Gastronomia: BesAres Parrilla Urbana – O meu restaurante de carnes favorito em Buenos Aires
- Ricardo Bonacorci

- 25 de ago.
- 18 min de leitura
Fundada em 2009 e com três unidades na mesma rua do bairro de Núñez, esta parrilla de ambientação contemporânea apresenta pratos com porções generosas, carnes de ótima qualidade e serviço eficiente.

Vamos falar de carne argentina, senhoras e senhores. Para ser mais exato em minhas palavras iniciais deste novo post da coluna Gastronomia, nosso assunto de hoje é a boa e velha parrilla. Ou, numa tradução direta do espanhol portenho para o português brasileiro, debateremos as delícias do melhor churrasco do mundo (desculpem-me os uruguaios por minhas preferências pela culinária do outro lado do Rio da Prata) e os encantos das imperdíveis churrascarias de Buenos Aires (a meca global para os carnívoros de todos os credos, etnias e idiomas). Afinal, não dá para morar ou visitar a metrópole argentina e ignorar os suculentos assados locais, né? Te pido, por favor, un bife de chorizo con papas fritas.
O caso é tão sério, mas tão sério que conheço duas brasileiras pretensamente vegetarianas que só mudam as restrições alimentares en tierras hermanas. Pode parecer uma anedota da minha parte? Pode. Porém, garanto sem ruborizar que esse relato é a mais pura verdade – na minha infância cada vez mais distante, eu usaria o termo “verdade verdadeira”. Beijo, Marcelinha. Beijo, Carlota. Na Argentina, acredite se quiser, até os turistas que não comem carne habitualmente em seus países acabam entrando na onda carnívora e provando ojo de bife, bife de lomo, vacio, bife de chorizo, asado del centro, colita de cuadril, picaña, bondiola, matambre, pamplona de cerdo, pamplona de pollo, chorizo e salchicha parrillera. Hummmmm. Não dá para dizer que não se trata de uma sábia decisão. Os muito vegetarianos que me perdoem, mas churrasco é fundamental.
Sei que tenho explorado bastante, nos últimos meses, as temáticas da culinária argentina e dos melhores restaurantes de Buenos Aires. Às vezes, acho que o Bonas Histórias está se transformando num blog de alimentação sul-americana e de refeições latino-americanas. E eu, ao invés de crítico literário e cultural, áreas em que conheço e navego com alguma propriedade, estou virando uma espécie de crítico gastronômico de parcos recursos e de paladar limitado. Tá bom, tá bom. Talvez tenha exagerado quanto ao alcance desse assunto no site. Contudo, é como me sinto às vezes.
Na coluna Gastronomia, por exemplo, apresentei os detalhes da Pizzería Güerrín, minha casa de pizza favorita en la ciudad de la furia. Também trouxe um roteiro completo dos tipos de redondas e das melhores pizzarias da capital argentina. E imaginar que os paulistanos acreditam ter a melhor pizza do mundo, Santo Deus!? Na coluna Contos & Crônicas, fiz um post exclusivo sobre a gastronomia da Argentina na série narrativa “Tempos Portenhos”. O título dessa publicação é “Sentando-se à Mesa com os Argentinos”. Sou suspeito para falar, mas acho esse episódio da coletânea não ficcional sobre viver em Buenos Aires uma delícia.

Até na coluna Passeios, seção por vezes renegada do blog, tivemos um texto enfocando as extravagâncias dos turistas brasileiros nos campos das carnes e dos vinhos em CABA – Ciudad Autónoma de Buenos Aires. O autor desse post, nomeado de “Experiências Etílico-gastronômicas na Capital Argentina”, foi Paulo Sousa, colunista de Miliádios Literários e autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), da coletânea de haicais “Acinte 2020” (Pomelo) e da coletânea de contos “Histórias de Macambúzios”. Além de divertidíssimo, o relato de Paulinho (Pablito, El Caníbal, su apodo en tierras porteñas) descortina os excessos comuns de meus conterrâneos às mesas dos restaurantes de BsAs (ou Baires, chame a maior cidade argentina pelo apelido que quiser). Impossível não nos identificarmos com tais prazeres.
Apesar de tanto conteúdo, é bom avisar que, até agora, não divulguei para os leitores deste blog perdido nos recôncavos da internet qual é a minha parrilla favorita na cidade em que vivo há dois anos. Pelo menos não me lembro de ter feito isso até agora. Só notei esse pequeno lapso da minha parte recentemente. Por isso, a ideia de divulgar o quanto antes o meu lugar preferido para provar as carnes em Mi Buenos Aires Querido. E sem mais rodeios, já faço a revelação que pode interessar a algum(a) carnívoro(a) perdido(a) por essas páginas: quando quero me empanturrar de asado (em espanhol, a grafia é com um “s” apenas) de excelente qualidade, vou ao BesAres Parrilla Urbana. Só de digitar esse nome, começo a salivar. Ai, ai, ai. Vai ser difícil seguir com esse texto, senhoras e senhores!
O Besares é uma churrascaria (parrilla em espanhol) situada em Núñez, bairro da Zona Norte do Distrito Federal da Argentina (coladinho à cidade de Vicente López), e possui três unidades. Se bem que há quem diga que essa região pertence ao bairro de Belgrano. Vai entender as maluquices da geografia local, né?! Curiosamente, o trio de casas desta rede de restaurantes está localizado na mesmíssima rua, a Calle 11 de Septiembre de 1888. A bizarrice só aumenta quando descobrimos que suas unidades ficam a uma distância máxima de um quilômetro uma da outra (dois estabelecimentos estão ainda mais perto – são separados por uma distância de apenas 100 metros). Incrível!
Para completar o panorama introdutório desse estabelecimento que há muito tempo habita meu coraçãozinho cambaleante de gordura e colesterol, o BesAres Parrilla Urbana não integra a rota turística da gastronomia de Buenos Aires. Assim, dificilmente iremos ouvir falar dele, seja pelas redes sociais e pelos posts dos influenciadores digitais, seja pelas reportagens dos grandes veículos de comunicação e pelas propagandas institucionais na mídia tradicional. Eu o achei do modo raiz: batendo perna pela cidade. No mergulho pela cultura gastronômica do bairro que escolhi como morada, visitei a maioria dos estabelecimentos ao redor de casa. Foi aí que descobri os encantos das carnes do BesAres.
Antes de explicar os motivos da minha preferência, sinto-me na obrigação de contextualizar os leitores do Bonas Histórias sobre o cenário culinário da capital argentina quando o assunto é parrilla. Os portenhos têm geralmente seus restaurantes de carne favoritos perto de suas casas, onde são atendidos como fregueses habituais e com a calorosa receptividade latina (sim, os argentinos podem ser muito efusivos e carinhosos). É como as padarias e pizzarias em São Paulo, as praias no Rio de Janeiro, os bares em Belo Horizonte e as lanchonetes de xis em Porto Alegre, que são geralmente escolhidos por um mix de comodidade, proximidade, qualidade e simpatia dos funcionários.

Em Buenos Aires, ninguém atravessa a cidade para degustar bons assados. Por quê? Porque existem vários lugares excelentes por toda a metrópole, inclusive perto da residência de todo mundo. Assim, não faz sentido se deslocar por muitos quilômetros e pegar trânsito para ser tratado com indiferença por uma equipe de funcionários que não conhece seus gostos e suas preferências. Além disso, os portenhos fogem dos locais mais turísticos, que cobram caro dos gringos e não oferecem a verdadeira experiência da parrilla argentina (parrilla gaucha o parrilla criolla). A ideia dos nativos é aproveitar as melhores carnes de seu país a bons preços e com atendimento familiar. Sem perceber, acabei adotando essas práticas.
Assim, vocês não me verão comentar na coluna Gastronomia a ida ao Don Julio, ao La Cabrera, ao La Brigada, ao El Preferido de Palermo. Porque simplesmente não vou a esses lugares com regularidade. E quando vou, o que acontece uma vez na vida e outra na morte, sou forçado por amigos brasileiros deslumbrados por pagar caro para receber carnes normais (pelo menos na Argentina) e para aspirar ambientes metidos a besta (que não me apetecem de forma nenhuma). Confesso que jamais curti as experiências e as comidas dos lugares pega-turistas de Buenos Aires. Sou mais propenso a descobrir bons bodegones de bairro e boas parrillas frequentadas pelos locais, que sabem reconhecer as melhores opções à disposição na sua cidade.
Como moro em Saavedra desde setembro de 2023, naturalmente vou mais aos estabelecimentos das redondezas. A parrilla que mais visito é (disparadamente) o Los Amigos de Siempre, na Vilela y Amenábar. Essa churrascaria com ambiente familiar e jeitão rústico possui bom preço, atendimento simpático e carne boa. O que mais um carnívoro pode querer da vida, hein? E, claro, esse estabelecimento está a cinco minutos de caminhada do meu apartamento – lembre-se da importância da proximidade!
Nos tempos de câmbio favorável para os brasileiros (leia-se, na fase Pré-Milei), ia semanalmente ao Los Amigos. Aposto que se vocês perguntarem aos funcionários de lá (beijo, Martina; e abraços, Mariano e Alberto!) pelo brasileiro do bairro, eles vão dizer o meu nome (ou vão se lembrar de mim). Agora, mudei a frequência de visitas para mensal ou mesmo bimestral (obrigado, câmbio maldito!). Ainda vou comentar sobre essa parrilla encantadora na coluna Gastronomia (e das dificuldades econômicas para os gringos en la ciudad de la furia em algum post de “Tempos Portenhos”, material da coluna Contos & Crônicas). Aguardem novidades nesse sentido para breve!
Por mais que goste de Los Amigos de Siempre e o frequente assiduamente, a minha churrascaria favorita em Buenos Aires, aquela que faz meu coraçãozinho disparar e minha boca salivar, é o BesAres Parrilla Urbana, localizado no bairro vizinho. Saavedra e Núñez estão coladinhos e eu moro justamente na divisa deles. Ainda assim, a unidade mais distante do BesAres está a apenas 15 minutos de caminhada de casa (algo que classifico como próximo). A mais perto está a apenas 12 minutos. Uhu! Às vezes, me sinto morando no Paraíso.

Por ser um pouco mais cara (e com pratos mais generosos e carne de excelente qualidade), a parrilla de Núñez nunca foi minha alternativa de visita regular – posto ocupado pelo Los Amigos desde a minha chegada à Buenos Aires nessa segunda temporada (vivi na capital da Argentina pela primeira vez há cerca de vinte anos).
Mesmo assim, nos tempos de bonança, quando a terra de Messi e do Papa Francisco era muuuito barata para quem ganhava em real e gastava em peso argentino, visitava o BesAres apenas mensalmente. Quando muito, dava uma passada por lá a cada duas ou três semanas. Agora, só vou quando tenho dinheiro – o que é algo, infelizmente, bem raro. Acho que tenho ido lá trimestral ou quadrimestralmente. Geralmente, o visito apenas em eventos especiais, como aniversários, saídas com excelentes companhias e na hospedagem de brasileiros queridos em meu apartamento ao lado do Parque Saavedra (uma espécie de consulado brasileiro informal em CABA). Aí não dá para recusar os encantos dessa parrilla saborosíssima de Núñez, não é mesmo?! Minha última passada por lá foi na semana passada, quando recebi a visita da minha irmãzinha Marcela em Mi Buenos Aires Querido. Aí aproveitei para pegar imagens para este post.
De modo geral, posso classificar o Los Amigos de Siempre como a minha parrilla rotineira. É aquela que meu corpo vai naturalmente, sem pensar. É a opção da razão. Afinal, sei que lá encontrarei boas carnes a preços populares (bom custo-benefício). Ele não oferece uma experiência espetacular, mas também nunca decepciona. Já o BesAres Parrilla Urbana é a parrilla da minha preferência, aquela que meu coração indica com disparos acelerados e arritmia (seria o efeito da gordura e do colesterol?!). Vou nele quando a vontade e a emoção afloram. Lá, encontro alta qualidade e fartura por preços medianos. Essa churrascaria oferece uma experiência maravilhosa, mas cobra um pouco mais do que os restaurantes populares da região.
Vale a pena dizer que costumo frequentar as parrillas porteñas durante a semana e no horário do almoço. De segunda à sexta-feira do meio-dia às quatro horas da tarde, muitos restaurantes da capital argentina (inclusive as parrillas) oferecem o menu ejecutivo, algo que os brasileiros conhecem como prato-feito. Nesse pacote promocional com excelente custo-benefício, o cliente recebe a entrada, o prato principal com guarnição, uma bebida e a sobremesa ou o café. Tudo por um preço fixo, geralmente mais barato do que as versões à la carte do cardápio. Em alguns estabelecimentos, há também o menu ejecutivo no jantar durante a semana, mas essa opção é mais rara. O Los Amigos de Siempre e o BesAres Parrilla Urbana, por exemplo, só o têm no almoço. À noite e aos finais de semana, é só à la carte.
Quando me mudei para a Argentina, os valores do menu ejecutivo do Los Amigos e do BesAres eram, respectivamente, 4 mil pesos (R$ 23,50 no câmbio da época) e 6 mil pesos (R$ 35,00). Hoje, eles saem por 16 mil pesos (R$ 70,00 no câmbio atual) e 24 mil pesos (R$ 105,00). Portanto, a segunda parrilla sempre foi 50% mais cara do que a primeira. O lance é que o valor superior é compensado com carnes melhores, guarnições mais generosas, entradas mais completas e excelentes opções de sobremesa. Além de possuir um ambiente mais requintado. Aí a oferta de valor do BesAres se prova imbatível.

Curiosamente, quem vive em São Paulo ou no Rio de Janeiro, para ficarmos com as duas maiores metrópoles nacionais, não encontra algo na qualidade do BesAres Parrilla Urbana pelo preço que ele pratica. As opções brasileiras nesse nível começam com valores pelo menos 25% mais caras. Ou você conhece um bom restaurante de carne argentina ou uruguaia na capital paulista e na capital fluminense com um pacote tão generoso quanto o menu executivo portenho (com direito a taça de vinho e sobremesa inclusa) por menos do que R$ 125,00, hein?! Juro que eu não conheço.
Por tal perspectiva, o que se cobra em Núñez é ainda vantajoso para os brasileiros. O problema para quem vive há algum tempo na Argentina como eu é que nos acostumamos a pagar um terço desse valor. Assim, ele nos parece agora muito caro. Daí meu olhar com relutância para os números ao lado direito dos cardápios portenhos, que continuam aumentando, aumentando e aumentando. Enquanto o preço em peso argentino quadruplicou no BesAres (saiu de 6 mil para 24 mil), o câmbio se manteve quase igual nesse período (R$ 1,00 valia 170 pesos argentinos em setembro de 2023 e agora R$ 1,00 representa, em setembro de 2025, 230 pesos argentinos).
Por falar nisso, é bom alertar os turistas do meu país que faz um ano que a Argentina deixou de ser barata (e dois anos que deixou de ser super em conta). Se antes, era possível passear por Buenos Aires e comer muito bem sem gastar muito, essa realidade não existe mais. Os preços são parecidos aos ofertados nas principais cidades do Brasil. Em alguns casos, como os cafés e as confeitarias, os valores cobrados em BsAs são muito superiores aos de minha terra natal. Outro dia, fui a Las Violetas, uma simpática e tradicional confeitaria de Almagro. Um pedido simples de um combo para duas pessoas custou 40 mil pesos argentinos (R$ 200,00 no câmbio daquele momento, que era 200 pesos argentinos para cada real). Sim, fui à padoca para merendar con la hermosa venozolana e o bolso voltou vazio. Ser pobre não é fácil, viu?
Fundado em 2009, o BesAres Parrilla Urbana tem, como disse, três unidades em Núñez/Belgrano: na Rua 11 de Septiembre de 1888 no número 4.098 (esquina com a Besares, daí seu nome) fica a casa original; e na Rua 11 de Septiembre de 1888 no número 3.900 (esquina com a Paroissien) e na Rua 11 de Septiembre de 1888 no número 3.301 (na esquina com a Manuel Pedraza) ficam as duas filiais.
Confesso que não conheço outro restaurante que tenha um trio de unidades com a mesma proposta tão perto um do outro. Essa frase se aplica tanto ao Brasil quanto à Argentina. Por exemplo, o Sujinho em São Paulo tem duas unidades: uma em cada lado da Avenida da Consolação. E a Famiglia Mancini tem várias casas na mesma rua (pelo menos tinha, quando por lá vivia), mas com propostas distintas (uma é cantina, outra é pizzaria, outro é restaurante...). Agora, três churrascarias idênticas da mesma marca e com o mesmíssimo cardápio a menos de um quilômetro, só mesmo o BesAres. Vale a pena avisar que há ainda o Besares Dolce, uma confeitaria colada à churrascaria da Manuel Pedraza. São, portanto, quatro estabelecimentos coirmãos.

Fui em todas as parrillas do BesAres (mas nunca entrei na confeitaria – assim como meu pai, não sou muito de doce) e a minha preferida é a mais recente, a da calle 11 de Septiembre de 1888 do número 3.301 (a da esquina com a Manuel Pedraza). Por quê? Além de ser a mais perto de casa, essa unidade tem um salão mais amplo, um ambiente mais moderno e uma decoração mais cosmopolita. Sua pegada é empresarial. Na hora do almoço, há muita gente que trabalha nas redondezas frequentando suas mesas. Para completar, eles oferecem uma cesta mais generosa de pães de entrada (única diferença que notei para as casas coirmãs). A unidade original (a da esquina com a Besares) é a mais intimista e com a clientela mais familiar. Nota-se que os funcionários são mais antigos e divertidos – ainda mais quando notam que você é brasileiro. Já a unidade da esquina com a Paroissien é a mais acanhada, com pegada informal e serviço mais polido. O cardápio e os preços são idênticos nas três casas (uma delas ainda tem opção de pizzas, mas nunca provei).
Geralmente, saio do BesAres rolando de tanto comer. Isso pedindo só o menu ejecutivo, que basicamente é a alternativa padrão da carta/cardápio. Para vocês terem ideia do que vem nesse pacote promocional, vou descrever em detalhes as opções que os clientes têm à disposição durante o almoço de segunda à sexta-feira do meio-dia às quatro da tarde. Porém, já adianto: é muita coisa! Vocês precisam estar com bastante apetite para encarar o banquete que é servido.
De entrada, podemos pedir: chorizo (linguiça), empanada de carne, muzzarella milanesa, mix de achuras (miúdos) ou bruschetta. O pedido é entregue com uma cesta de pães e três molhos: salsa criolla (que basicamente é o vinagrete argentino), o chimichurri (melhor tempero para o churrasco do muuuuundo) e um patê que não sei do que é (suspeito que seja de atum, mas não tenho certeza pois nunca tive vontade de provar).
Curiosamente, a cesta de pães e molhos não são para serem degustados à parte, como a maioria dos brasileiros está acostumada a fazer nas visitas aos restaurantes. Na Argentina, esses artigos são acompanhamentos da carne, a estrela principal das refeições. Ou seja, não são aperitivos para serem misturados entre si. Acho válido fazer esse alerta porque a quantidade de conterrâneos que chegam às parrillas e aos bonegones portenhos e colocam a salsa criolla e o chimichurri nos pãezinhos (sem carne) é colossal. Não faça isso – é um crime cultural para los hermanitos. Os temperos devem ser colocados nas carnes (quem vem sem sal e sem nenhum tipo de condimento). E os pãezinhos são para serem provados com as carnes. Se pensarmos bem, faz todo o sentido.
Quando estou sozinho, peço de entrada o chorizo. Como ele é enorme e vem assado na churrasqueira, faço três minisanduíches com ele – é assim que se usa os pães, senhoras e senhores! Para meus pequenos choripanes ficarem perfeitos, ainda acrescento salsa criolla ou chimichurri. Hummmm. Quando vou acompanhado ao BesAres, gosto de pedir um chorizo e uma muzzarella milanesa de entrada (um para cada comensal, claro). Aí dividimos o choripan (um minisanduíche de linguiça para cada) e o queijo empanado (metade para cada um). Huuuuuum.

Já provei a empanada de carne e gostei bastante. Mesmo sendo muito boa, ainda prefiro o chorizo e a muzzarella milanesa. O mix de achuras, para quem gosta de miúdos (abraços, Paulo e Eduardo!) é generoso. Os malucos que comeram isso na minha frente apreciaram tanto a qualidade quanto a quantidade servida. O que nunca pedi foi a bruschetta. Vamos combinar que ir a uma bela parrilla e escolher pão recheado de entrada não é uma das decisões das mais inteligentes, né?
As opções de bebida são: água com e sem gás, refrigerante da linha da Coca-Cola (refrigerante em espanhol é gaseosa) e taça de vinho da casa (taça de vinho em espanhol é copa de vino). O vinho é sempre Malbec argentino de qualidade aceitável. Como não sou um sommelier, para mim está sempre ótimo. Se bem que na maioria das vezes em que vou ao BesAres, peço a boa e velha água sem gás. Ela vem numa garrafa de vidro que dá vontade de levar para casa. Caso você também tenha pensado nisso, saiba que ela é retornável. Há inclusive no rótulo o pedido para o cliente do restaurante não a levar embora. Além de linda, a embalagem de vidro faz com que o líquido fique ainda mais saboroso. Para quem não acredita que a água gelada pode ser apetitosa, tem que provar essa linha de produto.
Por falar em bebida alcóolica, outra particularidade local que merece menção é a quantidade de clientes que tomam uma taça de vinho na hora do almoço, mesmo em dia de semana e no meio do expediente de trabalho. Na Argentina, não é sacrilégio os profissionais entornarem una copa de vino en el almuerzo. Interessante notar essa diferença cultural.
As opções de prato principal são variadas. O cliente pode pedir: bife de chorizo (nunca pedi nada diferente disso por lá – essa é a melhor carne que há no mundo para um menú executivo!), milanesa napolitana de ternera o pollo (não peça milanesa nas parrillas – deixe para comê-las nos bodegones), 1/4 de pollo deshuesado, pollo a la portuguesa, caesar con pollo (puta que pariu: você vai para a Argentina para comer frango?!!!), bondiola (um tipo de carne suína saborosa), matambrito tiernizado a la pizza (carne de vaca um tanto forte para o meu gosto – por isso não curto muito), ravioles de pollo y verdura, canelones de pollo y verdura, noquis caseros salsa rosa e pasta seca/barilla italiana (se era para pedir massa, por que você não foi numa cantina italiana, hein?!).
De acompanhamento (guarniciones), há papas fritas (batatas fritas), puré de papas (purê de batata), puré de calabaza (purê de abóbora), ensalada con hasta 3 gustos: lechuga, tomate, zanahoria, cebolla, apio, choclo, huevo, papa o remolacha (salada com até três opções: alface, tomate, cenoura, cebola, aipo, milho, ovo, batata ou beterraba). Peça qualquer uma dessas opções sem preocupação. Elas são excelentes e vem em porções generosas.

O que falei para a carne também se aplica a todos os pratos servidos na capital argentina: eles vêm sem nenhum tempero. Assim, precisamos salgá-los na mesa. Pelo que entendi, trata-se de uma lei local. Eu não costumo colocar sal nos assados. Ao acrescentar a salsa criolla ou o chimichurri, a carne já fica deliciosa. Mas nas guarnições, é preciso usar o saleiro. Inclusive nas batatas fritas.
Se vocês já se cansaram de comer tanta coisa, saiba que ainda tem a sobremesa (postre, em espanhol). E o BesAres possui doces incríveis no menu ejecutivo. O meu favorito é o budín de pan con dulce de leche o crema. Ele é enorme e delicioso. Se é para sair rolando de lá, façamos o serviço bem-feito, né? Logo depois na minha escala de preferências, vem o helado (sorvete). Ele também é incrível (melhor até do que o encontrado em muitas sorveterias pela cidade). Porém, em algumas vezes que o pedi, veio apenas uma bola, numa porção minúscula. Em outras, veio grandão. Por que essa variação de tamanho? Acho que o motivo é a inflação galopante do país. Sempre antes de uma atualização de valor do menu ejecutivo (por exemplo, no dia seguinte à minha última visita, o preço mudou de 23 mil para 24 mil pesos argentinos), as porções do helado sofrem uma considerável redução de tamanho (algo que não ocorre com os demais postres). Vai entender.
O que nunca achei graça foi do flan casero con dulce o crema (os argentinos que me desculpem, mas o flan mineiro é muuuuuito melhor) e do queso y dulce – de batata o membrillo (esse é o tradicional romeu e julieta, a sobremesa mais besta que existe). Entre esses dois últimos doces, admito que prefiro pedir a ensalada de frutas (salada de frutas). Ela vem em uma boa porção (ainda mais se rememorarmos a comilança recém-terminada). Se vocês não quiserem nem doce, nem fruta de sobremesa, dá para pedir um cafezinho no lugar.
Vamos combinar que o menu ejecutivo do BesAres Parrilla Urbana é uma excelente opção. Seu custo-benefício é interessante para quem procura fartura e produtos de alta qualidade. Isso por um preço aceitável/mediano em se tratando do universo das churrascarias de bom padrão.
Reafirmo: essa casa de carnes de Núñez não é tão barata (como o Los Amigos de Siempre e a Parrilla Jorge, em Saavedra, minhas opções mais em conta para o dia a dia). Porém, perto do ofertado pelos seus concorrentes diretos nas redondezas, como El Pobre Luis (superestimado, além de ser bastante turístico), Solomía Parrilla (com proposta parecida ao BesAres, sempre o visitei com regularidade e nunca saí decepcionado de lá), La Brasería (de um nível inferior, mas também muito bom), Parrilla Marucha (caríssimo!), Tierno Parrilla (nunca fui, pois sempre me pareceu excessivamente custoso para meu bolso) e Parrilla Núñez (a maior frustração do bairro: cobrança excessiva por pratos, ambientação e serviços triviais).

Antes que alguém me pergunte, eu confirmo: sim, bati perna por todos esses lugares. A Zona Norte da capital argentina é um encanto, inclusive gastronômico. Seguindo o famoso ditado: em Roma, como os romanos (e coma as romanas). Qual é a graça de viver em Buenos Aires e não visitar suas parrillas, né?! Enquanto o câmbio ajudou, aproveitei como devia! Fui muito feliz e sabia disso.
É claro que estou comentando os valores do BesAres para quem pede o almuerzo ejecutivo. Quando vamos para as opções à la carte, essa churrascaria se torna mais cara. Um suculento e grande bife de chorizo (450 gramas) sai por 29 mil pesos argentinos (R$ 125,00). Um bife de chorizo de corte uruguayo (600 gramas – no caso, três bifes de 200 gramas cada), um pedaço do Céu em forma de carne, custa 37 mil pesos (R$ 160,00). O ojo de bife (450 gramas) e o bife de lomo (450 gramas) são, respectivamente, 33 mil pesos (R$ 142,00) e 36 mil pesos (R$ 155,00). O preço do vacio (800 gramas) é de 51 mil pesos argentinos (R$ 220,00).
Pelo tamanho desses pratos, eles servem pelo menos duas pessoas normais. No caso do vacio, três comensais se satisfazem. Note que usei o termo “normais” na primeira frase desse parágrafo. Porque tenho amigos que devoram sozinhos essas carnes num piscar de olhos e ainda pedem mais. Abraço, Dudu e Paulinho! Entretanto, em condições normais de temperatura e pressão (no caso, de fome convencional), um casal que pede uma boa carne para compartir, uma guarnição para dois, bebidas convencionais (água, refrigerante, taça de vinho ou cerveja) e sobremesas, acaba pagando entre 70 mil (R$ 300,00 – R$ 150 por cabeça) e 80 mil pesos argentinos (R$ 350,00 – R$ 175,00 cada um). É um valor mais alto realmente, mas nada de outro mundo (pelo menos para quem está habituado ao universo da boa gastronomia paulistana e carioca).
Para quem gosta de vinho, dá para incluir uma garrafa no pedido (mas não computei na minha conta). Por aqui, não é um assalto beber Malbec nas refeições fora de casa, como ocorre em quase todo o Brasil. Dos vinhos tintos que conheço e gosto, o D.V. Catena Cabernet/Malbec custa nesta parrilla 35 mil pesos argentinos (R$ 150,00). A opção mais barata é o Cordero con Piel de Lobo, o vinho que nunca falta aqui em casa. Ele sai por 14 mil pesos (R$ 60,00).
Com ou sem garrafa de vinho à mesa e considerando os padrões atuais de Mi Buenos Aires Querido, o BesAres Parrilla Urbana tem um valor razoável. E imaginar que eu pagava um terço disso quando cheguei... Quem quiser consultar o cardápio completo dessa casa, segue o link: carta do BesAres.

Por hoje é só, senhoras e senhores. Na minha próxima passagem pela coluna Gastronomia, quero apresentar para vocês os detalhes do Los Amigos de Siempre, minha parrilla do dia a dia em Saavedra. Como disse, essa é a churrascaria que mais frequentei na capital argentina (e acho que na minha vida). Ou será que falo na próxima oportunidade sobre o Bellagamba de Palermo, meu bodegón favorito em Buenos Aires, hein?! Juro que ainda não sei sobre o que vou comentar. Vou pensar direitinho a respeito e depois apareço no Bonas Histórias com mais uma publicação com pegada de textão interminável. De qualquer maneira, temos muito o que falar sobre os meus restaurantes portenhos favoritos.
Até a próxima!
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