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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em julho e agosto de 2023
Listamos os 120 principais títulos da ficção e da poesia que foram publicados no Brasil no quarto bimestre deste ano. O mercado editorial brasileiro continua beeeeem aquecido. Pelo menos no que se refere aos lançamentos de livros. As livrarias nacionais receberam neste quarto bimestre uma boa remeça de novos títulos de ótimo nível. Ou seja, a avaliação é positiva tanto do ponto de vista quantitativo quanto da perspectiva qualitativa. E como o Bonas Histórias se sente na obrigação de apresentar periodicamente as novidades das prateleiras da ficção literária (romance, novela, coletânea de contos, coletânea de crônicas, coletânea de ensaios literários, literatura infantojuvenil e literatura infantil) e da poesia, trago no post de hoje da coluna Mercado Editorial as novidades literárias de julho e agosto de 2023. Antes de apresentar a lista com os 120 principais livros lançados no Brasil no último bimestre, gostaria de pinçar os oito títulos que mais chamaram minha atenção nesta leva. Como critério para a escolha do que destacar aos nossos leitores, utilizei um componente antigo, banal, polêmico e infalível: meu gosto pessoal. Todas as obras recém-publicadas que vou comentar com mais detalhes aqui são de autores que já li e me tornei fã. Em outras palavras, conheço a excelência de suas produções literárias e, mesmo sem ter me aprofundado como deveria em suas novidades, posso atestar que são ótimas opções de leitura para quem curte o melhor da literatura brasileira e da literatura internacional. Se não estou julgando os livros pelos designs das capas como muitos fazem no dia a dia (atire a primeira pedra quem nunca fez isso!), posso dizer (um tanto envergonhado) que estou avaliando os lançamentos do mercado editorial pelos nomes dos autores nas capas. Sei que não é o melhor critério de análise (reconheço a limitação da metodologia empregada!), mas é o que temos para o momento no Bonas Histórias. Então, sigo em frente sem acanhamento de revelar a subjetividade das minhas escolhas dos melhores livros entre as melhores publicações dos últimos dois meses. Para começo de conversa, abrimos os trabalhos deste post da coluna Mercado Editorial pelos romances nacionais. E a opção mais interessante que vejo é “As Pequenas Chances” (Todavia) de Natalia Timerman. Fiquei fãnzaço da escritora e psicoterapeuta paulistana desde que li, no ano passado, “Copo Vazio” (Todavia), sua narrativa ficcional longa de estreia. Esse livro de 2021 se tornou merecidamente best-seller e é um dos melhores romances brasileiros desta década. Logo, logo vou analisá-lo com a devida atenção na coluna Livros – Crítica Literária. Em “As Pequenas Chances”,Timerman segue apresentando os dramas dos relacionamentos humanos de maneira sensível e contundente. Agora acompanhamos a dor da narradora que vê o pai, o médico Artur, caminhar em direção a morte iminente. Com a volta do câncer, a família e o paciente sentem a chegada do fim. É o momento em que cada ação cotidiana adquire tom de despedida. É incrível notar como a dor e o sofrimento da perda podem se tornar um texto bonito e poético nas mãos de uma escritora talentosa. Quem curte as coletâneas de contos, minha dica dessa vez é “Todos Juntos” (Fósforo), seleção completa do trabalho literário de Vilma Arêas, uma das principais contistas e ensaístas brasileiras. Essa obra reúne sete livros: “Partidas” de 1976, “Aos Trancos e Relâmpagos” de 1988, “A Terceira Perna” de 1992, “Trouxa Frouxa” de 2000, “Vento Sul” de 2011, “Um Beijo por Mês” de 2018 e o até então inédito “Tigrão”. Vale a pena dizer que três desses títulos (“Aos Trancos e Relâmpagos”, “A Terceira Perna” e “Um Beijo por Mês”) conquistaram o Prêmio Jabuti. Nada mal, hein? Gosto de encarar o trabalho literário de Arêas pela perspectiva da denúncia aos abusos praticados nos tempos da Ditadura Militar (e que vire-e-mexe insistem em espreitar nossa sociedade) e pelo olhar perspicaz dos tipos comuns que enchem nossas cidades (e que tornam as rotinas por vezes difíceis e inseguras em momentos alegres e coloridos). Ler Vilma Arêas é mergulhar no que a literatura brasileira contemporânea tem de melhor. E, por isso, as mais de 500 páginas de “Todos Juntos” são imperdíveis. Já que falamos de coletânea de contos, vou trazer também uma coletânea de crônicas. Aí minha predileção vai para “Conversando na Sala” (L&PM Editores), o mais recente trabalho literário de Martha Medeiros. Sou apaixonado pela poesia e pela prosa da escritora gaúcha desde “Strip-Tease” (Brasiliense) de 1985, “Meia-Noite e Um Quarto” (L&PM Editores) de 1987 e “Geração Bivolt” (Artes e Ofícios) de 1995. E o que dizer, então, dos impecáveis “Divã” (L&PM Editores) de 2002, “Doidas e Santas” (L&PM Editores) de 2008 e “Feliz Por Nada” (L&PM Editores) de 2011, hein? Curto tanto os livros de Medeiros que estou há um tempão tentando levar uma de suas personagens para o Talk Show Literário. Porém, até agora não consegui encontrar uma figura ficcional que lhe represente bem (o fato de ela produzir poesias e crônicas me atrapalha nesse sentido). Em “Conversando na Sala”, a escritora apresenta 120 pequenos textos produzidos entre fevereiro de 2018 e abril de 2023. Aqui temos uma Martha Medeiros mais informal e preocupado em debater sua rotina e os detalhes familiares. Essa maior introspecção é a grande novidade da sua nova seleção de crônicas. Para encerrarmos a seção da literatura brasileira, preciso comentar “A Mágica Mortal – Uma Aventura do Esquadrão Zero” (Seguinte), a primeira obra infantojuvenil de Raphael Montes. Um dos melhores autores contemporâneos de suspense e terror do Brasil, como provam o romance “Suicidas” (Benvirá) de 2012 e a coletânea de contos “O Vilarejo” (Suma das Letras) de 2015, Montes lança agora algo especificamente para a garotada. Temos nesta obra um romance policial com muitos mistérios e aventura. Por trás da investigação criminal está um jovem grupo de detetives. Conhecendo a qualidade e a originalidade das narrativas ficcionais de Raphael Montes, não seria exagero apontar “A Mágica Mortal” como um dos mais esperados títulos infantojuvenis de 2023. Aposto que muitos marmanjos e marmanjas vão querer ler este novo livro, mesmo com a constatação de já terem ultrapassado há muito tempo a idade do público-alvo da obra. Falo com propriedade de causa. Gosto tanto da literatura deste escritor carioca que não seria surpresa se eu comprasse o novo livro para ver o que ele preparou para a meninada. Minha sensação é que as emoções da história de “A Mágica Mortal” são do nível dos melhores romances/novelas da tradicional Série Vaga-Lume. A conferir! Adentrando na prateleira da literatura internacional, destaco “Um Passo de Sorte” (Intrínseca), o mais recente romance da inglesa Jojo Moyes. Confesso que só li até hoje um livro da autora: “Como Eu Era Antes de Você” (Intrínseca), o best-seller internacional que foi adaptado para o cinema com grande êxito. Contudo, a leitura dessa única obra bastou para que eu reconhecesse a qualidade do trabalho ficcional de Moyes e me tornasse seu fã. Em “Um Passo de Sorte”, conhecemos duas protagonistas bem diferentes. Sam equilibra-se em uma rotina difícil e com graves limitações financeiras. Tudo o que deseja é que um milagre traga novidades para seu dia a dia complicado e algum alento para sua existência árida. Por outro lado, Nisha é rica e tem um casamento idílico. Ela adora seu cotidiano e está satisfeitíssima com os rumos da vida. Isso até ouvir a palavra “separação” saindo da boca do marido. Através do talento criativo de Jojo Moyes, Sam e Nisha terão o destino cruzado como jamais imaginaram ser possível. Para ninguém dizer que só falo de literatura comercial, o segundo romance internacional que chamou minha atenção neste bimestre foi “A Mulher Ruiva” (Companhia das Letras), a nova narrativa longa do multipremiado Orhan Pamuk. Depois que analisei a literatura de Pamuk no Desafio Literário em 2021, não costumo perder seus lançamentos. O escritor turco vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006 continua em ótima forma. Até acho que suas histórias melhoraram com o passar do tempo. Por várias perspectivas, “Neve” (Companhia das Letras), romance de 2002, e “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), livro de 2014, são superiores ao aclamado “A Vida Nova” (Editorial Presença) de 1994 e ao best-seller internacional “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras) de 1998. Assim, não será surpresa nenhuma se “A Mulher Ruiva” se tornar em breve a minha obra favorita de Orhan Pamuk. Ainda na seara dos meus autores prediletos, Mia Couto publica no Brasil “As Pequenas Doenças da Eternidade” (Companhia das Letras), sua nova coletânea de contos. Reconheço que a literatura de Couto é atualmente bem distinta daquela que analisei no Desafio Literário em abril de 2015. Afinal, já se faz oito anos que debati no Bonas Histórias as principais obras do escritor moçambicano, como “O Fio das Missangas” (Companhia das Letras), “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras) e “A Varanda do Frangipani” (Companhias das Letras). O que parece não ter mudado foi a excelência narrativa do vencedor do Prêmio Camões de 2013. Pelo histórico, sei que Mia Couto não escreve livros ruins. Daí a minha expectativa pelas tramas de “As Pequenas Doenças da Eternidade”. Essa obra reúne os melhores textos ficcionais que Couto publicou na revista portuguesa Visão e que tratam dos medos humanos: morte, abandono, doença, guerra, traição, pandemia, indiferença etc. O conteúdo desse título já tinha sido lançado em Portugal com o nome “O Caçador de Elefantes Invisíveis” (Caminho) em abril de 2022. Para a edição brasileira, o autor mudou alguns contos e excluiu algumas narrativas ficcionais, o que a deixou mais adequada para os leitores nacionais. Outra coletânea de contos imperdível é “Os Perigos de Fumar na Cama” (Intrínseca), da argentina Mariana Enriquez. Uma das principais escritoras contemporâneas do gênero de suspense e terror do país em que vou me mudar no mês que vem, Enriquez fez sucesso com “As Coisas que Perdemos no Fogo” (Intrínseca), coletânea de contos de 2016, e “Nossa Parte de Noite” (Intrínseca), novela premiada de 2019. Em “Os Perigos de Fumar na Cama”, assistimos às histórias de fantasmas, bruxas, espíritos, alucinações e mortos que retornam à vida. Além de beber da fonte dos clássicos do terror, a autora portenha tempera suas tramas com elementos atuais, em uma espécie de releitura moderna dos cânones aterrorizantes. Vale a pena conhecer suas obras e seu estilo peculiar. Finalizada a rápida descrição dos oito exemplares que mais chamaram minha atenção nesse quarto bimestre de 2023, vamos agora para a lista completa da coluna Mercado Editorial com os principais livros lançados em julho e agosto. Veja, a seguir, os 120 títulos ficcionais e poéticos publicados nas livrarias brasileiras nos últimos 60 dias e que merecem o olhar cuidadoso dos leitores do Bonas Histórias: FICÇÃO BRASILEIRA: “As Pequenas Chances” (Todavia) – Natalia Timerman – Romance – 208 páginas. “O Céu Implacável” (Alfaguara) – João Anzanello Carrascoza – Romance – 384 páginas. “O Presidente Pornô” (Companhia das Letras) – Bruna Kalil Othero – Romance – 248 páginas. “Guaporé” (Record) – Eurico Cabral – Romance – 256 páginas. “Mariposa Vermelha” (Suma) – Fernanda Castro – Romance – 272 páginas. “Onde Pastam os Minotauros” (Todavia) – Joca Reiners Terron – Romance – 184 páginas. “Café Majestic” (Alfaguara) – Stéfanie Sande – Romance – 168 páginas. “Toda Fúria” (Gutenberg) – Tom Faria – Romance – 240 páginas. “História para Matar a Mulher Boa” (Nós) – Ana Johann – Romance – 256 páginas. “Deusa de Sangue – Volume 1 da Série Deusas de Unyan” (Planeta Minotauro) – FML Pepper – Romance – 288 páginas. “Quarto Aberto” (Companhia das Letras) – Tobias Carvalho – Romance – 248 páginas. “Não Direi que É Amor” (Outro Planeta) – Natalia Avila – Romance – 304 páginas. “Às Margens do Tempo” (Harlequin Brasil) – Bettina Winkler, Carol Camargo, Karine Ribeiro, Mariana Chazanas, Patie e Valquíria Vlad – Romance – 288 páginas. “O Seu Terrível Abraço” (Todavia) – Tiago Ferro – Novela – 152 páginas. “Antes do Silêncio” (Dublinense) – Rogério Pereira – Novela – 160 páginas. “A Descoberta do Frio” (Companhia das Letras) – Oswaldo de Camargo – Novela – 136 páginas. “O Arqueiro” (Paralela) – Paulo Coelho – Novela – 96 páginas. “Na Escuridão, Amanhã” (Dublinense) – Rogério Pereira – Novela – 128 páginas. “Veado Assassino” (Companhia das Letras) – Santiago Nazarian – Novela – 112 páginas. “Todos Juntos” (Fósforo) – Vilma Arêas – Coletânea de contos – 560 páginas. “Inveja e Outras Histórias” (Grua) – Bernardo Ajzenberg – Coletânea de contos – 176 páginas. “Náufragos” (Malê) – Fernando Molica – Coletânea de contos – 114 páginas. “Conversando na Sala” (L&PM Editores) – Martha Medeiros – Coletânea de crônicas – 256 páginas. “Cidade Aberta, Cidade Fechada” (Record) – Ricardo Ramos Filho – Coletânea de crônicas – 112 páginas. “O Mar Me Levou a Você” (Seguinte) – Pedro Rhuas – Infantojuvenil – 424 páginas. “Axioma” (Outro Planeta) – Cora Menestrelli – Infantojuvenil – 304 páginas. “Para Ana, com Amor” (Alt) – Larissa Siriani – Infantojuvenil – 304 páginas. “O Segredo das Flores – Volume 2 da Série Diário de Uma Princesa Desastrada” (Outro Planeta) – Dear Maidy – Infantojuvenil – 296 páginas. “Um Traço Até Você” (Intrínseca) Olívia Pilar – Infantojuvenil – 288 páginas. “A Mágica Mortal – Uma Aventura do Esquadrão Zero” (Seguinte) – Raphael Montes – Infantojuvenil – 272 páginas. “Eu, Minha Crush e Minha Irmã” (Seguinte) – Bia Crespo – Infantojuvenil – 264 páginas. “Mururu no Amazonas” (Globo Clube) – Flávia Lins e Silva (autora) e Roger Mello (ilustradora) – Infantojuvenil – 144 páginas. “Passa-Anel – Uma Aliança Inquebrável” (Companhia das Letrinhas) – Fits e Nicole Janér – Infantojuvenil – 136 páginas. “O Mundo é de Todo Mundo” (Companhia das Letrinhas) – Tati Bernardi (autora) e Talita Hoffmann (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “As Aventuras de Dorinha” (Companhia das Letrinhas) – Cláudio Thebas (autor) e Bruna Lubambo (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Bibo na Escola” (Brinque-Book) – Silvana Rando – Infantojuvenil – 32 páginas. “O Dia Dê” (Companhia das Letrinhas) – Estevão Azevedo (autor) e Mariana Massarani (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Galinha Conquém” (Malê) – Vanda Machado – Infantojuvenil – 28 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Um Passo de Sorte” (Intrínseca) – Jojo Moyes (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Mulher Ruiva” (Companhia das Letras) – Orhan Pamuk (Turquia) – Romance – 280 páginas. “Um Cão no Meio do Caminho” (Todavia) – Isabela Figueiredo (Moçambique/Portugal) – Romance – 240 páginas. “Mestre dos Djinns” (Suma) – P. Djèlí Clark (Trinidade e Tobago/Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Um Encontro com a Lady” (Record) – Mateo García Elizondo (México) – Romance – 208 páginas. “A Livreira de Paris” (Intrínseca) – Kerri Maher (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Todos os Nossos Ontens” (Companhia das Letras) – Natalia Ginzburg (Itália) – Romance – 328 páginas. “O Túnel” (Carambaia) – Ernesto Sabato (Argentina) – Romance – 160 páginas. “Astrid Parker Nunca Falha” (Arqueiro) – Ashley Herring Blake (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Fantasmas do Passado” (Record) – Georgette Heyer (Inglaterra) – Romance – 420 páginas. “Os Profetas” (Companhia das Letras) – Robert Jones Jr. (Estados Unidos) – Romance – 456 páginas. “Os Cinco Sobreviventes” (Intrínseca) – Holly Jackson (Inglaterra) – Romance – 448 páginas. “O Sol e a Estrela – Uma Aventura de Nico do Angelo” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) e Mark Oshiro (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Uma Tragédia Familiar” (Suma) – M. T. Edvardsson (Suécia) – Romance – 304 páginas. “Sem Ofensas – Volume 2 da Série Ilha de Little Bridge” (Record) – Meg Cabot (Estados Unidos) – Romance – 308 páginas. “Merci, Monsieur Dior” (L&PM Editores) – Agnès Gabriel (França) – Romance – 320 páginas. “Chuva e Vento” (Carambaia) – Simone Schwarz-Bart (Guadalupe/França) – Romance – 288 páginas. “Exumados” (Darkside) – Daniel Kraus (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong” (Intrínseca) – Hwang Bo-Reum (Coreia do Sul) – Romance – 272 páginas. “Less Está Perdido” (Record) – Andrew Sean Greer (Estados Unidos) – Romance – 252 páginas. “A Menina do Outro Lado – Volume 9” (Darkside) – Nagabe (Japão) – Romance – 188 páginas. “A Escolha – Volume 3 da Série Legado do Coração do Dragão” (Essência) – Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “Celebração Mortal – Volume 37 da Série Mortal” (Bertrand Brasil) – J. D. Robb/Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 434 páginas. “Inverno” (Companhia das Letras) – Karl Ove Knausgård (Noruega) – Romance – 240 páginas. “Nós Dois Sozinhos no Éter” (Intrínseca) – Olivie Blake (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Rosshalde” (Todavia) – Hermann Hesse (Alemanha) – Romance – 176 páginas. “Um Duque Para Diana” (Arqueiro) – Sabrina Jeffries (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Nós, os Casertas” (Fósforo) – Aurora Venturini (Argentina) – Romance – 192 páginas. “A Destruidora de Casamentos” (Harlequin) – Mia Sosa (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Filha Italiana” (Arqueiro) – Soraya Lane (Nova Zelândia) – Romance – 272 páginas. “Jardim das Bonecas” (Darkside) – Joyce Carol Oates (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Amor, Teoricamente” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Romance – 368 páginas. “Um Estudo em Vermelho” (Autêntica) – Arthur Conan Doyle (Inglaterra) – Romance – 176 páginas. “Bruxa Solitária” (Darkside) – Rae Beth (Estados Unidos) – Romance – 192 páginas. “Marés Sombrias” (Record) – Philippa Gregory (Inglaterra) – Romance – 560 páginas. “Revelação Brutal” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 448 páginas. “Livros de Sangue – Volume 5” (Darkside) – Clive Barker (Inglaterra) – Romance – 240 páginas. “Estrelas em Suas Veias” (Arqueiro) – Laura Sebastian (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “As Homicidas” (Fósforo) – Alia Trabucco (Chile) – Romance – 232 páginas. “Viver à Sua Luz” (Nós) – Abdellah Taïa (Marrocos/França) – Romance – 192 páginas. “Até que Conheci Você” (Arqueiro) – Lisa Kleypas (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “O Caso Tuláiev” (Carambaia) – Victor Serge (Bélgica) – Romance – 392 páginas. “Longas Lâminas” (Rocco) – Irvine Welsh (Escócia) – Romance – 422 páginas. “As Últimas Crianças de Tóquio” (Todavia) – Yoko Tawada (Japão) – Novela – 144 páginas. “O Cerco” (Companhia das Letras) – Alejo Carpentier (Cuba) – Novela – 136 páginas. “Quem Matou Meu Pai” (Todavia) – Édouard Louis (França) – Novela – 72 páginas. “Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher” (Todavia) – Édouard Louis (França) – Novela – 112 páginas. “Sim” (Companhia das Letras) – Thomas Bernhard (Holanda) – Novela – 128 páginas. “Bioy & Borges – Obra Completa em Colaboração” (Companhia das Letras) – Adolfo Bioy Casares (Argentina) e Jorge Luis Borges (Argentina) – Coletânea de romances, novelas, crônicas, contos e ensaios – 536 páginas. “As Pequenas Doenças da Eternidade” (Companhia das Letras) – Mia Couto (Moçambique) – Coletânea de contos – 176 páginas. “Os Perigos de Fumar na Cama” (Intrínseca) – Mariana Enriquez (Argentina) – Coletânea de contos – 144 páginas. “Dicionário de Artistas” (Dublinense) – Gonçalo M. Tavares (Portugal) – Coletânea de contos – 160 páginas. “Canções de Um Sonhador Morto & Escriba-sinistro” (Suma) – Thomas Ligotti (Estados Unidos) – Coletânea de contos – 408 páginas. “Últimos Contos” (Todavia) – Anton Tchékhov (Rússia) – Coletânea de contos – 320 páginas. “Rua de Mão Única” (Editora 34) – Walter Benjamin (Alemanha) – Coletânea de crônicas e ensaios – 168 páginas. “Exploração” (Todavia) – Gabriela Wiener (Peru) – Coletânea de crônicas e ensaios – 144 páginas. “Prosa” (Penguin-Companhia) – Charles Baudelaire (França) – Coletânea de crônicas e ensaios – 1.008 páginas. “O Trono de Jasmin – Volume 1 da Série Os Reinos em Chamas” (Galera) – Tasha Suri (Inglaterra) – Infantojuvenil – 532 páginas. “Memórias de Um Amor Inesperado” (Alt) – Ciara Smyth (Irlanda) – Infantojuvenil – 376 páginas. “O Rei Corvo – Volume 2 da Série Tudo pelo Jogo” (Galera) – Nora Sakavic (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 364 páginas. “Lembre-se de Nós” (Alt) – Alyson Derrick (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “As Guerras de Gênesis” (Alt) – Akemi Dawn Bowman (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Dois Erros, Um Acerto” (Paralela) – Chloe Liese (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Beijos e Croissants” (Alt) – Anne-Sophie Jouhanneau (França) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Escandalizados” (Paralela) – Ivy Owens (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Nic Blake e os Notáveis: A Profecia do Manifestor - Volume 1 da Série Nick Blake” (Galera Junior) – Angie Thomas (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 308 páginas. “Fama de Garota Má” (Paralela) – Elle Kennedy (Canadá) – Infantojuvenil –272 páginas. “O Clube do Pepezinho: Com Propósito” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Este Inverno – Uma Novela de Heartstopper” (Seguinte) – Alice Oseman (Inglaterra) – Infantojuvenil – 112 páginas. “Piscina” (Companhia das Letrinhas) – JiHyeon Lee (Coreia do Sul) – Infantojuvenil – 60 páginas. “A Incrível Pintura de Felix Clousseau” (Pequena Zahar) – Jon Agee (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Astronauta Só” (Globinho) – Mahak Jain (Canadá) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Picolé de Lua” (Companhia das Letrinhas) – Heena Baek (Coreia do Sul) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Talvez Você Consiga” (Pequena Zahar) – Imogen Foxell (Inglaterra) e Anna Cunha (Brasil) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Era Uma Vez Uma Ave” (Boitempo) – Gastón Hauviller (Argentina) e Dipacho (Brasil) – Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Seu Dedo é Flor de Lótus – Poemas de Amor do Antigo Egito” (Editora 34) – Guilherme Gontijo Flores – 176 páginas. “Estampas do Abismo” (Malê) – Jovina Souza – 132 páginas. “Iroko: Sussurros de Memória, Versos de Rebeldia” (Malê) – Jonathan Raymundo – 116 páginas. “Veludo Rouco” (Companhia das Letras) – Bruna Beber – 104 páginas. “Compêndio Para Uso dos Pássaros” (Alfaguara) – Manoel de Barros – 96 páginas. “Jardim Botânico” (Todavia) – Nuno Ramos – 72 páginas. “O Mundo é Grande” (Record) – Carlos Drummont de Andrade – 72 páginas. No final de outubro ou no comecinho de novembro, voltarei à coluna Mercado Editorial para trazer os principais livros de ficção e de poesia que serão lançados no Brasil no quinto bimestre de 2023. Não perca as novidades literárias de setembro e outubro, hein?! E até lá, continue aproveitando o conteúdo do Bonas Histórias. Há muita coisa legal para discutirmos no universo literário e cultural. Até a próxima! 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- Músicas: Quiero Mejor - O décimo álbum de Kevin Johansen
Em sua primeira coletânea de canções originais em cinco anos, o compositor e músico argentino lançou em 17 de maio de 2024, no Teatro Coliseo de Buenos Aires, uma trilha sonora intimista sobre os encontros e desencontros amorosos. Quando me mudei para Buenos Aires no ano passado, coloquei na minha lista de prioridades assistir presencialmente a um show de Kevin Johansen. É como diz aquele velho ditado: se a montanha não vai até Maomé, Maomé vai até a montanha. Na analogia musical, se Johansen não vem para o Brasil, os brasileiros que embarquem para a Argentina para vê-lo! No meu caso específico, como um residente em tierras hermanas, a operação se tornaria ainda mais fácil. Nem sequer aeroporto precisaria pegar. Conforme os leitores mais assíduos do Bonas Histórias já sabem, sou fãnzaço deste compositor e músico argentino há alguns anos. Inclusive, apresentei na coluna Músicas, em meados de 2021, um panorama completo da trajetória artística e discográfica de Kevin Johansen. Naquele momento, postei as minhas canções favoritas de seu portfólio e uma análise de sua linha musical. E dale “Guacamole”, “Anoche Soñé Contigo”, “Cumbiera Intelectual”, “Fin de Fiesta”, “Desde Que Te Perdí” e “No Diga Quizás”. O curioso é que de lá para cá Johansen não apenas se tornou a figura que mais gosto do Pop Rock Argentino como se transformou no meu músico favorito, aí incluindo todos os idiomas e nacionalidades (perdão, Raul Seixas e Nora Jones!). Por isso, quase pulei da cadeira no início do mês quando me toquei que estava prestes a completar um ano vivendo na Argentina e não tinha realizado meu grande sonho musical. Para ser sincero, essa era a única pendência que me faltava cumprir do meu checklist portenho. Uma vez saciadas as vontades gastronômicas, etílicas, turísticas, idiomáticas, culturais, sexuais, sentimentais e esportivas (conforme tenho apresentado aos poucos em “Tempos Portenhos”, a nova coletânea de narrativas não ficcionais da coluna Contos & Crônicas), precisava assistir a um show de Kevin Johansen. Tinha que zerar minha lista de desejos sim ou sim. Na verdade, ainda faltaria um outro item das minhas pendências argentinas (morar um ano na Patagonia), mas isso é outro papo – sei que não vou cumprir esse tópico tão cedo. E qual foi minha surpresa ao descobrir quase que por acaso, no comecinho de maio, que Johansen não apenas tinha agendado un concierto na capital argentina para dali duas semanas como o evento marcaria o lançamento oficial de seu novo álbum, “Quiero Mejor” (2024). Essa era a oportunidade perfeita, sí señor, por favor! Ay, mami, eu não poderia perder esse espetáculo de jeito nenhum! Ay, papi, sabe lá quando Kevin Johansen se apresentaria novamente em CABA (Cuidad Autónoma de Buenos Aires)?! Só não fui direto para a boletería do Teatro Coliseo de Buenos Aires para comprar minha entrada porque tinha prova de espanhol no Laboratório de Idiomas da UBA naquele dia. A contragosto, fiz o exame correndo (com o som fraco do duplo “rr” e não com o som forte do “g”, por favor!) e saí em disparada em direção ao bairro do Retiro. No caminho, me veio um pensamento alarmista: “Pera aí, Sr. Ricardo. Você está indo comprar ingresso para um show de uma das figuras mais carismáticas e talentosas da música argentina contemporânea com apenas duas semanas de antecedência?! Como você é burro, meu caro!!! As entradas já devem ter acabado há um tempão”. Não é que minha consciência tinha toda a razão. Tão logo fiz a solicitação para o senhorzinho que cuidava da boletería do Teatro Coliseo, às moscas naquela quinta-feira à tarde, ouvi a resposta seca no típico castellano rioplatense: “Entradas agotadas”. Ele sequer consultou o sistema para destruir, como se fosse uma catarinense gatinha, as minhas esperanças de felicidade. Apesar da resposta um tanto lógica, fui pego de surpresa com aquela informação desconcertante. Não passava pela minha cabeça perder o espetáculo. Qué lindo que es soñar.Soñar no cuesta nada. Soñar y nada más. Talvez constrangido com minha reação de prostração e choque, o senhorzinho começou a digitar no computador em busca de uma solução razoável (ou de mais justificativas para a sua negativa). Certamente, ele deve ter pensado: “De quão longe veio esse sujeito com péssimo espanhol para chegar aqui suado e ofegante a procura de ingresso?!”. Juro que tive a sensação, tão grande era meu desespero, que o homem ficou digitando e olhando para a tela do computador por vários minutos. Mais tarde, refletindo na calma e no conforto do meu minúsculo lar, acredito que a cena não tenha demorado mais do que dez segundos. Aí surgiu a frase mais dúbia que ouvi nos últimos meses: “Las entradas están agotadas. ¡Sólo hay una!”. Pera aí. Meu espanhol não é tão medonho para eu não pegar a monumental contradição. Como assim os ingressos acabaram e ainda restava um?! Não fazia sentido aquela sequência de frases, Jarmusch, Cousteau, Cocteau, Arto, Maguy Marin, Twyla Tharp, Gilda, Visconti, Gismonti! Por mais que eu insistisse em tentar entender a situação, o senhorzinho continuava me dizendo que não havia mais ingressos à venda e que só tinha um disponível. Perplexo com a cena kafkiana, falei que eu só precisava mesmo de un boleto. Unzinho. Nada mais, nada menos. Um, por favor! Quase contei, em tom de amargura, que levei um pé na bunda da policial de Belgrano em janeiro e que agora estava com o coraçãozinho destruído por um lindo sorriso sulino. Por mais que ansiava estar bem acompanhado no espetáculo de 15 dias mais tarde, era inviável. Contudo, preferi ocultar minhas mais recentes desilusões amorosas e focar no fato objetivo: uma entrada, só uma, era suficiente para mim. Como se, enfim, estivesse me entendendo pela primeira vez em nossa já comprida conversa, o senhor sorriu. Parecendo aliviado, respondeu: “¡Dale!”. E não é que ele me entregou o último ingresso disponível por 15 mil pesos argentinos (mais ou menos 70 reais)! Só quando voltava para casa, feliz com o desfecho da história surreal e preocupado com a prova que entreguei de qualquer jeito, compreendi o que havia se passado. Quem é o maluco que compra só um ingresso para um show musical, né? Certamente, aquele bilhete solitário estava lá há um tempão. Vários casais e grupos de amigos deveriam tê-lo recusado. Nessas horas tenho orgulho de ter sido picado pelo vírus da solteirice – por mais que o frio polar das noites portenhas insista em me revelar que essa é a pior opção possível neste momento. Assim, consegui garantir minha improvável e surpreendente vaguinha no teatro. Se eu não acreditei ter conseguido, imagine só se eu contar isso para alguém?! Provavelmente vão me chamar de mentiroso – não que eu não seja. Mas essa aventura é, como dizíamos lá na infância vivida na casa de Dona Júlia no Parque São Domingos, verdade verdadeira. No digas maybe. No, dale baby. Después de tanto tiempo. De tantos ungüentos. De darnos contra el muro. De nuestros lamentos. Sigo buscando afuera. Lo que no hallo adentro. Sin peros en la lengua. Aquí te espero. No digas maybe. No, dale baby. “Quiero Mejor” é o décimo álbum de Johansen e a sua primeira coleção de músicas inéditas em cinco anos. Vale a pena dizer que seu último disco foi “Algo Ritmos” (2019). Como o trabalho anterior não emplacou nenhum grande sucesso, a impressão que o público tinha (e que compartilho também) era que o jejum de novidades do argentino fosse maior. A nova coletânea foi apresentada inicialmente no canal de Kevin Johansen no Youtube em março. Lá, o argentino lançou um vídeo com as onze canções de “Quiero Mejor”. O mais curioso foi o formato da gravação. O cantor e compositor estava sentado em um velho sofá com estampa florida em cima de um caminhão de mudança. O veículo percorria as ruas de Miramar, cidade litorânea da província de Buenos Aires que é rival turística de Mar del Plata. Durante o passeio e sempre sentado no sofá florido, Johansen cantava seu novo portfólio. Hilário! O vídeo possui o típico humor nonsense do artista. As músicas no novo álbum são: (1) “Quiero Mejor”, a canção que empresta seu título ao disco, (2) “Vals de la Luna”, (3) “Puntos Equidistantes”, (4) “Sin Darme Cuenta”, (5) “Seductor Serial”, (6) “Comfort Zone”, (7) “Era Ahora”, (8) “Amada Amante”, (9) “Hola Need”, (10) “Soñando” e (11) “Bien Sur”. Se você ficou curioso(a) para conhecer essas faixas, a seguir deixo o vídeo com a apresentação das onze canções. Relembro que elas foram cantadas em cima de um caminhão em uma voltinha por Miramar: Todas as músicas de “Quiero Mejor” são criações próprias de Kevin Johansen, com exceção, por supuesto, de “Amada Amante”, composição clássica de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. É muito legal ver o argentino cantando uma tradicional música romântica brasileira. Por falar nisso, meus conterrâneos vão gostar de ver (no caso, ouvir) outra referência direta ao nosso país. Na faixa “Seductor Serial”, Johansen canta nos versos iniciais: “No te hagas el oso/ Me queres seducir como el baiano Veloso”. Não precisamos ser Sherlock Holmes para descobrir que o mencionado “baiano Veloso” é Caetano. Do ponto de vista dos parceiros musicais, Johansen faz duetos em “Puntos Equidistantes” com a mexicana Natalia Lafourcade, uma fofura de pessoa e de cantora, e em “Era Ahora” com o argentiníssimo Nito Mestre, um dos ícones do Rock Argentino (gênero mais conhecido por essas terras simplesmente como Rock Nacional). Na faixa “Quiero Mejor”, as convidadas são as espanholas de Las Migas, grupo vencedor no ano retrasado do Grammy Latino com o melhor álbum de Flamenco. A nova banda que acompanha o músico argentino se chama “Feng Shui Project”. Ela é composta por Panda Elliot (guitarra), Marcelo Coca Monte (baixo), Martín Adler (teclado), Luciano Milocco (bateria) e Facundo Guevara (percussão). Importante esclarecer que Elliot e Monte ajudaram Kevin Johansen na definição dos arranjos das melodias do álbum recém-lançado. Tive a impressão de que a formação do novo conjunto foi realizada especificamente para esse disco e para alguns shows de “Quiero Mejor” na Argentina. Johansen não tem uma banda fixa e sempre monta novas formações para seus espetáculos. Talvez o grupo que mais tempo o tenha acompanhado (e que desperte até hoje ótimas lembranças no público) seja o The Nada. Por falar nisso, o The Nada irá retornar. Seus integrantes vão seguir com o cantor para os shows pela Europa nos próximos meses – o “Feng Shui Project” ficará na Argentina. As músicas que mais gostei desta coletânea foram “Sin Darme Cuenta” (por forças de lembranças afetivas...), “Seductor Serial” (melodia mais gostosa), “Quiero Mejor” (melhor letra) e “Hola Need” (disparadamente a mais divertida e diferentona, uma mescla de Rap à italiana e Hip-hop). A única composição em inglês do novo álbum é “Comfort Zone”. Se bem que “Bien Sur” tem alguns versos em francês, mas é cantada essencialmente em espanhol. Analisando as canções de “Quiero Mejor”, nota-se que Kevin Johansen continua realizando um trabalho cativante que flerta com os diferentes estilos musicais. Nesse álbum, temos, por exemplo, Rumba, Rap, Hip-hop, Flamenco, Country, Rock e Pop Romântico. Contudo, é nítido o predomínio de faixas com melodias mais calmas e suaves. Além disso, as letras possuem agora uma maior pegada de desilusão amorosa (que lembram bastante a proposta de “Desde que te Perdí”) e menor componente divertido/cômico (“Hola Need” é a exceção que só valida minha tese). A maioria das faixas fala de confusões e desencontros sentimentais, algo que curiosamente Johansen passou a abordar mais intensamente nos últimos álbuns. Confesso que gosto mais da proposta de seus discos iniciais, em que os relacionamentos amorosos eram abordados de forma mais positiva, criativa e divertida. A exceção é “Desde que te Perdí”, que mesmo triste e amarga é lindíssima (e que corrobora com a regra). O show no Teatro Coliseo de Buenos Aires em 17 de maio durou pouco mais de duas horas. Ele começou às 20h15 (quinze minutos de atraso na Argentina é o mesmo que dizer que o horário foi seguido à risca) e terminou às 22h30. Mesmo tendo ficado no pior lugar do teatro (na última fileira do segundo piso, na lateral e abraçado a uma viga de sustentação), tive tanta sorte em conseguir aquele sofrido ingresso que não me senti no direito de reclamar de nada. Ainda assim, acredite se quiser, a visão do palco era boa. Se eu perdi algo, a culpa era mais da minha miopia do que da arquitetura do local. A proposta de “Quiero Mejor” era de valorizar as coisas simples da vida. Por isso, o tom intimista do espetáculo. Durante quase todo o show, Kevin Johansen cantou e tocou sentado em sua desde já folclórica poltrona florida (a mesma que apareceu no vídeo gravado em Miramar). Ao fundo havia uma lareira cenográfica. O quarteto musical se dividiu com cada uma das duplas em um lado do palco. O cenário, obviamente, era para emular a residência do cantor (que se divide até hoje entre a Argentina e os Estados Unidos). Metaforicamente, é como se estivéssemos visitando o lar dos Johansen em uma noite fria para uma sessão de boa música. O que achei mais legal nessa proposta foi a relação de Kevin Johansen com o tal sofá de rodinhas. Foi divertidíssimo acompanhá-lo caminhando pelo palco sem se levantar da poltrona. Sim, senhoras e senhores, ele percorreu o lugar sentado. As rodinhas do assento funcionaram muitíssimo bem. Hilário! Mesmo cantando e tocando violão, suas pernas mexiam rapidamente e o levavam para todos os cantos do ambiente. Impossível não rir de um artista que sabe como cativar o público com atitudes simples e geniais. Nessa ambientação de encontro doméstico, nada mais natural do que chamar a família para participar da roda de música que ocorria na sala de estar. Assim, subiram ao palco Miranda Johansen, a filha mais velha que já tem uma carreira artística, e Kim Emma Johansen, que começou há pouco a seguir os passos do patriarca. Cada uma delas cantou duas canções em dueto com o pai. A grande novidade da noite foi a presença de Tom Atahualpa Johansen, o terceiro filho do músico. O rapaz de 16 anos assumiu a bateria em uma das faixas. Até o pequeno cachorrinho da família (juro que não me lembro do seu nome!) foi ao palco e acompanhou a execução de uma música (dormindo no colo do dono, claro). O único convidado de fora foi Nito Mestre. Adorei ver pessoalmente esse monstro do Rock Argentino, que exala paixão pela música e vitalidade impressionante. Por outro lado, confesso que senti falta de Natalia Lafourcade e das meninas de Las Migas. O show teria sido mais legal (e belo) com elas. Repare que nem mencionei Roberto Carlos entre os ausentes. Conhecendo os hábitos estranhos do brasileiro, me parecia impossível vê-lo no Teatro Coliseo durante “Quiero Mejor”. Contudo, Betinho poderia ao menos ter gravado “Amada Amante” com Johansen para o álbum, né? Nem isso ele fez. Ai, ai, ai. Que vergonha, Sr. Braga! Em uma análise estrutural e musical, o espetáculo pode ser dividido em duas fases distintas. É como se tivéssemos um disco com dois lados bem distintos. Na primeira parte, Kevin Johansen apresentou as novas canções. Como elas ainda não caíram na boca do povo, ele achou por bem acrescentar algumas composições antigas. Ufa! Essa escolha foi providencial. Porém, ele não colocou seus maiores sucessos nessa lista. Pelo menos não eram as minhas canções favoritas. Assim, a primeira etapa de “Quiero Mejor” saiu conforme o script. O músico argentino cantou tanto as novidades quanto as faixas mais antigas. Também recebeu seus convidados e desfilou o já conhecidíssimo carisma e bom humor. Até quando as coisas saíam erradas no palco, a simpatia de Johansen fazia tudo parecer leve e divertido. Por exemplo, o show começou sem que o microfone do cantor tivesse sido ligado. Ele não pensou duas vezes. Tão logo corrigiram o erro, ele brincou com o público: “Não valeu essa minha entrada. Vou começar de novo!”. E assim fez, para risada geral. Durante o espetáculo, ele ainda brincou uma ou duas vezes com o início caótico, como um episódio real de fatalidade que acontece em nosso dia a dia. Essa parte se encerrou com a saída de Johansen do palco e o fechamento das cortinas. Como ele se despediu muito rapidamente da plateia, era óbvio que voltaria. Sentindo isso, todo mundo no teatro começou a bater palmas, gritar e bater os pés no chão pedindo bis. Nada poderia ser mais clichê. E, voilà, as cortinas reabriram para alegria geral da nação. Se o desfecho era muito previsível, o que veio depois não foi tão óbvio assim. A segunda parte do show reservou as principais surpresas do espetáculo e foi o momento mais sensacional da noite. Em sua volta, Kevin Johansen surge de ponta cabeça em uma cadeira atirada ao chão – igualzinho à imagem principal de divulgação do espetáculo. Indiferente à incômoda posição, ele tocou e cantou normalmente. Impossível não admirar um artista desse tipo, Santo Deus! O mais legal é que nesse desfecho do show, que se alongou por cerca de 20, 25 minutos, fomos brindados com os seus maiores sucessos. Juro que já estava pensando que iria embora sem ouvi-los. Das seis principais músicas que citei no meu post de 2021 sobre a carreira de Johansen, quase todas foram apresentadas no final de “Quiero Mejor”. Lá estavam “Guacamole”, “Anoche Soñé Contigo”, “Cumbiera Intelectual” e “Desde Que Te Perdí”. Das minhas canções prediletas, apenas “Fin de Fiesta” não foi tocada. Ao sentir falta dessa faixa, imediatamente me recordei do quão incrível foi a interação da banda The Nada nos shows de 2010 e 2011. Quando “Fin de Fiesta” era executada, a equipe inteira ia para o centro do palco para cantá-la em um divertidíssimo jogral. Esse era o momento em que o público ia ao delírio. Não à toa, essa cena servia de fechamento para os espetáculos de Johansen. Bem que poderia ter algo desse tipo nessa noite... Quando esse pensamento passou por minha cabecinha cada vez mais oca (e calva), Kevin Johansen começou a cantar “Cumbiera Intelectual” (saudades de ti, minha Cumbiera Intelectual!). Como se adivinhasse minhas ideias, o músico argentino desceu em direção ao auditório tocando violão e chamando o público para retornar ao palco com ele. Os mais empolgados que estavam no primeiro piso atenderam ao pedido e subiram também. Aí tivemos o fechamento perfeito de “Quiero Mejor”: cantor e fãs dançando e cantando juntos os antigos sucessos. SIMPLESMENTE, ESPETACULAR!!! Se eu já tinha gostado dessa interação entre banda e cantor, imagine só o impacto de ver a mesma cena só que entre músico e plateia! Até gravei o pedacinho desse momento para vocês verem o que estou dizendo: Esse show inaugurou a nova turnê de Kevin Johansen. E, claro, serviu de cenário para a gravação do DVD do álbum. Realmente a atmosfera daquela noite e o visual do Teatro Coliseo foram perfeitos para a produção do conteúdo audiovisual. “Quiero Mejor” será apresentado nos próximos meses na Europa (primeira escala é a Espanha, depois Inglaterra e Suíça) e no fim do ano nos Estados Unidos. No início de 2025, começará a parte sul-americana do tour. Infelizmente, ainda não há previsão do artista argentino se exibir no Brasil. Apesar de ter gravado a música “Mi Querido Brasil” no álbum anterior, Johansen nunca fez um show em minha terra natal. Pelo menos eu nunca soube de sua ida para São Paulo ou Rio de Janeiro. Será que sou o único brasileiro que aprecia suas canções?! Em suma, adorei ter assistido a um show de Kevin Johansen presencialmente. Pendência devidamente checada! Evidentemente, “Quiero Mejor” está longe, muito longe de representar a fase mais encantadora e criativa da carreira musical do argentino. Não por acaso, a melhor parte do espetáculo foi a do revival. Mesmo sabendo disso, ainda assim é bom ver/ouvir as novidades que Johansen tem a nos apresentar. Se elas não empolgam, também não decepcionam. Além do mais, o novo álbum foi lançado em um período especial da trajetória pessoal e profissional do artista. No próximo mês, Kevin Johansen completa 60 anos de vida. E, em 2024, ele ainda celebra um quarto de século do seu primeiro disco, o impecável “The Nada” (2000). Como “Quiero Mejor” é a décima coletânea, não faltam comemorações. Por isso, só tenho mais duas coisas para falar: parabéns, Kevin! E obrigado, Johansen!!! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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- Músicas: Kevin Johansen - O melhor do pop rock argentino
Cantor e compositor argentino mistura diferentes gêneros musicais e traz leveza e bom humor à música latina há duas décadas. Desde que morei em Buenos Aires entre 2004 e 2005, acompanho a música argentina com bastante entusiasmo. Não à toa, vire e mexe, eu comento na coluna Músicas algumas bandas e cantores do país hermano. Para ser sincero, após essa rápida experiência portenha, trouxe o gosto não só pelas canções em espanhol, mas também por várias outras manifestações artístico-culturais de lá. Posso citar o cinema (reconheçamos sem bairrismo: os filmes argentinos são muito superiores aos nossos!), os times de futebol (“Muchachos, traigan vino juega la Acade/Que esta banda esta de fiesta/Y hoy no podemos perder/Muchachos, traigan vino juega la Acade/Me emborrarcho bien borracho/Si el Rojo se va a la B”), a carne (ojo de bife con papas fritas, por favor), a literatura (¿Jorge Luis Borges o Julio Cortazar? ¡No sé decir!), a eclética arquitetura de Buenos Aires (A Avenida de Mayo é espetacular!) e as livrarias de rua (cada bairro parece ter no mínimo uma; sempre escolhia aquelas que vinham integradas a um café elegante e gostoso!). Poderia passar um dia inteiro falando sobre minhas descobertas e preferências em terras argentinas, mas preciso ter foco. Foco, Ricardinho!!! Como estamos na coluna Músicas, não posso desviar do assunto principal desse post do Bonas Histórias. Voltemos, então, à música argentina. Até o final do ano retrasado, meu cantor argentino preferido era Vicentico. Já contei a história de como conheci as canções dele aqui no blog. De forma resumida, digo que foi pelas rádios dos restaurantes, cafés e kioscos do subúrbio da Grande Buenos Aires que visitava diariamente. Antes que alguém pense que eu era um alcóolatra que não tinha amor à vida por frequentar cidades barras-pesadas do país vizinho, alerto que eu trabalhava na época como executivo de vendas (minhas visitas a estes estabelecimentos faziam parte da minha rotina profissional). Aí, ao invés de prestar atenção nos que os clientes e os vendedores da minha equipe falavam, eu preferia dar ouvidos às canções que tocavam ao fundo. Não é preciso dizer que minha carreira em Vendas não durou muito, né? Porém, em algum momento de 2019 (quando o mundo ainda caminhava sem surtos pandêmicos), aconteceu a troca na primeira posição de minhas preferências musicais. Vicentico foi, enfim, superado por Kevin Johansen no meu (nada convencional) ranking da música argentina. O responsável por me apresentar as canções de Johansen foi meu amigo Pablo (abraços, Pablito!). De longe, ele começou a me enviar algumas faixas de Kevin Johansen. Acho que até hoje, Pablo não se conformava de eu ainda continuar ouvindo o integrante da banda Los Fabulosos Cadillacs. E não demorou para eu perceber que ele tinha razão. Johansen não é apenas um ótimo cantor e compositor – ele tem uma música muito mais interessante. Acho que a mudança de preferência musical não poderia ter sido mais abrupta. Se Vicentico é um músico mais tradicional que dialoga com o público simples da periferia e faz canções mais comportadas, Kevin Johansen é um artista mais moderno que fala para a moçadinha descolada de Palermo Soho, Palermo Hollywood, Puerto Madero, Recoleta e Montserrat e faz várias experimentações musicais. Suas letras bem-humoradas e seu ritmo contagiante me ajudaram muito a encarar os meses enfurnados dentro de casa em São Paulo (após a Covid-19 bater por aqui). Se eu fosse bolsonarista (só de pensar nisso me arrepio todo!), acho que soltaria uma fake news no WhattsApp informando que as músicas de Johansen ajudam no tratamento precoce do novo coronavírus. Curiosamente, Kevin Johansen não nasceu na Argentina. Ele é natural do Alaska, o estado mais setentrional (e frio) dos Estados Unidos. Sua família (pai norte-americano e mãe argentina) morava nas terras geladas ao noroeste do Canadá quando Kevin veio ao mundo, em junho de 1964. Contudo, os Johansen não ficaram muito tempo no Alaska. No final dos anos 1960, eles se mudaram para o Arizona (que diferença de temperatura, Santo Deus!). Com a separação dos pais no começo da década de 1970, Kevin se mudou, ao lado da mãe e da irmã mais nova, para a Califórnia e, mais tarde, para Buenos Aires. Assim, o futuro cantor passou a viver desde os doze anos na capital da Argentina. Por isso, Kevin Johansen tem dupla cidadania (é norte-americano e argentino) e tem dois idiomas maternos (é fluente tanto em inglês quanto em espanhol). Ele voltaria a morar nos Estados Unidos na década de 1990, dessa vez em Nova York. Kevin foi para a Big Apple porque sua primeira esposa, uma bailarina argentina, entrou para uma companhia de dança de lá. Nessa época, ele trabalhou como garçom, guia turístico e tradutor, enquanto atuava informalmente como músico (tocou e cantou por alguns anos em um bar nova-iorquino). É importante dizer que, desde a adolescência, Kevin tocava violão (e depois guitarra) e criava suas próprias letras musicais. Entretanto, a música pairou como um hobby ou uma atividade profissional pouco lucrativa por muitos anos. Ainda na juventude, ele integrou uma banda argentina de rock, o Instrucción Cívica, mas não obteve êxito. Anos mais tarde, já trintão, ao se tornar vocalista de uma banda amadora em Nova York, Kevin Johansen vislumbrou novamente a oportunidade de seguir os caminhos da carreira musical (um sonho que talvez nunca tenha abandonado, apenas ficara adormecido). Com o fim do casamento, em 2000, Johansen regressou para Buenos Aires (onde mora desde então, agora ao lado da segunda esposa e dos quatro filhos) e apostou todas as fichas na música. Depois de criar a banda de pop rock The Nada (que o acompanha até hoje!), Kevin Johansen lançou seu primeiro álbum. O título do disco de estreia é uma homenagem à banda recém-formada: “The Nada” (2000). E que álbum foi esse, hein?! Misturando inglês e espanhol (uma das marcas do estilo de Johansen), o debute do artista reuniu três de suas faixas mais conhecidas (e divertidas) até hoje: “Guacamole” (a minha favorita!), “En Mi Cabeza” e “Mc Guevara's o Che Donald's”. Nos sete anos seguintes, Kevin Johansen lançou outros três álbuns inéditos: “Sur o no Sur” (2002), “City Zen” (2004) e “Logo” (2007). “Sur o no Sur” foi indicado ao Grammy Latino como melhor álbum em língua espanhola e reunia três canções memoráveis, a própria “Sur o no Sur” (que empresta seu nome para o título do disco), “Cumbiera Intelectual” (uma de minhas favoritas) e “Daisy” (que se transformou em um dos videoclipes mais hilários do artista). “City Zen” traz a impecável “Desde que te Perdí” e as ótimas “Buenos Aires Anti-Social Club” e “Milonga Subtropical”. Além da belíssima faixa homônima, “Logo” apresenta “Anoche Soñe Contigo” (outra das minhas favoritas!) e as boas “Susan Surrender” e “Fantasmas de Carnaval”. Sem dúvida nenhuma, essa foi a fase mais prolífica da carreira do cantor e compositor argentino – quatro discos (e vários sucessos) em sete anos. De 2007 a 2016, Kevin Johansen diminuiu o ritmo dos trabalhos e priorizou a vida pessoal. Vale a pena dizer que, em 2006, ele se casou com María Laura Franco, sua segunda esposa. E nos anos seguintes, nasceram os filhos do casal. Por isso, Johansen só lançou, nesse período, apenas um disco original (duplo), “Bi” (2012). As melhores músicas desse trabalho são “Fin de Fiesta”, “Baja a la Tierra”, “No Digas Quizás”, “Modern Love” (sua versão dessa conhecida canção ficou excelente!) e “Amor Finito”. Para aplacar um pouco a saudades do público e sua vontade de subir aos palcos, ele gravou duas coletâneas de antigos sucessos: “Kevin Johansen + The Nada + Liniers = Vivo en Buenos Aires” (2010) e “Kevin Johansen + The Nada + Liniers = (Bi)vo en México” (2014). Se já sabemos que o The Nada (mencionado nos títulos das coletâneas) é a banda que acompanha Johansen, Liniers, por sua vez, é o quadrinista e grafiteiro argentino Ricardo Liniers. Ele acompanhou os músicos nos shows de gravação desses dois álbuns (enquanto o cantor e a banda tocavam no palco, Ricardo Liniers ilustrava painéis ao fundo). Nos últimos cinco anos, Kevin Johansen lançou dois álbuns: “Mis Américas” (2016) e “Algo Ritmos” (2019). “Mis Américas” foi indicado ao Grammy Latino como melhor álbum em língua espanhola e traz a canção “Es Como El Día”. Essa faixa foi gravada com Miranda Johansen, a filha mais velha de Kevin. Já os destaques de “Algo Ritmos” são “Mi Querido Brasil”, gravado com Maria Gadú, Jorge Drexler e Kassin, “Solo Le Dije” e “Cuentas Claras”. Nota-se, nesses últimos trabalhos de Johansen, um maior flerte do músico argentino com artistas internacionais. Além disso, suas canções estão com uma pegada mais séria e tradicional (em outras palavras, ficaram mais comerciais!). Sinceramente, gosto mais das maluquices interpretativas, das dancinhas ensaiadas, do humor escrachado, do ritmo mais alegre, das letras inteligentes e das misturas anárquicas da primeira fase da carreira de Johansen (aquela que foi de 2000 a 2007). Por falar nisso, o estilo tradicional de Kevin Johansen mistura vários gêneros musicais. Ele faz a linha pop rock (como quase todos os principais cantores e bandas argentinos – a música da Argentina é monocórdia e se limita ao Rock, ao Rock e ao Rock), mas flerta com o punk, o country e a música romântica. Suas letras falam de amor, das agruras da vida moderna e dos relacionamentos conturbados. Tudo isso com muito bom humor, leveza, intertextualidade cultural e uma melodia impecável. Para o público brasileiro entender melhor sua pegada e seu portfólio artístico, Johansen é uma espécie de Zeca Baleiro argentino (mistura vários ritmos e fala de maneira original e inteligente dos sofrimentos amorosos) com pitadas de Jorge Ben Jor (música divertida e contagiante) e de Hebert Vianna (pelo humor escrachado). Por falar em humor, as letras de Kevin Johansen são hilárias. Destaque para “Guacamole” (não há nada mais argentino do que misturar comida, futebol e família – sempre lembro dos longos almoços de final de semana dos portenhos quando ouço essa música), “Cumbiera Intelectual” (que pode ser vista hoje em dia como uma letra machista pelas feministas mais radicais – o que elas não veem como machista, né?), “Mc Guevara's o Che Donald's” (misturar Che Guevara com Ronald McDonald's é espetacular!) e “Sur o no Sur” (referência direta à famosa frase existencialista de William Shakespeare). Quando as letras das canções não são divertidas por natureza (o que acontece às vezes), Kevin Johansen e o The Nada tratam de transformar a experiência musical em algo muito engraçado. Como eles fazem isso? Através de interpretações inusitadas (como em “Fin de Fiesta” e “El Incomprendido”), de dancinhas criativas (com em “Logo” e “S.O.S. Tan Fashion – Emergency”) e de videoclipes hilários (como em “Daisy”, “Anoche Soñe Contigo” e “No Diga Quizás”). Essa combinação é a responsável por divertir e surpreender o público, principalmente nos shows ao vivo (quando a plateia compra a brincadeira e dança e canta junto com os artistas no palco). Nesse sentido, é nítida a boa química entre Johansen e os integrantes do The Nada. Basta assistir aos videoclipes de “Fin de Fiesta”, “No Diga Quizás” e “Sur o no Sur” para entender o que estou dizendo. A banda é parte fundamental da experiência musical de Kevin Johansen. Não por acaso, ela está com o cantor e compositor há 21 anos. Se você quiser conhecer mais do trabalho desse músico argentino, aí vão as minhas quinze músicas preferidas de Kevin Johansen. Espero que você curta. Eu, pelo menos, fiquei fã de carteirinha do estilo amalucado e despojado de Johansen: 15º) “Es Como El Día”: 14º) “Amor Finito”: 13º) “Baja a la Tierra”: 12º) “Logo”: 11º) “Modern Love”: 10º) “Mc Guevara's o Che Donald's”: 9º) “En Mi Cabeza”: 8º) “Sur o No Sur”: 7º) “Daisy”: 6º) “No Diga Quizás”: 5º) “Desde Que Te Perdí”: 4º) “Fin de Fiesta”: 3º) “Cumbiera Intelectual”: 2º) “Anoche Soñé Contigo”: 1º) “Guacamole”: Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em março e abril de 2024
Veja as 125 principais publicações da ficção e da poesia que chegaram às livrarias brasileiras no segundo bimestre. Quando as pessoas descobrem a quantidade de livros que leio mensalmente, geralmente soltam uma exclamação de susto, quando não de pânico. Aproveitando da perplexidade dos meus interlocutores, indivíduos geralmente classificados como leitores-não-praticantes, observo curioso suas fisionomias. Em suas cabecinhas em processo de curto-circuito, juro que vejo saltar três perguntas quase nunca verbalizadas: “como ele encontra tempo para ler, Meu Deus?!”; “certamente não deve fazer mais nada de bom na vida!”; e “que cara de pau, nem fica vermelho ao mentir tão descaradamente”. Me divirto com essas reações, por mais veladas que sejam. Ao participar de encontros literários e entrevistas (abração, Carlos Ramires!), seja no papel de escritor, seja no papel de crítico literário e editor, os questionamentos que ouço ganham tons mais polidos e intelectualizados: “qual a sua sugestão para alguém que deseja ler mais, Ricardo?”; “qual a dica para renunciarmos à rotina convencional e nos aproximarmos da literatura?”; e “como podemos adquirir o hábito da leitura em tempos de celulares e redes sociais, hein?”. Nessa hora, respiro fundo e NÃO respondo como gostaria. Se me controlo nas palavras de devolutiva (afinal, nunca fui um Doutor Saraiva, né?), meus pensamentos são muito, mas muito mais sinceros: “É algo muito difícil mesmo. É necessário arranjar um livro e um canto calmo e silencioso, dois artigos escassos no mundo contemporâneo. Aí, para ler, basta desligar o telefone (sim, é possível realizar essa proeza e ninguém morre por isso – acredite!). Na sequência, abra a obra que está nas suas mãos e direcione os olhos para a página com o mínimo de atenção. Fique concentrado nesse processo por algumas horas. Pronto! Está aí o segredo de ouro dos leitores contumazes. Se pareceu confuso, sugiro reler devagar as últimas frases com bastante cuidado”. Brincadeiras à parte, lembrei desse chiste porque há situações em nossa rotina que exigem realmente uma estratégia mais elaborada para que não percamos o hábito da leitura. Nas últimas semanas, por exemplo, tenho ficado pouquíssimo em casa. Como praticante de home office muito antes da pandemia estourar, como um antissocial incorrigível desde a adolescência e como alguém com a alma caseira, é um martírio abandonar quase que diariamente meu doce e querido lar. Porém, como estou fazendo um curso de espanhol no Centrão de Buenos Aires (região chamada por aqui de Microcentro), aceitei a mudança de rotina. O problema é o tempão que estou perdendo no deslocamento. As viagens de trem, ônibus ou metrô duram em média uma hora para ir e uma hora para voltar. Ao invés de reclamar (muito!), notei que ganhei duas horas diárias para ficar mais próximo da literatura. Afinal, a maior vantagem de não dirigir pela cidade é que podemos ler durante o percurso. O único complicador é que o entra-e-sai do transporte público e as baldeações entre as estações dificultam um pouco a concentração e interrompem as sessões mais longas de leitura, como estou acostumado a fazer em casa. Como já dizia o esperto filósofo da autoajuda, para todo problema há uma solução. E qual foi a ideia que encontrei para superar essa dificuldade, hein?! Levar em minha mochila publicações de tamanho reduzido. Apesar de ser fãnzaço dos romances caudalosos – como mostrei nos posts de Quinze Tijolões para Serem Lidos na Quarentena e de 12 Coleções da Ficção Literária Internacional que Valem a Leitura, conteúdos da coluna Recomendações –, há momentos em que os romances mais enxutos, as novelas e as coletâneas de contos, crônicas e ensaios se encaixam melhor em minha rotina. Para quem não tem preconceitos literários (põe o dedo aqui que já vai fechar!!!), até mesmo os títulos infantojuvenis e obras infantis podem ser apreciadas quando se tem pouco tempo disponível. Acredite em mim: há algumas publicações feitas para a molecada que encantam e surpreendem indistintamente leitores mais novos e leitores mais velhos. Com essa convicção, mudei um pouco meus hábitos de leitura. No trajeto entrecortado do transporte público portenho e em rápidas oportunidades de leitura entre uma aula e outra no Laboratório de Idiomas da UBA (Universidade de Buenos Aires), nada melhor do que ter em mãos narrativas curtas ou textos com capítulos breves. Por isso, passei a me dedicar nas últimas semanas aos pequenos grandes livros que selecionei para me acompanharem no vai-e-vem pela cidade. Se essa é também a sua rotina, estimado(a) leitor(a) do Bonas Histórias, vou destacar seis publicações que foram lançadas recentemente e que podem se encaixar como uma luva neste perfil de leitura. Como você deve ter notado, estamos na coluna Mercado Editorial. Bimestralmente, dou uma passada por aqui só para apresentar os livros de ficção e de poesia que foram lançados nas livrarias nacionais. Como já entramos no quinto bimestre, já era hora de eu relatar as novidades do mercado editorial brasileiro em março e abril de 2024. Antes de exibir a lista completa dos 125 títulos que chamaram minha atenção na nova leva de publicações, gostaria de ressaltar o sexteto que mais me agradou. Meu critério de seleção, devido às forças de natureza maior que acabei de revelar, foi o número reduzido de páginas. Quem foi que falou que os melhores perfumes estão nos menores frascos talvez estivesse fazendo, inconscientemente, uma analogia com a literatura comercial. Se foi isso, concordo integralmente com sua mensagem. Na prateleira da ficção brasileira, gostei de “Passeio do Gigante” (Companhia das Letras), romance de 160 páginas de Michael Laub, “Os Grandes Carnívoros” (Alfaguara), romance de 176 páginas de Adriana Lisboa, e “Puro” (Todavia), novela de 96 páginas de Nara Vidal. Em “Passeio do Gigante”, Laub, um dos principais escritores gaúchos da atualidade (abraço apertado, Rio Grande!!!), continua abordando os dramas da comunidade judaica em nosso país. Esse tema surgiu pela primeira vez em sua literatura em “Diário da Queda” (Companhia das Letras), seu quinto romance, e nunca mais o abandonou. Nessa nova obra de Michael Laub, acompanhamos Davi Rieseman, um advogado ligado à causa sionista. Entre o presente de forte polarização política e antissemitismo e o passado de traumas e tragédias de sua família, o protagonista de “Passeio do Gigante” tenta se equilibrar (ou não perder a sanidade mental). O que é realidade, imaginação e alucinação nessa história? Esse é o desafio que os leitores precisam desvendar neste thriller psicológico. “Os Grandes Carnívoros”, novidade da carioca Adriana Lisboa, se passa na região serrana do Rio de Janeiro. A protagonista da obra é Adelaide, uma ex-presidiária e ativista pelos direitos dos animais. Após problemas com a Justiça causados pelas ações de protestos mais extremadas, a moça tenta recomeçar a vida em uma pequena cidade fluminense. Lá conhece uma família e uma realidade totalmente diferentes do que estava acostumada. Entre o olhar para o futuro e as revelações do passado, Adelaide descobre que as injustiças e as violências do mundo insistem em persegui-la. A nova publicação de Nara Vidal, uma das autoras mais engajadas da literatura brasileira contemporânea, é uma narrativa histórica ambientada no interior de Minas Gerais. “Puro” retrata o drama de Lázaro. Na década de 1930, o rapaz de 15 anos mora com três senhoras, que o adotaram quando ele ainda era um bebezinho. Seu lar é confortável e aparentemente feliz. Porém, naquela pequena cidade mineira em que tudo remete à calma e à perfeição, há mistérios e surpresas capazes de incomodar até mesmo os leitores mais corajosos. Caminhando pelos corredores das livrarias, mudamos para as estantes da literatura internacional. Na nova seção, o trio que mais me agradou foi “Agosto Azul” (Autêntica Contemporânea), romance de 168 páginas de Deborah Levy, “O Vento que Arrasa” (Todavia), novela de 112 páginas de Selva Almada, e “O Vício dos Livros” (Dublinense), coletânea de ensaios de 96 páginas de Afonso Cruz. “Agosto Azul” foi eleito nada mais, nada menos do que o romance do ano, em 2023, pelos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos (Time, Vulture e Publishers Weekly) e da Inglaterra (The Week, The Guardian e BBC). Nascida na África do Sul e com cidadania britânica, Deborah Levy é uma das principais ficcionistas de língua inglesa. Indicada duas vezes ao Goldsmiths Prize e três vezes ao Man Booker Prize, a autora mostra que está em excelente forma neste drama psicológico simplesmente sublime. Elsa M. Anderson é a pianista famosa que está no auge da carreira. Inexplicavelmente, a artista abandona o palco de uma apresentação em Viena e se lança por caminhos banais e perigosos por cidades desconhecidas da Europa. O que está ocorrendo com ela?! Esse é o conflito que faz a roda do livro girar a todo vapor. Em “O Vento que Arrasa”, conhecemos mais uma história forte e surpreendente desta que é uma das minhas escritoras sul-americanas favoritas. Conheci o trabalho de Selva Almada em “Não é um Rio” (Todavia) e desde então não perco suas novelas quase sempre ácidas e brutais que são ambientadas no interior da Argentina. “O Vento que Arrasa” não foge desse script. Nesta trama, assistimos ao Reverendo Pearson e sua filha adolescente viajando de carro pelo rincão da Argentina. A missão do religioso é levar a palavra de Deus e evangelizar o povo desassistido. Quando o veículo quebra em uma região desabitada, eles são socorridos por uma dupla de mecânicos. Está criado o ambiente de mistério e tensão entre o quarteto de personagens. Por fim, “O Vício dos Livros” é a coletânea de ensaios de Afonso Cruz em que o cineasta, músico e escritor português mostra sua paixão pela literatura. No papel de leitor de grandes obras, Cruz apresenta relatos históricos, curiosidades literárias, memórias pessoais e impressões sobre autores e publicações. Mesmo quando suas narrativas parecem fugir um pouco da temática principal da coletânea, somos surpreendidos mais à frente com citações ou analogias sagazes aos clássicos da literatura universal, da literatura portuguesa e da literatura brasileira. Incrível! Quem gosta do universo da escrita ficcional certamente se encantará com “O Vício dos Livros”. A proposta de Afonso Cruz é original e seu texto apresenta excelente execução. Apresentado sucintamente os destaques bimestrais das nossas livrarias, vamos agora à lista completa dos 125 principais lançamentos da ficção e da poesia em março e abril de 2024 no Brasil. Segue, abaixo, o mais recente levantamento da coluna Mercado Editorial: FICÇÃO BRASILEIRA: “Passeio do Gigante” (Companhia das Letras) – Michael Laub – Romance – 160 páginas. “Os Grandes Carnívoros” (Alfaguara) – Adriana Lisboa – Romance – 176 páginas. “A Contra-Escuridão – Volume 4 da Série A Contrapartida” (EV Publicações) – Uranio Bonoldi – Romance – 324 páginas. “Uma Família Feliz” (Companhia das Letras) – Raphael Montes – Romance – 352 páginas. “Boas Meninas se Afogam em Silêncio” (Rocco) – Andressa Tabaczinski – Romance – 272 páginas. “LIA” (Companhia das Letras) – Caetano W. Galindo – Romance – 232 páginas. “Tempos Extremos” (Intrínseca) – Míriam Leitão – Romance – 304 páginas. “Aurim” (Lura Editorial) – Jonas Marinho – Romance – 240 páginas. “Água Turva” (Companhia das Letras) – Morgana Kretzmann – Romance – 272 páginas. “Contra Fogo” (Todavia) – Pablo Casella – Romance – 320 páginas. “Virgínia Mordida” (Companhia das Letras) – Jeovanna Vieira – Romance – 192 páginas. “Os Últimos dos Copistas” (Companhia das Letras) – Marcílio França Castro – Romance – 208 páginas. “Puro” (Todavia) – Nara Vidal – Novela – 96 páginas. “Um Prego no Espelho” (Companhia das Letras) – Tércia Montenegro – Novela – 152 páginas. “Merci” (Dublinense) – Roberto Frizero – Novela – 96 páginas. “A Cortesia da Casa” (Record) – Marta Barcellos – Novela – 160 páginas. “Jenipapo Western” (Todavia) – Tito Leite – Novela – 152 páginas. “200 Crônicas Escolhidas” (Global) – Rubem Braga – Coletânea de Crônicas – 528 páginas. “Sobre Literatura e História” (Companhia das Letras) – Júlio Pimentel Pinto – Coletânea de Ensaios – 272 páginas. “Sete Bruxas e um Gato Temporário” (Galera Junior) – Índigo Ayer – Infantojuvenil – 304 páginas. “Laila e Jasmim” (Escarlate) – Guilherme Semionato (autor) e Lumina Pirilampus (ilustradora) –Infantojuvenil – 200 páginas. “Estilo Romeu e Julieta” (Autografia) – Isabelle Silva da Cruz – Infantojuvenil – 144 páginas. “Manuel, Rita, Flor...” (Companhia das Letrinhas) – Renata Bueno – Infantil – 48 páginas. “Cruz Credo!” (Globinho) – Leo Cunha (autor), Tino Freitas (autor) e Eve Ferretti (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “Tem Um Gato no Frontispício” (Baião) – Sofia Mariutti (autora) e Victor Rocha (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “A Lupa do Coração” (Yellowfante) – Erika Nahass de Moura (autora), Ingrid Hass (autora) Isabela Santos (ilustradora) – Infantil – 24 páginas. “Meu Amigo Cadurão” (Yellowfante) – Erika Nahass de Moura (autora), Ingrid Hass (autora) Isabela Santos (ilustradora) – Infantil – 24 páginas. Gigi e Suri” (Yellowfante) – Erika Nahass de Moura (autora), Ingrid Hass (autora) Isabela Santos (ilustradora) – Infantil – 24 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Agosto Azul” (Autêntica Contemporânea) – Deborah Levy (África do Sul/Inglaterra) – Romance – 168 páginas. “Deus na Escuridão” (Biblioteca Azul) – Valter Hugo Mãe (Portugal) – Romance – 240 páginas. “O Pacto da Água” (Companhia das Letras) – Abraham Verghese (Índia/Estados Unidos) – Romance – 632 páginas. “Nevada” (Todavia) – Imogen Binnie (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Os Superstars da Cadeia” (Fósforo) – Nana Kwame Adjei-Brenyah (Estados Unidos) – romance – 472 páginas. “Belos Fracassados” (Todavia) – Leonard Cohen (Canadá) – Romance – 280 páginas. “Guerra, Adorável Guerra” (Darkside) – Julie Berry (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Mesmo Sabendo Como Tudo Acaba” (Companhia das Letras) – C. L. Polk (Canadá) – Romance – 168 páginas. “Aconteceu em Indigo Ridge” (Rocco) – Devney Perry (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Além do Instinto” (Globo Livros) – Barbara Abel (Bélgica) – Romance – 288 páginas. “A Noite em que Ela Desapareceu” (Intrínseca) – Lisa Jewell (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “Um Caso Improvável” (Verus) – Rebecca Yarros (Estados Unidos) – Romance – 378 páginas. “Tudo que Deixamos Inacabado” (Arqueiro) – Rebecca Yarros (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “Bruxas” (Companhia das Letras) – Brenda Lozano (México) – Romance – 224 páginas. “Casa de Folhas” (Darkside) – Mark Z. Danielewski (Estados Unidos) – Romance – 738 páginas. “O Efeito Graham” (Companhia das Letras) – Elle Kennedy (Canadá) – Romance – 416 páginas. “Cantoras” (Dublinense) – Caro de Robertis (Estados Unidos/Uruguai) – Romance – 432 páginas. “A Lanterna das Memórias Perdidas” (Bertrand Brasil) – Sanaka Hiiragi (Japão) – Romance – 192 páginas. “O Último Jantar” (Record) – Shari Lapena (Canadá) – Romance – 336 páginas. “O País dos Outros” (Intrínseca) – Leïla Slimani (Marrocos) – Romance – 320 páginas. “Anatomia de uma Execução” (Darkside) – Danya Kukafka (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “A Patroa” (Dublinense) – Hannelore Cayre (França) – Romance – 192 páginas. “O Homem Ciumento” (Record) – Jo Nesbø (Noruega) – Romance – 546 páginas. “Garotas na Escuridão” (Darkside) – Jess Lourey (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Caída Por Você” (Arqueiro) – Amy Lea (Canadá) – Romance – 288 páginas. “Palmeiras Selvagens” (Companhia das Letras) – William Faulkner (Estados Unidos) – Romance – 312 páginas. “O Colibri” (Autêntica Contemporânea) – Sandro Veronesi (Itália) – Romance – 336 páginas. “Reino das Bruxas – Poder Arcano” (Darkside) – Kerri Maniscalco (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Rei do Orgulho” (Arqueiro) – Ana Huang (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Lista de Coisas Suspeitas” (Paralela) – Jennie Godfrey (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Uma Proposta Um Tanto Escandalosa – Série Os Indomáveis Irmãos MacTaggert” (Harlequin) – Suzanne Enoch (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Muito Mais que Um Crime” (Vestígio) – Philippe Besson (França) – Romance – 176 páginas. “Landon & Shay – Volume 1” (Record) – Brittainy Cherry (Estados Unidos) – Romance – 378 páginas. “Nó de Víboras” (José Olympio) – François Mauriac (França) – Romance – 304 páginas. “Rostos Esquecidos” (Gutenberg) – V. S. Alexander (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Bunny” (Globo Livros) – Mona Awad (Canadá) – Romance – 336 páginas. “A Loucura do Mel” (Verus) – Jodi Picoult (Estados Unidos) – Romance – 546 páginas. “Escape Room” (Valentina) – Maren Stoffels (Holanda) – Romance – 208 páginas. “Mika na Vida Real” (Intrínseca) – Emiko Jean (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Olga” (Record) – Bernhard Schlink (Alemanha) – Romance – 304 páginas. “Sonho de Uma Menina Negra” (Todavia) – Jaqueline Woodson (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Sete Santos Sem Rosto” (Rocco) – M. K. Lobb (Canadá) – Romance – 352 páginas. “Leitura de Verão” (Verus) – Emily Henry (Estados Unidos) – Romance – 364 páginas. “A Incrível Lavanderia dos Corações” (Intrínseca) – Yun Jungeun (Coreia do Sul) – Romance – 208 páginas. “Pedra Papel Tesoura” (Darkside) – Alice Feeney (Inglaterra) – Romance – 288 páginas. “Está Tudo Bem” (Paralela) – Cecilia Rabess (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Um Dia” (Intrínseca) – David Nicholls (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “Sete Dias em Julho” (Verus) – Tia Williams (Estados Unidos) – Romance – 350 páginas. “O Legado da Vila dos Tecidos” (Arqueiro) – Anne Jacobs (Alemanha) – Romance – 480 páginas. “O que Está Lá Fora” (Darkside) – Kate Alice Marshall (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Trilogia – Vigília, Os Sonhos de Olav e Repouso” (Companhia das Letras) – Jon Fosse (Noruega) – Coletânea de Novelas – 200 páginas. “A Casa de Barcos” (Fósforo) – Jon Fosse (Noruega) – Novela – 144 páginas. “O Vento que Arrasa” (Todavia) – Selva Almada (Argentina) – Novela – 112 páginas. “Para Isabel – Uma Mandala” (Estação Liberdade) – Antônio Tabucchi (Itália) – novela – 144 páginas. “Seul, São Paulo” (Todavia) – Gabriel Mamani Magne (Bolívia) – Novela – 152 páginas. “Cupim” (Alfaguara) – Layla Martínez (Espanha) – Novela – 120 páginas. “Em Agosto nos Vemos” (Record) – Gabriel García Márquez (Colômbia) – Novela – 132 páginas. “Boulder” (Dublinense) – Eva Baltasar (Espanha) – Novela – 112 páginas. “Chuvas Esparsas” (Seguinte) – Rainbow Rowell (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 304 páginas. “Neil Gaiman – Histórias Selecionadas” (Intrínseca) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 656 páginas. “Novas Cartas Portuguesas” (Todavia) – Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa (Portugal) – Coletânea de Contos, Crônicas, Ensaios, Poesia e Cartas – 352 páginas. “O Vício dos Livros” (Dublinense) – Afonso Cruz – Coletânea de Ensaios – 96 páginas. “Questões Incendiárias” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá) – Coletânea de Ensaios – 576 páginas. “Promessas Cruéis” (Alt) – Rebecca Ross (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 552 páginas. “A Ladra Amaldiçoada” (Seguinte) – Margaret Owen (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 464 páginas. “Alerta de Spoiler” (Intrínseca) – Olivia Dade (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 432 páginas. “Mulher Akata – Volume 3 da Série Bruxa Akata” (Galera) – Nnedi Okorafor (Nigéria) – Infantojuvenil – 396 páginas. “Um Namorado Para Viagem” (Alt) – Sher Lee (Singapura) – Infantojuvenil – 372 páginas. “A Rainha do Sol” (Seguinte) – Nisha J. Tuli (Canadá) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Uma História de Amor no Ano-Novo Lunar” (Alt) – Gene Luen Yang (Estados Unidos) e LeUyen Pham (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “As Últimas Sobreviventes” (Alt) – Jennifer Dugan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “O Trono do Prisioneiro – Volume 2 da Série O Herdeiro Roubado” (Galera) – Holly Back (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Cafés & Lendas” (Intrínseca) – Travis Baldree (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Se Você Pudesse Ver o Sol” (Alt) – Ann Liang (China/Austrália) – Infantojuvenil – 328 páginas. “99 Dias” (Alt) – Katie Cotugno (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Sozinha ou Acompanhada?” (Gutenberg) – Mazey Eddings (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 296 páginas. “Para Sempre...” (Rocco) – Judy Blume (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Mergulho na Escuridão – Volume 1 da Série Five Night at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawthon (Estados Unidos) e Elley Cooper (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 192 páginas. “Caçador – Volume 2 da Série Five Night at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawthon (Estados Unidos), Andrea Waggener (Estados Unidos) e Carly Anne West (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “O que Dizem Os Sonhos” (Globo Clube) – Muriel Bloch (França) – Infantil – 96 páginas. “Um Mar de Amor” (Companhia das Letrinhas) – Pieter Gaudesaboos (Bélgica) – Infantil – 80 páginas. “O Anjo da Guarda do Vovô” (Companhia das Letrinhas) – Jutta Bauer (Alemanha) – Infantil – 56 páginas. “Quando Você Sai” (Pequena Zahar) – Gastón Hauviller (Argentina) – Infantil – 48 páginas. “A Mamãe do Pintinho” (Companhia das Letrinhas) – Heena Baek (Coreia do Sul) – Infantil – 48 páginas. “O Jardim da Minha Baba” (Pequena Zahar) – Jordan Scott (Canadá) e Sydney Smith (Canadá) – Infantil – 48 páginas. “Branco” (Yellowfante) – Silje Hansen Flemmen (Noruega) – Infantil – 40 páginas. “Celeste, a Skatista” (Companhia das Letrinhas) – Rachel Katstaller (El Salvador) – Infantil – 40 páginas. “Cristina Brinca” (Brinque-Book) – Micaela Chirif (Peru) e Paula Ortiz (Colômbia) – Infantil – 36 páginas. “Coração e Mente – Encontraram Uma Nova Amiga” (Gaudí Editorial) – Nishi Singhau (autora; Estados Unidos) e Lera Munoz (ilustradora; Rússia) – Infantil – 32 páginas. “Coração e Mente – Uma História de Amizade” (Gaudí Editorial) – Nishi Singhau (autora; Estados Unidos) e Lera Munoz (ilustradora; Rússia) – Infantil – 32 páginas. “Quem Foi?” (Brinque-Book) – Ana Palmero Cáceres (Venezuela) e Alejandra Acosta (Chile) – Infantil – 32 páginas. “Uma Menina Muito Amada” (Intrínseca) – Neil Gaiman (autor; Inglaterra) e Charles Vess (Ilustrador; Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “Gritar!” (L&PM) – Rose Robbins (Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “O Rei e o Homenzinho” (Baião) – K. G. Subramanyan (Índia) – Infantil – 24 páginas. “Nossos Amigos, os Ogros” (Baião) – K. G. Subramanyan (Índia) – Infantil – 24 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Cantos à Beira-mar e Outros Poemas” (Círculo de Poema) – Maria Firmina dos Reis – 280 páginas. “Melhores Poemas Marco Lucchesi” (Global Pocket) – Marco Lucchesi – 184 páginas. É por isso que eu sempre digo: enquanto o mundo gira, a gente lê. Fazer o quê? Até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Amor Segundo Buenos Aires - O romance de estreia de Fernando Scheller
Publicado originalmente em abril de 2016 e relançado em novembro de 2023 em versão estendida, o drama sentimental do escritor e jornalista paranaense tem como principal charme a ambientação na capital argentina. Na maioria das vezes, quando digo para familiares, amigos, colegas e conhecidos do Brasil que estou morando em Buenos Aires, ouço em algum momento: “que romântico, Ricardo!”. Invariavelmente, esse é o primeiro comentário que rola quando descobrem que vim definitivamente para a capital da Argentina. De tão óbvia que é essa correlação, chego a ficar esperando por ela. Assim que dou a notícia, olho no relógio e começo a marcar o tempo. Juro que raramente demora mais do que cinco minutos para surgir a palavra “romântico” nas bocas dos meus empolgados interlocutores. Não vou me esquecer de quando me mudei para cá. Mal saí do Aeroparque, o aeroporto urbano no coração de Palermo, e cheguei à nova casa em Núñez, fui convocado para duas reuniões virtuais com escritores brasileiros. No meio da faxina e no desfazer de malas, abri o notebook e entrei no Zoom. Na primeira teleconferência, ainda no dia da minha chegada e sem ter provado um asado ou uma empanada sequer, falei com Dayana Rampinelli, autora de “Maria e o Mundo Mágico” (EV Publicações), e Paulo Sousa, autor de “A Peste das Batatas” (Pomelo) e “Acinte 2020” (Pomelo). Quando viram o cenário diferente e um tanto caótico à minha volta e souberam onde eu estava, os dois falaram quase que juntos: “Buenos Aires? Que romântico!”. Surpreso com a sincronia da dupla, não me lembrei de pedir que corressem até algo verde e, ao tocar, pensassem no nome dele/dela. No dia seguinte, a mesmíssima cena se repetiu. Dessa vez foi na reunião virtual com Eduardo Villela, diretor da EV Publicações, e Uranio Bonoldi, romancista da série “A Contrapartida” – “A Contrapartida” (Valentina), “O Contra-ataque” (Valentina) e “A Contra-história” (Valentina). “Buenos Aires, Ricardo? Que romântico!!!”. No caso do Eduardo, meu amigo dos tempos de colégio, ele não acreditou que eu estivesse me mudado para CABA (Ciudad Autónoma de Buenos Aires) sem qualquer pretensão afetiva. Mais tarde, descobri que o mesmo pensamento rondava as cabecinhas férteis de quase todos os meus familiares. Para eles, só vim para cá porque arranjei uma argentina com quem juntei os trapos. É claro que a língua rápida e afiada do bom amigo que conheceu por acaso os encantos da mina de Villa Crespo (abraço, Enzito!) não ajudou na contenção da versão falsa que se espalhou entre meus parentes. Confesso que ao escolher viver na capital da Argentina em meados de 2023, não tinha me atentado para a característica apaixonante da cidade, algo tão propagada pelos meus conterrâneos. Cheguei de mala e cuia (no caso, cuia é só para compor a expressão idiomática – não suporto mate) simplesmente para aproveitar a maior qualidade de vida e o câmbio favorável da margem mais vibrante do Rio da Prata, conforme expliquei na apresentação de “Tempos Portenhos”, a nova coletânea de crônicas da coluna Contos & Crônicas. Em outras palavras, meus motivos foram 100% pragmáticos. Como um antirromântico incorrigível e alguém que faz de tudo para fugir da pessoa amada (quando o coraçãozinho bate mais forte, sei que é sinal para sair correndo e me esconder – não me critique nem se assuste, por favor, sou assim e não mudarei!), desconhecia os poderes da ocitocina, da dopamina e da serotonina propagados por CABA. Contudo, oito meses depois, tempo mais do que suficiente para já me sentir um nativo pelas ruas portenhas (ao ponto de não querer mais ir embora) e de ter me apaixonado pela/na cidade (entenda como quiser essa frase, tá?), admito que talvez tivesse subestimado os encantos arrebatadores de Mi Buenos Aires, Querido. Não é que esse pedacinho da América do Sul tem realmente seus charmes e consegue mexer com os corações mais gélidos e fatigados! Para entender um pouco mais o poder de atração da metrópole argentina, comecei a procurar explicações para esse efeito romântico dos bons ares locais. Como um crítico cultural que se preze, recorri à literatura, ao cinema, à música e ao teatro portenhos como ferramentas de estudo. Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias devem ter percebido a enxurrada de conteúdo sobre a cidade nos últimos meses. E, curiosamente, a melhor obra artística a retratar a força sentimental da minha nova cidade de maneira tão magnífica foi o livro ficcional de um autor brasileiro. Estou me referindo a “Amor Segundo Buenos Aires” (HarperCollins), o excelente romance de estreia de Fernando Scheller. Gostei tanto deste título que resolvi analisá-lo em detalhes no post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária. Portanto, depois de minha longa e desnecessária introdução, aperte os cintos da poltrona que vamos seguir bem acompanhados por um tour diferenciado pela literatura brasileira na mais charmosa das capitais sul-americanas. O principal destaque de “Amor Segundo Buenos Aires” é colocar o espaço narrativo como uma espécie de protagonista do enredo. Achei essa inovação, que quebra a estrutura tradicional dos romances e rompe com a lógica dos papéis convencionais dos elementos da narrativa ficcional, espetacular! E não é só isso. A obra de Scheller consegue surpreender ao não cair nos clichês amorosos, típicos das comédias românticas e dos títulos água com açúcar. Nesta trama por vezes ácida, que adquire tom de forte drama sentimental, acompanhamos os mais variados tipos de relacionamento afetivo. Ao invés de apresentar uma visão idílica e caricata de casamentos e namoros, o autor vai pelo caminho do “mundo real” e da “vida como ela é”. Adorei a concretude e o hiper-realismo do texto, uma opção que talvez não agrade tanto as almas mais sonhadoras, ingênuas e românticas. No meu caso, aprovei a proposta! Nascido no interior do Paraná em 1977, Fernando Scheller (não o confundir, POR FAVOR, com o quase homônimo nadador olímpico Fernando Scherer nem com o colunista da revista Veja Fernando Schüler) se mudou para Curitiba para fazer faculdade. Formado em Jornalismo e com mestrado em Economia e Política Internacional, trabalhou em importantes veículos de comunicação no Brasil (como O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil, TV Globo/Portal G1 e Gazeta do Povo) e no exterior (Rádio e TV Deutsche Welle). Atualmente, é sócio da OvoCom, empresa paulistana de comunicação corporativa especializada em Relações Públicas e produção de conteúdo. “Amor Segundo Buenos Aires” foi lançado originalmente em abril de 2016 pela Editora Intrínseca. Quando começou o desenvolvimento do texto deste que viria a se tornar seu primeiro romance, Scheller tinha a pretensão de produzir um guia da cidade argentina e não uma trama ficcional. Obviamente, a obra teria características inusitadas e híbridas. A descrição de lugares turísticos viria salpicada de narrativas ao melhor estilo contos e crônicas. Mesmo com os elementos inovadores, ainda assim o título deveria ficar posicionado na prateleira da não ficção nas livrarias brasileiras. Com essa ideia em mente, Fernando Scheller iniciou a escrita de maneira tímida e com textos fragmentados em 2011. Em 2012, encarou a tarefa de confeccionar o livro com mais seriedade. Para tal, fazia visitas regulares à capital hermana. Em uma dessas imersões criativas por Buenos Aires, ele viu um casal em um café de San Telmo. Aquela cena romântica serviu de inspiração para a construção do eixo dramático da história, algo que lhe faltava. De repente, o componente ficcional ganhava mais destaque do que os elementos não ficcionais. Surgia, a partir daí, o romance propriamente dito. A proposta de produzir uma obra literária e não um título jornalístico só se consolidaria mais tarde, no momento da edição e da amarração das narrativas. O processo inteiro de construção da publicação durou em torno de quatro anos. Apesar de a fase de desenvolvimento do livro parecer caótica (pelo menos para quem ouve esse relato agora), acho que a dinâmica criativa um tanto distinta foi muito positiva porque deixou marcas bem singulares no material. O que mais gostei em “Amor Segundo Buenos Aires”, depois da excelente ambientação, do retrato impecável do espaço narrativo e do tom ácido dos dramas sentimentais, foi a dobradinha formada pela multiplicidade de narrativas (é tanta trama junta que é até difícil para explicar o enredo principal da obra) com a variedade de tipos de relacionamentos retratados (em uma overdose de uniões das mais distintas formas, idades, preferências sexuais, fases de vida e países). Se você quer um romance certinho, convencional e de fácil digestão, saiba que talvez o texto de Fernando Scheller não seja para o seu paladar. Em novembro de 2023, “Amor Segundo Buenos Aires” ganhou uma nova edição, dessa vez pela Editora HarperCollins. Além da mudança de projeto editorial, que deixou a obra mais bonita (as ilustrações de capa e de abertura dos capítulos foram feitas por Amanda Pinho e estão ESPETACULARES!), o drama sentimental ambientado na capital argentina ganhou mais cinco capítulos. Em outras palavras, a nova publicação é a versão estendida daquela original publicada pela Intrínseca há oito anos. Por isso, aconselho: na dúvida, recorra ao material mais recente, que passou por uma caprichada revisão conceitual do autor. Há mais ou menos três anos e meio, foi anunciada a intenção da HBO em adaptar a trama do livro para a televisão. Chegou-se a especular, inclusive, que Scheller seria um dos roteiristas da série televisiva. Contudo, com a confusão causada pela pandemia da Covid-19 e com as mudanças na estrutura brasileira da emissora norte-americana, o projeto audiovisual não evoluiu. Em 2021, Fernando Scheller lançou seu segundo romance, “Gostaria que Você Estivesse Aqui” (HarperCollins). A narrativa histórica ambientada no Rio de Janeiro da década de 1980 foi publicada primeiramente pela TAG em maio. O interessante é que esse foi o primeiro título de um escritor brasileiro que o clube de assinaturas apresentou pelo selo TAG Inéditos. A tiragem foi de 40 mil unidades, um número absurdo para um jovem autor ficcional. Em agosto, a HarperCollins se encarregou de atender aos leitores das livrarias com uma versão comercial de “Gostaria que Você Estivesse Aqui”. Antes de se enveredar pelo ofício de romancista, o jornalista paranaense já tinha publicado uma obra não ficcional. Em 2010, sua estreia no mercado editorial foi com “Paquistão – Viagem à Terra dos Puros” (Editora Globo). Em uma espécie de versão brasileira de “O Livreiro de Cabul” (Record), best-seller de Åsne Seierstad, Scheller relata suas experiências de viver dois meses com uma família paquistanesa na Ásia Meridional. Ele gostou tanto da aventura no exterior e da dinâmica de trabalho que pensou em fazer o mesmo tipo de texto na Argentina. Contudo, não esperava ser picado pelo prazer da literatura ficcional no meio do caminho. Ainda bem: ganhamos um romancista. Conforme revelou recentemente em uma entrevista, Fernando Scheller deseja produzir um novo título ambientado em uma nova cidade. Qual seria esse lugar? Ainda não recebemos nenhum indício. Parodiando Dona Milú, personagem clássica interpretada por Miriam Pires na telenovela “Tieta”, misteeeeeeeeério. O enredo de “Amor Segundo Buenos Aires” começa descrevendo a crise conjugal de Hugo e Leonor. Os dois estão casados informalmente há três anos. Os namoridos, para usarmos um termo contemporâneo, são brasileiros e vivem em um apartamento alugado em San Telmo. O casal deixou o Brasil meio que de supetão e foi morar na capital argentina por vontade de Leonor. Ela, que tem 26 anos, é filha de uma brasileira (Lola) e de um argentino (Ernesto). Como sempre conviveu pouco com o pai, que retornou para seu país natal após breve passagem pelo Brasil, Leonor anseia por adentrar na rotina de Ernesto, um conceituado acadêmico portenho. Sua obsessão pela figura paterna é tão grande que ela largou a vida no Brasil só para ficar perto do Professor Ernesto, que parece ignorá-la impiedosamente. Apaixonado pela esposa/namorada, Hugo, de 31 anos, não pensou muito e foi junto com ela para a Argentina. Depois de um período de lua-de-mel em Buenos Aires, onde toda novidade era excitante, o casal de protagonistas agora vive sem afinidades nem sintonias. Sexo é artigo escasso na cama deles e carinho genuíno é comportamento em falta naquele lar. Hugo acha que Leonor não o ama mais. Inclusive, suspeita que a mulher/namorada tenha um amante. Por não suportar mais a frieza da companheira e a possível traição, ele resolve sair de casa em definitivo. Para recomeçar a vida na cidade que não consegue mais abandonar (voltar para o Brasil não está em seus planos), Hugo aluga um novo apartamento. Dessa vez, vai viver sozinho. Acha que é preferível ficar só a ter como companhia alguém que o repudia dia e noite. Triste com o fim do relacionamento, o rapaz é consolado pelos dois melhores amigos, Carolina e Eduardo. Carolina tem 27 anos e é uma aeromoça solitária que se entretém fazendo sexo casual nas viagens a trabalho. Ela é apaixonada secretamente por Hugo e não entende como Leonor, que já foi uma de suas amigas mais próximas no passado, despreza aquele homem aparentemente impecável. A moça não compreende também a devoção do amigo pela esposa/namorada, que é sempre fria e brava com ele independentemente da situação. Tão logo a separação dos brasileiros é efetivada e anunciada, Carolina consegue o que ansiava há tanto tempo: transar com Hugo. O outro grande amigo do protagonista é Eduardo. Aos 34 anos, Edu é argentino e gay. Seu principal drama é não ter relacionamentos amorosos saudáveis. O último rapaz com quem saía parecia que o estava roubando. Pelo menos essa era a sua suspeita. Mesmo com as desconfianças, Eduardo, que parece ser dependente emocional dos parceiros e aceitar relacionamentos tóxicos, protelou o quanto pôde abandonar o namorado pouco honesto. Ciente das confusões que o arquiteto se mete por força do coração ingênuo e condescendente, Hugo sempre o consolou e o orientou. Contudo, com a separação do brasileiro, os papéis se invertem. Agora é Eduardo quem precisa cuidar do ex-marido/namorado de Leonor, que está destruído sentimentalmente. Em uma das saideiras da dupla pela noite portenha – nada melhor do que um bom porre de vinho argentino para curar as feridas do coração (¡abrazo, Pablito, el Caníbal!)–, o melhor amigo de Hugo conhece Daniel, um garçom sério e pouco falante que chegou à CABA vindo de uma fazenda nos rincões dos Pampas. Rapidamente os dois se entrosam, apesar do evidente abismo social – um é arquiteto, rico e cosmopolita e o outro é funcionário de bar, pobre e interiorano. Ao ver que, enfim, Eduardo está feliz e com um pretendente com muitas qualidades positivas, Hugo se propõe a fazer de tudo para aproximar ainda mais os pombinhos. Ele não irá sossegar enquanto não ver o amigo firmar namoro com Daniel. Surge em cena a versão “anjo cupido” da personagem principal de “Amor Segundo Buenos Aires”. Por outro lado, o possível affair entre Hugo e Carol esfria completamente após a primeira noite de sexo deles. Ele mergulha na tristeza e na melancolia sem a esposa/namorada. E Carol segue flertando com todo tipo de homem em suas viagens a trabalho e nas escapadas pela noite da capital argentina. Contudo, a sorte da moça dá sinal de mudança quando conhece Martín, um engenheiro que trabalha no sistema financeiro. Recém-separado, o rapaz tem uma leveza que impressiona a aeromoça, pouco acostumada a pessoas e rotinas extremamente suaves. Nesse cenário de encontros e desencontros sentimentais pela metrópole portenha, Hugo tem grande dificuldade para encontrar uma substituta para Leonor. Porém, rapidamente essa será uma de suas menores preocupações. Uma notícia bombástica e delicadíssima acaba mudando inteiramente seu cotidiano. Do dia para noite, sua atenção volta-se para um lado da vida até então ignorado. O que será que se passou com Hugo para abalá-lo tanto assim, hein?! É esse o mistério que apresento para os leitores do Bonas Histórias. Como não gosto de contar o spoiler das obras analisadas seja na coluna Livros – Crítica Literária, seja nas demais colunas do blog, deixo no ar o suspense de “Amor Segundo Buenos Aires”. A partir da explosão do conflito principal do livro, surgem novos personagens em cena. Conhecemos Pedro, o pai de Hugo. Professor universitário de Sociologia aposentado, o patriarca ficou casado por 38 anos com Marta, a mãe de Hugo. Tão logo Pedro descobre que o filho tem problemas graves no exterior, ele, como pai zeloso e coruja que sempre foi, se muda intempestivamente para a Argentina. Vendo que Marta não o seguiria, o professor aposentado não titubeia e pede a separação. O divórcio é encarado com naturalidade tanto pela mulher quanto pelo filho único do casal. A sensação é que aquele matrimônio já tinha acabado fazia muito tempo e só precisava de um pretexto/empurrãozinho para se formalizar. Em Buenos Aires, Pedro engata um namoro com Charlotte, sua vizinha de apartamento que diz ter 85 anos e que não se separa do seu cachorro, Napoleão, por nada nesse mundo. O interessante é que cada capítulo é narrado por uma personagem. Assim, acompanhamos o revezamento de relatos em primeira pessoa de Hugo (capítulos 1, 4, 6, 9, 11, 17 e 19), Carolina (capítulos 2, 7 e 22), Eduardo (capítulos 3, 5, 16 e 20), Pedro (capítulos 8 e 10), Martín (capítulo 12), Daniel (capítulo 13), Leonor (capítulos 14 e 21), Charlotte (capítulo 15) e Buenos Aires (capítulo 18). Com tantas vozes simultaneamente, conseguimos ter uma visão completa e dinâmica do que se passa em volta de Hugo, que considerei como o protagonista formal da publicação (mas sei que essa afirmação é polêmica, como veremos mais à frente nessa análise). “Amor Segundo Buenos Aires” é um romance volumoso. Ele tem 372 páginas, que estão divididas em 22 capítulos. Na apresentação da obra (que possui um tom de dedicatória lírica), acompanhamos um poema em versos livres (ou seria simplesmente uma prosa poética?!) sobre os mais diferentes tipos de desventura amorosa. O texto termina com: “Este livro (...) foi feito com amor e é sobre todas as formas de amor”. No fim da edição da HarperCollins (preferi comprar a versão mais atual do livro, tá?), há ainda o agradecimento do autor paranaense. Li esta publicação de Fernando Scheller no mês passado em uma viagem para Montevideo (tecnicamente falando foi o contrário, a li na volta para a Argentina). Diferentemente de Lucas Pereyra, o narrador-protagonista de “A Uruguaia” (Todavia), novela impecável do argentino Pedro Mairal que analisei há alguns meses no Bonas Histórias, não atravessei o Rio da Prata atrás de uma aventura amorosa com uma tchutchuquinha local. Fui simplesmente para ver um jogo do Timão pela Copa Sul-americana. Viu só como sou um ogro antirromântico, senhoras e senhores. Para aplacar um pouco a dor na consciência por efetuar um passeio tão pouco intelectual por terras uruguaias, levei na mochila vários livros. Veria sim o Corinthians em campo, mas também devoraria vários títulos literários enquanto estivesse me deslocando por barco e ônibus. Na viagem de ida para a terra natal de Pepe Mujica, Juan Carlos Onetti e Natalia Oreiro (quase escapou completar com Carlos Gardel, mas me segurei para não cometer essa gafe com meus amigos argentinos), tive como companhia “O Túmulo da Desconhecida” (Viseo), o ótimo romance da escritora mineira Janete Helena que vou comentar em julho na coluna Livros – Crítica Literária. Não percam o post! Já no trajeto de volta para CABA pelo Buquebus (uma viagem de barco, diga-se de passagem, deliciosa!!!), devorei “Amor Segundo Buenos Aires”. Para ser honesto com os leitores do blog, li metade do título de Scheller no caminho entre o hotel de Montevideo e meu lar na capital argentina e a outra metade no dia seguinte, já devidamente instalado no meu apê em Saavedra. Foram, portanto, duas sessões literárias de aproximadamente três horas e 45 minutos cada. Acho que devo ter investido em torno de sete horas e meia nesta leitura. Se o jogo do Coringão contra o Racing genérico rendeu só um pontinho na tabela de classificação do torneio continental, minha viagem resultou em dois posts literários para o Bonas Histórias. Não tenho dúvida de quem se saiu melhor nesta jornada ao exterior. Vamos começar agora a análise verdadeiramente de “Amor Segundo Buenos Aires”. Se bem que já adiantei, no início dessa crítica, vários elementos que gostei muito nesta obra. Para não ficar repetitivo, vou apontar dessa vez outros aspectos elogiosos do romance. Entre os demais encantos de “Amor Segundo Buenos Aires”, o que mais gostei foi da fidelidade e da sensibilidade do retrato da cidade. É delicioso ver a CABA como eu conheço e vivo transmutada em cenário literário das várias histórias de amor e desamor. A sensação é que estamos efetivamente caminhando pelos lugares indicados pelo livro. Como um residente apaixonado pela atmosfera portenha, eu garanto que o texto de Fernando Scheller é fidedigno nas cores, no tom e na intensidade. Algumas descrições da capital da Argentina feitas pelo romancista brasileiro são realmente SENSACIONAIS!!! Confesso envergonhado que não teria a habilidade de explicar com tanto talento e lucidez as peculiaridades dos bairros, das ruas e dos estabelecimentos do município em que vivo (e olha que tento fazer isso em “Tempos Portenhos”). Anotei as passagens que mais gostei da obra. Juro que não me canso de reler esses trechos tamanha é a sua beleza literária e a sagacidade das observações de Scheller. Só por essas frases, acho que “Amor Segundo Buenos Aires” já vale a leitura – principalmente se você for, como eu, apaixonado(a) por esse cantinho maravilhosamente caótico do mundo. Veja as melhores sacadas do autor: “Ela (a capital argentina) não é linda? Linda não é bem a palavra certa. Se Paris é uma mulher moderna e elegante, vestida nas melhores roupas, porém intragável e inatingível, Buenos Aires é uma senhora muito vivida, maltratada pelo tempo e por amantes, porém ainda capaz de, sob a luz certa, mostrar seu poder de sedução. Ou quem sabe Buenos Aires seja Mrs. Robinson. É isso, Buenos Aires é Anne Bancroft por volta de 1967. Acho que desvendei o mistério” (página 19). “Vive em San Telmo, um bairro que, exceto aos domingos, é uma parte da cidade suja e malcuidada que tenta, pretensiosamente, se vender como moderninha” (página 43). “Não sei se funciona para a Argentina inteira, mas o fato é que eu entendo Buenos Aires, como não entendo nenhum outro lugar do mundo. E acho que Buenos Aires também me entende (...). A cidade que se arranha, se esfarela, leva safanões e pontapés, mas sempre dá um jeito de se levantar, aqui e ali, imponente. Quando dá a impressão de que Buenos Aires vai explodir, ela faz como seus moradores: abre uma nova janela clandestina na sala do apartamento, mesmo correndo o risco de levar o edifício inteiro a desabar. Um buraco na medianera deixa o vento entrar e amenizar a sensação de sufocamento pelo menos por um verão, até que chegue outro mais quente” (páginas 69/70). “É fevereiro, e em Buenos Aires, a energia elétrica vai e vem. Os apagões são constantes, e os portenhos, com razão, ficam de mau humor com o calor e a falta de ar-condicionado. Restaurantes sofisticados, os apartamentos classudos de Belgrano, as milongas do Centro e as bibocas de Barrancas – de repente, todo mundo estava no mesmo barco” (página 133). “Quando dei por mim, não tinha mais volta. Aqui era o meu lugar. – Parece amor. – Acho que é. O que sinto por Buenos Aires é mais ou menos o que sentia por você. A diferença é que, de alguma maneira, sinto que sou correspondido” (página 233). “(...) paro no meio da praça (de Mayo) entre flashes de turistas que tiram uma foto da Casa Rosada antes de seguir em direção às compras na rua Florida. Cada dia ouço mais gente falando português aqui. Invadiram a minha cidade” (página 267). “Ela me explica que não se diverte com o que eu falo, mas com como eu falo. Nesses anos todos aqui, continuei com sotaque brasileiro. Quero saber se minha pronúncia é muito ruim. Mar responde que é horrivelmente adorável. Como se uma facada na barriga pudesse ser, de certa forma, agradável” (página 276). Impossível não concordar com essas palavras. Em alguns momentos, juro que me vi falando essas frases no meu cotidiano, seja para a professora catarinense e para a policial de Belgrano, seja para o vizinho simpático e para os amigos brasileiros que para cá vêm turistar. Nas páginas de “Amor Segundo Buenos Aires”, conhecemos o frenesi da Feira de San Telmo, a paixão dos portenhos pelo vinho Malbec, os kioscos que se proliferam a cada quarteirão, as delícias do alfajor Cachafaz, os cinemas de rua que se mantém populares, a orquestra típica El Afronte, os erros dos brasileiros ao falar espanhol, a invasão de brasileiros nas regiões mais turísticas da cidade, a Praça Vicente Lopez na Recoleta, os bares escondidos, as avenidas Santa Fé e 9 de Julio, as calles Lavalle e Florida, o Mercado Primera Junta, as Barrancas de Belgrano, o Patio Bullrich, o visual deslumbrante de Puerto Madero, o calorão de janeiro e fevereiro sem chuva, os apagões de eletricidade, a paixão pelos cachorros, os ônibus antigos, o charme das livrarias (principalmente do El Ateneo Grand Splendid), as tentações da Confitería Ideal, o majestoso Teatro Colón, o Obelisco, o Barrio Chino, a confusão da Feria de Mataderos, o legado de Carlos Gardel, o buchicho da Plaza Serrano e as peculiaridades de Manzana de Las Luces (um passeio que confesso que não conheço e que fiquei com MUITA vontade de ir!). Se pensarmos bem, podemos dizer que Hugo é o protagonista do romance. Afinal, todas as histórias do livro giram ao redor do seu drama e ele é quem concentra o maior número de narrativas em primeira pessoa (7 de 22 capítulos, aproximadamente um terço da publicação). Por outro lado, não é errado imaginarmos que a cidade de Buenos Aires também assume, em parte, o protagonismo (ou o co-protagonismo) da obra de Fernando Scheller. Achei simplesmente SENSACIONAL essa alteração surpreendente do papel do espaço narrativo. O cenário não apenas influencia consideravelmente na ambientação de “Amor Segundo Buenos Aires” como ousa se tornar uma personagem relevante do enredo. É ou não é genial, hein? O cuidado para descrever exatamente os lugares visitados pelas figuras ficcionais e para demonstrar no projeto gráfico o visual exato de cada pedacinho de CABA não é por acaso. Outro ponto que precisa ser elogiado é a fortíssima intertextualidade cultural do texto. O tempo inteiro os narradores-personagens citam músicas, filmes, livros, filosofia, sociologia, danças, gastronomia, seriados de televisão, histórias em quadrinho etc. Achei esse diálogo artístico profundamente compatível com a atmosfera cosmopolita da cidade e com o estilo de vida portenho. Morar em CABA é mergulhar em diferentes facetas culturais e “Amor Segundo Buenos Aires” não poderia desprezar essa particularidade. Não posso me esquecer de falar da belíssima construção das personagens. Tive a impressão de que Scheller é um escritor MUITO acima da média na arte de dar vida às suas figuras ficcionais. Os tipos retratados neste romance são variados e maravilhosos. Juro que não sei qual das personagens é a melhor. Todas são redondas e com enorme complexidade dramática. Os meus favoritos, não sei o porquê, foram Pedro e Charlotte (além de Napoleão, claro). Para mim, eles são, ao mesmo tempo, tragicômicos e possuem enorme riqueza literária. Adorei essa dupla/casal por seus exageros, mentiras, manias e passionalidade. Dá para dizer que o ritmo narrativo de “Amor Segundo Buenos Aires” é muito bom. Em nenhum momento da leitura, achei que a trama ficou parada ou perdeu a força. Por mais que assistamos a uma série de histórias paralelas, elas têm um eixo central, o que confere emoção ao texto e desperta a curiosidade no leitor. Por falar nisso, o acréscimo dos cinco capítulos no final da nova edição foram fundamentais para melhorar o desfecho do romance. Admito que a sensação para quem leu a primeira edição do livro era que faltava alguma coisa. Agora não temos mais essa angústia. Tudo está em seu devido lugar e há uma conclusão lógica, em um mix de desenlaces pessoais satisfatórios e desenlaces pessoais insatisfatórios. É a vida, senhoras e senhores. Não dá para vencer todas as batalhas. É inegável que “Amor Segundo Buenos Aires” é um livro delicioso, principalmente para quem conhece a capital argentina e deseja passear ficcionalmente por suas ruas e bairros. Entretanto, o romance de Fernando Scheller tem também seus probleminhas, que precisamos apontar sem melingres. Afinal, em uma análise literária imparcial e séria, algo que não abrimos mão no Bonas Histórias, jogamos luz a todas as facetas dos títulos avaliados. Como os nossos leitores mais assíduos já estão acostumados, essa é a essência da coluna Livros – Crítica Literária. Um dos maiores vacilos de Scheller, na minha humilde opinião, é a falta de diferenciação das vozes dos narradores. O que quero dizer com isso? Apesar de termos distintas personagens relatando os acontecimentos em “Amor Segundo Buenos Aires”, a sensação é que o estilo de fala/escrita é o mesmo ao longo de toda a obra. Convenhamos que essa homogeneidade é extremamente inverossímil. Cada pessoa tem um jeito próprio de se expressar. Por mais interessante e dinâmico que tenha sido a construção das multinarrativas (realmente esse é um recurso muito legal e caiu como uma luva nessa publicação!), achei que faltou um maior cuidado na execução da proposta. No fim das contas, a maneira como Hugo, Carolina, Eduardo, Pedro, Martín, Daniel, Leonor e Charlotte contam seus dramas para os leitores é incomodamente igual. Um escritor com um pouco mais de vivência no ofício e com maior repertório literário não deixaria esse deslize acontecer. Nesse sentido, acho totalmente descabido as personagens argentinas falarem português. Aí alguém pode reclamar comigo: “mas o livro é para brasileiros, Ricardo. Não dava para o texto vir em espanhol”. OK, concordo (em partes!!!) com essa argumentação. Entretanto, poderíamos ter algumas expressões típicas do castellano rioplatense no meio da narrativa em português, algo que não aparece em nenhum momento do romance. É verdade que quando os brasileiros falam, lá no início do livro, temos algumas expressões em espanhol. Contudo, isso não ocorre nas falas e na narração dos argentinos. E é justamente aí que achei que faltou um tempero idiomático. Esse recurso de acrescentar palavras e termos estrangeiros no texto (algo que as telenovelas da Rede Globo fazem de maneira caricata há muito tempo) é, vale a pena destacar, muito utilizado em obras literárias que tentam emular o estilo da cultura e o idioma de outros povos. Por que não se tentou fazer algo parecido aqui? Não sei. Acho que seria legal também ver as construções frasais em português sendo apresentadas a partir da estrutura idiomática do espanhol, outro aspecto que foi totalmente ignorado no romance. Assim, teríamos a sensação de que o texto foi traduzido. Pela perspectiva da imersão na cultura local, há alguns errinhos em “Amor Segundo Buenos Aires” que jamais seriam cometidos por um argentino legítimo ou por um brasileiro que vivesse realmente em CABA por um longo período. Por exemplo, ninguém em minha atual cidade diria “El Clarín” para designar o jornal. Não! Quem fala assim é o jornalista brasileiro que desconhece o nome do principal periódico da Argentina. Seu nome é simplesmente “Clarín” – sem o artigo definido, que existe em outros veículos de comunicação como “El País” ou “La Nación”, mas não no “Clarín”. Mais uma coisa: um portenho jamais diria “Rua Florida” e sim “Calle Florida”. Outra sensação que tive é que a Buenos Aires retratada na publicação de Fernando Scheller é a cidade do turista e não a do verdadeiro morador. Em outras palavras, é a metrópole que o brasileiro que vem passear conhece e não a localidade que os portenhos precisam encarar cotidianamente. Como sei disso? Em primeiro lugar, porque faço parte justamente do segundo grupo. E, assim, entendi que o texto do romance não conseguiu apresentar o panorama caótico e versátil da capital da Argentina. Ela não é só um lugar agradável, com ar bucólico e com pegada romântica que meus conterrâneos enxergam à primeira vista. Falar de CABA é falar da inflação galopante, do aumento assustador da miséria, do trânsito imprevisível, do pipocar de panelaços e protestos pelas ruas, do cheiro de churrasco aos finais de semana, da calma do passeio de fim de tarde no parque, da cidade fervilhante em plena madrugada, da mescla de mal humor e do humor ácido dos portenhos, do olhar apaixonado para a Europa, da mania de grandeza, das consultas semanais aos psicólogos, da riqueza dos lunfardos etc. Onde está isso na narrativa? Não encontrei em nenhuma parte. Prova maior da incompatibilidade entre a visão platônica e a visão concreta está no capítulo em que assistimos à cidade falar com os leitores. Por mais inovador e impactante que seja esse pedaço do livro – e ele é sim disruptivo ao ponto de ter me feito lembrar de “Cidades Invisíveis” (Companhia das Letras), o clássico de Italo Calvino e uma das melhores obras literárias que li –, a voz que vem das páginas não é a da verdadeira Buenos Aires. Nunca CABA usaria algumas expressões ali colocadas, como “guris” e “trupe” por exemplo. O que ela falaria, então? Acho que “chicos”, e “equipo”, respectivamente. Para ser sincero, duvido até mesmo que a capital argentina falasse português ou soubesse em detalhes a letra de alguma música brasileira, como escancarado nas páginas do romance. E o que dizer, então, do seu ar calmo e contemplativo. Acho que não!!! Para completar, no meio do capítulo em que ouvimos a voz da cidade, temos algumas frases em primeira pessoa e outras em terceira pessoa. Ora Buenos Aires é quem fala e ora falam dela. Admito que não entendi o motivo dessa variação. Se isso não for uma derrapada gigantesca do autor, não sei mais o que seria um erro grosseiro na construção da literatura ficcional. Por falar nisso, achei algumas partes da obra de Scheller um tanto estranhas. Não sei se poderia dizer que são passagens equivocadas, porque talvez não haja erros do ponto de vista da Teoria Literária, mas são sim muito esquisitas na minha visão. Por exemplo, no início de “Amor Segundo Buenos Aires”, Carolina diz não ser mais tão próxima de Leonor como no passado. Por outro lado, a aeromoça sabe dos detalhes da vida sexual do casal de protagonistas. Como ela tem ciência disso se Hugo não contou e Leonor não demonstra mais a intimidade para comentar essas particularidades de sua vida? Não sei. E o que dizer da cena em que Carolina faz o aborto, hein? Esse é um dos momentos mais pesados do romance. Porém, logo depois que visualizamos o drama da moça, ela aparece toda pimpona e feliz por ter mantido a gravidez. O quê?! Ou eu entendi tudo errado ou existe um sério deslocamento factual (ou hiato narrativo) neste livro, senhoras e senhores. Apesar de eu ficar apontando equívocos aqui e ali em “Amor Segundo Buenos Aires”, o resultado de minha experiência literária foi bastante positivo. Os elementos favoráveis que o romance de Fernando Scheller possui dão de goleada nos seus elementos negativos. Ou seja, esse livro tem a capacidade de agradar aos leitores que desejam acompanhar uma boa história em um cenário encantador. Acho que a última obra ficcional da literatura brasileira que li que se passava na capital da Argentina foi “Golpe de Ar” (Editora 34), a novela autobiográfica de Fabrício Corsaletti. Corsalletti até pode ser um autor muito mais renomado e talentoso do que Scheller (o último Prêmio Jabuti é prova cabal disso!), mas uma coisa eu digo sem medo de errar ou cair no exagero: “Amor Segundo Buenos Aires” é muito, mas muito mais livro do que “Golpe de Ar”. Feitas essas considerações, me despeço momentaneamente dos leitores da coluna Livros – Crítica Literária por um ótimo motivo. Vou aproveitar a friaca do outono em CABA (temperatura nesse momento está em 9ºC) para tomar um vinho (Santa Julia Malbec) e comer um belo asado (no caso, um vacio trazido da Parrilla Jorge) aqui em casa enquanto escuto Kevin Johansen. Na varanda do meu apê, consigo ver o Parque Saavedra engolido pela inusitada neblina ao melhor estilo fog londrino. Onde estaria o céu azulzinho que é tão típico de Buenos Aires, hein? Ele deve ter dado uma escapadinha, provavelmente amorosa, por aí e logo mais volta leve e sorridente. Por que essa cidade exala tanta passionalidade?! Juro que queria saber. Depois de tantas palavras jogadas ao vento, continuo sem uma explicação plausível para os encantos sentimentais do lugar onde escolhi viver. “Buenos Aires? Que romântico, Ricardo!”. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em novembro e dezembro de 2023
Apresentamos os 100 principais títulos ficcionais e poéticos que chegaram às livrarias brasileiras no sexto e último bimestre do ano. Feliz 2024! Acho que nessa altura da corrida dos ponteiros do relógio posso generalizar as felicitações em âmbito geográfico sem restrições, né? Porque já é Ano-novo na Austrália (adoro esse clichêzão jornalístico) e nos demais recôncavos da bolota (ainda) azul. Uhu! Assim, o Bonas Histórias deseja um ótimo ano que se inicia para todos os seus leitores, colunistas, parceiros e patrocinadores. E, por que não, aqui vai também um salve especial e afetuoso para os nossos haters (que são poucos, é verdade, mas têm um lugar cativo nos nossos coraçõezinhos gélidos e amargos). Sim, senhores e senhoras, nesse clima de alegria e harmonia provocado pela Confraternização Universal (que de universal não tem nada – é meramente uma festividade terráquea e, mais especificamente, humanoide), acho que é normal sentirmos vontade de abraçar até mesmo aqueles que passaram os últimos doze meses nos apunhalando nas redes sociais. Enquanto escrevo essas quase sinceras palavras de paz e compaixão fraternal, ouço “Telegrama”, uma das sensacionais músicas de Zeca Baleiro. Como é lindo o período das Festas de Fim de Ano, não é mesmo?! Ai que vontade danada de mandar flores para a delegada (de Belgrano, mas que tem jurisdição estendida para un departamento pequeño y un corazón roto en Saavedra), de bater na porta do vizinho e desejar bom-dia (para seu lindo Golden sempre alegre e estabanado) e de beijar o português da padaria (que no caso é italiano, não tem padoca há muitos e muitos anos e sempre acumulou, pelo menos na minha visão, a função de ser meu pai). Porém, enquanto o mundo aproveita as primeiras horas do novo ciclo do calendário (em uma espécie de ballet do sistema solar que raramente entendo o mecanismo) para fazer promessas (esse ano eu emagreço!), novas resoluções (dessa vez vou criar vergonha na cara e procurarei um emprego bom, vocês vão ver!), desejos (será que com essa cueca vermelho-choque novíssima que usei no Réveillon terei um novo e ardente amor?) e mandingas (comi lentilha e agora?), estou aqui para pagar as dívidas atrasadas da finada translação. O ano pode até ser novo, mas o mundo é velho. Pelo menos é assim na minha rotina literária (e na cabeça dos meus insensíveis credores). O post de hoje é para apresentar os principais livros que foram lançados no Brasil em novembro e dezembro de 2023, algo que não consegui fazer no mês que acabou há pouquíssimas horas (o atraso não foi tão grande assim, tá?!). Para quem ficou em dúvida se minhas divagações introdutórias levariam o texto para o caminho indicado no título e no subtítulo (tem sempre alguém que cai de paraquedas nessas tortuosas e imprevisíveis linhas e acha tudo muito caótico e indecifrável), alerto que estamos sim na coluna Mercado Editorial e não na coluna Celebrações. O último bimestre da temporada é normalmente uma época de poucas publicações. Isso ocorre tanto no mercado editorial brasileiro quanto no mercado editorial mundial. Afinal, lançar um livro no crepúsculo do ano é competir com vários eventos e atrações que chamam mais a atenção do público consumidor. Aí a concorrência é muito desleal. Não dá para nadar contra a corrente das preferências sociais. Para completar, as atividades em muitas editoras ficam reduzidas ao essencial nesse período. Tirar os profissionais dos encontros familiares e das férias de fim de ano por causa da divulgação das obras recém-chegadas às livrarias, de eventos de lançamento ou dos últimos detalhes comerciais no ponto-de-venda nunca foi uma política de Recursos Humanos das mais populares. Falei tudo isso só para explicar que em novembro e, principalmente, dezembro assistimos à redução natural de novas publicações. Mesmo assim, confesso que achei a movimentação do mercado no fim de 2023 muito positiva se comparada a dos períodos anteriores. Tiveram anos antes da pandemia (lembra dela?!) em que sofri para selecionar quatro ou cinco dezenas de novos títulos que foram lançados nos últimos bimestres. Nesse ano (ou melhor, no finado 2023, que já virou ano passado!), ao piscar dos olhos já identifiquei sem grande esforço mais de uma centena de obras saindo do forno (no caso, das impressoras das gráficas). Impossível não se animar com esse cenário, não é? Para a lista que faço sistematicamente não ficar enorme – sempre tenho essa preocupação no restante do ano, que chegou felizmente agora à reta final do calendário –, selecionei os 100 melhores livros ficcionais e poéticos do sexto e último bimestre de 2023. E adianto que tem muita novidade de boa qualidade sendo colocada nas prateleiras dos romances, novelas, coletâneas de contos, crônicas e ensaios, títulos infantojuvenis, obras infantis e coleções poéticas. Antes de apresentar integralmente a listagem dos lançamentos das livrarias brasileiras, vou comentar três livros nacionais e três livros estrangeiros dessa leva que mais chamaram minha atenção. Dessa forma, já dá para as almas mais ansiosas entrarem no clima. Não quero ver ninguém triste, tristinho, mais sem graça do que a top model magrela na passarela. Nem solitário, como um paulistano ou um canastrão na hora que cai o pano. Comecemos nosso passeio pelas novidades editoriais pela literatura brasileira. O romance mais interessante do momento é “Outono de Carne Estranha” (Record) do paraense Airton Souza. Essa obra conquistou o Prêmio Sesc de Literatura de 2023, uma das principais premiações literárias do país para escritores estreantes, na categoria das narrativas ficcionais longas. Conforme estipulado pelo regulamento do evento, coube à Editora Record lançar os títulos vencedores. Na categoria conto, vale a menção, o título vitorioso do Prêmio Sesc de Literatura desse ano foi “O Ninho”, da pernambucana Bethânia Pires Amaro, que também chegou agora às livrarias pela Record. Em “Outono de Carne Estranha”, Airton Souza, poeta, professor e pesquisador acadêmico nascido em Marabá e que só recentemente se aventurou no universo da prosa ficcional (daí sua estreia nesse gênero), apresenta o drama de Zuza e Manel, dois garimpeiros de Serra Pelada. Serra Pelada já foi o maior garimpo do mundo conforme retratado com brilhantismo pelas fotografias de Sebastião Salgado e na mostra fotográfica “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada” (conteúdo da coluna Exposições). Em um cenário de aridez sentimental, violência, machismo, destruição, exploração, ganância e preconceitos desmedidos, os protagonistas do livro de Sousa se apaixonam. Ou seja, até mesmo nos terrenos aparentemente mais improváveis, o amor brota e floresce, independentemente da opinião da sociedade e da homofobia reinante. Por essa perspectiva (e pela prosa poética!), não é errado enxergarmos “Outono de Carne Estranha” como uma espécie de “Grande Sertão: Veredas” (Companhia de Bolso), obra-prima de João Guimarães Rosa, contemporânea e do Norte do Brasil. Pulando direto para a prateleira da literatura infantil, meu destaque vai para “Maria e o Mundo Mágico” (EV Publicações), estreia ficcional da jornalista e artista plástica catarinense Dayana Rampinelli que vive há mais de uma década nos Estados Unidos. Primeiro volume de uma série literária voltada para crianças de 3 a 9 anos que terá quatro títulos, essa obra foi ilustrada por Marcelo da Paz, um dos mais talentosos designers gráficos e ilustradores de sua geração. Apesar de ter sido lançado efetivamente em setembro de 2023, “Maria e o Mundo Mágico” só ganhou uma campanha de divulgação mais contundente para o grande público nas últimas semanas. Até então, os esforços comerciais e de comunicação da autora estavam concentrados nos projetos corporativos: escolas e prefeituras adquiriram o livro de Dayana como material didático de ensino da língua inglesa. Esse título tem versões tanto em inglês (“Mary and the Magic World” é o seu nome internacional) quanto em português. Por isso, achei mais adequado colocá-lo no post da coluna Mercado Editorial com os lançamentos de novembro e dezembro e não no post com as publicações ficcionais e poéticas de setembro e outubro de 2023. Gostei tanto de “Maria e o Mundo Mágico” que vou comentá-lo com mais profundidade daqui três semanas na coluna Livros – Crítica Literária. Portanto, esperem mais um pouco para receber a avaliação completa deste trabalho de Dayana Rampinelli e Marcelo da Paz. Por ora, o que posso adiantar sobre essa obra é que ela apresenta as aventuras de Maria, uma menina muito sonhadora, por um universo encantado descoberto no jardim de casa. O pontapé para suas descobertas oníricas (e pela explosão de criatividade) surgiu no aniversário de 6 anos, quando ela ganhou de presente dos pais um esperto filhote de cachorro. Chamado de Pop, o cãozinho marrom guiará a garota pelo Mundo Mágico, um lugar onde é possível conversar com os animais e a imaginação infantil não tem limites. Vale a pena conhecer esse livro sensível, com personagens tão carismáticas, de excelente narrativa, com temas delicados e valiosos para o amadurecimento da criançada e com ilustrações simplesmente espetaculares! Em mais um salto significativo pelas estantes das livrarias, aterrizo agora na prateleira da poesia. A boa nova deste bimestre é “Desamada – Um Corpo à Espera do Amor” (Rosa dos Tempos), antologia poética de Midria sobre a solidão e a carência afetivo-sentimental. Com versos marcadamente orais (algo normal para alguém nascida no universo do slam, mas uma grata surpresa para o grande público que não está tão familiarizado com esse tipo de poesia no material impresso) e com conteúdo que mescla delicadeza para falar da dor vivida por uma (ou algumas) mulher(es) negra(s) e tom pesado de denúncia social, os poemas de “Desamada” tornam bonitos algumas das emoções e sentimentos mais tristes e desesperadores da artista. Confesso que adoro acompanhar a genialidade daqueles que sabem transformar a amargura e o desespero em produtos culturais de altíssima qualidade e de elevada beleza estética. Incrível mesmo! Se em tão pouca idade Midria já tem tanta desenvoltura e habilidade poética, juro que fico imaginando até onde ela pode chegar. Independentemente do viés ideológico por trás das frustações femininas do livro (será mesmo que a culpa pelas desilusões amorosas e sexuais das mulheres é sempre da cultura machista e racista?!), achei “Desamada – Um Corpo à Espera do Amor” um livrão. Acredito que temos aqui uma obra extremamente madura de uma escritora que tem o que dizer e sabe como se expressar com enorme originalidade. Atravessando os corredores da loja e atendendo ao pedido de um telegrama (acho que era você de Aracaju ou do Alabama dizendo: “nego, sinta-se feliz porque no mundo tem pessoas que escrevem ficção”), alcanço a seção da literatura estrangeira. Nessas paragens, o que posso apresentar de mais legal são: o romance “O Perigo de Estar Lúcida” (Todavia) de Rosa Montero; a novela “Annie John” (Companhia das Letras) de Jamaica Kincaid; e a coletânea de contos “Coisas Frágeis – Breves Ficções e Maravilhas” (Intrínseca) de Neil Gaiman. Como você deve ter percebido por este meu pequeno recorde literário, peguei um exemplar de cada gênero ficcional. Afinal de contas, um dos mantras do Bonas Histórias é variedade e pluralidade das narrativas analisadas. "O Perigo de Estar Lúcida” é o mais recente livro de Rosa Montero, uma das principais autoras espanholas da atualidade, que chega ao nosso país. Misturando ficção com realidade (boa parte da trama foi construída com base nas memórias reais da autora) e ensaio psicológico com drama pessoal (cuja temática enfoca a relação íntima entre a criatividade artística e a instabilidade emocional), o romance aborda a angústia de uma escritora que, em meio ao ofício literário, está a um passo da loucura. Tão interessante quanto a história em si é a maneira como Montero produz seu texto. Certamente, os leitores com paladar mais refinado vão adorar a narrativa perspicaz e a intertextualidade literária saborosíssima desse título. Já “Annie John” é a novela de Jamaica Kincaid, a mais famosa escritora de Antígua e Barbuda e um dos nomes mais destacados da literatura caribenha (sim, ela se chama Jamaica e nasceu em Antígua e Barbuda – vai entender!). Publicado originalmente em 1985, esse livro (que chamei aqui de novela pelo tamanho mediano de sua narrativa, mas que a Companhia das Letras fez questão de estampar na capa como sendo um romance, narrativa mais longa – vai entender!) apresenta a trajetória de uma adolescente que vive em Antígua e que tem como desafio fazer a passagem para a vida adulta. Filha única e com uma mãe que sempre teve personalidade muito forte, Annie precisa enfrentar relações familiares turbulentas, autodescobertas e segredos de sua identidade. O texto de Kincaid é em prosa poética e trata de questões como colonialismo, feminismo e autoafirmação. Por fim, temos “Coisas Frágeis – Breves Ficções e Maravilhas”, a coletânea de pequenas narrativas de Neil Gaiman. Confesso que sou fã deste escritor britânico desde “Coraline” (Intrínseca), um clássico contemporâneo da literatura infantil. Porém, Gaiman não escreve só para os pequenos. Dentro da parte adulta do seu portfólio, há bons romances, coletâneas de contos inspiradores e títulos não ficcionais interessantes. Publicado originalmente em 2006 e vencedor do Prêmio Locus, “Coisas Frágeis – Breves Ficções e Maravilhas” traz 31 contos que vão do terror ao humor sombrio. Ou seja, é um prato cheio para os fãs do gênero literário que causa arrepios. Assim posto, e antes que alguém diga que estou parecendo mais bobo do que banda de rock ou de um palhaço do circo Vostok, vamos à lista completa das 100 principais obras de ficção e poesia que foram lançadas no último bimestre de 2023 no Brasil! FICÇÃO BRASILEIRA: “Outono de Carne Estranha” (Record) – Airton Souza – Romance – 176 páginas. “Estela a Esta Hora” (Todavia) – Natália Zuccala – Romance – 176 páginas. “O Amor Segundo Buenos Aires” (HarperCollins) – Fernando Scheller (Brasil) – Romance – 352 páginas. “Sobre o que Não Falamos” (Editora 34) – Ana Cristina Braga Martes – Romance – 200 páginas. “Ninguém no Espelho” (Nova Alexandria) – Ailton Santos – Romance – 216 páginas. “Oração para Desaparecer” (Companhia das Letras) – Socorro Acioli – Romance – 208 páginas. “Emilio” (CEPE Editora) – Wellington de Melo – Romance – 388 páginas. “Ordem Vermelha: Crianças do Silêncio – Volume 2 da Série Ordem Vermelha” (Intrínseca) – Felipe Castilho – Romance – 544 páginas. “O Escravo” (Companhia das Letras) – Carolina Maria de Jesus – Romance – 208 páginas. “O Ninho” (Record) – Bethânia Pires Amaro – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Três Tigres Tortas” (Amarcord) – Tatiana Nascimento – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Meu Corpo Quer Extensão – Uma Antologia: 1929-1948” (Companhia das Letras) – Patrícia Galvão (Pagú) – Coletânea de Cartas, Romances, Contos, Poesias e Desenhos – 112 páginas. “Até Onde Chega a Sonda” (Fósforo) – Patrícia Galvão (Pagú) – Coletânea de Cartas, Crônicas, Ensaios e Memórias – 144 páginas. “Os Rostos que Tenho” (Record) – Nélida Piñon – Coletânea de Crônicas e Ensaios, Memórias e Autobiografia – 266 páginas. “Grafias de Vida – A Morte” (Companhia das Letras) – Silviano Santiago – Coletânea de Ensaios – 344 páginas. “Essencial Roberto Schwarz” (Penguin-Companhia) – Roberto Schwarz – Coletânea de Ensaios – 376 páginas. “Antígona – Ela Está Entre Nós” (Paz & Terra) – Andréa Beltrão – Teatro – 152 páginas. “Minha Vida Fora de Série – 5ª Temporada” (Gutenberg) – Paulo Pimenta – Infantojuvenil – 624 páginas. “No Dia do Seu Casamento” (Verus) – Thaís Dourado – Infantojuvenil – 322 páginas. “Os Fantasmas Entre Nós” (Seguinte) – Gih Alves – Infantojuvenil – 224 páginas. “Dois Periquitos” (Globinho) – Geraldo Valério – Infantojuvenil – 80 páginas. “Nas Águas do Tempo” (Yellowfante) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Um Rio que Canta e Encanta – Fala, Rio!” (Yellowfante) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Agitando a Galera – Juntos Somos Mais Fortes” (Yellowfante) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Sonhando Acordado – Aprendendo com os Mais Velhos” (Yellowfante) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantojuvenil – 64 páginas. “O Grande Livro dos Macacos” (Salamandra) – Ruth Rocha – Infantojuvenil – 48 páginas. “Maria e o Mundo Mágico” (EV Publicações) – Dayana Rampinelli (autora) e Marcelo da Paz (ilustrador) Infantojuvenil – 36 páginas. “Matilde e Chouriço” (Globinho) – Flávia Lins e Silva e Maria Inês Almeida (autoras) e David Pintor (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. “O Mistério da Meia Fedida” (Globinho) – Flávia Lins e Silva e Maria Inês Almeida (autoras) e David Pintor (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Ayana e o Passeio à Lagoa do Abaeté” (Malê Mirim) – Claudya Costa (autora) e Quezia Silveira (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “O Perigo de Estar Lúcida” (Todavia) – Rosa Montero (Espanha) – Romance – 272 páginas. “O Homem-Espelho – Série Joona Linna” (Alfaguara) – Lars Kepler (Suécia) – Romance – 512 páginas. "Terra Silenciada” (Malê) – Mohamed Mbougar Sarr (Senegal) – Romance – 266 páginas. “Identidade Roubada” (Bertrand Brasil) – Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 490 páginas. “Esconderijo Mortal” (Bertrand Brasil) – Nora Roberts/J. D. Robb (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “O Exorcista – Segredos e Devoção” (Darkside) – Mark Kermode (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “A Deusa em Chamas – Volume 3 da Série A Guerra da Papoula” (Intrínseca) – R. F. Kuang (China/Estados Unidos) – Romance – 592 páginas. “Almoço de Domingo” (Companhia das Letras) – José Luís Peixoto (Portugal) – Romance – 216 páginas. “Em Lados Opostos” (Arqueiro) – John Grisham (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Legado nos Ossos – Livro 2 da Trilogia Baztán” (Planeta) – Dolores Redondo (Espanha) – Romance – 480 páginas. “A Inconveniente Loja de Conveniência” (Bertrand Brasil) – Kim Ho-yeon (Coreia do Sul) – Romance – 272 páginas. “Rei da Ira” (Arqueiro) – Ana Huang (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “O Elenco” (Planeta) – Danielle Steel (Espanha) – Romance – 256 páginas. “Puta Livro Bom” (Record) – Jason Mott (Estados Unidos) – Romance – 322 páginas. “Pessoas Decentes” (Boitempo) – Leonardo Padura (Cuba) – Romance – 344 páginas. “Pacto de Sangue” (Darkside) – S. T. Gilbson (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “MANIAC” (Todavia) – Benjamín Labatut (Chile) – Romance – 360 páginas. “Nós Somos a Luz” (Globo Livros) – Matthew Quick (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “O Mágico” (Companhia das Letras) – Colm Tóibín (Irlanda) – Romance – 544 páginas. “O Mundo Depois de Nós” (Intrínseca) – Rumaan Alam (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. A Menina do Outro Lado – Volume 11” (Darkside) – Nagabe (Japão) – Romance – 180 páginas. “A Menina do Outro Lado – Volume 10” (Darkside) – Nagabe (Japão) – Romance – 172 páginas. “Um Encontro com Holly” (Record) – Brittainy Cherry (Estados Unidos) – Romance – 308 páginas. “Madame” (Intrínseca) – E. L. James (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “A Queda da Casa Morta” (Darkside) – T. Kingfisher (Estados Unidos) – Romance – 208 páginas. “O Caçador da Escuridão” (Record) – Donato Carrisi (Itália) – Romance – 420 páginas. “A Garota do Cabelo Vermelho” (Arqueiro) – Buzzy Jackson (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “Casamento em Dezembro” (Harlequin) – Sarah Morgan (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “A Última Contadora de Histórias” (Darkside) – Donna Barba Higuera (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “As Sete Luas de Maali Almeida” (Record) – Shehan Karunatilada (Sri Lanka) – Romance – 406 páginas. “O Código da Rosa” (Bertrand Brasil) – Kate Quinn (Estados Unidos) – Romance – 302 páginas. “As Filhas da Vila dos Tecidos” (Arqueiro) – Anne Jacobs (Alemanha) – Romance – 512 páginas. “Dezenove Degraus” (Record) – Millie Bobby Brown (Espanha/Inglaterra) – Romance – 364 páginas. “Guia para Lésbicas na Escola Católica” (Darkside) – Sonora Reyes (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Xeque-mate” (Arqueiro) – Ali Hazerlwood (Itália) – Romance – 336 páginas. “Obsessão Fatal” (Record) – Tess Gerritsen (Estados Unidos) – Romance – 322 páginas. “Como Conduzir (um Romance)” (Harlequin) – Alexis Daria (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “As Mulheres da Brewster Place – Um Romance em Sete Histórias” (Carambaia) – Gloria Naylor (Estados Unidos) – Romance – 248 páginas. “Instinto Materno” (Globo Livros) – Barbara Abel (Bélgica) – Romance – 296 páginas. “Três Chances Para o Amor” (Arqueiro) – Lyssa Kay Adams (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Annie John” (Companhia das Letras) – Jamaica Kincaid (Antígua e Barbuda) – Novela – 136 páginas. “Duas Guerras Surreais” (Publicação Independente) – Graziella Moraes (Portugal) – Novela – 136 páginas. “Doce Amanhã” (Estação Liberdade) – Banana Yoshimoto (Japão) – Novela – 128 páginas. “O Jardim Onírico de Clarice Lispector” (Darkside) – Daniela Tarazona (México; autora) e Nuria Meléndez (México; ilustradora) – Novela – 176 páginas. “Coisas Frágeis – Breves Ficções e Maravilhas” (Intrínseca) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 336 páginas. “Pixel” (DBA) – Krisztina Tóth (Hungria) – Coletânea de Contos – 176 páginas. “A Escrita Como Faca” (Fósforo) – Annie Ernaux (França) – Coletânea de Crônicas, Ensaios e Memórias – 240 páginas. “Algumas Notas do Dia a Dia” (Fósforo) – Christina Sharpe (Estados Unidos) – Coletânea de Crônicas, Ensaios e Memórias – 88 páginas. “Prometeu Prisioneiro” (Editora 34) – Ésquilo (Grécia) – Teatro – 184 páginas. “Trono de Vidro: Rainha das Sombras – Volume 5 da Coleção Trono de Vidro” (Galera) – Sarah J. Maas (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 688 páginas. “Trono de Vidro: Rainha das Sombras – Volume 6 da Coleção Trono de Vidro” (Galera) – Sarah J. Maas (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 704 páginas. “Divino Rivais” (Alt) – Rebecca Ross (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 464 páginas. “Darkhearts: A Melodia do Coração” (Alt) – James L. Sutter (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Só o Amor Machuca Assim” (Verus) – Paige Toon (Austrália/Inglaterra/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Escolhas de Um Verão” (Alt) – Dahlia Adler (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Se Ela Fosse Minha” (Paralela) – Alison Cochrun (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Diário de uma Garota Nada Popular – Volume 1 da Série Diário de Uma Garota Nada Popular” (Verus) – Rachel Renée Russell (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Diário de uma Garota Nada Popular – Volume 2 da Série Diário de Uma Garota Nada Popular” (Verus) – Rachel Renée Russell (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. "Diário de uma Garota Nada Popular – Volume 3 da Série Diário de Uma Garota Nada Popular” (Verus) – Rachel Renée Russell (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Diário de uma Garota Nada Popular – Volume 4 da Série Diário de Uma Garota Nada Popular” (Verus) – Rachel Renée Russell (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Diário de uma Garota Nada Popular – Volume 5 da Série Diário de Uma Garota Nada Popular” (Verus) – Rachel Renée Russell (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “A Maldição do Verdadeiro Amor” (Gutenberg) – Stephanie Garber (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “O Legado” (Alt) – Jessica Goodman (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Algumas Garotas são Assim” (Alt) – Jennifer Dugan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Emily Em Paris” (Planeta) – Catherine Kalengula (França) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Isadora Moon em Um Passeio da Escola – Volume 4 da Série Isadora Moon” (L&PM Editores) – Harriet Muncaster (Inglaterra) – Infantojuvenil – 128 páginas. “Água” (Globo Clube) – Cary Fagan (Canadá) – Infantojuvenil – 120 páginas. “Rosa e o Anjo da Amizade – Volume 3 da Série Anjos da Guarda” (Arqueiro) – Lucinda Riley (Irlanda) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Vamos Dormir?” (Brinque-Book) – Guido van Genechten (Bélgica) – Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Como Sair Vivo Disso” (Malê) – Tom Grito – 182 páginas. “Antes que Seja Tarde Para se Falar de Poesia” (Malê) – Tom Grito – 88 páginas. “Cabeça de Galinha no Chão de Cimento” (Editora 34) – Ricardo Domeneck – 128 páginas. “Desamada – Um Corpo à Espera do Amor” (Rosa dos Tempos) – Midria – 116 páginas. “Folhas ao Vento – O Poeta Alfaiate” (Malê) – João Antônio Ribeiro – 80 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “A Tela Finalmente Escura” (Kafka Edições) – Calí Boreaz (Portugal) – 240 páginas. Se você perdeu seu precioso tempo contando um a um os títulos exibidos para averiguar se não comi bola na quantidade anunciada, quero dizer que sei muitíssimo bem que há 105 livros nesta relação e não 100 exatos como afirmei desde o começo do post. Por quê? Porque não consegui tirar mais nenhuma obra da minha listagem, tá? Simples assim. Ou porque viva em um país com hiperinflação e estou acostumado com a multiplicação numérica. No início da sua leitura tinha um valor, mas você demorou tanto para ler que o valor aumentou. Portanto, aceite os 105 exemplares como sendo 100, por favor. Obrigado! Acho que por hoje é só pessoal. Depois dessa leitura frugal e saudável da coluna Mercado Editorial, podemos voltar sem culpa e sem dívidas literárias para a celebração sempre emocionante e divertida do Pós-Réveillon. Novamente, um ótimo 2024 para todos! E nos encontramos novamente nas demais postagens de segunda-feira do Bonas Histórias, esse blog de literatura, cultura, arte e entretenimento que caminha a passos céleres para completar a marca de dez anos de vida. Agora me dê a mão que vamos sair para ver o Sol. Até! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Peças Teatrais: Made in Lanús - A clássica tragicomédia argentina de Nelly Fernández Tiscornia
Em cartaz desde janeiro no Teatro Multitabaris COMAFI, em Buenos Aires, a nova produção de Made in Lanús, espetáculo teatral criado há quase 40 anos, é dirigido por Luis Brandoni e continua mais atual do que nunca. Falemos hoje de arte cênica no Bonas Histórias. E saibam, senhoras e senhores, que não vamos comentar qualquer produção da dramaturgia. O foco deste novo post da coluna Teatro é um clássico argentino e uma das melhores peças que vi nos últimos anos. Estou falando de “Made in Lanús”, a mais famosa criação de Nelly Fernández Tiscornia, uma das principais dramaturgas latino-americanas. Lançada em 1986, poucos anos depois de a Ditadura Militar argentina caducar, essa tragicomédia retrata com raro brilhantismo as amarguras de uma família dividida pela perseguição política e pelas constantes crises econômicas. Para quem foge para o exterior, a saudade e o saudosismo da terra natal parecem não terminar nunca. E para quem aceita ficar, a riqueza e o progresso do primeiro mundo soam tentadores. O mais legal é que a nova produção de “Made in Lanús”, em cartaz desde janeiro no Teatro Multitabaris COMAFI, no centro de Buenos Aires, é dirigida por Luis Brandoni. Se você ainda não ligou o nome ao artista, Brandoni é o ator que interpreta o divertidíssimo crítico gastronômico Manuel, protagonista de “Nada” (2023), seriado de televisão que é um dos mais assistidos da Star+. Curiosamente, o agora diretor integrou o elenco do espetáculo original de Tiscornia, que se tornou um enorme sucesso de crítica e de público. Como consequência, a história melancólica e ácida ambientada no subúrbio bonaerense foi levada às telas de cinema já no ano seguinte com o nome “Made in Argentina” (1987). Estava criada uma trama emocionante que marcaria várias gerações de argentinos. Assim, “Made in Lanús” vem sendo encenado periodicamente nos palcos dos teatros de Buenos Aires, o que o fez ser incorporado à programação cênica da cidade nos últimos 38 anos e o transformou em uma forte representação cultural dos dramas argentinos. Nessa tragicomédia com generosas pitadas de denúncia política, crítica de costumes e humor autodepreciativo (é, portanto, uma produção artístico-cultural com a cara da mais pura Argentina!), assistimos ao emocionante reencontro de El Negro e Mabel, um casal de irmãos nascido e criado em Lanús (daí o nome da peça!) depois de uma década de distanciamento. Vivendo nos Estados Unidos, Mabel regressa à terra natal rica e aparentemente realizada ao lado do marido, Osvaldo, e das filhas. Eles vêm para rever os parentes e os amigos que permaneceram morando na cidade pobre da região metropolitana da Gran Buenos Aires. O principal programa da viagem é participar de um casamento de um familiar. Contudo, o evento mais marcante acaba sendo a visita ao lar de El Negro, um mecânico simples e alegre que se equilibra para dar uma vida minimamente digna à esposa La Yoli e à filha. O choque de realidade entre o casal bem-sucedido de imigrantes argentinos (Mabel-Osvaldo) e o casal pobre de argentinos que seguiu no país (El Negro-La Yoli) é o que compõe o mote desta trama e o que permite as surpresas do enredo. Conferi “Made in Lanús” na última sexta-feira à noite no Teatro Multitabaris COMAFI. E até agora estou besta com a qualidade do texto de Nelly Fernández Tiscornia (que se mantém atualíssimo, mesmo quase quatro décadas depois de sua criação) e com a beleza da nova montagem de Luis Brandoni (que não é apenas um ótimo ator, mas também um diretor de enorme sensibilidade). Isso sem falar, por supuesto, da excelência dos atores no palco: Alberto Ajaka, Cecilia Dopazo, Esteban Meloni e Malena Solda. Eles foram tão bem, mas tão bem que, na sessão que estive presente, a peça foi interrompida algumas vezes por palmas da plateia à atuação do quarteto. Incrível! Além de ter ficado embasbacado com a experiência dentro da sala do teatro, confesso que fiquei ainda mais encantado ao constatar o vigor e o primor do panorama teatral portenho, sem dúvida nenhuma o mais dinâmico do nosso continente. Não por acaso, essa foi a maior surpresa do cenário artístico-cultural de Buenos Aires que tive até agora. Antes de me mudar em definitivo para a capital argentina no ano passado, já conhecia obviamente a força do cinema local, como comprovam os posts de “Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019) e “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018). Também já era fã da música – Kevin Johansen é prova cabal disso! – e da literatura – Julio Cortázar, Selva Almada, de “Não é um Rio” (Todavia), e Pedro Mairal, de “A Uruguaia” (Todavia), estão aí para validar minhas palavras – do lado mais tumultuado do Rio da Prata. Contudo, não fazia ideia de como era o teatro daqui. Foi caminhando à noite pela Avenida Corrientes (Gardel já cantava: “La ciudad dormía majestuosamente/ En la quietud de la noche/ Como una agonía, como un reproche/ Un alma en pena te cantaba así/ Corrientes, calle nocturna/ De milongas, calavera y gente bien/ Y en tu calle de vicios y de orgia/ Maté mis alegrías, mi único Edén”) que fiquei hipnotizado pelas luzes, pela movimentação do público e pelo charme dos teatros daquele pedacinho de Buenos Aires. Inclusive, muita gente considera a Av. Corrientes a Broadway argentina. No começo, achava essa associação um tanto exagerada. Para ser sincero, considerava-a até mesmo estapafúrdia. Onde já se viu uma Broadway em plena CABA (Ciudad Autónoma de Buenos Aires)?!! Certamente, seria mais um exagero da típica megalomania e arrogância portenha. Talvez quem tenha inventado essa lenda teatral urbana seja o mesmíssimo chamuyero que propagou que a “9 de Julio es la avenida mas ancha del mundo”. Porém, aos poucos, comecei a suspeitar que talvez no caso da Corrientes quem estivesse equivocado fosse eu (em relação à 9 de Julio, ainda estou convicto que se trata de um engodo). Quanto mais visitava a região, mais intrigado ficava com a enorme quantidade de teatros e, o que era mais incrível, de pessoas os frequentando. Na visita ao Cine Lorca numa quarta-feira fria, na saída tardia do curso de espanhol na UBA do Centrão numa quinta-feira quente, na passadinha à Librería Hernández na sexta-feira chuvosa, na comilança no El Palacio de la Papa Frita no sábado animado ou no regresso do Centro Cultural Kirchner aos domingos, fui constatando o quão gigantesco era o mercado cênico portenho. Até o dia em que falei para mim mesmo: quero ir a uma peça num teatro da Corrientes para conhecer direito essa parada. E qual foi minha surpresa ao me deparar com mais de 200 salas de teatro só naquele pedacinho da cidade. Você leu direito o que eu escrevi neste post da coluna Teatro, querido(a) leitor(a). Eu disse/escrevi que há duas centenas de palcos em uma única avenida!!! Só no trecho que costumo frequentar, entre a Av. Callao e a Av. 9 de Julio (ou, dependendo do ponto de vista, entre o La Opera Bar e Restaurante e o Obelisco), eu contei (em uma caminhada despretensiosa, tá?) 10 teatros. Nessa conta, obviamente, excluí as casas artísticas que ficavam nas ruas laterais. Só valeram os pontos comerciais que tinham a entrada/saída diretamente na Corrientes. Como muitos deles são complexos teatrais enormes, com duas, três ou quatro salas, multiplique você mesmo o número de palcos disponíveis ali. É, para dizer o mínimo, algo impressionante! Diante de tanta variedade, escolher uma produção do circuito comercial para ver exigiu uma pesquisa mais demorada do que supunha. Depois de ler algumas matérias da crítica teatral local, selecionei quatro alvos na Broadway, digo na Corrientes: o moderno e divertido “Escape Room”, no Teatro Multitabaris COMAFI; a comédia romântica com cheirinho de clichê “La Novia de Mi Mejor Amigo”, no Teatro Multiescena; o clássico francês “Cyrano”, no Teatro San Martín; e, como não poderia ser diferente, a comédia dramática (que na verdade, fui descobrir depois ser mais um drama cômico) “Made in Lanús”, no Teatro Multitabaris COMAFI. Voltei-me à última das opções porque ela me pareceu a mais segura. Por se tratar de um clássico teatral argentino com um time de atores de primeira linha e com um diretor famoso, o investimento de 18 mil pesos para a aquisição da entrada (85 reais no último câmbio que fiz) me pareceu menos arriscado. Foi aí que tive o segundo grande susto da minha iniciação ao universo cênico de Buenos Aires. As sessões de “Made in Lanús” (e de boa parte das grandes produções da cidade) vão da quarta-feira ao domingo. De quarta à sexta é só uma apresentação por noite (às 20h30). Ao domingo também é uma exibição solo (às 20h). E ao sábado são duas apresentações (às 20h e às 22h). Vamos ser sinceros: nem mesmo São Paulo, que sempre se apresentou como a cidade que nunca dorme (será?!) e que dizia ter uma programação teatral dinâmica (o quê?!), passa perto dessa pujança de programação. Assim, pensei com os meus ingênuos botões: “com tantas opções, será facilzinho adquirir meu ingresso”. Mal sabia eu que Compadre Washington iria surgir por detrás do meu notebook e gritar: sabe de nada inocente!!! Para a semana seguinte à minha pesquisa, havia pouquíssimos ingressos disponíveis. Por mais gigantesca que fosse a sala e mesmo com as várias datas disponíveis, ainda assim restavam à venda apenas 3 ou 4 ingressos por espetáculo. E olhando as entradas disponíveis na plataforma de compra digital do Teatro Multitabaris COMAFI, foi fácil descobrir o motivo para as sobras. Só tinham restado lugares solitários na sala, sem assento livre ao lado. Como a maioria do público vai acompanhada ao teatro e, obviamente, quer ficar perto das pessoas conhecidas, as poltronas isoladas seguiram sendo ignoradas pelos novos compradores. Ou seja, a demanda por esse tipo de programa cultural é absurda em Buenos Aires. Juro que às vezes tenho dificuldade para entender que vivo em um país que está empobrecendo rapidamente e que passa por uma das mais graves crises econômicas da sua história. Se os portenhos lotam os teatros (com ingressos a quase 100 reais!) nessa situação, o que fariam se a economia estivesse bombando e se não houvesse nenhuma dificuldade financeira, hein? É ou não é surreal?! Ciente dessa particularidade local, se você quiser ir ao teatro com alguém em CABA, é bom se programar com no mínimo duas semanas de antecedência. Do contrário, vai se frustrar ou terá que se sentar longe do mozão. Como sou um crítico cultural (acostumado às visitas artísticas sem ninguém ao lado) e estou solteiro desde o século XVII (favor não comentar dessa vez, Gabi!), não tive problemas de conseguir meu lugarzinho no Teatro Multitabaris COMAFI. Nelly Fernández Tiscornia lançou “Made in Lanús” quase que simultaneamente nas livrarias portenhas e no circuito teatral de Buenos Aires. O livro saiu pela Cántaro Editores, que o continua publicando até hoje. Achei uma edição de 2014 dessa obra por aproximadamente 7 mil pesos (mais ou menos 33 reais) num sebo da Corrientes. Trata-se de uma pechincha considerando os preços estratosféricos dos livros na Argentina, que facilmente ultrapassam o valor de 120 reais. Não me pergunte o porquê isso acontece. Respondo mais ou menos como Chicó: não sei; só sei que é assim! A primeira versão da peça foi aos palcos com Leonor Manso, Patricio Contreras, Luis Brandoni (olha ele aí, gente!) e Martha Bianchi. Curiosamente, que vê Brandoni em ação em “Nada” pensa que ele interpretou El Negro em “Made in Lanús”. Pelo menos foi essa a suposição que fiz. Afinal, a personagem masculina do popular seriado de TV tem o lado cômico muito mais aflorado e representa a essência do argentino comum (como o irmão de Mabel). Porém, Luis Brandoni viveu Osvaldo tanto nos palcos quanto na telona. Na telona? Sim. O quarteto que encenou no teatro essa história de Tiscornia foi chamado para interpretar os mesmos papéis no cinema. “Made in Argentina” foi dirigido e roteirizado por Juan José Jusid. Nelly Fernández Tiscornia participou ativamente da confecção do roteiro do longa-metragem ao lado de Jusid. Para quem possa estranhar, a dramaturga nascida nos Estados Unidos e naturalizada argentina também atuou muitos anos como escritora e roteirista de televisão. Essa produção cinematográfica enfileirou vários prêmios na América do Sul, na América Central, na América do Norte e na Europa. Hoje, é vista como um clássico do cinema argentino. O que dá para dizermos em uma rápida comparação entre “Made in Lanús” e “Made in Argentina”? Enquanto o livro e a peça não apresentam qualquer distinção em suas histórias, o longa tem sensíveis diferenças na trama. Além de ampliar a quantidade de personagens (no livro/peça são apenas quatro figuras em cena/páginas e no filme são mais de 20, com vários coadjuvantes), o enredo cinematográfico mudou a essência da narrativa. Sei que não estamos na coluna Cinema e sim na coluna Teatro. Mesmo assim, acho que seja legal apontar algumas distinções entre as diferentes plataformas artísticas. Em “Made in Argentina”, o casal que vive nos Estados Unidos mora em Nova York e não na Filadélfia. As filhas das personagens principais ganharam em dimensão e participação, mesmo que mínima (as adolescentes seguem sendo coadjuvantes). Outra diferença é a chegada da carta informando da vinda de Mabel-Osvaldo ao lar de El Negro-La Yoli. Se na peça/livro cabe ao mecânico avisar a esposa (aos 49 minutos do segundo tempo) da chegada dos parentes, no filme é a dona de casa que assista à aproximação dos visitantes pela oficina mecânica do marido. Também fiquei com o sentimento que Mabel perdeu um pouco (perceba o uso do termo “um pouco” na minha frase!) da prepotência e do orgulho no longa-metragem (justamente suas características mais marcantes). A delimitação temporal do drama também é completamente outro na tela. No palco e no livro, o encontro dos casais dura apenas algumas horas. Já na versão audiovisual, a história é distribuída ao longo de vários dias e, quizá, semanas. Contudo, duas alterações do longa-metragem eu não gostei NADINHA, NADINHA. A primeira foi o deslocamento do protagonismo da tragicomédia. Se em “Made in Lanús” fiquei com a sensação de que os verdadeiros protagonistas eram El Negro-La Yoli (os donos da casa), em “Made in Argentina” tive a sensação de que o foco maior da produção recaiu sobre Mabel-Osvaldo (os visitantes). Ai, ai, ai. Outro aspecto delicadíssimo é que Lanús sumiu completamente do filme. A história é agora ambientada em Buenos Aires. Por isso, a alteração do nome do longa. Afinal, o título “Made in Lanús” perde totalmente o sentido quando a cidade do subúrbio desaparece do enredo. Confesso que detestei essas duas mudanças. Vale a pena dizer que eu conheci muitíssimo bem Lanús na época que vivi pela primeira vez em Buenos Aires. E foi justamente a vontade de rememorar esse período que me levou a assistir à peça de teatro (e depois ao filme). Entre 2004 e 2005, eu era trainee comercial da Coca-Cola e fiz meu treinamento justamente em CABA. Como estava me preparando para ser executivo de vendas (cargo que ocuparia mais tarde no Brasil), passava o dia visitando os comércios portenhos e bonaerenses junto com os vendedores argentinos. E curiosamente, a região em que atuei mais tempo na Coca-Cola Argentina foi a que englobava Lanús, Castelar, Morón, San Justo, Isidro Casanova, Rafael Castillo e Ciudad Evita. Para os desavisados da geografia local, é suburbão da Grande Buenos Aires, área que meus colegas de companhia não se cansavam de dizer que era perigoso e que exigia atenção redobrada. Com a irresponsabilidade dos meus 20 e pouquinhos anos e tendo vindo do bairro de Pirituba em São Paulo, me sentia à vontade em Lanús e nos arredores. Nunca tive nenhum problema para passar o dia perambulando por suas ruas e visitando seu comércio. E nesse bate-pé conheci muita gente boa e trabalhadora, exatamente como o casal El Negro e La Yoli, os protagonistas da peça de Nelly Fernández Tiscornia. Agora você entendeu o porquê escolhi essa produção teatral para assistir, né? E o motivo por ter ficado tão puto com a retirada da cidade do longa-metragem! Os argentinos que me desculpem, mas não gostei de “Made in Argentina”. Achei um filme com uma narrativa muito corrida, com pouca profundidade dramática e com falta de humor. Por mais que algumas cenas cômicas sejam idênticas as da peça/livro, não consegui rir ao vê-las na tela. Para quem ficou curioso, assisti à produção de Juan José Jusid no último sábado, justamente um dia depois de ter conferido a peça no Teatro Multitabaris COMAFI. Para não haver qualquer confusão de entendimento, vamos discutir agora o enredo da peça de teatro (e não o enredo do filme). “Made in Lanús” se passa em novembro de 1985. Nesse momento histórico, a Argentina já tinha voltado a ser uma democracia. Inclusive, eleições livres para presidente foram realizadas em setembro de 1983. Ou seja, a censura, a repressão e a violência dos militares que se encastelaram no poder por muito tempo se tornaram apenas lembranças amargas da população. Como consequência, muitos dissidentes políticos que foram obrigados a deixar o país começavam a voltar. Alguns apenas para visitar os amigos e parentes e outros para retomar a antiga rotina na terra natal. É esse o caso de Mabel (interpretada por Cecilia Dopazo) e Osvaldo (Estaban Meloni). Eles foram obrigados a deixar a Argentina em 1975 por perseguição dos milicos. Para não serem torturados ou mortos, fugiram para os Estados Unidos com as duas filhas pequenas e reconstruíram suas vidas na Filadélfia. Lá se tornaram ricos e passaram a ostentar um padrão de vida extremamente confortável. A prova maior de que estão totalmente integrados ao novo país é que as filhas, agora adolescentes, mal falam espanhol e absorveram todos os hábitos dos norte-americanos. Depois de dez anos sem pisar na América do Sul, Mabel e Osvaldo regressam para participar do casamento de uns parentes. Como estariam as coisas em Lanús, cidade humilde em que o casal nasceu, cresceu, se conheceu e se casou? Ali ainda vive a maioria dos familiares e dos conhecidos do casal, inclusive El Negro (Alberto Ajaka) e La Yoli (Malena Solda). El Negro é irmão de Mabel e um dos melhores amigos de Osvaldo na juventude. Ele é um mecânico simples, alegre e pobre que está casado com La Yoli há muitos anos. Os dois tem uma filha de 15 anos. Diferentemente dos parentes que vivem no exterior, El Negro e La Yoli precisam se rebolar para fechar as contas do mês. Ele trabalha bastante em sua mecânica e ela faz costura para fora. Mesmo com as dificuldades financeiras, nenhum dos dois se recusa a ajudar os parentes e os amigos que precisam de grana. El Negro conserta os veículos dos clientes mesmo quando eles não têm recursos para pagar. E La Yoli contribuiu enviando dinheiro quando Mabel e Osvaldo se mudaram para os Estados Unidos e passaram aperto. Apesar das carências materiais, o casal de Lanús é feliz e se diverte na sua cidade natal. A peça se passa em uma única noite, durante a visita “inesperada” de Mabel e Osvaldo ao lar de El Negro e La Yoli. Como você percebeu, a palavra “inesperada” vem entre aspas. O mecânico simplesmente se esqueceu de avisar a esposa de ter combinado o encontro da irmã e do cunhado em sua residência. Por isso, a dona de casa é pega de surpresa com as visitas “repentinas”. Mesmo com o contratempo, o clima é de amizade e de alegria. Os dois casais se divertem no quintal da humilde casa do subúrbio bonaerense. Eles relembram passagens antigas e relatam como são suas rotinas atualmente. Enquanto tomam mate e comem friambres, comparam o quão distintas são suas realidades. À medida que a noite avança, o encontro que começara festivo e descontraído vai se tornando cada vez mais tenso. As diferenças entre os dois casais e até mesmo dentro dos próprios matrimônios vem à tona, trazendo segredos do passado e sentimentos aparentemente reprimidos por muito tempo. E é aí que as surpresas (diria muitas surpresas!) aparecem. Se temos uma peça leve e divertida no início, do meio para o final ela se transforma em um denso drama psicológico. O que será que aconteceu para despertar uma tormenta sentimental nos protagonistas da peça, hein?! Esse é o mistério que cativa as plateias dos teatros argentinos até hoje. “Made in Lanús” tem 90 minutos de duração. Já que falei de sua autora, do diretor e do elenco, me sinto na obrigação de descrever também sua equipe técnica. A nova versão desse clássico da dramaturgia sul-americana é formada por: Nachi Bredeston, Juan Manuel Caballé, Ricardo Gallo e José Luis Gallo (produção geral), Gabriela Barros (produção executiva), Nicolás Bianchi (assistente de direção), Alejandra Robotti, Luciano Huentecura e Paula Molina (figurino), Lula Rojo (cenografia e montagem), Miguel Cuartas (iluminação) e Brian Savino (operação de luz e som). O primeiro elemento que chama a atenção do público é a excelente cenografia de “Made in Lanús”. Essa questão fica evidente tão logo chegamos à sala de teatro. Como não há cortina separando a plateia do palco, podemos ver os detalhes cenográfico assim que nos sentamos nas poltronas. A recriação dos anos 1980 é impecável. Porém, o que mais gostei foi o que chamo de “cenografia viva”. A sensação que temos ao assistir à peça é que tudo funciona no palco: a máquina de lavar roupa, o fogão, a máquina de costura, a geladeira, o rádio do vizinho, as tomadas... Ou seja, não se trata apenas de uma recriação cênica, como algumas produções teatrais gostam de fazer, mas sim de uma legítima reconstituição cenográfica. Achei incrível esse recurso! O sentimento de estarmos efetivamente em um quintal de uma casa de classe média baixa é potencializado pela sonorização impecável da peça. O barulho da fritura na cozinha, o passarinho na gaiola cantando, as máquinas de lavar e de costurar funcionando, o barulho do rádio que parece vir de um dos lados onde está o vizinho barulhento e até a explosão de aparelhos elétricos (abraço, Paulo e Jéssica!) são extremamente verossímeis. No caso da ave engaiolada, acho que ela é o único elemento real em cena. O restante parece ter sido recriado de maneira extremamente convincente. Para se ter uma ideia do que estou dizendo, toda vez que La Yoli ia para o fogão, ouvíamos o chiado da fritura como se fosse de verdade. Aí a moça do meu lado perguntava curiosa para a amiga: “Es de verdad? Ella está cocinando?!”. Já que estamos falando de sonorização, a trilha musical de “Made in Lanús” é impecável e totalmente pertinente ao enredo. Temos desde clássicos do pop-rock norte-americano (“Strangers in the Night” e “Bikini a Lunares Amarillo”) até tangos portenhos tradicionais. Isso sem contar as canções das torcidas futebolísticas e as músicas de protesto político que ganham um colorido todo especial na voz de El Negro. O texto de Nelly Fernández Tiscornia também é brilhante. Acho que se fosse falar tudo o que achei dos diálogos desta peça, ficaria um dia inteiro escrevendo e me pareceria pouco. A riqueza de seu conteúdo está na mescla bem azeitada de referências históricas (a recém-terminada Ditadura e a interminável crise econômica, por exemplo), de aspectos do dia a dia argentino (da ida ao kiosco e da passadinha à carnicería até a reunião com os amigos à base de mate e os asados em família aos finais de semana), de fortes componentes culturais (futebol, alimentação, vestimenta e música) e das hilariantes gírias portenhas (que obviamente exigem um pouco mais de repertório linguístico da plateia gringa). Por falar nisso, para se entender o que está se passando no palco é preciso de um mínimo de bagagem histórico-cultural da Argentina. Acredito que um brasileiro com conhecimento mediano do passado de la nación hermana conseguirá acompanhar a trama sem nenhum problema. Nesse sentido, talvez o maior obstáculo, já que estamos falando de brasileiros no teatro argentino, será a compreensão do espanhol rio-platense. Se você acredita que com o seu portunhol de alguns dias em Buenos Aires será suficiente para compreender o drama encenado passionalmente pelos atores no palco, algo que me diz que você poderá ficar boiando em várias partes. Contudo, para quem já está há algum tempo em CABA e consegue entender o peculiar jeito dos portenhos falarem, não haverá qualquer dificuldade. O conflito de “Made in Lanús” gira em torno da idealização da vida do outro, algo que no Brasil chamamos popularmente de “ficar reparando na grama do vizinho”. O casal que permanece em Lanús olha com admiração e certa inveja aos “argentinos de luxo”, aqueles que se mudaram para os Estados Unidos. Só nos países do primeiro mundo é que as pessoas podem ter rotinas de conforto, bem-estar e riqueza, pensam. Ao mesmo tempo, os imigrantes que estão há uma década longe da terra natal olham com saudosismo e alguma admiração o dia a dia dos familiares e dos amigos que ficaram na América do Sul. Eles parecem mais alegres, integrados à sociedade e plenamente satisfeitos com a vida, pensam os “gringos”. É essa a dualidade que faz a roda da peça girar. Afinal, quem é realmente feliz nessa história, hein?! Ainda falando do texto da peça, reparei que ele foi levemente modificado. Essa sensação se intensificou quando El Negro critica os movimentos fascistas, a violência estatal e as crises econômicas, elementos tipicamente argentinos, mas que ganharam intensidade no último ano com a ascensão da extrema-direita. A impressão que tive é que as personagens estavam falando da realidade do seu povo em 2024 e não apenas das angústias de 1985. Achei incrível essa intertextualidade temporal. Ou o texto de Nelly Fernández Tiscornia é tão rico e sagaz que permite essa releitura contemporânea (algo que não duvido) ou Luis Brandoni soube mexer sutilmente nas falas do quarteto de protagonistas para gerar esse efeito interpretativo (outro aspecto que também não me surpreenderia). Seja qual for o segredo por trás da mágica, ela funcionou maravilhosamente bem. O ritmo da peça é impecável. Ficamos uma hora e meia no teatro e parece que se passaram somente 40 minutos. O que auxilia nessa velocidade da trama é a sua estrutura dramática. Ela está muito bem dividida e apresenta diferentes facetas. A parte introdutória é constituída de um divertido bate-papo de El Negro e La Yoli. Os donos da casa estão só e expõem suas preocupações mais íntimas. Mesmo diante da dificuldade rotineira, nota-se que são felizes e companheiros. Prova disso é o tom hilariante dessa parte do texto. “Strangers in the night/ Exchanging glances/Wondering in the night/What were the chances/ We'd be sharing love/ Before the night was through”. Quando Mabel e Osvaldo chegam à residência de Lanús, há uma mudança de contexto dramático. A pegada de tragicomédia se acentua ainda mais. É nesse momento que conhecemos as diferenças abissais de realidade dos dois casais. Por mais que o quarteto se goste bastante e nutra uma boa amizade, é evidente que existam ali questões mal resolvidas como inveja, críticas veladas e mistérios do passado. Entre a vontade de agradar os visitantes ou os anfitriões, é possível constatar a tensão e o desconforto do ambiente permeando o encontro. Pouco a pouco, o clima vai se tornando mais e mais tenso. A explosão dramática acontece quando Mabel e El Negro revelam para os cônjuges a grande surpresa da noite. A partir daí, temos as melhores cenas de “Made in Lanús”. O lado cômico desaparece quase que completamente e temos um intenso drama psicológico capaz de enervar até mesmo as almas mais tranquilas. E essa pegada de adrenalina e de aflição irá até o final do espetáculo. Haja emoção, amigos! Notamos a riqueza das personagens de Nelly Fernández Tiscornia justamente na fase final da peça. É curioso dizer isso, mas tive a sensação de que cada um dos integrantes do quarteto teve o seu momento de desabafo e de crise existencial. Aí notamos que eles passam longe, muito longe de serem personagens planas (caso isso tenha passado pela cabeça de alguém na plateia!). A complexidade de El Negro, La Yoli, Mabel e Osvaldo vem à tona com mais clareza na meia hora final do espetáculo, no clímax. Nesse instante, ninguém pisca no teatro e todos prendem a respiração. Para funcionar bem, “Made in Lanús” precisa de um elenco que dê vazão à força dramática do roteiro na parte final da sessão. Sabendo disso, Luis Brandoni escolheu muito bem os atores da peça. Alberto Ajaka, Cecilia Dopazo, Esteban Meloni e Malena Solda são artistas talentosos e experientes, com ótima rodagem no teatro, na televisão e no cinema argentino. Eles não apenas seguram a bronca como dão show de interpretação. Não à toa, o espetáculo foi interrompido, como já disse, algumas vezes pelas entusiasmadas salvas de palmas que vieram da plateia. Por falar na sessão em que compareci, tive a sorte de Brandoni estar presente no teatro. Me falaram que não é sempre que isso ocorre. Porém, sempre que pode, o diretor vai prestigiar o espetáculo. Não é preciso dizer que o público foi ao delírio quando ele subiu ao palco no final da peça. Já que estou trazendo os pontos positivos da produção cênica, me sinto na obrigação de elogiar o Teatro Multitabaris COMAFI. Localizado na Avenida Corrientes 831, ele funciona em um edifício centenário que abrigou o Ta-Ba-Ris (daí seu nome), mítica casa de teatro do início do século passado. Pertencente ao Multiteatro, grupo considerado o maior do país e que possui outros nove complexos teatrais em Buenos Aires, o Teatro Multitabaris COMAFI tem três salas: Sala Subsuelo, Sala Planta Baja e Sala Primer Piso. “Made in Lanús” é apresentado na sala do primeiro piso, que deve comportar em torno de 250 pessoas. Achei o local ideal para a prática da arte cênica. Os assentos são confortáveis e a visão do palco é perfeita. Creio que não poderia ter escolhido um lugar melhor para iniciar minha imersão no teatro portenho. Como toda boa crítica do Bonas Histórias, preciso também apontar o que não saiu tão bem na experiência teatral. Contudo, é difícil encontrar o que melhorar em “Made in Lanús”. Na estrutura narrativa, na direção, na atuação do elenco e na cenografia, admito que não tenho um “A” para reclamar. Esses aspectos estão perfeitos. Na sessão que estive presente na semana passada, o único componente que apresentou algumas falhas foi a operação de som. Uma música animada foi lançada no momento errado, quando o ator preparava um discurso tenso. Sabemos do equívoco porque alguns segundos depois de ter sido colocada, a canção foi retirada. Outra questão sonora delicada foi a atuação exagerada do passarinho que estava na gaiola. Ele começou calmo a peça, quase como um coadjuvante. Contudo, quando a história atingiu o clímax, com as personagens proferindo discursos passionais e fazendo silêncios dramáticos, a ave resolveu cantar a plenos pulmões. Querendo se tornar protagonista de “Made in Lanús”, às vezes ela atrapalhou a fala dos atores, principalmente nos instantes mais calorosos. São coisas que acontecem quando a cenografia é literalmente viva. Em relação ao Teatro Multitabaris COMAFI, é preciso dizer que ele não fica na parte mais animada e charmosa da Avenida Corrientes, aquele pedaço que gosto de frequentar entre a Avenida Callao e a Avenida 9 de Julio. Não! Ele está localizado no outro lado da Avenida 9 de Julio, mais no Centrão, entre a Calle Suipacha e Calle Esmeralda. Convenhamos que essa não é parte mais interessante de Buenos Aires para ficar batendo perna à noite. Mesmo assim, está longe de ser uma região indesejada ou perigosa. Quanto ao funcionamento do complexo teatral, não gostei de sua dinâmica de atendimento ao público. Ele é enorme, possui três salas de considerável porte e tem amplos halls e corredores internos. Além de grande, sua dependência é bonita e charmosa. Porém, o público é obrigado a esperar o início da sessão do lado de fora do teatro, tomando chuva e passando frio. Juro que não entendi. Não seria mais lógico formar a fila de espectadores dentro do edifício?! Ai, ai, ai. Como deu para perceber, tive que procurar “pelo em ovo” para apontar o que melhorar na experiência de ter assistido a “Made in Lanús” no Multitabaris COMAFI. De maneira geral, achei espetaculares tanto a peça quanto o complexo teatral. Acho que Buenos Aires ganhou mais um assíduo frequentador de seus teatros. Se já estava visitando semanalmente os cinemas locais e mensalmente as canchas de fútbol, agora vou colocar na programação habitual uma visitinha quinzenal aos espetáculos cênicos. E, assim, fecham-se por ora as cortinas dos palcos portenhos. Até a próxima análise da coluna Teatro, senhoras e senhores. Confesso que já estou pensando cá com meus botões qual será a próxima peça que vou assistir na Avenida Corrientes, a Broadway portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe aqui sua opinião sobre as matérias do blog e as análises desta coluna. Para acessar as demais críticas teatrais, clique em Teatro. E não se esqueça de nos curtir nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Celebrações: Bonas Histórias - Nono aniversário do blog
Um dos principais blogs de literatura, cultura e entretenimento de língua portuguesa pela quantidade de visitantes e pela profundidade de suas análises, o Bonas Histórias comemorou em 1º de dezembro de 2023 nove anos de existência. O tempo passa, o tempo voa e o Bonas Histórias continua com suas análises numa boa. É o Bonas Histórias! 469 semanas. 469 semanas. Pare um pouquinho, descanse um pouquinho. 469 semanas. De novo! 469 semanas. 469 semanas. Pare um pouquinho, descanse um pouquinho. O Bonas Histórias completou 469 semanas. Quem bate? É o tédio! Não adianta bater, eu não deixo você entrar. No blog Bonas Histórias, vou te entreter com muita arte, cultura e literatura. Eu leio, você não lê. Eu leio, você não lê. Eu leio o Bonas Histórias, você não lê. Eu sou o Blog. Eu sou o Bonas. Eu sou o Histórias. Nós somos o Blog Bonas Histórias! Estamos aqui há nove anos para trazer literatura, cultura e entretenimento na dose certa. 2 livros, filme, peça de teatro e música especial. Exposição, passeio e dança num site com gergelim. É o Bonas Histórias! Leia Bonas Histórias. Leia Bonas Histórias. Sua cabecinha merece Bonas Histórias. Leia Bonas Histórias. Leia Bonas Histórias. Livro na estante, começa a convidar. Livro com café. Que sede que dá. Livro e café, que programa legal. Só eu e você. E o Bonas Histórias sempre no ar. Que tal?! Eu quero ver livro abrir. Livro com café. Eu quero ver livro abrir. Livro com café. Eu quero ver livro abrir, abrir. Sou louco por livro e café. Hoje é segunda-feira! Traga mais post. Tô de saco cheio, tô meio lost. Chega de aluguel. Chega de patrão. Eu quero é diversão. Bonas Histórias, Bonas Histórias, Bonas Histórias! Bonas Histórias. Tem coisas, que só o Bonas Histórias analisa pra você. Bonas Maldivas. Bonas Maldivas. Venha com a gente ler. Odeio burrice, odeio ignorância (que peninha!). Não vou parar de ler. Te quiero! O elefante é fã do Bonas Histórias. O boto cor-de-rosa e o macaco também são. O panda e a vaquinha só querem Bonas Histórias. Assim como a foquinha, o ursinho e o leão. O gato mia. O cachorrinho late. O rinoceronte só quer Bonas Histórias. Mantenha o seu filhote forte, vamos lá! Trate seus bichinhos com amor e Bonas Histórias. Leu? Acabei de criar esses jingles publicitários totalmente originais para este post da coluna Celebrações. O motivo? Além de demonstrar minha enorme criatividade no campo da Propaganda e do Marketing, estamos comemorando há dias o nono aniversário do Bonas Histórias. Ainda não conhece o Bonas Histórias?! Acho que dá para defini-lo como o blog de análise de livros, filmes, músicas, exposições e eventos artísticos criado em 1º de dezembro de 2014 por esse ex-publicitário que virou um mero escriba. Até lembro do primeiro texto que produzi para cá: Início do Bonas Histórias – O blog de literatura, cultura e entretenimento. A partir de então, foram surgindo naturalmente as colunas (e desaparecendo os jobs publicitários e o dinheiro na minha conta bancária). Mal sabia naquela época, mas já estava me preparando para virar um argentino. Passados exatamente nove anos da estreia (ou, como preferir, 109 meses, 469 semanas, 1.361 posts publicados e 3.287 dias no ar), aqui estamos com um pequeno monstrinho de 19 seções: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas, Mercado Literário, Cinema, Músicas, Teatro, Dança, Exposições, Gastronomia, Passeios, TV, Rádio e Internet, Cursos e Eventos, Premiações e Celebrações, Melhores Músicas Ruins e Recomendações). Com a divulgação do conteúdo (somos pobres, mas somos limpinhos, tá?), vieram os visitantes. Um aqui e outro acolá no começo, mais ou menos como na música do Tiro-Liro, que nunca se juntaram os dois (ou seriam, nessa caso, as duas?) na esquina para ver o site – beijo, Vanessa e Íris. Atualmente o Bonas Histórias é um dos mais acessados blogs de literatura, cultura e entretenimento da língua portuguesa, além de ter conquistado a credibilidade do mercado artístico por suas análises profundas e independentes. E com o bom tráfego de leitores, apareceram os patrocinadores. Por falar nisso, um abraço especial para o Paulo (da Epifania Comunicação Integrada), para a Marcela (da Dança & Expressão, da BonaBelle e da Café & Expressão), para Roberta e Daniela (da Livraria Mandarina) e para o Dudu (da Eduardo Villela Assessoria Especializada para Escrita e Publicação de Livros e do selo EV Publicações). Como deu para ver, motivos não faltam para a comemoração, né? E como não sou besta de perder uma boa festa (o quê?!!!), os festejos iniciaram de maneira tímida na primeira sexta-feira de dezembro. Foi servido um almoço para nossa equipe de colunistas (e para seus familiares mais próximos) no simpático Los Amigos de Siempre em Núñez, um legitimo restaurante portenho. Juro que sempre que vou nesse lugar, não sei o porquê, eu lembro da galerinha da ESPM (beijos, Bruna e Laila. Abração, Daniel e Pedro Francisco). Porém, os eventos de celebração alcançaram o ápice na festança de arromba no último sábado à noite no meu apertamento com vista para o Parque Saavedra. Sim, senhoras e senhores, teve festa lá no meu apê. Podia aparecer, que ia rolar bundalelê. Sábado teve festa lá no meu apê. Teve birita até amanhecer. Quem chegava, podia entrar. Quem tava lá, tava em casa. Quem chegava, podia entrar. Quem tava lá, tava em casa. Olá, prazer! À noite, hum, era nossa. O garçom, acreditem, foi lá e serviu bem a visita. Tava bom. Tava era bom! Sábado teve festa lá no meu apê. Foi uma pena que ninguém apareceu (até faxina eu tinha feito no dia anterior para receber as visitas como alguém minimamente asseado!!!). Quando digo ninguém pintou por lá, é nenhum dos convidados do blog. Afinal, quem surgiu é quase de casa e mal sabe da existência do Bonas Histórias, muito menos do aniversário desse conceituado e carismático site de pegada artístico-cultural. E só foi até a minha casa porque não devia ter nada melhor para fazer em CABA. Paciência. Não dá para ter tudo nessa vida. É como diz aquele velho ditado: ficam as luvas e vão se as mãos da policial de Belgrano! Se minha pseudofesta não foi tão animada nem barulhenta da porta para dentro (pelo menos não na maior parte do tempo), não podemos reclamar da empolgação externa. Meus vizinhos foram para as ruas comemorar como se o minúsculo time do bairro tivesse chegado à final do campeonato nacional pela primeira vez. Além de gritarem palavras incompreensíveis como “Calamar” e “Platense”, eles soltaram rojões e fogos de artifício no céu de Saavedra até a manhãzinha de domingo. Achei muito bonita a homenagem feita pelos portenhos da Zona Norte (Paulo, aqui é ZN na veia, amigo!) ao Bonas Histórias e ao nosso novo/nono aniversário. Jamais poderia imaginar que fôssemos tão populares fora do Brasil. Falei esse montão de coisa e parece que não cheguei a lugar nenhum, né? Infelizmente, esse é o espírito de muitos dos textos que produzimos aqui. Não, não! Cheguei sim hoje onde queria, senhores e senhoras. Lembrei: esse post da coluna Celebrações foi apenas para comemorar com vocês mais um aniversário do Bonas Histórias. Achou pouco?! Então fique você aí nove anos nessa brincadeirinha de escreve-e-ninguém-lê para ver se não merecemos degustar um enorme ojo de bife no almoço e uma festa à noite com Malbec e una chica com hermosos ojos negros. Por essas e outras, é como eu sempre digo: enquanto o mundo gira, a gente lê. Fazer o quê? Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Napoleão - O novo épico de Ridley Scott agora com Joaquin Phoenix
Em cartaz nos cinemas desde 23 de novembro, o longa-metragem do experiente cineasta britânico apresenta o drama de uma figura história polêmica que foi consumida pela própria ambição. Estou vivendo uma fase de total imersão no cinema argentino. Toda semana assisto a um filme contemporâneo nas salas de exibição de Buenos Aires e vejo uma produção clássica nas plataformas de streaming. Inclusive, já andei comentando algumas das boas novidades da sétima arte dos hermanos aqui na coluna Cinema (e da literatura argentina na coluna Livros – Crítica Literária). Por que estou fazendo esse mergulho nas produções audiovisuais dos nossos vizinhos à beira da loucura mileísta (não confundir com milenarismo nem com mineirismo)?! Em primeiro lugar porque estamos falando da melhor escola cinematográfica da América Latina. Depois, são títulos espetaculares, que agradam em cheio os paladares do público mais exigente (ou seja, dos leitores do Bonas Histórias). E, por fim, para treinar o meu ainda cambaleante espanhol portenho. No caso, o meu curso idiomático é 100% prático e está sendo realizado nas salas de cinema (mais barato do que pagar escolas de idioma), ouvindo conversas nas ruas e no transporte público (ah se Dona Júlia soubesse disso!) e puxando prosa com as comensais do Mostaza devidamente trajadas com o cativante fardamento da Policia de la Ciudad (beso, Paula). Contudo, no finalzinho de novembro, interrompi momentaneamente a overdose de cinema argentino por uma ótima causa. Fui conferir o lançamento de “Napoleão” (Napoleon: 2023), o novo épico de Ridley Scott que chegou causando barulho nas telonas mundo à fora. Protagonizado por Joaquin Phoenix e roteirizado por David Scarpa, a saga do corso que foi de simples oficial da artilharia a imperador francês entre o final do século XVIII e o início do século XIX ganhou, enfim, uma superprodução hollywoodiana. Vale lembrar que a ideia de produzir a cinebiografia de Napoleão Bonaparte já tinha sido ventilada algumas vezes no cinema norte-americano. Figuras do quilate de Stanley Kubrick (o maior de todos, segundo Franthiesco Ballerini) e Steven Spielberg (o maior de todos, segundo os extraterrestres cinematográficos infantojuvenis) tentaram, mas não conseguiram rodar. Só agora essa história foi para frente e se materializou. Orçado em US$ 200 milhões, “Napoleão” é o filme mais ambicioso (e caro) de Ridley Scott em duas décadas. O diretor é famoso por produzir épicos, como “1492 – A Conquista do Paraíso” (1492 – Conquest of Paradise: 1992), “Gladiador” (Gladiator: 2000), “Êxodo: Deuses e Reis” (Exodus – Gods and Kings: 2014), ficções científicas, como “Alien, o Oitavo Passageiro” (Alien: 1979), "Blade Runner, o Caçador de Androides" (Blade Runner: 1982) e “Perdido em Marte” (The Martian: 2015), e suspenses dramáticos, como “Thelma e Louise” (Thelma and Louise: 1991), “Hannibal” (2001) e “Os Vigaristas” (Matchstick Men: 2003). Se você quiser, dá ainda para colocar nessa lista classificatória algumas aventuras policiais, mas não acho essa a parte mais rica do trabalho do cineasta. O mais legal é que ele segue ativo e operante aos 86 anos. No ano retrasado, por exemplo, Scott dirigiu e lançou dois longas-metragens: “Casa Gucci” (House of Gucci: 2021) e “O Último Duelo” (The Last Duel: 2021). Ou seja, ele tem fôlego de um garoto! Confesso que sou fã do cinema de Ridley Scott desde os tempos da faculdade de Comunicação Social na ESPM no início dos anos 2000 (ESPM maravilhosa/ Cheia de tantos As/ ESPM maravilhosa/ A melhor escola do Brasil). João Carlos, o professor de Semiótica (abraço, Joca!), dividiu a sala em grupos e cada um tinha que analisar a cinematografia de um importante diretor. O nosso grupo ficou incumbindo de estudar os filmes justamente de Scott. Assim, durante algumas tardes na Vila Mariana, assistimos (eu e os inesquecíveis Adriano, André, Íris e Pedro Francisco) a “Alien, o Oitavo Passageiro”, "Blade Runner, o Caçador de Androides", “Thelma e Louise”, “Até o Limite da Honra” (G.I. Jane: 1997), “Chuva Negra” (Black Rain: 1989), “A Lenda” (Legend: 1985) e “Perigo na Noite” (Someone to Watch Over Me: 1987). Sim, há cursos de graduação em que os alunos criam anúncios publicitários, veem filmes antigos, produzem vídeos e passeiam pela cidade tirando fotos. De qualquer forma, nascia ali minha admiração pelo trabalho do cineasta britânico e boa parte da minha base conceitual para duas décadas mais tarde desenvolver a coluna Cinema no Bonas Histórias. Atualmente, Ridley Scott é uma das lendas vivas do cinema contemporâneo. Contudo, há muito tempo não emplaca um grande sucesso com capacidade para abalar os alicerces da sétima arte. Seus principais títulos são das décadas de 1980 e 1990 (aqueles que assisti com a turminha da ESPM). Talvez seu último blockbuster tenha sido “Gladiador”, a inesquecível aventura histórica protagonizada por Russell Crowe no papel de Maximus Decimus Meridius, o poderoso general romano que do dia para a noite se tornou prisioneiro e, como o próprio título indica, gladiador. Não por acaso, Scott está neste momento trabalhando na continuação do épico ambientado no Império Romano. “Gladiador 2” (Gladiator II: 2024) está previsto para chegar aos cinemas em novembro do próximo ano (mas não trará, acredite, nem Maximus no enredo nem Crowe no elenco). Em uma espécie de tentativa obstinada de reviver seu auge artístico, o cineasta britânico traz antes de “Gladiador 2” a cinebiografia de Napoleão Bonaparte, esse sim uma personagem real (diferentemente do que muita gente acredita, Maximus é uma figura ficcional). Produzido por seu próprio estúdio, a Scott Free Productions (em sociedade com o irmão, Tony Scott) e em parceria com Apple Studios, “Napoleão” foi filmado entre fevereiro e junho de 2022 na Inglaterra. Usando algo que Ridley Scott inventou (ou no pior dos casos disseminou na cultura cinematográfica internacional) no início da década de 1980 com “Blade Runner”, seu novo filme já foi gravado para ter duas versões: a comercial e a do diretor. Assim, o longa-metragem que chega agora aos cinemas com distribuição pela Sony Pictures é a edição comercial e menor (mesmo com mais de duas horas e meia de extensão!). A edição completa (com quatro horas de duração) e com a cara do cineasta será lançada só no próximo ano em uma série no streaming pela Apple TV+. Daí a entrada da Apple Studios na empreitada. No elenco de “Napoleão”, chamam atenção Joaquin Phoenix, Oscar de melhor ator em 2020 com a interpretação irretocável do inimigo de Batman em “Coringa” (Joker: 2019), e Vanessa Kirby, mais conhecida pelo papel da Princesa Margaret na série “The Crown” (2016-2023). A dupla dá show de interpretação e atrai todos os olhares do público. Até porque, confesso envergonhado, não (re)conheci nenhum outro integrante do elenco. Para não cometer injustiças, só achei, em rápidas passagens, o francês Tahar Rahim, de “Samba” (2014) e “O Profeta” (In Prophète: 2009). Grande parte dos coadjuvantes do novo filme de Ridley Scott é formada por atores e atrizes britânicos de produções locais do cinema e da televisão. O enredo de “Napoleão” começa em outubro de 1793. Quatro anos e meio após a eclosão da Revolução Francesa que destituiu a família real do poder, a Rainha Maria Antonieta (interpretada pela irlandesa Catherine Walker) é levada à guilhotina em praça pública para delírio sádico da faminta população parisiense. Maria Antonieta ficou famosa pela frase: “Se o povo tem fome e não tem pão, que coma brioches”. A morte da rainha que vivia no mundo da lua é um dos momentos mais catárticos e violentos da revolução. Não por acaso, a primavera de 1793 e o verão de 1793/1794 são chamados de Período do Terror. As prisões e os assassinatos em praça pública comandados pelo impiedoso Robespierre trazem mais instabilidade a já combalida e empobrecida nação. Como consequência da fraqueza política, a França se torna alvo dos países vizinhos, que encontram uma excelente oportunidade para invadi-la e se apropriar de parte do seu território. Porém, a atuação impecável e as estratégias inovadoras de um militar nascido na Córsega impedem a chegada dos exércitos estrangeiros à Paris. Napoleão Bonaparte (Joaquin Phoenix) se torna uma figura extremamente popular entre os franceses ao comandar vitórias improváveis no campo de batalha. Assim, ele vai galgando posições nas Forças Armadas até chegar ao posto de general. Se no início suas ações eram apenas para proteger a França, com o êxito crescente e a empolgação pelo sucesso retumbante o general Bonaparte passa a fazer incursões ao exterior. As campanhas vitoriosas pela Europa e pelo Egito lhe conferem o status de unanimidade francesa. Diante da tragédia política e da confusão na Assembleia Constituinte durante a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte aproveita sua fama e dá um golpe militar em novembro de 1799. A partir daí, ele se torna cônsul e estabelece uma ditadura na França. Uma vez tendo tomado o poder da nação, a ambição de Bonaparte segue crescendo. O que mais ele precisa? As respostas são óbvias: se tornar rei ou imperador francês; dominar a Europa e quem sabe o mundo inteiro com o avanço de suas tropas; e conquistar uma mulher para ser sua esposa. Curiosamente, a empreitada que parece mais difícil é a última, já que Napoleão é um sujeito mirrado, sem trato social, calado e sem muito jeito com as integrantes do sexo oposto. Na verdade, ele parece um peixe fora d´água sempre que não está em combate. Se junto à sua tropa no front ele é um general perfeito, no convívio social não passa de um paspalho melancólico, introspectivo, sem graça e enfadonho. A esperança de Napoleão Bonaparte em conseguir uma companhia feminina fixa surge quando ele conhece Josephine (Vanessa Kirby). A moça bonita e elegante era de uma família nobre que foi levada à miséria após a Revolução Francesa. O interesse do ambicioso militar e político é visto por Josephine como sua oportunidade de reascensão social. Assim, os dois se casam, mesmo com a pouca (ou nenhuma) afinidade pessoal. O problema é que nos primeiros anos de matrimônio, Napoleão mostra-se um marido pouco carinhoso, comunicativo e participativo, mesmo amando incontestavelmente a esposa. O que melhor configura esse descompasso do casal é as cenas de sexo e as tentativas de engatar um diálogo mínimo. O ato sexual é frio e mecânico, como se fosse uma obrigação para ela e o alívio de uma necessidade biológico por parte dele. Quando tentam engatar uma conversa simples, as complicações aumentam. Não há clima nem afinidade para que eles comecem e mantenham um bate-papo corriqueiro. Sem o carinho do companheiro, que passa a maior parte do tempo em campanhas militares no exterior, Josephine logo arruma amantes, que além de sexo lhe proporcionam afeto, intimidade e cumplicidade. Napoleão Bonaparte descobre as traições da esposa das piores maneiras possíveis. Primeiramente, ele é informado por um colega de batalhão dos boatos sobre as puladas de cerca de Josephine. Depois, ao regressar para Paris, lê nas manchetes dos jornais os detalhes da picante vida sexual da mulher com seus amantes. Sim, senhores e senhoras, o povão já está comentando o par de chifres que o mandachuva francês passou a ostentar (será que é por isso que ele não tira aquele chapéu ridículo por nada nesse mundo?!). Decepcionado com a parceira, Napoleão expulsa Josephine de casa. Porém, ela perde perdão e retorna ao lar. A partir daí, o relacionamento do casal melhora. Pouco a pouco, os dois criam afinidades e sentimentos mútuos. O sexo já não é superficial e surgem, acredite se quiser, assuntos para longas conversas. Ele continua cada vez mais apaixonado e dependente dela. Se para o mundo Napoleão Bonaparte é uma figura poderosa e destemida, para Josephine o marido não passa de um bobão desajeitado e depressivo que depende da esposa para sobreviver. Com a coroação de ambos como imperador e imperatriz da França, surge uma nova crise no casamento. Josephine não consegue engravidar para desespero de Napoleão, que quer um herdeiro. A harmonia conjugal desaparece e a tensão passa a predominar dentro de casa. A pressão se torna insuportável quando Bonaparte ameaça a esposa: se ela não engravidar até tal data, ele será obrigado a pedir a separação. Sabendo que o marido não vive sem ela, a ameaça parece um tanto infundada. Afinal de contas, teria mesmo ele coragem de em nome da vaidade masculina interromper o relacionamento de vários anos com a mulher que tanto ama e o apoia? Para responder a tal questão, é preciso avaliar dois aspectos: a intensidade do amor de Bonaparte por Josephine e o tamanho de sua ambição por poder. O que será que pende mais na balança da alma do imperador francês, hein?! É essa a dúvida que o filme de Ridley Scott se propõe a debater e, por consequência, responder. O primeiro elemento de “Napoleão” que precisamos debater aqui na coluna Cinema é a proposta do longa-metragem. Napoleão Bonaparte é uma figura polêmica por natureza e com múltiplas interpretações possíveis. Ele pode ser visto como o militar genial que revolucionou os confrontos bélicos na virada do século XVIII para o XIX. Mas pode ser encarado como o estrategista que não soube a hora de parar os avanços das tropas e ultrapassou o ponto em que o fracasso era iminente. Há quem o enxergue como o líder que unificou a França após seu período mais turbulento. E há quem o tenha como aquele que acabou com os ideais da Revolução Francesa para o retorno da Monarquia Absolutista. Bonaparte também pode ser olhado como o mais poderoso político europeu da Idade Moderna ou como aquele que aglutinou seus inimigos em prol da destruição do expansionismo francês. Seria um visionário à frente do seu tempo ou só um paspalhão que era um zero à esquerda no traquejo social. E temos ainda a possibilidade de tê-lo como o marido apaixonado que realmente amava sua mulher ou o homem que tinha sérias dificuldades para demonstrar afeto e carinho. Diante dessa concha de retalhos absurda (um prato cheio para cineastas e escritores), qual foi a opção de dicotomia que Ridley Scott escolheu para retratar na telona? Sabiamente, a última. No filme, assistimos ao conflito do relacionamento de Napoleão e Josephine. O restante da história do longa-metragem serve apenas como base para entendermos a personalidade ambiciosa e conflitante do monarca francês e sua postura dúbia com a esposa. Inclusive, as cenas de guerra e as ações no campo de batalha são meramente secundárias na trama. Por isso, não há tanta preocupação em explicar os acontecimentos geopolíticos e os detalhes no front (justamente uma das falhas de “Napoleão”, como veremos mais à frente neste post do Bonas Histórias). A parte bélica da produção cinematográfica é apenas para deleite visual da plateia. Curiosamente, o aspecto sentimental da vida de Bonaparte está muito bem documentado. Os historiadores têm boa parte das cartas trocadas pelo imperador com a imperatriz da França ao longo dos anos e conseguem compreender o que se passava realmente entre eles. Foi nesse ponto específico da biografia de Napoleão Bonaparte que Ridley Scott mergulhou (não dava para retratar todas as facetas da vida de alguém tão plural em um longa-metragem). Ou seja, o filme é mais um drama sentimental do que um épico de aventura. E não é que isso se mostrou extremamente positivo no final das contas! Adorei ver o lado mais humano, frágil e contraditório do homem que era temido na Europa inteira. No fundo, ele só era, parodiando a mais bela canção de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos que conheci na voz de Nana Caymmi (que merece uma análise na coluna Músicas), “uma eterna criança que não soube amadurecer”. Ou em outra menção musical explícita, dessa vez usando a composição de Leoni que se tornou famosa com o Kid Abelha: “Garotos não resistem aos seus mistérios/ Garotos nunca dizem não/ Garotos como eu sempre tão espertos/ perto de uma mulher são só garotos/ Perto de uma mulher são só garotos”. Com a proposta clara de ser um drama psicológico (e não uma ação visceral à la heróis da Marvel e da D.C.), a escalação de Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby como casal de protagonistas foi acertadíssima. A sensação é que eles nasceram para interpretar tipos melancólicos, desesperados e depressivos. Phoenix, vale uma recordação rápida, arrebentou na pele de homens carentes e atordoados em “Ela” (Her: 2014), “Homem Irracional” (Irrational Man: 2015) e “Coringa”. Juro que ninguém tem uma cara mais maníaco-depressiva do que ele. Basta Joaquin Phoenix, transmutado em seu papel ficcional, se voltar para a câmera e encarar em silêncio e de frente a plateia para vermos a aridez interna de suas personagens. Quem for fã do ator norte-americano (e do cineasta Todd Phillips), prepare-se: em 2024 chegará aos cinemas “Coringa 2”. E se você acha que Kirby seria eclipsada pelo talento absurdo do companheiro de filme, saiba que ela não só apresentou brilho próprio em “Napoleão” como em muitos momentos roubou a cena. Vanessa Kirby foi tão bem que não seria nenhum absurdo tê-la entre as indicadas ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante na próxima cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Considerei sua Josephine simplesmente irretocável. Além de bela, inteligente e poderosa (ao ponto de ter colocado ninguém menos do que Napoleão Bonaparte no bolso), a imperatriz francesa ainda possuía doses de ousadia, humor e zombaria. Que Scarlett Johansson, Lou de Laâge, China Suárez e Isis Valverde me perdoem, mas é impossível não nos apaixonar por uma mulher dessas. Outro aspecto que gostei bastante foi de assistir em “Napoleão” as cenas mais emblemáticas (ou folclóricas) do protagonista e do seu contexto histórico. Estão no longa-metragem a violência insana da Revolução Francesa, a cabeça de Maria Antonieta rolando da guilhotina, as discussões sem fim na Assembleia Nacional Constituinte (e dale embate entre girondinos e jacobinos), o Bloqueio Continental (estratégia inglesa para acabar com os planos de expansão territorial de Bonaparte) e a desastrada campanha militar na Rússia (o famoso General Inverno e a estratégia russa da Terra Arrasada). Também são retratados a ousadia do corso em tirar a coroa francesa das mãos do papa para coroar a si mesmo, a campanha no Egito, o conflito de Waterloo, os dois exílios em ilhas distantes, o discurso do casal imperial no momento do divórcio, a fuga de Bonaparte da Ilha de Elba, a lábia do antigo líder ao convencer os soldados franceses quando rumava para Paris e a paixão do general pelo seu cavalo branco (que era branco mesmo?!). Convenhamos: essas passagens são marcantes para os fãs de História e não poderiam ficar de fora de uma boa cinebiografia napoleônica, não é mesmo? Em relação aos aspectos técnicos do filme de Ridley Scott (acho que só falei de sua linha narrativa até agora, né?), meus destaques positivos vão para: (1) a trilha sonora; (2) o figurino e o cenário; (3) o impacto visual das cenas de combate; e (4) o contraste das luzes dependendo do tipo de ambiente e de cena. Como já é tradição nos longas-metragens de Scott (lembre-se de “Gladiador”), “Napoleão” tem uma trilha sonora impecável. Esse é um filme para ser apreciado com os ouvidos bem abertos. O compositor responsável pelas 15 músicas originais e instrumentais do filme é o premiado Martin Phipps, de “The Crown” e “A Dama Dourada” (Woman In Gold: 2015). No que se refere às demais canções comerciais, temos dos famosos Jacques Gautier e Édith Piaf aos intérpretes de música clássica Víkingur Ólafsson e Franco Mezzena & Patrizia Bettotti. Os figurinos e os cenários são um caso à parte. Na minha visão, eles estão perfeitos e criam a atmosfera necessária para uma trama de época. Em alguns momentos, a própria roupa de Napoleão ganha um inusitado destaque na história, principalmente quando ele não se separa do uniforme militar e do chapéu de general, tornando-o uma figura ainda mais caricata e deprimente fora dos campos de batalha. Para ser sincero neste meu relato, achei o figurino e o cenário quase perfeitos. O único escorregão da produção foi vestir Joaquin Phoenix no momento da coroação de Napoleão como Commodus, o Imperador Romano que era o inimigo de Maximus em “O Gladiador”. As semelhanças se tornam ainda maiores porque o ator que interpretou os dois papéis é o mesmo (ou você não se lembrava de Phoenix como o Imperador Romano que odiava a personagem de Russell Crowe, hein?). Juro que pensei ao ver essa cena no cinema: será que editaram um take de “Gladiador” em “Napoleão”?! Achei desnecessária essa semelhança, até porque o novo filme de Scott se passa entre os séculos XVIII e XIX e o anterior ocorria na Idade Antiga. E o que falar do impacto visual das cenas de combate em “Napoleão”?! Elas são de tirar o fôlego da plateia na sala de cinema. Se faltou certa contextualização do que se passa na telona, conforme já mencionei (e que vou explorar mais nos próximos parágrafos), não se economizou na exuberância audiovisual. A sensação é de estarmos acompanhando realmente vários episódios de guerra clássica. Além da inegável beleza estética, há muita violência, personagens simultaneamente e ação. Se você não gostar dos efeitos visuais dessa parte do filme, você tem sérios problemas de ordem estética (ou simplesmente um péssimo gosto cinematográfico). Para corroborar com a tese de que Ridley Scott se mantém como um excelente cineasta, repare no contraste de luzes nos momentos em que Bonaparte está guerreando e quando ele está no âmbito doméstico. A tonalidade indica bastante da personalidade do protagonista de “Napoleão” nesses dois ambientes. Nas tomadas externas junto aos batalhões de soldados, as imagens adquirem tons claros (predomínio do cinza claro e do branco) e pastéis. Essa pegada mais clássica mostra o quão à vontade (e, de certa maneira, sereno) Napoleão Bonaparte fica na hora de enfrentar os inimigos. Aí quando ele vai para casa ou para os palácios de Paris, a escuridão predomina. Nesse instante, a mescla de claro e escuro se acentua, o que mostra que a personagem não está feliz nem tranquila. Só quando Napoleão está apaixonado por Josephine ou quando é coroado Imperador surgem tons de cores mais quentes (amarelo e vermelho, por exemplo). Falemos agora dos pontos negativos do filme “Napoleão”, que não são poucos. Começo mencionando a sua extensão. O longa-metragem (que deveria ser classificado como um muito-longa-metragem) tem quase 2 horas e 40 minutos de duração. Não sei se eu estou ficando velho ou se minha paciência está se esgotando rapidamente (ou as duas coisas juntas!), mas não fico mais tão à vontade ao permanecer tanto tempo em uma sessão de cinema (e imaginar que eu era daqueles que curtia o Noitão no Cine Belas Artes, lembra da tradicional sessão paulistana de três filmes em seguida?). Chega uma hora que cansa o corpo e a mente. Não dava para Ridley Scott ter enxugado à trama para 2 horas? Acho que dava. Só precisava de um pouquinho de coragem no trabalho de edição. Até porque, como já falei, “Napoleão” foi concebido para ser ao mesmo tempo um longa-metragem e uma série de streaming. A Apple Studios entrou com uma parte considerável do orçamento de produção (só assim foi possível angariar os US$ 200 milhões do orçamento) em troca do direito de lançar a versão estendida do filme na Apple TV+ em 2024. Na transmissão realizada no conforto do lar e com a narrativa dividida em vários capítulos, aí sim dá para aumentar o tempo de duração da trama sem incomodar o público. Por isso mesmo, reafirmo: dava perfeitamente para ter reduzido a extensão da versão enviada às salas de cinema e ter deixado a versão maior (com quase 4 horas de duração) para a série televisiva. Prova do que estou dizendo é que há algumas partes da sessão que se tornam cansativas e sonolentas. Não tenho vergonha de dizer que em vários momentos dei aquelas pescadas constrangedoras (vontade-de-domir-agora-não-fique-acordado-de-novo-não-fique-acordado-Ricardo-que-sono-é-esse-meu-Deus-acordei-onde-estou). E olhe que o meu sono está em dia (meus vizinhos portenhos são menos barulhentos do que os do Parque São Domingos, em São Paulo – abração, Mauro, Alaíde e molecada!). Ao menos dessa vez não ouvi roncos nas poltronas ao lado nem sofri com a baba da companheira de sessão, perrengues vividos, acredite se quiser, em “Oppenheimer” (2023) em agosto. Seriam os espectadores argentinos mais polidos do que os cinéfilos paulistanos?! Juro que não sei. Outra questão importante que preciso comentar com os leitores da coluna Cinema é sobre as gritantes diferenças entre as passagens históricas mencionadas na trama ficcional e as passagens históricas reais. Para ser honesto no meu comentário, não foram muitos os equívocos do ponto de vista da História. O que me incomodou foi que eles beiram o absurdo e poderiam muito bem ter sido adaptados sem comprometer o enredo cinematográfico. Vejamos a incursão de Napoleão pelo Egito. Ele e sua tropa jamais lançaram projéteis de canhão nas pirâmides nem dispararam contra o nariz da Esfinge. Então por que Ridley Scott filmou essas cenas tão bisonhas? Por puro prazer estético com a imagem que renderia na telona. Novamente: achei desnecessária essa invenção descabida da trama, ainda mais porque o general francês amava a cultura egípcia e enviou uma equipe para estudar aquela civilização da Antiguidade. É o tipo de cena que se saísse do longa-metragem contribuiria mais do que mantê-lo. Outra passagem delicada foi no comecinho do filme, quando Bonaparte assiste in loco à execução de Maria Antonieta. Reconheço que a cena é ótima (e bastante forte!). Porém, essa passagem não é real. Napoleão não estava presente na praça pública na capital francesa naquele dia e sim em ação militar fora de Paris. Acredito que dava muito bem, com uma boa dose de criatividade no roteiro, para mostrar a relação entre o impacto da morte da rainha e o caos da Revolução Francesa com a ascensão político-militar de Napoleão. Ainda na seara dos elementos históricos, o filme de Ridley Scott não aborda diretamente em nenhum momento o tamanho reduzido de seu protagonista (as menções são meramente sutis). Napoleão Bonaparte real tinha apenas 1,60 metro de altura. Ou seja, estava mais próximo do tamanho de um anão do que de um homem com estatura comum. O fato de ser um tampinha (naquela época não havia bullying – por isso posso chamá-lo de tampinha sem problema) sempre suscitou incontáveis teorias psicológicas. Uma das mais famosas é que sua ambição desmedida pelo poder e pela conquista territorial era para suprir a inferioridade corporal (como se as pessoas altas não tivessem esse desvio de personalidade!). Acho que o filme “Napoleão” não precisava entrar nas suposições psicológicas, mas podia muito bem ter retratado um general e imperador baixinho (ao melhor estilo Baixinho da Kaiser, personagem ícone dos comerciais de cerveja que fez muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990). E não é isso definitivamente o que ocorre no longa-metragem. A menção ao tamanho reduzido de Bonaparte aparece bem pontualmente: na hora de subir ao cavalo, o corso precisa de um suporte; na hora de dançar com Josephine, ele olha para cima pois ela é mais alta; e mania de sempre usar o chapéu militar, o que o faz parecer um pouco mais alto (ou menos baixo). Como consequência, muitos espectadores vão sair da sessão de cinema sem notar que a polêmica figura retratada tinha pouco mais de 1,5 metro de altura. Fazer a cinebiografia de Napoleão Bonaparte e não mencionar tal peculiaridade física é como contar a história de Jô Soares e não falar que ele era gordo. Por essa perspectiva anatômica, a escolha de Joaquin Phoenix como protagonista do filme me soou um tanto estranha, por maior que seja seu talento interpretativo (desculpe-me o trocadilho involuntário). Já que entramos no assunto de incompatibilidade entre ficção e realidade, o que falar, então, de um elenco inteiro de franceses interpretado por atores e atrizes de origem britânica e que só falam inglês em cena, hein? A contradição é absurda. Para quem não se recorda, França e Inglaterra são rivais históricos no cenário geopolítico e possuem uma longa lista de conflitos armados. Não à toa, a produção de Ridley Scott sofreu intensas críticas entre os franceses, que não aceitaram o olhar estrangeiro a uma figura nacional que ainda possui a aura de mito político acima de qualquer ideologia. Imagine você filmar uma história real só com elementos da nação inimiga ou com aspectos de uma cultura totalmente distinta! É o que temos em “Napoleão”. Você consegue conceber a história de Josef Stalin durante a Guerra Fria sendo retratada no cinema por atores norte-americanos e falando inglês? Ou o filme sobre um famoso imperador japonês sendo protagonizado por um ator mexicano falando espanhol? Ou a façanha da seleção uruguaia de futebol com o título da Copa do Mundo de 1950 sendo encenada nas telonas por brasileiros falando português? Ou recriar a saga de Fidel Castro na Cuba comunista por um elenco alemão? Vamos combinar que no mínimo fica estranho. Muito estranho! Outro aspecto que merece minha menção crítica é as cenas de guerra. Como já disse neste post do Bonas Histórias, elas são espetaculares. Isso não dá para contestar. Scott sabe muito bem filmar esse tipo de ação e o resultado é normalmente impactante no quesito estético. O problema é que a preocupação visual acabou deixando a contextualização narrativa em segundo plano. Em outras palavras, se você não souber previamente os motivos e as consequências de cada vitória e de cada derrota bélica de Napoleão Bonaparte, poderá ficar confuso durante a sessão de cinema. Dessa maneira, o longa-metragem acaba pecando pelo que chamo de contradição conceitual. “Napoleão” exige certo conhecimento histórico prévio da plateia, mas não fornece nenhuma novidade nesse quesito para o público com maior bagagem de informação. A sensação é (falo como alguém que adora História e sabe bastante coisa a respeito) de assistir a um vale a pena ver de novo: com vários clichês. Já para o segmento dos espectadores ávidos por conhecer as peripécias de Bonaparte nos campos de batalha, que poderiam se encantar com tais passagens, não há um maior detalhamento do que se passa no front, o que torna as ações um tanto confusas. Se você não souber de antemão o que irá acontecer, certamente não enxergará as diferenças nos exércitos durante os combates e não saberá quem venceu quem nos duelos. Então quer dizer que “Napoleão” é um filme ruim? Não diria isso. O que posso falar é que depende de sua expectativa. Se você entrar na sala de cinema esperando um drama psicológico profundo e com pegada existencialista, certamente sairá bastante satisfeito da experiência cinematográfica. Afinal, Ridley Scott mostra o lado humano (e falível) de Bonaparte. Quem era o homem melancólico, sem amigos e tedioso que ceifou tudo (inclusive o amor da mulher por quem sempre fora apaixonado) e todos (a vida de três milhões de pessoas) em nome da grandeza militar? Por outro lado, se você esperar um épico com muita ação como “Gladiador”, reviravoltas de tirar o fôlego como “Jojo Rabbit” (2019), suspense entre soldados como “Nada de Novo no Front” (Im Westen Nichts Neues: 2022) e cenas eletrizantes de combate como “1917” (2019), aí a chance de ter uma frustração é muito maior. Assim, meu conselho é: assista ao novo longa-metragem de Ridley Scott tendo em mente que ele é mais um drama introspectivo e menos uma aventura épica. Com isso em mente, as chances de decepção caem significativamente. Confira, a seguir, o trailer de “Napoleão” (Napoleon: 2023): De qualquer maneira, me parece que entre a versão comercial que está em cartaz nos cinemas e a versão do autor que será lançada no streaming nos próximos meses, a melhor opção é a segunda. Por que digo isso sem ter assistido ao seriado de televisão? Porque pelos cortes feitos no longa-metragem (que me pareceram muito ruins), a sensação é que a produção de Ridley Scott foi desenvolvida originalmente para ser um seriado de várias horas de duração. Portanto, o filme com mais de duas horas e meia de duração é apenas um subproduto menor e limitado da produção do streaming. Talvez a única parte que o público perca ao não ir ao cinema é a overdose de imagens impressionantes das cenas de luta nas telonas. Aí cabe a cada espectador avaliar se esse aspecto é o mais importante na sua experiência cinematográfica. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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- Livros: O Homem Sentimental - O romance que inaugurou a fase intimista de Javier Marías
Lançado na Espanha em 1986 com o título El Hombre Sentimental, o drama amoroso de um cantor de ópera que embaralha a vida real com sonhos, lembranças e desejos é uma das obras mais marcantes do escritor espanhol falecido recentemente. O post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária é uma homenagem a Javier Marías, escritor, tradutor e editor espanhol que faleceu em setembro de 2022 em Madrid aos 70 anos. Considerado um dos principais romancistas da literatura contemporânea em língua espanhola, Marías deixou como legado artístico 16 romances, 4 coletâneas de contos, 7 coleções de ensaios, 1 título infantojuvenil, vários artigos e mais de uma dezena de traduções. Suas obras foram publicadas em cerca de 50 idiomas e em mais de 60 países, o que rendeu 10 milhões de exemplares comercializados e vários prêmios literários. De certa forma, não dá para falarmos dos nomes mais proeminentes do Pós-modernismo ibérico e da literatura espanhola dos últimos 50 anos sem o mencionarmos. Confesso que estava há muito, muito tempo com vontade de comentar no Bonas Histórias uma publicação marcante deste autor. Na época em que produzia as análises estilísticas do Desafio Literário (algo que eu preciso voltar a fazer urgentemente!), a ficção de Javier Marías quase foi incluída por duas oportunidades em meus estudos (acho que em 2017 e 2020). Porém, na última hora, ela sempre acabou preterida (daí a dor na consciência por não ter nenhum título debatido no blog). Para mim, Marías é uma mistura de Italo Calvino com Milan Kundera e Juan Carlos Onetti. Exagero?! Talvez. Mas juro que o vejo dessa maneira. Se é para ser franco com você, minha primeira opção de análise era “Coração Tão Branco” (Companhia de Bolso), meu romance favorito do espanhol. Também não seria nada mal discutir “Amanhã na Batalha Pensa em Mim” (Martins Fontes) e “Negras Costas do Tempo” (Relógio d´Água). Se a proposta fosse procurar novidades em seu portfólio, queria ler a Trilogia “Teu Rosto Amanhã”: “Febre e Lança” (Companhia das Letras), “Dança e Sonho” (Companhia das Letras) e “Veneno e Sombra e Adeus” (Companhia das Letras). Porém, o romance que li na semana passada e que trago para análise hoje é “O Homem Sentimental” (Alfaguara), quinta narrativa ficcional longa de Javier Marías. Por que a mudança de planos, Ricardinho?! A resposta é mais banal do que pode supor a vã literatura: porque foi essa a publicação que li por acaso na última quarta-feira à noite e que me chamou positivamente a atenção. Muitas vezes, trago para a coluna Livros – Crítica Literária títulos que planejo ler e, assim, comento detalhadamente após a leitura previamente organizada. Por outro lado, há textos que leio nos momentos de lazer (sim, na hora de folga, um crítico literário que se preze se diverte lendo!) e, quando gosto bastante, fico tentado a analisá-los. Só nesse ano, isso se passou com “A Uruguaia” (Todavia), deliciosa novela de Pedro Mairal que ganhou as salas de cinema recentemente, “Iluminadas” (Intrínseca), a boa ficção científica de Lauren Beukes, e “Quando Ninguém Está Olhando” (Intrínseca), thriller dramático de Alyssa Cole. Fiz essa longa introdução (calma que ela não acabou!) para dizer que estava um calorão absurdo em CABA (enfim ele chegou por essas bandas!) e percebi que não dormiria cedo. Sem me preocupar, passei a mão no Kindle e procurei uma novela de qualidade ou um romance curtinho de um autor renomado que me entretivesse em poucas horas. Essa é a vantagem de não ter televisão em casa e não curtir redes sociais. Confesso que meu plano era manjadíssimo: me distrair com algo da literatura contemporânea argentina. Contudo, na estante virtual ao lado (sou daqueles que separa os títulos ficcionais na biblioteca do Kindle como se estivesse organizando a biblioteca real de casa) estava as obras da literatura espanhola. Aí, ao menor tropeço do olhar, não resisti ao avistar “O Homem Sentimental”, que há tanto tempo adiava. E olha que tenho uma lista interminável de livros que quero analisar para o Bonas Histórias: “Maria e o Mundo Mágico” (Independente), livro infantil de Dayana Rampinelli, “Duas Guerras Surreais” (Independente), novela distópica de Graziella Moraes, “A Contra-história” (Valentina), terceira parte da saga “A Contrapartida” de Uranio Bonoldi, “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), premiado romance de Fernanda Caleffi Barbetta, “Pindorama – Uma História da Civilização Animal” (Haikai), mistura de sátira política e fábula de Carlos Fernando Verne, “Como Escrever Mesmo Estando em Pânico” (Europa), dicas sobre o fazer literário de Carolina Zuppo Abed, “Copo Vazio” (Todavia), best-seller de Natalia Timerman, “A Noite da Espera” (Companhia das Letras), clássico contemporâneo de Milton Hatoum, “Uma Curva na Estrada” (Arqueiro), romance à la Nicholas Sparks, “Para Ler Como Um Escritor” (Zahar), guia literário de Francine Prose, “O Primeiro Dia do Resto de Nossas Vidas” (Arqueiro), romance água com açúcar de Kate Eberlen, “Quem Era Ela” (Intrínseca), suspense de JP Delaney, e (ufa, já estou terminando) “Por que Escrever” (Companhia das Letras), coletânea de ensaios de Philip Roth. Para desespero daqueles que já pegaram senha e aguardam impacientes na fila cada vez mais extensa do blog (pessoal, o sistema caiu e só vamos retomar o atendimento em 2024!), me encantei com essa breve ficção de Marías, que passou na frente de todos em um estalar de dedos. Quem é que disse que esse mundo é justo, hein?! Publicado originalmente em 1986 com o título “El Hombre Sentimental”, “O Homem Sentimental” inaugurou a fase mais profunda e inventiva da literatura de Javier Marías. Não por acaso, a partir desse título vieram as obras-primas do autor: “Todas as Almas” (Martins Fontes), de 1989, “Coração Tão Branco”, de 1992, “Amanhã na Batalha Pensa em Mim”, de 1994, “Negras Costas do Tempo” e “Teu Rosto Amanhã”, de 2002 (romance 1) a 2007 (romance 3 da trilogia). Não dá para falarmos que os quatro livros anteriores a “O Homem Sentimental” desapontaram a crítica e o público (nem que os empolgaram!) porque eles simplesmente passaram quase que batidos em termos de repercussão. “Os Domínios do Lobo” (Alfaguara), romance de estreia de Marías que foi lançado em 1971, era um pastiche melodramático. Esse sim dá para dizer que era uma obra fraquinha, fraquinha. Na sequência vieram títulos com reflexões mais interessantes e estruturas mais elaboradas, mas ainda possuíam tramas pouco emblemáticas: “Travesía del Horizonte” (sem publicação em português), “El Monarca del Tiempo” (também sem edição em nosso idioma) e “El Signo” (para variar, sem publicação tanto no Brasil quanto em Portugal). Com “O Homem Sentimental”, Javier Marías começava, enfim, a mostrar para o que viera na ficção literária. Esse romance é ao mesmo tempo simples e complexo. Seu enredo parece banal: um triângulo amoroso como qualquer outro. Até o título remete ao nome de muitas obras do Período Romântico, em uma ótima brincadeira intertextual. Entretanto, essa obra possui algumas boas sacadas na construção narrativa – embaralhamento do espaço temporal e mistura dos planos da realidade, quase uma versão espanhola do psicanalítico “Breve Romance de Sonho” (Companhia de Bolso), de Arthur Schunitzler – e ambientação árida (todas as personagens principais são figuras solitárias, melancólicas e sem amor). Ou seja, temos aqui uma história de amor, mas sem paixão nem sentimentos aflorados. É ou não é uma boa sacada criativa, hein? A ideia para escrever esse romance surgiu de uma viagem de trem que Javier Marías fez no início dos anos 1980. Ele ia de Milão para Veneza e, no vagão, se deparou com uma moça bonita com jeitão triste. Por que aquela infelicidade insistia em emoldurar a beleza da viajante?! Ali surgiu a inspiração para o livro. A partir da cena da mulher melancólica no assento do trem, ele montou o restante da trama. “O Homem Sentimental” conquistou o Prêmio Herralde de melhor romance de 1986. Essa foi a primeira de muitas premiações literárias que Marías receberia no papel de autor. Até então, ele só ganhara honrarias pelos trabalhos como tradutor. O enredo de “O Homem Sentimental” começa com o narrador-protagonista, um cantor de ópera famoso cujo apelido é Leão de Nápoles (não conhecemos seu nome verídico), revelando aos leitores os seus relatos mais íntimos. Ele teve naquela manhã um sonho revelador. Curiosamente, as passagens oníricas aconteceram de verdade e misturam-se com sua imaginação, desejos e lembranças, seja lá o que isso queira dizer (sim, é confuso mesmo!). No sonho matutino, ele é visitado por pessoas que conhecera há quatro anos em uma viagem de trem. Naquela época, o artista tinha medo de andar de avião e, por isso, cruzava frequentemente a Europa pelos trilhos a trabalho. No deslocamento de quatro anos atrás, o cantor ia de Edimburgo, onde acabara de se apresentar, para Madrid, sua cidade natal e onde interpretaria Cássio na peça Otello, de Verdi, no Teatro de la Zarzuela. Depois de vários ramais ferroviários (Edimburgo-Londres, Londres-Paris e Paris-Madrid), ele compartilhou, na última parte da jornada, o vagão com três figuras que chamaram sua atenção: dois homens e uma mulher. Apesar de se conhecer, o trio viajou em um silêncio agonizante e em uma completa falta de interação. O primeiro sujeito passou boa parte da viagem olhando a paisagem pela janela, algo estranho pois era noite e não dava para ver nada do lado de fora. Ele era um velho com aparência distinta, tinha roupas elegantes, mas um tanto curtas, usava perfume forte e parecia ter algum dinheiro. Certamente ocupava a média gerência de uma boa empresa internacional. No assento ao lado, no meio da fileira de três poltronas, viajava uma mulher. Evidentemente mais jovem do que a dupla masculina que a acompanhava, ela dormia com os cabelos longos e castanhos cobrindo-lhe a face e com as pernas cruzadas. Portanto, não deu para o protagonista do romance ver o rosto feminino naquele primeiro momento. Mesmo assim, pôde verificar que se tratava de uma pessoa extremamente melancólica e solitária. Suas unhas eram muito bem cuidadas, mas a pele que as rodeava estava em carne-viva, como se tivesse sido ferida ou queimada. Havia algo de muito sinistro naquela figura de ar angelical. Na outra extremidade da fileira e ao lado da mulher, ia um homem cuja idade não deu para o cantor lírico precisar. Ele era careca e gordo, ostentava um bigode aristocrático e vestia-se com o que havia de melhor no mundo. O que deu para notar rapidamente é que era muito ambicioso, do tipo empresário poderoso e milionário que faria qualquer coisa em nome do lucro e que exigia obediência servil daqueles que o rodeavam. Olhando fixamente para frente, o sujeito parecia viver em um mundo à parte e não se importar em ser observado. Quatro ou cinco dias depois daquela viagem com as personagens tão soturnas, quando já estava hospedado em Madrid e ensaiando com a companhia de ópera no Teatro de la Zarzuela, o tenor Leão de Nápoles reencontrou o homem mais velho e de perfume marcante no bar do hotel. Depois de se recordarem da recente jornada de trem, a dupla engatou uma conversa descontraída. O narrador relatou sua profissão e o quanto era solitário viver viajando pelo mundo. Diferentemente da crença glamurosa que as pessoas comuns tinham da vida artística, viver de hotel em hotel, não possuir amigos, familiares e conhecidos por perto e ter uma rotina estritamente profissional era profundamente melancólico. O que adiantava a situação material confortável e a fama se faltavam emoções e sentimentos genuinamente humanos no dia a dia do cantor?! Por uma perspectiva pitoresca, seu cotidiano era muito parecido ao dos caixeiros-viajantes, que levavam seu trabalho para todos os lados como tristes andarilhos da sociedade. Curiosamente, Dato (é assim que se chamava o senhor que o tenor encontrou no trem e agora no bar do hotel) entendeu perfeitamente o que o novo/velho amigo/conhecido estava dizendo. Ele também se sentia profundamente enojado da sua rotina não tão menos enfadonha. Ele trabalhava como acompanhante da Sra. Mansur (a moça que o narrador viu dormindo no vagão). Antes que alguém possa estranhar ou fazer conjecturas sobre tal ofício, Dato era só isso mesmo o que o nome da profissão dizia: ele acompanhava (de maneira amigável e casta!) Natalia (esse era o nome da moça) ao longo do dia. Enquanto o marido, Hieronimo Mansur (o sujeito metido a besta que também estava no trem), um banqueiro belga bilionário, vivia fazendo negócios, alguém precisava entreter a esposa para que ela não caísse em depressão profunda. Tal função era exercida com excelência por Dato, que conquistou a amizade de Natalia e a confiança de Hieronimo. Assim que conheceu Natalia Monte Mansur, o narrador se encantou pela moça. E ela demonstrou curiosidade pelo artista e seu trabalho. Todos os dias, a Sra. Mansur e Dato, que a seguia para todos os lados como uma sombra (e como toda boa sombra, mantinha-se em completo silêncio), compareciam aos ensaios de Otello para ver e conversar com Leão de Nápoles. A amizade dos novos amigos cresceu e saiu das dependências do teatro. O cantor lírico e a mulher do banqueiro passaram a se ver no hotel em que estavam hospedados, em cafés e lojas de Madrid. De certa forma, eles afagavam mutuamente a melancolia e a solidão com a novidade proporcionada pela presença inusitada do outro. Contudo, todas as noites, ela voltava para a cama do marido. Mesmo assim, Hieronimo Mansur ficava com ciúmes da relação da esposa com o tenor. Afinal, o que aqueles dois faziam por tantas horas enquanto ele estava longe trabalhando?! Na visão de Natalia, as suspeitas do Sr. Mansur eram totalmente infundáveis porque mesmo que quisesse ser infiel com o cantor lírico, a onipresença de Dato impediria qualquer segredo. O acompanhante parecia ter mais devoção ao vínculo profissional com o banqueiro do que a amizade com a moça. Se Natalia tivesse pulado a cerca ou quisesse por fim àquele matrimônio há muito tempo desgastado pela aparência e pela ausência de amor, certamente o Sr. Mansur já saberia. “O Homem Sentimental” é um romance curto. Ele tem 144 páginas, que estão divididas em 15 capítulos. Levei aproximadamente 4 horas e meia para concluir seu conteúdo na última quarta-feira à noite. Esse é um ritmo mais lento do que normalmente emprego. O motivo é que a narrativa de Javier Marías exige bastante atenção do leitor, o que provoca automaticamente uma diminuição no ritmo de leitura. Tradicionalmente, levo pouco mais de 3 horas para devorar um título desse mesmo tamanho (mas sem a riqueza de detalhes e sem a overdose de nuances de uma literatura mais rebuscada e sinuosa como a praticada pelo escritor espanhol). Por falar no texto, preciso alertar os leitores do Bonas Histórias que a versão do livro que li na semana passada foi lançada em janeiro de 2013 em Portugal pela Alfaguara, selo da Penguin Random House Grupo Editorial Portugal. A tradução foi feita por Salvato Teles de Menezes. Juro que quando comprei o e-book na Loja Kindle não sabia que se tratava da edição lusitana. Admito que até gostei dessa surpresa na hora da leitura. Adoro acompanhar tramas ficcionais no português europeu (e no português africano). Aí dá-lhe variações da grafia de palavras conhecidas, como “facto”, “carácter”, “duche” e “oiça”, e termos pouco comuns para nós brasileiros, como “peúgas”, “languesce”, “montra”, “pecúlio”, “pequeno-almoço”, “comboio” e “chávena” (esses três últimos um pouco mais familiares, pelo menos para os descendentes de portugueses). É interessante notar que a narrativa de Marías combina perfeitamente com o formalismo e a elegância da versão clássica do nosso idioma. Para os meus conterrâneos que não tiverem o hábito de ler obras no português de Portugal e/ou não gostarem de se embrenhar pelas variantes linguísticas do nosso idioma, tenho uma boa notícia. A Companhia das Letras lançou em dezembro de 2004 “O Homem Sentimental” no Brasil com o português brasileiro. Nesse caso, a tradução foi feita por Eduardo Brandão, e o romance possui 160 páginas. Em relação à narrativa em si, o primeiro elemento que me chamou atenção nesta obra foi a mistura dos planos de realidade, conceito definido na Teoria Literária como realidade ficcional. Como o texto está em primeira pessoa, acompanhamos o relato nem um pouco confiável de Leão de Nápoles. E o narrador-protagonista não tem qualquer pudor em embaralhar sonhos com lembranças, desejos e divagações. Qual a barreira entre realidade ficcional e imaginação em “O Homem Sentimental”? Não sabemos. A graça do romance está justamente aí: será essa história real (real no sentido ficcional, tá?) ou é resultado das maluquices de um homem solitário que surtou depois de anos de uma rotina fria e impessoal?! Veja nesses dois exemplos que a trama brinca o tempo inteiro com os múltiplos planos da realidade: “Contudo, o que sonhei esta manhã, quando já era de dia, é uma coisa que de facto aconteceu e que me aconteceu quando era um pouco mais jovem, ou menos velho do que agora, embora ainda não tenha acabado. Há quatro anos, viajei, por causa de meu trabalho (sou cantor) e imediatamente antes de ultrapassar miraculosamente o medo que tenho de andar de avião, inúmeras vezes de comboio num período de tempo bastante curto, umas seis semanas no total. Estas deslocações breves e contínuas levaram-me à parte do nosso continente, e foi na penúltima série (de Edimburgo a Londres, de Londres a Paris e de Paris a Madrid num dia e numa noite) que vi pela primeira vez os três rostos sonhados esta manhã, que são também os que ocuparam parte da minha imaginação, muito das minhas recordações e da minha vida inteira (respectivamente) desde essa altura até agora, ou durante quatro anos”. “E esta noite sonhei o que me aconteceu há quatro anos na realidade, se é que este termo serve de algo ou pode ser contraposto a nada. É claro que houve diferenças, pois embora os factos e a minha visão da história correspondam, sonhei o acontecido por outra ordem, com outro tempo e outras cortes ou divisões do tempo, concentradamente, seletivamente, e – isto é decisivo e incongruente – sabendo já o que se passara, conhecendo, por exemplo, o nome, o caráter e o comportamento de Dato antes de que no meu sonho tivesse ocorrido o nosso primeiro encontro”. Por isso, durante essa leitura, me lembrei bastante dos melhores contos, novelas e romances de Juan Carlos Onetti. O escritor uruguaio era mestre em embaralhar os planos da realidade ficcional em suas narrativas. Como já falei, dá para vermos “O Homem Sentimental” também como uma versão moderna (menos erótica e mais existencialista) de “Breve Romance de Sonho”. Não por acaso, Leão de Nápoles possui características que me fizeram recordar do memorável Dr. Fridolin, melhor personagem de Arthur Schnitzler. Se você embarcar na proposta maluca de Javier Marías desde o começo do livro, certamente curtirá esse romance (que pela extensão reduzida, até poderia ser chamado de novela) em sua totalidade. Mas lembre-se: ao invés de buscar respostas concretas para tudo, surfa sem constrangimento nas dúvidas e nas inquietudes dos relatos do tenor espanhol. Outras características marcantes de “O Homem Sentimental” são: a falta de uma trama linear, cenas construídas de maneira pouco tradicional e frases gigantescas que emulam o fluxo de consciência. O que assistimos nesta publicação são longas descrições das personagens (principalmente no início do romance), divagações intermináveis (durante todo o livro) e ausência de ação (tudo é muito parado e melancólico, como se a expressão dos sentimentos das personagens fosse mais importante do que o próprio relato do que está acontecendo). Por mais que eu tenha adorado este drama sentimental de Javier Marías pela sua estética dramática, sei que não é todo mundo que curte esse tipo de texto ficcional. Tenho certeza de que ele irá incomodar os leitores mais ansiosos e com paladar literário menos apurado, que anseiam por tramas mais ágeis e por conflitos escancarados. As reflexões que o narrador-protagonista se propõe a fazer possuem pegada filosófico-existencialista. Leão de Nápoles discute com os leitores questões como morte versus vida, solidão, rotina tediosa, frieza das relações humanas modernas, inconformismo, melancolia da vida artística, aridez da convivência conjugal, inveja, amor, aparências sociais, níveis de fidelidade, mercantilização da sociedade contemporânea, escapismo, força do dinheiro etc. Suas inquietações, pensamentos e crenças mais íntimas sobre essas temáticas parecem um desabafo de um homem que há muito tempo está desesperado e que ambiciona por uma existência realmente emocionante. Se formos analisar o perfil das personagens, iremos notar muitas semelhanças entre os quatro protagonistas (enxergo tanto Leão de Nápolis quanto Natalia, Sr. Mansur e Dato como figuras centrais de “O Homem Sentimental”). Repare no quanto eles são pessoas tristes, amarguradas, incompletas e desesperadas. É verdade que o que causa maior perplexidade no narrador é a condição da esposa do banqueiro: uma mulher jovem, bonita e cheia de dinheiro, mas oprimida pelo tédio e pela prostração. Na visão do herói do romance, ela não poderia ser infeliz uma vez que tem enorme fartura material. Contudo, o paradoxo pode ser estendido às figuras masculinas. Eles têm tudo o que desejam na vida (ou quase tudo, para ser mais exato na descrição). Mesmo assim, estão mergulhados na melancolia (e a um passo da depressão crônica). Exatamente por isso, é difícil apontar quem seria o homem sentimental do título do livro de Marías (muitas vezes, achei que fosse mais o Sr. Mansur do que o próprio Leão de Nápoles). E o que seria esse elemento incomum que falta para a plena felicidade do quarteto?! A resposta surge fácil: (como diria Zezé de Camargo e Luciano) é o amor. São poucos livros que apresentam histórias amorosas sem o seu componente mais importante: a paixão. Uma boa referência que me vem à cabeça agora é "Primeiro Amor" (Nova Fronteira), conto de Samuel Beckett que dá uma pancada no estômago dos leitores. Em termos de incômodo gerado e de intensidade das figuras antiamorosas, creio que "Primeiro Amor" seja até mesmo mais potente do que “O Homem Sentimental”. Olhando exclusivamente para o romance de Javier Marías, o Sr. Mansur não parece amar realmente Natalia – o que ele sente é uma obsessão possessiva pela mulher. Na outra ponta do triângulo amoroso, o que constitui a atração entre Natalia e Leão de Nápolis é mais a curiosidade pelo desconhecido e a necessidade de fugir da rotina enfadonha do que um sentimento bonito e nobre de dois amantes convencionais. Quem for um(a) romântico(a) inveterado(a), saiba que talvez a narrativa de “O Homem Sentimental” cause mais controvérsia do que satisfação. Considerando que ela apresenta uma paródia ácida e contemporânea dos romances românticos do século XVIII (com direito a amor à primeira vista, disputas pelo coração da mocinha, atos passionais e inconsequentes, mortes trágicas e imposições sociais), não é todo mundo que irá apreciar esse tipo de inventividade ficcional. Por fim, achei espetacular o desfecho do livro. Aqui vale uma consideração. Diante da criatividade do enredo e da desconstrução sagaz das tramas românticas, o desenlace de “O Homem Insensível” vem com cheirinho de clichê literário. E nesse caso em particular, o texto do romance nos surpreende – jamais suporíamos que Javier Marías escolheria o caminho mais óbvio para encerrar a trama, não depois de ter trilhado rotas alternativas desde o início. Por isso, a grande reviravolta da história está nas páginas derradeiras. Além do mais, o final da obra faz referência direta ao estilo melodramático dos títulos românticos do século XVIII. Por tudo isso, admiro cada vez mais a literatura de Marías. Agora só falta encarar a Trilogia de “Teu Rosto Amanhã” para eu ter uma visão mais completa do seu portfólio. Porém, para isso, precisarei mais do que uma noite de calor insuportável em Buenos Aires. E pode apostar que se voltar com o Desafio Literário, não titubearei em colocar o trabalho de Javier Marías na lista de autores avaliados (se bem que já disse isso para uma série tão grande de artistas que me sinto como um político em véspera de eleição – prometemos mundos e fundos sem nos preocuparmos com o amanhã). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2023
Exatamente no dia de Natal, foram divulgados os vencedores da nona edição do prêmio com as melhores canções brasileiras ruins do ano. Confira os ganhadores desta temporada do tradicional evento musical promovido pelo Bonas Histórias. É Natal! Feliz Natal para você e sua família, caro(a) leitor(a) assíduo(a) ou ocasional do Bonas Histórias. E como presente natalino ao melhor estilo Frank Cross, personagem memorável interpretado por Bill Murray em “Os Fantasmas Contra-atacam” (Scrooged: 1988), trazemos neste 25 de dezembro de 2023 a nona edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins. Já adianto que a divulgação dos novos vencedores do renomado e exclusivíssimo evento musical do blog em uma data tão emblemática (pelo menos para a parcela cristã do planeta) não teve o objetivo de macular as celebrações de ninguém. Juro! O que aconteceu neste ano foi uma mera coincidência de calendários (ou teria sido do destino?!). Nossos posts saem às segundas-feiras (conforme tradição que remonta ao Período Jurássico), justamente o dia escolhido por Papai Noel (acho que é isso o que define o Natal, não é?!) para visitar em 2023 os lares daqueles que se comportaram nos últimos doze meses (ou, se preferir, as residências da parcela mais abastada da população). Por isso, se você estiver lendo essas linhas tão logo elas forem publicadas e perder o espírito natalino (se é que já não o tenha perdido nessa altura do campeonato!), não temos nada a ver com suas frustrações, querido(a) e salve-salve leitor(a). Quem mandou descobrir as novidades do Prêmio Melhores Músicas Ruins no meio das festas, hein?! Feitos esses esclarecimentos iniciais, vamos logo para os ganhadores desta temporada. Segundo o corpo técnico do SOSAMOR (pronuncia-se SOS AMOOOOOOOOOOR), a Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins (se você não sabe o que é isso, basta ter em mente que é a organização responsável pelo prêmio), o Orelhão de Ouro (1º lugar), o Orelhão de Prata (2ª colocação), e o Orelhão de Bronze (3º posto) de 2023 foram, respectivamente, para “Solteiro Forçado” de Ana Castela, “Vai Novinha, Ah, Ah, Ah” de DJ Dyamante e Mano Walter e “Tá OK” de Dennis e MC Kevin O Chris. Dessa forma, o delicioso e romântico “Solteiro Forçado” entra para os cânones da Música Verdadeiramente Popular Brasileira (MVPB) ao lado de “Tá Na Hora do Jair Ir Embora” (Orelhão de Ouro na Premiação das Melhores Músicas Ruins de 2022), “Tapão na Raba” (campeão do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2021), “Três Batidas” (1º lugar no Melhores Músicas Ruins de 2020), “Todo Mundo Vai Sofrer” (1ª posição no Melhores Músicas Ruins de 2019), “Dona Maria” (campeã do Melhores Músicas Ruins de 2018), “Fazer Falta” (Orelhão de Ouro no Melhores Músicas Ruins em 2017), “Essa Mina é Louca” (primeiro lugar do Melhores Músicas Ruins de 2016) e “Meu Amor é Dez” (vencedor no longínquo Melhores Músicas Ruins de 2015). Vale a pena ressaltar que Ana Castela não apenas ficou com o primeiro lugar do Melhores Músicas Ruins de 2023 como colecionou sucessos na lista dos Orelhões de Lata (canções da 4ª posição à 23ª colocação em nossa premiação). A jovem e carismática musa do agronejo, uma versão piorada do sertanejo (sim, isso é possível!), enfileirou um hit solo no ranking deste ano, “Nosso Quadro” (7ª posição), e outros três hits com diferentes parceiros musicais, “Bombonzinho” com Israel & Rodolfo (4º colocado), “Canudinho” com Gusttavo Lima (9º lugar) e “Palhaça” com Naiara Azevedo (15ª posição). Indiscutivelmente, 2023 foi o ano da Boiadeira. Que Paula Fernandes me desculpe, mas o rincão do Brasil tem uma nova rainha. Não apenas a qualidade das músicas de Ana Castela chama a atenção do público como a quantidade de sucessos que ela apresentou em doze meses é digno de nota. Pela primeira vez na história do Bonas Histórias, um(a) artista teve cinco faixas selecionadas em uma edição do Melhores Músicas Ruins. O recorde pertencia até então a Marília Mendonça, que em 2019 teve três canções premiadas (“Todo Mundo Vai Sofrer”, “Supera” e “Some que Ele Vem Atrás”), e Marcynho Sensação, que em 2021 teve três hits laureados (“Rolê”, “Revoada no Colchão” e “Parada Louca”). As presenças de “Vai Novinha, Ah, Ah, Ah” (que inspirou a torcida do Botafogo a criar o contagiante “Segovinha, Ah, Ah, Ah”) e “Tá OK” no alto do pódio do Melhores Músicas Ruins de 2023 mostram que o funk continua em ótima fase em nosso país. O gênero (e seu subgênero com mais eletrônica) emplacaram cinco sucessos na edição deste ano do Melhores Músicas Ruins. Destaques para a parceria entre Luan Pereira e MC Ryan SP (“Ela Pirou na Dodge RAM” e “Dentro da Hilux”) e para MC Kevin O Chris (“Tá OK” e “Faz um Vuk Vuk”), com duas faixas premiadas cada um. Para desespero dos esquerdistas mais raivosos, o ritmo musical mais popular do Brasil continua sendo o sertanejo. Não por acaso, ele foi o campeão em número total de faixas premiadas nessa edição do Melhores Músicas Ruins. Se computarmos as duas músicas solos de Ana Castela como sendo versões sertanejas, são ao todo 10 hits desse gênero (43%) em nossa lista. Se entendermos que o agronejo é um ritmo independente (coisa que eu duvido), aí são oito canções sertanejas premiadas (35%). A dupla Israel & Rodolfo (“Bombonzinho” e “Seu Brilho Sumiu”), Simone Mendes (“Erro Gostoso” e “Daqui pra Frente”) e Gusttavo Lima (“Canudinho” e “Desejo Imortal”) emplacaram dois sucessos cada entre os Orelhões de Lata. Para ninguém acusar o evento desse ano de não ter contemplado os demais gêneros musicais, aviso desde já que entre os premiados em 2023 há duas músicas de pagode, duas de arrocha, duas de pop romântico, um baião e um tecno-brega. É a pluralidade e a riqueza da música brasileira, senhoras e senhores! Depois de discutirmos um pouco o perfil dos vencedores, vamos agora à lista completa dos ganhadores do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2023: 23ª posição: “Desejo Imortal” – Gusttavo Lima – Sertanejo 22ª posição: “Dentro da Hilux” – Luan Pereira e MC Ryan SP – Funk 21º posição: “Leão” – Marília Mendonça – Sertanejo 20ª posição: “Posta Aí” – Nadson Ferinha – Arrocha 19ª posição: “Ela Pirou na Dodge RAM” – Luan Pereira e MC Ryan SP – Funk 18ª posição: “Ela” – Sorriso Maroto e Ferrugem – Pagode 17ª posição: “Cadê Seu Namorado, Moça” – Nadson Ferinha e Thales Iessa – Arrocha 16ª posição: “Daqui pra Frente” – Manu Bahtidão e Simone Mendes – Tecno-brega 15ª posição: “Palhaça” – Naiara Azevedo e Ana Castela – Sertanejo 14ª posição: “Chico” – Luísa Sonza – Pop romântico 13ª posição: “Seu Brilho Sumiu” – Israel & Rodolfo e Mari Fernandes – Sertanejo 12ª posição: “Faz um Vuk Vuk” – MC Kevin O Chris e DJ Nk da Serra – Funk 11ª posição: “Lapada Dela” – Menos é Mais e Matheus Fernandes – Pagode 10ª posição: “Mulher Segura” – Luan Santana – Pop romântico 9a posição: “Canudinho” – Gusttavo Lima e Ana Castela – Sertanejo 8ª posição: “Sinto Muito, Mas Não Sinto Nada” – Nave Som – Baião 7ª posição: “Nosso Quadro” – Ana Castela – Agronejo 6ª posição: “Erro Gostoso” – Simone Mendes – Sertanejo 5ª posição: “Desandei” – Lauana Prado e Guilherme & Benuto – Sertanejo 4ª posição: “Bombonzinho” – Israel & Rodolfo e Ana Castela – Sertanejo 3ª posição: “Tá OK” – Dennis e MC Kevin O Chris – Funk 2ª posição: “Vai Novinha, Ah, Ah, Ah” – DJ Dyamante e Mano Walter – Funk 1ª posição: “Solteiro Forçado” – Ana Castela – Agronejo Parabéns aos campeões de 2023! Daqui doze meses, voltaremos com mais pérolas da Música Popular Brasileira. Não percam, portanto, o próximo Melhores Músicas Ruins. Tenho certeza de que em 2024 ele será ainda melhor. E para quem ainda tem estômago, dá para voltar para os sempre divertidos e emocionantes eventos natalinos desse ano. Feliz Natal, amiguinhos do Bonas Histórias! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas. Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins. E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Padre Fernando
No último programa da sétima temporada do TSL, o entrevistado de Darico Nobar é o protagonista de Quarup, romance mais famoso de Antonio Callado. Darico Nobar: Boa noite, galera do Talk Show Literário! Plateia: Booooooa nooooooite. Darico Nobar: Se vocês já estão animados, quero ver quando eu anunciar que vamos conversar hoje com um rapaz talhado para a vida eclesiástica. Protagonista do romance "Quarup", ele nasceu em Pernambuco, é um dos sacerdotes católicos mais respeitados do país e acredita em tudo aquilo que aprendeu na Bíblia e prega aos fiéis. Por favor, suba ao palco, Padre Nando! [As luzes do auditório acendem de repente e focam no jovem de cabelo bem cortado vestindo batina negra que está sentado na primeira fila. Ele parece surpreendido com o chamamento e, principalmente, com os indecorosos feixes luminosos sob o rosto. Envergonhado, Padre Fernando, que estava enrolando um cigarro de aspecto duvidoso, coloca tudo no bolso, se levanta correndo e vai até o apresentador. Os dois se cumprimentam com um abraço afetuoso e sentam-se nos respectivos assentos]. Darico Nobar: É um prazer recebê-lo em nosso programa, Nando. Padre Fernando: O prazer é sempre meu. Darico Nobar: Gostaria de começar nosso bate-papo sabendo da sua vontade de viver entre os índios do Posto Capitão Vasconcelos, no Xingu. Por que esse desejo de se enfurnar no meio da mata, hein? Padre Fernando: Em geral as pessoas acham que o nosso país é o Rio de Janeiro, São Paulo, as cidades barrocas de Minas e as praias do Nordeste. Alguns se arriscam até o rio Amazonas. Darico Nobar: E para onde deveriam ir? Padre Fernando: Eu por mim acho que para pegar o espírito do Brasil e as raízes de sua vocação no mundo o roteiro seria outro. [Coloca a mão no bolso da batina e tira, além do cigarro suspeito, uma calcinha minúscula e vermelha. Sem se abalar, guarda os itens indesejados rapidamente. Após remexer o bolso mais um pouco, encontra um lenço branco e um frasco cilíndrico de metal, que são colocados em cima da mesa do apresentador]. Pouquíssimos brasileiros o fazem e daí a confusão em que vivemos. Eu considero a ida ao centro do Brasil onde vivem os índios em estado selvagem, mais importante, muito mais importante do que conhecer o Rio ou São Paulo. [Encharca o pano com o líquido do frasco]. E considero a mudança para o Xingu mais importante do que viver em Olinda, Bahia, Ouro Preto. Darico Nobar: Daí a ideia de fundar uma Prelazia sob seu comando?! Padre Fernando: Veja bem, é só no Brasil que ainda existem, tão perto das grandes cidades, homens mais em contato com Deus do que com a história, isto é, com o mundo da razão e do tempo [Cheira com vontade o lenço]. Entre eles a aventura do homem na terra poderia começar de novo. Darico Nobar: Por um acaso isso aí é lança-perfume?! Nando, você está cheirando lança-perfume? Padre Fernando: É só para curar o resfriado. Não quero que nossa conversa seja atrapalhada por minha respiração vacilante e por espirros. Darico Nobar: Vamos fingir que não vi isso [O convidado balança a cabeça para cima e para baixo e guarda o pano junto ao corpo]. E por que ainda você não foi para lá? Padre Fernando: Continuo na mesma angústia. Darico Nobar: Soube que você está há meses no Rio de Janeiro e não embarca para o Mato Grosso. Como entender que alguém desde menino se prepare para um trabalho e que depois o refugue, o evite, o adie assim? E para quê? Para ficar vagabundeando pelo Rio, cidade que você diz detestar! Padre Fernando: Perdoe-me Seu Darico, eu compreendo seu desapontamento, mas a verdade é que... [Parece um tanto zonzo ou incomodado com algo]. A verdade é que... que... Darico Nobar: Você está bem? Padre Fernando: Acho que sim. Só estou com muita sede. Darico Nobar: Quer água? Padre Fernando: Tem whisky? Darico Nobar: Whisky?! Padre Fernando: É. Só um ou dois copinhos para matar a sede [O entrevistador faz sinal para que alguém da produção providencie o que foi solicitado]. E copo com gelo, por favor. Pouco gelo. Muito gelo tira o gosto da bebida e não mata a sede. E se você misturar com hóstia, é ótimo para indigestão. Darico Nobar: Você deu para beber agora, Padre Nando? Padre Fernando: Ai! A virtude pode ser cômica às vezes, não é? Onde estamos mesmo na conversa? Darico Nobar: Você falava da demora para ir ao Xingu. Padre Fernando: Eu fracassarei diante de Deus e dos homens se um dia não me dedicar de corpo e alma aos índios. Mas a verdade é que quero muito. Darico Nobar: Então, por que não parte logo? É orgulho?! Padre Fernando: Não é orgulho, é o temor, um temor kierkegaardiano. Darico Nobar: Mas o que Kierkegaard tem a ver com isso? Nem na moda ele está mais! Padre Fernando: Vocês estão aí duvidando de mim, mas sentem como eu a tragédia que é a Babel moderna, a confusão de incontáveis línguas, o tempo perdido. [Se levanta para pegar a bebida da bandeja trazida pelo garçom, toma um gole do copo com avidez e começa a andar pelo palco]. Se amolo vocês com minhas histórias, prometo não voltar ao assunto. Mas palavra que eu gostaria de ver a República dos Guaranis das Missões dos Sete Povos, no Rio Grande do Sul, estudada pelos biologistas. Ou, quem sabe, assistir à sua reconstituição como governo cristão e comunista. Darico Nobar: E a Prelazia nisso tudo? Padre Fernando: Está certo. Eu preciso fazer uma confidência [ri em agonia ao ponto de se sentar novamente]. Escute, Seu Darico, você vai ter a honra duvidosa de ser a única pessoa a saber por que não segui ainda para o Xingu. Nem d. Anselmo sabe. Só você e o meu confessor. Tenho medo de me defrontar com os índios nus. Darico Nobar: Medo do quê?! Padre Fernando: Da nudez dos índios. Darico Nobar: Você quer dizer das índias, né? Temor de vê-las peladas. Padre Fernando: Não, dos homens. Não estou acostumado. Fui um dos poucos que conseguiu passar intacto pelas investidas dos professores e dos colegas mais velhos no Seminário. Medo de talvez perder os sentidos. Ou como reagir aos abraços, ao contato físico mais próximo com os índios. Darico Nobar: Mas do que exatamente você tem temor, Nando? Padre Fernando: Têm membros grandes, esses índios, o que de certa forma é mais uma apreensão que me aguarda na selva. Soube que muitos não tem envergadura normal se comparada a nós brancos de origem europeia. E se quiserem se impor pela força e não entenderem que sou padre, que fiz votos de castidade?! Confesso que custo imaginar alguém mais bem servido que esses índios. Darico Nobar: E dos corpos femininos, não teme os pensamentos pecaminosos? Padre Fernando: Aí será batata. Nas tribos, segundo dizem, a maioria das mulheres envelhece precocemente e tem peitos caídos, mamados às vezes por crianças grandes a sugarem de pé o seio. São pobres Evas dilaceradas pela implacável força da natureza. É raro uma índia verdadeiramente bela depois da adolescência. Creio que não será nem um pouco difícil olhá-las todas como homem de Deus e do espírito. Darico Nobar: Por falar nos pecados da carne, o que você poderia dizer sobre as acusações que o Padre Hosana está sendo investigado lá na sua antiga arquidiocese? Padre Fernando: Essa é uma questão delicada porque não dá... [Um homem amarelo, esquelético e com cabelos em desalinho vestindo batina cinza entra no palco sem se importar com a gravação. Ele fica lado a lado com o convidado e o segura pela manga. Pela proximidade com Padre Fernando, os microfones captam sua fala]. Homem: Nando, d. Anselmo está chamando no telefone. Padre Fernando: Está me ligando, André? Você não está de mangação? Homem/André: Não estou de troça. Ele está pra valer na ligação. Disse para eu ficar aqui no seu lugar enquanto você atende. Não quer ser interrompido na conversa. Darico Nobar: Estamos no meio de uma entrevista!!! Estamos ao vivo para o país! Padre Fernando: D. Anselmo está me chamando e deve ter novidades sobre minha viagem. Vai que o Ministro Gouveia autorizou minha partida para o Xingu [Se levanta com urgência e mete a cara mais uma vez no lenço ainda úmido]. Que Deus acompanhe você, Seu Darico, nessa jornada pela literatura brasileira. Ele lhe há de mostrar sempre o caminho, de guiá-lo seguro como até agora. Darico Nobar: Muito obrigado, Padre Nando, pelos pios votos e pela sua presença. [O apresentador pega a mão estendida do convidado, curva a cabeça e a beija com todo o respeito. O padre sai do palco em direção ao camarim para tristeza do âncora e da plateia do Talk Show Literário. André senta-se no sofá]. André: Boa noite, Seu Darico [Cumprimenta o entrevistador em um aperto de mão tímido]. No que posso ajudá-lo? [Darico ignora o substituto de Padre Fernando e olha incrédulo para a câmera 2, que dá um zoom in em seu rosto de dúvida e decepção. Imediatamente, as letras de crédito do programa começam a subir na tela ao som de "Se Eu Quiser Falar com Deus", música de Gilberto Gil. A imagem da TV pula para a câmera 1 que dá um take geral na plateia, que aplaude de maneira mecânica e pouco entusiasmada os acontecimentos no palco. Em poucos segundos, a transmissão é interrompida e uma nova atração começa]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. 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