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  • Filmes: Samba - A imigração ilegal na pauta do dia

    Eu não tinha percebido: este é o terceiro filme francês que assisto no cinema em sequência. Depois de "Os Olhos Amarelos do Crocodilo" (Les Yeux Jaunes des Crocodiles: 2012) e "Meu Verão na Provença" (Avis de mistral: 2014), hoje eu vi "Samba" (Samba: 2014). O que posso fazer se a safra vinda da terra da Torre Eiffel e recém-chegada às telonas brasileiras é de boa qualidade? A única alternativa é comprar um ingresso e acompanhar as novidades com afinco. Este longa-metragem trata da questão da imigração ilegal dos africanos na Europa, mais especificamente na França. Samba Cissé (interpretado por Omar Sy) é o personagem principal. Ele veio do Senegal e trabalha em Paris há mais de dez anos ilegalmente. Para sobreviver, faz serviços subalternos em restaurantes da capital francesa. Sonhando em se tornar chef de cozinha em um conceituado estabelecimento, Samba tenta regularizar sua documentação. Exatamente neste momento, ele é preso pelas autoridades e sofre ameaça de deportação. Para ajudá-lo, entre em cena Alice (Charlotte Gainsbourg, de "Ninfomaníaca"). Alice é uma executiva afastada do emprego por ter sofrido de crise emocional causada pelo stress no trabalho. Enquanto se recupera da doença, a moça atua como voluntária em uma ONG destinada a prestar assessoria aos imigrantes ilegais. Em seu primeiro dia de trabalho, Alice conhece Samba e se afeiçoa pelo rapaz. Enquanto tenta ajudar o senegalês a obter os documentos necessários para a permanência dele na França, Alice também precisará colocar sua vida nos trilhos. E para isto, Samba irá ajudá-la mais do que imagina. O filme é dirigido pela dupla Eric Toledano e Olivier Nakache, do prestigiado "Intocáveis" (Intouchables: 2011) e de "Baby Love" (Comme les autres: 2008). "Samba" consegue tratar de um assunto delicado, polêmico e que está na moda na Europa (a questão da imigração ilegal) com ternura e suavidade. O filme mistura graça e romantismo, com pitadas dramáticas. O humor fica a cargo principalmente dos personagens secundários: Manu (Izia Higelin), colega de Alice na ONG, e Wilson (Tahar Rahim), amigo supostamente brasileiro de Samba. O romantismo, por sua vez, permeia a relação de Samba e Alice. O ponto alto desta produção está nos momentos dramáticos: a relação de Samba com seu tio (Youngar Fall), um imigrante legal que abre as portas de sua casa para o sobrinho; as cobranças da família na África por mais dinheiro; os cuidados que os imigrantes ilegais devem tomar para não serem pegos; o dia a dia de sacrifícios pelos quais estes trabalhadores estão sujeitos; e o sentimento de culpa de Samba por ter traído um amigo. Estes episódios transbordam na tela, emocionando o público. Assim, "Samba" é um filme com uma trama bem amarrada, cheio de nuances interessantes e com alguns personagens bem construídos. Dos três filmes franceses assistidos nos últimos dias, considerei este o melhor. Veja o trailer deste longa-metragem francês: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #EricToledano #OlivierNakache

  • Exposições: Casa Cor 2015 - Por dentro da brasilidade

    Esta sexta-feira teve cara de sábado em São Paulo. Por causa do feriado estadual de ontem (9 de Julho - Revolução Constitucionalista), a maioria dos paulistanos não trabalhou hoje também. A quase totalidade das empresas emendou o feriado, deixando a sexta-feira com jeitão de final de semana antecipado na capital paulista. Aproveitando o dia livre, fui com a minha irmã visitar a Casa Cor, a maior mostra de arquitetura, decoração e paisagismo do continente. Inaugurada em 26 de maio e realizada no Jockey Club, a Casa Cor 2015 tem como tema a "Brasilidade". Assim, os mais de setenta espaços decorados fazem referências à cultura, às cores, à arte e ao design nacional. Gostei muito do que encontrei lá. Os principais arquitetos e decoradores do país se esmeraram em proporcionar uma experiência rica e interessante aos visitantes. O bom gosto e o apreço pela estética estavam evidentes em cada detalhe. Apesar de alguns exageros e algumas "experiências" pouco convencionais de decoração, o resultado final foi válido. As principais tendências que consegui notar foram: a sustentabilidade continua sendo um dos pontos fundamentais para as novas construções (iluminação LED, reaproveitamento de materiais, energia solar, uso adequado da água, etc.); uso criativo dos pequenos espaços, como os lofts (por exemplo, a cama pode ser suspensa para aproveitar seu espaço durante o dia); conceito do "menos é mais", tornando os ambientes mais arejados e com uma decoração "clean"; e retirada das divisórias entre os cômodos, proporcionando um visual mais aberto aos ambientes, além de integrá-los. Visitar a Casa Cor é um passeio obrigatório para quem trabalha com decoração, arquitetura e paisagismo. Para quem não é desta área, como eu, a experiência também é riquíssima. Poder acompanhar de perto o que há de mais novo no mundo do design residencial enche nossos sentidos de estímulos. Trata-se de um passeio muito legal para quem vai ficar neste final de semana em São Paulo. Recomendo! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Exposição #Mostra #Arquitetura #CasaCor

  • Filmes: Meu Verão na Provença - A beleza das relações familiares

    Fiquei admirado com o filme "Meu Verão na Provença" (Avis de Mistral: 2014). Entrei na sala de cinema com uma expectativa baixa e saí muito contente com o resultado final. Esperava assistir a um melodrama com muitos clichês, mas não foi o que encontrei. O longa-metragem tem boas cenas, um ótimo enredo e qualidades para fazê-lo uma das gratas surpresas deste ano. Dirigido pela roteirista Rose Bosch, que há alguns anos passou à direção, o filme tem um bom elenco jovem e a presença marcante de Jean Reno, excelente no papel do avô rabugento. Em "Meu Verão na Provença", três irmãos - Adrien (Hugo Dessioux), Léa (Chloé Jouannet), ambos adolescentes, e o pequeno Théo (Lukas Pelissier), que é surdo - são levados pela avó materna (Anna Galiena) para passar as férias de verão na fazenda do avô Paul (Jean Reno) no interior francês. Os problemas são: as crianças jamais viram o avô; Paul não sabia da visita dos netos; o avô tem profundo rancor pela mãe dos meninos, que abandonou a fazenda para viver em Paris há muitos anos; e as crianças não queriam estar ali, longe da capital francesa e dos amigos. Esses são os ingredientes para o início dos conflitos familiares. Se a princípio Paul se mostra um senhor grosseiro, preconceituoso, metódico, pouco carinhoso com os netos e interessado exclusivamente na rotina da sua fazenda, o convívio com os jovens aos poucos vai transformando o coração do velho. Ao mesmo tempo, os netos passam a conhecer um pouco mais a cabeça do avô, descobrindo que ele já foi um homem pouquíssimo conservador, vivendo como um hippie na juventude. A integração da família se faz quando cada um dos lados passa a compreender a outra parte, estabelecendo uma relação de confiança e amor. O filme tem bons personagens e ótima atuação de seus atores. A paisagem da Provença também ajuda em muito na fotografia. Além da história principal (avô-netos), a produção francesa consegue desenvolver bem a narrativa de cada um dos personagens centrais e de alguns secundários. Assim, os netos e os avôs têm suas próprias tramas ao longo da história, o que deixa o longa-metragem mais interessante e divertido. Quem quiser ver um filme doce e engraçado sobre os conflitos familiares, fica aqui a dica: "Meu Verão na Provença". Veja o trailer desta produção: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RoseBosch

  • Filmes: Os Olhos Amarelos do Crocodilo - Duas irmãs e um livro

    Nesta sexta-feira, fui ao Caixa Belas Artes assistir à comédia francesa "Os Olhos Amarelos do Crocodilo" (Les Yeux Jaunes des Crocodiles: 2012). Apesar do título um tanto exótico, fui atraído pelo enredo da trama: duas irmãs se envolvem em uma grande confusão por causa da mentira contada por ambas sobre a autoria de um livro que virou best-seller na França. "Os Olhos Amarelos do Crocodilo" foi dirigido por Cécile Telerman (do bom "Se Fazendo de Morto", que assisti no começo deste ano, "Algo que Você Precisa Saber" de 2008 e "Tudo por Prazer" de 2004). A diretora também participou, em parceria com Charlotte de Champfleury, da elaboração do roteiro do longa-metragem. O filme é uma adaptação do romance homônimo de Katherine Pancol. No elenco, destaque para as protagonistas: Julie Depardieu (interpretando uma das irmãs, Joséphine Cortes) e Emmanuelle Béart (a outra irmã, Iris Dupin). As duas experientes atrizes dão um show de interpretação, sendo os principais pontos positivos desta produção. Não é possível saber qual das duas está melhor. A jovem Alice Isaaz (Hortense) também se destaca como a filha da personagem de Julie Depardieu. O enredo deste filme se baseia na relação conflituosa e antagônica de suas irmãs. Iris é bonita, extrovertida, rica, tem muitos amigos, possui um casamento bem sucedido (o marido a ama, é rico e eles têm um filho) e leva um dia a dia fútil (não trabalha). Joséphine, por outro lado, é tímida, não é tão bonita, leva uma vida simples, trabalha como acadêmica (especializada em idade Média), tem um casamento conturbado (o marido infiel e preguiçoso a abandona), sofre com as dificuldades financeiras e tenta agradar as duas filhas que vivem a desrespeitar e a desprezar a mãe. As vidas das irmãs sofre uma grande mudança quando Iris, para impressionar seus amigos em um jantar, revela que está escrevendo um livro sobre a Idade Média. Para manter a mentira, ela pede para Joséphine escrever uma história de verdade sobre esse tema. A proposta é simples: enquanto Iris fica com os créditos da autoria da obra, Joséphine ficará com o dinheiro dos ganhos. Ou seja, as duas sairão ganhando. Surpreendentemente, o livro vira um sucesso inesperado assim que é lançado e o acordo das irmãs parece ruir. Elas entram em choque e as brigas se tornam constantes. "Os Olhos Amarelos do Crocodilo" é um bom filme. Ele não é muito engraçado, mas tem algumas passagens cômicas. O forte desse longa-metragem é a crítica à sociedade parisiense e o drama familiar. A história é interessante e original, chamando a atenção do telespectador. O único problema, a meu ver, está na demora do filme em chegar ao seu clímax. A ideia de Iris em escrever um livro (na verdade, pedir para a irmã escrever para ela) só acontece na segunda metade da produção. Enquanto isso, ficamos assistindo aos vários conflitos periféricos dos demais personagens (a vida amorosa dos pais das irmãs, a criação de crocodilos do ex-marido de Joséphine, a possível infidelidade do marido de Iris e os conflitos de relacionamento das filhas de Joséphine). Apesar das tramas paralelas trazerem mais força para os personagens secundários e enriquecer o filme com mais ação e narrativas, elas também acabam distraindo o espectador e enfraquecendo a história principal, que por si só já é muito interessante. Veja o trailer de "Os Olhos Amarelos do Crocodilo" (Les Yeux Jaunes des Crocodiles: 2012): O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CécileTelerman

  • Gastronomia: Primo Basílico - O primeiro pizza-bar de São Paulo

    Ontem eu fui ao Primo Basílico, localizado no Jardim América (Alameda Gabriel Monteiro da Silva). Inaugurada em 1991, a pizzaria inovou na época ao trazer para São Paulo o conceito do pizza-bar. Ao invés de ser um estabelecimento com o jeitão das cantinas italianas, como quase todos os concorrentes (garçom de smoking, toalha de pano na mesa, pizza de massa fina, redondas com os sabores tradicionais e decoração nas cores verde, vermelha e branca, fazendo referência à Itália), o Primo Basílico inverteu esta lógica ao proporcionar uma ambientação divertida, atendentes jovens e descolados, pizzas diferenciadas (massa grossa e com novas opções de ingredientes e sabores) e novas alternativas para servir o produto (ao estilo aperitivo). Sua pizza foi eleita a melhor de São Paulo e a casa aparece constantemente entre as principais da cidade. O sucesso atraiu artistas, personalidades e famílias do bairro, transformando o lugar em um sucesso de crítica e de público. Estava criada uma marca das mais charmosas da cidade. Na minha visita da noite passada a esta pizzaria (a segunda só neste mês), novamente fui muito bem atendido e saí encantado com a pizza. Ela realmente é de excelente qualidade. Comi a Primo Basílico (uma combinação interessante de mussarela de búfala, rodelas de tomate caqui e presunto do tipo parma) e a Quatro Queijos (mussarela, Catupiry, gorgonzola e parmesão). A massa (grossa) é de ótima qualidade, conferindo ainda mais sabor ao prato. O valor da redonda é entre R$ 60,00 e R$ 70,00. A ambientação do lugar também é de se elogiar. O clima em seu interior é gostoso e agradável. O cliente se sente em um mix de bar sofisticado com uma pizzaria de alto nível. Não vejo a hora de voltar lá. Quem sabe ainda este mês... Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #restaurante #Gastronomia #SãoPaulo #Pizzaria #Pizza #Pizzabar #Bar

  • Livros: Tenda dos Milagres - A literatura engajada de Jorge Amado

    "Tenda dos Milagres" (Companhia das Letras) foi escrito por Jorge Amado no final da década de 1960. Sua publicação aconteceu no ano de 1969, quando o Brasil vivia sob o governo militar. Um ano antes fora proclamado o AI-5, o Ato Institucional No5, que restringia as liberdades civis e políticas no país. O livro possui quase 300 páginas e retoma temas explorados em outras obras, como Jubiabá (Companhia das Letras), romance de 1935 protagonizado por Antônio Balduíno, líder negro de origem humilde. Segundo Jorge Amado, esta é a sua obra favorita. Ela é um manifesto aberto à mestiçagem e a cultura popular negra brasileira. Para o autor baiano, a solução para os conflitos raciais e para o desenvolvimento do Brasil passava necessariamente pela miscigenação do seu povo e pelo respeito à cultura popular. Além do conflito racial, tema central deste livro, outros assuntos polêmicos foram abordados nesta obra: a hierarquia social, a luta de classes, o colonialismo cultural, a repressão da Ditadura Militar e o choque cultural entre o pensamento esquerdista e o capitalismo. Traduzido, posteriormente, para o inglês, o francês, o espanhol, o italiano, o alemão, o árabe, o búlgaro, o finlandês, o húngaro, o russo e o turco, o livro "Tenda dos Milagres" ganhou o mundo. Ele também foi adaptado para o cinema e para a televisão. Em 1977, o cineasta Nelson Pereira dos Santos produziu um longa-metragem com esta história de Jorge Amado. Oito anos mais tarde, a Rede Globo produziu uma minissérie televisiva, com trinta capítulos, com o mesmo enredo (escrita por Aguinaldo Silva e Regina Braga). A história de "Tenda dos Milagres" é contada em dois períodos de tempo distintos. O primeiro se passa no "presente", ou seja, no final da década de 1960, quando é comemorado o centenário de nascimento de Pedro Archanjo. E quem foi Pedro Archanjo? O nome deste mulato que viveu uma vida simples em Salvador (foi bedel da Faculdade de Medicina da Bahia, atuou como ojuobá do Candomblé, foi capoeirista e escreveu alguns livros sobre os hábitos, a cultura e o folclore popular baiano) foi surpreendentemente colocado em evidência pelo professor norte-americano James D. Levenson. O gringo tinha sido congratulado com o Prêmio Nobel e resolveu viajar para a Bahia para conhecer o país do gênio nacional que havia inspirado o seu trabalho. E só neste momento, ao revelar o nome de Archanjo, o renomado professor atiça a curiosidade da imprensa e dos intelectuais brasileiros que desconheciam as obras e a carreira de Pedro Archanjo. Inicia-se a pesquisa sobre quem foi e o que dizia os livros do baiano, além de vários eventos em sua homenagem. De repente, de completo desconhecido, Archanho se transforma em um dos mais importantes pensadores e intelectuais nacionais, motivo de estudo e de publicações no país e no exterior. Para desvendar quem foi este homem, como viveu e o que dizia suas obras, James D. Levenson contrata um jornalista e poeta baiano para compilar as histórias do mestre. E, ao interagirmos com narração da vida de Pedro, temos o segundo momento desta história. Regressamos ao final do século XIX, quando Archanjo era jovem, e avançamos pelas primeiras décadas do século XX, quando ele já era adulto e deixou o seu legado. Pedro Archanjo frequentava a Tenda dos Milagres, espaço democrático da cultura popular baiana localizado no centro de Salvador. Ali era possível reunir as pessoas para praticar o Candomblé, jogar Capoeira e promover festas típicas, além de promover o comércio de artigos culturais e folclóricos. Lídio Corró, amicíssimo de Pedro e um pintor especializado em retratar milagres religiosos nas telas, possuía uma gráfica no local, onde foram publicados os livros do mestre. Pedro era um mestiço simples e de vida humilde. Sem estudo formal, o mulato trabalhou por mais de trinta anos na Faculdade de Medina da Bahia como bedel. O contato com os alunos e com os professores incentivou o bedel a pesquisar e a estudar por conta própria. Autodidata e leitor contumaz, Pedro desenvolveu ao longo dos anos uma tese que é um elogio à miscigenação do brasileiro, alçando o mulato a condição de herói nacional. Segundo sua crença, a mistura de brancos, negros e índios é o que conferia força ao brasileiro e riqueza cultural para o seu povo. Este pensamento entra em choque com os ideais que vigoravam naquela época na Faculdade de Medicina. Liderada pelo professor Nilo Argolo, racista e defensor da superioridade da raça branca, a ideologia oposta pregava a segregação racial e acusava os negros de serem o mal do país (propensos a violência e incapazes de atividades intelectuais mais complexas). Rapidamente, Argolo e Archanjo se tornam adversários e inimigos. Cada um tenta provar que sua ideologia é a correta e cada lado utiliza de manhas e artimanhas para abalar o lado oposto. Sem sobra de dúvidas, "Tenda dos Milagres"' é uma das obras mais politizadas de Jorge Amado. A questão do preconceito racial e da luta dos negros e dos mulatos para conquistarem o seu espaço na sociedade brasileira estão presentes em cada linha do livro. Mesmo sendo escrito quase que na década de 1970, esta obra possui muito mais características da primeira fase do escritor baiano (quando ele escrevia críticas sociais, apontando os conflitos entre dominadores e dominados, entre burgueses e trabalhadores, entre poderosos e subjulgados e entre brancos e negros) do que da segunda fase (quando passa a narrar as crônicas de costumes, confrontando os valores éticos e culturais do povo, criticando seus hábitos, seus costumes, sua cultura e seus ideais). Muitos pontos da teoria do personagem principal de "Tenda dos Milagres" são baseados no trabalho de Gilberto Freyre. "Casa-Grande & Senzala" (Global Editora), publicado originalmente em 1933, foi a obra que colocou o mestiço brasileiro em posição de destaque na sociedade nacional. A partir daí, o mulato tornou-se o principal elemento da formação de uma ideologia da democracia racial brasileira, segundo Freire. Podemos também comparar a teoria de Pedro Archanjo no livro com a teoria modernista do Movimento Antropofágico da década de 1920. Ambas tinham o caráter de promover a cultura popular nacional frente a imposição da cultura estrangeira. Ler "Tenda dos Milagres" é mergulhar dentro da cultura popular baiana de origem africana. Os relatos da vida do povo simples, da religiosidade, das festas populares, das crenças e do folclore local dos negros são completos e fidedignos. Destaque para a abordagem religiosa. O Candomblé é descrito em detalhes, com citações minuciosas dos deuses e das práticas, além da perseguição religiosa aos praticantes desta religião e o preconceito de parte da sociedade para com esta fé. Como todos os elementos da cultura africana, o Candomblé é valorizado e exaltado por Jorge Amado. Por outro lado, o livro expressa o espírito antipopular da imprensa durante a primeira metade do século XX e os preconceitos da sociedade elitista da Bahia e do Brasil. Os jornalistas são retratados como interesseiros e bajuladores do poder político. As famílias brancas são descritas como opositoras das manifestações culturais de origem africana, vendo estas como bárbaras, incultas e perigosas. A maior prova do preconceito racial está na relação de Tadeu Canhoto com a família Gomes, formada por gente branca da elite soteropolitana. Enquanto o mulato pobre frequentava a casa da família como amigo do filho mais velho do casal, ele era bem quisto por todos. Quando comunicou a intenção de se casar com a filha dos proprietários, uma moça loira e bonita, Tadeu passou a ser mal visto pelos Gomes. Teve sua entrada proibida naquela residência e passou a ser perseguido. Um negro podia ser amigo de um dos filhos da família branca, porém jamais poderia ingressar naquele clã como marido da filha, pensava o patriarca, que se opôs ao casamento inter-racial. Curiosamente, este livro tem muitos personagens baseados em pessoas reais. Pedro Archanjo, por exemplo, é a mistura de Manuel Querino (professor e militante abolicionista que estudou a história da cultura popular do negro baiano, inclusive o Candomblé) e Miguel Archanjo Barras Santiago de Santana (comerciante do porto de Salvador que era mulherengo, farrista e tinha o posto de obá Até no terreiro do Axé Opô Afonjá). Nilo Argolo, o adversário ideológico de Archanjo, foi inspirado no médico e antropólogo Nina Rodrigues, racista e promotor das teorias de segregação racial. O cruel delegado Pedrito Gordo foi baseado no chefe de polícia soteropolitano Pedrito Gordilho, que perseguia os praticantes do Candomblé e da Capoeira no início do século XX na capital do estado. Muitos personagens tiveram o mesmo nome das pessoas que foram baseadas. O professor Silva Virajá foi um médico famoso. Os professores Ramos e Azevedo de fato existiram na vida real. Ambos foram antropólogos, sendo o primeiro Arthur Ramos e o segundo Thales de Azevedo. E o padre Jacques foi um freire que viveu em Salvador na primeira metade do século XX. Ao ler "Tenda dos Milagres" tem se a impressão de que se está lendo um documentário e não um romance. São tantos os elementos reais ou aparentemente reais narrados que ficamos em dúvida sobre o que é ficção e o que é realidade. Passamos até a acreditar na existência de Pedro Archanjo e de James D. Levenson. O aspecto mais interessante do livro, na minha opinião, está na baixa autoestima dos brasileiros e no colonialismo cultural que nosso país sofre. Surpreendentemente, a imprensa, os intelectuais e a sociedade nacional só passam a valorizar Pedro Archanjo depois que um estrangeiro renomado cita o baiano com entusiasmo. "Se estão falando lá fora bem de alguém aqui dentro, é porque vale a pena considerá-lo" pensam todos. Isso é um absurdo! A valorização da nossa cultura, da nossa gente e dos nossos ideais não precisa passar pelo crivo estrangeiro, como acontece no livro e como acontece até hoje em nossa nação. O aspecto negativo desta obra está em seu ritmo lento, na velocidade quase parando da narrativa. Tive muita dificuldade de prosseguir no meu ritmo habitual de leitura porque várias vezes dormi no meio da história ou me pegava entediado, precisando interromper a leitura. Demorei quase três semanas para concluir esta obra (algo que faria normalmente em três ou quatro dias). O excesso de relatos e o grande número de personagens tornam a história um pouco maçante. A falta de acontecimentos mais impressionantes na trama e o abuso no debate político/racional também incomodam um pouco. Apesar de ter considerado este o livro mais chato de Jorge Amado, da lista selecionada para este mês, ao concluir "Tenda dos Milagres" fiquei com uma boa sensação. O elemento mais positivo da obra é o debate aberto sobre o preconceito racial e cultural no Brasil. Apesar de ser um discurso datado do início do século, este tema é ainda bem atual em nosso país e motivo de polêmica até hoje. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JorgeAmado #LiteraturaClássica #LiteraturaBrasileira #Romance #Livros #Drama

  • Filmes: O Último Poema do Rinoceronte - O cinema iraniano de Bahman Ghobadi

    Chega aos cinemas brasileiros "O Último Poema do Rinoceronte" (Fasle Kargadan: 2012), filme do diretor iraniano Bahman Ghobadi, de “Tempo de Embebedar Cavalos” (Zamani Baraye Masti Asbha: 2000) e de “Tartarugas Podem Voar” (Lakposhtha ham Parvaz Mikonand: 2004. Ghobadi, de 46 anos, faz parte da "Nova Onda" (New Wave) do cinema iraniano e é um dos principais cineastas da atualidade de seu país (ao lado de Abbas Kiarostami, Moshen Makmalbaf, Jafar Panahi e Asghar Farhadi). A "Nova Onda" iraniana é o movimento artístico, iniciado em 1964, que transformou o Irã em um dos principais produtores cinematográficos do mundo. Os filmes desta linha são tradicionalmente: poéticos, com uma narração simbólica e muito reflexiva, com um realismo acentuado (se parecendo com documentário), roteiros focando nas camadas mais desfavorecidas da população (principalmente as comunidades rurais) e com um ritmo narrativo bem lento. Quase todas estas características estão presentes nesta produção de Bahman Ghobadi. "O Último Poema do Rinoceronte" relata a história verídica da saída da prisão do poeta iraniano-curdo Sadegh Kamangar, chamado de Sahel (interpretado por Behrouz Vossoughi), depois de trinta anos de detenção. O artista foi preso durante a Revolução Islâmica, em 1979, acusado injustamente de fazer versos de oposição ao regime recém-implantado no país. O sonho de Sahel, agora, é reencontra sua mulher Mina (Monica Bellucci). Ela foi viver na Turquia e pensa que o marido morreu há muitos anos (o regime havia anunciado em determinado momento do passado que o poeta tinha morrido na prisão). O filme, como o próprio título já informa, é muito poético e recheado de simbolismos. O roteiro foi baseado nos diários do poeta escritos ao longo de sua vida. Além do componente político, a história possui uma disputa amorosa: o motorista de Sahel (Akbar Rezai) é obcecado pela mulher do patrão e faz de tudo para ficar com ela. O motorista, no fim das contas, acaba sendo o principal vilão da história, até mesmo superando os policiais e os políticos do regime islâmico que prenderam o poeta injustamente. A narrativa de "O Último Poema do Rinoceronte" não apresenta uma linearidade. Os acontecimentos vão sendo apresentados sem uma ordem cronológica. O espectador é quem precisa montar a sequência em sua mente. A fotografia do filme também é muito boa. Aproveitaram-se muito bem os cenários da região da Turquia escolhidos como locação. Os enquadramentos fogem do convencional, ressaltando ainda mais as imagens na tela. A estética do filme é um dos principais pontos positivos desta produção. Há também muitas cenas oníricas, fruto dos sonhos e dos desejos do personagem principal. Acompanhar e interpretar essas divagações de Sahel é a base para entender a mensagem do filme. Em alguns momentos, é necessário ter um repertório maior das obras de Bahman Ghobadi, pois há referências a outros filmes do diretor (há closes em cavalos e tartarugas caindo do céu como se fosse água da chuva). O único ponto negativo desta obra é o ritmo. Em vários momentos, o longa-metragem é muito parado, às vezes cansativo. Aí o risco de se acabar dormindo é grande. Por que será que os iranianos gostam de filmes tão parados? Acho que nunca vou compreender isto... Em resumo, "O Último Poema do Rinoceronte" é um drama sensível, forte e muito poético, que consegue retratar muito bem os desafios de um país dominado pelo fundamentalismo religioso. Assista ao trailer desta produção: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #BahmanGhobadi #CinemaIraniano #CinemaAsiático

  • Livros: Dona Flor e Seus Dois Maridos - O maior sucesso de Jorge Amado

    Admito que li "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (Companhia das Letras) imbuído de grande expectativa. Esta é uma história clássica da literatura brasileira. E, infelizmente, eu ainda não havia interagido com ela como deveria. Não apenas não tinha lido a obra impressa de Jorge Amado como não havia visto o filme, a peça de teatro nem a série televisiva. Ou seja, parti como um grande ignorante do assunto. Nem mesmo o enredo da trama eu tinha conhecimento. Jorge Amado escreveu "Dona Flor e Seus Dois Maridos" na metade da década de 1960. A obra foi publicada em 1966. Considerado um dos romances mais conhecidos do escritor baiano, tanto nacional quanto internacionalmente, a história de Florípedes e seus dois maridos foi levada ao cinema, ao teatro e à televisão com grande sucesso. Ambientada na Salvador dos anos de 1940, a narrativa aborda o dia a dia da capital baiana com grande realismo, contando o que acontecia na noite boêmia dos cassinos, nos prostíbulos, nos bares da cidade, nas casas das famílias (tanto as ricas quanto as pobres) e os hábitos alimentares e musicais da população. E ela retrata, principalmente, os valores morais da época, com suas crenças, seus preconceitos e as práticas religiosas. A história deste livro aborda o drama de Florípedes, uma jovem baiana de rara beleza, muito sensual e proprietária e professora da escola de culinária "Sabor e Arte". Chamada por todos de Flor ou Dona Flor, ela perdeu o primeiro marido, Vadinho, morto durante o Carnaval, muito cedo. Eles estavam casados há apenas sete anos e ela tinha menos de trinta anos quando ficou viúva. Vadinho era um malandro, boêmio, alcoólatra, viciado em jogo e mulherengo. Enquanto foi casado com Dona Flor, Vadinho não largou sua vida desgarrada que tinha na época de solteiro. Por causa disso, a moça foi obrigada a aturar a infidelidade, as noites de farra, a vida boêmia, as bebedeiras e a jogatina desenfreada do marido. Vadinho vivia exclusivamente para a esbórnia e para os amigos. Nas mãos dele, Dona Flor viveu intensa paixão, principalmente na cama, mas também momentos de agonia e solidão, quando era abandonada em casa à noite, sem saber onde o marido estava. A viuvez a deixou triste e abalada emocionalmente. Mesmo com todos os defeitos de Vadinho, Dona Flor era apaixonada por ele. Querendo esquecer o passado e começar uma vida nova, passado o período de luto, a moça ficou noiva outra vez e se casou pela segunda vez. O novo marido, dessa vez, era Teodoro, um farmacêutico quarentão, rico e muito bem conceituado na cidade. Ele era o oposto de Vadinho. Fiel, metódico, trabalhador, zeloso com o dinheiro dele e da esposa e respeitoso (até demais, na opinião de Flor), Teodoro trouxe uma vida tranquila e harmônica para a esposa, o que ela sempre sonhara. Entretanto, Dona Flor sentia falta da paixão e do jeito malandro de Vadinho. Sentia saudades, principalmente, do corpo dele e das intermináveis e abusadas práticas sexuais do primeiro marido. Diante do desespero provocado pelo saudosismo, Dona Flor passou a pedir a volta do finado. Depois de tanto pedir, ele realmente volta do além. Vadinho retorna para Dona Flor provocando um caos na vida da boa mulher. Somente ela era capaz de vê-lo. Ele também conseguia se comunicar com alguns amigos, o que provocou uma grande confusão nos cassinos da cidade, mas os antigos companheiros não conseguiam vê-lo. A única com essa capacidade era mesmo Flor. O primeiro marido passa a se atirar sobre o corpo da antiga esposa, querendo fazer sexo com ela a todo o momento, como antigamente. Dona Flor, uma mulher honrada e fiel a Teodoro, recusa apesar de dividida entre as vontades carnais e as obrigações sociais. "Dona Flor e Seus Dois Maridos" narra o drama de uma mulher apaixonada por dois homens, ambos seus maridos, com características completamente opostas um do outro. Enquanto o primeiro está morto, mas é um voraz predador sexual e um galanteador nato, o segundo é disciplinado, honrado, mas tedioso. Ora Flor se inclina para um, ora para outra. A dúvida de quem ela deve escolher é o grande mote da obra. Quem ela escolherá: o malandro Vadinho ou o bom Teodoro? Só saberemos no último capítulo, nas duas últimas páginas. "Dona Flor e Seus Dois Maridos" é um livro incrível. Extremamente populista com vasto repertório de cenas do cotidiano brasileiro. Como uma boa obra de Jorge Amado, a sensualidade e o erotismo são acentuados, até mais do que em "Gabriela, Cravo e Canela" (Companhia das Letras). E por falar em "Gabriela, Cravo e Canela", no começo achei a história de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" muito parecida com a da antiga obra de Amado (uma personagem feminina muito sensual, com forte instinto sexual e uma cozinheira de mão cheia, os dramas sociais provocados pelo casamento e os episódios do cotidiano). Contudo, a medida que a história de Dona Flor vai sendo contada, ficam nítidas as diferenças. Na metade da obra, praticamente não me lembrava mais de "Gabriela". Gostei deste livro. Jorge Amado, com sua literatura envolvente e muito visual, consegue novamente nos hipnotizar e nos levar para a Salvador da década de 1940. É incrível como é possível visualizar as ruas da capital baiana, com suas comidas, suas práticas religiosas, os hábitos dos seus habitantes e as intrigas sociais estabelecidas. O único aspecto negativo desta obra é seu ritmo. Considerei-a muito mais lenta do que os outros livros lidos ("Capitães de Areia", "Gabriela, Cravo e Canela" e "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água"). Por exemplo, o grande mote da história é a volta de Vadinho do "céu" e a dúvida de Flor sobre o que fazer (se entregar ao primeiro marido ou se manter fiel ao segundo esposo?). Porém, Vadinho só volta para atazanar a antiga mulher na página 360. 360 para chegarmos ao clímax! Ou seja, a parte mais importante ficou renegada para o final do livro. Até chegarmos aí, Jorge Amado discorre longamente e pausadamente sobre cada aspecto da vida de Dona Flor. As vezes, é um pouco cansativo e entediante. Não senti isso nas outras obras de Amado. Esta é uma história sobre os costumes morais de uma época. O que uma mulher casada deve fazer: se entregar ao amor carnal do primeiro marido ou ao amor respeitoso do segundo esposo? Esta dúvida irá infernizar os pensamentos da personagem principal. A decisão de Flor, de certa forma surpreende, no final. Jorge Amado é mesmo um mestre da literatura nacional. Como é bom ler suas obras! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JorgeAmado #Romance #Drama #Comédia #Fantasia #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica

  • Filmes: Divertida Mente - Animação engraçada e inteligente

    Não é novidade nenhuma que as animações produzidas nos últimos anos pela Disney e pela Pixar (unidas desde 2006) tenham como um dos seus públicos finais os adultos. Desde "Monstro S.A." (Monsters, Inc: 2001), as histórias destas produções são, além de divertidas, muito inteligentes, atraindo para as salas de cinema mais gente do que crianças e adolescentes. E esta característica (união entre diversão e enredo perspicaz) está presente mais uma vez na nova animação da Pixar. "Divertida Mente" (Inside Out: 2015) é uma comédia de excelente qualidade, muito mais voltada para o gosto dos adultos do que para a criançada. O longa-metragem foi comandado por Pete Docter, o mesmo diretor de "Toy Story" (Toy Story: 1995), "Monstro S.A." (Monsters, Inc: 2001), "Up - Altas Aventuras" (Up: 2009) e várias outras animações de sucesso do estúdio norte-americano. A história de "Divertida Mente" se passa quase que essencialmente dentro da cabeça da garotinha Riley, de onze anos de idade. A menina se muda, com a família, de Minnesota para San Francisco. Esta mudança provoca muitas alterações na vida dela e, por consequência, em seu estado emocional. Dentro do cérebro de Riley, há cinco personagens (a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho e a Tristeza) responsáveis pelo humor da garota. Os cinco trabalham em uma sala de controle no interior da mente da menina. Dependendo do que acontece nesta sala, Riley é diretamente afetada, sofrendo as variações emocionais e de humor. O grande mérito de "Divertida Mente" está na originalidade da sua trama. A sacada criativa de atrelar os acontecimentos do indivíduo (no caso, a garotinha Riley) aos eventos transcorridos no interior do seu cérebro é sensacional. O roteiro, desenvolvido por Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, foi muito bem escrito e a história está amarradinha. Os cinco personagens mentais (a Alegria, a Tristeza, a Raiva, o Medo e o Nojinho) foram muito bem caracterizados, desde a cor e os elementos corporais escolhidos para defini-los até os seus temperamentos. Fica evidente que há muita psicologia por trás do roteiro do filme (a importância do esquecimento de alguns fatos da vida, questões relativas ao subconsciente e a formação dos sonhos, por exemplo). Contudo, "Divertida Mente" não se torna um longa-metragem chato ou excessivamente conceitual. Pelo contrário. O telespectador recebe essas informações da maneira mais prática e divertida possível. Os psicólogos conseguem perceber a grande quantidade de simbolismo presentes durante toda a narrativa (quem não conhece profundamente a psicologia, porém, consegue compreender o filme sem qualquer perda de conteúdo). Outro ponto que merece destaque é a coragem de abordar um tema muitas vezes delicado e polêmico como é a depressão em uma animação. É um tanto paradoxal tratar de depressão em uma comédia. E essa discussão é muito bem realizada no filme. A depressão aqui é apresentada de forma leve e didática, sem qualquer preconceito ou estigma. Para finalizar, a trama é cheia de aventura e suspense. O filme não para um minuto. Sempre está acontecendo alguma coisa e os personagens estão correndo para se salvar ou para salvar alguma coisa. Ou seja, emoção não falta nesta produção. "Divertida Mente" é sem dúvida a melhor animação dos últimos anos. Veja o trailer deste filme: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PeteDocter #Pixar

  • Livros: Capitães da Areia - A vida dos meninos de rua de Salvador por Jorge Amado

    Hoje conclui a leitura de "Capitães da Areia" (Companhia das Letras), a terceira obra de Jorge Amado que me propus a investigar no Desafio Literário deste mês. Este livro ficou conhecido nacionalmente em novembro de 1937, ano de seu lançamento, quando suas cópias foram queimadas nas praças de Salvador pelo governo local. As autoridades entenderam que a obra fazia apologia ao comunismo. Amado, sempre identificado com o ideal de esquerda e filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), passou, a partir de então, a ser perseguido implacavelmente pelo governo Vargas por causa de suas publicações. Na segunda metade da década de 1930, o escritor baiano lançou, além de "Capitães da Areia", "Jubiabá" e "Mar Morto", títulos cujos conteúdos eram críticas sociais. Jorge Amado foi preso em dezembro de 1937, quando regressava da Colômbia, onde precisou ficar dois meses devido ao clima político pouco propício para ele em seu país natal. Este foi o período de instalação do Estado Novo, quando Vargas passou a governar em um regime ditatorial e a perseguir comunistas e opositores ao seu governo. Jorge, nos anos seguintes, optou por se mudar para o exterior, para viver mais tranquilo e sem o perigo de ser constantemente preso. "Capitães da Areia" é classificado como sendo uma obra da primeira fase da carreira de Jorge Amado, quando o escritor baiano mergulhou nas críticas sociais. Assim, as histórias dessa fase são baseadas no conflito entre ricos e pobres. Entre dominadores e dominados. Entre burgueses e trabalhadores. Entre poderosos e subjugados. A culpa pelos problemas da sociedade está na avareza, na ambição e na falta de compaixão dos que ocupam o topo da pirâmide social. O livro "Capitães da Areia" relata o drama dos meninos de rua de Salvador. Abandonados pela família e pela sociedade, o grupo de garotos liderados por Pedro Bala se une e cria suas próprias regras para sobreviver em um cenário tão hostil. Os meninos, aproximadamente cem, vivem de furtos, agressões e delitos pelas ruas da capital baiana. Suas ações são justificadas pela necessidade de sobrevivência e pela falta de ajuda. As únicas pessoas que parecem se preocupar com a situação desses menores abandonados são o padre José Pedro, o capoeirista Querido-de-Deus e o militante comunista João de Adão. Segundo Zélia Gattai Amado, esposa do escritor, Jorge Amado teria passado alguns dias com os meninos pobres de Salvador e teria até dormido com eles em suas precárias acomodações para conhecer a realidade de suas vidas. O reflexo nesse mergulho no cotidiano desses garotos fica evidente na riqueza de detalhes da história. Os personagens principais e os heróis da trama são crianças marginalizadas pela sociedade, algo incomum de encontrarmos na literatura nacional. Pedro Bala é o corajoso e destemido líder do grupo; Volta Seca é afilhado de Lampião e sonha em fazer parte do bando do cangaceiro; Professor (João José) é o único letrado do bando, sabendo ler e desenhar, e tem como responsabilidade elaborar os planos das ações criminosas dos Capitães da Areia; Gato é o galanteador e o conquistador de mulheres; Boa-Vida é o malandro que gosta de festas e música; Sem-Pernas é o menino coxo que se aproveita do seu defeito físico para ludibriar as pessoas; João Grande é o "negro bom", forte, corajoso e com um coração enorme; Pirulito é o único religioso do grupo, sonhando em se tornar padre quando crescer; e Dora, a única menina do bando, é a responsável por cuidar de todos como se fosse a mãe deles, apesar de ter a mesma idade da maioria. Se os heróis do romance de Amado são as crianças abandonadas, os vilões são os policiais, as famílias ricas, os políticos, os religiosos da Igreja Católica, os comerciantes e os homens de negócio. Por causa deles, os meninos são renegados pela sociedade e acabam precisando viver de maneira degradante para sobreviver. Isso fica claro nessa passagem da obra: "Eles furtavam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam negrinhas no areal, por vezes com navalhas ou punhal homens e polícias. Mas, no entanto, eram bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo aquilo é que não tinham casa, nem pai, nem mãe, a vida deles era uma vida sem ter comida certa e dormindo num casarão quase sem teto. Se não fizessem tudo aquilo morreriam de fome, porque eram raras as casas que davam de comer a um, de vestir a outro (...). O padre José Pedro dizia que a culpa era da vida e tudo fazia para remediar a vida deles, pois sabia que era a única maneira de fazer com que eles tivessem uma existência limpa. Porém uma tarde em que estava o padre e estava João de Adão, o doqueiro disse que a culpa era da sociedade mal organizada, era dos ricos... Que enquanto tudo não mudasse, os meninos não poderiam ser homens de bem. E disse que o padre José Pedro nunca poderia fazer nada por eles porque os ricos não deixariam". Em relação ao comunismo, que na época do lançamento do livro suscitou tanta discussão, pode-se extrair esse trecho para medir a polêmica: "O padre José Pedro ia encostado à parede. O cônego dissera que ele não podia compreender os desígnios de Deus. Não tinha inteligência, estava falando igual a comunista. Era aquela palavra que mais perseguia o padre (...) O cônego sabia de tudo, era muito inteligente. Podia ouvir a voz de Deus... Estava próximo de Deus... Não foi dos alunos mais brilhantes... Tinha sido dos piores... Deus não ia falar a um padre ignorante... Ouvia João de Adão. Um comunista como João de Adão... Mas os comunistas são maus, querem acabar com tudo.... João de Adão era um homem bom... Um comunista... E Cristo? Não, não podia pensar que Cristo fosse um comunista...(...) Será que um comunista age assim? Dar um pouco de conforto àquelas pequenas almas. Salvá-las, melhorar seus destinos... Antes dali só saíam ladrões, batedores de carteira, vigaristas, os melhores eram malandros... A profissão mais digna... Queria que agora saíssem homens para trabalho, honestos, dignos...". "Capitães da Areia" é um livro excelente, considerado por muitos como o mais influente de Jorge Amado. Esse clássico da nossa literatura aborda um tema que infelizmente continua muito atual em nossa sociedade: o abandono das crianças desfavorecidas. Os problemas relatados pelo escritor baiano continuam evidentes até hoje nas ruas das principais cidades do Brasil. A força dessa obra está no fato da denúncia social vir atrelada a uma narrativa crua, forte, detalhada e comovente. Impossível não se emocionar e não se solidarizar com essa trupe enquanto se está lendo o livro. Além de muito polêmica, esta é a obra de maior sucesso editorial do escritor baiano. "Capitães da Areia" vendeu mais de cinco milhões de exemplares em todo o mundo, superando em vendagem "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Gabriela, Cravo e Canela", livros de Jorge Amado mais conhecidos do público brasileiro. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JorgeAmado #Livros #Romance #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica #Drama

  • Filmes: Enquanto Somos Jovens - Comédia sobre o envelhecimento

    "Enquanto Somos Jovens" (While We're Young: 2014) é o melhor filme em cartaz no momento. A comédia dirigida por Noah Baumbach (do belo "Frances Ha", de 2012) tem Bem Stiller e Naomi Watts nos papéis principais e Adam Driver e Amanda Seyfried como coadjuvantes. O enredo de "Enquanto Somos Jovens" aborda a vida do casal Cornelia (Naomi Watts) e Josh Srebnick (Ben Stiller). Casados há muitos anos, eles chegam à fase madura (quarenta anos de idade) sem filhos e com a vida totalmente estabilizada profissional, financeiramente e no âmbito pessoal. Contudo, eles ficam incomodados com o envelhecimento. Seus principais amigos vivem de forma conservadora, se dedicando quase que exclusivamente aos filhos. Cornelia e Josh não querem isto para eles. Dessa forma, os dois ficam encantados com a recente amizade com o casal Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried), bem mais novos do que eles e mais liberais. Os jovens incentivam o casal mais velho a mudar seu estilo de vida. Cornelia e Josh voltam, assim, a fazer coisas típicas da juventude. A graça do longa-metragem está na tentativa do maduro casal em parecer e em tentar ser mais jovem. "Enquanto Somos Jovens" é um filme ao mesmo tempo engraçado e crítico. O amadurecimento e o envelhecimento são temas já dominados pelo diretor Noah Baumbach. Ele já trabalhou este assunto com brilhantismo em Frances Ha, filme cult de 2012. Agora, a questão da passagem do tempo é apresentada de outra maneira: de forma leve, cômica e com um olhar sem preconceitos. Impossível não se emocionar com as angústias e com as cenas cômicas dos personagens desta produção. Interessante também ver a atuação de Ben Stiller. Depois de muito tempo associado às produções de baixa categoria (séries "Uma Noite no Museu" e "Entrando Numa Fria" e filmes ao estilo de "Quero Ficar com Polly" e "Escola de Idiotas"), o ator parece ter encontrado roteiros onde pode explorar suas qualidades. Depois do excelente trabalho no belo filme "A Vida Secreta de Walter Mitty" (The Secret Life of Walter Mitty: 2013), Stiller mantém sua melhor forma. Ao lado do seu carisma e da comicidade típica, o ator consegue mexer com o público através do drama vivido pelo seu personagem. Não é fácil envelhecer e Stiller consegue com muita qualidade passar as angústias e os medos vivenciados pelo seu personagem. Vamos torcer para que o ator continue acertando nas escolhas em suas novas produções. Só assim, ele poderá explorar verdadeiramente suas qualidades e demonstrá-las ao público. Um ponto interessante de "Enquanto Somos Jovens" é a grande quantidade de citações de outras obras artísticas: da literatura, da música e do cinema. Repare, quando você for assistir ao filme, a essas referências. Elas dão profundidade e conteúdo para as discussões dos personagens. Outra questão curiosa do filme é a mudança de valores entre os casais principais. Enquanto a dupla mais velha é totalmente conectada ao mundo tecnológico e está antenada aos acontecimentos do momento, a dupla mais jovem é adapta do estilo antigo, mais analógico (ouve fita K7, valoriza o estilo vintage e recusa a tecnologia). Esse contraste dá origem a muitas cenas engraçadas. "Enquanto Somos Jovens" é uma comédia muito acima da média e merecedora de ser vista. Assista ao seu trailer: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoahBaumbach #BemStiller #NaomiWatts

  • Mercado Editorial: Vendas em 2014 – A maior queda dos últimos anos

    O ano passado não foi fácil para as editoras nacionais. Em 2014, o mercado editorial apresentou, no Brasil, uma queda de aproximadamente 5% em seu faturamento em relação ao ano anterior. Esses dados foram divulgados na semana passada pela SNEL, o Sindicado Nacional dos Editores do Livro. Depois de um longo período de crescimento contínuo, a receita do setor, enfim, apresentou um decréscimo. Trata-se do pior resultado dos últimos 10 anos. Vale lembrar que foi a partir de 2004 que as vendas de livros no país passaram a ser medidas com mais abrangência pela FIPE, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a pedido da SNEL e da CBL, a Câmara Brasileira do Livro. O mercado editorial movimentou R$ 5,4 bilhões em 2014. As livrarias são o principal canal de venda. Elas representam cerca de 60% do faturamento do setor. Na segunda posição estão as distribuidoras, com 21% da receita do mercado. A venda porta a porta, com 5 %, e os supermercados, com 1,62%, vem logo em seguida. Dos livros impressos em 2014, pouco mais de 19 mil foram de lançamentos, enquanto aproximadamente 41 mil foram de reimpressões. Dos cerca de 500 milhões de exemplares vendidos, 90 milhões foram de novos títulos e 410 milhões foram de antigos. A queda nas vendas no ano passado foi ocasionada principalmente pela menor compra do governo. As obras didáticas distribuídas para os alunos das escolas públicas fazem do governo federal o maior comprador de livros do país. Qualquer diminuição neste tipo de compra afeta diretamente o setor inteiro. Além disso, as pessoas físicas (os consumidores tradicionais) tiveram seu consumo estagnado nas livrarias. Em 2013, o mercado editorial brasileiro já havia apresentado uma estagnação em relação à 2012. Para 2015, a previsão de faturamento não é nada otimista. A expectativa dos especialistas é que a queda continue. Ou seja, os ventos não estão favoráveis para ninguém. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

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