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- Premiações: Vencedores do Oscar de 2025 – A inédita estatueta para o Brasil
Ainda Estou Aqui, longa-metragem dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres, conquistou o primeiro Oscar do Brasil. O drama histórico baseado no livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva foi premiado como Melhor Filme Internacional. Confira os vencedores de todas as categorias da 97ª edição do evento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Hoje é um dia emblemático para o Brasil e para os brasileiros. Se esse fosse um programa de televisão da Rede Globo, e não um post do Bonas Histórias , certamente estaríamos ouvindo nesse momento o “Tema da Vitória”: Tãtãtãtã tãtãtãtã tãtãtãtã tãtãtãtã . Ou quem sabe não teríamos a boa e velha vinheta “Brasilsilsil” sendo repetida ao longo de toda a programação. Por mais que me embrulhe o estômago a patriotada desenfreada (lembremos de Samuel Johnson: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” – essa frase não é originalmente de Nelson Rodrigues, tá?), vale a pena dizer que estamos diante de um feito histórico do nosso país. É amigo(a), enfim ganhamos o Prêmio do Oscar . Para quem acordou tarde nessa segunda-feira ou esteve com a cabeça mergulhada na folia carnavalesca durante todo o final de semana, eu explico. Há poucas horas, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles divulgou os vencedores da 97ª edição do evento mais importante do cinema mundial . E, acredite se quiser, o Brasil conquistou, enfim, sua primeira estatueta dourada. “Ainda Estou Aqui” (2024), longa-metragem de Walter Salles baseado no livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva e estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello , superou “Emilia Pérez” (2024) e ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional . Não é demais dizer que a produção brasileira concorreu em outras duas categorias: Melhor Filme e Melhor Atriz. Por mais que tenhamos ficado com um gosto amargo na boca pela volta para casa de Fernanda Torres sem a estatueta que sua família deveria ter ganhado em 1999, ainda assim temos muito o que comemorar. Diferentemente de outras nações da América Latina, como México, Argentina, Chile, Porto Rico, Uruguai e El Salvador, que há muito tempo colecionam prêmios no Oscar, o Brasil nunca tinha sido congratulado na Meca da Sétima Arte. Isso até hoje de madrugada, né? As cenas da festa da população em vários locais do país com o anúncio da conquista de Walter Salles foram emocionantes! O clima foi de Copa do Mundo! No caso, uma Copa do Mundo do cinema em pleno Carnaval. Antes de apresentar aos leitores da coluna Premiações e Celebrações a lista completa com os vencedores do Oscar de 2025 , proposta central deste post, gostaria de dar a dimensão exata do enorme feito ocorrido há algumas horas na Califórnia. A vitória do Oscar não foi apenas o maior prêmio do cinema brasileiro, mas foi por extensão o maior prêmio artístico-cultural que nosso país já recebeu em sua história. É isso mesmo o que você leu. Não tínhamos recebido honraria tão grande em mais de cinco séculos. Vou mais além. Essa vitória é a maior façanha não esportiva do Brasil. Será que estou exagerando? Então vamos ao debate! Diga-me qual foi a grande realização artística ou cultural de um(a) brasileiro(a) até ontem à noite ou hoje de madrugada?! Pense. Pense bem. Não temos pressa. Ao longo do último final de semana, fiquei matutando sobre isso e não obtive uma resposta. Sabe o porquê? Porque não há NENHUMA conquista nessa seara. NENHUMA! Pegue qualquer manifestação das artes clássicas: pintura, escultura, música, literatura, dança, arquitetura e cinema. Se você quiser ampliar a reflexão para as artes contemporâneas, vá fundo. Inclua fotografia, história em quadrinhos, jogo eletrônico e arte digital em meu questionamento. Nesse universo cultural gigantesco, me fale o nome de um(a) conterrâneo(a) ou de uma obra nacional que seja referência global e que tenha conquistado um (eu só quero um) prêmio de grande relevância global. Infelizmente, não vamos encontrar, senhoras e senhores. Vivemos (ou nascemos, no caso dos expatriados) em um deserto de excelência artístico-cultural. Por mais brilhantes que sejam os pintores e os escultores brasileiros, nenhum deles é reverenciado lá fora ou apontado como o número 1 em suas profissões. Para falar a verdade, nem mesmo internamente eles são lembrados. Até na música, literatura, dança e arquitetura, gêneros mais populares, os brasileiros são renegados ao segundo (ou, quem sabe, terceiro, quarto, quinto...) plano do cenário mundial. Utilizemos a música como comparação inicial. Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Elis Regina e Elsa Soares, por exemplo, NÃO são conhecidos na América do Norte, na Europa e na Ásia. Converse com norte-americanos, canadenses, alemães, italianos, chineses e japoneses de elevado nível cultural sobre nossos geniais músicos. Há grande chance de eles não saberem de quem estamos tratando. A própria Bossa Nova é chamada no exterior de Brazilian Jazz. É isso mesmo! Ela não seria fruto da nossa originalidade e não derivaria do Samba, como costumamos alegar em tom ufanista. Para os gringos, a Bossa Nova é a versão local do Jazz deles. Nada mais. E o que dizer, então, das alegações da Anitta, para embarcarmos na música comercial, de que seria uma artista internacional e figuraria no primeiro escalão do show business global. Ahahahahahahah. Juro que me divirto com as ilusões megalomaníacas da funkeira carioca. Fora do Brasil, a maioria do público sequer ouviu falar em uma cantora chamada Anitta. Dizer que ela chegou ao número 1 das paradas mundiais é a mesma coisa que alegar que o Palmeiras é campeão mundial por ter conquistado um torneio mequetrefe em 1951. Se os palmeirenses acreditam piamente nessa versão, porque Anitta não pode acreditar que é renomada fora de nossas fronteiras, né? Cada um crê no que quiser. O que não dá é para engolirmos mentiras. O fato é que a música brasileira, por mais incrível que seja, é irrelevante no cenário externo. O que constatamos nesse campo artístico se estende às demais áreas. Nossa literatura é ignorada pelos gringos. Pergunte qual autor nacional é conhecido lá fora. Talvez a única resposta que tenhamos, isso é, se alguém ainda se lembrar dele, é Paulo Coelho . Nem mesmo na América do Sul, o pessoal cita Machado de Assis e Jorge Amado , por exemplo. Falo com a convicção de quem trafega entre argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios cultos. Os grandes romancistas brasileiros de ontem e de hoje não são lidos fora das nossas fronteiras e não são destaques no mercado editorial externo. Infelizmente, na dança e na arquitetura, a realidade é similar. Portanto, a irrelevância histórica do cinema verde-amarelo não destoa da inexpressividade das demais artes. Enquanto o México tem 14 prêmios do Oscar e a Argentina possui sete, até ontem não tínhamos nenhum. Falo isso com dor no coração. Antes que alguém me atire pedras por trazer uma avaliação tão negativa da cultura do nosso país, reflita se eu não estou certo ao trazer um parecer tão obscuro. O Brasil só é referência internacional no futebol. Ponto final. Aí somos (ou pelo menos éramos) uma potência global. E, dependendo da época, alcançamos a duras penas a primazia pontual em uma ou outra modalidade desportiva: voleibol, automobilismo, tênis, judô, natação etc. Ainda assim, não dá para dizer que somos uma potência esportiva, né? É só olhar para os quadros de medalhas das Olimpíadas no último século para atestarmos nossa irrelevância. Somos uma nação que se acostumou a comemorar poucos feitos esportivos. Não à toa, vivemos em uma terra de monocultura desportiva: é futebol, futebol, futebol, futebol, futebol. A alegria por algumas conquistas nos gramados é tão grande que quase ninguém reflete sobre a ausência de premiações nos campos artísticos e científicos. Científicos, Ricardo? Ai, ai, ai. É melhor a gente não entrar nessa outra área, né? Porque aí o buraco é muito mais embaixo. Fiquemos, por ora, com a comparação entre esporte e cultura. Estou trazendo essa longa reflexão como preparativo para um comentário que para mim soa natural, mas que pode surpreender uma parcela dos leitores do Bonas Histórias . Aí vai a bomba: a conquista do Oscar de 2025 por “Ainda Estou Aqui” é o maior prêmio artístico da história do Brasil. Se você quiser ampliar essa frase para “maior prêmio não esportivo” ou “maior prêmio científico-cultural” do país também dá. Até então, nunca tínhamos sido reconhecidos artisticamente como os melhores em NADA pelos gringos. NADA! A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles acabou com essa maldição nacional ao reconhecer a excelência de uma representação cultural brasileira. Por falar nisso, para quem estiver estranhando a ausência da análise desta produção de Walter Salles e Fernanda Torres na coluna Cinema , informo que teremos um post sobre “Ainda Estou Aqui” daqui a três semanas. Nele, vamos detalhar os pormenores do longa-metragem celebrado em Hollywood. Deu para entender o porquê comecei esse texto com a frase: “Hoje é um dia emblemático para o Brasil e para os brasileiros”, hein? Discordando de Nelson Rodrigues, NÃO acho que exterminamos o complexo de vira-lata que vive a rondar nossas almas quando faturamos as Copas do Mundo de futebol. NÃO! Só perderemos pra valer o sentimento de inferioridade quando colecionarmos Prêmios do Nobel e mais honrarias artístico-culturais de primeiro nível mundial como o Oscar. Aí sim poderemos andar com a cabeça erguida e com o peito estufado em qualquer parte do planeta. Nesse instante, quando falarmos os nomes dos nossos artistas, certamente a galera lá de fora saberá de quem estamos mencionando. Walter Salles? Sim, o cineasta brasileiro que é excelente. Fernanda Torres? Claro, a brasileira de enorme talento que é uma das melhores atrizes do mundo e que poderia ter conquistado a estatueta de 2025. Por tudo isso, confesso que até agora estou em êxtase. Comemorei mais a vitória de meus compatriotas no Oscar deste ano do que a vitória do Brasil na Copa do Mundo de futebol em 1994 e 2002. Verdade. Juro! Porque a conquista de hoje é inédita e possui um simbolismo muito maior. Mesmo sendo uma nação tão maltratada por políticos de todos os espectros ideológicos, que parecem desejar que seu povo se mantenha inculto, ignorante e marginalizado, há algum indício de esperança. Ainda há ilhas de excelência e talentos genuínos no universo cultural nacional que brotam sabe-se lá como. Feito esse longo desabafo, vamos ao que provavelmente você quer saber: a listagem com todos os vencedores do Oscar de 2025 . Sem mais delongas, segue abaixo a relação dos premiados da recente edição do principal evento do cinema mundial: Melhor Filme: “Anora” (2024) – Estados Unidos. Melhor Filme Internacional: “Ainda Estou Aqui” (2024) – Brasil. Melhor Direção: Sean Baker (Estados Unidos) de “Anora” (2024). Melhor Ator: Adrien Brody (Estados Unidos) de “O Brutalista” (The Brutalist: 2024). Melhor Atriz: Mikey Madison (Estados Unidos) de “Anora” (2024). Melhor Ator Coadjuvante: Kieran Culkin (Estados Unidos) de “A Verdadeira Dor” (A Real Pain: 2024). Melhor Atriz Coadjuvante: Zoe Saldaña (Estados Unidos) de “Emilia Pérez” (2024). Melhor Roteiro Original: Sean Baker (Estados Unidos) de “Anora” (2024). Melhor Roteiro Adaptado: Peter Straughan (Inglaterra) de “Conclave” (2024). Melhor Documentário: “Sem Chão” (No Other Land: 2024) – Palestina/Noruega. Melhor Documentário de Curta Metragem: “A Única Mulher na Orquestra” (The Only Girl in the Orchestra: 2023) – Estados Unidos. Melhor Animação: “Flow” (2024) – Letônia. Melhor Animação de Curta Metragem: “In The Shadow of the Cypress” (2023) – Irã. Melhor Animação em Live-Action: “Eu Não Sou Robô” (I'm Not a Robot: 2023) – Holanda. Melhor Edição: Sean Baker (Estados Unidos) de “Anora” (2024). Melhor Design de Produção: Nathan Crowley (Inglaterra) de “Wicked” (2024). Melhor Fotografia: Lol Crawley (Inglaterra) de “O Brutalista” (The Brutalist: 2024). Melhor Efeitos Visuais: Gints Zilbalodis (Letônia) de “Duna – Parte 2” (Dune – Part Two: 2024). Melhor Som: Gareth John (Estados Unidos), Richard King (Estados Unidos), Ron Bartlett (Estados Unidos) e Doug Hemphill (Estados Unidos) de “Duna – Parte 2” (Dune – Part Two: 2024). Melhor Trilha Sonora Original: Daniel Blumberg (Inglaterra) de “O Brutalista” (The Brutalist: 2024). Melhor Canção Original: “El Mal” de Camille (França) e Clément Ducol (França) de “Emilia Pérez” (2024). Melhor Figurino: Paul Tazewell (Estados Unidos) de “Wicked” (2024). Melhor Cabelo e Maquiagem: Stéphanie Guillon (França) de “A Substância” (The Substance: 2024). É isso aí, pessoal! Por mais que “Anora” tenha levado mais estatuetas (cinco) e as principais premiações da noite (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz), o Oscar de 2025 será para sempre de “Ainda Estou Aqui” . Ninguém é mais merecedor dos louros da vitória do que Walter Salles e sua equipe, verdadeiros heróis nacionais. Eles representam o que o Brasil artístico-cultural tem de melhor! Agora deixe-me encerrar esse post da coluna Premiações e Celebrações pois preciso voltar às comemorações. Carnaval? Que nada. Os festejos são exclusivamente para a maior façanha que vi de meu país. Uhu! As cenas do povo nas ruas festejando a vitória no Oscar estão maravilhosas e não podem parar tão cedo! Até a próxima. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . 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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em janeiro e fevereiro de 2025
Conheça as 100 principais obras da ficção e da poesia que foram publicadas no Brasil no primeiro bimestre deste ano. Não acredito! Já estamos quase na metade de março (quiçá com uma das pernas em abril) e ainda não apresentei o post com os livros ficcionais e poéticos que foram lançados no Brasil no primeiro bimestre deste ano . Ai, ai, ai. Antes que alguns leitores do Bonas Histórias reclamem com toda razão que a coluna Mercado Editorial não seria mais a mesma (e que o Ricardinho de outrora já fora mais eficiente), vou logo enfileirando a minha coletânea de desculpas esfarrapadas (que não convencem ninguém, nem mesmo a mim). No final de fevereiro, optei por trazer ao blog a quinta crônica de “Tempos Portenhos” . Em “Sentando-se à Mesa com os Argentinos” , conhecemos um pouco dos hábitos culinários e da riqueza gastronômica de Mi Buenos Aires Querido . Não dá para resistir às delícias de um texto assim da coluna Contos & Crônicas , né? E no início deste mês, comentei quase que em primeira mão “Os Vencedores do Oscar de 2025” . No caso, esse conteúdo saiu pela coluna Premiações & Celebrações . Sabendo da ansiedade de meus compatriotas pela primeira estatueta dourada do Brasil no maior evento cinematográfico do planeta, tive que preterir outros conteúdos em nome do patriotismo artístico-cultural. Aí já viu: acabou sobrando para a lista de lançamentos editoriais que chegaram às livrarias brasileiras em janeiro e fevereiro de 2025 . Por isso, este post que seus olhinhos estão contemplando agora precisaram pular duas casas no nosso calendário semanal de publicações. Feito o blábláblá de justificativas do injustificável, recorro à intertextualidade literária e lanço mão do velho guia de viagens intergalácticas: não entremos em desespero, por favor. Se o problema era a falta de atualização da coluna Mercado Editorial , a questão está resolvida. Por falar nisso, aí está o que o povo gosta! O povo das letras, pelo menos. Para ser mais preciso em meu comentário, estou me referindo exclusivamente as preferências de leitura dos fãs da ficção literária e da poesia , as áreas que o Bonas Histórias se propõe a investigar e comentar. É disso que vamos tratar a seguir. Ainda engatinhando, os dois primeiros meses do novo ano não foram caracterizados por muitos nem por relevantes publicações em nosso país. Pelo visto, a temporada começou à la sucesso de Martinho da Vila: é devagar, é devagar, é devagar, é devagar, é devagarinho. As principais editoras só agora estão voltando do clima de férias e os grandes lançamentos estão por vir. Mesmo no cenário de carência, consegui listar 100 títulos recém entregues às livrarias que merecem os olhares mais carinhosos dos leitores nacionais que prezam pela boa qualidade literária. Vale a pena salientar que a lista completa dessas obras está mais abaixo. Nos próximos parágrafos, vou apenas comentar os seis livros desse volume de três dígitos que mais chamaram minha atenção. Ao melhor espírito de equidade, selecionei três publicações brasileiras e três estrangeiras para os melhores dos melhores. Elas englobam quase todos os gêneros que gosto: romance , novela , coletânea de contos , coleção de crônicas , ensaio sobre Teoria Literária , literatura infantojuvenil , literatura infantil e antologia poética . Começamos a seleção da seleção do primeiro bimestre de 2025 pela literatura brasileira . Os livros verde-amarelos que mais apeteceram meu paladar de leitura foram “A Pele em Flor” ( Alfaguara ), coletânea de contos de Vinícius Neves Mariano , “O Menino que Passava a Limpo” ( Rocquinho ), título infantil de Leo Cunha e Alex Lutkus, e “Pós-Poemas” ( Perspectiva ), mais recente coletânea de poemas de Augusto de Campos . “A Pele em Flor” é a terceira publicação de Vinícius Neves Mariano, uma das boas promessas da literatura brasileira. Natural do Sul de Minas, o jovem autor tem dois romances lançados até agora: “Empate” (Simonsen), narrativa histórica ambientada no período da Copa do Mundo de 1950, e “Velhos Demais para Morrer” (Malê), distopia que conquistou o Prêmio Malê de Literatura e foi finalista do Prêmio Jabuti de 2021. Em outras palavras, Mariano tem o dom da narrativa e merece ser analisado com grande atenção. Em “A Pele em Flor”, somos apresentados a seis contos que retratam vários tipos de preconceitos: dos raciais aos literários. Mesmo diante da violência, das injustiças sociais e da opressão tão comuns no Brasil desfuncional, as personagens negras desta coletânea encaram sem medo os obstáculos impostos pelo ambiente tóxico. Elas não vão descansar enquanto não encontrarem os lugares que merecem e podem habitar. Já “O Menino que Passava a Limpo” é o décimo trabalho da formidável dupla constituída pelo autor Leo Cunha e pelo ilustrador Alex Lutkus. Confesso que estava com vontade de comentar as publicações deles há um tempão, mas nunca conseguia. Agora, enfim, pude realizar esse desejo. Outro autor mineiro, Leo Cunha já foi indicado ao Prêmio Jabuti duas vezes e tem em seu portfólio literário dezenas e dezenas de publicações infantis e infantojuvenis. Por sua vez, o paulista Alex Lutkus é um dos mais respeitados designers e ilustradores do mercado editorial brasileiro. Em “O Menino que Passava a Limpo”, a dupla traz a comovente história de Miguel, um garotinho que ama escrever e desenhar. O problema é que ele vive passando suas ideias a limpo e nunca as conclui. Até onde o perfeccionismo e o retrabalho de Miguel são obstáculos para a realização de grandes aventuras com as lindas personagens que ele mesmo cria? Convenhamos que essa é uma leitura para as crianças e para muitos marmanjos que sofrem do mesmo mal do pequeno protagonista! Para encerrar a lista dos melhores lançamentos da estante nacional de janeiro e fevereiro de 2025, preciso mencionar “Pós-Poemas”, o mais recente livro de Augusto de Campos, um dos maiores poetas do Brasil e figura emblemática da Poesia Concreta . E sempre que falo de Poesia Concreta, me lembro automaticamente do querido Mário Chamie. Bons tempos aqueles em que as turminhas dos cursos de graduação de Comunicação Social da ESPM-SP no início dos anos 2000 tinham aulas com o saudoso poeta-professor. O bom humor e as tiradas rápidas de Chamie, assim como seu olhar diferenciado para o texto literário, eram inspiradores. Porém, voltemos ao assunto de hoje, por favor! Para a crítica literária, “Pós-Poemas” forma com “Despoesia” (Perspectiva), “Não Poemas” (Perspectiva) e “Outro” (Perspectiva) a tetralogia de Augusto de Campos com o melhor de sua bem amarrada poesia-visual. Seu diferencial é unir a crítica social e o engajamento político à experiência sinestésica da Poesia Concreta. Juro que poderia passar horas admirando as páginas desta obra que é simplesmente fantástica. Se você souber de um livro lançado neste ano que seja mais bonito do que esse, me avise, por favor. Porque, tal qual um São Tomé das Letras (agora entendi o nome da cidade mineira!), só vou acreditar vendo. E se vir, certamente não vou acreditar. Deixando as fronteiras nacionais, pulo direto para as prateleiras da literatura internacional . Nesse novo espaço, o trio que gostaria de destacar nesse comecinho de 2025 é formado por dois romances e uma novela. As narrativas longas são: “Tormenta” ( Intrínseca ), novidade da inglesa C. J. Tudor , e “O Menino da Triste Figura” ( Estação Liberdade ), clássico do japonês Kenzaburo Oe . E a narrativa média é a incrível “A Fábrica” ( Todavia ), da também japonesa Hiroko Oyamada . C. J. Tudor é um dos bons nomes da literatura inglesa contemporânea e do gênero terror e suspense . Em 2019, comentei na coluna Livros – Crítica Literária sua estreia na ficção. “O Homem de Giz” (Intrínseca) é um thriller aterrorizante incrível. Desde essa leitura, fiquei fã do trabalho de Tudor. “Tormenta” é o quinto romance da autora britânica, que também possui várias coletâneas de contos no currículo, e sua primeira ficção científica/distopia. Nessa trama que foi publicada originalmente em 2023 no Reino Unido, somos levados a um mundo pós-apocalíptico. Depois da pandemia de um vírus que destruiu boa parte da Terra, Hannah, Meg e Carter, alguns dos sobreviventes do caos ambiental-social, precisam superar as adversidades do inverno rigoroso e do planeta aparentemente ingovernável. Cada um tem seus próprios desafios e dramas íntimos. Entretanto, o trio de protagonistas esconde segredos que atiçam a curiosidade dos leitores e potencializa o suspense da trama. Vamos combinar que C. J. Tudor sabe como produzir um belo thriller, né?! Para ninguém falar que não mencionei a literatura clássica , meu destaque vai para “O Menino da Triste Figura”, de Kenzaburo Oe . Como é bom ver que, enfim, esta publicação ganhou uma edição no português brasileiro. O segundo escritor japonês a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura é um dos meus autores favoritos desde que o analisei no Desafio Literário . Por exemplo, “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras) e “O Grito Silencioso” (Francisco Alves), ambos os títulos lançados originalmente na década de 1960, são primorosos. Em “O Menino da Triste Figura”, terceiro livro de Oe que a Editora Estação Liberdade lança em um curto intervalo de tempo, seguimos acompanhando a trajetória de Kogito Choko. Ele é o mesmo protagonista de “A Substituição ou As Regras do Tagame” (Estação Liberdade) e “Adeus, Meu Livro!” (Estação Liberdade). Dessa vez, o escritor ficcional que é o alter ego de Kenzaburo Oe retorna para a ilha de Shikoku ao lado do filho. Em sua terra natal, Choko terá a missão de produzir mais um livro enquanto busca redescobrir ou se reconectar com florestas e vales que remetem as lembranças da infância. Ler Oe é uma experiência que exige um paladar literário um pouco mais refinado. Quem tem essa habilidade, vale a pena mergulhar em suas obras. Se vamos seguir pela literatura japonesa , ao menos tratemos de um título mais atual, né? “A Fábrica” é um livro curtinho que encanta pela sagacidade de sua história e pela qualidade absurda de seu subtexto. Ou seja, o livro pode ser pequeno em volume de páginas, mas não em dimensão ficcional. Multipremiada em seu país e cada vez mais traduzida no exterior, Hiroko Oyamada é mestre em produzir enredos inteligentes e sensíveis que mexem com as mais variadas emoções dos leitores. Sua especialidade é tratar de temas contemporâneos de maneira tragicômica e pouco convencional. Em “A Fábrica”, acompanhamos o dia a dia de um gigantesco conglomerado industrial. De tão grande, a companhia se parece com uma cidade ou mesmo com um país. É nesse ambiente grandioso e dinâmico que Yoshiko, uma jovem recém-saída da universidade, inicia os trabalhos como uma das novas funcionárias da organização. Contudo, o que deixa a protagonista e alguns colegas perplexos é uma pergunta que, apesar de simplória, é de difícil resolução: afinal, o que essa empresa produz de fato?! É ou não é uma hilariante sátira do trabalho contemporâneo, hein? Apresentada a seleção da seleção, partimos agora para a lista completa do nosso selecionado. A seguir, exibo a relação integral com as 100 principais publicações do mercado editorial brasileiro em janeiro e fevereiro de 2025 . Confira as novidades das estantes da ficção e da poesia em nosso país : FICÇÃO BRASILEIRA: “Alguém Sobrevive Nesta História” (Todavia) – Felipe Poroger – Romance – 224 páginas. “O Oitavo Selo – Quase Romance” (Companhia das Letras) – Heloisa Seixas – Romance – 176 páginas. “Santo de Casa” (Record) – Stefano Volp – Romance – 192 páginas. “Ensaios de Despedida” (Record) – Elisama Santos– Romance – 240 páginas. “O Roubo em Três Atos” (Harlequin) – Paola Aleksandra– Romance – 272 páginas. “O Louco do Cati” (Todavia) – Dyonelio Machado – Romance – 320 páginas. “Estúpido Cupido” (Harlequin) – Ayslan Monteiro – 336 páginas. “Nihonjin” (Fósforo) – Oscar Nakasato – Novela – 144 páginas. “A Pele em Flor” (Alfaguara) – Vinícius Neves Mariano – Coletânea de Contos – 136 páginas. “A Forma Livre: Baudelaire e Machado de Assis” (Editora 34) – Natasha Belfort Palmeira – Crítica Literária – 336 páginas. “O Clarão das Frestas” (Círculo de Poemas) – Felipe Moreno – Ensaio Literário – 40 páginas. “Converseiro da Natureza” (Companhia das Letrinhas) – André Gravatá (autor) e Kammal João (ilustrador) – Infantil – 60 páginas. “Detetive Chapeuzinho e o Mistério da Sombra Digital” (Companhia das Letrinhas) – André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun – Infantil – 56 páginas. “Amanhã Eu Faço” (Companhia das Letrinhas) – Arthur Nestrovski (autor) e Bernardo França (ilustrador) – Infantil – 48 páginas. “Sabor Paciência” (Baião) – Mariana Salomão Carrara (Autora) e Giovanni Colaneri (Ilustrador; Itália) – Infantil – 40 páginas. “O Menino que Passava a Limpo” (Rocquinho) – Leo Cunha (Autor) e Alex Lutkus (Ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “A Menina que Não Sabia que Era Bonita” (Malê Mirim) – Maíra Azevedo (Autora) e Priscila de Vasconcelos (Ilustradora) – Infantil – 22 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Tormenta” (Intrínseca) – C. J. Tudor (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “O Menino da Triste Figura” (Estação Liberdade) – Kenzaburo Oe (Japão) – Romance – 512 páginas. “A Parede” (Todavia) – Marlen Haushofer (Áustria) – Romance – 256 páginas. “O Rochedo de Tânios” (Gutenberg) – Amin Maalouf (Líbano/França) – Romance – 240 páginas. “Vou Te Receitar Outro Gato” (Intrínseca) – Syou Ishida (Japão) – Romance – 208 páginas. “Catorze Dias – Um Romance Colaborativo” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá) e Douglas Preston (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Café Tangerinn” (Biblioteca Azul) – Emanuela Anechoum (Itália) – Romance – 272 páginas. “Vidas Tardias” (Fósforo) – Brandon Taylor (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “A Mulher Habitada” (Rosa dos Tempos) – Gioconda Belli (Nicarágua) – Romance – 448 páginas. “Céus Misteriosos – Volume 2 da Série Deuses Afogados” (Intrínseca) – Pascale Lacelle (Canadá) – Romance – 544 páginas. “O Detento” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “A Devolução do Suspeito X” (Estação Liberdade) – Keigo Higashino (Japão) – Romance – 352 páginas. “Um Toque de Escuridão – Livro 1 da Série Hades & Perséfone” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Um Jogo do Destino – Livro 2 da Série Hades & Perséfone” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Um Toque de Ruína – Livro 3 da Série Hades & Perséfone” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “A Extraordinária Cozinha dos Livros” (Gutenberg) – Kim Jee-Hye (Coreia do Sul) – Romance – 256 páginas. “Sem Coração – Livro 2 da Série Chestnut Springs” (Arqueiro) – Elsie Silver (Canadá) – Romance – 352 páginas. “O Segredo de Roosevelt” (Record) – Steve Berry (Estados Unidos) – Romance – 434 páginas. “O Ritual da Meia-noite” (Intrínseca) – Lucy Foley (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “Laços de Família” (Harlequin) – Susan Wiggs (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “A Doceria Mágica da Rua do Anoitecer” (Arqueiro) – Hiyoko Kurisu (Japão) – Romance – 176 páginas. “O Belo Mistério – Livro 8 da Série Inspetor Gamache” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 448 páginas. “As Filhas de Safo” (Autêntica Contemporânea) – Selby Wynn Schwartz (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Diabo” (Dublinense) – Gonçalo M. Tavares” (Portugal) – Romance – 192 páginas. “Uma Visita dos Espíritos” (Todavia) – Randall Kenan (Estados Unidos) – Romance – 296 páginas. “Manual para Damas (Mal)Comportadas” (Arqueiro) – Sophie Irwin (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “A Filha Grega – Livro 3 da Série As Filhas Perdidas” (Arqueiro) – Soraya Lane (Nova Zelândia) – Romance – 256 páginas. “A Estrada do Amanhã” (L&PM Editores) – Mélissa da Costa (França) – Romance – 304 páginas. “Alguém Como Nós” (Arqueiro) – Nicola Yoon (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “O Hóspede Misterioso” (Intrínseca) – Nita Prose (Canadá) – Romance – 272 páginas. “A Dama da Morte” (Bertrand Brasil) – Kate Quinn (Estados Unidos) – Romance – 476 páginas. “O Dilema da Noiva” (Arqueiro) – Elena Armas (Espanha) – Romance – 384 páginas. “As Cinzas e o Rei Maldito Pelas Estrelas” (Suma) – Carissa Broadbent (Estados Unidos) – Romance – 552 páginas. “Jogos Mortais” (Gutenberg) – Angela Marsons (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “O Livro das Portas” (Astral Cultural) – Gareth Brown (Escócia) – Romance – 384 páginas. “Olá, Estranho” (Essência) – Katherine Center (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Curandeira de Zalindov” (Intrínseca) – Lynette Noni (Austrália) – Romance – 268 páginas. “Veneno em Seus Corações – Livro 3 da Série Castelos em Seus Ossos” (Arqueiro) – Laura Sebastian (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “O Bar do Ritz de Paris” (Record) – Phillipe Collin (França) – Romance – 364 páginas. “Dando o que Falar” (Rocco) – Meryl Wilsner (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Medo do Silêncio” (Gutenberg) – Robert Bryndza (Inglaterra) – Romance – 272 páginas. “A Cara do Verão” (Harlequin) – Jennifer Weiner (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Couro e Rouxinol – Volume 2 da Série Morrendo de Amor” (Arqueiro) – Brynne Weaver (Canadá) – Romance – 368 páginas. “Tudo por Você” (Intrínseca) – Olivia Dade (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Aliança Celestial” (Harlequin) – Saara El-Arifi (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “O Pequeno Mentiroso” (Sextante) – Mitch Albom (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Mar da Tranquilidade” (Intrínseca) – Emily St. John Mandel (Canadá) – Romance – 272 páginas. “Ninguém Nunca Vai Saber” (Astral Cultural) – Rose Carlyle (Nova Zelândia) – Romance – 304 páginas. “Romances Campestres” (Penguin-Companhia) – George Sand (França) – Coletânea de Romances – 520 páginas. “A Fábrica” (Todavia) – Hiroko Oyamada (Japão) – Novela – 144 páginas. “Noites Insones” (Instante) – Elizabeth Hardwick (Estados Unidos) – Novela – 144 páginas. “A Construção” (Ubu) – Franz Kafka (República Tcheca) – Novela – 88 páginas. “O Cavaleiro de Bronze e Outros Contos Em Versos” (Penguin-Companhia) – Aleksandr Púchkin (Rússia) – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Dias Lentos, Encontros Fugazes” (Amacord) – Eve Babitz (Estados Unidos) – Coletânea de Crônicas – 240 páginas. “Destruidor de Destinos” (Seguinte) – Victoria Aveyard (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 544 páginas. “O Oráculo do Pássaro Preto” (Rocco) – Deborah Harkness (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 432 páginas. “Sangue Eterno – Volume 3 da Série Imortais” (Galera) – Namina Forna (Serra Leoa) – Infantojuvenil – 420 páginas. “Um Lance em Falso” (Paralela) – Stephanie Archer (Canadá) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Os Favoritos” (Seguinte) – Layne Fargo (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 392 páginas. “Era Uma Vez, Talvez” (Rocco) – K. L. Walther (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Uma Noite Escandalosa” (Editora Bookmarks) – Teresa Medeiros (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Missão Cupido” (Seguinte) – Anne Camlin (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 264 páginas. “Murdle Jr. – Casos Curiosos para Mentes Curiosas” (Intrínseca) – G. T. Karber (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 240 páginas. “Conflitos de Sangue” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “O Mapa de Nós Dois” (Alt) – Kristin Dwyer (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “O Complô do Casamento” (Verus) – Kristina Forest (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 322 páginas. “Astro” (Baião) – Manuel Marsol (Espanha) – Infantil – 56 páginas. “A Catástrofe” (Yellowfante) – Iwona Chmielewska (Polônia) – Infantil – 52 páginas. “Você Se Lembra?” (Pequena Zahar) – Sydney Smith (Canadá) – Infantil – 48 páginas. “Nossa Mesa” (Globinho) – Peter H. Reynolds (Canadá) – Infantil – 48 páginas. “Mamãe Zangada” (Companhia das Letrinhas) – Jutta Bauer (Alemanha) – Infantil – 40 páginas. “O Tesouro” (Companhia das Letrinhas) – Joaquín Camp (Argentina) – Infantil – 40 páginas. “O Parque dos Dinossauros” (Companhia das Letrinhas) – Dipacho (Colômbia) e Juan Camilo Mayorga (Colômbia) – Infantil – 36 páginas. “Detetive Sansão nas Ilhas” (Brinque-Book) – Katerina Gorelink (Rússia) – Infantil – 36 páginas. “Mamamóvel” (L&PM) – Lucy Catchpole (Inglaterra) e Karen George (Inglaterra) – Infantil – 36 páginas. “Guia Animal para se Dar Bem na Escola” (Brinque-Book) – Laura Bunting (autora; Austrália) e Philip Bunting (ilustrador; Inglaterra) – Infantil – 36 páginas “No Meio do Caminho” (Globinho) – Tom Tinn-Disbury (Inglaterra) – Infantil – 32 páginas. “Dez Coelhinhos” (Companhia das Letrinhas) – Maurice Sendak (Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “Quem Consegue Encontrar os Papéis” (Yellowfante) – Riina (Finlândia) & Sami Kaarla (Finlândia) – Infantil – 16 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Nebulosas” (Editora 34) – Narcisa Amália – 304 páginas. “Fyah – Do Ódio ao Amor” (Malê) – Negafyah – 132 páginas. “Pós-Poemas” (Perspectiva) – Augusto de Campos – 120 páginas “Mostra Mostra” (Círculo de Poemas) – Angélica Freitas – 40 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Sonetos” (José Olympio) – Floribela Espanca (Portugal) – 224 páginas. “Não Me Deixe Só” (Todavia) – Claudia Rankine (Jamaica) – 184 páginas. “Se o Mundo e o Amor Fossem Jovens” (Círculo de Poemas) – Stephen Sexton (Jamaica) – 128 páginas. No fim do mês, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar as 20 Ficções Mais Vendidas no Brasil em 2024 . E no final de abril, retornarei às páginas dessa seção para aí sim listar os lançamentos do segundo bimestre em nossas livrarias. Enquanto isso, continue acompanhando os posts das demais editorias do Bonas Histórias . Porque o que não falta é assunto interessante do universo da literatura, da cultura, da arte e do entretenimento para discutirmos no blog. Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: 1+1=2 2-1=0 – O premiado drama histórico de Fernanda Caleffi Barbetta
Vencedor do Prêmio CEPE Nacional de Literatura de 2022 na categoria Melhor Romance, a sexta publicação literária da escritora paulistana que vive há anos nos Estados Unidos é uma narrativa original, sensível e surpreendente sobre o abandono na infância. A CONTEXTUALIZAÇÃO 1. Ao invés de cair na folia das Murgas do bairro portenho de Saavedra , li uma obra de ficção simplesmente impecável (de 292 páginas) neste Carnaval (feriado no Brasil de 4,5 dias). A leitura em questão foi “1+1=2 2-1=0” ( CEPE Editora ), o 3º romance e a 6ª publicação literária de Fernanda Caleffi Barbetta (autora cujo nome completo tem 23 letras, que estão distribuídas em 9 sílabas e 3 palavras). 2. Talvez o mais correto teria sido eu iniciar meu texto analítico (que demandará entre 25 e 30 minutos de sua dedicação) utilizando o verbo “reler”. 3. Re.ler (cinco letras): 1. verbo transitivo direto – ler de novo ou repetidamente. Exemplo: reli um livro depois de um ano e meio; 2. verbo transitivo direto – rever algo para se recordar ou estudar. Exemplo. Reli o material para me inteirar de seus detalhes; 3. verbo que não sei a transitividade – analisar com a devida calma algo que fora feito correndo no passado. Exemplo: reli uma obra de ficção simplesmente impecável neste Carnaval. 4. Para ser bem franco com os leitores do Bonas Histórias , conheci “1+1=2 2-1=0” (eu não me equivoquei na escrita nem seus olhos estão delirando no Pós-Carnaval – é esse mesmo o curioso título deste livro!!!) na época de seu lançamento, em outubro do ano retrasado. Inclusive, o mencionei na coluna Mercado Editorial como uma das gratas novidades de nossas livrarias no penúltimo bimestre de 2023 . 5. Fernanda Caleffi Barbetta nasceu em junho de 1976 tem 48 anos, 9 meses e alguns dias. Natural da cidade de São Paulo, mora há quase seis anos no estado norte-americano de Michigan. É jornalista graduada pela Universidade Metodista de São Paulo e com pós-graduação na Cásper Líbero. Casada, não tem filhos. Atuou por mais de 20 anos com Jornalismo Empresarial e na Mídia no ABC Paulista. Na literatura, está há pouco menos de uma década. Nesse período, já publicou três romances, duas coletâneas de contos e uma antologia poética. Com a alma leve e a voz calma, se destaca pela generosidade com que partilha méritos, distribui elogios aos colegas e não titubeia em enviar sinceros agradecimentos a todos ao seu redor. 6. Ainda assim, confesso que achei pouco uma rápida citação no blog para o melhor trabalho até aqui de uma das boas revelações da literatura brasileira contemporânea . Na minha visão, é esse o status atual de Fernanda. Sua escrita me lembra bastante a de Veronica Stigger, outra de minhas escritoras nacionais favoritas. Tal qual a autora de “Os Anões” (Cosac Naify) e “Opisanie Swiata” (Cosac Naify), Fernanda Caleffi Barbetta navega com excelência por vários gêneros literários e produz textos extremamente originais, que muitas vezes subvertem a lógica dos elementos da narrativa ficcional . É impossível não nos apaixonarmos por artistas com tais habilidades. 7. Ao constatar a beleza e a força literária de “1+1=2 2-1=0”, prometi para Doutora Riolinda, minha psicóloga imaginária (é verdade verdadeira, tenho mesmo uma psicóloga imaginária com quem me encontro todas as quartas-feiras à tarde há quase dois anos), que iria contar tudo o que descobri desse romance. Obviamente, o espaço de registro de minha análise seria a coluna Livros – Crítica Literária . Riolinda se empolgou com a iniciativa de seu paciente brasileiro e, a partir daí, comecei a anotar nas folhas do caderno as principais impressões da leitura. Sim, ainda tenho e utilizo bastante os cadernos. Por que a surpresa, hein?! 8. O problema é que dias se transformaram em semanas, semanas viraram meses, meses vestiram a roupa dos semestres e semestres brincaram de formar pares para dançar em volta da Estrela Brilhante. Aí já viu, né? O impaciente planetinha azul já tinha dado mais do que uma translação completa no salão do Sistema Solar e minha promessa se mantinha vergonhosamente pendente. 9. O pior mentiroso é aquele que mente para si. O segundo pior é aquele que esquece a mentira contada. Talvez eu seja a única pessoa da história que ganhou simultaneamente a medalha de ouro e a medalha de prata numa mesma prova de desabilidade social. 10. Para aqueles que possam achar que eu abandono meus compromissos literários (como faço com os vira-latinhas paulistanos que me veem como seus tutores) , que substituo bons livros antigos por novos que entraram na moda ( como me hacen las chicas de San Miguel ) e que sou molenga demais para trabalhar (prefiro pensar que o tempo é que é um adversário célere demais para mim) , protesto. Protesto, meritíssimo! Aí está a prova cabal da credibilidade das minhas nem um pouco confiáveis palavras. 11. Há pessoas que abandonam cachorros. 12. Há pessoas que fazem literatura. 13. Há pessoas que abandonam a literatura para ficar com os cachorros. 14. Há pessoas que abandonam os cachorros para fazer literatura. 15. Seja bem-vindo(a) ao post do Bonas Histórias sobre o romance espetacular de Fernanda Caleffi Barbetta! Se você ainda não conhece essa autora, deveria conhecê-la. E para eu não ser cúmplice da desinformação alheia, dou uma de Gil Gomes e apresento aqui e agora o material que coletei sobre a escritora e seu livro mais reluzente. Para se obter ainda mais dados a esse respeito, recomendo a visita ao blog Entre Versos e Prosas . Nele, a própria Fernanda divulga seu trabalho, compartilha as iniciativas de colegas e mostra a repercussão de suas publicações. 16. Atraso um ano e meio para cumprir minhas promessas? Atraso, sim! Porém, esqueço meus compromissos, senhoras e senhores? Nananinanão. As dívidas literárias são como as dívidas financeiras. Devo não nego, pago quando puder. Talvez eu esteja usando essa frase mais do que gostaria nos últimos anos deveria nesse comecinho do ano. 17. Atraso (seis letras). Dívida (seis letras). 18. Paguei (seis letras). Aí está (seis letras). A PREMIAÇÃO 1. Entre 2021 e 2022, Fernanda Caleffi Barbetta produziu a história de Luiza Martins Luiza Couto Luiza, uma menina órfã que vivenciou a trágica experiência de sucessivos abandonos na infância. Uma vez concluído o romance, a autora colocou o nome de “1+1=2 2-1=0” e o inscreveu despretensiosamente no Prêmio CEPE Nacional de Literatura . Essa foi a primeira vez que ela tomou uma iniciativa desse tipo. Até então, a maioria de suas obras literárias tinha saído por autopublicação. Participar de concursos nacionais ou enviar os originais para avaliação das editoras? Fernanda sequer cogitara tais possibilidades. 2. Em 2016, a jornalista começou a desenvolver sua primeira história ficcional, que logo em seguida seria dividida em dois livros. Assim, lançou “Futuros Roubados” (Publicação Independente) em 2017. Esse é o seu romance de estreia. Já no ano seguinte, foi impresso “Passados Revelados” (Publicação Independente), o romance de fechamento dessa saga. A tiragem foi de cem exemplares de cada título. Os livros foram basicamente distribuídos para amigos, conhecidos e familiares da escritora. Vendê-los?! Ninguém pensava nessa alternativa ainda. 3. Aos olhos da escritora atual, “Futuros Roubados” e “Passados Revelados” são obras com narrativas que tem mais da Fernanda jornalista do que da Fernanda literata. Por isso, a explosão de sentimentos contraditórios. Por um lado, o orgulho e a satisfação pelo passo inicial dado. Por outro, a vergonha natural pelo ainda pouco traquejo pela estrada ficcional. 4. Empolgada principalmente com o processo de produção da duologia, mas ciente do longo caminho que tinha para percorrer até chegar à excelência almejada, Fernanda Caleffi Barbetta entendeu que precisava se desenvolver no novo ofício. Assim, começou a fazer cursos de ficção e oficinas de Escrita Criativa. Também ingressou em coletivos de escritoras. Vale a pena lembrar que nessa época ela ainda morava no Brasil. Dessa maneira, saía de cena a experiente jornalista e entrava no palco a novata na literatura. 5. A partir dos estudos e da interação com os colegas, Fernanda se sentiu mais à vontade para apresentar praticamente um livro por ano. Em 2019, lançou “30 Textos Para Descontrair” (Publicação Independente), coletânea de contos. Em 2020, já morando no exterior, trouxe ao público “Já Não Me Cabem as Rimas” (Publicação Independente), antologia poética. E em 2022, publicou “Iceberg” (Venas Abiertas), coleção de microcontos. 6. Escrito em tópicos, “1+1=2 2-1=0” é o relato ficcional de Izinha, apelido carinhoso de Luiza Martins (nome original da personagem principal do romance) ou de Luiza Couto (seu nome após adoção). A menina conta literalmente para sua psicóloga, Doutora Camila, os perrengues vividos na infância. Após a morte da mãe quando tinha só 8 anos, a narradora-protagonista passou por maus momentos seja na casa da tia má, seja no orfanato para onde foi enviada. Não por acaso, a perda materna é o que dá o pontapé inicial do drama histórico . Essa história é ambientada do final dos anos 1970 ao início dos anos 1990. 7. Quase um ano após enviar os originais à CEPE Editora , a romancista paulistana se preparava para lançar seu novo livro de forma independente. Ela nem sequer se lembrava de ter se inscrito no concurso. Por isso, cuidava ela mesma da revisão do texto, do projeto gráfico e dos detalhes finais de sua sexta publicação. 8. Uma das ideias era alterar o título do livro. Apesar de original, “1+1=2 2-1=0” continha traços de experimentalismo, o que poderiam afugentar o público leitor. Sabendo desse empecilho, ganhava força na cabeça da autora um novo nome: “Todo Fim é um Abandono”. Felizmente, um contato da CEPE Editora acabou com a pretensão da mudança de designação. 9. Diferentemente da narradora-protagonista de seu principal romance (Luiza vivia dizendo que não era boa com as palavras e buscava compreender o sentido delas no dicionário), Fernanda Caleffi Barbetta sempre dominou a arte da escrita. Na mais tenra infância, era considerada pelas outras três irmãs e pelos pais a escritora da família. Mesmo não sendo uma voraz leitora como su hermana mayor , era ela a encarregada de produzir as dedicatórias de aniversário, as mensagens de final de ano e os textos das cartas para os parentes. 10. Certamente a escolha pelo Jornalismo como profissão em meados da década de 1990 no fim da adolescência está ligada a essa proximidade com a palavra escrita. Contudo, após mais de 20 anos atuando na área, Fernanda notou que não era exatamente aquele o tipo de texto que ela queria fazer. Sua paixão estava nas imprecisões e na polifonia da literatura e não no rigor da checagem das informações nem na defesa do ponto de vista ideológico do veículo de comunicação em que trabalhasse. 11. Talvez a volúpia por fazer o que, enfim, fora talhada desde a infância gostava e a ânsia de se encontrar no novo ofício profissional na nova carreira a levou a se aventurar pelos mais diferentes gêneros literários – da poesia à prosa ficcional e da micronarrativa à série literária. 12. Curiosamente, Fernanda é uma autora de fases. Os Raimundos cantariam “Meu filho, aguenta/ Quem mandou você gostar/ Dessa mulher de fases?”. Ela já foi apaixonada pelos romances ao ponto de lançar dois quase simultaneamente (possuíam a mesma linha narrativa) . Depois, se tornou obcecada pelos versos poéticos. Em seguida, enamorou os contos e os microcontos. Mais recentemente, voltou a flertar com os romances. “Complicada e perfeitinha/ Você me apareceu/ Era tudo que eu queria”. Raiva! Agora estou com essa música na cabeça. 13. “1+1=2 2-1=0” foi eleito o Melhor Romance do Prêmio CEPE Nacional de Literatura de 2022 . Como premiação, a editora pernambucana lançou a obra nas livrarias nacionais no segundo semestre de 2023, além de pagar R$ 20 mil à autora. Com a conquista da honraria literária, ficou complicado para Fernanda mudar o título da obra, né? Assim, “Todo Fim é um Abandono” foi deslocado para outro lugar na narrativa (só não falo onde para não estragar a surpresa). Portanto, ele não foi abandonado. Apenas substituíram sua posição dentro da publicação. 14. O primeiro evento de divulgação de “1+1=2 2-1=0” ocorreu na 14ª edição da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, em outubro de 2023. Essa data marcou uma mudança significativa na carreira de Fernanda Caleffi Barbetta. Enfim, ela deixava o universo da literatura independente e adentrava no metiê das boas editoras nacionais. 15. A CEPE Editora está no meu grupo de casas literárias favoritas no Brasil. No Nordeste, não há dúvida, ela é a melhor! Sinto que todas as suas publicações possuem enorme qualidade. Até pouco tempo, consumia a sua revista mensal de arte e cultura, a Continente . Só parei de ler porque a excluíram do GoRead (minha plataforma de assinatura de revistas). A CEPE Editora está ao ladinho da paulista Editora Fósforo e da gaúcha Editora Dublinense como as empresas do mercado editorial que eu paro para conferir o que estão fazendo de novo. Porque sei que não vou me arrepender. Para mim, esse trio de editoras é o melhor do nosso país atualmente. 16. O título inusitado é uma referência clara aos relacionamentos humanos que, contraditoriamente, não possuem a lógica cartesiana da matemática . Duas pessoas juntas potencializam suas forças e vivências (1+1=2). Contudo, quando perdemos a pessoa amada, somos anulados (2-1=0). É ou não é incrível, senhoras e senhores, essa brincadeira numérico-social?! 17. “1+1=2 2-1=0” é uma das ótimas leituras que fiz nesse comecinho de 2025. Depois de ter me divertido com três excelentes publicações gringas, “Nós que Vivemos” (Minotauro), romance histórico de Ayn Rand, “Yo Te Cuento Buenos Aires – X” (Legislatura Ciudad de Buenos Aires), coletânea de premiados contos sobre a capital da Argentina feita por vários autores locais, e “Un Día” (Camalote), novela de Gustavo Cabezón, foi muito bom me entreter com algo de grande qualidade do meu país. 18. Para não cometer nenhuma injustiça, além da publicação de Fernanda, também me deliciei nas últimas semanas com “Perfil – O Mundo dos Outros” (Manole), coleção de breves biografias produzidas por Sergio Vilas-Boas, e “O Mulato” (Principis), clássico naturalista de Aluísio Azevedo. Enquanto o primeiro livro faz parte dos meus estudos para ingressar no mundo da biografia (estou fazendo a lição de casa, pessoal da EV Publicações! ), o segundo é a matéria-prima da próxima entrevista do Talk Show Literário (abraço, Darico Nobar!). 19. Quem disse que o Carnaval é um período exclusivamente de agito e badalação fora de casa, hein? Aproveitar a calmaria do feriadão prolongado para colocar a leitura em dia e conhecer/reler os melhores títulos da literatura clássica e da literatura contemporânea também é muito prazeroso (principalmente para as almas que passaram das quarenta primaveras) . 20. Dos títulos que tive a felicidade de ler até agora em 2025, o romance de Fernanda Caleffi Barbetta é o melhor. Ele conseguiu tirar a primeira posição de “Nós que Vivemos” . E eu que imaginei que tal façanha seria difícil. O ENREDO 1. A trama de “1+1=2 2-1=0” começa em 8 de julho de 1985. Aos 14 anos, 9 meses e 1 dia, Luiza Martins Couto decidiu escrever contar sua história em um caderno (ou seriam em alguns cadernos?). A adolescente por vezes revoltada e inconsequente fora incentivada por sua psicóloga, com quem se reunia semanalmente, a colocar as lembranças da difícil infância no papel. Segundo Doutora Camila, ao pôr para fora as angústias e os traumas do passado, a jovem paciente não apenas poderia assimilar melhor os eventos antigos como teria a chance de compreender sua trajetória de vida por uma nova perspectiva. E a partir desse sábio conselho ouvido na quarta consulta, Luiza iniciou seu relato. 2. Sua história é uma história de abandonos. 3. As páginas de abertura do caderno são de apresentação. Luiza Martins Couto era uma garotinha de 7 anos aparentemente feliz. Nascida em 7 de outubro de 1970, ela morava com a mãe Ana em uma casa simples na cidade de São Paulo. Corria o ano de 1978. As duas viviam só, pois o pai de Luiza abandonara a família há muito, muito tempo. A menina não conhecia sequer a identidade do homem que a gerou. A mãe chamava o antigo companheiro de “canalha” e não entrava em mais detalhes de quem ele seria. A menina também não parecia lá muita interessada em descobrir as origens daquela figura que sempre fora totalmente ausente. 4. Ca.na .lha (7 letras): 1. pessoa sem moral, desonesta; patife; infame; 2. reunião de pessoas desonradas e desprezíveis; 3. que se pode referir ao que é vil, sem valor; ordinário; 4. pai que abandona mulher, filha e cachorro nos capítulos iniciais do romance. 5. Para ser bem franco com os leitores da coluna Livros – Crítica Literária , na casa de Ana e Luiza também vivia Pipo, um vira-lata preto e magricelo. Muito bonzinho, ele era o melhor amigo da pequena moradora daquela residência. A dupla era do tipo inseparável. Luiza e Pipo acompanhavam juntos o tratatatatata da máquina de costura de Ana. Costureira, ela trabalhava em casa por várias horas. Seu passatempo favorito era fazer palavras cruzadas na mesa da cozinha. Para Luiza, a melhor hora do dia era quando a mãe fazia pão na chapa pão queimado. 6. seelativesserezadodireitoseelativesserezadodireitoseelativesserezadodireitoseelativesserezadodireitoseelativesserezadodireitoseelativesserezadodireitoseelativesserezadodireitose 7. A menina também tinha uma bonequinha, presente de Natal de Ana, com uma só chuquinha de cabelo loiro no alto da cabeça. O corpinho de pano era coberto por um vestido azul. Até hoje, a boneca não possuía um nome, mas estava pendurada na estante do quarto de Luiza. 8. Numa tarde, não teve tratatatatata da máquina de costura nem pão queimado. Ana foi levada às pressas ao hospital. Luiza ficou com a vizinha que tinha hálito de tangerina. A mulher pediu que a pequena rezasse. Afinal, Deus ouve melhor as crianças. 9. Ele não ouviu ninguém. Ana morreu de doença ruim. 10. A única parente de Ana que os vizinhos localizaram foi uma velha que morava longe. Tia Nanci vivia em Minas Gerais e teve que vir para São Paulo. Após acompanhar o enterro da sobrinha, levaria Luiza para sua casa. A garota iria morar com ela. 11. As tias de nossas mães são nossas tias?! Sinceramente, nunca tinha pensado sobre isso e, infelizmente, não tenho uma resposta válida para essa intrigante questão. 12. Logo de cara, Tia Nanci (que não era tia de Luiza coisa nenhuma, só da mãe da menina) mostrou toda a sua vilania. Ela não quis levar Pipo para Minas. O cachorrinho foi deixado em São Paulo aos cuidados da vizinha com hálito de tangerina. Assim, Luiza partiu no ônibus inconformada com o novo abandono. Dessa vez, ela teria que aprender a viver sem o melhor amigo. A única boa companheira naquela viagem foi sua boneca de vestidinho azul. 13. O que era ruim se tornou ainda pior. Tia Nanci se mostrou ainda mais maléfica quando chegou ao seu lar. A vida da garotinha virou um inferno em Minas Gerais. A velha não queria a presença da filha de Ana ao seu lado, não aceitava a responsabilidade de cuidar de alguém que mal conhecia e vivia reclamando das despesas extras que a nova moradora gerava. O drama estava instalado. Sem engolir desaforos, Luiza, com 8 anos recém-completados, não deixava barato e aprontava as suas. Quando queria, ela sabia ser bastante impertinente. Sua especialidade era promover pequenas vinganças à velha bruxa. O relacionamento das duas era terrível e se deteriorava a passos largos. 14. O que é péssimo sempre pode piorar um pouquinho mais. Não se esqueça disso, senhoras e senhores! 15. Novo abandono (12 letras). 16. Certo dia, Bruxa Nanci exigiu que Luiza a acompanhasse em uma viagem de ônibus pela cidade. Longe de casa, as duas desceram num ponto em frente a um casarão. A velha precisava realizar algo ali perto e mandou que a menina a aguardasse sentada no degrau de uma escada. Sem alternativa, a garotinha obedeceu. Luiza permaneceu por horas esperando o retorno da tia de sua mãe. Em seu colo, balançava a boneca de vestido azul. Aos pés, havia uma sacola. Mais tarde, viria a descobrir que dentro da sacola tinha suas roupas. 17. Quando escureceu, Luiza entendeu que Nanci não viria buscá-la. Nessa hora, a porta do casarão se abriu. De lá saiu uma moça ruiva. Ao ver a criança atirada na escada, ela não titubeou e gritou para dentro: “outra abandonada!”. 18. O casarão era um orfanato. Nome: Orfanato Casa das Meninas de Luz. Ali viviam 32 delinquentes, vadias, desajustadas e vagabundas crianças. A partir desse ponto, iniciava-se uma nova fase da vida de Luiza Couto Luiza Martins. Agora ela era oficialmente uma garota abandonada pela família e, por extensão, uma das tantas moradoras dos abrigos para menores de idade. 19. No meio da completa escuridão podem surgir feixes de luz. Diante da onipresença da tristeza, não se deve duvidar do aparecimento de fugazes momentos de alegria. E nem tudo é feiura neste mundo. Quando menos se espera, a beleza surpreende e brota. 20. Entre as várias coleguinhas de orfanato, Luiza fez uma forte e sincera amizade com Helena Sobral. Helena quem? Tá bom, tá bom. Fez amizade com Lena. Lena é para os íntimos. Lena chegou ao casarão algumas semanas depois de Luiza. Como as duas meninas tinham a mesma idade e possuíam grande afinidade, logo se tornaram inseparáveis. 21. Inseparáveis (12 letras). 22. A relação de Luiza e Lena sempre foi pautada em um mix de admiração e inveja. A inveja, na minha visão, partia mais do lado de Luiza do que da amiguinha. Mesmo assim, era inegável que as duas se adoravam e haviam construído uma relação saudável de respeito, coleguismo, carinho genuíno e ajuda mútua. 23. Isso até a Festinha de São João do Lar das Meninas de Luz. Naquela fatídica tarde, o orfanato recebeu a visita de um casal de grã-finos. José Carlos Couto era o respeitado dentista da cidade. E Janete Couto era a fisioterapeuta que precisou abandonar a profissão após uma tragédia familiar. Assim que eles colocaram os olhos em Lena, que era realmente encantadora e dançava alegremente no meio do salão, o casal se apaixonou pela menina. No dia seguinte, o boato que rolava entre as meninas era que os bacanas iriam adotar Lena. 24. Ao antever um novo abandono, Luiza sentiu um turbilhão de emoções. Emoções contraditórias, no caso. Por um lado, ficou feliz de ver que a melhor amiga poderia sair do orfanato e ganhar uma família próspera. Quem não sonha com um bom futuro para aqueles que se ama, hein? Por outro lado, saber que perderia a companhia diária da menina mais legal do orfanato não foi um processo fácil, ainda mais para alguém tão fragilizada emocionalmente. Como seria para Luiza viver sem a amiguinha que ela tanto gostava e admirava, né? 25. Com esse dilema moral na cabeça, a narradora desta obra tomou uma atitude surpreendente que mudou para sempre sua vida. Não apenas a vida dela foi radicalmente transformada como as de Lena e do casal Couto também foram. Seu comportamento na segunda visita de José Carlos e Janete divide opiniões até hoje. Teria Luiza agido corretamente ou incorretamente?! Era esse o grande conflito ético que a agora adolescente carregava no peito e tentava detalhar para Doutora Camila. E é esse o suspense do livro de Fernanda Caleffi Barbetta que deixo para você, oh curioso(a) visitante do Bonas Histórias . A ANÁLISE 1. As 292 páginas de “1+1=2 2-1=0” estão divididas em 86 capítulos. Levei aproximadamente 4 horas e meia para concluir a leitura desta publicação no sábado carnavalesco. Foram basicamente duas sessões: a primeira no começo da tarde de 1 hora e meia; e a segunda entre o fim da tarde e o começo da noite de cerca de 3 horas. Portanto, dá para ir da capa à contracapa em meio período. Convenhamos que é uma leitura extremamente rápida, principalmente se considerarmos que temos em mãos um romance de quase três centenas de páginas. 2. Para quem gosta de longas sentadas literárias, dá para concluir este título de Fernanda numa manhã, numa tarde ou mesmo numa única noite. Para quem não curte ficar muitas horas com os olhos grudados nas páginas, é perfeitamente possível finalizar o livro em dois dias ou em três noites consecutivas. Aposto que quem avança pelo primeiro capítulo pelos primeiros capítulos irá direto até o final. Certeza! Foi o que aconteceu comigo nas duas vezes em que degustei “1+1=2 2-1=0” – no fim de 2023 e agora, início de 2025. Em ambas as oportunidades, só fiz um intervalo no meio da leitura porque sou esfomeado e vivo procurando algo para comer. 3. É só comigo ou ler dar fome em todo mundo? 4. A velocidade de leitura é alta por alguns motivos. Em primeiro lugar, a história é muito, muito boa. Naturalmente ficamos curiosos para saber o que irá acontecer mais à frente e não conseguimos fechar a obra. Além disso, a apresentação do enredo em estrutura de tópicos e os capítulos curtinhos aceleram ainda mais o caminhar dos olhos. A função desses recursos textuais é justamente dar celeridade à leitura. 5. Para completar, o ritmo narrativo também é extremamente ágil. Ocorrem muitas coisas em pouquíssimas páginas. Em dois capítulos, ficamos sabendo que Luiza se tornou órfã na infância. Três capítulos depois, a menina estava sob os cuidados da megera Tia Nanci e sem a companhia de Pipo. Cinco capítulos mais tarde, a garotinha já fora abandonada na porta do orfanato. Se isso não é rapidez narrativa, não sei mais o que seria uma trama veloz. 6. Preciso fazer um elogio à equipe da CEPE Editora que cuidou desta publicação. O projeto gráfico e a diagramação de “1+1=2 2-1=0” estão primorosos. Além de lindo, o romance não economizou espaço (um mal que, infelizmente, aparece em vários títulos de editoras comerciais). Ao invés de pensarem na economia de páginas (ah, essa mania de cortar custos onde não se deve!), os designers se preocuparam fundamentalmente com a experiência de leitura. Assim, o visual do livro também é um convite sedutor ao mergulho nessa história ficcional. 7. Parodiando Jojo Todynho: que capa foi essa, viado? Que capa foi essa, que tá um arraso?! A emulação da aquarela na capa mostra vários elementos da infância da protagonista: o edifício do orfanato, o outdoor do terreno baldio, o cachorrinho abandonado em São Paulo e a personagem principal sozinha na estrada da vida (ou seria a bonequinha do vestido azul ou mesmo a melhor amiga a aguardando?). Em outras palavras, não temos na imagem de abertura o retrato de uma cena específica do livro e sim a reunião de vários flashes da trajetória de Luiza. Samba, na cara da inimiga, vai. Samba, desfila com as amigas! Que capa foi essa?! 8. Do ponto de vista da tipologia narrativa , esta obra pode ser classificada como um drama histórico (o enredo se desenrola de meados de 1978 ao início de 1992), um romance de formação (construção da personalidade da narradora através da apresentação da fase mais difícil da vida) e/ou uma narrativa infantojuvenil (perrengues da protagonista durante a infância e a adolescência). Como já foi mencionado, a narração é em primeira pessoa. Quanto ao tipo de narrador , o detalharei mais à frente. Porém, posso adiantar que, para mim, Luiza Couto é uma narradora pouquíssimo confiável. Ai, ai, ai. Lá vem polêmica! 9. Polêmica (8 letras). 10. O primeiro elemento da narrativa que chama nossa atenção neste trabalho literário de Fernanda Caleffi Barbetta é a beleza do seu texto. Temos aqui uma prosa poética ao mesmo tempo sensível e inteligente. A brincadeira metalinguística do verbo “contar” é simples e sofisticada. Nota-se a preocupação da autora em amarrar as questões estéticas da contação da história à lógica do enredo e à personalidade da narradora-protagonista. O resultado é incrível. Não conheço nenhum outro título que tenha participado da edição de 2022 do Prêmio CEPE Nacional de Literatura . Ainda assim, garanto que a conquista de “1+1=2 2-1=0” como melhor romance foi justa, muito justa, justíssima. 11. Outra questão que precisamos debater é como autores habilidosos conseguem transformar histórias ficcionais tristes em narrativas maravilhosas. Por mais que o drama da menina recorrentemente abandonada toque nossos corações, é impossível não ficarmos encantados com a maneira como a trama é apresentada. Juro que as melhores experiências literárias que tive nos últimos anos foram de textos que conseguiram extrair beleza das tragédias e/ou reflexões profundas de momentos delicados das personagens principais. Sem sair da literatura em língua portuguesa , dá para citar como exemplos desse processo “Suíte Tóquio” (Todavia), melhor título ficcional de Giovana Madalosso, “O Menino Amarrado ao Manacá” (Publicação Independente), segundo romance de José Carlos Martins, “2 Guerras Surreais” (Publicação Independente), novela fantástica de Graziella Moraes, e “O Mapeador de Ausências” (Companhia das Letras), drama histórico de Mia Couto . Essas são publicações que analisei recentemente na coluna Livros – Crítica Literária . 12. Sabe o que podemos fazer para descobrir se o romance tem ou não tem boas cenas e boas personagens ? É simples. Leia-o uma vez de maneira descompromissada. Depois, guarde o livro no fundo da estante. Aí pegue-o quase dois anos mais tarde. Se ao reler as primeiras páginas a história vier inteirinha à cabeça e você se lembrar claramente das figuras retratadas, tenha certeza de que está diante de uma excelente trama. Por consequência, as cenas e as personagens são ótimas. 13. Tenho evidências empíricas de que “1+1=2 2-1=0” é uma narrativa ficcional excelente. Fiz o teste e ele deu positivo. 14. A ambientação deste livro é sublime. A detalhada construção histórica dos anos 1970 e 1980 e o retrato pujante de uma criança abandonada no orfanato fazem o romance se tornar forte e contundente. Ele também tem temperos de originalidade e um estilo narrativo marcante. Temos doses corrosivas de acidez, humor negro, reflexões filosóficas, metalinguagem literária e jogos matemático-linguísticos. Adorei esse mix de elementos. 15. A publicação é tão fidedigna, mas tão fidedigna que ficamos com a impressão de que Fernanda Caleffi Barbetta está contando a sua própria história. Você teve essa sensação, hein? Admito que eu tive. Na primeira leitura que fiz, podia jurar que estava acompanhando uma trama autobiográfica ou semibiográfica. No pior dos casos, seria um enredo com fortes influências de episódios reais. Entretanto, é importante dizer que a Luiza Martins/Luiza Couto é apenas uma personagem ficcional e não tem qualquer relação com a autora. As únicas semelhanças entre elas são a habilidade com o manuseio das palavras e a capacidade fora do comum de contar histórias. 16. As melhores ficções são aquelas que parecem verídicas aos olhos dos leitores desavisados. 17. A autora escolheu as décadas de 1970 e 1980 para retratar sua história porque essa foi a época em que havia muitas crianças nos orfanatos. Além disso, como era ainda menina nesse período, se tornava mais fácil para ela construir a ambientação da infância da pequena Luiza a partir de suas próprias memórias. Achei essa opção acertadíssima. 18. Não sou da Geração X como Fernanda e Luiza. Eu sou da Geração Y Millennium. Ainda assim, fui impactado por várias passagens do romance, que remeteram a momentos emblemáticos da minha infância. Uma das músicas que minha avó me ensinou (e que não esqueço de jeito nenhum) é “Hoje é Domingo”. Consigo cantá-la até hoje do início ao fim numa boa. Minha irmã nasceu em 7 de outubro, assim como a protagonista de “1+1=2 2-1=0”. Tal qual a separação de Luiza e Lena, vivenciei a partida do meu melhor amiguinho (Evandro) na escola quando tinha 10 ou 11 anos. Na minha família, acompanhei de perto o luto de alguns pais e mães e o medo deles de perderem novamente outros filhos. A década de 1980 foi uma época com alta mortalidade infantil. 19. Para completar o revival , visitei muitos orfanatos paulistanos quando criança. Dona Júlia Minha avó materna adorava distribuir comida e roupa para a criançada dos bairros da periferia de São Paulo. E eu ia junto (não sei o porquê). Não sai da minha memória a imagem das dondocas fúteis que iam a reboque nessas visitas e a impressão que elas causavam na molecada simples e carente. Por isso, consegui visualizar com precisão o clima no Lar das Meninas de Luz após o ligeiro interesse de José Carlos e Janete pela pequena Lena. 20. Incrível como os romances de qualidade conseguem reativar nossas mais antigas lembranças, né? 21. Por falar em memória, quando Luiza faz amizade com Lena no orfanato, “1+1=2 2-1=0” me lembrou bastante “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), romance magistral de Elena Ferrante . Porque a relação das duas personagens de Fernanda Caleffi Barbetta é tão contraditória e delicada quanto a de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Até o nome e o apelido em certos casos são idênticos. E faço essa associação não para diminuir o livro brasileiro e sim para explicar uma percepção que aflorou em mim a partir dessa comparação. 22. Foi apenas no instante em que Luiza age de maneira questionável no Lar das Meninas de Luz e prejudica propositadamente Lena que minha ficha caiu – eita termo bem anos 1980, né? Tal qual Elena Greco em Nápoles, a protagonista de “1+1=2 2-1=0” não é uma narradora confiável em Minas Gerais. Repito: NEM UM POUCO CONFIÁVEL! Quando temos tal entendimento, a experiência literária se potencializa e o livro ganha novo colorido. 23. Ao notar que a personagem principal é uma figura redonda, começamos a questionar seus comportamentos, suas crenças e sua índole. O quanto a menina é manipuladora, hein?! O quanto mente e tem gosto por ludibriar a todos a sua volta? Será que como leitores também estamos sendo vítimas de suas maquinações? Por mais que seguimos tocados por sua trajetória difícil e pelos incontáveis dramas infantis (não ter uma família aos 8 anos não é mole!), Luiza tem uma personalidade um tanto difícil. Com tal compreensão, passamos a degustar sua narrativa com o devido cuidado para não sermos enganados pelo texto em primeira pessoa. Incrível, não? 24. A associação com “A Amiga Genial” é porque, diferente de quase todo mundo que conheço, odeio Elena Greco e admiro Rafaella Cerullo. Para mim, a narradora-protagonista da obra mais famosa de Elena Ferrante é na verdade uma anti-heroína ao estilo de Nazaré de “Senhora do Destino” (2004/2005) e Carminha de “Avenida Brasil” (2012). E a figura que é demonizada pela personagem principal da “Tetralogia Napolitana” é no fundo uma ótima pessoa, tais quais (cuidado que aí vão alguns spoilers) Fitzwilliam Darcy de “Orgulho e Preconceito” (Penguin-Companhia), clássico de Jane Austen, e Andrei Federovitch, do já citado “Nós que Vivemos” . 25. Pera aí, Ricardo. Você misturou telenovela e literatura nas comparações de um mesmo parágrafo! Pode isso, Arnaldo?! 26. Se não acredita na possibilidade de termos uma anti-heroína em “1+1=2 2-1=0”, pense no seguinte: se Luiza mentia MUITO e DESCARADAMENTE para sua melhor amiga (e para os pais adotivos e para todo mundo que encontrava pela frente) e fez o que fez com Lena (esse é o meu esforço para não dar o spoiler!) , por que ela não ludibriaria e não manipularia você, simples leitor(a), com quem não nutria nenhum sentimento especial?! Ou não faria o mesmo com Doutora Camila, a verdadeira leitora das páginas dos cadernos infantojuvenis? Lembremos que a Luiza adolescente estava tentando convencer a psicóloga a “comprar seu ponto de vista” sobre os perrengues do passado. 27. Não podemos nos esquecer que a narradora-protagonista era alguém que dominava desde cedo a arte da contação das histórias e sabia manusear a oratória muitíssimo bem. Apesar de vir com um papinho de que não era tão habilidosa quanto a mãe na difícil tarefa de caçar as palavras ou de cruzá-las, a adolescente era genial em construir relatos fortes, dramáticos e convincentes. Em suma, é uma legítima escritora ficcional. Aí está mais um motivo para ficarmos com um pé atrás em relação a veracidade de sua narrativa. 28. As dúvidas do que é verdade e o que é mentira trazem uma camada extra de força narrativa e de beleza interpretativa ao romance. Por exemplo, será mesmo que Tia Nanci era uma bruxa como o texto indica? Ou será que Luiza era uma mini terrorista na casa daquela pobre senhora? Será que foi mesmo Nanci que abandonou a filha da sobrinha na porta do orfanato? Ou foi a própria menina que fugiu de casa, mas revelou ao mundo mais tarde que fora abandonada pela única parente que conhecia? Quando temos uma história em que o(a) narrador(a) não é confiável (eu também já vi um homem passeando com hipopótamo na coleira na frente da casa da minha avó), temos que nos questionar cada linha e cada passagem do enredo . 29. Bato mais uma vez na tecla: a dualidade e as contradições da personalidade de Luiza a fazem uma personagem ainda mais rica literariamente. E vivam as figuras redondas na ficção, senhoras e senhores! E salvem os narradores pouco confiáveis e de índoles questionáveis! 30. Antes que me chovam críticas, alerto que continuo gostando muito de Luiza (diferentemente de Elena Greco, que não gosto nada!) e que permaneço admirando sua trajetória infantil. Só estou dizendo que não confio totalmente em seus relatos. Só isso, tá? Não é porque temos dúvidas sobre a veracidade de uma história em primeira pessoa que não nutrimos carinho pelo(a) narrador(a) . Sabe que música do Calcinha Preta me veio, por acaso, à cabeça agora? Aquela que tinha os versos: “Você não vale nada/Mas eu gosto de você!/Você não vale nada/Mas eu gosto de você!/Tudo que eu queria/Era saber por que?/Tudo que eu queria/Era saber por que?”. 31. A própria configuração da personalidade da protagonista foi, na minha opinião, um recurso estratégico para se evitar um problemão de ordem narrativa. Afinal, o texto de “1+1=2 2-1=0” oscila o tempo inteiro entre a inocência/pureza da infância (algo que só as crianças conseguem exibir com naturalidade) e a beleza estética/reflexão apurada da realidade (habilidade mais comum do universo adulto). Enquanto uma menina não teria repertório linguístico e bagagem literária para construir uma narrativa mais intrincada e reluzente, um adulto perderia a candura e a fofura dos tempos de meninice. E por que isso seria um possível problema? Porque o romance ficaria inverossímil com essa junção de características tão antagônicas, né? Pelo menos do ponto de vista da Teoria Literária . 32. Qual foi a solução genial encontrada por Fernanda Caleffi Barbetta para exterminar definitivamente esse possível B.O.? Tal qual um mágico que saca da cartola um coelho para admiração do público, a romancista paulistana lançou como sua narradora uma adolescente com grande habilidade na arte da contação das histórias. Aí o milagre foi feito diante dos nossos olhos. Ao mesmo tempo em que Luiza de quase 15 anos tinha as lembranças frescas da infância recém-terminada, ela também tinha a capacidade e a maturidade para construir uma prosa poética bonita e sensível com maestria. Não nos esquecemos que era uma mentirosa nata. Ou, no linguajar mais literário, uma ficcionista precoce. 33. Os últimos capítulos do livro vão até 13 de fevereiro de 1992, quando Luiza Couto tinha 21 anos. Será que ela, agora com mais recursos literários na bagagem, mexeu no texto original que deixou registrado nos cadernos da adolescência? Conhecendo sua índole, não duvido numa intervenção. Na hora de passar o material para o arquivo eletrônico a máquina de escrever, certeza que ela mexeria em muita coisa. Estamos falando de uma artista, senhoras e senhores. Estamos falando de uma moça com alma de escritora! 34. Quando escrevi lá no primeiro parágrafo deste post do Bonas Histórias que “1+1=2 2-1=0” é um romance impecável não foi por acaso. Simplesmente não achei um “A”, uma vírgula, nada para contestar. NADA! Admito que fico frustrado quando isso acontece. Minha tarefa como crítico literário é justamente apontar tanto os pontos fortes quanto os pontos fracos das publicações analisadas. Não dá para apresentar uma avaliação imparcial na coluna Livros – Crítica Literária sem algumas sugestões de melhoria. Sou tão cara de pau nesse sentido que tenho a presunção de comentar nomes como José Saramago, Isabel Allende , Mia Couto , Régine Deforges , José Eduardo Agualusa , Agatha Christie , Jorge Amado , Virginia Woolf e Rubem Fonseca e listar falhas em suas narrativas. Acredite se quiser, mas faço isso sem corar. 35. Mas o que eu teria para reclamar desta obra ficcional de Fernanda Caleffi Barbetta, Santo Deus?! 36. Na primeira leitura que fiz no fim de 2023, confesso que não gostei da extensão da história para depois da narrativa dos cadernos de Luiza com 14 anos. O acréscimo dos capítulos produzidos por Luiza aos 21 anos me soou desnecessário. Entretanto, nesta segunda leitura, achei brilhante o desfecho. Ou seja, não mudaria isso. 37. Nossa, por falar nessa questão, já estava me esquecendo de comentar com você: o desenlace de “1+1=2 2-1=0” é estupendo. Ainda bem que não trocaram o título do livro para “Todo Fim é Um Abandono”. 38. Outro componente narrativo que me incomodou um pouquinho na leitura inicial foi o caráter meio caricato de algumas personagens , como Tia Nanci, Janete Couto e a própria Lena. Originalmente, elas me pareceram figuras excessivamente planas, algo que convenhamos estraga bastante a qualidade do texto literário. Contudo, na releitura, entendi que as descrições delas não fazem parte da realidade ficcional , mas são reflexos da percepção da narradora-protagonista. Portanto, não há erro nenhum aqui. Outra vez, é uma peça muito bem encaixada da estrutura narrativa. O retrato estereotipado e maniqueísta de algumas personagens faz total sentido aos olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Luiza. 39. Viu só como está complicado achar o que criticar reclamar?! 40. Romance impecável (6 números). “1+1=2 2-1=0” (16 palavras). 41. Pela excelência desse romance, acho difícil Fernanda Caleffi Barbetta voltar à autopublicação. Aposto que já deve haver uma fila considerável de grandes editoras interessadas em lançar comercialmente suas novas histórias (e até relançar as antigas obras). Falo como leitor apaixonado por ficção: eu vou sim comprar seus próximos trabalhos literários. Fiquei fã de seu estilo e da qualidade de seu texto. 42. Fim. Todo fim também é um começo. 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- Filmes: Ainda Estou Aqui – Walter Salles recoloca o cinema brasileiro em evidência
Lançado em novembro de 2024 no Brasil e dono da estatueta do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, o longa-metragem do cineasta carioca é a adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva que retrata as memórias de uma família destruída pela violência da Ditadura Militar nos anos 1970. Ricardo, por que só agora você está analisando “Ainda Estou Aqui” (2024), uma das mais importantes produções da história do cinema brasileiro e sucesso recente de crítica e público nos quatro cantos do mundo?! Responda, vai! E não faça essa cara de cachorro abandonado! Não me diga que você virou bolsominion e resolveu boicotar o filme de Walter Salles que foi baseado no livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva ? Ou, nem posso conceber essa possibilidade, esperou o resultado do Oscar de 2025 para só aí engolir o orgulho próprio e surfar no sucesso internacional do filme protagonizado por Fernanda Torres e Selton Mello . Foi isso o que aconteceu, hein? Ricardo, que decepção! Nunca imaginei que você fosse se converter num desalmado que abraça violências e preconceitos e despreza a cultura e as artes do próprio país. Olha, se eu pudesse, ia até aí e falava na sua cara que... Calma, calma, estimado(a) e desavisado(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Sei do atraso do conteúdo da coluna Cinema e me envergonho profundamente pelo timing equivocado do meu trabalho como crítico cinematográfico. Estou me sentindo tão culpado quanto o soldado solitário que amparou Eunice Paiva nos corredores do DOI-CODI do Rio de Janeiro em janeiro/fevereiro de 1971. Contudo, destaco que as acusações que estão sendo atiradas em mim neste momento são injustas, muito injustas, injustíssimas. Aí a semelhança é com Rubens Paiva, que não entendia a violência empregada pelo grupelho fardado que, de repente, o via como um inimigo perigoso do Estado e um subversivo sanguinolento da nação verde-amarela. Erguendo com convicção a bandeira branca com o desenho da pombinha voadora ao centro, peço que pare por um instante com a gritaria, abaixe as armas e me escute. POR FAVOR! Você me fez lembrar a milico de San Miguel, que como uma boa instrutora de tiro do Exército argentino, primeiro descarregava a munição ao chegar em casa e só depois começava a conversar com o mínimo de sanidade. Bons tempos aqueles... Voltando ao nosso assunto, juro que não fui para o lado mau da força: não estou fazendo compras na Havan, não desfilo com a camisa da Seleção Brasileira, não utilizo o Telegram, não tomo vermífugo no café da manhã e, principalmente, não comecei a ruminar, tá? A justificativa da falha cinematográfica deste pequenino blog pode ser mais pueril do que a vã imaginação popular conseguiria supor. Como moro em Mi Buenos Aires Querido há um ano e meio (portanto, cheguei bem antes do Peluca León No Hay Plata ser eleito – não me acuse de libertário!), precisei esperar a chegada do longa-metragem brasileiro às salas de cinema portenhas. E isso só aconteceu em 20 de fevereiro de 2025, dez dias antes da grande cerimônia da Academia de Ciências Cinematográficas de Los Angeles . Não por acaso, esse foi o último filme que disputava o Prêmio do Oscar deste ano que conferi. Diferentemente de colegas mais gloriosos(as), assisto a todos os postulantes à estatueta. É verdade que quase nunca acerto os palpites dos vencedores. E dessa vez não foi diferente. Acreditava que “O Brutalista” (The Brutalist: 2024) fosse papar as principais categorias. E não esperava o reconhecimento a “Anora” (2024), produção independente do genial Sean Baker. Estava tão ansioso por ver “Ainda Estou Aqui”, conforme expus no post de “Emilia Pérez” (2024), que fui correndo à rede de exibição mais perto de casa já no dia seguinte à sua estreia. Pela quantidade de pessoas na sessão do Multiplex Belgrano em uma sexta-feira à tarde (inclusive com gente conhecida – beijo, Carolzinha; só não te cumprimentei porque você estava acompanhada e fez cara de poucos amigos quando passou por mim), não era só eu que tinha a curiosidade para conferir esse lançamento. O cinema estava quase lotado em um horário pouco popular: 17h40. A brasileirada de CABA (o que mais se ouvia na sala era português) e muitos argentinos cinéfilos (também havia muitos locais na sessão vespertina) demonstravam avidez descomunal para atestar a qualidade do concorrente sul-americano à principal estatueta da Sétima Arte. Uma vez visto o filme de Walter Salles, o problema mudou de configuração: não consegui espaço no blog para discorrer sobre esta produção. Na primeira segunda-feira de março, preferi apresentar aos leitores do Bonas Histórias a avaliação geral dos vencedores do Oscar de 2025 . Nada mais justo, né? A premiação tinha ocorrido no domingo de madrugada e me senti na obrigação de comentar na manhã seguinte as escolhas da Academia. E nas duas semanas posteriores (ou, dependendo do ponto de vista, nas duas últimas semanas), priorizei publicações atrasadas das colunas Mercado Editorial e Livros – Crítica Literária . Por isso, trouxe a lista com as obras de ficção e poesia que foram lançadas no Brasil no primeiro bimestre e a análise crítica de “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), o maravilhoso romance de Fernanda Caleffi Barbetta. Dessa maneira, a discussão pormenorizada de “Ainda Estou Aqui” acabou preterida por quase um mês. Foi isso o que aconteceu. Inspira, expira. Juro que não virei bolsonarista e continuo com o mínimo de racionalidade (e dignidade). Inspira, expira. Também não estou boicotando esse filmão que representou o (re)florescimento do combalido cinema nacional nem torci contra a conquista da inédita estatueta dourada pelo meu país. Inspira, expira. Muito menos sou contra a arte e cultura (justamente as matérias-primas do Bonas Histórias !). Inspira, expira. Já se acalmou? Que bom. Tome aqui um copinho de água com açúcar que vai ajudar. Beba tudo sem pressa. Isso! Muito bem. Refletindo com um pouco mais de serenidade, o atraso na análise de “Ainda Estou Aqui” pode até ter sido positivo para a coluna Cinema . Nesse sentido, reconheço que os Bonacorci são tão otimistas quanto os Facciolla – sempre vemos a parte mais cheia do copo. Sem a pressão pela torcida do Oscar inédito (embarquei na onda de meus compatriotas e estava ansioso pelo resultado do principal evento do cinema internacional), posso agora analisar com a devida isenção o filme de Walter Salles e Fernanda Torres. Afinal, ele é tão bom assim quanto a mídia brazuca aponta há três meses?! Mereceu os aplausos obtidos mundo à fora e a premiação na cerimônia de Los Angeles no começo do mês ? Podemos considerá-lo como o melhor filme já produzido em nosso país? Note que para obter respostas adequadas para tais questões, não dá para analisar o longa-metragem no calor da emoção. Para completar o quadro de ponderações, o tempo extra me permitiu inclusive ler “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara), o livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva no qual o roteiro cinematográfico foi baseado. Quais as principais semelhanças e diferenças do filme de Walter Salles para o título literário de Marcelo, hein? Qual das duas versões é a melhor? Fazendo jus ao conteúdo multicultural do Bonas Histórias , cujos pilares centrais são justamente a literatura e a Sétima Arte, não poderia deixar passar batida a confluência entre as colunas Livros – Crítica Literária e Cinema . Esclarecimentos feitos (sou inocente de todas as acusações do primeiro parágrafo!) e apresentadas as prioridades do que vamos discutir daqui para frente (lista também conhecida como pauta do post de hoje), podemos prosseguir. No caso, não seria prosseguir e sim começar efetivamente esta publicação. Porque, não sei se você percebeu, mas até agora só me defendi de insinuações mentirosas e imputações levianas da qual fui vítima. Ai, ai, ai. Então, chega de encheção de linguiça (em espanhol essa expressão seria llenar chorizo ?!) e sem ressentimento, vamos para o que eu e você viemos fazer aqui: discutir “Ainda Estou Aqui” de maneira densa e isenta. Porque estamos no Bonas Histórias , senhoras e senhores, o espaço democrático da arte e da cultura. Se não somos rápidos ao ponto de trazer em primeira mão as temáticas que agitam o país, pelo menos somos profundos para produzir conteúdos completos e abrangentes de velhos assuntos. Lançado no circuito comercial nacional em novembro de 2024, nos Estados Unidos e na Europa em janeiro de 2025 e na parte hispânica da América Latina em fevereiro de 2025, “Ainda Estou Aqui” é o mais importante trabalho de Walter Salles, um dos principais cineastas brasileiros de todos os tempos. Entre os sucessos do diretor e roteirista carioca de 68 anos estão: “Terra Estrangeira” (1995), um dos símbolos da retomada do cinema nacional em meados da década de 1990; “Central do Brasil” (1998), indicado ao Oscar de 1999 nas categorias Melhor Filme Internacional (na época, chamada de Melhor Filme Estrangeiro) e Melhor Atriz ( Fernanda Montenegro ); e “Abril Despedaçado” (2001), indicado ao Globo de Ouro e ao Bafta de 2002 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Muita gente não sabe e outros tantos se esqueceram, mas Salles foi um dos produtores de “Cidade de Deus” (2002), o melhor filme brasileiro de todos os tempos. O sucesso no cinema brasileiro o levou ao exterior. Assim, ele dirigiu alguns bons longas-metragens gringos de gêneros distintos. Destaque para “Diários de Motocicleta” (Diarios de Motocicleta: 2004), drama histórico baseado nas memórias do jovem Che Guevara, “Água Negra” (Dark Water: 2005), versão norte-americana de um filme de terror japonês, e “Na Estrada” (On The Road: 2011), aventura inspirada em “On The Road – Pé na Estrada” (L&PM Pocket), clássico beat de Jack Kerouac . Ao ir para Hollywood, Walter Salles pôde trabalhar em produções com maiores orçamentos e foi visto por públicos mais amplos nos quatro cantos do planeta. Por outro lado, teve que renunciar aos trabalhos mais autorais, como aqueles do início da carreira. É a famosa faca de dois gumes. Nesse contexto, o desenvolvimento de “Ainda Estou Aqui” foi o retorno ao cinema mais artesanal e criativo em sua terra natal. Não por acaso, o filme se transformou no melhor título de Salles até aqui. Ele é a cereja do bolo que seu rico portfólio audiovisual merecia. Vale a pena esclarecer que não foram apenas as três indicações ao Oscar de 2025 (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz – Fernanda Torres) e a estatueta inédita para o Brasil (Melhor Filme Internacional) que atestam a qualidade dessa produção. A volta do público às salas de cinema no país após a pandemia da Covid-19 e a retomada da discussão sobre o fomento à Sétima Arte nacional (o longa de Walter Salles não contou com NENHUM apoio público) representaram marcos significativos para uma indústria tão combalida nos últimos anos. Além do mais, a dimensão do sucesso da cinebiografia de Eunice Paiva, uma mulher que enfrentou com a cabeça erguida a covardia e a violência da Ditadura Militar, ultrapassou a dimensão das telonas e as fronteiras do campo artístico-cultural. O Executivo, o Judiciário e o Legislativo brasileiros passaram, por exemplo, a rediscutir crimes praticados pelo regime de exceção nas décadas de 1960, 1970 e 1980, algo que ficou parado nos últimos anos com a ascensão de governos de direita e de extrema-direita. Tudo porque a repercussão do filme atingiu em cheio a sociedade e a mídia cansadas das injustiças do passado. Convenhamos que são feitos notáveis para um filme! Orçado oficialmente em R$ 8 milhões, ou pouco menos de US$ 1,5 milhão (se bem que informalmente os profissionais envolvidos com esse projeto falam que ele demandou bem mais, algo como R$ 45 milhões, ou pouco mais de US$ 7,5 milhões) e gravado essencialmente no Rio de Janeiro, “Ainda Estou Aqui” tem em seu elenco, além dos já citados Fernanda Torres e Selton Mello, Fernanda Montenegro, Valentina Herszage , Maria Manoella , Marjorie Estiano , Antonio Saboia , Dan Stulbach , Daniel Dantas , Pri Helena, Carla Ribas etc. Esses são os nomes mais conhecidos do grande público. Há também o núcleo infantojuvenil e infantil composto por Luiza Kosovski , Bárbara Luz , Guilherme Silveira e Cora Mora . Vamos combinar que a participação da molecada potencializa a dramaticidade da história, além de trazer graça e charme ao longa-metragem. O roteiro de “Ainda Estou Aqui” ficou à cargo da dupla Murilo Hauser e Heitor Lorega , que já trabalhou em conjunto em “Marinheiros das Montanhas” (2021), documentário dirigido por Karim Aïnouz. Por falar em Aïnouz, quem curtiu “A Vida Invisível” (2019), sucesso recente do cineasta cearense que foi o representante brasileiro no Oscar de 2020 (mas não chegou a ser finalista), saiba que Murilo Hauser foi roteirista desta produção. Como já falei, o novo filme de Walter Salles foi baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, autor best-seller desde sua estreia na literatura em 1982 com o inesquecível “Feliz Ano Velho” (Alfaguara). Por falar nisso, há algumas semanas utilizamos o protagonista de “Feliz Ano Velho” para desenvolver uma entrevista do Talk Show Literário . Tá bom, tá bom. Não vou mais desviar do nosso assunto de hoje... Publicado em 2015, “Ainda Estou Aqui” apresenta em primeira pessoa o relato do filho de Rubens Paiva e Eunice Paiva sobre o drama histórico que sua família enfrentou após a visita de militares armados à sua residência no Leblon em 20 de janeiro de 1971. Para quem ainda não sabe, Marcelo é filho de Rubens e Eunice, os protagonistas da trama. Esquecemos por um momento do livro e vamos nos ater exclusivamente ao enredo do filme. A versão cinematográfica de “Ainda Estou Aqui” começa em dezembro de 1970. A família Paiva vive alegremente em uma casa alugada à beira da praia do Leblon. Rubens Beyrodt Paiva (interpretado por Selton Melo) é o engenheiro santista que atua como sócio em uma construtora em franca expansão no Rio de Janeiro. Ele foi eleito deputado federal em 1962, mas dois anos depois foi cassado com o Golpe Militar de 1964. Agora está afastado formalmente da política, apesar de seguir tendo contatos com gente influente em Brasília e nas capitais fluminense e paulista. Rubens é casado com Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva (Fernanda Torres), mulher culta, elegante e simpaticíssima. Eles têm cinco filhos: quatro meninas – Vera (Valentina Herszage), a mais velha e em idade para entrar na faculdade, Eliana (Luiza Kosovski), Nalu (Bárbara Luz), ambas adolescentes, e Bia (Cora Mora), ainda criança – e um menino – Marcelo (Guilherme Silveira), de mais ou menos onze anos. O porta-retrato é completado com um pequeno cachorrinho vira-lata, Pimpão, que estava perdido na praia e foi adotado pela família. Para ajudar na administração doméstica, os Paiva contam com Zezé (Pri Helena), empregada que mora na casa (ao melhor estilo do Brasil dos anos 1970 e 1980). O cotidiano desse lar de classe média no Rio de Janeiro é tão feliz que beira o mundo onírico ou mesmo o universo idílico. Rubens e Eunice são apaixonados um pelo outro e, mesmo com cinco filhos a tiracolo, conseguem ter tempo para se curtir. Eles também adoram receber as visitas de amigos, familiares, colegas e vizinhos. A residência no Leblon é o point de encontro de artistas, intelectuais, políticos e empresários de renome nacional. O entra e sai da casa dos Paiva ainda conta com a infinidade de amigos, namorados e colegas dos filhos. As crianças e os adolescentes que usam rotineiramente aquele espaço conferem uma energia saudável, leve, divertida e jovial ao ambiente doméstico. Contudo, é perceptível que o clima alegre e descontraído da metrópole carioca e do Brasil está mudando. O início dos anos 1970 marcou a intensificação da repressão da Ditadura Militar brasileira, que tomou o poder em 1964. Conforme Raul Ryff (Daniel Dantas), jornalista e político de oposição ao regime fardado, fala no início do filme: “Brasília está pegando fogo. Milicos vão cair matando!”. O problema é que suas palavras deixam rapidamente o campo metafórico e se tornam literais. Na virada de 1970 para 1971, a polícia já está prendendo e agredindo a população indiscriminadamente. É o famoso: primeiro bate e depois pergunta. E o Exército tortura e mata aqueles que são contrários à Ditadura fardada. Em pouco tempo, ações de grupos armados de oposição aos militares sequestra embaixadores gringos em troca da liberação de presos políticos. A última grande ação desse tipo é o sequestro do embaixador suíço em dezembro de 1970, que monopoliza o noticiário do país inteiro e provoca a reação intempestiva dos órgãos de segurança. Ao mesmo tempo, famílias deixam o Brasil em direção ao exílio voluntário ou forçado. O caminho prioritário é os vizinhos da América do Sul, a Europa e os Estados Unidos. Sabendo dessa realidade complicadíssima, os Paiva cogitam se seria hora de ir também para o exterior, como muitos amigos estão fazendo. Rubens é contrário a essa ideia defendida por Eunice. Ele acha que o momento ruim que o país vive será passageiro e que não há motivos para tantas preocupações. Mesmo assim, o casal envia Vera, chamada por todos de Veroca, para uma temporada em Londres. A moça que tem personalidade forte e já flerta com os movimentos juvenis é considerada pelos pais como um possível alvo dos milicos. Com a primogênita na Inglaterra, o casal de protagonistas sabe que a jovem não correrá tantos perigos e, assim, fica um pouco mais calmo. Ou seja, os Paiva permanecem no Rio na virada de 1970 para 1971 com os outros quatro filhos. O sonho de Rubens e Eunice é construir uma grande casa para que todos os rebentos tenham quartos individuais, além de piscina e campinho de futebol. Para uma família gigantesca e com rotineiras visitas, a residência na Zona Sul carioca, por mais bem localizada e espaçosa que seja, se tornou minúscula. Como é construtor na cidade, Rubens descobriu um bom terreno para uma nova casa e já o comprou. Inclusive até desenhou a planta da nova morada, que contou com os palpites da esposa e da filharada. Aos poucos, eles construirão o lar definitivo dos Paiva. Porém, os planos familiares são interrompidos na manhã do fatídico 20 de janeiro de 1971, data que nenhum Paiva jamais esquecerá. No feriado de São Sebastião com sol forte, calor e praia convidativa, a casa do Leblon é invadida por um grupo de homens à paisana e fortemente armado. Eles se identificam como integrantes do Exército e informam que estão ali para levar o antigo deputado para interrogatório. Destacam que é algo meramente burocrático e que Rubens estará de volta no final do dia. Demonstrando muita tranquilidade, o dono da casa não se opõe às ordens dos visitantes indesejados e pede para pelo menos se arrumar para o encontro com os militares. Aí surge a segunda grande surpresa. Mesmo com a saída de casa de Rubens, parte dos invasores permanece dentro da residência dos Paiva. Eles bisbilhotam a rotina da família, monitoram as visitas e ouvem as conversas telefônicas pela extensão. O mal-estar é crescente, principalmente quando as horas passam e o pai não retorna. Para perplexidade de Eunice, no dia seguinte ela e Eliana, a filha mais velha ali presente (lembremos que Veroca está no exterior), são convocadas para interrogatório no Exército. Novamente as palavras dos brutamontes são as mesmas: é algo normal, de rotina, que não durará mais do que algumas horas. Dessa maneira, Eunice e a adolescente partem para o mesmo lugar em que Rubens foi enviado na véspera. As crianças ficam sob a supervisão de Zezé, que assustada se torna de repente a responsável pela casa e pelo cuidado dos pequenos. No centro clandestino de interrogatório e tortura do DOI-CODI do Rio de Janeiro, Eunice conhece o lado mais obscuro da Ditadura Militar brasileira. Ela fica presa por 12 dias em um cubículo escuro e sem acesso à água. Nesse período, ouve presos gritando, sendo torturados, pedindo ajuda. Em reuniões para lá de tensas, é forçada a dizer nomes de subversivos que conheceria e que visitaram sua casa nos últimos meses. Por várias vezes, os milicos apresentam cadernos cheios de fotos para que a esposa de Rubens aponte “algum terrorista do Estado”. A única pessoa daquela lista que lhe é familiar, além do marido, é Martha (Carla Ribas), professora de música de suas filhas. Assustada, ela aponta para a mulher no retrato. Depois de quase duas semanas presa, em que perdeu aproximadamente 20 quilos, Eunice é solta e pode regressar ao lar, para alegria dos filhos. Só nesse instante, ela descobre que Eliana tinha sido liberada já no dia seguinte a sua prisão e que Rubens ainda não regressou ao lar. Aí começa o seu martírio. Eunice Paiva fará o que for preciso para conseguir a liberação do marido. Para isso, contará com o apoio da influente e variada rede de amigos no Brasil e no exterior. Apesar da imprensa brasileira, que desde a implementação do AI-5 em 1969 estava sob censura, não noticiar o drama dos Paiva, nos Estados Unidos e na Europa a mídia repercute a prisão arbitrária do ex-deputado. Ao mesmo tempo em que busca explicações para o que está acontecendo, Eunice precisa convencer os filhos que está tudo bem e que o pai logo retornará. Inicia-se, assim, um leque interminável de mentiras para as crianças e o estabelecimento de alguns assuntos tabus que não podem ser comentados dentro de casa. Essa dinâmica é abalada com a volta de Veroca ao Brasil. A filha mais velha sabe de tudo o que aconteceu com os familiares, inclusive com o pai, porque acompanhava as notícias nos jornais ingleses. Para sua indignação, nenhum familiar conhecia os detalhes daquele caso que a maioria dos europeus tinha total ciência. Não é preciso dizer que esse choque de realidades provoca algumas fissuras na tênue harmonia familiar. Apesar dos graves problemas emocionais e financeiros, Eunice Paiva segue impassível à procura de respostas do que aconteceu efetivamente com seu esposo. Nesse instante, surge a destemida e incansável mulher que os brasileiros iriam conhecer nos anos seguintes como defensora dos Direitos Humanos. “Ainda Estou Aqui” possui 2 horas e 15 minutos de duração. Como é hábito no país em que escolhi para viver, o badalado filme brasileiro foi bastante aplaudido pela plateia no cinema portenho ao final da sessão em que estive presente no mês passado. É isso mesmo o que você leu: os argentinos têm a mania de aplaudir os longas-metragens que apreciam (e de aterrisagens perfeitas das aeronaves nos aeroportos). Juro que não os acompanho nesses momentos. São ainda muito estranhos para mim esses comportamentos. Mesmo assim, admito que deu vontade de me levantar da poltrona do Multiplex Belgrano e aplaudir efusivamente a produção de Walter Salles. Só não abri uma exceção e segui a galera porque... porque... porque não queria chamar a atenção da minha conterrânea que estava a algumas poltronas ao lado e não parecia nem um pouco feliz com nosso inusitado reencontro. Precisamos reconhecer, senhoras e senhores, que “Ainda Estou Aqui” é um filmão. Ele mereceu sim a conquista do Oscar de Melhor Filme Internacional. Independentemente das escolhas dos jurados da Academia de Ciências Cinematográficas de Los Angeles na categoria Melhor Filme Geral, o longa-metragem brasileiro tem o mesmo nível de qualidade dos títulos que postulavam à principal estatueta do cinema internacional: “Anora”, que levou para casa cinco prêmios, “O Brutalista”, três, “Emilia Pérez” , “Duna – Parte 2” (Dune – Part Two: 2024) e “Wicked” (2024), cada um com dois troféus dourados, “A Substância” (The Substance: 2024), “A Verdadeira Dor” (A Real Pain: 2024) e “Conclave” (2024), uma estatueta cada, e “Babygirl” (2024) e “Um Completo Desconhecido” (A Complete Unknown: 2024), que saíram de mãos abanando. Para ser bem sincero com você, considerando a atual estrutura do cinema brasileiro, essa constatação já é um enorme feito da equipe de Walter Salles. Os primeiros elementos de “Ainda Estou Aqui” que me impressionaram positivamente foram os cenários e os figurinos. A recriação dos anos 1970 está perfeita. Como esse é um drama histórico, tal ponto era essencial para a construção da atmosfera do filme. Repare nos detalhes dos carros, das roupas das personagens e dos móveis da casa dos Paiva que emulam a realidade de cinquenta anos atrás. O cuidado com a cenografia é de tirar o chapéu. O figurino foi comandado por Cláudia Kopke , uma das principais profissionais do país nessa área. Outra questão marcante é a fotografia do filme. Temos a sensação de que a filmagem aconteceu exatamente na época retratada. Por várias vezes, me peguei em dúvida se as imagens que conferia na telona eram reproduções fidedignas do passado ou se foram utilizados bancos de vídeos antigos. Essa dúvida que surge na mente da plateia na sala de cinema é mérito da excelente fotografia. Até o jogo de luzes amarelas e alaranjadas, que até hoje não sei o porquê havia nos vídeos e nas fotografias das décadas de 1970 e 1980, estão lá para impactar o público. Incrível, né?! O diretor de arte foi Carlos Conti . Nessa impecável reconstituição histórica, a música é parte fundamental na composição da atmosfera da trama de Eunice Paiva e de sua família. A trilha sonora de “Ainda Estou Aqui” é, ao mesmo tempo, excelente e condizente com a narrativa do longa-metragem. As letras das canções dialogam intimamente com os acontecimentos das cenas e não são mero fundo melódico. Aí explodem hits da Jovem Guarda , da Tropicália e da MPB . Alguns dos músicos que dão voz ao filme são Roberto Carlos , Erasmo Carlos , Tom Zé , Caetano Veloso , Gal Costa , Gilberto Gil e Os Mutantes . Vale a pena dizer que o responsável pela trilha sonora desta produção foi Warren Ellis . Nesse sentido, o longa-metragem de Walter Salles acompanhou o livro de Marcelo Rubens Paiva, que possui uma forte carga musical. Comecei minha análise propriamente dita pela parte técnica (cenografia, figurino, fotografia e musicalidade) para dizer que esse conjunto de elementos dá enorme tensão dramática a “Ainda Estou Aqui”. Essa é justamente a maior diferença da versão cinematográfica em relação à obra literária na qual foi inspirada. Acredite se quiser, mas o texto de Marcelo não tem uma gota de suspense nem de tensão que o longa-metragem de Salles destila desde as primeiras cenas. Achei tal acréscimo fundamental para mexer com as emoções da plateia. Sem a agonia da protagonista para entender o que está acontecendo e sem o medo de ser alvo dos militares, o filme não teria a mesma graça. Por isso, os jogos de luzes de claro-escuro, os silêncios melodramáticos, a câmera que oscila entre a posição estática e o balançar frenético, a rede de mentiras contada tanto pelo governo e a mídia nacional quanto pela mãe e pelo pai de família no âmbito doméstico e, principalmente, a falta de esclarecimentos do que está acontecendo colaboram para potencializar ainda mais o suspense . Eu classificaria “Ainda Estou Aqui” como um drama psicológico ou um thriller aterrorizante . Porém, entendo quem o enxergue mais como uma narrativa histórica e como uma saga familiar , definições que para mim são mais pertinentes ao livro de Marcelo Rubens Paiva do que para o filme de Walter Salles. Outro elogio que não posso deixar de fazer é para o roteiro do longa. Ele está redondo, redondinho. Até acho que esse trabalho de Murilo Hauser e Heitor Lorega merecia ao menos uma indicação ao Oscar de Roteiro Adaptado – a estatueta de 2025 nessa categoria foi para “Conclave”. As escolhas que embasaram o roteiro de “Ainda Estou Aqui” me pareceram acertadíssimas na maior parte do tempo. Em primeiro lugar, ao optar pela narração em ordem cronológica, algo diferente do livro, os roteiristas potencializaram o drama. O longa-metragem começa em dezembro de 1970 e mostra o quanto a família Paiva é feliz no Rio de Janeiro. Aí vamos para o fatídico dia do sumiço de Rubens Paiva. Nesse instante, a plateia não consegue piscar os olhos da tela e mergulha no drama das personagens. Mesmo sabendo o que irá acontecer (afinal, a história dos Paiva é conhecida pelo grande público desde a Redemocratização do país), ainda assim somos envolvidos pelo clima de terror e tensão do enredo. Falo que esse é um dos méritos do roteiro cinematográfico porque não temos grande tensão dramática no livro de Marcelo Rubens Paiva. A obra literária inicia-se com Eunice já velhinha e com problemas de memória. Antes de falar o que se passou há 50 anos, o autor relata o que a mãe fez anos antes de sofrer de Alzheimer. A pegada da publicação é mais de biografia da mãe na fase de maturidade do que de denúncia dos crimes da Ditadura, algo que só surge nas páginas do título literário na metade final. Além disso, a câmera da produção de Walter Salles acompanha livremente várias personagens, e não apenas o pequeno Marcelo então com 11 anos. O destaque é claro para Eunice, a protagonista. A esposa do ex-deputado também é a figura central da obra autobiográfica do filho, mas lá Marcelo Rubens Paiva tem mais destaque (o texto é narrado em primeira pessoa). No filme, ele aparece pontualmente, como as demais irmãs. Achei correta a escolha do foco narrativo do filme para destacar o drama de Eunice e de Rubens. Acho que não faria sentido ficar mostrando o escritor. Há outras intervenções felizes dos roteiristas. Por exemplo, inserir o cachorrinho Pimpão no filme, algo inexistente no livro, deu mais drama à história. Além disso, o longa-metragem mostra que os filhos ficaram em casa esperando a mãe voltar do interrogatório, episódio que sabemos que não aconteceu pelas páginas da obra de Marcelo Rubens Paiva. Na prática, ninguém seria louco de deixar três crianças pequenas numa casa visada pelos brucutus do Exército, né? Ainda assim, a cena da mãe retornando para o lar com a meninada sozinha e ávida por sua presença é fortíssima e tocante no longa-metragem. O filme “Ainda Estou Aqui” também mostra muita coisa sem cair na explicação didática, o que atrapalharia o ritmo narrativo. Essa postura indireta e sutil de relatar os acontecimentos macro é feliz na maioria das vezes. Por exemplo, a citação ao acidente de Marcelo quando ele chega ao Cartório da Sé de cadeira de rodas é inteligentíssima. Em uma ou duas frases do discurso , o público que não conhece a história do escritor entende o que aconteceu com ele. O mesmo princípio se aplica a vários episódios da família: cassação de Rubens Paiva, dificuldade financeira de Eunice após o desaparecimento do marido etc. Por outro lado, não fica claro que a dificuldade da protagonista em contar o dinheiro já na parte final do filme é reflexo de problemas neurológicos do envelhecimento (a cena é muito rápida). Nem que ela emagreceu muitos quilos nos dias em que ficou presa na unidade carioca do DOI-CODI (algo que só quem leu o livro sabe). A atuação do elenco é mais um aspecto que merece nossos rasgados elogios. A surpresa foi conferir que não é apenas Fernanda Torres que está magnifica. É claro que seu desempenho salta aos olhos desde as primeiras cenas e só foi crescendo, crescendo e crescendo ao longo da sessão. Todos os prêmios que ela recebeu são merecedores. Contudo, gostaria de destacar o trabalho dos demais atores do longa-metragem de Walter Salles. Todos estiveram à altura da excelência dessa produção, dos coadjuvantes aos figurantes. Nesse sentido, foi muito legal notar que até a meninada se saiu muitíssimo bem. Sempre há o risco de o desempenho cênico cair ou ter oscilações substanciais quando há muitos atores mirins. Mas não foi isso o que aconteceu em “Ainda Estou Aqui”. Em alguns momentos, a garotada conseguiu até roubar a cena e emocionar a plateia. Por tudo o que você está escrevendo aqui, Ricardo, quer dizer, então, que este filme não tem problema nenhum? Calma, calma, intrépido(a) e insistente leitor(a) imaginário(a) do Bonas Histórias . A produção cinematográfica brasileira mais comentada nos últimos anos tem algumas questões sim que me incomodaram um pouco. A primeira foi a perda da tensão dramática no terço final do longa-metragem. Quando Eunice descobre o que se passou com o marido, a história perde grande parte de sua força. Por mais incrível que seja o poder de superação da protagonista, o final de “Ainda Estou Aqui” me pareceu um tanto arrastado. Talvez um corte mais apropriado no que mostrar e, principalmente, no que não mostrar na saga dos Paiva poderia ter tornado o desfecho mais emocionante. Afinal, alguns elementos da narrativa ficcional que funcionaram perfeitamente no livro (como a perda da memória de Eunice) não tiveram o mesmo impacto no filme. Entretanto, o que mais me incomodou foi a configuração das características das principais personagens do filme. Tanto Eunice quanto Rubens Paiva são figuras totalmente planas, o que dá um caráter de inverossimilhança à trama. Se eles possuíssem um perfil mais redondo, certamente a história ganharia em riqueza e colorido. Curiosamente, foi esse elemento que me surpreendeu positivamente no livro de Marcelo. O escritor retrata a mãe e o pai com tintas mais reais e fidedignas, demonstrando aspectos positivos e aspectos negativos de suas personalidades. Por exemplo, pelas páginas da publicação literária, sabemos que Eunice Paiva era uma mulher pouquíssimo carinhosa e esteve ausente na criação da filharada antes mesmo do desaparecimento do marido. Depois que Rubens sumiu nos calabouços da Ditadura Militar brasileira, aí sim que a criançada não viu mais a mãe por perto no dia a dia. Ela também é descrita como vaidosa e pouco emotiva. Por mais que sejam elementos negativos, esses componentes dão um caráter de concretude à protagonista. Lembremos que ninguém é 100% heroico nem 100% vilão. A graça está justamente na compreensão dos diferentes tons das personalidades retratadas. Juro que lendo o livro, me sensibilizou o relato do filho dizendo que nunca foi abraçado pela mãe. O que ele queria, muitas vezes, era um simples abraço dela. O próprio Rubens Paiva é descrito no livro pelo filho e pela esposa quase como um inconsequente. Por mais que sua atitude de ajudar os compatriotas perseguidos pelos milicos e auxiliar as famílias vítimas da violência de Estado seja admirável, ainda assim ele colocou a família em risco. Esse tipo de crítica dos parentes ao comportamento imprudente do ex-deputado é visto no livro, mas não presenciamos com a mesma ênfase no filme. Confira, a seguir, dois trechos que pincei da obra de Marcelo que menciona Rubens como uma figura redonda: “Papai foi preso. Papai sempre tem problemas. Papai é um político perseguido. Desde que me entendo por gente, papai tem problemas com gente poderosa, foge, reaparece, se esconde. No Brasil, muitos têm problemas. Papai uma vez nos explicou. Os gorilas, como ele chamava os militares, tomaram o poder porque não queriam reformas que ajudassem aos pobres, assim nos explicava. Eu adorava a alusão de que aqueles caras que apareciam fardados de óculos escuros na TV e mandavam no Brasil eram gorilas” (página 105). “Não sei o que se passava pela cabeça do meu pai. Ele sabia que o cerco apertava. Apesar de não estar envolvido diretamente com a luta armada, escondia gente, dava dinheiro, ajudava os mais desesperados, trocava informes, viajava e fazia contato com brasileiros no exílio, lideranças do governo deposto, denunciava tortura, prisões arbitrárias, censura, tinha amigos correspondentes estrangeiros, com muitos da esquerda brasileira, ou democratas, ou enjoados com o terror praticado pela ditadura, ou traídos por ela, que davam dinheiro, ajudavam os perseguidos, faziam contatos, denunciavam arbitrariedades de um regime de terror. Ele andava tenso, queria dar um tempo, se dedicar mais à família; dizia isso aos amigos. Estava na cara que deveríamos ter partido para o exílio. Todos foram. Era a lógica para alguém visado (...). A pergunta: por que ele atrasou tanto a nossa partida? Arrogância? Confiança? Dever ideológico?” (Página 92). Também tive dificuldade para notar o envelhecimento de Eunice Paiva do início dos anos 1970 para meados da década de 1990. Passados 25 anos, achei que a personagem interpretada por Fernanda Torres mudou muito pouco ou quase nada. Por isso, achei estranho que 25 anos mais tarde, em 2014, surja Fernanda Montenegro em cena. Por mais impactante que seja a presença da grande dama da dramaturgia brasileira no filme, me pareceu equivocada o salto temporal. Contudo, talvez isso possa ter sido só uma percepção equivocada da minha parte e não uma falha efetiva do filme. Por fim, a troca do narrador em primeira pessoa do livro pela “narração em terceira pessoa” (vamos chamar assim o recurso da câmera solta) do filme foi inegavelmente uma opção acertada dos roteiristas. Por mais vantagens que essa escolha tenha trazido, é legal mencionar que as plateias das telonas perderam algumas ótimas passagens que Marcelo Rubens Paiva registrou nas páginas de sua publicação e que não puderam ser aproveitadas no longa de Walter Salles por conta da mudança de narrador . Veja alguns dos trechos do livro que mais gostei: “Minha mãe esteve na capa de todos os principais jornais no dia seguinte. Com o atestado de óbito erguido, alegre. Uma batalha foi vencida. V de vitória. Ela nunca faria uma cara triste. Bem que tentaram. Por anos, fotógrafos nos queriam tristes nas fotos. Tivemos nossa guerra fria contra o pieguismo da imprensa. Com o tempo, aprendemos a selecionar qual órgão evitar e como nos portar. Éramos “a família vítima da ditadura”. Apesar de preferirmos a legenda “uma das muitas famílias vítimas de muitas ditaduras”. Não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Família Rubens Paiva não chora na frente das câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista. Trocou o comando, continua em pé e na luta. A família Rubens Paiva não é vítima da ditadura, o país que é. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva. Precisamos estar saudáveis, bronzeados para a contraofensiva. Angústia, lágrimas, ódio, apenas entre quatro paredes. Foi minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou” (página 31 e 32). “Sabemos muito bem que o terror que reinou no país foi obra de parte dos militares. Sabemos muito bem que não se fazem generalizações sem acirramento ideológico. Militares foram os que mais sofreram nas mãos dos militares durante a ditadura. Muitos foram presos, expulsos, humilhados, exilados, torturados e mortos. Aliás, grande parte dos que combateram a ditadura militar, desde o seu começo, foram militares contrários ao regime. Muitos caíram na luta armada. Fundaram até uma organização clandestina, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de sargentos, tenentes e capitães descontentes. Sabemos que “a linha dura” manchou o nome da instituição que lutou na Guerra do Paraguai, proclamou a República, lutou contra o nazifascismo na Itália e se levantou em nome da democracia em 1945. Sempre soubemos que o nosso inimigo não vestia farda. Era um regime, não uma carreira” (página 33 e 34). Deu para notar que esses tropeços do roteiro não são significativos nem diminuem a qualidade do filme de Walter Salles. Se “Ainda Estou Aqui” não é uma produção cinematográfica perfeita, como não era nenhum dos postulantes ao Oscar desse ano (talvez o único título sem falhas evidentes tenha sido “O Brutalista”, por isso o apontava como favorito à principal estatueta de 2025), ainda assim é espetacular. Prova disso é que, em muitos elementos, o longa-metragem brasileiro chega até a ser melhor do que o livro no qual foi baseado. Vamos combinar que não é todo dia que você me ouve falar algo desse tipo, né? A evidência da força e do alcance do filme pode ser resumida na última cena (calma que não vou dar o spoiler). Enquanto as letras dos créditos sobem na tela, a plateia percorre mais uma vez a casa da família Paiva no Leblon. Metaforicamente, o que sentimos nesse momento é a mesma reação dos familiares que tiveram parentes desaparecidos e que jamais souberam o que aconteceu com eles. É espetacular essa associação meio psicológica, meio sinestésica. Assista, a seguir, ao trailer de “Ainda Estou Aqui” (2024): As indicações e as premiações que o filme de Walter Salles recebeu nos principais eventos cinematográficos do planeta, algumas de caráter inédito, fizeram muitos críticos o apontarem como a melhor produção brasileira da história. Para ser bem franco, não concordo com essa posição tão exagerada. Continuo achando “Cidade de Deus” o melhor longa-metragem já feito em nosso país. Ele só não conquistou o Oscar de 2003 nem foi mais feliz nos principais festivais internacionais por pura incompetência de quem o divulgou. Porque tecnicamente, o trabalho de Fernando Meirelles é irretocável e se mantém na posição mais alta do meu pódio dos melhores dos melhores do cinema brasileiro. E depois de “Cidade de Deus”, Ricardo, o que você considera como sendo o melhor filme?! Tá bom, tá bom, curioso(a) e insistente leitor(a) da coluna Cinema . Aí reconheço que o segundo título no meu ranking de excelência nacional vem “Ainda Estou Aqui”. Do ponto de vista da experiência cinematográfica, da riqueza da narrativa e da qualidade audiovisual, ele está à frente de clássicos do cinema brasileiro como “O Pagador de Promessas” (1962), “Vidas Secas” (1963), “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967). Até porque, confesso bastante envergonhado, nunca nutri grande apreço pelos títulos da Era de Ouro da nossa Sétima Arte. Por exemplo, jamais consegui ver “O Pagador de Promessas” sem cair no sono profundo – o que mostra um erro crônico em seu roteiro e/ou um ritmo narrativo para lá de parado. E acho um tanto amadoras as principais produções de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Se comparados com “Cidadão Kane” (Citizen Kane: 1941) e “Casablanca” (1942), produções de duas décadas antes, os filmes brasileiros dos anos 1960 parecem coisas de criança. NÃO ACREDITO NO QUE VOCÊ ESCREVEU NOS DOIS PARÁGRAFOS ACIMA, RICARDO!!! Você um baba-ovo dos cineastas gringos e de Hollywood, isso sim! Não sabe valorizar a arte e a cultura nacional. Só criou o Bonas Histórias para falar mal das produções brasileiras. Onde já se viu criticar os cânones do nosso cinema. Aposto que lá no fundo você torceu contra “Ainda Estou Aqui” no Oscar deste ano. Pensa que me engana, hein?! Eu bem sabia que essa sua mania de ficar falando bem do cinema argentino só comprova a sua pulada de cerca para o lado inimigo. Não duvido que você seja bolsominion, tenha um porta-retrato do Elon Musk pendurado na sala de casa e tenha tatuado a bandeira norte-americana no braço. Que decepção, Ricardo! Se eu pudesse, ia aí e falava poucas e boas na sua frente! Vai pra Cuba, vai! Ai, ai, ai. Vai começar tudo de novo... Desisto. Pensem o que vocês quiserem de mim e me cancelem! Não aguento mais me defender desse(a) leitor(a) maluco(a) do blog que insiste em me acusar de tudo. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Mercado Editorial: As ficções mais vendidas no Brasil em 2024
Veja quais foram os 20 livros ficcionais mais populares entre os brasileiros no ano passado. No começo de fevereiro, em uma passada pela coluna Mercado Editorial , apresentei o ranking dos 30 livros mais vendidos no Brasil em 2024 . Para um fã da literatura ficcional como eu – a coluna Livros – Crítica Literária é a prova cabal dessa minha paixão –, o problema foi encontrar ali os títulos de minha preferência. Como já estamos discutindo há alguns anos no Bonas Histórias , o topo da pirâmide dos best-sellers das livrarias nacionais é tradicionalmente formado por obras religiosas, de autoajuda e de não ficção. Por mais que a querida ficção tenha crescido um pouquinho nos últimos anos em termos de presença entre os mais comercializados da temporada (já foi pior, acredite!), ainda assim a realidade insiste em ser cruel, muito cruel com a pobrezinha. Os brasileiros, que não são comumente leitores vorazes, parecem ignorar os bons romances , as melhores novelas e as excelentes coletâneas de contos e crônicas . Quase sempre, eles só se entretêm com os textos de padres, pastores, youtubers, gurus, palestrantes renomados, professores rasos da vida, milionários, empresários de sucesso e biógrafos famosos. Antes que me chovam pedradas, aviso que não tenho nada contra os tipos de publicação que meus conterrâneos preferem. Como já diz o velho ditado: “Gosto é gosto e cada um tem o seu. Eu respeito os seus. E você respeita os meus”. A questão é que simplesmente não curto religião (nenhuma!), autoajuda (leio pouquíssimo) e não ficção (até gosto, mas não entendo bulhufas). É algo relacionado à minha preferência e à minha rotina de leitura. Durante o meu trabalho de editor, escritor ghost writer e crítico literário, estou quase sempre envolvido com as ficções. E quando aprecio um livro por diversão e por recreação à noite ou aos finais de semana, sigo nessa mesmíssima prateleira. Assim, me parece natural querer saber quais os livros de ficção que são bem-sucedidos nas livrarias brasileiras . Como não consigo visualizá-los no ranking geral dos mais vendidos, faço o recorte setorial. E, voilà, temos um novo post da coluna Mercado Editorial . Antes de exibir (e comentar) o listão das ficções mais vendidas do ano passado em meu país, sinto-me na obrigação de lembrar aos leitores do Bonas Histórias a fonte dos números apresentados. Quando o tema é pesquisa quantitativa do setor de livros no Brasil, recorro exclusivamente aos dados do PublishNews , a fonte mais confiável do mercado editorial nacional. Para mais detalhes sobre tal escolha, recomendo a leitura das minhas justificativas no post Os Livros Mais Vendidos no Brasil em 2024 . Lá esmiúço todos os motivos pelos quais usamos o PublishNews como principal parceiro de informações do blog. Feita a contextualização do nosso assunto e dado o devido crédito aos donos dos levantamentos estatísticos, podemos mostrar agora o ranking dos best-sellers da ficção sem dor na consciência. Uhu! Porque é disso que o povo gosta! Ou não. Esquece! Talvez no Brasil recorrer a essa expressão para falar de obras literárias seja um exagero. Tá bom, tá bom, entendi que não deu certo minha frase de efeito. De qualquer forma, entremos de uma vez por todas no tema de hoje. Pois já está parecendo enrolação da minha parte. Desculpe-me pelas linhas desnecessárias. Aí vamos nós. A autora ficcional mais procurada pelos brasileiros nas livrarias em 2024 foi novamente Colleen Hoover . Pelo terceiro ano consecutivo, a romancista norte-americana não viu ninguém à frente quando o quesito é unidades comercializadas. Como verificado também no ranking das ficções mais vendidas em 2023 e no ranking das ficções mais vendidas de 2022 , “É Assim que Acaba” ( Galera ) foi o título ficcional mais vendido em nossas livrarias no ano passado. Foram aproximadamente 70 mil exemplares transacionados de 1º de janeiro a 31 de dezembro. Portanto, temos um legítimo tricampeão em popularidade. É a primeira vez que tal fato acontece nos nossos levantamentos. Além dessa obra, é bom que se diga, Hoover emplacou “É Assim que Começa” ( Galera ) e “Verity” ( Galera ), respectivamente, terceiro colocado (cerca de 52 mil unidades vendidas) e sétimo lugar (quase 40 mil em exemplares vendidos) nos best-sellers dessa categoria. A norte-americana tem outras publicações com ótimos números de vendagem, como “Todas As Suas (Im)Perfeições” (Galera), “O Lado Feio do Amor” (Galera), “Até o Verão Terminar” (Galera), “As Mil Partes do Meu Coração” (Galera) e “Uma Segunda Chance” (Galera). Contudo, nenhuma delas conseguiu ficar no top 20 da última temporada. Ainda assim, esse portfólio ajudou a manter Colleen Hoover como a romancista que mais vende no país – e a segunda escritora mais vendida no geral, perdendo apenas para Junior Rostirola, do megassucesso “Café com Deus Pai” (Vélos). Eu classifico os livros de Hoover como literatura infantojuvenil . As editoras e o mercado editorial de modo geral preferem a adoção de outro termo: young adult . O motivo é prosaico: muitos jovens adultos (e até adultos que não podem ser chamados de jovens) têm o paladar infantilizado e gostam de ler obras que seriam voltadas exclusivamente para os adolescentes. Trata-se de uma tendência não apenas brasileira como mundial. Para não os magoar nem os ofender, o nome da categoria passou por uma profunda modernização. Contudo, como sou um crítico literário raiz, sigo com a nomenclatura que aprendi no passado. Feliz ou infelizmente, sou pouco aberto às novidades e aos modismos. No Brasil, vários romances infantojuvenis (ou young adult, como queira) escritos originalmente em língua inglesa se tornaram sucessos tanto entre o público mais novo quanto entre o pessoal mais velho. Dá para citar “A Biblioteca da Meia-noite” ( Bertrand Brasil ), do inglês Matt Haig , com 51 mil unidades vendidas só em 2024, “Melhor que Nos Filmes” ( Intrínseca ), da norte-americana Lynn Painter , com 27 mil exemplares comercializados em nosso país, e “Coraline” ( Intrínseca ), do inglês Neil Gaiman , com 22 mil unidades transacionadas. É inegável que esses títulos surfaram nessa grande onda da literatura infantojuvenil remodelada de literatura young adult. Curiosamente, quando abaixamos a idade dos leitores, notamos a mudança de nacionalidade dos escritores preferidos pelo público. Se os adolescentes (e os adultos com gosto imaturo) preferem os títulos gringos, a criançada se amarra mais nos autores nacionais. Como consequência, assistimos a vários best-sellers da literatura infantil falando português do lado de cá do Atlântico. Entre os best-sellers da gurizada, destaco a consolidação de Maidy Lacerda como figurinha carimbada entre os mais vendidos nas nossas livrarias. A jovem youtuber tem três títulos no Top-20 da criançada: “O Diário de Uma Princesa Desastrada” ( Outro Planeta ) com 33 mil unidades vendidas, “O Diário de Uma Princesa Desastrada 2” ( Outro Planeta ) com 20 mil e “O Caderno de Maldades do Scorpio” ( Outro Planeta ) com 19 mil exemplares. Arrisco a dizer que “O Diário de Uma Princesa Desastrada 3” (Outro Planeta) só não está nesse grupinho porque foi lançado tarde, em outubro. Provando a minha tese, informo que o mais recente título da saga da princesinha desastrada ficou entre os mais comercializados em sua categoria em novembro e dezembro. Em outras palavras, Maidy arrebentou de vender no ano passado. Não dá para falar de literatura infantil brasileira e não mencionar a dupla Gabriel Dearo e Manu Digilio . Há alguns anos, o casal de youtubers é um grande sucesso com a série “As Aventuras de Mike” , que tem uma porção de livros publicados. Entre os best-sellers dessa saga, temos “As Aventuras de Mike – A Origem de Robson” ( Outro Planeta ) com 30 mil unidades vendidas, “As Aventuras de Mike” ( Outro Planeta ) com 27 mil, “As Aventuras de Mike 3 – Mudando de Casa” ( Outro Planeta ) com 20 mil e “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” ( Outro Planeta ) com 18 mil exemplares comercializados. No total, Gabriel Dearo e Manu Digilio venderam mais do que Maidy Lacerda porque tem mais títulos publicados. Porém, quando analisamos as obras individualmente, ninguém vendeu mais para a garotada do que Enaldinho , o youtuber mineiro. O seu “Elo Monsters Books – Flow Pack” ( Pixel ) foi o segundo título ficcional mais vendido no Brasil em 2024 e o quinto mais vendido entre todas as categorias. Foram quase 60 mil unidades comercializadas. Deu para notar que para levar a criançada às livrarias é preciso que o autor seja youtuber ou influenciador digital, né? De qualquer maneira, nota-se que os leitores mirins estão em boas mãos e sabem valorizar a cultura nacional. E a ficção para os adultos, Ricardo? Você não vai falar nada?! Calma, impaciente leitor(a) do Bonas Histórias . Pois foi justamente esse o assunto que guardei para o desfecho deste post da coluna Mercado Editorial . Antes, é bom avisar que, no contexto da minha frase, ficção para os adultos não é literatura adulta. Ahahahah. Estou falando de narrativas voltadas para leitores com um gosto mais maduro e não de livros eróticos, tá? E quando analisamos os romances best-sellers, Ilko Minev e Carla Madeira seguem imbatíveis na arte de agradar ao público nacional. Os dois escritores brasileiros superaram todos os romancistas gringos no ano passado com, respectivamente, “A Filha dos Rios” ( Buzz ), com 51 mil exemplares comercializados, e “Tudo é Rio” ( Record ), com 44,7 mil unidades vendidas. Como já comentei no post dos Livros Mais Vendidos no Brasil em 2024 , essa dupla é um raro caso que consegue unir qualidade narrativa com sucesso nas livrarias. Portanto, agradam simultaneamente à crítica literária e aos leitores comuns. O mais legal é notar que o sucesso deles permanece intacto há quase meia década. É só olhar os livros mais vendidos em 2023 , os livros mais vendidos em 2022 e os livros mais vendidos em 2021 que certamente lá estarão títulos de Minev e de Madeira. Dos ficcionistas estrangeiros mais comercializados no Brasil, os destaques do Top 20 foram a norte-americana Freida McFadden , com 29 mil unidades vendidas de “A Empregada” ( Arqueiro ), e o colombiano Gabriel García Márquez , com 20 mil exemplares de “Em Agosto nos Vemos” ( Record ). Dessas duas obras eu posso falar com bastante propriedade pois as li atentamente – só não as analisei na coluna Livros – Crítica Literária . Enquanto “A Empregada” é uma obra original, gostosa e interessante, achei “Em Agosto nos Vemos” um texto fraquíssimo. Os fãs de Gabo que me desculpem, mas foi um erro lançar um material inacabado do falecido Nobel de Literatura. Porém, pelo visto, muitos leitores gostaram de ver um romance inédito de um autor famoso nas estantes das livrarias, né? Concluída essa longa explanação, podemos ir para o ranking dos 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2024 . Confira, a seguir, quais foram os best-sellers ficcionais em nossas livrarias segundo o PublishNews : 1º “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 69,8 mil unidades. 2º “Elo Monsters Books – Flow Pack” (2024) – Enaldinho (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Pixel – 59,8 mil unidades. 3º “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 51,9 mil unidades. 4º “A Biblioteca da Meia-noite” (2020) – Matt Haig (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Bertrand Brasil – 51,7 mil unidades. 5º “A Filha dos Rios” (2015) – Ilko Minev (Brasil/Bulgária) – Literatura Ficcional Nacional – Buzz – 51,6 mil unidades. 6º “Tudo é Rio” (2014) – Carla Madeira (Brasil) – Literatura Ficcional Nacional – Record – 44,7 mil unidades. 7º “Verity” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 39,4 mil unidades. 8º “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (2022) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 33,6 mil unidades. 9º “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” (2007) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 31,1 mil unidades. 10º “As Aventuras de Mike – A Origem de Robson” (2023) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 30,0 mil unidades. 11º “A Empregada” (2022) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Literatura Ficcional Estrangeira – Arqueiro – 29,2 mil unidades. 12º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 27,2 mil unidades. 13º “Melhor que Nos Filmes” (2021) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 27,0 mil unidades. 14º “Coraline” (2002) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 22,2 mil unidades. 15º “O Diário de Uma Princesa Desastrada 2” (2023) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 20,5 mil unidades. 16º “As Aventuras de Mike 3 – Mudando de Casa” (2022) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 20,5 mil unidades. 17º “Jujutsu Kaisen – Volume 1 da Batalha de Feiticeiros” (2018) – Gege Akutami (Japão) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Panini – 20,1 mil unidades. 18º “Em Agosto nos Vemos” (2024) – Gabriel García Márquez (Colômbia) – Literatura Ficcional Estrangeira – Record – 20,1 mil unidades. 19º “O Caderno de Maldades do Scorpio” (2024) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 19,4 mil unidades. 20º “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 18,7 mil unidades. Por hoje é só, pessoal. Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Talk Show Literário: Ana Rosa da Silva
Na quinta entrevista da oitava temporada do TSL, acompanhamos o bate-papo com a protagonista feminina de O Mulato, romance naturalista de Aluísio Azevedo que foi publicado em 1881. [Em uma noite abafadiça, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro parecia entorpecida pela literatura naturalista do século XIX. Quase não se podia mexer no auditório – o público que superlotava o local não desgrudava a atenção do palco. Uma moça com faiscantes olhos pretos, cabelos castanhos, dentes fortes e bonita de formas era entrevistada por um senhor septuagenário de volumosa e rebelde cabeleira branca. A conversa do Talk Show Literário , que já corria fazia alguns minutos, era registrada por câmeras de televisão e retransmitida ao vivo para todo o Brasil]. Darico Nobar : Mas o que ela disse exatamente? Ana Rosa da Silva : Algo como “Minha filha, não consintas nunca que te casem, sem que ames deveras o homem a ti destinado para marido. Não te cases no ar! Lembra-te que o casamento deve ser sempre a consequência de duas inclinações irresistíveis. A gente deve casar porque ama, e não ter de amar porque se casou. Se fizeres o que te digo, serás feliz!”. Darico Nobar : E a senhorita seguirá os conselhos dela? Ana Rosa da Silva : Como não se mamãe me confidenciou seu mais íntimo aprendizado de vida no leito de morte?! Darico Nobar : Mas isso já faz muito tempo! Ana Rosa da Silva : Ah, tempos! Tempos! Darico Nobar : E agora você quer se casar, D. Anica? Tem essa gana? Ana Rosa da Silva : Mais do que querer, sinto que me convém um marido! O meu homem, o verdadeiro, o legal, o único e definitivo! Aquele que será o senhor da casa, o dono do meu corpo, a quem eu possa amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava. Preciso dar-me e me dedicar a alguém. Sinto absoluta necessidade de pôr em ação a competência para tomar conta de uma casa e educar muitos filhos. Darico Nobar : E como deveria ser esse rapaz? Tem algo em mente? Ana Rosa da Silva : Em meus devaneios íntimos, antevejo um mancebo forte, corajoso, com um bonito talento, e capaz de matar-se por mim. Tem que ser encantador e galgar precipícios para ser merecedor da ventura do meu sorriso. Darico Nobar : E quando o encontrar, o que a senhorita fará? Ana Rosa da Silva : Um banquete esplêndido de noivado! Depois, quando os nossos lábios tiverem se acostumado a se unirem com graça e ternura, vamos até o cônego Diogo para selar o matrimônio. Darico Nobar : Como será o dia a dia da versão casada de D. Anica? Ana Rosa da Silva : Oh! Como deverá ser feliz! Serei dona de casa que só pensará no bem-estar do marido e dos filhos. Vou me realizar na dependência da prisão do ninho de amor e no domínio carinhoso do meu marido. E as criancinhas morenas vão balbuciar tolices engraçadas e comovedoras. Não vou me cansar de ouvi-las chamando “mamãe, mamãe!”. Darico Nobar : A senhorita sabe que, aqui no Rio de Janeiro do século XXI, suas palavras podem soar um tanto perturbadoras. Muita gente não concorda com essa visão do casamento convencional e com a relação homem-mulher com tantos desequilíbrios. Ana Rosa da Silva : Sr. Dr. Darico, estou falando o que eu sonho para mim, conforme me perguntaste. Se há por aí mulheres que são contra o matrimônio romântico, escuto de boa-fé suas frioleiras. Darico Nobar : A senhorita se sente pronta para o casório? Ana Rosa da Silva : Estou sempre ouvindo as bobagens da Eufrasinha. Ela conta cada coisa que jamais sonhei. É bom que instrui as amigas solteiras sobre certos mistérios da vida conjugal. Darico Nobar : O que exatamente D. Eufrasinha conta para vocês? Ana Rosa da Silva : Dos prazeres que conheceu nos dez dias e dez noites que viveu como mulher casada. Infelizmente, o marido dela era oficial do quinto de infantaria, batalhão que morreu todo na Guerra do Paraguai. Com essa fugaz, mas intensa experiência nupcial, ela nos dá lições de amor. Fala muito nos homens, diz como a mulher esperta deve lidar com eles, quais são as manhas e os fracos dos maridos ou dos namorados. Também explica quais são os tipos preferíveis e o que significa ter olhos mortos, beiços grossos, nariz comprido. Darico Nobar : Imagino que deve ser uma prosa divertida. A senhorita é a favor ou contra o celibato? Ana Rosa da Silva : Não admito, principalmente para as mulheres! Para os homens ainda passa. Vivem tristes só. Mas em todo o caso, os homens têm outras distrações! Mas para a pobre mulher, que melhor futuro poderia ambicionar do que o casamento? O mais legítimo prazer feminino é a maternidade. Que companhia mais alegre do que a dos filhos, esses diabinhos tão feiticeiros? Darico Nobar : E o celibato dos padres? Ana Rosa da Silva : Oh, esse não tenho dúvida, é obrigatório. Até porque é um designo divino. Os religiosos deveriam ter a honradez e as virtudes morais do cônego Diogo. Não existe homem mais correto do ponto de vista da ética cristã do que nosso reverendo. Isso só é possível porque ele nunca chegou perto de uma mulher. É casado com Deus Nosso Senhor e é para Ele que o bom senhor vive. Darico Nobar : Falando em casamento, minha caprichosa, soube que Luís Dias tem interesse em se casar com a senhorita. Até onde esse boato é verídico? Ana Rosa da Silva : Com o Dias?! Darico Nobar : O Manuel Pescada me confidenciou as boas intenções do gajo. Ana Rosa da Silva : Ora, ora. São coisas da imaginação do Sr. Manuel. Quando o assunto é sua filhinha, ele alimenta muitas ilusões infundadas. Darico Nobar : O que tem de mal em querer casar a filha única?! A senhorita já tem vinte anos! Está na idade de fazer o ninho! Ana Rosa da Silva : Mas não precisa ser com o Dias! Darico Nobar : Qual o problema com ele? Ana Rosa da Silva : Acho que essa história está cheirando mal! Literalmente. Darico Nobar : E o Sr. Dr. Raimundo José da Silva? Ana Rosa da Silva : O que tem o primo Mundico? Darico Nobar : Ele é um bom partido? Ana Rosa da Silva : Boa parte das mulheres de São Luís, entre solteiras, casadas e viúvas, crê que seria bom ouvir o sussurro da voz dele ao pé do ouvido. Quantos tesouros de ternura não se escondem naqueles braços fortes? E o que dizer do feitio de amêndoas, banhados de bondade e cercados de pestanas crespas e negras, como os pelos de um bicho venenoso? Aquelas pestanas lembravam as sedas de uma aranha caranguejeira. [Ao estremecer, para de falar. Só após apalpar os lábios, retoma o fôlego]. Como deve ser bom ouvir “Eu te amo!” daquela boca. Darico Nobar : A senhorita deve saber o que andam falando pelas costas dele, né? O povo do Maranhão pode ser muito maldoso às vezes... Ana Rosa da Silva : Diabo de peste! O que andam falando?! Aos meus ouvidos, ninguém se atreveria a dizer patacoadas de Mundico. Darico Nobar : Ah, tenho até vergonha de dizer as maldades que propagam por aí [sua voz adquire assombro de uma denúncia]. Só porque o homem é de cor, já viu, né? Ana Rosa da Silva : O Raimundo é um cavalheiro distinto com um futuro bonito. Ora, deixem falarem o que quiserem. Ele será um marido de encher as medidas! Darico Nobar : Mas, Anica, é revoltante a maldade saindo das bocas de tantas pessoas pretensamente cultas e educadas. Ana Rosa da Silva : Há gente para tudo nesta vida! Credo! Darico Nobar : Juro que fico revoltado quando o chamam de “cabra cheio de fumaças”, de “mancebo de cor de senzala”, “filhote de bode”, “macaquinho criado em Coimbra”, “bastardo alforriado” e “moreno suspeito”? Ana Rosa da Silva : O que é isso?! Santo Deus, o senhor está falando como a vovó. Darico Nobar : A Sra. D. Maria Bárbara fala assim? Ana Rosa da Silva : Fia-te. Fala coisas até piores. Ela não é muito escrupulosa a esse respeito. Ela acredita que preto é preto, branco é branco. Que português é português, brasileiro é brasileiro. E quanto menos confusão houver, melhor para todos. Darico Nobar : De certo que a senhorita não concorda com esse preconceito. Ana Rosa da Silva : Iche! Que ideia o senhor tem de mim? Tenho jeito de rapariga racista?! [O apresentador balança a cabeça para os lados com convicção]. Ora, não me faça perguntas indelicadas. Darico Nobar : Desculpe-me, minha filha. É que diante de tantos absurdos que ouvimos por aí, acabamos sem saber o que cada um pensa de verdade. Ana Rosa da Silva : Não fique maçado comigo. [Sorve tranquilamente um gole de chávena de café]. Sei que o senhor não é preconceituoso. Por isso, faço questão de sua presença lá no sítio da vovó na próxima Festa de São João. Será deveras um evento muito importante para mim. [Pega-lhe as mãos com afeto]. O senhor vai, não vai? Darico Nobar : Não perco o São João nordestino por nada, minha menina. Já falamos sobre isso em um segundo. Primeiro tenho que encerrar a entrevista. [Vira-se para a câmera 2 em tom de formalidade]. Pessoal, esse foi o bate-papo com Ana Rosa da Silva, a filha do meu compadre Manuel Pedro da Silva. Na semana que vem, voltaremos com mais um episódio inédito do Talk Show Literário . Boa noite! [Enquanto a plateia aplaude a dupla no palco, as letras de crédito do programa sobem apressadas nas telas dos televisores dos brasileiros. Indiferentes aos movimentos ao redor, entrevistador e entrevistada seguem proseando amistosamente, agora sem a captação do áudio]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: O Construtor de Pontes – O mais recente romance de Markus Zusak
Publicada em inglês em outubro de 2018 e lançada em português em fevereiro de 2019, esta obra ficcional encerrou o jejum literário de 13 anos de um dos best-sellers da literatura australiana. Conheça a análise da saga dramática de uma família habituada às tragédias, à violência e à solidão. No final de semana retrasado, li um livro que estava com vontade de conhecer há um tempão. E põe tempão nisso, senhoras e senhores! A obra em questão é “O Construtor de Pontes” ( Intrínseca ), a sexta publicação ficcional de Markus Zusak , um dos best-sellers da literatura australiana . Gosto tanto desse autor que, em setembro de 2017, analisei em detalhes o trabalho ficcional de Zusak na coluna Desafio Literário . Não apenas li e comentei seu portfólio completo como trouxe para o Bonas Histórias a crítica individualizada de seus cinco romances iniciais: “O Azarão” (Bertrand), de 1999, “Bom de Briga” (Bertrand), de 2000, “A Garota que Eu Quero” (Intrínseca), de 2001, “Eu Sou o Mensageiro” (Intrínseca), de 2002, e a “Menina que Roubava Livros” (Intrínseca), de 2005. Vamos combinar que não é qualquer escritor que posso dizer em alto e bom som que me aprofundei em todos os seus títulos, né?! Para ser preciso com minhas palavras, tenho que reformular a última frase do parágrafo anterior. Em outubro de 2018, Markus Zusak lançou “O Construtor de Pontes”, sua mais nova publicação. Aí perdi a visão integral de sua coletânea ficcional. Por isso, tão logo a Editora Intrínseca publicou no Brasil esse livro, em fevereiro de 2019, corri para a livraria mais perto de casa e o adquiri. Contudo, confesso envergonhado (Raul Seixas cantaria: “Mas confesso abestalhado/Que eu estou decepcionado!”), que ele ficou fechado na minha estante por mais de seis anos. É isso mesmo o que você leu: SEIS INTERMINÁVEIS ANOS! Ai, ai, ai. Só quem é apaixonado pelos romances e pelo universo da literatura entenderá a dor que senti ao deixar adormecido um título de ficção que mexia com minha curiosidade e estimulava meu paladar narrativo. Pensando bem (Vitor & Leo cantariam: “Pensando bem/Eu gosto mesmo de você/Pensando bem quero dizer/Que amo ter te conhecido”), talvez a descrição de uma obra largada e esquecida na minha biblioteca não seja a mais correta. Não posso dizer de maneira nenhuma que “O Construtor de Pontes” ficou adormecido na prateleira da minha biblioteca por tanto tempo. Porque o peguei SIM para ler por quatro ou cinco vezes. Em duas oportunidades, cheguei até a iniciar a leitura e concluir a primeira parte (a publicação tem oito partes). Porém, fui obrigado a interromper precocemente as sessões. Era só abrir as páginas do mais recente livro de Markus Zusak que pintava algo urgente no trabalho para ler, analisar e/ou editar. Ou simplesmente aparecia alguém ou algo no âmbito pessoal para me tirar das delícias desta leitura. Incrível como o universo conspirou impecavelmente para que eu não pudesse conhecer “O Construtor de Pontes” por tanto tempo. Aposto que os bons leitores sabem do que estou falando. Todos temos um título que chamo de “atrai zica”. É só o abrir que o mundo se movimenta ao nosso redor para pôr fim ao sossego. Aí nossa imersão literária é exterminada ou se transforma em uma epopeia digna das maiores proezas de Homero. Às vezes, tenho a impressão de que é mais fácil nadar de Atenas a Esparta sob a ira dos Deuses do que concluir uma dúzia de páginas de uma leitura tão aguardada. A última vez que tal síndrome tinha se manifestado comigo foi com “Leite Derramado” (Companhia das Letras), o premiado romance de Chico Buarque. Juro que por muito e muito tempo não conseguia passar de suas primeiras páginas. Era só pegá-lo que algo de estranho acontecia: meu cachorro morreu, a ex telefonou depois de vários anos de ausência silenciosa, a pizzaria da minha mãe pegou fogo e uma proposta de emprego muuuuuito inusitada pintou tarde da noite. Cogitei até levar a obra do Chico numa viagem de avião de São Paulo a Teresina com escala em Brasília. Pensei com minha habitual inocência: “Lá no alto, ninguém conseguirá atrapalhar minha leitura”. Aí calculei as possibilidades trágicas da ideia e achei por bem aos demais passageiros e à tripulação não percorrer aquelas páginas tão longe do solo. Assim, só consegui concluir “Leite Derramado” depois de vários e vários anos, quando o mundo à minha volta já tinha se acalmado (e aparentemente se esquecido daquele “atrai zica”). Prova maior da brincadeira (nem um pouco engraçada!) dos Deuses da Literatura é que bastava trocar de livro que a tranquilidade voltava a reinar nas minhas sessões de leitura. É bom dizer que não consigo ficar uma semana sem devorar algo novo. Não por acaso, abrir uma obra e não conseguir percorrê-la até o fim me deixa BASTANTE angustiado. Dessa maneira, tão logo abandonava quem estava trazendo má sorte, conseguia percorrer tranquilamente as páginas dos novos exemplares da ficção. Ufa! Não há zica que sempre dure, já diriam os poetas gregos aos pés do Monte Olimpo (em ótimo português brasileiro e com gíria mesmo). No caso de “O Construtor de Pontes”, a dificuldade para a realização da leitura se deu, além da conspiração dos Deuses da Literatura, pela sua grande extensão. Para percorrer o tijolão de quase 600 páginas, precisava de doses mínimas de calma e fôlego, elementos raros na minha rotina dos últimos anos. Sabendo disso, tive que me fechar em casa no primeiro final de semana de abril para concluir o que chamei de “missão do primeiro semestre de 2025”. Ou concluía essa publicação de Markus Zusak AGORA ou NUNCA mais tentaria lê-la. Exagero? Talvez. Para minha felicidade, consegui cumprir o desafio autoimposto com relativa facilidade. Ufa! Pelo visto o “atrai zica” tinha perdido o efeito. Será que o clima de Páscoa que já contagia Mi Buenos Aires Querido ajudou? Pode ser. Só sei que fiquei tão alegre com o cumprimento da tarefa que decidi escrever este post para a coluna Livros – Crítica Literária . Mesmo com a ligeira decepção pelo conteúdo deste romance de Markus Zusak (talvez tenha criado expectativas exageradas – acreditei que “O Construtor de Pontes” pudesse ser melhor que “A Menina que Roubava Livros” ou que estivesse no mesmo patamar de excelência narrativa do best-seller), ainda assim acho válido discuti-lo com vocês no blog. Caso alguém tenha se surpreendido por eu analisar um título que não tenha me agradado (algo que não faço habitualmente no Bonas Histórias por princípio e por linha editorial), acho bom reformular outra vez minhas frases. Não é que não tenha gostado de “O Construtor de Pontes”. Eu curti a leitura, tá? Juro! Nos capítulos finais, cheguei a me emocionar mais do que imaginava. Não tenho vergonha de relatar que derramei algumas lágrimas com o desfecho. Trata-se, portanto, de uma narrativa acima da média. Só disse que fiquei “ligeiramente decepcionado” pois esperava que a literatura de Markus Zusak tivesse permanecido pelo menos no mesmo nível de qualidade e inovação do que fora apresentado em seu mais famoso trabalho. E, para ser bem franco, o romancista que encantou o mundo há exatamente 20 anos não chegou dessa vez nem perto disso. Ele regrediu muitas casas no primor do ofício ficcional. Ainda assim, é bom dizer, “O Construtor de Pontes” figura no top 5 das melhores obras que li neste ano. Mesmo derrapando e não encantando o público, Zusak está muito longe de ser um fracasso ou um autor a ser ignorado pela plateia internacional. Daí a iniciativa de analisá-lo nesta página. Por enquanto, o mais recente romance do best-seller australiano só perde em excelência narrativa para: “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), magistral drama histórico da brasileira Fernanda Caleffi Barbetta (1º lugar em meu ranking de obras-primas de 2025); “Nós que Vivemos” (Minotauro), clássico da russa Ayn Rand (2º lugar); “Un Dia” (sem edição no Brasil), novela deliciosa do argentino Cabezon Gustavo (3º lugar); e “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara), biografia do meu conterrâneo Marcelo Rubens Paiva que deu origem ao filme homônimo de Walter Salles (4º lugar). Pera lá, Ricardinho!!! Você realmente imaginou que “O Construtor de Pontes” pudesse superar “A Menina que Roubava Livros” , um dos mais brilhantes, criativos e sensíveis romances do século XXI, em qualidade e em impacto literário junto aos leitores?!!! Ou, vá lá, que conseguisse ficar em pé de igualdade com esta que é uma das obras-primas da literatura contemporânea !? É sério isso o que você escreveu acima? Ou se trata de mera miragem dos meus olhinhos já fatigados de tanto aguardarem pela análise crítica que nunca chega, hein?! É, meu(minha) amigo(a) imaginário(a) – e deveras impaciente – que dialoga comigo enquanto escrevo os textos da coluna Livros – Crítica Literária . Eu pensei SIM nessa possibilidade. Inocência, né? Sei disso. Juro que as vezes escuto a voz de Compadre Washington cantando em minha consciência: “Sabe de nada, inocente!”. Porém, tenho uma justificativa justificável (adoro essa redundância tanto quanto “verdade verdadeira”) para o erro crasso que cometi. A culpa não deve ser atirada apenas à minha já conhecida ingenuidade. Markus Zusak também teve sua parcela de responsabilidade em meus devaneios, senhoras e senhores. Afinal, ele criou enorme expectativa no público por quase uma década e meia. Fui uma das vítimas dessa onda. Na minha visão, o australiano queria evitar a todo custo cair no que chamo de “Complexo de Gabriel García Márquez” – ser autor de uma obra magistral dentro de um portfólio medíocre. Medíocre significa mediano e não ruim, POR FAVOR! Fazendo um paralelo com a música, é o famoso caso do cantor ou do compositor de uma só canção, algo que incomoda bastante aqueles que não ultrapassaram o primeiro e efêmero êxito (mas posição que muitos outros músicos que não têm nenhum sucesso sonham em atingir). Para entender o “Complexo de Gabriel García Márquez”, tire “Cem Anos de Solidão” (Record) da coletânea de trabalhos ficcionais do Nobel de Literatura de 1982. Feito isso, me diga agora qual é o outro título memorável do maior escritor colombiano? Talvez “O Amor nos Tempos do Cólera” (Record)... Eu adoro este livro, mas não dá para decretarmos que ele seja fenomenal. Qual mais? Aposto que você não conseguiu pensar em mais nenhuma leitura marcante, certo? Porque não há mais nada muito eloquente. Sem a saga dos Buendía, sinto em dizer que Gabo seria um romancista regular na Colômbia. E jamais se tornaria um nome de destaque da literatura sul-americana e da ficção internacional . Sinceramente, acho que Markus Zusak, consciente ou inconscientemente, queria fugir dessa sina. Recordemos que até "A Menina que Roubava Livros" (o “Cem Anos de Solidão” do australiano), seu portfólio era beeeeem mediano. Nascido em Sidney, em 1975, em uma família de emigrantes europeus (o pai é austríaco e a mãe alemã), Markus estudou História e Língua Inglesa na faculdade e se formou em Artes e Educação. Sua trajetória profissional começou como professor do ensino básico. Contudo, vale dizer, que desde a adolescência, ele produzia tramas ficcionais, sua grande paixão. Seus três primeiros livros, “O Azarão” , “Bom de Briga” e “A Garota que Eu Quero” , integram a trilogia infantojuvenil intitulada “O Azarão”. Essa série literária foi publicada entre 1999 e 2001, quando o autor tinha por volta dos 25 anos. Por mais encantador que seja o drama sobre a infância e a adolescência dos irmãos Wolfe, vamos combinar que esta coletânea de romances está muuuuuito longe de ser uma pérola da literatura em língua inglesa . Na sequência, em 2002, Zusak publicou “Eu Sou o Mensageiro” , seu primeiro romance um pouco mais maduro (detalhe para o termo “um pouco mais” da frase anterior). Ainda que tenha sido classificada como título infantojuvenil, entendo que essa obra possa ser lida (com alguma boa vontade) também pelo público adulto. O thriller é inusitado, mas não empolga. Seu maior problema é flertar o tempo inteiro com aspectos poético-filosóficos para lá de rasos – ao melhor estilo de Paulo Coelho , autor de “O Diário de Um Mago” (Rocco) e “O Alquimista” (Planeta), e de Jostein Gaarder, autor de “O Mundo de Sofia” (Companhia das Letras) e "Através do Espelho" (Companhia das Letras). Esse tipo de texto narrativo até pode agradar aos adolescentes e ao público com paladar literário menos rebuscado, mas está longe de ser objeto de desejo dos leitores mais qualificados. Não à toa, até a metade da primeira década do século XXI, a literatura de Markus Zusak apresentava um destaque relativo e estava limitada à Austrália. E olhe lá. A conquista de alguns prêmios literários nacionais no segmento infantojuvenil motivava o autor a se lançar em voos maiores. Porém, não dava para ninguém falar que ele tinha alcançado o status de best-seller ou mesmo que figurava no posto de autor conhecido em seu país natal. Prova disso é que ele se mantinha trabalhando como professor escolar, onde tirava o ganha pão. A produção dos livros era feita à noite e aos finais de semana. Isso até o vendaval chamado "A Menina que Roubava Livros" varrer as livrarias australianas e mundiais a partir de 2005 (e os cinemas dos quatro cantos do globo na década seguinte). Para termos uma dimensão exata do sucesso editorial do quinto romance de Markus Zusak, "A Menina que Roubava Livros" aparece como uma das obras ficcionais mais comercializadas deste século. É amigo(a), não é pouca coisa, não! Publicado em mais de 60 idiomas e com venda na casa dos 18 milhões de exemplares, esse romance ficou por dez anos seguidos no ranking dos mais vendidos do New York Times, um dos principais parâmetros do sucesso da indústria editorial internacional. A encantadora história da menina Liesel Meminger que foi narrada de maneira sublime pela Morte chegou às telonas em 2013 e se tornou uma das maiores bilheterias do cinema na temporada 2013/2014. Pronto! Com um dos livros mais brilhantes da literatura contemporânea (se você ainda não o leu, leia – ele é realmente brilhante!), Zusak se tornava um dos grandes nomes da ficção internacional. Com o bolso abarrotado de dólares, ele largou definitivamente o ofício nas escolas de Sydney e passou a se dedicar exclusivamente à produção de suas histórias. Paralelamente, os leitores de fora da Oceania queriam conhecer mais títulos do autor de "A Menina que Roubava Livros" . Assim, as editoras internacionais traduziram e/ou lançaram às pressas “O Azarão” , “Bom de Briga” , “A Garota que Eu Quero” e “Eu Sou o Mensageiro” para aplacar a curiosidade do público nos quatro cantos do mundo. Ainda assim, a pergunta que todos se faziam era: “Qual será o próximo trabalho ficcional deste talentosíssimo romancista australiano, hein?!”. Contudo, os anos foram se acumulando e NADA de Markus Zusak lançar algo novo. Ele passou um ano em jejum. Depois vieram mais dois, três, quatro e cinco anos sem novidade. E o autor só informava que estava desenvolvendo um romance que se chamaria “O Construtor de Pontes” ( “Bridge of Clay” no original em inglês). Seis, sete, oito, nove e dez anos se foram e NADINHA. Novo anúncio: o novo livro está quase pronto. Agora vai! Onze, doze e, enfim, treze anos foram necessários até que a obra chegasse às livrarias. Saravá, bradaria Vinicius de Moraes no meio de “Samba da Benção”. A longa espera tem algumas explicações. Markus Zusak sempre foi um escritor conhecido pela morosidade na confecção de suas histórias. Seus cinco primeiros livros foram produzidos ao longo de vários anos. Alguns chegaram a demandar até sete anos para serem entregues às editoras. Se eu não estiver enganado, "A Menina que Roubava Livros" levou mais ou menos cinco anos para ser concluído. Confesso que gosto de artistas que prezam pela qualidade ao invés da celeridade. É preferível os leitores esperarem bastante tempo e receberem textos impactantes e inovadores do que terem prontamente materiais pouco relevantes e pobres de conteúdo. Nesse sentido, ponto positivo para Zusak. Contudo, treze anos me pareceu excessivo. TREZE ANOS!!! E olha que, conforme expliquei, o romancista australiano passou a se dedicar exclusivamente a esse ofício. Quem está por trás da produção dessa obra: uma empreiteira brasileira?! Brincadeirinha... Aí entra, na minha humilde visão, não apenas o cuidado com a excelência literária, mas um pouco do receio do autor com a avaliação do mercado editorial. Ele sabia que a comparação seria com o genial "A Menina que Roubava Livros" . Uma vez que o sarrafo tinha sido colocado quase no céu, o que entregar de impactante para os ávidos leitores do mundo inteiro, hein? Nessa hora, creio que bateu forte o temor do "Complexo de Gabriel García Márquez". Prova da ansiedade do mercado editorial pelo lançamento de “O Construtor de Pontes” está na rapidez com que o livro foi publicado nos países de língua não inglesa. Geralmente, as editoras levam pelo menos um ano para adaptar os títulos gringos. Esse é o período necessário para se comprar os direitos autorais, traduzir o texto, desenvolver o projeto gráfico, fazer a diagramação, imprimir na gráfica e enviar o livro para as livrarias. Entretanto, em algumas nações, o sexto romance de Markus Zusak chegou com um intervalo de poucas semanas. Incrível, né? Foi o que ocorreu, por exemplo, no Brasil. Em apenas quatro meses, a Editora Intrínseca o entregou aos leitores brasileiros. Juro que fico imaginando o trabalhão que deu para antecipar todos os prazos. A tradução da edição nacional foi feita pela dupla Stephanie Fernandes e Thaís Paiva . Ao invés de empolgar, a longa distância temporal entre a publicação de "A Menina que Roubava Livros" e o lançamento de “O Construtor de Pontes” parece que anestesiou o público. É como se os consumidores das livrarias estivessem se esquecido de quem era Markus Zusak. Markus o quê?! Por mais que as capas do novo romance estampassem a mensagem “do autor do best-seller A Menina que Roubava Livros”, o apelo pelo nome do escritor australiano tinha se esfriado. É, amigo(a), timing é tudo nessa vida. Em quase todos os mercados internacionais, as vendas de “O Construtor de Pontes” foram tímidas (para não escrever decepcionante). Para completar a maré desfavorável, a avaliação da crítica na América do Norte e na Europa foi prioritariamente pouco elogiosa (para não dizer negativa). Não apenas não encantou como, dessa vez, Zusak frustrou os críticos e os leitores internacionais. Afinal, “O Construtor de Pontes” é uma obra ficcional subestimada ou mesmo injustiçada?! As vendas decepcionantes seriam reflexo do esquecimento do público da grandeza de “A Menina que Roubava Livros” ou os números comerciais seriam resultado exclusivamente da qualidade narrativa inferior do novo trabalho de Markus Zusak? É isso o que trataremos nesta detalhada investigação da coluna Livros – Crítica Literária . Porém, antes de iniciarmos o debate propriamente dito sobre os principais pontos do romance do best-seller australiano, quero apresentar o enredo deste título para os leitores do Bonas Histórias . Aqui vou eu, senhoras e senhores! “O Construtor de Pontes” é narrado por Matthew Dunbar, rapaz de 31 anos que mora em uma cidade quente e seca do Oeste da Austrália. Ele é casado com Cláudia Kirkby, professora do ensino básico e três anos mais velha. O casal tem duas filhas. A trama começa com Matthew teclando a história de sua família na cozinha residencial. Enquanto a esposa e as meninas dormem, ele aproveita o silêncio noturno para bater as teclas da velha Remington cinza-chumbo. Como a máquina de escrever foi parar ali é justamente o mote para a primeira cena do romance, ainda na parte introdutória do livro. O narrador conta que há algumas semanas viajou de carro até Featherton, a cidade natal de seu pai. Chegando ao endereço marcado em um velho papel, Matthew pediu autorização para os proprietários da casa para desenterrar a máquina de escrever que tinha sido de sua avó, que ali viveu por muitos anos. Com a permissão concedida, ele pegou a pá e retirou da terra do quintal o antigo equipamento. Porém, acabou trazendo junto os ossos de um cachorro e o esqueleto de uma cobra, que também haviam sido enterrados naquele local. O rapaz não se surpreendeu com o achado. Assim, ele retornou para seu lar com a Remington e a ossada dos bichos no banco de trás do veículo. Com a posse da máquina de escrever da avó materna, Matthew decidiu escrever a saga dos garotos Dunbar, como ele e seus quatro irmãos ficaram conhecidos desde sempre na cidade. Esta é a proposta da publicação que temos em mãos e, obviamente, a explicação para o trabalho narrativo de Matthew Dunbar. Conforme nos adianta o narrador na seção de abertura da obra, aquela é “uma família destroçada pela tragédia. Uma história em quadrinhos explosiva sobre meninos e sangue e bichos” (página 18). Por mais que saiba que o relato envolva todo o clã, algo parece evidente desde o princípio para o homem por trás do texto datilografado: a trama que irá produzir será fundamentalmente de Clay, o quarto e penúltimo filho de Michael e Penélope Dunbar. Aos 11 anos, o menino foi o grande responsável pelo destino dos parentes. Conforme está apresentado nas páginas iniciais de “O Construtor de Pontes”: “tudo aconteceu com ele. Todos nós mudamos por causa dele” (página 19). Portanto, Matthew até pode ser o narrador do livro de Markus Zusak, mas o protagonista é Clayton Dunbar, o nome completo de Clay. Assim, somos levados ao primeiro capítulo da primeira parte da obra. A história regride 11 anos. Matthew, o mais velho do quinteto de irmãos, tinha 20 anos de idade. Ele trabalhava como instalador de pisos e carpetes. E carregava a responsabilidade de sustentar a casa e de manter a ordem no lar. Na prática, assumiu o comando da família, mas não conseguiu pôr regras em casa. Isso ocorreu porque a mãe dos garotos Dunbar morreu havia alguns anos e o pai os tinha abandonado. Sem a supervisão de um adulto, coube aos rapazes se virarem como podiam. Matthew e Rory, o segundo mais velho e então com 18 anos, deixaram prontamente a escola e passaram a trabalhar. Enquanto o primogênito fazia o tipo certinho e trabalhador, Rory Dunbar era o revoltado, mal-humorado e brigão. Os irmãos menores, Henry, 17 anos, Clayton, 16 anos, e Tommy, 13 anos, seguiam estudando e tinham características mais parecidas a de Rory do que as de Matthew. O trio vivia de maneira caótica. Eles estavam sempre sujos, machucados e aprontando alguma. A diversão deles era brigar entre si ou com a molecada da cidade. Se na rua viviam de apostas e pequenas badernas, na escola estavam sempre metidos em confusão com a professora e com a diretora. Por mais que fossem gente boa, os garotos Dunbar, principalmente os mais novos, eram vistos como incorrigíveis e arruaceiros. Por mais que a visão inicial de Henry, Clayton e Tommy não fosse aquela que esperamos dos jovens protagonistas de uma saga histórica , a rotina deles tinha alguns componentes líricos. Por mais que vivessem se batendo e aprontando, os irmãos se apoiavam e se amavam (do jeito deles!). Isso fica bem claro na mania de paparicar o caçulinha. Como Tommy gostava de animais, a residência dos Dunbar se tornou um zoológico ou uma fazenda, algo que seria improvável se aquele lar tivesse um adulto minimamente responsável para dizer (parodiando Marisa Monte) “três letrinhas (...) que representam não, que não fica bem no seu coração”. Havia um burro no quintal (Aquiles) que adorava entrar na cozinha, uma cachorra (Aurora) que acompanhava os garotos em todos os lugares, um gato (Hector) que dormia roncando, um pombo (Telêmaco) para lá de esperto e um peixe-dourado (Agamenon) bastante charmoso. Não é preciso dizer que, num lugar habitado por cinco jovens, vários animais e nenhum adulto, a bagunça reinava soberana, né? Como a história é de Clay, o narrador passa a acompanhá-lo mais de perto. O garoto gostava de correr na pista de atletismo da cidade e era incentivado pelos familiares a treinar. No início, Matthew e Rory se encarregaram de ser seus treinadores. Quando os irmãos mais velhos passaram a trabalhar em tempo integral, a função foi delegada para Henry. Com Henry, as sessões de treinamento de Clay se transformaram em eventos sádicos. A meninada mais barra-pesada da região se reunia para apostar em quanto tempo o rapaz conseguiria completar a volta na pista de corrida. Para dificultar a vida do jovem atleta, tal qual uma arena romana da Antiguidade, a molecada se espalhava pelo caminho. A tarefa deles era bater no corredor o máximo que conseguissem. Sem se importar com socos, chutes e cacos de vidro atirados ao chão (ele treinava descalço), Clay corria desviando dos oponentes. Ele sempre completava o trajeto, mesmo que saísse quebrado. Clay era um garoto calado que vivia sorrindo. Mesmo sendo vítima da violência dos irmãos e dos outros rapazes do município, ele parecia estar sempre sereno e calmo. Basicamente, se acostumou com as rotineiras agressões como se essa fosse mais uma característica do seu dia a dia, como acordar, dormir, se hidratar, se alimentar e correr. Sua mania era ficar em cima do telhado observando a cidade. E Clayton adorava se encontrar com Carey Novac, uma vizinha de sua idade. A menina era apaixonada por turfe e se preparava para ser jóquei. A amizade deles foi crescendo, crescendo e crescendo ao ponto de se transformar em uma paixão casta. Certa tarde, os garotos Dunbar foram surpreendidos por uma visita que os abalou profundamente. Depois de vários anos ausente, Michael, o pai da galerinha, retornou com uma proposta inusitada: ele estava construindo uma ponte em outra cidade e gostaria de saber se algum dos filhos queria acompanhá-lo na empreitada. A sensação era de que a resposta negativa seria unânime. Porém, Clay chocou os irmãos ao aceitar o convite. A decepção entre os rapazes foi geral. Além de se sentir traído pelo menino número 4 da casa, Matthew queria entender o motivo que levou Clayton a ir com o pai depois de tantos anos de inexplicável abandono. Será que ele se esquecera de que fora impiedosamente desprezado por quem deveria zelar pelo bem-estar de um quinteto de crianças órfãs de mãe?! Em busca de respostas para esse enigma, o narrador reconstrói a história da família inteira. Matthew Dunbar relata o drama dos pais antes mesmo de eles se casarem. Penny, como Penélope Lescuiszko era chamada carinhosamente, era uma pianista que fugiu do Leste da Europa aos 18 anos. O pai dela não queria que a filha única vivesse em um regime comunista em franca decadência e a incentivou a partir para o exterior. Dessa forma, a jovem foi morar sozinha no interior da Austrália. Lá conheceu por acaso Michael Dunbar, um homem devastado pelo abandono da primeira esposa. A união de Penny e Michael se mostrou feliz e frutífera. Até a família ser vítima de uma tragédia, que abalaria a todos para sempre. Entender as nuances do período mais difícil dos Dunbar é essencial para compreendermos o comportamento e as atitudes mais polêmicas de Clayton. É esse o desafio que Matthew se propõe a colocar no papel. “O Construtor de Pontes” é um livro parrudão. Ele tem 528 páginas, o que exigiu de mim cerca de 11 horas de leitura no total. Praticamente, li metade do romance no sábado (em três sessões – manhã, tarde e noite) e a outra metade no domingo (em outras três sessões – manhã, tarde e noite). As sentadas de leitura variavam de uma hora e meia a duas horas e meia. Não é errado dizer que passei o final de semana quase todo lendo. A mais recente obra de Markus Zusak está dividida em oito partes, que totalizam exatamente 100 capítulos. Há ainda uma introdução/abertura (o trecho em que Matthew explica como obteve a máquina de escrever e o porquê está escrevendo sobre Clay) e um epílogo/conclusão (na qual o narrador volta ao presente, depois do longo e profundo mergulho no passado, e explica como está sua família no exato momento em que datilografa aquelas páginas na velha Remington cinza-chumbo). Falando na estrutura de “O Construtor de Pontes”, uma curiosidade é o nome de suas partes. A parte I desta publicação se chama “Cidades”. A segunda tem o título de “Cidade + Águas”. Enquanto a parte III é denominada de “Cidade + Águas + Criminosos”, a parte IV é “Cidade + Águas + Criminosos + Arcos”. Note que os nomes vão se acumulando. Assim, a parte V, a parte VI, a parte VII e a parte VIII têm como títulos, respectivamente, “Cidade + Águas + Criminosos + Arcos + Histórias”, “Cidade + Águas + Criminosos + Arcos + Histórias + Sobreviventes”, “Cidade + Águas + Criminosos + Arcos + Histórias + Sobreviventes + Pontes” e “Cidade + Águas + Criminosos + Arcos + Histórias + Sobreviventes + Pontes + Fogo”. Além disso, existe uma preocupação matemática na formulação da narrativa de “O Construtor de Pontes”. Cada parte possui exatamente 12 capítulos. As exceções são as partes II e VII, que têm 14 capítulos cada. Ou seja, o conjunto da obra totaliza exatamente 100 capítulos. A introdução/abertura e o epílogo/conclusão não entram nessa conta. Seria mera coincidência, senhoras e senhores, o número redondinho? Nananinanão! A sensação que temos quando nos deparamos com essa estrutura rígida e harmônica é de estarmos diante – tal qual o nome do livro indica (não nos esquecemos que o título original em inglês é “Bridge of Clay”) e a história do romance nos mostra (pai e filho erguendo uma ponte) – de um desenho arquitetônico de uma construção real. Seria essa a planta da narrativa de a “Ponte de Clay” (em uma tradução direta)? Acho que sim. Viu como não existe coincidência nem acaso na boa literatura! Em outras palavras, cada parte do romance se liga intimamente às outras partes e todas estão perfeitamente alinhadas às proporções de rigor matemático. Do contrário, a edificação não ficaria em pé. Achei SENSACIONAL essa interatividade intertextual entre a estrutura do livro e o conteúdo da leitura. Outro elemento elogioso de “O Construtor de Pontes” é a configuração das personagens . Os tipos retratados neste romance são quase sempre figuras redondas, inclusive as peças centrais da narrativa – leia-se o herói, o vilão e o narrador. Aqui não há indivíduos totalmente bonzinhos nem pessoas exclusivamente más. Esqueça as personagens planas! Entre o claro e o escuro, há infinitas tonalidades de cinza. Essa constatação vale tanto para os protagonistas quanto para os coadjuvantes. Markus Zusak também é mestre em criar personagens simples e carismáticas, principalmente dentro dos universos infantis e infantojuvenis. É uma delícia acompanhar suas criações ficcionais pelo processo de amadurecimento. A prova maior do que estou falando é a sensação permanente de que estamos lendo uma biografia e não um livro de ficção. Dos elementos da narrativa ficcional , também gostei bastante do espaço narrativo e da ambientação . De certa maneira, esses dois componentes caminham lado a lado. Em “O Construtor de Pontes”, sabemos o nome de vários lugares da trama, mas em nenhum momento recebemos a identificação precisa da cidade em que a maior parte do enredo se sucede. Sabemos apenas que se trata de um município no Oeste da Austrália onde o calor e a secura são excessivos (ao melhor estilo Outback). Esse ar de mistério atiça a curiosidade dos leitores. Pelo menos em mim funcionou perfeitamente. Até a última página, mantinha a esperança de descobrir em qual cidade os garotos Dunbar viviam. Porém, adianto que a obra termina sem que tenhamos essa informação. A ambientação surge acompanhada de mãos dadas pela descrição do espaço narrativo . O público mais atento irá reparar no tom determinista do cenário. Em uma localidade onde a quentura excessiva, a seca extrema e a desertificação da paisagem castigam os corpos das pessoas, não dá para imaginarmos relações humanas que não sejam violentas, áridas e um tanto vazias. Quem nos ensinou esse tipo de vínculo foi o genial Graciliano Ramos . De certa maneira, dá para pensarmos que “O Construtor de Pontes” é a versão contemporânea e australiana de “Vidas Secas” (Record). Uma vez que o leitor compreende essa associação, há várias relações divertidíssimas que podemos fazer: Outback versus Sertão; Michael versus Fabiano; Penélope versus Dona Vitória; garotos Dunbar versus o menino mais velho e o menino mais novo; Aurora e Aquiles versus Baleia; e até Telêmaco, Hector e Agamenon versus papagaio. Então você está dizendo, Ricardo, que Markus Zusak imitou Graciliano Ramos ?! Não, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Não foi isso o que quis expressar. Se foi essa a ideia que passei, lhe devo perdão. Me desculpe, por favor! Muito provavelmente, o best-seller australiano nunca leu e não conhece a fundo o clássico da literatura brasileira. Só estou apontando as semelhanças entre as duas histórias e o forte paralelo entre a ambientação e o espaço narrativo . Não à toa, este é um recurso narrativo interessantíssimo que é usado por muitos bons escritores no mundo inteiro e em várias épocas. Outro aspecto charmoso de “O Construtor de Pontes” é as fortes intertextualidades literária, mitológica e cinematográfica. Dessa trinca, a que mais gostei foi da referência constante às produções do cinema. Os garotos Dunbar estavam sempre à frente da televisão assistindo aos filmes (prática comum nos anos 1980 e 1990) e não se furtavam em comentar suas experiências como cinéfilos. Confesso que me diverti com o relato sobre os longas-metragens que a galerinha conferia no livro. Quem acompanha com regularidade a coluna Cinema , se recordará que compartilho a mesma opinião das personagens de Zusak sobre “Cidade de Deus” (2002), o melhor filme já produzido no Brasil. Conforme explicitei no post de “Ainda Estou Aqui” (2024), a obra-prima dirigida por Fernando Meirelles e Kátia Lund e roteirizada por Braulio Mantovani merecia o Oscar de Melhor Filme em 2003 (na categoria Geral e não apenas entre os títulos que concorriam à estatueta na categoria Internacional). Adorei ler isso no romance. Em relação ao estilo da narrativa, “O Construtor de Pontes” é uma típica obra de Markus Zusak. Basta a leitura de alguns capítulos para identificarmos o DNA da literatura do autor australiano . Ali estão o retrato ao mesmo tempo ácido e poético da infância e da adolescência das personagens centrais; as relações simultaneamente fortes e violentas entre os irmãos; a vida dura e quase sempre pautada por tragédias e por lances inexplicáveis do destino; e, como não poderia ser diferente, a linha tênue entre a moral e a ética. Saber diferenciar o certo do errado e o errado do certo depende do contexto e da realidade de cada um. Essa dicotomia é a base para as reflexões pretensamente filosóficas que o escritor nos traz. De todas as partes deste romance, a que mais gostei foi do desfecho. Nesse ponto da leitura, admito que caí no choro. Sabe quando você debulha em lágrimas até o rosto ficar vermelho? Pois foi exatamente o que aconteceu comigo no domingo à noite! Ai, ai, ai. Sei que não é muito elegante (nem másculo) falar sobre isso, mas não escondo nada dos leitores da coluna Livros – Crítica Literária . Juro que não sei explicar o motivo do aguaceiro que me fez até soluçar. Seriam os méritos do desenlace sensível e bonito de “O Construtor de Pontes”? Pode ser. Ou seria o fato de eu viver há quase dois anos longe da minha família e, portanto, estar mais sensível aos dramas com essa temática? Também pode ser. Se não consigo explicar precisamente a causa do meu comportamento, posso garantir que o final do livro me emocionou bastante. Isso é indiscutível. Por mais méritos que o novo romance de Zusak tenha, também precisamos apontar para as suas graves falhas. Achei duas principais, que prejudicaram a experiência de leitura. A primeira é a narração inverossímil. Essa é justamente a maior diferença para “A Menina que Roubava Livros” . Se no romance anterior, o autor escolheu um dos mais surpreendentes e incríveis narradores da literatura contemporânea (a Morte), agora ele selecionou um horrível (o mais velho dos garotos Dunbar). E qual o problema nisso, senhoras e senhores? São vários. Não dava para Matthew ser onipresente e onisciente (como a Morte era) em relação às histórias de Michael, Penélope, Clay, Carey e tantas outras personagens. Dessa forma, a narrativa do romance se torna injustificável. É possível perceber que Markus Zusak sabia dessa incongruência e fez um esforço gigantesco para dar credibilidade ao relato de Matthew Dunbar. Mesmo assim, preciso dizer que ele não nos convenceu. Há muitas passagens que Michael jamais contaria para Penélope ou para Clay. Ou você conta tudo para sua esposa/seu marido e para seu/sua filho(a), hein? Claro que não! Assim como há vários trechos da vida da mãe que ela nunca relataria em detalhes para o filho curioso. E tanto Clay não conseguiria pormenorizar alguns episódios de seu passado para o irmão mais velho como certamente Carey não iria se expor excessivamente ao amigo/namorado. Por mais que falemos bastante sobre nossas vidas para familiares e cônjuges, ainda assim guardamos muitas coisas conosco. Ou não?! Confesso que fiquei bastante frustrado com o erro de foco narrativo . É aquela velha discussão: o texto em primeira pessoa fica mais bonito e intensifica as emoções do livro? Siiiiiiiiiim. Então podemos usá-lo indiscriminadamente sem pensar nas consequências? Nãaaaaaao. Em “A Menina que Roubava Livros” , até fazia sentido a Morte saber tudo o que se passava com Liesel Meminger e com as demais personagens. Porque ela era a Morte, ora pá. Era alguém que tinha onipresença e onisciência do que ocorria no planeta inteirinho em todas as épocas. Transferir essa propriedade para Matthew Dunbar, um mero mortal, ou tentar justificar seu conhecimento aprofundado dos cenários narrados nas mais diferentes épocas (inclusive descrevendo em detalhes o que as pessoas pensavam e sentiam) me pareceu um absurdo. A-B-S-U-R-D-O. O segundo grande incômodo teve como origem a forte sensação de déjà vu. “O Construtor de Pontes” é muito parecido à trilogia “O Azarão” e ao romance “Eu Sou o Mensageiro” . É até difícil apontar as diferenças entre os cinco livros (os quatro que citei agora e o novo). As personagens (jovens desajustados e/ou órfãos), os narradores (relato em primeira pessoa de alguém do clã de protagonistas), os conflitos (intrigas familiares, mortes e abandonos), os contextos temporais (adolescência), vários elementos narrativos (cachorro/animal de estimação, turfe/cavalo, boxe/esporte, amor platônico por uma garota/primeiro amor, violência doméstica/briga entre irmãos etc.) e os cenários (casa numa pequena/média cidade australiana e residência num bairro do subúrbio) não mudam nadinha de nada de um livro para outro. Juro que, no meio da leitura de “O Construtor de Pontes”, comecei a me lembrar automaticamente de várias personagens e passagens de “O Azarão” , “Bom de Briga” , “A Garota que Eu Quero” e “Eu Sou o Mensageiro” . Ricardinho do meu coração, não seja tão injusto com sempre afável e carismático Markus Zusak. Todo autor acaba trabalhando sempre a mesma temática e utilizando a mesma composição narrativa. Veja atentamente o trabalho de figuras como Elena Ferrante , Orhan Pamuk , Rubem Fonseca , Haruki Murakami , Khaled Hosseini , Régine Deforges , Harlan Coben e Nick Hornby e você notará que eles não saem do mesmo receituário ficcional. Cada um deles tem seus próprios ingredientes textuais e seus temperos narrativos particulares que são usados em incontáveis títulos. Com o best-seller australiano não seria diferente, né? Concordo em parte com essas afirmações, sempre lúcido(a) e participativo(a) leitor(a) imaginário(a) do Bonas Histórias . O que você disse é verdade – os grandes escritores versam (ou seria prosam?) quase sempre em cima de alguns assuntos e fórmulas pré-definidos. Entretanto, não encontramos livros tão iguais no portfólio ficcional desses romancistas de sucesso a ponto de nos decepcionarmos com suas leituras. Das seis obras de Zusak, cinco são quase idênticas. Aí não, camarão! A impressão de repetição cansa a nossa beleza. Ainda mais porque, lembremos, o cara ficou TREZE ANOS formulando “O Construtor de Pontes”. TREZE ANOS! Fico repetindo propositadamente essa informação para dar a dimensão da expectativa criada nas mentes e nos corações do público consumidor. E seu último romance era totalmente diferente do que havia sido entregue no início da carreira. Portanto, não era um contrassenso esperarmos que Zusak fosse nos encantar com uma narrativa diferenciada e com um enredo inovador. Mas não! Ele correu para as velhas e manjadas fórmulas dos fracos livros anteriores. NÃAAAAAAAO!!!! Tenho que dizer que “O Construtor de Pontes” tem também alguns pequenos erros de sequência narrativa e de lógica narrativa. Um leitor minimamente atento irá pegá-los com facilidade. Todavia, é importante ressaltar que esses tropeços não atrapalham a experiência de leitura, como os problemas do foco narrativo e da sensação de déjà vu fazem. Exatamente por isso, não vou apresentá-los. Se alguém quiser relatar os furos que achou na trama, fique à vontade para usar a caixa de comentários do fim do post. Garanto que há uma coletânea de pontos interessantes para ser debatida sobre esse assunto. Em suma, temos aqui um belo livro, principalmente se você ainda não leu nada deste autor. Analisado isoladamente, “O Construtor de Pontes” até pode agradar uma boa parcela do público ávida por histórias fortes e diferenciadas (quase escrevi agradar a gregos e troianos). Reconheço que eu gostei bastante desse romance. Definitivamente, ele não é ruim. De forma nenhuma! O problema surge quando efetuamos comparações – algo inerente aos seres humanos, né? Uma vez que colocamos a nova publicação lado a lado com “A Menina que Roubava Livros” , por exemplo, a vontade é de praticarmos suicídio (ou de espancarmos os irmãos menores, como a família Dunbar fazia). É, senhoras e senhores, acho que o simpático e esforçado Markus Zusak não conseguirá tão cedo escapar do impiedoso e triste “Complexo de Gabriel García Márquez”. Será que teremos que esperar mais uma ou duas décadas para o australiano provar que é capaz de ao menos se aproximar do resultado de “A Menina que Roubava Livros” ? É isso o que vamos aguardar. Esperemos. Esperemos... Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Músicas: Cambalache - O tango profético de Enrique Santos Discépolo
Lançada em 1934 no filme El Alma del Bandoneón, a canção do compositor argentino é uma tragicomédia que vislumbrou com tons pessimistas o que seria o século XX em seu país e no mundo. Com letra inusitada e melodia que flerta com as Milongas, Cambalache se tornou famosa na voz de Julio Sosa e é atualmente um dos Tangos mais críticos sobre a ambição e a falsidade da sociedade moderna. Voltemos a falar de Tango na coluna Músicas , senhoras e senhores. Por quê? Porque continuo ouvindo com frequência esse gênero musical que representa tão bem o país que escolhi para viver ( Argentina ) e a cidade que moro há um ano e meio ( Buenos Aires ). Por mais que o ritmo nascido nos bordéis dos subúrbios portenhos não esteja no dia a dia de grande parte dos argentinos, como pensa a multidão de turistas que desembarca nos saguões de Ezeiza e do Aeroparque, ele está embrenhado na alma dos habitantes locais. É mais ou menos como o Samba no Brasil. Se o ziriguidum e o batuque dos tamborins não são ouvidos no cotidiano de boa parte dos meus conterrâneos, ainda assim são as melhores representações sonoras do nosso país. Ou você consegue conceber a nação verde-amarela sem o colorido musical das rodas de sambistas, hein?! Eu não consigo. Nossos vizinhos ao Sul vivenciam dinâmica parecidíssima. Não escuto Tango em minha rotina diária, como nunca ouvi Samba de segunda a segunda quando vivia em São Paulo. Contudo, confesso orgulhoso que uma vez por semana ou, no mais tardar, uma vez a cada quinze dias, enquanto trabalho produzindo textos para o Bonas Histórias , para a EV Publicações e para a Epifania Comunicação Integrada , coloco os Tangões clássicos para tocar na minha playlist. Além de amolecer meu ouvido para o sempre desafiante castelhano rio-platense (falei disso na crônica “O Espanhol Argentino” , quarto episódio da série narrativa “Tempos Portenhos” ), gosto do clima criado em casa com a execução dessas canções de elevada passionalidade. Como Hollywood descobriu há pelo menos quatro décadas, nenhum ambiente (seja cinematográfico, seja real) fica indiferente à combinação melódica de bandoneón , piano, violino, guitarra e contrabaixo e à integração de palavras que parecem vir de um choro coletivo ou de um grande protesto cívico. Asseguro que minha experiência de viver em Buenos Aires é potencializada quando tenho como cenário da janela do meu escritório doméstico o Parque Saavedra. Conforme tratei em “Vida ao Ar Livre” , um dos relatos da atual temporada da coluna Contos & Crônicas , não há nada mais portenho do que ter um belo parque ou praça à disposição. Aí a cuia de mate amargo em cima da mesa e as porções generosas de medialunas ou empanadas saindo do forno só colaboram para elevar a sensação de argentinidade da minha rotina atual. E, claro, as músicas interpretadas por Carlos Gardel , Astor Piazzola, Libertad Lamarque , Juan Maglio Pacho, Julio de Caro, Rosita Quiroga e Roberto Polaco Goyeneche (figura onipresente no bairro que moro) tocando no Spotify são a cereja do bolo – o el dulce de leche del alfajor , como quieras . Isso é Argentina, meu povo!!! Esse é o verdadeiro clima de se estar em tierras hermanas ! A relação entre Bonas Histórias e o charmoso ritmo musical argentino já dura mais de um ano. Quem começou a flertar descaradamente com essa temática foi Marcelinha, mi hermanita que é professora de dança na cidade de São Paulo e diretora artística na Dança & Expressão . Depois de me visitar em Buenos Aires no final de 2023, ela produziu um post magnífico para a coluna Dança no qual apresentava a história, as características, a evolução e os principais passos do Tango . Obviamente, a sua perspectiva era a dos dançarinos. Admito que seu texto está tão delicioso que até eu, que não tenho molejo nem para caminhar em linha reta, fiquei com vontade de convidar uma bela dama (pode ser Gabrielle Anwar, Jessica Biel ou Jamie Lee Curtis) e ir para o centro do salão para bailarmos com os pés enroscados. Em março de 2024, ainda sob os primeiros efeitos da minha paixonite cultural pela nação albiceleste (eu escrevi “nação albiceleste” e não “na anca da ambiciosa Celeste”, tá?), aproveitei o espaço da coluna Músicas para contar sobre o meu Tangão favorito: “Por Una Cabeza” . A criação de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera que completa, em 2025, 90 anos é realmente fantástica e emociona até hoje os ouvidos dos amantes das boas canções. Vale a pena ler a respeito no blog. Para muita gente, essa faixa é a melhor representação de seu gênero musical. Difícil não concordar com essa percepção. Pensou em Tango, coloque a melodia e os versos de “ Por una cabeza/todas las locuras/Su boca que besa/Borra la tristeza/Calma la amargura/Por una cabeza/Si ella me olvida/Qué importa perderme/Mil veces la vida/Para qué vivir” para tocar. Certamente o público ficará extasiado. Hoje, gostaria de sair do convencional sem deixar o universo dos Tangos Clássicos . E, assim, debato com vocês a minha segunda faixa favorita desse ritmo musical: “Cambalache” . Se “Por Una Cabeza” é reconhecida imediatamente pelo público internacional e presença obrigatória em qualquer playlist tangueira, a mesma afirmação não pode ser feita sobre esse curioso e criativo hit concebido por Enrique Santos Discépolo . A canção de Discepolín , como o compositor era chamado carinhosamente pelos amigos, é mais popular entre os argentinos do que no exterior. É, portanto, sobre “Cambalache” que vamos tratar neste novo post da coluna Músicas , senhoras e senhores. Depois de algumas voltas em sentido anti-horário pelo salão, sejam bem-vindos à ode pessimista do século XX. Criado em 1934, “Cambalache” é a canção que subverte a lógica das letras tradicionais de seu gênero musical ao tecer fortes críticas sociais, uma novidade para a época. Não por acaso, Enrique Santos Discépolo entraria para a história como o pessimista dos pessimistas e o introdutor de uma nova temática ao ritmo que se dedicou. Para ele, o Tango era um pensamento triste que podia/pode ser cantado/dançado. A partir daí, estava inaugurada uma nova vertente para a música que melhor representa a argentinidade e o tom inconformista de los hermanos . É válido dizer que o tom crítico que vemos em “Cambalache” já era habitual na poesia, na ficção literária, nas peças teatrais e no cinema da Argentina, além dos materiais jornalísticos e nos bate-papos da população nos cafés e nas parrillas de Buenos Aires. Ou você consegue imaginar um argentino ou uma argentina segurando as reclamações, omitindo as indignações e engolindo a impetuosidade, hein? Eu não consigo. Pela ótica artístico-cultural, a novidade foi a inclusão da música como mais uma peça panfletária de protesto e de crítica social de um dos povos mais inconformados do mundo. Assim, sai de cena a dor de cotovelo (mulher perdida – “Amargura” e “El Dia Que Me Querias ” são ótimos exemplos dessa temática), o doce amor maternal (a mãe é figura santificada pelos tangueiros – “La Casita de Mi Viejos”), o saudosismo e o lirismo do bairro natal e de lugares da cidade (Buenos Aires é o melhor lugar do mundo para se viver – “Cien Barrios Porteños”, “Mi Buenos Aires Querido” e “Caminito”), a camaradagem da turma de amigos (únicas pessoas em quem os compositores podiam confiar – “Adiós Muchachos”) e o próprio gênero musical (metalinguagem lírica – “El Choclo” e “Alguien Le Dice Al Tango”). Esses são os assuntos de 9 entre 10 Tangos. A partir de Discepolín, entra em campo a reclamação quanto à imoralidade dos novos tempos e a indignação com a vigarice avassaladora da modernidade. Convenhamos que é justamente essas características (reclamões e indignados) que melhor definem os argentinos há um século. Segundo Enrique Santos Discépolo, “ el mundo fue y será una porquería” (o mundo foi e será uma porcaria) , “el siglo veinte es un despliegue de maldad insolente” (o século vinte é uma praga de maldade insolente), “vivimos revolcaos en un merengue” (vivemos mergulhados numa confusão) e “ qué falta de respeto, qué atropello a la razón” (que falta de respeito, que atropelo à razão). Esses são alguns versos de “Cambalache”. Em “Qué Vachaché”, canção de 1926, ele escreveu: “ Lo que hace falta es empacar mucha moneda, vender el alma, rifar el corazón ” (o que você precisa é arrumar muito dinheiro, vender sua alma, sortear seu coração), “plata, mucha plata y plata otra vez, así es posible que morfés todos los días” (dinheiro, muito dinheiro e dinheiro outra vez, assim é possível que você coma todos os dias) e “¿Que la honradez la venden al contado y a la moral la dan por moneditas?” (A honradez/honestidade é vendida por pechincha e a moral lhe dão por algumas moedas). Se esse cara não tinha uma visão de mundo negativa, não sei mais o que é desilusão, pessimismo e amargura! O mais legal é ver que a bagunça cantada aparece na própria estrutura da letra de “Cambalache”. A canção não tem qualquer rigor métrico nem de rima. Para completar a pintura de originalidade dessa faixa, a música de Discepolín dialoga o tempo inteiro com a Milonga , o ritmo mais acelerado do Tango. Esse tempero torna sua melodia ainda mais marcante e verossímil. Porque, convenhamos, os tempos modernos são sempre mais acelerados e caóticos do que as lembranças do passado. Impossível não nos apaixonarmos por essa combinação inusitada e criativa que representa tão bem a alma argentina e o espírito portenho. Antes de adentrarmos na análise propriamente de “Cambalache”, vamos fazer a contextualização histórica dessa canção de Enrique Santos Discépolo. Dessa maneira, tenho certeza de que será mais fácil para entendermos o quão impactante e original essa música foi e continua sendo. Como um típico post do Bonas Histórias , não dá para ficarmos só nas análises técnicas das obras culturais, né? Temos que mergulhar também nas boas histórias por trás de cada uma das manifestações artísticas comentadas. Aí vamos nós! Quando compôs “Cambalache”, em meados da década de 1930, Discepolín já era um dos mais importantes compositores do Tango. Sua principal criação até então, “Yira Yira”, é de 1929. Apesar de eu preferir “Cambalache”, reconheço que “Yira Yira” é até hoje a peça mais popular do portfólio do argentino, além de ser um Tango cativante. Para quem não se recorda, essa é a canção com o refrão: “ Verás que todo es mentira/Verás que nada es amor/Que al mundo nada le importa/Yira, yira/Aunque te quiebre la vida/Aunque te muerda un dolor/No esperes nunca una ayuda/Ni una mano, ni un favor ”. Adoro como Carlos Gardel, o principal intérprete dessa faixa (e do Tango de modo geral), bradava a palavra “MENTIRA”. Nessa hora, sempre lembro da Tia Gê, irmã mais velha da minha mãe, que gritava no mesmo tom toda vez que eu contava alguma passagem pouco edificante do passado da nossa família: “MENTIRA!”, “MENTIRA!”, “MENTIRA!”. Outros sucessos de Enrique Santos Discépolo do período Pré-Cambalache foram: “Chorra” (não confundir com “El Choclo”, que é de Ángel Villoldo), “Malevaje”, “Esta Noche Me Emborracho”, trio de canções de 1928, e “Confesión”, de 1930. Não por acaso, o compositor argentino era muito requisitado para criar as trilhas sonoras dos filmes. Para quem possa achar estranho esse fato, lembro algo que comentei no post de “Por Una Cabeza” . Entre os anos 1920 e 1950, por supuesto , não havia televisão. Dessa maneira, o público gostava de ir às sessões de cinema para ver os cantores que tanto admiravam nas rádios. E como atrativo adicional, os estúdios produziam longas-metragens com canções originais. Por isso, muitas faixas estreavam nas telonas e, só depois, ganhavam as estações radiofônicas. Quase todos os grandes Tangos dessa época foram apresentados ao público primeiramente nas obras audiovisuais. Muito requisitado pelos cineastas para criar as faixas dos musicais, Discepolín produziu “Cambalache” especialmente para “El Alma del Bandoneón” (1934), filme dirigido por Mario Soffici e protagonizado por Libertad Lamarque, Santiago Arrieta, Domingo Sapelli e Dora Davis. Quem interpretou a canção no longa-metragem foi Ernesto Famá . O acompanhamento foi feito pela Orquestra de Francisco Lomuto . É bom dizer que tanto Famá quanto Enrique Santos Discépolo fizeram pontas em “ El Alma del Bandoneón ” – não eram protagonistas. No período de Ouro dos Musicais, muitos dos atores e atrizes eram cantores – na verdade, o correto seria dizer que muitos cantores e cantoras assumiram as funções de atores e atrizes. Afinal, quem não soubesse cantar estava fadado aos papéis menores. Essa era a realidade tanto no cinema argentino e brasileiro quanto no cinema norte-americano e europeu. Lembremos das atuações inesquecíveis de Bing Crosby, Doris Day, Freddie Aster, Judy Garland, Elvis Presley e Carmen Miranda em Hollywood. Eles eram estrelas de primeira grandeza da Sétima Arte. Curiosamente, Enrique Santos Discépolo também teve atuação como ator em muitos filmes. Porém, diferentemente de vários colegas, ele era um profissional do universo cênico. Antes de ser músico, o argentino já atuava como intérprete nos palcos de teatro de Buenos Aires. Mesmo assim, por não saber cantar (ele não cantava nem tocava instrumentos musicais, apenas compunha), Discepolín nunca se tornou protagonista no cinema (apenas nos teatros). Além de papéis menores nas telonas, o compositor dirigiu e roteirizou várias produções cinematográficas principalmente entre 1939 e 1951. Enrique Santos Discépolo nasceu em 1901 em Buenos Aires em uma família de origem italiana e morreu em 1951 na capital da Argentina. Foi um dos mais importantes compositores de Tango, ao lado de Homero Manzi, Alfredo Le Pera, Carlos Gardel, Ástor Piazzolla, Horacio Ferrer e Juan D´Arienzo. Por ter sido essencialmente letrista, Discepolín sempre foi considerado pela crítica mais como poeta do que como músico. Uma vez criada as letras das canções, precisava da colaboração dos parceiros musicais para o desenvolvimento das melodias. Com “Cambalache” não foi diferente. Por mais que tenha os créditos exclusivos por essa composição, sabemos que o poeta não criou a parte musical deste Tangão. Se a falta de habilidade ao microfone e com os instrumentos fechou algumas portas (principalmente como ator cinematográfico), o talento na articulação das palavras abriu outras tantas. Além de destacado compositor e roteirista, ele foi um elogiado dramaturgo. A biografia de Enrique Santos Discépolo é marcada por uma sucessão de tragédias. Não por acaso, os historiadores do Tango apontam vários motivos para o pessimismo do músico. O pai biológico de Discepolín abandonou a família tão logo o menino nasceu. E ele ficou órfão do pai adotivo aos 5 anos e da mãe aos 9 anos de idade. Até virar ator profissional no teatro, Enrique viveu constantemente sob restrito orçamento doméstico. As coisas em casa só mudaram quando o irmão 14 anos mais velho, Armando Discépolo, se tornou um dramaturgo famoso e aplaudido nacionalmente. Armando é considerado precursor do estilo gótico/grotesco no campo cênico argentino. Ainda assim, esse êxito familiar está até hoje envolto em suspeitas e dúvidas. Muita gente acredita que quem escrevia as peças premiadas era o irmão caçula. Essa tese é corroborada pelas evidências de que tão logo Enrique começou a escrever suas músicas e a assinar suas próprias obras teatrais, Armando nunca mais produziu nada com a qualidade dos tempos áureos. Coincidência? Muitos argentinos juram que não. Nem no amor Enrique Santos Discépolo teve êxito. À la Noel Rosa, o tangueiro colecionou várias desilusões afetivas. O relacionamento mais longo que teve foi com Ana Luciano Divis, atriz e cantora espanhola conhecida pelo nome artístico de Tania. A união de mais de duas décadas com Tania lhe trouxe mais dores de cabeça do que alegrias. O casal vivia brigando. Segundo diziam as más línguas, os motivos dos rotineiros entreveros eram o ciúme doentio dela e o jeito ditatorial com que a companheira controlava tudo referente a vida do marido, inclusive as finanças e a carreira artística. Para os amigos de Enrique, ele estava totalmente nas mãos de Tania, que fazia o que queria com ele. Em uma viagem ao México em 1945, Discepolín (que pelo visto dava motivos para os ciúmes e a ira da esposa, né?) conheceu Raquel Díaz de León, então com 17 anos. A diferença de 27 anos entre eles não os impediu de viver uma paixão fulminante. Conforme Enrique revelou mais tarde, esse foi o único período em que foi feliz. Quando Tania descobriu que o maridinho tinha engravidado uma moça no exterior e não queria voltar para a Argentina, foi buscá-lo embaixo de tapas e chantagens emocionais. Com o rabinho entre as pernas, Enrique retornou forçado a Buenos Aires. Porém, manteve por anos correspondência clandestina com Raquel, que tempos depois se tornou importante atriz, jornalista e escritora no México. O problema é que o argentino jamais teve a oportunidade de conhecer o filho, que ganhou seu nome. Saber da existência da criança e não conviver com ela só aumentou sua melancolia. Com essa biografia, não nos parece surpreendente que Enrique Santos Discépolo seja um poço de pessimismo e tenha feito obras musicais e teatrais com forte teor negativo. Por mais que “Cambalache” tenha se tornado a canção símbolo dessa característica, vale a pena dizer que ela não foi a primeira nem foi a última faixa com viés crítico de seu compositor. O Tango de Discepolín que inaugurou a pegada de amargura e crítica social foi “Qué Vachaché”, de 1926. O título é uma brincadeira com a expressão portenha: “ ¿Qué va cha ché? ” (algo mais ou menos como “O que está acontecendo, hein?”). Essa música denunciava um grupo de pessoas que se preocupava mais com o dinheiro do que com a moral. Em outras palavras, foi a precursora da temática de “Cambalache”. Em 1943, o marido de Tania lançou “Uno”, outro Tango famosíssimo e provavelmente o mais triste da história. Os versos dele que mais gosto são: “ Uno va arrastrándose entre espinas/Y en su afán de dar su amor/Sufre y se destroza hasta entender/Que uno se quedó sin corazón” (Alguém rasteja por espinhos/E na vontade de dar seu amor/Sofre e se destrói até entender/Que alguém ficou sem coração) e “ Precio de castigo que uno entrega/Por un beso que no llega/O un amor que lo engañó/Vacío ya de amar y de llorar/Tanta traición” (O preço do castigo que se paga/Por um beijo que não vem/ Ou o amor que o enganou/Vazio por amar e chorar/De tanta traição). Se você curte uma boa dor de cotovelo, vai pirar com “Uno”. Ouça a interpretação de Roberto Goyeneche. É espetacular! Para quem possa reclamar do que estou narrando, destaco que o pessimismo e a melancolia sempre fizeram parte do Tango. Para muita gente, essa não é uma característica apenas desse estilo musical como seria também um traço da natureza do povo argentino. Depois de conviver com uma ou duas argentinas nos últimos anos, posso garantir que há um fundo de verdade nessa ideia. O choque cultural é enorme entre os países vizinhos. Enquanto nós brasileiros, por exemplo, vivemos naturalmente alegres e risonhos, os argentinos cultivam certo mal humor e negatividade crônica. Eu costumo brincar que, por falta de motivos, meus conterrâneos são felizes. Los hermanos (y las hermanas) , por falta de motivos, são naturalmente infelizes. Portanto, tal questão transcenderia o universo sonoro e avançaria para o campo cultural. Apesar de concordar com essa definição, sei do quão polêmico é o assunto. Por isso, não me atreverei por ora a entrar em mais detalhes neste debate que lembra as calorosas discussões de quem foi melhor: Pelé ou Maradona? O que posso dizer sem riscos de ser cancelado de parte a parte é que, no Tango, a tristeza e a amargura sempre estiveram envoltas na desilusão amorosa. Depois de tomar um belíssimo pé na bunda da pessoa amada, é complicado se levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. O que Enrique Santos Discépolo fez foi falar mais ou menos assim: “Gente, gente, o problema não é das desgraças afetivas que cada um de nós enfrenta diariamente. O problema central é do mundo que habitamos, da sociedade de um modo geral. Nossas vidas não prestam porque a realidade moderna e a essência da humanidade são poços de tragédias, falcatruas e desilusões”. Esses seriam os motivos, segundo o compositor argentino, para a sua infelicidade (e de todos nós). Essa atmosfera negativa tem respaldo histórico. Quando Discepolín criou “Cambalache”, a Argentina vivia a chamada Década Infame. Para quem estuda o passado desse país (põe o dedo aqui que já vai fechar!), a sensação é que todas as décadas foram infames. Entretanto, só os anos 1930 e o início dos anos 1940 ganharam efetivamente esse apelido pouco nobre. Afinal, foi nessa fase (para ser mais preciso em meu comentário, de setembro de 1930 a junho de 1943) que a Democracia argentina foi agredida pela primeira vez. Primeira vez no século XX, né? Porque se há algo que tira o sono da sociedade albiceleste desde a independência é a eclosão de golpes de Estado, principalmente os promovidos pelas Forças Armadas. Em 1930, um golpe militar (sempre eles!) destituíram o governo civil eleito de Hipólito Yrigoyen e implementou um regime violento, corrupto e conservador. Por mais que tenha dado início ao processo de industrialização da Argentina, o novo regime representou o sensível empobrecimento da população e o fim da fase dourada da economia local. Para quem desconhece o passado abastado de los hermanos , nosso vizinho era um dos países mais ricos do mundo até o século XIX. Isso até a chegada dele – o temido e amaldiçoado século XX!!! Como consequência à Década Infame, os argentinos viram brotar o movimento peronista, que dizia promover a justiça social. Sabe de nada, inocente! Convenhamos que uma nação que fica dividida entre os ideais chulos dos militares e a concepção tacanha dos peronistas não poderia se sair muito bem nas décadas seguintes. O fato é que o século XX, na visão de Enrique Santos Discépolo, aparece como o maior vilão da felicidade do povo (argentino). Essa cruel e sanguinária personagem foi impiedosa ao destruir o bem-estar de boa parte das pessoas (na Argentina). Curiosamente, Discepolín condena o século ainda em 1934, sem saber o que viria pela frente. Até ali, a Gripe Espanhola, a Primeira Guerra Mundial, a imigração descontrolada do campo para as cidades, o colonialismo econômico inglês e a ambição desmedida do capitalismo eram as origens dos males modernos. Sabemos que logo a seguir as coisas só piorariam: a tirania Nazifascista, a Segunda Guerra Mundial, as bombas atômicas no Japão, a Guerra Fria, o conflito dos misseis em Cuba, a perseguição promovida pelo Stalinismo, a Guerra do Vietnã, a fome na África, a epidemia de AIDS, o genocídio cambojano e ruandês, as Guerras no Oriente Médio, as Crises do Petróleo, a globalização econômica, as Ditaduras Militares na América do Sul e o empobrecimento acentuado da já pobre América Latina. Por essas e outras, “Cambalache” ganha um ar de profecia. A sensação que temos é: como Enrique Santos Discépolo conseguiu prever o que viria mais à frente, hein?! Paradoxalmente, esse Tango não se transformou em um sucesso musical instantaneamente. Para ser preciso na minha informação, foram necessários bons anos até o público argentino começar a gostar de “Cambalache”. Após Ernesto Famá cantá-lo no filme de Mario Soffici em 1934, a repercussão do público foi fria, quase gelada. A primeira interpretação ao vivo de “Cambalache” ocorreu em dezembro daquele mesmo ano no Teatro Maipo, em Buenos Aires. A pedido de Discepolín, Sofía La Negra Bozán executou a canção. Novamente, a reação da plateia foi tímida. Juro que não sei explicar o motivo das estreias pouco efervescentes da hoje faixa clássica da música argentina . Talvez as inovações trazidas soassem esquisitas num primeiro momento aos ouvidos do público conservador da época? Pode ser. Ou o regime ditatorial dos militares trabalhou para boicotar esta criação de Enrique Santos Discépolo? Não duvido. Nenhum governante gosta de obras culturais críticas, ainda mais os brucutus sanguinolentos das Forças Armadas. Contudo, não há provas de censura, repúdio ou boicote a “Cambalache” nos primeiros anos por quem ocupava o comando da Casa Rosada. O que sabemos é que mais tarde, no final dos anos 1940, os peronistas que tomaram o poder dos militares (e implementaram uma nova ditadura, dessa vez de esquerda) proibiram essa música de tocar nas rádios, shows, teatros e salas de cinema. As justificativas utilizadas foram hilárias. Os censores alegaram que a canção trazia excesso de lunfardos , as gírias portenhas (que ainda estou em processo de aprendizado). E que essa característica configuraria uma prática imoral. Para completar a overdose de absurdos, reclamaram que a letra falava de embriaguez (onde?) e recorria a expressões imorais (o quê?!). Por mais incongruentes que fossem essas alegações, “Cambalache” não pôde ser tocado nos anos iniciais do primeiro governo de Juan Domingo Perón. Esse Tango só se tornou efetivamente popular, acredite se quiser, em 1955, quatro anos após o falecimento de Discepolín e 21 anos depois de seu lançamento no filme “ El Alma del Bandoneón ”. Portanto, não é errado falarmos que essa era uma canção a frente de seu tempo e que precisou de uma geração até ser compreendida. O responsável pela proeza de transformar uma música dos anos 1930 em fenômeno radiofônico nos anos 1950 foi Julio Sosa , cantor uruguaio radicado em Buenos Aires e um dos maiores intérpretes do Tango. Sosa não apenas regravou “Cambalache” como mudou muitas coisas na música de Enrique Santos Discépolo. Além de dar uma interpretação mais debochada e dramática (totalmente diferente da versão original de Ernesto Famá, que era mais sóbria), o uruguaio alterou muitos versos da canção. Pode isso, Arnaldo?! Não sei se pode mexer na letra sem o consentimento do compositor, mas fizeram isso várias vezes em “Cambalache”. Eu disse várias vezes!!! Como o criador já era falecido (e sua brava esposa também), não ouve reclamação. Para ser bem franco com você – a história vai ficando cada vez mais interessante! –, essa música possui várias versões. Confesso que já perdi as contas de quantas letras diferentes de “Cambalache” ouvi. A impressão que tenho é que cada cantor que a interpretou se viu no direito de mudar uma palavrinha aqui e um termo acolá. Aí depois de quase um século e incontáveis cantantes , a coisa saiu do controle. Julio Sosa só foi o primeiro a alterar a letra da canção. Depois dele, os músicos formaram fila para colocar seu tempero pessoal neste Tango. Para mim, a versão que mais gosto é justamente a de Sosa. Mas como eu sei qual é a versão de Discepolín e qual é a versão do uruguaio, Ricardo? É simples, questionador(a) e participativo(a) leitor(a) da coluna Músicas . Enquanto o compositor escreveu “En el quinientos seis/Y en el dos mil también”, “el que vive de los otros" e "Mezclaos con Stavisky/van Don Bosco y la Mignon/Don Chicho y Napoleón/Carnera y San Martín", o cantor bradava aos microfones, respectivamente, “En el quinientos diez/Y en el dos mil también”, “el que vive de las minas” e “Mezclaos con Toscanini van Scarface y la Mignon, don Bosco y Napoleón, Carnera y San Martín”. As alterações efetuadas por Julio Sosa funcionaram tão bem que a música estourou. A partir daí, “Cambalache” se tornaria não apenas um Tango emblemático para os argentinos como virou uma representação genuína da alma nacional. O poeta Leónidas Lamborghini chegou a dizer que essa criação de Enrique Santos Discépolo seria o verdadeiro hino da Argentina. Ele não deixa de estar certo. Em quase um século de vida, trechos de “Cambalache” são incorporados rotineiramente aos discursos políticos, aos memes da Internet, às citações de filmes e romances contemporâneos, às charges nos jornais, aos grafites nas ruas de Buenos Aires e aos diálogos cotidianos dos portenhos. Esse alcance só foi possível pelo tom contemporâneo da letra da canção. Ouça-a agora e você terá a impressão de que se trata de uma composição recente. O termo “cambalache” do título da música significa na Argentina e no Uruguai “escambo”. Escambo é aquele tipo de transação comercial feita sem dinheiro físico e com a intermediação direta entre produtos. O sujeito vende uma vaca por três porcos e seis galinhas. Um carro é negociado por duas televisões, um aparelho de DVD, um fogão e uma geladeira, por exemplo. A palavra “cambalache” também tem outras designações em espanhol como “loja de produtos usados” (um brechó que não fica restrito às roupas) ou “casa de penhor”. Como tanto no escambo quanto nos estabelecimentos comerciais listados reina o caos e aleatoriedade, “cambalache” se tornou com o tempo sinônimo de desordem e bagunça. Os portenhos usam atualmente outra expressão para designar essa ideia de confusão: “ quilombo ” – palavra que não tem nada a ver com o sentido do português brasileiro. Para Discepolín, o século XX era “ cambalache, problemático y febril” (bagunçado, problemático e febril). Antes e depois de Julio Sosa, vários tangueiros argentinos cantaram o caos e os trambiques do mundo moderno. De cabeça, me recordo de Carlos Gardel e Francisco Lomuto & Fernando Diaz como intérpretes da fase pré-Sosa. No período pós-Sosa, dá para listar Adriana Varela , Litto Vitale & Juan Carlos Baglietto , Libertad Lamarque, Roberto Goyeneche, Alberto Echagüe , Susana Rinaldi , Roberto Arrieta & Miguel Calo e Tita Merello . Deve ter mais cantores, muito mais, mas são só esses que conheço. Nos anos 1980, vários grupos de Rock passaram a cantar “Cambalache” numa versão mais eletrônica. Os pioneiros foram os integrantes da banda argentina Sumo . Em seguida, vieram os uruguaios de Los Estómagos e de Buitres . Na década de 1990, foi a vez da galerinha do heavy metal dar o seu tempero para a canção de Enrique Santos Discépolo. A proeza coube aos argentinos do Hermética . A avalanche de músicos interessados em interpretar “Cambalache” não foi uma onda que ficou restrita aos países banhados pelo Rio da Prata. Na Espanha, Joan Manuel Serrat , Pasión Vega , Julio Iglesias , Luis Eduardo Aute e Ismael Serrano deram o seu toque pessoal para essa música. Até no Brasil, tivemos fãs famosos do Tangão pessimista. Caetano Veloso em 1969, Angela Roro em 1982 e Gilberto Gil em 2004 o cantaram. Porém, a versão nacional mais famosa de “Cambalache” é de Raul Seixas em 1987. Inclusive, o bom baiano, como rezava a tradição argentina, mudou alguns versos da canção. A parte mais engraçada é: “Qualquer um é senhor/Qualquer um é ladrão/Misturam-se Beethoven/Ringo Starr e Napoleão/Pio IX e Dom João/John Lennon e San Martin”. Ou seja, o Maluco Beleza deu uma belíssima modernizada às personagens citadas. Hilário! Por falar em Raul Seixas, eu preciso confidenciar algo nem um pouco digno que se passou comigo quando vivi pela primeira vez na Argentina. Entre 2004 e 2005, eu tinha 20 e poucos aninhos e não conhecia ABSOLUTAMENTE NADA da cultura e da música do cone sul do continente (era uma criança!). E fui morar em Buenos Aires durante o programa de trainee da Coca-Cola. Eu e uma galerinha de dez conterrâneos recém-formados nas melhores universidades de São Paulo partimos para o treinamento na unidade portenha da multinacional de refrigerantes. Ao mesmo tempo em que assistíamos às aulas na sede da empresa e batíamos pé pelas ruas com os vendedores e os executivos de vendas, também recebíamos vários convites para conhecer locais turísticos da cidade. Minha impressão era que o pessoal dos Recursos Humanos da Coca da Argentina não se cansava de mimar os jovens gringos que chegaram para aprender com eles. Depois que deixei a casa de Dona Júlia, minha avozinha portuguesa, na cada vez mais distante infância, acho que nunca fui tão paparicado na vida quanto naqueles tempos como trainee. Simplesmente, ganhava ingressos para ir a qualquer jogo de futebol (fui várias vezes ao Monumental de Núñez e à La Bombonera), espetáculo musical (teve uma apresentação do Paralamas do Sucesso que foi espetacular!), show de dança e festival de cinema. Isso sem contar os muitos e muitos restaurantes de primeira linha. Juro que entendo quando a pessoa não consegue largar a carreira executiva mesmo odiando o trabalho. Em um desses incontáveis passeios de lazer, fui com meia dúzia de trainees brasileiros e três executivos argentinos do RH da Coca Cola à Esquina Homero Manzi, uma das casas mais tradicionais de Tango de Buenos Aires. A noite foi super agradável no bairro de Boedo. Os espetáculos dançantes eram intercalados com boa música e ótima comida. Entretanto, o que mais me marcou foi um fora homérico que dei. Ai, ai, ai. Tenho vergonha até de contar... No intervalo das apresentações dos dançarinos, uma dupla de músicos subiu ao palco e começou a tocar e cantar “Cambalache”. Como cresci ouvindo Raul Seixas, meu músico brasileiro favorito como mostrei no post de “Ouro de Tolo” , me senti preparado para fazer um comentário pretensiosamente sagaz. Virei para os portenhos da minha mesa e falei em tom sabichão: “Essa música aí é Cambalache. Ela é de um roqueiro brasileiro chamado Raul Seixas”. O trio me olhou incrédulo e pediu para que eu repetisse o que havia dito. Eu repeti alegremente. Aí eles caíram na risada. “Não, Ricardo! Esse é um Tango argentino”. A galerinha se divertiu à rodo com minha ignorância. Foi nessa noite portenha há 20 anos que ouvi pela primeira vez o nome de Enrique Santos Discépolo. Conforme descobri da pior forma possível, não foi o Maluco Beleza que criou “Cambalache”. Ele nem sequer foi o roqueiro pioneiro a adaptar esse Tango para seu gênero musical, feito dos integrantes da banda Sumo. Para você não cometer gafes como essa, estou contando essa história que tanto me envergonha. Bagagem cultural é tudo nessa vida, senhoras e senhores. Sem repertório, ficamos à deriva como náufragos no mar da vida. É como dizia Discepolín: “ Ignorante, sabio o chorro/Pretencioso o estafador/Todo es igual/Nada es mejor/Lo mismo un burro/Que un gran profesor”. Abaixo, podemos apreciar os versos desse Tangão memorável. Obviamente, peguei a versão em espanhol e não a brasileira, né? E qual das muitas variantes da música em castelhano selecionei? A que para mim é a definitiva – a de Julio Sosa. E logo a seguir, podemos ouvir sua interpretação mais famosa, aquela que foi imortalizada na voz do cantor uruguaio. Deleite-se: “Cambalache” (1934) – Enrique Santos Discépolo Que el mundo fue y será una porquería Ya lo sé En el quinientos diez Y en el dos mil también Que siempre ha habido chorros, Maquiavelos y estafaos, Contentos y amargaos, Valores y dublé Pero que el siglo veinte Es un despliegue De maldad insolente, Ya no hay quien lo niegue Vivimos revolcaos En un merengue Y en el mismo lodo Todos manoseaos Hoy resulta que es lo mismo Ser derecho que traidor Ignorante, sabio o chorro Pretencioso o estafador Todo es igual Nada es mejor Lo mismo un burro Que un gran profesor No hay aplazaos Qué va a haber Ni escalafón Los inmorales nos han igualao Si uno vive en la impostura Y otro afana en su ambición Da lo mismo que sea cura Colchonero, rey de bastos Caradura o polizón Qué falta de respeto Qué atropello a la razón Cualquiera es un señor Cualquiera es un ladrón Mezclao con Toscanini, Van Scarface y Napoleón Don Bosco Y La Mignón Carnera y San Martín Igual que en la vidriera irrespetuosa De los cambalaches Se ha mezclao la vida Y herida por un sable sin remaches Ves llorar la Biblia Junto a un calefón Siglo veinte, cambalache Problemático y febril El que no llora, no mama Y el que no afana, es un gil Dale nomá, Dale que va Que allá en el horno Se vamos a encontrar No pienses más Séntate al lado Que a nadie importa Si naciste honrado Si es lo mismo el que labura Noche y día como un buey Que el que vive de las minas Que el que mata Que el que cura O está fuera de la ley Vamos começar a análise propriamente dita dessa canção por sua melodia. “Cambalache” é um Tango extremamente rápido e com sonoridade marcante que lembra bastante as músicas tradicionais espanholas. Se você se recordar ligeiramente dos flamencos, saiba que não é por acaso. Os instrumentos utilizados na execução dessa faixa argentina clássica são geralmente o piano, o contrabaixo e o bandoneón (a boa e velha sanfona para os brasileiros). Esse trio não pode faltar. Dá para acrescentar também o violino e a guitarra, o que cai muitíssimo bem. O quinteto completo foi utilizado justamente nas principais versões desta música, aquelas interpretadas por Julio Sosa, Carlos Gardel e Roberto Goyeneche. Pelo cantar falado (espécie de Rap à moda antiga) e pelas notas rápidas e fortes de “Cambalache”, confesso que sempre acho que estou diante de uma Milonga. A Milonga é o subgênero do Tango (alguns a consideram um ritmo independente que tem um parentesco próximo do Tango) caracterizado pela ironia/humor (seja pelo erotismo acentuado, seja pela forte crítica social), pela maior velocidade de execução e pela interpretação que se aproxima bastante da conversa cotidiana. Pelo que você escreveu agora, Ricardo, “Cambalache” seria mais uma Milonga do que um Tango, não é?! Exatamente, astuto(a) e cada vez mais atuante leitor(a) da coluna Músicas . Siiiiiiiiiiiiim. É essa a minha impressão! Na minha visão (ou seria audição?!), essa criação de Discepolín está mais para uma Milonga do que para um Tango. Contudo, sempre que falo isso para os argentinos, eles me olham indignados e bradam enojados : “Não! Cambalache não é uma Milonga! Pelo amor de Deus, não fale besteira. Ele é um típico Tango de Ouro”. Lembrando das risadas do pessoal da Coca-Cola na Esquina Homero Manzi em 2004 e dos versos de Enrique Santos Discépolo de 1934 que diziam “ Dale nomá/Dale que va/Que allá en el horno/Se vamos a encontrar/No pienses más/Séntate al lado” , simplesmente interrompo a discussão e guardo para mim tais pensamentos. Talvez eu esteja outra vez equivocado. Ainda assim que “Cambalache” se parece muitíssimo com as Milongas, isso sim parece, queiram ou não os argentinos. Outra questão que precisa ser dita sobre essa música é que sua melodia é extremamente marcante. Basta ouvirmos seus primeiros acordes para sabermos que estamos diante de “Cambalache”. Tal efeito também é característico de “Por Una Cabeza” . Não à toa, essa dupla está no conjunto de canções tão conceituadas, né? Em poucos segundos de execução, identificamos esses hits clássicos sem titubear e nos emocionamos com suas construções musicais. Prova disso ocorreu na primeira semana de janeiro deste ano, quando fui com Mara, uma das amigas mais maluquinhas (e trambiqueiras) que tenho em São Paulo (beijinho, Marita!), ao El Boliche de Roberto . O bar de Tango quase centenário de Almagro é point da boa música (e ótimas histórias desde a Sub-30). Enquanto o casal de dançarinos Celinha e Luís, outros hóspedes paulistanos do cada vez mais apertado apartamento de Saavedra (abraços, galerinha!), rumou empolgado para a aula de Tango na La Catedral Club , ali do lado, eu e Marita, também conhecida como Moça Cambalache (eu não tinha pensado sobre isso até então, mas essa canção parece que foi escrita para ela!), fomos ouvir canções argentinas tendo a companhia de empanadas quentinhas e garrafas de vinho Malbec. Sentados à mesa do El Boliche de Roberto , assistimos à chegada do primeiro grupo de músicos da noite. Brincando, sentenciei com a Moça Cambalache: “Eles vão começar com “Por Una Cabeza” . Mal a banda começou a tocar, Mara me olhou incrédula: “Você acertou!”. Quando eles estavam terminando a faixa inicial e se preparando para a segunda faixa, alertei minha amiga: “Agora vão de Cambalache”. Aí fui eu o surpreendido. Mal iniciaram os novos trabalhos, deu para perceber o novo acerto. Ao pé do ouvido de Mara, já um tanto alcoolizada, disse orgulhoso: “Não falei!”. Qual a moral dessa desnecessária história, Ricardo? São vários as reflexões geradas. Em primeiro lugar, “Cambalache”, assim como “Por Una Cabeza” , possui uma melodia marcante desde os primeiros acordes, como acabei de dizer e provar. Em segundo lugar, se você quer agradar a plateia de argentinos e turistas gringos ávidos por ouvir bons Tangos, inicie sua apresentação por esses dois clássicos – e na ordem executada pelos músicos da casa de Almagro. Certamente, o público já ficará extasiado com seu portfólio musical. Para completar os aprendizados culturais, não visite em hipótese nenhuma o banheiro feminino do El Boliche de Roberto . Segundo relatos de minhas companheiras de jornada tangueira, não existe local mais sujo no planeta. Dizem que a última limpeza ali ocorreu quando Perón (e a barata que jaz ao lado do vaso) ainda eram vivos. Por mais interessante que seja a melodia, minha opinião é que o maior brilho de “Cambalache” está em sua letra. Ela é sensacional. Juro que não sei por onde começar a análise dos versos de Discepolín. Talvez um bom ponto de partida seja apontar o caráter atemporal e universal do conteúdo desta música. Note bem o quão paradoxal é isso. O compositor criou uma canção crítica sobre os anos 1930 na Argentina que se tornou uma marca registrada de seu país. Porém, utilizou conceitos e personagens que não conferem uma pegada datada nem local para o Tangão. Assim, um(a) italiano(a) em 1930, um(a) egípcio(a) em 1940, um(a) australiano(a) em 1950, um(a) mexicano(a) em 1960, um(a) alemão(ã) em 1970, uma) japonês(a) em 1980, um(a) sul-africano(a) em 1990, um(a) brasileiro(a) em 2000, um(a) palestino(a) em 2010 e um(a) paraguaio(a) em 2020 podiam ouvir “Cambalache” e achar que a canção estava tratando de suas realidades. É ou não é incrível tal efeito, hein?! A mistureba de citações de figuras nacionais com nomes internacionais e a miscelânia de referências às personalidades daquele tempo com gente do passado longínquo ajudam a criar o tom de perenidade da letra. Os versos originais da canção diziam: “ Mezcla'o con Stavisky/Va Don Bosco y La Mignon/Carnera y Napoleón/Don Chicho y San Martín ”. Por um lado, temos referências à realidade argentina como José de San Martin, um dos heróis da Independência da Argentina, e Don Chicho, apelido de Juan Galiffe, mafioso famoso de Rosário. Por outro lado, há Don Bosco, sacerdote italiano que criou a ordem dos Salesianos, e Alexandre Stavisky, histórico golpista nascido na Ucrania que abalou as finanças da França. Paralelamente, assistimos a Primo Carnera, boxeador italiano famoso nos anos 1930, e Napoleão Bonaparte, um dos políticos mais famosos de todos os tempos. Nessa brincadeira plural, surge até o tempero de uma figura ficcional: La Mignon é uma personagem literária de Goethe na saga “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister” (Editora 34). Provando que “Cambalache” é literalmente uma bagunça, Julio Sosa acrescentou na roda (ou na canção) Arturo Toscanini e van Scarface. O primeiro foi um famoso músico italiano de ópera e o segundo foi... foi... foi... não sei. Não faço ideia quem seria esse tal de van Scarface. Há quem ainda escute o uruguaio cantando Carrera (jogador argentino de sinuca famoso nos anos 1950) ao invés de Carnera (o já citado boxeador dos anos 1930). Contudo, as mais hilárias mudanças na letra de “Cambalache” vieram de Raul Seixas. O Maluco beleza temperou a sua versão Rock in Roll do Tango argentino com os músicos Beethoven, Ringo Starr e John Lennon, o papa Pio IX e o rei lusitano Dom João. Hilário, não?! Escute. Vale a pena. É legal notar que a composição original de Enrique Santos Discépolo se integra às incontáveis adaptações com naturalidade e de um jeito pra lá de escrachado. Se fosse um romance ou uma novela que estivesse comentando na coluna Livros – Crítica Literária , certamente classificaria “Cambalache” como uma tragicomédia. Essa é uma visão particular minha. O compositor quis dar esse efeito bem-humorado? Conhecendo seu histórico de vida e seu portfólio musical, talvez responderia a minha própria pergunta com uma negativa. Entretanto, é assim que sua música soa à maioria dos ouvintes hoje. É difícil não achar graça nos versos: “ Que el mundo fue y será una porquería/Ya lo sé”, “Vivimos revolcaos/En un merengue/Y en el mismo lodo/Todos manoseaos”, “Todo es igual/Nada es mejor/Lo mismo un burro/Que un gran profesor”, “Qué falta de respeto/Qué atropello a la razón/Qualquiera es un señor/Cualquiera es un ladrón” e “Siglo veinte, cambalache/Problemático y febril/El que no llora, no mama/Y el que no afana, es un gil”. Algo que passa desapercebido do público estrangeiro e que os argentinos valorizam bastante é o uso de lunfardos em “Cambalache”. Como mencionei rapidamente no começo deste post da coluna Músicas , lunfardos são as gírias e os ditados populares dos portenhos. Se atualmente a variante do castelhano falada à beira do Rio da Prata é enaltecida e até incentivada, há um século a realidade era bem diferente. Prova disso é que a canção foi proibida pelo governo de Perón justamente por empregar termos menos formais e vistos como chulos. Dá para acreditar?! Alguns lunfardos que posso apontar nesse Tango são “chorro” (ladrão), “plata” (dinheiro), “dublés” (moedas falsas ou joias falsificadas), “afanar” (roubar), “labura” (trabalho) , “merengue ” (dança que adquire sentido de confusão/bagunça), “mina” (menina, mulher) e, claro, “cambalachos” (negócios escusos). Já as expressões “dale nomá, dale que va” (juro que não sei como traduzi-las – talvez algo como “vá em frente, vai que vai”) são muuuuuuuuito portenhas e ouvidas até hoje no dia a dia da capital argentina. Para ficar completa a lista de lunfardos, só faltou mesmo empregar as duas palavras mais escutadas nas ruas de Buenos Aires: “boludo(a)” (besta/bobão) e “quilombo” (confusão/bagunça). A linguagem coloquial fica mais evidente no uso de termos populares como “ colchonero”, apelido dos torcedores do Atlético de Madrid, e “ rey de bastos ” (rei de paus), carta de Tarot que representa a pessoa virtuosa que é fiel aos seus valores independentemente da opinião alheia. E em ditados politicamente incorretos que são quase universais: “el que no llora no mama” (aquele que não chora não mama) e “y el que no afana es un gil” (quem não rouba é um bobo) . Há até quem aponte “ La Mignon ”, citada há pouco, não como a personagem de Goethe e sim como expressão da época para as mulheres de vida fácil, muitas delas francesas, que davam (vendiam) alegrias para os homens nos meretrícios de Buenos Aires. A crítica social presente do primeiro ao último verso de “Cambalache” se deve à ambição desmedida das pessoas pelo dinheiro. Por causa de uns trocados e pelos bens materiais, homens e mulheres ficam cegos pela ambição e passam por cima da moral e da ética. Qualquer coisa é aceitável em nome da grana e dos cifrões. Como consequência, o mundo se torna um lugar bagunçado, tóxico e injusto. Segundo Discepolín, sempre existiram ladrões, falsários e golpistas. Porém, o século XX é pródigo em promover os vigaristas, os salafrários e os trambiqueiros – “ Pero que el siglo veinte/Es un despliegue/De maldad insolente/Ya no hay quien lo niegue”. Nesse contexto, tanto faz o indivíduo ser honesto ou ladrão, cavalheiro ou abusado, trabalhador ou vagabundo, religioso ou pagão, professor ou ignorante, honrado ou desonrado e tolo ou esperto. Se você tiver muita plata do bolso, tudo se acerta e a lei estará ao seu favor. Simples assim. Engraçado que o compositor de “Cambalache” falava da realidade dos anos 1930, mas parece que estava descrevendo o cotidiano da década de 2020. No mundo contemporâneo, somos governados por pilantras e estamos rodeados de aproveitadores. O atual presidente argentino (aquele mesmo que garante falar com o cachorro morto!) acabou de se envolver em um escândalo financeiro. Ele divulgou em suas redes sociais um bando de golpistas norte-americanos de criptomoedas. Dezenas de milhares de pessoas perderam em poucas horas centenas de milhões de dólares com o esquema. Em compensação, a irmã do presidente, que chefia o gabinete do Executivo Federal, levou uma gorda comissão dos fraudadores pelo post enviado à nação. Antes que alguém me acuse de ser partidário dessa ou daquela corrente política – para mim, todas reúnem sem-vergonhas –, é bom dizer que o ex-presidente da Argentina (aquele que não concorreu à reeleição porque sua impopularidade cresceu tanto que chegou à Lua) também está em volto em graves problemas com a Justiça. E não estou falando apenas dos casos de corrupção que surgem semanalmente nas páginas dos jornais e nos boletins da televisão. Parece que, durante seu mandato, ele curtia passar o dia fazendo políticas populistas que agravaram o déficit público e tornaram a inflação galopante. E à noite, adorava xingar e espancar a esposa no leito matrimonial, sem preocupação com questões como violência doméstica, direitos humanos, machismo, sexismo e feminicídio. No meu Brasil, as coisas não são muito diferentes. As cadeiras de comando do Executivos e do Legislativos federal, estadual e municipal são trocadas por indivíduos que entram e saem dos presídios com a maior naturalidade. Em tempos de golpes digitais, bets, Jogo do Tigrinho, fake news, filtros nas imagens das redes sociais e mudança de entendimento da Justiça dependendo dos ventos políticos, é difícil saber o que é verdade e o que é mentira. “ Vivimos revolcaos/En un merengue/Y en el mismo lodo/Todos manoseaos/Hoy resulta que es lo mismo/Ser derecho que traidor/Ignorante, sabio o chorro/Pretencioso o estafador”. Ao ser atemporal, “Cambalache” tem um quê de música profética. Porque a sensação é de que ela está sempre falando do tempo presente e da nossa região. Olhamos a realidade a nossa volta e o mundo contemporâneo e pensamos assustados: “esses versos foram escritos para o que estamos vivenciando aqui e agora”. É ou não é esse o sentimento, hein?! A parte triste não é saber que a sociedade não mudou nada nos últimos 100 anos. E sim imaginar que daqui a um século, ela estará com as mesmas dificuldades. Mudam-se as rotinas, as tecnologias, as pessoas e os cenários, mas não mudam os problemas. O mundo confuso e caótico não está explícito apenas na temática de “Cambalache”. Ele aparece também na estrutura anárquica da música. Repare no caráter bagunçado da divisão dos versos (ora são quartetos, ora são quintetos e sextetos), na variação das métricas (não há padrão) e na lógica das rimas (na verdade, não há lógica nenhuma; sendo que em algumas partes, nem mesmo existe rima). Por mais que esses sejam elementos técnicos, o ouvinte recreativo nota intuitivamente o quão desordenado é o arranjo estrutural do Tango. E não falo isso como uma crítica negativa. Não! É divertidíssimo notar que a canção abraça o assunto abordado na letra e o leva para a estética e a forma. Como encerramento deste post do Bonas Histórias , gostaria de apontar algo profundamente original de “Cambalache” e que pouca gente cita. Por mais brilhante que tenham sido todos os pontos que enumerei até aqui, acho que aquilo que faz essa música tão sublime é a escolha inusitada de seu protagonista. Porque a personagem principal dessa história é o século XX. É ou não é brilhante isso, senhoras e senhores?! Tente se lembrar de outra canção bem-sucedida que tenha como foco um determinado espaço temporal. Pense! Juro que não me recordei. Convenhamos que as figuras centrais das composições musicais são tradicionalmente pessoas, animais, objetos, veículos, fases da vida, lugares, sentimentos, fatos ou situações. Só mesmo um cara genial como Enrique Santos Discépolo poderia colocar o século em que viveu (e que ainda estava no comecinho) no papel de protagonista. ES-PE-TA-CU-LAR!!! Por tudo isso, “Cambalache” é o meu segundo Tango preferido. O primeiro, por supuesto , é “Por Una Cabeza” . Para quem ficou curioso(a) em saber o restante do meu ranking tangueiro, completo a lista do top 10 do Ricardinho sem problema nenhum: 3º “Mi Buenos Aires Querido” (beijo, Gaby); 4º “El Día que Me Queiras”; 5º “Adiós Muchachos”; 6º “Infiltrado”; 7º “Yira, Yira”; 8º “Volver”; 9º “Caminito”; 10º “La Milonga de Buenos Aires”. Se você achou que me esqueci de “El Choclo”, “Mano a Mano”, “Lejana Tierra Mía” e “Milonga Sentimental”, informo que também gosto dessas faixas. Só não as coloco nas primeiras posições. Dos Tangos classudos que os argentinos adoram, confesso envergonhado que não acho muita graça em “La Cumparsita” nem em “Balada para un Loco”. Não ria de mim: juro que prefiro a versão genérica e brasileira dessa última, “Balada do Louco” , criação de Arnaldo Baptista e Rita Lee. Ela é excelente. Ainda assim, entendo a importância de “La Cumparsita” e “Balada para un Loco” para a música argentina, mas não os aprecio. Mas isso é um papo que fica para outro dia... Tenho que me despedir agora porque minha caixa de e-mail e meu WhatsApp estão bombando. Em uma batida de olho rápida, vi que há mensagens sobre transferências indevidas em contas bancárias de instituições que não sou cliente, pacotes retidos nos Correios com compras que não efetuei, solicitações de doações em dinheiro para grupos religiosos desconhecidos, sugestões de investimentos em novas moedas digitais e propostas de encontros com mulheres lindíssimas e com a metade da minha idade que não sei de onde brotaram. Enquanto respondo com a devida atenção a todos (para alguns precisarei enviar minhas senhas bancárias e digitais, enquanto para outros terei que comunicar as informações pessoais), diga-me algo bem mais importante: qual é o seu ranking pessoal dos melhores Tangos, hein? Consegue arriscar uma lista? Só não vale roubar, ludibriar, enganar ou mentir, poooooooor favoooooooor! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em março e abril de 2025
Veja as 133 principais novidades da ficção e da poesia que os leitores brasileiros receberam no segundo bimestre. Abril já está no final (O Kid Abelha cantaria a mesma coisa com um mês de atraso). O que seria de mim, fã da literatura , sem a divulgação da lista dos livros publicados no Brasil no segundo bimestre de 2025 ? Abril já está no final. É hora de conferir uma centena de lançamentos da ficção e da poesia que chegou, afinal, às livrarias nacionais. Eu preciso deste post do Bonas Histórias . Sem o qual eu passe mal. Sem o qual eu não seja ninguém. Eu preciso das novidades da coluna Mercado Editorial . Abril já está no final. Antes de apresentar a relação completa dos 133 principais títulos dos gêneros que monitoro periodicamente ( romance , novela , coletânea de contos , coleção de crônicas , ensaio sobre Teoria Literária , literatura infantojuvenil , literatura infantil e antologia poética ), gostaria de trazer um pequeno recorte das novas publicações de março e abril de 2025. Basicamente, vou comentar oito obras que mais chamaram minha atenção entre os mais relevantes lançamentos bimestrais. Para não cometer injustiça, selecionei um quarteto de livros de autores da língua portuguesa e um quarteto de livros de escritores estrangeiros. Assim, acredito conferir uma visão mais completa das novidades que estão ainda quentinhas nas estantes das livrarias brasileiras. Começo falando da literatura brasileira e da literatura portuguesa , senhoras e senhores. As novas publicações desse campo que mais apeteceram meu paladar ficcional foram: “A Boba da Corte” ( Fósforo ), novela de Tati Bernardi ; “Era Uma Vez o Futebol” ( Imprimatur ), coletânea de contos e crônicas de Ugo Giorgetti ; “Coisa que Não Edifica Nem Destrói” ( Tinta da China Brasil ), coleção de crônicas e ensaios literários de Ricardo Araújo Pereira ; e “Memórias de Menina” ( Reco-reco ), obra infantil de Rachel de Queiroz . Se há uma multidão que escolhe a leitura pela capa, confesso que, muitas vezes, o meu principal critério de decisão é o nome do autor estampado junto ao título da obra. Não por acaso, minha relação de destaques deste bimestre só possui escritores que li, gosto e acompanho avidamente. Isso ocorre nesta lista lusófona e seguirá no quarteto de lançamentos gringos. Por ser fã do portfólio literário desse povo, recebo com mais disposição as novidades trazidas pelas editoras nacionais. Nada mais natural, não é mesmo?! Tati Bernardi, por exemplo, é uma das escritoras brasileiras contemporâneas que mais curto. Adoro sua literatura – se você ainda não leu “Depois a Louca Sou Eu” (Companhia das Letras) e “Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha” (Companhia das Letras), leia-os – e suas colunas na Folha de São Paulo . O que mais aprecio é o seu jeito louquinho de encarar o dia a dia, os textos francos e diretos e o mergulho desbocado na psique humana. Entender a realidade atual com bom humor e certa dose de acidez é o seu receituário narrativo. A novidade de Bernardi é “A Boba da Corte”, um livro curtinho com caráter semiautobiográfico. Digo semiautobiográfico porque a protagonista se chama Tati, tem 43 anos e é meio maluquinha (maluquinha do tipo Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza). A trama de “A Boba da Corte” se passa no aniversário da personagem principal da novela. Ela convidou alguns amigos para celebrar a data especial em seu apartamento paulistano na Rua Maranhão, em Higienópolis. Contudo, uma convidada um tanto atrapalhada se equivocou quanto ao endereço e foi parar em outro bairro da cidade de São Paulo. Esse incidente é o gatilho para Tati (a versão ficcional) surtar. Em uma crise reflexiva ao melhor estilo Clarice Lispector, ela faz um apanhado de sua vida, dos traumas da sociedade brasileira e da condição de mulher. Para quem se amarra no sarcasmo e no mergulho sem filtros da autora paulistana na psicologia, esse pequeno livro é um livrão! Outra preciosidade literária é “Era Uma Vez o Futebol”, novo livro do cineasta Ugo Giorgetti. Se você não está associando o nome do diretor paulistano à coleção de filmes, basta dizer que Giorgetti fez “Boleiros – Era Uma Vez o Futebol” (1998) e “Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos” (2004). Esses dois longas-metragens são, na minha opinião, as mais brilhantes produções do nosso cinema sobre o esporte mais querido pelos brasileiros. Impossível não recordar da cena do genial Otávio Augusto interpretando um juiz vigarista (Vírgilio Paiva, ou Vírgilio Pênalti) durante uma partida decisiva do Juventus na Rua Javari. Ou de Lima Duarte como um rígido e estressado treinador palmeirense na véspera do Derby. Até hoje não sei como não analisei esses filmes na coluna Cinema . Como sou fã inveterado de futebol (coincidência ou não, este será o próximo tema de “Tempos Portenhos” , a atual séria narrativa da coluna Contos e Crônicas ), não poderia ficar indiferente ao lançamento de “Era Uma Vez o Futebol”. Essa obra reúne algumas das melhores crônicas esportivas que Giorgetti publicou entre 2004 e 2020 no jornal O Estado de São Paulo e em 2021 e 2022 no site Ultrajano. Quem não teve a oportunidade de acompanhar os deliciosos causos e reflexões do cineasta sobre o esporte bretão pode agora lê-los em livro. É o que eu vou fazer. “Era Uma Vez o Futebol” já está na minha lista de próximas leituras. Falando em caras que sou fãnzaço, Ricardo Araújo Pereira é um dos comediantes mais brilhantes de Portugal. Gosto tanto de seu trabalho que não perco sua hilária coluna dominical na Folha de São Paulo . Também analisei uma de suas obras na coluna Livros – Crítica Literária . Foi “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" (Tinta da China), coletânea de crônicas e ensaios sobre a arte do humor. Ainda no universo da Teoria Literária e do Fazer Literário, Pereira apresenta dessa vez “Coisa que Não Edifica Nem Destrói”. Essa coleção de textos não ficcionais sobre as peculiaridades da comédia foi lançada em Portugal em novembro de 2023 e chega só agora às livrarias brasileiras. Em “Coisa que Não Edifica Nem Destrói”, Ricardo Araújo Pereira faz uma retrospectiva histórica do gênero artístico que abraçou há tanto tempo. Aliando profundidade conceitual e muito bom humor, ele faz divagações inteligentes da essência e do alcance da comicidade. Sei que esse tipo de leitura não é a mais indicada para quem não tem como ofício a produção textual. Por outro lado, se você é escritor(a), produtor(a) de conteúdo e/ou apaixonado(a) pela arte humorística, certamente irá adorar esse título. Para encerrarmos o passeio pela prateleira da literatura em língua portuguesa, vamos dar uma chegadinha na estante da literatura infantil. Dos lançamentos deste bimestre, aquele que me pareceu mais apetitoso foi “Memórias de Menina”, da magistral Rachel de Queiroz. Se você pensa que a escritora cearense se limitou à confecção de romances para o público adulto, como “Memorial de Maria Moura” (José Olympio), “O Quinze” (José Olympio), “As Três Marias” (José Olympio) e “Dôra Doralina” (José Olympio), tire o cavalinho da chuva. A Editora Record , através do selo Reco-reco , apresenta um título de Queiroz voltado à criançada de 9 a 12 anos. Para ser bem franco com os leitores da coluna Mercado Editorial , “Memórias de Menina” não é um livro inédito. Suas onze histórias já são conhecidas do público nacional desde 2003, quando o selo José Olympio as lançou em um título infantil. A diferença é que a obra recebeu dessa vez um novo cuidado gráfico e foi direcionada ao selo específico da molecadinha. Pela beleza de suas narrativas e pela força da literatura de Rachel de Queiroz, inseri “Memórias de Menina” como um dos lançamentos infantis desse bimestre – apesar de saber que se trata efetivamente de um relançamento. Indo para o corredor da literatura internacional, encontrei quatro bons livros para debater rapidamente com vocês: “Filha da Fortuna” ( Bertrand Brasil ), romance histórico de Isabel Allende , “Uma Visão Pálida das Colinas” ( Companhia das Letras ), drama psicológico de Kazuo Ishiguro , “Até o Último de Nós” ( Arqueiro ), suspense de Freida McFadden , e “Hey, Vovô Jude” ( Reco-reco ), título infantil de Paul McCartney . Isabel Allende é uma de minhas escritoras sul-americanas favoritas. Como analisei seu trabalho no Desafio Literário , falo com propriedade de quem leu boa parte de seu portfólio. Destaque para “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), “Eva Luna” (Bertrand Brasil) e “Paula” (Bertrand Brasil), obras simplesmente geniais. O problema é que Allende se afastou nas últimas duas décadas do tipo de livro que melhor produz: os romances históricos com pitadas de realismo fantástico. Aí tivemos uma série de obras fracas nos últimos anos que vão dos romances policiais e das aventuras adolescentes aos thrillers contemporâneos e aos dramas românticos. Por isso, o melhor a fazer é procurar pelos títulos da autora chilena que foram produzidos nas décadas de 1980 e 1990. A “Filha da Fortuna” faz parte dessa antiga safra de excelente qualidade. Esse romance de Isabel Allende foi lançado em espanhol em 1999. No Brasil, ele foi publicado pela primeira vez em novembro de 2018. Agora, “Filha da Fortuna” recebeu uma nova edição da Bertrand Brasil , outro selo da Editora Record . Nessa trama ambientada no Chile e nos Estados Unidos em meados do século XIX, acompanhamos uma mulher que fora abandonada pelos pais e criada por uma rica família inglesa em Valparaíso. Ao se apaixonar já adulta, ela se muda para a Califórnia, onde o amado foi atraído pela Corrida do Ouro no Oeste norte-americano. Esta é outra trama histórica forte, marcante e surpreendente de Allende. Esse livro até pode não ser uma novidade para o público da autora, mesmo assim vale a pena a indicação. Você está chiando que só estou trazendo títulos antigos no post de hoje? Pois, então, coloque “Uma Visão Pálida das Colinas”, primeiro trabalho ficcional do anglo-japonês Kazuo Ishiguro, na sua lista de reclamações. Só agora a Companhia das Letras o traduziu para o português e, assim, apresenta este título em primeira mão ao público brasileiro. Ishiguro é nada mais, nada menos do que o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2017. Sua obra mais marcante é “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), romance que tive a alegria de comentar na coluna Livros – Crítica Literária há alguns anos. Juro que essa obra é uma das melhores que já li. Ela é simplesmente perfeita! Sabendo da excelência da literatura de Kazuo Ishiguro, o japonês mais inglês de todos os tempos, “Uma Visão Pálida das Colinas” se converte automaticamente numa ótima pedida para quem busca romances de sabor mais apurado. Curiosamente, esse título foi lançado em inglês em 1982. Trata-se, portanto, da estreia ficcional do agora famoso autor. Nesse drama psicológico sensível e forte, assistimos às desventuras de duas japonesas durante os difíceis anos do Pós-Segunda Guerra Mundial. Em meio ao caos familiar e social, elas precisam encarar segredos inenarráveis do passado. Está bem, está bem... vamos falar de uma best-seller da literatura contemporânea. Se você acompanha o ranking dos livros mais vendidos do Brasil em 2024 , certamente já se deparou com “A Empregada” (Arqueiro), romance de maior êxito da norte-americana Freida McFadden. Sucesso de crítica e de púbico tanto em nosso país quanto no exterior, essa obra é tão interessante, mas tão interessante que estou com vontade de analisá-la no Bonas Histórias – aguardem por novidades em breve! Aproveitando o êxito de McFadden, médica especializada em lesões cerebrais que se tornou famosa com a produção de suspenses psicológicos e romances médicos, a Editora Arqueiro não pensou duas vezes e lançou em nosso país “Até o Último de Nós”. Publicado nos Estados Unidos em julho de 2020, esse romance chamado originalmente de “One by One” trata de uma má viagem de férias de dois casais de amigos. Quando o carro em que viajavam quebra num lugar remoto da estrada, as quatro personagens precisam caminhar no meio de uma floresta em busca de ajuda. É aí que começa o suspense e os perigos que o grupo terá que enfrentar. Como literatura de entretenimento, “Até o Último de Nós” é um prato cheio para quem, como eu, curte mistério e ação eletrizante. Para terminar esse recorte das novidades bimestrais das nossas livrarias, voltemos a tratar de literatura infantil. Só que dessa vez pelo olhar internacional, né? O livro que me pareceu mais interessante dessa seção foi “Hey, Vovô Jude”, de Paul McCartney. Confesso que ainda não conheço o trabalho literário de McCartney. Porém, como é um ex-Beatles, dou crédito à sua veia artística. Vamos combinar que dificilmente ele escreveria algo ruim, né? Com esse pensamento, não titubearia em comprar uma de suas obras infantis para presentear um leitor mirim. Felizes das crianças que crescem lendo figuras como Paul McCartney. Provando que essa crença não é meramente minha, “Hey, Vovô Jude” se tornou best-seller do New York Times . A história de estreia do ex-Beatles na literatura infantil (o título é uma clara referência a uma das mais famosas canções da banda de Liverpool) descreve as aventuras de Vovô Jude. Ele é um velhinho carismático e divertido que usa uma bússola mágica para viajar a qualquer parte do planeta. Sempre levando os netinhos em suas excursões pelas mais pitorescas localidades da Terra, o protagonista de “Hey, Vovô Jude” conta suas experiências como destemido e imparável explorador. Feita a apresentação prévia dos títulos que mais chamaram minha atenção, sinto que já estamos prontos para verificar a lista integral com as 133 publicações que chegaram ao mercado editorial brasileiro em março e abril de 2025 . Então, vamos lá, meu povo. Confira, a seguir, as principais novidades das estantes da ficção e da poesia em nosso país : FICÇÃO BRASILEIRA: “Cantagalo” (Todavia) – Fernanda Teixeira Ribeiro – Romance – 288 páginas. “Meu Passado Nazista” (Record) – André de Leones – Romance – 364 páginas. “Caderno de Ossos” (Companhia das Letras) – Julia Codo – Romance – 216 páginas. “Mãezinha” (Dublinense) – Izabella Cristo – Romance – 320 páginas. “Ozymandias” (Intrínseca) – José Roberto de Castro Neves – Romance – 256 páginas. “Homens Elegantes” (Todavia) – Samir Machado de Machado – Romance – 528 páginas. “Dakota Blues” (Companhia das Letras) – Simone AZ – Romance – 240 páginas. “Animais Tropicais” (Companhia das Letras) – Javier A. Contreras – Romance – 176 páginas. “Nenê Bonet” (Instante) – Janete Clair – Romance – 240 páginas. “A Boba da Corte” (Fósforo) – Tati Bernardi – Novela – 104 páginas. “Vez em Quando, Billie Holiday” (Record) – Evandro Affonso Ferreira – Novela – 128 páginas. “Perifobia” (Todavia) – Lilia Guerra – Coletânea de Contos – 160 páginas. “Tranças de Meninas” (Alfaguara) – João Anzanello Carrascoza – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Era Uma Vez o Futebol” (Imprimatur) – Ugo Giorgetti – Coletânea de Contos e Crônicas – 440 páginas. “A Crônica Não Mata – Notas do Isolamento” (Arquipélago) – Luís Henrique Pellanda – Coletânea de Crônicas – 144 páginas. “Na Estrada de Beatitude e Outros Textos Contraculturais” (L&PM Pocket) – Eduardo Bueno – Coletânea de Crônicas – 96 páginas. “Diário do Fim do Amor” (Fósforo) – Ingrid Fagundez – Coletânea de Ensaios – 216 páginas. “Balela” (Alt) – Solaine Chioro – Infantojuvenil – 240 páginas. “Desde que Você Partiu” (Outro Planeta) – Duda Riedel – Infantojuvenil – 224 páginas. “As Incríveis Aventuras do Super-herói Cupcake Gigante e seu Fiel Escudeiro Jarbas” (Editora 34) – Paulo Henriques Britto (autor) e Caco Galhardo (ilustrador) – Infantojuvenil – 144 páginas. “Artur e Isadora na Cidade Subterrânea” (Editora 34) – Braulio Tavares (autor) e Cecília Esteves (ilustradora) – Infantojuvenil – 80 páginas. “Todo Dia Um Gato” (Yellowfante) – Ana Lasevicius – Infantil – 56 páginas. “Memórias de Menina” (Reco-reco) – Rachel de Queiroz – Infantil – 48 páginas. “Bateção” (Pequena Zahar) – Josias Marinho – Infantil – 48 páginas. “Baleia e o Preá” (Palavras Edição) – Fernando A. Pires – Infantil – 48 páginas. “Meu Nome” (Companhia das Letrinhas) – Marilda Castanha – Infantil – 48 páginas. “Nuvem de Areia” (Pequena Zahar) – Otávio Junior (autor) e Anna Cunha (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “Seu José Perdeu o Boné” (Yellowfante) – Sonia Junqueira (autora) e Cláudia Scatamacchia (ilustradora) – Infantil – 36 páginas. “Azul Haiti” (Companhia das Letrinhas) – Paty Wolff – Infantil – 36 páginas. “Berço, Balanço, Colinho, Neném” (Brinque-Book) – Tieza Tissi (autora), Rafaela Deiab (autora) e Clara Gavilan (ilustradora) – Infantil – 36 páginas. “O Que Você Pensa Quando Falo África?” (Yellowfante) – Lavínia Rocha (autora) e Letícia Moreno (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “No Sítio do Vovô Dandi” (Brinque-Book) – Ana Fátima (autora) e Faw Carvalho (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – Romance – 392 páginas. “Uma Visão Pálida das Colinas” (Companhia das Letras) – Kazuo Ishiguro (Japão/Inglaterra) – Romance – 200 páginas. “Até o Último de Nós” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “Olhar para Trás” (Companhia das Letras) – Juan Gabriel Vásquez (Colômbia) – Romance – 440 páginas. “Uma Ilha” (Bertrand Brasil) – Karen Jennings (África do Sul) – Romance – 224 páginas. “Protocolo Zero” (Record) – Anthony McCarten (Nova Zelândia) – Romance – 364 páginas. “A Contagem dos Sonhos” (Companhia das Letras) – Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria) – Romance – 424 páginas. “Amanhecer na Colheita – Livro da Série Jogos Vorazes” (Rocco) – Suzanne Collins (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Garota Invisível” (Intrínseca) – Lisa Jewell (Inglaterra) – Romance – 384 páginas. “A Trama das Árvores” (Todavia) – Richard Powers (Estados Unidos) – Romance – 648 páginas. “Os Radley” (Bertrand Brasil) – Matt Haig (Inglaterra) – Romance – 432 páginas. “Rei da Preguiça – Livro 4 da Série Reis do Pecado” (Arqueiro) – Ana Huang (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “Amêndoas” (Rocco) – Won-pyung Sohn (Coreia do Sul) – Romance – 288 páginas. “Uma Vida Bela” (Gutenberg) – Virginie Grimaldi (França) – Romance – 272 páginas. “Jogos Mentais” (Bertrand Brasil) – Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 462 páginas. “Sonhando Acordado” (Rocco) – Hannah Grace (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “O Céu da Selva” (Instante) – Elaine Vilar Madruga (Cuba) – Romance – 240 páginas. “Lance Livre” (Arqueiro) – Jamie Harrow (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Na Voz Dela” (Companhia das Letras) – Alba de Céspedes (Itália) – Romance – 464 páginas. “Malina” (Estação Liberdade) – Ingeborg Bachmann (Áustria) – Romance – 352 páginas. “Estrelas Errantes” (Rocco) – Tommy Orange (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “O Despertar das Monções – Livro 2 da Série A Guerra dos Furacões” (Intrínseca) – Thea Guanzon (Filipinas) – Romance – 336 páginas. “Adeus a Berlim” (Companhia das Letras) – Christopher Isherwood (Inglaterra) – Romance – 248 páginas. “A Enchente – Livro 1 da Série Blackwater” (Arqueiro) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Dique – Livro 2 da Série Blackwater” (Arqueiro) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “A Estrada para o País” (Globo Livros) – Chigozie Obioma (Nigéria) – Romance – 400 páginas. “Só Um Pouco Aqui” (Instante) – María Ospina Pizano (Colômbia) – Romance – 240 páginas. “O Alvorecer de Ônix” (Gutenberg) – Kate Golden (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Casa da Noite” (Record) – Jo Nesbø (Noruega) – Romance – 224 páginas. “07-07-2007” (L&PM Editores) – Antonio Manzini (Itália) – Romance – 336 páginas. “Sete Anos Entre Nós” (Arqueiro) – Ashley Poston (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Caixa 19” (Companhia das Letras) – Claire-Louise Bennett (Inglaterra) – Romance – 232 páginas. “M, Os Últimos Dias da Europa” (Intrínseca) – Antonio Scurati (Itália) – Romance – 384 páginas. “No Contra-ataque” (Rocco) – Grace Reilly (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Autobiografia do Algodão” (Autêntica Contemporânea) – Cristina Rivera Garza (México) – Romance – 336 páginas. “Imagens Estranhas” (Suma) – Uketsu (Japão) – Romance – 184 páginas. “O Dia em que Tudo Mudou” (Rocco) – Edward Underhill (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “No Fundo É Amor” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Romance – 464 páginas. “A Menina e a Pipa” (Intrínseca) – Laetitia Colombani (França) – Romance – 192 páginas. “A Parte Boa da Vida” (Gutenberg) – Sophie Cousens (Inglaterra) – Romance – 272 páginas. “A Fúria do Assassino – Livro 3 da Trilogia A Saga do Assassino” (Suma) – Robin Hobb (Estados Unidos) – Romance – 760 páginas. “O Fim das Férias” (Bertrand Brasil) – Marian Keyes (Irlanda) – Romance – 588 páginas. “Despertar da Chama Eterna” (Arqueiro) – Penn Cole (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “O Fantasma da Ópera” (Darkside) – Gaston Leroux (França) – Romance – 320 páginas. “Uma Livraria com Aroma de Canela” (Intrínseca) – Laurie Gilmore (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Café, Amor e Especiarias” (Intrínseca) – Laurie Gilmore (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Uma Noite de Verão” (Vestígio) – Philippe Besson (França) – Romance – 176 páginas. “Namorando um Vampiro” (Intrínseca) – Jenna Levine (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “A Lista de Leitura Para Corações Solitários” (Arqueiro) – Sara Nisha Adams (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Leme” (Todavia) – Madalena Sá Fernandes (Portugal) – Novela – 136 páginas. “As Perfeições” (Todavia) – Vincenzo Latronico (Itália) – Novela – 112 páginas. “Dieta da Poesia” (Dublinense) – Afonso Cruz (Portugal) – Novela – 96 páginas. “Sanatório sob o Signo da Clepsidra” (Editora 34) – Bruno Schulz (Itália) – Coletânea de contos – 272 páginas. “O Corista e Outras Histórias” (L&PM Pocket) – Anton Pavlovitch Tchéklov (Rússia) – Coletânea de contos – 96 páginas. “Coisa que Não Edifica Nem Destrói” (Tinta da China Brasil) – Ricardo Araújo Pereira (Portugal) – Coletânea de Crônicas e Ensaios – 240 páginas. “Fogo nos Olhos – Crônicas sobre o Amor e Outras Fúrias” (Todavia) – Pedro Mairal (Argentina) – Coletânea de Crônicas – 104 páginas. “O Ódio Pela Poesia” (Fósforo) – Ben Lerner (Estados Unidos) – Coletânea de Ensaios – 80 páginas. “Binding 13 – Livro 1 da Série Garotos de Tommen” (Bloom Brasil) – Chloe Walsh (Irlanda) – Infantojuvenil – 704 páginas. “Keeping 13 – Livro 2 da Série Garotos de Tommen” (Bloom Brasil) – Chloe Walsh (Irlanda) – Infantojuvenil – 688 páginas. “O Rei Sol” (Seguinte) – Nisha J. Tuli (Canadá) – Infantojuvenil – 488 páginas. “Mil Corações Partidos” (Outro Planeta) – Tillie Cole (Inglaterra) – Infantojuvenil – 448 páginas. “A História da Minha Vida” (Bloom Brasil) – Lucy Score (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 440 páginas. “Um Destino Tatuado em Sangue” (Seguinte) – Danielle L. Jensen (Canadá) – Infantojuvenil – 432 páginas. “A Linguagem dos Dragões – Volume 1” (Galera) – S. F. Williamson (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 420 páginas. “Garotas Selvagens” (Alt) – Madeline Claire Franklin (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Manual do Coração Partido” (Verus) – Sarah Handyside (Inglaterra) – Infantojuvenil – 392 páginas. “Madrugadas com Você” (Alt) – Clare Osongco (Filipinas/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 376 páginas. “Eu Te Darei o Sol” (Galera) – Lex Croucher (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 364 páginas. “Meio-Sangue – Livro 1 da Série Covenant” (Bloom Brasil) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 344 páginas. “Só Para os Fortes de Coração” (Verus) – Lex Croucher (Inglaterra) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Puros – Livro 2 da Série Covenant” (Bloom Brasil) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Maxton Hall: Salve-sesta” (Alt) – Mona Kasten (Alemanha) – Infantojuvenil – 328 páginas. “Doce Fúria” (Paralela) – Sash Bischoff (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Nunca é Tarde para a Festa” (Alt) – Kelly Quindlen (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Um Jogo de Retaliação – Livro 4 da Série Hades & Perséfone” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Toda Pra Mim” (Paralela) – Lyla Sage (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Os Mistérios de Baskerville Hall” (Intrínseca) – Ali Standish (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “O Feitiço do Beijo” (Alt) – Rachel Hawkins (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “A Visita do Coelho – Livro 5 da Série Five Nights at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawthon (Estados Unidos), Elley Cooper (Estados Unidos) e Andrea Waggener (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Pássaro Sombrio – Livro 6 da Série Five Nights at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawthon (Estados Unidos), Kelly Parra (Estados Unidos) e Andrea Waggener (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “James e o Pêssego Gigante” (Galera Junior) – Roald Dahl (autor; País de Gales) e Quentin Blake (ilustrador; Inglaterra) – Infantil – 256 páginas. “Blá-blá-blá!: e Como a Pontuação Fez Toda a Diferença” (Globo Clube) – Caroline Adderson (autora; Canadá) e Roman Muradov (ilustrador; Armênia) – Infantil – 72 páginas. “Mortina e a Sala Secreta – Livro 6 da Série Mortina” (Companhia das Letrinhas) – Barbara Cantini (Itália) – Infantil – 64 páginas. “O Caso do Canário Desaparecido – Livro 1 da Série Felina Feline” (Yellowfante) – Jean-luc Fromental (França) e Joëlle Jolivet (França) – Infantil – 64 páginas. “O caso do duende verde – Livro 2 da Série Felina Feline” (Yellowfante) – Jean-luc Fromental (França) e Joëlle Jolivet (França) – Infantil – 64 páginas. “Bom Dia, Bichinhos :)” (Brinque-Book) – Amandine Piu (Itália) – Infantil – 48 páginas. “Pássaro Preto” (Companhia das Letrinhas) – Suzy Lee (Coreia do Sul) – Infantil – 40 páginas. “Cada 1 é Um” (Baião) – Wu Ya-Nan (China) e Liu Long-Sha (China) – Infantil – 40 páginas. “Um Azul para Marte” (Companhia das Letrinhas) – José Saramago (autor; Portugal) e Claudia Legnazzi (ilustradora; Argentina) – Infantil – 32 páginas. “Eu Odeio Tudo” (Reco-reco) – Sophy Henn (Inglaterra) – Infantil – 32 páginas. “Minha Árvore de Estimação” (Brinque-Book) – Marie-Louise Gay (Canadá) – Infantil – 32 páginas. “Uma Lagarta Muito Comilona” (Companhia das Letrinhas) – Eric Carle (Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “Hey, Vovô Jude” (Reco-reco) – Paul McCartney (Inglaterra) – Infantil – 32 páginas. “O Pedido” (Companhia das Letrinhas) – Antje Damm (Alemanha) – Infantil – 24 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Poesia Mundi – Novos Poemas Reunidos” (Record) – Marco Lucchesi – 442 páginas. “Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania” (Planeta) – Ryane Leão – 192 páginas. “Pote de Mel e Outros Poemas” (Editora 34) – Leonardo Gandolfi – 144 páginas. “Antes de Dar Nomes ao Mundo” (Relicário) – Adriana Lisboa – 112 páginas. “Sílex” (Círculo de Poemas) – Eliane Marques – 72 páginas. “A Língua Nômade” (Círculo de Poemas) – Diogo Cardoso – 40 páginas. “É Perigoso Deixar As Mãos Livres” (Círculo de Poemas) – Isabela Bosi – 40 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Prosa Completa” (Relicário) – Alejandra Pizarnik (Argentina) – 348 páginas. “As Luzes” (Círculo de Poemas) – Ben Lerner (Estados Unidos) – 128 páginas. Por hoje é só, pessoal. No final de junho (aí o Kid Abelha parecerá adiantado), voltarei à coluna Mercado Editorial para listar os lançamentos do bimestre que já está para começar – o terceiro de 2025. Antes disso, provavelmente darei uma passadinha por essas páginas (aí sim quando maio estiver no final) para comentar as ficções nacionais mais vendidas em 2024. Até lá, continue acompanhando o conteúdo multicultural do Bonas Histórias , o blog de literatura, cultura e entretenimento para quem não tem receio de mergulhar a fundo nas produções artísticas mais relevantes de ontem e de hoje. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Filmes: Flow – A animação da Letônia que conquistou o Oscar em 2025
Dirigida por Gints Zilbalodis, esta produção independente foi criada por quatro jovens europeus em um programa de computador gratuito. Com uma trama sobre a beleza da amizade entre animais tão diferentes, o longa-metragem encantou o público internacional (e os jurados da Academia de Los Angeles) e faturou a primeira estatueta dourada do cinema letão. Sei que ninguém mais está falando do Oscar de 2025 . Até porque esse assunto dominou o noticiário brasileiro nos três primeiros meses do ano como raramente se viu. De repente, o país do futebol virou, felizmente, a nação da Sétima Arte. Por várias e várias semanas, boa parte dos meus conterrâneos (me incluo nesse grupo, tá!) só discutia as qualidades de “Ainda Estou Aqui” (2024), as desventuras da família Paiva, as polêmicas de “Emilia Pérez” (2024) e as chances de Fernanda Torres de se consagrar mundialmente. Juro que não me lembro de quando o Brasil respirou os ares do universo artístico-cultural com tanta intensidade. Dessa maneira, era natural supor que esse tema esfriasse depois da divulgação dos vencedores do Oscar . Mesmo sabendo do timing equivocado da minha parte em retomar uma questão aparentemente batida em maio, gostaria de comentar no post de hoje da coluna Cinema um filme europeu encantador. Estou me referindo a “Flow” ( Straume : 2024), a animação independente da Letônia que faturou a estatueta da Academia de Ciências Cinematográficas de Los Angeles no início do mês retrasado. Você vai tratar de um filme letão que papou o Oscar, Ricardinho?! É isso mesmo, leitor(a) sempre participativo(a) e questionador(a) do Bonas Histórias . Com a proposta de desbravar todas as fronteiras do mundo cinematográfico, o blog chega a um novo território. Uhu! Confesso que foi a primeira vez que conferi um longa-metragem desse pequeno país báltico que está situado ao Sul da Escandinávia, a Oeste da (cada vez mais perigosa) Rússia e ao Norte da Europa Oriental. Se nos ofendemos quando um gringo não consegue apontar onde o Brasil fica no mapa-múndi, o(a) convido a dizer onde fica a Letônia no mapa europeu! Admito que só consegui passar as coordenadas geográficas depois de uma boa olhada no Google Maps. E ainda assim, vivo confundindo Letônia com Estônia. Ai, ai, ai. Além disso, proponho outra reflexão: se os brasileiros ficaram felizes com o primeiro Oscar, imagine a reação da nação com menos de 2 milhões de habitantes (tamanho da cidade de Curitiba) com a conquista da sua inédita estatueta dourada! “Flow” foi dirigido por Gints Zilbalodis , jovem cineasta letão de 31 anos. O filme encantou o público cinéfilo nos quatro cantos do mundo (e, por supuesto , os jurados do badalado evento de Los Angeles) ao apresentar uma trama comovente sobre a beleza da amizade em tempos de caos climático. Contudo, o mais legal foi perceber que essa produção vestiu o uniforme de Davi e venceu os Golias da indústria do cinema internacional. E isso ocorreu justamente no setor em que o peso da tecnologia e a força dos orçamentos vultuosos são historicamente mais significativos: a animação. Ou alguém em sã consciência poderia imaginar que o longa-metragem criado de forma independente por quatro jovens do Leste da Europa e tendo como software um programa de computador convencional faturaria o Oscar de Melhor Animação , hein?! Diante da comoção da nossa imprensa pelo principal prêmio da história do cinema brasileiro, aposto que você ouviu/assistiu/leu pouquíssimo sobre a recente proeza do cinema da Letônia ! Não se martirize. Muita gente não percebeu que, por maior que tenha sido o feito cinematográfico de “Ainda Estou Aqui” na cerimônia hollywoodiana, nada supera a façanha hercúlea de “Flow”. Na última edição do Oscar, o longa de Zilbalodis bateu nada mais, nada menos do que “Divertida Mente 2” (Inside Out 2: 2024), a animação mais assistida de todos os tempos. Dá para crer na dimensão dessa conquista?! Os cineastas europeus até então desconhecidos no cenário global colocaram no bolso os profissionais e os equipamentos de ponta da Pixar, um dos estúdios mais inovadores e criativos dos Estados Unidos. É de cair o queixo, senhoras e senhores!!! Em dimensão, podemos comparar a premiação de “Flow” à vitória em 2020 de “Parasita” (Gisaengchung: 2019), filme sul-coreano que subverteu a lógica da indústria norte-americana da Sétima Arte e derrubou os pesos-pesados de Hollywood para levar para casa a estatueta mais reluzente do Oscar. Algo que, convenhamos, “Ainda Estou Aqui” não alcançou, pois foi superado por “Anora” (2024) na categoria principal do evento californiano. Há também quem aponte o longa-metragem letão como uma das produções mais marcantes da história de seu gênero, tal qual “Bambi” (1942), “Toy Story” (1995), “Monstros S.A.” (Monsters, Inc: 2001), “Shrek” (2001) e o próprio título original da franquia “Divertida Mente” (Inside Out: 2015). Será que é para tanto?! É isso o que vamos descobrir no post de hoje da coluna Cinema . Por falar nisso, a história da conquista do Oscar por “Flow” (não confundir o filme com o podcast homônimo que ficou famoso no Brasil por dar vazão a vozes ignorantes e reacionárias) é tão boa, mas tão boa (além de surpreendente), que merecia realmente uma publicação detalhada no blog. Afinal, o Bonas Histórias nasceu justamente com tal finalidade: contar as boas histórias que descobrimos nas mais diferentes manifestações artistico-culturais no Brasil e no mundo. Por isso, não me importo com o possível atraso deste texto que seus olhinhos estão percorrendo agora. Até porque, se a premiada animação já saiu de cartaz do circuito comercial de cinema, ela pode muito bem ser acessada nas plataformas de streaming. Sei que há muita gente (diferentemente de mim que nem aparelho de televisão tenho em casa) prefere ficar no sofá do lar a ir à poltrona das salonas escuras. Assisti a “Flow” no finalzinho de fevereiro, tão logo ele estreou nas salas de cinema da América do Sul. Enquanto no Brasil a animação letã entrou em cartaz em 20 de fevereiro, na Argentina (país que moro há um ano e meio) ela chegou ao circuito comercial quatro dias mais tarde. Atualmente, o longa-metragem de Gints Zilbalodis está disponível para os assinantes brasileiros da Prime Video no canal de streaming Filmelier+ . Desconheço se alguma rede de cinema verde e amarela ainda o mantenha em cartaz. Em Buenos Aires, por exemplo, sei que o Multiplex de Belgrano , a sala mais perto do meu apê e aquela que frequento com mais assiduidade, tirou esa película de la cartelera na última semana de março. Orçado em 3,5 milhões de euros (uma pechincha em se tratando de uma animação multipremiada – além do Oscar, ganhou o Globo de Ouro em sua categoria), “Flow” foi roteirizado pela dupla letã formada por Gints Zilbalodis e Matīss Kaža . O time de produtores teve ainda o francês Ron Dyens e o belga Gregory Zalcman . Basicamente foi esse o quarteto de artistas do audiovisual que confeccionou o filme de ponta a ponta. A trilha musical e os efeitos sonoros ficaram sob as responsabilidades, respectivamente, do compositor letão Rihards Zalupe e do designer de áudio francês Gurwal Coïc-Gallas . “Flow” começou a ser desenvolvido em 2019 e levou pouco mais de cinco anos para ser concluído. Sua equipe usou o Blender , software de produção gráfica gratuito e de código aberto, para criar todas as cenas da animação. TODAS! Ou seja, os cineastas recorreram à tecnologia que eu e você poderíamos ter usado para criar um longa-metragem. E, o mais incrível, é que o resultado ficou primoroso – o que prova que cinema de qualidade se faz com ótimas ideias, talento artístico e excelente execução e não necessariamente com equipamentos e recursos de última geração. Apesar da utilização de meios aparentemente simples, “Flow” recebeu o aporte financeiro de órgãos do governo letão: Centro Nacional de Cinema da Letônia e Fundação Capital Estatal da Cultura da Letônia. Além disso, o filme teve o apoio do Centre National du Cinéma et de l'image Animée, ARTE France, Eurimages, RTBF e do Belgian Tax Shelter. Portanto, do ponto de vista formal, esta é uma coprodução de três nações: Letônia, França e Bélgica. Em outras palavras, poderíamos dizer que o longa-metragem teve a contribuição material, humana, logística e tecnológica do cinema francês e do cinema belga , muito mais tradicionais no cenário da Sétima Arte do Velho Continente (essa dupla de países tem vários títulos analisados aqui no blog), para catapultar o cinema letão para alturas até então inimagináveis. A estreia oficial de “Flow” ocorreu em maio de 2024 no Festival Internacional de Cinema de Cannes, onde foi muito aplaudido. Seu lançamento no circuito comercial de cinema da Letônia se deu no final de agosto. Algumas semanas depois, ele já estava à disposição do restante do público europeu. Nos Estados Unidos e no Canadá, o filme estreou em novembro. E no restante do planeta, América Latina incluída, ele chegou às salas de cinema entre janeiro e fevereiro de 2025. O enredo de “Flow” começa mostrando o dia a dia de um simpático e solitário gatinho preto. Ele mora em uma confortável casa abandonada no meio da floresta. Sua rotina é extremamente agradável. Sem humanos por perto e tendo a natureza selvagem à disposição, o protagonista da animação gosta de passear pela mata em busca de água e alimento. O único inconveniente é quando topa com uma ou outra matilha. Aí o mais recomendado para um pequeno e indefeso felino é fugir para longe dos sanguinolentos cachorros. É isso o que ele faz sem titubear quando se vê em perigo. Contudo, nenhum problema é comparável ao caos ambiental que está para se instalar na floresta (e no mundo inteiro). O cotidiano idílico do gato é interrompido por uma gigantesca tragédia climática. As águas do oceano invadem de repente a floresta, em uma espécie de inundação de proporções bíblicas. Em poucos minutos, a fauna e a flora submergem e o planeta adquire novas feições. Surpreendido pela força das águas e sem entender o que está acontecendo ao redor, a personagem principal do filme procura qualquer abrigo para se salvar. Nessa hora, todos os subterfúgios para se livrar dos efeitos do aguaceiro são bem-vindos. Depois de contar ora com a sorte, ora com a astúcia para sobreviver à enxurrada, o gatinho preto consegue pular dentro de um pequeno barco a vela que aparece milagrosamente diante de si. Felizmente, a embarcação surge no momento exato em que o destino do protagonista do longa-metragem seria submergir no fundo do mar que tomou a antiga floresta. Tão logo pisa no veleiro, ele nota que está acompanhado. Uma capivara já está presente no barco e o aceita sem problema como novo companheiro. Diferente do gatinho, a capivara é barulhenta, dorminhoca e atabalhoada. Ao menos, ela possui grande habilidade de nadar, característica fundamental no novo cenário. A dupla inicia a viagem pelo barquinho no agora mundo alagado. À medida que navegam por cenários desconhecidos, eles vivenciam aventuras de tirar o fôlego. Em alguns lugares que passam, conhecem animais que precisam de ajuda. Três decidem pular no barco e integrar a cada vez mais versátil trupe de bichanos. Assim, a dupla rapidamente se transforma em um quinteto de aventureiros. Além do gatinho e da capivara, o grupo é composto por um cachorro (labrador retriever amarelo), uma ave de rapina (do tipo secretário de grande porte) e um macaquinho (lêmure). As diferenças se potencializam. O labrador é brincalhão, carinhoso e bonachão. O secretário é inteligente, corajoso e com aptidão para a liderança. E o lêmure é egoísta, acumulador de bugigangas e possessivo. Enquanto percorre os quatro cantos do planeta molhado sem se desgrudar, o grupo precisa aprender a lidar com as diferenças de seus integrantes e somar forças para encarar as dificuldades de um planeta destruído (e, por consequência, cada vez mais perigoso). Dessa forma, nasce uma forte e bonita amizade entre as personagens. E com a construção desse relacionamento, o inusitado e carismático bando vislumbra as chances de sobrevivência no mundo pós-apocalíptico. Ainda assim, as aventuras e os riscos não vão dar colher de chá para o charmoso quinteto de animaizinhos a bordo da pequena embarcação. Será que eles vão escapar da morte? “Flow” possui pouco menos de uma hora e meia de duração. É indiscutivelmente um filme rápido. A sensação de celeridade é ainda maior porque seu roteiro foi muito bem construído e a trama se desenrola sem grandes paradas. Por falar nisso, o primeiro elogio que preciso fazer a esta produção é para seu ritmo narrativo. Ele é impecável, ainda mais se considerarmos que estamos diante de um longa-metragem sem nenhum diálogo. Eu disse/escrevi NENHUM diálogo!!! Incrível, né? Quando foi a última vez que você assistiu a um filme em que as personagens não emitiram uma só palavra, hein? No meu caso, foi “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018), comédia-dramática do alemão Veit Helmer. No caso de um protagonista mudo, talvez a referência mais recente seja “EO” (IO: 2022), drama psicológico do polonês Jerzy Skolimowski. Ambos os títulos são excelentes e foram comentados na coluna Cinema . Também me recordo do genial “O Artista” (The Artist: 2011), comédia romântica do francês Michel Hazanavicius que conquistou cinco estatuetas do Oscar em 2012. Não por acaso, esse é o longa-metragem mudo mais premiado do século XXI. Por mais que encontremos produções sem diálogo aqui e ali, precisamos reconhecer que essa é uma característica cinematográfica ousada e perigosíssima. Se o roteiro não for muito bem construído, certamente as plateias das salas de exibição (cada vez mais impacientes e com o paladar infantilizado para o audiovisual, reflexos do deslizar frenético das telas das redes sociais) vão chiar. Não foi o caso de “Flow”. Eu gostei bastante e senti que o pessoal ao meu redor na sessão de cinema do Multiplex de Belgrano na véspera do Carnaval também o adorou. E olha que o público era bem eclético: pais com filhos pequenos, casais de namorados na casa dos 20, 30 anos, grupos de adolescentes, senhoras e senhores de cabelos bem branquinhos. É legal notar que a animação deixou há muito tempo de ser um gênero voltado apenas para a criançada e se tornou um programão de toda a família – inclusive de gente que não tem meninada à tiracolo. Acho até que quanto mais madura e com repertório cultural for a plateia deste filme, maior a chance de ela gostar da experiência cinematográfica e da história transmitida. Vejamos o que estou dizendo. “Flow” é a releitura moderna do mito da “Arca de Noé”. A diferença é que não há uma família humana designada por Deus para colocar na embarcação um casal de cada espécie de animal do mundo, conforme relato das páginas do Velho Testamento. No filme de Gints Zilbalodis, a seleção é feita por acaso e tem um único exemplar de pouquíssimos tipos de animais. Ou seja, a temática não é religiosa nem tem como protagonista os seres humanos e as forças divinas. A luta é dos bichos selvagens pela sobrevivência frente à enorme inundação de seu habitat natural. Já que estamos falando dos homo sapiens (se esse post fosse escrito pela brilhante e inesquecível Sra. Rousseff, ela completaria a frase com “e das mulheres sapiens” ), é bom dizer que essa espécie ruidosa, pouco inteligente, insensível e extremamente destruidora não aparece em nenhum momento do longa-metragem. Qual o motivo da ausência de seres humanos? Não sabemos, pois a produção de Zilbalodis oculta as explicações pormenorizadas. Teria a humanidade sucumbido ao caos climático ou a alguma guerra planetária que devastou as cidades mais populosas? Pode ser. Essas são linhas interpretativas que o público intuitivamente faz. A própria inundação de proporções apocalípticas não ganha uma justificativa formal. Teria sido o superaquecimento da Terra, que derreteu geleiras e fez o nível dos oceanos subir, o responsável pela destruição da fauna e da flora da floresta (e de boa parte da vida não aquática da Terra)? É possível. Adorei a ausência de descrições detalhadas das causas dessa história. Cabe aos espectadores, cada qual com sua bagagem de conhecimento, visão de mundo, concepção ecológica e crenças (ou descrenças) religiosas, tecer seus próprios julgamentos. Por isso, tenho certeza de que quanto mais madura for a plateia, maior será o encantamento provocado por “Flow”. Um bom exemplo é a cena lá no final do filme – fique tranquilo(a) que não damos o spoiler nos posts do Bonas Histórias – envolvendo a subida do gatinho e do secretário ao cume de uma montanha. Dificilmente as crianças terão o mesmo tipo de leitura dos adultos do que aconteceu no alto da cadeia montanhosa, uma das passagens mais bonitas e simbólicas deste longa-metragem. Além do ritmo narrativo veloz, da construção da trama sem diálogos e da pegada interpretativa do roteiro, outra questão marcante de “Flow” é a tecnologia utilizada para a estruturação de suas cenas. Se você estiver acostumado(a) às produções extremamente realistas que deixam as animações parecidas aos filmes convencionais (como se estivéssemos diante de uma filmagem e não de um desenho), saiba que o filme letão não vai por esse caminho digamos modernoso. Temos aqui uma animação-raiz. Vemos que é um desenho e, mesmo assim, ficamos maravilhados com as imagens recebidas. Esse aspecto talvez mereça mais um ou dois parágrafos de comentários neste nosso debate. Não sou contra a tecnologia de ponta e não me oponho ao retrato cada vez mais realista das animações. É muito legal ver um desenho com cara de filmagem. O que me incomoda às vezes é que muitos títulos empregaram esses recursos de última geração e se esqueceram dos elementos básicos: histórias cativantes e experiências cinematográficas genuinamente impactantes. Quando isso ocorre, saio da sessão refletindo: gastaram uma fortuna, ficaram por anos e anos produzindo o longa-metragem e empregaram os recursos mais modernos do cinema para... para... entregarem uma trama fraca e um pacote audiovisual pouquíssimo inspirador. Repito: não é definitivamente essa a reação que temos em “Flow”. Notamos desde as primeiras cenas que o emprego da tecnologia, que não é a mais moderna do mercado, é voltado para a história contada e se casa perfeitamente com a proposta sinestésica dos cineastas. É aquele lance: é preferível um carro mais ou menos nas mãos de um excelente piloto do que um carro de alto nível no comando de um motorista limitado. Juro que, durante o filme letão, não sentimos falta dos recursos realistas dos grandes estúdios de animação. Para ser bem sincero com quem me lê na coluna Cinema , é até mais legal acompanharmos o que artistas independentes e de enorme talento conseguem extrair dos recursos audiovisuais e de designer que eu e você poderíamos recorrer se quiséssemos produzir um longa-metragem. É paradoxal falar sobre isso. Apesar do aspecto de desenho e dos recursos simplórios utilizados, uma das características mais marcantes de “Flow” é a sua fotografia deslumbrante. As “tomadas de câmera” (vamos chamar assim esse recurso de olhar para as cenas) são diferenciadas. O espectador recebe os enquadramentos de maneira poética. Contempla-se a natureza sem pressa: pôr do sol e nascer do sol, o brilho das estrelas, o balançar das árvores, o caminhar da maré, o voo das aves, o bailar dos cardumes, o navegar do barquinho etc. O olhar contemplativo não deixa o filme lento ou parado em nenhum momento – um risco natural desse expediente visual-narrativo. Pelo menos essa foi a sensação que tive. Não sei como as crianças e o público com o paladar mais infantilizado podem encarar essa temática. Não duvido que terá a galerinha muito ansiosa e com baixíssimo nível de concentração que achará o filme tedioso e/ou sonolento. Contudo, aí o problema não é da produção cinematográfica em si e sim do perfil e da faixa etária da plateia. Por mais abrangente que seja um título, não dá para agradar gregos e troianos nas salas de cinema. Se fosse uma música, certamente “Flow” seria uma Bossa Nova contagiante e carismática que teríamos vontade de ouvir várias e várias vezes. Sua batida musical leve e delicada seria ideal para as almas mais sensíveis e refinadas. Refletindo agora sobre essa comparação inusitada que surgiu na minha mente nem um pouco comportada, lembrei de “O Barquinho” de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli ( “Dia de luz, festa de sol/E um barquinho a deslizar/No macio azul do mar” ), e “O Pato” de João Gilberto ( “O pato/Vinha cantando alegremente/Quém, quém/Quando um marreco sorridente pediu/Para entrar também no samba/No samba, no samba/O ganso gostou da dupla/E fez também/Quém, quém, quém/Olhou pro cisne/E disse assim: Vem, vem/Que o quarteto ficará bem/Muito bom, muito bem” ). Para completar meu comentário sobre o olhar das cenas de “Flow”, os animais são retratados pelos reflexos na água, pelas tomadas aéreas, pelas sombras no barco ou em terra e pelo zoom em seus rostos. Acompanhamos os acontecimentos tanto pela perspectiva da altura dos olhos das personagens quanto pelo distanciamento de um possível observador externo mergulhado no mar ou posicionado no mastro do barco a vela. Uma das brincadeiras mais interessantes para quem curte cinema de qualidade é ficar imaginando onde se posicionaria a equipe imaginária de cameramen para pegar aquele determinado ângulo. Como eles filmariam várias cenas do filme (se ele não fosse uma animação, claro!) e como alcançariam alguns takes específicos?! Dá para pirar ao ver o primor de como os desenhos foram concebidos. Já que entramos em aspectos técnicos do audiovisual, outro destaque desse longa-metragem foi a minuciosa construção sonora. Por se tratar de uma trama sem diálogo, era natural que a trilha musical e os efeitos sonoros ganhassem relevância para o espectador nas salas de cinema. Contudo, o que Rihards Zalupe, responsável pelas músicas, e principalmente Gurwal Coïc-Gallas, encarregado do design de áudio, fizeram merece aplausos efusivos. A trilha musical é gostosa e condizente com a proposta do filme. E os sons dos animais são extremamente realistas. Não por acaso, o barulho feito por cada bicho foi captado diretamente da natureza. Com exceção da capivara, que tinha um assobiar natural que não caiu bem quando colocado nas telonas e precisou ser alterado, as demais personagens ganharam versões fidedignas de seus ruídos. É ou não é incrível um trabalho desse tipo, hein? Em relação à narrativa propriamente dita, “Flow” fala da força e da beleza da amizade. Por mais que a história tangencie outras temáticas como crise climática, efeitos negativos dos seres humanos no planeta, tragédias naturais, vida depois da morte, poder de superação e capacidade de adaptação, o assunto principal é mesmo a importância de se criar uma rede de amigos confiável. Por mais diferentes que sejam as personalidades dos vários integrantes do grupo, o respeito mútuo e a compreensão das necessidades dos outros permitem a construção do relacionamento e a solidificação da união. Note a importância da versatilidade dos viajantes do veleiro. Mesmo surgindo brigas e desentendimentos aqui e acolá por causa das enormes diferenças de personalidades, crenças e estilos de vida (o convívio entre os opostos causa naturalmente choques e faíscas), o quinteto de animais só consegue superar as incontáveis adversidades da aventura porque possui integrantes com características complementares (é essa justamente a grande vantagem da equipe heterogênea). Em cada dificuldade vivenciada, uma personagem distinta se apresenta como a mais apta para resolver o problema em questão. Assim, todos são igualmente importantes: gato, ave, capivara, cachorro e primata. O entrosamento e o carinho que as cinco personagens da animação estabelecem vão além da ajuda mútua para as questões práticas da viagem e do dia a dia do barco. Quando alguém está em perigo ou se sente mal, os amigos verdadeiros são os portos seguros em que se pode confiar. Se um integrante do time está em maus lençóis, todos se sentem na obrigação de se arriscar para salvá-lo. Esse é o verdadeiro espírito de equipe que vai se formando. Até as principais decisões passam a ser compartilhadas. O sentido de união contribui para a potencialização da generosidade com aqueles que estão fora do grupo e precisam de auxílio. Os protagonistas de “Flow” mesclam elementos da realidade (cada animal é muito bem retratado segundo as características de sua espécie) com a humanização de seus comportamentos (cada animal adquire a consciência e a moral dos seres humanos). Essa mistura bem azeitada entre fantasia e drama realista traz, ao mesmo tempo, graça para a história (é divertidíssimo ver o jeito brincalhão do cachorro, a introspecção do gato, o lado egoísta do lêmure, o ar analítico do secretário e a preguiça da capivara) e emoção ao enredo (impossível não seremos tocados com a passionalidade de um grupo de amigos tão especial). Tudo isso embalado em uma aventura com muita ação e suspense . Por falar em emoção, saiba que a plateia terá reações bem distintas ao longo da sessão de cinema. O filme provoca lágrimas tanto de risada quanto de tristeza. Abre e fecha nossos corações com a mesma facilidade. Também suscita sensações de mistério, medo, terror, indignação, reflexão e suspiro poético dependendo da altura da trama. Não à toa, os elogios a esta produção se espalharam pela crítica cinematográfica internacional. Confesso que não vejo como exageradas as opiniões de quem entende essa animação como uma das mais marcantes das últimas duas décadas. Juro que tento me recordar de um desenho animado que tenha me tocado da mesma forma nos últimos anos e não consigo me lembrar. Também não me vem à mente quando foi o último desenho animado que comentei na coluna Cinema . Certamente faz seis ou sete anos desde a minha crítica anterior. Dos quase 250 títulos cinematográficos comentados nas páginas do Bonas Histórias , apenas meia dúzia é de integrantes desse gênero: "A Bailarina" ( Ballerina : 2016), “Alvin e os Esquilos na Estrada” ( Alvin And The Chipmunks - The Road Chip : 2015), "O Bom Dinossauro" ( The Good Dinosaur : 2015), "O Pequeno Príncipe" ( The Little Prince : 2015), "Shaun - O Carneiro" ( Shaun the Sheep Movie : 2015) e "Divertida Mente" . Quem vê essa pequena amostragem pode até pensar que, assim como os filmes de super-heróis, desgosto das animações. Não, isso não é verdade – no caso dos longas-metragens da DC e da Marvel que não são protagonizados pela Scarlett Johansson é verdade verdadeira a suposição que os odeio! Vire e mexe, gosto de ir ao cinema para conferir as novidades produzidas pelos estúdios de animação. O mais recente que apreciei (e adorei) foi “Divertida Mente 2” no final do ano passado. A questão é que poucos desses títulos me sensibilizam ao ponto de querer escrever sobre eles no blog. Para cada preciosidade garimpada nas telas de exibição, muitas pedras de baixíssimo valor passam diante dos meus olhinhos cada vez mais míopes. “Flow” é um típico road movie – ou road story se preferir. A dinâmica do filme é caracterizada pela viagem incessante do quinteto de amigos pelo mundo pós-apocalíptico. Num primeiro momento, a impressão pode ser que eles navegam aleatoriamente pelos mares cada vez mais volumosos do planeta. Contudo, o olhar atento para o enredo (principalmente para as cenas em que o secretário instiga o gatinho preto a visualizar uma montanha misteriosa e uma cidade cujo cume não está submerso) dão um sentido bonito e eloquente à trama. Só não explico minha interpretação para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu ao filme. De qualquer maneira, recomendo ao público buscar uma lógica menos aleatória e banal para a amizade entre a ave e o felino e o caminhar do barco pelas águas. Assista, a seguir, ao trailer de “Flow” (Straume: 2024): É claro que considerei a conquista do Oscar de Melhor Animação pelo filme de Gints Zilbalodis justa. Diria mais: foi muito justa, justíssima! Como experiência cinematográfica, o longa-metragem letão é muuuuuuuuuuito superior a “Divertida Mente 2” (Inside Out 2: 2024). O título da Pixar, vale a menção, também é excelente – conforme detalhei no post “Retrospectiva – Melhores Filmes de 2024” da coluna Recomendações . Não por acaso, “Divertida Mente 2” ficou no top 5 das mais brilhantes produções que conferi no ano passado nos cinemas. O problema é que a animação norte-americana não trouxe grandes novidades para o público. Ela é basicamente uma extensão do universo criado pelo filme original da série . Assim, “Flow” é mais impactante por promover uma overdose de novas emoções e por encantar a plateia de todas as idades com uma trama inusitada. Por falar em Oscar, é bom dizer que achei todas as escolhas da Academia de Los Angeles sensatas. Pode parecer engraçado mencionar isso, mas ouvi muita ladainha nos últimos dois meses sendo proferida por meus compatriotas. Um dos meus melhores amigos que mora em São Paulo achou um atentado ao bom senso e à lógica o fato de Fernanda Torres ter saído da cerimônia sem a estatueta de melhor atriz. Aí perguntei: você assistiu a “Anora”? Conferiu o desempenho de Mikey Madison? Não, ele não havia visto. Ou seja, estava reclamando do resultado da premiação sem o devido embasamento. Para minha surpresa, o cara de pau ainda soltou: para falar a verdade, ainda não vi “Ainda Estou Aqui” . Ai, ai, ai. Aí fica difícil debater cinema, né? Juro que quando eu saí da sessão de “Anora”, decretei para a amiga russa que me acompanhava que o Oscar de melhor atriz de 2025 já tinha dona. Ele era de Madison. O que a jovem norte-americana fez nesse filme foi simplesmente brilhante e merecedor da estatueta dourada! Outra amiga, dessa vez brasileiríssima, reclamou no dia seguinte ao Oscar que achou injusta a entrega do prêmio para “Flow”. Na opinião dela, uma psicóloga que estuda Medicina em Buenos Aires, “Divertida Mente 2” (e a série da menina Riley como um todo) era uma das mais brilhantes animações da história e deveria estar no primeiro lugar de sua categoria. Novamente, fiz a pergunta de um milhão de dólares: você viu “Flow”? Claaaaaaro que ela não tinha visto, né? Uma das coisas mais legais de conferir previamente os principais postulantes à maior honraria da Sétima Arte é compreender as decisões dos jurados. Acredite se quiser, mas são poucas as vezes que eles cometem injustiças! Repito: achei válidos todos os vencedores da última edição da cerimônia californiana. Por mais que tenhamos preferências distintas, não dá para contestar as escolhas dos profissionais do cinema, gente com enorme gabarito e conhecimento! Por exemplo, eu votaria em “O Brutalista” (The Brutalist: 2024) como melhor longa-metragem da temporada passada. Porque o achei mais filme que “Anora”. Ainda assim, seria um absurdo dizer que a produção independente de Sean Baker não foi merecedora da estatueta dourada. Ela é ótima e digna sim da premiação recebida. Se “Ainda Estou Aqui” levasse o prêmio da categoria principal do Oscar (e não apenas o de Melhor Filme Internacional) diria o mesmo. Qualidade para isso a produção de Walter Sales tem de sobra. Portanto, não dá para misturarmos torcida com análise crítica. Como dizia Dona Júlia, minha avozinha falecida: uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Depois desse pequeno desabafo, informo que por hoje ficamos por aqui, pessoal. Para quem acha que seguir tratando na coluna Cinema dos Vencedores do Oscar de 2025 está virando assunto muito velho (só não escrevi demodê porque essa é uma palavra antiguíssima), aviso que virarei a página, tá? Na próxima análise cinematográfica do Bonas Histórias , prometo trazer algum título recém-saído do forno das telonas. Até porque sigo frequentando as salas de exibição e tem muita coisa boa para comentar com vocês. Não perca as novidades do blog, senhoras e senhores! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: O Menino que Vivia no Mundo de...Marte! – A quarta obra infantil de Cíntia Ertel
Lançado em setembro de 2024 pela EV Publicações, o romance da escritora, terapeuta e educadora brasileira que vive há anos em Luxemburgo foi traduzido para vários idiomas e apresenta uma trama sobre o bullying escolar, o vício nas telas e os equívocos na educação dos filhos. No feriado de 1º de maio (a data mais contraditória do calendário mundial, pois a maioria das pessoas insiste em NÃO trabalhar no Dia do Trabalho!), aproveitei a tarde preguiçosa (não seria justamente eu que iria trabalhar, né?) e bastante fria no pequenino apê da Zona Norte de Buenos Aires para ler um livro infantil que se revelou encantador. Estou me referindo, conforme o título e o subtítulo do post anteciparam, a “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” ( EV Publicações ), a nova obra ficcional de Cíntia Ertel . Esta publicação da escritora catarinense radicada na Europa há quase uma década e meia é a mais recente descoberta que fiz no campo da literatura brasileira contemporânea . Já que falei bastante na segunda-feira passada de “Flow” ( Straume : 2024), a animação infantojuvenil da Letônia que ganhou o Oscar, nada mais natural do que permanecer no universo da molecadinha. Assim, o(a) convido a mergulhar comigo no mundo sempre fascinante e lúdico da literatura infantil . Até podemos ter migrado da coluna Cinema para a coluna Livros – Crítica Literária , senhoras e senhores, mas não perdemos a essência da temática que vem sendo debatida há uma semana. Que viva a beleza e a intensidade da infância! Para ser sincero com quem me lê neste momento, tirei “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” da estante da minha biblioteca doméstica na tarde mais antitrabalho de maio de um jeito beeem despretensioso. Até pensava em usá-lo como matéria-prima de alguma coluna do Bonas Histórias se ele se provasse realmente tão bom quanto me disseram. Contudo, esse não era o motivo principal de minha escolha. Em pleno feriadão, queria mesmo era me entreter com um título leve, divertido e interessante. Acredite se quiser: os críticos literários se alegram lendo literatura no tempo livre – o que embaralha um pouco a linha por vezes tênue entre trabalho e lazer. Afinal, trabalhamos com o que gostamos ou gostamos do que fazemos? Sei lá! O que posso garantir com alguma certeza é que, depois de uma caminhada matinal de quase três horas pela Costanera de Vicente López (meu programa portenho favorito aos domingos e feriados) y un riquísimo choripan con fritas de almuerzo (meu sanduíche argentino predileto), tudo o que desejava para encerrar a primeira quinta-feira do mês era me jogar no sofá da sala e curtir boas páginas ficcionais. De preferência, embaixo de um cobertor quentinho. Enquanto os pés descansariam e o estômago processaria a refeição pra lá de calórica, minha mente viajaria em direção ao universo cativante criado por Cíntia Ertel. Adquiri “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” em minha última viagem à São Paulo, em setembro de 2024. Aproveito os poucos dias que fico em meu país natal, geralmente entre 48 e 72 horas anualmente, para adquirir o máximo possível de livros (além de visitar o médico, o dentista, o Poupatempo, a justiça eleitoral e esses programas burocráticos de migrantes que não pensam em viver novamente no Brasil). Não queira imaginar o peso da minha mala no retorno para casa! Cada louco com sua mania, não é? Posso até não me lembrar de visitar a família, mas não me esqueço de bater ponto nas maiores livrarias paulistanas e selecionar as obras recém-lançadas que prometem encantar o público leitor de Norte a Sul do cálido Brasil. Quem me indicou essa leitura foi Eduardo Villela , meu amigo de infância e diretor-proprietário da EV Publicações . No almoço que tivemos em Pinheiros – na companhia do divertidíssimo Paulo Sousa, autor de “A Peste das Batatas” (Pomelo) e “Acinte 2020” (Publicação Independente) –, perguntei se ele sabia de alguma boa novidade que estava chegando às livrarias nacionais. Na lata, Dudu respondeu com a empolgação que lhe é característica: “O novo livro da Cíntia! Acabamos de lançá-lo e ele está incrível. Você que curte ficção certamente adorará essa história. Aposto que vai até querer fazer uma resenha dele no seu blog!”. Senti tanta firmeza em suas palavras que comprei “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” no dia seguinte, mesmo sabendo se tratar de um exemplar da literatura infantil. Você lê livro para criança, Ricardinho?! Eu leio TUDO, querido(a) leitor(a) imaginário(a) do Bonas Histórias que sempre conversa comigo enquanto escrevo meus textos. TUDO É TUDO MESMO! No caso, tudo de ficção. Porque minha paixão é a ficção literária . Aí vale suspense, terror, romantismo, policial, fantasia, erotismo, infantojuvenil, infantil... Se a obra tiver qualidade narrativa, eu a abraço com empolgação. Lançado em português na versão física justamente em setembro de 2024 (sua versão digital chegou um mês antes à Loja Kindle), “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” é a quarta publicação de Cíntia Ertel. Além de ótima autora, ela parece ser uma fofura de pessoa. Admito que gosto de perguntar para os editores e os diretores das casas editoriais que tenho mais proximidade sobre o lado humano dos escritores com quem trabalham. E fico muito satisfeito em saber que por trás de ótimos profissionais também existem excelentes pessoas. Sabendo que o artista das letras é gente boa, eu ganho uma motivação extra para conhecer sua produção literária. No caso de Cíntia, os elogios que lhe foram distribuídos pareceram sinceros, além de extensos. A especialidade da escritora catarinense é a confecção de tramas inteligentes e surpreendentes para a garotada (e, por consequência, para adultos preocupados com a educação da meninada). Se você ainda não conhece o trabalho dessa jovem autora nacional, recomendo se inteirar do que ela vem desenvolvendo nos últimos quatro anos. Suas narrativas são de excelente qualidade e merecem ser apreciadas pelo grande público tanto no Brasil quanto no exterior. Gostei de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” ao ponto que sabia que não sossegaria enquanto não o analisasse de maneira profunda na coluna Livros – Crítica Literária . Tenho essa mania, senhoras e senhores. Uma vez identificado um título que mexe com minhas emoções de um jeito especial, sinto-me na obrigação de compartilhar minhas impressões com o mundo. Por essa perspectiva, os esforços dos críticos literários se parecem muitas vezes às atividades dos garimpeiros: buscamos no meio da livraria/rio a nova obra-prima/joia que irá encantar as plateias mais exigentes e de bom gosto a milhares de quilômetros. O problema é que para cada pepita reluzente que surge diante dos nossos olhos no garimpo da literatura, foram necessários dias e dias de busca pela correnteza quase sempre decepcionante das páginas do rio ficcional. Foi o que se passou, por exemplo, em fevereiro, março e abril. As melhores leituras que fiz nesses meses foram, respectivamente, “Nós Que Vivemos” (Minotauro), drama histórico de Ayn Rand, “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), premiado romance de Fernanda Caleffi Barbetta, e “O Construtor de Pontes” (Intrínseca), saga de mistério de Markus Zusak. Essas três obras ficcionais são maravilhosas e mereceram siiiiiiiim avaliações pormenorizadas no Bonas Histórias . Por isso, não resisti e tasquei textões sobre elas. Na verdade, quem chama minhas análises de textões são alguns leitores inconformados com as extensões das matérias (beijo, Marieta!). Eu os considero textinhos, pois sei que tinha muito mais do que falar sobre cada título nesses espaços. A nova publicação de Cíntia Ertel se encaixa como uma luva nesse nível de excelência narrativa. Uma vez que o julguei o melhor livro apreciado nos últimos 30 dias, seu destino era ganhar uma análise literária gigante (ou minúscula, fica a seu critério decidir). Confesso que mesmo que minhas críticas não sejam lidas por uma multidão (estamos falando de literatura para o público brasileiro, né?), fico honrado por conseguir apresentar as preciosidades da ficção (e do universo artístico) para meus conterrâneos. Quem manda ter um blog de literatura, cultura e entretenimento, não é mesmo?! Portanto, aí está a produção do post que prometi para mim mesmo que faria e divulgaria! Sem receios de tropeçar nas pernas do exagero, digo em alto e bom tom que essa história de Cíntia Ertel é leitura obrigatória para crianças, adolescentes, pais e educadores. “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” trata de questões delicadíssimas e atuais: o bullying escolar, o vício nas telas e a aridez dos relacionamentos entre pais e filhos. Como consequência, a molecadinha cresce insegura, deprimida, solitária e ansiosa (quando não violenta). Mesmo não tendo criança em casa (ainda não concluí a fase do jogo da vida de encontrar/selecionar/convencer a mãe dos meus futuros filhos), vejo que esse trio de temas afeta grande parte de meus parentes, amigos, colegas, conhecidos e vizinhos. Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias devem saber (ou intuitivamente já perceberam) que minha especialidade não é a literatura infantil nem a literatura infantojuvenil . Para ser bem franco, diria que sou apenas um amador nessas duas áreas. Dentro da ficção literária, meu campo de trabalho e estudo está nas narrativas para o público adulto – tenho medo de falar/escrever ficção adulta porque parece algo do segmento erótico. Quando o debate vai para os romances, as novelas e as coletâneas de contos e crônicas para a galera mais velha, aí sim fico à vontade para debater e analisar as obras que caem em minhas mãos. Todavia, como a proposta do blog é ser plural, me sinto na obrigação de vira e mexe comentar alguns títulos para os pequenos. Daí o motivo de, mesmo sabendo que não sou a pessoa mais indicada para comentá-lo, trazer “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” para a discussão na coluna Livros – Crítica Literária . Cíntia Ertel nasceu no interior de Santa Catarina e morou em vários lugares no Brasil antes de se fixar na Europa. Além de Florianópolis, viveu na infância e na adolescência em São Paulo e Minas Gerais. De volta à capital catarinense, se formou em Psicologia e trabalhou em sua própria clínica e como terapeuta de usuários de drogas. Nessa época, começou a namorar um alemão que já estava há anos no Brasil. O namoro foi ficando cada vez mais sério, assim como foi crescendo a vontade do gringo de retornar para a Europa. Com essa ideia fixa na cabeça, o alemão convenceu a namorada a se mudar com ele para Luxemburgo, país no centro do Velho Continente que fala francês, alemão e luxemburguês. Assim, em 2012, eles partiram para o exterior em busca de mais qualidade de vida e novos voos profissionais. Em Luxemburgo, Cíntia passou a atuar como pesquisadora e educadora infantil. Ou seja, mergulhou para valer no universo infantojuvenil como até então não tinha feito. De repente, incontáveis histórias de crianças, adolescentes, pais e professores entraram em sua rotina e exibiram novos tipos de dramas. Na esfera pessoal, o namoro virou união estável e o casal germano-brasileiro teve dois filhos: um menino e uma menina. Com crianças em casa, a jovem catarinense se viu ainda mais cercada pelos desafios da criação dos pequenos e pela beleza da infância. Surgia, dessa maneira, a matéria-prima da futura escritora. É legal contar que Cíntia Ertel sempre gostou de escrever. Se na infância arriscava algumas linhas, na adolescência já produzia contos por pura diversão. Na época em que cursava faculdade de Psicologia em Floripa, adorava contribuir com o jornal universitário. Contudo, depois que se formou, as obrigações profissionais a afastaram do processo da escrita. Somente na quarentena da pandemia da Covid-19 (que, convenhamos, foi muito mais rigorosa na Europa do que no Brasil), a vontade de narrar histórias foi retomada. A maior proximidade com os filhos pequenos em casa também ajudou nesse despertar de sua veia criativa. Vendo as coisas divertidas que a meninada fazia dentro do lar e analisando os problemas dos alunos nas escolas de Luxemburgo em que trabalhava, Cíntia voltou a escrever depois de quase duas décadas. O foco de seus textos era, claro, o universo infantil. A partir da experiência materna e da vivência como educadora, a escritora passou a relatar histórias ficcionais do que acontecia ao seu redor. Sua primeira publicação foi “O Papagaio Imigrante/Der Einwandererpapagei” (Flamingo Edições), obra infantil bilíngue (português e alemão) direcionada às crianças de 6 a 12 anos. Lançado em setembro de 2021, o livro é comercializado teoricamente tanto no Brasil quanto em Portugal. Escrevi teoricamente porque não consegui comprá-lo. Com boa dose de autobiografia, a trama de “O Papagaio Imigrante” gira em torno de uma ave que morava na Amazônia e se mudou com a namorada para Luxemburgo, um país distante e frio. A mudança exigiu grande esforço de adaptação do casal. As ilustrações foram feitas por Agnes Antonello. Em maio de 2022, Cíntia publicou seu segundo título, “The Comparison/La Comparaison” (KIWI E.L.G.). Este é outro título bilíngue, só que está em francês e em inglês. Não há por enquanto versão em português e a obra só está disponível para compra na Europa. Voltada para meninos e meninas de 5 a 8 anos, a narrativa aborda o lado negativo de se comparar as crianças entre si na escola e em casa, um equívoco que muitos adultos e educadores cometem. Os desenhos foram produzidos por Andries van Wyk, ilustrador sul-africano que mora em Luxemburgo. Em outubro de 2023, foi lançado “O Dia em que Voamos” (Publicação Independente), a terceira ficção infantil de Cíntia. Dessa vez, as ilustrações foram feitas por Sara Monteiro. O tema dessa publicação era a capoeira, uma das paixões da autora. Na trama um pouco mais volumosa do que as dos títulos anteriores, dois meninos de realidades opostas fazem amizade tendo a capoeira como elo de união. Além do português, essa obra está disponível em inglês, francês e alemão. “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” é, como já informei, o quarto título ficcional da autora catarinense. Retomando a parceria de “O Papagaio Imigrante”, Agnes Antonello ficou encarregada de produzir as ilustrações da nova obra de Cíntia Ertel. Diferentemente dos outros títulos da autora, seu mais recente lançamento abrange um público um pouco mais velho: os pré-adolescentes. Ou seja, essa história tem um texto mais parrudo e é ideal para as crianças de 7 a 12 anos. Dessa maneira, não sei se devo considerá-la como um exemplar da literatura infantil ou da literatura infantojuvenil. Está vendo a dificuldade de não ser especialista nessa área! Publicado originalmente em português, “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” já foi traduzido para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão. Esse título é o primeiro de Cíntia com a EV Publicações , editora paulistana comandada por Eduardo Villela , um dos principais book advisors e publishers do Brasil. Sei que sou suspeito para falar da EV e do Eduardo – ele é um dos meus melhores amigos e, para completar, eu atuo há três anos como editor e escritor em sua empresa. Mesmo sabendo dos possíveis riscos de minhas análises parecerem babação de ovo ou mesmo chapa branca, sigo fazendo comentários sobre as obras ficcionais dessa editora que me parecem mais interessantes (além de SEMPRE explicitar minha relação pessoal e profissional com a companhia). Foi o que aconteceu, por exemplo, com “Maria e o Mundo Mágico” (EV Publicações), estreia literária da também catarinense e expatriada Dayana Rampinelli, e “Refém da Memória” (Publicação Independente”), thriller psicológico do cineasta Helio Martins Jr. Gostei tanto do conteúdo dos dois títulos que os discuti, respectivamente, em janeiro do ano passado e em fevereiro de 2022 no blog. Por mais que a ficção não seja a principal linha editorial da EV Publicações (95% de suas obras são de livros de negócios, livros de famílias e livros de não ficção), é bom dizer que a editora paulistana lançou recentemente excelentes novelas e romances. Além do próprio “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” e do já mencionado “Maria e o Mundo Mágico” , posso citar “Pássaro de Folhas” (EV Publicações), a narrativa histórica de Celso Bicudo que navega pelo universo fantástico, e “A Contra-escuridão” (EV Publicações), o quarto thriller de Uranio Bonoldi da série literária “A Contrapartida” . Ambos os livros são espetaculares. Enquanto a novela de Bicudo foi lançada no final do ano passado, conforme relatei no post dos lançamentos de novembro e dezembro de 2024 da coluna Mercado Editorial , o romance de Uranio chegou às livrarias brasileiras em abril do ano passado, conforme apresentado no post dos lançamentos do segundo bimestre de 2024 . Só não analiso “Pássaro de Folhas” e “A Contra-escuridão” na coluna Livros – Crítica Literária porque participei de alguma forma de seus desenvolvimentos. Juro que tenho essa preocupação, senhoras e senhores. As avaliações do blog são independentes, totalmente imparciais e sem qualquer vínculo com minha atuação como editor. Para tal, não considero ético ter participado da confecção do livro pela EV e, mais tarde, discuti-lo com os leitores do Bonas Histórias . Garanto que isso nunca ocorreu (e nunca ocorrerá!). No caso de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”, é importante esclarecer que não trabalhei em nenhuma etapa de sua produção. Por isso, me senti bastante à vontade para comentá-lo em detalhes no Bonas Histórias . É bom dizer que sequer conheço pessoalmente a Cíntia e nunca troquei mensagens com ela. Só lembrei de sua nova publicação quando bisbilhotava a biblioteca de casa atrás de uma nova leitura para o 1º de maio. Já que comecei a explicar o contexto dessa leitura, acho legal contar a maior curiosidade sobre minha experiência como leitor de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”. Não gostei desse livro logo de cara. É ou não é uma bomba, hein? Calma, calma! Eu explico. Tenho o hábito de ler até o final todas as obras que começo. Se passei da primeira para a segunda página, tenha a certeza de que chegarei à última. Sou daqueles que não abandona a história no meio. Por mais que não goste de imediato da narrativa ou da trama em minhas mãos, sigo inabalável até as páginas finais. Qual o motivo desse comportamento? Não sei. Talvez tenha a esperança de ser positivamente surpreendido até o último momento. Muitas vezes, o desfecho é tão espetacular que compensa o caminhar arrastado. O exemplo mais vivo é “Grande Sertão: Veredas” (Companhia das Letras), clássico de João Guimarães Rosa. Seu desfecho sublime compensou a vontade que tive de esganar o autor durante as desesperadoras 559 páginas anteriores. Voltando ao debate do livro de hoje... Quando já tinha percorrido um terço da nova história de Cíntia Ertel, pensei com meus botões: “esse título não é bom o suficiente para analisá-lo na coluna Livros – Crítica Literária ”. Não sei se todos os leitores do Bonas Histórias sabem, mas só comento obras que mexem bastante comigo e que eu fiquei realmente encantado. Em outras palavras, não faço críticas prioritariamente negativas por essas bandas. Se leio algo que não gosto (e acredite: a maioria das leituras que faço não me agrada), simplesmente guardo para mim a avaliação negativa. No blog, só aparece o que apreciei bastante. Por isso, o tom frequentemente empolgado dos meus textos analíticos. Mesmo com a certeza de que teria que encontrar outro título para comentar neste mês, segui a leitura de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” até o fim. Aí no meio da publicação, surgiu um conflito extremamente interessante e, enfim, entendi a proposta da autora. Pronto! Fui conquistado pela história ao ponto de querer comentá-la em profundidade. Quando fechei as páginas deste romance infantil , minha reflexão foi tripla: “essa trama é importante demais para pais, filhos e educadores!”; “viu só como é bom não abandonar precocemente as leituras!”; e “Eduardo não errou na indicação!”. Também é importante ressaltar logo de cara que, por mais méritos que “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” tenha, ainda assim trata-se de uma publicação com vários problemas de ordem narrativa. Ou seja, temos em mãos um título ótimo, mas não perfeito. Como toda análise crítica imparcial que faço, apresento tantos os aspectos positivos quanto os aspectos a melhorar da leitura realizada. Espero que o Eduardo e a Cíntia não fiquem bravos comigo por esse sincericídio. A proposta aqui não é desmerecer o trabalho de ninguém, apenas apontar os aspectos da ficção que podem ser aprimorados. Antes de mergulharmos na análise propriamente dita da nova publicação da EV Publicações , deixe-me apresentar seu enredo. “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” é protagonizado por uma dupla de crianças entre 9 e 10 anos de idade: Benjamin e Sofia. Eles estão na mesma classe na escola. Benjamin é ruivo, usa óculos e é tímido. Sua grande paixão é o planeta Marte. O garoto, que é meio nerd, lê tudo a respeito das viagens interplanetárias e adora saber as características do nosso vizinho vermelho do Sistema Solar. Por outro lado, Sofia é morena, extrovertida e adora praticar esportes. Sua relação com os pais é ótima e ela adora alimentação saudável. Seu hobby é construir casas de brinquedo. Recém-chegada ao colégio, Sofia faz amizade quase que instantaneamente com Benjamin. É o famoso lance dos “opostos se atraem”. A partir do primeiro dia de aula da menina, a dupla se torna inseparável. Eles estão sempre juntos na escola e fora dela. O menino adora visitar a casa da nova amiguinha. Lá, eles jogam futebol e compartilham suas paixões: leitura sobre Marte e construção de casas de brinquedo. A maior proximidade permite que cada um exponha seus maiores medos e frustrações. Enquanto Benjamin se lamenta pela separação dos pais, Sofia sonha em ganhar um irmãozinho. Ambas as crianças são filhos únicos e sentem a falta de companhia de alguém de sua idade para partilhar as descobertas e as brincadeiras da infância. Daniel, o pai de Benjamin, é um engenheiro civil que entrou em depressão após Fernanda, a esposa, pedir divórcio e se mudar para Paris. Ela é executiva em uma multinacional e migrou para a Europa tão logo pintou uma boa oportunidade na empresa em que trabalhava. Assim, Fernanda teve que abrir mão do contato diário com o filho, que permaneceu vivendo no Brasil com o pai. Quem passa mais tempo com Benjamin é Olga, a avó materna. O menino sente que, após a separação, Daniel está cada vez mais fechado, distante e frio. Os dois não conversam como antigamente. Por sua vez, os pais de Sofia são Leandro, um personal trainer que atua como influenciador digital na área de saúde e bem-estar, e Letícia, empreendedora que comanda os negócios da família. Como trabalha em casa, Leandro é quem cuida mais da filha. A relação de pai e filha é ótima. Eles compartilham seus gostos e preferências: prática esportiva, alimentação saudável e conversas sobre todos os temas. Além disso, os pais da garota são muito carinhosos e estão sempre se abraçando e se beijando. Por mais que Sofia se sinta acolhida e especial no seio familiar, ainda assim ela quer alguém para partilhar das brincadeiras domésticas. Daí o desejo de ter um irmão. A amizade de Benjamin e Sofia sofre um sério abalo com a postura rancorosa e ciumenta de Pascoal. Esse é o tal conflito que citei e que aparece no meio da trama. Coleguinha de classe dos protagonistas do livro, Pascoal é um gordinho viciado em jogos eletrônicos. Ele passa o dia com a cara nas telas: celular, tablet e videogame. Na escola, ele adora praticar bullying e vive atazanando as crianças a sua volta. Seu comportamento é reflexo de problemas de âmbito doméstico e da imaturidade para lidar com alguns sentimentos. Pascoal tem inveja da amizade de Benjamin e Sofia. Assim, ele não perde oportunidade para importunar o quanto pode a dupla de colegas. O bullying praticado só cresce à medida que as semanas vão passando. Quando Akira, um dos poucos amigos que Pascoal tem na escola, se cansa da postura tóxica do gordinho folgado e mal-educado e passa a conviver mais intensamente com Benjamin e Sofia, o vilão da trama surta. A partir daí, ele não sossegará nas agressões físicas, psicológicas e morais ao trio de estudantes. A situação fica tão feia que é preciso uma intervenção da professora Martina e da diretora Lílian. O que elas farão com Pascoal? Esse é o mistério que move a leitura. Considerando que é um exemplar da literatura infantil, “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” tem um tamanho generoso. Suas 176 páginas estão divididas em 27 capítulos. Levei pouco mais de duas horas para percorrer seu conteúdo de ponta a ponta na semana retrasada. Praticamente fiz duas sessões de leitura de uma hora cada uma – o intervalo foi de trinta minutos para um cafezinho brasileiro. Acredito que a criançada levará mais tempo (entre cinco e seis horas), dividirá a experiência literária em mais sessões (quatro ou cinco) e não conseguirá concluir esta obra em um único dia (talvez leve dois ou três dias). São vários os pontos que tenho que enaltecer neste livro de Cíntia Ertel: configuração das personagens é realista; dupla de protagonista carismática; vilão pouco maniqueísta; força do conflito central da narrativa é empolgante; variedade e riqueza dos temas discutidos; enredo segmentado em blocos rígidos; ilustrações impecáveis; e texto convidativo que explora muito bem o espaço narrativo e a ambientação . Dessa maneira, inauguro a seção do post que chamo de “Rasgação de Seda”. Preparem-se para ser atingidos por muitos confetes, senhoras e senhores. E sentem-se numa poltrona confortável que lá vem os elogios! O primeiro aspecto a ser destacado é a construção das personagens . Elas são carismáticas e fidedignas. Tanto as crianças quanto os adultos de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” são figuras charmosas e bastante realistas. A sensação é que foram baseadas em personalidades concretas do dia a dia de Cíntia. Aposto que a autora vivenciou experiências parecidas nas escolas de Luxemburgo em que trabalhou/trabalha como educadora e que conheceu estudantes e pais de alunos com as características descritas na obra. É o famoso caso da ficção que bebe da fonte da vida real. Em outras palavras, creio que a escritora trouxe elementos do dia a dia para dentro da história ficcional. Contudo, reforço que isso é só um palpite meu, tá? E por que fiz essa suposição? Porque à medida que percorria o livro, fui automaticamente me recordando de conhecidos que possuíam/possuem o perfil apresentado no enredo : estudante nerd e tímido; aluna extrovertida recém-chegada à escola; gordinho folgado e arruaceiro; garoto gente boa que anda em más companhias; pai depressivo com a separação da esposa que amava; mãe que precisa aprender a viver longe do filho; adulto presente, carinhoso e atuante na criação da prole; profissional workaholic que não tem espaço na agenda para os familiares; marido tóxico; mulher infeliz com o casamento que se torna uma mãe condescendente; professora carinhosa; diretora escolar com personalidade forte etc. Gostei bastante de acompanhar as rotinas, os dramas e os conflitos desse povo com características tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão complementares. Até o fato de as personagens serem essencialmente planas – algo que normalmente prejudica a qualidade da trama ficcional – não me incomodou tanto quanto de costume. Sei que produzir literatura infantil e literatura infantojuvenil com figuras redondas é difícil (se achasse fácil eu seria escritor e não crítico literário, né?). Por isso, entendi o tom predominantemente maniqueísta da trama. Mesmo assim, é bom dizer que a autora não caiu nos velhos clichês literários. Isso fica mais evidente no retrato do “vilão” da publicação. Coloquei a palavra “vilão” entre aspas porque, com a sabedoria de uma educadora com o olhar atento e humano sobre a realidade, Cíntia Ertel entende que as crianças com problemas de comportamento na escola são vítimas das atitudes e crenças de pais e familiares em casa. Ou seja, Pascoal não é alguém que deva receber a condenação pesada das autoridades do colégio, por maior que seja a pressão dos pais da turma para que ele receba uma punição exemplar. Ao perceber a complexidade e a pluralidade do cenário, juro que fiquei fãnzaço de Martina e Lílian, respectivamente a professora e a diretora da escola. Apesar de suas aparições serem pontuais em “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”, elas são decisivas para ditar o rumo da história e o impacto da experiência literária! Confesso que fiquei motivado para conhecer mais das vidas, dos pensamentos e dos métodos de trabalho dessa dupla. Entretanto, entendo que esse tipo de curiosidade é de um adulto que fez licenciatura e que é apaixonado pela dinâmica da educação. A meninada, público-alvo principal desta publicação, certamente se concentrará nas histórias dos alunos. E os pais da garotada, público-alvo secundário, devem focar a atenção no que os adultos fazem nas casas de Benjamin, Sofia e Pascoal. Mesmo sabendo disso tudo, reafirmo: para mim, as personagens mais incríveis deste livro são a professora e a diretora! Quando escrevi três parágrafos acima que “entendi o tom maniqueísta da trama”, talvez o mais correto teria sido grafar o termo “tom maniqueísta” entre aspas. Ao mesmo tempo que há forte oposição entre certinhos/bonzinhos (a amizade de Benjamin e Sofia é pura e saudável) e erradinhos/mauzinhos (Pascoal faz bullying com os colegas), não é totalmente culpa do gordinho viciado em jogos eletrônicos o que acontece na escola. Nesse sentido, o verdadeiro vilão (ou “vilão” – as aspas ou a ausência delas vão depender da interpretação dos leitores) é outro, que nem sabe dos efeitos negativos de seus comportamentos na própria família e nas demais famílias. Já que estamos falando de personagens , achei que o pai de Benjamin (Ciro) merecia um acompanhamento mais próxima e cuidadoso por parte do narrador. O ideal é que recebesse um tratamento similar aquele dedicado aos pais de Benjamin (Daniel) e de Sofia (Leandro). Note que não vamos com ele ao trabalho e não ficamos a sós para entender exatamente seus pensamentos, suas crenças e suas atitudes. O que sabemos do advogado workaholic que não tem tempo para a família vem das opiniões da esposa (Rosa) e do julgamento do narrador. Se Ciro fosse uma figura um pouco mais redonda (como eram Fernanda e Letícia, as mães de Benjamin e Sofia, por exemplo), acho que o livro ganharia em dimensão dramática. Senti falta de entendê-lo melhor. Por outro lado, algumas decisões que Cíntia Ertel tomou me pareceram acertadíssimas. Ao invés de estabelecer apenas um protagonista para o romance, ela trouxe uma dupla de personagens ao primeiro plano da narrativa. Por mais que “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” tenha um título que faça menção apenas ao garoto (um equívoco do meu ponto de vista), não podemos negar o peso da menina na formulação e no desencadeamento do enredo . Como dupla ficcional, Benjamin e Sofia são figuras mais interessantes e charmosas do que individualmente. É claro que olhados isoladamente, eles também têm lá seus atrativos e valores. Porém, é quando integrados que suas características e carismas são potencializados. Saindo da análise das personagens , outra decisão ESPETACULAR da autora foi a escolha dos temas debatidos pelo romance. Esse livro aborda essencialmente o bullying escolar (um eterno problema do sistema educacional, que só piorou com a disseminação das redes sociais), os desafios de ser pai e mãe no século XXI (em um mundo em que os adultos têm tantas frentes de atuação, quando sobra tempo para cuidar dos filhos, hein?) e os vícios nas telas (somos uma sociedade com a fuça grudada em celulares, tablets, notebooks e televisores!). Impossível não concordarmos com a urgência dos debates propostos pelo livro. É legal notar que os assuntos tratados por “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” vão além do trio de grandes temáticas que apresentei no parágrafo anterior. As histórias de Benjamin, Sofia, Akira e Pascoal e de seus pais também abordam de maneira direta ou indireta uma avalanche de questões relevantes e atuais: solidão dos filhos únicos (cada vez mais comuns nos arranjos familiares com só uma criança em casa – isso é, quando os casais decidem ter filhos, pois muitos nem isso querem); alimentação saudável versus junk food ; oposição entre prática das atividades físicas e sedentarismo; socialização (ou falta de socialização) em tempos de prevalência da interação digital; e acompanhamento próximo, atento, atuante e empático dos adultos em relação ao desenvolvimento das crianças. Você acha que os temas tratados por Cíntia terminam aqui? Nananinanão. Aí vão mais alguns que ela explora: terceirização da educação dos filhos (muitos pais atiram no colo das escolas a responsabilidade pela formação ética e moral da meninada); impacto da separação do casal na psicologia das crianças; equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal; importância de se ter hobbies; depressão e doenças mentais em todas as fases da vida; vantagens de se fazer terapia; relevância da atuação dos profissionais escolares com visão completa e abrangente do processo educacional; e aprendizado dos jovens em como lidar com a ebulição de sentimentos (ciúmes, inveja, raiva, medo, amizade, amor, confiança, inconformismo, injustiça, empatia etc.). Vai me dizer que essas não são discussões relevantes para adultos e crianças, hein? A união de excelentes personagens com temas sensíveis é complementada com o aparecimento de um conflito forte e impactante. A postura negativa de Pascoal quebra a harmonia estabelecida pela amizade de Benjamin e Sofia (e mais tarde pela união da dupla com Akira). Como os protagonistas farão para conviver com uma figura tóxica, violenta e de “má índole” na classe? Esse é o mistério que ronda a mente dos leitores. É inegável que uma vez que nos deparamos com o drama central da narrativa ficcional, não queremos mais largar a leitura de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”. O único aspecto negativo que posso comentar sobre a linha ficcional é que o conflito principal do romance só surge no meio do livro. Achei que demorou demais para Pascoal e sua postura transgressora serem inseridos na narrativa. Enquanto ele não pintou na história, o livro girava em torno de conflitos menores: timidez e introspecção de Benjamim; e solidão de Sofia sem outra criança em casa. Precisamos combinar que esses são dramas menores e que não esquentavam a narrativa. O livro tem uma divisão estrutural nítida: a primeira metade da obra é para apresentar os protagonistas (e seus familiares) e para expor micro conflitos (Benjamin sente falta da presença mais carinhosa do pai e Sofia quer um irmãozinho); e a segunda seção serve para inserir o “vilão” (e sua família) à história e exibir o relato pormenorizado do conflito central (a amizade de Benjamin, Sofia e Akira provoca sentimentos de raiva e reações negativas em Pascoal). Entendi o tom didático da formulação da trama de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” em blocos fixos. A parte 1 e parte 2 possuem características narrativas bem definidas. Com essa dinâmica, acabamos nos aproximando muito mais dos protagonistas e curtindo a amizade da dupla de crianças na primeira metade da publicação. Como disse, Benjamin e Sofia são personagens carismáticas, que nos encantam desde as primeiras páginas. E a segunda metade é dedicada exclusivamente aos perrengues. Além disso, a segmentação rígida da narrativa é didática para os leitores. Não podemos nos esquecer que o público-alvo é constituído por crianças e pré-adolescentes. Porém, imagino que o romance poderia ser menos quadradão na forma. Como estamos falando de um narrador em terceira pessoa onipresente e onisciente, dava muito bem para a escritora ter, pelo menos, antecipado o surgimento de Pascoal e Akira na trama. Achei que, por suas importâncias para a obra, essas personagens tardaram demais para aparecer em cena. Como consequência, o conflito demorou para surgir e a tensão dramática foi postergada excessivamente por algumas dezenas de páginas. Um pouco de dinamismo narrativo não seria uma má ideia para a parte 1 – ainda mais em tempos de leitores tão ansiosos. O que me pareceu acertadíssimo (e é um dos pontos positivos do livro que mais chama a atenção) é mostrar o comportamento das crianças como reflexo da postura dos pais. Por mais que esse seja um recurso óbvio e lógico do ponto de vista da psicologia infantil e da educação da meninada, vamos combinar que nos esquecemos de tal correlação no dia a dia. Assistimos às ações dos pequenos como fruto exclusivamente de seus temperamentos e demoramos para vinculá-las às responsabilidades da família. Esse esquecimento ocorre principalmente no âmbito escolar. Admito que, durante a leitura de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”, algumas fichas caíram em mim. De repente, fui transportado para o tempo do meu colégio e rememorei as atitudes de muitos coleguinhas considerados problemáticos. Poderia descrevê-los como sendo as antigas e reais versões de Pascoal. Será que a culpa pelo comportamento tóxico que tinham era mesmo deles? Só agora consegui fazer esse questionamento e enxergar o quão delicado é o tema. Brincar de procurar respostas mais completas é uma atividade desafiante e, ao mesmo tempo, reveladora. Estudei de fevereiro de 1987 (pré-primário) a novembro de 1998 (terceiro colegial) no Colégio Rio Branco, na cidade de São Paulo. Da primeira série do primário até o último ano do colegial, convivi com um garoto com um olhar extremamente triste. O nome dele era/é Fábio. Não tenho certeza do tempo verbal a ser utilizado na frase anterior porque nunca mais o vi e não soube do seu paradeiro. Não tenho redes sociais nem paciência para ficar caçando pessoas do passado pela Internet. Porém, minha memória segue afiada. Até hoje, não conheci ninguém com a expressão facial mais tristonha do que a daquele menino que se sentava na carteira ao meu lado. Fábio não era uma má pessoa (isso eu já sabia naquela época), mas parecia envolto por uma nuvem eterna de infelicidade e depressão. Como estudei com ele diariamente por onze anos (não é pouca coisa!), me acostumei com seu jeito melancólico e negativo de encarar a realidade. Eu e todos os demais colegas de turma nos habituamos. Mesmo não tendo má índole, como disse, ele acabava sempre metido em confusões e recebendo punições dos professores e do diretor, que quase sempre se mostravam pouco pacientes às suas atitudes rebeldes ou indiferentes às obrigações escolares. Às vezes, Fábio se envolvia com brigas e praticava bullying com os amigos mais próximos (tal qual Paschoal fazia com Akira). O que era mais triste era constatar que o garoto de olhos tristes só ficava feliz e só conseguia se divertir realmente quando via os colegas e os professores se dando mal. Diante dos apuros dos outros, ele abria o sorrisão enorme e lançava uma gargalhada sincera e estridente. Essa era a única situação que o deixava genuinamente satisfeito. Triste, né? Sempre considerei o comportamento dele de flertar com a infelicidade e de apreciar a desgraça alheia como fruto de sua personalidade amarga. Afinal, há aqueles que nascem para ser felizes e aqueles que nascem para ser tristes. Na minha concepção de mundo, felicidade e tristeza são muitas vezes marcas da personalidade e não consequências dos caminhos ditados pela vida. Prova maior disso é que via nas empresas em que atuava funcionários da limpeza mal pagos chegando felizes para o trabalho pesado e diretores com salários altos iniciando de mal humor o expediente muito mais leve. Até fiz um conto, “O Estagiário” , sobre essa questão na série “Paranoias Modernas” , na coluna Contos & Crônicas . Qual a lógica dessa incongruência? A forma como cada um encara naturalmente a existência, independentemente das condições. Tire tudo (ou quase tudo) de um indivíduo e saiba que ele poderá permanecer com a postura altiva e radiante. E dê tudo (ou quase tudo) para outro indivíduo e não se surpreenda se sua maledicência e inconformismo permanecerem intactos. Daí minha conclusão. Ao ler “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”, fiz uma retrospectiva reflexiva daquele meu colega triste no Colégio Rio Branco nas décadas de 1980 e 1990. E não é que a teoria de Cíntia Ertel, que é oposta à minha, faz muuuuuuito sentido! Fábio nunca conheceu o pai. Vire e mexe, ele falava disso com alguma agonia para seus colegas mais próximos. A mãe não dava muitas informações sobre o paradeiro do companheiro que a engravidou quando tinha pouco mais de 20 anos. Dizia que teve o filho ainda solteira e que o namorado nunca quis assumir a criança. Para criar o garoto, ela precisou trabalhar bastante. Como consequência, Fábio passava várias horas do dia sozinho, trancado no apartamento confortável do bairro de Higienópolis. Quando não estava na escola de manhã, ficava à tarde inteira sem a presença de ninguém em casa. A mãe só retornava à noite. Para compensar sua ausência do lar, ela disponibilizava todo tipo de videogame para o filho (por isso, me recordei dele ao ler sobre Paschoal). Não deveríamos nos assustar com o fato de Fábio ter crescido com a tristeza tatuada no rosto e a amargura implantada na alma. E a ficha disso só caiu agora em mim ao ler o livro com o drama de um garoto com características tão parecidas ao do meu antigo coleguinha de classe. Tem algumas obviedades que não são tão óbvias, né? Desculpe-me por abrir esses enormes parênteses. Senti que precisava compartilhar esse relato real do meu passado com vocês. Se isso acontecia lá atrás, imagino que siga ocorrendo até hoje. É a ficção bebendo da fonte inesgotável e dramática da realidade. Feito o desvio de rota, voltemos à análise propriamente do livro. Outro elemento que precisa ser elogiado em “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” é o conjunto de ilustrações de Agnes Antonello. Os desenhos da designer fluminense são cativantes. Lindos, lindos, lindos! O que mais apreciei foi brincar de procurar as características das personagens citadas no texto nos detalhes das imagens. Se eu aos meus quarenta e poucos anos curti o processo de materialização da narrativa ficcional no visual da obra, fico imaginando a meninada se deliciando com as ilustrações. A galerinha certamente irá adorar conferir cada nuance do visual das personagens do romance. O texto do livro também está muito bem escrito. Gosto da pegada narrativa da autora catarinense de revelar o espírito e o comportamento das personagens sem se esquecer da construção do espaço narrativo e da ambientação . Se tivesse que descrever esse tipo de literatura de um modo simples e objetivo diria que ela é sedutora e inteligente. Se um adulto ficou impactado com a força da história e a beleza do texto, imagine o efeito desse título nas crianças, hein?! Por mais aspectos positivos que “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” tenha – e o livro possui SIM bastante aspectos para elogiarmos como fiz questão de relatar até agora! –, preciso relembrar que o romance de Cíntia Ertel apresenta também algumas falhas que prejudicam significativamente a experiência do leitor mais atento e exigente. Para ser bem franco com os visitantes da coluna Livros – Crítica Literária , não são muitos os elementos negativos desta publicação. Porém, eles são sensíveis e muito perceptíveis. Juro que fiquei muuuuuuuuito incomodado com duas características desta narrativa: a mudança constante de tempo verbal e a baixa qualidade dos diálogos. O primeiro ponto a ser discutido na seção que chamo de “Atire a Pedra na Geni” (ou vocês pensaram que seria só rasgação de seda, hein?) é a confusão de tempo verbal. Não é errado apontar que temos uma enorme bagunça temporal em “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”. Ora a trama é descrita no presente, ora é narrada no passado. Dependendo do capítulo e do trecho dentro do capítulo, o texto muda de configuração sem qualquer justificativa lógica. A história começa no presente. Veja: – Ombro para frente e coluna ereta, filho – disse Daniel. Benjamim faz o possível para seus ombros pararem de apontar para o chão e sai do carro dizendo um tchau tímido para o pai. O pai vai trabalhar e Benjamim entra na escola. Seus ombros frequentemente esquecem de olhar para frente. Benjamim é tímido, principalmente com crianças; entra na escola e logo vai para a sua sala de aula. Ele se senta, tira o material escolar e começa a ler o que a professora vai passar hoje de matéria (Página 14) . Não há dúvida que os acontecimentos do romance transcorrem no presente, certo? Se bem que o complemento do discurso do pai, na primeira frase do livro, está no passado (“disse”). Porém, no restante da página, surge uma sucessão de verbos no presente. Isso até o momento em que a professora entra na sala de aula e chama o aluno que era apaixonado pelo planeta vermelho: – Bom dia, Benjamim! Vejo que você já está estudando. Quais são as últimas novidades de Marte – perguntou a professora. Benjamim começou a contar que no livro que ele está lendo diz que, antes de ir para Marte, os astronautas americanos vão construir uma base espacial na Lua. Que seria mais fácil ir da Lua para Marte do que da Terra para Marte. No meio da conversa, entra na sala Sofia, a nova aluna. Benjamin também era relativamente novo na escola, era o seu segundo ano nela, mas a menina tinha mesmo acabado de chegar. A professora aproveita para apresentar Sofia e Benjamim (Página 15) . Notou a confusão?! A história vai sem qualquer explicação para o passado e, ao final desse trecho, retorna novamente para o presente. O romance faz isso o tempo inteiro. Presente, passado, presente, passado, presente, passado... É uma confusão dos diabos. Do ponto de vista da Teoria Literária , a sensação é que a autora não definiu o tempo narrativo de sua história, um dos elementos centrais da narrativa ficcional . Acho importante dizer que esse é um erro de edição. Porque é muito comum o(a) escritor(a) fazer essa mistura durante o processo de produção textual. Até mesmo os(as) profissionais mais experientes cometem esse vacilo na primeira versão de suas histórias. A questão é que, antes de publicar a obra, é necessário cuidar da homogeneização da narrativa. Não dá para o leitor receber a trama confusa e contraditória. E esse é um dos papéis do(a) editor(a) – é ele(a) quem orienta o(a) romancista sobre a bagunça temporal e o(a) auxilia na padronização do texto. Essa mistura caótica de tempo verbal se torna ainda mais crítica nos capítulos em que a autora utiliza o recurso do flashback. Nesse momento, a coisa só piora. Há partes do livro em que a história é contada no passado. Até aí tudo bem. O problema é quando a personagem se recorda de algo que aconteceu lá atras, na sua infância por exemplo. E, acredite se quiser, no instante em que o texto vai para o antigo acontecimento, os verbos são grafados no presente. Convenhamos que é um absurdo, né?! No presente, os verbos estão no passado. E no passado, eles vêm no presente. Não faz sentido nenhum, senhoras e senhores. Em muitas páginas, a narração está no presente enquanto o complemento do discurso está no passado. Em outros trechos, é o contrário: a narração está no passado e o complemento do discurso aparece no presente. Confesso que não me lembro de ter visto em outro título literário com essa qualidade tal descompasso. Aos meus olhos, esse expediente pareceu equivocado, muito equivocado. O tempo verbal da narrativa deve coincidir com o tempo verbal do complemento dos diálogos. Para quem não sabe (ou não se recorda) o que é o complemento do discurso, informo que é aquela frase que segue a fala direta das personagens: Benjamim falou; o pai de Sofia perguntou; a menina quis saber etc. Por falar nos discursos (o segundo grande problema desta obra), achei que as falas das personagens de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” estão numa qualidade inferior à excelência de sua narrativa. Isso se deu, na minha visão, por alguns motivos. Em primeiro lugar, temos uma overdose de complementos aos diálogos. Muitas vezes, eles são desnecessários. Como exemplificação, vou usar uma cena hipotética que acabei de criar na minha mente. Nela, só estão presentes Benjamim e Sofia. Aí alguém fala: “– Benjamim, o que você está fazendo?”. É óbvio que essa fala só pode ser de Sofia, né? Até mesmo o leitor mirim sabe disso. Mesmo assim, Cíntia vai lá e tasca o complemento: “– Benjamim, o que você está fazendo? – perguntou Sofia”. Na sequência, a resposta só pode ser do garoto: “– Estou pensando no meu pai”. Sem se preocupar com a redundância, a autora novamente insere o aditivo: “– Estou pensando no meu pai – respondeu Benjamim”. Repito: não é preciso colocar algo desnecessário no texto literário. Em algumas sequências de páginas, quando os diálogos são longos e importantes, admito que essas partes desnecessárias dos discursos me deixaram um tanto nervoso. É claro que a criançada, o público-alvo do livro, pode não se incomodar tanto com isso quanto a galera com um paladar literário mais apurado. De qualquer maneira, acho importante respeitar a inteligência dos jovens leitores. Devemos cuidar da estética de uma história ficcional independentemente para quem a obra é dirigida. Não à toa, os grandes clássicos da literatura infantil e da literatura infantojuvenil são livros impecavelmente bem escritos e que instigam a imaginação da criançada. Basta analisarmos “O Gênio do Crime” (Global), de João Carlos Marinho Silva, “Meninos Sem Pátria” (Ática), de Luiz Puntel, “A Ilha Perdida” (Ática), de Maria José Dupré, “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), de José Mauro de Vasconcelos, “A Turma da Rua Quinze” (Ática), de Marçal Aquino, e “Marcelo, Marmelo e Martelo” (Salamandra), de Ruth Rocha, para vermos boas histórias embaladas de um jeito impecável. Selecionei um trecho de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” em que a problemática do complemento desnecessário do diálogo fica mais evidente. Ele está no comecinho do capítulo VI: – Adoro jogar futebol no campo com você e o Benjamim, pai – Sofia diz ao pai na volta para casa. – Também gosto muito, filha – responde o pai e a abraça. – Pena que o Benjamim não pode jantar lá em casa – comenta Sofia. – O Benjamim não pode passar o dia todo conosco. Ele tem que passar tempo com a família dele também – responde Leandro apertando a mão de Sofia. – Eu sei. Como era com seus irmãos em casa, pai? A tia Leila conta que vocês brincavam muito juntos – Sofia adorava ouvir as histórias de infância do pai. – Nós brincávamos e brigávamos muito! – ri Leandro. – Mas, sim, era bom ter meus irmãos por perto. Sempre tinha algo acontecendo, alguém para brincar, para conversar ou aprontar – riu novamente. – Por que hoje as pessoas têm menos filhos, pai? – pergunta Sofia. Acho que essa parte do romance explicita muito bem o que quero dizer. Note que além dos complementos desnecessários, há outros problemas graves: (1) excesso de vocativos (eita, família mais chata que toda frase da filha tem um “pai” e toda frase do pai tem uma “filha”); (2) se eles já estão dentro de casa, a menina jamais diria: “Pena que o Benjamim não pode jantar lá em casa” – certamente diria: “Pena que o Benjamim não pode jantar aqui em casa” ou “Pena que o Benjamim não pode jantar aqui com a gente”; (3) há duas frases consecutivas de Leandro que foram expressas em diferentes parágrafos, algo que desconfigura o diálogo tradicional (elas teriam que ser agrupadas); e (4) a boa e velha mistura temporal que já debatemos. Mas isso é tudo detalhe, Ricardo. Como você é chato! Pare de pegar no pé da pobrezinha da Cíntia!!! Calma lá! Não acho que se trata de meros detalhes, querido(a) e sempre participativo(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Chamo essa preocupação de cuidado com a narrativa ficcional. Construir boas conversas é papel dos bons escritores – grupo em que enquadro Cíntia Ertel desde já. Não dá para desenvolvermos boas narrativas e largarmos mão das conversas convincentes e bem formuladas. Veja como poderia ficar esse trecho: – Adoro jogar futebol com você e o Benjamim! – Também gosto muito, filha – Leandro abraça Sofia assim que entram em casa na volta do campinho. – Pena que o Benjamim não pode jantar com a gente. – Ele não pode passar o dia todo conosco. Ele tem a família dele. – Eu sei, eu sei. Como era com seus irmãos lá na casa do vovô e da vovó? – Sofia adora ouvir as histórias de infância do pai – A tia Leila conta que vocês brincavam muito juntos. É verdade? – Nós brincávamos e brigávamos muito! – Ri alto – Mas, sim, era bom ter meus irmãos por perto. Sempre tinha algo acontecendo, alguém para brincar, para conversar ou aprontar. – Por que hoje as pessoas têm menos filhos, pai? Perceba que uma mexida simples tornou o texto mais fluído e agradável para a leitura, sem perda de conteúdo. Como disse, esse é só um exemplo. Os problemas dos diálogos não são pontuais e sim gerais. Há muita coisa que poderia ser excluída. A professora apresenta Sofia para Benjamim nas primeiras páginas: – Benjamim, esta é Sofia. Sofia, você pode se sentar ao lado de Benjamim. Aí a garota fala com o menino: – Oi, Benjamim. Sou a Sofia. Nossa, você é ruivo! Será mesmo que ela repetiria seu nome (“sou a Sofia”), nesse diálogo? Tenho minhas dúvidas. Pelo jeito extrovertido dela, imagino que já chegaria falando: – Oi, Benjamim. Nossa, você é ruivo! Que legal. A baixa qualidade dos diálogos tem outros componentes. Há coincidências que afetam a veracidade da história. Será mesmo que as duas crianças seriam chamadas no mesmo dia de “pipoco” por seus pais e avós em casas distantes?! Acho difícil. Há citações que colocadas no meio da conversa se tornam inverossímeis. Por exemplo, Daniel fala para o filho: “porque meu pai, seu avô...”. Não! Nenhum pai que se preze falaria desse jeito com a criança. Certamente, ele diria: “porque seu avô...”. Esses são os problemas mais sérios de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!”. Os demais são coisas pequenas que não atrapalham de maneira nenhuma a experiência literária. Dá para citar como tropeços mínimos a overdose de pronomes possessivos (seu/sua/seus/suas e meu/minha/meus/minhas), o equívoco de uma palavra ou outra (algumas de ordem narrativa e outras politicamente incorretas) e alguns trechos não tão bem trabalhados quando pensamos na estética textual. No quesito palavras mal colocadas, no começo do livro é dito que “Benjamin era bem alto para a idade e bem magrinho, de cabelo ruivo e óculos azuis” (página 15). Contudo, fiquei com a impressão de que o correto seria dizer que seus olhos eram azuis e não os óculos. Por quê? Porque as ilustrações não mostram os tais óculos azuis. E para um garoto ruivo, as chances de ter olhos azuis crescem substancialmente. Ou não?! Mais à frente, a descrição é da outra protagonista: “Sofia é mulata, de cabelos cacheados e olhos verdes” (página 16). Além do problema que já comentamos do tempo verbal (enquanto a parte de Benjamin está no passado, a da menina está no presente), usar a palavra “mulata” pode suscitar algumas polêmicas. Sinceramente, eu usaria o termo “morena” para evitar qualquer tipo de melindre dos leitores que procuram racismo em determinadas expressões. Quanto as passagens mal formuladas, leia o trecho a seguir: Depois que os pais de Benjamin se separaram, Daniel passava mais tempo ainda envolvido com seu hobby de conhecer o espaço. Benjamin, como o pai, também passou a se aprofundar mais no seu hobby que tinha desde pequeno. O hobby do pai era um espelho para o Benjamin (Página 55) . Pela qualidade da escrita de Cíntia, tenho a certeza de que ela conseguiria evitar as palavras repetidas (pai, hobby e Benjamim – cada uma delas expressa três vezes em três frases consecutivas) e a construção de frases mais dinâmicas (para evitar a sensação de uniformidade da construção verbal e dos verbos empregados). Talvez o meu detalhamento do que poderia ser melhorado neste romance passe a impressão de que ele não é uma ótima publicação. Por favor, se você ficou com essa sensação, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias , tire imediatamente o cavalinho da chuva. Porque “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” é sim um livrão. E falo isso com alguma propriedade de causa. Apesar de não ser especialista em literatura infantil e literatura infantojuvenil, como expliquei no início deste post, tenho lido bastante obras desse gênero nos últimos três anos. O motivo é a produção das temporadas finais do Talk Show Literário . Daí meu mergulho no universo ficcional da criançada. Acho realmente que Cíntia Ertel é uma excelente escritora e vem produzindo um portfólio bem interessante. Saiba que não é fácil lançar um novo título anualmente, seu ritmo atual de publicação. Por isso, a excelência de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” não me pareceu fruto do acaso. Inegavelmente, “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” é o trabalho literário mais ambicioso de Cíntia. Escrever algumas centenas de páginas para o público infantojuvenil é muito diferente de escrever dezenas de páginas para o público infantil. Assim como migrar da literatura infantojuvenil para a literatura adulta exige novas configurações de escrita. Além do(a) autor(a) precisar de mais fôlego narrativo em cada mudança, ele(a) utiliza um maior número de ferramentas ficcionais . Nem sempre é fácil fazer essa transição. Curiosamente, Cíntia Ertel fez o mais difícil: apresentou excelentes personagens, trouxe um conflito forte e impactante, demonstrou fôlego narrativo e construiu um drama cativante. No meu ponto de vista, os problemas de “O Menino que Vivia no Mundo de... Marte!” foram meramente de edição e de acabamento textual. Adorei tanto essa história que quando fechei o livro fiquei pensando nas possibilidades de transformá-la numa série literária. Afinal, há elementos de sobra para isso. Gostaria de saber mais sobre: o destino de Gonçalo e Felipe, os amigos encrenqueiros de Pascoal; a vida e o passado de Akira, o novo amigão de Benjamin e Sofia; e, principalmente, os futuros trabalhos de Martina e Lílian, as educadoras sensíveis e competentes da escola. Como já disse e repeti um milhão de vezes, fiquei fã das duas. O retrato mais evidente de quando gostamos de uma história é a sensação de tristeza quando ela acaba. Talvez essa constatação explique minha vontade de ter o livro transformado em série. Não sei se Cíntia Ertel irá por esse caminho. Até acho que não. Certamente, ela já está pensando em outras narrativas e em novas possibilidades dentro da escrita ficcional. E isso é ótimo! Feliz dos leitores que possuem autores que estão sempre buscando novidades temáticas e a diversificação do portfólio literário. O que eu posso fazer no papel de crítico literário é seguir acompanhando atentamente o trabalho dessa ótima revelação da ficção do nosso país. Que venham mais narrativas saborosas e inteligentes, senhoras e senhores! A literatura brasileira agradece. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Recomendações: Músicas – Canções românticas em espanhol para o inverno
Confira a coletânea de 15 faixas em castelhano que fala de amor e que tem a propriedade de aquecer os corações enamorados na estação mais fria da temporada. Daqui a mais ou menos um mês, o inverno baterá à porta dos moradores do hemisfério sul do planetinha azul. Confesso que, tal qual a formiga da parábola de Jean de La Fontaine, já estou preocupado com a queda acentuada das temperaturas. Morando em uma cidade gelaaaaaaaada e sendo solteeeeeeeeiro, costumo bater os dentes e a tremer com os braços auto abraçados nesta época do ano. Obviamente, a culpada é sempre a temida e implacável friaca portenha. Nesse cenário que lembra bastante os quadrinhos de Héctor Germán Oesterhelds, minha mente é dominada por só um questionamento: qual a melhor solução para não congelar em Mi Buenos Aires Querido? Alguns podem dizer que a alternativa mais adequada é se encapotar antes de botar os pés na rua. Ou ligar o aquecedor quando estiver na residência. Como nunca tive lareira em casa, sequer cogito essa opção mais charmosa. Será que reforçar as xícaras matutinas de café e aumentar as doses de chocolate quente à noite ajudam? Talvez. Para os fãs das bebidas etílicas, vinho Malbec é uma saída para lá de prazerosa. Assim como o reforço nas cobertas e um bom jantar (de preferência com carne dos Pampas) são essenciais para se dormir quentinho. Pelo menos são essas as formas que a galera não abstêmia nem vegetariana se vira na capital argentina – meu lar desde 2023. Procurar o sol nos horários mais propícios (do meio-dia às três da tarde) também é outra ideia interessante. Para o grupo dos atletas profissionais e amadores, um bom exercício é tiro e queda para espantar o frio insistente (e a preguiça invernal). Admito que corridinhas no Parque de Saavedra e longas caminhadas na Costanera de Vicente López fazem parte da minha rotina há um bom tempo. Todas essas medidas são realmente imprescindíveis, ainda mais para os brasileiros, que como eu, são/estão pouco acostumados ao flerte dos termômetros com o número zero da escala Celsius. Mesmo com essa série de medidas preventivas, reforço a necessidade de um bom cobertor de orelha para que não sucumbamos aos efeitos aterrorizantes da estação mais traiçoeira da temporada. Leiz, vocalista da Turma do Pagode, cantaria empolgado: “Tá faltando alguém/ Dessa situação eu já virei refém/ Preciso de alguém que me dê calor/ E à noite, agarradinhos, só curtindo o amor/ Pra esquecer da vida, filminho comigo/ Cobertor de orelha, sem papo de amigo/ E quando a luz apagar, xi/ Aí a gente vai deixar rolar, deixa rolar/ Pra esquecer da vida, filminho comigo/ Cobertor de orelha/ Sem papo de amigo e quando a luz apagar/ Aí a gente vai deixar rolar”. Ter uma boa companhia, dormir de conchinha e praticar o enlaçamento de corpos possuem inúmeras vantagens que vão além do aquecimento epidérmico. Acalentar a alma com a presença de alguém especial, cativar o coração que insiste em acelerar, potencializar a mente com interações inteligentes, enobrecer o espírito com a pessoa querida, sonhar com um futuro em conjunto e partilhar momentos especiais à dois são alguns benefícios evidentes. E são fundamentais para que não acabemos como Jack Torrance, personagem de Stephen King imortalizada no cinema por Jack Nicholson. Por vezes, me sinto em “O Iluminado” (Suma das Letras), clássico contemporâneo da literatura de terror, quando os termômetros despencam. Para aqueles que estão com o espírito romântico aflorado (uma das consequências naturais da chegada do inverno) ou que precisam desenvolver essa habilidade (é o meu caso), preparei hoje uma coletânea especial de canções para a coluna Recomendações . A ideia é listar 15 músicas em espanhol que falam de amor . Acredito que este novo post do Bonas Histórias (que tem um pé na coluna Músicas ) criará o clima propício para tocar os corações solitários e as almas sonhadoras. Para ninguém me acusar de enrolação, já chego apresentando a trilha sonora romântica em castelhano que selecionei com bastante carinho. Meu critério de eleição foi meu gosto pessoal (que muitos amigos e familiares chamam de desgosto pessoal). Todas as faixas da lista estão na minha playlist diária e são de cantores que curto bastante. Então, chega de blábláblá e vamos às músicas românticas em espanhol para aquecer este inverno. Aí vão os hits, senhoras e senhores: Música 1: "Hacer Un Puente" – 2011 – Pop/Rock – La Franela – Argentina Admito que não conheço à fundo o repertório do La Franela, uma das principais bandas contemporâneas do pop-rock argentino. Ainda assim, fiquei fã de Daniel Fernández e de seus companheiros por causa de “Hacer Un Puente”. Lançada na década passada, essa música romântica tem alguns versos impactantes, além de uma melodia cativante. Destaque para: Si te veo amor del otro lado/No voy a dudar todo lo que veo/ Más todo lo que siento e Si te veo amor del otro lado/ Yo voy a cruzar/ Todo lo que tengo/ Es todo lo que intento . Música 2: "Me Gustas Tu" – 2001 – Reggae/Bachata – Manu Chao – França Manu Chao é um dos meus músicos favoritos. Poderia inserir várias de suas canções nesta coletânea. Contudo, preferi recorrer à faixa mais exitosa do cantor francês que tem a alma e o jeitão da América Latina. Com quase um quarto de século de vida, “Me Gustas Tu” é ao mesmo tempo divertida, romântica e fofinha. Por que a selecionei? Ora, porque me gusta la letra, me gustas tú . Me gusta la melodía, me gustas tú . Me gusta Carolina, me gustas tú . Me gusta café, me gustas tú . Me gusta Colombia, me gustas tú . Música 3: "Hasta La Raíz" – 2015 – Eletropop – Natalia Lafourcade – México A voz mais doce da música mexicana é da encantadora Natalia Lafourcade. Tenho a impressão de que qualquer faixa romântica que ela interprete fica perfeita. Estaria eu apaixonado por Nati? Talvez. O que eu posso assegurar com maior precisão é que "Hasta La Raíz" é um hino dos corações que batem mais forte. Para eles, digo: Yo te llevo dentro, hasta la raíz/ Y por más que crezca, vas a estar aquí/ Aunque yo me oculte tras la montaña/ Y encuentre un campo lleno de caña/ No habrá manera, mi rayo de Luna/ Que tú te vayas, que tú te vayas. Música 4: "No Hay Dolor" – 2002 – Rock – No Te Va Gustar – Uruguai Minha banda uruguaia de rock favorita é o No Te Va Gustar. No final do ano passado, eles completaram 30 anos de existência. Seu repertório é formidável e com vários sucessos. Adoro, por exemplo, “Rata”, “Chau”, “Clara", "Cero a La Izquierda" e "Cielo de Un Solo Color". Minha faixa preferida é “No Hay Dolor”. Aí alguém pode reclamar: “Mas essa música não é romântica, Ricardo!”. Será? Juro que quando a ouço me vem à mente um casal apaixonado se unindo para encarar juntos os desafios do mundo. Quando se encontra a outra metade da laranja, ya no hay dolor, ya no hay dolor, ya no duele y no va a doler . Música 5: "Mariposa Traicionera" – 2002 – Pop/Rock – Maná – México Quando penso em música romântica em espanhol, automaticamente me vem à mente o pessoal do Maná. A banda mexicana de pop-rock é ótima e marcou os anos 1980 e 1990. Seus melhores trabalhos são: “Labios Compartidos”, “Eres Mi Religión”, “Mi Verdad”, “Rayando El Sol” e “Te Lloré Un Río”. Curiosamente, a canção que mais gosto do Maná é talvez a menos romântica de seus êxitos: “Mariposa Traicionera”. Ela fala de um amor não correspondido por alguém, digamos, um tanto volátil. Mesmo sabendo dessa contradição, adoro cantar: Yo soy ratón de tu ratonera/ Trampa que no mata, pero no libera/Vivo muriendo prisioneiro e Ay, mariposa de amor/ Mi mariposa de amor/ Ya no regreso contigo . Música 6: "Anoche Soñé Contigo" – 2007 – Pop/Rock – Kevin Johansen – Argentina É difícil apontar qual é a melhor música romântica de Kevin Johansen . O cantor argentino tem preciosidades como “Cumbiera Intelectual” (beso Sub-30), “Desde Que Te Perdí” (que é mais música de fossa do que de amor), “No Diga Quizás” e “Amor Finito”. Poderia muito bem ter escolhido qualquer uma delas para minha lista romântica de hoje que não me arrependeria. Entretanto, optei por "Anoche Soñé Contigo". O critério utilizado foi a necessidade de uma canção verdadeiramente calorosa. Para tal, o amor platônico, a pegada onírica e a beleza poética dos versos são ingredientes indispensável para espantar a noite gelada que compromete os corações mais enamorados. Y dale "Anoche Soñé Contigo"! Música 7: "Ojos Color Sol" – 2014 – Hip Hop/Rap – Calle 13 – Porto Rico Na minha opinião, a melhor canção do pessoal do Calle 13, banda porto-riquenha de hip hop e rap, é “Ojos Color Sol”. Admito que não sei o que é mais romântico: a letra desta música ou a estética surreal de seu videoclipe. Talvez a resposta mais adequada seja aquela que fique na coluna do meio e considere as duas alternativas anteriores em conjunto. La Luna sale a caminar, siguiendo tus pupilas/ La noche brilla original después que tú la miras/ Ya nadie sabe ser feliz a costa del despojo/ Gracias a ti y a tus ojos. Impossível ouvir essa faixa só uma vez, senhoras e senhores. Música 8: "La Bicicleta" – 2017 – Vallenato – Carlos Vives e Shakira – Colômbia "La Bicicleta", hit de vallenato dos colombianos Carlos Vives e Shakira, até fala de amor na maior parte dos versos. Ainda assim, não sei se posso considerá-la como uma canção estritamente romântica. Como gosto de seu refrão ( Una cartica que yo guardo, donde te escribí/ Que te sueño y que te quiero tanto/ Que hace rato está mi corazón/ Latiendo por ti, latiendo por ti) e sou apaixonado por Shaki (e, por supuesto , por suas bailarinas), tenho certeza de que "La Bicicleta" tem o poder de aquecer os corações apaixonados nesse inverno. Beijo, Bruxinha! Música 9: "El Tesoro" – 2017 – Rock – Él Mató a Un Policía Motorizado – Argentina Ah, paso todo el dia pensando en vos/ Ah, qué hay de malo en todo esto?/ Ah, paso todo el dia pensando en vos/ Ah, vos pensás que pierdo el tiempo. Não há nada mais contraditório do que uma policial argentina ter como banda de rock favorita um grupo chamado Él Mató a Un Policía Motorizado, né? Pensando bem, em se tratando das infinitas contradições da nação que escolhi para viver, essa é só mais uma de tantas maluquices. Depois que me cansei de ouvir a playlist dos rapazes do EMAUPM, comecei a curtir "El Tesoro". Ah, todo lo que hago es para vos/ Ah, el tesoro se esta hundiendo/ Ah, todo lo que hago es para vos/ Ah, vos pensás que pierdo el tiempo . Sim, Él Mato também tem canções românticas. Às vezes, é muito difícil entender a Argentina, pessoal. Música 10: "La Mujer Perfecta" – 2019 – Pop Romântico – Kurt – México Sei que "La Mujer Perfecta", canção mais famosa de Kurt, não é um primor da música internacional. Mesmo assim, eu a adoro. Não sei o que ela tem de tão encantadora. Seria a letra leve e descontraída? Ou a melodia animada? Ou seria a interpretação do cantor mexicano? Ou mesmo a beleza estonteante da atriz do videoclipe? Não sei precisar. Só sei que es tan bonita, que le da celos al cielo/ Le va bien lo que se ponga/ Y no arregla su cabello . Talvez isso explique a força dessa faixa para os corações apaixonados. Déjame explicarte que te quiero/ Y no te conozco, no te tengo/ Déjame contarte que te sueño/ La mujer perfecta para mí. Música 11: "El Duelo" – 1995 – Rock – La Ley – Chile "El Duelo" é a baladinha roqueira dos chilenos dos La Ley que soa politicamente incorreta aos ouvidos do público de hoje. Afinal, quem irá concordar com os assustadores versos: Me obligó a azotarte tiernamente/ Sin dolor no te haces feliz/ Sin dolor no te haces feliz/ Sin amor/ No sufres más e Me obligó a matarte lentamente/ Sin dolor no te haces feliz/ Sin dolor no te haces feliz/Sin amor/ Tiernamente ?! Antes que me chovam críticas, informo que ouço a letra deste megassucesso chileno de maneira metafórica. O meu instinto taurino quase sempre acaba com um amor em nome dele mesmo. E sem agressões nem relacionamentos tóxicos. Fazer o quê? Como diria Marcelo Camelo, todo Carnaval tem o seu fim. Música 12: "El Mareo" – 2007 – Tango Eletrônico – Gustavo Cerati e Bajofondo Tango Club – Argentina/Uruguai Se você acha o tango um gênero musical antigo e decadente, por favor não converse comigo. Sou fãnzaço dos clássicos do ritmo que é sinônimo de Argentina e Uruguai. Curto tanto que não me incomodo com suas versões mais modernosas. Prova disso é que adoro “El Mareo", o maior êxito comercial da galerinha do Bajofondo Tango Club. A união de batida eletrônica com os versos passionais deste Tangão do século XXI é incrível. Con los ojos no te veo/ Se que se me viene el mareo/ Y es entonces/ Cuando quiero/ Salir a caminar. Impossível o coração não bater mais forte ao ouvir essa faixa. Música 13: "Estoy Enamorado” – 2009 – Pop Romântico – Thalia e Pedro Capó – México/Porto Rico Para quem possa alegar que estou sendo pouco emotivo na minha lista de músicas românticas (admito que tenho o coração peludo na maior parte do tempo), aí está uma água com açúcar. No caso, uma água com um caminhão de açúcar. “Estoy Enamorado” é o maior sucesso de Thalia, cantora mexicana famosa pelas canções que falam das alegrias e das tristezas dos relacionamentos à dois. Curiosamente, os brasileiros conhecem essa música pela adaptação que alguns sertanejos fizeram. Se esse é o seu caso, ouça a proposta original de "Estoy Enamorado”. Que estoy enamorado/ Tu amor me hace grande/ Que estoy enamorado/ Y qué bien, qué bien me hace amarte. Música 14: "Loco Tu Forma de Ser” – 1989 – Pop/Rock – Los Auténticos Decadentes – Argentina Nesta minha lista, quase todas as composições são do século XXI. Só há duas exceções: uma de meados da década de 1990 e outra do final dos anos 1980. A mais antiga é justamente “Loco Tu Forma de Ser”, um dos principais sucessos dos Los Auténticos Decadentes. Sempre que ouço essa música argentina, confesso que bate um saudosismo de minha adolescência (e dos infinitos foras que recebi ao longo da vida). Viniste a mí, tomaste de mi copa/ Me sonreíste así, nadando en tu demencia/ No sabía qué hacer, yo te traté de besar/ Me pegaste un sopapo y te pusiste a llorar. Outra vez uma canção antiga tem um quê de agressão e de importunação. Meu Deus, será que ninguém via essas coisas naquela época?! Música 15: "La Trama y El Desenlace” – 2010 – Pop/Rock – Jorge Drexler – Uruguai Admito que não ouvia tanto Jorge Drexler. Passei a acompanhar mais o músico uruguaio depois que a playlist do Spotify começou a tocar algumas parcerias dele com Kevin Johansen , meu cantor argentino favorito. E das canções de Drexler, “La Trama y El Desenlace” é a que mais me agrada. Ir y venir, seguir y guiar, dar y tener/ Entrar y salir de fase/ Amar la trama más que el desenlace/ Amar la trama más que el desenlace . Antes que alguém proteste que essa letra não é romântica, garanto que a ouço com um sentido sentimental. Por se tratar de versos abertos, há várias interpretações possíveis. A minha é de cunho afetivo. Quem disse que não sou amoroso e piegas, hein? Depois do desfile de 15 músicas românticas (ou pretensamente românticas), desejo um ótimo e quente inverno a todos os coraçõezinhos que pulsam. Até à próxima, pessoal! 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