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  • Livros: Paula - As memórias de Isabel Allende para a filha doente

    Em dezembro de 1991, Isabel Allende já era uma das principais escritoras sul-americanas. Seus quatro primeiros romances, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), de 1982, “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil), de 1984, “Eva Luna” (Bertrand Brasil), de 1987, e “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), de 1991, tinham sido lançados com êxito em vários países da Europa, da América do Norte e da América do Sul. Morando nos Estados Unidos desde 1988 com o segundo marido, um advogado norte-americano, a autora chilena levava uma vida, enfim, tranquila. A situação parecia ter entrado nos eixos depois de tempos de intermináveis complicações. Vale lembrar que o inferno astral de Isabel começou justamente com a decretação do golpe militar no Chile, em setembro de 1973. Sobrinha de Salvador Allende e jornalista combativa, ela foi perseguida pelo governo de Augusto Pinochet. Não foram poucas as ameaças de morte que recebeu. Assustada, Isabel Allende teve de se exilar com a família por 13 anos na Venezuela. Em Caracas, viveu certo ostracismo profissional e grandes dificuldades financeiras. Contudo, o período de vacas magras terminaria quando ela se lançou no universo da ficção. Nove anos após sua estreia nos romances, Allende já tinha se consolidado como uma das escritoras mais populares da literatura contemporânea de língua espanhola. Este cenário idílico, quase um conto de fadas, sofreria um sobressalto na virada do ano de 1991 para 1992. Enquanto viajava pelo mundo para divulgar seu último trabalho ficcional, “O Plano Infinito”, livro recém-publicado, Isabel recebeu uma notícia trágica. Sua filha Paula, então com 28 anos, foi parar na U.T.I. por causa de uma crise neurológica. O que desencadeou este quadro médico extremamente delicado foi a porfiria, uma doença hereditária. Sem pestanejar, a escritora largou seus afazeres profissionais e rumou para Madrid, onde Paula morava e onde estava internada. Para a surpresa de Isabel e de seus parentes mais próximos, o estado clínico da moça piorou abruptamente e ela entrou em coma. Começava, assim, o longo calvário da família, que esperava o restabelecimento completo da adoentada. Porém, Paula não apresentou melhoras significativas por semanas e meses. Sem alternativa, coube a Isabel Allende ficar ao lado da filha no hospital, torcendo pela sua recuperação. Vendo o desespero e a prostração da escritora, a agente literária de Allende, Carmen Balcells, teve uma ideia. Depois de entregar um bloco de folhas à Isabel, ela disse: “Toma, escreve e desabafa, se não o fizeres morres de angústia, minha pobrezinha”. À princípio, Isabel recusou. “Onde já se viu ficar escrevendo enquanto a filha está inconsciente na U.T.I.?”, deve ter pensado. Contudo, Carnem insistiu: “Escreva uma carta à Paula... Há de ajudá-la a saber o que aconteceu durante este tempo em que está adormecida”. Convencida de que a prática da escrita poderia aliviar um pouco aquele longo pesadelo, Isabel Allende iniciou o texto dirigido à filha. Nele, a escritora narrava em tom de confidências a sua trajetória pessoal e profissional. Além disso, aproveitou para recapitular a saga de sua família, desde a chegada de um marinheiro basco ao Chile no início do século XIX. Nascia, desta forma, “Paula” (Bertrand Brasil), a quinta narrativa longa e o sétimo livro de Allende – além dos quatro romances já citados, ela também tinha publicado duas coletâneas de contos: “La Gorda de Porcelana” (sem edição em língua portuguesa), de 1984, e “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil), de 1989. Diferentemente de todas as suas obras anteriores, que eram histórias ficcionais, “Paula” deve ser classificado como uma narrativa não ficcional (há quem equivocadamente o veja como um romance). Publicado em 1995, “Paula” é o primeiro livro de memórias de Isabel Allende. Nele, a chilena narra tanto o drama da filha em coma quanto a sua autobiografia e a biografia de seus antepassados. Além disso, a autora confidencia detalhes de sua produção ficcional – quando e por que decidiu escrever; quais as suas inspirações para as histórias contadas; e de onde vem a inspiração para a criação de suas personagens. Quem gosta da literatura de Allende e deseja conhecer os pormenores da sua trajetória pessoal, familiar e profissional, esta leitura é imperdível. Exatamente por isso, incluí “Paula” no Desafio Literário de outubro. Esta publicação é o terceiro dos seis livros de Isabel Allende que vamos analisar no Bonas Histórias ao longo deste mês. Na lista de obras selecionadas da autora, temos quatro romances, “A Casa dos Espíritos”, “Eva Luna”, “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil) e “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil), e dois títulos não ficcionais, “Paula” e “Meu País Inventado” (Bertrand Brasil). De certa maneira, Allende retoma o relato sobre sua trajetória de vida, contada em “Paula”, em “Meu País Inventado”. Se em “Paula” a escritora narra seu passado e de seus familiares para a filha doente (em um texto mais intimista e emocionante), em “Meu País Inventado” ela o faz para os leitores (em um livro de memórias mais convencional). “Paula” tem 464 páginas. Ele está dividido em três partes: Parte I (dezembro de 1991 a maio de 1992), Parte II (maio de 1992 a dezembro de 1992) e Epílogo (Natal de 1992). Precisei de dois dias para concluir esta leitura. Comecei a ler a obra no sábado de manhã e terminei seu conteúdo no domingo à tarde. Devo ter levado ao todo entre dez e onze horas para ir de sua primeira à última página. A primeira questão que chama a atenção em “Paula” é a existência de uma narrativa dupla. Presente e passado caminham de mãos dadas o tempo inteiro. Em primeiro plano, temos o drama da autora com sua filha. Esta parte da trama se passa no tempo presente. Paula, uma jovem de 28 anos, bonita, saudável, inteligente, engajada socialmente e com um casamento feliz, vai parar do dia para a noite em uma U.T.I. Por causa da porfiria, ela entra em coma. Totalmente inconsciente, a moça passa um longo período postada em uma cama hospitalar, para agonia da mãe e de seus familiares. Veja, a seguir, três trechos do livro que escancaram essa primeira face da narrativa de Isabel Allende: “Para onde vais, Paula? Como serás ao acordar? Serás a mesma mulher ou deveremos aprender a conhecer-nos como duas estranhas? Terás memória ou terei de contar-te pacientemente os vinte e oito anos da tua vida e os quarenta e nove da minha? Deus guarde a sua menina, sussurrava-me com dificuldade Don Manuel, o doente que ocupava a cama ao teu lado. É um velho camponês, operado várias vezes ao estômago, a lutar ainda contra a ruína e a morte. Deus guarde a sua menina, disse-me também ontem uma mulher jovem com um bebê ao colo, que tivera conhecimento do teu caso e acorrera ao hospital para me incutir esperança. Sofreu um ataque de porfiria há dois anos e ficou em coma mais de um mês, levou um ano a voltar à normalidade e tem de fazer tratamentos durante o resto da vida, mas já trabalha, casou e teve um menino. Garantiu-me que o estado de coma é como dormir sem sonhos, um misterioso parêntese. Não chore mais, minha senhora, a sua filha não sente nada, vai sair daqui pelo seu pé e depois não se lembrará do que lhe aconteceu (...)”. “Todas as manhãs percorro os corredores do sexto andar à caça do especialista para indagar novos pormenores. Esse homem tem a tua vida nas suas mãos e eu não confio nele; passa como uma corrente de ar, distraído e apressado, dando-me nebulosas explicações sobre enzimas e cópias de artigos sobre a tua doença que eu tento ler, mas não entendo nada. Parece mais interessado em alinhavar as estatísticas do seu computador e as fórmulas do seu laboratório do que no teu corpo crucificado pousado nesta cama. É assim esta enfermidade, uns recuperam da crise em pouco tempo e outros levam semanas na terapia intensiva; antes os pacientes pura e simplesmente morriam, mas agora podemos conservá-los vivos até o metabolismo funcionar de novo, diz-me ele sem me olhar nos olhos. Bem, se assim é, só nos resta aguardar. Se tu resistes, Paula, eu também (...)”. “Penso na minha bisavó, na minha avó clarividente, na minha mãe, em ti e na minha neta que há de nascer em maio, uma firme cadeia feminina que remonta à primeira mulher, a mãe universal. Devo mobilizar essas forças nutritivas para a tua salvação. Não sei como alcançar-te, chamo por ti, mas não me ouves, por isso te escrevo. A ideia de encher estas páginas não foi minha, há várias semanas que não tomo iniciativas. Mal teve conhecimento da tua doença, a minha agente veio dar-me apoio. Como primeira medida arrastou-nos, à minha mãe e a mim, para um restaurante onde nos ofereceu um leitão assado e uma garrafa de vinho de Rioja, que nos caíram como pedras no estômago, mas que também tiveram a virtude de nos devolver o riso; depois surpreendeu-nos no hotel com dúzias de rosas vermelhas, torrões de Alicante e um salsichão de aspecto obsceno - o mesmo que ainda nos serve para as sopas de lentilhas - e colocou no meu colo uma resma de papel amarelo com linhas. “Toma, escreva e desabafa, se não o fizeres morres de angústia (...)”. Em segundo plano, temos a trajetória pessoal e familiar da autora. Esta é a parte do livro trazida diretamente do passado. Isabel conta para a filha adormecida a sua autobiografia e a história de vida de seus antepassados. O foco prioritário é o clã materno. Nesta face da narrativa, mergulhamos nas intimidades da escritora (do nascimento ao período atual, passando pela infância, juventude e amadurecimento) e das pessoas que foram mais importantes para ela (a avó, o avô, a mãe, o padrasto, o primeiro marido, os dois filhos, o segundo marido, o tio Salvador Allende, os amigos mais próximos...). Veja, a seguir, três passagens de “Paula” que apresentam fatos, figuras e lembranças de um tempo longínquo: “Ouve, Paula, vou contar-te uma história para que, quando acordares, não te sintas perdida. A lenda da família começa em princípios do século passado, quando um robusto marinheiro basco desembarcou nas costas do Chile, com a cabeça perdida em projetos de grandeza e protegido pelo relicário de sua mãe pendurado ao pescoço, mas para que voltar tanto atrás, basta dizer que a sua descendência formou uma estirpe de mulheres impetuosas e homens de braços fortes para o trabalho e corações sentimentais. Alguns, de caráter irascível morreram a babar-se, mas talvez o motivo não fosse a raiva, como proclamaram as más-línguas, mas sim alguma peste local. Compraram terrenos férteis nas vizinhanças da capital que, com o tempo, aumentaram de valor, refinaram, ergueram construções com parques e arvoredos, casaram as filhas com crioulos ricos, educaram os filhos em severos colégios religiosos, e assim, no correr dos anos, integraram-se numa orgulhosa aristocracia de caudilhos que perdurou por mais de um século, até que o vendaval do modernismo a substituiu no poder por tecnocratas e comerciantes. Um deles era o meu avô (...)”. “Quando acordares teremos meses, anos talvez para colar os pedaços quebrados do teu passado, ou melhor ainda, poderemos inventar as tuas recordações à medida das tuas fantasias; por agora falarei de mim e de outros membros desta família a que ambas pertencemos, mas não me peças exatidão porque vão me escapulir erros, muita coisa me esquece ou se distorce, não fixo lugares, datas nem nomes, porém nunca me escapa uma boa história. Sentada ao teu lado observando a tela com as linhas luminosas que assinalam os batimentos do teu coração, tento comunicar contigo seguindo os métodos mágicos da minha avó. Se ela estivesse aqui podia transmitir-te as minhas mensagens e ajudar-me a agarrar-te a este mundo. Empreendeste uma estranha viagem através dos meandros da inconsciência. Para que tantas palavras se me não podes ouvir? Para que estas páginas que talvez nunca venhas a ler? A minha vida faz-se ao contá-la e a minha memória fixa-se com a escrita; o que não ponho em palavras no papel, o tempo apaga-o” (...). “Apesar de ter vindo ao mundo em Lima, sou chilena; venho de “uma vasta pétala de mar e vinho e neve”, tal como Pablo Neruda definiu o meu país, e de lá és tu também, Paula, embora tenhas a marca inegável de Caracas, onde cresceste. Custa-te um pouco a entender a nossa mentalidade do Sul. No Chile, somos determinados pela presença eterna das montanhas, que nos separam do resto do continente, e pela sensação de precariedade, inevitável numa região de catástrofes geológicas e políticas. Tudo treme sob os nossos pés, não conhecemos segurança, se nos perguntam como estamos, respondemos “sem novidade”, ou “mais ou menos”; movemo-nos de uma incerteza para outra, caminhamos cautelosos numa região de claros-escuros, nada é preciso, não gostamos de enfrentamentos, preferimos negociar. Quando as circunstâncias nos forçam a extremos, acordam os nossos piores instintos e a história dá uma reviravolta trágica, porque os mesmos homens que na vida quotidiana parecem mansos, ao contarem com a impunidade e um bom pretexto costumam converter-se em feras sanguinárias. Mas em tempos normais os chilenos são sóbrios, circunspectos, ajuizados e têm pavor de chamar a atenção, o que para eles é sinônimo de ser ridículo. Por essa razão sempre fui um pesadelo para a família” (...). Neste mergulho ao passado, conhecemos também as particularidades da produção literária da autora. Há passagens saborosíssimas em “Paula”, como a superstição sobre a data exata de quando começar a escrever um livro, a forma como escolheu o título de seu primeiro romance e a entrevista marcante que Isabel Allende fez com Pablo Neruda. Confira: “Hoje é 8 de janeiro de 1992. Num dia como o de hoje, há onze anos, comecei em Caracas uma carta para me despedir do meu avô que agonizava com um século de luta aos ombros. Os seus ossos rijos continuavam a resistir, embora há muito ele se preparava para seguir a Vovó, que lhe fazia sinais da passagem. Eu não podia regressar ao Chile e não convinha incomodá-lo pelo telefone que tanto o aborrecia, para lhe dizer que partisse tranquilo porque nada se perderia do tesouro de anedotas que me contara ao longo da nossa amizade, eu nada esquecera. Pouco depois o velho morreu, mas o conto tinha-me agarrado e não consegui parar, outras vozes falavam através de mim, escrevia em transe, com a sensação de ir desfiando um novelo de lã, e com a mesma urgência com que escrevo agora. Ao cabo de um ano tinham-se juntado quinhentas páginas num caderno e compreendi que aquilo já não era uma carta, então anunciei timidamente à família que tinha escrito um livro. Qual é o título? perguntou a minha mãe. Fizemos uma lista de nomes, mas não conseguimos chegar a um acordo e por fim tu, Paula, atiraste uma moeda ao ar para decidir. Assim nasceu e foi batizado o meu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, e eu iniciei no vício incurável de contar histórias. Esse livro salvou-me a vida. A escrita é uma longa introspecção, é uma viagem até às cavernas mais obscuras da consciência, uma lenta meditação. Escrevo às cegas no silêncio e pelo caminho descubro partículas de verdade, pequenos cristais que cabem na palma da mão e justificam a minha passagem por este mundo. Também em 8 de janeiro iniciei o meu segundo romance e a partir de então já não me atrevi a mudar aquela data afortunada, em parte por superstição, mas também por disciplina; comecei todos os meus livros em um dia 8 de janeiro (...)”. “No Inverno de 1973, Pablo Neruda convidou-me a ir visitá-lo na Isla Negra. O poeta estava doente, deixou o seu lugar na Embaixada de Paris e instalou-se no Chile na sua casa da costa, onde ditava as suas memórias e escrevia os seus últimos versos contemplando o mar. Preparei-me muito para esse encontro, comprei um gravador novo, fiz uma lista de perguntas, reli parte da sua obra e algumas biografias, mandei fazer uma revisão do motor do meu velho Citroën para que não me falhasse em tão delicada missão (...). Pablo Neruda com um poncho pelos ombros e uma boina a coroar a sua grande cabeça de gárgula, recebeu-me sem formalismos, dizendo que o divertiam os meus artigos de humor, às vezes tirava fotocópias e mandava-as aos amigos (...). Riu-se ele – Você deve ser a pior jornalista deste país, filha. É incapaz de ser objetiva, coloca-se no centro de tudo, e suspeito que mente bastante e quando não tem uma notícia, inventa-a. Por que não se dedica antes a escrever romances? Em literatura esses defeitos são virtudes. Enquanto estou a te contar isto, a Aurélia preparasse para recitar uma poesia composta especialmente para ti, Paula. Pedi-lhe que não o fizesse porque os versos dela desmoralizam-me, mas ela insiste. Não confia nos médicos, acha que não vais recuperar (...)”. Nota-se que, muitas vezes, as duas faces desta narrativa dupla (passado e presente) vem misturadas (como nas últimas frases do trecho anterior). Cabe ao leitor distinguir o que ocorre no presente e o que ocorreu no passado. Em algumas partes do texto de “Paula”, demora um pouquinho para entendermos se um fato aconteceu lá atrás ou se está acontecendo agora. Contudo, essa característica da narrativa não atrapalha em nada a leitura nem a experiência literária. Pelo contrário, tal expediente estilístico dá mais beleza ao texto de Isabel Allende e confere mais verossimilhança à conversa com a filha. Curiosamente, a trajetória pessoal e familiar de Isabel Allende está intimamente ligada aos principais acontecimentos políticos do Chile. Assim, por mais que não queira falar de história e de questões macroambientais, a escritora tece um belo retrato do passado recente de seu país. O capítulo dedicado ao relato da invasão dos militares ao Palácio de La Moneda, onde Salvador Allende se recusava a sair, é de tirar o fôlego. Quem ainda hoje defende golpes militares e a decretação de ditaduras na América do Sul, deveria ler atentamente este livro. A visão da escritora sobre a história recente do Chile é forte, emocionante e impecável. A grande surpresa de “Paula” fica quanto a inserção de passagens de realismo fantástico no texto não ficcional. Muito interessante isto! Isabel Allende segue o padrão de seus romances e tece relatos em que fantasmas se comunicam com os vivos, é possível prever o futuro, sonhos tem a capacidade de servir de conversas telepáticas, pessoas conseguem mover objetos com a mente e o universo dos vivos e o plano dos mortos estão em constante interação. Ela chega a dizer que seu romance de estreia teria contado com a ajuda de seus avós já falecidos. E os poderes paranormais de Clara Del Valle Trueba, sua personagem ficcional mais famosa, eram habilidades reais de sua avó materna. Por falar nisso, um dos aspectos que mais gostei em “Paula” foi a associação direta de personagens e fatos dos romances de Allende com episódios e pessoas reais da biografia da escritora. Por exemplo, com a leitura deste livro, descobrimos que várias personagens de “A Casa dos Espíritos” foram inspiradas em pessoas da família de Isabel. Inclusive, as figuras mais interessantes do livro apresentam características muito parecidas às dos parentes da chilena (além de Clara Del Valle Trueba, Esteban Trueba, Rosa Del Valle, conde de Satigny e Ama possuem versões de carne e osso). Quando analisamos “De Amor e de Sombra”, o enredo deste romance foi inspirado em episódios reais ocorridos na Colômbia, no Chile e na Argentina nas décadas de 1970 e 1980. E a parte da narrativa de Rolf Carlé, de “Eva Luna”, também é verídica. Ela foi contada em um bar por um alemão, quando a escritora estava viajando pela Europa para divulgar seus livros. Ou seja, um dos grandes talentos de Allende é transformar aspectos da realidade em textos e personagens da ficção. A trajetória de vida da autora é de tirar o fôlego. Ela nasceu em Lima, quando seu pai, Tomás Allende, trabalhava como diplomata na embaixada chilena do Peru. Bissexual, Tomás se envolveu em alguns escândalos sexuais ruidosos e abandonou a esposa e os filhos ainda pequenos. Assim, Isabel voltou, aos três anos de idade, à Santiago, onde viveu na casa dos avôs maternos por oito anos. Quando a mãe se casou novamente com outro diplomata chileno, as jornadas pelo exterior foram retomadas. Ao lado de sua família, a futura escritora morou um ano em La Paz, na Bolívia, e três anos em Beirute, no Líbano. Já adolescente, Isabel voltou a residir em Santiago e começou a trabalhar como jornalista. Repórter de televisão, colunista de revista e editora, além de se arriscar como dramaturga, a jovem se tornou conhecida em seu país. Contudo, o Golpe Militar de 1973, atrapalhou seus planos. Os militares passaram a perseguir os amigos, os familiares e os apoiadores de Salvador Allende, o presidente socialista que fora deposto/assassinado. Por ser sobrinha de Salvador e por ter se caracterizado como uma jornalista atuante em seu país, Isabel recebeu ameaças de morte. Assustada, ela se exilou na Venezuela, com o marido e os dois filhos pequenos. Na capital venezuelana, onde viveu por treze anos, Isabel Allende até tentou continuar trabalhando como jornalista, mas os serviços nesta área eram escassos e mal pagos. Assim, ela começou a trabalhar em um colégio. Se de dia ela tinha um emprego comum, a noite ela passou a escrever ficção. Surgia, desta maneira, uma das escritoras mais criativas da atualidade. Rapidamente, seus romances caíram no gosto do público e da crítica literária. Em junho de 1987, ela se separou do primeiro marido e já no ano seguinte se mudou para os Estados Unidos, onde passou a viver ao lado do segundo esposo. É esta a história que acompanhamos em “Paula”. Isabel Allende é tão sincera e ousada em seu relato que não se intimida nem mesmo quando conta seus casos de infidelidade conjugal (algo que normalmente as pessoas tentam esconder, até mesmo de suas autobiografias). Com Allende não existe meias-verdades. Ela coloca o dedo nas feridas, doa a quem doer. Juntamente com sua narrativa em primeira pessoa, também assistimos à admiração da escritora por Pablo Neruda e Gabriel García Márquez, dois dos quatro autores sul-americanos que venceram o Prêmio Nobel de Literatura, e por “Mil e Uma Noites”, que leu, ainda na infância, escondida do padrasto e da mãe. A ambientação de “Paula” é muito parecida à dos romances de Isabel Allende. Neste livro, temos dramas familiares, intrigas conjugais, muita violência, machismo, radicalização política e intermináveis crises financeiras. Ao mesmo tempo, as personagens femininas, que monopolizam o protagonismo da narrativa do início ao fim, são figuras fortíssimas e corajosas. O único ponto negativo de “Paula” está em seu desfecho. Considerei a parte final um tanto arrastada. O leitor já entende o que irá acontecer, mas ainda sim a escritora insiste em prosseguir no suspense (o que irá acontecer com Paula?). Uma edição que cortasse uma ou duas dezenas de páginas do desenlace não faria mal à obra. “Paula” é um livro muito bonito e emocionante. Confesso que não cheguei a derramar lágrimas durante esta leitura (algo que acontece quando a história é realmente triste). Por mais sensível e intimista que este drama pareça, fiquei muito mais impressionado com o passado difícil de Isabel Allende do que com a tragédia que acometeu sua filha. Entretanto, não duvido que haja leitores que derrubem uma enxurrada de lágrimas. Dando prosseguimento ao Desafio Literário de outubro, o próximo trabalho de Isabel Allende que será analisado no Bonas Histórias é "Meu País Inventado" (Bertrand Brasil), o segundo livro de memórias da escritora chilena. Publicado em 2003, esta obra é uma autobiografia alternativa (menos formal/não convencional) de Allende. “Paula”, neste caso, representa o título de memórias mais básico (mais formal/convencional). O post com os comentários sobre “Meu País Inventado” estará disponível no próximo sábado, dia 17. Boa leitura a todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Meu País Inventado - Crônica de Isabel Allende sobre o Chile

    Li, nesta semana, “Meu País Inventado” (Bertrand Brasil), o quarto livro de Isabel Allende do Desafio Literário de outubro. Esta obra é classificada formalmente como as memórias da escritora chilena. Lendo essas linhas, um fã mais atento (e crítico) poderá reclamar: mais uma autobiografia de Allende, né?! O comentário ácido faz, à princípio, todo o sentido. “Paula” (Bertrand Brasil), publicado oito anos antes, tinha essa mesma característica/função. Naquela primeira narrativa biográfica, a autora, uma das principais figuras da literatura contemporânea em língua espanhola, descrevia de maneira sublime sua trajetória pessoal, familiar e profissional. Não à toa, “Paula” é um dos títulos mais famosos e emocionantes de Isabel Allende até hoje. Então, “Meu País Inventado” é um livro sem muitas novidades para quem já leu a obra de memórias anterior, certo? Errado! Confesso que eu tinha a expectativa, no início desta leitura, de me deparar com um texto repetitivo e com um conteúdo sem grandes atrativos. Entretanto, Isabel Allende soube construir um relato inteiramente novo e com um viés completamente diferente de “Paula”. Em “Meu País Inventado”, a escritora explica o que representa para ela ser chilena e descreve as características típicas de quem possui essa nacionalidade. Assim, mais do que uma publicação de memórias (biografia), “Um País Inventado” adquire o tom de crônica de um país (o Chile). Sob este novo ponto de vista, este título é impecável e extremamente original. Publicado em 2003, “Meu País Inventado” nasceu da necessidade pessoal de Isabel Allende de se posicionar sobre sua condição de imigrante. Depois de fugir do Chile, em 1975, quando o Golpe Militar comandado por Augusto Pinochet se tornava cada vez mais violento (ainda mais para alguém com o sobrenome Allende), ela se exilou na Venezuela por 13 anos. Na sequência, foi morar nos Estados Unidos ao lado do segundo marido. Portanto, Isabel nunca mais voltou a viver em seu país natal, mesmo após o restabelecimento da democracia (e o fim do Estado policialesco). Atualmente, a escritora apenas visita o Chile uma ou duas vezes por ano. Em outras palavras, seu retorno é pontual e com um caráter de passeio/lazer. Nesse interminável ir-e-vir, Isabel Allende sempre se interroga: o que significa ser chilena? O que implica viver tanto tempo distante da terra em que cresceu e em que se formou adulta e mulher? E quais as diferenças culturais, sociais, políticas e geográficas desta nação andina? Essas três questões de ordem pessoal se transformaram também nos pontos centrais deste livro. Mais do que uma viagem pela história de vida da autora, “Meu País Inventado” permite ao leitor fazer uma jornada até o lugar onde Isabel Allende passou boa parte de sua infância e juventude. Não dá para entendermos exatamente quem é uma pessoa sem compreendermos primeiramente as características de sua família e de seus conterrâneos. Se “Paula” é a biografia mais formal e convencional de Allende, “Meu País Inventado” pode ser visto como uma publicação autobiográfica mais informal e menos convencional. Mesmo assim, eu prefiro enxergar este título como uma grande crônica da autora sobre o que é ser chileno(a). Este livro começa com Isabel Allende explicando o motivo de ter voltado a produzir um texto autobiográfico. Segundo suas palavras, esta obra foi a maneira encontrada para encarar a idade que avançava rapidamente e, ao mesmo tempo, discutir um tema central do seu trabalho ficcional, o saudosismo. Como uma exímia narradora, ela faz essa justificativa de um jeito velado – a partir de um comentário do neto e de uma pergunta de alguém em uma palestra. Veja: "Dois acontecimentos recentes desencadearam esta epidemia de recordações. O primeiro foi uma observação ocasional do meu neto Alejandro, o qual me surpreendeu a esquadrinhar diante do espelho o mapa das minhas rugas e disse, compassivo: “Não te preocupes, velha, vais viver pelo menos mais três anos”. Decidi nesse momento que tinha chegado a hora de olhar a minha vida de modo diferente, para averiguar como desejo conduzir esses três anos que tão generosamente me foram concedidos. O outro acontecimento foi a pergunta de um desconhecido durante uma conferência de escritores (...). Quando terminei o meu breve discurso, levantou-se um braço no meio do público e um jovem perguntou-me qual o papel da nostalgia nos meus romances. Fiquei momentaneamente sem palavras. Nostalgia... segundo o dicionário é “a dor de estar ausente da pátria, a melancolia provocada pela recordação de uma felicidade perdida”. A pergunta cortou-me a respiração, porque até esse instante não me tinha dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Fui estrangeira durante quase toda a minha vida, condição que aceito porque não tenho alternativa. Várias vezes me vi forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, para começar de novo em outro lugar; fui peregrina por mais caminhos do que os que a memória me consente. De tanto me despedir secaram me as raízes e tive de gerar outras que, à falta de um lugar geográfico onde se fixarem, o fizeram na memória; mas, cuidado!, a memória é um labirinto onde espreitam minotauros (...). Essas duas perguntas, a do meu neto e a do desconhecido na conferência, deram origem a este livro, que ainda não sei para onde irá; por enquanto divago, como sempre divagam as recordações, mas peço ao leitor que me acompanhe mais um pouco”. A partir daí, Isabel Allende constrói seu relato em três níveis distintos: (1) crônicas do que é ser chileno; (2) cenas e passagens de familiares que foram importantes para a autora (avô materno, avó materna, padrasto, mãe e filhos, por exemplo); e (3) sua descrição autobiográfica. De alguma forma, as duas últimas facetas dialogam intimamente com a primeira e vice-versa. É como se a história chilena, a constituição geográfica deste país e as características socioculturais do Chile definissem a trajetória pessoal e profissional de Isabel, além de formarem grande parte de sua personalidade. Veja um pouco dessa característica no próprio texto do livro: “Um pouco de história - E porque falamos de nostalgia, suplico ao leitor que tenha um pouco de paciência, pois não posso separar o tema Chile da minha própria vida. O meu destino é feito de paixões, surpresas, êxitos e perdas; não é fácil contá-lo em duas ou três frases. Suponho que em todas as vidas humanas há momentos nos quais a sorte muda ou o rumo se desvia e há que partir em outra direção. Na minha isso ocorreu diversas vezes, mas um dos acontecimentos mais definitivos deve ter sido o golpe militar de 1973. Se não fosse este evento, certamente que eu nunca teria emigrado do Chile, não seria escritora e não estaria casada com um americano a viver na Califórnia; tão pouco me acompanharia esta imensa nostalgia e hoje não estaria a escrever estas páginas. E assim me dirijo inevitavelmente ao tema da política. Para entender como ocorreu o golpe militar, devo referir-me brevemente à nossa história política, desde os começos até ao general Augusto Pinochet, que hoje é um avô senil em prisão domiciliar, mas cuja importância não é possível ignorar. Não faltam historiadores que o consideram a figura política mais singular do século, o que não é, necessariamente, um juízo favorável (...)”. “Quando vou de férias tenho de confrontar o Chile real com a imagem sentimental que transportei durante vinte e cinco anos. Dado que vivi no estrangeiro durante um período tão longo tenho a tendência para exagerar as virtudes e para esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço a arrogância e a hipocrisia da classe alta; esqueço quão conservadora e machista é a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja católica. Espantam-me o rancor e a violência alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com que nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor retorcido que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres. Arquitetei a ideia do meu país como um quebra-cabeças, escolhendo aquelas peças que se ajustam ao meu desenho e ignorando as outras. O meu Chile é poético e pobrezinho, por isso rejeito as evidências dessa sociedade moderna e materialista, onde o valor das pessoas se mede pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por todo o lado sinais do meu país de antes. Também criei uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor dito, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só exista no âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber quanto da minha memória são fatos verdadeiros e quanto inventei, porque a tarefa de traçar a linha entre ambos me ultrapassa. A minha neta Andrea escreveu uma composição para a escola na qual disse: “Gostaria de ter a imaginação da minha avó”. Perguntei-lhe ao que se referia e respondeu sem vacilar: “Tu lembras-te de coisas que nunca aconteceram (...)”. “A escrita, ao fim e ao cabo, é uma tentativa de compreender as circunstâncias próprias e clarificar a confusão da existência, inquietudes que não atormentam as pessoas normais, só os inconformistas crônicos, muitos dos quais acabam convertidos em escritores depois de terem fracassado em outros ofícios. Esta teoria tirou-me um peso de cima: não sou um monstro, há outros como eu. Nunca vesti em parte alguma, nem na família, a classe social ou a religião que me tocaram em sorte; não pertenci aos bandos que andavam de bicicleta pela rua; os primos não me incluíam nas suas brincadeiras; era a moça menos popular do colégio e depois fui durante muito tempo a que menos dançava nas festas, mais por ser tímida do que por ser feia, prefiro supor. Fechava-me na capa do orgulho, fingindo que não me importava, mas teria vendido a alma ao Diabo para ser do grupo, se por acaso Satanás se tivesse apresentado com uma proposta tão atrativa. A raiz do meu problema foi sempre a mesma: incapacidade de aceitar o que a outros parece natural e uma tendência irresistível para emitir opiniões que ninguém deseja ouvir, o que afugentou alguns potenciais pretendentes. (Não quero ser convencida, nunca foram muitos.) Mais tarde, durante os meus anos de jornalista, a curiosidade e o atrevimento tiveram algumas vantagens. Pela primeira vez fiz então parte de uma comunidade, tinha carta de alforria para fazer perguntas indiscretas e divulgar as minhas ideias, mas isso acabou bruscamente com o golpe militar de 1973, que desencadeou forças incontroláveis. Da noite para o dia vi-me estrangeira na minha própria terra, até que finalmente tive de partir, porque não podia viver e criar os meus filhos num país onde imperava o medo e onde não havia lugar para dissidentes como eu. Nesse tempo a curiosidade e o atrevimento estavam proibidos por decreto. Fora do Chile esperei durante anos que se reinstalasse a democracia para regressar, mas quando isso aconteceu não o fiz, porque estava casada com um norte-americano, a viver perto de São Francisco. Não voltei a residir no Chile, onde na verdade passei menos de metade da minha vida, embora o visite com frequência; mas para responder à pergunta daquele desconhecido sobre a nostalgia, devo limitar-me quase exclusivamente aos anos que lá vivi”. “Meu País Inventado” é um livro de 238 páginas. Em extensão, ele é o menor das seis obras de Isabel Allende que estamos analisando no Bonas Histórias neste mês. Normalmente, os títulos da chilena têm mais de 400 páginas. A estrutura de “Meu País Inventado” é quase de um texto corrido. Não há qualquer divisão em capítulos. Dessa forma, a sensação que temos é de estar diante de uma conversa ininterrupta com a autora. Levei em torno de cinco horas para concluir esta leitura. Praticamente, li a obra inteira em duas sentadas. Comecei o livro na manhã do feriado de segunda-feira, 12 de outubro, e logo depois do almoço já tinha chegado à sua última página. O primeiro aspecto que chama atenção neste livro é o bom humor (diria ótimo humor!). Allende apresenta seu relato de um jeito sincero, desbocado e alegre. Até mesmo as desgraças e as fatalidades são comentadas comicamente. O tom é, portanto, de tragicomédia. A maneira como Isabel fala de seu país e de seus conterrâneos, além de apontar passagens autobiográficas, demonstra uma grande coragem e ousadia. Ela não tem medo de olhar para o mundo e dizer o que está vendo/interpretando. Essa pegada bem-humorada é o oposto de “Paula”, um texto evidentemente sombrio e com uma carga negativa absurda (afinal, ele foi produzido no instante em que a filha da escritora estava em coma no hospital). Outro ponto essencial de “Meu País Inventado” é o debate, cada vez mais atual e necessário, sobre a questão da imigração. Isabel Allende, queiramos ou não, é uma pessoa que padeceu/padece no exílio. Ela teve de deixar sua terra natal em função de conflitos políticos. E essa ausência prolongada do Chile, curiosamente, não começou em sua vida adulta. Desde criança, ela precisou viver em diferentes lugares - seu pai e, depois, seu padrasto eram diplomatas. Não por acaso, Isabel nasceu no Peru (apesar de ter nacionalidade chilena). E ainda menina, viveu na Bolívia e no Líbano (coisas de um mundo cada vez mais globalizado). Esse tipo de orfandade (que chamo de orfandade nacional) acarreta problemas, inquietações e dores que demoram para serem cicatrizadas. Lembro-me, por exemplo, do drama de Fernando Meligeni, descrito em “Aqui Tem!” (Ediouro) por André Kfouri, que era visto como argentino no Brasil e brasileiro na Argentina. Entender o quão dolorido é para alguém deixar seu país, independentemente da classe social e o êxito profissional futuro, é algo que merece ser analisado adequadamente (algo que a autora se compromete a fazer e faz muito bem). Outro livro que fala deste assunto de forma bem-humorada e de um jeito muito inteligente é "A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea" (Record), romance do francês Romain Puértolas. Assim, Isabel Allende discute, em “Meu País Inventado”, como é viver como uma norte-americana (ela mora em São Francisco, na Califórnia), mas tendo a essência de uma típica chilena (algo que não pode mudar). Os vários choques culturais provocados por esta condição rendem ótimas reflexões. Uma das mais interessantes é o contraponto do 11 de setembro para chilenos e norte-americanos. Enquanto para os sul-americanos a maior tragédia ocorrida nesta data se deu em 1973 (Golpe Militar), para os vizinhos do norte ela se deu em 2001 (atentado terrorista da Al-Qaeda). “Meu País Inventado” é, como já falei, muito mais um retrato histórico, social, político e cultural do Chile do que um livro exclusivamente de memórias. Sua beleza e graça residem justamente desta característica híbrida. Allende, a partir de sua experiência de vida e das vivências dos seus familiares, conta o que caracteriza ser um(a) chileno(a) e o que define este país andino. Para ela, seus conterrâneos são tradicionalmente: reclamões, violentos, preconceituosos, machistas, elitistas, religiosos, ufanistas, generosos, apegados à família, vaidosos, apaixonados, carinhosos, com uma quedinha pela infidelidade conjugal, pudicos, conservadores em público e progressistas no âmbito privado, tímidos, recatados, místicos, orgulhosos, sérios, sóbrios, modestos, simples, adoradores da burocracia e das leis, hospitaleiros, selvagens no trânsito, solenes, com humor negro (daquele politicamente incorreto), admiradores dos ingleses e com alma poeta. Por falar em alma poeta, é nítida a admiração de Isabel Allende por Pablo Neruda, um dos principais escritores latino-americanos de todos os tempos. E essa admiração vai muito além do orgulho pela conquista do Nobel de Literatura. Afinal, Gabriela Mistral também venceu a maior honraria literária, mas nunca despertou metade da paixão que os chilenos têm pelo seu colega. Isabel e seus conterrâneos enxergam nos versos de Neruda algumas características intrínsecas do seu povo: dedicação intensa aos desmandos do coração, admiração pela natureza exuberante do país e visão idílica e poética da vida. O mais legal desta narrativa de Allende é que caminhamos pela história chilena enquanto assistimos às desventuras pessoal e familiar da escritora. As três facetas de “Meu País Inventado” (coletiva, familiar e pessoal) estão embaralhadas na maior parte do tempo. Muitas vezes, um mesmo episódio apresenta intrínsecas relações entre essas três pontas narrativas. E isso é feito de uma maneira serena e verossímil. Não há exageros e ufanismos aqui. O texto do livro de Isabel Allende é coerente e está no tom certo. À título de comparação, essas características não estão presentes, por exemplo, em “Confesso que Vivi” (Difel), o livro de memórias de Pablo Neruda. A sensação ao ler a autobiografia do poeta é de estarmos acompanhando o relato de um Forest Gump sul-americano. Gostei também do posicionamento da autora em relação ao feminismo. Allende apresenta o machismo da sociedade chilena de maneira nua e crua, sem aliviar nem exagerar. Seu feminismo é do tipo inteligente e lúcido. Seu texto é mais parecido ao excelente e instigante “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), de Virginia Woolf, do que os cambaleantes e pueris “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras) e “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras), de Chimamanda Ngozi Adichie. “Meu País Inventado” é um ótimo livro, tanto para quem já leu “Paula” quanto para quem ainda não o leu. Em termos biográficos, contudo, ele é inferior ao primeiro título de memórias da autora. Mesmo com o excelente texto e com a pegada de crônicas, ainda sim esta obra possui dois pontos negativos. Em primeiro lugar, recebemos pouquíssimas novidades autobiográficas. De certa forma, o que Isabel Allende tinha de importante para nos contar sobre seu passado e sobre seu trabalho ficcional, ela o fez em “Paula”. Por isso, a sensação de déjà vu. As únicas notas realmente interessantes, para quem leu as memórias anteriores, são: a apresentação dos nomes verdadeiros dos avós maternos (Agustin e Isabel) e do padrasto da escritora (Ramón Huidobro); a explicação sobre a construção de alguns romances de Allende que não tinham sido produzidos quando “Paula” foi lançado (por exemplo, “O Plano Infinito”); a revelação que o avô materno se casou pela segunda vez (algo que até então fora omitido); e a comoção do público e dos jornalistas para conhecer a residência verídica da família que serviu de ambientação para “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil). O segundo (e, talvez, maior) problema de “Meu País Inventado” está nas generalizações feitas por Isabel Allende sobre o que é ser chileno. Apesar de interessantes e divertidos, esses comentários são baseados única e exclusivamente na experiência pessoal e nas características dos familiares da escritora. A partir daí, ela tece dezenas de comentários sobre seus conterrâneos que, obviamente, não tem muitos fundamentos críveis. Quem pode assegurar efetivamente que a maioria dos chilenos têm amantes? É correto afirmar que toda a população deste país é machista e elitista? E o que dizer, então, que eles adoram tramites burocráticos e são selvagens no trânsito, hein?! É impossível fazer essas afirmações categoricamente. Se por um lado, essas generalizações possuem um caráter bem-humorado e estão devidamente explicadas no livro, por outro lado elas escondem meias-verdades. Fiquei imaginando o que eu diria sobre os brasileiros se os fosse definir a partir de minhas experiências pessoais e do perfil dos meus familiares. Pensando bem, acho melhor nem imaginar algo assim! Por isso, não dá para levar as palavras de Isabel Allende ao pé da letra. Em alguns trechos deste livro, ela se parece com aquela tia chata que fica criticando todos os parentes (no caso, os conterrâneos) e as novas gerações (que fazem tudo errado!). Em outros momentos desta leitura, lembrei-me de “O que os Chineses Não Comem” (Companhia das Letras), coletânea de crônicas em que Xinran desce a lenha em seus compatriotas. Porém, “Meu País Inventado” é infinitamente melhor como narrativa do que a obra da chinesa, apesar de ambas as autoras descambarem para as generalizações indevidas. O Desafio Literário de outubro retornará na próxima quarta-feira, dia 21, com a análise de mais um livro de Isabel Allende. A próxima obra a ser debatida no Bonas Histórias será "Zorro – Começa a Lenda" (Bertrand Brasil). Publicado em 2005, este romance apresenta uma nova perspectiva do trabalho literário da principal escritora chilena da atualidade. Não perca esta nova análise. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: O Jogo de Ripper - O romance policial de Isabel Allende

    Em 2011, Isabel Allende, já na condição de um dos nomes mais populares da literatura contemporânea em língua espanhola, ouviu uma sugestão de Carmen Balcells, sua agente literária há muitos anos: por que você não faz um romance policial?! Vale lembrar que foi Balcells quem incentivou, vinte anos antes, a chilena a continuar escrevendo mesmo com a filha da escritora seriamente doente em um hospital – texto que originou “Paula” (Bertrand Brasil), um dos principais sucessos de Allende. Isabel gostou da ideia de produzir algo diferente, ainda mais uma trama criminal. Especialista em romances históricos com pegada de realismo fantástico, ela já tinha mais de duas dezenas de obras publicadas, mas nenhuma delas era um romance policial. Para motivá-la no desenvolvimento do novo livro, William C. Gordon, o segundo marido de Isabel Allende, se prontificou a integrar aquela empreitada. Para quem não o conhece, Gordon é um escritor norte-americano especialista justamente em romances policiais. Seus títulos mais famosos são “O Mistério dos Vasos Chineses” (Record), “O Rei da Sarjeta” (Record) e “O Anão” (Record). Dessa maneira, o casal começou, em 8 de janeiro de 2012, a criação da nova história a quatro mãos. Quem leu “Paula” e “Meu País Inventado” (Bertrand Brasil), os dois primeiros livros de memórias de Isabel Allende, sabe que autora é muito supersticiosa. Ela sempre começa seus trabalhos literários em 8 de janeiro. Tudo porque foi nesta data em que iniciou o texto de seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), seu maior sucesso até hoje. Bastaram 24 horas para a experiente dupla de escritores perceber que viver junto como marido e mulher é uma coisa, trabalhar em um mesmo livro é outra coisa completamente diferente. Antes que o casamento de 24 anos acabasse em um divórcio ruidoso, Isabel Allende e William C. Gordon resolveram desistir do projeto em conjunto e cada um seguiu escrevendo seu próprio livro, como sempre fizeram. Assim, a partir de 9 de janeiro de 2012, ele se dedicou integralmente a “Os Corredores do Poder” (Record), seu sexto romance, e ela se empenhou em “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil), seu primeiro (e até agora único) romance policial. Publicado em 2014, “O Jogo de Ripper” se tornou um sucesso de vendas em alguns países da Europa e da América Latina. No Uruguai, por exemplo, ele ganhou o Prêmio de Ouro da Câmara do Livro como o título mais vendido do ano em sua categoria. Parte deste êxito comercial pode ser explicada pela combinação bombástica entre uma escritora de renome internacional e um gênero literário extremamente popular. A confluência desses dois elementos resultou em um best-seller. Curiosamente, apesar de ser um dos livros mais vendidos de Isabel Allende na última década, “O Jogo de Ripper” está muito aquém da qualidade das tramas anteriores da chilena. Das seis obras de Allende analisadas no Desafio Literário de outubro, esta foi indiscutivelmente a mais fraquinha (a única que não atendeu às minhas expectativas). Pela perspectiva dos romances policiais noir, “O Jogo de Ripper” possui graves problemas estilísticos e narrativos. Sua história até não é ruim, mas quando comparamos seu texto às publicações clássicas do gênero criminal, como os romances negros de Raymond Chandler, Patricia Highsmith, Rubem Fonseca, Andrew Vachss e Luiz Alfredo Garcia-Roza, fica evidente a falta de traquejo de Isabel Allende com este tipo de trama. É importante dizer que é comum autores renomados de outros gêneros abraçarem, em algum momento de suas carreiras, os romances policiais. Lembro-me que a australiana Colleen McCullough, famosa pelos romances históricos, entre eles o aclamado “Pássaros Feridos” (Bertrand Brasil), criou, já no final da vida, a série policial Carmine Delmonico. Em alguns títulos desta coletânea, ela se saiu bem, como em “Liga, Desliga” (Bertrand Brasil). Em outros, como em “Assassinatos Demais” (Bertrand Brasil), a decepção foi enorme. Até para os grandes escritores acostumados a trilhar os caminhos tortuosos da literatura comercial, não é fácil encontrar as especificidades das narrativas criminais nem agradar aos fãs deste gênero. O enredo de “O Jogo de Ripper” se passa essencialmente em São Francisco entre o segundo semestre de 2011 e o primeiro semestre de 2012. Amanda Jackson Martín é uma adolescente apaixonada por literatura policial. Para dar vazão ao gosto de desvendar mistérios criminais, ela participa do Ripper, um jogo de RPG disputado com amigos pelo Skype. Nesta brincadeira, Amanda tem a companhia de outros quatro adolescentes espalhados pelo planeta (um garoto paraplégico da Nova Zelândia, um rapaz solitário e tímido de Nova Jersey, uma jovem com distúrbios alimentares de Montreal e um órfão afro-americano com Q.I. elevado de Reno) e do seu avô, Blake Jackson. Nos encontros por videoconferência, o grupo investiga crimes fictícios ambientados na Londres do século XIX. Amanda é filha de Bob Martín, o inspetor-chefe da Polícia de São Francisco, e de Indiana Jackson, terapeuta holística. O casal se separou há muitos anos e divide a guarda da garota. O melhor amigo de Amanda é Blake Jackson. O avô materno passa boa parte do tempo com a neta e divide com ela a adoração pelos romances policiais noir e pelas atividades do Ripper. Em setembro de 2011, Celeste Roko, uma famosa astróloga, anuncia uma previsão assustadora: nos próximos meses, São Francisco sofrerá um banho de sangue. Apesar da revelação ter sido feita em um programa de televisão, ninguém parece levar a vidente a sério. Não demora muito e uma série de assassinatos começa a despontar na cidade californiana. Em outubro, Ed Staton, o segurança noturno do colégio Golden Hills, é encontrado sem vida com um tiro na cabeça e um bastão de beisebol enterrado no ânus. Um mês depois, Doris e Michael Constante, um casal membro da Igreja Metodista, aparecem mortos na cama de sua residência. Suas nádegas estão marcadas à fogo com letras e eles foram, antes de executados, dopados com heroína. Em janeiro de 2012, Richard Ashton, um psiquiatra famoso e especialista em psicopatias infantojuvenis, foi morto no estúdio em que trabalhava após ser paralisado por um taser. E em fevereiro, Rachel Rosen, uma juíza de estilo draconiano, foi assassinada em seu apartamento e colocada pendurada no ventilador do teto da sala por uma linha de pesca. Diante de tantos crimes, o grupo de amigos de Amanda resolve largar as investigações fictícias do Ripper e usar seus encontros virtuais para tentar desvendar a(s) identidade(s) do(s) responsável(is) pelos assassinatos reais. Aproveitando-se que é filha de Bob Martín, o inspetor-chefe da Polícia local, a adolescente tem acesso a vários detalhes das investigações realizadas pelas autoridades. Além disso, a garota utiliza seu avô, chamado na brincadeira do Ripper pelo codinome de Kabel, para buscar informações e dados que ela não poderia obter sozinha. Curiosamente, a partir de determinado ponto da trama, os adolescentes começam a realizar mais descobertas do que a própria polícia. Veja um diálogo de Amanda com Bob Martín: – (...) Estamos, com os outros jogadores, amarrando os fios da meada, o que você acha? – Péssimo, Amanda, como já lhe disse. Isso cabe ao Departamento de Homicídios. – Mas seu Departamento de Homicídios não está fazendo nada, papai! Este é um serial killer, me ouça – insistiu a garota, que havia passado a semana de férias de inverno revisando minuciosamente as informações de seus arquivos e comunicando-se diariamente com os jogadores de Ripper. – Quais são as provas que você tem (...)? – Preste atenção nas coincidências: cinco assassinatos, Ed Staton, Michael e Doris Constante, Richard Ashton e Rachel Rosen, todos em São Francisco, em nenhum havia sinais de luta, o autor entrou sem arrombar fechaduras, ou seja, tinha acesso fácil, sabia abrir vários tipos de fechaduras e, provavelmente, conhecia as vítimas, ou pelo menos seus hábitos. Teve tempo de planejar e executar cada homicídio à perfeição. Em cada caso levou a arma do crime, o que demonstra premeditação: uma pistola e um bastão de beisebol, duas seringas de heroína, uma taser ou talvez duas, e linha de pesca. – Como você ficou sabendo da linha de pesca? – Pelo laudo preliminar da autópsia de Rachel Rosen, que Kabel leu. Revisei também o relatório de Ingrid Dunn sobre Ed Staton, o segurança que balearam na escola, está lembrado? – É claro que me lembro – replicou o inspetor. – Você sabe por que não se defendeu e por que recebeu de joelhos o tiro de misericórdia na cabeça? – Não, mas tenho certeza de que você sabe. – Nós do Ripper achamos que o assassino usou a mesma taser com que matou Richard Ashyon; paralisou-o com uma descarga, Staton caiu de joelhos e, antes que tivesse conseguido se recuperar, executou-o com o revólver. – Brilhante, filha – admitiu o inspetor-chefe (ALLENDE: 2014, p.288-289). A série de crimes prossegue para incredulidade das autoridades. E para piorar, a mãe de Amanda, Indiana Jackson, é raptada pelo serial killer, chamado de Lobo pelos adolescentes e pela polícia. A partir daí, os jogadores do Ripper precisarão trabalhar mais rápido e melhor para descobrir a identidade do criminoso e a localização de Indiana. Conseguirão os jovens salvar a mãe da amiga e colocar um ponto final ao mistério que intriga São Francisco?! “O Jogo de Ripper” possui 490 páginas. Este romance está dividido em cinco partes (janeiro, fevereiro, março, abril e epílogo) e não há separação em capítulos – uma estrutura parecida a “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil), a obra de Isabel Allende que analisamos na semana passada no Bonas Histórias. Levei dois dias para concluir “O Jogo de Ripper”. Comecei esta leitura na quinta-feira de manhã e a concluí na sexta-feira à noite. Confesso que passei boa parte dos dois dias mergulhado nas páginas desta publicação. O primeiro grande problema deste romance de Isabel Allende está em seu começo extremamente descritivo. A autora detalha mais o cenário, o contexto narrativo e as personagens do que propriamente a ação do criminoso, a parte mais importante do enredo (afinal, estamos falando de um romance policial, né?!). A sensação é que os dramas românticos e existenciais dos familiares de Amanda e dos amigos deles são muito mais importantes do que a própria trama criminal. Além disso, Allende tem o hábito de fazer longas biografias sempre que insere novas figuras no romance. Em determinado momento, isso se torna cansativo. O leitor quer saber as particularidades dos homicídios praticados e as ações do serial killer, mas em contrapartida recebe uma quantidade absurda de informações das várias pessoas que rodeiam as famílias Jackson e Martín. Para completar, a escritora chilena tem a mania de contar as histórias dos pais e dos avós dos protagonistas (em uma busca incessante pela ancestralidade dos indivíduos retratados). Entendo que Allende está construindo o cenário que será explorado mais adiante. Mesmo assim, esse recurso torna o ritmo da narrativa lento e enfadonho. Juro que fiquei me perguntando durante esta leitura: cadê a parte policial, meu Deus?! Ela até aparece na primeira metade de “O Jogo de Ripper”, mas é de uma maneira muito breve. As ações do romance policial propriamente dito iniciam-se para valer somente na metade final do livro (é aí que a coisa esquenta para valer!). Para isso acontecer, porém, precisamos avançar por quase 300 páginas. É muito tempo até as engrenagens literárias começarem a funcionar. Dessa forma, a sensação é que o livro se arrasta por muitas páginas, algo incompatível com as características deste gênero narrativo. Nota-se que Isabel Allende até tenta construir uma ambientação típica das narrativas noir: bairros violentos, cenários sujos e pobres, figuras com má reputação e predomínio de lugares escuros e sombrios. Entretanto, a escritora não consegue obter muito sucesso neste quesito. É preciso muito esforço por parte do leitor para enxergar esta trama como um thriller noir. Depois do ritmo lento e da falta de ações envolvendo os crimes, o pior problema de “O Jogo de Ripper” está em seus vários erros narrativos. Por exemplo, o primeiro capítulo se chama janeiro. Porém, as ações que ele descreve aconteceram em outubro do ano anterior. A situação só piora quando nos atemos aos detalhes da história e das personagens. É possível encontrar errinhos de continuidade no meio da trama. Ora a protagonista tem um signo do zodíaco, ora ela nasceu em uma data completamente incompatível ao signo informado anteriormente. São equívocos que eu ainda não tinha visto em nenhum livro de Isabel Allende (por isso, eles me assustaram tanto). Talvez o meu grande estranhamento (para não dizer decepção) tenha como causa o fato deste ser um romance policial com uma pegada adolescente (fase da vida que eu deixei há muito tempo!). Não apenas os protagonistas são jovens menores de idade, mas talvez o público-alvo deste livro também seja. Não se trata de preconceito da minha parte com a literatura infantojuvenil, que eu adoro (prova disso é que vira e mexe insiro análises deste tipo de obra no Bonas Histórias). O problema mesmo foi de quebra de expectativa. Esperava um romance adulto e com uma qualidade à altura dos trabalhos anteriores de Isabel Allende. E não foi isso que encontrei aqui. Nesse sentido, “O Jogo de Ripper” lembra um pouco a série Mickey Bolitar de Harlan Coben. Na coletânea do autor norte-americano, que teve “Refúgio” (Arqueiro) como romance inicial, o protagonista era um adolescente que investigava crimes. O público destes livros de Coben era a garotada, que dava os primeiros passos nas leituras das tramas policiais. Por isso, vejo “O Jogo de Ripper” e sua heroína, Amanda Martín, respectivamente, como a versão de Isabel Allende para “Refúgio” e Mickey Bolitar. Nem tudo são elementos negativos neste romance da chilena. Há alguns pontos positivos em “O Jogo de Ripper”. Gostei, por exemplo, da intertextualidade literária, musical e pictórica. As referências literárias são vastas e combinam com as personalidades dos protagonistas: Amanda Martín e Blake Jackson. As citações do universo da literatura contemplam Charles Dickens e “Oliver Twist” (Amarilys Editora), Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Dashiell Hammett e “O Falcão Maltês” (Companhia das Letras), Herman Hesse e “O Lobo da Estepe” (Record), Arthur Conan Doyle e Sherlock Holmes, entre outros. Até William C. Gordon é mencionado. Lembram dele?! Gordon é o marido de Isabel Allende. Ele não entrou na autoria do romance, mas foi devidamente mencionado pela esposa. “O Jogo de Ripper” tem saltos temporais que exigem atenção do leitor – passado e presente se misturam o tempo inteiro desde as primeiras páginas. Esse expediente (narrativas em tempos diferentes relatadas juntas no texto) confere qualidade e sofisticação à trama, além de servir como teaser dramático (suspense). Por exemplo, logo nas primeiras páginas do livro somos informados que Indiana Jackson foi sequestrada pelo serial killer e que sua filha está empenhada, junto com os amigos, a descobrir onde ela está. Outra questão que merece ser elogiada é o ambiente político do romance. A questão macroambiental, algo tão comum na literatura de Isabel Allende, aparece desta vez nas recentes guerras norte-americanas na Ásia: Guerra do Afeganistão e Guerra do Iraque (também chamadas de Guerra ao Terror ou de Guerra ao Terrorismo). Uma das funções do personagem Ryan Miller (e seu lado sombrio como soldado das forças especiais do Exército dos Estados Unidos) é trazer o lado conturbado, violento e insano da política externa norte-americana. "O Jogo de Ripper" é o único livro de Isabel Allende que me decepcionou. Como sou fã dos romances policiais e estudei as engrenagens deste tipo de narrativa (conteúdo que em breve integrará a coluna Teoria Literária), deu para notar a grande quantidade de equívocos desta obra. Talvez um leitor adolescente e menos familiarizado com este gênero literário, não se frustre tanto. Contudo, é inegável que “O Jogo de Ripper” está muito aquém do talento de sua escritora. O Desafio Literário de outubro irá se encerrar na próxima quinta-feira, dia 29. Nesta data, voltarei ao Bonas Histórias para apresentar a análise completa da literatura de Isabel Allende. Além de relatar uma breve biografia da autora e de discutir detalhes dos seus principais livros, vou listar suas principais características estilísticas. Quem gosta do trabalho ficcional de Allende e curte o melhor da literatura contemporânea internacional, não pode perder o próximo post. Até lá, pessoal! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? 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  • Desafio Literário de setembro/2020: Rubem Fonseca

    Depois da folga de um mês, período em que analisamos apenas obras individuais (8 livros de diferentes autores), o Bonas Histórias traz, em setembro, a continuação desta temporada do Desafio Literário. Neste ano, vale a pena lembrar, já estudamos o estilo de quatro escritores: Jack Kerouac (Estados Unidos), em abril, Maria José Dupré (Brasil), em maio, Kenzaburo Oe (Japão), em junho, e Virginia Woolf (Inglaterra), em julho. Nas próximas quatro semanas, vamos mergulhar na ficção de Rubem Fonseca, um dos principais nomes da literatura brasileira na segunda metade do século XX. O quinto autor do Desafio Literário de 2020 faleceu há quase cinco meses, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. Ou seja, as análises dos livros e a investigação do estilo literário de Fonseca não deixam de ser uma homenagem póstuma do Bonas Histórias ao legado artístico deste importante escritor nacional. Rubem Fonseca nasceu na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 1925. Ainda garoto se mudou com a família para o Rio de Janeiro, cidade onde morou até o final da vida. Formado em Direito, Fonseca atuou como contista, novelista, romancista, roteirista e ensaísta. O escritor é conhecido por ser o introdutor no Brasil e o principal representante nacional da Literatura Brutalista (chamada também de Romance Negro ou de Literatura Noir). Neste subgênero do Romance Policial, o autor expõe sem pudor a violência, o sexo e as mazelas morais da sociedade. Vencedor de seis Prêmios Jabuti, o mais relevante da literatura brasileira, Rubem Fonseca conquistou, em 2003, o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa. Assim, entrou definitivamente para a história cultural do país como um dos escritores mais originais que tivemos. Poucos artistas tiveram a coragem de mostrar uma faceta tão sombria de sua terra e de seus conterrâneos. Com Rubem Fonseca, a literatura brasileira encontrou a violência dos grandes centros urbanos e dialogou diretamente com os tipos normalmente marginalizados pela sociedade: prostitutas, bandidos cruéis, assassinos frios, políticos corruptos, empresários desonestos, psicopatas, policiais corrompidos, detetives amorais. Quem nos acompanha regularmente sabe que Rubem Fonseca já foi tema de alguns posts do Bonas Histórias. Em fevereiro de 2017, por exemplo, analisamos sua obra mais famosa, o romance "Agosto" (Companhia das Letras). Em abril de 2018, divulgamos a palestra "A Literatura de Rubem Fonseca", fruto de meus estudos acadêmicos sobre o estilo deste autor. Em fevereiro do ano passado, comentei “O Seminarista” (Companhia das Letras), uma das últimas novelas do escritor mineiro com alma carioca. Agora, neste Desafio Literário, vamos fazer uma investigação mais abrangente da literatura fonsequiana, considerando tanto seus romances quanto suas coletâneas de contos e suas novelas. A proposta é analisar seis de suas obras mais importantes ao longo de setembro e, no final do mês, apresentar uma conclusão sobre as características gerais do estilo da escrita de Rubem Fonseca. O Desafio Literário de setembro começará efetivamente no próximo sábado, dia 5, com a análise da coletânea de contos "Lúcia McCartney" (Agir). Publicado em 1969, "Lúcia McCartney" tornou-se o primeiro best-seller do autor e conquistou o Jabuti de 1970 como a melhor obra de conto/crônica/novela daquele ano. Muitos críticos literários apontam este livro como revolucionário tanto para o gênero das narrativas curtas (contos) quanto para a literatura nacional como um todo. O segundo livro a ser estudado será "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), primeiro romance de Rubem Fonseca. Publicado em 1973, "O Caso Morel" representou o ingresso do autor nas narrativas longas, algo que seria mais explorado por ele nas décadas seguintes. A análise deste livro será feita em 9 de setembro. Ainda nos anos de 1970, Rubem Fonseca lançou "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), possivelmente sua obra mais polêmica. Censurado pela ditadura militar brasileira, o livro acabou chegando às livrarias nacionais apenas no final da década de 1980. Porém, a proibição de sua venda aumentou o interesse do público, que comprou a coletânea de contos no exterior. "Feliz Ano Novo" será analisado no dia 13. Na sequência, será a vez de "A Grande Arte" (Círculo do Livro), o segundo romance de Fonseca. Lançado em 1984, essa obra foi responsável pela conquista do segundo Jabuti do autor mineiro (desta vez na categoria romance). Com o sucesso comercial e de crítica, Fonseca passou a priorizar nas décadas de 1980 e 1990 a produção das narrativas longas (novelas e romances). "A Grande Arte" ganhará um post exclusivo em 17 de setembro. No dia 21, a obra a ser comentada será "O Selvagem da Ópera" (Companhia das Letras). Publicado originalmente em 1994, este romance foi aquele que mais se distanciou do estilo de Rubem Fonseca. É, portanto, interessante conhecer suas especificidades. E, por fim, a sexta e última obra que o Bonas Histórias analisará neste mês é "José" (Nova Fronteira), a novela autobiográfica de Rubem Fonseca. Neste livro, o autor narra sua infância em Minas Gerais na década de 1920 e sua juventude no Rio de Janeiro nos anos 1930 e 1940. O post de "José" será publicado no dia 25. Vale a pena explicar a ausência, nesta lista, do livro "Agosto" (Companhia das Letras). A obra mais famosa de Fonseca não entrou na análise deste Desafio Literário porque ela já foi comentada aqui no blog há mais de três anos. Assim, sua inclusão representaria a repetição de um livro já discutido (algo que não fazemos no Bonas Histórias). Com as leituras e as análises individuais destes seis livros, será possível, no dia 29 de setembro, a entrega de um levantamento completo sobre a literatura de Rubem Fonseca. Assim, estará terminado o Desafio Literário deste mês. Confira, a seguir, o cronograma de posts do blog para as próximas quatro semanas: - 5 de setembro - "Lúcia McCartney" (1969) - Coletânea de contos. - 9 de setembro - "O Caso Morel" (1973) - Romance. - 13 de setembro - "Feliz Ano Novo" (1975) - Coletânea de contos. - 17 de setembro - "A Grande Arte" (1984) - Romance. - 21 de setembro - "O Selvagem da Ópera" (1994) - Romance. - 25 de setembro - "José" (2011) - Novela. - 29 de setembro - Análise Literária de Rubem Fonseca Quem quiser acompanhar as críticas dos livros no blog e, principalmente, fazer as leituras destas obras conosco está desde já convidado(a). Vamos conhecer a fundo um dos escritores mais originais e premiados do Brasil. Boa leitura a todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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  • Análise Literária: Lya Luft

    Hoje, vamos fazer a análise literária de Lya Luft. Depois de quatro meses navegando pelos mares da ficção internacional, estudando apenas nomes estrangeiros (em junho Régine Deforges - França, em julho Haruki Murakami - Japão, em agosto Nora Roberts - Estados Unidos e em setembro Markus Zusak - Austrália), o Desafio Literário retornou sua viagem para as águas (ou seriam páginas?) das obras nacionais. A proposta era investigar um grande nome da nossa literatura. Assim, neste mês de outubro, o Bonas Histórias leu e comentou seis livros de Luft, uma das escritoras brasileiras mais vendidas e aclamadas da atualidade. Os títulos escolhidos para embasar a investigação sobre o trabalho de Lya Luft foram: "As Parceiras" (Record), romance de 1980, "O Rio do Meio" (Mandarim), ensaio de 1996, "Perdas & Ganhos" (Record), coletânea de crônicas de 2003, "Pensar é Transgredir" (Record), livro de crônicas de 2004, "Em Outras Palavras" (Record), outra obra de crônicas de 2006, e "O Tigre nas Sombras" (Record), romance de 2012. A partir dessas seis análises individuais (já disponíveis no blog), vamos compor, agora, o panorama geral da carreira e do portfólio artístico desta importante escritora brasileira. Lya Fett (nome de batismo da autora) nasceu em Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, em 1938. Sua família é de origem germânica e seu pai foi advogado e juiz. Após a infância passada no Vale do Rio Pardo, Lya se mudou para Porto Alegre aos 21 anos. Na capital gaúcha se formou em Pedagogia e em Letras Anglo-Germânicas. Com os diplomas em mãos, começou a trabalhar como tradutora. Sua especialidade eram as traduções de obras literárias escritas em inglês e em alemão. Desses trabalhos, destacam-se as traduções para o português de Virginia Woolf, Hermann Hesse, Doris Lessing e Rainaer Maria Rilke. Aos 26 anos, Lya se casou com Celso Pedro Luft, gramático e linguista dezenove anos mais velho do que ela. Foi neste momento que a escritora ganhou o sobrenome pelo qual ficaria famosa mais tarde. O casal teve três filhos na década de 1960. A partir de 1970, Lya Fett Luft passou a trabalhar como professora universitária, dando aulas de Linguística. Nesta década, concluiu os mestrados em Linguística Aplicada e em Literatura Brasileira. Em 1985, Lya Luft deixou o Rio Grande do Sul e foi morar no Rio de Janeiro. Ela se separou de Celso Luft e passou a viver com Hélio Pellegrino, escritor e poeta mineiro radicado na capital fluminense. Contudo, em 1988, Pellegrino acabou falecendo vítima de problemas cardíacos. Viúva, Lya Luft voltou a viver com Celso Luft, em 1994. Contudo, um ano depois da união do antigo casal, o gramático também morreu, deixando a escritora duplamente viúva. Após o sucesso de "Perdas & Ganhos", seu maior best-seller, Lya Luft se tornou colunista mensal da revista Veja, o principal periódico semanal do país. Hoje, aposentada do ofício de professora universitária, a gaúcha se divide entre a produção de suas colunas para a revista do Grupo Abril e o desenvolvimento de seus novos livros. Os trabalhos de tradução são agora feitos pontualmente. Curiosamente, a carreira de escritora profissional de Lya Luft começou um tanto tarde. Somente aos quarenta e dois anos de idade, ela publicou seu primeiro romance, "As Parceiras", por uma grande editora. Até então, Lya só havia lançado livros de poesias e de contos de maneira quase informal, em pequenas tiragens. "Canções de Limiar", conjunto de poemas de 1964, foi premiado em um concurso organizado pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Em 1972 e em 1978, foram editados, respectivamente, "Flauta Doce" (poesias) e "Matérias do Cotidiano" (contos). Essas três primeiras obras fazem parte do que podemos chamar de "Fase Amadora" da escritora. Afinal, Lya Luft, nesta época (de 1964 a 1979), se dedicava muito mais às traduções do que à sua própria literatura. A trajetória de Lya mudou radicalmente entre o final da década de 1970 e o início dos anos de 1980. Quem teve a ideia de transformar a poeta, contista e tradutora gaúcha em romancista foi seu editor, Pedro Paulo Sena Madureira. Após conhecer os contos de Luft, Sena Madureira sugeriu que a escritora parasse de escrever contos e concentrasse seus esforços na produção de romances. Do ponto de vista do editor, as narrativas curtas de Lya eram na verdade embriões de bons romances. Assimilando esse feedback, Lya Luft passou a desenvolver narrativas maiores. O resultado concreto dessa mudança estratégica apareceu com "As Parceiras", em 1980. O próprio Pedro Paulo Sena Madureira foi quem publicou a obra pela sua editora. Com o lançamento de "As Parceiras", inicia-se a fase de escritora profissional de Lya. Seu romance de estreia foi lançado nacionalmente e recebeu avaliações muito positivas da imprensa e da crítica literária. Apesar de novata na função, Luft mostrava maturidade artística de uma escritora experiente. A obra possui um texto marcante e uma trama densa e tensa. "As Parceiras" é o mergulho na alma feminina e nas angústias da mulher madura. O livro questiona valores sociais, familiares e de gênero, expondo as preocupações femininas com o machismo da sociedade e os receios com a proximidade da morte. A produção de "As Parceiras" está diretamente relacionada ao grave acidente automobilístico que Lya Luft sofreu em 1979. O episódio quase matou a escritora. Estar a poucos passos da morte transformou a vida da gaúcha. Ela passou a fazer tudo o que evitava e começou a questionar aspectos banais do cotidiano. Essas mudanças ajudaram-na a se lançar aos romances e a criar uma temática própria para seus livros (debate constante entre amadurecimento, envelhecimento e morte). Além de "As Parceiras", "A Asa Esquerda do Anjo", segundo romance da escritora lançado em 1981, também é fortemente influenciado pelo acidente automobilístico. Com o sucesso de "As Parceiras", estavam abertas as portas do mercado editorial para a promissora e novata escritora vinda de Santa Cruz do Sul. Depois de "A Asa Esquerda do Anjo", mais cinco trabalhos de Lya Luft foram publicados na década de 1980: "Reunião de Família", romance de 1982, "O Quarto Fechado", romance de 1984, "Mulher no Palco", livro de poesias de 1984, "O Exílio", romance de 1987 e "O Lado Fatal", obra poética de 1989. Na década de 1990, foram lançados mais quatro títulos: "A Sentinela", romance de 1994, "O Rio do Meio", ensaio literário de 1996, "Secreta Mirada", romance de 1997, e "O Ponto Cego", romance de 1999. Nota-se que de 1980 a 1999, a escritora se dedicou essencialmente às narrativas ficcionais longas (seguindo, portanto, o conselho de Sena Madureira). Poesia, contos e ensaios, quando lançados, representavam trabalhos pontuais da gaúcha. Por isso, esse período de 1980 a 1999 pode ser classificado como sendo a "Fase de Romancista" de Lya Luft. Para conhecer melhor este período criativo de Lya, é interessante ler "O Rio do Meio". Vencedor do prêmio de melhor livro de 1996, dado pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), a obra discute por meio de sete ensaios a ficção produzida pela escritora até então. Depois de lançar seis romances (além de quatro obras poéticas e uma coletânea de contos), Luft sentiu a necessidade de discutir com seus leitores as características de sua literatura e debater alguns temas sensíveis às suas obras. Em uma prosa que mistura ficção e realidade, a gaúcha expõe nas páginas de "Rio do Meio" o conteúdo no qual ela se propõe a falar em seus livros. Para responder a dúvida "Escrevo sobre o quê?", Lya Luft apresenta um conjunto de ensaios informais sobre a vida e a morte. Estão ali os conflitos de relacionamento entre marido e mulher, os desafios de envelhecer em uma sociedade fissurada pela juventude, os estilos antagônicos de homens e mulheres em encarar a realidade, os erros na construção das famílias e no gerenciamento do lar, as dificuldades na criação dos filhos e o medo natural da morte, entre tantos outros temas inerentes ao cotidiano moderno. Ler "Rio do Meio" é fazer um Raio-X da literatura de sua autora. Na época do lançamento dessa obra, Lya Luft não sabia que escrever textos não ficcionais iria transformá-la em uma das principais autoras contemporâneas do Brasil. Apesar do sucesso de "Rio do Meio", a consagração maior (ou seria definitiva?) viria sete anos mais tarde com a edição de um pequeno livro de crônicas. "Perdas & Ganhos", publicado em 2003, é até hoje o maior sucesso editorial da gaúcha. O best-seller segue a linha do debate direto, sincero e informal sobre temas sensíveis ao cotidiano das pessoas maduras. Estava criado um estilo literário único na literatura nacional. "Perdas & Ganhos" é um livro libertador e esclarecedor para as mulheres. Ao percorrer as páginas da coletânea de crônicas, as leitoras podem entender, enfim, a origem dos seus dramas mais íntimos. Também podem identificar o que acontece/aconteceu em suas vidas em cada fase de sua existência. Para os homens de todas as idades, a publicação é profundamente didática. Afinal, eles podem compreender de uma vez por todas o que se passa na alma de suas companheiras. Com esse conhecimento, será difícil culpá-las quando as coisas não derem certo na família ou no matrimônio (muitas vezes, são elas as maiores vítimas e não as principais vilãs das crises conjugais). Se Lya Luft já era uma romancista reconhecida no cenário nacional antes de "Perdas & Ganhos", depois do lançamento desta coletânea de contos seu status como escritora elevou-se ainda mais. Ela passou a ser uma autora best-seller, com o poder de arrastar multidões por onde fosse ou passasse. As vendas desta obra atingiram a marca de sete dígitos (algo fenomenal em se tratando do mercado editorial do nosso país). A publicação permaneceu por mais de dois anos na lista dos mais vendidos do Brasil e foi traduzida para vários idiomas. Se pensarmos bem, trata-se de um feito notável para um livro de crônicas, gênero historicamente pouco procurado nas livrarias brasileiras. Reconhecida nacionalmente pelos leitores, Lya Luft é, hoje em dia, uma das vozes mais influentes tanto na literatura em língua portuguesa quanto em nossa sociedade. Com "Perdas & Ganhos", Lya Luft atingiu o auge na nova fase de sua carreira. Os romances deixam de ser o foco de seu trabalho a partir dos lançamentos de "Histórias do Tempo", coletânea de ensaios de 2000, e de "Mar de Dentro", conjunto de crônicas sobre a infância da autora, lançado em 2002. Essas duas obras precederam "Perdas & Ganhos" e inauguraram a "Fase Cronista" de Luft (período que vai de 2000 até os dias de hoje). A partir daí, a escritora passou a concentrar-se na produção de coletâneas de textos não ficcionais. Apesar de a autora continuar publicando esporadicamente outros gêneros narrativos (poesias, romances e histórias infantis), as crônicas passaram a prevalecer em quantidade de títulos publicados e em unidades vendidas nas livrarias. Depois de "Perdas & Ganhos", Lya Luft publicou mais treze livros: "História de Bruxa Boa", livro infantil de 2004, "Pensar é Transgredir", crônicas de 2004, "Para Não Dizer Adeus", coletânea de poesias de 2005, "Em Outras Palavras", crônicas de 2006, "A Volta da Bruxa Boa", obra infantil de 2007, "O Silêncio dos Amantes", reunião de crônicas de 2008, "Criança Pensa", crônicas sobre a infância, de 2009, "Múltipla Escolha", crônicas de 2010, "A Riqueza do Mundo", crônicas de 2011, "O Tigre Na Sombra", romance de 2012, "O Tempo é um Rio que Corre", ensaios de 2013, "Paisagem Brasileira", ensaios literários e políticos de 2015, e "A Casa Inventada", ensaio recém-publicado. Note, portanto, a quantidade de material não ficcional editado nesse período. "Perdas & Ganhos" é realmente um livro espetacular. Sem sombra de dúvida, é a melhor obra da escritora. Em suas páginas, Lya Luft expõe todo o seu talento ao falar sobre temas femininos, de assuntos familiares, de crises de relacionamentos e dos desafios da fase madura da vida. Contudo, este livro é uma exceção entre os títulos não ficcionais da autora publicados após o ano de 2000. As demais coletâneas de crônicas de Luft têm um conteúdo muito, muito, mas muito fraco. Em 2004, Lya Luft lançou "Pensar é Transgredir", seu primeiro livro de crônicas após "Perdas & Ganhos". A sensação é que a obra foi produzida muito rapidamente para atender ao público ávido por mais textos não ficcionais da escritora. Assim, a editora e a autora acabaram reféns do seu próprio sucesso, agindo com oportunismo comercial. Apesar dos ótimos resultados alcançados nas livrarias do país (mais em reflexo da qualidade do livro do ano anterior do que por méritos deste novo título), "Pensar é Transgredir" possui um conteúdo muito pobre. Muitas das crônicas desse livro são repetitivas: a maioria das suas histórias e dos seus exemplos já foi usada em obras precedentes da autora. E, para piorar, os temas tratados por Luft nessas páginas não trazem qualquer novidade aos leitores. Afinal de contas, quem hoje em dia se incomoda com a condenação da camisinha e do homossexualismo pela Igreja Católica? O quão válido é falar do preconceito aos descendentes alemães (loiros de olhos azuis) em um país onde a discriminação aos negros, por exemplo, é muito maior? E qual a tragédia se um amigo muito idoso não quer se inserir no mundo computacional?! A impressão é estar lendo uma coletânea de clichês pouco relevantes para os leitores contemporâneos. Assim, o resultado de "Pensar é Transgredir" é muito decepcionante! Até agora, este foi um dos piores livros lidos por mim neste ano (se não tiver sido o pior). "Em Outras Palavras", publicado três anos após "Pensar é Transgredir", cai no mesmo erro do antecessor. Os textos extraídos da coluna "Ponto de Vista", produzidos pela autora para a revista Veja, constituem a base das crônicas de "Em Outras Palavras". O problema é que as colunas de Luft na revista semanal são terrivelmente chatas, repetitivas e rasas. No livro, esse efeito se torna ainda mais nítido (afinal, lemos o material de uma só vez, algo que não acontece na revista). Quando Lya Luft aborda temas sensíveis às suas obras (construção de famílias saudáveis, desafios das relações conjugais, complexidade da alma feminina, beleza da infância, machismo, abuso moral e sexual e envelhecimento), ela vai muito bem, pecando apenas por ser extremamente repetitiva. Você já sabe o que ela irá dizer frase a frase. São de um tédio absurdo essas crônicas. Se você já tiver lido "Perdas & Ganhos" saberá todas as opiniões da escritora sobre esses assuntos. Quando Lya Luft tenta variar o repertório temático, ela cai em assuntos genéricos demais (violência da sociedade, corrupção endêmica no país, impunidade, consumo de drogas, tráfico de entorpecentes, injustiças sociais, conflito de classes, política, consumismo, pedofilia, crítica cinematográfica, etc.). Aí, o problema é a pouca relevância do texto apresentado ou a falta de novidades das reflexões propostas pela autora. Muitas vezes, ao ler as crônicas de Luft tenho a impressão de estar diante de uma vovozinha que tenta passar lições de moral para seus netinhos. A própria sazonalidade típica das crônicas atrapalha a relação entre autor, leitores e texto. Afinal de contas, qual o interesse por saber sobre o encalhe de uma baleia nas praias cariocas ou o frenesi pela votação da lei do desarmamento, eventos ocorridos há muitos anos?! Tanto "Pensar é Transgredir" quanto "Em Outras Palavras" (e todos os demais livros de crônicas da autora, exceto "Perdas & Ganhos") padecem desse mal. O tédio causado pelas obras não ficcionais de Lya Luft da "Fase de Cronista" não é encontrado nos romances da gaúcha. Isso fica evidente em "O Tigre na Sombra", última obra ficcional da autora. Lançado em 2012, o livro significou um retorno em grande estilo aos romances, depois de 13 anos sem publicações neste gênero. O romance anterior de Luft tinha sido "O Ponto Cego", no longínquo ano de 1999. Naquele momento, Luft ainda vivia sua "Fase de Romancista". "O Tigre na Sombra" mantém as principais características temáticas e estilísticas da ficção de Lya Luft. O livro apresenta os dramas femininos, os conflitos conjugais, as intrigas familiares, a inocência da infância, a magia do sobrenatural, a imaginação fértil das crianças e os desafios típicos do envelhecimento. A autora embala esses elementos em uma trama psicológica profunda e intensa. Mistura-se o tempo inteiro poesia e prosa de maneira maravilhosa. Não tem como o leitor não ficar admirado com o resultado final desta obra. "O Tigre na Sombra" é uma história muitíssimo comovente e interessante, possuindo ótimas personagens femininas (um dos dons literários de Luft). Concluída a análise das obras de Lya Luft, vamos agora fazer um apanhado geral do perfil estilístico da autora. A seguir, são apresentadas dez características de sua literatura: 1) Lya Luft navega com tranquilidade em muitos gêneros literários. Ela escreve poesia, conto, crônica, ensaio, romance e (ufa!) história infantil. É muito legal ver uma escritora tão polivalente. Repare que ao longo de sua carreira, Luft jamais foi uma artista monogênero. Apesar de focar em algumas produções específicas (primeiro na poesia, depois nos romances e mais tarde nas crônicas), ela jamais abandonou os outros tipos textuais. 2) A literatura da autora possui três fases distintas. Nas décadas de 1960 e 1970, temos o período em que Lya Luft escrevia de maneira informal. Neste momento da história, seus livros foram publicados em pequenas tiragens e não ganharam as livrarias do país. Por isso, chamamos esse estágio de "Fase Amadora". Também poderíamos chamá-la de "Fase Poetisa", pois a maioria das obras da escritora eram coletâneas de poemas. A partir de 1980, há uma mudança radical na produção da autora. Lya Luft passa a priorizar a publicação de romances. É a sua "Fase Romancista". É aqui que temos as melhores obras de Luft. A "Fase Romancista" vai até 1999. A partir de 2000, Luft passa a focar seu trabalho nos livros de crônicas. Temos, portanto, a "Fase Cronista". Esse é o período de maior sucesso da escritora. "Perdas & Ganhos", seu terceiro livro dessa fase, se torna uma das obras mais vendidas do país nos últimos anos. Lya se torna uma autora best-seller. Podemos dizer que a escritora gaúcha permanece até hoje na "Fase Cronista". 3) Quando produz crônicas, os melhores textos de Luft abordam: desvalorização da infância, as principais falhas na criação de filhos e netos, o comportamento recorrente das mulheres que se anulam visando a felicidade de filhos e maridos, a violência das sociedades machistas, os temores mais íntimos de mulheres e homens, os dramas dos relacionamentos amorosos, as dificuldades mais comuns do convívio familiar, a angústia de envelhecer em uma sociedade que cultua a juventude, a busca pela felicidade na fase madura da vida, os desafios da velhice e as maneiras de lidar com a morte e as perdas naturais da existência humana. 4) "Perdas & Ganhos" é a melhor publicação da autora. Contudo, os livros de crônicas não fazem parte da melhor faceta da literatura de Lya Luft. O que torna suas coletâneas não ficcionais péssimas (exceção feita a "Perdas & Ganhos") é o fato de Luft ser uma brilhante pensadora do universo feminino, mas uma fraca analista da realidade contemporânea. Quando ela embarca nos dramas, nas angústias, nos desafios e na complexidade da alma das mulheres, Luft é brilhante (apesar de muitíssimo repetitiva - Se você ler "Perdas & Ganhos", não precisará ler mais nenhuma obra de crônica da autora). Não conheço ninguém mais capacitada e talentosa do que a gaúcha para tratar desse assunto, seja na ficção ou na não ficção. Porém, quando ela resolve debater, por exemplo, os problemas da violência urbana, a corrupção dos políticos no país, a crise moral da sociedade e o comportamento juvenil, temos uma escritora rasa e com um olhar pouco apurado. Esse é o principal problema dessas crônicas. Lya Luft não é original nem brilhante quando escreve sobre temas genéricos. 5) Por outro lado, os romances de Luft são excelentes (Sena Madureira tinha toda a razão!). Se eles não tiveram resultados comerciais tão satisfatórios quanto às obras de crônicas, ao menos suas qualidades narrativas são de altíssimo nível. É difícil encontrar um romance ruim da autora. O que Lya faz de melhor na literatura está concentrado nas suas narrativas longas. 6) A ficção de Lya Luft enfoca a vida caótica de suas personagens femininas. As protagonistas dos romances da escritora são sempre mulheres desesperadas, loucas, sufocadas, injustiçadas e anuladas. Ao lado dessas figuras melancólicas, temos homens bárbaros, rudes, violentos, confusos, passivos e/ou insensíveis. Não à toa, os papéis de vilões das tramas cabem a eles. 7) Os enredos dos romances de Lya Luft giram frequentemente em torno dos dramas familiares de suas protagonistas. Temos, aí, histórias intensas e com grande grau de profundidade psicológica. A realidade é ácida e corrosiva. Na retrospectiva da vida das personagens femininas, a infância é normalmente descrita como a fase mais pura, lúdica e feliz da existência. Por sua vez, a juventude e a maturidade são estágios de anulação profissional e de casamentos infelizes. E a velhice é a etapa do medo, das revelações do passado e da solidão. A impressão que temos é que uma vez adulta, a mulher está fadada a infelicidade eterna. 8) As temáticas dos romances de Luft abordam quase sempre o papel da mulher e do homem na sociedade ao longo das últimas gerações, o processo de envelhecimento/amadurecimento, os relacionamentos familiares, os desafios do casamento, as aspirações e sonhos femininos, o receio da morte, a constituição das famílias e as diferentes maneiras de se criar os filhos. 9) Os textos de Luft não promovem diretamente o feminismo. Eles também não parecem possuir grandes pretensões ideológicas. O que eles (e aqui está a principal qualidade da autora) fazem é debater aspectos comuns da vida das mulheres de maneira sincera em histórias ficcionais que muito bem poderiam ser verídicas. Todas as angústias e frustrações femininas são concentradas nas personagens de Luft. Enquanto muitas leitoras podem se identificar com os dramas descritos nas páginas dos romances da autora gaúcha, os leitores masculinos conseguem entender o que, afinal, se passa na mente da mulherada (algo sempre complicado para nós, homens). Curiosamente, os livros da autora são normalmente curtos. Ou seja, suas narrativas são condensadas para aumentar a dramaticidade da trama. 10) A linguagem de Lya Luft é simples e bonita. Sua prosa possui muitos elementos poéticos. A autora consegue extrair beleza onde a vida se mostra mais triste e árida. Os desfechos muitas vezes abertos dos romances convidam os leitores para participarem da construção narrativa. E a inserção de passagens sobrenaturais confere certo tom de magia às histórias. A misturar realidade com fantasia, prosa com poesia e mistério com cenas banais do cotidiano, Luft apresenta textos belíssimos e com uma identidade literária bem peculiar. Assim, terminamos o Desafio Literário de Lya Luft. No próximo mês, vamos analisar a literatura de Ondjaki, um dos principais escritores angolanos da nova geração. Não perca a sequência da investigação do Blog Bonas História sobre os grandes escritores nacionais e internacionais de hoje e de ontem. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Markus Zusak

    O Desafio Literário concluiu a análise do seu quinto autor em 2017. Durante esse mês, as atenções estiveram concentradas na literatura de Markus Zusak, o mais famoso escritor australiano de sua geração. Autor best-seller no mundo inteiro, Zusak ficou conhecido internacionalmente a partir de 2005 com o lançamento de "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca), seu grande sucesso até aqui. "A Menina que Roubava Livros" é uma das obras mais comercializadas no século XXI, tendo figurado por dez anos consecutivos na lista dos livros mais vendidos do New York Times. Além do sucesso comercial nas livrarias, essa história também foi adaptada para o cinema, virando filme em 2013. A produção hollywoodiana teve uma das maiores bilheteria no biênio 2013-2014, ultrapassando as cifras de US$ 75 milhões de arrecadação. Assim, com o megassucesso de "A Menina que Roubava Livros", Markus Zusak se transformou automaticamente em um dos principais autores contemporâneos. Para identificar o estilo artístico desse jovem escritor australiano foi necessária a leitura de todos os livros publicados por Zusak. Suas cinco obras investigadas no Desafio Literário de setembro foram: "O Azarão" (Bertrand), lançado em 1999, "Bom de Briga" (Bertrand), publicado em 2000, "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), publicação de 2001 e "Eu Sou o Mensageiro" (Intrínseca), lançado em 2002, além da já citada "A Menina que Roubava Livros", de 2005. Com a análise crítica dessa coletânea já concluída (e divulgada aqui no Blog Bonas Histórias ao longo das últimas quatro semanas), podemos partir para a segunda tarefa do Desafio: entender quais são as características da literatura de Markus Zusak que o transformaram em um dos principais autores da atualidade. Nascido em Sidney, em 1975, Markus Frank Zusak é filho de europeus. O pai austríaco e a mãe alemã se mudaram para a Oceania na década de 1950. O casal fugiu dos horrores de uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial. No novo continente, o casal teve quatro filhos. Markus é o caçula dos Zusak. O escritor estudou História e Inglês na faculdade e se formou em Artes e Educação. Seu principal emprego antes da fama era o de professor do ensino básico. Contudo, sua paixão pela literatura o levou a ficção bem cedo. Antes de completar dezoito anos, Markus Zusak já desenvolvia suas próprias histórias, almejando publicá-las. Sem pressa, seu processo de construção das tramas sempre foi lento e muito meticuloso. Ele pode ficar anos ou décadas trabalhando em uma mesma narrativa. "O Azarão", seu primeiro livro e com apenas 176 páginas, demorou sete anos até ficar totalmente pronto e ser, enfim, lançado nas livrarias. Atualmente, Markus é casado e tem uma filha. Ele continua morando em Sidney, na Austrália, onde permanece trabalhando como professor em meio período e como escritor na outra parte do tempo. Nesse momento, Zusak está na fase final de preparação do seu sexto romance, "A Ponte de Clay". Há quase dez anos, o autor trabalha com afinco nesse seu novo livro. A expectativa do mercado editorial para este lançamento é gigantesca. Os editores do mundo inteiro acreditam que essa publicação possa se transformar em um novo best-seller internacional. Os três primeiros livros publicados por Markus Zusak, "O Azarão", "Bom de Briga" e "A Garota que Eu Quero", integram uma mesma história. Com fortes elementos autobiográficos, a trilogia apresenta os dramas de Cameron Wolfe, um adolescente que vive um turbulento processo de amadurecimento. No primeiro livro, o narrador-protagonista tem quinze anos. Já na terceira e última obra, ele já está com dezesseis. Caçula de uma família pobre de quatro filhos, Cameron Wolfe enfrenta a desconfiança geral da família por seus comportamentos arruaceiros, sua postura introspectiva e sua inabilidade com as meninas. Os três romances protagonizados por Cameron são curtos ("O Azarão" tem 176 páginas, "Bom de Briga" possui 208 e "A Garota que Eu Quero" tem 176 páginas) e muito agradáveis. É possível ler o trio em um único final de semana. Como eles abordam uma única trama, é interessante lê-los em sequência, respeitando obviamente a sua ordem natural (Primeiro "O Azarão", depois "Bom de Briga" e, por fim, "A Garota que Eu Quero"). Até dá para ler os livros da trilogia de maneira independente, porém, nesse caso, há a perda de alguns aspectos narrativos (Por isso, desconsidere essa opção, por favor!). Quando o "O Azarão" foi publicado, em 1999, Markus Zusak tinha vinte e quatro anos de idade. O romance retrata, de maneira ficcional, um pouco da infância do autor passada no subúrbio de Sidney. Vindo de uma família pobre, Markus descreve a dureza financeira dos pais, as brincadeiras com o irmão mais velho, as partidas de futebol com os amigos, as lutas de boxes travadas no quintal de casa, as descobertas amorosas e, principalmente, as travessuras juvenis. É um livro sobre a infância e a entrada de um garoto na adolescência. A receptividade da crítica australiana foi muito positiva. Logo de cara, Markus Zusak conquistou o Prêmio CBCA Children's Book, um dos mais importantes da literatura infanto-juvenil em seu país. O sucesso no cenário nacional o fez prosseguir com a história da família Wolfe, transformando o pequeno romance na primeira parte de uma trilogia. "Bom de Briga" foi lançado no ano seguinte e retoma a história de Cameron e da família Wolfe exatamente onde ela parou em "O Azarão". Apesar de ser um prolongamento natural do livro anterior, "Bom de Briga" é ainda melhor do que seu antecessor. As aventuras de Cameron e de seu irmão Ruben tornam-se agora mais perigosas, emocionantes e comoventes. A nova história tem mais densidade e possui muito mais ação. As personagens são postas à prova em todos os momentos. Elas precisarão lutar contra o destino difícil que as espreita. A impressão que tive é que a primeira obra serviu de preparação para a segunda. O novo livro deixa de lado o romantismo para concentrar sua força narrativa nos dramas das personagens principais. Assim como já havia acontecido com "O Azarão" no ano anterior, "Bom de Briga" conquistou, em 2001, o Prêmio CBCA Children's Book. Apesar de não apresentar uma história nova, Markus Zusak mostrava à crítica uma capacidade ainda maior de emocionar o público. Estava provado que sua estreia exitosa não fora sorte de principiante. O australiano era sim um bom escritor. "A Garota que Eu Quero", o terceiro livro, foi publicado em 2001. Ele apresenta o desfecho da saga da família Wolfe. O enredo dessa obra não começa exatamente onde a história de "Bom de Briga" parou. O intervalo narrativo entre uma trama e outra é de um ano. Neste período, a vida na casa dos Wolfe sofreu profundas transformações. A única coisa que não mudou foi a situação calamitosa de Cameron. Ele continua sendo um problema tanto para ele quanto para seus parentes. O rapaz é a ovelha negra da família. Esse romance também é muito bom! É provável que a série pudesse ter sido publicada inteira em um único livro. Assim, teríamos um grande (e excelente) romance ao invés de três pequenas (e boas) obras. Porém, Markus Zusak e sua editora não acreditaram, na época do lançamento, que essa opção seria a melhor do ponto de vista mercadológico. Além disso, o jeito meticuloso do autor para produzir suas narrativas acabaria atrasando ainda mais a publicação de um livro maior e com a história toda consolidada. Assim, a trama inteira dos Wolfe ganhou três livros que chegaram aos poucos às livrarias australianas. Assim como havia ocorrido com suas antecessoras, "A Garota que Eu Quero" também conquistou, em 2003, o Prêmio CBCA Children's Book, concedido a melhor obra de literatura infanto-juvenil da Austrália. Neste momento da carreira, Markus Zusak era reconhecido em seu país natal como um exímio autor de literatura infanto-juvenil. Ele só iria se tornar um escritor com maior apelo literário (leia-se: escritor de romances adultos) com a publicação da obra seguinte, "Eu Sou o Mensageiro", em 2002. "Eu Sou o Mensageiro" é um thriller inusitado. O livro possui um enredo despretensioso, mas consegue trabalhar muito bem vários elementos poético-filosóficos em uma trama de mistério e com boa dose de ação. O resultado final é espetacular! Nota-se um autor mais maduro na arte de produzir narrativas e totalmente à vontade no processo da escrita ficcional. Além disso, o novo livro marcou a estreia do australiano na literatura adulta, deixando pela primeira vez a literatura infanto-juvenil de lado. Narrado em primeira pessoa por Ed Kennedy, um motorista de táxi de dezenove anos um tanto desajustado, essa história apresenta de maneira original as dificuldades de um jovem para encontrar seu espaço na sociedade. O rapaz é forçado a realizar ações altruístas em sua comunidade. Sem entender os motivos para aquilo, ele passa a ajudar pessoas desconhecidas. Curiosamente, ao mesmo tempo em que transforma as vidas dos outros, a vida de Ed também sofre grandes transformações nesse processo. "Eu Sou o Mensageiro" possui 320 páginas e conquistou alguns importantes prêmios na Austrália. O principal deles foi o Prêmio do Livro do Ano da CBC em 2003. O sucesso da obra catapultou a carreira de Markus Zusak em seu país natal. No exterior, contudo, o romance demorou um pouco mais para emplacar. O livro só foi publicado após o sucesso estrondoso, em 2005, do quinto romance de Markus Zusak. Quando "A Menina que Roubava Livros" se tornou um best-seller nos quatro cantos do mundo, a literatura do australiano passou a ser requisitada por editores e leitores de muitos países. Assim, a partir de 2006, "Eu Sou o Mensageiro" foi publicado no exterior. Todos queriam ler mais obras do autor que escrevera "A Menina que Roubava Livros". Como o romance anterior de Zusak era o mais encorpado e o com uma temática mais adulta, sua escolha pelas editoras internacionais pareceu mais óbvia. Por esse atraso em âmbito global, os prêmios internacionais do quarto livro de Zusak só vieram após 2006. O mais relevante deles foi o Printz Honor. O divisor de águas na carreira de Markus Zusak, como parece evidente, aconteceu em 2005 com o lançamento de seu quinto romance. "A Menina que Roubava Livros" transformou-se em um best-seller mundial e tornou conhecido o nome do seu autor nos quatro cantos do planeta. Assim, Zusak deixou de ser um jovem e talentoso romancista da Austrália para virar da noite para o dia em um dos mais originais e requisitados ficcionistas da sua geração. Além de ficar vários anos nas listas dos romances mais vendidos dos Estados Unidos e da Europa, "A Menina que Roubava Livros" também conquistou uma sequência incrível de prêmios literários. Os mais importantes foram o Commonwealth Writer's Prize de melhor livro do Pacífico Sul e do Sudeste Asiático, em 2006, o Daniel Elliot Peace, em 2006, e o Michel L Printz Honor, em 2007. Em 2013, a história de "A Menina que Roubava Livros" foi adaptada para o cinema. O filme foi dirigido por Brian Percival e foi estrelado por Geoffrey Rush, Emily Watson e Sophie Nélisse. Esse romance é narrado em primeira pessoa por uma personagem bem peculiar: a Morte. Essa senhora malvista pela sociedade faz um relato sincero e direto da trajetória de Liesel Meminger, uma menina que a surpreendeu. Liesel se encontrou com a narradora em três momentos distintos durante as décadas de 1930 e 1940. A garota conseguiu escapar em todas as oportunidades da Morte. Nesses encontros, Liesel chamou a atenção da senhora de manto negro por sua coragem e audácia. De tão impressionada que ficou com a garota, a mórbida narradora resolveu contar a história daquela pequena e frágil vida que gostava de roubar livros. "A Menina que Roubava Livros" é daquele tipo de romance memorável. Realmente, trata-se de uma excelente obra. Esse é o ponto alto da carreira de Markus Zusak até aqui. Sua leitura é rápida e muito agradável. O livro possui 480 páginas e é dividido em dez capítulos. Cada capítulo é nomeado com o título de um livro roubado por Liesel Meminger. Enquanto conhecemos a história da infância difícil da garota, também sabemos os detalhes de como Liesel fez para praticar cada um dos roubos. Depois da análise dos cincos livros de Markus Zusak, uma conclusão parece clara: o australiano é efetivamente um ótimo escritor. O meu receio inicial de que ele poderia ser do tipo de autor de um livro só se dissipou logo no início das leituras. Zusak não apenas tem um belo portfólio para apresentar como também tem muito a contribuir para a literatura. Com apenas quarenta e dois anos de idade, sua carreira na ficção só está começando. Com as análises de todas as obras desse autor concluídas, chegamos ao momento de apresentar as dez características do estilo literário de Markus Zusak que foram identificadas ao longo desse mês. A seguir vão cada uma delas: 1) Os protagonistas do australiano (Cameron Wolfe, Ed Kennedy e Liesel Meminger) são sempre crianças, adolescentes ou jovens desajustados socialmente. Eles se sentem como párias sociais, não conseguindo achar suas posições na família, na escola, no trabalho ou na comunidade. Ao mesmo tempo, o amadurecimento traz muitos aborrecimentos a essas personagens. Fracassados financeiramente e desastrados amorosamente, os protagonistas dos romances de Zusak vivem sempre na iminência de se tornarem delinquentes juvenis. Eles são brigões, folgados, não tomam banho, estão sempre sem dinheiro, vivem maltrapidos, não economizam nos palavrões e tentam o tempo inteiro roubar as pessoas. 2) Por outro lado, o leitor não consegue não gostar desses protagonistas. As personagens principais de Zusak são extremamente carismáticas. Se elas aprontam infinitas diabruras, elas também são carinhosas e têm bons corações. São jovens sensíveis, românticos, altruístas e zelosos com a família e com os poucos amigos. Seus principais problemas parecem ser relativos à obrigação de crescer. Raramente, a complexidade e as dificuldades da infância, da adolescência e da juventude se mostraram com tanta beleza na literária como nos livros de Markus Zusak. 3) As tramas são ambientadas em subúrbios e em casas de famílias pobres. Os pais dos protagonistas pertencem à classe trabalhadora: O pai de Cameron é encanador e a mãe do rapaz é empregada doméstica; A mãe de Ed Kennedy é uma operária comum; E o pai de Liesel Meminger é pintor de paredes e sua mãe lava roupas para as famílias abastadas. Os livros de Markus Zusak retratam os dramas financeiros de pessoas simples e humildes. A luta pela sobrevivência e para a criação digna dos filhos é o mote central da existência dessas personagens. Assim, a típica história desse autor é aquele em que mostra, ao mesmo tempo, a dureza da vida da classe trabalhadora e as dificuldades dos jovens pobres de atravessarem o período da infância e da adolescência. 4) O amor dos protagonista é geralmente do tipo platônico. Cameron Wolfe é apaixonado por todas as garotas bonitas que passam a sua frente. Ed Kennedy é louco pela amiga Audrey, mas não tem coragem de se declarar para ela. Enquanto isso, a moça vai para a cama com todos os rapazes do município, menos com o pobre do protagonista. E Liesel Meminger gosta muito do seu amiguinho Rudy Steiner. Depois de passar o livro inteiro fugindo dos beijos dele, enfim, a menina descobre que queria também beijá-lo. Porém, aí já era tarde. Ele tinha morrido em um bombardeiro inimigo. 5) Livros são narrados sempre em primeira pessoa. Na maioria das vezes, o narrador é o protagonista (um rapaz). Somente em "A Menina que Roubava Livros", a narradora é a Morte (ela não é a personagem principal e sim Liesel Meminger). A narração em primeira pessoa torna a trama mais introspectiva. É possível compreendermos os pensamentos e as angústias dos narradores, assim como suas indagações, seus medos, seus sonhos e suas aspirações. 6) As frases curtas e os parágrafos de uma única frase são uma das principais características da literatura de Markus Zusak. O texto simples e enxuto dá um ar infantil à narrativa (algo pertinente quando lembramos a idade da maioria dos narradores). A impressão é que estamos mesmo diante das palavras expressas pelos garotos que relatam suas histórias. 7) A linguagem debochada e o narrador irônico são um aspecto à parte na literatura de Markus Zusak. O autor escreve como se estivesse conversando com o leitor em um bar. Nesta hora, o narrador-autor não esconde nada de ninguém, expondo os dramas mais íntimos das personagens principais. Os pensamentos dos narradores fluem naturamente, deixando a leitura muito agradável e divertida. Markus Zusak é um contador de história de primeira! Seu texto é saborosíssimo. 8) A banalidade do cotidiano familiar, a violência da guerra e os dramas urbanos ganham contornos poéticos nas páginas dos livros dos australiano. A vida simples e honesta da família pobre, as dificuldades enfrentadas pela guerra, a busca pelo primeiro amor e o desejo de ler um novo livro tornam-se desafios belos e com um colorido especial aos olhos dos protagonistas de Markus Zusak. Portanto, as tramas de Zusak são leves, mas possuem alguma profundidade filosófica. O australiano é especialista em encontrar beleza em pequenos dramas do cotidiano. Suas histórias adquirem, assim, um caráter poético. 9) Todo romance de Markus Zusak possui uma boa dose de romantismo. Apesar desse aspecto não ser a essência dos enredos, os protagonistas passionais e muito românticos costumam salientar a busca pelo amor perfeito. 10) Na maioria dos livros do australiano, a literatura é usada como elemento metalinguístico. Ou seja, sempre há uma história ficcional dentro da história principal do livro. Às vezes, essas histórias se entrelaçam, transformando a personagem principal de Zusak em autor ou mesmo em leitor. Esse recurso é interessante e divertido quando notado. Esse foi o Desafio Literário de setembro. Eu adorei participar. Espero que você também tenha gostado. Em outubro, a autora analisada será Lya Luft, romancista, cronista e ensaísta brasileira. Quem gosta de boa literatura, está convidado(a) para o nosso próximo desafio. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarkusZusak #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Nora Roberts

    O Desafio Literário de 2017 conclui, agora, a análise do seu quarto autor. Depois dos estudos do brasileiro Machado de Assis (maio), da francesa Régine Deforges (junho) e do japonês Haruki Murakami (julho), o foco do Blog Bonas Histórias esteve direcionado, durante o mês de agosto, ao trabalho da escritora norte-americana Nora Roberts. Ela é uma das autoras mais vendidas da história. Seus romances possuem vendagem superior a meio bilhão de unidades. Esta marca coloca Roberts na lista dos 25 escritores mais comercializados de todos os tempos. Para montar uma análise literária completa da escritora norte-americana, foram lidos seis livros de seu portfólio: "Pecados Sagrados" (Bertrand), de 1987, "Doce Vingança" (Bertrand), de 1988, "Nudez Mortal" (Bertrand), de 1995, "A Cruz de Morrigan" (Bertrand), de 2006, "Querer e Poder" (Harper Collins), de 2013, e "Um Novo Amanhã" (Arqueiro), de 2016. Cada um deles foi analisado individualmente ao longo do mês aqui no blog e suas críticas estão disponíveis aos interessados. Esta lista de seis obras é uma pequena amostra do trabalho de Nora Roberts, que tem a façanha de ter lançado mais de 210 livros em 36 anos de carreira. Eleanor Marie Robertson (este é o nome de batismo da escritora) nasceu na cidade de Silver Spring, em Maryland, nos Estados Unidos, em 1950. A família Robertson é descendente de irlandeses e desde cedo colocou a pequena Eleanor em contato com os livros. Os pais dela sempre foram ávidos leitores e este hábito foi passado para a menina. A intimidade com a leitura ficcional marcou a infância e a adolescência da jovem, apesar dela não alimentar o sonho de se transformar no futuro em uma escritora profissional. Uma vez concluído o colegial, Eleanor se casou pela primeira vez. O matrimônio foi realizado a contragosto dos pais da moça, que não viam com bons olhos aquela união precipitada da jovem com o primeiro namorado. O marido era Ronald Aufdem-Brinke, filho de um industrial do setor mineral. Eleanor, nesta época, tinha apenas dezoito anos de idade. Ao se tornar esposa, Eleanor passou a cuidar da casa e dos filhos, que nasceram no final da década de 1970. Enquanto o marido trabalhava nas empresas da família, ela administrava a rotina doméstica. A agora Senhora Aufdem-Brinke começou a escrever meio por acaso. Então com 28 anos, Eleanor ficou presa com os filhos dentro de sua residência por causa de uma forte nevasca. Sem ter muito o quê fazer até que a neve fosse liberada da cidade, ela usou uma máquina de escrever para produzir suas primeiras histórias. A ideia era se distrair. Em poucos dias, foram criados três romances. A jovem mãe ficou tão empolgada com a nova atividade que passou a procurar uma editora para publicar suas tramas. Enquanto isso, ela continuou a desenvolver narrativas compulsivamente. Por aproximadamente dois anos, a senhora Aufdem-Brinke recebeu inúmeras respostas negativas das editoras contatadas. Era "não" atrás de "não". Até que um dia, em 1981, ela ouviu um "sim". Era o primeiro de muitos. Uma editora iniciante que começava seus trabalhos e precisava publicar autores novatos apostava enfim na jovem. Começava, aí, a carreira de uma das escritoras mais prolíficas da história e de uma best-seller mundial. Seu primeiro romance foi lançado ainda em 1981. O nome artístico escolhido para estampar a capa de sua obra de estreia foi uma abreviação do seu nome de batismo: Nora Roberts. Surgia, neste momento, uma das marcas mais valiosas da literatura contemporânea. Nos três anos seguintes, foram escritos mais 23 romances. É uma média incrível de oito livros por ano (quase um por mês!). Como ela arranjou tempo para isso, confesso que eu não sei. Só sei que seu primeiro casamento terminou em divórcio. Nora e Ronald se separaram em 1983. Em 1985, a escritora se casou novamente. Seu segundo (e atual) marido se chama Bruce Wilder e é carpinteiro. Eles se conheceram quando ele foi contratado para fazer uma estante para a romancista. O casal e os dois filhos da escritora do primeiro matrimônio moram em Boonsboro. Esta cidade foi retratada nos romances da série "A Pousada", que carregam fortes componentes autobiográficos. Apesar das várias publicações feitas na primeira metade da década de 1980, o primeiro best-seller de Nora Roberts só surgiu com um livro lançado na época do seu segundo casamento: "Jogo de Sedução" (Bertrand). A partir deste ponto, sua carreira literária deslanchou. Muitos leitores que leram e gostaram de "Jogo de Sedução" passaram a procurar obras anteriores da escritora. Iniciava, assim, o círculo vicioso. Quanto mais livros ela lançava, mais os leitores compravam. Quanto mais eles compravam, mais ela publicava. Atualmente, Nora Roberts, que também escreve com os pseudônimos de Sarah Hardesty, Jill March e J.D. Robb, é uma das escritoras mais vendidas de todos os tempos. Nos Estados Unidos, ela só perde para Danielle Steel como a autora campeã de vendas nas livrarias. Steel tem maior número de cópias comercializadas, enquanto Roberts tem muito mais títulos publicados. Em escala mundial, Nora fica atrás apenas das inglesas Agatha Christie, Barbara Cartland, Enid Blyton e J. K. Rowling em unidades vendidas (além da conterrânea Danielle Steel). Ou seja, quando pegamos o ranking das dez escritoras mais comercializadas da história, lá está o nome de Nora Roberts na sexta posição. Quando analisamos os autores independentemente do sexo, a moça de Maryland aparece entre os 25 mais vendidos de todos os tempos. Nada mal para quem começou a escrever em uma nevasca, né? Conhecer os segredos da literatura de Nora Roberts foi o objetivo do Desafio Literário em agosto. Depois da publicação das análises de seis livros da autora é possível listar, agora, as dez características típicas da escritora norte-americana. A seguir, vãos os pontos identificados como pertencentes ao estilo dela: 1) Nora Roberts é uma autora versátil. Ela escreve romances sobre vários temas diferentes e de todos os gêneros possíveis e imagináveis. Não é possível acusá-la de bater sempre na mesma tecla. Seus livros são multitemáticos e polivalentes. Eles vão da aventura histórica ao romance romântico, passando pela ficção científica, pela fantasia vampiresca e pelo thriller policial. É nítido que a escritora gosta de escrever, não se importando com a temática utilizada e com o tipo de narrativa praticado. Dos seis livros deste Desafio Literário, tivemos uma ficção científica passada no final do século XXI ("Nudez Mortal"), uma saga fantástica com bruxas, feiticeiros e vampiros ("A Cruz de Morrigan"), um romance policial em que se buscava a identidade de serial killer ("Pecados Sagrados"), dois romances românticos em que os casais apaixonados sofriam para ficar juntos ("Querer e Poder" e "Um Novo Amanhã") e uma aventura cujo propósito era roubar uma valiosa joia de um reino oriental ("Doce Vingança"). Ou seja, pode-se acusar a norte-americana de qualquer coisa, menos de falta de versatilidade e de falta de coragem para ousar em suas narrativas. 2) O ponto em comum de todos os livros de Nora Roberts, por mais diferentes que eles sejam, está no acentuado romantismo das tramas. Se as histórias de amor não são o centro da atenção (e tradicionalmente são), elas permeiam boa parte da narrativa, roubando normalmente à cena. Nora Roberts é uma excelente contadora de histórias românticas. Ela parece ter um arsenal ilimitado de ingredientes para emocionar os corações dos leitores. Este talvez seja o ponto mais alto dos seus romances. Os casais apaixonados na ficção de Roberts são variados e carismáticos. Há de tudo um pouco: a bruxa do século XXI que se apaixona pelo feiticeiro do século XII; a investigadora de polícia que tem um affair com o principal suspeito do assassinato que está trabalhando; a ladra de joias que nutre um amor clandestino pelo agente da Interpol; a mãe de três filhos pequenos que se vê gamada no amigo de infância; os primos milionários que depois de se odiarem por décadas se veem grudados como nunca imaginaram; e a psiquiatra e o policial que ao trabalharem juntos em um caso policial começam a namorar. Os relacionamentos amorosos dos casais principais são interessantes por serem contraditórios. As diferenças de personalidade e de crença do mocinho e da mocinha geralmente são grandes. A lógica joga contra a união deles, enquanto a atração física os aproxima, em um jogo constante de vai e volta. É o famoso: os opostos se atraem. 3) Os textos das obras de Nora Roberts são simples e bem objetivos. A autora utiliza-se da linguagem coloquial o tempo inteiro e normalmente vai direto ao ponto, sem rodeios. O que importa para ela é a ação. Para que ficar se alongando com muitas descrições ou com a construção de tramas poéticas e subjetivas?! Nora Roberts não perde tempo com nada que não seja estritamente essencial. Assim, suas tramas se tornam bastante envolventes e muito ágeis. Tudo acontece rapidamente nas páginas dos seus romances. Este expediente torna a leitura extremamente fácil e muito prazerosa. É possível ler centenas de páginas diariamente sem se cansar. A maioria dos livros da lista do Desafio Literário deste mês eu li em um único dia. 4) Se a simplicidade textual ajuda o leitor menos experiente ou menos gabaritado, por outro lado, não encontramos quaisquer inovações linguísticas ou estéticas nas publicações da norte-americana. A sensação é de estar lendo obras sem grande refinamento literário. Afinal, não é possível optar pela quantidade sem abrir mão da qualidade. É humanamente impossível alguém produzir mais de duas centenas de romances com grande qualidade artística. Convenhamos que as escolhas de Nora Roberts, neste sentido, parecem óbvias. Ela faz muitos livros, porém de baixíssima qualidade literária. A sensação é que estamos lendo romances juvenis ou pueris. A impressão é que tudo foi feito às pressas, sem um refinamento ou um acabamento mais elaborado. Creio que o leitor típico de Nora Roberts é alguém que lê exclusivamente por entretenimento, sem exigir muito requinte das obras vistas. Esse vazio conceitual, essa pobreza estilística ou essa precariedade narrativa ficam mais evidentes nos desfechos das obras. Normalmente, os encerramentos não surpreendem o leitor. Para agradar o público, a autora produz finais pouco verossímeis, um tanto forçados e/ou com clímax curto cujo final é sempre feliz. Sinceramente, espera muito mais de uma autora tão conceituada e que possui uma das marcas editoriais mais importantes do cenário da literatura contemporânea. 5) Um ponto alto das narrativas de Nora Roberts está na constituição das suas personagens. A escritora norte-americana se mostra exímia na arte de construir personalidades complexas e contraditórias. Tanto os protagonistas como os figurantes apresentam dramas, medos e perfis intrigantes. Eles normalmente possuem muitos defeitos e várias qualidades positivas que se sobrepõem. Os tipos que aparecem nas páginas dos livros de Roberts são seres únicos, relevantes e carismáticos. Eles possuem fortes problemas psicológicos (suas angústias atrapalham seu dia a dia e influenciam suas decisões e seus comportamentos) e estão sempre envolvidos em complexas tramas dramáticas. O leitor torce pelo mocinho e pela mocinha porque eles são, ao mesmo tempo, falíveis e humanos. Não há um heroísmo estereotipado e imbatível. As personagens erram e acertam como qualquer pessoa na vida real. 6) O principal defeito dos romances de Nora Roberts está na pobreza dos seus enredos. As histórias da norte-americana são tradicionalmente pouco criativas. Minha sensação ao ler os livros de Roberts é de já ter visto tramas iguais antes em outros lugares. Isso aconteceu em todas as obras da autora. Ela não consegue fugir do convencional em nenhum momento. Ler a literatura de Nora Roberts é encarar um pot-pourri de narrativas já consagradas no cinema, na literatura, na televisão ou nos jornais. A escritora utiliza-se de vários clichês para produzir seus numerosos livros. Quem possui um mínimo de bagagem cultural ou literária fica entediado com os romances de Nora Roberts somente ao ler as sinopses das obras. 7) Outro elemento que torna os livros da autora pouco atrativos é a falta de reviravoltas ou de surpresas durante a trama. Os romances de Roberts caminham sempre em linha reta, não conferindo grandes emoções ao leitor mais experiente. Dos livros analisados durante este Desafio Literário, é possível prever tudo o que vai acontecer em 90% das histórias sem erro. Isso é decepcionante para quem deseja ser surpreendido pelos acontecimentos narrados. 8) A compulsão por séries e por trilogias da escritora muita vezes compromete a qualidade das obras publicadas. Há casos evidentes que a transformação da narrativa em uma trilogia, por exemplo, acabou prejudicando a trama central. Ao invés de ter um bom romance, optou-se por ter três livros de qualidade discutível. Isso ficou evidente na série "A Pousada". Em outros casos, a extensão da história em mais capítulos também afeitou a qualidade do material entregue. A impressão é que a autora estava mais interessada em estender as narrativas e produzir mais livros do que transmitir uma mensagem coerente e com valor literário. 9) Em alguns livros, os diálogos travados entre as personagens são angustiantes. As conversas são de uma banalidade desconcertante para uma escritora da envergadura de Nora Roberts. Isso não acontece em todos os livros, mas é possível encontrar em alguns. 10) A escritora norte-americana escreve bem e sabe contar uma boa história romântica. Suas tramas - apesar de pouco originais, com todos os clichês possíveis e imagináveis e, às vezes, recheadas de banalidades - são sólidas e bem construídas. É raro encontrar furos em seus enredos. Nora Roberts normalmente faz o arroz com feijão bem feito. Apesar da simplicidade do que é entregue, o prato não vem queimado ou com um gosto diferente do esperado. O primeiro romance da autora lido neste Desafio Literário foi "Pecados Sagrados". Ele foi publicado originalmente em 1987. Nesta época, Nora Roberts já era conhecida no mercado editorial dos Estados Unidos, mas ainda não era uma superstar literária, status que seria adquirido ao longo da década de 1990. Mesmo assim, a autora já possuía um bom número de leitores fiéis. Vários trabalhos anteriores de Roberts tinham alcançado o topo do ranking dos mais vendidos nas livrarias norte-americanas. "Pecados Sagrados" tem 350 páginas e apresenta um enredo diferente do que Nora Roberts estava acostumada a desenvolver até então. Ao invés das tramas românticas, temos aqui um suspense policial. Esta é uma das primeiras histórias desse gênero da autora, que o exploraria com mais afinco na década de 1990. O foco da narrativa é a investigação para descobrir a identidade de um serial killer. O romantismo fica por conta do namoro entre o policial Ben Paris, responsável pela investigação, e a psiquiatra Tess Court, contratada para ajudar os policiais a definir o perfil psicológico do criminoso. O êxito comercial deste romance foi tão grande que sua autora resolveu produzir uma sequência. Os investigadores Ben Paris e Ed Jackson voltaram à ativa em "Virtude Indecente" (Bertrand), publicado em 1989. Esse segundo livro da série que ficou conhecida como "Detetives de Washington D.C" recebeu o prêmio Golden Medallion Awards no ano de seu lançamento como o melhor suspense norte-americano. A trama de "Pecados Sagrados" é bem simples e muito fraquinha. Sua história é banal e possui pouquíssimos elementos narrativos interessantes. O livro não consegue cativar nem como thriller policial nem como uma história romântica. Tentando misturar os dois gêneros, Nora Roberts acabou não fazendo bem nem uma coisa nem outra. O segundo livro do Desafio Literário é "Doce Vingança". Publicado em 1988 e com 472 páginas, este é o meu romance favorito de Nora Roberts. Sua trama possui muita ação, suas personagens são carismáticas e o enredo mistura romantismo e suspense nas doses certas. A obra apresenta o casal Philip Chamberlain, um agente secreto da Interpol, e a jovem ladra Adrianne Spring. A moça é filha de uma ex-estrela do cinema e de um rei do Oriente Médio. Depois de fugir do reino paterno, Adrianne se transformou na maior ladra de joias do mundo. Depois de anos de busca pela identidade do criminoso número 1 da Interpol, Philip Chamberlain enfim descobre ser Adrianne a responsável pelos maiores roubos. Porém, ao invés de prendê-la, ele irá ajudá-la no maior roubo de todos os tempos: a joia "O Sol e A Lua" do pai de Adrianne. Guiado pela paixão, Chamberlain coloca sua carreira em risco em nome do amor. "Doce Vingança", apesar de ser pouquíssimo original, consegue cativar tanto quem aprecia as histórias de amor quanto o leitor que gosta de bons thrillers. Em minha visão, Nora Roberts teve a competência de produzir, neste caso, uma narrativa que aproveitasse os elementos clássicos das histórias românticas (rainhas e reis, princesas e príncipes) inserindo-os em um ambiente moderno e cosmopolita (alta sociedade dos Estados Unidos e universo de Hollywood). Além disso, a autora acrescentou pitadas de aventura e de perseguição (polícia e ladrão, vilões e mocinhos) ao estilo dos melhores romances policiais. Na sequência, veio a leitura de "Nudez Mortal", o primeiro romance da celebrada série "Mortal". Escrita por Nora Roberts com o pseudônimo de J. D. Robb, a saga futurista tem mais de 50 títulos publicados nos Estados Unidos entre romances, contos e novelas. Esta coleção literária é o maior sucesso da carreira de Nora Roberts, tendo vendido dezenas de milhões de exemplares no mundo inteiro. "Mortal" também é a série mais longeva da autora. Iniciada em 1995, com "Nudez Mortal", a saga continua sendo abastecida regularmente com novos livros todos os anos. A trama da série "Mortal" gira em torno da destemida policial Eve Dallas e seu marido, o multimilionário Roarke. A história se passa em Nova York na segunda metade do século XXI. Basicamente, em cada livro, Eve precisa desvendar um crime praticado por um vilão diferente. Enquanto isso, o leitor acompanha o amadurecimento de seu relacionamento com Roarke. Em "Nudez Mortal", o livro inicial da coleção e que possui 352 páginas, a tenente Eve Dallas conhece Roarke. Nesta primeira investigação da detetive, Roarke é o principal suspeito de ser o serial killer que ela procura. O problema de Eve é que a policial acaba sendo seduzida por Roarke durante a investigação. Enquanto tenta descobrir se o milionário é o assassino, a tenente começa um tórrido romance com ele. Surge, assim, uma arriscada relação que poderá destruir tanto a carreira da policial quanto a investigação que ela está conduzindo. Esta trama é cativante como romance policial. De maneira geral, sua história é interessante, veloz, enigmática e bastante emocionante, possuindo um clima de suspense. O problema do livro está quando o analisamos como ficção científica. Aí, o caldo desanda! A realidade vivida pelas personagens em 2058 é (acredite!) menos avançada e menos tecnológica do que a nossa realidade atual, passada em 2017. Ou seja, em pouco mais de duas décadas, o romance publicado em 1995 já ficou totalmente desatualizado, retratando um futuro pouquíssimo provável. A projeção de futuro da autora é uma mistura de lugares comuns e erros grosseiros de previsão. Nora Robert pode até ser uma boa romancista romântica, porém é péssima em construir ficção científica. O quarto livro deste Desafio Literário foi "A Cruz de Morrigan". Essa obra é o primeiro volume da "Trilogia do Círculo", primeira série fantástica da autora norte-americana. "O Baile dos Deuses" (Bertrand) e "O Vale do silêncio" (Bertrand) são o segundo e o terceiro volumes da coleção, respectivamente. Misturando vampiros, bruxas, feiticeiros, deuses e demônios, Roberts cria uma trama apocalíptica. Além dos elementos sobrenaturais, a escritora acrescenta muito romantismo e suspense à história, ingredientes estes que nunca faltam em suas narrativas e que marcam, de certa forma, sua literatura. Publicado originalmente em 2006 e tendo 364 páginas, "A Cruz de Morrigan" começa no ano de 1.128. A trama tem como cenário a Irlanda medieval. Hoyt Mac Cionaoith, um bondoso feiticeiro do período medieval, é ajudado por Morrigan, uma deusa preocupada com o destino da humanidade. Assim, o feiticeiro viaja no tempo e vem até o século XXI. Nos dias atuais, Hoyt precisará reunir um grupo de bravos combatentes para enfrentar Lilith, a líder dos vampiros que sonha em exterminar a humanidade. O primeiro a ser recrutado por Hoyt é seu irmão, Cian, um vampiro do bem que tem mais de 900 anos. Admito que "A Cruz de Morrigan" me surpreendeu positivamente. A trama é muito bem construída. Ao mesmo tempo em que é um romance com características históricas, parte da trama se passa nos dias atuais. O romantismo é outra peça-chave para a compreensão de grande parte do apelo narrativo do livro. A infantilidade, típica das histórias de vampiros e de bruxas, curiosamente, não aparece aqui. Nora Roberts consegue produzir um texto elegante e adulto, dando pouquíssima margem para questionamentos sobre a seriedade de sua obra. O problema está mais uma vez na falta de originalidade da obra e da série inteira (um velho defeito que a autora carrega desde sempre). Novamente, a impressão do leitor é estar diante de uma história recheada de clichês. A "Trilogia do Círculo" é uma mistura de várias recentes histórias fantásticas de vampiros. A quinta obra de Roberts lida e analisada foi "Querer e Poder". Este thriller romântico foi publicado em dezembro de 2013 e possui 288 páginas. O enredo de "Querer e Poder" apresenta Pandora McVie, uma moça que trabalha como design de joias, e Michael Donahue, um importante roteirista de televisão. Os dois são os únicos herdeiros da fortuna de Jolley Folley, um bilionário excêntrico recém-falecido. Contudo, para ficar com a herança, a dupla precisava cumprir uma intrigante cláusula do testamento do ricaço: viveram em uma mesma casa por seis meses. O problema é que Pandora e Michael nunca se suportaram, nutrindo grande ódio um pelo outro. Ou eles aprendem a conviver juntos ou perderão a fortuna. "Querer e Poder", infelizmente, não atinge a condição de ser um thriller tão interessante quanto poderia nem possui uma boa trama romântica. Diria que ele é apenas um livro medíocre. Os protagonistas até são carismáticos, mas a história como um todo é prejudicada pela banalidade das situações e pela obviedade dos acontecimentos. O leitor mais qualificado e exigente chegará ao final do livro muito decepcionado. Os principais problemas de "Querer e Poder" estão no fato de ele ser um romance banal e seu desfecho ser péssimo. E para terminar o Desafio Literário, foi lido "Um Novo Amanhã", o sexto romance de Nora Roberts analisado neste mês de agosto. Esta obra faz parte de uma série literária chamada "A Pousada", que abrange outros dois livros. A trilogia é completada pelos romances "O Eterno Namorado" (Arqueiro) e "Um Par Perfeito" (Arqueiro). A coleção "A Pousada" foi publicada inteiramente em 2016. "Um Novo Amanhã", trama romântica com 320 páginas, chegou às livrarias norte-americanas pela primeira vez em março do ano passado. "Um Novo Amanhã" se passa na pequena cidade de Boonsboro, no interior dos Estados Unidos. Ali, há uma tradicional pousada que está sendo reformada pela família Montgomery. Três irmãos, Beckett, Ryder e Owen Montgomery, são os responsáveis por revitalizar aquele prédio que ficou décadas abandonado e fechado. Enquanto cuida do árduo trabalho de restaurar a pousada, Beckett Montgomery, o charmoso arquiteto que lidera a trupe de irmãos especializada em reformas, se apaixona por Clare Brewster, sua amiga de infância. A jovem retornou recentemente para Boonsboro. Clara é viúva (seu marido era soldado do exército norte-americano e morreu enquanto trabalhava no exterior), tem três filhos pequenos e administra a principal livraria da localidade, situada em frente à pousada. O grande desafio do casal será conseguir conciliar suas complicadas rotinas. Só assim, poderão engatar um romance de verdade. Beckett sofre com o trabalho pesado na pousada e com a descoberta que há um fantasma no prédio em que está reformando. Clara, por sua vez, precisa achar um tempinho na sua agenda de empresária e mãe solteira com três filhos pequenos para ver seu amado. A banalidade desta trama pode assustar até mesmo os leitores menos exigentes. Nora Roberts produz um texto que não acontece absolutamente nada por várias e várias páginas. As personagens estão o tempo inteiro comendo pizza, discutindo detalhes da reforma da pousada, comentando fofocas da cidade, bebendo cerveja, assistindo televisão, debatendo a criação dos filhos (até mesmo os mais crescidinhos) ou brincando de forma infantil com a criançada. São todas atividades triviais e que quando colocadas em um romance tornam-se ainda mais sem graça. De maneira geral, a conclusão final que chego sobre a literatura de Nora Roberts é que ela está muito abaixo do esperado para alguém que é uma best-seller mundial. A produção massiva de romances que enchem todos os anos as prateleiras das livrarias cobra um preço caro de mais: a falta de qualidade. É impossível alguém criar mais de duas centenas de livros de boa qualidade. Por isso, as histórias da norte-americana são tão banais e vazias de conteúdo literário. Nora Roberts, para mim, é uma escritora do tipo McDonald's. Ela produz rapidamente e em grande quantidade algo que não tem sabor ou qualquer riqueza nutritiva. Em nome da massificação, ela abre mão da qualidade. Os fãs de Nora Roberts que me desculpem, mas compará-la aos principais nomes da literatura mundial é uma piada sem graça. Talvez o grande equívoco tenha sido meu, ao colocá-la ao lado de Haruki Murakami, Régine Deforges e Machado de Assis neste Desafio Literário de 2017. Roberts pode até ser uma campeã na vendagem de livros, mas está muito, mas muito longe de ser uma escritora de qualidade como são os seus colegas analisados até aqui no Blog Bonas Histórias. Pelo menos foi esta a constatação obtida com as leituras de seis de suas obras. Espero ter mais sorte com a análise do próximo autor, o australiano Markus Zusak. Ele será o escritor estudado no Desafio Literário de setembro. A principal obra da carreira de Zusak é o best-seller "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca), lançado em 2006. Não perca a crítica das obras e da literatura do australiano. Até o mês que vem! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoraRoberts #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Haruki Murakami

    Nesse mês de julho, o Desafio Literário esteve concentrado no trabalho de Haruki Murakami, o principal escritor japonês da atualidade e um dos mais premiados autores contemporâneos. O sucesso deste artista das letras, hoje em dia, é global. Nome recorrente entre os favoritos ao Nobel de Literatura nos últimos anos, Murakami acabou preterido nas duas últimas premiações da academia sueca. Bob Dylan, em 2016, e Svetlana Alexijevich, em 2015, acabaram superando-o. Contudo, acredito que não demore muito até que esse carismático escritor seja condecorado com a honraria máxima da literatura mundial. Quem sabe não tenhamos novidades neste sentido já em 2017. Não seria surpresa nenhuma se o japonês recebesse o convite para uma viagem a Estocolmo ainda neste ano. Para construir o perfil literário de Haruki Murakami, foram lidas, nas últimas quatro semanas, seis de suas histórias mais famosas. Como uma delas era uma trilogia, os livros lidos totalizaram oito. São eles: "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara), de 1979, "Pinball, 1973" (Alfaguara), de 1980, "Caçando Carneiros" (Alfaguara), de 1982, "Norwegian Wood" (Alfaguara), de 1987, "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara), de 1999, "1Q84 - Livro 1" (Alfaguara), de 2009, "1Q84 - Livro 2" (Alfaguara), de 2010, e "1Q84 - Livro 3" (Alfaguara), de 2010. Enquanto as duas primeiras obras são novelas, as demais são romances. O que acho mais interessante na carreira de Haruki Murakami é que ele consegue ser, ao mesmo tempo, popular e cult. Traduzido para mais de 50 idiomas, o japonês é daquele tipo de autor que chega ao patamar dos best-sellers sem precisar abrir mão da qualidade artística do seu trabalho. Na verdade, foi a excelência de sua ficção que o tornou tão famoso mundialmente e que o fez tão querido pelo público leitor. Assim, ele consegue aliar expressivas vendas nas livrarias do mundo inteiro com uma coleção invejável de prêmios internacionais. No cenário japonês, o mais relevante foi o Yomiuri de 1995. Em escala internacional, o principal foi o Prêmio Franz Kafka de 2006. O público japonês ama incondicionalmente Haruki Murakami. O escritor se transformou, ao longo dos anos, em um pop star nipônico, sendo tão popular quanto os mais celebrados cantores, atores, apresentadores de televisão e esportistas do país oriental. Os lançamentos dos títulos do autor costumam provocar grande frenesi nas livrarias do Japão, com grandes filas e cenas de fanatismo dos leitores mais empolgados. No Brasil, seus livros já ultrapassaram a marca das 300 mil unidades comercializadas. Na Europa e nos Estados Unidos, as últimas publicações de Murakami provocaram intensa correria às lojas. Um visitante desatento poderia achar que os lançamentos em questão fizessem parte das mais famosas coleções de J. R. R. Tolkien ou de J. K. Rowling, best-sellers juvenis. Além disso, as obras do japonês possuem características bem peculiares. Seu estilo é inconfundível e sua temática é universal. As narrativas de Murakami incorporam angústias típicas da sociedade japonesa da segunda metade do século XX sem se esquecer de incluir elementos da cultura pop global. Tendo morado muitos anos nos Estados Unidos e sendo fortemente influenciado pelos escritores ocidentais, este autor é um artista diferenciado dentro da moderna ficção asiática. E, afinal, quais são essas características que fazem da literatura de Haruki Murakami algo único e tão admirado por leitores e críticos? Para responder a essa intrigante questão, listei os dez pontos que mais chamaram minha atenção durante as análises dos oito livros do escritor japonês que compõem esta edição do Desafio Literário. Esses elementos estão a seguir: 1) A linguagem utilizada pelo autor é muito simples. Ele usa frases e orações curtas e com pouca variedade lexical. Trata-se de uma literatura extremamente objetiva e muito clara semanticamente. Esqueça também a multiplicidade de adjetivos e de advérbios. Se você achar uma construção sintática complexa no meio do texto, saiba que você deve ter pulado, inadvertidamente, alguma linha da página. Por isso, volte na leitura e a faça corretamente. Esta característica, contudo, é mais acentuada nas novelas do que nos romances e nos trabalhos iniciais do escritor. A maneira encontrada por Murakami para desenvolver textos enxutos e diretos é um tanto exótica. Ele primeiro escreve em inglês (língua em que possui intimidade, mas não grande repertório linguístico) para só depois "traduzir" para o idioma japonês (sua língua materna). Assim, ele acredita conseguir extrair "a essência das palavras e das ideias", sem correr o risco de ser muito descritivo ou redundante. Ou seja, seus livros dão ênfase à trama e aos sentimentos das personagens e não à riqueza vocabular. Curiosamente, esse recurso estilístico não torna as narrativas de Murakami pobres ou limitadas. Pelo contrário. A leitura é gostosa e possui uma beleza refinada. Com um conjunto de palavras simples, o escritor prova que é possível construir histórias emocionantes, bonitas, complexas e muito interessantes. 2) As personagens de Haruki Murakami são tradicionalmente pessoas solitárias e melancólicas. Elas não têm quase nenhum vínculo social, familiar ou de amizade. É como se ficassem fechadas em seu mundinho interior, interagindo minimamente com o ambiente externo e com os demais indivíduos. Geralmente, são personagens órfãs ou desprezadas pelos pais na infância. Sem sólidas bases no lar paterno/materno, esses indivíduos se transformam em "lobos solitários" ainda na adolescência, estendendo a existência isolada e triste para a fase adulta. Desde muito jovens, eles saem de casa por vontade própria, por imposição da família ou por necessidade da vida. São geralmente migrantes que chegam à Tóquio em busca de um futuro melhor. A rotina na metrópole é baseada no isolamento e nos relacionamentos pobres com pouquíssimos amigos. Suas rotinas são banais e recheadas de cenas simples. Não me recordo agora de nenhum protagonista que tenha vindo de uma família normal/tradicional ou que levasse uma vida feliz, convencional e emocionante na capital japonesa. 3) Os livros de Murakami são escritos em primeira pessoa. Das obras analisadas neste Desafio Literário, apenas "1Q84" foge desse padrão (a saga foi escrita em terceira pessoa). Os narradores são tradicionalmente os protagonistas. Apenas em "Minha Querida Sputnik", a personagem principal não é quem conta a história (ela é amiga do narrador, que assume um papel secundário na trama). Os protagonistas-narradores de Murakami são muito parecidos entre si e se confundem muitas vezes. A impressão que tenho é que todos são exatamente iguais, sendo no final das contas a mesma pessoa. De maneira geral, eles carregam fortes traços autobiográficos do seu autor. Ou seja, o narrador típico das obras de Murakami é o próprio escritor japonês em algum momento de sua vida ou uma espécie de alter ego seu. As personagens principais são homens jovens e solitários. Eles amam a literatura e a música e trabalham com algo relacionado ao universo das Letras e/ou da Educação. São, portanto, professores, tradutores, publicitários e escritores. Eles não têm muitos amigos e suas rotinas são monótonas e banais. Sem namoradas ou esposas, os protagonistas são adeptos do sexo casual. Estes personagens masculinos são muitas vezes apaixonados por moças que os encaram apenas como bons amigos. Não tendo o amor correspondido, iniciam intrincados triângulos amorosos. As personagens femininas principais, muitas vezes, são frígidas, propensas ao homossexualismo, estão presas a relacionamentos do passado ou sofrem com o conservadorismo religioso de suas famílias. Tudo isso as distanciam do narrador, que sobre com seu amor platônico por elas. 4) Por falar em amor platônico e nos desencontros afetivos, é preciso abordar a questão do erotismo, uma importante característica da literatura deste autor. As históricas de Haruki Murakami possuem muitas cenas de sexo, reflexões sobre a sexualidade de suas personagens e discussões sobre os relacionamentos. Todos os seus romances e suas novelas têm protagonistas que falam, pensam, querem, sofrem, fogem ou fazem sexo sem parar. Há todo tipo de prática sexual nesses livros: homossexualismo, masturbação, sexo oral, sexo casual, swing, ménage, traição/infidelidade conjugal, orgia, sexo com pessoas mais velhas, etc. Para completar, há também algumas doenças e violências sexuais: estupros, vício em sexo, frigidez, relacionamentos amorosos com menores de idade, etc. A frigidez feminina é a mais comum dessas doenças psíquicas e aparece com frequência nas histórias de Murakami. Ao mesmo tempo, há uma diferença gigantesca entre a prática sexual e o amor. As vontades carnais dos indivíduos são distintas dos sentimentos e das emoções afetivas. Ou seja, amor e sexo não se misturam. Muitos casais que se amam ficam sem transar entre si. Eles preferem outras companhias ao do principal parceiro afetivo. Enquanto os amantes permanecem castos (entre si), eles procuram visitar a cama de outras pessoas para "aplacar os instintos naturais do corpo". Trata-se de um grande paradoxo. A fidelidade conjugal não passa pela monogamia e sim pelo respeito ao corpo da pessoa amada. É muito curiosa essa relação entre o amor e o sexo. Por isso, os triângulos amorosos são uma constante nas tramas de Murakami e formam uma variada teia de situações inusitadas. 5) Outro aspecto marcante de Haruki Murakami e presente em todas as suas obras é a intensa citação a elementos da cultura pop. Neste caso, a música e a literatura (duas grandes paixões do escritor) destacam-se. Além das referências a canções e livros, também há uma infinidade de menções a filmes, programas de televisão, games, esportes, culinária e hábitos de lazer e de entretenimento. Muitos desses elementos culturais marcaram tanto os japoneses quanto as sociedades ocidentais na segunda metade do século XX. Ler Murakami é, portanto, mergulhar na riqueza da cultura popular contemporânea. Não é coincidência que alguns títulos de seus livros fazem referência direta a elementos pop: "Pinball" remete a um game eletrônico japonês que ganhou o mundo, "Norwegian Wood" é uma música dos Beatles, "Sputnik" é a nave espacial soviética da década de 1960 e "1Q84" faz alusão ao livro "1984", clássico literário de George Orwell. 6) As neuroses, os medos e os desequilíbrios de ordem psicológica das personagens são uma das principais características da literatura de Haruki Murakami. As psicopatias descritas nos livros são recorrentes e muito parecidas. A impressão que temos é que não há ninguém efetivamente são nessas obras. Todos os indivíduos possuem níveis elevados e variados de complexos emocionais. Suas relações interpessoais são precárias e um tanto doentias. O mutismo, a depressão, a solidão, a melancolia e a indecisão das personagens acarretam sérias dificuldades para suas vidas. As relações sentimentais e sexuais são fragmentadas, frustrantes e perecíveis. O suicídio é, muitas vezes, o caminho encontrado para dar fim à amargura e ao sofrimento diário. A vida não tem sentido para a maioria das pessoas. De maneira geral, o trabalho literário de Murakami apresenta uma epidemia de suicídios e de indivíduos depressivos. Grande parte das personagens se mata ou quer se matar, não achando motivação para continuar vivendo. 7) O bom humor de Haruki Murakai aparece com frequência ao longo de suas tramas. Às vezes, o tom bem-humorado é sutil e inteligente. Em outros momentos, ele é debochado e um tanto escrachado, com cenas de total nonsense. Ou seja, o leitor pode ir do sorriso sutil à risada gostosa. 8) Apesar dos elementos sombrios (solidão, monotonia, amargura, incompreensão com o mundo, relacionamentos frágeis e superficiais, famílias desfiguradas, suicídios, depressão, amores frustrados e sexo banalizado), as tramas de Murakami não têm um ambiente opressor e um clima pesado, mórbido. Pelo contrário. Suas narrativas, por mais paradoxal que possa parecer, são leves e encantadoras. A explicação para essa característica é o humor perspicaz de Murakami, a enxurrada de elementos da cultura pop inseridos na história e a ótima construção das personagens, normalmente sensíveis e carismáticas. O autor japonês tem a competência de falar com beleza e lirismo dos temas mais densos da alma humana. 9) Muitas das histórias deste autor possuem um caráter desconexo ou têm múltiplos focos narrativos. Em alguns casos, o protagonista conta a história à medida que vai se lembrando das emoções vividas, não respeitando a ordem cronológica dos fatos. Em outras ocasiões, conhecemos a trama sob o ponto de vista de várias personagens diferentes, que relatam simultaneamente os acontecimentos. Assim, cabe ao leitor a responsabilidade para compor mentalmente a narrativa. 10) As novelas e os romances de Murakami possuem uma pegada reflexiva, um clima um tanto onírica e forte componentes fantásticos. É nas pequenas e banais cenas da vida diária que as personagens refletem sobre a razão de suas existências e exprimem suas angústias mais íntimas. O medo da morte, a indefinição quanto ao futuro, a busca pelo amor verdadeiro, a dificuldade de relacionamento, a frieza emocional da sociedade contemporânea, a dificuldade da transição da adolescência para a vida adulta, a busca pela aptidão profissional e o saudosismo em relação a um passado que não voltará nunca mais são alguns dos temas discutidos. Alguns desfechos são do tipo interpretativo. Cabe ao leitor juntar as peças do quebra-cabeça narrativo e montar sua própria conclusão dos romances. As reflexões a que os leitores são levados são interessantes e ricas. A compreensão da realidade das personagens passa longe da racionalidade, da objetividade e do pragmatismo da ciência moderna. O transcendentalismo é parte essencial para a leitura do mundo contemporâneo. Por falar nisso, há também muitos elementos fantasiosos no meio das histórias. A magia, o sobrenatural, o místico e o espiritual sobressaem, avançando para o primeiro plano das tramas. É comum surgirem carneiros mágicos, pessoas com capacidade mediúnica, passagens para outros planos cósmicos, criaturas sobrenaturais, duas luas no céu, etc. Essas são as dez características mais marcantes da literatura de Murakami. Nascido em Kyoto, em 1949, e graduado em Artes Teatrais, o jovem Haruki Murakami foi proprietário de um bar de jazz na capital japonesa entre 1974 e 1982. Paralelamente à iniciativa empreendedora, ele traduzia para a língua japonesa obras clássicas do ocidente. Fluente em inglês desde a infância, Haruki sempre foi um apaixonado pela literatura, tendo o hábito de ler vorazmente os originais dos principais livros europeus e norte-americanos. Outra de suas paixões é a música. Não é à toa que ele quis abrir um negócio onde pudesse ouvir boas canções durante o expediente. Somente após completar trinta anos de idade, Murakami começou a trabalhar como autor ficcional. Curiosamente, ele decidiu escrever após assistir a uma partida de beisebol (ele é aficionado por esportes). No instante em que o jogador rebateu a bola no campo, Haruki, que estava na arquibancada, pensou: "Vou criar uma história minha". Foi o que ele fez. Usando as madrugadas, único tempo livre disponível, e uma mesa da cozinha de sua casa, ele produziu duas novelas: "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973". Por isso, o autor chama até hoje esses seus primeiros trabalhos de maneira pejorativa de "novelas de mesa de cozinha" "Ouça a Canção do Vento" foi escrita em 1978. Uma vez terminada a trama, Murakami enviou os originais da sua primeira ficção para um concurso literário da revista Gunzo dedicado a jovens escritores. Sua certeza de êxito era tanta que o autor não ficou com nenhuma cópia da história. A novela foi premiada e publicada naquele mesmo ano. O enredo de "Ouça a Canção do Vento" é simples e monótono. A novela se passa no verão de 1970. Quem narra a história em primeira pessoa é um estudante de biologia de vinte anos de idade que não tem seu nome revelado. Aproveitando o recesso universitário, ele retorna para sua pequena cidade natal onde ficará por dezoito dias. Enquanto está de férias, o rapaz passa o dia fumando e bebendo na companhia do seu amigo, Rato. Ambos são fregueses assíduos do bar do J, um chinês que imigrou para o Japão há muitos anos. Esse livro é sobre as lembranças amorosas do protagonista e sua rotina banal na cidade natal. Quando o personagem principal não está no bar bebendo e fumando, ele fica parado em algum lugar contemplando a paisagem ou pensando em suas antigas namoradas. A boa receptividade da crítica fez com que o jovem Murakami, então com 30 anos de idade, escrevesse a continuação dessa história. Em 1980, era publicado "Pinball, 1973". Essa nova novela se passa três anos após o término de "Ouça a Canção Vento". O narrador é o mesmo e continuamos sem saber seu nome. Uma vez concluída a faculdade, o protagonista permanece morando em Tóquio, mas não quer mais saber da biologia. Ele é agora sócio de um escritório de traduções. A empresa é especializada em traduzir para o idioma japonês obras literárias clássicas. A vida do rapaz segue monótona, solitária e entediante. A novidade é o surgimento de duas jovens gêmeas. Elas passam a viver com a personagem principal, dando vazão ao antigo desejo sexual masculino de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Enquanto estabelece um relacionamento pouco convencional com as moças, o narrador começa a procurar pela cidade uma antiga máquina de Pinball. As primeiras novelas publicadas encheram seu autor de confiança. Ele percebeu que queria mesmo era exercer essa atividade profissionalmente. Em 1982, Haruki Murakami vende o bar de Jazz que administrava em Tóquio e concentra sua atenção na literatura comercial. Virou, assim, um escritor profissional. Os leitores brasileiros só tiveram acesso às narrativas de estreia do mais popular escritor japonês da atualidade no finalzinho de 2016. A Alfaguara, editora com os direitos de publicação das obras de Murakami no país, lançou um livro que contém as duas novelas. Apesar da cada vez maior procura dos leitores do mundo inteiro pelas obras iniciais da carreira de Murakami, o escritor nunca viu com bons olhos essas suas novelas de estreia. Tanto "Ouça a Canção do Vento" quanto "Pinball, 1973" ficaram muitos anos sem novas edições (inclusive no Japão) por imposição de Murakami. O japonês considera sua primeira obra literária efetiva o romance "Caçando Carneiros", de 1982. Apesar de interessantes, quando comparadas aos demais livros de Murakami, as "novelas de mesa de cozinha" se mostram mais simples e um tanto banais. Isso fica evidente quando lemos "Caçando Carneiro". O primeiro romance de Murakami é também seu primeiro sucesso comercial. O êxito do livro o transformou em um autor conhecido e muito querido no Japão. O sucesso de "Caçando Carneiro" também alcançou o exterior. O livro teve ótima aceitação nas livrarias dos Estados Unidos e da Europa. Haruki Murakami se transformou, então, em um best-seller internacional. "Caçando Carneiros" é uma ótima criação. Além de muito divertido, o livro possui um mistério de estilo nonsense que prende o leitor nas páginas. Para completar, a história tem muito mais ação do que as publicações antecessoras. Essa obra continua a história narrada nas duas primeiras novelas. Em "Caçando Carneiros", o narrador retorna seus relatos no ano de 1978. Agora, o protagonista é sócio de uma agência de publicidade. Sua vida pacata e sua rotina banal sofrem uma grande reviravolta quando ele se apaixona por uma modelo que também trabalha como prostituta. Além da nova paixão, a personagem principal recebe uma missão peculiar de um homem misterioso que visita seu escritório. O visitante quer que ele encontre um carneiro mágico que havia sido retratado em um dos anúncios de sua agência. Aí, a história ganha contornos fantásticos e engraçadíssimos. Tudo é possível nessa intrigante trama. O livro "Dance Dance Dance" (Alfaguara), publicado em 1988, coloca ponto final à saga do introspectivo personagem sem nome, descrevendo sua procura pela namorada de orelhas maravilhosas que (cuidado: aí vai um pequeno spoiler!) desaparece misteriosamente no final de "Caçando Carneiros". A década de 1980 foi muito produtiva para Haruki Murakami. Depois de "Caçando Carneiro", o japonês publicou, em 1987, "Norwegian Wood". Este romance é considerado sua obra-prima. O livro vendeu mais de 12 milhões de unidades no mundo todo, sendo publicado em mais de quarenta países. Além de famoso e best-seller, Murakami passou a ser visto como um dos principais escritores contemporâneos, com uma obra admirada e desde já clássica. "Norwegian Wood" se transformou rapidamente em um ícone cultural de sua geração. Com fortes traços autobiográficos, "Norwegian Wood" trata com lirismo as angústias da juventude. Usando o nome de uma canção dos Beatles, o livro tem como temática principal o amor incompleto e fragmentado, típico dos tempos modernos. Se passando essencialmente em Tóquio no ano de 1968, a trama é narrada em primeira pessoa por Toru Watanabe, um universitário de 19 anos. Ele apresenta o triângulo amoroso entre ele, Naoko, uma moça frígida por quem é apaixonado platonicamente, e Midori Kobayashi, uma colega de universidade lasciva. Dos livros que analisei de Murakami, esse é o meu favorito. Sem sombra de dúvida, "Norwegian Wood" é também uma das melhores obras ficcionais que já li em minha vida. Não me surpreenderei se ele se tornar em um futuro próximo um dos clássicos do século XX. Nesse romance, encontramos um autor em sua plenitude artística e com total domínio do trabalho de produzir uma narrativa sensível, profunda e inquietante. A fama internacional fez Haruki Murakami receber muitos convites de trabalho. Assim, o escritor optou por morar durante a primeira metade da década de 1990 nos Estados Unidos. Sua volta ao Japão ocorreu em 1995. Desde então, ele mora na região metropolitana de Tóquio. "Minha Querida Sputnik" é o primeiro romance dessa nova etapa de sua vida. Publicado em 1999, o romance é o mais enxuto do japonês e também o mais filosófico, gerando intensa reflexão por parte do leitor. Misturando espiritualidade e intrincados dramas amorosos, Murakami produziu uma narrativa sensível e emocionante. Ao mesmo tempo, é a trama mais triste e amarga de sua carreira. Em meio a um Japão moderno, superpovoado e tecnológico, os indivíduos continuam sofrendo por amor, sem conseguirem canalizar suas emoções de maneira positiva. A história de "Minha Querida Sputnik" é narrada em primeira pessoa por K. O rapaz é um jovem professor de uma escola primária de Tóquio. Ele é apaixonado por Sumire, uma moça que sonha em ser escritora, mas que vê K apenas como um bom amigo. O problema de Sumire é que ela nunca se apaixonou e não sente atração por ninguém, se mantendo virgem aos 22 anos. Isso até ela se apaixonar por Miu, uma mulher casada (e com dois filhos) e quase duas décadas mais velha. A paixão da jovem é avassaladora e altera seus hábitos e suas crenças sobre a vida. Para sua tristeza, esse amor não é correspondido por Miu. "Minha Querida Sputnik" é o apelido carinhoso dado por Miu a Sumire. Mais recentemente, entre 2009 e 2010, Haruki Murakami publicou "1Q84", sua ambiciosa trilogia. Inspirado no livro "1984" (Companhia das Letras), clássico de George Orwell, a obra japonesa apresenta uma trama fantástica que se passa em um universo paralelo. Os três livros de "1Q84" ultrapassaram a marca de oito milhões de unidades vendidas globalmente. No Japão, sua primeira edição se esgotou no primeiro dia. Ao final do primeiro mês, os leitores japoneses já tinham adquirido um milhão de cópias, um recorde no mercado editorial local. Nos Estados Unidos, as livrarias tiveram que abrir à meia-noite no dia de lançamento da obra para atender à grande demanda de clientes. O enredo de "1Q84" se passa no Japão durante o ano de 1984. Nos capítulos ímpares, conhecemos a vida de Aomame, uma jovem assassina que trabalha como instrutora de artes marciais em uma academia de Tóquio. Nos capítulos pares, lemos sobre Tengo Kawana, um professor de matemática que sonha em ser romancista. Ambos levam vidas solitárias e monótonas na capital japonesa. As tramas se entrelaçam quanto Aomame e Tengo são misteriosamente levados para um mundo paralelo. Lá, eles precisam escapar das ameaças dos inimigos em comum. Além disso, eles tentam se encontra para viver juntos depois de anos de distanciamento. Os três livros da série são muito intrigantes. Vale notar que Murakami também tem a capacidade de produzir uma obra mais robusta e longa. Se até então o escritor japonês havia produzido novelas e romances com enredos simples, pessoais e de pouca densidade narrativa, "1Q84" inverte essa característica. A história é muito complexa, recheada de personagens inusitadas, acontecimentos fantásticos e ações típicas dos mais movimentados romances policiais modernos. De forma geral, "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" são as histórias mais melancólicas e introspectivas do autor. "Caçando Carneiro", por sua vez, é o livro mais engraçado e escrachado de Murakami, com uma trama totalmente amalucada. "Norwegian Wood" é a mais erótica e densa. "Minha Querida Sputnik", apesar de ser a mais breve, também é a mais reflexiva e com mais elementos filosóficos. E "1Q84", por fim, é a mais longa (distribuída ao longo de três livros grossos) e a mais eletrizante, com um enredo com muita ação e suspense. A escolha do nome de Haruki Murakami para o Desafio Literário de 2017 foi acertadíssima. Conhecer seu trabalho é se inteirar do que há de melhor na literatura contemporânea. O principal autor japonês da atualidade é um artista rico e universal, com a incrível capacidade de criar tramas emocionantes, sensíveis, peculiares e de extrema beleza. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HarukiMurakami #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Régine Deforges

    Chegou o momento de produzirmos, aqui no Blog Bonas Histórias, uma análise abrangente da literatura de Régine Deforges. Para tal, seis obras da escritora francesa foram lidas e comentadas durante o mês de junho. Os títulos selecionados pelo "Desafio Literário" foram: "O Diário Roubado", "A Revolta das Freiras", "A Bicicleta Azul", "Vontade de Viver", "O Sorriso do Diabo" e “Sob o Céu de Novgorod”. Com essa bagagem adquirida, vamos às apresentações das conclusões obtidas. Régine Deforges se tornou mundialmente famosa nas décadas de 1980 e 1990. Seu maior sucesso é a série "A Bicicleta Azul", composta por dez livros que narram as aventuras de Léa Delmas, uma jovem funcionária da Cruz Vermelha internacional. A coleção começou com uma trilogia ambientada na Segunda Guerra Mundial. Escrito na primeira metade dos anos 1980, o enredo dos três livros iniciais se passa essencialmente na França. Quando a série se tornou best-seller, Deforges publicou, de 1991 a 2007, mais sete livros com a continuação das peripécias de Léa. Nesse segundo momento, a protagonista viaja pelo mundo e vivencia fatos históricos na América do Sul (Perseguição aos nazistas na Argentina), na América Central (Revolução Comunista em Cuba), na África (Guerra de Independência da Argélia) e na Ásia (Guerra de Independência do Vietnã). O trabalho literário de Régine Deforges, contudo, não se restringe à série "A Bicicleta Azul". A escritora também produziu novelas, ensaios, crônicas, contos e outros romances. Desse portfólio variado de obras, os principais gêneros narrativos da francesa foram o conto e o romance. Enquanto o primeiro foi mais voltado para as histórias eróticas e se tornou mais conhecido dentro da França, o lado romancista de Deforges está atrelado às narrativas históricas e ficou mais famoso fora do seu país natal. Os contos eróticos de Régine Deforges sofreram com a censura e o boicote das livrarias francesas. O conservadorismo do país europeu atrapalhou muito a escritora no início de sua carreira. Régine era vista como uma despudorada pela sociedade e pelos críticos da época. Apenas anos depois de publicadas, as histórias eróticas da francesa passaram a ser reconhecidas pelo mercado e pelo público leitor como tendo qualidade. Como tive dificuldade de achar os livros de contos da autora aqui no Brasil, acabei optando por analisar apenas seus romances. Até mesmo os romances de Deforges não são tão fáceis de serem encontrados hoje em dia em nosso país. Como a fama da francesa ficou concentrada entre os anos de 1980 e 1990, muitos de seus livros são desconhecidos do público mais jovem. Esta característica prejudica o leitor no momento de procurar essas obras no mercado. As publicações da francesa não estão no catálogo tradicional das livrarias nem das editoras. Alguns títulos possuem apenas edições de algumas décadas atrás. Para comprá-los, é necessário reservá-los às editoras internacionais ou recorrer aos sebos das grandes cidades. Os romances de Régine Deforges possuem algumas características marcantes. A seguir, vou listar os oito pontos que mais chamam a atenção na literatura da escritora francesa: 1) O primeiro elemento é a forte presença de protagonistas femininas, que monopolizam as tramas. Os enredos da autora são sempre sobre mulheres corajosas que enfrentam fortes imposições da sociedade machista e violenta de diferentes épocas da história. Os homens são retratados normalmente de maneira pejorativa. Enquanto eles são poucos confiáveis, cruéis, grosseiros e gananciosos, elas são honradas, inteligentes e destemidas. As personagens principais de Deforges são sempre jovens muito bonitas e mulheres à frente do tempo. Todas carregam a bandeira do feminismo. Segundo essa ideologia, elas têm os mesmos direitos do que os homens. Não há nada que elas não possam ou devam fazer. 2) O forte erotismo é segundo aspecto que merece ser destacado nos livros de Régine Deforges. Os romances foram influenciados, de alguma maneira, pelo estilo dos contos da autora. As narrativas da francesa têm normalmente muito sexo. A libido corre solta nas tramas. As personagens estão sempre transando ou querendo transar, sem se preocuparem com as consequências ou com a opinião dos outros. Até mesmo a vida sexual das heroínas é agitada e relatada em detalhes. Não se surpreenda se a protagonista for para a cama com vários homens durante as histórias. Também não fique abismado(a) se ela praticar ménage à trois, se for homossexual (ou bissexual), se recorrer à masturbação de vez em quando e se for apaixonada por mais de um homem ao mesmo tempo. Régine Deforges é liberal em relação ao sexo e suas protagonistas espelham esse conceito. Em alguns casos, a liberalidade une-se à libertinagem. 3) Outra característica típica da autora é a intensa violência de suas tramas. Os enredos dos livros de Régine Deforges se passam sempre em períodos de guerra ou em momentos históricos onde a barbárie impera. A Idade Média e a Segunda Guerra Mundial são seus períodos favoritos. Assim, a violência é variada e extrema. Há todo tipo de maldade possível e imaginável: Roubos, estupros, amputações genitais, torturas físicas e psicológicas, genocídios, sodomias, prisões arbitrárias, assassinatos, humilhações, suicídios, vinganças, autoflagelações e canibalismos. Em alguns casos, isso tudo acontece quase que simultaneamente. É preciso estômago forte para encarar muitas das cenas relatadas nas páginas destas publicações. 4) Os romances históricos da francesa são muito bem construídos. Algo que a escritora gostava de fazer era misturar realidade e ficção. Esse pode ser considerado o quarto ponto característico de Régine Deforges. Os enredos de seus livros eram desenvolvidos a partir de fatos e personagens que existiram de verdade. Nota-se, portanto, um forte trabalho de pesquisa bibliográfica. Em alguns casos, Régine Deforges construiu sua ficção a partir de fatos históricos. Em outros momentos, ela detalhou acontecimentos marcantes do passado de maneira ficcional. Ler Deforges é viajar para períodos turbulentos do passado. Além disso, seus romances servem como verdadeiras aulas de história. 5) Outra característica das tramas de Deforges é o constante deslocamento físico de suas protagonistas. As heroínas dos romances da francesa estão sempre viajando de um lugar para outro. Raramente, elas ficam paradas em um mesmo lugar. Não importa se o país está em guerra, se vândalos dominam as estradas ou se os inimigos estão procurando-as. As destemidas personagens de Régine lançam-se em viagens com o objetivo de valer suas vontades e opiniões. Essa postura mostra o inconformismo delas em relação a determinadas situações e demonstra a valentia feminina em buscar os seus sonhos por conta própria. Assim, as obras de Régine Deforges adquirem sempre um tom de "Road Story". 6) Um elemento que incomoda um pouco o leitor (principalmente a ala masculina) é a mania de Régine Deforges em descrever os aspectos relacionados ao vestuário das personagens e a culinária servida em cena. A autora destaca as roupas usadas pelas personagens e os cardápios das refeições realizadas nos livros como se esses fossem aspectos fundamentais para se compreender a história narrada. Sinceramente, essa característica transmite muito mais a sensação de futilidade do que de rigor narrativo. Não que a moda e a culinária não sejam importantes. Não é isso o que estou dizendo. O que torna os livros de Régine Deforges um pouco fúteis é o excesso de descrições sobre esses temas quando há outros elementos narrativos mais relevantes acontecendo paralelamente. Por exemplo, em pleno bombardeio aéreo da Segunda Guerra Mundial, a protagonista do romance retorna para o quarto para escolher qual vestido usar em seu passeio noturno. Saída de casa à noite em pleno bombardeio?! Como assim?!!! Ao invés de explicar isso, a autora descreve o vestido escolhido para o passeio... 7) Os romances de Régine Deforges possuem uma extensa lista de personagens. Quando digo que há muitas pessoas nas tramas, acredite em mim. São muuuuuuuuitos mesmo. Há livros que têm mais de duas centenas de pessoas interagindo. Em suas obras mais comedidas, Deforges constrói histórias com pouco mais de uma centena de personagens. O leitor precisa de uma boa memória para acompanhar a narrativa ao longo das páginas. 8) A linguagem e o estilo narrativo de Deforges são os mais simples possíveis. O texto possui tom coloquial e as construções sintáticas são enxutas e objetivas. O leitor também não encontrará grandes recursos literários nos romances da francesa. Deforges procura simplificar suas histórias ao máximo, delimitando os personagens em mocinhos e vilões. O maniqueísmo prevalece durante as obras e segue imutável do início ao fim. Não espere, portanto, grandes reviravoltas, surpresas ou mistérios durante as tramas. Régine Deforges nasceu em Montmorillon, em 1935. A pequena cidade do interior francês é caracterizada por ter uma população conservadora e muito religiosa, sendo sede de várias instituições católicas. Desde cedo, a jovem Régine adorava ler e escrever. Seus hábitos indicavam que a garota iria, no futuro, trabalhar com algo relacionado ao mercado editorial. Ainda na adolescência, a família da futura escritora deixou o interior e se mudou para Paris. Na capital francesa, a paixão de Régine Deforges pela literatura aumentou. Desde cedo, ela passou a trabalhar como vendedora de livros, encadernadora, editora, patrocinadora de bibliotecas públicas e colecionadora de obras literárias. Sua paixão pelo universo da escrita a fez mergulhar de cabeça neste mercado. Em 1968, usando o dinheiro do marido industrial, Régine abriu sua própria editora, a Or du Temps. Essa decisão causou certo alvoroço no mercado editorial francês, que naquele momento não estava acostumado com uma mulher à frente dos negócios. O ambiente machista da época não concebia uma mulher empresária neste ramo de atividade. Além disso, ao apostar em títulos polêmicos (com temáticas eróticas e com enredos feministas), Deforges se tornou persona non grata pelas livrarias. Apesar dos vários inimigos em todos os elos da cadeia de mercado, Deforges conseguiu impor sua marca no universo editorial francês durante a década de 1970. Contudo, os processos, as multas e a censura da sociedade levaram, ao longo dos anos, a falência da Or du Temps. Obstinada, Régine Deforges abriu (e fechou) várias outras editoras ao longo de sua vida. Ao mesmo tempo em que atuava como editora, Régine Deforges também passou a tentar a carreira de escritora. As primeiras obras narrativas de Régine Deforges não despertaram grande interesse do público. Foi o caso de "O M'a Dit" (Sem tradução para o português), de 1975, e "Blanche et Lucie" (Também sem tradução), de 1976. O primeiro é um ensaio em que Deforges apresenta uma série de entrevistas com um importante escritor do seu país, enquanto o segundo é uma novela sobre a vida de suas avós. A primeira importante publicação autoral de Régine Deforge foi a novela "O Diário Roubado" (Klick), de 1978. A relevância da obra tem dois motivos. Esta é uma história com elementos autobiográficos e, ao mesmo tempo, esse livro já apresenta alguns elementos estilísticos da autora que seriam suas marcas literárias no futuro. "O Diário Roubado" apresenta o drama da adolescente Léone. A moça de quinze anos teve seu diário roubado. O responsável pelo crime foi um rapaz que a odiava. Nas páginas de seus relatos, Léone narrava em detalhes sua relação amorosa e sexual com Mélie, uma colega de escola. Quando o diário é divulgado para a cidade inteira, o homossexualismo de Léone se torna público. Um episódio parecido ocorreu com Régine Deforges em sua adolescência. Um rapaz roubou o diário da jovem e divulgou suas anotações para a cidade de Montmorillon. Nesta época, Régine era apaixonada por uma garota de sua escola e os relatos de sua paixão homossexual se tornaram públicos. Regine sofreu tanto preconceito que sua família precisou se mudar para Paris. "O Diário Roubado" é uma narrativa recheada de elementos eróticos. Sua protagonista possui uma forte ideologia feminista e o texto do livro tem uma linguagem simples e direta. Ou seja, temos aqui parte da receita do sucesso de Deforges. As histórias libidinosas e com heroínas fortes e decididas nascem com essa novela. No início de 1981, Régine Deforges não era uma escritora tão renomada em seu país. Naquele momento, ela era vista pelo mercado editorial francês mais como uma editora (empresária) do que uma autora ficcional (artista das letras). Ou seja, no papel de escritora, Régine ainda buscava afirmação perante os leitores. Nesse contexto, a francesa lançou dois romances importantíssimos para sua carreira autoral: "A Revolta das Freiras" e "A Bicicleta Azul". A partir daí, sua carreira como romancista decolou. "A Revolta das Freiras" (Best Seller) é o primeiro romance histórico da autora. Com essa publicação, Régine Deforges deixava para trás os gêneros narrativos curtos (contos, novelas e ensaios) e enveredava pelas tramas mais robustas. Além disso, esse livro acrescentava novos aspectos estilísticos à literatura da francesa. A sexualidade aflorada de suas personagens, a construção de protagonistas embutidas de uma forte ideologia feminista e a linguagem simples e direta renovam-se (já apareceram em "O Diário Roubado"). As novidades são: as narrativas com níveis extremos de violência, o surgimento de tramas ambientadas em momentos históricos marcantes, os enredos que misturam realidade e ficção, histórias em que personagens estão em constante deslocamento (viagens) e romances com elevadíssimo número de personagens. Se pensarmos bem, esses ingredientes estão presentes em todos os principais sucessos editoriais da escritora. A protagonista de "A Revolta das Freiras" é Vanda. Essa história se passa no século VI. Quando bebê, Vanda foi alimentada e criada por uma família de lobos na floresta. Depois, ela foi educada em um monastério. Quando Vanda se viu forçada a seguir a vida de freira, ela se revoltou contra a Igreja, levando consigo várias outras jovens freiras. Estava aberto o conflito na França medieval. Vanda é uma típica personagem romântica: bonita, inteligente, sensível, corajosa, honrada, amorosa e aventureira. Ao mesmo tempo, ela é uma mulher à frente do seu tempo. A personagem principal não apenas sabe viver sozinha na floresta como também sabe lutar bravamente contra os homens que ameaçam sua integridade. Ela carrega consigo uma espada e não hesita em apontá-la para alguém. Trata-se de uma mulher independente e decidida. Vanda enfrentará com coragem todos os perigos típicos da Idade Média. Ela precisará encarar diretamente a força da Igreja Católica, uma instituição que durante o século VI era até mais poderosa do que os monarcas europeus. Diferentemente das outras protagonistas de Régine Deforges, Vanda (acredite!) é casta. Ela não tem vontades libidinosas durante boa parte da narrativa. Em compensação, os demais personagens não perdem tempo... Apenas no final da história (afinal, ninguém é de ferro, né?), Vanda entrega-se aos prazeres do sexo. Ainda em 1981, chegou às livrarias francesas o livro "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), primeira obra da série homônima. Com esta publicação, Régine Deforges se transforma definitivamente em uma escritora best-seller. Ela deixa, portanto, de ser vista apenas como uma escritora polêmica de histórias eróticas para entrar no clube dos romancistas bem-sucedidos e populares. Rapidamente, seu trabalho deixa as fronteiras francesas e alcança novos leitores em vários países da Europa e nos Estados Unidos. A trama do livro "A Bicicleta Azul" se passa entre 1939 e 1942, anos iniciais da Segunda Guerra Mundial. Com o conflito armado, Léa Delmas, uma jovem de 17 anos que morava no interior da França, é obrigada a amadurecer abruptamente. Ela deixa a vida adolescente e migra para o mundo adulto. Enquanto sofre com as restrições e os perigos impostos pelo conflito armado, Léa descobre o prazer do sexo, desvendas os enigmas do amor e investe na defesa dos seus ideais sociais e políticos. Léa Delmas é a personagem mais simbólica de Régine Deforges. Bonita, inteligente, corajosa e libertina, a jovem é a representante máxima do movimento feminista e da liberdade sexual das mulheres. Apesar de ser apaixonada por Laurent, um homem casado que é enviado para guerra, Léa se envolve amorosamente com outros parceiros. Ciente da sua beleza, Léa também provoca os homens por onde passa, não vendo problema em fazer sexo com vários parceiros, sejam eles casados, funcionários da fazenda do pai ou possíveis espiões do governo inimigo. Um amigo dela em Paris, François Tavernier, é o homem que tira sua virgindade. É com ele que a jovem vai para a cama quando está na capital francesa. Em Montillac, cidade interiorana onde a família da moça tem uma fazenda, o parceiro amoroso de Léa é Mathias Fayard, filho do administrador da fazenda. Ou seja, os dois rapazes são usados como consolo pela adolescente enquanto ela espera a volta de Laurent. A força narrativa de Léa Delmas não se fica limitada à sua sexualidade. A jovem é tão destemida que viaja pela França em plena guerra sem temer nenhum mal. Ela também se posiciona como a responsável pelo cuidado da família e pela administração da fazenda paterna. Durante a trama, ela está sempre indo de um lugar para outro, sem temer os perigos e a opinião alheia. O panorama histórico é o que dá charme ao livro. Régine Deforges consegue retratar com propriedade o drama e os desafios do período inicial da Segunda Grande Guerra. Somos levados à França pré-invasão alemã. Diante dos nossos olhos, passam fatos históricos e personagens reais (tanto do cenário político como do cultural). É uma delícia viver os acontecimentos deste período (por mais tristes que sejam) e verificar como eles impactaram a vida das personagens comuns. "Vontade de Viver" (Best Bolso), lançado em 1983, é a segunda parte da história de Léa durante a Segunda Guerra Mundial. Essa obra começa no ano de 1942 e termina em 1944. Agora temos uma França totalmente ocupada pelas tropas alemãs. Se os nazistas dominam a capital e a maior parte do território francês, há ainda uma região ocupada pela Resistência, grupo de franceses que não desistiu de combater os invasores. Dessa forma, a guerra prossegue, porém ela não é realizada apenas nos campos de batalha e nas trincheiras. A guerra é agora mais sutil e diplomática. A transformação da protagonista fica mais evidente em "Vontade de Viver". Se no livro "A Bicicleta Azul" Léa era uma menina fútil, mimada, inexperiente e sonhadora, nesta segunda obra ela já se transformou em uma mulher que comanda a família com pulso firme. Portanto, o amadurecimento da protagonista não é apenas sexual. Em "Vontade de Viver", Léa é uma verdadeira heroína. Integrante ativa da Resistência francesa, ela é uma espiã contra o governo alemão. Essa sua inclinação política faz com que ela se torne alvo cada vez mais direto da repressão da SS, a polícia nazista. Ao mesmo tempo em que atua na política do seu país, Léa também é a responsável por cuidar da fazenda da família em Montillac. A moça cuida das finanças à lavoura, colocando a mão na massa. Outra mudança significativa de "Vontade de Viver" é o aumento da violência. A história que iniciou como romântica em “Bicicleta Azul” torna-se agora uma trama de terror. Há cenas fortes e escatológicas de assassinatos, espancamentos, traições, mutilações e estupros, além do detalhamento do que aconteceu com os judeus nos campos de concentração nazistas. Publicado em 1985, "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso) é a terceira parte da série. A história de Léa Delmas continua, mas a Segunda Guerra Mundial está em seu fim. O livro abrange o período de 1944 a 1945. A retomada do poder pelos franceses não é algo tranquilo. Em meio ao caos social, político e econômico, Léa cuida de sua família, cada vez mais fragmentada. Os Delmas vivem doentes e na pobreza. Ao mesmo tempo, Léa segue sua atuação como uma rebelde (integrante da Resistência) e dedica-se a conquistar o coração de François Tavernier, agora seu grande amor. Para completar, a protagonista começa a trabalhar na Cruz Vermelha. Neste terceiro romance da série, temos as descrições mais intensas dos acontecimentos políticos e históricos da Segunda Guerra Mundial. O final do conflito é farto em episódios significativos. São vários capítulos com muitas páginas dedicadas às cenas e aos personagens reais. A trama da família e dos amigos de Léa Delmas, em várias oportunidades, fica em um segundo plano em “O Sorriso do Diabo”. O momento mais significativo deste livro é uma cena de sexo a três. Léa talvez seja a única protagonista de um romance best-seller que tenha transado com dois homens ao mesmo tempo. Os felizardos são seus amigos de infância: Jean e Raul. Os irmãos, mesmo muito feridos pela guerra, transam com a amiga. Ou seja, a jovem, além de ter vários parceiros sexuais ao longo da série, agora envereda alegremente pelo ménage à trois. Trata-se de uma heroína moderna e corajosa. Impossível não gostar dela. Enquanto vemos a coleção de parceiros amorosos de Léa se multiplicar, também presenciamos a consolidação do amor dela por François Tavernier. Justamente quando a Srta. Delmas pode ficar com Laurent d'Argilat (afinal, ele regressa da guerra e não está mais casado com Camile), a moça descobre preferir o Sr. Tavernier. Curiosamente, o amor deles é intenso, porém nada romântico. Já vimos que Léa, enquanto esperava pelo amado, fazia sexo com amigos. Ele, por outro lado, deitava-se com prostitutas e com outras militantes políticas durante a guerra. Quando ambos não tinham um parceiro a sua disposição, eles optavam pela masturbação. Ao se encontrarem brevemente no meio dos romances, os dois faziam sexo de maneira tórrida e mecânica. Para o casal, não havia qualquer relação entre amor e sexo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa era outra coisa. Simples assim. Possivelmente, esta seja a relação amorosa mais liberal estabelecida por um casal de protagonistas na literatura mundial. Os méritos desse fato são todos de Régine Deforges. A autoria francesa teve a audácia de retratar a realidade prática da vida no período da guerra. Ela não fez qualquer concessão ao romantismo idílico e platônico. Depois de se ler a série “Bicicleta Azul”, há grandes chances das personagens românticas se tornem mais artificiais, tolas e sem graça aos olhos dos leitores. Léa Delmas é a representante máxima do feminismo moderno. A personagem age promovendo o "empoderamento" das mulheres, para usarmos um termo em moda atualmente. A moça é contrária ao casamento, à vida doméstica e à maternidade. Nem precisa dizer que ela apoia a liberdade e a revolução sexuais para ambos os sexos. Quando destacamos os aspectos eróticos da literatura de Deforges e da série "A Bicicleta Azul" é importante fazermos uma ressalva. Os livros da francesa não são parecidos, por exemplo, com a série "Cinquenta Tons de Cinza", da inglesa Erika Leonard James, que explora quase que exclusivamente os momentos libidinosos das suas personagens. Nas narrativas de Régine Deforges, o sexo acontece naturalmente e sem preconceitos, fazendo parte de um enredo maior. Ou seja, o erotismo é parte da trama e não seu elemento principal. Se Deforges descreve com mais detalhes os momentos íntimos das personagens do que nos livros tradicionais (dando algumas linhas ao ato sexual e ao prazer sentido), ela, contudo, não avança nos pormenores como nos romances de James. Assim, hoje em dia, podemos encarar os romances da francesa como possuindo um erotismo soft. “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira) é outra novela histórica de Deforges baseada em fatos reais. Publicada em 1989, a trama é ambientada no século XI. Aproveitando-se de acontecimentos da Idade Média, Régine Deforges elaborou uma intrincada narrativa ficcional com personalidades da corte francesa, inglesa e russa. Ou seja, ao invés de construir um romance calcado em um determinado momento histórico (como ocorreu com os livros de série “A Bicicleta Azul”), Régine Deforge opta, aqui, por dramatizar a vida e os sentimentos de personagens que existiram de fato (algo que Régine já fizera, por exemplo, em "A Revolta das Freiras"). Usam-se os trabalhos e os estudos históricos como matéria-prima para a produção de uma narrativa ficcional. Em “Sob o Céu de Novgorod”, a protagonista é Ana, uma jovem princesa russa. Ela se transforma em rainha francesa, em 1051, após se casar com Henrique I, rei da França. Acostumada a caçar, cavalgar, passear e viajar pelos campos e pelas florestas de seu país, Ana se sente enclausurada na França. A moça também estranha o comportamento de Henrique I. O rei é homossexual assumido e prefere a companhia dos seus valetes à da rainha. Mesmo amada por todos no novo país, Ana se sente solitária e desprestigiada no reino francês. Como um bom livro de Régine Deforges, vamos encontrar aqui uma trama construída em cima de uma mulher jovem, muito bonita e de personalidade forte. Destemida e muito caridosa, Ana tem valores e pensamentos muito à frente do seu tempo. A novidade desse romance é a presença de um homem ultrarromântico. Fiel a valores como honra, fidelidade, coragem e abnegação, Filipe (amigo de infância da protagonista) possui características de um herói à moda antiga. Ele leva uma vida em prol de Ana (sua amada), chegando a se esquecer de si próprio. Trata-se do único personagem masculino importante dos romances de Deforges com essas características. Outros três elementos corriqueiros nas obras de Régine Deforges e que estão presentes aqui são a grande violência, o erotismo acentuado e o excesso de personagens. O ponto fora da curva é o casamento de Ana (heroína) com o conde Raul de Crépy (o vilão). A rainha, uma vez viúva, aceitou as investidas de um dos maiores crápulas do romance e sobe no altar com ele. A justificativa é hilária: ela alega estar carente de afeto e precisar de um homem viril a seu lado. Depois de anos casada com um homem que a desprezava na cama, Ana encontrou alguém que a desejasse intensamente. Aos olhos da rainha, enfim ela teria um homem que a satisfaria sexualmente. Aí, não importava o quão cruel Raul era com os outros. Ele podia matar, espancar, estuprar e roubar o quanto fosse fora de casa. A esposa só via o quanto o marido era bom para ela e para seus filhos. Este, talvez, seja um dos casais mais improváveis da literatura. A união de Ana e Raul de Crépy provoca certo mal-estar no leitor. “Como isso é possível?” é a pergunta que todos se fazem. A sensação de inconformismo só aumenta quando a protagonista afirma viver os melhores anos de sua vida com aquele homem cruel e repugnante. As maravilhas que ele faz na cama, o carinho genuíno dele para com ela e apoio financeiro de Raul às causas sociais de Ana o transformam no melhor marido do mundo aos olhos da personagem principal. Em 2014, Régine Deforges faleceu em Paris. Deixou dois filhos, cada um de um casamento. A escritora é até hoje reconhecida como a principal representante da literatura erótica francesa. A série "A Bicicleta Azul", sua principal obra, vendeu mais de seis milhões de exemplares e marcou toda uma geração. Essa foi a autora analisada nesse mês de junho no "Desafio Literário". Em julho, o escritor que estará no radar do Blog Bonas Histórias é Haruki Murakami, um dos mais premiados e cultuados autores japoneses da atualidade. Não perca a continuação das análises literárias do "Desafio Literário" em 2017. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Machado de Assis

    Ao longo de todo o mês de maio, o Desafio Literário, coluna exclusiva do Blog Bonas Histórias, se dedicou aos estudos das obras de Machado de Assis. Após a leitura crítica de cinco livros do principal escritor brasileiro de todos os tempos, podemos agora fazer uma análise literária mais completa e profunda da carreira deste autor. Machado de Assis foi responsável pela produção de alguns dos melhores romances da língua portuguesa. Introdutor no Brasil do movimento realista, o escritor carioca também foi um ótimo cronista e contista. Sua versatilidade fica evidente ao constatarmos que ele também enveredou pela poesia, pelos romances românticos, pelas peças teatrais, pela crítica literária e pelos ensaios. Atuou, portanto, com elegância e sucesso em quase todos os gêneros literários mais populares. Sua obra literária reúne nove romances, dez peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e mais de seiscentas crônicas. Não é à toa que Machado, quando faleceu em setembro de 1908, estava coberto de glórias. O reconhecimento da crítica e dos leitores nacionais foi obtido, felizmente, ainda em vida. Machado, considerado já pelos seus contemporâneos como o maior escritor da nossa história, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), sendo também proclamado o primeiro presidente da instituição. O passar das décadas só aumentou a grandeza do seu trabalho e de seu legado artístico. Hoje, ele é estudado por críticos literários internacionais e continua influenciando os autores das novas gerações. O começa da vida do autor, entretanto, não foi fácil. Joaquim Maria Machado de Assis (seu nome de batismo) precisou superar as dificuldades econômicas, educacionais e sociais até se consolidar na carreira literária. Vindo de família muito humilde, tendo frequentado pouco a escola tradicional, sem nunca ter chegado à faculdade e sofrendo com o forte preconceito racial do século XIX (vale lembrar que Machado era mulato e o Brasil era uma nação escravocrata quando ele nasceu), era difícil imaginar que aquele garoto um dia se transformaria em um dos maiores intelectuais do país. Nascido no Morro do Livramento, subúrbio do Rio de Janeiro, em 1839, Machado era filho de um pintor de paredes e de uma lavandeira. Por ter frequentado muito pouco a escola, ele acabou sendo alfabetizado tardiamente. Ainda garoto, ele começou a receber aulas particulares de um padre muito amigo da família. Nestas aulas, o religioso não apenas ensinou o futuro escritor a ler e a escrever português. Ele também ensinou latim e francês. Além disso, o menino pobre foi introduzido ao universo das ciências, da matemática, da filosofia e, principalmente, da literatura. Machado se tornou um autodidata. Rapidamente, avançou nos estudos e se tornou um poliglota. Na adolescência, Machado de Assis lia compulsivamente os maiores pensadores europeus, adquirindo grande erudição e domínio completo da escrita. Com apenas dezesseis anos, o jovem Machado passou a escrever poesias e crônicas para os jornais da época. Nos anos seguintes, também se tornou um importante dramaturgo, produzindo várias peças teatrais na década de 1860. Suas primeiras publicações editoriais foram obras de poesias e de contos. "Crisálidas", de 1864, e "Falenas", de 1870 (ambas poéticas), e "Contos Fluminenses", de 1870, foram seus primeiros livros lançados. Comecei a leitura das obras de Machado de Assis exatamente por uma de suas coletâneas poéticas. "Crisálidas" (Martin Claret) faz parte da fase romântica do autor. Afinal, antes de ter sido um escritor realista, ele foi poeta (e depois romancista) romântico. O Romantismo era o principal movimento literário em voga no país e na Europa na metade do século XIX. Curiosamente, muitos leitores e fãs desconhecem esse aspecto do trabalho machadiano. Por isso, "Crisálidas" tem um grande valor histórico. Em "Crisálidas", conhecemos 29 poemas escritos entre 1858 e 1864. Neste período, Machado de Assis tinha entre 19 e 25 anos. Ou seja, esta é uma fase da vida da qual o autor ainda era imaturo e estava fazendo experimentações estéticas. Assim, não espere encontrar composições profundas e inovadoras. Diria que as poesias de "Crisálidas" são ingênuas, pueris e sem força dramática. Juro que não consegui achar beleza ou graça em nenhuma delas. Como poeta, Machado de Assis é apenas convencional. No final da década de 1860, Machado de Assis já havia adquirido um bom padrão de vida. Funcionário público dedicado, ele consolidava-se ao mesmo tempo no cenário intelectual da corte carioca como galgava postos importantes dentro da máquina governamental. Assim, no ano de 1869, o escritor casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, cinco anos mais velha do que ele. O casamento durou por 35 anos. Muitos biógrafos dizem que o casal tivera uma vida matrimonial perfeita. Não consta nenhuma séria briga entre eles nem qualquer caso extraconjugal. Carolina sempre ajudou o marido no trabalho literário dele. Ela era muito intelectualizada e inteligente, conseguindo analisar e criticar as composições que ele desenvolvia. Não é errado afirmar que ela foi uma grande parceira literária de Machado de Assis. Por outro lado, são inegáveis os ciúmes que o marido sempre teve de Carolina. Por ser muito feio, o escritor tinha baixa autoestima. Mesmo a portuguesa também não sendo bonita (trata-se de um eufemismo que uso para ninguém, depois, me acusar de ter chamado a primeira dama de nossa literatura de mocreia), ele se incomodava de vê-la conversando com outros homens. Há quem diga que nasceu aí o tema recorrente da sua ficção: a traição. O ciúme do autor o teria levado a esta fixação. Seria Bento Santiago um alter ego do escritor? Há sim essa possibilidade. O primeiro romance publicado por Machado foi "Ressurreição", datado de 1872. Nessa mesma década, ele lançou outros três livros românticos: "A Mão e a Luva", em 1874, "Helena", em 1876, e "Iaiá Garcia", em 1878. Desta fase da carreira de Machado, selecionei para leitura o livro "A Mão e a Luva" (Globo). Para mim, esta obra é importantíssima, pois indica uma primeira tentativa de mudança no estilo do autor. Apesar dos especialistas classificarem "A Mão e a Luva" como sendo romântico, este romance já possui muitas características do Realismo. De certa forma, ele pode ser visto como um livro de transição. Já em seu segundo romance, Machado de Assis já mostrava sinais acintosos de que era muito mais um autor que se interessava pelos meandros psicológicos das suas personagens e pelas necessidades sociais delas. A passionalidade mórbida e o amor platônico, itens estes tão valorizados pelos escritores ultrarromânticos, acabavam ficando em segundo plano nas tramas machadianas. Esqueça, portanto, o estereótipo da protagonista doce, apaixonada e sonhadora. Definitivamente, não é isso o que encontramos neste livro. Guiomar, a personagem principal, é uma mulher fria, interesseira e muito esperta. Sua decisão sobre o matrimônio é baseada única e exclusivamente no que o futuro parceiro tem a oferecer em relação às conquistas financeiras e sociais. Posição na sociedade, status, dinheiro, prestígio, nome, luxo, riqueza e poder são os atributos principais do marido "certo". Se na primeira metade do livro temos uma típica história romântica, na metade final temos um enredo totalmente realista. A reação dos leitores foi a pior possível. Eles não entenderam como era possível o autor criar um desfecho pouco romântico para uma história de amor que parecia tão bonita no início. Mal sabiam eles que Machado de Assis iria se consolidar como um dos mais antirromânticos autores nacionais. Outro elemento interessante que precisa ser destacado em "A Mão e a Luva" é o estilo da narrativa de Machado de Assis. Ele já apresentava, em menor escala, algumas das características que seriam apontadas mais tarde, na Fase Realista, como sendo suas marcas principais. Estão presentes, por exemplo, o diálogo com o leitor, o aprofundamento psicológico das personagens, os jogos de interesses, as vaidades dos protagonistas e as imposições sociais que a vida burguesa exigia das pessoas. Como romancista romântico, Machado de Assis não se destacou muito. Sua passagem para o panteão dos mestres literários viria com o lançamento de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", em 1889. Esse livro representou a introdução do Realismo no Brasil. Machado de Assis é considerado o principal romancista do Realismo Brasileiro (e um dos principais da América do Sul e da língua portuguesa como um todo). Alguns críticos literários, atualmente, chegam a colocá-lo como um dos principais autores mundiais desta escola literária. Após escrever "Casa Velha", em 1885, o escritor carioca lançou outras duas obras-primas do Realismo brasileiro: "Quincas Borba", em 1891, e "Dom Casmurro", em 1899. Esses dois últimos livros fazem parte, juntamente com "Memórias Póstumas de Brás Cubas", do que os críticos literários chamam de "Trilogia Realista", obra maior de Machado. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro" rivalizam como os melhores romances da literatura brasileira. Há quem aponte um e há quem aponte o outro como sendo o maior de todos. Juro que não tenho uma opinião formada a esse respeito (e olhe que eu não sou de ficar em cima do muro). A Revista Bravo, em 2008, apontou "Memórias Póstumas" como pertencente à lista das 100 obras essenciais da literatura mundial, posicionando-o na quinquagésima nona posição entre os clássicos universais (é o único livro brasileiro neste grupo). Já para a Universidade de Coimbra, "Dom Casmurro" está entre os dez melhores romances escritos em Língua Portuguesa, sendo o primeiro colocado entre as obras brasileiras. Portanto, o debate sobre quem é melhor é longo, acalorado e inconclusivo. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret) foi publicado inicialmente em folhetins, sendo transformado em livro um ano depois. Sua importância histórica não está apenas no fato de ter introduzido o Realismo no Brasil. Seu valor literário está nas várias inovações formais, estilísticas e temáticas promovidas por Machado. Já em "Dom Casmurro" (Ática), temos o ápice artístico de Machado de Assis. Um dos motivos que ajudaram neste processo de consolidação do estilo literário do autor, além do próprio amadurecimento pessoal e profissional do escritor, foi o lançamento da história já pronta em livro. "Dom Casmurro" não foi publicado em partes (nos folhetins) nem foi escrito de maneira fragmentada (em capítulos) como os romances anteriores de Machado. Quando chegou às livrarias, tratava-se de uma obra realmente acabada. Com isso, esta trama psicológica possui um enredo tão bem amarrado que provoca muitas interpretações entre os leitores e até mesmo nos leitores (quando se lê mais de uma vez o mesmo livro). O primeiro elemento que podemos destacar no estilo machadiano encontrado em sua Trilogia Realista é o abandono definitivo da narração linear e objetiva e da visão de mundo romântica que marcaram seus primeiros romances. O escritor carioca passa a produzir uma narrativa entrecortada e subjetiva (geralmente escrita na primeira pessoa), com forte cunho psicológico. Prova maior desta característica aparece em "Dom Casmurro". Afinal, o marido apaixonado (e ciumento) fora ou não traído pela mulher prendada (e dissimulada)?! Há quem veja indícios de traição, enquanto outros apostam na retidão da esposa. Assim, as histórias de Machado são suscetíveis à interpretação do leitor. O que realmente aconteceu? Esta é a pergunta que todos se fazem à medida que as tramas vão sendo apresentadas. Como na vida real, o certo e o errado e a verdade e a mentira dependem do ponto de vista de quem analisa as questões. Em "Dom Casmurro", a definição dos acontecimentos ocorridos na família Santiago, portanto, depende mais da opinião dos leitores do que das descrições feitas pelo autor da obra. Machado também possui uma visão de mundo mais pragmática. Ele aborda a sociedade da época com pessimismo e indiferença. Há aqui uma contumaz crítica à vida burguesa do século XIX. Como elemento extra, há altas doses de ironia. O escritor mostra todo o seu talento literário ao destilar um doce veneno em suas palavras. A ironia está presente do início ao fim dos romances. Além da visão negativa da vida, os personagens machadianos criam lanços pessoais unicamente por interesses financeiros e sociais. Nem mesmo as paixões são elementos vindos diretamente dos corações românticos. Assim, os protagonistas de Machado estão, normalmente, mais para o lado dos vilões do que para os dos mocinhos. Neste caso, os melhores exemplos estão contidos em "Memórias Póstumas". Brás Cubas dedicou sua obra "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver". Ainda na parte inicial do livro, ele declarou sobre uma das pessoas que foram ao seu enterro: "Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei". Quando precisa explicar, mais à frente no romance, o quanto sua primeira namorada o amou, o narrador foi taxativo: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis". O que dizer, então, da última frase da obra, que conclui o pensamento do protagonista: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Outro aspecto que precisa ser mencionado nessas obras e que marca o novo estilo concebido por Machado de Assis é a conversa aberta entre narrador e leitor. O tempo inteiro, o protagonista/narrador dirige-se diretamente à pessoa que lê o romance como se ambos estivessem conversando. Este recurso permite uma maior intimidade entre os dois lados, além de representar a possibilidade de mais divagações e reflexões por parte do personagem principal. Assim, a narrativa torna-se entrecortada, misturando fatos narrados e a exposição de pensamentos do protagonista. Estas conversas insistentes entre narrador e leitor também têm o efeito de transformar a narrativa em um texto metalinguístico. Ironicamente, Machado de Assis passa a comentar e criticar a postura de quem escreve e de quem lê seus romances. Não são raras às vezes em que autor e leitor são elogiados ou criticados por suas posturas no processo de produção-leitura da obra. A temática principal das tramas realistas de Machado está no relacionamento amoroso dos protagonistas. Neste caso, a traição conjugal ganha papel de destaque nos enredos. Curiosamente, a questão matrimonial (mais especificamente a infidelidade feminina) também é o assunto principal de vários contos de Machado. Por falar nisso, a quinta obra analisada neste mês no Desafio Literário foi "Várias Histórias" (Martin Claret), o livro de contos mais famoso de Machado. Lançado em 1896, a obra reúne pequenas histórias publicadas no jornal "Gazeta de Notícias", entre 1884 e 1891. Estão ali alguns dos principais contos da carreira do escritor carioca. Machado de Assis foi um grande contista e cronista. Ele produziu centenas de contos e crônicas, que foram publicadas nos jornais da época. Optei pela leitura dos contos em detrimento às crônicas porque essas são mais atemporais (sendo mais divertidas e interessantes, portanto, do ponto de vista literário). Em suas narrativas curtas, Machado consegue hipnotizar o leitor em poucas palavras. Depois de algumas linhas lidas, já estamos envolvidos com as tramas de uma maneira que não podemos mais largar suas páginas. Normalmente, os enredos dos contos giram, como já disse anteriormente, em torno do adultério feminino. Este é o tema mais recorrente nas obras machadianas. Em seus contos, o autor aborda os triângulos amorosos de todas as formas e perspectivas possíveis, conferindo desfechos variados e inusitados. Às vezes, fico imaginando que ele passava o dia só pensando nisso. Nos contos, é possível notar que Machado de Assis mantém-se fiel ao estilo desenvolvido nos romances. Afinal, o autor segue com a pegada pessimista, possui uma ironia velada, apresenta diálogos abertos com os leitores, critica a sociedade burguesa e parece não acreditar no casamento (e na fidelidade conjugal). O niilismo e a polifonia também estão presentes na maioria dessas tramas. Ou seja, o Machado de Assis dos contos e das crônicas é o mesmo Machado que conhecemos nos romances realistas. Além de "Várias Histórias", Machado de Assis publicou outros seis livros de contos: "Contos Fluminense" (1870), "Histórias de Meia-Noite" (1873), "Papéis Avulsos" (1882), "Historias Sem Data" (1884), "Páginas Recolhidas" (1899) e "Relíquias da Casa Velha" (1906). Depois de sua morte, as editoras do país passaram a publicar obras com a coletânea completa de suas pequenas narrativas. Com o falecimento da esposa Carolina, em 1904, Machado entrou em depressão e passou a viver recluso e triste. O escritor ainda lançou seus últimos romances ("Esaú e Jacó", em 1904, e "Memorial de Aires", em 1908) e seu último livro de contos ("Relíquias da Casa Velha", em 1906). Sua morte ocorreu no Rio de Janeiro em setembro de 1908. Passados mais de um século de seu falecimento, a influência da literatura machadiana se estende até os dias atuais. Não é errado afirmar que autores contemporâneos utilizam até hoje muitos dos recursos narrativos e estilísticos desenvolvidos por Machado de Assis no final do século XIX. Os escritores modernistas e do Realismo Fantástico sul-americano, de certa maneira, também se valeram das ousadias literárias e da complexidade psicológica das tramas machadianas. Agora que terminei a análise literária de Machado de Assis, já começo a pensar no próximo autor do Desafio Literário. Em junho, irei estudar a escritora francesa Régine Deforges. Os seis livros que lerei dela são: "O Diário Roubado" (1978), "A Revolta das Freiras" (1981), "A Bicicleta Azul" (1981), "Vontade de Viver" (1983), "O Sorriso do Diabo" (1985) e "Sob o Céu de Novgorod" (1989). Continue acompanhando o Desafio Literário no Blog Bonas Histórias que no final do próximo mês voltarei aqui com mais uma análise completa de um(a) importante autor(a). Gostou desta análise literária? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário. Para conhecer as análises de outros autores, clique em Desafio Literário. Se você quer acompanhar o conteúdo do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #MachadodeAssis #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Italo Calvino

    Para encerrar o Desafio Literário de 2016, dedicamos o mês de novembro ao estudo de Italo Calvino. O escritor italiano foi o sétimo autor que analisamos neste ano do Blog Bonas Histórias. Graciliano Ramos, Agatha Christie, Pablo Neruda, Sidney Sheldon, Paulo Coelho e Khaled Hosseini estão nesta lista. Ao longo dos últimos 29 dias, foram lidos cinco livros de Calvino: as novelas "Cidades Invisíveis" (Companhia das Letras) e "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia de Bolso), o romance "Se um Viajante numa Noite de Inverno" (Planeta DeAgostini), a obra de contos "Palomar" (Companhia das Letras) e o livro de crônicas "Por que Ler os Clássicos" (Companhia de Bolso). Assim, estamos prontos para emitir um julgamento mais preciso sobre o estilo do escritor modernista e sobre a magnitude de seu trabalho literário. Italo Calvino nasceu em Cuba, em 1923. Nesta época, seus pais italianos estavam trabalhando e morando na América Central. Enquanto o pai era botânico e agrônomo, a mãe era botânica e professora universitária. Ainda bebê, o futuro escritor retornou à Itália com a família. Para não deixar dúvidas quanto à cidadania da criança (afinal, ela seria cubana ou italiana?), seus pais colocaram seu nome de Italo. Na Europa, Italo Calvino se formou em Letras e passou a trabalhar como jornalista. Sua carreira literária começou em 1947 com a publicação de "A Trilha dos Ninhos de Aranha". O sucesso como escritor veio na década seguinte com o lançamento de três novelas: "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia de Bolso), em 1952, "O Barão Nas Árvores" (Companhia de Bolso), em 1957, e "O Cavalo Inexistente" (Companhia de Bolso), em 1959. Apesar de serem narrativas independentes, as três obras abordam personagens nobres do período medieval italiano (viscondes, barões e cavaleiros). Nestas histórias, Calvino trata das fraquezas da alma humana e das injustiças sociais. Ao olhar para o passado, o autor consegue descrever com propriedade as dificuldades atuais do homem moderno, um indivíduo alienado, dividido e incompleto. Assim, as três novelas passaram a ser vistas como pertencentes a uma obra maior e integrada. "Nossos Antepassados" é o nome desta trilogia. Li a primeira parte desta trilogia. "O Visconde Partido ao Meio" narra os acontecimentos fantásticos da vida do Visconde Medardo di Terralba. O narrador da trama é um sobrinho do nobre que ainda é uma criança. Nesta novela, o visconde é atingido por uma bala de canhão durante a guerra religiosa travada contra os turcos. O tiro corta Medardo verticalmente, dividindo-o em duas metades. Incrivelmente, as duas partes do corpo do jovem dão origem a dois homens distintos, cada um possuindo uma personalidade própria. Ao voltar para Terralba, a população local passa a ser governada pela versão ruim do visconde, enquanto a versão bondosa ajuda seus conterrâneos na surdina. Em 1954, Italo Calvino foi convidado para selecionar um conjunto de fábulas italianas que iriam integrar uma antologia. A ideia da editora era produzir uma obra nacional que fosse comparada às coletâneas de fábulas francesas e alemãs, que eram um grande sucesso na época. Calvino escolheu duzentas fábulas ente suas favoritas e as recontou de uma maneira original. O resultado é o livro "Fábulas Italianas" (Companhia das Letras). Os contos presentes nesta obra são fantásticos e misteriosos, recheados de bom humor. Eles contam de uma maneira própria a história italiana ao longo dos séculos. É também desta época uma célebre carta do autor explicando publicamente seus motivos para o rompimento com o Partido Comunista soviético. Italo Calvino teve uma atuação política destacada desde a adolescência. Assim como tantos outros escritores do seu tempo, o italiano foi um assíduo militante de esquerda. Socialista convicto, manteve-se fiel às orientações do Partido Comunista até 1956, quando os soviéticos invadiram a Hungria. Diante dos crimes praticados por Stalin na Europa oriental, Italo produziu uma carta pública de renúncia aos ideais soviéticos. Suas palavras de repulsa aos atos dos governantes comunistas se tornam famosas no mundo todo. Apesar de se manter esquerdista até o final da vida, o escritor rompeu definitivamente com o modelo comunista da União Soviética. Na década seguinte, Calvino lançou três obras: "O Dia de um Escrutinador", em 1963, "As Cosmicômicas" (Companhia das Letras), em 1965, e "O Castelo dos Destinos Cruzados" (Livraria Bertrand), em 1969. Destas, a que teve maior repercussão foi "As Cosmicômicas", coletânea de contos. O grande sucesso do autor, contudo, estava reservado para os anos de 1970. Depois de "Amores Difíceis" (Companhia das Letras), publicado em 1970, chega às livrarias em 1972 "Cidades Invisíveis". Esta é sua obra-prima, considerada como um dos melhores livros da história. Esta novela recebeu vários prêmios internacionais e é tida pelo próprio autor como sendo sua obra mais profunda. "Se meu livro "Cidades Invisíveis" continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjecturas", disse Calvino na década de 1980. Calvino ainda lançou o romance "Se um Viajante numa Noite de Inverno" (Planeta DiAgostini) em 1979. Em "Cidades Invisíveis", o explorador veneziano Marco Polo descreve para o imperador Kublai Khan as cidades mais exóticas pertencentes ao seu vasto território. As narrativas de Polo são recheadas de fantasias, magias e surrealismo. As histórias trazidas são tão pitorescas que o imperador desconfia que seu explorador esteja mentindo. Contudo, as descrições das cidades são tão poéticas e com uma beleza filosófica tão acentuada, que Kublai Khan ignora a veracidade dos relatos e continua pedindo incansavelmente novas histórias para Marco Polo. Sem sombra de dúvidas, "Cidades Invisíveis" está dentro da lista dos melhores livros que li em minha vida. "Se um Viajante numa Noite de Inverno", por sua vez, é a obra mais original e criativa de Calvino. Nela, o italiano inverte totalmente a ordem dos papéis de um romance. Os protagonistas são os próprios leitores. O autor não é apenas uma pessoa e sim várias, podendo assumir diferentes estilos narrativos. O tradutor, por sua vez, é um picareta que vive de falsificar os textos e de confundir editoras e leitores. Para completar a confusão, não há uma história linear com começo, meio e fim. Ou seja, trata-se de um romance metalinguístico totalmente fora dos padrões. Ele fala, através de uma história amalucada, do ato de produzir e de ler uma narrativa. A última publicação em vida de Calvino foi "Palomar". Lançado em 1983, este livro de contos tem como personagem principal o Sr. Palomar, um senhor que passa seus dias refletindo sobre a vida e o mundo do qual habita. Cada uma das 27 histórias é uma reflexão profunda sobre um determinado tema. O livro é dividido em três partes: "As Férias de Palomar", "Palomar na Cidade" e "Os Silêncios de Palomar". Pelo seu teor filosófico/existencialista, trata-se de uma leitura difícil e pesada. Em 1985, Italo Calvino morreu em Siena, na Itália, aos 61 anos. Nesta altura, ele era o escritor italiano contemporâneo mais traduzido no mundo e um dos principais autores do século XX, postulante ao Prêmio Nobel de Literatura. Postumamente, foram lançados quatro livros do autor: "Sob o Sol-Jaguar" (Companhia das Letras), em 1988, "O Caminho de San Giovanni" (Companhia das Letras), em 1990, "Por que Ler os Clássicos" (Companhia das Letras), em 1991, e "Perde Quem Fica Zangado Primeiro", título infantil de 1998. "Por que Ler os Clássicos" não é um livro ficcional. Ele é uma coleção de artigos e ensaios publicada pelo autor entre 1954 e 1985. A maioria é composta por crônicas veiculadas pelo "La Repubblica", jornal onde Calvino trabalhou como colunista na década de 1980. Muitos textos foram extraídos diretamente de prefácios produzidos pelo jornalista-escritor para edições italianas destas obras. Há alguns anos, a Companhia das Letras, detentora dos direitos autorais do escritor italiano no Brasil, resolveu republicar os principais livros de Calvino. Assim, ficou mais fácil para nós brasileiros conhecermos as obras deste gênio da literatura. Italo Calvino foi um escritor modernista especializado em histórias curtas: contos, crônicas e novelas. Nesta seara, ele conseguiu explorar todo o seu potencial artístico e literário. Até mesmo quando se pôs a escrever romances, manteve de alguma forma a característica de contista e novelista. "Se um Viajante numa Noite de Inverno" é um ótimo exemplo deste fato. O romance não possui uma única história e sim uma coleção de contos. São dez pequenas tramas independentes que se ligam a uma história de tamanho médio. Outro ponto marcante de Italo Calvino é a profundidade conceitual por trás de suas histórias. Cada narrativa possui uma mensagem subliminar muito bem desenvolvida. Assim, o conteúdo de suas obras nos leva sempre a boas reflexões. Em "O Visconde Partido ao Meio", por exemplo, Medardo não é a única personagem dividida e incompleta de Terralba. Várias personagens da trama, apesar de fisicamente inteiras, são tão ou mais fragmentadas psicologicamente do que o protagonista. Em um mundo moderno em que o homem é cada vez mais fragmentado e alienado, é legal ler uma alegoria fantástica que trata deste tema na Idade Média. Com sutileza, Italo Calvino aborda um problema atual por meio de uma história universal e atemporal. Em "Cidades Invisíveis", a leitura é inteiramente subliminar. A mensagem principal da novela está mais nas entrelinhas do que no sentido objetivo de suas frases. Ao longo da novela, o leitor percebe que Marco Polo e Kublai Khan não estão falando de cidades e sim da alma humana. Os lugares são metáforas dos comportamentos humanos. A beleza deste livro está exatamente aí! Quando percebemos a profundidade filosófica de suas descrições, acabamos nos apaixonando por elas. Quem não tem sensibilidade para compreender as mensagens subliminares na certa não achará graça nenhuma neste livro. Um aspecto ousado do estilo de Italo Calvino é contar suas histórias a partir de descrições de cenários, personagens, sensações e pensamentos. Ao invés de narrar os fatos, o escritor prefere descrevê-los. Isso torna a leitura mais maçante e complicada para o leitor moderno que é ávido por acontecimentos. O escritor chega a brincar com este fato em "Se um Viajante numa Noite de Inverno", sua obra metalinguística. Este aspecto tem duas consequências imediatas. A primeira é que a leitura fica muitas vezes truncada. É o que acontece no início de "Cidades Invisíveis", uma obra estritamente descritiva. Marco Polo fica explicando as características de cada cidade visitada. Ele fala da geografia e das particularidades desses locais, além dos hábitos de seus cidadãos. Por isso, não há muita graça, a princípio, em seus relatos. Não há muito incentivo para prosseguirmos na leitura de uma história que não avança. Os livros em que tal fato acontece com mais intensidade são "Palomar" e "Por que Ler os Clássicos". Em "Palomar", não há qualquer ação durante seus 27 contos. O que há são reflexões sobre a vida, sobre o mundo natural e sobre as relações humanas. Desta forma, é comum o leitor se cansar rapidamente dessa leitura. O jeito truncado da trama parece querer afastar o leitor desde as primeiras páginas. Em "Por que Ler os Clássicos", a escolha de poetas e escritores italianos desconhecidos da maioria dos leitores brasileiros também dificulta a empatia do leitor com a obra. Assim, a leitura fica um pouco enfadonha porque simplesmente desconhecemos estes escritores e suas obras. A segunda consequência é que o leitor pode ficar confuso, não entendendo direito o que está acontecendo no livro. Isso ocorre em várias oportunidades durante "Se um Viajante numa Noite de Inverno". Em "Palomar", por sua vez, é difícil compreender o sentido geral do livro. Se o leitor não ler atentamente os contos e não refletir sobre as divagações do protagonista, é possível que não se entenda absolutamente nada. Por isso, é aconselhável ler qualquer obra de Calvino com calma e atenção. Jamais queira ler velozmente este tipo de livro. A pressa para finalizá-lo levará na certa a incompreensão (a exceção é "O Visconde Partido ao Meio", um livro mais fácil e simples). Também é aconselhável reler estas obras de tempos em tempos. Foi o que fiz com "Cidades Invisíveis", que já havia lido há oito anos. Italo Calvino é um autor para ser degustado lentamente e repetidamente. Só assim poderemos captar boa parte das mensagens do autor. A chave para a compreensão das histórias de Calvino é entrar em seu mundo irônico e bem-humorado. Esta característica apresenta-se em quase todos os seus livros. Em "Palomar", por exemplo, o primeiro conto é sobre as impressões do protagonista sobre as ondas do mar. Nada mais do que isso. Um leitor menos espirituoso fecharia o livro neste momento para nunca mais abri-lo. Afinal, qual a graça de se ver a análise detalhada das ondas do mar? Nenhuma! Acredito que esta tenha sido a intenção de Calvino. "Quero ver se você vai continuar depois disso", deve ter pensado sorrateiramente o italiano. A ironia fina também está presente em "Se um Viajante numa noite de Inverno". A confusão da trama é proposital. O escritor provoca o tempo inteiro o leitor. Na primeira crônica de "Por que Ler os Clássicos", Calvino convence o leitor da importância de se ler os clássicos. Como faz isso? Sendo bem-humorado e objetivo. Sua justificativa é engraçadíssima e matadora. Impossível não concordar com ela. Outro elemento típico de Calvino são as frases longas. Há frases que ocupam dez, doze, quinze linhas. O leitor precisa de fôlego para lê-las e, principalmente, para compreendê-las. Não se assuste com tais frases-parágrafos. Encare-as também como brincadeiras do autor. Na certa, ele duvida da sua capacidade de concentração. Depois dessas leituras todas, cheguei a uma conclusão: a genialidade de Calvino está em abordar temas sensíveis ao homem moderno por meio de tramas curtas, reflexivas, experimentais, bem-humoradas e provocantes. Sua obra, como um todo, é espetacular. Ela provoca reações variadas em seus leitores. Vale muito a pena conhecê-la. Este é um dos principais escritores do século XX e lê-lo é algo obrigatório para quem gosta de boa literatura. Dessa maneira, encerramos o Desafio Literário de 2016. As análises literárias dos principais escritores nacionais e internacionais voltarão ao Blog Bonas Histórias em maio de 2017. Antes disso, publicaremos o calendário com os autores e as obras que serão estudados na próxima temporada. Fique ligado nas novidades do próximo ano. Até breve! Gostou desta análise literária? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário. Para conhecer as análises de outros autores, clique em Desafio Literário. 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  • Análise Literária: Khaled Hosseini

    O Desafio Literário de outubro foi uma indicação de minha irmã, Marcela. O escritor Khaled Hosseini, um dos favoritos da minha "mana", publicou três romances que se tornaram best-sellers mundiais. Seu mais famoso livro é "O Caçador de Pipas" (Nova Fronteira), que se tornou enredo de filme. A vendagem das obras de Hosseini chega a aproximadamente 50 milhões de livros em setenta países. Khaled nasceu em Cabul, capital do Afeganistão, em 1965. Desde muito novo, ele foi morar no exterior. Filho de diplomata, o futuro romancista viveu na França quando criança e aos 15 se mudou definitivamente para os Estados Unidos. Na América, se naturalizou norte-americano e passou a viver conforme o estilo de vida local. Formado em medicina, profissão na qual trabalha a maior parte do tempo, Khaled enveredou pela carreira literária com quase quarenta anos. Casado e com dois filhos, o médico-escritor continua morando nos Estados Unidos com sua família. A estreia de Khaled Hosseini na literatura aconteceu, em 2003, com "O Caçador de Pipas". Esta trama aborda a relação entre Amir (o narrador) e Hassan, quando os dois personagens ainda eram garotos. Amir era filho de um rico empresário de Cabul, enquanto Hassan era filho de um pobre empregado da residência da família de Amir. A diferença social não impediu que os garotos se transformassem em grandes amigos na infância. Porém, um acontecimento trágico acabou os separando. Apesar de ter se mudado para os Estados Unidos na adolescência e ter construído sua vida por lá, Amir nunca tirou da sua mente o trágico episódio da sua infância, quando traiu seu melhor amigo por ter sido covarde. O livro se tornou best-seller nos Estados Unidos em 2005, quando alcançou o topo da lista de livros mais vendidos do jornal New York Times. A história de "O Caçador de Pipas" foi adaptada para o cinema, em 2007, tornando seu autor ainda mais conhecido em todos os cantos do mundo. Em 2007, na esteira do sucesso da sua obra de estreia, Hosseini lançou "Cidade do Sol" (Nova Fronteira). Novamente temos como cenário a sociedade tradicional afegã e os acontecimentos geopolíticos e históricos que permearam o Afeganistão ao longo das últimas décadas (dominação soviética, guerra civil, governo do Talibã e guerra com os norte-americanos). Ou seja, este segundo romance é muito parecido ao anterior, em estilo, forma e conteúdo. A principal diferença está no enfoque da trama. Ao invés de retratar a realidade masculina como em "O Caçador de Pipas", temos agora o ponto de vista feminino. Mariam de 33 anos e Laila de 15 anos se tornam rivais quando viraram esposas de um mesmo homem, Rashid. As duas mulheres, como a maioria das afegãs, têm vidas sofridas e são peças secundárias, dependentes e frágeis da cultural patriarcal do seu país. O temperamento sórdido e violento do marido dentro de casa conseguiu o que parecia impossível: unir as esposas. Contra a violência e a tirania de Rashid, as duas mulheres tornaram-se amigas e passaram a combater o inimigo em comum com todas as forças. "Cidade do Sol" recebeu uma enxurrada de críticas positivas e chegou ao posto de segunda publicação mais vendida do site da Amazon por algumas semanas entre 2007 e 2008. Esta publicação representou a consolidação da carreira de Khaled Hosseini na literatura. Estava provado, portanto, que o primeiro sucesso não havia sido "sorte de principiante". O afegão tinha realmente talento para contar histórias tristes e achar beleza em narrativas trágicas de seu país natal. A terceira, e por enquanto última, obra de Hosseini foi "O Silêncio das Montanhas" (Globo). O livro foi lançado em 2013 e rapidamente alcançou o status de best-seller mundial. Em cinco meses, o livro já tinha vendido aproximadamente três milhos de unidades nos Estados Unidos. O enredo desta nova história aborda a relação entre dois irmãos afegãos, Pari e Abdullah, que são separados na infância. Pari é "vendida" pelo pai quando tem apenas três anos para um casal rico de Cabul que não conseguia engravidar. Abdullah, de dez anos de idade, era quem cuidava da irmã caçula com a morte da mãe deles. Por isso, ele sente de mais a perda da pequena. A forte ligação existente entre eles não se desfaz com o tempo, apesar da distância e das dificuldades impostas pela vida que cada um passou a ter. Apesar de ter se naturalizado norte-americano e de ter vivido a maior parte do tempo segundo a cultura ocidental, Khaled Hosseini tem suas obras totalmente ancoradas na realidade do Afeganistão. Com os atentados terroristas de 11 de Setembro e a guerra dos Estados Unidos contra o Talibã, o interesse do mundo para o até então desconhecido país asiático cresceu. Com isso, muitas pessoas passaram a procurar informações sobre a realidade do Afeganistão. Graças a esta tendência, a literatura de Hosseini ganhou evidência rapidamente. E graças a esta situação, o público leitor pode conhecer um tipo de escritor extremamente talentoso. Apesar do cenário favorável para um escritor de origem afegã, acredito que Khaled Hosseini seja muito mais um escritor talentoso do que um autor consagrado pelo oportunismo das Guerras Pós 11 de Setembro. Ao narrar com lirismo e charme os dramas da população do seu país natal, o escritor consegue emocionar os leitores do mundo todo. Ele seria um best-seller de qualquer forma. Talvez se o Afeganistão não tivesse "entrado na moda", este êxito editorial demoraria alguns anos ou décadas para acontecer, mas com certeza viria um dia em escala mundial. A fórmula de sucesso de Hosseini na literatura está baseada nas seguintes características: narrar histórias tristes e trágicas da população do Afeganistão; apresentar as tradições, a cultura e a história afegã para os "leitores estrangeiros"; produzir narrativas com beleza e lirismo, apesar da temática sombria e do cenário aterrorizante; personagens muito bem construídos; narrativas que avançam por longos períodos de tempo; e desfechos, ao mesmo tempo, melancólicos e esperançosos. Os acontecimentos geopolíticos e históricos que permearam o Afeganistão desde a década de 1950 estão presentes fortemente nas tramas, afetando diretamente a vida dos personagens. É possível analisar, por exemplo, como a população local viu a acessão ao poder dos Talibãs e como eles transformaram a vida de todos naquele país. Em "O Caçador de Pipas" e "A Cidade do Sol", o destino das pessoas é predeterminado. Segundo Khaled Hosseini, seus personagens não podem fugir da trajetória na qual estão amarradas e da realidade do lugar onde estão. A vida pode dar várias reviravoltas, mas ninguém passa impune do que precisa passar, seja das coisas boas quanto das ruins. Apenas em "O Silêncio das Montanhas" este determinismo não é tão acentuado (porém, ainda aparece em algumas histórias). Na maior parte do tempo, o futuro das personagens, neste terceiro romance, foi construído mais pelas decisões familiares, as opções individuais e pelo acaso do que pelo ambiente. Quem gosta de drama, os romances de Hosseini são um prato cheio. Ao lê-los, me recordei das telenovelas mexicanas: repletas de tragédias, traições, maldades e reviravoltas trágico-cômicas. A narrativa é uma sequência de dramalhões sem fim. Quando você acha que a história não pode piorar para as personagens, ela piora ainda mais. Quando se acha que se chegou ao fundo do poço, descobre-se que o poço não tem fim. "O Caçador de Pipas", "A Cidade do Sol" e "O Silêncio das Montanhas" são dramalhões ao estilo das telenovelas mexicanas, mas com tempero afegão. Apesar de serem histórias muito tristes, há muita beleza nessas narrativas. Mesmo com todas as tragédias, dramas, violências e injustiças vivenciadas pelas personagens, acabamos admirando estas tramas e o jeito poético de Hosseini em escrever. O escritor constrói seus romances de maneira magnífica. É impossível não gostar do que lemos, apesar das histórias serem dignas dos mais sórdidos enredos de terror. Hosseini possui uma visão poética da vida e do ser humano, conseguindo retratar isso em suas obras. As emoções que o leitor sente durante os romances são variadas. A única coisa que não se altera é o resultado delas: as lágrimas rolam várias vezes durante os livros. Até mesmo os corações mais frios irão sofrer durante a leitura. Os personagens são muito bem construídos e há boas reviravoltas nas tramas. O maniqueísmo é também relativo. Muitos dos personagens principais não podem ser classificados precisamente como sendo bons ou maus. Tudo depende do contexto, do ponto de vista e da situação. Isso torna as obras ainda mais ricas. Os desfechos são espetaculares. Todos os romances possuem elementos trágicos e melancólicos na última parte, com pitadas sutis de esperanças quanto ao amanhã. Ou seja, nem mesmo no finalmente temos um colorido alegre e feliz. Hosseini não dá refresco para os leitores nem mesmo no encerramento de suas publicações. Sua visão pragmática e realista da vida, até nestes instantes, se manifestam com propriedade. Considerei "Caçador de Pipas" como sendo o melhor romance em conteúdo (pela profundidade da narrativa), enquanto "O Silêncio das Montanhas" é a obra mais impactante (pela forma e estrutura como a história foi contada). Contudo, os três romances são excelentes. Todas são narrativas marcantes que têm a propriedade de se fixar em nossas mentes por muitos e muitos anos. Não há dúvida que estamos diante de um dos melhores autores da literatura mundial contemporânea. No próximo mês, o Desafio Literário irá analisar Italo Calvino, um dos escritores italianos mais famosos do século XX. Acompanhe as novas atrações de novembro do Bonas Histórias! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #KhaledHosseini #AnáliseLiterária

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