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  • Livros: Um Novo Amanhã - Parte 1 da trilogia A Pousada de Nora Roberts

    O mês de agosto está terminando e, assim, este Desafio Literário também se aproxima dos seus momentos finais. Para marcar o encerramento da parte das análises das obras de Nora Roberts, li, nesta semana, o livro "Um Novo Amanhã" (Arqueiro). Trata-se do sexto e último romance da escritora norte-americana que estudamos aqui no Blog Bonas Histórias. Das publicações de Roberts discutidas nos últimos vinte e cinco dias, esta é a mais recente. Ela foi lançada em março de 2016. Como é tradicional de Nora Roberts, "Um Novo Amanhã" faz parte de uma série literária. Como esta autora gosta de continuações, meu Deus! Este livro é o primeiro da trilogia "A Pousada". Completam a coleção, os romances "O Eterno Namorado" (Arqueiro) e "Um Par Perfeito" (Arqueiro). A trilogia completa foi publicada quase que simultaneamente no ano passado. A diferença entre a chegada do primeiro e do último livro nas livrarias brasileiras foi de apenas oito meses. O que chama a atenção na história de "A Pousada" é o seu romantismo acentuado. Sem dúvida nenhuma, esta é a trama mais melosa da norte-americana que analisamos no Desafio Literário durante este mês. Se você é diabético(a) ou está de dieta, precisando reduzir a ingestão de tudo aquilo que é muito doce, recomendo ler com parcimônia os livros desta série. Se você não for um (uma) romântico(a) de carteirinha, é melhor nem abrir as páginas da primeira obra da trilogia "A Pousada". "Um Novo Amanhã" se passa na pequena cidade de Boonsboro, no interior dos Estados Unidos. Ali, há uma tradicional pousada que está sendo reformada pela família Montgomery. Três irmãos, Beckett, Ryder e Owen Montgomery, são os responsáveis por revitalizar aquele prédio que ficou décadas abandonado e fechado. Mesmo assim, a construção permanece sendo um dos principais símbolos do município, uma lembrança dos tempos áureos da localidade. Depois de reconstruída, a pousada será administrada pela família, tendo a mãe do trio de rapazes como comandante. Enquanto cuida do árduo trabalho de restaurar a pousada, Beckett Montgomery, o charmoso arquiteto que lidera a trupe de irmãos especializada em reformas, se apaixona por Clare Brewster, sua amiga de infância e que retornou recentemente para Boonsboro. Clara é viúva (seu marido era soldado do exército norte-americano e morreu enquanto trabalhava no exterior), tem três filhos pequenos e administra a principal livraria da localidade, situada em frente à pousada. O grande desafio do casal será conseguir conciliar suas complicadas rotinas. Só assim, poderão engatar um romance de verdade. Beckett sofre com o trabalho pesado na pousada e com a descoberta que há um fantasma no prédio em que está reformando. Clara, por sua vez, precisa achar um tempinho na sua agenda de empresária e mãe solteira com três filhos pequenos para ver seu amado. Apesar da ajuda dos amigos, o início do namoro entre Beckett Montgomery e Clare Brewster corre riscos. Este é o enredo. "Só isso?!", podem pensar alguns. Sim, só isso! Achou a sinopse boba? Há, porém, algo pior do que a simplicidade da trama. Nora Roberts produz um texto recheado de banalidades. As personagens estão o tempo inteiro comendo pizza, discutindo detalhes da reforma da pousada, comentando fofocas da cidade, bebendo cerveja, assistindo televisão, debatendo a criação dos filhos (até mesmo os mais crescidinhos) ou brincando de forma infantil com a criançada. São todas atividades triviais e que quando colocadas em um romance tornam-se ainda mais sem graça. Qual a relevância destes fatos? Nenhuma! Assim, na primeira metade das 320 páginas do livro, não acontece absolutamente nada de especial. Nada. Nadinha! Angustiante mesmo são os diálogos. As conversas travadas entre as personagens deste livro devem constar no manual do que um(a) escritor(a) minimamente razoável não deve fazer. Jamais! A impressão que temos que é o romance nos leva a intimidade entediante de pessoas interioranas. A vida monótona da pequena e parada Boonsboro é escancarada sem qualquer lirismo ou beleza literária. Quer alguns exemplos. Aí vão: Ryder e Beckett discutem as atividades feitas em determinado dia na pousada. - É uma madeira ótima. Castanho é uma escolha bem acertada, Beck. - Vai combinar bastante com o assoalho. E o sofá tem que ser de couro. Escuro, mas intenso, com cadeiras de couro mais claro para contrastar. - Que seja. Chegaram hoje as luminárias do teto que a mamãe encomendou. Outro exemplo. Os irmãos estão na pizzaria. - Já querem fazer os pedidos? - pergunta a garçonete. - Pizza do Guerreiro - declarou Ryder. - Não quero comer tanta carne - retrucou Owen, balançando a cabeça e bebericando a cerveja. - Amarelão. - Peça você a bomba de colesterol - sugeriu Beckett, então acrescentou para Owen: - Podemos dividir uma de pepperoni com pimenta. - Fechado. E uns bolinhos de caranguejo. - E pra já. Como vão as coisas na pousada? - Avançando - respondeu Owen. Multiplique esses diálogos banais por 160 páginas e você terá o retrato da metade do livro "Um Novo Amanhã". Ora se fala da reforma da pousada e ora se discute os hábitos alimentares das personagens. É preciso muita paciência para evoluir na leitura. A vontade que se dá é de atirar o livro longe. As personagens principais e secundárias são até bem construídas (uma marca de Nora Roberts). O casal de protagonistas também é interessante e cativa o leitor. Beckett Montgomery e Clare Brewster formam um casal bonitinho e cheio de problemas, o que confere um pouco de emoção à trama narrada. Apesar de gostarem um do outro, a princípio não será fácil ficarem juntos. Muita coisa irá surgir no meio do caminho como obstáculo ao relacionamento deles. O grande problema desta história está na falta de vilões poderosos. Os antagonistas são responsáveis, tradicionalmente, por tornarem as tramas envolventes, imprevisíveis, emocionantes e misteriosas. Há quem classifique uma ficção como sendo boa ou ruim a partir da qualidade (ou das maldades) dos seus vilões. Cabe ao autor produzir um grande empecilho à vida das personagens principais. Não é isso o que temos em "Um Novo Amanhã". O único antagonista da história aparece pouco e é muito bobinho. Só há uma (única) cena de ação durante todo o livro que mereça destaque e que leva efetivamente algum perigo aos protagonistas. Muito pouco para um romance com mais de três centenas de páginas. Minha impressão é que Nora Roberts poderia ter compilado os três livros da série "A Pousada" em um único romance. Se tivesse descartado todas as cenas banais e os diálogos desnecessários, principalmente da primeira obra, poderia ter produzido uma boa publicação romântica com alguma ação. Porém, preferiu produzir mais uma de suas séries e, assim, diluiu a força narrativa em três doses fraquinhas. Definitivamente, ela optou pela alternativa mais comercial, abrindo mão da qualidade literária. As últimas vinte páginas de "Um Novo Amanhã" são interessantes, misturando romantismo, aventura, ação e intriga. Porém, as quase trezentas páginas que precisam ser lidas para chegar ao clímax indicam que não vale a pena tal esforço do leitor. Além disso, não me senti encorajado a encarar mais dois livros da trilogia "A Pousada". Ao chegar à ultima página de "Um Novo Amanhã", respirei aliviado. Ufa, acabei! Além de ter concluído um dos mais chatos livros do ano, finalizei a leitura de Nora Roberts, provavelmente a autora mais fraca da história do Desafio Literário. E olha que já passaram por aqui Paulo Coelho e Sidney Sheldon... Os fãs de Nora Roberts me desculpem, mas comparar a norte-americana com os principais nomes da literatura mundial é uma piada sem graça. Talvez o grande equívoco tenha sido meu, ao colocá-la ao lado de Haruki Murakami, Régine Deforges, Machado de Assis e Markus Zusak. Roberts pode até ser uma campeã na vendagem de livros, mas está muito, mas muito longe de ser uma escritora de qualidade. Pelo menos esta foi a constatação obtida com as leituras aqui realizadas neste mês de agosto. Na próxima terça-feira, dia 29, retorno aqui no Blog Bonas Histórias para analisar de maneira mais completa o perfil literário de Nora Roberts. Terei como base os estudos dos seis livros da norte-americana que lemos ao longo deste mês. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoraRoberts #LiteraturaNorteAmericana #Romance

  • Livros: Querer e Poder - Thriller romântico de Nora Roberts

    A leitura deste final de semana foi "Querer e Poder" (Harper Collins), romance de Nora Roberts publicado em dezembro de 2013. Depois de alguns livros seriados da autora norte-americana - "Pecados Sagrados" (Bertrand) da sequência "Detetives de Washington D.C", "A Cruz de Morrigan" (Bertrand) da "Trilogia do Círculo" e "Nudez Mortal" (Bertrand) da coleção "Mortal" - o "Desafio Literário", enfim, apresenta uma obra isolada, não pertencente a nenhuma série. Trata-se da primeira grande novidade deste livro. Saber que chegaria a um desfecho sem precisar me aventurar por mais e mais romances, em uma interminável sequência de páginas foi, admito, um alívio. "Querer e Poder" tem 288 páginas e apresenta um thriller com alta dosagem de romantismo. Apesar do enredo não possuir nenhuma grande surpresa (algo particularmente complicado para uma obra pretensamente de suspense), Nora Roberts produz uma trama envolvente e com personagens cativantes. A atenção do leitor fica presa nas páginas do livro do início ao final. Neste quesito, Roberts atinge corriqueiramente seu objetivo. Para tal, a autora utiliza-se de elementos narrativos batidos e de recursos literários convencionais. Entrega, assim, um romance simples e, por que não, eficiente. É o famoso arroz com feijão bem feito, que agrada principalmente as pessoas que procuraram uma história de amor que seja consumida sem grandes complicações. Eu li esta obra em duas noites. Com disposição, é possível lê-la em uma tarde chuvosa de final de semana. O enredo desse livro começa com a morte de Jolley Folley, um senhor milionário e muito excêntrico, que vivia solitário em seu castelo no interior do país. Ele jamais fora compreendido pela sua família, que o aturava simplesmente por interesses financeiros. De certa forma, o falecimento de Jolley foi um alívio para a maioria dos parentes. Agora, eles poderiam colocar as mãos na fortuna deixada pelo idoso. Os únicos que nutriam genuíno amor pelo milionário eram seus sobrinhos Pandora McVie, uma moça que trabalhava como design de joias, e Michael Donahue, um importante roteirista de televisão. Apesar de adorarem o tio, Pandora e Michael nunca se suportaram, nutrindo grande ódio um pelo outro desde a adolescência. As tentativas de Jolley Folley para aproximar os sobrinhos de que tanto gostava nunca foram bem-sucedidas. Os primos simplesmente não podiam conviver no mesmo ambiente. A simples presença do outro provocava brigas homéricas. Por isso, eles normalmente se revezavam nas visitas ao tio. A divulgação do testamente de Jolley Folley pegou a família de surpresa (só a família, vale a pena dizer, porque seu conteúdo era um tanto óbvio para o leitor). O solitário senhor deixou toda a sua fortuna para Pandora McVie e Michael Donahue (onde está a surpresa?!). Contudo, (Ok, aqui vai algo novo!) para os primos ficarem com a herança, eles precisavam cumprir uma última excentricidade do tio. Segundo o documento lido pelo advogado, Pandora e Michael tinham que viver por seis meses na mansão que era de Jolley. Juntos! Neste período, os jovens herdeiros não poderiam se ausentar mais do que 48 horas da residência localizada em uma região rural. Se esta cláusula fosse descumprida, a dupla perderia o direito à fortuna, que, aí sim, seria então repartida com os demais familiares. O polêmico item do testamento era a última tentativa do milionário em aproximar seus queridos sobrinhos. Pandora McVie e Michael Donahue aceitaram o desafio imposto. Mais do que colocar as mãos na fortuna do tio, os dois queriam evitar que seus familiares interesseiros se apropriassem daquela riqueza. Os parentes, por outro lado, não pareceram tão preocupados com a situação. O ódio histórico entre os primos parecia tornar a empreitada de uni-los por seis meses em uma tarefa quase impossível de ser concretizada. Assim, Pandora McVie e Michael Donahue partem para morar no castelo do tio Jolley precisando encarar as diferenças e as antipatias mútuas. A princípio, a dupla acredita que nunca seis meses pudessem parecer demorar tanto para passar... Em pouco tempo, uma surpresa se revela (não para o leitor, obviamente!): Pandora e Michael passam a gostar do convívio um do outro. Até um clima pinta entre eles. Será que o ódio histórico entre eles era um amor enrustido? Esta é uma pergunta retórica, tá! Qualquer leitor, por mais desatento que seja, saberia responder tal questão na segunda página do livro. Agora, o problema do casal será outro. A série de misteriosas sabotagens que são armadas para quebrar a harmonia dos primos abala o relacionamento harmônico deles. Parece que alguém quer que a inimizade e ódio entre os dois se mantenham ou até mesmo se intensifiquem. Quem será que está por trás disso? Novamente, a pergunta é retórica, tá? "Querer e Poder", infelizmente, não atinge a condição de ser um thriller tão interessante quanto poderia nem possui uma boa trama romântica. Diria que ele é apenas um livro medíocre. Os protagonistas até são carismáticos, mas a história como um todo é prejudicada pela banalidade das situações e pela obviedade dos acontecimentos. Neste sentido, a narração em terceira pessoa (feita apresentando os múltiplos pontos de vista das personagens principais) atenua um pouco a fraqueza do enredo. Este recurso aumenta um pouco a dramaticidade da história e os mistérios da obra. Mesmo assim, é muito pouco! O leitor mais qualificado e exigente chegará ao final do livro muito decepcionado. Ele até irá torcer pelo casal principal e ficará curioso para saber o mistério por trás das sabotagens contra os protagonistas. Porém, aí vem o desenlace e tudo vai para o buraco! Os principais problemas de "Querer e Poder" estão no fato de ele ser um romance banal e seu desfecho ser péssimo. A primeira questão se apresenta desde o início da narrativa. Tudo o que o leitor pensa que vai acontecer, acontece. A sensação é que Nora Robert não tem capacidade nenhuma de escrever algo que fuja dos clichês. O pior é que esta questão não é exclusiva desta obra. O mesmo fato acontece repetidamente nos demais livros da autora. Terrível! Juro que pensei: "Calma! A grande surpresa estará reservada para o final. Com certeza, Roberts irá apresentar um desfecho criativo e interessante". Aí, no último capítulo, a autora escorrega ainda mais, produzindo um fechamento ao mesmo tempo insosso e extremamente infantil. Juro que fiquei com raiva. A sensação é de decepção absoluta. Se não fosse minha obrigação por terminar esse Desafio Literário, admito que não leria nunca mais nada de Nora Robers. Contudo, obrigação é obrigação. Ainda falta mais um livro da norte-americana que deve ser analisado. Na próxima sexta-feira, dia 25, retorno ao blog para comentar "Um Novo Amanhã" (Arqueiro). Este romance é um dos mais recentes da escritora. Ele foi publicado no ano passado e inaugura a trilogia "A Pousada". Lá vem outra série! Que tal este post do Desafio Literário? Deixe, por gentileza, seu comentário aqui. Para acompanhar o conteúdo do Bonas Histórias, curta a página do blog no Facebook. #NoraRoberts #Suspense #LiteraturaNorteAmericana #Romance

  • Peças teatrais: Marte, Você Está Aí? - A intransigência política no Brasil

    No começo deste mês, fui ao Auditório do MASP para assistir ao espetáculo teatral "Marte, Você Está Aí?". A autora da peça é Silvia Gomez, uma jovem dramaturga mineira formada em jornalismo e que está radicada em São Paulo há mais de uma década e meia. Depois de destacada atuação no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), quando trabalhou por oito anos com Antunes Filho, Silvia passou recentemente a produzir peças para outras companhias. Em 2015, ela conquistou o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor texto com "Mantenha Fora do Alcance do Bebê", até aqui seu trabalho mais celebrado. As peças de Silvia Gomez possuem tradicionalmente um clima tenso e uma narrativa densa, misturando angústias contemporâneas com reflexões sociopolíticas. Em "Marte, Você Está Aí?", a mineira faz uma crítica contundente a uma sociedade pseudofuturista. Nela, a repressão política e o preconceito ideológico continuam presentes na vida dos indivíduos. Apesar de todo o avanço tecnológico, o pensamento discordante e a opinião livre das pessoas comuns são os principais inimigos do Estado. Os agentes mais atuantes da sociedade são aqueles que mais sofrem com a repressão policial, que busca o tempo inteiro calar as vozes discordantes. As pessoas mais engajadas e mais influentes da comunidade são, portanto, pessoas subversivas. "Marte, Você Está Aí?" teve a direção de Gabriel Fontes Paiva e a participação da experiente e conceituada atriz Selma Egrei. Completa o elenco a dupla formada por Michelle Ferreira e Jorge Emil. Com 80 minutos de duração, a peça intriga o público com um texto intenso (e, muitas vezes, enigmático), com uma narrativa entrecortada, personagens dúbias e cenas de forte dramaticidade. O enredo da peça se passa em um futuro (não tão distante) no qual a exploração interplanetária é uma rotina. Uma jovem ativista política (interpretada por Michelle Ferreira) é alvo de perseguição política após liderar um protesto estudantil. Ferida, a moça precisa fugir da polícia e do Estado repressor. Escondida em uma casa abandonada, ela começa a cuidar de um cachorrinho que estava desamparado. O animalzinho ganha o nome de Marte. Enquanto a estudante procura se esconder dos inimigos, sua mãe (Selma Egrei) recebe a visita de Bob, um agente do Estado (Jorge Emil). O policial quer saber se a mãe sabe do paradeiro da filha. A postura intransigente e violenta do rapaz faz a senhora se lembrar de seu passado, quando era uma militante de esquerda. Naquela época, a hoje dona de casa conservadora sofreu com a tortura praticada pela ditadura militar. As cenas de mãe e filha são entrecortadas, mostrando que o passado e o presente se confundem assustadoramente. "Marte, Você Está Aí?" é uma boa peça. Seu texto é forte e contundente. É possível notar a maturidade e a riqueza artística de Silvia Gomez. A dramaturga faz várias críticas à sociedade contemporânea, como o consumo excessivo, a força da publicidade na rotina das pessoas, as relações conflituosas dentro das famílias, a intransigência de opiniões, a perseguição ideológica, o peso excessivo do aparato estatal e a violência urbana. A grande sacada para entender o enredo da peça é notar que o futuro imaginado pela autora é na verdade nosso presente. Além disso, presente e passado se misturam na postura de mãe e filha. A jovem estudante tem comportamentos, pensamentos e crenças muitíssimos parecidas com que a conservadora dona de casa tinha na juventude. As atuações do trio de atores também merecem elogios, assim como a produção da trilha sonora e o jogo de luzes. Michelle Ferreira, Jorge Emil e Selma Egrei são experientes e muito talentosos. A música torna o clima da peça ainda mais tenso enquanto as luzes guiam os olhares do público durante todo o espetáculo. Esses dois elementos participam de forma sinestésica da peça, mexendo com as emoções da plateia. Gostei também das soluções criativas que foram colocadas em prática em "Marte, Você Está Aí?". Desde a presença enigmática dos atores no palco enquanto a plateia procurava seus lugares, antes do espetáculo começar efetivamente, até a escolha de um cachorro cenográfico para interagir com as personagens, são pequenos detalhes que engrandecem a peça. Contudo, a aridez do texto e a complexidade da trama podem não agradar a maioria do público. Definitivamente, essa não é uma peça para as massas. A dificuldade de entendimento do que está acontecendo no palco (principalmente na primeira metade do espetáculo) pode levar muita gente na plateia a repudiar a trama e não mergulhar em sua densidade dramática. Ao sair do teatro, ouvi muitos comentários negativos do público. Acho que a maioria não entendeu a obra de Silvia Gomes e/ou não conseguiu se conectar a profundidade do texto. Admito que também achei muito difícil a tarefa de montar o quebra-cabeça narrativo exposto pelo trio de atores no palco. Se a dramaturga minieira fosse uma cineasta, compararia seus trabalhos aos de Alain Resnais, Akira Kurosawa, Federico Fellini, Ingmar Bergman e Krzysztof Kieslowski. Esses artistas jamais foram (são ou serão) populares. A beleza de suas obras está justamente na profundidade filosófica e na alta dose de subjetividade de suas criações. Assim, é possível que "Marte, Você Está Aí?" encante muito mais a crítica teatral do que o próprio público presente no teatro. A temporada inicial de "Marte, Você Está Aí?" terminou no dia 6 de agosto, mas é bem provável que a peça volte a ser encenada nesse ano aqui em São Paulo, seja no Auditório do MASP ou em outro teatro paulistano. Quem tiver coragem para encarar a densidade, a aridez e a complexidade do espetáculo, fique ligado nas novidades do segundo semestre. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias desta coluna. Para acessar as demais críticas teatrais, clique em Teatro. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #teatro #peçadeteatro #SilviaGomez #GabrielFontesPaiva #SelmaEgrei #MichelleFerreira #JorgeEmil

  • Livros: A Cruz de Morrigan - Volume 1 da Trilogia do Círculo

    O quarto livro de Nora Roberts neste Desafio Literário é "A Cruz de Morrigan" (Bertrand). Li esse romance no último final de semana. Essa obra é o primeiro volume da "Trilogia do Círculo", primeira série fantástica da autora norte-americana. Misturando vampiros, bruxas, feiticeiros, deuses e demônios, Roberts cria uma trama apocalíptica. A batalha travada é entre o bem (seres humanos) e o mal (vampiros) pela supremacia no planeta Terra. Além dos elementos sobrenaturais, a escritora acrescenta muito romantismo e suspense à história, ingredientes estes que nunca faltam em suas narrativas e que marcam, de certa forma, sua literatura. Publicado originalmente em 2006, nos Estados Unidos, "A Cruz de Morrigan" foi lançado no Brasil em 2011. O romance inaugural da "Trilogia do Círculo" possui 364 páginas. A série é completada por "O Baile dos Deuses" (Bertrand), de 336 páginas, e por "O Vale do silêncio" (Bertrand), com 350 páginas, segundo e terceiro volumes da coleção, respectivamente. "A Cruz de Morrigan" começa com um prefácio de duas páginas. Nele, um homem idoso decide entreter algumas crianças. A persistente chuva no lado de fora da residência confina o grupo em uma sala, entediando a todos. Para espantar o marasmo geral e para prender a atenção da molecada por algumas horas, o velhinho conta uma história que fala de "coragem e covardia, de morte e de vida e de amor e de perda". Apesar de saber que o enredo é um tanto sangrento e muito picante (portanto, inapropriado para a idade dos pequenos ouvintes), o narrador inicia mesmo assim seu relato. As crianças vão ao delírio quando descobrem que há monstros, reis, princesas, paixões e lutas na narrativa. A história se passa, a princípio, no século XII. O ano é 1.128 e o cenário é a Irlanda medieval. Hoyt Mac Cionaoith, um bondoso feiticeiro, lamenta a morte de Cian, seu irmão gêmeo. Lilith, uma vampira demoníaca e muitíssimo poderosa, não apenas tirou a vida de Cian como o transformou em vampiro, condenando o rapaz a viver como um morto-vivo pela eternidade. Vendo o novo estado do irmão, Hoyt fica revoltado, jurando vingança à Lilith. Ajudado por Morrigan, uma deusa preocupada com o destino da humanidade, o feiticeiro viaja no tempo e vem até o século XXI. Nos dias atuais, Hoyt precisará reunir um grupo de bravos combatentes para enfrentar a líder dos vampiros. A equipe comandada pelo feiticeiro terá mais cinco integrantes. Serão, além do feiticeiro, uma bruxa, uma guerreira, uma erudita, um homem de múltiplas formas e alguém que havia sido dado como perdido. O sexteto constituirá o "Círculo" do bem. Segundo a previsão de Morrigan, o protagonista e seus aliados desafiarão Lilith em um combate derradeiro cujo resultado irá decidir quem ficará com o domínio do planeta. Uma derrota por parte do grupo de Hoyt representará o extermínio completo dos seres humanas na Terra. O primeiro a ser recrutado por Hoyt é seu irmão, Cian. O vampiro vive em Nova York e tem, agora, mais de 900 anos (lembremos: os vampiros não morrem nem envelhecem). Vivendo como um milionário, Cian leva uma vida triste e solitária, porém com muito luxo. Ele parece não ter ficado muito feliz com a chegada do irmão. Ao mesmo tempo em que reencontra seu gêmeo, Hoyt começa um namoro com Glenna, uma bruxa norte-americana do século XXI que integrará seu grupo de combatentes. Hoyt, Cian, Lilith viajam, então, para a Irlanda para iniciarem o treinamento bélico. É na Europa que o trio deve esperar a chegada dos demais integrantes da equipe. Só com o grupo formado e devidamente preparado, os vampiros de Lilith poderão ser atacados pelos humanos, em um confronto derradeiro. Admito que "A Cruz de Morrigan" me surpreendeu positivamente. A trama é muito bem construída. Sua narrativa ágil e recheada de elementos dramáticos faz com que leiamos rapidamente o romance. Ao final do livro, quis ler imediatamente a continuação da trilogia. Se estivesse com "O Baile dos Deuses" em mãos, na certa já teria começado essa leitura naquele mesmo instante. O que faz "A Cruz de Morrigan" ser tão interessante é o conjunto variado de elementos narrativos que Nora Roberts se utiliza. Ao mesmo tempo em que é um romance com características históricas, parte da trama se passa nos dias atuais. Personagens como rainhas, feiticeiros e bruxas medievais dividem a cena com administradores, artistas e empresários contemporâneos. Além disso, a presença de componentes fantásticos (magia, vampirismo e poderes sobrenaturais) não impossibilita a existência de um mundo como o conhecemos (regido pelas leis normais da natureza). Para completar a miscelânea, o cenário de guerra e de confronto com os vampiros não isenta sua autora de colorir a história com bastante romantismo e momentos de humor. Por exemplo, em meio a um grande combate contra os vampiros, as personagens humanas decidem realizar um casamento. Essa cena é ótima (e hilária!). No instante de troca das alianças e de realização dos juramentos do casal, os participantes do casório (inclusive os noivos) precisam sair para matar os inimigos, que resolveram aparecer justamente naquele momento. Terminada a violenta luta, todos voltam para a concretização da cerimônia. O romantismo é, portanto, a peça-chave para a compreensão de grande parte do apelo narrativo do livro. Apesar do cenário bélico e das cenas de feitiçaria e bruxaria, é a união de Hoyt e Glenna que mexe com os sentimentos do leitor. Esse é um casal um tanto pitoresco, vale a pena comentar. Eles estão sempre brigando, mas também não se furtam em fazer as pazes regularmente. Eles não conseguem se desgrudar, essa é a verdade, se amando intensamente. Ele é um feiticeiro irlandês do período medieval. É machista, calado e um tanto bruto. Ela, por outro lado, é uma artista norte-americana do século XXI. É feminista, extrovertida e nada romântica. O namoro e o posterior casamento da dupla unem perfis totalmente distintos. Outro ponto positivo do livro é a constituição das personagens. Mais uma vez, Nora Roberts se mostra exímia na arte de compor pessoas complexas e contraditórias. Tanto os protagonistas como os figurantes apresentam dramas, medos e perfis intrigantes. É difícil não se apaixonar por eles. A construção de todas as personagens é muito bem feita. Os tipos que aparecem nas páginas do livro são seres únicos, relevantes e carismáticos. A infantilidade, típica das histórias de vampiros e de bruxas, curiosamente, não aparece aqui. Nora Roberts consegue produzir um texto elegante e adulto, dando pouquíssima margem para questionamentos sobre a seriedade de sua obra. Apesar de ter gostado muito de "A Cruz de Morrigan", ao terminá-lo fiquei com uma dúvida: qual a originalidade dessa obra?! Novamente, a minha impressão é estar diante de uma história recheada de clichês. A "Trilogia do Círculo" é uma mistura da série "Harry Potter" (de J. K. Rowling) com a trilogia "Senhor dos Anéis" (de J. R. R. Tolkien), a saga "Crepúsculo" (de Stephenie Meyer), a coleção "Torre Negra" (de Stephen King) e a série "As Crônicas de Gelo e Fogo" (de George R. R. Martin). Provavelmente, quem é fã de algumas dessas tramas (ou de todas) não achará nenhuma grande novidade em "A Cruz de Morrigan". Afinal, não há nada mais entediante do que uma overdose de vampiros, mundos sobrenaturais e confrontos apocalípticos invadindo a literatura contemporânea. Por isso, acho que quem irá gostar mais da "Trilogia do Círculo" é exatamente o público que não curte muito os atuais best-sellers fantásticos. Se você ainda não leu nenhuma das grandes séries com reinos encantados, seres mágicos e batalhas sobrenaturais, então você deverá gostar de "A Cruz de Morrigan". Apesar do excesso de clichês e de elementos "inspirados" (ou seriam copiados?!) de outras sagas mais famosas, a história criada por Nora Roberts é muito interessante e cativante. Se a norte-americana não foi nada original no enredo, pelo menos ela conseguiu produzir uma aceitável história fantástica logo em sua primeira tentativa. Na próxima segunda-feira, dia 21, o Desafio Literário analisará outro livro de Nora Roberts. "Querer e Poder" (Harper Collins) é um thriller romântico publicado em 2013. Até semana que vem! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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  • Filmes: Janela Indiscreta - A janela mais famosa da história do cinema

    No feriado de 9 de julho, assisti ao clássico "Janela Indiscreta" (Rear Window: 1954), uma das mais celebradas produções de Alfred Hitchcock. Eu já havia visto este filme há mais de quinze anos e me lembrava de muitas de suas cenas marcantes. Com James Stewart e Grace Kelly como protagonistas, o longa-metragem foi indicado ao Oscar de 1955 em quatro categorias: melhor diretor, melhor roteiro, melhor fotografia e melhor som. Assim como aconteceu com algumas produções de Hitchcock, "Janela Indiscreta" ficou inacessível ao público por algumas décadas, pois seus direitos autorais foram cedidos à filha do diretor como herança. O problema foi resolvido na década de 1980, permitindo que ele voltasse a ser exibido. "Janela Indiscreta" começa com o fotógrafo L. B. Jeffries (James Stewart) em uma cadeira de rodas em seu apartamento no Greenwich Village, em Nova York. Com o pé engessado, ele não pode fazer nada. Como passatempo, resta ficar olhando seus vizinhos pela janela. Apesar dos protestos da namorada Lisa (Grace Kelly) e da massagista Stella (Thelma Ritter), Jeffries persiste com o novo hábito. Ele arranja até um binóculo para melhorar a visão das residências ao redor da sua. O tédio daquela rotina monótona transforma-se bruscamente quando o fotógrafo acredita ter presenciado, em uma madrugada chuvosa, um assassinato. No apartamento em frente, o marido parece ter matado a esposa doente e se livrado do corpo dela. Neste instante, começa efetivamente o filme. Sem poder sair de casa, Jeffries mobiliza a namorada e os amigos para investigarem o episódio. Enquanto conta com a colaboração dos outros para descobrir o que aconteceu, o homem que não sai da janela precisa convencer a todos do que realmente viu. Nem mesmo ele tem certeza absoluta de ter visto alguém ser assassinado. O grande mérito de "Janela Indiscreta" está em transformar uma história simples e aparentemente banal em uma excelente trama de mistério. As cenas são filmadas em um único ambiente: o apartamento do protagonista. Ele não sai dali durante todo o longa-metragem, participando de todas as tomadas. A princípio, pode parecer impossível conferir ação ao filme com esta característica, mas a genialidade de Hitchcock e o ótimo roteiro conseguem prender a atenção do público durante toda produção. O suspense é provocado, em parte, pela arquitetura do prédio de Jeffries e de seus vizinhos. Boa parcela dos US$ 2 milhões investidos no longa-metragem foi destinada à produção da cidade cenográfica. Apesar do quarteirão onde a história acontece ter sido inspirado em uma localidade real de Nova York, tudo ali é fictício. Outro importante ponto para a criação e manutenção do clima de tensão durante quase todo o filme é a trilha sonora. Franz Waxman, responsável por esta parte do filme, utilizou músicas antigas suas para produzir a canção que instiga a história. Além disso, o mistério se houve ou não um assassinato sai da tela e atinge também o expectador. Assim como as personagens, não sabemos o que é verdade e o que é imaginação. Desta maneira, também criamos nossas próprias teorias do que aconteceu e passamos a investigar os fatos por nossa conta. É verdade que o primeiro quarto do filme é lento e um pouco cansativo. A falta de ação pode incomodar quem é mais agitado e quem exige sempre sequências sucessivas de ação. Contudo, à medida que a história vai se desenrolando, a trama vai se tornando cada vez melhor, até desembocar em um final eletrizante. O bom humor está presente do início ao fim. Destaque para os diálogos provocantes entre as personagens. Parece que o protagonista quer irritar quem está a sua volta e todos querem irritá-lo. A ironia sutil ajuda a manter um clima agradável no meio de todo o suspense. É muito legal ver James Stewart e Grace Kelly juntos. Este foi um dos poucos filmes feitos pela Princesa de Mônaco. A carreira de Grace Kelly foi curta, porém intensa. Em apenas seis anos como atriz, ela fez onze longas-metragens (quase dois por ano) e conquistou um Oscar - melhor atriz principal, em 1955, com "Amar é Sofrer" (The Country Girl: 1954). A fotografia do filme também é muito boa, principalmente com o colorido feito pela Technicolor. A visão da janela do apartamento do protagonista é a chave para todo o enredo. "Janela Indiscreta" é um ótimo filme e merece ser visto e revisto pelos cinéfilos. Trata-se de uma das grandes obras-primas produzidas por Alfred Hitchcock. Veja, a seguir, uma apresentação do filme: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlfredHitchcock

  • Livros: Nudez Mortal - Nora Roberts como J. D. Robb na série Mortal

    Durante essa semana, li "Nudez Mortal" (Bertrand), o primeiro romance da celebrada série "Mortal". Escrita por Nora Roberts com o pseudônimo de J. D. Robb, a saga futurista tem mais de 50 títulos publicados nos Estados Unidos entre romances, contos e novelas. Aproximadamente metade deles já foi lançada no Brasil pela Bertrand, editora que possui os direitos autorais das obras da escritora norte-americana em nosso país. A coleção literária "Mortal" é o maior sucesso da carreira de Nora Roberts, tendo vendido dezenas de milhões de exemplares no mundo inteiro. Esta também é a série mais longeva da autora. Iniciada em 1995 com "Nudez Mortal", a saga continua sendo abastecida regularmente com novos livros. O ritmo de produção é espantoso. Nos últimos 22 anos, foram publicados sempre dois ou três livros por ano. Em 2011, essa marca foi superada com o lançamento recorde de quatro obras entre janeiro a dezembro. Juro que não sei como a norte-americana consegue ser tão prolífica! A trama da série "Mortal" gira em torno da destemida policial Eve Dallas e seu marido, o multimilionário Roarke. A história se passa em Nova York na segunda metade do século XXI. Basicamente, em cada livro, Eve precisa desvendar um crime praticado por um vilão diferente. Enquanto isso, o leitor acompanha o amadurecimento de seu relacionamento com Roarke. Eles se conhecem no primeiro livro e terminam essa obra como namorados. Alguns títulos depois, eles ficam noivos e, então, se casam. A aguardada gravidez de Eve até agora não aconteceu. Segundo a autora, a saga policial terminará quando a protagonista tiver um filho. Assim, ela precisará abandonar a perigosa carreira de combatente do crime para cuidar da família e do seu bebê. É fácil para o leitor reconhecer essa coletânea nas livrarias. Além do pseudônimo exclusivo para a série (J. D. Robb é uma mistura das iniciais dos nomes dos filhos de Nora Roberts com a abreviação do sobrenome do clã), todos os livros têm seus títulos terminados com a palavra "Mortal". "Nudez Mortal", "Glória Mortal", "Eternidade Mortal", "Êxtase Mortal", "Cerimônia Mortal", "Vingança Mortal", "Natal Mortal", "Conspiração Mortal", "Lealdade Mortal" e "Testemunha Mortal" são, por exemplo, as dez primeiras obras desta saga. O enredo de "Nudez Mortal", livro que li nessa semana, se passa em 2058. Eve Dallas, tenente da polícia de Nova York, lidera a investigação sobre crimes sexuais praticados contra prostitutas. As mulheres foram mortas por um serial killer com armas de fogo, um artigo que fora proibido na primeira metade do século XXI. O caso ganha maior dimensão porque a primeira vítima é neta de um influente senador da República. Assim, tanto o político quanto o chefe de Segurança Pública da cidade pressionam a policial para encontrar rapidamente o culpado. Um dos principais suspeitos de Eve é o milionário Roarke. O rapaz é um grande colecionador de armas de fogo e possui amizade com a família do senador. Além disso, ele jantou com a primeira vítima algumas noites antes dela ser morta. O problema de Eve é que a policial acaba sendo seduzida por Roarke durante a investigação. Enquanto tenta descobrir se o milionário é o serial killer, a tenente começa um tórrido romance com ele. Surge, assim, uma arriscada relação que poderá destruir tanto a carreira da policial quanto a investigação que ela está conduzindo. Nunca os desejos de Eve estiveram tão expostos como agora, justamente no momento em que ela não podia deixá-los aflorar. A mistura de trabalho e vida pessoal e o elemento explosivo que é um novo namorado suspeito de assassinato tornarão os dias de Eve ainda mais complicados do que já são normalmente. "Nudez Mortal" é uma trama cativante. Li suas 352 páginas em apenas dois dias. Admito que gostei muito do seu conteúdo. Entretanto, é preciso dividir sua análise em duas partes, pois elas apresentam características completamente antagônicas. Primeiramente, vou comentar o livro sob o ponto de vista de um romance policial. Na sequência, vou debatê-lo a partir da perspectiva de um romance futurista (ficção científica). Afinal, o primeiro título da série "Mortal" contempla essas duas categorias literárias. Ele é, ao mesmo tempo, uma história policial e uma trama futurista. Como romance policial, "Nudez Mortal" é um bom livro. Diria até muito bom! A história de maneira geral é interessante, veloz, enigmática e bastante emocionante, possuindo um clima de suspense que prende o leitor em suas páginas. A união entre investigação criminal e romantismo, uma das marcas de Nora Roberts, se mostra outra vez acertada. Achei a trama envolvendo a paixão de Eve e Roarke superior ao caso criminal exposto. Ou seja, o que torna a narrativa boa é o romance do casal de protagonistas e não a origem ou os desdobramentos dos assassinatos em série realizados por um maníaco sexual. Melhor dizendo, a investigação policial só é interessante devido ao envolvimento romântico da investigadora com seu principal suspeito e não por causa dos elementos do crime em si. Afinal, a investigação sobre o serial killer é corriqueira. É possível encontrar uma história como esta em muitas outras obras literárias e cinematográficas. Até mesmo Nora Roberts já produziu criminosos como visto aqui. "Pecados Sagrados" (Bertrand) é um exemplo dessa semelhança. Admito que um ou outro elemento da esfera criminal possa ser surpreendente, mas como um todo o romance policial não traz grandes novidades. Até mesmo o culpado pelo assassinato é óbvio. Facilmente é possível descobri-lo já na metade do romance. Mesmo assim, o desfecho chega a provocar alguma agitação no leitor, trazendo boas cenas de ação e uma pequena reviravolta nas páginas finais. Se o enredo dos assassinatos do serial killer é banal e pouco original, o mesmo não pode ser dito do relacionamento turbulento e um tanto proibido entre policial e investigado. A relação nada profissional entre os protagonistas torna tudo mais intenso, perigoso, divertido e com altas doses de suspense. As personagens dessa obra são complexas e carismáticas. Cada uma sofre com um problema psicológico diferente. Até mesmo as personagens secundárias são muito bem construídas, carregando certa dualidade que intriga o leitor. Nada nessa história é fácil para os protagonistas. Eles vivem seus dramas pessoais que parecem vir à tona cada vez que eles tentam superar os traumas do passado. Sem dúvida nenhuma, o romance fulminante entre Eve e Roarke é a melhor parte do livro. A trama é também bastante envolvente e ágil. Tudo acontece rapidamente nas páginas de "Nudez Mortal". A leitura é rápida por causa da linguagem simples e objetiva da autora (além da história ser boa, né?). Nora Roberts não perde tempo com nada que não seja essencial. Ela possui uma capacidade elogiável de narração sucinta que concentra a atenção exatamente naquilo que o leitor ficará mais fascinado. Neste sentido, admiro o poder hipnotizante de seus romances para uma grande parcela do público. O segundo aspecto em que o livro "Nudez Mortal" deve ser analisado é como uma ficção futurista. Aí, o caldo desanda! A realidade vivida pelas personagens em 2058 é (acredite!) menos avançada e menos tecnológica do que a nossa realidade atual, passada hoje, em 2017. Ou seja, em pouco mais de duas décadas, o romance publicado em 1995 já ficou totalmente desatualizado, retratando um futuro pouquíssimo provável. A projeção de futuro de Nora Roberts é uma mistura de lugares comuns e erros grosseiros de previsão. Na segunda metade do século XXI, os carros irão voar e os robôs/androides estarão convivendo com os humanos. O principal comando das máquinas será através da voz. Até aí, não há nada que trabalhe contra a lógica imaginativa. Essas projeções são obviedades. O problema está onde, então? Em todo o resto! As florestas naturais serão desmatadas, mas o clima do planeta não terá superaquecido. Pelo contrário, as temperaturas médias terão diminuído. O telefone celular não estará disseminado na sociedade, pois a quase totalidade das personagens só tem aparelhos fixos em suas residências e em seus trabalhos. É verdade que os telefones permitirão a visualização da imagem, mas é estranho pouca gente ter equipamentos móveis. Apenas um milionário tem um tele-link (telefone) que pode ser levado para onde ele quer. Os carros, por outro lado, não serão guiados automaticamente pela inteligência artificial. Eles precisarão de condução humana, algo que experiências do Google já condenam para um futuro próximo. E o que dizer do hábito de uma das mulheres assassinadas de escrever um diário à mão!? Pouco provável. Além de ter um caderno com as anotações manuais, ela ainda envia tudo isso para um cofre em um banco. Meu Deus! Isso só não é pior do que a inexistência de uma ampla rede de Internet com todos os dados da sociedade. As pesquisas realizadas pelas personagens são mais parecidas com as feitas no século XX do que no século XXI. Só faltou a presença das velhas enciclopédias. Também é estranho não haver nenhuma rede social sendo usada pelas pessoas. Nora Robert pode até ser uma boa romancista romântica, porém é péssima em construir ficção científica. Em muitos momentos do livro, a tecnologia mais destacada pela autora é uma cafeteira automática. Não gosto quando tentam duvidar da minha inteligência. Sinceramente, essa é a pior ficção científica que já li em minha vida. Alguns fãs mais passionais podem até tentar defender a autora afirmando que ela escreveu esse livro na década de 1990 e de lá para cá muita coisa mudou. Ok. Porém, Julio Verne, Issac Asimov e Douglas Adams escreveram obras de ficção científica que se mantém atuais décadas e décadas depois de escritas. Como explicar isso?! A diferença é a habilidade que estes autores tiveram em prever o futuro e a competência de construir obras bem embasadas, algo que Roberts não teve. Portanto, acho que a série "Mortal" seria mais interessante se não fosse realizada no futuro distante e sim no tempo presente. Dessa maneira, ficaríamos imunes de várias situações constrangedoras como quando a personagens da segunda metade do século XXI ainda usam dinheiro de papel ao invés de cartões ou quando não podem usar arma de fogo, mas podem andar pelas ruas com granadas e bombas de mão. Se você for ler "Nudez Mortal" como uma obra romântica, saiba que você ficará contente com o resultado final. Neste aspecto, compreendo os fãs da série que aguardam ansiosamente os novos títulos da coleção. Eu mesmo leria novos capítulos da saga de Eve e Roarke com entusiasmo. Por outro lado, se você for ler o livro como uma aventura futurista, na certa ficará muito decepcionado. Aí, sua vontade será queimar o romance. Ou no mínimo vai querer passar longe das prateleiras das livrarias que tenham a continuação da série. Na próxima quinta-feira, dia 17, retorno ao Desafio Literário com a análise de mais uma obra de Nora Roberts. O nosso foco será o romance "A Cruz de Morrigan" (Bertrand), o primeiro livro da trilogia do Círculo. Até quinta! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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  • Cursos: Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada

    Hoje, quero falar com quem deseja iniciar a carreira de escritor ou pretende publicar suas obras de maneira profissional. Um dos momentos mais críticos da rotina de um autor novato é quando ele precisa entrar em contato com uma editora. O que fazer nessa hora? Como abordar o editor? Como apresentar seus originais? É melhor contatar a editora antes ou depois de finalizado o livro? Quais os caminhos obrigatórios que uma publicação percorre até chegar às mãos dos leitores nas livrarias? O que é preciso fazer para as editoras renomadas publicarem seus originais? É possível ganhar dinheiro com a escrita no Brasil? Qual é a remuneração média de um autor comercial? Vale a pena recorrer a autopublicação e as versões digitais? Essas são algumas das questões discutidas no workshop "Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada". Ministrado por Eduardo Viegas Meirelles Villela, um dos principais publisher do país, o curso chega agora a sua 21a edição com aproximadamente 500 escritores participantes. O workshop é oferecido desde 2013 e não é errado afirmar que se trata hoje de um dos treinamentos mais interessantes para quem deseja compreender a dinâmica do mercado editorial e almeja mergulhar na carreira de escritor profissional. A nova edição de "Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada" ocorrerá na cidade de São Paulo entre os dias 21 e 25 de agosto de 2017. Em cinco aulas noturnas de 4 horas cada, Eduardo Villela dará dicas preciosas aos autores principiantes. Palestrantes, consultores, professores universitários, profissionais de diversas áreas e pessoas que adoram escrever formam o público-alvo desse curso. Estou falando desse evento aqui no Blog Bonas Histórias porque o fiz em 2013 e o achei espetacular. Acredito que quem deseja seguir pelo universo editorial deva receber uma orientação profissional de como atuar nessa área. Infelizmente, há tanta gente talentosa e com ótimas obras literárias que não tem seus livros publicados por simples falta de direcionamento do que fazer no momento certo. Muitas vezes, as negativas recebidas das editoras são fruto mais do despreparado do autor em como contatar as empresas do que pela deficiência dos materiais enviados. Falo isso com propriedade. Quando realizei esse curso há mais de quatro anos (Meu Deus, já se passaram quatro anos!!!), eu queria me tornar um escritor. Porém, admito que eu não tinha nenhuma noção, naquele instante, do que precisava fazer para embarcar nessa empreitada. Por isso, "Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada" foi tão importante para mim! Com as ótimas orientações do Eduardo, consegui, enfim, ter uma visão completa do que precisava fazer para me viabilizar nessa profissão. Não é à toa que pouco tempo depois já estava trabalhando como ghost writer e tinha meus primeiros livros publicados. Além disso, passei a escrever aqui no Blog Bonas Histórias, algo que deu grande visibilidade para meu trabalho. É verdade que o curso não faz mágicas! Sua carreira de escritor não irá decolar simplesmente porque você se inscreveu nesse ou em outro treinamento. Quem precisa provar ao mercado editorial que é um bom escritor e tem obras interessantes para serem publicadas é você (o tempo inteiro!). Entretanto, as informações passadas por um instrutor experiente e muito capacitado são essenciais para quem deseja se introduzir nesse mercado de maneira mais rápida e profissional. O que mais chamou minha atenção em "Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada" é que Eduardo Villela apresenta para os escritores a visão do editor no processo de avaliação das obras. Ou seja, os participantes do workshop vão entender como os profissionais da editora selecionam as obras que caem em suas mãos. Sabendo como os publishers pensam, fica mais fácil elaborar projetos editorais voltados para as necessidades práticas deles. Além disso, durante o curso, os participantes são incentivados a trocar experiências e montar suas próprias propostas de livros. A proximidade do grupo com o instrutor e entre os próprios participantes foi muito legal. Muitas vezes, a dinâmica de escrever é solitária e ter com quem trocar visões, opiniões e angústias é salutar. O clima das aulas foi tão bom que depois os escritores continuaram se comunicando para se ajudarem mutuamente. Eu, particularmente, comecei a criar minha rede de contatos nessa área a partir do workshop. Eduardo Viegas Meirelles Villela tem experiência profissional de mais de uma década e meia no mercado editorial e sabe do que está falando. Com atuação em grandes empresas do país, como Editora Saraiva, Editora Campus-Elsevier, Editora Gente e Editora Évora, ele publicou mais de 500 livros ao longo de sua carreira. Atualmente, Eduardo trabalha como orientador de escritores, assessorando-os seja pelos treinamentos ministrados em grupo ou por consultorias oferecidas individualmente. O curso "Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada" será aplicado pelo próprio Eduardo Villela em cinco noites entre os dias 21 de agosto (segunda-feira) e 25 de agosto (sexta-feira). O horário é das 18h30 às 22h30. Ao todo são 20 horas de carga horária. O local do curso é a sede paulistana da The Open Mind School, na Avenida Paulista, 2.584 - 11o andar. São apenas 25 vagas disponíveis. O valor do workshop é de R$ 590,00 para inscrições até o dia 14/08 e de R$ R$ 690,00 para inscrições após o dia 15. Para mais informações sobre "Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada", clique na programação completa do curso. Para saber mais sobre o trabalho do instrutor, veja seu website. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Cursos e Eventos. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Cursos #FazerLiterário #Editora #MercadoEditorial #EduardoViegasMeirellesVillela

  • Livros: Doce Vingança - O melhor romance de Nora Roberts

    O segundo livro do Desafio Literário, que tem como foco em agosto a escritora Nora Roberts, é "Doce Vingança" (Bertrand). Li esta obra no último final de semana. Depois do decepcionante "Pecados Sagrados" (Bertrand), primeiro romance da norte-americana analisado no Blog Bonas Histórias, admito que estava um tanto apreensivo. Contudo, terminei a leitura de "Doce Vingança" positivamente impressionado com o resultado final. Trata-se de uma publicação excelente, muito acima da média. Sua trama possui muita ação, suas personagens são carismáticas e o enredo mistura romantismo e suspense nas doses certas. Assim, o livro consegue cativar tanto quem aprecia as histórias de amor quanto o leitor que gosta de bons thrillers. Em minha visão, Nora Roberts teve a competência de produzir, neste caso, uma narrativa que aproveitasse os elementos clássicos das histórias românticas (rainhas e reis, princesas e príncipes) inserindo-os em um ambiente moderno e cosmopolita (alta sociedade dos Estados Unidos e universo de Hollywood). Além disso, a autora acrescentou pitadas de aventura e de perseguição (polícia e ladrão, vilões e mocinhos) ao estilo dos melhores romances policiais. Para começo de conversa, é preciso dizer que o livro "Doce Vingança" não tem nenhuma relação com a série cinematográfica homônima (I Spit on Your Grave: 2010), lançada nos últimos anos nas salas de cinema. Enquanto o romance aborda a relação conflituosa de Adrianne, uma jovem princesa do Oriente Médio que foi criada nos Estados Unidos, com seu pai tirano, o filme explora a desforra de Jennifer, uma escritora principiante, contra os homens que a estupraram. Publicado em 1988, "Doce Vingança" possui 472 páginas e é uma das mais belas histórias escritas por Nora Roberts. Por aqui, o livro foi lançado apenas em 2004, figurando na lista das obras mais vendidas do Brasil naquele ano. Best-seller nos Estados Unidos no final dos anos 1980, o romance permaneceu em evidência no seu país natal durante a década seguinte após uma polêmica envolvendo sua autoria. Em 1997, uma leitora comparou algumas partes deste livro com passagens de um romance de Janet Dailey, popular escritora romântica. As semelhanças entre as duas obras foram postadas na Internet e indicavam que uma das autoras havia plagiado a outra. Depois de forte pressão da imprensa, Dailey acabou admitindo o crime. Ela plagiou Nora Roberts! Ou seja, "Doce Vingança" possui uma trama tão boa que serviu de inspiração para outros escritores copiarem seu enredo. O livro é dividido em três partes: "O Amargo", "O Sombra" e "O Doce". No primeiro capítulo da seção inaugural, Philip Chamberlain, um agente secreto da Interpol, conversa com Stuart Spencer, seu chefe. As personagens estão em Nova York e o ano é 1989. Chamberlain é um ex-assaltante de joias inglês que aceitou abandonar o crime e agora trabalha para a polícia internacional. Assim, teve perdoadas as infrações de sua antiga carreira. O agente secreto revela para Spencer que descobriu a identidade de Sombra, o mais procurado ladrão de joias da atualidade. Entretanto, ao invés de montar uma operação para capturá-lo, Philip Chamberlain quer fechar um acordo de leniência com o bandido igual ao que foi feito anos trás com ele próprio. Em seu plano, Sombra seria perdoado e passaria a trabalhar como agente da Interpol. A princípio, Stuart Spencer é contra e fica revoltado com a proposta indecorosa do seu melhor funcionário. No segundo capítulo, voltamos ao ano de 1968. Em Jaquir, um reino fictício do Oriente Médio, o xeique Abdu, todo poderoso do país, se casou com Phoebe Spring, a maior estrela de Hollywood da época. A atriz vivia o seu auge artístico quando abriu mão da carreira e da fama para ser a esposa do rei. Após o casório, o casal vai viver em Jaquir, seguindo as regras do islamismo. Apaixonada por Abdu, Phoebe aceita a vida diferente a que estava acostumada no ocidente. Como prova do amor, o monarca dá de presente para a atriz o colar mais impressionante da história: O Sol e a Lua. A joia pertence à família do rei de Jaquir há séculos e possui um valor inestimável. Nos capítulos seguintes, acompanhamos a reviravolta dessa história romântica. Em alguns anos, o estado de espírito da atriz transformada em rainha muda sensivelmente. Após o nascimento da filha, Adrianne, a esposa do xeique tem um problema no parto e fica estéril. A falta de um herdeiro do sexo masculino desgasta a relação do casal real. Abdu passa a odiar Phoebe e a filha. Para pior as coisas, o rei casa-se com novas esposas (algo permitido na religião islâmica), desprezando ainda mais a primeira mulher. Ele deseja, acima de tudo, um herdeiro homem, desvalendo-se das esposas e das filhas que se opõem a esse sonho. Lembremos o quanto a cultura local é machista. Phoebe sofre com a violência do marido e é alvo de constantes estupros dele. Um desses estupros é presenciado por Adrianne, então com oito anos de idade. A menina passa a odiar o pai pela violência praticada contra a mãe. Para não ser separada da filha, prometida ainda criança como esposa para um aliado político do rei, Phoebe Spring planeja uma fuga de Jaquir. Aproveitando-se de uma viagem diplomática para Paris com o xeique, a mãe de Adrianne foge com a menina para Nova York. Como consequência, o rei não tem alternativa a não ser assinar o divórcio. Com a separação oficializada, Phoebe volta a viver como atriz nos Estados Unidos e o ex-marido segue sua vida suntuosa em seu país natal. Entretanto, como punição ao abandono da esposa, o rei nega-se a ajudá-la financeiramente e retém o colar O Sol e a Lua que havia dado de presente no casamento. A separação e a dificuldade financeira acabam afetando psicologicamente a atriz, que nunca mais conseguiu repetir o sucesso do passado, entregando-se às bebidas e às drogas. Quem mais sofre vendo a mãe definhar é Adrianne. O drama das duas é potencializado com o suicídio de Phoebe, em uma véspera de Natal. A filha, agora adolescente e sendo a provedora da família apesar da pouca idade, se revolta com a indiferença paterna. Ela, então, decide se vingar do xeique Abdu. Seu objetivo é roubar dele o Sol e a Lua. Não há vingança mais doce do que tirar do pai a joia mais preciosa do planeta, orgulho nacional de Jaquir. A segunda parte do livro se passa em 1988. Neste momento, Philip Chamberlain conseguiu descobrir que a bela e jovem Adrianne, princesa de Jaquir que mora nos Estados Unidos frequentando a alta sociedade local, é a maior ladra de joias do planeta. Ela é o Sombra. A prisão da moça seria fácil se Chamberlain não estivesse apaixonado pela moça. Assim, ao invés de detê-la, o policial da Interpol passa a ajudá-la. Incapaz de se envolver afetivamente com alguém, Adrianne ignora os sentimentos do agente secreto e tenta de todas as formas se livrar dele. A terceira e última parte do romance é a volta de Adrianne para Jaquir. Inventando que retorna à corte paterna para a realização de seu casamento com Philip Chamberlain, o falso casal irá tentar colocar em prática um arriscado plano para roubar O Sol e A Lua. O problema é que a joia está, obviamente, muito bem guardada, sendo quase impossível obtê-la sem chamar a atenção da guarda real e do rei. "Doce Vingança", como já falei, é um livro muito interessante. Sua trama reúne de maneira extremamente feliz aventura, ação e romantismo. Junta os aspectos clássicos das melhores histórias de reis e rainhas com o que há de mais emocionante nos romances policiais contemporâneos. Geralmente, as narrativas que envolvem vingança familiar e planos ousados de roubos dificilmente dão errado. E quando elas se juntam em um enredo só, a probabilidade dos leitores saírem frustrados é quase nula. Nora Roberts também acrescenta bom humor ao romance, tornando leve a ambientação do livro, que poderia ficar extremamente pesada por causa da violência sofrida pelas mulheres e dos conflitos psicológicos das personagens principais. A escritora norte-americana escreve bem e sabe contar uma boa história. Sua trama é sólida e bem construída, com poucos furos. A linguagem é simples e direta, tornando a leitura rápida e fácil. Li "Doce Vingança" em dois dias. Comecei no sábado à tarde e conclui no domingo à noite. Podemos dizer, assim, que esta é uma moderna história de princesa. Como toda atualização histórica, há algumas coisas que não mudam (mantendo sua essência) enquanto outras sofrem alterações pontuais (se modernizando). A princesa dos dias de hoje continua sendo bonita, honrada, virtuosa e casta (até encontrar o homem certo). Sua vida é em prol dos necessitados e é regida segundo seus ideais (nobres). Ela age passionalmente, querendo reparar erros e injustiças do passado. Por outro lado, a princesa contemporânea vive fora (e longe) dos muros imponentes dos palácios reais. O glamour e a sofisticação da vida moderna são representados pela participação dos eventos da alta sociedade capitalista, constantemente cobertos pela imprensa televisiva. Além disso, ela pode trabalhar em qualquer profissão que julgar válida, até como uma ladra internacional, se assim preferir. E para completar, como uma boa feminista, ela não fica esperando a chegada do "príncipe encantado" (como ocorria antigamente). Ela é independente e autossuficiente. Se ele aparecer montado em um belo cavalo branco, na certa ela irá afugentá-lo ou vai sair correndo, não querendo se comprometer como nada e com ninguém. Assim, Adrianne possui as características típicas de uma heroína clássica. É bonita, inteligente, companheira, corajosa, virtuosa, justa e filantropa. Ao mesmo tempo, também possui características modernas. É solitária, pouco sentimental e muito esperta. E é uma ladra da pior espécie! Ou melhor, é a maior criminosa de joias do planeta, roubando pessoas próximas a ela. A relação afetiva de Adrianne com Philip Chamberlain é um dos pontos altos do livro. O príncipe moderno terá muito mais dificuldades para convencer sua princesa a ficar com ele do que tinha no passado medieval, por exemplo. A mocinha atual tem sérias dificuldades para se apaixonar e prefere viver sozinha a ter um homem ao seu lado. Assim, Philip terá que se descabelar para provar a moça que está realmente apaixonado por ela e que merece sua companhia. A principal crítica negativa que faço sobre esse romance é que ele possui poucos elementos inovadores. A sensação durante sua leitura é que estamos diante de um pot-pourri de narrativas já consagradas. Os clichês que desfilam durante o livro são numerosos! Phoebe Spring seria uma versão fictícia de Grace Kelly. O xeique Abdu é um típico patriarca de Khaled Hosseini. Adrianne é muito parecida com Tracy Whitney, personagem de "Se Houver Amanhã" (Best Bolso), livro de Sidney Sheldon (publicado em 1985, pouco antes de "Doce Vingança" ser criado). E Philip Chamberlain é uma mistura do clássico ladrão de joias com um agente secreto internacional. Outro ponto negativo (e muito forçoso) é a transformação de Adrianne em uma ladra internacional com apenas 16 anos de idade. É pouco verossímil que uma jovem (criada ora na corte do Oriente Médio, ora na luxuosa residência de uma atriz de cinema) consiga escalar prédios e casas com tanta facilidade, seja perita em sistemas eletrônicos de segurança, tenha tanto conhecimento em joias e consiga arrombar fechaduras e cofres com facilidade enquanto foge de cachorros de guarda e policiais. E todas essas características juntas! Sinceramente, estamos diante de um super-herói ou de uma super-heroína. Apesar desses elementos, "Doce Vingança" é uma história convincente. Esta miscelânea de histórias já consagradas e os exageros na constituição da protagonista não comprometem o livro. A construção da narrativa é tão boa que o leitor se esquece desses aspectos durante a leitura. Admito que, agora, estou empolgado para continuar lendo os romances de Nora Roberts. Talvez este Desafio Literário não seja tão frustrante como se desenhou após a leitura do primeiro livro. Se encontrar novas obras tão boas da escritora norte-americana quanto "Doce Vingança", estarei feliz no final de agosto. Para seguir nessa busca, vou ler "Nudez Mortal", livro publicado por Roberts com o pseudônimo de J. D. Robb. Postarei aqui no blog a análise desse romance no próximo domingo, dia 13. Até lá. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoraRoberts #LiteraturaNorteAmericana #Romance #RomancePolicial

  • Livros: Pecados Sagrados - Thriller policial de Nora Roberts

    Li, na última terça-feira, o thriller policial "Pecados Sagrados" (Bertrand), da norte-americana Nora Roberts. Trata-se da primeira obra da lista do Desafio Literário deste mês de agosto. Quando esse romance foi lançado no final da década de 1980, sua autora já era conhecida no mercado editorial dos Estados Unidos. É claro que ela não era uma superstar literária, status que seria adquirido ao longo da década de 1990, mas já possuía um bom número de leitores fiéis. Vários trabalhos anteriores de Roberts tinham alcançado o topo do ranking dos mais vendidos nas livrarias norte-americanas. Publicado originalmente em 1987 (no Brasil, sua primeira edição é de 2009), "Pecados Sagrados" tem 350 páginas e apresenta um enredo diferente do que Nora Roberts estava acostumada a desenvolver até então. Ao invés das tramas românticas, temos aqui um suspense policial. Esta é uma das primeiras histórias desse gênero da autora, que o exploraria com mais afinco na década de 1990, principalmente sob o pseudônimo de J.D. Robb. É verdade que em "Pecados Sagrados" há bastante romantismo também, porém o foco do livro é a investigação para descobrir a identidade de um perigoso serial killer. O êxito comercial deste romance foi tão grande que sua autora resolveu produzir uma sequência. Os investigadores Ben Paris e Ed Jackson voltaram à ativa em "Virtude Indecente" (Bertrand), publicado em 1989. Esse segundo livro da série que ficou conhecida como "Detetives de Washington D.C" recebeu o prêmio Golden Medallion Awards no ano de seu lançamento como o melhor suspense norte-americano. A trama de "Pecados Sagrados" se passa na cidade de Washington. A capital dos Estados Unidos sofre uma série de assassinatos misteriosos que aprovara a população e deixa as autoridades perplexas. Algumas mulheres loiras são estranguladas com amictos brancos, uma vestimenta tipicamente utilizada por padres católicos em suas missas. Em todos esses casos criminosos, o maníaco deixa um bilhete: "Seus pecados foram perdoados". O objetivo dele ao tirar as vidas das moças é tentar purificá-las de seus pecados. Por isso, ele não rouba nem abusa sexualmente de suas vítimas. O assassino é chamado pela imprensa local de "Padre". Afinal, somente os religiosos católicos usam os amictos. Intrigado com os crimes e sem conseguir provas para chegar ao serial killer, o chefe de polícia local aceita a sugestão do prefeito para incorporar na equipe de investigação Tess Court, uma renomada psiquiatra da cidade. A especialista em trabalhar com mentes transtornadas poderá ajudar os investigadores a solucionar o crime, traçando o perfil psicológico do maníaco. Afinal, o assassino deve ser um homem totalmente desequilibrado para praticar crimes tão cruéis. Assim, senhorita Court é integrada à equipe de investigadores. Jovem, bonita, rica e bem-sucedida, a doutora também é filha de um influente senador da República. A forasteira não é bem recebida pelo detetive Ben Paris. O policial, que tem como parceiro Ed Jackson, é o responsável por conduzir esse caso. Ele não acredita que uma mulher elegante e rica poderá ajudar na resolução do crime. Em contrapartida, a postura machista, arrogante, pouco educada e às vezes violenta de Ben causa repulsa na psiquiatra. Rapidamente, os dois passam a se odiar, não escondendo suas diferenças e suas antipatias. Contudo, à medida que a investigação prossegue, a dupla acaba se apaixonando. Trata-se do famoso caso dos "opostos se atraem". O relacionamento e os sentimentos entre o detetive Paris e a doutora Court serão postos à prova em meio ao mais perigoso e complexo trabalho profissional de ambos. As diferenças entre eles e os preconceitos que cada um tem podem não apenas destruir a paixão do casal como também colocar a investigação em risco. Somente unidos eles terão chances para descobrir quem é o "Padre". A leitura de "Pecados Sagrados" é super-rápida. Li o livro inteiro nessa terça-feira. O que faz sua leitura ser fácil é a linguagem simples e a objetividade narrativa de sua autora. Sem utilizar recursos literários sofisticados, Nora Roberts vai direto ao ponto, sem rodeios. O que importa para ela é a ação e a constituição psicológica das personagens. O único momento de interrupção da narrativa se dá para a descrição dos pensamentos e dos sentimentos do casal de protagonistas e do criminoso. Para ser sincero, não gostei de "Pecados Sagrados". Achei o romance muito fraquinho. Com uma história banal e com pouquíssimos elementos narrativos interessantes, essa trama não empolga o leitor mais qualificado e maduro. O livro não consegue cativar nem como thriller policial nem como uma história romântica. Tentando misturar os dois gêneros, Nora Roberts acabou não fazendo bem nem uma coisa nem outra. Se compararmos, por exemplo, "Pecados Sagrados" com qualquer livro de Harlan Coben, especialista em suspenses policiais que misturam altas doses de romantismo, a obra de Roberts perde de goleada em todos os quesitos. A impressão que tive é que a autora estava fazendo uma experimentação estilística. Infelizmente, não foi bem sucedida. O contraditório relacionamento amoroso do casal principal é até interessante. As diferenças de personalidade e de crenças jogam um contra o outro, enquanto a atração física os aproxima, em um jogo constante de vai e volta. A caracterização dos protagonistas também é bem feita. Tess Court, Ben Paris e Ed Jackson são personagens complexos e carismáticos. Eles conseguem cativar o leitor. A história do crime, por sua vez, carece de elementos fortes e originais. Apesar da tentativa salutar de Nora Roberts de construir uma investigação policial ancorada em análises psiquiátricas sólidas, ela não conseguiu sair da superficialidade. Em muitos momentos, as tramas secundárias dos pacientes da Doutora Court chegam a ser mais empolgantes do que o próprio caso policial retratado. A sensação é que estamos lendo um romance juvenil. Isso fica mais evidente no desfecho. Apesar de ser surpreendente, o final é pouco verossímil e um tanto forçado. Achei que a autora escolheu alguém que não cogitávamos como assassino somente para deixar o encerramento do romance inusitado. Além disso, o desfecho da história é muito rápido. O melhor do livro está restrito a um pequeno capítulo final, onde o clímax da narrativa é rapidamente solucionado. Para que a pressa em terminar o romance quando ele, enfim, chega ao seu instante mais esperado?! Este é daquele tipo de livro que depois de uma semana você não se lembrará do enredo nem das personagens. Durante a leitura de "Pecados Sagrados", recordei do livro "A Outra Face" (Record), primeira publicação de Sidney Sheldon. A obra do norte-americano, publicada em 1970, também misturava romantismo com investigação policial e acrescentava análises psicológicas no meio da trama. Acredite se quiser, mas achei o romance de Sheldon melhor trabalhado. E aí quando Sidney Sheldon é melhor do que alguém em uma comparação direta, há sérios problemas com quem está sendo analisado! Os fãs de Nora Roberts que me desculpem, mas não tive uma boa primeira impressão da autora. Ainda bem que esse é apenas o livro inicial do "Desafio Literário" de agosto. Ainda restam mais 5 livros de Nora Roberts que serão lidos e analisados aqui no Bonas Histórias. Há tempo suficiente para eu mudar minha opinião sobre a literatura da norte-americana. Na quarta-feira, dia 9, retorno ao blog para analisar o segundo livro do Desafio, "Doce Vingança" (Bertrand). Ele foi publicado em 1988 e pertence ao gênero que Nora Roberts estava mais à vontade naquele momento de sua carreira: as tramas românticas. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoraRoberts #LiteraturaNorteAmericana #RomancePolicial #Suspense #Thriller #Romance

  • Desafio Literário de agosto/2017: Nora Roberts

    Neste mês de agosto, o Desafio Literário de 2017 chega ao seu quarto autor. Depois das análises do brasileiro Machado de Assis (maio), da francesa Régine Deforges (junho) e do japonês Haruki Murakami (julho), vamos estudar desta vez os romances da norte-americana Nora Roberts. Assim, mantemos a diversidade de escritores trabalhados nesta coluna do Blog Bonas Histórias. Com Roberts, temos até este momento: dois autores vivos versus dois falecidos, dois homens contra duas mulheres e três escritores comerciais versus um cânone. Para completar, cada um deles é de um continente diferente (América do Sul, Europa, Ásia e, agora, América do Norte). Esta pluralidade de perfil é fascinante! Nascida em 1950, na cidade de Silver Spring, em Maryland, nos Estados Unidos, Eleanor Marie Robertson começou a escrever por acaso. Aos 28 anos, ela ficou presa junto com os filhos dentro de casa por causa de uma forte nevasca. Sem ter o que fazer naquele período, passou a produzir histórias. Rapidamente, criou três romances. A jovem mãe ficou tão empolgada com a nova atividade que passou a procurar uma editora para publicar suas tramas. Enquanto isso, ela continuou a escrever compulsivamente. Nunca mais parou... Por aproximadamente dois anos, ela recebeu inúmeras respostas negativas das editoras contatadas. Era "não" atrás de "não". Até que um dia em 1981, ela ouviu um "sim" de uma editora iniciante. Começava, aí, sua carreira como escritora profissional. Seu primeiro romance foi lançado ainda em 1981. O nome artístico escolhido para estampar as capas de suas obras foi uma abreviação do seu nome de batismo: Nora Roberts. Nos três anos seguintes, foram escritos mais 23 romances. É uma média incrível de 8 livros por ano (quase um por mês!). Como ela arranjou tempo para isso, confesso que eu não sei. Só sei (o que não foi surpresa nenhuma, vamos concordar!) que seu primeiro casamento terminou em divórcio. Talvez, Nora não fizesse outra coisa a não ser escrever e escrever... Apesar das várias publicações, o primeiro best-seller da autora só surgiu com um livro lançado em 1985: "Jogo de Sedução" (Bertrand). A partir deste ponto, sua carreira literária deslanchou, sendo hoje uma das escritoras femininas mais bem-sucedidas da história. Atualmente, Nora Roberts (que também escreve com os pseudônimos de Sarah Hardesty, Jill March e J.D. Robb) tem mais de 210 romances publicados. A maioria é de best-sellers. Vários deles figuraram por várias semanas no topo das listas dos mais vendidos tanto no mercado editorial norte-americano quanto nos demais países. É difícil calcular precisamente quantos livros ela já vendeu. Somente no ano de 2005, foram comercializados 12 milhões de títulos com seu nome. Ao longo de toda carreira, ela chega próximo ao patamar de meio bilhão de cópias. Nada mal para quem começou a escrever em uma nevasca, né? Com esses números, Nora Roberts é uma das escritoras mais vendidas de todos os tempos. Nos Estados Unidos, ela só perde para Danielle Steel como a autora campeã de vendas nas livrarias. Steel tem maior número de cópias comercializadas, enquanto Roberts tem muito mais títulos publicados. Em escala mundial, Nora fica atrás apenas das inglesas Agatha Christie, Barbara Cartland, Enid Blyton e J. K. Rowling em unidades vendidas. Ou seja, quando pegamos o ranking das dez escritoras mais comercializadas da história, lá está o nome de Nora Roberts na sexta posição. Apesar de produzir uma literatura sem grande refinamento literário (não dá para optar pela quantidade sem abrir mão da qualidade), Roberts possui uma legião de leitores ávidos por suas narrativas. Conhecer os segredos de uma escritora tão exitosa e tão prolífica é a meta do Desafio Literário neste mês. Afinal, criar mais de 210 romances, conseguir colocar mais de 120 deles na lista dos best-sellers e se manter no topo das mais vendidas durante os últimos 30 anos não é uma tarefa para qualquer um. Queiramos ou não, Nora Roberts é um fenômeno editorial. Como a autora norte-americana possui muitos títulos de sucesso, foi difícil selecionar as seis obras que deveriam ser lidas e analisadas neste mês de agosto. Apesar de definir os romances que considerei como sendo os mais interessantes, admito que várias publicações importantes ficaram de fora de minha lista. Basicamente, utilizei quatro critérios de seleção: livros que tenham figurado na lista dos mais vendidos; obras que abrangessem todas as décadas de trabalho de Nora Roberts (décadas de 1980, 1990, 2000 e 2010); títulos que incluíssem seu pseudônimo mais famoso, J.D. Robb, e, por consequência, sua séria mais admirada ("Mortal"); e, por fim, publicações que estivessem facilmente disponíveis nas livrarias brasileiras. Esse último critério acabou excluindo o famoso "Jogo de Sedução" da minha lista (simplesmente não o encontrei à pronta entrega). Dessa maneira, os livros que serão analisados, neste mês, aqui no Blog Bonas Histórias, são: "Pecados Sagrados" (Bertrand), de 1987, "Doce Vingança" (Bertrand), de 1988, "Nudez Mortal" (Bertrand), de 1995, "A Cruz de Morrigan" (Bertrand), de 2006, "Querer e Poder" (Harper Collins), de 2013, e "Um Novo Amanhã" (Arqueiro), de 2016. Repare que há, portanto, tanto obras antigas quanto recentes. "Nudez Mortal" é o primeiro título da série "Mortal", enquanto "A Cruz de Morrigan" inaugura a trilogia do "Círculo". Por motivos de prioridade, não lerei essas séries inteiras, apenas suas obras iniciais (até porque "Mortal", por exemplo, tem mais de 50 livros!). Cada um desses títulos será analisado em separado no blog nos próximos dias. "Pecados Sagrados" terá um post no dia 5, "Doce Vingança" em 9 de agosto, "Nudez Mortal" no dia 13, "A Cruz de Morrigan" em 17 de agosto, "Querer e Poder" no dia 21 e "Um Novo Amanhã" em 25 de agosto. Para fechar o Desafio Literário, retorno no dia 29 de agosto com um post que analisará a literatura de Nora Roberts como um todo. A análise englobará as constatações obtidas durante as leituras dos seis romances da lista acima. Pronto para conhecer ou reviver os grandes livros de Nora Roberts? Vou começar a leitura por "Pecados Sagrados". Ele será minha companhia hoje à noite. No sábado, posto minha análise dessa primeira obra. Boa leitura para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoraRoberts

  • Exposições: Toulouse-Lautrec Em Vermelho - A boemia marginalizada de Paris

    O MASP, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, está com uma excelente programação nesse inverno. Destaque para a ótima mostra "Wanda Pimental Envolvimentos" da pintora carioca que ficou famosa nas décadas de 1960 e 1970. Também gostei de "Quem Tem Medo de Teresinha Soares?", exposição da artista plástica mineira conhecida por criar obras de cunho erótico e um tanto psicodélicas. Quem ainda não viu o acervo permanente do museu com a volta dos cavaletes de cristal não sabe o que está perdendo. O segundo andar do MASP está incrível com os tradicionais cavaletes criados por Lina Bo Bardi. Eles apresentam de maneira diferenciada as peças expostas e tornam o espaço ainda mais convidativo para a apreciação do público. Apesar desses variados e belos atrativos, a exposição que considero imperdível é "Toulouse-Lautrec Em Vermelho". Trata-se da mostra mais completa já realizada em nosso país com os trabalhos de Henri de Toulouse-Lautrec, polêmico pintor francês da virada do século XIX para o século XX. Se só tivesse essa exposição em cartaz no MASP, a visitação dos amantes da pintura clássica ainda sim valeria a pena. Possivelmente, esse é o mais importante evento de arte plástica em 2017 na cidade de São Paulo. Com 75 obras e 50 documentos (cartas, bilhetes, telegramas e fotografias), "Toulouse-Lautrec Em Vermelho" abrange toda a carreira do polêmico artista, contemplando desde os anos iniciais da sua profissão como pintor até o fim de sua vida. Além da grande variedade do acervo, o que chama a atenção do público é a representatividade do material apresentado. Quase todas as mais famosas criações de Toulouse-Lautrec estão expostas no primeiro andar do MASP. Estão ali tanto as pinturas quanto as litogravuras e os desenhos do artista pós-impressionista. Parte do material é do próprio MASP, que possui algumas pinturas de Toulouse-Lautrec. Porém, a maioria das obras veio da França especialmente para a exposição. Henri de Toulouse-Lautrec ficou conhecido por retratar de maneira original a noite parisiense no final do século XIX. O foco do seu trabalho nunca foi o lado glamoroso da cidade nem os aspectos mais belos da vida burguesa. O que sempre motivou o artista foi a boemia marginalizada da sociedade francesa: mulheres cansadas e entregues a prostituição, ambientes miseráveis, shows e festas libidinosas, corpos sem nenhuma graciosidade e pessoas com aspectos um tanto animalescos. Os principais trabalhos de Toulouse-Lautrec tiveram como tema os prostíbulos do bairro de Montmartre. Suas musas eram as pobres e vulgares meretrizes que trabalhavam nessas casas. O artista conseguiu sintetizar as expressões e as emoções dessas mulheres em traços nervosos e bem naturalistas. De certa forma, ele revelava a beleza e a alegria onde, a princípio, só havia feiura e tristeza. Nascido em uma tradicional família burguesa, em 1864, Henri de Toulouse-Lautrec deixou aos dezoito anos a mansão dos pais, o conde Conde Alphonse de Toulouse-Lautrec-Monfa e a condessa Adèle Tapié de Céleyran de Toulouse-Lautrec. O rapaz foi morar no popular e degradado bairro de Montmartre, na periferia de Paris. A localidade era conhecida pelos inúmeros prostíbulos e cabarés que se instalaram ali na segunda metade do século XIX. Em um período em que a prostituição era liberada pelo governo francês e os shows dançantes de mulheres com pouca roupa eram populares, os estabelecimentos que prometiam prazeres e diversões proibidas se multiplicaram nas regiões mais afastadas do centro da cidade. O mais famoso cabaré de Montmartre foi o Moulin Rouge, que atraia figurões da burguesa francesa. Os motivos que levaram o jovem Henri a deixar a vida aristocrata para morar entre os pobres e as prostitutas não são claros. Alguns biógrafos do artista remetem ao fato dele sofrer de Pycnodysostosis (mais tarde chamada de Doença de Toulouse-Lautrec), enfermidade genética rara que compromete a formação óssea. O pintor, assim, tinha pouco mais de um metro e meio de altura e possuía pernas atrofiadas, como a de uma criança. A aparência pouco comum o teria levado a viver entre os marginalizados e os desprezados da sociedade parisiense, pessoas que como ele sofriam com os preconceitos da alta sociedade do país. Vivendo no subúrbio, Toulouse-Lautrec pintou com maestria a realidade do bairro de Montmartre. Por seus pincéis não passaram apenas a intimidade das prostitutas. Seus quadros e seus desenhos retrataram dançarinas, empresários e clientes (pobres e ricos) dos caberés parisienses, alcoólatras que andavam pelas ruas à noite, mulheres de trabalhos simples e nobres em momentos de diversão boêmia. A exposição "Toulouse-Lautrec Em Vermelho" está dividida em cinco núcleos. O primeiro apresenta os trabalhos mais marcantes do artista. Estão retratadas nessa seção as rotinas noturnas nos prostíbulos baratos da capital francesa. Tendo morado nesses estabelecimentos por alguns anos, o pintor teve acesso à intimidade das pessoas que ali trabalhavam e frequentavam. Repare na maneira carinhosa e simpática que Toulouse-Lautrec pinta as meretrizes. As cenas são as mais inusitadas, ousadas e íntimas possíveis. Muitas dessas mulheres são velhas, feias e carentes de afeto genuíno. Nem por isso, o pintor se furta de pintá-las em situações eróticas. No segundo núcleo, estão as representações de outras mulheres do bairro de Montmartre. Agora, o foco do artista está nas lavadeiras, nas modelos de ateliê e nas dançarinas dos cabarés. Até burguesas e nobres foram pintadas. O que chama a atenção desses trabalhos é o lado social de Toulouse-Lautrec. Ele retrata com delicadeza o papel secundário e subalterno da mulher na sociedade francesa da época. Na terceira parte da exposição, estão os retratos masculinos. Os homens pintados por Toulouse-Lautrec são normalmente figuras importantes e famosas de Paris no final do século XIX. A relevância de suas posições sociais é destacada nas imagens, apesar dos ângulos pouco usuais e um tanto informais. A impressão que temos é que o pintor queria mostrar para esses homens o quanto eles eram seres humanos convencionais e normais como qualquer outro. Nos dois últimos núcleos (quarto e quinto), temos as demais cenas boemias de Paris. Nessas pinturas e nesses desenhos do artista, estão os restaurantes, os bares, as festas, as casas de espetáculos, as ruas iluminadas pela luz elétrica e os salões burgueses. Muitos desses desenhos foram publicados nos jornais da época. Destaque também para as litogravuras de Toulouse-Lautrec. Elas retratavam importantes artistas, dançarinas e casas de espetáculos. Esses materiais fazem parte do primórdio da publicidade ocidental. Recordo de tê-los estudados na época da faculdade de Publicidade nas aulas de História da Arte. A exposição "Toulouse-Lautrec Em Vermelho" ficará em cartaz no MASP (Av. Paulista, 1.578 - Bela Vista) até o primeiro dia de outubro. O ingresso para o acesso ao museu custa R$ 30,00 (às terças-feiras, a entrada é gratuita). O MASP abre de terça a domingo das 10 horas às 18 horas (às quintas-feiras, o fechamento é às 20 horas). Reserve ao menos uma hora para percorrer os cinco núcleos da mostra de Toulouse-Lautrec. Se você quiser ver todas as exposições em cartaz, então reserve uma tarde inteira. Você não irá se arrepender do programa. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Exposição #Mostra #Pintura #HenrideToulouseLautrec

  • Livros: 1Q84 - A trilogia fantástica de Haruki Murakami

    Li, ao longo da semana passada, os três livros da série literária "1Q84" (Alfaguara), de Haruki Murakami. Essa trilogia foi lançada no Japão entre maio de 2009 e abril de 2010. Trata-se, portanto, do título mais recente do autor japonês que o Desafio Literário analisa neste mês de julho. As obras de Murakami estudadas até agora no Blog Bonas Histórias foram publicadas originalmente no século passado: "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara), em 1979, "Pinball, 1973" (Alfaguara), em 1980, "Caçando Carneiros" (Alfaguara), em 1982, "Norwegian Wood" (Alfaguara), em 1987, e "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara), em 1999. No Brasil, a Alfaguara publicou "1Q84" entre novembro de 2012 e novembro de 2013. Os três livros da coleção possuem juntos um total de 1.280 páginas. A série é o mais ambicioso trabalho do principal escritor japonês da atualidade. Haruki Murakami inspirou-se no livro "1984" (Companhia das Letras), clássico de George Orwell. A maior diferença entre esses títulos é que a obra japonesa é uma trama fantástica, enquanto a publicação do inglês é uma distopia. Os três livros de "1Q84" ultrapassaram a marca de oito milhões de unidades vendidas globalmente. No Japão, sua primeira edição se esgotou no primeiro dia. Ao final do primeiro mês, os leitores japoneses já tinham adquirido um milhão de cópias, um recorde no mercado editorial local. Nos Estados Unidos, as livrarias tiveram que abrir à meia-noite no dia de lançamento da obra para atender à grande demanda de clientes. Em alguns momentos, até parecia que o livro publicado fosse de J. R. R. Tolkien ou de J. K. Rowling, best-sellers juvenis. Há uma explicação racional para essa avidez dos leitores por "1Q84". Quando os livros dessa série chegaram às livrarias do mundo todo, seu autor já era um dos principais nomes da literatura contemporânea. Popular e muito carismático, Haruki Murakami havia conquistado uma legião de fãs ao longo das décadas de 1980 e de 1990, tanto em seu país quanto no exterior. Seu público fiel estava ansioso para conferir o trabalho mais aguardado do artista, produzido ao longo de vários anos. A promessa era que "1Q84" fosse a obra máxima de um escritor que vivia a fase madura da carreira. Por isso a grande expectativa dos leitores e a dimensão volumosa do lançamento dos livros dessa coleção. Apesar do retumbante sucesso comercial de "1Q84", o título mais vendido de Murakami continua sendo "Norwegian Wood", com mais de 12 milhões de unidades comercializadas no planeta. A diferença é que o romance sobre o triângulo amoroso formado por Toru Watanabe, Naoko e Midori Kobayashi está no mercado há trinta anos, enquanto a série baseada em "1984" completou apenas sete anos de vida nas livrarias. Por outro lado, "Norwegian Wood" é um único livro, enquanto "1Q84" é formado por três. O enredo de "1Q84" é difícil de explicar porque ele é bastante fragmentado e um tanto amalucado. Mesmo assim, vou tentar descrevê-lo. A história se passa no Japão durante o ano de 1984. O livro 1, que tem 432 páginas e é dividido em 24 capítulos, apresenta dois focos narrativos. De início, achamos as tramas totalmente distintas. Nos capítulos ímpares, conhecemos a vida de Aomame, uma jovem assassina que trabalha como instrutora de artes marciais em uma academia de Tóquio. Nos capítulos pares, lemos sobre Tengo Kawana, um professor de matemática que sonha em ser romancista. Ambos levam vidas solitárias e monótonas na capital japonesa. Apenas nos capítulos finais desta obra inicial da série, percebemos que as tramas das duas personagens irão se cruzar e vão compor uma única narrativa. Tanto Aomame quanto Tengo são misteriosamente levados para um mundo paralelo. Eles passam a viver em uma realidade diferente do que estavam acostumados. Para datar esse novo tempo, eles a chamam de "1Q84". Ou seja, trata-se de uma variação do ano de 1984, que até então viviam. A passagem para o novo mundo acontece logo no primeiro capítulo. Aomame precisa chegar a um hotel para matar um homem que espancava a esposa (a protagonista é assassina de homens violentos). Para não chegar atrasada ao compromisso, a moça abandona o táxi em que estava parada em meio a um grande congestionamento. Ela desce uma escada sinistra no alto de um movimentado viaduto para pegar o trem na estação mais próxima. Contudo, ao utilizar aquela escada de emergência, ela passa para um mundo diferente. A principal característica desse novo lugar é a presença de duas luas no céu. Curiosamente, a realidade com as duas luas no céu foi descrita por Tengo em um dos seus livros. Tal obra se chama "Crisálida de Ar" e se tornou um best-seller no Japão. Porém, o professor de matemática é apenas o ghost writer da publicação. Sua autora é Eriko Fukada, apelidada de Fukaeri. A garota tem 17 anos e é disléxica. Como ela tinha uma excelente história nas mãos e não conseguia escrever o romance, Tengo foi convocado pelo editor da obra para ajudar a moça. No livro 2 de "1Q84", com 376 páginas e 24 capítulos, Tengo e Aomame tornam-se alvo da ira de uma misteriosa seita religiosa. Os capítulos sobre a dupla continuam intercalados (os ímpares são dela e os pares são dele). O professor revelou a secreta história do "Povo Pequenininho" em seu livro "Crisálidas de Ar". O "Povo Pequenininho" é quem aparentemente comanda o grupo religioso que o persegue. O escritor não sabia que aquela trama fantástica de Fukaeri era real e não podia ser revelada para a sociedade japonesa. A instrutora de artes marciais, por sua vez, precisou assassinar o líder do mesmo grupo religioso, pois ele estuprava as meninas da seita. Assim, Aomame passou a ser também alvo da vingança dos religiosos, que queriam a cabeça da moça como vingança pela perda do seu amado líder. Enquanto as personagens principais fogem dos fanáticos integrantes da seita, descobrimos que Tengo e Aomame foram colegas de escola em um passado distante. Mesmo sem se ver há muito tempo (aproximadamente duas décadas), a dupla permanece apaixonada um pelo outro. Assim, ao mesmo tempo em que precisam fugir dos inimigos em comum, os protagonistas desejam se reencontrar para vivenciar aquele amor puro da infância, que sempre permaneceu platônico. É apenas no livro 3 de "1Q84" que boa parte dos mistérios da trama é revelado. Essa última obra da trilogia tem 472 páginas e 31 capítulos. Sua grande novidade é a inserção de mais um foco narrativo. Além de acompanharmos em capítulos diferentes as aventuras de Tengo e Aomame, agora podemos ler sobre Ushikawa. Esse é o homem contratado pela seita religiosa para perseguir o casal de protagonistas. A partir desse ponto, a história se divide em três sequências narrativas que se entrecortam o tempo inteiro. Nesta última parte da série, os desafios de Tengo e Aomame se tornam mais difíceis. A atuação de Ushikawa para localizar os dois é exemplar. O investigador japonês não deixa passar nenhuma pista e consegue localizá-los. Hercule Poirot e Sherlock Holmes são principiantes perto de Ushikawa. Para complicar ainda mais a vida dos protagonistas, fatos surpreendentes abalam suas rotinas. Tengo e Aomame vão tentar viver juntos, mas para isso precisam frustrar as investidas de Ushikawa, além de precisarem se encontrar. Só depois disso, poderão pensar em uma maneira de sair da realidade angustiante de "1Q84". Os livros da série "1Q84" são realmente muito bons. A história é ótima e consegue prender a atenção do leitor. A fragmentação da narrativa em dois polos distintos não chega a confundir o leitor em nenhum momento. Ela apenas aumenta o suspense e o clima de mistério. O que faz essa obra ser tão cativante é que as duas partes da trama são muito interessantes. Juro que não sei apontar qual delas é a melhor: se a de Tengo ou a de Aomame. Além disso, a narrativa segue com uma ótima fluidez ao longo dos três livros. Não há instantes chatos ou tediosos nas mais de 1.200 páginas da trilogia. Sem dúvida nenhuma, esse é o título mais robusto de Murakami. Se até então o escritor japonês havia produzido novelas e romances com enredos simples, pessoais e de pouca densidade narrativa, "1Q84" inverte essa característica. A história é muito complexa, recheada de personagens inusitadas, acontecimentos fantásticos e ações típicas dos mais movimentados romances policiais modernos. De certa forma, podemos classificar "1Q84" como sendo um "Caçando Carneiros" mais bem elaborado e futurista. Não faltam perseguições, fugas, aventuras, teorias conspiratórias, reviravoltas e mistérios nos livros dessa coleção. As narrativas introspectivas, lentas, banais e reflexivas que Murakami estava acostumado a desenvolver nas obras precedentes se transformam aqui em um thriller ágil, movimentado e enigmático. Quando comparamos a trajetória literária do autor, notamos outros elementos inusitados em "1Q84". Diferente da maioria dos livros de Haruki Murakami (escritos normalmente em primeira pessoa), este foi produzido em terceira pessoa. O narrador é onisciente e onipresente, se identificando com os protagonistas (narrador intruso). Esse recurso dá uma maior riqueza de detalhes à história e permite uma construção mais abrangente da narrativa. Creio que seria impossível desenvolver uma trama tão complexa se ela estivesse em primeira pessoa. Outra questão interessante (e um tanto inovadora para Murakami) foi a descrição da história em dois focos narrativos diferentes (no último livro, esse recurso chega a ser ampliado para três focos). Cada capítulo é dedicado essencialmente a uma personagem. Somente lá na frente (no final do livro 1) é que as tramas aparentemente distintas irão se cruzar, fazendo sentido para o leitor e compondo uma única história. Há também o surpreendente acréscimo de cenas, comportamentos e personagens violentos. Se nos demais livros de Murakami a principal e única violência era causada pela própria pessoa no momento de se matar (suicídio), aqui o repertório é bem mais variado. Há estupros, violência doméstica, assassinatos e torturas físicas e psicológicas. Em alguns momentos, me senti em um livro do sueco Stieg Larsson ou da francesa Régine Deforges. Por falar em referências, também me recordei de Italo Calvino, mais precisamente do seu ótimo "Se Um Viajante Numa Noite de Inverno" (Planeta DeAgostini). O motivo foi a metalinguagem utilizada por Murakami. Dentro de seu livro, havia um escritor que produzia uma obra ficcional. No final do livro 1 da série, cheguei a cogitar que a trama de Aomame fosse na verdade o romance produzido por Tengo (essa impressão é desfeita ao longo do livro 2). Essa brincadeira entre o que é ficção e o que é ficção dentro da ficção deixa "1Q84" mais divertido. E por falar em 1984, nem preciso comentar a referência óbvia a George Orwell, né? A sociedade opressora criada pelo autor inglês é discutida ao longo da trilogia. No restante, essa obra mantém as demais características típicas de Murakami: enredo com contornos fantásticos; protagonistas que viajam constantemente pelo país; personagens com problemas no âmbito familiar (relacionamentos traumáticos com os pais); pessoas desajustadas e incompletas que levam vidas fúteis e com rotinas monótonas; relações sentimentais pobres e perecíveis; amor platônico construído na infância; sexo casual ou extraconjugal como forma de aliviar "as necessidades da carne" (ou seja, o sexo é desvinculado do amor e das relações monogâmicas); trama com boa dose de erotismo; muitas cenas oníricas; e narrativa com pegada pop, com citação à cultura contemporânea. Só achei três pontos negativos em "1Q84". O primeiro é a constituição falha de Tengo como personagem. Ele me parece pouco verossímil. O rapaz é ao mesmo tempo um excelente professor de matemática e um talentoso escritor. Juro que nunca vi esse tipo de combinação na vida real ou na ficção. Apesar de ser possível, ela é um tanto pitoresca. Essa característica prejudica um pouco a caracterização da personagem. Onde já se viu alguém ser gênio em campos de trabalho tão distintos?! Neste caso, Aomame é muito mais interessante. Ela é a versão feminina do típico protagonista de Murakami. A jovem é solitária, não possuindo amigos nem namorado. Introspectiva, ela age passionalmente, sacrificando sua vida pessoal em prol de sua ideologia (matar homens sádicos). O segundo elemento que me incomodou um pouco foi a falta de explicação para alguns mistérios da trama. Boa parte das incógnitas foi sim respondida. Porém, algumas dúvidas essenciais dos livros não foram explicadas aos leitores. Por exemplo, quem é o "Povo Pequenininho"? De onde eles vieram, onde estão, como agem e o que desejam? Não encontrei respostas objetivas a isso e o autor também não pareceu preocupado em justificá-las. O tom onírico da trama e o texto subjetivo de Murakami também podem dificultar a compreensão mais concreta de alguns pontos da história. E por fim, achei meio forçado Tengo e Aomame serem apaixonados um pelo outro depois de mais de duas décadas separados. A relação dos dois na infância foi superficial e corriqueira. Não havia motivo, portanto, para eles alimentarem um amor platônico por tanto tempo. Apesar de alguns deslizes, "1Q84" tem mais aspectos positivos do que negativos. O ponto alto da trilogia é seu desfecho. Haruki Murakami consegue encerrar sua obra com primor. Ao mesmo tempo em que produz um final feliz (algo sempre desejado pela maioria dos leitores), o escritor japonês acrescenta boa dose de subjetividade e de reflexão à história, tornando o encerramento interpretativo. "1Q84" é a segunda obra que mais gostei de Murakami. "Norwegian Wood" continua sendo o meu livro favorito desse autor. Para encerrar com chave de ouro este Desafio Literário, voltarei aqui no Blog Bonas Histórias, no próximo domingo, para fazer a análise completa da literatura de Haruki Murakami. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HarukiMurakami #Fantasia #Romance #LiteraturaJaponesa #Suspense

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