Livros: Jantar Secreto – Uma década do romance de Raphael Montes sobre canibalismo
- Ricardo Bonacorci
- 16 de fev.
- 27 min de leitura
Publicado em novembro de 2016, o suspense aterrorizante do jovem escritor carioca permanece extremamente atual e, talvez por isso, siga como um dos livros ficcionais mais vendidos do país. Obra-prima da Literatura Brasileira Contemporânea, a terceira narrativa longa de Montes aborda o drama de quatro amigos do interior do Paraná que vão estudar no Rio de Janeiro e ficam presos a uma hedionda experiência gastronômica. Conheça os detalhes desta inteligente sátira que reflete com perfeição a crueldade e as injustiças da nossa sociedade.

Há alguns anos, estava em uma churrascaria de Buenos Aires (provavelmente a BesAres Parrilla Urbana em Núñez ou o Amigos de Siempre em Saavedra, só não me lembro exatamente em qual) com meus melhores amigos: Paulo Sousa e Eduardo Villela. Por falar nisso, abraços, galerinha do bem! Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias já devem conhecer essa animada dupla de tanto que a cito por aqui. Paulinho foi colunista por dois anos do Miliádios Literários, página deste blog dedicada às efemérides literárias, e é sócio-diretor da Epifania Comunicação Integrada, agência de Marketing Digital localizada em São Paulo. Dudu, por sua vez, é um dos principais publishers brasileiros, dono da EV Publicações, uma das mais respeitadas editoras nacionais de livros.
É bom adiantar que os papos em nossos encontros sempre giram em torno de carne, vinho e literatura, principalmente quando eles iam me visitar En La Ciudad de La Furia. Nada como ter mentalidade gordinha e literata, né? Naquela vez não foi diferente. Bons tempos aqueles, senhoras e senhores, quando vivia na cidade em que sou apaixonado e atuava como anfitrião dos corajosos que embarcavam só para me ver por algumas semanas. Não à toa, meu apê na Zona Norte de Baires adquirira o apelido de Consulado Brasileiro. Uhu!
Voltando à historieta do início deste post... Vendo meus amigos devorarem com avidez os mais estranhos cortes de carne argentina (y dale achurras – chinchulines, molleja, morcilla e riñones!), juro que ficava com nojo. Mesmo assim, permanecia firme à mesa da parrilla em nome da educação recebida pelos meus pais e da amizade de longa data com a dupla. Contudo, em algum momento do almoço legitimamente portenho, não os aguentei elogiando as tranqueiras servidas e soltei, entre goles de Malbec mendocino, um comentário pra lá de ácido: “Vocês são uns canibais. Se servirem carne humana aqui, é capaz de se deliciarem e pedirem mais!”.
Dudu, sempre o mais polido e ético da nossa turminha, prontamente se fez de ofendido. “Jamais faria uma atrocidade destas!”, decretou sem pestanejar como se estivesse sendo observado por inquisidores do politicamente correto. Já Paulinho, muito mais espirituoso (e esfomeado), pensou um pouco mais e se pronunciou com certo brilho nos olhos: “Aí depende. De carne humana, só aceito ojo de bife, bife de chorizo, osobuco e tapa de cuadril. E tem que ser carne de mulher jovem e bonita. Não me venham com chorizo, por favor!”.
Rimos ao imaginar a cena, principalmente com a conotação sexual do termo chorizo. Na visão máscula de Paulo, até canibalismo tinha limites. Para ser preciso em meu relato, Eduardo foi o único à mesa que não achou nenhuma graça no nosso papinho mórbido, ficando até meio bravo com a hipótese descabida que levantamos. Adoro o puritanismo dele.

Na hora, pensei que esse poderia ser um bom enredo para um título de terror. Juro que visualizei um grupo de pessoas em um restaurante provando carnes que suscitavam os mais antigos tabus da nossa espécie. Como não há filtros nas prosas informais entre amigos (pensando bem, canibalismo é até um assunto leve!), tomei mais um gole do vinho (seria um DV Catena? Não me recordo...) e falei brincando da vontade de escrever uma obra de ficção com essa temática. Obviamente, estava divagando. Sei que não tenho competência nenhuma para uma empreitada desse tipo. Minha especialidade é exclusivamente a crítica literária e não a produção literária. Em outras palavras, invisto com prazer meu precioso tempo nas leituras e não na escrita criativa.
Acreditando na veracidade do meu discurso/proposta, Paulinho prontamente me desanimou: “Sinto em te decepcionar, Bona, mas o Raphael Montes já teve essa ideia há alguns anos”. Dudu balançou a cabeça afirmativamente, enquanto mastigava mais um naco de achurras. Foi aí que soube da trama de “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), o terceiro romance do autor carioca, um dos principais nomes da Literatura Brasileira Contemporânea. Pelo visto, eu era o único daquela mesa da parrilla da Zona Norte de Buenos Aires que não conhecia o enredo do livro que se tornara best-seller nacional. Ai, ai, ai. Às vezes, me pergunto como posso ser tão ignorante.
“Jantar Secreto” foi lançado em novembro de 2016 e rapidamente se tornou fenômeno de vendas no Brasil. O mais interessante é que esta obra representou a consolidação do trabalho literário de Montes, atualmente com 35 anos. Até aquele momento, aos 26 anos recém-completados, o jovem escritor tinha publicado apenas duas narrativas ficcionais longas, “Suicidas” (Companhia das Letras), de 2012, e “Dias Perfeitos” (Companhia das Letras), de 2014, e uma coletânea de contos, “O Vilarejo” (Companhia das Letras), de 2015. Inclusive, duas dessas obras já foram comentadas na coluna Livros – Crítica Literária. Ou seja, eu estava careca de conhecer Raphael Montes, só não tinha apreciado ainda “Jantar Secreto”, considerado por muita gente como seu melhor trabalho literário até aqui.
Por mais que a ficção de Montes mostrasse enorme potencial na virada de 2016 para 2017 (ao ponto de desde cedo entrar no radar das análises do Bonas Histórias), ele ainda era visto mais como uma estrela em ascensão do que um nome consolidado da nossa literatura. Com a chegada às livrarias de “Jantar Secreto”, uma obra simplesmente memorável, a coisa mudou de figura. A partir daí, tínhamos a convicção de estar diante de um romancista que, ainda que precoce (na Literatura Comercial, alguém com menos de 30 anos é uma criança ou, no melhor dos casos, um adolescente!), mostrava excelência para ficar na primeira prateleira dos ficcionistas nacionais. A impressão geral era que seria questão de tempo até Raphael Montes se tornar uma espécie de Rubem Fonseca ou Luiz Alfredo Garcia-Roza da geração Millennium. Exagerada essa comparação?! Na época já suspeitava que não. Agora tenho certeza de que o prognóstico era realista.
Mas por que contei, no início deste post, o episódio à mesa da parrilla porteña com Eduardo e Paulo e estou derramando, agora, linhas e mais linhas sobre esse autor? Porque li, enfim, “Jantar Secreto” no feriado paulistano de 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo. Dessa maneira, só nas últimas semanas entendi o quão impecável é esta publicação, conforme meus amigos me alertaram há alguns anos. Juro que fiquei embasbacado com a qualidade narrativa deste romance. Se já gostava de Raphael Montes, posso dizer que, desde o quarto domingo do mês passado, virei fã incondicional de seu trabalho. Fiquei tão empolgado com a leitura de “Jantar Secreto” que resolvi fazer uma análise completa dela na coluna Livros – Crítica Literária. Acho que é uma boa homenagem para a efeméride de uma década de seu lançamento, que ocorrerá daqui a nove meses.

Curiosamente, o terceiro romance de Montes segue como um dos livros mais vendidos no Brasil em 2025. Conforme apresentei na publicação da semana retrasada da coluna Mercado Editorial, essa obra foi a décima segunda mais adquirida nas livrarias nacionais no ano passado. Foram mais de 45 mil unidades comercializadas, um feito notável para um título que há muito tempo não é um estreante das estantes das lojas.
Olhando só para os exemplares ficcionais, “Jantar Secreto” alcançou o posto de 8º best-seller da última temporada em nosso país. O campeão foi “O Segredo Final” (Arqueiro), lançamento de Dan Brown, com mais de 71 mil exemplares vendidos por aqui. Do ponto de vista da Literatura Brasileira, o livro de Montes terminou em terceiro lugar. Ficou atrás apenas de “Elo Monsters Books – Flow Pack” (Pixel), título infantil de Enaldinho, e “A Hora da Estrela” (Rocco), clássico de Clarice Lispector, que geraram, respectivamente, 60 e 59 mil vendas. Assim, por qualquer perspectiva que tomemos, a posição do romance de Raphael Montes no ranking dos livros mais vendidos no Brasil de 2025 é impressionante.
Ao todo, “Jantar Secreto” se aproxima da marca de 250 mil cópias comercializadas desde seu lançamento. É ou não é outra marca invejável deste título, hein? Além disso, é bom avisar que Montes se tornou, desde o ano passado, o escritor mais comercializado da Companhia das Letras, a principal editora brasileira e sua casa editorial desde o começo da carreira. Nessa comparação, o carioca ganha de todos os colegas, aí incluindo figuras religiosas, de autoajuda e de não ficção, gêneros que, querendo ou não, os brasileiros amam (muito mais do que a ficção).
Considerando o portfólio completo, Montes já vendeu mais de um milhão de exemplares. Seus livros já foram traduzidos para aproximadamente 30 idiomas. Ou seja, o status de autor best-seller nacional deve-se à excelente vendagem de seus vários títulos e não apenas ao êxito de seu principal romance – posto ocupado, na minha humilde opinião, por “Jantar Secreto”.
Depois do lançamento de “Jantar Secreto”, Raphael Montes publicou mais quatro obras: “Bom Dia, Verônica” (Darkside), em 2016, numa parceria com Ilana Casoy; “Uma Mulher no Escuro” (Companhia das Letras), romance de 2019 que conquistou o Prêmio Jabuti de 2020 na categoria Melhor Romance de Entretenimento; “A Mágica Mortal – Uma Aventura do Esquadrão Zero” (Seguinte), seu primeiro livro infantojuvenil, de 2023; e “Uma Família Feliz” (Companhia das Letras), sua sexta narrativa ficcional longa que foi lançada em 2024. A previsão é que o sétimo romance do autor, “A Estranha na Cama” (Companhia das Letras), chegue às livrarias ainda no primeiro semestre de 2026. A conferir!
É claro que o apetite dos leitores brasileiros pelas obras literárias de Montes foi muito influenciado pela migração dessas histórias para a televisão e para o cinema. O que convenhamos ser algo perfeitamente normal em uma cultura tão audiovisual como a brasileira, né? “Bom Dia, Verônica” foi adaptado para a TV pela Netflix e se tornou uma bem-sucedida série com três temporadas. O mesmo processo migratório ocorreu com “Dias Perfeitos”, levado às telas pela Globoplay. Já a história de “Uma Família Feliz” foi parar no cinema, em uma produção da Globo Filmes dirigida por José Eduardo Belmonte. Nessas três adaptações, é importante que se diga, Montes atuou como roteirista, atividade que vem desempenhando com mais frequência nos últimos anos.

Por mais que tenha passado a dividir o tempo da produção dos romances com a confecção de roteiros para o cinema e para a televisão, Raphael Montes recebeu seus principais prêmios literários justamente com as suas últimas publicações, o que indica a manutenção da qualidade narrativa ou mesmo certo refinamento estilístico. Além do Prêmio Jabuti de 2020 por “Uma Mulher no Escuro” (até hoje a maior honraria literária do autor), “Uma Família Feliz” foi finalista da última edição do Jabuti. E, nesse caso, a categoria em que concorreu não foi a de Melhor Romance de Entretenimento (visto em alguns círculos literatos com certo preconceito) e sim a de Melhor Romance Literário (a chancela definitiva da qualidade da ficção literária em nosso país). Não é preciso dizer que os últimos anos representaram o ápice da carreira artística de Montes, seja na literatura, seja no audiovisual, seja perante a crítica, seja perante o grande público.
O posto de figura midiática que trafega com facilidade entre as várias linguagens ficcionais foi muito positivo comercialmente para o Raphael Montes escritor. Falo isso pois é comum encontrarmos pessoas que gostaram da série de TV e do filme e depois compram o livro numa visita à livraria. Ou os visitantes das lojas mais ressabiados que só se arriscam a comprar um romance depois que ele recebeu a chancela de ter ido para as telas/telonas. Tem também o público de carteirinha do autor, que sabe da sua qualidade narrativa e compra de olhos fechados seus demais títulos, um investimento que cada vez mais se aproxima da casa dos três dígitos no Brasil. Acho que este foi o meu caso, senhoras e senhores, no finalzinho de dezembro.
No penúltimo dia de 2025, fui à Livraria Paisagem no Shopping Bourbon Pompeia, em São Paulo, para comprar presentes para uma dupla de amigos que faz aniversário justamente no Réveillon – beijos, Maroca, abraços, Lampi! Aí passeando pelas prateleiras da loja de livros em busca de algo para meus capricornianos favoritos, vi “Jantar Secreto” todo pimpão me seduzindo na estante, tal qual uma professora trambiqueira de Dança do Ventre. O romance olhou para mim, eu olhei para ele e demos match! Como estava com o dinheiro contadinho no bolso (coisa de fim/início do ano de quem flerta com a pobreza há muito tempo!), só o adquiri porque sabia da qualidade absurda de Raphael Montes. E, claro, porque me lembrei da antiga conversa com Eduardo e Paulo em Buenos Aires. Já era hora de ler essa obra para não ficar boiando nas prosas intelectuais com meus amigos canibais, né?
Assim, vamos mergulhar nos detalhes de “Jantar Secreto”, a publicação que representou o amadurecimento do escritor brasileiro mais vendido atualmente. Afinal de contas, é este o nosso assunto de hoje da coluna Livros – Crítica Literária, não é mesmo?! Antes de comentarmos os aspectos técnicos deste romance, é de bom tom descrevermos seu enredo. Aí vamos nós, senhoras e senhores!
Esta trama se passa no Rio de Janeiro entre fevereiro de 2010 e dezembro de 2017. Contudo, seu relato começa efetivamente no meio desse intervalo. No caso, para ser bem exato com o descritivo do tempo narrativo, o romance inicia-se mais no meio para o final, no instante de maior tensão dramática. Se eu quisesse utilizar os conceitos da Teoria Literária, diria que Montes usou o recurso do In Media Res. Porém, como uma afirmação desse tipo poderia soar pretenciosa ou presunçosa para uma análise literária simplista localizada num blog nos rincões da Internet, prefiro ignorá-la. Esqueça, por favor, queridos leitores do Bonas Histórias, as minhas últimas três frases.

Na madrugada de 18 de junho de 2016, um homem todo sujo de sangue entra na delegacia do Jardim Botânico, na capital fluminense, querendo revelar aos policiais o crime que ele e os amigos cometeram. Essa é a introdução, de apenas uma página, de “Jantar Secreto”. Convenhamos que é um início simples e objetivo, mas que ainda assim ativa nossa curiosidade.
A partir daí, entramos no primeiro capítulo do livro, quando a história volta seis anos. Esta obra é narrada, quase sempre, em primeira pessoa por Dante, um rapaz que sai de Pingo d’Água, cidadezinha (fictícia) do interior do Paraná próxima a Foz do Iguaçu (não confundir com a homônima mineira, essa sim uma localidade real), para fazer faculdade de Administração de Empresas na UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Sua aventura na Cidade Maravilhosa começa em fevereiro de 2010, a data da mudança para o Rio. Aos 19 anos, ele tem a companhia dos três melhores amigos: Miguel, Victor Hugo (beijo, Bruxinha!) e Leitão. Também natural de Pingo d’Água, o trio possui idade parecida a Dante e chegou junto à capital fluminense em busca do diploma universitário. Assim como os três (na verdade, quatro) mosqueteiros de Alexandre Dumas, o grupo de jovens é do tipo inseparável que faz valer o tema: “um por todos, todos por um”.
Miguel, filho da empregada da casa do narrador-protagonista no Paraná, passou no vestibular de Medicina na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro – e sonha em se tornar médico. Por causa da origem humilde, ele é disparadamente o mais gente boa e o mais esforçado da turminha, além de ser o mais correto e ético. Victor Hugo é apaixonado por gastronomia e se matriculou num curso universitário para se tornar chef. Bonitão e autoconfiante, é o mais charmoso e arrogante do quarteto. E Leitão, um rapaz muito gordo que vive fechado no quarto mexendo no computador, jogando videogame e se entupindo de fast food, vira universitário de Ciências da Computação na PUC-RJ – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Por ser antissocial e glutão, não conhece ninguém na nova cidade.
Dante compartilha um apartamento alugado em Copacabana com Miguel, Victor Hugo e Leitão. Com as contas apertadas, os jovens moradores da República na Zona Sul carioca se viram como podem para viver na cidade grande e se formar. A ideia é que, uma vez com o diploma em mãos, suas rotinas vão melhorar sensivelmente. O Brasil é visto como o país em franco crescimento e terra das infinitas oportunidades. O sonho do grupo é se tornar independente financeiramente e ter um dia a dia mais próspero. Nenhum deles planeja retornar para o interior do Paraná, um lugar visto como retrógrado e limitante para almas tão ambiciosas.
Porém, a realidade em março de 2015 no Rio de Janeiro é completamente diferente do que as personagens principais de “Jantar Secreto” imaginaram na chegada. Assim, o enredo do livro avança cinco anos no tempo. Mesmo formado em Administração, Dante segue trabalhando como simples vendedor de uma pequena livraria do Leblon. Seu salário mal dá para pagar as despesas mensais. Seu desejo é montar um negócio próprio, onde acredita que conseguirá ganhar muito dinheiro. Para isso, lê tudo sobre empreendedorismo e autoajuda empresarial que a loja onde trabalha vende.

A dificuldade é que lhe falta uma ideia do que fazer, além de capital para investir. Para completar o cenário negativo, a economia do país não ajuda, só atrapalha. O Brasil vive uma das piores crises econômicas de sua história e a recessão se evidencia com o fechamento de muitos empregos e a forte inflação, que corrói o poder aquisitivo principalmente da classe média baixa. O correto seria Dante revelar aos pais a dificuldade financeira e pedir ajuda monetária. Entretanto, ele não aceita se humilhar. Querendo provar ser capaz de enfrentar as diversidades, economiza o quanto pode e faz valer cada centavo do pequeno salário.
A situação desesperadora do protagonista é idêntica a dos três amigos. Residente médico, Miguel passa o dia fora de casa, correndo entre plantões em diferentes hospitais. A ideia é adquirir experiência profissional. Entretanto, recebe pouco e vive estressado. Seu desejo é que, no futuro, uma vez na posição de médico respeitado, sua rotina se torne mais agradável e menos escassa de grana.
O que mais prejudica Victor Hugo é seu estrelismo e arrogância. Ele não consegue um emprego que julgue compatível com suas qualidades excepcionais como chef. Por isso, vive sendo demitido, restando-lhe fazer bicos para sobreviver. Por mais que seja realmente um grande cozinheiro, ninguém suporta sua personalidade difícil. Depois de alguns anos compartilhando o apartamento em Copacabana, nem mesmo seus melhores amigos o aguentam. Porém, como ninguém tem dinheiro para bancar sua parte no aluguel, aceitam seu mau humor e as incontáveis extravagâncias.
Por fim, o caso mais complicado naquela República é o de Leitão. Por viver dentro do quarto se entupindo de tranqueiras solicitadas pelos aplicativos de entrega de comida, ele se tornou obeso mórbido e completamente apartado da sociedade. Depois de abandonar a faculdade, passa o dia aplicando pequenos golpes virtuais. Quando não está jogando videogame nem comendo obsessivamente, está metido em crimes eletrônicos. É como hacker que Leitão consegue dinheiro para pagar suas despesas e sua parte no aluguel.
Mesmo ciente da delinquência cibernética do gordão, os amigos o adoram. Tanto é que, no aniversário de 23 anos do rapaz, comemorado em setembro de 2014, os colegas de República se mobilizam para presenteá-lo com algo inusitado: uma noite de sexo com uma prostituta. Por imaginarem que Leitão fosse virgem (afinal, ele nunca saía do quarto e nenhuma mulher ia visitá-lo), a turma contrata uma meretriz para alegrá-lo. A missão é cumprida por Cora, uma profissional vinda do interior de Goiás que Dante encontra nos classificados do jornal. Leitão gosta tanto da experiência que passa a requisitar periodicamente os serviços da prostituta goiana. Assim, Cora se torna presença frequente no apartamento dos jovens em Copacabana, quase como a quinta integrante da trupe.
Contradizendo o respeitado e nobre Deputado Federal Tiririca, o que está ruim sempre pode piorar. Se a realidade dos amigos já era complicada no início de 2015, ela fica ainda pior quando Dante descobre que estão devendo seis meses de aluguel. Como o responsável por pagar mensalmente a imobiliária era Leitão e ele precisava de dinheiro para bancar os serviços de Cora, o gordão não pensou duas vezes e usou a grana dos amigos para o seu bel prazer. Ao descobrir a tramoia do hacker, todos se desesperam. Como farão para levantar R$ 26 mil em pouco tempo para não serem despejados, hein?

A melhor proposta parte de Victor Hugo. Eles podem se cadastrar no site jantarsecreto.com e oferecer uma bela experiência gastronômica para os usuários da plataforma. Esse tipo de serviço está crescendo bastante e dá a oportunidade para os fãs da boa mesa provarem as habilidades de chefs ainda desconhecidos. O que os cozinheiros fazem é preparar refeições especiais e ofertá-las em suas casas para os interessados. O grupo topa o desafio. Miguel se encarregaria de comprar os ingredientes. Dante seria o garçom. Victor Hugo cozinharia. E Leitão ficaria com a responsabilidade de fazer o cadastro e a divulgação da refeição no site do jantarsecreto.com. Dessa maneira, se tudo sair bem, em cerca de dez ou doze eventos conseguirão levantar a grana necessária para saldar a dívida.
O problema é que, para surpresa dos amigos, Leitão divulga que o jantar deles será com carne humana. É isso mesmo o que você leu: CARNE HUMANA!!! Para tal, os dez comensais interessados devem pagar R$ 3 mil por aquela experiência sui generis. Na cabeça do gordão, só uma proposta diferentona atrairia muitas pessoas dispostas a pagar uma bolada. Afinal, eles não têm tempo para promover vários jantares de baixa lucratividade. Para que esperar se em um único evento poderiam angariar todo o dinheiro que devem para o dono do imóvel, né? E nada mais pitoresco do que um churrasco de algo que ninguém tinha provado até então.
É claro que Dante, Miguel e Victor Hugo ficam bravos quando descobrem mais uma vigarice de Leitão. A questão é que ele não estava brincando quando fez o anúncio, logo retirado do ar pelo aplicativo por óbvios problemas éticos. O mais incrível dessa história é que, instantaneamente, dez pessoas contrataram os serviços do jantar inusitado. Ou seja, em uma única refeição, a trupe poderia faturar R$ 30 mil. Daria, portanto, para pagar os custos do jantar, a dívida imobiliária e ainda sobraria um pouco para cada um dos jovens paranaenses. É muita tentação para um grupo que precisa de dinheiro desesperadamente. Imaginando que o jantarsecreto.com fosse excluir a conta deles, Leitão anota os e-mails dos dez clientes em potencial para um contato posterior, sem a intermediação do aplicativo.
Engolindo os princípios éticos, Dante, Miguel e Victor Hugo são obrigados a aceitar a proposta imoral do colega. A partir daí, as vidas dos amigos não serão mais as mesmas. Eles entram numa espiral sem fim de confusões e crimes, o que abala não apenas a amizade deles como a paz e o sossego mais íntimo de cada um. Como acabará essa história? É essa a curiosidade que nos faz ler sem parar os demais capítulos do livro. Até conhecemos uma cena de seu desfecho (um homem entrou numa delegacia carioca para denunciar os crimes cometidos, conforme lido na introdução), mas queremos saber tudo sobre o desenlace. Tudo!
“Jantar Secreto” é um romance volumoso. Suas 368 páginas estão divididas em 28 capítulos: introdução, 26 seções intermediárias – (1) “O Enigma da Carne de Gaivota”, (2) “Classificados”, (3) “Carta”, (4) “Cora”, (5) “Carta”, (6) “Jartarsecreto.com”, (7) “E-mail”, (8) “O Caso dos Exploradores de Cavernas”, (9) “Grupo de WhatsApp”, (10) “Cortes Exóticos”, (11) “Carta”, (12) “O Jantar Está Servido”, (13) “Crime e Castigo”, (14) “Desenho de Leitão para a Escola”, (15) “Crematório Fogo e Paixão”, (15) “Convite”, (16) “Canibalismo Gourmet”, (17) “Vladimir”, (18) “O Inferno de Dante”, (19) “Órgãos Humanos no Mercado Negro”, (20) “Pingo d’Água”, (21) “Bom dia, Bela Adormecida”, (22) “Página ou Posição”, (23) “Sherlock e Watson”, (24) “Carta”, (25) “Pururuca” e (26) “Noite Feliz” – e epílogo.

Levei cerca de sete horas e meia para concluir integralmente esta leitura no último domingo de janeiro. Sim, senhoras e senhores, devorei esta publicação de ponta a ponta em um único dia. Basicamente, foram três sessões de duas horas e meia cada: uma de manhã, outra de tarde e mais uma à noite. Não preciso dizer que passei o feriado paulistano com o livro de Raphael Montes em mãos. Quando falo que é difícil se desgrudar desta publicação, não estou exagerando nem recorrendo à figura de linguagem.
O primeiro aspecto elogiável deste thriller é seu excelente ritmo narrativo. O autor consegue prender a atenção do leitor ao utilizar recorrentemente ganchos dramáticos, o que confere suspense e bastante emoção à história do início ao fim. Além disso, o enredo de “Jantar Secreto” vai se transformando ao longo de todo o romance. O livro começa com a cena de alguém avisando ao delegado sobre um crime praticado com o grupo de amigos. A partir do flashback, assistimos à adaptação dos rapazes do interior do Paraná ao Rio de Janeiro. Após o flashforward de meia década, vem a crise financeira dos protagonistas e a descoberta da dívida de seis meses de aluguel. A solução para o pagamento do imóvel leva Dante, Miguel, Victor Hugo e Leitão para uma espiral interminável de problemas, que vão se alterando à medida que a trama avança. A sensação é que eles estão cavando a própria cova ou mergulhando num poço muuuuuuito profundo.
Outro elemento que ajuda na fluidez textual é a inserção de capítulos diferenciados no meio da narrativa em primeira pessoa de Dante. Não é porque o narrador é um dos jovens que não podemos acompanhar fragmentos do que ocorre com os demais integrantes do quarteto, né? Aí temos: cartas de Leitão para a mãe, conversas dos amigos no WhatsApp, convite para a refeição pitoresca, e-mail de confirmação do jantar, desenhos antigos de Leitão da época da escola, tabela de valores com cortes de carnes, cartão de visita da empresa Carne de Gaivota e receita de Entrecôte de Carneiro (que serve 10 pessoas). Essa quebrada da linha narrativa de “Jantar Secreto” ajuda no respiro do leitor (oferecendo humor em meio ao forte drama e à violência desenfreada) e mostra facetas interessantes da trama (algo impossível de ser captado apenas pela fala/escrita de um único narrador-protagonista).
Nesse caso, repare no nível de hilaridade da conversa dos amigos pelo WhatsApp no momento que o grupo vai roubar um corpo no hospital em que Miguel trabalha. Impossível não rir enquanto os rapazes sofrem a maior angústia de suas vidas. E note a dose extrema de sarcasmo da segunda carta que Leitão escreve para a sua mãe. Ele contando, através de eufemismos, sobre o recebimento do “presente” de 23 anos dado pelos amigos e de sua relação com Cora é divertidíssimo! Por falar nisso, não dá para comentar “Jantar Secreto” e não mencionar o lado cômico da narrativa. Eita livro mais engraçado, senhoras e senhores.
O brilhantismo de Montes está, entre outras habilidades do desenvolvimento ficcional, em mesclar cenas violentas e dramas psicológicos intensos às passagens divertidíssimas, como se estivéssemos lendo uma comédia. Dessa forma, a narrativa ganha espaços de respiros para o leitor não se inquietar tanto quanto às personagens. Ou seja, acompanhamos o suspense dramático com certa leveza e sorrisinhos no rosto. Talvez a melhor classificação para essa obra seja apontá-la como sendo uma tragicomédia.

O mais legal é ver o quão plural é a comicidade deste romance. O autor brinca com a mania de Dante em devorar livros de autoajuda e de querer empreender. O bullying entre amigos é normal e até aceitável nesse contexto. A sátira social da metade para o final é impecável, revelando um país injusto, racista, violento e desumano. Talvez não exista cidade brasileira que demonstre essas máculas nacionais tão bem quanto o Rio de Janeiro. Impossível não recordarmos dos versos da música “Rio 40 Graus” de Fernanda Abreu: “Rio 40 graus/Cidade maravilha/Purgatório da beleza/E do caos”.
A fina ironia de Raphael Montes não para por aí. Ela está presente no sarcasmo do narrador, no eufemismo para a prática repugnante que passam a exercer (para o público em geral, eles servem “carne de gaivota”), na origem do nome de algumas das personagens e na paixão pouco comum entre Leitão e Cora (um casal divertidíssimo!). Também pode ser vista na intertextualidade com algumas obras literárias com temáticas parecidas a “Jantar Secreto” ou com títulos que o livro dialoga diretamente. Posso citar “Crime e Castigo” (Editora 34) de Fiódor Dostoiévski, os poemas de Cora Coralina, “Sherlock Holmes” (Principis) de Arthur Conan Doyle, “A Divina Comédia” (Editora 34) de Dante Alighieri e “A Bela Adormecida” (Global) de Charles Perrault como referências intertextuais explícitas. Há outras implícitas, mas ainda assim perceptíveis para os fãs dos romances noir brasileiros e internacionais.
Esse é o humor que chamo de mais superficial, pois há aquele que está escondido no subtexto de “Jantar Secreto”. Por exemplo, o romancista carioca brinca com a intertextualidade literária de seu portfólio. Assim, há cruzamentos de personagens e de cenas com outras publicações ficcionais de Montes. Evidentemente, só os leitores das demais obras dele vão conseguir perceber esse jogo inteligente entre as suas várias narrativas. E o que dizer, então, da comparação automática que fazemos entre a tranquilidade moral do abate de animais como vacas, porcos e frangos e o inconformismo de quando somos nós as vítimas dessas mesmas práticas sociais, hein? Hilário! O que banalizamos como algo normal e socialmente aceitável muda totalmente de figura quando invertemos nossa posição na história. Aí passamos a ver nossas antigas práticas como abomináveis e antiéticas. Em termos de crítica aos hábitos carnívoros da humanidade, não conheço um romance mais contundente do que este.
Portanto, este livro não é apenas dinâmico e engraçado, mas é, acima de tudo, inteligentíssimo. A riqueza do conteúdo está intimamente relacionada às discussões propostas e a sátira social arrebatadora contida em suas páginas. Mais do que uma trama ficcional para entreter o público, o que Raphael Montes construiu foi uma visão aguçada e ácida de sua terra natal.
Confesso que temos em “Jantar Secreto” um retrato assustador e verdadeiro do Brasil e do Rio de Janeiro contemporâneos. Há muito tempo não lia algo tão desconcertante e contundente sobre a nossa triste realidade social. Infelizmente, somos uma nação historicamente inculta, sádica e extrativista, capaz de, até hoje, se matar em busca de uns trocados e de instantes ínfimos de bel prazer. Os últimos livros da Literatura Brasileira Contemporânea que tinham mexido comigo, por revelar a alma corrosiva da nossa sociedade estúpida e sanguinolenta, foram “A Contrapartida” (Valentina) e “O Contra-ataque” (Valentina), os dois primeiros volumes da incrível pentalogia ficcional de Uranio Bonoldi. Na prateleira da Literatura Brasileira Clássica, a comparação é com o impagável “Viva o Povo Brasileiro” (Alfaguara), principal criação de João Ubaldo Ribeiro.

Quer exemplos concretos da força deste texto de Raphael Montes? A seguir, vão dois trechos mais contundentes de “Jantar Secreto”. O primeiro é uma conversa do narrador-protagonista com Victor Hugo, que apareceu no apartamento em Copacabana com a carne para o primeiro banquete do grupo:
“(...) Matei o cara sem querer! Olhei nos bolsos dele, mas não tinha carteira, documento, nada, nem um tostão. Era um morador de rua. Foi aí que eu tive a ideia...”
“De fatiar o sujeito que você atropelou!”
“Ele já estava morto e...” Hugo abriu um pequeno sorriso destoante de sua expressão de transtorno. “Um morador de rua é quase como um animal”
Eu não acreditava no que havia escutado:
“Quase como um animal?”
“Você entendeu... Não vem com lição de moral”, ele disse. “Um cara preto, pobre e mendigo é perfeito. Ninguém vai procurar! Toda comida tem um preço, Dante.” (Página 158).
A segunda passagem é o discurso de Umberto, o cara que queria montar uma empresa gastronômica a partir da inusitada experiência que teve na casa dos jovens paranaenses, no qual mostra o potencial de mercado e o pioneirismo da carne humana como iguaria culinária. Nessa cena, ele proseia com a personagem principal do romance:
“Ontem, depois daquele jantar, eu percebi: comer carne humana está acima disso tudo, Dante. É o poder dos poderes. Pensa comigo... A gente vive num mundo tão polarizado: brancos contra negros, evangélicos contra gays, direita contra esquerda... As redes sociais são um campo de guerra! Pra pessoas como eu não faz mais sentido ficar comendo boi, tartaruga e jacaré. A experiência eleva a exigência. Somos o topo do topo da cadeia alimentar, o leão da selva! E queremos nos sentir desse jeito! Superiores, sempre!”
(...)
“Pode me chamar do que quiser, mas escuta o que tô dizendo. Claro que vai ter gente contra, achando absurdo. No início, toda novidade é vista com maus olhos. Célula-tronco, robô, clonagem. É a luta dos conservadores contra o progresso. Mas a gente precisa ser bravo, investir no que acredita, Dante. Comer carne humana é o século XXII.”
(...)
“O Brasil já exporta muita coisa, Dante. Carnaval, futebol, caipirinha e mulata. Mulher gostosa, puta. Está na hora de exportar gastronomia. Tem gente de sobra no mundo. A China está toda fodida com a superpopulação. A África, a Índia... Já viu quanto mendigo tem por aí? E as favelas? Parecem formigueiros! Ainda tem essa cambada que vagabundeia e vive de subsídio do governo. Bolsa Família, cotas, nem sei mais o quê. Pega essa gente toda e fatia. Faz bife; Carpaccio. Pobre à milanesa. Vai revolucionar a cozinha no mundo. E vai dar uma esvaziada boa, uma limpada.” (Página 166 e 167).

Outra característica marcante de “Jantar Secreto” é a enxurrada de cenas violentas. Indiscutivelmente, esta é uma publicação para quem tem estômago forte. Aposto que as almas mais sensíveis vão se incomodar com o excesso de sangue e crueldade dessas páginas. É um tal de ver pessoas sendo mortas e picotadas a sangue frio. No meu caso, um leitor que adora filmes e livros de terror, admito que gostei bastante do tom pesadíssimo deste romance, ao melhor estilo da Literatura Brutalista. Vamos combinar que viver no Brasil e, principalmente, no Rio de Janeiro, independentemente da época, é estar dentro de uma Ficção Brutalista. Porém, o mais legal foi notar que Raphael Montes não teve medo de incomodar uma parcela do público com sua violência descomunal. A ideia era mesmo mexer com as emoções dos leitores. Parabéns aos escritores corajosos que sabem imprimir uma estética adequada para as suas histórias!
Por falar na qualidade técnica do romancista, percebe-se a habilidade de Montes para escolher o que encenar e o que sumarizar ao longo de todo “Jantar Secreto”. A decisão do que detalhar e do que resumir no enredo não é normalmente uma tarefa fácil. Só quem se arriscou a desenvolver narrativas ficcionais sabe disso. E o best-seller nacional se saiu muitíssimo bem neste desafio. Apesar de ser um livro extenso (maior do que a média da Literatura Comercial, que gira em torno de 200 páginas), nota-se que não há partes excessivas nem desnecessárias. A narrativa de “Jantar Secreto” está redonda, redondinha.
Também preciso elogiar a ótima construção das personagens. Raphael Montes sai do óbvio ao oferecer um colorido especial para as figuras retratadas, uma marca interessante de seu estilo literário. Os protagonistas do escritor carioca são geralmente criações redondas, com pontos positivos e negativos convivendo ao mesmo tempo. Não há, portanto, maniqueísmo explícito em “Jantar Secreto”, principalmente entre o quarteto de jovens vindos do Paraná (e da quinta integrante da trupe de Copacabana, papel desempenhado por Cora). Só os vilões (ou os pseudovilões) têm características planas e estereotipadas, o que era previsível.
E o que dizer da ambientação deste livro, hein?! Ela está espetacular. Não é errado apontar este como um dos elementos da narrativa ficcional mais marcantes do terceiro romance de Raphael Montes. Se “Jantar Secreto” inteiro está muito bem formulado, o clima pesado e atroz do Rio de Janeiro na década de 2010 está impecável, dialogando intimamente com o enredo. Com a forte crise econômica do segundo (des)governo de Dilma Rousseff, o pessimismo dominava a população de todos os extratos sociais. De maneira geral, surgia diariamente na imprensa um novo caso de corrupção em escala nacional e milhões de pessoas perdiam seus empregos. Na capital fluminense, a situação era até mesmo pior, com a ressaca de políticos que assaltaram os cofres públicos e deixaram a segurança pública arruinada.
Não por acaso, foi a partir daí que assistimos à ascensão de pensamentos e ideologias conservadoras no Brasil – ou, se preferir, da entrada em cena da extrema-direita nacional depois de muito e muito tempo hibernando. Mesmo antes de Jair Bolsonaro sair do submundo dos gabinetes de Brasília e se tornar conhecido nacionalmente na eleição de 2018, Umberto, uma das melhores personagens deste livro, já estampava características tipicamente bolsonaristas: racismo, desumanidade, autoritarismo, ode à violência policial, preconceito social, incoerência ética (não faz o que prega) e negação à realidade. É incrível ver como Montes antecipou um perfil que se tornaria, alguns anos depois, comum entre a elite econômica da Zona Sul carioca: o homem branco reacionário que se considera superior aos conterrâneos.

A ambientação do livro é tão sublime que temos até o embate entre religiosos e pagãos, uma marca acentuada do nosso país. No caso, essa briga não acontece no primeiro plano, no Rio de Janeiro, mas no segundo plano, em Pingo d’Água. Do ponto de vista da análise do subtexto, o conflito entre Adélia (cafetina) e Lygia (pastora evangélica) no interior do Paraná possui enorme representatividade simbólica. Impossível não adorar esta obra, senhoras e senhores.
Para não ficar tecendo elogios intermináveis a “Jantar Secreto”, só vou trazer mais um ponto positivo desta leitura: seu desfecho surpreendente. É claro que não vou dar o spoiler aos leitores da coluna Livros – Crítica Literária. Não fazemos isso em nenhuma coluna do blog, tá? Vocês podem ler nossas análises sem medo. Porém, posso adiantar que as últimas páginas do romance de Raphael Montes reservam uma reviravolta bastante interessante que dá ainda mais graça e dimensão dramática à história dos rapazes paranaenses no Rio de Janeiro. Adorei o desfecho, principalmente porque, admito, não consegui prever a totalidade das surpresas finais.
Por mais que “Jantar Secreto” seja um livrão, com grande chance de estar na minha lista de melhores leituras de 2026 (conteúdo da coluna Recomendações), ele tem, desculpem-me a sinceridade, alguns tropeços narrativos. Não são aspectos que atrapalhem de forma substancial a experiência de leitura, mas ainda assim chamam a atenção de quem curte literatura ficcional de alto nível, como é o nosso caso aqui no Bonas Histórias.
A principal falha de Raphael Montes neste romance é que a origem das personagens centrais não soa convincente. Dante, Miguel, Victor Hugo e Leitão não se parecem nem um pouco com jovens do interior do Paraná. Suas famílias também não. Afinal, não há nada em suas características, hábitos e falas que indique tal procedência. A impressão que temos é que eles são cariocas da Zona Sul e não paranaenses da divisa com o Paraguai. Em outras palavras, o que a história indica não é o que verificamos no texto prático.
Confesso que este ponto me incomodou bastante. Por ter morado em vários lugares do país e convivido com pessoas de todos os cantos do Brasil (inclusive, morei em pequenas cidades do Sul e tenho vários amigos dessa parte da nação até hoje), noto perfis regionais bem distintos entre os brasileiros. E garanto que o quarteto de amigos de “Jantar Secreto”, conforme construído por Montes, não é, na verdade, do Paraná.
Por exemplo, alguém vindo dos rincões do nosso país não seria tão liberal quanto à sua sexualidade como um(a) morador(a) dos grandes centros urbanos. Vale a pena dizer que Dante é gay e está supertranquilo em relação a isso. A sua família e amigos também não se incomodam nem um pouco com a opção sexual dele. Será mesmo que a homossexualidade é algo tranquilo em ambientes conservadores e extremamente machistas do interior brasileiro?! Claro que não. Tenho conhecidos dessas regiões de barba branca que até hoje não saíram do armário para a família. Paralelamente, vejo os jovens se assumindo tranquilamente na atmosfera liberal e progressista das metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo.

Além disso, as personagens principais de “Jantar Secreto” não têm nenhum traço tipicamente sulino, como características físicas, gírias, hábitos de alimentação e gostos pessoais. Nada! Infelizmente, não há um único elemento que indique suas origens. Para um romance tão bem construído, esse ponto me pareceu equivocado. É aquele velho problema de o autor decidir dar um contexto geográfico para suas personagens e não se preocupar em trazer componentes culturais da região escolhida às figuras criadas. Por isso, reafirmo quantas vezes for preciso: Dante, Miguel, Victor Hugo e Leitão não são pessoas tipicamente do interior do Paraná e sim das capitais fluminense e paulista.
Alguns diálogos do romance também são forçados e, por isso mesmo, pouco reais. Por exemplo, a cena da mãe de Dante falando com o filho pelo telefone sobre os boatos de problemas financeiros dos rapazes não é compatível com uma matriarca que se mostra presente, atenta e até invasiva na rotina do filho. Como assim ela não sabia que ele ainda estava trabalhando na livraria do Leblon após a formatura?! E quanto formalismo na interação telefônica de mãe e filho, hein? Na minha visão, essa é uma das conversas do livro que não colaram. Ou seja, faltou verossimilhança em algumas falas pontuais, o que atrapalhou a qualidade geral do discurso. Mesmo assim, é bom dizer que esse foi um tropeço pontual. Na média, os diálogos são satisfatórios, ainda que ache bastante artificial (e americanizado) o uso das aspas e não do travessão em romances nacionais.
Ainda no quesito verossimilhança, achei algumas passagens temporais de “Jantar Secreto” no mínimo questionáveis. Será mesmo que, no Brasil real, um julgamento criminal ocorreria em poucas semanas, como assistimos nos capítulos finais? Acho muuuuuito difícil. Conhecemos casos emblemáticos que não tem uma sentença final do juiz depois de cinco, oito, dez anos. É esse o nosso país, senhoras e senhores. Por isso, o intervalo tão breve entre julgamento e decisão definitiva do Judiciário deu a impressão de ser irreal.
Como disse, esses são aspectos pontuais e menores de uma narrativa tão bem desenvolvida. Mesmo sendo detalhe do detalhe, achei válido comentá-los com vocês. Sinto que, dessa maneira, não passo a impressão de ter produzido uma análise literária chapa branca de “Jantar Secreto” para a coluna Livros – Crítica Literária. Até porque até mesmo as grandes obras têm elementos elogiáveis e elementos questionáveis, não é? O que não dá para questionarmos é a excelência absurda da literatura de Raphael Montes. Só um maluco não apontaria seu terceiro romance como um dos principais títulos ficcionais do século XXI da Literatura Brasileira.
Como deu para perceber, aos poucos vou lendo e comentando com vocês o portfólio inteiro de Montes. Na minha lista de próximas leituras deste autor, já coloquei “Uma Mulher no Escuro”, seu quinto romance, e “Uma Família Feliz”, sua sexta narrativa ficcional longa. Ou será que vale a pena conhecer antes “Dias Perfeitos”, o segundo romance de Montes, para respeitar minimamente a evolução histórica de suas publicações, hein? Ai, ai, ai. Juro que não sei. Tenho certeza de que essa decisão tomarei numa próxima visita à livraria, quando avistar o título desejado me chamando em cima da bancada da loja.

Por hoje é só, pessoal. Desejo um bom restante de Carnaval e muita literatura de qualidade para todos, inclusive neste período de festejos. Enquanto uns aproveitam para pular atrás dos bloquinhos nas ruas brasileiras, outros preferem o silêncio residencial para praticar boas leituras. O importante é ser feliz com que nos faz feliz, né?
Até a próxima!
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