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- Romances: Primeira Página - O Amigo Lá Das Alturas
Engatar as Personagens é o recurso narrativo que confere unidade à história e ajuda os leitores na compreensão da trama ficcional desde os parágrafos iniciais. Prazer, sou o Ladas. Mas pode me chamar de Lá, Lad, Lada, Ladeco, Ladico. Ou de Ladas mesmo. Normalmente me chamam dessas formas. Se eu fosse como James Bond, diria: sou Alturas, Ladas Alturas. Sim, esse é o meu nome real e completo – Ladas Alturas. Ele pode parecer engraçado agora, o que gera frequentemente brincadeirinhas e até certo bullying, e combinar com minha profissão, em uma incrível coincidência do destino. Porém, só fui perceber isso ao viajar para cá. De onde venho, meu nome é extremamente comum e jamais despertaria grandes curiosidades. Quando cheguei?! Deve fazer uns vinte anos, segundo a medição do tempo de vocês. Quando coloquei os pés nesse planeta, trazia a presunção típica dos jovens, a esperança das almas mais inocentes e a disposição de quem não tem nada a perder. Vim com uma missão clara: concluir o estágio obrigatório e receber meu diploma de anjo. Afinal, segundo a instituição que cursei, em nada adiantava o longo período de estudo e a vasta bagagem conceitual adquirida. Se não realizássemos a parte prática, não poderíamos pegar o caneco. Sempre achei tudo isso muito burocrático, mas fazer o quê? Regras são regras e precisam ser respeitadas. Confesso que, no começo, acreditava que essa profissão seria fácil. Por isso, não fiz como muitos de meus colegas que escolheram o local para onde seriam mandados. Como melhor aluno da turma, achei que poderia parecer fraqueza da minha parte qualquer tipo de direcionamento nesse sentido. Com esse pensamento, não titubei e cravei no item 7 do formulário de requisição do estágio – qualquer lugar. Por causa do preenchimento de um campo, um mísero campo na ficha estudantil, acabei aqui. Ai, ai, ai. Não é que eu esteja reclamando, por favor, não pense besteira. Só estou explicando que foi um choque cultural. Ou de expectativas. Esperava uma coisa e encontrei outra completamente distinta. Diferentemente do que vocês possam achar, vida de anjo não é moleza. Além do acúmulo absurdo de tarefas diárias (ninguém pensa que temos relatórios para preencher, longas viagens para efetuar e intermináveis reuniões para comparecer) e do aumento exponencial de atendimentos nas últimas décadas (vocês não se incomodam com a superlotação desse planeta, Santo Deus!), eu não imaginava que fosse lidar com seres tão irracionais, limitados cognitivamente, preconceituosos, violentos e, por que não, desumanos. Por mim, excluiria a Terra dos locais do universo que contam com vida inteligente sem pestanejar. Desculpe-me falar desse modo. Agora que temos alguma intimidade, não precisamos mais ter tantos melindres, né? Vou ser o mais sincero possível nesse relato. E conto com a colaboração de todos para seguirmos em frente sem rodeios ou falso moralismo. Quando cheguei, minha missão era aparentemente simples. Precisava ajudar quatro pessoas. Vocês entendem o que são pessoas, certo? Pessoas, seres humanos. Precisava ajudar quatro seres humanos. Se tivesse êxito na maioria dos casos, o diploma iria para as minhas mãozinhas e ponto final. Se fracassasse na maioria das tarefas, precisaria refazer o estágio novamente. E se houvesse um empate (dois casos exitosos, dois casos arruinados), a banca de professores do Instituto Superior do Plano Superior (ISPS) daria o veredito a partir do histórico do aluno. Como o mais brilhante estudante da minha classe (e para muitos o melhor universitário das últimas gerações!), eu não cogitava as duas últimas opções. Talvez o Nicólas, o Noas e o Perminas precisassem refazer o estágio. Se alguém me perguntasse, diria previamente que acreditava que o Andreas, o Belauras e o Perminas acabassem na banca avaliadora. Em sã consciência, ninguém cogitava que o meu destino fosse outro a não ser pegar de primeira o diploma. Para ser sincero, sincerão, minha intenção era chegar aqui e realizar o mais rapidamente possível meus quatro atendimentos. Como diria o Capitão Nascimento, missão dada, parceiro, é missão cumprida! Meu desejo era realizar minhas obrigações em um tempo recorde, só para aumentar a admiração de meus colegas e dos meus professores. Por uma perspectiva exclusivamente racional, os casos que eu pegara não eram nada, nadinha complicados. Vejamos se eu não tinha razão. Maria Anunciación Freire. Vendedora argentina de 29 anos e mãe de duas crianças pequenas. Ela não conseguia sair de uma relação abusiva. O marido era folgado, violento e infiel. Qual a dificuldade de dar um pé na bunda dele? Nenhuma. Romildo de Sousa. Brasileiro, 19 anos, motoboy e evangélico. Ele vivia às turras com o irmão gêmeo. O motivo? Descobriu que o brother era gay. Qual a complexidade para aceitar as opções sexuais de um parente, hein? Nenhuma. Théodore Ivy. Empresário australiano de 42 anos, casado e pai de um casal de filhos. Sua família passava por uma grave crise financeira. Enquanto ele administrava muito mal sua empresa, todos na casa, inclusive ele, gastavam dinheiro sem pensar no amanhã. É difícil controlar as manias consumistas de alguém? Não, né? E, por fim, temos Francisca Almeida Vieira. Universitária portuguesa de 27 anos, ela trabalhava como modelo internacional e era invejada por sua beleza estonteante. Seu problema? Tinhas pensamentos suicidas. Dá para acreditar?! Eu precisava simplesmente evitar que ela tirasse a própria vida. Se pensarmos bem, nenhuma dessas tarefas era complicada. Pelo menos não para mim. Eu sabia o que tinha que fazer e tinha ciência da minha capacidade para influenciar positivamente os atendidos. Quanto tempo eu precisaria para regressar feliz da vida para o meu mundo? Alguns dias. Talvez poucas semanas. No máximo um mês, um mês e meio. Esse era o meu plano. Eu só não contava que seria atrapalhado o tempo inteiro justamente pelos indivíduos que deveria auxiliar. Eita vida desgramada essa de anjo, oh Pai! Por que não fui enviado para Alpex Lunar ou para algum satélite natural de Calcix, hein? Às vezes acho que o ser humano não tem solução mesmo! Fazer o quê, diacho? ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “O Amigo Lá Das Alturas ”: Engatar as Personagens. Engatar as Personagens é a estratégia de início de narrativa em que os autores ficcionais prezam pela concisão e pela precisão. Em poucas linhas, eles apresentam as principais personagens da trama de um jeito integrado. Os leitores, assim, compreendem a lógica por trás das figuras retratadas e da trama proposta. Quando entendemos logo de cara o cenário, o conflito e as pessoas envolvidas, fica mais fácil para acompanharmos o desenrolar daquela história que está começando. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Romances: Primeira Página - Apresentação
Confira a proposta da nova série narrativa da coluna Contos & Crônicas que será desenvolvida por Ricardo Bonacorci ao longo deste ano. Hoje, começamos a sétima temporada da coluna Contos & Crônicas. Como nossos leitores mais antigos já sabem, essa seção do Bonas Histórias é dedicada à produção própria de narrativas ficcionais. Assim, deixamos um pouco de lado as análises críticas de títulos e autores amplamente conhecidos (foco dos demais posts do blog) e enveredamos por novidades textuais (a essência desta parte do site). Nos anos de colheitas menos fartas, eu mesmo desenvolvo as coletâneas de tramas.Nas temporadas de safras literárias mais abundantes, recebemos escritores convidados. O que não muda é o caráter de exclusividade e de ineditismo das histórias exibidas. Em 2021, a série narrativa que será apresentada em Contos & Crônicas se chama “Primeira Página”. Antes de explicar em detalhes qual é a proposta dessa nova coleção ficcional, sinto a necessidade de comentar brevemente o conteúdo das coletâneas anteriores. Só depois de fazer essa retrospectiva histórica, acredito ter condições de explicar o salto conceitual e estrutural que pretendemos dar nas tramas desse ano do Bonas Histórias. Nas quatro primeiras temporadas, trouxemos histórias tradicionais: “Eu e o Mundo” (crônicas de Ricardo Bonacorci de 2015), “Março Negro” (crônicas de Ricardo Bonacorci de 2016), “Histórias de Macambúzios” (contos de Paulo Sousa de 2016), “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora” (crônicas de Ricardo Bonacorci de 2017) e “Paranoias Modernas” (contos de Ricardo Bonacorci de 2018). A partir de 2019, surgiram propostas mais inovadoras. “Diálogos Urbanos” (contos de Ricardo Bonacorci de 2019) é a série narrativa que se utilizou das polêmicas técnicas da Escrita Não Criativa (promovendo uma mistura instigante entre realidade e ficção). E “O Ghost Writer” (novela de Roberto S. Inagaki e Ricardo Bonacorci de 2020) foi nossa primeira trama maior (narrativa de tamanho médio) dividida em capítulos (as coleções anteriores eram textos construídos sob molduras narrativas; portanto, suas partes não podem ser vistas como capítulos). Com a ideia de continuar trazendo novidades para nossos leitores, não podíamos simplesmente retornar para as coleções de narrativas tradicionais. E qual seria, então, a inovação que iríamos promover na nova temporada de Contos & Crônicas, hein? A sacada veio por acaso: enveredar pelas narrativas longas. Se colocamos o pé na novela em 2020 (quebrando o pacto de produzir apenas narrativas curtas), por que não seguir agora para os romances?! Assim, surgiu a concepção de “Primeira Página”. Nessa nova série narrativa, vamos apresentar a primeira página de oito possíveis romances (confesso que adoro esse termo – possíveis romances!). A graça dessa coleção ficcional está em podermos trabalhar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais de (possíveis) tramas maiores. Ao invés de fôlego (exigência sine qua non dos romances), vamos explorar a profundidade do mergulho textual (característica fundamental da boa literatura). Nosso objetivo em “Primeira Página” é deixar o(a) leitor(a) curioso(a). Venceremos se ele/ela quiser ler as demais partes das histórias esboçadas (que, por ora, não serão exibidas no blog). Ao mesmo tempo em que provocamos nossos leitores, vamos exercitar as diferentes técnicas de abertura de um texto ficcional. E aí, gostou da nossa proposta?! Convido você a acompanhar o conteúdo de “Primeira Página” durante todo o ano. O texto de estreia dessa série será postado já no próximo mês e o último será exibido em novembro. Aos interessados, segue o calendário completo de “Primeira Página”: - 12 de abril de 2021 - Romance 1: “Um Homem Fiel”. - 12 de maio de 2021 - Romance 2: “Palco Vazio”. - 11 de junho de 2021 - Romance 3: “O Pobre Milionário”. - 11 de julho de 2021 - Romance 4: “Devaneios”. - 7 de agosto de 2021 - Romance 5: “Sequestro”. - 12 de setembro de 2021 - Romance 6: “Terra de Cegos”. - 12 de outubro de 2021 - Romance 7: “Procurado”. - 11 de novembro de 2021 - Romance 8: “O Amigo Lá Das Alturas”. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Análise Literária: Rubem Fonseca
Rubem Fonseca ficou famoso na segunda metade do século XX por ter sido o introdutor no Brasil e o principal adepto no cenário nacional da Literatura Brutalista (RODRIGUES, 2017), um dos subgêneros do Romance Policial. Segundo a Teoria Literária, o Brutalismo também é chamado de Neorrealismo Violento (BOSI, 1975), de Romance Noir ou de Romance Negro (TODOROV, 2013, p.98). Atuando como contista, romancista, novelista, ensaísta e roteirista, Fonseca publicou 32 livros, sendo 19 coletâneas de contos, 8 romances, 4 novelas e 1 ensaio. Falecido em abril deste ano, no comecinho da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o escritor que nascera em Minas Gerais e vivera desde a infância no Rio de Janeiro foi vítima de um infarto fulminante. Ou seja, sua morte não tem nada a ver com a COVID-19, como chegou a ser ventilado na época. Rubem Fonseca é um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Sua influência pode ser sentida até hoje. Não é difícil descobrir várias de suas características estéticas nos trabalhos dos novos romancistas e contistas nacionais. Ao longo deste mês, analisamos individualmente no Desafio Literário seis das principais obras de Fonseca: “Lúcia McCartney” (Agir), “O Caso Morel” (Biblioteca Folha), “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), “A Grande Arte” (Nova Fronteira), “O Selvagem da Ópera” (Companhia das Letras) e “José” (Nova Fronteira). Outros dois títulos deste autor já tinham sido comentados anteriormente no Bonas Histórias: “Agosto” (Companhia das Letras) e “O Seminarista” (Nova Fronteira). Com a bagagem conceitual adquirida através destas oito leituras, vamos construir no post de hoje uma análise completa da literatura de Rubem Fonseca. As perguntas que pretendemos responder aqui são: quais as marcas estilísticas deste autor?; quais são as fases de sua carreira literária?; quais são seus livros mais importantes; e qual é a sua biografia pessoal e profissional? E para começo de conversa, gostaria de listar o portfólio de Rubem Fonseca. Suas coleções de contos foram: “Os Prisioneiros” (Agir), de 1963, “A Coleira do Cão” (Nova Fronteira), de 1965, “Lúcia McCartney” (Agir), de 1969, “O Homem de Fevereiro ou Março” (Nova Fronteira), de 1973, “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), de 1975, “O Cobrador” (Nova Fronteira), de 1979, “Romance Negro e Outras Histórias” (Companhia das Letras), de 1992, “O Buraco na Parede” (Nova Fronteira), de 1995, “Histórias de Amor” (Companhia das Letras), de 1997, “A Confraria dos Espadas” (Companhia das Letras), de 1998, “Secreções, Excreções e Desatinos” (Nova Fronteira), de 2001, “Pequenas Criaturas” (Nova Fronteira), de 2002, “64 Contos de Rubem Fonseca” (Companhia das Letras), de 2004, “Ela e Outras Mulheres” (Companhia das Letras), de 2006, “Axilas e Outras Histórias Indecorosas” (Nova Fronteira), de 2011, “Amálgama” (Nova Fronteira), de 2013, “Histórias Curtas” (Nova Fronteira), de 2015, “Calibre 22” (Nova Fronteira), de 2017, e (ufa!) “Carne Crua” (Nova Fronteira), de 2018. Os romances, por sua vez, foram: “O Caso Morel” (Biblioteca Folha), de 1973, “A Grande Arte” (Nova Fronteira), de 1983, “Bufo & Spallanzani” (Companhia das Letras), de 1985, “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” (Companhia das Letras), de 1988, “Agosto” (Companhia das Letras), de 1990, “O Selvagem da Ópera” (Companhia das Letras), de 1994, “Diário de um Fescenino” (Companhia das Letras), de 2003, e “Mandrake, a Bíblia e a Bengala” (Companhia das Letras), de 2005. Já as novelas são: “E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto” (Companhia das Letras), de 1997, “O Doente Molière” (Companhia das Letras), de 2000, “O Seminarista” (Companhia das Letras), de 2009, e “José” (Nova Fronteira), de 2011. Note que para construir a análise literária de Rubem Fonseca, utilizamos nesta edição do Desafio Literário de um pouco de cada um desses gêneros narrativos: duas coletâneas de contos, quatro romances e duas novelas. Desta maneira, conseguimos abranger todos os aspectos de sua criação ficcional. A ideia de selecionar obras do início, do meio e do fim de sua carreira também teve esse propósito. O único ensaio do escritor mineiro foi “O Romance Morreu” (Nova Fronteira), de 2007, que reúne uma série de crônicas. Além de abordar, em primeira pessoa, alguns assuntos recorrentes de sua literatura, como a fixação pela fisiologia humana, as viagens pelo país e pelo mundo, a mente criminosa, o drama do futebol, a pornografia e as armadilhas da linguagem, Rubem Fonseca também narra em tom autobiográfico a vida de um menino nascido em Minas Gerais e que se mudou na infância para o Rio de Janeiro. Como roteirista, Fonseca participou da adaptação de algumas de suas obras para a televisão e para o cinema. A mais famosa de suas contribuições foi na minissérie televisiva “Agosto”, produção da Rede Globo do início da década de 1990. A trama da TV foi inspirada no romance homônimo do autor. O escritor mineiro também foi roteirista do filme “A Grande Arte” (1991), dirigido por Walter Salles e baseado em seu segundo romance, e foi coroteirista do filme “Bufo & Spallanzani” (2001), dirigido por Flávio R. Tambellini e inspirado em seu terceiro romance. Rubem Fonseca recebeu vários prêmios ao longo de sua carreira. Os principais foram o Prêmio Jabuti, conquistado em seis oportunidades (em 1970 por "Lúcia McCartney", em 1984 por “A Grande Arte”, em 1996 por “O Buraco na Parede”, em 2002 por “Secreções, Excreções e Desatinos”, em 2003 por “Pequenas Criaturas” e em 2014 por "Amálgama"), o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), duas vezes (em 1979 por “O Cobrador” e em 2000 por “O Doente Molière”), Prêmio Casa de Las Américas (em 2005 por “Pequenas Criaturas”), Prêmio ABL de Ficção, Romance, Teatro e Conto (em 2007 por “Ela e Outras Histórias”) e o Prêmio Machado de Assis (em 2015 pelo portfólio literário). Contudo, a coroação definitiva da excelência do trabalho de Rubem Fonseca como escritor aconteceu em 2003. Naquele ano, o autor recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa e que considera o conjunto da obra do artista. A cerimônia ocorrida em maio de 2003 no Rio de Janeiro representou a entrada definitiva de Rubem Fonseca para o grupo de escritores contemporâneos clássicos da nossa língua. Nascido em Juiz de Fora, em 1925, José Rubem Fonseca (sim, seu primeiro nome era José e não apenas Rubem) fixou residência no Rio de Janeiro ainda na infância. Seus pais, imigrantes portugueses, decidiram trocar Minas Gerais pela então Capital Federal quando o filho tinha oito anos de idade. No Rio, Rubem passou boa parte da infância e toda a adolescência. Menino tímido e introspectivo, seu principal hobby sempre foi a leitura. Ainda em Juiz de Fora, ele passava a maior parte do tempo mergulhado nos livros franceses que uma tia lhe enviava rotineiramente. No Rio, passou a nutrir apreço especial pelos romances policiais norte-americanos, que ele mesmo comprava diretamente nos sebos e nas livrarias cariocas. Quando completou dezoito anos, Rubem Fonseca acalentou o sonho de se tornar escritor profissional. Para começar neste ofício, ele reuniu uma coleção de contos que produzira nos últimos anos e levou o material para uma editora tradicional no centro do Rio de Janeiro. O editor foi muito educado com aquele rapazote alto, magro e muito tímido dizendo que analisaria seus originais com atenção. Passadas algumas semanas, Rubem voltou ao local com uma preocupação. Ele não tinha uma cópia do texto apresentado. O editor tratou de acalmá-lo. Depois de lido os originais, ele os devolveria para o autor. Quando o jovem expôs a preocupação de que seu material pudesse ser extraviado, o dono da editora foi categórico: não havia risco de aquilo acontecer. Desde a fundação de sua empresa, ele e seus funcionários jamais perderam um original. Entretanto, como diz o velho ditado, para tudo na vida tem a sua primeira vez, né? Para perplexidade do jovem José Rubem, seus originais foram sim perdidos pela editora. Um constrangido editor comunicou isso ao jovem escritor. Para piorar ainda mais as coisas, o dono da editora nem tinha conseguido ler o material do novato. Ele só foi perceber o extravio quando foi analisar os contos. Rubem Fonseca ficou tão chateado, mas tão chateado com aquele episódio que nunca mais pensou em se tornar escritor. Por mais que produzisse novos contos em suas horas de lazer, jamais quis publicá-los (FONSECA, 2011). Já adulto, Rubem Fonseca se formou em Direito e começou a trabalhar na polícia. Seu primeiro plantão como comissário de polícia aconteceu na delegacia de São Cristóvão no dia 31 de dezembro de 1952. Após um período como investigador, foi transferido em junho de 1954 para o setor administrativo da instituição. Ali, atuou como relações públicas da polícia e, mais tarde, como perito psicológico, disciplina que se especializou e que mais tarde passaria a ministrar aulas na Fundação Getúlio Vargas (FONSECA, 1973). Sua atuação destacada na polícia rendeu uma bolsa de estudo no exterior. Rubem Fonseca morou entre 1953 e 1954 nos Estados Unidos, onde estudou Administração de Empresas e Comunicação na New York University. Em 1956, já de volta ao Brasil, saiu da polícia e passou a trabalhar como executivo na Light, empresa fluminense de geração de energia elétrica. Permaneceu na estatal por 20 anos. Em 1964, pouco antes do golpe militar, se tornou diretor do IPES - Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Contudo, não ficou muito tempo no órgão federal. Assim que os militares assumiram o governo, derrubando João Goulart, Rubem Fonseca pediu sua demissão em protesto contra o fim da democracia no país (VIANNA, 2005). Simpatizante do socialismo durante a juventude nos anos de 1940 e 1950, Rubem Fonseca alega ter sido perseguido pelos militares, que teriam forçado sua demissão da Light na década de 1970. Justamente naquela época, sua literatura começava a ganhar evidência. Seus contos, que abordavam a violência urbana e a degradação ética da sociedade brasileira, agradavam a crítica e o público, mas encontravam grande resistência dos governantes, que não aceitavam com "bons olhos" aquela caracterização ácida da realidade nacional. Depois da demissão da Light em 1976, Fonseca passou a escrever críticas de cinema na revista Veja e se dedicar com mais afinco à ficção literária. Casado por quatro décadas com Théa Maud Fonseca, tradutora e escritora que faleceu em 1997, Rubem Fonseca teve três filhos: Maria Beatriz, José Alberto e o cineasta José Henrique Fonseca. A família sempre viveu na cidade do Rio de Janeiro. Viúvo desde a perda de sua companheira, Rubem sofria de úlcera gástrica (curiosamente esta é a mesma doença do comissário Mattos, o protagonista do romance “Agosto”, seu livro mais famoso). Avesso às entrevistas e à imprensa, ele aparecia pouco na mídia e preferia viver recluso em sua residência. Segundo o autor, um escritor devia se manifestar essencialmente através de suas obras, evitando interagir com os leitores e com o público diretamente. Afinal, o que ele tinha para dizer, já tinha dito em seus livros, não sendo necessárias entrevistas ou debates sobre literatura para expor seu ponto de vista. Obviamente, esta é a opinião de uma pessoa extremamente tímida e introvertida (características que sempre o acompanharam por toda a vida). A carreira de Rubem Fonseca na literatura começou por acaso no início da década de 1960. Sem jamais ter a pretensão de ser escritor ou de ter uma obra sua publicada (consequências do trauma da rápida experiência literária aos 18 anos), o então executivo, que se dividia entre o trabalho no IPES e na Light, recebeu um "presente-surpresa" do amigo editor Gumercindo Rocha Dórea. Dórea recebeu da secretária de Fonseca dez contos que o então executivo guardava nas gavetas de seu escritório. Positivamente impressionado com a qualidade do texto, o editor resolveu rodar o livro sem a prévia autorização do autor. Somente quando as provas da obra ficaram prontas, Dórea apresentou a ideia da publicação para o amigo. Rubem Fonseca ficou bravo e não concordou com aquela ideia de imediato. Só depois de uma semana, com a cabeça mais fria, o escritor reconsiderou sua decisão. Porém, impôs uma condição: a capa deveria ser feita por seu filho José Antônio, na época com cinco anos. Dessa vez, foi o editor que esperneou (VIANNA, 2005). Desta maneira, chegava às livrarias brasileiras, em 1963, o livro “Os Prisioneiros”, a obra de estreia de Rubem Fonseca na literatura comercial (e o debute de José Antônio Fonseca na produção artística!). A iniciativa de Gumercindo Rocha Dórea se mostrou exitosa. Rapidamente, o livro de Fonseca se tornou um sucesso de crítica. A coletânea de contos do escritor novato rendeu rasgados elogios das principais figuras do mercado editorial nacional. “Os Prisioneiros” possui 12 contos, tem 176 páginas e já apresentava boa parte das características literárias que seriam associadas ao seu autor. Rubem Fonseca, desde aquele momento, fazia uma literatura original no cenário brasileiro, retratando o ambiente urbano do país com personagens marginalizadas e com protagonistas com muitos vícios de caráter. O nome do livro (e de seu principal conto) faz uma associação direta ao estado do homem contemporâneo que vive preso à sua existência insignificante e à barbárie social. Ainda na década de 1960, mais dois livros de contos de Rubem Fonseca foram publicados: “A Coleira do Cão”, de 1965 (256 páginas e 8 contos) e “Lúcia McCartney”, de 1967/1969 (188 páginas e 19 contos). “Coleira do Cão” é considerado uma extensão natural dos dramas representados em “Os Prisioneiros”. Em contraponto ao homem aprisionado da obra anterior, temos, neste caso, o cachorro que mesmo livre carrega um pedaço da coleira que o aprisionava anteriormente (daí o título da segunda obra). As duas primeiras publicações bastaram para colocar Rubem Fonseca no patamar dos principais escritores de sua geração. O crítico Wilson Martins escreveu logo após o lançamento de “Coleira de Cão”, no jornal O Estado de São Paulo: “Sr. Rubem Fonseca vence brilhantemente a prova do segundo livro [...] Se figurarmos os nossos autores de hoje em seus lugares respectivos na escada da glória, nada mais fácil do que perceber que, com Sr. Rubem Fonseca, a literatura brasileira ganhou um dos seus escritores mais importantes” (AGÊNCIA RIFF, 2017). Em “Lúcia McCartney”, o escritor mineiro atingiu o ápice narrativo ao colocar como protagonista uma prostituta da zona sul carioca. Misturando elementos eruditos e populares, Fonseca produziu histórias inventivas e mórbidas, sem jamais deixar o bom humor de lado. Para Sérgio Sant'Anna, escritor carioca nascido nos anos 1940, “Lúcia McCartney” é "o mais importante livro de ficção brasileira dos últimos anos” (AGÊNCIA RIFF, 2017). Não foi por acaso, portanto, que Fonseca conquistou, em 1970, seu primeiro Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira. Além disso, este livro representou o primeiro best-seller do autor. A partir de então, Rubem Fonseca não era adorado apenas pela crítica literária, mas também pelo público leitor, que corria às livrarias para adquirir suas publicações. Na década seguinte, vieram mais três importantes coletâneas de contos: “O Homem de Fevereiro ou Março”, de 1973 (288 páginas e 18 contos), “Feliz Ano Novo”, de 1975 (176 páginas e 13 contos) e “O Cobrador”, de 1979 (184 páginas e 10 contos). Destes títulos, aquele que ficou mais famoso na época do lançamento foi “Feliz Ano Novo” por ter sido censurado pela ditadura militar. Assim, o interesse dos leitores pela obra aumentou consideravelmente, apesar de Rubem Fonseca não ter se aproveitado desse fato para promover seu livro (FONSECA, 1983). Vale a pena destacar que “Feliz Ano Novo” possui dois dos mais espetaculares contos da literatura brasileira. "Passeio Noturno (Parte I)” e “Feliz Ano Novo” (narrativa curta que empresta seu nome ao título da coletânea) estão em qualquer boa lista que aponte os melhores contos da literatura nacional de todos os tempos. O conjunto de seis livros de contos das décadas de 1960 e 1970 representa a vertente mais disruptiva do trabalho ficcional de Rubem Fonseca. Segundo o escritor Luiz Ruffato, o conto brasileiro se divide em antes e depois de Rubem Fonseca (VIANNA, 2015). Apesar da versatilidade e do grande número de obras publicadas posteriormente, a excelência do trabalho artístico do escritor mineiro aparece de maneira mais acentuada nos contos iniciais de sua carreira. O parecer quase unânime da crítica literária indica que Fonseca foi, acima de tudo, um gênio na arte de produzir contos (PEREIRA, 2000, p. 15). Depois da publicação de “O Cobrador”, Rubem Fonseca ficou sem lançar nenhum novo livro de contos por treze anos. Nas décadas de 1980 e de 1990, o escritor dedicou-se principalmente à produção de romances. Por isso, é possível estabelecer uma ruptura na literatura fonsequiana - a primeira fase de sua carreira (1963 a 1983) foi de contista; a segunda (1983 a 1997) foi de romancista; e, por fim, a terceira fase (1997 a 2018/2020) volta a ser de contista (agora com uma pegada mais madura). É verdade que em cada uma dessas etapas, o autor continuou publicando outros gêneros narrativos, mas em menor escala em relação ao gênero principal. O primeiro romance de Rubem Fonseca foi “O Caso Morel”. Este livro foi publicado em 1973, ainda na primeira fase contista. O sucesso desta obra se deve a transposição do estilo ácido, ambíguo, seco, violento e bruto dos contos fonsequianos para o romance. Além disso, o protagonista-narrador Paulo Morais (Paul Morel) é um marco na literatura brasileira por representar todas as contradições e as injustiças da sociedade nacional. São dos anos de 1980 os três grandes clássicos romanescos do autor: “A Grande Arte”, de 1983, “Bufo & Spallanzani”, de 1985, e “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”, de 1988. As duas décadas seguintes foram as mais prolíficas da carreira literária de Rubem Fonseca. O mineiro lançou obras de contos e romances alternadamente. Foram sete livros nos anos de 1990 e mais oito na primeira década de 2000. Em 1990, foram lançados “Agosto”, a narrativa longa mais famosa do autor, o romance “O Selvagem da Ópera” e a novela “E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto”. Juntamente com esses títulos vieram as coletâneas de contos “Romance Negro e Outras Histórias”, quebrando o jejum de publicações deste gênero, “O Buraco na Parede”, “Histórias de Amor” e “A Confraria dos Espadas”. Na década de 2000, foram publicados os romances “Diário de um Fescenino” e “Mandrake, a Bíblia e a Bengala”, as novelas “O Doente Molière” e “O Seminarista”, as coleções de contos “Secreções, Excreções e Desatinos”, “Pequenas Criaturas”, “64 Contos de Rubem Fonseca” e “Ela e Outras Mulheres” e o ensaio “O Romance Morreu”. Nos últimos anos de vida/carreira (leia-se, anos 2010), Rubem Fonseca lançou mais seis livros. Cinco são de contos: “Axilas e Outras Histórias Indecorosas”, de 2011, “Amálgama”, de 2013, “Histórias Curtas”, de 2015, “Calibre 22”, de 2017, e “Carne Crua”, de 2018. O outro é a novela autobiográfica “José”, de 2011. Nesta obra, Rubem Fonseca narra a infância em Minas, a adolescência no Rio e o início da fase adulta (antes de se tornar escritor). Para quem aponte o auge literário de Rubem Fonseca como tendo acontecido entre as décadas de 1960 e 1980, um dado interessante sobre a última fase da carreira do autor (1997 a 2018/2020) pode derrubar essa tese. Foi nos últimos anos que Fonseca conquistou seus principais prêmios. Dos Jabuti, por exemplo, quatro dos seis vieram depois de 1996. Dos APCA, metade foi recebida após 1997. Ou seja, Rubem Fonseca pode até ter perdido o posto de best-seller nacional depois da metade dos anos 1990, mas continuou produzindo obras premiadíssimas. Como consequência, conquistou o Prêmio Machado de Assis em 2015 e o Prêmio Camões em 2003 (ambos pelo conjunto literário). Para entender o estilo narrativo particular de Rubem Fonseca, é preciso antes estudar as características gerais do tipo de literatura que o autor mineiro escolheu praticar. Além de ter introduzido no Brasil a Literatura Brutalista, Fonseca se manteve fiel a esta concepção artística ao longo de toda a carreira. Tanto na produção de contos quanto no desenvolvimento de romances e novelas, o escritor jamais abandonou este estilo (BOSI, 1975). Dessa forma, ele criou uma literatura marcante e facilmente reconhecida pelo público e pela crítica (PEREIRA, 2000, p. 18-25). Além disso, Fonseca tornou-se o principal nome do Brutalismo nacional e um dos principais autores de sua geração (RODRIGUES, 2017). Quando falamos em Romance Policial no Brasil, o primeiro nome que vem à cabeça é indiscutivelmente o de Rubem Fonseca. Em poucas palavras, a Literatura Brutalista (também conhecida como Romance Negro, Literatura Noir ou Neorrealismo Violento) é uma variante mais moderna do Romance Policial. Esta modalidade investiga um crime (essência do Romance Policial), mas pinta com tintas mais fortes a violência, o sadismo, a pobreza, a sujeira e a marginalização da sociedade. A imoralidade é geral, não se restringindo aos vilões. Até mesmo os protagonistas são figuras imorais ou amorais – suas características são parecidíssimas ao dos antagonistas. O detetive aqui corre sérios riscos de morrer ou de se ferir gravemente, o que acaba acontecendo em muitos casos (no Romance Policial Clássico, o detetive é imune aos perigos). Os protagonistas destas obras também são personagens mais humanas e recheadas de defeitos - bebem, brigam, apanham, se ferem, matam, sentem medo, fazem sexo, se apaixonam e cometem (muitos) erros (TODOROV, 2013, p. 98-100). Rubem Fonseca incorporou todas essas características em seus trabalhos ficcionais, tanto nas narrativas curtas quanto nas narrativas médias e longas. Sua excelência artística está na adaptação da ambientação caótica e densa da Literatura Noir ao cenário brasileiro (que por si só, é a representação fidedigna dos valores noir). Com isso, Fonseca não só se tornou o maior nome do Romance Negro nacional como também se transformou na maior figura do Romance Policial de nosso país. A seguir, listo as 20 características da literatura de Rubem Fonseca (BONACORCI: 2018) que foram originalmente apresentadas por mim em uma palestra no IV Congresso Internacional do Grupo Unis. Os pontos do estilo do autor estão organizados segundo os conceitos dos Elementos da Narrativa.[if !supportLists] 1) TIPOLOGIA: Rubem Fonseca é um autor de thrillers policiais do tipo Romance Negro/Literatura Brutalista. Todas as suas coletâneas de contos e novelas possuem esta característica. E apenas um romance de seu portfólio foge um pouco dessa classificação – “O Selvagem da Ópera” é um drama histórico e não uma narrativa criminal. 2) ENREDO: Os desfechos das histórias fonsequianas são tradicionalmente melancólicos. Eles deixam um gosto amargo na boca do leitor. No caso dos romances e das novelas, isso acontece em 100% dos casos. 3) PERSONAGEM: Os protagonistas de Fonseca possuem características parecidíssimas ao dos anti-heróis. 4) PERSONAGEM: Os protagonistas dos romances e das novelas do autor são homens bonitos, hedonistas, viciados em sexo, mulherengos, promíscuos sexualmente, mentirosos, artistas/amantes das artes e propensos/suspeitos de cometer crimes. A exceção é Alberto Mattos, figura central de “Agosto”. Este policial não é hedonista, não é viciado em sexo e (acredite) é muito honesto. 5) PERSONAGEM: Os antagonistas dos romances e das novelas de Rubem Fonseca são criminosos perigosos - “O Selvagem da Ópera” é novamente a exceção à regra. 6) PERSONAGEM: As figuras secundárias dos romances e das novelas de Fonseca e os protagonistas dos contos do autor são essencialmente pessoas marginalizadas socialmente (prostitutas, assassinos, traficantes de drogas, políticos corruptos, empresários desonestos, etc.) 7) PERSONAGEM: No caso dos romances, há figuras históricas (ou seja, reais) no meio da trama ficcional – As exceções são “O Caso Morel”, “Diário de um Fescenino” e “Mandrake, A Bíblia e a Bengala”. 8) ESPAÇO NARRATIVO: Os romances e as novelas de Rubem Fonseca se passam na cidade do Rio de Janeiro – A exceção (adivinhe!?) é “O Selvagem da Ópera”, que se passa principalmente na Europa. 9) ESPAÇO NARRATIVO: Uma das principais características da literatura de Fonseca é o acentuado contraste social e estético dos espaços narrativos. O tempo inteiro, há a dicotomia entre o belo-feio, o grande-pequeno, o calmo-violento, o limpo-sujo e o rico-pobre. Ler as histórias deste autor é mergulhar nos contrastes sociais brasileiros. 10) TEMPO NARRATIVO: As tramas dos romances e das novelas fonsequianas se passam prioritariamente no tempo presente de quando o autor as escreveu – As exceções são os romances históricos “Agosto” e “O Selvagem da Ópera”.[if !supportLists] 11) TEMPO NARRATIVO: Há a mistura de tempo cronológico e de tempo psicológico como recurso narrativo em todos os romances e novelas do escritor mineiro – As exceções são novamente “Agosto” (uso de flashback) e “O Selvagem da Ópera” (uso de flashback). 12) AMBIENTAÇÃO: As histórias de Rubem Fonseca têm como base a violência generalizada, a banalização do sexo, a corrupção, as mentiras, as injustiças sociais, os crimes de vários tipos e as escatologias humanas. 13) REALIDADE FICCIONAL: As tramas do autor estão ancoradas na realidade nua e crua da vida real, o que podemos chamar de Hiper-realismo ou mesmo Neorrealismo Violento. 14) NARRADOR: Quando analisamos os oito romances de Fonseca, percebemos que seus textos são em primeira pessoa. A exceção é “Agosto” (narração em terceira pessoa – narrador onisciente). 15) NARRADOR: Uma vez em primeira pessoa, os romances de Rubem Fonseca são conduzidos pelo narrador-protagonista. A exceção é “O Selvagem da Ópera” (narrador-testemunha). 16) LINGUAGEM: O bom humor (mesmo diante de ambientes com tantos crimes e violência) é uma das marcas das narrativas de Fonseca. A única narrativa longa do mineiro sem esse expediente é “O Selvagem da Ópera” (não à toa, este é o livro mais chato de seu portfólio). 17) LINGUAGEM: O autor usa mais de um código linguístico para construir suas tramas (esta questão fica mais evidente nos romances). O português é a base idiomática, mas há passagens, frases e palavras em latim, alemão, francês, espanhol e italiano, por exemplo, sem a tradução direta (cabe ao leitor fazer a tradução dos termos estrangeiros). 18) LINGUAGEM: Mistura ao longo das narrativas do linguajar coloquial/vulgar com a linguagem formal e específica de algumas profissões. Esse contraste (erudito versus popular) é uma das principais marcas da literatura de Fonseca. 19) LINGUAGEM: Quando analisamos os romances do autor, notamos o uso da metalinguagem como elemento narrativo – suas histórias sempre falam de alguma produção artística. As exceções são “A Grande Arte” e “Agosto”. 20) TEXTUALIDADE: Uso exagerado da intertextualidade. Há sempre a citação ou a referência a elementos da literatura, da música, do teatro, do cinema, da pintura, da ópera, da filosofia, da psicologia, da política, da história, da ciência e do direito. Esse aspecto é mais evidente nas narrativas médias e longas do escritor. Espero que todos tenham gostado do Desafio Literário de setembro. Ler Rubem Fonseca é mergulhar no que há de mais interessante, ousado e forte na literatura brasileira contemporânea. E o(a) próximo(a) autor(a) que será analisado(a) no Bonas Histórias é a chilena Isabel Allende, uma das vozes mais importantes da literatura sul-americana da atualidade. A proposta do blog é novamente ler seis dos principais livros dela em outubro e, no final deste período, construir uma análise literária completa sobre o estilo de Allende. Bom Desafio Literário de outubro para todos nós! Bibliografia: AGÊNCIA RIFF. José Rubem Fonseca. Seção Nossos Autores - Escritores Brasileiros. Website da agência. Acesso em 20 ago. 2017. Link: http://www.agenciariff.com.br/site/AutorCliente/Autor/35 BONACORCI, Ricardo. Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca – Investigando a Nova Literatura Brasileira. Projeto de Iniciação Científica. Varginha: Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG), 2018. FONSECA, Rubem. O Caso Morel. Rio de Janeiro: Globo, 1973. FONSECA, Rubem. Feliz Ano Novo. São Paulo: Nova Fronteira, 1975. FONSECA, Rubem. A Grande Arte. São Paulo: Círculo do Livro, 1983. FONSECA, Rubem. Bufo & Spallanzani. 29a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1985. FONSECA, Rubem. Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. FONSECA, Rubem. Agosto. Coleção Folha de São Paulo. São Paulo: MEDIAfashion, 1990. FONSECA, Rubem. O Selvagem da Ópera. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. FONSECA, Rubem. E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. FONSECA, Rubem. O Doente Molière. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. FONSECA, Rubem. Diário de um Fescenino. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. FONSECA, Rubem. Mandrake - A Bíblia e a Bengala. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. FONSECA, Rubem. O Seminarista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. FONSECA, Rubem. José. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. PEREIRA, Maria Antonieta. No Fio do Texto - A Obra de Rubem Fonseca. Belo Horizonte: FALE/ UFMG, 2000. RODRIGUES, Sérgio. Rubem Fonseca Parece Encher Nova Obra com Esboços Tirados do Lixo. Folha de São Paulo. São Paulo, 8 abr. 2017. Ilustrada. TODOROV, Tzvetan. As Estruturas Narrativas. 5a ed., Coleção Debates, São Paulo: Perspectiva, 2013. VIANNA, Luiz Fernando. José, 80. Folha de São Paulo. Caderno Ilustrada. São Paulo: 7 mai. 2005. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: novembro/2021
Nunca antes na história desse país houve uma coluna miliádica tão literariamente densa, uma pepita de ouro que Paulo Sousa traz ao blog Bonas Histórias. Você sabe o que é densidade? É o conceito da física que mede o quanto de massa há num determinado volume. Fazendo essa introdução, podemos falar com total certeza de que a coluna Miliádios Literários de novembro, tão necessária à saúde mental dos brasileiros e dos leitores do Bonas Histórias, tem alta densidade literária. Provamos isso ao iniciar com Lygia Fagundes Telles, a dama da literatura, autora de “Ciranda de Pedra”, “As Meninas” e “Seminário dos Ratos” (Companhia das Letras), que faz 36 miliversários no dia 10. Até hoje, Lygia ganhou inúmeros prêmios, a saber: quatro Jabutis, quatro Prêmios da APCA, um Prêmio Camões e um Prêmio Juca Pato. António de Alcântara Machado, que escreveu “Brás, Bexiga e Barra Funda” (Melhoramentos) e “Laranja da China” (Clube de Autores), faria 44 miliversários no dia 11. António foi advogado e chegou a se eleger deputado federal, mas faleceu precocemente, com pouco mais de 12 miliádios de vida. Quem também faleceu em circunstâncias atípicas foi Euclydes da Cunha que, como jornalista, cobriu a Guerra de Canudos. Dessa experiência escreveu “Os Sertões” (Penguin), obra pré-modernista que entrou para a história da literatura brasileira. Seu mérito foi reconhecido ao se tornar membro da Academia Brasileira de Letras. Seu falecimento aconteceu há 41 miliádios completados no dia 15. Sua morte teve tom de tragédia pois, tendo descoberto a relação extraconjugal da esposa, fora tomar satisfação e assassinar o amante. Acabou ele sendo assassinado, num episódio conhecido como Tragédia da Piedade. José Lins do Rego, autor de “Menino de Engenho”, “Fogo Morto” e “Doidinho” (José Olympio), faria 44 miliversários no dia 20. O advogado é considerado um dos maiores romancistas regionalistas da história, tanto que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. José também foi cronista de jornais como Diários Associados e O Globo. Maria Firmina dos Reis nasceu no Maranhão e foi professora de primeiras letras. Ao lançar seu livro de estreia, “Úrsula” (Penguin), tornou-se a primeira mulher a publicar um romance no Brasil. Com o lançamento de “A Escrava” (Penguin), marcou época por ser defensora do movimento abolicionista. Seu falecimento completa 38 miliádios no dia 25. E, assim, terminamos a coluna Miliádios Literários mais densa da história. Com apenas cinco escritores, trouxemos prêmios, cadeiras silogísticas e posturas vanguardistas que moldaram a literatura nacional. Nos vemos no mês que vem aqui no Bonas Histórias! Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), da novela “Histórias de Macambúzios” e da coletânea poética “Acinte 2020”. Em seus textos, Paulo apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Dançarinas Históricas - Martha Graham
A norte-americana Martha Graham é uma das dançarinas mais importantes do século XX e ficou conhecida como a mãe da Dança Moderna. Nessa edição de outubro da coluna Dança, daremos sequência à série Dançarinas Históricas. Como você já sabe, esse espaço do Bonas Histórias é dedicado à apresentação da vida, da trajetória profissional, das realizações e do legado artístico das mulheres que marcaram a história da dança. Até agora, já comentamos as carreiras de Isadora Duncan, uma das pioneiras da Dança Moderna, e de Anna Pavlova, a mais importante bailarina russa de todos os tempos. No post de hoje, vamos falar de Martha Graham, a norte-americana que revolucionou a Dança Moderna e influenciou gerações de dançarinos no mundo inteiro. Martha Graham, bailarina e coreógrafa, nasceu em 11 de maio de 1894, na Pensilvânia. Seu objetivo maior era desvendar e revelar a alma humana através da arte dançante. Ela teve papel fundamental na história da Dança e é conhecida até hoje como a mãe da Dança Moderna. Se você estiver acompanhando assiduamente o conteúdo da coluna Dança aqui no Bonas Histórias, com certeza se lembrará desse nome. No post sobre a Dança Moderna e Dança Contemporânea – Surgimento e características, como não podia deixar de ser, mencionamos Martha Graham. E agora, nesse material produzido especialmente em homenagem às maiores dançarinas de todos os tempos, não poderíamos deixar de falar mais um pouco sobre ela. Martha Graham teve um papel tão fundamental para a dança que sua influência sobre essa arte é comparada à influência que Pablo Picasso teve nas artes visuais, a que Ígor Stravinsky teve na música e a que Frank Lloyd Wright exerceu na arquitetura (aliás, a arquitetura é uma das minhas outras paixões além da dança!). Duas revistas importantes demonstraram toda a magnitude de Graham: a Time a chamou de “A Dançarina do Século” e a People a colocou na lista das mulheres “Ícones do Século XX”. Martha Graham não foi efetivamente a primeira dançarina a iniciar as mudanças impostas pela Dança Moderna. Porém, seu trabalho não só ajudou a disseminar os novos paradigmas dessa modalidade, que abandonou a formalidade e a rigidez da dança clássica, como ainda revolucionou a própria Dança Moderna. Ela foi a responsável por influenciar as bailarinas de sua geração e teve seu trabalho reconhecido pelas gerações seguintes. A dança entrou na vida de Martha só na adolescência. E seu interesse por essa arte se deve muito ao seu pai. Ele era médico, especialista em disfunções neurológicas, e tinha uma atenção especial aos movimentos corporais de seus pacientes. Martha herdou do pai a crença de que o corpo é capaz de expressar os sentimentos e as sensações mais íntimas. Uma das frases mais famosas de Martha e que representa muito bem seus conceitos da dança é: “O corpo diz o que as palavras não podem dizer”. Em 1911, Martha Graham teve seu primeiro contato com a dança ao assistir à apresentação da bailarina Ruth St. Denis realizada no Mason Opera House, em Los Angeles. Fascinada pelo espetáculo, Martha se matriculou em um colégio voltado às artes. Assim que Ruth St. Denis fundou sua própria escola, a Denishawn, juntamente com seu marido Ted Shawn, a experiente dançarina recebeu uma nova e entusiasmada aluna – Martha Graham. A jovem que aspirava dançar profissionalmente fez parte da escola de Ruth St. Denis e Ted Shawn por oito anos, primeiramente como aluna e depois como professora. Esse momento foi muito importante para a formação de Martha, pois ela teve contato com danças do mundo inteiro, o que era uma novidade para as escolas norte-americanas. Assim, Martha Graham pôde conhecer a dança folclórica, a clássica, a experimental, a asiática, entre outras. O principal mestre de Graham foi Ted Shawm, que descobriu a força e a intensidade expressiva da pupila. Ele usou todo o potencial da jovem aluna em sua obra de balé asteca, “Xochitl”. Nessa peça, a atuação de Martha foi formidável, o que gerou grande repercussão entre o público e os profissionais da dança. A partir daí, Martha Graham se tornou a grande estrela da Denishawn. Em 1923, ela deixou a Denishawn e entrou para a revista Greenwich Village Follies, onde ficou por dois anos como a dançarina de destaque. Greenwich Village Follie foi uma revista musical que se apresentou de 1919 a 1927 no Teatro Greenwich Village. Em seguida, Graham foi para Eastman School of Music, companhia de Rochester, em Nova Iorque. Lá, ela deu aulas e fez experimentações no palco. Apenas em 1926, Martha Graham, então com 32 anos, lançou-se na carreira de dançarina solo em Nova Iorque. Nesse ano, ela fundou sua própria companhia de dança, a Martha Graham Dance Company. Dirigida por sua fundadora até o último dia de vida, a Martha Graham Dance Company existe ainda hoje e é considerada a companhia de dança com mais tempo ininterrupto de atuação nos Estados Unidos. Martha Graham foi responsável por coreografar mais de 200 peças. Suas obras apresentavam inovações nos movimentos e trabalhavam diversos temas como o folclore americano, a mitologia grega, questões sociais e políticas, a psicologia humana, a sexualidade e a sensibilidade feminina. O Ballet Clássico não era malvisto por Graham. Entretanto, aos seus olhos, essa era uma modalidade muito limitada, pois impossibilitava ao dançarino expor suas emoções, desejos, paixões e dramas. Os passos que Martha criou para sua dança queriam sempre expor os sentimentos e buscavam prioritariamente leveza, explosão e dramaticidade. Ela fez uso de movimentos básicos do corpo associando-os à respiração. Seu estilo era caracterizado por gestos amplos e pelo contato direto do corpo com o chão. Sua atuação não se limitava apenas à dança. Ela produzia e desenhava o próprio figurino e tinha papel importante na criação das músicas dos espetáculos. Martha Graham foi responsável por revelar grandes bailarinos e coreógrafos como Alvin Ailey, Anna Sokolow, Twyla Tharp, Elisa Monte, Paul Taylor, Merce Cunningham, entre outros. Em seus mais de 70 anos de carreira, Graham ganhou muitos prêmios e foi homenageada várias vezes. Ela foi a primeira bailarina a dançar na Casa Branca e a viajar para fora do país como embaixadora cultural. Em 1959, ganhou o prêmio The Laurel Leaf da American Composers Alliance por seus serviços prestados à música. Em 1976, o presidente norte-americano Gerald R. Ford, reconhecendo o papel relevante de Martha Graham na cultura de seu país, concedeu à dançarina o maior prêmio civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade, e a declarou um “tesouro nacional”. Em 1985, RonaldReagan fez questão que Martha fosse uma das primeiras a receber a Medalha Nacional das Artes. Fora da América do Norte, Martha Graham também recebeu homenagens e prêmios. A Chave da Cidade de Paris e a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês foram algumas honrarias entregues à dançarina. Martha traçou uma das mais importantes e longevas trajetórias da dança no século XX. Considerada por muitos como uma dançarina à frente de seu tempo, ela disse em uma entrevista ao Observer de Londres, em 8 de julho de 1979: “Nenhum artista está à frente do seu tempo. Ele é o seu tempo. Os outros é que estão atrás”. Ela faleceu em 1º de abril de 1991, em Nova Iorque, aos 96 anos. Em dezembro, voltarei ao Bonas Histórias para apresentar mais um capítulo da série Dançarinas Históricas. No último mês do ano, falarei de Márcia Haydée, uma das mais importantes bailarinas e coreógrafas brasileiras de todos os tempos. Não perca as novas edições da coluna Dança. Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Encontro Marcado - Uma surpreendente comédia romântica
Dirigido e roteirizado por Victor Levin e estrelado por Anton Yelchin e Berenice Marlohe, esse longa-metragem apresenta uma inusitada relação amorosa. Assisti, neste final de semana, a uma comédia-romântica inusitada. "Encontro Marcado" (5 to 7: 2014) é, em minha opinião, uma das melhores produções deste gênero dos últimos anos. Seu roteiro é excelente! O filme surpreende por deixar o espectador sem saber o que vai acontecer e por ironizar as diferenças culturais entre a França e os Estados Unidos. Esta é a opção perfeita para quem não gosta de comédias-românticas e/ou para quem não consegue ver diferenças entre elas. Só não vá confundir este longa-metragem com seu homônimo mais famoso, a produção de 1998 que tem Brad Pitt e Anthony Hopkins no elenco. Não é este o filme que estou me referindo aqui! O "Encontro Marcado" que estou elogiando (o outro também é muito bom, vale a ressalva) foi dirigido e roteirizado por Victor Levin, norte-americano especialista em comédia-romântica, e foi estrelado por Anton Yelchin e Berenice Marlohe. Talvez seja mais fácil achá-lo pelo seu nome original: "5 to 7". Aí fica mais difícil fazer confusão. O enredo de "Encontro Marcado" gira em torno da primeira paixão do jovem Brian (interpretado por Anton Yelchin). Ele é um escritor judeu na fase inicial da carreira. Morador de Nova York, o rapaz se apaixona pela estonteante francesa Arielle (Berenice Marlohe), quinze anos mais velha do que ele. Apesar da diferença de idade, a química do casal é imediata e eles passam a se encontrar regularmente sempre no mesmo horário: entre as 17 horas e as 19 horas (ou seja, das cinco da tarde às sete da noite). A felicidade do casal de namorados é abalada quando Brian descobre que Arielle é casada e tem filhos. O fato de ter um amante é encarado como algo normal e até natural pela francesa. Ela chega a contar essa situação para o marido, que já possui uma amante mais jovem há muitos anos, e até mesmo para os filhos pequenos. Na cultura francesa (segundo o filme), não há nada de errado em se casar com alguém e se apaixonar por outra pessoa. Já na crença do norte-americano Brian, aquilo é abominável. Ele não consegue se colocar no papel de amante. Tudo se torna mais difícil quando o rapaz tenta explicar a situação para os pais, um típico casal judeu tradicional. A cena em que Arielle se apresenta aos sogros, em "um jantar de família", é impagável. Parte da graça de "Encontro Marcado" está na visão antagônica que franceses e norte-americanos possuem do matrimônio e das relações extraconjugais. De acordo com o roteiro, enquanto os europeus são liberais (e um tanto libertinos), os homens e as mulheres nascidos nos Estados Unidos são mais conservadores. Há várias cenas engraçadíssimas que contrapõem esse choque cultural. O humor aqui é, ao mesmo tempo, sutil e nonsense. Há outros elementos interessantes que devem ser apreciados neste filme. A trilha sonora, composta por Danny Bensi, é excelente. Os diálogos também são primorosos. A fotografia ajuda a compor o clima de flerte e de paixão entre os protagonistas. E o que falar da beleza da atriz Berenice Marlohe?! Impossível não se apaixonar por ela. Marlohe está perfeita na versão moderna e francesa de "Mrs. Robinson", a mulher madura que age de forma sexy e fatal, seduzindo um rapaz mais jovem e inexperiente. O que mais gostei deste longa-metragem foi do seu surpreendente roteiro. Victor Levin esteve magnífico do início ao final quando escreveu esta história. Neste filme, somos levados pela trama sem conseguir prever o que vai acontecer. Eu tenho essa mania de tentar imaginar o que irá acontecer na metade final do filme. E em "Encontro Marcado", admito que não consegui sequer rascunhar, em minha mente, um possível fim para essa inusitada narrativa. O desfecho da trama também é sublime. O roteirista não recai aos escapismos, ao sentimentalismo barato e à artificialidade da ficção para encerrar esta história de amor. Ali tudo é fidedigno e concreto. Este choque de realidade é o que emociona o espectador. Talvez, as pessoas mais românticas e desejosas de finais felizes possam se frustrar um pouco. Mesmo assim, até mesmo elas precisam reconhecer a beleza e o lirismo do encerramento deste longa-metragem. O único ponto negativo deste filme é o seu nome em português. A tradução para nosso país do título original é péssima. Além de "Encontro Marcado" fazer referência a outro filme, perde-se o apelo das horas da versão em inglês. Das Cinco às Sete, uma tradução mais literal, poderia ser a chave para evitar confusões e aludir ao hábito francês de dar uma "escapadinha" (pulada de cerca) no final da tarde. Eu, que não sou muito fã de comédia-romântica, adorei "Encontro Marcado". Para mim, este é, sem dúvida nenhuma, o melhor filme deste gênero nos últimos anos. Leve e muito engraçado, ele também é profundo e dramático. Você pode tanto chorar de rir quanto chorar de tristeza com suas cenas. Tudo depende dos acontecimentos que se sucedem em frações de segundos diante dos seus olhos. Veja o trailer de "Encontro Marcado": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Talk Show Literário: Lia de Melo Schultz
A sétima entrevistada desse ano do TSL é uma das protagonistas de As Meninas, romance de Lygia Fagundes Telles publicado em 1973. [No canto esquerdo do palco, a banda toca os acordes de Get Out of Here. Com a virada de câmera, o apresentador surge sentado à mesa. Ao fundo, é possível ver o público no auditório. Ao primeiro aceno do âncora do programa, a música para totalmente]. Darico Nobar: Olá, Brasil!!! No Talk Show Literário dessa noite, vamos conversar com uma das personagens mais famosas de Lygia Fagundes Telles. Com vocês, ela: Lia de Melo Schultz, a minha protagonista favorita de As Meninas. [Sob os aplausos da plateia, uma moça gordinha vestindo camiseta vermelha com o rosto de Che Guevara estampado, saia florida, grossas meias brancas e alpargata azul se levanta do auditório. Com um movimento brusco, ela puxa as meias até os joelhos. A sacola de couro que carrega resvala no chão. Ao caminhar em direção ao entrevistador, a jovem parece se preocupar com as meias que insistem em escorregar. Ela sobe as escadas do palco em três saltos e se atira na poltrona]. Darico Nobar: Tudo bem com você, Lia? Lia de Melo Schultz: Tudo, mas, por favor, me chame de Rosa. Aqui eu sou Rosa. Darico Nobar: Rosa?! Seu nome não é Lia de Melo Schultz? Lia de Melo Schultz: Darico, não posso explicar. Queria apenas que você entendesse meu pedido. Aqui eu sou Rosa Luxemburgo. Pode ser, hein? Darico Nobar: Pode. É meio estranho, mas tudo bem. Aceita um chá, Rosa de Luxemburgo? [Pega o bule que está no aparador ao lado da mesa e oferece à convidada]. Lia de Melo Schultz: Não tem esse de. [Olha espantada para o bule]. Chinês? Darico Nobar: Não. É inglês. Lia de Melo Schultz: Obrigada, mas não tomo chá pequeno burguês. Darico Nobar: Por falar em nacionalidade, seu pai é alemão, né? Lia de Melo Schultz: Alemão mais louco, o meu pai. Se engraçou com minha mãe, uma legítima baiana, e acabou ficando depois da Guerra. Darico Nobar: É verdade que ele era nazista? Lia de Melo Schultz: Quando meu pai que é distraído à beça viu de perto o que era realmente o Nazismo, arrancou a farda e veio trotando até Salvador. Uma vez no Brasil, não quis mais saber de política e confusão... Será que amanhã você podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende? Darico Nobar: Suas meias estão caindo. Lia de Melo Schultz: Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha aí! No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa. Agora, não segura nada. Hoje tive que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia dá bolha no pé. Darico Nobar: O que tanto você carrega nessa sacola? Não é bomba nem panfleto subversivo, é? [Dá uma risada brincalhona]. Lia de Melo Schultz: Dariquinho, não começa, não gosto desse tipo de brincadeira [Cruza os braços]. Vai ceder o carro ou não? Devolvo no dia seguinte, pode confiar. Darico Nobar: Você sempre pedindo algo emprestado! Não tem vergonha?! Lia de Melo Schultz: Como um cristão pode falar assim? Jesus disse que deveríamos compartilhar o nosso pão com o próximo. Esqueceu? Darico Nobar: Desculpe-me. Lia de Melo Schultz: Você pergunta demais, entende? Darico Nobar: Claro! Esse é o meu papel no talk show. Sou o entrevistador, ora. Lia de Melo Schultz: Parece mais um torturador em busca de revelações e segredos. Por um acaso, você acha que sou sua prisioneira? [O apresentador balança a cabeça negativamente]. Porque, às vezes, temo ser raptada ilegalmente pelos militares que insistem em se manter no poder a qualquer custo. Darico Nobar: Você se sente uma prisioneira, Lia? Lia de Melo Schultz: Rosa!!! Darico Nobar: Ah, sim, Rosa. Você se sente uma prisioneira, Rosa? Lia de Melo Schultz: E quem pode arrotar liberdade hoje em dia, hein? A culpa é do imperialismo norte-americano. No Brasil, ainda vivemos na Idade Média, com tantas crianças morrendo de fome e de sede no Nordeste. Há tanta injustiça e tanto sangue nas ruas. É tão terrível ver esse descaso, essa desigualdade social, putz. Como pode, meu Deus, como pode? Revolta e náusea. É preciso ter um peito de ferro pra aguentar esse país, esses governantes, essa elite conservadora... Darico Nobar: Vivemos realmente um cenário aterrador. Lia de Melo Schultz: Nunca o povo esteve tão abandonado como agora. E a burguesia aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com as maçanetas de ouro, não só os talheres, mas as maçanetas das portas. As torneiras dos banheiros. Tudo de puro ouro como o gângster grego ensinou na sua ilha. Intactos. Assistindo da janela e achando graça. Resta a massa dos delinquentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia dúzia de intelectuais. Os simpáticos simpatizantes. Tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara. Darico Nobar: Vamos mudar um pouco de assunto. Conte-nos como é a vida no Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Lia de Melo Schultz: O que você quer saber especificamente, Darico? Darico Nobar: Comece falando, por favor, de Lorena Vaz Leme. Lia de Melo Schultz: Lena é uma fresca. Tá apaixonada por um homem casado que não dá bola para ela, coitadinha. Passa o dia minhocando, minhocações libidinosas. Nunca vi uma virgem ser tão sem vergonha. Só pensa em sexo. É sexo o dia inteiro naquela cacholinha. É a única coisa que ela faz, além de ouvir música alta e de esperar a ligação do amado. É uma tonta. Darico Nobar: Soube que ela é muito generosa. Lia de Melo Schultz: Loreninha é muito boazinha. Nunca deixa as amigas na mão. Sempre que apareço no quarto dela, vai logo tirando minha roupa e me jogando na banheira. Nunca vi alguém gostar tanto de dar banho nas amigas como a Lena. Darico Nobar: E a Ana Clara Conceição? Lia de Melo Schultz: O que tem ela? Darico Nobar: Fale dela, por gentileza. Vocês se dão bem? Ela é legal? Lia de Melo Schultz: Ana também é uma boa menina. Só tem a cuca meio entortada, sabe? Vive se picando, se pinoteando por aí, coisas de quem não tem família. Acho que tá desbundada. Dizem que ela é puta, mas não é verdade. O problema é que Aninha não sabe falar não. Aí já viu: moça bonita que não sabe falar não é um problemão. Darico Nobar: Soube que ela está grávida. Lia de Melo Schultz: Sim. De novo! E outra vez não é do noivo. Acho que a Lena irá ajudá-la. Estão pensando em ir ao médico e fazer tudo de uma vez. Darico Nobar: Fazer o quê? Lia de Melo Schultz: Ah, Darico, você sabe... Aproveita-se que vai tirar a pedra dos rins, por assim dizer, e aí retira também as amígdalas. Darico Nobar: Nossa! Será preciso tudo isso? Lia de Melo Schultz: O noivo dela é quadradão, um chato de galocha. Pensa que Ana é virgem. Aí já viu, né? Quer tudo certinho. E o que ela menos faz são coiselhas certinhas. Se ele souber o que a noivinha anda fazendo, na certa vai querer matá-la. Darico Nobar: E as freiras do pensionato? Elas são gente boa? Lia de Melo Schultz: A Madre Alix é uma santa, santa de verdade. É até difícil de acreditar que exista alguém tão pura, tão altruísta nesse mundo. Darico Nobar: E das outras irmãs, o que você pode nos contar? Lia de Melo Schultz: A Irmã Priscila, a mais novinha, e a Irmã Clotilde, a da voz de barítono, são legais. Gosto delas. São um pouco frustradas sexualmente como qualquer religiosa que se preze, mas não causam problemas para ninguém. A única que é carne de pescoço é a Irmã Bula. Dessa eu fujo como o Diabo foge da cruz. Darico Nobar: Por quê? Ela é tão ruim assim?! Lia de Melo Schultz: Dizem que gosta de escrever cartas anônimas para a Madre Alix. Nesses bilhetinhos, ela conta o que as meninas do pensionato fazem. Não suporto cagueta. Se bobear, Irmã Bula escreve até para o pessoal do Dops. Por falar nisso, quero o carro, Darico. Posso contar com seus préstimos? Darico Nobar: É para você ou para os amigos do seu namorado que está preso? Lia de Melo Schultz: Não fale assim do Miguel. Ele não é bandido. Bandido é o amante da Ana Clara. Aquele lá é quem deveria estar atrás das grades, não o meu Miguel. Darico Nobar: Até agora não sei direito porque prenderam o Miguel. Você poderia me contar de uma vez por toda essa história? Lia de Melo Schultz: Darico, isso não interessa agora. O importante é que ele será solto em breve. Está na lista dos que serão trocados. Soube dessa notícia agora pouco. Darico Nobar: Está bem, empresto o carro. Você precisa de mais alguma coisa? Lia de Melo Schultz: Se não for fazer falta, também gostaria de oriehnid. Darico Nobar: De quanto você precisa, minha filha? Lia de Melo Schultz: Um pouco. Vou fazer uma viagem e preciso tirar o passaporte, pegar umas roupas, enfim, essas coiselhas. Darico Nobar: Que viagem? Lia de Melo Schultz: Argélia. Não posso falar mais nada. Ainda é segredo. Darico Nobar: Está bem. Vou encerrar o programa e a gente vê o que pode fazer. Lia de Melo Schultz: Tá bom. [Despeja na mesa o conteúdo da sacola e começa a procurar algo]. Mas me diga, Darico: seu carro é russo ou cubano? Darico Nobar: Norte-americano. Lia de Melo Schultz: Então não precisa. [Continua vasculhando os itens da sacola]. Vou pegar emprestado o carro da mãe da Lorena. É melhor assim. É menos arriscado. Darico Nobar: Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. [Olha para a câmera posicionada ao lado de sua mesa]. Voltaremos na semana que vem com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva para vocês. Até lá! E boa noite. [Enquanto os créditos do programa sobem na tela, o entrevistador e a entrevistada continuam conversando amigavelmente. Ele saca a carteira e começa a contar as notas de dinheiro]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Romances: Primeira Página - Procurado
Escancarar o conflito logo de cara é a estratégia narrativa que prende a atenção do leitor e torna o texto ficcional mais dinâmicos. Três mil e quatrocentos... Serginho ainda fazia contas mentalmente quando pulou da cama. Era madrugada e ele não queria esperar o despertar do celular. Para que ficar deitado se não pregara o olho a noite inteira? Além do mais, o toque do aparelho poderia levantar suspeitas. Ele nunca acordava cedo. Nunca! Ainda mais durante a semana. O que os vizinhos de barracão iriam pensar da inesperada mudança de hábito, hein?! Serginho não podia correr riscos. Precisava sair de casa logo e na surdina. Olhou no relógio do celular: eram quatro e cinco. Talvez não encontrasse muitos conhecidos pelas ruelas do bairro naquele horário. Na certa, Paulínia já estava de pé e com o menino a tiracolo. Porém, dificilmente ela sairia de casa antes das cinco. Quanto ao Seu Peixoto e ao Humberto, eles deviam, naquela altura do campeonato, estar puxando um ronco bravo. Só de pensar na palavra “deviam”, Serginho estremeceu. Ele tinha alguma chance de sair daquela enrascada? Sim, mas era preciso agir. Agir rápido. Agir com inteligência. Três mil e quatrocentos... Três mil e quinhentos se fosse arredondar. Com essa grana no bolso dava para pagar todo mundo e sua barra ficaria novamente limpa. Pelo menos por mais um tempinho. O melhor é que ainda sobrava um trocado para a comemoração, que seria obviamente no bar da Sueli ou na casa da Dinorá. O que o agonizava era não saber como levantar aquela quantia em tão pouco tempo. Serginho não tinha um plano definido. Ainda! A preocupação agora era deixar o subúrbio e seguir para o centro. Lá, as chances de topar com a ex-mulher, com o dono do barracão ou com o desgraçado do irmão eram menores. Uma vez na rua, ele pensaria o que fazer. Ao terminar de vestir a camiseta regata, o bermudão e o chinelo, Serginho bateu o olho no que sobrou do espelho da porta do armário do quarto, que ficava na verdade na sala. Sua imagem o assustou. A barba comprida, o cabelo desalinhado, as olheiras profundas e a roupa velha não combinavam com a aparência que ele precisava para aquele dia tão importante. A sujeira no espelho também não contribuía em nada para torná-lo um homem respeitável nem mesmo aos próprios olhos. Como iria conseguir três mil e quinhentos contos daquele jeito, me fala? Jamais! Ninguém lhe daria um centavo, o que dirá três mil e... três mil e setecentos, se quisesse arrumar o espelho. Se bem que era a Paulínia quem deveria pagar por aquilo. Não foi ela quem atirou o vaso na porta do armário quando descobriu que ele estava saindo com a Lurdinha? O reflexo no espelho fez Serginho mudar os planos. Melhor se atrasar uns minutinhos agora do que chegar ao centrão desarrumado. Por isso, o rapaz ferveu água na chaleira e, para ganhar tempo, fez a barba na pia da cozinha. Usou para isso a faca mais afiada que tinha, o que não era grande coisa. Depois, levou a chaleira para o banheiro, atirou o líquido no balde e misturou com água fria. O banho foi rápido e morno. Um luxo que há muito tempo não se dava. Agora era só colocar a roupa de domingo, aquela que usava quando ia aos cultos do Pastor Macedo, e pá-pum – pegaria o busão em direção à Praça da Matriz com uma aparência impecável. Ao sair de casa, encostou a porta da frente para não fazer barulho. A escuridão e o silêncio ainda tomavam conta do bairro humilde quando o rapaz apertou os passos. O cenário pacato era uma arma de Serginho. Se tudo desse certo, ninguém iria notar sua presença por ali. Ainda bem que acordara cedo e saíra antes do sol pintar. Acordara?! Como poderia falar aquilo se nem conseguiu dormir, né? Para se certificar do horário, olhou mais uma vez para o relógio do celular. Eram... eram... eram... Depois de um chacoalhão e duas batidas no aparelho, descobriu que o bichano estava apagado. Como era possível o telefone ter morrido se Serginho o tinha recarregado na noite anterior? A bateria foi para o saco, pensou. Ela já dava sinais do fim há alguns dias. Revoltado com a má sorte, o moço não se aguentou e soltou um palavrão aos quatro ventos. – Quem tá aí?! A voz era do Geraldo, que muito provavelmente rumava naquele horário para a padaria no alto do morro. A presença de alguém oculto na escuridão deve ter preocupado o padeiro. Seria um assaltante na espreita? – Calma, Geraldão. Sou eu, parceiro, fique de boa – Serginho aproximou-se do meio da rua, onde a luz de um poste enfim o descortinou em sua totalidade – Achou que fosse o bicho-papão, hein? – Cara, cê quase me mata de susto, porra! O que ocê faz de pé nessa hora, ainda mais vestido como homem?! Até o cabelo tá lambido. E fez a barba. – Engraçadinho. Tó indo pro centro. Vou trampar. Sabe como é, tem uma hora na vida que a gente precisa fazer isso. – Só ocê memo, Porralouca. De pé na madruga e falando que vai trampá. Não tá cedo para vir com lorota para cima de mim? – Cala boca, Geraldão. Vai fazer pão que você ganha mais e me deixa com meus problemas. Sem se despedir, Serginho virou à esquerda na primeira esquina e desceu a ladeira, em caminho oposto ao padeiro. Mal tinha ficado sozinho outra vez, ele se arrependeu daquele encontro fortuito. Na certa, Geraldo iria contar para todo mundo que o viu perambulando pelo bairro logo cedo. Eita sujeitinho mais cagueteiro aquele. Paciência! Se Serginho voltasse à tarde com três mil e setecentos no bolso, o povo poderia falar o que quisesse. Sua vida não era da conta de ninguém. Ou de quase ninguém. Insistentemente, Paulínia, Seu Peixoto e Humberto cobravam-lhe um comportamento compatível a de um pai de família. Pai de família?! Serginho riu e olhou novamente para o celular. Talvez o melhor fosse voltar com três mil e novecentos reais. Ele precisava de um aparelho novo. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “Procurado”: Escancarar o conflito logo de cara. Escancarar o conflito logo de cara é uma das estratégias narrativas que os escritores têm para prender rapidamente a atenção do leitor e, principalmente, para apresentar quase que instantaneamente o enredo do conto, novela ou romance. Afinal, não há nada mais chato do que ler algo sem entender o sentido daquela trama e a lógica por trás das ações das personagens. Para evitar esse tropeção, infelizmente comum na literatura comercial, nada melhor do que expor já de saída o conflito. Essa técnica é comumente usada em thrillers e em romances policiais, mas pode ser aplicada em vários gêneros ficcionais. A vantagem de se escancarar o conflito logo de cara é que o leitor sabe já nas primeiras páginas o problema central que move os protagonistas. Se os acontecimentos que modificaram a vida das personagens principais são significativos, impactantes, dramáticos, originais e inusitados, a chance de o público continuar lendo a história é alta. Além disso, uma vez apresentada a dinâmica da trama, o autor pode se concentrar nos desdobramentos da narrativa, o que a torna dinâmica. A desvantagem desse tipo de estratégia é que, se o conflito não for forte, não estiver bem formulado e/ou não ser criativo ao ponto de empolgar rapidamente o leitor, temos a possibilidade de o público descartar a leitura em poucas páginas, não dando muitas chances para o texto. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: outubro/2021
Para delírio dos milietes de plantão, Paulo Sousa brinda os leitores do Bonas Histórias com mais uma coluna repleta de efemérides literárias. Queridos leitores! Aqui vai mais uma coluna Miliádios Literários no Bonas Histórias, este blog tão maravilhoso! E não percamos tempo, comecemos as efemérides de outubro de 2021 com Juan Carlos Onetti, autor de “Junta-cadáveres” e “O Estaleiro” (Planeta), que completaria 41 miliádios no dia 1º. Ele é considerado o maior escritor uruguaio da história. Outro grande escritor hispanófono é Roberto Bolaño, que escreveu os livros “2666”, “Putas Assassinas” e “Noturno no Chile” (Companhia das Letras). Ele nasceu há 25 miliádios completados no dia 8. Bolaño foi um grande crítico da ditadura chilena, tendo sido preso após o golpe de Pinochet. Também crítico da ditadura, só que da brasileira, Zuenir Ventura completaria 33 miliversários no dia 6. Ele escreveu “1968: O Ano que Não Acabou” e “Mal Secreto: Inveja” (Objetiva). Ventura foi eleito para a Academia Brasileira de Letras sucedendo Ariano Suassuna. Ficando na literatura nacional, Lourenço Mutarelli, autor de “O Cheiro do Ralo”, “Nada Me Faltará” e “O Natimorto” (Companhia das Letras), completa 21 miliversários no dia 16. O autor passou por uma situação bizarra, quando duas “amigas” forjaram um sequestro relâmpago que, na verdade, o levaria para uma festa surpresa. Esse episódio desencadeou crises de depressão e ataques de pânico. Jack Kerouac, autor de “On The Road – Pé na Estrada”, “Os Vagabundos Iluminados” e “Big Sur” (L&PM), faleceu há 19 miliádios completados no dia 28. Ele foi um dos líderes do movimento beat que, jocosamente, foi apelidado de beatnik pela burguesia americana, que associava aqueles jovens errantes ao comunismo russo. Continuamos a coluna miliádica com um mestre, talvez a pessoa que melhor entendeu a alma do brasileiro: Mario de Andrade, autor de “Macunaíma” (Nova Fronteira), “Pauliceia Desvairada” e “Lira Paulistana” (LaFonte), expoente do modernismo e vaca sagrada da literatura nacional. Ele faleceu há 28 mil dias completados no dia 24. Quem também foi um modernista lusófono, mas que viveu na Terrinha, foi Mário de Sá-Carneiro, autor de “A Confissão de Lúcio” (Nova Fronteira) e “Dispersão & Indícios de Oiro” (Moinhos). Ele fez parte da Geração d’Orpheu, revista modernista portuguesa lançada em 1915, e faleceu no ano seguinte. Sua morte completa, então, 48 miliádios no dia 19. Para tristeza de todos os nossos seguidores, a quem chamamos de milietes, finalizamos a coluna Miliádios Literários deste mês. Fiquemos com uma das filósofas mais influentes do século XX, Hannah Arendt. Ela é autora de “Homens em Tempos Sombrios” e “Origens do Totalitarismo” (Companhia das Letras), e nasceu há 42 miliádios completados no dia 10. That’s all Folks! Mês que vem, se tudo der certo, estaremos aqui novamente. Até mais! Em memória de... ... António José da Silva, autor de “Guerras do Alecrim e da Manjerona” (Leaf), que faleceu há 103 miliádios completados no dia 19. ... Plínio Marcos, autor de “Navalha na Carne” (Senzala) e “Medo Líquido (Zahar), que faleceu há 8 miliádios completados no dia 24. ... Matsuo Bashô, autor de “Trilhas Longínquas de Oku” (Escrituras), que nasceu há 138 miliádios completados no dia 31. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), da novela “Histórias de Macambúzios” e da coletânea poética “Acinte 2020”. Em seus textos, Paulo apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Dança Solta - História, características e benefícios dessa modalidade dançante
Conheça a Dança Solta, estilo de dança indicado para todas as idades e que permite grande liberdade de movimento aos seus praticantes. Não quero parecer egoísta, mas vou falar no post de hoje do Bonas Histórias de uma dança que é uma das minhas queridinhas. Gosto muito dessa modalidade porque ela proporciona inúmeros benefícios à saúde e é indicada para praticantes de todas as idades. Além disso, eu ministro esse estilo diariamente tanto em aulas online quanto em aulas presenciais na minha academia de dança, a Dança & Expressão. Estou falando da Dança Solta, meu assunto nessa edição da coluna Dança. Em um primeiro momento, esse nome pode causar certa confusão. Dança Solta pode dar a impressão de que representa qualquer estilo de dança que se pratica, como o próprio nome já diz, de forma solta. Aí a pessoa logo pensa: essa é uma modalidade indicada para quem deseja dançar individualmente, não precisando de um parceiro ou de um grupo de dançarinos. Infelizmente, essa ideia é equivocada. Cuidado com as falsas impressões deixadas pelo nome desse ritmo. No post Primeiros Passos – Dicas para quem quer começar a dançar, eu comentei que uma das maneiras para você descobrir qual é o estilo de dança que melhor irá agradá-lo(a) é se perguntando como você deseja praticar a modalidade dançante: sozinho ou em par? No primeiro caso, temos o Jazz, o Ballet, a Dança Moderna e Contemporânea e tantas outras que praticamos individualmente. No segundo caso, temos os vários estilos de Dança de Salão que são executados em casal. Portanto, se você achar que a Dança Solta é algo feito exclusivamente sozinho, você pode estar cometendo um erro elementar. Antes de explicar os detalhes da Dança Solta, gostaria de começar esse debate apresentando como ela surgiu. Assim, tenho certeza de que você entenderá melhor a proposta desse estilo e a sua dinâmica. O precursor da Dança Solta é o professor e coreógrafo Luiz Sander, também conhecido como Mineirinho de Maceió. O apelido veio por ele ter nascido em Minas Gerais e passado boa parte da vida morando em Maceió. Como professor de Dança de Salão, Mineirinho de Maceió foi contratado para fazer uma apresentação de Tango em um evento corporativo. No dia e hora agendados, lá estava ele esperando para se apresentar. Porém, sua parceira simplesmente não apareceu. Como tinha sido contratado para entreter os convidados do evento, ele teve que improvisar alguma dança para animar a plateia. Contudo, o dançarino foi além. Ele não apenas dançou como também chamou todo mundo para acompanhá-lo na dança. E o que as pessoas iriam dançar?! Nem o Luiz Sander sabia. Tudo nasceu livremente. O DJ ia soltando algumas músicas, que o Mineirinho de Maceió nem sabia quais seriam, e o professor no palco ia criando alguns passinhos para que o público pudesse repeti-los. Tudo foi feito no improviso e sem uma preocupação formal. O resultado foi uma noite de muita diversão, descontração e alto-astral. E desse jeito meio amalucado nasceu a Dança Solta. O maior objetivo dessa atividade é que todos possam se soltar, ser livres e não ficar presos às regras e às técnicas da dança. De forma lúdica e alegre, as pessoas aprendem a dançar quase sem perceber. A máxima da Dança Solta é a descontração. Sabe aquele dia estressante em que você só pensa em como seria bom chegar em casa, colocar uma música para tocar e sair dançando livremente, sem pensar em mais nada? Esse é o clima nas aulas da Dança Solta. Mesmo que as músicas já tenham a coreografia criada pelo professor, ninguém precisa se preocupar com os passos pré-definidos. Eles estão ali quase que disfarçados em movimentos soltos e espontâneos. E quem quiser pode improvisar, o importante é ser feliz em cada passo, em cada batida do ritmo da música. E por falar em ritmos, você deve estar querendo me perguntar: “Marcela, e qual é a música que se dança nessa modalidade?”. A minha resposta é: todas! Isso mesmo – a diversidade musical reina por aqui. De músicas antigas até as mais novas todas são bem-vindas. A Dança Solta, assim como toda boa dança, proporciona bem-estar físico e mental aos seus praticantes. Em uma aula, dependendo da intensidade que cada dançarino se movimenta, a perda calórica pode variar de 600 a 800 calorias. Essa é uma atividade aeróbica completa, que ajuda a melhorar o condicionamento físico, a coordenação motora e a flexibilidade. Os praticantes dessa modalidade desenvolvem a autoconfiança e melhoram a autoestima. A diversidade não se limita apenas às músicas, mas está presente também entre os “soltarinos”, como o Luiz Sander gosta de chamar os dançarinos da Dança Solta. Todas as idades e gêneros podem experimentar e desfrutar dessa dança. A única obrigação aqui é ser feliz e se soltar, sem ficar preso a padrões e regras. E talvez até por essa razão de não se limitar, de ser livre, sem que haja julgamentos de certo e errado, se está bonito ou não, que um público que se encontrou nessa modalidade é o da Terceira Idade. Nessa fase da vida o que mais as pessoas querem é não ter preocupações, se livrar de toda e qualquer rigidez. E nada melhor do que dançar para isso, né? A dança é, sem dúvida, uma forma de se envelhecer com mais saúde e qualidade de vida. A Dança Solta é a escolha perfeita para quem quer uma atividade aeróbica de baixo impacto. Nas coreografias, os movimentos são ritmados e se aproximam às ações e aos gestos que fazemos no dia a dia. Com o passar do tempo, naturalmente, nossos corpos e nossas mentes vão passando por transformações. Em algumas fases da vida, essas mudanças são mais discretas e em outras, como na terceira idade, são mais expressivas. É fundamental que a partir dos 60, 65 anos a atividade física seja estimulada constantemente com exercícios que ajudem a minimizar os efeitos do tempo em nossa agilidade, coordenação e condicionamento físico. Uma pesquisa feita pela faculdade de medicina da Universidade de Washington com pacientes que sofrem de Parkinson revelou que os praticantes de dança reduziram a incidência de quedas e melhoraram o tônus muscular. Além disso, a pesquisa mostrou indicadores positivos nos processos cognitivos dos dançarinos como atenção e memória. Quem dança regularmente ainda apresenta, segundo o estudo norte-americano, melhora dos movimentos em ritmo, velocidade e agilidade. No geral, a dança para a terceira idade ainda está relacionada a uma oportunidade de fortalecer o convívio social e de estabelecer novas amizades. Esse fator é muito importante para essa faixa etária, porque assim os dançarinos começam a se sentir parte de um grupo, afastando o sentimento de solidão e de abandono, que é muito comum nessa fase da vida e que pode levar à depressão. A Dança Solta trabalha a estabilidade motora, o equilíbrio corporal e o ganho muscular, o que previne quedas e fraturas. Através do movimento constante do corpo, com movimentos do nosso cotidiano, há a melhora da coordenação motora e da coordenação viso-motora dos dançarinos. Que tal uma atividade para afastar de vez com o sedentarismo, hein? Não importa a sua idade, você já pode começar a praticar a Dança Solta agora mesmo. Já estamos terminando o nosso post de hoje do Bonas Histórias, mas ainda quero incentivá-lo(a) a dançar solto e feliz. Vou deixar uma frase de nosso poeta e escritor Augusto Branco: “Não é o ritmo nem os passos que fazem a dança. Mas a paixão que vai na alma de quem dança”. No mês que vem, voltarei à coluna Dança para apresentar um novo capítulo da série Dançarinas Históricas. No meu texto de outubro, trarei detalhes da vida e da carreira de Martha Graham, bailarina e coreógrafa norte-americana conhecida como a Mãe da Dança Moderna. Nos vemos em breve! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Romances: Primeira Página - Palco Vazio
Valendo-se do recurso da divagação, Ricardo Bonacorci apresenta o segundo texto da nova série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Por instinto, pego o violão, o caderno e a caneta. Corro para o porão e tranco a porta. Quero ficar escondido dos olhos da Ceci e dos ouvidos das Marias. Ou seria o contrário: dos ouvidos da patroa e dos olhos das princesinhas? De qualquer forma, sinto vergonha de ser pego com a música a me rodear novamente. Como um jogador aposentado, não gosto de ser visto usando o uniforme antigo e as velhas chuteiras. Como um guerreiro há muito esquecido, dói pegar as armas e as armaduras penduradas na parede. Os bons tempos ficaram para trás. Sei que você sabe disso. E você também sabe que eu sei que você sabe. Afinal, todo mundo parece conhecer minha sina! Todo mundo não: só aqueles que ainda não se esqueceram totalmente de mim. Enquanto meu passado era colorido, meu presente é em branco e preto. Tento seguir em frente. Percorro as estradas escuras da minha nova rotina. Para não cair nas valas sem fundo da memória, tento não recordar os dias iluminados de outrora. Nunca é fácil. Hoje, por exemplo, estou saudosista – radicalmente saudosista. Sozinho no subsolo da existência, esboço os acordes iniciais de Sofri Demais. Se você tem mais de trinta e cinco anos, com certeza conhece a minha canção. É aquela do refrão: Não quero te ver jamais/Sofrer é tudo o que você me faz/Olhar você me dói demais/E agora não adianta a rosa que me traz. Não me venha com frescurite, sei que você conhece a letra. Até um marciano que visitou o Brasil na década de 1990 ainda cantarola essas frases de vez em quando. Bem de vez em quando, mas canta. Minha garganta coça. Talvez, ela ainda esteja condicionada a cantar esses versos, mesmo depois de tanto tempo. É só dedilhar as notas no violão e pronto: tudo volta à tona. Esquecer uma música é difícil. Esquecer o cantor dentro da gente é ainda pior. Há coisas que ficam grudadas na alma, que nos acompanham por onde formos. Um amputado ainda sente o membro que lhe foi arrancado. Um artista alijado ainda pode sentir a antiga emoção dos palcos, mesmo sabendo que agora eles estão vazios. Vazios para sempre, para todo o sempre! ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “Palco Vazio”: divagação. A divagação é a estratégia de começar uma trama ficcional a partir dos pensamentos, das angústias íntimas, das confusões psíquicas e das reflexões filosóficas do narrador-personagem ou do protagonista. Assim, o leitor é atirado ao turbilhão emocional da figura central do relato. Essa técnica pode ser aplicada tanto em textos na primeira pessoa quanto em textos na terceira pessoa. A divagação é o tipo de início que exige geralmente grande habilidade do autor, que precisa saber dosar corretamente o tom e a temática abordados. Se bem-feito, pode-se ter um começo de narrativa memorável e convidativo. Se malfeito, pode-se ter um princípio confuso, pouco convidativo e entediante. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Romances: Primeira Página - O Pobre Milionário
Recorrendo à técnica da descrição de cenários, Ricardo Bonacorci apresenta o terceiro início de narrativa da nova série da coluna Contos & Crônicas. No sobe e desce das curvas verdejantes de Minas, escondia-se um povoado peculiar. O que ele tinha de diminuto em extensão, tinha de grandeza em inquietação. Povolândia do Alto surgia no horizonte tão logo os tropeços das águas barulhentas do Rio Deus-me-livre se amansavam. Ou para quem vinha do Norte, bastava dizer que passando Pedra Branca, ponto turístico da vizinha Azeludinha da Enxada, virando à direita, caminhando cinco quilômetros em linha aparentemente reta, chegava-se às primeiras araucárias da cidade. Daquele ponto da planície já era possível avistar ao longe os contornos das maiores edificações povolandenses do alto, como a torre da igreja, o último andar da prefeitura e a ponta da antena de rádio. A casa do Armandinho até que estava perto, mas não era visível dali, oculta que estava pela mata fechada. Obviamente, para descobrir o pequeno município, o viajante não podia estar com pressa. Caso contrário, não notaria o cinza artificial por de trás do verde das árvores e das montanhas e do azul do rio e do céu. Nos dias nublados, o branco vinha compor a paleta de cores daquela tela. Para se chegar ao centro de Povolândia do Alto, era preciso caminhar mais um tantinho pela estrada de terra batida. Muita gente só considerava estar em solo urbano depois de cruzar a ponte sobre o Deus-me-livre. Outros achavam que era necessário enxergar o coreto da Praça Coronel Ataúde ou a fachada da Igreja Matriz. Alguns ainda afirmavam que você só chegava ao povoado se topasse com o Bernardo Bebe-pouco dormindo na calçada de boca aberta, se visse Dona Cleide encostada na janela com a língua solta ou se trombasse com o Fernandinho varrendo as ruas como se a sujeira fosse culpa sua. De qualquer modo, uma vez lá, e a chegada a esse lá ficava à cargo de cada um, era possível sentir o perfume do pinhão fervendo, das folhas batendo nas árvores, do café sendo coado, da inocência da infância, do tique-taque dos relógios analógicos e das galinhas no fundo dos quintais. O que não se sentia, definitivamente, era o cheiro do dinheiro. E do progresso. Esse tipo de odor passava longe dali. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “O Pobre Milionário”: descrição de cenários. A descrição de cenários é uma das mais antigas estratégias para se começar uma história. Com esse expediente literário, o(a) autor(a) ficcional inicia seu relato apresentando as particularidades do espaço narrativo. De modo geral, a ideia de quem utiliza essa técnica é que, ao conhecer os detalhes da paisagem em que a trama está inserida, o leitor se sentirá envolvido para continuar a leitura. A descrição de cenários é muito usada na literatura infantil, nos romances românticos (romântico aqui se refere ao Romantismo, movimento literário do século XIX), nas aventuras de ficção científica e em narrativas históricas. O maior risco dessa estratégia é deixar o texto muito descritivo (algo que torna o ritmo narrativo lento e a leitura cansativa). Por outro lado, se bem-feito, o(a) escritor(a) consegue introduzir rapidamente a ambientação, o que cativa o leitor a continuar acompanhando as próximas páginas do romance ou da novela. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















