• Ricardo Bonacorci

Livros: O Jogo da Amarelinha - A obra-prima de Julio Cortázar

Publicado em 1963, esse romance de Cortázar é considerado um dos títulos mais importantes e inovadores da língua espanhola e da literatura latino-americana.

O Jogo da Amarelinha é o livro de Julio Cortázar que foi publicado em 1963

Hoje, falaremos no Bonas Histórias de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), o livro mais famoso de Julio Cortázar. Essa obra é considerada uma das mais importantes da literatura em língua espanhola no século XX e da ficção latino-americana em todos os tempos. Para termos uma ideia de sua representatividade, “O Jogo da Amarelinha” rivaliza com “Ficções”, coletânea de contos de Jorge Luis Borges, como o maior estandarte da literatura argentina no século passado. Quando olhamos para as produções continentais ao longo da história, esse romance de Cortázar pode ser comparado a “Cem Anos de Solidão” (Record), de Gabriel García Márquez, e a “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Martin Claret), de Machado de Assis. Ou seja, estamos falando aqui de um clássico universal, de um cânone da literatura mundial!


“O Jogo da Amarelinha” serviu como um divisor de águas na carreira de Julio Cortázar. Até o lançamento desse título, o escritor argentino era famoso por seus contos fantásticos publicados nas revistas literárias, mas não havia obtido ainda um grande sucesso junto ao grande público. Ele era mais festejado pelos críticos literários e pelos colegas de profissão do que pelos leitores. Em outras palavras, Cortázar era, até esse momento, um autor com vendas quase que inexpressivas nas livrarias de seu país.


Essa realidade mudou completamente com a publicação de “O Jogo da Amarelinha”. Com esse romance, Julio Cortázar se tornou imediatamente best-seller tanto na Argentina quanto na América Latina e na Espanha. Enfim, o mercado editorial reconhecia seu talento e suas inovações estéticas. Em pouco tempo, seus trabalhos começaram a ser traduzidos e lançados nos Estados Unidos, na Europa e no restante do planeta. Surgia, assim, um dos nomes mais relevantes da literatura mundial do século XX.


Aos leitores do Bonas Histórias que estão acompanhando o Desafio Literário de Julio Cortázar, relembro que esse é o sexto livro do autor que analisamos nesse bimestre. As obras de Cortázar que já foram estudadas no blog são: “Os Reis” (Civilização Brasileira), peça teatral, “Bestiário” (Civilização Brasileira), coleção de contos, “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), coletânea de narrativas curtas, “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), romance, e “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), conjunto de microcontos. Ainda nesse mês, comentaremos “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), outra coletânea de contos, e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira), uma narrativa longa. E para encerrarmos o Desafio Literário desse bimestre em grande estilo, faremos a análise completa da literatura de Julio Cortázar em um post específico no finalzinho de novembro.

Julio Cortázar, escritor argentino

Publicado em julho de 1963 na Argentina, “O Jogo da Amarelinha” levou quase quatro anos para ser desenvolvido. Cortázar começou a trabalhar na ideia do romance em dezembro de 1958. Naquele momento, o nome provisório da obra era “Mandala”. Em agosto de 1961, Julio Cortázar concluiu o que chamou de primeira versão do livro. A partir daí, o escritor se concentrou nas revisões e nas melhorias da narrativa. O texto final só ficou pronto em maio de 1962. Foi nesse momento em que “O Jogo da Amarelinha” ganhou seu título definitivo – “Rayuela” em espanhol. Até ser lançado, ainda foi preciso esperar mais de um ano até a obra ganhar a versão impressa. O romance foi publicado pela Editorial Sudamericana, a editora de Buenos Aires em que Cortázar trabalhava como tradutor e autor. Mesmo morando na França desde 1951, ele mantinha forte vínculo com a empresa portenha.


É interessante notar que o escritor argentino não tinha certeza, até o último instante, se a Editorial Sudamericana iria querer lançar “O Jogo da Amarelinha”. Afinal, esse livro possuía/possui características bem peculiares e, de certa maneira, tinha/tem pouco (pouquíssimo!!!) apelo comercial. Cortázar considerava seu texto como ilegível (se era ilegível para ele, imagine para os leitores, hein?!) e definiu esse romance como sendo um antirromance (ia contra as convenções desse gênero literário).


Realmente, ele tinha razão em sua autoavaliação. Essa obra possui uma narrativa com múltiplos ângulos, dois caminhos de leitura possíveis, trama fracionada ao meio, história sem um conflito definido (sujeito melancólico que fica zanzando por Paris e por Buenos Aires procurando algo que nem mesmo ele sabe o que é), diálogos existencialistas, linguagem única (explorando a oralidade e brincando com experimentações linguísticas como erros propositais, o desenvolvimento de neologismos e a criação da língua glíglica), cenas com pouca ação, passagens com forte simbolismo, debates filosóficos e intelectualizados e, por fim, partes avulsas ao texto principal (quase como capítulos independentes à obra central). É amigo, o trem aqui não é nada fácil.


Mesmo sabendo da dificuldade para viabilizar comercialmente um livro tão original e reacionário como “O Jogo da Amarelinha”, Julio Cortázar trabalhou por anos em sua produção textual. Nem mesmo o fracasso em vendas e as pesadas críticas que recebeu por “Histórias de Cronópios e de Famas” – lançado um ano antes por outra editora (a Editorial Minotauro), pois sua editora tradicional (a Editorial Sudamericana) não achou nem um pouco interessantes os contos dessa coleção – abalou a convicção de Cortázar no tipo de literatura que estava desenvolvendo. Ele sabia que estava criando um clássico desconcertante. Em cartas da época, o escritor afirmava ter ido ao limite de sua criatividade. Apesar da estrutura pouco convencional e da leitura extremamente difícil (que exige bastante do leitor!), Julio Cortázar tinha certeza de que estava concebendo uma obra-prima.

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

Mais surpreendente do que a confiança inabalável do escritor em seu trabalho ficcional (depois de tanto tempo sendo ignorado pelo público e sendo achincalhado pela crítica, qualquer um iria se questionar e duvidar de suas propostas estilísticas, né?) foi a repercussão positiva de “O Jogo da Amarelinha”. Contrariando todas as previsões (até mesmo as mais otimistas), a crítica literária e (acredite!) os leitores se derreteram em elogios à obra. Em poucos meses, o livro se tornou best-seller nas livrarias argentinas e foi publicado com grande êxito em outros países de língua espanhola. Não demorou para o romance de Cortázar ser traduzido para os principais idiomas e chegar aos leitores da América do Norte, Europa e Ásia. Nascia, dessa maneira, o mito por trás da figura de Julio Cortázar e de seu título caótico.


A versão original de “O Jogo da Amarelinha” tem na capa a ilustração de Julio Silva, desenhista e pintor argentino que era amigo de Cortázar. O desenho de Silva foi feito a partir de fotografias enviadas pelo autor, que tentava em vão representar visualmente a grafia em giz do jogo da amarelinha feita pelas crianças nas ruas de Buenos Aires. O que o escritor não conseguia através da fotografia, o desenhista conseguiu sintetizar em uma ilustração. O resultado visual da capa de “O Jogo da Amarelinha” (versão argentina de 1963) é espetacular. Para mim, esse é um dos projetos gráficos mais felizes da história da literatura. Na capa totalmente preta, a ilustração em branco/cinza claro (depois foi lançada uma edição com o desenho em amarelo) de Julio Silva é impactante e, ao mesmo tempo, simboliza as brincadeiras narrativas propostas pelo texto de Julio Cortázar.


É uma pena que o visual da capa argentina não tenha inspirado a maioria dos livros de “O Jogo da Amarelinha” que foi lançada nos demais países. Em várias edições internacionais da obra, não temos sequer as linhas da brincadeira infantil que inspirou o título do romance nas capas. No Brasil, a única capa que segue mais ou menos a concepção original é uma versão da Civilização Brasileira da década de 1980. Repare que usei a expressão “mais ou menos” na frase anterior – não há o brilhantismo e a sofisticação do projeto gráfico da Editorial Sudamericana.


Por falar em nosso país, os leitores brasileiros ficaram muitos anos sem uma edição nova de “O Jogo da Amarelinha”. Em meados da década passada, por exemplo, era bastante complicado conseguir um exemplar do clássico de Cortázar entre o Oiapoque e o Chuí. Sem publicações recentes nas livrarias nacionais, o único caminho era recorrer aos sebos para achar edições das décadas de 1960, 1970 e 1980. Como a demanda era invariavelmente maior do que a oferta, muitas vezes só era possível comprar um exemplar por valores na casa dos três dígitos (um absurdo em se tratando de edições tão antigas). Por causa dessa dificuldade, muitos leitores acabavam recorrendo às versões em espanhol. Lembro que quando morei em Buenos Aires, namorava cada exemplar desse título que encontrava nas livrarias e nos cafés (que também vendiam revistas e livros) portenhos.

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

O problema da falta de uma nova edição brasileira de “O Jogo da Amarelinha” terminou em junho de 2019. A Companhia das Letras lançou uma nova edição do romance e abasteceu as livrarias nacionais com milhares de exemplares novinhos em folha (nunca a expressão “novinhos em folha” caiu tão bem quanto agora). A tradução do espanhol para o português foi feita dessa vez por Eric Nepomuceno, jornalista, escritor e tradutor com grande experiência no ofício. As principais traduções de Nepomuceno para nosso idioma foram de obras de autores sul-americanos: Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez e Juan Carlos Onetti. A capa da novíssima edição brasileira de “O Jogo da Amarelinha” é bem colorida e bonita, mas está longe, muito longe de ser tão impactante quanto a original.


Para quem acha impossível desenvolver um design gráfico inteligente, atraente e criativo depois de uma peça brilhante, sugiro procurar a edição comemorativa de 50 anos de “O Jogo da Amarelinha” que foi lançada pela Alfaguara da Espanha. Nessa versão publicada em janeiro de 2013, temos uma capa tão maravilhosa quanto a primeira. Na nova edição espanhola, o próprio nome do livro (Rayuela) está grafado de um jeito que emula o desenho da brincadeira infantil. A capa está simplesmente maravilhosa!!! Se pensarmos bem, ela é tão genial quanto a primeira (a da Editorial Sudamericana). Dá até vontade de comprar a edição da Alfaguara só por causa de seu visual inteligente e original.


O enredo de “O Jogo da Amarelinha” está dividido em três partes (e possui 155 capítulos): “Do Lado de Lá” (36 capítulos), “Do Lado de Cá” (20 capítulos) e “De Outros Lados” (99 capítulos). De modo geral, o correto é encarar esse livro como tendo dois enredos distintos – o enredo 1 é “Do Lado de Lá” (trama se passa em Paris) e o enredo 2 é “Do Lado de Cá” (narrativa acontece em Buenos Aires). O próprio Cortázar disse que esse romance é duplo, pois contém duas histórias. Ao mesmo tempo em que dialogam entre si, elas também podem ser lidas independentemente. A parte 3, “De Outros Lados”, não contém um enredo propriamente dito. Nesses capítulos, recebemos textos avulsos com a recuperação de cenas da seção inicial, flashes com o desfecho da parte 2, o detalhamento de personagens apresentadas anteriormente, divagações existencialistas, literárias e metafísicas, reflexões do autor e de seu alter ego (Morelli) e crônicas sobre as mais diferentes temáticas. Curiosamente, Julio Cortázar chamou a última parte de “capítulos prescindíveis” – como se fosse fácil deixar de ler os textos derradeiros de um romance!


Na mais recente versão brasileira de “O Jogo da Amarelinha”, temos ainda a Introdução escrita por Cortázar (chamada de “Tabuleiro de Leitura”) e um amplo e completo Posfácio (essa parte apresenta as cartas enviadas pelo escritor argentino em que ele discute sua obra e as análises desse livro feitas por figuras de destaque da literatura brasileira e internacional).

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

Em “Tabuleiro de Leitura”, texto que abre o livro, Julio Cortázar explica que seu romance tem dois caminhos possíveis de leitura: o convencional, em que os leitores seguem os capítulos em ordem numérica – 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11... 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154 e 155); e o alternativo/ortodoxo, em que os leitores seguem a ordem de capítulos apontada pelo autor – 73, 1, 2, 116, 3, 84, 4, 71, 5, 81, 74, 6, 7, 8, 93, 68, 9, 104, 10, 65, 11, 136, 12, 106, 13, 115, 14, 114, 117, 15, 120, 16, 137, 17, 97, 18, 153, 19, 90, 20, 126, 21, 79, 22, 62, 23, 124, 128, 24, 134, 25, 141, 60, 26, 109, 27, 28, 130, 151, 52, 143, 100, 76, 101, 144, 92, 103, 108, 64, 155, 123, 145, 122, 112, 154, 85, 150, 95, 146, 29, 107, 113, 30, 57, 70, 147, 31, 32, 132, 61, 33, 67, 83, 142, 34, 87, 105, 96, 94, 91, 82, 99, 35, 121, 36, 37, 98, 38, 39, 86, 78, 40, 59, 41, 148, 42, 75, 43, 125, 44, 102, 45, 80, 46, 47, 100, 48, 111, 49, 118, 50, 119, 51, 69, 52, 89, 53, 66, 149, 54, 129, 139, 133, 140, 138, 127, 56, 135, 63, 88, 72, 77, 131, 58 e 131).


Essa dupla experiência de leitura é a primeira brincadeira proposta por Cortázar. Confesso que fui pelo caminho mais trivial – leitura convencional (capítulos ordenados). Contudo, no meio do livro já tinha me arrependido da escolha feita. Minha interrogação era: será que o outro trajeto seria menos caótico, hein?! Admito que sofri bastante durante essa leitura. “O Jogo da Amarelinha” é um romance extremamente difícil e exigente. Sinceramente não sei se na outra opção as coisas são mais fáceis para o leitor. Porém, a dúvida me deixou com a vontade de reler a obra pelo outro caminho. Só não fiz isso agora porque ainda tenho mais dois livros de Julio Cortázar para serem analisados no Desafio Literário (eita desculpinha esfarrapada que caiu como uma luva aqui, né?).


Em relação ao Posfácio, essa edição de “O Jogo da Amarelinha” tem quatro partes/subpartes. A primeira é “A História de O Jogo da Amarelinha nas Cartas de Julio Cortázar”. Como o próprio título da seção/subseção informa, aqui acompanhamos as trocas de cartas do autor com amigos. O tema das correspondências do argentino é obviamente a produção, a publicação e a receptividade de seu romance mais famoso. As outras partes/subpartes do Posfácio são “O Jogo da Amarelinha – Haroldo de Campos”, “A Atualidade de O Jogo da Amarelinha – Julio Ortega” e “O Trompete de Deyá – Mario Vargas Llosa”. Nesses textos acompanhamos, respectivamente, as análises do livro feitas por Haroldo de Campos, Julio Ortega e Mario Vargas Llosa, três figuras que dispensam apresentações. O mais legal é que as análises do trio de autores são bem completas e complementares. Essa última parte do livro possui quase 60 páginas. Incrível!

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

Falando sobre o enredo propriamente dito de “O Jogo da Amarelinha”, vamos detalhar agora as duas histórias do romance (ou seria só uma narrativa que se passa em dois lugares e em dois momentos distintos?!). No “Lado de Lá”, assistimos ao dia a dia de Horacio Oliveira, um intelectual argentino, em Paris. O lá do título dessa parte 1 do livro é, portanto, a Europa. Quarentão e exilado na França há alguns anos, Oliveira leva uma vida à toa. Sem um emprego fixo e sem uma família para cuidar, o protagonista do romance tem uma rotina aparentemente tranquila em algum momento dos anos 1950 (não há a precisão da data em que a trama se desenrola). Ele passa as horas fumando, bebendo, caminhando pela cidade, divagando sobre questões existencialistas e flertando com algumas mulheres que o atraem. No fundo, Oliveira procura algo que nem mesmo ele sabe o que é.


Horacio Oliveira tem um grupo de amigos chamado de Clube da Serpente. Formado por intelectuais de vários países, os integrantes do Clube da Serpente se reúnem frequentemente para beber, se divertir e debater assuntos ao melhor estilo papo-cabeça. Entrar em suas discussões ou acompanhar essas conversas é mergulhar em diálogos com altíssima carga literária, artística e filosófica. Nesse momento do livro, precisamos nos lembrar da famosa frase do “Guia do Mochileiro das Galáxias” (Arqueiro), clássico da ficção científica de Douglas Adans: não se desespere!


Apesar de namorar a uruguaia Lucía, a quem chama de Maga e com quem divide um apartamento em Paris, Horacio Oliveira tem uma amante, Pola. A relação do casal Oliveira-Maga é do tipo aberta e não parece estar ancorada no amor sincero e intenso. Lucía não se preocupa muito com as puladas de cerca do namorado. Sua atenção está concentrada na criação do filho, o pequeno Rocamadour. Sim, Maga é mãe solteira. E Horacio não deseja assumir de forma nenhuma a posição de pai do bebê nem de marido de Lucía. Ele parece se incomodar profundamente com a atenção que a companheira dedica a criança e com os choros do guri.


Em contraponto, Oliveira parece ver com naturalidade as investidas do amigo Ossip Gregorovius a Lucía. A cada dia, Gregorovius se mostra mais atraído pela namorada do colega do Clube da Serpente. Dessa forma, o triângulo amoroso está em vias de se transformar em um quadrado/retângulo ou mesmo em se duplicar (virar dois triângulos amorosos – Maga/Oliveira/Pola e Oliveira/Maga/ Gregorovius). Pelo menos é nessa possibilidade que a personagem principal da narrativa cogita, o que o deixa um tanto amargurado.

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

Enquanto acompanha as investidas amorosas de Gregorovius, Horacio Oliveira se inquieta com a situação político-social da Argentina. Mesmo tendo abandonado o país sul-americano há anos, ele não deixa de se preocupar e de se indignar com as escolhas de seus conterrâneos. Em uma brincadeira que o próprio protagonista faz, é como se ele conseguisse deixar a Argentina, mas a Argentina jamais o deixaria.


No “Lado de Cá”, acompanhamos o retorno de Horacio Oliveira para Buenos Aires. Assim, o cá do título dessa segunda parte do romance é evidentemente a Argentina. Nessa nova etapa de vida, Oliveira tenta superar a tragédia ocorrida em Paris, o que decretou o fim de seu relacionamento com Maga e o retorno da dupla aos países de origem. Na terra natal, a personagem principal de “O Jogo da Amarelinha” reencontra um amigo de juventude, Manuel Traveler. Casado com Atalía Donosi de Traveler, cujo apelido é Talita, e trabalhando ao lado da esposa em um circo, Traveler recebe o velho conhecido de braços abertos. Querendo ajudar Horacio ao máximo, Manuel Traveler emprega o recém-chegado no circo e o indica para morar na casa ao lado da sua.


A grande proximidade com o casal Traveler tem um efeito colateral: Oliveira se apaixona por Talita. Ou ele acredita se apaixonar por ela por enxergar algumas semelhanças da moça com Maga. Inicia-se, a partir daí, um novo drama. O que Oliveira deve fazer, hein? Deve investir naquele sentimento que brota um tanto confuso em seu coração ou deve zelar pela velha amizade com Manuel? Por mais paradoxal que possa parecer, os Traveler compreendem as inquietações do amigo/vizinho/colega e esperam pacientemente a decisão de Horacio. O que ninguém poderia imaginar é que o momento em que ele fosse agir seria o pior possível, além de desencadear consequências novamente trágicas.


Como já comentei, “De Outros Lados”, a terceira e última parte do romance, não possui um enredo definido. Nessa seção, os capítulos do livro se tornam ainda mais caóticos. O texto varia da continuação da trama de Horacio Oliveira em Buenos Aires a novas cenas dele em Paris. Além disso, Julio Cortázar não economiza na inserção de textos reflexivos e independentes. Assim, acompanhamos as divagações da personagem central e de alguns coadjuvantes (como Morelli, figura que aparece rapidamente em um capítulo da parte 1) e as crônicas literárias, filosóficas e políticas. Curiosamente, essa parte sem um enredo fixo é a segunda mais volumosa do livro (a maior é a primeira parte). Ela se estende por quase um terço da obra – são quase 200 páginas.

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

“O Jogo da Amarelinha” tem 592 páginas. Esse romance de Cortázar é, portanto, um tijolão. Levei três dias (sexta-feira, sábado e domingo) e aproximadamente 18 horas ao todo (6 horas de leitura por dia) para percorrer seu conteúdo de cabo a rabo. E confesso que sofri muito (e põe muito nisso!!!) durante o processo. O livro não é nada fácil e em muitos momentos se torna até enfadonho. Minha dificuldade maior ficou no começo (até entender as maluquices propostas pelo autor – romance com um enredo sem linearidade e sem um conflito aparente) e, principalmente, na última parte (com capítulos avulsos e desconexos). Por tudo isso, se você for ler essa obra, o que posso desejar para você é CORAGEM!!!


O que torna a leitura de “O Jogo da Amarelinha” tão difícil é um conjunto vasto de fatores. É até complicado de listarmos todos eles. Para começo de conversa, temos uma mistura de fluxo de consciência com cenas banais do dia a dia. O fluxo de consciência engloba: os sentimentos, as preocupações, os sonhos mais íntimos, as divagações, as críticas político-sociais e as reflexões filosóficas de Horacio Oliveira e de algumas das principais personagens do livro. Por sua vez, as cenas do cotidiano mostram as conversas de amigos nos cafés, as intrigas amorosas, o caminhar pelas ruas de Paris e de Buenos Aires e as discussões psicanalíticas do Clube da Serpente. Com isso, a sensação é que a história não caminha tão rapidamente.


Por falar nas cenas desse livro, é importante destacar que elas possuem normalmente forte valor simbólico. Mais importante do que está acontecendo de fato nas páginas da obra é o que representa cada ação e cada diálogo. Se por um lado o romance ganha em profundidade e em riqueza com esse recurso, por outro a narrativa se torna pesada, subjetiva e lenta. A impressão é que estamos lendo uma parábola. Nesse caso, “O Jogo da Amarelinha” lembra muito as obras de Albert Camus (cuja temática girava em torno da revolta, do absurdo, do suicídio, da loucura) e de Jean-Paul Sartre (que discutiam a razão, a lógica das ações humanas, a liberdade, a procura por um sentido para nossa existência e as angústias do homem).


Por falar nisso, esse romance de Julio Cortázar também me recordou as narrativas beats de Jack Kerouac (principalmente pelo fato de o protagonista viver bebendo, fumando, se drogando, farreando com os amigos, fazendo sexo e/ou flertando com várias mulheres e de não cogitar ter um trabalho regular em Paris) e os textos mais famosos de Milan Kundera (intrigas amorosas com viés existencialista e tramas ambientadas em cenários de forte instabilidade política). Do ponto de vista estrutural, a semelhança é com “Memórias Sentimentais de João Miramar”, livro mais importante de Oswald de Andrade.

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

Por tudo isso, “O Jogo da Amarelinha” é radicalmente diferente de “Os Prêmios”, o romance anterior de Cortázar. Enquanto “Os Prêmios” tem uma pegada maior de Surrealismo e de Realismo Fantástico, “O Jogo da Amarelinha” pode ser descrito mais como um livro voltado para o Existencialismo e com uma narrativa reflexiva. A semelhança entre ambas as obras é a forte crítica social e política que está misturada à trama ficcional.


Juntamente com os diálogos e os textos existencialistas, “O Jogo da Amarelinha” tem pesada intertextualidade literária, musical, cinematográfica e filosófica. A sensação é de estarmos acompanhando as conversas de um bando de intelectuais pedantes. Assim, me senti como Maga, que precisava perguntar o tempo inteiro sobre o que seu namorado e os integrantes do Clube da Serpente estavam se referindo. No meu caso, como não poderia perguntar diretamente para eles, acabei recorrendo a incontáveis pesquisas no Google para entender os termos, as expressões e as citações feitas pelo grupo de amigos de Oliveira. Não à toa, a personagem com a qual mais me identifiquei nesse livro foi justamente Lucía.


Outra característica que torna a leitura de “O Jogo da Amarelinha” tão difícil é a mistura de textos na primeira pessoa (com relatos de mais de uma personagem) e na terceira pessoa. Assim, o leitor precisa estar atento o tempo inteiro para compreender quem está se pronunciando e sobre qual tema está sendo comentado naquele momento. Além disso, como temos vários planos narrativos diferentes (Horacio Oliveira em Paris, Horacio Oliveira em Buenos Aires, manifestações de Morelli, textos aparentemente avulsos), há a necessidade constante de ver onde cada peça do quebra-cabeça se encaixa.


Aproveitando esse gancho, um dos elementos mais marcantes desse romance é a sua estrutura caótica. Julio Cortázar construiu um livro propositadamente anárquico. Adianto que se o leitor conseguir, ao final da leitura, encaixar a maior parte das peças do quebra-cabeça e enxergar o panorama narrativo construído pelo autor (em sua totalidade ou em uma parte substancial), ele irá se deparar com uma obra realmente espetacular. Aí está justamente a magia e a beleza desconcertante de “O Jogo da Amarelinha”. Por trás de uma história fragmentada e de textos aparentemente soltos, temos uma trama sublime e de grande riqueza. O complicado é descortinar isso, uma brincadeira que o escritor argentino deixou para os leitores mais corajosos.

Livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar

Fazendo jus a uma marca célebre do estilo de Julio Cortázar, essa narrativa é muito bem-humorada. Para conseguir provocar nosso riso, o autor usa a ironia, leva suas personagens ao ridículo e debocha dos leitores. Às vezes, Cortázar utiliza a sutileza e a inteligência para potencializar o humor. Em outros momentos, ele não tem vergonha de construir cenas de puro pastelão. Gosto dessa variedade de recursos.


Além do bom humor, “O Jogo da Amarelinha” tem pitadas generosas de erotismo e de violência. Dos livros de Julio Cortázar que li até agora, esse é o que tem mais componentes eróticos e sexuais. Quanto à violência, o cardápio é sortido: tortura, estupro, preconceitos (racismo, xenofobia, machismo), suicídio, violência policial, magia negra. De certa maneira, o humor da obra ameniza consideravelmente a atmosfera pesada do romance.


Um dos pontos principais de “O Jogo da Amarelinha” é a linguagem utilizada por Julio Cortázar. Temos nesse livro uma forte oralidade, a criação de muitos neologismos, a grafia proposital de palavras erradas e até o desenvolvimento de uma nova língua (o glíglico). Para completar, o autor mistura três idiomas – o espanhol (que foi traduzido para o português na edição brasileira), o francês e o inglês (esses últimos se mantiveram como no original, não sendo traduzidos para nossa língua). Assim, se o leitor não dominar os idiomas estrangeiros, ele não irá conseguir acompanhar algumas partes do romance, principalmente os diálogos trocados pelos integrantes do Clube da Serpente.


Por falar em linguagem, temos em “O Jogo da Amarelinha” vários textos metalinguísticos. De forma inusitada, as personagens do romance discutem o estilo do autor – no caso Morelli, uma figura ficcional da obra, mas que dá muito bem para enxergarmos como sendo o próprio Julio Cortázar. Para potencializar o tom metalinguístico, ainda somos brindados com capítulos em que o tema principal é a crítica literária e recebemos quase que um romance dentro de outro romance (sutilmente, Cortázar insere o tal livro de Morelli no meio do seu). Incrível isso! Se por um lado a leitura pode ficar ainda mais complicada com a junção de linhas narrativas distintas, por outro lado a obra torna-se extremamente rica e plural.


Falando agora no conflito de “O Jogo da Amarelinha”, é errado dizer que esse livro não tem um conflito. Ele existe sim (na minha visão, é de natureza psicológica – drama existencialista de Horacio Oliveira), mas não está evidente, não está em primeiro plano. Cabe ao leitor descobri-lo ao longo dos capítulos. Ou você acha que Cortázar iria entregar tudo de forma fácil para você, hein? Quer moleza, então vá comer gelatina!

Julio Cortázar, escritor argentino

Em relação à tradução, o único problema que identifiquei foi a presença do artigo definido na frente dos nomes próprios em boa parte do texto. Entendo que o tradutor optou por esse expediente para acompanhar o texto original. Contudo, ficou muito estranho esse recurso em nosso idioma, principalmente na sinalização dos diálogos.


Para quem deseja fazer uma leitura pelo caminho alternativo (sequência de capítulos sugerida por Julio Cortázar), deixo aqui uma dica. A versão eletrônica (li essa obra em ebook no Kindle) é mais convidativa do que a versão física. Afinal, é só clicar no próximo capítulo (que na maioria das vezes não respeita a ordem convencional e a lógica sequencial) e você já está no ponto indicado pelo autor. Obviamente que na versão impressa temos o apontamento do caminho alternativo no final de cada capítulo. Porém, nesse caso, o leitor precisa avançar ou retroagir várias páginas por conta própria para chegar ao ponto exato do livro indicado por Cortázar – o que pode causar uma certa confusão.


Em suma, “O Jogo da Amarelinha” é realmente um livrão, daqueles que mexem com a gente. Porém, para sermos impactados por ele, precisamos nos esforçar bastante. Esse romance de Cortázar exige muito (muito mesmo!) do leitor. Confesso que em vários momentos dessa leitura pensei em abandoná-lo, indignado que estava com as maluquices narrativas que estava recebendo. Só ao final, ao conseguir construir o panorama completo da trama, entendi a grandiosidade dessa obra. Isso é muito legal. Chegamos ao fim da leitura esgotados, mas maravilhados.


O Desafio Literário de Julio Cortázar continuará na semana que vem. No próximo domingo, 14 de novembro, voltaremos ao Bonas Histórias para analisar “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), coletânea de contos lançada em 1966. Essa obra, a quinta coleção de narrativas curtas de Cortázar, foi sua primeira publicação após o sucesso monstruoso de “O Jogo da Amarelinha”. Não perca o nosso debate sobre “Todos os Fogos o Fogo” e os novos capítulos do Desafio Literário de outubro e novembro. Até lá!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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