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  • Análise Literária: Julio Cortázar

    A partir do estudo dos principais livros e da biografia de Cortázar, apresentamos a análise do estilo narrativo e as trajetórias pessoal e profissional do autor argentino. Hoje, o Desafio Literário apresenta o estudo sobre a literatura de Julio Cortázar, um dos principais escritores argentinos da história e figura central da prosa ficcional no século XX. Considerado um dos maiores contistas de todos os tempos, Cortázar se destacou por subverter a lógica das estruturas narrativas e por criar obras que trafegam pelo Realismo Fantástico, pelo Surrealismo, pela crítica político-social e pelo Existencialismo. Sua produção é tão reacionária que acaba, muitas vezes, assustando e confundindo o público médio. Não à toa, o escritor é mais admirado por intelectuais, filósofos, literatos e críticos literários do que pelos leitores comuns. Confesso que os livros do argentino exigiram doses generosas de disposição, atenção e esforço da minha parte, o que tornou essa experiência literária extremamente complexa, diferente e, por que não, prazerosa. Afinal, boa parte dos recursos narrativos usados pelo autor não são encontrados facilmente na literatura comercial contemporânea. Para construir essa análise literária, objetivo central do Bonas Histórias nesse bimestre, comentamos individualmente, ao longo das últimas oito semanas, oito das principais publicações de Julio Cortázar. Os títulos escolhidos para o Desafio Literário de Cortázar foram: “Os Reis” (Civilização Brasileira), prosa poética em formato de peça teatral lançada em 1949; “Bestiário” (Civilização Brasileira), coletânea de contos de 1951; “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), coleção de narrativas curtas de 1956; “Os Prêmios” (Civilização Brasileira), romance de 1960; “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), coletânea de microcontos de 1962; “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), romance de 1963; “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), coleção de contos de 1966; e “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira), romance de 1968. Repare que tivemos a preocupação de selecionar exemplares dos principais gêneros textuais desenvolvidos pelo autor. Os posts com as análises desses livros estão disponíveis no blog para consulta de todos. Para adquirir mais subsídios sobre as trajetórias pessoal e profissional de Julio Cortázar, recorremos também a “Cortázar – Notas para uma Biografia” (Editora DSOP), um dos livros biográficos mais completos e profundos sobre o escritor. Desenvolvida por Mario Goloboff e lançada em agosto de 2014, essa obra é fundamental para entendermos os pormenores da vida e da carreira do autor argentino. A partir da leitura dessa coletânea de títulos (oito produções autorais de Cortázar e uma biografia sua), acreditamos que estamos prontos para discutir os detalhes de seu estilo e das características literárias de seu trabalho ficcional. Quem não conhece o Desafio Literário, informo que essa é a coluna do Bonas Histórias dedicada à análise da literatura dos principais escritores nacionais e internacionais de ontem e de hoje. Desde 2015, selecionamos anualmente alguns escritores para serem estudados em profundidade aqui no blog. Nessa temporada, a sétima do Desafio, comentamos (em abril e maio) a ficção de Orhan Pamuk, turco vencedor do Prêmio Nobel de 2006, e (em julho e agosto) os romances de Elena Ferrante, italiana que é best-seller internacional. O Desafio Literário de Julio Cortázar é, portanto, o terceiro e último desse ano. No ano passado, à título de exemplificação, analisamos a literatura de personalidades como Jack Kerouac (Estados Unidos), Rubem Fonseca (Brasil), Isabel Allende (Chile) e José Eduardo Agualusa (Angola). Então, chega de papo furado e vamos logo aos trabalhos que nos prontificamos a fazer nesse bimestre (outubro e novembro de 2021)! Julio Florencio Cortázar (esse é seu nome completo) nasceu em 26 de agosto de 1914, dois meses depois da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ele é o primogênito de Julio José Cortázar, diplomata argentino de descendência basca, e María Herminia Descotte de Cortázar, argentina cuja família tinha origem alemã e francesa. Por ter o mesmo nome do progenitor, o menino, desde que nasceu, sempre foi chamado pelos familiares e pelos amigos próximos de Florencio (afinal, Julio era o seu pai!). Por falar em Julio e María Herminia, o casal, que morava em Buenos Aires na época do namoro e noivado, viajou para a Europa assim que se casou. María Herminia acompanhou o marido, que como diplomata precisava viver prioritariamente no exterior. Por causa desse constante deslocamento familiar, o futuro escritor nasceu em Bruxelas, na Bélgica, onde seu pai trabalhava em meados de 1914. Como é corriqueiro nesse caso, Julio Florencio (que chamaremos por ora apenas de Florencio) foi registrado como argentino (a embaixada é território do país que representa e não da nação em que está situada). Vale a pena lembrar que a mesma situação ocorreu com Isabel Allende, escritora nascida em Lima, no Peru, na embaixada do Chile (sua nacionalidade é, portanto, chilena e não peruana). Assim como Florencio, o pai de Isabel era também diplomata. Um ano depois do nascimento do primeiro filho, María Herminia deu à luz, em Zurique, na Suíça, uma menina. A irmãzinha de Florencio ganhou o nome de Ofelia. Os Cortázar viveram em várias cidades europeias entre 1914 e 1918, equilibrando-se entre as obrigações profissionais de Julio e os perigos oriundos da guerra. O lugar que passaram mais tempo, nesse período, foi em Barcelona, na Espanha. A família só conseguiu retornar para a Argentina após o término do conflito armado que devastou o Velho Continente. Ou seja, Florencio só conheceu seu país aos 4 anos de idade. Curiosamente, o menino só falava francês quando aportou em Buenos Aires (essa era a língua que os Cortázar usavam habitualmente em casa) e precisou aprender o espanhol na América do Sul. Dois anos depois do retorno à Argentina, a Sra. Cortázar e os filhos vivenciaram um drama familiar. Sem qualquer explicação, Julio abandonou a esposa e os filhos (provavelmente arranjou uma nova mulher) e nunca mais retornou ao lar original. Assim, Florencio, então com 6 anos, Ofelia, 5 anos, e María Herminia foram morar com a avó materna dos meninos e com uma prima da mãe. A nova residência da família ficava em uma casa muito espaçosa em Banfield, no subúrbio da Grande Buenos Aires. Essa nova dinâmica familiar perdurou por quase duas décadas. Dessa maneira, Florencio foi criado em um lar essencialmente feminino. Nunca mais ele viu ou falou com Julio, que sumiu das vidas dos filhos e da ex-esposa para sempre. A infância de Florencio em Banfield foi marcada pela literatura. O menino tímido e introspectivo recorria à biblioteca particular da mãe como diversão, passatempo e formação. Ele preferia a leitura à socialização com os vizinhos e com os colegas de escola (que praticavam bullying com o estudante sério de sotaque afrancesado). Por essas e outras, Florencio passava o dia (e as noites) lendo compulsivamente. A única que recebia maior atenção do garoto era a irmã mais nova, com quem ele brincava às vezes. Como a biblioteca de María Herminia não fora montada para uma criança, Florencio leu, desde pequeno, obras clássicas (a maioria em francês) e livros comerciais destinados ao público adulto. Além do abandono paterno e do mergulho desde muito cedo na literatura, a meninice de Julio Florencio (acho que podemos chamá-lo dessa maneira a partir de agora) foi marcada por outros dois acontecimentos. O primeiro foi a doença de Ofelia. A irmãzinha tinha frequentemente crises de epilepsia, o que aterrorizava a mãe, a avô e a tia dos meninos. O clima na casa era de constante tensão. Todos precisavam ficar atentos para a iminente crise de Ofelia. Cercado de excessivos cuidados médicos, apesar de não ter qualquer problema de saúde mais sério, o futuro escritor se tornou um hipocondríaco inveterado, hábito que levou até o final da vida. Sem um homem em casa, as mulheres da família de Julio Florencio se aproximaram naturalmente da família de Pereyra Brizuela, um capitão reformado do Exército que morava na vizinhança. Esse é o outro episódio importante que me referi no parágrafo anterior. Como a casa dos Brizuela era constituída quase que exclusivamente por homens, os clãs gostavam de se encontrar e confraternizar. Julio Florencio foi muito influenciado por Pereyra Brizuela, que incentivava as qualidades intelectuais e os hábitos de leitura do menino. Depois de devorar a biblioteca da mãe, o garoto recorreu aos livros que o amigo mais velho tinha em casa, com títulos mais filosóficos e variados. A proximidade com os Brizuela foi ao mesmo tempo intensa e longeva. Dessa relação, surgiram três matrimônios: Ofelia se casou com um dos filhos mais novos de Pereyra Brizuela, a tia de Julio Florencio se tornou esposa de outro filho do velho militar e, por fim, María Herminia se uniu com o filho mais velho do Sr. Brizuela. Em um ambiente extremamente erudito e poliglota, Julio Florencio aprendeu o inglês, aprimorou o alemão, que era praticado em casa principalmente pela avó, e continuou desenvolvendo o francês, praticamente sua língua natal. Aluno aplicado (do tipo melhor aluno do colégio), o jovem Cortázar se apaixonou pela poesia ainda na adolescência. Foi nessa época em que ele começou a escrever, principalmente versos e textos em que brincava com as palavras e as estruturas frasais. Por muito tempo, acredite, a poesia o encantou mais do que a prosa ficcional. Após concluir os estudos escolares em Banfield, em 1932, Julio Cortázar (acho que já podemos chamá-lo pelo nome que ficaria mundialmente conhecido alguns anos mais tarde) ingressou no curso de professor do ensino médio e se formou em 1935. Com o diploma em mãos, Cortázar foi contratado pelo governo argentino para lecionar nas escolas de ensino fundamental. Por isso, ele foi viver no interior do país. Seus primeiros empregos foram como professor em escolas em Bolívar e em Chivilcoy. Lá, ele deu aulas de várias disciplinas (História, Geografia, Instrução Cívica etc.) menos de Literatura. Sim, o governo federal da Argentina contratou Julio Cortázar como professor e ele não deu nenhuma aula de literatura!!! Nesse período, Julio Cortázar adquiriu novos hábitos. Ele se aproximou da música (principalmente do Jazz) e se apaixonou pelo boxe (único esporte que acompanhava com afinco e certa assiduidade). Também passou a ler e a estudar Mitologia Grega, um assunto que vinha chamando sua atenção desde a adolescência (Pereyra Brizuela tinha em sua biblioteca vários títulos com essa temática). No mais, Julio continuou lendo vorazmente todo tipo de livro que caía em suas mãos (a literatura sempre foi seu maior interesse, tanto a poesia quanto a prosa) e pesquisando sobre filosofia (Existencialismo e a Metafísica eram seus temas favoritos nessa área). Ou seja, sua erudição só aumentava. Em 1938, Julio Cortázar estreou na literatura com a publicação de “Presencia” (sem edição em português), uma coletânea de sonetos. Sim, o primeiro livro de um dos principais contistas da história era uma obra poética – sua grande paixão naquele momento. Ele lançou esse título com o pseudônimo de Julio Denis. “Presencia” teve baixíssima tiragem (apenas 250 exemplares) e foi bancado integralmente pelo autor – processo editorial que chamamos atualmente de autopublicação. A receptividade desse título foi extremamente tímida, se restringindo ao círculo íntimo do autor (amigos e familiares). Em 1943, Julio Cortázar deixa Bolívar e Chivilcoy (e a escola fundamental) e se muda para Mendoza (ingressando no ensino superior). Ele foi trabalhar na Universidade de Cuyo como professor de literatura francesa e inglesa. Em Mendoza, Cortázar se torna um professor querido e muito respeitado pelos estudantes. É ali também que ele começa a ter uma participação política mais ativa. Antiperonista convicto, Julio se opõe à ascensão de Juan Domingo Perón e seus partidários, que em nome de uma maior representatividade popular começam a perseguir os ideais burgueses (entre eles a dinâmica artístico-cultural até então em voga). Muito próximo das artes, o professor universitário nascido em Bruxelas não conseguia conceber a perseguição, a censura e o ataque dos peronistas à arte e à cultura nacional desenvolvidas até ali. Em 1946, com a eleição de Perón, Julio Cortázar deixa a universidade em Mendoza por não concordar com as novas diretrizes ideológicas do governo recém-empossado e regressa à Buenos Aires. Nesse ano mesmo, ele arranja emprego na Câmara do Livro como gerente, trabalho que exerceria até 1949. O expediente na Câmara do Livro era de meio período (quatro horas apenas), o que permitia a Julio escrever diariamente. Nesse período, ele produziu críticas de livros e ensaios literários (enfocando essencialmente os poetas europeus), além de iniciar o desenvolvimento de contos próprios. Seus textos eram publicados nas principais revistas e jornais literários do país, como Realidad, Sur e Verhum. No finalzinho dos anos 1940, Cortázar se transformou em um escritor famoso entre os intelectuais de Buenos Aires. Vale a pena dizer que os textos do escritor na imprensa literária portenha remontam ao início daquela década. O primeiro ensaio de Julio Cortázar a ser publicado foi uma análise dos poemas de Arthur Rimbaud, francês que viveu na segunda metade do século XIX. O artigo saiu na revista Huella, em 1941. Em 1942, Julio lançou seu primeiro conto. “Llama el Teléfono, Delia” (sem edição em português), uma narrativa com pegada fortemente experimental, foi veiculado no Diario El Despertar. Contudo, essa narrativa parece não ter agradado ao seu autor. Anos depois, Cortázar desprezou completamente esse texto, não aceitando inseri-lo em sua coletânea de narrativas curtas (afirmou tratar-se de um mero exercício de Escrita Criativa). Por isso, muita gente diz que o primeiro conto do escritor argentino é “Bruja”, publicado em 1944 no Correio Literario (esse sim recebeu a devida aceitação por parte do autor, que jamais negou seu valor). Entre 1945 e 1946, foram veiculados os contos “Estación de La Mano” na revista Egloga e “A Casa Tomada” na revista Los Anales de Buenos Aires (publicação dirigida por ninguém menos do que Jorge Luis Borges). O ensaio “La Urna Griega en la Poesia de John Keats” (sem edição em português) também é dessa época e saiu na Revista de Estudios Clásicos. De todos esses textos de Cortázar, aquele que teve maior repercussão foi o espetacular “A Casa Tomada”. A narrativa curta dos dois irmãos solitários que tem a residência misteriosamente invadida gerou grande comoção entre os leitores das revistas de literatura. Sua trama foi muito citada e comentada por seu possível teor político (algo que Julio Cortázar sempre despistou). O próprio Borges nunca escondeu sua admiração por esse conto e sempre o elogiou como um exemplo concreto do talento de Cortázar. Em 1946, Julio Cortázar quase publicou um novo livro (seria seu segundo). A obra se chamava “La Otra Orilla” (não foi publicada em nosso idioma até hoje) e representaria a estreia de Cortázar nas coletâneas de narrativas curtas. Ele produziu as histórias desse título entre 1937 e 1945. A publicação de “La Otra Orilla” ficou a cargo de uma pequena editora de Buenos Aires. Entretanto, poucos dias antes do material ser enviado para a gráfica, os editores mudaram de ideia e cancelaram o lançamento. “La Otra Orilla” ficaria por quase cinco décadas na gaveta da casa da família Cortázar, sendo publicado apenas em 1994, dez anos depois do falecimento do autor. Apesar da inegável frustração pela não materialização de “La Otra Orilla” em livro, o final da década de 1940 e o início dos anos 1950 constituíram um período marcante para Julio Cortázar tanto em âmbito pessoal quanto profissional. Em 1948, ele começou a colaborar com a Revista Sur. O autor produziu críticas e ensaios literários para a famosa publicação criada pela escritora Victoria Ocampo. Cortázar permaneceu como colaborador fixo da revista, referência por muito tempo na literatura moderna da Argentina, até 1953. Ainda em 1948, Julio conheceu Aurora Bernárdez, que mais tarde viria a ser sua primeira esposa. Formada em Filosofia e Letras na Universidade de Buenos Aires e extremamente intelectualizada, a moça chamou a atenção do rapagão alto e um tanto desengonçado que voltara a viver na Capital Federal. Eles demoraram para engatar o namoro sério. Entretanto, depois que começaram, não se largaram mais. Os amigos próximos e os familiares de Cortázar brincam que Aurora era a alma gêmea do escritor. Aficionada por literatura desde a infância, ela devorava bibliotecas inteiras, discutindo com qualquer intelectual da época questões como prosa ficcional, poesia, filosofia, cultura, artes e política. Julio Cortázar não poderia ter tido uma namorada (e depois esposa) mais compatível com sua personalidade erudita do que Aurora Bernárdez. Nesse mesmo ano, Cortázar, depois de muito estudar, foi aprovado na titulação de tradutor público. Assim, poderia trabalhar oficialmente realizando traduções, ofício que desempenharia por muitos e muitos anos dali em diante. Curiosamente, Aurora Bernárdez também atuou como tradutora (além de escritora) por toda a vida. O casal se manteria graças a esses trabalhos nas duas décadas seguintes. Eles eram contratados por empresas no exterior e por editoras argentinas, mas isso é história para daqui alguns parágrafos. Em 1949, Cortázar, então com 35 anos, publicou “Os Reis” (Civilização Brasileira), seu segundo livro e primeiro título assinado com o nome próprio. Saía de cena Julio Denis e entrava para o cenário literário argentino Julio Cortázar. Pode parecer lógico, aos olhos dos leitores atuais, essa escolha do autor, mas ela não foi nada tranquila. Estampar Julio Cortázar na capa de uma obra remetia para o escritor e para seus parentes próximos as lembranças do pai, aquele sujeito homônimo que abandonara a família três décadas atrás. Lembremos que Julio Cortázar (estou falando do filho, tá?) sempre fora chamado de Florencio em casa (e continuou sendo depois de adulto – por que haveriam de mudar, né?). Por tudo isso, ao assumir seu nome original para o público, Julio Cortázar (o escritor!) colocava para sempre uma pedra em cima da relação tumultuada com o pai. É preciso dizer que a única vez que o Sr. Cortázar (vamos chamá-lo daqui para frente dessa maneira para não haver confusão) escreveu para o filho foi justamente no período de lançamento de “Os Reis”. Ele não gostou de ver o rebento usando seu nome na capa de uma publicação (aparentemente esqueceu-se que o rapaz era seu homônimo ou quase homônimo – Julio Florencio Cortázar versus Julio José Cortázar). O que Julio Cortázar fez? Ele simplesmente ignorou a correspondência paterna e seguiu usando seu nome sem qualquer problema. Talvez se tivesse alguma dúvida se deveria se apresentar ou não dessa maneira, a partir dali teve certeza de que tomara a decisão certa. “Os Reis” integrou a coleção de livros “Gulab y Aldabahor”, publicada pela revista portenha Nueve Artes. Fundada em 1948 pelo escritor Daniel Devoto, pelo pintor Emilio Pettoruti e pelo músico Juan Carlos Paz, o periódico apresentava ao público as novidades da cultura vanguardista da Argentina e da América Latina. A coleção “Gulab y Aldabahor” foi a maneira encontrada pelos proprietários da revista Nueve Artes para divulgá-la (algo que o jornal Folha de São Paulo faz até hoje no Brasil com suas coleções próprias de livros). Assim como aconteceu com “Presencia”, “Os Reis” teve tiragem baixa (apenas 600 exemplares) e passou despercebido pela crítica e pelo público. Esse título é visto atualmente mais com estranhamento do que com admiração pelos fãs de Cortázar. Outra vez, não conseguimos enxergar as características tipicamente cortazianas nessa obra. “Os Reis” é uma prosa poética que emula uma peça teatral. A narrativa apresenta uma versão alternativa para o desfecho do Mito do Minotauro. Em outras palavras, esse livro tem um texto muito erudito, tanto pela linguagem utilizada quanto pela temática (o que torna sua leitura complicada), e carece de originalidade (alguns autores argentinos já tinham explorado essa passagem mitológica antes de Cortázar, entre eles Jorge Luis Borges). Dividido em cinco atos e contendo apenas 80 páginas (trata-se de um livro bem curtinho), “Os Reis” se passa fundamentalmente na Ilha de Creta. O rei Minos trancafiou um de seus filhos bastardos, o Minotauro (criatura metade homem metade touro), em um labirinto. Assim, os habitantes da ilha não correm o risco de serem devorados pelo bichano. Contudo, para alimentar o Minotauro, Minos precisa periodicamente atirar no labirinto sete rapazes e sete moças. As vítimas são selecionadas entre os cidadãos de Atenas. Inconformado com essa situação, Teseu, príncipe ateniense, resolve acabar com a vida do Minotauro de uma vez por todas. Para realizar tal proeza, ele se candidata para entrar no labirinto. Ao invés de ser devorado pelo monstro, o herói de Atenas quer assassinar o carrasco de seus compatriotas. Antes de começar sua aventura, Teseu conversa com Ariadne, a jovem e bela filha do Rei Minos. Ela é também irmã do Minotauro. Segundo a mitologia grega, Ariadne se apaixona por Teseu e tem uma ideia engenhosa capaz de ajudar o amado na perigosa expedição pelos labirintos da ilha. Porém, de acordo com a nova versão de Julio Cortázar para essa história clássica, as intenções e os amores da princesa de Creta são outros. “Os Reis” demorou 65 anos para ser encenado nos palcos. Apenas em 2014, o francês Phillipe Fénelon transformou o drama mitológico de Cortázar em uma ópera. A versão cênico-musical de “Os Reis” se chamou “Les Rois” (justo, muito justo, justíssimo, como diria o outro) e foi exibida no Opéra National de Bordeaux. Apesar de muito diferente das demais obras de Julio Cortázar, “Os Reis” tem alguns elementos narrativos que integraram mais à frente o estilo do autor argentino. Podemos citar o entrelaçamento de temas (espécie de novelo narrativo), o acentuado lirismo (prosa poética), a forte carga simbólica da trama e o teor existencialista da história. Por outro lado, esse título pode ser considerado o mais comportado de Julio Cortázar em relação à estrutura formal (ao lado de “Presencia”) e com o conteúdo mais erudito, mais elitista e mais rebuscado (ao ponto de sua leitura ser um porre!). Em suma, podemos classificar as duas primeiras publicações do autor (“Presencia” e “Os Reis”) como sendo exemplares da fase quadradona da literatura de Cortázar. Em outras palavras, até esse momento não havia surgido o escritor revolucionário e inclinado a derrubar as paredes da narrativa ficcional. Julio Cortázar se limitava, pelo menos em seus dois livros de estreia, a repetir a lógica e a estrutura literária que os colegas estavam produzindo. Paradoxalmente, ele canalizava as invencionices e as propostas mais ousadas para os contos publicados nas revistas literárias. Em 1951, Cortázar lança “Bestiário” (Civilização Brasileira), sua primeira coletânea de narrativas curtas. Aqui sim surge o escritor ousado, original e imprevisível que chacoalharia a literatura argentina e a ficção latino-americana. Em uma referência minha à famosa música de Caetano Veloso, é como se Cortázar, então com 37 anos, contribuísse para deixar “alguma coisa (está) fora da ordem/fora da nova ordem mundial/alguma coisa está fora da ordem/fora da nova ordem mundial”. “Bestiário” foi a primeira publicação comercial de Julio Cortázar. Esse livro saiu pela Editorial Sudamericana, uma das mais tradicionais editoras de Buenos Aires. Sua tiragem foi, obviamente, maior do que os livros anteriores do escritor. É legal destacar que a Sudamericana foi a principal casa editorial de Cortázar na Argentina dali para frente. Julio trabalhou por muitos anos como tradutor e até o final da vida como autor ficcional nessa empresa. A relação profissional foi tão boa que Julio Cortázar e Francisco “Paco” Porrúa, diretor literário da Editorial Sudamericana e considerado o responsável por revelar o talento artístico de Cortázar para o mundo, se tornaram muito próximos. Paco se transformou, inclusive, no primeiro leitor das obras do amigo, contribuindo com comentários, dicas e sugestões de melhorias. Ele acabou sendo também um bom e leal confidente do escritor, que revelava seus problemas pessoais e suas inquietações literárias. A relação com a Sudamericana e com Francisco “Paco” Porrúa foi tão frutífera que Julio Cortázar só lançou livros em outras editoras argentinas quando os editores da Sudamericana não gostaram do texto apresentado e se recusaram a publicá-lo. Isso aconteceu, por exemplo, com “Histórias de Cronópios e de Famas” (até hoje dou razão aos profissionais da companhia – eu também teria vetado esse projeto editorial!) e com “O Exame” (romance escrito em meados da década de 1950 e que foi preterido a “Os Prêmios” – a Sudamericana aceitou lançar apenas um romance dos dois entregues pelo autor). “Bestiário” teve relativo êxito na Argentina no período de seu lançamento. É verdade que essa coletânea de contos não se tornou um sucesso retumbante de público (Julio Cortázar demoraria ainda uma década e meia para virar um escritor best-seller e nacionalmente conhecido), mas não foi ignorada pela crítica literária de Buenos Aires (como tinham sido “Presencia” e “Os Reis”). As resenhas sobre a obra foram muito positivas, destacando a originalidade e a força das narrativas curtas do jovem autor. Os elogios do livro aumentaram a fama de Cortázar entre os intelectuais e os fãs da literatura contemporânea. De certa maneira, “Bestiário” foi lido e exaltado pelos leitores habituais que o autor já possuía nas revistas literárias. Os oito contos de “Bestiário” são: “Casa Tomada” (aquela trama que fora publicada nos Los Anales de Buenos Aires em 1946), “Carta a Uma Senhorita em Paris”, “Distante” (também chamado de “Longínqua” em algumas traduções para o português), “Ônibus”, “Cefaleia”, “Circe”, “As Portas do Céu” e “Bestiário” (narrativa que emprestou seu nome ao título da coletânea). O livro tem 144 páginas e possui uma leitura muito mais prazerosa e fluída do que as obras anteriores do autor. Alguns motivos fazem de “Bestiário” uma publicação tão importante para a carreira de Julio Cortázar. Esse título, para começo de conversa, representou a estreia do argentino nas coletâneas de narrativas curtas, gênero que ele se tornaria genial. É mais ou menos como se Pelé houvesse jogado apenas como zagueiro e um dia o colocassem como meio-campista ofensivo e atacante. Aí toda a magia realmente acontece! Por mais que Cortázar já publicasse seus contos nas revistas portenhas há quase uma década, o lançamento de um livro é algo diferente pois aumenta potencialmente o público leitor e perpetua o trabalho do autor (isso é, se ele tiver qualidade). Outro aspecto interessante é que “Bestiário” marcou o ingresso de Julio Cortázar no Realismo Mágico. Essa é a primeira obra desse gênero do autor, que repetiria a dose nas obras seguintes (“Final do Jogo” e “As Armas Secretas”). Até hoje, Cortázar é lembrado, pela maioria do público, como um escritor fantástico. É parcialmente correto pensar dessa forma já que a literatura do argentino não ficou limitada a essa corrente artística. Quando “Bestiário” chegou às livrarias, o Realismo Fantástico já vigorava na América Latina – o termo foi cunhado, em 1949, pelo escritor cubano Alejo Carpentier para designar o tipo de produção ficcional que estava sendo praticada no continente. Contudo, o auge desse tipo de literatura só viria mais tarde, nos anos 1960 e 1970 – período chamado de Boom Latino-americano. “Bestiário” também traz alguns dos contos mais famosos de Cortázar até hoje. Destaque para os cultuados “Casa Tomada”, “Carta a Uma Senhorita em Paris”, “Circe”, “Cefaleia” e “Bestiário”, verdadeiras obras-primas da narrativa curta, da ficção em língua espanhola e do Realismo Fantástico. Repare que estamos falando de cinco histórias marcantes de oito que o livro possui. É muita coisa! Isso quer dizer, então, que as demais tramas dessa obra são fracas? Não! Por incrível que pareça, uma das características principais de “Bestiário” é reunir ótimas histórias do começo ao fim – não há conto de baixo nível nesse título. A questão é que “Distante/Longínqua” “Ônibus” e “As Portas do Céu” acabaram, por um motivo ou outro, não se tornando tão conhecidos pelos leitores atuais, mas são narrativas de ótima qualidade (gosto muito de “Ônibus”, um thriller aterrorizante construído a partir de uma viagem aparentemente normal no transporte público). Por fim, mas não menos importante, “Bestiário” representou a afirmação estilística e narrativa de Julio Cortázar. De uma maneira mais técnica, podemos dizer que essa obra serviu para o escritor descobrir sua voz e sua linha editorial. O próprio Cortázar reconheceu esse aspecto em entrevistas concedidas à imprensa e nas correspondências trocadas com os amigos. Para ele, esse livro é seu primeiro grande trabalho literário, um título digno de orgulho e de satisfação. Em “Bestiário”, o autor argentino achou algumas temáticas bem pessoais para explorar e um jeito de escrever que iria acompanhá-lo até o fim da vida. Surgia, assim, as bases do trabalho de um dos maiores contistas da história e uma das grandes figuras do Realismo Fantástico Latino-americano. Poucos meses depois do lançamento de “Bestiário”, Julio Cortázar deixou Buenos Aires e se mudou para Paris. A troca de cidade teve como justificativa a bolsa de estudo de um ano concedida pelo governo francês ao escritor. Quando chegou na Europa, em novembro de 1951, Julio não pensava que iria morar lá para sempre. Até por isso, Aurora Bernárdez, namorada/noiva do autor, não se juntou imediatamente a ele. Porém, com o passar dos meses, com o fim da bolsa de estudo e com a chegada de Aurora à França, o casal optou por não regressar à Argentina. A situação política no país sul-americano, mergulhado em uma ditadura militar cada vez mais violenta, repressora e de filosofia retrógrada, foi decisiva para Julio e Aurora fixarem residência definitivamente em Paris. Os brasileiros que assistem desde 2018 à deterioração econômica, política, ambiental e moral de seu país (o que acarretou, infelizmente, em uma multidão de compatriotas que emigraram para a América do Norte e para a Europa nos últimos três anos) vão entender claramente a decisão de sete décadas atrás do escritor argentino. Em Paris, Julio Cortázar e Aurora Bernárdez arranjaram rapidamente empregos e se integraram à cultura europeia. Conforme já faziam em Buenos Aires, eles colocaram em suas rotinas a visita frequente a exposições, cinemas, concertos, teatros e cafés. Ou seja, se tornaram figuras recorrentes na boemia e nas artes locais. O que ajudou ainda mais nessa adaptação do casal foi sua incorporação a um animado grupo de intelectuais da capital francesa. Quem leu “O Jogo da Amarelinha” e/ou “62 Modelo para Armar” entenderá o que as novas amizades representaram para os emigrantes argentinos (sim, esses romances de Cortázar tiveram aspectos autobiográficos!). Quando as saudades da terra natal batiam, Julio e Aurora viajavam para o lado de cá do Atlântico para rever amigos e parentes. A cada dois anos basicamente, eles voltavam para Buenos Aires, onde permaneciam de férias por algumas semanas. O casamento de Julio Cortázar e Aurora Bernárdez ocorreu em agosto de 1953. Enquanto ele trabalhou na área administrativa de uma distribuidora de livros parisiense, como tradutor para editoras latino-americanas e como revisor, tradutor e intérprete na Unesco, ela dedicou-se às traduções para o espanhol de escritores franceses e italianos. Os primeiros anos na Europa não foram financeiramente fáceis para o casal. Eles não tinham uma vida abastada, o que exigia muita parcimônia e juízo. Porém, isso nunca foi desculpa para não mergulharem nos encantos artístico-culturais do Velho Continente. Assim, os argentinos não podiam se dar ao luxo de recusar trabalho. Por isso mesmo, viveram um ano na Itália, onde Cortázar realizou traduções de importantes autores europeus. O principal trabalho nessa linha foi a tradução das obras completas de Edgar Allan Poe para o espanhol. O serviço foi solicitado por uma universidade porto-riquenha e foi finalizado em 1956. Ainda em 1956, Julio Cortázar publicou “Final do Jogo” (Civilização Brasileira), seu quarto livro e sua segunda coletânea de contos. Curiosamente, essa obra foi lançada primeiramente no México, pela Editorial El Presentes, e apenas oito anos depois na Argentina, pela Editorial Sudamericana. Na versão mexicana, o título tinha nove contos. Já na versão argentina, foram incorporadas outras nove histórias. Assim, na edição que temos hoje em dia, “Final do Jogo” possui 18 tramas. Para quem possa ter estranhado Cortázar ter publicado um livro na América do Norte e não na América do Sul, a explicação para esse fato é um tanto simples. O escritor argentino estava trabalhando naquela época para editoras e universidades da América Central e do México, mesmo residindo na Europa (e há quem diga que o Anywhere Office é um conceito recente, Santo Deus!). Essa proximidade com os literatos e com os editores daquela região do planeta viabilizaram o lançamento do novo livro de Julio pela editora da Cidade do México. Além disso, não podemos excluir a possibilidade dos militares argentinos, que viviam um período tumultuado após a retirada à força de Juan Domingo Perón da Casa Rosada em 1955, terem censurado a publicação de autores malquistos pelo regime. E, como podemos lembrar, Cortázar integrava esse time de figuras não alinhadas à ditadura militar desde a época em que trabalhou na Universidade de Cuyo, em Mendoza, na metade dos anos 1940. Todavia, essa última parte da explicação do lançamento de “Final do Jogo” em terras mexicanas não passa de mera hipótese da minha parte (como diria minha falecida avozinha, onde tem fumaça, geralmente tem fogo...). Os contos de “Final do Jogo” foram produzidos entre 1945 (período em que Julio Cortázar morava na Argentina) e 1962 (fase em que o autor já vivia na França). Por isso, as tramas dessa obra foram ambientadas tanto na América do Sul quanto na Europa. As 18 narrativas do livro estão distribuídas em 224 páginas e são divididas em três partes. Na primeira seção, temos: “Continuidade dos Parques”, “Ninguém Tem Culpa”, “O Rio”, “Os Venenos”, “A Porta Incomunicável” e “As Mênades”. Na segunda, as histórias são: “O Ídolo das Cíclades”, “Uma Flor Amarela”, “Sobremesa”, “A Banda”, “Os Amigos”, “O Móvel” e “Torito”. E na parte final, as tramas apresentadas são: “Relato com um Fundo de Água”, “Depois do Almoço”, “Axolotes”, “A Noite de Barriga Para Cima” e “Final do Jogo” (conto que empresta seu nome ao título da coletânea). “Final do Jogo” é outra das obras marcantes de Julio Cortázar, exaltada até hoje pelo público e pela crítica. Dos seus contos, gostei muito de “Continuidade dos Parques”, “Ninguém Tem Culpa”, “Os Venenos”, “Sobremesa”, “Depois do Almoço”, “Final do Jogo” e “Axolotes”. Do ponto de vista formal, nota-se que esse livro tem narrativas mais complexas, mais bem elaboradas e mais enigmáticas do que “Bestiário”, o que exige maiores níveis de concentração e de esforço por parte dos leitores. Por outro lado, esse título não tem histórias tão memoráveis quanto a coletânea anterior. É difícil até apontar quais de seus contos estão entre as obras-primas de Cortázar. Talvez as histórias mais celebradas atualmente dessa coleção sejam “Continuidade dos Parques”, “A Noite de Barriga Para Cima”, “Axolotes” e “Final do Jogo”. A força narrativa de “Final do Jogo” reside justamente na sua coletividade e não na individualidade de suas histórias. São vários os motivos que fazem de “Final do Jogo” um livro tão importante para Julio Cortázar. Para começo de conversa, essa foi a primeira publicação do autor após a mudança para a Europa. Essa obra foi também a primeira do argentino a ser lançada no exterior (fora da Argentina). Além disso, essa coletânea prossegue com o Realismo Fantástico, gênero literário que Cortázar havia embarcado na década anterior e que iria explorar ao longo dos anos 1950. Outro fator que precisamos destacar em “Final do Jogo” é que Julio Cortázar potencializou os recursos estilísticos e as propostas narrativas introduzidas em “Bestiário”. Um bom exemplo disso é a brincadeira de dividir as histórias do livro em níveis de dificuldade (algo que muitos leitores chegaram/chegam a acreditar). Temos também, em “Final do Jogo”, tramas que mesclam bom humor, forte simbolismo e elementos surrealistas, características essas tipicamente cortazianas e que seriam cada vez mais exploradas dali em diante. A grande novidade dessa coletânea de contos está na inserção de narrativas românticas, algo que não havia aparecido até esse momento na prosa de Julio Cortázar. Não por acaso, as histórias que mais gostei em “Final do Jogo” foram justamente as mais sentimentais (além de ótimas, elas me surpreenderam – não imaginava encontrar esse tipo de texto no portfólio de Julio Cortázar). Porém, esse livro não é feito apenas de dramas amorosos. “Final do Jogo” possui narrativas com temáticas e estilos/gêneros literários bem variados. Por exemplo, temos aqui tramas que misturam realidade e ficção, histórias que embaralham a noção de vida normal com elementos oníricos, enredos tragicômicos ancorados em cenas banais do cotidiano, narrativas sobrenaturais/surreais e contos com pegada policial e de suspense, além, como já falei, de dramas amorosos. Em 1959, Julio Cortázar lança “As Armas Secretas” (Best Seller), sua terceira coletânea de contos. Com 160 páginas, esse livro traz cinco narrativas curtas: “Cartas de Mamãe”, “Os Bons Serviços”, “As Babas do Diabo”, “O Perseguidor” e “As Armas Secretas”. No caso de “O Perseguidor”, a história mais importante dessa obra, é possível classificá-lo como uma novela (afinal tem quase 60 páginas). A maioria das tramas de “As Armas Secretas” possui enredos fantásticos. Por isso mesmo, dá para enxergar essa coleção como sendo uma publicação do gênero Realismo Fantástico – continuação natural do que fora praticado em “Bestiário” e “Final do Jogo”. Entretanto, sob um olhar mais crítico, esse título marcou o encerramento da literatura fantástica de Cortázar. A partir desse momento, o autor argentino acrescentou doses mais elevadas de outros elementos ficcionais em seus novos livros. Dessa maneira, ficou complicado, dali em diante, chamarmos sua produção ficcional de mágica. Até havia elementos fantásticos em seus textos, mas eles não eram mais predominantes como em “Bestiário”, “Final do Jogo” e “As Armas Secretas” (trio de coletâneas que constitui a fase de Realismo Fantástico do autor). É interessante notar que a produção literária de Julio Cortázar continuou evoluindo consideravelmente. “As Armas Secretas” é uma publicação melhor do que “Final do Jogo”, que havia suplantado “Bestiário”. Para completar, o novo título ainda trouxe algumas novidades de ordem estilística (que já vamos explicar a seguir). Não por acaso, esse livro foi muito elogiado na Argentina e aumentou a fama de seu autor junto ao público de intelectuais de Buenos Aires. Até hoje, “As Armas Secretas” tem alguns dos contos mais famosos de Cortázar. Podemos citar como exemplares de textos memoráveis dessa coletânea “As Babas do Diabo” (mais tarde adaptado para o cinema por Michelangelo Antonini), “Cartas de Mamãe”, “As Armas Secretas” (conto que transmitiu seu título ao nome da coleção) e “Perseguidor”. “Perseguidor” é considerado por muita gente (e até pelo próprio escritor argentino) como o melhor texto literário de Julio Cortázar até ali. Foi essa narrativa justamente a responsável por decretar o fim da fase fantástica do autor. Com inclinação evidentemente existencialista (extraída das angústias e reflexões mais íntimas de Julio) e com forte componente de crítica político-social (agora sim intencional e não produto da interpretação do leitor, como no conto “Casa Tomada”), o enredo de “Perseguidor” apresenta o drama de um homem amargurado, melancólico e que não se encaixa nas convenções sociais em voga. Não por acaso, essa é a linha narrativa que Cortázar iria seguir na década seguinte, tanto em seus romances quanto em suas coletâneas de contos. Por falar nisso, “Os Prêmios” (Civilização Brasileira) é o primeiro romance de Cortázar. Essa obra foi publicada em 1960, na Argentina, pela Editorial Sudamericana. Nesse livro, assistimos a uma intrigante sátira que usa o contexto político-social argentino do final dos anos 1950 (que pode muito bem ser exportada para a realidade brasileira dos dias atuais). Esse período foi marcado pela queda do Peronismo (de viés nitidamente esquerdista) e pelo triunfo de Arturo Frondizi (de propostas claramente direitistas). Além do texto engajado (obviamente, trata-se de uma narrativa alegórica), Julio Cortázar acrescentou doses generosas de Surrealismo, de reflexões existencialistas, de thriller policial e de dramas pessoais. Por isso, enxergo esse título mais como um exemplar da literatura filosófica ou da literatura surrealista do que como um integrante da literatura fantástica. Até há elementos mágicos no romance, mas eles estão em menor quantidade e em menor intensidade do que os componentes existencialistas e surrealistas). O resultado de “Os Prêmios” é muito positivo. A partir de um enredo simples (grupo de vencedores da loteria ganha como premiação a participação em um cruzeiro transatlântico, mas a viagem se mostra tragicômica – eles sofrem a bordo da privação das liberdades individuais, são alvos da disseminação de notícias falsas, são vítimas da insensibilidade dos poderosos e assistem à eclosão de uma revolta contra a tripulação) e com uma estrutura narrativa de características tradicionais (não há as maluquices que Cortázar iria praticar dali para frente), esse livro permite uma leitura prazerosa e polissêmica, apesar do ritmo um tanto lento. Não à toa, esse é o meu romance favorito de Cortázar (prefiro muuuito mais “Os Prêmios” a “O Jogo da Amarelinha” e “62 Modelo para Armar”). Como todo bom texto com engajamento político, “Os Prêmios” dividiu as opiniões da crítica literária portenha. Há quem tenha adorado o romance e há quem o tenha detestado. Curiosamente, Julio Cortázar afirmou, mais tarde, que sua intenção era produzir um livro com pegada surrealista e existencialista e não uma obra com viés político-ideológico (crítica à atuação dos militares e à instalação da ditadura na Argentina). Será mesmo?! Duvido. Vivendo há quase uma década no exterior, o autor conseguia enxergar com mais nitidez os problemas de seu país e, evidentemente, não concordava com a postura equivocada de muitos dos seus compatriotas (que apoiavam o regime de governo autoritário, repressor e excludente). Além disso, ele estava cada vez mais engajado com as questões político-ideológicas do seu tempo – leia, Guerra Fria. Um bom exemplo foi sua admiração incontida pela Revolução Cubana por muitos e muitos anos. Essa aproximação com o regime castrista e com os intelectuais cubanos transformou Julio Cortázar, anos mais tarde, em um dos principais propagandistas na Europa e na Argentina da Revolução Socialista em Cuba. De certa maneira, esse foi o encontro do escritor com os valores esquerdistas já que quinze anos antes ele havia se oposto ferrenhamente ao peronismo. Com uma maior preocupação social e uma forte inclinação ideológica, Julio Cortázar visitou duas vezes Havana, em 1961 e 1963, e, em 1970, declarou apoio ao governo de Salvador Allende no Chile. Com esse histórico de Cortázar, é possível “Os Prêmios” não ter sido escrito com propostas tão políticas? Se considerarmos que o romance foi produzido no final dos anos 1950, período em que as inclinações ideológicas do autor não tinham sido afloradas, é muito provável que Julio Cortázar tenha falado a verdade quando disse que não era sua intenção produzir um livro a partir da perspectiva política. Por outro lado, talvez ele tivesse com esse tema em seu subconsciente e o expôs sem perceber (comentário meu que é um prato cheio para as discussões dos psicólogos, né?). Prova disso é que mais tarde ele iria mergulhar de cabeça no panorama social e nas intrigas geopolíticas da América Latina. De qualquer maneira, o que interessa é o valor literário dessa obra. E “Os Prêmios”, como já disse, é excelente. Sua história começou a ser escrita em uma viagem marítima de Julio Cortázar pela América do Sul (lembremos que ele viajava de férias para cá a cada dois anos). Entre o finalzinho de 1958 e o início de 1959, o escritor e sua mulher regressaram à Buenos Aires para rever os amigos e os familiares. Aí aproveitaram para realizar um cruzeiro pelo litoral argentino, uruguaio e brasileiro. Enquanto os demais passageiros aproveitavam as atrações em alto-mar, Cortázar se trancou na cabine e produziu os primeiros capítulos de “Os Prêmios”. Só depois de retornar para Paris, ele finalizou a história. Com 432 páginas, “Os Prêmios” possui cinco partes (“Prólogo”, “Primeiro Dia”, “Segundo Dia”, “Terceiro Dia” e “Epílogo”) e tem 54 capítulos. O enredo desse título inicia-se no London, um café-bar de Buenos Aires. Os vencedores da loteria e seus respectivos acompanhantes se reúnem no estabelecimento pois dali serão levados para a embarcação. Como prêmio da Loteria Turística, eles ganharam uma viagem de navio com tudo pago. Porém, ninguém sabe exatamente para onde o cruzeiro seguirá nem os detalhes da viagem. A única coisa que sabem é que a jornada marítima irá durar entre três e quatro meses, fato que deixa todos empolgados. A partir do café, o grupo é levado por uma escolta policial até o Malcolm, o navio contratado para operar o cruzeiro e que está atracado no porto. Os sortudos sobem a bordo e a viagem começa. Uma vez iniciado o cruzeiro, os passageiros notam uma série de acontecimentos bizarros. O capitão da embarcação não se apresenta ao grupo. Não é servida nenhuma refeição na primeira noite. Os turistas não podem circular livremente pelo Malcolm (a popa do navio é território exclusivo da tripulação). Os poucos funcionários à disposição não falam espanhol. E, o que aumenta ainda mais a preocupação de todos, os detalhes da viagem e do itinerário não são revelados. Por causa das incontáveis esquisitices ocorridas no Malcolm, o grupo de passageiros se divide. Há quem queira confrontar o capitão da embarcação e os tripulantes, exigindo respostas objetivas e melhores condições de estadia. E há quem queira simplesmente aproveitar a viagem e as atrações disponíveis, esquecendo-se dos inconvenientes e da postura pouco usual dos funcionários do navio. A partir daí, a viagem se transformará em uma trama surrealista. Além das intrigas entre os dois grupos de premiados da loteria (que podemos chamar de progressistas e de conservadores) e do choque entre passageiros e tripulação (que podemos chamar de oprimidos e de opressores), o romance apresentará os conflitos pessoais dos passageiros: amores, traições, inveja, desavenças familiares, descobertas sexuais etc. Como alegoria política, “Os Prêmios” é um livro impecável. A única parte que não gostei foi dos capítulos em letras (a obra é dividida em capítulos numéricos, com a trama tradicional, e os capítulos em letras, com as reflexões filosóficas de uma das personagens). Nessa parte, temos um texto hermético, de linguagem erudita e com muitos devaneios oníricos e filosóficos. Simplesmente não entendi muita coisa dessa seção (para ser franco, não entendi absolutamente nada!). Seria esse fragmento o pontapé inicial das experimentações narrativas que Julio Cortázar faria dali para frente?! Acho que sim. Antes de falarmos dessa fase mais experimental da literatura cortaziana, é legal pontuar uma questão relevante da vida pessoal do autor que, queiramos ou não, acabou refletindo em sua produção ficcional. Os anos 1960 foram marcados por uma maior fartura financeira na casa de Julio e Aurora. Os tempos de orçamento doméstico apertado e de dificuldades para pagar as contas ficaram definitivamente para trás. Trabalhando na Unesco e com serviços de tradução rentáveis (realizados para importantes editoras latino-americanas), Cortázar começou a ganhar satisfatoriamente bem. O salário de Aurora Bernárdez também cresceu. Assim, o casal comprou, no início dos anos 1960, um apartamento velho e grande em um bairro tranquilo e de classe média em Paris. Após uma profunda reforma, a residência se tornou confortável. Com mais espaço em casa, Julio construiu um escritório para si no apartamento e ali pôde se dedicar com mais afinco à sua produção literária. Se você ainda não dá o devido valor para um espaço particular a quem pratica o ofício da escrita criativa, sugiro ler “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), o brilhante ensaio de Virginia Woolf de 1928. Nessa obra, a romancista inglesa expõe por A mais B a importância de um cantinho próprio para os escritores (além da importância de certa estabilidade financeira, algo que Cortázar também adquiriu nesse período). Acredito que o escritório próprio (e a vida sem tantas limitações financeiras) tenha influenciado consideravelmente o trabalho ficcional de Cortázar. Não por acaso, nos anos seguintes, ele lançou livros quase que anualmente. Trata-se de um ritmo muito mais intenso do que o praticado nos anos anteriores. Está duvidando de mim? Então veja os seguintes dados: nos anos 1930, o autor argentino publicou um livro; nos anos 1940, teve uma obra lançada; e nos anos 1950, foram três publicações. Aí, nos anos 1960 (com o escritório privado em casa e alguma reserva monetária), Julio Cortázar teve sete títulos publicados. Essa quantidade supera o acumulado nas três décadas anteriores. Até aqui podemos dizer que o trabalho ficcional de Julio Cortázar se manteve mais ou menos comportado. Seu romance de estreia (“Os Prêmios”) e suas três coletâneas de contos fantásticos (“Bestiário”, “Final do Jogo” e “As Armas Secretas”) apresentaram narrativas interessantes e originais, mas não romperam com a lógica das estruturas convencionais da literatura. A proposta mais ousada e disruptiva de Cortázar só surgiria a partir de agora. Publicado em 1962, “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller) é a obra que inaugura essa nova fase do escritor. Ele é também o livro mais amalucado (e, portanto, polêmico) de Julio Cortázar. Esse título abre o período de maior radicalismo narrativo do argentino, que perduraria até o final daquela década. Com 144 páginas e 67 microcontos divididos em quatro partes (“Manual de Instruções”, “Estranhas Ocupações”, “Matéria Plástica” e “Histórias de Cronópios e de Famas”), “Histórias de Cronópios e de Famas” potencializou o humor nonsense do autor e criou um universo ficcional particular com seres próprios (os cronópios, os famas e os esperanças), obviamente alegorias de tipos sociais. Além disso, é inegável a ousadia de Cortázar em explorar as micronarrativas, um gênero textual até então pouco difundido na literatura comercial, e atrelá-las às reflexões filosóficas (do tipo existencialista) e às críticas político-sociais (agora sim intencionais!). Qual foi o resultado objetivo de tanta inovação, hein?! Os críticos literários da Argentina caíram matando na obra. Eles foram categóricos e impiedosos em apontar “Histórias de Cronópios e de Famas” como um exemplar de péssima qualidade literária, algo incompatível com o potencial artístico de seu autor, que tantos admiradores havia deixado em Buenos Aires. Não é errado dizer que Julio Cortázar foi avacalhado pela crítica literária em seu país na época do lançamento desse livro. Somente mais tarde, após a publicação de “O Jogo da Amarelinha”, obra-prima da literatura latino-americana, e com a consolidação da carreira de Cortázar tanto nacional quanto internacionalmente, “Histórias de Cronópios e de Famas” começou a receber os primeiros elogios. No começo, as críticas positivas foram mais tímidas, mas hoje em dia há quem veja (acredite se quiser!!!) grandes qualidades ficcionais nesse livro (ai, ai, ai). Produzido em Roma e em Paris entre 1952 e 1959, “Histórias de Cronópios e de Famas” foi lançado, na Argentina, pela Editorial Minotauro, na época uma pequena editora especializada em obras fantásticas e de ficção científica. Isso ocorreu porque a Editorial Suldamericana, editora principal de Julio Cortázar, não quis publicar esse livro. Não é preciso ser muito entendido em literatura para perceber que a Sudamericana agiu corretamente. Se fosse você ou tivesse sido eu os autores dos textos de “Histórias de Cronópios e de Famas”, na certa teríamos sido taxados de escritores péssimos, amadores e/ou zombeteiros. Se apresentássemos essa mesma coletânea em qualquer oficina literária no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na Europa ou em Marte, nossos colegas nos execrariam pelo restante de nossas vidas. Porém, como foi Julio Cortázar quem escreveu essas histórias, atualmente há quem veja esse livro como brilhante. Vai entender a mente humana, né? Para mim, essa publicação não passou de uma grande brincadeira de Cortázar. Se você ler “Histórias de Cronópios e de Famas” com olhos mais brincalhões e irônicos, conseguirá achar muita graça em suas páginas (e verá algum valor na obra como um todo). Se você o ler com uma visão mais séria e sisuda, na certa atirará o livro pela janela antes de chegar à metade de seu conteúdo (e não conseguirá ver qualquer valor literário nas tramas). Por isso, não concordo com os lados extremos das avaliações de “Histórias de Cronópios e de Famas”. Não estamos diante de uma coletânea de contos péssima (por mais que pareça em um primeiro olhar), mas também não estamos diante de uma obra-prima da literatura argentina e mundial (por mais que os apaixonados pela ficção de Cortázar insistam em enxergar o livro dessa maneira). Uma análise concreta e imparcial dirá que “Histórias de Cronópios e de Famas” é um título com muitos altos e baixos. Há microcontos interessantes, com algum valor literário, mas há também microcontos péssimos, sem qualquer relevância ficcional. É complicado, por exemplo, aceitar alguns textos da primeira parte, “Manual de Instruções”. Nesses capítulos/narrativas, acompanhamos as descrições pormenorizadas de hábitos banais que as pessoas fazem instintivamente no dia a dia. Mesmo assim, Cortázar explica detalhadamente como devemos subir as escadas, como devemos fazer para chorar, como cantar de forma correta, como fazemos para sentir medo... A ideia pode até ter sido interessante, mas sua execução não foi. Também achei muita viagem o texto da maioria das narrativas da quarta seção, “Histórias de Cronópios e de Famas” (que tem o mesmo nome da coletânea). Novamente, a ideia por trás das alegorias sociais foi ótima. O problema, outra vez, foi a execução. Não consegui sacar a maioria das ironias e críticas do autor. Por outro lado, há algumas histórias excelentes na segunda e na terceira partes, respectivamente “Estranhas Ocupações” e “Matéria Plástica”. Paradoxalmente, essas seções são as mais tradicionais do livro e, por isso, são as menos comentadas atualmente. Meus microcontos favoritos de “Histórias de Cronópios e de Famas” são: “Tia em Dificuldades”, “Possibilidades da Abstração”, “História Verídica”, “Tema Para Uma Tapeçaria”, “Camelo Declarado Indesejável” e “Fábula Sem Moral”. Sem se incomodar com as fortes críticas negativas recebidas com “Histórias de Cronópios e de Famas”, Julio Cortázar publicou no ano seguinte, em 1963, “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), seu segundo romance (e sua oitava obra autoral). Se você pensa que o escritor argentino diminuiu suas invencionices narrativas só porque elas não foram compreendidas pelo público, saiba que você está redondamente enganado(a). “O Jogo da Amarelinha” foi concebido para implodir boa parte das estruturas convencionais do romance e para subverter a lógica da linguagem literária. Ou seja, estamos falando de um livro ainda mais revolucionário do que o anterior. O próprio Cortázar reconheceu essa intenção. Em sua correspondência, ele afirmou, enquanto produzia a obra, que sua nova narrativa seria uma fábula metafórica que deveria ser vista como uma mandala labiríntica em busca da essência humana. Eita papo-cabeça esse, meu Deus!!! Se você não entendeu nada até aqui, leia ao livro – você entenderá menos ainda (brincadeirinha!). Se pensarmos bem, “O Jogo da Amarelinha” tinha tudo para ser outra publicação execrada de Julio Cortázar. Em minha visão, a maioria do público e da crítica literária certamente teceria críticas negativas sobre esse livro, um exemplar típico da literatura não comercial. Com uma estrutura caótica, com um ritmo narrativo lento, com uma trama sem um conflito aparente, com discursos extremamente filosóficos e uma linguagem por vezes hermética, esse título é um desafio até para os leitores mais experientes. Confesso que sofri muito durante essa leitura. Contudo, para minha surpresa (e geral da nação), “O Jogo da Amarelinha” se transformou em um sucesso imediato de público e de crítica. Acredite se quiser: ele se tornou um best-seller na Argentina tão logo chegou às livrarias. Nesse momento, o status de Cortázar como escritor mudou completamente. Se até aqui ele era conhecido apenas pelos intelectuais portenhos e pelos fãs das revistas literárias de Buenos Aires, depois da publicação de “O Jogo da Amarelinha” Julio virou um nome conhecidíssimo do grande público leitor da Argentina. Além disso, se antes o autor era visto como um artista polêmico, às vezes indecifrável, adepto das tramas fantásticas e profundamente experimental, agora ele se transformava em um autor maduro e com uma rica caixa de ferramentas literárias. Surgia, dessa maneira, a imagem de grande e talentoso escritor que perdura até os dias atuais. É preciso dizer que “O Jogo da Amarelinha” é uma obra-prima da cultura argentina, da ficção latino-americana e da literatura mundial. Para a crítica literária, esse livro figura ao lado de “Cem Anos de Solidão” (Record), o romance cultuado de Gabriel García Márquez, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Martin Claret), o título máximo de Machado de Assis, e “Ficções”, a celebrada coletânea de contos de Jorge Luis Borges, como exemplares máximos dos cânones literários do continente. O sucesso do livro na Argentina rapidamente se propagou para o mundo. Em poucos meses, “O Jogo da Amarelinha” foi lançado com êxito na Espanha e em outros países de língua espanhola (leia-se na América Latina). Em poucos anos, o romance ganhou versões em outros idiomas: francês, inglês, italiano, alemão, japonês etc. À medida que foi sendo publicada no exterior, também com repercussões comerciais e de crítica bastante positivas, a obra popularizou o nome de Cortázar como um dos escritores mais inovadores, cultos e talentosos do Realismo Fantástico, da Argentina e da América do Sul. O sucesso de “O Jogo da Amarelinha” fez movimentar a procura pelo portfólio literário de Cortázar. Se até aqui, ele havia vendido pouquíssimos livros em seu país natal e só fora comercializado para valer no México, agora seus títulos antigos se tornavam muito procurados na Argentina e traduzidos para os quatro cantos do planeta. Os olhos do público e da crítica também sofreram uma bela mutação. O que eram vistos como excentricidade e maluquices narrativas de Julio Cortázar passaram a ser enxergados como particularidades autorais, textos instigantes e linha editorial inovadora. Nada como um dia depois do outro, né? Com 592 páginas, o enredo de “O Jogo da Amarelinha” é dividido em três partes: “Do Lado de Lá” (36 capítulos), “Do Lado de Cá” (20 capítulos) e “De Outros Lados” (99 capítulos). Em “Do Lado de Lá”, acompanhamos a rotina de Horacio Oliveira, o protagonista (uma espécie de anti-herói moderno), em Paris. Intelectual argentino que se mudara há anos para a França, Oliveira vive com Lucía (chamada de Maga), sua namorada uruguaia, em um pequeno apartamento parisiense. A moça tem um filho ainda bebê, Carlos Francisco (chamado de Rocamadour), para desespero de Oliveira que não suporta os choros da criança (ele não é o pai de Rocamadour!). Com a relação já desgastada com Maga, Horacio Oliveira tem uma amante, Pola. A relação extraconjugal é de conhecimento de todos, até de Maga, que parece não se importar muito com as puladas de cerca do namorado. A preocupação imediata da moça é cuidar do filho e evitar as investidas afetivo-sexuais de Ossip Gregorovius, um dos melhores amigos de Oliveira. Para Gregorovius, se o namorado de Maga tem uma amante, ela também pode ter um affair. Sem emprego, com uma relação conjugal em franca deterioração e sem um lar estruturado, Horacio Oliveira passa os dias fumando, bebendo, caminhando pela cidade, divagando sobre questões existencialistas com os amigos, flertando com algumas mulheres que o atraem e observando o comportamento cada vez mais suspeito de Gregorovius e Maga. A impressão é que ele procura algo que nem mesmo ele sabe explicar o que é. Em “Do Lado de Cá”, a trama do livro se passa em Buenos Aires. Oliveira retornou para seu país e vive agora na casa ao lado de Manuel Traveler, um antigo amigo de juventude. Enquanto Traveler é casado com Atalía Donosi de Traveler (Talita é seu apelido), Horacio Oliveira vive com a noiva Gekrepten. O protagonista terminou o relacionamento com Maga quando deixou a Europa e logo engatou o noivado com a antiga namorada que ele tivera antes da mudança para a França. Porém, Horacio se sente cada vez mais atraído por Talita, que o faz lembrar muito da antiga namorada uruguaia. As intenções afetivas do amigo logo chamam a atenção de Traveler. Ao invés de dar um basta nas intenções de Oliveira com sua mulher, Manuel Traveler apenas observa os desdobramentos. Por fim, “De Outros Lados”, a terceira e última seção do livro, acompanhamos uma coleção de textos aparentemente avulsos. Aqui a narrativa de Cortázar volta tanto para a primeira parte quanto apresenta o desfecho da segunda parte. Além disso, “De Outros Lados” dá voz a Morelli, uma personagem até então coadjuvante em “Do Lado de Lá”. O escritor fictício que apareceu pontualmente nos capítulos iniciais do romance fala sobre suas obras e tece avaliações literárias e filosóficas. Não por acaso, esse é o trecho mais difícil da obra de Cortázar. É preciso identificar em qual parte da narrativa o texto se refere e quem está relatando/opinando. “O Jogo da Amarelinha” é um drama existencialista com pegada surrealista. Notam-se o forte simbolismo das cenas e das atitudes das personagens (muita coisa é dita indiretamente, bem sutilmente) e o caráter metalinguístico da narrativa (a proposta é questionar formal e conceitualmente as bases estruturantes dos romances e da literatura como um todo). Além disso, o livro traz a mistura intensa de vozes (inclusive mudança de tipo de narrador – primeira pessoa e terceira pessoa) e de realidades (mergulho no universo onírico, no mundo imaginativo, nos pensamentos, nos sentimentos e nas lembranças das personagens). O leitor precisa promover uma leitura atenta e intensa para compreender quem está falando e o quê e quando está sendo dito. A sensação que tive é que a leitura de “O Jogo da Amarelinha” se parece com a montagem de um quebra-cabeça. No início, você fica perdido e até desesperado por não conseguir enxergar o todo. Porém, à medida em que você vai chegando ao final do romance, você consegue vislumbrar a complexidade da narrativa e notar a beleza do enredo (apesar de sua estrutura caótica). Essa brincadeira lúdica é potencializada pela proposta que Julio Cortázar faz logo na introdução do livro. O leitor tem dois caminhos narrativos a seguir: ler a obra conforme a ordem de capítulos apresentada inicialmente ou ler a ordem alternativa rascunhada pelo autor. Incrível! Podemos gostar ou não de “O Jogo da Amarelinha” (esse é o típico livro que ou você ama ou você odeia – não há meio do caminho), mas não podemos renegar sua qualidade e sua importância literária. Curiosamente, um dos maiores contistas do século XX (isso é, se ele não estiver entre os principais da história) teve como obra máxima um romance. Se pensarmos bem, essa é mais uma lógica que Julio Cortázar ajudou a quebrar com seu trabalho disruptivo. Enquanto vivia as alegrias pelo sucesso profissional de “O Jogo da Amarelinha”, Cortázar se separou de Aurora Bernárdez. A relação matrimonial já vinha se desgastando desde o início dos anos 1960 e se encerrou definitivamente por volta de 1967. O autor, todavia, não ficou muito tempo sozinho. Na iminência do término do casamento, ele começou a flertar com Ugné Karveis, embaixadora lituana da Unesco que trabalhava no mercado editorial. Ugné era 22 anos mais jovem do que o argentino e antes de iniciar o namoro com Julio o conhecia apenas do ambiente de trabalho (lembremos que o escritor continuava atuando como funcionário da Unesco). Ugné Karveis e Julio Cortázar moraram juntos no apartamento dele em Paris. Apesar de nunca ter se casado oficialmente, o novo casal viveu como marido e mulher por onze anos. A segunda metade da década de 1960 foi muito produtiva para Cortázar. Além do novo relacionamento amoroso, ele lançou um livro por ano entre 1966 e 1969. Nesse período, foram publicados um romance, uma coletânea de contos e duas coleções textuais que mesclam microcontos, crônicas, poemas, ensaios e fragmentos retirados de vários lugares, além da inserção de fotografias, desenhos e gravuras. Como já deve ter transparecido na frase anterior, o escritor continuou promovendo inovações literárias em seus novos títulos. Em 1966, ainda na esteira da repercussão bombástica de “O Jogo da Amarelinha”, Julio Cortázar publicou “Todos os Fogos o Fogo” (Best Seller), sua quinta coleção de narrativas curtas (e seu nono livro no geral). Nota-se a maturidade artística do autor pela qualidade dessa obra, que para mim é seu melhor trabalho na ficção (meu livro favorito do argentino é “Os Prêmios”, mas reconheço que “Todos os Fogos o Fogo” é um título superior, muito superior). Essa publicação possui oito histórias. Algumas das tramas de “Todos os Fogos o Fogo” estão entre os clássicos da literatura em língua espanhola. “A Autoestrada do Sul” e “A Saúde dos Doentes” são simplesmente imperdíveis (estão na lista dos melhores contos que já li). “Instruções a John Howell”, “Todos os Fogos o Fogo” e “O Outro Céu” são também excelentes narrativas. Interessante notar que, nessa obra, Julio Cortázar volta a explorar mais fortemente o universo do Realismo Fantástico, algo que ele fizera na década de 1950 e que havia interrompido (um pouco) nos anos 1960 (quando caminhou com mais intensidade pelos enredos existencialistas). Além disso, o escritor argentino não exagerou tanto nas invencionices narrativas como tinha feito nas últimas duas publicações. Aqui o que vale é a qualidade da contação das histórias em si e não tanto as revoluções estéticas propostas (que muitas vezes causam mais confusão do que admiração). Assim, “Todos os Fogos o Fogo” dialoga mais com “Bestiário”, “Final do Jogo” e “As Armas Secretas” do que com “Os Prêmios”, “O Jogo da Amarelinha” e “Histórias de Cronópios e de Famas”. O que mais gostei em “Todos os Fogos o Fogo” foi a capacidade absurda que Cortázar tinha para tornar passagens banais do dia a dia em cenas fantásticas, surreais e/ou tragicômicas. Em outras palavras, ele tinha a habilidade para transformar um episódio aparentemente pequeno em algo grandioso, um flash narrativo fútil em uma coisa importante e um recorte singelo da realidade em um artigo nobre. Isso se dá porque, em um determinado ponto da narrativa, o cotidiano tranquilo e normal sai do controle e descamba para dramas estrambólicos e com finais quase sempre surpreendentes. Essas são marcas da ficção de Julio Cortázar e que nesse livro ficam mais evidentes. Outra característica forte do autor que notamos nessa coletânea de contos é o embaralhamento das diferentes noções de realidade. “Todos os Fogos o Fogo” mistura o real com a ficção, o sonho com a vida concreta, a verdade com a mentira, o universo imaginativo com o mundo efetivo e as lembranças com os acontecimentos factuais do presente. Grande parte da graça das tramas desse título está na brincadeira metafísica proposta por Cortázar, que vem aliada com muito bom humor e passagens de intensa violência. Os melhores exemplos da união dos diferentes planos da realidade estão em “Senhorita Cora” e “Todos os Fogos o Fogo” (estou agora falando apenas do conto e não do livro homônimo como um todo). Nesses dois textos, acompanhamos a mudança do narrador no meio das frases (o que provoca uma polifonia de vozes) e a exposição simultânea de fatos que ocorreram em espaços e épocas diferentes (cabendo sempre ao leitor a delimitação das diferentes partes do enredo). Em 1967, Julio Cortázar publicou no México, pela então recém-lançada Editora Siglo XXI, “A Volta ao Dia em Oitenta Mundos” (Civilização Brasileira). Esse foi o décimo trabalho ficcional do escritor argentino a ganhar as livrarias. “A Volta ao Dia em Oitenta Mundos” se tornou um grande sucesso de vendas. Essa obra só perdeu em número de exemplares comercializados para o best-seller “O Jogo da Amarelinha”. Afinal, o que esse livro tinha de tão interessante para despertar o desejo do público leitor, hein? Para começo de conversa, seu nome é simplesmente espetacular. Ele faz, obviamente, referência a “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” (Principis), clássico de Júlio Verne. Adorei essa brincadeira intertextual – eu compraria essa obra do argentino só por isso. Além disso, “A Volta ao Dia em Oitenta Mundos” é uma publicação diferentona. Esse título não pode ser classificado como uma coletânea de contos convencional. Seus textos são fragmentados, caóticos e vem misturados com imagens, recortes e poemas. O sucesso comercial de “A Volta ao Dia em Oitenta Mundos” levou Cortázar a replicar a fórmula dessa obra em “Último Round” (Civilização Brasileira), título lançado em 1969. Novamente temos aqui textos em prosa (crônicas e contos), poesia e ensaios (inclusive alguns dos mais famosos ensaios de Cortázar estão nesse livro – como aquele em que ele discorre sobre a prática da produção das narrativas curtas) mesclados com elementos não verbais (fotografias e desenhos). Também temos em “Último Round” um teor mais erótico (uma novidade na literatura de Julio Cortázar) e inserções de fragmentos anônimos (textos retirados do mundo e da imprensa). Entre “A Volta ao Dia em Oitenta Mundos” e “Último Round”, Julio Cortázar publicou seu terceiro romance, “62 Modelo para Armar” (Civilização Brasileira). Esse livro interrompeu a boa fase comercial do autor – temos aqui o fim da lua de mel com os leitores e com a crítica literária que fora iniciada com “O Jogo da Amarelinha”. Com uma trama hermética, uma narrativa que flertava com o místico e um enredo caótico, “62 Modelo para Armar” é considerado até hoje o título mais experimental de Cortázar (o que não é pouca coisa!!!). Essa obra chegou às livrarias em 1968 e foi encarada com muito ceticismo pelo público. Há quem ache essa a leitura mais difícil e tediosa do argentino. Eu discordo. Para mim, “O Jogo da Amarelinha” é uma narrativa mais complicada e muito, muito mais chata!!! A história de “62 Modelo para Armar” foi extraída de dois capítulos de “O Jogo da Amarelinha” – mais precisamente o capítulo 4, na qual se introduz o conceito filosófico do Modelo para Armar, e o capítulo 62, em que tal princípio é detalhado um pouco mais. O título da nova publicação é a junção dessas duas partes: conceito existencialista e o número da seção selecionada. Para ser mais exato em meu relato, esse romance é uma brincadeira intertextual/metalinguística com o best-seller cortazariano. Afinal, “62 Modelo para Armar” é o livro que Morelli, personagem de “O Jogo da Amarelinha” e um escritor admirado pelo protagonista e pelo seu grupo de amigos naquela obra, disse que iria escrever. Se em um romance de Cortázar Morelli faz reflexões existencialistas e apresenta a ideia conceitual de uma narrativa que desejava escrever, no romance seguinte assistimos ao texto prático que fora prometido pela personagem. Não é preciso ter lido “O Jogo da Amarelinha” para acompanhar “62 Modelo para Armar”. Porém, quem já tiver lido a obra anterior de Julio Cortázar irá se lembrar dessas referências. O enredo de “62 Modelo para Armar” pode ser dividido em três partes. Curiosamente, elas são apresentadas simultaneamente para os leitores. No primeiro fragmento narrativo, acompanhamos os dramas de Juan, um tradutor e intérprete argentino que vive na França há algum tempo. O rapaz é apaixonado por Hélène, uma jovem francesa que trabalha como anestesista em Paris e que não dá muita bola para ele. Para não ficar de mãos abanando, Juan tem uma amante dinamarquesa, Tell. A moça o acompanha na maioria das viagens internacionais e não demonstra ser apaixonada por ele. O casal está em viagem por Bruxelas. Paralelamente, Hélène, que continua trabalhando no hospital parisiense, hospeda Célia, uma estudante menor de idade, em sua casa. Essa proximidade das duas jovens irá trazer problemas para ambas. Quem é apaixonada para valer por Juan é Nicole. Aqui começa justamente a segunda parte da trama. Nicole é ilustradora e namora Marrast, um conceituado escultor francês. O casal passa uma temporada em Londres. Enquanto Marrast está obcecado por um quadro que viu no Courtauld Institute, Nicole cogita largar tudo e se declarar para o tradutor argentino. Esse conflito de interesses coloca a relação de Marrast e Nicole em xeque. A terceira parte do enredo de “62 Modelo para Armar” gira em torno de Calac e Polanca, uma dupla inseparável de amigos argentinos que vive na Europa. Eles acompanham Marrast e Nicole por Londres e passam os dias brigando um com o outro. Entre passeios furtivos pela capital inglesa e a formação de novas amizades, como a de Austin, um alaudista inglês que já integrou o grupo dos Neuróticos Anônimos, Calac e Polanca discutem os problemas sociais e políticos da Argentina e debatem questões existencialistas. O maior problema de “62 Modelo para Armar” é que Morelli, que não aparece efetivamente nas páginas do romance, mas que é seu autor intelectual (segundo a concepção ficcional de Julio Cortázar), é um artista excêntrico e um sujeito chegadinho à divagação filosófica. Ou seja, o texto desse livro acaba refletindo essas características, o que pode desesperar alguns leitores. O que torna essa leitura mais complicada é a falta de separação do seu conteúdo em partes ou em capítulos. Temos aqui um texto corrido que embaralha os diferentes enfoques do enredo (três tramas são apresentadas simultaneamente). Além disso, as várias linhas narrativas (foco narrativo, tempo narrativo e espaço narrativo, por exemplo) também vem misturadas. Oh vida, oh dia, oh azar! Muitas vezes, as mudanças de narrador (são vários e envolvem desde os protagonistas até personagens secundárias), de trama (os enredos distintos se integram de alguma forma), de locais (são basicamente três espaços geográficos – Paris, Bruxelas e Londres) e de tempo (não há determinação de quando as cenas efetivamente acontecem) se dão de uma frase à outra e no meio dos parágrafos. Quem leu os contos “Senhorita Cora” e “Todos os Fogos o Fogo”, ambos do livro “Todos os Fogos o Fogo”, irá se lembrar desse recurso. Julio Cortázar já havia explorado com sucesso essa estética caótica em suas narrativas curtas. Usá-la em um romance me pareceu um tanto excessivo (e extremamente ousado). Se eu gostei do resultado em “Todos os Fogos o Fogo”, em “62 Modelo para Armar” admito que não apreciei nem um pouco. Eita livro chato do cão, meu Deus! Para complicar ainda mais, “62 Modelo para Armar” não possui um conflito aparente. O que suas personagens querem nessa trama afinal de contas?! Sinceramente, não sei. A frustração sentimental parece ser o único aspecto integrador das diferentes histórias e das várias figuras retratadas. Além disso, esse romance tem narrativa lenta (os leitores mais ansiosos vão sofrer muito), mistura de diferentes planos da realidade (cabendo a quem lê a obra a distinção do que é real, fictício, onírico, imaginativo...), expõe longas partes reflexivas (capaz de tirar do sério até mesmo as almas mais calmas), intercala textos em vários idiomas (inglês e francês por exemplo) e apresenta diferentes registros do discurso (cada página tem um registro distinto dos diálogos). Como disse, não temos aqui uma experiência literária das mais tranquilas e das mais agradáveis. “62 Modelo para Armar” pode ser caracterizado como uma publicação surrealista e existencialista. Pela perspectiva do Realismo Fantástico, esse livro quase não tem componentes mágicos, principalmente se for comparado a “Bestiário”, “Final do Jogo”, “As Armas Secretas” e “Todos os Fogos o Fogo”, esses sim títulos genuinamente fantásticos. Concluída a análise da ficção de Julio Cortázar, encerramos hoje a sétima temporada do Desafio Literário. Se você curte pra valer o melhor da literatura nacional e internacional, não fique chateado(a). No ano que vem, mais precisamente em abril, o Bonas Histórias retornará com o estudo dos principais escritores de ontem e de hoje. Até lá, o blog se dedicará apenas as análises de obras individuais – devidamente registradas nos posts da coluna Livros – Crítica Literária. Um ótimo final de ano, um excelente início de 2022 e incríveis leituras para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: José Maria

    O novo entrevistado de Darico Nobar é um dos protagonistas de Meninos Sem Pátria, o best-seller infantojuvenil de Luiz Puntel. [No canto esquerdo do palco, a banda toca Tô Voltando. A música é acompanhada com entusiasmo pelo apresentador atrás de sua mesa e pela plateia no auditório]. Vocalista: Pode ir armando o coreto/ E preparando aquele feijão preto/ Eu tô voltando/ Põe meia dúzia de Brahma pra gelar/ Muda a roupa de cama/ Eu tô voltando/ Leva o chinelo pra sala de jantar/ Que é lá mesmo que a mala eu vou largar/ Quero te abraçar/ Pode se perfumar/ Porque eu tô voltando. [Assim que o apresentador faz gesto cênico com uma das mãos, os músicos interrompem imediatamente o som]. Darico Nobar: Salve, salve, galera do Talk Show Literário! No programa de hoje, vou conversar com um jornalista que foi perseguido pela Ditadura Militar nos anos 1970. Exilado político, empreendedor no ramo da comunicação, pai de sete filhos e, claro, meu amigo há um tempão, o entrevistado dessa noite é José Maria! Vem para cá, Zé! [Senhor de cabelos anelados e brancos e com a roupa um pouco amassada entra correndo no palco enquanto o público o aplaude]. José Maria: Ricão, arrombaram o jornal! [Anuncia tão logo desaba na poltrona e afunda os dedos no cabelo, entrelaçando-os na nuca]. Darico Nobar: Essa história é velha, Zê. Tô careca de saber da invasão na redação do O Binóculo em 1970. [Tira uma parte do chapéu que está usando e mostra a ausência de cabelo]. Conte-nos alguma novidade, algo realmente novo, recente. José Maria: Não, não estou de lorota, meu amigo. Acabou de acontecer. Arrombaram mesmo o jornal. Acabei de ver. Estou vindo de lá. Darico Nobar: Arrombaram como? José Maria: Arrombaram arrombando. Arrebentaram a porta e entraram arrombando, oras! Darico Nobar: Mas e aí? Chamaram a polícia? José Maria: Polícia? [Gargalhou nervosamente]. Darico Nobar: Sim. Se roubaram é preciso chamar a polícia, não? José Maria: Como chamar a polícia, Ricão, se eles são os primeiros suspeitos?! Quebraram tudo lá dentro, mas não roubaram nada... Darico Nobar: Será que foi por causa do artigo que você publicou sobre o esquema de rachadinha no gabinete do filho do presidente? José Maria: Claro que sim. Eles já estão deixando de ameaçar e partindo para a ação... Darico Nobar: Mas estamos no século XXI! O Brasil agora é um país democrático, livre. Temos leis, Zé. Ninguém pode atacar a imprensa impunimente. José Maria: Antes, a repressão se restringia às redes sociais e no máximo às cidades pequenas do interior. Agora, lá em São Paulo e aqui no Rio de Janeiro, já estão partindo para o quebra-quebra. [A voz sai cansada, de quem entregou os pontos]. Eu tinha que publicar o artigo, não tinha? Darico Nobar: Lógico que tinha! Se você não publicasse, não seria o mesmo Zé Maria combativo e implacável que conheci lá em Canaviápolis. E se você não produzisse conteúdo investigativo, O Binóculo seria chamado de Óculos Fundo de Garrafa. José Maria: Quem ia gostar muito disso é o Trutinha. Darico Nobar: O dono daquela rádio chapa-branca?! Pois eu prefiro O Binóculo assim capengando, cheio de dívidas, mas denunciando as injustiças, o desmatamento, a corrupção, as safadezas dos políticos e dos militares... José Maria: Agora entendo o que o Robertinho queria dizer outro dia com aquela prosa fiada. Era o cabo Cirilo mandando me avisar... Darico Nobar: O cabo Cirilo? Aquele mesmo?! [Entrevistado balança a cabeça em sinal de aprovação]. Mas ele não tinha ido para a reserva, voltado a viver em Campinas. José Maria: O presidente nomeou-o Secretário Especial da Comunicação do Ministério da Justiça. Voltou a trabalhar em Brasília e está cheio de prosa. Manda prender e soltar como antigamente. Ele é o terror dos jornalistas de oposição. Darico Nobar: Mas o cabo não pode ameaçar ninguém, Zé? José Maria: Agora eles podem tudo, meu amigo! Com esse monte de medidas provisórias e com a ingerência na Polícia Federal, não há mais garantia para nenhum cidadão. Para que alguém seja cancelado, basta um telefonema de Brasília, basta que apontem o dedo na direção de alguém, e pronto! Isto não sai com estardalhaço na grande mídia, mas estou sabendo que a situação está ficando insustentável. Muitos colegas jornalistas estão sendo literalmente caçados. É a volta do pesadelo. Darico Nobar: E o que você vai fazer? José Maria: Ainda não sei. [O tom é de desanimação]. Darico Nobar: Vale a pena tanto sacrifício pessoal e familiar em nome do jornalismo sério e imparcial? José Maria: A gente assume certas posições na vida e isso às vezes traz dissabores... Darico Nobar: Não vai me dizer que você se culpa por não ter feito coluna social no O Binóculo! José Maria: Se eu ficasse falando dos bacanas de Canaviápolis como o cabo Cirilo queria, nós não teríamos passado por tudo isso novamente. [Coloca a mão na cabeça]. Darico Nobar: O que é isso, Zé?! E com que cara você, sua família e seus amigos iam olhar para frente, hein? Você quer saber o que penso de você? José Maria: Quero. Diga! Darico Nobar: Para mim, você sempre foi um baita homem, foi macho a vida toda. [Morde os lábios tentando não se emocionar]. Denunciar gente perigosa e desumana mesmo sob ameaças e terrorismo não é para qualquer um. José Maria: Verdade, Daricão? Darico Nobar: Palavra de jornalista. José Maria: Então, me dá um abraço forte... [Os amigos se abraçam]. E eu pensando que você ia me entrevistar. Este seu programa está mais para bate-papo de compadres. Darico Nobar: Já que estamos em clima de conversa informal, diga-me o que o Marcão anda fazendo? Faz tanto tempo que não vejo meu afilhado. José Maria: O Marcão continua morando em Paris. Ele trabalha como correspondente internacional para alguns veículos de imprensa daqui e tem uma coluna no site do Le Monde em que trata da política brasileira. Darico Nobar: Tal pai, tal filho. José Maria: Acho que sim. [Solta uma gargalhada satisfeita]. Darico Nobar: E o menino dele, está bem? José Maria: Está sim. E a Claire está grávida de novo. Parece que agora vem, enfim, uma menina. Darico Nobar: Meus parabéns, Zé! Mais um netinho. Ou melhor, netinha. Eu já perdi a conta. Esse é o terceiro ou quarto neto? José Maria: Quinto. O Marcão tem um, o Ricardo tem dois e a Nicole tem um também. Só o Pablo que não tem nenhum, você sabe. Mas eles estão pensando em adotar. Darico Nobar: Fico imaginando a expectativa da Terezinha com a chegada da primeira netinha. Ela deve estar subindo nas paredes de ansiedade. José Maria: Engraçada como é a vida, né, Ricão! A Tererê botou na cabeça que tem que ir para a França para acompanhar o final da gravidez da Claire. Quer estar lá quando a menina nascer. Está toda preocupada. Depois que soube que é uma menina, está toda empolgada com a gravidez da nora. Darico Nobar: E por que você não aproveita e viaja também? Do jeito que você está trabalhando, pegar uns dias de folga seria bom. José Maria: Você falou igualzinho a Tererê. Se a coisa piorar, talvez eu precise ir mesmo... Aí não será por vontade própria, sabe? Será necessidade mesmo. E a mala terá que ser um pouco maior. Por falar nisso, você ainda tem aquele apartamento em Sceaux? Darico Nobar: Tenho. Inclusive, se eu não estiver enganado, ele está desocupado. Se vocês precisarem dele novamente, é só pedir. José Maria: Muito obrigado. É bom saber que podemos contar com sua ajuda. Darico Nobar: Claro, Zé. Fique à vontade para pedir. Mas você acha que a coisa pode piorar ainda mais no Brasil? Digo: para vocês jornalistas independentes que têm uma linha editorial mais crítica e atuante? José Maria: Não sei, mas pelo tom que a banda está tocando, não me admiraria se a música desafinasse e eu tivesse que outra vez sair correndo para o aeroporto. Outro dia mesmo, a Tererê me pegou remexendo nas velhas malas de viagem. Eu só queria ver o estado delas, se ainda aguentam o tranco. A Tererê não disse nada, só ficou me olhando. Acho que ela percebeu alguma coisa, só não quis me dizer. A vontade dela de ver o Marcão e a Claire surgiu depois disso. Agora não sei se ela está querendo ficar um tempo longe dessa confusão ou se está mesmo interessada no nascimento da netinha. Darico Nobar: Vamos torcer para Brasília acalmar, né? Esse negócio de exílio, perseguição política e ataque à imprensa faz parte do passado. O Brasil é agora um... [A transmissão do Talk Show Literário é misteriosamente interrompida. A tela fica escura e sem som por cerca de cinco minutos. Após o apagão, a programação da emissora retorna no começo da atração seguinte: um filme bíblico]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em maio e junho de 2022

    Confira as 140 principais obras de ficção e de poesia que foram publicadas no Brasil nesse terceiro bimestre. Como diria Januário de Oliveira: é disso que o povo gosta! Ao menos o povinho das letras, né? Aquela gente que, como eu, se amarra no melhor da literatura brasileira e da literatura internacional. Seguindo a tradição da coluna Mercado Editorial, trago hoje os principais lançamentos da ficção e da poesia que chegaram às livrarias do Brasil em maio e junho de 2022. Nesse meu último levantamento bimestral, foram mapeados 140 livros entre títulos recém-publicados e obras republicadas. Como é inviável comentar detalhadamente todos os lançamentos nesse post do Bonas Histórias, selecionei 10 títulos para debater minimamente antes de apresentar a listagem completa de novas publicações. Assim, acredito passar um pouco do panorama atual do mercado editorial brasileiro, que continua agitadíssimo. Começamos nosso enfoque desse bimestre pelos romances brasileiros. Sim, vai sair o primeiro carreto da noite... As três boas novas nessa área são “Beatriz e o Poeta” (Todavia), o mais recente trabalho literário de Cristovão Tezza, “Solitária” (Companhia das Letras), o quarto livro de Eliana Alves Cruz, e “A Falta” (Tusquets), trama ficcional de Xico Sá ambientada durante um jogo de futebol. Curiosamente, esse trio de publicações apresenta, cada um à sua maneira, os conflitos sociais, políticos, raciais, econômicos e culturais que o Brasil enfrenta como nação no início da terceira década do século XXI. Através dos dramas particulares dos protagonistas dessas obras, assistimos direta ou indiretamente ao caminhar trôpego do nosso país. Cristovão Tezza continua lançando novas narrativas longas a cada dois anos. Seus últimos romances foram “A Tirania do Amor” (Todavia), de 2018, e “A Tensão Superficial do Tempo” (Todavia), de 2020. Em “Beatriz e o Poeta”, o escritor catarinense mergulha na terrível realidade brasileira contemporânea que tem a pandemia do novo coronavírus e os desmandos políticos em Brasília como cenário. A história é contada por duas personagens: a tradutora Beatriz e o poeta Gabriel. A aproximação afetiva do casal é cercada de dúvidas e incertezas, por mais que as afinidades literárias sejam evidentes logo de cara. Eliana Alves Cruz também se utiliza do complicado contexto nacional para compor suas obras. Depois dos excelentes “Água de Barrela” (Malê), de 2016, “O Crime do Cais do Valongo” (Malê), de 2018, e “Nada Digo de Ti, que em Ti Não Veja” (Pallas), de 2020, a autora carioca chega agora com um título capaz de se tornar um best-seller. Em “Solitária”, assistimos ao drama de Eunice e Mabel. Mãe e filha trabalham como empregadas domésticas em um condomínio de luxo. E elas são as principais testemunhas de um crime terrível ocorrido justamente na residência dos patrões. Tá lá um corpo estendido no chão! Em “A Falta”, Xico Sá une duas de suas grandes paixões: futebol e literatura. Nesse belo drama psicológico, o escritor e jornalista cearense narra as angústias de um goleiro veterano. Depois de viver muitos anos na Europa, o protagonista do romance retorna para o Brasil para encerrar a carreira em grande estilo. O problema é que ele não se sente mais como um brasileiro. As memórias e os sofrimentos mais íntimos do camisa 1 vem à tona justamente no meio de uma partida de futebol. Pega, não larga mais, não dá rebote pra ninguém! Já que estamos tratando de literatura brasileira, vou comentar de reboque um lançamento da literatura infantojuvenil e uma novíssima obra poética. “Contos da Toca” (Globinho) é a boa parceria da escritora Índigo com o ilustrador Laerte no universo infantil. E “Querido Coração” (Planeta) é a mais recente antologia de poemas de Pedro Salomão. Nos versos desse livro, o poeta troca correspondências com suas emoções. Em “Contos da Toca”, acompanhamos o dia a dia de vários bichos durante a quarentena do novo coronavírus. Enquanto os humanos precisaram ficar presos dentro de casa a partir de março de 2020, os animais se viram livres para ocupar a natureza como há muito tempo não podiam. A libertação dos bichos é contada de maneira poética e bela nos textos de Índigo e nos desenhos de Laerte. Vale a pena conferir essa saída da toca da bicharada. Pintou em cores vivas! Por sua vez, Pedro Salomão se propõe a conversar com seus sentimentos em “Querido Coração”. O escritor-poeta envia cartas para seu coração debatendo cada uma das emoções vivenciadas, sejam elas alegres ou tristes. Nesse diálogo franco e direto, é possível acompanharmos a essência da alma humana. Já que estamos falando de poesia, vamos dar um pulinho na prateleira da poesia internacional. A boa nova nesse canto das livrarias é “Receitas de Inverno da Comunidade” (Companhia das Letras), a mais recente publicação de Louise Glück. Esse é justamente o primeiro trabalho da poetisa norte-americana após ser laureada com o Prêmio Nobel de Literatura. Os 15 poemas de “Receitas de Inverno da Comunidade” mostram o talento literário de Glück e a vulnerabilidade de alguém que vivencia o processo de envelhecimento. Já que aportamos na literatura internacional, continuemos por terras estrangeiras, né? Os romances gringos que mais chamaram minha atenção em maio e junho de 2022 foram “O Plantador de Abóboras” (Todavia), do timorense Luís Cardoso, e “Os Abismos” (Intrínseca), da colombiana Pilar Quintana. “O Plantador de Abóboras” conquistou, em dezembro, o Prêmio Oceanos de 2021, uma das principais honrarias literárias em língua portuguesa. A nova obra de Luís Cardoso se destaca pela vertiginosa narrativa (quase que um fluxo de consciência) e pela linguagem poética. Nas páginas dessa publicação, assistimos ao relato de uma timorense que aguarda por duas décadas o retorno para casa do noivo. Enquanto descreve seus dramas afetivo-pessoais, a narradora-protagonista conta a história da ocupação do Timor pela Indonésia. Cruel, muito cruel... Já “Os Abismos” é o mais recente título de Pilar Quintana, uma das mais originais e contundentes vozes literárias da Colômbia na atualidade. Esse romance é narrado por Cláudia, uma menina que vive com os pais em Cáli. O ambiente doméstico é marcado por uma forte dicotomia. Enquanto tudo parece em ordem (nada fica fora do lugar naquele lar), as relações familiares começam a degringolar. A iminente separação dos pais é vista por um jeito peculiar pela criança. Ora ingênua e sonhadora, ora prática e realista, a visão de mundo de Cláudia revela surpresas e belezas para os leitores de Quintana. Para não dizerem que me esqueci das narrativas curtas, trouxe dois bons títulos nessa seara. Meus destaques do terceiro bimestre de 2022 vão para “A Consulta” (Fósforo), novela de estreia da alemã Katharina Volckmer, e “A Verdade e a Vertigem” (Emporium), nova coletânea de contos do português José Vieira. Não é errado dizer que esses dois livros são pequenas obras-primas da literatura internacional. Em “A Consulta”, Katharina Volckmer apresenta o drama ácido e surpreendente de uma jovem alemã que vive há anos em Londres. A narradora-protagonista está no consultório do Dr. Seligman e passa por um delicado procedimento médico. Enquanto está com as pernas para o alto no centro cirúrgico, a moça reflete sobre sua vida e seus desejos. De certa forma, os conflitos de natureza sexual, de identidade de gênero e de nacionalidade a levaram a recorrer ao trabalho do Dr. Seligman. Se prepare para embarcar em um suspense de tirar o fôlego. Sinistro, muito sinistro... “A Verdade e a Vertigem” é o oitavo livro e a quarta coleção de contos de José Vieira, pseudônimo de Teresa Vieira Lobo, jovem escritora da Ilha da Madeira. Para mim, esse é o seu melhor trabalho até aqui. Nas páginas de “A Verdade e a Vertigem”, acompanhamos 25 pequenos contos (alguns podem ser classificados como minicontos pois possuem apenas alguns parágrafos de extensão) sobre os mais diferentes conflitos sentimentais. O tom ácido das tramas se contrapõe com a beleza do texto de José Vieira/Teresa Vieira Lobo. Quem lê atentamente o Bonas Histórias, sabe que comentei esse livro no mês passado na coluna Livros – Crítica Literária. Vale a pena conhecê-lo. Tá na área, é agora, bateu... Feita essa breve (ou não tão breve como imaginei à princípio!) introdução, agora posso apresentar a lista completa com os 140 principais livros que chegaram às livrarias brasileiras no terceiro bimestre de 2022. Quem estiver começando a acompanhar a coluna Mercado Editorial e não tem ideia de como é feito o levantamento de publicações do Bonas Histórias, esclareço que selecionamos apenas títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos, coleções de crônicas e literatura infantojuvenil), antologias poéticas e ensaios relacionados ao fazer literário. A partir de tal premissa, mapeamos os lançamentos das editoras nacionais de maior destaque. E aí, curioso(a) para saber quais são as mais interessantes obras recém-lançadas no mercado editorial do Brasil em maio e junho de 2022, hein? Então, segue a relação completa, devidamente dividida em Ficção Brasileira, Ficção Internacional, Poesia Brasileira e Poesia Internacional. Taí o que você queria, lista rolando...: FICÇÃO BRASILEIRA: “Beatriz e o Poeta” (Todavia) – Cristovão Tezza – Romance – 192 páginas. “Solitária” (Companhia das Letras) – Eliana Alves Cruz – Romance – 168 páginas. “A Falta” (Tusquets) – Xico Sá – Romance – 160 páginas. “Não Fossem As Sílabas do Sábado” (Todavia) – Mariana Salomão Carrara – Romance – 168 páginas. “Uma Dor Perfeita” (Alfaguara) – Ricardo Lísias – Romance – 152 páginas. “A Maldição das Flores” (Planeta) – Angélica Lopes – Romance – 256 páginas. “Miss Macunaíma” (Record) – Alexandre Rabelo – Romance – 240 páginas. “Brava Serena – 2ª edição” (Dublinense) – Eduardo Krause – Romance – 288 páginas. “Vou Sumir Quando a Vela Se Apagar” (Intrínseca) – Diego Bercito – Romance – 216 páginas. “O Intérprete de Borboletas” (Record) – Sérgio Abranches – Romance – 240 páginas. “Movimento 78” (Companhia das Letras) – Flávio Izhaki – Romance – 184 páginas. “O Caçador de Corruptos” (Planeta) – Augusto Cury – Romance – 240 páginas. “Memorial de Aires” (Penguin & Companhia das Letras) – Machado de Assis – Romance – 256 páginas. “Seara Vermelha” (Companhia de Bolso) – Jorge Amado – Romance – 352 páginas. “Limite Branco” (Companhia das Letras) – Caio Fernando Abreu – Romance – 200 páginas. “O Melhor Livro de Autoajuda do Mundo” (Labrador) – Gabriel Paciornik – Romance – 208 páginas. “Curva do Rio” (Labrador) – R. Colini – Romance – 224 páginas. “Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez” (L&PM Editores) – Tabajara Ruas – Novela – 136 páginas. “Vista do Rio” (Companhia das Letras) – Rodrigo Lacerda – Novela – 128 páginas. “O Redentor e o Jacaré” (Labrador) – Juliana Apetitto – Novela – 144 páginas. “Peixe Estranho” (Companhia das Letras) – Leonardo Brasiliense – Novela – 120 páginas. “O Pior de Mim/ Uma Vida Inventada” (Agir) – Maitê Proença – Novelas – 272 páginas. “Vestida de Preto e Outros Contos” (Boa Companhia) – Mário de Andrade – Coletânea de Contos – 200 páginas. “Machado, A Cidade e Seus Pecados” (Darkside) – Machado de Assis – Coletânea de Contos – 288 páginas. “Faroestes” (Companhia das Letras) – Marçal Aquino – Coletânea de Contos – 152 páginas. “30 Poemas de Um Negro Brasileiro” (Companhia das Letras) – Oswaldo de Camargo – Coletânea de Contos – 120 páginas. “Lembremos do Futuro” (Companhia das Letras) – Julián Fuks – Coletânea de Crônicas – 136 páginas. “Não Inventa, Mariana” (Labrador) – Mariana Becker – Coletânea de Crônicas – 272 páginas. “Amor Mais que Maiúsculo – Cartas a Luiz Augusto” (Companhia das Letras) – Ana Cristina Cesar – Coletânea de Crônicas/Cartas – 344 páginas. “Romance Real” (Seguinte) – Clara Alves – Infantojuvenil – 264 páginas. “Contos e Lendas da Amazônia” – Edição Revista e Atualizada (Seguinte) – Reginaldo Prandi (autor) e Pedro Rafael (ilustrador) – Infantojuvenil – 256 páginas. “Diário de Pilar na China” – Nova Edição (Pequena Zahar) – Flávia Lins e Silva (autora) e Joana Penna (ilustradora) – Infantojuvenil – 208 páginas. “Diário de Pilar em Machu Picchu” – Nova Edição (Pequena Zahar) – Flávia Lins e Silva (autora) e Joana Penna (ilustradora) – Infantojuvenil – 176 páginas. “Uma Amizade (Im)Possível” – Edição Revista e Atualizada (Companhia das Letrinhas) – Lilia Moritz Schwarcz (autora) e Spacca (ilustrador) – Infantojuvenil – 120 páginas. “Viagem Pelas Histórias da América Latina” (Companhia das Letrinhas) – Silvana Salerno (autora) e Biry Sarkis (ilustrador) – Infantojuvenil – 112 páginas. “Os Detetives do Prédio Azul – Casos Ecológicos” (Pequena Zahar) – Flávia Lins e Silva – Infantojuvenil – 104 páginas. “Contos da Toca” (Globinho) – Índigo (autora) e Laerte (ilustrador) – Infantojuvenil – 64 páginas. “As Viagens de Simba Jasíri” (Globinho) – Nei Lopes (autor) e Marcelo D´Salete (ilustrador) – Infantojuvenil – 64 páginas. “De Volta” (Companhia das Letrinhas) – Ricardo da Cunha Lima (autor) e Rodrigo Fischer (ilustrador) – Infantojuvenil – 48 páginas. “A Morte da Lagarta” (Companhia das Letrinhas) – André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun – Infantojuvenil – 48 páginas. “O Que É Preciso Pra Ser Rei?” (Pequena Zahar) – Tino Freitas (autor), Leo Cunha (autor) e Fê (ilustrador) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Silêncio” (Rocquinho) – Alexandre Rampazo – Infantojuvenil – 40 páginas. “Mimi – A Vaquinha que Não Queria Virar Comida” (Globinho) – Xuxa Meneghel (autora) & Guilherme Francini (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “O Plantador de Abóboras” (Todavia) – Luís Cardoso (Timor-Leste) – Romance – 160 páginas. “Os Abismos” (Intrínseca) – Pilar Quintana (Colômbia) – Romance – 272 páginas. “Outono” (Companhia das Letras) – Karl Ove Knausgård (Noruega) – Romance – 208 páginas. “A Boa Sorte” (Todavia) – Rosa Montero (Espanha) – Romance – 256 páginas. “Trem-bala” (Intrínseca) – Kotaro Isaka (Japão) – Romance – 464 páginas. “As Convidadas” (Companhia das Letras) – Silvina Ocampo (Argentina) – Romance – 264 páginas. “Uma Questão de Química” (Arqueiro) – Bonnie Garmus (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Outro Lugar” (Todavia) – Ayelet Gundar-Goshen (Israel) – Romance – 288 páginas. “O Chamado Selvagem” (Arqueiro) – Jack London (Estados Unidos) – Romance – 160 páginas. “Heróis da Fronteira” (Companhia das Letras) – Dave Eggers (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Dias Que Não Esqueci” (Todavia) – Santiago H. Amigorena (Argentina) – Romance – 160 páginas. “A Travessia de Greta James” (Arqueiro) – Jennifer E. Smith (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Caderno Proibido” (Companhia das Letras) – Alba de Céspedes (Itália) – Romance – 288 páginas. “O Caso da Princesa da Baviera” (Arqueiro) – Rhys Bowen (Inglaterra) – Romance – 288 páginas. “O Segredo da Duquesa” (Arqueiro) – Courtney Milan (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Vida Brinca Muito Comigo” (Companhia das Letras) – David Grossman (Israel) – Romance – 296 páginas. “Pança de Burro” (Companhia das Letras) – Andrea Abreu (Espanha) – Romance – 192 páginas. “Agente Oculto” (Globo Livros) – Mark Greaney (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Graça Fatal” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 352 páginas. “O Feitiço da Água” (Essencial) – Florencia Bonelli (Argentina) – Romance – 656 páginas. “Pesado” (Dublinense) – Kiese Laymon (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “O Criptógrafo” (Companhia das Letras) – Mai Jia (China) – Romance – 336 páginas. “A Última Coisa que Ele Me Falou” (Intrínseca) – Laura Dave (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Morte no Internato” (Arqueiro) – Lucinda Riley (Irlanda) – Romance – 384 páginas. “Temporada de Caça” (Darkside) – Stephen Graham Jones (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Uma Farsa de Amor na Espanha” (Arqueiro) – Elena Armas (Espanha) – Romance – 448 páginas. “A Sociedade de Atlas – Volume 1 da Série A Sociedade de Atlas” (Intrínseca) – Olivie Blake (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “O Involuntário Ato de Respirar” (Dublinense) – J. J. Bola (Congo) – Romance – 320 páginas. “Ela Seria O Rei” (Darkside) – Wayétu Moore (Libéria/Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Contos de Fada & Poemas Vorazes para Alimentar a Alma” (Darkside) – Nikita Gill (Irlanda do Norte) – Romance – 176 páginas. “Johnny, Você Me Amaria Se o Meu Fosse Maior?” (Planeta) – Brontez Purnell (Estados Unidos) – Romance – 176 páginas. “Carmilla” (Darkside) – Sheridan Le Fanu (Irlanda) – Romance – 192 páginas. “No Coração de Manhattan” (Paralela) – Lauren Layne (Estados Unidos) – Romance – 216 páginas. “Livros de Sangue – Volume 3” (Darkside) – Clive Barker (Inglaterra) – Romance – 272 páginas. “O Pescador” (Darkside) – John Langan (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Lázaro – Série Joona Linna” (Alfaguara) – Lars Kepler (Suécia) – Romance – 536 páginas. “Um Beijo Inesquecível” – Edição de Luxo (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “A Família Perfeita” (Intrínseca) – Lisa Jewell (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “Madame Tussaud – A Pequena Colecionadora de Corpos” (Darkside) – Edward Carey (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Amor e Lixo” (Carambaia) – Ivan Klima (República Tcheca) – Romance – 256 páginas. “Mais Uma Vez, O Amor” (Arqueiro) – Lisa Kleypas (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Audição” (Darkside) – Ryu Murakami (Japão) – Romance – 192 páginas. “O Apartamento de Paris” (Intrínseca) – Lucy Foley (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Serpente de Essex” (Intrínseca) – Sara Perry (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “Blanche em Apuros” (Darkside) – Barbara Neely (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “A Fabulosa Casa com Pernas” (Darkside) – Sophie Anderson (País de Gales) – Romance – 272 páginas. “Homem Sem Lei” (Emporium) – Miguel de Menezes (Portugal) – Romance – 192 páginas. “Paixão Inadequada” (Essência) – Vi Keeland (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Alamut” (Morro Branco) – Vladimir Bartol (Eslovência) – Romance – 576 páginas. “As Mentiras que Nos Unem” (Arqueiro) – Emily Giffin (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “O Idiota” (Penguin & Companhia das Letras) – Fiódor Dostoiévski (Rússia) – Romance – 944 páginas. “813” – Edição Bolso de Luxo (Clássicos Zahar) – Maurice Leblanc (França) – Romance – 480 páginas. “O Bebê de Rosemary” (Darkside) – Ira Levin (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “O Júri” (Arqueiro) – John Grisham (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Eduardo Galeano – Obras Escolhidas” (L&PM Editores) – Eduardo Galeano (Uruguai) – Coletânea de Romances/Novelas – 512 páginas. “Abandonar Um Gato” (Alfaguara) – Haruki Murakami (Japão) – Novela – 112 páginas. “Cerco Animal” (Peabiru) – Vanessa Londoño (Colômbia) – Novela – 98 páginas. “Os Óculos de Ouro” (Todavia) – Giorgio Bassani (Itália) – Novela – 112 páginas. “A Consulta” (Fósforo) – Katharina Volckmer (Alemanha) – Novela – 104 páginas. “A Verdade e a Vertigem” (Emporium) – José Vieira (Portugal) – Coletânea de Contos – 42 páginas. “Ed Wood – Contos & Delírios” (Darkside) – Ed Wood Jr. (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 288 páginas. “Iumbung – Contos de Mutirão” (Dublinense) – Azhari Aiyub (Indonésia), Cristina Judar (Brasil), Mithu Sanyal (Alemanha), Nesrine Khoury (Síria), Panashe Chigumadzi (Zimbábue/África do Sul), Uxue Alberdi (Espanha) e Yásnaya Elena Aguilar Gil (México) – Coletânea de Contos – 200 páginas. “O Diário de Um Louco – Contos Completos de Lu Xun” (Carambaia) – Lu Xun (China) – Coletânea de Contos – 568 páginas. “Um Inimigo do Povo” (L&PM Editores) – Henrik Ibsen (Noruega) – Teatro – 160 páginas. “A Morte e a Donzela” (Carambaia) – Ariel Dorfman (Argentina/Chile) – Teatro – 112 páginas. “Diatribe de Amor Contra Um Homem Sentado” (Record) – Gabriel García Márquez (Colômbia) – Teatro – 96 páginas. “Um Reino de Carne e Fogo – Volume 2 da Série Sangue e Cinzas” (Galera) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 672 páginas. “As Cortes do Infinito” (Alt) – Akemi Dawn Bowman (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 432 páginas. “A Ascensão de Kyoshi” (Planeta) – F. C. Yee (Estados Unidos) & Michael Dante DiMartino – Infantojuvenil – 384 páginas. “Ela Fica com a Garota” (Alt) – Alyson Derrick (Estados Unidos) & Rachael Lippincott – Infantojuvenil – 368 páginas. “E Se a Gente Tentasse?” (Intrínseca) – Becky Albertalli (Estados Unidos) e Adam Silvera (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “E Se Fosse a Gente?” (Intrínseca) – Becky Albertalli (Estados Unidos) e Adam Silvera (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “A Maldição do Ex” (Alt) – Rachel Hawkins (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Me Leve Com Você” (Seguinte) – Jennifer Niven (Estados Unidos) & David Levithan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “A Jogada do Amor” (Alt) – Kelly Quindlen (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Fantasmas” (Intrínseca) – Raina Telgemier (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “Em Busca de Cinderela e Em Busca da Perfeição” (Galera) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “O Gato que Amava os Livros” (Outro Planeta) – Sosuke Natsukawa (Japão) – Infantojuvenil – 240 páginas. “Capitão Cueca e a Saga Sensacional de Fedor, o Grande” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 216 páginas. “Píppi Meialonga” – Edição Revista e Atualizada (Companhia das Letrinhas) – Astrid Lindgren (Suécia) & Ingrid Nyman (Dinamarca) – Infantojuvenil – 192 páginas. “Isadora Moom Vai À Escola” (L&PM Editores) – Harriet Muncaster (Arábia Saudita) – Infantojuvenil – 128 páginas. “O Livro Laranja” (Companhia das Letrinhas) – Richard McGuire (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Marta e a Bicicleta” (Editora 34) – Germano Zullo (Suíça) & Albertine (Suíça) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Tímidos” (Companhia das Letrinhas) – Simona Ciraolo (Itália) – Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Querido Coração” (Planeta) – Pedro Salomão – 144 páginas. “Entre Ondas” (CEPE Editora) – Ângelo Monteiro – 144 páginas. “Palavras, Suor, Sonhos e Você” (Malê) – Roquildes Ramos Silveira – 128 páginas. “Retrato do Artista Quando Coisa” (Alfaguara) – Manoel de Barros – 120 páginas. “Dissonantes Imbricações” (Labrador) – Carlos Alexandre de Paiva Ferreira – 112 páginas. “Seguindo a Vida” (Labrador) – José Grimberg – 96 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “A Chama” (Companhia das Letras) – Leonard Cohen (Canadá) – 608 páginas. “Burowski Essencial – Poesia” (L&PM Pocket) – Charles Bukowski (Alemanha/Estados Unidos) – 232 páginas. “Diário de Bordo” (Editora 34) – Blaise Cendrars (Suíça/França) – 208 páginas. “ODES Intrínsecas III” (Emporium) – Célia Teles Ferreira (Moçambique) – 208 páginas. “A Árvore Em Mim” (Pequena Zahar) – Corinna Luyken (Estados Unidos) – 96 páginas. “Receitas de Inverno da Comunidade” (Companhia das Letras) – Louise Glück (Estados Unidos) – 88 páginas. “Um Pedaço de Alma Nua” (Emporium) – Gabriela Gomes (Portugal) – 68 páginas. Na última semana de agosto, prometo voltar à coluna Mercado Editorial para listar os lançamentos do quarto bimestre de 2022 em nosso país. Não perca as novidades do setor editorial brasileiro nem os outros posts do Bonas Histórias. Acabou o milho, acabou a pipoca, fim de papo! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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  • Livros: O Contra-ataque - Livro 2 da série A Contrapartida, best-seller de Uranio Bonoldi

    Lançado em dezembro de 2021, o segundo título ficcional do escritor brasileiro dá sequência à saga sinistra do médico Octávio Albuquerque Júnior. Hoje, vou comentar um romance que estava com uma vontade danada de ler (e discutir aqui no Bonas Histórias) há um tempinho. Desde que soube da publicação de “O Contra-ataque” (Valentina), o livro 2 da série “A Contrapartida”, tinha colocado esse título de Uranio Bonoldi na lista de análises da coluna Livros – Crítica Literária. Acho que expressei tal intenção quando apresentei os lançamentos do mercado editorial no primeiro bimestre de 2022. E falei sobre isso também quando explorei, em setembro do ano passado, os pormenores de “A Contrapartida” (Valentina), o volume de estreia da saga protagonizada pelo polêmico Doutor Octávio Albuquerque Júnior. A ideia era sim fazer um post de “O Contra-ataque” para o blog já no comecinho de 2022. Aí você sabe: leio um livro aqui, analiso outro acolá, leio mais um depois, avalio outro lá na frente... e nada de mergulhar nas páginas do novo romance de Bonoldi. Ai, ai, ai. Diante de tanta novidade boa, é difícil ler tudo o que pretendo e na velocidade que gostaria. A procrastinação (ou deveria usar o termo “adiamento consecutivo”?) só acabou quando fui surpreendido, em meados de maio, com o recebimento de “O Contra-ataque”. Para minha satisfação, o próprio autor gentilmente me presenteou com seu novo trabalho. Valeu, Uranio!!! Talvez ele tenha pressentido que eu precisasse mesmo de um empurrãozinho. Ou estivesse incomodado com a minha demora. Vai ver pensou: “Promessa de crítico literário é igual a de político em época de eleição – começa no primeiro soluço de empolgação e termina na primeira curva da vida”. Como não resisto a uma obra ficcional com uma carinhosa dedicatória que tanto me envaidece, aproveitei a friaca paulistana para resolver essa pendência que tinha feito comigo mesmo (e que já começava a me envergonhar perante o público do Bonas Histórias). E que grata foi a minha surpresa com a leitura de “O Contra-ataque” no último final de semana. Esse título é ainda melhor e mais emocionante do que “A Contrapartida”. Se eu já tinha gostado muito do primeiro romance da série, agora estou definitivamente encantado com a qualidade absurda da literatura de Uranio Bonoldi e com a proposta dessa coleção ficcional. Para quem possa ter cogitado que o livro anterior da saga de Tavinho, rapaz que se aproveitou de um macabro ritual indígena para progredir nos estudos e na profissão de médico, saiu boa porque Uranio teve “sorte de principiante”, leia a nova publicação. Sorte quem teve fomos nós que assistimos à consolidação de um ótimo nome da nova safra da literatura brasileira. Mais à vontade no posto de autor ficcional, Uranio Bonoldi caminha a passos largos para entrar na primeira prateleira do suspense/terror nacional ocupada hoje por figuras como Raphael Montes, autor de “Suicidas” (Benvirá) e “O Vilarejo” (Suma das Letras), Daniel Galera, autor de “A Barba Ensopada de Sangue” (Companhia das Letras) e “Mãos de Cavalo” (Companhia das Letras), e Rô Mierling, autora de “Contos e Crônicas do Absurdo” (Multifoco) e “Diários de uma Escrava” (Darkside). A série “A Contrapartida” começou com o romance homônimo, publicado em março de 2019. A obra de estreia de Uranio Bonoldi na ficção comercial se tornou rapidamente um grande sucesso na Loja Kindle com milhares de leitores. Depois de permanecer entre os livros mais vendidos do país na plataforma da Amazon na categoria thriller em 2019 e 2020, “A Contrapartida” foi traduzido para o inglês e o espanhol e lançado nesses idiomas no início de 2021 em edições digitais. A versão física e em português do livro foi desenvolvida pela Valentina, jovem e atuante editora carioca. Essa história deverá chegar nos próximos anos aos cinemas brasileiros. Uranio não esconde de ninguém que sonha em ver a adaptação de seus livros para as telonas. O roteiro do longa-metragem “A Contrapartida” foi aprovado pela ANCINE (Agência Nacional do Cinema) em novembro de 2021 e está agora na fase de captação de recursos e de patrocinadores via leis de incentivo cultural. A direção do filme será de Lion Andreassa, o roteiro cinematográfico ficará com Xandy Novask e a produtora será a Lumix Art Films. O orçamento do longa é de aproximadamente R$ 8,5 milhões, um valor interessantíssimo que mostra as ambições dos produtores. Para os apaixonados pela sétima arte, há inclusive um teaser do filme “A Contrapartida” (uma espécie de pré-trailer) à disposição. Quem sabe não vejamos essa produção sendo analisada em breve na coluna Cinema do Bonas Histórias, hein?! Empolgado com a enorme e positiva repercussão da obra inicial, Uranio Bonoldi lançou-se na tarefa de dar sequência à trama de “A Contrapartida”. Vale a pena esclarecer que desde o início a ideia do autor era produzir uma série literária sobre o “poder das decisões”. Prova disso são os vários elementos deixados propositadamente soltos no primeiro romance, algo que instiga a curiosidade dos leitores em prosseguir acompanhando a saga de Tavinho. Assim, surgiu “O Contra-ataque”, o segundo volume da coleção. Publicado em dezembro de 2021, o novo livro de Uranio foi escrito no primeiro semestre do ano passado e aborda o “poder da vingança”. Nele, o Doutor Octávio Albuquerque Júnior ganha um novo e temido adversário: o irmão de Iaúna. Iaruanã (agora chamado de Carlos Rodrigues) já havia aparecido em “A Contrapartida” e os leitores mais atentos se recordarão que havia indícios que o indígena não havia morrido durante a fuga desesperada da aldeia Moxiruna. Curiosamente, “O Contra-ataque” só não começou a ser desenvolvido antes por causa da pandemia do novo coronavírus. Se o distanciamento social obrigatório (no caso brasileiro, o correto seria dizer “quase obrigatório”) foi positivo para muitos escritores que enfim encontraram tempo para produzir projetos editoriais há tanto tempo adiados, no caso de Uranio Bonoldi ocorreu exatamente o inverso. Como consultor em processos de tomada de decisão, estratégias empresariais e governança corporativa (além de ser palestrante e professor da Fundação Dom Cabral), ele se viu mergulhado como nunca no trabalho empresarial. Tão logo foi decretado no país o confinamento/distanciamento social, as operações das empresas-clientes de Uranio entraram em colapso. O segundo e terceiro trimestres de 2020 foram terríveis para as companhias nacionais e internacionais. Diante das incertezas sanitárias, sociais, políticas e econômicas, elas foram obrigadas a rever completamente seus negócios. Aí o trabalho do consultor atropelou o trabalho do escritor. Depois de longas e estressantes jornadas na frente do computador, em intermináveis reuniões por videoconferência, quem se atreveria a iniciar um novo romance, né? Tão logo as coisas melhoraram no universo corporativo (pelo menos no ponto de vista da estratégia e do foco empresarial) no final de 2020, Uranio Bonoldi pôde voltar à atividade que para nós é a principal: a escrita ficcional. Em pouco mais de um ano, ele não só desenvolveu a parte 2 da série “A Contrapartida” como também fechou o texto da parte 3, que nesse momento se encontra em fase de revisão na Editora Valentina. O terceiro título da coletânea deverá chegar às livrarias brasileiras no final de 2022 e tratará do “poder do não”. Desconfio (é só desconfiança mesmo; não tenho essa informação, tá?) que o próximo romance, que tem o nome provisório de “O Outro Lado da História”, abordará a trama pela perspectiva de Iaúna. Atualmente, Uranio já trabalha no texto do quarto volume da saga, que será sobre “o poder do perdão”. O quinto e último título da pentalogia de “A Contrapartida” será sobre o “poder da redenção” e deverá estar disponível aos leitores nacionais entre 2024 e 2025. “O Contra-ataque” começa exatamente no ponto em que “A Contrapartida” se encerrou. Diria mais: a segunda parte da série literária de Uranio Bonoldi dá prosseguimento à cena final do romance anterior. Para quem não estiver lembrado de como “A Contrapartida” terminou, vou recordar. Com isso, obviamente, precisarei revelar o spoiler do primeiro título da saga – não há alternativa. Se você ainda não o leu, meu conselho é pular esse e os próximos três (ou quatro!) parágrafos desse post. Na certa, minhas linhas estragarão grande parte das surpresas que os novos leitores de “A Contrapartida” terão. Se você já leu o primeiro volume da coleção, siga em frente numa boa. Não irei revelar o spoiler de “O Contra-ataque”. Não apresentamos os desfechos das obras analisadas no Bonas Histórias. Só estou contando como acabou o romance anterior aqui na coluna Livros – Crítica Literária porque tal desenlace é exatamente o pontapé inicial da nova publicação. O enredo da nova narrativa de Uranio abre-se com o fatídico acontecimento de 21 de abril de 2016. Às 15h15, Tavinho caminha pelas ruas de Santa Cecília a passos largos e com as mãos trêmulas. O bem-sucedido médico está desesperado, em choque. O Doutor Octávio Albuquerque Júnior acaba de descobrir que sua mãe, Cristina Costa Albuquerque, estava na casa de Iaúna que ele recém-incendiou. Pelo menos é o que diz uma mensagem antiga que ele vê no celular somente nesse momento. A mãe informa que iria, naquele dia e horário, visitar a velha índia para um chá com bolo de fubá. Muito ocupado com os preparativos do assassinato da antiga governanta da família, o filho não pôde ver o recado deixado por Cristina na véspera. Agora, todavia, Inês está morta. Ou melhor, tanto Cristina quanto Iaúna foram incendiadas pelo protagonista. Tavinho queria se vingar de Iaúna por causa das mentiras que ela sempre lhe contou. Entre os segredos dela estavam: o envolvimento da indígena na morte do Prof. Albuquerque, pai de Tavinho; os efeitos colaterais do consumo do elixir da tribo Moxiruna, algo jamais mencionado por Iaúna e que estariam roubando a juventude do médico; e a intromissão desmedida da índia nos relacionamentos amorosos do filho de Cristina, o que invariavelmente terminava mal para ele e para as suas namoradas. Na cabeça da personagem principal da série “A Contrapartida”, nada melhor do que tacar fogo na residência da antiga governanta e matar sua grande inimiga de uma vez por todas. Dessa maneira, Doutor Octávio ficaria livre das maldades da velha governanta, poderia se vingar do assassinato do pai e, acima de tudo, deixaria ocultos os rituais macabros do povo Moxiruna que ele vinha participando nos últimos anos. Vale a pena esclarecer que graças a esses rituais ele conseguira uma inteligência prodigiosa. A sensação de alívio de assassinar Iaúna é, contudo, interrompida imediatamente com a notícia de que Dona Cristina também estava naquele endereço. Tavinho não se perdoa e cai no choro. Saber que matou a própria mãe, uma pessoa boníssima que sempre o amou incondicionalmente e se dedicou a caridade ao próximo, é demais para ele. Sem se preocupar em ocultar sua presença no bairro, algo necessário para alguém que acabou de cometer um (ou seriam alguns?!) crime(s), o médico grita e xinga pelo trágico destino da família. Não por acaso, ele se torna alvo dos olhares acusadores da vizinhança, enquanto os carros de polícia e os caminhões do corpo de bombeiro chegam ao imóvel consumido pelas chamas. Não é preciso dizer que os dias seguintes à morte de Cristina e Iaúna são envoltos em uma grande tristeza para Tavinho. O protagonista enterra as duas mães, como as mulheres falecidas eram vistas por ele, e recebe a solidariedade de amigos e colegas. Paralelamente, o doutor precisa se explicar para a polícia que investiga os motivos do incêndio na residência de Santa Cecília. A única nota feliz desse período trágico é o reencontro com Martha Moss, a ex-noiva e antiga paixão de Tavinho. Após uma conversa franca com a moça, o médico chega à conclusão que o relacionamento deles fracassou por causa da inveja de Iaúna. A velha índia, apaixonada pelo rapaz, fez tudo o que podia (e não podia!) para melar o amor do jovem casal. Agora cientes disso, Octávio Albuquerque Júnior e Martha Moss se reconciliam. Outra vez juntos, eles sonham novamente em subir ao altar e reconstruir a vida depois de tantos dissabores. Então, está tudo bem e tranquilo agora, certo? Nananinanão! Sem saber, Tavinho ganha um oponente ainda mais cruel e perigoso. Estamos falando de Carlos “Pajé” Rodrigues. Quem? Carlos Rodrigues! E quem seria Carlos Rodrigues, ô pai? Ele é o irmão de Iaúna e já havia aparecido pontualmente em “A Contrapartida”. Inclusive, no primeiro romance da série, havia indícios de que Iaruanã (nome indígena de Carlos) não tinha morrido na fuga da aldeia Moxiruna. Quem teve essa percepção (admito que estou nesse grupo de leitores) descobrirá que o homem está mesmo vivinho da Silva e fará de tudo para se vingar de Octávio Albuquerque Júnior. Atualmente, Carlos “Pajé” Rodrigues (Pajé é o apelido pela origem indígena – ele não gosta de ser chamado de Iaruanã) é deputado federal e chefão de uma das principais madeireiras clandestinas do país. E por que Carlos/Iaruanã quer ver a caveira do doutorzinho, hein? Além de ter atentado contra a vida de Iaúna, algo que um irmão sanguinolento não deixará barato, Tavinho matou dois funcionários do deputado-empresário. Lembremos que nos capítulos derradeiros de “A Contrapartida”, o médico viajou para Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul, para dar cabo de Cleverson e Joilson. A dupla que trabalhava na madeireira ilegal de Carlos Rodrigues estava envolvida com a morte do pai de Tavinho. Ao descobrir o paradeiro dos responsáveis pelo assassinato do Professor Albuquerque, Octávio não titubeou: partiu para o Centro-Oeste para se vingar de Cleverson e Joilson. Por tudo isso (e por outras coisas mais que não podem ser ditas para não estragar as surpresas do novo romance), o protagonista da série de Uranio Bonoldi se tornou alvo da ira de Carlos/Iaruanã, um dos sujeitos mais perigosos do Brasil. O irmão de Iaúna não irá descansar enquanto o filho de Dona Cristina não tiver arruinado e virado comida de minhoca. É importante salientar que além da maldade imensurável e do poder político, Carlos Rodrigues ainda tem a seu lado a força, a juventude e a inteligência provenientes do elixir da tribo Moxiruna. Sim, ele segue praticando o ritual indígena que lhe confere poderes muito especiais. Em seu caso, Carlos não carrega nenhuma culpa pelas mortes ocasionadas para a obtenção das matérias-primas do elixir. Tavinho conseguirá evitar as investidas do temido rival? Descobrirá o médico os planos criminosos de Carlos Rodrigues a ponto de montar um plano de contragolpe? Esses são os novos mistérios que o segundo volume da série “A Contrapartida” nos reserva. “O Contra-ataque” é um romance mais volumoso do que “A Contrapartida”. O segundo título ficcional de Uranio Bonoldi possui 400 páginas (o anterior tinha 336 páginas) e está dividido em quatro partes: I – “O Passado Pode Ser Enterrado?”; II – “Quanto Tempo Pode Durar a Felicidade?”; III – “O Poder das Consequências”; e IV – “O Poder Pelo Poder”. Levei pouco mais de nove horas para percorrer integralmente os 53 capítulos desse livro no último final de semana. Obviamente, não li tudo ininterruptamente. Precisei de dois dias (sábado e domingo) para concluir a leitura. Cheguei à metade da obra no final da manhã do primeiro dia (partes I e II) e avancei à outra metade (partes III e IV) na tarde do segundo dia. Para quem curte longuíssimas sessões de leitura, é até possível ler esse título em um único dia (início de manhãzinha e término à noite). O primeiro aspecto que precisa ser comentado sobre “O Contra-ataque” é o começo do livro. Desde que soube da continuação de “A Contrapartida”, estava curioso para ver como Uranio Bonoldi iria retomar a história do Doutor Octávio Albuquerque Júnior. Nem sempre a escolha de como reiniciar uma série narrativa é tão óbvia como as pessoas pensam. Será que o autor faria um resumo dos acontecimentos do volume anterior para os leitores se recordarem das principais passagens? Afinal, há quem tenha lido “A Contrapartida” há mais de três anos. E seria possível ler “O Contra-ataque” sem ter lido “A Contrapartida”? Se você acha estranha essa possibilidade, acredite em mim: sempre há quem leia a segunda parte de uma série literária sem ter lido a primeira! E qual foi a decisão de Uranio, hein?! Ele simplesmente abre a nova obra no exato ponto em que terminou o romance anterior. Ou seja, não temos enrolação nem recapitulação. O leitor já cai no meio da cena mais emblemática e desesperadora de “A Contrapartida”. Achei espetacular essa alternativa. As lembranças dos acontecimentos passados e do enredo da coletânea vem naturalmente à nossa mente, sem que seja preciso gastar novos capítulos para isso. Para quem aprecia séries literárias, esse expediente narrativo (emendar um livro no outro sem respiro, muitas vezes usando uma mesma cena como trampolim dramático) vem sendo usado pelos principais ficcionistas internacionais. De cabeça, posso citar a “Tetralogia Napolitana” de Elena Ferrante – “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul) –, a série “1Q84” (Alfaguara) de Haruki Murakami, a “Trilogia da Bicicleta Azul” de Régine Deforges – “A Bicicleta Azul” (BestBolso), “Vontade de Viver” (BestBolso) e “O Sorriso do Diabo” (BestBolso) –, a série infantojuvenil de estreia de Markus Zusak – “O Azarão” (Bertrand Brasil), “Bom de Briga” (Bertrand Brasil) e “A Garota que Eu Quero” (Intrínseca) – e a coleção Millennium de Stieg Larsson – “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Companhia das Letras), “A Menina que Brincava com Fogo” (Companhia das Letras) e “A Rainha do Castelo de Ar” (Companhia das Letras). Essas coletâneas literárias têm obras que começam e terminam em sequências lineares e possuem cenas quebradas ao meio (uma parte fica em uma obra e outra parte vai para o volume seguinte). Então quer dizer que a iniciativa de Uranio não é tão válida assim, né?! Não foi isso o que eu quis dizer. O uso de algo bem-sucedido no mercado editorial é sempre interessante e uma estratégia de autores atentos às melhores práticas do fazer literário (no mundo corporativo, os profissionais chamam tal conceito de benchmarking). O mais legal é que o escritor brasileiro foi além e fez algo que não encontrei nas outras séries literárias. Além de começar o segundo título onde o primeiro terminou, Uranio Bonoldi construiu seu novo romance de um jeito que, acredito eu, dê para lermos “O Contra-ataque” independentemente da leitura de “A Contrapartida”. Será uma viagem da minha parte?! Até pode ser. Afinal, não tenho certeza dessa afirmação que acabei de fazer. Como li “A Contrapartida” duas vezes (uma no ano passado e outra agora, um dia antes de mergulhar nas páginas de “O Contra-ataque”), não sei exatamente se entenderia a continuação da história sem ter conhecido a primeira parte. Porém, confesso que fiquei com a sensação de que a experiência de leitura individual também seja possível (mesmo assim, não custa nada ler a primeira obra – até porque ela é ótima!). Ainda falando do primeiro capítulo de “O Contra-ataque”, temos aqui algo que Uranio Bonoldi já tinha feito em “A Contrapartida”: a abertura do romance está primorosa. O escritor sabe como começar suas tramas ficcionais, o que deixa os leitores curiosos e ávidos por entender o que está acontecendo. As cenas iniciais de “A Contrapartida” e “O Contra-ataque” são recheadas de desespero, violência, mistério, sinestesia, recordação e inquietação do protagonista. Nesse sentido, Uranio pode ser comparado a Harlan Coben, norte-americano autor de best-sellers como “Quebra de Confiança” (Arqueiro), “Não Conte a Ninguém” (Arqueiro), “Confie em Mim” (Arqueiro) e “Seis Anos Depois” (Arqueiro). Em relação à estrutura narrativa, o novo romance é idêntico à obra anterior da série “A Contrapartida”. Temos aqui um narrador em terceira pessoa que não fica colado a nenhuma personagem especificamente e que revela os acontecimentos com verbos no presente. O narrador de “O Contra-ataque” flutua livremente pelos cenários e pelos espaços temporais em busca dos instantes mais emblemáticos e emocionantes da trama. Por falar em espaço temporal, o dinamismo do livro é conseguido exatamente pelo constante salto para frente (flashforward) e pulos para trás (flashback). Em alguns capítulos, a história avança (horas, dias, semanas, meses ou anos). Em outros capítulos, a trama regride (dias, semanas, meses, anos ou décadas). Quase sempre que se volta para o passado, “O Contra-ataque” retrata a vida de Carlos Rodrigues/Iaruanã. Acompanhamos sua trajetória da infância e adolescência na Floresta Amazônica até chegar à posição de deputado em Brasília e de poderoso empresário da região Centro-Norte. Não por acaso, essa linha narrativa é um dos aspectos mais deliciosos da obra. O antagonista do novo título de Uranio Bonoldi aparece mais do que o próprio protagonista da série – temos aqui quase que um romance de formação do grande vilão da saga. Essa mistura de presente (confronto entre Tavinho e Carlos) e passado (detalhamento da ascensão financeira, profissional e social de Carlos “Pajé” Rodrigues) exige certa atenção por parte dos leitores e é a chave para o suspense do enredo. A maioria das surpresas dessa publicação está exatamente nesse esconde-revela entre os elementos antigos e os componentes contemporâneos das personagens principais. Por falar em surpresas, as maiores reviravoltas de “O Contra-ataque” são reservadas para o passado de Carlos e não tanto para o presente/futuro de Tavinho. Se você se ativer exclusivamente aos desdobramentos da vida do protagonista, na certa achará “A Contrapartida” uma obra com muito mais mudanças do que o segundo romance da série. Porém, se você olhar especificamente para a construção da figura do antagonista, talvez decrete o jogo empatado entre o primeiro e o segundo título da série “A Contrapartida” quando o quesito é emoção e reviravoltas dos enredos. Em relação à qualidade em si da narrativa, posso dizer que “O Contra-ataque” é até melhor do que “A Contrapartida”. Se você gostou do livro de abertura da coletânea, na certa adorará o segundo romance. “O Contra-ataque” consegue ser, acredite em mim, mais dinâmico, violento e contundente. Ele expõe as chagas sociais brasileiras com uma intensidade e uma clareza superiores ao que encontramos em “A Contrapartida”. Adorei isso! A impressão que tive é que Uranio Bonoldi estava apenas esquentando os motores de sua habilidade ficcional na obra anterior. E aqui, com as engrenagens devidamente funcionando a todo vapor, ele deu um show. Não há passagens desnecessárias, cenas arrastadas nem momentos pouco emocionantes em “O Contra-ataque” – algo que aconteceu, preciso ser honesto, em um ou outro capítulo de “A Contrapartida”. A grande diferença entre os dois volumes da série é que, no livro anterior, o autor precisou apresentar as personagens e o enredo dramático, o que normalmente acaba penalizando as cenas de ação. Sem essa necessidade agora, Uranio colocou o pé no acelerador e imprimiu grande velocidade à narrativa. Até mesmo quando somos apresentados ao passado de Carlos Rodrigues, assistimos a um thriller forte, sinistro, escatológico e surpreendente. As páginas de “O Contra-ataque” são para leitores de estômago forte. Não há pudores na hora de expor os comportamentos violentos, antiéticos, corruptos e indecorosos das personagens. Se você já tinha achado “A Contrapartida” uma obra corajosa e realista, saiba que, então, você não viu nada. Diria mais: sabe de nada, inocente! Aqui sim temos a potencialização da proposta ácida da série e um dos textos mais corrosivos da literatura brasileira contemporânea. Em muitos momentos, os livros de “A Contrapartida” me lembraram as séries “Millennium” e “Outlander” (Saída de Emergência) pela exposição da violência nua e crua e pelas fortes cenas de sexo. Se os romances de Stieg Larsson retratam o lado obscuro da Suécia no final do século XX (um dos países com melhor IDH) e as obras de Diana Gabaldon mostram os perrengues históricos da constituição da Escócia no século XVIII (hoje em dia é uma das nações mais tranquilas e pacíficas da Europa), os títulos de Uranio Bonoldi apresentam a faceta menos digna do Brasil (uma região com um povo cada vez mais mergulhado no obscurantismo, na limitação intelectual e nas práticas predatórias). A criminalidade nacional é farta e variada em “O Contra-ataque”: estupro, exploração sexual de menores de idade, prostituição, violência policial, evasão fiscal, sequestro, machismo, racismo, corrupção governamental e empresarial, chantagem, extração ilegal de madeira, genocídio indígena, assassinatos não investigados pela polícia, Justiça tendenciosa, invasão de terra, contrabando, tráfico de drogas, desvio de recursos públicos, intimidação e sumiço de jornalistas, desprezo pela ecologia e pela pobreza de grande parte da população, conchavos políticos... Se eu fosse relatar todos os crimes praticados pelas personagens desse romance, acho que ficaria um dia inteiro citando-os. Se você for um(a) estudante de direito e estiver interessado(a) em virar advogado(a) criminalista, um bom tema para um trabalho de conclusão de curso é listar tudo o que os protagonistas de “O Contra-ataque” fazem de errado segundo as leis do nosso país. Não à toa, a brasilidade é um dos principais pontos fortes da série “A Contrapartida”. Eu já tinha comentado sobre isso quando analisei o primeiro volume da saga de Tavinho, mas em “O Contra-ataque” temos essa característica ainda mais acentuada. Há algum tempo eu não lia uma obra ficcional que conseguisse retratar tão bem as mazelas, as chagas e os problemas nacionais com tamanha excelência. Uranio Bonoldi é implacável como cronista social de uma nação capturada pela corrupção sistêmica, pela insensibilidade humana, pela exploração predatória da natureza, pela opressão das camadas mais humildes, pela ganância desmedida, pela ação do poder paralelo nos rincões do país e pela limitação cognitiva-intelectual-cultural da classe dominante (elite). E o autor faz isso naturalmente, sem ser panfletário e sem cair em ideologismos baratos. A atroz realidade brasileira é o pano de fundo dos enredos dos romances de “A Contrapartida”. Pela perspectiva de uma trama de terror e suspense, talvez não haja cenário melhor do que o Brasil atual como espaço narrativo para um bom romance sanguinolento, né? Paradoxalmente, não é apenas Carlos “Pajé” Rodrigues/Iaruanã que se vale de subterfúgios pouco elogiáveis para alcançar o que deseja. Praticamente todos os indivíduos retratados no livro, inclusive o casal de protagonistas (Octávio Albuquerque Júnior e Martha Moss), são personagens redondas e com uma camada substancial de vilania. Ninguém escapa de cometer ações questionáveis. No Brasil de “O Contra-ataque”, o que impera são as leis do mais forte, do mais esperto e do “Dente por Dente, Olho por Olho”. Até o “policial gente-boa” esconde provas da investigação criminal; o “indígena bonzinho” quer uma vingança manchada de sangue; a “jornalista inteligente e atuante” entrega os pontos diante do bem-bom oferecido pelo dinheiro do criminoso que ela deveria denunciar; e a “moça mais virtuosa” sucumbe à primeira oportunidade de infidelidade. É como se ninguém se salvasse nessa história. Por mais que torçamos por essa ou por aquela pessoa, ainda sim vislumbramos que elas não são lá tão certinhas assim, né? A única personagem realmente plana e figura 100% correta em suas ações e visões de mundo é Cristina Costa Albuquerque, a mãe de Tavinho. Exatamente por essa falta de nuances, ela é a pessoa mais pobre literariamente falando da série narrativa de Uranio. Se no mundo real gostamos de indivíduos com espírito nobre, altruístas, confiáveis e coerentes, na ficção (seja literária, cinematográfica ou cênica) a história é outra. O tipo muito certinho é quase sempre caricato e inverossímil. Pela perspectiva da constituição das personagens, temos em “A Contrapartida” e “O Contra-ataque” uma enxurrada de ótimas figuras (Dona Cristina é a exceção que comprova a regra). Até mesmo os mocinhos têm uma zona sombria e os vilões possuem uma camada graciosa (veja a maneira como Carlos trata a esposa, os filhos e a irmã). Por falar nas personagens do segundo título da coletânea, é preciso destacar que assistimos à ascensão literária de várias figuras que eram até então secundárias no primeiro romance. A sensação que tive é que alguns coadjuvantes de “A Contrapartida” (como Iaruanã, Martha Moss, Oswaldo Roche e Renato Stein) ganharam mais importância na nova trama e chegaram até mesmo a alcançar, em alguns casos, o status de protagonistas em “O Contra-ataque”. Por outro lado, algumas pessoas até então centrais da saga (como Iaúna e Cristina) perderam força/relevância e apareceram pontualmente na segunda parte da série. O único que se manteve intocado na posição de destaque na história é, obviamente, Tavinho. A diferença é que, em “A Contrapartida”, ele era mais um anti-herói. E em “O Contra-ataque”, o médico adquiriu características mais próximas dos heróis tradicionais. Ou seja, o rapaz perdeu um pouco das camadas mais soturnas, que tão bem fizeram para ele como figura literária. Ainda na seara da brasilidade, temos um belíssimo retrato da cultura indígena e da Amazônia nesse romance. Digo belíssimo porque o livro de Uranio Bonoldi consegue ser ao mesmo tempo preciso e profundo na apresentação dos costumes, dos hábitos, das crenças e dos dramas dos índios brasileiros sem cair no maniqueísmo muitas vezes reinante na literatura e no cinema. No universo ficcional, ou os indígenas são os grandes vilões das histórias (vide os clássicos do Western norte-americano) ou são os heróis (vide os clássicos do Romantismo). Para Uranio, não há maniqueísmos ou posições pré-definidas. Algo não precisa residir necessariamente nos extremos. Nas obras da série “A Contrapartida”, os integrantes da tribo Moxiruna podem figurar, dependendo da situação, como vítimas do homem branco ou como implacáveis canibais. Podem ser retratados como confiáveis e com espírito nobre ou podem ser pintados como interesseiros e desumanos. Por falar no povo Moxiruna, a pesquisa que Uranio Bonoldi fez para a caracterização da tribo natal de Iaúna e Iaruanã foi profunda e impecável. A sensação como leitor do romance é que os Moxiruna realmente existem. Dessa maneira, presenciamos nas páginas de “O Contra-ataque” seus hábitos e sua cultura. Porém, será que eles são efetivamente reais?! Existem ou existiram uma tribo amazônica com tal denominação, hein? Aí vem a bomba: os Moxiruna são uma criação ficcional do autor. Para criá-los, Uranio se baseou em estudos sobre uma misteriosa tribo indígena amazonense conhecida pela ferocidade com que tratava os inimigos e pelos rituais xamânicos um tanto horripilantes. Na hora de colocar no papel as descobertas feitas na pesquisa, ao invés de chamar tal povo pela denominação correta, o escritor preferiu a utilização de um termo inventado – Moxiruna. Assim, Uranio Bonoldi não teria complicações com antropólogos de ocasião e com xiitas do politicamente correto (nem todo mundo compreende as distinções entre textos não ficcionais e textos ficcionais). Do ponto de vista literário, o perfil dos Moxiruna está riquíssimo e extremamente coerente com a realidade, mesmo não existindo uma tribo com essa denominação específica. Fantástico um tipo de construção narrativa como essa, né? Outra questão que precisa ser comentada sobre “O Contra-ataque” é que o romance traz uma esplêndida mistura de gêneros narrativos. Em alguns capítulos é até difícil classificar essa obra de uma maneira única e definitiva. Estaríamos diante de um romance policial noir, de uma trama de espionagem, de um drama romântico, de um thriller aterrorizante, de uma saga de realismo fantástico, de uma aventura com muita ação e doses generosas de teoria da conspiração, de uma sátira político-social do Brasil atual ou de um romance indianista contemporâneo?! A resposta depende muito de onde o leitor estiver na leitura. O livro de Uranio é tudo isso junto e misturado. Adorei essa característica! Ao mesmo tempo em que nos deparamos com um enredo eletrizante e com muitas reviravoltas, a própria característica formal da narrativa de “O Contra-ataque” adquire tons meio que camaleônicos. Essa combinação estilístico-conceitual potencializa o charme e as surpresas da segunda parte da série “A Contrapartida”. Um leitor mais atento encontrará ainda nas páginas dessa obra um tom de aventura de super-heróis. Afinal, o elixir dos Moxiruna confere poderes especiais. Sempre que tomam a poção mágica obtida no ritual indígena, as personagens se tornam mais inteligentes e fortes fisicamente. Esses benefícios serão decisivos para a ascensão profissional e financeira tanto do protagonista quanto do antagonista. Em um combate entre eles (mocinho versus vilão), a ausência ou o uso no momento certo do elixir pode pesar para o desfecho da trama. Por falar nesse embate de forças opostas, “O Contra-ataque” tem um conflito único da primeira à última página. Trata-se, portanto, de uma diferença substancial do que encontramos no romance anterior da saga. Lembremos que o conflito de “A Contrapartida” era mutável: à medida que a história evoluía, o drama de Tavinho também se alterava (mas o estilo narrativo não). Diante de tudo o que comentei nos últimos parágrafos sobre a estrutura da nova obra, achei essa opção válida. Do contrário, o texto de “O Contra-ataque” poderia ficar muito confuso (a mistura de enredo mutável e estilo de romance variável poderia ser catastrófico ou conferir uma pegada de forte experimentalismo à publicação!). A trama do segundo volume da série “A Contrapartida” gira sempre em torno do embate entre o Doutor Octávio Albuquerque Júnior e Carlos Rodrigues (o que muda é o estilo da narrativa, tá?). Até mesmo quando o livro mergulha em particularidades da vida e do passado do herói/anti-herói e do vilão, o conflito central segue o mesmo. Ainda falando no enredo, algo que me surpreendeu positivamente em “O Contra-ataque” é que sua trama se encaixa perfeitamente com a de “A Contrapartida”. Aí alguém poderia me questionar: em se tratando de uma continuação ficcional, isso já não era esperado?! Sim, era esperado. Porém, muitas vezes temos vários errinhos de continuidade e de lógica narrativa em sagas literárias. Depois de centenas ou milhares de páginas produzidas, os autores acabam comendo bola. Os melhores exemplos disso são (volto a usá-las como comparação) as séries “Millennium”, “Outlander” e “A Bicicleta Azul”. Muitas vezes, os leitores não reparam nas incongruências do enredo da coleção, maravilhados que estão com o conteúdo das tramas. Entretanto, uma leitura mais atenta e pormenorizada acaba revelando os problemas na linha narrativa e de contextualização histórica. Disse isso tudo para afirmar que não achei qualquer problema de continuidade e/ou lógica narrativa em “O Contra-ataque” e “A Contrapartida”. Se alguém descobrir, por favor me avise. A construção da saga de Tavinho contra os irmãos da tribo Moxiruna é tão impecável que pensei que ela tivesse sido escrita de uma vez só e estivesse sendo publicada agora aos poucos (algo feito, por exemplo, por Elena Ferrante com a “Tetralogia Napolitana”). Afinal, uma das maneiras para se ter controle maior de uma história muito longa é desenvolvê-la integralmente e só depois lançá-la a conta-gotas. Porém, Uranio Bonoldi não fez isso. Ele publicou primeiramente “A Contrapartida” e ao verificar o sucesso comercial do título de estreia deu sequência na criação dos outros volumes da coleção. Em outras palavras, além de ter um talento absurdo para o fazer literário, o escritor demonstra possuir mecanismos de trabalho que potencializam suas habilidades. Ou você acha que uma trama longa e de enorme qualidade é feita apenas com inspiração, hein? Conversando rapidamente com o autor no começo dessa semana (além de talentoso, saiba que Uranio parece ser muito gente boa!), ele confidenciou que é fissurado pela lógica narrativa: datas, cenários e discursos precisam estar devidamente alinhados e em perfeita ordem. Durante a produção dos textos dos romances, ele vai e volta em cada parte da trama para ter a certeza de que a continuidade da história não foi prejudicada. Inclusive, o escritor mantém as principais informações e o planejamento do enredo em uma planilha de Excel. E eu achando, ingenuamente, que fosse só o Paulo Sousa, autor de “A Peste das Batatas” (Pomelo) e “Acinte 2020” (ebook independente) que fizesse isso. Uma vez empresário, administrador de empresas e executivo de negócios, sempre empresário, administrador de empresas e executivo de negócios, né? Não dá para não ser fã de um artista com essas qualidades: união de talento genuíno e dedicação/organização nos afazeres. Para terminar a seção de elogios de “O Contra-ataque” (que está mais parecendo uma rasgação de seda danada do que uma análise imparcial e exigente – a proposta dos posts do Bonas Histórias e da coluna Livros – Crítica Literária não é passar o pano!), gostaria de comentar sobre o visual da capa e o tipo de linguagem usado por Uranio Bonoldi nessa série ficcional. A capa do novo romance segue a linha do título anterior e está lindíssima. Nota-se o cuidado da Editora Valetina com o projeto gráfico de suas publicações. O padrão visual, o acabamento do material e a revisão ortográfica beiram a perfeição. Em relação à linguagem da série “A Contrapartida”, gosto do estilo de Uranio. Ele tem um texto acessível e direto sem ser piegas ou banal. O domínio do autor na arte da contação da história fica evidente nos detalhes: na hora de colocar palavrões na boca dos criminosos, na descrição de cenas de grande violência, no detalhamento dos rituais indígenas e na inserção de passagens fantásticas. E tudo isso sem soar pedante, elitista ou doutrinador (equívocos que, infelizmente, alguns bons escritores cometem na hora de demonstrar seu talento narrativo). “O Contra-ataque” é um romance excelente? Sim. Isso quer dizer, então, que ele é uma obra impecável, certo?! Hummm. Não diria isso. Diria que esse livro é quase impecável. A nova publicação de Uranio Bonoldi tem alguns probleminhas de ordem narrativa. É verdade que são muito menos tropeços do que os encontrados em “A Contrapartida”, mesmo assim eles aparecem aqui e ali. O principal deles é a forçação de barra em alguns capítulos. E o que é isso que chamo de forçação de barra, hein? Sabe quando você está assistindo a um filme de ação e o protagonista entra em um carro para fugir dos bandidos ou dos inimigos? Aí ele dirige como um louco até ser emparedado no estacionamento no alto de um prédio. Não há escapatória agora, pensam os espectadores. E de repente, não mais do que de repente, o carro com o mocinho pula de um prédio para o outro e ele foge tranquilamente. Pode um carro pular de um prédio para o outro, Arnaldo? Não sei, mas chamo isso de forçação de barra. Pode acontecer? Até pode. Mas é crível? Não! E quais as forçações de barra em “O Contra-ataque”? A principal surge no desfecho. Não me parece natural que uma funcionária de uma gráfica guarde por duas décadas uma xerox de um cliente em sua casa. O estabelecimento comercial fechou há um tempão e a moça levou apenas aquele material para sua residência. E passados 20 anos do falecimento do tal cliente, a zelosa empregada procura desesperadamente o filho dele para devolver a cópia. Aí você pensa: mas ela deve ter visto ao menos o conteúdo do material para se imbuir de uma tarefa desse tipo, né? Obviamente, viu se tratar de algo importantíssimo para a família, certo? Nananinanão. Ela jamais abriu as folhas da espiral para ver o que tinha lá dentro. Ai, ai, ai. Pode isso, Arnaldo? Acho que o juiz marcaria pênalti pela forçação de barra do autor. O pior é que essa cena é decisiva para o desenlace do livro. Por tudo o que Uranio Bonoldi já nos mostrou até aqui, ele tem criatividade e talento literário de sobra para construir um arremate muito melhor do que esse. Além de uma ou outra forçação de barra, algo natural em um thriller ficcional (o que seriam das boas histórias de ação, terror e suspense sem um exagero aqui e ali, né?), achei algumas passagens inverossímeis. Aí a coisa complica um pouco mais. Repare que já havia apontado algumas inverossimilhanças em “A Contrapartida”. Agora a questão não é mais o exagero propriamente dito (como no parágrafo anterior) e sim a inconsistência narrativa. Um bom exemplo disso acontece no encontro de Nathalia Gouveia com Carlos Rodrigues. Uma jornalista super conceituada viaja para o interior do Pará para investigar uma quadrilha de madeireiros ilegais para um importante veículo de comunicação. Quem conhece minimamente o trabalho jornalístico sabe que um(a) bom(boa) profissional da área não perderia por nada nesse mundo a oportunidade de produzir uma matéria exclusiva e bombástica sobre o desmatamento na Amazônia e o comércio ilícito de madeira. E o que Nathalia faz? Ela simplesmente joga tudo para o alto em nome de uma aventura sexual e o conforto material oferecido por um parceiro milionário. Confesso que não engoli essa opção da moça, que me sou um tanto machista e pueril. Ainda mais porque a jornalista corre para os braços de Carlos em meio a uma tentativa de estupro realizada pelos sócios do indígena na sede da madeireira. Vale a pena acrescentar que, minutos antes, Carlos havia algemado e ameaçado Nathalia de morte. Portanto, não dá nem para dizermos que ela estava sob o efeito da Síndrome de Estocolmo. Juro que não consigo conceber uma mulher ameaçada de morte e de estupro pular apaixonadamente nos braços do algoz, largando a profissão e as obrigações de trabalho em nome de um amor instantâneo (e bandido). Amor por alguém que queria matá-la e violentá-la? Ai, ai, ai. Essa não colou para mim. Outra passagem determinante de “O Contra-ataque” que pode ser classificada como inverossímil ou mesmo sem lógica narrativa é o fato de Tavinho manter a inteligência e as habilidades médicas excepcionais sem o consumo do elixir dos Moxiruna. Mas como assim o doutor permaneceu sendo um profissional gabaritadíssimo e com competências raras após o fim dos rituais que praticava regularmente com Iaúna, hein? Lembremos que no primeiro romance da série, o desempenho escolar e esportivo do jovem Octávio caiu absurdamente quando ele não realizou as práticas ensinadas pela velha índia. Admito que não entendi essa mudança radical de contexto narrativo entre os livros – ela me soou um tanto incongruente. Sem tomar o elixir no novo romance, Tavinho manteve uma inteligência tão superior que, mesmo não sendo pesquisador e/ou químico, conseguiu desenvolver uma versão sintética do composto xamânico. Juro que não engoli essa quebra do pacto ficcional (que era um dos alicerces dramáticos de “A Contrapartida”). Para ser sincero, não são muitas as cenas equivocadas do novo romance de Uranio. O problema é que as forçações de barra, as inverossimilhanças e a falta de lógica narrativa ocorrem justamente em momentos decisivos da trama e afetam, dessa forma, diretamente os acontecimentos do segundo volume da série “A Contrapartida”. Mesmo assim, “O Contra-ataque” é um romance tão bom, mas tão bom que nem mesmo esses tropeços estragam a experiência de leitura. Posso dizer sem medo de errar que esse é um dos melhores thrillers que li nesse ano – o novo romance de Uranio Bonoldi está lado a lado com “O Livro dos Baltimore” (Intrínseca) de Joël Dicker e “Refém da Memória” (Produção independente) de Helio Martins Jr. Diante de uma bem azeitada rede de adrenalina, sustos, horror, surpresas e reviravoltas, talvez você nem se incomode com as cenas que acabei de comentar. Na certa, você ficará tão envolvido(a) com o duelo entre Octávio Albuquerque Júnior e Carlos Rodrigues que comprará todas (ou a grande maioria) dos relatos trazidos pelas páginas de “O Contra-ataque”. Reconheço que desde já estou aguardando o lançamento do terceiro volume da série “A Contrapartida”. A boa notícia é que não precisaremos esperar tanto tempo pela publicação da nova parte da saga de Tavinho – dois anos e meio entre o primeiro livro e o segundo da coletânea foi uma eternidade para os ávidos fãs da literatura de Uranio Bonoldi. “O Outro Lado da História” (Valentina) deve ser lançado no finalzinho de 2022. Portanto, apertem os cintos no sofá porque teremos mais emoções em pouco tempo. Vida longa e muito sucesso para essa saga literária que está conquistando os leitores brasileiros. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: Stanislaw Ponte Preta

    O segundo entrevistado de 2022 é a maior criação ficcional de Sérgio Porto e é o autor de Febeapá, Festival de Besteira que Assola o País. Darico Nobar: Senhoras e senhores, senhoritas e senhoritos, o Talk Show Literário dessa noite tem um convidado para lá de especial. No programa de hoje, vamos conversar com um dos mais renomados colunistas sociais do Rio de Janeiro nas décadas de 1950 e 1960. Ele trabalhou por muitos anos no Última Hora. Foi assíduo usuário do Pretapress. Escreveu (e leu!) vários livros. Era fã das velhas Remington. Adorava as noites (e principalmente as madrugadas) cariocas. E saiu, morram de inveja, com dezenas e dezenas de Certinhas do Lalau. Com vocês, no palco do nosso talk show, ele – o verdadeiro e único Stanislaw Ponte Preta!!! [Lá vinha ele, escadaria abaixo do auditório, comendo suas goiabinhas quando encontrou a figurinha entusiástica do apresentador no centro do palco. Sentou-se no sofá de entrevistado indiferente aos ensurdecedores aplausos da plateia. O barulho vindo do público não demorou para cessar]. Stanislaw Ponte Preta: Olá! [Fez-se sério como um ministro de Estado, com as guloseimas na mão e a boca cheia]. Darico Nobar: Como vai o caro colega? Stanislaw Ponte Preta: Mais ou menos, enganando pela meia cancha, me defendendo como posso e atacando quando oportuno [guarda as goiabinhas no bolso do casaco]. Enfim, nem lá nem cá. Vivendo sem maiores sucessos [limpa as mãos na calça]. Darico Nobar: O amigo engana-se [interrompe o convidado sem qualquer cerimônia]. Saiba que estás de parabéns. É um orgulho para a nossa nação ter um escritor clássico em seu seio. [Abraça-o em postura militar e, vendo as mãos do entrevistado ainda sujas de doce, regozija-se]. Diga-me, Stanislaw, como surgiu o Febeapá? Stanislaw Ponte Preta: É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o país. Talvez a coisa tenha começado no século XVI, pouco depois que Pedro Álvares Cabral, rapaz que estava fugindo da calmaria, encontrou a confusão, isto é, encontrou o Brasil. Até aí não havia Rio de Janeiro. Pensando bem, a coisa degringolou pra valer depois de 1512, quando rapazes lusitanos que estavam esquiando fora da barra, descobriram uma baía muito bonita e, distraídos que estavam, não perceberam que era baía. Pensaram que era um rio e, como fosse janeiro, apelidaram a baía de Rio de Janeiro. Eis portanto, que o Rio já começou errado. Darico Nobar: E o auge do Festival? Há um período mais farto de besteira? Stanislaw Ponte Preta: A Redentora foi um marco, um divisor de águas. Cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem otoridades, sentindo a oportunidade de aparecer, já que a Redentora, entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo, institucionalizaram o Festival de Besteira. A partir daí, ele segue em caudal. Darico Nobar: E quando você constatou o primeiro caso típico de Febeapá? Stanislaw Ponte Preta: Ainda na escola. Era um garotinho quando a inspetora de ensino, portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que seu filho, meu coleguinha mais estimado, tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo que o filho era um debiloide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista. Sabe como é – filho nosso pode ter cara de burro, orelha cumprida, focinho equino, jeitão de jerico, cheiro de asno, atitude de besta, caminhar com quatro patas e mentalidade tacanha, mas não admitamos que ninguém o chame de burro impunemente. Darico Nobar: Esse episódio mexeu com você, né? Stanislaw Ponte Preta: Daí por diante entrei pro time dos descontentes de souza. Já adulto feito e desfeito, só abria a boca ou balançava a pena para dizer que é um absurdo, onde é que nós vamos parar, o Brasil está à beira do abismo etc. Mesmo na redação, onde eu era visto com suspeita pelos colegas, sempre rasguei o jogo e atirei maionese no ventilador. Darico Nobar: Foi quando surgiu sua antológica coluna no jornal. Stanislaw Ponte Preta: Puxa! Então era isto. Aqui o filho de d. Dulce tinha se tornado antológico num espaço pseudojornalístico dedicado às crônicas do café-soçaite e às desgraças policiais?! O que é a natureza, hem? Sinceramente, eu não mereço tantas lantejoulas. Até porque – hoje em dia – ser chamado de comunista é uma barbada. Aqui no Brasil pegou a moda de subversão. Tudo que se faz e que desagrade a alguém é considerado subversivo. Nesse país, cruzam cabra com periscópio pra ver se arrumam bode expiatório. Darico Nobar: Concordo. Stanislaw Ponte Preta: O Ibrahim, por exemplo, chamava de comunista todo aquele que lia o seu livro, 000 contra Moscou, e não gostava. Ora, como todo mundo que lia não gostava, é claro… todo mundo era comunista, não é mesmo? Esta folga precisa acabar. Sou da velha guarda, pra mim comunista é quem come criancinhas, bate nos padres, invade propriedades privadas e toca fogo nas casas burguesas. Darico Nobar: Sempre taxaram você de comunista, não é Stanislaw? Stanislaw Ponte Preta: Desde o tempo em que Papai Noel tinha barba preta. Uma vez me questionei sobre isso. Aí fiz o que todos deveriam fazer em caso de dúvida – consultei Tia Zulmira. A velha é batata e num instante matou a charada. Ela falou: “Meu filho, tá na cara que você já tinha um jeitinho comunista lá na maternidade. Por que você acha que seus pais te colocaram um nome russo, hem?”. Darico Nobar: Sabe que faz sentido... Mas, no fundo, ser visto como comunista não te incomoda nem um pouco? Stanislaw Ponte Preta: Há quem se ache mais inteligente quando o outro grita: seu comunista! O sujeito abre o sorrisão, se apruma e sai andando com o nariz empinado, como se tivesse sido elogiado ou ganhado pontos extras no teste de Q.I. Pior é ser chamado de reaça, emedebista, crente, usuário de redes sociais, coxinha, brasileiro nato ou consumista. Darico Nobar: Tenho a impressão de que o Febeapá será eterno no Brasil. Ele não acabará nunca, né? Stanislaw Ponte Preta: Quem nasce para cavalo vai morrer pastando. Para alegria da cocorocada, da meia dúzia de leitores de Ibrahim Sued, de quem recorre ao voto de cabresto e dos gozadores de plantão, a estrada será longa! Por aqui tem mais gozador que carestia. Tem vida-torta às pampas. Darico Nobar: Conte-nos, Stanislaw, um caso recente que poderia ilustrar o Festival de Besteira que Assola o País, se ele ganhasse uma edição mais contemporânea. Stanislaw Ponte Preta: Diz que era capitão, hoje chefe de Governo. Isto é, ficava o dia inteiro dentro de uma sala vendo se havia conspiração, manifesto, contrabando, mau-olhado e demais crimes contra a nação. Como sempre, não tinha nada. A coisa era de uma monotonia de fazer inveja ao cotidiano de Brasília, por mais que o país pegasse fogo. Até que um dia aconteceu um troço chato. Correu que o capitão tinha feito uma excelente descoberta. A notícia se esparramou por aí. Isto eu estou contando para você porque todo mundo já sabe, portanto não é fofoca não. Até o Primo Altamirando já ficou sabendo. Ligações de celular, mensagens no Telegram no maior código secreto. Secretárias e ministros cruzando os corredores do palácio na maior agitação. Os que trabalhavam no edifício onde se instalava o Executivo nacional notaram logo que tinha linguiça por debaixo do pirão. Foi aí que um curioso resolveu perguntar ao contínuo do gabinete qual era o pó?! Que movimentação era aquela? Houve alguma coisa grave? O capitão descobriu alguma coisa importante? Vão prender aqueles comunistas de sempre? Que qui foi, que qui não foi?! O contínuo, muitos anos a serviço da nobre família, fez-se de moita. Ficava balançando a cabeça, que nem amante de plantão, quando quer negar que teve um caso com certa senhora, mas ao mesmo tempo quer que a suspeita fique bem positivada. Fábio Jr. casa, Fábio Jr. separa, apareceu no Gabinete um jornalista que era um velho amigo do contínuo. Puxou-o pelo braço, levou-o para um cantinho discreto e quis saber: “Derrama a verdade, velhinho. Que qui houve? O capitão descobriu alguma infiltração nas áreas do judiciário, de perigosos agentes vermelhos no STF? O contínuo arregalou os olhos e sussurrou – Coisa mais pior. O homem fez um serviço belíssimo. Descobriu um cargo vago na embaixada dos Estados Unidos e quer nomear o filho dele. São cento e cinquenta mil por mês e mais as rachadinhas dos diplomatas. Darico Nobar: Ótima! Ótima história! Ótima mesmo!!! [As frases saem entrecortadas por causa da gargalhada que insiste em dominar o entrevistador. A plateia no auditório acompanha as risadas e aplaude]. Não disse que os causos dele eram ótimos [fala agora olhando para câmera 2, que está posicionada ao lado de sua mesa]. Stanislaw, conte-nos outra de suas crônicas [volta-se para o convidado]. Elas são impagáveis. Stanislaw Ponte Preta: São assim porque vocês querem. O dia em que colocarem aqui [bate com o dedo indicador da mão direita na palma da mão esquerda] cinco lobos guarás ou dez tartarugas de pente, elas deixarão de ser impagáveis, Darico. [Apresentador e plateia continuam rindo]. Stanislaw Ponte Preta: Em Recife, quem tocasse buzina na zona considerada de silêncio, pagava uma multa de vinte reais. O deputado estadual Alcides Teixeira sabia disso, mas distraiu-se e tocou. Imediatamente apareceu um guarda e multou-o. Alcides deu uma nota de cem reais para pagar os vinte e o guarda informou-o de que não tinha troco. O deputado quebrou o galho: deu mais quatro buzinadas na Zona de Silêncio, ficou quite com a Justiça e foi embora. Darico Nobar: Sensacional! [Se contorce na poltrona de tanto gargalhar]. Stanislaw Ponte Preta: O Sr. Juraci Magalhães tomava posse no Ministério das Relações Exteriores. A tônica de seu discurso era “continuar a obra de Vasco Leitão da Cunha”. Continuar a obra do Vasco Leitão da Cunha era uma boa maneira de dizer que não estava pretendendo fazer nada. Darico Nobar: Maravilhoso!!! [Enxuga os olhos com o lenço de tanto que riu]. Para terminarmos essa entrevista, qual é, na sua opinião, o maior mal do Brasil? Stanislaw Ponte Preta: A inflação. Darico Nobar: A inflação, Stanislaw?! Stanislaw Ponte Preta: Sim, a inflação de estupidez. Ao invés de diminuir, ela só aumenta. Ano a ano a cocorada e os fãs da Redentora se propagam como barracões nos morros do Rio, plateia em show de funk ou contribuintes em cultos evangélicos. Darico Nobar: Pessoal, esse foi o Talk Show Literário de hoje. Muito obrigado pela sua presença, Stanislaw. [Convidado faz que sim com um movimento de cabeça e coloca uma das mãos no bolso do casaco. A plateia aplaude]. Até a semana que vem com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva [olha outra vez para a câmera 2]. Até lá! [Apresentador e entrevistado se cumprimentam. O convidado, então, se levanta e caminha para a parte de trás do palco. Ele sai comendo suas goiabinhas tranquilamente]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Músicas: Nervos de Aço e Felicidade - As dores de cotovelo de Lupicínio Rodrigues

    Gravada em 1947, essa dupla de canções do compositor gaúcho está entre os clássicos da música popular brasileira. Lupicínio Rodrigues foi um dos mais prolíficos e talentosos compositores brasileiros da metade do século XX. Gaúcho de Porto Alegre, Lupe, como o músico era chamado desde a infância, compôs principalmente marchinhas de carnaval e sambas-canção. Ele também é o autor do hino do seu clube do coração, o Grêmio. Os famosos versos "Até a pé, nós iremos/ para o que der e vier/ Mas o certo é que nós estaremos/ com o Grêmio, onde o Grêmio estiver" têm como origem uma greve de ônibus na capital gaúcha na época da criação do hino. Entretanto, a especialidade de Lupicínio eram canções melancólicas que contavam histórias frustradas de amor. A inspiração do cantor eram suas intermináveis desilusões amorosas: traições e abandonos das mulheres amadas eram uma constante em sua vida. O músico vivia tanto na fossa que foi ele quem criou o termo "dor de cotovelo", prática usada pelos homens de colocar esta parte do braço no balcão do bar para lamentar suas amarguras sentimentais. Em 1973, um ano antes de falecer, em uma entrevista para a revista Pasquim, ele disse: "Tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as me fizeram bem eu esqueci". O repertório musical de Lupicínio Rodrigues tem aproximadamente 150 canções gravadas, além de outras 100 músicas à espera de aproveitamento. Deste conjunto enorme de belas composições, os destaques são "Vingança", "Nervos de Aço" e "Felicidade". O trio de obras-primas do gaúcho está entre as melhores da história da música brasileira. Apesar de "Vingança" ser apontada como a melhor, "Nervos de Aço" e "Felicidade" representaram um momento especial na vida do músico, pois foram gravadas ao mesmo tempo, em 1947. Ou seja, aquele ano foi um período dourado, musicalmente falando, para Lupicínio, apesar de ter representado muitos dissabores sentimentais. Há setenta anos, surgiam duas das mais importantes canções brasileiras de todos os tempos. "Nervos de Aço", como não poderia ser diferente em se tratando de uma composição de Lupicínio, fala de uma das muitas dores de cotovelo do autor. Esta, contudo, foi a sua primeira grande desilusão amorosa. Iná foi a primeira namorada séria do jovem Lupicínio. A moça morava em Santa Maria, cidade onde o futuro músico servia como cabo do Exército. Os dois namoraram por cinco anos e chegaram a ficar noivos. Cansada de esperar que Lupicínio largasse a boemia e a pedisse em casamento, Iná decidiu terminar o relacionamento. Ela prometeu a Lupicínio, enquanto discutiam o rompimento, que iria se casar com o primeiro homem que visse, não se importando se fosse sofrer no futuro. Algum tempo depois, Lupicínio a encontrou em uma festa. Ela já estava casada. Veja, a seguir, a letra da música e a ouça na voz de Francisco Alves, o mais famoso intérprete desta canção. Esta versão é a original de 1947: Nervos de Aço (Lupicínio Rodrigues - 1947): Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher. E depois encontrar esse amor, meu senhor, Nos braços de outro qualquer. Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? E por ele quase morrer. E depois encontrá-lo em um braço, Que nem um pedaço do meu pode ser. Há pessoas com nervos de aço, Sem sangue nas veias e sem coração. Mas não sei se passando o que eu passo Talvez não lhes venha qualquer reação. Eu não sei se o que trago no peito É ciúme, é despeito, amizade ou horror. Eu só sei é que quando a vejo Me dá um desejo de morte ou de dor. Francisco Alves, chamado de "Rei da Voz", gravou outras célebres criações de Lupicínio Rodrigues. "Esses Moços" e "Cadeira Vazia" foram grandes sucessos na década de 1950. Em 1973, Paulinho da Viola regravou "Nervos de Aço". Esta versão é diferente da de Francisco Alves, por ser mais intimista e passional, sendo mais parecida com a forma como Lupicínio a cantava. Repare, no vídeo abaixo, o depoimento inicial de Paulinho da Viola sobre o motivo de cantar esta canção de um jeito triste e melancólico. Há doze anos, esta música voltou a ser lembrada pelos brasileiros. O motivo é um tanto pitoresco. Em 2005, Roberto Jefferson, um político corrupto da base partidária do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi pego com a mão na botija (ou seria no dinheiro?) em um vídeo que rodou o país. Mais tarde, ele seria denunciado na CPI dos Correios, escândalo que desencadeou o Mensalão. Por causa das acusações, Jefferson precisou ficar um período recluso em seu apartamento em Brasília. Enquanto a imprensa ficava no lado de fora da residência esperando uma declaração do político, ele cantava "Nervos de Aço" para todos ouvirem. Seu desempenho musical era depois mostrado nos telejornais noturnos do país inteiro. Ao menos bom gosto musical, ele tinha. O sucesso de sua interpretação foi tão grande na época, que Jefferson foi convidado para cantar no programa do Jô Soares. E ele foi! Coisas de Brasil. "Nervos de Aço" fala de um triângulo amoroso (não tem nada a ver com política, tá?). O homem apaixonado e abandonado possui sentimentos contraditórios pela antiga amada. Em um primeiro momento, ele se ressente pelo fim da relação e por vê-la nos braços de outro. Aparentemente, o término do relacionamento não havia sido superado por ele. Depois, no segundo momento, o eu lírico da canção lança-se em um sentimentalismo mais passional e contraditório. Ele não consegue explicar exatamente o que sente pela mulher: um misto de desprezo, raiva e, até, amor. No mesmo ano de 1947, o grupo Quintandinha Serenaders, pouco lembrado hoje em dia, gravou "Felicidade". Apesar do título, a música possui o mesmo apelo melancólico e triste que marcou as obras de Lupicínio. Isso fica evidente desde os primeiros versos: "Felicidade foi-se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora/ E é por isso que eu gosto lá de fora/ Porque sei que a falsidade não vigora". A diferença desta música é que a tristeza é mais generalizada. Ela não é provocada apenas por uma única desilusão amorosa, mas por todos os aspectos provenientes do coração. Tudo é motivo para lamentação e dor quando o assunto é sentimento amoroso. Tudo! A impressão que se tem é que o próprio coração humano é fonte inesgotável de melancolia e tristeza para seu proprietário. Veja, a seguir, a letra desta canção e confira também a interpretação do próprio Lupicínio. Note que, nesta versão, não se canta todos os versos da música (apenas a parte mais famosa). Além disso, é possível ver o quão difícil é cantar esta letra. Ela foi feita com saltos de uma oitava, exigindo grande atenção do cantor na hora de sua execução. Felicidade (Lupicínio Rodrigues - 1947): Felicidade foi-se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque sei que a falsidade não vigora Lá onde eu moro tem muita mulher bonita Que usa vestido sem cinta e tem na boca um coração Cá na cidade se vê tanta falsidade Que a mulher faz tatuagem até mesmo na pensão Felicidade foi-se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque sei que a falsidade não vigora A minha casa fica lá detrás do mundo Mas eu vou num segundo quando começo a cantar E o pensamento parece uma coisa à toa Mas como é que a gente voa quando começa a pensar Felicidade foi-se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque sei que a falsidade não vigora Na minha casa tem um cavalo tortilho Que é irmão do que é filho daquele que o Juca tem Quando eu agarro seus arreiros e o encilho Sou pior que limpa-trilho e corro na frente do trem. Felicidade foi-se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque sei que a falsidade não vigora. Depois de terem ficado muitos anos esquecidas, as músicas de Lupicínio Rodrigues voltaram a ser regravadas pelos cantores tropicalistas entre o final da década de 1960 e o início dos anos de 1970. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa eram fãs assumidos do músico gaúcho. Paulinho da Viola também sempre externou sua admiração. Não foi à toa que todos estouraram nas rádios do país com as antigas criações de Lupe. Para completar este interessante debate sobre Lupicínio Rodrigues, só faltou mesmo falarmos de "Vingança", sua maior obra musical. Como o assunto sobre esta música é rico e muito amplo, é melhor deixarmos a história desta canção para um futuro post. Afinal, vale a pena conversarmos à parte sobre "Vingança", esta incrível criação sobre traição e retaliação amorosa. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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  • Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Maio de 2012

    A tensão dos corintianos chega a níveis insuportáveis na reta final da Copa Libertadores de 2012, o grande sonho de consumo dos torcedores alvinegros. 1° de maio de 2012 - terça-feira O Timão chegou ontem ao Equador. O voo até Guayaquil, a cidade mais populosa do país, foi marcado por problemas e polêmicas envolvendo o elenco corintiano. A primeira surpresa foi a ausência de Liedson entre os atletas escolhidos para a viagem. O técnico Tite preferiu não o levar para a primeira partida das oitavas de finais da Libertadores. A alegação do chefe foi que o luso-brasileiro precisava adquirir melhor forma física. Dessa maneira, o centroavante ficou em São Paulo, onde deverá seguir treinando. William foi confirmado como o terceiro homem no ataque. Élton será o centroavante no banco de reservas. Em outras palavras, Liedson foi barrado no momento decisivo da temporada e perdeu definitivamente o status de titular da equipe do Parque São Jorge. Até que enfim! Outro ponto delicado foi a decisão do treinador de levar os três goleiros para o Equador. Depois de ter dado indícios de que Júlio César não iria para o jogo, a comissão técnica optou por levá-lo juntamente com Cássio, o novo titular, e Danilo Fernandes, o reserva imediato. Mesmo não tendo previsão para entrar em campo, Júlio foi junto com a delegação alvinegra. Pode ser uma estratégia para não desmotivar o antigo dono absoluto da baliza corintiana. Vai entender, né?! A principal polêmica do dia envolveu o jovem zagueiro Marquinhos. Pela carência de jogadores no setor defensivo e aproveitando a saída de Adriano, o garoto vindo da base foi inscrito no torneio sul-americano no lugar do Imperador. A prata da casa ficaria, à princípio, no banco de reservas no próximo jogo. Se o incômodo sentido por Chicão durante toda a semana passada persistisse, havia até mesmo a possibilidade de Marquinhos ser escalado entre os titulares. Essa era a previsão... Por ser ainda menor de idade, o jovem atleta precisava de uma autorização formal dos pais para viajar ao exterior, algo que ele não tinha na hora do embarque. Enquanto toda a delegação corintiana voava para o Equador, o zagueiro precisou permanecer em São Paulo. Ele teve que correr atrás da documentação necessária para viajar em um próximo voo. A estimativa é que Marquinhos chegue no dia da partida. Portanto, não irá treinar nem concentrar com os companheiros. Essa é a previsão mais otimista. Há ainda o risco de ele não conseguir embarcar a tempo para a partida de quarta. Ai, ai, ai. A imprensa e os torcedores foram implacáveis ao questionar o planejamento do time. Um jogador importante não poder embarcar por falta de organização interna dos dirigentes é o fim do mundo! E justamente no jogo mais importante do ano para o Coringão. Não à toa, os cartolas corintianos foram bombardeados nas últimas horas por críticas e mais críticas. Esse é um erro infantil (literalmente) que pode prejudicar toda a temporada do clube paulista. Para alívio da Fiel, as últimas notícias vindas de Guayaquil indicam que Chicão treinou normalmente e vai para o jogo de amanhã contra o Emelec. O Timão foi escalado por Tite da seguinte forma: Cássio; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Jorge Henrique, Emerson Sheik e William. As oitavas de finais da Copa Libertadores de 2012 vão começar. Preparem-se! 2 de maio de 2012 - quarta-feira A fase eliminatória da Libertadores iniciou hoje para a nação corintiana. O drama alvinegro na competição só irá aumentar daqui para frente. Das oito eliminações do Timão na história do torneio sul-americano, quatro foram na fase de oitavas de finais. Em todas, sem exceção, a equipe do Parque São Jorge era superior ao adversário em qualidade. Exatamente como acontece agora. Ai meu Deus! O jogo em Guayaquil foi bastante nervoso. O estádio acanhado e totalmente lotado era um caldeirão hostil aos brasileiros. O zagueiro Marquinhos conseguiu chegar a tempo e foi para o banco de reservas. O Emelec começou a partida em cima, tentando fazer o mais rápido possível seu primeiro gol. O Corinthians, receoso, apenas se defendia. A principal jogada dos equatorianos era a bola alçada na área para o cabeceio dos atacantes. Sabendo disso, o técnico Tite treinou seus jogadores para impedir tal recurso do oponente. Sem conseguir fazer cruzamentos com a bola rolando, o Emelec teve apenas três oportunidades durante o primeiro tempo. Todas em bolas paradas: duas cobranças de falta e um escanteio. Nesses lances, a bola até chegou à área corintiana, mas foi defendida com facilidade pelo gigante Cássio. Sem conseguir armar um contra-ataque sequer, o Timão não chegou perto do gol adversário. O primeiro tempo terminou 0 a 0 e sem grandes chances para os times. A única nota triste do primeiro tempo foi a atuação catastrófica do juiz. Se os jogadores do Parque São Jorge pareciam imunes à pressão da torcida, a mesma coisa não podia ser dita do árbitro. Ele claramente estava invertendo faltas, dava cartões amarelos aos corintianos sem necessidade e errava vários lances fáceis, sempre favorecendo o time da casa. Era revoltante! Se o desempenho do juizão estava complicado antes do intervalo, no segundo tempo piorou ainda mais. Logo no início, cansado de receber faltas e pontapés ignorados pela autoridade em campo, Jorge Henrique entrou mais forte no adversário, tomou o segundo amarelo e foi expulso. Obviamente, os atletas do Emelec não ganharam nenhum cartão e ficaram todos em campo até o final. Na sequência, os jogadores do Timão receberam uma infinidade de cartões amarelos, por reclamações e por faltas normais de jogo. Quase todos os brasileiros em campo haviam sido advertidos e estavam pendurados. Além do nervosismo corintiano fruto da catastrófica atuação do árbitro, o Emelec empolgado com o grito da torcida foi para cima com tudo. Com um a menos, o Corinthians se contentava em se defender. O Emelec teve várias chances para marcar no segundo tempo, mas parou na ótima atuação da defesa paulista. Cássio esteve seguro em todas as jogadas. Defendeu pelo menos duas bolas difíceis. O goleiro foi o melhor em campo e a defesa alvinegra inteira mereceu elogios. No ataque, Emerson foi o único destaque positivo. Mesmo jogando isolado, deu trabalho aos adversários. O empate sem gol no Equador foi comemorado como vitória pelo Timão, ainda mais pela forma como aconteceu: com um homem a menos e sofrendo pressão no segundo tempo. A classificação para as quartas será decidida na próxima semana no Pacaembu. Em nosso estádio, as chances de vitória aumentam. Essa é a esperança. 3 de maio de 2012 - quinta-feira Reservei a manhã seguinte ao empate no Equador para acompanhar a repercussão do jogo na imprensa. Era unanimidade nos jornais esportivos, nas páginas dos portais da Internet e nos programas televisivos que o Corinthians havia conseguido um bom resultado no exterior. Se a atuação dos jogadores comandados por Tite foi contestada, principalmente pela postura excessivamente defensiva e pela ausência de chutes ao gol adversário, o placar final da partida foi enaltecido. Outros destaques da mídia foram: a atuação soberba do goleiro Cássio, a péssima atuação do juiz, a expulsão infantil de Jorge Henrique e a perspectiva para o jogo de volta. Como falado ontem, Cássio foi o melhor em campo. Minha opinião era compartilhada pela maioria dos jornalistas esportivos. O goleiro esteve perfeito em campo, calmo e preciso. Fez duas defesas difíceis no chão, ambas em bolas fortes e rasteiras chutadas contra a sua meta. Ele também se saiu muito bem quando teve que interceptar os cruzamentos pelo alto. A Fiel e os jogadores aprovaram o novo arqueiro. A sensação de confiança no rapaz é total agora. Aparentemente os problemas no gol alvinegro estão resolvidos. As maiores críticas, por sua vez, recaíram sobre o árbitro. O juizão teve uma atuação considerada péssima pela crítica especializada e pelo elenco corintiano. Até mesmo o discreto e educado presidente corintiano, Mário Gobbi, não aguentou. Ele veio à público reclamar. Logo após o término da partida, Gobbi bradou nos microfones das rádios: “Como podem botar um incompetente aqui?!”. E completou: "Eu quero uma arbitragem séria e que ganhe o melhor. Foi um desrespeito ao desporto mundial”. O presidente estava certo em chutar o pau da barraca. Se ninguém chiar, pode ser que na próxima partida sejamos novamente roubados. Jorge Henrique também foi muito questionado por revidar uma agressão do adversário. Sua expulsão foi justa. O atacante prejudicou duplamente o Coringão: ao deixar os companheiros em desvantagem numérica na partida de ontem; e por não poder jogar o jogo da próxima semana (cumprirá suspensão automática). Curiosamente, Jorge Henrique é conhecido por fazer exatamente o oposto. É ele quem normalmente irrita os rivais nos confrontos decisivos e quase sempre consegue cavar uma expulsão do oponente. Dessa vez, o camisa 23 experimentou do próprio veneno. O que amenizou um pouco a situação de Jorge foi a péssima arbitragem, considerada a grande vilã e a principal responsável pelo descontrole emocional do atleta. Para completar, a expectativa continua elevada para o jogo da volta. Atuando em casa e precisando de uma vitória simples, o Corinthians ainda é o favorito para avançar à próxima fase. Se a partida terminar com empate sem gol, a decisão irá para os pênaltis. Se o empate vier com gols, a classificação é do Emelec. Portanto, para o Timão só resta vencer ou vencer. O que fez aumentar a confiança da Fiel foi constatar que nossos rivais têm um time tecnicamente fraco. Dificilmente, eles conseguirão segurar a pressão corintiana em São Paulo. Se bem que eu disse a mesma coisa sobre a Ponte Preta nas quartas de finais do Paulistão... 4 de maio de 2012 - sexta-feira Era para eu acompanhar, ontem, os demais jogos da Libertadores. Minha ideia era ver quem estava jogando melhor e ter uma noção do nível de dificuldade dos próximos confrontos da competição. Porém, não consegui. Acabei saindo à noite. Só quando regressei de madrugada pude assistir com calma a algumas partidas. No Fox Sports, vi toda a reprise de Boca Juniors e Unión Espanhola. O tradicional time argentino esteve mais uma vez muito mal, com dificuldades para armar suas jogadas e para chegar ao gol adversário. Esse foi o terceiro jogo do Boca que assisti nessa Libertadores. E em todas as ocasiões fiquei decepcionado. O problema estava exatamente nisso. Os xeneizes jogam mal e mesmo assim conseguem vencer no final e avançar na competição. Foi o que aconteceu ontem. O Unión Espanhola jogou bem melhor. Só não venceu porque tem péssimos atacantes. Nos minutos derradeiros da partida, o Boca aproveitou suas poucas chances. Venceu por 2 a 1 em La Bombonera e garantiu a vantagem do empate no próximo jogo no Chile. Depois, vi os melhores momentos de Vasco da Gama e Lanús. Em São Januário, os vascaínos foram superiores na primeira etapa. Saíram para o intervalo com a vantagem de dois tentos. Um dos gols foi uma pintura. Diego Sousa deu um chapéu no adversário antes de chutar para as redes. Golaço! No segundo tempo, os brasileiros diminuíram o ritmo e viram os argentinos melhorarem. Após alguma pressão, o Lanús diminuiu o placar para 2 a 1 e saiu de campo feliz com o resultado. Uma vitória simples na próxima partida dará a vaga aos portenhos. Revoltada com a queda de rendimento do time, a torcida vascaína vaiou os jogadores no final do jogo. Aqui vai um pequeno resumo das partidas de ida dos demais confrontos. O Vélez Sarsfield voltou a mostrar força: venceu os colombianos do Atlético Nacional, em Medellín, por 1 a 0. Os argentinos devem se classificar sem dificuldades ao jogar na semana que vem em sua casa. O Cruz Azul empatou com o Libertad em 1 a 1 na Cidade do México. Os mexicanos precisarão atacar em Assumpção para passar às quartas. Na altitude da capital peruana, o Deportivo Quito conseguiu golear os chilenos do Universidad de Chile por 4 a 1. Obteve, assim, o melhor placar da rodada e pode até perder por dois gols de diferença em Santiago. Os resultados dos jogos dessa semana mostraram o quanto a Copa Libertadores é uma competição difícil e equilibrada. Dos oito duelos, apenas um teve diferença superior a um gol. Os demais confrontos terminaram empatados ou um time venceu por 1 a 0 ou 2 a 1. Dessa maneira, todos os chaveamentos seguem indefinidos para a próxima semana. Diria até que a própria disputa entre Deportivo Quito e Universidad de Chile também está aberta, pois os chilenos são muito fortes em seu estádio e podem muito bem devolver a goleada sofrida fora de casa. Além de Corinthians e Emelec no Pacaembu, serão outros sete grandes duelos pelas oitavas de finais. Acredito que devem passar para a próxima fase os seguintes times: Fluminense, Boca Juniors, Libertad, Universidad de Chile, Corinthians, Vasco, Santos e Vélez. Vamos ver depois o nível de acerto dos meus palpites. 5 de maio de 2012 - sábado Estamos na véspera das primeiras partidas das finais dos principais torneios estaduais pelo país. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Goiás, Bahia e Pernambuco, os olhos dos torcedores estão voltados para os preparativos das decisões locais. Curiosamente, no meio de tantas notícias envolvendo jogadores, técnicos, critérios de desempate e escolha dos estádios, uma manchete rodou os principais veículos de comunicação do Brasil nesse sábado: "Federação Carioca de Futebol libera a gandula Fernanda para o jogo no Engenhão entre Botafogo e Fluminense". Como assim, uma gandula liberada?! Para compreendermos a manchete, é preciso antes contar os acontecimentos do final de semana passado. O Botafogo jogava em seu estádio contra o Vasco da Gama. Quem vencesse iria para a final contra o Flu. A partida seguia muito equilibrada. Aí a bola saiu pela linha lateral e foi reposta instantaneamente por uma das gandulas do Engenhão. O Botafogo se aproveitou, foi ao ataque e conseguiu fazer o primeiro gol. Em vantagem, os botafoguenses dominaram o restante da partida e venceram com facilidade por 3 a 1. Logo após o término do jogo, os repórteres esportivos esqueceram os jogadores e correram para entrevistar a heroína da semifinal: a gandula responsável pelo início da jogada do primeiro gol. Sua reposição rápida de lateral foi decisiva para a classificação botafoguense. Para a surpresa de todos, a moça era muito bonita e extremamente articulada. Seu nome, Fernanda Maia. Aos 23 anos, ela é formada em educação física, é torcedora fanática do Fogão e é muuuuuuito gata! O destaque na mídia foi tão grande que, durante a semana, Fernandinha foi convidada para participar de vários programas de TV: foi ao Globo Esporte do Rio, ao Programa da Ana Maria Braga, gravou uma reportagem para o Programa Pânico e encheu as páginas dos jornais especializados com sua história. Disse sonhar em trabalhar no futebol como preparadora física. Declarou também querer participar da Copa do Mundo de 2014 como gandula. Até um ensaio sensual antigo da garota o pessoal achou. No Rio de Janeiro e no país inteiro, os torcedores só comentam uma coisa: a atuação maravilhosa da gandula maravilhosa. Fernanda Maia tornou-se uma estrela do futebol nacional. Ao menos nessa semana. Preocupado com a possibilidade de enfrentar a heroína do Botafogo na final do Carioca, o Fluminense pediu à Federação de Futebol local para proibir a entrada da moça nas duas partidas decisivas da competição, que serão realizadas no Estádio do Engenhão. Para a felicidade dos botafoguenses (e das demais torcidas), a Federação liberou a musa para trabalhar. Agora sim, dá para entender a informação divulgada com tanto estardalhaço pela mídia: "Federação Carioca de Futebol libera a gandula Fernanda para o jogo no Engenhão entre Botafogo e Fluminense". Para ficar melhor, só mesmo se surgisse uma nova notícia comunicando que a Federação Carioca mudou o uniforme da gandula. Porque aquele macacão laranja é muito feio e não valoriza as belas curvas da nossa Fernandinha. Por favor, Federação! Vamos pensar nos detalhes do espetáculo. 6 de maio de 2012 - domingo Vou ser sincero. Não estava com vontade nenhuma de acompanhar as finais dos estaduais. Sei que o domingo estava repleto de grandes jogos em todos os cantos do país, mas não tinha motivação nenhuma para assisti-los. Pensando agora nas possíveis razões dessa minha indisposição ao futebol, encontrei apenas um grande motivo: a preocupação com o Timão se elevava consideravelmente nos últimos dias. A situação vivida pelo Corinthians nas últimas duas semanas se complicara demais! Depois de ficar invicto vários meses e encher a Fiel de esperança, a derrota para a Ponte Preta nas quartas de finais do Paulista provocou uma profunda decepção na torcida. Perdi até a vontade de acompanhar o restante da competição. Além disso, as dificuldades vividas pelo Timão na Libertadores da América estavam começando a me dar nos nervos. Já não tinha tanta certeza na conquista do título como tivera no começo do ano. Fico me perguntando o tempo inteiro se a equipe do meu coração conseguirá realmente passar pelo Emelec na próxima quarta-feira. Essas dúvidas eram minhas e da maioria dos corintianos. Cientes de tal condição, os torcedores rivais começavam a se divertir a nossas custas. Encontrei, por exemplo, um site chamado Quando Ele Cai (www.quandoelecai.com.br) em que os anticorintianos podem apostar em qual fase do torneio sul-americano o Timão será desclassificado. Quem acertar a etapa, o time oponente e o placar da eliminação concorre ao sorteio de uma camisa da equipe adversária e ganhará adesivos com o placar da partida derradeira. Logo no início da página, surge a seguinte mensagem: "O Corinthians conseguiu uma vaga na Libertadores 2012. Isso significa duas coisas: 1) Milhões de torcedores vão se encher mais uma vez de esperança; 2) Milhões de outros torcedores vão rir da frustração dos primeiros porque é óbvio que ele não vai ser campeão". Será mesmo que a sina das eliminações precoces do Timão na competição se manifestará mais uma vez? Será que passarei a vida inteira sem ver meu time levantar o caneco sul-americano? Em caso de nova desclassificação, essa seria com certeza a mais doída. Nunca estivera tão confiante como agora. Além disso, o que faria com as páginas já escritas desse relato? Elas seriam perdidas pela falta de interesse das pessoas em acompanhar mais uma vez uma derrota do Corinthians. Meu trabalho diário de cinco meses e meio seria simplesmente jogado na lata do lixo. Será que eu cometera um grande erro ao ter a ideia de escrever essas notas no começo de janeiro? Já começava a me arrepender de ter iniciado O Ano que Esperávamos há Anos. Por tudo isso, meu domingo foi simples: passeio no parque de manhãzinha, visita à minha avó materna que completava 90 anos, almoço com a Thalita e cineminha à tarde. Fiquei longe da televisão. Só soube dos resultados dos principais jogos quando voltei para casa à noite: o Santos venceu o Guarani por 3 a 0 com show de Neymar e Ganso. No Rio, o Fluminense goleou o Botafogo da Fernandinha por 4 a 1. A gandula não teve boa atuação dessa vez. Provavelmente, a musa botafoguense não dará tantas entrevistas ao longo da semana. A vida de gandula-estrela não é fácil. 7 de maio de 2012 - segunda-feira A maioria das novidades do Timão vem do departamento médico. O zagueiro Wallace surpreendeu os doutores e parece totalmente recuperado da grave contusão sofrida no tornozelo. Ele se machucou na partida contra o Santos ainda na primeira fase do Paulistão. Sua recuperação aconteceu em tempo recorde. A estimativa médica era de quatro meses para a volta ao gramado do jogador. Com a força de vontade do atleta, em pouco mais de dois meses Wallace já treina no campo para readquirir a melhor forma física. "Realmente, sua recuperação impressiona. Ele é um guerreiro...", afirmou ao jornal O Lance! o doutor Júlio Stancati. Se a equipe do Parque São Jorge passar para a próxima etapa da Libertadores, o zagueiro baiano deverá ser novamente relacionado para as partidas. Deverá ficar no banco de reservas como opção. Se as notícias de Wallace enchem a torcida de otimismo, as informações sobre o outro defensor, Paulo André, preocupam a Fiel. Depois da cirurgia no joelho direito, a previsão era de 40 dias para Paulo voltar a treinar. Passados quase 100 dias desde a artroscopia, o atleta continua reclamando de dores e precisará fazer mais sessões de fisioterapia. Não há previsão de volta aos campos do zagueiro titular no início da temporada. O que preocupa ainda mais em se tratando de Paulo André é o seu histórico de contusões graves. Ao longo da carreira, o jogador sempre esteve envolvido em sérias lesões e precisou fazer várias cirurgias. Quem se deu mal durante os treinamentos do final de semana foi o chinês Zizao. Ele teve nova lesão no ombro esquerdo. Deverá passar por uma cirurgia para resolver o problema. A operação ocorrerá nos próximos dias e ele vai ficar parado por três meses. Dessa forma, dificilmente irá jogar alguma partida em 2012, pois até readquirir a forma física, o Brasileirão já estará na reta final. E é pouco provável que o técnico Tite o use nas partidas decisivas do campeonato nacional. Se não fossem esses problemas com Zizao e Paulo André, o departamento médico corintiano estaria vazio. Os demais jogadores com algum caso clínico já se recuperaram e estão à disposição de Tite. Alessandro, Jorge Henrique, Alex e o lateral Ramon estão 100% prontos para atuar nos jogos. Por falar em problemas médicos, o Corinthians parece interessado em trazer o atacante Nilmar. O jogador, atualmente no Villarreal da Espanha, é o novo sonho da diretoria alvinegra para reforçar o time na janela de transferência do meio de ano. O rápido atacante viria para o lugar de Liedson, que não deverá ter seu contrato renovado. Nilmar já jogou pelo Timão. Sua primeira passagem pelo Parque São Jorge foi excelente: conquistou o Brasileirão e foi convocado várias vezes para a seleção. O problema é seu histórico de contusões. Ele joga um jogo e, depois, fica dez no departamento médico. Aí não dá, né? Para piorar, os espanhóis estão querendo R$ 19 milhões para liberá-lo. Com certeza é um péssimo negócio. Se é para ficar com um jogador machucado, fiquemos com o Liedson. Pelo menos não precisaremos pagar R$ 19 milhões para tê-lo em nosso departamento médico. 8 de maio de 2012 - terça-feira Hoje é o meu aniversário. Completo 31 anos. O passar do tempo, por enquanto, não me incomoda de maneira nenhuma. Gosto de envelhecer e me sentir cada vez mais maduro. Definitivamente, não trocaria a minha idade atual por nenhuma outra já vivida. Não sei exatamente por quanto tempo ainda poderei dizer a frase anterior, mas não me preocupo com tal questão no momento. O único aspecto desagradável do passar do tempo é constatar a proliferação de fios brancos em meus cabelos e o excesso de partes claras em minha barba. Se não fosse isso, nem perceberia os efeitos da acumulação dos anos. Talvez seja essa a cruel função dos espelhos, né? E não adianta nada a pessoa vir com aquela conversa fiada de que "o homem fica mais charmoso com mechas brancas na cabeça" porque não caio mais nesse papinho. Agradeço a tentativa de me agradar com essa história, mas ela não é tão eficiente assim para elevar o meu ânimo e minha autoestima. Já que estamos falando de aniversário, acho que devo escrever sobre os presentes que almejo, certo? Se alguém quiser me ver feliz hoje, pode aparecer aqui em casa com a nova camisa do Timão. Ela foi lançada na sexta-feira passada e não traz os patrocinadores que eram estampados no peito, nas mangas e nas costas. Como o contrato com a Hypermarcas se encerrou recentemente e não foi renovado, o uniforme do Corinthians está lindo todo de branco (e no caso do modelo reserva, está todo preto). Adoro camisa de time de futebol sem patrocinador. Assim, quem quiser me agradar já sabe, o meu número é o P (mas se trouxer o M também tá valendo!). Se a diretoria do Parque São Jorge quiser atender aos meus apelos, pode contratar um bom centroavante como presente. Eu ficaria muito feliz em ter um belo camisa 9 no time titular. E dessa vez, por favor, contratem um jogador em boas condições físicas e clínicas. Não me tragam aqueles quase ex-jogadores gordos, machucados, sem vontade de jogar e que acham que o Corinthians é um spa ou clube de lazer. Se alguma entidade divina estiver me ouvindo (ou lendo, no caso) essas minhas palavras, saberá imediatamente o meu grande desejo. Estou me dedicando há cinco meses à saga de O Ano que Esperávamos Há Anos, a narrativa sobre a primeira conquista corintiana na Libertadores. Como não quero ver meu plano frustrado, peço à vossa excelência a classificação para as quartas de finais. Não me importo se for sofrida, com gol no final ou se vier depois da disputa de pênaltis (os corintianos já estão acostumados a padecer), o que vale é a passagem para as quartas de finais. Perceba, vossa divindade, que não estou pedindo por ora o título da Libertadores. Sei que tal pedido é grande demais para um simples aniversário. Estou sendo sensato e humilde, tá? Só quero, por enquanto, a vaguinha nas quartas. Viu como é um pedido simples e fácil de ser atendido! Se vossa excelência achar pouco, pode eliminar o Santos da competição sul-americana que já estará ajudando bastante. Só não vá confundir os pedidos, por favor. O CORINTHIANS deve se CLASSIFICAR e o SANTOS deve ser ELIMINADO. Deixe-me repetir o meu pedido de aniversário: CORINTHIANS CLASSIFICADO e SANTOS ELIMINADO!!! Ficou claro, agora? Não vá trocar as bolas, por favor, como no Paulistão. 9 de maio de 2012 - quarta-feira O Corinthians subiu a campo para enfrentar o Emelec no jogo de volta das oitavas da Liberta com Alex no lugar do suspenso Jorge Henrique. Por isso, o Timão jogou com dois meias-armadores ao invés de apenas um. Mais gente no meio de campo era o sinal da necessidade de atacar, mas sem se descuidar da defesa. Só a vitória interessava ao Bando de Loucos que lotou o Pacaembu mais uma vez. Os 11 escolhidos por Tite para iniciar a partida foram: Cássio; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Emerson Sheik e Willian. O clima no estádio era de apreensão (quase disse de filme de terror). A torcida cantava e gritava de um jeitão mais comedido. A preocupação era nítida nos rostos e nos comportamentos do público. Há 12 anos o time do Parque São Jorge não vencia um confronto de mata a mata da Libertadores. E o jogo dessa noite parecia ser difícil. Eu disse parecia porque logo aos 7 minutos, o lateral Fábio Santos recebeu passe de Emerson. Contando com o vacilo dos zagueiros equatorianos, o camisa 6 chutou para dentro das redes. Gol! O Timão fazia 1 a 0 com grande facilidade. A partir daí, o domínio e a maior qualidade dos brasileiros imperaram. A vantagem logo cedo no placar também trouxe a tranquilidade necessária aos jogadores. O restante do primeiro tempo foi de total pressão alvinegra. Paulinho, o melhor em campo, chutou duas bolas no gol do Emelec: uma bateu na trave e a outra foi defendida espetacularmente pelo goleiro. William também chutou para fora um passe recebido na pequena área. Os equatorianos não chegaram nenhuma vez ao gol de Cássio durante os 45 minutos iniciais. Curiosamente, a supremacia corintiana em campo, ao invés de deixar a torcida confiante e animada, apenas angustiava mais a Fiel. Gato escaldado tem medo de água fria, né?! Quantas vezes já tínhamos visto o Corinthians ser eliminado da Libertadores após um ótimo primeiro tempo? Várias! Um gol do Emelec colocaria fogo na partida. Se isso acontecesse, os jogadores do Parque São Jorge dificilmente manteriam a cabeça fria para vencer. Com esse intuito, o Emelec voltou pressionando. Cássio foi sensacional durante todo o segundo tempo, quando foi verdadeiramente exigido. Fez defesas difíceis, saiu do gol com segurança, evitou cruzamentos e parou todos os ataques do Emelec. O Timão também atacou bastante na etapa complementar, perdendo ótimas chances com Paulinho e Alex. Já no finalzinho, para amenizar um pouco o suspense que o placar apertado proporcionava, Paulinho e Alex fizeram um gol cada um. Vitória garantida e classificação do Corinthians assegurada. A torcida só comemorou mesmo após o apito final do árbitro. A explosão de alegria e alívio nas arquibancadas foi comparável à conquista de um título. O fantasma das eliminações constantes nas oitavas de finais estava superado. Vamos agora para as quartas de finais, meu povo! O Timão está entre os oito melhores times do continente e ruma à conquista inédita. A taça, o sonho supremo da torcida corintiana, está a apenas seis partidas. Nem acredito! São só seis partidas para a realização máxima. 10 de maio de 2012 - quinta-feira A manhã de quinta-feira começou maravilhosa. Como é lindo o outono paulistano! O céu azul sem nuvens e o sol que não esquentava nada compuseram o cenário ideal para os corintianos ganharem as ruas. Todos com a cabeça erguida e orgulhosos do feito de ontem à noite. São 30 milhões de pessoas trabalhando, estudando, resolvendo os problemas cotidianos e administrando os afazeres diários com muito mais alegria. Definitivamente, a palavra de hoje é esperança. A vitória de quarta sobre o Emelec tinha tranquilizado a alma dos corintianos e enchido o Bando de Loucos de esperança. Agora é hora de pensar no Vasco da Gama. O clube carioca perdeu o jogo de volta na Argentina para o Lanús por 2 a 1. A classificação da equipe de São Januário veio na disputa de pênaltis. As quartas de finais do Timão serão, portanto, contra os vascaínos: primeiro jogo no Rio de Janeiro e segundo em São Paulo. Dos times brasileiros na Libertadores, aquele que eu menos temo enfrentar é justamente o da Cruz de Malta. Se no ano passado o Vasco era a melhor equipe do país, nesse ano parece que eles perderam a mão. Acho que o Corinthians tem tudo para passar pelos cariocas e chegar pela segunda vez na história às semifinais do torneio. Os outros três confrontos das quartas de finais também já estão definidos. O Boca Juniors venceu no Chile o Unión Espanhola por 3 a 2, em grande partida de Riquelme, e se classificou. Os argentinos com seis títulos na competição pegarão o Fluminense, que eliminou o Internacional no Rio de Janeiro. Os cariocas venceram os gaúchos de virada por 2 a 1. Considero o vencedor de Flu e Boca um dos grandes favoritos para chegar à final. Outro duelo será entre Universidad de Chile e Libertad. Os chilenos devolveram a goleada sofrida na semana passada contra o Deportivo Quito com juros e correção monetária. Classificaram-se com um imponente 6 a 0 em casa. Não à toa, o Universidad do Chile era apontado, no início da temporada, como um dos prováveis postulantes ao título continental. Os paraguaios do Libertad tiveram menos facilidade para avançar. Ganharam por 2 a 0 em casa dos mexicanos do Cruz Azul. O último chaveamento das quartas será entre Vélez Sarsfield e Santos. Os argentinos seguraram o empate de 1 a 1 em casa e eliminaram o Atlético Nacional da Colômbia. Os santistas, por sua vez, golearam o fraco time do Bolivar na Vila Belmiro e se consolidaram como o grande favorito para faturar o tetracampeonato. A vitória do Peixe foi espetacular: 8 a 0 com show de Neymar, Ganso e Cia. Aí estão os próximos confrontos resumidos: Boca Juniors x Fluminense; Universidad de Chile x Libertad; Corinthians x Vasco da Gama; e Vélez Sarsfield x Santos. Desculpe-me pela falta de modéstia, mas eu sou demais! Acertei 100% dos resultados que projetei na semana passada. Se errei a maioria de meus palpites no Paulistão, pelo menos na Libertadores estou bem. Esse parece ser o destino dos corintianos em 2012: fracasso no cenário estadual e glória em escala sul-americana. 11 de maio de 2012 - sexta-feira Minha manhã de sexta-feira foi dedicada à leitura dos cadernos esportivos dos principais diários de São Paulo. Neles, os jornalistas faziam o balanço momentâneo do desempenho do Corinthians na Libertadores. Os profissionais da imprensa também davam seus palpites para as próximas fases da competição continental. Ao término das oitavas de finais, o Timão segue como o único invicto do torneio sul-americano. As cinco vitórias e os três empates credenciam a equipe do Parque São Jorge ao posto de uma das favoritas ao título (ao lado de Santos e Fluminense). Desde o início do ano, a maioria da mídia futebolística já apontava os clubes nacionais como francos favoritos. Não havia uma grande equipe de fora do país para fazer frente aos brasileiros. Somente o Universidad de Chile assustava um pouco. O Boca era mais temido pela força da camisa e do estádio do que pela qualidade da equipe. Outro ponto muito destacado pelos jornalistas foi o fato de o Corinthians ser a equipe menos vazada da competição. Foram apenas dois gols sofridos até agora. Trata-se de uma marca elogiável visto que já foram disputados oito jogos. O bom desempenho da defesa corintiana é algo corriqueiro ao longo de 2012. O Timão também terminou o Paulista com o menor número de gols sofridos. Se formos recordar o ano passado, o mesmo evento ocorreu durante o Campeonato Brasileiro. Realmente, o técnico Tite sabe montar uma defesa forte e segura. Se o ataque não vai bem, pelo menos não podemos reclamar da parte de trás do time... O goleiro Cássio ainda não foi vazado desde que chegou ao Timão. Nos três jogos disputados como titular (um pelo Paulista e dois pela Libertadores), ele saiu de campo sem dar alegrias aos atacantes rivais. Sua atuação no último jogo também mereceu muito espaço nos cadernos esportivos e nos programas de televisão. Sua altura, agilidade e saídas precisas do gol renderam elogios e mais elogios. A única nota triste da última partida foi a contusão do lateral-direito Edenílson. No final do primeiro tempo, o atleta sentiu fortes dores no pé após dividida com um jogador equatoriano. Ele não voltou depois do intervalo, sendo substituído por Alessandro. As notícias sobre a contusão de Edenílson indicam que ele quebrou um dos dedos do pé. Assim, desfalcará o time até o final da Libertadores. Essa é uma péssima informação, pois o lateral estava muito bem tanto defensivamente quanto ofensivamente. A preocupação só não é maior porque Alessandro está recuperado. O veterano atleta parece ter deixado os problemas médicos para trás e se mostra preparado para recuperar o seu posto na equipe titular. Esse é o balanço geral do Timão na Libertadores de 2012. A equipe do Parque São Jorge segue viva e com grandes chances de faturar o caneco. Só é necessário manter a calma para não colocarmos tudo a perder. Essa singela dica vale para os jogadores, para a comissão técnica, para os dirigentes e, por que não, para a torcida inteira. Se todos permanecerem com a cabeça no lugar, podemos chegar longe nesse ano. 12 de maio de 2012 - sábado O sábado no Sport Club Corinthians Paulista foi de muito trabalho. Os jogadores realizaram treino tático no Centro de Treinamento do Parque Ecológico do Tietê. Os corintianos tiveram de suar a camisa para melhorar o posicionamento em campo. O técnico Tite comandou a atividade com os titulares simulando as possíveis situações que a equipe passará no jogo de quarta-feira em São Januário. Para o confronto contra o Vasco da Gama, Jorge Henrique está liberado da suspensão automática e deve voltar ao time principal. Pelo treinamento, não foi possível saber qual será a formação do Timão. Isso porque Alex e Paulinho foram poupados das atividades. Paulinho está com tendinite no adutor das duas coxas e Alex sente um trauma no tornozelo direito. Ambos não preocupam o departamento médico. Ficaram de fora do treinamento de hoje para evitar qualquer complicação. Até o goleiro Cássio ficou de fora da primeira parte do treino para tratar de uma lombalgia. A boa nova foi a aparição no campo dos zagueiros Paulo André e Wallace, recuperados de lesão. Ambos estiveram com o preparador físico em trabalho específico para recuperar a forma física. Devem estar à disposição do treinador na partida de volta das quartas de finais da Libertadores. Por falar em novidades, o Timão divulgou a contratação de um novo centroavante. Depois de demonstrar interesse por nomes badalados do cenário mundial como Nilmar, Diego Furlan, Tevez e Loco Abreu, jogadores que disputaram Copa do Mundo, os cartolas corintianos contrataram Adilson, atacante do XV de Piracicaba. O centroavante, figura completamente desconhecida da torcida, fez quatro gols no Campeonato Paulista. O rapaz de 25 anos teve seu vínculo acertado até dezembro, mas não deverá integrar o elenco do Corinthians na competição continental. Ele ficará disponível apenas para o campeonato nacional. Eu até gosto quando a diretoria contrata jogadores desconhecidos e baratos de times pequenos. Muitas vezes, esses atletas trazem um custo-benefício maior do que as estrelas. Foi assim que chegaram ao Parque São Jorge, por exemplo, Ralf, Paulinho, Leandro Castán, Edenílson e William, titulares absolutos da atual formação alvinegra. Todos dessa lista vieram de clubes do interior e hoje são peças imprescindíveis para o treinador corintiano. Por falar em ataque, é bom dizer que o Corinthians perdeu nas últimas semanas o centroavante Bill e o meia-direita Vitor Júnior. Bill foi negociado com o Santos. Há alguns dias, ele não treinava mais no Timão. Vitor Júnior foi emprestado ao Botafogo do Rio de Janeiro até o final do ano. Portanto, não jogará mais pelo clube paulista em 2012. Para a posição de volante, as especulações continuam. Os cartolas alvinegros parecem ter feito, mais uma vez, uma proposta pelo meio-campista Guilherme, da Portuguesa. Os dirigentes da Lusa novamente recusaram a oferta, considerando-a baixa. Além dele, Renê Júnior do Mogi Mirim e Sérgio Manoel do Mirassol também interessam. A chegada de novos reforços deve acontecer nos próximos dias. Esperemos, Fiel, esperemos. 13 de maio de 2012 - domingo Esse domingo foi possivelmente o mais chato do ano em se tratando de futebol. Os motivos para isso?! Para começo de conversa, o Timão novamente não foi a campo. Como é triste um final de semana sem poder acompanhar os jogadores do Parque São Jorge pela televisão, rádio ou nos estádios. Parece que falta alguma coisa em nossas vidas. Ainda bem que o Brasileirão começará na próxima semana e encerrará esse vazio na alma da Fiel Torcida. Para tornar tudo mais enfadonho, os principais estaduais do país já tinham suas decisões quase que liquidadas. As goleadas de Santos e Fluminense, na semana passada, praticamente definiram as disputas nos campeonatos Paulista e Carioca. Nem os adversários acreditavam ser possível reverter os placares. Assim, não tive interesse em acompanhar nenhuma partida pela TV. Para completar, o frio intenso e a chuva típica da cidade de São Paulo durante todo o dia desencorajaram minha saída para a rua. Fiquei em casa de manhã lendo Miguel de Cervantes. Na hora do almoço, resolvi produzir macarrão caseiro que tanto sucesso faz na minha família. A receita me foi ensinada pela minha avó paterna. A massa dava um trabalhão danado para ser feita. Como tinha muito tempo disponível nesse dia entediante, me propus ao desafio de fazê-la. Essa pasta da nona é uma delícia. A receita foi passada originalmente pela sogra italiana dela (mãe do meu avô). Infelizmente, a minha massa não ficou tão boa e o macarrão ficou bem menos gostoso se comparado à versão da velha guarda dos Bonacorci. Isso é um eufemismo, tá?! A comida ficou horrível! Ainda bem que eu estava sozinho. Não recebi críticas nem ouvi reclamações pelo meu desastre culinário. À tarde, fiquei no sofá da sala, embaixo das cobertas, assistindo filmes na televisão. Ainda bem que tenho TV a cabo. Sem ela, seria arriscadíssimo assistir TV de domingo (muita gente se suicida por esse motivo). Só à noite, antes de dormir, resolvi trocar de canal e colocar no programa Mesa Redonda da TV Gazeta. Queria conferir os resultados do final de semana. Lá, pude saber pelas informações e comentários de Flávio Prado, Wanderlei Nogueira, Chico Lang e Oscar Roberto Godói que o Santos foi campeão paulista. O Peixe aplicou nova goleada sobre o Guarani, dessa vez por 4 a 2. No Rio, o Flu mostrou força, venceu novamente o Botafogo por 1 a 0 e manteve a hegemonia regional. Nos demais estaduais, o Internacional ganhou no Rio Grande do Sul, o Avaí em Santa Catarina, o Coritiba no Paraná, o Atlético Mineiro em Minas, o Bahia na boa terra, o Santa Cruz foi bicampeão em Pernambuco e o Goiás conquistou o Campeonato Goiano. Sobre o Timão, os jornalistas da TV Gazeta comentaram uma reportagem sobre os duelos históricos entre Corinthians e Vasco nas fases de mata-mata. Nos últimos 25 anos, os cariocas não venceram nenhum confronto eliminatório contra os paulistas. O Timão eliminou os vascaínos em várias edições da Copa do Brasil, em um duelo na Copa Sul-Americana e no Campeonato Brasileiro. Os cruz-maltinos são nossos fregueses de carteirinha! Se essa notícia animou o Bando de Loucos, a constatação de que o Timão jamais eliminou um time campeão continental na Libertadores (o Vasco conquistou a América em 1998) trouxe novos fantasmas. Trata-se de mais um tabu a ser quebrado pelos jogadores do Parque São Jorge nos próximos dias. 14 de maio de 2012 - segunda-feira O primeiro dia útil da semana, em São Paulo, começou com frio e chuva, igualzinho ao cenário do domingo. O problema é que dessa vez eu precisava sair de casa cedo para resolver algumas questões profissionais. Não podia ficar embaixo das cobertas por muito tempo, né? Depois de criar coragem para colocar os pés na rua, respirei fundo, fechei todos os botões do casaco e saí com o guarda-chuva em mãos. Na volta para casa, passei na banca de jornal e comprei O Lance! O diário esportivo, infelizmente, dava amplo destaque para a cobertura das decisões dos regionais. Não encontrei muitas novidades sobre o Timão e a Liberta. Era até compreensível as várias páginas dedicadas aos estaduais e as limitadas informações sobre o Corinthians. Ontem, os jogadores e a comissão técnica do Timão estiveram de folga e, como consequência, poucas notícias chegaram do clube do Parque São Jorge. As informações do jornal a respeito do Corinthians se restringiram aos problemas vivenciados toda vez que os corintianos jogam no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro. Lá, o ônibus do clube é recebido com pedras, paus, chutes e pancadaria pela torcida da casa. Foi assim no final do Campeonato Brasileiro do ano passado. As duas equipes disputavam a liderança da competição até as últimas rodadas, quando se enfrentaram no Rio. E não são apenas os jogadores que passam por maus momentos no caldeirão vascaíno. A própria torcida paulista sofre costumeiramente. Como o entorno de São Januário é composto por poucas e estreitas ruas, é comum a torcida mandante preparar emboscadas para os visitantes. Sabendo disso, a polícia fluminense segura o quanto pode os ônibus da torcida de fora nas estradas perto do Rio para que eles só cheguem no intervalo do jogo. Assim, podem entrar no estádio sem problemas. Conhecedor dessas dificuldades, o experiente meia Danilo, em entrevista coletiva na sexta-feira, expos para a imprensa os problemas vivenciados toda vez em que joga em São Januário. A diretoria vascaína não gostou das palavras do camisa 20. No sábado, negou os fatos. Os cartolas cariocas alegaram que as declarações de Danilo eram o início da pressão corintiana nos bastidores para enfraquecer o Vasco da Gama. Percebendo a falta de vontade do adversário para resolver os problemas de segurança, a diretoria do Corinthians resolveu aumentar a proteção de seu elenco para a próxima partida e contratou vários seguranças particulares. Por falar em enfraquecer o Vasco, uma notícia vinda do Rio encheu os corintianos de otimismo. O principal jogador do nosso adversário não estará em campo na quarta-feira. O zagueiro Dedé, ídolo cruz-maltino, ainda se recupera de contusão. Sem condições clínicas, ele terá que ver o jogo do lado de fora. Se tiver sorte, o zagueiro poderá jogar em São Paulo na partida de volta. Dedé é hoje o melhor defensor do futebol brasileiro e merece uma chance no time titular da Seleção Brasileira. Sem ele, o Vasco da Gama perde muito em força defensiva. O desempenho dos cariocas é um com o beque central e outro sem ele. Sua ausência é esperança de gols para o Timão! Boa sorte, Dedé, em sua recuperação. Em um momento assim, só volte quando você tiver a certeza de estar 100% pronto. Nada de pressa, por favor. 15 de maio de 2012 - terça-feira Na véspera do jogão entre Corinthians e Vasco da Gama, já é possível ter uma ideia do time que o técnico Tite mandará a campo em São Januário. No último treinamento realizado em São Paulo, o gaúcho promoveu a volta de Jorge Henrique à equipe titular. Para surpresa geral da nação corintiana, quem saiu do time principal não foi o meia Alex. O treinador preferiu montar a equipe com dois armadores (Alex e Danilo juntos). Assim, manteve a tática do último jogo da Libertadores: o tradicional 4-4-2. Quem tiver uma boa memória se lembrará que o Corinthians jogou dessa mesmíssima forma contra o Vasco no final do ano passado, no Campeonato Brasileiro. Naquela oportunidade, os atletas do Parque São Jorge voltaram com um empate, após terem uma excelente atuação. O mais justo seria o Timão ter saído com uma boa vitória daquele confronto no Rio de Janeiro. Como não é possível entrar no gramado com 12 jogadores, acabou sobrando para William. O jovem e rápido atacante será opção no banco de reservas para o setor ofensivo. Os titulares lá na frente serão Jorge Henrique e Emerson. O primeiro deverá atuar mais pela direita e o segundo mais pela esquerda. A ausência de um homem de área indica que o empate não é mau resultado para os olhos da comissão técnica. O Coringão com Alex fica mais sólido no meio de campo e ganha rapidez e consistência nos passes entre a defesa e o ataque. A equipe de Tite também ganha nos arremates de média e longa distâncias, especialidade do meia. Se aumenta a força no meio de campo, a ausência de um atacante faz o Corinthians perder agilidade nas jogadas pela lateral. Quando o time corintiano atua com três atacantes, dois fazem os papéis de pontas, o que resulta em bons lances pelas beiradas do campo. Pelo visto, não teremos essa opção amanhã. A ordem do nosso treinador é cuidar das jogadas na região central do campo. Ali o bicho vai pegar! A outra mexida de Tite, essa sim já esperada, é a volta de Alessandro à lateral direita. Com Edenílson machucado, o camisa 2, capitão da equipe no final do último Brasileirão, retorna para o posto de titular. A entrada de Alessandro também muda um pouco a característica da lateral direita. Edenílson, por ser mais jovem e habilidoso, tinha maior velocidade na transição entre defesa e ataque. Ele também conseguia defender melhor e chutar bem de fora da área. Com Alessandro, a equipe ganha em experiência em campo. O cruzamento à área adversária fica um pouco mais qualificado também. Porém, perde muito no sistema defensivo. Esse é o perigo! O Timão entrará em campo na primeira partida das quartas de finais da Liberta com: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Emerson Sheik e Jorge Henrique. As informações que chegam do Rio de Janeiro indicam que a torcida vascaína já comprou todos os ingressos para a partida de quarta-feira. São Januário deverá ser um caldeirão a pressionar o time visitante. Vamos ver se o Corinthians conseguirá suportar a pressão e voltar para São Paulo com um bom resultado. 16 de maio de 2012 - quarta-feira A noite em São Paulo foi gelada. Quando o juiz apitou o início de Vasco da Gama e Corinthians no Rio de Janeiro, estava eu embaixo de várias cobertas e bem agasalhado no sofá de casa. Pela televisão, acompanhei a narração de Cléber Machado e os comentários de Caio Ribeiro pela Rede Globo. A primeira surpresa da partida foi o estado do gramado. Com as fortes chuvas que caíram na capital fluminense durante toda a quarta-feira, o campo de São Januário se transformou em um lamaçal. No jogo mais importante do ano até aqui, o gramado se dissolveu com a chuva e deixou várias poças de lama. Deu para perceber como os jogadores iriam sofrer quando Emerson Sheik caiu após receber a primeira falta aos 5 minutos. Ao se levantar, sua camisa branca se transformara em marrom. Era barro puro. O primeiro tempo foi parecido com o estado do gramado: pesado e feio. Como vem acontecendo nas partidas fora de casa, o Timão ficou muito recuado, se defendendo e saindo apenas nos contra-ataques. A intenção do Tite era obter um empate nessa noite. O Vasco não aproveitou o incentivo da torcida e pouco perigo levou ao gol de Cássio antes do intervalo. Não me lembro de ter visto um chute a gol dos mandantes na primeira etapa. Melhor em campo, o Corinthians chegou quatro vezes. As três primeiras em cobranças de falta. Primeiro foi Emerson quem cruzou. O goleiro rebateu para a entrada da área e Fábio Santos chutou para fora. Na segunda, o mesmo Emerson cobrou nova falta. Ralf cabeceou fraco nas mãos do goleiro vascaíno. Na terceira, Alex cobrou a infração para o meio da área e o arqueiro adversário rebateu para fora. A única chance em bola rolando foi aos 45 minutos. Alessandro conseguiu avançar livre de marcação pela direita, mas errou o cruzamento. O segundo tempo foi completamente diferente. O Vasco se acertou no vestiário e passou a dominar. Os lances de perigo ao gol corintiano começaram a se multiplicar. Eder Luís perdeu duas ótimas chances: chutou uma para fora e outra bola parou nas mãos de Cássio. O Timão teve só uma oportunidade. E essa foi a melhor jogada da partida. Jorge Henrique fez bela infiltração, tocou para Alex, recebeu de volta e chutou ao gol. O arqueiro vascaíno defendeu com os pés, no reflexo. Quase!!! O jogo caminhava para o final quando, em um cruzamento do Vasco, o centroavante carioca aproveitou o bate-rebate na área corintiana e cabeceou para o fundo das redes de Cássio. Gol do Vasco! Enquanto eu xingava Deus e o mundo, reparei no juiz. Ao invés de correr para o centro do campo e validar o gol, ele levantou a mão indicando impedimento. Impedimento!!! Aliviado com a decisão, comemorei como se fosse um gol do meu time. O alívio definitivo só veio com o apito derradeiro. O 0 a 0 da primeira partida teve sabor de vitória para o Timão. Mesmo não tendo marcado gol fora, a igualdade no placar foi um alívio. Escapamos de uma derrota no finalzinho. O tira-teima da TV mostrou que o atacante vascaíno estava mesmo adiantado (cerca de 10 centímetros). O impedimento foi muito bem-marcado. Ufa! 17 de maio de 2012 - quinta-feira A quinta-feira foi marcada pela polêmica do impedimento nos momentos finais de Vasco e Corinthians. Mesmo com a imagem do tira-teima da Rede Globo mostrando o acerto da decisão do juiz, muita gente acusa o árbitro de ter favorecido o Timão. O problema em si, em minha opinião, não está na visão do homem com o apito na boca, mas na mente doentia dos anticorintianos. Para quem não sabe, existem 30 milhões de corintianos no mundo. E há aproximadamente 7 bilhões de anticorintianos. Você vai concordar comigo que às vezes é injusto o embate contra esse mundaréu. Na madrugada e na manhã de quinta-feira, o assunto mais comentado no Twitter era "Apito Amigo", termo que faz alusão a um possível favorecimento ao clube paulista. Havia também uma nova teoria conspiratória, na qual o resultado do tira-teima era fruto da vontade da Rede Globo em ajudar o Corinthians. Ou seja, a emissora carioca também estava torcendo pelo Timão. Quanta imaginação! O presidente vascaíno, Roberto Dinamite, veio a público logo depois do jogo para reclamar do árbitro. Na quinta-feira, ele continuou chiando: "Mais uma vez esse árbitro e mais uma vez o Corinthians. Está difícil, cada vez mais complicado. Não quero ficar reclamando, mas peço apenas lealdade e igualdade para brigar dentro de campo. Jogamos melhor e merecíamos vencer". O mais curioso disso tudo é que Sandro Meira Ricci, o árbitro de ontem, ganhou fama de ser corintiano. E sempre por acertar lances polêmicos em jogos do Timão. Imagine só se ele errasse, hein? A fama começou no final de 2010, em uma partida entre Corinthians e Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro. As duas equipes chegaram às últimas rodadas brigando pela liderança do torneio. O confronto direto no Pacaembu era considerado a final antecipada. O jogo seguia 0 a 0. Aos 44 minutos do segundo tempo, o zagueiro cruzeirense empurrou Ronaldo dentro da área. Falta dentro da área é pênalti. Acertadamente, Sandro marcou a penalidade máxima, depois convertida pelo próprio Ronaldo. O Timão venceu aquele jogo e deu um passo enorme em direção ao título nacional. Contudo, no dia seguinte, os cruzeirenses e as demais torcidas, ignorando os fatos, passaram a criticar Meira Ricci. O juiz foi acusado de favorecer o Corinthians. Vale reafirmar: o pênalti existiu. Essa não é apenas a minha opinião (que estava naquela tarde no Pacaembu ao lado do Danny Boy – abração, Sr. Almeida de Almeida e Almeida!), mas de quase todos os comentaristas esportivos. Esse episódio foi muito lembrado na véspera de Vasco e Corinthians. Muita gente questionava se escalar um "juiz corintiano" era a escolha mais acertada. Novamente, Sandro Meira Ricci foi muito bem na noite de ontem. Não errou absolutamente nada. Entretanto, saiu mais uma vez bastante criticado. Para os anticorintianos de plantão, é melhor o juiz errar (prejudicando o Timão) do que acertar (deixando o resultado favorável ao Corinthians). Vai entender! O coitado do Meira Ricci ganhou o rótulo de favorecer o Coringão sem nunca ter feito nada contra nem a favor. Parabéns, Sandro, pelos seus acertos! Você é sem dúvida nenhuma o melhor juiz em atividade no país nos últimos três anos. Falo isso com sinceridade, sem ironia. Juro! 18 de maio de 2012 - sexta-feira Ontem à noite, assisti pela TV aos dois jogos da Libertadores entre brasileiros e argentinos. A primeira partida foi entre Flu e Boca Juniors, em La Bombonera. Os cariocas estavam bem até terem um jogador expulso no final do primeiro tempo. Aí o caldo desandou para os tricolores. Na segunda etapa, só a equipe da casa jogou. O gol solitário da vitória portenha veio na base da pressão. Resultado final no místico estádio xeneize: Boca Juniors 1, Fluminense 0. O segundo duelo da noite foi entre Santos e o bom time do Vélez Sarsfield. O local da partida foi o lindíssimo Estádio José Amalfitan em Buenos Aires. Diferentemente dos últimos jogos, os santistas não conseguiram repetir as boas atuações. A equipe paulista esteve apática em campo. Neymar não fez nada de produtivo. Os argentinos marcaram muito bem os brasileiros e tiveram algumas chances de gol. Em uma delas, ainda no primeiro tempo, o centroavante do Vélez aproveitou cruzamento e cabeceou para dentro das redes. Placar definitivo do jogo da ida: Vélez 1, Peixe 0. As vitórias argentinas de 1 a 0 deram vantagem para os hermanos nos duelos de volta a serem realizados no Brasil. Em minha opinião, tanto Boca Juniors quanto o Vélez Sarsfield são equipes mais fracas do que Fluminense e Santos. Por isso, a torcida pela eliminação de meus compatriotas. Não quero ver o Timão se classificar para as semifinais e ter que pegar o Peixe de Neymar e Ganso. Também não quero ver os jogadores comandados por Tite avançarem e precisarem enfrentar o forte Flu na final. Aí é pedreira demais! Apesar de não acreditar na classificação dos times argentinos para a próxima fase, vou torcer para eles como nunca. As notícias vindas do Parque São Jorge são positivas. Mais um jogador foi contratado nos últimos dias. O lateral-direito Guilherme, uma das revelações da Ponte Preta, foi comprado. Logo mais deve se apresentar à comissão técnica do Corinthians. O outro contratado, o atacante Adilson do XV de Piracicaba, já está oficialmente inscrito na CBF e poderá atuar nas partidas nacionais. Os jogadores corintianos deram declarações dizendo-se felizes com o empate no Rio. Eles afirmaram estar confiantes na vitória no jogo da volta na próxima quarta-feira. As estatísticas estão ao nosso lado. Nas quatro partidas da Libertadores realizadas no Pacaembu em 2012, são quatro vitórias do Timão (12 gols a favor e nenhum contra). A confiança é total entre os atletas e a torcida. Pensando em preservar os titulares para a decisão no meio de semana, Tite já garantiu a escalação dos reservas no final de semana. É estreia do Campeonato Brasileiro. Por sorte, o jogo será em casa contra o Fluminense, outro postulante ao título continental. Assim, os cariocas deverão escalar os reservas, nivelando (para baixo) a partida contra os alvinegros paulistanos. Se os suplentes corintianos fizerem seu trabalho bem-feito, será possível começar o torneio nacional com três pontos, ao mesmo tempo em que as principais estrelas do elenco do Parque São Jorge serão poupadas para o torneio sul-americano. Maravilha! 19 de maio de 2012 - sábado O sábado deveria ter como principal ingrediente o início do Brasileirão de 2012. Três partidas abriram o principal torneio nacional: Palmeiras x Portuguesa, Sport x Flamengo e Figueirense x Náutico. Porém, a rodada inicial do campeonato foi ofuscada pela decisão da Copa dos Campeões da Europa. O jogo entre Chelsea e Bayer de Munique foi disputado nesse mesmo dia, o que monopolizou as atenções daqueles que gostam de futebol. Eu, por exemplo, combinei com o meu pai de assistirmos juntos a essa partida. No horário marcado, estávamos na frente da televisão prontos para acompanhar a definição do possível adversário do Timão no final do ano. Sinceramente, não tinha à princípio um clube da minha preferência para torcer. Após a comemorada eliminação do Barcelona e do Real Madrid, nenhum time europeu me colocava medo. O Corinthians poderia muito bem derrotar tanto o Chelsea quanto o Bayer em dezembro. Com a bola rolando, acabei torcendo pelo clube inglês. Não sei o motivo exato. Talvez fosse a semelhança dos Blues com o time do Parque São Jorge. Afinal, os jogadores do oeste de Londres jogavam na defesa, completamente recuados, mais preocupados em não tomar gol do que fazer. Jogavam feio e na retranca! Além disso, eles nunca haviam ganhado uma edição do torneio continental, sendo exatamente esse o grande sonho de sua torcida e do proprietário da agremiação, o russo Roman Abramovich. Para completar, dos quatro semifinalistas europeus, o único que não era composto de grandes estrelas era o time londrino. O grande mérito do Chelsea era o conjunto de sua equipe e a obediência tática de seus jogadores. Tudo muito parecido ao Timão, né?! Impossível não torcer por eles. E eu estava certo na minha preferência. O Chelsea saiu-se vencedor. A confirmação da grande conquista dos ingleses só foi definida nas cobranças de pênaltis, após um emocionante empate de 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação. O Bayer fez seu gol, que valeria o título, faltando apenas dez minutos para acabar a partida no tempo normal. Os Blues conseguiram empatar nos instantes finais do jogo. Na prorrogação, mais emoção! Após ter uma penalidade máxima a seu favor, os alemães desperdiçaram a grande oportunidade ao chutar a cobrança nas mãos do goleiro do Chelsea. Na série de pênaltis, a sorte dos ingleses foi maior. Após estarem perdendo por 2 a 0, conseguiram virar e vencer por 4 a 3. Festa azul em pleno estádio do Bayer em Munique. Alegria nas ruas do oeste de Londres. Mais um time conquistava o privilégio de ser campeão continental e garantia a viagem no final do ano ao Japão. O mais bonito da partida foi a cena captada logo após a última cobrança de pênalti. Na beirada do campo, um homem esculpia o nome "Chelsea FC" na taça que seria entregue na sequência aos vencedores da Europa. Uma cena simples e emblemática. Embalado pela emoção de ver um time acabar com o grande tabu e vencer o tão sonhado título continental, decide ir, no dia seguinte, ao Pacaembu. Queria prestigiar os jogadores do Timão. Não me importando que o jogo contra o Fluminense seria disputado com os reservas, resolvi mesmo assim assistir à partida no estádio. Estava decidido! Daria meu apoio aos comandados do técnico Tite no início do Brasileirão. 20 de maio de 2012 - domingo O domingo amanheceu bonito, sem nenhuma nuvem no céu. A temperatura estava um pouco mais quente do que nos últimos dias. Certamente valeria a pena ir ao bom e velho Pacaembu ver a estreia do Timão no Brasileirão desse ano. De manhã pude ler no jornal que o treinador corintiano iria escalar 10 reservas. Somente o goleiro Cássio, dos titulares habituais, iria atuar. Assim, o Corinthians foi escalado com: Cássio; Welder, Marquinhos, Antônio Carlos e Ramon; William Arão, Ramirez e Douglas; William, Gilsinho e Liedson. Cheguei ao estádio uma hora antes do início da partida. Não encontrei problemas para comprar meu ingresso na bilheteria. Fiquei exatamente no mesmo lugar do jogo do mês passado contra o Paulista de Jundiaí: na arquibancada verde. O público presente foi de pouco mais de 15 mil pessoas. Se pensarmos na grandeza do Corinthians, era uma presença tímida. Se considerarmos que a partida era entre os reservas do Timão e os reservas do Fluminense, foi um ótimo público. O jogo começou com os alvinegros pressionando os tricolores. A defesa do Fluminense se mostrava confusa e dava espaços aos rápidos atacantes corintianos. Infelizmente, nossos avantes não aproveitaram as oportunidades criadas. William teve duas boas chances. Na primeira, após receber passe de Douglas, chutou fraco para a defesa do goleiro carioca. Depois, em jogada pela direita, errou um cruzamento que levaria grande perigo à meta do Flu. Gilsinho também teve duas chances, em cabeçadas, para abrir o marcador. Desperdiçou ambas. Cássio só foi exigido em dois lances e mostrou a segurança tradicional. No intervalo, o senhor sentado à minha frente na arquibancada começou a xingar quase todos os jogadores corintianos. Ele estava revoltado com o péssimo futebol da equipe mandante. "Eu passei mais nervoso nesse primeiro tempo do que em todos os jogos da Libertadores juntos", exagerou. Se as coisas foram feias até ali, no segundo tempo elas pioraram ainda mais. O Corinthians não conseguiu chegar mais com perigo ao gol adversário. Só deu Fluminense a partir dali. Os cariocas criaram várias chances. Em cobrança de falta na lateral do campo, eles abriram o marcador com gol de cabeça. Tentando melhorar o time, Tite colocou mais atacantes. No final da partida, o Timão tinha cinco homens de frente procurando o gol. Nenhum deles conseguiu alegrar os torcedores. O Corinthians perdeu em sua estreia no Brasileirão: 1 a 0 para o Flu. Ao voltar para casa naquela noite, refleti sobre meu desempenho como torcedor nas arquibancadas: anualmente, eu só assisto a uma derrota de meu time no estádio. Em 2011, meu retrospecto foi de 11 jogos e apenas uma derrota (para o Santos). Em 2010, foram 13 partidas e um resultado negativo (para o Grêmio). Em 2009, foram 11 jogos e uma derrota apenas (goleada para o Goiás). Ou seja, se o Timão perdeu agora para o Fluminense (a derrota em 2012 já está computada), não perderá mais se eu for ao estádio nos demais jogos, certo? Porém, não estou com dinheiro, nessa temporada, para ir a tantas partidas no Pacaembu. É triste pensar que o Timão pode deixar de ser campeão da Libertadores por causa da minha situação financeira... Ai, ai, ai. 21 de maio de 2012 - segunda-feira A segunda-feira foi um tanto decepcionante para os paulistas. Nenhum time do Estado de São Paulo venceu na abertura do Brasileirão. Além da derrota do Timão, o Palmeiras empatou com a Portuguesa, o Santos reserva empatou com o Bahia, em Salvador, o São Paulo levou uma goleada do Botafogo, no Rio, e a Ponte Preta caiu em casa para o Atlético Mineiro. Foi uma rodada para ser esquecida pelas equipes bandeirantes. A principal repercussão da derrota corintiana foi o surgimento de vários questionamentos sobre a qualidade dos jogadores suplentes. Nenhum reserva que foi a campo no domingo foi bem. Os mais criticados foram Douglas, William, Ramires e Liedson. A defesa, ao menos, saiu ilesa das críticas. Nosso Maestro esteve lento, errou vários passes e perdeu muitas bolas fáceis. Esteve longe do Douglas de 2009. William, por sua vez, correu muito e se entregou como sempre, mostrando muita dedicação. Seu desempenho, porém, foi muito inferior à expectativa da torcida. Ele não acertou nenhum drible, foi mal nas finalizações e abusou em se jogar no chão, pedindo faltas. Saiu vaiado pelos torcedores. O pior em campo foi o volante Ramires. O peruano não acertou nenhum lance na partida. Tanto defensiva quanto ofensivamente, ele foi péssimo. Há boatos de uma possível negociação dele com outro clube. Para terminar, Liedson segue sem condições para jogar bola profissionalmente. Sua parte física é lastimável. Ele arrasta um dos joelhos quando corre. É triste de ver. O único que foi bem contra o Flu foi Cássio. O titular do gol alvinegro levantou os corintianos nas arquibancadas com suas belas defesas. Em cada intervenção bem-sucedida, o arqueiro ganhava aplausos e era ovacionado. Possivelmente, o Bando de Loucos comemorava a existência de um goleiro seguro e confiável vestindo o uniforme do Timão. Por isso, o público se mostrava tão empolgado. Ao constatar a baixa qualidade dos reservas, Tite dificilmente levará algum deles para o campo no jogo contra o Vasco. Na sexta-feira, o técnico disse que usaria a partida contra o Fluminense como um laboratório. Quem fosse bem no domingo, poderia ser usado na quarta-feira. Como todos estiveram abaixo da crítica, é pouco provável que haja mudanças na equipe titular do Timão. O plantel para a Libertadores, portanto, deverá ser o mesmo que foi a campo em São Januário. Se o Corinthians avançar para as finais da Liberta, algo que a nação corintiana sonha há tanto tempo, deveremos ver atuações lastimáveis no início do Brasileirão. Com a estratégia de poupar os titulares aos finais de semana, perderemos muitos pontos e colecionaremos várias derrotas. O título continental deverá representar a perda do título nacional. Vale a pena correr esse risco? Vale sim! O Chelsea fez isso na Europa: foi campeão continental e terminou em sexto lugar no Campeonato Inglês. Vale tudo para conquistar a América! Até mesmo abandonar o Campeonato Brasileiro. 22 de maio de 2012 - terça-feira Somente na véspera do jogo decisivo entre Corinthians e Vasco da Gama, deu para ter noção do tamanho da vontade dos corintianos em ver seu time classificado para as semifinais da Libertadores. Pela primeira vez na história, as torcidas organizadas do clube fizeram um pacto de união para apoiar mais intensamente a equipe dentro do campo. Em um comunicado exibido nas redes sociais, os chefes de cada uma das facções avisaram aos seus integrantes que na quarta-feira eles vão agir de forma integrada: ocuparão o mesmo setor das arquibancadas; cantarão as mesmas músicas simultaneamente; e integrarão uma única bateria. Até a sequência das canções já havia sido prevista, minuto a minuto, para ser executada no estádio harmonicamente. Se considerarmos as diferenças e as rivalidades existentes entre as torcidas organizadas, essa união é um esforço gigantesco que elas fazem. E é justamente essa a melhor prova da expectativa em torno da próxima partida. Todos querem ajudar os jogadores corintianos na classificação para a próxima fase. Nessa hora, não há rivalidades internas, desentendimentos localizados ou picuinhas antigas entre os torcedores que não possam ser superados em prol do objetivo maior: vencer o Vasco. Deixando a torcida um pouco de lado, vamos falar agora do time. Em todas as atividades da semana, Tite não demonstrou nenhuma dúvida sobre a escalação. Ele repetirá o time do último confronto no torneio continental. Os titulares serão: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Emerson Sheik e Jorge Henrique. Com a possibilidade de a vaga para a semifinal ser decidida nos pênaltis, muitas cobranças desse tipo foram treinadas pelos atletas alvinegros. O destaque foi o goleiro Cássio. Ele pegou várias cobranças dos companheiros e encheu a torcida de esperança. Segundo os jornalistas que acompanharam os treinos, o camisa 24 tem como estilo esperar o jogador escolher o lado do chute para então pular em direção à bola. Por isso, além das defesas, se aproximou de pegar outras tantas batidas. Dos jogadores de linha, Emerson Sheik e Alex acertaram todos os chutes. Ralf e Leandro Castán tiveram bom desempenho. Jorge Henrique e Paulinho, por sua vez, foram muito, muito mal. Cada um perdeu três dos cinco pênaltis batidos. Eu sinto um frio na espinha só de pensar na possibilidade de o jogo ser desempatado nas cobranças livres de 11 metros. Haja coração para aguentar tanta emoção! É com pesar que afirmo: acho que o jogo de quarta-feira terminará 0 a 0 e será decidido mesmo nos pênaltis. O Corinthians está com uma defesa muito sólida e dificilmente sofrerá gol em casa. O desempenho do sistema defensivo do Timão nesse ano é o melhor da história da Libertadores. Nunca um time sofreu tão poucos gols (2 gols em 9 jogos - média de 0,22 gol por partida). O problema da equipe está no baixo aproveitamento dos atacantes. Se os jogadores comandados por Tite vencerem a partida, deverá ser pelo magro placar de 1 a 0. Disso, eu já me acostumei, não posso reclamar... Vitória de 1 a 0 é goleada na Libertadores. 23 de maio de 2012 - quarta-feira O Timão subiu ao campo do Pacaembu e os torcedores recepcionaram as estrelas com uma festa lindíssima. Aproximadamente 40 mil pessoas coloriram as arquibancadas com as duas cores mais encantadoras: preto e branco. Um mosaico escrito "Timão" surgiu no setor das cadeiras laranjas. No Tobogã, uma enorme bandeira foi desfraldada. Na parte das organizadas, um foguetório barulhento se iniciou. Tudo estava pronto para o histórico duelo entre Corinthians e Vasco. O primeiro tempo foi truncado. As defesas levaram enorme vantagem sobre os ataques. As chances de gol foram raras nos dois lados. As duas melhores oportunidades vascaínas surgiram em cobranças de falta de Juninho Pernambucano. E as duas jogadas mais perigosas dos corintianos vieram em um chute torto de Emerson Sheik e de uma cabeçada fraca de Paulinho. Ou seja, perigo zero de surgir um gol. O segundo tempo foi ainda mais nervoso e fechado. Os sistemas defensivos das duas equipes continuavam impecáveis. O jogo transcorria sem chute perigoso ao gol. Aí, em um lance em cima de Paulinho, a torcida pediu pênalti. Claramente não foi nada. Transtornado com a decisão do juiz, Tite foi expulso por reclamação. O treinador corintiano deixou o campo e foi para a arquibancada assistir ao restante do segundo tempo ao lado dos torcedores. Essa cena é incrível: técnico e torcida juntos! De lá, o gaúcho enviava instruções por rádio e orientava os jogadores no alambrado mesmo. Na reta final da partida, aconteceu o lance decisivo. Enquanto o Corinthians tentava pressionar o adversário e avançava os jogadores para o ataque, o lateral Alessandro perdeu uma jogada simples no meio de campo. Ele entregou a bola de graça para o vascaíno Diego Souza. O craque cruz-maltino avançou sozinho de seu campo de defesa até a grande área corintiana. Sem marcação, ele ficou cara a cara com Cássio. O estádio inteiro já computava gol do Vasco. Na hora do chute, o goleirão fechou o ângulo e conseguiu espalmar para escanteio. A comemoração no Pacaembu foi parecida a um gol do Timão. Alívio geral. O placar permanecia em 0 a 0. Quando todos se preparavam para a disputa de pênaltis, o Coringão ganhou um escanteio. Aos 42 minutos do segundo tempo, Alex cobrou e, na entrada da pequena área, Paulinho subiu para cabecear. A bola foi milagrosamente da cabeça do volante para as redes vascaínas. Gooooooooooooooooooooool! Enfim o Corinthians fazia 1 a 0! Festa no campo, alegria nas arquibancadas e delírio nas casas, bares e em todos os lugares com fanáticos corintianos. Na comemoração, Paulinho subiu no alambrado e abraçou um torcedor. Outra imagem marcante e simbólica dessa noite inesquecível. Em uma dramática e típica vitória corintiana, os jogadores do Parque São Jorge se classificavam pela segunda vez para as semifinais. Esse time entrava para a história ao igualar a melhor campanha do clube na Libertadores. Tenho certeza de que, nessa noite, 30 milhões de loucos foram dormir sonhando com a conquista inédita. O sonho estava começando a se tornar realidade. Em breve, a torcida mais fiel do mundo venceria a maldição secular e conquistaria o Santo Graal do futebol sul-americano. 24 de maio de 2012 - quinta-feira Confesso que tive dificuldades para dormir ontem (ou seria hoje?!). As doses de stress e adrenalina do jogo de quarta-feira foram absurdas. A partida contra o Vasco terminou à meia-noite e eu só consegui pregar os olhos na cama por volta das quatro da manhã. Em minha memória, vinham a defesa salvadora de Cássio no chute de Diego Sousa, os gritos e orientações de Tite na arquibancada, a cabeçada certeira de Paulinho e a alegria geral dos corintianos após o apito final do juizão. A noite passada foi maravilhosa e dificilmente será esquecida tão cedo pelo Bando de Loucos. A quinta-feira foi monotemática em São Paulo. Em todos os lugares, o único assunto na voz do povo era a vitória do Timão. Milhares de corintianos saíram orgulhosos às ruas e desfilaram com as camisas do clube do coração. Uma maré alvinegra invadiu a metrópole e transformou o preto e branco nas cores da moda do outono. Em todo canto era possível encontrar um Fiel Torcedor com um sorriso largo. Hoje também foi o momento escolhido pelas pessoas para saber se os amigos corintianos estavam bem de saúde e se não haviam sucumbido do coração na noite anterior. Ainda de manhã, recebi ligações da minha amiga Keli e da Thalita. Ambas estavam curiosas para saber se eu ainda estava vivo. Queriam detalhes de como havia reagido à overdose de emoções. A corintiana Keli parecia ter sido a única torcedora imune ao sofrimento. "Acordei na hora do gol", me disse. Só acreditei nisso porque ela está grávida. A são-paulina Thalita, por sua vez, parecia frustrada com a perspectiva que a Libertadores tomava: "Li na internet, nessa semana, uma declaração da Mãe Dinah dizendo que nesse ano vocês vão ganhar mesmo! Parece que não vai ter jeito!". Depois, liguei para a minha prima Tatiana, a mais fanática corintiana que eu conheço. Queria saber como ela estava e como havia se comportado durante o jogo. Ela me disse ter sofrido demais, ter gritado e xingado muito. Ela não sabia se iria aguentar outra partida tão sofrida como a última. Pelo visto, já não se importava se o Timão saísse da Libertadores. O importante, segundo suas palavras, era se manter sã e saudável, duas coisas improváveis com a realização de novos confrontos. No final, ela me perguntou se eu achava que o título viria mesmo. Respondi com as palavras sábias da Thalita: "Até a Mãe Dinah já cravou: seremos campeões! Agora é só esperar e continuar sofrendo mais um pouco nos jogos". Ela concordou. No começo da noite, li na internet sobre o torcedor que abraçou o Paulinho após o gol decisivo. Ele é um rapaz de 28 anos e mora no Tatuapé. Na hora da comemoração, o corintiano pulou no alambrado do estádio e celebrou o gol nos braços do artilheiro da noite. Na reportagem, o torcedor conta como a cena aconteceu: "Cara, foi uma coisa de momento. Eu tinha ido ao banheiro e estava perto do alambrado porque estava com raiva do Alessandro. Queria xingá-lo. Quando saiu o gol, eu nem vi mais nada. Subi no alambrado sem pensar em mais nada". Dessa maneira, o rapaz representou toda a Fiel Torcida ao agradecer ao volante pelo feito histórico. E representou ainda mais por tentar xingar diretamente o desastrado lateral-direito pela grande falha alguns minutos antes, que quase colocou tudo a perder. 25 de maio de 2012 - sexta-feira Ainda com o relógio biológico desregulado pela noite mal dormida de quarta (ou seria da madrugada de quinta?), acordei tarde na sexta-feira. Como não tinha nenhum compromisso importante pela manhã, executei as atividades rotineiras em câmera lenta. Arrumei o quarto sem pressa e tomei um longo banho quente. Depois, me sentei à mesa da cozinha e degustei um demorado café da manhã enquanto ouvia as notícias no rádio. Como é bom fazer as tarefas diárias tranquilamente, sem a pressa tradicional dos dias da semana, né? Depois, me sentei à mesa da sala para ler o jornal com calma. Obviamente, comecei pelo caderno de Esportes. Foi lendo O Estado de São Paulo que soube da classificação dos Santos na noite anterior. O Peixe avançou à semifinal da competição sul-americana. O time da Baixada venceu o Vélez Sarsfield na Vila Belmiro por 1 a 0. Como na semana passada os argentinos haviam ganhado pelo mesmo placar, a disputa foi para os pênaltis. Nas cobranças de desempate, os santistas foram superiores e venceram por 4 a 2. Assim, o time de Neymar será o adversário do Timão na próxima fase da Libertadores. Vão ser dois jogões e fortes emoções já estão reservadas para os próximos dias. Enfrentaremos, possivelmente, o mais difícil dos oponentes na nova fase. Apesar do Santos ser o adversário mais temido, uma boa notícia foi relatada nas páginas do diário. O meia-armador Ganso, o maestro do time tricampeão paulista, não jogará nenhuma das duas partidas da semifinal. Ele vai operar o joelho e deverá ficar 30 dias afastado dos gramados. Se Neymar e Ganso são 100% da força adversária, é possível dizer que com a ausência do meia, o Santos entrará em campo com apenas 60% da sua capacidade máxima. Já é uma boa notícia para a Fiel, não é mesmo? Estou muito confiante na possibilidade de superá-los e chegar pela primeira vez à final da América. Já imaginou o Timão em uma decisão de Liberta!!! A outra semifinal será entre times estrangeiros. O Boca Juniors eliminou o Fluminense no Rio de Janeiro com um gol aos 45 minutos do segundo tempo. Os xeneizes empataram em 1 a 1 no Engenhão (haviam vencido o primeiro jogo por 1 a 0 em Buenos Aires). O rival dos argentinos será o Universidad de Chile, que despachou os paraguaios do Libertad. Após um duplo empate de 1 a 1 nos dois jogos, os chilenos venceram a disputa de pênaltis por 5 a 3. Deu para ver que não faltaram emoções nas quartas de finais do torneio desse ano, né? Santos e Corinthians disputam a semifinal brasileira. Boca Juniors e Universidad de Chile se enfrentam no confronto gringo. Como haverá partidas das seleções sul-americanas pelas Eliminatórias da Copa de 2014 nos próximos dias, os jogos que definirão os finalistas da Libertadores serão em 13 e 20 de junho. Teremos, portanto, duas semanas sem confrontos na competição continental. As finais serão em 27 de junho e 4 de julho. Com a eliminação do Fluminense, o Corinthians é o time com melhor campanha na primeira fase entre os semifinalistas. Assim, teremos o direito de disputar o último jogo das próximas fases no Pacaembu. É uma importante vantagem decidir os duelos ao lado da Fiel Torcida. Vamos ver se ela será aproveitada. 26 de maio de 2012 - sábado Uma notícia me deixou preocupado. Ao visitar minhas avós, como faço aos sábados, fui lendo o jornal O Lance! no caminho e me deparei com a seguinte informação: "Pai de Castán acredita em saída do filho do Timão após disputa da Libertadores". Como assim Leandro Cástan quer sair? Eu sabia do interesse do futebol europeu por Ralf e Paulinho, mas não no desejo gringo pelo zagueiro da camisa 4. O pai do atleta, Marcelo, foi enfático nesse sentido. "Acredito que a possibilidade de ele sair após a Libertadores é muito grande, até por ter um contrato curto, só até o final de 2013. Hoje, não queremos atrapalhar o time na disputa da Libertadores. Então, vamos esperar o seu final para definirmos tudo junto com o clube", disse o patriarca dos Castán ao jornal esportivo, deixando clara a posição da família. Na reportagem, a Roma é um dos times interessados em ter o jogador já para a próxima temporada do velho continente. Como o passe do zagueiro é 100% do Corinthians, há a possibilidade dos dirigentes do Parque São Jorge tentarem segurá-lo. Isso fica mais difícil, por exemplo, no caso de Paulinho. O Timão só possui 10% dos direitos econômicos do volante e não pode fazer nada em caso de uma negociação com o exterior. Há até quem diga que a Internazionale de Milão já estaria em conversas adiantadas com Paulinho e seus empresários. Foco da minha preocupação de hoje, Leandro Castán tem feito uma temporada fantástica com a camisa do Corinthians. O zagueiro de 25 anos foi contratado do Grêmio Barueri. De lá para cá, evoluiu demais e já há quem peça sua convocação para a Seleção Brasileira. Castán chegou ao Timão no início da temporada de 2010. Ficou um ano na reserva de Chicão e Willian, considerada por muitos a melhor dupla de defensores do futebol nacional naquela oportunidade. Com a aposentadoria do capitão Willian no final daquele ano, Paulo André foi contratado para substituí-lo. No planejamento da comissão técnica, Castán permaneceria na reserva. Aí o Paulo se contundiu logo nas primeiras semanas da temporada de 2011. Leandro Castán entrou no time principal e nunca mais saiu. Ele foi um dos jogadores que mais atuou no ano passado, sendo importantíssimo para o título brasileiro. Não é incorreto dizer que ele e Dedé do Vasco são os zagueiros com melhor desempenho na atualidade. A defesa do Timão, desde 2011, é Leandro Castán e mais alguém. O que mais chama a atenção nas atuações de Castán é a ausência de falhas. É comum vermos bons defensores cometendo erros de vez em quando, mas o dono da camisa 4 do Timão não vacila nunca. Ele também toma poucos cartões e não comete muitas faltas nos jogos. Sua disposição em campo é impressionante. Suas especialidades são: a antecipação perfeita aos atacantes adversários e a interceptação das bolas aéreas. Se o Corinthians de Tite possui uma das melhores defesas de sua história, boa parte do mérito deve ser atribuído à competência de Castán. Precisamos torcer pela manutenção do atleta para os próximos anos. A negociação de Leandro Castán com o futebol europeu será sem dúvida nenhuma uma grande perda para o clube e para a Fiel Torcida. 27 de maio de 2012 - domingo Hoje teve Timão pelo Campeonato Brasileiro. Com a derrota na primeira rodada, os comandados de Tite carregavam a obrigação de vencer o Atlético Mineiro, mesmo jogando fora de casa. Pensando nisso, o treinador corintiano colocou uma equipe reforçada. Apenas Paulinho, Jorge Henrique e Emerson foram poupados. Os jogadores que entraram em campo no Estádio Independência pelo clube do Parque São Jorge foram: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Willian Arão, Danilo e Alex; William e Élton. Confesso que não consegui assistir ao jogo quando ele passou ao vivo na televisão. Nessa hora, estava dormindo. Como tinha me deitado tarde no sábado (beijo, Thalitinha!) e tinha acordado cedo no domingo para correr no parque (abraço, Marcolino), acabei cochilando a tarde inteira. Só acordei às 20 horas, quando estava começando os principais programas esportivos. Foi através da programação noturna da TV a cabo que pude conferir o resultado e os melhores momentos da partida. O Corinthians jogou bem. No primeiro tempo, chutou mais ao gol, teve mais posse de bola e criou as melhores oportunidades. Élton perdeu um gol feito após cruzamento de Fábio Santos. William também teve chances de marcar. Como sempre, desperdiçou-as. O empate sem gol da primeira etapa foi injusto para os corintianos. Eles mereciam ter saído com a vitória. O segundo tempo começou como acabou o primeiro. O excesso de faltas e os vários passes errados das duas equipes davam a tônica do jogo. O Timão continuava superior. O problema estava nas finalizações imperfeitas. Danilo não conseguiu cabecear uma bola na grande área e ela se perdeu pela linha de fundo. Logo depois, William teve outra oportunidade, mas o zagueiro mineiro tirou a bola quase em cima da linha. Essa foi por pouco! Como diz aquele velho ditado do futebol "quem não marca, toma", o Atlético chegou ao gol solitário da tarde aos 19 minutos. O menor dos atacantes atleticanos, de apenas 1,67 metro, apareceu livre na área paulista e cabeceou para dentro, encobrindo Cássio. A fanática torcida do Galo foi ao delírio. Precisando de um gol para empatar, o Corinthians foi para cima. Teve, é verdade, mais algumas chances. Nos contra-ataques, o Atlético enfim conseguia fazer boas jogadas. Os minutos finais foram os melhores tecnicamente, com os dois times acertando mais jogadas do que errando. Contudo, o tempo acabou e a segunda derrota corintiana no campeonato estava decretada. Fábio Santos ainda foi expulso juntamente com um atacante adversário. O Corinthians voltou de Belo Horizonte com a segunda derrota seguida na competição. Com nenhum ponto computado, o maior clube de São Paulo ocupa no momento a penúltima posição no Brasileirão. Ou voltamos a vencer o mais rapidamente possível ou brigaremos nesse ano para não sermos rebaixados. 28 de maio de 2012 - segunda-feira Qual o problema em brigar pelo rebaixamento no Campeonato Brasileiro, hein? Normalmente, as equipes brasileiras que avançam até a final do torneio sul-americano começam sempre mal a competição nacional. No ano passado, o Santos, campeão da América, ficou o primeiro turno inteiro do Brasileirão na zona de rebaixamento ou próximo a ela. O mesmo aconteceu com o Fluminense, em 2008, e com o Cruzeiro, em 2009, quando ambos chegaram às finais do mais importante campeonato do continente. Infelizmente, essa é a realidade do péssimo calendário do futebol brasileiro. As circunstâncias obrigam as melhores equipes do país a pouparem seus atletas durante os meses de maio e junho, quando começa o Brasileiro e quando estão terminando a Copa do Brasil e a Libertadores. E qual o problema de o Timão passar o ano inteiro brigando pelas posições de baixo na tabela de classificação do Brasileirão? Nenhum! Precisamos sempre nos lembrar das prioridades: torneios internacionais são mais importantes do que os nacionais, que por sua vez, são mais relevantes do que as competições estaduais. Essa é a lei universal do jogo. Se os jogadores alvinegros vencerem a Libertadores, tenho certeza de que a torcida não se importará de ver o time rebaixado para a Série B. O importante mesmo é a conquista continental. Com ela, todo o resto é apenas resto. Feita essa observação, minha preocupação no momento é exclusivamente os jogos da semifinal da Libertadores. A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) definiu hoje as datas e os locais das partidas entre Santos e Corinthians. A primeira parte do duelo será no dia 13 de junho, na Vila Belmiro, em Santos. A segunda metade do confronto será no dia 20 de junho, no Pacaembu, em São Paulo. Então, rasgue da sua agenda as folhas com essas datas para você não correr risco de marcar algum compromisso profissional ou pessoal nesses dias. As atenções do mundo do futebol (constituído de corintianos e anticorintianos) estarão voltadas para essas partidas. Por não haver jogos oficiais de clubes nos próximos dez dias, tanto o técnico corintiano quanto o santista terão um tempo considerável para treinar seus comandados até os próximos compromissos. Ambos ainda farão duas partidas pelo Brasileiro antes de se voltarem para o primeiro jogo do confronto direto. Tite leva alguma vantagem sobre Muricy nesse período de treinamento por ter à sua disposição os principais atletas. Já o santista não contará com suas grandes estrelas: Ganso foi operado e Neymar e o goleiro Rafael servirão à Seleção Brasileira. Os camisas 1 e 11 do Santos realizarão três amistosos nos Estados Unidos e vão se ausentar dos treinos no clube. As ausências dos craques no Centro de Treinamento Rei Pelé farão falta para Muricy Ramalho. Essa é a minha esperança e de toda a torcida corintiana. Vale lembrar que as atuações de Neymar contra o Vélez nas quartas de finais foram pífias. Ele e o time inteiro do Santos não jogaram nada nas duas partidas contra os argentinos. Eles se classificaram porque tiveram muita sorte, apenas isso. Será que o fim está próximo para os santistas na Libertadores? Quem viver, verá! 29 de maio de 2012 - terça-feira O assunto da vez entre os corintianos é a péssima fase do setor ofensivo da equipe de Tite. Foi esse o debate que tive com os meus amigos alvinegros no fim dessa tarde em um barzinho na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Antônio de Lima. Imagino ser essa a grande preocupação de toda a Fiel Torcida. Vamos aos fatos. O Corinthians só fez um gol nas últimas quatro partidas (Paulinho contra o Vasco). Os atacantes não balançam as redes há seis jogos. O último a comemorar um tento foi William no mês passado. No dia 22 de abril, o atacante saiu do banco para marcar na derrota para a Ponte Preta por 3 a 2. De lá para cá, Liedson, Emerson, Jorge Henrique, William, Gilsinho e Élton passaram em branco em todas as oportunidades. Ou seja, o mês de abril acabou, maio chegou, avançou, está terminando e nada dos atacantes cumprirem com sua principal obrigação! Trata-se de um desempenho muito baixo para um time candidato ao título da Libertadores, né? Entretanto, para vencer o torneio continental, o imprescindível é ter uma boa defesa. Historicamente é essa a receita para levantar o caneco: times defensivamente seguros ao invés de equipes muito ofensivas. Mesmo assim, algumas perguntas vêm à tona: o que está acontecendo com o nosso ataque? Qual é o problema? Por que os gols se transformaram em um artigo tão raro? A minha explicação é a falta de um centroavante em condições físicas ideais e com talento compatível à grandeza do Timão. Vejamos: Liedson não tem mais cartilagem nos joelhos para arrancar pelo campo. Élton é um atleta muito limitado. É só lembrarmos o gol perdido na última partida contra o Atlético Mineiro. Sem ter com quem contar na posição, Tite passou a armar o time sem um homem enfiado na grande área. Aí o bolo desandou. Jorge Henrique, Emerson e William são bons atacantes. São velozes, driblam bem, fazem tabelas de maneira certeira e ajudam bastante na marcação defensiva. Porém, eles não são definidores natos, fazedores de gols. A maior prova disso é que em todos os jogos o Corinthians sempre cria muitas oportunidades. Normalmente, as jogadas sempre levam bastante perigo ao gol adversário, mas a bola teima em não entrar na meta. A falta de um bom centroavante na área é, na minha visão, o principal motivo da carência de gols. O comentário que melhor resumiu a preocupação corintiana foi feito, curiosamente, por um palmeirense. Bruno, o namorado da irmã da Thalita, foi quem questionou os alvinegros ao seu redor na mesa do bar. "Digam-me uma coisa: vocês esperam mesmo eliminar o Santos fazendo poucos gols?! Não sejam inocentes em crer que os atacantes santistas vão passar 180 minutos perdendo chances incríveis como o Vasco fez. Neymar, Borges e Allan Kardec não vão chutar para fora aquela bola perdida pelo Diego Sousa na frente do Cássio. Pensem nisso". É verdade! O rapaz, mesmo sendo palmeirense, tinha razão. Acho que não vou dormir direito nas próximas noites pensando nas palavras dele. Se os gols não voltarem, adeus Libertadores, adeus sonho e adeus O Ano que Esperávamos Há Anos! 30 de maio de 2012 - quarta-feira Esse ano tem sido especial para a Fiel. Possivelmente, 2012 e 2013 conseguirão suplantar 1977 como o período mais próspero e feliz da história corintiana. Os torcedores alvinegros estão testemunhando o auge do clube do Parque São Jorge. Essa fase deverá ser lembrada por toda a nossa existência. Para quem não entendeu a comparação com 1977, vale recordar que foi naquela temporada que o Timão conquistou novamente o Campeonato Paulista e encerrou o jejum de 23 anos sem títulos. Por causa dessa peculiaridade, 1977 é simbólico para a torcida como o momento exato do fim da maldição dos tempos sem glória. Muitos consideram essa a principal conquista da história corintiana. Mesmo tendo vencido torneios mais importantes depois disso (um Mundial de Clubes da FIFA, cinco Brasileirões e três Copas do Brasil), aquele Paulistão não sai da memória de ninguém. Mesmo com os troféus e a formação de grandes times, dois elementos nunca mudaram nos mais de cem anos de Sport Club Corinthians Paulista: a gozação das torcidas rivais sobre os insucessos na Libertadores e a carência de um estádio próprio. Desde moleque, eu ouvia meus coleguinhas de escola falando: "Lá vai um corintiano que não sabe o que é vencer a Libertadores". Ou quando me perguntavam: "Como é torcer para um time sem estádio?". Essas brincadeirinhas infernizam os corintianos desde sempre. Eu cresci e hoje continuo ouvindo as mesmíssimas gozações. Se o Timão foi eliminado tragicamente nas últimas sete participações do torneio sul-americano (1991, 1999, 2000, 2003, 2006, 2010 e 2011), em relação à casa própria a decepção também foi grande. Por diversas vezes, a construção do estádio fora prometida e na hora H tudo era desfeito. Em 1968, garantiram um estádio para 100 mil pessoas e nada. Em 1980, Vicente Matheus, o folclórico presidente do clube, tentou construir um para 200 mil torcedores. Não conseguiu. Em 2000, um parceiro prometeu arena para 50 mil pessoas. Só se esqueceu de começar a obra. Em 2007, um empresário russo fez nova promessa e nada. A frustração só aumentava... Imagine a alegria dos corintianos quando o Timão conquistar, enfim, a tão sonhada competição continental. E imagine isso ocorrendo simultaneamente à inauguração do estádio próprio! É exatamente esse momento em que estamos testemunhando hoje. Estamos a quatro jogos de soltar o grito de: "Campeão da Libertadores!". Já vejo as músicas, os poemas, os livros e os filmes relatando tal feito. Além disso, o nosso estádio será entregue no ano que vem. As obras em Itaquera completaram hoje um ano. Já é possível ver o grande avanço na empreitada. Com quase 40% dos trabalhos concluídos, a arena ganha forma, sendo possível ver parte das arquibancadas, o túnel de acesso ao campo e parte dos prédios de entrada. Está ficando lindo! Deu agora para entender o porquê a Libertadores e o estádio são importantes para a torcida e para o clube?! Eles representam a conquista definitiva da autoestima corintiana. Felizmente, somos testemunhas das duas tão almejadas conquistas. 2012 é sem dúvida a materialização do ano em que sonhávamos há anos. 31 de maio de 2012 - quinta-feira O Timão está bem na Libertadores e pode chegar pela primeira vez à final. Tudo, à princípio, caminha satisfatoriamente. Só uma coisa está me tirando do sério: essa longa espera até o próximo confronto. Já se passou uma semana desde o último jogo contra o Vasco e ainda faltam mais 14 dias para vermos Santos e Corinthians entrarem em campo. Não vá pensar que eu seja uma pessoa ansiosa, porque não sou. Gostaria muito de poder me deitar agora e só acordar minutos antes do início da primeira partida das semifinais, evitando a angústia e o tormento característicos dessa longa espera. Não me importo em ter meus trabalhos atrasados (recuperaria o tempo perdido depois), nem de perder vários bons momentos da vida pela hibernação. Pelo menos não sofreria tanto com tal expectativa. É muito complicado passar os dias com essa ansiedade! Tudo ao meu redor me faz lembrar da competição sul-americana e do jogo contra o Peixe. Se estou conversando com alguém e a pessoa quer marcar algo, eu automaticamente penso: "menos nas quartas-feiras". Acabo me programando em função dos jogos da Libertadores. Quem me conhece já sabe disso. Ninguém me chama mais para sair durante a semana: na terça-feira, véspera das partidas, estou desconcentrado, no mundo da Lua; e na quinta-feira, estou insuportavelmente eufórico, além de ficar monotemático. Até quando estou trabalhando nos meus outros livros (estou escrevendo três ao mesmo tempo), acabo colocando algo sobre futebol e o Corinthians no meio deles. Aí na hora de revisá-los, normalmente preciso apagar tudo. Esporte e fanatismo corintiano não combinam em nada com o assunto principal dessas obras. Por exemplo, um deles é uma publicação de Planejamento Estratégico. Ele está sendo escrito em conjunto com o grande Roberto S. Inagaki (um palmeirense fanático, diga-se de passagem). Aí não dá para colocar no meio das explicações sobre estratégia competitiva e os diferentes planos empresariais um "vai Corinthians!" ou mesmo um "Alessandro, não nos mate do coração!". Mesmo assim, sempre escapa algo do gênero. O outro livro é um romance sobre uma historiadora bonitona preocupada em descobrir os segredos por trás do poder em Brasília. Nesse título até conseguiria, com algum esforço, colocar no enredo algo relacionado ao futebol e ao Timão. Mesmo assim, o triste fim para essas linhas é sempre a lixeira do desktop. Apesar da minha péssima situação financeira, ainda tenho a esperança de conseguir recursos para assistir à final do torneio continental, no Pacaembu. Nem que eu precise pedir um empréstimo no banco, vou renovar minha conta no programa Fiel Torcedor. Por isso, estou economizando mais dinheiro do que deveria. Praticamente não estou gastando nada com a esperança de que minhas moedas se multipliquem e se transformem milagrosamente em notas de cem reais. Como é complicado levar uma vida normal no meio da interrupção da Libertadores, né? Fácil mesmo seria se eu dormisse e só acordasse na hora do jogo. Para piorar, imagino que esse problema não seja apenas meu. Milhares de corintianos espalhados no mundo devem estar sofrendo com a espera. E pensar que ainda faltam 14 dias... ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? 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  • Dança: Jazz Dance - As características e a história desse estilo tão sensual e empolgante

    Conheça mais sobre a Dança Jazz: origem, influências, particularidades e ritmos dessa que é uma modalidade envolvente, charmosa e contagiante. Que tal dançar Jazz?! Hoje, a coluna Dança abre as cortinas para o estilo dançante que encanta pela sensualidade, pela técnica apurada e por certo grau de liberdade artística. A proposta desse novo post do Bonas Histórias é desvendar a história, a evolução, as influências, as características, as particularidades e os subgêneros do Jazz Dance, um tipo de dança que nunca sai de moda. E, por favor, não confunda a dança Jazz com a música Jazz. Embora compartilhem do mesmo nome e tenham surgido mais ou menos na mesma época, elas não estão vinculadas. Nem o estilo de dança se refere ao gênero musical homônimo nem o gênero musical está relacionado diretamente ao estilo de dança homônimo. Falo isso logo de cara porque, se você é um(a) apaixonado(a) pelo som dos trompetes, não adianta ir a uma aula de Jazz Dance. Talvez você se decepcione. Nesse caso específico, meu conselho para os amantes da música Jazz é dançar Lindy Hop. Aí sim você poderá aprender os passos de dança ao som de suas melodias favoritas. Feita essa ressalva inicial, vamos, então, entender e conhecer mais sobre a modalidade de dança. A dança Jazz que conhecemos hoje tem uma longa história. Ao longo do tempo, ela recebeu novas influências, incorporou mais elementos e desenvolveu seus próprios passos e movimentos. Sua origem se deu no século XVIII e suas raízes são africanas. Foi através dos negros escravizados que esse estilo de dança se formou e, mais tarde, se espalhou pelo território norte-americano. Daí para o mundo foi um pulo. Retirados de sua terra natal para servir de mão de obra escrava nas fazendas dos Estados Unidos, os africanos carregaram naturalmente para o outro lado do Oceano Atlântico uma rica e variada cultura popular. A dança e a música estavam, obviamente, nesse pacote artístico que aportou na América do Norte. Uma vez no novo país, os africanos observavam as danças que eram praticadas pelos brancos de origem europeia. Na então colônia britânica, se dançava principalmente a Polca, a Valsa e as Quadrilhas. Os escravos começaram, então, a incorporar esses movimentos às suas danças, um pouco com o intuito de imitar os colonos, e um pouco para ridicularizá-los. Assim, surgiu o Jazz Dance, uma expressão artística que misturava elementos das danças africanas e características das danças europeias. Em 1740, os governantes dos Estados Unidos proibiram o uso de tambores tanto nas senzalas e nas fazendas quanto nas ruas e nos eventos públicos. A ideia era evitar uma revolta escrava. Nesse caso, os sons dos tambores, acreditavam as autoridades coloniais, poderiam servir de chamamento, mobilização ou mesmo de comunicação entre os negros. A partir dessa medida proibitiva, eles precisaram acrescentar outros sons às suas danças, que tinham como base musical justamente os tambores. Aí os escravos passaram a priorizar as palmas, o sapateado e o banjo. Essa transformação impactou sensivelmente a dança Jazz, aproximando-a bastante das características da modalidade que temos atualmente. Foi, no entanto, apenas no início do século XIX que a dança afro-americana começou a ser apresentada nos salões dos Estados Unidos, agora um país independente. Inicialmente, ela podia ser praticada apenas por dançarinos brancos. Porém, essa realidade mudaria em janeiro de 1863, quando houve a emancipação dos escravos nos Estados Unidos através de um acordo firmado por Abraham Lincoln. Com o fim formal da escravidão, as danças e os cantos dos negros puderam deixar o isolamento e ganhar o grande público. Evidentemente, a maior integração entre as danças europeias e afro-americanas e entre os dançarinos negros e brancos levou ainda algum tempo para se efetuar e variou de região para região. Enquanto no Norte do país esse processo foi um pouco (repare no uso da palavra pouco!) mais rápido, nos Estados sulinos ele foi mais lento, complicado e tumultuado (e põe lento, complicado e tumultuado nisso!). Nem mesmo a derrota dos Confederados na Guerra de Secessão, em 1865, transformou do dia para a noite a mentalidade racista de parte da população do Sul dos Estados Unidos. De qualquer maneira, do ponto de vista da História da Dança, a segunda metade do século XIX foi de maior intercâmbio cultural entre as danças tipicamente europeias e as danças afro-americanas. E o Jazz bebeu diretamente dessa fusão artística. Nessa época, as modalidades que mais influenciaram os negros foram o Can-can e o Charleston. Na virada do século XIX para o XX, o Jazz passou a ganhar mais espaço nos clubes e nos palcos teatrais, onde era apresentado em espetáculos chamados de comédia musical. No início do século XX, a dança negra foi fortemente influenciada pela Dança Moderna, outra modalidade novata que surgia como oposição ao formalismo e aos rigores dos estilos clássicos. As apresentações de Jazz dessa época eram caracterizadas por grupos de dançarinos usando o mesmo figurino e com os passos e movimentos totalmente sincronizados. Considerado o “pai” do Jazz Dance, Jack Cole foi o primeiro artista a levar os elementos da Dança Moderna para a sua modalidade. Até então, o Jazz era uma dança que usava mais o improviso e não recorria a quase nenhuma técnica corporal. Cole desenvolveu a técnica de isolar as partes do corpo, em que cada membro faz movimentos independentes. A técnica Cole trabalha principalmente com explosão de movimentos, pliés profundos, isolação muscular, sincopação e trabalhos de solos. Essas características estão presentes na dança Jazz até hoje e são, inclusive, uma de suas particularidades mais marcantes. No Brasil, não se pode precisar quando o Jazz ganhou espaço nem quem foi o(a) responsável por introduzir essa modalidade por aqui. O que se pode garantir é que a indústria nacional do entretenimento foi a grande responsável pela dissipação desse estilo no país, através de programas de televisão, propagandas e aberturas de novelas. Na década de 1980, o Jazz Dance era considerado a dança mais popular do Brasil. Se você viveu intensamente essa época, na certa já fez aulas de Jazz, dançou muito esse ritmo e/ou assistiu aos principais artistas nacionais coreografando passos dessa modalidade nos palcos ou na TV. As técnicas do Jazz Dance estão estruturadas não apenas na Dança Moderna, mas também no Ballet Clássico. Se você fizer uma aula experimental de dança de Jazz, você irá se deparar com exercícios muito parecidos aos do Ballet. Haverá os famosos exercícios e aquecimentos de barra e os movimentos de diagonal. Esses passos são, inclusive, incorporados nas coreografias do Jazz e podem ser executados com os mais variados gêneros musicais. O Jazz é sempre uma ótima opção para quem quer trabalhar a técnica e a postura do Ballet, mas deseja algo mais movimentado, agitado. Esse estilo de dança busca o movimento de todo o corpo, mas não necessariamente de forma integrada entre as diferentes partes corporais. A impressão que temos é que cada pedaço do dançarino tem vida própria e age livremente. Os passos do Jazz Dance buscam uma explosão de energia que irradia principalmente dos quadris, com movimentos sinuosos e muitas vezes sensuais. Não por acaso, essa é uma das modalidades mais apreciada pelo público e bastante usada em espetáculos do show business. O Jazz deu origem a alguns estilos de dança distintos. Posso citar: Jazz Musical, Jazz Dance (ou Jazz Tradicional), Street Jazz Dance (ou Urban Jazz), Heels Dance, Modern Jazz, Lyrical Jazz e Jazz Contemporâneo. Cada um deles é uma variação ou subcategoria do Jazz. Vamos entender, a seguir, um pouco de cada uma dessas modalidades: - Jazz Musical: foi através desse estilo que o Jazz ganhou mais visibilidade. A modalidade está relacionada ao Jazz dos espetáculos musicais da Broadway, onde os dançarinos cantam, dançam e interpretam. Ou seja, o musical no nome do ritmo não tem a ver com a música Jazz e sim com as peças teatrais do tipo musical. As coreografias do Jazz Musical trazem sempre muito gingado e expressividade. - Jazz Dance ou Jazz Tradicional: esse é o estilo de Jazz mais comumente praticado nas escolas e nas academias de dança. A coreografia do Jazz Dance acentua o ritmo e as batidas das músicas. O Jazz Tradicional pode ser dançado com uma variedade enorme de ritmos musicais como o Pop, o Samba, o Rock, o K-pop, a Música Eletrônica e, acredite, até o Jazz. Ele é uma dança sempre alegre e agitada, que valoriza o movimento corporal (mesmo na ausência dele, através das pausas). - Street Jazz Dance ou Urban Jazz: esse estilo de Jazz envolve a mistura de várias culturas e formas de expressão corporal. O Street Jazz Dance tem grande influência do Hip Hop, das Danças Modernas, do Break, do Funk e da Música Eletrônica. - Heels Dance: esse estilo de Jazz ficou muito popular nos últimos anos por causa das performances de artistas Pop como Beyoncé, Jennifer Lopes, Rihanna, Britney Spears e Madonna. O Heels Dance é caracterizado por se dançar de salto alto e explorar mais a sensualidade. Ele utiliza fundamentalmente elementos do Street Dance e do Freestyle. - Modern Jazz: possui grande ligação com a Dança Moderna e seus movimentos. Nessa modalidade, os dançarinos recorrem mais vezes ao improviso e à Dança Livre. - Lyrical Jazz: esse estilo valoriza muito mais a expressividade. As músicas utilizadas são mais românticas e dramáticas, o que torna a dança mais densa e com movimentos mais desenhados e sustentados. Nesse estilo, os dançarinos recorrem muitas vezes aos movimentos de rolamento no chão, algo típico da Dança Contemporânea. - Jazz Contemporâneo: esse estilo vive em transmutação e vem sofrendo influências constantes das artes mais atuais e das atividades cotidianas. Os fundamentos do Jazz Contemporâneo estão relacionados às propostas da Dança Moderna e da Dança Contemporânea. Por isso, ele utiliza muitos movimentos de expansão e giros. E aí, deu vontade de dançar Jazz, não deu?! Sabia que você ia ficar empolgado(a). Nessa friaca atípica que está fazendo em maio no Centro-Sul do Brasil, não há nada mais interessante do que se aquecer, se divertir e queimar calorias dançando algo tão legal, né? Além disso, a prática do Jazz traz outros benefícios para os dançarinos. Ele melhora o alongamento, confere mais força muscular aos membros inferiores e superiores, dá mais equilíbrio corporal, fortalece ossos e músculos, acelera a agilidade mental, aperfeiçoa a coordenação motora e melhora o humor. E ele ainda faz você correr o risco de estar em qualquer lugar público, como um shopping ou supermercado, e começar a dançar assim que escutar aquela música que você tanto gosta. Nessa hora, cuidado, muito cuidado!!! Nem todos vão entender o que está acontecendo com você. Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Dança: Dança Moderna e Dança Contemporânea - Surgimento e características

    Hoje, na coluna Dança, vamos falar sobre a dança moderna e a dança contemporânea. A dança compreende inúmeros passos e movimentos. E a junção desses elementos com as batidas musicais forma coreografias que permitem que nossa imaginação se liberte e que nossos corpos transmitam emoções. Esta é a grande magia da dança. A dança moderna e a dança contemporânea oferecem maior liberdade e dão margem para as improvisações. Assim, o dançarino fica livre para se movimentar e para se expressar. Porém, essa revolução na arte dançante só aconteceu no século XX. Até então, quem ditava as regras da dança e norteava sua evolução ao longo dos séculos era o ballet clássico, mais inflexível e extremamente rigoroso quanto à determinação dos movimentos. Falamos um pouco sobre a influência do ballet para as demais modalidades no post do mês passado do Bonas Histórias, Breve História da Dança. O ballet impôs incontáveis regras aos seus praticantes: o tipo de penteado a ser feito, o modelo de roupa a ser usada, a especificação do passo a ser executado, a postura ereta e imponente do dançarino em ação, etc. Até hoje, o ballet clássico mantém esta rigidez. Não à toa, essa modalidade é o caminho natural para muitos pais que desejam ensinar disciplina e postura aos filhos. Contudo, tantas regras e tanta solidez formal se tornaram incompatíveis com os valores do mundo moderno. Aos poucos, surgiu a necessidade de se quebrar tal rigidez. Essa ruptura conceitual e prática foi o grande legado que a dança moderna trouxe para o universo artístico nas primeiras décadas do século XX. Este novo tipo de dança quebrou todas as regras e os formalismos que eram usados e apreciados até então pelos dançarinos. Inicia-se, portanto, uma nova página da história da arte corporal. Em uma época em que as cidades cresciam velozmente, a industrialização ditava novos rumos político-econômicos e muitos países enfrentavam os desafios da Primeira Guerra Mundial, era natural que a sociedade como um todo também se modificasse. Um novo jeito de ser, viver e pensar moldou a cultura do homem moderno. Desta forma, muitos dançarinos não viam mais razão para toda a formalidade imposta pelo ballet. Eles queriam uma dança mais simples, mais livre e que pudesse transmitir diretamente seus sentimentos. Os grandes espetáculos do ballet clássico, com sua rigidez de movimentos e os cenários majestosos, não mais representavam a nova sociedade do século XX. Surgiram, nesta época, nomes importantes da dança moderna como Isadora Duncan (1877 – 1927), Loie Fuller (1862 – 1928), Ruth St Dennis (1879 – 1968), Martha Graham (1894 – 1991) e Mary Wigman (1886 – 1973). Esses dançarinos, mesmo com estilos totalmente diferentes entre si, queriam trazer mais liberdade para a dança e desejavam romper com o tradicionalismo do ballet clássico. O estilo moderno propõe uma dança com movimentos mais soltos e simples (mas que respeitem a técnica de execução) e com apresentações que permitam aos dançarinos a transmissão mais direta e intuitiva de seus sentimentos. Assim, as sapatilhas foram abandonadas (pode-se dançar até mesmo descalço) e as roupas se tornaram mais confortáveis (pode-se até mesmo ficar sem roupa no palco). Um novo padrão estético se formava. A ideia era criar uma dança com passos livres e que pudesse ser mais expressionista. Inicialmente, essa dança foi considerada radical e iconoclasta. Os dançarinos que se voltaram para a dança moderna queriam impor uma maior liberdade de repertório e, principalmente, expor com maior veracidade as emoções. Paul Boucier, em seu livro “A História da Dança no Ocidente” (Martins Fontes), faz uma citação que pode resumir bem a proposta da dança moderna: “A intensidade do sentimento comanda a intensidade do gesto”. Além de deixar os movimentos mais soltos, a dança moderna abre espaço para a criação de novos passos, sem que a técnica seja perdida nesse processo. Sem precisar seguir uma estrutura tão rígida, o dançarino mergulha em novos caminhos criativos. Mesmo coreografadas, as novas danças transmitem a ideia de improvisação e de informalidade ao público. Assim, em uma comparação multicultural, a dança moderna representou para a arte corporal a mesma ruptura formal que o jazz significou para a música. O novo tipo de dança usa muito mais a gravidade e o peso corporal. O corpo dos dançarinos passou a ser muito mais estudado. Enquanto o ballet tinha seus grandes movimentos em saltos, piruetas e chutes altos, a dança moderna passa a ser desenvolvida no chão e em quedas corporais controladas. Isso é uma influência direta do estado psicológico dos dançarinos, que queriam extravasar suas emoções internas. A dança moderna prioriza o sentimento dos artistas. Eles devem demonstrar, no palco, o máximo do seu estado emocional, que é refletido em seus movimentos e expressões corporais. Por outro lado, o ballet clássico, que ainda falaremos com mais detalhes na coluna Dança, valorizava a suavidade e a leveza dos movimentos e pretendia conter a expressividade. Atualmente, a dança moderna é muito mais sofisticada, sendo muito comum que seus dançarinos também tenham formação clássica. Este estilo exige dos seus praticantes uma completa interação entre espírito, corpo, coração e mente. A essência desta dança é olhar para frente e não se voltar para trás. Ela consegue coexistir perfeitamente com o clássico. Ambas modalidades seguem se enriquecendo, sem que uma anule a outra. No Brasil, a dança moderna foi introduzida no período da Segunda Guerra Mundial. Muitos dançarinos europeus deste estilo vieram para o nosso país para fugir da guerra. A maioria se estabeleceu no eixo Rio - São Paulo. E eles formaram a primeira geração de dançarinos nacionais modernos. Graças a este intercâmbio cultural, os brasileiros conheceram uma outra modalidade de dança. A partir da década de 1960, muitos dançarinos fizeram modificações mais expressivas na dança moderna. Eles promoveram uma ruptura mais intensa no que era visto até então como arte. Assim, nasceu a dança contemporânea. Contudo, seria apenas na década de 1980 que este novo gênero dançante se tornaria mais popular. A dança contemporânea propõe intensas inovações e experimentações coreográficas. Ela abandona totalmente a técnica dos movimentos (algo que a dança moderna jamais fez!). Em uma única apresentação, por exemplo, podemos ter uma mistura de ritmos como jazz, street dance e ballet. Além disso, a música pode ser suprimida das apresentações. É isso mesmo o que você leu: a dança contemporânea pode acontecer sem nenhuma música, tendo como único barulho o som vindo do corpo e da respiração dos dançarinos. A principal preocupação dos artistas contemporâneos é conseguir transmitir suas ideias, conceitos e sentimentos, independentemente das formas e dos meios. Para eles, não importa a maneira nem os espaços utilizados. O palco deixa de ser o lugar de referência e todo ambiente disponível, por mais exótico e inusitado que seja, passa a ser explorado. Neste estilo, o teatro e a dança se misturam, assim como outras artes como a fotografia, o cinema, as artes visuais e as artes digitais. O corpo fica livre para se expressar, sem ter que seguir técnicas preestabelecidas. A dança contemporânea não possui uma estrutura própria, podendo ser praticada por todo mundo. O corpo muitas vezes explode suas emoções ou, então, se recolhe para demonstrar o acanhamento sentimental. Em outra comparação multicultural, trata-se de uma modalidade de dança mais próxima à arte abstrata. Homens e mulheres ganham a mesma importância nas apresentações. Este estilo vive se reinventando. Há a busca constante e intensa por novos movimentos corporais e por novas linguagens artísticas. Em suas manifestações, os dançarinos contemporâneos podem abrir espaço para a interação com o público. Eles exaltam suas emoções e transmitem suas ideias e revoltas sem que precisem ficar presos às técnicas, aos figurinos e aos ambientes. Até mesmo as coreografias não prendem seus intérpretes, que podem abusar muito mais da improvisação. No próximo post da coluna Dança, vamos falar mais do ballet e de seus diferentes estilos. Porém, para inspirar quem gostou do conteúdo de hoje do Bonas Histórias e para quem deseja começar a dançar, deixo aqui uma frase de Isadora Duncan, um dos grandes nomes da dança moderna: “Se você já foi ousada, não permita que a amansem”. Até a próxima! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: As ficções brasileiras mais vendidas em 2021

    Confira quais foram os cinco livros de ficção brasileira mais comercializados nas livrarias do nosso país no ano passado. Apresentei em janeiro, na coluna Mercado Editorial, o ranking com os livros mais vendidos no Brasil em 2021. Como havia pouquíssimos títulos ficcionais entre os best-sellers (a maioria era obra de autoajuda, finanças pessoais e religião), retornei ao Bonas Histórias em março para um novo post. Dessa vez, mostrei exclusivamente a lista com as ficções mais comercializadas no país. Problema resolvido, certo? Mais ou menos. Quando o cobertor é um tanto curto, você cobre uma parte e descobre outra... Um novíssimo enigma brotou em minha já calejada e perturbada mente após a exibição da segunda listagem. Nas primeiras posições da ficção, tínhamos uma overdose de publicações de autores estrangeiros (quase todas de língua inglesa – norte-americanas e inglesas fundamentalmente). E a literatura brasileira, hein?! Quem estaria no seleto grupo dos livros ficcionais brasileiros mais vendidos no ano passado? Quem integraria o hall dos autores best-sellers da ficção nacional da última temporada? Para elucidar de uma vez por todas essas questões, estou de volta à coluna Mercado Editorial para mostrar um novo ranking dos best-sellers do nosso mercado editorial. No post de hoje, vou revelar a lista com as ficções brasileiras mais vendidas em 2021. Sai de cena, portanto, tudo aquilo que não é ficção. E sai também tudo aquilo que é estrangeiro. Agora não temos mais desculpas, não é mesmo? Então vamos logo às ficções nacionais que conquistaram os leitores no último ano! Na primeira posição, surge um retumbante sucesso de crítica e de público: “Torto Arado” (Todavia). Esse romance de Itamar Vieira Junior foi publicado em 2019 e desde então não sai do topo do ranking dos mais vendidos. Além de ser a única ficção nacional a ocupar o topo das outras duas listas de best-sellers (quarto livro mais comprado no país em 2021 no âmbito geral; e título ficcional mais comercializado no ano passado nas livrarias brasileiras independentemente da nacionalidade do autor), “Torto Arado” conquistou o Prêmio Jabuti de 2020 na categoria Romance Literário. Essa união de grande apelo entre os leitores e enorme sucesso entre a crítica literária, algo raro de ser obtido no Brasil contemporâneo, o transformaram em unanimidade nacional. Seria, então, “Torto Arado” o prenúncio de uma fase mais próspera e vitaminada da literatura brasileira? Seria, se essa obra não fosse a exceção à regra. Já dizia o velho ditado: uma andorinha sozinha não faz Verão. Nenhum livro ficcional compatriota conseguiu acompanhar a impressionante venda de 74 mil unidades que o romance de Itamar Vieira Junior teve de janeiro a dezembro de 2021. É uma pena! Em um distante segundo lugar, temos “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (Outro Planeta), título infantojuvenil da dupla Gabriel Dearo e Manu Digilio. Lançado em 2020, “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” alcançou 18 mil unidades vendidas no ano passado. Essa obra faz parte de uma bem-sucedida coleção literária voltada para a criançada, a série “As Aventuras de Mike”. Por falar nessa série, outros dois livros de Gabriel Dearo e Manu Digilio estão na lista das ficções brasileiras mais comercializadas em 2021: “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta) com 11 mil unidades vendidas (quarta posição no ranking dos best-sellers nacionais da ficção) e “As Aventuras de Mike – O Livro Interativo” (Outro Planeta) com 10 mil cópias comercializadas (quinta posição na listagem que estamos apresentando hoje no Bonas Histórias). Se juntarmos o trio de publicações da série “As Aventuras de Mike”, Gabriel Dearo e Manu Digilio ultrapassaram a marca de 40 mil livros vendidos na última temporada. Nada mal, né? Entre o fenomenal “Torto Arado” e a bem-sucedida coleção de “As Aventuras de Mike”, temos “Nas Pegadas da Alemoa” (Buzz), o romance de Ilko Minev que foi publicado em 2021. Antes que alguém questione a inserção de Minev na lista de autores nacionais, preciso dizer que ele vive no Brasil há quase 50 anos e escreve em português. Além disso, suas tramas se passam invariavelmente na região amazônica. Por que, então, deveria classificá-lo como um escritor búlgaro, né? Para mim (e para o próprio Ilko), ele é mais brasileiro do que europeu. “Nas Pegadas da Alemoa” vendeu surpreendentemente 14 mil unidades já no ano de seu lançamento e chegou à terceira posição no ranking das ficções brasileiras mais comercializadas. Por falar nisso, essa ótima receptividade do público incentivou a Editora Buzz a republicar as principais obras do portfólio de Ilko Minev. Agora não temos mais desculpas para não ler seus livros, né? Esses foram os cinco best-sellers na área da ficção brasileira. Aí alguém pode reclamar: “Mas só cinco livros, Ricardo!? Por que você não fez como nos anos anteriores e listou mais títulos?!”. Minha justificativa é simples (e triste). Eu uso as informações do PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial brasileiro na atualidade. Eles utilizam os dados das principais redes de livrarias do país, que englobam tanto as operações eletrônicas quanto as operações das lojas físicas. E o PublishNews não divulgou, em seu ranking anual, as obras que tiveram menos do que 10 mil unidades vendidas. Dessa forma, não posso acrescentar na lista dos mais vendidos do Bonas Histórias informações de outras fontes, o que tornaria nosso ranking um Frankenstein. Contudo, informalmente posso revelar (em off, tá?!) alguns outros títulos ficcionais de autores nacionais que também venderam bem em 2021 (mas com vendas que não alcançaram o patamar de 5 mil unidades) segundo outras referências do mercado editorial. Nessa minha lista complementar, incluí apenas romances adultos (nada contra a literatura infantojuvenil, por favor!). É só uma questão mesmo de preferência literária (diferentemente da maioria de meus compatriotas, deixei de ler rotineiramente a literatura infantojuvenil depois que fiquei adulto). Meus novos destaques vão para “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), obra de Raphael Montes de 2016, “Tudo é Rio” (Record), publicação de Carla Madeira de 2014, e “O Avesso da Pele” (Companhia das Letras), grande sucesso de Jeferson Tenório de 2020. Feito tal adendo, segue o ranking oficial com as cinco ficções brasileiras de maior sucesso nas livrarias nacionais em 2021. Como já disse, essa listagem da coluna Mercado Editorial utiliza exclusivamente as informações auditadas e divulgadas pelo PublishNews: 1º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior – Romance Contemporâneo – Todavia – 74 mil unidades. 2º “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (2020) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantojuvenil – Outro Planeta – 18 mil unidades. 3º “Nas Pegadas da Alemoa” (2021) – Ilko Minev – Romance Contemporâneo – Buzz – 14 mil unidades. 4º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantojuvenil – Outro Planeta – 11 mil unidades. 5º “As Aventuras de Mike – O Livro Interativo” (2021) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantojuvenil – Outro Planeta – 10 mil unidades. Por hoje é aqui que coloco o ponto final. Enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê, fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Verdade e a Vertigem - A nova coletânea de contos de José Vieira

    Publicada em março de 2022 e lançada oficialmente no último final de semana, a oitava obra do escritor português reúne pequenos dramas sentimentais de enorme força dramática. Trago boas novas à coluna Livros – Crítica Literária. Falarei, hoje, mais uma vez de literatura portuguesa. Nesse final de semana, li “A Verdade e a Vertigem” (Emporium), a nova obra ficcional de José Vieira. E admito que fiquei encantado com seu conteúdo. Publicada em março de 2022 e lançada oficialmente no último sábado na Ilha da Madeira, essa coletânea de contos é a oitava publicação do autor português. Na verdade, o correto seria dizer autora portuguesa. José Vieira é o pseudônimo da jovem madeirense Teresa Vieira Lobo, um dos bons nomes da novíssima geração da ficção lusitana. Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias já conhecem o trabalho literário de Teresa. Em dezembro de 2020, comentei por aqui “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books), o livro anterior de José Vieira/Teresa Vieira Lobo. Se o título antecedente era uma novela com um suspense psicológico claudicante, agora temos uma potente coleção de pequenas narrativas que enfoca de maneira singular e ácida os dramas sentimentais. Para quem está familiarizado com o portfólio artístico de José Vieira, a grande novidade de “A Verdade e a Vertigem” está na dimensão das histórias recém-publicadas. Ao invés das tramas amorosas que percorrem uma dezena de páginas, temos agora dramas exibidos em poucos parágrafos, às vezes em pouquíssimas linhas. Em muitos casos, os contos de “A Verdade e a Vertigem” adquirem as características de minicontos. A maior compactação narrativa é justamente o maior mérito do livro. As histórias dessa coleção possuem grande força ao ponto de desconcertar quem as lê. Elas atuam como legítimos tapas na cara dos leitores – vem rápido, mas sua sensação pode perdurar por algum tempo. Nessa obra, assistimos à realidade nua e crua das alegrias e, principalmente, das desilusões sentimentais. Jamais José Vieira/Teresa Vieira Lobo foi tão corrosivo e potente como dessa vez. Prepare-se, portanto, para uma aventura pelo lado sombrio do coração humano e pelas melhores narrativas do(a) escritor(a). Antes de detalhar as qualidades (que não são poucas!) de “A Verdade e a Vertigem”, quero falar um pouco de sua autora. Teresa Vieira Lobo nasceu em 1989 em Gaula, bairro da cidade de Santa Cruz, na paradisíaca (e sempre querida) Ilha da Madeira. Entre 2007 e 2012, a escritora morou na capital portuguesa, onde concluiu a licenciatura em Ciência Política e o mestrado em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP-UTL). Uma vez concluído os estudos no continente, ela retornou para sua terra natal, onde mora desde então. Atualmente, Teresa trabalha no departamento de contabilidade de uma empresa de turismo e vive com o namorado, as duas enteadas e uma dupla de cães. Apaixonada desde pequena por literatura, Teresa Vieira Lobo é aquele tipo de pessoa viciada em livros. Ela não consegue, por exemplo, entrar em uma livraria e sair sem uma sacolinha com novos títulos (drama que os leitores do Bonas Histórias entendem bem). A escolha por assinar suas obras com o nome de José Vieira surgiu naturalmente e meio que por acaso. Ao participar de um concurso literário, Teresa precisava remeter os originais com um pseudônimo (uma praxe desse tipo de evento). Aí surgiu a ideia de homenagear o avô materno, um dos grandes incentivadores para que ela mergulhasse na literatura seja no papel de leitora, seja na função de escritora. A partir daí, a jovem portuguesa passou a sempre assinar seus trabalhos literários como José Vieira, algo que não pretende mudar. Se essa escolha pode parecer estranha para os olhos dos leitores, saiba que para Teresa essa opção é bem tranquila. Extremamente discreta e tímida, a autora não se importa com a badalação e os holofotes que muitas vezes o fazer literário proporciona. Seria ela uma versão lusitana e menos radical de Elena Ferrante?! Eu apostaria que sim. Fã de José Saramago, Jane Austen e Jorge Amado, Teresa Vieira Lobo tem atualmente em seu portfólio quatro coletâneas de contos, duas novelas, uma antologia poética e um romance. Sua obra de estreia foi “Estranhas Coincidências” (Chiado Editora), coleção de quatro narrativas curtas publicada em 2014. Na sequência, vieram: “Dedicação, Palavra e Honra” (ebook independente), romance histórico de 2016; “Adágios” (Chiado Editora), coletânea de cinco contos de 2017; “(In)Constante” (ebook independente), antologia de poemas de 2018; e “Paralelismos” (ebook independente), coleção de três contos de 2018. Mais recentemente, Teresa/José Vieira publicou “Alecrim” (ebook independente), novela de 2019, e “A Dor do Esquecimento”, novela de 2020. Portanto, “A Verdade e a Vertigem” é sua oitava publicação e sua quarta coletânea de contos. As tramas de “A Verdade e a Vertigem” levaram menos de um ano para serem desenvolvidas. Teresa começou a escrevê-las no meio de 2019 e terminou a versão inicial do livro em meados de 2020. Para finalizar as histórias, foram necessários outros seis meses entre revisões técnicas e gramaticais. Depois disso, o trabalho da escritora se voltou para a busca de uma editora que pudesse valorizar a obra como ela merecia. Curiosamente, a pandemia do novo coronavírus alterou o jeito da escritora em produzir seus textos. Se antes ela trabalhava invariavelmente no computador, agora Teresa prefere carregar uma caneta e um caderno de capa preta para onde vai. Assim, pode escrever em qualquer lugar, o que permite dar vazão às ideias que insistem em aparecer sem avisar e a otimizar o tempo. Os insights para as narrativas surgem de uma palavra captada aleatoriamente, uma cena cotidiana, uma imagem instigante, uma conversa inusitada ou mesmo de uma reflexão pessoal. Depois, é só retornar para casa e lapidar as tramas garimpadas na rua. Desde que começou a usar o caderno, a autora não passa um dia sem traçar algo novo nas páginas dele. Incrível, né? Ela segue, intuitiva ou premeditadamente (não sei precisar), os conselhos do bom e velho Saramago. Em entrevistas, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 dizia: “Tenho uma disciplina que consiste em escrever duas páginas diárias”. Para ele, um bom escritor não podia desgarrar de seus textos um dia sequer. O título do novo livro foi definido tão logo a escritora madeirense começou a produzir os contos. Em julho de 2019, Teresa Vieira Lobo foi assistir ao show de Carminho com a Orquestra Clássica da Madeira em Machico. Entre uma música e outra, a fadista falava com o público. E em uma dessas intervenções, Carminho comentou algo que envolvia a relação entre a verdade e a vertigem. Imediatamente, Teresa soube que aquele seria o nome da recém-iniciada coleção de narrativas. Não apenas o título estava definido como a proposta central da nova obra estava delineada. “Verdade e a Vertigem” trataria das alegrias e, acima de tudo, das agruras de se relacionar amorosamente. Para lançar a nova obra, Teresa Vieira Lobo preferiu mudar de editora. Dessa maneira, saiu de cena sua antiga parceira, a tradicional e lisboeta Chiado Books, e entrou em ação uma nova parceira, a jovem e almadense Emporium Editora. A alteração parece ter sido providencial. O resultado de “A Verdade e a Vertigem” encanta até mesmo os leitores mais exigentes. Eu fiquei maravilhado com o conteúdo e com o projeto gráfico desse livro. Publicado em março, “Verdade e a Vertigem” só foi lançado oficialmente na Ilha da Madeira no último final de semana. O evento de lançamento foi realizado no sábado, 7 de maio, na Casa do Povo de Gaula e contou com a apresentação da professora Júlia Caré e com a presença da também escritora madeirense Valentina Silva Pereira, além é claro de Teresa Vieira Lobo. Enquanto o público degustava um coquetel regado a vinho Madeira e com broas de mel típicas da região, Teresa comandou a sessão de autógrafos. “A Verdade e a Vertigem” possui 25 contos e 42 páginas. Com extensões que vão de meia página a duas páginas (portanto, alguns textos podem ser classificados como minicontos), as narrativas do livro são: (1) “Triste Ventura”, (2) “Adágio”, (3) “Prova de Amor”, (4) “Casualidade”, (5) “Pintassilgo”, (6) “Bem-me-quer”, (7) “Sufoco”, (8) “Encandeamento”, (9) “Febre”, (10) “Boneca de Porcelana”, (11) “Ironias”, (12) “Vidas Opostas”, (13) “África”, (14) “Em Nome da Cruz”, (15) “Uma Pequena Hora”, (16) “Olho por Olho”, (17) “Ómega”, (18) “O Esquecimento”, (19) “A Inconstância do Querer”, (20) “Deus dá Nozes”, (21) “Luto”, (22) “Amor Austero”, (23) “Marcha Atrás”, (24) “Doce Menina” e (25) “Epílogo”. Levei pouco menos de uma hora para concluir essa leitura no último final de semana. Dá para ler “A Verdade e a Vertigem” em um fôlego só. No conto que abre a coletânea, “Triste Ventura”, Maria é uma moça de coração puro. O problema é que ela está literalmente morrendo de amor. Em “Adágio”, uma mulher se apaixona explosivamente depois de muito tempo sozinha. “Prova de Amor”, a terceira trama de “A Verdade e a Vertigem”, descreve as reflexões sinceras de uma noiva que fora abandonada no altar. “Casualidade” mostra o relacionamento de duas pessoas com características opostas. Apesar das várias diferenças, elas se apaixonam para valer. Em “Pintassilgo”, Salomé chora a morte do marido enquanto olha para o mar. E em “Bem-me-quer”, Antónia decide seu destino amoroso despedaçando pétalas de uma margarida. “Sufoco”, o sétimo conto da nova obra de José Vieira, apresenta o banho de Simão. Enquanto toma uma ducha, ele aproveita o raro momento de sossego em casa para meditar sobre sua vida. “Encandeamento” mostra a briga de um casal. Após mais uma discussão por causa dos ciúmes dele, ela pega o carro e parte em disparada para longe. Em “Febre”, Clara sofre com a insônia. A noite mal dormida é fruto do terrível dia que a moça teve. “Boneca de Porcelana” é protagonizado por Ester, uma mulher de 40 anos. Criada para se manter sempre calada e nunca opinar, ela acumula algumas conquistas, mas também possui várias frustrações. “Ironias” é a décima primeira história de “A Verdade e a Vertigem”. Nessa página, Rafael se emociona ao ver sua amada entrando linda pela porta da igreja. Definitivamente, ela é o amor de sua vida. Em “Vidas Opostas”, Tomé não se importa com o fato de sua nova paixão já ter um filho. Mesmo sabendo que ela já fora casada, ele a convida para morarem juntos. “África” narra o drama de um jovem soldado português. Aos 18 anos, ele abandona o aconchego do lar materno e o carinho dos braços da namorada para guerrear em Angola. No enredo de “Em Nome da Cruz”, Maria casou-se com José graças a uma promessa feita a Santo Antônio. Contudo, ela se esqueceu, depois do matrimônio, de cumprir sua parte na graça alcançada. Em “Uma Pequena Hora”, o décimo quinto conto de “A Verdade e a Vertigem”, assistimos ao drama da gravidez de Madalena. Devido a viagem a negócios do marido Augusto, ela seguirá sozinha para o hospital para o parto do primogênito do casal. “Olho por Olho” relata o dia catártico de Sebastião. Nessa data, ele irá para o trabalho e não aceitará os desaforos da chefe mal-educada. Em “Ómega”, Miguel e Ana estão casados há vinte anos. Agora aos 40 anos de idade, o casal repara que a paixão já esvaiu. O que fazer, então, para reativar o fogo da antiga paixão? E em “O Esquecimento”, N. morreu aos 80 e poucos anos. Entretanto, há mais de duas décadas, ela levava uma vida de esquecimentos. A décima nona narrativa da coletânea é “A Inconstância do Querer”. Aqui, acompanhamos a concretização do sonho de Margarida. Mais do que tudo nesse mundo, ela desejava se casar com Afonso. Os problemas surgem depois que ela desce do altar. “Deus dá Nozes” mostra a fuga de um jovem de sua terra natal, uma localidade pobre e rural. Ele quer ir para a cidade, um lugar em que acredita ser mais moderno e próspero. Em “Luto”, Bela chega em casa após enterrar o marido e já vai para o telefone. A primeira coisa que a nova viúva faz é ligar para uma agência de turismo. E em “Amor Austero”, acompanhamos um pai sensível e amoroso. Apesar de nunca ter recebido muito carinho de seus progenitores, ele tem um jeito especial de cuidar de seus filhos. “Marcha Atrás” é o antepenúltimo conto dessa publicação de José Vieira. Nele, vemos a concretização do grande projeto de vida da protagonista: se casar com o homem que tanto ama. Em “Doce Menina”, assistimos a uma moça criada com muito amor e carinho pela família. Sua meiguice, bondade e ingenuidade são, contudo, totalmente contraproducentes no mundo contemporâneo. Por fim, “Epílogo” mostra a ideia que a escritora teve para o título de sua nova obra. Em um show de Carminho na Ilha da Madeira, a fadista usou a expressão “a verdade e a vertigem”, o que despertou a atenção na autora ficcional. Eu, que já era fã da literatura de José Vieira (vou me referir a partir de agora ao autor pelo pseudônimo, conforme está grafado nas capas das publicações), tinha como meus livros favoritos do madeirense “Dedicação, Palavra e Honra” e “Paralelismos”. Isso até “A Verdade e a Vertigem”. O novo título de Vieira está em um patamar mais elevado de qualidade. Ouso dizer que o escritor atingiu aqui a maturidade artística. Se as obras anteriores eram na maioria das vezes boas tramas ficcionais, a recente é um ótimo drama literário. Não irei me surpreender se por um acaso “A Verdade e a Vertigem” conquistar algum prêmio literário em Portugal ou mesmo ser finalista em importantes honrarias do mercado editorial em língua portuguesa. Condições para alçar voos maiores essa coletânea de pequenas narrativas tem. A primeira questão que chamou minha atenção nessa leitura foi o primor dos minicontos apresentados por José Vieira. Saiba que não é nada fácil produzir mininarrativas. Exatamente por isso, é raro encontrarmos boas coleções de histórias que se utilizam das estruturas enxutas desse gênero literário. Se li meia dúzia de ótimos livros com essa característica em minha vida acho que foi muito. Geralmente, a coletânea de minicontos dá à publicação uma pegada de experimentalismo e de excentricidade, o que nem sempre é uma experiência agradável para o leitor médio. Um bom exemplo do que estou dizendo é “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), a publicação clássica do argentino Julio Cortázar que encanta mais pela ousadia do que pela qualidade das narrativas. Por outro lado, posso citar dois casos bem-sucedidos na literatura brasileira: “O Fluxo Silencioso das Máquinas” (Ateliê Editorial), interessante retrato multifacetado da cidade de São Paulo de Bruno Zeni; e “Os Anões” (Cosac Naify), a coleção tragicômica da espetacular Veronica Stigger. O que contribuiu significativamente para a excelência dos minicontos (tramas com meia página de extensão) e dos breves contos (histórias com uma ou duas páginas) de “A Verdade e a Vertigem” foi a característica da literatura de José Vieira. O escritor português é conciso na hora de confeccionar suas narrativas e normalmente prefere a sumarização à encenação. Se essa particularidade pode incomodar um pouco nas tramas maiores, que exigem mais fôlego (como os romances e as novelas), ela cai como uma luva nas narrativas menores, de tiro extremamente curto (como os pequenos contos, os minicontos e os microcontos). Aí essa opção estética é perfeita. Em “A Verdade e a Vertigem”, temos uma coletânea redondinha, redondinha em que o que prevalece é a excelência narrativa (em detrimento ao experimentalismo e à excentricidade tão típicos das coleções de minicontos e de microcontos que vemos por aí). As pequenas histórias de José Vieira sobre os encontros e desencontros amorosos são complexas e profundas apesar das poucas linhas utilizadas para descrevê-las. As tramas desse livro dizem muitas coisas com o mínimo de palavras. Achei esse recurso espetacular! Os dramas sentimentais que assistimos aqui podem até ser enxutos no que se referem ao tamanho das narrativas, mas são gigantescos no aspecto da dimensão dramática. Meus elogios iniciais a “A Verdade e a Vertigem” se devem principalmente ao duplo efeito que sua leitura nos proporciona. Ao mesmo tempo que somos impactados pelas narrativas individuais (cada história tem inegavelmente seu valor particular), também somos afetados positivamente pelo conjunto das tramas (de modo integral, a coleção ficcional está maravilhosamente azeitada). Como li os 25 minicontos/contos de uma só vez, consegui ver claramente a força da união das narrativas, a continuidade conceitual dos enredos e o efeito estético da obra. Se tivesse que resumir o livro em apenas uma frase, diria que “A Verdade e a Vertigem” é um título de amor no qual se predomina o desamor. Amargo isso, né? Até pode ser amargo (ou ácido), mas do ponto de vista literário o resultado é lindíssimo. Como coletânea narrativa, a mais recente publicação de José Vieira está impecável. Juro que não saberia dizer o que poderia ser feito de substancial para melhorá-la. E olha que eu sou bem chato na hora de propor melhorias aos livros analisados. Avaliando as narrativas de “A Verdade e a Vertigem” de maneira estrutural, o que mais gostei foi das reviravoltas contidas em grande parte das histórias. E olha que tal característica é dificílima de ser conseguida em minicontos. Afinal, com pouquíssimas linhas, como mudar radicalmente o enredo dramático, né? As tramas que mais gostei são justamente aquelas que oferecem um desfecho surpreendente. Por falar nisso, os meus contos/minicontos favoritos dessa obra são: “Prova de Amor”, “Encandeamento” e “Bem-me-quer”. Eles são excelentes! Também adorei: “Triste Ventura”, “Febre”, “Boneca de Porcelana”, “África”, “Uma Pequena Hora”, “Ómega”, “A Inconstância do Querer”, “Amor Austero” e “Doce Menina”. Eles são ótimos. Ah, também apreciei “Epílogo”. Como fechamento da coletânea, seu texto é perfeito, além de ter um título original (raro para uma coleção de narrativas, mas totalmente compatível com a proposta desse livro). Além das surpresas dos enredos, mais um aspecto positivo de “A Verdade e a Vertigem” é que os desenlaces de alguns minicontos/contos são do tipo aberto – cabendo ao leitor a interpretação do que aconteceu. Isso pode parecer um detalhezinho, mas não é! Adoro narrativas com finais aparentemente múltiplos. E “A Verdade e a Vertigem” oferece alguns nessa linha. Tradicionalmente, esse expediente literário exige uma segunda leitura ou mesmo uma leitura mais atenta. Só assim para termos certeza de como a história se encerrou. Outra questão que precisa ser mencionada (e elogiada!) é a variedade de protagonistas das tramas dessa coletânea. Se antes José Vieira focava mais nos dramas sentimentais femininos (geralmente suas personagens centrais eram as esposas, mães e viúvas), aqui ele expande o leque narrativo para outras figuras sociais (homens: maridos, filhos, netos; e outras mulheres: filhas, irmãs, solteironas). Gostei dessa pluralidade de perspectivas. As narrações estão tanto em primeira pessoa quanto em terceira pessoa. No caso dos textos em terceira pessoa, uma mudança considerável foi a diminuição do tom crítico, opinativo e maniqueísta das histórias. Admito que ficava bastante incomodado quando os narradores dos livros anteriores de José Vieira tentavam nos convencer de suas crenças e suas visões de mundo. Para minha felicidade, o ponto de vista de quem narra não é tão explícito e dirigido a uma determinada sentença em “A Verdade e a Vertigem”. Cabe ao leitor, portanto, chegar por si só à conclusão dos acontecimentos relatados. Em outras palavras, os dramas sentimentais dessa obra são mais indiretos, sutis, versáteis e feitos a partir da realidade específica das personagens. Parte da elevação da qualidade da literatura de Vieira passa exatamente por essa mudança de postura dos narradores (até porque nos minicontos não há espaço para longas reflexões). Em relação aos enredos dos contos/minicontos de “A Verdade e a Vertigem”, temos a inserção de vários assuntos que ainda não tinham sido explorados com tanta intensidade pelo autor. Gostei muitíssimo das novidades temáticas dessa publicação. José Vieira já vinha trabalhando em seus textos com os encontros e desencontros amorosos, os preconceitos, a religiosidade e o conservadorismo das aldeias portuguesas (o machismo é uma consequência desses três aspectos), a morte muitas vezes trágica, a solidão, o envelhecimento, os dramas históricos (de uma época em que a Ilha da Madeira era paupérrima e muitos de seus habitantes precisaram imigrar) e os matrimônios corroídos pelo tempo. Além de seguir com essa pauta, ele acrescenta os momentos catárticos das personagens (expressos em gritos, choros, telefonemas, suspiros, pesadelos e noites em claro); o assédio moral no trabalho; a homossexualidade/bissexualidade; a gravidez precoce; o segundo casamento; o voyerismo; e o preconceito e o conservadorismo contemporâneos nos ambientes mais cosmopolitas de Portugal (engana-se quem acha que eles estão limitados ao interior do país). Adorei esse complemento. As novas abordagens temáticas (assim como a postura mais pertinente dos narradores) demonstram um escritor maduro ao ponto de tecer elegantemente críticas sociais e comportamentais aos seus conterrâneos. Ainda na seara dos enredos, repare que José Vieira continua falando das aldeias e dos dramas históricos de Portugal. Ele não abandona o olhar atento e acurado à sua terra natal. Esse ponto foi justamente o que mais me encantou em sua literatura. Como neto de madeirenses, vi parte da trajetória e muitas das dificuldades de meus antepassados sendo retratadas nas narrativas do autor. Seu texto é invariavelmente bonito e sensível, o que me emocionou. O que ele fez agora de diferente foi incluir novos espaços narrativos (Angola, cidade grande, Rio de Janeiro), outros espaços temporais (presente) e mais personagens (homens, outras figuras femininas e estrangeiros). Como consequência, “A Verdade e a Vertigem“ ganhou muito em profundidade dramática e pluralidade narrativa, sem perder as características que fizeram os livros anteriores do escritor tão especiais. Para os leitores brasileiros, essa obra de José Vieira é ainda mais gostosa porque podemos acompanhar o português de Portugal. Como fã das variantes linguísticas, admito que adoro as peculiaridades da versão original do nosso idioma. As palavras trazidas pelo autor que não são tão usadas pelos brasileiros no dia a dia são: gelato (falamos sorvete), fecho (fechamento), cancro (câncer), duche (ducha), telemóvel (celular) e, principalmente, encandeamento (ofuscamento). Somente esse último termo precisei recorrer ao dicionário (à princípio, achei se tratar de um neologismo, mas não é). Como podemos perceber por essa amostra, dá perfeitamente para entendermos o significado das palavras utilizadas. Exatamente por isso, acredito que não haja a necessidade de qualquer adaptação desse texto para a linguagem dos meus conterrâneos (algo que algumas editoras fazem, principalmente com os livros mais antigos em português de Portugal). E mesmo se mais tarde a Emporium adaptar essa coletânea de contos para o português brasileiro (algo que duvido), minha sugestão é: leia “A Verdade e a Vertigem” na versão original. A leitura é mais rica e prazerosa! Outro destaque do livro é o seu projeto gráfico. Achei a capa e a diagramação dessa publicação simplesmente lindas. Note a força visual e semiótica do vidro quebrado/trincado na imagem de capa da nova coletânea de contos de José Vieira. Como metáfora para os relacionamentos amorosos que sucumbiram pelo tempo ou pelas circunstâncias naturais da vida (uma pedra que cai e quebra o vidro pode ser uma pessoa diferente que surge, as descobertas pessoais que demoram para se elucidar ou mesmo o peso infindável da rotina matrimonial), essa associação é sublime! Afinal, como consertar um vidro trincado, hein? Difícil, dificílimo! Ao mesmo tempo, a capa vem na cor de burro quando foge (não me venham com a lista da Pantone, com os códigos de RGB, com o padrão CMYK ou com as denominações mais técnicas, para mim essa cor é a de burro quando foge e acabou!), o que torna tudo ainda mais incômodo, instigante e visceral (ninguém minimamente normal gosta da cor de burro quando foge). Por isso mesmo, essas sensações são justamente aquelas que temos durante a leitura das narrativas de “A Verdade e a Vertigem”. Ou seja, o projeto gráfico do livro conversa intimamente com o texto. É ou não é espetacular?! A impressão que tive é que a Emporium Editora deu um suporte maior para José Vieira e sua nova obra do que a Chiado Books estava dando. Posso estar equivocado? Posso. Porém, essa foi a sensação que tive como leitor, alguém que está distante do processo de publicação. Além de um projeto gráfico interessante, o conteúdo da coletânea de contos também está impecável. Talvez essa simpática união entre visual e texto corrobora ainda mais com a minha percepção de maior apoio dado pela editora a “A Verdade e a Vertigem” e de perfeição do livro. A obra não tem qualquer equívoco narrativo/tropeço textual (algo que normalmente encontramos até mesmo em best-sellers) ou incongruência visual. Ou o escritor português teve um apoio maior (algo que todo bom artista precisa ter e deveria exigir dos parceiros comerciais) e/ou ele cresceu substancialmente como autor (algo que eu não duvido). Seja qual for a opção verdadeira, é preciso elogiar o resultado do trabalho. Os únicos pontos de “A Verdade e a Vertigem” que me incomodaram um pouco foram o fato de ele não seguir o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e de ele possuir algumas construções textuais aparentemente incomuns (pelo menos para nós brasileiros). Nos próximos dois parágrafos vou explicar o que quis dizer com a frase anterior. Em relação ao Novo Acordo, não é frequente encontrarmos no Brasil textos fora da convenção linguística estabelecida pelos países lusófonos. Seja na produção jornalística e nos lançamentos editoriais, seja no dia a dia das pessoas comuns (trocas de e-mails, conversas nas redes sociais etc.), embarcamos de cabeça nas novas regras e elas foram incorporadas naturalmente ao nosso cotidiano. Não sei como Portugal está tratando essa questão, mas aqui no Brasil ela está bem resolvida. Assim sendo, me parece muitíssimo estranho uma obra literária não seguir as novas diretrizes da língua. Apesar de não ter me incomodado nem um pouco com essa opção (até porque é delicioso acompanharmos as variações linguísticas, ainda mais quando vem dos praticantes originais do nosso idioma), alguns leitores podem sim se inquietar. Vale a pena dizer que nenhum livro de José Vieira segue o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Portanto, essa opção me parece ser meramente estética. Vai entender! Achei um ou outro tipo de grafia que não é comumente usada aqui no Brasil, mas não sei se está certa ou errada do ponto de vista gramatical. Agora refiro-me mais a revisão textual do que a questão normativa. Por exemplo, apareceu durante o livro duas ou três vezes a expressão “chegava a casa”. Aqui colocamos crase sem pestanejar nessa situação: “chegava à casa”. Porém, como disse, não sei qual opção está certa ou errada. Quem sou eu para corrigir o português de uma publicação portuguesa, não é mesmo?! Aqui no Brasil, usamos popularmente a expressão “chegava em casa”. Vai que “chegava a casa” (sem crase) seja usado regularmente na linguagem escrita de lá e eu não saiba, né? De qualquer maneira, esse aspecto chamou minha atenção (algo que não é legal em se tratando de um título literário – o que precisa despertar a atenção no leitor é o conteúdo e a forma do texto, não as regras gramaticais). Tirando esses detalhezinhos, que como disse não atrapalham a experiência de leitura, “A Verdade e a Vertigem” é um livrão. Quem gosta de boa ficção literária na certa curtirá as tramas sensíveis, inteligentes e ácidas dessa coletânea de contos sobre o amor e, principalmente, sobre o desamor. Para mim não há dúvida que essa é a melhor obra publicada até agora por José Vieira. O mais legal é poder acompanhar o crescimento de seu trabalho autoral. Em pouco tempo, o portfólio artístico do escritor português está se caracterizando pela pluralidade. Ele já lançou romance, novelas, coletâneas de contos e antologia poética. E, dessa vez, publica uma coleção de minicontos. Sinceramente, acho essa riqueza narrativa elogiável e pouco comum. Infelizmente, a maioria dos autores contemporâneos prefere se limitar a um ou a poucos gêneros literários. Com José Vieira não há mesmice! Ele se arrisca em novos formatos e em vários estilos narrativos. É verdade que as vezes derrapa feio (como em “A Dor do Esquecimento”, seu título anterior e que está aquém da qualidade dos demais livros). Todavia, quando acerta, como em “A Verdade e a Vertigem”, o resultado é contagiante. Essas são as duas faces da moeda chamada ousadia – arriscar é estar sujeito a grandes erros e a grandes acertos. Até essa publicação, eu achava a literatura de José Vieira mais voltada para os dramas históricos. Agora preciso reconsiderar minha opinião. Talvez sua real especialidade seja os dramas sentimentais, sejam eles do passado ou do presente. Repare que não importa o gênero literário escolhido para envelopar o enredo (romance, novela, conto, miniconto ou poesia), o tempo narrativo (presente ou passado), o espaço narrativo (cidade ou zona rural), o perfil das personagens (homem ou mulher; jovem ou velho) e o tipo de narrador (primeira ou terceira pessoa), o que vale mesmo é a força das figuras retratadas e de suas angústias pessoais. Incrível!!! Por tudo isso, coloco José Vieira como um dos meus escritores portugueses favoritos da novíssima geração – ele está lado a lado com Gonçalo J. Nunes Dias, autor da trilogia “O Bom Ditador” (ebook independente). Para não polemizar à toa, esclareço que entendo como novíssima geração aqueles jovens escritores que ainda estão em busca de um lugar ao sol dentro do mercado editorial. Da nova geração (aqueles que já estão usufruindo do calorzinho gostoso da manhã ensolarada do fazer literário), a minha escritora lusitana favorita é outra madeirense, Ana Teresa Pereira. Ela é autora, entre alguns títulos sensacionais, de “Karen” (Todavia), romance vencedor do Prêmio Oceanos de 2017. Ainda vou analisar esse livro aqui no Bonas Histórias, aguardem. Já dos escritores mais rodados, meu favorito é António Lobo Antunes. Já dos clássicos, ainda fico com José Saramago, Fernando Pessoa e Eça de Queiroz. E viva a literatura portuguesa de ontem, de hoje e de amanhã! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Dor do Esquecimento - O thriller psicológico de José Vieira

    Publicada em julho de 2020, essa novela é o sétimo livro do autor português e sua obra mais disruptiva até aqui. Um dos aspectos mais interessantes de se ter um blog de literatura é a oportunidade de conhecermos os novos talentos da escrita. Jovens escritores e editoras em crescimento remetem seus livros para análise e, entre a multidão de materiais recebidos, sempre descobrimos uma ou outra obra de alta qualidade. Quando isso acontece, o crítico literário se sente como o olheiro que descobriu a nova promessa dos campos de futebol, como o jornalista que deu o furo de reportagem que será comentado por muito tempo ou como o garimpeiro que, depois de meses de trabalho árduo nos recôncavos da terra, achou uma grande pepita de ouro. Pela perspectiva da literatura, o complicadíssimo ano de 2020 foi um período fértil de descobertas para o Bonas Histórias. Em janeiro, fiquei encantado com o romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), uma sátira política das mais criativas de Paulo Sousa, escritor paulistano estreante nas narrativas longas. Em agosto, comentei no blog “Conte Outra Vez” (ebook independente), a bela coletânea de contos organizada por T. K. Pereira e com histórias que remetem às músicas de Raul Seixas. E em dezembro agora, fiquei de queixo caído com o espetacular “Passatempoemas” (Quelônio), a antologia poética de Carolina Zuppo Abed que une poesia e jogos de passatempo. Carolina não é uma novata na literatura, mas esse título é apenas a sua terceira publicação – a segunda em versos. Gostei tanto desta obra que irei comentá-la na quarta-feira da semana que vem, dia 16. Entre os vários destaques, o escritor que mais chamou a minha atenção neste ano foi o português José Vieira. Ele lançou, em julho, sua sétima publicação, a novela “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books). Ou seja, não se trata de um autor tão novato assim, mas como seu trabalho literário ainda não é muito conhecido, principalmente no Brasil, tomei a liberdade de chamá-lo de revelação. Dos novíssimos nomes da literatura portuguesa, os dois que mais gostei nos últimos anos foram justamente José Vieira (grata surpresa de 2020) e Gonçalo J. Nunes Dias (a revelação do ano passado), autor da trilogia “O Bom Ditador” - série narrativa que ainda ganhará uma análise no Bonas Histórias (prometo!). Dos veteranos, meus autores lusitanos favoritos ainda são António Lobo Antunes, Ana Teresa Pereira e, o hors concours, José Saramago. José Vieira é o pseudônimo de Teresa Vieira Lobo, uma jovem de 31 anos. Nascida em Gaula, bairro do município de Santa Cruz, na Ilha da Madeira, ela é apaixonada desde pequena pela literatura. Não demorou muito para seu fascínio pela leitura se transformar em paixão pela escrita. Tímida e um tanto temerosa com a exposição de seus textos ficcionais, Teresa escolheu o nome do avô materno como assinatura quando se lançou na produção literária há seis anos. Atualmente, Teresa Vieira Lobo/José Vieira possui narrativas e poemas publicados tanto em revistas literárias quanto em livros e ebooks. À medida que seu portfólio foi crescendo e se consolidando ano a ano, a escritora portuguesa ficou em dúvida: manter o pseudônimo original ou adotar de vez o próprio nome. A escolha que homenageia o avô prevaleceu, apesar do receio de se expor ter ficado para trás. Assim, temos José Vieira como o nome artístico de Teresa Vieira Lobo. Como essa foi a opção da autora, vou me referir preferencialmente a ela sempre pelo seu pseudônimo masculino. A especialidade de José Vieira está nas narrativas históricas. Navegando com o mesmo talento pelo romance, novelas, coletâneas de contos e coleção de poesias, o escritor madeirense apresenta os dramas familiares e amorosos de seus conterrâneos. Em seus textos, temos uma Ilha da Madeira completamente diferente do paraíso turístico que os brasileiros conhecem hoje. Esqueça, portanto, o pedaço do Bolo do Caco, o gole de Poncha ou do vinho da Madeira, o onipresente azul-profundo do oceano, o charme das encostas escarpadas, a estátua de Cristiano Ronaldo a dar as boas-vindas aos visitantes, o sotaque ilhéu carregado de chiados (até mais do que o dos lusitanos do continente), a pista do aeroporto que coloca à prova as emoções de viajantes e tripulantes, a brutalidade da natureza, as trilhas exuberantes dentro dos parques naturais, as estradas estreitas e vertiginosas, o clima britânico, as encantadoras toalhas de mesa bordadas à mão, o colorido do centrinho de Funchal, o saboroso (e feio) peixe-espada-preto, a deliciosa descida de carros de cestos, a viagem de bondinho, o verde profundo do jardim botânico... Apague de sua memória a realidade do século XXI! A Ilha da Madeira de José Vieira é aquela do final do século XIX e do início do século XX. Nesse período, os povoados madeirenses eram essencialmente agrícolas e estavam quase totalmente isolados do continente. Seus habitantes viviam em intensa pobreza, padeciam de forte desigualdade social e eram afetados por tragédias climáticas, econômicas e humanas. Ou seja, tínhamos o cenário perfeito para o desenvolvimento de dramas épicos. E é justamente esse o enredo prioritário de Vieira. Ele mergulha nos conflitos antigos de seus conterrâneos, principalmente sob o ponto de vista feminino, e revive os tempos sombrios (que me desculpem os açorianos!) do mais querido arquipélago português (apesar do nome, a Ilha da Madeira é na verdade um arquipélago constituído de quatro ilhas). Em um primeiro momento, as leituras dos livros de José Vieira me remeteram mais ao Alentejo do que a própria Ilha da Madeira. Em muitos casos, os cenários das narrativas do jovem escritor português são muito parecidos ao de “Aldeia Nova” (Caminho), coletânea de contos de Manuel da Fonseca, e de “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), romance de José Saramago. Daí a minha impressão equivocada. Por isso, foi surpreendente descobrir que as tramas de Vieira não se passavam no continente e sim na terra natal dos meus avós maternos. Como neto de madeirenses (particularidade revelada no post do mês passado em que homenageio o centenário de nascimento de Amália Rodrigues), conheci desde pequeno o sofrimento dos meus antepassados, que diante de tanta adversidade preferiram encarar o Oceano Atlântico e aportar no Brasil. No caso dos Gouveia e dos Teixeira dos quais descendo, essa jornada marítima ocorreu na década de 1930, um dos períodos retratados por José Vieira. Confesso que essa semelhança me emocionou bastante. Assistir às personagens que poderiam ter sido meus bisavós, avós, tios e primos tornou minha leitura ainda mais intensa. Além disso, ver os dramas de aldeias portuguesas tão pequenininhas e sofridas da segunda metade do século retrasado e da primeira metade do século passado é algo muito distinto da realidade dos leitores que moram hoje em cidades grandes do Novo Mundo. Em pleno século XXI, a minha cidade, São Paulo, tem 12 milhões de habitantes e a maioria de suas famílias é formada por imigrantes: portugueses, espanhóis, italianos, alemães, ucranianos, húngaros, japoneses, coreanos, chineses, turcos, sírios, libaneses, marroquinos, nigerianos, angolanos, moçambicanos, bolivianos, haitianos, paraguaios... Isso para não falar dos migrantes internos (nordestinos, nortistas, sulinos, mineiros, interioranos). De certa forma, a realidade construída por José Vieira em suas narrativas ficcionais dialoga intimamente com as histórias de muitas famílias paulistanas e brasileiras. Impossível não gostar e não se emocionar com uma literatura com essa pegada histórica e de diálogo interoceânico/multinacional. Antes de entrar na análise propriamente de “A Dor do Esquecimento”, o assunto central do post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária (acredite, logo mais vou falar da novela recém-lançada), sinto a necessidade de apresentar a trajetória de publicações de José Vieira. Afinal, nem todo mundo o conhece (ainda). E essa breve retrospectiva do portfólio do autor português irá nos ajudar a entender o quão diferente é “A Dor do Esquecimento” se comparado aos títulos anteriores. José Vieira estreou na literatura comercial, em 2014, com “Estranhas Coincidências” (Chiado Editora), uma coletânea de contos. Em quatro narrativas curtas (“A Partida de Judite”, “Samuel, o Pastor Envelhecido”, “Amor Perdido” e “Estranhas Coincidências”), o livro apresenta antigas tragédias pessoais e familiares dos habitantes da Ilha da Madeira. As tramas de “Estranhas Coincidências” são embaladas pela variação das estações do ano e por severas críticas sociais e políticas (temos um narrador engajado que não se omite – ele dá a sua opinião). O mais legal de tudo é notar que o autor madeirense sabe fazer os acontecimentos tristes do passado se tornarem bonitos quando transformados em dramas literários. Além disso, desde a sua estreia, Vieira parecia demonstrar grande maturidade artística e ciência total do que escreveria dali em diante. Meu livro preferido é o segundo, “Dedicação, Palavra e Honra” (ebook independente), lançado dois anos mais tarde. Nesse romance histórico impecável, assistimos a uma mistura de dramas sentimentais (encontros e desencontros amorosos) com uma belíssima crônica da aldeia. Com uma prosa poética, dramas genuínos, boa reconstituição de época e retrato forte das mulheres madeirenses, José Vieira consegue surpreender o leitor até o final (confesso que achei que Joana fosse engravidar do médico Afonso, para indignação de Francisco...). Quanto ao título, “Dedicação, Palavra e Honra” me lembrou os nomes longos dos romances de Jane Austen. Sem dúvida nenhuma, este é o melhor livro do autor até aqui (principalmente por ter conseguido dar fôlego a uma história – esta é a única narrativa longa do seu portfólio). Em 2017, José Vieira publicou “Adágios” (Chiado Editora), outra coletânea de contos. Nas cinco histórias dessa obra (“O Milagre de Adelaide”, “A Tristeza de Josefina”, “As Lágrimas de Guilhermina”, “As Vivências de Eva” e “O Triste Fado de Graça”), encontramos o mesmo padrão estabelecido em “Estranhas Coincidências” e “Dedicação, Palavra e Honra”: narração feita, na maioria das vezes, em terceira pessoa; narrador onisciente e onipresente que fica indignado com a situação difícil dos madeirenses; foco narrativo colado a personagens femininas; mortes prematuras (viuvez precoce, orfandade, perda dos filhos ainda pequenos); muita solidão; amores frustrados/abreviados; sensação de aprisionamento (vontade de fugir da ilha); nomes quase sempre bíblicos; desfechos melancólicos; ambiente opressivo da cidade pequena/aldeia isolada (eterna vigília da moral e dos bons costumes dos moradores); suicídio como caminho para aplacar as dores da mente; loucura como sinal de arrependimento; sexo como ato pecaminoso e imoral (quando feito fora do casamento); sociedade influenciada fortemente pelo conservadorismo do catolicismo; casamento e filhos como a grande meta da vida das mulheres (visão machista da época); crítica social (apontamento das injustiças, da fofoca, do machismo, da violência, das contradições religiosas); construção de personagens femininas fortes e marcantes (tenho a impressão que as madeirenses são assim mesmo); desenvolvimento de personagens planas; maniqueísmo acentuado das tramas; e tendência para sumarizar algumas boas passagens narrativas que poderiam muito bem se transformar em cenas. Em 2018, Vieira publicou dois livros: “(In)Constante” (ebook independente), coleção de poesias, e “Paralelismos” (ebook independente), sua terceira coletânea de contos. “(In)Constante” é uma bela obra poética, principalmente se considerarmos que seu autor é mais fluente na prosa. Em muitos versos, José Vieira incorpora as vozes de suas personagens e de seus narradores ficcionais. Em outros versos, ele parece dar voz aos anseios e angústias da própria Teresa Vieira Lobo. O resultado dessa mescla é satisfatório. Admito que eu não entendo nada (ou quase nada) de poesia (sou especialista em prosa), mesmo assim adorei “(In)Constante”. Com grande liberdade formal (típico da poesia moderna/pós-moderna), o escritor português trabalha questões como a morte, a busca pela felicidade, a vontade de partir/fugir, a dureza da vida das pessoas que têm pouco, os prazeres simples da vida (viver perto da natureza e encontrar boas amizades e amores memoráveis) e as angústias íntimas. Em “Paralelismos”, Vieira continua retratando os dramas femininos maravilhosamente bem ao mesmo tempo em que apresenta as crônicas ácidas da aldeia. Achei os três contos desta coletânea (“Maria e Seus Sete Colares”, “A Libertação de Olívia” e “O Pecado de Madalena”) superiores às narrativas das outras coletâneas de contos. Essa evolução fica nítida quando reparamos que o autor português conseguiu, neste livro, imprimir intrigas ainda mais fortes e construir protagonistas redondas. As histórias de “Paralelismos” são impecáveis! Depois de “Dedicação, Palavra e Honra”, esse é o melhor trabalho literário de José Vieira. “Alecrim” (ebook independente), novela lançada no ano passado, é a sexta publicação do madeirense. Nessa obra, acompanhamos o relato de uma história real colhida na família de José Vieira. Este livro me lembrou o desfecho de “Amor de Perdição” (Ática), clássico de Camilo Castelo Branco. Afinal, o romance romântico diz, em seu desenlace, ser um enredo inspirado na vida do tio-avô de Castelo Branco. No caso das tramas ficcionais de Vieira, tive a impressão de que todas elas (contos, novelas e romance) foram desenvolvidas a partir de histórias reais (o que demonstra o quanto são verossímeis). Em “Alecrim”, achei que o jovem escritor lusitano perdeu uma boa oportunidade para construir uma narrativa mais longa (romance). A história é ótima, as personagens são excelentes e o conflito dramático consegue cativar o leitor. Se algumas passagens mais sumarizadas fossem transformadas em cenas, aí sim teríamos um romance. Uma vez conhecido o repertório literário de José Vieira, me pareceu que “A Dor do Esquecimento” é o seu livro mais disruptivo (sim, agora vamos falar do seu recente lançamento!). Nessa novela, temos uma trama contemporânea, uma narração em primeira pessoa e uma história com elementos de thriller psicológico, três características até então inéditas ou pouco exploradas na literatura de Vieira. Por outro lado, alguns aspectos não mudam: personagens femininas fortes; enredo com uma sucessão interminável de tragédias pessoais e familiares capaz de emocionar até mesmo os corações mais duros; e prosa extremamente elegante, típico de alguém que domina as ferramentas da narrativa ficcional. Confesso que, no início, fui pego de surpresa com o conteúdo de “A Dor do Esquecimento”. Não esperava um livro que fugisse tanto do estilo estilístico de José Vieira (ainda mais porque tinha me apaixonado por suas tramas históricas). Entretanto, depois do susto inicial, acredito que seja válido essa mudança de caminho narrativo. A busca por novas temáticas e por outros gêneros narrativos só indica que estamos diante de um escritor pouco acomodado e tentando descortinar novas trilhas dramáticas. Sob tal ponto de vista, é salutar os riscos assumidos por Vieira de fazer algo tão diferente e que fugisse tanto de sua zona de conforto. Se enxergarmos essa novela como uma história experimental, ela possui mais aspectos positivos do que negativos. O enredo de “A Dor do Esquecimento” se passa quase totalmente em um asilo para idosos. Madalena, uma médica pediatra de 58 anos, acabou de ser internada. Ela registra em uma espécie de diário as angústias por estar presa ali e a injustiça de ser a mais jovem paciente da clínica. Madalena tem raiva principalmente de João, seu irmão caçula. Foi ele quem a abandonou sem a menor piedade no meio de tanta gente desconhecida. A antiga doutora passa os dias entre colegas senis e um mar de mulheres de uniforme azul. A diretora da instituição até tenta explicar para Madalena que ela está muito doente, por isso está internada no asilo. Porém, a paciente novata se sente com a saúde perfeita, não acreditando no que lhe é dito. Enquanto relata seu desespero atual, a narradora-protagonista aproveita para recordar as boas e as más lembranças de sua vida: a infância inocente, as férias encantadoras na quinta dos avós, a primeira paixão, o aborto realizado na juventude, a tristeza pela morte dos familiares mais próximos (pais e avós), a ótima relação com o irmão, o casamento com o homem que amava, o trabalho como pediatra em um hospital, os sete anos de intensa felicidade ao lado do marido, a descoberta da infertilidade, a doença do esposo e a viuvez precoce. Em contraste com o cenário belíssimo da clínica, uma construção grandiosa que fica em meio à natureza exuberante, assistimos ao turbilhão emocional de Madalena. Casado e com três filhas, João é o único parente direto da personagem principal que ainda está vivo. Por isso mesmo, Madalena sente tanta falta do irmão, em um sumiço inexplicável. Por que será que ele a abandonou naquele lugar impessoal, frio e com pessoas tão duras? Esse é um dos mistérios que os leitores vão descobrir ao longo do texto de José Vieira. “A Dor do Esquecimento” é um livro curtinho. Ele possui apenas 92 páginas. Levei aproximadamente uma hora para percorrer todo o seu conteúdo no último final de semana. Comecei a leitura no sábado às quatro horas da tarde e às cinco já estava com o livro fechado. Em termos estruturais da narrativa, “A Dor do Esquecimento” tem duas fases. Na primeira metade da novela (nas 50 páginas iniciais), temos um thriller psicológico. Essa é a parte mais interessante do livro. A pergunta que o leitor se faz é: o que está acontecendo com a protagonista?! Madalena está confusa, não sabe o motivo de sua internação no asilo e está evidentemente desesperada para obter respostas para seus questionamentos. Pouco a pouco, começamos a descobrir o que está acontecendo com ela. Curiosamente, nós, os leitores, fazemos descobertas relevantes antes mesmo da personagem principal. Esse recurso literário é excelente e foi muito bem usado por José Vieira. Quando entendemos que Madalena é uma narradora pouquíssimo confiável, a obra ganha em dimensão e embarcamos para valer em seus dilemas psicológicos. A segunda fase da novela é o drama existencial de Madalena. Estendendo-se pelas 42 páginas finais do livro, essa etapa da narrativa inicia-se após João aparecer na clínica e contar para a irmã o que está efetivamente se passando com ela. A cena da conversa das duas personagens é um dos capítulos mais fortes e impactantes dessa publicação. Após esse diálogo, o mistério se dissolve completamente. Aí a pergunta que o leitor se faz é: o que acontecerá a partir de agora com Madalena? Em termos narrativos, o livro perde um pouco de fôlego nessa nova fase, apesar de reservar boas surpresas até o desfecho. Para mim, o principal problema de “A Dor do Esquecimento” está justamente na revelação precoce do que se passa com Madalena. Se João não tivesse estragado o suspense contando-nos o que está acontecendo com a irmã, teríamos a manutenção do mistério até o finalzinho. Além disso, a cena em que a narradora-protagonista retorna do hospital e encara a placa na frente do asilo teria um potencial dramático bombástico (até mais forte do que o diálogo no meio da trama), capaz de derrubar o leitor da cadeira. Como já sabíamos o que estava acontecendo com Madalena, infelizmente, essa cena perde grande parte de sua força. Na minha visão, essa passagem deveria ser o clímax do livro (e não o depoimento de João entre as páginas 47 e 49). Mesmo com esse probleminha de ordem narrativa, “A Dor do Esquecimento” é um suspense de alto nível e, na sequência, um drama emocionante. Como enredo, essa última publicação de José Vieira lembra “Leite Derramado” (Companhia das Letras), um dos livros mais populares de Chico Buarque (ambas as obras têm narradores idosos e nada confiáveis), “O Rabino” (Rocco), o romance de estreia de Noah Gordon (Madalena me lembrou Leslie, a esposa doente de Michael Kind) e “O Silêncio das Montanhas” (Globo), a terceira narrativa longa de Khaled Hosseini (a relação entre Madalena e João é parecida ao dos irmãos Pari e Abdullah no desfecho do romance do escritor afegão). Em uma analogia mais distante, “A Dor do Esquecimento” pode lembrar “Água para Elefantes” (Sextante), romance mais famoso de Sara Gruen (na parte, obviamente, em que a história se passa dentro do asilo de idosos), de “Um Estranho no Ninho” (Record), de Ken Kesey (Madalena age às vezes como R. P. McMurphy) e “Veronika Decide Morrer” (Objetiva), trama de Paulo Coelho (quando a narradora tenta se matar). O ponto alto de “A Dor do Esquecimento” está em seu narrador em primeira pessoa pouquíssimo confiável. Sutilmente, somos apresentados aos problemas da protagonista e às contradições de sua versão da história. Cabe ao leitor a montagem do quebra-cabeça textual que lhe é exposto despedaçado/desmontado. Sempre que José Vieira embaralha as coisas e não tem a preocupação de ser didático, sua trama eleva-se diante do leitor mais exigente. Outro aspecto que merece ser elogiado é o projeto gráfico de “A Dor do Esquecimento”. Repare na beleza da ilustração da capa e na força da cor (violeta ou roxo) da quarta-capa. A imagem da capa faz referência ao ditado popular “memória de elefante” – uma contradição bem-vinda em relação ao drama da protagonista da novela. O mais legal é que o visual do livro acompanha a elegância do texto de José Vieira. A capa é sensacional (simples e belíssima). Se pensarmos bem, há até mesmo uma forte intertextualidade literária na imagem do elefante. Confesso que me recordei de alguns títulos importantes da literatura portuguesa, como “A Viagem do Elefante” (Companhia das Letras), romance de José Saramago, e principalmente de “Memória de Elefante” (Alfaguara), um dos primeiros livros de António Lobo Antunes. Para o leitor brasileiro, enveredar pelo português de Portugal é um dos atrativos irresistíveis da leitura de José Vieira (ainda mais para quem adora as variantes idiomáticas). Há desde termos mais comuns e de fácil compreensão (cancro, reforma no sentido de aposentadoria, carrinha e atraiçoado) até outros mais distantes da nossa realidade (genica, utente, vindima, sanita, medrica e deambular). Acertadamente, a editora e o autor não colocaram um glossário no livro. Cabe ao leitor nascido no além-mar descobrir por conta própria o significado de cada palavra. Quem me acompanhou, nas últimas semanas, na leitura de José Eduardo Agualusa, escritor luso-angolano que foi analisado no Desafio Literário de novembro, não terá quaisquer dificuldades com a linguagem do escritor madeirense. Para encerrar os aspectos positivos de “A Dor do Esquecimento”, preciso citar seu excelente início (a novela começa no ponto certo, sendo impossível parar a leitura), a ótima ambientação (o contraste entre a beleza do cenário e a agonia mental e emocional da narradora), a riqueza das reflexões de Madalena (o livro ganha em profundidade quando a protagonista rememora seu passado trágico e quando divaga filosoficamente sobre a passagem do tempo, o saudosismo, as memórias, a velhice), a diminuição do tamanho dos capítulos à medida que a narrativa evolui (refletindo, obviamente, a condição interna de Madalena cada vez mais precária) e a omissão de várias datas no diário da personagem (que acompanha, porque não, suas confusões e contradições). Apesar de seus incontáveis méritos, “A Dor do Esquecimento” também possui pontos negativos. O texto elegante de José Vieira, ponto forte de suas narrativas históricas, e a organização temporal do livro, divisão dos capítulos pelo número de dias, não combinam muito com o caos psicológico vivido por Madalena. Sabe quando o texto é certinho demais para uma trama tão caótica? É o que encontramos nessa novela. Parece-me inverossímil uma narradora com tantos problemas de memória estruturar um relato tão linear e “limpo” como o que encontramos em “A Dor do Esquecimento”. Juro que fiquei me perguntando: será mesmo que Madalena teria condições (mesmo que equivocadamente) de listar os dias de sua permanência no asilo? Acho que não. Por outro lado, se encontrássemos uma narrativa desordenada e com ideias embaralhadas, como por exemplo em “A Obscena Senhora D” (Companhia das Letras), novela de Hilda Hilst, não apenas teríamos um suspense maior como teríamos uma trama muito mais densa. Outra questão que me incomodou foi a série de contradições do texto, que prejudicam a construção da verossimilhança. E não estou me referindo aos tropeços da narradora (esses sim são ótimos e fidedignos). Estou falando de pontos falhos do enredo. Ora Madalena não se lembra das coisas antigas (o que é natural), ora se lembra muito bem de tudo o que aconteceu há pouco (o que já não é tão natural assim). A memória de curto prazo é a primeira a ser perdida para quem sofre – cuidado, aí vai o spoiler! – do Mal de Alzheimer. Ou seja, é correto ela não se lembrar de todas as visitas do irmão à clínica. Beleza! Porém, qual é a explicação lógica para ela se lembrar das visitas recorrentes ao quarto de uma colega de asilo, hein?! Nessa trama, há algumas passagens que não colam (não fazem tanto sentido aos olhos de um leitor mais crítico). Além disso, a narração da protagonista de “A Dor do Esquecimento” é, em alguns momentos, falha. O tom de voz não é tão pertinente à realidade vivenciada pela personagem. Por exemplo, acho que Madalena jamais falaria: “Eu continuo a achar que não estou doente”. Ninguém fala desse jeito. O mais real seria: “Eu não estou doente, já disse!”. Nesse sentido, uma ou outra parte do texto ficcional é feita do ponto de vista do leitor e não do ponto de vista da narradora-protagonista (o que seria o mais correto em se tratando de literatura). Outra coisa que me deixou um pouco desconfortável foi o excesso de sinalização do discurso. Nos diálogos desta obra (discurso), temos travessão, aspas e itálico – tudo ao mesmo tempo! Meu Deus, para que tanta sinalização?! Uma delas já bastaria – o uso das três simultaneamente me soou redundante (se bem que na primeira parte do livro, não temos o travessão, que aparece misteriosamente na segunda metade da obra). Essa crítica pode parecer algo simples, mas afeta a estética e a elegância do texto da novela. Em suma, “A Dor do Esquecimento” não é o melhor livro de José Vieira. Se comparado a “Dedicação, Palavra e Honra” e “Paralelismos”, ele deixa a desejar. Por outro lado, confesso que gostei de ver algo diferente sendo produzido pelo autor. Por mais que goste de suas narrativas históricas, achei interessante acompanhar um thriller psicológico ambientado no presente. A minha torcida é que José Vieira/Teresa Vieira Lobo continue criando muitas histórias, sejam elas dramas antigos, suspenses contemporâneos ou enredos de gêneros narrativos ainda não explorados por ele/ela. E assim caminha a novíssima literatura portuguesa. Como é bom conhecer as promessas da escrita ficcional que despontam aqui e acolá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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