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- Premiações: Jabuti 2020 - Surpresas e polêmicas
Em uma boa premiação literária, não podem faltar surpresas e polêmicas. Esses dois componentes são inerentes a qualquer competição na qual a subjetividade integra os critérios de avaliação. O que não se pode é exagerar na dosagem desses elementos. E essa talvez tenha sido a grande peculiaridade do Prêmio Jabuti de 2020, a principal honraria da literatura brasileira. No finalzinho de novembro, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade responsável pela premiação, anunciou os escritores e os livros vencedores da 62ª edição do Jabuti. E, obviamente, junto com a entrega das estatuetas, vieram os questionamentos e as críticas. Até aí normal. O que impressiona é a lista interminável de confusões protagonizada pelo prêmio em todas as suas fases: concepção, divulgação dos critérios, análise das obras e, por fim, revelação dos vencedores. Confesso que há muito tempo não via algo tão caótico (fora dos corredores de Brasília). Antes de falarmos dos premiados, façamos uma retrospectiva breve das polêmicas da última edição do Jabuti. No início do ano, o anúncio da criação de uma nova categoria, a literatura de entretenimento, dividiu o mercado editorial ao meio. Muita gente foi contra a segregação dos livros entre “alta cultura” e “baixa cultura”, o que oficializaria certo preconceito (julgamento prévio das publicações) por parte do setor. Porém, muita gente foi a favor da nova categorização, dizendo que essa separação já estava consolidada na cabeça de leitores, autores e editores. Além disso, alegava o segundo grupo, muitos prêmios pelo mundo a fora já usavam esse critério. Gostemos ou não, as narrativas longas têm agora essa distinção conceitual – romance de literatura versus romance de entretenimento. Ao que tudo indica, essa distinção veio para ficar no Brasil. Alguns meses depois, uma enxurrada de reclamações exigiu a saída de Pedro Almeida da curadoria do prêmio. Almeida, como um bom bolsonarista que se preze, utilizou as redes sociais para falar muita besteira e foi envenenado pela própria língua (ou teria sido envenenado pelos dedos?!). A comunidade literária não perdoou os escorregões do intelectual (?), provando que há ainda setores na sociedade nacional que são contrários à idolatria torpe a figuras pobres de ideias, que desprezam os valores sociais e não manifestam qualquer apreço pela vida humana. Como resultado, a cabecinha de Pedro Almeida rolou ladeira abaixo – ele renunciou ao cargo, depois de pedir desculpas publicamente. Quando todo mundo achava que as polêmicas tinham, enfim, cessado, a CBL divulgou que a maioria das inscrições ao prêmio foi feita incorretamente e, assim, muitas obras foram eliminadas já no primeiro filtro de avaliação. A repercussão foi novamente negativa. Aos olhos do grande público e do mercado editorial, se grande parte dos postulantes ao prêmio não atendeu aos critérios burocráticos da comissão da Câmara Brasileira do Livro, o problema parecia estar mais no lado das definições conceituais e nos processos dos organizadores do que na postura e ações dos inscritos. Mesmo sob a chiadeira geral, a decisão de desclassificar muitos livros participantes não foi revogada. Entre tropeços e percalços, chegamos ao dia da premiação. Em 26 de novembro, uma cerimônia virtual (condizente, portanto, com os tempos atuais de quarentena e de distanciamento social) foi apresentada pela jornalista Maju Coutinho. Coube à estrela global divulgar os vencedores do Prêmio Jabuti de 2020. E, mais uma vez, surpresas saltaram aos olhos (como diria o velho lobo – fomos surpreendidos novamente!). Emulando o Oscar de 2017, essa edição do Jabuti foi uma das mais engajadas da história. As principais estatuetas foram dadas para escritores e livros que combatem o racismo e enaltecem a negritude e a resistência quilombola. Em um país que só agora está descobrindo muitos preconceitos estruturais, trata-se de uma postura elogiável da CBL. Além do mais, esse é um dos temas do momento não apenas em nossa sociedade como em muitos países ocidentais. O problema, na visão de alguns críticos literários e de personalidades influentes do mercado editorial, é que as escolhas finais da comissão organizadora foram feitas mais para agradar a opinião pública do que para valorizar os melhores títulos – a finalidade principal da premiação. Sob esse ponto de vista, mais importante do que a qualidade das publicações é a sua temática e o perfil dos autores. Ao jogar apenas para a torcida, a Câmara Brasileira do Livro estaria cometendo um novo erro – se no passado discriminava certos livros e escritores, agora estaria dando preferência a eles. Parece-me um exagero (além de ser uma grande injustiça aos vencedores – já ouviu falar de choro de perdedor?!) querer desqualificar os premiados. De qualquer maneira, uma coisa eu tenho certeza entre tanto bafafá: as polêmicas da última edição do Prêmio Jabuti parecem não ter fim. Depois de narrar a trajetória tumultuada da edição desse ano do prêmio da CBL, falemos agora do mais importante – os premiados! Afinal, é isso o que todo mundo quer saber. Segue, abaixo, a lista dos vencedores do Prêmio Jabuti 2020 nas principais categorias: - LIVRO DO ANO – “Solo para Vialejo” (Cepe Editora) – Cida Pedrosa. - ROMANCE LITERÁRIO – “Torto Arado” (Todavia) – Itamar Vieira Júnior. - ROMANCE DE ENTRETENIMENTO – “Uma Mulher no Escuro” (Companhia das Letras) – Raphael Montes. - CONTO – “Urubus” (Confraria do Vento) – Carla Bessa. - CRÔNICA – “Uma Furtiva Lágrima” (Record) – Nélida Piñon. - INFANTIL – “Da Minha Janela” (Companhia das Letrinhas) – Otávio Júnior. - JUVENIL – “Palmares de Zumbi” (Editora Nemo) – Leonardo Chalub. - POESIA – “Solo para Vialejo” (Cepe Editora) – Cida Pedrosa. - HISTÓRIAS EM QUADRINHOS – “Silvestre” (Darkside) – Wagner William Menezes de Araújo. Parabéns aos vencedores e à literatura brasileira. Desejamos que a 63ª edição do Prêmio Jabuti seja realizada sem tantas confusões, polêmicas e, o mais importante, com a volta da normalidade. Seja bem-vindo 2021! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? 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- Livros: A Confissão de Lúcio - A novela mais famosa de Mário de Sá-Carneiro
Nesse final de semana estou no sul de Minas Gerais e aproveitei a viagem de pouco mais de cinco horas de São Paulo para cá para ler este clássico da literatura portuguesa. “A Confissão de Lúcio” (Nova Fronteira) é a principal obra de um dos fundadores do movimento modernista de Portugal, Mário de Sá-Carneiro. Para quem não conhece esse escritor, Sá-Carneiro foi contista, poeta, romancista, tradutor e dramaturgo de grande destaque nas duas primeiras décadas do século XX. Vivendo entre Paris e Lisboa, o rapaz nascido na capital portuguesa em 1890 participou do lançamento da revista Orpheu, na qual publicou o polêmico poema “Manucure”, de estilo futurista. Suas obras mais importantes foram: “Princípio” (1912), “Dispersão” (1914) e “A Confissão de Lúcio” (1914). As cartas trocadas com o seu melhor amigo, o poeta Fernando Pessoa, também se transformaram, após a morte precoce de Sá-Carneiro, em um livro de cunho biográfico. Em “A Confissão de Lúcio”, temos quatro dos principais temas da literatura e da poesia do escritor modernista: o suicídio, o amor proibido, a inadequação do “eu” na sociedade e a loucura. Essa obra é uma novela policial em que se narra o assassinato do poeta Ricardo de Lourenço e a condenação/prisão do escritor Lúcio Vaz, o narrador-protagonista da trama (o melhor amigo do homem assassinado). O livro começa com a carta de confissão de Lúcio. A mensagem é produzida depois que o escritor cumpre os dez anos de reclusão nos quais fora condenado pela morte do amigo. Agora posto em liberdade, ele se sente preparado para narrar o que realmente aconteceu. E aí ele se declarada inocente do crime. Para explicar os acontecimentos que precipitaram no assassinato de Ricardo, o narrador-personagem percorre aos principais lances da vida de ambos: quando se conheceram em Paris, a consolidação da amizade na capital francesa e o retorno da dupla para Lisboa. Quando Lúcio volta para a sua cidade, ele reencontra o melhor amigo casado com a misteriosa Marta. A esposa de Ricardo é um grande mistério para Lúcio, desencadeando uma obsessão/loucura para saber a origem daquela mulher. De repente, Lúcio se vê atraído por Marta e os dois iniciam um relacionamento clandestino. Em baixo dos olhos do marido traído, os amantes levam a diante uma tórrida paixão. O livro demora um pouco para engrenar. Somente na segunda metade, ele se torna interessante (esse é o momento no qual inicia-se o triângulo amoroso). Até então, o foco da narrativa são os diálogos filosóficos-psicanalíticos dos dois amigos. Cada um dos personagens aborda questões relevantes e secretas da sua personalidade. Apesar de um pouco enfadonho, compreender exatamente o que se passa na cabeça dos amigos Ricardo e Lúcio, nesse momento, é fundamental para compreender o desfecho da história. Para quem leu “Madame Bovary” e “Primo Basílio, por exemplo, perceberá que a traição de Lúcio e Marta possui elementos completamente singulares em relação àqueles, o que enriquece a obra de Sá-Carneiro. Ás vezes, acreditamos que a novela possui elementos autobiográficos, pois a narrativa da relação entre o escritor (Lúcio – possivelmente Mário) e o poeta (Ricardo – possivelmente Fernando Pessoa) é riquíssima em detalhes e em aspectos psicológicos. O que mais gostei desse livro foi seu final. Sabe aqueles finais que o fazem pensar por uma semana?! Pois acabei a obra ontem e ainda estou refletindo sobre ela... Quem ainda não leu o livro sugiro pular diretamente para o último parágrafo dessa crítica, pois no próximo parágrafo vou contar o spoiler dessa história. A minha interpretação do final é que o caso romântico não era entre Lúcio e Marta e sim entre Lúcio e o próprio Ricardo (isso explica o misterioso aparecimento da mulher do amigo e a falta de “passado” dela). Marta seria a personalidade afeminada (feminina) de Ricardo, aflorada nos encontros românticos com seu amigo. Ou seja, essa história é mais parecida com “O Retrato de Dorian Gray” (pela questão do homossexualismo) do que com “Madame Bovary” (pela questão da traição conjugal). Isso, porém, iremos perceber apenas no final, nas últimas linhas. “A Confissão de Lúcio” é um livro curto (novela com 100 páginas), porém intenso. Sua leitura requer concentração e certo interesse para desvendar as mensagens subliminares contidas em toda a sua extensão. Ele pode parecer um pouco chato no início, mas vale a pena o leitor prosseguir na leitura. É uma grande obra! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MáriodeSáCarneiro #Novela #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Drama
- Livros: Mensagem - A obra-prima de Fernando Pessoa
A maioria dos brasileiros conhece os versos de “Mar Português”, um dos poemas mais famosos de Fernando Pessoa. Há quem os tenha decorado: “Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!/Por te cruzarmos, quantas mães choraram/Quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar!/Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena./Quem quer passar além do Bojador/Tem que passar além da dor./Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/Mas nele é que se espelhou o céu.” Estes versos são realmente incríveis. Impossível não se emocionar com sua leitura. Paradoxalmente à fama dos versos de Fernando Pessoa, pouca gente deste lado do Atlântico leu efetivamente o livro em que este poema foi publicado. Infelizmente, a maioria da população brasileira não conhece sequer o título da obra onde o poema foi editado. Coisas de Brasil... Para sair dessa vergonhosa estatística, li, ontem à tarde, “Mensagem” (L&PM Pocket), a principal obra do maior poeta português do século XX. Agora, aproveito este post do Blog Bonas Histórias para compartilhar com vocês minhas impressões sobre este livro. Publicado em 1934, “Mensagem” chegou às livrarias portuguesas um ano antes da morte de Fernando Pessoa e um ano após a criação do Estado Novo, governo de estilo fascista de Oliveira Salazar. Curiosamente, este é o único livro em língua portuguesa publicado em vida por Fernando Pessoa. O restante de sua obra literária (inclusive os materiais de seus 72 heterônimos) só foi descoberto nos baús da casa do poeta após seu falecimento. A importância de “Mensagem”, contudo, vai além dessa posição de exclusividade. Sua relevância está nos prêmios conquistados, no seu tempo de desenvolvimento e na ambição de sua proposta artística. Vale lembrar que a publicação ganhou, em 1934, o Prêmio Antero de Quental na categoria poema, uma das principais honrarias que um escritor português pode almejar. Ou seja, no final da vida, Fernando Pessoa já era visto como um dos grandes escritores contemporâneos de seu país. Ano a ano, após seu falecimento, sua dimensão artística só aumentou, fazendo dele um dos maiores de toda a história da literatura lusitana. “Mensagem” reúne os poemas escritos por Fernando Pessoa entre 1913 e 1934. São mais de duas décadas de desenvolvimento do livro. Não é errado afirmarmos que se trata de uma produção que consumiu boa parte da vida do poeta. Ao longo deste período, o escritor pesquisou, criou, alterou e maturou seus textos, em um trabalho classificado como árduo. No início, a coletânea de poemas se chamaria “Portugal”. Somente no final da empreitada ela ganhou o título atual. O mais interessante, em minha opinião, foi a ambição de Fernando Pessoa com “Mensagem”. O escritor simplesmente desejava superar Luís Vaz de Camões e seu “Os Lusíadas” com este livro. Admitamos que a pretensão não era pequena... Suplantar a maior criação da literatura portuguesa e o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos não era tarefa fácil. Apesar de não ter conseguido alcançar esse patamar (na verdade, mesmo sendo uma obra-prima, “Mensagem” está a léguas de distância de rivalizar com “Os Lusíadas”), não podemos dizer que Pessoa não foi feliz com esta criação. Diferentemente do que muitos imaginam, “Mensagem” não é uma epopeia (como é “Os Lusíadas”, por exemplo). O livro de Fernando Pessoa é uma coletânea de poemas que analisa e comenta a história de Portugal, projetando um futuro glorioso para a nação mais ocidental da Europa. As diferenças para uma epopeia estão na estrutura menos fixa e na multiplicidade de vozes (algo impensável em uma obra épica). O que amarra os textos deste livro é sua temática ufanista, sebastianista, mística e utópica. É verdade também que “Mensagem” mistura muitos gêneros narrativos. O livro possui características líricas, dramáticas e épicas, constituindo uma obra extremamente singular tanto dentro do portfólio do escritor quanto no conjunto de títulos em língua portuguesa publicados no século XX. “Mensagem” está dividida em três partes. Na primeira, chamada de “Brasão”, temos uma retrospectiva da formação da nação portuguesa. Aqui, Fernando Pessoa evoca os reis, as rainhas, os príncipes e os militares responsáveis pela fundação e pela consolidação de Portugal como uma pátria independente. De uma maneira genérica, essas grandes personalidades (Ulisses, Viriato, D. Henrique de Borgonha, Dona Teresa de Castela, D. Afonso I, D. Dinis I, D. João I, D. Duarte I, D. João I, D. Sebastião, Afonso de Albuquerque, etc.) cantam, cada um em um poema diferente, suas façanhas e seus triunfos históricos. Essas evocações não seguem uma ordem cronológica nem se atem aos fatos históricos (Ulisses, por exemplo, é considerado o fundador de Lisboa – algo que não passa de uma lenda portuguesa). A primeira parte da coletânea possui quase que metade dos poemas do livro. São 19 nesta seção. A segunda parte, intitulada de “Mar Português”, os heróis lusitanos deixam de ser a família real e passam a ser os navegadores que desbravaram os oceanos do mundo para expandir o território do país. Os versos mencionam as grandes conquistas marítimas de Portugal. Novamente, cada poema é dedicado a uma personalidade, que pode “cantar” seus feitos. Temos aqui Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães, entre outros. Essa é a menor parte da coletânea, com apenas 12 poemas. A terceira e última parte do livro é chamada de “Encoberto”. Se até então Fernando Pessoa fez a recapitulação da história do seu país, a partir desses versos ele irá olhar para o futuro. Os tempos de glória de Portugal voltarão, segundo o poeta, quando D. Sebastião regressar. O rei lusitano que sumiu na África no século XVI, voltará e transformará seu país no Quinto Império, conforme mencionado no Antigo Testamento. Ou seja, agora o texto de “Mensagem” se torna mais místico e utópico. “Encoberto” é um dos apelidos de D. Sebastião. Nesta última parte da coletânea, temos 13 poemas. “Mensagem” é um livro extremamente curto. Em pouco mais de 100 páginas, temos 44 poemas de tamanho reduzido (raramente eles ultrapassam os 12 versos). Os versos são concisos e recheados de elementos simbólicos, o que dificulta em muito a compressão dos leitores contemporâneos e daqueles que não conhecem em profundidade a história de Portugal. Se considerarmos simplesmente sua extensão, é possível ler “Mensagem” em menos de uma hora. Contudo, a leitura se torna muito mais lenta porque é preciso muita atenção aos versos e uma boa pesquisa as incontáveis referências deixadas pelo poeta em seu texto. Admito que gostei de “Mensagem”. Os versos do livro são realmente muito bonitos e emocionantes. Contudo, não achei esta obra à altura de “Os Lusíadas”, como Fernando Pessoa almejava. Se formos comparar a coletânea de poemas de Pessoa à epopeia de Camões, acho que o confronto é extremamente injusto para o escritor do século XX. Nada até hoje chega aos pés da obra máxima da língua portuguesa. Por outro lado, se formos analisar “Mensagem” sem essa comparação descabida, na certa veremos esse título com olhos muito mais positivos. Sem dúvida nenhuma, esta é uma obra-prima da literatura portuguesa e a criação máxima de Fernando Pessoa. Vale a pena conhecê-la por completo (e não apenas por um poema isolado – por melhor que ele seja). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Livros: Amor de Perdição - O principal romance de Camilo Castelo Branco
Qual o maior romance da língua portuguesa? Esta é uma boa questão para ser discutida. A epopeia "Os Lusíadas" de Luís Vaz de Camões é sempre apontada unanimemente como sendo a principal obra poética da nossa língua. Isso não tem discussão. A polêmica gira em torno das histórias em prosa. Qual seria o principal romance escrito em português? A Universidade de Coimbra listou, há alguns anos, os dez melhores romances da língua portuguesa. Após longa pesquisa sobre o tema, os estudiosos foram categóricos em apontar "Amor de Perdição" de Camilo Castelo Branco como sendo o número um. Em seguida aparecem "Aparição" de Vergílio Ferreira (segundo colocado) e "Dom Casmurro" de Machado de Assis (em terceiro). Completam a lista: "O Delfim" de José Cardoso Pires (quarto), "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes (quinto), "Memorial do Convento" de José Saramago (sexto), "Os Maias" de Eça de Queiroz (sétimo), "A Sibila" de Agustina Besse-Luís (oitavo), "Sinais de Fogo" de Jorge de Sena (novo) e "Terra Sonâmbula" de Mia Couto (décimo colocado). "Será que "Amor de Perdição" (Ática) é tão bom assim?", perguntei para mim mesmo no começo deste ano. Para tirar à prova, nada melhor do que reler esta obra. Foi o que fiz neste último final de semana. Aproveitei à tarde de domingo para mergulhar no romance ultrarromântico de Camilo Castelo Branco. Esse livro foi lançado em 1861 e teve como inspiração fatos reais ocorridos com um tio do próprio autor, que fora preso por homicídio. O sucesso do romance foi imediato, alçando Castelo Branco ao posto de um dos mais populares autores da sua época e um dos principais escritores do Romantismo português. A história de "Amor de Perdição" trata da paixão impossível de três jovens de Viseu, cidade lusitana que fica no centro do país ibérico. Simão Botelho, filho de Domingos Botelho, possui dezoito anos e é um rapaz arruaceiro e pouco adepto aos estudos. Ele se apaixonada por Teresa Albuquerque, filha de Tadeu Albuquerque, que também tem dezoito anos. A paixão entre eles causa repulsa nas duas famílias. Os Botelho e os Albuquerque são famílias que se odeiam. Os pais de Simão e Teresa não autorizam o relacionamento. Para aplacar os sentimentos dos filhos, cada um dos pais toma medidas radicais para impedir aquele romance. Tadeu insiste que a filha se case com um primo dela, Baltasar Coutinho. Com a recusa da moça, Tadeu Albuquerque a manda para um convento da cidade. Domingos Botelho, por sua vez, envia seu filho para estudar em Coimbra. Simão se torna um dedicado estudante na universidade. Ele sonha em se formar e em dar uma vida confortável a sua amada. Os jovens enamorados trocam cartas apaixonadas e alimentam a esperança de um dia ficarem juntos. Contudo, ao descobrir os planos do sogro de casar Teresa, Simão viaja clandestinamente para Viseu. Lá é auxiliado por um ferreiro amigo do seu pai, João da Cruz. João e sua filha são gratos a Domingos Botelho por sua postura benevolente no passado e não medem esforços para ajudar um integrante da sua família. Mariana, filha de João da Cruz, tem vinte e seis anos e se apaixonada por Simão. Por não ser burguesa, a moça não se vê à altura (em termos sociais) de Simão e, assim, não tenta conquistá-lo (seu amor é apenas platônico). Ela aceita ser a serviçal do rapaz, partilhando a rotina com ele (ela se satisfaz em ficar junto do jovem). Ela o ama tanto que aceita sua condição "inferior" e, apesar de intimamente torcer contra a união de Simão e Teresa, o ajuda sempre que possível para realizar o sonho dele em viver com a amada. A vida de todos sofre uma grande transformação quando Simão mata, em uma briga, Baltasar Coutinho, primo de Teresa. O assassinato provoca a prisão de Simão e o enclausuramento de Teresa se intensifica. Ela é mandada para um convento em Porto. "Amor de Perdição" é um típico romance da segunda geração do Romantismo, chamada de Mal do Século ou Byroniana. Nela, temos a temática de amores impossíveis, a morte como solução para a desilusão amorosa, personagens ultrarromânticos e passionais (que sofrem desproporcionalmente pela ausência do amado ou da amada) e enredos trágicos. Aqui a passionalidade está sempre à flor da pele. Quando analisada hoje, a trama parece pueril e exagerada. Três jovens preferem morrer por não poderem viver com quem amam. De certa forma, ou eles são imaturos ou são profundamente mimados. Contudo, é preciso entender o contexto social do século XIX para compreender este tipo de trama e de literatura. A vida burguesa, principalmente as das mulheres, era de certa forma entediante. As damas não trabalhavam fora da residência e ficavam o dia inteiro em casa aguardando a chegado dos homens (maridos, filhos, irmãos). A rotina doméstica consumia muitas horas do dia. Apesar disso, não havia muito o que as mulheres pudessem fazer no lar. As ricas famílias burguesas tinha um exército de empregados (na Europa) e de escravos (no Brasil). Além disso, a sociedade da época era patriarcal (a voz de decisão e de comando era dos homens). Cabiam às mulheres obedecê-los (inclusive em questões de amor e de casamento). Nesta época, o matrimônio era um importante recurso de mobilidade social e de conchavos políticos. Neste cenário, as mulheres encontraram na literatura e nos romances românticos formas de escaparem (escapismo) da realidade vigente. Os amores e as paixões impossíveis das personagens dos romances eram parte do sonho das mulheres burguesas (muitas não se casavam por amor e sim por imposição ou conveniência). A partir desta realidade, fazia todo o sentido escrever histórias ultrarromânticas que aflorassem os sentimentos das mulheres burguesas. Ao ler a obra, lembrei muito das tragédias shakespearianas. Camilo Castelo Branco consegue produzir uma narrativa, ao mesmo tempo, passional e crítica. No meio da história, o autor comenta suas impressões sobre a trama e faz juízo de valor sobre os personagens envolvidos. Apesar de retardar um pouco o caminhar da história, esses comentários críticos engrandecem ainda mais a obra. A composição das personagens é excelente. Há basicamente três núcleos dramáticos. A função desses três núcleos é mostrar as três pontas do triângulo amoroso formado por Simão, Teresa e Mariana. Cada núcleo representava uma das famílias envolvidas na trama de amor. O protagonista no núcleo dos Botelho era Simão, enquanto seu pai (Domingos) era o antagonista. O protagonista no núcleo dos Albuquerque é Teresa, enquanto seu pai, Tadeu, é o principal antagonista. Baltasar Coutinho, primo de Teresa e sobrinho de Tadeu, pode também ser considerado um antagonista por se opor a união entre Simão e Teresa. O protagonista do núcleo do João da Cruz é Mariana, filha de João. Ela procura (assim como seu pai) ajudar Simão, apesar de ser apaixonada por ele. "Amor de Perdição" é um romance digno para figurar na lista da Universidade de Coimbra. Só permaneço em dúvida se a primeira posição é mesmo merecida ou se foi exagerada. Em minha opinião, "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", ambos livros realistas de Machado de Assis, por exemplo, são muito superiores à criação literária de Castelo Branco. Apesar de manter meus questionamentos a este respeito, fiquei com a certeza de que "Amor de Perdição" é realmente uma das dez melhores narrativas portuguesas em prosa da história. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CamiloCasteloBranco #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Romance #Romantismo #Drama
- Livros: Bom Dia, Camaradas - O primeiro romance de Ondjaki
Neste primeiro final de semana de novembro, li o livro "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), romance de estreia de Ondjaki. Antes de essa obra chegar às livrarias, o escritor angolano só tinha publicado uma coletânea de poesias. Em "Bom Dia, Camaradas", Ondjaki narra de maneira engraçada, lírica e autobiográfica sua infância em Angola, no final da década de 1980. O cenário é o mais adverso possível: a guerra civil que assolava o país africano há anos, a violência rotineira que a população precisava enfrentar e o governo comunista que administrava a nação. Em meio a essas adversidades, o pequeno narrador e protagonista da trama, com seu olhar infantil sobre a realidade, escancara a beleza da vida cotidiana. Além de dar muitas risadas, achei esse livro de uma incrível sensibilidade poética. Publicado em 2001, "Bom Dia, Camaradas" recebeu muitos elogios da crítica literária em Angola, em Portugal e no Brasil. A obra foi finalista do Prêmio Portugal Telecom, realizado no Brasil, em 2007. Logo de cara, Ondjaki já se posicionava como um dos grandes ficcionistas de seu país. Nos anos seguintes, o escritor só comprovaria a força de sua prosa, consolidando uma das mais criativas carreiras literárias da atualidade. O enredo de "Bom Dia, Camaradas" é aparentemente simples. Durante os anos de 1980, o filho de um importante funcionário público do governo comunista de Angola relata sua rotina de criança. Em sua infância passada em Luanda, o menino vai à escola e estuda bastante para passar de ano. Ele brinca com os amiguinhos, admira o pai, vai às festas dos colegas e conversa muito com os professores cubanos. Ele também nutre grande admiração pelo cozinheiro da casa, o Camarada António, um senhor pobre e simples que gosta muito do "miúdo" (garoto em português angolano). Além disso, o protagonista passeia pela capital do país com a tia que viera de Portugal para visitar a família depois de muitos anos. Para completar, o menino se envolve em uma grande confusão na escola. Qual é a graça de um relato tão banal?! Não faça esse questionamento, por favor, antes de ler o livro. A graça dessa obra está na maneira como Ondjaki narra os acontecimentos. Se o enredo é simples, seu conteúdo é riquíssimo. O escritor é profundo e poético, enaltecendo a beleza da infância com rara felicidade. Em muitos momentos, "Bom Dia, Camaradas" lembra as aventuras dos quadrinhos de "O Pequeno Nicolau", dos franceses René Goscinny e Jean Jacques Sempé, o filme "A Vida é Bela" (La Vita e Bella: 1998), do italiano Roberto Benigni, e o romance "Terra Sonâmbula", do moçambicano Mia Couto. O primeiro aspecto que chama a atenção nesse livro é o humor. Admito que chorei de rir em várias cenas (a fuga das crianças da escola é hilária). A visão infantil sobre a realidade é capturada com precisão por Ondjaki. A impressão que temos durante a leitura é que o narrador é mesmo um garoto (no caso, uma criança travessa e muito engraçada). A ironia fina do narrador mostra a beleza da infância. Por mais difícil que seja o cotidiano de um país e de uma família, a molecada consegue achar graça e se divertir com o que tem. É verdade que o protagonista é de uma família rica. Ou seja, não precisou passar pelas carências e pelas dificuldades que a maioria dos seus conterrâneos (Uma ironia já que Angola, nessa época, era um país comunista). Mesmo assim, o relato de uma nação mergulhada em uma guerra civil e administra por comunista é de impressionar o leitor contemporâneo. A violência em Luanda na década de 1980 era epidêmica. Há muitas cenas chocantes de brutalidade e de maldade extrema. Para se ter uma ideia, o Rio de Janeiro pós-Sérgio Cabral é uma cidade pacífica perto da realidade da capital angolana daquela época. Lá, por exemplo, era comum a invasão de grupos paramilitares às escolas. Meninos eram raptados e forçados a se tornar soldados, meninas eram levadas para serem usadas como esposas dos rebeldes, professoras eram estupradas e retalhadas e professores e diretores eram mortos a sangue frio. Apesar dessa visão chocante da Angola no pós-independência, o livro de Ondjaki não tem o espírito pesado e denso que poderia se esperar com tal cenário. Pelo contrário! A trama é leve, engraçada e espirituosa. Afinal, para o olhar infantil do narrador, tudo aquilo não passa de uma grande brincadeira protagonizada pelos desajustados adultos. Há cenas ótimas durante o romance. Repare particularmente no diálogo inicial do narrador com o cozinheiro da família, o Camarada António, e na discussão do menino com a Tia Dada sobre as diferenças entre Angola comunista e Portugal capitalista. E deleite-se com a fuga das crianças ao perceberem que o Caixão Vazio, grupo terrorista que vandalizava colégios em Luanda, apareceu um dia na sua escola. Mesmo sendo um tanto óbvio o desfecho desse episódio para um leitor minimamente atento, ainda sim é muito engraçado ver o alvoroço da molecada. Outro charme de "Bom Dia, Camaradas" é a sua linguagem. O português angolano é muito interessante para quem gosta de estudar e conhecer as variações linguísticas. É possível entender perfeitamente a narrativa e, ao final do livro, você terá acrescentado ao seu vocabulário algumas palavras como "miúdos", "matabichar" (essa é a melhor!), "baldar", "filipar", "fobado", "geleira" e "candongueiro" (juro que não consigo falar esta). Na última página do romance, há um glossário com a explicação dos principais termos. É muito legal ver essas expressões típicas do português africano. Se o romance de Ondjaki tivesse sido passado integralmente para o português brasileiro na certa perderia muito de sua riqueza linguística e seu encanto cultural. Há também questões filosóficas debatidas com singeleza e lirismo nesse livro. Afinal, qual o mérito de um país ter se tornado independente se sua população vive pior? E qual a vantagem de uma sociedade pretensamente igualitária se a maioria das pessoas ainda passa por graves necessidades? A beleza de "Bom Dia, Camaradas" não está apenas no retrato da infância e no olhar das crianças para a realidade. O amadurecimento natural da vida, a relação com a natureza, os pequenos prazeres do cotidiano, o enfrentamento das perdas (sejam elas provocadas pelas mortes de pessoas amadas ou pela partida de amigos e familiares para regiões distantes) e os medos em relação ao futuro (tanto pessoal quando de uma nação) são temas trabalhados com primor nessa obra. Esse primeiro romance de Ondjaki possui uma leitura rápida. Com apenas 136 páginas, é possível lê-lo em uma única tarde. Foi o que fiz ontem. O livro é tão pequeno que o considerei mais uma novela do que um romance. Como Ondjaki e sua editora o classificaram como romance, preferi manter essa denominação (apesar de não concordar com ela). Mesmo apresentando a realidade do ponto de vista infantil, essa obra não é para crianças. Pelo contrário. É preciso ser adulto e possuir muita maturidade para compreender as ironias, as críticas e a proposta de Ondjaki. O autor também não esconde os traços autobiográficos de sua trama. Logo no início, ele agradece às personagens que tiveram seus nomes verdadeiros mantidos na história. Achei essa uma bela homenagem. Gostei tanto de "Bom Dia, Camaradas" que estou curioso para saber o que Ondjaki ainda nos reserva. A próxima leitura deste Desafio Literário é o livro de contos "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral), lançado originalmente em 2005. Minha análise crítica desse novo livro de Ondjaki será publicada aqui no Blog Bonas Histórias na próxima quinta-feira, dia 9. Até o próximo post, pessoal! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Ondjaki #Romance #Drama #RomanceHistórico #LiteraturaAngolana
- Livros: E Se Amanhã o Medo - O lado contista de Ondjaki
O segundo livro do Desafio Literário de novembro é "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral). Iniciei essa leitura na segunda-feira à noite e a conclui já na noite seguinte. Diferentemente da primeira obra de Ondjaki analisada aqui no Blog Bonas Histórias, "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), que era um romance/novela, temos agora uma coletânea de contos. Foi através das narrativas curtas que o autor angolano conquistou o maior número de prêmios na primeira década de sua carreira. "E Se Amanhã o Medo" foi publicado originalmente em 2005, sendo o oitavo livro do portfólio artístico de Ondjaki. Este não foi seu primeiro livro de contos. Antes, o escritor já tinha lançado "Momentos de Aqui" (Caminho), em 2001, que teve uma recepção um tanto tímida da crítica e do público leitor. Juntamente com "Os da Minha Rua" (Língua Geral), próximo livro que será discutido aqui no Desafio Literário, "E Se Amanhã o Medo" é a publicação de contos mais importantes de Ondjaki. A obra conquistou, por exemplo, o Prêmio Literário Sagrada Esperança, em Angola, e o Prêmio Literário António Paulouro, em Portugal. As duas premiações acorreram em 2004, um ano antes de "E Se Amanhã o Medo" chegar às livrarias. Esse livro possui vinte pequenas histórias que retratam de maneira serena, intimista e um tanto fantasiosa a relação do autor com o tempo. Em um extremo temos a morte, o envelhecimento, a perda, o abandono, a solidão e a amargura. No outro polo vemos o nascimento, a infância, a esperança, a liberdade e os sonhos. Essas narrativas são apresentadas com várias referências culturais. Vários artistas brasileiros são citados. Além da fantasia, boa parte dos enredos possui uma realidade desconcertante. Pobreza, violência, injustiça, amargura e depressão pontuam os desafios que as personagens precisam encarar. Dividido em duas partes, "E Se Amanhã o Medo" faz menção explícita ao livro "Lavoura Arcaica" de Raduan Nassar. A primeira parte da obra se chama "Horas Tranquilas" (quinze contos) e a segunda "Conchas Escuras" (cinco contos). Ambos os termos foram extraídos diretamente do romance do escritor paulista. Os quinze contos de "Horas Tranquilas" são: 1) A Libélula (Em uma tarde de domingo, um médico ouve Adriana Calcanhoto em seu jardim quando é visitado por uma mulher pobre que lhe pede água); 2) Jangada Para Longe (Inventor cria a janguicleta, veículo que é uma mistura de jangada e bicicleta, para levá-lo para uma viagem marítima ao redor do mundo); 3) Coração de Porco (Mulher visita uma loja com a intenção de comprar um coração novo para substituir o seu, que já não consegue guardar tantos sentimentos); 4) O Colchão da Mongólia (Menino de rua ganha um colchão de presente de uma mulher estrangeira); 5) Passeadores (Os cães de um canil são levados diariamente para passear por um grupo de voluntários idosos); 6) A Confissão do Acendedor de Candeeiros (Velho faz um relato poético sobre sua profissão de acender as luminárias das ruas da cidade); 7) O Pássaro do Cais (Pela varanda de sua residência, homem acompanha o movimento atípico no cais em certa manhã, requisitando a ajuda de um pássaro para descobrir o que se passa de tão especial naquele lugar). 8) A Filha do Piloto Japonês (Um kamikaze se despede de sua família); 9) Três Relógios e uma Lua Cheia (Duas amantes, Frida e Ara, fazem um jantar romântico em uma noite de lua cheia); 10) A Esquina (Homem trabalha como "tirador de dúvidas" na praça da cidade, tendo a companhia de um garoto); 11) Sangue de Cavalo (Cavaleiro agoniza com uma bala no coração enquanto galopa apressado em seu amigo equino; 12) O Engraxador (Executivo pede para um menino pobre engraxar seu sapato em uma manhã); 13) A Gaiola (Vizinho observa com curiosidade uma mulher carregar uma gaiola coberta com um pano); 14) Na Encruzilhada (Homem aposta com seu compadre que ele tem a coragem de ir à encruzilhada sozinho à meia-noite; e 15) Amarela (Viajante vai ao posto médico para tomar a vacina da Febre Amarela). Os cinco contos da segunda parte, "Conchas Escuras", são: 1) A Velha (Senhora é tão velha, mas tão velha, que foi esquecida pelo tempo e pela morte); 2) A Filha da Sogra (Rapaz lamenta sua separação com a mulher, tendo como único consolo a partida da sogra); 3) Lábios em Lava (Pessoa muito religiosa sofre com sua libido durante as noites, dividindo-se entre o sagrado e o pecado corporal); 4) Madrugada (Mulher pobre que vive nas ruas é estuprada); 5) Coração com Ferrugem (Viúva contempla sua casa decadente). De maneira geral, "E Se Amanhã o Medo" é um bom livro. Apesar de ser inferior a "Bom Dia, Camaradas" (uma das mais divertidas leituras que fiz nos últimos anos), ele tem alguns ótimos contos. "A Confissão do Acendedor de Candeeiros", "Na Encruzilhada" e "Lábios em Lava" são os melhores. Por ser uma publicação com poucas páginas (apenas 120) e com uma diagramação generosa (não há a preocupação de espremer as palavras no menor número possível de páginas), é plausível ler esse livro em uma única tarde. Eu o li calmamente em duas noites. A edição da Língua Geral também é marcada pela sua beleza estética. Utilizando recursos simples, a editora carioca conseguiu produzir um livro diferenciado, que agrada nossos olhos. O que mais chama a atenção do leitor nessa obra, em um primeiro momento, é a pluralidade cultural de Ondjaki. Percebe-se nitidamente a influência da música e da literatura de vários locais do mundo, além da própria Angola, nas construções narrativas de "E Se Amanhã o Medo". Artistas brasileiros, ibéricos, europeus e de outros países africanos são referenciados por Ondjaki. Assim, a intertextualidade é algo presente do início ao final do livro. O autor cita, por exemplo, os brasileiros Adriana Calcanhoto, Guimarães Rosa, Raduan Nassar e Dori Caymmi. Há também a referência direta a Corsino Fortes (de Cabo Verde), Nikos Kazantzakis (da Grécia), Federico García Lorca (da Espanha) e Jorge Palma (de Portugal), entre tantos outros. Essa mistura cultural se faz presente também nos enredos dos contos. Muitas histórias se passam em locais indeterminados e possuem personagens de várias nacionalidades (família japonesa, primeira ministra australiana, viajante mongol, cidade escandinava, cantora brasileira, etc.). Assim, o tom das narrativas é universal e não apenas local (África/Angola). Outros dois importantes aspectos que permeiam os contos de "E Se Amanhã o Medo" são os elementos fantasiosos utilizados pelo autor e a criação de neologismos. A fantasia (Substituição de órgãos humanos pelo de animais, personagens que não envelhecem nem morrem, pássaros com a capacidade de interagir com as pessoas, etc.) é apresentada juntamente com a narração bruta e fiel do cotidiano. Assim, imaginação e realidade caminham de mãos dadas. Por sua vez, os neologismos (Suplicantementesperativo, janguicleta, miopemente, imparavelmente, passamento e vampiricamente) tornam os contos de Ondjaki um pouco parecidos com os de Guimarães Rosa e de Mia Couto. Repare que estou fazendo uma comparação de estilo e não de qualidade. O brasileiro e o moçambicano estão alguns degraus acima do angolano quanto à excelência literária na produção de narrativas curtas. Em relação à temática de "E Se Amanhã o Medo", o paradoxo temporal é o que une todas as histórias do livro. Enquanto a juventude possui seus mistérios e graça, a fase idoso apresenta seus dramas. Novo e antigo, infância e velhice, sonho e desilusão, esperança e medo, amizade e solidão e beleza e feiura caminham de mãos dadas o tempo inteiro. Junto dessas dicotomias, ainda temos as citações à natureza, o retrato do cotidiano, a menção à desigualdade de renda e à violência, ações genuínas de solidariedade e o aprofundamento de algumas angústias humanas universais. Quem gosta de estudar a variação linguística do português, ler Ondjaki é um prato cheio. Infelizmente, muitos termos típicos do idioma angolano não são explicados nessa obra. É preciso, por exemplo, saber o que é um "miúdo" e um "matabichar". Quem não está acostumado com a literatura de Ondjaki irá sentir falta de um glossário (algo inexistente aqui, mas que tinha em "Bom Dia, Camaradas"). Uma alternativa interessante ao leitor iniciante nas obras do angolano é ler primeiro "Bom Dia, Camaradas" para só depois mergulhar em "E Se Amanhã o Medo". Assim, uma vez conhecido os principais termos utilizados pelo autor em seu romance/novela, fica mais fácil entender a linguagem empregada por ele em seus contos. Agora que entrei nos contos de Ondjaki, não quero mais parar de lê-los. O próximo livro desse Desafio Literário é "Os da Minha Rua", a publicação do escritor angolano que sucedeu "E Se Amanhã o Medo". "Os da Minha Rua" também é uma premiada obra de contos. Vou começar a lê-la agora mesmo e no dia 13, próxima segunda-feira, retorno ao Bonas Histórias para apresentar minha análise. Até mais e boa leitura para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Ondjaki #ColetâneadeContos #LiteraturaAngolana
- Livros: Os da Minha Rua - Os contos da saudosa infância de Ondjaki
Aproveitando a minha mais recente viagem a Minas Gerais, li nessa sexta-feira "Os da Minha Rua" (Língua Geral), terceiro livro de Ondjaki do Desafio Literário de novembro. Como permaneci mais de cinco horas dentro do ônibus até Varginha, foi possível concluir tranquilamente essa obra que reúne vinte e dois contos do autor angolano. Novamente, Ondjaki retorna à sua infância em Luanda, passada entre o final da década de 1970 e comecinho dos anos de 1990, para construir uma narrativa intimista, emocionante, poética e autobiográfica. Vale lembrar que o escritor já havia usado essa temática em "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), seu romance de estreia. Por isso, a sensação de déjà vu. Quem já leu "Bom Dia, Camaradas" precisa saber que irá retornar aos mesmos cenários, às mesmas personagens, à mesma atmosfera e às mesmas situações do primeiro romance. Essa obra de agora, porém, não possui o tom irônico e bem-humorado que a narrativa longa apresentava. Ondjaki usa o seu próprio passado como eixo central das histórias mostradas nos contos. As matérias-primas do livro são as lembranças, a infância e a vida dos amigos e dos familiares do escritor. Assim, acredito que essa publicação seja mais um conjunto de crônicas sobre a infância do que propriamente uma coleção de contos. Contudo, respeito a opção do autor e de sua editora de classificar o livro como sendo de contos. Assim, vou chamá-lo conforme denominado oficialmente por seus responsáveis. "Os da Minha Rua" foi lançado em 2007, dois anos após "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral), outro premiado livro de contos do autor angolano. Essas duas obras pertencem à "Coleção Ponta de Lança" da Língua Geral. A proposta da editora carioca com "Ponta de Lança" é divulgar os principais nomes da língua portuguesa da literatura contemporânea, independentemente da onde estejam localizados no planeta. Além dos contos de Ondjaki, a "Coleção Ponta de Lança" abrange títulos de Ana Paula Maia (Brasil), Mauro Santa Cecília (Brasil), Nelson de Oliveira (Brasil), Ronaldo Cagiano (Brasil), Faíza Hayat (Portugal), Francisco José Viegas (Portugal), Patrícia Reis (Portugal), Miguel Gullander (Portugal/Suécia) e José Eduardo Agualusa (Angola). É uma seleção muito interessante que agrada quem gosta de conhecer as boas novidades da literatura em língua portuguesa. "Os da Minha Rua" é um dos livros mais conhecidos e premiados de Ondjaki. A obra conquistou o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco, em Portugal, em 2007, o Grande Prêmio APE (Associação Portuguesa de Escritores), em Portugal, no mesmo ano, e foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2008, realizado aqui no Brasil. Nada mal, hein?! Os vinte dois contos desse livro são: 1) Voo do Jika (Menino mais novo da rua pede para almoçar sempre na casa de Ndalu, o jovem protagonista-narrador de todas as histórias da publicação); 2) A Televisão Mais Bonita do Mundo (O narrador conhece a beleza da televisão em cores ao visitar a casa de um amigo do Tio Chico); 3) O Kazukuta (Retrato da vida tranquila e monótona de Kazukuta, o cachorro do Tio Joaquim); 4) Jerri Quan e os Beijinhos na Boca (O menino-protagonista dos contos vai com Irene, amiga mais velha da família, e com o namorado dela ao cinema); 5) Os Óculos de Charlita (As cinco filhas do senhor Tuarles não enxergam bem, mas apenas a mais velha, Charlita, possui óculos grandes e feios); 6) A Professora Genoveva Esteve Cá (Garoto explica para a amiga da mãe, no portão de casa, o motivo pelo qual não pode acordar a mãe naquele momento). 7) Ida ao Namibe (Família viaja de férias para uma província desértica de Angola); 8) O Homem Mais Magro de Luanda (Em festa na casa do Tio Chico, o pequeno protagonista conhece Vaz, um homem extremamente magro e frágil); 9) O Último Carnaval da Vitória (Narrador comenta, sob o ponto de vista infantil, como era o Carnaval em Luanda); 10) A Piscina do Tio Victor (Um tio que morava em Benguela convida todos os meninos da rua para visitarem sua casa, que tinha uma piscina cheia de Coca-Cola e fora construída com chocolates na beirada); 11) Os Quedes Vermelhos da Tchi (Narração da comemoração do dia 1o de maio na visão das crianças); 12) Manga Verde e Sal Também (A meninada come escondido da tia e da avó manga verde com sal). 13) Bilhete com Foguetão (Na escola, narrador escreve um bilhetinho secreto para Petra, a nova e bonita menina da turma); 14) As Primas do Bruno Viola (Em uma festa, Lara, a prima mais assanhada de Bruno, tenta beijar na boca o protagonista); 15) O Portão da Casa da Tia Rosa (Depois de muitos anos, o narrador retorna à casa do Tio Chico e da Tia Rosa, provocando emocionantes e saudosas lembranças); 16) Os Calções Verdes do Bruno (Bruno aparece misteriosamente na escola com roupas novas e de banho tomado); 17) O Bigode do Professor de Geografia (Professor explode de raiva em sala de aula após brincadeiras jocosas da sua turma de alunos); 18) No Galinheiro, no Devagar do Tempo (Enquanto Charlita, a moça de óculos feios, viaja para Portugal com seu pai, todos em Luanda comentam os últimos capítulos da novela "Roque Santeiro"). 19) Um Pingo de Chuva (Alunos se despedem dos professores cubanos que trabalharam com eles em Angola e agora retornam para seu país natal); 20) O Niló que Também Era Sankarah (Após atrasos no início do ano letivo em sua antiga escola, o narrador precisa mudar de colégio, o que o afasta dos antigos colegas); 21) Nós Choramos Pelo Cão Tinhoso (Professora pede aos alunos para lerem um conto muito triste, o que emociona a todos na sala de aula); 22) Palavras para o Velho Abacateiro (Em uma tarde chuvosa, o narrador chora sua partida para o exterior. Para trás ficam as lembranças felizes da infância, de Angola, dos amigos e familiares). De forma geral, "Os Da Minha Rua" é um mergulho inteligente e gracioso no universo infantil. As histórias autobiográficas de Ondjaki são todas narradas em primeira pessoa e remetem o leitor à beleza da visão da criança na fase inicial de sua vida. É, portanto, um bom livro. Seus melhores contos são "O Último Carnaval da Vitória", "A Piscina do Tio Victor", "O Portão da Casa da Tia Rosa", "No Galinheiro, no Devagar do Tempo" e "Nós Choramos Pelo Cão Tinhoso". Essas cinco narrativas são excelentes, dignas mesmo de premiação. É legal notar, durante a leitura da obra, a influência da cultura brasileira na Angola da década de 1980. Os cantores brasileiros, como Roberto Carlos, os escritores nacionais, como Graciliano Ramos, e nossas telenovelas, "O Bem Amado" e "Roque Santeiro", são citados por Ondjaki porque estavam inseridos intimamente na rotina daquele país e na infância do escritor. Sinceramente não sabia que nossa cultura influenciasse tanto os habitantes da "África portuguesa". Para o leitor brasileiro, um aspecto positivo de "Os Da Minha Rua" em relação a "E Se Amanhã o Medo" é a presença de um glossário no final do livro, algo que falou no título anterior. Apesar das duas obras pertencerem à mesma coleção, esse recurso importantíssimo para a compreensão do português angolano só aparece aqui. Por outro lado, o principal ponto negativo de "Os Da Minha Rua" é a repetição de episódios e personagens já citados em "Bom Dia, Camaradas". Quem leu o romance, que também narra a infância do protagonista-narrador em Luanda, irá notar a grande semelhança. Há inclusive partes idênticas. O conto "Palavras para o Velho Abacateiro" é praticamente o desfecho do título de 2001. E "Um Pingo de Chuva" é um capítulo inteiro de "Bom Dia, Camaradas". Ou seja, se você não leu o primeiro romance de Ondjaki provavelmente irá gostar mais de "Os Da Minha Rua" se comparado ao leitor que já o leu. Depois de ler, de forma consecutiva, os dois principais livros de conto de Ondjaki, agora minha meta é conhecer "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" (Seguinte), um romance. Essa publicação foi lançada em 2008, um ano depois de "Os Da Minha Rua". Assim, voltamos às narrativas longas, as minhas favoritas. Vou começar amanhã a leitura dessa obra e na sexta-feira, dia 17, prometo postar aqui no Bonas Histórias uma análise completa sobre ela. Até a próxima etapa do Desafio Literário. Boa leitura para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Ondjaki #ColetâneadeContos #LiteraturaAngolana
- Livros: AvóDezanove e o Segredo do Soviético - O prêmio Jabuti de Ondjaki
Minha leitura dessa semana foi "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" (Seguinte), terceiro romance da carreira de Ondjaki. Como já sabem os leitores regulares do Blog Bonas Histórias, o escritor angolano é o foco do Desafio Literário desse mês. Nessa obra, Ondjaki retoma sua abordagem sobre a infância e a Luanda da década de 1980 (principal temática da sua literatura). Usando muitas personagens já apresentadas em livros anteriores, o autor constrói uma narrativa ficcional em cima de elementos reais do seu passado. Vejamos o que ele fala sobre esse livro: "(...) Convoco memórias distorcidas para inventar estórias, exerço o direito de atribuir falas aos sonhos - mesmo os que não tenham sido bem assim, porque eu sou este que crê em gritos azuis, em explosões de papagaios-pipa a esvoaçarem numa noite escura de Luanda". Publicado em 2008, "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" é o livro que sucede "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral), de 2005, e "Os Da Minha Rua" (Língua Geral), de 2007, ambas coletâneas de contos. Para nós brasileiros, é interessante notar que "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" é o primeiro trabalho do angolano após ele ter se mudado para o Rio de Janeiro, cidade onde mora até hoje. Essa obra é uma das mais premiadas da carreira de Ondjaki. "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" conquistou dois importantes prêmios no Brasil em 2010: o Prêmio FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) na categoria "Literatura em Língua Portuguesa" e, o mais relevante de todos, o Prêmio Jabuti na categoria "Obra Literária Juvenil". Além disso, o livro foi finalista, ainda em 2010, de duas concorridas premiações nacionais: o Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Portugal Telecom. O romance se passa na PraiaDoBispo, em Luanda, em algum momento da década de 1980. Nessa época, Angola vivia em Guerra Civil, conflito que explodiu após a independência do país. Governado por comunistas, a nação africana era influenciada diretamente por soviéticos e cubanos e tinha aversão a tudo o que era capitalista. Afinal, eram tempos de Guerra Fria, fazer o quê? A falta de água e a interrupção da energia elétrica eram constantes no país, assim como a violência e a pobreza. Quando a história ficcional se passa, o grande acontecimento no bairro da PraiaDoBispo era a construção de um mausoléu para a colocação definitiva do corpo embalsamado do ex-presidente angolano AgostinhoNeto. No comando da obra estavam os soviéticos, responsáveis tanto pelo projeto quanto pela sua execução. O problema para a comunidade local é que uma vez concluída a construção da obra faraônica, as casas no entorno do mausoléu seriam destruídas. O bairro seria transformado em uma grande atração turística. O protagonista do enredo é um menino que vive, naquele local, com suas duas avós, chamadas de AvóAgnette, apelidada de AvóDezanove (daí parte do título da obra), e de AvóCatarina (essa é irmã de AvóAgnette). É o garoto quem narra a história em primeira pessoa. Na casa da família ainda trabalha Madalena Kamussekete. Várias outras personagens povoam o ambiente infantil da trama: os amiguinhos inseparáveis do protagonista (Pinduca e Charlita), a vizinha bisbilhoteira (DonaLibânia), o vizinho valentão (SenhorTuarles), o maluco da praia (EspumaDoMAr), o funcionário do posto de gasolina local (VendedorDeGasolina), e um pescador da praia (VelhoPescador). Além deles, temos os funcionários soviéticos do mausoléu. O principal deles é o oficial Bilhardov, chamado jocosamente pelas crianças de Camarada-Botardov. O conflito do romance acontece quando os soviéticos precisam expulsar os moradores locais do bairro para o prosseguimento das obras no entorno do monumento em memória de AgostinhoNeto. Enquanto os adultos se rebelam apenas gritando e xingando impropérios contra os estrangeiros e o governo central do seu país, a criançada decide agir efetivamente. A meninada não deixará que sua comunidade seja expulsa tão facilmente do bairro pelos "lagostas azuis", como os soviéticos são chamados na PraiaDoBispo. "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" é um romance curto, tem apenas 192 páginas. Eu o li em duas noites, mas é possível lê-lo em um único dia (manhã e tarde, por exemplo). Novamente, Ondjaki nos apresenta uma narrativa saborosa. O universo infantil é retratado com maestria pelo escritor. Sua trama é sensível, pura e poética, como é normalmente a infância. Juntamente com as peripécias da criançada, nos deparados com a difícil realidade de um país ainda em formação, os conflitos políticos e ideológicos da Guerra Fria, a beleza da natureza do país africano, a dura rotina de moradores humildes e com o sobrenatural. Muitas vezes, os mundos dos vivos e dos mortos se misturam, trazendo gratas surpresas aos leitores. O mais legal desse livro é o humor leve e inteligente de Ondjaki. O autor sabe que as crianças são inventivas e muito imaginativas. Assim, o protagonista-narrador do romance tem liberdade para nos contar uma trama com muitos lances pouco críveis. Contudo, esse não é um livro tão cômico quanto "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras). Mesmo assim, há cenas bem engraçadas. As melhores são quando o neto traduz para a avó a consulta realizada por um médico cubano, quando a avó faz uma festa de despedida para seu dedo do pé que será amputado e quando o menino é sucessivamente reprovado em redação na escola (Juro que fiquei imaginando o quão hilário seria a professara do ensino básico criticando os textos de Ondjaki!). Os pontos negativos de "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" ficam a cargo do seu desfecho previsível e pela repetição de cenários, ambientes e personagens (quando analisado os demais livros do autor). A conclusão da história é muito lógica. Um leitor minimamente experiente poderá deduzir o fim da trama já na metade do livro. Ou me tornei um adivinho à la Mãe Dinah ou os romances de Ondjaki são muito, mas muitos previsíveis. Quanto à repetição, a sensação que tenho é que o autor angolano só escreve sobre sua infância em Luanda. Quase todos os seus livros giram em torno dessa temática. Como ele usa os nomes verídicos dos seus amigos, familiares e conhecidos, os enredos possuem sempre as mesmas personagens e os mesmos episódios. Como já visto em "Bom Dia, Camaradas" e "Os Da Minha Rua", temos aqui outra vez os óculos feios e profundos de Charlita, as comilanças de manga com sal de Madalena, as sátiras contra os soviéticos, a piscina de Coca-Cola do Tio Victor, o jeito truculento do SenhorTuarles, as maluquices de Pi e as referências às novelas brasileiras... A impressão que tenho é que "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" não seja apenas uma continuação de "Bom Dia, Camaradas", mas também uma repetição de "Os Da Minha Rua". Para tentar fugir desses personagens, desses episódios e desses ambientes que se repetem eternamente na literatura de Ondjaki, parto agora para uma nova leitura de seu portfólio artístico. Dando sequência ao Desafio Literária, mergulho dessa vez em "A Bicicleta que Tinha Bigodes" (Pallas), livro do angolano destinado ao público infantil. Será que dessa vez teremos algo efetivamente novo? Prometo postar, aqui no Blog Bonas Histórias, a resposta para essa minha dúvida na próxima terça-feira, dia 21. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Ondjaki #LiteraturaAngolana #Romance
- Livros: A Bicicleta que Tinha Bigodes - A literatura infantojuvenil de Ondjaki
Depois de conhecer quatro livros de Ondjaki destinados ao público adulto - "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral), "Os da Minha Rua" (Língua Geral) e "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" (Seguinte) -, li nesse final de semana uma obra infanto-juvenil do escritor angolano: "A Bicicleta que Tinha Bigodes" (Pallas). Quem acompanha regularmente o Blog Bonas Histórias sabe que Ondjaki está sendo analisado nesse mês no Desafio Literário. "A Bicicleta que Tinha Bigodes" utiliza-se do mesmo cenário, das mesmas personagens e das mesmas situações de boa parte dos livros anteriores do autor: sua infância passada em Luanda durante a década de 1980. Em primeira pessoa, um miúdo (garoto) narra as delícias e os medos da sua meninice. Ou seja, a grande diferença dessa publicação para as precedentes está no tipo de leitor almejado. Agora, o público-alvo são as crianças. Temos, portanto, um menino (personagem-narrador) falando diretamente para a molecada sobre sua infância, compartilhando impressões e visões. Achei incríveis tanto a proposta editorial quanto a execução e o projeto gráfico do livro. Como livro infantil, "A Bicicleta que Tinha Bigodes" é diferenciado. Essa obra foi lançada em 2011 e conquistou alguns prêmios relevantes nos cenários nacional e internacional nos anos seguintes. Os principais deles foram: Prêmio Bissaya Barreto, em Portugal, em 2012, e o Prêmio FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), no Brasil, em 2013, na categoria "Literatura em Língua Portuguesa". O enredo de "A Bicicleta que Tinha Bigodes" gira em torno de um concurso literário infantil promovido pela Rádio Nacional de Angola. A criança que escrevesse a melhor história ganharia uma bicicleta. Empolgado com o prêmio oferecido ao vencedor, o menino que narra a trama lançasse ao desafio de produzir um conto. Contudo, sem uma boa ideia, ele não avança nada na empreitada. Assim, o narrador recorre à ajuda de Isaura e de JorgeTemCalma, seus inseparáveis amigos. O plano do trio mirim é aparentemente simples, mas um tanto fantasioso. Eles querem roubar um pequeno baú da casa do Tio Rui, um vizinho que é escritor e possui um farto bigode. Dentro do baú há centenas ou milhares de palavras deixadas pelo escritor e que poderão ser usadas na construção da história da meninada. O primeiro aspecto que chama a atenção no livro é o seu bom humor. Há várias cenas realmente divertidas. A graça é leve, sutil e inteligente, ao estilo de Ondjaki. Contudo, na maioria das vezes, o humor é mais adulto do que infantil. A criançada até pode achar engraçada a narrativa, mas são os adultos que vão compreender com mais propriedade as melhores sacadas produzidas pelo escritor angolano. O melhor exemplo disso ocorre quando Isaura batiza os bichinhos que surgem no quintal da sua casa com nomes de presidentes de vários países do mundo. No caso de dois sapos que são irmãos, a escolha da menina é óbvia: Raul e Fidel. Os episódios protagonizados por Fidel e Raul são bem engraçados. Outro elemento positivo de "A Bicicleta que Tinha Bigodes" é seu projeto gráfico. Além de bonita, a obra apresenta algumas surpresas interessantes. A carta produzida pelo protagonista para a Rádio Nacional, parte essencial do enredo da publicação, materializa-se aos olhos do leitor em um bolso falso no final do livro. A solução encontrada pela editora foi incrível, chegando a emocionar os leitores mais sensíveis. Ou seja, além de esteticamente agradável, o recurso utilizado integra-se totalmente à história narrada. Fantástico! Apesar de citar muitas personagens repetidas (aí estão novamente a AvóDezanove, a Tia Alice...) e vários episódios já comentados (outra vez a avó rega as plantas sem água, as personagens ficam encantadas com as telenovelas brasileiras...) em obras anteriores de Ondjaki, não considerei esse livro muito repetitivo (como achei, por exemplo, "Os da Minha Rua" e "AvóDezanove e o Segredo do Soviético"). A maioria dos elementos narrativos de "A Bicicleta que Tinha Bigodes" são originais, apesar de resvalar em um ou outro ponto já mencionado anteriormente. Assim, de maneira geral gostei do livro. "A Bicicleta que Tinha Bigodes" possui uma narrativa bonita e simples, encantando os leitores infantis (e os mais crescidinhos também). Ver o ponto de vista de uma criança esperta e divertida sempre é salutar, principalmente quando sua trama é bem escrita. Ondjaki é especialista em apresentar a infância com sensibilidade e beleza. E para terminar o Desafio Literário desse mês, retornarei no próximo sábado, dia 25, com a análise do livro "Os Transparentes" (Companhia das Letras). Esse romance adulto de Ondjaki foi o último grande lançamento do escritor angolano. Será muito bom conhecer essa obra também. Aguardem novidades para os próximos dias.... Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Ondjaki #LiteraturaAngolana #LiteraturaInfantojuvenil
- Livros: Os Transparentes - O romance adulto de Ondjaki
Com a análise de "Os Transparentes" (Companhia das Letras), sexto e último livro de Ondjaki lido nesse mês, concluo as leituras do Desafio Literário de novembro (e do ano de 2017 como um todo). Assim, na próxima quarta-feira, dia 29, já terei condições de postar, aqui no Blog Bonas Histórias, uma avaliação completa da literatura desenvolvida pelo principal escritor angolano da nova geração. Contudo, neste post, vou apresentar minha crítica individual sobre "Os Transparentes", o último grande romance lançado por Ondjaki. Publicada em 2012, essa obra ganhou alguns prêmios relevantes no cenário internacional nos últimos anos. Em 2013, "Os Transparentes" conquistou o Prêmio José Saramago, atribuído à melhor obra literária escrita em língua portuguesa por um jovem autor (foi a primeira vez que um africano recebeu tal condecoração). No ano passado, o livro conquistou, na França, o Prémio Littérature-Monde na categoria "Literatura Não Francesa". Com pouco mais de 400 páginas (maior livro do autor até aqui), "Os Transparentes" é realmente uma leitura muito interessante. O que mais gostei dessa publicação é que Ondjaki demonstrou, enfim, que é um autor com capacidade para escrever um romance volumoso e de temática adulta (fatos que já estava começando a duvidar...). Nessa obra, o escritor angolano abandona o relato da sua infância (algo que pontuava todas as suas obras até então e que já estava ficando um tanto cansativo/repetitivo) e avança na narração da vida adulta dos seus conterrâneos. Assim, temos agora conflitos de outra natureza: a corrupção do país africano, a política em Luanda, o sexo, a violência, os dramas sentimentais e as injustiças sociais. Isso tudo foi realizado com o estilo característico da literatura de Ondjaki, que mistura uma apurada dose de fantasia com um olhar nu e cru da difícil realidade do seu país natal. Mantendo sua graça, seu texto inteligente e, principalmente, seu bom humor, o escritor constrói um incrível panorama de Angola (que por sinal, é um país parecidíssimo em muitos pontos ao nosso Brasil). Por isso, considero "Os Transparentes" tão importante para a literatura de Ondjaki. Se esse não é o melhor romance da sua carreira, posto ocupado em minha opinião por "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), "Os Transparentes" é, ao menos, aquele em que o escritor mais disse, mais revelou e mais inovou. Com essa publicação, Ondjaki dá o primeiro passo para iniciar uma nova fase em seus trabalhos literários. Enfim, ele tornou-se um autor realmente maduro e pronto para investigar a vida adulta dos seus conterrâneos. Minha expectativa é conhecer, nos próximos anos, novos livros voltados para o público mais velho. Por melhor que sejam as tramas infantis e/ou sobre a infância de Ondjaki (e elas são mesmo excelentes!), o escritor já estava pronto para seguir novos rumos narrativos (investindo em novas temáticas). O enredo de "Os Transparentes" gira em torno da rotina em um prédio pobre na periferia de Luanda. O edifício acaba servindo de cenário para uma coleção interminável de histórias que, de alguma forma, se cruzam o tempo inteiro. Temos aqui várias personagens sendo retratadas: Odonato, um homem que vai ficando transparente por não comer, VendedorDeConchas e o Cego, parceiros inseparáveis que percorrem as ruas da capital angolana comercializando produtos extraídos do mar, MariaComForça, uma trabalhadora incansável, Assessor, o político corrupto, Paizinho, rapaz órfão que sonha em encontrar a mãe, Noé, o dono do bar, JoãoDeVagar, o empresário malandro, e mais uma infinidade de outros tipos.... É difícil apontar qual seja a história principal e quais sejam as secundárias. Talvez a principal trama seja exatamente a do próprio prédio, com a riqueza de histórias em seu interior e a variedade de seus habitantes. Até mesmo quando retrata pessoas e situações externas ao prédio (funcionários públicos do governo, jornalistas, cientistas, etc.), Ondjaki as leva sempre para o cortiço. Tudo interfere direta ou indiretamente na vida dos moradores daquele lugar. No começo da leitura, a avalanche de personagens e de histórias paralelas pode confundir um pouco a cabeça do leitor. Porém, logo essa impressão se dissipa. O carisma das fictícias criaturas e a particularidade de suas vidas tornam cada trama muito marcante, sendo impossível confundi-las a partir de certo ponto do romance. Outro aspecto que pode atrapalhar um pouco o leitor brasileiro é a linguagem utilizada por Ondjaki. Por ser repleto de gírias angolanas (principalmente nos diálogos das personagens), o livro demora a se tornar totalmente claro aos olhos de quem não está familiarizado com o português africano. Por isso, use a abuse do glossário no final do livro (apesar de muitos termos típicos não estarem contemplados ali). O principal ponto positivo de "Os Transparentes" está sem seu humor sutil e muito inteligente, que retrata com propriedade as injustiças e a corrupção de um país subdesenvolvido. Há cenas hilárias e vários personagens cômicos. Provavelmente, as melhores situações sejam: o diálogo da jornalista inglesa com os fiscais governamentais durante a inauguração do cinema GaloCamões; a entrega da marmita destinada ao filho de Odonato para um carcereiro corrupto; a proibição do governo angolano da realização de um eclipse solar que iria ocorrer no país; os festejos pela morte da CamaradaIdeologia; e os discursos inflamados do CamaradaEsquerdista no bar do Noé. Por sua vez, as mais engraçadas personagens são: Carteiro, que passa o dia entregando as cartas escritas por ele mesmo, em um esforço inútil para conseguir melhores condições de trabalho; CamaradaMudo, que curiosamente fala; JoãoDeVagar, um empresário trambiqueiro metido em todo tipo de negócio escuso, como a fundação de uma igreja evangélica inspiradas nas brasileiras (ou seja, destinada a surrupiar dinheiro dos fiéis mais pobres); e DessaVez e DaOutra, dupla de fiscais governamentais corruptos, interessados unicamente em angariar propina. Impossível não rir das tramas protagonizadas por essas figuras. Outro elemento que merece destaque positivo é a crítica social bem feita pelo autor. Além de escancarar os problemas do seu país, Ondjaki mostra os reflexos da desigualdade de renda, das injustiças sociais e da corrupção na vida das pessoas comuns. Boa parte da transparência de Odonato deve-se à sua condição financeira. Sua pobreza o transformou em um homem invisível aos olhos dos seus conterrâneos (e, principalmente, do governo). Muito legal essa analogia! O único aspecto negativo do livro está nas inovações realizadas por Ondjaki no seu texto. Tentando imitar José Saramago (que criou um estilo próprio para a pontuação e para as letras maiúsculas e minúsculas), o angolano optou por apresentar uma linha textual criativa e única. Por exemplo, não há ponto final no final dos parágrafos. Também não se coloca a primeira letra de cada frase em maiúscula. Esse expediente não atrapalha a leitura do romance (rapidamente o leitor se acostuma com essas particularidades da obra), porém ele também não acrescenta nada. Ou seja, foi um recurso desnecessário na minha visão. Uma narrativa tão interessante não precisava de mais nada para se tornar valorizada. De certo modo, "Os Transparentes" me fez lembrar alguns bons livros que já li. "O Cortiço", clássico de Aluísio Azevedo, é um deles. O retrato do prédio angolano é, em muitos pontos, parecido ao cortiço naturalista do século XIX, principalmente no que tange a descrição da vida do grupo de pessoas pobres que moram em seu interior. Também recordei "Gabriela, Cravo e Canela", de Jorge Amado. Tanto na obra do baiano quanto na do angolano, a política macroeconômica interfere diretamente na vida das pessoas comuns, para o bem ou para o mal. Também temos um pouco de "O Processo", de Franz Kafka, e seus intermináveis dramas burocráticos. E a excelente dupla DessaVez e DaOutra me fez recordar os gêmeos Dupont e Dupont, os atrapalhados detetives dos quadrinhos das Aventuras de Tintim. Assim, "Os Transparentes" é um bom livro. Ele é interessante, original, inteligente e muito engraçado. Quem estiver procurando algo criativo para ler nesse finalzinho de ano, aqui vai uma boa dica de leitura. Como prometido, vou retornar ao blog na próxima quarta-feira, dia 29, para fazer a análise literária completa de Ondjaki. Será o sétimo e último panorama autoral do Desafio Literário de 2017. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Ondjaki #LiteraturaAngolana #Romance #Drama
- Livros: Aldeia Nova – O neorrealismo de Manuel da Fonseca
Neste finalzinho de ano, li um clássico do neorrealismo português. “Aldeia Nova” (Caminho) é a principal obra da carreira de Manuel da Fonseca, um dos grandes autores da língua portuguesa do século XX. Poeta, romancista, contista e cronista, Manuel da Fonseca marcou a literatura lusitana por apresentar a vida difícil dos moradores do Alentejo, sua terra natal. Com textos críticos e narrativas socialmente engajadas, o escritor nascido em Santiago do Cacém enalteceu os perrengues cotidianos dos alentejanos. “Aldeia Nova” é uma coletânea de contos publicada originalmente em 1942. Nessa época, Manuel da Fonseca era ainda um autor desconhecido do grande público português. Com pouco mais de trinta anos, ele só havia lançado duas obras, ambas de poesias e com pequenas tiragens: “Rosa dos Ventos”, em 1940, e “Planície”, em 1941. “Aldeia Nova” representou uma guinada na carreira do escritor. Depois deste livro, Fonseca mergulhou na ficção e deixou a poesia em segundo plano. A partir daí foram produzidos dois romances (“Cerromaior”, em 1943, e “Seara de Vento, em 1953) e várias obras de contos (“O Fogo e as Cinzas”, em 1951, “O Retrato”, em 1953, “Um Anjo no Trapézio”, em 1968, e “Tempo de Solidão”, em 1973, são as principais). Algumas coletâneas de crônicas também foram publicadas. A mais importante delas é “Crónicas Algarvias”, de 1968. A maioria dessas obras foi publicada pela Caminho, editora lisboeta. Por isso, aviso desde já os leitores brasileiros que é um tanto difícil achá-las. Ou você importa os livros de livrarias portuguesas ou recorre a bons sebos nacionais. Se você tiver sorte, também pode encontrar esses títulos em bibliotecas com um bom acervo de literatura portuguesa. As doze tramas de “Aldeia Nova” foram escritas entre o final da década de 1920 e os últimos anos de 1930. Muitos desses contos foram publicados inicialmente em revistas e jornais literários antes de integrarem um livro. A inspiração do escritor para escrever essas narrativas veio de fatos vividos por ele ou por pessoas próximas. Manuel da Fonseca explica isso no prefácio da obra: “Cinco destes contos criei-os a partir de acontecimentos vividos por pessoas de minha família. Alguns a que assisti, outros que ouvi contar. Da recordação que desses acontecimentos me ficou e que o tempo, com a experiência que eu ia adquirindo, veio insensivelmente retocando, sou às vezes levado a pensar que pouco mais fiz do que escreve-lo”. A história sobre a publicação de “Aldeia Nova” é muito interessante e merece ser mencionada aqui. Um amigo de Manuel da Fonseca enviou os originais do livro para a Portugália, uma editora de Lisboa recém-inaugurada. Como é comum acontecer com escritores jovens e desconhecidos, as páginas da obra ficaram esquecidas em um canto do escritório da empresa sem que ninguém tivesse o trabalho de lê-las. Por um acaso, a esposa de um dos editores acabou pegando o material para folhear enquanto esperava o marido sair de uma reunião. O título de um dos contos chamou a atenção da mulher: “O Primeiro Camarada que Ficou no Caminho”. “Camarada” era um termo comunista e, portanto, politicamente incorreto para a época. Portugal vivia naqueles anos sob a ditadura de extrema-direita de Óscar Carmona. Curiosa para ler um livro aparentemente subversivo, a esposa do editor levou o material para casa. Contudo, para surpresa da leitora improvável, o texto de “Primeiro Camarada que Ficou no Caminho” não tinha um conteúdo ilegal. O conto narrava o drama de uma família que perdia uma criança vítima de uma doença grave. Coincidentemente, algo parecido tinha se passado com a esposa do editor alguns meses antes. Ela também viu seu filho pequeno morrer e ainda não tinha superado totalmente aquela dor. Impressionada positivamente com o relato do jovem escritor sobre algo tão triste, a mulher não sossegou enquanto seu marido não publicou o livro que a emocionou tanto. Assim, estava inaugurada a carreira de Manuel da Fonseca na ficção. É ou não é uma história incrível, hein? A partir daí, Portugal conhecia um dos seus grandes contistas. Os doze contos de “Aldeia Nova” são: “Campaniça”, “O Primeiro Camarada que Ficou no Caminho”, “O Ódio das Vilas”, “Sete-estrelo”, “Névoa”, “A Torre da Má Hora”, “A Visita”, “Viagem”, “Mestre Finezas”, “Aldeia Nova”, “Maria Altinha” e “Nortada”. O livro possui 180 páginas. O primeiro conto da obra, “Campaniça”, se passa em Valgato, uma pequena aldeia do Alentejo onde a terra é ruim. Por isso, os homens do lugar precisam viajar todos os dias para longe para trabalhar, regressando apenas à noite. Em Valgato vive Maria Campaniça, uma moça que sonha em morar em uma localidade mais dinâmica e feliz. Em “O Primeiro Camarada que Ficou no Caminho”, temos a primeira história de Rui do Parral. Ele é a personagem que aparecerá em várias tramas do livro. Aqui, Rui é um menino que se sente abandonado pela mãe. Desde que Carlos, seu irmão mais velho, ficou seriamente doente, a mãe o proibiu de entrar em casa. Assim, o menino passou a viver com os avôs. Sem entender aquele desprezo materno, o garoto sente saudades dos beijos da mãe e da companhia do irmão. “O Ódio das Vilas” trata da chegada de António Vargas à cidade de Cerromaior. A população local fica revoltada ao vê-lo a galope com Maria Jacinta, sua nova esposa. Como um homem daquela posição social pode ter se casado com um moça dos Montes?, pensam todos. Indiferente à oposição dos conterrâneos, Vargas encara um a um dos moradores da cidade com coragem. Em “Sete-Estrelo”, o quarto conto da coletânea, temos novamente uma narrativa em primeira pessoa protagonizado por Rui. O menino agora lamenta a partida dos pais para a África. Mais uma vez, o narrador se sente abandonado nas casas dos avós. “Nevoa” apresenta Zé Limão, um maltês pobre e bêbado que perambula de maneira solitária pelas ruas em uma noite fria de Inverno. Em “A Torre da Má Hora”, Campanelo é um sujeito que gosta de contar histórias de contos de fadas para a criançada em noites estreladas. Os pequenos ouvem suas tramas atentamente. Um episódio narrado faz um dos garotos do grupo, que vive com os avós e que perdera um irmão alguns anos antes, conhecer a valentia do avô quando este era jovem. “A Visita” mostra a agonia de Zéli em um jantar com os pais. A moça quer passear com as amigas na praça e, para isso, precisa aguardar o fim da refeição em casa. Contudo, uma visita surpresa atrapalha seus planos. Dona Francisca e seus três filhos aparecem sem avisar na casa do Doutor Valença e de Dona Naná, os pais de Zéli. “Viagem” narra o retorno de Rui de Parral à Cerromaior. Depois de cinco anos passados em Lisboa estudando, o rapaz, agora com dezoito anos, volta para desfrutar das férias de Verão na casa dos avós. Sem ser reconhecido em um primeiro momento pelos moradores da cidade, Rui está ávido por reencontrar Gracinda, uma antiga paixonite sua. O enredo de “Mestre Finezas” gira em torno de Ilídio Finezas, um velho e decadente barbeiro. O idoso sente saudades dos tempos em que era um exímio violinista e a principal estrela dos espetáculos cênicos encenados em sua aldeia. Em “Aldeia Nova”, o décimo conto do livro e que empresta seu nome para a coletânea, temos Zé Cardo. O criador de porcos de treze anos tem uma vida solitária e triste no Vale dos Agreiros. Sua melancolia aflora nas noites de sábado, quando fica ouvindo as cantigas de ganhões e malteses. Nessa hora, Zé Cardo sonha em se mudar para Aldeia Nova, um lugarejo onde todas as pessoas parecem ser felizes. “Maria Altinha” é a história de uma moça, a tal Maria Altinha, que precisa viajar como muitas mulheres do Sul para as planícies do Norte. Lá, elas trabalham nos arrozais durante o Verão. O dinheiro ganho na empreitada servirá para sustentar as famílias delas durante o Inverno todo. Os encantos de Maria não passam despercebidos aos olhos de Valdanim, um homem bruto das planícies. E “Nortada”, o último conto do livro, trata do desembarque de um passageiro misterioso na estação de trem de Aldeia do Montinho em uma noite fria. O local está deserto e o viajante contrata um velho para levá-lo durante a madrugada até Cerromaior. O trajeto de mula será ao mesmo tempo perigoso e revelador. Os contos do livro “Aldeia Nova” são de uma melancolia profunda. A solidão e a tristeza de suas personagens dão o tom dessas histórias. A sensação é que a região retratada do Alentejo ficou parada no tempo e aprisiona as almas de seus moradores. Os únicos sortudos são aqueles indivíduos que conseguiram migrar para outras regiões de Portugal ou imigraram para alguma das colônias estrangeiras do país. As tensões políticas e sociais dessa época também são evidentes nos textos de Manuel da Fonseca. O clima sombrio das narrativas (geralmente ambientadas à noite e com muito frio) e as péssimas relações pessoais das personagens escancaram a sensação de terror que imperava em Portugal e, principalmente, no Alentejo na primeira metade do século XX. A vida, nesse caso, é uma sequência infinita de perdas e uma eterna amargura para os alentejanos. Impossível fugir dos dramas comuns que essa região aparentemente inóspita proporciona aos seus moradores mais desfavorecidos. A tristeza coletiva é provocada não apenas pela pobreza monetária do lugar, mas principalmente pela aridez das relações pessoais. Quando o autor diz que o Alentejo tem uma “terra ruim”, ele está sendo ao mesmo tempo literal e metafórico. A “terra” neste caso não é apenas o solo trabalhado pelos ceifeiros (agricultores) e pelos porcadiços (criadores de porcos). É também o ambiente cultural dos pequenos povoados e das aldeias deste pedaço do sul do país. Os alentejanos são um povo sofrido e condenado ao trabalho árduo e aparentemente pouco produtivo. Para nós brasileiros, o Alentejo de Manuel da Fonseca é parecido com o Nordeste brasileiro de Graciliano Ramos – impossível não recordarmos de “Vidas Secas”. Apesar de independentes, os contos de “Aldeia Nova” estão intrinsicamente relacionados. Acompanhamos a vida de Rui de Parral da meninice até a maturidade. Outras personagens também são mencionadas em contos distintos, conferindo grande unidade à obra. Sinceramente, não sei se Rui é uma personagem autobiográfica de Manuel da Fonseca. O que sei é que a família Parral tem uma intrínseca relação com o clã Fonseca e que há várias semelhanças entre a trajetória de vida do escritor e de seu mais famoso protagonista. “Aldeia Nova” é um livro espetacular. Além de conhecermos uma das melhores coletâneas de contos já escritas na língua portuguesa, também somos apresentados ao trabalho de um dos maiores escritores do neorrealismo português. A literatura engajada e crítica de Manuel da Fonseca é incrível. Apesar da dificuldade de encontrar essa obra aqui no Brasil, vale a pena o trabalho para caçá-la por aí. Gostei muito desta leitura e estou seriamente inclinado a ler também “O Fogo e As Cinzas”, outro livro de contos do filho mais pródigo de Santiago do Cacém. Quem sabe não faço uma crítica dessa publicação, em 2019, no Blog Bonas Histórias, hein? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Livros: O Conto da Ilha Desconhecida - A bela parábola de José Saramago
O Nobel de Literatura de 1998, o português José Saramago, não se dedicou apenas aos romances. Apesar de sua fama internacional ter sido construída principalmente pelos romances "Ensaio sobre a Cegueira" (Companhia das Letras), "Memorial do Convento" (Companhia das Letras) e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (Companhia das Letras), Saramago também foi um grande cronista, ensaísta, dramaturgo, contista, poeta e jornalista. Neste começo de 2017, me propus a conhecer um pouco mais o lado contista/novelista do português. Por isso, li "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). Este livro aborda a história de um homem que visita o castelo real para pedir um barco ao monarca. O sonho do rapaz é viajar pelos mares para descobrir uma ilha até então desconhecida. O rei, intrigado com tão curioso pedido, questiona o homem sobre como ele sabe da existência da ilha se ela é desconhecida. O súdito responde argumentando que todas as ilhas são desconhecidas até que sejam descobertas. Inicia-se, aí, um debate de cunho filosófico. O desafio do homem do barco, como o protagonista é chamado pelo escritor durante a trama, é viabilizar seu sonho, por maiores e mais desafiantes que sejam os problemas do dia a dia. Esta disposição do protagonista de encarar o novo e o misterioso contagia a mulher da limpeza, que trabalhava no castelo. Ao ouvir a conversa entre o súdito sonhador e o rei, ela opta por fugir do castelo e se juntar ao homem do barco em sua empreitada. Ela sempre sonhou em ser a responsável pela limpeza de um barco e viu naquela oportunidade a chance de fazer o que sempre quis. "O Conto da Ilha Desconhecida" é uma obra com pouco mais de 60 páginas. É possível lê-la em pouco mais de duas horas. Ela é uma bela parábola sobre a força de vontade que precisamos ter para realizarmos nossos sonhos. Também há elementos interessantes sobre as relações pessoais e sobre as relações de poder entre governantes e governados. Este livro permite algumas interpretações de cunho mais filosófico. O ponto alto da narrativa está nos diálogos e, como é comum nas parábolas, nas interpretações das palavras e das ações de seus personagens. Há ótimas personagens também. O rei prefere muito mais receber os favores e as graças do seu povo do que se prestar a ajudá-los. No momento de receber algo, ele se mostra disposto e atento. Na hora em que precisa prestar ajuda ou socorro a alguém, ele fica com preguiça e mal-humorado. É o retrato do governante interesseiro, atendendo apenas àqueles que têm algo para lhe dar e desprezando aqueles sem posses para oferecer (e apenas pedir). A mulher da limpeza, que tem um papel crescente na obra, saindo do papel secundário e ganhando certo protagonismo, tinha uma vida estável, segura e previsível no castelo. Contudo, saiu de lá para realizar seu sonho (ser responsável pela limpeza de um barco). Buscando a concretização deste sonho e desejando fazer algo na qual ela se realizasse, ela efetuou a mudança. A mensagem que este episódio nos transmite é que devemos lutar pelos nossos sonhos e buscar nossas realizações profissionais, por mais difíceis que elas pareçam (deixando o mundo confortável e seguro que não nos representa). O homem do barco também é uma personagem com grande força interior. Pode-se dizer que se trata de um protagonista do tipo esférico, pois ele apresenta uma grande complexidade de comportamentos, possuindo conflitos e contradições de difícil resolução. Além disso, suas características psicológicas vão se formando ao longo do conto/novela, por vezes, surpreendendo o leitor. A história se passa em um espaço físico e psicológico. No início da narrativa, temos muito bem delimitado o espaço físico. Os personagens estão em um castelo (reino). Depois, eles partem para o porto, para conhecer o navio. Quando o homem do barco começa a sonhar, neste instante, temos o espaço psicológico. A aventura marítima acontece exclusivamente em seu sonho. Há também dois tipos de tempo neste conto. No momento em que o homem do barco fica esperando o rei por três dias, deitado na porta do castelo, temos o tempo cronológico. Por outro lado, quando o homem do barco começa a divagar, sonhando com a viagem marítima, temos o tempo psicológico. A parte que mais gostei foi a do final. Além de surpreendente, o desfecho possui um tom poético incrível. Saramago é ao mesmo sutil e profundo, provocando o leitor a uma grande reflexão. Gostei tanto desta história que estou pensando em incluir, neste ano, José Saramago no Desafio Literário. Será bom ler mais obras deste monstro da Língua Portuguesa. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoséSaramago #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Parábola #Novela #conto #Existencialismo
















