”) e Will Freeman (de “Um Grande Garoto”). Também é preciso elogiar o ritmo narrativo do livro de Haig. Os capítulos curtos, as excelentes escolhas de quando encenar e de quando sumarizar (decisões que parecem triviais à primeira vista em um romance, mas que são complexas e exigem maturidade e habilidade do autor) e a linguagem na maior parte do tempo simples tornam a leitura fácil, gostosa e rápida. Nem mesmo o loop (quase) infinito que Nora Seed faz ao longo da trama, a pegada por vezes poética da narrativa e as reflexões existencialistas que o texto suscita atrapalham a velocidade e o impacto do enredo de “A Biblioteca da Meia-noite”. Por falar em pegada poética, temos ótimas passagens nesta obra. De cabeça, posso citar duas que me marcaram: “Entre a vida e a morte, há uma biblioteca”; e “Você não precisa entender a vida. Precisa apenas vivê-la”. No primeiro caso, é maravilhoso imaginar uma biblioteca, uma locadora de filmes, uma galeria de arte, um restaurante como cenários do purgatório. Já o segundo dispensa explicações, né? Para ser exato em minhas palavras, temos em “A Biblioteca da Meia-noite” mais reflexões existencialistas do que inspirações poéticas. Os trechos que destaquei nesse parágrafo devem ser vistos mais como conceitos filosóficos do que poéticos. De qualquer maneira, que é bonito ver tais frases em um título em prosa isso é. Já que eu trouxe a Filosofia para o debate, o enredo de Matt Haig traz princípios dessa área muitas vezes áridos e complexos sem soar pedante, acadêmico ou hermético. O romancista inglês utiliza conceitos existencialistas mais populares e simplificados. Ou seja, “A Biblioteca da Meia-noite” é mais parecido às narrativas ficcionais de Jostein Gaarder, autor de “O Mundo de Sofia” (Companhia das Letras) e “Através do Espelho” (Companhia das Letras) do que às tramas de Albert Camus, autor de “A Queda” (Record), “O Estrangeiro” (Record) e “A Peste” (Record). Se por um lado temos um livro menos profundo e esclarecedor no que se refere à teoria filosófica (algo que as obras de Camus são imbatíveis!), por outro lado a publicação de Haig é mais popular e convidativa para o grande público (méritos trazidos pelos títulos de Gaarder). Tornar o texto de “A Biblioteca da Meia-noite” mais palatável não é uma crítica negativa que faço e sim um dos aspectos que mais gostei nesse livro. As reflexões filosóficas trazidas por Matt Haig são ótimas. A partir do drama genuíno de Nora Seed, podemos enxergar a relação da vida e da morte de um jeito diferente. Também conseguimos digerir melhor nossas frustrações, entender o legado de nossa existência e compreender os impactos (e as limitações) de nossas ações na vida das outras pessoas. Outra questão que preciso comentar é a série de boas surpresas que os capítulos de “A Biblioteca da Meia-noite” trazem. Sempre que a trama tende a cair no marasmo, surge uma novidade capaz de apimentar a narrativa. Como exemplos, posso citar o aparecimento de Hugo, um dos sliders presentes nas intersecções de metaversos (leia “A Biblioteca da Meia-noite que você entenderá o que estou dizendo), e a falta de uma realidade plena e harmônica (algo que só existe em nossa imaginação). Para o público brasileiro e paulistano, ainda temos a cidade de São Paulo como cenário de uma das vidas paralelas de Nora Seed. É legal ver a metrópole paulista, a arquitetura de Oscar Niemeyer, a gastronomia nacional (pão de mel) e alguns figurantes nascidos em nosso país justamente em um dos capítulos mais esperados do livro (quando Nora embarca na carreira de artista da música e vira de fato a líder do Labyrinths). Repare no começo deste romance. Achei ele brilhante! Em relação à estética e ao efeito no leitor, a exposição de Haig me lembrou bastante as páginas iniciais de “Bonsai” (Cosac Naify), a premiada novela do chileno Alejandro Zambra. Afinal, desde a primeira linha de “A Biblioteca da Meia-noite” já sabemos o que a personagem principal fará. Note o que romancista inglês escreveu na página de abertura: “Dezenove anos antes de decidir morrer, Nora Seed estava sentada no aconchego da pequena biblioteca da Hazeldene School, na cidade de Bedford (...)”. Se ela decidiu morrer, quer dizer que irá se suicidar, né? Curiosamente, mesmo sabendo o que Nora fará, o suspense e a tensão do livro não diminuem (só aumentam, à la Hitchcock). Acho incrível quando o autor já fala o que irá acontecer (algo que Zambra é mestre!!!) e mesmo assim ficamos hipnotizados com o texto. O narrador de “A Biblioteca da Meia-noite” é em terceira pessoa e fica colado o tempo inteiro na protagonista, tendo acesso ilimitado às suas ações, aos seus pensamentos, às suas lembranças e às suas emoções. De tão grudado que ele está em Nora Seed, temos às vezes a impressão de que o texto está em primeira pessoa (em um efeito estilístico típico das obras de J. M. Coetzee). Mas não está não (é em terceira pessoa mesmo). Em relação ao Foco Narrativo, “A Biblioteca da Meia-noite” é um romance impecável. Eu não achei qualquer problema em relação as ações, ao alcance, às intervenções e às observações do narrador. Se você encontrar, por gentileza, me avise. Em relação aos pontos negativos, o principal demérito de “A Biblioteca da Meia-noite” está em seu enredo pouquíssimo criativo. A falta de originalidade do romance está na união do tema dos universos paralelos (conceito da física quântica que vem sendo usado de maneira abusiva nas produções literárias e cinematográficas nas duas últimas décadas) com a rotina vazia, sufocante e pouco edificante da protagonista (um lugar comum nas obras artísticas do século XXI). De certa maneira, a trama do livro de Matt Haig é uma mistura dos roteiros de “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect: 2004), “Matrix” (The Matrix: 1999), “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day: 1993) e “A Vida Secreta de Walter Mitty” (The Secret Life of Walter Mitty: 2013). Para ser franco com os leitores do Bonas Histórias, enxergo “A Biblioteca da Meia-Noite” como a versão contemporânea e literária de “A Felicidade Não Se Compra” (It´s a Wonderful Life: 1947), clássico cinematográfico de Frank Capra que foi produzido há mais de 75 anos. Eu disse 75 anos!!! Se alguém disser que o enredo de “A Biblioteca da Meia-noite” é original, só posso pensar que essa pessoa não possui repertório suficiente no universo do cinema. Quando a comparação fica restrita ao campo da literatura, posso listar uma série de livros da ficção brasileira e da ficção internacional que abordam o tema dos multiversos: “Refém da Memória” (produção independente), novela de Helio Martins Jr, “1Q84” (Alfaguara), trilogia de Haruki Murakami, “Outlander” (Saída de Emergência), coletânea literária de Diana Gabaldon, “Livro” (Feminas), prosa poética de Lúcia Leal Ferreira, “Se Eu Ficar” (Novo Conceito), best-seller de Gayle Forman, e “A Vida Nova” (Editorial Presença), romance de Orhan Pamuk. Repare que só citei títulos que já foram analisados no Bonas Histórias. Se eu não tivesse feito isso, passaria as próximas cinco horas detalhando livros e mais livros que exploram os caminhos e descaminhos dos universos paralelos. Outra questão que me incomodou bastante foi o desenlace extremamente previsível. Juro que assim que Nora Seed começou a vivenciar a realidade alternativa no universo paralelo da Biblioteca da Meia-noite, já consegui prever o que aconteceria no capítulo final do romance. E eu não havia chegado sequer à metade da leitura. Ai, ai, ai. É muito frustrante quando uma história deságua exatamente no lugar em que você previu lá no início da leitura e não traz qualquer novidade e surpresa para sua experiência literária. É verdade que acertei o desfecho do livro porque ele não difere da maioria dos filmes e livros com essa temática. Um leitor menos experiente e com menor repertório nesse campo talvez ache graça e se sinta impactado pelo final de “A Biblioteca da Meia-noite”. Eu confesso que fiquei muuuuuito frustrado. Em menor escala, achei alguns errinhos de ordem narrativa ao longo do romance. Não sei se posso chamar tais passagens de erros efetivos. Talvez a denominação mais correta seja estranhamentos. O fato é que esses estranhamentos afrontam um pouco o pacto ficcional estabelecido entre o autor e os leitores. Um exemplo evidente das contradições narrativas são as cenas em que Nora Seed chega aos universos paralelos. Na maioria dos casos, ela não sabe o que está acontecendo e precisa se inteirar da nova vida. Até aí beleza pura! Entretanto, em algumas situações específicas (um ou dois momentos), ela já sabe, inexplicavelmente, o que fazer, para onde ir e quem é quem na nova rotina que acabou de embarcar. Não encontrei lógica para a súbita contextualização da protagonista nesses casos. Repare que os equívocos de “A Biblioteca da Meia-noite” não são extensos (porém, são bem profundos). Se você conseguir renegá-los (algo que dá para fazer numa boa durante a leitura recreativa), você se deparará com um bom romance. Esse livro de Matt Haig se tornou um best-seller nos dois últimos anos não por acaso. Ele traz reflexões interessantes, boas cenas, ótimas personagens e um drama, como já disse, genuíno. Vale a pena conhecê-lo. Entre acertos e erros de Haig, “A Biblioteca da Meia-noite” é um dos principais exemplares do que a literatura inglesa está oferecendo aos leitores. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: Balada do Louco - O cinquentenário do rock clássico de Arnaldo Baptista e Rita Lee
Lançada em 1972 pelos Mutantes, a canção que dá um tapa na cara do conservadorismo foi imortalizada mais tarde por Ney Matogrosso. Em 2022, comemora-se o cinquentenário de “Balada do Louco”, uma das criações mais importantes da Música Popular Brasileira (MPB) e do Rock and Roll nacional. Composta por Arnaldo Baptista e Rita Lee, a canção icônica foi gravada pela primeira vez em 1972 pelos Mutantes e integrou o álbum “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”. Paradoxalmente, esse disco marcou o auge da banda paulistana e, ao mesmo tempo, o fim de sua formação original, que era integrada por Arnaldo Baptista (não confundir, pelo amor de Deus, com Amado Batista!!!), Rita Lee e Sérgio Dias. O que faz de “Balada do Louco” uma obra-prima musical é a união da letra profundamente filosófica e polissêmica e a melodia extremamente ousada e com arranjos modernos que flertam com a psicodelia. Prova maior de sua qualidade é que a canção se mantém contemporânea mesmo cinquenta anos depois do lançamento. Não à toa, “Balada do Louco” é uma das minhas canções brasileiras favoritas. Por essas e outras, não podia deixar de comentá-la na coluna Músicas. Encare, portanto, o post de hoje como sendo a homenagem do Bonas Histórias à mais recente efeméride desse clássico da nossa música. Para entendermos à fundo a composição, as características musicais e a repercussão dos versos e da melodia de “Balada do Louco”, precisamos antes discutir a trajetória coletiva dos Mutantes e os caminhos pessoais de seus integrantes. Criado em 1966, em São Paulo, os Mutantes se tornaram, ao lado dos Secos & Molhados, um dos mais revolucionários e originais grupos de rock do Brasil nas décadas de 1960 e 1970. A banda era constituída inicialmente por Arnaldo Baptista (a mente criativa dos Mutantes e um dos maiores compositores nacionais do século XX), Rita Lee (uma das vozes mais apuradas da música brasileira e dona de um carisma absurdo) e Sérgio Dias (por ter ficado mais conhecido como o irmão mais novo de Arnaldo, acabou ficando em segundo plano na história musical do nosso país, mesmo possuindo inegáveis qualidades como guitarrista – ele é uma espécie de Ringo Starr paulistano). Nos primeiros álbuns, os Mutantes faziam mais o gênero da banda de rock romântica e ingênua e menos o do grupo irreverente, ousado, usuário de alucinógenos e adepto do amor livre, imagem que temos atualmente deles. Muito influenciado pelos primeiros discos dos Beatles (fase que chamo de “filhinhos de papai engomadinhos cantando canções comportadas para a família inteira”) e pela leveza temática da Jovem Guarda (que muita gente prefere classificar como um estilo com letras totalmente alienadas e fúteis), o trio musical que acabara de sair da adolescência agradou aos ouvidos mais conservadores (e, não por acaso, menos elaborados). Na virada dos anos 1960 para os anos 1970, Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias se aproximaram do Tropicalismo. Era o início da maturidade pessoal e artística do grupo. Como consequência à natural evolução musical do conjunto, houve uma migração estilística dos Mutantes para um novo tipo de rock que começava a ser praticado na Inglaterra e nos Estados Unidos naquela época. “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”, o quinto LP da banda, representou a transição para o rock progressivo, que seria abraçado definitivamente em 1974, com o lançamento do disco “Tudo Foi Feito Pelo Sol”. “Balada do Louco”, o maior sucesso do álbum de 1972, possuía muitas características do rock progressivo (que acabara ficando mais evidente em outras faixas de “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”), mas tinha também alguns elementos mais comportados (o que balanceava um pouco as coisas no eixo inovação versus tradição). Por exemplo, a canção começa com o inconfundível piano de Arnaldo Baptista e o afinado vocal de Sérgio Dias. Em outras palavras, temos aqui um início bem-comportado e quadradão. Não demora, contudo, para a execução dos versos ganhar a participação de Rita Lee e Arnaldo. Aí “Balada do Louco” torna-se quase que um coro, um grito catártico, uma manifestação grupal. Nesse instante, a melodia incorpora efeitos sonoros pouco usuais (como um relinchar!) e distorções acústicas (ao melhor estilo psicodélico). Já na parte final, temos a entrada das cítaras indianas, em um novo flerte às criações dos Beatles (que agora passavam por uma fase mais experimental, mística e com influências orientais). A partir daí, “Balada do Louco” manterá essa variação até o final: ora uma canção mais comportada (cantada por apenas um intérprete e ao som dos acordes clássicos do piano), ora uma música bastante eclética (gritada pelo grupo inteiro e com ruídos sonoros um tanto assustadores). São inegáveis a força e a qualidade sonora de “Balada do Louco”. Mesmo assim, na minha opinião, a excelência da música está mais na letra inteligente e marcante do que nas inovações trazidas na melodia. Seus versos tratam de alguém que segue na contracorrente. Mesmo tendo um estilo de vida pouco usual, ao ponto de ser taxado pela sociedade como um maluco (“Dizem que sou louco/por pensar assim”), o eu-lírico afirma estar satisfeito e tranquilo com suas escolhas (“Se eu sou muito louco/por eu ser feliz”). Ao invés de cair no marasmo, na futilidade e na infelicidade da rotina pseudocorreta da maioria das pessoas (“Mas louco é quem me diz/E não é feliz/não é feliz”), ele busca o que o torna verdadeiramente pleno, por mais que tais atitudes e crenças possam parecer inusitadas ou esquisitas para os outros (“Eu juro que é melhor/Não ser o normal”). E o que seria exatamente essa maluquice extasiante que é tão valorizada nos versos de “Balada do Louco”, hein? A graça filosófica da música está justamente na inexistência de uma resposta clara e objetiva. Há vários indicativos (”Se eles são bonitos/sou Alain Delon”; “Se eles são famosos/sou Napoleão”; “Se eles têm três carros/eu posso voar”; “Se eles rezam muito/eu já estou no céu”), mas nenhuma certeza definitiva. Assim, o ouvinte pode interpretar a letra da sua maneira. Há quem entenda essas palavras como uma crítica à sociedade capitalista, ao consumismo ou mesmo à religião. Outros veem os versos de “Balada do Louco” como a escolha por um estilo de vida alternativo ou por uma profissão pouco mercadológica, convencional e rentável. Tem aqueles que acham o conteúdo dessa canção como sendo a apologia ao homossexualismo, ao bissexualismo e às relações abertas. Por esse ponto de vista específico, a música seria uma crítica contundente ao casamento tradicional. Mais recentemente, aumentou o número de pessoas que interpreta tais versos como sendo a fuga ao radicalismo político, à fama pela fama, à (oni)presença nas redes sociais, ao imperialismo da beleza e da juventude eternas e à artificialidade do dia a dia contemporâneo. Como falei, cada um vê a letra pelo prisma que lhe convém. Curiosamente, muitos fãs dos Mutantes sempre colocaram a loucura citada em “Balada dos Loucos” como a opção pelo relacionamento aberto dos compositores. Afinal, Arnaldo Baptista e Rita Lee eram casados desde 1968. E no início dos anos 1970, influenciados pela cultura hippie, optaram pelo relacionamento aberto. A felicidade seria, então, estar com o cônjuge e ainda sim poder sair com outras pessoas numa boa? Essa linha de dedução é até plausível, mas não bate com os fatos reais da história do casal de cantores. O matrimônio de Arnaldo e Rita degringolou rapidamente depois do lançamento de “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”. Além da separação matrimonial, Rita Lee ainda foi expulsa dos Mutantes por Arnaldo Baptista, que não podia mais ver a ex-esposa por perto. Ainda na tentativa de descobrir a verdadeira interpretação da música, há quem veja componentes político-ideológicos em “Balada do Louco”. Segundo essa concepção, os versos da canção conteriam críticas diretas à Ditadura Militar brasileira, que chegava naquele momento à fase de maior repressão (período conhecido como Anos de Chumbo). Novamente, essa versão não casa com a realidade nua e crua. Arnaldo Baptista nunca me pareceu um compositor com forte pegada política como Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, João Bosco e Aldir Blanc, por exemplo. E mesmo Rita Lee, então com 25 aninhos, não tinha a consciência social e a postura que mais tarde mostraria no período da Redemocratização do país. Então, Santo Deus, o que tem efetivamente por trás dessa música?! Talvez a revelação dos detalhes reais possa decepcionar algumas pessoas (feministas de plantão, por gentileza, segurem-se nas cadeiras!). Conforme relatado pelo próprio Arnaldo Baptista em entrevistas, ele concebeu a canção uma semana depois de uma fatídica aula de karatê. Na atividade, o cantor lutou com uma mulher e perdeu. Ser golpeado por uma dama no tatame abalou o moral de Arnaldo, que voltou para a casa refletindo sobre o que tinha de errado com ele. Errado?! Não havia nada de errado em ser derrotado por uma lutadora. Cada indivíduo, concluiu, tem qualidades e competências distintas. E as dele, definitivamente, não estavam no karatê. E mesmo sendo um lutador limitado, ele era feliz e ponto final. Ao conhecer os esboços da nova canção do então marido, Rita Lee se pôs a melhorar a letra. Foi ela quem deu aos versos uma pegada mais filosófica e poética (justamente o ponto alto da composição). Estava criada a obra-prima da dupla e o maior sucesso dos Mutantes. Enquanto “Balada do Louco” era saudado pelo público como uma música de altíssimo nível, o álbum “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets” não apresentou grande êxito comercial. A maioria das músicas do disco não agradou aos ouvidos do público e das rádios, incomodados com a overdose de psicodelia e as doses excessivas de rock progressivo. Em parte, é preciso salientar, o fracasso das vendas do LP também pode ser atribuído às brigas internas dos integrantes dos Mutantes. Um ano depois da dupla separação (artística e matrimonial) com Rita Lee, Arnaldo Baptista deixou definitivamente a banda que fundara. Dessa forma, Sérgio Dias passou a comandar o grupo com uma nova formação. Foi ele quem intensificou a mudança estilística do conjunto em direção ao rock progressivo. Se os tempos áureos dos Mutantes ficaram definitivamente para trás com a saída de seus dois mais simbólicos componentes, as carreiras solo de Arnaldo Baptista e Rita Lee decolaram a partir dali. Em 1974, Arnaldo lançou “Loki?”, o primeiro de seus sete álbuns individuais. Esse disco é considerado um dos mais importantes e revolucionários da música nacional e do rock brasileiro. Quem sabe eu não comente na coluna Músicas os detalhes desse LP, né? Já Rita Lee se tornou a segunda cantora mais vendida da história do país com mais de 55 milhões de discos comercializados. No ranking geral dos músicos mais bem-sucedidos, ela aparece em quarto lugar (perde apenas para Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e Angela Maria). Se por um acaso você não se lembrar da versão original de “Balada do Louco”, não se martirize, por favor. A interpretação mais conhecida dessa canção não é a dos Mutantes. Em 1984, Ney Matogrosso, que saíra dez anos antes dos Secos & Molhados e desde então vem construindo uma próspera e longeva carreira solo, regravou o clássico de Arnaldo Baptista e Rita Lee. Diferentemente da versão inicial, Ney retirou as maluquices sonoras da melodia e deixou a canção “mais limpa”, apenas com os acordes do piano. Obviamente, a letra ficou intacta (e foi valorizada pelo vozeirão do cantor e por sua interpretação mais passional). O sucesso foi imediato. Em um piscar de olhos, grande parte do público se esqueceu da interpretação do trio paulistano e passou a priorizar a versão do músico sul-mato-grossense. Não à toa, esse é um dos maiores sucessos de Ney Matogrosso até hoje. Há, inclusive, quem ache que foi ele quem compôs “Balada do Louco”. Confira, a seguir, a letra completa da música. Balada do Louco (1972) – Arnaldo Baptista e Rita Lee Dizem que sou louco por pensar assim. Se eu sou muito louco por eu ser feliz. Mas louco é quem me diz. E não é feliz, não é feliz. Se eles são bonitos, sou Alain Delon. Se eles são famosos, sou Napoleão. Mas louco é quem me diz. E não é feliz, não é feliz. Eu juro que é melhor Não ser o normal. Se eu posso pensar que Deus sou eu. Se eles têm três carros, eu posso voar. Se eles rezam muito, eu já estou no céu. Mas louco é quem me diz. E não é feliz, não é feliz. Eu juro que é melhor Não ser o normal. Se eu posso pensar que Deus sou eu. Sim, sou muito louco, não vou me curar. Já não sou o único que encontrou a paz. Mas louco é quem me diz. E não é feliz. Eu sou feliz. A seguir, trago as interpretações mais marcantes dessa canção. No primeiro vídeo, obviamente, está a versão original dos Mutantes, aquela produzida em 1972 para o álbum “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”. Repare nas maluquices sonoras que ela traz. Em seguida, temos cenas de Ney Matogrosso, em 1986, cantando no Programa Marília Gabi Gabriela da TV Bandeirantes. Vale a pena conferir as duas execuções. “Balada do Louco” foi regravada por vários artistas brasileiros dos mais diferentes estilos ao longo dos anos. Tianastácia (em uma versão mais rock and roll), KLB (com um jeito pop adolescente) e Manuche (aqui é heavy metal!), por exemplo, deram novas tintas para esse clássico cinquentão. Qual a sua interpretação favorita, hein? Confesso que a minha preferida é ainda a do Ney Matogrosso. Ela é simplesmente perfeita. E não se esqueça: “Mas louco é quem me diz/E não é feliz/Eu sou feliz”. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Gastronomia: Pastelaria Malta Brasileira - A melhor lanchonete do bairro de Pirituba
Fundada em 1989, a tradicional casa de salgados e pastéis da Zona Norte paulistana é parada obrigatória para quem está na região ou visita o Parque Estadual do Jaraguá. Dessa vez, vamos de pastel, senhoras e senhores! E de salgados: esfiha, coxinha, espetinho de frango, kibe, risólis, empadinha, enroladinho, bolinho de bacalhau e bolinho de carne. Se você preferir lanche (beirute, hamburguer e sanduba natural), também há algumas opções nessa linha no nosso cardápio. Para quem não abre mão de um bom e farto acompanhamento, que tal uma porção generosa de batata frita, salame, contrafilé, filé de frango ou calabresa, hein?! Tudo isso regado, claro, com cerveja, caldo de cana, água, refrigerante, suco natural e suco em polpa. Se ainda sobrar espacinho no estômago, por que não pedir de saideira bolo, sorvete, torta ou doce caseiro? Hummmmmmmmm. Quem estiver de regime, por favor, saia imediatamente da frente da tela. Este post do Bonas Histórias não foi feito para você. Ele é direcionado apenas as almas, como a minha, que já foram condenadas há muito tempo pelo pecado (ou seria apenas vício?!) da gula. Trago hoje à coluna Gastronomia a minha lanchonete favorita em Pirituba, bairro da Zona Norte da cidade de São Paulo. Depois de comentar com vocês, no segundo semestre de 2022, uma kebaberia (Kebab Paris) e um barzinho de culinária árabe (Shawarma Anwar) de Perdizes, bairro elitizado da Zona Oeste de São Paulo, resolvi, como diria Rita Lobo, desgourmetizar. E para tal, caminhei (literalmente) alguns quilômetros em direção ao subúrbio paulistano. Nada melhor do que uma boa e velha pastelaria para matar a fome e alegrar as papilas gustativas de um caminhante inveterado (e pra lá de guloso). Daí a protagonista do novo post do blog ser, que rufam os tambores, ela: a magnânima, única e sempre prazerosa Pastelaria Malta Brasileira!!! Conheço a Malta Brasileira há cerca de dez, doze anos. Desde então, a frequento com certa regularidade. Ela é o meu ponto de parada obrigatório quando caminho até o Parque Estadual do Jaraguá, passeio que faço mais ou menos a cada dois meses. Adoro caminhar pela enorme área verde na saída da cidade. Quando vou ao parque, costumo percorrer a Trilha do Pai Zé rumo ao Pico do Jaraguá. E terminada a andança pelo mato, invariavelmente sigo para a lanchonete da Zona Norte paulistana. Quem me acompanha pelas andanças por São Paulo sabe que depois do bate-perna tem o bate-rango. Há quem só aceite andar comigo (beijo, Mara!) por saber que terá comes e bebes depois. Aí a Pastelaria Malta Brasileira se torna um oásis no deserto. Ou mesmo o paraíso depois de horas intermináveis no purgatória. Juro que não entendo quem sofre e reclama de andar comigo (abraço, Paulinho!). Por falar nisso, o programa aeróbico pelo Parque do Jaraguá (subir o Pico do Jaraguá exige fôlego, tá?) foi por muito tempo o principal post do Bonas Histórias. Nos primeiros quatro anos do blog, a matéria que fiz para a coluna Passeios sobre a caminhada pela trilha do Pai Zé figurou na primeiríssima posição em número de acessos. Eram quase mil visualizações mensais para o post, num período em que não tínhamos nem três mil visualizações por mês no site todo. Sua primazia só acabou, para meu alívio, quando o conteúdo de literatura e cinema (a essência do Bonas Histórias) ganhou as primeiras páginas nos sistemas de busca. Obrigado, Deus SEO!!! Juro que eu rezo toda noite para ti! Quem sabe não faça oferendas com muitos pastéis, esfihas e espetinhos de frango na próxima vez. Confesso que desde a época em que o post da coluna Passeios era o campeão de visualizações no Bonas Histórias, eu pensava cá com meus botões: preciso escrever sobre a Pastelaria Malta Brasileira, preciso escrever sobre a Pastelaria Malta Brasileira, preciso escrever sobre a Pastelaria Malta Brasileira... Para mim, a caminhada pelo Parque Estadual do Jaraguá está para a lanchonete de Pirituba assim como o macarrão está para o molho de tomate. Eles combinam tanto como Claudinho e Buchecha, corrupção e Brasília, Interlagos e automobilismo, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Rede Globo e novela, Brasil e futebol, arroz e feijão, Santa Catarina e bolsonaristas, sol e praia, TikTok e dancinhas, Eduardo e Adriana (não me venha com Mônica, não é Dudu?), Corinthians e sofrimento, beleza e Scarlett Johansson, aula de dança e Dança & Expressão, cinema e pipoca e diversão e Cartas Mágicas. O fato é que sempre que caminho por aquela região (eu moro no Parque São Domingos e ir andando pelo Jaraguá passando por Pirituba é tão trivial como ir a pé até a padaria da esquina), paro e me farto na Malta Brasileira. E quase nunca me arrependo do que provo por lá. Na minha última visita ao estabelecimento, no comecinho deste ano, tive a companhia animada de um grupo querido de corajosos caminhantes. Beijo, Marcelinha e Mara. Abraços, Paulinho e Enzo! Depois de subirmos e descermos o Pico do Jaraguá em pleno Verão paulistano (o calor pode ter demorado para aparecer, mas chegou com tudo!) rumamos cansados e com muita fome para a melhor lanchonete da Zona Norte de São Paulo. Fundada em 1989 e localizada no número 980 da Avenida Agenor Couto de Magalhães, a Pastelaria Malta Brasileira se destaca pela qualidade dos pastéis e dos salgados e pelo espaço generoso do salão. Antes que alguém reclame das minhas coordenadas geográficas, alerto que quando eu digo que o estabelecimento fica em Pirituba, estou ajudando os interessados a se situar. Na realidade, o nome do bairro é Jardim Regina, que fica entre Pirituba e Jaraguá. A lanchonete está muito próxima do penúltimo viaduto que passa sobre a Rodovia Bandeirantes no sentido interior-capital. No sentido contrário, capital-interior, seria o segundo viaduto que passa sobre a estrada, uma das principais do Estado de São Paulo. A origem portuguesa da família dos primeiros proprietários da pastelaria de Pirituba (ou do Jardim Regina, como preferir!) fica evidente na nova logomarca (tem a bandeirinha lusa ao lado da bandeira brasileira) e no nome do estabelecimento. Criada no século XI, Malta era uma das ordens de cavalheiros cristãos que lutou durante a Idade Média nas Cruzadas. Obviamente, ela agia segundo os interesses e desígnios do Papa, da Igreja Católica e dos suseranos europeus e tinha como principal inimigo os povos islâmicos. No século XIV, a Ordem de Malta atuou como força de segurança política em Portugal, um dos países mais católicos do velho continente e um dos primeiros a ter reinado centralizado, o que exigia uma tropa leal ao monarca e que visse os islâmicos como adversários. É preciso dizer que aqueles eram tempos da Reconquista na Península Ibérica. Atualmente, malta é uma gíria portuguesa que designa o coletivo de amigos, pessoas próximas, colegas. Por exemplo, ao invés de eu falar que minha turma/galera é formada por Marcela, Paulo, menina Mara e menino Enzo, eu falaria, se morasse em Portugal, que minha malta é constituída por Má, Paulinho, rapariga Mara e puto Enzo. Viram só a enrascada que vocês se livraram, Rose e Alan, por não terem ido à caminhada ao Pico do Jaraguá?! E por falar em Malta, não poderia perder a piada. Essa é para você, Jaquinha: “Vamos todos cantar de coração. A Cruz de Malta é o meu pendão”. Pronto falei! Depois desses parênteses (desculpem-me pelos incontáveis e longos devaneios!), voltemos ao assunto principal deste post da coluna Gastronomia. Assim que chegamos à Pastelaria Malta Brasileira, notamos que ela possui um amplo estacionamento, que é compartilhado com o açougue (Carnes Souza), a adega (Adega do Bigode), a loja de instrumentos e produtos odontológicos (Dental Ice) e a banca de jornal. Basicamente, os cinco estabelecimentos dividem o espaço do prédio no meio do quarteirão. Na frente do edifício, há vagas para aproximadamente oito carros. No estacionamento lateral, outras 14 ou 15 vagas são disponibilizadas aos clientes. Ou seja, dá para mais de 20 veículos pararem ali simultaneamente, um privilégio que só mesmo as regiões mais afastadas do centro urbano têm. No lado de dentro, a Malta Brasileira oferece um amplo salão. No centro, temos a copa, onde os salgados são apresentados aos clientes em estufas. Ao fundo fica a cozinha. Ao redor da copa, temos dois salões. O salão principal fica à esquerda (de quem entra) e possui sete mesas (com capacidade total para 28 pessoas). É nessa parte da casa que ficam os banheiros (um masculino e um feminino, ambos adaptados para pessoas com deficiência física), as geladeiras (de bebidas e doces), o balcão (com mais seis, sete assentos para os clientes que desejam ficar próximos à copa) e o caixa. Por ser o centro pulsante do negócio, essa área da Pastelaria Malta Brasileira é a mais movimentada e barulhenta. O salão secundário fica à direita (de quem entra) e tem 13 mesas, que comportam até 62 visitantes. Essa é a parte mais tranquila da casa, onde dá para comer e beber com mais conforto e silêncio. Infelizmente, nos horários de menor movimento, esse setor da lanchonete fica fechado, o que nos priva de um pouco de privacidade. Além de possuir um salão grande e confortável (com capacidade para comportar aproximadamente 100 clientes simultaneamente), a Malta Brasileira também recebe muitas encomendas para delivery. Basta ficar cinco minutos no interior da lanchonete para ver os gigantescos e inúmeros pacotes de salgados que saem da cozinha e da copa e são levados para o caixa e, depois, para o estacionamento. Às vezes, acho que as vendas externas são superiores em quantidade e em faturamento do que as vendas internas. Porém, isso é apenas a impressão de um cliente ocasional que fica bisbilhotando o movimento. Até pelo nome, o carro-chefe da Pastelaria Malta Brasileira é, obviamente, o pastel. Se você é fã desse quitute tão típico das feiras livres paulistanas, na certa não ficará decepcionado(a) com a versão do estabelecimento de Pirituba. Se os pastéis da Malta Brasileira não são inesquecíveis (já comi melhores por aí), pelo menos estão muito acima da média. Há três tipos desse produto por lá: os simples, os especiais e os doces. Os pastéis simples são um pouquinho menores em tamanho do que os encontrados nas feiras livres da cidade, mas têm muito mais recheio (esqueça os recheios de vento!!!). Os sabores são os clássicos: carne, queijo, palmito, pizza, frango e calabresa. O preço unitário é de R$ 8,50 e está na média dos valores encontrados nas ruas de São Paulo (de R$ 8,00 a R$ 9,00). Quando o assunto é pastel, a melhor opção na Malta Brasileira está nos itens especiais. Aí, esqueça o tamanho convencional, a falta de recheio na parte de cima (um problema crônico deste tipo de produto) e as massas gordurosas que às vezes encontramos nas feiras da capital paulista. Os pastéis especiais da Malta Brasileira são maiores (de 20 a 30% mais compridos do que as versões típicas das feiras livres), têm muito mais recheio (e põe muito nisso!) e possuem massa sequinha (como deve ser). Além disso, eles são preparados na hora, o que os deixa sempre frescos. Confesso que é até difícil dizer qual é a melhor opção de pastel especial da casa. A impressão é que o cliente ficará satisfeito independentemente da escolha. Além dos sabores clássicos, há uma infinidade de ingredientes e combinações. Eu costumo pedir o de pizza (queijo, tomate e orégano – R$ 14,00) ou o de carne com catupiry (R$ 16,00). Os preços dos pastéis especiais vão de R$ 14,00 (sabores tradicionais: carne, calabresa, pizza, queijo ou palmito) a R$ 20,00 (camarão ou bacalhau). Pelo tamanho maior do que o convencional (eles são servidos em uma travessa e vêm cortados ao meio), não se assuste com o preço desse produto da Pastelaria Malta Brasileira. O custo-benefício é excelente! Dependendo da escolha, o pastel especial poderá valer por uma refeição. Lembre-se disso antes de se empolgar e pedir previamente um monte de coisa. Por fim, a terceira categoria de pastel é a doce. Os tamanhos e a quantidade de recheio dessa opção são idênticos aos dos pastéis simples. Ou seja, são um pouco menores do que o convencional, mas são bastante recheados. Seus valores variam de R$ 8,00 (banana com canela) a R$ 15,50 (morango com chocolate). Como não sou muito fã de pastel doce (juro que nunca vi graça em misturar doce e/ou fruta com fritura), não posso dizer se os itens dessa parte do cardápio são bons/acima da média ou ruins/abaixo da média. O que posso garantir é que conheço alguém com o paladar de formiga que não resistia ao pastel de morango com chocolate da Malta Brasileira. Saudades, Thalita! Esse alguém era tão fã deste sabor que nunca aceitou me dar um teco para que eu provasse: “se você não gosta de pastel doce, não vou te dar um pedaço do meu; se quiser um, peça pra você”. Às vezes, as pessoas podem ser tão egoístas na mesa, né?! Brincadeirinha... Por mais paradoxal que possa parecer, o pastel não é a minha opção favorita na Pastelaria Malta Brasileira. Quem reina absoluta na minha preferência é a esfiha. Admito que sempre que vou lá, acabo pedindo uma esfiha de calabresa com catupiry. As esfihas da Malta Brasileira são do tipo fechada, têm massa macia e possuem muito recheio. A variedade também é um dos destaques que precisa ser elogiado. Você pode pedir os seguintes sabores: carne, bauru, carne com queijo, calabresa com catupiry, atum, escarola com queijo e bacon, frango com catupiry, quatro queijos, palmito com ervilha e ovo, hamburguer com queijo e camarão com palmito. O preço me parece justo (R$ 7,00 a unidade, independentemente do tipo de recheio). Já que estamos falando dos salgados, o risólis (de queijo ou de presunto e queijo – R$ 6,50 cada) e o bolinho de bacalhau (R$ 9,00) também são muito bons. Na última visita à Pastelaria Malta Brasileira, muito influenciado pelo pedido do Paulo, provei o espetinho de frango (R$ 10,00) e confesso que ele é delicioso, do nível do Frango Assado. Muito bom mesmo! Gostei tanto dele que acho que o meu novo dueto que irei pedir regularmente na Malta Brasileira será: uma esfiha de calabresa com catupiry e um espetinho de frango. Para mim, não há combinação melhor (depois de um sobe-e-desce de montanha). Interessante notar que a variedade de produtos é uma marca essencial deste estabelecimento de Pirituba. Além de possuir uma gama extensa de pastéis e de salgados, a Pastelaria Malta Brasileira oferece várias marcas de cerveja (para alegria dos amantes do malte – abraço, Enzito!), muitas opções de suco (natural ou em polpa), grande quantidade de lanches (sim, há lanches por lá) e vários tipos de doce. Para os fãs de caldo de cana, até essa polêmica (beijo, Josi) e deliciosa bebida pode ser solicitada. E quem chegar por lá de manhãzinha, poderá tomar café da manhã completo. Os librianos devem padecer toda vez que abrem o cardápio (beijo, Marcelinha!). Infelizmente, nem todos os produtos da Malta Brasileira têm a mesma qualidade superior. Eu não gostei, por exemplo, da coxinha de catupiry (R$ 6,75 – cadê o catupiry?!!), do enroladinho de salsicha (R$ 6,50 – ele me pareceu um pouco seco) e dos sanduíches (muito mais impactantes nas fotos do cardápio do que nas versões que chegam às mesas). Eles destoam dos demais produtos oferecidos por simplesmente não encantarem os clientes mais exigentes. Prove os pastéis, as esfihas e os espetinhos de frango que você entenderá o que estou dizendo quando uso o termo “encantar os clientes”. O que não posso comentar com propriedade são os doces. Nunca provei as sobremesas caseiras oferecidas pela Pastelaria Malta Brasileira. Mesmo sendo bonitos (a cara deles é ótima!) e apresentados em grandes geladeiras no salão principal, os doces da lanchonete nunca me apeteceram. Coisa de quem se empanturra de fritura e salgado e não tem espaço no estômago depois para a sobremesa. Na última visita, acabei até pegando um sorvete para refrescar do calor. Contudo, como esse é um produto industrializado e vendido em toda parte (padarias, bancas de jornais) não posso considerá-lo nessa minha avaliação, né? Talvez o principal ponto negativo da Malta Brasileira seja o atendimento, infinitamente inferior à qualidade dos produtos servidos. O serviço prestado pela equipe da casa é informal e amistoso (o que vejo com bons olhos), mas muitas vezes se torna relapso, demorado e equivocado. Você pede algo e vem de outro sabor. Isso já aconteceu inúmeras vezes comigo. Também é possível ver (no caso, ouvir) os funcionários discutindo ou reclamando entre si de algo trivial. A sensação é que, dependendo do garçom que nos atende, estamos atrapalhando sua vida ao fazer um pedido ou fazer alguma pergunta. Curiosamente, as confusões e as demoras da equipe são mais frequentes quando o movimento é mais baixo. Quando o salão está cheio e o bicho está pegando, as coisas parecem funcionar melhor. Vai entender, né?! O que posso dizer é que o serviço oferecido é inconstante: pode ser agradável e eficiente, como pode ser equivocado e lento. Tudo dependerá da sorte de quem o(a) atenderá e de como estará a vibe do lugar no dia de sua visita. Mesmo assim, senti que no pós-pandemia houve uma ligeira (eu disse ligeira!!!) melhora no serviço prestado. De qualquer maneira, sempre saio feliz com o que degusto na Malta Brasileira. Por isso, ela é a minha lanchonete (ou pastelaria, como preferir) favorita do bairro de Pirituba. Seu horário de funcionamento é de segunda a sábado das 7h30 às 22h. Quem estava acostumado a frequentá-la aos domingos antes da pandemia do Covid-19, saiba que agora a casa não abre nesse dia da semana. Quem, como eu, gostava de uma andança dominical pelo Parque Estadual do Jaraguá e ia ao estabelecimento para recarregar as energias ficará na mão agora. Em qualidade, a Pastelaria Malta Brasileira rivaliza com a Pastelaria Brasileira, da Pompeia (aquela em frente ao Palmeiras, na Rua Palestra Itália). As duas casas oferecem salgados e frituras de excelente nível. É até difícil dizer qual é a melhor. Para não ser injusto com ninguém, costumo dizer que a Malta Brasileira e a Pastelaria Brasileira são minhas pastelarias favoritas na cidade de São Paulo. O empate no primeiro lugar me parece justíssimo nesse caso. A vantagem da Malta Brasileira é ter um salão mais amplo e confortável (o da Pastelaria Brasileira é minúsculo e claustrofóbico). Por sua vez, a casa da Pompeia tem um atendimento melhor e mais cortês (independentemente do horário que você a visite). Por falar nessas duas lanchonetes (digo lanchonetes porque elas servem muito mais do que pastéis – eu mesmo acabo comendo mais salgados por lá do que frituras), preciso fazer um alerta. Tome cuidado para não se confundir com os vários estabelecimentos genéricos que tentam imitar (até no nome!!!) a Pastelaria Malta Brasileira e a Pastelaria Brasileira. Até onde sei, nenhuma das duas possui filiais ou franquias (se bem que por causa das obras do metrô na Pompeia, a Pastelaria Brasileira dá os primeiros passos para a mudança obrigatória de endereço). Portanto, não caía no golpe (sim, até no mercado alimentício temos golpes) do comércio errado. Coisas de Brasil! Coisas de São Paulo! Para quem curte a coluna Gastronomia, já indico desde já os estabelecimentos que vou comentar nos próximos meses. A ideia é analisar com vocês o Tiro Liro, simpático barzinho português da Pompeia que completou no ano passado dez anos de vida, e o Corrientes 348, restaurante argentino classudo da Vila Olímpia que tem um quarto de século e unidades espalhadas pela cidade e pelo país. Ambos são estabelecimentos tradicionais e consagrados, com importantes prêmios conquistados. Eu os visitei há pouco com amigos queridos (abraços, Eduardo e Uranio!) e estou louquinho, louquinho para comentá-los no Bonas Histórias. Assim, prepare-se para provar em breve o Bacanão, cesta de parmesão com linguiça e mandioca frita com salsinha salpicada, uma das marcas do Tiro Liro. E se prepare para abocanhar os generosos e pecaminosos cortes de carne argentina, como ojo del bife, asado de tira, bife de chorizo, bife ancho e o carré de cordero, opções imperdíveis do Corrientes 348. Até a próxima, queridas e queridos comensais! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Epílogo
Chegamos ao final desta série narrativa. É hora de fazermos o balanço dos doze meses de 2012, o ano inesquecível para todos os corintianos. Consegui! Viram como valeu a pena. 2012 está terminando e as três grandes metas que estabeleci para o ano foram concluídas com êxito. Para quem não se recorda o que prometi nessas páginas em janeiro, aqui vai uma breve recapitulação. O primeiro objetivo era ver o Corinthians ser campeão da Libertadores. Essa façanha foi alcançada em julho, na memorável vitória de 2 a 0 sobre o Boca Juniors. Para aumentar a alegria da Fiel Torcida, ainda foi possível assistir ao Timão conquistar o bicampeonato mundial em dezembro. Juro que jamais esquecerei essas partidas. A segunda meta era me tornar escritor. Mesmo com as dificuldades inerentes à troca de carreira aos 30, 31 anos, consegui finalizar três livros em doze meses. Como já dizia o velho ditado: um é pouco, dois é bom e três é demais! De todas as obras que produzi em 2012, O Ano que Esperávamos Há Anos foi sem dúvida a mais importante e a que me deu mais prazer de fazer. Acompanhar diariamente meu time ao longo de 366 dias e comentar passo a passo os jogos e as conquistas da equipe de Tite foi algo sensacional! Ainda bem que tive a disposição (e a sagacidade) para começar a escrever essa série narrativa em 31 de dezembro de 2011. Talvez essa tenha sido a melhor ideia que tive na vida. Se em janeiro de 2012 temia que me chamassem de maluco (afinal, o Corinthians jamais ganharia a Copa Libertadores, né?), agora a proposta de O Ano que Esperávamos Há Anos parece perfeitamente sensata. O novo desafio é conseguir uma editora para publicar meu relato e dividi-lo com os demais corintianos. Se você estiver lendo essas palavras agora, saiba que essa última parte da minha grande aventura editorial-futebolística também foi concretizada. E o terceiro objetivo foi o mais fácil de ser alcançado. Tinha previsto emagrecer 12 quilos e consegui atingir o patamar almejado já nos primeiros três meses do ano. Nada como fechar a boca e praticar exercícios físicos. Depois foi só manter ao longo do ano o peso dentro da meta traçada. Espero permanecer assim pelo resto da vida... Preparo-me agora para a festa de Réveillon, que será comemorada dentro de algumas horas. A sensação é de missão cumprida. Meus principais planos para 2012 foram atingidos e o ano terminou como eu havia sonhado. Como não me emocionar com isso, hein?! Para 2013, começo a pensar se não seria interessante continuar meus relatos sobre o Timão em um novo livro, algo como O Ano que Esperávamos Há Anos II. Minha intuição diz que o período de glórias e de supremacia do Corinthians no futebol nacional e internacional só está começando. O Timão deverá seguir colecionando muitos títulos nas próximas temporadas. Mesmo se as conquistas nunca mais vierem (algo que duvido!), já me considero um torcedor realizado. Tudo graças ao maravilhoso ano de 2012. Esses doze meses jamais sairão da minha mente. Esses foram os dias mais felizes para os fanáticos corintianos em toda a história. Obrigado 2012! E feliz 2013 para todo mundo! Ricardo Bonacorci 31 de dezembro de 2012 ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: Vingança - 70 anos da mais intensa dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues
Gravado por Lupicínio Rodrigues em 1952, o samba-canção com tintas autobiográficas rivaliza com Nervos de Aço e Felicidade como a principal canção do gaúcho. Qual a sua canção favorita de Lupicínio Rodrigues, hein?! Normalmente, as respostas dos fãs do compositor gaúcho e dos amantes dos clássicos da música popular brasileira giram em torno de “Nervos de Aço”, “Felicidade” e “Vingança”. Isso é, se você não for torcedor do Grêmio, né? Lupicínio compôs o hino gremista em 1953, aquele dos versos: “Até a pé nós iremos/Para o que der e vier/ Mas o certo é que nós estaremos/Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”. Confesso que a minha favorita do trio (ou quarteto, como preferir) de criações inesquecíveis de Lupicínio Rodrigues é “Nervos de Aço”. Para mim, a sequência “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor/ Ter loucura por uma mulher/ E depois encontrar esse amor, meu senhor/ Nos braços de um tipo qualquer” é insuperável, uma das mais belas canções românticas da MPB. Não por acaso, já comentei sobre essa composição de 1947 aqui na coluna Músicas (juntamente com “Felicidade”, aquela dos versos: “Felicidade foi-se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora/ E é por isso que gosto lá de fora/ Porque eu sei que a falsidade não vigora”). Como disse, essa predileção por “Nervos de Aço” é meramente a minha opinião pessoal. Quando ouvimos o gosto do público, notamos um grande equilíbrio de qual seria a maior composição de Lupicínio. Até mesmo a crítica musical nacional se divide quando precisa decretar qual seria a obra-prima das obras-primas da dor de cotovelo do gaúcho. Na lista das 100 Canções Essenciais da Música Popular Brasileira feita pela Revista Bravo em 2008, por exemplo, “Vingança” aparece na frente das irmãs: está na 13ª colocação no geral, enquanto “Nervos de Aço” e “Felicidade” figuram, respectivamente, nas 41ª e 81ª posições. Já no ranking da Revista Rolling Stone Brasil com as 100 maiores músicas brasileiras da história, que foi divulgado em 2009, temos uma inversão: “Nervos de Aço” (86ª colocação no geral) e “Felicidade” (91ª posição) estão à frente de “Vingança” (que não aparece sequer na listagem da Rolling Stone). Por tudo isso, não dá para decretarmos qual é a maior composição de Lupicínio sem polemizar. Prefiro colocar as três (tá bom, gremistas, as quatro) músicas lado a lado em nível de excelência artística. O que dá para dizer sem risco de errar é que “Vingança” possui uma carga emotiva maior. Sua letra vem carregada de passionalidade e desespero, fruto do coração partido de seu compositor. Essa é possivelmente a faixa mais intensa e mais dramática criada por Lupicínio Rodrigues. Para entendermos tais características, precisamos nos aprofundar nos versos e na história por trás do desenvolvimento dessa canção. Como já comentei “Nervos de Aço” e “Felicidade” no Bonas Histórias, falaremos no post de hoje exclusivamente de “Vingança” (o hino do Grêmio ficará para uma próxima, tá?). Apesar de menos executada atualmente do que suas coirmãs, essa música continua sendo uma das criações memoráveis da cultura popular brasileira. “Vingança” foi composta no finalzinho da década de 1940, alguns anos depois de “Nervos de Aço” e “Felicidade”. Como boa parte das canções de Lupicínio Rodrigues, essa faixa tem elementos autobiográficos e componentes melodramáticos em seu enredo. É a vida servindo de matéria prima para a arte e é a realidade influenciando a ficção, meus(minhas) caros(as)! No início dos anos 1940, Lupicínio se apaixonou por Mercedes, uma “mulher da vida”. Sem pestanejar, o músico, que trabalhava na época como bedel de uma faculdade, tirou a moça do prostíbulo e a levou para morar com ele. Iniciava-se, assim, um relacionamento aparentemente feliz. Cinco anos mais tarde, Lupicínio Rodrigues, agora proprietário de um bar em Porto Alegre, recebeu a notícia bombástica de um jovem funcionário. O rapazote disse para Lupicínio que Mercedes estava apaixonada por ele e que insistia em iniciar um romance clandestino. Não querendo ter problemas com o patrão (e talvez pouco interessado na moça), ele resolveu revelar tudo. À princípio, o músico-empresário não acreditou no que ouvia. Porém, quando o funcionário apresentou os vários bilhetes amorosos escritos e mandados por Mercedes, Lupicínio teve a certeza da tentativa de traição. Com o coração despedaçado, ele mandou a amada embora de casa e pediu para ela nunca mais aparecer. Nem mesmo a expulsão de Mercedes aplacou a ira de Lupicínio Rodrigues. Ele queria mais, ele queria vingança. E como se vingar definitivamente da moça infiel que tanto tempo compartilhou a cama com ele? A resposta para um compositor de talento é simples: transformar em versos musicais o seu drama sentimental. Dessa maneira, surgiu “Vingança”. O samba-canção trata da satisfação de um homem que descobre pelos amigos que a ex-mulher está triste e abandonada em uma mesa de bar. Após a separação deles, fruto de uma traição dela, o mundo da moça desmoronou. A alegria do eu-lírico da canção contrasta com a tristeza da antiga companheira, arrependida pelos atos cometidos. Confira, abaixo, a letra da música “Vingança” e, logo a seguir, a interpretação do próprio Lupicínio Rodrigues. A execução da canção no vídeo foi realizada em um programa de televisão em 1972. “Vingança” (Lupicínio Rodrigues) Eu gostei tanto tanto quando me contaram que a encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar E que quando os amigos do peito por mim perguntaram Um soluço cortou sua voz não lhe deixou falar Ah, mas eu gostei tanto tanto quando me contaram Que tive mesmo de fazer esforço pra ninguém notar O remorso talvez seja a causa do seu desespero Ela deve estar bem consciente do que praticou Me fazer passar esta vergonha com um companheiro E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou Mas enquanto houver força em meu peito Eu não quero mais nada E pra todos os santos vingança vingança clamar Ela há de rolar qual as pedras que rolam na estrada Sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar Comecemos a análise dessa canção pela letra. Nos dois primeiros quartetos, Lupicínio Rodrigues já escancara o enredo da música (e o motivo de sua dor): “Eu gostei tanto/ tanto quando me contaram/ que a encontraram/ bebendo e chorando na mesa de um bar/ E que quando os amigos do peito/ por mim perguntaram/ Um soluço cortou sua voz/ não lhe deixou falar”. É incrível como o compositor gaúcho vai direto ao ponto e nos mostra a cena emblemática que escancara a separação do casal de protagonistas. Em poucos (e intensos) versos, ele apresenta o contexto da história e nos confidencia a razão do coração partido. Ao ver a antiga companheira destruída na mesa do bar, a alegria do eu-lírico é imaginar que ela se arrependeu da traição cometida (ou pretendida, como no caso real). Lupicínio, assim, canta: “O remorso talvez seja a causa/ do seu desespero/ Ela deve estar bem consciente/ do que praticou/ Me fazer passar esta vergonha/ com um companheiro”. Curiosamente, em nenhum momento ele cogita que a infelicidade da moça seja o pé na bunda indireto que tomou do homem que ela verdadeiramente amava (o tal companheiro do eu-lírico, que preferiu a manutenção da amizade masculina à aventura com a mulher casada do amigo). Qual a verdadeira razão da tristeza da personagem feminina dessa música, hein?! Não sabemos. Afinal, ela não diz uma palavra sequer. Se acompanharmos a versão do eu-lírico (obviamente enviesada pela raiva e pela sede de vingança), somos levados a acreditar que ela se culpa por ter destruído o antigo casamento. Uma parte da letra que suscitou certo debate na época é: “E a vergonha é a herança maior/ que meu pai me deixou”. Ao invés de apontarem uma má relação de Lupicínio com o pai (algo que nunca existiu – eles sempre se deram muitíssimo bem), esses versos indicam que o pai do eu-lírico também passou pelo mesmo problema que o filho enfrenta nesse momento. É como se o sofrimento amoroso, a desilusão sentimental e a traição conjugal estivessem no DNA dos homens daquela família. Do ponto de vista poético, esse trecho é um dos mais belos da canção. A parte final de “Vingança” vem carregada de rancor. O eu-lírico não superou a traição e, tal qual uma fera ferida, destila o veneno da vingança. Para ele, sua antiga companheira deve sofrer mais e mais até o final da vida. Não há aqui nem uma pontinha de consideração ou piedade. Veja: “Mas enquanto houver força em meu peito/ Eu não quero mais nada/ E pra todos os santos vingança/ vingança clamar/ Ela há de rolar qual as pedras/ que rolam na estrada/ Sem ter nunca um cantinho de seu/ pra poder descansar”. Como falei, são versos fortes, maldosos e impiedosos, típicos de alguém profundamente ressentido. Vale a pena dizer que o último quarteto de “Vingança” ganhou desdobramentos em outras músicas brasileiras, o que comprova a importância dessa canção de Lupicínio para a cultura popular nacional. Uma boa referência do que estou dizendo é a faixa “Medo da Chuva”, de Raul Seixas. O roqueiro baiano cantou em 1974 (portanto, 22 anos depois da gravação de Lupicínio Rodrigues): “Como as pedras imóveis na praia/ Eu fico ao seu lado sem saber/ Dos amores que a vida me trouxe/ E eu não pude viver”. E segue: “Aprendi o segredo, o segredo/ O segredo da vida/ Vendo as pedras que choram sozinhas/ No mesmo lugar/ Vendo as pedras que choram sozinhas/ no mesmo lugar/ Vendo as pedras que sonham sozinhas/ no mesmo lugar”. Repare que Raul usa a mesma simbologia de Lupicínio para mostrar o relacionamento amoroso – pedras agem como as pessoas/amantes, seja na estrada, seja na praia. Enquanto o Mestre da Dor de Cotovelo diz que a antiga parceira não encontrará um lugar tranquilo para descansar depois da traição, o Rei do Rock nacional, por outro lado, quer ter a liberdade de trair a companheira a torto e direito (levando a canção para um lado totalmente carnal e menos emocional). Se a construção poética é a mesma (pedras são pessoas), as mensagens finais dos versos das duas composições não poderiam ser mais distintas. Da perspectiva da melodia, “Vingança” é um samba-canção um tanto diferentão. Ele possui uma batida bem lenta, o que o aproxima mais dos boleros das décadas de 1930 e 1940 e menos dos sambas dos anos 1950. Note que em alguns momentos, os acordes sobem e descem. A amplitude melódica dá espaço para o cantor explorar uma interpretação mais sentimental, mais dolorosa (assistimos quase a um choro de um homem amargurado). Essas opções musicais de Lupicínio Rodrigues (ritmo lento e variação dos acordes) foram propositais e se encaixaram perfeitamente com o conteúdo melodramático da letra de “Vingança”. Grande parte da passionalidade dos versos dessa canção vem justamente do casamento harmônico de melodia e letra. A primeira gravação de “Vingança” foi realizada, em 1951, pelo Trio de Ouro. Naquele momento, o grupo musical já estava na segunda formação: Herivelto Martins, Nilo Chagas e Noemi Cavalcanti, que substituía Dalva de Oliveira. A canção foi escolhida a dedo por Herivelto, que acabara de se separar de Dalva. A ideia do líder do Trio de Ouro era ter uma canção que falasse da alegria de ver a antiga companheira triste com o fim do relacionamento. Contudo, a música não se tornou sucesso com o Trio de Ouro. O público e a imprensa pareciam mais interessados nas notícias sobre o ruidoso término do matrimônio de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, uma bomba atômica no universo musical da época que chegou aos tribunais e foi comentada pelo povo nos quatro cantos do país. Assim, coube a Linda Batista a oportunidade de fazer sucesso com “Vingança”. Ela ouviu a faixa de Lupicínio em um encontro de amigos e decidiu, ainda em 1951, gravá-la. Na voz de Linda, a música estourou nas rádios e se tornou um dos maiores hits na virada de 1951 para 1952. Paradoxalmente, Linda Batista conseguiu obter êxito com uma canção há pouco gravada pelo Trio de Ouro, um dos grupos musicais mais populares daquele momento. Até o estouro comercial de “Vingança”, Lupicínio Rodrigues jamais havia feito um álbum próprio. Até então, ele era mais conhecido como compositor do que como intérprete. O gaúcho ganhava a vida como bedel na Faculdade de Direito da UFRGS e, mais tarde, como proprietário de bares e restaurantes em Porto Alegre. Com o sucesso de “Vingança” na voz de Linda Batista e, alguns anos antes, de “Felicidade” e “Nervos de Aço” na voz de Francisco Alves, Lupicínio se sentiu encorajado para lançar seu próprio disco. E o LP de estreia, “Roteiro de Um Bohêmio” (com “h” mesmo), foi gravado em 1952 com várias composições autorais. Obviamente, uma das faixas do álbum era “Vingança”. Estou usando justamente essa data (1952) para a celebração da efeméride (e não os lançamentos dessa canção pelo Trio de Ouro e por Linda Batista em 1951). A gravação de “Vingança” por Lupicínio completa, em 2022, 70 anos. A interpretação do compositor da canção é a mais intimista de todas. Sua voz fina e açucarada casa perfeitamente com a letra ácida e passional. A impressão é de presenciarmos o desabafo de um homem com o coração dilacerado. Incrível! A principal versão de “Vingança” que conhecemos hoje é aquela que Lupicínio Rodrigues regravou no finalzinho da década de 1960 e no começo dos anos 1970. Já no final de carreira e quase sessentão, o cantor lançou álbuns com seus grandes sucessos. Não por acaso, as interpretações mais famosas de “Nervos de Aço”, “Felicidade”, “Vingança”, “O Amor Deve Ser Sagrado”, “Esses Moços”, “Cadeira Vazia”, “Que Há de Dizer”, “Ela Disse-me Assim” e tantas outras músicas célebres do gaúcho são dessa época (muita coisa dos anos 1950 e 1960 se perderam). Mais tarde, “Vingança” foi cantada por Jamelão, o eterno mangueirense, ainda nos anos 1950 e por Elza Soares, a Rainha do Samba e do Soul Blues, na década de 1960. Para Lupicínio Rodrigues, a melhor interpretação de “Vingança” é a de Jamelão. Para mim, fã que sou do vozeirão rouco da recém-falecida sambista, a versão mais contundente de “Vingança” é a de Elza Soares. Opiniões à parte, ouça as duas. Elas valem a pena! Depois do falecimento de Lupicínio Rodrigues em 1974, outros intérpretes cantaram “Vingança”. Dá para citar Adriana Calcanhotto, Alcione, Noite Ilustrada, Cauby Peixoto, Angela Maria, e, claro, Nelson Gonçalves. Das versões mais atuais (não estou considerando, portanto, a interpretação de Lupicínio nem a de Elza, tá?), a melhor é a do Nelsão. Mesmo em fim de carreira e com a voz longe do ideal (o vício nas drogas cobrou seu preço nos anos 1970 e 1980), Nelson Gonçalves dá um show na hora de cantar os versos dramáticos de Lupicínio Rodrigues. “Vingança” é uma música tão triste, mas tão triste que ela deu origem a uma lenda. Na década de 1960, Lupicínio Rodrigues contava em entrevistas que soube de uma moça que se suicidou ao som dessa canção. A dita cuja morreu depois de ligar simultaneamente o gás de casa e a vitrola na faixa de “Vingança”. Se essa história é verdadeira ou não, sinceramente não sei. Mas que ela mostra a força dos versos melodramáticos de Lupicínio, isso mostra. E aí, o que você achou de “Vingança”? Essa canção merece mesmo o status de obra-prima de Lupicínio Rodrigues e a fama de uma das faixas mais tristes da música popular brasileira? Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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