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  • Livros: Farewell – A despedida poética de Carlos Drummond de Andrade

    Nesta terça-feira de Carnaval, li “Farewell” (Companhia das Letras), coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Para quem ainda não experimentou misturar poesia com folia, recomendo. É muito interessante e prazeroso acrescentar um pouco de literatura (seja em prosa ou em verso) aos eventos carnavalescos. Já pensando nisso, procurei, no último final de semana, uma obra na biblioteca da casa do meu pai, um grande fã de poesia e do trabalho literário de Drummond. E em uma estante meio empoeirada achei “Farewell”. Sem pensar duas vezes, peguei o livro emprestado. Apesar de não ser um dos títulos mais famosos do poeta mineiro, fiquei curioso para conhecê-lo. Os originais de “Farewell” foram encontrados no escritório da casa de Carlos Drummond de Andrade na Rua Conselheiro Lafaiette, em Ipanema, logo após a morte do escritor, em 17 de agosto de 1987. Ou seja, estamos falando aqui de uma obra póstuma e escrita na fase final de vida do seu autor. O material estava guardado em uma pasta de cartolina azul-clara. Acredita-se que o principal poeta brasileiro do século XX tenha concluído os textos do livro pouco antes de falecer. De certa forma, como diz o próprio título da obra (Farewell em inglês significa despedida), esta coletânea de poemas seria um testamento, um adeus do escritor aos seus leitores. A ideia de Drummond era lançá-la apenas após a sua morte. E, assim, foi feita a sua vontade. Apesar de Drummond deixar o livro prontinho para publicação, “Farewell” precisou de nove anos até chegar às livrarias. Provavelmente, a família tinha outras preocupações nesta época e as editoras não pareceram tão interessadas em lançar mais um Drummond. Ou, o que é mais provável, todos tenham percebido que o conteúdo do livro estava longe de ser excepcional. Assim, apenas em 1996, a obra foi publicada. Apesar das vendas tímidas e da receptividade modesta da crítica, a coletânea de poemas surpreendentemente recebeu o principal prêmio literário do Brasil no ano seguinte. Sim, “Farewell” conquistou o Jabuti de 1997 na categoria Poesia. Ou seja, mesmo apresentando um material longe do seu esplendor, Carlos Drummond de Andrade ainda sim conseguia encantar os avaliadores do Prêmio Jabuti e superar os poetas contemporâneos. “Farewell” possui 49 poemas. Distribuídas em 112 páginas, essas poesias estão organizadas em ordem alfabética. A exceção é o primeiro poema, não por acaso chamado de “Unidade”. A unidade aqui refere-se ao elemento que liga todos os aspectos da vida. Em sua despedida poética, Drummond faz uma recapitulação de sua trajetória pessoal, buscando encontrar o elemento que dá sentido à existência. E, na opinião um tanto pessimista do escritor, esse componente seria o sofrimento. Os homens, os animais, os vegetais e, porque não, os minerais (lembremo-nos das pedras no meio do caminho) estão fadados a padecer enquanto estão neste planeta. Os textos de “Farewell” falam, essencialmente, da infância do escritor (em Minas Gerais), dos amores incompletos que teve na mocidade, da dificuldade de encarar a velhice e a aproximação da morte, da rotina simples em seu apartamento, da relação com os netos e da visão do poeta sobre o mundo. Como se usasse este livro para fazer um apanhado geral de sua vida, Carlos Drummond de Andrade escreve uma autobiografia pouquíssimo formal e em versos. De maneira geral, a ideia é excelente (não me recordo de ter visto uma proposta desta em outro lugar). Se a concepção foi boa, sua execução não saiu como o poeta imaginava... Para ser sincero, não gostei de “Farewell”. Em comparação com “Alguma Poesia” (Companhia das Letras), de 1930, e “Sentimento do Mundo” (Companhia das Letras), de 1940, os títulos do autor que mais conheço, esta publicação está muito abaixo em qualidade. Não sei explicar o motivo. Simplesmente os poemas deste livro não me tocaram como os anteriores. Sei que temos em “Farewell” boa parte das características que marcaram a literatura poética de Carlos Drummond de Andrade: versos livres, linguagem coloquial, crítica social, intertextualidade com outros autores e artistas, amor cantado com erotismo, retrato do cotidiano e humor ácido. Mesmo assim, senti que a obra não consegue impressionar nem cativar o leitor mais exigente. A simplicidade poética parece mera preguiça de um autor sem muitos recursos (em alguns casos, textos em prosa foram quebrados em versos sem qualquer preocupação em torná-los de fato poesia). O pessimismo do texto dá a sensação de vir de um homem extremamente rabugento. As frustrações amorosas jogam luz para os arrependimentos e a amargura do coração calejado e muito machucado do poeta. E a banalidade do cotidiano mostra uma rotina entediante de um homem que vivia preso em seu apartamento, meio alienado do mundo, achando beleza em coisas sem qualquer encanto para as demais pessoas. Infelizmente, é essa a sensação que tive ao concluir a leitura de “Farewell”. E, vamos concordar, que essas descrições que fiz neste parágrafo estão longe, muito longe de retratar o verdadeiro Carlos Drummond de Andrade. É inegável que no fim da vida, a literatura de Drummond tenha se tornado tão fraquinha. As crônicas que ele escrevia três vezes por semana para os jornais precisaram ser interrompidas, em 1984, porque viraram alvo de chacota dos colegas jornalistas e de desprezo por parte dos leitores. O autor com uma visão audaciosa da realidade e com um texto revolucionário tinha ficado no passado. Ao invés de amadurecer, como acontece com tantos escritores na fase mais avançada da vida, a literatura de Drummond envelheceu precocemente. É uma pena constatar isso, mas é algo que precisa ser dito com todas as letras. “Farewell” tem alguns bons poemas: leves, engraçados e inteligentes. Gostei particularmente de “Unidade”, “A Ilusão do Migrante”, “Aristocracia”, “As Identidades do Poeta”, “Dois Sonhos”, “Escravo em Papelópolis”, “Fora de Hora” e “Liberdade”. Podemos dizer que todos esses contêm o melhor de Drummond. Por sua vez, “Aparição Amorosa”, “A Loja Feminina”, “Duração” e “Verbos” contêm alguns bons versos, chegando a empolgar. Já o restante dos poemas, achei de uma qualidade muito aquém à literatura de Drummond. A minha frustração se fez principalmente pelo desnível entre os bons momentos do livro e os maus. Essa acentuada ocilação, que não encontrei nas demais obras de Carlos Drummond de Andrade, foi o que chamou mais minha atenção, acarretando na minha visão negativa desta obra. Então, como explicar, Ricardo, o fato de ”Farewell” ter conquistado o Prêmio Jabuti e você estar falando tão mal desta obra, hein?, você pode querer me perguntar. A questão é mesmo ótima. Porém, não sei respondê-la com precisão. Ou os jurados concederam o prêmio quando viram o nome do autor e não repararam como deveriam no material ou eu é quem estava de péssimo humor quando li a publicação. Talvez fui eu quem não tenha pegado toda a beleza e excelência desta coletânea. Será que o Carnaval foi o culpado por distorcer minhas percepções? Pode ser. Quem sabe no próximo ano eu não opte por uma prosa nesta época do ano para não cair no mesmo erro. Talvez caiba a você descobrir sozinho(a) as respostas para as perguntas acima. Leia “Farewell” e tire suas próprias conclusões. E faça isso antes de atirar as pedras em mim por simplesmente criticar uma obra do nosso maior poeta do século passado. Não é porque Carlos Drummond foi excepcional que tudo o que ele tenha feito seja incrível. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CarlosDrummonddeAndrade #Poesia #LiteraturaBrasileira

  • Livros: Extraordinário – O romance de estreia de R. J. Palacio

    Neste final de semana, li um livro espetacular. “Extraordinário” (Intrínseca) é o romance de estreia de R. J. Palacio, uma designer gráfica norte-americana que trabalha há mais de duas décadas no mercado editorial. Depois de cuidar dos projetos gráficos e das capas das obras literárias de centenas de escritores, ela resolveu produzir sua própria história. O resultado não poderia ter sido melhor. “Extraordinário” entrou na lista dos mais vendidos do New York Times, recebeu uma enxurrada de críticas positivas, conquistou prêmios e, por fim, foi adaptado para o cinema. O que um autor iniciante poderia desejar mais de sua publicação de estreia, hein? Adquiri “Extraordinário” em uma visita despretensiosa à livraria na semana passada. Aí, resolvi começar a lê-lo no sábado à tardezinha. Pensei comigo: “Leio um ou dois capítulos do livro e depois saio para ver um filme”. Porém, gostei tanto das primeiras páginas que acabei lendo a obra inteira de uma vez. Cancelei a sessão noturna de cinema e prossegui na leitura do romance até o início da madrugada de domingo. E, confesso, que valeu a pena. “Extraordinário” é o tipo de publicação marcante, que não apenas prende o leitor em suas páginas, mas o faz ficar pensando em sua trama e em suas personagens por alguns dias. Por exemplo, no domingo à noite, eu ainda estava com sua história na cabeça, refletindo sobre as cenas e os acontecimentos do livro. Na segunda-feira de manhã, no trabalho, eu contava para todo mundo (como um chato, admito), o que tinha lido. Tão interessante quanto a trama ficcional em si é a história por trás da criação de “Extraordinário”. R. J. Palacio, cujo nome verdadeiro é Raquel Jaramill (R. J. Palacio é, portanto, um pseudônimo), teve a ideia de escrever um romance sobre uma personagem que tinha Síndrome de Treacher Collins, um distúrbio genético que causa deformação facial, depois de ver uma menininha com essa doença em uma sorveteria de Nova York. A designer gráfica estava com o filho de três anos na fila do sorvete quando ambos se depararam com a criança com Síndrome de Treacher Collins. O filho de Palacio entrou em desespero e começou a chorar e a gritar ao ver o rosto desfigurado da menina. Sem saber o que fazer, Palacio apanhou o filho no colo e saiu correndo do estabelecimento com ele. Sua ideia era acabar com aquela confusão que seu menino estava criando. Contudo, aquela sua atitude só tornou a situação ainda mais constrangedora, como se ela estivesse fugindo de um pequeno monstro na fila. Tempos depois, ao ouvir a música “Wonder”, de Natalie Merchant, a futura escritora entendeu que poderia se redimir da cena lamentável protagonizada por ela na sorveteria. Na canção de Merchant, uma criança com uma doença grave exalta a beleza da vida e a maravilha que é a sua criação por Deus. Um estalo se deu na cabeça de R. J. Palacio. Ela poderia escrever um romance sob o ponto de vista da família e da criança com Síndrome de Treacher Collins. Seria sua forma de se redimir e de pedir desculpas à mãe e à menininha que conheceu por acaso na fila do sorvete. Publicado em 2012, “Extraordinário” narra o drama de um menino de dez anos com a face desfigurada que precisa encarar o desafio de ingressar em uma escola. A crítica literária recebeu o livro com muitos elogios. A autora conseguiu apresentar uma história delicada sobre bullying infantil e preconceitos sociais com beleza e sensibilidade. Em poucos meses, a obra já figurava na lista das ficções mais vendidas dos Estados Unidos. “Extraordinário” ganhou o Prêmio Mark Twain Readers de 2015, concedido ao melhor romance infantil. E, em 2017, o livro de R. J. Palacio foi levado às telonas do mundo todo. O filme foi dirigido por Stephen Chbosky, de “As Vantagens de Ser Invisível” (The Perks of Being a Wallflower: 2012), e teve no elenco Julia Roberts e Owen Wilson. O longa-metragem foi um grande sucesso de bilheteria. Só no Brasil, teve mais de 6 milhões de espectadores. No livro, conhecemos Auggie Pullman, um garoto de Nova York que tem Síndrome de Treacher Collins. Desde que nasceu, Auggie já passou por várias cirurgias plásticas, mas ainda sim seu rosto apresenta uma configuração bem distinta do da maioria das pessoas. Seu aspecto causa reações de espanto e choque nas pessoas. Ele e sua família se acostumaram a isso. Para passar despercebido, o menino usou por muitos anos um capacete de astronauta, presente de uma amiga da irmã mais velha. Por causa das inúmeras internações hospitalares e das cirurgias que precisou enfrentar, Auggie nunca pôde frequentar a escola. A responsável por ensiná-lo em casa era a mãe, Isabel, filha de brasileiros. Com o fim das visitas prolongadas aos hospitais e com os dez anos de vida completados, Auggie Pullman já pode em tese começar a frequentar à escola pela primeira vez. Contudo, ele estará preparado para encarar as outras crianças em um ambiente tão cheio de bullying como é o colégio? É essa dúvida que angustia não apenas o menino como os seus pais também. Depois de muitas reflexões e de discussões acaloradas, a família resolve matricular Auggie no quinto ano do Beecher Prep, uma escola particular. “Extraordinário” narra basicamente o primeiro ano letivo de Auggie. É diante dos colegas que o menino precisará encarar as maiores adversidades de sua vida. Ele terá de superar os preconceitos e as maldades de alunos e dos pais dos alunos do colégio. Como será a vida do garoto à medida que precisará conviver com pessoas intolerantes à sua condição? Além da ótima história, o livro de R. J. Palacio tem algumas sacadas geniais. A primeira delas que gostaria de exaltar é a da multiplicidade de foco narrativo. As 320 páginas do romance estão divididas em 8 partes onde diferentes personagens apresentam seu ponto de vista sobre o conflito principal. Assim, sabemos o que está acontecendo não apenas pela perspectiva de Auggie (o narrador dos capítulos das partes I, VI e VIII), mas também pelo de Via Pullman, a irmã mais velha do personagem principal (parte II), de Summer, a melhor amiga de Auggie (parte III), de Jack Will, o melhor amigo do protagonista (parte IV), de Justin, o namorado de Via (parte V) e de Miranda, antiga melhor amiga de Via (parte VII). Além de dar mais agilidade à história, esse mergulho na mente e na vida das várias personagens (todas crianças e adolescentes, nenhuma adulta) mostra que cada um possui seus próprios medos e dramas que precisam ser superados de uma forma ou outra. Se o leitor acha, em um primeiro momento, que só Auggie Pullman tem desafios para encarar, durante o romance compreendemos que não é bem assim. A menina inteligente e bonita e o rapaz forte e saudável também carregam uma enxurrada de problemas que precisam ser resolvidos com coragem. A construção das personagens é outro aspecto elogiável da obra. Todas as personagens, tanto as principais quanto as secundárias, são indivíduos de grande complexidade. Na maior parte das vezes, elas são figuras redondas, carregadas de aspectos positivos e negativos e apresentando comportamentos dúbios. Nesse sentido, os melhores exemplares dessa constatação são Jack Will e Via Pullman. Por sua vez, o antagonista, Julian, é uma personagem plana (admitamos o quão difícil é criar vilões redondos na ficção!). Também gostei das várias citações que a autora faz a elementos da música, da literatura e do cinema. Eles dialogam muito bem com o conteúdo deste livro. Por isso temos acesso aos versos mais fortes de “Wonder”, a canção de Natalie Merchant. Essa intertextualidade enriquece a obra de R. J. Palacio e confere uma beleza maior as palavras apresentadas pela autora. O desfecho do romance é o momento mais emocionante da trama. Confesso que fui às lágrimas. Não imaginava (talvez eu seja um ingênuo) um final tão belo como o exposto pela romancista norte-americana. Também gostei do ritmo da narrativa, cheio de ação, reviravoltas e cenas marcantes. “Extraordinário” possui sim uma bela história, mas é, acima de tudo, um romance muitíssimo bem escrito. R. J. Palacio mostra-se uma escritora criativa e de muitos recursos. Seu texto é, ao mesmo tempo, delicado e contundente. Ela sabe trabalhar assuntos bastante delicados com graça e leveza, tornando seu manuseio aparentemente fácil. Se a ideia inicial de “Extraordinário” era pedir desculpas para a mãe e para a menininha com Síndrome de Treacher Collins na fila do sorvete (algo exposto sem rodeios nos agradecimentos da obra), gostaria que a autora soubesse que estou aguardando a próxima pisada na bola dela. Na certa, a literatura terá a ganhar com novos pedidos de desculpas como este. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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  • Desafio Literário: Quinta Edição - Calendário de 2019

    O Desafio Literário chega, em 2019, à sua quinta edição. Nos quatro anos anteriores, investigamos, no Bonas Histórias, a literatura de 29 renomados escritores. Esses artistas das palavras vieram de todas as partes do mundo, eram de diferentes épocas e tinham estilos completamente distintos. Para criar os perfis estilísticos desse grupo de autores, foram lidos e analisados, neste período, 157 livros. Todos os posts, tanto dos títulos avaliados quanto das conclusões obtidas sobre a literatura desses escritores, estão disponíveis para consulta. Os leitores do blog podem acessar esse material na coluna Desafio Literário. Nossa lista de autores estudados é formada, até este momento, por Mia Couto (Moçambique), Nick Hornby (Inglaterra), Jorge Amado (Brasil), John Green (Estados Unidos), Ignácio de Loyola Brandão (Brasil), Harlan Coben (Estados Unidos), Stephen King (Estados Unidos), Graciliano Ramos (Brasil), Agatha Christie (Inglaterra), Pablo Neruda (Chile), Sidney Sheldon (Estados Unidos), Paulo Coelho (Brasil), Khaled Hosseini (Afeganistão), Italo Calvino (Itália), Machado de Assis (Brasil), Régine Deforges (França), Haruki Murakami (Japão), Nora Roberts (Estados Unidos), Markus Zusak (Austrália), Lya Luft (Brasil), Ondjaki (Angola), J. M. Coetzee (África do Sul), Juan Carlos Onetti (Uruguai), Herta Muller (Alemanha), Rubem Fonseca (Brasil), Xinran (China), Albert Camus (França), Patricia Highsmith (Estados Unidos) e Fernando Sabino (Brasil). Ufa! Acho que não esqueci ninguém. Para esta nova edição do Desafio Literário, mantivemos os mesmos critérios de seleção dos anos anteriores. Para um nome ser incluído em nossos estudos, seu trabalho literário precisa basicamente apresentar duas características: sucesso editorial (no âmbito da crítica literária e/ou do público leitor) e relevância artística (obras em quantidade e em qualidade que marcaram suas épocas e seus países). Quando um autor possui esses dois elementos concomitantemente, ele tem chances de ser contemplado em nossas investigações literárias. Para a escolha definitiva dos nomes, tentamos fugir de preconceitos (por exemplo, da distinção entre “Alta Literatura” e “Baixa Literatura”), de rótulos (“esse autor é bom e este é ruim”) e do desconhecimento (“não li, mas eu não gosto”). Nosso lema no Bonas Histórias é: “Literatura na veia! Sem frescura e sem preconceitos”. Como até aqui esses princípios têm dado certo, a proposta é permanecermos com eles. Além disso, tentamos, todos os anos, montar uma lista plural no Desafio Literário. A outra palavra da nossa brincadeira literária é heterogeneidade. Ou seja, a ideia é trazer nomes que abranjam diferentes regiões do planeta (ao menos um de cada continente) e gêneros sexuais (homens e mulheres). Também tentamos variar os estilos literários (romances policiais, histórias românticas, ficções científicas, tramas históricas, fábulas, críticas políticas, denúncias sociais, etc.), os gêneros narrativos (romances, novelas, coletânea de contos e livros de crônicas), categorias literárias (prosa e poesia), propostas editoriais (literatura comercial e literatura clássica), escolas literárias (Romantismo, Realismo, Modernismo, Pós-Modernismo, etc.) e épocas (mix entre passado e presente). Quando conseguimos misturar tudo isso, aí sim acreditamos ter encontrado um bom cardápio de leitura. Com esses pressupostos em mente, desenvolvemos a lista de autores que serão analisados em 2019. Afinal de contas, o trabalho de investigação da literatura dos grandes nomes de ontem e de hoje deve continuar no Blog Bonas Histórias. Confira, a seguir, o calendário de posts do Desafio Literário deste ano. Calendário do Desafio Literário de 2019 do Bonas Histórias: - Abril – José Saramago (Portugal) 1º de abril – Introdução à Literatura de José Saramago 5 de abril - "Memorial do Convento" (1982) 9 de abril - "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984) 13 de abril - "A Jangada de Pedra" (1986) 17 de abril - "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991) 21 de abril - "Ensaio sobre a Cegueira" (1995) 25 de abril - "Caim" (2009) 29 de abril – Análise Literária de José Saramago - Maio – Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria) 1º de maio – Introdução à Literatura de Chimamanda Ngozi Adichie 5 de maio - "Hibisco Roxo" (2003) 9 de maio - "Meio Sol Amarelo" (2006) 13 de maio - "No Seu Pescoço" (2009) 17 de maio - "Americanah" (2013) 21 de maio - "Sejamos Todos Feministas" (2014) 25 de maio - "Para Educar Crianças Feministas" (2017) 29 de maio - Análise Literária de Chimamanda Ngozi Adichie - Junho – Noah Gordon (Estados Unidos) 2 de junho – Introdução à Literatura de Noah Gordon 6 de junho - "O Rabino" (1965) 10 de junho - "O Diamante de Jerusalém" (1979) 14 de junho - "O Físico" (1986) 18 de junho - "O Xamã" (1992) 22 de junho - "O Último Judeu" (2000) 26 de junho - "La Bodega" (2007) 30 de junho - Análise Literária de Noah Gordon - Julho – Orhan Pamuk (Turquia) 2 de julho – Introdução à Literatura de Orhan Pamuk 6 de julho - "A Casa do Silêncio" (1983) 10 de julho - "Vida Nova" (1994) 14 de julho - "Meu Nome é Vermelho" (1998) 18 de julho - "Neve" (2002) 22 de julho - "Istambul – Memória e Cidade" (2003) 26 de julho - "Uma Sensação Estranha" (2014) 30 de julho - Análise Literária de Orhan Pamuk - Agosto – Rachel de Queiroz (Brasil) 1º de agosto – Introdução à Literatura de Rachel de Queiroz 5 de agosto - "O Quinze" (1930) 11 de agosto - "As Três Marias" (1939) 15 de agosto - "Dôra, Doralina" (1975) 19 de agosto - "As Menininhas e Outras Crônicas" (1976) 23 de agosto - "Cafute e Pena-de-Prata" (1986) 27 de agosto - "Memorial de Maria Moura" (1992) 31 de agosto - Análise Literária de Rachel de Queiroz - Setembro – Milan Kundera (República Tcheca) 2 de setembro – Introdução à Literatura de Milan Kundera 6 de setembro - "A Brincadeira" (1967) 10 de setembro - "Risíveis Amores" (1969) 14 de setembro - "A Insustentável Leveza do Ser" (1983) 18 de setembro - "A Arte do Romance" (1986) 22 de setembro - "A Imortalidade" (1990) 26 de setembro - "A Festa da Insignificância" (2014) 30 de setembro - Análise Literária de Milan Kundera - Outubro – Gabriel García Márquez (Colômbia) 2 de outubro – Introdução à Literatura de Gabriel García Márquez 6 de outubro - "Relato de Um Náufrago" (1955) 10 de outubro - "Ninguém Escreve ao Coronel" (1961) 14 de outubro - "Cem Anos de Solidão" (1967) 18 de outubro - "Crônica de Uma Morte Anunciada" (1981) 22 de outubro - "Amor nos Tempos de Cólera" (1985) 26 de outubro - "Memória de Minhas Putas Tristes" (2004) 30 de outubro - Análise Literária de Gabriel García Márquez - Novembro – Colleen McCullough (Austrália) 1º de novembro – Introdução à Literatura de Colleen McCullough 5 de novembro - "Tim" (1974) 9 de novembro - "Pássaros Feridos" (1977) 13 de novembro - "Uma Obsessão Indecente" (1981) 17 de novembro - "O Primeiro Homem de Roma" (1990) 21 de novembro - "Liga, Desliga" (2006) 25 de novembro - "Assassinatos Demais" (2009) 29 de novembro - Análise Literária de Colleen McCullough Espero que vocês tenham gostado do calendário do Desafio Literário de 2019. E se gostaram, fica desde já o convite para vocês lerem e analisarem comigo essa coletânea. São 48 obras de 8 autores que serão apresentados no Blog Bonas Histórias durante este ano. Sejam bem-vindos ao que há de melhor na literatura mundial. Boas leituras e ótimas análises para todos nós. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnáliseLiterária

  • Livros: Sessão – A Escrita Não Criativa de Roy David Frankel

    Li, neste final de semana, um dos livros mais inusitados que já passaram pelas minhas mãos (e pelos meus olhos também, obviamente). A proposta da obra é tão diferente, mas tão diferente, mas tão diferente, que temi pela sua qualidade. E não é que o resultado final é, surpreendentemente, positivo! Estou me referindo à “Sessão” (LunaPARQUE), a primeira publicação de Roy David Frankel. Gostei tanto desta coletânea de poemas (se é possível chamar o livro dessa maneira) que resolvi comentá-la neste post do Blog Bonas Histórias. Aí vai! Em “Sessão”, o escritor e acadêmico carioca (não se engane com o nome e o sobrenome – Roy David Frankel é brasileiro!) resolveu transformar os discursos dos deputados de Brasília em uma antologia poética. O quê? Como? Ah? Isso é possível?! Não falei para você que, à princípio, era estranha (para não dizer absurda) essa ideia? Juntar política e literatura, normalmente, não é uma boa escolha que os escritores fazem. Além disso, transformar textos banais do dia a dia em poesia soa ainda mais esquisito. Frankel fez as duas coisas ao mesmo tempo. E não é que seu livro ficou muito bom! Só não me perguntem como isso é possível. Sinceramente, não sei. Através de intervenções pontuais no texto oral que os nobres deputados proferiram em uma sessão solene da Câmara, o escritor quebrou os discursos em versos e os apresentou ao leitor como poemas. Desde o início, portanto, fica clara a ideia de satirizar o conteúdo produzido pelos nossos parlamentares. Ao dar o status de literatura para o que foi falado na tribuna do Congresso, Frankel joga luz para um material que depois de alguns dias ou cairia no esquecimento ou seria considerado lixo pela maioria da população. Ou alguém aí se lembra do que os políticos de Brasília falam diariamente? “Sessão” é, talvez, o livro brasileiro que melhor se enquadre na proposta da Escrita Não Criativa desenvolvida pelo norte-americano Kenneth Goldsmith no início do século XXI. As bases conceituais dessa nova corrente literária foram apresentadas na obra “Uncreative Writting: Managing Language in The Digital Era” (sem edição no Brasil), de 2011. Nela, Goldsmith propõe que o escritor se aproprie de textos banais do cotidiano (conversas das pessoas, transmissões radiofônicas, coberturas televisivas, publicações jornalísticas e, por que não, discursos de políticos) para, a partir de uma intervenção artística, devolvê-los à sociedade como materiais literários. De certa maneira, é o uso na literatura do Ready-Made de Marcel Duchamp. As experiências mais famosas de Kenneth Goldsmith com a Escrita Não Criativa foram os livros “Traffic” (Sem edição no Brasil), de 2007, e “Day” (Também sem edição em nosso país), de 2003. Em “Traffic”, o escritor norte-americano transcreveu 24 horas da programação de uma rádio de trânsito de Nova York. Após selecionar aleatoriamente partes desse registro, ele levou o material para as páginas do seu livro. Sim, a publicação tem como conteúdo apenas a narração do locutor da rádio (e nada mais). “Day”, por sua vez, é a transcrição de uma edição do jornal New York Times. Acredite se quiser, mas Goldsmith teve a coragem de publicar como literatura trechos extraídos de reportagens jornalísticas. Como era de se esperar, a Escrita Não Criativa tornou-se polêmica entre escritores e profissionais do mercado editorial. Muita gente torce o nariz para esse novo jeito de se fazer literatura. Há até quem questione sua inclusão nas categorias de produção literária e de ficção. Indiferente aos questionamentos e às críticas ao novo estilo, Roy David Frankel resolveu aplicar os conceitos de Goldsmith na famosa sessão da Câmara dos Deputados do dia 17 de abril de 2016. Naquele domingo, o Brasil parou para ver, pela televisão, a votação da abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Empolgados com a cobertura midiática, os políticos responsáveis pela votação agarraram-se aos microfones para fazer seus discursos diante das câmeras das principais emissoras do país. Tudo o que foi falado no plenário naquele dia histórico foi transcrito pela equipe de Comunicação da Câmara dos Deputados e disponibilizado, mais tarde, no site da instituição. “Sessão”, o livro de Frankel, utiliza esse texto como matéria-prima. As intervenções do escritor são pontuais. Além de quebrar as frases em versos, ele dá destaque aos termos mais comuns dos pronunciamentos (brasileiro/brasileira, Brasil, Pátria, povo, Nação e República, por exemplo), coloca em itálico vozes que interferiram/interromperam o discurso, destaca o primeiro verso de cada deputado em negrito (para indicar ao leitor o começo de um novo poema) e, em alguns casos, brinca com o texto ao inserir elementos visuais típicos da Poesia Concreta. Lançado em abril de 2017, “Sessão” teve uma tiragem inicial de apenas 300 unidades. O padrão da LunaPARQUE, pequena editora paulistana responsável por esta publicação, é trabalhar com edições com baixos volumes. Como consequência a essa estratégia empresarial, o livro rapidamente teve sua primeira edição esgotada. “Sessão” marcou a estreia de Roy David Frankel na literatura comercial. Graduado em Letras e doutorando em Ciências da Literatura pela UFRJ, este carioca de 31 anos mantém um blog, Realidades Ficcionais, com seus rascunhos literários. Adorei esse termo: rascunhos literários! Seria o Bonas Histórias meus rascunhos? “Sessão” é um livro de leitura muito rápida. Com pouco menos de 250 páginas, é possível lê-lo em apenas uma horinha. Eu li esta obra do início ao fim em um fôlego só no último domingo. Se no começo estava descrente com essa experiência (admito que não tinha gostado, até agora, de nenhuma publicação de Escrita Não Criativa), ao chegar na última página minha opinião era outra. Saí positivamente impressionado com o que vi em “Sessão”. Diferentemente dos livros de Kenneth Goldsmith, esta publicação de Roy David Frankel não é entediante nem sem graça. Apesar de muitas vezes os discursos dos políticos brasileiros baterem na mesma tecla, é divertido (é melhor rir do que chorar) vê-los (ou seria ouvi-los?) em “Sessão”. Estão, ali, a menção ao filho, à esposa, à família, aos mortos nas estradas, aos famintos nas ruas, aos torturadores da Ditadura Militar, aos corintianos, aos pastores evangélicos e, principalmente, ao Deus. Grande parte dos deputados fala de tudo, menos do que está efetivamente votando. Impossível não rir nos trechos mais amalucados e sem noção protagonizados pelos representantes do povo na Câmara. Alguns pronunciamentos até parecem realmente uma poesia (isso é, depois da intervenção estética do autor). A maioria, contudo, passa longe de soar como um texto poético. Porém, essa constatação não estraga em nada a brincadeira proposta por Frankel. “Sessão” é uma crítica bem-humorada e inteligente aos políticos e ao nosso país. Ao tentar elevar os discursos dos deputados ao patamar de uma epopeia ou de uma antologia poética, vemos com mais intensidade o vazio de suas palavras. Em alguns casos, o leitor terá vontade de chorar ao constatar a demagogia e o contrassenso dos pronunciamentos feitos. Adorei a maneira como o escritor carioca apresenta seus textos. Sua intervenção é sempre cirúrgica. De forma geral, ele dá outra dimensão às frases banais do dia a dia. E, curiosamente, Roy David Frankel faz isso sem entrar no viés político da questão. Em seu livro, há tanto discursos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff quanto contrários. Não há julgamento de valor aqui. Ou melhor, o único consenso político que se pode chegar é que direita e esquerda são dois lados de uma mesma moeda fétida. As intervenções ao estilo da Poesia Concreta conferem mais graça e força ao texto. Adorei todas elas. Até achei que Frankel poderia explorar mais esses recursos visuais. Eles estão limitados na primeira metade da obra. Senti falta da continuação deles na metade final do livro. Outra coisa que me surpreendeu foi o acabamento e o design do livro. A LunaPARQUE fez um belo trabalho aqui: “Sessão” consegue ser, ao mesmo tempo, uma obra simples e charmosa. Sua capa é incrível! Com poucos elementos, ela dialoga intimamente com a temática das páginas da publicação de Frankel. É maravilhoso ver um trabalho de design gráfico feito com primor. Quem se interessou por “Sessão”, a má notícia é que, como já disse, a primeira edição da publicação se esgotou no primeiro semestre do ano passado. Para atender a grande procura, antes que a segunda edição da obra seja produzida, a LunaPARQUE disponibilizou gratuitamente o pdf do livro em seu site. Essa é a boa notícia para os leitores ávidos por conhecer a proposta inovadora de Roy David Frankel. Achei a iniciativa elogiável da editora. Só espero que ela opte por fazer a segunda edição do livro o mais rápido possível. Os leitores merecem conhecer fisicamente “Sessão”, uma das publicações mais originais e ousadas dos últimos anos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RoyDavidFrankel #EscritaNãoCriativa #KennethGoldsmith #ReadyMade #LiteraturaBrasileira

  • Premiações: Oscar 2019 - Os melhores do cinema no ano passado

    Nos últimos anos, eu acabo ouvindo ou lendo a mesma ladainha dos críticos cinematográficos: o Óscar é um evento marcado por ativismo político-ideológico; a festa com o melhor do cinema não é mais como era antigamente; a entrega das estatuetas é uma cerimônia longa e um tanto enfadonha; e cada vez mais a Academia de Los Angeles tem se tornado refém dos gostos populares. Apesar dessas observações recorrentes, é inegável a manutenção do Óscar como a principal premiação do cinema norte-americano. Se não fosse assim, por que, então, o mundo da sétima arte iria voltar-se todo para a cerimônia anual realizada na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, hein?! Por isso, não perco meu tempo criticando a relevância deste evento ou debatendo o caráter de suas escolhas. Prefiro investir meus esforços nas análises e na exaltação dos premiados em cada categoria. Para quem não pôde ficar acordado(a) até tarde para ver a cerimônia do Óscar 2019, o Bonas Histórias traz neste post um pequeno resumo do que aconteceu de mais importante na maior festa do cinema norte-americano. De forma geral, gostei muito do que vi. O evento teve ótimos momentos. A abertura do Queen foi memorável, assim como o dueto de Lady Gaga e Bradley Cooper ao piano. E o que dizer da empolgação de Spike Lee com a sua primeira estatueta, hein? Achei quase todas as escolhas da Academia acertadas. Não tivemos nesta edição nenhuma grande polêmica que ofuscasse os premiados. Rami Malek era sem dúvida nenhuma carta marcada como melhor ator. Sua atuação como Freddie Mercury em “Bohemia Rhapsody” (2018) é simplesmente magistral, como havia apontado no post sobre esse longa-metragem ainda no ano passado. Já a escolha de Olivia Colman, de “A Favorita” (The Favourite: 2018), pegou muita gente de surpresa (inclusive eu). É uma pena que Glenn Close tenha sido preterida. Infelizmente, só é possível termos um ganhador por categoria. Se “Roma” (2018) era a escolha óbvia como melhor produção estrangeira, “Green Book: o Guia” (Green Book: 2018) dá sequência a predileção da Academia de Los Angeles por tramas sobre preconceito racial. Vale lembrar que o protesto pesado e justíssimo, em 2016, pela ausência de artistas negros na cerimônia repercutiu de forma decisiva em 2017. Naquele ano, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (Moonlight: 2016) foi escolhido o melhor filme, mesmo não possuindo credenciais suficientes para tal. “Green Book: O Guia”, por sua vez, é realmente o melhor filme do ano, sendo escolhido por seus méritos e não por tendências ideológicas. Minha torcida era por “Bohemia Rhapsody” (2018), “Nasce Uma Estrela” (Star Is Born: 2018) e “A Favorita” (The Favourite: 2018), apesar de reconhecê-los como estando um pouco abaixo do vencedor. Se “Green Book: o Guia” (Green Book: 2018) levou o principal prêmio da noite (além de mais duas estatuetas: melhor ator coadjuvante para Mahershala Ali e melhor roteiro original para a dupla Nick Vallelonga e Peter Farrelly), o maior vencedor dessa edição do Óscar foi “Bohemia Rhapsody” (2018). A cinebiografia de Freddie Mercury levou para casa quatro estatuetas (além da de melhor ator, ganhou nas categorias melhor mixagem de som, melhor edição de som e melhor edição). “Roma” conquistou três prêmios (além de ser escolhido o melhor filme estrangeiro, Alfonso Cuarón foi consagrado o melhor diretor e o melhor diretor de fotografia). Segue a baixo a lista dos premiados nas principais categorias, assim como alguns momentos relevantes da cerimônia: Abertura – Queen (Brian May e Roger Taylor) e o vocalista Adam Lambert na interpretação de "We Will Rock You" e "We Are the Champions", dois clássicos da banda inglesa. Melhor Filme – “Green Book: o Guia” (Green Book: 2018). Melhor Diretor – Alfonso Cuarón de "Roma" (2018). Melhor Ator - Rami Malek de "Bohemian Rhapsody" (2018). Melhor Atriz - Olivia Colman de "A Favorita" (The Favourite: 2018). Melhor Ator Coadjuvante - Mahershala Ali de "Green Book: O Guia" (Green Book: 2018). Melhor Atriz Coadjuvante - Regina King de "Se a Rua Beale Falasse" (If Beale Street Could Talk: 2018). Melhor Roteiro Original - Nick Vallelonga e Peter Farrelly por "Green Book: O Guia" (Green Book: 2018). Melhor Roteiro Adaptado - Spike Lee por "Infiltrado na Klan" (BlacKkKlansman: 2018). Melhor Filme Estrangeiro – “Roma” (2018). Melhor Canção Original – "Shallow" de "Nasce Uma Estrela" (Star Is Born: 2018). Momento mais Emocionante - Interpretação de "Shallow" por Lady Gaga e Bradley Cooper. A dupla emulou o dueto que haviam feito de improviso em um show em Las Vegas em janeiro. E há quem diga que o Óscar não é mais tão emocionante como antigamente. Vê se pode! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir ​a página do Bonas Histórias no Facebook. #Oscar #Cinema #Filmes #Premiação

  • Filmes: No Portal da Eternidade – A cinebiografia de Van Gogh

    Nesta semana que precede à cerimônia do Óscar de 2019, resolvi ir ao cinema para assistir a um filme que não estivesse concorrendo a nenhuma estatueta. Afinal, queria dar um sossego para minha mente tão ansiosa pela principal premiação da sétima arte. Quando soube que “No Portal da Eternidade” (At Eternity's Gate: 2018), uma das produções em cartaz atualmente em nosso país, narrava a biografia do pintor Vincent Van Gogh, entendi ter encontrado a opção certa. O filme é dirigido por Julian Schnabel, do espetacular “O Escafandro e a Borboleta” (Le Scaphandre et Le Papillon: 2007), e é protagonizado por Willem Dafoe, de “O Paciente Inglês” (The English Patient: 1996), “Platoon” (1986) e mais recentemente “Assassinato no Expresso do Oriente” (Murder on the Orient Express: 2017). “No Portal da Eternidade” foi lançado no circuito nacional na primeira semana deste mês. O longa-metragem mostra os dois últimos anos da vida do famoso e polêmico artista holandês, período ao mesmo tempo produtivo e trágico. O novo filme de Schanabel é ousado e muito poético. Os dois elementos mais interessantes de “No Portal da Eternidade” são: a narração da história é feita em poucas palavras (diálogos) e o uso da fotografia do filme combina perfeitamente com a proposta artística da personagem retratada. Assim, o longa-metragem tem tudo para agradar os espectadores mais sensíveis e que conhecem os principais trabalhos de Van Gogh. Por outro lado, ele deverá desagradar ao público interessado mais em ação e menos em mensagens construídas através de percepções sensoriais (sons e efeitos luminosos). Esse talvez seja o ponto mais polêmico desta produção. Julian Schnabel optou por contar sua história de maneira sutil e de um jeito pouco didático (ao menos para a maioria da plateia acostumada ao cinema comercial norte-americano). As perturbações da mente doentia e genial de Van Gogh são demonstradas com cenas em que a música dramática e a obsessão pela pintura inovadora dão vazão a sinestesia. Se o espectador não tiver a sensibilidade para compreender isso e não entrar de corpo e alma na proposta do filme, na certa não gostará dos seus efeitos. Infelizmente, creio eu, a maioria das pessoas que vão às salas de cinema não está preparada para tal experiência. É uma pena, porque o resultado final é belíssimo. “No Portal da Eternidade” se passa entre 1888 e 1890, os últimos anos da vida de Vincent Van Gogh (interpretado por Willem Dafoe). Nesta época, o pintor holandês resolveu morar na pequenina cidade de Arles, no sul da França. Nessa região rural, Vincent queria se concentrar exclusivamente em sua pintura, extraindo um tipo de luminosidade diferente do que até então havia encontrado em seu país natal. A mudança de ares, à princípio, mostra-se produtiva. Nunca Van Gogh produziu tantas telas com tamanha qualidade como nessa fase. Contudo, pouco a pouco, o pintor acaba sucumbindo à loucura e à depressão. Sem obter o reconhecimento dos críticos de arte e sofrendo de forte pressão social, Vincent se torna uma pessoa perigosa aos olhos dos habitantes de Arles. Nem mesmo a amizade com Paul Gauguin (Oscar Isaac) nem o apoio financeiro do irmão Theo (Rupert Friend) serão capazes de livrar o artista do seu ocaso. Com quase duas horas de duração, “No Portal da Eternidade” consegue emular com propriedade o universo artístico e pessoal de Van Gogh. A trilha sonora é um importante elemento de construção da trama. Porém, é a fotografia espetacular do longa-metragem que faz o espectador entrar na mente do protagonista. Às vezes, a impressão que se tem é que as cenas do filme foram construídas a partir dos quadros do holandês. Incrível esse recurso. Os cortes secos e as tomadas abruptas que marcam essa produção intensificam ainda mais a sensação de confusão mental da personagem principal. Gostei também da maneira pouco usual como a história é contada. Ao invés de apresentar os acontecimentos mastigados para a plateia, cabe ao espectador compreender o que se passa na história e, principalmente, na mente conturbada de Vincent Van Gogh. Os vários minutos sem diálogo, por exemplo, retratam a introspecção do artista. Sua busca obstinada por um novo tipo de luminosidade faz o pintor investigar o mundo externo, desprezando as pessoas e valorizando unicamente a natureza. Até mesmo a relação passional do holandês com Gauguin não é explicada em detalhes, cabendo ao espectador interpretar o fascínio de Van Gogh pelo colega francês. O roteiro de “No Portal da Eternidade” tentou se manter o mais fiel possível aos fatos reais da vida do artista retratado. Há desde passagens conhecidas (internação de Van Gogh em hospícios, forte amizade com Gauguin e corte de uma orelha) até momentos um tanto esquecidos pela maioria das pessoas (o ataque a uma mulher em Arles, as exposições do pintor quando vivo que não obtiveram grande repercussões por parte da crítica especializada e o preconceito social em que Vincent era vítima). As únicas inferências feitas pelos roteiristas são direcionadas ao lado sentimental do pintor. Obviamente, isso jamais poderia ser feito com base em evidências objetivas. Assim, essa inserção dá grande liberdade artística ao enredo e confere uma beleza poética à produção. Não é possível falar deste filme sem comentar a atuação de gala de Willem Dafoe, em um raro papel de protagonista. Infelizmente, um dos melhores atores de sua geração acabou sempre subordinado aos papéis secundários no cinema. Nas poucas vezes em que pôde assumir o protagonismo, Dafoe sempre deu um verdadeiro show de atuação. “No Portal da Eternidade” é um ótimo exemplo. O único aspecto que causa alguma estranheza é a incompatibilidade de idade entre Vincent Van Gogh e Willem Dafoe. Enquanto o pintor holandês morreu aos 37 anos de idade, o ator norte-americano tem 63 anos. Não entendi a escolha de um autor tão velho para esse papel. O único efeito colateral negativo de “No Portal da Eternidade” é o seu ritmo narrativo mais lento. Se comparado ao que vemos atualmente no cinema, podemos dizer que este filme de Julian Schnabel caminha a passos de tartaruga. Se você (e/ou sua companhia na sessão) for do tipo ansioso e dependente de ação, saiba que você terá uma séria dificuldade para ficar sentado na cadeira do cinema com os olhos abertos. Aí não recomendo um filme tão introspectivo. Se esse não for o seu caso, asseguro que você irá curtir mais uma grande produção de Julian Schnabel e uma excelente atuação de Willem Dafoe. Desfrute da magia das pinturas de Van Gogh agora em versão cinematográfica. Veja, a seguir, o trailer de “No Portal da Eternidade”: Agora é só esperar o domingo para ver quais serão os escolhidos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles como os melhores do ano passado. Terminada a sessão de “No Portal da Eternidade”, admito ter voltado a pensar no Óscar de 2019. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #VincentVanGogh #JulianSchnabel #WillemDafoe #Drama #Cinebiografia #Cinemanorteamericano

  • Livros: Um Rosto no Computador – A literatura infantojuvenil de Marcos Rey

    Ao visitar meus pais em São Paulo no final de semana passado, aproveitei para rever a velha estante de livros da casa deles (que um dia já foi minha também...). Procurava uma obra como companhia para a viagem de retorno para minha casa no interior. Afinal, as horas no ônibus precisavam ser bem gastas. E para minha surpresa, encontrei (ou seria reencontrei?) uma preciosidade: “Um Rosto no Computador” (Ática). O romance policial de Marcos Rey era um antigo livro meu da época da escola. Eu o havia lido há aproximadamente vinte anos. Sentindo um certo saudosismo, escolhi este título como leitura (na verdade, releitura). Quem foi criança e adolescente entre as décadas de 1980 e 1990 irá com certeza se lembrar de Marcos Rey. O escritor paulistano foi um dos principais autores da Coleção Vaga-Lume, série de romances infantojuvenis publicada pela Editora Ática. A coletânea pautou a iniciação literária de gerações de brasileiros. Comigo não foi diferente. Adorava as histórias de Marcos Rey e da Vaga-Lume. Muitos livros eram utilizados nas escolas públicas e privadas do país como forma de estimular a leitura da garotada. Ainda hoje me recordo de vários títulos e de suas capas memoráveis. A Coleção Vaga-Lume foi um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos no Brasil. Ela vendeu algumas dezenas de milhões de exemplares. Iniciada em 1973, a série contabilizou mais de 90 títulos ao longo das décadas seguintes. Boa parte dessas obras continua sendo utilizada ainda hoje nas escolas. Ao menos foi o que uma amiga, professora do ensino fundamental, disse para mim recentemente em uma conversa sobre a literatura destinada à criançada. Fiquei feliz de saber que as histórias que líamos no passado ainda são estudadas pela molecadinha atualmente. Dos livros da Vaga-Lume, aquele que obteve maior vendagem foi “O Mistério do Cinco Estrelas” (Ática). A obra de Marcos Rey, lançada em 1981, alcançou sete dígitos em vendas. É até hoje um dos títulos mais bem-sucedidos do mercado editorial nacional. Nesse romance policial, Leo, um adolescente que trabalhava de mensageiro no Emperor Park Hotel, Ângela, sua namorada, e Gino, o primo de Leo que era cadeirante, conseguem solucionar um crime ocorrido nas dependências do hotel cinco estrelas (daí o nome da publicação). A criançada foi à loucura com uma trama em que adolescentes comuns agiam como Sherlock Homes. Aproveitando o sucesso, Marcos Rey lançou, nos anos seguintes, mais dois livros com seus mais famosos protagonistas. “O Rapto do Garoto de Ouro” (Ática) foi publicado em 1982 e “Um Cadáver Ouve Rádio” (Ática) chegou às livrarias em 1983. Os pedidos para mais uma história com Leo, Ângela e Gino passaram a perseguir o autor. Marcos Rey criou várias outras tramas policiais para os adolescentes, mas o que todos queriam mesmo era o quarto título da série iniciada com “O Mistério do Cinco Estrelas”. Aí, em 1994, ele, enfim, atendeu aos anseios do seu público. Era lançado “Um Rosto no Computador”. Neste livro, Leo - Leonardo Fantini - tem dezesseis anos e não é mais um mero mensageiro, bellboy, do Emperor Park. Agora o rapaz é o chefe dos mensageiros do hotel cinco estrelas localizado na cidade de São Paulo. E Leo recebe do gerente do estabelecimento uma importante tarefa: auxiliar as candidatas da A Garota da Capa, um renomado concurso de beleza, no que elas precisarem. Afinal, as moças provenientes do país inteiro ficarão hospedadas no hotel. O evento também será realizado nas dependências do Emperor Park. Com grande cobertura dos jornalistas, A Garota da Capa é um evento midiático. Todos parecem interessados em saber quem será a nova beldade brasileira. Por isso, nada pode dar errado. A vencedora da competição é uma jovem baiana chamada Camélia. A adolescente de dezesseis anos viajou para a capital paulista escondida da família e participou do concurso de maneira clandestina. Contudo, no dia seguinte à premiação, quando ela e seu agente deveriam receber o prêmio de US$ 50 mil, Camélia desaparece misteriosamente. A suspeita é que ela tenha sido sequestrada. A polícia é chamada, mas pouco consegue avançar nas investigações. Para solucionar o enigma de uma vez por todas, Leo convoca sua namorada Ângela e o primo Gino para mais uma investigação. Fazia muito tempo que o trio não encarava um desafio tão eletrizante como esse. Os jovens já estavam com saudades desse tipo de ação e dos holofotes que receberam da mídia quando foram os responsáveis pelo esclarecimento dos três casos anteriores. “Um Rosto no Computador” tem 120 páginas e possui uma leitura rápida. Concluí a obra em menos de três horas. Uma criança e um adolescente levarão provavelmente muito mais tempo. Os capítulos do livro são extremamente curtos - eles possuem em média duas páginas. Para auxiliar na leitura, há ainda algumas ilustrações (recurso fundamental em se tratando de uma obra infantojuvenil). As ótimas imagens, uma das peculiaridades da Coleção Vaga-Lume, dão rostos às personagens e criam uma sensação de maior concretude na cabeça dos leitores. Na perspectiva do seu público-alvo, “Um Rosto no Computador” é um livro muito bom. Para uma criança e um adolescente, a trama é eletrizante, as personagens são carismáticas, a narrativa é muitíssimo ágil e o conflito é verossímil. Quando lia os livros de Marcos Rey e as obras da Coleção Vaga-Lume eram essas mesmas as minhas impressões (portanto, iguais às que tive durante esta releitura). Outro aspecto positivo foi ter constatado que a história do livro ainda se mantém atual (algo que, sinceramente, duvidava quando o peguei para reler). A trama escrita na primeira metade da década de 1990 é, quase que vinte e cinco anos depois, perfeitamente compreensível e interessante para os leitores mirins de hoje em dia. Uma ou outra coisinha (desenvolvimento dos computadores, criação da Internet e expansão dos celulares, por exemplo) podem revelar o quanto a tecnologia avançou nas últimas décadas, mas a trama e o conflito em si continuam perfeitamente críveis e saborosos. Contudo, para um adulto (que fora um fã incondicional de Marcos Rey e que está agora relendo suas obras favoritas da infância), a narrativa pode parecer um tanto simplista em “Um Rosto no Computador”. A história é contada sem uma abordagem psicológica mais profunda das personagens, os protagonistas são figuras planas e um tanto caricatas e não há muito mistério. Esse último ponto foi o que mais chamou minha atenção. Na primeira página da obra já sabemos quem é o responsável pelo crime. Ou seja, Marcos Rey é ótimo em levar o leitor para o centro da ação, mas não para criar hipóteses que poderiam levar o leitor ao engano (como faziam, por exemplo, Agatha Christie em seus livros e Alfred Hitchcock em seus filmes). Temos, portanto, muita ação, mas pouquíssimo mistério. Para ficarmos em uma comparação mais próxima ao universo infantojuvenil, “O Gênio do Crime”, clássico de João Carlos Marinho Silva, possui muito mais mistério e uma trama policial infinitamente mais intrincada do que “Um Rosto no Computador”. Para ser sincero, este livro é um dos mais fraquinhos que já li de Marcos Rey. “O Mistério do Cinco Estrelas”, a primeira obra com Leo, Ângela e Guido, é cem vezes mais interessante. Os romances seguintes da série também são melhores. Temos, portanto, muita ação, mas pouquíssimo mistério em “Um Rosto no Computador”. Admito ter ficado decepcionado. Sabe quando você era pequeno e achava a casa onde morava incrível e gigantesca e, após adulto, ao voltar ao mesmo lugar depois de muitos anos de ausência, se depara com uma residência simples e pequena?! Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler vinte anos depois “Um Rosto no Computador”. Se para um adolescente a trama de Marcos Rey é emocionante e impecável, basta uma leitura feita por um adulto razoavelmente letrado para essa aura ser desmistificada. Então, qual a conclusão que eu chego? A literatura de Marcos Rey é ótima para o público infantil e adolescente. Se você é adulto como eu, não leia novamente as obras da série Vaga-Lume. Para não se decepcionar, leia agora as obras produzidas pelo autor paulistano destinadas ao público mais velho. Vale a pena lembrar que Marcos Rey não produziu apenas romances policiais infantojuvenis. Ele, cujo nome de batismo era Edmundo Donato, trabalhou como roteirista de programas de televisão, telenovelas e filmes de pornochanchadas. Seus principais prêmios literários, dois Jabuti, um Juca Pato e um APCA, foram relativos a publicações destinadas ao público adulto. Ou seja, há muita coisa boa que ele criou que a maioria do público infelizmente não conhece. Que tal, então, largar os velhos livros do passado (que não se enquadram mais em seus hábitos e preferências de leitura) e descobrir um lado novo de Marcos Rey, hein? Essa foi a conclusão que tirei ao final da viagem de volta à minha casa no último final de semana. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarcosRey #LiteraturaInfantojuvenil #RomancePolicial #ColeçãoVagaLume #LiteraturaBrasileira

  • Livros: O Velho e o Mar – A novela mais famosa de Ernest Hemingway

    Em 1954, Ernest Hemingway conquistou o Prêmio Nobel de Literatura. Era o ápice da carreira de um escritor que influenciara muitos colegas nas duas décadas anteriores. Suas narrativas secas que se aproximavam do texto jornalístico, sua linguagem espartana quase sem adjetivos, seus protagonistas viris e suas histórias sobre guerras e combates contra forças da natureza definiram um novo estilo de se fazer ficção. Até hoje, Hemingway é aclamado como um autor inovador e único no cenário literário. Contudo, para o público em geral, o norte-americano será para sempre conhecido como o escritor de “O Velho e o Mar” (Bertrand Brasil). Durante a premiação na Academia Sueca de Letras, a imprensa internacional já o apresentava como o escritor da famosa novela, considerada desde o seu lançamento como uma obra-prima da literatura moderna. Escrito em 1951 e publicado em 1952, “O Velho e o Mar” ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1953. A obra não foi apenas sucesso de crítica. O público adorou a trama sucinta e singela de Ernest Hemingway, transformando-a em um best-seller imediato. Até hoje este é o livro mais vendido do escritor. Apesar de possuir muitos outros títulos entre romances, novelas, coletâneas de contos e publicações de não ficção, alguns até melhores, como é o caso de “Por Quem Os Sinos Dobram” (Bertrand Brasil), romance de 1940, é “O Velho e o Mar” o trabalho mais popular de um dos maiores autores do século XX. Em pesquisas realizadas junto aos fãs do norte-americano, a novela de 1952 também é apontada como a favorita. Curiosamente, o “Velho e o Mar” foi a última obra publicada pelo seu autor em vida e a última antes dele conquistar o Nobel. Até o suicídio de Hemingway em 1961, o autor ficou quase dez anos sem lançar nada novo, o maior jejum da carreira iniciada em 1923 com a coletânea “Three Stories and Ten Poems” (Dover), título sem tradução para o português. Se pensarmos bem, trata-se de algo raro para um vencedor do Nobel. Hoje em dia, publicasse mais depois do prêmio do que antes... Apesar da falta de publicações, o autor continuou escrevendo. Prova disso são os dez títulos lançados postumamente. “O Velho e o Mar” foi escrito no período em que Ernest Hemingway morava em Havana, capital de Cuba. A história do livro se passa no país caribenho. A primeira vez em que o autor falou sobre esta trama foi em 1936. Ou seja, ela já estava em sua cabeça quinze anos antes de ir para o papel. Em um artigo publicado em uma revista norte-americana, Hemingway narrou o drama de um velho pescador cubano que caçara um peixe gigantesco nos mares do Caribe. Sozinho nas águas, o idoso precisara lutar contra o portentoso bicho por dois dias e duas noites em uma batalha épica. Era apresentado ao mundo o enredo que no futuro seria o livro “O Velho e o Mar”. Assim, é muito provável que a trama da novela tenha sido inspirada em um acontecimento real que chegou aos ouvidos do escritor. Nesse caso, talvez o casal de turistas norte-americanos que aparece na cena final da narrativa seja formado pelo próprio Ernest Hemingway e por Jane Mason, sua amante na época (ela era uma mulher casada). Em “O Velho e o Mar” (a ficção), temos a história de Santiago, um velho e pobre pescador cubano. Ele está há 84 dias sem apanhar um só peixe. Sua falta de sorte o fez perder a ajuda de seu único companheiro de pescaria, o jovem Manolin. O garoto aprendeu a pescar com Santiago e possui muito carinho pelo velho pescador. Contudo, os pais de Manolin o proibiram de frequentar o barco do idoso depois do quadragésimo dia em que a dupla voltou sem nada em mãos. A família do jovem exigiu que o menino embarcasse em um barco com um pescador menos avarento. Ou seja, achavam que Santiago estava pegando toda a pesca para si. Era impossível um pescador tão experiente ter tanta infelicidade no mar. Sem poder desobedecer os pais, Manolin mudou de embarcação. Assim, no octogésimo quinto dia, Santiago embarca sozinho no Mar do Caribe em seu pequeno barco. Sua esperança é voltar não apenas com um peixe, mas com uma grande pesca. Para fugir da concorrência das demais embarcações, o velho pescador dirige-se à Corrente do Golfo. É ali que imagina ser bem-sucedido. E sua intuição estava certa. Ao meio dia, ele sente a vibração na linha. Pegou um peixe! E pelo puxão, não era qualquer pesca. Era uma das grandes. Por isso, a dificuldade de trazer o bichano para a superfície. As horas vão passando e Santiago pouco a pouco vai percebendo que está vivenciando um momento único. O peixe é um marlim gigantesco, muito mais forte do que o pescador. Trata-se da maior pesca que ele teve em sua vida. Sem poder dispensar uma sorte como aquela, o velho começa a batalha contra o monstruoso peixe. A luta entre homem e o animal marinho irá se prolongar por dias e noites. Nesse período, o pescador estará sozinho no mar. Os demais pescadores estão longe, em outra parte do oceano. Enquanto o marlim luta desesperadamente pela vida, o homem brigará contra a fome, o cansaço, as feridas na mão e a pobreza extrema. Aquele peixe é a salvação do velho. Custe o que custar, Santiago precisará pescá-lo. Este livro de Ernest Hemingway é bem curtinho. Ele tem pouco mais de 120 páginas. E elas não são constituídas apenas de texto. Há muitas imagens ilustrando as cenas protagonizadas por Santiago. Eu concluí esta leitura em pouco mais de duas horas. Ou seja, temos aqui aquela obra para ser lida de uma tacada só (por isso, ela é classificada como novela e não romance). “O Velho e o Mar” é uma mistura de fábula (principalmente quando o pescador começa a ver características humanas no marlim) e de parábola (é possível extrair lições de sabedoria e moral da pescaria). Se alguém relacionar esta história aos apólogos (ensinamentos provenientes de situações vivenciadas por pessoas, animais e objetos), também estará correto em sua definição. O que chama mais a atenção nesta novela é sua simplicidade narrativa e linguística, algo típico das fábulas, das parábolas e dos apólogos. A maior parte das ações se passa em alto-mar. Ali, temos apenas o pescador e o peixe (homem versus natureza). Soma-se ao tom solitário da trama a linguagem objetiva e seca, ao melhor estilo Hemingway. O texto do livro vai direto ao ponto, sem rodeios ou descrições desnecessárias. O que vale é ação. Cabe ao leitor interpretar os acontecimentos à sua maneira (e não na visão do narrador). Aqui é que “O Velho e o Mar”, na minha opinião, ganha em força narrativa. Se a primeira camada do texto é sobre um pescador e sua pesca, por outro lado, basta uma leitura minimamente atenta para nos levar a níveis mais profundos de interpretação. A história de Santiago e o marlim vai além do que o texto efetivamente mostra. Estamos diante, por exemplo, do esforço humano em combater o gigantismo da natureza. Vemos um homem em busca da consagração definitiva. Temos também a batalha grandiosa de alguém contra sua miséria e a chegada da velhice. E, por fim, podemos analisar a trama como um ato de coragem suprema (ou de desespero incomum). Apesar da simplicidade da narrativa e da linguagem, esta novela é muito profunda. Adoro obras literárias com esse tipo de pegada. Também gostei que Ernest Hemingway conseguiu ser mais emotivo do que o habitual. As relações entre Santiago e Manolin e entre o próprio pescador e sua pesca mostram intricadas construções afetivas entre as personagens. Repare também na capacidade do autor em criar e, principalmente, em manter a tensão dramática por várias e várias páginas. O clímax da narrativa não se dá (cuidado, aí vai um pequeno spoiler!) quando o peixe é pescado, algo que seria imaginável. Os momentos de maior tensão se passam (lá vai mais um spoiler) depois que o marlim é, enfim, derrotado e o pescador inicia seu regresso ao continente. Juro que não sei qual é a melhor parte deste livro. Muitas vezes, a beleza da literatura está na simplicidade estética. Hemingway conseguir mostrar isso com “O Velho e o Mar”. O escritor norte-americano até pode ter escrito histórias melhores que esta, mas nenhuma conseguiu emocionar tantos os leitores. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ErnestHemingway #Novela #Parábola #Drama #DramaPsicológico #LiteraturaNorteAmericana

  • Livros: O Seminarista – Uma das últimas novelas de Rubem Fonseca

    Quem acompanha o Bonas Histórias há algum tempo deve ter reparado que falamos bastante, nos últimos dois anos, sobre a literatura de Rubem Fonseca. Em maio do ano passado, por exemplo, divulguei aqui a palestra sobre os romances deste autor que ministrei em Minas Gerais. O conteúdo deste trabalho é fruto de uma pesquisa acadêmica que realizei no curso de Letras do UNIS-MG entre 2017 e 2018. No começo do ano retrasado, analisamos "Agosto" (Companhia das Letras), sua obra mais famosa. Apesar dessa overdose, fiquei curioso para ler, nesta semana, mais um título fonsequiano. O livro lido, e agora analisado neste post, é a novela “O Seminarista” (Agir). “O Seminarista” é um dos mais recentes trabalhos lançados por Rubem Fonseca. Publicado em 2009, esta é a penúltima novela do autor. A última é “José” (Agir), de 2011, a autobiografia de Fonseca sobre os anos que precederam à fase de escritor. Em “O Seminarista” temos uma típica trama brutalista do autor mineiro: altas doses de violência, pitadas generosas de erudição, personagens masculinas melancólicas e viciadas em sexo, intertextualidade com a literatura, o cinema e a música , banalização do sexo, crimes praticados por figuras de todos os extratos sociais (principalmente pela elite econômica e cultural do país), narrativa ambientada no tempo presente e no Rio de Janeiro, mistério e ação em ritmos acelerados e inserção de outras línguas (neste caso, o latim). Ou seja, é mais do mesmo. Então, qual é a graça deste livro? O bacana está exatamente no fato que ninguém é melhor do que Rubem Fonseca, ao menos no Brasil, para escrever como Rubem Fonseca. Apesar de não trazer nenhuma novidade narrativa e estética quando analisamos as obras anteriores do autor, “O Seminarista” agradou em cheio o público leitor (muito mais do que a crítica). Para os leitores do Jornal do Brasil, por exemplo, esta foi a melhor obra nacional lançada em 2009. O narrador de “O Seminarista” é José, um assassino profissional que se aposentou precocemente. Considerado o melhor em sua profissão, o rapaz de quarenta anos ganhou o apelido de Especialista por sua precisão em executar os serviços encomendados. Ao acumular uma boa grana ao longo dos anos matando pessoas de maneira fria e calculista, José, que por outro lado não aceita violência contra as mulheres e os animais, é um apaixonado por livros, filmes e música e fala latim fluentemente (idioma aprendido quando ele era um seminarista), decidiu levar uma vida calma e longe do crime. Por isso, a opção pela aposentadoria. Essa decisão pegou seu chefe de surpresa. O Despachante, como o patrão do Especialista era conhecido, tentou dissuadi-lo de todas as formas sem obter, contudo, qualquer êxito. Uma vez aposentado, José providenciou documentos falsos e se mudou para um novo endereço no Rio de Janeiro. Sua intenção era se afastar ao máximo da antiga vida. Logo de cara, ele se apaixona por uma alemã que conhece por acaso em um café. Os dois engatam um namoro tórrido e rapidamente passam a viver juntos. A alegria do ex-assassino profissional, porém, dura pouco. Inimigos do passado passam a perseguir José e a planejar sua morte. A nova e idílica rotina do protagonista, portanto, fica ameaçada. Até mesmo a namorada por quem ele nutre um amor incondicional se tornará suspeita de estar mancomunada com os inimigos. Nunca a vida de José esteve tão em perigo. Por ser uma novela, “O Seminarista” é um livro curto. Ele possui pouco mais de 180 páginas. É possível lê-lo em uma tarde ou em uma única noite. Eu o conclui em aproximadamente três horas na última terça-feira. Li tudo em uma batida só. Neste caso, não preciso dizer que a narrativa prende o leitor e torna a leitura acelerada. Admito que achei a narrativa agradável (obviamente para quem curte um bom romance negro). Está longe de ser o melhor livro de Rubem Fonseca, mas é interessante (sendo muito acima da média dos thrillers policiais disponíveis nas estantes das livrarias). O ponto alto da história é o seu início. José descreve nos primeiros capítulos seus antigos trabalhos como assassino profissional. A violência e a frieza do rapaz são assustadoras. Ao mesmo tempo, o narrador-protagonista possui um comportamento elogiável quando o assunto é o respeito pelos animais, a veneração pelas mulheres e a paixão pela cultura. José, assim sendo, é uma personagem redonda. Apesar da profissão indigna, o narrador consegue ser carismático, ganhando a torcida do leitor. Além disso, é inegável a ironia fina do texto: um ex-seminarista que se torna assassino de aluguel. A construção do mistério da trama também é muito bem feita. Em poucas páginas, já estamos envolvidos com o conflito. Rubem Fonseca é mestre em envolver o leitor em uma história macabra e perigosa. Há boas cenas de ação e muito suspense do começo ao fim. O desfecho é tipicamente fonsequiano. Não espere, portanto, um final feliz. Nesse sentido, o autor acerta em cheio mais uma vez, surpreendendo o leitor até a última linha. José não conseguirá se livrar facilmente do seu passado, tendo que pagar um preço alto e amargo por ser quem é e, principalmente, por fazer o que faz. Diferentemente das outras narrativas médias e longas de Rubem Fonseca, achei esta com muitos pontos negativos. Em primeiro lugar, a identidade do vilão principal é extremamente óbvia. Ele é quem o leitor suspeita que seja. Nesse sentido, o autor já foi mais criativo. Há também uma forte sensação de déjà vu. A história é muitíssimo semelhante às novelas e aos romances anteriores do mineiro. O protagonista, por exemplo, é parecido com outras personagens de Rubem Fonseca. José é quase que uma reencarnação literária de Camilo Fuentes, um dos vilões de “A Grande Arte” (Círculo do Livro). A principal diferença entre a personagem principal de “O Seminarista” e o assassino profissional do segundo romance do escritor é que José é um narrador- protagonista carismático enquanto Fuentes é apenas um inimigo perigoso e estrangeiro. E o que dizer, então, das traduções das frases em latim?! O autor derrapa feio quando explica aos leitores o significado de várias passagens no idioma antigo (algo que ele nunca tinha feito nos livros anteriores quando inseria trechos em outras línguas). Trata-se de algo inverossímil principalmente quando realizado em diálogos entre duas pessoas fluentes de latim (elas jamais explicariam uma para a outro o que disseram). O mesmo princípio pode ser aplicado ao relato direto de um narrador poliglota. Apesar de uma escorregada aqui e outra acolá, Rubem Fonseca continua sendo um excelente escritor. “O Seminarista” é um bom livro. Obviamente não está à altura de “Agosto” (Biblioteca Folha), “A Grande Arte” (Círculo do Livro), “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), "Lúcia McCartney" (Agir) e “O Caso Morel” (Biblioteca Folha). Até aí não há nada de errado nessa evidência. Afinal, quem disse que um escritor precisa produzir sempre clássicos, hein?! Às vezes, um bom livro, mesmo longe da perfeição, é o que agrada o leitor quando este precisa de uma leitura instigante. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Como Melhorar Um Texto Literário – As dicas de Sabarich e Dintel aos jovens escritores

    No ano passado, perambulando por uma livraria “Leitura” em Belo Horizonte, encontrei por acaso um exemplar do livro “Como Melhorar Um Texto Literário” (Gutenberg). A obra estava jogada em uma estante no fundo do estabelecimento e quase que não a vi. Como viajava a trabalho naquela ocasião e não tinha muita coisa para ler nos momentos de folga, resolvi comprar o livro para ver se era interessante. Admito agora que esta foi uma das melhores compras que fiz nos últimos meses. Gostei tanto desta publicação que a utilizo, desde então, nos trabalhos de consultoria editorial que realizo com jovens escritores aqui em São Paulo. Os ensinamentos contidos nas páginas de “Como Melhorar Um Texto Literário” são didáticos e certeiros. Por isso, não podia iniciar as análises críticas dos livros do Blog Bonas Histórias deste mês com outra obra. “Como Melhorar Um Texto Literário” tem como autores os espanhóis Lola Sabarich e Felipe Dintel. A dupla trabalha ministrando aulas em cursos de formação de escritores em Barcelona. Lola Sabarich é o pseudônimo de Maria Dolors Millat Llusà, ficcionista, poeta e fundadora da Escola de Escrita do Ateneu Barcelonês, o primeiro curso voltada para a capacitação de escritores da Catalunha. Já Felipe Dintel é tradutor, editor, escritor e pesquisador acadêmico, além de professor de oficinas de escrita criativa. “Como Melhorar Um Texto Literário” faz parte da “Série Guias do Escritor” lançada no Brasil pela editora Gutenberg. Ao todo a coletânea reúne sete livros de autores espanhóis. O objetivo da série é oferece manuais práticos sobre diferentes aspectos da arte da escrita. Além deste livro que estamos tratando no post de hoje, a coleção apresenta “Como Encontrar Seu Estilo de Escrever”, de Francisco de Castro, “Como Escrever Textos Técnicos e Profissionais”, de Felipe Dintel, “Como Escrever Diálogos”, “Como Narrar Uma História”, “Escrever para Crianças” e “Os Segredos da Criatividade”, os quatro últimos de Silvia Adela Kohan. Se você é escritor ou deseja seguir nessa profissão, minha sugestão não é apenas ler “Como Melhorar Um Texto Literário”, mas sim devorar a “Série Guias do Escritor” inteirinha. Uma obra é melhor do que a outra! Neste livro de Lola Sabarich e Felipe Dintel, publicado em 2001 na Espanha e em 2014 por aqui, temos cinco capítulos: “Dizer e Mostrar”, “Resumo e Encenação”, “Informação no Relato”, “Tempo Narrativo” e “A Caracterização dos Personagens”. Na introdução, os autores explicam: “Ninguém pode dar talento a ninguém, mas é possível explicar as técnicas, decifrar os segredos ou – no melhor sentido da palavra – os truques que os escritores usam quando precisam elaborar um texto literário”. Impossível não concordar com os professores catalães. No primeiro capítulo, Sabarich e Dintel abordam as diferenças de um texto que diz e outro que mostra. “Quando um escritor diz, a ideia que quer transmitir aparece no texto de modo direto. Quando um escritor mostra, a ideia que quer transmitir é sugerida por ele no texto (...). Os textos literários em que prevalece a estratégia de mostrar obtêm resultados mais estimulantes para o leitor, que terá de exercitar a imaginação e sua capacidade dedutiva, à medida que vai reconstruindo o mundo que o autor lhe apresenta”. Para esse efeito ganhar ainda mais força é importante evitar a redundância (dizer e mostrar ao mesmo tempo – um erro comum), não omitir informações relevantes, evitar as divagações dos narradores e mostrar sentimentos. “Resumo e Encenação”, o segundo capítulo, trabalha com o desafio do autor de passar por cima de uma série de fatos de menor relevância e de detalhar alguns momentos importantes em sua narrativa. Afinal de contas, quando devemos resumir algo e quando devemos construir cenas? Essa é uma pergunta que muitos escritores se fazem o tempo inteiro. “Alternando resumos e encenações, evitamos que um relato se torno monótono”, dizem os autores de “Como Melhorar Um Texto Literário”. Para eles, a boa construção de uma cena passa obrigatoriamente por três passos: Escolha correta entre resumir e encenar; Construir cenas completas (com moldura, atmosfera e ação); e Combinar adequadamente os três elementos da cena (moldura, atmosfera e ação) para cada situação da trama. Em “A Informação no Relato” refere-se a como as informações devem ser passadas pelo narrador aos leitores durante a história a fim de criar e, principalmente, atender as expectativas. Devem-se evitar as informações redundantes e as irrelevantes. Também devem-se evitar informações inverossímeis dos narradores e a naturalidade do monólogo interior. Para finalizar o capítulo, Lola Sabarich e Felipe Dintel explicam como estimular a criatividade do leitor (criação de expectativas) e como responder às perguntas levantadas (atendimento das expectativas). O segredo está na construção dos nós ocultos e no encadeamento das ideias. “Utilizando o recurso dos nós ocultos, o escritor pode encadear cenas e rever tramas e subtramas”, dizem os autores desta obra. O encadeamento de ideias se faz com o apoio em objetos, nos saltos temporais e na naturalidade da sequência de assuntos expostos. O quarto capítulo é dedicado ao tempo narrativo. Nessa seção, temos a classificação do tempo na ficção (real e psicológico) e as possibilidades dos seus usos. Também há a explicação do que é ritmo narrativo e de como utilizá-lo adequadamente. “A Caracterização dos Personagens” é o capítulo final de “Como Melhorar Um Texto Literário”. Nele, os autores falam: “Uma das tarefas mais complexas e ao mesmo tempo uma das mais apaixonantes para o escritor é dar vida a seus personagens. Que eles não pareçam seres artificiais mas sejam verossímeis requer, em primeiro lugar, atribuir-lhes características humanas – maneira de ser, temperamento, valores, emoções, paixões. (...) É necessário também que o autor os conheça a fundo, para além do que deles nos conte em seu relato. Deve conhecer sua biografia completa e todas as suas intimidades, inclusive aquelas de que os próprios personagens não têm consciência. Somente assim, conhecendo profundamente seus personagens, conseguirá o autor fazer com que atuem com naturalidade e coerência”. Na conclusão temos: “A elaboração de um relato requer o conhecimento e a prática de certos recursos técnicos que permitam traduzir a história que um autor tem em mente num texto literário consistente e de qualidade. (...) É necessário que o escritor tenha consciência da diferença entre falar de um mundo e mostrar um mundo, que saiba em que momentos deve resumir ou criar cenas, que conheça a maneira correta de introduzir a informação com naturalidade ou de criar expectativas, que defina a melhor ordem temporal para a história que deseja contar, que saiba adequar o ritmo do texto ao seu conteúdo, que disponha de métodos para caracterizar seus personagens, etc.” "Como Melhorar Um Texto Literário” é um livro curto. Ele tem menos de 100 páginas. O mais interessante é que ele é muito didático. Os autores apresentam vários exemplos práticos e reais para mostrar o que estão dizendo. Impossível não gostar do jeito direto e simples de suas abordagens. A obra de Lola Sabarich e Felipe Dintel é útil para escritores em todas as fases da carreira, mas é inegável que ela seja mais reveladora para aqueles que estejam na fase inicial de sua jornada profissional. Se esse é o seu caso, recomendo esta leitura. Trata-se de um livro incrível, pois consegue sintetizar os elementos básicos de como produzir textos literários de alta qualidade. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ProduçãoLiterária #LolaSabarich #FelipeDintel #LiteraturaEspanhola #FazerLiterário #EscritaCriativa

  • Desafio Literário: Balanço de 2018

    Já estamos em fevereiro e, confesso, meus pensamentos estão agora voltados quase que integralmente para o Desafio Literário de 2019. Desde o mês passado, estou selecionando os autores e as obras que desejo investigar a partir de abril. O próximo Desafio Literário será a quinta edição que o Bonas Histórias divulga com exclusividade. Se você é fã de nossas análises literárias, fique ligado(a), pois em breve vou divulgar o calendário com os estudos que faremos neste ano aqui no blog.Contudo, sei que, antes de avançarmos no planejamento do Desafio Literário de 2019, é necessário fazermos uma retrospectiva rápida do que foi visto em 2018. Para se olhar para frente com inteligência, é preciso, antes de qualquer coisa, olhar para trás com sabedoria. Eu costumo realizar esse apanhado geral dos escritores e dos livros estudados nesta coluna do Bonas Histórias no final do ano. Excepcionalmente dessa vez, deixei para fazer em fevereiro do ano seguinte. Acho que isso não atrapalhará em nada nossa análise. Em 2018, o Desafio Literário se manteve como a seção mais visitada do Bonas Histórias. Por isso, ampliamos sua cobertura em um mês. Se antes a coluna ia de maio a novembro, desde o ano passado ela passou a ser feita de abril a novembro. Além disso, aumentamos o número de obras analisadas de cada autor. Se antes eram cinco os livros estudados de cada escritor, agora são seis. Acredito que, dessa maneira, podemos fazer uma análise estilística mais precisa. Os critérios para as escolhas dos nomes estudados no Desafio Literário se mantiveram intactos. Os autores podem ser nacionais ou estrangeiros, clássicos ou contemporâneos, populares ou cultuados nos meios intelectuais e artísticos. Para o Blog Bonas Histórias, não existe a divisão preconceituosa de alta ou baixa literatura. O que existe é literatura e ponto final. Não por acaso, nosso lema é: “Literatura na veia: Sem frescura e sem preconceitos!”. Assim, nossa seleção de escritores tenta englobar a maior variedade possível de figuras e livros. Tentamos escolher nomes com diferenças temporais, geográficas, de sexo, de gêneros literários e de estilos artísticos. A riqueza está na heterogeneidade! Com esses pressupostos em mente, o Desafio Literário de 2018 analisou a literatura de J. M. Coetzee (África do Sul), Juan Carlos Onetti (Uruguai), Herta Muller (Alemanha), Rubem Fonseca (Brasil), Xinran (China), Albert Camus (França), Patricia Highsmith (Estados Unidos) e Fernando Sabino (Brasil). Nada mal esta seleção, hein?! Para quem não estiver lembrado, em 2015, investigamos Mia Couto (Moçambique), Nick Hornby (Inglaterra), Jorge Amado (Brasil), John Green (Estados Unidos), Ignácio de Loyola Brandão (Brasil), Harlan Coben (Estados Unidos) e Stephen King (Estados Unidos). Em 2016, estudamos Graciliano Ramos (Brasil), Agatha Christie (Inglaterra), Pablo Neruda (Chile), Sidney Sheldon (Estados Unidos), Paulo Coelho (Brasil), Khaled Hosseini (Afeganistão) e Italo Calvino (Itália). E em 2017, os autores contemplados pela investigação literária do Blog Bonas Histórias foram: Machado de Assis (Brasil), Régine Deforges (França), Haruki Murakami (Japão), Nora Roberts (Estados Unidos), Markus Zusak (Austrália), Lya Luft (Brasil) e Ondjaki (Angola). Dessa maneira, chegamos, até este momento, a incrível marca de 29 escritores analisados em profundidade ao longo das quatro edições do Desafio. Quem quiser rever as análises literárias do Desafio Literário do ano passado, segue, a seguir, a lista completa de posts desta coluna do blog: Abril/2018 - J. M. Coetzee – ÁFRICA DO SUL 5 de abril - "À Espera dos Bárbaros" (1980) 9 de abril - " Vida e Tempo de Michael K” (1983) 13 de abril - "Infância" (1998) 17 de abril - "Desonra" (1999) 21 de abril - "Juventude" (2002) 25 de abril - "Diário de Um Ano Ruim" (2007) 29 de abril - Análise Literária de J. M. Coetzee Maio/2018 - Juan Carlos Onetti - URUGUAI 7 de maio - "O Poço" (1939) 11 de maio - "A Vida Breve" (1950) 15 de maio - "Para uma Tumba Sem Nome" (1959) 19 de maio - "O Estaleiro" (1961) 23 de maio - "Junta-Cadáveres" (1965) 27 de maio - "Deixamos Falar o Vento" (1979) 31 de maio - Análise Literária de Juan Carlos Onetti Junho/2018 - Herta Muller - ALEMANHA 6 de junho - "Depressões" (1982) 10 de junho - "O Homem é um Grande Faisão no Mundo" (1986) 14 de junho - "A Raposa já era o Caçador" (1992) 18 de junho - "O Compromisso" (1997) 22 de junho - "O Rei se Inclina e Mata" (2003) 26 de junho - "Sempre a Mesma Neve e Sempre o Mesmo Tio" (2011) 30 de junho - Análise Literária de Herta Muller Julho/2018 - Rubem Fonseca - BRASIL 6 de julho - "Lúcia McCartney" (1969) 10 de julho - "O Caso Morel" (1973) 14 de julho - "Feliz Ano Novo" (1975) 18 de julho - "A Grande Arte" (1983) 22 de julho - "O Selvagem da Ópera" (1994) 26 de julho - "José" (2011) 30 de julho - Análise Literária de Rubem Fonseca Agosto/2018 - Xinran - CHINA 5 de agosto - "As Boas Mulheres da China" (2002) 11 de agosto - "Enterro Celestial" (2004) 15 de agosto - "O que os Chineses Não Comem" (2006) 19 de agosto - "As Filhas Sem Nome" (2008) 23 de agosto - "Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida" (2010) 27 de agosto - "Compre-me o Céu" (2015) 31 de agosto - Análise Literária de Xinran Setembro/2018 - Albert Camus - FRANÇA 6 de setembro - “O Estrangeiro” (1942) 10 de setembro - “O Mito de Sísifo” (1942) 14 de setembro - “O Homem Revoltado” (1951) 18 de setembro - “A Esperança do Mundo” (1962) 22 de setembro - "A Peste" (1972) 26 de setembro - "A Queda" (1972) 30 de setembro - Análise Literária de Albert Camus Outubro/2018 - Patricia Highsmith – ESTADOS UNIDOS 6 de outubro - "Pacto Sinistro" (1950) 10 de outubro - "Carol" (1952) 14 de outubro - "O Talentoso Ripley" (1955) 18 de outubro - "Ripley Subterrâneo" (1970) 22 de outubro - "O Álibi Perfeito" (1993) 26 de outubro - "Small G" (1995) 30 de outubro - Análise Literária de Patricia Highsmith Novembro/2018 – Fernando Sabino - BRASIL 5 de novembro - " O Encontro Marcado" (1959) 9 de novembro - " O Grande Mentecapto" (1979) 13 de novembro - " O Menino no Espelho" (1982) 17 de novembro - " As Melhores Crônicas de Fernando Sabino" (1986) 21 de novembro - " Martini Seco" (1987) 25 de novembro - "A Nudez da Verdade" (1994) 29 de novembro - Análise Literária de Fernando Sabino Repare que analisamos 48 livros entre abril e novembro, um recorde até agora no Desafio Literário. O número de páginas lidas e comentadas ultrapassou novamente a marca de 10 mil. Entretanto, mais interessante do que verificar a quantidade é notar a qualidade do que foi estudado. Dos oito autores analisados, temos três vencedores do Prêmio Nobel (J. M. Coetzee, Herta Muller e Albert Camus) e uma indicada ao prêmio máximo da literatura mundial (Patricia Highsmith). Ou seja, metade da nossa lista é formada por notáveis. Na outra metade, temos o autor uruguaio mais importante do século XX (Juan Carlos Onetti) e a escritora chinesa mais popular da atualidade (Xinran). Dos brasileiros contemplados (Rubem Fonseca e Fernando Sabino), ambos conquistaram os principais prêmios da nossa língua (Rubem Fonseca ganhou o Prêmio Camões e Fernando Sabino o Machado de Assis). Duvido que alguém em sã consciência questione a qualidade do que estudamos. Para manter a excelência dos estudos do Desafio Literário, informo que estou preparando com carinho uma lista tão boa para 2019 quanto foi esta de 2018. Não perca as novidades do Blog Bonas Histórias. Até a metade de março já terei divulgado a seleção de autores e obras do próximo Desafio. Aguarde! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnáliseLiterária

  • Livros: Diário de Uma Paixão – O primeiro sucesso de Nicholas Sparks

    Já li vários livros de Nicholas Sparks, romancista norte-americano que frequenta a lista dos best-sellers há duas décadas. Gosto tanto da literatura deste autor que já pensei, algumas vezes, em incluí-lo no Desafio Literário. Porém, ainda não deu para encaixá-lo nas análises estilísticas da principal coluna do Blog Bonas Histórias. Dos títulos de Sparks que li, os que mais gostei foram “Meu Querido John” (Arqueiro), “Um Porto Seguro” (Arqueiro) e “Uma Longa Jornada” (Arqueiro). Essas obras são espetaculares! Em comum, elas inflamam o romantismo dos leitores a partir de comoventes e tumultuadas histórias de amor. Neste começo de ano, aproveitei para ler um livro de Nicholas Sparks que há muito tempo estava com vontade de conhecer. “Diário de Uma Paixão” (Novo Conceito) é o primeiro romance de sucesso do autor. Foi a partir do êxito comercial desta publicação que Sparks pôde largar os vários empregos que tinha (avaliador de bens imobiliários, restaurador de residências, garçom, agente de telemarketing, vendedor, etc.) para se dedicar exclusivamente à ficção. Eu já tinha ouvido falar muito bem desta obra, mas ainda não tinha tido a oportunidade de lê-la. Foi o que fiz, agora, nesta segunda quinzena de janeiro. Publicado em outubro de 1997, “Diário de Uma Paixão” é também considerado o primeiro romance efetivo de Nicholas Sparks. É verdade que na década de 1980, o autor escreveu dois livros ficcionais - “The Passing” e “The Royal Murders” -, porém nunca quis/conseguiu publicá-los. E em 1990, Sparks publicou “Wokini” (Sem edição no Brasil), um romance coescrito com seu amigo Billy Mills, um atleta campeão olímpico. Essa obra alcançou relativo sucesso regional. Ou seja, foi apenas com “Diário de Uma Paixão” que Sparks debutou realmente como romancista de nível nacional. Este livro foi escrito basicamente em 1994, um trabalho que demandou cerca de seis meses. Segundo Nicholas Sparks, ele se inspirou na história real dos seus sogros, que permaneceram casados por mais de sessenta anos. Em 1995, o escritor recebeu um adiantamento de US$ 1 milhão de sua editora para finalizar o manuscrito. Nada mal para um escritor novato, hein? Em 1996, ele entregou a versão final do romance, que foi publicado no ano seguinte. Ainda na primeira semana de seu lançamento, “Diário de Uma Paixão” já entrou na lista dos mais vendidos do New York Times, permanecendo ali por um bom tempo. Estava iniciada a trajetória de um dos principais best-sellers norte-americanos da atualidade. Nicholas Sparks publicou, desde então, mais vinte títulos. Suas vendas nas livrarias do mundo inteiro ultrapassaram a marca de 100 milhões de exemplares. Até hoje, muitos leitores consideram o romance de estreia como seu principal trabalho. Em 2004, esta história foi adaptada para o cinema. Orçado em US$ 30 milhões, o filme homônimo foi dirigido por Nick Cassavetes, de “Uma Prova de Amor” (My Sister's Keeper: 2009) e “Um Ato de Coragem” (John Q: 2001). O livro “Diário de Uma Paixão” começa com o relato em primeira pessoa de Noah Taylor Calhoun, um senhor de oitenta anos. Ele está vivendo em uma casa de repouso ao lado da mulher que ama. É início dos anos de 1990. Ela está muito doente (tem Alzheimer) e não o reconhece mais. Para despertar a memória dela, Noah começa a ler um diário. Nesse momento, a trama retrocede para outubro de 1946 e o romance passa a ser narrado em terceira pessoa. A Segunda Guerra já terminou e Noah Calhoun tem pouco mais de 30 anos. Ele está sozinho em sua casa em Nova Berna, uma pequena cidade interiorana da Carolina do Norte. Suas únicas companhias são uma cachorrinha que não tem uma das patas e a natureza exuberante do lago próximo à casa. Após voltar da guerra, o rapaz comprou aquela propriedade e a reformou. O restauro levou quase um ano para ser completado e consumiu longas e pesadas jornadas de trabalho. Basicamente, Noah fez tudo sem a ajuda de ninguém. Em muitos dias, ele só parava para dormir e se alimentar. O resultado ficou tão bom que gerou matérias em alguns jornais locais. Os jornalistas não cansavam de enaltecer a dedicação e o capricho do novo morador em reconstruir praticamente sozinho uma casa daquele tamanho. Entretanto, o motivo do grande trabalho que Noah teve para reerguer a propriedade permanece oculto aos olhos do grande público. Só ele e seu melhor amigo, um vizinho, sabem que o rapaz se lançou em uma rotina desgastante e demorada para esquecer um grande amor do passado. É durante à noite, quando se senta na varanda de sua residência, que Noah se recorda de Allison Nelson, sua primeira namorada. Os dois se conheceram no Verão de 1932 e viveram um tórrido romance. Foi amor à primeira vista. Nessa época, Noah já morava em Nova Berna com o pai e Allison foi passar férias na localidade com sua família. O relacionamento do jovem casal de adolescentes precisou ser mantido escondido dos pais da moça. Afinal, Allison era filha de ricos empresários e Noah era descendente de um trabalhador braçal. A família dela jamais iria permitir um namoro como aquele. Mesmo assim, os jovens não se desgrudaram durante o Verão inteiro. Terminada as férias, Allison retornou para sua casa, mas os adolescentes prometeram continuar se comunicando. Porém, Noah nunca mais conseguiu ver ou mesmo falar com a amada. Ela jamais respondeu as suas cartas. Por dois anos, ele enviou regularmente correspondências a Allison, que se mantiveram sem qualquer resposta. Assim, o rapaz desistiu de manter o relacionamento, apesar de jamais ter esquecido a primeira namorada. Em um final de tarde, enquanto permanece em sua varanda pensando no passado, Noah é surpreendido com o aparecimento de um carro em sua propriedade. Para espanto dele, é Allison Nelson que vem visitá-lo. A moça resolveu terminar com os quatorze anos de sumiço e silêncio. Ela soube que Noah estava ali por causa da matéria que leu no jornal. Para tristeza de Noah, Allisson afirma logo de cara que está de casamento marcado com Lon Hammond, um bem-sucedido advogado. Ela é apaixonada pelo noivo e resolveu viajar para Nova Berna apenas para colocar uma pedra no passado mal resolvido de ambos. Noah entende a situação. Ele convida a antiga namorada para entrar em sua casa e tomar um chá. Assim, eles podem conversar melhor. O encontro de Noah Taylor Calhoun e Allisson Nelson, contudo, terá um desfecho muito diferente do que ambos imaginaram. Resolver as questões pendentes do passado não será tão fácil quanto eles imaginam... “Diário de Uma Paixão” possui pouco mais de 230 páginas e apresenta uma leitura rápida. Concluí esta obra de Nicholas Sparks em duas noites. Acho que levei aproximadamente quatro horas para ir da primeira à última página do romance. Não é errado dizer que este é o tipo de livro que prende a atenção do leitor. Se você leu os três primeiros capítulos, na certa vai querer seguir em frente até o final. Admito que gostei muito desta leitura. Mesmo não sendo um romântico inveterado (tenho muita dificuldade para gostar de histórias deste tipo...), confesso ter apreciado bastante a trama de “Diário de Uma Paixão”. Se considerarmos que esta é uma obra de estreia, Sparks mandou muitíssimo bem. O ponto alto desta história está no mistério sobre a decisão de Allisson. Afinal, quem ela escolheu como marido: Noah ou Lon? A resposta para essa questão só aparece efetivamente no último capítulo. Enquanto aguarda a definição da protagonista, o leitor não pode precisar para qual lado penderá a escolha da moça. Ela ama Lon, mas parece sentir algo profundo pelo namorado da adolescência. Também gostei das surpresas apresentadas pelo autor ao longo do romance. “Diário de Uma Paixão” não é uma história óbvia. Isso fica mais claro no último capítulo, talvez a parte mais rica e forte da narrativa. No desfecho, retornamos aos relatos em primeira pessoa de Noah, iniciados no primeiro capítulo, quando o protagonista tem 80 anos. Só aí descobrimos o que aconteceu. Mesmo assim, a trama apresenta novos e difíceis conflitos, talvez mais desafiadores do que os antigos. A escrita de Nicholas Sparks é enxuta e objetiva. O autor norte-americano não perde tempo com nada que seja desnecessário. Assim, seus romances costumam ser leituras rápidas e impactantes. “Diário de Uma Paixão” se enquadra exatamente nesse perfil de livro. Sorte de seus leitores. Sparks sabe construir ótimas cenas e boas personagens. Essa combinação torna seu texto saboroso e viciante. Apesar de seu romantismo ser do tipo exagerado e suas personagens serem normalmente planas, a força de suas histórias compensa uma ou outra escorregadinha do autor. Ainda continuo considerando “Meu Querido John”, “Um Porto Seguro” e “Uma Longa Jornada” meus livros preferidos de Nicholas Sparks (essas são obras mais maduras e com mais e melhores elementos dramáticos). Contudo, reconheço que “Diário de Uma Paixão” é também um excelente romance romântico. Trata-se de uma obra sensível e com uma narrativa marcante. Como livro de estreia, fica claro que este autor possui um grande potencial literário e um enorme talento ficcional. Não à toa, Sparks tenha se tornado um dos maiores best-sellers do século XX. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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