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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em maio e junho de 2023
Apresentamos as 130 principais obras ficcionais e poéticas que foram publicadas nas livrarias brasileiras no terceiro bimestre. O Inverno está aí. A estação mais fria combina com passeios românticos, tomar chocolate quente, maratonar séries e filmes, não se desgrudar das cobertas, usar roupas elegantes, comer fondue, tomar sopa, se esquentar na lareira, ir a festas juninas, viajar para cidades serranas, ficar agarradinho com o crush e tomar banho demorado na banheira. E, claro, ficar no sofá lendo livros e mais livros em longas sessões literárias. Sabendo disso, as editoras costumam premiar os leitores com boas novidades no meio do ano. Em 2023, não foi diferente. As livrarias brasileiras receberam ótimos lançamentos nas prateleiras da ficção e da poesia, a especialidade do Bonas Histórias. Como desvendar as melhores publicações literárias é um trabalho da coluna Mercado Editorial, estou aqui para apresentá-las. Antes de exibir a lista completa com quase uma centena e meia de novos livros lançados no terceiro bimestre de 2023, vou comentar com vocês os títulos que me pareceram mais interessantes. E, dessa vez, a polêmica irá rolar solta – sei disso! Para os patriotas de plantão, que não param de receber péssimas notícias nos últimos meses, sinto em dizer que todos os meus destaques foram para as obras estrangeiras. Em uma época em que o futebol nacional é dominado por treinadores gringos, que estão na maioria dos clubes da Série A, ocupam o topo da classificação do Brasileirão e até se credenciam para dirigir a Seleção, o que seria de uma simples lista de novidades literárias sem representantes verde-amarelos na parte mais seleta, hein? Para não me acusarem indevidamente de atentar contra a literatura brasileira, preciso dizer que já teve post da coluna Mercado Editorial em que os destaques foram exclusivamente publicações nacionais. Afinal, naquele momento, entendi que elas eram as melhores opções à disposição do público. Além disso, a coluna Livros – Crítica Literária, a principal seção do Bonas Histórias, apresenta historicamente um bom equilíbrio entre títulos de dentro e de fora do país. Em outras palavras, não há motivo para pânico ou reclamações. O que ocorreu é que, no último bimestre especificamente, os lançamentos da literatura internacional foram mais impactantes. Fazer o quê? Acontece! Não precisa ninguém cortar os pulsos ou se atirar do alto dos prédios. Por favor! Entre os livros lançados no Brasil em maio e junho de 2023, selecionei oito obras que me pareceram imperdíveis para os leitores inveterados e de bom gosto. Vamos começar pelos romances. O primeiro é “Ventos do Apocalipse” (Companhia das Letras), da espetacular Paulina Chiziane. Ao lado de Mia Couto, Chiziane é minha artista das letras moçambicana favorita. Vencedora do Prêmio Camões de 2021, ela está tendo, enfim, seus principais títulos publicados no Brasil. Depois de lançar no final do ano passado “Balada de Amor ao Vento”, romance de estreia de Paulina Chiziane, de 1990 (conforme informado no post das novidades editoriais de novembro e dezembro de 2022), a Companhia das Letras traz agora “Ventos do Apocalipse”. Essa foi a segunda publicação da moçambicana. Lançada em 1993 em Moçambique e em 1999 em Portugal, o livro apresenta os dramas de um país recém-saído da Guerra Civil. Imperdível! Ainda no continente africano, outra publicação que mexeu com minha curiosidade foi “A Morte de Jesus” (Companhia das Letras), de J. M. Coetzee. Sou fã do trabalho ficcional do sul-africano, vencedor do Nobel de Literatura em 2003, desde que li “À Espera dos Bárbaros” (Companhia das Letras), "O Cio da Terra – Vida e Tempo de Michael K” (Best Seller), “Desonra" (Companhia das Letras) e "Diário de Um Ano Ruim" (Companhia das Letras). “A Morte de Jesus” é a última parte da trilogia que narra a saga dramática de Simón e do menino Davíd, que vão tentar a sorte em um país estrangeiro. Lançada originalmente em outubro de 2019, essa obra complementa a trama de “A Infância de Jesus” (Companhia das Letras) e “A Vida Escolar de Jesus” (Companhia das Letras). O terceiro romance que gostaria de comentar com vocês é “A Mais Recôndita Memória dos Homens” (Fósforo), do senegalês Mohamed Mbourgar Sarr. Outro autor africano, Ricardo?! Sim. Não posso fazer nada se os ventos literários vindos do Leste do Oceano Atlântico são tão prósperos neste meio de ano. Vencedor de vários prêmios literários internacionais, “A Mais Recôndita Memória dos Homens” foi publicado em três dezenas de idiomas e catapultou o nome de Sarr para o hall dos principais autores contemporâneos. Nesse romance de formação, acompanhamos a aventura de um escritor africano que mora em Paris. Entre cursos de escrita criativa, festas com bebedeiras e sexos e debates sobre o problema da vida no exílio, o protagonista descobre um livro emblemático da primeira metade do século XX. O problema é que seu autor sumiu misteriosamente sem deixar registros. Curioso para entender o que aconteceu há quase um século, o escritor ficcional promove uma investigação particular em volta da mítica obra do passado. Se você é como eu que também gosta de um bom thriller e não abre mão de uma boa literatura de entretenimento de vez em sempre, a melhor pedida é “Alguém que Você Conhece” (Record), de Shari Lapena. Depois de curtir “O Casal que Mora ao Lado” (Record), belíssimo suspense de estreia da escritora canadense, confesso que estou com vontade de conhecer o seu quarto romance (e terceiro que chega para o público brasileiro). Nessa história lançada em 2019 na América do Norte, Robert Pierce se desespera com o sumiço da esposa Amanda. Eles tinham se mudado para um bairro aparentemente tranquilo e com vizinhos aparentemente cordiais. Como disse, tudo aparentemente! Saindo da prateleira dos romances e entrando na seção das novelas, os destaques de maio e junho de 2023 são duas ficções científicas: “O Último Homem Branco” (Companhia das Letras), do paquistanês Mohsin Hamid, e “Os Funcionários” (Todavia), da dinamarquesa Olga Ravn. O primeiro é considerado um dos melhores livros do ano passado. Em “O Último Homem Branco”, Anders acorda diferente em certo dia. Ao se olhar no espelho, ele descobre que não é mais branco. Sua pele ficou misteriosamente escura da noite para o dia. Outros casos surgem na cidade, intrigando os cientistas e a população. Nessa alegoria impecável de Hamid, podemos ver o impacto do racismo de uma maneira diferente e original. Por sua vez, “Os Funcionários” é o livro saudado pela crítica literária europeia por debater outras questões muito em voga atualmente: a exploração dos trabalhadores pelas grandes corporações, o controle tecnológico da vida das pessoas, a pouca distinção entre trabalho e lazer, os reflexos negativos das redes sociais, os sistemas de trabalho opressivos e o confinamento prolongado em espaços limitados. A trama de Olga Ravn se passa em uma aeronave que viaja a milhões de quilômetros da Terra. Misturando sátira e terror, a novela retrata a dinâmica social e laboral dos trabalhadores da espaçonave após a saída do planeta Nova. Dando um pulo nas coletâneas de contos, não poderia deixar de citar “Primeira Pessoa do Singular” (Alfaguara), nova obra de Haruki Murakami que o público brasileiro tem acesso. Um dos mais populares escritores japoneses contemporâneos, Haruki Murakami é também um dos meus autores preferidos (beijo, Cinthia!). Adoro suas personagens solitárias, suas tramas melancólicas, seus conflitos com amores platônicos e desilusões afetivas, o erotismo acentuado, as referências à cultura Pop, o humor particular e as neuroses, medos e desequilíbrios psicológicos. Prova disso é que li várias de suas obras: “Ouça a Canção do Vento” (Alfaguara), “Pinball, 1973” (Alfaguara), “Caçando Carneiros” (Alfaguara), “Norwegian Wood” (Alfaguara), “Minha Querida Sputnik” (Alfaguara) e a Trilogia “1Q84” (Alfaguara). Inclusive, a literatura de Haruki Murakami foi analisada no Desafio Literário. Em “Primeira Pessoa do Singular”, assistimos à oito narrativas curtas que, conforme indicado já no título, estão em primeira pessoa. O narrador é sempre um famoso escritor japonês, o que confere certo ar de autoficção ao livro. Por fim, vamos dar uma passada na literatura infantojuvenil. O lançamento que achei mais interessante foi “A Toca das Raposas” (Galera), sucesso internacional da norte-americana Nora Sakavic. Essa obra é o primeiro volume da Trilogia “Tudo Pelo Jogo”, que retrata as aventuras do jovem Neil Josten pelo Exy, um esporte violento e midiático. O protagonista é chamado para integrar o time As Raposas, da Universidade Palmetto State. Essa é a chance de ouro para ele, mas também pode representar o despertar de antigos problemas. Em um texto inteligente e delicioso, Sakavic construiu um universo ficcional que empolga os jovens leitores dos quatro cantos do planeta. Concluída a rápida apresentação das oito obras de maior destaque do terceiro bimestre de 2023, é chegada a hora de divulgar a lista completa da coluna Mercado Editorial com os principais títulos que foram lançados em maio e junho. Confira, a seguir, os 130 livros ficcionais e poéticos que foram publicados nas livrarias brasileiras e que merecem a atenção dos leitores do Bonas Histórias: FICÇÃO BRASILEIRA: “A Língua Submersa” (Alfaguara) – Manoel Herzog – Romance – 216 páginas. “Um Ex-amigo” (Paralela) – Mayra Cotta – Romance – 336 páginas. “A Última Volta do Rio” (Record) – Nei Lopes – Romance – 192 páginas. “Os Diabos de Ourém” (Ateliê Editorial) – Maria Luiza Tucci Carneiro – Romance – 256 páginas. “Último Olhar” (Companhia das Letras) – Miguel Sousa Tavares – Romance – 272 páginas. “A Cidadela Inventada” (Bertrand Brasil) – Pihba Cavalcanti – Romance – 240 páginas. “Meu Irmão, Eu Mesmo” (Alfaguara) – João Silvério Trevisan – Romance – 256 páginas. “A Mulher do Padre” (Todavia) – Carol Rodrigues – Romance – 216 páginas. “Das Coisas Definitivas” (Record) – Carlos Eduardo de Magalhães – Romance – 320 páginas. “Princesas Mortas Não Se Apaixonam” (Outro Planeta) – Raíssa Selvaticci – Romance – 352 páginas. “Enquanto Anoitece” (Todavia) – Luiz Eduardo Soares – Romance – 160 páginas. “Ventos de Queimada” (Record) – André de Leones – Romance – 518 páginas. “Jogo de Armar” (Todavia) – Edgar Telles Ribeiro – Novela – 128 páginas. “Quilombo do Lima” (Malê) – Lima Barreto – Coletânea de Contos – 196 páginas. “Pistas Falsas” (Patuá) – José Eduardo Gonçalves – Coletânea de Contos – 176 páginas. “Caixa de Palavras – Por que Você Deve Ler e o Que Ler” (Nova Fronteira) – José Roberto de Castro Neves – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 400 páginas. “Construir Sobre Ruínas – Leitura e Escrita em Ambientes de Privação de Liberdade” (Autêntica) – Alexandre José Amaro e Castro – Coletânea de Ensaios – 256 páginas. “Sal e Açúcar” (Galera) – Rebecca Carvalho – Infantojuvenil – 322 páginas. “Aqui e Aqui” (Companhia das Letrinhas) – Caio Zero – Infantojuvenil – 64 páginas. “Lá Longe” (Pequena Zahar) – Carolina Moreyra e Odilon Moraes – Infantojuvenil – 56 páginas. “Domingo” (Companhia das Letrinhas) – Marcelo Tolentino – Infantojuvenil – 56 páginas. “Crá-crá de Tucano” (Brinque-Book) – Roberta Asse – Infantojuvenil – 48 páginas. “Tutifruti – Venha Para a Feira da Alegria” (Moderna) – Pedro Bandeira (autor) e Mariana Munhoz (autora e ilustradora) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Minha Vó Ia Ao Cinema” (Companhia das Letrinhas) – Paula Marconi de Lima (autora) e Lumina Pirilampus (ilustradora) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Os Dengos na Moringa de Voinha” (Brinque-Book) – Ana Fátima (autora) e Fernanda Rodrigues (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Panela” (Brinque-Book) – Patricia Auerbach – Infantojuvenil – 32 páginas. “Lágrimas de Yemanjá” (Malê Mirim) – Joanice Conceição – Infantojuvenil – 32 páginas. “O Iglu” (Globinho) – Flávia Lins e Silva (autora) e Mariana Massarani (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Almoço de Família” (Companhia das Letrinhas) – Janaina Tokitaka – Infantojuvenil – 30 páginas. “Mar de Marielle” (Malê Mirim) – Luana Rodrigues (autora) e Faw Carvalho (ilustradora) – Infantojuvenil – 28 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Ventos do Apocalipse” (Companhia das Letras) – Paulina Chiziane (Moçambique) – Romance – 272 páginas. “A Morte de Jesus” (Companhia das Letras) – J. M. Coetzee (África do Sul) – Romance – 192 páginas. “Alguém que Você Conhece” (Record) – Shari Lapena (Canadá) – Romance – 328 páginas. “A Mais Recôndita Memória dos Homens” (Fósforo) – Mohamed Mbourgar Sarr (Senegal) – Romance – 400 páginas. “A Corneta” (Alfaguara) – Leonora Carrington (México/Inglaterra) – Romance – 216 páginas. “Cena de Um Crime” (Record) – Patrick Modiano (França) – Romance – 176 páginas. “Párocos e Mestres” (Fósforo) – Ivy Compton-Burnett (Inglaterra) – Romance – 188 páginas. “Encruzilhadas” (Companhia das Letras) – Jonathan Franzen (Estados Unidos) – Romance – 600 páginas. “Degelo” (Todavia) – Lucrecia Zappi (Argentina) – Romance – 256 páginas. “O Sorriso de Angelica” (Record) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 224 páginas. “O Método Siciliano” (L&PM Editores) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 264 páginas. “Tempo de Felicidade” (Globo Livros) – Anne Østby (Noruega) – Romance – 320 páginas. “Asas” (Carambaia) – Mikhail Kuzmin (Rússia) – Romance – 200 páginas. “La Maison – Minha História na Prostituição” (Record) – Emma Becker (França) – Romance – 336 páginas. “Patty Diphusa e Fogo nas Entranhas” (Tusquets) – Pedro Almodóvar (Espanha) – Romance – 160 páginas. “Cara Paz” (Nós) – Lisa Ginzburg (Itália) – Romance – 256 páginas. “Crime na Alta Sociedade – Volume 2 da Série As Irmãs Mitford Investigam” (Record) – Jessica Fellowes (Inglaterra) – Romance – 392 páginas. “Euforia – Um Romance sobre Sylvia Plath” (Companhia das Letras) – Elin Cullhed (Suécia) – Romance – 320 páginas. “O Fim do Mundo” (José Olympio) – Upton Sinclair (Estados Unidos) – Romance – 644 páginas. “Rádio Imaginação” (Companhia das Letras) – Seiko Ito (Japão) – Romance – 184 páginas. “Srta. Austen” (Record) – Gill Hornby (Inglaterra) – Romance – 292 páginas. “Maud Martha” (Companhia das Letras) – Gwendolyn Brooks (Estados Unidos) – Romance – 168 páginas. “Todo Mundo da Minha Família Já Matou Alguém” (Intrínseca) – Benjamin Stevenson (Austrália) – Romance – 384 páginas. “Uma Ideia de Você” (Globo Livros) – Robinne Lee (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “A Biblioteca Secreta de Londres” (Record) – Kate Thompson (Inglaterra) – Romance – 406 páginas. “Ghostwriter” (Verus) – Alessandra Torre (Estados Unidos) – Romance – 280 páginas. “Passeio ao Farol” (Penguin-Companhia) – Virginia Woolf (Inglaterra) – Romance – 256 páginas. “O Carteiro e o Poeta” (Record) – Antonio Skármeta (Chile) – Romance – 176 páginas. “Damas de Pedra” (Intrínseca) – Lloyd Devereux Richards (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Os Prêmios” (Companhia das Letras) – Julio Cortázar (Argentina) – Romance – 384 páginas. “Anatomia: Uma História de Amor” (Intrínseca) – Dana Schwartz (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “A Magia do Amor” (Record) – Keith Stuart (Inglaterra) – Romance – 504 páginas. “Para o Trono” (Suma) – Hanna Whitten (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Cinzas na Boca” (Dublinense) – Brenda Navarro (México) – Romance – 176 páginas. “Águas-Vivas Não Têm Ouvidos” (Fósforo) – Adèle Rosenfeld (França) – Romance – 200 páginas. “O Amor de Penelope” (Record) – Georgette Heyer (Inglaterra) – Romance – 280 páginas. “Dessa Vez É Real” (Alt) – Ann Liang (China/Austrália) – Romance – 352 páginas. “Lupin – A Rainha Em Xeque” (Planeta) – Bertrand Puard (França) – Romance – 372 páginas. “Corrente de Espinhos – Volume 3 da Série As Últimas Horas” (Galera) – Cassandra Clare (Estados Unidos) – Romance – 784 páginas. “A Marcação” (Fósforo) – Frida Ísberg (Islândia) – Romance – 280 páginas. “Lar Doce Mar” (Darkside) – Catherine Ryan Hyde (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Anatomia de Um Escândalo” (Record) – Sarah Vaughan (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Empregada” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Chef” (L&PM Pocket) – Gautier Battistella (França) – Romance – 264 páginas. “Se Esse Rosto Fosse Meu” (Darkside) – Frances Cha (Coreia do Sul/Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Baiôa Sem Data Para Morrer” (Biblioteca Azul) – Rui Couceiro (Portugal) – Romance – 416 páginas. “A Ilha Perdida Gullstruck” (Darkside) – Frances Hardinge (Inglaterra) – Romance – 480 páginas. “Rainha Charlotte” (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Match Perfeito” (Intrínseca) – Lauren Forsythe (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “O Carniceiro” (Planeta) – Alaina Urguhart (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “A Coleção de Arrependimentos de Clover” (Globo Livros) – Mikki Brammer (Austrália) – Romance – 320 páginas. “Marcada com Sangue – Volume 2 da Série Lendários” (Intrínseca) – Tracy Deonn (Estados Unidos) – Romance – 672 páginas. “O Inimigo de Sharpe – Volume 15 da Série Sharpe” (Record) – Bernard Cornwell (Inglaterra) – Romance – 378 páginas. “O Rascunho do Amor” (Arqueiro) – Emily Wibberley e Austin Siegemund-Broka (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Filhas de Uma Nova Era” (Planeta) – Carmen Korn (Alemanha) – Romance – 496 páginas. “Palavras que Aprendi com a Chuva” (Darkside) – Asha Lemmie (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Guerra das Duas Rainhas – Volume 4 da Série Sangue e Cinza” (Galera) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Romance – 714 páginas. “O Amor da Minha Vida” (Record) – Rosie Walsh (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Parte do Seu Mundo” (Arqueiro) – Abby Jimenez (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Menina que Não Fui” (Ercolano) – Han Ryner (França) – Romance – 256 páginas. “Como Matei Minha Querida Família” (Darkside) – Bella Machie (Inglaterra) – Romance – 252 páginas. “A Vila dos Tecidos” (Arqueiro) – Anne Jacobs (Alemanha) – Romance – 512 páginas. “Estrelas do Norte – Volume 4 da Série Bússola” (Record) – Brittainy Cherry (Estados Unidos) – Romance – 378 páginas. “A Piscina, Diário de Gravidez e Dormitório” (Estação Liberdade) – Yoko Ogawa (Japão) – Coletânea de Novelas – 168 páginas. “O Último Homem Branco” (Companhia das Letras) – Mohsin Hamid (Paquistão) – Novela – 132 páginas. “Os Funcionários” (Todavia) – Olga Ravn (Dinamarca) – Novela – 136 páginas. “Uma Mulher Singular” (Todavia) – Vivian Gornick (Estados Unidos) – Novela – 144 páginas. “Paixão Simples” (Fósforo) – Annie Ernaux (França) – Novela – 64 páginas. “Jogo Fatal – Série Manual de Assassinato para Boas Garotas – Prelúdio” (Intrínseca) – Holly Jackson (Inglaterra) – Novela – 128 páginas. “A Entrada na Guerra” (Companhia das Letras) – Italo Calvino (Itália) – Novela – 96 páginas. “Primeira Pessoa do Singular” (Alfaguara) – Haruki Murakami (Japão) – Coletânea de Contos – 168 páginas. “Dezenove Garras e Um Pássaro Preto” (Darkside) – Agustina Bazterrica (Argentina) – Coletânea de Contos – 160 páginas. “Contos Completos” (Editora 34) – Virginia Woolf (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 376 páginas. “Pra Te Ver Melhor” (Planeta Minotauro) – Gina Blaxill (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 320 páginas. “Clássicos Japoneses Sobrenaturais” (Darkside) – Richard Gordon Smith (Organização - Inglaterra) – Coletânea de Contos – 352 páginas. “Quatro Titias e Um Casamento” (Intrínseca) – Jesse Q. Sutanto (Indonésia/Singapura/Inglaterra) – Coletânea de Crônicas – 304 páginas. “Lições Sobre Dom Quixote” (Fósforo) – Vladimir Nabokov (Rússia/Estados Unidos) – Coletânea de Ensaios – 304 páginas. “O Coração de Nanquim – Série Cormoran Strike” (Rocco) – Robert Galbraith (Inglaterra) – Infantojuvenil – 1.024 páginas. “Ruination – Uma História de League of Legends” (Galera) – Anthony Reynolds (Austrália) – Infantojuvenil – 448 páginas. “A Rainha Traidora” (Seguinte) – Danielle L. Jensen (Canadá) – Infantojuvenil – 392 páginas. “Os Davenport” (Alt) – Krystal Marquis (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “A Mecânica do Amor” (Alt) – Alexene Farol Follmuth (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Onze Passos Para Se Apaixonar” (Alt) – Elise Bryant (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 376 páginas. “Secretamente Sua” (Intrínseca) – Tessa Bailey (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “A Guarda-costas” (Essência) – Katherine Center (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Girls Like Girls – Uma História de Amor Entre Garotas” (Intrínseca) – Hayley Kiyoko (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “O Princípio do Coração” (Paralela) – Helen Hoang (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “A Toca das Raposas – Volume 1 da Série Tudo Pelo Jogo” (Galera) – Nora Sakavic (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 294 páginas. “Tudo o que Nunca Fomos” (Essência) – Alice Kellen (Espanha) – Infantojuvenil – 288 páginas. “A Filha do Rei Pirata” (Planeta Minotauro) – Tricia Levenseller (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Desculpa Se Não Fico Linda Quando Choro” (Outro Planeta) – Joya Goffney (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “O Mistério da Noiva da Transilvânia – Volume 4 da Série A Espiã da Realeza” (Arqueiro) – Rhys Bowen (Inglaterra) – Infantojuvenil – 272 páginas. “Um Ladrão entre as Árvores” (Verus) – Sabaa Tahir (Paquistão/Estados Unidos), Nicole Andelfinger (Estados Unidos) e Sonia Liao (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 144 páginas. “Isadora Moon Se Mete Em Confusão” (L&PM Editores) – Harriet Muncaster (Arábia Saudita/Inglaterra) – Infantojuvenil – 128 páginas. “A Menina Jurássica” (Companhia das Letrinhas) – Vanna Vinci (Itália) – Infantojuvenil – 56 páginas. “Os Reflexos de Henriqueta” (Pequena Zahar) – Marion Kadi (França) – Infantojuvenil – 48 páginas. “O Livro Preferido de Um Garoto Sabido” (Brinque-Book) – Julia Donaldson (Inglaterra) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Quem Fez Xixi na Minha Cama?” (Globinho) – Alain Serge Dzotap (Camarões) – Infantojuvenil – 32 páginas. “1, 2, 3, Conta Outra Vez?” (Globinho) – Alejandra Acosta (Chile) – Infantojuvenil – 24 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Não Deixe Pra Ser Feliz Depois” (Academia) – Ique Carvalho – 176 páginas. “Uma Volta Pela Lagoa” (Círculo de Poemas) – Juliana Krapp – 104 páginas. “Sequências” (Círculo de Poemas) – Júlio Castañon Guimarães – 96 páginas. No final de agosto ou no início de setembro, meu compromisso com a coluna Mercado Editorial será fazer um post com os principais livros de ficção e poesia que serão publicados no quarto bimestre de 2023 (no caso, em julho e agosto). Tenho certeza de que os leitores do Bonas Histórias que curtem o melhor da literatura não vão perder. Até mais! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Cacambo
Na segunda entrevista da nova temporada do TSL, o convidado de Darico Nobar é o herói de O Uraguai, epopeia de Basílio da Gama e clássico do Arcadismo brasileiro. Emanava intento à literatura. Em outro programa, pedia encanto O erudito Darico achar sossego. No perturbado interrompido sono (Talvez fosse ilusão) se lhe apresenta A triste dor de Cacambo destruído. Pintado o rosto do temor da morte, Banhado em negro sangue, que corria Do peito aberto, e nos pisados braços Inda os sinais da mísera caída. Sem adorno a cabeça e aos pés calcada, A rota alijava e as descompostas penas. Quanto diverso Cacambo valente Que no meio dos nossos espalhava, De pó, de sangue e de suor coberto, O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes: Fumam ainda nas desertas praias, Lagos de sangue tépidos dos puros Em que ondeiam cadáveres de índios, Pasto de corvos. Dura inda nos vales O rouco som da irada assassina Da gente que não vê o herói que Padeceu do Uraguai e nosso sangue Dos decretos reais lavou a afronta. Ai tanto custas, ambição de império! E Tu, que na televisão perdura, Fala para milhões de embalados, Herói e irmão de heróis, saudosa e triste Se ao longe a vossa América vos lembra, Protegei os meus tristes lamentos Sentindo as dores as novas asas Em que um dia me leve para morte. Nobar no sofazão. Porém Cacambo Fez, ao seu modo, cortesia estranha, E começou: Ó âncora famoso, Tu tens à vista quanta gente morre Do soberbo Uraguai a esquerda margem. Bem que os nossos avôs fossem despojo Da perfídia de Europa, e daqui mesmo Casos não vingados ossos dos índios Se vejam branquejar ao longe os vales. Eu, desarmado e só, buscar-te venho. Tanto espero deles. E enquanto as armas Dão lugar à razão, senhor, vejamos Se se pode salvar a vida e o sangue De tantos belos povos. Muito tempo Pode ainda tardar-nos o recurso Com o largo oceano de tormento. Aqui não temos. Os padres faziam Crer aos índios que os portugueses Eram gente sem lei, que adoravam o ouro. Rios de areias de ouro. Essa riqueza Que cobre os templos dos fétidos padres, Fruto da sua indústria e do comércio Da folha e peles, é riqueza sua. Com o arbítrio dos corpos e das almas, O céu lhe deu em sorte. A nós somente Nos toca arar e cultivar a terra, Sem outra paga mais que o repartido Por mãos escassas mísero sustento. Podres choupanas, e algodões tecidos, E o arco, e as setas, e as vistosas penas São as nossas fantásticas riquezas. Muito suor, e pouco ou nenhum vintém. Obra de meu estimo valor! Tenho Real esposa, a senhoril Lindoia, De costumes suavíssimos e honestos, Em verdes anos: com ditosos laços Amor nos tinha unido; mas apenas Nos tinha unido, quando ao som primeiro Das trombetas me arrebatou dos braços A glória enganadora. Ou foi que Balda, Engenhoso e sutil, quis desfazer-se Da minha presença inoportuna E do meu posto pro filho bastardo. Saudosa manhã, que a despedida Presenciou de nós amantes, nunca Consentiu que outra vez tomasse os braços Da formosa Lindoia e descobria Sempre novos pretextos da demora. Tornar não esperado e vitorioso Foi todo o meu delito. Não consente O cauteloso Balda que Lindoia Chegue a falar ao seu esposo; e manda Que uma escura prisão a esconda e aparta Da luz do sol. Nem os reais parentes, Nem dos amigos a piedade, e o pranto Da enternecida esposa abranda o peito Do obstinado juiz: até que à força De desgostos, de mágoa e de saudade, Por meio de um licor desconhecido, Que lhe deu compassivo o santo padre. Cá fiquei eu, Cacambo, entre os gentios Único que na paz e em dura guerra De virtude e valor deu claro exemplo, Derrotado estou em qualquer cenário. Acabou de falar; e assim rebate O ilustre apresentador: Ó alma Digna de compadecer melhor causa, Vê que te não enganam rica memória Vãs, funestas imagens, que alimentam Envelhecidos mal fundados ódios. Por mim te falo o que sei: ouça-me E verás uma vez nua a verdade Dos pobres índios, e no chão caídos Fumegavam os nobres edifícios, Deliciosa habitação dos padres. Entram no grande templo e vêm por terra As imagens sagradas. O áureo trono, O trono em que se adora um Deus imenso Piedoso, muito amoroso, Que o sofre, e não castiga os temerários. E o índio, um pouco pensativo, manda: Gentes de Europa, nunca vos trouxera O mar e o vento a nós. Ah! não debalde Estendeu entre nós a natureza Todo esse plano espaço imenso de águas. Prosseguia talvez; mas o interrompe Nobar, que entra no meio, e diz: Cacambo Fez mais do que devia; e todos sabem Que estas terras, que pisas, o céu livre Deu os teus avôs; eles também livres As receberam dos antepassados. Livres não hão de herdar teus filhos. Dentro de pouco tempo: e o vosso Mundo, Se nele um resto houver de humanidade, Sentirá a injustiça do meu Deus. Não quereis a guerra, mas a terás. Lhe disse: Ó Darico, eu te agradeço As dicas que me dás e te prometo Lembrarei bem depressa uma por uma Entre nuvens de pós no ardor da guerra. Despediram-se índio e apresentador Se vão dispondo em ordem a plateia Como manda o figurino da TV. Cobrem o público de alegria, E estão no centro firmes as mentiras Contadas dos índios a nossa frente. De agudas baionetas rodeada, Fez a trombeta o som da guerra. Ouviram Aqueles montes pela vez primeira O som da caixa portuguesa; e viram Pela primeira vez aqueles ares Desenroladas as reais bandeiras. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: EO - O drama de um simpático burrinho por Jerzy Skolimowski
Lançada em junho nos cinemas brasileiros, a produção polonesa conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2022 e foi indicada ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2023. Tradicionalmente, existem seis tipos de filmes protagonizados por animais: (1) a comédia/aventura infantojuvenil, como “Beethoven – O Magnífico” (Beethoven: 1992), “Monster Trucks" (2017) e “A Caminho de Casa” (A Dog's Way Home: 2018); (2) o drama que faz a plateia se debulhar em lágrimas, como “Marley & Eu” (Marley & Me: 2008), “Sempre ao Seu Lado” (Hachi – A Dog's Tale: 2009) e “Meu Amigo Enzo” (The Art of Racing in the Rain: 2019); (3) o thriller de terror, como “Tubarão” (Jaws: 1975), "Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros" (Jurassic World: 2015) e “O Urso do Pó” (Cocaine Bear: 2023); (4) a animação/fantasia de ação, como “Dr. Dolittle” (Dolittle: 1998), “Alvin e os Esquilos na Estrada” (Alvin And The Chipmunks - The Road Chip: 2015) e "O Bom Dinossauro" (The Good Dinosaur: 2015); (5) as tramas policiais, como “K-9 – Um Policial Bom Pra Cachorro” (K-9: 1989), “Uma Dupla Quase Perfeita” (Turner & Hooch: 1989) e “O Resgate de Ruby” (Rescued by Ruby: 2022); e (6) a comédia romântica, como “Melhor é Impossível” (As Good As It Get: 1997), “Procura-se um Amor que Goste de Cachorros” (Must Love Dogs: 2004) e “Mato Sem Cachorro” (2013). Mas será que dá para fugir desses vários clichês cinematográficos ao se construir um novo enredo envolvendo os bichos?! Jerzy Skolimowski, veterano diretor polonês, provou que sim. O ótimo “EO” (IO: 2022), sua mais recente produção, vai na contramão do convencional ao apresentar a cinebiografia de um simples burrinho. Cinebiografia de um burro comum?! Pode isso, Arnaldo? Para Skolimowski, que bebeu diretamente da fonte do cinema de Robert Bresson, não só pode como deve. O resultado é um filme profundo, impactante e diferenciado. Esqueça, portanto, as seis categorias que listei sobre os longas-metragens protagonizados por animais (repare que usei o termo “protagonizado”!), a maioria com títulos que flertam com o gênero água com açúcar. O que temos em “EO” é um drama genuíno que vai do terror psicológico ao thriller existencialista, passando pela crítica social e ambiental, pela aventura ao melhor estilo road movie e pela estética do Surrealismo. Não falei que era uma produção ousada, hein?! Além da originalidade narrativa (quando o comparamos ao que tem sido feito nos últimos cinquenta anos; já falarei mais sobre isso, afinal a trama não é tão original assim....), dos méritos técnicos da difícil empreitada (filmar animais nunca é tranquilo) e da incontestável beleza audiovisual (e põe beleza nisso!!!), “EO” é um panfleto inteligente e poderoso em prol dos direitos dos animais. Dos filmes que estão em cartaz nos cinemas brasileiros neste momento, este é o mais inusitado. Gostei tanto desse novo título de Jerzy Skolimowski que resolvi analisá-lo com o devido detalhamento no Bonas Histórias. Flertando com a pegada cult e com uma proposta de certa maneira experimental, “EO” não é aquele tipo de filme com viés de entretenimento massivo que arrebata plateias gigantescas mundo à fora nem que agrada ao público com alma infantojuvenil e com paladar mais limitado. Estamos tratando aqui de um longa com tons mais artísticos e menos comerciais. Por isso, ele se aproxima mais da obra-prima “Trilogia das Cores” (Trois Couleurs: 1993 a 1994), de Krzysztof Kieślowski, do que dos midiáticos “Rede de Ódio” (Hejter: 2020), de Jan Komasa, e “Morte às Seis da Tarde” (Plagi Breslau: 2018), de Patryk Vega. Repare que para a minha analogia não ficar injusta, me limitei às produções de alto nível do cinema polonês, que não param de nos surpreender. Em relação ao ritmo lento, ao destaque dado à fotografia e à estética de filmagem, “EO” me lembrou um pouco “Ida” (2013), produção polonesa de Pawel Pawlikowski que conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015. Lançado no comecinho deste mês no circuito comercial brasileiro de cinema, o novo filme de Skolimowski foi apresentado inicialmente no Festival de Cannes em maio de 2022. No mais importante evento cinematográfico europeu, “EO” conquistou o Prêmio do Júri e ganhou avaliações positivas tanto do público quanto da imprensa e dos críticos. Daí em diante, ele teve excelente visibilidade nos demais festivais cinematográficos da temporada, mas estreou de forma extremamente tímida nas salas de cinema de vários países. Na Polônia, ele foi lançado no final de setembro. No mês seguinte, chegou ao público francês. A partir de novembro de 2022, aportou em alguns cinemas dos Estados Unidos e Canadá. E em dezembro, alcançou as outras partes da Europa, como Espanha, Alemanha, Itália e Turquia. Representante polonês na última edição do Oscar, o filme foi finalista na categoria Melhor Filme Internacional juntamente com o argentino “Argentina, 1985” (2022), o belga “Close” (2022), o irlandês “Quiet Girl” (2022) e o alemão “Nada de Novo no Front” (Im Westen Nichts Neues: 2022), que confirmou o favoritismo e faturou a estatueta. Grande azarão no evento norte-americano, desculpem-me pelos trocadilhos inevitáveis, “EO” era visto como o patinho feio entre os indicados. Por outro lado, no Polish Film Awards de 2023, principal honraria de seu país, ele era o franco favorito e levou para casa seis prêmios: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor trilha sonora, melhor fotografia e melhor edição. “EO” teve até agora uma bilheteria de aproximadamente US$ 2,5 milhões nos quatro cantos do planeta. Apesar de parecer baixo se pensarmos nas cifras hollywoodianas e nos números dos blockbusters que monopolizam as salas de cinema, esse valor é superior ao orçamento de sua produção, que não ultrapassou a casa de US$ 1 milhão. Em outras palavras, esse foi um filme de baixo orçamento, uma realidade vivida por Skolimowski nos últimos anos e que foge da dinâmica de trabalho que ele estava acostumado nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Mesmo com os valores menores, uma coisa não mudou: a qualidade dos seus longas-metragens. Eles continuam muito, mas muito bons! No elenco de “EO”, além de seis burrinhos que se revezaram para viver o protagonista quadrúpede, temos Sandra Drzymalska, Tomasz Organek, Mateusz Kosciukiewicz, Lorenzo Zurzolo e Isabelle Huppert.Isabelle Huppert está neste filme?! Sim, queridos leitores da coluna Cinema, ela está!!! A minha musa do cinema francês, ao lado de Lou de Laâge (para ninguém reclamar que não sou versátil em relação a faixa etária de minhas amadas e idolatradas atrizes), não só está presente aqui como, para variar, consegue roubar a cena quando aparece na tela. Incrível! O roteiro é do próprio Skolimowski com Ewa Piaskowska, roteirista polonesa que é coautora de três dos últimos quatro filmes do veterano diretor. Com mais de vinte longas-metragens no currículo, Jerzy Skolimowski é, aos 85 anos, um dos principais cineastas europeus da segunda metade do século XX. Seus títulos mais importantes são “A Partida” (Le Départ: 1967), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, “Deep End” (1970), favorito para levar o Leão de Ouro se o Festival de Cinema de Veneza não tivesse sido cancelado em 1970, “Estranho Poder de Matar” (The Shout: 1978), vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, e “Vivendo Cada Momento” (Moonlighting: 1982), eleito o Melhor Roteiro no Festival de Cannes. Depois de ficar quase vinte anos longe do cinema, Skolimowski lançou, em 2008, “Quatro Noites com Ana” (Cztery Noce z Anną: 2008), thriller policial escrito em conjunto com Ewa Piaskowska. A partir daí, o diretor polonês tem trazido frequentemente novidades para o público cinéfilo. “EO” é o quarto filme dessa retomada (que chamo de fase século XXI do cineasta). Os outros dois títulos foram “Matança Necessária” (Essential Killing: 2010) e “11 Minutos” (11 Minutes: 2015). Inspirado explicitamente na “A Grande Testemunha” (Au Hasard Balthazar: 1966), clássico do cinema francês e um dos mais influentes trabalhos de Robert Bresson (não confundir Robert com o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, que ganhou uma exposição fotográfica há alguns anos no Brasil, “Henri Cartier-Bresson, Primeiras Fotografias”, analisada na coluna Exposições), “EO” apresenta a saga de um burrinho cinza que passa nas mãos de diferentes donos sem nunca encontrar a felicidade. Por essa semelhança de enredo e de proposta cinematográfica, o filme atual não pode ser tachado de tão original assim (entendeu agora o meu melindre em fazer tal afirmação no início deste post da coluna Cinema?!). O contato com várias pessoas, além das incontáveis aventuras pela natureza e pela cidade (o animal vive fugindo), permite que EO (esse é o nome do burrinho, dado evidentemente pelo som onomatopeico que ele faz) testemunhe ao longo de sua trajetória de vida o descaso com a natureza, a maldade humana e a crueldade com os animais. Segundo Jerzy Skolimowski, seu filme é fruto do amor pelos animais e pela natureza e uma homenagem direta a “A Grande Testemunha”. Obviamente, “EO” não está em cartaz em muitas salas de cinema no Brasil. Até onde sei, o filme ganhou projeções em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre, Londrina, Niterói, Aracajú, Maceió e Vitória. Eu o assisti na quarta-feira passada no Espaço Itaú de Cinemas do Bourbon Shopping Pompéia. Na rede de cinema do banco laranja, há duas sessões nesta semana na unidade da Pompéia e duas na unidade da Augusta. Pelo que vi rapidamente, esse longa também está sendo exibido em São Paulo no Reserva Cultural, na Cinesala e no Petra Belas Artes. Se o seu namorado ou a sua namorada quiser pegar um cineminha neste 12 de junho, essa produção de Skolimowski só será uma boa pedida se ele/ela for do tipo mais intelectualizado(a). O enredo de “EO” começa na Polônia. EO é o burrinho de Kasandra (interpretada por Sandra Drzymalska), jovem artista de uma companhia circense. Os dois são inseparáveis e se adoram. Kasandra utiliza EO em seus espetáculos no picadeiro e o tem como melhor amigo. Por isso, ela cuida com tanto zelo do adorável animal, treina constantemente com ele e não deixa que ninguém faça qualquer maldade com EO. Como nasceu no ambiente de shows artísticos, de mudanças constantes e de ensaios performáticos, o burrinho se acostumou àquela rotina e tem uma vida idílica ao lado de Kasandra. A moça carinhosa é uma espécie de mãe, melhor amiga e/ou companheira de todas as horas do protagonista do filme. A rotina de EO segue uma maravilha até que um grupo de defensores dos direitos dos animais consegue emplacar leis que proíbem os circos poloneses de utilizar animais em suas apresentações. Assim, da noite para o dia, o burro e seus colegas de palco, como girafas, elefantes e pombos, não podem mais frequentar os shows da companhia nem permanecer em contato com os artistas. É o fim da linha na carreira circense de EO. O pior é que, uma vez retirado do circo, o burrinho não poderá mais conviver com Kasandra. A moça se desespera e vai às lágrimas quando uma ONG leva embora seu amigo de quatro patas. Longe do circo, EO é mandado para um aras. Na nova morada, ele trabalha pesado ao lado dos funcionários humanos. Todos estão ali para servir aos cavalos, que possuem cuidados dignos de reis. Enquanto os puros-sangues são alimentados com que há de melhor, correm livremente pela fazenda, são supervisionados por ótimos veterinários, tem instalações confortáveis e são banhados frequentemente, o burrinho é obrigado a trabalhar sem descanso e sem qualquer luxo. Ou seja, ele está na última escada da dinâmica social dos animais do aras. Por ser um tanto atabalhoado para um local tão requintado, EO acaba provocando alguns acidentes e não demora para ser expulso do aras. O burro é, então, enviado para uma fazenda em que os animais são usados em terapias com crianças com deficiências mentais. Nos contatos com os bichos, a meninada consegue se sociabilizar e expressar sentimentos mais facilmente. Na teoria, a nova rotina é agradável e tranquila para EO. Na nova morada, ele é bem tratado e não faz trabalhos pesados. O problema é que o bicho não se esquece de Kasandra nem do dia a dia no circo. As recordações do tempo em que convivia com a moça, ensaiava para as apresentações e se apresentava para o público nas arquibancadas, o deixa melancólico. Longe do circo e, principalmente, de Kasandra, a vida de EO não tem a menor graça. Para sua surpresa, o burrinho recebe, em um final de tarde, a visita de ninguém menos do que Kasandra. A moça vai até a fazenda só para se encontrar com o amigo de longa data. Não é preciso dizer que o reencontro é emocionante para a dupla. Eles não se cansam de se abraçar e trocar carinhos. Contudo, Kasandra precisa ir embora. Ela só tinha passado para dar um “oi” ao burro. Vendo-se novamente sozinho na fazenda, EO solta um grito de lamento e trata de fugir na calada da noite. Inicia-se, a partir daí, as aventuras do bichinho pelos mais diferentes cenários e por alguns países europeus. Ele encara os perigos da floresta, os desafios da montanha, as contradições da cidade grande e os perrengues da zona rural, em um legítimo road movie. Passando de mão em mão como se fosse uma mercadoria, o burro presencia a crueldade humana nas mais distintas formas. Para cada pessoa legal que ele encontra pelo caminho, tem duas ou três figuras que agem de um jeito inconsequente, maldoso e transloucado. As vítimas da brutalidade dos homens são normalmente a natureza, a sociedade como um todo e os animais. O mundo é um local profundamente perigoso por culpa única e exclusivamente da humanidade, que não consegue viver sem matar, destruir e poluir. Nesses ambientes de enormes e constantes dificuldades, acompanhamos o simples burrinho caminhando a passos lentos e com um olhar que mescla pureza e melancolia. EO lança-se no mundão com a cara e a coragem. Tudo o que ele quer é voltar a ver Kasandra. As lembranças e os sonhos moldam seu comportamento, em uma busca obstinada pela pessoa que mais ama. Conseguirá o animalzinho escapar das loucuras dos homens e concretizar seus anseios?! Esse é o mistério que move o drama de Jerzy Skolimowski. “EO” possui em torno de 88 minutos de duração. O tempo reduzido do longa-metragem é positivo, pois sua narrativa é bastante parada e a história não é tão caudalosa assim. Da maneira como está, gostei: a produção está no tamanho perfeito! Se o filme se aproximasse das duas horas de extensão, como acontece normalmente no cinema comercial, na certa haveria cenas de suicídio na plateia, barulhos de roncos na sala e fugas desesperadas do público no meio da sessão. Deixando um pouco de lado a tradição da coluna Cinema, vou começar a análise de “EO” pelos aspectos técnicos da produção. Afinal, esse longa-metragem chama mais a atenção pelos componentes cinematográficos do que pelos elementos da narrativa. Em primeiro lugar, precisamos apontar os seis tipos de enfoque de câmera usados por Skolimowski. Para mostrar a história do burrinho que se aventura pela Polônia e, em seguida, pela Europa, o diretor recorre: (1) ao ponto de vista dos olhos do animal, (2) ao enquadramento no rosto de EO, (3) ao mergulho na mente do bicho, (4) à visão geral da cena em que o protagonista está, (5) ao acompanhamento das personagens humanas para fora dos lugares onde o burro está e (6) ao panorama geral da paisagem/tomadas aéreas. As três primeiras câmeras (número 1, 2 e 3 da minha lista) permitem que o espectador compreenda que a trama será contada da perspectiva do inusitado protagonista. O enquadramento a partir do que EO vê (câmera do tipo 1) é mais comum nas primeiras cenas do filme. Depois, ela deixa de ser usada recorrentemente. Porém, o enquadramento no rosto do burro e o mergulho na mente do bichinho permeiam o longa-metragem inteiro. Confesso que entendi o motivo de Jerzy Skolimowski de insistir em mostrar a fisionomia de EO (câmera 2). Esse era o momento em que ele iria mostrar o sofrimento da personagem principal e seus sentimentos. Algo assim foi utilizado com muito êxito no filme “O Escafandro e a Borboleta” (Le Scaphandre et le Papillon: 2007). Sempre que se mostrava os olhos do homem tetraplégico, conseguimos assimilar o seu turbilhão emocional. O problema em “EO” é que não se atingiu esse mesmo efeito pelo enquadramento no rosto do animal. Não há nenhuma expressividade em seu olhar. Por mais simpático e melancólico que seja, o burrinho não tem qualquer expressão facial (como há em outros animais, por exemplo no cachorro). E não adianta jogar água nos olhos de EO para simular lágrimas. Nem assim, somos convencidos de que há choro ou que o bicho esteja sofrendo. Na minha visão, os únicos méritos desse tipo de enquadramento de câmera foram aproximar a plateia do protagonista e indicar o tamanho da melancolia do burro. A tempestade emocional de EO é muito mais perceptível pelas câmeras que simulam o que se passa no interior de sua cabeça (número 3). As cenas das memórias, sonhos e devaneios do animal são sensacionais! Além de esteticamente impactantes, elas sim conseguem retratar o drama psicológico do protagonista com enorme fidedignidade. Curiosamente, toda vez que entramos na mente do bicho, assistimos a uma quebra no panorama narrativo. Aqui entram elementos simbólicos e existencialistas que exigem a interpretação da plateia. Portanto, é necessário um esforço de compreensão por parte do público para entender o que está se passando na tela (e, no caso, dentro do cérebro do protagonista). Em relação à exposição dos acontecimentos dos homens e mulheres que se envolvem com EO (câmera do tipo 5), achei que essa parte do filme é importante para preencher as lacunas narrativas do longa-metragem. Se ficássemos apenas com a história do burrinho, acho que “EO” se tornaria excessivamente parado e chato, quiçá minúsculo em extensão (viraria uma obra com propriedades soníferas ou um curta metragem). Além disso, acompanhar as confusões e perturbações dos humanos ajuda a corroborar com a tese defendida pela produção: a humanidade é uma praga que extermina a natureza, seja a fauna, seja a flora. Não à toa, EO gosta tanto de Kasandra. A moça é a única figura que ele conhece que não possui comportamentos de vilania. Ainda falando das cenas dos humanos que rodeiam o burrinho e da presença de Kasandra na narrativa, a história de “EO” possui uma diferença fundamental para a trama de “A Grande Testemunha”. Enquanto na produção de Robert Bresson acompanhamos simultaneamente os perrengues sofridos por Balthazar (o burrinho francês) e a rotina conflituosa de Marie (a moça que possui uma afinidade com o animal), no filme de Skolimowski não vemos a continuidade da trajetória de Kasandra. A artista circense só aparece uma vez no filme depois que EO é enxotado do circo por imposição dos grupos de proteção aos animais. O que acontece com a moça? Para onde Kasandra vai? Ela consegue superar a perda emocional do animal que tanto gostava?! Não sabemos, enquanto em “A Grande Testemunha” temos consciência exata do destino de Marie, que não é nada satisfatório e é tão trágico quanto ao desenlace de Balthazar. Basicamente, “EO” tem três planos ficcionais: (I) a realidade nua e crua do burro, que é contada por três tipos de câmera (1, 2 e 4); (II) o universo interior de EO, com elementos oníricos, memoriais e de divagação, que é passado por duas classes de câmera (3 e 6); e (III) o contexto geral da trama, em especial a história dos seres humanos que se envolvem com EO, que é transmitido por duas modalidades de câmera (4 e 5). Compreender essa tripla divisão narrativa ajudará o espectador a aproveitar melhor a sessão de cinema e mergulhar na experiência estético-sensorial proposta pelo diretor polonês. Por falar em experiência, “EO” é um filme para suscitar sensações e gerar reflexões no público. Estamos falando aqui de uma produção muito mais artística do que comercial. Se você espera que o drama de Jerzy Skolimowski seja passado didaticamente e de maneira linear, talvez você caia do cavalo. O longa-metragem tem pouquíssimos diálogos, um ritmo narrativo mais lento do que o usual (porém, mais rápido do que eu imaginava – tem muito filme iraniano mais parado do que “EO”), elementos de semiótica, forte intertextualidade cinematográfica e pesadas críticas sociais. Para conseguir um efeito poderoso, o filme utilizou-se muito bem da trilha sonora, dos efeitos visuais (leia-se montagem) e da fotografia. A trilha sonora é um capítulo à parte de “EO”. Repare na magnitude das músicas escolhidas para compor as cenas e em como elas afetam a nossa experiência. Na maior parte do tempo, as canções são instrumentais. As canções comerciais e com letras surgem apenas quando acompanhamos os seres humanos ouvindo rádio. Em vários momentos, o silêncio predomina, o que potencializa a dramaticidade das cenas e a angústia do protagonista. Assistir ao burrinho caminhando no maior silêncio ou com uma música instrumental que simula seu estado emocional é de tirar o fôlego! Juntamente com a trilha sonora, temos componentes estético-visuais que enriquecem o filme. Isso fica mais nítido nas cenas introspectivas de EO, que para mim, compõem a melhor parte dessa produção. Note o constante jogo de claro e escuro. Em muitos instantes, temos quase um longa-metragem noir. Perceba também o uso proposital de certas cores: vermelho, azul, branco. A predominância desses tons em cada fase do filme tem como objetivo transmitir um determinado sentimento/sensação na plateia. Essas tonalidades informam, invariavelmente, o estado de espírito do burrinho naquele momento da vida. Além disso, temos dois tipos de fotografia bem distintas em “EO”: uma mostra a realidade e a outra mostra o universo introspectivo do protagonista. É ou não é espetacular o uso desse recurso cinematográfico, hein? Do ponto de vista técnico, o maior mérito do filme está na aplicação de uma montagem pouco convencional, extremamente impactante e muitíssimo cirúrgica. Em relação ao conteúdo, o novo trabalho de Skolimowski se destaca pelas fortes críticas ao nosso estilo de vida contemporâneo. Mais tocante do que falar é mostrar. E “EO” joga nas nossas caras o quanto o ser humano pode ser desprezível em suas atitudes individuais e coletivas. Assistimos, por meio da trajetória de um simples burro, a destruição da natureza e o extermínio de vários grupos de animais. Nessa linha de debate, uma passagem marcante do filme é quando EO escapa da fazenda e foge no meio da noite para uma floresta. Aí a plateia fica com o coração na mão e pensa assustada: “Coitado, será que ele conseguirá sobreviver no meio de um lugar tão selvagem?!”. O que não sabemos é que, mesmo em uma floresta no meio da noite, o maior perigo não está no surgimento de uma raposa, um jacaré ou uma cobra. O grande vilão continua sendo o homem. Confesso que é chocante chegar a essa conclusão. Outro tipo de crítica que “EO” faz é a social. Achei encantador (além de totalmente pertinente) a dicotomia da vida do burro com a vida dos cavalos no aras. Não é difícil perceber quem faz parte da elite, passando o dia se embelezando e usufruindo das comodidades que o luxo pode proporcionar, e quem integra o proletariado, passando o dia no trabalho pesado e sem o atendimento às necessidades básicas. Impossível não lembrarmos, nessa hora, de “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), clássico literário de George Orwell que é anterior a “A Grande Testemunha”. O livro é de 1945, enquanto o filme de Bresson é de 1966. Ainda na seara das críticas feitas pelo enredo do longa-metragem de Jerzy Skolimowski, podemos enxergar sem muito esforço os questionamentos existencialistas do protagonista de “EO”. O burrinho parece sempre deslocado: no meio de girafas, cavalos, cachorros, vacas, crianças, torcedores de futebol, artistas circenses, terapeutas... E onde estão os outros burros? Quem são os seus semelhantes para ele interagir?! Outra questão é o sonho de liberdade. Sempre aprisionado e utilizado como ferramenta produtiva da sociedade humana, EO aspira uma vida em que possa fazer o que quiser. Esse tipo de reflexão surge naturalmente quando ele observa ou relembra os cavalos galopando na pradaria. O conflito do filme está na busca de EO por Kasandra. O amor do burro pela ex-companheira de circo é o que faz a roda do longa-metragem girar e que dá graça ao drama. Paradoxalmente, o sentimento é recíproco, porque a menina também adora seu amiguinho de quatro patas e quer ficar ao lado dele. Entendido isso, refletimos ingenuamente: “Se ele quer ficar com ela e ela quer ficar com ele, está tudo resolvido – eles poderão ficar juntos”. Nananinanão! A vida não é tão fácil e lógica como os mais inocentes podem supor. Nem mesmo quando há concordância mútua quanto a um determinado assunto, a sociedade humana deixa de exercer sua influência para atrapalhar tudo. EO e Kassandra não podem ficar juntos por imposições meramente sociais. Por essa perspectiva, não apenas a humanidade é a vilã da história como a sociedade atual também é. Aí que entram as cenas de violência e brutalidade que provocam calafrios na plateia. “EO” é um filme muito bem-produzido e possui várias camadas que devem ser descascadas aos poucos pela plateia. Por exemplo, achei seu início sublime. Ao mesmo tempo que parece que o burrinho está nascendo, EO está, no fim das contas, se apresentando no picadeiro com Kasandra. O jeito com que Jerzy Skolimowski deixa sempre uma porta aberta para uma nova interpretação do público é digno de elogios (eu vi o nascimento de EO nas cenas iniciais, mas você pode muito bem ver outra coisa). Já que falei da abertura de “EO”, tenho que falar do seu desfecho. Também gostei do encerramento do longa. Ele é forte e contundente, sem ser meloso. Ficamos mais assustados com o que acontece com o burro do que tristes. Até porque a vida dele já reservou tantas tristezas e limitações que nosso nível de expectativa cai para quase zero. Para encerrarmos este post da coluna Cinema, aqui vão mais algumas curiosidades de “EO”. Apesar de ter poucos diálogos, o filme é falado em quatro idiomas: polaco, italiano, inglês e francês. Essa pluralidade linguística mostra as diferentes nacionalidades das personagens e indica o quanto o burro viajou pela Europa. Além disso, quando vemos pessoas de diferentes países na trama, a história ganha naturalmente em universalidade. Ou seja, os problemas ambientais, sociais e de direitos dos animais não são restritos à Polônia ou Itália, locais onde a maior parte do drama de EO se passa, mas do mundo inteiro. No fim do filme, Skolimowski teve a preocupação de informar a plateia que os animais utilizados na produção não sofreram maus tratos e tiveram seus direitos respeitados. É uma atitude simples e aparentemente banal colocar essa mensagem antes da subida dos créditos, mas que mostra que o discurso transmitido durante o longa-metragem não é da boca para fora. Confira, a seguir, o trailer de “EO” (IO: 2022): Por hoje é só, pessoal! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em janeiro e fevereiro de 2023
Confira as 110 principais obras da ficção e da poesia que foram publicadas nas livrarias do Brasil no primeiro bimestre do ano. Só foram percorridos dois meses de 2023. Porém, a sensação é que um rio caudaloso já passou por baixo da ponte do mercado editorial brasileiro nesse período. Não está acreditando em mim? Pois tivemos, em menos de seis dezenas de dias, a falência da Livraria Cultura, que se juntou à Livraria Saraiva e à Livraria Nobel no céu do capitalismo nacional. Os otimistas dizem que a derrocada das grandes redes livreiras foi fruto da recente falta de apetite de leitura dos habitantes da terra descoberta por Seu Cabral. Já os pessimistas se questionam se algum dia o brasileiro médio leu alguma coisa. Por falar nisso: beijinho, Key Alves. Estou torcendo por você, minha bela e sapeca guerreira! Para desespero de quem trabalha com produção textual (será que ainda hoje alguém faz isso, meu Deus?), a OpenAI lançou a primeira versão comercial do ChatGPT. Usando uma tecnologia que não deve ser coisa de Deus, esse chatbot disruptivo desenvolve textos autonomamente a partir da Inteligência Artificial. De agora em diante, ninguém mais precisará se esforçar para escrever algo novo e com qualidade. Como você acha que surgiram essas palavras que você está lendo agora no Bonas Histórias, hein?! Brincadeira! Se bem que gostei da ideia... Quem sabe não teste o ChatGPT para a coluna Mercado Editorial do próximo mês, né? Brincadeirinha (ou não)! Sem livrarias de grande porte à disposição (calma, Livraria Leitura, você ainda chega lá!) e com uma tecnologia que escreve sozinha, os felizes estudantes contemporâneos terão mais tempo para se educar nos sites de pornografia, nas redes sociais e nos games (ou e-sports, como preferem os esportistas do novo milênio). É a nossa civilização avançando a passos largos rumo ao futuro preconizado por Nostradamus. Só faltam agora inventar um aplicativo de leitura. Já pensou se a Inteligência Artificial, depois de escrever textos de maneira independente, pudesse também ficar lendo tudo o que desejamos sem que a gente precisasse ficar por perto?! Olha que não é uma má ideia, senhores, senhoras e senhorxs. Ô, Elon Musk, pare de atrapalhar o Twitter ou demitir seus funcionários e vê se cria logo uma startup para viabilizar essa sacada genial! Enquanto a modernidade não me pega (leia “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora”, série de 2017 da coluna Contos & Crônicas, e você saberá o quão cavernoso eu sou), sigo no meu mundinho analógico. E nessa rotina pré-histórica (ou seria pré-IA?), continuo escrevendo sozinho e permaneço lendo por conta própria. Não é fácil acreditar nessas palavras, eu sei, mas elas são verídicas, tá?! Para quem ainda tem a mania besta de ler obras de qualidade, fiz uma lista com as principais novidades no campo da ficção literária e da poesia que chegaram às livrarias brasileiras no primeiro bimestre de 2023. Isso é, nas livrarias e nas varejistas que sobraram (tchau, tchau, Lojas Americanas!). Na minha relação de livros recém-publicados, selecionei 110 obras que acredito que possam interessar aos leitores do Bonas Histórias (ou às pessoas que fiquem sem nada de produtivo para fazer durante os intervalos do BBB 23). Como já é tradição na coluna Mercado Editorial, primeiro irei comentar os novos livros que considero mais interessantes da literatura brasileira e da literatura internacional. Em seguida, apresentarei a relação completa dos títulos ficcionais e poéticos que foram lançados em janeiro e fevereiro. Dessa maneira, teremos a oportunidade de saber como correm as águas por debaixo da ponte do setor editorial em nosso país nesse comecinho de ano. Então vamos lá. Na estante da literatura nacional, preciso reconhecer que não tivemos uma grande quantidade de novas publicações. Apenas 27 livros de autores brasileiros foram lançados neste bimestre. Deles, 20 obras são da área da prosa e 7 títulos são da área da poesia. Por qualquer comparação que façamos, notamos a timidez dos números. No bimestre passado, por exemplo, tivemos 56 publicações nacionais (mais do que o dobro de agora). E em janeiro e fevereiro de 2023, foram lançados em nossas livrarias 83 obras ficcionais de autores estrangeiros (75% dos novos títulos). Ou seja, a ficção brasileira começou 2023 devagar quase parando. Contudo, os dados quantitativos são apenas uma faceta do mercado editorial, né? Há também os dados qualitativos. E aí a literatura brasileira não fez feio neste começo de ano. Os quatro livros nacionais recém-lançados que mais gostei são: “A Contra-história” (Valentina), terceiro volume da série “A Contrapartida” de Uranio Bonoldi, “Porém Bruxa” (Suma), romance de Carol Chiovatto, “A Repetição” (Todavia), reunião de duas novelas de Pedro Cesarino, e “O Menino Amarrado ao Manacá” (Publicação independente), romance de José Carlos Martins. Falemos, a seguir, um pouquinho mais desses títulos, que (não por acaso) abrangem um exemplar de cada gênero ficcional (saga, romance e novela). Só faltaram as figurinhas das coletâneas de contos e crônicas para que eu completasse o álbum, né? “A Contra-história” é a tão aguardada continuação da bem-sucedida coleção de romances de Uranio Bonoldi que trata dos polêmicos embates de Tavinho com os últimos integrantes da tribo Moxiruna. A primeira obra da série, “A Contrapartida” (Valentina), foi publicada em março de 2019 e a segunda, “O Contra-ataque” (Valentina), foi lançada em dezembro de 2021. Como os leitores do blog já sabem, ambos os livros foram comentados no Bonas Histórias. Agora recebemos o terceiro volume da coletânea de “A Contrapartida”, que ainda terá mais dois volumes. Portanto, a saga de Bonoldi será uma pentalogia, a ser concluída em 2025. O que mais gostei no novo título sobre a trajetória de Tavinho foi do seu inusitado enredo. As surpresas contidas em “A Contra-história” são realmente de derrubar o leitor da cadeira. Se você esperava (como eu!) uma simples continuação da história do Dr. Octávio Albuquerque Júnior, saiba que Uranio Bonoldi irá levá-lo(a) literalmente para uma nova dimensão ficcional. Só não revelo mais nada para não estragar a experiência de leitura de ninguém. O que posso dizer sem receio é que achei incríveis os desdobramentos da trama e a proposta do novo volume de “A Contrapartida”, o que torna a coleção ainda mais saborosa e inquietante. Quem gosta de um bom thriller de ação, não poderá perder “A Contra-história”. Vou tentar fazer um post do novo romance de Bonoldi para a coluna Livros – Crítica Literária até o final do ano. Vamos ver se eu conseguirei detalhar a sequência da série para vocês. Outro excelente romance nacional que chegou às livrarias, dessa vez em nova roupagem, é “Porém Bruxa”, da espetacular Carol Chiovatto. Adepta da literatura fantástica e estudiosa da figura das bruxas, Chiovatto estreou na literatura comercial, em 2019, justamente com “Porém Bruxa” (AVEC Editora). O livro conquistou o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica na categoria das Narrativas Longas no ano seguinte e catapultou a carreira literária da jovem autora fluminense. De lá para cá, ela publicou mais dois livros: “Senciente nível 5” (AVEC Editora), novela de 2020 que foi finalista do Prêmio Jabuti; e “Árvore Inexplicável” (Suma), romance de 2022. Nesse comecinho de 2023, a Companhia das Letras, dona da Suma, selo especializado em literatura de terror, relançou o romance de estreia de Carol Chiovatto. Portanto, “Porém Bruxa” volta às estantes das livrarias brasileiras dessa vez com a chancela da maior editora nacional. Quem reclamava da dificuldade para achar a edição da AVEC Editora nos sebos (põe o dedo aqui que já vai fechar!) não terá mais desculpas a partir de agora para não adquirir a obra diretamente nas lojas. “Porém Bruxa” está nas principais livrarias nacionais desde janeiro. Além da trama policial protagonizada pela bruxa (do bem) Ísis Rossetti na cidade de São Paulo, a novíssima edição do livro mais badalado até aqui de Chiovatto vem com uma carta inédita e dois contos extras. Está imperdível!!! Ainda falando das novidades dos meus escritores favoritos e da literatura contemporânea nacional, Pedro Cesarino publicou “A Repetição”, coletânea de duas novelas que mistura antropologia com ficção. Sou fã da literatura de Cesarino desde “Rio Acima” (Companhia das Letras), romance lançado em 2016 que narra os dramas dos povos nativos da Amazônia para perpetuar suas culturas e seus estilos de vida. Se não estiver enganado, comentei em detalhes na coluna Livros – Crítica Literária esse título em meados de 2020. Para quem ainda não conhece Pedro Cesarino, ele é um dos principais antropólogos brasileiros da atualidade e possui pesquisas pioneiras sobre etnologia indígena. Com um texto elegante e uma técnica narrativa apuradíssima, o escritor paulistano aplica seu vasto conhecimento de antropologia na literatura ficcional. Em “A Repetição”, Cesarino volta a trabalhar com temas que lhe são mais caros: herança da escravidão, violência contra os povos indígenas, injustiças sociais e exploração econômica. Vale a pena conferir mais um livrão (pequeno no tamanho e enorme na intensidade dramática) desse autor que pode ser visto como um dos mais originais da ficção brasileira nos dias de hoje. O que mais gosto nas narrativas de Pedro Cesarino é a criatividade dos conflitos, as personagens pouco convencionais e os cenários diferentes da trama. Leia “A Repetição” e depois me fale se as duas novelas não são ótimas. Para ninguém insinuar que não abordo os novos talentos da literatura brasileira em meus posts, o quarto título nacional que enfoco na coluna Mercado Editorial de hoje é “O Menino Amarrado ao Manacá”, do escritor mineiro José Carlos Martins. No final do ano passado, comentei “O Velho e o Menino, o Rio” (Cria Editora), a boa estreia de Martins na ficção. E qual foi a minha surpresa ao descobrir que alguns meses depois, o autor já apresentava para o público seu segundo livro. “O Menino Amarrado ao Manacá” está no limiar entre a novela e o romance. Eu o considerei um romance, apesar de o índice para catálogo sistemático apontar que a obra é uma coleção de crônicas. O que é certo mesmo é que o novo título de José Carlos Martins está impecável. Aí não há qualquer dúvida. Se “O Velho e o Menino, o Rio” já era uma narrativa gostosa e saborosa (ou seja, uma boa publicação literária), “O Menino Amarrado ao Manacá” está simplesmente espetacular (é um livrão!!!). Como é bom constatar que os novos nomes da literatura brasileira estão florescendo na carreira e publicando novidades de ótima qualidade. Gostei tanto do novo romance de Martins que ainda vou analisá-lo em profundidade na coluna Livros – Crítica Literária em 2023. Na certa, vocês vão adorar as peripécias de Francisco das Chagas Marins Filho, o narrador da trama, uma espécie de anti-herói. Virando a página e adentrando no capítulo da literatura internacional, meus quatro destaques gringos de janeiro e fevereiro de 2023 são: “Até os Ossos” (Suma), romance da norte-americana Camille DeAngelis; “Quando os Pássaros Voltarem” (Intrínseca), narrativa ficcional do espanhol Fernando Aramburu; “Filho de Jesus” (Todavia), coletânea de contos do norte-americano Denis Johnson; e “As Margens e o Ditado” (Intrínseca), coletânea de ensaios e crônicas da italiana Elena Ferrante. “Até os Ossos” é a premiada obra ficcional de Camille DeAngelis. Publicada em 2015 e vencedora do Alex Award de 2016, esse romance trata do drama pouco comum de Maren Yearly, uma jovem canibal. A protagonista do livro de DeAngelis sempre procurou ficar sozinha e nunca quis se relacionar com as pessoas. Afinal, um pouco de intimidade sempre foi um elemento complicado para alguém com sede de sangue (no caso, fome de carne humana!). O problema é que um dia, o amor bateu à porta de Maren. E aí, como conciliar as descobertas sexuais, o compartilhamento das emoções e a necessidade de constituir família com os instintos canibais, hein? O momento do lançamento da versão brasileira de “Até os Ossos” não poderia ter sido mais bem alinhado. O livro chega às livrarias poucos meses após o filme homônimo estrear nas salas de cinema do país. A adaptação dessa história de Camille DeAngelis para as telonas foi dirigida por Luca Guadagnino, de “Me Chame pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name: 2017), e foi interpretada por Taylor Russell, da regravação da série de TV “Perdidos no Espaço” (Lost in Space: 2018), e Timothée Chalamet, de “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018). “Até Os Ossos” (Bones and All: 2022) ficou em cartaz até o mês passado. Na certa, muita gente irá comprar o livro para conhecer os detalhes da trama da esfomeada e contraditória Maren Yearly. Outro excelente romance internacional recém-publicado no Brasil é “Quando os Pássaros Voltarem”, de Fernando Aramburu. Um dos nomes mais relevantes da literatura espanhola na atualidade, Aramburu está sendo descoberto aos poucos pelos leitores nacionais. Seu portfólio literário começou a ser lançado por aqui pela Intrínseca há três anos e meio. Em setembro de 2019, a editora carioca publicou “Pátria” (Intrínseca), a obra mais celebrada do escritor e dona de inúmeros prêmios mundo à fora. Agora a Intrínseca traz mais um título de Fernando Aramburu. O enredo de “Quando os Pássaros Voltarem” aborda o drama de Toni, um melancólico e deprimido professor do ensino médio. Cansado da vida, o protagonista do romance decide morrer. Porém, ele se dá um ano de vida até o derradeiro momento. Com 365 dias pela frente, Toni se apressa para resolver as pendências mundanas e compreender os motivos pelos quais desistiu de viver. Com boas sacadas, reflexões espirituosas e texto cortante, Fernando Aramburu dá uma aula de como produzir uma narrativa ao mesmo tempo sensível e dramática. Não à toa, o autor conquistou as principais honrarias da literatura em língua espanhola como o Prêmio Mario Vargas Llosa e o Prêmio da Academia Real Espanhola. Agora só falta o Prêmio Miguel de Cervantes, né? Enquanto ele não chega, vale a pena conferir esse título. Deixando os romances um pouco de lado, vamos falar das narrativas curtas. “Filho de Jesus” é a coletânea de contos de estreia de Denis Johnson que trouxe fama e prestígio ao escritor nascido na Alemanha e que viveu a maior parte da vida nos Estados Unidos. Não por acaso, esse livro é visto até hoje como o mais importante do portfólio ficcional de Johnson. Publicado originalmente em 1992, quando foi aclamado pela crítica literária e caiu no gosto do público leitor, “Filho de Jesus” só agora ganha uma versão em português no Brasil. Ou seja, tivemos que esperar 30 anos para ler em nosso idioma esse clássico da literatura norte-americana. Nessa obra marcante, Denis Johnson apresenta em 11 pequenas histórias um tipo de protagonista bem peculiar: homens marginalizados da zona rural dos Estados Unidos. Enquanto usam drogas, cometem crimes (sejam pequenos roubos ou mesmo assassinatos) e sofrem de distúrbios emocionais, as personagens de Johnson retratam um tipo de país e de pessoas que normalmente não vemos em Hollywood. Com uma estrutura narrativa ousada e caótica (bem ao estilo de Jack Kerouac e da geração beat), “Filho de Jesus” é narrado por um rapaz extremamente problemático e pouquíssimo confiável. O último livro que quero citar, e que ainda está nas narrativas curtas, é “As Margens e o Ditado”, a mais recente publicação de Elena Ferrante. Lançada na Itália em 2021 e agora traduzida para o português, essa coletânea de ensaios e crônicas é posterior a “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), último romance da misteriosa escritora italiana. Nessa nova obra não ficcional, Ferrante comenta de maneira direta e clara os aspectos práticos e os elementos conceituais do seu processo criativo. Além da discussão sobre o fazer literário, ela também debate em “As Margens e o Ditado” a influência que a leitura teve em seu trabalho como escritora, principalmente os textos de outras mulheres engajadas e talentosas. E para os fãs da Tetralogia Napolitana, série formada por “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), podemos ainda conhecer mais detalhes da rivalidade entre Elena Greco (Lenu) e Rafaella Cerullo (Lila). Como Elena Ferrante é uma das minhas autoras contemporâneas favoritas (ao ponto de eu ter feito a análise aprofundada de seu portfólio ficcional no Desafio Literário), admito que não consegui resistir e li “As Margens e o Ditado”. E preciso dizer que mergulhar na mente e no trabalho de uma das vozes mais poderosas e originais da ficção internacional (e da literatura italiana como um todo) é uma delícia. Constatar a lucidez, a sagacidade e a profundidade dos debates propostos por Ferrante é riquíssimo para quem curte literatura de altíssima qualidade. O único ponto negativo que preciso destacar é que, se você leu “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), a coletânea de ensaios e crônicas anterior de Elena Ferrante, “As Margens e o Ditado” se torna um pouco repetitivo às vezes. Em algumas partes do novo livro, tive a impressão de já ter lido aquilo em “Frantumaglia”. Uma vez que já apresentei os destaques desse bimestre, posso, então, exibir a lista completa dos principais títulos que foram lançados do mercado editorial brasileiro em janeiro e fevereiro, né? Justo. Muito justo. Justíssimo. Na minha relação de novas obras, trago 110 livros da ficção e da poesia que foram publicados em nossas livrarias no primeiro bimestre de 2023. Confira aí: FICÇÃO BRASILEIRA: “A Contra-história – Volume 3 da Série A Contrapartida” (Valentina) – Uranio Bonoldi – Romance – 248 páginas. “Porém Bruxa” (Suma) – Carol Chiovatto – Romance – 320 páginas. “O Menino Amarrado ao Manacá” (Publicação independente) – José Carlos Martins – Romance – 164 páginas. “Aquele Mundo de Vasabarros” (Companhia das Letras) – José J. Veiga – Romance – 208 páginas. “Marketing do Amor” (Intrínseca) – Renato Ritto – Romance – 528 páginas. “Todos Nós Estaremos Bem” (Dublinense) – Sérgio Tavares – Romance – 192 páginas. “Troia – O Romance de uma Guerra” (L&PM Fantasy) – Cláudio Moreno – Romance – 328 páginas. “Calunga” (Alfaguara) – Jorge de Lima – Novela – 152 páginas. “Pandora” (Fósforo) – Ana Paula Pacheco – Novela – 136 páginas. “A Repetição” (Todavia) – Pedro Cesarino – Novelas – 144 páginas. “O Corpo Desvelado – Contos Eróticos Brasileiros (1922-2022)” (CEPE Editora) – Eliane Robert Moraes (org.) – Coletânea de Contos – 592 páginas. “Céu Ausente” (CEPE Editora) – Gustavo Rios – Coletânea de Contos – 128 páginas. “Memórias de Teresa de Jesus” (Malê) – Martinho da Vila – Coletânea de Contos e Crônicas – 188 páginas. “Papéis de Prosa: Machado de Assis & Mais” (Editora Unesp) – Antônio Carlos Secchin – Coletânea de Ensaios – 264 páginas. “Papéis de Poesia II” (Editora Unesp) – Antônio Carlos Secchin – Coletânea de Ensaios – 242 páginas. “Loba” (Pequena Zahar) – Roberta Malta – Infantojuvenil – 64 páginas. “Vamos Desenhar Palavras Escritas?” (Companhia das Letrinhas) – Sofia Mariutti (autora) e Yara Kono (ilustradora) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Quibe, A Formiga Corajosa” (Companhia das Letrinhas) – Camila Fremder (autora) e Juliana Eigner (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Foca” (Companhia das Letrinhas) – Vinicius de Moraes (autor) e Silvana Rando (ilustradora) – Infantojuvenil – 16 páginas. “O Pato” (Companhia das Letrinhas) – Vinicius de Moraes (autor) e Silvana Rando (ilustradora) – Infantojuvenil – 16 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Até os Ossos” (Suma) – Camille DeAngelis (Estados Unidos) – Romance – 296 páginas. “Quando os Pássaros Voltarem” (Intrínseca) – Fernando Aramburu (Espanha) – Romance – 544 páginas. “Mais Uma Vez, Olive” (Companhia das Letras) – Elizabeth Strout (Estados Unidos) – Romance – 328 páginas. “O Evangelho do Novo Mundo” (Rosa dos Tempos) – Maryse Condé (Guadalupe/França) – Romance – 294 páginas. “A Longa Marcha” (Suma) – Stephen King e Richard Bachman (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Sobreviventes” (Verus) – Alex Schulman (Suécia) – Romance – 256 páginas. “Gus” (Planeta) – Kim Holden (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Os Oito Vestidos Dior” (Intrínseca) – Jade Beer (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “As Mulheres do Meu Pai” (Tusquets) – José Eduardo Agualusa (Angola) – Romance – 336 páginas. “O Amor da Minha Vida” (Record) – Rosie Walsh (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Morte é Um Negócio Solitário” (Biblioteca Azul) – Ray Bradbury (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “A Causa da Morte” (Trama) – Kate London (Inglaterra) – Romance – 360 páginas. “Os Corações Perdidos” (Intrínseca) – Celeste NG (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Evguiêni Oniéguin” (Penguin-Companhia) – Aleksandr Púchkin (Rússia) – Romance – 304 páginas. “Raça” (Globo Livros) – Geraldine Brooks (Austrália/Estados Unidos) – Romance –464 páginas. “A República do Dragão – Volume 2 de A Guerra da Papoula” (Intrínseca) – R. F. Kuang (China) – Romance – 640 páginas. “Recordações Pessoais sobre Joana D´Arc” (Martin Claret) – Mark Twain (Estados Unidos) – Romance – 576 páginas. “Livro do Desassossego” (Todavia) – Fernando Pessoa (Portugal) – Romance – 528 páginas. “Um Estranho Nos Meus Braços” (Arqueiro) – Lisa Kleypas (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Boa Garota Nunca Mais – Volume 3 de Manual de Assassinato para Boas Garotas” (Intrínseca) – Holly Jackson (Inglaterra) – Romance – 496 páginas. “No Rastro da Neve” (Rocco) – Danielle Paige (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Síndrome da Boa Garota” (Paralela) – Elle Kennedy (Canadá) – Romance – 352 páginas. “Pureza” (Todavia) – Garth Greenwell (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “O Retiro” (Intrínseca) – Sarah Pearse (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “Um Pouco de Aventura” (Paralela) – Christina Lauren (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Confusão em Dobro” (Rocco) – Stephanie Tromly (Filipinas) – Romance – 288 páginas. “De Olho em Você” (Arqueiro) – Amy Lea (Canadá) – Romance – 320 páginas. “Suave é a Noite” (Penguin-Companhia) – F. Scott Fitzgerald (Estados Unidos) – Romance – 488 páginas. “As Histórias de Pat Hobby” (Dublinense) – F. Scott Fitzgerald (Estados Unidos) – Romance – 160 páginas. “A Vida é Um Romance” (L&PM Editores) – Guillaume Musso (França) – Romance – 208 páginas. “Friday Black” (Fósforo) – Nana Kwame Adjei-Brenyah (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “Arnett Lupin e a Agulha Oca” (Martin Claret) – Maurice Leblanc (França) – Romance – 296 páginas. “813” (Principis) – Maurice Leblanc (França) – Romance – 384 páginas. “A Outra” (Planeta) – Mary Kubica (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Castelos Em Seus Ossos” (Arqueiro) – Laura Sebastian (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “A Garota Roubada” (Trama) – Tess Stimson (Inglaterra) – Romance – 376 páginas. “Táticas do Amor” (Intrínseca) – Sarah Adams (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Joana D´Arc” (Planeta Minotauro) – Katherine J. Chen (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Pimenta & Mel” (Harlequin) – Bolu Badalola (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “Absolutamente Romântico” (Arqueiro) – Lyssa Kay Adams (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Viagem ao Redor do Meu Quarto” (Antofágica) – Xavier de Maistre (França) – Romance – 376 páginas. “Mais Frio que Gelo” (Inside Books) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “A Ilha das Árvores Perdidas” (HarperCollins) – Elif Shafak (Turquia) – Romance – 352 páginas. “Depois Daquele Sonho” (Universo dos Livros) – Angie Hockman (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Middlemarch – Um Estudo de Uma Vida Provinciana” (Martin Claret) – George Eliot (Inglaterra) – Romance – 850 páginas. “Presságios do Amor” (Harlequin) – Alexandra Bellefleur (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “É Proibido Matar” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 368 páginas. “Doutor Sax” (L&PM Pocket) – Jack Kerouac (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “A Pequena Padaria do Brooklyn” (Arqueiro) – Julie Caplin (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Maldição do Fuso” (Melhoramentos) – Leslie Vedder (Estados Unidos) – Romance – 328 páginas. “Nada Fica no Passado” (Faro Editorial) – Jennifer Hillier (Canadá) – Romance – 288 páginas. “Gild – Volume 1 de A Prisioneira Dourada” (Astral Cultural) – Raven Kennedy (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Dr. Love” (Alt) – Leisa Rayven (Austrália) – Romance – 432 páginas. “O Despertar do Sonhador – Volume 3 da Série O Sonhador” (Verus) – Maggie Stiefvater (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Agora Esse é o Nosso Mundo” (Faro Editorial) – Erik J. Brown (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Órfãos de Amsterdã” (Melhoramentos) – Elle van Rijn (Holanda) – Romance – 304 páginas. “A Morte do Adivinho” (HarperCollins) – Rudolph Fisher (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Um Homem Chamado Ove” (Rocco) – Fredrik Backman (Suécia) – Romance – 320 páginas. “Mário e o Mágico” (Companhia das Letras) – Thomas Mann (Alemanha) – Novela – 112 páginas. “Sob o Mesmo Teto” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Novela – 120 páginas. “Presa com Você” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Novela – 108 páginas. “Departamento de Especulação” (Todavia) – Jenny Offill (Estados Unidos) – Novela – 136 páginas. “Antígona” (Penguin-Companhia) – Sófocles (Grécia) – Peça Teatral – 232 páginas. “Filho de Jesus” (Todavia) – Denis Johnson (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 112 páginas. “A Vida Descalço” (Companhia das Letras) – Alan Pauls (Argentina) – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 104 páginas. “As Margens e o Ditado” (Intrínseca) – Elena Ferrante (Itália) – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 128 páginas. “Mil Batidas do Coração” (Seguinte) – Kiera Cass (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 496 páginas. “Contato de Emergência” (Intrínseca) – Mary H. K. Choi (Coreia do Sul) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Os 99 Namorados de Micah Summers” (Alt) – Adam Sass (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Morre Aqui (Valentina) – Abigail Haas (Inglaterra) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Tartaruga” (Companhia das Letrinhas) – Ángela Cuartas (Colômbia) e Dipacho (Colômbia) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Respire Fundo” (Companhia das Letrinhas) – Sujean Rim (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 48 páginas. “De Onde Vêm os Penicos?” (Brinque-Book) – Guido van Genechten (Bélgica) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Dente-de-leão mágico” (Globinho) – Darren Farrell (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Será que a Terra Sente?” (Pequena Zahar) – Marc Majewski (França) – Infantojuvenil – 40 páginas. “As Maravilhas da Água” (Brinque-Book) – Philip Bunting (Inglaterra/Austrália) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Ranheta Ruge Rosna” (Boitatá) – bell hooks (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Posso Ficar no Meio?” (Companhia das Letrinhas) – Susanne Strasser (Alemanha) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Tem um Leão na Floresta!” (Globinho) – Mônica Carnesi (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Corpo, Corpinho, Corpão” (Brinque-Book) – Mey Clerici e Ivanke (Argentina) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Quero Um Abraço” (Companhia das Letrinhas) – Simona Ciraolo (Itália) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Fada Mamãe e Eu: Desejos de Unicórnios Volume 3” (Galera Junior) – Sophie Kinsella e Marta Kissi (Inglaterra) – Infantojuvenil – 28 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Do Fim ao Princípio – Poesia Completa Adalgisa Nery” (José Olympio) – Paulo Ramon Nunes Mello (org.) – 560 páginas. “Poesia” (Companhia das Letras) – Paulo Mendes Campos – 512 páginas. “Slam Coalkan” (Malê) – Abigail Llanque, Auritha Tabajara, Brisa Flow, Edivan Fulni Ô, Fernanda Vieira, Ian Wapichana, Kandu Puri, Oxóssi Karajá, Renata Tupinambá, Wescritor, Bobby Sanchez, Ecoaborijanelle, Jennifer Alici Murrin, Juan Sant, K'alli Luuyaltkw, Kahsenniyo Kick, Sarah Lewis e Zoey Roy – 216 páginas. “Jet Lag – Poemas para Viagem” (Companhia das Letras) – Waly Salomão – 128 páginas. “Melro” (Editora 34) – Edimilson de Almeida Pereira – 112 páginas. “De Atlântico Cor” (Patuá) – Katyuscia Carvalho – 112 páginas. “Petrovírgula” (Círculo de Poemas) – Lucas Litrento – 80 páginas. Em março, voltarei à coluna Mercado Editorial para trazer os livros ficcionais mais vendidos no Brasil em 2022. E em abril, apresentarei para os leitores do Bonas Histórias a lista dos títulos da ficção e da poesia que serão publicados nas livrarias brasileiras no segundo bimestre de 2023. Até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Dança do Ventre - A primeira dança feminina e o estilo mais sensual
Conheça a origem, a evolução, as ramificações e os detalhes da Dança do Ventre, a modalidade mais feminina e sensual que nos encanta há milhares de anos. Gente, fazia um ano certinho que eu não dava as caras na coluna Dança. Para que ninguém pensasse que eu não escrevo mais no Bonas Histórias, resolvi falar hoje de uma das modalidades dançantes que mais admiro: a Dança do Ventre. Também chamado de Dança Oriental, esse estilo é, sem dúvida nenhuma, bastante sensual, sinuoso, envolvente e técnico. Não por acaso, é considerado a dança mais feminina que conhecemos. Se eu tinha mencionado que o Jazz Dance exalava sensualidade e feminilidade nos passos e nos movimentos, na Dança do Ventre assistimos à potencialização desses aspectos a níveis absurdos. Se você está duvidando de minhas palavras, veja, então, as fisionomias, os olhares ou as reações corporais dos homens durante as apresentações. Eles ficam hipnotizados pelas dançarinas e por suas coreografias. Além disso, a Dança do Ventre/Dança Oriental possui muita história. Ela é a primeira modalidade de dança feminina que a humanidade tem registros. Ou seja, estamos falando de uma arte dançante com milhares e milhares de anos. É sobre esse incrível estilo que vamos discutir detalhadamente nesse novo post da coluna Dança. Minha proposta é contar sua origem, evolução, trajetória, ramificações e curiosidades. Então, se prepare: vamos entrar agora no mundo envolvente, mágico e sensual da Dança do Ventre! A origem da Dança do Ventre é incerta. Não há um registro seguro de quando ela nasceu. Porém, a hipótese mais aceita pelos historiadores da arte é que ela surgiu como uma variação da Dança Pélvica. A Dança Pélvica apareceu no Oriente Médio, entre 8 mil e 5 mil anos antes de Cristo. Nos dias de hoje, é possível encontrarmos a tal Dança Pélvica em sua versão mais primitiva em regiões como o Oriente Médio e o Norte da África. Essa dança tinha um caráter religioso. Ela servia para reverenciar os deuses e estava ligada à fertilidade não só das mulheres como da natureza de maneira geral. E acreditava-se que as praticantes dessa modalidade dançante conseguiam fazer partos melhores e mais seguros, pois tinham a região pélvica fortalecida. É importante dizer que, até então, as danças eram praticadas exclusivamente pelos homens, sempre com alguma ligação com a natureza, como a dança para a promoção da chuva ou a dança para ajudar na obtenção de caça farta. Em outras palavras, a Dança Pélvica foi a primeira dança efetivamente feminina que temos conhecimento. As próprias mulheres desenvolveram essa modalidade em benefício próprio. Afinal, esse estilo dançante ajudava a aliviar as dores provenientes da menstruação e já preparava a musculatura da gestante para o trabalho do parto. Foi no Egito que a Dança Pélvica foi ganhando em sofisticação até se tornar a Dança do Ventre que conhecemos atualmente. Do Egito é que ela se expandiu depois para o Oriente (e não o contrário, como muita gente pensa) e se tornou parte da cultura árabe. As festividades árabes têm sempre dançarinas do ventre se apresentando e entretendo o público. Nos casamentos, as praticantes dessa modalidade possuem um papel extra: os noivos precisam tirar fotos com elas. Cada um dos recém-casados deve sair na foto com uma das mãos sobre o ventre da dançarina. Só assim, eles têm a certeza de que aquela união será fértil. Os ciganos foram os principais responsáveis pela disseminação da Dança do Ventre nos países ocidentais. E, claro, por onde passavam, acrescentavam peculiaridades da cultura local à dança. Por exemplo, para os ciganos, a Dança do Ventre não estava relacionada apenas às festividades e às cerimônias formais (como na cultura árabe). A dança poderia acontecer normalmente nas ruas e em dias comuns. E era através dessas apresentações corriqueiras que as dançarinas conseguiam ganhar dinheiro. No final do século XIX, a Dança do Ventre foi se adaptando cada vez mais aos gostos e às exigências do público ocidental. Assim, a modalidade deixou de se apresentar nas ruas e passou a frequentar os clubes noturnos e os cassinos. Nessa migração, as vestimentas também ganharam em requinte e variedade. Se tornou comum a realização de shows de Dança do Ventre na Europa e nos Estados Unidos. Ao entrar no hall dos estilos dançantes dessas regiões, a modalidade vinda do Egito acabou incorporando naturalmente características das danças ocidentais. A Dança do Ventre ganhou em refinamento e técnica a partir da influência do Ballet Clássico e do Ballet Contemporâneo. Os movimentos de mãos e braços ficaram mais delicados, foi incorporado o dançar na meia ponta e o figurino ganhou ainda mais brilho, lantejoulas e pedras. Dessa forma, a Dança do Ventre se consolidou como um espetáculo de alto nível no Ocidente, sendo apresentado nos grandes palcos de teatro e nas principais casas de show da Europa e dos Estados Unidos. O nome original da Dança do Ventre/Dança Oriental, como esse estilo ainda hoje é conhecido nos países do Oriente, é Raqs Sharqi, que significa Dança do Leste. A referência geográfica se deve à posição do nascimento do Sol. É onde o Sol nasce que as mulheres recebem as energias e os poderes solares para brilhar. Na França, essa dança recebeu o nome de Danse du Ventre. Nos Estados Unidos, sua denominação ficou sendo Belly Dance. E aqui no Brasil, a modalidade ganhou mesmo o nome de Dança do Ventre ou Dança Oriental. A Dança do Ventre é muito rica em gestos e movimentos. Ela trabalha bastante o quadril e o peitoral com o propósito de realizar movimentos redondos ou circulares. O quadril pode ter o movimento em oito, quando o corpo é o eixo e o quadril desenha o oito tanto horizontal quanto verticalmente. Os braços e mãos são bem desenhados e têm papel importante na dança. Eles têm movimentos sensuais de ondulação que misturam leveza e delicadeza. A cabeça também tem seu destaque com movimentos laterais. Um passo importante nessa dança é o tremido, conhecido como “shimmy”. Segundo essa técnica, a dançarina faz tremer (daí o nome: tremido!) as pernas, o abdômen e o peitoral. A expressão fisionômica da praticante da dança também é um item importante a ser observado pela plateia. Ela traduz com quais sentimentos a dançarina do ventre interpreta a música. As emoções são variadas: alegria, dor, angústia, sensualidade, medo, tristeza etc. Diferentemente do que o próprio nome e a origem da modalidade sugerem, a Dança do Ventre tem sido praticada, nos últimos anos, pelos homens. A dança para eles é mais simples, sem rebolados complexos, e se restringe aos movimentos de ombros e quadris sendo sacudidos. A Dança do Ventre ou Dança Oriental é rica em acessórios. Os mais conhecidos são o véu, a vela, a espada, a bengala, o snuj e o pandeiro. E claro, como muitos já devem ter visto, um elemento muito utilizado nas apresentações é a cobra. Os cinco tipos de Dança do Ventre e Dança Oriental mais conhecidos são: – Dança dos Sete Véus: a dançarina se apresenta com sete véus, cada um com uma cor diferente. Eles representam os sete chakras que serão abertos durante a dança. – Dança dos Cinco Elementos: tem um aspecto mais ritualístico e de devoção. Reverencia elementos da natureza como a água, o fogo, a terra, o ar e o éter. A dança é dividida em cinco partes, cada uma representando um elemento. – Dança com Bastão: essa é a versão feminina da dança Tahtib, uma modalidade essencialmente masculina. Por isso, não possui muitos passos delicados e femininos. Porém, é uma dança bem alegre e contagiante. – Dança com Espada: a espada deve ser equilibrada com sensualidade na cabeça, na cintura e no peito. Isso demonstra o nível de equilíbrio e de habilidade corporal da dançarina do ventre. – Dança com o Snuj: instrumento antigo feito com peças de metal, o snuj se assemelha a uma castanhola. Pode ser utilizado tanto pela dançarina, que o prende no corpo com um elástico, quanto pelos músicos que acompanham a apresentação. No Brasil, a Dança do Ventre já existe há muitos anos e ganhou ainda mais notoriedade e praticantes com as telenovelas da Rede Globo, como “O Clone” (2001). A telenovela mostrava como essa dança está presente no cotidiano e nas festividades do povo árabe. E hoje, nosso país tem algumas das melhores dançarinas de Dança do Ventre do planeta. Os nomes que mais se destacam são: Lulu Sabongi, que já ministrou aulas de dança em mais de 25 países e é conhecida como a “mestra das mestras” por ter ensinado grandes nomes da Dança do Ventre no Brasil e no mundo; Shahar, que foi aluna de Lulu Sabongi; e Soraia Zaied, que começou a dançar aos 17 anos e hoje vive no Cairo há mais de duas décadas. E como estamos na seção de homenagens, não poderia me esquecer de mencionar a minha professora de Dança do Ventre, Mara Pineda. No ano passado, fiz aulas com a Mara na Dança & Expressão e amei. Em 2023, infelizmente, minha grade de aulas de Dança de Salão aumentou tanto que eu não consegui mais frequentar a sua turma (nem escrever para o Bonas Histórias). Porém, não pense que desisti da Dança do Ventre, professora! Assim que conseguir organizar o horário das minhas aulas, eu volto para a sua. Nos últimos, tem se tornado muito popular a Fusão Oriental, que nada mais é do que a mistura de elementos da Dança do Ventre com outros estilos musicais e dançantes. Há várias artistas pop que estão incorporando a Dança do Ventre (no caso, a Fusão Oriental) em suas apresentações e melodias. Um bom exemplo disso é Shakira, que, sempre que pode, demonstra sua habilidade nessa dança em cima do palco ou em videoclipes. Se você se interessou por essa modalidade de dança, não deixe de praticá-la. Ela ainda proporciona inúmeros benefícios para a saúde física e mental. A Dança do Ventre ajuda, por exemplo, a tonificar a musculatura, perder a barriga, fortalecer o ventre, a corrigir a postura corporal e a estimular o sistema digestivo. Além disso, essa modalidade trabalha com a sensualidade da mulher e desenvolve a autoestima e a autoconfiança das dançarinas. E fora que é uma dança linda! Pergunte para os homens se eles não acham sexy uma apresentação de Dança do Ventre. Finalizado esse post, já começo a pensar no próximo. Não posso deixar a coluna Dança tanto tempo sem novos conteúdos. Sobre o que eu poderia falar em julho no Bonas Histórias, hein?! Se alguém tiver alguma sugestão, pode me enviar. Só lembrando que, entre as modalidades dançantes, já tratamos da Dança Moderna e Dança Contemporânea, Ballet Clássico, Dança de Salão, Frevo, Dança Solta, Forró, K-Pop, Dança dos Noivos e Jazz Dance. Até a próxima! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Peças Teatrais: Sex Shop Café - O humor de Gilberto Amendola pela Encena Cia de Teatro
Em cartaz no Espaço Cultural Encena, a nova produção da companhia de teatro liderada por Orias Elias e Walter Lins apresenta uma comédia musical ambientada em uma loja de artigos eróticos. Hoje é dia de teatro, bebê! Como os leitores mais assíduos (e atentos) do Bonas Histórias devem ter percebido, fazia um booooom tempo que eu não analisava uma peça teatral. Os últimos espetáculos cênicos comentados no blog foram, se minha memória não estiver enganada, “Acusticando em Vários Tons”, “60! Década de Arromba – Doc.Musical”, “Marte, Você Está Aí?” e “Ato Falho”. Bons tempos aqueles quando tínhamos mensalmente novidades na coluna Teatro, né? Isso não quer dizer que eu não esteja frequentando regularmente os teatros paulistanos. O problema é que algumas editorias do Bonas Histórias acabaram um tanto preteridas nos últimos anos (joguemos a culpa na realidade pandêmica e está tudo resolvido). Isso aconteceu não apenas com o conteúdo teatral, mas também com as colunas Exposições, Gastronomia e Passeios. Como consequência, tivemos um maior destaque para as seções Livros – Crítica Literária, Contos & Crônicas, Talk Show Literário, Cinema, Música e Dança. Peço desculpas publicamente aos fãs da coluna Teatro e prometo corrigir minha falha daqui para frente (algo que já comecei a fazer, em 2023, com as outras partes do blog até então desprezadas). Minha promessa (anote aí e pode me cobrar depois!) é que, nos próximos meses, deixarei o papel de mero espectador dos palcos cênicos e voltarei a assumir a carapuça de crítico teatral. E para valer minhas palavras, vou comentar hoje uma divertida peça de uma companhia teatral que conheci no ano passado e que me surpreendeu positivamente. Estou me referindo à comédia musical “Sex Shop Café”, de Gilberto Amendola, e à Encena Companhia de Teatro, grupo sediado no Jardim Jussara e que possui 25 anos de existência. Tenho certeza de que é uma ótima reestreia da coluna Teatro, senhoras e senhores!!! Comecemos falando da peça e de seu autor. “Sex Shop Café” é um dos trabalhos teatrais do jornalista, dramaturgo e escritor Gilberto Amendola. Mais conhecido pela produção jornalística nas editorias de cidade, política, economia e cultura, Amendola trabalha atualmente no O Estado de São Paulo e na Rádio Eldorado, além de manter o Balcão do Giba, blog dedicado ao universo dos bares e da coquetelaria. Há alguns dias, ele assumiu a coluna Direto da Fonte, uma das mais icônicas do jornal paulistano. Assim, substitui Sônia Racy, que ficou por mais de três décadas à frente da seção mais importante do Caderno 2 do O Estado de São Paulo. Os livros de Gilberto Amendola são: “Um Mundo Sem Bar e Outras 50 Crônicas Pandêmicas” (Patuá), coletânea de narrativas curtas publicada em maio de 2022 com as colunas do autor que saíram no Estadão no período mais crítico da Covid-19; “Corações de Mentira Não Pagam Aluguel” (Chiado Books), coleção de crônicas de maio de 2016; “Maria Antônia – A História de Uma Guerra” (Letras do Brasil), relato histórico lançado em janeiro de 2008 sobre o movimento estudantil paulista nos anos da Ditadura Militar; “Meninos Grávidos – O Drama de Ser Pai Adolescente” (Terceiro Nome), ensaio de janeiro de 2006; e “Assassinatos Sem Nenhuma Importância – Banalização da Violência no Brasil” (Terceiro Nome), ensaio de janeiro de 2005. No papel de dramaturgo, a vertente menos conhecida de sua produção textual, Gilberto Amendola começou criando peças teatrais para empresas de 1996 a 1998. No circuito comercial, ele estreou, em 1998, com o espetáculo “Asdrubal C – O Viajandão”. Na sequência, vieram “Antibióticos”, “Espeto de Coração”, “Sex Shop Café”, “Nos Anos 80”, “A Peça é Comédia?”, “Pirou, Jussara? Pendurar a Vovó no Banheiro” e “Jussara City – O Paraíso das Enchentes”. A maioria desses espetáculos gira em torno do humor de costumes, críticas sociais, temas contemporâneos e comédias musicais. É legal mencionar que vários dos trabalhos teatrais de Amendola são produzidos pela Encena Companhia de Teatro. O grupo já apresentou “Espeto de Coração”, “Sex Shop Café”, “Nos Anos 80” e “Pirou, Jussara? Pendurar a Vovó no Banheiro”. Inclusive, alguns espetáculos do dramaturgo foram desenvolvidos especialmente para a trupe paulistana. São os casos de “A Peça é Comédia?” e “Jussara City – O Paraíso das Enchentes”. Em outras palavras, Encena e Gilberto Amendola possuem uma parceria frutífera e de longa data. Por falar na Encena, preciso apresentar esta companhia para os leitores da coluna Teatro. Fundada na cidade de São Paulo, em 1998, pelos atores Orias Elias e Walter Lins, o grupo nasceu para promover a arte cênica de forma ampla. As peças produzidas pelo coletivo teatral vão do clássico ao contemporâneo e da comédia ao drama. O nome disso, senhoras e senhores, é diversidade! Os espetáculos de Elias e Lins contemplam os melhores textos teatrais que foram desenvolvidos no Brasil e no exterior. Em 2023, se minha calculadora não estiver com falhas consideráveis, a Encena Companhia de Teatro completa 25 anos de existência, uma marca que pouquíssimas iniciativas culturais alcançaram no Brasil, sil, sil. Ao longo desse período, Orias Elias e Walter Lins desenvolveram um núcleo fixo e talentoso de artistas que apresenta regularmente espetáculos, como saraus, leituras dramáticas e shows musicais, além, claro, das peças teatrais, a essência do grupo. Como consequência, além de levar o teatro de qualidade para muita gente, eles ainda revelaram/revelam novos talentos para os palcos nacionais. Incrível, né?! A Encena já foi contemplada duas vezes pelo PROAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo). Com o apoio do mais relevante programa paulista de incentivo à cultura e às artes, o grupo promoveu, em 2009 e 2015, as peças “Ossos do Barão” e “A Escada”, ambas de Jorge Andrade, por várias cidades. Em 2011 e 2020, a trupe liderada por Elias e Lins foi premiada pelo Programa de Fomento ao Teatro, concedido pela cidade de São Paulo. Nesse caso, o patrocínio governamental permitiu a exibição de “Pirou, Jussara?”, peça de Gilberto Amendola com a proposta de conscientização social para o problema das enchentes nos bairros periféricos da maior metrópole brasileira. É importante dizer que, ao longo dessas duas décadas e meia de existência, o incentivo estatal aconteceu pontualmente. Os demais espetáculos da Encena foram realizados de maneira independente e utilizaram recursos próprios da companhia e de seus líderes. Só quem trabalha com cultura e arte no Brasil sabe as dificuldades que essa opção acarreta. Por isso, o correto é enxergarmos a Encena Companhia de Teatro como um grupo semiprofissional. Se por um lado ela está longe (muuuuuito longe!) de ser uma trupe amadora, por outro lado os espetáculos realizados não permitem que sua equipe viva exclusivamente da arte cênica. Todos os atores, atrizes e profissionais da parte técnica da Encena possuem outras carreiras, praticadas durante a semana e no horário comercial. Depois de realizar incontáveis apresentações em vários palcos paulistanos (e, em alguns casos pontuais, em palcos do interior de São Paulo), a Encena Companhia de Teatro inaugurou, em 2009, seu espaço próprio para espetáculos no Jardim Jussara, bairro da Zona Oeste da cidade de São Paulo. O local é chamado de Espaço Cultural Encena e abriga, ao mesmo tempo, o teatro e a sede do grupo. O amplo casarão do Espaço Cultural Encena fica no número 130 da Rua Sargento Estanislau Custódio. Para quem não conhece a região, posso dizer que o endereço está situado perto do Parque Chácara do Jockey e da Avenida Pirajussara. Para os íntimos, o QG do grupo teatral fica na chamada Grande Vila Sônia. O teatro do Espaço Cultural Encena tem capacidade para 60 espectadores. Se ele é pequeno, ao mesmo tempo é uma graça. A proximidade com o palco e a compactação da plateia (ao estilo ombro no ombro e joelhos nas costas) promovem um ar intimista e de teatro raiz. Impossível não se apaixonar por sua atmosfera. No hall de entrada, o público é recebido por uma ampla biblioteca e pelos cartazes dos principais espetáculos realizados pelo grupo. No corredor que dá acesso ao teatro, as paredes são decoradas com imagens de atores e atrizes de relevância nacional e internacional. Ao final dessa ala, ainda há um simpático jardim. Dentro do teatro, são seis fileiras de dez lugares cada. Todo mundo fica bem pertinho um do outro e o conforto é, sendo bem otimista, regular. Não espere, portanto, luxos ou assentos almofadados. O palco é estreito e o pé direito muitíssimo alto permite, quando necessário, a configuração de um segundo andar cênico (como aconteceu em “Sex Shop Café”). Além da parte visível ao público, o local também possui camarim e um galpão. A casa própria foi importante para a Encena Companhia de Teatro por três motivos. Em primeiro lugar, a inauguração da sede foi um marco para a consolidação do trabalho de tantos anos de Orias Elias e Walter Lins. Além de receber com mais atenção e carinho o público (algo que eles fazem como ninguém!!!), o grupo pôde ensaiar mais, aumentar o número de espetáculos e ampliar o leque de ações culturais. Hoje em dia, a companhia possui um canal no Youtube em que promove vários projetos audiovisuais, como “Memórias da Cena” (voltado para a biografia de atores e atrizes nacionais) e “Você Sabia – Jussara City” (projeto educacional da área socioambiental). As gravações acontecem quase sempre no Espaço Cultural Encena. Além disso, o teatro particular representou uma economia de custos para a companhia. Ao invés de procurar recorrentemente espaços na cidade para suas apresentações, com valores altos de locação, a Encena realiza agora tudo dentro de casa. Por fim, o local próprio ainda abriga um galpão onde são armazenados os figurinos e as cenografias das mais de 20 peças que o grupo revisita constantemente. Essa proximidade entre o local onde os materiais são guardados e onde os espetáculos são encenados ajudou, obviamente, bastante na logística do grupo (e na qualidade final do produto exibido ao público). Vale a pena comentar que, além das peças teatrais da trupe de Orias Elias e Walter Lins, o Espaço Cultural Encena possui uma variada agenda cultural. Não à toa, o lugar foi designado no nome como um espaço cultural e não simplesmente como um teatro. No local, já aconteceram saraus, sessões de cinema, leituras dramáticas, shows musicais, oficinas de teatro, pintura, clown e música, eventos privados, palestras e gravações audiovisuais. Com o fim da pandemia da Covid-19, os trabalhos vão sendo retomados. Impossível não ficarmos encantados com as atividades realizadas ali. Eu conheci a Encena Companhia de Teatro e o Espaço Cultural Encena em meados do ano passado. Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo Editora) e da coletânea de haicais “Acinte 2020” (Publicação independente), chamou a turminha das Cartas Mágicas (nem queira saber o que é isso!!!) para conferir “Ossos do Barão”. Segundo as palavras do meu amigo escritor, era a reestreia da peça do grupo cênico que um amigo dele estava trabalhando. Por falar nisso: abraço, Gustavo! Confesso que, na hora que recebi o convite, pensei com a devida aflição: “Deve ser mais uma daquelas companhias amadoras de teatro que realizam espetáculos sofríveis para os familiares e amigos dos esforçados atores”. Quem nunca foi em um teatro desse tipo, né?! Como minha amizade com Paulo é longa e mais forte do que os desgostos propiciados por programas artístico-culturais de gostos possivelmente duvidosos, lá fui eu com a cara e a coragem. Entretanto, minhas expectativas não poderiam estar mais equivocadas em relação à excelência da Encena e à qualidade de “Ossos do Barão”. A peça foi excelente!!! Desde “Ato Falho”, da fenomenal Bruna Anauate, não era surpreendido positivamente dessa maneira por um espetáculo teatral. A companhia de teatro paulistana e seu pequeno espaço cultural no Jardim Jussara me encantaram pra valer. Fui tão bem recebido pelo grupo (eles abraçam e conversam com todos da plateia antes e depois das apresentações) que fiquei quase uma hora proseando com a equipe da Encena depois da peça (algo raro para mim, um ser antissocial e tímido). Além de talentosíssimos, Orias Elias e Walter Lins são extremamente simpáticos e trabalhadores. Eles atendem ao público como se fossemos velhos amigos e não se negam a um dedo de prosa sobre teatro, arte, cultura, literatura, cinema e a vida no geral. Curiosamente, enquanto parte da equipe fala com os espectadores no hall do teatro, outra parte faz o serviço pesado de monta-desmonta da peça no backstage. Há muito tempo não me deparava com gente do teatro tão legal, competente no ofício e esforçada. É nítido que eles fazem o que amam e se prepararam muito para estar em cima do palco. Por isso, não titubeei quando Paulo me disse no princípio do mês passado: “Bona, tem nova peça da Encena. Você vai?”. E eu ia perder?! Lá fomos eu e ele para a estreia de “Sex Shop Café” no último sábado de abril. Ainda pensando se tratar de um grupo amador e de peças de baixa qualidade (sabem de nada, inocentes!!!), os demais integrantes das Cartas Mágicas continuam não aparecendo no teatro, mesmo depois de confirmarem a presença. Beijo, Mara, Fabi e Marcelinha. E abraços, Enzito e Allan. Vocês não têm ideia do quão caprichada era a dupla de peças que vocês perderam, meus amigos! Talvez este post da coluna Teatro ajude vocês a descobrir que os convites do Paulo não são barcas furadas. Admito que “Ossos do Barão”, como produção cênica, é um espetáculo mais completo e de qualidade superior. Porém, “Sex Shop Café” é uma comédia musical engraçadíssima e mantém em patamares elevados o grau de excelência do grupo teatral do Jardim Jussara. Em cartaz desde 29 de abril de 2023, a nova temporada de “Sex Shop Café” será exibida pela Encena Companhia de Teatro até 29 de julho no Espaço Cultural Encena. A peça de Gilberto Amendola é dirigida por Orias Elias e Walter Lins e traz no elenco Thânia Rocha, Zulhie Vieira, Daniella Murias, Raul de Andrade, Flávia D’Álima, Gabriel Kadaj, Jess Correia e Viktor Lou, além dos próprios Orias Elias e Walter Lins. Na equipe técnica, a produção musical e a operação sonora ficaram sob responsabilidade de Gustavo Barcamor e a operação da luz e a criação de vídeos ficaram a cargo de Bruno Fávaro. A música é de Fábio Salles e Orias Elias, a maquiagem e o figurino são de Walter Lins, o desenho de luz é de Cesar Pivetti, o cenário é de Orias Elias e os efeitos cenotécnicos são da dupla Jones Cortez e Sergio Igino. Esta é a sétima vez que a Encena Companhia de Teatro apresenta “Sex Shop Café”. Os espetáculos anteriores aconteceram em 2004, 2008, 2011, 2014, 2015 e 2018. Ou seja, essa é a primeira exibição da peça após a Covid-19. Enquanto as duas primeiras versões foram realizadas no Teatro Ruth Escobar e no Teatro Augusta, as demais já foram interpretadas no Espaço Cultural Encena. As duas maiores novidades em relação ao último espetáculo de “Sex Shop Café”, de setembro e outubro de 2018, foram: (1) a substituição de Luis Bezerra (que apareceu no final da sessão de estreia para dar um “oi” para o povo) por Viktor Lou (em sua primeira participação nos palcos cênicos e como novíssimo integrante da Encena) no papel do Padre Zeca; e (2) de Cristiane Fernandes (que continua na companhia, mas não participa dessa edição da peça) por Jess Correia no papel da mocinha Lourdes. Na ponta oposta, Orias Elias, Walter Lins, Zulhie Vieira e Flávia D’Álima vão para a sétima participação. Para quem ficou curioso sobre as demais peças de Gilberto Amendola que a Encena produz, podemos citar “Jussara City – O Paraíso das Enchentes” (realizada no primeiro semestre do ano passado), “Nos Anos 80” (em 2008 e 2014), “Pirou, Jussara? Pendurar a Vovó no Banheiro” (em 2012, 2013 e 2014), “Espeto de Coração” (em 2002) e “Antibióticos” (em 1998). Acredite se quiser, mas Amendola participou de alguns espetáculos como ator tanto em suas peças quanto em textos de outros dramaturgos. Juro que gostaria de ter assistido às suas atuações. O enredo de “Sex Shop Café” se passa inteiramente em um café que foi transformado em sex shop. Ou seria um sex shop que serve comes e bebes? Agora não sei. Só sei que os proprietários do estabelecimento são um casal há tempos separado: Cátia (interpretada por Thânia Rocha) e Bruno (Orias Elias). Os dois não se suportam. Porém, em nome do ganha-pão, eles precisam se aturar diariamente no horário do expediente. Mesmo assim, as discussões e as brigas da dupla de sócios não são raras. Cada um parece ter uma estratégia diferente para atrair a clientela. Enquanto um acha que promover o show musical da drag queen Sônia Travis (Walter Lins) será bom para os negócios, o outro aposta na noite de autógrafos da atriz pornô Sandy (Flávia D’Álima). Os clientes do sex shop são variados. Túlio (Gabriel Kadaj) é o rapaz nerd, muito tímido e gago. Sua gagueira é à la Raj, do seriado The Big Bang Theory: ela só aparece quando ele está diante de uma mulher. O doce e romântico rapaz se apaixona por ninguém mais, ninguém menos do que Sandy, a famosa atriz pornô. Igor (Raul de Andrade) é o judeu virgem que sonha em conseguir uma namorada. Enquanto esse dia não chega, ele brinca de papai e mamãe com Vera Fischer (Daniella Murias), sua boneca inflável. A terrorista (Zulhie Vieira) adora detonar bombas utilizando os vibradores adquiridos na loja de Cátia e Bruno. Sua causa parece nobre e é extensa: luta pelo fim do modelo capitalista de produção, pela distribuição igualitária da renda, pela reforma agrária, pela destruição das fazendas de comida transgênica, pelo fim do embargo econômico à Cuba, pelo fim das dívidas dos países do terceiro mundo, em prol dos animais em extinção, pela proteção da Floresta Amazônica e blábláblá. Doris (Zulhie Vieira – sim, ela de novo!) é a mãe alcóolatra e hipocondríaca que exige a presença do filho único em casa. Quando ele não está por perto, a senhora vai à procura do rebento em todos os lugares (inclusive no sex shop). E Lourdes (Jess Correia), a mocinha tímida que gosta de adquirir fantasias eróticas para apimentar a relação com o marido. Além de provar um modelito mais sexy do que o outro, a jovem adora bisbilhotar o que os demais clientes estão fazendo. À medida que a peça avança, mais personagens aparecem, o que gera ainda mais confusão na loja de Bruno e Cátia. Em um passe de mágica, a boneca Vera Fischer ganha vida e se torna uma mulher real (para alegria e, mais tarde, desespero de Igor). Vera se torna amiga de Sônia Travis, incumbida de ensinar como uma mulher deve ser e como ela deve se comportar. Mais tarde, é o Padre Zeca (Viktor Lou), um religioso para lá de picareta e sanguinolento, que passará a frequentar o sex shop, para o pânico de Sandy e dos demais clientes. A partir desse núcleo de dez ou onze personagens (só assistindo ao espetáculo para entender o motivo de eu ter colocado “dez ou onze” nesta frase) é que gira o conflito de “Sex Shop Café”. Na verdade, o correto seria eu dizer conflitos, porque são mais do que um. Para ser mais específico em meu comentário, são várias as subtramas que se desenrolam simultaneamente. As principais são: (1) entre tapas e beijos, Cátia e Bruno tentam fazer seu negócio dar certo; (2) história de amor pouco ortodoxa de Túlio e Sandy; (3) relação tumultuada de Igor e Vera Fisher; (4) sonho de Sônia Travis em ser uma diva do show business; (5) passado de Sandy com o Padre Túlio; (6) terrorista que não quer ser descoberta pela polícia. Posto à mesa o enredo, comecemos a análise propriamente dita da peça. A maior qualidade do texto de Gilberto Amendola é a pluralidade narrativa. Acontecem muitas coisas simultaneamente em “Sex Shop Café”. Assim, a peça ganha em velocidade, ritmo e profundidade. Adorei esse recurso. Quando você pisca, o espetáculo já terminou. Aí você pensa: normal, devem ter se passado trinta ou quarenta minutos. Porém, quando se olha no relógio, se foram quase uma hora e meia. Incrível! Nesse sentido (pelo ritmo veloz da trama), essa peça é até mesmo superior a “Ossos do Barão” (que demora muito para pegar, mas depois que pega...). Com tantas personagens e tantos conflitos tomando conta do palco concomitantemente, é até difícil apontar quem são os protagonistas e quem são os coadjuvantes. Confesso que fiquei me interrogando, durante a sessão teatral, quem eram as figuras centrais e quem eram as figuras periféricas desta história. E se havia um ou dois vilões em “Sex Shop Café”. Sei que isso é coisa de quem gosta de Teoria Literária (conceitos que podem ser aplicados em qualquer produção que tenha narrativas). E saiba que até agora não cheguei a uma conclusão sobre essas questões (principalmente sobre a quantidade de vilões). Pela perspectiva da teoria ficcional (é melhor chamarmos assim, em um post da coluna Teatro, do que de Teoria Literária), talvez o grande protagonista seja, no final das contas, o estabelecimento comercial de Cátia e Bruno. Além de reunir um séquito um tanto pitoresco nos dois lados do balcão, o sex shop café tem uma dinâmica própria, que faz a roda da trama girar naturalmente. Utilizando a intertextualidade literária, dá para comparar o cenário dessa peça à ambientação de “Small G” (Mandarim), romance de Patricia Highsmith. A loja-café erótica é a versão brasileira (e mais ou menos heterossexual) do bar-restaurante Jakob's. Outro ponto positivo é que o espetáculo é bastante engraçado. Você acha redundante dizer que uma comédia é divertida?! Se sim, é porque você tem tido sorte em suas experiências cinematográficas e teatrais. Infelizmente, eu não tenho esse mesmo êxito com tanta regularidade. Não foram poucas às vezes em que não achei a menor graça na comédia conferida. Por isso, eu costumo separar os conceitos: comédia é a pretensão da produção artística ser engraçada; e peça e filme engraçados são aqueles que fazem a plateia rir. E, nesse caso, eu atesto com segurança: a comédia musical de Amendola que a Encena produz é engraçadíssima. O que mais gostei é que o humor de “Sex Shop Café” não é tão apelativo quanto imaginei à princípio. Pela temática sexual e pelos tipos estereotipados que são retratados no espetáculo, o caminho mais fácil a seguir seria pelo lugar-comum e pela comicidade pueril. Contudo, a graça da peça se dá tanto pelo enredo inteligente e pelas cenas bem construídas quanto pelo improviso dos atores no palco e por alguns recursos visuais inusitados (como os promovidos com a boneca Vera Fisher). Evidentemente, não é uma comédia para chorar de rir, mas dá sim para sair da sessão com a alma mais leve e com o sorriso no rosto. Neste meu post do Bonas Histórias, classifiquei a peça como comédia musical. Afinal, é dessa forma que a Encena e Gilberto Amendola a catalogaram. Porém, não é errado afirmar que “Sex Shop Café” navega também por outros gêneros narrativos: suspense, drama, drama histórico, romance, tragicomédia, narrativa noir, crítica de costumes, thriller policial e comédia romântica. Uma das graças do enredo deste espetáculo está justamente no navegar fluido pelos vários estilos da ficção. Outra questão que merece elogios foi a adaptação do texto da peça para a realidade contemporânea. É assustador notar como uma produção dos anos 2000 já envelheceu e precisou passar por adaptações sutis para se manter atual e engraçada. E, na maior parte das vezes, as novidades inseridas pela equipe da Encena foram satisfatórias e renderam boas risadas. Assim, “Sex Shop Café” manteve intacta a pegada anárquica e o tom hilário da história original. Já que entramos na seara do trabalho da Encena, vamos falar agora da companhia teatral. O que mais me encantou nas duas peças que assisti do grupo foi a qualidade do elenco. Não há ninguém ruim no palco. E olha que eram dez profissionais atuando em “Ossos do Barão” e outros dez em “Sex Shop Café”. A questão é que a equipe da Encena Companhia de Teatro não é formada apenas por bons atores e atrizes, mas por um time muito acima da média. Não preciso comentar a excelência cênica de nomes como Orias Elias, Walter Lins, Thânia Rocha, Zulhie Vieira, Luis Bezerra (ausente nesta edição da comédia musical, mas figura emblemática dos espetáculos da Encena), Daniella Murias e Flávia D’Álima. Todos são espetaculares e muitas vezes roubam a cena naturalmente. Assisti-los no palco é um privilégio para a plateia do Espaço Cultural Encena. O interessante a ser notado é que a nova geração que chega também bebe na fonte de excelência dos mais experientes. Aí os méritos vão para o trabalho de formação e de direção de Elias e Lins. A impressão que a plateia tem é que Jess Correia, por exemplo, é veterana nos palcos. Não! Ela chegou há pouco no grupo do Jardim Jussara e já brilha. E aposto que ninguém na plateia de “Sex Shop Café” percebeu que Viktor Lou estava estreando nos palcos. Sua segurança e desenvoltura em um papel para lá de complicado foram tamanhas que ele teve a ousadia de improvisar, o que gerou boas risadas nos espectadores. Por tudo isso, eu falo sem o menor medo de parecer exagerado ou condescendente: o elenco da Encena é competentíssimo! A produção das peças também é digna de menção honrosa. Mesmo no acanhado teatro do Espaço Cultural Encena, a companhia entrega espetáculos com cenários, efeitos sonoros e luminosos, trilha sonora e figurino impecáveis. Em alguns casos (como em “Sex Shop Café”), as produções da Encena são melhores do que as encontradas em muitos grupos teatrais mais renomados e em muitos teatros mais badalados do centro da cidade de São Paulo. Quando falo que o nível de profissionalismo e de excelência da Encena é top, não é à toa. Tudo isso é entregue para o público em um local charmoso e que exala simpatia. Não me canso de elogiar a atmosfera do Espaço Cultural Encena nos dias de espetáculo e a receptividade dos integrantes da Encena Companhia de Teatro. Para se ter uma ideia do atendimento caloroso ao público, Orias Elias e Flávia D’Álima dão as boas-vindas para a plateia vestidos como sadomasoquistas e fazendo brincadeirinhas do tipo quebra-gelo com os visitantes. Hilário!!! O mais curioso é que esse não é o figurino de Elias na peça. Em “Sex Shop Café”, ele interpreta o dono da loja de materiais eróticos, um sujeito normal e de roupas sóbrias. Ou seja, o ator e diretor tem a preocupação de se vestir especialmente para a recepção da plateia. Impossível não se tornar fã de um artista com esse tipo de preocupação e humildade, além de enorme talento no teatro. Se esses foram os pontos positivos de “Sex Shop Café”, eu preciso descrever para os leitores do Bonas Histórias os aspectos negativos. O primeiro deles é em relação às músicas. Por sinal, as sete canções da peça estão disponíveis no Spotify: (1) “Sex Shop Café”, (2) “Outras Bobajadas”, (3) “Ping-Pong na ONG”, (4) “Me Acode Amor”, (5) “Gemidos”, (6) “Fada Azul” e (7) “Morrer é um Saco”. Elas até são divertidas e empolgantes, mas possuem uma qualidade bastante inferior se comparadas à excelência do texto não musical do espetáculo. E olha que falo isso mesmo achando que Walter Lins foi muito bem no vocal (e no papel da impagável Sônia Travis). A questão não é o cantor e sim as músicas em si. Elas não se sustentam fora do espetáculo, o que seria esperado de canções verdadeiramente boas. Para quem deseja saber o que é uma trilha sonora de qualidade em um musical, posso citar “O Homem de La Mancha”. Você sai da sessão cantarolando as músicas e, quando chega em casa, quer ouvi-las outra vez. Definitivamente, não é o que aconteceu em “Sex Shop Café”. Além disso, as dancinhas do elenco durante as sequências musicais são mais pitorescas do que de qualidade. Em outras palavras, o clima no teatro, nesse instante, é de constrangimento mútuo (dos atores e da plateia). Também senti uma quebra no tipo de graça praticada em “Sex Shop Café” entre os dois momentos: o musical e as cenas tradicionais. Enquanto a primeira etapa segue mais para o humor verde e para o grotesco, a segunda caminha melhor pela sátira e pelo nonsense. Normalmente, o público mais refinado prefere a segunda opção. De qualquer forma, há um contraste evidente no tipo de humor praticado nessas duas partes do espetáculo. Em relação à estrutura narrativa da peça, confesso que achei tolinhas algumas “surpresas” do enredo. Se as personagens no palco se surpreenderam com a identidade da terrorista e a verdadeira profissão da mocinha aparentemente ingênua que frequentava a loja, a maioria dos espectadores deve ter pensado: “Mas isso era óbvio desde a primeira cena, meu Deus! Como ninguém percebeu isso!!!”. Admito que não gosto quando o dramaturgo e o diretor teatral questionam a inteligência da plateia. Também considerei o enredo de “Sex Shop Café” falho em alguns momentos. Por exemplo, achei desnecessárias as brincadeiras de interrupção da peça, em um diálogo intertextual sem o menor cabimento para a história. Além disso, não gostei da repetição de algumas piadas (“quem hoje em dia lê jornal”). Por melhores e mais pertinentes que sejam os comentários cômicos, suas repetições diluem os efeitos do humor na plateia. E o que dizer, então, do aparecimento extremamente rápido e atabalhoado do vilão (Padre Zeca) no meio do espetáculo? Sinceramente, não vi qualquer lógica nisso. Quanto à parte técnica da peça, a única falha se deu no final. Por falar nisso, “Sex Shop Café” tem um excelente desfecho: original, forte e engraçado! Ao invés de se optar pela locução gravada da mensagem de fechamento do espetáculo, escolheu-se a fala ao vivo por um dos atores (Viktor Lou). Aí o público não ouviu boa parte do que ele disse. Possivelmente, o microfone estava desligado ou em um volume que não deu alcance para o teatro todo. Não seria mais fácil deixar essa passagem para o operador de som apertar o play em um áudio gravado? Acho que sim. Repare que esses são problemas pontuais, que não tiram o brilho da versão de “Sex Shop Café” realizada pela sétima vez pela Encena Companhia de Teatro. Como fui à estreia, é bem possível que alguns equívocos (principalmente os técnicos) sejam resolvidos nas próximas sessões. O que parece ser um problema crônico, que preciso comentar aqui na coluna Teatro, e de difícil solução é a estrutura física pouco confiável do Espaço Cultural Encena. Apesar de ser um lugar gostoso, fácil de estacionar e que exala arte e cultura, o QG da Encena tem alguns graves problemas que fogem da alçada do grupo. É comum a falta de energia naquela região da cidade, o que obriga a companhia teatral a cancelar espetáculos ou prosseguir as peças à luz de velas. No Verão, é comum ter alagamentos nas ruas do bairro, dificultando o acesso do público e dos atores. Coisas de São Paulo. Coisas do Brasil. Assista ao vídeo de apresentação de “Sex Shop Café” feito pela Encena Companhia de Teatro: As sessões de “Sex Shop Café” acontecem em todos os sábados de maio, junho e julho no Espaço Cultural Encena (Rua Sargento Estanislau Custódio, 130 – Jardim Jussara) às 20h30. A duração da peça é de aproximadamente uma hora e quinze minutos e a classificação etária é a partir de 16 anos (não vai me dizer que você pensou em levar crianças em um evento chamado “Sex Shop Café”, né?). A entrada é gratuita, sendo que no final do espetáculo a plateia é incentivada a contribuir com o que pode e/ou com o que achou justo pela experiência teatral. É nesse momento que conseguimos atestar realmente o quanto o público gostou do espetáculo. Nas duas vezes em que fui até o Jardim Jussara, não foram poucas as pessoas que fizeram contribuições que se aproximaram ou atingiram a marca dos três dígitos. No fim das contas, acho que é mais lucrativo (e democrático) para a companhia essa dinâmica de pagamento do que se cobrasse ingresso. Como o teatro do grupo é pequeno e a procura tem sido grande (na estreia, a casa estava lotada), é bom reservar com antecedência seus ingressos para “Sex Shop Café”. Dá para fazer isso pela página da peça no site da Sympla. Assim, você não perde a viagem até o Espaço Cultural Encena. A única coisa que se espera para um evento com entrada franca é que quem reserva as vagas não falte ou atrase. Afinal, quando se reserva o ingresso, alguém ficou sem, né? E, assim, fecham-se por ora as cortinas. Até o próximo espetáculo da coluna Teatro, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? 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- Talk Show Literário: Rosa Maria Gonçalves
Na primeira entrevista de 2023, Darico Nobar recebe a esposa do protagonista de Zero, o romance mais famoso de Ignácio de Loyola Brandão. Em nossa cidade, pontualmente, vinte e duas horas. Puratek anuncia: dentro de trinta segundos nossa próxima atração: Talk Show Literário. 30, 29, 28, 27, 26, 25, 24, 23, 22, 21, 20, ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa, 19, 18, 17, 16, 15, 14, 13, 12, 11, 10, moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, em fevereiro (em fevereiro) tem carnaval (tem carnaval), 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Versão brasileira Herbert Richers: Em algum recôncavo sinistro da América Latíndia, também conhecido como o Quinto Mundo do planetinha azul... ! Não é tarde, Rosa. . Com a repressão que anda por aí, ninguém quer sair de casa, as ruas são vazias, cassaram as licenças para circular depois de 21:34 horas. ? E daí. . A polícia pode suspeitar. . Deixa pra lá. Quero saber como você conheceu José. . Tava escrito no anúncio: José, moreno, 28 anos, cabelos pretos, católico, situação financeira razoável, procura moça para futuro compromisso. ? E você. . Também tava lá: morena, um pouco baixa, rosto cheio, corpo cheio, coxas redondinhas, o corpo todo empinado para a frente. ? Deu certo. . Amor certo é torto, Seu Darico. Quem ama fica cego, nada vê. . Entendo. ? E a vida, como tá. ! Sei lá. Hoje tá fogo. Tão tacando fogo em tudo quanto é lugar. Qualquer dia, a cidade explode. Eu já nem uso leque. Vai que acabo abanando fogueira. PENSAMENTO DO DIA: A cidade se humaniza. Meninas curradas em plena luz do dia. Ladrões assaltam mulheres que saem às tardes para fazer compras. Ladrões brigam com ladrões e se matam, se assassinam. Estaria sendo formado em Esquadrão Punitivo. Já tinha existido um, anos atrás. Nos tempos heroicos. TRIM, TRIM, TRIM, TRIM!!!! . Um momento, preciso atender. Pronto. ? É o apresentador que tá falando com a mulher do manquinho. . É. . Escuta, tem umas coisas que você precisa saber. ? Quer. . Depende. ? Quem é, o que você quer. . Sou teu amigo. Escuta, pergunta uma coisa pra Rosa. Pergunta se ela conhece a cabaninha perto dos Britos. Ou a curva do Bezerro, no caminho de Matão. Pergunta para ela do sítio do Alberto. Ou da privada do jardim público, à meia-noite... Alô, alô. . Fala. . Diz que você sabe que ela comeu a mulher do prefeito e mijou em cima dela. Todo mundo sabe dessa história. Pergunta da tourada na casa do Betinho. Ou dos dois turcos bichas que iam dançar com ela, pelados no asfalto. Vê se ela sabe alguma coisa dos strip-teases no stand de tiro de guerra. Vê se ela se lembra do porão do Colégio, quando estudava lá e as meninas ficavam lendo livros, de sacanagem. Vê se ela lembra, como gostava de beijar na boca das outras meninas. Alô, alô, alô... . Pode falar. ? Você ainda tá aí. ? Por que você não desligou. . Boa ideia. PAAAAAAAH! ? Quem era, Seu Darico. FILHODA CENTRO: À DIREITA. Esse é o município mais progressista do país. Seis presidentes nasceram nessa cidade, mas nenhuma faculdade de Medicina ou Direito brotou por aqui. Seja bem-vindo. Carlos Lopes subiu ao palco com o filho no colo. Quando o entrevistador e a entrevistada pararam de falar, ele disse: . Meu filho está doente. ? E o que eu posso fazer. ! Aqui não é hospital. . Por isso mesmo. ? Onde tá o médico. ? Médico. Não, não temos. Só o do ambulatório. ? Serve. . Médico é médico. Se ele olhar o meu filho já será de bom proveito. . Então, faz o seguinte: siga aquela placa que diz AMBULATÓRIO. Chegando lá, apresente sua carteira, sua matrícula do Instituto Nacional, seu registro de firma, o CPI, os avisos de pagamento dos últimos seis meses, a identidade, fotografias 3 x 4 com data, título de eleitor provando que o senhor votou nas últimas eleições, ficha corrida na polícia, atestado de antecedentes, residência, declaração de boa conduta conjugal, certidão de casamento, de batismo, registro do filho, imposto do filho / What's this thing called love /, quitação do imposto de renda, quitação do serviço militar. VISÃO: Malandros atiram no disco voador que apareceu no terreno. Acharam que era a polícia disfarçada. . Não, meu amor, foi só depois de casar. . Que puritanismo¹ bobo, Rosa. . Bobo nada. Coisa de mulher direita, de Miss Armando Prestes. ? Onde você tirou uma ideia dessas. Não sei. ? Você já leu algum livro do Scott Fitzgerald. . Já. ? Tem aqui. . Não, nenhum. ? Por quê. . Queria dar de presente para o José. PENSAMENTO DO DIA: Hoje mocinha, amanhã mulher, graças a Deus. . Eu disse ao José que era verdade o que os meninos diziam na minha cidade. Mas isso era mentira minha. Naquele dia eu queria experimentar se ele gostava de mim². ? E por quê. . Eu queria me casar com ele, estava cheia daquela vida de solteira. Moça não pode ficar solteira, que fica boba, minha mãe tinha toda razão. ? E o que você tem para nos contar do casório. . José tem a bunda fria, a mãe dele tinha bunda fria... Coisa de família. . Melhor ter bunda fria do que ser bunda mole. MIRACULOSO: Frankil, o maior faquir do país, conquistou para nós o título de campeão mundial de jejum, ficando sem comer 111 dias. Ele disse que treina desde criança. Essa é a primeira conquista nacional desde o recorde mundial de trepadas do casal de brasileiros, que ficou por 120 dias sem sair da cama. ? Você teria coragem, Rosa. . Claro. ? De fazer, na frente dos outros. . Não sei, não. ? Onde José está agora. . Ele foi assinar os papéis da nossa casinha. Sabe como é: quem casa, quer casa. ! Que romântico. INTERVALO/INTERMISSION/ENTREÂTE . E aqui me despeço esperando ter sua atenção nas próximas entrevistas. Espero tê-lo agradado. Recomende-me a sua família e a todos os seus. REFEIÇÃO COMERCIAL: Pratos do dia – Bacalhau à Portuguesa, Bacalhau ao Forno, Bacalhau Alho e Óleo, Filé com Fritas, Omelete de Verduras, Picado, Frutas, Sorvete, Café. Entrem – Limpeza e Rapidez – O Mais Popular Restaurante da Cidade – Não Resistam aos Nossos Preços. O animador de auditório tinha um grande sorriso. Era a melhor ferramenta de trabalho do melhor funcionário do dono da emissora, que por sua vez tinha uma companhia para a venda de coisas aos pobres. A plateia se levantou e saiu do auditório. Pelo menos iam embora menos famintos. E devidamente saciados de entretenimento televisivo. FRASE DO DIA: Se o povo não tem pão, que coma isopor. É branco, macio e em fatias parece pão Pullman³. ANÚNCIO: Já se encontram em todas as boas lojas do ramo os uniformes para o povo, nas cores estabelecidas pelo governo, de acordo com as classes sociais e profissões. Os uniformes são baratos, acessíveis. Os que não puderem comprá-los à vista, poderão fazê-lo a prazo, através das Caixas, com financiamento do governo. Para isso, basta levar: escritura da casa, conta de luz e água, carteira profissional, identidade, quitação com a hora oficial, atestado de residência, boa conduta, antecedentes, salvo-conduto, carnês de compras a crédito. Dentro de dois meses, o povo todo deverá estar uniformizado. Deus salve a América. E perdoe a Latíndia! ¹ Todo o primitivismo da mulher latindioamericana condicionada por tradições religiosas morais, sociais e políticas, conservadorismo, puritanismo. ² Ou Rosa teria falado a verdade lá atrás e só agora estaria mentindo para o apresentador e para o público que assistia ao programa de TV? ³ Declaração do Presidente que mais matou cidadãos inocentes. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. 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- Livros: Iluminadas - O romance best-seller de Lauren Beukes
Publicado há dez anos, o thriller de ficção científica da escritora sul-africana conquistou vários prêmios literários e foi adaptado para a televisão. No final de semana retrasado, li “Iluminadas” (Intrínseca), o romance de maior sucesso da sul-africana Lauren Beukes. Quem me indicou essa história foi uma velha amiga (que é muito nova ainda, por mais paradoxal que pareça minha frase). Beijo, menina Iris! Obviamente, ela não leu o livro. Coisa de uma advogada (quase saiu advogata – piada de outras épocas que nunca sai da minha cabecinha besta) muito ocupada e que prefere aproveitar as horas de folga na Praia de Botafogo. De qualquer forma, Iris assistiu à série de televisão na Apple TV+, que na gringa é chamada de “Shining Girls” (2022), no final do ano passado e me recomendou. “Você vai gostar tanto do suspense que na certa vai colocar no Bonas Histórias”, foram suas palavras proféticas em dezembro. Como tenho bastante dificuldade para acompanhar séries televisivas, achei melhor partir logo para a obra original. Ainda mais porque minha velha amiga jovem me presenteou com um exemplar de “Iluminadas” no último Natal. Valeu, menina Iris!!! Posso demorar para ler os romances que recebo, mas eu sempre leio... É só ter um pouco de paciência comigo. E não é que a publicação literária de Beukes é mesmo muito interessante!!! Arrisco a dizer que “Iluminadas” está no patamar de “Suíte Tóquio” (Todavia), tragicomédia de Giovanna Madalosso, “A Contra-História” (Valentina), terceiro volume da pentalogia “A Contrapartida” de Uranio Bonoldi, e “Como Ler Livros” (É Realizações), clássico de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, os melhores livros que li neste ano. Gostei tanto do thriller de ficção científica de Lauren Beukes que resolvi analisá-lo em detalhes no post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária. Publicado em abril de 2013 na África do Sul e na Inglaterra e em junho daquele ano nos Estados Unidos, “Iluminadas” é o quarto título de Lauren Beukes, sendo sua terceira obra ficcional. Antes deste romance, a autora de 46 anos nascida em Joanesburgo lançara: “Maverick – Extraordinary Women From South Africa's Past” (sem edição em português), coletânea de biografias de 2004 que detalha a trajetória de importantes personalidades femininas de seu país; “Moxyland” (não traduzido para nosso idioma), distopia com pegada cyberpunk de 2008; e “Zoo City” (também sem publicação por aqui), ficção científica de 2010. Depois de “Iluminadas”, Beukes produziu mais três livros: os romances “Broken Monsters”, de 2014, e “Afterland”, de 2020, e a coletânea de contos “Slipping”, de 2016. Nenhuma dessas obras foi traduzida para o português ainda. Roteirista de televisão e jornalista, além de escritora profissional, Lauren Beukes é mestre em Escrita Criativa pela Universidade da Cidade do Cabo. Por dois anos, a sul-africana morou nos Estados Unidos, onde trabalhou como jornalista freelancer em Nova York e Chicago. Atualmente, ela mora na paradisíaca Cidade do Cabo, na minha opinião a mais bonita metrópole da África do Sul (e quiçá do continente), com a filha pequena e uma dupla de gatos. Contudo, a autora continua viajando constantemente para várias partes do mundo (América do Norte, América Central, Europa e Antártida) para embasar seus enredos literários e seus roteiros cinematográficos, ambientados quase sempre no exterior. Seus dois primeiros romances ainda se passavam na África do Sul. “Moxyland”, a estreia de Beukes na ficção, é uma distopia aterrorizante que foi ambientada no universo corporativo da Cidade do Cabo. Apesar do enredo original, o livro teve repercussão limitada ao mercado nacional. Foi somente na segunda publicação ficcional, “Zoo City”, thriller futurista que mistura magia, música e crise social em uma caótica Joanesburgo, que Beukes caiu na graça do público e da crítica literária. Essa obra ganhou o Kitschies Red Rentacle de 2010 e o Arthur C. Clarke Award de 2011 como melhor romance. Vale a pena dizer que essas premiações são de âmbito internacional (obras produzidas em língua inglesa) e organizadas no Reino Unido. Na África do Sul, obviamente, o livro foi finalista das principais honrarias da literatura e apresentou boa vendagem nas livrarias. Como consequência, os direitos autorais de “Zoo City” foram adquiridos por uma produtora local e ganhou versão audiovisual. No exterior, o livro foi traduzido para vários idiomas e lançado com êxito em muitos países. Assim, Lauren Beukes se tornava uma romancista internacional. Quando “Iluminadas”, o terceiro romance da autora, começou a conquistar as principais premiações ficcionais da África do Sul e da Inglaterra e se tornou alvo da disputa intensa de produtoras de televisão dos Estados Unidos que queriam adaptá-lo para as telas, não foi surpresa para quem havia lido e acompanhado o êxito de “Zoo City”. De certa maneira, o sucesso de uma obra foi puxado pela excelência e pelo interesse do público pelos títulos precedentes. É legal dizer que “Iluminadas” marca a estreia das tramas internacionais de Beukes (enredos literários ambientados no exterior). Afinal, temos aqui a narrativa fantástica do serial killer de Chicago que viaja no tempo para matar mulheres que possuem um brilho que só ele vê (daí o nome do título da obra). Isso até uma de suas vítimas sobreviver ao ataque e realizar por conta própria uma investigação para pegá-lo. Entre os vários prêmios conquistados pelo novo livro, podemos citar o UJ Prize de 2013 (principal honraria literária sul-africana) na categoria livro produzido no idioma inglês, e o British Fantasy Society August Derleth Award de 2014 como melhor romance de terror em língua inglesa (um dos principais prêmios do gênero da Grã-Bretanha). Lançado quase que simultaneamente nas livrarias da África do Sul, Inglaterra e Estados Unidos em meados de 2013, “Iluminadas” começou rapidamente a ser traduzido para outros idiomas e ganhar mais mercados. Rapidamente, ele se tornou um best-seller mundial. No Brasil, o romance policial de Lauren Beukes foi publicado pela Editora Intrínseca em abril de 2014. A tradução para o português brasileiro ficou a cargo de Mauro Pinheiro, tradutor carioca especializado em inglês e francês. No ano passado, a Intrínseca rodou a segunda edição de “Iluminadas”. Na nova capa, o público nacional era informado que se tratava do título que deu origem à série de televisão homônima que está disponível na Apple TV+. Não por acaso, essa é a edição que eu tenho em mãos (e que ganhei de presente). Querendo ou não, essas artimanhas mercadológicas de incrementar a capa com informações sedutoras ajudam na visibilidade do livro no ponto de venda. Porém, o que contribui mesmo para alavancar a atratividade (e, por consequência, a comercialização) dos exemplares nas livrarias é o lançamento da versão audiovisual do romance. Muitos fãs da série de TV compram a obra literária para saber mais detalhes da história que eles viram nas telas. E muitos leitores que não assistiram à adaptação só se sentem encorajados em adquirir o livro depois que ele virou filme. “Se chegou ao cinema ou se tornou série de TV, a narrativa deve ser boa”, pensam com alguma dose de razão. Isso sem contar as almas com dor na consciência que dão a publicação de presente para os amigos do outro lado da Ponte Aérea, né?! Por falar na série de televisão, “Iluminadas” (Shining Girls: 2022) foi produzido em conjunto pela MRC e Appian Way e roteirizado por Silka Luisa. No elenco da atração, os destaques vão para Elisabeth Moss, de “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020), Wagner Moura, de “Tropa de Elite” (2007), Jamie Bell, de “Billy Elliot” (2000), e Phillipa Soo, de “Hamilton” (2020). Então quer dizer que Wagner Moura é um dos protagonistas de “Shining Girls”?! Tá explicado porque a menina Iris assistiu ao seriado... Completam o time de atores e atrizes Amy Brenneman, Chris Chalk, Erika Alexander, Alex Goodrich, Sadieh Rifai, Christopher Meister, Jason Wells, Jimmy Carrane e Jack Lancaster. As filmagens aconteceram entre maio e outubro de 2021 em Chicago e a série foi lançada mundialmente em abril de 2022 no streaming. Curiosamente, as produtoras norte-americanas compraram os direitos do romance de Lauren Beukes em maio de 2013, tão logo ele chegou às livrarias, mas demoraram quase uma década para viabilizá-lo. A primeira (e única) temporada tem oito episódios de cerca de uma hora cada um. As principais diferenças da versão televisiva de “Shining Girls” para a versão literária de “The Shining Girls” (sim, a distinção começa no título, que tem o “The” no original, mas não tem o “The” na adaptação) estão nas características dos protagonistas. A heroína é arquivista do jornal Chicago Sun-Times no seriado e não mais estagiária da seção de esportes como no livro. E seu par romântico/dupla na investigação criminal é um brasileiro na tela e não um porto-riquenho como nas páginas do romance. Segundo Wagner Moura, essa foi uma solicitação sua para tornar seu personagem mais verossímil. Veja o trailer legendado de “Shining Girls”: Por falar na trama de “Iluminadas”, vamos à história do romance. O enredo (agora voltei a tratar exclusivamente da produção literária; portanto, irei ignorar a versão audiovisual até o final do post, tá?!) se passa essencialmente em Chicago. O livro começa em 17 de julho de 1974. Harper Curtis, um sujeito muito estranho que caminha mancando com o auxílio de bengala e usa casaco de tweed fora de moda, encontra Kirby Mazrachi. A menina tem seis anos (quase sete) e brinca sozinha em frente de casa. Na diversão infantil, ela está organizando um espetáculo circense. O misterioso visitante dá de presente para a garotinha um pônei laranja de plástico. Achando esquisito o gesto do desconhecido, Kirby o questiona dos motivos daquele agrado. Harper diz que é para ela guardar o bichinho. No futuro, eles ainda vão se encontrar e ela poderá devolvê-lo. Sem expressar suas reais intenções, o homem não revela para a menina o seu desejo mórbido por trás daquela apresentação. Ele quer matar Kirby quando ela estiver maior, quando já for uma moça. Nos capítulos seguintes, a narrativa retorna para a noite de 20 de novembro de 1931. Harper Curtis se envolve em mais uma discussão de bar. Enquanto foge de um grupo de homens que tenta pegá-lo, ele mata uma mulher cega e rouba-lhe o casaco. No bolso da vestimenta há dinheiro e uma chave. Após o tal “lance de sorte”, Harper cai em uma vala profunda e machuca seriamente o pé. Se arrastando, ele consegue chegar ao hospital municipal, onde é atendido graças ao dinheiro achado no casaco de sua última vítima. Devido à gravidade da lesão, o assassino fica internado por dois dias. Sem ter lugar para ir e fugindo de perigosos inimigos, o vilão até que vê com bons olhos o fato de poder se esconder entre os doentes da cidade. Após a alta médica, que não o impedirá de mancar para sempre e exigirá o uso de bengala, Harper revira novamente o bolso do casaco. Ali encontra mais uma vez a chave da mulher cega. Ao tocar no objeto, ele sente algo meio que sobrenatural. É como se a fechadura daquela chave começasse a guiar seus passos trôpegos. Guiado por sensações, luzes, vozes e pressentimentos inexplicáveis, o homem chega à entrada de uma velha casa. Obviamente, a chave encontrada na vestimenta abre a porta e ele adentra na residência. A questão é que a Casa (em letra maiúscula mesmo) é bem apresentável e luxuosa em seu interior, o que contrasta com o tom decrépito da fachada. Não demora para Harper Curtis descobrir que a Casa é um local mágico. No Quarto (também com tal grafia), o cômodo principal da construção, existem nomes de mulheres rabiscados em papéis pendurados na parede. O visitante (no caso, o novíssimo morador da residência – encantado com o que vê, Harper decide instantaneamente que irá morar ali para sempre) reconhece que a letra dos papéis é sua. A Casa quer que ele mate cada uma daquelas mulheres. O assassino reconhecerá as vítimas porque elas possuem um brilho característico que só ele notará. Além disso, essas mulheres vivem em diferentes épocas. Isso não será problema já que a Casa possui uma porta que dá acesso a uma espécie de túnel do tempo, que permitirá a Harper viajar entre as décadas de 1930 e 1990. Assim começa a aventura sanguinolenta de Harper Curtis por Chicago. Enquanto trafega tranquilamente por anos distintos do século XX, o sujeito manco mata uma a uma as garotas que brilham e que a Casa indicou. Como os assassinatos acontecem em épocas diferentes, ele não tem qualquer problema com a polícia do Estado de Illinois. Afinal, como será pego se, em um passe de mágica, o assassino escapa por uma passagem no tempo? Para completar, as investigações criminais não conseguem relacionar os casos das mulheres mortas com grande hiato temporal como sendo responsabilidade de um único agressor (serial killer). O problema de Harper é que, em março de 1989, enfim ele tem o primeiro insucesso. Após matar o cachorro de Kirby Mazrachi, então com vinte e um anos, Harper esfaqueia a nova vítima com perfurações grandes e profundas no tórax e no pescoço. Em um lance de sorte incrível (se sobreviver a um ataque de um serial killer pode ser chamado de sorte!?), Kirby consegue sobreviver, apesar dos traumas físicos e emocionais. O que a moça jamais irá se conformar é que seu algoz jamais foi identificado e preso pela polícia. Em fevereiro de 1992, Kirby Mazrachi é universitária do curso de Jornalismo e consegue estágio no Chicago Sun-Times. A jovem escolhe a seção de esportes para atuar, apesar de não entender absolutamente nada da área escolhida. Na verdade, ela quer ter contato com Dan Velasquez, o principal repórter de beisebol do veículo e agora seu chefe imediato. Três anos antes, o jornalista de origem porto-riquenha era o responsável pela cobertura policial do Sun-Times e acompanhou de perto o ataque sofrido por Kirby. Em outras palavras, a nova estagiária do Sun-Times pretende utilizar a biblioteca do jornal e os conhecimentos de Dan Velasquez para realizar uma investigação particular sobre o homem que tentou matá-la em 1989. Apesar do corpo dilacerado com incontáveis e horripilantes cicatrizes que vão do pescoço à barriga, Kirby Mazrachi seguiu em frente e quer Justiça. Ela não irá descansar enquanto não conseguir se vingar de seu agressor. Kirby conseguirá, ajudada por Velasquez, descobrir o que Harper Curtis tem realizado nos últimos 60 anos?! Ela será capaz de desvendar um mistério sobrenatural que envolve viagem no tempo, elementos mágicos e um serial killer que não envelhece? É esse o conflito que move a trama do belíssimo romance de Lauren Beukes. “Iluminadas” possui 400 páginas e está dividido em 69 capítulos. Levei pouco mais de nove horas para concluir integralmente este livro. Claro que não li tudo de uma só vez. Por mais que considere grande meu fôlego literário, confesso que faz um tempinho que não me aventuro a passar o dia inteiro lendo ininterruptamente. Bons tempos aqueles... Para a leitura de “Iluminadas”, usei o final de semana retrasado, o último do mês de abril. Foram dois dias de leitura: sábado e domingo. Nem precisei do feriado de 1º de maio, que caiu na segunda-feira. Posso dizer que foram quatro sessões de leitura de duas horas e vinte minutos cada – sábado de manhã, sábado à tarde, domingo de manhã e domingo à noite. O primeiro aspecto que chama a atenção em “Iluminadas” é a pluralidade de gêneros narrativos. O livro de Lauren Beukes é uma mistura de romance policial (Kirby Mazrachi investiga por conta própria a agressão quase fatal que sofreu), fantasia (casa com propriedades mágicas), ficção científica (viagem no espaço temporal), thriller com muita ação (o principal mistério é saber se a protagonista conseguirá pegar Harper Curtis), terror (a quantidade de cenas de assassinato e crueldade é extensa), drama histórico (o enredo percorre as décadas de 1930 a 1990), surrealismo (brincadeira com os diferentes planos temporais) e romance noir (o clima sombrio é uma marca desta história). O mais legal é perceber que essa mixagem literária foi muito bem realizada e não soa forçada nem artificial em nenhum momento. Por quaisquer perspectivas que você encare essa publicação (romance policial, trama fantástica, ficção científica, suspense, terror, drama histórico ou narrativa noir), é preciso enaltecê-la. Temos sim que tirar o chapéu para sua qualidade literária! Não à toa, este livro conquistou tantas premiações e foi adaptado para a televisão. A segunda questão que preciso elogiar é a excelente Ambientação de “Iluminadas”. Saiba que não é fácil construir um enredo ficcional em uma cidade em que a autora não morou por muito tempo e numa época em que ela não viveu. Mesmo assim, a sensação que o leitor tem é de estar percorrendo efetivamente Chicago ao longo de boa parte do século XX. Incrível esse efeito, né? E como Beukes conseguiu essa proeza?! A resposta é um tanto óbvia: com MUITA pesquisa e PROFUNDA imersão no cenário retratado. Note que o enorme trabalho bibliográfico da escritora sul-africana não aparece de forma chata, excessiva ou artificial no romance, equívocos mais comuns do que poderíamos supor. Não!!! A composição de cenários, situações, personagens reais e clima narrativo é natural, cativante e charmosa. Lauren Beukes dá uma verdadeira aula de como construir uma trama ficcional verossímil, bonita e agradável. Além disso, o breve período em que ela passou na cidade norte-americana (não mais do que um ano e pouco) foram bem aproveitados. Durante a leitura do romance, dá para construirmos mentalmente o clima narrativo da cidade do Illinois e a sua atmosfera. Ainda falando na Ambientação, o que mais me encheu os olhos em “Iluminadas” foi a reconstrução histórica dos Estados Unidos de 1930 a 1990. Usando um expediente que brinco ser a “técnica Forrest Gump”, a escritora sul-africana pinçou passagens marcantes de cada período para colorir seu romance. Assim, assistimos aos reflexos da crise econômica provocada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929, a implementação do New Deal, a Lei Seca, a proliferação de gângsteres em Chicago (incluindo Al Capone), a Segunda Guerra Mundial, a tensão diplomática com a União Soviética, a Guerra Fria, o Macarthismo, as tensões raciais, a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, a Guerra no Vietnã, o crescimento das ligas esportivas norte-americanas na virada dos anos 1980 para os 1990 (destaque especial para a NBA e para MLB), o auge da imprensa impressa (e a rivalidade entre os jornais) etc. Por mais que tenhamos nas páginas do enredo ficcional algumas passagens recheadas de clichês históricos, ainda sim os méritos do livro de Beukes são muito maiores do que possíveis falhas isoladas. Por essa perspectiva mais histórica, a escolha de Chicago como cenário de “Iluminadas” me pareceu perfeita. A Cidade dos Ventos é uma excelente representação das mazelas raciais e das desigualdades sociais dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, ela também possui várias das dúvidas existenciais que a África do Sul viveu (e vive!) desde o Período Colonial (inclusive nos anos do Apartheid). Olhando a metrópole norte-americana de perto, temos os arranha-céus e a arquitetura modernista convivendo lado a lado com os imóveis abandonados e as áreas degradadas. Também vemos negros, brancos, imigrantes latino-americanos, comunidades judaicas e descendentes de asiáticos (cada comunidade devidamente retratada no livro) convivendo ora harmonicamente, ora em ebulição. Por falar nisso, o racismo, o machismo, a especulação imobiliária, a violência urbana, as injustiças sociais, o peso do dinheiro (leia-se a força das engrenagens do Capitalismo), a incompetência policial, as falhas do sistema judicial e penal, o tráfico de drogas e os preconceitos dos mais diferentes tipos (raciais, religiosos, étnicos, sexuais, sociais, financeiros etc.) quebram qualquer tentativa de integração harmônica da população de Chicago. Independentemente da época retratada, a sensação é de estarmos no meio de uma pequena e velada guerra civil. Dessa maneira, o que era para ser o cenário idílico de integração social se transforma em local de segregação racial. Admito que adorei essa pegada de crítica social do romance. Gostei porque não é comum os autores criticarem cidades e países estrangeiros tão abertamente. Lembremos que Lauren Beukes é sul-africana e coloca o dedo em chagas históricas de Chicago e dos Estados Unidos (locais em que ela viveu por pouco tempo). Além de ser uma atitude extremamente corajosa da escritora, sua visão não soou panfletária, lacradora ou demagógica. Não! Suas críticas sociais surgem naturalmente no meio da trama e elas são descobertas naturalmente pelos leitores. O narrador se mantém imparcial na descrição dos acontecimentos e não faz julgamentos de valores em nenhum momento. Talvez se ele fizesse quaisquer comentários pejorativos mais diretamente ou tecesse reclamações explícitas, o resultado não teria sido tão positivo quanto o alcançado por sua atitude neutra. Ainda na seara da crítica social, não me parece mera coincidência o fato de o serial killer procurar como vítimas as mulheres que brilhassem. E o que seria alguém que brilha?! Obviamente, é uma pessoa à frente de seu tempo, que cause admiração, imponha suas vontades e/ou promova grandes realizações na sociedade. Repare que todas as moças atacadas por Harper Curtis são figuras marcantes e bastante atuantes. Em um mundo machista, elas podem ser vistas como inimigas imperdoáveis. Daí a sanha criminosa do vilão. E note que quem manda Harper matá-las é a Casa. E o que seria, então, as vontades da Casa no sentido figurado?! Acho que são os preconceitos e os medos da sociedade misógina e conservadora do século XX. Por essa perspectiva, podemos sim ver “Iluminadas” como uma obra feminista. Legal perceber que a trama vai justamente até a metade dos anos 1990. Seria o século XXI um período de maior liberdade para as mulheres? Outro ponto interessante de “Iluminadas” é o dinamismo do enredo. A sensação que temos é que sempre está acontecendo alguma coisa no livro independentemente do capítulo que você esteja lendo. E não se trata de mera percepção dos leitores: há mesmo muita ação no romance!!! Lauren Beukes conseguiu essa agilidade narrativa pelo uso adequado de alguns receituários literários. Em primeiro lugar, ela optou pelo narrador em terceira pessoa. Contudo, ele não fica preso à nenhuma personagem especificamente. A cada capítulo, o narrador acompanha uma figura diferente. Por isso, ele pode colar tanto em Harper Curtis, Kirby Mazrachi e Dan Velasquez (os protagonistas) quanto nas várias vítimas do serial killer (os coadjuvantes). A mudança constante de perspectiva (Foco Narrativo) deixa tudo mais misterioso e atraente. Além do tipo de narrador (que chamo de “narrador pula-pula”), outro aspecto que dá dinamismo ao livro é o registro não linear dos acontecimentos. A ordem dos capítulos em “Iluminadas” desrespeita totalmente a continuidade temporal da trama. Assim, podemos acompanhar uma cena que ocorreu em 17 de julho de 1974 e, logo em seguida, vamos para um episódio em 20 de novembro de 1931. Mais à frente, vemos algo que se passou em 9 de setembro de 1980 e, algumas páginas depois, vamos diretamente para um fato de 3 de janeiro de 1992. Para quem cogite que esse embaralhamento de cenas de diferentes épocas possa tumultuar a experiência de leitura, eu garanto que não há confusão. Todo capítulo inicia-se com a informação de qual personagem o narrador está acompanhando e em que período a trama acontece. Ou seja, o leitor se situa tranquilamente ao longo do enredo, uma vez que tenha concentrado a atenção na leitura e coletado corretamente as informações recebidas na abertura dos capítulos. Confesso que não sei qual é a parte mais legal de “Iluminadas”: se o início, o meio ou o final. Essas três seções estão ótimas e, por isso, quero comentá-las individualmente neste post da coluna Livros – Crítica Literária. Comecemos, claro, pelos primeiros capítulos. A cena inicial que abre o romance é o primeiro encontro efetivo de Kirby Mazrachi com Harper Curtis (em julho de 1974, quando ela tem apenas seis anos e ele está no início de sua trajetória assassina). A escolha pela apresentação imediata da heroína e do vilão é acertadíssima, pois demorará alguns capítulos até os dois voltarem a ficar cara a cara (no fatídico 23 de março de 1989, quando a moça será brutalmente atacada no meio do parque pelo psicopata). Adorei a escolha dessa cena para abrir a publicação ficcional de Beukes por dois motivos principais. O primeiro é que esse encontro dos protagonistas vem recheado de tensão dramática. Já sabemos o que virá mais para frente em “Iluminadas”, mesmo assim é profundamente incômodo assistir à aproximação de um serial killer de uma menina indefesa. Impossível ficarmos indiferentes aos instintos assassinos de Harper Curtis sendo aflorados e ele reconhecendo a futura vítima. Além disso, é impossível não relacionarmos esse trecho do romance contemporâneo à cena inicial de um clássico da literatura em língua inglesa. Estou me referindo à abertura de “Grandes Esperanças” (Penguin Companhia), uma das mais renomadas obras de Charles Dickens. Acredito que Kirby Mazrachi seria a versão feminina, norte-americana, azarada e atual de Philip Pirrip. Ainda nessa linha, Harper Curtis seria uma espécie de encarnação sanguinolenta, impiedosa e desumana de Abel Magwitch. Pelo menos, as interações entre as duplas de protagonistas de “Iluminadas” e “Grandes Esperanças” são parecidíssimas nas primeiras páginas. Se você achar mera coincidência as conversas dos homens mal-encarados com as crianças ingênuas nos comecinhos de ambos os livros, é porque está subestimando a capacidade ficcional de Lauren Beukes. A escritora sul-africana tem muitas referências literárias e não foi por acaso as semelhanças de sua publicação com o clássico inglês. Ela inclusive cita diretamente Dickens (e outros escritores famosos) no meio de sua narrativa. Por isso, não tenho pudores em reconhecer: estamos diante de uma artista das letras espetacular!!! Além de sua enorme capacidade criativa e da grande habilidade na contação de histórias, Beukes dialoga direta e indiretamente com as principais publicações da literatura. Incrível, né? Bem no meio do livro, mais especificamente nos capítulos das páginas 195 (Kirby – 22 de novembro de 1931) e 199 (Harper – 22 de novembro de 1931), “Iluminadas” tem sua maior reviravolta. Para não estragar a experiência de leitura dos leitores do Bonas Histórias, o que posso dizer é que a viagem no tempo realizada pelo vilão será mais abrangente do que poderíamos supor. E, em algum momento da trama, a heroína conseguirá chegar perto de Harper, em um local e em uma data que até então duvidávamos ser possível. Espetacular!!! A injeção de adrenalina desses dois capítulos deu mais brilho (desculpe-me pelo trocadilho involuntário) ao livro e tornou sua leitura imperdível até o desfecho. Por falar em reviravoltas, notei certo padrão de Lauren Beukes em “Iluminadas”. A cada cem páginas mais ou menos, temos uma surpresa que mexe substancialmente com a história (e, como consequência, com as emoções e com a perspectiva dos leitores). Adorei esse efeito! Muitas vezes, os autores de thriller de terror e de romance policial investem quase que exclusivamente no impacto das primeiras páginas. E o restante da obra é para sustentar o mistério inicial. Com Beukes, o lance é diferente. Ela não tem pressa para nos surpreender. E faz isso com uma sistemática digna de elogio. A isca narrativa capaz de fisgar o público não precisa ficar necessariamente nas primeiras páginas. Ela pode, por exemplo, ficar bem no meio da publicação. Em relação ao desfecho do romance, o que posso dizer, hein? “Iluminadas” tem um final sem grandes inovações. Assistimos ao embate previsível entre a heroína e o vilão e ponto. Não há, portanto, novas surpresas nem grandes reviravoltas nas páginas derradeiras do livro. E, por mais paradoxais que possam soar minhas palavras, isso é algo positivo. Depois de tanta criatividade do enredo, achei que o desenlace mais conservador caiu muitíssimo bem. Sabe quando você coloca uma camisa muito chamativa e aí precisa colocar uma calça e/ou um calçado mais comportados para combinar (ou para não estragar o visual)?! Foi mais ou menos a mesma impressão que tive com a escolha dos capítulos finais desta publicação. Para não cairmos nos excessos narrativos, um final quadradinho comportou-se perfeitamente, realçando a elegância estética desta história (com início e miolo mais chamativos). O único aspecto negativo que achei em “Iluminadas” foi alguns equívocos de revisão do texto em português. Infelizmente, a equipe técnica da Editora Intrínseca cometeu deslizes que comumente não encontramos nos trabalhos das principais companhias do mercado editorial brasileiro. Assim, a narrativa de Lauren Beukes em nosso idioma possui certos errinhos de digitação: falta de uma palavra em uma frase aqui e troca de letras que eram para ser em maiúsculas e vieram em minúsculas em uma frase acolá. Repare que se trata de problemas de revisão ortográfica e não de tradução. Achei o trabalho de Mauro Pinheiro impecável. De qualquer maneira, esses equívocos textuais não atrapalham em nada a experiência de leitura. Na certa, a maioria dos leitores recreativos não deverá percebê-los. Em relação à narrativa em si de Lauren Beukes, não tenho o que falar mal. Achei seu livro impecável. De tão bom, me pareceu um desperdício descobrir que “Iluminadas” é o único título da autora sul-africana que foi traduzido para o português. Diante de tantos sucessos, como “Moxyland” e “Zoo City”, acredito que exista potencial de mercado para a chegada nas livrarias brasileiras das demais obras de Beukes. Muitas vezes, não é preciso esperar a gravação da série de televisão de um livro para lançá-lo, né?! Pior é que nem em Portugal, os demais romances ganharam versões em nosso idioma. O máximo que podemos encontrar na FNAC lusitana é um ou outro livro de Lauren Beukes em espanhol. É pouco para uma escritora tão talentosa. Vamos torcer para que a Editora Intrínseca invista em novas traduções o quanto antes. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em março e abril de 2023
Veja os 100 principais títulos da ficção e da poesia que chegaram às livrarias brasileiras neste segundo bimestre. Maio já deu as caras no calendário de 2023. Por isso, é hora de falarmos dos principais livros que foram publicados no Brasil em março e abril. Na lista de lançamentos da ficção e da poesia neste segundo bimestre, temos 100 obras que merecem destaque do post de hoje da coluna Mercado Editorial. Além de enumerá-las, vou pinçar uma dezena de títulos da literatura brasileira e da literatura internacional que vale uma atenção redobrada por parte dos leitores mais exigentes do Bonas Histórias. Para agradar ao nosso público fiel, selecionei pelo menos um exemplar de cada gênero ficcional para comentar detalhadamente. Ou seja, temos em nossa lista de livros recém-lançados: romances, novelas, coletâneas de contos, seleções de crônicas e reuniões de ensaios sobre o fazer literário e sobre a teoria literária. Também aproveitei e dei uma pincelada nas antologias poéticas. Como reza a tradição da coluna Mercado Editorial, primeiramente vamos às apresentações dos destaques. Aí depois poderemos mergulhar na lista completa das novas publicações. Na literatura nacional, os romances que acabaram de sair do forno e que chamaram mais a minha atenção são “Salvar o Fogo” (Todavia), de Itamar Vieira Junior, e “Dor Fantasma” (Biblioteca Azul), de Rafael Gallo. “Salvar o Fogo” é a continuação de “Torto Arado” (Todavia), o livro de estreia de Vieira Junior que se transformou em um dos maiores sucessos do mercado editorial brasileiro no século XXI. Se eu não estiver enganado, as vendas da publicação anterior do autor baiano alcançaram a casa das 700 mil unidades, com direito a tradução para outros idiomas. A partir do êxito retumbante de “Torto Arado”, nada mais natural do que a utilização das personagens, do estilo, da ambientação e das temáticas do primeiro título no segundo livro. A questão é conferir se o resultado é igualmente impactante. Por sua vez, “Dor Fantasma” é a publicação de Rafael Gallo que conquistou o Prêmio José Saramago do ano passado e que chega agora às estantes das livrarias brasileiras pelas mãos da Editora Globo (mais especificamente pelo selo Biblioteca Azul). Vencedor de outras importantes honrarias literárias nos últimos onze anos, como Prêmio São Paulo de Literatura e Prêmio Sesc de Literatura, Gallo é um dos principais talentos da ficção nacional e merece nossa atenção. Apenas sua terceira obra, “Dor Fantasma” é até agora o título mais ambicioso do autor paulistano e é aquele que recebeu os maiores elogios da crítica. Saindo das narrativas longas e adentrando nas narrativas ficcionais de tamanho mediano, o principal destaque do último bimestre é “A Segunda Morte” (Companhia das Letras), o mais recente trabalho de Roberto Taddei. Dono de textos elegantes, técnica literária apuradíssima e enredos que giram invariavelmente em torno de viagens existenciais, o coordenador do curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz apresenta o que parece ser seu livro ficcional mais maduro e com temáticas mais sensíveis (dor, envelhecimento e finitude). Em outras palavras, “A Segunda Morte” é uma obra muito mais interessante do que “Terminália” (Prumo), romance de 2013, e “Existe e Está Aqui e Então Acaba” (Dobra Editorial), novela de 2014. Se tudo der certo, quero comentar a nova novela de Taddei nos próximos meses na coluna Livros – Crítica Literária. Ainda na prateleira da literatura brasileira, o livro mais inovador que foi lançado nos últimos dois meses é “Formas Feitas No Escuro” (Fósforo), de Leda Cartum. É até difícil classificá-lo. Seria uma coletânea de contos ou uma coletânea de minicontos sobre fábulas? Ou seria uma coleção de crônicas oníricas? Ou seria, então, uma antologia poética sobre a realidade contemporânea?! Acho que é tudo isso junto e misturado! De qualquer maneira que o leitor enxergue “Formas Feitas No Escuro” (eu vejo mais como um título poético do que como uma obra de narrativa ficcional), trata-se de uma pequena obra-prima. Usei o termo “pequena” porque são apenas 88 páginas. O texto de Cartum se junta aqui perfeitamente com o trabalho primoroso da Editora Fósforo. Vale a pena conferir “Formas Feitas No Escuro”. Por fim, não poderia deixar de fora da nossa lista de destaques os relançamentos dos principais livros de Antonio Candido que a Editora Todavia está nos presenteando em 2023. No último bimestre, foram cinco obras reeditadas do maior crítico literário brasileiro, falecido há exatamente cinco anos. Talvez o mais famoso deles seja “Formação da Literatura Brasileira” (Todavia), coletânea de ensaios de Candido que é um legítimo cânone nacional. Porém, há outros títulos tão incríveis quanto esse: “O Discurso e a Cidade” (Todavia), “Iniciação à Literatura Brasileira” (Todavia), “Literatura e Sociedade” (Todavia) e “Os Parceiros do Rio Bonito” (Todavia). Se o autor é Antonio Candido e você curte literatura (Teoria Literária, Crítica Literária e detalhes do fazer literário), compre essas obras de olhos fechados. Você não irá se arrepender. Dando um pulinho na estante da literatura estrangeira, encontrei dois belos romances: “Gosma Rosa” (Moinhos), da uruguaia Fernanda Trías, e “Por Lugares Devastados” (Companhia das Letras), do irlandês John Boyne. Com linguagem poética, protagonista solitária, trama melancólica e ambientação que evoca a tragédia climática, Trías mostra em “Gosma Rosa” porque é uma das principais escritoras sul-americanas da atualidade. Confesso que sou fã de sua literatura. Em relação a “Por Lugares Devastados”, basta dizer que o novo livro de Boyne é a continuação de “O Menino do Pijama Listrado” (Seguinte), best-seller mundial de 2006 que foi transformado em filme em 2008. Se você ficou encantado com a fábula sobre a amizade entre os meninos Bruno e Shmuel em plena Berlim da Segunda Guerra Mundial, na certa vai querer ler a sequência desta história. Em outra pequena obra-prima da Editora Fósforo, temos “Frio O Bastante Para Nevar” (Fósforo), novela da australiana Jessica Au. Vencedor do Novel Prize, premiação organizada pelas editoras New Directions, Fitzcarraldo e Giramondo, e do Victorian Premier's Prize (tanto na categoria ficção quanto literatura geral), o segundo livro de Au é um relato emocionante da viagem de duas mulheres (a filha australiana e a mãe natural de Hong Kong) pelo Japão. Em meio à melancolia da rotina fora de casa, à paisagem chuvosa e às relações áridas da protagonista, assistimos ao mergulho na história e nos pensamentos da jovem australiana. Incrível!!! Quando o assunto é a narrativa curta internacional, minha indicação é “Onze Portas para a Escuridão” (Intrínseca),primeira coletânea de contos da inglesa C. J. Tudor. Para quem não se lembra de Tudor, ela é autora do best-seller “O Homem de Giz” (Intrínseca), romance policial e thriller de terror de 2018. Em seu novo trabalho, C. J. Tudor apresenta pequenas histórias aterrorizantes que mostram sua habilidade em assustar e incomodar os leitores. Tão bom quanto os enredos dos contos é o projeto gráfico de “Onze Portas para a Escuridão”. Este livro é de encher os olhos dos fãs do gênero de terror. Para encerrarmos essa primeira parte do post de hoje do Bonas Histórias, vamos falar de uma obra sobre o fazer literário. Há alguns bons lançamentos nessa área em março e abril, como a nova coletânea de crônicas da canadense Margaret Atwood, autora de “O Conto da Aia” (Rocco), e o ensaio literário do italiano Roberto Calasso. Contudo, o título que mais me apeteceu foi “Escrever É Muito Perigoso” (Todavia), coletânea de ensaios e conferências da polonesa Olga Tokarczuk que enfoca o processo da escrita ficcional. Neste novo livro, a vencedora do Prêmio Nobel de 2018 compartilha com os leitores sua visão sobre a literatura, apresenta os meandros da sua criação artística e debate alguns temas centrais do mundo contemporâneo. Ler Tokarczuk é uma delícia, ainda mais quando ela fala da própria atividade ficcional. Espetacular!!! Apresentados os dez livros de maior destaque do segundo bimestre de 2023 (cinco da literatura brasileira e cinco da literatura internacional), chegou a hora de exibirmos a lista completa da coluna Mercado Editorial com os principais títulos que foram lançados em março e abril. Confira, a seguir, os 100 livros da ficção e da poesia que foram publicados em nossas livrarias e que certamente vão atiçar a curiosidade dos leitores do Bonas Histórias: FICÇÃO BRASILEIRA: “Salvar o Fogo” (Todavia) – Itamar Vieira Junior – Romance – 320 páginas. “Dor Fantasma” (Biblioteca Azul) – Rafael Gallo – Romance – 352 páginas. “Chuva de Papel” (Companhia das Letras) – Martha Batalha – Romance – 224 páginas. “Como Se Fosse Um Monstro” (Alfaguara) – Fabiane Guimarães – Romance – 160 páginas. “O Engenheiro da Morte” (Vestígio) – Marcio Pitliuk – Romance – 256 páginas. “Predestinados” (Globo Livros) – Amanda Orlando – Romance – 592 páginas. “Triste Não é ao Certo a Palavra” (Companhia das Letras) – Gabriel Abreu – Romance – 208 páginas. “A Sombra de Sofia” (Folhas de Relva Edições) – Andreia Modesto – Romance – 276 páginas. “Arrigo” (Boitempo) – Marcelo Ridenti – Romance – 256 páginas. “Solos” (Livrorama) – Henri Vaz – Romance – 536 páginas. “A Segunda Morte” (Companhia das Letras) – Roberto Taddei – Novela – 136 páginas. “O Crime do Bom Nazista” (Todavia) – Samir Machado de Machado – Novela – 128 páginas. “O Que É Meu” (Fósforo) – José Henrique Bortoluci – Novela – 144 páginas. “Dois Mortos e a Morte e Outras Histórias” (Rocco) – Tanto Tupiassu – Coletânea de Contos – 176 páginas. “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 800 páginas. “O Discurso e a Cidade” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 328 páginas. “Iniciação à Literatura Brasileira” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 112 páginas. “Literatura e Sociedade” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 232 páginas. “Os Parceiros do Rio Bonito” (Todavia) – Antonio Candido – Coletânea de Ensaios – 376 páginas. “Contornos Humanos – Primitivos, Rústicos e Civilizados em Antonio Candido” (CEPE Editora) – Anita Martins Rodrigues de Moraes – Coletânea de Ensaios – 208 páginas. “Abecê do Macunaíma” (Elo) – Claudio Fragata – Infantojuvenil – 72 páginas. “Omo-Aba – Histórias de Princesas e Príncipes” (Companhia das Letrinhas) – Kiusam de Oliveira (autora) e Ayodê França (ilustrador) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Doutor Sumiço” (Companhia das Letrinhas) – Caco Galhardo – Infantojuvenil – 56 páginas. “A Rosa e o Poeta do Morro” (Pallas) – Janaína de Figueredo – Infantojuvenil – 40 páginas. “O Livro do Ouvido” (Miolo Mole) – Marcelo Montenegro (autor) e Daniel Bueno (ilustrador) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Mamãe Está Cansada” (Companhia das Letrinhas) – Vanessa Barbara (autora) e Laura Trochmann (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “João Pestana” (Companhia das Letrinhas) – Gregorio Duvivier (autor) e Laurent Cardon (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Gosma Rosa” (Moinhos) – Fernanda Trías (Uruguai) – Romance – 226 páginas. “Por Lugares Devastados” (Companhia das Letras) – John Boyne (Irlanda) – Romance – 440 páginas. “Nós Nos Espalhamos” (Rocco) – Iain Reid (Canadá) – Romance – 288 páginas. “A Conspiração da Condessa – Volume 3 da Série Os Excêntricos” (Arqueiro) – Courtney Milan (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “A Era Imoral” (Intrínseca) – Deepti Kapoor (Índia) – Romance – 560 páginas. “Morte Em Suas Mãos” (Todavia) – Ottessa Moshfegh (Estados Unidos) – Romance – 200 páginas. “Lore Olympus – Histórias do Olimpo – Volume 3” (Suma) – Rachel Smythe (Nova Zelândia) – Romance – 384 páginas. “Stella Maris” (Alfaguara) – Cormac McCarthy (Estados Unidos) – Romance – 184 páginas. “Magnolia Parks” (Intrínseca) – Jessa Hastings (Austrália) – Romance – 448 páginas. “A Última Missão de Gwendy” (Suma) – Stephen King e Richard Chizmar (Estados Unidos) – Romance – 424 páginas. “A Volta da Chave” (Rocco) – Ruth Ware (Inglaterra) – Romance – 304 páginas. “Reino das Bruxas – Volume 2 da Série Natureza Sombria” (Darkside) – Kerri Maniscalco (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Para Onde Vão Os Guarda-chuvas” (Dublinense) – Afonso Cruz (Portugal) – Romance – 544 páginas. “Identidades Cruzadas” (Arqueiro) – Harlan Coben (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “O Castelo de Gelo” (Todavia) – Tarjei Vesaas (Noruega) – Romance – 176 páginas. “O Mundo Superior” (Alt) – Femi Fadugba (Togo/Inglaterra) – Romance – 376 páginas. “Feitiço para Coisas Perdidas” (Intrínseca) – Jenna Evans Welch (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Zachary Ying e O Imperador Dragão” (Intrínseca) – Xiran Jay Zhao (China) – Romance – 352 páginas. “Para Sir, Com Amor” (Paralela) – Lauren Layne (Estados Unidos) – Romance – 232 páginas. “Peitos e Ovos” (Intrínseca) – Mieko Kawakami (Japão) – Romance – 480 páginas. “Um Verão Italiano” (Seguinte) – Rebecca Serle (Estados Unidos) – Romance – 264 páginas. “Mesa Para Um” (Intrínseca) – Beth O´Leary (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “Antes que o Café Esfrie 2” (Valentina) – Toshikazu Kawaguchi (Japão) – Romance – 184 páginas. “Uma Tempestade de Verão” (Rocco) – K. L. Walther (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Os Detetives da Linha Púrpura” (Companhia das Letras) – Deepa Anappara (Índia) – Romance – 376 páginas. “O Paradoxo de Atlas – Volume 2 de A Sociedade de Atlas” (Intrínseca) – Olivie Blake (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “Me Chama de Cassandra” (Biblioteca Azul) – Marcial Gala (Cuba) – Romance – 248 páginas. “Garota-Propaganda” (Planeta Minotauro) – Veronica Roth (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Adeus, Meu Livro” (Estação Liberdade) – Kenzaburo Oe (Japão) – Romance – 448 páginas. “Cidade de Poeira e Dor” (Rocco) – Hayley Scrivenor (Austrália) – Romance – 384 páginas. “Loucos Por Livros” (Verus) – Emily Henry (Estados Unidos) – Romance – 434 páginas. “Bens Imobiliários” (Autêntica Contemporânea) – Deborah Levy (África do Sul) – Romance – 192 páginas. “O Segredo da Alegria” (José Olympio) – Alice Walker (Estados Unidos) – Romance – 308 páginas. “A Praia Infinita” (Arqueiro) – Jenny Colgan (Escócia) – Romance – 352 páginas. “A Invasão do Povo do Espírito” (Companhia das Letras) – Juan Pablo Villalobos (México) – Romance – 224 páginas. “Melhor do que nos Filmes” (Intrínseca) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Manual Para Damas Em Busca de Um Marido Rico” (Arqueiro) – Sophie Irwin (Inglaterra) – Romance – 272 páginas. “Vá Aonde Seu Coração Mandar” Verus) – Susanna Tamaro (Itália) – Romance – 224 páginas. “Lightlark” (Rocco) – Alex Aster (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Um Experimento de Amor em Nova York” (Arqueiro) – Elena Armas (Espanha) – Romance – 400 páginas. “Estado de Terror” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) e Hillary Clinton (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “Oi, Sumido” (Intrínseca) – Dolly Alderton (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “Ainda Estou Aqui” (Alt) – Marc Klein (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Adeus, Aurora” (Rocco) – Amie Kaufman e Jay Kristoff (Austrália) – Romance – 400 páginas. “Uma Virtude Mortal” (Alt) – Emily Thiede (Estados Unidos) – Romance – 424 páginas. “Ao Amigo que Não Me Salvou a Vida” (Todavia) – Hervé Guibert (França) – Romance – 224 páginas. “A Voz do Coração” (Arqueiro) – Julia Whelan (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Odeio Te Amar” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Coleção de Novelas – 352 páginas. “Frio O Bastante Para Nevar” (Fósforo) – Jessica Au (Austrália) – Novela – 96 páginas. “Amor Que Não Se Apaga – Volume 2.5 da Série Wild” (Verus) – M. Leighton (Estados Unidos) – Novela – 140 páginas. “Meus Dias com os Kopp” (DBA) – Xita Rubert (Espanha) – Novela – 128 páginas. “O Cupom Falso” (Editora 34) – Lev Tolstói (Rússia) – Novela – 96 páginas. “Coisas que Não Quero Saber” (Autêntica Contemporânea) – Deborah Levy (África do Sul) – Novela – 102 páginas. “Custo de Vida” (Autêntica Contemporânea) – Deborah Levy (África do Sul) – Novela – 128 páginas. “Assassina Inconsciente” (Publicação Independente) – Graziella Moraes (Portugal) – Novela – 80 páginas. “Onze Portas para a Escuridão” (Intrínseca) – C. J. Tudor (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 288 páginas. “Escrever É Muito Perigoso” (Todavia) – Olga Tokarczuk (Polônia) – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 264 páginas. “Alvos em Movimento – Uma Coletânea de Trajetórias” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá) – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 484 páginas. “Como Organizar Uma Biblioteca” (Companhia das Letras) – Roberto Calasso (Itália) – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 144 páginas. “Esse é pra Casar” (Paralela) – Alexis Hall (Inglaterra) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Meu Corpo Te Ofende?” (Seguinte) – Mayra Cuevas (Porto Rico) e Marie Marquardt (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Perfeita – Na Teoria” (Seguinte) – Sophie Gonzales (Austrália) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Adulta” (Rocco) – Tiffany D. Jackson (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Nevasca” (Seguinte) – Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolj e Nicola Yoon (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Nick e Charlie – Uma Novela de Heartstopper” (Seguinte) – Alice Oseman (Inglaterra) – Infantojuvenil – 168 páginas. “A Costura” (Pequena Zahar) – Isol (Argentina) – Infantojuvenil – 72 páginas. “Minhas Mãos” (Globinho) – Néjib (Tunísia) – Infantojuvenil – 64 páginas. “A Alegria de Um Cachorro com Uma Bola na Boca” (Brinque-Book) – Bruce Handy (Estados Unidos – autor) e Hyewon Yum (Coreia do Sul – ilustradora) – Infantojuvenil – 60 páginas. “Mortina e Uma Surpresa de Arrepiar” (Companhia das Letrinhas) – Barbara Cantini (Itália) – Infantojuvenil – 56 páginas. “O Pato, a Morte e a Tulipa” (Companhia das Letrinhas) – Wolf Erlbruch (Alemanha) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Mil e Um Jeitos de Ser Sabido” (Brinque-Book) – Davina Bell (Austrália – autora) e Allison Colpoys (Austrália – ilustradora) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Detetive Sansão” (Brinque-Book) – Katerina Gorelik (Rússia) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Mamãe Vai Para a Antártica” (Boitatá) – Anna Cabré Albós (Espanha - autora) e Mariona Tolosa Sisteré (Espanha – ilustradora) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Você Faz Aqui” (L&PM Edições) – Paul Meisel (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Nariz, Dedos e Barriguinha” (Globinho) – Sally Nicholls (Inglaterra – autora) e Gosia Herba (Polônia – ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Morda Meu Coração Na Esquina” (Companhia das Letras) – Roberto Piva – 504 páginas. “Viola de Bolso – Mais Uma Vez Encordoada” (José Olympio) – Carlos Drummond de Andrade – 280 páginas. “Não Deixe Para Ser Feliz Depois” (Academia) – Ique Carvalho – 176 páginas. “Como Que Me Desprego das Paredes da Casa e Saio Pra Te Encontrar” (Fábrica de Cânones) – Viviane Tricerri André – 100 páginas. “Formas Feitas No Escuro” (Fósforo) – Leda Cartum – 88 páginas. “Holograma” (Círculo de Poemas) – Mariana Godoy – 80 páginas. “Braxília Não-lugar” (Círculo de Poemas) – Nicolas Behr. POESIA INTERNACIONAL: “A Tradição” (Círculo de Poemas) – Jericho Brown (Estados Unidos) – 88 páginas. No final de junho ou no mais tardar no comecinho de julho, voltarei à coluna Mercado Editorial para trazer os livros ficcionais e as obras poéticas que serão lançados no terceiro bimestre de 2023 no Brasil (ou seja, em maio e junho). Até lá, continue acompanhando o conteúdo do Bonas Histórias! 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- Passeios: Trilha da Pedra Grande - Caminhada pelo Parque da Cantareira em São Paulo
No Núcleo da Pedra Grande, exploramos um trecho da Mata Atlântica na Serra da Cantareira, contemplamos uma das vistas mais espetaculares da capital paulista e fizemos piquenique à beira do lago. No início do mês, fui ao Parque Estadual da Cantareira para fazer a Trilha da Pedra Grande. Essa caminhada por uma área de preservação ambiental da Mata Atlântica na Serra da Cantareira leva os visitantes ao mirante com uma das vistas mais legais da cidade de São Paulo. Foi a primeira vez que retornei ao local desde a privatização do parque e o fim da pandemia da Covid-19. E encontrei algumas gratas surpresas que gostaria de compartilhar neste post da coluna Passeios. Quem é leitor(a) antigo(a) do Bonas Histórias, já sabe que as aventuras a pé pelas áreas verdes da metrópole paulistana geram pautas recorrentes no blog. Por muito tempo, uma de nossas matérias mais populares era sobre a Subida do Pico do Jaraguá pela Trilha do Pai Zé, uma das atrações turísticas mais famosas da capital paulista quando o assunto é contato com o meio-ambiente. Ou seja, não sou apenas eu quem gosta de caminhar pelo meio do mato e que adora fazer trilhas montanha acima, né? Hoje vamos deixar momentaneamente a Zona Oeste (e o sempre querido Parque Estadual do Jaraguá) de lado e vamos desbravar a beirada da Zona Norte da cidade de São Paulo (mais especificamente o gigantesco Parque da Cantareira e o animadíssimo e vizinho Horto Florestal). Em meu passeio pela Trilha da Pedra Grande no primeiro final de semana de abril, tive a companhia do grupinho destemido e impagável formado por Marcela, Caio, Mara e Alan. Só faltou mesmo o trio de fujões: Rose (que escapa de uma trilha como ninguém!), Paulo (que não consegue acordar antes das 15 horas aos domingos) e Enzo (que sempre arranja coisas mais divertidas para fazer e com melhores companhias...). Dessa vez, infelizmente, não tivemos a participação internacional da lusitana Daniella e do alemão Marcus. O casal gringo, que nos acompanhou nos programas carnavalescos de 2023 pelas ruas paulistanas e durante a exposição “Monet à Beira D´Água” no Parque Villa-Lobos, já regressou para a Europa. Nossa missão no domingo era aparentemente simples: (1) fazer a trilha alternativa da Pedra Grande (aquele caminho no meio do mato e não pela estradinha pavimentada); (2) contemplar a vista do Mirante da Pedra Grande (de tirar o fôlego); (3) fazer um piquenique na Trilha do Lago das Carpas (distante cerca de um ou dois quilômetros do mirante); (4) voltar sãos e salvos para a base do parque (algo nem um pouco simples quando você está acompanhado de gente maluca e quando a previsão do tempo anunciava a chegada de um ciclone-bomba, seja lá o que for isso, para o final da tarde); e (5) terminar o dia com um café e uma coxinha na Panneteria ZN (a Panneteria ZN está para a Trilha da Pedra Grande assim como a Pastelaria Malta está para o Pico do Jaraguá). Antes de detalhar o passeio em si, de dar dicas para quem quer fazer algo parecido e de listar as diferenças entre a fase pós-privatização e a fase pré-privatização dos parques estaduais de São Paulo, gostaria de explicar o que é e onde fica o Parque da Cantareira. Inaugurado em 1962, ele possui aproximadamente 8 mil hectares de uma área na Serra da Cantareira que preserva a fauna e a flora da Mata Atlântica e que protege alguns mananciais da região metropolitana. Para quem não tem ideia do que representa 8 mil hectares (são 80 milhões de metros quadrados), basta dizer que o Parque Estadual da Cantareira é uma das maiores áreas verdes urbanas do Brasil. Ele abrange uma parcela da Zona Norte da capital paulista e parte dos municípios de Mairiporã, Guarulhos e Caieiras. Em extensão, a área de conservação ambiental paulista rivaliza com o Parque Estadual da Pedra Branca no Rio de Janeiro. De tão grande que é, o parque paulista é subdividido em núcleos (algo que também acontece no gigante carioca e em muitas áreas de conservação ambiental). O Parque da Cantareira tem basicamente quatro núcleos: Pedra Grande (a área mais visitada e, portanto, a mais turística), Engordador (o preferido dos praticantes de Mountain Bike), Águas Claras (com predomínio de mananciais e rios e usado principalmente para pesquisas acadêmicas) e Cabuçu (trecho mais distante, de maior cobertura territorial e, na minha opinião, com as paisagens mais deslumbrantes). Não é preciso dizer que a Trilha da Pedra Grande e o Mirante da Pedra Grande ficam no Núcleo da Pedra Grande, né? Essa parte do parque é vizinha ao Horto Florestal, outro tradicional espaço de lazer e uma das áreas verdes mais vibrantes da cidade de São Paulo, e está localizado no bairro do Horto Florestal. Os demais núcleos, vale a pena explicar, ficam cada um em uma cidade da Grande São Paulo. Enquanto o Núcleo do Engordador ainda está na capital paulista (no bairro de Jardim Cachoeira), o Núcleo das Águas Claras está situado em Mairiporã e o Núcleo do Cabuçu está localizado em Guarulhos. A primeira dica que sempre dei para o visitante novato do Parque da Cantareira (no caso, para quem quer ir ao Núcleo da Pedra Grande) é justamente aproveitar que o Horto Florestal é tão pertinho e dar uma passada por lá também. Antigamente, o visitante poderia entrar no Parque da Cantareira de maneira independente, pelo portão no final da subida da Rua do Horto, sem passar pelo vizinho, cuja entrada é pelo portão lá embaixo na Rua do Horto. Confesso que sempre gostei de dar uma volta no lago do Horto mesmo quando o programa era na Cantareira. O ambiente do parque vizinho é totalmente diferente (diria complementar) de quem faz as trilhas do Núcleo da Pedra Grande. No Horto Florestal, o que reina é o clima familiar e de lazer. Não por acaso, há muitas quadras poliesportivas, campos de futebol, lanchonetes (quiosques), restaurante (com brunch aos finais de semana), atrações de dança, atividades para escoteiros, áreas para piquenique, banheiros maiores com fraldário etc. Não corro o risco de cometer exageros quando digo que, uma vez cheio de gente, o que acontece geralmente aos finais de semanas e aos feriados, o Horto se transforma em uma das áreas mais divertidas e alegres da cidade de São Paulo. No Parque da Cantareira, por outro lado, a pegada é o contato mais direto com a floresta e a curtição é fazer longas caminhadas pelo mato. Raramente ele lota (ainda bem!). Quando queremos realizar imersões na natureza, aí encontrar muitas pessoas não é algo que desejamos e/ou que gostamos. Entretanto, agora não é mais possível escolher entre a entrada direta pelo Parque da Cantareira e a entrada via Horto Florestal. O visitante só pode adentrar pelo Horto. Confesso que para mim não mudou nada (sempre fiz isso). Mas vi gente reclamando da exclusão da alternativa mais direta. Quem deixa o carro no final da subida da Rua do Horto, precisa dar uma voltinha considerável para chegar ao Parque da Cantareira. O que se fazia em uma caminhada de meros 50, 100 metros, agora é preciso percorrer algo entre um e dois quilômetros. Por falar em chegar ao Parque da Cantareira, é bom avisar que, como ele é gigantesco e há alguns núcleos distintos, é comum o visitante novato que vai de carro jogar no Waze e ir ao primeiro destino que o aplicativo recomenda. E aí pode haver confusão. Nem sempre o Waze recomenda automaticamente o Núcleo da Pedra Grande. E os outros núcleos são em Mairiporã, Guarulhos ou no distante bairro de Jardim Cachoeira (que fica em São Paulo, mas na divisa com os outros dois municípios). Ou seja, acaba-se percorrendo vários quilômetros da Grande São Paulo de maneira desnecessária. Não é mesmo, Marcelinha e Caio?! A sugestão para quem vai pela primeira vez de carro é digitar manualmente o endereço do Parque Estadual da Cantareira. O Núcleo da Pedra Grande fica na Rua do Horto, 1.799, no bairro Horto Florestal, na cidade de São Paulo. Eu disse CIDADE DE SÃO PAULO!!! Outra alternativa interessante é solicitar ao Waze a ida para o Horto Florestal (cujo nome oficial é Parque Estadual Alberto Löfgren – Rua do Horto, 931, bairro do Horto Florestal). Lembre-se que ele é vizinho ao Cantareira, além de ser um parque bem menor e só ter uma entrada. Aí não tem erro, meus amigos. Ninguém precisará atravessar metade do Estado de São Paulo para se chegar. Quem deseja ir de ônibus, é bom falar que há várias linhas municipais que param no ladinho do Parque Estadual da Cantareira (e do Horto Florestal também). Quem pega transporte público, essa é a melhor opção. Afinal, não há estação de trem ou de metrô por perto (como havia, por exemplo, no Parque Estadual do Jaraguá, presenteado por uma estação da linha da CPTM nas proximidades). Admito que na maioria das vezes que visitei o Parque da Cantareira, fui a pé da minha casa. Geralmente, uso o trajeto que passa pela Avenida Engenheiro Caetano Álvares, Avenida Voluntários da Pátria, Avenida Santa Inês e Avenida Luís Carlos Gentile de Laet. Aí desemboco na Rua do Horto. Acho que dá para percorrer esse mesmo trajeto de carro. A parte ruim de ir caminhando até lá (se você não mora perto) é que você já chega meio cansado para as trilhas. Da minha casa ao portão do Parque da Cantareira dá duas horas e pouquinho a pé. Por isso, é bom ter uma amiga que more perto (beijão, Angelina!!!). Até janeiro de 2022, o Parque Estadual da Cantareira era público. Como consequência, não se podia cobrar ingresso dos visitantes. O valor da entrada era simplesmente opcional. Quem quisesse pagar R$ 30,00 podia contribuir voluntariamente (ninguém ia brigar com você por isso). Quem não quisesse pagar entrava de graça sem problema. Não preciso dizer que, pobre como estou nos últimos dez anos, raramente metia a mão no bolso. Desde que a Urbia Parques (é a mesma empresa que cuida do Parque do Ibirapuera) assumiu a gestão privada do Parque da Cantareira e do Parque do Horto Florestal, a cobrança de ingresso se tornou obrigatória. Agora quem não pagar R$ 30,00 não entra. Simples assim. O legal é que a visitação ao Horto Florestal continua sendo gratuita. E é ali, curiosamente, que já é possível ver as mais significativas melhorias que foram realizadas pela gestora privada. O Parque Estadual Alberto Löfgren está muito (e põe muito nisso!) melhor sob o comando da Urbia Parques. Confesso que fiquei encantado com a manutenção do espaço e com as melhorias realizadas. E olha que a empresa está há pouco tempo à frente da administração dos parques da Zona Norte: pouco mais de um ano. Independentemente do que é melhor (privatização ou estatização), quero receber bons serviços como cidadão, algo que não via acontecer nas minhas últimas visitas ao Horto antes da pandemia. Achei ele bem caído, abandonado. Perto do upgrade promovido no Horto Florestal pela Urbia, o Parque Estadual da Cantareira não apresenta melhorias tão evidentes. Até porque sua graça está justamente no maior contato com a natureza. Se alguém me perguntasse de bate-pronto, o que eu percebi de mudança no Núcleo da Pedra Grande após a operação ter ido para as mãos da iniciativa privada, minha resposta seria: a instalação do café ao lado do Mirante principal (no espaço que antes ficava o museu do parque) e uma arrumada nas trilhas no meio do mato. Isso é, além do fechamento da portaria independente no final da Rua do Horto e da cobrança (obrigatória) de ingresso. Parece pouco? Até pode ser. Mas o passeio continua agradável para quem gosta de fazer longas caminhadas no meio da natureza. O Núcleo da Pedra Grande possui cinco trilhas, uma maior e quatro menores. Basicamente, as quatro menores (Trilha das Figueiras, Trilha da Bica, Trilha do Bugio e Trilha do Lago das Carpas, com extensões que variam de 300 metros a 1,5 quilômetro) são complementares a maior (Trilha da Pedra Grande, com 9,5 quilômetros de comprimento). Em outras palavras, o interessante é fazer a Trilha da Pedra Grande, que vai até o Mirante da Pedra Grande (principal ponto turístico do núcleo homônimo e do Parque da Cantareira como um todo) e ao novíssimo e agradável café. Aí, dependendo de sua disposição e do ânimo de seu grupo de caminhantes, você pode fazer também as trilhas adicionais (que saem sempre da principal). Foi o que fizemos em nosso último passeio. Percorremos integralmente a Trilha da Pedra Grande (até o mirante e o café) e adicionamos ao passeio a Trilha das Figueiras (a parte mais legal, pois o trajeto é feito no meio da Mata Atlântica) e a Trilha do Lago das Carpas (que ainda precisa de melhorias para a realização de piqueniques com um maior nível de conforto – nossa mesa de madeira parecia que ia desmoronar a qualquer momento). Deixamos de lado, dessa vez, a Trilha da Bica e a Trilha do Bugio (justamente os trajetos mais tranquilos). De qualquer forma, começamos a caminhada ao meio-dia e finalizamos às cinco horas. Para quem se assustou, é preciso alertar que não andamos por cinco horas consecutivas, tá?! Lembre-se que fizemos piquenique no lago! O ponto alto de qualquer caminhada pelo Núcleo da Pedra Grande é a vista realmente impactante da cidade de São Paulo proporcionada pelo mirante (não deixe de ir até lá!). Ela chega a ser até mesmo mais interessante do que a vista do Pico do Jaraguá. Se o cume do Parque Estadual do Jaraguá é mais alto (ponto mais alto da capital paulista), ele está mais afastado do centro urbano. Como consequência, o campo de visão de seu mirante acaba sendo mais a beirada da metrópole e algumas cidades vizinhas (como Osasco). No Parque Estadual da Cantareira/Núcleo da Pedra Grande, os visitantes estão de frente (e a 1.000 metros de altura) para boa parte da área mais urbana de São Paulo. A brincadeira (para quem não é míope como eu) é tentar achar pontos famosos da cidade: Avenida Paulista, Parque do Ibirapuera, o Centro Histórico, o Shopping Center Norte, o Terminal Rodoviário do Tietê... Reconheço um tanto envergonhado que só consigo ver o verde do Parque do Ibirapuera e o contorno ao fundo da Serra do Mar. Não sou tão cego assim, tá?! Outra gratíssima surpresa é o Café do Mirante. Ele está uma graça. Pare ali, peça um cafezinho (ou uma água de coco gelada), um salgado (ou um docinho) e desfrute a vista de tirar o fôlego nas mesinhas da parte externa do estabelecimento. Para quem não gosta de ficar sentado no chão/na pedra do Mirante (o que requer um espírito mais despojado do visitante), dá para ter a mesma vista impressionante de São Paulo das mesas do café (sentado devidamente confortável em uma cadeira). Também é preciso elogiar o atendimento da equipe de funcionários do café. Achei eles muitíssimos simpáticos e corteses, do rapaz do caixa e da moça do balcão até os colaboradores da limpeza. Por falar nisso, esse mesmo elogio deve ser estendido à equipe do Parque da Cantareira como um todo. Todos os funcionários do Núcleo da Pedra Grande com quem falamos, do guia ao segurança, foram impecavelmente atenciosos, alegres e ávidos para informar e ajudar os visitantes. Se bem que os antigos funcionários do parque também eram extremamente zelosos. Fiquei feliz de saber que não tivemos perda de qualidade nesse sentido. No Parque do Horto Florestal, admito que não sei informar como estava e como está o atendimento – nunca falei com ninguém por lá. Depois da vista de tirar o fôlego e do ótimo atendimento, o aspecto mais legal do passeio no Parque Estadual da Cantareira é o contato com a natureza. Além de poder caminhar pela vegetação remanescente e preservada da Mata Atlântica, o público interage com uma gama de animais silvestres que não é vista normalmente na paisagem urbana. Em nosso passeio, fomos recepcionados por macacos-prego e por gambás antes de adentrar o parque. Uma vez dentro do Horto, vimos patos, capivaras, tucanos, garças. E no meio das trilhas do Núcleo da Pedra Grande, a companhia foi de grilos, formigas, aranhas e taturanas. Quando o assunto é ave, perdi a conta de quantas espécies avistei e que ficaram ao nosso lado. Isso sem contar os insetos e répteis. Por isso, tome cuidado quando você estiver na trilha. Há muitas aranhas, pequenas cobras e lagartas/taturanas nos troncos das árvores, entre as pedras e no meio do caminho. Veja bem por onde você anda, onde se senta e onde coloca as mãos, tá? Todo cuidado é pouco. Reconheço que não tivemos nenhum problema dessa vez (nem nas outras oportunidades que visitei o parque) com os animais. Não por acaso, há várias placas informando a presença de animais peçonhentos e de insetos. Porém, por várias vezes alertamos e fomos alertados pelos colegas de trilha: cuidado, aranha ali; aqui tem uma taturana; e não pise nessa pedra, tem uma cobrinha. Ou seja, são cuidados normais de um passeio no meio do mato, né? Outra questão legal de ser comentada é que a Trilha da Pedra Grande (e a do Lago das Carpas e a das Figueiras) possui algumas subidas mais íngremes. Contudo, não são elevações capazes de assustar ou de tirar o fôlego dos trilheiros menos empolgados. Mara, nossa especialista em chiar das subidas, simplesmente não reclamou dessa vez. Ela achou a Trilha do Pai Zé no Parque Estadual do Jaraguá muito mais íngreme e desafiadora. Concordo com ela! Essa característica é uma vantagem do Parque da Cantareira em relação ao coirmão da Zona Oeste. Dá para andar mais quilômetros no Núcleo da Pedra Grande com menos esforço físico, por mais que tenhamos uma ou outra subidinha no meio do caminho. O Parque Estadual da Cantareira – Núcleo da Pedra Grande abre das quartas-feiras aos domingos. O horário de funcionamento é das 8 horas às 17 horas. A entrada pode ser feita até as 16h. Como disse, o valor do ingresso é de R$ 30,00 por pessoa. A meia-entrada (R$ 15,00) pode ser utilizada por estudantes, professores, idosos, crianças de três a catorze anos e pessoas com deficiência (PcD). Menores de três anos não pagam. Como qualquer área de preservação ambiental, é proibido o ingresso de cachorros e outros animais de estimação. Só relembrando o endereço do parque: o Núcleo da Pedra Grande do Parque Estadual da Cantareira fica na Rua do Horto, 1.799, no bairro Horto Florestal, São Paulo – SP. Minha próxima trilha que gostaria de fazer e de comentar com vocês aqui no Bonas Histórias é a do Parque Caminhos do Mar, unidade de conservação ambiental na Serra do Mar. Ela também foi recentemente privatizada e revitalizada. Estou curioso para saber quais foram as novidades implementadas pelo novo gestor. Prometo que quando fizer a caminhada que liga São Bernardo do Campo a Cubatão pela Estrada Velha de Santos virei à coluna Passeios para relatar a experiência. Acredito que deva ser outra trilha muito legal de ser feita. Até lá! Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Monster Trucks - Despretensioso, mas divertido
Há dias em que a única coisa que quero é entrar na sala de cinema e assistir a um filme leve e divertido. A ideia é não pensar muito, apenas passar algumas horinhas conferindo um entretenimento bobo. Você já se sentiu assim? Vira e mexe, eu tenho esta necessidade. Nestes momentos, abro mão das produções mais elaboradas e inteligentes. Um longa-metragem simples e engraçadinho é tudo o que preciso. Estou falando sobre isso agora porque estava me sentindo desta maneira na última sexta-feira. Depois de uma maratona que durou algumas semanas vendo os principais candidatos ao Oscar (afinal, precisava estar inteirado do que estava acontecendo em Hollywood), queria ver algo despretensioso. Por isso, abri um sorriso enorme quando me deparei com o pôster eletrônico de "Monster Trucks" (2017) no painel da bilheteria do Cinemark do Shopping Tietê Plaza. Aí, pensei: "É este! Enfim, vou assistir a um filme só pelo divertimento de vê-lo". Como é gostoso ir a um fast food depois de ter se alimentado de maneira saudável por dois meses seguidos! Como é prazeroso ver um filme de qualidade discutível depois de ter visto apenas produções gabaritadas por semanas! "Monster Trucks" estreou há duas semanas no circuito comercial brasileiro sem muito alarde. Este é daquele tipo de longa-metragem que atrai principalmente famílias com crianças, adolescentes e expectadores menos exigentes. Se você quer agradar a namorada com pouco QI ou o namorado fútil, esta parece ser a opção certeira. Foi o que pensei ao entrar na sessão. Desculpem-me pelos meus preconceitos e pela minha visão pejorativa, mas foi exatamente este o meu pensamento ao adentrar o cinema. A direção de "Monster Trucks" ficou a cargo de Chris Wedge, experiente ator que se especializou nos últimos anos em dirigir animações. É dele, por exemplo, a direção de "A Era do Gelo" (Ice Age: 2002), "Robôs" (Robots: 2005) e "Reino Escondido" (Epic: 2013). Esta é a primeira investida de Wedge como diretor de filmes convencionais. Os protagonistas deste longa-metragem são os jovens Lucas Till, do seriado "MacGyver" (2016), e Jane Levy, de "O Homem nas Trevas" (Don't Breathe: 2016) e "A Morte do Demônio" (Evil Dead: 2013). O enredo deste filme é, aparentemente, esdrúxulo. Tripp (interpretado por Lucas Till) é um rapaz tímido e pobre que trabalha em um ferro velho. Seu sonho é conseguir comprar uma caminhonete possante para dar umas voltas pela sua cidade. Contudo, o que ele possui no momento é uma velha bicicleta, que o leva diariamente para a escola. Nas aulas, ele recebe a ajuda de uma colega, Meredith (Jane Levy), para ter suas notas melhoradas. A moça inteligente e rica esforça-se para ensinar algo ao amigo por quem é apaixonada. A vida entediante de Tripp sofre uma reviravolta em uma noite. Após um acidente ocorrer no subsolo da cidade, provocado por uma empresa de prospecção de petróleo, monstros subterrâneos emergem para a superfície. Um deles acaba se instalando no ferro velho onde o protagonista trabalha. Ao invés de ser uma criatura cruel e sanguinolenta, o misterioso visitante mostra-se bonzinho e brincalhão. Rapidamente, o rapaz e o monstro se tornam amigos inseparáveis. Para esconder a criatura recém-chegada dos funcionários da empresa de petróleo que passam a procurá-la, Tripp adapta a carcaça de uma velha caminhonete para ela servir de esconderijo ao amigo. Assim, ele coloca o monstrinho embaixo da carroceria. Surpreendentemente, o bicho acaba tomando conta das engrenagens do veículo e passa a movê-lo. De repente, o sonho do rapaz de ter um veículo possante se torna realidade. Uma vez motorizado, Tripp se junta a Meredith. A dupla passa a fugir da polícia e dos profissionais da companhia petroleira. Todos querem se apossar da figura subterrânea. Aí começa a aventura. O grupo de jovens investiga o que precipitou o aparecimento da criatura, enquanto foge pelas ruas e pelas estradas daqueles que os perseguem. Se o enredo parece um tanto esdrúxulo em um primeiro momento, esta sensação logo desaparece. O roteiro foi muito bem escrito. A história é bem amarrada e caminha muito bem até seu desfecho. Não faltam cenas de ação e de humor. Há também boas doses de emoção, romantismo e sentimentalismo. Em menos de meia hora de sessão, o expectador já está se divertindo, completamente absorvido pela peculiar trama. "Monster Trucks" tem efeitos visuais razoáveis, porém a graça e o maior mérito do filme não estão neste elemento. O que torna esta produção cativante é o apelo da sua história. É impossível não se derreter pelos monstrinhos simpáticos que aparecem na tela e na relação de amizade entre eles e os jovens protagonistas. De certa forma, este longa-metragem é uma mistura do filme "E.T. - O Extraterrestre" (E.T. The Extra-Terrestrial: 1982) com os brinquedos do Hot Wheels. Ou seria a combinação de "Se Meu Fusca Falasse" (The Love Bug: 1968) com "Alien, O Oitavo Passageiro" (Alien: 1979)? Curiosamente, muitos dos recursos cinematográficos usados em "Monster Trucks" lembram estes clássicos. Sai da sala de cinema muito satisfeito. "Monster Trucks" consegue emocionar e divertir o público de maneira honesta. Como é bom ver de vez em quando um bom filme pueril! Dos longas-metragens bobos atualmente em cartaz, diria que este é o melhor a nossa disposição. Trata-se de uma ótima pedida para uma sessão no final de semana à tarde ou na noite de sexta-feira. Veja o trailer: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ChrisWedge
- Filmes: O Exorcista do Papa - O terror de Julius Avery com Russell Crowe
Baseado nas histórias reais do Padre Gabriele Amorth, exorcista chefe do Vaticano, o longa-metragem apresenta um caso delicado de possessão demoníaca ocorrido na Espanha no final da década de 1980. Neste final de semana, minha ideia era ir ao cinema para conferir “A Baleia” (The Whale: 2022), drama psicológico de Darren Aronofsky que rendeu o Oscar de melhor ator para Brendan Fraser. Esse filme estreou no circuito comercial brasileiro no finalzinho de fevereiro e eu ainda não consegui assisti-lo. Na minha cabeça, se não pudesse ver “A Baleia”, tinha como plano B uma dupla de longas-metragens mais voltada para o entretenimento e que entrou agorinha em exibição nas salas de cinema: “Air – A História por Trás do Logo” (Air: 2023) e “Sombras de Um Crime” (Marlowe: 2023). Não preciso dizer que meu gosto cinematográfico é eclético, né? Diria beeeeem eclético. Se essa constatação possa ter causado alguma surpresa aos leitores do Bonas Histórias mais desavisados, é porque vocês não conhecem minhas preferências musicais... Nesse sentido, as surpresas contidas na coluna Músicas são maiores do que as apresentadas na coluna Cinema. O problema é que minha programação cinematográfica original de sábado à noite foi por água baixo (literalmente, porque uma das culpadas foi a chuva!). Depois de uma andança quase aleatória e um tanto caótica pela cidade de São Paulo à tarde, não consegui ir ao Espaço Itaú de Cinema, ao Reserva Cultural nem ao Cine Belas Artes quando o sol (que sol?!) deu lugar à lua (que lua?!) no céu. Essas são justamente as redes de cinema com os repertórios que mais me agradam. É impossível visitar suas salas e não ter algo interessante para conferir. Sem as alternativas infalíveis, minha única opção era o bom (?!) e velho (??) Cinemark do Shopping Tietê Plaza. Respirei fundo e fui à máquina de autoatendimento para escolher a melhor (ou seria a “menos ruim”?) opção disponível. Confesso que tenho até medo de chegar perto do catálogo de longas-metragens das exibidoras mais populares. Tenho a impressão de que elas só têm produtos para crianças, adolescentes e fãs de histórias de super-heróis. Se você tem um paladar um pouquinho mais refinado, há grande chance de cometer suicídio na hora de escolher o filme que irá assistir. Minhas previsões não estavam erradas. Havia apenas quatro títulos disponíveis. E três foram descartados imediatamente: “Dungeons & Dragons – Honra Entre Rebeldes” (Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves: 2023), “Super Mario Bros – O Filme” (The Super Mario Bros. Movie: 2023) e “John Wick 4 – Baba Yaga” (John Wick: Chapter 4). Chega uma fase na vida do sujeito que ele não pode se rebaixar às sessões de cinema com produções baseadas em videogames, longas-metragens protagonizados por heróis dos quadrinhos, animações infantis e séries que de tão extensas exalam forte cheiro de caça-níquel. Assim, a única opção palatável era “O Exorcista do Papa” (The Pope's Exorcist: 2023), filme de terror estrelado por Russell Crowe. Ufa! Mesmo não sabendo absolutamente nada a respeito deste título, tive a certeza de que ele salvaria minha noite. Afinal, a combinação de história de terror exorcista com atuação do eterno gladiador não poderia ser algo ruim, né? E “O Exorcista do Papa” passa sim no teste crítico da coluna Cinema, principalmente para os fãs do seu gênero cinematográfico – põe o dedo aqui que já vai fechar quem é maluquinho por este tipo de filme!!! É o que eu sempre digo: na dúvida, vá de terror. Não tem erro. Se ele for bom, você sentirá medo e sairá feliz da sala de cinema com a adrenalina e os sustos. Se o longa for ruim, você irá rir tanto que sairá com a alma leve da sessão. Em suma, não tem como não ter uma experiência negativa com os filmes de terror. Esse é um dos meus mantras. “O Exorcista do Papa” foi dirigido por Julius Avery, jovem cineasta australiano conhecido pela direção em “Sangue Jovem” (Son of a Gun: 2014), “Operação Overlord” (Overlord: 2018) e “Samaritano” (Samaritan: 2022). Os roteiristas foram o grego Evan Spiliotopoulos, de “O Caçador e a Rainha do Gelo” (The Huntsman – Winter's War: 2016) e “As Panteras” (Charlie's Angels: 2019), e o australiano Michael Petroni, de “O Ritual” (The Rite: 2010) e “A Menina que Roubava Livros” (The Book Thief: 2013). Por falar na trama de “A Menina que Roubava Livros” (Intrínseca), originalmente um romance de Markus Zusak, ainda estou devendo a análise de “O Construtor de Pontes” (Intrínseca), a mais recente obra do escritor australiano. Porém, isso é assunto para outro post do Bonas Histórias e um tema para a coluna Livros – Crítica Literária... Voltemos a falar do filme propriamente dito, Sr. Ricardo! “O Exorcista do Papa” é baseado em dois livros do italiano Gabriele Amorth: “Um Exorcista Conta-nos” (Paulinas), de 1990, e “Novos Relatos de Um Exorcista” (Palavra Prece), de 1992. Mais conhecido como Padre Amorth, Gabriele foi o exorcista chefe do Vaticano entre as décadas de 1980 e 1990. Figura popular e carismática na Europa, ele foi responsável por dezenas de milhares de exorcismos até seu falecimento em setembro de 2016, aos 91 anos. Sua atuação na caça aos demônios rendeu a produção de aproximadamente 20 livros, a participação em vários programas de televisão e rádio e a concessão de incontáveis entrevistas para a mídia impressa e audiovisual. Padre Gabriele Amorth foi um dos mais importantes e famosos exorcistas da história. Para termos uma ideia de sua representatividade, podemos dizer que ele era uma espécie de Padre Quevedo para os italianos ou a versão religiosa e europeia do casal Ed e Lorraine Wanner. Curiosamente, o exorcista chefe do Vaticano reunia um pouco de cada uma dessas referências. Ele gostava dos holofotes da imprensa, como o meio-charlatão Padre Quevedo, e reunia conhecimentos e técnicas e promoveu inovações nas práticas exorcistas como o famoso casal norte-americano de demonologistas. Em outras palavras, Padre Gabriele Amorth era uma figuraça! O longa-metragem de Julius Avery apresenta a versão ficcional do que seria o mais complicado caso de exorcismo do padre italiano. A produção de “O Exorcista do Papa” começou em 2020, quando o estúdio hollywoodiano Screen Gems, subsidiária da Sony Pictures, comprou os direitos da história dos herdeiros de Amorth. Depois de vários bate-cabeças, com direito a mudanças de direção e de roteiro, as filmagens foram realizadas entre agosto e outubro de 2022. Mesmo o enredo se passando essencialmente na Espanha, o principal set de filmagens foi a Irlanda, mais precisamente nas cidades de Dublin e Limerick. As cenas do Vaticano foram captadas, obviamente, em Roma. Orçado em US$ 18 milhões, “O Exorcista do Papa” tem como principal peça do elenco Russell Crowe. Por mais que o ator neozelandês vencedor do Oscar pelo protagonismo em “O Gladiador” (Gladiator: 2000) seja completamente diferente das características físicas de Gabriele Amorth, além de ter um italiano pra lá de esforçado, é inegável que ele empresta seu enorme carisma para a sua personagem. Aos 59 anos recém-completados, o barbudo e rechonchudo Crowe está mais parecido ao nosso Mário Sérgio Cortella do que ao Padre Amorth. Para quem não conhece os aspectos físicos da versão real do antigo exorcista chefe do Vaticano, basta dizer que Gabriele era careca, magro, não tinha barba, usava óculos, não era alto e, claro, tinha um italiano fluente e sem sotaque. Ou seja, o protagonista do filme era totalmente oposto à caracterização que fizeram dele em “O Exorcista do Papa”. E você achando que colocar Wagner Moura como Pablo Escobar, em “Narcos” (2015-2017), foi uma ousadia, né? Sabe de nada, inocente! Ao lado de Russell Crowe, temos um bom time de atores: Daniel Zovatto, do seriado “Penny Dreadful – City of Angels” (2020); Peter de Souza-Feighoney, em uma espetacular estreia no cinema; Alex Essoe, de “Minha Morte” (Death of Me: 2022); Franco Nero – esse sim parecidíssimo com o Papa João Paulo II no final da década de 1980 –, de “Django” (1966); Laurel Marsden, da série de TV “Mrs. Marvel” (2022); e Cornell S. John, de “Capitão América – Guerra Civil” (Captain America – Civil War: 2016). A voz do menino possuído é de Ralph Ineson, de “A Bruxa” (The Witch: 2016). A estreia de “O Exorcista do Papa” nos cinemas brasileiros aconteceu em 6 de abril, exatamente a mesma data de sua chegada ao público cinéfilo da América do Norte (leia-se: Estados Unidos e Canadá) e das principais praças internacionais. Dos lançamentos de terror em 2023, posso dizer que esta produção de Julius Avery está no mesmo patamar de “M3gan” (2022), sucesso recente de Gerard Johnstone, outro cineasta da Oceania (ele é da Nova Zelândia), que comentamos há poucas semanas na coluna Cinema. “O Exorcista do Papa” se passa em 1989. Como exorcista chefe do Vaticano, Padre Gabriele Amorth (interpretado por Russell Crowe) é enviado para resolver os casos de possessões demoníacas que pipocam na Itália e nos países vizinhos. Com jeitão falastrão e extremamente bem-humorado, ele atua nos episódios que são causados efetivamente por espíritos malignos. As pessoas que são perturbadas pela própria mente (e não por entidades sobrenaturais), o padre encaminha para tratamento psicológico. Segundo seus cálculos, apenas uma minoria dos casos pela qual é enviado cotidianamente requer exorcismo como solução. Mesmo assim, o italiano já acumula milhares de excomunhões pela Europa. Muito famoso (seus livros são um grande sucesso!) e bastante influente (é o braço-direito do papa), Gabriele causa ciúmes e inveja entre os colegas do Vaticano. Há muitos religiosos que não gostam de sua postura pouco formal e de sua popularidade como caçador de espíritos. Não por acaso, o exorcista precisa conviver com alguns inquéritos da Igreja Católica que questionam suas práticas e seu trabalho pouco ortodoxo. Se dependesse do alto clero de Roma, Padre Amorth já teria sido expulso há muito tempo do Vaticano. Isso só não aconteceu porque Gabriele é apadrinhado pelo Papa (Franco Nero), que confia cegamente no exorcista chefe que ele mesmo colocou no cargo. A confiança do Sumo Pontífice em seu funcionário é tamanha que Padre Gabriele Amorth é escalado para uma missão delicadíssima no interior da Espanha. Uma família norte-americana recém-chegada à Europa está sendo atormentada por um demônio bastante perigoso. Ciente dos pecados de seus colegas do passado e grande conhecedor da história da Igreja Católica na Península Ibérica, o Papa quer que seu principal exorcista cuide pessoalmente desse abacaxi capaz de abalar os alicerces de Roma. Dessa maneira, lá vai Gabriele com sua inconfundível scooter vermelha e branca para o rincão espanhol. Ao chegar ao destino, o exorcista é recebido pelo Padre Esquibel (Daniel Zovatto). O jovem religioso da até então pacata paróquia local explica o que está acontecendo. Julia (Alex Essoe) se mudou para a Espanha com Amy (Laurel Marsden), a filha adolescente, e com Henry (Peter de Souza-Feighoney), o filho ainda criança. O trio passou por um grande trauma nos Estados Unidos. O marido de Julia morreu em um acidente de carro e deixou como herança para a esposa uma abadia antiga na Espanha. A ideia de Julia era usar o dinheiro do clã para reformar o imóvel e vendê-lo. Uma vez com a grana da transação imobiliária na mão, ela e os filhos iriam retornar para a América em situação financeira mais confortável. O problema é que mal chegaram ao imóvel na Espanha, Julia, Amy e Henry assistiram a uma série de eventos estranhos, que culminaram no abandono da equipe de operários. Eles não quiseram mais trabalhar naquela antiga igreja, que julgaram mal-assombrada. Sozinha na abadia, a família norte-americana parecia não acreditar nas crendices do povo local. Isso até Henry começar a agir de forma muuuito estranha. Assustada depois de consultar os médicos e ouvir que o menino não tinha nenhum problema clínico, Julia convocou o inexperiente Padre Esquibel para resolver a questão que intrigava a todos. No primeiro contato com o garoto, Esquibel já notou que precisava urgentemente de ajuda profissional. Assim, surge em cena Gabriele Amorth com seu jeito de fanfarrão italiano. Ele vem de Roma especialmente para cuidar do que parece ser uma possessão espiritual. O que o exorcista do Vaticano não podia imaginar é que o demônio que invadiu o corpo de Henry é o mais poderoso que ele enfrentaria até ali. Ciente das manhas e artimanhas que deram fama ao Padre Amorth, o capeta usará toda a sua incalculável força para não apenas impedir o trabalho do italiano como sua pretensão é invadir o corpo do amigo do Papa. Impressionado com a entidade sobrenatural que o está desafiando, Gabriele só tem como ajudante na complicadíssima tarefa o abestalhado padre espanhol que o recepcionou. Será que o novato Padre Esquibel será o parceiro ideal para esse tipo de empreitada? Assim começa o desafio da dupla Amorth e Esquibel contra o demônio que se apossou do pequeno e inocente Henry. “O Exorcista do Papa” tem aproximadamente 1 hora e 45 minutos de duração. Admito que gostei de seu conteúdo. Por mais que o roteiro de Evan Spiliotopoulos e Michael Petroni traga uma avalanche de clichês (casa, no caso igreja, mal-assombrada; família atormentada por um espírito maligno; exorcista que tem uma missão difícil; segredos da Igreja Católica que se revelados podem trazer incontáveis dores de cabeça para Roma; espírito que deseja dominar o mundo ao se apossar do corpo de figuras poderosas; e dupla de exorcista em ação), ainda sim o filme é bom. Às vezes, mais vale o uso adequado das velhas receitas da sétima arte do que a perda de mão no uso imprudente de soluções inovadoras do cinema. Vale destacar a direção segura de Julius Avery, em seu trabalho mais desafiador no cinema comercial – “Samaritano”, com orçamento seis vezes maior, foi uma produção da Amazon Prime. É verdade que o diretor australiano contou com roteiro redondinho, bons efeitos visuais, fotografia regular, ótimas cenas de ação, trilha sonora que não compromete e elenco de primeiro nível. Mesmo assim, ele não deixou a peteca cair. O que chama a atenção logo de cara em “O Exorcista do Papa” é a presença de Russell Crowe no elenco. Por mais que o ator neozelandês não tenha NADA a ver com a figura verídica do Padre Gabriele Amorth, ainda sim ele consegue agradar a plateia com seu carisma e com o que representa para o cinema. Confesso que fui influenciado por sua presença no longa-metragem. Ao ver o protagonismo do ator de “Gladiador” no descritivo do filme, comprei meu ingresso sem titubear. “Se temos Crowe nesta produção, ela não deve ser ruim”, pensei com meus botões inexistentes da camiseta. Não por acaso, as estrelas da sétima arte recebem cachês estratosféricos, né? Assim como eu, dezenas de milhares de espectadores mundo a fora devem ter refletido da mesma maneira. Por mais que Russell Crowe concentre as atenções do público e tenha feito bom trabalho em “O Exorcista do Papa”, quem se destacou mesmo foi o pequeno Peter de Souza-Feighoney. O garoto norte-americano deu show de interpretação no papel do possuído Henry. Saiba que não é fácil fazer esse tipo de personagem, ainda mais em uma estreia no cinema. Sem dar bola para a responsabilidade e para o desafio, Peter de Souza-Feighoney foi muitíssimo convincente, ora no papel da criança traumatizada pela perda precoce do pai, ora como o demônio que quer a alma do Padre Gabriele. Individualmente, ninguém foi melhor do que o ator mirim. Se bem que o elenco experiente, cada um a sua maneira, deu conta do recado perfeitamente. Em relação à atuação particular dos atores e atrizes, não há qualquer comentário negativo que possamos fazer. Outra questão que merece elogios é o entrosamento da dupla principal de personagens do filme: Padre Gabriele Amorth e Padre Esquibel. Além de serem figuras planas (cada um com seus pecados e dramas pessoais e com características pouco comuns para religiosos), os dois exorcistas se complementam perfeitamente. O italiano é uma espécie de Axel Foley do Vaticano, o policial trambiqueiro imortalizado por Eddie Murphy em “Um Tira da Pesada” (Beverly Hills Cop: 1984). Com seu jeito desbocado, humor peculiar, tramoias para ludibriar as pessoas e os espíritos, o pouco zelo pelas formalidades sociais e da Igreja e alguns hábitos bem mundanos (quem não é chegadinho em um goró às vezes?), Gabriele encanta e convence a plateia desde o primeiro momento. E o que já era bom fica melhor quando o exorcista chefe do Vaticano ganha como companheiro de trabalho um padre espanhol novato no ofício de caçar espíritos malignos. Padre Esquibel não entende nada de exorcismo e não tem a real dimensão da força do demônio que irá combater. Não à toa, comete erros de principiante que poderiam colocar tudo a perder. Mesmo com vontade de sair correndo da abadia mal-assombrada, ele se mantém firme como parceiro de Gabriele. Para completar, Esquibel possui questões particulares bem humanas para resolver: que chamo de pecados da carne. Ou seja, temos uma dupla de protagonistas bem humana, falível e complementar. Parte da graça de “O Exorcista do Papa” está justamente nas características antagônicas da dupla de exorcistas. Em alguns momentos, confesso que a atuação dos religiosos me lembrou (segure-se na cadeira porque lá vem a bomba!!!) outra famosa dupla do cinema. Se você pensou que eu citaria Ed e Lorraine Wanner, da série “Annabelle”, se enganou. Erroooooooooooou! Minhas lembranças foram em direção a dois famosos atores italianos (e não no sentido do universo tradicional de Hollywood). Repare bem se o trabalho conjunto dos padres Amorth e Esquibel não se parece (já está preso ao assento?!) com a dinâmica de Bambino e Trinity, personagens imortalizados por Bud Spencer e Terence Hill em “Trinity é o Meu Nome” (Lo Chiamavano Trinità: 1970), hein?! Seria uma loucura da minha cabeça misturar o velho Western Spaghetti com o thriller aterrorizante contemporâneo? Até pode ser. Contudo, ao assistir uma personagem alta, gorda, barbuda, mais velha e boa de briga (no caso, estamos falando da briga com os demônios, tá?) ao lado de uma figura baixa, magra, de cara limpa, jovem e boa de apanhar (surra dos espíritos pode ser mais perigosa do que as surras dos humanos) foi impossível não me recordar da mais famosa dupla do cinema italiano. Na minha cabeça, Bambino está para Padre Gabriele assim como Trinity está para Padre Esquibel. Pronto: falei! Deixando de lado minhas viagens cinematográficas, “O Exorcista do Papa” tem ótimas cenas de ação. A ênfase do longa-metragem, como não poderia ser diferente, se direciona ao combate entre os exorcistas e o demônio. Todas às vezes em que os padres entram no quarto de Henry na abadia espanhola, o público fica sem ar. Não é para menos. Lá vem emoção e confusão! A única nota negativa neste caso é o uso de recursos visuais para lá de batidos quando as personagens são invadidas pela entidade demoníaca. Aí dale virada amalucada de pescoço, caminhada com trejeitos monstruosos, contorcionismo quebra-coluna na cama... Em quesito criatividade, a nota desta produção não foi alta. Apesar do clímax estar no combate entre as forças do bem e do mal, os pontos altos do longa-metragem quando o assunto é emoção estão no começo e no desfecho. O início é ótimo porque em duas ou três cenas já conseguimos captar a personalidade e a dinâmica de trabalho do Padre Gabriele Amorth. Ele é uma figuraça e vê-lo cuidar dos demônios ou se relacionar com os colegas no Vaticano (que possuem seus próprios demônios) é hilário! Em relação ao término de “O Exorcista do Papa”, fiquei com a sensação de que os roteiristas deixaram abertas as possibilidades de termos continuações. Seria o nascimento de mais uma série cinematográfica? Pode ser. Mesmo com o enorme entrosamento e carisma da dupla de padres exorcistas, minha dúvida é se teríamos apelo de público para uma coleção de filmes à la “Annabelle”. Outro ponto que preciso comentar é a excelente inserção da história sombria da Igreja durante a Idade Média no roteiro do longa-metragem. O período da Inquisição na Península Ibérica foi recheado de crimes e horrores praticados pelos líderes católicos. E o surgimento de um demônio superpoderoso que foi liberado das catacumbas de uma abadia espanhola nos dias de hoje (no caso, no final dos anos 1980) tem tudo a ver com esse passado apavorante. Adorei acompanhar uma explicação lógica, inteligente e histórica para a possessão de um garotinho e da assombração de uma residência/igreja. Infelizmente, nem sempre há a preocupação de se explicar tão sagazmente os motivos do surgimento das entidades maléficas nos filmes de terror. Possivelmente influenciado por sua última produção, “Samaritano”, Julius Avery trouxe muitos elementos das tramas de super-heróis para “O Exorcista do Papa”. Apesar de não gostar (no caso, o termo “não gostar” é um eufemismo para odiar) as produções baseadas nos universos da Marvel e da DC, achei que essa característica caiu muitíssimo bem na trama de terror sobre demônios medievais. O mais legal foi ver que os superpoderes estão no lado dos vilões e não no lado dos mocinhos – admito que nunca vi graça em histórias em que os heróis reúnem conjuntos extensos e/ou intensos de habilidades sensacionais... No novo filme de Avery, a dupla de protagonista é muito humana e suscetível ao fracasso. Sobre os pontos negativos de “O Exorcista do Papa”, posso citar, além do roteiro repleto de clichês que já mencionei, a pouca caracterização histórica. Se não fôssemos informados pela legenda no início do filme que o enredo se passa em 1989, na certa teríamos sérias dificuldades para datar quando a história se passa só com os elementos visuais disponíveis. No meu caso, eu cravaria que o longa-metragem acontece atualmente ou mesmo alguns anos atrás. Senti que a preocupação com as roupas, cenários e objetos utilizados em cena foi dialogar fundamentalmente com a ambientação e com a história da Igreja Católica. Aí sim o filme está impecável. Porém, quando ansiamos por ver elementos concretos da virada dos anos 1980 para os anos 1990, ficamos um tanto frustrados. Quando comparado a caracterização de produções cinematográficas que respeitaram os atributos históricos em cada detalhe, como por exemplo “Las Insoladas” (2014), “O Exorcista do Papa” passa vergonha. Em relação ao roteiro, admito que só achei um equívoco. Como a trama se passa em 1989, é impossível o exorcista italiano se lastimar pela conquista da Copa do Mundo pela França. Afinal, a equipe francesa só ergueria o troféu da FIFA em 1998. Muito possivelmente, os livros de Gabriele Amorth se referiam ao sofrimento italiano com a desclassificação da Azurra pelos Le Bleus nas oitavas de finais da Copa do Mundo do México, em 1986. Infelizmente, os roteiristas demostraram total falta de conhecimento futebolístico ao embaralhar a agonia do protagonista pela última derrota de sua seleção (em uma época em que a Itália ainda ia para as Copas...) com o êxito francês no futuro próximo. Pelo menos foi essa sensação que tive com a piadinha do Padre Amorth sobre não desejar ver a conquista dos rivais. Confira, a seguir, o trailer legendado de “O Exorcista do Papa” (The Pope's Exorcist: 2023): Mesmo com altos e baixos, este filme salvou meu sábado à noite. Nunca imaginei que uma história sobre exorcismo iria espantar meus demônios internos quando o assunto é experiência nas redes mais comerciais de cinema. Por isso, nem me importei com a versão dublada (a única disponível!). Se tivesse que escolher entre “Dungeons & Dragons – Honra Entre Rebeldes”, “Super Mario Bros – O Filme” e “John Wick 4 – Baba Yaga”, minha decisão seria por um belo hamburguer do Big X Picanha. Quem disse que eu não gosto de um monstrão trash e saborosíssimo?! Talvez esse seja o meu novo mantra: se não tiver Espaço Itaú de Cinema, Reserva Cultural ou Cine Belas Artes, vá de Big X Picanha. Não tem erro! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















