• Ricardo Bonacorci

Livros: A Contrapartida - O romance de estreia de Uranio Bonoldi

Publicado em março de 2019, o thriller aterrorizante de Bonoldi apresentou boa vendagem no Brasil e foi traduzido para o inglês e o espanhol.

A Contrapartida é o romance de Uranio Bonoldi

No começo desse mês, fui presenteado com “A Contrapartida” (Valentina), romance de estreia de Uranio Bonoldi. O livro foi enviado por um dos meus melhores amigos, Eduardo Villela. Valeu, Dudu!!! Eduardo é atualmente um dos principais book advisors do país (não sou eu quem diz isso, mas o mercado editorial) e queria que eu conhecesse o trabalho ficcional de Bonoldi, uma das novas revelações da literatura brasileira no gênero do suspense/terror. Se eu não estiver enganado, Eduardo Villela foi o book advisor de Uranio Bonoldi nesse projeto editorial. Por isso, o carinho do meu amigo de infância para com a obra, além da gentileza de ter comprado esse título e me presenteado.


Como não consigo resistir a um thriller, ainda mais de um escritor que eu não conhecia, li “A Contrapartida” no último final de semana. E confesso que gostei muito da trama protagonizada por Octávio Albuquerque Júnior, um jovem cirurgião paulistano abalado por segredos e tragédias familiares. Esse livro mistura doses generosas de ação, mistério, romance policial, crítica social, fantasia e drama psicológico. Tudo isso com fortes elementos de brasilidade e com uma narrativa que flerta o tempo inteiro com a dinâmica dos roteiros cinematográficos (cineastas do meu Brasil, olho nesse romance!!!). Gostei tanto dessa obra que resolvi fazer essa análise para a coluna Livros – Crítica Literária. Como é gostoso apresentar aos leitores do Bonas Histórias as boas novidades da literatura ficcional contemporânea do nosso país!


Publicado em março de 2019, “A Contrapartida” tem apresentado bom desempenho nas livrarias, algo de certa forma raro para um autor iniciante. Por meses, o título ficcional de Uranio Bonoldi ficou entre os mais vendidos no Brasil em sua categoria, rivalizando com obras de escritores de língua inglesa, que acabam dominando esse gênero. Ou seja, “A Contrapartida” não é apenas um romance de qualidade indiscutível como também conseguiu (o que muitas vezes é a parte mais difícil quando falamos de mercado editorial brasileiro) se conectar com o público leitor. Ponto para Bonoldi. E ponto para Valentina, a editora carioca de aproximadamente uma década e meia que apostou acertadamente nesse romance.

Uranio Bonoldi, autor de A Contrapartida

Para quem não a conhece, a Editora Valentina é especializada em obras de ficção (distopia, thriller, urban fantasy, romance infantojuvenil, romance feminino e chick-lit) e de não ficção (bem-estar, cultura popular, pet, religiosidade, biografia e steampunk). Sua linha editorial é voltada para o entretenimento do público jovem, grupo chamado atualmente de jovens adultos (obviamente, por motivos mercadológicos), mas que há um tempinho era simplesmente chamado de público infantojuvenil. Do portfólio da editora, destaco a coleção “Para Quem Tem Pressa”. Li “A História do Cinema Para Quem Tem Pressa” (Valentina), de Celso Sabadin, e “A História do Mundo Para Quem Tem Pressa” (Valentina), de Emma Marriott, e os achei excelentes.


Voltando a falar de “A Contrapartida”, em 2021, o romance foi lançado em ebook na Loja Kindle nas versões em inglês e em espanhol, o que reforça a aposta da editora e do autor por esse título. Para os próximos meses, há a possibilidade de o livro ser adaptado para o formato de audiobook, o que deverá aumentar ainda mais seu público. Por enquanto, ainda não existe planos para adaptar essa história para o cinema ou para a televisão, apesar do interesse indiscutível de Bonoldi por caminhar nesse sentido.


Uranio Bonoldi trabalhou como executivo em grandes empresas nacionais e multinacionais e como professor universitário. Hoje, ele atua como consultor empresarial, palestrante de negócios e coach de empresários, além de ser escritor e possuir um canal no Youtube chamado Influência e Poder. Vivendo na cidade de São Paulo ao lado da esposa e com dois filhos, o autor é fã declarado da literatura de Stephen King (estamos juntos nessa!!!) e da filosofia de James Hollis (não faço a mínima ideia de quem seja!). “A Contrapartida” é seu primeiro romance e nasceu da vontade de Uranio em tratar da questão da tomada de decisão, assunto por ele trabalhado rotineiramente em suas consultorias, palestras e sessões de coaching. Contudo, ao invés de escrever um livro técnico, algo mais teórico, ele optou por romancear a trajetória de vida de uma personagem fictícia que acaba optando por um caminho mais fácil, rápido e polêmico, mas que cobrará mais à frente uma fatura amarga (daí o título da obra).


Por essa forte intertextualidade com a questão da tomada de decisão e com o debate sobre como agir dentro da ética no trabalho, na sociedade e nas relações pessoais, “A Contrapartida” flerta o tempo inteiro com os títulos de autoajuda, as obras empresariais e até com a necessidade de transmitir lições de moral ao público leitor. Não à toa, seu subtítulo é: “Um thriller sobre o poder de uma decisão. Qual seria a sua?”.

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

Esse foi justamente um dos pontos que não gostei no livro de Bonoldi. Ou você embarca de cabeça no universo da ficção, independentemente do significado por trás da trama, ou você utiliza a narrativa do romance para apresentar, na própria obra, os detalhes dos conceitos empresariais utilizados – como Roberto Tranjan, por exemplo, sempre fez em seus títulos que mesclam ficção e teoria. Ficar em cima do muro é o que me soa incômodo. Porém, compreendo a escolha do autor. Na certa, Uranio quis atender a dois públicos distintos: quem se interessa por uma boa literatura de entretenimento (o meu caso) e quem procura extrair conceitos empresariais e lições de vida das leituras efetuadas (seus clientes originais). Apesar da minha resistência em relação a essa estratégia, o sucesso comercial do livro indica por si só que as escolhas editoriais foram certeiras.


“A Contrapartida” começou a ser escrito em meados de 2016 e levou aproximadamente um ano até ter sua base narrativa concluída. Uranio Bonoldi utilizou suas noites e os finais de semana para produzir os capítulos do romance. Uma vez terminado o texto inicial, o autor precisou de mais dois anos para melhorar a trama, fazer as correções técnicas (algo natural em se tratando do fazer literário) e conseguir uma editora para publicar a obra. O grande esforço e a longa espera parecem ter valido a pena.


A receptividade do público tem sido tão positiva em relação à narrativa de “A Contrapartida” que Bonoldi resolveu produzir a continuação dessa história. “A Contrapartida II” será lançado até dezembro de 2021 e dará sequência à trama sinistra de Tavinho, apelido do Doutor Octávio Albuquerque Júnior. Pelo menos é o que o autor promete. Em entrevistas recentes, Uranio Bonoldi garantiu que irá esclarecer, no novo título, alguns pontos que ele deixou propositadamente em aberto no primeiro romance.


Sinceramente, não me recordo de um romancista nacional e iniciante que tenha conseguido transformar seu livro de estreia em uma série literária de sucesso. Só por isso, Uranio merece nossos aplausos e nosso reconhecimento. Além disso, é muito legal conferir que o executivo embarcou de cabeça na produção ficcional. Seria Uranio Bonoldi um novo Flavio Cafiero, autor de “O Frio Aqui Fora” (Cosac Naify), no sentido de migrar do universo corporativo para o mundo da literatura?! Torçamos para que sim, apesar de duvidar que Bonoldi abandone inteiramente o dia a dia da vida empresarial como Cafiero fez. Se o escritor de “A Contrapartida” conseguir se dedicar mais tempo aos seus próximos romances (repare que usei as últimas palavras no plural!) e não precisar se limitar às noites e aos finais de semana para produzir seus textos, acho que a literatura brasileira e os fãs do gênero de mistério/terror já ficarão muito agradecidos.

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

O enredo de “A Contrapartida” começa no Outono de 2016. Na região do Parque do Carmo, na cidade de São Paulo, em plena madrugada chuvosa e em meio à mata fechada, Octávio Albuquerque Júnior está em volto a dois cadáveres. Tavinho, como o rapaz de 26 anos é chamado por amigos e familiares, se tornou um dos mais badalados cirurgiões paulistanos apesar da pouca idade. Contudo, nesse momento, ele está desesperado com o que fez. Aquelas mortes parecem brutais. Os corpos estão dilacerados, com cortes no tórax e na cabeça. Com medo de ser pego em flagrante, Doutor Octávio recolhe a caixa metálica que possui algo sinistro e a coloca no interior de sua picape azul-marinho. Seu descontrole emocional é tão grande que ele tem a impressão de estar sendo seguido ou observado no meio da mata.


Uma vez no veículo, o protagonista parte em disparada para a casa de Iaúna, no bairro de Santa Cecília. No meio do caminho, aproveita para se livrar das provas que poderiam comprometê-lo à cena do crime. Ao chegar ao destino, o médico retira o conteúdo da caixa e o acondiciona adequadamente em uma ala secreta da residência. Exausto, mas aliviado por ter cumprido sua missão naquela madrugada, Octávio ruma, enfim, para sua cobertura na Alameda Santos. Tudo o que ele quer é descansar e esquecer das últimas horas, muito provavelmente as mais angustiantes de sua vida.


Nos capítulos seguintes, a trama do livro regride 12 anos. Na Primavera de 2004, Tavinho é um estudante da 8ª série do ensino fundamental. O garoto é filho único de Cristina Costa Albuquerque, executiva de um banco multinacional europeu, e Octávio Albuquerque, professor de História e Sociologia em importantes escolas privadas e faculdades da cidade de São Paulo. Contudo, o pai de Tavinho faleceu quando o menino tinha apenas 4 anos de idade. Ele foi vítima de um latrocínio no meio do trânsito paulistano. Após ser assaltado, e mesmo não reagindo ao crime, o Professor Octávio recebeu um tiro do ladrão. Assim, desde pequeno, Tavinho foi criado pela mãe e por Iaúna, uma senhora indígena que trabalha como governante na residência dos Costa Albuquerque desde que veio do Amazonas.


Aos 13 anos, o drama de Tavinho é ir mal na escola. Apesar de se esforçar bastante, de estudar incansavelmente e de contar com o auxílio de professores particulares, o menino não consegue tirar boas notas. No último ano, por exemplo, ele só passou por intervenção do diretor, que era muito amigo do pai do garoto. Agora, o Professor Firmino, que além de diretor é professor de História, diz que não poderá facilitar a vida de Tavinho. Ou o filho de Cristina melhora ou repetirá de ano. Se as coisas não estavam fáceis para o jovem estudante, elas pioram quando ele passa ridículo em uma chamada oral do Professor Firmino. Os erros de Tavinho são tão bisonhos que ele se torna alvo do bullying dos colegas, que não perdoam suas respostas estúpidas nas aulas.

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

Abalado com o fracasso escolar, Octávio Júnior confessa, certo dia, suas preocupações para Iaúna. A indígena, que é maluca pelo garoto desde que ele nasceu, não se aguenta e o encaminha, em segredo, para um ritual mágico e tradicional dos Moxiruna, sua tribo natal. Nesse ritual, Iaúna faz Tavinho beber um elixir, uma infusão cujo líquido meio gelatinoso desperta a inteligência e o vigor físico de quem o ingere. Já nos dias seguintes, Tavinho comprova os efeitos milagrosos do elixir. Para sua felicidade, ele se torna o aluno número 1 do colégio, sendo admirado pelos professores e pelos colegas.


Nunca o menino foi tão feliz como nas semanas seguintes à participação no ritual dos Moxiruna. Mais autoconfiante, ele consegue até namorar Martha Moss, a garota mais bonita do colégio. Com a inteligência aflorada, o protagonista já começa a traçar planos para o futuro: ele quer ser médico e salvar muitas vidas; quer se casar com Martha e ter muitos filhos; e quer dar orgulho para Cristina e para Iaúna, que é uma espécie de segunda mãe dele.


Porém, a vida idílica de Tavinho só tem um (ou dois) probleminha(s). O efeito do elixir tem uma duração limitada, entre três e quatro meses. Depois disso, a inteligência e o vigor físico do garoto voltam ao normal, o que o levam ao desespero. Para resolver isso, basta fazer uma nova sessão xamânica. A questão é que Tavinho fica sabendo que os principais ingredientes da infusão são coração e cérebro humanos, que precisam ser extraídos poucas horas antes do ritual. Ou seja, a cada sessão xamânica, Iaúna precisa praticar ao menos um assassinato. Tendo ciência disso, seria ético da parte de Octávio Albuquerque Júnior seguir com aquelas práticas?! As mortes de inocentes justificariam seus êxitos escolares e profissionais advindos da melhora cognitiva?! Esses são os novos conflitos da personagem principal do romance.


“A Contrapartida” possui 336 páginas e 57 capítulos. Seu conteúdo está dividido em quatro partes: “Como Tudo Começou”, “Marcas que Ficam”, “Sem Volta” e “A Busca, o Vazio”. Nota-se o cuidado que o autor teve para deixar o romance extremamente simétrico. As seções principais do livro têm mais ou menos o mesmo número de páginas (entre 69 e 99) e de capítulos (entre 13 e 15). Por isso, a divisão das partes me pareceu respeitar muito mais o equilíbrio estético do que acompanhar o enredo da obra. Além do conteúdo central do romance, temos nessa publicação o prefácio de Luciano Milici, autor de “Diário de Um Exorcista” (Generale), orelha escrita pelo cineasta Lion Andreassa e referenciais na quarta capa de Amyr Klink (presente também na cinta de divulgação do livro) e Babi Dewet, autora das séries “Sábado à Noite” (Generale) e “Cidade da Música” (Gutenberg).

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

Como a trama de “A Contrapartida” é bem-amarrada, tem linguagem acessível e não faltam mistérios para serem descobertos pelo leitor, sua leitura é rápida e muito agradável. Levei aproximadamente oito horas e meia para ir da primeira à última página do romance nesse sábado. Para quem não é chegadinho às longas sessões de leitura, acredito que esse livro possa ser degustado tranquilamente em dois ou três dias/noites. Isso é, se você conseguir aguentar a espera. Não deve ser fácil ter que adiar a descoberta dos segredos da narrativa de Tavinho. Como sou dos mais curiosos quando o assunto é ficção, li o livro de Uranio Bonoldi em um dia só.


O primeiro elemento que me chamou a atenção em “A Contrapartida” foi seu projeto gráfico. Ele é cuidadoso e instigante. Destaque para a capa desenvolvida por Raul Fernandes. Ela possui uma pegada visceral e dramática. O pulso sangrando da foto emula um coração extirpado, o que dialoga intimamente com o enredo do romance. Para quem gosta de um bom thriller de terror é impossível ver essa imagem na estante da livraria e não ficar interessado em ler o livro. Ainda no quesito aspecto visual, repare que o título da obra aparece cortado na capa – está grafado “Contra-partida”. Dividir o nome da publicação na capa não é um recurso comum no mercado editorial, mas caiu muito bem aqui. Afinal, se o romance aceita despedaçar o seu nome logo de cara, o que não teremos de violência, agressão, mutilação e assassinato ao longo dos capítulos, hein?


Outra questão que merece muitos elogios é o primeiro capítulo de “A Contrapartida”. Ele é simplesmente genial. Arrisco a dizer que se o livro inteiro tivesse essa qualidade (infelizmente, não tem), ele seria digno de premiação. Uranio Bonoldi se esmerou em construir um texto convidativo, instigante e com ótimos recursos narrativos. Destaco a maravilhosa ambientação (ao melhor estilo noir), o uso do narrador quase como uma câmera cinematográfica (a impressão é que estamos assistindo a cenas de um filme hollywoodiano), a multiplicação das sensações do protagonista (texto bastante sinestésico) e as várias peças de suspense deixadas propositadamente no meio do caminho (gatilho fundamental dos thrillers). A pergunta que fica na cabeça dos leitores é: Meu Deus, o que está acontecendo?! Esse é o típico livro que se você ler o primeiro capítulo não irá querer interromper a leitura por nada.

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

Desde o começo do romance, nota-se a forte brasilidade de sua trama. Esse é um dos aspectos mais legais de “A Contrapartida”. Bonoldi usa e abusa da realidade e do contexto social do seu país para ancorar a narrativa ficcional. Esse recurso poderia até parecer uma opção óbvia por parte de um autor brasileiro, mas não é. Não faltam romancistas nacionais que tentam imitar as ambientações, as personagens, os cenários e as dinâmicas sociais construídas pelos títulos estrangeiros. Ainda bem, não é o caso aqui. Em “A Contrapartida”, temos a exploração de vários subtemas que são a cara do nosso país. De cabeça, posso citar: a ação criminosa dos garimpeiros na Amazônia; o preconceito ao indígena e à sua integração social; a violência urbana; a degradação das grandes cidades brasileiras (no caso, São Paulo); a violência policial; a incompetência e a inoperância da investigação de crimes; as injustiças praticadas pelos tribunais legais; a cultura do fazer justiça com as próprias mãos; o bullying escolar; o desinvestimento em pesquisa; a sabotagem à saúde pública; o interesse individual ou empresarial se sobrepondo às necessidades coletivas; a gritante desigualdade econômico-social; etc. É ou não é a cara do nosso Brasil varonil, hein?!


Como consequência a essa overdose de brasilidade, temos também um texto muito engajado. O narrador – em terceira pessoa e (quase totalmente) onisciente e onipresente – não se furta em dar sua opinião sobre as atitudes das personagens e as consequências das mazelas nacionais. Normalmente, eu não gosto dessa imposição do narrador em relação ao contexto da narrativa e à sucessão dos fatos transcorridos na trama. Acredito que o leitor é quem deva tirar suas próprias conclusões, não precisando receber nada muito mastigado. Entretanto, admito que em “A Contrapartida” esse engajamento do texto combinou com a proposta do livro e, principalmente, com a dinâmica do enredo.


O suspense da narrativa é construído essencialmente pelo uso constante do flashback. A trama é apresentada em um ponto temporal avançado (In Media Res), o que causa naturalmente inquietação, dúvida e curiosidade no leitor. Na sequência, o romance volta no tempo para contextualizar aquela cena futura e torná-la compreensível (o que se dá apenas nos capítulos finais). Contudo, Uranio Bonoldi vai além e aproveita esse regresso temporal para reconstruir a história não apenas do protagonista, mas também de outras personagens importantes do romance. Assim, temos uma sucessão quase que interminável de flashbacks. Através desse recurso, acompanhamos atentamente o passado de Iaúna desde a adolescência; as escolhas de Cristina Costa durante o período da faculdade; e o dia a dia do Professor Octávio Albuquerque, o pai de Tavinho, logo após conhecer Cristina.


Portanto, “A Contrapartida” é uma narrativa que é apresentada em diferentes estágios de tempo. Tudo depende do capítulo – podemos estar em 2016, 2004, 1995 etc. O mais legal é que o livro não segue a ordem cronológica dos fatos. Em outras palavras, cabe ao leitor situar os acontecimentos. O narrador se desloca para perto das várias personagens capítulo a capítulo. Esse recurso me lembrou muito os romances de Isabel Allende e de Noah Gordon, mestres em caminhar para frente e para trás em suas histórias e em desgrudar livremente dos protagonistas ao seu bel prazer.

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

É verdade que as duas premissas do enredo de “A Contrapartida” (1 - protagonista se vale de subterfúgios fantasiosos e eticamente questionáveis para se tornar superdotado; e 2 - personagem faz justiça com as próprias mãos) não são tão originais assim. Há vários livros e filmes com essas mesmas propostas. No primeiro caso (poderes especiais obtidos de maneira sorrateira), posso citar “Sem Limites” (Limitless: 2011), longa-metragem baseado no romance “The Dark Fields” (sem edição em português) de Alan Glynn, “A Maldição” (Thinner: 1996), filme desenvolvido a partir do romance “A Maldição do Cigano” (Suma das Letras) de Stephen King, e o clássico “O Homem Invisível” (L&PM Pocket), obra de H. G. Wells que vira e mexe ganha uma nova versão cinematográfica (a última foi o excelente longa de Leigh Whannell). Quando a questão é fazer justiça por conta própria (segundo caso), a lista é maior ainda e passa por “O Doutrinador” (2018), HQ de Luciano Cunha que foi parar no cinema recentemente, “A Peste das Batatas” (Pomelo), romance de estreia de Paulo Sousa, “1Q84” (Alfaguara), série literária de Haruki Murakami, e tantos outros títulos.


Seria, então, a falta de criatividade um demérito de “A Contrapartida”? Acho que não. O valor dessa obra está na maneira perspicaz com que Uranio Bonoldi conseguiu apresentar a trama. Por exemplo, ao longo do romance, o conflito sofre alterações sutis (um expediente nem sempre fácil de se obter) e ganha novas tonalidades. No começo da obra, a pergunta que o leitor se faz é: o que está acontecendo no primeiro capítulo? Algumas dezenas de páginas depois, já é possível compreender mais ou menos o que se passou no bosque do Parque do Carmo. A nova dúvida que surge é: será que Tavinho continuará com os rituais indígenas propostos por Iaúna?! Outra vez, essa pergunta é respondida em alguns capítulos. Aí temos uma nova interrogação: o que esse estilo de vida trará de consequência para o protagonista? Mais à frente, outras questões serão formuladas. Só não as exponho porque corro o risco de soltar o spoiler. O fato admirável é que, de alguma forma, o conflito vai se transformando, o que alimenta sistematicamente o suspense do livro e renova o interesse dos leitores pela trama.


Por falar em spoiler (fique calmo, eu não o exponho!), o desfecho de “A Contrapartida” é sensacional. Mesmo o leitor mais experiente que consiga sacar uma ou outra coisa do desenlace, ainda sim ficará surpreendido com as páginas finais desse romance. Na verdade, temos aqui um livro que traz reviravoltas até o último parágrafo, a última linha, a última palavra. Incrível!!!


Realmente, “A Contrapartida” é uma bela narrativa de suspense e de terror. Essa obra possui muito mais méritos do que defeitos, algo raro para um autor iniciante. Mesmo assim, é inegável que haja alguns probleminhas de ordem narrativa que precisam ser abordados nesse post do Bonas Histórias, por mais que o Eduardo e o Uranio possam ficar chateados comigo.

Livro A Contrapartida de Uranio Bonoldi

A primeira falha desse livro está em algumas passagens inverossímeis. Para ser exato em meu comentário, achei várias cenas, diálogos, situações, personagens e contextualizações que são difíceis de engolir. Vejamos agora algumas dessas passagens. Será que um estudante inseguro e acuado irá questionar as palavras do professor como Tavinho fez em plena chamada oral? Duvido. E é normal uma estudante de Administração de Empresas de uma faculdade de classe média alta de São Paulo fazer estágio em um assentamento indígena em plena Floresta Amazônica? Não. E é crível um aluno vítima de bullying escolar voltar para a casa e contar imediatamente seu drama para a família e para os funcionários domésticos? Também não.


Infelizmente, são várias as cenas desse título que atinam contra a lógica: professor convida o estudante que está prestes a repetir de ano para participar de uma gincana intercolegial após algumas respostas acertadas em UMA aula APENAS; policiais contam para uma senhorinha simpática e solícita os segredos da delegacia em troca de alguns quitutes; uma jovem de classe média dá a casa em que seus pais moraram para a empregada doméstica que trabalhou alguns anos na família; e os alunos respondem para o professor em coro: “Sim, mestre”. Confesso que tive dificuldade para acreditar nessas construções ficcionais (não é porque uma história é ficcional que podemos abolir a lógica da realidade).


Em função do número de passagens inverossímeis, acabamos nos perguntando: pode isso, Arnaldo?! Quer mais exemplos de possíveis contradições? Então, toma aí. A narrativa diz que o aluno estava no nono ano do ensino fundamental em 2004. Como isso é possível se o nono ano só foi decretado em 2006, hein? Pode-se dizer que havia a Cracolândia em São Paulo em meados da década de 1990? E há temporada de esqui na Nova Zelândia na virada do ano, período de pleno Verão (os países da Oceania estão no hemisfério sul)? Sinceramente, não sei as respostas corretas para essas questões.


Ainda nessa linha da inverossimilhança, muitos diálogos parecem artificiais, desnecessários e até mesmo repetitivos. Nota-se a falta de experiência do autor para iniciar a cena no ponto exato (momento mais relevante da trama) e de trocar o discurso direto (muitas vezes arrastado quando já sabemos o que será dito) pelo indireto ou pelo indireto livre (mais sintéticos) em várias passagens. Uranio Bonoldi tem o vício de descrever a cena e de reproduzir as conversas desde o instante em que as personagens surgem no cenário. Muitas vezes, o ideal seria simplesmente cortar para o momento chave, reproduzindo apenas aquilo que é importante para a história. É o famoso erro que chamo “de levar as personagens para o banheiro”. Não é preciso recriar a rotina detalhada de alguém para entendermos o que está acontecendo em sua vida (sabemos que todo mundo come, bebe e dorme, não precisando apresentar em um romance a rotina detalhada do indivíduo).

Uranio Bonoldi, autor de A Contrapartida

Por falar em personagens, temos em “A Contrapartida” uma enxurrada de figuras caricatas. Essa característica acaba prejudicando a qualidade da história, que é naturalmente muito boa. Quando temos exclusivamente personagens planas, sejam elas boazinhas demais ou mazinhas demais, acabamos caindo na vala comum do maniqueísmo. Até mesmo o herói (com elementos de anti-herói, é verdade) e os vilões (no plural porque são mais do que um ao longo da trama) acabam tendo características que os aproximam mais das personagens planas do que das redondas. A construção de figuras um pouco mais contraditórias (contraditórias realmente, não apenas na aparência) faria bem para o romance. Além disso, não acho que o enredo do livro precise explicitar os gatilhos que levam as contradições das personagens. O ser humano é contraditório por natureza. Portanto, o escritor não precisa dar desculpas para essas inconsistências.


O principal problema de “A Contrapartida” está mesmo no foco narrativo. Logo de cara, é estranho um romance contemporâneo de suspense ter um narrador em terceira pessoa onisciente e onipresente. Afinal, se ele está em todos os lugares e sabe de toda a história, como construir o mistério? Aí alguém pode responder: isso é possível sim, basta o narrador ficar colado exclusivamente ao protagonista. Sim, essa definição está perfeita. A questão que me intrigou é que em “A Contrapartida” o narrador tem acesso aos pensamentos, às ações, aos sentimentos e ao passado de várias personagens simultaneamente. Ou seja, ele não fica colado ao Tavinho. Se o narrador sabe de tudo e está presente em todos os lugares, qual a razão da omissão de algumas partes essenciais do enredo?! Sinceramente, não entendi. Como narrativa literária, esse livro ganharia em força e em qualidade com uma escolha mais adequada do tipo e do alcance do narrador. Até porque o uso de flashback foi muito bem-feito e conseguiu potencializar os mistérios.


Como já falei, mesmo com um tropeçãozinho aqui e outro acolá, “A Contrapartida” é uma ótima leitura. Vamos torcer para que o próximo volume dessa série venha ainda melhor. Essa história é muito boa e merece uma continuação. Prometo que quando “A Contrapartida II” for publicado, retornarei à coluna Livros – Crítica Literária para comentá-lo com a devida atenção. Aguardemos!


Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Mandarina é a livraria diferenciada que está localizada em Pinheiros, na cidade de São Paulo
A Epifania Comunicação Integrada é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Psicorama é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento