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- Gastronomia: Pizzarias de Buenos Aires - Diferenças e encantos das pizzas portenhas
A forte influência italiana fez com que a pizza se tornasse item indispensável na mesa dos argentinos. Porém, para se aproveitar as delícias das pizzarias de Buenos Aires, os brasileiros precisam entender as particularidades da culinária local . Vamos combinar que, quando falamos da gastronomia de Buenos Aires ou mesmo da culinária argentina , são poucos os brasileiros que associam os prazeres à mesa aos encantos da boa e velha pizza . Vejo isso acontecer com frequência com amigos e familiares que vem me visitar na Capital Federal dos hermanos – na verdade, eles vêm a turismo , mas gosto de pensar que o motivo principal da viagem é simplesmente me rever. Eles chegam querendo provar as carnes (abraço, Pablito, e obrigado pelo relato divertidíssimo de “Buenos Aires: Experiências etílico-gastronômicas” ), os vinhos (Hey, Markus!), os helados (beijo, Carlinha), as medialunas (cheiro, hermanita ), os alfajores (saudações, Eduardo), as empanadas (Mari, você não é turista, mas entrou na roda por ser a única fã deste prato no meu círculo de amizade) ou tudo isso junto e de uma vez (beijo Daniella; lê-se Daniecha). Aí quando os convido para comer uma legítima redonda portenha, noto a surpresa em suas fisionomias. Eles torcem os narizes como se me dissessem: “pizza eu como em São Paulo, Ricardo, que é bem melhor”. Confesso que por um bom tempo pensei exatamente assim. Nessa época, tive sérias dificuldades para colocar as pizzarias de CABA – Ciudad Autónoma de Buenos Aires – na minha rotina gastronômica. Afinal, sou paulistano da gema e de família italiana, ô meu. Passar um final de semana sem degustar as redondas é sacrilégio tão grave quanto cortar o macarrão com os talheres ou jogar ketchup em qualquer prato italiano (abraço, Sr. Onofre!). Não importa onde viva, interior do Rio Grande do Sul, sul de Minas Gerais, interior de São Paulo, Curitiba, Sampa ou BsAs, finde que é finde tem pizza e pronto! Contudo, demorei para encontrar lugares que me satisfizessem plenamente em minha nova cidade. Só agora, com quase um ano morando em Buenos Aires, acredito que consegui entender as particularidades da pizza local e montar a minha lista de estabelecimentos favoritos. Ufa! Sofri um pouco, entrei em algumas roubadas aqui e ali, mas no fim deu certo. A ideia deste post da coluna Gastronomia nasceu justamente da vontade de compartilhar com os leitores do Bonas Histórias minhas vivências pelas pizzarias da capital da Argentina . Além de apresentar meus lugares favoritos, quero explicar as diferenças da cultura pizzaiola daqui em comparação à realidade culinária de São Paulo (minha cidade natal). Também vou detalhar os tipos de redondas que os argentinos da Capital Federal comem. Sei que o assunto é amplo e que não se esgotará em apenas uma publicação. Por isso, certamente voltarei outras vezes ao blog e à coluna Gastronomia para comentar especificamente cada uma das pizzarias que gostaria que meus conterrâneos conhecessem. Para este post não ficar gigantesco, essa divisão se fez necessária. Assim, falemos hoje do geral e nas próximas oportunidades debateremos individualmente os estabelecimentos que mais me encantaram. Quando o brasileiro, seja turista ou morador de Buenos Aires, entende o contexto no qual está inserido, fica mais fácil (ou menos difícil) para se adaptar e para curtir esse item indispensável da mesa dos glutões ítalo-sul-americanos. Porque argentino (e qualquer visitante da terra de Evita, Borges, Maradona, China Soares e Dom Francisco) que não goste de pizza bom sujeito não é, conforme dirá a letra de Tango que um dia vou compor. Para começo de conversa, tire da cabeça a ideia de que Buenos Aires não combina com pizza. PELO AMOR DE DEUS! ISSO É UM ABSURDO SEM TAMANHO! Além de injusto, é um enorme equívoco cultural que meus conterrâneos cometem – ao lado de pensar que Neymar chega aos pés de Messi e que os argentinos não gostam dos brasileiros. À título de curiosidade, há mais pizzarias em CABA do que parrillas (segundo o que li em algum lugar e, portanto, foi registrado como verdade verdadeira pelo DataRicardinho). Se o povo daqui é apaixonado por carne, saiba que ele morre de amores pelas redondas. Outra informação bombástica que muitos brazucas não fazem ideia: Buenos Aires é a cidade com maior número de pizzarias por habitante no mundo. Convenhamos que é bem a cara dos portenhos repetir isso com muito orgulho, por mais rudimentares que sejam os embasamentos estatísticos e a confiabilidade das fontes. Até hoje eles acreditam que la Avenida Nueve de Julio es la avenida más ancha del mundo , que Maradona jogou mais do que Pelé e que as Ilhas Falkland são deles (e se chamam Ilhas Malvinas). E ai de você se os questionar! Independentemente das polêmicas internacionais, aí vai outra proeza da capital hermana ( que o DataRicadinho também não coloca a mão no fogo por nada): ela possui o maior consumo per capita de pizza do planeta. São mais de 40 mil consumidas diariamente. Em termos absolutos, só perde para Nova York e São Paulo, metrópoles três e quatro vezes mais populosas, respectivamente. Apesar de não ter encontrado fontes jornalísticas sérias que comprovem essa informação, andando pela cidade no dia a dia posso garantir que há um forte cheiro de veracidade desse dado saindo dos fornos. Por quê? Porque a impressão é que os portenhos comem mesmo muito mais pizza do que os paulistanos. Ainda está duvidando de mim?! Então vamos aos fatos, senhoras e senhores. Em primeiro lugar, qualquer horário é horário de pizza em CABA. Eu disse QUALQUER HORÁRIO! Nesse aspecto, a influência da cultura italiana se faz mais presente por aqui do que na mais italiana das capitais brasileiras. As pizzarias portenhas costumam abrir às sete horas da manhã (nem as padarias abrem tão cedo em BsAs) e fecham às 2 horas da madrugada. Ou seja, operam quase 24 horas por dia de segunda a segunda (aqui não tem a ladainha de “fecha às segundas-feiras”!). Em São Paulo, o mais comum é abrirem às 18 horas e fecharem à meia-noite. Isso se dá porque o paulistano vê a pizza como um prato exclusivamente noturno, algo que certamente faz os moradores tradicionais da Bota se arrepiarem. Na capital paulista, é inimaginável degustar, por exemplo, as redondas na hora do almoço ou no meio da tarde em um dia de semana. Em Mi Buenos Aires Querido, não existe definitivamente tal distinção. A multidão devora as célebres massas de manhã (não é tão frequente, mas também não é raro), no almoço (aí o bicho pega para valer!), à tarde (refeição chamada de merenda , uma espécie de lanche da tarde mais sério e reforçado que os argentinos adoram), à noite e até de madrugada (convenhamos que há algum tempo São Paulo não é uma metrópole 24 horas). Só por essa diferença (nada sutil), nota-se que o consumo per capita dos portenhos deve ser mesmo (muito) superior ao dos paulistanos. Outras particularidades das pizzarias da capital argentina são: oferecem também empanadas, vendem pizza em pedaço, contam com uma ala para se comer de pé, têm sabores diferentes e bastante originais, dispõem de quitutes bem estranhos, possuem serviços de garçom um tanto peculiares e, segure-se na cadeira, por favor, podem ter café e medialunas no cardápio. Se um estabelecimento reunir a maioria desses componentes, ele é uma pizzaria portenha raiz. Pizzaria é lugar que se vende pizza. E empanada. Pelo menos é assim na Argentina. O interessante é que normalmente as empanadas das pizzarias são ótimas. Se a pizza do lugar é boa, tenha a certeza de que os demais produtos feitos com massa também serão. Constatei que essa regra nunca falha. A dificuldade, pelo menos para mim, é chegar numa boa pizzaria e pedir empanadas. Admito que raramente isso se sucedeu, principalmente se já as havia provado naquele estabelecimento. Quase sempre fico restrito à parte do cardápio destinada às redondas, minha verdadeira paixão gastronômica (desculpe-me, Mari). Contudo, os argentinos (e as paranaenses maluquinhas) não fazem qualquer distinção entre os dois pratos. Misturam pizzas e empanadas na mesma refeição como os brasileiros misturam arroz com feijão. O que adoro em Buenos Aires é a possibilidade de comer pizza em pedaço ( al corte , no linguajar local), raridade nas pizzarias paulistanas e algo comum somente nas padarias da cidade de São Paulo. Essa opção é ótima para quem está sozinho (meu caso, na maioria das vezes), não deseja comer muito (definitivamente não me enquadro nessa descrição) e/ou tem a intenção de provar vários sabores (OK, acontece comigo com certa frequência). Na hora do almoço e na merenda , os portenhos recorrem mais aos pedaços ( porciones ), que ficam dispostos em estufas transparentes ao lado do salão das mesas ou na entrada do estabelecimento. É chegar, ver o que tem pronto, pedir, pagar, pegar e comer. Tudo muito rápido e prático. Para o público que é fã de la pizza al corte – coloca o dedo aqui que já vai fechar! –, as pizzarias oferecem uma ala chamada de la barra (inexistente no Brasil). Na barra (uma espécie de Geral, se recordarmos dos antigos estádios de futebol) é possível comer de pé em um balcão coletivo. O cliente vai até o caixa, faz o pedido, paga, vai aonde estão as estufas com as pizzas, pega seu(s) pedaço(s) e se dirige ao balcão. No caminho, apanha os talheres ( cubiertos ) e os guardanapos ( servilletas ) que estão dispostos para o autosserviço. Na barra se come de pé com talheres ou guardanapo. De qualquer maneira, aviso que se faz uma sujeirada danada. A vantagem do balcão é a rapidez e a praticidade, algo fundamental para quem está na hora do almoço ou faz uma parada rápida para a merenda. Você não precisa ficar esperando o garçom (que são geralmente muito vagarosos, principalmente se você estiver mal-acostumado com a velocidade alucinante do serviço de mesa em São Paulo) nem disputar as mesas com os demais clientes (algo incômodo no rush ). Na barra sempre cabe mais um e as pessoas automaticamente se apertam um pouco mais para acolher os recém-chegados (acho a comparação com a Geral dos estádios perfeita). Para os desinibidos de plantão (infelizmente, não estou nesse grupo), até rola un coqueteo ou, no caso específico do lunfardo, un chamuyo (paquera). Por falar em gírias portenhas, comer de parado é justamente ficar de pé no balcão degustando as pizzas em pedaço. Só tome cuidado para não cometer gafes em suas visitas às pizzarias de Buenos Aires. Um erro comum que os brasileiros de primeira viagem cometem (sei disso porque vi algumas vezes ocorrer ao meu lado – inclusive no último final de semana presenciei novamente) é ir para la barra por ser mais rápido. Contudo, a pessoa se arrepende de ter que ficar de pé durante a refeição e leva o prato para a mesa. Saiba que isso não é possível. Quem escolhe ficar no balcão terá que permanecer por lá até o final da visita. O mesmo princípio vale para quem escolheu ficar no salão. Não dá para ir a la barra depois, por mais animado e bem frequentado que esteja o lugar. Portanto, não se sente às mesas depois de ter rejeitado essa alternativa, por mais cansado(a) que você esteja. Se fizer isso, os garçons irão convidá-lo(a) a sair do salão, o que pode acontecer com educação ou não. Em relação aos sabores, admito que os argentinos apresentam ótimas surpresas. Um dos principais itens do cardápio das pizzarias daqui é a famosa fugazzeta (não confundir com a fugazza , que é a variação da fugazzeta) , uma invenção de um pizzaiolo genovês que veio para Buenos Aires no final do século retrasado. Ele tirou o molho de tomate da pizza e acrescentou muita cebola à muçarela. E fez isso misturando os dois ingredientes em camadas. O resultado é espetacular. Esse talvez seja o sabor mais tradicional das redondas portenhas. Eu adoro! Porém, o meu pedido favorito é outra combinação que só vejo por aqui: a união de muçarela com morrones (pimentão). Combina pimentão na pizza com queijo, Ricardo?! Se você me fez esse questionamento inocente, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias , é porque não sabe o que é bom. Se é bom? É divino! Até quando acrescentam presunto ( jamon ) à receita (nunca gostei de presunto fora do sanduíche, nem na lasanha) a composição fica perfeita. Como os argentinos adoram muzzarella, jamon y morrones , temos que aceitar muitas vezes o trio completo só para termos a muçarela ao lado do pimentão. A decepção talvez fique com a pizza calabresa – uma das mais pedidas em São Paulo e um tanto desprezada pelos portenhos. Se você está acostumado com as paulistanas que vem com muita linguiça, saiba que na Argentina não é assim. Parece que a generosidade deles fica restrita aos queijos. Os pizzaiolos locais colocam apenas algumas rodelas do embutido na muçarela, inclusive nas melhores casas. Por mais que haja outros elementos interessantes na composição (como tomates, ovos e pimentão), a menor intensidade da personagem principal compromete o enredo. Como não comi nenhuma pizza calabresa boa em CABA até hoje, desisti de pedi-la. Vou deixar para prová-la quando for à passeio por São Paulo– sabe-se lá quando. Por falar em decepção, o que não me vai é a fainá. Toda pizzaria que se preze vende essa massa sem graça que os argentinos adoram. Se você não conhece a fainá, saiba que não está perdendo nada. Ela é uma massa feita de farinha de grão de bico, água, azeite, sal e pimenta. Juro que não tem sabor de nada. A vejo como um corniccione que saiu errado. É tão ruim que o povo daqui não a come sozinha (um atentado ao bom senso) e sim junto com a pizza – conforme me foi ensinado pela bela PoBel no ano passado. A minha dúvida é: se o gosto é ruim, porque eles não param de comê-la ao invés de grudá-la na fatia de pizza (geralmente de muçarela) e mandar tudo junto para dentro da boca, hein?! Até hoje não obtive uma resposta satisfatória para esse mistério gastronômico. Infelizmente, PoBel não conseguiu (ou não teve paciência para) esclarecer a maioria das minhas perguntas sobre a cultura argentina. Já que entramos na parte das bizarrices, tenho que citar o serviço dos garçons de Buenos Aires, um capítulo à parte na vida de turistas e residentes estrangeiros. Ele é tão diferente do oferecido em São Paulo que chega a assustar os desavisados da minha terra natal. Sei disso porque um dos meus melhores amigos veio com a esposa no último Carnaval para aproveitar as delícias à mesa da Argentina (beijo, Dudu e Dri). Segundo me contaram, eles adoraram a cidade e os portenhos. Só não gostaram dos garçons, que na visão deles eram displicentes, demorados e pouco atenciosos. Será que meus amigos estavam certos?! Para entendermos o funcionamento de um restaurante local (que também vale para as pizzarias), vamos partir do pressuposto que os paulistanos são muito apressados. Muito mesmo! São poucos os lugares do mundo que oferecem atendimentos à mesa tão ágeis quanto em São Paulo. Portanto, o problema de velocidade que sentimos em CABA é comum em outras partes do continente e do planeta, mesmo em metrópoles cosmopolitas. A questão se torna um pouco mais grave em Buenos Aires porque os garçons têm a cultura de não serem rápidos de propósito. Por quê? Porque aqui é falta de educação agilizar o cliente. Portanto, faz parte da etiqueta argentina que a pessoa chegue, se sente, converse e observe o ambiente por 5 ou 10 minutos. Só aí serão ofertados o cardápio e colocadas as entradas na mesa. A mesma dinâmica vale para todas as demais operações da casa: tirar o pedido, trazer os pratos, oferecer sobremesa e levar a conta. Se você estiver em um restaurante na Argentina, note que ninguém se incomode com essa possível lentidão (só os paulistanos). Não por acaso, uma refeição (mesmo em dia de semana e no intervalo do trabalho) não costuma levar menos do que uma hora e meia. O normal é gastar pelo menos duas horas à mesa. Tudo é feito com calma, sem afobação. Reforço: é a cultura deles. Agora que você sabe disso, respire fundo ao entrar em um restaurante ou em uma pizzaria portenha. Não seja afobado, por favor! A equipe da casa não vai parar tudo o que estiver fazendo só porque você chegou e está com fome. Se tiver pressa, vá para la barra . E se estiver nas mesas, respeite o tempo do atendimento. O mundo não vai acabar se você ficar meia hora ou uma hora a mais fazendo a refeição, ainda mais se estiver em viagem à lazer. Por fim, é preciso dizer que o cardápio de alguns estabelecimentos oferece café, medialunas e sanduiches. O quê? Calma, cara-pálida, não é tão esquisito quanto parece. Deixe que eu explico. Não falei que têm pizzarias que abrem de manhã? Pois o que você acha que as pessoas querem beber e comer preferencialmente ao acordar, hein? Pizza ou empanada? Não! Assim, o menu das casas que atendem ao público no café da manhã e na merenda precisa ser um pouco mais abrangente. Aí que entram o café e seus complementos. Porém, não são todas as pizzarias que possuem tal variedade. Tudo o que falei até agora pode soar interessante para quem não conhece a realidade de Buenos Aires. Entretanto, esse contexto não explica o motivo principal para mim e meus conterrâneos demorarmos para nos apaixonar pelas pizzas portenhas. É curioso falar sobre isso porque o brasileiro mal coloca os pés na capital argentina e já fica encantado pelos vinhos, pelas carnes, pelas empanadas, pelas medialunas , pelos sorvetes e pelos alfajores. Até as charmosas cafeterias são paixão à primeira vista. A vontade que temos é de entrar em todas. Comigo não foi diferente. O problema é que a mesma celeridade não ocorre com as pizzarias. A razão fundamental é porque há várias opções de redondas, que são diferentes daquelas que são oferecidas normalmente em São Paulo. É quase um novo mundo para meus conterrâneos. Em CABA, são encontrados normalmente quatro tipos de pizza. Não dá para nos aventurarmos pela culinária italiana da cidade sem saber as diferenças entre os modelos. São eles: media masa , al molde , la piedra e napolitana . Portanto, a primeira preocupação do brasileiro é observar o tipo de pizza que cada estabelecimento oferece. A media masa é mais parecida com a pizza de São Paulo. Como o próprio nome diz, ela tem massa de espessura mediana. Como consequência, possui quantidade de recheio mediana também. Normalmente vai no forno à lenha, mas não é incomum encontrarmos fornos elétricos (por um bom tempo, a energia elétrica era muito barata na Argentina). Por aqui, ela é considerada como a pizza clássica. Não à toa, é o tipo mais utilizado pelas grandes redes de pizzarias portenhas, como Pizzería Kentucky (mais de 30 unidades espalhadas por Buenos Aires), Pizzería La Continental (quase duas dezenas de unidades pela Capital Federal) e Pizzería La Americana (4 unidades pela cidade). Confesso que as acho apenas razoáveis. A pizza media masa não proporciona experiências memoráveis, mas também não desagrada. Talvez essa seja a opção mais interessantes para os moradores locais do que para os turistas. Curiosamente, quando vou nessas casas (frequento a Kentucky da Crámer, La Continental de Núñez e La Americana da Callao), é mais para merendar do que para pizzar. As medialunas, os tostados, as empanadas, os salgados e, claro, os cafés dessas redes costumam ser bons e baratos. Já o preço das redondas media masa é meramente regular. Portanto, essas pizzarias são o famoso quebra-galho: apresentam custo-benefício justo na parte do menu das pizzas e ofertas imperdíveis na seção da cafeteria. Na falta de melhores opções, elas salvam à refeição dos moradores da metrópole argentina. A pizza al molde é a que tem massa mais alta, com algumas chegando até 3 centímetros de espessura. É a redonda tradicional do norte da Itália, sendo onipresente por exemplo em Milão. Além de grossa, a massa é hidratada e leve. Ao invés do forno à lenha, nesse caso é mais comum o forno elétrico, que permite assar mais uniformemente a pizza. O aspecto da massa é aerado, lembrando bastante a textura dos pães (e a aparência do chocolate suflair). Exatamente por essa semelhança, é chamada por muita gente de pizza pan . A primeira reação dos paulistanos é torcer o nariz para a versão al molde . Afinal, eles não estão acostumados com as massas mais grossas (chamadas pejorativamente em São Paulo de pizzas americanas). Contudo, para dar sabor à pizza tão encorpada, os pizzaiolos argentinos precisam caprichar no recheio. E aí está o pulo do gato. Nas melhores pizzarias da cidade, o recheio chega a ser insano. O resultado é espetacular. Não por acaso, as minhas três pizzarias favoritas de Buenos Aires trabalham com pizza al molde e ainda trazem ingredientes de excelente qualidade. Estou falando da Pizzería Güerrín , Burgio e El Imperio de la Pizza de Chacarita (existem várias pizzarias chamadas Imperio pela cidade, mas eu só fui na unidade de Chacarita). Você come dois pedaços nessas casas e fica satisfeito por 24 horas (algo impensável quando a redonda é de media masa ). A melhor da minha lista é disparadamente a Pizzería Güerrín . Sua mussarella y morrones é uma criação divina (melhor pizza que comi na vida!). O mais legal de lá é que o serviço é ótimo (não tem garçons lentos nem incompetentes) e a atmosfera é encantadora. Até sua localização é charmosa: a Avenida Corrientes é por si só um ponto turístico imperdível. Ou seja, dá para levar a gatinha ao cinema ou ao teatro na avenida que nunca dorme e ainda emendar uma pizza no final da noite ou no início da madruga. Para completar, a Güerrín é gigante. Em seus intermináveis salões, que se dividem por vários andares e por corredores a perder de vista, cabem aproximadamente 1 mil pessoas. Juro que nunca tinha ido numa pizzaria tão grande. A única nota ruim é o preço mais alto. Por ser considerada turística, o reflexo aparece na hora de pagar a conta. Mas não é nada que assuste os moradores de São Paulo, acostumados com os preços exorbitantes praticados pelas melhores pizzarias de sua cara cidade. Já a Burgio é uma tradicional pizzaria de Belgrano que reabriu recentemente com novos donos depois de alguns anos fechada. Como é perto de casa e dos meus rolês, fica aberta até as duas horas da manhã e possui ambientação antiga, se tornou ponto de passagem obrigatório nos meus finais de semana. Quase sempre saio do cinema Multiplex Belgrano na virada de sexta para sábado e rumo para lá no início da madrugada. Suas pizzas são excelentes e o atendimento na barra é simpático (eles sempre perguntam se queremos que esquentem o pedaço de pizza, que pode estar frio na estufa). A melhor fugazzeta que comi em Buenos Aires é da Burgio. Ella tiene la vitamina campeona . A vitamina é uma espécie de tempero que a pizza recebe após sair do forno. O preço da redonda é adequado para a qualidade ofertada. Já El Imperio de la Pizza de Chacarita é a minha favorita. Ela não tem a melhor pizza (posto ocupado pela Pizzería Güerrín ) nem possui o melhor conjunto da obra (título concedido à Burgio). O que ela oferece de tão especial aos clientes é a experiência de se estar numa legítima pizzaria portenha. Juro que quando penso em pizza em Buenos Aires, a primeira imagem que me vem à mente é o salão ou a barra da El Imperio. Sempre me divirto bastante quando a visito, seja sozinho ou bem acompanhado (beijo, Sub-30; e abraços, Rai e Carlos). O salão grande é ruidoso e desconfortável. Os pratos, talheres e copos sempre parecem estar encardidos. Os garçons são horríveis, do tipo que estão sempre mal-humorados, demoram séculos e erram os pedidos rotineiramente. E quando prometo para mim mesmo que nunca mais vou colocar os pés ali, noto que a pizza é deliciosa (mesmo que chegue fria à mesa e com o sabor que não pedi). Aí sou conquistado e entendo o porquê o lugar vive sempre cheio. Com a emoção dominando a razão, sinto vontade de retornar mais e mais vezes. Amar a Imperio de la Pizza de Chacarita é se envolver com o que há de mais verdadeiro nas pizzarias sul-americanas. Contudo, quando a pizzaria não é boa, a pizza al molde pode ser muito decepcionante. Em um país com inflação galopante e grave crise econômica desde que José San Martín declarou a independência da Espanha, muitos estabelecimentos passaram a comprar ingredientes mais baratos e a economizar nos recheios. Aí os clientes comem só massa. Algumas das minhas experiências gastronômicas mais frustrantes em CABA nasceram do probleminha de qualidade e quantidade dos recheios das redondas al molde . Por isso, certifique-se da excelência do lugar que você irá visitar. Eu até aceito serviços trôpegos e ambientes desconfortáveis, mas não admito pizza ruim. A pizza la piedra é a que tem massa fininha. Como a massa é fina, não é possível colocar muito recheio (não haveria sustentação, conforme prova a lei da física). Usa-se normalmente o forno à lenha para assá-las. Essa economia de ingredientes faz com que essa seja a opção mais popular nas pizzarias de bairro. Em cada canto da cidade, você encontrará vários estabelecimentos anunciando pizza la piedra . Não é preciso dizer que se trata da alternativa mais barata. No ano passado, quando o câmbio estava extremamente favorável para o real, eu encontrava redondas grandes por R$ 12,00, R$ 15,00 em Saavedra e Núñez. Essa realidade não existe mais – Buenos Aires está agora tão cara quanto São Paulo. Mesmo assim, ainda acho perto de casa pizza deste tipo por R$ 25,00, R$ 30,00. Mas a questão que intriga os turistas brasileiros é: elas são boas? Sendo bem sincero com você, não são boas, não. Depois que provamos uma pizza al molde com muito recheio, fica difícil acharmos alguma graça nesse tipo de produto. Eu só as compro quando quero matar a vontade de pizza, mas não estou a fim de sair do bairro nem posso gastar muito. Aí é melhor algo mais ou menos do que nada. Porém, para se descobrir uma pizza la piedra razoável em CABA é preciso disposição. A técnica é a famosa tentativa e erro. E haja erro até acertar, senhoras e senhores. A proporção de decepções que tive está na casa de 20 para 1. Obviamente, 20 bombas culinárias para 1 experiência razoável. Algumas vezes, o ambiente era agradabilíssimo, o atendimento excelente e os valores cobrados convidativos. Contudo, quando a redonda chegava, percebia que pecaram justamente no principal. Em alguns casos, eu olhei para a mesa e não acreditei que me serviram uma pizza quase sem recheio. Por fim, temos a pizza napolitana. Ela não é tão tradicional em Buenos Aires quanto as outras três, mas se tornou modinha nos últimos 15 anos. Sua massa é feita com farinha especial, não contém gordura, tem baixo teor de fermentação e leva menos açúcar. O resultado é uma textura mais firme, o que facilita a digestão. Como leva pouco fermento, a massa da napolitana fica até 12 horas no forno. Como não tem cliente com paciência para esperar tanto, elas são geralmente pré-assadas antes da casa abrir. Para completar, vêm em formato pouco usual para o público sul-americano: retangular, ovalada ou mesmo quadrada. Confesso que não curto tanto assim as pizzas napolitanas. Elas são tão saudáveis que se tornam meio sem graça. Vamos combinar que se eu quisesse algo saudável, não comeria pizza, né? Em suma, não é o modelo que eu comeria toda a semana (nem todo mês). As napolitanas só valem a pena porque, como estão na moda, são oferecidas geralmente por lugares mais bacanas e com ótima ambientação, ideal para passeios à dois. Você irá encontrá-las em Palermo, Belgrano, Núñez, Recoleta, Puerto Madero e San Telmo. Um bom exemplo é a Pizza Paradiso , em Belgrano (perto do Barrio Chino). Fui lá três ou quatro vezes e sempre saí satisfeito com a experiência, por mais que a pizza não fosse excelente. A ambientação e o serviço acabaram sendo melhores do que os produtos servidos, que se não empolgaram pelo menos não decepcionaram. Esse é o meu pequeno manual das pizzas e das pizzarias portenhas. Acredito que este post da coluna Gastronomia reúna as principais informações que todo brasileiro precisa saber antes de se aventurar pela gastronomia italiana de Buenos Aires. Com essa rápida contextualização da cultura culinária local, certamente seu passeio ou sua estada por CABA será mais agradável. Porque ninguém merece viver sem uma boa redonda, ainda mais em um lugar em que é possível comê-la em qualquer horário e em qualquer dia da semana. Bom apetite! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia . E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: A Morte Feliz – O romance póstumo de Albert Camus
Hoje, vamos analisar, no Bonas Histórias , a sexta e última obra de Albert Camus do Desafio Literário de setembro. O livro em questão é “A Morte Feliz” ( Record ), o único romance póstumo do escritor e filósofo franco-argelino. Escrita entre 1936 e 1938, esta publicação é uma espécie de esboço de “O Estrangeiro” (Record), o título mais famoso de Camus. Talvez a palavra mais adequada, nesse caso, não seja esboço e sim material preparatório. Foi a partir do desenvolvimento e da melhora do texto de “A Morte Feliz” (maturação é a palavra que me vem à mente) que nasceu, anos depois, a novela que consagraria definitivamente seu autor. A relação entre “A Morte Feliz” e “O Estrangeiro” fica evidente nas incontáveis semelhanças de seus protagonistas, de suas personagens secundárias, de muitas de suas cenas, de vários dos ambientes retratados, de suas temáticas e de suas estruturas narrativas. Grande parte desses elementos se repete na trama dos dois livros. Não se trata aqui de mera coincidência. A impressão que se tem é que Albert Camus não quis publicar “A Morte Feliz” por considerá-lo uma obra inicial e não um romance pronto e acabado. Essa mesma avaliação tem o leitor que já leu os principais títulos do escritor. Este romance é sem dúvida nenhuma a obra mais fraca do portfólio literário de Camus. Foi essa a sensação que tive ao término desta leitura no último final de semana. Apesar da boa discussão filosófica proposta ao longo dos capítulos (como se atinge a felicidade?), a narrativa de “A Morte Feliz” é falha, monótona e limitada. Exatamente por isso, a decisão de lançar este livro, em 1971, onze anos após o falecimento do autor, foi polêmica. Essa escolha foi da segunda esposa de Albert Camus, Francine. Ela encontrou, em 1961, duas versões diferentes de “A Morte Feliz” datilografadas entre os papéis do marido. Cada uma delas continha anotações, observações e acréscimos escritos à mão por Albert. A viúva pediu, então, que um terceiro texto fosse produzido por um editor. Na sua concepção, esse terceiro exemplar deveria reunir o melhor dos dois materiais anteriores deixados pelo seu marido. Assim, surgiu a versão que temos hoje do romance. Ou seja, o texto final desta obra não teve a anuência de Albert Camus. Na certa, ele jamais permitiria essa publicação. Afinal de contas, quem aceitaria a divulgação de uma trama inacabada e que foi usada como alicerce para a produção de outra narrativa? Se “A Morte Feliz” não vale a leitura como romance, ao menos seu material é interessante para o estudo do fazer literário. É muito legal ver como Albert Camus iniciou esse texto e, anos depois, estruturou “O Estrangeiro”, essa sim a versão final e acabada desta trama. Ficam nítidas durante a leitura de “A Morte Feliz” as opções narrativas feitas pelo seu autor no livro posterior: melhor desenvolvimento das personagens, estruturação definitiva do protagonista, alteração do foco narrativo (da terceira para a primeira pessoa), exclusão de ideias que não funcionaram, inversões da ordem cronológica da história, manutenção de cenas que deram certo, etc. Portanto, é bem provável que o livro interesse mais aos escritores ficcionais do que ao público leitor. O enredo deste livro começa em Argel, a capital da Argélia. Patrice Mersault (repare que aqui o protagonista tem um primeiro nome; em “O Estrangeiro”, ele é apresentado apenas pelo sobrenome) é um funcionário administrativo de uma empresa encarregada dos trâmites burocráticos no porto da cidade. Forte, bonito e saudável, Mersault leva uma vida humilde e melancólica. Mesmo tendo uma namorada bonita, Marthe, e não passando grandes necessidades materiais, o rapaz se ressente da falta de tempo. Seu trabalho diário no escritório o consome excessivamente, não o deixando viver plenamente. Por isso, ele reclama da banalidade e da superficialidade de sua existência. Em sua concepção, sua rotina pobre e sem emoção é fruto da falta de dinheiro (que provoca a escassez de tempo). A rotina de Patrice se transforma quando ele rouba e mata Zagreus, um ex-amante de Marthe com quem ele estabeleceu uma forte amizade. Zagreus sofreu um grave acidente há alguns anos e teve suas duas pernas amputadas. Por isso, vive recluso em sua casa, lendo muito e procurando sair o menos possível do lar. Os poucos que o visitam são Marthe e Patrice. Em uma conversa corriqueira, Mersault descobre que o deficiente físico tinha uma fortuna guardada no cofre de sua casa. Além da bolada em dinheiro, no cofre havia uma arma de fogo e uma carta informando o motivo do possível suicídio do seu proprietário. Zagreus escreveu a carta, mas jamais teve coragem para seguir em frente no plano de tirar sua própria vida. Afinal de contas, para que se matar se ele se sentia feliz? Curiosamente, Zagreus é uma personagem totalmente oposta a Mersault. Com muito tempo disponível e sem problemas financeiros, ele vive plenamente, apesar das limitações físicas e do isolamento residencial. Mersault atribui essa situação à riqueza de Zagreus. Em sua crença, um homem rico tem mais chances de ser feliz, mesmo sem as pernas, do que um homem pobre e com o corpo íntegro. Paradoxalmente, apesar da fortuna, Zagreus parece viver de maneira simples. Ao saber da existência e do conteúdo do cofre na casa do amigo, Mersault entra no lar de Zagreus, dias depois da conversa reveladora, para roubá-lo. Ele abre o cofre, pega a arma e mata Zagreus à sangue frio com um tiro no rosto. Antes de sair dali com o dinheiro em uma mala, o assassino ainda se preocupa em simular um suicídio, montando um cenário no qual o deficiente físico teria se matado. A polícia acaba caindo no truque e, em algumas semanas, ninguém mais pensa naquela morte. O crime praticado não causa qualquer transtorno na consciência de Patrice. Prova disso é que no retorno à sua residência, o assassino dorme tranquilamente. O único contratempo é um forte resfriado que ele pega, que o incomodará por várias semanas. A partir do assassinato/roubo, Patrice Mersault se torna efetivamente um homem rico. Seus problemas de falta de tempo estão terminados. Ele deixa de trabalhar, termina o namoro com Marthe e passa a viajar pela Europa. Seu objetivo é se tornar, assim, um homem feliz. Para tal, acredita que não poderá criar vínculos sociais com ninguém. A felicidade está em uma vida solitária e sem amarras. Pela primeira vez na vida, o protagonista do romance se sente livre. A liberdade plena é o caminho de sua realização pessoal. À medida que o tempo passa, Patrice Mersault começa a sentir falta dos antigos amigos e de sua terra natal. Ao voltar para a ensolarada Argel, ele vai morar com um trio de amigas: Rose, Claire e Catherine. O grupo mora em uma residência apelidada sugestivamente de Casa Diante do Mundo. Quando se interessa por Lucienne Raynal, uma bonita moça que ele conheceu por acaso, Patrice terá de escolher: viver sozinho novamente ou morar junto com a nova namorada? Uma decisão aparentemente simples se torna uma questão complexa para um homem atormentado pela necessidade patológica de ser feliz. Conseguiria ele ser plenamente realizado ao lado de uma única mulher para o restante de sua vida? “A Morte Feliz” é um romance curto. Ele tem pouco mais de 150 páginas. É possível lê-lo em uma única tarde. A obra é dividida em duas partes, cada uma com cinco capítulos. Se a primeira metade do livro é instigante (afinal, procuramos descobrir os motivos do crime praticado por Mersault; o assassinato ocorre já no capítulo de abertura da publicação), a segunda metade é mais arrastada. Nessa segunda parte, as angústias existenciais da personagem principal depois de rica e o seu dia a dia pouco emocionante passam a imperar. Paradoxalmente, isso é o contrário do que ocorre em “O Estrangeiro”. Na novela mais famosa de Camus, o início aborrece um pouco por causa da banalidade do cotidiano e o final encanta o leitor pelo drama psicológico do protagonista. Do ponto de vista narrativo, o principal problema de “A Morte Feliz” é a colocação do assassinato de Zagreus no primeiro capítulo. Com essa disposição fatual, o leitor passa a se preocupar mais com as causas da violência (como ocorre, por exemplo, em “Crime e Castigo”, clássico de Fiódor Dostoiévski) do que com as consequências do enriquecimento da personagem principal (objetivo central do debate filosófico proposto por Camus neste livro). Por isso, vemos com desinteresse toda a segunda parte do romance. Além disso, há muitos saltos temporais ao longo da trama provocados pela antecipação do crime praticado por Patrine Mersault. Os quatro capítulos seguintes da parte I são constituídos de flashbacks. E na parte II, a ordem normal é retomada (ou seja, acompanhamos o desenrolar do assassinato). É um vai-e-volta desnecessário, que poderia ser resolvido com a colocação dos fatos na ordem cronológica dos acontecimentos (o assassinato no último capítulo da primeira parte). Albert Camus estava tão ciente disso que efetuou essa mudança em “O Estrangeiro”, dando uma dinâmica mais interessante à nova narrativa. Por falar em “O Estrangeiro”, vale a pena o leitor reparar na quantidade absurda de semelhanças dessa novela com “A Morte Feliz”. O protagonista tem as mesmas características e o mesmo nome em ambos os livros. O mesmo ocorre com algumas personagens secundárias. Céleste é o dono do restaurante frequentado por Mersault nas duas histórias. Além disso, Marthe, “de A Morte Feliz”, e Maria Cardona, de “O Estrangeiro”, exercem o mesmo papel (antigas colegas de trabalho de Mersault que passam a namorá-lo). É possível também encontrar vários pontos em comum entre Cardona, “de A Morte Feliz”, e Salamano, de “O Estrangeiro”. Ambas personagens moram no mesmo prédio de Mersault, são idosos solitários e possuem uma forte ligação com seus cachorrinhos de estimação. É engraçado ver que há cenas que são, se não idênticas, muito parecidas nas duas obras de Albert Camus. Isso fica evidente logo no segundo capítulo de “A Morte Feliz”, quando Mersault passa o domingo passeando pela cidade. Temos, assim, os comentários dos frequentadores da sessão domingueira de cinema, a comemoração dos jogadores/torcedores do time de futebol e os jovens se paquerando na praça. Para completar, o protagonista vai ao cinema com a nova e bonita namorada. Essa narrativa é encontrada nos capítulos iniciais de “O Estrangeiro”, exatamente como aqui descrito. Os estilos dos textos dos dois livros também são muito parecidos: Camus opta por descrever as banalidades dos cotidianos dos protagonistas para expor, depois, as complexidades de suas angústias psicológicas. Ele também aborda cada aspecto da narrativa e cada diálogo travado pelas personagens por um viés profundamente filosófico. Assim, em muitos momentos, não é fácil acompanhar esta leitura. Ler Camus não é algo simples nem uma tarefa recreativa. É necessário atenção e esforço por parte do leitor para compreender até onde o escritor quer chegar com suas exposições e divagações existencialistas. As principais diferenças entre as obras são quanto à temática do debate filosófico proposto pelo autor e em relação ao tipo de narrador. Se em “O Estrangeiro” temos uma discussão do pensamento e do homem absurdo, em “A Morte Feliz” temos a reflexão do que traz felicidade ao homem moderno. Apesar de sutil, é uma diferença considerável. Quanto ao narrador, o texto em primeira pessoa de “O Estrangeiro” torna a narrativa mais dramática e forte do que o ponto de vista em terceira pessoa de “A Morte Feliz”. Por fim, vamos comparar os mundos de Patrice Mersault. Na parte I, ele vive melancólico por se sentir em uma prisão existencial. Mesmo tendo saúde, trabalho e uma mulher, ele se ressente de não ter tempo e dinheiro. Na parte II, é o contrário. Mersault se sente aliviado e livre. Isso porque agora tem tempo e dinheiro. A falta de saúde, trabalho e mulher parecem não o incomodar. Assim, sua felicidade é, enfim, alcançada. De maneira geral, não recomendaria a leitura de “A Morte Feliz” para quem não se interessa por estudar a evolução narrativa dessa trama. Se você quer ler Albert Camus, vá direto para “O Estrangeiro” e se divirta com a versão definitiva dessa história. É bem melhor do que ficar patinando em um texto experimental e inconcluso (que o próprio autor achou por bem não publicar). Com o término das análises individuais dos livros de Albert Camus, é chegado o momento de montarmos o perfil estilístico do escritor franco-argelino. Por isso, no próximo domingo, dia 30, retorno ao Bonas Histórias para divulgar o último post deste Desafio Literário . Depois de conhecermos profundamente seis das principais obras de Camus, será possível apontarmos as principais características da literatura camusiana. Não perca a última etapa deste estudo. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário . E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #AlbertCamus #Existencialismo #Absurdismo #Romance #LiteraturaFrancesa #LiteraturaArgelina
- Celebrações: Bonas Histórias - Décimo aniversário do blog
Depois de se consolidar como um dos principais espaços de análise literária e cultural da internet em língua portuguesa, o Bonas Histórias comemora nesta semana uma década de vida, o que o coloca como um dos blogs de arte e entretenimento mais longevos do Brasil . Se eu fosse muito amigo dos clichês (somos apenas velhos conhecidos), poderia dizer que tenho a impressão de que foi ontem que essa história começou. Mas sendo beeeeem sincero com você, leitor assíduo ou ocasional da coluna Premiações & Celebrações , não parece, não! Pelo contrário. Foram tantas as águas que rolaram embaixo da ponte que os incansáveis ponteiros do meu relógio andaram devagar e não rapidamente. A sensação é que, entre altos e baixos, alegrias e tristezas, acertos e erros, conquistas e derrotas, sortes e azares e acasos e destinos, uma vida inteira se passou num pequeno intervalo de tempo. Pequeno intervalo de tempo? Tá bom! Não foi assim tão curto. Tal qual São Tomé, curvo-me às inevitáveis evidências que se escancaram diante da minha face incrédula. Por falar em face, há exatamente 10 anos, encontrei por acaso com um rapazinho no reflexo do espelho de casa. Era uma manhã de Verão, mas o friozinho das montanhas do Sul de Minas trazia frescor para as boas almas e leveza para os corações puros. Naquela altura do campeonato, admito que meu amigo recém-chegado não era tão jovem quanto gostaria, por mais que ainda tivesse muitos cabelos (alguns com fios precocemente brancos), boa visão (para um míope de poucos graus) e uma magreza de dar dó (que levaria Dona Júlia ao desespero, se ela estivesse viva). Naquela oportunidade, o moço (leia essa palavra com sotaque mineiro, por favor) me encarou num mix de desespero e clemência. Contudo, o que mais me chamou a atenção em sua fisionomia foi o ar de sonhador e a aura de destemido. Lembro que o sujeito no reflexo já procurava um dia a dia mais calmo e longe de sua caótica São Paulo. Também queria ganhar a vida como escritor e produtor de conteúdo. Creio que já estava cansado de trabalhar com Publicidade e Marketing. Captei tudo isso sem que precisássemos trocar uma só palavra. Ao entendê-lo em uma espécie de telepatia instantânea, juro que, com o típico preconceito das doutoras mais ambiciosas e gatinhas das margens do Rio da Prata, pensei: “Que tipo mais estranho! Ou está louco por escolher o caminho mais difícil para a longa caminhada ou é ingênuo ao ponto de achar que a trajetória esburacada não cobrará um preço amargo demais”. Como se tivesse se ofendido com minha reflexão, ele sumiu e nunca mais nos vimos. Por que estou falando sobre isso neste post comemorativo do Bonas Histórias ? Porque ontem de manhã, ao ir ao banheiro de meu apartamento em Buenos Aires para fazer a barba de vários dias (não podia ir à feirinha de domingo de Saavedra daquele jeito, né?), reencontrei o velho conhecido. Velho não é figura de linguagem nesse caso. Quase não o reconheci quando ele surgiu de supetão diante de mim outra vez na frente do espelho. O visitante estava grisalho, com óculos fundos e (desculpe-me falar) bem gordito. Porém, parecia feliz. Seus olhos verdes brilhavam e um sorriso despontou no rosto cada vez mais arredondado. Quando cruzamos os olhares, imediatamente sentimos que ambos tinham razão em relação aos pensamentos do primeiro encontro. Tal qual uma partida de futebol que termina empatada para satisfação de ambas as equipes, constatamos a confluência de sentimentos de uma década atrás. Eu estava certíssimo por ter previsto o mar de dificuldades que o pobre (não há figura de linguagem no uso desse termo agora) enfrentaria. E ele não estava nem um pouco errado ao batalhar por suas vontades e paixões, por mais amalucadas que parecessem para mim (e para aqueles que o cercavam) na época. Para quem não sabe, o Bonas Histórias surgiu em 1º de dezembro de 2014 como um blog de literatura, cultura e entretenimento . De um jeito amador e improvisado, o objetivo era dar vazão aos sonhos daquele paulistano tímido de 33 anos que iniciava o caminhar pelo mundo da Escrita Criativa e da análise ficcional . A ideia de seu criador era simplesmente se divertir com a arte textual e se desenvolver profissionalmente na nova área de atuação. Por isso, a procura pelas boas histórias nas mais diferentes manifestações artísticas – literatura , cinema , música , teatro , dança , exposição , gastronomia , passeio e programas de rádio, televisão e internet . Uma vez encontradas as tramas ficcionais inspiradoras, elas seriam compartilhadas, comentadas e analisadas com profundidade, independência e sinceridade. E assim foi. A cada ano, os posts do Bonas Histórias se tornaram mais completos e bem escritos. Preciso dizer que, no início, os textos do rapazinho que por vezes me visita eram sofríveis. Além dos vários erros de português, o conteúdo era raso e as avaliações mostravam-se muito tacanhas. Se está duvidando de mim, querido(a) e desconfiado(a) leitor(a) deste blog, vá lá e leia os materiais antigos. Juro que fico com vergonha de quem os escreveu e de quem fazia o projeto gráfico do site. Tenho até mesmo receio de reler as análises dos primeiros anos. Tem cada coisa horrível por lá, Santo Deus! Por outro lado, reconheço que meu amigo foi melhorando. Pouco a pouco, fui notando sua evolução. Sim, eu acompanho o blog desde o primeiro dia e li TUDO o que foi publicado até aqui. É claro que a prática leva naturalmente ao aprimoramento. Ainda assim, destaco que o visionário criador do Bonas Histórias precisou fazer outra graduação (Licenciatura em Letras), pós-graduação (Formação de Escritores) e vários cursos (Oficinas de Escrita Criativa, Roteiro de Cinema, História da Arte etc.) para se tornar um crítico cultural com o mínimo de qualificação. Acho que ele conseguiu ao menos atingir um patamar aceitável de excelência. Se não é alguém primoroso no novo (agora velho) ofício, pelo menos não passa mais tanta vergonha como outrora. Paradoxalmente, ontem, no aniversário de 10 anos do Bonas Histórias , quem foi congratulado por colegas, amigos, leitores e patrocinadores fui eu, que não tenho nada a ver com o sucesso do blog. NADA! Já o moço que veio me visitar na Argentina e que atrapalhou meu barbear dominical, que é o verdadeiro responsável pela longevidade e qualidade do site, sequer foi lembrado. NINGUÉM o mencionou. Juro que fiquei perplexo com tanta injustiça. Como o povo que entrou em contato comigo não entenderia minha postura reticente, preferi não comentar a transferência dos parabéns para seu verdadeiro merecedor. Simplesmente aceitei os cumprimentos e me calei em relação ao enorme equívoco coletivo. Esse texto é para colocar as coisas em seu devido lugar (meu pai falaria colocar os pontos nos is). Agradeço de coração as lembranças e as felicitações recebidas ontem. Aqui vai formalmente o meu muito obrigado a todos! Inclusive, as equipes da Epifania Comunicação Integrada e da EV Publicações , parceiros do blog desde os tempos da Pedra Lascada, pousaram há poucas horas no Aeroparque. Eles vão, entre outros eventos etílico-gastronômicos, participar dos festejos do décimo aniversário do Bonas Histórias . É isso mesmo o que você leu: ao longo dessa semana inteira, acontecerão eventos comemorativos do blog em Mi Buenos Aires Querido. Impossível não nos sentirmos importantes e internacionais, né? Só faltou mesmo o pessoal da Dança & Expressão para que as celebrações ficassem completas. Contudo, receberemos a visita da turminha mais dançante de São Paulo no final deste mês, quando a academia de Perdizes entra em férias coletivas (e seus dançarinos correm em direção ao primeiro aeroporto disponível). Mesmo grato pelos cumprimentos, gostaria de direcioná-los ao verdadeiro responsável pela construção e manutenção do Bonas Histórias . Sou tão displicente que nem sequer sei o nome daquele rapaz misterioso (e, convenhamos, bem esquisito também – Angelina diria “desregulado”, Gaby falaria “tri cancheiro” e Marcelinha soltaria “pangaré”). Foi ele quem deu o pontapé inicial do blog e o alimentou por vários e vários anos, mesmo sem remuneração e sem qualquer perspectiva de êxito. Até hoje não sei como ele conseguiu e o que teve de abrir mão. Por mais que insista em viver nas sombras (seria vergonha?), saiba, meu amigo tímido e obscuro, que sou muito grato por suas decisões de lá de trás. Se represento o Bonas Histórias atualmente e se estou à frente das principais ações da empresa no dia a dia, reconheço que peguei o bonde andando. Alguém teve o trabalho de desenvolvê-lo e colocá-lo nos trilhos. Ou seja, a maior parte dos méritos (pelo menos no meu humilde ponto de vista) desta saga que já conta com uma década de existência é seu, amiguinho reflexivo. Por isso, o meu muito obrigado a você. De coração! E desculpe-me se, em algum momento do passado cada vez mais remoto, eu questionei seus passos, não acreditei em suas decisões e não validei suas vontades mais íntimas. Se havia alguém que jamais poderia ter duvidado de você e que nunca poderia tê-lo abandonado, esse alguém era eu. Porém, como sou falho (muito, para ser franco) e descrente (talvez essa palavra me defina melhor do que qualquer outra), eu vacilei. Vacilei MUITO com você. Perdão! Estou tão arrependido que venho à público reconhecer meus antigos erros e expressar meus agradecimentos e admirações por sua pessoa. Valeu! Que possamos nos encontrar mais vezes, de preferência em vários outros aniversários do Bonas Histórias . Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em setembro e outubro de 2023
Selecionamos as 130 principais obras da ficção e da poesia que foram publicadas no Brasil no quinto bimestre deste ano. Não estou morando no Brasil desde setembro (ainda vou explicar melhor essa história no momento mais adequado), mas não deixo de acompanhar de perto (ou seria de longe com atenção?!) o que chega de bom nas livrarias nacionais . Para ser sincero, nunca me senti tão mergulhado na literatura brasileira como agora. A quantidade de trabalho subiu assustadoramente de agosto para cá. Culpa de um moço chamado Eduardo Villela , meu amigo de infância e um dos principais book advisors do país, e da repercussão positiva do Bonas Histórias , esse humilde blog que se aproxima de completar nove anos de vida. E, claro, do home office, essa invenção divina para os nômades digitais (Eu, nômade? Eu, digital? Fala sério!). Juro que às vezes me sinto aprisionado no meio de uma dezena de livros para editar, escrever e analisar (isso não é uma reclamação, é apenas uma constatação). O mais legal é que, pelo que estou notando ao longo de todo o ano, não sou apenas eu quem está tendo bastante serviço no mercado editorial brasileiro . A quantidade e qualidade dos livros publicados em setembro e outubro de 2023 no Brasil mostra que o setor passa por uma excelente fase, o que aumenta naturalmente a demanda por editores, ilustradores, revisores, ghostwriters, diagramadores, agentes literários, capistas, redatores e por aí vai. Você está duvidando de minhas palavras? Para provar o que estou falando (no caso escrevendo), trago neste novo post da coluna Mercado Editorial os 130 principais títulos da ficção e da poesia que foram lançados nas livrarias de nosso país no quinto (e penúltimo) bimestre. Para quem está chegando agora – seja bem-vindo(a) – e, portanto, não está acostumado(a) à lista de lançamentos do Bonas Histórias , eu explico. A cada dois meses, trazemos na coluna Mercado Editorial as novidades mais legais do setor. Nosso radar é voltado para identificar e avaliar títulos da ficção literária ( romance , novela , coletânea de contos , coletânea de crônicas , coletânea de ensaios literários , literatura infantojuvenil e literatura infantil ) e da poesia. Consideramos tanto a literatura nacional quanto a literatura internacional que por aqui aporta. E englobamos indistintamente a literatura ficcional contemporânea e a literatura clássica . Basta dar uma navegada pelas colunas Livros – Crítica Literária e Desafio Literário que você entenderá nosso escopo de trabalho. Explicado sucintamente o que fazemos, comecemos, entonces, tratando das novidades do mercado editorial brasileiro deste bimestre pela estante da literatura brasileira. Os quatro livros mais interessantes que encontrei nessa seção foram: “Os Substitutos” ( Companhia das Letras ), novo romance de Bernardo Carvalho , “1+1=2 2-1=0” ( CEPE Editora ), obra de Fernanda Caleffi Barbetta , “Pindorama – Uma História da Civilização Animal” ( Haikai ), inusitada novela de Carlos Fernando Verne, e “¿Qué Pasa, Argentina?” ( Globo Livros ), deliciosa coletânea de crônicas de Janaína Figueiredo . Bernardo Carvalho é um dos principais romancistas brasileiros da atualidade. Tenho a impressão de que tudo o que ele lança é primoroso, inteligente e relevante. Com “Os Substitutos” não é diferente. Nesse romance corrosivo ambientado na época da Ditadura Militar, o escritor e jornalista carioca de 63 anos apresenta a relação delicada de um empresário ambicioso e pouco ético com seu filho adolescente e sonhador. A família está envolvida com o que o Brasil tem de mais atrasado, violento e corrosivo: a destruição das riquezas naturais da Amazônia e o extermínio da população indígena. Com um texto ácido, sagaz e angustiante, Carvalho mostra que continua em excelente forma. Não se surpreenda se você considerar esse o melhor romance do autor de “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras) nas últimas duas décadas. Além de desfrutar da narrativa sempre cativante de Bernardo Carvalho, o leitor de “Os Substitutos” poderá fazer uma reflexão sobre os desmandos e as inconsistências sociais, políticas e econômicas de sua nação nos últimos 50 anos. Talvez a conclusão não seja das mais satisfatórias. Se Bernardo Carvalho é um nome consolidado na literatura nacional, Fernanda Caleffi Barbetta é uma escritora que surge com enorme potencial para figurar na prateleira dos grandes da ficção contemporânea. Vencedor do VII Prêmio CEPE Nacional de Literatura na categoria Melhor Romance, “1+1=2 2-1=0” (sim, esse é o título da obra) é o quarto livro (e a primeira narrativa ficcional longa) da escritora paulistana de 47 anos que vive nos Estados Unidos. Suas outras obras são uma coletânea de contos, uma coleção de microcontos e uma antologia poética. Em “1+1=2 2-1=0” , acompanhamos o diário de uma adolescente de 14 anos órfã de mãe e que foi abandonada pelo pai. Em meio aos sonhos e à sede de viver novas e prazerosas experiências, sentimentos tão típicos da juventude, a protagonista debate questões fortes e delicadas de sua jornada familiar, em uma mescla de humor e tristeza, esperança e amargura, olhar para frente e olhar para trás. Por falar em enxergar, só te falo mais uma coisa sobre a Fernanda: ela é uma baita de uma romancista. Fique de olho nela! No campo das novelas, um livro que me chamou bastante atenção foi “Pindorama – Uma História da Civilização Animal”. Carlos Fernando Verne, escritor carioca que parece ser muito gente boa, entrou em contato para me enviar seu título de estreia. O problema é que eu estava justamente no meio da mudança para Mi Buenos Aires, Querido. Sem um endereço fixo em nenhuma das duas pontas entre a metrópole paulistana e a metrópole portenha, acabei optando por adquirir a obra pela Loja Kindle. E não é que essa foi a melhor opção. Li esse livro em minha viagem para a Argentina – juntamente com “Duas Guerras Surreais” (publicação em ebook), a excelente novela de Graziella Moraes que está concorrendo ao Prêmio Kindle de Literatura de 2023 e que certamente merece uma análise completa na coluna Livros – Crítica Literária assim que ganhar uma versão física. O fato é que fiz a primeira leitura de “Pindorama” no avião (nunca vou para aeroporto ou rodoviária sem combustível literário na mochila) e é achei sua narrativa surpreendente. Nessa divertida sátira política que mistura ficção e realidade, acompanhamos a história do Brasil desde o seu descobrimento. O legal é que quem conta a saga dos portugueses e brasileiros são os animais. Inusitado, né? Vou ainda fazer a segunda leitura (sim, eu leio mais de uma vez os livros que comento aqui!) e, quem sabe, não analise esse título de Verne no começo de 2024 no Bonas Histórias . Deixem-me concluir o estudo desse livro e logo mais volto com novidades para vocês. De qualquer forma, já dá para dizer que “Pindorama” é o título mais original desse bimestre. Parabéns, Carlos Fernando! Ainda vou entrar em contato diretamente contigo para dar meu feedback. Já que falei de Argentina, como não trazer o espetacular “¿Qué Pasa, Argentina?”. Essa coletânea de crônicas da escritora e jornalista Janaína Figueiredo é uma ótima opção de leitura para quem deseja conhecer os principais aspectos da terra de Dieguito e Evita. Adorei esse texto que mescla profundidade histórica, análise do cotidiano, diferenças culturais e curiosidades divertidas. Eita livro gostoso! Acho que o li em uma tarde. Se você estiver vivendo na margem mais emocionante e caótica do Rio da Prata (como eu e uma multidão de universitários do curso de medicina) ou simplesmente passeando por Buenos Aires (beijo, Marcelinha), recomendo muito essa leitura. Para ser sincero, as duas obras que mais gostei sobre a Argentina, e que dão um ótimo panorama histórico, econômico, cultural e social da nação hermana, são o próprio “¿Qué Pasa, Argentina?” e “Os Argentinos” (Contexto), livro de 2013 do sempre divertido e carismático jornalista Ariel Palacios. A obra do correspondente internacional da GloboNews integra a coleção “Povos e Civilizações”. Se “Os Argentinos” é um livrão mais completo, engraçado e detalhado (acho que tem o dobro de páginas do livro de Janaína Figueiredo), por sua vez “¿Qué Pasa, Argentina?” traz um panorama mais atualizado. Na dúvida de qual ler, faça como eu: leia os dois. As obras de Palacios e Figueiredo têm textos deliciosos de quem domina tanto o assunto abordado (a dupla viveu/vive por décadas em Buenos Aires) quanto a arte da escrita (algo que nem todos os jornalistas, convenhamos, possuem). Vamos mudar um pouco de setor dentro da livraria. Passeando agora por entre as estantes dos romances da literatura estrangeira, trago quatro boas novas para os leitores mais exigentes da coluna Mercado Editorial . O quarteto de obras ficcionais que mais me apeteceram em setembro e outubro de 2023 foram: “Paraíso” ( Companhia das Letras ) de Abdulrazak Gurnah , “Teoria Geral do Esquecimento” ( Tusquets ) de José Eduardo Agualusa , “Trilogia de Copenhagen – Infância, Juventude e Dependência” ( Companhia das Letras ) de Tove Ditlevsen e “Cidade da Vitória” ( Companhia das Letras ) de Salman Rushdie . Para ser bem franco com você, esses quatro títulos não foram apenas os melhores em sua categoria. Eles são os melhores de toda a lista que trago hoje. “Paraíso” é simplesmente a Magnum opus de Abdulrazak Gurnah, escritor tanzaniano que conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 2021. Com quase 30 anos de atraso, o romance mais celebrado de Gurnah ganha, enfim, uma tradução para o português dos brasileiros. Vale a pena lê-lo. Afinal, não é todo dia em que temos em mãos o livro mais representativo de um Nobel, né? Por isso, não vou perder nosso tempo detalhando o que é essa obra e o que trata a sua trama. Pense em “Paraíso” como o melhor trabalho de Abdulrazak Gurnah e na certa você vai querer conhecer esse título. Quem me conhece (ou lê o Bonas Histórias há mais tempo), sabe que José Eduardo Agualusa é um dos meus escritores favoritos. Inclusive, analisei seis dos principais livros do autor angolano no Desafio Literário em novembro de 2020: “A Conjura” (Gryphus Editora), “Nação Criola” (Gryphus Editora), “O Vencedor de Passados” (Tusquets), “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), “Nweti e o Mar” (Gryphus Editora) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets). A novidade envolvendo Agualusa é que “Teoria Geral do Esquecimento”, romance de 2012 que estava fora de catálogo no Brasil desde o fechamento da Editora Foz em 2018, volta às livrarias pelo selo Tusquets da Editora Planeta . Em outras palavras, quem estava com dificuldades para ler esse ótimo romance (coloca o dedo aqui que já vai fechar!), agora não tem mais desculpas. Bora para a livraria, pessoal. Se a Editora Planeta fez um golaço ao republicar em nosso país uma das melhores ficções de José Eduardo Agualusa , sempre favorito para conquistar o Prêmio Camões, a Companhia das Letras merece nossos elogios por publicar pela primeira vez no Brasil e em português a “Trilogia de Copenhagen”, a obra-prima da dinamarquesa Tove Ditlevsen. A editora paulista reuniu os três romances, “Infância”, “Juventude” e “Dependência”, da saga autobiográfica de Ditlevsen em um único volume. Dessa maneira, o leitor brasileiro pode se encantar e se assustar com os dramas de uma das vozes mais potentes e polêmicas da literatura europeia do século XX. É leitura para fortes, aviso desde já. Por falar em polêmica, Salman Rushdie está de volta. Felizmente, o autor de “Os Versos Satânicos” (Companhia das Letras) lança uma obra inédita depois do brutal ataque sofrido por um radical mulçumano no Estado de Nova York em agosto de 2022. Pouco mais de um ano depois de quase morrer, Rushdie apresenta ao público o romance “Cidade da Vitória”. Nessa narrativa com nome bastante sugestivo para quem acompanhou o drama pessoal do escritor indo-britânico, conhecemos a saga de Bisnaga, uma localidade surgida das cinzas. Depois de crescer e se tornar um poderoso Império, Bisnaga entra em decadência, completando o ciclo natural da vida. Eu poderia encerrar por aqui os destaques bimestrais das livrarias brasileiras, mas tenho mais um quarteto de ótimos títulos para citar. Ou você achou que eu não iria falar dos lançamentos de “ É A Ales” ( Companhia das Letras ) e de “Brancura” ( Fósforo ) de Jon Fosse , hein? Nananinanão. As duas novelas do escritor norueguês que acabou de conquistar o Prêmio Nobel de Literatura, conforme apresentado na coluna Premiações e Celebrações , são imperdíveis para quem deseja conhecer o melhor da ficção contemporânea. Confesso que estou louquinho para ler Jon Fosse , autor que até o mês passado era um completo desconhecido para mim. Desculpem-me pela minha ignorância (e descabida sinceridade). A dupla final de destaque deste post da coluna Mercado Editorial (que começa a se alongar mais do que eu havia me programado) vai para dois livros da Darkside Books , talvez a editora brasileira com as publicações com o melhor acabamento no Brasil na atualidade. Suas obras são verdadeiras obras de arte. E entre as belezuras que ela lançou em setembro e outubro, temos “Contos dos Subúrbios Distantes” ( Darkside ), coletânea de contos do australiano Shaun Tan e “Sonho” ( Darkside), o título infantil da portuguesa Susa Monteiro . Considerado um dos principais autores infantojuvenis da literatura contemporânea de língua inglesa, Tan atua também como cineasta. “Contos dos Subúrbios Distantes” é seu premiado livro de estreia e apresenta quinze narrativas curtas aterrorizantes. Nessa coletânea, assistimos a histórias que misturam violência e humor, lirismo e brutalidade, realidade e fantasia, cidade e interior, e presente e passado. Em outras palavras, os fãs do gênero de terror e os leitores que se enquadram na categoria Young Adults (adolescentes e não-tão-adolescentes-assim, mas que continuam com o paladar literário ainda juvenil) não podem perder “Contos dos Subúrbios Distantes”. Para a garotada ainda mais nova, a melhor opção é “Sonho”, de Susa Monteiro. Nessa viagem onírica escrita e ilustrada pela premiada autora e artista plástica do Alentejo, acompanhamos um mundo quase infinito de cores e possibilidades. Esta obra foi publicada originalmente em Portugal há cerca de seis anos e conquistou o Prêmio de Melhor Ilustrador Português no Festival Internacional de Banda Desenhada de Amadora em 2018 (eita nome mais estranho de honraria!) e o Prêmio Nacional de Ilustração na categoria Menção Especial no mesmo ano. Para completar, passou a integrar o Plano Nacional de Leitura do governo português até 2027 para crianças de 3 aos 5 anos. Ou seja, vale a pena ler (ou incentivar seus filhos a lerem) a excelente Susa Monteiro. Feita essa introdução (introdução?!!!!), apresento agora a lista com os 130 melhores livros ficcionais e poéticos do quinto bimestre de 2023 . Se você procura bons romances, novelas, coletâneas de contos, crônicas e ensaios, títulos infantojuvenis, obras infantis e coleções poéticas que acabaram de sair do forno, creio que valha a pena dar uma conferida nas novidades do cardápio oferecido pelas editoras brasileiras. Boa viagem pelo encantador universo da literatura nacional e internacional e pelo desafiador mundo da literatura clássica e contemporânea. FICÇÃO BRASILEIRA : “Os Substitutos” (Companhia das Letras) – Bernardo Carvalho – Romance – 232 páginas. “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora) – Fernanda Caleffi Barbetta – Romance – 292 páginas . “O Amor de Pedro por João” (L&PM) – Tabajara Ruas – Romance – 296 páginas. “Os Varões Assinalados” (L&PM) – Tabajara Ruas – Romance – 494 páginas. “O Céu Para os Bastardos” (Todavia) – Lilia Guerra – Romance – 176 páginas. “Sodomita” (Companhia das Letras) – Alexandre Vidal Porto – Romance – 160 páginas. “Tudo que Eu Queria te Dizer” (L&PM Pocket) – Martha Medeiros – Romance – 192 páginas. “A Febre” (Companhia das Letras) – Marcelo Ferroni – Romance – 192 páginas. “Mata Doce” (Alfaguara) – Luciany Aparecida – Romance – 304 páginas. “Visão Noturna” (Intrínseca) – Franklin Teixeira – Romance – 272 páginas. “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” (Nós) – Marcia Tiburi – Romance – 304 páginas. “Quando os Prédios Começaram a Cair” (Todavia) – Mauro Paz – Romance – 192 páginas. “O Palco Tão Temido” (Nublinense) – Renata Wolff – Romance – 320 páginas. “Vida Ao Vivo” (Companhia das Letras) – Ivan Ângelo – Romance – 296 páginas. “A Segunda Mãe” (Todavia) – Karin Hueck – Romance – 176 páginas. “Gambé” (Companhia das Letras) – Fred Di Giacomo Rocha – Romance – 200 páginas. “O Lado Bom de Ser Traída” (Harlequin) – Sue Hecker – Romance – 384 páginas. “Pindorama – Uma História da Civilização Animal” (Haikai) – Carlos Fernando Verne – Novela – 152 páginas. “Causas Não Naturais” (Autêntica Contemporânea) – Ana Elisa Ribeiro – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Selma e Sinatra” (L&PM Pocket) – Martha Medeiros – Novela – 112 páginas. “Lila” (CEPE Editora) – Gael Rodrigues – Coletânea de Contos – 176 páginas. “Foi Um Péssimo Dia” (Nublinense) – Natalia Borges Polesso – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Corações Gentis” (Lacre) – Eduardo Neiva – Coletânea de Contos – 168 páginas. “¿Qué Pasa, Argentina?” (Globo Livros) – Janaína Figueiredo – Coletânea de Crônicas – 192 páginas. “Sempre Paris – Crônica de Uma Cidade, Seus Escritores e Artistas” (Companhia das Letras) – Rosa Freire d´Aguiar – Coletânea de Crônicas – 360 páginas. “O Tempo Sem Tempo – 53 Crônicas sobre a Pandemia” (Autêntica) – Carlos Starling – Coletânea de Crônicas – 192 páginas. “Educação Pela Noite” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 304 páginas. “Vários Escritos” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 296 páginas. “Operação Paddock” (Paralela) – Arquelana – Infantojuvenil – 416 páginas. “Era Uma Vez Um Mistério” (Planeta) – Matheus Jucinsky – Infantojuvenil – 392 páginas. “O Beijo da Neve” (Verus) – Babi A. Sette – Infantojuvenil – 392 páginas. “Os Segredos do Poço Seco” (L&PM) – Claudio Levitan (autor) e Lucas Levitan (ilustrador) – Infantojuvenil – 200 páginas. “Originárias: Uma Antologia Feminina de Literatura Indígena” (Companhia das Letrinhas) – Trudruá Dorrico e Mauricio Negro (organização) – Infantojuvenil – 144 páginas. “Iara Sob Suspeita” (Escarlate) – Alexandre de Castro Gomes (autor) e Cris Alhadeff (ilustradora) – Infantojuvenil – 96 páginas. “E A Princesa Não Queria Casar!” (Yellofante) – Ana Elisa Ribeiro (autora) e Angelo Abu (ilustrador) – Infantojuvenil – 96 páginas. “Os Pombos” (Companhia das Letrinhas) – Blandina Franco (autora) e José Carlos Lollo (ilustrador) – Infantojuvenil – 56 páginas. “Em Busca do Famoso Peixarinho” (Brinque-Book) – Gregorio Duvivier (autor) e Johanna Thomé de Souza (ilustradora) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Dez Baleias na Estação Esperando pelo Trem” (CEPE Editora) – Cesar Cardoso – Infantojuvenil – 48 páginas. “Tá Chegando?” (Companhia das Letrinhas) – Aline Abreu – Infantojuvenil – 32 páginas. “O Pequeno Sereio” (Companhia das Letrinhas) – Janaina Tokitaka (autora) e Flávia Borges (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “O Pedido da Fada Madrinha” (Companhia das Letrinhas) – Janaina Tokitaka (autora) e Flávia Borges (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Cinderela e o Baile Dela” (Companhia das Letrinhas) – Janaina Tokitaka (autora) e Flávia Borges (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Bela, A Fera, e Fernão, O Belo” (Companhia das Letrinhas) – Janaina Tokitaka (autora) e Flávia Borges (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Macaco com Rabo Não Troca Pneu” (Brinque-Book) – Renata Bueno e Sinval Medina (autores) e Duda van den Berg (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Neguinha, Sim!” (Companhia das Letrinhas) – Renato Gama (autor) e Bárbara Quintino (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Lelê é Pequenininha” (Brinque-Book) – Rafaela Deiab e Tieza Tissi (autoras) e Letícia Moreno (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL : “Paraíso” (Companhia das Letras) – Abdulrazak Gurnah (Tanzânia) – Romance – 320 páginas. “Teoria Geral do Esquecimento” (Tusquets) – José Eduardo Agualusa (Angola) – Romance – 192 páginas. “Trilogia de Copenhagen – Infância, Juventude e Dependência” (Companhia das Letras) – Tove Ditlevsen (Dinamarca) – Romance – 392 páginas. “Cidade da Vitória” (Companhia das Letras) – Salman Rushdie (Índia/Inglaterra) – Romance – 384 páginas. “A Pequena Confeitaria de Paris” (Arqueiro) – Julie Caplin (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Três” (Intrínseca) – Valérie Perrin (França) – Romance – 528 páginas. “Holly” (Suma) – Stephen King (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Um Amor” (Autêntica Contemporânea) – Sara Mesa (Espanha) – Romance – 168 páginas. “Uma Galáxia Multicor e os Confins do Universo” (Darkside) – Becky Chambers (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “O Filho do Homem” (Todavia) – Jean-Baptiste Del Amo (França) – Romance – 208 páginas. “Não Era Pra Ser Uma História de Amor” (Arqueiro) – Sarah Adler (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “À Espera de Um Dilúvio” (Planeta) – Dolores Redondo (Espanha) – Romance – 496 páginas. “A Armadura da Luz” (Arqueiro) – Ken Follett (Inglaterra) – Romance – 640 páginas. “Antes de Virarmos Estranhos” (Paralela) – Renée Carlino (Estados Unidos) – Romance – 264 páginas. “Onde Vivem as Monstras” (Gutenberg) – Aoko Matsuda (Japão) – Romance – 224 páginas. “O Labirinto da Morte” (Suma) – Philip K. Dick (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “Boulevard” (Planeta) – Flor Salvador (México) – Romance – 352 páginas. “Deslumbramento” (Todavia) – Richard Powers (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Um, Nenhum e Cem Mil” (Penguin-Companhia) – Luigi Pirandello (Itália) – Romance – 240 páginas. “Para o Inferno” (Planeta) – Leigh Bardugo (Estados Unidos) – Romance – 496 páginas. “Montevidéu” (Companhia das Letras) – Enrique Vila-Matas (Espanha) – Romance – 240 páginas. “Mickey7” (Planeta) – Edward Ashton (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Stalingrado” (Alfaguara) – Vassili Grossman (Ucrânia) – Romance – 1.056 páginas. “Parem os Relógios” (Paralela) – Krustan Higgins (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “O Deserto e Sua Semente” (Companhia das Letras) – Jorge Baron Biza (Argentina) – Romance – 232 páginas. “Uma Rua No Brooklyn” (Paralela) – Jenny Jackson (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Pequeno País” (Carambaia) – Gaël Faye (Burundi/França) – Romance – 208 páginas. “Através da Chuva – Volume 3 da Série Os Irmãos Hidalgo” (Intrínseca) – Ariana Godoy (Venezuela) – Romance – 288 páginas. “Evidências de Uma Traição” (Paralela) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Romance – 160 páginas. “Pua” (Planeta) – Lourenzo Silva (Espanha) – Romance – 320 páginas. “A Mulher de Gilles” (Carambaia) – Madeleine Bourdouxhe (Bélgica) – Romance – 168 páginas. “A Babá” (Globo Livros) – Lana Ferguson (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Misfit – Rebelde” (Planeta) – Elle Kennedy (Canadá) – Romance – 352 páginas. “O Sabor da Esperança” (Arqueiro) – Susan Wiggs (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Pegas de Surpresa” (Darklove) – Adiba Jaigirdar (Bangladesh/Irlanda) – Romance – 304 páginas. “Acima de Qualquer Suspeita” (Planeta) – Scott Turow (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “O Mensageiro da Verdade” (Arqueiro) – Jacqueline Winspear (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “Depois das Brasas” (Paralela) – Aly Martinez (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Ode à Ruína” (Arqueiro) – Kelly Bowen (Canadá) – Romance – 272 páginas. “É A Ales” (Companhia das Letras) – Jon Fosse (Noruega) – Novela – 112 páginas. “Brancura” (Fósforo) – Jon Fosse (Noruega) – Novela – 64 páginas. “Ássia” (Editora 34) – Ivan Turguêniev (Rússia) – Novela – 96 páginas. “A Bíblia” (Todavia) – Péter Nádas (Hungria) – Novela – 112 páginas. “Por Último Vem o Corvo” (Companhia das Letras) – Italo Calvino (Itália) – Coletânea de Contos – 224 páginas. “Voladoras” (Autêntica Contemporânea) – Mónica Ojeda (Equador) – Coletânea de Contos – 136 páginas. “Dia da Libertação” (Companhia das Letras) – George Saunders (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 256 páginas. “Contos dos Subúrbios Distantes” (Darkside) – Shaun Tan (Austrália) – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Kwainda – Histórias de Fantasmas e Outros Contos Estranhos do Japão Antigo” (Fósforo) – Lafcádio Hearn (Irlanda) – Coletânea de Contos – 240 páginas. “O Monstro e Outras Histórias” (Carambaia) – Stephen Crane (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 200 páginas. “Minha Pátria É a Língua Pretuguesa” (Todavia) – Kalaf Epalanga (Angola) – Coletânea de Crônicas – 192 páginas. “Nasci na América... Uma Vida em 101 Conversas” (Companhia das Letras) – Italo Calvino (Itália) – Coletânea de Entrevistas – 624 páginas. “Os Irmãos Hawthorne” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 522 páginas. “De Volta aos Anos 90” (Seguinte) – Maurene Goo (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 416 páginas. “As Foices – Contos do Universo de Scythe” (Seguinte) – Neal Shuseterman (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Meia-vida do Amor” (Alt) – Brianna Bourne (Estados Unidos/Inglaterra) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Estrelas nas Sombras” (Intrínseca) – Marie Lu (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Eu Nasci Pra Isso” (Seguinte) – Alice Oseman (Inglaterra) – Infantojuvenil – 368 páginas. “A Alma do Oceano” (Alt) – Natasha Bowen (Inglaterra) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Amor em Roma” (Intrínseca) – Sarah Adams (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Orgulho e Preconceito e Nós Duas” (Alt) – Rachael Lippincott (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Amor Por Engano” (Intrínseca) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “O Cálice dos Deuses – Série Percy Jackson e Os Olimpianos” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 272 páginas. “O Ladrão de Raios – Volume 1 da Série Percy Jackson e Os Olimpianos” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “O Mar de Monstros – Volume 2 da Série Percy Jackson e Os Olimpianos” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “A Maldição do Titã – Volume 3 da Série Percy Jackson e Os Olimpianos” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “A Batalha do Labirinto – Volume 4 da Série Percy Jackson e Os Olimpianos” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 392 páginas. “O Último Olimpiano – Volume 5 da Série Percy Jackson e Os Olimpianos” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Pim & Francie” (Darkside) – Al Columbia (Estados Unidos) – Infantojuvenil –240 páginas. “O Viajante” (Darkside) – Peter Van den Ende (Bélgica) – Infantojuvenil – 96 páginas. “Alice Através do Espelho... E o que Ela Encontrou Lá” (Companhia das Letrinhas) – Lewis Carroll (Inglaterra; autor) e Laurabeatriz (Brasil; ilustradora) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Kanela” (Intrínseca) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Cadê o Bebê?” (Globinho) – Anne Hunter (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 40 páginas. “O Menino com Flores no Cabelo” (Pequena Zahar) – Jarvis (Inglaterra) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Na Cozinha Noturna” (Companhia das Letrinhas) – Maurice Sendak (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Sonho” (Darkside) – Susa Monteiro (Portugal) – Infantojuvenil – 32 páginas. “O Primeiro Barco” (Companhia das Letrinhas) – José Saramago (Portugal; autor) e Amanda Mijangos (México; ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Dóris” (Globinho) – Lo Cole (Inglaterra) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Biblioteca dos Sonhos” (Darkside) – Kazuno Kohara (Japão) – Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA : “50 Poemas Macabros” (Companhia das Letras) – Vinicius de Moraes – 168 páginas. “Manual do Luto” (Bertrand Brasil) – Fabrício Carpinejar – 144 páginas. “Meu Amor é Político” (CEPE Editora) – Dalgo Silva – 120 páginas. “Bívio” (CEPE Editora) – Fred Caju – 108 páginas. “Aquele que Tudo Devora” (CEPE Editora) – Philippe Wollney – 74 páginas. POESIA INTERNACIONAL : “Metamorfoses” (Penguin-Companhia) – Ovídio (Itália) – 472 páginas. No finalzinho de dezembro ou, no mais tardar, no começo de janeiro, trarei para a coluna Mercado Editorial os livros de ficção e de poesia que serão lançados no Brasil no sexto e último bimestre de 2023. Sim, senhoras e senhores, o ano já caminha para seu finalmente. Por isso, não perca as próximas novidades literárias que certamente alegrarão os leitores nacionais em novembro e dezembro. Enquanto o crepúsculo do calendário não chega (sempre sonhei em dizer essa frase!), continue acompanhando o conteúdo do Bonas Histórias . Afinal, como eu sempre digo, enquanto mundo gira, a gente lê. Fazer o quê? Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: Maria e o Mundo Mágico - O primeiro volume da série infantil de Dayana Rampinelli
Publicada em setembro de 2023, a obra de estreia da escritora catarinense que vive há anos nos Estados Unidos é direcionada aos leitores de 3 a 9 anos e enfoca a bonita amizade entre uma garotinha sonhadora e seu esperto cachorrinho . Em dezembro, recebi a visita da minha irmã Marcela que, de férias na Dança & Expressão , veio passar uma semaninha comigo em Buenos Aires (e, diz a lenda, conhecer in loco os detalhes do Tango , modalidade em que é professora há mais de duas décadas e tema de sua próxima matéria na coluna Dança ). Como ela se prontificou a trazer do Brasil o que eu precisasse, não vacilei na hora de fazer a lista: marquei um monte de livros que desejava comprar desde o ano passado. Por mais que os ebooks tenham se popularizado nos últimos anos, salvando a vida dos expatriados e dos nômades digitais viciados em literatura em língua portuguesa , ainda assim há títulos que são encontrados apenas na versão física (principalmente obras antigas ou publicações de editoras menores) ou que a leitura da edição impressa é ainda uma experiência infinitamente superior (como no caso dos livros infantis com ilustrações e dos materiais técnicos ou didáticos). E não é que Marcelinha, uma espécie de Irmã Noel com altruísmo literário do meu Natal portenho, trouxe tudo o que pedi em sua diminuta mala de mão (mas havia uma mochila avantajada em suas costas que era maior do que ela). A façanha se torna ainda mais admirável quando sabemos que fui presenteado com vários pacotes de café brasileiro de qualidade, um artigo raro ou muitíssimo caro nas prateleiras dos supermercados argentinos (e, portanto, algo que confesso sentir muitas saudades da minha terra). Como coube tudo em sua bagagem? Não sei. Só sei que foi assim! Do acervo literário que minha irmãzinha me trouxe (saibam que na viagem de volta para São Paulo, ela usou o amplo espaço que ficaria ocioso na mala para levar muuuuito alfajor e doce de leite!), o primeiro que li, ainda em dezembro, foi “Maria e o Mundo Mágico” ( EV Publicações ), livro infantil de Dayana Rampinelli que aborda a bonita amizade entre uma menina de 6 anos e seu carismático cachorrinho. Essa obra marca a estreia da escritora na ficção literária (e, claro, na literatura infantil ) e servirá de base para a construção de uma série literária homônima que terá mais três títulos. Gostei tanto desse primeiro volume da saga e da proposta da Tetralogia “Maria e o Mundo Mágico” que não resisti e o escolhi para ser analisado neste primeiro post de 2024 da coluna Livros – Crítica Literária . Para as almas mais ansiosas (ou seria curiosas?!), já adianto que teremos muitas novidades boas para comentar neste ano recém-iniciado quando o assunto é literatura brasileira . Tem cada livrão espetacular que quero debater aqui no blog. Aguardem porque acho que vai valer muito a pena! Sobre “Maria e o Mundo Mágico”, preciso contar que conheci o trabalho de Dayana Rampinelli meio que por acaso em meados de 2023. Em meio à minha mudança de casa para as margens mais turbulentas do Rio da Prata, fui convidado para participar de uma reunião virtual com ela. O encontro foi conduzido pela Epifania Comunicação Integrada . Para quem não sabe, além de atuar na edição e na produção de alguns livros da EV Publicações e dar expediente no Bonas Histórias , participo de alguns projetos na agência de Marketing Digital do Paulo Sousa (abraços, Paulinho!). E neste bate-papo pelo Skype com Dayana (e com Paulo), soube que ela tinha um título recém-lançado que fora editado por Eduardo Villela , meu amigo de infância e um dos principais book advisors do Brasil, e ilustrado por Marcelo da Paz , um dos mais talentosos ilustradores e capistas. Para completar a vasta coleção de coincidências (o mundo até pode não ser pequeno, mas tenho a impressão de que o universo da literatura brasileira é sim minúsculo!), “Maria e o Mundo Mágico” saiu pela EV Publicações , selo em que trabalho desde o ano passado e que, pela quantidade de lançamentos, não tenho consciência da maioria dos projetos que são realizados ali. Assim, vire-e-mexe, tropeço em algo que meus colegas fizeram e que eu não fazia ideia (juro que sempre fico orgulhoso quando isso acontece!). Com tanta gente de ótima qualidade (e próxima) envolvida em um mesmo projeto literário, certamente o resultado não poderia decepcionar os leitores mais exigentes, né? Com tal segurança, coloquei “Maria e o Mundo Mágico” na minha lista de leitura (aquela que parece não ter fim e que cresce diariamente para meu desespero) ainda na metade de 2023. E agora, na sutil calma do período de Festas de final de ano (momento ideal para colocar minimamente as leituras em dia) e aproveitando a produtiva visita de mi hermanita em casa (valeu, Marcelinha, por me trazer tantos livros!), pude conhecer o trabalho literário de Dayana Rampinelli com a profundidade que ele merece. Publicado em setembro de 2023, “Maria e o Mundo Mágico” possui versões em português e inglês (devidamente chamada de “Mary and the Magic World” ) e edições digitais e impressas. Seus exemplares estão disponíveis para o público geral tanto para compra no Brasil quanto nos Estados Unidos. Na terra em que tudo que se planta dá (pelo menos esse era o mantra que reinou por muito tempo entre meus conterrâneos), a obra de Dayana Rampinelli está sendo comercializada pelo sistema de impressão por demanda na Amazon , no Shoptime , no Um Livro e nas Americanas . O tempo para entrega é de aproximadamente uma semana. Esse foi justamente o prazo que minha irmã demorou para receber a obra em sua residência. O preço de capa está em R$ 55,00. Nos próximos meses, a expectativa é que o título de estreia de Dayana chegue às grandes redes de livrarias nacionais. Na parte de cima do Oceano Atlântico, onde mora o Tio Sam, “Maria e o Mundo Mágico” (no caso, “Mary and the Magic World”) está disponível para compra nas estantes virtuais da Amazon norte-americana. Lá o volume 1 da série literária homônima também pode ser adquirido tanto na versão impressa (por US$ 15,00) quanto na versão digital (por US$ 8,00). Nesse caso, o livro vem somente no idioma inglês. Além da venda pelo varejo tradicional, acho legal contar que o livro foi adquirido tão logo saiu da gráfica por algumas escolas particulares e por algumas prefeituras catarinenses interessadas em usá-lo como material didático no ensino da língua inglesa. Dayana tem inclusive um profissional encarregado de fazer o atendimento a essas instituições no Brasil e de efetuar as vendas para o público corporativo. De certa forma, a comercialização da versão bilíngue de “Maria e o Mundo Mágico” ficou concentrada até esse momento nas pessoas jurídicas e não nas pessoas físicas. Só agora, a autora e sua equipe ( Eduardo Villela , EV Publicações e Epifania Comunicação Integrada ) começaram a cuidar da divulgação do livro para o grande público e a inseri-lo no mercado livreiro. Nascida em Criciúma e criada em Nova Veneza, no interior de Santa Catarina, Dayana Rampinelli é formada em Jornalismo. Atuando por mais de duas décadas como produtora de reportagens, roteirista e relações públicas, ela viveu em várias cidades brasileiras e em muitas partes do mundo. Em 2013, fixou residência em Miami, nos Estados Unidos, para ter mais tempo e tranquilidade para se dedicar aos seus empreendimentos artísticos. Além de escritora, Dayana é artista plástica. A ideia para escrever a saga de “Maria e o Mundo Mágico” surgiu quase que por acaso. Ao entrar em um café em Florianópolis, cidade onde vivia na época, Dayana começou a rabiscar uma história infantil no guardanapo. O que a motivou no processo criativo foi uma dúvida singela (e não menos incômoda): o que ensinaria para as crianças se tivesse filhos naquele momento?! Escrever sempre fez parte do seu dia a dia profissional e da sua rotina de lazer. Por isso, ela estava acostumada a produzir pequenos fragmentos textuais como o início de tramas ou breves narrativas ficcionais em instantes aleatórios (como na pausa para um cafezinho). Ao chegar em casa, depositou como de costume o guardanapo em uma caixa lotada com outros tantos papéis com ideias para possíveis livros. Anos mais tarde, em uma sessão de terapia quando já morava nos Estados Unidos, a vontade de escrever uma obra infantil foi aflorada. Ao consultar seus arquivos pessoais (a tal caixa com vários fragmentos textuais que a continuou acompanhando para onde fosse), Dayana encontrou o tal guardanapo florianopolitano que continha detalhes de uma trama interessante sobre a amizade de uma astuta garotinha e seu inseparável cachorrinho. Segundo o que fora concebido, a dupla viveria aventuras por um universo encantado e, com isso, amadureceria e ganharia autoestima. Para admiração da própria escritora, o enredo da publicação e da série literária estava bem formatado. Bastava lapidar um pouco mais a história e desenvolver o restante da narrativa da coleção. A partir dos questionamentos de como educaria uma criança nos dias de hoje, Dayana Rampinelli utilizou-se muito de suas memórias infantis para dar vida à trama de “Maria e o Mundo Mágico”. O universo onírico e criativo da protagonista da série teve como inspiração direta o dia a dia lúdico e sensível que a autora teve no interior de Santa Catarina quando menina. Estão ali a influência forte da avó, a vontade de ter um animalzinho de estimação, o amor incondicional dos pais, as transformações simbólicas ocorridas nas datas de aniversário, o contato intenso e harmônico com a natureza, a conquista do amor-próprio, a curiosidade para entender como as coisas funcionavam, a criação dos vínculos de amizade, a coragem para explorar novos e distantes lugares e a criatividade para inventar histórias fantásticas. Além da trama em si, Dayana inseriu no cerne da narrativa ferramentas que ajudassem a criançada a desenvolver a autoestima. No livro há arquétipos de figuras empoderadas e mensagens positivas como pensar positivo, acreditar em si mesmo e correr atrás dos sonhos. Impossível não gostar de um conteúdo com esse viés, não é? Ou seja, a narrativa foi concebida com a proposta de ser ao mesmo tempo um material educativo e uma leitura recreativa de qualidade. Assim, pode ser usado na sala de aula como pode ser consumido na sala de casa ou no quarto dos pequenos antes de dormir. Acho válido dizer que o enredo de “Maria e o Mundo Mágico” foi construído sem o estereótipo do príncipe e da princesa que inunda muitas narrativas infantis até hoje. No lugar do reino encantado, dos castelos suntuosos e da família emoldurada em privilégios, temos uma garotinha comum, seu cãozinho de estimação e as brincadeiras da dupla no quintal de casa. E há, principalmente, o conceito do Farol, que tem como simbologia iluminar, guiar e orientar as pessoas durante a viagem pelos mares revoltos da realidade. Por essa perspectiva lúdico-instrutiva, Maria é sua própria heroína. A menina corajosa e destemida vai em busca de seus sonhos e de respostas para as dúvidas intermináveis que não param de chegar à mente. Nesse primeiro livro da série “Maria e o Mundo Mágico” , conhecemos os dois protagonistas da saga: Maria, que acabou de completar seis anos, e Pop, o cãozinho dado de presente à garota justamente neste aniversário. Eles exploram um Mundo Mágico encontrado no jardim de casa. A partir daí, vivem juntos aventuras que fortalecem os aprendizados e o amadurecimento da menina. Com esse contexto narrativo estabelecido, os demais volumes da coleção vão abordar momentos emblemáticos da trajetória das personagens. Cada nova obra relatará um novo aniversário de Maria e, por consequência, suas peripécias ao lado de Pop pelo universo onírico. É legal comentar que uma parte das vendas de “Maria e o Mundo Mágico” terá como destino às ações sociais que Dayana Rampinelli realiza em sua cidade natal. Não apenas um percentual do faturamento desse livro (e dos demais da série) será revertido às obras filantrópicas como todo o trabalho artístico dela (incluindo a venda de suas telas) tem essa mesma destinação. No caso específico das contribuições provenientes do seu trabalho literário, Dayana é mantenedora do Mary and the Magic World English Program. Nesse projeto social educativo, foi construída uma sala de aula com todas as personagens de “Maria e o Mundo Mágico” dentro do Bairro da Juventude, instituição filantrópica de Criciúma que atende a aproximadamente 1.700 crianças. O espaço foi concebido por duas arquitetas contratadas pela escritora e visa estimular o ensino da língua inglesa pelos alunos da segunda infância (dos 3 aos 6 anos) e da terceira infância (dos 6 aos 12 anos). Os pequenos estudantes usam o livro e, principalmente, o universo ficcional da saga de Dayana nas aulas do idioma estrangeiro. Para ninguém me acusar de que não falei do ilustrador de “Maria e o Mundo Mágico” com o cuidado que ele merece, reservei dois parágrafos para comentar a trajetória profissional de Marcelo da Paz. Nascido na cidade de São Paulo, ele é designer gráfico há mais de uma década e meia e possui experiências em projetos criativos em grandes agências de publicidade (Promovisão), editoras de livros (Agir, Ediouro e FTD) e veículos de comunicação (Revista Veja e Portal UOL). Atualmente, da Paz trabalha de maneira independente na criação de capas, na diagramação de livros e no desenvolvimento de ilustrações. Mesmo não o conhecendo pessoalmente, sempre ouço falarem muito bem dele – aí os culpados são o Eduardo, o Paulo, e, mais recentemente, a Dayana. Saber que Marcelo da Paz ficou encarregado do projeto gráfico do livro que escrevemos ou editamos provoca um mix de alívio (certeza de que não teremos problemas nas partes finais do projeto editorial) e empolgação (segurança pela qualidade do visual da obra que sairá da gráfica). Aí sou eu quem falo isso com propriedade. O enredo de “Maria e o Mundo Mágico” começa na noite anterior ao aniversário de 6 anos de sua protagonista. Maria é uma menina sonhadora e feliz que vive em uma confortável casa com os pais, que tanto ansiaram pelo seu nascimento. A harmonia naquele lar só é quebrada pela ligeira sensação de solidão que a garotinha tem às vezes. Filha única, ela deseja uma companhia para as suas brincadeiras. Por mais que papai e mamãe sejam muito presentes e amorosos, ainda assim seria bom, ela pensa, ter um amiguinho para acompanhá-la em suas aventuras imaginativas ao longo do dia. Com essa vontade latente, Maria aproveita a véspera de aniversário para mentalizar, à noite na cama antes de dormir, o desejo. Afinal, a mãe a ensinou há muito tempo que quando concebemos mentalmente algo com bastante intensidade, uma hora os sonhos se tornam realidade. E não é que ao acordar a menina encontra os pais na sala com um filhotinho de cachorro marrom (que, conforme a Marcela descobriu na prática, os argentinos chamam de “cachorro de perro marrón”). Aquele é o melhor presente que ela poderia ter ganhado. Sentindo-se no dia mais feliz de sua vida, Maria dá o nome para o cãozinho de Pop. No dia seguinte, após retornar da escola, a garota vai para o jardim de casa brincar com seu novo amigo. Os dois se divertem até que Maria ouve alguém conversando com ela. Ela procura por uma pessoa por todos os lados, mas não encontra ninguém por perto. Quem é que estaria falando?! Para sua surpresa, o dono daquela voz é o pequeno Pop, que se comunica como os seres humanos. Ele esclarece que tudo aquilo que a garota acredita pode acontecer. Além disso, como Maria ama os animais e a natureza e tem um bom coração, ela pode conversar com os bichos e as plantas. A felicidade dela aumenta ainda mais. Não apenas tem um cachorrinho para acompanhá-la nas brincadeiras como pode agora conversar com ele. Prontamente, Pop convida a amiga para irem juntos ao Mundo Mágico, um lugar encantado no meio dos arbustos do jardim onde todas as coisas são possíveis. Curiosa para descobrir o que aquele universo tão especial reserva, Maria aceita o convite prontamente. Dessa forma, a dupla segue para o Mundo Mágico em busca de aventuras. Lá, eles vão descobrir, através da imaginação e da criatividade, muitas coisas e vão poder se divertir bastante. “Maria e o Mundo Mágico” possui 36 páginas. Ele é recomendável para crianças de 3 aos 9 anos. O livro de Dayana Rampinelli pode ser lido pelos pais aos filhos pequenos em fase de alfabetização ou pode ser lido pela própria meninada em processo de letramento. Como não tenho criança pequena em casa (desde que Pescuittinho voltou a viver com a mãe dele em tempo integral), confesso que li a obra sozinho no último final de semana do ano (quando o cheiro dos espumantes já suplantava o dos assados em Saavedra). Levei entre 15 e 20 minutos para ir da primeira à última página. Obviamente, estou considerando também o tempo investido na apreciação das ilustrações, que compõe o conteúdo da publicação juntamente com a parte textual. Dependendo da interação de leitura entre adultos e crianças ou da fase de letramento dos pequenos leitores, certamente o período para percorrer a capa até a quarta-capa pode ultrapassar tranquilamente uma hora. O primeiro elemento de “Maria e o Mundo Mágico” que gostaria de destacar neste post da coluna Livros – Crítica Literária é o seu visual. Normalmente, os livros infantis possuem projetos gráficos deslumbrantes e acabamento de nível muito superior. Mesmo sabendo disso, achei que as ilustrações de Marcelo da Paz estão espetaculares nesta obra, acima da qualidade do que encontramos nos títulos desse gênero literário e daquilo que o artista paulistano vem apresentando. Apesar de já conhecer o seu trabalho há algum tempo, confesso que fiquei encantado com o que ele trouxe dessa vez. Se esse não for seu melhor projeto como ilustrador, pare o bonde que quero descer! Há várias questões técnicas em seus traços em aquarela que me agradaram bastante. Para não ficar detalhando tudo, posso citar alguns elementos. Por exemplo, a mudança de tonalidade das ilustrações de quando Maria e Pop saem do mundo real e embarcam no Mundo Mágico é impactante. Se as cores predominantes nas páginas iniciais de “Maria e o Mundo Mágico” eram claras e neutras (branco, verde e azul), no universo onírico elas se tornam mais fortes e lúdicas (amarelo, laranja, vermelho e rosa). Esse contraste torna a experiência de leitura mais fidedigna. A impressão que temos é de estar mesmo mergulhando com a menina e o cachorrinho em suas aventuras por um lugar muito especial e com características particulares. Essa é a força dos desenhos bem-feitos. Outra questão que merece elogios é a harmonia entre a parte gráfica e a parte textual de “Maria e o Mundo Mágico”. Pode parecer um tanto óbvio entrelaçar essas duas seções do livro infantil, mas saiba que muitos títulos pecam justamente por construírem duas linhas distintas: a verbal e a não verbal. Assim, desenho e história não se conversam (no pior dos casos) ou não possuem grande afinidade (o que é mais comum). Aqui nota-se o cuidado de promover a união deles. Pelo resultado, posso apostar que Dayana Rampinelli e Marcelo da Paz trabalharam juntos e com esmero na definição de cada detalhe do visual das páginas dessa publicação. O mais espetacular é que a narrativa de “Maria e o Mundo Mágico” não decepciona quando comparada à qualidade do visual do livro. Se o projeto gráfico e as ilustrações são belíssimas, a história também é poética e extremamente bonita. Nesse ponto é importante reparar no subtexto de Dayana. A maneira como a autora aborda conceitos como solidão, amizade, carinho familiar, sonhos, busca por afirmação, amadurecimento, saudade/gratidão, autoestima, iniciativa, independência, cuidado com o meio ambiente e zelo pelos animais é sutil e graciosa (e, por isso mesmo, está tão incrível!). A riqueza textual fica mais clara quando a escritora catarinense explica a razão pela qual Maria ouve o que Pop fala – “(...) Se você ama os animais e tem um bom coração, pode conversar com a gente, e juntos podemos criar muitas coisas lindas” – ou quando detalha a dinâmica do Mundo Mágico – “(...) um lugar onde todas as coisas são possíveis”, “(...) por que as crianças mudam de cor aqui? (...) as pessoas são das cores de que você gosta. Você vai vê-las com seus olhos e seu coração”, “(...) lá encontraram uma pequena cidade, onde as casas eram todas iguais e pareciam pequenos castelos” e “seu coraçãozinho acredita que animais podem falar, você acredita que existe um mundo enorme cheio de criatividade”. Repare que Dayana Rampinelli aborda temas importantes para a formação das crianças de maneira franca e bonita sem perder o lado lírico que a boa literatura exige. Ela fala de um jeito delicado sobre o cuidado com a fauna e a flora, a importância da igualdade social, a recordação da avó carinhosa e o fim dos preconceitos raciais. Por tal perspectiva, admito que gosto mais dos autores que valorizam a inteligência dos leitores, até mesmo dos pequenos leitores. Não é porque são crianças que as histórias devem subestimar suas capacidades intelectuais ou os textos devem ser pouco elaborados. Pelo contrário! Potencializar seus desenvolvimentos cognitivos e desde cedo apresentar narrativas com grande riqueza textual contribuem para suas formações humanísticas e literárias (daí a pegada instrutiva de “Maria e o Mundo Mágico”). Quando sabemos que os leitores mirins desse livro estão na segunda ou na terceira infâncias, fases de formação do caráter, da concepção do mundo e do processo de alfabetização e letramento, essa preocupação com a qualidade da trama é ainda mais válida. Prosseguindo no lado (in)formativo desta publicação, acho genial a ideia de o livro envolver o aprendizado do inglês durante o processo de leitura. É triste reconhecer, mas somos um país em que o idioma considerado mundial é pouco difundido na base da sociedade. É só lembrarmos os perrengues que os turistas gringos enfrentaram na Copa do Mundo de 2014 no Brasil e das Olimpíadas do Rio em 2016. Essa deficiência passa justamente pela má educação linguística nas escolas públicas. Há quem diga que nossas instituições educacionais gratuitas não conseguem sequer ensinar o português, o que dirá um idioma estrangeiro! Assim, é sensacional saber que há prefeituras e escolas catarinenses que estão incorporando o volume 1 da série “Maria e o Mundo Mágico” no material didático da meninada. Ainda há esperança, senhoras e senhores! Infelizmente, não posso comentar a qualidade do material em inglês porque a versão da obra que comprei veio apenas em português. Confesso que essa foi a minha primeira frustração. Achei que todas as edições da publicação de Dayana já viessem nos dois idiomas. Contudo, o livro vem ou em português (versão disponível para o público leitor no Brasil) ou em inglês (versão disponível para o público leitor nos Estados Unidos e para os projetos corporativos nas escolas e prefeituras brasileiras). Ou seja, “Maria e o Mundo Mágico” é bilíngue, mas suas edições são monolíngues. Se eu tivesse uma criança em casa e quisesse explorar a educação do idioma inglês, teria ficado muitíssimo frustrado com a ausência dessa parte importante da narrativa em minha aquisição. Voltando para os aspectos que gostei em “Maria e o Mundo Mágico” (mais à frente neste post do Bonas Histórias prometo apresentar a compilação de tudo aquilo que acredito que poderia ser aprimorado nesta publicação e/ou nos próximos volumes da série), achei brilhante o jeito como Dayana Rampinelli montou a moldura narrativa desta coleção. Para quem acha que estruturar uma história ficcional que possa ser repetida muitas vezes (ou quem sabe infinitamente) é algo banal, alerto desde já que se trata de um enorme desafio (pelo menos é para a maioria dos escritores). Sofri (ou ainda sofro!) com isso na própria pele. Darico Nobar e seu Talk Show Literário são a prova cabal do que digo. Por isso mesmo, achei interessantíssimo ver que a moldura narrativa em que “Maria e o Mundo Mágico” foi concebida (menina que viaja pelo universo encantado com seu cachorrinho na data de aniversário) seja tão natural, simples e poética. Se quiser, Dayana pode dar vazão a essa dinâmica em muitos e muitos livros. Por essa mesma razão (fluidez com que a moldura narrativa foi constituída), considerei o primeiro volume da saga uma obra impecável no quesito da estrutura narrativa. A autora apresenta as personagens, insere o ambiente da(s) trama(s), informa as condições para a realização da(s) história(s) e dá um exemplo rápido do que o Mundo Mágico oferece à dupla de protagonistas. A partir daí, será fácil e rápido desencadear o enredo dos futuros títulos da coletânea. Uma vez que os leitores já compreenderam o processo narrativo, eles conseguirão acompanhar as novas histórias sem dificuldade. É impossível comentar a história de “Maria e o Mundo Mágico” e não mencionar “Alice no País das Maravilhas” (Cosac Naify), clássico infantil de Lewis Carroll. O Mundo Mágico para onde Maria e Pop embarcam é muito parecido em concepção ficcional ao País das Maravilhas para onde Alice se mete. Lendo o livro de Dayana, confesso que a todo momento me recordava da obra-prima do escritor inglês. Aí não sei se as semelhanças são propositais, em uma intertextualidade literária primorosa à la “O Livro” (Feminas), prosa poética de Lucia Leal Ferreira, ou se são mera coincidência (ou algo feito pela autora catarinense sem a devida consciência). Independentemente da resposta, os leitores com o mínimo de bagagem literária farão essa correlação entre os dois títulos sem sombra de dúvida. Talvez a grande diferença entre “Maria e o Mundo Mágico” e “Alice no País das Maravilhas” esteja na proposta das narrativas. Enquanto a publicação de Dayana Rampinelli é voltada essencialmente para as crianças e aborda a busca pela autoestima e o incentivo à conquista dos sonhos íntimos, a obra de Lewis Carroll é quase uma representação satírica da realidade e propõe um debate existencialista focado no público adulto. Portanto, (como diria o outro!) são coisas iguais, mas muito diferentes. Em relação aos pontos negativos de “Maria e o Mundo Mágico”, posso começar citando a falta de numeração. O projeto gráfico do livro está realmente primoroso, mas a ausência de número nas páginas é um aspecto que me incomodou um pouco. Por exemplo, eu gostaria de relatar nesta análise do Bonas Histórias quais as ilustrações que eu mais gostei. Porém, fica complicado descrevê-las pois não há numeração. Juro que não entendi o porquê não colocaram – se é algo tão simples e banal no mercado editorial e nos projetos gráficos dos livros. Outra questão que precisa ser comentada é que algumas frases (principalmente na abertura e no encerramento da narrativa) misturam os tempos verbais de uma maneira no mínimo questionável. Talvez elas até estejam corretas (sinceramente, achei equivocadas!), mas soou estranho fazer construções frasais embaralhando presente, passado e futuro. Deixe-me explicar exatamente o que quero dizer. Peguemos a frase inicial da história de “Maria e o Mundo Mágico”: “Maria foi para a cama muito feliz, ela adora aniversários e amanhã quando acordar terá uma linda surpresa”. Convenhamos que não é normal ter três tempos verbais em uma só oração. Ainda mais porque a narrativa inteira está no passado (com o discurso no presente – como convém na tradição da ficção literária). Portanto, me pareceu errado dizer que a menina “adora” aniversários – juro que usaria “adorava”. No desfecho da trama encontramos o mesmo problema. Diz a primeira frase do parágrafo final da última página: “Maria tinha ainda mais certeza de que todas as aventuras são possíveis e de que toda a magia pode acontecer”. Olha aí outra vez os verbos insistindo em ficar no presente quando a narrativa toda está no passado. Por que isso? Juro que não entendi. Nesse caso, eu acho mais adequado grafar: “Maria tinha ainda mais certeza de que todas as aventuras eram possíveis e de que toda a magia poderia acontecer”. Não ficaria melhor assim?! Acho que sim. Curiosamente, esse problema do tempo verbal (algumas passagens que deveriam estar no passado foram grafadas no presente) só apareceu mesmo no início (primeira página) e no fim da narrativa (última página). Nas outras páginas do livro (miolo da publicação), não encontrei nenhum equívoco no texto que soasse estranho (pelo contrário, a parte textual está brilhante!). Por falar na narrativa, talvez o tom de voz do cachorrinho me pareceu muito adulto e formal. Assim como Maria é ainda uma criança, Pop aparece nas ilustrações e no contexto dramático como um filhotinho (até mesmo mais novinho do que a própria menina). Dessa forma, ele deveria falar como uma criança e não como um adulto. Além disso, ele não teria experiência de vida nem conhecimento prático ou conceitual para ensinar tantas coisas para a nova amiguinha. Seguindo o pacto ficcional , seria ela quem o ensinaria e não o contrário. Porém, os discursos de Pop soam como alguém mais velho e com muita experiência. Confesso que não gostei dessa inconsistência: um cachorrinho recém-nascido ou muito novinho vir com falas de alguém conhecedor do mundo e da dinâmica social. Outro elemento que me decepcionou um pouco foi o pouco tempo em que Maria e Pop ficaram efetivamente no Mundo Mágico nesse primeiro volume da série (mais precisamente 7 páginas de 36 páginas). Sei que esse livro inaugural da saga serviu apenas para apresentar o contexto narrativo, as características da dupla de protagonistas e a construção da moldura narrativa (a partir da data de aniversário, a menina e seu cachorrinho partem para aventuras em um universo encantado). Também tenho consciência de que títulos infantis não podem ser longos (não apenas por uma questão de manutenção do foco das crianças, mas por princípios comerciais – muitas páginas coloridas inviabilizariam o livro do ponto de vista dos custos ou do preço de capa). Mesmo entendendo tudo isso, ainda assim admito que queria ter visto mais cenas de Maria e Pop no Mundo Mágico. Até porque essa parte foi a que apresentou os textos mais bonitos e as ilustrações mais impactantes. Talvez o que eu tenha sentido é que o livro acabou precocemente. Juro que eu queria que ele continuasse. Nesse caso, não se trata de um defeito, mas de algo positivo (quando gostamos de uma história, não queremos que ela acabe nunca, não é?). Sinceramente, acho que foi mais vontade da minha parte de conhecer as próximas aventuras dos protagonistas de “Maria e o Mundo Mágico” do que um defeito para valer desse primeiro volume da série. Por isso, se você for como eu e estiver ansioso(a) pela continuação dessa trama, a boa notícia é que o segundo título da série já está sendo desenvolvido e a previsão é que fique pronto até o final deste ano. Ou seja, seu lançamento deve acontecer nos meses finais de 2024 (em uma estimativa otimista) ou mesmo no comecinho de 2025 (em uma estimativa realista). Uma vez que os elementos principais da história já foram colocados à mesa nesse primeiro volume, espera-se que o volume 2 da coleção “Maria e o Mundo Mágico” possa concentrar seu conteúdo justamente nas descobertas de Maria e Pop no universo onírico. Conversando informalmente com Dayana, o que ela adiantou sobre o novo livro é que ele trará alguns conceitos do Budismo e do Shinto Shuai, filosofia japonesa que estimula a conexão das pessoas com a natureza. Além disso, ela pretende mostrar aos poucos para os pequenos leitores que o mundo mágico não possui apenas aspectos maravilhosos e idílicos. Há também problemas, dificuldades e limitações, algo que as crianças precisarão aprender a lidar cedo ou tarde. Confesso que gostei da inserção desses componentes mais pragmáticos. Por fim, vale a pena ressaltar que o novo título se passará no aniversário de 8 anos de Maria (reforçando a importância da celebração desta data na vida da protagonista). Diante da expectativa elevada pela sequência de uma das boas séries da literatura infantil que temos em nosso país no momento, prometo trazer novidades no Bonas Histórias tão logo elas apareçam nas livrarias. Vou comunicar o lançamento das demais publicações da saga “Maria e o Mundo Mágico/Mary and the Magic World” na coluna Mercado Editorial . E se eu gostar dos novos conteúdos produzidos pela dupla Dayana Rampinelli e Marcelo da Paz, saibam que voltarei à coluna Livros – Crítica Literária para debater as futuras obras deles com a profundidade e o rigor em que estamos acostumados. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . 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- Filmes: La La Land - Um novo clássico do cinema
O filme mais comentado do momento é "La La Land - Cantando Estações" ( La La Land : 2016). O musical de Damien Chazelle conquistou sete prêmios no último Globo de Ouro, recorde histórico, e chega como o grande favorito ao Oscar de 2017. Para quem não se lembra de Damien Chazelle, ele foi o diretor e o roteirista do fantástico "Whiplash - Em Busca da Perfeição" (Whiplash: 2014). Agora, Chazelle trabalha outra vez na direção e no roteiro de sua nova produção. Diante da avalanche de críticas positivas que o longa-metragem vem recebendo, fui ao cinema, na semana passada, para conferi-lo. Queria saber se "La La Land" era tudo isso que estavam falando ou se era apenas fogo de palha. Resultado: saí encantado da sessão! Os elogios que havia lido e visto parecem pouco diante da magnitude desta obra-prima. A sensação que tive é de ter assistido a um novo clássico da sétima arte. O musical é fenomenal. Além de ser uma linda homenagem ao cinema, "La La Land" inova em incríveis cenas dançantes e apresenta uma trama emocionante e envolvente. Neste filme, Mia (interpretada por Emma Stone) é uma jovem que sonha em ser atriz de cinema. Para tornar real esta sua aspiração, a moça se muda para Los Angeles, onde pode fazer testes para os mais variados papéis. Contudo, ela não passa em nenhum processo seletivo. Assim, Mia acaba se acostumando ao emprego de balconista em um café que fica próximo aos estúdios cinematográficos. Um tanto desiludida com o desenrolar profissional da sua vida, a aspirante a atriz conhece Sebastian (Ryan Gosling), um rapaz também sonhador e que enfrenta dificuldades financeiras. O sonho de Sebastian é ser proprietário de um clube de Jazz. Porém, ele não consegue recursos para viabilizar esta sua ideia. Ele trabalha de maneira mal remunerada como músico em locais precários ou em bandas amadoras que se apresentam em festas e casamentos. Uma vez juntos, Mia e Sebastian passam a se ajudar incansavelmente em busca da realização de seus sonhos. A vida do casal se torna, então, maravilhosa. Os namorados batalham pela conquista do que desejam, apoiando-se e incentivando-se mutuamente. Com o tempo, esta união fortalece cada um deles individualmente. Quando o sucesso e a fama de ambos começam a chegar, o que fica seriamente ameaçado é o relacionamento deles, até então inabalável. O que será mais forte: o amor do casal ou seus antigos sonhos pessoais? Eles conseguirão unir as escolhas profissionais ao relacionamento amoroso? O primeiro aspecto que chama a atenção em "La La Land" são as cenas dançantes. Esqueça a ideia de que os musicais podem ser chatos ou entediantes. Aqui você fica hipnotizado diante da tela. Parte da beleza do filme está na espontaneidade dos atores no momento da dança. Não há cortes nestas cenas, por mais longas que elas sejam. Repare, por exemplo, na abertura do longa-metragem, quando Mia está presa em um engarrafamento na estrada. Os atores saem dos carros e começam a dançar. Tudo é feito sem cortes. Maravilhoso! Outro ponto impressionante é a quantidade absurda de referências ao mundo do cinema. Quem é cinéfilo vai pirar ao encontrar citações aos grandes clássicos durante todo o filme. Tudo é motivo para a recordação das principais produções da história: as locações, os detalhes do cenário e os objetos usados. Não é errado afirmar que este longa-metragem é uma linda homenagem aos clássicos do cinema antigo. A forma como "La La Land" foi filmado e editado também merece elogios. A fotografia, a cenografia e os figurinos são responsáveis por parte da experiência estética que o espectador recebe. Além disso, há alguns movimentos de câmera e certas tomadas pouco usuais que impressionam. Para completar, a história é contada nem sempre de maneira linear. O vai e volta cronológico ajuda a intensificar a dramaticidade do enredo. Os aspectos lúdicos e sonhadores dos personagens também são aproveitados. Isto fica muito evidente no final. Por falar no desfecho, este é um capítulo à parte. Fazia muito tempo que não via um final de filme tão fantástico como o protagonizado em "La La Land". A história caminha para um desfecho um tanto óbvio para quem repara na progressão das estações do ano das quais a trama é dividida (Primavera, Verão, Outono e Inverno). Porém, no finalzinho, o roteiro é caprichosamente impiedoso com os corações mais românticos, surpreendendo a todos. Aí está a graça! A história termina de maneira pragmática, tornando-a ainda mais bela. O último olhar trocado por Mia e Sebastian fala mais do que qualquer palavra ou discurso. Em um futuro não tão distante, este instante será relembrado como um dos momentos mais marcantes da história do cinema. Simplesmente espetacular!!! O musical também tem várias cenas engraçadas. O clima do filme é leve e descontraído, até mesmo nas partes de maior densidade dramática. Por isso, em vários momentos, tive a impressão de estar vendo um longa-metragem recente de Woody Allen. Esta comparação é no sentido do roteiro, já que Allen jamais fez musicais. Talvez a presença de Emma Stone, a nova queridinha de Woody Allen, pode ter intensificado esta minha impressão. E por falar nos atores, não há nenhuma atuação que mereça qualquer puxão de orelha ou reclamação por parte do público. Todos estão excelentes! Obviamente, Emma Stone e Ryan Gosling brilham mais por serem os protagonista. O casal principal do musical possui uma ótima química e um excelente jogo de cintura para cantar e dançar a todo instante. O carisma deles é contagiante. Fiquei com a sensação de que com "La La Land", Damien Chazelle atingiu um novo patamar dentro de Hollywood. A partir de agora, ele será visto como um dos melhores diretores da atualidade. Com apenas 32 anos, o norte-americano tem potencial para se transformar em um dos grandes nomes da história desta indústria. Se "Whiplash - Em Busca da Perfeição" foi um filme maravilhoso, sua nova produção pode ser considerada histórica. Não duvido que em dez ou quinze anos, "La La Land" figure na lista dos grandes produções da história do cinema. Veja o trailer de "La La Land - Cantando Estações": e você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #DamienChazelle
- Livros: Amor em São Petersburgo - O romance de Heinz G. Konsalik pelo Império Russo
Li, no começo de dezembro, um dos principais livros de Heinz G. Konsalik : "Amor em São Petersburgo" ( Best Bolso ). Konsalik foi o mais popular romancista alemão do final do século XX. Nascido na cidade de Colônia em 1921, ele trabalhou como dramaturgo, jornalismo e escritor. Até seu falecimento em 1999, escreveu quase 200 romances e infinitos contos. Suas histórias foram traduzidas para mais de 40 idiomas e seus livros venderam aproximadamente 100 milhões de cópias no mundo todo. A vida e as principais obras de Heinz G. Konsalik foram marcadas pela Segunda Guerra Mundial. Ainda estudante universitário, o jovem Konsalik precisou abandonar os estudos para lutar junto às tropas alemãs na União Soviética. Gravemente ferido no conflito, voltou para a Alemanha e passou a trabalhar como escritor. Contudo, a experiência vivida no país comunista deixou marcas irreparáveis em sua personalidade e, por consequência, em seus romances. O vazio da paisagem russa e o estilo de vida soviético influenciaram sensivelmente suas tramas. As principais histórias de Konsalik se passam no gigantesco país do norte da Eurásia. A influência russa é tanta que o escritor ganhou o apelido de "Coloniano de Alma Russa". Não é coincidência, portanto, que a trama de "Amor em São Petersburgo", um dos principais sucessos de Heinz G. Konsalik, se passe quase que integralmente na Rússia. Apesar de o protagonista ser um alemão, ele passa a história quase toda interagindo com russos e vivendo no país estrangeiro. "O Médico de Stalingrado" (Record), " O Expresso Transiberiano" (Record) e "O Médico da Czarina" (Record) são exemplos de outros títulos com esta mesma característica. O enredo de "Amor em São Petersburgo" aborda a paixão entre o oficial alemão Gregor von Puttlach e a aristocrata russa Grazina Vladimirovna. Os dois se conhecem no baile de ano-novo de 1914 promovido pela família imperial russa em São Petersburgo. O problema deste relacionamento é que Grazina é filha de um importante general e conde local. O pai da moça não aceita que sua filha namore um estrangeiro. Além do problema familiar, a união dos jovens irá implicar em sérios problemas diplomáticos. A embaixada alemã em São Petersburgo não aceita que um funcionário do seu corpo diplomático promova instabilidade no seio da corte local, provocando a fúria de um importante conde russo e prejudicando as relações entre os dois países. Para agravar ainda mais o cenário já adverso para os jovens amantes, 1914 foi o ano em que explodiu a Primeira Guerra Mundial. E justamente neste conflito, a Rússia e a Alemanha lutaram em lados opostos. Desta maneira, era inadmissível um oficial alemão ficar no país inimigo e conviver com a família de um general adversário. Além disso, o país do czar Nicolau II rapidamente entrou em uma guerra civil. O Exército Vermelho, liderado pelos bolcheviques que queriam instalar o comunismo, lutou contra o Exército Branco, que defendia o czar e a manutenção do Império Russo. Em poucos anos, a Rússia se tornou um local perigoso até mesmo para sua própria população. É nesta condição totalmente sombria de guerra nos países vizinhos, de lutas internas pelo controle do governo russo e de disputas familiares, que Gregor von Puttlach e Grazina Vladimirovna tentarão ficar juntos. Nunca o termo "o mundo era contra uma história de amor" se fez tão pertinente como neste romance. "Amor em São Petersburgo" começa ao estilo das histórias românticas do século XIX: mocinho e mocinha se apaixonam perdidamente ao primeiro olhar. Impossibilitado de ficar junto, o casal irá desafiar a todos em nome deste amor. Apesar deste início convencional, o romance consegue empolgar ao longo de sua narrativa ao se afastar das obviedades e explorar pontos interessantes do cenário construído ao redor dos protagonistas. Muitas personagens são do tipo esférico (principalmente as mulheres), há várias e boas personagens secundárias (mais marcantes até mesmo que os próprios protagonistas), a trama possui muitas reviravoltas (influenciadas pelo cenário externo) e há algumas doses de humor (o duelo travado entre Gregor e o pai de Grazina pela honra da moça é hilário) e de ironia (o destino da mãe de Grazina é um exemplo marcante do quão irônica a vida pode ser). O constante deslocamento dos protagonistas pela Rússia também confere agilidade ao texto e ao enredo. Este romance é uma "road story", com a trama se passando em várias cidades da Rússia e da Europa, em uma contínua viagem para longe da guerra. O principal ponto positivo de "Amor em São Petersburgo" é conseguir transmitir ao leitor o intrigado cenário político do fim do Império Russo. Os anos de 1914 a 1922 foram recheados de acontecimentos históricos na Rússia. Heinz G. Konsalik consegue colocar seus personagens nos eventos grandiosos deste período. À medida que acompanhamos o drama de Gregor von Puttlach e Grazina Vladimirovna, também conhecemos uma importante parte da história contemporânea. Konsalik é mestre em reconstruir o passado da Rússia. Há vários personagens reais, como o czar, a czarina, seus filhos e o curandeiro Rasputin. A união entre ficção e realidade é ainda mais próxima quando vários acontecimentos reais são presenciados pelas personagens criadas pelo autor. É muito interessante ver como se comportam as personagens no meio do conflito da Primeira Guerra Mundial e da Revolução de Outubro de 1917. O final é excelente. Ao mesmo tempo em que consegue agradar ao público leitor ávido por um final feliz e romântico, Konsalik também é realista e pragmático em seu desfecho. Melhor que isso, impossível. Também gostei do jeito de escrever de Konsalik. Apesar de trabalhar um romance com várias personagens e com um complexo enredo político, o escritor alemão consegue deixar tudo simples para o leitor. Sua escrita é objetiva e seu vocabulário é acessível, se parecendo muito com o estilo de Sidney Sheldon. Gostei muito de conhecer um pouco o trabalho de Heinz G. Konsalik. E nada melhor do que fazer isso com um dos seus grandes sucessos. "Amor em São Petersburgo" é um livro muito bom. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros . E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #HeinzGKonsalik #LiteraturaAlemã #Romance #RomanceHistórico #Drama #LiteraturaClássica
- Livros: Memórias do Subsolo - O início do existencialismo de Dostoiévski
"Memórias do Subsolo" ( Editora 34 ) é uma novela marcante da carreira de Fiódor Dostoiévski , um dos mais influentes escritores do século XIX. Esta obra inaugurou uma nova fase tanto na literatura russa quanto na literatura ocidental. Pela primeira vez na ficção tivemos um narrador que se apresentava de maneira muito agressiva, como se quisesse agredir o leitor com suas palavras pouco simpáticas e com seu temperamento extremamente difícil. Com isso, o texto deste livro adquire um tom corrosivo e tenso. Não se surpreenda se você, no papel de leitor, sentir uma forte angústia durante a leitura. Com "Memórias do Subsolo", a figura do anti-herói adquire, portanto, doses mais elevadas de imoralidade. Com essa característica singular, Dostoiévski inaugurava a etapa mais representativa da sua carreira, que ficaria marcada na história da literatura até hoje. Para se ter uma ideia do que isso significou de ordem prática, "Crime e Castigo" (Editora 34), "O Jogador" (Editora 34), "O Idiota" (Editora 34) e "Irmão Karamazov" (Editora 34), romances mais célebres do escritor russo, são diretamente influenciados por esse tipo de recurso narrativo. Para entendermos "Memórias do Subsolo", novela publicada em 1864, e a mudança estilística de Dostoiévski, precisamos conhecer um pouco a trajetória de vida deste autor. Nascido em Moscou, em 1821, Fiódor Dostoiévski mudou-se para São Petersburgo, então capital do país, e por lá viveu a maior parte do tempo. Quando tinha pouco mais de 20 anos de idade, ele começou a escrever seus primeiros contos e seus primeiros romances. Essa é a fase realista/naturalista de Dostoiévski. Suas histórias dessa época narravam essencialmente os dramas da parcela mais pobre da sociedade russa. "Gente Pobre" (Editora 34), romance de 1846, e "A Senhorita", novela de 1847, são bons exemplos desse tipo de literatura. Em abril de 1849, Fiódor Dostoiévski foi preso pela polícia russa acusado de conspirar contra o czar Nicolau I. Após quase um ano de detenção, a decisão do julgamento condenou o escritor à morte. Contudo, pouco antes do fuzilamento, a sentença foi revista e revertida em trabalhos forçados na Sibéria. E para lá foi Dostoiévski. Por quatro anos, ele sofreu os horrores da detenção no frio siberiano. Apenas em fevereiro de 1854, o escritor pode deixar a prisão, beneficiado por uma nova revisão da pena que transformava alguns presos em soldados por tempo indeterminado. Solto, Dostoiévski precisou cumprir por mais cinco anos o serviço militar obrigatório. Sua dispensa das Forças Armadas russas foi efetuada apenas em 1859 porque o autor passou a sofrer de graves crises de epilepsia. A fase de desgostos do escritor russo ainda não estava terminada. Casado com Maria Dmitriévna, em 1857, Fiódor Dostoiévski assistiu à morte da amada. Depois de muito padecimento, Dmitriévna faleceu de tuberculose em 1864. Poucas semanas depois, foi a vez de Milkhain, irmão do escritor, morrer. O calvário de Dostoiévski parecia, nesse momento, interminável. Tendo regressado a São Petersburgo, Fiódor Dostoiévski lança, em 1862, sua primeira grande obra após a fase de reconquista da liberdade: "Recordações da Casa dos Mortos" (Martin Claret). Nesse romance, o autor narra o pesadelo que sofreu nas prisões siberianas. Estava, assim, inaugurado um novo gênero romanesco que seria importante da literatura russa, o dos relatos de prisioneiros. "Memórias do Subsolo" veio logo depois. A novela foi publicada dois anos após "Recordações da Casa dos Mortos" e apresenta um autor desiludido com a política do seu país, entristecido pela perda de alguns entes queridos e amargurado pelos graves problemas de saúde que passava. Temos aqui a versão angustiada de Dostoiévski. O seu pessimismo e sua agressividade no fazer ficcional tornam-se, de certa maneira, totalmente justificados quando conhecemos sua biografia. Esse traço rancoroso do texto de Dostoiévski seria uma de suas marcas até o final da vida, algo apontado como o símbolo máximo da sua literatura até hoje. O livro "Memórias do Subsolo" é dividido em duas partes. Ambas são narradas em primeira pessoa por um homem que não demonstra qualquer preocupação em agradar o leitor nem de passar uma imagem positiva de si. Pelo contrário, ele faz questão de demonstrar o quanto é nojento, antissocial, insensível, esquisito e repulsivo. Trata-se do sujeito que tem orgulho de ser mau e que parece sentir prazer em relatar suas características mais sórdidas. Na primeira parte da novela, chamada de "O Subsolo", temos um monólogo filosófico de um narrador desiludido com o mundo e com a humanidade. Temos, assim, um desabafo sincero de uma personagem tragada pela imoralidade. O texto aqui é uma mistura de ensaio existencialista informal com a crônica ácida de costumes. O narrador diz que o homem é normalmente sádico e sanguinário. A sociedade humana é insensível ao belo e ao sublime. Nesse contexto, o progresso da civilização é uma utopia. A humanidade, segundo essa crença, estaria fadada à barbárie e ao retrocesso permanente. Depois de muito tentar viver em sociedade, o protagonista desistiu do convívio com pessoas tão ignorantes. Por isso, ele passou a viver escondido de tudo e de todos em um lugar intitulado de Subsolo. É nesse Subsolo que ele apresenta suas reflexões existencialistas e niilistas da humanidade. Na segunda parte de "Memórias do Subsolo", chamada de "A Propósito da Neve Molhada", o narrador relata um episódio importante do seu passado: a paixão que teve por uma prostituta. Nessa fase da novela, ele confessa atos de sua torpeza dirigidos não apenas à amada, mas também aos colegas de infância, ao seu funcionário residencial e a alguns conhecidos. Nessa fase da vida, o protagonista ainda não era o "homem do subsolo" e tentava se adequar socialmente, por mais difícil que isso fosse para ele. O mais interessante deste livro é a postura ambígua do seu narrador. Apesar da força do seu discurso, a personagem principal é frágil e oscilante. Em muitos momentos sua voz desaparece no texto. A variação do humor do narrador interfere nos relatos feitos levando a história para caminhos paradoxais. Em muitos instantes da narrativa, o protagonista apresenta uma ideia para logo depois negá-la. Mais à frente, ele diz estar mentindo para o leitor, o que torna tudo ainda mais nebuloso. E, por fim, o narrador volta a reafirmar aquilo que disse inicialmente. Como confiar em alguém tão impreciso e a amalucado, hein? Com "Memórias do Subsolo", Dostoiévski inaugurou o que podemos chamar de narrador em primeira pessoa abalado pela "Crise do Eu". A proposta dessa figura narrativa é incomodar e agredir o leitor em todos os momentos do texto. O leitor é o principal inimigo de quem conta a história. A sinceridade do narrador passa a ser total, sem a preocupação de parecer simpático ou bom. Esqueça, portanto, as convenções sociais e o princípio da empatia. Aqui a imoralidade e a perversão ganham uma nova dimensão. Com isso, não espere uma narrativa prazerosa e simples. O tom dialógico do texto, com a apresentação de vários conceitos existencialistas e com a constante intertextualidade (várias obras ficcionais são citadas e comentadas), torna "Memórias do Subsolo" um livro denso e tenso. Dessa maneira, aconselho que a leitura desta novela seja feita com bastante calma e atenção. Apesar de pequeno, são apenas 152 páginas, o livro exige substancial esforço intelectual e de concentração do leitor. No meu caso (li "Memórias do Subsolo" no último final de semana), precisei de quase cinco horas para concluir esta obra. Esse tempo é o dobro do que normalmente consumo para uma leitura com esse número de páginas. Também é importante não se assustar com a primeira parte de "Memórias do Subsolo". Se você ficar inclinado a desistir da leitura logo nas primeiras páginas, saiba que isso é algo proposital desse tipo de narrador de Dostoiévski. Ele vê o leitor como um adversário que será combatido. Se você tiver coragem e seguir para a segunda parte da novela, saiba que encontrará uma excelente trama. A história ali é extremamente angustiante, marcante e original. Vale a pena conhecê-la. A literatura de Dostoiévski pode parecer em um primeiro momento maçante e impenetrável, porém quando compreendida ela se revela magnífica. Não é à toa, portanto, que este escritor e esta obra sejam tão influentes na literatura praticada ao longo de todo o século XX, possuindo resquícios das suas características estilísticas até os dias de hoje. E aí, topa encarar "Memórias do Subsolo"? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros . E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #FiódorDostoiévski #Novela #Existencialismo #LiteraturaRussa
- Livros: O Elefante – O conto infantojuvenil de Aleksandr Kuprin
Quando falamos de literatura russa aqui no Brasil, os nomes dos artistas que vêm à nossa mente, querendo ou não, são geralmente os de Fiódor Dostoiévski, Leon Tolstói, Anton Tchekhov, Vladimir Nabokov, Isaac Bábel, Alexandre Pushkin e Nikolai Gógol. Nessa lista, dependendo do repertório do leitor, podemos incluir mais um ou outro escritor amplamente conhecido. Em comparação com a riqueza e a diversidade da arte literária praticada na Rússia, trata-se de uma simplificação difícil de ser admitida. Por isso, fiquei empolgado quando, ao visitar a Livraria Cultura do Shopping Bourbon Pompéia no último final de semana, me deparei com “O Elefante” (Kalinka). Este conto de Aleksandr Kuprin é um clássico da literatura infantojuvenil russa. Ele não apenas foi lido ao longo do século XX por quase todas as gerações de russos como ainda hoje é leitura obrigatória da criançada na nação mais extensa do mundo. Se Aleksandr Kuprin é um autor pouco conhecido no Brasil (e em boa parte do planeta), em seu país natal ele é um escritor bastante popular. Sua literatura divide-se basicamente em dois ramos: as histórias engajadas socialmente direcionadas aos adultos, nas quais se denunciam as mazelas das classes menos favorecidas e as injustiças socioeconômicas da Rússia czarista, e as narrativas infantis, que enaltecem o espírito de aventura e as belezas naturais das diferentes regiões do país. No primeiro grupo, destacam-se “O Desafio” (Sem edição no Brasil e as vezes traduzido como “O Duelo”), romance de 1905, “O Bracelete de Granadas” (Globo), coletânea de contos de 1911, e “O Inquérito” (Editora 34), coletânea de contos de 1894. No segundo, temos “Doutor Milagroso” “(Ainda sem edição em nosso país), conto de 1897, “O Poodle Branco” (Também sem publicação no Brasil), conto de 1903, e “O Elefante”. Publicado em 1907, “O Elefante” foi traduzido no ano retrasado por Tatiana Larkina e integra a coleção MIR, série de pequenas narrativas russas editada em edições bilíngues pela Kalinka. A Kalinka é uma editora especializada na divulgação da literatura da Rússia e dos países do Leste europeu. O interessante é que além do texto original, as obras da MIR permitem aos leitores conhecedores de russo ouvir os áudios das narrações na língua de Aleksandr Kuprin. Isso é possível através do QR Code impresso nas capas dos livros. Muito legal essa iniciativa. Para completar, “O Elefante” ainda possui gravuras de Daniela Mountian que compõem e embelezam o projeto gráfico da publicação. A trama de “O Elefante” se passa no Outono russo em uma casa de uma família rica. Sacha, um empresário local, e Mancha, sua esposa, são atormentados pela doença da filha de seis anos. Nadiejda, chamada por todos pelo apelido carinhoso de Nádia (diminutivo de Nadiejda em russo), sofre de depressão. Ela passa os dias atirada na cama olhando para o teto. A menina não tem apetite para se alimentar nem disposição para se levantar do leito para brincar ou estudar. A cada dia ela fica mais fraca e magra. Desesperados, os pais consultam mais um médico. O Doutor Mikhail Petróvitch constata que o caso de Nádia é realmente muito sério. A única coisa que ele aconselha Sacha e Mancha a fazer é não deixar Nádia entediada. Os pais devem realizar todos os caprichos da garota. O problema é que Nádia não quer nada. Ela nunca pede coisa alguma para os pais, permanecendo em seu mutismo característico. Sacha e Mancha tentam agradá-la, mas não conseguem. O panorama muda quando, depois de um certo tempo, a menina pede ao pai um elefante. Sacha sai correndo para comprar um brinquedo desse tipo. Ele compra o presente mais caro que encontra na cidade. Contudo, a garota não fica feliz. Ela quer um elefante de verdade, desses que ela via nos livros, não uma réplica. O pai, à princípio, diz ser impossível trazer um bicho desse porte para casa. Depois de refletir um pouco, ele sai no meio da noite em disparada em direção a um circo. Após contar com a compreensão do alemão dono da companhia circense, Sacha retorna para o lar na manhã seguinte com Tommy. Tommy é o filhote de elefante que conhece muitos truques capazes de alegrar qualquer criança. Mesmo sendo um filhotinho, ele tem 2,3 metros de altura e 2,8 metros de comprimento, além de pesar mais de 1,8 tonelada. O bichano é alojado com muita dificuldade na sala da casa de Sacha e Mancha. O espanto é geral entre amigos e vizinhos da família. Nádia rapidamente gosta de Tommy e os dois iniciam uma amizade pouco convencional. “O Elefante” é uma história singela e bonita. Com simplicidade e muita competência, Aleksandr Kuprin retrata em sua narrativa a importância da amizade e do apreço aos animais pelas crianças. Para mensurar a real dimensão deste conto, experimente contá-lo a um menino ou a uma menina. Na certa, eles vão curtir a trama inusitada e um tanto pitoresca. Para os adultos, a parte mais bela é o do seu desfecho. De forma metafórica e sem citações enfáticas, Kuprin mostra aos leitores do que a personagem principal estava de fato padecendo. Este livro é muito curtinho. Ele possui apenas 64 páginas. Se lembrarmos que a obra é bilíngue (as páginas pares contêm o texto original em russo e as páginas ímpares têm a versão em português), sua leitura se torna ainda mais rápida. É possível concluir sua história em menos de meia hora. No caso de uma leitura mais calma e enfática para uma criança, estime ao menos o dobro desse tempo para a conclusão da publicação. Como literatura infantojuvenil, “O Elefante” cumpre muito bem seu papel. A mensagem passada é positiva, instigante e bastante contundente. Sua trama e sua moral são universais e atemporais. Em uma narrativa extremamente breve, Kuprin consegue construir uma história sem ornamentos, uma de suas características estilísticas. Além disso, o espírito de aventura do enredo e a trama cativante na perspectiva infantil, outras marcas da literatura de Kuprin, estão presentes na ida do elefante à residência da família de Nádia. Qual criança que não se empolga em cogitar a visita de um bicho de quase duas toneladas em sua casa?! Esqueça, portanto, as narrativas mágicas e ricamente ilustradas que muitas vezes captam a atenção e o interesse das crianças durante as leituras. As obras de Aleksandr Kuprin voltadas para os pequenos leitores trabalham com a realidade concreta do nosso mundo e com o texto bruto. Na visão do autor russo, as emoções provocadas por boas histórias e as ações inerentes às tramas de aventura são capazes, por si só, de encantar meninos e meninas. É preciso respeitar essa abordagem. Gostei também da maneira como as personagens foram construídas. Kuprin é o tipo de autor que fala muito sobre suas personagens através de seus atos e de seus pensamentos. Ele não perde tempo com descrições banais (não à toa, ele é um dos grandes contistas russos de todos os tempos). O leitor acaba construindo mentalmente as características psicológicas das personagens sem que o autor precise detalhá-las nas páginas do livro. Em uma época em que os jovens casais têm cada vez mais filhos únicos (quando os tem) e em um período em que a natureza é artigo inexistente na rotina das famílias cosmopolitas em boa parte do mundo, histórias como “O Elefante” se tornam ainda mais válidas. A amizade de uma menina solitária e depressiva com um animalzinho animado e cheio de vida é uma metáfora belíssima capaz de emocionar até mesmo os corações mais duros. Há quem relacione essa história aos eventos sociopolíticos da Rússia Pré- Bolchevista. Nessa perspectiva, Nádia seria o povo russo no período czarista: deprimido e angustiado em sua infância injusta e entediante E o filhote de elefante seria um sopro de esperança trazido pelo socialismo marxista. Não é preciso dizer que Aleksandr Kuprin era, em uma fase inicial, um grande entusiasta do comunismo. Contudo, uma vez implementada a União Soviética, ele se decepcionou com as escolhas ideológicas e políticas dos mandatários da nação, preferindo se mudar para a Europa Ocidental, onde morou por muitos anos. Apesar de gostar dessa leitura alternativa da obra de Kuprin, ainda sim prefiro a análise mais elementar de sua trama, na qual a depressão da menina é combatida com a amizade de um animalzinho. Por que um livrinho curto e simples como este não pode suscitar belezas narrativas, hein? Se você é do tipo exigente e que gosta apenas de leituras adultas, saiba que talvez suas obras favoritas de Kuprin sejam outras. Se você gosta de aventurar-se por tramas infantojuvenis originais e fortes, não vendo preconceitos nisso, “O Elefante” é uma boa opção. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros . E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #LiteraturaRussa #LiteraturaInfantojuvenil #AleksandrKuprin #conto
- Celebrações: 2025 – Feliz ano novo
O Bonas Histórias deseja aos seus leitores, colunistas e patrocinadores muita saúde, prosperidade e grandes realizações para o próximo ano. E, como não poderia faltar, torcemos para que em 2025 todos mergulhem na boa e velha tríade que nos move – Literatura, Cultura e Entretenimento . Sempre fico na dúvida se devo desejar um “feliz ano novo” (sem hífen e com letras minúsculas) ou um “feliz Ano-Novo” (com hífen e com letras maiúsculas) às pessoas que quero bem. Obviamente, esse questionamento só se dá quando me vejo diante da tela em branco do computador ou do celular. Com a folha física em cima da mesa, admito que há muito tempo não me deparo. De qualquer maneira, no discurso oral, tal preocupação desaparece automaticamente – ninguém ouve os recursos visuais da grafia das palavras. Ainda assim, compartilho envergonhado minha constante interrogação com os leitores do Bonas Histórias : o ideal é propagar aos familiares, amigos, vizinhos, colegas, clientes e conhecidos “feliz ano novo” ou “feliz Ano-Novo”?! Ai, ai, ai. Essa língua portuguesa pode ser por vezes muito desafiadora, não é?! Confesso que, com raríssimas exceções, acabo utilizando o termo sem hífen e com letras minúsculas, que se refere ao ciclo completo de 365 dias (ou 366 dias, no caso dos anos bissextos). A outra palavra (com hífen e com letras maiúsculas) é relativa apenas ao evento de Réveillon, a madrugada da virada de 31 de dezembro para 1º de janeiro. Na minha humilde visão, faz mais sentido torcer para que a pessoa querida tenha 12 meses de prosperidade, saúde e satisfação do que se limitar a uma única noite de alegrias, exageros e empolgação. Como salientei na primeira frase desse parágrafo, essa é a lógica que aplico QUASE SEMPRE (olha o uso da expressão “raríssimas exceções” do meu texto). Por isso, a escolha do título deste novo post da coluna Celebrações – o último de 2024 do blog! – vir com “feliz ano novo”. É com esse espírito de abundância e de longo prazo que desejo em nome do Bonas Histórias um excelente 2025 para nossos leitores (uma dezena de milhares que estão espalhados principalmente pelo Brasil e por Portugal), colunistas (nem meia dúzia de malucos que segue produzindo conteúdo semanalmente) e patrocinadores (três com cotas master: Dança & Expressão , Epifania Comunicação Integrada e EV Publicações ). Para vocês, ficam aqui registrados nossos votos de ótimo ano novo! Em relação ao nosso trabalho para o próximo ano, reafirmo o compromisso do blog de continuar enfocando o melhor da Literatura, da Cultura e do Entretenimento em língua portuguesa . Agora que completamos uma década de vida, conforme apresentado no post do Décimo Aniversário do Bonas Histórias , não nos parece o momento de pararmos ou diminuirmos o ritmo de publicações. Em outras palavras, vamos prosseguir com as análises profundas e inteligentes de manifestações artísticas que julgamos mais relevantes. Com essa crença tão bem solidificada, avançaremos na produção do conteúdo das nossas 19 colunas: Livros – Crítica Literária , Desafio Literário , Teoria Literária , Talk Show Literário , Miliádios Literários , Contos & Crônicas , Mercado Editorial , Cinema , Músicas , Teatro , Dança , Exposições , Gastronomia , Passeios , Rádio, TV e Internet , Cursos e Eventos , Premiações e Celebrações , Melhores Músicas Ruins e Recomendações . No que depender do Bonas Histórias , o próximo ano dos nossos leitores e parceiros será com muitas e excelentes contações de histórias . Se você gosta de Literatura, Cultura e Entretenimento, saiba que este é o seu espaço de inspiração no mundão por vezes caótico e imprevisível da internet brasileira. Por nossas páginas, queremos que todos se sintam à vontade para se informar e para não desgrudar os olhos dos diferentes campos artísticos. Esse é o nosso compromisso (que alguns chamam por aí de missão), que se renova desde dezembro de 2014. Acho que é isso, pessoal. Feliz ano novo para todos! Que 2025 seja incrível para todo mundo! Tenho certeza de que nos veremos recorrentemente nas boas histórias que o blog trará nos próximos doze meses. Ah, e para aqueles que só pensam no Réveillon de Buenos Aires de amanhã à noite (abraços, Marcelinha, Mara e Luiz), aqui vai TAMBÉM o meu Feliz Ano-Novo para vocês! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em setembro e outubro de 2024
Veja os 140 principais títulos da ficção e da poesia que foram publicados no Brasil no quinto bimestre . Acredito que os leitores mais assíduos do Bonas Histórias já estão acostumados com a minha rotina literária, que compartilho com algum constrangimento por essas mal escritas páginas. Há dez anos, mapeio as obras mais relevantes produzidas pelas editoras brasileiras . A coluna Livros – Crítica Literária é a prova cabal deste esforço. Nela, apresento mensalmente a análise das publicações que tiveram forte impacto tanto no público leitor quanto na imprensa. Felizmente, pude comentar muitos livrões de autores nacionais e internacionais ao longo da última década. E desde janeiro de 2020 (ou seja, há quase cinco anos), faço o levantamento bimestral dos títulos recém-lançados nas livrarias do Brasil . Assim, trago na coluna Mercado Editorial as principais novidades das estantes da ficção e da poesia . Quem gosta de boa literatura tem um lugar cativo para a consulta do que ler e do que comprar. Com a chegada de novembro (olha o fim do ano aí, gente!), não podia me esquecer de exibir a lista dos livros que foram publicados no Brasil em setembro e outubro de 2024 . Como diria Capitão Nascimento, “Missão dada é missão cumprida”. Apesar de nutrir enormes e incontáveis diferenças ideológicas com a famosa personagem do cinema brasileiro (ressalvas que até mesmo Wagner Moura possui), confesso que esse valor eu prezo (e sigo). Portanto, o post de hoje é para mostrar os romances , as novelas , as coletâneas de contos , as coleções de crônicas , as seleções de ensaios , os títulos infantojuvenis , as obras infantis e as antologias de poemas que ainda estão quentinhos nas prateleiras das lojas físicas e digitais. Com um pouco de imaginação, dá até para sentir o cheirinho de material recém-saído das gráficas. Não vai me dizer que você não está sentindo, hein? Eu estou... Do ponto de vista das novidades ficcionais e poéticas do quinto bimestre deste ano , identifiquei 140 títulos que merecem a atenção dos amantes da literatura. Antes de apresentá-los um a um no listão já característico da coluna Mercado Editorial , tomei a liberdade para destacar os melhores entre os melhores. Quem não gosta da curadoria da curadoria, né? Falo por mim: me amarro! Afinal, se não der tempo para conferir todos os lançamentos de setembro e outubro, ao menos sabemos o que devemos nos atentar. Para começo de conversa, tivemos vários exemplares de ótimo nível dentro da literatura brasileira . Não seria exagero dizer que a última safra nacional foi excelente. Excelente em qualidade e em quantidade. Escolhi apenas quatro publicações verde-amarelas para comentar com mais cuidado, mas poderia ter selecionado tranquilamente dez. Os três romances que me pareceram mais interessantes são “Krakatoa” ( Todavia ), de Veronica Stigger , “De Onde Eles Vêm” ( Companhia das Letras ), de Jeferson Tenório , e “Dentro do Nosso Silêncio” ( Paralela ), de Karine Asth . E, para não falarem que me esqueci da criançada, o livro infantil convocado para a Seleção Brasileira do último bimestre é “As Aventuras de Priminha Irritante no Reino dos Unicórnios” ( Outro Planeta ), de Gabriel Dearo e Manu Digilio . “Krakatoa” é a segunda narrativa longa de Veronica Stigger, uma das mais criativas e ousadas escritoras nacionais da atualidade. Gosto tanto de seu trabalho literário que já discuti na coluna Livros – Crítica Literária algumas de suas principais obras. Foi o caso de “Os Anões” (Cosac Naify), a coletânea de contos disruptivos com tom tragicômico, e “Opsianie Swiata” (Cosac Naify), romance de estreia com pegada de drama histórico. Esses dois títulos são espetaculares. Conhecendo o repertório de Stigger, recebi com enorme expectativa “Krakatoa”. Na minha visão, esse é o melhor lançamento do final do ano no Brasil. Nesta nova publicação, a escritora gaúcha apresenta uma narrativa fragmentada a partir da explosão de um vulcão na Indonésia, o tal Krakatoa do título. Na primeira parte, assistimos às vozes de vários elementos da natureza (terra, sol, fogo, água, vento, tempestade, carvão, pântano etc.) comentando os impactos ambientais e sociais da violenta erupção. Na segunda parte, acompanhamos uma série de notícias sobre o evento ocorrido em 1883 e uma viagem contemporânea de uma escritora à Ásia. Mais uma vez, temos uma obra forte, original e que navega por vários gêneros literários. É um romance que não tem cara de romance. E é um livro com a cara do estilo de Veronica Stigger. “De Onde Eles Vêm” é a primeira publicação de Jeferson Tenório depois do enorme sucesso de crítica e de público de “Avesso da Pele” (Companhia das Letras), título que o catapultou à primeira prateleira dos ficcionistas brasileiros. O romance que conquistou o Prêmio Jabuti de 2021 tratava do drama de uma família gaúcha vítima do racismo e da violência policial ao longo de duas gerações. De certa maneira, esses temas estão na essência das narrativas do autor carioca radicado em Porto Alegre. Em seu quarto romance – os outros foram “O Beijo na Parede” (Sulina) e “Estela Sem Deus” (Companhia das Letras) –, Tenório traz o drama de Joaquim, um rapaz negro que sonha em ingressar na faculdade. Narrada em primeira pessoa pelo protagonista, a história de “De Onde Eles Vêm” se passa nos primeiros anos do século XXI, quando o Brasil implementava políticas públicas para o aumento da inserção dos negros em algumas esferas da sociedade. Contudo, a lei das cotas raciais na educação não foi capaz de exterminar o preconceito e o racismo no país. É isso o que a trama de Jeferson Tenório nos mostra com enorme vigor. Por falar em Prêmio Jabuti, o selo Paralela da Companhia das Letras relança “Dentro do Nosso Silêncio”, a narrativa longa de estreia de Karine Asth que conquistou no ano passado a principal honraria literária brasileira na categoria Romance de Entretenimento. A edição original da obra tinha saído pela Editora Bestiário , pequena casa editorial porto-alegrense. Pera aí, outra vez o Rio Grande pautando o melhor da literatura brasileira?! É isso mesmo, senhoras e senhores. A capital gaúcha é berço de importantes escritores nacionais. Porém, é bom alertar que Asth é uma autora fluminense que vive há quase duas décadas em Recife. Então ela não tem nada a ver com o Rio Grande do Sul? Nananinanão. Ela foi aluna do curso de escrita criativa de Luiz Antonio de Assis Brasil, gaúcho referência na formação de escritores brasileiros. Em “Dentro do Nosso Silêncio”, acompanhamos a saga de Ana, uma blogueira de culinária que resolveu ter o primeiro filho. A decisão tomada com firmeza ao lado do marido se transformou em uma fase dolorosa para a personagem. Com dificuldades para engravidar pela forma natural, Ana recorreu a fertilização in vitro. O que ela não imaginava era o quão difícil e frustrante seria o procedimento médico. Fragilizada emocional e psicologicamente, a protagonista vê o sonho de ser mãe se tornar um pesadelo. A trama do livro foi inspirada na própria trajetória de Karine Asth, que precisou utilizar a fertilização in vitro para engravidar. Encerramos esse passeio pela literatura nacional exibindo o novo lançamento dos carismáticos Gabriel Dearo e Manu Digilio, casal best-seller entre o público infantil. A série literária dos influenciadores digitais, “As Aventuras de Mike”, está há cinco anos no topo dos livros mais vendidos no país e cresce anualmente em extensão de títulos. Depois de “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta), de 2019, “As Aventuras de Mike 2: O Bebê Chegou!” (Outro Planeta), também de 2019, “As Aventuras de Mike: O Livro Interativo” (Outro Planeta), de 2021, “As Aventuras de Mike: Mudando de Casa” (Outro Planeta), de 2022, “As Aventuras de Mike 4: A Origem de Robson” (Outro Planeta), de 2023, e “As Aventuras de Mike - O Livro de Colorir” (Outro Planeta), de 2024, agora os leitores mirins receberam “As Aventuras de Priminha Irritante no Reino dos Unicórnios”. No novo volume da série “As Aventuras de Mike”, o protagonista não é mais Mike e sim sua irmã caçula, chamada de “priminha irritante” pela criançada da família (conforme apresentado no primeiro título da coletânea). A garota adora unicórnios, o que gera curiosidade entre a molecada. Por que alguém seria viciada em um animal inexistente?! É isso o que move a trama deste livro, que aproveita para expandir um pouco mais o núcleo narrativo do universo ficcional criado por Gabriel Dearo e Manu Digilio. Quem tem criança em casa sabe que os pequenos leitores vão pedir a compra de “As Aventuras de Priminha Irritante no Reino dos Unicórnios” de presente de Natal. Ou seja, aí está mais um sucesso certo das livrarias brasileiras e portuguesas em dezembro. Já que falamos de Portugal, vamos pular para a estante da literatura internacional . Na minha visão, os principais lançamentos editoriais no Brasil no quinto bimestre de 2024 quando olhamos para os autores gringos foram: “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato” ( Dublinense ), da lusitana Ana Margarida de Carvalho , “A História de Roma” ( Dublinense ), da também portuguesa Joana Bértholo , “Solenoide” ( Mundaréu ), do romeno Mircea Cărtărescu , e “As Planícies” ( Todavia ), do australiano Gerald Murnane . Não posso deixar de elogiar a coleção de primavera da Editora Dublinense , conceituada casa editorial (adivinha de onde?!) de Porto Alegre. Eu até tento me esquecer dos bons tempos em que vivi na beira do Guaíba, mas desse jeito está difícil, viu?! Ao lado da paulistana Editora Fósforo e da recifense Editora CEPE , a Dublinense é uma de minhas editoras brasileiras favoritas. A curadoria deles beira a perfeição, principalmente depois de terem organizados suas publicações em quatro coleções ao ano. Entre os romances imperdíveis que disponibilizaram no finalzinho de outubro, ressalto os títulos de dois monstros da literatura portuguesa contemporânea : Ana Margarida de Carvalho e Joana Bértholo. “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato” foi publicado originalmente em 2016 em Portugal. Com essa obra, Ana Margarida de Carvalho conquistou o Grande Prêmio de Romance da APE/DGLAB (Associação Portuguesa de Escritores/Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas) e o Prêmio Manuel de Boaventura 2017. Além disso, o romance foi finalista no Livro do Ano 2017 da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) e no Prêmio Oceanos 2017, um dos principais da língua portuguesa. Isso quer dizer que ele é bom? Não, não, querido(a) leitor(a) da coluna Mercado Editorial . Isso quer dizer que o livro é EXCELENTE! Nessa narrativa da jornalista, escritora, dramaturga e cineasta lisboeta, assistimos ao naufrágio de um navio negreiro clandestino. Oito pessoas sobrevivem ao acidente em alto-mar: um capataz, um escravo, um criado, um padre, um estudante, um bebê, uma fidalga e a filha da fidalga. O grupo está reunido em uma praia. Ao mesmo tempo em que todas as personagens precisam da colaboração dos colegas, as diferenças históricas e sociais deles impossibilitam ou dificultam a verdadeira união. Com “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato”, misto de drama histórico, aventura acelerada e alegoria social, Ana Margarida de Carvalho demonstra porque é uma das melhores ficcionistas de nossa língua. Por sua vez, “A História de Roma” é o trabalho mais destacado de Joana Bértholo, outra escritora e dramaturga lisboeta. Publicado no ano passado em Portugal, o terceiro romance de Bértholo ganhou a última edição do Prêmio Fundação Eça de Queiroz e foi finalista do Prêmio Oceanos de 2023 na categoria Prosa. A publicação gira em torno de um antigo romance ocorrido na capital da Argentina entre uma escritora lusitana e um homem misterioso. Ai, ai, ai. Confesso que é complicado não me empolgar com uma trama de amor passada em Mi Buenos Aires Querido. Quem leu a crítica de “Amor Segundo Buenos Aires” (HarperCollins), o romance de estreia de Fernando Scheller, saberá o porquê. Em “A História de Roma”, acompanhamos a narradora-protagonista relatando dez anos de sua vida, que foram seriamente impactados por uma antiga história de amor vivenciada na América do Sul. O relacionamento fugaz acabou há muito tempo, mas o sentimento não pôde ser abafado. De volta à Europa, a mulher ainda é atormentada pelos passos do homem por quem se apaixonou no passado distante. Usando muitíssimo bem os recursos do flashback e do flashforward, o livro reconstrói essa história de amor do ponto de vista feminino e com uma pegada de road story. O texto de Joana Bértholo é realmente incrível. Outro exemplar da alta literatura europeia que chega ao Brasil é “Solenoide”, obra máxima de Mircea Cărtărescu que enfim ganhou versão em português. Frequentemente cotado ao Nobel de Literatura (nos dois últimos anos, foi superado por Han Kang e Joh Fosse ), Cărtărescu é poeta, romancista e ensaísta romeno de 68 anos que conseguiu quebrar a barreira entre a Literatura da Europa Ocidental e a Literatura da Europa Oriental. A profundidade de seu texto e a habilidade por navegar por vários gêneros foram responsáveis por encantar os leitores internacionais e a crítica literária mundial. Publicado em 2015, “Solenoide” é um tijolão ficcional de quase 800 páginas. Nessa obra que é desde já um clássico contemporâneo, acompanhamos um jovem professor de um bairro periférico de Bucareste que acalenta um velho sonho: se tornar escritor. Contudo, a rotina do ir e vir à escola e de cuidar da enorme casa na capital da Romênia traga seu tempo e sua energia. Com uma narrativa que mescla reflexões filosóficas, críticas sociais, intertextualidade literária, absurdos políticos e dúvidas sobre a fronteira entre realidade e ficção, Mircea Cărtărescu demonstra porque é um dos romancistas mais premiados da atualidade. Por fim, deixo uma dica para quem não gosta de livros tão volumosos. Se você fica desanimado(a) só de imaginar as centenas de páginas que terá que percorrer, a sugestão é a novela “As Planícies”, de Gerald Murnane, outro nome apontado como favorito ao Nobel. Este livro tem apenas 112 páginas. Ufa! Esse clássico contemporâneo da literatura australiana foi publicado em 1982 e, mesmo com a enorme repercussão internacional, mantinha-se inédito para os leitores brasileiros. Até agora. Graças à Editora Todavia , esse tropeço foi, enfim, resolvido com a tradução de Caetano W. Galindo . Em “As Planícies”, a obra mais importante de seu amplo portfólio, Murnane retrata com enorme beleza as paisagens naturais e a cultura do interior da Austrália. O protagonista é um jovem cineasta que sofre de profunda crise existencial. Entre desilusões amorosas e memórias familiares dolorosas, ele busca encontrar a identidade pessoal em uma viagem pelo rincão seco do país continental. Depois desse breve corte de oito títulos, me sinto na obrigação de apresentar a listagem completa dos lançamentos do mercado editorial brasileiro em setembro e outubro de 2024 . A seguir, tenho o prazer de exibir os 140 melhores livros que chegaram às prateleiras da ficção e da poesia nas livrarias brasileiras no penúltimo bimestre do ano . FICÇÃO BRASILEIRA: “Krakatoa” (Todavia) – Veronica Stigger – Romance – 176 páginas. “De Onde Eles Vêm” (Companhia das Letras) – Jeferson Tenório – Romance – 208 páginas. “Dentro do Nosso Silêncio” (Paralela) – Karine Asth – Romance – 232 páginas. “Cavalos No Escuro” (Record) – Rafael Gallo – Romance – 208 páginas. “Gaiola de Esperar Tempestades” (Dublinense) – Gabriela Richinitti – Romance – 240 páginas. “Ojiichan” (Fósforo) – Oscar Nakasato – Romance – 168 páginas. “Guerra I – Ofensiva Paraguaia e Reação Aliada Novembro de 1864 a Março de 1866” (Editora 34) – Beatriz Bracher – Romance – 536 páginas. “A Voz Que Ninguém Escutou” (José Olympio) – Renan Silva – Romance – 304 páginas. “Casa de Família” (Companhia das Letras) – Paula Fábrio – Romance – 296 páginas. “A Extraordinária Zona Norte” (Todavia) – Alberto Mussa – Romance – 232 páginas. “Garras” (Rocco) – Lis Vilas Boas – Romance – 368 páginas. “Rosa e Violeta” (L&PM Editores) – Clara Corleone – Romance – 200 páginas. “O Maior Ser Humano Vivo” (Rocco) – Pedro Guerra – Romance – 368 páginas. “Anel de Vidro” (Todavia) – Ana Luisa Escorel – Novela – 144 páginas. “Nosso Corpo Estranho” (Fósforo) – Reginaldo Pujol Filho – Novela – 120 páginas. “NECA” (Companhia das Letras) – Amara Moira – Novela – 120 páginas. “Condições Ideais de Navegação Para Iniciantes” (Companhia das Letras) – Natalia Borges Polesso – Coletânea de Contos – 232 páginas. “O Dia Escuro” (Companhia das Letras) – Amara Moira, Ana Rüsche, Andréa del Fuego, Carola Saavedra, Cidinha da Silva, Dia Nobre, Eliana Alves Cruz, Fabiane Guimarães, Flavia Stefani, Jarid Arraes, Laís Romero, Lygia Fagundes Telles, Marcela Dantés, Maria Valéria Rezende, Natalia Salomão Carrara, Micheliny Verunschk, Natalia Borges Polesso, Natércia Pontes, Socorro Acioli e Trudruã Dorrico – Coletânea de Contos – 232 páginas. “Quando Chega Nossa Vez Acaba” (Alfaguara) – Rafael Simeão – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Árido” (Rocco) – Ana Paula Lisboa, Cristhiano Aguiar, Fabiane Guimarães, José Falero e Tanto Tupiassu – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Brincadeira Sem Futuro” (Todavia) – Ricardo Terto – Coletânea de Contos – 72 páginas. “Comigo Na Livraria” (L&PM Editores) – Martha Medeiros – Coletânea de Crônicas – 216 páginas. “O Que Se Faz Por Amor” (L&PM Editores) – J. J. Camargo – Coletânea de Crônicas – 240 páginas. “Ana Maria Machado – Uma Autora em Perspectiva” (Global) – Ascensión Rivas Hernández (org.) – Coletânea de Ensaios – 256 páginas. “Cúmplices de Um Escândalo” (Verus) – Lucy Vargas – Infantojuvenil – 420 páginas. “Complicado e Perfeitinho” (Seguinte) – Renan Bittencourt – Infantojuvenil – 336 páginas. “O DJ – Rebeldia Digital” (Global) – Toni Brandão – Infantojuvenil – 336 páginas. “Senhorita Aurora” (Verus) – Babi A. Sette – Infantojuvenil – 336 páginas. “Primeiras Más Impressões” (Verus) – Gabriela Graciosa Guedes – Infantojuvenil – 294 páginas. “As Regras do Jogo” (Paralela) – Arquelana – Infantojuvenil – 288 páginas. “Sociedade da Caveira de Cristal” (Escarlate) – Andréa del Fuego – Infantojuvenil – 224 páginas. “O Menino que Vivia no Mundo de Marte!” (EV Publicações) – Cíntia Ertel – Infantojuvenil – 176 páginas. “A Criação do Novo Mundo” (Todavia) – Paulo Lins (autor), Flávia Helena (autora) e Guilherme Campello (ilustrador) – Infantojuvenil – 112 páginas. “As Aventuras de Priminha Irritante no Reino dos Unicórnios” (Outro Planeta) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Infantil – 208 páginas. “Chuva” (Reco-reco) – Dalton Trevisan (autor) e Guazzelli (ilustrador) – Infantil – 56 páginas. “O Ciclista” (Reco-reco) – Dalton Trevisan (autor) e Odilon Moraes (ilustrador) – Infantil – 40 páginas. “Educando Crianças Antirracistas” (Outro Planeta) – Bárbara Carine Soares Pinheiro (autora) e Pakapym (ilustrador) – Infantil – 48 páginas. “A Garotinha Que Não Se Olhava No Espelho” (Outro Planeta) – Fabi Santina – Infantil – 48 páginas. “Cordéis Para Crianças Incríveis” (Companhia das Letrinhas) – Jarid Arraes (autora) e Veridiana Scarpelli (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “Vejamos” (Brinque-Book) – Otávio Júnior (autor) e Caio Zero (ilustrador) – Infantil – 40 páginas. “O Invasor” (Boitatá) – Daniel Cabral e Fereshteh Najafi – Infantil – 40 páginas. “Ponto de Vista” (Global) – Ana Maria Machado (autora) e Luciano Tasso (ilustrador) – Infantil – 40 páginas. “Nem Todo” (Companhia das Letrinhas) – Marcelo Tolentino – Infantil – 40 páginas. “Errinho, Errão” (Brinque-Book) – Estevão Azevedo (autor) e Kaká Leal (ilustrador) – Infantil – 40 páginas. “Chegou a Hora da Onça Beber Água” (Gaudí) – Adalberto Cornavaca (autor) e Andréa Dellamagna (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “Terra” (Companhia das Letrinhas) – Yuri de Francco (autor) e Carol Fernandes (autora e ilustradora) – Infantil – 38 páginas. “A Roupa Nova do Rei” (Global) – Ruth Rocha (autora) e Thiago Lopes (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “Quibe e o Tesouro das Abelhas” (Companhia das Letrinhas) – Camila Fremder (autora) e Juliana Eigner (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Eu Vim De Lá” (Yellowfante) – Nikole Cândida – Infantil – 32 páginas. “Na Minha Rua Passa Um Carro” (Companhia das Letrinhas) – Vienno – Infantil – 32 páginas. “Só Sei Que Nasci” (Global) – Ignácio de Loyola Brandão (autor) e Isabela Santos (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “O Menino que Ouvia as Coisas Falarem” (Gaudí) – Orlando Pedroso – Infantil – 24 páginas. “A Pororoca” (Brinque-Book) – Cláudia A. Flor D´Maria (autora) e Liu Olivina (ilustradora) – Infantil – 24 páginas. “Todos Diferentes Tudo Igual” (Gaudí) – Carmen Figueiredo (autora) e Orlando Pedroso (ilustrador) – Infantil – 24 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato” (Dublinense) – Ana Margarida de Carvalho (Portugal) – Romance – 384 páginas. “A História de Roma” (Dublinense) – Joana Bértholo (Portugal) – Romance – 256 páginas. “Solenoide” (Mundaréu) – Mircea Cărtărescu (Romênia) – Romance – 784 páginas. “Seu Comparecimento É Obrigatório” (Rocco) – Sasha Vasilyuk (Ucrânia/Rússia) – Romance – 296 páginas. “Criaturas Noturnas” (Companhia das Letras) – Leila Mottley (Estados Unidos) – Romance – 328 páginas. “No Princípio Era O Mar” (Bertrand Brasil) – Tomás González (Colômbia) – Romance – 208 páginas. “A Primeira Mentira” (Intrínseca) – Ashley Elston (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Garota de Neve” (Suma) – Javier Castillo (Espanha) – Romance – 264 páginas. “Um Encantamento Delicado” (Seguinte) – Allison Saft (Estados Unidos) – Romance – 376 páginas. “Os Gatos do Café da Lua Cheia” (Intrínseca) – Mai Mochizuki (Japão) – Romance – 216 páginas. “A Ligação” (Fósforo) – Katharina Volckmer (Alemanha) – Romance – 160 páginas. “Os Dias Em Que Mais Te Amei” (Record) – Amy Neff (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Um Amor Cinco Estrelas” (Intrínseca) – Beth O’Leary (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas” (Mundaréu) – Irene Solà (Espanha) – Romance – 160 páginas. “Tremor” (Companhia das Letras) – Teju Cole (Estados Unidos/Nigéria) – Romance – 224 páginas. “Massacre” (Darkside) – Luciano Lamberti (Argentina) – Romance – 160 páginas. “O Que O Rio Sabe” (Arqueiro) – Isabel Ibañez (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Lua de Sangue” (Record) – Jo Nesbø (Noruega) – Romance – 490 páginas. “Como Vender Uma Casa Assombrada” (Intrínseca) – Grady Hendrix (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “A Inconveniente Loja de Conveniência 2” (Bertrand Brasil) – Kim Ho-yeon (Coreia do Sul) – Romance – 336 páginas. “A Fúria da Deusa Tríplice” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Chocolate Quente Às Quintas-feiras” (Arqueiro) – Michiko Aoyama (Japão) – Romance – 160 páginas. “Austral” (Instante) – Carlos Fonseca (Costa Rica) – Romance – 192 páginas. “O Grande Caderno – Volume 1 da Trilogia dos Gêmeos” (Dublinense) – Ágota Kristóf (Hungria) – Romance – 192 páginas. “A Prova – Volume 2 da Trilogia dos Gêmeos” (Dublinense) – Ágota Kristóf (Hungria) – Romance – 192 páginas. “A Terceira Mentira – Volume 3 da Trilogia dos Gêmeos” (Dublinense) – Ágota Kristóf (Hungria) – Romance – 176 páginas. “Contando Milagres” (Arqueiro) – Nicholas Sparks (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Noites no Circo” (Darkside) –Angela Carter (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “A Empregada Está De Olho” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Regras do Amor na Cidade Grande” (Record) – Sang Young Park (Coreia do Sul) – Romance – 252 páginas. “A Suspeita” (Planeta) – Scott Turow (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “O Reaparecimento de Rachel Price” (Intrínseca) – Holly Jackson (Inglaterra) – Romance – 544 páginas. “Nosso Tipo de Jogo” (Suma) – Johanna Copeland (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Oferenda à Tempestade” (Planeta) – Dolores Redondo (Espanha) – Romance – 480 páginas. “Música Lenta” (Rocco) – Rainbow Rowell (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Intermezzo” (Companhia das Letras) – Sally Rooney (Irlanda) – Romance – 488 páginas. “Invisível” (Arqueiro) – Eloy Moreno (Espanha) – Romance – 304 páginas. “Uma Pluma Escondida” (Nós) – Lisa Gizburg (Itália) – Romance – 240 páginas. “Imortalidade: Uma História de Amor – Volume 2 da Série Anatomia” (Intrínseca) – Dana Schwartz (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “A Fita Vermelha” (Planeta) – Lucy Adlington (Inglaterra) – Romance – 256 páginas. “Crianças de Atlanta” (Darkside) – Toni Cade Bambara (Estados Unidos) – Romance – 704 páginas. “Como Amar Uma Filha” (Intrínseca) – Hila Blum (Israel) – Romance – 240 páginas. “Festividade Mortal – Volume 39 da Série Mortal” (Bertrand Brasil) – J. D. Robb/Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “O Ministério do Tempo” (Rocco) – Kaliane Bradley (Camboja/Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “Cutelo e Corvo” (Arqueiro) – Brynne Weaver (Canadá) – Romance – 320 páginas. “O Massacre da Família Hope” (Intrínseca) – Riley Sager (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Contrapeso” (Suma) – Djuna (Coreia do Sul) – Romance – 168 páginas. “Quando As Mulheres Eram Dragoas” (Gutenberg) – Kelly Barnhill (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Jane Austen Investiga” (Rocco) – Jessica Bull (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “Misfit - Rebelde” (Essência) – Elle Kennedy (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Beleza Oculta” (Arqueiro) – Lucinda Riley (Irlanda) – Romance – 496 páginas. “O Que Existe” (Autêntica Contemporânea) – Sara Torres (Espanha) – Romance – 224 páginas. “Garotas Brilhantes” (Rocco) – Jessica Knoll (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Boulevard” (Outro Planeta) – Flor Salvador (México) – Romance – 352 páginas. “Só Mais Uma Comédia Romântica” (Arqueiro) – Katelyn Doyle (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Aqua Tofana” (Darkside) – Cathryn Kemp (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “As Planícies” (Todavia) – Gerald Murnane (Austrália) – Novela – 112 páginas. “Stardust” (Autêntica Contemporânea) – Léonora Miano (Camarões) – Novela – 144 páginas. “Um Ditador na Linha” (Companhia das Letras) – Ismail Kadaré (Albânia) – Novela – 144 páginas. “Leve Como Ar” (Todavia) – Ada d’Adamo (Itália) – Novela – 144 páginas. “O Homem que Tinha Tudo, Tudo, Tudo” (Todavia) – Miguel Ángel Asturias (Guatemala) – Novela – 128 páginas. “Perder o Juízo” (Instante) – Ariana Harwicz (Argentina) – Novela – 128 páginas. “Monique Se Liberta” (Todavia) – Édouard Louis (França) – Novela – 96 páginas. “Pequenas Coisas Como Estas” (Relicário) – Claire Keegan (Irlanda) – Novela – 128 páginas. “No Degrau de Ouro” (Editora 34) – Tatiana Tolstáia (Rússia) – Coletânea de Contos – 240 páginas. “A Cidade das Mulheres” (Editora 34) – Christine de Pizan (Itália) – Coletânea de Contos – 304 páginas. “Natureza Macabra – Fungos” (Darkside) – Silvia Moreno-Garcia (México), Orrin Grey (Estados Unidos), Ernst Haeckel (Alemanha), Adolphe Philippe Millot (França) e A. Cornillon (França) – Coletânea de Contos – 320 páginas. “Princesas Quase Esquecidas” (Wish) – Edith Nesbit (Inglaterra), Mary De Morgan (Inglaterra), Parker Fillmore (Estados Unidos), Helge Kjellin (Suécia), Andrew Lang (Escócia), George Macdonald (Escócia), Yei Theodora Ozaki (Japão), Flora Annie Steel (Índia/Inglaterra), Elsie Spicer Eells (Estados Unidos) e Ethel L. McPherson (Canadá) – Coletânea de Contos – 272 páginas. “Um Fogo Na Carne – Volume 3 da Série Carne e Fogo” (Galera) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 700 páginas. “A Maldição de Prata – Volume 1 da Série Maldição de Prata” (Galera) – Alexandra Bracken (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 504 páginas. “A Rainha do Submundo” (Galera) – Bea Fitzgerald (Inglaterra) – Infantojuvenil – 462 páginas. “Na Luz Selvagem” (Seguinte) – Jeff Zentner (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 424 páginas. “Um Amor Sem Freios” (Intrínseca) – Simone Soltani (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Atrás da Rede – Série Vancouver Storm” (Paralela) – Stephanie Archer (Canadá) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Só Por Um Verão” (Paralela) – Elle Kennedy (Canadá) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Filhos de Aflição e Anarquia – Volume 3 da Série O Legado de Orïsha” (Rocco) – Tomi Adeyemi (Nigéria/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Queria Que Você Estivesse Aqui” (Verus) – Jodi Picoult (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Com Um Pouco de Sorte” (Rocco) – Marissa Meyer (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Jogando No Seu Time” (Rocco) – Meryl Wilsner (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Sem Rótulos” (Verus) – Alissa DeRogatis (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 280 páginas. “Criaturas Impossíveis – Volume 1” (Faro) – Katherine Rundell (Inglaterra) – Infantojuvenil – 256 páginas. “A Lenda dos Amigos” (Pequena Zahar) – Lee Gee Eun (Coreia do Sul) – Infantil – 80 páginas. “O Dia Em Que Virei Um Pássaro” (Pequena Zahar) – Ingrid Chabbert (França) – Infantil – 48 páginas. “Toda Ruga Tem Uma História” (Companhia das Letrinhas) – David Grossman (Israel; autor) e Maya Shleifer (Rússia/Israel; ilustradora) – Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Meu Lance É Poesia” (WMF Martins Fontes) – Cazuza – 320 páginas. “Meu Braço Esquerdo” (Civilização Brasileira) – Viviane Mose – 266 páginas. “Felizes Por Enquanto” (Planeta) – Geni Núñez – 160 páginas. “E Depois Também” (Círculo de Poemas) – João Bandeira – 40 páginas. Hoje fico por aqui, pessoal. E, por favor, não se esqueçam: enquanto o mundo gira, a gente lê; fazer o quê? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Melhores Músicas Ruins: Brasil – Premiação de 2024
Às vésperas do Natal, o Bonas Histórias tem o prazer de apresentar os vencedores da décima edição da tradicional premiação da Música Brasileira. Confira as 24 melhores canções nacionais ruins deste ano, conforme a rigorosíssima avaliação feita pelo corpo de jurados do SOSAMOR, a Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins . O Natal já está aí, senhoras e senhores do cada vez mais quente (posso dizer infernal?) Brasil! Em um piscar de olhos, Papai Noel (com seus pesados casacos vermelhos e trenó com renas saltitantes) baterá à porta daqueles que têm porta. E para presentear os leitores do Bonas Histórias com algum regalito nem um pouco especial (como se alguém tivesse se comportado entre janeiro e dezembro e merecesse muita coisa neste finalzinho de ano), temos a honra de divulgar com exclusividade os vencedores da décima edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins . É isso mesmo o que você leu, incauto(a) visitante das tortuosas páginas deste blog escondido nos recônditos da internet em língua portuguesa. A honraria tão desejada (ou não) pelos intérpretes e compositores brasileiros alcançou, em 2024, a surpreendente marca de 10 anos de existência. Quem disse que apenas o que é bom consegue perdurar por muito tempo, hein?! Para quem ainda não conhece o Melhores Músicas Ruins (seja bem-vindo à Terra, querido marciano ou querida marciana), aviso (sem medo do meu nariz crescer ainda mais) que se trata do mais prestigiado e aguardado evento da Música Brasileira (depois de todos os outros, claro). Tal qual o Guia Michelin para a Gastronomia , o Oscar para o Cinema , o Jabuti para a Literatura , o IgNobel para as ciências não naturais e AVN Award para a indústria do desespero, essa tradicional premiação musical é capaz de transformar completamente a carreira dos vencedores e dos perdedores do dia para a noite – só não me pergunte se para melhor ou pior. Não acredita no que estou dizendo (ou, no caso, escrevendo), oh pá?! Ai, ai, ai. Assim fica difícil para um pobre escriba propagar uma boa fake news por aí, né? Por favor, faça a sua parte como leitor(a) ingênuo(a) e desmiolado(a) – todo mundo tem um pouco dessa persona dentro de si. O povo acredita em coisas muito piores no WhatsApp, no Telegram e nas igrejas e não faz quaisquer contestações. Por que você não pode crer em uma sequência de míseros e singelos absurdos da minha parte, hein?! Me ajude a te ajudar, poxa vida! Para corroborar com o que estou falando (tá bom, escrevendo), veja o que se passou com Ana Castela (de “Solteiro Forçado”, hit ganhador do Melhores Músicas Ruins de 2023 ), Juliano Maderada & Tiago Doidão (de “Tá Na Hora do Jair Já Ir Embora”, campeão do Melhores Músicas Ruins de 2022 ) , Raí Saia Rodada (de “Tapão na Raba”, vencedor do Melhores Músicas Ruins de 2021 ) , Guilherme & Benuto (de “Três Batidas”, primeiro colocado no Melhores Músicas Ruins de 2020 ), Marília Mendonça (de “Todo Mundo Vai Sofrer”, obra-prima reconhecida pelo Melhores Músicas Ruins de 2019 ), Thiago Brava (de “Dona Maria”, grande hit do Melhores Músicas Ruins de 2018 ), MC Livinho (de “Fazer Falta”, primeiríssimo colocado no Melhores Músicas Ruins de 2017 ), Anitta (de “Essa Mina É Louca”, faixa número um no Melhores Músicas Ruins de 2016 ) e Edson & Hudson (de “Meu Amor é Dez”, clássico da nossa cultura popular que foi enfim cultuado pelo Melhores Músicas Ruins de 2015 ). Sejamos realistas: esses artistas só foram alçados ao mais elevado patamar do show business brasileiro depois que receberam a supracitada honraria. Se eu não estiver enganado (às vezes, acontece de eu me enganar um tantinho, tá?), vários desses músicos citaram em suas biografias que só atingiram efetivamente o auge profissional quando subiram ao palco para colocar as mãozinhas no cobiçado prêmio concedido anualmente pelo Bonas Histórias . Para aqueles que ainda não o faturaram, tal qual Messi antes da Copa do Mundo de 2022, a sensação é que falta alguma coisa importante na longa trajetória de êxito. É amigo, haja emoção! Ciente da importância crescente do Melhores Músicas Ruins , procuramos torná-lo cada vez melhor e mais plural ao longo desses anos. O evento é organizado desde o início pelo Bonas Histórias e apresentado em uma festa de arromba (Roberto Carlos e Erasmo Carlos cantariam: “Hey, hey, que onda/Que festa de arromba”). Às vezes, os festejos são programados para dezembro, às vezes para janeiro. Tudo depende da vontade dos patrocinadores e, principalmente, do nível de esquecimento dos organizadores na hora de reservar as datas nos teatros. Como disse, estamos procurando tornar o Melhores Músicas Ruins melhor a cada edição – o que não quer dizer que conseguimos nem que tenhamos chegado a um nível de excelência minimamente aceitável. A nova edição, especial de uma década, foi realizada na semana retrasada em Mi Buenos Aires Querido (pela primeira vez, a premiação ocorreu fora de São Paulo e do Brasil). Ela contou com a presença de ilustres personalidades do mundo artístico (beijo, Scarlett Johansson, China Soares, Lou de Laâge e Isis Valverde) e de patrocinadores gabaritados (abraço, diretorias da EV Publicações , Epifania Comunicação Integrada e Dança & Expressão ). Dessa vez, a divulgação do Melhores Músicas Ruins aconteceu em conjunto com a Festa de Aniversário de 10 anos do Bonas Histórias . Daí a maior dimensão do evento. Como reza a tradição, o júri avaliador do prêmio é constituído por integrantes do SOSAMOR (pronuncia-se SOS AMOOOOOOOOOOR), a Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins. Seus membros (estou falando das pessoas...) passam o ano inteiro selecionando as pérolas que entram à força por seus orifícios auriculares e, na proximidade do Ano-Novo Cristão, têm a paciência de Jó de se reunir para discuti-las e quantificá-las. Santo Deus! Se essa gente não for para o Céu (sem escala), ninguém mais vai. Chega de lero-lero e diz-que-me-diz. Sem mais voltas, vamos diretamente para o que o povo gosta – os vencedores da mais recente edição. Em 2024, o Orelhão de Ouro (a estatueta do 1º lugar tem esse nome – a culpa não é minha!) foi para “Lua” , mistura de Sertanejo , Hip Hop e Eletrônico . A faixa campeã é interpretada por Ana Castela e Hungria . De maneira inédita no Melhores Músicas Ruins , tivemos uma bicampeã. A Boiadeira, essa menina encantadora e talentosíssima de apenas 21 aninhos, não apenas levou seu segundo troféu dourado para casa como o fez de maneira consecutiva. E como já havia acontecido no ano passado, Aninha não é cantora de apenas um hit. Novamente, ela emplacou mais de um sucesso em nossa premiação. A nona melhor canção deste ano é “RAM Tchum” , mix de Sertanejo e Funk . Lançada em parceria com Dennis e MC GW , essa faixa de Ana Castela esteve envolvida em graves acusações de plágio no primeiro semestre. Independentemente da originalidade e da verdadeira autoria, o SOSAMOR analisou essa composição estritamente por sua qualidade musical e a colocou no Top 10 da temporada. “Lua” e “RAM Tchum” indicam algumas tendências entre as faixas que chegaram ao topo da Música Verdadeiramente Popular Brasileira (MVPB). Logo de cara, dá para dizer que várias canções premiadas mesclam gêneros musicais. É um tal de Sertanejo com Hip Hop, Hip Hop com Funk, Funk com Pagode , Pagode com Forró , Forró com Eletrônico , Eletrônico com não sei mais o quê e não sei mais o quê com alguma coisa que não sei o nome. Se ainda estivesse vivo (não está?!), certamente Raul Seixas acharia que os colegas contemporâneos estão imitando sua versatilidade musical. Como gosto dessas misturebas (sou do tipo que adora misturar requeijão com bolacha recheada de chocolate no lanche da tarde), confesso que fico feliz de ver a pluralidade das novas composições nacionais. A segunda observação que podemos fazer é que o Sertanejo continua reinando absoluto do Oiapoque ao Chuí. Das 24 melhores composições de 2024, nada mais, nada menos do que 11 são desse gênero musical – aproximadamente 46% da lista vencedora, se eu ainda estiver usando corretamente a calculadora. Além de Ana Castela, Lauana Prado ( “Depois” e “Haverá Sinais” ), Simone Mendes ( “Dois Tristes” ), Paula Fernandes ( “Amor Simprão” ), Jorge & Mateus (“Haverá Sinais”), Traia Véia ( “Wi-Fi” ) seguem imbatíveis quando o quesito é chegar ao topo das paradas de sucesso do Sertanejo e conquistar novos Orelhões de Lata (estatuetas do 4º ao 24º lugar) da nossa premiação. Até Bruna Viola (com “Amor Simprão”), quem diria, resolveu aparecer neste ano no Melhores Músicas Ruins . Afinal, quem nunca cometeu deslizes na carreira, não é mesmo? Outras surpresas positivas da nova safra sertaneja ficaram por conta da ascensão de Kaique & Felipe (de “Saveiro” ), Felipe & Rodrigo ( “Gosta de Rua” ), Luiza Martins ( “Carinho e Respeito” ) e Luan Pereira ( “Eu Sou Sentimento” , “Wi-Fi” e “Saveiro”), figuras até então desconhecidas do grande público. Por falar em Luan Pereira, ele foi o cantor com mais hits emplacados na premiação deste ano – três faixas. Curiosamente, em nenhuma dessas músicas ele foi o intérprete-protagonista. Pereira foi sempre o cantor convidado (atuou com coparticipação) dos hits premiados com o Orelhão de Lata. Nada como ter bons amigos nessa vida, hein?! Contudo, a grande revelação de 2024, já que estamos falando do Sertanejo, foi “Só Fé” , música chiclete que transformou Grelo no cantor onipresente nos quatro cantos do Brasil. Se você passou ao menos 24 horas no Brasil no último ano, certamente escutou (e se lembra) desse hit. Executado ininterruptamente nas redes sociais por dias, semanas e meses, “Só Fé” conquistou o Orelhão de Bronze (terceiro lugar). Nada mal para quem não precisava de muito na vida para ser feliz, além do dinheiro para comprar o mé, o leitinho das crianças e o modes da muié. O resto é só fé, só fé, só fé. Já que falamos do Orelhão de Bronze, tenho a obrigação de revelar o Orelhão de Prata (segundo colocado no Melhores Músicas Ruins ) desta temporada, por mais que meu coraçãozinho bata mais forte só de pensar nessa música. A desejada estatueta prateada foi para a incrível (quase escrevi apaixonante) “Do Jeito que Você Mete” , Funk de MC Thaizinha com DJ L30 . Essa obra-prima da música brasileira traz uma letra poética, sensível e bastante romântica – ideal para casais em início de relacionamento. O mais interessante é que ela vem com um batidão contagiante que explica o porquê Thaizinha voltou. Impossível não ficarmos encantados com essa criação artística (e com as suas ouvintes mais entusiasmadas). No caso, o “voltou” é porque MC Thaizinha foi finalista da premiação do ano retrasado com o inesquecível “Tuf Tuf Pof Pof”, cuja interpretação foi feita em parceria com MC Reino, MC Babu e MC PR. Contudo, a antiga canção não foi premiada nem mesmo com um Orelhão de Lata – uma polêmica que até hoje os integrantes do SOSAMOR não conseguiram explicar. Para mim, foi uma das maiores injustiças da história. Para quem pensou que “Do Jeito que Você Mete” é o único funkão-raiz da nossa seleta lista, saiba que há também “Pocpoc” , de Pedro Sampaio (qualquer semelhança com “Tuf Tuf Pof Pof” não é mera coincidência), e “Let's Go 4” , de DJ GBR , IG , Ryan SP , PH , Davi , Luki , Don Juan , Kadu , GH do 7 , GP e TrapLaudo (e a torcida do Flamengo e do Corinthians). Para provar que o mundo musical brasileiro não gira apenas em torno das estrelas do Sertanejo e do Funk, informo que o Melhores Músicas Ruins de 2024 traz faixas de Axé ( “Macetando” , de Ivete Sangalo e Ludmilla ), Pop Romântico (“Eu Sou Sentimento”, de Luan Santana e Luan Pereira, “Eduardo e Mônica dos Dias Atuais” , de Gabi Fernandes , e “Clone” , Luan Santana), Pagode ( “Coração Partido” , do Grupo Menos é Mais ), Hip-Hop/ Rap ( “Carta Aberta” , de MC Cabelinho ), POP ( “Sagrado Profano” , de Luísa Sonza e KayBlack ), Forró ( “Página de Ex” , de Mari Fernandez ) e Eletrônico ( “Físico” , de Suel ). Provando que nossa premiação é cada vez mais versátil e, por que não, internacional, nesse ano ainda tivemos um exemplar do melhor do Reggaeton , a versão caribenha do Reggae (que é uma febre em quase toda a América Latina, menos no Brasil, país que acredita não ser latino-americano). A façanha de ter colocado o Reggaeton no Melhores Músicas Ruins foi de um dos meus cantores estrangeiros favoritos, Manu Chao . A faixa “São Paulo Motoboy” é cantada em português e é terrivelmente boa. Quem gosta de música ruim não pode perdê-la. Seja muito bem-vindo, Chao, à nossa prestigiosa premiação! Depois de comentarmos rapidamente os perfis e as qualificações dos vencedores (seção do post também conhecida como “enrolação pura” ou “encheção de linguiça” para o conteúdo da página ficar maior), vamos agora à lista completa dos ganhadores do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2024 : 24ª posição: “Saveiro” – Kaique & Felipe e Luan Pereira – Sertanejo 23ª posição: “Físico” – Suel – Pop e Eletrônico 22ª posição: “Página de Ex” – Mari Fernandez – Forró 21ª posição: “Let's Go 4” – DJ GBR, IG, Ryan SP, PH, Davi, Luki, Don Juan, Kadu, GH do 7, GP e TrapLaudo – Funk 20ª posição: “Gosta de Rua” – Felipe & Rodrigo – Sertanejo 19ª posição: “Carinho e Respeito” – Luiza Martins – Sertanejo 18ª posição: “Pocpoc” – Pedro Sampaio – Funk 17ª posição: “Sagrado Profano” – Luísa Sonza e KayBlack – Pop 16ª posição: “Amor Simprão” – Bruna Viola e Paula Fernandes – Sertanejo 15ª posição: “Clone” – Luan Santana – Pop Romântico 14ª posição: “São Paulo Motoboy” – Manu Chao – Reggae e Reggaeton 13ª posição: “Wi-Fi” – Traia Véia e Luan Pereira – Sertanejo 12ª posição: “Carta Aberta” – MC Cabelinho – Hip-Hop/Rap 11ª posição: “Haverá Sinais” – Jorge & Mateus e Lauana Prado – Sertanejo 10ª posição: “Eduardo e Mônica dos Dias Atuais” – Gabi Fernandes – POP Romântico 9ª posição: “RAM Tchum” – Ana Castela, Dennis e MC GW – Sertanejo e Funk 8ª posição: “Dois Tristes” – Simone Mendes – Sertanejo 7ª posição: “Coração Partido" – Grupo Menos é Mais – Pagode 6ª posição: “Eu Sou Sentimento” – Luan Santana e Luan Pereira – Pop Romântico 5ª posição: “Macetando” – Ivete Sangalo e Ludmilla – Axé e Funk 4ª posição: “Depois” – Lauana Prado – Sertanejo 3ª posição: “Só Fé” – Grelo – Sertanejo 2ª posição: “Do Jeito que Você Mete” – MC Thaizinha e DJ L30 – Funk 1ª posição: “Lua” – Ana Castela e Hungria – Sertanejo, Hip Hop e Eletrônico No mês que vem, prometo regressar à coluna Melhores Músicas Ruins . Afinal, a partir desta temporada não ficaremos restritos às maravilhas da música brasileira. Nananinanão. Agora nossa premiação terá um braço internacional – surgiu (que rufam os tambores) o Melhores Músicas Ruins da América Latina. Uhu! É isso mesmo que você leu, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Se você já pensava em cometer suicídio ao ler (e ouvir) o conteúdo de um post por ano, agora teremos duas premiações anuais (versão Brasil e versão América Latina). Quem tiver estômago forte e espírito aventureiro, faço o convite para conferir as novidades musicais do próximo mês do blog. Já adianto que o Melhores Músicas Ruins da América Latina está pessimamente bom. Enquanto o apocalipse não chega, sugiro que todos aproveitem o Natal, independentemente do credo e do cruz-credo. Ótimas festas para vocês, amigos das boas e das más músicas. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas . 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