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- Livros: Memorial do Convento - O primeiro sucesso internacional de José Saramago
O Desafio Literário de abril começa com o primeiro sucesso internacional de José Saramago. Quando “Memorial do Convento” (Companhia das Letras) foi publicado, o escritor português era um nome que despontava no cenário literário de seu país natal como uma boa promessa. “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), seu romance precedente, conquistara o Prêmio Cidade de Lisboa. Assim, o autor até então desconhecido ganhara, enfim, o reconhecimento do público leitor e o respeito da crítica literária nacional. Curiosamente, isso aconteceu quando Saramago já estava próximo de completar 60 anos. Contudo, só foi com “Memorial do Convento”, seu quarto romance, que o escritor se tornaria famoso também fora das fronteiras portuguesas. Estava pautado o começo de uma trajetória artística que culminaria com o recebimento do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Lançado em outubro de 1982, “Memorial do Convento” pode ser considerado a obra de afirmação de José Saramago. Utilizando o estilo literário implementado dois anos antes em “Levantado do Chão” (que seria sua marca registrada a partir de então), uma temática com forte tom de denúncia social (característica deste início de carreira), e elementos fantasiosos (ingrediente fundamental da fase seguinte, a da “Crítica à Realidade”), Saramago tornava-se, ao mesmo tempo, um best-seller e um escritor com uma literatura bem peculiar (combinação extremamente difícil de ser obtida). “Memorial do Convento” foi traduzido para dezenas de idiomas e ganhou mais de meia centena de edições. Em 1990, Azio Corgi, compositor italiano de prestígio, criou a ópera “Blimunda”. O espetáculo foi inspirado na protagonista feminina deste romance. O enredo de “Memorial do Convento” se passa em Portugal entre 1711 e 1730. D. João V, o rei lusitano, faz uma promessa ao frei António de S. José. Se D. Maria Ana Josefa, a rainha, conseguir parir um filho dentro de um ano, o monarca irá construir, em agradecimento a Deus, um convento franciscano em Mafra. E graças à providência divina ou a um esperto arranjo entre os mortais, ela dá à luz, dentro do prazo estipulado, a uma menina batizada de Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara. O reino e a família imperial são só alegria. E como é um rei de palavra, D. João V não mede esforços para cumprir sua promessa. Empolgado com a empreitada que ele mesmo criou, o monarca aumenta, de tempos em tempos, a dimensão da sua construção. Os religiosos ficam maravilhados com tamanha sorte e com a benevolência real. D. João V quer que o convento se torne maior do que a basílica romana. Por isso, nasce em Mafra um campo de trabalho de dimensões vultuosas. Milhares de trabalhadores são convocados e infinitos recursos são dispensados para a obra. Enquanto a família real portuguesa leva uma existência regada a extravagâncias e a luxos incalculáveis, no meio do povo simples vivem Baltasar Mateus, apelidado de Sete-Sóis, e Blimunda de Jesus, apelidada de Sete-Luas. O casal vive junto apesar de não ter se casado na Igreja. Baltasar é um ex-soldado que perdeu a mão esquerda no campo de batalha. Blimunda é uma vidente que, ao ficar em jejum, consegue ver dentro do corpo das pessoas. A dupla trabalha para Bartolomeu Lourenço, padre nascido no Brasil que sonha em construir uma máquina voadora. Ele conseguiu o patrocínio real para sua invenção, apelidada de Passarola. À medida que a confecção da máquina avança e se torna mais e mais concreta, aumentam também os perigos de Bartolomeu Lourenço e de seus funcionários se tornarem alvos da ira do Santo Ofício. Vale lembrar que no século XVIII, a Igreja não pensava duas vezes antes de atirar seus inimigos nas fogueiras da Inquisição. “Memorial do Convento” possui 408 páginas. Elas estão distribuídas em 25 capítulos. Precisei de três dias para concluir esta leitura. Comecei o livro no sábado passado e o finalizei nesta segunda-feira à noite. Esta não foi a primeira vez que li esta obra. Há cerca de cinco anos já tinha lido sua história. Por isso, desta vez, não encontrei muitas novidades de ordem narrativa. Esta trama de Saramago ainda estava viva em minha mente, apesar de meia década depois da leitura inicial (o que já é um primeiro sinal da ótima qualidade deste texto). As principais características de “Memorial do Convento” são: a criação de dois planos narrativos distintos (família real e o casal Baltasar-Blimunda), a mistura de personagens reais e fictícios, o tom de denúncia social, a crítica contumaz à Igreja, o cenário de grande violência, o uso de muitas ironias, o texto bastante descritivo e com quebras na trama principal, a inserção de elementos fantasiosos à história, o narrador em terceira pessoa onipresente e onisciente e a narrativa construída segundo o estilo José Saramago. Como já tinha sido feito em “Levantado no Chão”, “Memorial do Convento” possui dois planos narrativos opostos: o dos poderosos e o dos oprimidos. Ambos andam paralelamente. O leitor vê as decisões destemperadas tomadas por D. João V e, depois, as consequências disso para o casal de protagonistas Baltasar e Blimunda (e para o restante da população portuguesa). Essa dicotomia entre realidades tão diferentes é interessantíssima. De um lado temos a riqueza, o luxo, o conforto e o poder quase ilimitado do rei. Do outro, assistimos à pobreza, às injustiças, ao desconforto e à opressão vivenciadas pelos trabalhadores humildes. A trama de José Saramago também mistura personagens reais e fictícias. D. João V e Bartolomeu Lourenço de Gusmão, por exemplo, são figuras que existiram de fato (sim, o brasileiro tinha o apelido de padre voador e era obcecado por ganhar os céus - ele inventou um tipo de balão que voou, em pleno século XVIII, para surpresa dos súditos do rei português). Já Baltasar e Blimunda compõem o grupo de personagens nascidas exclusivamente na imaginação do autor. Essa combinação entre realidade histórica e ficção literária torna a trama ainda mais sedutora. O leitor precisa descobrir por conta própria onde começa e onde termina a invenção ficcional. A construção do convento em Mafra, por um acaso, é um episódio real. Como no romance anterior de Saramago, este apresenta um forte tom de denúncia social. O texto do livro é extremamente crítico às injustiças e às desigualdades vivenciadas pelos portugueses mais humildes. Se em “Levantado no Chão” tratava dos perrengues dos agricultores do Alentejo (vítimas dos latifundiários), em “Memorial do Convento” assistimos ao padecimento dos trabalhadores da construção civil em Mafra (vítimas dos caprichos reais). De semelhança entre as publicações, temos o papel de vilania dos religiosos, sempre unidos ao poder terreno e contrários aos interesses da camada mais pobre da população. Por falar nisso, Saramago não alivia nas fortes críticas à Igreja Católica, até mais acentuadas do que nos romances anteriores. Quase todas as autoridades religiosas são pintadas de maneira extremamente pejorativa. Eles roubam, enganam, estupram, fazem sexo, enriquecem... Não há nada de sacro em suas atividades e comportamentos. O único padre que é retratado de maneira positiva é Bartolomeu Lourenço, que não se dedica ao Catolicismo e sim a sua invencionice. Nota-se também a crítica ao Catolicismo nas várias reinterpretações bíblicas que o narrador e as personagens inserem no meio da trama. José Saramago é talvez o ateu que mais conhecesse da Bíblia em Portugal. Ao mesmo tempo em que assistimos às estripulias dos religiosos, vemos um cenário profundamente violento. Portugal do século XVIII, aos olhos do escritor, é palco de guerras sangrentas, de variados crimes urbanos, da ação ditatorial da Inquisição, de feminicídios, touradas, acidentes de trabalho e tentativas de estupro. A impressão que temos é que cada capítulo do livro nos reserva um conjunto abrangente e variado de violências e crimes. Não há lugar seguro para ninguém. A qualquer instante, uma fatalidade irá acontecer, para desgraça das pessoas. Note a ironia fina de Saramago durante toda a narrativa. É impossível não se divertir com o jeito sutilmente desbocado (e inteligente) do narrador em relatar os acontecimentos inusitados de suas personagens. Nada parece escapar aos olhares críticos e bem-humorados de quem conta a história. Normalmente, as vítimas favoritas da língua felina do narrador são os religiosos e os poderosos, mas isso não quer dizer que o povão esteja totalmente imune aos julgamentos e aos comentários irônicos. No final das contas, ninguém escapa do humor ácido de “Memorial do Convento”. Uma característica que pode incomodar muitos leitores é a quebra constante de ritmo da trama principal. José Saramago intercala a narrativa de D. João V e sua família e a narrativa do casal Baltasar-Blimunda e seus amigos com longos trechos descritivos e subtramas que não se ligam diretamente aos conflitos principais. Ou seja, quando o leitor quer saber o que o rei português fará ou o que os protagonistas do núcleo pobre da história farão, ele recebe longos relatos bíblicos, detalhes de festas e confraternizações religiosas, passagens históricas, cenas gerais da construção do convento de Mafra, depoimentos de personagens secundárias e muitas e muitas histórias paralelas. É verdade que o texto de Saramago é sedutor ao ponto de a leitura não descambar, mas ainda sim essa característica pode incomodar quem é mais ansioso e deseja ir logo para o assunto principal. Pela primeira vez, temos um romance de José Saramago com fortes componentes fantasiosos (algo que seria corriqueiro nos demais livros do autor). Os poderes mediúnicos de Blimunda de Jesus e de sua mãe, Sebastiana Maria de Jesus, são ingredientes fundamentais da narrativa. São os poderes da mulher de Baltazar que farão a Passarola de Bartolomeu Lourenço voar. A máquina do padre brasileiro ganha os ares não pelas características físicas e anatômicas da invenção e sim pelo componente fantasioso da trama. Contudo, há uma sensível diferença entre a aplicação da fantasia nesta obra com o que será feito daqui para frente por Saramago. Nos romances seguintes do autor português, a fantasia serve para questionar criticamente assuntos da realidade objetiva e histórica de Portugal, da Europa e do Cristianismo. Já em “Memorial do Convento” não há essa finalidade escancarada. Exatamente por isso, costumamos dizer que a fase da “Crítica à Realidade” só começa com a publicação de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), o livro seguinte do autor. E o que podemos falar do narrador de “Memorial do Convento”, hein? Além de ser em terceira pessoa e possuir dons da onipresença e da onisciência, ele não se aguenta e se adianta à história. Isso é muito curioso. O narrador fala o que irá acontecer no futuro com algumas personagens, colocando, como diriam os mais antigos, o carro na frente dos bois. Fulano vai morrer daqui a três meses, tá? Beltrano, não se impressione leitor, por favor, se acontecer tal coisa com ele daqui a pouco. Como é típico dos relatos informais de qualquer história já passada (mas não na literatura), essas antecipações dão mais verossimilhança à narrativa. Eu pelo menos adorei. O que mais deixou o público internacional admirado, em “Memorial do Convento”, foi o estilo ousado do texto de José Saramago. Lembremos que quase ninguém fora de Portugal havia lido “Levantado do Chão”, obra que inaugurou o jeitão da narrativa do autor. Assim, a união dos discursos das personagens à narração (sem qualquer separação formal entre eles), a ausência de sinais de exclamação e interrogação, as frases longas e o excesso de descrições transformaram completamente a experiência de leitura. Ler um livro de Saramago é algo incomparável. O único elemento de seu estilo que o escritor português não havia ainda adotado de forma mais ampla em “Memorial do Convento” era a troca de muitos pontos finais por vírgulas (algo escancarado nos livros seguintes). Por isso, não estranhe o “excesso” de pontos finais neste romance. De forma geral, “Memorial do Convento” é um bom livro. O seu primeiro capítulo é simplesmente genial. E seu final é carregado de tristeza e de loucura (um dos desfechos mais melancólicos da literatura do português). Dentre os títulos do portfólio de Saramago, entretanto, este romance não está entre os meus favoritos. Talvez ele só ganhe de “Levantado do Chão”, o romance mais chato de Saramago, e de “Jangada de Pedra” (Companhia das Letras), o mais fraquinho conceitualmente. Eu colocaria “Memorial do Convento” ao lado de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, mas atrás, muito atrás de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), “Ensaio sobre a Cegueira” (Companhia das Letras), “Caim” (Companhia das Letras) e “O Conto da Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras), esses sim os meus favoritos. Concluída a análise do primeiro livro do Desafio Literário deste mês, já preciso planejar a próxima leitura. O segundo romance de Saramago que será comentado no Bonas Histórias é “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), o quinto romance do português. Vou lê-lo neste final de semana e na próxima terça-feira, dia 9, posto minhas impressões para vocês. Não percam as próximas etapas do Desafio Literário de José Saramago. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Livros: O Ano da Morte de Ricardo Reis – O criativo romance de José Saramago
Dois anos depois da publicação de “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), José Saramago estarrecia seu público com o lançamento do que considero seu romance mais original: “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras). Nesta trama, o escritor português vencedor do Nobel de Literatura de 1998 acompanha Ricardo Reis, um dos mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa, após a morte do poeta. O quê? Como assim?! É isso mesmo o que você leu. Saramago embaralha realidade e ficção com extrema delicadeza e criatividade. Incrível o enredo deste livro, não é mesmo? Por isso, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é a segunda obra que vamos analisar neste mês no Desafio Literário. Para quem perdeu os posts dos últimos dias, saiba que o Bonas Histórias irá investigar, ao longo de abril, a literatura de José Saramago, um dos principais escritores da língua portuguesa. Publicado em 1984, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” abre o que podemos chamar da fase de “Crítica à Realidade”, um dos períodos mais frutíferos do autor. Mesmo utilizando-se de tramas ancoradas em elementos fantasiosos (uma de suas características estilísticas), a proposta central desses livros de Saramago era questionar criticamente assuntos da realidade objetiva e histórica de Portugal, da Europa e do Cristianismo. Entre 1984 e 1991, quatro romances foram lançados em sequência com essa pegada. Depois de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, tivemos “A Jangada de Pedra” (Companhia das Letras”), de 1986, “História do Cerco de Lisboa” (Companhia das Letras), de 1989, e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), de 1991. Não é coincidência que essas obras apareçam entre os trabalhos mais famosos do escritor português. Para produzir “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, seu quinto romance, José Saramago precisou realizar uma extensa e acurada pesquisa documental, literária e biográfica. Como a trama é ambientada na véspera da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o autor precisou mergulhar tanto nos fatos históricos desse período quanto nos detalhes da produção de Ricardo Reis e da biografia de Fernando Pessoa. O resultado é incrível. Com uma sutileza incomparável, os dois planos do enredo (o geral/histórico e o pessoal de Reis/Pessoa) se bifurcam em um drama denso, amargo e filosófico. Enquanto assistimos ao ocaso do(s) protagonista(s), podemos acompanhar simultaneamente um dos períodos mais tristes da história humana. Sem defender explicitamente qualquer ideologia política, Saramago mostra o quanto o ser humano pode transformar-se em um animal cruel, irracional e desmedido quando acuado. Quem gosta de história sabe que na época desta narrativa ficcional, o Nazifascismo assolava a Península Ibérica e a Europa e provocava sangrentos combates armados e milhares de mortes pelo caminho. Este livro de José Saramago começa no dia 29 de dezembro de 1935. Ricardo Reis, médico e poeta de 48 anos, solteiro, nascido no Porto e monarquista-antinacionalista, retorna ao seu país natal após 16 anos de autoexílio no Brasil. O protagonista do romance viveu no Rio de Janeiro durante esse período, trabalhando na medicina e escrevendo suas odes sem jamais publicá-las. Sua volta à Europa foi motivada por uma carta recebida de Álvaro de Campos, outro heterônimo de Fernando Pessoa. Na correspondência, o amigo informava Reis sobre o falecimento de Pessoa em 30 de novembro. Algo assim, convenhamos, só é possível na ficção e na mente privilegiada de Saramago. De qualquer forma, o fato é que Ricardo Reis chegou à Lisboa após algumas semanas de viagem no navio Highland Brigade. Outra vez em sua terra, Ricardo Reis hospeda-se no Hotel Bragança, na Rua do Alecrim. Ali é acolhido com carinho pela equipe do estabelecimento. Já na manhã seguinte à sua chegada, o médico decide visitar o túmulo de Fernando Pessoa. Desejava prestar sua última homenagem ao amigo que, curiosamente, faleceu desconhecido do grande público. Como havia muitas pessoas perambulando pelo cemitério, Reis acaba ficando menos tempo do que desejava no local. Sem ter mais o que fazer no último dia de 1935, o protagonista do romance opta por dar um passeio a pé pela capital portuguesa. Sua voltinha pelas ruas de Lisboa vai de manhã até a noite. Quando, enfim, retorna de madrugada ao hotel, a festa do Réveillon já está pegando fogo por toda a cidade. E justamente nesse momento de celebração e alegria, Reis recebe uma visita surpreendente em seu quarto: o fantasma de Fernando Pessoa. A alma do poeta veio agradecer a passagem, de manhã, do médico pelo cemitério. Fernando Pessoa explica para um estupefato Ricardo que ele ainda ficará nove meses vagando a esmo pelo mundo dos vivos enquanto não passa definitivamente para o mundo dos mortos. Esse período de transição é normal, explica o fantasma. Assim como uma criança precisa ficar nove meses na barriga da mãe antes de vir de fato ao mundo, a alma de um falecido precisa aprender a se desprender da vida física antes de reencarnar totalmente. Felizes por conviverem mais um pouco, Ricardo Reis e Fernando Pessoa combinam de se encontrar em outras oportunidades. E, assim, eles cumprem o prometido. A dupla se torna mais próxima, algo até então inédito. A relação deles, até aquele instante, era de dois conhecidos, não de dois amigos. Na nova fase, Pessoa e Reis aproveitam para conversar sobre todos os assuntos: a vida, a morte, os medos, os sonhos e seus trabalhos literários. Além disso, eles têm a oportunidade de debater os caminhos políticos que a Europa está seguindo. Portugal de Salazar, a Espanha de Franco, a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler trouxeram as nuvens da guerra para a região. Sem nada de produtivo para fazer em Portugal ao longo dos meses de 1936, Ricardo Reis passa os dias a esmo. Sua rotina é ler os jornais com notícias cada vez mais sombrias, passear a pé por Lisboa, fazer sexo com Lídia Martins, uma camareira do hotel, e cortejar Marcenda Sampaio, uma jovem virginal de Coimbra que tem uma mão paralisada. Marcenda hospeda-se, com o pai, uma vez por mês no Bragança. A rotina entediante do médico só é quebrada pelas visitas de um Fernando Pessoa cada vez mais crítico e ácido em relação à vida e à existência humana. Quando se encontram, os dois amigos aproveitam para debater sobre seus trabalhos, suas “vidas” e os acontecimentos políticos. “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é um romance parrudo. Ele possui 432 páginas. É o segundo romance mais extenso deste Desafio Literário, perdendo por pouco para “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), que têm 448 páginas. Como o estilo de escrita de José Saramago condensa parágrafos e diálogos em um texto praticamente corrido, sua leitura é mais demorada do que o habitual. A sensação é que os livros do português possuam muito mais páginas do que efetivamente têm. Demorei cerca de quatro dias para concluir a leitura integral de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, o dobro do que normalmente levo para uma obra com esse número de páginas. Por isso, não tenha pressa quando estiver com este livro em mãos. Na certa, você despenderá muito mais tempo do que está habituado(a) para uma publicação desse porte. Quanto ao estilo narrativo, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” não apresenta nenhuma grande novidade quando comparado às duas obras precedentes. As principais características da prosa de José Saramago, apresentadas ao público pela primeira vez em “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), romance de 1980, e depois utilizadas em “O Memorial do Convento”, são aqui replicadas de maneira intacta. Ou seja, temos neste livro o uso particular dos sinais de pontuação (ausência da exclamação e da interrogação e a substituição do ponto final pela vírgula em muitos momentos), os diálogos acoplados à narração (sem o travessão), os longos parágrafos, a ironia desconcertante, o texto muito descritivo, a mistura de realidade e ficção, a inserção da fantasia em meio à trama realista e o narrador onisciente e onipresente. Todas essas marcas são típicas da literatura saramaguiana. Um aspecto que chama a atenção do leitor é a duplicidade do ponto de vista da trama (algo que José Saramago já havia feito em seu livro anterior). A história de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” tem uma parte micro (vida do seu protagonista) e uma macro (ambiente político da Europa Pré-Segunda Guerra Mundial). Em muitos momentos do livro, o segundo aspecto ganha destaque, monopolizando alguns capítulos. As personagens reais (Salazar, Franco, Mussolini, Hitler) saltam à primeira posição na trama. Elas aparecem no romance a partir das leituras de jornais e do acompanhamento dos programas de rádio por parte de Ricardo Reis. Ou seja, elas não são personagens efetivas da trama. Não acompanhamos de perto suas ações e pensamentos, como ocorreu, por exemplo, em “Memorial do Convento”. Essas passagens macro possuem muito mais um aspecto de crônica histórica da política europeia da época do que um elemento essencial da trama. A inserção do ambiente político europeu na história, muitas vezes em primeiro plano, acaba tornando o texto do romance um pouco mais difícil para o leitor. É verdade que quem gosta de história irá adorar esse mergulho muito bem embasado por Saramago ao passado. Contudo, é inegável que o aparecimento de muitas figuras históricas da política portuguesa e espanhola acabe tornando sua leitura mais complexa. Dos livros de José Saramago que li até hoje, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é, com certeza, o que requereu uma leitura mais atenta. A opção do escritor português por ancorar seu romance nas questões macro e micro fica mais evidente quando analisamos a maioria das cenas protagonizadas por Ricardo Reis. Praticamente em todo capítulo temos uma passagem da personagem principal em um ambiente com multidões. Apesar de introspectivo, tímido e contrário às revoluções, o médico-poeta está sempre no meio do povão (Carnaval de rua, romaria por Fátima, ação beneficente, ato político, etc.). As cenas mais emblemáticas do livro, depois das conversas entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, são justamente aquelas ocorridas nas ruas e em grandes aglomerações de pessoas. Algo que não tinha reparado até agora e que ficou claro para mim pela primeira vez nesta leitura é que as obras e as personagens anteriores de José Saramago são sempre citadas direta ou indiretamente nos novos trabalhos do escritor. É legal o leitor procurar essas referências no texto. Em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, por exemplo, encontramos citações a Blimunda e a Bartolomeu de Gusmão, figuras centrais de “Memorial do Convento”. No romance seguinte do autor, “Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), o hotel Bragança será novamente utilizado como palco da narrativa em alguns capítulos. Assim, Salvador, o gerente, Pimenta, o funcionário da portaria, e Lídia, a camareira, reaparecem ora citados nominalmente ora indiretamente. Em relação ao ritmo da narrativa, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” tem várias oscilações. Naturalmente, quando o texto fica mais descritivo (e ele é muitas vezes extremamente descritivo), a trama se torna mais lenta. Quando ele foca em pontos inusitados da rotina do protagonista, aí temos uma maior celeridade. O problema é que estes instantes são pontuais. Em um livro de 400 páginas, não são mais do que cinco os momentos de maior dramaticidade. No restante da obra, o marasmo e a rotina entediante da personagem principal inundam a história e a tornam propositadamente mais lenta. O primeiro ponto mais emocionante da narrativa ocorre quando o fantasma de Fernando Pessoa surge no quarto de Ricardo Reis. Essa cena, acredite, ocorre somente no final do terceiro capítulo. Este momento sublime dá uma nova dinâmica ao livro. Depois, a emoção reaparece no início do relacionamento de Reis com Lídia e, mais tarde, no flerte do doutor com Marcenda. Esses instantes dão nova vida à narrativa (desculpe-me o trocadilho involuntário). A mudança de hotel para uma residência e mais um ou outro aspecto da história do protagonista (que não vou citar para não tirar a graça da leitura) repetem esse efeito de injetar alguma adrenalina e ânimo à trama majoritariamente entediante. De certa forma, a dinâmica do livro é condizente com as características psicológicas e ideológicas de Ricardo Reis. Conservador, meio medroso e profundamente introspectivo, o médico-poeta assiste aos acontecimentos externos com certo enfado e/ou cautela. Trata-se de uma personagem que prefere muito mais ser um espectador do que um protagonista do mundo em que habita. Quando digo aqui a palavra “externo”, não estou me referindo apenas aos episódios políticos que levaram a Europa para um momento derradeiro de sua história, mas também aos pequenos fatos da existência geral de Ricardo Reis. Até mesmo em sua trama particular, ele é um mero coadjuvante. O heterônimo de Fernando Pessoa não dá nenhum passo decisivo para alcançar seus sonhos nem para sair do marasmo que sua vida se vê mergulhada. Nesse sentido, essa criação literária é sublime. Outro ponto que chamou minha atenção nesse romance é o tipo de narrador utilizado por Saramago. Sem sombra de dúvida, trata-se de um narrador onisciente e onipresente. Até aí, beleza. A questão interessante é tentar identificar se o texto está em primeira pessoa ou se está na terceira pessoa. Na maior parte do tempo, a narração é feita em terceira pessoa. Contudo, em algumas partes, a voz do narrador adquire um tom em primeira pessoa do plural, como se tivesse vinda da consciência coletiva do povo português ou do grupo de pessoas que vivenciaram aquela situação histórica. Apesar de muito sutil, esse expediente narrativo (ortodoxo se formos pensar no foco narrativo, um dos elementos discutidos nessa temporada da Teoria Literária) dá outra dimensão ao romance, encantando o leitor mais atento. “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é um belo livro. Talvez seja a obra com o enredo mais criativo entre os trabalhos literários de José Saramago. E, provavelmente, foi aquele que exigiu mais pesquisas históricas para ser construído. Este romance não é uma leitura nada fácil. Por sua vez, aventurar-se por suas páginas traz boas recompensas ao leitor corajoso. As belezas narrativas, a sutileza dramática, a intertextualidade histórica e o charme da prosa saramaguiana conferem uma experiência de leitura única e intensa. Ao final da última página, você pode gostar ou não deste livro (cada um tem suas preferências e gostos), mas você não pode negar que foi impactado por sua estética narrativa (essa sim a marca de um grande escritor e de uma obra de arte). O Desafio Literário de José Saramago retorna no próximo sábado, dia 13, com a análise de “Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), justamente o romance que sucedeu “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Continue acompanhando, ao longo de abril, o estudo da literatura de Saramago no Bonas Histórias. Não perca os novos posts com um dos principais escritores da língua portuguesa de todos os tempos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoséSaramago #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Romance #DramaPsicológico #Fantasia #RomanceHistórico
- Livros: A Jangada de Pedra – O destino da Península Ibérica por José Saramago
Em fevereiro de 1992, foi assinado, na Holanda, o Tratado de Maastricht. Pelas bases do acordo, vários estados nacionais independentes da Europa integravam-se econômica e politicamente em um único bloco. Era o estabelecimento formal da União Europeia e do Euro, a moeda única da região. Esse processo de união havia iniciado bem antes, com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) e com a Comunidade Econômica Europeia (CEE), em 1957. Ao longo dos anos seguintes, pouco a pouco a integração foi se intensificando até a concretização do sonho da União Europeia na primeira década de 1990. Diante do amadurecimento da ideia da União Europeia e da criação iminente do bloco nos anos de 1980, José Saramago escreveu um livro ficcional que debatia metaforicamente a questão da identidade nacional dos países ibéricos. A obra em questão é “A Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), o sexto romance do premiado escritor português. Diante da futura integração de Portugal e da Espanha ao bloco europeu, Saramago se questiona sobre quais seriam os caminhos dessas duas nações no cenário mundial e continental. Portugueses e espanhóis perderiam suas identidades próprias em nome de uma Europa única e homogênea? Para dar vazão a esse debate, a Península Ibérica, em “A Jangada de Pedra”, se desprende misteriosamente do continente e passa a vagar a esmo pelo Oceano Atlântico. A transformação da península em uma ilha nômade abala a população de seus países de maneira profunda. Uma grande comoção social instala-se na região. Uma vez separados fisicamente da Europa, como portugueses e espanhóis irão se enxergar no final das contas? Não é preciso dizer que temos aqui mais um enredo originalíssimo de José Saramago. Publicado em 1986, dois anos após “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras) e quatro anos depois de “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra” é um dos livros mais famosos do escritor português. Esta obra foi traduzida para dezenas de idiomas e foi lançada em vários países. Em 2002, o franco-holandês George Sluizer adaptou essa história para o cinema. Juntamente com os romances “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “História do Cerco de Lisboa” (Companhia das Letras) e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra” integra o que podemos chamar da fase da “Crítica à Realidade” de Saramago. Nesse período de 1984 a 1991, o autor utilizou-se de tramas ficcionais ancoradas em elementos fantasiosos para tecer duras críticas a temas reais e contemporâneos do seu país. Não à toa esse é considerado um dos momentos mais criativos da carreira de José Saramago. O enredo de “A Jangada de Pedra” inicia-se com um acontecimento surpreendente. No mês de agosto de um Verão não identificado, a cadeia montanhosa do Pireneus, que divide territorialmente a Espanha da França, sofre uma cisão geológica. De repente, a cordilheira se abre ao meio e a Península Ibérica se solta da Europa. Na sequência, o imenso bloco de terra (comparado a uma jangada de pedra por sua característica flutuante – daí o título da obra) passa a se deslocar na direção do ocidente, afastando-se a cada dia do antigo continente do qual historicamente pertenceu. O inusitado acontecimento transforma a região de Portugal e da Espanha em uma grande ilha à deriva no mar. Além disso, Andorra, o pequeno país cravado entre o Pireneus, acaba destruído. A separação da Europa causa um caos social, político e econômico na antiga península (agora ilha). Os turistas assustados fogem da Espanha e de Portugal utilizando-se das linhas aéreas ainda em operação. Depois são os ricos e a classe média ibérica que optam por abandonar a região. Diante da separação física, os mandatários dos países europeus passam a questionar se a partir de então a Península Ibérica deve ser considerada ou não parte do continente. Nesse momento, vem à tona o preconceito que boa parte dos principais países europeus tem em relação aos dois países mais pobres do lado ocidental. Diante do cenário de incertezas e de insegurança que se instala em Portugal e na Espanha por causa da nova configuração geopolítica, um grupo de pessoas acaba unido com o propósito de salvar seus países da grave crise. Todas essas personagens estão envolvidas em episódios inexplicáveis ocorridos a partir da cisão da península. Joaquim Sassa, de trinta e poucos anos, é um administrador de empresa da cidade de Porto. Ele atirou uma pedra gigantesca ao mar, feito impossível para qualquer ser humano. José Anaiço, outro português, é um professor do ensino fundamental que passou a ser perseguido por estorninhos. Aonde ele vai, um grupo de milhares de passarinhos o acompanha fielmente. Pedro Orce é um morador idoso da região de Granada, na Espanha, que tem a capacidade de sentir a terra tremer aos seus pés. Ele foi a primeira pessoa a pressentir a tragédia geológica. Joana Carda, por sua vez, é uma jovem portuguesa que achou um graveto com propriedades mágicas. E Maria Guavaira é a galega que encontrou um novelo de lã azul com fios que não terminam nunca. O grupo é formado ainda por um cão francês chamado de Constante. No instante exato em que a fenda apareceu na divisa da França com a Espanha, o animal pulou o buraco que se formava no chão e viajou pela Península Ibérica até se integrar ao quinteto de seres humanos com dons especiais. Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce, Joana Carda, Maria Guavaira e Constante fazem uma longa viagem por Portugal e pela Espanha a fim de descobrir o que está acontecendo com a região/antiga península/nova ilha. Inicialmente eles começam a jornada de carro. Com a quebra do veículo, eles passam a se utilizar de uma carroça puxada por dois cavalos, chamados de Pig e Al. É nessa longa marcha que o grupo terá a oportunidade de refletir sobre a identidade de seus países. E, como consequência, eles poderão fazer escolhas delicadas tanto no âmbito particular quanto no coletivo que influenciarão o futuro de suas nações. Em meio aos dramas pessoais e à viagem em terra, as seis personagens assistem a outra jornada. Através das notícias recebidas pelos jornais, pelas rádios e pela televisão, o grupo acompanha o caminho da antiga península pelo Oceano Atlântico. A viagem do bloco pelos mares será longa e surpreendente. “A Jangada de Pedra” é um livro de quase 300 páginas (na versão de bolso). Demorei três dias para concluir sua leitura. Apesar de volumoso, esta é a segunda menor obra do escritor português deste Desafio Literário. “A Jangada de Pedra” só não é menor em número de páginas do que “Caim” (Companhia das Letras), título de 2009 que tem 176 páginas. Na média, os romances saramaguianos possuem ao menos 400 páginas. São leituras para serem feitas normalmente em uma semana e não em poucos dias. A primeira questão que chama a atenção neste livro é o teor metafórico de sua trama. Enquanto discute as consequências de uma saída física e inesperada de Portugal e da Espanha do continente europeu, Saramago mergulha no conceito da identidade nacional. Até onde portugueses e espanhóis são iguais e diferentes? Eles estão mais próximos culturalmente das outras nações europeias ou dos países da América Latina e da África? O quanto o período colonial e as invasões mouras transformaram historicamente a sociedade ibérica? Seriam Portugal e Espanha alvo de preconceitos por parte dos países europeus mais ricos? Esses temas são debatidos em meio à narrativa fantástica do deslocamento da Península Ibérica e do drama protagonizado pelo sexteto de personagens com poderes excepcionais. Como é característico dos romances de Saramago, temos duas linhas narrativas bem definidas, uma macro (geral, da nação como um todo) e uma micro (individual, particular dos protagonistas do enredo). Diferentemente do que acontece em outros livros do autor (“Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”), em “A Jangada de Pedra”, as ações micro parecem influenciar decisivamente os acontecimentos macro (normalmente é o contrário). A impressão que se tem é que o futuro dos países ibéricos está nas mãos do grupo formado por Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce, Joana Carda, Maria Guavaira e Constante. Seriam eles os únicos capazes de dar fim ao caos que a região se encontra? Enquanto a narrativa geral tem um estilo próximo à escrita jornalística, a trama de nível mais pessoal é mais parecida aos romances de aventura apocalíptica. Exatamente por isso, a construção dos protagonistas de “A Jangada de Pedra” adquire um tom parecido aos dos super-heróis norte-americanos. É como se as personagens saramaguianas formassem uma espécie de Liga da Justiça Ibérica, com cada um cedendo seus poderes especiais em prol da força coletiva, do grupo. Ao mesmo tempo, essa nova equipe possui características peculiares, diferenciando-a totalmente dos heróis da Marvel e da D.C. Os protagonistas deste livro de Saramago são pessoas comuns, pobres e um tanto enlouquecidas, fadadas ao deslocamento constante por Portugal e pela Espanha. Ou seja, este romance pode ser rotulado também como uma travel story. Nesse sentido, as personagens principais de “A Jangada de Pedra” se aproximam muito mais de Don Quixote do que do Super-Homem ou da Mulher-Maravilha. A jornada da trupe quixotesca também é parecida a realizada pelos cavaleiros medievais e pelos peregrinos de Santiago de Compostela, o que confere tintas regionais e históricas a essas figuras singulares. Além disso, são fortes as influências religiosas, principalmente do cristianismo, nos comportamentos e nas crenças desses indivíduos. Em alguns momentos, principalmente nos capítulos finais, a trama ganha um ar meio bíblico, com Adão e Eva construindo (ou seria reconstruindo?) um novo povo ibérico. E durante toda a narrativa, temos um ar apocalíptico. Exatamente por isso, lembrei, durante esta leitura, muito de “A Peste” (Record), clássico de Albert Camus de 1947, e “A Dança da Morte” (Suma das Letras), famoso romance de Stephen King publicado em 1978. Como é típico das obras de José Saramago, o texto de “A Jangada de Pedra” possui forte intertextualidade. As citações abrangem a literatura (Miguel de Cervantes e Luís Vaz de Camões, por exemplo), o cinema (Alfred Hitchcock), a música (Amélia Rodrigues), a história (principalmente de Portugal e da Espanha) e a religião (cristianismo). A abundância de referências da cultura Pop (em maior quantidade se comparado ao dos livros anteriores de Saramago) torna “A Jangada de Pedra” um romance mais agradável de ser degustado pelos leitores contemporâneos. Boa parte dos elementos intertextuais apresentados pelo autor são ainda hoje facilmente reconhecidos pelo público. E aproveitando que estamos falando de intertextualidade, adoro quando Saramago utiliza-se de personagens e de passagens de seus livros anteriores para compor a nova narrativa. Isso acontece em muitos momentos em “A Jangada de Pedra”. Temos várias citações diretas e indiretas a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, por exemplo. Repare que parte da trama se passa no Hotel Bragança, o mesmo do romance anterior. Temos, assim, a presença de Ricardo Reis, o ilustre hóspede do estabelecimento localizado na Rua do Alecrim, Salvador, o gerente, Pimenta, o funcionário da portaria, e Lídia, a camareira. Note também que há uma citação explícita a “O Conto da A Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras). Curiosamente, essa narrativa só seria lançada por José Saramago seis anos depois da publicação de “A Jangada de Pedra”. Mesmo assim, ela aparece surpreendentemente neste romance. Ou o autor já tinha em mente essa história ou já a tinha produzido, mas não a publicado. Outra característica forte de “A Jangada de Pedra” é a metalinguagem literária. Em quase todo capítulo, o autor debate, no meio da trama, a essência do texto literário, tanto do ponto de vista do seu produtor quanto dos seus receptores. É uma delícia ler José Saramago, um dos maiores escritores do século XX, abordando os mais diferentes aspectos da literatura. Sem qualquer pedantismo ou trivialidade, ele discorre sobre pontos fundamentais da arte que melhor conhece. As demais características do estilo de Saramago, que ficaram notórias, também estão presentes em “A Jangada de Pedra”. Por isso, não preciso citá-las com tanto detalhe. Assim como ocorre em todo romance depois de “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), este apresenta sinais de pontuação próprios, diálogos integrados à narrativa, narrador misto (primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo), parágrafos e frases de tamanhos gigantescos, humor baseado na ironia fina, narrativa extremamente descritiva e a combinação de elementos ficcionais e reais em um mesmo plano. Portanto, temos um livro de José Saramago ao melhor estilo José Saramago. Para um livro volumoso, a impressão é que a narrativa de “A Jangada de Pedra” é lenta. Porém, ela é mais movimentada do que “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, o livro anterior de Saramago. Por outro lado, sua trama apresenta características meio infantis. Sim, infantis. O grupo de protagonistas viaja pela Península Ibérica com a ilusão de poder compreender a tragédia geológica e, por consequência, salvar a região do caos em que caiu. A jornada da trupe quixotesca deixa mais dúvidas do que certezas e mais confusões do que soluções. Como romance metafórico e como manifestação das crenças políticas de seu autor, “A Jangada de Pedra” é uma obra espetacular. O livro debate de maneira original e sagaz a identidade dos povos ibéricos no novo cenário da Europa contemporânea. Agora, se a obra for analisada do ponto de vista de sua narrativa, temos vários problemas. Quem ficar ligado exclusivamente à trama apresentada, talvez saia um pouco frustrado desta leitura. Afinal, ela é realmente fraquinha. Entretanto, quem entender desde a primeira página a relação íntima da história do romance com os eventos políticos que envolveram a entrada da Espanha e de Portugal na União Europeia poderá ter uma experiência de leitura muito mais rica. Nesse caso, “A Jangada de Pedra” ganhará novas dimensões aos olhos do leitor atento. O Desafio Literário de abril continuará na próxima quarta-feira, dia 17, com o post sobre “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), o oitavo romance da carreira do escritor português (e o quarto livro saramaguiano que o Bonas Histórias analisa neste mês). Não perca os novos capítulos desta investigação sobre a literatura de José Saramago. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Livros: O Evangelho Segundo Jesus Cristo – A obra-prima de José Saramago
Neste final de semana, li “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), o quarto romance de José Saramago do Desafio Literário de abril. Para ser sincero, até este momento, estava ligeiramente decepcionado com as leituras do escritor português. Os três primeiros livros analisados neste mês no Bonas Histórias, “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras) e “A Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), são até interessantes, mas não chegaram a me empolgar. Como minha expectativa era altíssima (estamos falando de um Nobel), acabei pensando: “No final das contas, Saramago não é tudo isso!”. Estava com a impressão que ele era mais um autor supervalorizado pela crítica e pelo público. Aí pintou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Nem precisei concluí-lo para rever completamente minhas crenças. Já no terceiro capítulo desta obra-prima da literatura portuguesa, sentenciei: “Saramago é gênio!”. Sem dúvida nenhuma, esse é o seu melhor romance. Impossível alguém produzir algo melhor. Até agora, como diria minha irmã, estou besta. No linguajar dela, essa expressão quer dizer que estamos estupefatos. É verdade também que esse livro é o mais polêmico da carreira de Saramago. As relações nada cordiais que a Igreja Católica tinha com o escritor ateu se deterioraram de uma vez por todas com a publicação de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. A partir desse ponto da história, o escritor português se transformou em um dos grandes inimigos dos católicos mais fervorosos. Não à toa, quando foi revelado o nome de Saramago para o Prêmio Nobel de 1998, o Vaticano emitiu uma nota de pesar, dizendo-se contrário a escolha. Essa aversão da Igreja por “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” se deu fundamentalmente pela exposição de um Jesus Cristo humano, carnal, traumatizado pelo seu passado e abalado emocionalmente com o destino que lhe fora imposto. Para completar, temos nessa narrativa um Deus egoísta, sádico e pouco poderoso que não poupou seu próprio filho do massacre perpetrado pelos homens. Se por um lado o livro de Saramago é muito mais interessante como narrativa do que a própria Bíblia (seus personagens são muito mais verossímeis, sua trama é melhor amarrada, seu enredo tem vários conflitos que empolgam os leitores e sua prosa é deliciosa), por outro lado a obra afronta os dogmas do Catolicismo. Aos olhos da Igreja, a versão bíblica do escritor português configura-se como uma imperdoável heresia. Ou seja, como literatura, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é espetacular, mas como obra sacra não. Como analisamos no Bonas Histórias a literatura e não os aspectos religiosos, vou comentar este livro exclusivamente sob o ponto de vista da sua construção literária. Publicado em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi o oitavo romance lançado por José Saramago. No início da década de 1990, o autor já era um nome importante da literatura portuguesa e europeia. Por isso mesmo, as críticas dos católicos foram tão ruidosas. Mesmo assim, esta obra foi a mais premiada de Saramago. Ela conquistou o Grande Prêmio de Romance e Novela APE/IPLB, concedido pela Associação Portuguesa de Escritores, e o Prêmio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, ambos em 1991. O teor polêmico do romance o fez ser excluído de vários prêmios de âmbito nacional e internacional por pressão das autoridades católicas. O subsecretário da Cultura de Portugal, por exemplo, vetou a inclusão do livro de Saramago na lista de romances portugueses que concorreriam a um prêmio literário europeu. Mesmo no meio de tantas polêmicas, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” se transformou em uma das obras mais marcantes de José Saramago. Foi preciso a passagem dos anos para ela ser vista com mais isenção por parte da crítica. A mesma sorte não teve seu autor. Bombardeado pelas críticas dos religiosos, Saramago decidiu, em 1993, deixar Portugal e se mudar com a segunda esposa, Pilar, para a Espanha. Sua escolha foi pela ilha de Lanzarote, a mais oriental e pacata das Ilhas Canárias. Foi vivendo longe de Portugal que o escritor viu seu romance ser adaptado para o teatro em 2001. A peça “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” provocou, dez anos depois da publicação do romance, uma nova avalanche de críticas dos católicos. Em 2009, o escritor seria novamente alvo da ira católica com o lançamento de “Caim” (Companhia das Letras), outra de suas obras polêmicas sobre a narrativa bíblica. O enredo de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é um tanto manjado: a trajetória de Jesus em seus trinta e três anos vividos na Terra. A história, porém, começa um pouco antes do protagonista nascer. A trama é desencadeada com a gravidez de Maria. Jesus é o primeiro dos nove filhos que Maria, uma dona de casa tímida e séria, e José, um carpinteiro humilde e pacato, teriam ao longo da vida. Quando engravidou pela primeira vez, Maria de Nazaré, como ela ficaria conhecida, tinha apenas dezesseis anos e José era um rapaz de vinte e poucos anos. Os dois tinham se casado há pouco tempo. Assim que Jesus nasceu, seus pais precisaram fugir dos soldados de Herodes. O rei judeu queria matar todas as crianças do sexo masculino nascidas nos últimos anos em Belém. José conseguiu escapar com sua família, porém viveu, a partir daí, atormentado pelo trauma de não ter ajudado os demais meninos a escapar da violência dos soldados. Esse mesmo trauma será mais tarde compartilhado por Jesus. Aos treze anos, o adolescente descobre esse evento polêmico do passado de Maria e José e culpa seus pais pela morte das outras crianças. Por isso, Jesus rompe com a família e foge de casa, preferindo padecer sozinho pelas ruas. Até atingir a maioridade, o jovem mora com um pastor de ovelhas nas regiões montanhosas do reino da Judeia. Ali, ele cresce, amadurece e aprende uma nova profissão (até então, só aprendera o ofício de carpintaria com o pai). As constantes brigas com o pastor fazem o rapaz abandonar a vida pastoril e levam-no de volta à cidade. Ao completar dezoito anos, Jesus conhece Maria, uma prostituta da cidade de Madalena. Ambos se apaixonam e passam a viver como marido e mulher. É nesse momento que Deus aparece para o jovem Jesus no meio do deserto e faz um pacto com ele: Deus quer que o rapaz se sacrifique no futuro. O acordo é selado por meio de um ritual sangrento realizado com uma ovelha. A partir daí, Jesus passa a viver com Maria Madalena entre os pescadores. Ele usa seus poderes mediúnicos para descobrir onde estão os peixes nas águas. Mesmo não sendo efetivamente um pescador, ele orienta esses profissionais em busca de pescarias mais produtivas. Não é preciso dizer que o rapaz se torna o ídolo dos pescadores, sendo requisitado e querido por todos. A vida tranquila da personagem principal do romance só é abalada pelos traumas do passado (a morte dos meninos em Belém e as desavenças constantes com a família, principalmente com a mãe) e pelas constantes investidas de Deus (ele cobra o cumprimento do antigo pacto estabelecido entre os dois). Jesus não quer morrer em nome de uma causa que não acredita. Contudo, Deus será intransigente e cobrará o respeito ao acordo firmado nas areias do deserto. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é o romance mais volumoso de José Saramago que vamos analisar neste Desafio Literário. O livro possui aproximadamente 450 páginas. Como sua leitura é muito saborosa, acabei concluindo-a em apenas dois dias (metade do tempo que levei para finalizar as outras obras de Saramago). Para você ter uma ideia de como gostei desta publicação, iniciei a leitura na sexta-feira à tarde e no sábado de noite já tinha chegado à sua última página. Posso, assim, dizer que não desgrudei do livro neste final de semana. Afinal, o que faz de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” um romance tão interessante? O maior mérito de José Saramago, neste trabalho, foi humanizar uma história amplamente conhecida até mesmo pelos leitores que não são católicos. O escritor português apresenta a mesma trama do Novo Testamento, mas com grande sofisticação narrativa e com um realismo desconcertante. A impressão é que estamos efetivamente diante do verdadeiro Jesus, de seus pais e das demais personagens bíblicas. O jeito objetivo, emocionante e divertido de Saramago relatar esta história nos faz acreditar que ela poderia muito bem ser a versão correta dos fatos e não a anterior, relatada com passionalidade cega pelos religiosos e pelas obras sacras há tanto tempo. Ao mesmo tempo em que se utiliza de várias passagens e de muitas personagens da história original, José Saramago também tem a ousadia de recriar a trama segundo seu ponto de vista. É aí que o livro ganha em riqueza narrativa. O autor insere em seu texto a ironia fina que é uma das suas marcas estilísticas, a crítica ácida ao Deus Católico e os dramas genuínos de personagens atormentadas pelo passado traumático, pelo destino trágico e pela violência do mundo antigo. Ao mexer em pontos espinhosos do enredo bíblico (virgindade de Maria de Nazaré, relacionamento de Jesus com Maria Madalena, comportamento de Judas Iscariotes), Saramago muda completamente o entendimento que se tinha desses conflitos e dessas personagens. Assim, nasce uma nova trama e um novo Jesus aos olhos atônitos dos leitores. É ou não é um espetáculo de criação literária, hein?! E o que Saramago mudou de mais concreto nesta história? Para começo de conversa, ele tirou todas as passagens pouco verossímeis da trama bíblica. Esqueça, por exemplo, a mulher que engravidou virgem (como?), o casal que viveu a vida inteira sem realizar sexo para não cair em pecado (impossível), os reis magos que foram guiados por estrelas celestiais até a manjedoura da criança especial (difícil de acreditar) e a personalidade ilibada de Cristo que se manteve casto até o final da vida (pouco provável). Até mesmo uma criança percebe a quantidade de contradições e de inverosimilhança de muitas passagens da narrativa original. Saramago tira todas essas partes pouco críveis da história, deixando apenas os elementos fantásticos inerente às atitudes (poderes ilimitados) de Deus e do Diabo, além de feitos excepcionais realizados por Jesus em seus milagres (feitos esses guiados pelo poder divino). Ou seja, a fantasia que permanece na trama tem explicações dentro da própria história (não sendo, portanto, tão inverossímeis assim). Para completar, Saramago acrescenta em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” doses magistrais de ironia que invertem completamente a lógica da história da Bíblia. Jesus deixa de ser o ungido da humanidade para se tornar a grande vítima de uma intriga celestial. Deus, uma entidade intocável para os católicos e para a maioria dos religiosos, tem revelada sua outra face, que havia permanecido até então descortinada. Para Saramago, o Todo Poderoso é uma figura mais próxima ao vilão do que ao do bom mocinho. Qualquer análise racional, fria e imparcial da questão irá dar razão ao escritor português. Por falar nisso, repare no espetacular capítulo em que Deus conversa no meio do mar com Jesus. O diálogo da dupla tem a presença do Diabo. Esta é uma das passagens mais brilhantes do livro e que pode resumir a crença de Saramago sobre a religião católica. Os comentários feitos pelo Diabo, após ouvir a explicação de Deus sobre o destino da humanidade a partir da morte de Jesus, são simplesmente geniais. Essa cena é um dos momentos mais engraçados de toda a literatura universal. “É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue” e “Digo que ninguém que esteja em seu perfeito juízo poderá vir a afirmar que o Diabo foi, é, ou será culpado de tal morticínio e tais cemitérios, salvo se a algum malvado ocorrer a lembrança caluniosa de me atribuir a responsabilidade de fazer nascer o deus que vai ser inimigo desse” são frases memoráveis. É nessa hora que damos graças a Deus por Saramago ter sido um ateu. Só tenho dúvida se essas passagens superam em comicidade a última frase de Jesus dita no livro: “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”. Enquanto degusta um enredo sutilmente modificado, o leitor pode verificar que o texto de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” possui boa parte das características estilísticas que marcaram a carreira de José Saramago. Estão presentes nesse romance: vírgulas substituindo o ponto final, ausências de pontos de exclamação e de interrogação, discursos sem travessão e diálogos sinalizados pela primeira letra maiúscula. Temos aqui o melhor de Saramago na versão mais Saramago possível. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é uma obra-prima da literatura contemporânea. Possivelmente, se o livro não fosse tão sensacional, ele não teria suscitado tantas críticas por parte da Igreja Católica. Foi através deste romance, no qual o autor utilizou-se de sua antipatia declarada pela religião, que José Saramago produziu o que considero o seu melhor trabalho. Não é preciso ler mais nada do autor para entender que o Nobel que ele recebeu foi merecido. Esta é uma das melhores obras que li em minha vida. Até agora, passados alguns dias de sua leitura, ainda estou anestesiado pela incrível experiência literária da qual passei. Incrível! Em outras palavras, estou besta! O quinto livro de Saramago que será comentado no Desafio Literário de abril será “Ensaio Sobre a Cegueira” (Companhia das Letras). Se “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é o livro mais polêmico do português, “Ensaio Sobre a Cegueira” é muito provavelmente a sua obra mais famosa. O post sobre esse romance será disponibilizado no Bonas Histórias no próximo domingo, dia 21. Continue acompanhando no blog o estudo sobre a literatura de José Saramago. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Livros: Ensaio Sobre a Cegueira – O romance mais famoso de José Saramago
O quinto livro de José Saramago que será analisado neste mês no Bonas Histórias é “Ensaio Sobre a Cegueira” (Companhia das Letras). Li este romance no último final de semana para o Desafio Literário de abril. A obra é apontada como o trabalho mais famoso do escritor português. Traduzido para dezenas de idiomas, o drama dos cidadãos atingidos por uma epidemia de cegueira branca foi adaptado para o cinema, em 2008, pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, de “Cidade de Deus” (2002) e “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener: 2005). Um filme baseado em um romance de Saramago é uma exceção à regra, pois o autor sempre se recusou a ceder os direitos dos seus livros para os cineastas. A repercussão desta narrativa existencialista junto ao público e à crítica foi tão positiva que muitos consideram esta obra fundamental para a escolha de José Saramago para o Prêmio Nobel de Literatura de 1998. Vale lembrar que ele já era um dos principais escritores da língua portuguesa quando o livro chegou às livrarias europeias. No ano de seu lançamento em Portugal e no Brasil, Saramago conquistou o Prêmio Camões, o mais importante da comunidade lusófona. Publicado em 1995, “Ensaio Sobre a Cegueira” é o nono romance de Saramago. Esta obra inaugura uma nova fase da literatura do português: as das tramas atemporais e desenvolvidas em locais indeterminados e os enredos que debatem filosoficamente questões da sociedade capitalista e da essência humana. Saem de cena as narrativas históricas e entram os dramas em tom de parábola. Depois de “Ensaio Sobre a Cegueira”, vieram os romances “Todos os Nomes” (Companhia das Letras), de 1997, “A Caverna” (Companhia das Letras), de 2001, “O Homem Duplicado” (Companhia das Letras), de 2002, “Ensaio Sobre a Lucidez” (Companhia das Letras), de 2004, e “As Intermitências da Morte” (Companhia das Letras), de 2005. O “Conto da Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras), pequena narrativa de 1997, também pode ser incluída nessa lista de títulos existencialistas. A produção de “Ensaio Sobre a Cegueira” coincide com a mudança de José Saramago para a Ilha de Lanzarote, nas Canárias. Este foi o primeiro romance do autor na nova residência. Há quem considere a maior profundidade filosófica da nova fase da literatura do autor ao isolamento que ele encontrou em Lanzarote, a região mais inóspita e desabitada do arquipélago espanhol no Oceano Atlântico. A saída de Portugal deu-se em parte pelas constantes e pesadas críticas que Saramago estava recebendo dos seus compatriotas. Uma parte dos portugueses não conseguia aceitar a antirreligiosidade e o antipatriotismo do escritor, questões que quase sempre respingavam em seu texto literário. O enredo de “Ensaio Sobre a Cegueira” se passa em uma cidade indeterminada e em uma época não especificada. Em um final de tarde, os carros param em um semáforo para aguardar a luz verde. Quando ela surge, quase todos os veículos partem. Menos um. Mesmo diante das buzinas e dos xingamentos, o automóvel permanece parado. Parece ser uma cena corriqueira de uma metrópole, mas o episódio precipita acontecimentos trágicos. As pessoas se aproximam do carro inerte e aí descobrem que seu motorista não pode mais dirigir. Ele está cego. Sua cegueira apareceu de repente, enquanto olhava para as luzes do semáforo. Porém, ao invés de ver tudo escuro, ele vê tudo branco. O impasse é resolvido quando um voluntário resolve levar o motorista cego para a casa. Assim, o trânsito na via é liberado. Ao chegar em sua residência, o homem que acabou de perder a visão agradece a solidariedade de quem o guiou até ali. Quando a esposa do cego chega, o marido explica o que aconteceu com ele. Desesperados, o casal vai até um oftalmologista para saber o que está se passando. Contudo, ao procurarem o carro que tinha sido estacionado, descobrem que foram roubados. O rapaz que guiará o cego até a casa aproveitou-se da situação para cometer o furto. Sem veículo, o casal precisa pegar um táxi. No consultório do oftalmologista, o médico faz alguns exames e descobre que aparentemente não há problema nenhum com os olhos do cego. Os mecanismos da visão estão perfeitos. O doutor não entende como alguém pode ficar cego de uma hora para outra. Intrigado com o caso, ele começa a pesquisar sobre a misteriosa doença assim que chega em sua casa naquela noite. Ao acordar no dia seguinte, uma surpresa desagradável o deixa desesperado. O médico também está cego. Ao invés de ver tudo escuro, ele vê tudo branco. Como isso é possível?! O oftalmologista compreende, então, se tratar de uma doença contagiosa. Com a ajuda da esposa, ele liga para o Ministro da Saúde para informar sobre a possibilidade de uma epidemia. Rapidamente, o governo age. As pessoas contaminadas pela Cegueira Branca devem ser isoladas em um local escolhido pelas autoridades. A quarentena é necessária para proteger os habitantes que ainda estão saudáveis. O lugar selecionado para abrigar os cegos é um manicômio há muito tempo desativado. O primeiro a ser levado para lá é o médico que comunicou a doença/peste para o governo. Não querendo deixar o marido sozinho naquela situação delicada, a esposa do médico finge estar cega também para acompanhá-lo. Assim, os dois seguem para a quarentena em uma ambulância. No manicômio, o casal é informado que deverá permanecer dentro do prédio o tempo inteiro, que será protegido por homens do Exército. Os cegos não poderão sair de lá nem interagir com os soldados do lado de fora. Em compensação, receberão alimentos, água e artigos de primeira necessidade enquanto viverem ali. Aos poucos, novos cegos chegam ao local para fazer companhia ao médico e à sua esposa. No primeiro grupo de residentes aparecem o primeiro cego, aquele motorista que ficou parado no semáforo, e algumas pessoas que estavam no consultório do médico naquele fim de tarde (uma moça de óculos escuros que estava com conjuntivite, um garotinho estrábico e a enfermeira). Também chegam ao manicômio um velho com uma venda preta nos olhos (ele está com catarata) e o ladrão de carro (o homem que roubou o primeiro cego). Todos foram contaminados pela Cegueira Branca. Os primeiros dias de segregação são de caos completo. Sem enxergar, os novos residentes do manicômio têm dificuldades para realizar as atividades básicas do dia a dia. Além disso, as promessas do Exército não são cumpridas integralmente. Há atrasos no envio de comida, de água e dos artigos de primeira necessidade. Para completar o drama, os cegos precisam encarar as desavenças naturais do convívio humano. O primeiro cego não gosta de saber que o homem que o roubou está ali ao seu lado. A moça de óculos escuros reage com violência ao ser apalpada por um desconhecido. Entretanto, as coisas só irão piorar à medida que mais e mais pessoas chegarem ao local. Quando o manicômio ficar superlotado de cegos, os problemas serão multiplicados. O que já era ruim, pode ficar ainda pior. Uma gangue de residentes armados tentará tomar o poder e se apropriar dos alimentos e de todos os pertences dos colegas. Aí, a situação ficará insustentável. A mulher do médico, a única que mantém inexplicavelmente a visão intacta, precisará organizar uma revolta para por fim à tirania do grupelho de homens maldosos. “Ensaio Sobre a Cegueira” é um romance de 312 páginas. Apesar de ter um tamanho considerável, ele é o segundo menor em número de páginas entre as obras analisadas no Desafio Literário deste mês. Apenas “Caim” (Companhia das Letras), último romance de Saramago, é menor (tem 176 páginas). “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra” (Companhia das Letras) e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” têm em média 400 páginas. Por isso, consegui ler “Ensaio Sobre a Cegueira” em dois dias. Comecei sua leitura na sexta-feira à tarde e a concluí no sábado à noite. Para um romance saramaguiano, trata-se de uma leitura acelerada. O que chama atenção logo de cara neste livro é o seu caráter de parábola. Não temos durante a trama nenhuma definição de onde e de quando sua história se passa. Além disso, nenhuma personagem tem nome próprio. Todas as figuras retratadas são associadas a uma característica física, profissional, social ou de vestimenta. Temos, assim, o médico, a esposa do médico, o menino estrábico, a moça de óculos escuros, o velho da venda, o primeiro cego, a esposa do primeiro cego, o ladrão de carro, a velha do primeiro andar, o cão de lágrimas. Esses são elementos típicos das parábolas, narrativas alegóricas com forte caráter moral. O segundo aspecto forte de “Ensaio Sobre a Cegueira” é a riqueza de seu subtexto. O autor diz muitas coisas de maneira indireta. A perda de visão é apenas um pretexto para que elementos existencialistas da condição humana sejam discutidos. Temas como liberdade, autonomia, impotência, traição, violência, poder e abandono estão no cerne da trama. Além disso, são bastante discutidas as noções como liderança e governo. Percorrer as páginas do romance é adentrar em uma reflexão profunda e inteligente do que nos faz humanos. Encontrar o significado simbólico de cada elemento dessa história é um dos desafios do leitor. Exatamente por isso, durante esta leitura me lembrei bastante do portfólio literário de Albert Camus, escritor e filósofo francês agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1956. “Ensaio Sobre a Cegueira”, de certa forma, utiliza-se da dinâmica presente, por exemplo, em “A Peste” (Record), “O Estrangeiro” (Record) e “A Queda” (Record). Através de uma narrativa ficcional, debatem-se temas filosóficos profundos e interessantes. Para se chegar a este nível de compreensão, é preciso realizar uma leitura mais atenta e mais engajada do que aquela feita de forma recreativa. Curiosamente, ao mesmo tempo em que José Saramago insere componentes existencialistas ao seu romance, a dinâmica de sua narrativa não perde em dinamismo. Paradoxalmente, ela até ganha em celeridade e graça. Comparado aos demais livros do escritor português, “Ensaio Sobre a Cegueira” é aquele que tem um texto mais direto e pontuado de ação desde o primeiro momento. Vale lembrar que a obra começa já com o surgimento da cegueira no motorista parado no semáforo (cena esta impecável!). Esse ritmo acelerado permanece até os últimos capítulos, quando aí a rotina das personagens provoca uma natural lentidão no relato. Portanto, não temos aqui grandes interrupções na narrativa (para a explanação conceitual do narrador) nem temos a inserção de novas tramas (que desviam a atenção do leitor), pontos presentes nos demais romances de Saramago que já analisamos no Bonas Histórias. Além de toda essa bagagem conceitual que citamos, “Ensaio Sobre a Cegueira” ainda apresenta o estilo inconfundível e delicioso da prosa saramaguiana, apresentado pela primeira vez em “Levantado do Chão” (Companhia das Letras) e, depois disso, repetido em todos os romances do autor. Temos, assim, a pontuação típica de Saramago (uso de vírgulas no lugar dos pontos finais e de pontos finais no lugar de vírgulas, além da ausência total da exclamação e da interrogação), a incorporação dos diálogos à narrativa principal (sem o uso do travessão), parágrafos e frases gigantescos, a ironia presente em cada trechinho da história e um narrador onisciente e onipresente que exala bom humor. Não é possível algo ser mais Saramago que isso, não é mesmo? Por falar no humor, repare como José Saramago consegue acrescentar graça e leveza ao seu texto, mesmo em meio a uma narrativa tão tensa e recheada de violência como esta. O narrador e até mesmo as personagens de “Ensaio Sobre a Cegueira” divertem os leitores ao comentar ditados populares e gírias, a maioria deles relacionados à cegueira e à falta de visão. É hilário! Perdi a conta de quantos ditados populares temos sobre esse tema. Além disso, vemos pequenas piadas e anedotas (humor negro, sim senhor!) sobre as situações delicadas passadas pelas personagens na trama. Paralelamente ao humor, temos uma narrativa extremamente violenta e com uma pegada apocalíptica. Das obras de Saramago, achei essa a mais trágico-cômica de todas. Os momentos de violência (assassinatos, estupros, abandonos, traições, fome, miséria) e de escatologia atingem níveis intensos. A parte em que as personagens ficam presas no manicômio e são chantageadas pelo grupo criminoso representa o clímax do romance. Ali temos um retrato triste da essência humana. Como consequência, o leitor se vê diante da grande angústia que as personagens fictícias são tomadas. O que fazer naqueles momentos decisivos? Outra questão que passa um pouco despercebida da maioria do público é que, enfim, temos uma protagonista do sexo feminino em um romance de José Saramago. E ela é forte, corajosa e destemida. A esposa do médico é a figura central nessa trama complexa e recheada de figuras contraditórias. É ela quem toma à frente e lidera seu grupo de amigos contra a dominação e a exploração de criminosos cruéis. Por ser a única pessoa que enxerga, ela é quem norteia as ações. Esta novidade se justifica porque, na maioria de suas narrativas, o escritor português acaba dando o protagonismo para personagens masculinas, deixando as figuras femininas em segundo plano. “Ensaio Sobre a Cegueira” é a exceção que só confirma a regra. Apesar de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” continuar sendo minha obra favorita de José Saramago, não posso deixar de reconhecer a grandiosidade de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Este livro possui uma história saborosa e inquietante. O leitor fica tenso durante boa parte da leitura, aguardando o que irá acontecer com aquelas personagens abandonadas pela sociedade. Junto com a tensão temos um conflito bem amarrado. Não à toa, este título se transformou em um dos principais representantes da literatura contemporânea da língua portuguesa. Lê-lo é uma tarefa obrigatória para quem deseja conhecer o que de melhor foi produzido por Saramago. Para concluir as análises dos livros deste Desafio Literário, na próxima quinta-feira, dia 25, retorno ao Bonas Histórias para comentar “Caim” (Companhia das Letras), o último romance publicado em vida por Saramago. Não perca os novos posts deste estudo sobre a literatura de José Saramago. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoséSaramago #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Romance #DramaPsicológico #Fantasia #Existencialismo #Parábola
- Livros: Caim – O último romance de José Saramago
“Caim” (Companhia das Letras) é o décimo sexto romance de José Saramago. Este foi o último livro publicado em vida pelo escritor. A obra chegou às livrarias oito meses antes do falecimento do português. É verdade que “Claraboia” (Companhia das Letras), uma narrativa produzida na década de 1950 e que ainda não tinha sido editada, e “Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas” (Companhia das Letras), uma história inacabada, foram lançados postumamente por ordem dos familiares do autor. Entenda-se por autorização dos familiares a decisão pessoal de Pilar del Río, última esposa do escritor e presidente da Fundação José Saramago. Mesmo assim, “Caim” é visto pela maioria dos críticos literários como efetivamente o romance derradeiro da carreira de Saramago. Curiosamente, este é o único livro do Desafio Literário de abril que foi lançado após a entrega, em 1998, do Prêmio Nobel ao escritor português. Todos os demais romances analisados no Bonas Histórias neste mês, “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras) e “Ensaio sobre a Cegueira” (Companhia das Letras) precedem o recebimento da honraria máxima da literatura mundial. Escolhi ler “Caim” justamente por isso. Queria conhecer uma produção de Saramago da fase final de sua carreira. E nada melhor do que uma obra que gerou grande polêmica na época de sua publicação. Lançado em outubro de 2009, “Caim” dá sequência a tradição de José Saramago de recontar a história da Bíblia segundo sua interpretação particular dos fatos. Se o escritor português narrou o Novo Testamento em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, livro de 1991 (para mim a melhor obra saramaguiana), em “Caim” a proposta é relatar os acontecimentos do Velho Testamento. Portanto, “Caim” e “O Evangelho” estão relacionados tanto em conteúdo como em forma (são obras muito parecidas/complementares), apesar do hiato temporal de dezoito anos entre suas publicações. Assim que chegou às livrarias de Portugal e da Europa, este livro provocou uma enxurrada de críticas por parte da comunidade católica. Padres, bispos e teólogos da Igreja Católica foram unanimes em reprovar o conteúdo do romance, que segundo eles ia completamente na contramão dos verdadeiros preceitos bíblicos. Até o calmo e muito cordial Papa Bento XVI entrou na polêmica sobre “Caim”. Segundo Joseph Ratzinger, José Saramago foi infeliz e mal-intencionado ao fazer uma interpretação do Velho Testamento, algo que é função exclusiva da Igreja. Acredito que essas reações já eram esperadas pelo escritor. De certa forma, elas foram muito parecidas à receptividade de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que colocou o nome do autor português na lista das figuras mais odiadas pelos dirigentes católicos. Na minha concepção, José Saramago deve ter se deliciado com os comentários exaltados e as ofensas dos religiosos ao seu novo trabalho literário. Já no final da vida e cada vez mais convicto de seu ateísmo, o autor devia estar cansado das homenagens e do reconhecimento do público. Basta ver o documentário “José e Pilar” (José y Pilar: 2009) para entender um pouco desse contexto. O que ele queria mesmo, creio eu, era uma nova polêmica. E mais uma vez, conseguiu isso com “Caim”. Contudo, engana-se quem ache que este livro tenha despertado apenas a ira dos religiosos. O romance se transformou rapidamente em best-seller. Em Portugal, “Caim” vendeu mais de 70 mil unidades em menos de duas semanas (e há quem ainda acredite que os conterrâneos de Saramago não gostavam de sua literatura). Na Espanha, a tiragem inicial de 130 mil exemplares foi esgotada em poucos meses. No Brasil, o romance entrou na lista dos mais comercializados no final de 2009 e ali permaneceu ao longo de todo o ano seguinte. O enredo deste romance aborda as principais passagens do Velho Testamento. A trama começa com a criação de Adão e Eva por Deus. A partir daí, o casal vive tranquilamente no Jardim do Éden, sem precisar trabalhar, comendo e bebendo em abundância e sem ter a preocupação de vestir roupas. Eles fazem sexo sem culpa, tendo iniciado essa prática tão logo seu criador virou as costas pela primeira vez. Exatamente, por isso, Adão e Eva não entendem a revolta divina pelo consumo de um simples fruto. A indignação da dupla não convence o destemperado Deus, que os expulsa mesmo assim do Jardim do Éden. Uma vez na Terra, Adão e Eva descobrem que não são os únicos da sua espécie. Na verdade, eles não foram os primeiros seres humanos do planeta, mas sim o resultado de uma nova experiência realizada pelo Criador. Aos poucos, o casal se habitua a vida mundana e tem três filhos, Caim, Abel e Set. Caim e Abel são bons amigos (Set é simplesmente ignorado nesta história). Eles se ajudam mutuamente e são companheiros inseparáveis. Contudo, uma desavença com Deus (sempre Ele), provoca uma séria discussão entre os irmãos. Nessa briga, Caim acaba matando Abel. Desesperado, o assassino culpa o Senhor pela tragédia familiar. Deus admite parte da culpa, mas não isenta Caim do que ele fez. Por isso, o rapaz é condenado a vagar pelo mundo com uma mancha em sua testa que indica seu pecado aos demais homens. Com vergonha de ter matado o bom Abel, Caim foge de casa sem se despedir dos pais. Depois de muito caminhar, o protagonista do romance chega a um local conhecido como Terra de Nod. Ali, ele se torna amante de Lilith, a esposa do dono do lugar, e passa a viver com ela no palácio. Ao descobrir que sua amante está grávida, Caim entende que é a hora de partir. Ele recebe de Lilith o melhor jumento do palácio para que faça sua jornada sem dificuldades. E, assim, começa a grande viagem de Caim para diferentes regiões e épocas do planeta. Essas aventuras mágicas ocorrem tanto em períodos do passado quanto do futuro. De certa forma, Caim testemunhará os principais acontecimentos do Velho Testamento. Ele verá a Torre de Babel ser destruída por inveja divina. Estará junto de Abraão quando este tentar matar seu filho Isaac. Visitará a cidade de Sodoma no momento de sua destruição. Irá ao Monte Sinai quando Moisés for se reunir com o Senhor. Acompanhará o padecimento de Job. E verá Noé e sua família construírem a grande arca. Não é errado pensarmos em Caim como o Forrest Gump do Velho Testamento de José Saramago. Ao presenciar ao longo dos anos o comportamento de Deus em cada uma dessas situações delicadas, Caim terá uma visão crítica e extremamente negativa do Criador. “Caim” é um romance espetacular. Ele tem apenas 174 páginas que estão divididas em 13 capítulos. É, portanto, o livro mais enxuto de Saramago que analisamos neste Desafio Literário. Diferentemente dos demais trabalhos do português, é possível concluir a leitura de “Caim” em um único dia. Foi o que fiz na última quarta-feira. Devo ter levado de cinco a seis horas para percorrer todas as suas páginas. Comecei a leitura à tarde e a concluí à noite. Para ser sincero, antes de ler “Caim”, achei que este livro seria uma mera cópia de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, uma das obras-primas da literatura portuguesa. Realmente, José Saramago utiliza todos os recursos do romance de 1991 nesta sua última publicação. Entretanto, o resultado não é simplesmente mais do mesmo. “Caim” é excelente por exibir qualidades próprias. Ele é tão bom quanto “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, chegando a ser até mesmo melhor em alguns pontos. Se Saramago foi genial ao retratar o Novo Testamento, ele não ficou atrás quando apresentou sua visão pouco ortodoxa do Velho Testamento. O humor do texto é um dos aspectos que mais chamam a atenção do leitor. É possível soltar algumas boas gargalhadas durante esta leitura. O bom humor de Saramago é construído pela ironia fina do autor, pela mistura de elementos do presente e do passado e, acredite se quiser, pelo uso de palavrões (uma contradição em uma narrativa sacra). A ironia maior está na relação de Deus com seus seguidores, os judeus. A mistura temporal se faz com o acréscimo de elementos do mundo atual ao texto histórico. Assim, temos citações, por exemplo, ao conforto dos hotéis modernos, às informações do Guia Michelin, às características do mitológico unicórnio e a passagem do Zeppelin Hindenburg. Hilário! E os palavrões que saltam do texto são para expressar toda a indignação do protagonista com os acontecimentos que ele está testemunhando. Dessa forma, esse recurso não diminui a qualidade do romance, mas o torna mais engraçado e, principalmente, verossímil (quem não soltaria xingamentos se estivesse no lugar de Caim, hein?). José Saramago reconstrói, neste romance, a narrativa bíblica com brilhantismo. Nota-se um processo de estudo aprofundado e de construção inteligente da velha história. Repito mais uma vez o que já havia dito no post de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”: a invenção narrativa de Saramago é tão fantástica que acabei achando-a melhor do que a original. A partir de agora, ao menos para mim, o Velho Testamento será o que li em “Caim” e não o que a Bíblia apresenta. Afinal, a versão do português faz muito mais sentido do que o conteúdo das velhas escrituras, além de conter um texto sublime. Há cenas incríveis neste livro. As melhores estão no capítulo 1 (criação de Adão e Eva por Deus e a expulsão do casal do Jardim do Éden), no capítulo 6 (Salvamento de Isaac no instante em que ele seria assassinado por Abraão, seu pai) e no capítulo 12 (Diálogo entre Caim, Deus e Noé sobre aspectos técnicos da construção da Arca). Nesses trechos, juro que ri sem parar. Saramago é divertidíssimo! Um dos pontos que mais me agradou em “Caim” foi a limpeza do seu texto. Sua narrativa é direta, sem qualquer floreio. O autor vai direto ao ponto, não perdendo tempo com cenas inúteis ou com comentários supérfluos. Trata-se de uma característica da fase final da carreira de Saramago. Infelizmente, seus livros iniciais, mesmo aqueles famosos da década de 1980 e 1990, eram truncados e com excessos de cenas e comentários. Quanto ao estilo, “Caim” segue o mesmo padrão que notabilizou a literatura de seu autor: sinais de pontuação baseados em regras próprias, frases longas, parágrafos gigantescos, discurso (diálogos das personagens) incorporado à narrativa (voz do narrador) e narrador com liberdade para comentar os fatos exibidos. A única diferença que notei foi o registro dos nomes próprios com a primeira letra minúscula. Sinceramente, não me lembro de ter visto essa particularidade nos romances anteriores. Acho que os nomes das personagens dos outros livros do português tinham sim a primeira letra maiúscula (como reza a convenção). Em relação à narrativa, três pontos chamaram minha atenção: a crueldade ainda maior de Deus, a construção do protagonista e as características da viagem efetuada por ele. O Deus retratado em “Caim” é um vilão ainda mais sanguinário, impetuoso, destemperado, sádico e injusto do que aquele estampado em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Não dá para se identificar com Ele, muito menos respeitá-lo. Por outro lado, Caim é um improvável herói romântico. Diferentemente das páginas da Bíblia, no romance de Saramago ele apresenta muitas qualidades positivas. Caim só matou Abel, por exemplo, por culpa de Deus, que o levou a essa atitude radical. E a viagem do protagonista através do tempo (passado, presente e futuro se misturam) deixou o romance ainda mais dinâmico (seria Caim um Marty McFly bíblico?!). Dessa maneira, Saramago não precisou se ater a ordem cronológica dos fatos na hora de relatar a viagem da sua personagem principal. A conclusão deste romance é similar à obtida em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”: Deus católico/judeu é o grande vilão da trama e os homens são as vítimas de suas maldades. Obviamente, trata-se de um ponto de vista mais pertinente à concepção ateísta. Não à toa, os católicos ficaram tão raivosos com José Saramago. O português debochou da versão bíblica, que convenhamos é recheada de passagens fantasiosas e totalmente incoerentes. Incrível como José Saramago continuou lúcido, divertido e produtivo até o final da vida. Perto de completar 88 anos de idade, seu talento para a produção literária permaneceu inalterada. “Caim” é um livro surpreendente. Seu texto alia uma narrativa inteligente e bem-humorada de uma história já bem conhecida. Só mesmo a genialidade de Saramago para reconstruir o Velho Testamento de maneira tão sublime. Feitas as críticas individuais dos seis livros de Saramago, o Desafio Literário agora parte para a conclusão dos estudos sobre o escritor português vencedor do Nobel. Na próxima segunda-feira, dia 29, o Bonas Histórias apresentará uma análise abrangente da carreira e do estilo literário de José Saramago. Antes disso, vou comentar o documentário “José e Pilar” (José y Pilar: 2009), filme sobre o relacionamento do escritor com sua segunda esposa, Pilar del Río. Este post será publicado no sábado, dia 27. Confira os últimos capítulos da investigação sobre a literatura de José Saramago. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoséSaramago #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Romance #DramaPsicológico #RomanceHistórico #NarrativaBíblica
- Livros: Berenice Corta o Cabelo – O famoso conto de Francis Scott Fitzgerald
Quem olha a imagem de “Berenice Corta o Cabelo” (Lote 42) no alto deste post do Bonas Histórias deve pensar intuitivamente: “O que há de errado com a reprodução deste livro?!”. Entendo a possível surpresa dos nossos leitores. Não é comum encontrarmos uma publicação nesse formato. Porém asseguro: não tem nada de equivocado com sua imagem nem mesmo com a obra em si. O design diferenciado foi um recurso utilizado pela Lote 42, pequena editora paulistana, para valorizar esteticamente o famoso conto de Francis Scott Fitzgerald. Se a visualização na tela do computador ou do celular gera uma sensação inicial de esquisitice, ao vivo e com o material em mãos, o leitor fica maravilhado com o projeto gráfico do livro. “Berenice Corta o Cabelo” é, sem dúvida nenhuma, a publicação literária mais inovadora, ao menos em relação ao projeto gráfico, que vi neste ano (e olha que estou escrevendo isso no último dia de dezembro!). O material e o formato utilizado na produção da obra valorizam ainda mais seu texto. F. Scott Fitzgerald foi um dos principais escritores norte-americanos do século XX. A maior parte de suas obras foi publicada nas décadas de 1920 e 1930. “O Grande Gatsby” (Tordesilhas), romance de 1925, é um clássico da literatura mundial e é apontado indiscutivelmente como sua principal produção artística. Além dos cinco romances produzidos, Fitzgerald também se dedicou com afinco às narrativas curtas. Foram nove as coletâneas de contos lançadas. O autor contabilizou mais de 160 contos escritos ao longo de sua carreira. Essas pequenas histórias eram normalmente vendidas aos jornais e às revistas da época, principalmente ao Saturday Evening Post, Esquire e Collier’s, rendendo muito mais dinheiro ao norte-americano do que os seus romances. Entre as histórias mais famosas desse gênero estão “Berenice Corta o Cabelo”, de 1920, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de 1921, transformado recentemente em filme, e “Sonhos de Inverno”, de 1922. Diferentemente da maioria dos contos de Scott Fitzgerald, “Berenice Corta o Cabelo” não foi originalmente publicado de maneira independente em um periódico. Esta história foi lançada em “Flappers and Philosophers” (Sem edição no Brasil), uma coletânea de pequenas narrativas de 1920. Este foi o primeiro livro de contos do autor. Além de “Berenice Corta o Cabelo”, “Flappers and Philosophers” continha outras sete histórias. Este livro foi lançado no mesmo ano do primeiro romance do autor, “Este Lado do Paraíso” (BestBolso). Perto do sucesso do romance de estreia de Fitzgerald, sua primeira coletânea de contos teve uma receptividade tímida do público leitor. Seu maior sucesso nesse gênero viria apenas dois anos mais tarde, com o lançamento de “Contos da Era do Jazz” (Sem edição integral para o português). Contudo, “Berenice Corta o Cabelo” ficou marcado para sempre como uma das principais histórias do autor. Este conto de F. Scott Fitzgerald começa em um baile, no final do Verão, em um country club norte-americano. A nata da sociedade local está presente no salão de festas. Enquanto os mais velhos conversam calmamente, os mais jovens aproveitam para dançar animadamente. Warren McIntryre, um universitário de dezenove anos, é apaixonado por Marjorie Harvey, sua antiga vizinha. Contudo, a moça nunca demostrou interesse por ele. Sabendo do fascínio que o amigo tem por ela, Marjorie pediu um favorzinho para Warren: dançar com Berenice. Berenice é prima de Marjorie. A moça de dezoito anos veio de uma família muito rica de Eau Claire e está passando as férias de Verão na casa de Marjorie. Por não ser nada popular entre os rapazes, Berenice dificilmente consegue um par para as danças nos bailes. Por isso, sua prima precisa interceder. Muitíssimo popular entre os jovens do sexo oposto, Marjorie solicita que alguém puxe sua prima para uma dança, o que é feito a contragosto pelos rapazes. Um dos encarregados dessa tarefa naquela noite é o sempre prestativo Warren McIntryre. Ao final do baile, as primas retornam para a casa. Enquanto está se trocando e se preparando para dormir, Berenice vai até o quarto de sua tia para desejar boa noite. Ao chegar à porta do cômodo de sua anfitriã, a visitante ouve Marjorie conversando com a mãe, Josephine Harvey, sobre a festa recém-terminada. Na visão de Marjorie, Berenice é um estorvo para ela e para os que estão ao seu redor. Apesar de bonita, a visitante é extremamente chata. Ela conversa pouco e quando abre a boca fala de assuntos totalmente desinteressantes para os rapazes. Sua timidez, suas roupas convencionais, seu comportamento conservador e seu romantismo meloso chocam os mais jovens. Berenice parece uma velha e não uma pessoa da nova geração. Ao ouvir aquelas palavras, Berenice volta para seu quarto arrasada. No dia seguinte, já no café da manhã, ela comunica à prima o que ouviu sem querer atrás da porta. Marjorie, de forma indelicada, sustenta a sua opinião e as duas brigam feio. Berenice não se aguenta e cai no choro. Depois de algumas horas de lamentação, a visitante retorna para falar com a prima. Berenice concorda com as críticas de Marjorie e aceita receber sugestões dela para se tornar uma moça popular e requisitada pelos rapazes nas últimas semanas de férias. Entre as várias dicas dadas por Marjorie (o que vestir, como aparar as sobrancelhas, como dançar, como abordar um rapaz, etc.) está cortar o cabelo. Motivada a puxar conversas nos eventos sociais, Berenice pergunta aos cavalheiros o que eles acham da ideia de ela ter o cabelo bem curtinho. Todos ficam empolgados com o tema e discutem acaloradamente a questão. Mesmo não tendo a vontade de se desfazer dos longos fios, Berenice sinaliza que qualquer dia irá cortá-los. O atrevimento dá início à fase de grande e de inédita popularidade da jovem. Vale lembrar que no início do século XX somente os homens usavam cabelos curtos. Aquele gesto de Berenice indicava o quanto ela era uma moça descolada e à frente do seu tempo. Sob os conselhos da prima, Berenice passa a ser vista como uma dama moderna, interessante e alegre. A nova versão da moça chama a atenção de Warren McIntryre, que passa a acompanhá-la em todos os lugares. Ao invés de ficar feliz com sua realização, Marjorie fica enciumada com a ascensão repentina e intensa da prima. De uma hora para outra, Marjorie passa a ver Berenice como uma inimiga. Assim, fará o que for necessário para retomar sua posição de moça mais popular da cidade, custe o que custar. “Berenice Corta o Cabelo” é um livro curto (afinal é um conto, né?). Na edição da Lote 42, ele tem 96 páginas. Se a princípio parecem poucas páginas para uma obra literária, na verdade o que temos aqui é uma publicação espichada. Se não fossem a diagramação generosa, o formato fino do livro e as inserções de ilustrações no meio do texto, “Berenice Corta o Cabelo” não ultrapassaria 30 páginas. Por isso, é possível concluir a leitura integral dessa história em menos de uma hora. Quem lê muito devagar, na certa não levará mais do que duas horas para percorrer o livro de ponta a ponta. Esta trama de F. Scott Fitzgerald parece hoje em dia um tanto óbvia: a transformação da menina impopular em alguém admirada pelos integrantes do sexo oposto. É só dar uma olhada nos filmes hollywoodianos e nas obras infantojuvenis para ver o quanto este tema é batido atualmente. Porém, no início do século XX, essa história era original e conseguia despertar a curiosidade nos leitores. Não há prova maior da força de um enredo do que quando ele é repetido até a sua exaustão. Aí, não culpe quem o escreveu pela primeira vez e sim quem vive copiando-o. A principal questão debatida por este conto de Fitzgerald é: qual mulher você quer ser no início do século XX? Na visão do escritor, há dois tipos de damas no seio da sociedade norte-americana. A primeira é constituída pela mulher conservadora, que faz tudo para ser uma esposa zelosa, uma dona-de-casa respeitada e uma boa mãe de família. Para tal, ela deve ser discreta, reservada e até mesmo tímida. Suas principais qualidades são sua inteligência acima da média, seu caráter ilibado e seu comportamento reto. Necessita também gostar dos romances românticos, deve preferir ficar em casa ao invés de passear pela rua e precisa ser fiel a um único homem. A segunda é formada pela mulher moderna (ao menos aos olhos de um homem em 1920). Ela deve ser uma boa companhia masculina, sendo, portanto, alegre, divertida e bonita. Seu comportamento deve ser pautado pelas necessidades e desejos do seu par. Aqui sai o romantismo e entra a praticidade da vida moderna. A boa mulher é aquela que consegue administrar vários relacionamentos com os homens e está sempre aberta para um encontro casual. O que choca o leitor contemporâneo é que a mulher moderna de Scott Fitzgerald, chamada por ele de feminista, não é nada feminista (pelo menos não sob o ponto de vista atual). Por mais liberal que ela seja na aparência e nas atitudes, ainda sim ela é escrava das aspirações masculinas, vivendo em prol das vontades exclusivas dos homens. Não é preciso ser muito esperto para ver o quão machista é esse ponto de vista. Se você não for uma feminista ortodoxa, que provavelmente queimará o livro por isso, precisará engolir a seco essa questão e seguir em frente na história. Não podemos nos esquecer que estamos falando de um conto de quase cem anos de idade. Para se ter uma ideia, na época da publicação de “Berenice Corta o Cabelo”, as mulheres tinham acabado de receber o direito de votar nas eleições norte-americanas. Para quem ficou incomodado com a visão machista das protagonistas, vale a pena dar uma olhada mais atenta às personagens masculinas. Elas também não foram descritas com um olhar nada positivo. Os homens são normalmente fúteis, dependentes das relações e dos afetos das mulheres, inclinados unicamente para as aparências sociais e pessoas espiritualmente pobres. Ou seja, Fitzgerald é mordaz e implacável com ambos os sexos. De qualquer forma, é possível notar o choque de gerações retratado pelo conto. Berenice e Marjorie representam dois tipos de mulheres daquela sociedade. De tão diferentes, era óbvio que o destino das duas era o de se tornarem inimigas ferrenhas. O único ponto em comum entre elas era a relevância do cabelo, um importante símbolo da feminilidade. Por mais distintas que sejam as duas protagonistas, ainda sim elas estão unidas em algo que as aproxima. A maior decepção de “Berenice Corta o Cabelo” (se relevarmos o machismo da trama e a obviedade do enredo) é o seu desfecho. A parte final do conto é exatamente aquilo que o leitor médio espera. Não há qualquer novidade ou surpresa de ordem narrativa. Se eu ou você fossemos escrever essa história, na certa a concluiríamos como Fitzgerald fez. Minha decepção é fruto de uma expectativa alta que tinha. Com o fechamento simples e extremamente óbvio, essa história acabou enaltecendo o aspecto infantil e um tanto tolo do seu enredo. Se esses foram os pontos negativos, não posso deixar de retornar ao ponto mais incrível desse livro da Lote 42: seu projeto gráfico. Os detalhes e os acabamentos fazem dessa obra uma maravilha. O que mais me impressionou foram as ilustrações impecáveis de Mika Takahashi e as fitas de marcação das páginas que simulam os cabelos da protagonista. Incrível! Duvido que “Berenice Corta o Cabelo” não tenha ganhado nenhum prêmio de design. Assim, fechamos com chave de ouro as críticas literárias do Bonas Histórias neste ano. Em janeiro, retornamos ao blog com mais livros nacionais e internacionais para serem discutidos e analisados em profundidade. Bom Ano-Novo para todos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Drama #FrancisScottFitzgerald #LiteraturaNorteAmericana
- Livros: Levantado do Chão – 40 anos do primeiro sucesso de José Saramago
Se você perguntasse há quarenta anos o que um português achava da literatura de José Saramago, as respostas mais prováveis que você receberia seriam: “De quem?” ou “Não conheço esse autor”. Por incrível que possa parecer hoje em dia, aos 58 anos de idade, Saramago era um escritor desconhecido por seus conterrâneos (o que dirá, então, pelos leitores estrangeiros?!). Seus dois primeiros romances, “Terra do Pecado” (Companhia das Letras), de 1947, e “Manual da Pintura e Caligrafia” (Companhia das Letras), de 1977, não obtiveram grande repercussão, passando despercebidos pelo público leitor e pela crítica literária portuguesa. O mesmo episódio já tinha acontecido com suas coletâneas de contos, de crônicas e de poesias. Até então, Saramago havia se sustentado com os trabalhos de serralheiro, desenhista, tradutor, funcionário público e jornalista. Ganhar a vida exclusivamente como escritor não passava de um sonho aparentemente impossível. A trajetória literária de José Saramago mudou completamente com a publicação de "Levantado do Chão" (Companhia das Letras), em 1980. Este livro, o terceiro romance do autor, representou seu primeiro grande sucesso editorial. A obra conquistou, no mesmo ano do seu lançamento, o Prêmio Cidade de Lisboa como o melhor romance. Além disso, “Levantado do Chão” marcou a introdução do estilo narrativo que caracterizaria seu autor para sempre como um dos mais originais prosadores da língua portuguesa. Assim, a partir desta publicação, José Saramago se tornou conhecido e valorizado em seu país natal. Era a virada de uma carreira surpreendente (e, por que não, improvável) que culminaria 18 anos mais tarde com o recebimento do Prêmio Nobel de Literatura. Curioso para conhecer este livro, li nesta semana a obra que transformou o desconhecido José no famoso Saramago. Vale recordar que no ano passado o escritor português foi um dos escolhidos para integrar os estudos do Desafio Literário. Naquela oportunidade, analisei seis de seus principais romances: "Memorial do Convento" (Companhia das Letras), "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra" (Companhia de Bolso), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (Companhia das Letras), "Ensaio sobre a Cegueira" (Companhia das Letras) e "Caim" (Companhia das Letras). Antes disso, já havia comentado no Bonas Histórias “O Conto da Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras). Por que, então, não incluí “Levantado do Chão” nesta lista? Eu até desejava fazer isso, mas o Desafio Literário se restringe à análise de seis obras de cada um dos escritores selecionados. Assim, no final das contas, esta publicação acabou preterida. Para corrigir esse erro imperdoável da minha parte, volto agora ao Bonas Histórias para analisar o livro de José Saramago que fiquei devendo. O post de hoje é todo ele dedicado ao primeiro sucesso do autor português. “Levantado do Chão” é um romance ambientado no Alentejo, região agrícola do centro-sul de Portugal. Este livro foi escrito quando Saramago morava na vila de Lavre com sua segunda esposa, a também escritora Isabela da Nóbrega. A escolha pela pacata localidade se deu depois da demissão, em 1977, de José Saramago do Diário de Notícias. A perda do emprego de jornalista motivou-o a tomar uma decisão radical: largar de vez o jornalismo e se tornar romancista. E para escrever, não havia lugar melhor do que o Alentejo, pensava José Saramago. Enquanto o dinheiro oriundo da venda dos seus livros não chegasse, ele iria ganhando a vida com os serviços de traduções. Depois de produzir “Manual da Pintura e Caligrafia”, Saramago leu “Uma Família do Alentejo”, romance de João Domingos Serra. Ele ficou tão comovido com o drama dos camponeses pobres daquela região do seu país que decidiu se inspirar na obra de Domingos Serra. Nascia, dessa forma, a ideia para o seu novo romance, “Levantado do Chão”. Aproveitando-se que estava morando em Lavre, onde podia conhecer de perto a realidade e a cultura alentejana, José Saramago produziu uma trama histórica de uma família humilde e fictícia do povoado onde estava residindo. O enredo de “Levantado do Chão” acompanha a saga da família Mau-Tempo por boa parte do século XX. A história inicia-se em 1904 com Domingos Mau-Tempo e sua esposa Sara da Conceição se mudando de Monte Lavre para São Cristóvão. Aqueles são tempos difíceis e o casal viaja em busca de melhores perspectivas e de trabalho. Eles levam consigo o filho recém-nascido, João, um menino de olhos azuis. A trama do livro prossegue até o ano de 1974, quando acontece a Revolução dos Cravos. Nesse momento, João Mau-Tempo já faleceu, assim como seus pais, e a narrativa segue os passos de António Mau-Tempo, Gracinda Mau-Tempo Espada, filhos de João com Faustina, e Maria Adelaide Espada, neta de João e Faustina e filha de Gracinda e Manuel Espada. Ao longo de sete décadas, assistimos nas páginas de “Levantado do Chão” ao drama dessa família de camponeses pobres do Alentejo. As quatro gerações dos Mau-Tempo lutam contra a dominação e a exploração dos poderosos, representados pela tríade Latifúndio-Igreja-Estado. Esse trio formado por proprietários de terras, padres e governantes é o responsável por se aproveitar da massa de homens e de mulheres simples e mal instruídos para enriquecer. Com isso, intensificam-se a desigualdade social e as injustiças e cria-se um cenário de grande violência. Por falar em cenário, a saga dos Mau-Tempo (nome autoexplicativo para o que acontecerá com eles ao longo da obra de Saramago) se passa essencialmente no povoado de Monte Lavre. Domingos Mau-Tempo e sua esposa Sara da Conceição até iniciam o romance saindo de lá. Contudo, com a separação do casal (Domingos é um bêbado irresponsável que bate na mulher e não gosta de pegar no batente), Sara da Conceição retorna para junto de sua família em Monte Lavre. É ali que João Mau-Tempo, o primogênito, e os demais filhos de Domingos crescerão. E é também ali que João e sua esposa criarão seus três filhos (além de António e Gracinda, o casal terá Amélia, que permanecerá o tempo inteiro em segundo plano na história). “Levantado do Chão” possui aproximadamente 400 páginas. É um livro volumoso, admito. Precisei de três dias, ou o final de semana inteiro, para concluí-lo. Iniciei a leitura na sexta-feira à tarde e cheguei à última página no domingo à noite (com óbvias paradas no meio do caminho). São dois os aspectos que mais chamam a atenção do leitor neste romance: a forte crítica social feita por José Saramago e o estabelecimento do estilo narrativo que marcaria a literatura do autor. Em relação ao primeiro ponto, temos aqui um Saramago engajado socialmente e indiscutivelmente parcial. Ele apresenta a história sob o ponto de vista dos habitantes mais pobres do Alentejo, os heróis do livro. A vilania da trama cai no colo dos latifundiários. A Igreja Católica e o governo português também são retratados de maneira pejorativa, aliados desde sempre dos grandes proprietários de terras. O padecimento dos camponeses se dá pela exploração criminosa em que são vítimas. Latifundiários, religiosos e governantes parecem pouco preocupados com o bem-estar e com a qualidade de vida dos mais humildes, tratando-os como meros animais de trabalho e de obtenção de recursos. Isso fica evidente na passagem a seguir: “Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, precioso é que venham ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e a competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral. Tendo nascido para trabalhar, seria uma contradição abusarem do descanso. A melhor máquina é sempre a mais capaz de trabalho contínuo, lubrificada que baste para não emperrar, alimentada sem excesso, e se possível no limite econômico da simples manutenção, mas sobretudo de substituição fácil, se avariada está, velha outra, os depósitos desta sucata chamada cemitérios, ou então senta-se à máquina nos portais, toda ela ferrujosa e gemente, a ver passar coisa nenhuma, olhando as mãos tristíssimas, quem me viu e quem me vê. No geral do latifúndio, os homens e as mulheres têm seu tempo regateado de vida, espanta-se a gente de como alguns são velhos, e muito mais quando, passando, encontramos um que à vista é ancião e ouvimos dizer que tem quarenta anos, ou esta mulher murcha e com a face encorreada, ainda não fez trinta, afinal viver no campo não dá vida acrescentada, são invenções da cidade, é como aquele regradíssimo ditado, Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, tinha graça vê-los aqui com a mão no cabo da enxada e os olhos no horizonte à espera do sol ou derreados das cruzes ansiando por um anoitecer que nunca mais chega, o sol é um desgraçado, cheio de pressa de sair e com tão pouca de se apagar. Como os homens”. “Levantado do Chão” é uma obra singular de José Saramago. Nunca o escritor foi tão politizado e engajado socialmente como neste romance. Ele critica duramente as mazelas sociais de Portugal, escancarando as engrenagens político-econômicas que perpetuam a pobreza de boa parte de seus conterrâneos. Portanto, este livro se parece muito com as obras de Manuel da Fonseca, que não se cansou de retratar as injustiças sociais do Alentejo em seus trabalhos literários. “Aldeia Nova” (Caminho), coletânea de contos de Fonseca, é um bom exemplo dessa evidência. Para nós brasileiros, talvez a comparação mais pertinente seja com Jorge Amado (principalmente em sua primeira fase) ou com Graciliano Ramos. Assim como os autores nordestinos descreveram com brilhantismo os dramas das pessoas mais humildes de suas regiões, Saramago fez o mesmo com os habitantes do Alentejo. O segundo elemento marcante de “Levantado do Chão” é o estilo narrativo empregado por José Saramago. Pela primeira vez, o escritor apresentava aos leitores as características que o definiriam mais tarde como um dos mais originais prosadores do século XX e que seriam replicadas em todas as suas obras a partir de então. É só comparar a estrutura textual deste romance com as de "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", “A Jangada de Pedra", "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", “O Conto da Ilha Desconhecida” e "Caim" para ver as semelhanças. Estão aí: o uso das vírgulas em substituição aos pontos finais, a ausência de pontos de interrogação e de exclamação, as frases gigantescas, os parágrafos imensos, os diálogos unidos à narrativa sem o uso do travessão, o texto muito descritivo, o humor ácido, a dupla linha narrativa (microambiente e macroambiente) e o narrador é uma personagem observadora mesmo sendo onisciente e onipresente (a impressão na maior parte do tempo é que a narração é em terceira pessoa, mas é na verdade em primeira). Ou seja, temos já estabelecidas em “Levantado do Chão” todas as marcas estilísticas da literatura saramaguiana. Por isso, esta é uma obra tão fundamental para a carreira do escritor português. Não é errado dizer que foi produzindo este livro que o autor encontrou sua voz literária e as particularidades do seu texto literário. Outras características importantes deste romance são: as intertextualidades históricas (acompanhamos os desdobramentos da proclamação da República portuguesa, da Primeira Guerra Mundial, da tomada ao poder de Salazar, da Segunda Guerra Mundial, do fim do Período Colonial na África e da Revolução dos Cravos) e bíblicas (tanto do Velho quanto do Novo Testamento); a dupla face da narração microambiental (além de descrever o que se passa com a família Mau-Tempo, o leitor também acompanha o que ocorre de principal na vida de várias figuras de destaque de Monte Lavre e da região); o aspecto de crônica social do romance (com várias histórias curtas sobre a vida e a realidade do Alentejo); e o tom de saga da trama (são quatro as gerações de uma família retratadas ao longo dos capítulos do livro). O final de “Levantado do Chão” é catártico. Seu desfecho possui elementos fantásticos (sobrenaturais) e uma mensagem otimista. Nesse sentido, não é coincidência que a jovem Maria Adelaide, a quarta geração de alentejanos do século XX e a primeira a viver depois da Revolução dos Cravos, seja uma Espada (alguém com condições de lutar por uma vida melhor) e não uma Mau-Tempo (alguém fadada à desesperança). A ambientação do romance é marcada pela pobreza extrema, pela violência, pela desigualdade, pela injustiça e pelo desespero dos mais necessitados. O conflito aqui é entre ricos (que desejam mais poder e mais riqueza) e pobres (que anseiam por condições mínimas de dignidade e sobrevivência). Veja o trecho a seguir: “E ainda se fossem só as guerras. Um homem habitua-se a tudo, e entre uma e outra dá para fazer uns filhos e os entregar ao latifúndio, sem vir lançada ou escopeta cortar o fio das promessas, que talvez o rapaz tenha a sorte e chegue a capataz ou feitor ou criado de confiança, ou prefira ir viver nas cidades, que é um morrer mais limpo. O pior são as pestes e as fomes, ano sim, ano talvez, que vêm dar em uma derrocada de povo, ficam os campos vazios de gente, as aldeias fechadas, léguas sem ver vivalma, e de vez em quando bandos de miséria e farrapos, por caminhos que o diabo só às costas dos homens. Vão ficando pela rota perdida, é um itinerário de cadáveres, e quando a peste levanta e a fome se acomoda, contam-se os vivos até onde chega a aritmética e acham-se tão poucos”. Apesar de ser um romance incrível, “Levantado do Chão” tem também seus problemas. O primeiro ponto negativo (e o principal deles) está em seu foco narrativo. Uma falha parecida, curiosamente, se repetiria em “Memorial do Convento”, o livro seguinte de Saramago. A história dos Mau-Tempo é contada por um narrador observador que é uma personagem oculta da trama. Na maioria das vezes, ele permanece escondido na narrativa, aparecendo de forma bem pontual em algumas passagens. Até aí beleza. Porém, uma dúvida surge: como é possível alguém acompanhar quatro gerações de uma família de forma tão próxima?! Esse indivíduo não envelhece e não morre nunca? É inverossímil alguém saber tantos detalhes, de tantas pessoas e por tantas décadas. O mesmo problema pode ser aplicado ao padre Agamendes. Paradoxalmente, o religioso já era adulto no início do século XX, quando Domingos Mau-Tempo e Sara da Conceição se casaram em Monte Lavre e saíram em viagem pelo interior de Portugal. Contudo, no final do romance, que se passa em 1974, Agamendes ainda está vivinho da silva e, acredite, está cada vez mais ativo. Ele não envelhece nem morre?! Ao invés de ser um erro de ordem narrativa (como explicado no parágrafo acima sobre o narrador/foco narrativo, esse sim um equívoco do autor), a construção dessa personagem inverossímil tem lá suas justificativas. Para mim, Saramago usou da ironia e da sutiliza para criar a constituição do padre do romance. Afinal de contas, quem é a personagem que não morre nunca, jamais envelhece e está sempre a atrapalhar a vida dos homens? O Diabo, é claro! Talvez seja essa a verdadeira identidade de Agamendes (e a explicação para a sua eternidade). O ritmo lento da narrativa também pode incomodar os leitores mais ansiosos. Para cada trecho da trama principal (saga dos Mau-Tempo), José Saramago acrescenta capítulos com olhares sobre o Alentejo e sobre a dinâmica social dessa região, além de apresentar a todo momento o drama de personagens novas e secundárias. Em contrapartida à lentidão do relato, somos brindados com um texto com forte carga poética e de engajamento social. Aí o livro se torna saboroso ao retratar a vida sofridas dos camponeses de Monte Lavre. “Levantado do Chão” é uma leitura imperdível para quem deseja conhecer o momento de mudança da carreira de um dos principais escritores da língua portuguesa. Com a publicação deste romance, nascia para o universo literário o José Saramago que conhecemos hoje. A obra serviu de afirmação para o romancista, que, enfim, descobriu sua voz e seu estilo artístico. E esse episódio emblemático da literatura portuguesa aconteceu há exatos 40 anos. Portanto, não é errado pensarmos que não haveria "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira" ou mesmo o recebimento do Nobel em 1998 se este livro não tivesse obtido tantos prêmios e a ótima recepção da crítica e do público. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Uma Casa no Fundo de Um Lago - A novela de terror de Josh Malerman
Há exatamente cinco anos, eu comentei no Bonas Histórias a estreia de Josh Malerman na literatura. Confesso que não esperava o sucesso acachapante que “Caixa de Pássaros” (Intrínseca), romance de terror ao melhor estilo apocalipse, teria dali em diante. O livro do norte-americano se tornou best-seller nos Estados Unidos, no Brasil e em alguns países da Europa. Essa história de Malerman foi adaptada, mais tarde, para as telas. O filme lançado pela Netflix no finalzinho de 2018 teve Sandra Bullock no papel principal. Nada mal para o título inicial de um jovem escritor, não é mesmo? No começo deste ano, lembrei muito de “Caixa de Pássaros”. Afinal, o ambiente e o enredo desta obra eram parecidíssimos à situação e ao clima que estávamos vivenciando durante a tragédia sanitária provocada pela COVID-19. O elevado número de mortes, a reclusão necessária, o medo de sair às ruas, as incertezas sobre a saúde pública e os questionamentos sobre nosso estilo de vida atual saíram do mundo ficcional e ganharam contornos verídicos. Não por acaso, incluí esse romance no post da coluna Recomendações que apontava os doze livros que mais dialogavam com o cenário da pandemia do novo coronavírus. Após a trajetória exitosa de “Caixa de Pássaros” nas livrarias e na televisão (e olha que isso aconteceu antes que a COVID-19 aparecesse), ninguém do mercado editorial se surpreendeu com a decisão de Josh Malerman de dividir seu tempo entre os palcos (ele é compositor e vocalista da banda de rock High Strung)e sua produção ficcional. Para falar a verdade, nos últimos cinco anos, ele tem se dedicado mais à carreira literária do que à carreira musical (neste período, lançou apenas um álbum). Surgia, assim, um novo (e carismático) autor do gênero de suspense e de terror. Em uma comparação despretensiosa, Josh Malerman pode ser visto como uma espécie de Toni Bellotto da literatura norte-americana. Se bem que o brasileiro me parece muito mais talentoso do que o colega estrangeiro quando o assunto é a produção de textos literários marcantes e a publicação de livros de qualidade. Considero Belloto (remanescente da formação clássica dos Titãs, uma das principais bandas de rock da história do nosso país) um nome promissor do romance policial nacional e da literatura contemporânea brasileira - algo que não dá para ser dito sobre o norte-americano. Ao compararmos Malerman aos seus conterrâneos dos gêneros terror (por exemplo, Stephen King) e suspense (Harlan Coben), notamos que ele precisa comer muito arroz com feijão (ou, nesse caso, hambúrguer com batata frita) para se aproximar dos melhores. De 2014, ano em que “Caixa de Pássaros” foi publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra, para cá, Josh Malerman já lançou outros sete romances, três novelas e mais de três dezenas de contos. No Brasil, seus livros são editados pela Intrínseca. A editora carioca lançou, além de “Caixa de Pássaros”, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” (Intrínseca), novela de terror com tons de realismo fantástico e com uma pegada infantojuvenil, e os romances “Piano Vermelho” (Intrínseca), suspense de 2017 ambientado no universo musical, “Inspeção” (Intrínseca), trama policial de 2019 e “Malorie” (Intrínseca), obra de 2020 que dá sequência à trama de estreia do autor (e até aqui o seu maior sucesso comercial). Curioso para conhecer os passos seguintes do norte-americano na literatura após “Caixa de Pássaros”, li, no último final de semana, “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. Esta novela foi publicada, em 2016, pela This Is Horror, uma conceituada editora dos Estados Unidos do gênero de terror. Ou seja, este foi o segundo livro de Malerman a chegar às livrarias – “Ghastle and Yule” (sem edição para o português), outra novela lançada em 2016, foi publicado apenas em versão eletrônica. No mercado brasileiro, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” foi lançado em julho de 2018, pouco antes da estreia do filme “Caixa de Pássaros” na Netflix. O enredo desta novela inicia-se com a visita de Amelia, uma adolescente de dezesseis anos, à loja de ferramentas do pai de James. Ela precisa comprar uma nova mangueira para sua casa. Ao ver a moça bonita nos corredores do estabelecimento, James, que também tem dezesseis anos e trabalha naquele local, cria coragem e chama a cliente para um primeiro encontro. Apesar de não conhecer Amelia tão bem, é apenas a quarta vez que a jovem visita a loja, ele passa por cima de sua timidez e a convida para um passeio de barco na manhã do sábado seguinte. A moça acha ótima a proposta. Afinal, é início de Verão, ela não está saindo com ninguém e o jeito meigo do rapaz a cativa. Na data e no horário combinados, os adolescentes seguem para o lago da cidade, onde o tio de James tem uma casa. O lago fica à beira das montanhas e é rodeado por uma floresta sinuosa. Para o passeio do jovem casal, o tio de James emprestou um barco à remo. É com esse barco que James e Amelia navegam pelas águas enquanto aproveitam o cenário romântico para jogar conversa fora e tentar se conhecer um pouco mais. Após remarem pelo lago principal, maior e mais popular, a dupla entra em um lago menor. O novo local é mais restrito e desconhecido pela maioria dos habitantes e visitantes da cidade. Encantados com a natureza exuberante, James e Amelia descobrem, sem querer, um pequeno túnel que dá acesso a um terceiro lago. Totalmente desabitado e quase camuflado pela vegetação, o novo lago atiça a curiosidade dos garotos. Eles se sentem escondidos ali, quase como os únicos frequentadores do lugar. Não demora muito e o terceiro lago revela uma particularidade inusitada: no meio dele, há uma grande casa submersa. Apenas os telhados da construção ficam fora da água. Excitados para explorar a descoberta, James e Amelia fazem mergulhos para entender as características daquela construção. Para perplexidade de ambos os adolescentes, eles descobrem que a casa no fundo do lago é mobiliada e tem objetos que não flutuam. É como se o interior daquela residência não respeitasse algumas leis da física – como a gravidade e o empuxo, por exemplo. Maravilhados com a mágica e com a beleza da casa submersa, James e Amelia combinam de retornar, em segredo, mais vezes àquela localidade oculta da sociedade. Só que nas novas visitas, eles trazem equipamentos de mergulho. Assim, podem descobrir as novidades daquele lago com ares de contos de fada. E, dessa maneira, eles voltam uma, duas, dezenas de vezes. Em cada mergulho, novas surpresas são reveladas para a dupla de protagonistas do livro. Cada vez mais apaixonados um pelo outro e pelo lugar que só eles sabem que existe, James e Amelia não conseguirão mais viver sem frequentar a misteriosa residência no fundo das águas. “Uma Casa no Fundo de Um Lago” possui 160 páginas e está dividido em 37 capítulos. Levei aproximadamente três horas para concluir esta leitura no sábado passado. Considero essa obra mais uma novela do que um romance. Falo isso não pelo número de páginas (que se aproxima mais, é verdade, de um romance), mas pela complexidade enxuta de sua trama (típica das novelas). Afinal, temos aqui só duas personagens, um único cenário principal e apenas um conflito que se estende da primeira à última página. Também vejo este título mais como um exemplar da literatura infantojuvenil do que uma obra para o público adulto (apesar do autor e da editora não terem feito qualquer menção a esse fato). Por ser narrado em terceira pessoa por um narrador próximo aos dois protagonistas (o narrador ora acompanha física, mental e emocionalmente James, ora acompanha física, mental e emocionalmente Amelia), este livro me passou a sensação de ser uma trama com baixo nível de sofisticação. Até aí não é surpresa nenhuma em se tratando de ficção comercial (talvez eu estivesse exigindo muito de Josh Malerman após o sucesso de “Caixa de Pássaros”). Porém, ainda sim fiquei com a impressão de estar diante de uma trama de qualidade muito inferior (até mesmo para o padrão comercial). Sabe quando você lê um livrinho bobo que baixou no Kindle de um autor desconhecido e provavelmente novato? Foi este o sentimento que tive durante a leitura de “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. Apesar da impressão geral negativa, reconheço algumas qualidades desta novela. Gosto do jeito como Malerman constrói suas personagens. A mania dele de não revelar os sobrenomes das pessoas nos faz ficar próximos (quase íntimos) delas. Essa é uma característica, vale a pena destacar, presente em quase todos os seus livros. Além disso, a narrativa com uma dupla de adolescentes é bacana de se acompanhar – os protagonistas trazem medos, inseguranças e desejos típicos da entrada na vida adulta. James e Amelia são personagens cativantes e constituem um casal que merece ser seguido pelos leitores. O principal aspecto positivo de “Uma Casa no Fundo de Um Lago” está em seu ritmo narrativo. Muito bem escrito por Malerman, este livro permite uma leitura ágil e rápida. Uma vez começada a leitura, ficamos grudados nas páginas da novela até o final. Portanto, não se surpreenda se você a ler em uma tacada/sentada só. Como thriller e como história de terror, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” funciona muito bem. Temos a sensação de que a qualquer momento pode acontecer algo grave e impactante que mudará o destino de James e de Amelia. Entretanto, pouco a pouco, esse ritmo ágil e o clima de permanente tensão vão se diluindo. Isso ocorre à medida em que nada de importante/errado acontece na história relatada. Entre um sustinho e outro que os protagonistas levam em algumas cenas, a sensação é que a narrativa caminha sem grandes sobressaltos. Aí, o livro perde gradativamente sua força. Já enfraquecido, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” chega ao seu desfecho com o leitor já duvidando que fez uma boa escolha de leitura. E essa impressão é acentuada quando não recebemos explicações para os eventos extraordinários que aconteceram ao longo de todo o enredo. Como assim Josh Malerman não explica os fatos mágicos de sua história, hein?! Para quem se surpreendeu com a falta de justificativas da trama, é importante lembrar que essa foi a minha principal crítica em relação a “Caixa de Pássaros”. O escritor norte-americano se preocupa mais em construir narrativas pretensamente criativas e impactantes do que amarrar as pontas soltas deixadas ao longo de suas histórias. Não sou contrário aos finais abertos. Pelo contrário: adoro-os. O que não gosto é de ler um livro e não encontrar respostas às perguntas suscitadas durante a leitura. Para completar, temos em “Uma Casa no Fundo de Um Lago” uma série de equívocos narrativos que colocam em xeque a verossimilhança da trama (e olha que não estou falando dos elementos relacionados ao Realismo Fantástico da obra). Por exemplo, como dois jovens trabalhadores de estabelecimentos varejistas podem ficar vários dias ausentes dos seus serviços? E como suas folgas sempre coincidem? Depois de semanas explorando avidamente a casa misteriosa, não me parece natural haver qualquer porta/cômodo que não tivesse sido visitado pela dupla de adolescentes. Infelizmente, o autor passou por cima dessas evidências óbvias. Em suma, não gostei de “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. Trata-se de um livro muito aquém das qualidades exigidas para uma obra de ficção comercial dos gêneros terror e suspense. Não é errado dizer que este é o título mais fraquinho de Josh Malerman. Se compararmos “Uma Casa no Fundo de Um Lago” a “Caixa de Pássaros”, veremos que o autor norte-americano andou para trás (ou desaprendeu a escrever). Minha sensação é que esta obra não foi tão bem trabalhada como merecia e ficou apenas em um esboço. A pressa para publicar novos títulos de um escritor best-seller deve ter forçado o artista e sua editora a precipitarem o processo de maturação deste texto. Um pouco mais de cuidado com a história, a apresentação de explicações plausíveis para o enredo e a busca por recursos mais sofisticados de narração ficcional, na certa teriam feito muito bem a “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. O gosto final é de desapontamento. Uma pena! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Celebrações: Bonas Histórias - Sexto aniversário do blog
Nesta semana, festejamos o aniversário de seis anos do Bonas Histórias. Meu Deus, seis anos! É isso mesmo? Sim, minhas contas parecem certas. Pela primeira vez, uso os dedos das duas mãos para chegar ao resultado do cálculo matemático. Preciso fazer, então, um post sobre essa data comemorativa na coluna Premiações e Celebrações. Contudo, o que irei dizer em um texto que desde já exala um cheirinho de material autopromocional? Poderia começar falando de como o blog surgiu, algo que pouca gente sabe de que forma aconteceu. Depois, seria legal avançar para os números atuais do Bonas Histórias, que cresceram bastante em 2020 e que raramente divulgo para fora das paredes do escritório. Na sequência, apresentaria os planos do site a curto e médio prazos. Para finalizar o post, seria de bom tom encerrá-lo agradecendo aos leitores e aos colunistas que ganhamos neste último ano. Aí sim a nossa festinha de seis anos estaria completa (festa ao melhor estilo covidão – cada um no seu computador/notebook/tablet/celular e sem nenhuma aglomeração). Em 1º de dezembro de 2014, quando eu ainda era um estudante de Letras em Minas Gerais, iniciei este blog com o objetivo de desenvolver minha escrita e analisar os bons livros que passavam por minhas mãos (e olhos). Ou seja, não tinha a pretensão, naquele momento, de atingir muitas pessoas nem de ser lido por mais do que meia dúzia de desafortunados (confesso: os primeiros posts eram horríveis!). Quando, hoje em dia, aponto a verdadeira origem do Bonas Histórias, sei que muita gente não acredita em mim. Como alguém escreve algo e não quer ser lido?! Entretanto, é verdade verdadeira a minha falta de anseio. Prova disso é que resisti por muito tempo a divulgar o blog e a incluí-lo nas redes sociais. Coisas de um antissocial inveterado e uma alma pouco ambiciosa. Fazer o quê? Cada um nasce com as sinas que merece – e as minhas são o ostracismo voluntário e a propensão para longos períodos de isolamento. Apesar desse passo a passo extremamente tímido, principalmente nos três primeiros anos, o que temos hoje depois de 72 meses da criação do site, hein? Com orgulho, afirmo que o Bonas Histórias é atualmente um dos principais e mais longevos blogs de literatura, cultura e entretenimento do país. Não acredita em minhas palavras? Então aí vão alguns dados que comprovam o meu discurso ufanista (que destoa totalmente da minha postura inicial de seis anos atrás). Em junho deste ano, alcançamos a marca de 1.000 posts. Eu disse 1.000! Desafio qualquer pessoa a procurar um blog literário no Brasil que tenha atingido esse número de publicações. Uma boa pesquisa indicará, no máximo, a existência de dois ou três sites ativos (ainda em operação) que tenham chegado a esse patamar. Para alcançar a quantia de três dígitos de posts, apresentamos, desde dezembro de 2014, um conteúdo novo e exclusivo a cada dois dias. Dia sim, dia não, os leitores do blog recebem novidades em primeira mão. Criar uma estrutura de produção de conteúdo com essa dimensão foi uma das maiores realizações deste período (e imaginar que até o ano passado, eu fazia tudo sozinho...). O Bonas Histórias possui atualmente 19 colunas: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas, Mercado Editorial, Cinema, Músicas, Teatro, Dança, Exposições, Gastronomia, Passeios, TV, Rádio e Internet, Cursos & Eventos, Premiações e Celebrações, Melhores Músicas Ruins e Recomendações. É verdade que damos espaço prioritariamente para a literatura. Você não estará totalmente equivocado(a) se nos enxergar como um blog literário. Mesmo assim, nunca nos esquecemos de pinçar as outras manifestações artísticas. Desde a nossa criação, o tom de nossas páginas é de pluralidade cultural. Além dos livros, falamos de cinema, música, teatro, dança, televisão, exposição, show, internet, rádio, artes plásticas, pintura, gastronomia, fotografia, passeio, turismo, entretenimento, curso, evento, premiação etc. A principal característica do Bonas Histórias, que nossos leitores mais assíduos já sabem, é a profundidade analítica. Diferentemente do que vemos na Internet de maneira geral (conteúdos superficiais e breves), aqui a ordem do dia é fazer posts com investigações ricas, detalhadas e aprofundadas dos temas discutidos. Se você não gosta de leituras longas, analíticas e pormenorizadas, esse não é, definitivamente, o seu lugar, meu(minha) amigo(a). Por trabalharmos com o que o pessoal do Marketing chama de nicho de mercado (brasileiros verdadeiramente apaixonados por literatura, cultura e entretenimento), as estatísticas atuais do blog empolgam. Em novembro, último mês com informações consolidadas do Google Analytics, superamos a marca de 7 mil visitantes mensais. O dia com o maior número de usuários na história do nosso site foi em 30 de novembro de 2020 com quase 400 visitantes únicos. Considerando o fato de nosso conteúdo ser bem específico e de nossas páginas serem totalmente textuais, o Bonas Histórias é, portanto, o nicho do nicho do nicho de mercado. Assim, acho esses dados excelentes. Se fossemos um canal do Youtube, se trouxéssemos matérias com apelo comercial e/ou nos promovêssemos com mais força nas redes sociais, aí sim acredito que estaríamos comendo poeira com esses números. Porém, não podemos nos esquecer: somos um blog literário com divulgação apenas orgânica e voltado para um público interessado em análises culturais aprofundadas. Nessa perspectiva, precisamos comemorar muito o alcance do patamar de cinco dígitos de visitantes mensais ainda em 2020 (a previsão é que em dezembro ultrapassemos pela primeira vez a marca de 10.000 leitores mensais). Uhu! Outra satisfação que tivemos neste ano foi a ótima posição que o Bonas Histórias alcançou no Google. Invariavelmente, estamos nas primeiras páginas do sistema de busca para vários termos. Não à toa, a maioria dos novos visitantes do site chega pelas pesquisas orgânicas. Faça você mesmo um teste. Digite no Google ou no sistema de busca de sua preferência o termo “blog de literatura”. Com certeza, estaremos na primeira página e, provavelmente, nas primeiras posições. Esse é um ótimo indicativo do quanto nosso conteúdo é relevante e impactante. Faça outros testes, se estiver com curiosidade, com mais termos do universo literário. Apesar da alegria com os números alcançados, prefiro continuar vendo o Bonas Histórias pela perspectiva da qualidade de suas publicações. E nesse sentido, minha satisfação quadriplicou em 2020. Ao longo dos últimos doze meses, ganhamos dois colunistas fixos, Paulo Sousa e Marcela Bonacorci, e um pontual, Roberto S. Inagaki. Paulo, diretor da Epifania Conteúdo Inteligente e da Editora Pomelo e autor de “A Peste das Batatas” (Pomelo) e de “Histórias de Macambúzios”, é o responsável por uma das sessões mais engraçadas e inteligentes do blog, o Miliádios Literários. Vale a pena conhecer seus posts. Por sua vez, Marcela, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão, assumiu o comando da coluna Dança em setembro. Seus textos oferecem uma visão apaixonante das artes dançantes. E Roberto, diretor da Qualitas Desenvolvimento de Controles Empresariais, lançou-se pela primeira vez no mundo da ficção. Ele escreve a novela “O Ghost Writer”, exclusividade da coluna Contos & Crônicas. Aos três, eu só posso agradecer ao empenho e à excelência dos textos produzidos. Muito obrigado! E quais os planos do Bonas Histórias daqui para frente, hein? A ideia é continuar promovendo conteúdos literários de qualidade com pitadas de cinema, música, teatro, artes plásticas, dança, pintura, gastronomia, fotografia, entretenimento, turismo e diversão. Para tal, sinto que vou precisar de mais produtores de conteúdo. Se você é apaixonado(a) por livros, cultura e/ou arte e tem interesse em integrar a equipe do site (seja como colunista fixo, analista literário, autor de uma coletânea de contos ou de crônicas ou mesmo contribuinte pontual de artigos), por gentileza, entre em contato comigo (ricardobonacorci@hotmail.com). Vamos conversar! Acredito que o futuro do blog estará ligado mais à contribuição de outras pessoas do que necessariamente aos meus textos. Isso não quer dizer que deixarei de publicar minhas análises. Não! Jamais! Apenas acho que devo desacelerar um pouco e permitir que novos talentos possam usar este espaço para dialogar com a audiência conquistada. Por fim, preciso destacar que a comemoração dos seis anos do Bonas Histórias é reflexo do interesse crescente dos nossos leitores. Sem vocês, o site não teria permanecido tanto tempo no ar nem teríamos ido buscar constantemente novos conteúdos. Por isso, agradecemos a todos os nossos visitantes e parceiros comerciais. Muito obrigado! Essa data especial é de vocês também. Feliz aniversário para todos nós! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Análise Literária: José Eduardo Agualusa
Em novembro, o Desafio Literário dedicou-se à investigação do trabalho ficcional de José Eduardo Agualusa, autor luso-angolano que completará 60 anos daqui a treze dias. O post de hoje do Bonas Histórias reúne tudo aquilo que descobrimos, ao longo das leituras, das análises e dos estudos das últimas quatro semanas, sobre Agualusa, suas obras e seu estilo literário. Vale a pena lembrarmos que o angolano é o sétimo escritor avaliado nesta sexta temporada do Desafio Literário. Os outros seis artistas analisados em 2020 foram: Jack Kerouac (abril), Maria José Dupré (maio), Kenzaburo Oe (junho), Virginia Woolf (julho), Rubem Fonseca (setembro) e Isabel Allende (outubro). O portfólio literário de José Eduardo Agualusa reúne mais de 40 livros e traduções para mais de 20 idiomas. Dessas obras, destacam-se: “A Conjura” (Gryphus Editora), romance de 1989; “Estação das Chuvas” (Língua Geral), romance de 1996; “Nação Crioula” (Gryphus Editora), romance de 1997; “Um Estranho em Goa” (Gryphus Editora), romance de 2000; “O Vendedor de Passados” (Tusquets), romance de 2004; “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), romance de 2007; “Barroco Tropical” (Companhia das Letras), romance de 2009; “Nweti e o Mar” (Gryphus Editora), título infantojuvenil de 2011; “Teoria Geral do Esquecimento” (Editora Foz), romance de 2012; “A Rainha Ginga” (Quetzal Editores), romance de 2014; “O Livro dos Camaleões” (Quetzal Editores), coletânea de contos de 2015; “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), romance de 2017; e “Os Vivos e os Outros” (Tusquets), romance que acabou de sair do forno - foi publicado em julho em Portugal e neste mês no Brasil. Para entendermos a importância literária de Agualusa, basta dizer que ele é o escritor vivo mais influente de seu país. Se você ainda não ficou totalmente convencido(a) da dimensão artística deste autor, podemos dizer que José Eduardo Agualusa é considerado um dos principais nomes da literatura africana da atualidade, ao lado dos sul-africanos J. M. Coetzee e Nadine Gordimer, dos nigerianos Wole Soyinka e Chimamanda Ngozi Adichie, do queniano Ngũgĩ wa Thiong'o, do congolês Alain Mabanckou e da ruandesa Scholastique Mukasonga. Ele é também uma das grandes figuras da literatura contemporânea em língua portuguesa da África, ao lado dos moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane e dos compatriotas Ondjaki e Pepetela. Convencido(a) agora?! Agualusa é uma espécie de embaixador informal da cultura e da literatura angolana, principalmente no Brasil e em Portugal. Ele conquistou um público cativo nos países lusófonos, apesar de muita gente ainda hoje o confundir com Mia Couto. Essas confusões rendem boas piadas e histórias impagáveis, narradas com muito bom humor pelo autor angolano em entrevistas e palestras - gafe que os leitores do Bonas Histórias não vão cometer depois deste post. Além do forte apelo comercial de seus livros, José Eduardo Agualusa ganhou importantes prêmios literários e o reconhecimento definitivo da crítica literária. As premiações mais relevantes em âmbito nacional foram o Prêmio Sonangol de autor revelação (Angola), o Prêmio Nacional de Cultura e Artes (Angola), o Grande Prêmio de Literatura da RTP (Portugal), o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco (Portugal), o Grande Prêmio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens (Portugal) e o Prêmio Fernando Namora (Portugal). No exterior, os troféus e as medalhas mais impactantes foram o Prêmio Independent de 2007 na Categoria Ficção Estrangeira (Inglaterra) e o Prêmio Literário Internacional de Dublin (Irlanda). Se você estranhou o fato de Agualusa não ter conquistado ainda o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa, saiba que eu também não sei explicar o porquê dessa ausência em sua galeria de honrarias. Não por acaso, ele é um dos favoritos para conquistar o prêmio em 2021. Se em 2019 um brasileiro ganhou (Chico Buarque) e em 2020 foi um português (Vítor Manuel de Aguiar e Silva), há grande chance do vencedor do próximo ano ser um africano. Pela perspectiva do rodízio de regiões agraciadas, Agualusa desponta como o grande favorito para ser o terceiro angolano a levar para casa o Prêmio Camões - Pepetela, em 1997, e José Luandino Vieira, em 2006, foram os primeiros/únicos. Além de escritor ficcional, Agualusa dedica-se ao jornalismo (escreve regularmente colunas, crônicas e artigos para veículos de comunicação em Portugal, no Brasil e em Angola) e à dramaturgia (começou recentemente a desenvolver peças teatrais). Para completar seu panorama profissional, ele é sócio da Língua Geral, editora brasileira fundada em dezembro de 2006. A Língua Geral tem uma linha editorial muito interessante. Ela é voltada para a divulgação de autores lusófonos em nosso país e incentiva a publicação de autores brasileiros que estejam fora do eixo Rio-São Paulo. José Eduardo Agualusa nasceu em dezembro de 1960 em Huambo, cidade situada no planalto central de Angola. Enquanto a família materna possui descendência portuguesa, os parentes do lado paterno têm origem brasileira. Foi em Huambo que o futuro escritor passou toda a infância e boa parte de sua juventude. Após a independência do país em 1975 e a eclosão da guerra civil angolana logo depois, Agualusa se mudou para Lisboa no final da década de 1970. Em Portugal, ele graduou-se em Agronomia e Silvicultura na Universidade Técnica de Lisboa (UTL). Apesar de fazer cursos que nada ou pouco dialogavam com a literatura, não demorou muito para a escrita entrar em sua vida. José Eduardo ingressou no jornalismo cultural na época de estudante de graduação. Ao lado de colegas africanos que tinham uma pegada mais artística, ele fundou uma revista literária na universidade lisboeta. Para a publicação amadora, Agualusa criou heterônimos e começou a produzir seus primeiros textos jornalísticos e suas primeiras narrativas ficcionais. Uma vez dentro do jornalismo cultural, ele não saiu mais dessa área. Depois de formado, ele abandonou definitivamente a Agronomia e a Silvicultura e passou a trabalhar na imprensa profissional. No finalzinho dos anos 1980, ele participou da fundação do O Público, um dos principais jornais portugueses da atualidade. Até hoje, ele tem uma coluna quinzenal na Pública, a revista dominical do periódico. Mais ou menos no período de fundação do jornal lusitano, José Eduardo estreou na literatura comercial. Escrito ao longo de 1987 e finalizado em janeiro de 1988, “A Conjura” (Gryphus Editora) é um romance histórico que foi publicado em 1989. O livro é ambientado em Angola entre o final do século XIX e o início do século XX, época em que a África era colonizada pelos europeus. Nesta obra, Agualusa denuncia o racismo, a xenofobia, o tráfico negreiro, a violência e a exploração de seu país e de seus conterrâneos por parte de Portugal, a nação que comandava Angola política, econômica, social e culturalmente. No período retratado pela narrativa ficcional, surgiram os primeiros movimentos angolanos a favor da abolição e da independência. Este é justamente o mote principal deste título de estreia de José Eduardo Agualusa: a revolta latente de uma parcela da sociedade angolana mais culta e engajada socialmente contra o comportamento predatório e racista dos colonizadores. Além disso, o romance traz uma bem azeitada mistura de personagens e episódios fictícios com figuras e fatos verídicos. A trama de “A Conjura” se passa ao redor da Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade. A barbearia foi fundada por Jerónimo Caninguili, em 1880, em Luanda. Não demorou para o estabelecimento de Jerónimo atrair uma clientela elitizada, culta e engajada da capital angolana. Nas cadeiras da barbearia, os clientes discutiam economia e política, além das fofocas luandenses. Nessa atmosfera de forte indignação social, surgiram as primeiras confabulações de resistência aos colonizadores. Para avançar no ideal de separação de Angola de Portugal, um grupo de clientes da barbearia criou uma entidade secreta chamada de Sociedade. Ao longo das décadas seguintes, enquanto comentavam os escândalos e as tragicomédias que agitaram Luanda, os membros da Sociedade desenvolveram várias ações de conscientização para a importância da independência do país africano e para a efetiva tomada de poder por parte de seus conterrâneos. O enredo de “A Conjura” se estende até 16 de junho de 1911. Nesta data, o grupo de inconfidentes planejou tomar à força o controle administrativo da capital angolana. Por ser uma narrativa muito fragmentada, principalmente em sua primeira metade, com excessos de personagens e de acontecimentos simultâneos (o romance chega a lembrar uma coletânea de contos), “A Conjura” apresenta um texto confuso e embolado. Este livro está longe de ser uma grande obra literária. Mesmo assim, ele teve o mérito de ser um dos primeiros títulos ficcionais da literatura africana em língua portuguesa a promover a negritude/o empoderamento negro. Os protagonistas do romance são mulatos e negros com cultura, ativos politicamente, empreendedores bem-sucedidos e em posição de destaque na sociedade local. São eles que decidem acabar com a opressão estrangeira e partem para o confronto ora intelectual, ora armado. Apenas por isso já bastaria para tirarmos o chapéu para seu enredo. Porém, há outros pontos positivos nessa narrativa. Ressalto a experiência de imersão no português africano (uma delícia para quem gosta das variantes linguísticas de nosso idioma). O retrato histórico do cotidiano angolano é excelente, com destaque para a cultura e as crenças locais (o sobrenatural, a magia e a espiritualidade africana). Este romance é quase uma crônica de costumes. Outro ponto positivo é a emulação estética dos romances antigos (introdução resumida em cada capítulo, por exemplo). “A Conjura” é uma crítica político-social contundente. O livro mostra a importância da independência da colônia, da promoção do abolicionismo e da interrupção do tráfico negreiro. Sua ambientação possui muita violência, racismo, sexismo e preconceitos econômicos e religiosos. Principalmente pela inovação temática promovida em “A Conjura”, Agualusa conquistou seu primeiro prêmio literário. O romance histórico ganhou o Prêmio Sinangol de Literatura, um dos mais importantes de Angola, na categoria Autor Revelação/Estreante. Em Portugal, o romance de estreia de José Eduardo Agualusa também recebeu avaliações positivas da crítica literária. Os principais elogios dos portugueses vieram mais pelas intenções estilísticas e conceituais do autor do que propriamente pelo resultado prático da narrativa. Satisfeito com a receptividade do seu trabalho literário inicial, o angolano lançou-se, nos anos seguintes, com afinco na carreira de escritor profissional. Na década de 1990, Agualusa publicou seis livros – dois romances, “Estação das Chuvas” e “Nação Crioula”, duas coletâneas de contos, “D. Nicolau Água-Rosada e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis” (Vega) e “Fronteira Perdidas” (Quetzal Editores), uma novela, “A Feira dos Assombrados e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis” (BIS), e uma coleção de poesias, “O Coração dos Bosques” (União dos Escritores Angolanos). Nesse momento, ele ainda dividia quase que igualmente o tempo entre o jornalismo e a literatura. Dessas obras novecentistas, as que tiveram maior repercussão de público e de crítica foram os romances. “Estação das Chuvas” e “Nação Crioula” seguem o estilo de “A Conjura”. Assim como o título de estreia de Agualusa, esses livros são romances históricos, possuem forte carga de denúncia social, apresentam um contundente engajamento racial e exploram a mistura entre ficção e realidade. Felizmente, a diferença é que “Estação das Chuvas” e, principalmente, “Nação Crioula” são narrativas mais sofisticadas e bem-feitas, fruto do veloz desenvolvimento da escrita de um autor talentoso. “Estação das Chuvas” (Quetzal Editores) é a biografia romanceada de Lídia do Carmo Ferreira, uma famosa poetisa e historiadora angolana. Publicada em 1996, esta trama semificcional aborda a infância, a juventude e a entrada de Lídia no mundo artístico. A história segue até o desaparecimento misterioso da protagonista em meio aos violentos conflitos da guerra civil do seu país. Além de retratar a vida de uma figura real, o livro apresenta o contexto sócio-político de Angola da segunda metade do século XX. Publicado em 1997, “Nação Crioula” (Gryphus Editora) é o romance epistolar de Agualusa. Essa narrativa foi baseada em duas histórias reais: a de Dona Ana Joaquina, uma mulata dona de um palácio belíssimo em Luanda que enriqueceu através do tráfico negreiro (inspirou a personagem Gabriela Santamarinha); e a de uma mulher negra que chegou à Angola, se casou com um rico traficante de escravos e, depois da morte do marido, foi escravizada (deu origem a personagem Ana Olímpia). A partir dessas passagens extraídas diretamente dos livros de história de Angola, José Eduardo Agualusa desenvolveu uma narrativa ficcional com forte intertextualidade literária. Seu texto denuncia a violência e a crueldade do sistema escravocrata português na América e na África. Ambientado na segunda metade do século XIX, “Nação Crioula” expõe as cartas de Carlos Fradique Mendes, um aventureiro português que levava a vida como um playboy (os franceses diriam que ele era um bon vivant). A trama do romance inicia-se com a chegada de Fradique à Luanda em maio de 1886. Ele desembarcou na colônia africana para explorar o interior do país e para conhecer as particularidades daquela região folclórica. Em um dos eventos sociais da capital angolana, Fradique conheceu a bela Ana Olímpia. Além de linda, a moça negra possuía uma trajetória surpreendente. Filha de um rei congolês capturado pelos inimigos, Ana Olímpia foi escravizada na infância. Na adolescência, quando sua beleza começava a despontar, ela se tornou uma mulher livre ao se casar com seu proprietário, Victorino Vaz de Caminha. Já idoso, Victorino era um próspero comerciante de escravos de Luanda. Ao descobrir que sua amada era uma mulher casada, Fradique Mendes não pôde fazer nada. Como consolo, ele se tornou amigo da moça. Alguns anos mais tarde, Victorino faleceu. A partir daí, o português e Ana Olímpia iniciaram um relacionamento amoroso. A alegria dos namorados foi interrompida com a chegada à Luanda de Jesuíno Vaz de Caminha, o irmão de Victorino. Após provar que o irmão falecido esquecera de alforriar a esposa, Jesuíno tirou a fortuna que Ana Olímpia havia herdado e a transformou novamente em escrava. Era o início da agonia da moça e de Fradique. Para salvar a namorada dos inimigos, o aventureiro português traçou um plano para tirá-la da África e levá-la para o Brasil, que já era um país independente, mas que ainda mantinha a escravidão. Em 1998, “Nação Crioula”, cujo subtítulo é “A Correspondência Secreta de Fradique Mendes”, conquistou, em Portugal, o Grande Prêmio Literário RTP de melhor romance em língua portuguesa. O que mais chamou a atenção da crítica portuguesa na época foi a opção de Agualusa em reconstruir a história colonial portuguesa a partir do ponto de vista do povo negro escravizado. Mesmo tendo um narrador convencional (Fradique é um português branco e rico), a grande personagem deste romance é Ana Olímpia, uma mulher negra que foi escravizada duas vezes, uma delas depois de ter adquirido a liberdade. Apesar dessa história lembrar muito as tramas de “Escrava Isaura” (Autêntica), clássico do brasileiro Bernardo Guimarães, e de “Doze Anos de Escravidão” (Seoman), autobiografia do norte-americano Solomon Northup, o público e a crítica especializada aplaudiram a inovação estética trazida pelo autor angolano. Realmente, este livro é muito bom! E são vários os motivos que fazem “Nação Crioula” um romance marcante. Posso citar alguns elementos: a ótima construção de personagens (quase todas as figuras são redondas); o excelente ritmo narrativo (algo que faltou em “A Conjura”); a forte intertextualidade literária (por exemplo, Fradique Mendes é uma personagem trazida da literatura de Eça de Queirós; e o próprio escritor português se transforma em uma personagem dessa obra); a narrativa ao estilo road story pelas três pontas do antigo Reino português (Europa, América do Sul e África lusitanas); a realidade e a ficção se misturam como irmãs siamesas; e a ótima ambientação histórica. Os anos 2000 representaram uma mudança de postura de José Eduardo Agualusa em relação ao ofício de escritor. No século XXI, ele passou a priorizar a literatura ao jornalismo. Assim, mergulhou de cabeça na produção ficcional. Além de se dedicar integralmente aos seus livros, o autor angolano passou a viajar muito para promover seus trabalhos e (aí está um aspecto interessante de sua biografia) a se mudar frequentemente de residência. Além de Huambo e Lisboa, Agualusa morou em Luanda, Rio de Janeiro, Olinda, Goa, Berlim, Amsterdã e Ilha de Moçambique. As permanências nessas cidades serviram acima de tudo como imersão literária – para retratar um lugar, ele entende que precisa viver ali, conhecer as pessoas, captar o clima (ambientação) e coletar as boas histórias escondidas em cada esquina. Workaholic, José Eduardo Agualusa escreve compulsiva e apaixonadamente. Sua rotina foi construída envolta da produção textual. Um dia ideal para o autor angolano é aquele em que ele passa boa parte das horas escrevendo. Quando não está na frente do computador criando suas narrativas, ele gosta de ler (aproximadamente 40 títulos anuais), nadar (a natação entrou em sua vida ainda na juventude), viajar (é quase um caixeiro-viajante) e estar perto da família. Quando precisa sair de casa ou viajar a trabalho, seus ouvidos buscam novas histórias e seus olhos procuram tipos que podem se transformar em boas personagens. Sua dedicação à ficção é tão intensa, mas tão intensa que até mesmo dormindo ele acredita poder captar novas tramas. Ao acordar, ele anota os sonhos na busca de inspiração e de mais narrativas. Para se ter uma ideia do que representou essa mudança de postura, no intervalo de dez anos (de 2000 a 2010), Agualusa publicou 16 livros, entre romances, coletâneas de contos e crônicas, ensaios e títulos infantojuvenis. Porém, essa fase não significou apenas uma evolução quantitativa. As obras do autor melhoraram também qualitativamente. Como efeito prático dessa grande dedicação, ele atingiu a maturidade artística. Prova maior desse novo status foi a publicação, em 2004, de sua obra-prima, “O Vendedor de Passados” (Tusquets). “O Vendedor de Passados”, sexto romance de Agualusa, é considerado por muita gente (me incluo nesse grupo) como um dos principais títulos da literatura contemporânea em língua portuguesa. De fato, trata-se de um livro espetacular. Ele traz uma sátira inteligente e divertida dos dramas angolanos do Pós-Guerra Civil. O que Agualusa fez de diferente nesta obra, que marcaria todos os seus trabalhos ficcionais dali em diante, foi acrescentar doses mais generosas de Realismo Fantástico e embaralhar ainda mais os aspectos da realidade com passagens oníricas. Assim, ao mesmo tempo em que retrata a violência e as injustiças sociais de seu país, José Eduardo Aqualusa consegue encantar os leitores com elementos mágicos e sobrenaturais. Estava criado, assim, um receituário narrativo dos mais interessantes e bem-sucedidos da ficção luso-angolana. O enredo de “O Vendedor de Passados” se passa em Luanda, no final da Guerra Civil. Félix Ventura, um senhor albino muito culto, vende passados melhores para as pessoas e as famílias que desejam apagar as trajetórias pouco dignas que tiveram até ali. Félix entrega novas biografias aos clientes. Os novos passados são motivos de orgulho e veneração pelos contratados, pois são mais interessantes e mais charmosos. Habituado aquele ofício, Félix Ventura incomoda-se, certo dia, com a chegada à sua casa de um sujeitinho muito desconfiado. Com sotaque brasileiro, o estranho homem diz ser fotógrafo de guerra. Ele quer um novo passado, mas se recusa a divulgar qualquer informação sobre sua vida presente. Até mesmo o nome verídico, ele se nega a revelar. Mesmo temeroso em realizar aquele serviço, o vendedor cria uma identidade novinha para o cliente. Surge, dessa maneira, José Buchmann. Nascido em Chibia há 52 anos, ele é filho de Matheus Buchmann e de Eva Miller. Encantado com a biografia e com o nome recém-adquiridos, (o novo) José Buchmann incorpora realmente a identidade desenvolvida por Félix e passa a agir como se fosse aquele (novo) homem. Ele faz pesquisas sobre seu (novo) passado e viaja para Chibia em busca dos (novos) pais. De tão apegado à (nova) figura, o fotógrafo sofre até mesmo uma transformação física e comportamental. O mais incrível é descobrir que quem narra a história é uma osga (espécie de lagartixa) que mora há anos na casa de Félix Ventura. Apelidada de Eulálio pelo morador do lugar, a osga tem alma e, no passado (em outra vida), foi um homem. Por ter se suicidado quando era humano, ele reencarnou no corpo de um réptil. Eulálio conta ao leitor o que se passa na casa de Félix ao mesmo tempo em que rememora os dramas de sua existência como humano. Com uma trama original e um texto delicioso, “O Vendedor de Passados” se tornou um sucesso instantâneo de público e de crítica. Seu texto foi traduzido para vários idiomas e lançado com empolgação no exterior. A versão inglesa da obra conquistou, em 2007, o Prêmio Independent na categoria Ficção Estrangeira. Pela primeira vez, a honraria concedida pelo jornal britânico homônimo foi dada a um autor africano. Essa história de Agualusa também serviu de inspiração para o filme do brasileiro Lula Buarque de Hollanda. Em 2015, o longa-metragem “O Vendedor de Passados” exibiu nos cinemas nacionais uma trama tão modificada do livro angolano que é até difícil ver quaisquer relações entre as duas produções. A publicação de “O Vendedor de Passados” inaugurou o que gosto de chamar da fase dourada da literatura de Agualusa. A partir desse romance, o angolano lançou títulos de grande qualidade narrativa e estética. Apesar de nenhum ter suplantado a história contada pela osga, eles adquiriram merecidamente o reconhecimento do público leitor e os elogios da crítica literária. Um bom exemplo é “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral). Publicado em 2007, este é o romance mais extenso do autor. Nessa trama ficcional com forte carga autobiográfica, José Eduardo Agualusa debate as origens africanas de indivíduos (como ele) que imigraram para a Europa. Assim, o escritor busca os elementos constituintes da africanidade. Em “As Mulheres do Meu Pai”, assistimos ao drama de Laurentina, uma jovem cineasta portuguesa. Quando a mãe morreu, ela descobriu por meio de uma carta que a moçambicana Doroteia e o português Dário Reis não eram seus pais biológicos. Laurentina fora adotada ainda pequena em Moçambique e levada para ser criada em Portugal pela família Reis. Seu verdadeiro pai era Faustino Manso, um cantor e compositor angolano recém-falecido. Ele fez muito sucesso nas décadas de 1960 e 1970. Curiosa para descobrir suas raízes culturais legítimas, a moça parte para a África com a proposta de fazer um documentário sobre Faustino Manso. Para filmar os depoimentos de amigos, colegas e familiares do pai, Laurentina precisa viajar por três países (Angola, Moçambique e África do Sul) e por várias cidades (Luanda, Benguela, Mossâmedes, Cidade do Cabo/Cape Town, Maputo/Lourenço Marques, Quelimane e Ilha de Moçambique). Essa epopeia é fruto da vida errante que Faustino levou por vinte e dois anos. Em cada lugar que parava, ele fazia uma nova família – esposa e filhos. Ao final da carreira musical, ele contabilizava sete mulheres e dezoito filhos. Ao mesmo tempo em que conhece as particularidades e os segredos de Faustino Manso, Laurentina precisa se descobrir como mulher e africana. As experiências cinematográficas da moça e a reconstrução histórica do pai dela irão afetar a vida de três homens: Mariano Maciel/Madume, o namorado e câmera português da cineasta; Bartolomeu Falcato, o sobrinho e amante angolano de Laurentina; e Albino Amador/Pouca-Sorte (o motorista que leva a moça pelas estradas africanas). O trio masculino divide com Laurantina a narração do livro. “As Mulheres do Meu Pai” é uma narrativa impecável sobre a identidade cultural dos africanos. Percebe-se que Agualusa, no auge da maturidade artística, já tinha ciência de que história contar e, principalmente, de como produzi-la de maneira impactante e seguindo um estilo e uma estética particulares. A partir desse livro, ele também passa a explorar com mais intensidade aspectos pessoais em suas tramas. Ou seja, sua própria vida se torna matéria-prima de sua ficção. Em termos narrativos, "As Mulheres do Meu Pai” é um romance mais sofisticado do que “O Vendedor de Passados”. Os romances seguintes de José Eduardo Agualusa mantiveram a produção ficcional do autor em um patamar bem elevado de qualidade. “Barroco Tropical” (Companhia das Letras), de 2009, “Teoria Geral do Esquecimento” (Editora Foz), de 2012, e “A Rainha Ginga” (Quetzal Editores), de 2014, são obras excelentes. Não estranhe, portanto, se você conhecer leitores que as têm como suas leituras preferidas dentro do portfólio de Agualusa. Porém, esse trio de títulos foi eclipsado pelo lançamento, em 2017, de uma narrativa ainda mais marcante do angolano. “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), seu décimo quarto romance, é normalmente comparado a “O Vendedor de Passados” pelo sucesso de público e de crítica. Há quem o aponte como o melhor livro de seu escritor (eu ainda prefiro “O Vendedor de Passados”). Em “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, José Eduardo Agualusa utiliza-se novamente de episódios, pessoas e cenários reais para construir o enredo ficcional. Esta obra uniu dois acontecimentos verídicos: os trabalhos que Sidarta Ribeiro, um neurocientista brasileiro especializado em sonhos, desenvolve no centro de pesquisa em Natal, no Rio Grande do Norte; e os protestos de 2014, em Luanda, contra o presidente angolano José Eduardo dos Santos resultaram na prisão de Luaty Beirão, o jovem músico que liderava o movimento. Portanto, este livro mistura a beleza e a magia dos sonhos com pesadas críticas dirigidas ao governo atual de Angola. O resultado é um romance, ao mesmo tempo, onírico e ácido. Narrado prioritariamente por Daniel Benchimol, jornalista angolano de 55 anos, recém-separado e pai de uma adolescente, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” se passa em Luanda nos dias de hoje. Daniel vive perturbado com os sonhos que tem frequentemente. Ao dormir, ele descobre os detalhes das biografias de pessoas que ainda não conhece (mas que virá a conhecer depois). Ele também recebe desígnios, mensagens e diálogos que logo mais se concretizam e ganham sentido lógico. Tentando descobrir o que se passa ao dormir, o jornalista faz amizade com pessoas que também possuem relações fantásticas com os sonhos. Esse grupo de sonhadores será fundamental para Daniel Benchimol quando ele vê sua filha, Lucia Benchimol/Karinguiri, ser presa pelos militares angolanos. A jovem é acusada de liderar protestos políticos contra o presidente angolano. Desesperado para tirar a filha da cadeia, Daniel criará coragem e sairá de cima do muro político que vive há anos. Além disso, ele usará os conhecimentos e as habilidades de seus novos amigos sonhadores para fazer justiça com as próprias mãos. Do ponto de vista temático, a grande novidade trazida por “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” é a abordagem dos problemas políticos atuais de Angola. Até então, José Eduardo Agualusa havia optado por criticar as antigas mazelas sócio-políticas de seu país – da época colonial, do período da guerra da independência e da fase da guerra civil. Neste livro, ele não tem medo, coloca o dedo nas feridas contemporâneas de seus conterrâneos e expõe a violência e a corrupção da ditadura militar de José Eduardo dos Santos (regime que perdurava há mais de três décadas). Interessante notar que o narrador-protagonista de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” é a personagem de Agualusa que mais se aproxima de um alter ego do autor. Afinal, as semelhanças biográficas, físicas, comportamentais, conjugais, profissionais e ideológicas de Daniel Benchimol e de José Eduardo Agualusa são extensas e enormes. O escritor angolano, para ficarmos em apenas um exemplo, tem uma relação intensa com seus sonhos. Essa proximidade entre a personagem principal da narrativa e o autor acentua ainda mais a relação simbiótica entre ficção e realidade. Além de romances, Agualusa lançou vários livros infantis e infantojuvenis. O primeiro título desse gênero foi “Estranhões e Bizarrocos” (Dom Quixote), publicado em 2000. Depois vieram “A Girafa que Comia Estrelas” (Dom Quixote), em 2005, “Na Rota das Especiarias” (Dom Quixote), em 2008, “Um Pai em Nascimento” (Alfaguara Portugal), em 2010, “Nweti e o Mar” (Gryphus Editora), em 2011, e “A Rainha dos Estapafúrdios” (Moinho de Vento), em 2012. A maioria desses livros foi lançada apenas em Portugal. O público brasileiro, infelizmente, só tem acesso à parte do portfólio infantil e infantojuvenil do autor. Das obras de Agualusa destinadas aos leitores mirins, podemos destacar “Nweti e o Mar”. Esse livro se diferencia dos seus similares por utilizar a fotografia e não a ilustração para retratar visualmente a narrativa ficcional. E, curiosamente, as imagens fotográficas foram tiradas pelo próprio escritor, um apaixonado pela fotografia. José Eduardo Agualusa usou a filha Vera Lúcia e as paisagens do litoral africano como seus modelos. A sessão fotográfica aconteceu durante uma viagem de férias com a família. A própria viagem serviu como ponto de partida para a criação da história que mistura realidade e ficção e realismo fantástico e universo onírico. Como consequência, temos um livro esteticamente belíssimo (as fotos de Agualusa são de tirar o fôlego) e uma comovente trama sobre a infância, a relação entre pais e filhos e os segredos do mar. Em “Nweti e o Mar”, assistimos aos sonhos de Nweti, uma menina de seis anos com uma imaginação fértil. Ao dormir, ela sonha que virou uma sereia e que passeia pelos mares do mundo. Seu melhor amigo é Eustáquio, um caranguejo que vive dentro de conchas. Quando acorda de manhã, os pais de Nweti não acreditam nas aventuras noturnas da garota. Nem mesmo o fato de o travesseiro dela amanhecer com cheiro de mar é capaz de convencê-los. Eles tentam explicar para ela a diferença entre a realidade e os sonhos. Como é típico dos títulos infantis e infantojuvenis, “Nweti e o Mar” tem um equilíbrio harmônico entre a parte textual e a parte visual - as fotografias (50% para cada uma dessas duas partes). Porém, o que prevalece quando o assunto é qualidade é o visual da obra. A beleza maior deste livro está indiscutivelmente no seu aspecto gráfico. As fotos de José Eduardo Agualusa são muito melhores do que a narrativa em si. Por falar nisso, a história de “Nweti e o Mar” é bem fraquinha, até mesmo se considerarmos o seu público-alvo (as crianças). Na certa, essa não é a publicação infantil mais interessante do autor. José Eduardo Agualusa vive atualmente entre Lisboa e a Ilha de Moçambique, uma pequenina cidade insular na região norte de Moçambique. Casado pela segunda vez, ele tem três filhos – o primogênito é fruto do primeiro relacionamento, enquanto os dois mais novos vieram do segundo matrimônio. O escritor é casado com Yara Costa, uma cineasta e jornalista moçambicana de 38 anos. O filho mais recente do casal nasceu há pouco, em 2018. As publicações de Agualusa englobam romances, novelas, coletâneas de contos e crônicas, livros-reportagem, antologias poéticas, obras infantis, títulos infantojuvenis e livros de fotografia. Sua média de lançamento é superior a um livro por ano. Um elemento que chama a atenção em sua produção literária é a variedade de gêneros narrativos. A versatilidade de Agualusa em trafegar por vários tipos textuais é algo que acredito ser típico de muitos escritores africanos de língua portuguesa (uma característica pouco comum da maioria dos autores brasileiros). Mia Couto, Ondjaki e José Luandino Vieira, por exemplo, desenvolvem romances, novelas, poesias, coletâneas de contos e crônicas, ensaios, livros infantojuvenis, peças teatrais. José Eduardo Agualusa é da estirpe dos artistas que abraçam a literatura de forma ampla e variada. Outra questão que salta aos olhos é a imersão na cultura africana. Em todos os livros de Agualusa, até mesmo naqueles em que as tramas não se passam prioritariamente na África, assistimos ao retrato dos costumes, dos hábitos, das crenças e do estilo de vida dos habitantes desse continente. Agualusa representa em seus textos a identidade cultural africana como poucos escritores fazem. Ele apresenta o colorido e a magia do seu povo ao mesmo tempo em que expõe as mazelas e os horrores desse local do planeta. Prova disso é que, apesar de morar há mais de 40 anos em Portugal, ele não escreveu até hoje nenhum romance ambientado no país europeu. Pelo menos, eu não conheço uma narrativa sua que tenha como cenário a Península Ibérica. O correto é enxergar José Eduardo Agualusa como um autor que integra os povos lusófonos. Sua literatura tenta aproximar a Europa portuguesa, a América portuguesa, a África portuguesa e, em menor escala, a Ásia portuguesa. Ele busca relatar as relações históricas, culturais e afetivas dos povos que falam a língua de Luís Vaz de Camões. Com esse propósito, o angolano conseguiu deixar sua marca na literatura contemporânea de língua portuguesa e na literatura africana. Eis um escritor que precisa ser conhecido e que reserva ótimos livros. Para entendermos as características estilísticas de Agualusa, seguem, abaixo, os treze aspectos mais marcantes de sua literatura: 1) Os romances de José Eduardo Agualusa se dividem em duas fases. A primeira pode ser chamada de Literatura Engajada e vai prioritariamente de 1989 a 2003. As obras que integram esse período são: “A Conjura”, “Estação das Chuvas”, “Nação Crioula”, “Um Estranho em Goa” e “O Ano em que o Zumbi Tomou o Rio”. A principal característica dessa fase inicial da carreira do autor é o retrato nu e cru (quase como um texto jornalístico) dos dramas contemporâneos e históricos dos povos colonizados pelos portugueses (angolanos, moçambicanos, brasileiros e goeses). Assim, assistimos a histórias com racismo, xenofobia, exploração da pobreza, corrupção, desigualdade social, truculência do estado policialesco, crueldade do tráfico de escravos e violência das guerras. 2) A segunda fase dos romances de Agualusa pode ser chamada de Literatura Fantástica. Ela vai essencialmente de 2004 até hoje. As principais obras desse período são “O Vendedor de Passados”, “As Mulheres do Meu Pai”, “Barroco Tropical”, “A Rainha Ginga” e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. A principal característica desta etapa é a inserção de elementos mágicos, sobrenaturais e extraordinários às tramas. Dessa forma, temos histórias contadas por osgas (lagartixas), sonhos com capacidade de desvendar o futuro, indivíduos com poderes sobrenaturais, magias com força para interferir no dia a dia das pessoas e uma relação extremamente próxima do mundo dos vivos com o mundo dos mortos. Tradicionalmente, as personagens de Agualusa conversam com espíritos, fazem pedidos às divindades, desvendam as linhas do destino, têm premonições certeiras e usam as superstições como proteção cósmica. 3) Os narradores dos livros de Agualusa são variados. Há desde narração feita em primeira pessoa (“Nação Crioula”) até em terceira pessoa (“A Conjura” e “Nweti e o Mar”). Em muitas obras, os relatos são feitos por mais de uma personagem (“O Vendedor de Passados”, “As Mulheres do Meu Pai” e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”). Nesse caso, o que temos é um pot-pourri narrativo. Os romances com múltiplos narradores são, na minha opinião, os que apresentam as melhores experiências literárias para os leitores. Normalmente, a visão multifacetada da trama (várias vozes e muitos pontos de vista convivendo simultaneamente) permite uma narrativa mais completa, surpreendente e versátil. 4) Nas publicações do autor, há uma mistura acentuada entre a realidade e a ficção. É até difícil saber onde uma termina e onde a outra começa. Além de se inspirar em personalidades e fatos históricos, Agualusa vale-se também de aspectos de sua própria biografia para desenvolver seus romances, novelas, contos e títulos infantojuvenis. Parte do colorido de suas tramas está nessa mistura bem azeitada do universo verídico com a criação ficcional. Sob essa perspectiva, nota-se uma forte influência do mundo onírico nos conflitos dramáticos criados pelo autor. 5) Todos os romances de Agualusa possuem forte influência do cenário político. É o ambiente externo caótico (guerras, tiranias e sistemas econômicos que transformam as pessoas negras em mercadorias) que ditam o destino e os dramas das pessoas comuns. A rotina de ontem e de hoje dos africanos é pautada por violência e mais violência. Muitas vezes, as chagas do passado (conflitos armados e guerras intermináveis) ainda estão expostas - as feridas sociais não foram totalmente cicatrizadas. Por isso, muitas histórias do autor flertam com a sátira política. Quase sempre, Agualusa tece retratos magníficos da realidade atroz do seu país e das neuroses de seus conterrâneos. 6) Apesar da ambientação carregada de violência e de injustiças, as histórias de Agualusa não são tão pesadas e tensas como seria de se imaginar em um primeiro momento. O angolano sabe mesclar bem os elementos fortes do ambiente externo com a beleza da vida particular de suas personagens. Ao mesmo tempo em que expõe a violência ideológica e física dos dominadores (colonizadores, militares, comunistas, poderosos economicamente, elite intelectual), ele sabe colorir suas narrativas com tons tragicômicos do dia a dia angolano. Assim, o humor leve dos encontros e desencontros amorosos e dos absurdos da rotina dos africanos gera cenas engraçadas e tramas com grande comicidade. 7) Uma das características mais interessantes da produção literária de Agualusa é a construção de personagens redondas. Ele desenvolve, em quase todos os seus romances, figuras contraditórias, com um mix de qualidades positivas e negativas. Ninguém é 100% bonzinho e ninguém é 100% vilão, nem mesmo os protagonistas. Essa riqueza dramática dá profundidade aos enredos e força aos conflitos apresentados. 8) Outro ponto a ser elogiado no portfólio do escritor angolano é o ritmo ágil de suas narrativas. Com exceção de “A Conjura”, que dá uns tropeções em relação ao ritmo de sua história, os demais romances oferecem leituras agradáveis, dinâmicas e com reviravoltas. E não importa o tipo de narrativa, epistolar (“Nação Crioula”), road story (“As Mulheres do Meu Pai”), fantástica (“O Vendedor de Passados”), drama contemporâneo (“A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”) ou enredo infantojuvenil (“Nweti e o Mar”), saiba que você encontrará histórias com boas cenas de ação, intrigas cativantes, surpresas e peças narrativas muito bem encaixadas. 9) A literatura de Agualusa também é pródiga em oferecer várias tramas multifacetadas dentro de uma história maior. A partir de uma linha central, a história principal de Agualusa se bifurca em vários pontos, em várias histórias secundárias. Em muitas narrativas longas do autor (“A Conjura” e “Nação Crioula”), temos a impressão de que estamos lendo uma coletânea de contos junto com o romance. Em outras obras, a sensação é de estarmos acompanhando uma história cheia de ramificações (“O Vendedor de Passados” e “As Mulheres do Meu Pai”, por exemplo). 10) Nos livros de José Eduardo Agualusa, assistimos à valorização da negritude e à busca incessante pelas raízes culturais africanas. O autor angolano retrata como poucos a rotina diária, os hábitos, as crenças, as superstições, a moda, a gastronomia, a língua, a história, a geografia e as particularidades de cada região da África. Em suas obras, vemos quase que uma crônica de costumes. Esses elementos socioculturais ora acompanham as tramas principais (“O Vendedor de Passados” e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”) ora são alçados ao papel de protagonistas do enredo (“A Conjura” e “As Mulheres do Meu Pai”). 11) Além do retrato saboroso da cultura africana, a ficção de Agualusa faz a (inter)conexão das sociedades lusófonas dos quatro continentes (Europa, África, América do Sul e Ásia). Sinceramente, não conheço outro autor contemporâneo que tenha essa característica literária/propósito artístico. Além de ser o único escritor que integra os povos que falam o idioma lusitano, José Eduardo Agualusa faz isso naturalmente. Para ele, unir a história, a cultura e a identidade dos habitantes de Portugal, Angola, Moçambique, Brasil e Goa é algo corriqueiro e lógico. É preciso tirar o chapéu para este trabalho de união internacional dos povos-irmãos. Só tem uma coisa que eu ainda não entendi: como um autor como este ainda não conquistou o Prêmio Camões, hein?! 12) Ler os textos de Agualusa é interagir direta ou indiretamente com outras obras culturais. A intertextualidade dos seus romances é multi artística: literária, musical, cinematográfica, fotográfica, teatral e pictórica. Escritores, livros, personagens ficcionais, músicos, canções, cineastas, atores, filmes, fotógrafos, dramaturgos, peças, pintores e quadros são citados o tempo inteiro nas páginas das publicações do angolano. Parte da graça de ler Agualusa é interagir com outras produções artístico-culturais. 13) José Eduardo Agualusa utiliza-se normalmente de formas simples para contar suas histórias. A força de suas narrativas está, na maioria das vezes, em seu conteúdo e não na sua estética literária. Portanto, não espere tramas sofisticadas e/ou com recursos literários inovadores. Os livros do escritor angolano não precisam de nenhuma pirotecnia narrativa. O que ele faz muitíssimo bem é contar ótimas histórias com um colorido dramático genuíno. Após destrinchar o trabalho ficcional de José Eduardo Agualusa, encerramos hoje as atividades dessa sexta temporada do Desafio Literário. Deixaremos para 2021 (mais precisamente para abril do próximo ano) as novas análises dos principais autores da literatura brasileira e da literatura mundial. Assim, de dezembro de 2020 a março de 2021, o Bonas Histórias irá se dedicar apenas as análises de obras individuais – devidamente registradas nos posts da coluna Livros – Crítica Literária. Boa literatura para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Sociedade dos Sonhadores Involuntários - José Eduardo Agualusa
Alguns temas são recorrentes na literatura de José Eduardo Agualusa: a força e a beleza dos sonhos; a mistura entre realidade e ficção; os enredos calcados no Realismo Fantástico; a denúncia do racismo, da exploração da pobreza, da corrupção, da desigualdade social e da truculência do estado policialesco; a influência do cenário político opressor na vida das pessoas comuns; as chagas ainda expostas e as feridas não cicatrizadas do passado de violência e de guerras no continente africano; o desenvolvimento de romances históricos marcantes e de dramas pessoais e coletivos emocionantes; a valorização da negritude e a busca pelas raízes culturais africanas; e a (inter)conexão das sociedades lusófonas dos três continentes (Europa, África e América do Sul). Uma vez compreendida a riqueza deste panorama temático, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), o décimo quarto romance de Agualusa, entrega exatamente aquilo o que os leitores mais assíduos do principal escritor angolano da atualidade tanto apreciam. Não à toa, este livro é considerado um dos melhores do autor, apesar de não ter conquistado nenhum prêmio de relevância internacional. O que torna esta obra tão excelente é a combinação de um artista no auge da maturidade profissional, com total domínio das técnicas literárias e com um estilo narrativo já consolidado, e a coragem para denunciar aspectos sociopolíticos até então ocultos em seus títulos anteriores – o presente sombrio de uma nação aprisionada por uma ditadura militar excludente, corrupta, violenta, retrógrada, opressora e desconectada da realidade. Publicado em 2017, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” era, até 2020, o romance mais recente de José Eduardo Agualusa. Perceba que, na minha frase anterior, eu usei o verbo ser no pretérito! O posto de última narrativa longa de Agualusa, felizmente, foi suplantado há pouco. “Os Vivos e Os Outros” (Tusquets), título lançado em julho deste ano em Portugal (pela Quetzal Editores) e em novembro (isso mesmo, neste mês) no Brasil, é agora o romance mais recente do autor. Quem acompanha regularmente a coluna Mercado Editorial, irá notar que citarei esta obra no post de dezembro, espaço do Bonas Histórias dedicado a anunciar as novas publicações do último bimestre de 2020 em nosso país. A ideia para a produção da trama de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” nasceu em meados de 2014, quando Agualusa ainda escrevia “A Rainha Ginga” (Editora Foz), seu romance anterior. Em uma viagem à Natal, capital potiguar, o escritor angolano conheceu Sidarta Ribeiro, um neurocientista brasileiro especializado em sonhos. Depois de ganhar uma bolsa de estudos, José Eduardo Agualusa pôde acompanhar de perto as pesquisas do brasileiro por algumas semanas. Ao regressar ao seu país, o autor de “Nweti e o Mar” (Gryphus Editora), livro analisado no último domingo, dia 22, no Bonas Histórias, encontrou uma Angola em ebulição. O presidente José Eduardo dos Santos (presidente em termos, porque ele se parece mais com um ditador; comanda a nação africana desde 1979 com mãos de ferro) enfrentava o maior levante populacional contra seu governo. A onda angolana de protestos foi similar àquela ocorrida na mesma época no Brasil (chamada por aqui ora de “Não Vai Ter Copa” ora de “Revolta dos 20 Centavos”) e parecida à Primavera Árabe, ocorrida quatro anos antes em países do Oriente Médio e do norte da África. O movimento de protesto em Angola se concentrou em Luanda, sua capital, e foi organizado por um grupo de jovens. Liderada pelo músico Luaty Beirão, a juventude luandense estava descontente com a pouca liberdade política, os altos índices de desigualdade social, o desemprego crescente e os vários casos de corrupção do governo de José Eduardo dos Santos. A resposta do presidente ao movimento seguiu o padrão dos estados totalitários: bala e cassetete. Ao ser preso e torturado pelos militares, Beirão conseguiu aumentar a dimensão dos protestos. Ao fazer greve de fome na cadeia, ele mobilizou ainda mais seus colegas e gerou uma grande comoção nacional e internacional. A campanha rebelde dos jovens fez a ditadura militar angolana balançar como não tinha ocorrido desde o fim da Guerra Civil (infelizmente, ela balançou, balançou, mas não caiu). “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” mistura o olhar poético e mágico para a questão dos sonhos (parte mais lúdica e leve) com a denúncia do que se passou em Angola durante os protestos de 2014 (parte mais crítica e pesada). De certa maneira, este livro junta o tom fantástico e belo de “O Vendedor de Passados” (Tusquets) e “As Mulheres do Meu Pai” com o engajamento social e a pegada de denúncia política de “A Conjura” (Gryphus Editora) e “Nação Crioula” (Gryphus Editora). E Agualusa faz essa mescla ao abordar corajosamente as mazelas angolanas do presente (ao invés de focar apenas nos conflitos do passado, como ocorreu na maioria dos seus livros anteriores, que eram romances históricos). Por isso, não é errado enxergarmos esta obra como a crítica mais contundente tanto ao governo atual de Angola quanto à postura pouco elogiosa do presidente (presidente?) José Eduardo dos Santos durante o movimento revoltoso de seis anos atrás. Li “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” neste final de semana. Se você estiver acompanhando o Desafio Literário, saiba que esta é a sexta e última obra de José Eduardo Agualusa que analisamos em novembro. Confesso que no começo achei esta trama meio morna. A primeira metade do romance trata prioritariamente da questão dos sonhos e quase não aborda o cenário político de Angola. Porém, na segunda metade da narrativa, há uma inversão de prioridades: o conflito político salta para o primeiro plano. Além disso, os debates oníricos ganham um sentido dentro do contexto macroambiental. Dessa forma, a narrativa de Agualusa se torna espetacular. Ela é um tapa na cara de quem ainda tem a coragem de defender regimes políticos pouco democráticos e baseados na força militar (sim, este tipo de pessoa ainda existe tanto em Angola e Moçambique quanto no Brasil). “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” é narrado majoritariamente por Daniel Benchimol, um jornalista angolano de 55 anos. Separado recentemente de Lucrécia, uma socialite luandense, ele tem uma filha adolescente, Lúcia, mais conhecida pelo apelido de Karinguiri (nome de um pássaro). Daniel mora sozinho em um apartamento na capital. Sozinho não! Baltazar, seu gato, também vive ali. Depois de ter vivenciado uma fase promissora no jornalismo local (foi editor do caderno cultural do Jornal de Angola e correspondente no país de um jornal português), o protagonista do romance perdeu os empregos por causa de críticas feitas ao governo angolano. Agora, ele trabalha para um pequeno jornal independente e online de Luanda, o Pensamento Angolano, além de escrever peças teatrais e fazer traduções técnicas para as empresas do seu país. Com uma rotina extremamente pacata, Daniel Benchimol só fica perturbado com os tipos de sonhos que tem frequentemente. Ao dormir, o jornalista sonha com personalidades famosas (que lhe dão entrevistas bastante íntimas e muito reveladoras), e, o que é até mais surpreendente, com pessoas desconhecidas (mas que depois ele virá a conhecer). Ao invés de ter sonhos rápidos e tranquilos, ele passa a conhecer detalhes das biografias desses indivíduos (como se acompanhasse um longa-metragem ou um documentário sobre personalidades reais). A situação fica ainda mais estranha quando Daniel descobre, ao conhecer realmente as pessoas sonhadas, que seus sonhos descreviam episódios verídicos. Para completar, parte dos desígnios, mensagens e diálogos que recebe quando está dormindo, logo mais se concretizam e ganham sentido. Qual a função desses sonhos? Quais as explicações científicas e filosóficas para essas experiências oníricas tão intensas e reais? Enquanto busca respostas para tais questões, Daniel Benchimol conhece algumas pessoas que também são afetadas pelos sonhos de um jeito pouco usual. O primeiro deles é Hossi Apolónio Kaley, um ex-militar de cinquenta e poucos anos que lutou ao lado dos capitalistas na Guerra Civil de Angola (vencida pelos comunistas). Hossi, agora proprietário do Hotel Arco-Íris em Cabo Ledo, aparecia, quando jovem, nos sonhos de várias pessoas, sempre com uma capa roxa. Nessas aparições, ele revelava segredos e curiosidades do dia a dia para a pessoa que sonhava com ele. Ao saber desse seu poder quase paranormal, os militares angolanos enviaram-no para Cuba, onde passou por teste clínicos por vários meses. Os comunistas acreditavam que poderiam utilizar os poderes oníricos de Hossi Apolónio Kaley como uma arma de guerra ou um novo jeito de fazer espionagem internacional. A segunda pessoa é Moira Fernandes, uma artista plástica e fotógrafa moçambicana de 33 anos que vive na Cidade do Cabo, África do Sul. Ela utiliza seus sonhos como matéria-prima de sua arte. Seus quadros e fotografias são encenações do que se passou à noite em sua mente enquanto dormia. Daniel a conheceu por acaso. Ele achou, na praia, uma máquina fotográfica que Moira perdeu há alguns anos no mar. Por fim, a terceira personagem que Daniel Benchimol conheceu e que está relacionada com suas preocupações mais íntimas é Hélio de Castro, um neurocientista mineiro que realiza estudos com sonhos em um instituto de pesquisa na cidade de Natal, no Brasil. Hélio e sua equipe desenvolveram uma máquina capaz de filmar os sonhos das pessoas enquanto elas dormem. Intrigado com essa tecnologia, o jornalista angolano viaja até o Nordeste brasileiro para ver de perto o funcionamento e a eficiência da máquina. Enquanto aprofunda seus estudos e conexões sobre a força dos sonhos, Daniel Benchimol recebe uma notícia estarrecedora: sua filha, Karinguiri, foi presa pelos militares angolanos. A jovem liderou protestos em Luanda que exigiam a renúncia do presidente, um corrupto contumaz que está há mais de 30 anos no poder. Presa ao lado de seis amigos, Karinguiri foi declarada terrorista pelas autoridades. Desesperado para livrar a filha das garras do estado ditatorial, o jornalista usará seus novos amigos e os conhecimentos sobre os sonhos para tirar os integrantes dos protestos de trás das grades. Inicia-se, assim, um embate dos amigos e dos familiares do protagonista contra as forças mais poderosas de Angola – o presidente e o aparato militar. As 256 páginas de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” estão divididas em 42 capítulos. Levei aproximadamente cinco horas e meia para percorrer todo o conteúdo do livro. Minha leitura aconteceu em um único dia, no último domingo, 22 de novembro. Comecei esta obra de manhãzinha e à noite já a tinha finalizado (com várias paradas no meio do caminho). Para quem não é chegado a uma imersão literária como esta, é possível ler este título com mais tranquilidade em dois dias ou mesmo em três noites. Do ponto de vista da literatura de José Eduardo Agualusa, o grande diferencial do enredo de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” está no enfoque dos problemas políticos atuais de Angola. Até então, o autor preferiu tratar os conflitos sociais angolanos da época colonial, do período da busca pela independência e durante a longa Guerra Civil. Ele não tinha chegado a criticar com tanta ênfase a situação sociopolítica do seu país nos dias de hoje. Esse acerto de contas com o presente me parece acertado. Escancarar as atrocidades cometidas pela ditadura militar angolana é um ato de altruísmo e de utilidade pública, principalmente se entendermos que muitos dos leitores de Agualusa são brasileiros e portugueses (e, como consequência, não conhecem tão a fundo os problemas africanos contemporâneos). Se por um lado escancarar a violência e a corrupção do governo de José Eduardo dos Santos me parece um acerto, por outro lado essa opção temática é ousada e extremamente perigosa para o escritor angolano. Falar mal do rei em uma monarquia absoluta (ou de um ditador em um regime militar) traz muitas vezes mais complicações do que benefícios ao artista em seu dia a dia. Lembremos que Agualusa passa parte do ano em sua terra natal e outra parte do ano em Portugal. Dessa maneira, sua escolha narrativa me pareceu muitíssimo corajosa. Independentemente de acharmos bom ou ruim este livro, se gostarmos ou não gostarmos de sua história, precisamos aplaudir de pé a atitude do escritor de denunciar os poderosos de sua nação. A impressão que tive durante a leitura de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” era que seu narrador-protagonista é o alter ego do escritor. Afinal, há incontáveis semelhanças entre Daniel Benchimol e José Eduardo Agualusa. Vejamos algumas delas: eles são jornalistas; nasceram em Huambo, em 1960; são separados do primeiro casamento; tiveram um filho desse relacionamento anterior; se apaixonam por uma artista moçambicana; usam cavanhaque; relutaram por muitos anos em criticar publicamente a ditadura militar de seu país; adoram nadar; e sempre estiveram envolvidos intimamente com o universo oníricos (o enredo de “O Vendedor de Passados”, por exemplo, surgiu após uma visita do protagonista ficcional, Félix Ventura, ao escritor em um sonho). Ouso dizer que Daniel Benchimol é a personagem de Agualusa que mais se parece com ele. Essa associação íntima entre o protagonista do livro e o escritor escancaram ainda mais a relação simbiótica entre a ficção e a realidade da narrativa de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Não por acaso, esta é uma das características mais marcantes da literatura de José Eduardo Agualusa. Suas tramas caminham o tempo inteiro com um pé no mundo imaginário e com o outro pé no mundo concreto (sim, as narrativas do angolano são bípedes!). Essa junção se torna interessante porque estamos falando simultaneamente de um texto com elementos de Realismo Fantástico e com críticas políticas contemporâneas e factuais. Por isso, lembrei-me bastante, durante esta leitura, dos romances de Isabel Allende, principalmente de “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) e “Eva Luna” (Bertrand Brasil). Vale a pena destacar que a escritora chilena sempre foi mestre em misturar tramas mágicas a enredos calcados no horror real da ditadura militar de seu país (característica essa da primeira fase da ficção de Allende). Não ria de mim, por favor, mas também me recordei, nas páginas finais de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, de “Metrô Linha 743”, uma música famosa de Raul Seixas. Na canção lançada em 1984, já no final da ditadura militar brasileira, o cantor baiano faz uma crítica bem-humorada e com pegada de Realismo Fantástico a opressão do estado policialesco das décadas de 1970 e 1980 em nosso país. Assista, a seguir, à impagável animação desenvolvida por Thalles Humberto que narra o drama dessa música: “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” tem, em algumas cenas e trechos, um tom meio kafkaniano (principalmente quando sua história mergulha na burocracia e na complexidade estatal) e meio surrealista (quando a trama se aventura pelos sonhos inusitados das personagens). Daí a lembrança do livro “O Processo” (Companhia das Letras) e do filme “Um Cão Andaluz” (Un Chien Andalou: 1928). Como já tinha acontecido em “Nação Crioula” (escrito em primeira pessoa por Fradique Mendes, mas com trechos narrados por outras personagens - Eça de Queiroz e Ana Olímpia, por exemplo), “O Vendedor de Passados” (narrado principalmente pela osga Eulálio, mas com inserções de outras personagens ao longo do texto) e “As Mulheres do Meu Pai” (narrativa com múltiplas vozes - pelo menos quatro personagens revezam-se no relato desta história), “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” apresenta vários narradores distintos. Quem comanda a narrativa na maior parte do tempo é Daniel Benchimol. Porém, em algumas partes deste romance, os relatos são conduzidos por Hossi Apolónio Kaley (nos capítulos 3, 7, 16, 23, 25 e 36 entramos em contato com seus diários), por Moira Fernandes (nos capítulos 10, 21, 28 e 35 lemos sua correspondência eletrônica) e por Lucia Benchimol/Karinguiri (no capítulo 31 ela escreve uma carta ao pai). Dos romances adultos de Agualusa lidos para este Desafio Literário, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” é aquele que apresenta o menor nível de intertextualidade cultural. Mesmo assim, é possível encontrar algumas citações literárias, fotográficas, musicais, cinematográficas e teatrais. Prova maior disso é que ao final do livro há uma lista de canções citadas pelos quatro narradores. Admito que gostei muito de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Entretanto, este livro não é a minha leitura preferida de José Eduardo Agualusa. O primeiro lugar do pódio agualusiano continua sendo ocupado por “O Vendedor de Passados” e a segunda colocação por “As Mulheres do Meu Pai”. Talvez a trama de “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” suba sim ao pódio, mas apenas no terceiro degrau mais alto. O Desafio Literário de novembro se encerrará na próxima segunda-feira, dia 30. Nessa data, voltarei ao Bonas Histórias para apresentar a análise completa da literatura de José Eduardo Agualusa. Minha ideia é relatar brevemente a biografia do autor, discutir alguns detalhes de sua bibliografia e, a partir daí, aprofundar o debate sobre as suas principais características estilísticas. Quem curte o trabalho ficcional de Agualusa, um dos principais nomes da literatura angolana e da literatura contemporânea em língua portuguesa, não pode perder o próximo post do Desafio Literário. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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