top of page

Sistema de Pesquisa

Resultados encontrados para busca vazia

  • Livros: Os Prêmios - O primeiro romance de Julio Cortázar

    Lançada em 1960, essa obra faz uma alegoria político-social da Argentina na época da Ditadura Militar. Nesse final de semana, li “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), o romance de estreia de Julio Cortázar. Esse é o quarto livro do argentino que analisamos nesse mês no Desafio Literário. Depois de comentarmos, no Bonas Histórias, uma peça teatral – “Os Reis” (Civilização Brasileira) – e duas coletâneas de contos – “Bestiário” (Civilização Brasileira) e “Final do Jogo” (Civilização Brasileira) – do escritor que é um dos principais representantes do RealismoFantástico Latino-americano, nada melhor do que investigarmos também suas narrativas longas. Vale a pena dizer que o Desafio Literário de Julio Cortázar irá prosseguir no próximo mês com a análise de mais quatro obras (sendo duas coletâneas de contos e dois romances). Apesar de ter se consagrado como um dos maiores contistas de todos os tempos, Cortázar produziu seis romances (dois foram lançados postumamente). Inclusive sua obra mais famosa, “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), é justamente um título desse gênero. Por isso, é fundamental estudarmos a literatura de Julio Cortázar de forma mais ampla, não apenas pela perspectiva das narrativas curtas (contos) e médias (novelas). Publicado em 1960, “Os Prêmios” faz uma sátira político-social da Argentina durante o período da Ditadura Militar. De maneira engenhosa e muito divertida, Cortázar construiu uma alegoria surrealista de seu país. Misturando conceitos existencialistas com um thriller dramático, esse livro expõe as agruras de um grupo de viajantes aprisionado em um navio de cruzeiro. Em meio aos debates sobre a privação das liberdades individuais, a disseminação de notícias falsas, a insensibilidade dos poderosos e a necessidade da reação armada, assistimos a um enredo eletrizante e de certa forma original. Das obras que li do Realismo Mágico, “Os Prêmios” é sem dúvida nenhuma o título com maior quantidade de críticas sociais e políticas. Por vários aspectos, é possível compará-lo a, por exemplo, “1984” (Companhia das Letras) e “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), clássicos distópicos de George Orwell. Nunca o universo maravilhoso caminhou tão grudado aos dilemas verídicos e contemporâneos dos leitores como em “Os Prêmios”. Assim, essa obra faz jus ao nome de Realismo Fantástico – metade realidade, metade fantasia. Dos trabalhos autorais de Julio Cortázar, esse romance está ao lado de “O Livro de Manuel” (Nova Fronteira) como os textos mais críticos e engajados do argentino. A diferença é que em “Os Prêmios temos uma narrativa mais sutil e alegórica e em “O Livro de Manuel” temos uma abordagem mais explícita e direta dos problemas da falta de democracia na Argentina na segunda metade do século XX (e na América do Sul como um todo). Por viver na França desde 1951, Julio Cortázar podia esculhambar o governo argentino e a postura passiva de grande parte de seus conterrâneos sem maiores preocupações, algo que seria complicadíssimo se ele ainda morasse em Buenos Aires. Mesmo assim, o escritor precisou contemporizar a acidez de suas palavras. Afinal, se fosse muito enfático no componente crítico de seu texto, corria o risco de não ser publicado em seu país (algo comum em se tratando de ditaduras e de regimes na qual a censura artística era a regra). Sabendo disso, ele optou por não escancarar completamente as críticas sociais e políticas desse romance. Na nota do autor que acompanha “Os Prêmios”, Cortázar disse: “Também gostaria de dizer-lhe, talvez me sangrando em saúde, que não me moveram intenções alegóricas e muito menos éticas (na hora de produzir esse livro). Se, no final, alguma personagem chega a se entrever a si mesma, enquanto outra torna a cair molemente no que a ordem bem-estabelecida a obriga a ser, tais são os jogos dialéticos cotidianos, que qualquer pessoa pode contemplar em seu redor ou no espelho do banheiro, sem por isso pensar em conceder-lhes importância”. Repare que Julio Cortázar foi ao mesmo tempo diplomático e inteligente ao não colocar o dedo diretamente na ferida (crítica aos militares argentinos), pelo menos não na hora de explicar seu trabalho. A chave para compreendermos sua intenção está no termo “talvez sangrando em saúde”. O que isso quer dizer?! Na minha visão, essa expressão pode ser substituída por: “sabendo do risco de sofrer retaliações (violência, censura, perseguição...) dos governantes do meu país”. Dessa maneira, ele afirma algo por mera formalidade, mas deixa claro ao leitor que não está sendo literal (fala uma coisa para dizer exatamente o contrário). Ou seja, Cortázar contradiz exatamente o que acabou de expressar (sim, esse é um romance político!!!). Prova disso é o complemento genial de sua justificativa: se alguma personagem tomar atitudes reacionárias, a culpa é exclusivamente dela (da figura ficcional) e não dele (do escritor). Incrível isso! Se valendo da mistura de realidade e literatura (uma das marcas de seu estilo narrativo), Julio Cortázar brinca com o público e com as autoridades do país. Os brasileiros que não foram recentemente picados pelo vírus da insensatez também podem enxergar nessa leitura uma crítica contundente à elite e aos conservadores de sua nação, geralmente os primeiros a apoiar o extermínio da democracia e a imposição de sistemas governamentais violentos e opressores conduzidos pelos militares. Não é preciso dizer que, infelizmente, “Os Prêmios” é ainda um romance atual, principalmente em regiões do planeta em que os militares e a ignorância da elite econômica continuam preponderando. Curiosamente, esse livro não está entre os mais famosos de Julio Cortázar. Até quando olhamos para seus romances, “O Jogo da Amarelinha” e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira) são mais populares do que “Os Prêmios”. Confesso que entendo o destaque dado pelo público e pela crítica literária às outras obras do autor (elas são realmente incríveis). Contudo, não concordo com o certo esquecimento de “Os Prêmios”. Achei essa narrativa de Cortázar espetacular! Ela alia um texto extremamente erudito (alta literatura) com uma trama com personagens e conflitos carismáticos (pegada de literatura de entretenimento). Isso sem contar o teor contemporâneo de seu enredo. “Os Prêmios” começou a ser escrito justamente em uma viagem marítima que Julio Cortázar realizou pela América do Sul entre 1958 e 1959. Mesmo tendo fixado residência na Europa, ele não deixava de visitar regularmente nosso continente. Enquanto os demais passageiros se entretinham no cruzeiro pela Argentina, Uruguai e Brasil realizado no final da década de 1950, o escritor preferiu permanecer em sua cabine e rascunhar essa trama. Após voltar para a França, Cortázar finalizou a história transcorrida a maior parte do tempo em alto-mar. Quando “Os Prêmios” foi lançado, Julio Cortázar já era um escritor experiente. Esse título é a sexta publicação do argentino. Ele sucedeu a “Presencia” (sem edição em português), antologia poética de 1938, “Os Reis”, peça teatral de 1949, “Bestiário”, coleção de contos de 1951, “Final do Jogo”, coletânea de narrativas curtas de 1956, e “As Armas Secretas” (Best Seller), conjunto de pequenas histórias de 1959. A grande novidade de “Os Prêmios” é ser um romance, o primeiro texto do autor nesse gênero literário. As outras narrativas longas de Cortázar são: “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, “62 Modelo para Armar”, de 1968, “Livro de Manuel”, de 1973, “Divertimento” (Civilização Brasileira), escrito em 1949, mas só publicado em 1986, e “O Exame Final” (Civilização Brasileira), produzido em 1950 e lançado somente em 1986. No Brasil, “Os Prêmios” teve basicamente três publicações de maior destaque. As duas primeiras foram lançadas em 1975 por dois clubes de leitura de grande sucesso na época: o Círculo do Livro e o Abril Cultural – Clássicos Modernos. E há quem pense que os clubes literários são uma novidade recente. Sabe de nada, inocente! Essas versões tiveram a tradução de Gloria Rodríguez, uma das principais tradutoras de espanhol de nosso país. A terceira publicação foi realizada pouco depois pela Civilização Brasileira, então uma editora independente (hoje, ela é um selo da Editora Record). As edições da Civilização Brasileira aproveitaram justamente a tradução feita por Rodríguez. Li uma das versões mais recentes desse livro – a sexta edição, de 2011, que é a penúltima. Se não me engano, há uma edição mais recente, de 2015. O enredo de “Os Prêmios” começa no London, café-bar localizado na esquina da Rua Peru com a Avenida de Mayo, em Buenos Aires. Em meio aos consumidores habituais do estabelecimento, um grupo heterogêneo está sentado às mesas do London no final de tarde por ordens da Loteria Turística. Eles ganharam como prêmio uma viagem transatlântica que irá durar entre 3 e 4 meses e que será organizada pela empresa Magenta Star. O destino do cruzeiro não foi especificado, assim como o nome da embarcação foi mantido em segredo. De acordo com as informações preliminares da Loteria Turística, os premiados deveriam se reunir naquele café-bar no horário e no dia estabelecidos. Dali, eles seriam levados pela empresa para o navio que conduziria os sortudos para a grande viagem marítima. Aparecem no London 20 pessoas para a viagem: Carlos López, professor de Espanhol, e Dr. Restelli, professor de História Argentina, ambos docentes do Colégio Nacional; Felipe Trejo, adolescente de 16 anos que estuda no Colégio Nacional, e sua família – a irmã Beba Trejo, o pai Sr. Trejo e a mãe Sra. Trejo; Lúcio e Nora, noivos que estão cogitando a ideia de subir ao altar (enquanto ele vai enrolando, ela é quem sonha com esse dia); Gabriel Medrano, um dentista solteirão que abandona a namorada em Buenos Aires e não avisa ninguém de sua partida para o alto-mar; Claudia Freire, uma mulher divorciada há dois anos, que leva para a viagem seu filho ainda criança, Jorge, e um amigo deles, Persio, editor na Casa Kraft, conceituada editora portenha; Dom Galo Porriño, um senhor galego que é paralítico (anda em cadeira de rodas), não tem família e enriqueceu ao abrir lojas em várias cidades argentinas, e seu chofer (que acompanha o patrão para onde ele for); Atilio Presutti, cujo apelido é Pelusa, é acompanhado por sua noiva, Nelly, pela mãe, Dona Rosita, e pela sogra, Dona Pepa; e os amigos Raúl Costa, arquiteto de pensamentos liberais, e Paula Lavalle, moça de família abastada que vive tendo crises de rebeldia. Ainda receoso se irá ganhar efetivamente a premiação conferida pela Loteria Turística, o grupo de sortudos questiona-se o tempo inteiro se a empresa promotora da excursão não está aplicando um golpe. Afinal, tudo aquilo é muito estranho. O que eles mais temem é ser vítima de fraude, estar participando de um jogo, ser cobaia de uma experiência, ser alvo da gozação de alguém e/ou vivenciar uma espécie de teste. Entretanto, no horário estipulado, o inspetor da Direção de Fomento chega ao café-bar acompanhado de um batalhão de policiais e expulsa do London os fregueses que não ganharam na Loteria. Apesar dos protestos de alguns e da brutalidade policial desmedida, o comandante da operação não tem dificuldade para conseguir o que deseja. A partir daí, os 20 premiados são levados de ônibus ao porto de Buenos Aires e embarcam no começo da noite no Malcolm, navio contratado pela Magenta Star para operar o cruzeiro. Assim que todos estão a bordo, a viagem pelos mares da América do Sul não demora para começar. Uma vez iniciado o cruzeiro, os viajantes se dividem em dois grupos bem distintos. Há aqueles que estranham as condutas dos tripulantes e da empresa Magenta Star e exigem melhor atendimento. Afinal, as bizarrices parecem não terminar nunca: o capitão do navio não se apresenta aos turistas; não é servido jantar na primeira noite; os viajantes não podem circular livremente pelo navio (há várias portas trancadas); eles não podem acessar sequer a popa da embarcação; há um grupo enxuto de funcionários que não parece falar espanhol; e não é especificado para onde o Malcolm segue. Por outro lado, temos um segundo grupo que parece não se importar com as esquesitices da Magenta Star. Eles estão ali para se divertir e vão aproveitar o passeio, mesmo com a falta de liberdade e com as dificuldades impostas pelo péssimo atendimento. As coisas a bordo acabam piorando na manhã do primeiro dia. Para surpresa de todos, o navio parece não ter saído do lugar durante toda a noite. Com a luz solar, os viajantes constatam que ainda estão no litoral de Quilmes, cidade da Grande Buenos Aires. O que estaria acontecendo? Os passageiros do Malcolm seriam vítimas de alguma grande e complexa armação? O fato é que essa viagem reservará muitas surpresas e caminhará para ser uma experiência surrealista. Além das intrigas com os funcionários e os comandantes da Magenta Star, os premiados da Loteria ainda terão que encarar seus próprios conflitos – amores, traições, revelações bombásticas, inveja e desavenças dentro do próprio grupo (ou entre os grupos, já que temos duas alas antagônicas de passageiros). “Os Prêmios” possui 432 páginas e está dividido em 5 partes: Prólogo (22 capítulos), “Primeiro Dia” (15 capítulos), “Segundo Dia” (10 capítulos), “Terceiro Dia” (5 capítulos) e Epílogo (2 capítulos). Precisei de cerca de 10 horas para concluir essa leitura durante o último final de semana. Para tal, usei as manhãs e as tardes dos dois dias. Praticamente li metade da obra (Epílogo e “Primeiro Dia”) no sábado e a outra metade (“Segundo Dia”, “Terceiro Dia” e Epílogo) no domingo. O primeiro aspecto que chama nossa atenção em “Os Prêmios” é a diferença entre os capítulos numéricos e os capítulos em letras. Eu ainda não tinha falado sobre isso, mas temos nesse livro capítulos nomeados por números romanos (I, II, III, IV, V, VI etc.) e capítulos nomeados por letras (A, B, C, D, E, F etc.). E a pegada narrativa é totalmente diferente nos dois casos, apesar de ambas as partes serem apresentadas em conjunto (estão embaralhadas ao longo da obra) e seguirem um mesmo enredo (linearidade da trama). Nas seções numéricas, temos o relato convencional de “Os Prêmios”. Nessa parte, o narrador está em terceira pessoa e é do tipo observador. Ele acompanha de perto (com acesso aos pensamentos, memórias e sentimentos) as duas dezenas de personagens do romance mais ou menos de maneira uniforme. Aqui o narrador vai se revezando em espiar o que cada um dos viajantes (principalmente, Carlos López, Lúcio, Nora, Gabriel Medrano, Cláudia Freire, Felipe Trejano, Atilio Presuti, Raúl Costa e Paula Lavalle) está fazendo seja no London, seja no Malcolm. No começo da leitura, como são muitas as figuras retratadas, confesso que fiquei um pouco perdido sobre quem era quem. Contudo, chega um momento (mais ou menos na metade do romance) em que conseguimos distinguir tranquilamente as várias personagens. Por outro lado, nas seções em letras, temos uma espécie de fluxo de consciência de um dos viajantes – Persio. Curiosamente, Persio não é um dos protagonistas de “Os Prêmios” (pelo menos não nos capítulos numéricos). Por isso, é meio estranho quando acessamos, nessa outra parte do livro, sua mente. Aqui navegamos pelos seus sentimentos, pensamentos, dramas íntimos e inquietações. Como ele é um cara muito erudito, o texto dessa parte da obra não é nada fácil. Não se assuste se você entender pouca coisa (eufemismo para o termo “não entender nada”) do que ele está matutando. Lembre-se: normalmente um texto baseado em um fluxo de consciência não é uma narrativa das mais tranquilas (as obras de Virginia Woolf são prova cabal disso). “Os Prêmios” também possui muitas referências históricas e culturais da Argentina. Ao longo das páginas do romance, acompanhamos citações a passagens da história do país, letras de tango, hábitos gastronômicos, cenários de Buenos Aires e eventos esportivos (futebol e boxe principalmente). Até mesmo o inconfundível “che” presente na oralidade dos portenhos aparece o tempo inteiro nos diálogos. A intertextualidade é complementada com muitas associações à literatura e ao cinema. Assim, “Os Prêmios” é um livro com forte carga cultural – prato cheio para quem gosta desse tipo de intertextualidade! De certa maneira, as críticas políticas, sociais e ideológicas (alienação do povo, burocracia excessiva, opressão das massas, governos totalitários, violências/ameaças físicas e psicológicas, intolerância, preconceitos, injustiças, disseminação de fake news, censura, manipulação etc.) vêm acompanhadas de reflexões existencialistas de alta qualidade. Aí está justamente um dos maiores méritos de “Os Prêmios”. Ao lado de uma trama interessante e divertida (com óbvio apelo de entretenimento), também temos divagações filosóficas e metafísicas (que agradam aos leitores com paladares mais apurados). O resultado é uma narrativa com forte pegada surrealista. Por essas e outras, “Os Prêmios” me lembrou várias produções artísticas por diferentes razões. Esse livro de Julio Cortázar tem um quê de “Anjo Exterminador” (El Ángel Exterminador: 1962), filme clássico de Luis Buñuel. Afinal, ambas as obras são calcadas em enredos surrealistas sobre grupos de burgueses aprisionados em lugares aparentemente banais (casa e navio de cruzeiro). Em algumas passagens de “Os Prêmios”, lembrei bastante, ainda no universo cinematográfico, de “Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu” (Airplane!: 1980), comédia icônica dos anos 1980. A comparação faz sentido porque estamos falando de bandos de viajantes desesperados com os desdobramentos de suas jornadas (no céu e no mar). Por uma perspectiva mais contemporânea, esse romance cortaziano dialoga também com o seriado “Lost” (2004-2010). O motivo é a associação metafísica das tramas. Por fim, não posso deixar de citar “A Peste” (Record), obra-prima de Albert Camus. Assim como o livro do argentino, a narrativa do franco-argelino tem forte pegada filosófica. Além disso, as duas obras abordam questões existencialistas a partir de uma epidemia que assola um lugar isolado (povoado na Argélia e embarcação no porto de Buenos Aires). Repare que quase todas as produções citadas nos dois parágrafos anteriores são posteriores ao lançamento do livro de Cortázar. A exceção é “A Peste”, romance publicado em 1957 (um ano antes de “Os Prêmios” começar a ser rascunhado). Ou seja, o escritor argentino não poderia ter sido influenciado pela maioria dessas obras, mas pode muito bem tê-las influenciado. No caso específico de “A Peste”, é quase certo que Julio Cortázar leu o romance de Camus antes de produzir seu livro. A influência do trabalho existencialista do franco-argentino é evidente. Por uma outra perspectiva, podemos dizer que “Os Prêmios” é uma narrativa com características extremamente contemporâneas. Chega a ser assustador perceber que esse livro tem mais de seis décadas de vida. A impressão é que ele foi escrito nos últimos anos. A chave para a leitura de “Os Prêmios” é encarar sua história e seus protagonistas pela perspectiva da alegoria. Se você procurar as representações simbólicas por trás dos acontecimentos narrados e por trás dos perfis das personagens retratadas, você acessará o subtexto do livro – a parte mais crítica e forte dessa narrativa de Julio Cortázar. Uma vez feito esse mergulho nas camadas mais profundas do romance, atingimos o ponto mais sensível do engajamento do texto. É legal notar que, dessa vez, o autor argentino usou o Realismo Fantástico como estopim para escancarar as mazelas sociais e políticas de sua nação. Impossível não apreciarmos uma construção ficcional com esse nível de sutileza e requinte. Prova maior desse tom alegórico do livro está na formação dos grupos que se opõem ao longo da trama. Os embates podem ser resumidos como sendo de: civis versus militares; jovens versus velhos; conservadores versus liberais; ricos versus pobres; socialistas versus capitalistas; homens versus mulheres; adultos versus crianças/adolescentes; trabalhadores versus rentistas; viajantes versus tripulação; religiosos versus ateus; engajados versus alienados; casados versus solteiros; e esquerdistas versus direitistas. Lido nos dias de hoje (período de forte polarização), “Os Prêmios” parece uma obra com temáticas, conflitos e personagens contemporâneos. Esse livro também possui algumas características típicas da literatura de Julio Cortázar. Temos aqui, por exemplo, a criação de neologismos (a brincadeira proposta com os termos lipídios, glucídios e protídios é espetacular!), o humor acentuado (do tipo sutil, inteligente e com certo tom de surrealismo) e a atmosfera de mistério crescente (os capítulos finais dessa narrativa se tornam quase que um romance de aventura, uma trama policial ou um enredo aterrorizante). A diferença estilística é que temos agora alguns elementos novos: cenas de grande violência (física, psíquica e sexual), a exposição de preconceitos sociais e, obviamente, as críticas políticas. Por tudo isso, achei “Os Prêmios” o melhor trabalho realizado por Cortázar até então. Nessa obra, ele conseguiu dar um sentido às maluquices que propunha (seja embaralhar a realidade com a ficção, mergulhar no universo onírico de suas personagens ou construir cenas surrealistas que instigam a imaginação dos leitores). Acho que esse livro é um dos melhores que li em 2021. Sem dúvida nenhuma, “Os Prêmios” deverá figurar na lista das minhas melhores leituras do ano, que é apresentada na coluna Recomendações. O Desafio Literário de Julio Cortázar continuará na próxima semana com a análise de mais um livro. A quinta obra que iremos investigar do argentino é “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), coletânea de contos de 1962. Esse título é um dos mais famosos de Cortázar e um dos mais emblemáticos da Literatura Fantástica. Essa publicação também pode ser definida como sendo uma coleção de microcontos (afinal, suas narrativas são extremamente diminutas). A análise completa de “Histórias de Cronópios e de Famas” estará disponível no Bonas Histórias na próxima terça-feira, 2 de novembro. Boa leitura a todos e até o próximo post do Desafio Literário desse bimestre! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Final do Jogo - A segunda coletânea de contos de Julio Cortázar

    Publicada originalmente em 1956 e ampliada oito anos depois, essa obra é uma das mais emblemáticas do escritor argentino. Nessa semana, li “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), a segunda coletânea de contos de Julio Cortázar. Esse é o terceiro livro do escritor argentino que analisamos no Desafio Literário de outubro e novembro. Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias sabem que já discutimos, nos últimos dias, “Os Reis” (Civilização Brasileira), prosa poética sobre o mito do Minotauro, e “Bestiário” (Civilização Brasileira), obra de estreia de Cortázar nas narrativas curtas. Na lista de leitura desse bimestre, ainda temos “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller) e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira). Se você curte o melhor da literatura argentina, da ficção mundial e do Realismo Fantástico não perca esse e os próximos posts do Desafio Literário. Publicado em 1956, “Final do Jogo” foi lançado originalmente por uma editora mexicana e tinha apenas nove histórias. Oito anos mais tarde, essa obra de Julio Cortázar ganhou uma segunda edição, dessa vez pela argentina Editorial Sudamericana, e incorporou outras nove narrativas do autor. Assim, a versão de “Final do Jogo” que temos atualmente é aquela de 1964 com 18 contos. Para quem possa estranhar o fato desse título ter saído primeiro por uma editora mexicana e não por uma editora argentina, vale a pena dizer que Cortázar não era uma figura bem-quista pelos militares portenhos que estavam no poder naquele momento. Dessa forma, é possível imaginarmos que a pressão dos governantes fardados para que as editoras de seu país não publicassem nada do escritor que tinha preterido Buenos Aires por Paris no início dos anos 1950 surtira efeito, ao menos por um tempo. “Final do Jogo” é considerado um livro emblemático de Julio Cortázar por vários motivos. Em primeiro lugar, essa obra representou a primeira publicação do autor depois da mudança para a França. “Bestiário”, o título anterior, foi lançado em 1951, poucos meses antes de Cortázar deixar definitivamente a Argentina. Além disso, “Final do Jogo” foi seu primeiro trabalho autoral a ganhar versões em outros idiomas e chegar às livrarias de fora da América do Sul. Não é errado, portanto, enxergarmos esse livro como o responsável pela internacionalização da carreira de Cortázar como escritor ficcional. Por fim, é interessante notar que “Final do Jogo” potencializou os recursos estilísticos e as propostas narrativas que Julio Cortázar havia introduzido em “Bestiário”, sua primeira coletânea de contos. Se a obra anterior havia representado o início do argentino no Realismo Fantástico, essa nova publicação significou a consolidação de Cortázar nesse tipo de literatura. Quando “Final do Jogo” foi publicado no México, Julio Cortázar já tinha uma vida mais ou menos consolidada em Paris. Casado há um ano com Aurora Bernárdez, tradutora e escritora argentina, ele trabalhava como tradutor na ONU. Porém, o salário que recebia não era tão alto, o que provocava algumas crises financeiras. Para engordar um pouco o orçamento doméstico, Cortázar também fazia traduções para o espanhol de obras literárias de autores das línguas inglesa e francesa. Esse tipo de trabalho já era realizado antes de ele deixar a Argentina e foi mantido no exterior. Seu principal contratante era a Editorial Sudamericana, tradicional editora de Buenos Aires. Contudo, na época em que “Final do Jogo” foi lançado, o escritor estava trabalhando na tradução para o espanhol dos livros de Edgar Allan Poe para uma universidade porto-riquenha. Os 18 contos de “Final do Jogo” englobam as narrativas curtas produzidas por Julio Cortázar entre 1945 e 1962. Por isso, temos histórias ambientadas tanto na Argentina e no Uruguai (as mais antigas) quanto na França (as mais novas). Curiosamente, o livro foi dividido em três partes como uma forma de transformar sua leitura em uma atividade lúdica para os leitores. Segundo Cortázar, a divisão da coletânea respeita os níveis de dificuldade de leitura. Assim, a parte I tem as tramas mais fáceis (6 contos), a parte II possui as histórias com nível mediano de complexidade (7 contos) e a parte III reúne as narrativas mais difíceis (5 contos). Aqueles que conhecem um pouco o humor brincalhão e as estripulias literárias de Julio Cortázar podem notar que essa classificação é apenas uma maneira de ludibriar o leitor e influenciar em sua leitura. Instintivamente, à medida que avançamos nas páginas de “Final do Jogo”, acabamos acreditando no grau de dificuldade e lemos com mais atenção os últimos contos (como se eles fossem realmente mais complicados). Adorei essa brincadeira! No Brasil, “Final do Jogo” tem duas traduções marcantes. A primeira, feita por Remy Gorga Filho para a Editora Expressão e Cultura, foi lançada no início dos anos 1970 e ganhou três edições entre 1971 e 1974. A segunda, realizada pela dupla Paulina Wacht e Ari Roitman para a Editora Civilização Brasileira (hoje um selo do Grupo Editorial Record), é mais recente, de 2014. Preferi ler essa última tradução porque foi mais fácil de achá-la nas livrarias nacionais. A versão de Remy Gorga Filho, um dos principais tradutores para o português de escritores de língua espanhola, é ainda hoje encontrada em muitos sebos. Os contos da parte I de “Final do Jogo” são: “Continuidade dos Parques”, “Ninguém Tem Culpa”, “O Rio”, “Os Venenos”, “A Porta Incomunicável” e “As Mênades”. As narrativas da parte II são: “O Ídolo das Cíclades”, “Uma Flor Amarela”, “Sobremesa”, “A Banda”, “Os Amigos”, “O Móvel” e “Torito”. E, por fim, as tramas da parte III são: “Relato com um Fundo de Água”, “Depois do Almoço”, “Axolotes”, “A Noite de Barriga Para Cima” e “Final do Jogo”, conto que empresta seu nome à coletânea. Para quem tenha ficado curioso(a), as nove histórias originais dessa obra (daquela versão publicada em 1956) são: “Os Venenos”, “A Porta Incomunicável”, “As Mênades”, “A Banda”, “O Móvel”, “Torito”, “Axolotes”, “A Noite de Barriga Para Cima” e “Final do Jogo”. “Continuidade dos Parques”, o primeiro conto de “Final do Jogo”, se passa na zona rural da Argentina. Em meio aos afazeres e aos problemas típicos da fazenda, o proprietário se entretém lendo um romance. Na trama ficcional que o fazendeiro acompanha tão atentamente, uma mulher casada se encontra com o amante em uma cabana. Em “Ninguém Tem Culpa”, a narrativa seguinte da coletânea, a esposa espera o marido em uma loja para eles comprarem um presente de casamento. Como está frio, o maridão resolve vestir um pulôver antes de sair de casa. Inicia-se, assim, uma epopeia tragicômica. Sim, colocar uma blusa de lã pode ser uma tarefa complicadíssima para as personagens de Cortázar. “O Rio” é a terceira história dessa obra. Em noite alta e em meio às brigas matrimoniais, a mulher ameaça se jogar no Sena. Teria ela coragem para realizar uma atitude extrema como essa?! “Os Venenos” é ambientado em Banfield. No Verão argentino, um menino brinca em casa ao lado da irmã, da vizinha e do primo. O que marca as férias escolares do protagonista é a máquina de matar formigas usada pelo tio no quintal da propriedade e, principalmente, o despertar do primeiro amor. Em “A Porta Incomunicável”, Petrone se hospeda no Hotel Cervantes, no centro de Montevidéu. O rapaz está na cidade a negócios. A tranquilidade do hotel é quebrada quando Petrone descobre uma porta extra em seu quarto e, dali, ouvi o insistente choro de criança durante a madrugada. “As Mênades”, o último conto da primeira parte do livro, se passa no Teatro Corona. O maestro e sua orquestra apresentam um conjunto de concertos que celebra os 25 anos da carreira do músico. A plateia fica tão empolgada com o espetáculo que tem uma reação assustadora e totalmente inesperada. A impressão é que estamos diante de um estádio de futebol em uma final de campeonato e não dentro de um teatro. A primeira narrativa da parte II de “Final do Jogo” é “O Ídolo das Cíclades”. Após dois anos de uma viagem à Grécia, Morand visita Somoza no ateliê do amigo. Isolado do mundo e produzindo réplicas de uma escultura encontrada nas ruínas gregas, Somoza parece meio amalucado, para horror de Morand. Em “Uma Flor Amarela”, um bêbedo insiste em dizer que é mortal, o único ser humano nessa condição. No bar da Rua Cambronne, ele conta a história de quando encontrou Luc, um menino de 13 anos que era uma cópia fiel dele. “Sobremesa”, o terceiro conto dessa seção, apresenta a troca de cartas entre dois amigos, Alberto Rojas, que mora em Lobos, e Frederico Morais, que vive em Buenos Aires. Enquanto Frederico convida o morador do interior para um encontro social na capital do país, Alberto comenta o que teria ouvido em tal reunião que aparentemente nem aconteceu. A trama de “A Banda” ocorre em fevereiro de 1947. Lucio Medina vai a uma sessão de cinema aparentemente comum. Contudo, a exibição do filme é marcada por acontecimentos extraordinários que mudam a maneira do rapaz encarar a vida e de enxergar o mundo. Em “Os Amigos”, assistimos a um plano homicida. O Número 1 contrata o Número 3 para matar Romero. “O Móvel”, a penúltima narrativa dessa parte, apresenta um enredo policial. Para descobrir quem matou Montes e para vingá-lo, seu melhor amigo embarca em um navio para Marselha. A única informação que o rapaz tem é que o assassino de Montes entrou naquela embarcação. Em “Torito”, um boxeador relembra os momentos marcantes de sua carreira nos ringues, que teve muitos episódios vitoriosos, mas também teve derrotas dolorosas. A parte III começa com “Relato com um Fundo de Água”. Nesse conto, Mauricio visita um velho amigo que mora em um bangalô no interior. O anfitrião conta para o convidado que está desesperado. Ele sonhou recentemente que encontrou um corpo boiando sem vida no rio. “Depois do Almoço”, a trama seguinte do livro, mostra o drama de um menino. Ele recebe ordem dos pais para ir passear com algo ou alguém. O garoto não quer ir porque sente vergonha do companheiro de passeio. Mesmo assim, ele engole o orgulho próprio e vai. Em “Axolotes”, um rapaz tem fixação pelos axolotes, uma espécie de salamandra mexicana. Ele gosta tanto dos répteis que visita diariamente (às vezes mais de uma vez ao dia) os Jardim das Plantas, onde exemplares desse bicho são exibidos ao público. Esse amor incondicional pelos axolotes se transforma em identificação ao ponto do jovem se sentir uma verdadeira salamandra. “A Noite de Barriga Para Cima”, o penúltimo conto do livro, começa em uma manhã ensolarada. Querendo aproveitar o dia, um rapaz pega a motocicleta e parte para um passeio pelas ruas da cidade. Contudo, ele sofre um acidente e vai parar no hospital. No centro médico, o motoqueiro tem vários pesadelos. Em seus sonhos, ele sofre no meio da floresta. E em “Final do Jogo”, a narrativa derradeira dessa coletânea, três meninas brincam ao lado dos trilhos de trem. Sempre que o vagão do Central Argentino passa, elas imitam estátuas. A brincadeira chama a atenção de Ariel B, um jovem passageiro que faz o curso industrial. Ele começa a se comunicar com as garotas por meio de bilhetinhos atirados pela janela do trem. O livro “Final do Jogo” possui 224 páginas. Levei entre três horas e meia e quatro horas para concluir integralmente sua leitura nessa semana. Precisei de duas noites para isso: li a metade inicial da obra na segunda-feira (nove contos) e a metade final na terça-feira (outros nove contos). Na certa, se tivesse lido “Final do Jogo” em um final de semana, teria concluído a leitura em uma única manhã ou mesmo em uma só tarde. Ou seja, quem tem maior fôlego literário consegue lê-lo em um único dia numa boa. Em relação à temática, os contos de “Final do Jogo” podem ser divididos em seis categorias. Temos (1) as tramas que misturam realidade e ficção (“Continuidade dos Parques”, “Sobremesa” e “A Banda”), (2) as histórias que embaralham a realidade com os sonhos e as imaginações das personagens (“O Rio”, “Uma Flor Amarela”, “Relato com um Fundo de Água”, “Axolotes” e “A Noite de Barriga Para Cima”), (3) os enredos tragicômicos ancorados em cenas banais do cotidiano (“Ninguém Tem Culpa” e “As Mênades”), (4) as narrativas sobrenaturais/surreais (“A Porta Incomunicável”, “As Mênades”, “O Ídolo das Cíclades”, “Depois do Almoço” e “Axolotes”), (5) os dramas sentimentais (“Os Venenos”, “Torito” e “Final do Jogo”) e (6) os contos com pegada policial e de suspense (“Os Amigos”, “O Ídolo das Cíclades”, “O Móvel” e “Depois do Almoço”). A maioria das histórias desse livro foi produzida em primeira pessoa e tem narradores do sexo masculino. Vários protagonistas de “Final do Jogo” não têm o nome próprio revelado, o que aumenta ainda mais os níveis de suspense e de mistério das tramas. Em alguns momentos, esse recurso (a ocultação do nome da personagem principal) dá um ar de alegoria à obra (o episódio retratado poderia ter acontecido com qualquer um, inclusive comigo e com você). Os primeiros contos de “Final do Jogo” são mais curtinhos. À medida que as tramas vão sendo apresentadas, as histórias vão ficando, em média, maiores. Grande parte da graça das narrativas de Cortázar está nas diferentes maluquices propostas pelo autor. Quem já leu “Bestiário” na certa não se surpreenderá com a invasão do universo onírico, ficcional e/ou imaginativo na realidade das personagens, com os vários elementos simbólicos e existencialistas das histórias e a supremacia de passagens fantásticas no cotidiano de pessoas comuns. Obviamente, as narrativas mais impactantes de Julio Cortázar são tradicionalmente aquelas que respeitam essa linha temática. Contudo, para o leitor que está lendo vários títulos do autor de forma consecutiva (conforme a proposta do Desafio Literário), essa repetição de assuntos e de estrutura ficcional pode ficar um pouco enfadonha. Afinal, nos primeiros parágrafos já conseguimos entender o que está sendo feito. Infelizmente, várias histórias de “Final do Jogo” guardam grandes semelhanças com as narrativas de “Bestiário”. A falta de surpresas reside justamente nessas “coincidências” entre os dois títulos. Apesar de termos vários contos de “Final do Jogo” entre os mais famosos da literatura de Julio Cortázar, confesso que não fui tão impactado por eles como fui pela coletânea anterior. Curiosamente, nota-se que esse livro tem uma melhor estrutura, tem maior extensão e é mais diversificado do que “Bestiário”. Isso tudo é inegável. Entretanto, gostei muito mais da coleção de narrativas curtas de estreia do argentino do que desse segundo exemplar. De cabeça, posso citar, entre meus contos favoritos de “Bestiário”, “Casa Tomada”, “Carta a Uma Senhorita em Paris”, “Cefaleia” e o próprio “Bestiário”. Isso não quer dizer que não temos histórias memoráveis em “Final do Jogo”. Além do conto homônimo, gostei muito de “Continuidade dos Parques”, “Ninguém Tem Culpa”, “Os Venenos”, “Sobremesa”, “Depois do Almoço” e “Axolotes”. Os contos que mais gostei foram as tramas sentimentais. “Os Venenos” é espetacular e “Final do Jogo” é excelente. Essa temática é justamente a grande novidade que esse livro trouxe para a literatura de Cortázar, o que me surpreendeu. Não imaginava que o argentino pudesse produzir narrativas tão sensíveis e poéticas nessa linha mais amorosa. Incrível! Depois dos contos sentimentais, gostei muito dos enredos surrealistas. “Depois do Almoço” e “Axolotes” são simplesmente incríveis. O leitor fica com o coração na mão tentando descobrir o mistério por trás dessas tramas. Como é típico dos textos ficcionais de Julio Cortázar, o desfecho é normalmente aberto e as narrativas permitem múltiplas interpretações (são polissêmicas). Essa mesma característica é encontrada em “Continuidade dos Parques” e “Sobremesa”, que mesclam realidade e ficção, e “Ninguém Tem Culpa”, uma divertida tragicomédia construída em uma cena do dia a dia. Por outro lado, os contos que menos gostei foram as tramas policiais. Qual o problema desse tipo de história, hein?! Na verdade, não há problema nenhum nesse tipo de gênero narrativo. Minha crítica está na maneira como Cortázar desenvolveu seus enredos. Evidentemente, o argentino não tem o talento de Rubem Fonseca ou de Patricia Highsmith para sustentar uma trama investigativa. Como essas narrativas de Cortázar são bem curtinhas, não se cria uma atmosfera de mistério e/ou de identificação com o drama apresentado e com os suspeitos (algo mais fácil de ser feito em contos maiores ou em novelas e romances, narrativas mais extensas). Como consequência, o leitor ainda não entrou direito na dinâmica da narrativa e a história já terminou (com a revelação do suspeito). Agora que já conhecemos duas coleções de contos de Julio Cortázar, vamos partir para a investigação dos romances do argentino. Na semana que vem, retornarei ao Desafio Literário para analisar “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), a primeira narrativa longa de Cortázar. Esse livro foi publicado em 1960 e apresenta alguns elementos narrativos que seriam usados mais tarde em “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), o grande sucesso do autor. O post com a análise completa de “Os Prêmios” estará disponível no Bonas Histórias na próxima quarta-feira, dia 27. Não perca os novos episódios do Desafio Literário de Julio Cortázar. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Bestiário - A primeira coletânea de contos de Julio Cortázar

    Publicada em 1951, esta obra marcou o início do escritor argentino no Realismo Fantástico, estilo ficcional em que Cortázar foi uma das principais figuras. No último final de semana, li “Bestiário” (Civilização Brasileira), a primeira coletânea de contos publicada por Julio Cortázar. Livro marcante da literatura argentina, do Realismo Fantástico e do portfólio de Cortázar, “Bestiário” é o segundo título do escritor argentino que o Desafio Literário desse bimestre analisa. No sábado passado, apresentei, no Bonas Histórias, as minhas impressões sobre “Os Reis” (Civilização Brasileira), primeiro trabalho literário a estampar o nome de Julio Cortázar. Lançado dois anos antes de “Bestiário”, “Os Reis”, vale aqui uma rápida menção, misturava dramaturgia e literatura, prosa e poesia e mitologia grega e questionamentos existencialistas. Ou seja, pareceu-me mais um livro de cunho experimental do que uma obra com uma proposta estético-narrativa definida, algo que já encontramos no título que vamos comentar hoje. Dois motivos fazem “Bestiário” ser uma publicação tão importante. Em primeiro lugar, ele representou a estreia de Julio Cortázar nas coletâneas de contos, gênero textual em que o argentino se consolidaria como uma das grandes figuras da história. Por mais que já tivesse publicado narrativas curtas em várias revistas literárias de Buenos Aires, Cortázar não tinha ainda um livro nesse formato. Com a chegada de “Bestiário” às livrarias, o público leitor teve acesso mais facilitado às histórias do autor. O segundo motivo é que essa obra marcou o ingresso do escritor no Realismo Fantástico. Até então, as publicações de Julio Cortázar eram extremamente quadradonas e não possuíam elementos mágicos. “Presencia” (sem publicação em português”) e “Os Reis” são trabalhos tão certinhos em relação ao formato e à temática que é até difícil de enxergarmos hoje em dia como sendo textos do mais reacionário dos autores argentinos. Publicado em 1951, “Bestiário” foi apresentado aos leitores pouco antes de Julio Cortázar, então com 37 anos, abandonar definitivamente a Argentina. Decepcionado com a ditadura militar, que já se mostrava intolerante, violenta e excludente, Cortázar se mudou para Paris, onde viveria pelo resto da vida. Na capital francesa, ele passou a trabalhar como tradutor da Unesco e a produzir seus livros mais importantes. Curiosamente, “Bestiário” não está entre as obras mais famosas de Julio Cortázar na visão do público, mas ele é emblemático pois representou a afirmação estilística e temática do autor. O próprio Cortázar reconheceu isso. Para ele, “Bestiário” foi o seu primeiro grande trabalho literário. Nesse título, o argentino afirma que conseguiu encontrar uma proposta narrativa e uma linha editorial com maiores potenciais ficcionais. Não à toa, a partir daí nasceu um dos maiores contistas da história e uma das grandes figuras do Realismo Fantástico Sul-americano. Quando “Bestiário” foi publicado, o Realismo Fantástico já vigorava na América Latina há um tempinho. Prova disso é que o termo Realismo Fantástico (em espanhol, usa-se mais a expressão Realismo Mágico) foi cunhado, em 1949, pelo escritor cubano Alejo Carpentier. Ao resumir o tipo de literatura que estava sendo praticada no continente, Carpentier disse que as narrativas mais relevantes tinham elementos sobrenaturais, uma espécie de Realismo Mágico. A partir daí, essa foi a nomenclatura que passou a designar tanto a escola literária quanto o estilo ficcional que misturava aspectos concretos da vida real (realismo) com uma pontinha de absurdo (fantástico). Criado efetivamente na década de 1940, o Realismo Fantástico teve seu auge entre os anos 1960 e 1970, período chamado pelos críticos literários como Boom Latino-americano. Apesar de “Bestiário” ser considerado uma das primeiras obras dessa corrente artística, ele não é o pioneiro, pioneiro. “Ficções” (Companhia das Letras), coletânea de contos de Jorge Luis Borges, foi publicado em 1944 e “O Reino Desse Mundo” (Martins), novela de Alejo Carpentier, foi lançado em 1949. Ou seja, quando Julio Cortázar enveredou para valer pelos caminhos do Realismo Fantástico, Jorge Luis Borges, por exemplo, já era um autor reconhecido e premiado internacionalmente por esse tipo de narrativa. De qualquer maneira, a chegada posterior de Cortázar ao Realismo Mágico não diminui seu brilhantismo. Na Argentina, “Bestiário” foi publicado pela Editorial Sudamericana, uma das mais tradicionais editoras de Buenos Aires. O livro fez relativo sucesso na Argentina na época de seu lançamento. O que significa um relativo sucesso, Ricardo?! Relativo sucesso quer dizer que “Bestiário” não foi ignorado pela crítica e pelos leitores como “Presencia” e “Os Reis”, os dois primeiros títulos de Cortázar. Ao mesmo tempo, não podemos dizer que o sucesso de público e de crítica que “Bestiário” teve possa ser comparado ao de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), esse sim uma obra que balançou o coreto da ficção argentina e da literatura internacional. No Brasil, há duas boas traduções de “Bestiário”. Temos uma versão mais antiga feita por Remy Gorga Filho para a Editora Nova Fronteira e outra mais recente de Ari Roitman para a Civilização Brasileira. Acabei lendo essa última pois foi a que encontrei mais facilmente nas livrarias nacionais. O livro que li é a quarta edição da Civilização Brasileira e foi lançado em julho de 2013. Inexplicavelmente, “Bestiário” ficou muitos anos fora do catálogo das editoras brasileiras. Apenas na década passada, com a volta ao interesse do trabalho de Julio Cortázar, começamos a ter republicações dos principais livros do argentino. Ainda bem, né?! “Bestiário” possui oito contos: (1) “Casa Tomada”, (2) “Carta a Uma Senhorita em Paris”, (3) “Distante” (também chamado de “Longínqua” em algumas traduções), (4) “Ônibus”, (5) “Cefaleia”, (6) “Circe”, (7) “As Portas do Céu” e (8) “Bestiário”. Essa última narrativa é justamente aquela que emprestou seu nome à coletânea. Dessas histórias de Julio Cortázar, as mais famosas são “Casa Tomada”, “Carta a Uma Senhorita em Paris”, “Cefaleia” e “Bestiário”. Esse quarteto ficcional não é apenas as narrativas mais conhecidas dessa obra como também figura na lista dos principais contos que Cortázar produziu. Não à toa, eles são estudados em oficinas literárias e cursos de Escrita Criativa no mundo inteiro. Em “Casa Tomada”, trama que inaugura o livro, dois irmãos de aproximadamente 40 anos vivem sozinhos em uma grande propriedade em Buenos Aires. A rotina deles é extremamente tranquila e baseada na limpeza do local. Isso até a casa ser invadida, em uma noite que aparentava ser normal, por algo ou alguém misterioso. “Carta a Uma Senhorita em Paris”, o segundo conto de “Bestiário”, narra o drama do amigo de Andrée. Enquanto ela está viajando pela França, ele fica no apartamento dela na Rua Suipacha, na capital argentina. O drama do hóspede começa logo que ele chega ao lar da amiga. Já no elevador, ele vomita o primeiro coelho. O rapaz tenta esconder esse acontecimento de Sara, a empregada de Andrée, mas tal tarefa se torna cada dia mais complicada. Os coelhos não param de brotar de sua garganta e logo passam a dominar (e destruir) a residência. “Distante” é o pitoresco diário de Alina Reyes, uma garotinha com uma imaginação para lá de fértil. Ao invés de acompanharmos os relatos da vida real da menina (algo esperado das páginas de um diário), assistimos, nessa narrativa, ao divagar da mente de Alina. Assim, o texto caminha por sonhos, memórias, projeções e esperanças da menina. Em “Ônibus”, o conto seguinte do livro, Julio Cortázar constrói um thriller aterrorizante ambientado quase que inteiramente dentro do transporte público. Em um sábado à tarde, Clara deixa a casa de Dona Roberta e vai passear. Ela pega o ônibus da linha 168 que segue em direção à Chacarita. Assim que coloca os pés dentro do veículo, Clara se torna alvo da curiosidade do motorista e do cobrador e do assédio dos demais passageiros. Inicia-se, dessa maneira, uma intrigante, assustadora e inacreditável viagem pelas ruas de Buenos Aires. A quinta narrativa de “Bestiário” é “Cefaleia”. Essa história se passa no Verão e é encenada em uma fazenda nos pampas argentinos. A propriedade rural do conto é dedicada à criação de mancúspias (animal inventado por Cortázar). Apesar de ser uma atividade aparentemente lucrativa, a criação das mancúspias exige cuidados excessivos e rotineiros e, o que é pior, provoca uma forte dor de cabeça nos funcionários da fazenda ao ponto de enlouquecê-los. Seriam esses animais amaldiçoados como a população local acredita?! Em “Circe”, Mario está apaixonado por Delia. O problema é o falatório do povo. Delia é considerada uma moça estranha e com fama de mal-assombrada. Afinal, os dois noivos anteriores dela morreram de forma trágica na véspera do casório. Indiferente à opinião da família e dos amigos que são contrários aquela união, Mario quer se casar com Delia. “As Portas do Céu” é o sétimo e penúltimo conto da coletânea. Nessa trama, Marcelo, um importante advogado, vai à casa de Mauro, um amigo simples que trabalha como zelador no mercado da cidade. A mulher de Mauro, Celina, uma ex-prostituta, acabou de morrer, para desespero do marido. O que será da vida de Mauro sem a zelosa e fiel companheira, hein? Em “Bestiário”, acompanhamos as férias de Verão de Isabel. A menina viajou para a estância da família Funes que fica na região de Los Horneros. Lá, ela passa os dias brincando com os filhos do proprietário da fazenda. A diversão favorita da criançada é investigar a flora e a fauna locais. O curioso dessa narrativa é que há um tigre que insiste em rodear a casa dos Funes, o que não parece causar preocupação em ninguém. “Bestiário” (agora voltei a falar do livro como um todo e não apenas do conto especificamente) é uma publicação enxuta. Os oito contos de Julio Cortázar ocupam 144 páginas. Precisei de pouco mais de duas horas para concluir essa leitura no sábado passado. Confesso que gostei bastante da maioria das histórias de Cortázar. Dessa coletânea, só conhecia “As Cartas a Uma Senhorita em Paris” (texto estudado nas aulas do curso da Pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz) e “Circe” (narrativa discutida em uma oficina de Escrita Criativa que fiz há alguns anos). A primeira questão interessante em “Bestiário” é a mistura de histórias banais (trabalho na fazenda, viagem de ônibus, férias no interior, cuidado da casa, relato em um diário, hospedagem na residência de uma amiga, ida ao funeral da esposa de um amigo) com algum elemento surpreendente. O surgimento desse pequeno componente sobrenatural no meio da trama até então certinha extermina a paz das personagens e provoca o leitor. Essa combinação de normalidade (fatos corriqueiros) com anormalidade (aspectos absurdos) é uma das marcas da literatura de Julio Cortázar (e da dinâmica ficcional do Realismo Fantástico como um todo). O aspecto mágico do enredo pode ser a invasão misteriosa a uma residência tranquila (“Casa Tomada”), o sujeito que vomita coelhos (“Carta a Uma Senhorita em Paris”), a jovem que assiste à morte de seus noivos antes do matrimônio (“Circe”), os animais da fazenda com capacidade para mexer com o psicológico dos seus tratadores (“Cefaleia”), a menina que gosta de registrar a sua imaginação e seus sonhos nas páginas do diário (“Distante”), um tigre que rodea uma propriedade rural (“Bestiário”), um ônibus com pessoas estranhas em seu interior (“Ônibus”) e a mulher morta que parece ressuscitar diante do viúvo perplexo (“As Portas do Céu”). Obviamente, Julio Cortázar não explica didaticamente os elementos fantásticos de seus contos. O escritor argentino simplesmente os atira no meio das histórias. Por isso, cabe ao leitor interpretar à sua maneira os acontecimentos assistidos nas páginas de “Bestiário”. Assim, temos narrativas com leituras e desfechos abertos. Essa polissemia é possivelmente uma das características mais legais dessa coletânea de contos. Em alguns momentos, admito que achei que o sobrenatural, a magia e o inexplicável eram mais fruto de problemas psicológicos ou éticos dos narradores e dos protagonistas dos contos do que necessariamente um fato incrível da trama. Por exemplo, o rapaz que afirma vomitar coelhos é, na minha visão, um grande mentiroso. Segundo minha interpretação, ele encontrou uma desculpa esfarrapada (e põe esfarrapada nisso!) para justificar à amiga a destruição do apartamento dela. No caso do irmão que se assusta com a possível invasão de sua casa, ele deve ter alguns problemas mentais (TOC com certeza ele tem!). A invasão, de acordo com o meu ponto de vista, é muito mais uma paranoia dele do que necessariamente um acontecimento real. E o que dizer, então, dos criadores das mancúspias, hein? Os funcionários que se sujeitam ao trabalho que eles são obrigados a fazer são, por si só, amalucados. As personagens principais desse livro de Cortázar são normalmente figuras solitárias, melancólicas e abaladas por tragédias pessoais. O desequilíbrio mental delas pode ser justificado pelas alucinações, pela imaginação fértil, pelos sonhos, pelo medo desmedido, pela rotina atribulada e pela desconexão com a família e a sociedade. Essa é a típica obra que rende intermináveis discussões por parte de psiquiatras e psicólogos. Juntamente com a ambientação de mistério e suspense, os contos de “Bestiário” têm muito humor, certa pegada de terror e alguns componentes naturalistas. Impossível não soltarmos algumas gargalhadas com o drama do amigo de Andrée e com o amor inconsequente do jovem Mario. Além disso, é assustadora a viagem de ônibus de Clara, são aterrorizantes os problemas enfrentados pelos funcionários na fazenda nos pampas argentinos e é profundamente incômodo o desespero dos irmãos na grande casa solitária. No caso da proximidade com a literatura naturalista, isso fica mais evidente com a animalização das personagens. Em muitos momentos, as narrativas de Julio Cortázar lembram os textos de Jorge Luis Borges (principalmente pelo humor inteligente e sutil) e de Edgar Alan Poe (pela trama sinistra). O que torna a experiência de leitura de “Bestiário” ainda mais rica é a avalanche de elementos simbólicos presentes em suas narrativas. E aí Cortázar é muito versátil. Temos desde passagens bíblicas, mitológicas, existencialistas, oníricas, psicológicas e políticas. As várias possiblidades interpretativas decorrem justamente dos diferentes caminhos simbólicos que os leitores podem seguir. Por exemplo, o primeiro conto, “Casa Tomada”, pode representar a agonia do povo argentino com a ditadura militar (interpretação política), pode significar o surto psicológico do narrador (interpretação psicanalítica – irmãos que vivem juntos, indiferentes à opinião da sociedade) ou pode indicar um drama sobrenatural (interpretação religiosa – proximidade da morte ou manifestação de espíritos). A maioria dos contos de “Bestiário” é narrada em primeira pessoa, mistura os diferentes espaços temporais (passado, presente e futuro), embaralha os vários planos de realidade (mundo objetivo, sonho e imaginação) e apresenta vários neologismos (formicário e mancúspias são dois exemplos). Quando olhamos a união de espaços temporais e de planos da realidade, Cortázar se aproxima muito dos textos de Juan Carlos Onetti. Quando ele cria termos linguísticos, aí fica mais próximo da literatura de Guimarães Rosa. Nota-se, portanto, que já em sua primeira coletânea de contos, Julio Cortázar conseguiu trazer propostas ficcionais muito interessantes e que dialogavam com o que de melhor estava sendo praticado no continente naquela época. O Desafio Literário de Julio Cortázar continuará na semana que vem. Na próxima quinta-feira, 21 de outubro, voltarei ao Bonas Histórias para analisar o terceiro livro do escritor argentino que está contemplado em nosso estudo estilístico desse bimestre. A obra em questão é “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), a segunda coletânea de contos de Cortázar. Esse livro foi publicado em 1956 e é considerado um dos títulos mais influentes do autor. Não perca a discussão sobre “Final do Jogo” e os próximos capítulos do Desafio Literário de outubro e novembro. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Os Reis - A primeira obra de Julio Cortázar a estampar seu nome

    Publicado em 1949, esse poema dramático apresenta a versão pessoal do escritor argentino para o mito da batalha do Minotauro com Teseu. Hoje, começamos efetivamente o terceiro e último Desafio Literário de 2021. Aos desavisados que acabaram de chegar ao Bonas Histórias, comunico com certa pompa: depois de analisarmos a ficção de Orhan Pamuk, em abril e maio, e de destrincharmos os romances de Elena Ferrante, em julho e agosto, vamos agora investigar, ao longo de outubro e novembro, a literatura de Julio Cortázar. O calendário de livros do escritor argentino que serão comentados aqui no blog nas próximas oito semanas foi apresentado no último domingo, dia 3. Confesso que estava há muito tempo ansioso para conhecer com mais profundidade o trabalho de Cortázar. Já tinha estudado alguns dos seus contos na época da Pós-graduação em Formação de Escritores, no Instituto Vera Cruz, mas jamais tinha mergulhado para valer em seus títulos, como farei no estudo desse bimestre. O que posso dizer logo de cara é que Julio Cortázar foi um dos principais contistas do século XX, um dos precursores do Realismo Fantástico e um dos maiores nomes da história da literatura argentina (e, por que não, da literatura em língua espanhola do século passado). Em outras palavras, ele revolucionou a narrativa ficcional, principalmente a curta (contos) e a média (novelas). Por isso mesmo, Cortázar é tão admirado até hoje pelos autores, críticos e teóricos da literatura. E nada melhor do que abrirmos os trabalhos do Desafio Literário com “Os Reis” (Civilização Brasileira), livro considerado por muita gente como o primeiro de Julio Cortázar – algo que não é tão verídico assim como será verificado mais à frente nesse post. Para entender a sua importância e o seu alcance, li “Os Reis” nessa semana. Admito que tive um pouco de dificuldade para achar essa obra nas livrarias brasileiras. Mesmo a edição mais recente, de 2015, não está disponível em todos os pontos de venda do país nem em formato de ebook. No meu caso, precisei recorrer à boa e velha (não tão velha assim!) Estante Virtual. Se você não estiver com tanta pressa para efetuar a leitura, pode encomendar esse título de Cortázar, por exemplo, na Amazon e na Livraria Travessa. Ao menos nesses dois lugares, há a possibilidade de solicitar a publicação mais recente da Editora Record, dona do selo Civilização Brasileira, mesmo se ela estiver indisponível em estoque. Lançado originalmente em 1949, quando Julio Cortázar tinha 35 anos, “Os Reis” é na verdade a segunda (ou seria a terceira, hein?!) obra do autor. A primeira publicação efetiva do argentino é “Presencia” (não editado em português), uma antologia poética que chegou às livrarias onze anos antes de “Os Reis”. A questão que gera tantas polêmicas até hoje está no fato de a coleção de sonetos de 1938 ter saído com o pseudônimo de Julio Denis. Além disso, o livro, que teve baixíssima tiragem (apenas 250 exemplares) e teve sua edição totalmente bancada pelo autor (sim, no início do século XX já tínhamos autopublicação!), foi completamente ignorado pelo público e pela crítica da época. Essa estreia tímida, decepcionante e de certa forma estranha (é difícil imaginar Cortázar produzindo poesia, né?) faz com que os fãs mais fervorosos do autor acabem ignorando essa publicação. Para quem possa estranhar Julio Cortázar (ou seria Julio Denis?!) criando sonetos, é legal dizer que, na época do lançamento de “Presencia”, o jovem escritor era um novato como professor universitário e já desenvolvia seus contos. Sua primeira coletânea de narrativas curtas foi “La Otra Orilla” (não publicado em nosso idioma). As histórias dessa obra foram escritas entre 1937 e 1945 e seriam publicadas por uma pequena editora de Buenos Aires, em fevereiro de 1946. Contudo, na última hora, os editores não quiseram investir no livro e cancelaram o envio do material para as gráficas. “La Otra Orilla” só ganhou uma versão física em 1994, quando Cortázar já tinha falecido. Por essas e outras, é difícil dizer se “Os Reis” foi o primeiro, o segundo ou o terceiro livro de Julio Cortázar. Como quase tudo na vida, essa definição depende do ponto de vista escolhido. Se você considerar as publicações para valer, tinta sobre tinta, papel no papel, “Os Reis” foi a segunda obra de Cortázar (a primazia é de “Presencia”, mesmo que tenha saído com um pseudônimo). Sou adepto dessa versão. Se você considerar os textos enviados para as editoras argentinas, “Os Reis” foi o terceiro título que o escritor desenvolveu (o segundo, nesse caso, seria “La Otra Orilla”, que chegaria para os leitores com um pequeno atraso de quase cinco décadas). Agora, se você olhar para o nome estampado na capa, aí sim podemos enxergar “Os Reis” como a estreia de Julio na literatura comercial. Eu disse literatura?! Para complicar ainda mais esse debate, “Os Reis” é um texto que flerta o tempo inteiro com a dramaturgia. Ai, ai, ai! Mesmo não tendo sido encenada na época do seu lançamento, essa obra tem uma estrutura narrativa que foi desenvolvida para ir para o teatro. Convenhamos: explicar a literatura de Julio Cortázar não é algo nada fácil. De qualquer maneira, o que posso afirmar categoricamente é que “Os Reis” foi publicado em livro, em 1949. Acho que já disse isso, né? E como não poderia ser diferente em se tratando de Cortázar, mesmo que em início de carreira, esse texto possui forte pegada de experimentalismo estético-conceitual. Por isso mesmo, é até difícil defini-lo. “Os Reis” pode ser visto como um poema dramático, uma novela poética, um conto mitológico, uma releitura de um episódio clássico ou uma narrativa curta que mistura literatura, teatro e mitologia grega. A definição do que esse título é depende, mais uma vez, do ponto de vista de cada leitor. Particularmente, gosto de vê-lo como uma mistureba de conto/novela (literatura) e teatro. Para quem deseja algo mais palpável/palatável (esse papinho de prosa dramática, novela teatral e conto mitológico não está com nada), diria que “Os Reis” traz uma variação da história clássica do Minotauro, monstro com a cabeça de touro e o corpo de homem. A criatura vivia presa em um labirinto que fora construído por Minos, rei de Creta. Para aplacar a fúria do bichano, os gregos tinham que enviar periodicamente sete rapazes e sete moças virgens para o labirinto, onde acabavam invariavelmente devorados pelo bichano que lá morava. Para acabar com essa sina de uma vez por todas, Teseu, príncipe de Atenas, entrou no labirinto para matar o Minotauro. Nessa complicada missão, ele foi ajudado por Ariadne, filha de Minos. Segundo a mitologia grega, Ariadne se apaixonou por Teseu durante a emboscada à criatura meio homem, meio touro. Porém, de acordo com a versão de Cortázar em “Os Reis”, esse episódio não foi bem assim... No texto do argentino, Ariadne teria se apaixonado pelo Minotauro e não por Teseu. E a moça fingiria ajudar Teseu com o intuito de permitir que o Minotauro conseguisse fugir tanto do labirinto quanto dos instintos assassinos do príncipe ateniense. Curiosamente, apesar da mudança de parte importante do enredo, o desfecho da trama é parecido, o que potencializa os significados das cenas assistidas. Vale a pena dizer que no final dos anos 1940, quando “Os Reis” foi publicado, Julio Cortázar já tinha abandonado o magistério e as viagens pelo interior da Argentina. Logo após se formar em Letras, ele fora enviado pelo governo para dar aulas em escolas e, mais tarde, em universidades longe da capital. Ao compreender que não queria levar aquele tipo de vida, Cortázar fixou novamente residência em Buenos Aires e passou a trabalhar como tradutor (ofício que levaria para toda a vida) na Câmara Argentina do Livro. Além disso, ele escrevia, desde 1946, contos para as principais revistas literárias da Argentina. Foi nesse período justamente que ele se tornou próximo de Jorge Luis Borges, então diretor do periódico Anales de Buenos Aires. Juro que fico imaginando uma reunião de trabalho entre esses dois monstros da literatura universal. O fato é que quando “Os Reis” foi lançado na Argentina, a fama de Julio Cortázar, isso é se ele já tinha algum renome nesse momento, era restrito ao círculo de literatos portenhos. Talvez isso explique o enorme silêncio da crítica literária da época e o desinteresse quase total do público leitor naquela ocasião em relação a “Os Reis”. Ou seja, esse livro acompanhou o fracasso comercial que “Presencia” teve onze anos antes. Até esse momento da história, podemos dizer que Cortázar era um escritor ainda pouco lido e, como consequência, desconhecido nas livrarias de seu país. Em contraponto a essa situação delicada para um autor ficcional iniciante, Julio conseguia ser publicado com relativo êxito nas revistas literárias da Capital Federal. Pelo menos ali, ele era muito requisitado pelos editores, que reconheciam seu talento para a produção das narrativas curtas. É legal dizer que a recriação do mito do Minotauro não era, no final dos anos 1940, uma novidade na literatura argentina. Dois anos antes da publicação de “Os Reis”, Jorge Luis Borges tinha explorado essa temática no conto “La Casa de Asterión”. Teria Cortázar copiado o colega mais velho ou sido incentivado a apresentar sua versão própria para o episódio clássico do labirinto de Creta?! Não é possível afirmar nada a esse respeito. O que sabemos é que ambos os escritores se debruçaram algumas vezes sobre a questão do drama labiríntico dali para frente. Apesar da fraquíssima repercussão de “Os Reis”, a história desse livro foi transformada mais tarde em ópera pelo francês Phillipe Fénelon, compositor especializado em adaptar tramas ficcionais para os palcos. Além de musicar Cortázar, Fénelon recriou obras de Miguel de Cervantes, Franz Kafka, Gustave Flaubert, Nikolaus Lenau, entre outros. A versão cênico-musical de “Os Reis” se chamou “Les Rois” e foi apresentada ao público pela primeira vez em 2004, no Opéra National de Bordeaux. No Brasil, “Os Reis” foi publicado pela Civilização Brasileira pela primeira vez em 2001. Em 2015, o livro ganhou um projeto gráfico mais moderno e foi readequado ao Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Foi justamente essa segunda edição que li nessa semana. Em ambas as publicações, a tradução para nosso idioma foi desenvolvida por Ari Roitman e Paulina Wacht. A dupla é atualmente os principais tradutores de Mario Vargas Llosa e de Julio Cortázar no Brasil. Sempre trabalhando em conjunto, Roitman e Wacht traduziram, além de “Os Reis”, outros seis títulos de Cortázar, todos pela Civilização Brasileira: “Final do Jogo”, “Último Round”, “A Volta ao Dia em 80 Mundos”, “A Fascinação das Palavras”, “Um Tal Lucas” e “Papeis Inesperados”. Dessas obras, iremos comentar aqui no Desafio Literário de Cortázar apenas “Final do Jogo”. O enredo de “Os Reis” está dividido em cinco cenas. Na primeira, Minos, rei de Creta, e Ariadne, sua filha, conversam à porta do labirinto do Minotauro. Enquanto o monarca explicita a monstruosidade daquela criatura meio homem meio touro e justifica o aprisionamento do bichano (uma questão de segurança pública e com desdobramentos geopolíticos), a princesa defende o meio-irmão (sim, o Minotauro é meio-irmão da moça!). Ariadne enaltece o quão triste e solitário deve ser a vida no interior da construção. Na segunda cena, Teseu, príncipe de Atenas, anuncia a Minos que entrará no labirinto junto com os outros 13 conterrâneos enviados como oferenda ao Minotauro. Teseu quer matar o monstro, que já provocou tantas mortes e tristezas para os atenienses. Preocupado com essa possibilidade, o rei de Creta faz uma proposta tentadora para o herói. A terceira passagem do livro é um monólogo curtinho de Ariadne. Preocupada com o irmão que tanto ama, ela entrega um novelo para Teseu no momento em que ele entra no labirinto. Ao invés das linhas servirem para o ateniense retornar para o lado de fora da construção depois do combate com o Minotauro, o plano da princesa de Creta é outro. Ela imagina que o monstro irá devorar Teseu e, a partir do caminho deixado pelo novelo, poderá enfim ganhar a liberdade. A quarta e penúltima cena é o combate fatal travado entre Teseu e o Minotauro no labirinto de Creta. E a quinta e última cena é o diálogo derradeiro do Minotauro com o Citarista. “Os Reis” é um livro curtinho. Ele tem apenas 80 páginas. Além das cinco cenas, a obra ainda traz um belo prefácio de Ari Roitman. O tamanho dessa publicação é de um conto (ou, sendo um pouco condescendente com os conceitos da classificação das narrativas ficcionais, de uma novela mais breve). É possível ler “Os Reis” em aproximadamente uma hora, uma hora e meia no máximo. Foi mais ou menos esse o tempo que levei para concluir minha leitura na última quarta-feira à noite. Praticamente fui da primeira à última página do livro em um fôlego só. Quem tem aversão às obras mais volumosas, saiba que Julio Cortázar é tradicionalmente um autor de títulos enxutos. Portanto, não teremos, no Desafio Literário de outubro e novembro, uma coletânea de publicações do tipo tijolão como vimos nos estudos de Orhan Pamuk e Elena Ferrante. As exceções aqui (que confirmam a regra) são “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), de 432 páginas, e “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), de 592 páginas. Mesmo entre os livros mais fininhos de Cortázar, “Os Reis” se destaca – é o campeão dos campeões. Ele é o livro com menos páginas que vamos analisar do autor argentino nesse bimestre. Para você ter uma ideia, o segundo colocado no ranking da magreza é “Bestiário” (Civilização Brasileira), com 144 páginas, quase o dobro do volume da obra que estamos comentando hoje. Coincidentemente, “Bestiário” será o próximo título de Julio Cortázar que vamos estudar no Bonas Histórias. Porém, isso é papo para a próxima semana. Calma, ainda temos muito o que falar sobre “Os Reis”. Voltando a falar especificamente de “Os Reis”, esse livro apresenta algumas das características que marcariam a literatura do escritor argentino. Temos aqui, por exemplo, um texto com entrelaçamento de temas (é quase um novelo narrativo), acentuado lirismo (prosa poética), forte carga simbólica e pegada extremamente existencialista. Por outro lado, “Os Reis” é uma publicação muito formal e comportada. Portanto, essa obra está muito distante das invencionices linguísticas e das maluquices imaginativas que Julio Cortázar promoveria em sua ficção poucos anos depois. Em outras palavras, “Os Reis” se assemelha a “Presencia”. Podemos dizer que esses dois títulos integram a fase mais quadradona da literatura do argentino. Até esse instante, não tínhamos um Cortázar revolucionário e inclinado a derrubar as paredes das narrativas ficcionais. Alguns elementos são marcantes em “Os Reis”. O primeiro deles é a linguagem rebuscada. Julio Cortázar utiliza um linguajar erudito para (re)criar a ambientação da trama mitológica. Ou você imaginava que os heróis, as heroínas, os deuses e as deusas da Antiga Grécia falavam de qualquer jeito uns com os outros ou usavam a linguagem popular no dia a dia, hein? Sabe de nada, inocente! Apesar de normalmente não gostar do uso de palavras e de construções textuais complicadas, acho que nessa obra esse recurso combinou bem. Ao menos a linguagem rebuscada caiu como uma luva para o enredo histórico composto por personagens mitológicas. Pensando em emular ao máximo o clima da Grécia Antiga, o autor argentino optou por construir seu texto como se fosse uma peça teatral. Novamente, temos aqui outro acerto de Cortázar. Por mais que não pensasse em encenar sua história nos palcos (até porque essa narrativa é muito curta para viabilizar um espetáculo), ele queria se aproximar ao máximo do universo clássico. E não há nenhuma manifestação artística que tenha mais a cara dos antigos gregos do que o teatro, né? Outra questão perceptível é a forte musicalidade desse texto. A prosa poética de “Os Reis” é muito bonita e contagiante. Leia algumas páginas em voz alta para notar essa característica. Mesmo sendo uma tradução, a versão em português do livro manteve o lirismo e boa parte da musicalidade da edição original em espanhol. Nesse caso, os méritos são dos tradutores nacionais. É preciso reconhecer: Ari Roitman e Paulina Wacht fizeram um trabalho espetacular e merecem nossos elogios. Também temos várias citações mitológicas durante a narrativa de “Os Reis”. As referências aos episódios, às personagens, às localidades e às situações da Grécia Antiga são tanto diretas quanto indiretas. Por isso, é necessário certo repertório por parte do leitor. Se você não souber nada ou quase nada do mito do Minotauro, por exemplo, na certa ficará boiando durante essa leitura. O texto de Julio Cortázar não é autoexplicativo. A exigência de conhecimento prévio da Mitologia Grega e a linguagem erudita fazem de “Os Reis” um livro com uma leitura bastante difícil. Portanto, não espere moleza nas páginas dessa publicação. Confesso que precisei ler mais de uma vez alguns trechos para entender o que estava acontecendo em cena e o que os protagonistas estavam dizendo. O ponto alto desse título de Cortázar está na pegada existencialista de sua história. Os diálogos de “Os Reis” e os dramas dos protagonistas suscitam vários questionamentos de alto nível: o que é liberdade e o que é aprisionamento?; o que é mais cruel – deixar o monstro morrer de fome ou alimentá-lo com vidas humanas?; qual a outra alternativa que o rei de Creta teria a não ser construir o labirinto que abrigou o Minotauro?; até onde a monstruosidade de alguém se dá pela forma como ele é tratado?; e quem é o verdadeiro herói e quem é o legítimo vilão dessa trama? É legal reparar que nessa reconstrução mitológica, Julio Cortázar escancara os dramas da existência humana e inverte a lógica dos papéis desempenhados pelas personagens clássicas. O herói tradicional é agora retratado como vilão e o vilão de outrora é dessa vez apresentado como herói. O que permitiu essa mudança foi a promoção de um novo ponto de vista. Assim, não subestime o enredo de “Os Reis”. Ele pode ser curtinho e ter poucas personagens (cinco apenas), mas é uma narrativa profunda e emblemática. Para os leitores mais conservadores que possam ter ficado chocados com os desejos incestuosos de Ariadne e do Minotauro, aviso desde já que a Mitologia Grega não é o lugar ideal para as suas leituras. As tramas envolvendo os deuses do Olimpo e os heróis da Península do Peloponeso são recheadas de passagens polêmicas e apimentadas. Parte da graça dessas tramas está justamente no choque moral provocado pelas atitudes das personagens clássicas. Nesse sentido, a irmã se apaixonar pelo irmão não é o maior dos pecados encontrados no universo mitológico. Diria até se tratar de algo leve. Apesar de ser uma leitura difícil (e põe difícil nisso!), gostei de “Os Reis”. Esse é o tipo de livro que exige uma leitura minuciosa e ativa por parte dos leitores. Não estranhe se ao concluir a obra, você quiser relê-la. Isso aconteceu comigo. Minha sensação é que tinha perdido muita coisa na primeira leitura – e realmente a segunda foi bastante reveladora! Como já mencionado, na sexta-feira, dia 15, o Desafio Literário partirá para a análise de “Bestiário” (Civilização Brasileira), o segundo livro de Julio Cortázar que merece nossa atenção nesse bimestre. Publicado em 1951, dois anos depois de “Os Reis”, “Bestiário” se tornou, ao longo do tempo, um dos trabalhos mais famosos do escritor argentino. Essa coletânea de contos ganhou tanta importância porque ela marcou a estreia efetiva do autor nas narrativas curtas (lembremos que “La Otra Orilla” não tinha sido lançado até então), gênero narrativo em que Cortázar se transformaria em referência mundial. Além disso, “Bestiário” é nada mais nada menos do que a primeira obra de Julio Cortázar a mergulhar no Realismo Fantástico. Ou seja, esse é um título emblemático que vale a pena ser conhecido. Por essas e outras, não perca as próximas etapas do estudo da literatura de Cortázar. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: 62 Modelo para Armar - O terceiro romance de Julio Cortázar

    Publicada em 1968, essa narrativa longa do escritor argentino nasceu de um capítulo de O Jogo da Amarelinha. Julio Cortázar ficou mundialmente conhecido pela sua produção de contos. Contudo, o escritor argentino também concebeu romances. Curiosamente, seu livro mais famoso não é uma coletânea de narrativas curtas e sim uma narrativa longa – “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), obra-prima da literatura argentina e da ficção em língua espanhola. Esse título é, inclusive, considerado por muita gente como um dos mais importantes do século XX. O que poucas pessoas sabem é que “O Jogo da Amarelinha” acabou gerando uma extensão. A partir de trechos aparentemente despretensiosos de seu livro mais celebrado, Cortázar desenvolveu “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira). E é justamente essa obra, o terceiro romance do autor, que vamos analisar hoje no Bonas Histórias. Para quem está acompanhando o Desafio Literário de Julio Cortázar, informo que “62 Modelo para Armar” é o oitavo e último título do argentino que discutimos nesse bimestre. É importante dizer que Julio Cortázar publicou em vida quatro romances: “Os Prêmios” (Civilização Brasileira) em 1960, “O Jogo da Amarelinha” em 1963, “62 Modelo para Armar” em 1968 e “Livro de Manuel” (Nova Fronteira) em 1973. Após sua morte em fevereiro de 1984, foram editadas mais duas narrativas longas: “Divertimento” (Civilização Brasileira), escrito em 1949 e publicado em 1986, e “O Exame Final” (Civilização Brasileira), produzido em 1950 e lançado nas livrarias argentinas em 1986. Ou seja, Cortázar tem em seu portfólio literário seis romances (e onze coletâneas de contos e microcontos, além de incontáveis ensaios, três antologias poéticas, quatro peças teatrais e muitas, muitas traduções). Publicado em 1968, “62 Modelo para Armar” foi lançado dois anos depois do excelente “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), a melhor coletânea de contos de Julio Cortázar, e cinco anos após “O Jogo da Amarelinha”, best-seller quase que instantâneo que alçou o nome do argentino para a primeira prateleira dos autores contemporâneos. Essa contextualização é importante para entendermos muitas das características narrativas de “62 Modelo para Armar”. Vivendo o auge artístico e um raro período de reconhecimento público (após três décadas de certa obscuridade como escritor comercial), Cortázar resolveu intensificar nesse romance as experimentações literárias iniciadas em 1962 com “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller) e estendidas depois em “O Jogo da Amarelinha” e “Todos os Fogos o Fogo”. O resultado é um tanto polêmico. Há quem veja “62 Modelo para Armar” (e “O Jogo da Amarelinha”) como um exemplo concreto da genialidade de Julio Cortázar, capaz de desconstruir boa parte das estruturas narrativas que molda até hoje as bases da ficção literária. Para outras pessoas, esse livro (a décima publicação autoral do escritor) não passa de mais um experimentalismo de Cortázar, que sempre gostou de chocar os leitores e a crítica literária com textos caóticos, herméticos e amalucados. Confesso que fiquei inclinado a concordar mais com o segundo grupo. Até hoje, admito um tanto envergonhado: não consigo enxergar nem mesmo “O Jogo da Amarelinha” como uma obra tão espetacular assim – o que direi, então, de “62 Modelo para Armar”, hein!? Não atirem pedras, por favor! Na minha humilde visão, Julio Cortázar tem livros muito melhores do que esses. Posso citar “Os Prêmios” (exemplar dos romances) e “Todos os Fogos o Fogo” (para incluir as produções de contos). Esses títulos são sim verdadeiramente espetaculares. Ao mesmo tempo em que possuem narrativas ousadas e diferentes, eles têm textos palatáveis e com significados claros. Essas últimas características (textos palatáveis e com significados claros), infelizmente, não podem ser ditas de “O Jogo da Amarelinha” nem de “62 Modelo para Armar”. Em meio às maluquices narrativas propostas por Cortázar, ambas as produções perdem força e sentido (gerando mais confusão do que admiração). Como adiantei, “62 Modelo para Armar” nasceu basicamente de um capítulo do romance “O Jogo da Amarelinha”. Qual capítulo seria esse?! Como o próprio nome do novo livro indica, o capítulo referencial é o 62. Nesse trecho do best-seller de Julio Cortázar, Morelli, personagem ficcional que é um escritor admirado por Horacio Oliveira (o protagonista) e por seus amigos intelectuais (integrantes de um grupo chamado de Clube da Serpente), faz reflexões existencialistas. A ideia de Morelli era canalizar suas concepções filosóficas em um livro que apresentasse, através de uma trama ficcional, as condutas sociais. Essas condutas representariam a teoria química do pensamento formulada por um psicólogo sueco. Assim, seria possível explicar a existência de um tipo de interação natural que age como uma bola de bilhar em meio à sociedade humana. A partir dessa dinâmica, os indivíduos padeceriam sem saber os motivos. Seus sofrimentos pessoais e seus dramas sentimentais só seriam mais tarde compreendidos e esclarecidos. Apesar do conceito de Modelo para Armar ser apresentado com mais detalhes no capítulo 62 do “O Jogo da Amarelinha”, é importante destacar que as primeiras referências a Morelli, à sua concepção existencialista e à ideia de um livro que abordasse tais questões surgem bem no começo da obra-prima de Julio Cortázar. Já no capítulo 4 de “O Jogo da Amarelinha”, temos uma clara menção ao tal Modelo para Armar. Nesse trecho inicial do romance, assistimos aos primeiros encontros de Lucía (chamada carinhosamente de Maga) e Horacio Oliveira. Nesse momento da trama, Maga fala ao novo namorado sobre as amigas de Montevidéu e conta sobre a existência de um filho pequeno, Carlos Francisco (chamado de Rocamadour). Por sua vez, Oliveira apresenta a moça para os amigos do Clube da Serpente. Em uma das primeiras visitas de Maga ao clube de intelectuais do namorado, o grupo fala da literatura de Morelli, um autor que todos admiram. Em seu livro mais ambicioso, Morelli desejava construir uma trama que fosse uma bola de cristal onde o microcosmo e o macrocosmo se unissem em uma visão aniquiladora. Ao ver que Maga não estava entendendo muita coisa do que eles explanavam, Etienne, um dos melhores amigos de Horacio Oliveira, diz para a moça: “Impossível explicar (o que seria o livro de Morelli). Isso é um jogo de armar, o Meccano número 7, e você mal chegou ao 2”. De certa forma, “62 Modelo para Armar” é o livro que Cortázar disse que sua personagem iria escrever. Em se tratando de metalinguagem literária e da construção de um universo ficcional mais amplo e interativo, essa proposta editorial é maravilhosa. Se você analisar à fundo o novo romance de Julio Cortázar irá perceber que seu enredo faz jus às promessas de Morelli. O problema, no caso, é que Morelli é um intelectual excêntrico e muito chegado às divagações filosóficas. Em outras palavras, “62 Modelo para Armar” acaba refletindo essas características (para desespero da maioria dos leitores!). É legal dizer que “62 Modelo para Armar” foi publicado originalmente na Argentina pela Editorial Sudamericana, editora em que Cortázar trabalhava como autor ficcional e tradutor. Após o sucesso estrondoso de “O Jogo da Amarelinha”, que se transformou em pouquíssimo tempo em uma obra aclamada pela crítica e pelos leitores nacionais e internacionais, os editores da Sudamericana não seriam loucos de recusar um novo lançamento de Julio Cortázar. Eles já tinham feito algo desse tipo com “Histórias de Cronópios e de Famas” seis anos antes. Essa coletânea de contos (na verdade, coleção de microcontos) acabou saindo pela Editorial Minotauro, então uma pequena e jovem editora de Buenos Aires. Nesse período, vale a explicação, Cortázar era um escritor de pouquíssima vendagem. Agora o panorama tinha mudado completamente. Por pior que fossem os novos textos do autor e por mais amalucadas que fossem suas novas narrativas, Cortázar era, depois de “O Jogo da Amarelinha” um artista admirado pelos críticos e muitíssimo requisitado pelo público. A partir da segunda metade dos anos 1960, Julio viveu o que chamo de “Efeito Jack Kerouac” – qualquer texto que fizesse ou fosse descoberto em suas gavetas seria lançado com estardalhaço independentemente da qualidade. Obviamente, o que chamo de “Efeito Jack Kerouac” tem relação com a trajetória de Jack Kerouac após o sucesso de “On The Road – Pé na Estrada” (L&PM Editores). Se pensarmos bem, “O Jogo da Amarelinha” é talvez uma obra tão supervalorizada quanto “On The Road – Pé na Estrada”, se bem que Julio Cortázar foi um escritor cem vezes melhor do que Jack Kerouac. No Brasil, “62 Modelo para Armar” é publicado em português desde o início da década de 1970 pela Civilização Brasileira, então uma editora independente, hoje um selo da Editora Record. A profissional responsável pela adaptação do texto de Cortázar para nosso idioma foi Gloria Rodríguez, uma das principais tradutoras nacionais da literatura espanhola e do portfólio de Julio Cortázar. Das obras do argentino, Rodríguez traduziu, além de “62 Modelo para Armar”, “Os Prêmios”, “Histórias de Cronópios e de Famas” e “Todos os Fogos o Fogo”. O enredo de “62 Modelo para Armar” começa em Paris em uma véspera de Natal. Na noite de 24 de dezembro, Juan, um tradutor argentino que vive na França há algum tempo, vai sozinho ao restaurante Polidor. Logo depois de fazer o pedido, de abrir um livro de Michel Butor recém-adquirido e de beber os primeiros goles de um Sylvaner, ele ouve um cliente gordo em uma mesa próxima pedir um Castelo Sangrento. A coincidência entre o nome do prato do menu e as lembranças da condessa leva Juan a um intenso processo reflexivo. A partir daí a história do romance se divide em três. Cada parte da trama é ambientada em uma cidade europeia e enfoca um grupo de amigos de Juan, além do próprio protagonista. Juan está agora em Viena. Ele viajou à trabalho – atua como intérprete e tradutor em uma organização supranacional. Para não ficar sozinho na capital austríaca, ele levou Tell, sua amante dinamarquesa. A moça o acompanha na maioria das viagens internacionais. Contudo, Tell não demonstra amar verdadeiramente Juan. Por sua vez, Juan é apaixonado por Hélène, uma jovem francesa que trabalha como anestesista e que parece não dar muita bola para ele. Para passar as horas em Viena de um jeito diferente, Juan e Tell brincam de espiões. Eles seguem os passos de Frau Marta, uma senhora austríaca que está hospedada em um hotel no centro da cidade. Para inquietação e curiosidade do casal que veio da França, Frau Marta tem, às vezes, a companhia de uma jovem turista inglesa. Quem é apaixonada por Juan é Nicole. Nicole trabalha como ilustradora e namora Marrast, um conceituado escultor francês. O casal está passando uma temporada em Londres ao lado da inseparável dupla de amigos argentinos Calac e Polanca. Enquanto Nicole pinta gnomos, Marrast organiza a compra de pedras de oleado para uma escultura que foi encomendada por uma prefeitura francesa. Contudo, a atenção de Marrast parece recair mesmo para um quadro que ele viu no Courtauld Institute. A pintura o deixou perturbado. Nem mesmo o amor platônico de Nicole por Juan e as obrigações profissionais (ele nem sequer começou a fazer a escultara encomendada) consegue tirar Marrast do sério como o quadro exposto no museu londrino. Calac e Polanca, por sua vez, passam os dias brigando um com o outro, passeando furtivamente pela capital inglesa e fazendo amizades. O novo amigo da dupla é Austin, um alaudista inglês que já integrou o grupo dos Neuróticos Anônimos. Quem viaja à Londres para se integrar ao grupo é Osvaldo, chamado por todos de “meu paredro” (seja lá o que isso queira dizer!). Em Paris, ficaram, do grupo de amigos, apenas Hélène, que continua trabalhando no hospital normalmente, Célia, uma estudante menor de idade que decidiu sair de casa, e Feuille Morte, talvez a personagem mais misteriosa do livro (ou aquela que menos aparece na trama), além de Curro, o atendente do café em que o grupo frequentava antes de se dissipar pela Europa. Para ajudar a amiga mais jovem, Hélène aceita hospedar Célia em seu apartamento, apesar do tamanho diminuto da residência e do jeito folgado da adolescente. Tudo para a menina não ficar sem um teto nem desamparada pela cidade. Li “62 Modelo para Armar” na última segunda-feira. Levei pouco mais de nove horas para concluir integralmente essa leitura no feriado de 15 de novembro – Salve a República! Precisei de três sessões (uma de manhã, outra à tarde e mais uma à noite) para percorrer as 256 páginas da publicação. Confesso que padeci menos para ler “62 Modelo para Armar” do que sofri para chegar ao final de “O Jogo da Amarelinha”. Apesar de ser mais parado do que o romance anterior de Julio Cortázar (sim, isso é possível!), essa obra é menor (tem quase um terço do tamanho da outra). Assim, ela não cansa tanto – cheguei extenuado ao final de “O Jogo da Amarelinha” ao ponto de querer matar Cortázar (isso é, se ele ainda estivesse vivo). Isso não quer dizer que “62 Modelo para Armar” seja uma leitura fácil ou tranquila (só disse que não cheguei extenuado ao seu final – o que para mim já é um milagre em se tratando de romances de Julio Cortázar). O que torna tudo complicado é que o livro não tem qualquer separação em partes ou em capítulos. O romance vem em um texto corrido. Além disso, as várias linhas narrativas (foco narrativo, tempo narrativo e espaço narrativo, por exemplo) vem embaralhadas. Muitas vezes, as mudanças de narrador (sim, temos vários narradores simultâneos!), de trama (são pelo menos três enredos distintos que se integram de alguma forma), de espaço (são basicamente três lugares) e de tempo (não há determinação de quando as coisas acontecem) se dão de uma frase à outra no meio do parágrafo. É, amigo(a), quer moleza, então vá comer gelatina. Com Cortázar, não temos uma simples leitura recreativa. Quem leu “Todos os Fogos o Fogo”, coletânea de contos de Julio Cortázar publicada dois anos antes, entenderá os recursos narrativos utilizados pelo autor nessa obra aqui. É como se “62 Modelo para Armar” usasse as invencionices dos contos “Senhorita Cora” e “Todos os Fogos o Fogo” (conto homônimo que emprestou seu nome ao título da coleção). Nessas narrativas curtas, vale a pena lembrar, Cortázar muda o narrador no meio das frases (gerando uma polifonia de vozes) e apresenta simultaneamente duas tramas que ocorrem em espaços e épocas diferentes (integrando-as pelas semelhanças de cenas e de sentimentos das personagens). Apesar da proposta ousada, o resultado é espetacular nos contos – “Todos os Fogos o Fogo” é para mim o melhor livro de Julio Cortázar ao lado de “Os Prêmios”. Agora, fazer essas mesmas estripulias em um romance com mais de 200 páginas me pareceu loucura. O resultado é obviamente questionável – eu sou categórico em dizer que não gostei. Outra questão que torna difícil a leitura de “62 Modelo para Armar” é a ausência de um conflito mais evidente. Afinal, o que as várias personagens dessa obra querem?! É difícil apontar. A frustração sentimental parece ser o único elemento que integra as diferentes narrativas e as várias figuras retratadas pelo romance. Se tivesse que resumir esse livro em uma linha só, diria: “Nicole ama Juan que ama Hélène que não ama ninguém”. Não é preciso ser um gênio da literatura para relacionar esse enredo à dinâmica de “Quadrilha”, o famoso poema de Carlos Drummond de Andrade. No caso de uma comparação mais musical, contemporânea e popularesca (na esteira das homenagens à Marília Mendonça), essa publicação de Cortázar poderia usar o refrão de “Todo Mundo Vai Sofrer”: “Quem eu quero, não me quer/Quem me quer, não vou querer/Ninguém vai sofrer sozinho/Todo mundo vai sofrer”. Outras três características que potencializam a dificuldade do texto desse romance de Julio Cortázar são: a narrativa lenta, a mistura de diferentes planos da realidade e as longas partes reflexivas. A lentidão da narrativa se dá principalmente pela descrição de cenas banais do cotidiano (uma marca da literatura de Cortázar). Acompanhamos, por exemplo, uma refeição em um restaurante chique, uma mulher andando pelas estações do metrô parisiense, um casal bisbilhotando uma senhora por pura curiosidade, um artista analisando um quadro em um museu... Isso por várias, várias e várias (eu disse VÁRIAS!!!) páginas. Juntamente com o retrato do dia a dia das personagens, temos uma mistureba de vários planos: realidade, sonhos, imaginação, lembranças, frustrações amorosas e desejos íntimos dos protagonistas, passagens literárias e recortes jornalísticos. Tudo isso vem junto e nem um pouco misturado. Para completar, temos longos trechos de reflexões filosóficas. Lembremos que essas características vêm em um texto (como já disse) sem qualquer divisão formal e com vários narradores diferentes (que se alternam de uma linha para outra; e tornam o relato simultaneamente em primeira pessoa e em terceira pessoa). É curiosa a junção dessa overdose de elementos ortodoxos. A mistura de “62 Modelo para Armar” é completada (calma, ainda não acabaram as maluquices!) pelo uso de vários idiomas. Além do espanhol (na obra original), esse livro tem passagens em francês e em inglês – algo que já tínhamos visto em “O Jogo da Amarelinha”. Respeitando a versão original do romance, Gloria Rodríguez não traduziu para o português os trechos que não estavam em espanhol. Assim, o leitor que não domina o francês e o inglês terá dificuldade para acompanhar alguns diálogos e certas reflexões das personagens. Diferentemente do que possa parecer, não são apenas pedras no meio do caminho o que encontramos em “62 Modelo para Armar”. Esse livro tem alguns elementos interessantes, dignos de elogios. Gostei muito dos neologismos criados por Julio Cortázar (coitada da tradutora!). Note que o escritor voltou a usar o glíglico, sua própria língua. As discussões travadas entre Calac e Polaco (uma espécie de versão portenha de Dupond e Dupont, célebre dupla de “Aventuras de Tintim”, clássico de Hergé) são hilárias. Os xingamentos dos amigos argentinos são feitos no idioma cortaziano. Por falar em humor, temos na maior parte do tempo uma pegada tragicômica. Outra questão curiosa desse livro está nas diferentes maneiras de Cortázar em expressar os diálogos. No que se refere ao discurso das personagens do romance, há de tudo em “62 Modelo para Armar”. Nas partes mais ousadas, assistimos às conversas em que não é discriminado objetivamente quem diz o quê nem há os recursos convencionais do discurso (entre aspas ou travessão, por exemplo). A sinalização da mudança do falante é feita, nesse momento, por uma barra (/). Incrível! Por fim, temos uma obra com pitadas de Surrealismo e de Existencialismo. Entretanto, elas vêm em doses menores do que as encontradas em “Os Prêmios” (narrativa profundamente surreal) e “O Jogo da Amarelinha” (trama com enorme carga existencial), os dois romances anteriores do autor. Gostei disso. Às vezes, acho que Cortázar exagera nas doses, tornando seus textos quase que indecifráveis. O que senti falta foi dos elementos de Realismo Fantástico. Esse livro quase não tem componentes mágicos. Em suma, não gostei muito de “62 Modelo para Armar”. Na minha visão, as maluquices de Julio Cortázar são facas de dois gumes. Ou elas encantam e mexem positivamente com os leitores, como em “Os Prêmios” e “Todos os Fogos o Fogo”, ou atordoam os leitores e geram muitos dissabores, como em “Histórias de Cronópios e de Famas” e “O Jogo da Amarelinha”. No caso de “62 Modelo para Armar”, acho que essa obra fica, infelizmente, mais perto do segundo grupo. Para encerrar o Desafio Literário desse bimestre, farei a análise completa da literatura de Julio Cortázar no dia 29 (segunda-feira da outra semana). Isso só será possível porque comentei previamente oito livros do autor argentino – “Os Reis” (Civilização Brasileira), “Bestiário” (Civilização Brasileira), “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), “Os Prêmios”, “Histórias de Cronópios e de Famas”, “O Jogo da Amarelinha”, “Todos os Fogos o Fogo” e “62 Modelo para Armar”. Todos esses posts estão disponíveis no Bonas Histórias. Com isso, me sinto preparado para agora discorrer sobre o estilo narrativo, as características das principais obras e as escolhas artísticas de Cortázar. Portanto, não perca o próximo post com o panorama aprofundado do portfólio desse escritor polêmico e ousado. Nossa publicação do dia 29 será a última peça do Desafio Literário de Julio Cortázar. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Todos os Fogos o Fogo - A quinta coletânea de contos de Julio Cortázar

    Publicada em 1966, essa obra foi a primeira publicação de Cortázar após ele ter se tornado um best-seller internacional. Na semana passada, li “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), uma das principais coleções de narrativas curtas de Julio Cortázar. Esse é o sétimo (e penúltimo) livro do autor argentino que analisaremos no Desafio Literário desse bimestre. Para quem ainda não está familiarizado(a) com a coluna do Bonas Histórias que investiga o estilo narrativo das principais figuras da literatura nacional e internacional, aviso que Cortázar é o terceiro escritor que estamos estudando nessa temporada do Desafio Literário. Em 2021, já debatemos a ficção de Orhan Pamuk, turco vencedor do Nobel de Literatura de 2006, e os romances de Elena Ferrante, italiana que é uma best-seller mundial. “Todos os Fogos o Fogo” foi a primeira obra lançada por Cortázar após o sucesso estrondoso de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), visto até hoje como sua obra-prima. Publicado pela Editorial Sudamericana em 1966, três anos depois do aclamado romance, “Todos os Fogos o Fogo” é a quinta coletânea de contos do autor e seu nono título no geral. Esse livro possui oito histórias que estão entre os clássicos da literatura argentina e da literatura em língua espanhola. Para muita gente (estou nesse grupo!), temos aqui um dos melhores trabalhos autorais de Julio Cortázar. Produzida na fase de maturidade artística do escritor argentino e em um período em que ele recebeu grande reconhecimento do público e da crítica, essa obra voltou a explorar o Realismo Fantástico. Vale a pena dizer que os últimos títulos de Cortázar estavam caminhando mais para as tramas existencialistas – “Os Prêmios” (Civilização Brasileira) e “O Jogo da Amarelinha” são os melhores exemplos dessa linha mais filosófica – e/ou acabaram promovendo algumas experimentações narrativas insólitas – “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller) e “O Jogo da Amarelinha” encabeçam essa listagem mais disruptiva. Ou seja, “Todos os Fogos o Fogo” dialoga mais com as produções do autor que foram lançadas na década de 1950 – como “Bestiários” (Civilização Brasileira), “Final do Jogo” (Civilização Brasileira) e “As Armas Secretas” (Best Seller) – do que com os livros publicados na primeira metade dos anos 1960. Confesso que gostei dessa volta às origens. É impossível discutirmos a ficção de Julio Cortázar e não comentarmos seu mergulho no Realismo Mágico (outra denominação do Realismo Fantástico). Nesse sentido, “Todos os Fogos o Fogo” tem papel de destaque. Apesar de “Bestiários” e “Final do Jogo” serem coletâneas de contos famosas e possuírem algumas das histórias mais prestigiadas do autor, é inegável que elas foram produzidas em uma fase em que Cortázar não havia atingido a plenitude literária. Só compreendemos essa questão quando lemos atentamente “Todos os Fogos o Fogo”, esse sim um livro com uma riqueza narrativa marcante e uma complexidade estética digna de um dos grandes escritores do século XX. Se as primeiras coleções de contos de Julio Cortázar eram boas (ou muito boas!), essa aqui é excelente. No Brasil, “Todos os Fogos o Fogo” vem sendo publicado pela Civilização Brasileira (então editora independente, hoje um selo da Editora Record) desde o finalzinho da década de 1960, período em que a literatura de Cortázar se tornou uma febre mundial. A adaptação dessa obra para o português foi feita por Gloria Rodríguez, uma das principais tradutoras de espanhol do nosso país. Além desse livro, Rodríguez traduziu outros títulos de Julio Cortázar, como “Os Prêmios”, “Histórias de Cronópios e de Famas” e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira). Esse último título, por sinal, será o próximo que vamos analisar no Desafio Literário de Cortázar (algo que comentaremos mais à frente nesse post). Li a edição brasileira de “Todos os Fogos o Fogo” que foi lançada, em maio de 2011, pela editora Best Seller. Além de trazer uma versão mais atual (com o texto segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa – algo que não existia quando as edições mais antigas foram publicadas), esse livro integra a Seleção Vira-Vira do selo BestBolso. O mais interessante dessa coleção é que ela traz publicações com dois títulos de determinado escritor em uma só obra – cada história (romance ou coletânea de contos) vem em um lado (daí o nome da série – Vira-Vira). Em tempos de recessão econômica e de inflação lá nas alturas, esse expediente editorial é uma ótima ideia. A obra que veio junto com “Todos os Fogos o Fogo” nessa edição da Best Seller/BestBolso foi “As Armas Secretas”, coleção de narrativas curtas de Julio Cortázar lançada em 1959. Os oito contos de “Todos os Fogos o Fogo” são: (1) “A Autoestrada do Sul”; (2) “A Saúde dos Doentes”; (3) “Reunião”; (4) “Senhorita Cora”; (5) “A Ilha ao Meio-dia”; (6) “Instruções a John Howell”; (7) “Todos os Fogos o Fogo”; e (8) “O Outro Céu”. Em “A Autoestrada do Sul”, a narrativa que abre essa coletânea de Cortázar, assistimos a um colossal engarrafamento na estrada que vai de Corbeil à Paris. Em um domingo quente de agosto, os carros param de andar e os motoristas precisam encarar por dias os boatos sobre o motivo do fechamento da pista. O que teria acontecido? E, o que é ainda pior, como os viajantes irão sobreviver inertes na beira da estrada? “A Saúde dos Doentes” apresenta o drama de uma família de Buenos Aires. Dr. Bonifaz alertou os parentes da mãe de Carlos que ela estava em situação clínica delicada e que não podia receber más notícias. Por isso, as irmãs, os tios e os amigos de Carlos precisam omitir a morte de Alejandro, o filho querido da paciente. A família inventa que o rapaz se mudou à trabalho para o Recife. A mentira vai se tornando cada vez mais sofisticada. Com o adoecimento de Clélia, tia de Carlos e irmã da senhora doente, a fábrica de invencionices do clã se torna ainda mais complicada. “Reunião”, o terceiro conto de “Todos os Fogos o Fogo”, se passa em meio à guerra civil de um país latino-americano. Depois de cinco dias vagando pelo mar, o grupo de seis revolucionários socialistas desembarca em uma região pantanosa. A missão deles é surpreender o exército constitucional e chegar ao alto de uma serra, onde os companheiros de revolução estariam aguardando. Contudo, o pequeno grupo de guerrilheiros está doente, desorientado e faminto. O medo e o desânimo são gerais. Em “Senhorita Cora”, Pablo, um garoto de 15 anos, precisa ser internado por causa de uma apendicite. No Hospital, ele fica sob os cuidados de Cora, uma jovem e atraente enfermeira. Não é preciso dizer que o menino irá cair de amores pela moça, apesar da vergonha que sente pela exposição excessiva que precisa se sujeitar aos olhos da enfermeira. “A Ilha ao Meio-dia” revela uma bizarra mania de Marini, o comissário de bordo da linha Roma-Teerã. Ele sente uma curiosidade enorme e uma atração desmedida pela ilha grega de Xiros. Por causa disso, Marini para tudo o que está fazendo, para indignação dos colegas e dos passageiros, sempre que o avião em que trabalha sobrevoa Xiros. A admiração pela ilha é maior do que suas responsabilidades profissionais. “Instruções a John Howell” é a sexta história do livro. Rice vai ao teatro Aldwych em Londres para assistir a uma peça teatral. No intervalo entre o primeiro e o segundo atos, ele é chamado por um homem de terno cinza para visitar os bastidores da produção cênica. Na retaguarda do teatro, Rice é inquerido a subir no palco e interpretar o papel de John Howell. “Todos os Fogos o Fogo”, a trama que empresta seu nome ao título da coleção, se passa em uma província do Império Romano. O procônsul da localidade organiza uma batalha de gladiadores. No centro da arena, Marco enfrenta um guerreiro núbio. Enquanto isso, Roland, em sua residência, recebe o telefonema de Jeanne. Ela diz que Sônia acabou de sair e que irá visitá-lo naquela noite. Em “O Outro Céu”, um corretor da bolsa gosta de vagar à noite pelo centro e pelo sul de Paris. Seu bairro favorito é Pasaje Güemes. Essa localidade traz lembranças de quando ele se encontrava com Josiane, a prostituta que era sua amante no período em que a França estava ocupada pelos nazistas. Apesar de ter uma noiva, Irma, o protagonista gostava mesmo era dos encontros noturnos e dos passeios boêmios com Josiane. Naquela época, a grande preocupação dos moradores e dos frequentadores do Pasaje Güeme era uma série de assassinatos praticados nas redondezas. O criminoso foi apelidado pela imprensa e pelos parisienses de Laurant, o estrangulador. O livro “Todos os Fogos o Fogo” possui 160 páginas (a obra possui outras 160 páginas com as histórias de “As Armas Secretas” – lembremos que esse é um título da Coleção Vira-Vira da Editora Best Seller e do selo BestBolso). Levei pouco mais de três horas e meia para concluir integralmente a leitura de “Todos os Fogos o Fogo” na última quarta-feira à noite. Li a coletânea em duas sessões – fiz um intervalinho entre as narrativas. Se você tiver bom fôlego literário, saiba que é possível ler esse livro em uma tacada só. O primeiro elemento que chamou minha atenção nessa publicação foi a qualidade das narrativas de “Todos os Fogos o Fogo”. Não tenho receio de dizer que esse é um dos melhores títulos de Julio Cortázar que li até agora no Desafio Literário. Se considerarmos exclusivamente as coletâneas de contos do autor argentino, digo sem medo de parecer exagerado que esse livro é o meu favorito. Quando enfocamos todas as obras de seu portfólio, minha preferência ainda recai para o romance “Os Prêmios”. Depois de “Os Prêmios”, aí sim aparece “Todos os Fogos o Fogo” como a ficção cortaziana que mais gostei. Diferentemente das tramas amalucadas de “Histórias de Cronópios e de Famas” e da estrutura caótica de “O Jogo da Amarelinha”, que causam mais confusão do que admiração, temos em “Todos os Fogos o Fogo” contos que prezam pela qualidade da narrativa em si. Dessa forma, Cortázar deixa um pouco de lado suas invencionices estéticas e foca na contação das histórias. E elas são ótimas. “A Autoestrada do Sul” e “A Saúde dos Doentes” são espetaculares. Esses contos estão entre os melhores que li na minha vida. Durante a leitura dessas narrativas, entendemos o porquê Julio Cortázar é reconhecido como um dos principais contistas do século XX. “Instruções a John Howell”, “Todos os Fogos o Fogo” e “O Outro Céu” são também ótimas tramas e merecem rasgados elogios. O maior mérito dos contos de “Todos os Fogos o Fogo” está na capacidade de Julio Cortázar em transformar cenas banais do dia a dia em acontecimentos fantásticos, surreais e/ou grandiosos. Acompanhamos, assim, o congestionamento na estrada durante a volta de um final de semana, as mentiras de uma família comum, a internação hospitalar de um menino, a ida ao teatro, o recebimento de um telefonema, a viagem de avião, a ação guerrilheira na mata tropical, as andanças noturnas de um rapaz pelo centro da cidade. Porém, o cotidiano tranquilo e normal parece sair do controle em algum momento, o que desencadeia os dramas estrambólicos de Cortázar. Tão legais quanto as histórias em si de “Todos os Fogos o Fogo” são os desfechos das narrativas desse livro. A maioria dos desenlaces dos contos de Julio Cortázar embaralham ainda mais a noção de realidade, uma marca estilística do autor. Ou seja, não apenas as narrativas têm fortes componentes de Realismo Fantástico como seus desfechos adquirem também certo tom amalucado, surrealista e mágico. Sem dúvida nenhuma, Cortázar vence as batalhas com os leitores por nocaute. Essa característica é mais acentuada nessa publicação do que nas coletâneas de contos anteriores. E nos permite compreender perfeitamente um dos mais famosos conceitos da produção literária do escritor argentino. De acordo com suas palavras, “o romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute”. Obviamente, Julio Cortázar comparou, nessa frase célebre, os gêneros narrativos com a dinâmica do boxe, seu esporte favorito. O que seria exatamente essa mistura de planos citada no início do parágrafo anterior, hein? Os contos de “Todos os Fogos o Fogo” embaralham a realidade com a ficção, o sonho com a vida concreta, a verdade com a mentira, o universo imaginativo com o mundo real e as lembranças com os acontecimentos factuais. Grande parte da graça das narrativas desse livro está justamente nessa brincadeira metafísica proposta por Julio Cortázar. E pensar que Mark Zuckerberg tem se achado o empresário inovador ao vislumbrar, décadas e décadas depois de Cortázar, as possibilidades do metaverso (nada mais do que uma variação de planos da realidade, algo que o Realismo Fantástico já fazia há muito tempo). Juntamente com a mistureba de planos da realidade, temos em “Todos os Fogos o Fogo” algumas invencionices narrativas. Aí alguém pode reclamar comigo: “Mas você não disse que essa obra não tinha grandes maluquices na narrativa em si?! O que eu disse há alguns parágrafos foi: “... Cortázar deixa um pouco de lado suas invencionices estéticas (nessa publicação) e foca na contação das histórias”. Repare no termo “um pouco” na minha frase destacada. O que eu quis dizer é que há sim invencionices que mexem com as estruturas da narrativa ficcional (elementos que são pouco vistos na literatura comercial), mas eles não são preponderantes (as histórias dos contos acabam se destacando). Quer alguns exemplos dessa prática?! As melhores narrativas com as invencionices que fazem jus à fama de Julio Cortázar como um autor extremamente inovador e polêmico são “Senhorita Cora” e “Todos os Fogos o Fogo” (estou me referindo agora ao conto e não à publicação como um todo). Na quarta trama dessa coletânea, o escritor argentino muda o narrador no meio das frases. Por um acaso você já tinha visto isso?! Confesso que eu nunca tinha. Assim, Pablo, sua mãe, Cora (a enfermeira) e Marcial (o anestesista e namorado de Cora) se revezam no relato de “Senhorita Cora”. E essa polifonia de vozes narrativas é potencializada pela falta de uma divisão clara de quem fala o quê (cabe ao leitor identificar o autor das palavras). No sétimo e penúltimo conto do livro, assistimos a duas tramas que ocorrem em espaços e épocas diferentes. Contudo, elas são passadas para o leitor simultaneamente. A mudança de histórias acontece, em “Todos os Fogos o Fogo”, de uma frase para outra, no meio do parágrafo, sem qualquer indicação formal. Incrível! Mais uma vez, cabe aos leitores a delimitação do que faz parte de uma história e o que faz parte da outra (e o que integra ambas as tramas). Outras características marcantes desse livro são a junção de humor e violência e a variedade de espaços e tempos narrativos. O lado cômico dos contos dessa publicação se dá principalmente pelo uso da ironia e da tragicomédia. Em relação à violência, acompanhamos tramas com guerras, assédios, acidentes (queda de avião, incêndio), agressões físicas, suicídios, duelos de gladiadores, assassinatos. De alguma maneira, o bom humor ajuda a minimizar a ambientação pesada. Por fim, as histórias de “Todos os Fogos o Fogo” se passam em locais variados (Argentina, França, Grécia, Itália...) e em épocas distintas (Antiguidade, Segunda Guerra Mundial, década de 1950). Esse último elemento, eu não tinha notado com tanta ênfase nas coletâneas de contos anteriores do autor (que se passavam quase sempre na Argentina e na França e no tempo presente em que foram produzidas). Gostei muito de “Todos os Fogos o Fogo”. Acredito que as inovações promovidas por Julio Cortázar não podem ser o prato principal servido em uma publicação. Os leitores devem sim ser impactados pelas narrativas do autor argentino, mas não podem ficar confusos nem entediados. Além disso, os componentes disruptivos das narrativas não devem nunca chamar mais a atenção do que a história em si. Cito esses problemas porque os encontrei em alguns livros anteriores de Cortázar. Por exemplo, “Histórias de Cronópios e de Famas” e “O Jogo da Amarelinha” são leituras complicadas exatamente por isso. Já “Todos os Fogos o Fogo” consegue ser uma publicação interessante e ao mesmo tempo instigante (sem confundir os leitores nem entediá-los). Como adiantei no início desse post, o Desafio Literário de Julio Cortázar continuará no próximo sábado, dia 20. Nessa data, analisaremos o oitavo e último livro de Cortázar de nossa lista desse bimestre. A obra que será comentada no Bonas Histórias é “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira), o terceiro romance do argentino. Publicado em 1968, “62 Modelo para Armar” chegou às livrarias dois anos depois de “Todos os Fogos o Fogo”. Não perca as novas etapas do Desafio Literário de 2021. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: O Jogo da Amarelinha - A obra-prima de Julio Cortázar

    Publicado em 1963, esse romance de Cortázar é considerado um dos títulos mais importantes e inovadores da língua espanhola e da literatura latino-americana. Hoje, falaremos no Bonas Histórias de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), o livro mais famoso de Julio Cortázar. Essa obra é considerada uma das mais importantes da literatura em língua espanhola no século XX e da ficção latino-americana em todos os tempos. Para termos uma ideia de sua representatividade, “O Jogo da Amarelinha” rivaliza com “Ficções”, coletânea de contos de Jorge Luis Borges, como o maior estandarte da literatura argentina no século passado. Quando olhamos para as produções continentais ao longo da história, esse romance de Cortázar pode ser comparado a “Cem Anos de Solidão” (Record), de Gabriel García Márquez, e a “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Martin Claret), de Machado de Assis. Ou seja, estamos falando aqui de um clássico universal, de um cânone da literatura mundial! “O Jogo da Amarelinha” serviu como um divisor de águas na carreira de Julio Cortázar. Até o lançamento desse título, o escritor argentino era famoso por seus contos fantásticos publicados nas revistas literárias, mas não havia obtido ainda um grande sucesso junto ao grande público. Ele era mais festejado pelos críticos literários e pelos colegas de profissão do que pelos leitores. Em outras palavras, Cortázar era, até esse momento, um autor com vendas quase que inexpressivas nas livrarias de seu país. Essa realidade mudou completamente com a publicação de “O Jogo da Amarelinha”. Com esse romance, Julio Cortázar se tornou imediatamente best-seller tanto na Argentina quanto na América Latina e na Espanha. Enfim, o mercado editorial reconhecia seu talento e suas inovações estéticas. Em pouco tempo, seus trabalhos começaram a ser traduzidos e lançados nos Estados Unidos, na Europa e no restante do planeta. Surgia, assim, um dos nomes mais relevantes da literatura mundial do século XX. Aos leitores do Bonas Histórias que estão acompanhando o Desafio Literário de Julio Cortázar, relembro que esse é o sexto livro do autor que analisamos nesse bimestre. As obras de Cortázar que já foram estudadas no blog são: “Os Reis” (Civilização Brasileira), peça teatral, “Bestiário” (Civilização Brasileira), coleção de contos, “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), coletânea de narrativas curtas, “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), romance, e “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), conjunto de microcontos. Ainda nesse mês, comentaremos “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), outra coletânea de contos, e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira), uma narrativa longa. E para encerrarmos o Desafio Literário desse bimestre em grande estilo, faremos a análise completa da literatura de Julio Cortázar em um post específico no finalzinho de novembro. Publicado em julho de 1963 na Argentina, “O Jogo da Amarelinha” levou quase quatro anos para ser desenvolvido. Cortázar começou a trabalhar na ideia do romance em dezembro de 1958. Naquele momento, o nome provisório da obra era “Mandala”. Em agosto de 1961, Julio Cortázar concluiu o que chamou de primeira versão do livro. A partir daí, o escritor se concentrou nas revisões e nas melhorias da narrativa. O texto final só ficou pronto em maio de 1962. Foi nesse momento em que “O Jogo da Amarelinha” ganhou seu título definitivo – “Rayuela” em espanhol. Até ser lançado, ainda foi preciso esperar mais de um ano até a obra ganhar a versão impressa. O romance foi publicado pela Editorial Sudamericana, a editora de Buenos Aires em que Cortázar trabalhava como tradutor e autor. Mesmo morando na França desde 1951, ele mantinha forte vínculo com a empresa portenha. É interessante notar que o escritor argentino não tinha certeza, até o último instante, se a Editorial Sudamericana iria querer lançar “O Jogo da Amarelinha”. Afinal, esse livro possuía/possui características bem peculiares e, de certa maneira, tinha/tem pouco (pouquíssimo!!!) apelo comercial. Cortázar considerava seu texto como ilegível (se era ilegível para ele, imagine para os leitores, hein?!) e definiu esse romance como sendo um antirromance (ia contra as convenções desse gênero literário). Realmente, ele tinha razão em sua autoavaliação. Essa obra possui uma narrativa com múltiplos ângulos, dois caminhos de leitura possíveis, trama fracionada ao meio, história sem um conflito definido (sujeito melancólico que fica zanzando por Paris e por Buenos Aires procurando algo que nem mesmo ele sabe o que é), diálogos existencialistas, linguagem única (explorando a oralidade e brincando com experimentações linguísticas como erros propositais, o desenvolvimento de neologismos e a criação da língua glíglica), cenas com pouca ação, passagens com forte simbolismo, debates filosóficos e intelectualizados e, por fim, partes avulsas ao texto principal (quase como capítulos independentes à obra central). É amigo, o trem aqui não é nada fácil. Mesmo sabendo da dificuldade para viabilizar comercialmente um livro tão original e reacionário como “O Jogo da Amarelinha”, Julio Cortázar trabalhou por anos em sua produção textual. Nem mesmo o fracasso em vendas e as pesadas críticas que recebeu por “Histórias de Cronópios e de Famas” – lançado um ano antes por outra editora (a Editorial Minotauro), pois sua editora tradicional (a Editorial Sudamericana) não achou nem um pouco interessantes os contos dessa coleção – abalou a convicção de Cortázar no tipo de literatura que estava desenvolvendo. Ele sabia que estava criando um clássico desconcertante. Em cartas da época, o escritor afirmava ter ido ao limite de sua criatividade. Apesar da estrutura pouco convencional e da leitura extremamente difícil (que exige bastante do leitor!), Julio Cortázar tinha certeza de que estava concebendo uma obra-prima. Mais surpreendente do que a confiança inabalável do escritor em seu trabalho ficcional (depois de tanto tempo sendo ignorado pelo público e sendo achincalhado pela crítica, qualquer um iria se questionar e duvidar de suas propostas estilísticas, né?) foi a repercussão positiva de “O Jogo da Amarelinha”. Contrariando todas as previsões (até mesmo as mais otimistas), a crítica literária e (acredite!) os leitores se derreteram em elogios à obra. Em poucos meses, o livro se tornou best-seller nas livrarias argentinas e foi publicado com grande êxito em outros países de língua espanhola. Não demorou para o romance de Cortázar ser traduzido para os principais idiomas e chegar aos leitores da América do Norte, Europa e Ásia. Nascia, dessa maneira, o mito por trás da figura de Julio Cortázar e de seu título caótico. A versão original de “O Jogo da Amarelinha” tem na capa a ilustração de Julio Silva, desenhista e pintor argentino que era amigo de Cortázar. O desenho de Silva foi feito a partir de fotografias enviadas pelo autor, que tentava em vão representar visualmente a grafia em giz do jogo da amarelinha feita pelas crianças nas ruas de Buenos Aires. O que o escritor não conseguia através da fotografia, o desenhista conseguiu sintetizar em uma ilustração. O resultado visual da capa de “O Jogo da Amarelinha” (versão argentina de 1963) é espetacular. Para mim, esse é um dos projetos gráficos mais felizes da história da literatura. Na capa totalmente preta, a ilustração em branco/cinza claro (depois foi lançada uma edição com o desenho em amarelo) de Julio Silva é impactante e, ao mesmo tempo, simboliza as brincadeiras narrativas propostas pelo texto de Julio Cortázar. É uma pena que o visual da capa argentina não tenha inspirado a maioria dos livros de “O Jogo da Amarelinha” que foi lançada nos demais países. Em várias edições internacionais da obra, não temos sequer as linhas da brincadeira infantil que inspirou o título do romance nas capas. No Brasil, a única capa que segue mais ou menos a concepção original é uma versão da Civilização Brasileira da década de 1980. Repare que usei a expressão “mais ou menos” na frase anterior – não há o brilhantismo e a sofisticação do projeto gráfico da Editorial Sudamericana. Por falar em nosso país, os leitores brasileiros ficaram muitos anos sem uma edição nova de “O Jogo da Amarelinha”. Em meados da década passada, por exemplo, era bastante complicado conseguir um exemplar do clássico de Cortázar entre o Oiapoque e o Chuí. Sem publicações recentes nas livrarias nacionais, o único caminho era recorrer aos sebos para achar edições das décadas de 1960, 1970 e 1980. Como a demanda era invariavelmente maior do que a oferta, muitas vezes só era possível comprar um exemplar por valores na casa dos três dígitos (um absurdo em se tratando de edições tão antigas). Por causa dessa dificuldade, muitos leitores acabavam recorrendo às versões em espanhol. Lembro que quando morei em Buenos Aires, namorava cada exemplar desse título que encontrava nas livrarias e nos cafés (que também vendiam revistas e livros) portenhos. O problema da falta de uma nova edição brasileira de “O Jogo da Amarelinha” terminou em junho de 2019. A Companhia das Letras lançou uma nova edição do romance e abasteceu as livrarias nacionais com milhares de exemplares novinhos em folha (nunca a expressão “novinhos em folha” caiu tão bem quanto agora). A tradução do espanhol para o português foi feita dessa vez por Eric Nepomuceno, jornalista, escritor e tradutor com grande experiência no ofício. As principais traduções de Nepomuceno para nosso idioma foram de obras de autores sul-americanos: Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez e Juan Carlos Onetti. A capa da novíssima edição brasileira de “O Jogo da Amarelinha” é bem colorida e bonita, mas está longe, muito longe de ser tão impactante quanto a original. Para quem acha impossível desenvolver um design gráfico inteligente, atraente e criativo depois de uma peça brilhante, sugiro procurar a edição comemorativa de 50 anos de “O Jogo da Amarelinha” que foi lançada pela Alfaguara da Espanha. Nessa versão publicada em janeiro de 2013, temos uma capa tão maravilhosa quanto a primeira. Na nova edição espanhola, o próprio nome do livro (Rayuela) está grafado de um jeito que emula o desenho da brincadeira infantil. A capa está simplesmente maravilhosa!!! Se pensarmos bem, ela é tão genial quanto a primeira (a da Editorial Sudamericana). Dá até vontade de comprar a edição da Alfaguara só por causa de seu visual inteligente e original. O enredo de “O Jogo da Amarelinha” está dividido em três partes (e possui 155 capítulos): “Do Lado de Lá” (36 capítulos), “Do Lado de Cá” (20 capítulos) e “De Outros Lados” (99 capítulos). De modo geral, o correto é encarar esse livro como tendo dois enredos distintos – o enredo 1 é “Do Lado de Lá” (trama se passa em Paris) e o enredo 2 é “Do Lado de Cá” (narrativa acontece em Buenos Aires). O próprio Cortázar disse que esse romance é duplo, pois contém duas histórias. Ao mesmo tempo em que dialogam entre si, elas também podem ser lidas independentemente. A parte 3, “De Outros Lados”, não contém um enredo propriamente dito. Nesses capítulos, recebemos textos avulsos com a recuperação de cenas da seção inicial, flashes com o desfecho da parte 2, o detalhamento de personagens apresentadas anteriormente, divagações existencialistas, literárias e metafísicas, reflexões do autor e de seu alter ego (Morelli) e crônicas sobre as mais diferentes temáticas. Curiosamente, Julio Cortázar chamou a última parte de “capítulos prescindíveis” – como se fosse fácil deixar de ler os textos derradeiros de um romance! Na mais recente versão brasileira de “O Jogo da Amarelinha”, temos ainda a Introdução escrita por Cortázar (chamada de “Tabuleiro de Leitura”) e um amplo e completo Posfácio (essa parte apresenta as cartas enviadas pelo escritor argentino em que ele discute sua obra e as análises desse livro feitas por figuras de destaque da literatura brasileira e internacional). Em “Tabuleiro de Leitura”, texto que abre o livro, Julio Cortázar explica que seu romance tem dois caminhos possíveis de leitura: o convencional, em que os leitores seguem os capítulos em ordem numérica – 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11... 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154 e 155); e o alternativo/ortodoxo, em que os leitores seguem a ordem de capítulos apontada pelo autor – 73, 1, 2, 116, 3, 84, 4, 71, 5, 81, 74, 6, 7, 8, 93, 68, 9, 104, 10, 65, 11, 136, 12, 106, 13, 115, 14, 114, 117, 15, 120, 16, 137, 17, 97, 18, 153, 19, 90, 20, 126, 21, 79, 22, 62, 23, 124, 128, 24, 134, 25, 141, 60, 26, 109, 27, 28, 130, 151, 52, 143, 100, 76, 101, 144, 92, 103, 108, 64, 155, 123, 145, 122, 112, 154, 85, 150, 95, 146, 29, 107, 113, 30, 57, 70, 147, 31, 32, 132, 61, 33, 67, 83, 142, 34, 87, 105, 96, 94, 91, 82, 99, 35, 121, 36, 37, 98, 38, 39, 86, 78, 40, 59, 41, 148, 42, 75, 43, 125, 44, 102, 45, 80, 46, 47, 100, 48, 111, 49, 118, 50, 119, 51, 69, 52, 89, 53, 66, 149, 54, 129, 139, 133, 140, 138, 127, 56, 135, 63, 88, 72, 77, 131, 58 e 131). Essa dupla experiência de leitura é a primeira brincadeira proposta por Cortázar. Confesso que fui pelo caminho mais trivial – leitura convencional (capítulos ordenados). Contudo, no meio do livro já tinha me arrependido da escolha feita. Minha interrogação era: será que o outro trajeto seria menos caótico, hein?! Admito que sofri bastante durante essa leitura. “O Jogo da Amarelinha” é um romance extremamente difícil e exigente. Sinceramente não sei se na outra opção as coisas são mais fáceis para o leitor. Porém, a dúvida me deixou com a vontade de reler a obra pelo outro caminho. Só não fiz isso agora porque ainda tenho mais dois livros de Julio Cortázar para serem analisados no Desafio Literário (eita desculpinha esfarrapada que caiu como uma luva aqui, né?). Em relação ao Posfácio, essa edição de “O Jogo da Amarelinha” tem quatro partes/subpartes. A primeira é “A História de O Jogo da Amarelinha nas Cartas de Julio Cortázar”. Como o próprio título da seção/subseção informa, aqui acompanhamos as trocas de cartas do autor com amigos. O tema das correspondências do argentino é obviamente a produção, a publicação e a receptividade de seu romance mais famoso. As outras partes/subpartes do Posfácio são “O Jogo da Amarelinha – Haroldo de Campos”, “A Atualidade de O Jogo da Amarelinha – Julio Ortega” e “O Trompete de Deyá – Mario Vargas Llosa”. Nesses textos acompanhamos, respectivamente, as análises do livro feitas por Haroldo de Campos, Julio Ortega e Mario Vargas Llosa, três figuras que dispensam apresentações. O mais legal é que as análises do trio de autores são bem completas e complementares. Essa última parte do livro possui quase 60 páginas. Incrível! Falando sobre o enredo propriamente dito de “O Jogo da Amarelinha”, vamos detalhar agora as duas histórias do romance (ou seria só uma narrativa que se passa em dois lugares e em dois momentos distintos?!). No “Lado de Lá”, assistimos ao dia a dia de Horacio Oliveira, um intelectual argentino, em Paris. O lá do título dessa parte 1 do livro é, portanto, a Europa. Quarentão e exilado na França há alguns anos, Oliveira leva uma vida à toa. Sem um emprego fixo e sem uma família para cuidar, o protagonista do romance tem uma rotina aparentemente tranquila em algum momento dos anos 1950 (não há a precisão da data em que a trama se desenrola). Ele passa as horas fumando, bebendo, caminhando pela cidade, divagando sobre questões existencialistas e flertando com algumas mulheres que o atraem. No fundo, Oliveira procura algo que nem mesmo ele sabe o que é. Horacio Oliveira tem um grupo de amigos chamado de Clube da Serpente. Formado por intelectuais de vários países, os integrantes do Clube da Serpente se reúnem frequentemente para beber, se divertir e debater assuntos ao melhor estilo papo-cabeça. Entrar em suas discussões ou acompanhar essas conversas é mergulhar em diálogos com altíssima carga literária, artística e filosófica. Nesse momento do livro, precisamos nos lembrar da famosa frase do “Guia do Mochileiro das Galáxias” (Arqueiro), clássico da ficção científica de Douglas Adans: não se desespere! Apesar de namorar a uruguaia Lucía, a quem chama de Maga e com quem divide um apartamento em Paris, Horacio Oliveira tem uma amante, Pola. A relação do casal Oliveira-Maga é do tipo aberta e não parece estar ancorada no amor sincero e intenso. Lucía não se preocupa muito com as puladas de cerca do namorado. Sua atenção está concentrada na criação do filho, o pequeno Rocamadour. Sim, Maga é mãe solteira. E Horacio não deseja assumir de forma nenhuma a posição de pai do bebê nem de marido de Lucía. Ele parece se incomodar profundamente com a atenção que a companheira dedica a criança e com os choros do guri. Em contraponto, Oliveira parece ver com naturalidade as investidas do amigo Ossip Gregorovius a Lucía. A cada dia, Gregorovius se mostra mais atraído pela namorada do colega do Clube da Serpente. Dessa forma, o triângulo amoroso está em vias de se transformar em um quadrado/retângulo ou mesmo em se duplicar (virar dois triângulos amorosos – Maga/Oliveira/Pola e Oliveira/Maga/ Gregorovius). Pelo menos é nessa possibilidade que a personagem principal da narrativa cogita, o que o deixa um tanto amargurado. Enquanto acompanha as investidas amorosas de Gregorovius, Horacio Oliveira se inquieta com a situação político-social da Argentina. Mesmo tendo abandonado o país sul-americano há anos, ele não deixa de se preocupar e de se indignar com as escolhas de seus conterrâneos. Em uma brincadeira que o próprio protagonista faz, é como se ele conseguisse deixar a Argentina, mas a Argentina jamais o deixaria. No “Lado de Cá”, acompanhamos o retorno de Horacio Oliveira para Buenos Aires. Assim, o cá do título dessa segunda parte do romance é evidentemente a Argentina. Nessa nova etapa de vida, Oliveira tenta superar a tragédia ocorrida em Paris, o que decretou o fim de seu relacionamento com Maga e o retorno da dupla aos países de origem. Na terra natal, a personagem principal de “O Jogo da Amarelinha” reencontra um amigo de juventude, Manuel Traveler. Casado com Atalía Donosi de Traveler, cujo apelido é Talita, e trabalhando ao lado da esposa em um circo, Traveler recebe o velho conhecido de braços abertos. Querendo ajudar Horacio ao máximo, Manuel Traveler emprega o recém-chegado no circo e o indica para morar na casa ao lado da sua. A grande proximidade com o casal Traveler tem um efeito colateral: Oliveira se apaixona por Talita. Ou ele acredita se apaixonar por ela por enxergar algumas semelhanças da moça com Maga. Inicia-se, a partir daí, um novo drama. O que Oliveira deve fazer, hein? Deve investir naquele sentimento que brota um tanto confuso em seu coração ou deve zelar pela velha amizade com Manuel? Por mais paradoxal que possa parecer, os Traveler compreendem as inquietações do amigo/vizinho/colega e esperam pacientemente a decisão de Horacio. O que ninguém poderia imaginar é que o momento em que ele fosse agir seria o pior possível, além de desencadear consequências novamente trágicas. Como já comentei, “De Outros Lados”, a terceira e última parte do romance, não possui um enredo definido. Nessa seção, os capítulos do livro se tornam ainda mais caóticos. O texto varia da continuação da trama de Horacio Oliveira em Buenos Aires a novas cenas dele em Paris. Além disso, Julio Cortázar não economiza na inserção de textos reflexivos e independentes. Assim, acompanhamos as divagações da personagem central e de alguns coadjuvantes (como Morelli, figura que aparece rapidamente em um capítulo da parte 1) e as crônicas literárias, filosóficas e políticas. Curiosamente, essa parte sem um enredo fixo é a segunda mais volumosa do livro (a maior é a primeira parte). Ela se estende por quase um terço da obra – são quase 200 páginas. “O Jogo da Amarelinha” tem 592 páginas. Esse romance de Cortázar é, portanto, um tijolão. Levei três dias (sexta-feira, sábado e domingo) e aproximadamente 18 horas ao todo (6 horas de leitura por dia) para percorrer seu conteúdo de cabo a rabo. E confesso que sofri muito (e põe muito nisso!!!) durante o processo. O livro não é nada fácil e em muitos momentos se torna até enfadonho. Minha dificuldade maior ficou no começo (até entender as maluquices propostas pelo autor – romance com um enredo sem linearidade e sem um conflito aparente) e, principalmente, na última parte (com capítulos avulsos e desconexos). Por tudo isso, se você for ler essa obra, o que posso desejar para você é CORAGEM!!! O que torna a leitura de “O Jogo da Amarelinha” tão difícil é um conjunto vasto de fatores. É até complicado de listarmos todos eles. Para começo de conversa, temos uma mistura de fluxo de consciência com cenas banais do dia a dia. O fluxo de consciência engloba: os sentimentos, as preocupações, os sonhos mais íntimos, as divagações, as críticas político-sociais e as reflexões filosóficas de Horacio Oliveira e de algumas das principais personagens do livro. Por sua vez, as cenas do cotidiano mostram as conversas de amigos nos cafés, as intrigas amorosas, o caminhar pelas ruas de Paris e de Buenos Aires e as discussões psicanalíticas do Clube da Serpente. Com isso, a sensação é que a história não caminha tão rapidamente. Por falar nas cenas desse livro, é importante destacar que elas possuem normalmente forte valor simbólico. Mais importante do que está acontecendo de fato nas páginas da obra é o que representa cada ação e cada diálogo. Se por um lado o romance ganha em profundidade e em riqueza com esse recurso, por outro a narrativa se torna pesada, subjetiva e lenta. A impressão é que estamos lendo uma parábola. Nesse caso, “O Jogo da Amarelinha” lembra muito as obras de Albert Camus (cuja temática girava em torno da revolta, do absurdo, do suicídio, da loucura) e de Jean-Paul Sartre (que discutiam a razão, a lógica das ações humanas, a liberdade, a procura por um sentido para nossa existência e as angústias do homem). Por falar nisso, esse romance de Julio Cortázar também me recordou as narrativas beats de Jack Kerouac (principalmente pelo fato de o protagonista viver bebendo, fumando, se drogando, farreando com os amigos, fazendo sexo e/ou flertando com várias mulheres e de não cogitar ter um trabalho regular em Paris) e os textos mais famosos de Milan Kundera (intrigas amorosas com viés existencialista e tramas ambientadas em cenários de forte instabilidade política). Do ponto de vista estrutural, a semelhança é com “Memórias Sentimentais de João Miramar”, livro mais importante de Oswald de Andrade. Por tudo isso, “O Jogo da Amarelinha” é radicalmente diferente de “Os Prêmios”, o romance anterior de Cortázar. Enquanto “Os Prêmios” tem uma pegada maior de Surrealismo e de Realismo Fantástico, “O Jogo da Amarelinha” pode ser descrito mais como um livro voltado para o Existencialismo e com uma narrativa reflexiva. A semelhança entre ambas as obras é a forte crítica social e política que está misturada à trama ficcional. Juntamente com os diálogos e os textos existencialistas, “O Jogo da Amarelinha” tem pesada intertextualidade literária, musical, cinematográfica e filosófica. A sensação é de estarmos acompanhando as conversas de um bando de intelectuais pedantes. Assim, me senti como Maga, que precisava perguntar o tempo inteiro sobre o que seu namorado e os integrantes do Clube da Serpente estavam se referindo. No meu caso, como não poderia perguntar diretamente para eles, acabei recorrendo a incontáveis pesquisas no Google para entender os termos, as expressões e as citações feitas pelo grupo de amigos de Oliveira. Não à toa, a personagem com a qual mais me identifiquei nesse livro foi justamente Lucía. Outra característica que torna a leitura de “O Jogo da Amarelinha” tão difícil é a mistura de textos na primeira pessoa (com relatos de mais de uma personagem) e na terceira pessoa. Assim, o leitor precisa estar atento o tempo inteiro para compreender quem está se pronunciando e sobre qual tema está sendo comentado naquele momento. Além disso, como temos vários planos narrativos diferentes (Horacio Oliveira em Paris, Horacio Oliveira em Buenos Aires, manifestações de Morelli, textos aparentemente avulsos), há a necessidade constante de ver onde cada peça do quebra-cabeça se encaixa. Aproveitando esse gancho, um dos elementos mais marcantes desse romance é a sua estrutura caótica. Julio Cortázar construiu um livro propositadamente anárquico. Adianto que se o leitor conseguir, ao final da leitura, encaixar a maior parte das peças do quebra-cabeça e enxergar o panorama narrativo construído pelo autor (em sua totalidade ou em uma parte substancial), ele irá se deparar com uma obra realmente espetacular. Aí está justamente a magia e a beleza desconcertante de “O Jogo da Amarelinha”. Por trás de uma história fragmentada e de textos aparentemente soltos, temos uma trama sublime e de grande riqueza. O complicado é descortinar isso, uma brincadeira que o escritor argentino deixou para os leitores mais corajosos. Fazendo jus a uma marca célebre do estilo de Julio Cortázar, essa narrativa é muito bem-humorada. Para conseguir provocar nosso riso, o autor usa a ironia, leva suas personagens ao ridículo e debocha dos leitores. Às vezes, Cortázar utiliza a sutileza e a inteligência para potencializar o humor. Em outros momentos, ele não tem vergonha de construir cenas de puro pastelão. Gosto dessa variedade de recursos. Além do bom humor, “O Jogo da Amarelinha” tem pitadas generosas de erotismo e de violência. Dos livros de Julio Cortázar que li até agora, esse é o que tem mais componentes eróticos e sexuais. Quanto à violência, o cardápio é sortido: tortura, estupro, preconceitos (racismo, xenofobia, machismo), suicídio, violência policial, magia negra. De certa maneira, o humor da obra ameniza consideravelmente a atmosfera pesada do romance. Um dos pontos principais de “O Jogo da Amarelinha” é a linguagem utilizada por Julio Cortázar. Temos nesse livro uma forte oralidade, a criação de muitos neologismos, a grafia proposital de palavras erradas e até o desenvolvimento de uma nova língua (o glíglico). Para completar, o autor mistura três idiomas – o espanhol (que foi traduzido para o português na edição brasileira), o francês e o inglês (esses últimos se mantiveram como no original, não sendo traduzidos para nossa língua). Assim, se o leitor não dominar os idiomas estrangeiros, ele não irá conseguir acompanhar algumas partes do romance, principalmente os diálogos trocados pelos integrantes do Clube da Serpente. Por falar em linguagem, temos em “O Jogo da Amarelinha” vários textos metalinguísticos. De forma inusitada, as personagens do romance discutem o estilo do autor – no caso Morelli, uma figura ficcional da obra, mas que dá muito bem para enxergarmos como sendo o próprio Julio Cortázar. Para potencializar o tom metalinguístico, ainda somos brindados com capítulos em que o tema principal é a crítica literária e recebemos quase que um romance dentro de outro romance (sutilmente, Cortázar insere o tal livro de Morelli no meio do seu). Incrível isso! Se por um lado a leitura pode ficar ainda mais complicada com a junção de linhas narrativas distintas, por outro lado a obra torna-se extremamente rica e plural. Falando agora no conflito de “O Jogo da Amarelinha”, é errado dizer que esse livro não tem um conflito. Ele existe sim (na minha visão, é de natureza psicológica – drama existencialista de Horacio Oliveira), mas não está evidente, não está em primeiro plano. Cabe ao leitor descobri-lo ao longo dos capítulos. Ou você acha que Cortázar iria entregar tudo de forma fácil para você, hein? Quer moleza, então vá comer gelatina! Em relação à tradução, o único problema que identifiquei foi a presença do artigo definido na frente dos nomes próprios em boa parte do texto. Entendo que o tradutor optou por esse expediente para acompanhar o texto original. Contudo, ficou muito estranho esse recurso em nosso idioma, principalmente na sinalização dos diálogos. Para quem deseja fazer uma leitura pelo caminho alternativo (sequência de capítulos sugerida por Julio Cortázar), deixo aqui uma dica. A versão eletrônica (li essa obra em ebook no Kindle) é mais convidativa do que a versão física. Afinal, é só clicar no próximo capítulo (que na maioria das vezes não respeita a ordem convencional e a lógica sequencial) e você já está no ponto indicado pelo autor. Obviamente que na versão impressa temos o apontamento do caminho alternativo no final de cada capítulo. Porém, nesse caso, o leitor precisa avançar ou retroagir várias páginas por conta própria para chegar ao ponto exato do livro indicado por Cortázar – o que pode causar uma certa confusão. Em suma, “O Jogo da Amarelinha” é realmente um livrão, daqueles que mexem com a gente. Porém, para sermos impactados por ele, precisamos nos esforçar bastante. Esse romance de Cortázar exige muito (muito mesmo!) do leitor. Confesso que em vários momentos dessa leitura pensei em abandoná-lo, indignado que estava com as maluquices narrativas que estava recebendo. Só ao final, ao conseguir construir o panorama completo da trama, entendi a grandiosidade dessa obra. Isso é muito legal. Chegamos ao fim da leitura esgotados, mas maravilhados. O Desafio Literário de Julio Cortázar continuará na semana que vem. No próximo domingo, 14 de novembro, voltaremos ao Bonas Histórias para analisar “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), coletânea de contos lançada em 1966. Essa obra, a quinta coleção de narrativas curtas de Cortázar, foi sua primeira publicação após o sucesso monstruoso de “O Jogo da Amarelinha”. Não perca o nosso debate sobre “Todos os Fogos o Fogo” e os novos capítulos do Desafio Literário de outubro e novembro. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Histórias de Cronópios e de Famas - Os microcontos de Julio Cortázar

    Publicada em 1962, essa coletânea de contos potencializou as maluquices narrativas do escritor argentino a patamares inacreditáveis e polêmicos. Nesse final de semana, li “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), a quarta coletânea de contos e a sétima publicação de Julio Cortázar. Esse é também o quinto livro do escritor argentino que analisamos no Desafio Literário desse bimestre. Já comentamos nas páginas do Bonas Histórias a peça teatral “Os Reis” (Civilização Brasileira), as coleções de narrativas curtas “Bestiário” (Civilização Brasileira) e “Final do Jogo” (Civilização Brasileira) e o romance “Os Prêmios” (Civilização Brasileira). E ainda nesse mês iremos apresentar o estudo completo de outras três obras de Cortázar: “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller) e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira). Ou seja, se você curte o melhor do Realismo Fantástico, da literatura argentina e da ficção clássica não perca os próximos posts do Desafio Literário de Julio Cortázar. “Histórias de Cronópios e de Famas” é um livro importantíssimo para a carreira de Cortázar. Esse título representou a intensificação da proposta disruptiva do autor. Se o argentino já criava tramas extremamente amalucadas e às vezes incompreensíveis, aqui ele atingiu um patamar ainda mais elevado de ousadia. Publicado em 1962, “Histórias de Cronópios e de Famas” inovou em três quesitos: apresentou microcontos (tipo textual pouco usual na época), potencializou o humor nonsense e debochado de Cortázar (ao ponto de não acreditarmos que ele foi capaz de escrever tais coisas!) e criou um universo ficcional com seres próprios (os tais cronópios, famas e esperanças) que fazem irônicas analogias a determinados grupos sociais. O resultado dessas invencionices é muito polêmico. Há quem ache “Histórias de Cronópios e de Famas” um livro genial, fruto de uma mente inovadora, libertária e inspirada. E há quem o abomine, afirmando se tratar de uma brincadeira que não surtiu o efeito desejado. Normalmente eu não fico em cima do muro, ainda mais em boas discussões literárias como essa. Porém, preciso concordar com os dois pontos de vista. “Histórias de Cronópios e de Famas” é uma coletânea de narrativas curtas interessante por alguns aspectos e, ao mesmo tempo, uma obra que peca em alguns quesitos. Na época de seu lançamento, esse título de Julio Cortázar foi avacalhado pela crítica literária tanto na América Latina (leia-se Argentina) como na Europa (leia-se França). Ninguém entendeu como foi possível um escritor com enorme potencial criativo ser capaz de publicar narrativas tão primárias, sem sentido e profundamente banais. Curiosamente, muitos leitores de “Histórias de Cronópios e de Famas” repetem ainda hoje essa avaliação negativa. Na minha opinião, quem diz isso não entendeu o humor dos microcontos e/ou não teve o espírito de entrar à fundo nas brincadeiras propostas por Cortázar. Talvez essa seja a melhor definição para esse livro – uma grande brincadeira narrativa que visava derrubar o leitor da cadeira. Sob esse ponto de vista específico, acho que o argentino conseguiu sim atingir seu objetivo. Quanto mais dispostos estivermos para embarcar na fina ironia, nas maluquices do Realismo Fantástico e nas críticas político-sociais do escritor, melhor e mais proveitosa será a leitura de “Histórias de Cronópios e de Famas”. Vale a pena lembrar que no início da década de 1960, Julio Cortázar não figurava entre os nomes de primeiro escalão da literatura sul-americana. Enquanto “Presencia” (sem edição em português) e “Os Reis”, obras lançadas respectivamente no final dos anos 1930 e 1940, foram ignorados completamente pelo público e pela crítica, “Bestiário”, de 1951, “Final do Jogo”, de 1956, “As Armas Secretas” (Best Seller), de 1959, e “Os Prêmios”, de 1960, tiveram algum destaque e receberam avaliações positivas. Contudo, esses livros não podem ser considerados como best-sellers nem podemos dizer que foram títulos aclamados. Esse novo patamar dentro da literatura argentina e latino-americana só seria conseguido por Cortázar com “O Jogo da Amarelinha”, romance publicado um ano depois de “Histórias de Cronópios e de Famas”. Às vezes, chego a pensar que se “Histórias de Cronópios e de Famas” tivesse chegado às livrarias depois de “O Jogo da Amarelinha” e não antes, ele não teria recebido tantas críticas negativas. Por outro lado, acredito que “O Jogo da Amarelinha” só se tornou o sucesso que foi porque antes “Histórias de Cronópios e de Famas” abriu o caminho para a intensificação das maluquices criativas de Julio Cortázar. As narrativas de “Histórias de Cronópios e de Famas” foram escritas em Roma e em Paris entre 1952 e 1959. Na Argentina, essa coletânea de contos de Cortázar foi publicada pela Editorial Minotauro, selo atualmente pertencente à Planeta dos Libros, mas que nos anos 1960 era uma editora jovem e independente focada na edição de obras fantásticas e de ficção científica. Quem está acompanhando atentamente ao Desafio Literário de Julio Cortázar deve ter notado algo curioso. Esse foi o primeiro livro do autor a sair em seu país por outra editora que não a Editorial Sudamericana, empresa que Cortázar trabalhava tanto como tradutor como autor ficcional. Qual seria o motivo dessa mudança de casa editorial, hein? Sinceramente não sei. Porém, não me surpreenderia se a Sudamericana tivesse se recusado a lançar um título com uma proposta tão polêmica e, de certa forma, com um conteúdo tão estrambólico. O que corrobora com a minha tese (lembrando que estamos falando de uma hipótese que estou lançando aqui) é o fato de um ano depois “O Jogo da Amarelinha” ter chegado às livrarias argentinas por meio da própria Editorial Sudamericana. Na certa, os editores portenhos viram mais potencial nesse livro do que no anterior. No Brasil, “Histórias de Cronópios e de Famas” foi publicado pela primeira vez em 1964 pelo Círculo do Livro, clube de leitura muito popular naquela época. Logo depois, a Civilização Brasileira se encarregou de abastecer as livrarias do país com novas edições dessa obra. A edição mais recente, se eu não estiver enganado, é de 2016, quando o livro de Cortázar ganhou um novo projeto gráfico por parte desse selo da Editora Record. Há também uma versão de “Histórias de Cronópios e de Famas” que está sendo publicada pela Editora Best Seller por meio do selo BestBolso. Foi justamente esse o exemplar que li no último final de semana. Em todas as edições nacionais de “Histórias de Cronópios e de Famas”, a profissional responsável por traduzir o texto do espanhol para o português foi Gloria Rodríguez. Quem acompanhou a última análise literária do Bonas Histórias irá se lembrar que Rodríguez traduziu também “Os Prêmios”, o primeiro romance de Cortázar. “Histórias de Cronópios e de Famas” tem 144 páginas e possui 67 contos. Na verdade, o correto é chamar as narrativas do livro de microcontos já que são extremamente curtas. Os microcontos dessa coletânea estão divididos em quatro partes: “Manual de Instruções” (com 9 histórias), “Estranhas Ocupações” (8 narrativas) “Matéria Plástica” (25 tramas) e “Histórias de Cronópios e de Famas” (25 contos). Na primeira seção, assistimos a um conjunto de instruções de coisas banais do dia a dia que as pessoas fazem instintivamente. Na segunda, acompanhamos a rotina de uma família argentina bem esquisita. Na terceira parte, são apresentados relatos surrealistas que tecem fortes críticas sociais e políticas. E na quarta e última seção da coletânea, mergulhamos no universo das criaturas fantásticas mais famosas da literatura de Julio Cortázar – os cronópios, os famas e os esperanças. Li “Histórias de Cronópios e de Famas” no último sábado. Admito que desde o início do Desafio Literário de Cortázar estava muito curioso para conhecer em detalhes essa obra, uma das mais famosas do autor argentino. Eu já tinha lido alguns microcontos dessa coletânea quando fiz oficinas de Escrita Criativa e quando cursei a Pós-graduação de Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz. Afinal, Júlio Cortázar é figurinha carimbada para quem estuda Literatura, Escrita Criativa e produção de contos. Porém, nunca tinha pegado esse livro para lê-lo de cabo a rabo, algo que só consegui fazer agora. Levei em torno de duas horas e meia para concluir integralmente essa leitura. É possível ler “Histórias de Cronópios e de Famas” em uma tacada só. Contudo, confesso que não consegui fazer isso. Acabei lendo o livro em quatro sentadas – primeira parte de manhã, segunda parte no começo da tarde, terceira parte no finalzinho da tarde e a quarta parte à noite. Até tentei ler a coletânea de uma vez só, mas não consegui. Como achei as narrativas de “Histórias de Cronópios e de Famas” um tanto pesadas e arrastadas (não se engane com o tamanho diminuto de suas histórias), acabei abrindo mão de uma leitura sequencial. As 9 narrativas da primeira parte de “Histórias de Cronópios e de Famas” são: “Manual de Instruções”, “Instruções Para Chorar”, “Instruções Para Cantar”, “Instruções-exemplos Sobre a Forma de Sentir Medo”, “Instruções Para Entender Três Quadros Famosos”, “Instruções Para Matar Formigas em Roma”, “Instruções Para Subir Uma Escada”, “Preâmbulo às Instruções Para Dar Corda no Relógio” e “Instruções Para Dar Corda no Relógio”. Em “Manual de Instruções”, a narrativa inicial da seção homônima, ficamos sabendo que viver é mergulhar nas rotinas cotidianas; a sensação é que o mundo é construído em cima dos hábitos humanos/mundanos. “Instruções Para Chorar” pede (e mostra como) que choremos da maneira correta, independentemente dos motivos. Em “Instruções Para Cantar”, somos orientados a começar quebrando os espelhos de casa e a não cantar pelo nariz. “Instruções-exemplos Sobre a Forma de Sentir Medo” e “Instruções Para Entender Três Quadros Famosos” apresentam, respectivamente, microcontos aterrorizantes e análises de pinturas de Ticiano, Rafael e Holbein. Em “Instruções Para Matar Formigas em Roma”, somos alertados que as formigas ainda vão devorar a capital italiana. Para evitar tal tragédia, é preciso exterminá-las. “Instruções Para Subir Uma Escada” aponta o passo a passo (literalmente) de como devemos avançar pelos degraus. Segundo o manual de instruções de Cortázar, temos que começar o processo (acredite!) erguendo um dos pés. “Preâmbulo às Instruções Para Dar Corda no Relógio” e “Instruções Para Dar Corda no Relógio” relatam, respetivamente, a roubada que é ganhar um relógio de presente e como devemos agir para os ponteiros não pararem de funcionar. As 8 histórias de “Estranhas Ocupações”, a segunda parte de “Histórias de Cronópios e de Famas”, são: “Simulacros”, “Etiqueta e Precedências”, “Correios e Telecomunicações”, “Perda e Recuperação do Cabelo”, “Tia em Dificuldades”, “Tia Explicada ou Não”, “Os Pousa-tigres” e “Comportamento nos Velórios”. Em “Simulacros”, acompanhamos os relatos iniciais de uma família um tanto esquisita que mora na Rua Humboldt, no bairro de Pacífico. Os protagonistas decidem construir um patíbulo no jardim da residência, o que gera curiosidade e depois revolta na vizinhança. “Etiqueta e Precedências” mostra a mania dessa família em dar apelidos jocosos aos seus integrantes, em uma espécie de bullying afetuoso. “Correios e Telecomunicações” se passa depois que um parente virou ministro. Com poder, ele nomeou seus familiares para trabalhar na sucursal dos Correios na Rua Serrano. O jeito peculiar do clã em trabalhar e em atender aos clientes provocou uma revolução na agência. Em “Perda e Recuperação do Cabelo”, assistimos à saga que foi recuperar um fio de cabelo atirado propositadamente na pia da cozinha e que desceu pela tubulação. “Tia em Dificuldades” e “Tia Explicada ou Não” tratam do medo de uma senhora em cair de costas enquanto caminha. Essa paranoia gera grande mobilização dos parentes para ajudá-la nas atividades do dia a dia e na busca por um sentido lógico desse comportamento aparentemente bizarro. “Os Pousa-tigres” apresenta o mecanismo construído pela família para que os tigres pousem em segurança na residência. E “Comportamento nos Velórios” mostra como os integrantes desse clã se comportam durante as cerimônias fúnebres de parentes, vizinhos e amigos. Os 25 microcontos de “Matéria Plástica”, a terceira seção da coletânea de Julio Cortázar, são: “Trabalhos de Escritório”, “Ocupações Maravilhosas”, “Vietato Introdurre Biciclette”, “Comportamento dos Espelhos na Ilha de Páscoa”, “Possibilidades da Abstração”, “O Jornal e Suas Metamorfoses”, “Pequena História Destinada a Explicar como é Precária a Estabilidade Dentro da Qual Acreditamos Existir, ou Seja, que as Leis Poderiam Ceder Terreno às Exceções, Acasos ou Improbabilidades, e Aí é que Eu Quero Ver”, “Fim do Mundo do Fim”, “Acefalia”, “Esboço de Um Sonho”, “Como Vai, Lopez?”, “Geografias”, “Progresso e Retrocesso”, “História Verídica”, “História de Um Urso Mole”, “Tema Para Uma Tapeçaria”, “Propriedades de Um Sofá”, “Sábio com Buraco na Memória”, “Plano Para Um Poema”, “Camelo Declarado Indesejável”, “Discurso do Urso”, “Retrato do Cassoar”, “O Esmagamento das Gotas”, “Fábula Sem Moral” e “As Linhas da Mão”. Em “Trabalhos de Escritório”, uma secretária controla todas as atividades do lugar onde bate expediente, inclusive as palavras proferidas pelo patrão. “Ocupações Maravilhosas” mostra o quão interessante seria enviar, em um envelope, a pata cortada de uma aranha para o Ministro das Relações Exteriores. “Vietato Introdurre Biciclette” descreve os preconceitos que as bicicletas são vítimas. Assim como acontece com os cachorros, as bikes não podem entrar em bancos e nas casas de comércio. Em “Comportamento dos Espelhos na Ilha de Páscoa”, ficamos sabendo que, dependendo de onde são colocados na ilha, os espelhos têm um comportamento diferente na hora de medir a passagem do tempo. “Possibilidades da Abstração” apresenta o drama de um funcionário da UNESCO que tem a mania de abstrair. Ao invés de ver ou ouvir o que os colegas estão fazendo, ele simplesmente fixa sua atenção em algo aleatório. “O Jornal e suas Metamorfoses” relata as transformações que um periódico sofre ao longo do dia à medida que vai passando de mão em mão. “Pequena História Destinada a Explicar como é Precária a Estabilidade Dentro da Qual Acreditamos Existir, ou Seja, que as Leis Poderiam Ceder Terreno às Exceções, Acasos ou Improbabilidades, e Aí é que Eu Quero Ver” (sim, o conto tem esse título gigantesco!!!) expõe um relatório confidencial produzido na OCLUSIOM. O documento aponta uma série de coincidências que estão acontecendo na instituição. Em “Fim do Mundo do Fim”, o planeta sofre uma overdose de publicação de livros. Sem lugar para guardá-los, a humanidade vive um caos literário-ambiental. “Acefalia” narra o drama de um senhor que tem a cabeça decepada e, por isso, perde alguns dos sentidos. “Esboço de Um Sonho” é a trama com teor onírico de um rapaz que visita seu tio. A reunião da dupla é muito, muito estranha. “Como Vai, Lopez?” mostra o encontro fortuito de Lopes com um velho amigo. Ao se aproximarem, os homens se cumprimentam. “Geografias” é a interpretação de um atlas feito por formigas. Em “Progresso e Retrocesso”, acompanhamos a invenção de um vidro que permite a entrada das moscas no recipiente. “História Verídica” e “História de Um Urso Mole” narram, respectivamente, o quão improvável pode ser o mundo para um senhor que deixa seus óculos caírem no chão e a rotina de uma bola de coltar que cresce entre duas árvores. Em “Tema Para Uma Tapeçaria”, o general em desvantagem numérica usa uma estratégia curiosa para vencer o general inimigo. “Propriedades de Um Sofá” se passa na casa de Jacinto. Naquela residência, há um sofá especial para as pessoas morrerem. Em “Sábio com Buraco na Memória”, um postulante ao Nobel fica indignado com a sua não indicação ao prêmio. “Plano Para Um Poema” mostra a quantidade de coisas que ocorrem no mundo. Enquanto isso, Marat permanece em sua banheira. “Camelo Declarado Indesejável” apresenta as angústias de Guk. Ele é o único camelo que não foi autorizado a passar pela fronteira. “Discurso do Urso” mostra a rotina de um urso que vive nos encanamentos das casas e apartamentos. Em “Retrato do Cassoar”, um cassoar vive em uma jaula na Austrália. “O Esmagamento das Gotas” relata a vida de uma gota que apareceu na janela de uma casa em um dia chuvoso. Em “Fábula Sem Moral”, o vendedor de gritos e palavras oferece seus serviços para o tiranete do país. E “As Linhas da Mão” narra o surgimento e o crescimento de uma linha que brotou de uma partida de cartas. As 25 narrativas de “Histórias de Cronópios e de Famas”, a quarta e última parte do livro homônimo, são: “Costumes dos Famas”, “A Dança dos Famas”, “Alegria do Cronópio”, “Tristeza do Cronópio”, “Viagens”, “Conservação das Lembranças”, “Relógios”, “O Almoço”, “Comércio”, “Filantropia”, “O Canto dos Cronópios”, “História”, “A Colherada Estreita”, “A Foto Saiu Fora de Foco”, “Eugenesia”, “Sua Fé nas Ciências”, “Inconvenientes nos Serviços Públicos”, “Faça Como Se Estivesse Em Sua Casa”, “Terapias”, “O Particular e o Universal”, “Os Exploradores”, “Educação de Príncipe”, “Cole o Selo no Angulo Superior Direito do Envelope”, “Telegramas” e “Suas Histórias Naturais”. Em “Costumes dos Famas”, conhecemos um fama que gosta de irritar os esperanças. Ele dança trégua e catala em frente a um armazém cheio de cronópios e esperanças, o que causa uma grande confusão. “A Dança dos Famas” é a descrição do bailado do conto anterior, que é tradicionalmente acompanhado por uma canção típica dos famas. “Alegria do Cronópio” relata o encontro de um cronópio com um fama na loja La Mondiale. Em “Tristeza do Cronópio”, um cronópio fica triste porque seu relógio vive atrasado. “Viagens” e “Conservação das Lembranças” mostram, respectivamente, as diferenças das viagens realizadas pelos famas, pelos cronópios e pelos esperanças e as diferenças de como cada um desses grupos conserva as lembranças. Em “Relógios”, um cronópio inventa um novo tipo de relógio. A ideia partiu da observação de como os famas davam cordas no objeto. “O Almoço” narra a criação de um termômetro de vidas por outro cronópio. “Comércio” mostra a dinâmica em uma fábrica de mangueiras. O empreendimento é dos famas, mas são os cronópios quem trabalham no chão da fábrica. “Filantropia” apresenta mais uma diferença entre os famas e os cronópios. Enquanto o primeiro grupo é generoso, o segundo não é. “O Canto dos Cronópios” mostra o que acontece com os famas e os esperanças quando os cronópios cantam com entusiasmo. Em “História”, um pequeno cronópio procura as chaves de casa. “A Colherada Estreita” demonstra o que acontece na vida de um fama quando ele começa a dar colheradas de virtudes para os familiares. Em “A Foto Saiu Fora de Foco”, um cronópio se desespera ao encontrar no bolso uma caixa de fósforo no lugar das chaves. “Eugenesia” mostra que os cronópios recorrem aos famas para fecundar suas mulheres. “Sua Fé nas Ciências” relata as pesquisas sociais de um esperança. Ele decidiu catalogar seus conhecidos a partir dos biotipos. Em “Inconvenientes nos Serviços Públicos”, um cronópio é nomeado Diretor-geral de Radiofusão. Com o poder em mãos, ele baixou um decreto – tudo o que fosse veiculado nas rádios da Argentina devia vir na língua romena. “Faça Como Se Estivesse Em Sua Casa” narra as diferenças típicas que encontramos nas residências dos esperanças, dos cronópios e dos famas. “Terapias” e “O Particular e o Universal” mostram, respectivamente, o atendimento médico de um cronópio recém-formado e o que acontece quando o tubo da pasta de dente de um cronópio sai do controle. Em “Os Exploradores”, três cronópios e um fama fazem uma expedição por fontes subterrâneas da cidade. “Educação de Príncipe” demonstra um aspecto curioso da dinâmica social dos cronópios. Eles nunca têm filho. E quando têm, são odiados pelos rebentos. “Cole o Selo no Angulo Superior Direito do Envelope” narra a ida aos Correios de dois amigos, um cronópio e um fama. Eles querem mandar cartas para suas mulheres, que estão viajando pela Europa. O problema é que o cronópio não gostou do visual dos selos ofertados. Em “Telegramas”, Ramos Mejía e Viedma, dois esperanças irmãos, trocam telegramas. E, por fim, “Suas Histórias Naturais” é a sequência de cinco fábulas envolvendo famas, esperanças e cronópios com elementos da fauna (leão, condor e tartaruga) e da flora (flor e eucalipto). Do ponto de vista formal, “Histórias de Cronópios e de Famas” (voltei a falar do livro como um todo e não apenas da seção com as três criaturas fantásticas criadas por Julio Cortázar) é realmente uma obra desconcertante. Essa questão é inegável. Você pode gostar ou odiar as narrativas desse título, mas não pode discutir o quanto elas são inquietantes e impactantes. Só o fato de Cortázar ter optado pela produção de microcontos, uma grande novidade para a época, mostra o quão contemporâneo é o texto ficcional do argentino. É interessante reparar no jeitão em que esse livro foi estruturado. A divisão em quatro partes permitiu uma grande liberdade criativa ao autor, além de unificar os textos de cada seção. Assim, os microcontos podem ser lidos independentemente (menor impacto), mas também permitem uma leitura mais completa quando feita integradamente (maior impacto). Gostei muito desse recurso. A polêmica verdadeira está no conteúdo de “Histórias de Cronópios e de Famas”. O que, afinal, eu achei dos contos desse livro? Para começo de conversa, gostei muito de algumas histórias da coletânea. “Tia em Dificuldades”, “Possibilidades da Abstração”, “História Verídica”, “Tema Para Uma Tapeçaria”, “Camelo Declarado Indesejável” e “Fábula Sem Moral” são excelentes. “Manual de Instruções”, “Simulacros”, “Perda e Recuperação do Cabelo”, “Os Pousa-tigres”, “Comportamento dos Espelhos na Ilha de Páscoa”, “O Jornal e Suas Metamorfoses” e “Fim do Mundo do Fim” são também ótimas narrativas. Sinceramente, gostei mais das partes II (“Estranhas Ocupações”) e III (“Matéria Plástica”) do que das partes I (“Manual de Instruções”) e IV (“Histórias de Cronópios e de Famas”). Curiosamente, minha preferência recaiu para as seções menos famosas do livro. Na minha visão, “Estranhas Ocupações” e “Matéria Plástica” representam o ponto alto dessa obra porque eles têm textos menos herméticos e com uma ironia mais explícita. Como consequência, conseguimos compreender rapidamente as críticas sociais, as reflexões existencialistas, as inquietações políticas e as intertextualidades literárias e históricas propostas por Julio Cortázar. No caso de “Manual de Instruções” (estou me referindo agora à primeira seção do livro e não ao microconto especificamente), a sensação é que se eu ou você tivéssemos produzido narrativas desse tipo, seríamos execrados eternamente pela crítica literária e pelo mercado editorial. Contudo, como elas foram criadas por Cortázar, há quem as admire hoje em dia. Consigo sim reconhecer algumas qualidades nos contos dessa seção (são, por exemplo, textos engraçados, inquietantes e amalucados), mesmo assim me pareceu que suas brincadeiras não funcionam para todo mundo (dependendo do contexto em que a leitura é feita, essas tramas se tornam vazias, pueris e tolas). Em outras palavras, apoio as críticas negativas feitas na época do lançamento desse título. Em relação a “Histórias de Cronópios e de Famas”, admito que não fui tão impactado por elas como imaginei que seria. A proposta de classificar os seres humanos em tipos e nomeá-los como seres fantásticos é excelente. No universo cortaziano, os cronópios são os indivíduos com alma artística. Eles vivem intensa e alegremente indiferentes à realidade prática do dia a dia e à rotina convencional. Os famas, por sua vez, são os indivíduos práticos e objetivos. Eles se concentram nas tarefas cotidianas e levam a vida de maneira burocrática e bem tradicional. Enquanto podemos enxergar os cronópios como as cigarras da fábula clássica, podemos ver os famas como as formigas. E os esperanças são os indivíduos acomodados. Eles esperam as coisas acontecerem e têm como hábito ficar observando indiferentes ao mundo à sua volta. Como ideia conceitual, a brincadeira dos cronópios, famas e esperanças (só não entendi o motivo da exclusão dos esperanças no nome do livro e no título da quarta parte da obra!) é ótima. O problema foi encontrar as características principais dessas três criaturas nos contos. Eu não consegui enxergar tantas críticas sociais nessas narrativas como imaginei que fosse encontrar. Talvez isso seja mais um problema meu (da minha leitura propriamente dita) do que do texto de Julio Cortázar (da produção literária em si). Na certa, se você conseguir descortinar as referências, as ironias e as críticas de Cortázar, irá aproveitar mais e melhor os textos dessa seção do que eu. De maneira geral, “Histórias de Cronópios e de Famas” (voltei a falar do livro como um todo e não apenas da última seção da obra) é uma coletânea de narrativas experimental de Julio Cortázar que explora o tempo inteiro o humor. O autor argentino usa aqui um humor bem variado. Ele vai do deboche a ironia, passando pelo nonsense, pelo pastelão/ridículo, pelo simbolismo cômico e pela alegoria. Podemos gostar ou não desse título, mas que ele é engraçado isso é. Diria até que a coletânea é engraçadíssima! Justamente com o humor, temos uma forte crítica social e política. A sensação é que Cortázar não perde uma oportunidade para fustigar seus conterrâneos, os políticos argentinos e a sociedade burguesa-capitalista de modo geral. Paradoxalmente, quanto mais componentes críticos encontramos nas narrativas de “Histórias de Cronópios e de Famas”, menor é a sensação de estarmos acompanhando um exemplar do Realismo Fantástico. É uma pena que algumas críticas e enredos tenham envelhecido mal. Porém, é surpreendente notar que outros tantos são ainda extremamente atuais e válidos. Por tudo isso, entendo quem tenha ficado encantado com os contos/microcontos de “Histórias de Cronópios e de Famas” e compreendo também quem tenha odiado suas narrativas. Como já falei, não fui tão impactado por essa leitura. O meu livro favorito de Cortázar continua sendo “Os Prêmios”, romance que soube calibrar melhor os elementos do Realismo Fantástico com as críticas sociais. Essa minha preferência pode mudar, tá? Afinal, essa semana lerei “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), a obra mais famosa do argentino. O post com a análise desse romance será disponibilizado no Bonas Histórias na próxima segunda-feira, dia 8. Não perca a sequência do Desafio Literário de Julio Cortázar. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Desafio Literário: outubro e novembro/2021 - Julio Cortázar

    Escritor argentino revolucionou a prosa ficcional, foi um dos precursores do Realismo Fantástico e se consolidou como um dos maiores contistas da história. O Desafio Literário chega agora à análise do terceiro (e último) escritor de 2021. Depois de estudar em profundidade a literatura de Orhan Pamuk, em abril e maio, e a literatura de Elena Ferrante, em julho e agosto, o Bonas Histórias abre espaço para a investigação da prosa ficcional de Julio Cortázar. Ou seja, depois de uma passagem pela Turquia e de uma escapada pela Itália, aportamos dessa vez de mala e cuia na boa e velha Argentina. Ao longo de outubro e novembro, o blog se debruçará sobre o trabalho de um dos principais autores argentinos de todos os tempos e um dos escritores mais inovadores do século XX. Como cartão de visita, basta dizer que Julio Cortázar foi um dos precursores do Realismo Fantástico, gênero narrativo que colocou a ficção latino-americana em evidência mundial. Ele também se consolidou como um dos maiores contistas da história. Suas narrativas curtas (contos e novelas) são reverenciadas até hoje como símbolo das maluquices criativas de um gênio que quebrou regras e reinventou conceitos literários. Do ponto de vista da literatura argentina, é até difícil apontar quem foi maior: teria sido Julio Cortázar ou foi Jorge Luis Borges, hein?! Essa discussão lembra outras rivalidades artístico-culturais. Afinal, quem se destacou mais, Gabriel García Márquez ou Vargas Llosa? Greta Garbo ou Marlene Dietrich? Chico Buarque ou Tom Jobim? Pablo Picasso ou Salvador Dalí? Bette Davis ou Joan Crawford? Virginia Woolf ou James Joyce? John Lennon ou Paul McCartney? Leonardo da Vinci ou Michelangelo? José Saramago ou António Lobo Antunes? Emilinha Borba ou Marlene? Quentin Tarantino ou Spike Lee? Édouard Manet ou Edgar Degas? Jane Austen ou as irmãs Brontë? Nessas eternas disputas pelo coração do público, confesso que não tenho coragem de meter o bedelho. Depois dessa rápida divagação, voltemos a falar da literatura de Julio Cortázar e dos estudos do Desafio Literário, que chegou nesse ano à sétima temporada. Para conhecermos à fundo o trabalho artístico do escritor argentino, iremos analisar individualmente, nas próximas oito semanas, oito de seus principais livros. Nossa lista é composta por: “Os Reis” (Civilização Brasileira), peça teatral de 1949; “Bestiário” (Civilização Brasileira), coletânea de contos de 1951; “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), coletânea de contos de 1956; “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), romance de 1960; “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), coletânea de contos de 1962; “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), romance de 1963; “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), coletânea de contos de 1966; e (ufa!) “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira), romance de 1968. Uma vez concluída a etapa de análise obra-a-obra, o Desafio Literário seguirá para a fase derradeira, a da construção do panorama das trajetórias pessoal e profissional, do estilo literário e do legado ficcional de Julio Cortázar. Por sinal, o desenvolvimento do raio X da literatura do argentino é o principal objetivo do Bonas Histórias nesse bimestre. Prova disso é que a análise completa da literatura de Cortázar ganhará um post exclusivo que será publicado no final de novembro. Nesse material, a ideia é revelar as particularidades da ficção de Julio Cortázar que o alçaram ao status de um dos mais geniais escritores da língua espanhola, um dos mais importantes autores do século passado e um mestre nas narrativas curtas. Curiosamente, Cortázar é mais aclamado pelos críticos literários, pelos estudiosos da Teoria Literária, pelos editores e pelos escritores do que pelo público leitor e pela imprensa que cobre a literatura comercial. Não à toa, Julio Cortázar continua influenciando incontáveis artistas contemporâneos. Em uma rápida reconstituição da vida e da carreira de Julio Cortázar, podemos dizer que ele nasceu em Bruxelas, na Bélgica, em agosto de 1914. Quando o futuro escritor veio ao mundo, a Primeira Guerra Mundial tinha eclodido há pouco (dois meses). Com o clima cada vez mais violento e instável na Europa, os pais de Julio, que eram argentinos, resolveram voltar para a terra natal em 1917. Foi na Argentina que Julio Cortázar passou a infância, a adolescência e a juventude. Graduado em Letras, trabalhou como professor de literatura e tradutor. A estreia de Cortázar na literatura aconteceu, em 1938, com a publicação de “Presencia” (não editado em português), antologia poética lançada sob o pseudônimo de Julio Denis. Na década seguinte e já com o nome verdadeiro estampando seus textos, Julio Cortázar passou a produzir contos para as principais revistas literárias argentinas. Nos anos 1940, temos a publicação de “La Otra Orilla” (sem edição no Brasil), a primeira coletânea de narrativas curtas do autor, e “Os Reis” (Civilização Brasileira), sua estreia na dramaturgia. A fase de ouro da carreira literária de Cortázar viria nas décadas de 1950 e 1960. Foi nesse período que o escritor argentino lançou suas principais coleções de contos e seus mais admirados romances. São dessa época, por exemplo, “Bestiário” (Civilização Brasileira), “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller) e “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), os três livros mais famosos do autor. Outros importantes títulos dessa fase foram “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira). O apogeu profissional de Julio Cortázar coincidiu com a mudança de Buenos Aires para Paris. Em 1951, ele abandonou a Argentina e foi viver na França. O motivo do autoexílio foi a oposição política à Ditadura Militar portenha, então com cinco anos de duração e que se tornava, já naquele instante, cada vez mais violenta e repressora. Ao longo de toda a vida, Cortázar expressou por várias vezes e publicamente a repulsa que nutria pelos regimes antidemocráticos, fossem eles de direita ou de esquerda. E essa defesa aos ideais democráticos renderam algumas críticas pesadas e alguns dissabores ao escritor. Não podemos nos esquecer que ele viveu em uma época em que dar golpes de Estado e perseguir a população era uma marca dos países latino-americanos e da Península Ibérica. Imagine só se Cortázar vivesse nos dias de hoje no Bras.... Esqueça! Na capital francesa, Julio se casou, em 1953, com Aurora Bernárdez, escritora e tradutora argentina. O casal viveu a maior parte do tempo com sérias dificuldades financeiras. Por maior que fosse o prestígio do autor em seu país e na Europa, ainda sim ele nunca foi um best-seller nas livrarias nem conseguiu ganhar muito dinheiro da venda de seus títulos. O casamento com Aurora durou aproximadamente vinte anos. Com a separação da primeira esposa na década de 1970, Cortázar viveu com a agente literária lituana Ugné Kurvelis e, mais tarde, com a fotógrafa e escritora canadense Carol Dunlop. Contudo, quando ele ficou seriamente doente, em 1983, quem cuidou dele foi Aurora Bernárdez – Carol Dunlop tinha falecido no ano anterior. Julio Cortázar continuou publicando novos livros nos anos 1970 e no começo da década de 1980. Entretanto, seus melhores e mais revolucionários trabalhos tinham ficado para trás. Mesmo assim, foram nas duas últimas décadas de vida que o autor argentino conquistou os principais prêmios literários e o reconhecimento definitivo do mercado editorial internacional. Com a volta da democracia à Argentina, o escritor aceitou visitar o país algumas vezes, mas jamais cogitou voltar a morar em Buenos Aires. Em fevereiro de 1984, Cortázar morreu de leucemia na França. Seu corpo foi enterrado em um cemitério parisiense. E aí, curtiu a proposta desse bimestre do Desafio Literário? Para você não perder nenhuma novidade do estudo sobre a literatura de Julio Cortázar, segue, abaixo, o calendário de posts do Bonas Histórias com as análises dos livros do escritor argentino: - 9 de outubro de 2021 – Análise de “Os Reis” (1949) – conto/novela/peça teatral. - 15 de outubro de 2021 – Análise de “Bestiário” (1951) – coletânea de contos. - 21 de outubro de 2021 – Análise de “Final do Jogo” (1956) – coletânea de contos. - 27 de outubro de 2021 – Análise de “Os Prêmios” (1960) – romance. - 2 de novembro de 2021 – Análise de “Histórias de Cronópios e de Famas” (1962) – coletânea de contos/microcontos. - 8 de novembro de 2021 – Análise de “O Jogo da Amarelinha” (1963) – romance. - 14 de novembro de 2021 – Análise de “Todos os Fogos o Fogo” (1966) – coletânea de contos. - 20 de novembro de 2021 – Análise de “62 Modelo para Armar” (1968) – romance. - 26 de novembro de 2021 - Análise Literária de Julio Cortázar. Então, chega de papo e mãos à obra. A análise da produção ficcional de Julio Cortázar começará de fato na próxima semana. A primeira obra do autor argentino do Desafio Literário é “Os Reis” (Civilização Brasileira), peça teatral lançada originalmente em 1949. O post desse livro será publicado no Bonas Histórias no outro sábado, dia 9. Não perca o Desafio Literário de outubro e novembro. E uma ótima leitura para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Desafio Literário: Sétima Temporada - Calendário de 2021

    Confira o cronograma de autores e obras que serão analisados nessa nova temporada do Desafio Literário do Bonas Histórias. A nova edição do Desafio Literário está para começar. Em 2021, a coluna do Bonas Histórias que se dedica à análise do estilo literário dos grandes autores chegará à sétima temporada. De 2015 até 2020, já foram investigados 42 escritores, entre nomes clássicos e contemporâneos, de 20 países. Não é errado dizer que contemplamos, em nossos estudos, artistas de gêneros distintos, características diferentes e propostas editoriais antagônicas. Essas são justamente as maiores riquezas do Desafio Literário, uma das seções mais renomadas do blog desde a nossa criação em dezembro de 2014. Para quem ainda não está familiarizado com essa trajetória, segue, abaixo, a lista completa com os autores analisados em cada uma das seis primeiras temporadas: Desafio Literário de 2015 – Temporada I: Mia Couto (Moçambique), Nick Hornby (Inglaterra), Jorge Amado (Brasil), John Green (Estados Unidos), Ignácio de Loyola Brandão (Brasil), Harlan Coben (Estados Unidos) e Stephen King (Estados Unidos). Desafio Literário de 2016 – Temporada II: Graciliano Ramos (Brasil), Agatha Christie (Inglaterra), Pablo Neruda (Chile), Sidney Sheldon (Estados Unidos), Paulo Coelho (Brasil), Khaled Hosseini (Afeganistão) e Italo Calvino (Itália). Desafio Literário de 2017 – Temporada III: Machado de Assis (Brasil), Régine Deforges (França), Haruki Murakami (Japão), Nora Roberts (Estados Unidos), Markus Zusak (Austrália), Lya Luft (Brasil) e Ondjaki (Angola). Desafio Literário de 2018 – Temporada IV: J. M. Coetzee (África do Sul), Juan Carlos Onetti (Uruguai), Herta Muller (Alemanha), Xinran (China), Albert Camus (França), Patricia Highsmith (Estados Unidos) e Fernando Sabino (Brasil). Desafio Literário de 2019 – Temporada V: José Saramago (Portugal), Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria), Noah Gordon (Estados Unidos), Rachel de Queiroz (Brasil), Milan Kundera (República Tcheca), Gabriel García Márquez (Colômbia) e Colleen McCullough (Austrália). Desafio Literário de 2020 – Temporada VI: Jack Kerouac (Estados Unidos), Maria José Dupré (Brasil), Kenzaburo Oe (Japão), Virginia Woolf (Inglaterra), Rubem Fonseca (Brasil), Isabel Allende (Chile) e José Eduardo Agualusa (Angola). Para este ano, teremos algumas novidades. Ao invés de analisarmos sete escritores (como tem sido a nossa tradição), vamos estudar apenas três. Os autores selecionados para o Desafio Literário de 2021 foram: Orhan Pamuk, turco que conquistou o Prêmio Nobel de Literatura em 2006; Elena Ferrante, italiana que está entre os best-sellers da literatura contemporânea; e Julio Cortázar, argentino que figura entre os principais nomes da literatura sul-americana do século XX. O menor número de escritores contemplados nesta edição não quer dizer que vamos diminuir o ritmo dos estudos do Desafio Literário. Pelo contrário, queremos avançar! A ideia é ler mais livros de cada um dos autores selecionados. Assim, ao invés de mergulharmos em apenas 5 ou 6 títulos de cada escritor (como vínhamos fazendo desde então), iremos agora ler e comentar de 8 a 10 obras de cada um. Por isso a diminuição na quantidade de artistas (ao invés de estudarmos um escritor por mês, vamos estudá-lo bimestralmente). Queremos investigar menos nomes daqui para frente, mas com mais profundidade. Quem sairá ganhando com isso é o leitor assíduo do Bonas Histórias. Que tal curtir o novo Desafio Literário conosco, hein? Aos interessados, segue, abaixo, o calendário de posts desta sétima temporada: Calendário do Desafio Literário de 2021: – Abril/Maio – Orhan Pamuk (Turquia) 3 de abril de 2021 - Introdução à Literatura de Orhan Pamuk. 9 de abril de 2021 - "A Casa do Silêncio” (1983). 15 de abril de 2021 - "O Castelo Branco" (1985). 21 de abril de 2021 - "Vida Nova" (1994). 27 de abril de 2021 - "Meu Nome é Vermelho" (1998). 3 de maio de 2021 – “Neve” (2002). 9 de maio de 2021 - "Istambul - Memória e Cidade" (2003). 15 de maio de 2021 - "O Romancista Ingênuo e o Sentimental" (2011). 21 de maio de 2021 - "Uma Sensação Estranha" (2014). 27 de maio de 2021 - Análise Literária de Orhan Pamuk. – Julho/Agosto – Elena Ferrante (Itália) 2 de julho de 2021 - Introdução à Literatura de Elena Ferrante. 8 de julho de 2021 - "Um Amor Incômodo” (1992). 14 de julho de 2021 - "Dias de Abandono" (2002). 20 de julho de 2021 - "Frantumaglial" (2003). 26 de julho de 2021 - "A Amiga Genial" (2011). 4 de agosto de 2021 – “História do Novo Sobrenome” (2012). 10 de agosto de 2021 - "História de Quem Foge e de Quem Fica" (2013). 16 de agosto de 2021 - "História da Menina Perdida" (2014). 22 de agosto de 2021 - "A Vida Mentirosa dos Adultos" (2019). 28 de agosto de 2021 - Análise Literária de Elena Ferrante. – Outubro/Novembro – Julio Cortázar (Argentina) 3 de outubro de 2021 - Introdução à Literatura de Julio Cortázar. 9 de outubro de 2021 - "Os Reis” (1949). 15 de outubro de 2021 - "Bestiário" (1951). 21 de outubro de 2021 - "Final do Jogo" (1956). 27 de outubro de 2021 - "Os Prêmios" (1960). 2 de novembro de 2021 – “Histórias de Cronopios e Famas” (1962). 8 de novembro de 2021 - "O Jogo da Amarelinha" (1963). 14 de novembro de 2021 - "Todos os Fogos o Fogo" (1966). 20 de novembro de 2021 - "62/Modelo para Armar" (1968). 26 de novembro de 2021 - Análise Literária de Julio Cortázar. Seja bem-vindo(a) ao melhor da literatura. Encontro você, no mês que vem, no primeiro post da nova temporada do Desafio Literário. Enquanto isso, continue acompanhando o conteúdo do Bonas Histórias. Boas leituras e excelentes análises para todos em 2021! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Músicas: Chão de Estrelas - A mais bela seresta na voz de Sílvio Caldas

    Em 1937, Sílvio Caldas já era um cantor famoso no cenário nacional. Seu primeiro sucesso, o samba "Faceira", de Ari Barroso, havia sido gravado em 1931. Nos seis anos seguintes, vieram outras músicas ainda mais marcantes: "Lenço no Pescoço" (1933), "Segura Esta Mulher" (1933), "Mimi" (1933), "Boneca" (1934), "Inquietação" (1934), "Serenata" (1934), "O Telefone do Amor" (1934) e "Minha Palhoça" (1935). A inconfundível voz de Sílvio Caldas dava grande dramaticidade às letras de amores perdidos e idílicos, tornando-as inesquecíveis. Por isso, o jornalista e poeta Orestes Barbosa ficou surpreso com um pedido inusitado feito pelo amigo cantor. Sílvio queria musicar uma criação poética feita por Orestes alguns anos antes. "Foste a Sonoridade que Acabou" era uma poesia em decassílabos que narrava a tristeza de um eu lírico masculino que havia perdido a mulher amada. Enquanto ela permaneceu ao seu lado, a vida pobre no Morro do Salgueiro tinha ganhado a dimensão de uma festa alegria e luxuosa. Veja um dos trechos mais famosos deste poema: "A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua, furando o nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas nos astros, distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão". Sílvio Caldas ficou apaixonado por aquela letra ao mesmo tempo triste e com uma beleza poética profunda. Ele queria por que queria vê-la transformada em uma canção. Orestes, receoso do resultado, negou a princípio o pedido do amigo. Sílvio não desistiu da sua intenção. Apesar da negativa do autor, ele musicou o poema mesmo assim. Uma vez pronta a música, o cantor mostrou o trabalho para outro poeta, Guilherme de Almeida. Almeida, encantado com a canção, sugeriu que seu nome fosse "Chão de Estrelas" ao invés de "Foste a Sonoridade que Acabou". Ou seja, além de aprovar a nova música de Caldas, ele a rebatizava com um nome mais simples e comercial. Manuel Bandeira foi outro poeta célebre na época que ficou maravilhado com a transformação do poema em uma seresta. Vendo todo mundo boquiaberto com sua letra, não coube outra coisa a Orestes Barbosa fazer do que autorizar a gravação daquela obra-prima. Sílvio Caldas, então com 29 anos, gravou, em 1937, o que seria sua mais famosa canção. "Chão de Estrelas", contudo, não estourou rapidamente nas rádios do país. A música só se tornaria um grande sucesso em 1950. Foi nesse ano quando Sílvio, já um quarentão e considerado um dos melhores cantores do Brasil, regravou-a. A nova versão é idêntica à primeira. Veja, a seguir, a letra dessa obra-prima da nossa música. Repare na estrutura fixa do poema (métricas e rimas). Logo depois, há um vídeo com uma interpretação de Sílvio Caldas. Nela, o cantor, já no final da carreira, explica rapidamente um pouco da origem da canção. Mesmo já idoso, a voz de Caldas se mantém sublime. Vale a pena conferir: "Chão de Estrelas" (Sílvio Caldas e Orestes Barbosa - 1937): Minha vida era um palco iluminado Eu vivia vestido de dourado Palhaço das perdidas ilusões Cheio dos guizos falsos da alegria Andei cantando a minha fantasia Entre as palmas febris dos corações Meu barracão no morro do Salgueiro Tinha o cantar alegre de um viveiro Foste a sonoridade que acabou E hoje, quando do sol, a claridade Forra o meu barracão, sinto saudade Da mulher pomba-rola que voou Nossas roupas comuns dependuradas Na corda, qual bandeiras agitadas Pareciam um estranho festival Festa dos nossos trapos coloridos A mostrar que nos morros mal vestidos É sempre feriado nacional A porta do barraco era sem trinco Mas a lua, furando o nosso zinco Salpicava de estrelas nosso chão Tu pisavas nos astros, distraída Sem saber que a ventura desta vida É a cabrocha, o luar e o violão Outro intérprete famoso desta canção foi Nelson Gonçalves. Veja a versão com o "Rei da Rádio": A transformação do poema "Foste a Sonoridade que Acabou" na música "Chão de Estrelas" estreitou a amizade entre Sílvio Caldas e Orestes Barbosa. A dupla formou uma sólida e longa parceria musical, produzindo várias serestas, um estilo muito popular no Brasil na metade do século XX. "Quase que Eu Disse", "Suburbana", "Torturante Ironia" e "Arranha-céu" são exemplos do que houve de melhor nesta parceria. Apesar de Orestes Barbosa também dividir composições com nomes consagrados da música nacional como Noel Rosa, Cartola e Wilson Batista, Sílvio Caldas foi seu principal parceiro. O que torna "Chão de Estrelas" tão especial, como não poderia ser diferente, é sua letra impecavelmente construída. Tudo começa com uma surpreendente descoberta. O eu lírico que descrevia sua vida como "um palco iluminado" e que dizia viver "vestido de dourado" era na verdade um pobre que morava em um barraco na favela. E a alegria de sua vida era fruto da paixão pela sua amada mulher. O amor fazia com que aquele simples pedaço de terra parecesse, todas as noites, uma animada festa. "Nossas roupas comuns dependuradas/ Na corda, qual bandeiras agitadas/ Pareciam um estranho festival/ Festa dos nossos trapos coloridos/ A mostrar que nos morros mal vestidos/ É sempre feriado nacional". No final da canção, vem a parte mais bonita e lírica. A ausência de teto no barraco fazia com que as luzes das estrelas entrassem na humilde casa durante as noites, sendo refletidas no chão. Com isso, a mulher amada "pisavas nos astros, distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão". Esta imagem do casal feliz, em uma casinha simples e sem teto, "pisando nas estrelas" é de uma força dramática sem precedentes. Esta é uma das cenas mais poéticas da música nacional. Desde a primeira vez que ouvi esta canção, me tornei automaticamente fã incondicional de Sílvio Caldas e de Orestes Barbosa. Se esta não for a minha música favorita (acredito que seja), ela está entre as três mais belas que conheci em minha vida. Em minha opinião, ela é simplesmente perfeita. Não há o que pôr nem o que retirar nela. Ela é sublime! Em 2017, "Chão de Estrelas" completa 80 anos de vida como música. Parabéns aos responsáveis pela criação desta obra-prima da nossa canção. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SílvioCaldas #OrestesBarbosa

  • Talk Show Literário: Severino

    Na mais nova entrevista de Darico Nobar, o convidado do TSL é a personagem mais famosa da poesia de João Cabral de Melo Neto. Vocalista: Quando oiei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu preguntei a Deus do Céu: uai, por que tamanha judiação? [A cantoria tem o acompanhamento do restante da banda. No palco, os músicos executam a canção aos olhos (e ouvidos) do apresentador e da plateia que lota o auditório]. Eu preguntei a Deus do Céu: uai, por que tamanha judiação? Que braseiro, que fornaia. Nenhum pé de prantação. Por farta d´água, perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. Por farta d´água, perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. [Ao primeiro sinal do âncora do programa, a música é imediatamente interrompida]. Plateia: Uhu! Bravo!!! Eeeeeeeeeh. [Gritos e aplausos ecoam pelo auditório]. Darico Nobar: Boa noite, galerinha que é fã da literatura brasileira. Plateia: Boooooooooa, noooooooooite! Darico Nobar: É no ritmo do baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira que começamos mais um Talk Show Literário. E saibam que essa abertura não foi por acaso, não. No programa de hoje, vamos receber uma das figuras mais icônicas da poesia sertaneja. No palco agora com vocês, ele, a personagem emblemática dos versos de João Cabral de Melo Neto. Estou falando de Severino. Vem para cá, meu amigo! [Retirante nordestino se levanta da cadeira no meio do auditório e caminha até o centro do palco, onde é recebido com um abraço pelo entrevistador. A dupla se acomoda em seus respectivos assentos]. Darico: Boa noite, Severino de... Severino de... [Procura uma informação em suas anotações, mas não a encontra]. Severino, qual é mesmo o seu sobrenome? Severino: O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Darico: Não tem sobrenome?! Isso não existe, rapaz. Todo mundo tem um sobrenome. Severino: Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar de Severino de Maria. Darico: Entendi. Vou chamá-lo de Severino de Mar... Severino: Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Darico: Sei. Severino: Mas isso diz pouco, né? Há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor daquela sesmaria. Darico: Então como eu posso te apresentar? Severino: Vejamos: sou o Severino do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com o nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de tantos outros, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra em que eu vivia. Darico: Tá ficando complicado para mim. [Coça a cabeça]. Não sabia que tinha tantos Severinos no Sertão. Severino: Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina. Darico: O que é uma morte severina?! Severino: É a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia. De fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida. Darico: Morte matada ou morte morrida? Severino: Pode ser morte morrida, irmão das almas, como tantas numa emboscada. E pode ser morte morrida, pela vida escorrida e pela fome desmedida. Darico: Acho que entendi... Vou te chamar de Severino. Apenas Severino, está bem assim? Severino: Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza. Mas, para que me chames melhor, Vossa Senhoria, e melhor possa compreender a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra. Darico: Por falar em emigrar, soube que você caminhou até o Recife. Como foi a viagem? Severino: Foi indo, a viagem foi longa, irmão das almas. Pensei que seguindo o rio eu jamais me perderia: ele é o caminho mais certo, de todos o melhor guia. Mas como segui-lo se até ele está morrendo? Vejo que o Capibaribe, como os rios lá de cima, é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina e no verão também corta, com pernas que não caminham. Darico: O que você fazia na sua terra, Severino? Severino: Pois fui sempre lavrador, lavrador de terra má; não há espécie de terra que eu não possa cultivar. Até a calva da pedra sinto-me capaz de arar. Darico: O que exatamente você cultivava por lá? Severino: Plantava todas as roças que naquele chã podiam dar: o algodão, a mamona, a pita, o milho, o caroá. Melhor do que eu ninguém sabe combater, quiçá, tanta planta de rapina que tinha visto por lá. Tirei mandioca de chãs que o vento vivia a esfolar e de outras escalavradas pela seca faca solar. Darico: Além de plantar, o que mais você fazia no Sertão? Severino: Sei também tratar de gado, entre urtigas pastorear: gado de comer do chão ou de comer ramas no ar. Em qualquer das cinco tachas de um bangüê sei cozinhar. Sei cuidar de uma moenda, de uma casa de purgar. Darico: E por que você quis se mudar? Severino: Nunca esperei muita coisa, digo a Vossa Senhoria. O que me fez retirar não foi a grande cobiça; o que apenas busquei foi defender minha vida da tal velhice que chega antes de se inteirar trinta; se na serra vivi vinte, se alcancei lá tal medida, o que pensei, retirando, foi estendê-la um pouco ainda. Darico: E por que ir em direção ao mar? Severino: Bem me diziam que a terra se faz mais branda e macia quanto mais do litoral a gente se aproxima. Como ela é uma terra doce para os pés e para a vista. Os rios que correm ali têm a água vitalícia. Cacimbas por todo lado; cavando o chão, água mina. Decerto o povo dali jamais envelhece aos trinta nem sabe da morte em vida, vida em morte, severina; e o cemitério deles, branco na verde colina, decerto pouco funciona e poucas covas aninha. Darico: E o que você achou do Recife, hein? É uma bela cidade, não é, Severino? Severino: Para gente severina, não tem diferença entre o Agreste e a Caatinga, entre a Caatinga e a Mata, e entre a Mata e o Litoral. A diferença é mesmo mínima. Está apenas em que a terra pode ser mais macia; está apenas no pavio, ou melhor, na lamparina: pois é igual o querosene que em toda parte ilumina, e quer nesta terra gorda, quer na serra, de caliça, a vida arde sempre com a mesma chama mortiça. Darico: Visitei algumas vezes a capital pernambucana e a achei maravilhosa. Severino: Agora é que compreendo por que em paragens tão ricas o rio não corta em poços como ele faz na Caatinga: vive a fugir dos remansos a que a paisagem o convida, com medo de se deter, grande que seja a fadiga. Darico: Nossa, Severino, essas palavras são muito negativas. Até parece que você vive carregando uma cruz nas costas. Severino: Quem sabe se nesta terra não plantei minha sina? Darico: Seja sincero comigo: a nova vida no litoral não é melhor, meu amigo?! Qual o tamanho da sua felicidade agora? Severino: É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que me cabe neste latifúndio. Darico: Ainda não senti firmeza de sua parte. As coisas para você não estão melhores no Recife do que eram no Sertão? Severino: Nunca esperei muita coisa, é preciso que eu repita. Sabia que no rosário de cidades e de vilas, e mesmo lá no Recife ao acabar minha descida, não seria diferente a vida de cada dia: que sempre pás e enxadas foices de corte e capina, ferros de cova, estrovengas o meu braço esperariam. Mas que se este não mudasse seu uso de toda vida, esperei, devo dizer, que ao menos aumentaria na quartinha, a água pouca, dentro da cuia, a farinha, o algodãozinho da camisa, ou meu aluguel com a vida. Darico: Aluguel com a vida?! Severino: Seu Darico, mestre da literatura, e que interesse, me diga, há nessa vida a retalho que é cada dia adquirida? Espera poder um dia comprá-la em grandes partidas? Por mim, pago diariamente a prestação da fome e da miséria desde a viagem que fazia. Sem saber, desde o Sertão, meu próprio enterro eu seguia. Só que devo ter chegado adiantado de uns dias; o enterro espera na porta: o morto ainda está com vida. Darico: Qual é o grande sonho da sua vida, Severino? Severino: Vida? A solução é apressar a morte a que se decida e pedir a este rio, que vem também lá de cima, que me faça aquele enterro que o coveiro descrevia: caixão macio de lama, mortalha macia e líquida, coroas de baronesa junto com flores de aninga, e aquele acompanhamento de água que sempre desfila. Darico: Severino, foi um prazer recebê-lo no Talk Show Literário. Mas infelizmente, o programa de hoje está morrendo... quero dizer, terminando. O programa está terminando, terminando. Severino: Sim, o melhor é apressar o fim desta ladainha, fim do rosário de palavras que a linha da prosa enfia; é chegar logo em casa, derradeira ave-maria do rosário, derradeira invocação da ladainha, casa, onde a vida some e esta minha viagem se fina. Darico: Pessoal, ficamos por aqui. Boa noite a todos e até o nosso próximo encontro. No mês que vem, vocês já sabem – voltaremos com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva com as grandes figuras da literatura brasileira. Até lá. [Apresentador e convidado são aplaudidos mais uma vez pela plateia]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento

bottom of page