top of page

Sistema de Pesquisa

Resultados encontrados para busca vazia

  • Livros: História da Menina Perdida - O quarto romance de Elena Ferrante da Série Napolitana

    Lançado em 2014, este título encerra a saga de Elena Greco e Rafaella Cerullo, as amigas que têm uma relação conturbada. Na semana passada, eu afirmei no post do Desafio Literário que estava em dúvida sobre qual seria o melhor livro da Série Napolitana, a coleção de quatro romances de Elena Ferrante que apresenta o drama de duas amigas da infância à velhice. Minha indecisão era fruto da excelência de “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul) e “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul), respectivamente a primeira e a terceira obras da tetralogia. Considerei esses títulos ficcionais simplesmente fantásticos. Obviamente, excluí dessa comparação “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), o segundo volume da saga de Ferrante. Afinal, considerei a segunda parte um pouco inferior à primeira e à terceira. Talvez o correto não seja dizer inferior e sim aquela narrativa com menos atrativos e surpresas. Hoje, porém, volto ao Bonas Histórias para sair definitivamente de cima do muro. Li no último final de semana “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), o quarto e último romance da saga de Elena Greco e Rafaella Cerullo, as duas amigas napolitanas que se amam e se odeiam desde os seis anos de idade. E após essa leitura, tenho agora uma definição clara sobre a questão que tanto me atormentava. Para mim, essa última parte da série é a melhor. Em “História da Menina Perdida”, Elena Ferrante conseguiu encerrar sua saga histórica com páginas ainda mais surpreendentes, dramáticas e contundentes, além de ter acrescentado doses mais generosas de violência, reviravoltas e suspense psicológico. Se os outros livros da coletânea narrativa são fantásticos, esse é sublime. Em outras palavras, “História da Menina Perdida” potencializou os dramas das obras anteriores e amarrou de maneira belíssima o conflito que permeou os quatro títulos. Se você ficou de queixo caído com o conteúdo de “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome” e “História de Quem Foge e de Quem Fica”, saiba que a trama do quarto volume da Tetralogia Napolitana é ainda mais incrível. Confesso que fiquei com o coração na mão em vários momentos dessa leitura. Publicado na Itália em 2014, “História da Menina Perdida” relata a vida de Elena Greco e Rafaella Cerullo em duas fases: a da maturidade e a da velhice. Ou seja, o enredo do romance vai de 1976 a 1985 (período da maturidade) e de 1985 a 2010 (parte definida como sendo a velhice). Além disso, ainda temos nessa obra o Epílogo. Nessa última seção, ficamos sabendo mais detalhes sobre o estranho sumiço de Rafaella, mistério exposto nos capítulos iniciais do primeiro livro da série (episódio ocorrido em 2010). Os fãs mais assíduos de Elena Ferrante irão perceber que este é o volume da tetralogia que abrange o maior período temporal – os relatos percorrem três décadas e meia da vida da dupla de protagonistas. Vale lembrar que “A Amiga Genial” enfoca a infância e a adolescência (1950 a 1959), “História do Novo Sobrenome” trata da juventude (1960 a 1969) e “História de Quem Foge e de Quem Fica” apresenta a idade adulta (1969 a 1976) de Lenu e Lila, como as personagens principais são chamadas carinhosamente por amigos e familiares. No caso da idade adulta, esse período foi intitulado na obra em questão como sendo a fase intermédio (seja lá o que isso queira dizer!). Em 2015, “História da Menina Perdida” foi indicado ao Prêmio Strega, o mais tradicional e prestigiado da literatura italiana. Contudo, na final, o romance de Elena Ferrante acabou preterido. O vencedor daquele ano foi “La Ferocia” (sem publicação ainda no Brasil), suspense de Nicola Lagioia. Por aqui, o quarto título da Série Napolitana foi lançado em português em abril de 2017 pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo. Assim como as três obras da coletânea, esse livro também foi traduzido para nosso idioma por Maurício Santana Dias. O enredo de “História da Menina Perdida” começa exatamente na cena em que “História de Quem Foge e de Quem Fica” terminou. Para quem não se lembra do desenlace do título anterior da série, Elena Greco deixou, em 1976, uma carta para o marido, Pietro Airota, e outra para as filhas, Dede e Elsa. Em suas missivas, a escritora napolitana explicava a fuga de casa. Ela decidiu abandonar a família para passar alguns dias com o amante, Nino Sarratore, em Montpellier. Na França, Nino participaria de um congresso acadêmico e convidou Lenu para acompanhá-lo. Morrendo de amores pelo rapaz, a narradora-protagonista não pensou duas vezes: largou tudo em Florença e correu para o aeroporto. Esse é, sem dúvida nenhuma, um dos episódios mais emblemáticos da Série Napolitana. Obviamente, a viagem de Elena com o amante sacramentou o fim de seu casamento com Pietro. A partir daí, Lenu abandonou definitivamente a casa em Florença e retornou para Nápoles, onde passou a viver com as filhas ao lado de Nino, que também se separou da mulher. A união com o professor universitário representou o período mais feliz da vida de Elena Greco. Pela primeira vez na vida, ela ficava com o homem que amou em segredo desde a infância. Aos seus olhos, Nino Sarratore era o companheiro perfeito. Entretanto, o novo relacionamento de Lenu não foi bem-visto por familiares e amigos. A primeira a se opor àquela união foi Rafaella Cerullo. Lila achou um absurdo a melhor amiga largar um homem sério e correto como Pietro para viver com um traste como Nino. Para ela, o novo companheiro de Elena era uma pessoa pouquíssimo confiável. Os pais e irmãos de Lenu também não aceitaram a nova estrutura familiar da moça. Não é preciso dizer que Pietro e seus pais também ficaram uma fera com Elena. Indiferente à opinião dos outros, Elena Greco viveu feliz com Nino Sarratore em um apartamento em Nápoles por vários anos como se fossem marido e mulher. O resultado concreto dessa união foi o nascimento, em janeiro de 1981, de Immacolata, a filhinha do casal. Como Rafaella também teve uma filha, Tina, 20 dias depois do parto de Elena, as duas amigas voltaram a se aproximar como nos velhos tempos. No início dos anos 1980, Elena e Rafaella se tornaram mais uma vez amigas inseparáveis. Uma cuidava da filha da outra e ambas as mães se visitavam diariamente. Contudo, enquanto Lenu via sua carreira de escritora sucumbir frente às obrigações domésticas e às necessidades das filhas, Lila se tornava uma bem-sucedida empresária do ramo da computação. A ascensão financeira e profissional de Rafaella mexeu com a dinâmica de poder no bairro. Os irmãos Marcello e Michele Solara, herdeiros de uma tradicional família camorrista de Nápoles, não aceitaram o progresso da adversária e começaram a tramar contra Lila. Unidas, Elena Greco e Rafaella Cerullo combateram os irmãos encrenqueiros como puderam. As amigas não imaginavam, mas ambas seriam vítimas de fatalidades do destino. Enquanto Lenu precisou encarar uma traição doméstica dolorosa, Lila se viu furtada daquilo que lhe era mais importante. Não à toa, Rafaella surtou com a tragédia pela qual foi vítima, o que fez azedar para sempre a relação com a amiga. À medida que se desentendiam e se distanciavam, as protagonistas do romance assistiram a suas vidas caminhar para direções totalmente opostas. A carreira de Elena Greco voltou a prosperar e a de Lila desandou de vez. “História da Menina Perdida” é o romance mais extenso da Tetralogia Napolitana e da literatura de Elena Ferrante como um todo. Essa obra possui 480 páginas. Seu conteúdo está dividido em três partes: Maturidade (com 110 capítulos), Velhice (53 capítulos) e Epílogo (2 capítulos). Há ainda a Lista de Personagens no início do livro, algo que acompanha todos os volumes da saga. Essa seção serve tanto para esclarecer quem é quem na trama (ajuda fundamental para um enredo com mais de meia centena de personagens) quanto para resumir o que ocorreu nos títulos anteriores (afinal, a coletânea inteira tem mais de 1.700 páginas). Precisei de cerca de 13 horas para ler “História da Menina Perdida” de cabo a rabo no último final de semana. Basicamente, li metade do livro na sexta-feira e a outra metade no sábado. O primeiro aspecto que chama nossa atenção em “História da Menina Perdida” é a questão do ciúme. Se o mote em “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome” e “História de Quem Foge e de Quem Fica” era a inveja que Elena Greco sentia de Rafaella Cerullo, nesse romance temos o acréscimo do ciúme. Para surpresa dos leitores, Lenu se torna uma mulher extremamente ciumenta. Cheguei até mesmo a me lembrar do refrão da famosa música de César Menotti e Fabiano: “Ciumenta/Para de ser tão ciumenta/Desse jeito nenhum homem te aguenta/Para, eu já não sei o que fazer”. Como consequência do ciúme excessivo, Elena Greco, que era toda certinha e racional, se transforma em uma pessoa passional e totalmente desequilibrada. É interessante acompanhar essa mudança de perfil da narradora-protagonista justamente na fase em que ela acredita ter atingido a maturidade. O ciúme aqui não é apenas de Nino, mas também do ex-marido, do matrimônio da melhor amiga, das parceiras dos ex-namorados e, acredite, até das filhas. É verdade que a inveja que Lenu sente de Lila não diminui nem um pouco. Prova maior disso é o jeito como Elena Greco olha para sua terceira filha, Imma, e para a segunda filha de Rafaella, Tina, quando as duas são crianças pequenas. Aos olhos da escritora napolitana, Imma é uma imbecil, enquanto Tina é uma menina prodígio. Será verdade isso? Para mim, essa visão é mais fruto da inveja que Lenu sente de Lila do que uma diferença tão gritante entre as filhinhas das duas personagens. Contudo, em vários momentos desse romance, Elena Greco precisa engolir o orgulho, o ciúme e a inveja que sente da melhor amiga para encarar inimigos mais concretos e perigosos. Em boa parte dessa trama, Lenu e Lila se juntam para enfrentar unidas adversários em comum: Nino (o cafajeste que destruiu o coração das duas), os irmãos Solara (que vivem provocando confusões no bairro pobre de Nápoles) e a polícia (que percebe os amigos delas). Não é errado enxergar o período da maturidade como aquele em que as duas protagonistas estiveram mais próximas, apesar de Elena Greco insistir que não (lembremos que ela não é uma narradora confiável). O drama psicológico da Série Napolitana se potencializa substancialmente em “História da Menina Perdida”. Além da competição velada entre Elena e Rafaella (intriga que acompanha toda a saga), agora assistimos a novos conflitos. Por exemplo, a narradora precisa se equilibrar em vários papéis antagônicos: mãe (exigências das três filhas pequenas), mulher (entregar-se de corpo e alma para o amor de sua vida) e profissional (carreira de escritora em ascensão). Há também um conflito delicado que surgiu no final do romance anterior: a esposa fiel e responsável (o que os mais conservadores gostam de chamar de “mulher direita” ou “mulher de família”) versus a amante apaixonada e irresponsável (que não se furta em se entregar aos devaneios do coração). Obviamente, Elena Greco não conseguirá assumir plenamente o controle de todas as facetas de sua vida. Por isso, ela terá que priorizar algo. Suas escolhas irão trazer dissabores, incômodos e angústias. A sensação é que ela não tem para onde correr. O que fizer, não será suficiente – ainda sim ficarão pendências para trás. Curiosamente, Lenu não se redime nem um pouco aos olhos dos leitores, mesmo se tornando mais franca, emotiva e frágil. Pelo menos para mim ela continua sendo a anti-heroína que causa dissabores com suas atitudes indelicadas, crenças controversas e pensamentos paranoicos. Egoísta, insensível, invejosa e, agora, ciumenta (“Ciumenta/Para de ser tão ciumenta/Desse jeito nenhum homem te aguenta/Para, eu já não sei o que fazer”), ela não agrada ninguém ao seu redor e consolida a imagem de personagem com um espírito pouco nobre. Se antes Elena conseguia esconder sua personalidade ácida (ao ponto de ser admirada por todos), agora ela não parece se preocupar com as opiniões de terceiros (escancarando suas vontades e preferências mais íntimas). A partir daí, seus pais, irmãos, (ex-)marido, sogros, cunhados, namorado, ex-namorados, filhas e amigos mais próximos passam a odiá-la. É difícil crer que a narradora seja a única certinha dessa história e o restante do mundo esteja errado. Por outro lado, Rafaella Cerullo continua crescendo positivamente aos olhos dos leitores. Por mais que Elena Greco a veja como uma transloucada inconsequente, a mulher de Enzo é uma pessoa admirável. Ela parece não precisar fazer escolhas difíceis como a amiga. Lila é uma boa esposa, uma mãe participativa, uma empresária bem-sucedida e, acima de tudo, uma amiga leal. É legal notar que Rafaella não se esquece de ajudar os mais necessitados do bairro em que nasceu e vive. Entretanto, o que a torna excepcional é o fato de peitar os irmãos Solara. A impressão é que Lila é a única pessoa em Nápoles com a coragem de combater as falcatruas e as maracutaias de Marcello e Michele. Não à toa, a melhor amiga de Elena se torna uma das vítimas das maldades da dupla de irmãos camorristas. Por falar nisso, temos em “História da Menina Perdida” uma ambientação ainda mais pesada, soturna e angustiante do que a encontrada nos três romances anteriores da Série Napolitana. A diferença é que nesse livro a violência (assassinatos, espancamentos, corrupção, sequestros, chantagem, manipulação, mentiras...) da cidade natal de Lenu e Lila acaba atingindo diretamente as personagens principais, seus familiares e os amigos mais próximos. Se antes a criminalidade e as barbaridades aconteciam da porta de casa para fora, a sensação é que agora ela entrou diretamente na vida de todas as personagens. Por isso, a sucessão interminável de crimes cruéis. Fiquei com a impressão de que ninguém se salva nessa história: todos são ao mesmo tempo vítimas e culpados pela insegurança constante do bairro suburbano. O resultado prático é uma trama de terror ao melhor estilo das narrativas envolvendo a máfia italiana. Já que estamos falando da ambientação, é importante destacar o contexto político-ideológico da trama. Há forte influência da Guerra Fria (capitalistas versus comunistas) e uma grande instabilidade política na Itália entre os anos 1970 e 1980 (fascistas versus esquerdistas). Em vários capítulos, “História da Menina Perdida” adquire uma pegada de thriller de espionagem e de um romance policial noir. Em relação aos espaços narrativos, esse romance de Elena Ferrante se passa em várias cidades: Nápoles, Milão, Roma, Gênova e Florença, além de algumas passagens rápidas pelo exterior (viagens realizadas por Elena Greco principalmente para a França). Repare que mesmo voltando para sua terra natal, a narradora-protagonista se sente uma forasteira. Lenu é, inclusive, vista de maneira desconfiada pelos napolitanos. Nápoles é agora um lugar infestado de drogas e de drogados, o que potencializa ainda mais o clima bélico e de violência. Para provar que a cidade é perigosa e pouquíssimo confiável, assistimos ao verídico terremoto de 23 de novembro de 1980, que mexeu com a vida e a rotina de todos os habitantes da localidade (e que matou mais de três mil pessoas na Campânia e Basilicata e deixou mais de oito mil feridos no Sul da Itália). A parte mais fantástica desse livro é o desfecho. Ele é simplesmente espetacular. De uma forma inteligente e criativa, Elena Ferrante amarra a última cena da saga à primeira. Ou seja, 1.700 páginas depois, quatro livros à frente e seis décadas de trama mais tarde, as protagonistas agora idosas se encontram discutindo questões da mais tenra infância. Além disso, Elena Greco faz reflexões que tornam essa história e o papel de Rafaella Cerullo ainda mais relevantes. Mesmo não querendo acreditar no quão transformadora e bondosa é a amiga, Lenu cogita a possibilidade de Lila ter a ajudado nesse tempo todo. Incrível! É verdade que o desenlace de “História da Menina Perdida” lembra bastante algumas cenas de “A Filha Perdida” (Intrínseca), romance de Ferrante de 2006 que já analisamos na coluna Livros – Crítica Literária. Se formos reparar bem, até os títulos dessas duas obras são muito semelhantes. Além disso, Elena Greco se tornou, ao longo de “História da Menina Perdida”, uma narradora/personagem extremamente parecida a Leda, a protagonista de “A Filha Perdida”. Mesmo com uma ou outra sensação de déjà vu, não deixam de ser surpreendentes alguns acontecimentos narrativos dessa quarta parte da Tetralogia Napolitana. Para ser mais preciso em meus comentários, “História da Menina Perdida” reserva como um todo várias reviravoltas, o que torna seu enredo ainda mais dinâmico e eletrizante. Posso citar como surpresas principais dessa parte da saga (cuidado, esse final de parágrafo pode conter alguns spoilers): a reconciliação de Elena com a mãe; a fatalidade que Lila precisou encarar com a filha pequena; as intrigas amorosas envolvendo Dede e Elsa (as filhas mais velhas de Lenu acabam se tornando adversárias); a união de Elena Greco e Rafaella Cerullo contra Marcello e Michele Solara; as prisões e os assassinatos de personagens que não imaginávamos que iriam passar por isso; e as ações e reações de vingança entre as maiores autoridades do bairro napolitano. A única parte mais previsível desse romance é o desfecho do relacionamento de Elena e Nino Sarratore. Para qualquer leitor minimamente experiente e vivido, era óbvio o que iria acontecer com o casal principal de “História da Menina Perdida”. Desde os últimos capítulos de “História de Quem Foge e de Quem Fica” já dava para sacar qual era a do rapaz que mexeu desde a infância com o coração da narradora do livro. A única que parecia não ver os podres de Nino era Lenu. E olha que ela até demorou para notar o tipo de homem que ele era. Mesmo assim, não deixou de ser chocante as cenas presenciadas pela protagonista. A surpresa aqui não foi o que Nino fez, mas como e com quem (note que fiz de tudo para não contar o spoiler!). Por falar em surpresa, não deixa de ser contraditória a postura de Elena Greco em relação ao namorado. Se perante o público ela é uma escritora que valoriza o Feminismo (a inserção maior das mulheres no mercado de trabalho e na sociedade, o combate ao machismo e o incentivo à liberdade feminina em todos os campos) em artigos jornalísticos e em textos ficcionais, no ambiente privado a conversa é outra. Uma vez apaixonada por Nino (pela primeira vez na vida, ela fica realmente apaixonada por alguém), Lenu se torna o protótipo de tudo aquilo que combateu ao longo da vida. Para ter o amor de Nino, Elena Greco aceita se subjugar aos olhos de todos. Não deixa de ser assustadora essa transformação da personagem principal da saga, principalmente na parte intitulada de “Maturidade”. Adorei “História da Menina Perdida”. Sem dúvida, esse foi o melhor livro que li nesse ano (até aqui) e um dos melhores que li na minha vida. Confesso que não esperava um desfecho tão eletrizante e dramático para a Série Napolitana. Ingenuamente, acreditei que Ferrante tivesse colocado a melhor parte de seu drama histórico para os volumes iniciais da coleção – “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome” e “História de Quem Foge e de Quem Fica”. Contudo, ela fez o inverso. Incrível ser surpreendido por uma escritora talentosíssima que parece se superar a cada obra publicada. Por falar em sucessiva superação, o Desafio Literário de Elena Ferrante prossegue na próxima semana com a análise do mais recente romance da autora italiana. No domingo que vem, dia 22, retornarei ao Bonas Histórias para debater com vocês o conteúdo de “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca). Publicado em 2019, esse livro é apontado por muitos críticos literários como o melhor trabalho de Ferrante. Será que ele é melhor do que a Tetralogia Napolitana?! Para esclarecer essa dúvida, vou começar agora mesmo a leitura de “A Vida Mentirosa dos Adultos”. Nos vemos no próximo post do Desafio Literário. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: História de Quem Foge e de Quem Fica - A terceira obra de Elena Ferrante da Série Napolitana

    Lançado em 2013, o terceiro volume da Tetralogia Napolitana apresenta os dramas de Elena Greco e Rafaella Cerullo, as protagonistas da saga, na idade adulta. No último final de semana, li “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul), o terceiro romance da Série Napolitana, o maior sucesso de Elena Ferrante. Nesse novo volume da saga de Elena Greco e Rafaella Cerullo, as duas amigas de um subúrbio de Nápoles que compartilham uma grande rivalidade desde os seis anos de idade, assistimos aos dramas das protagonistas na idade adulta (fase chamada de Intermédio na obra). Para quem pensa que as brigas e as confusões das personagens principais da Tetralogia Napolitana ficariam restritas à infância, à adolescência e à juventude, Ferrante reserva boas surpresas para seus leitores em “História de Quem Foge e de Quem Fica”. Em nível de tensão dramática, reviravoltas na trama e ambientação soturna, esse livro é sem dúvida um dos melhores trabalhos da escritora italiana. Publicado na Itália em 2013, “História de Quem Foge e de Quem Fica” sucede “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), livro de 2011 que inaugura essa coleção de Elena Ferrante, e “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), o segundo título da Série Napolitana que chegou às livrarias italianas em 2012. Essa coletânea literária encerra-se com “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), a quarta parte da narrativa histórica de Elena Greco e Rafaella Cerullo. O volume derradeiro da tetralogia foi lançado em 2014 e será comentado no Desafio Literário de Ferrante na próxima semana. Vale a pena lembrar os leitores do Bonas Histórias que chegaram agora ao blog que as quatro obras da Série Napolitana, assim como os demais títulos de Ferrante, estão sendo analisados individualmente no Desafio Literário desse bimestre. Até aqui, já discutimos, além de “A Amiga Genial” e “História do Novo Sobrenome”, “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), o primeiro romance de Elena Ferrante, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), sua segunda obra ficcional, e “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), coletânea não ficcional com cartas, crônicas, ensaios e entrevistas da autora. Importante ressaltar que “A Filha Perdida” (Intrínseca), o terceiro romance de Ferrante, já havia sido analisado na coluna Livros – Crítica Literária em agosto de 2020. Nosso estudo enfocando a literatura da principal escritora italiana da atualidade ainda contemplará as discussões de “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), sua mais recente publicação lançada em 2019, e, como não podia faltar, “História da Menina Perdida”, a última parte da Tetralogia Napolitana. Voltando a falar exclusivamente de “História de Quem Foge e de Quem Fica”, esse livro foi lançado no Brasil em 2016. Assim como toda a Série Napolitana, essa obra foi traduzida para nosso idioma por Maurício Santana Dias. O projeto gráfico do terceiro volume da coleção, algo que já comentamos rapidamente no post de “História do Novo Sobrenome”, respeita o padrão visual dos demais títulos da tetralogia, o que confere grande unidade e uma sensação de continuidade à saga. Em Portugal, o terceiro volume da mais famosa série literária de Elena Ferrante foi chamado de “História de Quem Vai e de Quem Fica” pela Relógio D´Água, editora lisboeta fundada em 1982 e que detém os direitos sobre os livros da romancista italiana. Para os fãs do seriado de TV “A Amiga Genial” (My Brilliant Friend), produção da HBO baseada nos livros mais famosos de Elena Ferrante e realizada em parceria com a RAI e a TIMvision, a boa notícia é que a terceira temporada já começou a ser gravada na Itália. As duas primeiras temporadas abrangeram as tramas de “A Amiga Genial” e “História do Novo Sobrenome” e foram transmitidas em 2018 e 2019. Contudo, a chegada da pandemia do novo coronavírus obrigou a paralisação das gravações, para desespero do público cativo. Agora as filmagens recomeçaram para alegria geral. A nova temporada irá tratar justamente do enredo de “História de Quem Foge e de Quem Fica” e deve ir ao ar ainda em 2021. Se a direção da série televisiva mudou de mãos (sai Saverio Costanzo, responsável pelas duas primeiras temporadas, e entra o também italiano Daniele Luchetti, com contrato para conduzir essa e a quarta temporada), as atrizes principais se mantiveram (Margherita Mazzucco como Elena Greco e Gaia Girace como Rafaella Cerullo). O enredo do romance “História de Quem Foge e de Quem Fica” começa com Elena Greco falando no presente. Nos dias atuais, enquanto escreve a história do sumiço da melhor amiga, a narradora-protagonista se questiona sobre as últimas vezes em que viu e conversou para valer com Rafaella Cerullo. Infelizmente, a amizade das duas napolitanas se degringolou ao ponto de elas se tornarem duas estranhas uma para a outra. Além disso, cada uma seguiu por um caminho diferente e, naturalmente, suas vidas se distanciaram bastante. Para explicar em detalhes o ponto exato em que houve essa cisão com Lila, Elena retoma a trama exatamente na cena final de “História do Novo Sobrenome”. Para quem não se lembra do desfecho do livro anterior da coletânea, Elena Greco encontra, depois de muitos anos, Nino Sarratore em Milão. O rapaz por quem a protagonista sempre foi apaixonada na infância e na adolescência aparece sem avisar em uma palestra de divulgação do livro dela. Após um questionamento não muito favorável feito por um crítico literário local, Nino, agora um renomado acadêmico, se manifesta em favor do trabalho da amiga. Aquela aparição súbita mexe substancialmente com a jovem escritora. Os primeiros capítulos de “História de Quem Foge e de Quem Fica” mostram o que aconteceu em seguida. Elena e Nino ficam felizes em se encontrar e vão jantar juntos após a palestra. Ela, cada vez mais atraída pelo antigo namorado da melhor amiga, cogita em ir para a cama com ele pela primeira vez. Mesmo estando com o casamento marcado com Pietro Airota, Elena não quer saber – deseja se entregar de corpo e alma para os antigos sentimentos. Porém, para a infelicidade da moça, seu noivo surge de surpresa no restaurante e a leva embora para o hotel. Não é preciso dizer o quanto a narradora fica frustrada com o término de noite casto. Mesmo não amando Pietro consideravelmente (ela até gosta dele, mas não o ama perdidamente), Elena Greco se casa com o jovem professor universitário em 1969. Aparentemente, ela se esquece de Nino. Após o matrimônio, os recém-casados vão morar em Florença, onde Pietro Airota consegue o emprego em uma universidade local. Enquanto Elena vive o auge profissional (se tornou uma escritora famosa no país e tem seus textos publicados em vários jornais) e um dos momentos mais felizes da vida pessoal (casamento, independência financeira, constituição de um lar próprio), Rafaella Cerullo vive seu inferno astral. Morando em San Giovanni a Teduccio com o amigo Enzo e o filho Rino, Lila padece como funcionária na fábrica de embutidos de Bruno Soccavo, o antigo amigo de Nino Sarratore e o filho único de um rico industrial. Apesar de ter conhecido Bruno na famosa viagem à Ischia quando eram jovens, Rafaella é humilhada sistematicamente no novo emprego. Ali ela é alvo do assédio moral e sexual e vítima das maldades de colegas, dos seguranças e do patrão. Inconformada com a condição insalubre de trabalho, Rafaella acaba sem querer se alinhando aos comunistas de Nápoles que exigem uma intervenção sindical na empresa dos Soccavo. Assim, inicia-se uma violenta briga entre fascistas e esquerdistas. Ao descobrir a situação delicadíssima que Lila se encontra em San Giovanni, Elena Greco decide intervir. Utilizando-se das redes de contato dos Airota, uma das mais renomadas famílias italianas, a escritora não descansa até conseguir tirar a amiga daquela condição indigna e encaminhá-la para uma vida melhor. Paradoxalmente, enquanto Lila consegue deixar o fundo do poço e reascender socialmente graças a Elena, a agora Senhora Airota passa a viver seu inferno astral. O nascimento das filhas (Adele em fevereiro de 1970 e de Elsa em julho de 1973) e a dinâmica doméstica (Pietro é o típico marido que não faz nada em casa) a sobrecarregam ao ponto de ela não conseguir mais escrever. Aos poucos, seu nome como uma das promessas da literatura e do jornalismo italiano começa a se apagar da memória do público e Elena passa a ser uma mera dona de casa, para seu desespero. Como desgraça pouca é bobagem, Nino reaparece e se torna figura constante em Florença. Nessa hora, o coração de Elena Airota começa a dar sobressaltos sentimentais, que podem derrubar a já conturbada realidade da narradora-protagonista e seu casamento em crise. “História de Quem Foge e de Quem Fica” possui 416 páginas. Seu conteúdo está dividido em 123 capítulos. Levei entre 11 horas e meia e 12 horas para concluir a leitura desse romance no final de semana passado. Foram aproximadamente seis horas de leitura no sábado e mais ou menos outras seis horas no domingo. Em nível de extensão de páginas, essa obra é a segunda menor da Série Napolitana. Afinal, “A Amiga Genial” tem apenas 336 páginas (esse é o menor livro da saga) e “História do Novo Sobrenome” e “História da Menina Perdida” possuem, respectivamente, 472 e 480 páginas. Ao mesmo tempo, “História de Quem Foge e de Quem Fica” é a obra que abrange o menor período temporal da Série Napolitana. Se “A Amiga Genial”, cuja trama vai do início dos anos 1950 ao final dos anos 1950, e “História do Novo Sobrenome”, cujo enredo vai do começo da década de 1960 ao fim da década de 1960, se passam em um intervalo de dez anos, esse novo título abrange apenas sete anos. A narrativa de “História de Quem Foge e de Quem Fica” se estende basicamente de 1969 a 1976. Para quem ficou com curiosidade, “História da Menina Perdida”, o próximo título que vamos comentar no Desafio Literário de Elena Ferrante, abrange um espaço temporal muito (e põe muito nisso!) maior. O enredo do quarto volume da tetralogia vai de 1976 a 2010. A primeira novidade narrativa de “História de Quem Foge e de Quem Fica” é o maior enfoque na parte da trama envolvendo Elena Greco. Lembremos que tanto em “A Amiga Genial” quanto em “História do Novo Sobrenome” há um predomínio do relato do que se passa com Rafaella Cerullo. Em muitos capítulos dos dois primeiros volumes da tetralogia de Elena Ferrante, sua narradora-protagonista acaba escanteada. Aqui é diferente. Pela primeira vez na Série Napolitana, temos um título que retrata mais a vida, a rotina e as angústias de Elena do que o cotidiano e os dramas de Lila. Para quem gosta de números, diria que as páginas desse livro se dedicam 70% do tempo a agora Senhora Airota. Ou seja, temos a impressão de que Elena é a protagonista e Lila é a antagonista. Com a mudança de foco narrativo em “História de Quem Foge e de Quem Fica”, acabamos mais envolvidos com o dia a dia de Elena Greco e suas inquietações. Dessa maneira, acompanhamos de perto seu último ano na faculdade de Pisa, sua ascensão e queda profissional como escritora ficcional, seu namoro com Pietro Airota, seu noivado conturbado, as brigas com os pais e com os irmãos, o casamento, a mudança para Florença, a chegada das filhas, a crise conjugal, a aproximação com Nino e os encontros e desencontros com Rafaella. A consequência natural dessa opção de Ferrante é que sua narradora cresce aos olhos dos leitores. Enfim, Elena Greco se torna uma personagem do primeiro plano narrativo e adquire características ainda mais complexas e contraditórias. O que não muda nesse romance é a relação tumultuada entre as “melhores amigas”. Interessante reparar que em “História de Quem Foge e de Quem Fica” vemos o acirramento da rivalidade das duas protagonistas da saga. E como toda boa rivalidade, há fases de alta e de baixa de ambos os lados. Quando uma está bem, a outra está na pior. Quando aquela que estava mal consegue superar as dificuldades, é a adversária que acaba despencando. Essas oscilações tornam o enredo do livro movimentado e com várias surpresas. Outra questão que não se altera é a inveja que Elena sente de Rafaella. Para mim, a parte em que isso fica mais nítido é quando a narradora-protagonista recebe de volta da antiga professora o texto de Fada Azul, o conto que Lila escreveu quando tinha dez anos. Na visão de Elena, o sucesso de seu romance é fruto daquele trabalho escolar. Em outras palavras, ela acredita ter copiado inconscientemente a estrutura e o estilo da narrativa da amiga. Por isso, o público gostou tanto de sua obra. O mesmo processo teria ocorrido com o texto crítico que Elena Greco publicou no jornal sobre as mazelas dos trabalhadores italianos, em especial aqueles obrigados a sobreviver na fábrica de Bruno Soccavo. O mérito da matéria teria partido do relatório que Lila fez em seu posto de trabalho. Sinceramente, não sei o quanto podemos acreditar na opinião da narradora de “História de Quem Foge e de Quem Fica”. Na minha visão, ela é tão invejosa e insegura que tende a acreditar que seus bons trabalhos são mais méritos da amiga do que dela mesma. Além disso, tenho dificuldade para encarar as ações e as reações de Lila como comportamentos maldosos e vingativos contra a amiga famosa. Ainda acho que Rafaella Cerullo fez tudo para o bem da amiga de infância, por mais que Elena Greco não consiga enxergar sua benevolência. De qualquer forma, temos aqui uma Lila, aos olhos de Elena, adquirindo um papel maior de antagonista da trama (e não tanto de protagonista como ocorreu em “A Amiga Genial” e “História do Novo Sobrenome”). Outra novidade de “História de Quem Foge e de Quem Fica” é a interposição temporal, algo ocorrido apenas no comecinho de “A Amiga Genial” e desde então inexistente. Por exemplo, esse recurso narrativo não apareceu em nenhum momento de “História do Novo Sobrenome”. Somente no terceiro romance da Série Napolitana, Elena Greco volta a narrar a trama em três momentos distintos: explicando como as coisas estão no presente (ela já idosa e a amiga desaparecida); fazendo referências ao passado recente (quando se encontrou com Rafaella Cerullo pela última vez há cerca de cinco anos); e detalhando os fatos do passado mais distante (justamente o período de 1969 a 1976). Assim como ocorreu em “A Amiga Genial”, essa distinção dos diferentes períodos narrativos é mais nítida nos capítulos iniciais de “História de Quem Foge e de Quem Fica”. Confesso que senti falta da interposição temporal em “História do Novo Sobrenome” – imaginei que Elena Ferrante fosse explorá-lo mais vezes ao longo da Tetralogia Napolitana. Outras cinco características marcantes de “História de Quem Foge e de Quem Fica” são: maior componente político-social da ambientação (intrigas ideológicas da Itália na segunda metade do século XX); deterioração urbana de Nápoles em contraposição às transformações modernizantes da cidade; florescimento do Feminismo (componente importante para compreender as novas posturas da narradora-protagonista); desfecho impecável do livro; e potencialização da vilania de Nino Sarratore e dos irmãos Marcello e Michele Solara (alçados pela primeira vez ao posto de principais adversários de Lila e Elena Greco). É verdade que os componentes político-sociais já tinham aparecido em “A Amiga Genial” (em menor escala) e em “História do Novo Sobrenome” (em uma escala mediana). Porém, é nesse terceiro título da Série Napolitana que assistimos à intensificação das intrigas políticas da Itália, um país dividido ideologicamente (fascistas versus comunistas). Mesmo não desejando, as personagens principais do romance acabam inseridas nos conflitos armados que envolvem políticos, estudantes, empresários, sindicatos, trabalhadores, jornalistas e partidos políticos. Se Nápoles já era uma localidade violenta e movida à passionalidade, imagine como as coisas ficaram feias entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, período por si só turbulento em boa parte do mundo. Outra questão legal de se reparar é as transformações que Nápoles sofreu ao longo dos anos. Se por um lado a cidade já não é mais a mesma que Elena e Lila tinham na infância e adolescência (ela se modernizou, ganhou arranha-céus e novas avenidas e o comércio se sofisticou), por outro lado as partes suburbanas do município acabaram se deteriorando ainda mais (violência, sujeira, criminalidade, poluição visual e sonora, pichações e pobreza são agora mais visíveis do que nunca). Ler as páginas de “História de Quem Foge e de Quem Fica” é caminhar por essa dicotomia: modernidade e degradação. Já o Feminismo surgiu aos poucos na vida de Elena Greco. Ela já admirava mulheres com uma postura ativa, moderna e liberal. Mariarosa Airota, a irmã mais velha de Pietro, é talvez o melhor exemplo desse tipo de figura feminina que apareceu com mais destaque nos anos 1970. Ao mesmo tempo, a narradora do romance passou a ler e a conhecer mais de perto o trabalho de autoras feministas, que expunham a importância da mulher em se libertar das amarras sociais, dos preconceitos conservadores e da visão machista da cultura italiana. Vale citar aqui que Elena Greco sempre exerceu o papel de moça certinha, que nunca quis sair da linha estipulada pela família e pelos valores tradicionais napolitanos. Por isso, fiquei pensando: seriam as influências feministas as responsáveis pelo comportamento reacionário da protagonista nos capítulos finais de “História de Quem Foge e de Quem Fica”? Acredito que sim. Por falar nessa questão, que desfecho esse livro tem, hein?! Ele é maravilhoso. Elena Ferrante consegue surpreender seus leitores com um desenlace de tirar o fôlego. As atitudes de Elena Greco chocam tanto porque elas vão contra os valores sociais esperados para uma mãe e esposa convencional. Além disso, a moça que fora certinha desde a infância resolve, enfim, agir de acordo com suas vontades e desejos mais íntimos, independentemente do que os outros vão achar. Mesmo concordando com essas motivações (são legítimas na visão contemporânea da igualdade dos sexos – pense: se Elena fosse um homem, teria algum problema em tomar as decisões que ela tomou?), não deixa de ser chocante acompanhar as consequências dessa nova postura. Por fim, temos aqui a potencialização da vilania de Nino Sarratore e dos irmãos Marcello e Michele Solara. É verdade que em “A Amiga Genial” e “História do Novo Sobrenome” eles já apareciam como figuras pouco dignas e perigosas. Porém, o papel de vilão/vilã (pelo menos aos olhos de Elena Greco) sempre coube a Rafaella Cerullo. Nesse romance há uma inversão dessa dinâmica. Aqui, Lila deixa o posto de personagem mais repugnante da saga e ele é ocupado pelo rapaz que brinca com os sentimentos das mulheres (engravidando-as e as abandonando logo em seguida) e pelos irmãos mafiosos que parecem preocupados exclusivamente com seus desejos mais sórdidos. Gostei tanto de “História de Quem Foge e de Quem Fica” que fiquei com uma séria dúvida: qual seria, afinal, a melhor parte da Tetralogia Napolitana – a primeira (“A Amiga Genial”) ou a terceira (justamente esse romance)? Sinceramente não sei. Gostei dos dois igualmente. Em termos das surpresas e das inquietações geradas pelos dramas retratados, “História de Quem Foge e de Quem Fica” talvez tenha mais elementos angustiantes. Por outro lado, são indiscutíveis o charme, o carisma e a força dramática do primeiro volume da coleção. Por isso, fico em cima do muro sem problema nenhum sobre qual obra é a melhor. Nossa investigação sobre a Série Napolitana e sobre a literatura de Elena Ferrante prosseguirá na próxima semana. No dia 16, segunda-feira, retornarei ao Desafio Literário para comentar minhas impressões sobre “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), o quarto e último título da tetralogia de Elena Ferrante. Publicado na Itália em 2014, esse livro apresenta as fases finais da vida das protagonistas da saga: a maturidade e a velhice. Continue acompanhando os posts do Bonas Histórias e não perca as próximas etapas das análises do Desafio Literário de Ferrante. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: História do Novo Sobrenome - O segundo romance de Elena Ferrante da Série Napolitana

    Publicada em 2012, esta obra apresenta a juventude de Elena Greco e Rafaella Cerullo, as protagonistas de A Amiga Genial. Continuemos falando da Série Napolitana, o maior sucesso de Elena Ferrante. Na semana passada, analisamos no Desafio Literário “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), o primeiro romance da saga de Elena Greco e Rafaella Cerullo (ou será que deveria chamá-la aqui de Rafaella Carracci?), as duas protagonistas que se amam e se invejam na mesma proporção. No post de hoje do Bonas Histórias, vamos comentar “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), o segundo livro da Tetralogia Napolitana. Vale a pena dizer que a conceituada série literária da principal romancista italiana da atualidade é complementada com “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul). Essas duas obras, respectivamente os volumes 3 e 4 da saga, serão discutidas em detalhes ainda nesse mês no Desafio Literário de Elena Ferrante. Publicado em 2012, “História do Novo Sobrenome” apresenta a juventude das protagonistas de “A Amiga Genial”. Se no romance anterior assistimos à infância e à adolescência de Elena Greco e Rafaella Cerullo (período compreendido entre o início da década de 1950 e o comecinho dos anos 1960), agora ingressamos nos primeiros anos da idade adulta das personagens. Basicamente, a trama do segundo volume da Série Napolitana vai do começo da década de 1960, quando as amigas tinham 16 anos de idade, até o final daquela década, quando elas possuíam em torno de 25 anos e já tinham trilhado caminhos de vida bem distintos. Por se tratar da continuação de uma narrativa, não preciso dizer que é necessário ter lido o romance anterior da coletânea para compreender o que se passa em “História do Novo Sobrenome”, né? Essa tetralogia não é constituída de enredos independentes, caso você tenha cogitado essa ideia. Pelo contrário: trata-se de uma história só que precisou ser dividida em alguns volumes por causa de sua grande extensão, conforme Elena Ferrante explicou em “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), título que reúne cartas, ensaios e entrevistas da autora italiana. Se você me permitir um conselho, leia toda a Série Napolitana em sequência. Ou seja, acabou um livro, já comece o seguinte. Fiz isso e não tive qualquer dificuldade na leitura (ao menos até esse ponto). O principal desafio em se tratando da Tetralogia Napolitana é se lembrar dos nomes de todas as personagens que participam diretamente do enredo, número que alcança facilmente a casa de meia centena. É muita gente mesmo! Apesar de termos à disposição, no início de cada obra, uma lista com as personagens citadas (inclusive, essa parte contém um pequeno resumo do que rolou no(s) título(s) anterior(es) – vale a pena lê-lo para refrescar a memória), é legal ter em mente o que cada pessoa fez e sua importância para a narrativa, sem precisarmos de cola ou de ajuda. Por isso, a importância da leitura em um intervalo curto entre os volumes. Porém, se mesmo assim o leitor se esquecer de alguém da trama, saiba que há a lista de personagens para ajudar nessa questão. A edição brasileira de “História do Novo Sobrenome” foi publicada pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, em 2016, alguns meses depois do lançamento de “A Amiga Genial”. Esse período de alguns meses ou até mesmo de um ano entre a chegada dos títulos da coletânea às livrarias, vale a menção, foi uma prática que aconteceu em boa parte do mundo (inclusive na Itália). Mesmo com o texto integral da série estando pronto nas mãos dos editores (Elena Ferrante entregou os originais dos quatro livros para Sandra Ozzola e Sandro Ferri, os editores da Edizioni e/o, a editora italiana da romancista), por fins mercadológicos e comerciais optou-se pela publicação fracionada. Por falar na adaptação nacional de “História do Novo Sobrenome”, é legal notar o cuidado que a Editora Globo teve com a Série Napolitana. O tradutor brasileiro foi o mesmo nos quatro volumes (Maurício Santana Dias), o que ajuda os leitores a trafegar sem quaisquer complicações entre os títulos. Afinal, temos acesso a um texto com expressões e termos padronizados (algo que poderia ter se perdido no caso de mais de um tradutor ter se envolvido com o projeto). Há também uma grande uniformidade visual – o projeto gráfico dos títulos é único e espetacular. Admito que gosto de ler obras que conversam textual e visualmente entre si. Por mais óbvios que esses cuidados pareçam, não foi em todos os países que eles foram seguidos. Por falar nisso, achei as capas brasileiras dos livros dessa coleção de Elena Ferrante as mais bonitas do mundo. Elas são até mesmo mais impactantes do que as da versão italiana. A escolha de ilustrações com pegada vintage (ao invés de fotos, como nas obras originais) se mostrou acertadíssima. Em Portugal, o segundo volume da Tetralogia Napolitana foi intitulado de “História do Novo Nome” pela Relógio D´Água, editora lisboeta fundada em 1982 e que detém os direitos sobre os livros de Elena Ferrante no lado português da Península Ibérica. O enredo de “História do Novo Sobrenome” começa na Primavera de 1966. Aos 22 anos, Elena Greco, a narradora da trama, já não vive em Nápoles faz um tempinho e, dessa maneira, não tem acesso diretamente ao que se passa em sua cidade natal. Ela agora estuda em uma faculdade de Pisa e volta apenas nas férias de Natal para as casas dos pais. E nesses retornos esporádicos, ela fica apenas alguns dias entre familiares e velhos amigos. Sua rotina agora está definitivamente longe do sul da Itália. Em Pisa, Elena continua estudando muitíssimo, recebe ótimas notas, ganha a admiração dos professores e namora rapazes (primeiro Franco Mari e depois Pietro Airota) que ela não gosta muito. Contudo, na sua opinião, essa parte da narrativa não merece muito destaque por não ter muita graça. Sua atenção está totalmente voltada para o que acontece em Nápoles e, principalmente, com Rafaella, sua melhor amiga de infância e adolescência. Lila, como Elena a chama carinhosamente, deixou de ser a Srta. Cerullo e se tornou a Sra. Carracci desde o casamento com Stefano (conforme vimos na última cena de “A Amiga Genial”). Para narrar o que aconteceu com Rafaella a partir da cerimônia de matrimônio, Elena Greco retorna ao passado e relata tudo o que aconteceu a partir de então. Ela usa desde observações diretas e conversas que teve com Lila (obviamente antes da mudança para Pisa) até os diários da jovem amiga que lhe foram entregues e o que amigos e familiares lhe contaram. Diferentemente do que podíamos imaginar, o casamento de Rafaella com Stefano Carracci desandou logo de cara. O motivo da primeira briga foi a entrega para Marcello Solara, a pessoa que Lila mais odeia, do sapato que os irmãos Cerullo construíram na adolescência. Depois de ver a jovem esposa fazer birra já na festa de casamento por causa do sapato, o novo marido bateu nela tão logo chegaram ao hotel da Lua de Mel. Ao ser espancada (e depois violentada) por Stefano na noite de núpcias, Rafaella descobriu que jamais amara e jamais conseguiria amar aquele homem vulgar, violento e insensível com quem se casara. A descoberta da falta de amor e a constatação do lado agressivo e ambicioso do marido levaram a amiga de Elena a ter uma relação fria e meramente protocolar com o cônjuge desde o início. A falta de um filho também contribuiu significativamente para melar ainda mais a tênue paz conjugal dos Carracci. Stefano acusava Lila de não querer ter um filho com ele, o que gerava comentários maldosos sobre a virilidade do rapaz pelo bairro pobre de Nápoles. Indiferente aos apelos do esposo e da família para se tornar uma dona de casa convencional e a mãe de um belo rebento, Rafaella preferia seguir no comando dos negócios do clã. Isso até ela se apaixonar pela primeira vez. Intempestiva com os desmandos do coração, Lila não se furta em se lançar em um tórrido relacionamento amoroso fora do casamento. Sim, a personagem principal de “História do Novo Sobrenome” adquire um amante. E por ele, Rafaella não mede consequências e não se preocupa com o que vizinhos, amigos, familiares e antigos colegas irão pensar. Não é preciso dizer que em uma Itália machista, patriarcal, religiosa, sanguinolenta, passional e conservadora de meados dos anos 1960, a vida de Rafaella Carracci se torna um inferno. A impressão é que o mundo cai em sua cabeça quando seus segredos mais íntimos estão para ser revelados para os moradores do bairro suburbano. Antevendo a desgraça da amiga, Elena Greco preferiu romper com ela. Ao longo desse romance, foram quatro os momentos em que as protagonistas da saga acabaram seguindo para caminhos opostos e ficaram muito tempo sem se falar: após a festa na casa da professora Galiani (quando Lila tripudiou as amizades e o estilo de vida que Elena adquirira no liceu), após a viagem de férias à Ischia (quando Lila começou um relacionamento extraconjugal), com a gravidez de Rafaella e, por fim, com o ingresso de Elena à faculdade na Toscana. “História do Novo Sobrenome” possui 472 páginas e está dividido em 125 capítulos. Pelo volume extenso de páginas (são quase cinco centenas, né?), esse livro requer um maior fôlego por parte do leitor. Li essa obra no último final de semana. Precisei de quase todo o sábado e o domingo para concluir integralmente seu conteúdo. Devo ter levado aproximadamente 12 horas (6 horas em cada dia) para ir do primeiro ao último capítulo do romance de Elena Ferrante. Por ser a continuação de uma saga dramática, “História do Novo Sobrenome” mantém boa parte das características estilísticas de “A Amiga Genial”. Assim, seguimos acompanhando uma trama com os seguintes elementos narrativos: narradora pouco confiável; o centro do romance é a inveja que Elena Greco sente de Rafaella Cerullo/ Rafaella Carracci; ambientação noir (violência, machismo, pobreza, sujeira, bagunça, barulho, caos familiar e social...); relacionamentos amorosos, famílias e amizades geralmente tóxicos; personagens contraditórias (na Teoria Literária, chamamos essas figuras de redondas); e mergulho na história, na política, na cultura, na economia e nas mazelas sociais italianas, principalmente em relação à realidade de Nápoles e do Sul do país. Em outras palavras, em relação aos componentes formais da ficção romanesca, o volume 2 da Série Napolitana não apresenta grandes novidades quando o comparamos a “A Amiga Genial”. Os destaques estão essencialmente no conteúdo de sua narrativa. O primeiro ponto que gostaria de comentar sobre “História do Novo Sobrenome” é a sensação ainda maior de que a protagonista da trama é Rafaella e não Elena. Já havia ficado com essa impressão no romance anterior, quando as duas personagens tiveram suas histórias narradas e a vida de Lila recebeu um ligeiro destaque (algo em torno de 60% das páginas de “A Amiga Genial” se voltaram para ela, enquanto os outros 40% atentaram-se para Elena Greco). Em “História do Novo Sobrenome”, esse equilíbrio desaparece definitivamente. Agora, a narradora-protagonista se atém quase que exclusivamente para os dramas da amiga. Elena praticamente se anula ao longo desse livro. Se precisasse definir um indicador numérico para a participação de cada uma das personagens centrais, diria que temos Rafaella 90% do tempo em cena e Elena em apenas 10% do enredo. É muita coisa para uma vilã (papel que caberia a Lila em uma análise inicial). Por isso mesmo, cresce minha sensação de que ela é a maior protagonista da saga napolitana (se não for, ao menos em “História do Novo Sobrenome” ela é) e não Elena Greco (como pensaríamos de início). Para justificar esse mergulho na vida da amiga da narradora do romance, Elena Ferrante apresenta algumas justificativas aparentemente plausíveis do ponto de vista da verossimilhança literária: (1) Rafaella entregou seus diários para Elena Greco; e (2) a filha do sapateiro se tornou alvo dos comentários de boa parte dos habitantes do bairro. Ou seja, não faltaram registros (no primeiro caso) e pessoas dispostas a contar (no segundo caso) para a estudante de Pisa o que se passava na casa de Stefano e Lila. Se os boatos me pareceram bem factuais (só quem morou em regiões suburbanas sabe o quanto o rádio peão rola solto pela comunidade), por outro lado, não me pareceu muito verossímil que Lila escrevesse anotações pessoais relatando o que se passava na sua intimidade (ainda mais com um marido tão violento e ciumento por perto). Essa talvez seja a única peça um pouco solta do enredo. Outra questão que ganha destaque em “História do Novo Sobrenome” é a relação pouco romântica do ato sexual. Para as personagens da tetralogia Napolitana, o sexo é um fardo para as mulheres e ele está muitas vezes desvinculado do amor. Ele é, na maioria dos casos, uma prática violenta do ponto de vista feminino e uma concessão que as mulheres fazem para os homens (maridos, noivos ou namorados). No caso de Elena Greco, a perda da virgindade tem como motivo exclusivo a necessidade de não ficar tão atrás da amiga casada (em mais uma prova de inveja pura da narradora-protagonista). Interessante notar que esse lado sombrio e violento do ato sexual é um padrão na literatura de Elena Ferrante. Essa questão já tinha aparecido, em menor escala é verdade, em “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul) e “A Filha Perdida” (Intrínseca), os três primeiros romances da escritora italiana. Por falar em violência, a brutalidade doméstica e o machismo também ganham tintas mais fortes em “História do Novo Sobrenome”. Na cultura conservadora do Sul da Itália da metade do século XX, a esposa é propriedade do marido, sendo obrigada a obedecê-lo incondicionalmente e a cuidar somente do lar e dos filhos. Não à toa, a postura independente e moderna de Lila (vale a pena destacar que ela se torna a mente pensante e o coração pulsante dos empreendimentos da família) é tão malvista por seus conterrâneos. O que dirá, então, quando ela surge com um amante a tiracolo, hein? Curiosamente, apesar da vida de Rafaella Carracci (passemos a chamá-la aqui apenas pelo sobrenome do marido – esqueçamos momentaneamente do Cerullo) se desmantelar completamente, a inveja de Elena Greco pela amiga não diminuiu nem um pouco. Achei interessante essa questão. Em nenhum momento, a narradora da trama se solidariza com o destino triste de Lila. Pelo contrário: ela parece ficar feliz por se ver, enfim, em uma posição superior à da antiga colega de escola. Se eu já apresentava grande antipatia por Elena, agora posso dizer que a odeio para valer. Na minha visão, Rafaella não é a vilã que Elena Greco tenta pintar a todo momento. A esposa de Stefano tenta ajudar a todos à sua volta (familiares, amigos de infância, funcionários, vizinhos...) e não tem qualquer atitude que dê margem para uma interpretação negativa de sua personalidade. A impressão é exatamente oposta. A cada capítulo de “História do Novo Sobrenome”, ela se torna mais bondosa. A meu ver, Lila é uma heroína digna de aplausos e admiração do público. Ao ler o parágrafo anterior, alguém poderia me contrapor indignado(a): ela é uma mulher infiel; Rafaella traiu Stefano Carracci! Não podemos glorificá-la. Jamais! Respeito essa opinião, mas não concordo com esse ponto de vista conservador. O fato de Rafaella ter pulado a cerca não a faz ser mais ou menos digna. Além disso, quem deveria reclamar de ganhar um par de chifres é o marido dela, não a melhor amiga. Se Stefano reclamasse da postura da mulher, beleza, ele está no direito dele (mas, ele não tem o direito de espancá-la!!!). Porém, é Elena Greco quem usa a traição matrimonial para expor negativamente a amiga. Mais uma vez reafirmo: não gosto e não confio nas intenções da narradora-protagonista. Aí outro(a) leitor(a) poderia reclamar: você está louco, Ricardo?! A Rafaella pegou (cuidado, nas próximas linhas desse parágrafo temos um pequeno spoiler do romance!) para amante o rapaz que a melhor amiga amava. Ok. Realmente, Lila fez isso. Entretanto, note que ela não sabia que Elena sempre fora apaixonada por Nino Sarratore. Por várias vezes, Lila questionou Elena sobre seus sentimentos em relação ao filho de Donato Sarratore. E sempre a narradora negou amar Nino ou sentir qualquer coisa por ele. Sempre! Dessa maneira, não me parece uma traição com a melhor amiga o início do relacionamento amoroso-sexual de Lila e Nino. Minha sensação é que qualquer um que Rafaella começasse a namorar naquela altura do campeonato, Elena iria fazer uma tempestade dramática (e iria desejar vingança!). Eu disse no post de “A Amiga Genial” que Rafaella se parecia, na infância, com o menino José de Vasconcelos, protagonista de “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), clássico de José Mauro de Vasconcelos, e, na adolescência, com Lea Delmas, a personagem principal de “A Bicicleta Azul” (Best Bolso), romance mais famoso de Régine Deforges. Agora em “História do Novo Sobrenome”, enredo passado na juventude de Lila, ela adquire mais semelhanças com Lea Delmas. Porém, a comparação que me veio à mente com mais intensidade foi mesmo a da célebre criação ficcional de Gustave Flaubert. Afinal, estamos tratando de uma esposa adúltera. Nessa ótica, a amiga de Elena Greco é a versão napolitana e moderna de Madame Bovary. Impossível não nos lembrarmos de Emma e de sua vida entediante no interior francês ao lado de Stefano, quero dizer, de Charles. Por falar em vingança, esse é outro sentimento que alimenta Elena Greco desde as páginas de “A Amiga Genial”. Se no romance anterior essa questão já tinha aparecido pontualmente, aqui ela ganha mais destaque. A narradora da Série Napolitana é, portanto, uma personagem movida não apenas pela vingança, mas também com sede de vingança. Ela odeia Rafaella Carracci mais do que tudo nesse mundo. Esses dois elementos narrativos (inveja e desejo de vingança) permanecem ocultos em boa parte dos capítulos. Aqui está justamente a excelência da literatura de Elena Ferrante. A autora napolitana tenta mascarar as emoções negativas de sua protagonista, como ela faria se nos estivesse relatando veridicamente sua história. Porém, em algumas partes da trama, Elena Greco acaba não conseguindo segurar sua indignação e seu veneno. É incrível testemunhar um relato com tantas camadas dramáticas. Por fim, quero destacar nesse post do Bonas Histórias dois aspectos que já tinham aparecido em “A Amiga Genial”, mas que ganharam destaque em “História do Novo Sobrenome”: a dicotomia idiomática – italiano versus dialeto napolitano; e a intertextualidade literária e cinematográfica dessa narrativa de Elena Ferrante. Quanto à questão do idioma, é legal reparar no que significa para as personagens da Série Napolitana falarem italiano ou falarem o dialeto local. O domínio e o uso recorrente da língua italiana mostram a erudição e a posição social mais elevada do indivíduo (em um claro sinal de preconceito linguístico) e dão um ar mais cosmopolita para seus falantes. Por isso mesmo, o estranhamento da família Greco quando a primogênita volta de Pisa se expressando mais em italiano do que no dialeto materno. Por outro lado, falar exclusivamente o dialeto napolitano indica que a pessoa é vulgar, de baixa posição social e provinciana, algo inadmissível em alguns círculos e ocasiões sociais. Como não temos dialetos no Brasil, assistir a esse tipo de conflito idiomático é muito rico. Em relação às intertextualidades cinematográficas e literárias, “História do Novo Sobrenome” possui uma lista interminável de citações e referências multiculturais. Caminhar pelos capítulos desse romance é acompanhar simultaneamente menções a filmes e a livros que fizeram parte da juventude da narradora. Quem gosta dos clássicos do cinema e da literatura, na certa irá curtir esse passeio cultural. Além disso, os fãs da ficção poderão assistir a um enredo metalinguístico. Afinal de contas, Elena Greco dá vazão ao sonho de infância e escreve um romance autobiográfico, o que gera admiração do público (a obra apresentou ótima vendagem) e perplexidade entre os amigos da moça (há cenas picantes envolvendo a perda de virgindade de uma adolescente com um homem mais velho e por quem ela não sentia nada além de mera curiosidade). Para continuar analisando a Série Napolitana e a literatura de Elena Ferrante, a autora contemplada no Desafio Literário desse bimestre, o próximo livro que comentarei aqui no blog é “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul). Publicada em 2013, essa obra é o terceiro volume da tetralogia de Ferrante que se tornou um best-seller mundial. O post sobre “História de Quem Foge e de Quem Fica” estará disponível no Bonas Histórias na terça-feira da semana que vem, dia 10. Não perca. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Frantumaglia - O lado não ficcional de Elena Ferrante

    Publicada originalmente em 2003, esta obra reúne cartas, e-mails, entrevistas e ensaios da romancista italiana das últimas três décadas. Na semana passada e na semana retrasada, analisamos no Desafio Literário de Elena Ferrante os dois primeiros romances da escritora napolitana: “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), thriller psicológico de 1992, e “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), suspense dramático de 2002. No post de hoje do Bonas Histórias, a ideia é discutirmos mais uma obra da principal romancista italiana da atualidade. Contudo, ao invés de mergulharmos novamente na ficção de Elena Ferrante, vamos debater aqui seu primeiro livro não ficcional. O título em questão é “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), minha leitura do último final de semana. Nessa publicação, podemos acompanhar a correspondência de Ferrante com os editores italianos, as entrevistas concedidas aos veículos de comunicação de seu país e do exterior, os comentários sobre os roteiros cinematográficos que foram baseados em seus romances e os ensaios que a autora produziu ao longo dos anos tendo como temática sua literatura e os mais variados assuntos (política interna, papel das mulheres na literatura, feminismo, crítica literária, detalhes do fazer literário e visão sobre a Itália e a cidade de Nápoles). Assim, descortinamos, no Desafio Literário, um pouco mais da personalidade de uma das figuras mais enigmáticas da literatura italiana e, por que não, da literatura contemporânea. A ideia de lançar “Frantumaglia” partiu de Sandra Ozzola e Sandro Ferri, os editores da Edizioni e/o, a editora italiana que publica os livros de Elena Ferrante. Como a escritora napolitana não aparece em público nem revela sua identidade verdadeira (lembremos: Elena Ferrante é simplesmente um pseudônimo), as únicas pessoas que têm algum contato (mesmo que mínimo) com ela são Sandra e Sandro (e a filha do casal, Eva Ferri). Porém, esses contatos são na maioria das vezes por escrito: no início eles trocavam cartas e, com o advento da Internet, agora se correspondem por e-mail. A dupla de profissionais da Edizioni e/o é a responsável por intermediar as raras entrevistas por escrito que Ferrante aceitou dar e as conversas dela com os diretores que levaram seus romances para o cinema, além de tratar de assuntos práticos envolvendo a publicação e a divulgação dos livros da autora best-seller. Em junho de 2003, diante do crescimento exponencial do interesse da mídia e do público leitor por detalhes da vida particular, das opiniões e dos títulos de Elena Ferrante, Sandra Ozzola e Sandro Ferri consultaram a romancista. Eles queriam saber a possibilidade de ela lançar um livro não ficcional contendo as correspondências trocadas com eles ao longo dos anos. Surpreendentemente, Ferrante aceitou a proposta. E, assim sendo, foi publicado, no segundo semestre daquele ano, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”. Segundo as palavras de Elena Ferrante, esse livro era destinado às “leitoras e aos leitores de “Um Amor Incômodo" e “Dias de Abandono” e deveria ser visto como “um apêndice dessas duas histórias, uma espécie de posfácio um pouco denso”. Essa coletânea de textos não ficcionais de Elena Ferrante ganhou duas novas edições em italiano nos anos seguintes. Além da versão original de 2003, “Frantumaglia” tem uma versão de 2007 e outra de 2016. Em cada uma delas, os editores da Edizioni e/o inseriram novos materiais à publicação. Ou seja, Sandra Ozzola e Sandro Ferri atualizaram periodicamente o livro com as correspondências mais recentes trocadas com Ferrante e com as novas entrevistas concedidas pela romancista. Quem ganha com essa evolução de conteúdo da obra é, obviamente, o fã mais fervoroso de Elena Ferrante. Ao invés de assistirmos apenas ao debate sobre seus dois primeiros livros, podemos acompanhar a repercussão dos títulos seguintes da italiana, principalmente o frenesi internacional causado pelos quatro títulos da Série Napolitana, o maior sucesso editorial da autora até aqui. Por falar na Tetralogia Napolitana, a publicação de “Frantumaglia” no exterior (fora da Itália) só aconteceu após Elena Ferrante alcançar o posto de best-seller mundial. Com a venda de milhões e milhões de exemplares mundão à fora de “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul), e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), as editoras dos outros países resolveram traduzir o primeiro livro não ficcional da escritora napolitana. Esse processo também aconteceu no Brasil. A edição brasileira de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” foi publicada em 2017 pela Editora Intrínseca e é fruto da tradução da última versão dessa obra em italiano (a de 2016). Por isso, temos acesso não apenas às cartas e às entrevistas da romancista até 2003 (como foi publicado na primeira edição em italiano), mas também acompanhamos a comunicação efetuada por Ferrante entre 2003 e 2007 (conforme vem na segunda edição em italiano) e a correspondência dela entre 2011 e 2016 (como está na terceira e mais recente versão em italiano). O tradutor responsável por adaptar o texto de “Frantumaglia” para o português brasileiro foi Marcello Lino, que também traduziu outros quatro romances da autora: “Um Amor Incômodo”, “A Filha Perdida” (Intrínseca), “Uma Noite na Praia” (Intrínseca) e “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca). Com o acréscimo sistemático de textos, a nova edição de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”, que no original mal passava de um livro com 100 páginas e contendo apenas 17 capítulos, possui agora 416 páginas e 43 capítulos. Em outras palavras, essa obra passou de uma publicação enxuta para um título ao melhor estilo tijolão. “Frantumaglia” está agora dividido em três blocos – “Parte I: Papéis”, “Parte II: Tésseras” e “Parte III: Cartas”. As seções desse livro de Elena Ferrante estão organizadas de acordo com as atualizações realizadas ao longo do tempo. Enquanto a primeira parte tem 17 capítulos, a segunda e a terceira têm, respectivamente, 9 e 17 capítulos. A parte I, “Papéis”, corresponde aos textos de 1991 a 2003 (conteúdo original da obra) e abrange as entrevistas e os debates sobre os dois romances iniciais de Ferrante, “Um Amor Incômodo” e “Dias de Abandono”, e o lançamento do filme “Um Amor Incômodo” (L'amore Molesto: 1995). A parte II, “Tésseras”, está ligada ao período entre 2003 e 2006 (conteúdo acrescido na segunda versão do título). Aqui assistimos ao impacto da publicação original de “Frantumaglia”, do romance “Uma Filha Perdida” e do longa-metragem “Dias de Abandono” (I Giorni dell'abbandono: 2005). E a parte III, “Cartas”, é a mais recente. Ela contempla as entrevistas realizadas de 2011 a 2016 (e relaciona-se com a atualização feita na terceira edição de “Frantumaglia). Esse é o período de maior sucesso de Elena Ferrante, quando a Série Napolitana se transformou em um best-seller internacional. Li essa coletânea epistolar nas manhãs e nas tardes do último final de semana (sábado e domingo). Devo ter levado entre cinco horas e meia e seis horas para percorrer integralmente o conteúdo de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”. Apesar de volumoso, esse livro tem uma leitura fluída, gostosa e, por que não, rápida (considerando a extensão de páginas). O mais legal dessa obra é poder ter acesso direto às opiniões, às visões de mundo e à biografia de Elena Ferrante, algo que raramente temos acesso na imprensa de forma geral (a escritora concede pouquíssimas entrevistas). Além de promover um debate de altíssimo nível sobre as características de suas personagens, de suas tramas e de seu estilo narrativo e de apontar referências literárias, ela ainda discute muitos aspectos do fazer literário, justifica sua decisão de não querer aparecer publicamente e esmiuça os bastidores da construção de seus romances e dos roteiros cinematográficos de suas obras. O capítulo inicial de “Papéis”, a parte I de “Frantumaglia”, se chama “O Presente de Befana”. Esse é o texto mais antigo da coletânea – ele é de setembro de 1991. Nessa carta enviada à Sandra Ozzola, Elena Ferrante explica que não irá aparecer para o público em nenhuma oportunidade, nem na divulgação de “Um Amor Incômodo”, nem em futuros lançamentos que faça com a editora. No segundo capítulo, “As Costureiras das Mães”, Elena envia seu discurso ao júri do Prêmio Procida-Isola di Arturo-Elsa Morante de 1992. Como ela não compareceu à cerimônia, ela precisou enviar um texto de agradecimento. Em “Escrever por Encomenda”, a escritora faz um desabafo irônico para a solicitação de seus editores. Eles pediram para que ela escrevesse algumas linhas em homenagem ao 15º aniversário da Edizioni e/o. Em abril de 1994, Ferrante avisa Sandro Ferri que está ansiosa para conhecer o roteiro de Mario Martone, diretor que iria adaptar para o cinema o primeiro romance da napolitana. Esse capítulo se chama “O Livro Roteirizado”. Em “A Reinvenção de Um Amor Incômodo”, quinta seção de “Papéis”, Ferrante e Martone trocam cartas nas quais debatem mais profundamente a adaptação do romance “Um Amor Incômodo” para as telas. Essa correspondência vai de abril de 1994 a janeiro de 1995. “Hierarquias Midiáticas” é a resposta irônica de Elena ao convite de Francesco Erbani, jornalista do caderno de cultura do jornal La Republlica. Às vésperas do lançamento do filme de Mario Martone, Erbani queria entrevistar a romancista. “Sim, Não, Não Sei” é o texto enviado à Sandra no qual Ferrante responde às perguntas enviadas pela jornalista Annamaria Guadagni. Antes, a escritora escancara o desconforto que sente por precisar interagir com o público e a mídia, mesmo que por escrito. Em “As Roupas, Os Corpos”, Elena Ferrante comenta com Mario Martone suas impressões sobre o filme que ele tinha lançado há poucas semanas. O nono capítulo da parte inicial de “Frantumaglia”, “Escrever às Escondidas”, traz as respostas dadas por Elena a Goffredo Fofi. O experiente jornalista, escritor e crítico literário solicitou, em 1995, uma entrevista por escrito com Ferrante e foi atendido. Em maio de 1998, Sandra é avisada que Elena está produzindo um novo romance. Esse livro teria como temática uma trabalhadora que é observada obsessivamente por alguém de má índole. Esse é o conteúdo do capítulo “As Trabalhadeiras”. Em “Mentiras que Dizem Sempre a Verdade”, Ferrante comunica Sandro, em janeiro de 2002, que aceita dar uma nova entrevista a Fofi. Os três capítulos seguintes de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” são “A Cidade Sem Amor”, “Sem Distância de Segurança” e “Uma História de Desestruturação”. Esses textos apresentam as entrevistas concedidas por Elena Ferrante entre janeiro e setembro de 2002 a, respectivamente, Goffredo Fofi, Stefania Scateni e Jesper Storgaard. O assunto é o mesmo nas três oportunidades: o romance “Dias de Abandono”, a segunda publicação ficcional da autora napolitana. Os últimos capítulos de “Papéis” são “Suspensão da Incredulidade”, “A Frantumaglia” (título que emprestou seu nome ao livro) e “Um Posfácio”. Em “Suspensão da Incredulidade”, Elena explica para Sandro Ferri alguns pontos de sua narrativa curta em que critica Silvio Berlusconi. Em “A Frantumaglia”, o maior capítulo dessa seção e o texto mais revelador do livro, Elena Ferrante explica para Giuliana Olivero e Camilla Valletti, jornalistas da revista Indice, as relações entre as protagonistas de “Um Amor Incômodo” e “Dias de Abandono” e a sua biografia. Assim, descobrimos que os dois primeiros romances de Ferrante continham vários elementos autobiográficos. E, em “Um Posfácio”, acompanhamos a troca de cartas entre Elena e Sandra na qual elas decidem lançar esse livro. O capítulo inicial de “Tésseras”, a parte II dessa coletânea de textos não ficcionais, se chama “Depois de Frantumaglia”. Nele, Elena e Sandra concordam em ampliar “Frantumaglia” com novos textos, entrevistas e correspondências de Ferrante. Em “A Vida nas Páginas”, assistimos à entrevista de Francesco Erbani com a escritora napolitana. Esse material foi publicado em outubro de 2003 no jornal La Republlica. “Os Dias no Meio do Caminho”, terceiro capítulo dessa seção, apresenta os comentários de Elena ao primeiro roteiro de Roberto Faenza. O diretor adaptou para o cinema “Dias de Abandono”. Em “A Olga Imprevista de Margherita Buy”, Angiola Codacci-Pisanelli entrevista Ferrante para a edição de setembro de 2005 da revista L´Espresso. “O Livro de Ninguém” é o quinto capítulo de “Tésseras”. Nesse texto, Elena Ferrante compara o conto “A Volta” de Conrad à adaptação cinematográfica realizada por Patrice Chéreau no filme “Gabrielle” (2005). “Como é Feia Essa Menina” mostra a experiência de Elena Ferrante de ter lido “Madame Bovary”, romance clássico de Gustave Flaubert, na adolescência. Em “As Etapas de Uma Busca”, Francesco Erbani conversa novamente com Elena Ferrante. Para desespero da romancista, o jornalista insiste em questionar a verdadeira identidade de sua entrevistada. “A Temperatura Capaz de Acender o Leitor” apresenta as respostas de Elena às perguntas formuladas pelos ouvintes de Fahrenheit, o programa literário transmitido pela rádio RAI 3. E, no último capítulo dessa segunda parte de “Frantumaglia”, acompanhamos a entrevista dada por Elena a Marina Terragni e Luisa Muraro, em janeiro de 2007, na qual debatem “A Filha Perdida”. O nome desse texto é “O Vapor Erótico do Corpo Materno”. Nos 17 capítulos da parte III, “Cartas”, acompanhamos as entrevistas concedidas por Elena Ferrante aos jornalistas e críticos literários da Itália e do resto do mundo (Estados Unidos, Noruega, Portugal, Turquia, Islândia, Espanha, Inglaterra e Bélgica). Os temas principais dessas conversas são o sucesso internacional da Tetralogia Napolitana e a opção da autora italiana por não revelar sua verdadeira identidade (algo que não entra na cabeça do pessoal da imprensa e do mercado editorial). Em “A Subalterna Brilhante”, o primeiro capítulo dessa seção, Ferrante é sabatinada por Paolo Di Stefano, jornalista do Corriere della Sera (Itália). A conversa deles foi publicada em novembro de 2011. “Medo de Altura”, “Cada Indivíduo é Um Campo de Batalha”, “Cúmplice Embora Ausente” e “Nunca Baixar a Guarda” são as entrevistas concedidas, respectivamente, a Karen Valby da revista Entertainment Weekly (Estados Unidos), Giulia Calligaro da revista Io Donna (Itália), Simonetta Fiori do La Repubblica (Itália) e Rachel Donadio do The New York Times (Estados Unidos). Em “Mulheres que Escrevem”, o sexto capítulo de “Cartas”, acompanhamos o bate-papo de Ferrante com Sandra Ozzola, Sandro Ferri e Eva Ferri. Esse é um dos textos mais longos do livro. O mais interessante dessa entrevista é que ela foi realizada presencialmente. Sim, você leu corretamente: eu disse PRESENCIALMENTE. Ou seja, Sandra e Sandro, o casal de editores da Edizioni e/o, e Eva, a filha deles, conhecem o maior segredo de Elena Ferrante (a verdadeira identidade da escritora). Essa conversa entre amigos foi publicada na revista The Paris Review (Estados Unidos) no começo de 2015. Em “As Pessoas Exageradas”, “Treze Letras”, “Narrar o que Foge à Narrativa”, “A Verdade de Nápoles”, “O Relógio”, “A Hortinha e o Mundo” e “O Magma Sob as Convenções”, Elena responde às perguntas de Gudmund Skjeldal do Bergens Tidende e Aftenposten (Noruega), Isabel Lucas do jornal Público (Portugal), Yasemin Çongar da revista online T24 (Turquia), Arni Matthíasson do jornal Morgunblaðið (Islândia), da equipe da revista Frieze (Inglaterra), Ruth Joos do jornal De Standaard (Bélgica) e Elissa Schappell da revista Vanity Fair (Estados Unidos), respectivamente. Essas conversas foram realizadas por escrito e publicadas entre maio de 2015 e agosto de 2015. “Descontentamento Deliberado”, “As Mulheres que Desmarginam”, “O Desperdício da Inteligência Feminina” e “Apesar de Tudo” são os capítulos finais da parte III de “Frantumaglia”. Nesses textos, acompanhamos as entrevistas dadas por Ferrante a Andrea Aguilar da revista Babelia e do jornal El País (Espanha), Liz Jobey do jornal Financial Times (Inglaterra), Deborah Orr da revista The Gentlewoman (Inglaterra) e Nicola Lagioia do jornal La Repubblica (Itália), respectivamente. Eles foram publicados de novembro de 2015 a março de 2016. Uma das questões mais legais de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”, como já disse, é acompanhar as visões, as opiniões e as passagens autobiográficas de Elena Ferrante. Se pensarmos nela como alguém muito tímida e profundamente receosa em relação à exposição pública, é notável reparar no quanto a romancista se expõe nessa obra. Ela fala de sua infância em Nápoles, da relação contraditória com a mãe, da saída da cidade natal depois de adulta, do novo papel que assumiu depois do nascimento dos filhos e dos relacionamentos conturbados que teve no passado. Percebe-se que as histórias ficcionais de Ferrante possuem doses elevadas de elementos autobiográficos. Ela não apenas concede entrevistas falando diretamente desses temas como mostra sua correspondência particular, escreve ensaios literários e apresenta conversas com os editores da Edizioni e/o. Além disso, Ferrante apresenta detalhes do seu processo de escrita criativa, debate a relação com o ofício de romancista e analisa as características estilísticas de suas narrativas e de suas personagens. Para quem gosta dos pormenores do fazer literário e dos conceitos da teoria literária ler esses trechos de “Frantumaglia” é um deleite. Percebe-se uma escritora madura e com grande profundidade conceitual. Ferrante tem total domínio da técnica romanesca e conversa tranquilamente sobre suas concepções artísticas. Para mim, essa é a outra parte brilhante do livro. A autora italiana oferece várias referências literárias: “Adele”, de Federigo Tozzi, “Dalla Parte Di Lei”, de Alba de Céspedes, “Lettera All’editore”, de Gianna Manzini, “Menzogna e Sortilegio” e “A Ilha de Arturo”, de Elsa Morante, e “A Princesa de Clèves”, de Madame de La Fayette. Ela também destaca os trabalhos de Italo Calvino, Gustave Flaubert, entre outros grandes nomes da literatura italiana e mundial. Outra questão que intriga os fãs de Elena Ferrante é o interminável debate sobre a real identidade da autora best-seller. Há quem diga que ela seja Goffredo Fofi, um importante crítico literário, ou Fabrizia Ramondino, uma destacada escritora nascida em Nápoles. Outros acreditam que ela seja Domenico Starnone, escritor italiano de grande destaque nacional, ou Anita Raja, tradutora e esposa de Starnone. Seguindo as várias linhas da teoria da conspiração, há quem afirme que Ferrante seja um escritor homossexual ou mesmo um conjunto de vários autores. Sempre que os jornalistas a questionam sobre isso, Elena Ferrante é lisa em escapar das indagações. Curiosamente, ela não dá nenhum indicativo em suas respostas, nem afirmando nem negando ser algum desses nomes, o que só alimenta ainda mais as especulações. O principal ponto negativo de “Frantumaglia” é que ele se torna um tanto repetitivo à medida que avança. Esse problema se torna maior na parte final. A série de entrevistas dadas por Elena Ferrante aos jornalistas italianos e estrangeiros em “Cartas” parecem se repetir interminavelmente. Tanto as perguntas quanto as respostas são parecidíssimas. Aí chega uma hora que cansa. Em alguns momentos, tive a impressão de que Elena Ferrante tem toda a razão em não conceder esse tipo de abertura aos jornalistas. Já como leitores ficamos entediados em assistir sempre as mesmas questões sendo formuladas, imagine como deve ser para a autora ter que encarar esse martírio. Outro elemento que não engoli foi as trocas de várias cartas e e-mails de Elena com seus editores italianos. Algumas me pareceram extremamente inverossímeis, principalmente aquelas que não foram publicadas. Minha sensação é que Sandra Ozzola e Sandro Ferri inventaram algumas das correspondências com a romancista napolitana ou simularam esses diálogos muitos anos depois só para dar maior consistência a “Frantumaglia”. Isso é mais evidente na parte I, “Papéis”, e no comecinho da parte II, “Tésseras”. Não sei explicar exatamente o motivo dessa minha impressão. Para ser franco, meu feeling é que... como posso falar? Não posso afirmar nada evidentemente. Apenas vou dizer o que pensei, tá? Para mim, Elena Ferrante é na verdade Sandra Ozzola. Pronto falei. Ou alguém da família Ferri. Cheguei a essa conclusão analisando a troca de correspondência entre Elena e Sandra Ozzola e Sandro Ferri. Não tenho nada que comprove essa minha teoria. Como disse, foi apenas uma sensação. Curiosamente, entre as possíveis identidades levantadas para a autora napolitana, pouca gente aposta no casal Ozzola-Ferri. Se tivesse que fazer uma aposta, confesso que colocaria todas as minhas fichas em Sandra. Por fim, fiquei bastante incomodado com a mudança de discurso de Ferrante ao longo do tempo para justificar seu sumiço da cena pública. No começo, ela dizia que não queria aparecer porque não gostava de se expor e pronto. Além disso, a escritora não se sentia confortável em revelar sua identidade porque tratava de muitas questões pessoais em seus romances e porque não queria perder tempo tendo que interagir com jornalistas e com o público em geral. Algo para ela chatíssimo. Impossível não aplaudir alguém com uma postura corajosa, honesta e humilde como essa. Entretanto, à medida que os anos foram passando e o sucesso foi aumentando, Elena mudou significativamente o discurso. Aí entraram razões evidentemente de ordem menos práticas e muito mais ideológicas. A justificativa ficou mais bonita aos ouvidos do público, é verdade, mas menos crível. Para mim, ela soa agora artificial e um pouco petulante. Preferia quando Ferrante falava que não queria aparecer porque ela não se sentia confortável com as entrevistas e os eventos literários e não tinha nada de interessante para revelar ao público. Apesar de um ou outro tropeção, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” é um ótimo livro de não ficção. Tenho a impressão de que os leitores que já leram as principais obras de Elena Ferrante irão gostar mais desse título do que os que não leram nada da autora napolitana. Afinal, nas páginas dessa coletânea, acompanhamos um debate inteligente e aprofundado dos romances de Ferrante, das características psicológicas e emocionais de suas personagens e do seu estilo narrativo. Quem não sabe do que está sendo tratado nos capítulos na certa ficará boiando (e deverá achar o livro chato). Agora que conhecemos esse que é o livro não ficcional mais importante de Elena Ferrante, vamos voltar para os romances dela. Na semana que vem, retornarei ao Desafio Literário para comentar “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), a obra mais famosa de Ferrante. Publicado em 2011, esse título inaugura a conceituada Série Napolitana, o maior sucesso editorial da literatura italiana das últimas décadas. O post sobre “A Amiga Genial” estará disponível no Bonas Histórias na próxima segunda-feira, dia 26. Não perca as novas partes do estudo da literatura de Elena Ferrante. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Dias de Abandono - O segundo romance de Elena Ferrante

    Publicado em 2002, o drama psicológico narrado por uma mulher abandonada pelo marido representou a internacionalização do trabalho da escritora italiana. Na semana passada, analisamos “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), o romance de estreia de Elena Ferrante. No post de hoje, vamos comentar “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), a segunda publicação da principal escritora italiana da atualidade. Li essa obra no último final de semana e, mais uma vez, fiquei embasbacado com a qualidade da literatura praticada por Ferrante. Com essa nova crítica, damos sequência ao Desafio Literário desse bimestre. Para quem chegou agora e não está ligado na dinâmica do blog, eu aviso: em julho e agosto iremos estudar em profundidade oito livros de Elena Ferrante. A partir das avaliações individuais, construiremos, no finalzinho de agosto, uma análise completa da carreira, da trajetória pessoal e do estilo narrativo da autora best-seller. Quem curte o melhor da ficção contemporânea e da literatura italiana não pode perder os próximos posts do Bonas Histórias. Publicado dez anos depois de “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” foi lançado na Itália em 2002. O segundo romance de Elena Ferrante foi finalista do Prêmio Viareggio, um dos mais tradicionais do país. O drama psicológico narrado por uma mulher desprezada pelo marido depois de 15 anos de um casamento aparentemente feliz e tranquilo caiu rapidamente no gosto dos leitores e da crítica literária italiana. Se Ferrante ficara mais de uma década sem apresentar novidades ao público, ao menos a longa espera valeu a pena. Seu novo trabalho manteve a excelência do livro de estreia, além de conservar boa parte do estilo narrativo que notabilizaram a obra anterior de Ferrante (thriller dramático extremamente tenso, narradora feminina com problemas emocionais, protagonista nascida em Nápoles, conflitos familiares delicados e relações amorosas tóxicas). A discussão na Itália na época do lançamento de “Dias de Abandono” era: afinal de contas, esse livro seria melhor do que “Um Amor Incômodo”?! Uma parte da crítica literária se inclinou a dizer sim. Outra parte respondeu negativamente, destacando a complexidade psicológica de Delia, a narradora-protagonista da publicação antecedente. Confesso que fico em cima do muro nesse Fla-Flu literário. Achei “Um Amor Incômodo” um romance mais original, catártico e com uma personagem central profundamente polêmica. Já “Dias de Abandono” possui uma trama mais linear, personagens verossímeis (loucas é verdade, mas com um pé na realidade do dia a dia), um conflito mais carismático e uma trama recheada de reviravoltas. Admito que gostei mais de “Dias de Abandono” (do meu ponto de vista de leitor), mas reconheço que “Um Amor Incômodo” é um livro superior (do meu ponto de vista de crítico literário). Entendeu agora o porquê eu disse que fico em cima do muro nessa discussão? Avaliações subjetivas à parte, de concreto temos que o novo romance de Elena Ferrante representou a internacionalização da carreira da italiana. “Dias de Abandono” foi traduzido para vários idiomas e lançado com êxito no exterior, principalmente na Europa e na América do Norte. Com essa obra, a romancista napolitana que insiste em manter sua identidade sob total anonimato (Ferrante, vale a pena relembrar, é um pseudônimo) se tornava um autora best-seller mundial. Até a publicação da série Napolitana, tetralogia formada por “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), “Dias de Abandono” era o livro de maior vendagem mundial de Ferrante. Aproveitando-se do sucesso desse título, o diretor Roberto Faenza levou para o cinema uma adaptação da história da esposa abandonada. A versão audiovisual de “Dias de Abandono” (I Giorni dell'abbandono: 2005) foi lançada três anos depois da chegada do livro homônimo às livrarias italianas. Curiosamente, esse foi o mesmo hiato temporal do lançamento nos cinemas da trama anterior de Elena Ferrante – o filme “Um Amor Incômodo” (L'amore Molesto) é de 1995, enquanto o romance é de 1992. Estrelaram a produção cinematográfica de “Dias de Abandono” Margherita Buy, Luca Zingaretti, Goran Bregovic, Alessia Goria, Gea Lionello e Gaia Bermani Amaral. Voltando a falar do romance propriamente dito, “Dias de Abandono” foi publicado no Brasil apenas em 2016 pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo. Ou seja, tivemos que esperar mais de uma década para ter a edição em português desse livro. E isso ocorreu em virtude do sucesso estrondoso da série Napolitana, o maior êxito comercial de Elena Ferrante. A Editora Globo aproveitou o grande interesse dos brasileiros pela literatura da italiana e lançou uma obra do início da carreira da escritora. A tradução de “Dias de Abandono” para nosso idioma foi feita por Francesca Cricelli, poetisa, tradutora e pesquisadora acadêmica natural de Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo. O romance se passa em Turim e é narrado por Olga, uma dona de casa napolitana de 38 anos. Ela está casada há quinze anos com Mario, um bem-sucedido engenheiro de 40 anos. A vida da protagonista é aparentemente tranquila e satisfatória. Depois de morar no Canadá, na Espanha e na Grécia por causa do emprego de Mario em uma multinacional, o casal fixou residência no norte da Itália, onde mora há pouco menos de cinco anos com os dois filhos pequenos, Gianni de 10 anos e Ilaria de 7 anos, e com o cachorro Otto, um pastor alemão. A rotina de Olga sofre uma transformação abrupta quando, em uma tarde de abril, o marido lhe comunica uma decisão importante. Ele quer a separação. Sem jamais ter demonstrado qualquer insatisfação com o matrimônio e com a companheira ao longo de uma década e meia, ele simplesmente opta por pegar suas coisas, sair de casa e deixar esposa, filhos e cachorro para trás. A naturalidade e a calma com que Mario age contrasta com a explosão emocional da narradora-protagonista. Olga tenta até manter a racionalidade e o controle da situação no início. Ingenuamente, ela acredita que o marido está agindo no calor da emoção e que logo mudará de ideia. Entretanto, ao perceber que a posição dele é definitiva, a dona de casa explode em um surto psicótico. Vítima de uma fúria descontrolada (algo que só os psiquiatras poderiam definir com exatidão: seria borderline ou estresse pós-traumático?), Olga perde totalmente a estribeira. Obcecada por descobrir quem é a nova mulher do esposo (afinal, ela tem certeza de que foi trocada por outra!), a até então pacata napolitana se transforma em uma louca varrida. Seu nível de insanidade chega ao ponto de ela ser capaz de colocar em risco a sua vida, a dos filhos, a do marido (ou, nessa altura do campeonato, ex-marido), a do cachorrinho, a dos vizinhos, a dos amigos e a de quem mais entrar em seu caminho. Nesse surto emotivo-psicológico que dura algumas semanas, a personagem principal do romance tem apenas um objetivo em mente: descobrir por quem foi traída e acabar com a nova rotina de Mario. Sua raiva tem uma explicação lógica. Ela abriu mão de muitas coisas nos últimos anos (carreira ascendente, sonho de ser escritora, contato com os parentes, interação com os velhos amigos, vida em Nápoles...) em prol da relação com Mario e da felicidade da família. Contudo, ele parece não enxergar as coisas dessa maneira, trocando-a possivelmente pela primeira mulher que cruzou na sua frente (as suspeitas de Olga recaem, em um primeiro momento, sobre Gina, uma antiga colega de faculdade de Mario e que é atualmente a colega mais próxima dele no trabalho). Assim, é dado início aos piores dias dessa família de classe média alta aparentemente normal. Digo aparentemente normal porque uma vez que as estruturas que sustentam suas relações afetivas desmoronam, cada personagem da trama irá se comportar diferentemente do que indicaria o histórico de vida e seus papéis sociais. Nas páginas desse livro, assistimos ao colapso psicológico de uma mulher que até outro dia não mostrava sinais nenhum de psicopatia nem corria riscos de virar uma louca aos olhos dos parentes e da sociedade. “Dias de Abandono” possui 184 páginas e está dividido em 47 capítulos. Levei aproximadamente quatro horas e meia para percorrer integralmente seu conteúdo no sábado passado. Ou seja, esse é um título que dá para ler em um dia só. Li em dois momentos: metade durante a manhã e a outra metade à tarde. A extensão de “Dias de Abandono” é um pouco superior a “Um Amor Incômodo”, livro anterior de Ferrante, e “A Filha Perdida” (Intrínseca), o romance posterior da italiana, que têm 176 páginas. Porém, se comparada às obras da série Napolitana, que possuem em média 426 páginas, essa publicação é bem enxuta. O primeiro aspecto que gostaria de destacar nesse romance de Elena Ferrante é o começo arrebatador, algo que já tínhamos visto em “Um Amor Incômodo”. Logo nos primeiros parágrafos de “Dias de Abandono”, a escritora italiana apresenta o drama de sua protagonista. Assim, mal o leitor inicia a leitura do livro, ele já cai de cabeça no conflito psicológico enfrentado por Olga. Esse recurso é genial, principalmente em uma narrativa de suspense. Acredito que é impossível você ler as primeiras páginas das obras de Ferrante e não querer prosseguir. Não acredita em mim?! Então, seguem os dois parágrafos iniciais desse romance para você entender o que estou falando: “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa, as crianças brigavam como sempre no outro cômodo, o cachorro sonhava resmungando ao lado do aquecedor. Disse-me que estava confuso, que vivia maus momentos de cansaço, de insatisfação, talvez de covardia. Falou por muito tempo dos nossos quinze anos casados, dos filhos, e admitiu que não tinha o que reclamar deles nem de mim. Manteve a compostura de sempre, contendo um gesto de excesso com a mão direita quando me explicou com uma careta infantil que vozes leves, certo sussurro, o levavam para outro lugar. Depois assumiu a culpa de tudo que estava acontecendo e fechou com cuidado a porta atrás de si, deixando-me como uma pedra ao lado da pia. Passei a noite refletindo, consternada, na grande cama de casal. Por mais que eu reexaminasse as fases recentes da nossa relação, não conseguia encontrar verdadeiros sinais de uma crise. Eu o conhecia bem, sabia que era um homem de sentimentos tranquilos, a casa e os nossos rituais familiares eram para ele indispensáveis. Falávamos de tudo, ainda gostávamos de nos abraçar e de nos beijar, às vezes sabia ser engraçado a ponto de me fazer rir até as lágrimas. Parecia-me impossível que quisesse realmente ir embora. Quando depois lembrei que não havia levado consigo nenhuma das coisas que lhe eram importantes e que tinha até esquecido de se despedir das crianças, tive a certeza de que não se tratava de algo sério. Estava atravessando um daqueles momentos que se relatam nos livros, quando uma personagem reage, às vezes, de forma excessiva ao normal descontentamento da vida”. Compare agora com o começo de “Um Amor Incômodo”. São ou não são dois inícios espetaculares, hein?! Seguem, abaixo, os dois primeiros parágrafos do romance de estreia de Elena Ferrante para você escolher qual é o trecho melhor: “Minha mãe se afogou na noite de 23 de maio, dia do meu aniversário, no mar de um lugar chamado Spaccavento, a poucos quilômetros de Minturno. Precisamente naquela área, no final dos anos cinquenta, quando meu pai ainda morava conosco, alugávamos no verão um quarto em uma casa de temporada e passávamos o mês de julho dormindo os cinco em poucos metros quadrados escaldantes. Toda manhã, nós, meninas, comíamos ovos crus, partíamos rumo à praia por trilhas de terra e areia ladeadas por juncos altos e íamos tomar banho de mar. Na noite em que minha mãe morreu, a dona da casa, que se chamava Rosa e já tinha mais de setenta anos, ouviu alguém bater à porta, mas não abriu temendo ladrões e assassinos. Minha mãe pegara o trem para Roma dois dias antes, em 21 de maio, mas nunca havia chegado. Nos últimos tempos, vinha ficar comigo durante alguns dias pelo menos uma vez por mês. Eu não gostava de ouvi-la pela casa. Ela acordava ao raiar do dia e, seguindo seus hábitos, lustrava de cima a baixo a cozinha e a sala de estar. Eu tentava voltar a dormir, mas não conseguia: enrijecida entre os lençóis, eu tinha a impressão de que, enquanto ela se ocupava, meu corpo era transformado no de uma menina enrugada. Quando chegava com o café, eu me encolhia em um canto para evitar que ela tocasse em mim ao se sentar na beirada da cama. A sociabilidade dela me incomodava: saía para fazer compras e se enturmava com os comerciantes com os quais, em dez anos, eu não havia trocado mais do que duas palavras; ia passear pela cidade com alguns conhecidos ocasionais; fazia amizade com meus amigos, aos quais contava histórias de sua vida, sempre as mesmas. Com ela, eu só sabia ser contida e insincera”. As semelhanças entre esses dois romances de Elena Ferrante não param por aqui. “Dias de Abandono” tem também uma narradora pouquíssimo confiável. Ou alguém em sã consciência iria acreditar piamente nos relatos de uma pessoa em um surto psicológico, hein?! Por falar nos dramas presentes de Olga, eles vêm misturado com lembranças angustiantes (talvez seu passado não seja tão tranquilo assim), alucinações (com aparições fantasmagóricas), autocríticas (por ter perdido o marido, a esposa rejeitada questiona-se onde teria errado), pensamentos perturbadores (estamos mergulhando na mente de alguém doente) e passagens literárias (a personagem principal é apaixonada pelos clássicos da ficção). Essa mistureba inusitada é o que confere graça e força à trama de Ferrante. A tensão é evidente em quase todos os capítulos de “Dias de Abandono”. E esse clima bélico entre esposa e marido irá prosseguir até o desfecho do livro. Esse é o tipo de obra que se o leitor estiver fumando durante a leitura, há o risco de provocar uma grande explosão (a quantidade de combustível presente nas páginas é absurda!). Achei que “Um Amor Incômodo” possui maior suspense, mas “Dias de Abandono” tem maior nível dramático. Outra questão que aproxima os dois títulos iniciais de Elena Ferrante é o caráter novelesco das narrativas. Com poucas personagens em cena, capítulos curtos, apenas um espaço narrativo (basicamente a casa da família) e drama central que monopoliza a história, as características de “Dias de Abandono” são mais parecidas a uma novela do que a um romance. O único elemento que o faz ser um romance efetivamente é a extensão de sua história. Não é preciso dizer que esse livro repete o enredo anterior da escritora italiana: drama familiar com alta voltagem de intrigas, traições, confusões e, principalmente, psicopatias. Se “Um Amor Incômodo” tratava das relações tumultuadas de mãe e filha, “Dias de Abandono” foca nas brigas de um casal. Se olharmos atentamente para “A Filha Perdida”, o terceiro romance de Elena Ferrante, ele é uma mistura dos dois anteriores (conflitos familiares envolvendo tanto as filhas da protagonista quanto a mãe e o marido). Já que falamos das várias semelhanças, vamos tratar agora das diferenças entre “Dias de Abandono” e “Um Amor Incômodo”. E elas não são poucas. Para começo de conversa, Olga é bem diferente de Delia, apesar de ambas serem napolitanas e agirem como loucas varridas. A distinção está no caráter de cada uma. Enquanto Delia é alguém abalada desde a infância por episódios que nem mesmo ela sabe explicar racionalmente, Olga sofreu um abalo recente que tirou o seu chão. Em outras palavras, a ilustradora de histórias em quadrinhos que vivia em Roma era uma psicopata incurável. Já a dona de casa em Turim é simplesmente uma mulher que está momentaneamente abalada emocional e psicologicamente com uma traição inexplicável. Apesar de aparentemente sutil, essa diferença transforma totalmente a narrativa (o que indicará desfechos distintos para os dois romances). Por falar nisso, o desenlace de “Dias de Abandono” é o oposto do encerramento de “Um Amor Incômodo”. Nesse segundo romance de Elena Ferrante, assistimos à redenção da narradora-protagonista, algo que não aconteceu com Delia, mergulhada cada vez mais em suas neuroses. Olga consegue, depois de muito sofrimento, encontrar uma luz no fim do túnel e superar o trauma da separação abrupta com Mario. Aqui, temos o ciclo completo do romance de formação (personagem principal enfrenta um conflito seriíssimo, sofre, supera o problema e volta ao estado de normalidade). Como isso, Olga deixa o papel de anti-heroína, algo que Delia jamais conseguiu abandonar. Em “Dias de Abandono”, o maior vilão não é a protagonista (para quem viveu uma separação traumática, não é difícil adivinhar quem seja essa figura). Não temos nessa obra a ambientação exuberante e caótica de Nápoles (um dos charmes de “Um Amor Incômodo”). Vale lembrar que “Dias de Abandono” se passa quase totalmente em Turim. Olga e Mario deixaram o sul da Itália há muitos anos e parecem ter largado os hábitos e o estilo de vida dos napolitanos. Por exemplo, eles não gritam, não brigam e não são chegados a uma confusão. Isso é, até se separarem. De certa forma, eles sempre agiram mais como os nortistas do que como os sulistas. Só quando surta, Olga irá agir de acordo com os estereótipos dos seus conterrâneos. É mais ou menos como diz o ditado: uma pessoa até pode deixar Nápoles, mas Nápoles jamais deixa o âmago de uma pessoa. Legal notar essa questão/contradição. Cuidado, agora vai um pequeno spoiler (pequenino, juro!). Se você não quiser lê-lo, por favor, pule esse parágrafo. Então lá vai (não digam depois que não avisei!): a identidade da nova mulher de Mario é um tanto óbvia. Eu pelo menos acertei no meu palpite. Provavelmente você também acertará. Afinal, não são tantas as opções assim. Diria que são apenas duas: uma mais tradicional e outra mais disruptiva (fui nessa segunda hipótese). Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente o momento em que Olga descobre a identidade da rival (algo que ocorre no capítulo 15, mais ou menos no final do primeiro terço do romance). Nesse instante, sua reação explosiva é até compreensível. Em suma, “Dias de Abandono” mantém boa parte das características estilísticas que Elena Ferrante apresentou ao público em “Um Amor Incômodo”. Concomitantemente, há várias e sutis diferenças, o que confere ainda mais graça e força ao segundo romance da autora italiana. Como já disse, como leitor, gostei mais desse livro. Entretanto, é inegável que a obra de estreia possua elementos mais originais e inquietantes (se precisasse resumir a literatura de Ferrante, diria que são narrativas inquietantes!). Nossa investigação sobre a literatura de Elena Ferrante prosseguirá na semana que vem. Na próxima terça-feira, 20 de julho, retornarei ao Bonas Histórias para analisar mais um livro da romancista napolitana, o terceiro título dela do Desafio Literário desse bimestre. A obra em questão é “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), a coletânea de entrevistas, cartas, depoimentos e memórias de Ferrante. Esse título foi publicado em 2003, um ano depois de “Dias de Abandono”. Será interessante mergulharmos nesse texto não ficcional de Elena Ferrante. Essas páginas permitirão que conheçamos a sua personalidade, as suas crenças e a sua visão de mundo, algo que não foi possível até aqui pelos seus romances. Não perca a análise de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” e os próximos capítulos do Desafio Literário de julho e agosto. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Um Amor Incômodo - O romance de estreia de Elena Ferrante

    Publicada em 1992, a primeira obra da escritora napolitana conquistou o reconhecimento do público e da crítica, além de importantes prêmios literários. Como diria o poeta, comecemos o Desafio Literário desse bimestre pelo começo. O estudo da literatura de Elena Ferrante que o Bonas Histórias se propôs a fazer em julho e agosto inicia-se efetivamente hoje com a análise completa do romance de estreia da escritora italiana. O título em questão é “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), minha leitura no último final de semana. Na época de seu lançamento, esse livro gerou um barulho bastante positivo na Itália. Ele caiu rapidamente no gosto do público leitor e da crítica literária. Para coroar o surgimento triunfal de Ferrante no cenário da prosa ficcional italiana, “Um Amor Incômodo” se destacou em importantes prêmios literários de âmbito nacional. Além de ter conquistado o Prêmio Procida-Isola di Arturo-Elsa Morante e o Prêmio Oplonti d'Argento como melhor romance daquela temporada, essa obra foi finalista do Prêmio Strega e do Prêmio Artemisia. Nada mal para uma autora até então desconhecida e que se escondia sob um pseudônimo que ninguém ouvira falar até então. Publicado em 1992, “Um Amor Incômodo” é um thriller psicológico narrado em primeira pessoa por uma mulher napolitana que tem sérios problemas de relacionamento com a família, principalmente com a mãe e com o pai. Mesmo adulta e independente financeiramente, ela é atormentada por segredos e desavenças de sua infância. Só por essa descrição sucinta do primeiro romance de Elena Ferrante é possível ver que essa temática (drama envolvendo um clã napolitano e graves conflitos entre mãe e filha) irá permear as narrativas da escritora italiana daqui para frente. De certa maneira, esse resumo de “Um Amor Incômodo” é muito parecido às sinopses dos principais romances de Ferrante publicados nas três décadas seguintes. Três anos depois do lançamento desse livro nas livrarias italianas, o diretor Mario Martone levou para as telas dos cinemas a adaptação do título de estreia de Elena Ferrante. O filme “Um Amor Incômodo” (L'amore Molesto: 1995) foi estrelado por Anna Bonaiuto, Angela Luce, Gianni Cajafa, Peppe Lanzetta e Giovanni Viglietti e sua exibição aconteceu no circuito comercial italiano e em festivais cinematográficos da Europa. O longa-metragem ajudou a popularizar ainda mais essa obra e sua autora na Itália. Vale a pena destacar que já em sua primeira publicação, Ferrante já despertava o interesse dos cineastas. Ou seja, essa corrida recente pela compra dos direitos de filmagem dos seus romances, conforme abordei na introdução desse Desafio Literário, não deveria ser uma surpresa. Tanto “Um Amor Incômodo” como “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), a segunda narrativa longa da romancista napolitana (e obra que será analisada no Bonas Histórias na semana que vem), foram levados ao cinema três anos depois dos lançamentos das versões literárias. No Brasil, o romance “Um Amor Incômodo” só foi publicado em 2017, após o sucesso da série Napolitana, o maior êxito editorial de Elena Ferrante. Aproveitando-se do interesse crescente dos leitores desse lado do Atlântico pelas obras da escritora italiana, a Intrínseca resolveu lançar os títulos de Ferrante que não tinham sido comprados pela Editora Globo, dona do selo Biblioteca Azul. Assim, a editora carioca produziu as versões em português não apenas de “Um Amor Incômodo” como também de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), coletânea de entrevistas, cartas, depoimentos e memórias da autora napolitana lançada originalmente em 2003, “A Filha Perdida” (Intrínseca), terceiro romance de Elena Ferrante, de 2006, “Uma Noite na Praia” (Intrínseca), trama infantil de 2007, e “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), o mais recente romance da autora best-seller, publicado em 2019. Em todos esses livros da Intrínseca, o responsável pela adaptação do texto do italiano para o português brasileiro foi Marcello Lino. Por isso, ele é, ao lado de Maurício Santana Dias (profissional encarregado da tradução dos quatro romances da série Napolitana, títulos da Biblioteca Azul), o principal tradutor de Elena Ferrante em nosso país. Em Portugal, vale a menção, “Um Amor Incômodo” foi traduzido como “Um Estranho Amor” pela Dom Quixote, hoje um selo da Leya. Confesso que gostei mais do título brasileiro. Há uma elegância maior em incômodo do que em estranho, algo mais compatível à prosa refinada de Ferrante. Entretanto, acho que a tradução mais correta seria algo como amor perturbador, um sentimento muito mais intenso e sombrio do que incômodo ou estranho e mais adequado ao termo original – L'amore Molesto. O enredo de “Um Amor Incômodo” começa em Roma, mas se passa essencialmente em Nápoles. Narrada em primeira pessoa por Delia, uma napolitana de 45 anos que trabalha há muito tempo na capital italiana como ilustradora de histórias em quadrinhos, essa trama inicia-se com o falecimento de Amalia, a mãe da protagonista. A senhora de 63 anos morreu afogada em uma praia de Spaccavento, localidade perto de Minturno. O acidente fatídico aconteceu justamente no dia do aniversário de Delia. Para surpresa do leitor mais sensível, a notícia da morte de Amalia é recebida pela filha com uma mistura de alívio e de indiferença. A moça não gostava da mãe. Na verdade, Delia nunca se deu bem com ninguém da família: ela odeia o pai e mantém distância protocolar das duas irmãs mais novas (que são casadas, têm filhos e moram em outras cidades). Solitária e profundamente melancólica, a ilustradora vive em Roma sob os traumas da infância passada no sul da Itália. Esses problemas de relacionamento de outrora são os responsáveis pela sua rotina atual, sem namorados, maridos, filhos, amigos ou qualquer envolvimento afetivo. Precisando participar do funeral de Amalia e necessitando cuidar das questões burocráticas da morte da mãe, Delia viaja para Nápoles. Assim, ela volta a encontrar os parentes depois de muitos anos. Esse retorno à cidade natal e, por consequência, ao passado traumático escancara algumas feridas abertas no seio familiar. A protagonista do romance nunca superou, por exemplo, a separação dos pais ocorrida há 23 anos. Enquanto juntos, Amalia e o marido viviam brigando. Extremamente ciumento, ele batia na mulher e a ameaçava física, psicológica e moralmente. Por sua vez, a esposa nunca escondeu que recebia em casa visitas suspeitas de um tal de Caserta, um sujeito casado e com filho que dava em cima de todas as mulheres da cidade. Aparentemente, Amalia era a sua preferida, pois Caserta lhe mandava corriqueiramente presentes, o que despertava a ira do pai de Delia e fazia explodir a violência naquele lar nada harmônico. Além de reviver o período mais difícil de sua vida (a infância), a viagem a Nápoles serve para Delia aplacar a curiosidade por alguns detalhes mal explicados sobre o afogamento da mãe. No momento da morte, Amalia estava vestindo apenas um sutiã sensual e novo, algo que a filha via como incompatível com o guarda-roupa e os hábitos maternos. Para completar o enigma, Amalia estava viajando de férias por Spaccavento, algo inusitado desde que ela se separara do marido. E, o que parecia ainda mais difícil da filha acreditar, a mãe estava acompanhada por um homem nesse passeio pelo litoral italiano. Teria aquela senhora um namorado? Quem seria esse indivíduo? Em outras palavras, a vida recente de Amalia era bem diferente daquela imaginada por Delia. Ao invés da pacata dona de casa napolitana que entrou na terceira idade e que não possuía qualquer vaidade nem flertava com o sexo oposto, a mãe da protagonista mostrava-se viva, revigorada e com uma rotina afetivo-sentimental bem ativa. Interessada em descobrir quem era efetivamente Amalia e, principalmente, quem era o homem que a acompanhava na viagem à praia, Delia inicia uma investigação particular. Ao tentar recriar os últimos passos da mãe, por quem jamais teve intimidade e carinho genuínos, ela encontra algumas peças que faltavam do quebra-cabeça de sua infância. Assim, é aberto o baú de segredos e enigmas do passado da família, algo que revela muitas surpresas para todo mundo. “Um Amor Incômodo” possui 176 páginas e está dividido em 26 capítulos. Trata-se de um livro curtinho, principalmente para os padrões de Elena Ferrante. Quem encarou os tijolões da série Napolitana sabe sobre o que estou me referindo. Não à toa, esse é o romance mais enxuto da autora italiana que vamos analisar no Desafio Literário desse bimestre – ele tem o mesmo tamanho de “A Filha Perdida”, título que já analisamos em Livros – Crítica Literária, outra coluna do Bonas Histórias. Levei em torno de três horas e meia para concluir a leitura de “Um Amor Incômodo” no último sábado. Esse é o tipo de obra que dá para ler em um único dia. Se você tem mais fôlego literário, dá para lê-lo em uma só manhã ou em uma tarde apenas. Esse romance é um drama psicológico bem intenso. Os segredos de Delia e de sua família são revelados aos poucos para os leitores através de flashbacks da narradora-protagonista e dos relatos obtidos de conhecidos (amigos, vizinhos e parentes). Juntamente com as lembranças e as descobertas da ilustradora, assistimos a passagens oníricas, o que embaralha ainda mais as peças colocadas em cima da mesa. Muitas vezes, Delia (uma narradora pouquíssimo confiável) sonha e imagina coisas, o que torna sua experiência em direção ao passado ainda mais complexa e desafiadora para o leitor. É incrível acompanhar esse recurso narrativo proposto por Elena Ferrante. A escritora napolitana consegue transformar em um suspense denso os dramas emocionais de sua protagonista. Outra questão que merece destaque em “Um Amor Incômodo” é o clima noir de sua história. A ambientação do romance é recheada de sujeira, pobreza, barulho, perigo, calor, superlotação, mau cheiro, violência (de todos os tipos: violência doméstica, violência psicológica, ameaças de assassinato, estupro, infidelidade conjugal, suicídio, assalto, contravenção, falsificação...), segredos e mentiras. Nada poderia ser mais napolitano do que isso, diriam os adeptos dos clichês literários e dos preconceitos geográficos. Se faltam carinho e amor genuínos à vida da protagonista do livro, sobram tensão, angústia e receio de ela se relacionar com o mundo. Não apenas o clima familiar parece pesado e bélico como a própria cidade natal de Delia soa como um lugar desafiador, imprevisível e perigoso. Por falar nisso, tive a impressão de que Nápoles é também uma personagem central de “Um Amor Incômodo”. O município sulino faz parte da trama com sua atmosfera de passionalidade efervescente, sensualidade incontrolável, machismo tóxico (haveria outro tipo de machismo?!), pobreza constante e violência endêmica. Além disso, passeamos pelas ruas napolitanas, pela geografia local e por suas particularidades (desde os dialetos até o inconfundível funicular). Ler Elena Ferrante é adentrar na Nápoles dos seus moradores mais humildes e problemáticos, um lugar quase sempre inacessível aos visitantes e turistas. A sensação de constante incômodo que temos durante essa leitura é potencializada pelas características das personagens do livro. Todas as figuras aqui presentes (tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes) são do tipo redonda. E elas possuem mais características de vilania do que de heroísmo (no sentido tradicional do termo). Tente, por exemplo, achar uma personagem com atitudes e caráter elogiáveis. Na certa, você não encontrará (ou terá muita dificuldade de achá-la). A impressão é que todos guardam segredos em “Um Amor Incômodo”, mascarando seus comportamentos indecorosos, suas faltas e suas falhas. Em outras palavras, acompanhamos um desfile de anti-heróis. Até mesmo figuras aparentemente à prova de qualquer suspeita (como mães, pais, filhos, tios, melhores amigos, vizinhos antigos) podem ser indivíduos repugnantes. Ainda sob esse aspecto, temos uma protagonista extremamente polêmica. Delia é uma mulher muito estranha, para dizer o mínimo. Sua fixação e suas neuras pela mãe escondem na verdade certas características de psicopatia. Problemática, infeliz, mentirosa, egoísta e insensível, ela se justifica culpando a infância que teve em Nápoles e o matrimônio desastroso dos seus pais, que culminou em uma separação traumática até hoje. Se por um lado é difícil comprar o discurso de Delia, por outro é maravilhoso acompanhar os relatos de uma personagem tão complexa e desequilibrada psicológica e emocionalmente. A essência dessa obra (o que Orhan Pamuk, o último autor analisado no Desafio Literário, chamava de centro do romance) está na relação tumultuada entre mãe e filha. A falta de intimidade de Delia com Amalia chega ao ponto da narradora se referir a progenitora mais pelo nome próprio (186 menções) do que pelo termo mãe (151 menções). Esse aspecto é uma clara indicação do distanciamento, da falta de amor e da deslegitimação da relação matriarcal/filial entre as duas personagens. Curiosamente, isso não acontece, por exemplo, com o pai. O pai de Delia, por mais que ela o odeie, é chamado o tempo inteiro de pai, ao ponto de eu não saber se ela citou o nome dele durante “Um Amor Incômodo” (acho que não). Mesmo com as inúmeras diferenças, com as várias críticas mútuas, com as cenas de violência física explícita e com a total falta de amor entre eles, ele é o pai dela e ponto final. No caso de Amalia não! A sensação é que ela não é a legítima mãe da narradora-protagonista. Uma possível justificativa para o fato de a narradora chamar sempre a mãe pelo nome próprio pode estar presente na última frase do livro. Por falar nisso, o desfecho dessa trama é arrebatador. As duas últimas frases de “Um Amor Incômodo” são simplesmente geniais. Elas conseguem elevar a experiência literária ao exigir que o leitor reflita sobre a história que acabou de conhecer. Incrível! Para quem gosta de procurar evidências autobiográficas nas tramas ficcionais (confesso que faço parte desse grupo), vale a pena dizer que “Um Amor Incômodo” foi dedicado à mãe de Elena Ferrante. O que isso significa, hein?! Não sei. Acho que nada. Ou talvez tudo. Sinceramente, não sei precisar. Porém, é inegável que essa homenagem chame a atenção do leitor mais atento. Afinal, estamos diante de uma obra na qual o conflito principal está na relação contraditória e bélica entre mãe e filha. É ou não é um prato cheio para teorias conspiratórias, né? Agora entendo o motivo de “Um Amor Incômodo” ter recebido tantos prêmios e elogios da crítica literária italiana na época de seu lançamento. Realmente, temos aqui um romance excelente. É até difícil imaginar que ele seja efetivamente a obra de estreia de uma autora novata. Por isso, a impressão de que Elena Ferrante já fosse, no início da década de 1990, uma escritora carimbada (que, a partir de então, passou a publicar seus trabalhos com um pseudônimo). De duas uma: ou ela já era experiente no ofício de prosadora ficcional ou iniciou a nova carreira com grande maturidade estilística e total domínio das técnicas literárias. De qualquer forma, quem saiu ganhando foram os leitores. “Um Amor Incômodo” é sem dúvida nenhuma um título à altura de uma das principais figuras da literatura italiana da atualidade e uma das principais best-sellers da literatura contemporânea mundial. Por isso, lembre-se: o trabalho de Elena Ferrante vai muito além da série Napolitana. Na próxima quarta-feira, dia 14, continuarei com a investigação da literatura de Elena Ferrante. Nessa data, retornarei ao Desafio Literário para analisar o segundo romance da autora italiana. O livro que será comentado é “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul). Publicado em 2002, dez anos depois de “Um Amor Incômodo”, esse título representou a internacionalização da carreira de Ferrante. Se o seu primeiro romance foi um sucesso nacional, o segundo se transformou em um best-seller internacional. Não deixe de acompanhar, no Bonas Histórias, a análise de “Dias de Abandono” e a sequência do estudo da literatura de Ferrante no Desafio Literário. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Filha Perdida - O terceiro romance de Elena Ferrante

    Publicado em 2006, esse drama psicológico de alta voltagem consolidou Ferrante como uma das principais romancistas contemporâneas da Itália e da Europa. Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que tem sua identidade mantida sob anonimato, apesar do status de best-seller internacional. Inegavelmente, trata-se de uma atitude incomum, ainda mais em uma época marcada pela busca desenfreada pela fama e pelos holofotes da mídia. Ferrante, que alguns dizem ser uma tradutora nascida em Nápoles e outros garantem ser um jornalista (você leu corretamente, um jornalista, no masculino mesmo), nunca mostrou seu rosto e de vez em quando aceita conceder entrevistas por escrito. Mesmo assim, ela é atualmente a romancista italiana mais vendida no planeta. Seu maior sucesso é a série “Napolitana”, tetralogia literária publicada entre 2011 e 2014 e um dos maiores best-sellers europeus da década. Seu primeiro romance, “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), foi publicado em 1992 e recebeu incontáveis críticas elogiosas na Itália. A segunda publicação da autora, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), chegou às livrarias dez anos depois e se tornou um fenômeno mundial. Esse título foi o responsável por levar o nome de Ferrante para os quatro cantos do planeta. Após “Frantumaglia - Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), livro não ficcional de 2003 em que a italiana constrói um autorretrato singelo e honesto de sua atuação literária, Elena lançou seu terceiro romance. “A Filha Perdida” (Intrínseca) marcou a afirmação da autora como um dos grandes nomes da literatura italiana, europeia e, por que não, mundial. Não é preciso dizer que esta obra foi um novo sucesso de crítica e de público. Interessado em conhecer mais o trabalho de Elena Ferrante, li neste final de semana “A Filha Perdida”. E admito que fiquei estupefato com a alta qualidade desta produção literária. Os sucessos da autora italiana não foram simples sorte de principiante (caso alguém tenha cogitado essa hipótese). Gostei tanto deste livro que o devorei em uma única noite. Juro que não consegui largar suas páginas antes de concluir sua leitura, mesmo precisando entrar madrugada à dentro com a obra em minhas mãos. Lançado originalmente em 2006, “A Filha Perdida” segue a receita narrativa dos dois romances precedentes da escritora. Neste drama psicológico, Elena Ferrante apresenta aos leitores uma napolitana de meia-idade angustiada com sua vida e complexada com a relação nada saudável com sua família, principalmente com a mãe e com as filhas. Em uma trama densa e extremamente intensa, mergulhamos na mente de uma das mais polêmicas protagonistas da literatura contemporânea. Narrado em primeira pessoa, o enredo de “A Filha Perdida” gira em torno da viagem de férias de Leda, uma professora universitária de 47 anos. Moradora de Florença, ela aproveitou o Verão e o recesso no trabalho para passar algumas semanas sozinha em uma praia no sul do país. Para tal, alugou um apartamento confortável à beira-mar e seguiu de carro para lá. A docente quer aproveitar a solteirice e acalmaria de sua vida, agora que suas filhas adultas estão morando em Toronto com o pai, para descansar um pouco e, principalmente, montar o programa de aulas do próximo ano letivo. O plano de Leda, contudo, é atrapalhado por uma grande família napolitana que também passa férias na mesma praia. Barulhentos, vulgares, espaçosos e feios, eles interrompem o sossego da professora e dos demais banhistas. No meio daquela balburdia tipicamente sulista, uma imagem chama a atenção de Leda. Junto aos familiares barraqueiros, uma jovem mãe mostra-se elegante, bonita e muito carinhosa com a filha, uma menina de cerca de três anos de idade que não desgruda de sua boneca. O contraste é radical. As duas (mãe e filha) são uma antítese total de seus familiares. Curiosa para conhecer mais sobre aquela mulher misteriosa, que evidentemente não é napolitana, Leda aceita interromper seu isolamento voluntário e se aproximar pouco a pouco das outras turistas. O contato com Nina (esse é o nome da jovem mãe) e Elena (a filha pequena de Nina) implica necessariamente no relacionamento de Leda com os familiares napolitanos das duas. Aí o fascínio inicial da professora universitária com as novas amigas se transformará em irritação. Na sequência, lembranças desagradáveis serão afloradas na mente da narradora-protagonista, que também nasceu em Nápoles e precisou fugir de lá para não conviver mais com a família. O passado nebuloso com a mãe e, posteriormente, com as duas filhas virão à tona, atormentando consideravelmente Leda. As tão sonhadas férias tranquilas podem, assim, virar um grande pesadelo. “A Filha Perdida” tem 176 páginas. É, portanto, um romance curto. Ele possui 25 capítulos e sua história abrange o período de férias da personagem principal. Nota-se logo de cara que Leda tem sérios problemas emocionais e comportamentais, que só vão crescendo à medida em que a conhecemos mais. Porém, não podemos imaginar o quão fundo é este poço. É nesse ponto que o romance se torna surpreendente! “A Filha Perdida” é um thriller psicológico sinistro. Leda é uma típica anti-heroína que tenta o tempo inteiro convencer o leitor do contrário. Como uma boa psicopata, ela tem uma excelente argumentação e tenta posar de vítima da situação. Isso é um dos aspectos mais legais do livro (e o que torna sua narrativa bem verossímil). Sabe quando você conversa com um indivíduo insano e, na visão dele, suas atitudes egoístas, maldosas e frias são corriqueiras e tem uma justificativa plausível, enquanto tudo o que os outros fazem é errado e fruto de comportamentos maledicentes?! Pois Leda se comporta justamente assim. Incrível! Outro aspecto sensacional é como Elena Ferrante consegue construir um relato passional e profundo em meio a uma história aparentemente banal. Se analisarmos as cenas concretas do romance, não há muita coisa acontecendo ao menos no primeiro plano. Uma senhora está de férias na praia e fica observando uma família de turistas. Sua rotina é bem monótona. Entretanto, os detalhes bobos do cotidiano são o que suscitam um turbilhão de emoções na protagonista. São seus pensamentos (fluxo de consciência) que dão emoção à trama e elevam consideravelmente o tom da narrativa. Mais interessante do que o presente é o passado da narradora. Descobrir os segredos de Leda é o que atiça a curiosidade do leitor. “A Filha Perdida” reserva muitas surpresas em seus capítulos. As reviravoltas da trama acontecem tanto na viagem psíquica da personagem principal quanto no seu cotidiano objetivo. Nada parece ser exatamente como pensamos. A realidade é bem distinta quando analisada a fundo. Isso vale para uma senhora culta sentada tranquilamente na beira de uma praia quanto para uma jovem mãe apaixonada pelo marido e zelosa ao extremo com sua filha pequena. O que está por trás das aparências das mulheres normais, hein? O texto de Ferrante é elegante, sem soar pedante ou mesmo excessivamente requintado. Sua construção narrativa é sólida. Isso inclui o tom/voz da narração e o seu conteúdo dramático. A excelência desta obra fica mais nítida quando analisamos o universo feminino retratado nesta história. As personagens femininas são riquíssimas e muito variadas. Praticamente, temos um quadro sensível e complexo de mulheres de várias idades e de classes sociais distintas. Se por um lado elas são figuras redondas e contraditórias (um convite ao que há de melhor na produção ficcional contemporânea), as personagens masculinas são, quase sempre, secundárias e estereotipadas. Ou seja, não existe trama perfeita, né? Apesar dos vários acertos de “A Filha Perdida”, nada é mais interessante do que o mergulho na psicologia da protagonista. Leda escancara um tipo de mulher pouco explorado na literatura e no cinema. É legal procurarmos entender seus preconceitos, seus medos, suas frustrações e, acima de tudo, seus comportamentos em relação à maternidade e ao matrimônio. Elena Ferrante nos força a olhar para as relações de mães e filhos de um jeito novo, original e ácido. Sem dúvida nenhuma, somos levados, nesta obra, a um lado obscuro e pouquíssimo comentado da maternidade. Gostei tanto deste livro que estou louco para ler outros títulos da escritora italiana. Elena Ferrante é um monstro de autora (monstro no sentido positivo, tá?) e merece uma análise mais profunda de seu trabalho literário (alguém aí usou a palavra Desafio Literário, hein?). Aguarde, portanto, novidades nos próximos meses no Bonas Histórias. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Desafio Literário: abril e maio/2021 - Orhan Pamuk

    Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, o romancista turco será o autor analisado pelo Bonas Histórias nos próximos dois meses. Começamos a sétima temporada do Desafio Literário, uma das colunas mais longevas e populares do Bonas Histórias, com um dos principais escritores da atualidade: Orhan Pamuk. O romancista turco é sucesso de público e de crítica há quase quatro décadas. Por isso, ele terá seu trabalho ficcional analisado aqui no blog nos próximos dois meses (abril e maio de 2021). Para tal, vamos ler e comentar oito de seus livros mais importantes: “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), “A Vida Nova” (Editorial Presença), “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), “Neve” (Companhia das Letras), “Istambul - Memória e Cidade” (Companhia das Letras), “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras) e “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras). A partir daí, teremos condições para encerrar o Desafio Literário deste bimestre com a construção de um panorama completo dos aspectos estilísticos e da trajetória pessoal e profissional de Pamuk. Se você ainda não ficou totalmente motivado(a) a nos acompanhar neste estudo, talvez seja necessária a apresentação de uma pequena introdução sobre o autor que será analisado agora no Bonas Histórias. Vencedor de uma série de honrarias internacionais que culminou, em 2006, com a conquista do Prêmio Nobel de Literatura, Orhan Pamuk foi traduzido para meia centena de idiomas. Escritor mais lido na Turquia, ele também obteve grande êxito editorial na Europa e nos Estados Unidos, onde é best-seller há anos. Ou seja, estamos falando do principal nome da literatura turca da atualidade. Nascido em junho de 1952 em Istambul, Orhan Pamuk tem como origem uma família de classe média da maior cidade turca. Seu pai era um engenheiro civil que acalentou na juventude o sonho de ser poeta. Apaixonado pela pintura desde criança, o futuro romancista sempre se imaginou atuando como pintor profissional. A família do pequeno Orhan estava convencida que quando o garoto tímido e introspectivo crescesse, ele trabalharia com a pintura ou com as artes plásticas. Contudo, quando abandonou, aos 22 anos, a faculdade de Arquitetura, na qual havia cursado três anos, Orhan Pamuk surpreendeu a todos (inclusive a si mesmo) ao resolver escrever um livro ficcional. O resultado dessa primeira imersão na literatura é “O Senhor Cevdet e Seus Filhos” (em uma tradução livre pois essa obra, “Cevdet Bey ve Oğulları”, ainda não foi editada em português). Uma vez escrito o romance inicial, o novo desafio do jovem autor foi publicar seu texto. Até ver sua obra de estreia lançada, Orhan Pamuk precisou esperar alguns anos. Apenas em 1982, quando o escritor já havia se casado com a historiadora Aylin Turegen e já computava 30 anos de idade, “O Senhor Cevdet e Seus Filhos/ Cevdet Bey ve Oğulları” chegou às livrarias turcas. A receptividade do público foi bem tímida, apesar dos elogios da crítica e da conquista de alguns prêmios literários. O primeiro sucesso comercial efetivo de Pamuk chegaria com a publicação, em 1983, do romance “A Casa do Silêncio”. Essa obra recebeu muitos elogios na Turquia e apresentou boa vendagem. Dois anos mais tarde, “O Castelo Branco”, romance de 1985, cairia nas graças da crítica literária do exterior e conquistaria importantes prêmios internacionais. A partir daí, Orhan Pamuk começou a produzir livros com narrativas mais sofisticadas e alinhadas com o que estava sendo desenvolvido pelos melhores autores da Europa e dos Estados Unidos. Em parte, os três anos em que ele viveu em Nova York, no final dos anos 1980, ajudaram-no nesse processo de amadurecimento literário. A década de 1990 representou o auge de Pamuk na ficção. De volta à Istambul, ele lançou seus principais romances: “O Livro Negro” (Companhia das Letras), de 1990, “A Vida Nova”, de 1994, e “Meu Nome é Vermelho”, de 1998. Neste momento da história, o escritor turco não apenas se tornou o autor mais popular em seu país natal como se tornou um best-seller internacional. Além de acumular vários prêmios no exterior, Orhan Pamuk pavimentou seu caminho ao Nobel de Literatura, que não tardaria em chegar. Nos anos 2000, vieram novos romances interessantes, como “Neve”, de 2002, e “O Museu da Inocência” (Companhia das Letras), de 2008. A novidade é que além do lançamento de narrativas ficcionais longas, Pamuk passou a escrever algumas obras não ficcionais. As mais importantes foram “Istambul - Memória e Cidade”, de 2003, livro de memórias, e “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”, de 2010, coletânea de ensaios sobre o fazer literário. Juntamente com o prestígio e a fama (aos olhos do mundo das letras, esse é um dos escritores mais originais e talentosos da literatura contemporânea), Orhan Pamuk também precisou aprender a conviver com as polêmicas. Bastante atuante politicamente, o autor sempre se posicionou contrário à violência ao povo curdo e ao autoritarismo do presidente (ou seria ditador?!) Recep Erdogan. Para quem não sabe, Erdogan é a versão turca de Jair Bolsonaro. O mandatário da Turquia está no poder desde 2003. Por causa de sua oposição ao atual governo de Istambul, Pamuk é alvo de processos na Justiça. Muitas vezes, o conteúdo de seus artigos críticos e de suas entrevistas que colocam o dedo nas feridas sociais de seus conterrâneos gera acaloradas discussões. Além disso, vira e mexe, Orhan Pamuk é vítima da ira dos extremistas de direita do seu país (ou você achava que essa turminha só existia no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, hein?). Seu último romance traduzido para o português foi “Uma Sensação Estranha”. Esta obra foi lançada em 2014 na Turquia e chegou por aqui em 2017. De lá para cá, Pamuk publicou mais seis livros em turco: um romance, uma novela, um livro de memórias, uma coletânea de ensaios e crônicas e dois ensaios fotográficos. Esta é uma pequena amostra do que o Bonas Histórias trará em abril e maio. Confira, a seguir, o cronograma integral de análises dos livros de Orhan Pamuk para as próximas oito semanas do Desafio Literário: - 9 de abril de 2021 – “A Casa do Silêncio” (1983) – romance. - 15 de abril de 2021 – “O Castelo Branco” (1985) – romance. - 21 de abril de 2021 – “A Vida Nova” (1994) – romance. - 27 de abril de 2021 – “Meu Nome é Vermelho” (1998) – romance. - 3 de maio de 2021 – “Neve” (2002) – romance - 9 de maio de 2021 – “Istambul - Memória e Cidade” (2003) – memórias. - 15 de maio de 2021 – “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (2010) – ensaios literários. - 21 de maio de 2021 – “Uma Sensação Estranha” (2014) – romance. - 27 de maio de 2021 - Análise Literária de Orham Pamuk. A nossa investigação sobre a produção literária de Orhan Pamuk começará efetivamente pelo segundo romance do turco, “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras). Esta obra marcou o primeiro sucesso do autor em seu país natal. O post relativo a “A Casa do Silêncio” estará disponível no Bonas Histórias na próxima sexta-feira, dia 9. Não perca. E boas leituras e um ótimo Desafio Literário de 2021 para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em julho e agosto de 2021

    Confira a lista com as 100 principais obras de ficção e de poesia que chegaram às livrarias brasileiras nesse bimestre. O mercado editorial brasileiro vive um bom momento. Na semana passada, saiu a pesquisa do 7º Painel do Varejo de Livros no Brasil com números realmente promissores. Segundo o último levantamento, a venda de livros cresceu 48,5% no primeiro semestre de 2021. A comparação foi feita com os dados do mesmo período do ano passado. Nos seis primeiros meses desse ano, foram vendidos 28 milhões de unidades em nosso país, o que gerou um faturamento bruto de R$ 1,19 bilhão. Inegavelmente, assistimos a uma retomada dos negócios já que em 2020 o setor apresentou uma queda de quase dois dígitos, conforme discutimos no mês passado aqui na coluna Mercado Editorial. Contudo, o indicativo mais interessante para mostrar a retomada do interesse de leitores e, principalmente, de editoras nacionais é o alto volume de novas publicações desse bimestre – o conteúdo central do post de hoje do Bonas Histórias. Depois de um bom tempo com um número limitado de lançamentos, enfim tivemos uma avalanche de novos títulos de ficção e de poesia chegando às livrarias em julho e agosto de 2021. São tantas as novidades que precisei limitar os meus destaques para 100 obras recém-publicadas. A última vez que isso tinha acontecido foi no quinto bimestre (setembro/outubro) de 2020, quando alcançamos a mesma marca de três dígitos em lançamentos no país. Naquela época, vivíamos o fim do represamento de publicações causado pela pandemia do novo coronavírus (que em março do ano passado interrompeu as atividades das editoras). Começo meus destaques pela literatura brasileira, mais especificamente pelos romances. “Amores Improváveis” (Globo), sexto romance de Edney Silvestre, e “A Extinção das Abelhas” (Companhia das Letras), segundo romance de Natalia Borges Polesso, são os títulos mais impactantes do momento. Afinal, tanto Silvestre quanto Polesso são colecionadores de importantes prêmios literários e possuem uma trajetória ficcional já consolidada. Não à toa, a dupla está entre os grandes nomes da literatura contemporânea do nosso país. Se “Amores Improváveis” é a narrativa histórica que mostra a vida sentimental de quatro irmãs entre o final do século XIX e o início do século XX, “A Extinção das Abelhas” é o drama contemporâneo de uma jovem solitária que descobre sua sensualidade ao se tornar uma camgirl. Não se surpreenda se esses títulos renderem mais prêmios aos seus autores nos próximos meses. Outras duas gratas surpresas são “O Drible da Vaca” (Record), thriller policial e histórico de Mário Prata, e “Aqueles Olhos Verdes” (Alfaguara), drama político-social de José Trajano. Os elementos que unem essas obras são: a forte mistura entre realidade e ficção, a reconstrução histórica e o mergulho no universo futebolístico, a grande paixão dos seus autores. Misturando romance investigativo e o surgimento do futebol na Inglaterra na metade do século XIX, Prata tece, em “O Drible da Vaca”, uma trama intrincada e gostosa protagonizada por ninguém menos do que John H. Watson, o eterno parceiro de Sherlock Holmes. Já Trajano, que tem se tornado um dos talentos recentes da ficção brasileira desde que passou a dividir seu tempo entre o jornalismo e a literatura, apresenta mais uma narrativa histórica de grande qualidade. Admito que virei fã de seus livros desde “Procurando Mônica” (Paralela) e “Tijucamérica” (Paralela). Em “Aqueles Olhos Verdes”, título emprestado da famosa canção espanhola que fez muito sucesso no Brasil na metade do século XX, acompanhamos um drama que mistura política, futebol, música, religião, cultura e hábitos cariocas de algumas décadas atrás. O resultado é uma trama ficcional divertida com jeitão de crônica social (seria o Brasil dos camisas-verdes de Plínio Salgado igualzinho ao país atual dos bolsonaristas?!). Deixando um pouco os romances de lado e entrando na categoria das novelas, cito “O Deus das Avencas – Três Novelas” (Companhia das Letras), de Daniel Galera, e “Lili – Novela de Um Luto” (Companhia das Letras) de Noemi Jaffe. Galera e Jaffe dispensam apresentações: eles estão entre os melhores escritores brasileiros da atualidade (no caso de Noemi Jaffe, ela é ainda uma ótima professora de oficinas literárias). Em “O Deus das Avencas – Três Novelas”, Daniel Galera apresenta três dramas psicológicos que dialogam intimamente com questões existencialistas e anseios políticos de diferentes épocas (passado, presente e futuro). É legal ver o autor paulistano em outro gênero narrativo, pois ele ficou famoso com os romances – “A Barba Ensopada de Sangue” (Companhia das Letras) é espetacular! Por sua vez, Noemi Jaffe apresenta, em “Lili – Novela de Um Luto”, a narrativa autobiográfica sobre a perda recente da mãe, uma das sobreviventes do Holocausto. Com um texto elegante, forte e reflexivo, suas características estilísticas, a autora paulistana mergulha no luto e transforma tristeza e saudade em arte da melhor qualidade. Quando o assunto é as coletâneas de contos, destaco “Janelas Visitadas” (Sete Autores), de Roberto Marcio, e “Limbo” (Caos & Letras), de Eduardo Sabino, títulos de duas promessas da literatura mineira. “Janelas Visitadas” é a segunda publicação de Roberto Marcio, escritor, tradutor e professor que é natural de Nova Lima. Ele estreou no papel autoral no ano passado com a coleção de crônicas “Andantes das Gerais” (Páginas Editora). Nessa nova obra, Roberto Marcio traz 23 narrativas curtas que permeiam vários gêneros narrativos: humor, drama, suspense, fantasia, romantismo, terror, denúncia social. Meu conto favorito de “Janelas Visitadas” é “Alícia em Milho Verde”, uma história deliciosa com várias referências literárias. Também gostei muito de “Protagonista Precavida”, “Enigma na Chapada”, “Sessão Terapia”, “Roteiro Romântico” e “Voo Noturno”. Em “Limbo”, a quarta coletânea de contos de Eduardo Sabino, temos textos produzidos pelo autor entre 2009 e 2019 que tratam de aventuras fantásticas, memórias infantis, dramas juvenis e passagens cotidianas bem-humoradas. A obra está dividida em seis partes: “Tipos Humanos”, “Contos de Flanagem”, “Tributos”, “Novas Sociedades”, “Bíblicos” e “Mitos de Origem”. Atente-se para “O Morto”, “A Bruxa” e “Tributos”, as melhores narrativas de “Limbo”. Além de escritor ficcional, Eduardo Sabino, nascido também em Nova Lima (ao menos nesse bimestre, a capital nacional da narrativa curta!!!) é ensaísta, colunista literário, editor, revisor de textos, roteirista de quadrinhos e empresário do setor editorial (é um dos fundadores da Editora Caos & Letras). Para encerrar esse rápido passeio pelos novos títulos da literatura nacional, vamos dar uma passada pela literatura infantil e pela poesia. Entre as obras para a criançada, ressalto “Histórias Para Dormir” (Editora EU-i), sexto livro (sendo o quinto infantil) de Jéssica Iancoski, prosadora e poetisa responsável pelo podcast “Toma Aí Um Poema”. Lançado em e-book, “Histórias Para Dormir” abrange dez contos que foram publicados originalmente no podcast homônimo de Iancoski. Além de ter produzido as narrativas da coletânea, a autora curitibana também fez as ilustrações da obra. Jéssica Iancoski é tão boa na contação das histórias infantis quanto na criação dos desenhos, além de ser uma fofura como pessoa. Vale a pena conhecer seus trabalhos literários, disponíveis para compra no site pessoal dela, e nos seus vários podcasts – “Toma Aí Um Poema”, “Histórias para Dormir”, “Jejéqui Lê” e “Isto Não São Só Poesias”. Em relação à poesia, minha sugestão de leitura é “Entre Duas Eternidades” (Escuta Poiese), de José Calderoni, psicoterapeuta, poeta e escritor. Primeira coleção poética do autor, “Entre Duas Eternidades” mistura versos, ilustrações (de Gil Tokio) e pequenas crônicas, além de possuir um espaço para a interação com os leitores. É até difícil dizer o que é mais interessante nessa obra: os poemas de Calderoni, o diálogo sinérgico de texto e imagem, o projeto gráfico (que apresenta duas capas de cores diferentes), a contextualização dos versos (com a explicação sobre passagens da vida do poeta), as belas ilustrações de Tokio ou a mistura de diferentes gêneros (seria esse livro uma coleção poética, uma coletânea de crônicas ou um graphic novel?!). Sob qualquer ponto de vista, vale a pena conhecer “Entre Duas Eternidades”. Agora quando o tema é literatura internacional, meus destaques vão para “Devoradores de Estrelas” (Suma), o segundo romance de Andy Weir, “Correntes” (Todavia), o primeiro sucesso de Olga Tokarczuk que só agora ganhou a tradução para o português, e “Mãe” (Companhia das Letras), obra do português Hugo Gonçalves. “Devoradores de Estrelas” é o novo trabalho de Weir. Para quem não está associando o nome ao romancista, Andy Weir é o autor de “Perdido em Marte” (Arqueiro), uma das melhores ficções científicas dos últimos anos. Em “Devoradores de Estrelas”, temos novamente um thriller espacial com altas doses de tensão e com forte embasamento científico (marcas da literatura do norte-americano). Quem conhece o conteúdo do livro “Perdido em Marte” – se você viu o filme baseado no romance, lamento dizer que você fez a escolha errada; o longa-metragem “Perdido em Marte” (The Martian: 2015) é chatíssimo, enquanto a obra literária é espetacular! – deve estar louquinho, louquinho da Silva para ler o novo lançamento de Weir (me incluo nesse grupo!). Esse título ficcional é um dos mais aguardados do ano (se tudo der certo, farei um post sobre ele até o final do ano na coluna Livros – Crítica Literária). Já “Correntes” é a autoficção da escritora polonesa vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 que emula um diário de viagem. O livro de Olga Tokarczuk mistura vários gêneros: contos, crônicas e reflexões pessoais e existencialistas. Trata-se de um ótimo exemplar do trabalho da autora. Por falar nisso, prepare-se, pois nos próximos anos teremos mais títulos antigos de Tokarczuk ganhando traduções para o português. A Todavia, editora com os direitos no Brasil do portfólio de Olga Tokarczuk, comunicou que, em 2022, lançará o ensaio “The Tender Narrador” e, em 2023, o romance “The Books of Jacob”. Ou seja, não deve demorar até chegarmos ao dia em que teremos oito (ou mais) títulos traduzidos de Olga Tokarczuk para o nosso idioma. Aí será possível incluir a polonesa no Desafio Literário, seção do blog voltada ao estudo estilístico dos autores renomados. “Mãe” é o romance mais destacado de Hugo Gonçalves, escritor e jornalista sintrense que é uma das boas vozes da moderna literatura portuguesa. Esse livro foi finalista do Prêmio PEN Clube de 2019 e do Prêmio Fernando Namora de 2020. Publicado no ano retrasado em Portugal com o nome “Filho da Mãe”, esse título ganha agora uma versão para o português brasileiro. A mudança de nome no Brasil foi providencial para não haver confusão com “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras), romance de Bernardo Carvalho que analisamos em 2015 no Bonas Histórias. Em “Mãe”, Gonçalves reflete sobre o quanto a morte precoce da mãe o afetou e moldou seu caráter e sua personalidade. Para não dizer que não falei dos clássicos, a Editora Dialética traz uma nova tradução de “Revolução dos Bichos”, fábula sociopolítica de George Orwell que vem frequentando a lista das obras ficcionais mais vendidas no país há algum tempo. Roberto Marcio, autor do já citado “Janelas Visitadas” e tradutor com grande conhecimento da literatura inglesa clássica, foi escalado para a missão de adaptar o texto do escritor inglês para o português brasileiro. Segundo o tradutor mineiro, seu desafio foi manter o estilo e o tom da versão original de Orwell, ao mesmo tempo em que precisou adequar o texto ao nosso idioma e à realidade atual. O trabalho de Roberto Marcio agradou tanto a editora que a Dialética decidiu colocar o nome dele na capa, uma raridade concedida a poucos tradutores. Por incrível que pareça, ler George Orwell tem se tornado uma experiência cada vez mais atual. Em relação às coletâneas de contos internacionais, gostaria de destacar “Expiração” (Intrínseca), do norte-americano Ted Chiang, “A Estrada Enluarada e Outras Histórias” (Arquipélago Editorial), do também norte-americano Ambrose Bierce, e “Nervo Óptico” (Todavia), da argentina María Gainza. Ted Chiang é um dos mais premiados autores de ficção científica dos Estados Unidos. As narrativas curtas de “Expiração” foram publicadas originalmente em 2008 e ganharam uma nova edição em 2019. A obra conquistou alguns prêmios literários tanto em âmbito doméstico quanto no exterior. “A Estrada Enluarada e Outras Histórias” é, por sua vez, um clássico da literatura norte-americana. O livro traz 21 contos de Ambrose Bierce, um dos principais contistas da língua inglesa no início do século passado e especialista em tramas fantásticas e em narrativas satíricas. “Nervo Óptico” é a mais recente publicação de María Gainza, uma das mais admiradas escritoras argentinas da atualidade. A obra traz 11 contos que trafegam entre memórias e ensaios e que mesclam com rara felicidade ironia, drama e lirismo. Por fim, “Puffy & Brunilda – Uma Pitada de Magia” (Companhia das Letrinhas), da italiana Barbara Cantini, é o exemplar da literatura infantojuvenil (na verdade, o correto seria dizer da literatura infantil) que gostaria de mencionar no post de hoje. “Puffy & Brunilda – Uma Pitada de Magia” traz as aventuras de dois amigos pouco convencionais: o gatinho de rua Puffy, que possui poderes especiais quando fecha os olhos, e a bruxinha Brunilda, que está aprendendo a voar de vassoura. A listagem com os mais relevantes lançamentos do mercado editorialbrasileiro desse quarto bimestre de 2021 está detalhada abaixo. O levantamento do Bonas Histórias focou nos títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e nas coletâneas poéticas. Confira os 100 principais livros recém-publicados nas livrarias de nosso país em julho e agosto: FICÇÃO BRASILEIRA: “Amores Improváveis” (Globo) – Edney Silvestre – Romance – 194 páginas. “A Extinção das Abelhas” (Companhia das Letras) – Natalia Borges Polesso – Romance – 312 páginas. “O Drible da Vaca” (Record) – Mário Prata – Romance – 384 páginas. “Aqueles Olhos Verdes” (Alfaguara) – José Trajano – Romance – 248 páginas. “Degeneração” (Record) – Fernando Bonassi – Romance – 288 páginas. “Embaixo das Unhas” (Penalux) – Vitor Camargo de Melo – Romance – 272 páginas. “Inventário de Outono” (Quelônio) – Mônica Reiche – Romance – 256 páginas. “Ouro de Moscou” (Urutau) – Roger Rocha – Romance – 292 páginas. “A Costureira da Rua Quinze” (Confraria do Vento) – Hugo Monteiro Ferreira – Romance – 252 páginas. “Félix – Uma Vida Nômade Poética Pelas Américas” (Humana) – Ricardo Machado – Romance – 400 páginas. “O Deus das Avencas – Três Novelas” (Companhia das Letras) – Daniel Galera – Novelas – 248 páginas. “Lili – Novela de Um Luto” (Companhia das Letras) – Noemi Jaffe – Novela – 112 páginas. “A Leitora de Poesia” (Reformatório) – Marcos Alexandre Faber – Novela – 136 páginas. “Cartas de Uma Pandemia” (Claraboia) – Tatiana Lazzarotto e Tainã Bispo – Novela – 152 páginas. “Fantasma” (Trajes Lunares) – Nilton Resende – Novela – 100 páginas. “Há Uma Lápide Com o Seu Nome” (Oficina Raquel) – Camilla Canuto – Novela – 108 páginas. “Bicho Geográfico” (CEPE) – Bernardo Brayner – Novela – 108 páginas. “Janelas Visitadas” (Sete Autores) – Roberto Marcio – Coletânea de Contos – 148 páginas. “Limbo” (Caos & Letras) – Eduardo Sabino – Coletânea de Contos – 260 páginas. “O Congresso da Melancolia” (Urutau) – Léo Tavares – Coletânea de Contos – 140 páginas. “Líquida” (Publicação independente) – Mariana Rossi – Coletânea de Contos – 202 páginas. “Farol da Solidão” (Uiclap) – Marcelo Andrighetti – Coletânea de Contos – 152 páginas. “Enquanto os Gigantes Dançam” (Quelônio) – Paulo Vicente Cruz – Coletânea de Contos – 64 páginas. “Casa de Alvenaria – Volume 1: Osasco” (Companhia das Letras) – Carolina Maria de Jesus – Coletânea de Crônicas – 232 páginas. “Casa de Alvenaria – Volume 2: Santana” (Companhia das Letras) – Carolina Maria de Jesus – Coletânea de Crônicas – 520 páginas. “O Corpo Crítico” (Companhia das Letras) – Jean-Claude Bernardet – Ensaios – 128 páginas. “Histórias Para Dormir” (Editora EU-i) – Jéssica Iancoski – Literatura Infantojuvenil – 88 páginas. “O Serviço de Entregas Monstruosas” (Intrínseca) – Jim Anotsu – Literatura Infantojuvenil – 416 páginas. “O Auto da Maga Josefa” (Gutenberg) – Paola Siviero e Vito Quintans – Literatura Infantojuvenil – 224 páginas. “As Aventuras de Mike – O Livro Interativo” (Planeta) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantojuvenil – 144 páginas. “Filha 7” (Publicação independente) – Marli Soares – Literatura Infantojuvenil – 96 páginas. “O Olho de Vidro do Meu Avô” (Global) – Bartolomeu Campos de Queirós – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “O Lugar do Meu Amigo” (Escarlate) – Marcia Cristina Silva e Catarina Bessel – Literatura Infantojuvenil – 56 páginas. “Brasileirinhos do Pantanal – Poesia para os Bichos de um Paraíso” (Companhia das Letrinhas) – Lalau e Laurabeatriz – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “A Menina que Não Falava” (Literare Books International) – Francilene Torraca e Natasha Ganem – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Além da Chuva” (FTD) – Michel Gorski e Fernando Vilela – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “O Menino que Grande Queria Ser Pequeno” (Raiz) – Bibiana Malgarim e Pacha Urbano – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Com Qual Penteado Eu Vou?” (Melhoramentos) – Kiusam Oliveira – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “A Princesa e o Espelho” (Underline Publishing) – Isabel Cintra – Literatura Infantojuvenil – 44 páginas. “A Noite em que o Sol Nasceu” (A Tenda) – Yara Rossatto e Fernanda Rodrigues – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “O Dia em que Meu Prédio Deu no Pé” (Companhia das Letrinhas) – Estevão Azevedo e Rômolo d´Hipólito – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Amor, o Coelho” (Caixote) – Rita Carelli – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Martim Barulim – Os Sons do Bebê” (Solisluna) – Natália Paiva e Luísa Amoroso – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “A Mamãe Sangra” (Editora Arte) – Cláudia Pacheco – Literatura Infantojuvenil – 20 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Devoradores de Estrelas” (Suma) – Andy Weir (Estados Unidos) – Romance – 424 páginas. “Correntes” (Todavia) – Olga Tokarczuk (Polônia) – Romance – 400 páginas. “Mãe” (Companhia das Letras) – Hugo Gonçalves (Portugal) – Romance – 184 páginas. “Nossa Parte de Noite” (Intrínseca) – Mariana Enriquez (Argentina) – Romance – 544 páginas. “A Garota que Não Se Calou” (Verus) – Abi Daré (Nigéria) – Romance – 352 páginas. “Forças Especiais” (Relicário) – Diamela Eltit (Chile) – Romance – 156 páginas. “O Grande Gatsby” (Tordesilhas) – F. Scott Fitzgerald (Estados Unidos) – Romance – 290 páginas. “O Morro dos Ventos Uivantes” (Autêntica) – Emily Brontë (Inglaterra) – Romance – 354 páginas. “As Minas do Rei Salomão” (Todavia) – Henry Rider Haggard (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “As Inseparáveis” (Record) – Simone de Beauvoir (França) – Romance – 128 páginas. “Satíricon” (Editora 34) – Petrônio (Itália) – Romance – 224 páginas. “Kentukis” (Fósforo) – Samanta Schweblin (Argentina) – Romance – 192 páginas. “O Mapa de Sal & Estrela” (Dublinense) – Zeyn Joukhadar (Síria/Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Porta” (Intrínseca) – Magda Szabó (Hungria) – Romance – 256 páginas. “Era Uma Vez em Hollywood” (Intrínseca) – Quentin Tarantino (Estados Unidos) – Romance – 560 páginas. “O Farol” (Intrínseca) – Emma Stonex (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Era da Ansiedade” (Rocco) – Pete Townshend (Inglaterra) – Romance – 304 páginas. “O Parque das Irmãs Magníficas” (Tusquets) – Camila Sosa Villada (Argentina) – Romance - 208 páginas. “Raiva” (Rua do Sabão) – Monica Isakstuen (Noruega) – Romance – 166 páginas. “Nove Partes de Um Coração” (Moinhos) – Janice Pariat (Índia) – Romance – 164 páginas. “Respira Comigo” (Charme) - Kristen Proby (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Revolução dos Bichos” (Editora Dialética) – George Orwell (Inglaterra) – Novela – 96 páginas. “O Cometa & O Fim da Supremacia Branca” (Fósforo) – W. E. B. Bois e Saidiya Hartman (Estados Unidos) – Novela – 88 páginas. “Expiração” (Intrínseca) – Ted Chiang (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 416 páginas. “A Estrada Enluarada e Outras Histórias” (Arquipélago Editorial) – Ambrose Bierce (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 224 páginas. “Nervo Óptico” (Todavia) – María Gainza (Argentina) – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Homo Poeticus” (Âyiné) – Danilo Kis (Sérvia) – Coletânea de Crônicas, Ensaios e Entrevistas – 312 páginas. “Contos Russos Juvenis” (Kalinka) – Lev Tolstói, Ivan Turguêniev, Catarina II e outros (Rússia); Daniela Mountian (org.) – Literatura Infantojuvenil – 400 páginas. “A Barraca do Beijo 3” (Astral Cultural) – Beth Reekles (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil – 304 páginas. “Puffy & Brunilda – Uma Pitada de Magia” (Companhia das Letrinhas) – Barbara Cantini (Itália) – Literatura Infantojuvenil – 62 páginas. “De repente – A História de Uma Verdadeira Amizade” (Brinque-Book) – Chris Naylor Ballesteros (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Um Gorila – Para Aprender a Contar” (Pequena Zahar) – Anthony Browne (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Estória do Sol e do Rinoceronte” (Pallas Mini) – Ondjaki (Angola) e Catalina Vásquez (Colômbia) – Literatura Infantojuvenil – 28 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Poesia Reunida” (Editora 34) – Leonardo Fróes – 424 páginas. “Entre Duas Eternidades” (Escuta) – José Calderoni – 196 páginas. “Tudo Nela Brilha e Queima” (Planeta do Brasil) – Ryane Leão – 192 páginas. “Malemá” (Patuá) – Pedro Moreira – 172 páginas. “O Arado de Odara – Uma Distopia Tropical” (Patuá) – Maurício Simionato – 156 páginas. “A vós” (Hecatombe) – Laís Auler e Lívia Auler – 146 páginas. “Nós Só Compreendemos Muito Depois” (Corsário Satã) – Lais Araruna de Aquino – 128 páginas. “Para Estancar Essa Sangria” (Nada) – Baga Defente – 128 páginas. “Chifre” (Macondo) – Adelaide Ivánova – 100 páginas. “Aya´ba” (Caos & Letras) – Valéria Lourenço – 96 páginas. “Nas Frestas das Fendas” (7Letras) – Maria Clara Parente – 92 páginas. “Férias na Disney” (Patuá) – Bruno Molinero – 88 páginas. “O Vivo” (Relicário) – Adriana Lisboa – 84 páginas. “Todas As Mães São Tiranossauras” (Urutau) – Marcela Maria Azevedo – 82 páginas. “3 em 1 – Três Livros de Poemas” (Kotter) – Henrique Duarte Neto – 78 páginas. “O Poema se Chama Política” (Impressões de Minas/Titivillus) – Gilberto Clementino Neto e outros (org.) – 76 páginas. “Santuário” (Confraria do Vento) – Maria de Fátima Maia – 72 páginas. “Árvore” (Publicação independente) – Davi Fantuzzi – 72 páginas. “Pão Só” (Urutau) – Pedro Torreão – 68 páginas. “Ciclo Neon” (Class) – André Luiz Costa – 64 páginas. “Cabra Marcada Para Morrer” (Hecatombe) – Paula Dias Conrado – 62 páginas. “Corpo de Terra” (Quelônio) – Lucila Mantovani (org.) – 48 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Agora que Ele Se Foi” (Companhia Editora Nacional) – Elizabeth Acevedo (República Dominicana/Estados Unidos) – 296 páginas. Em outubro, retornarei à coluna Mercado Editorial para apresentar os principais lançamentos do quinto (e penúltimo) bimestre de 2021. Enquanto isso, continue acompanhando os posts do Bonas Histórias. E ótimas leituras para todos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Bonsai – A premiada novela de Alejandro Zambra

    Publicada em 2006, esta obra, um sucesso quase que imediato, representou a estreia do escritor chileno nos textos em prosa. Neste final de semana, li um livro que há muito tempo estava curioso para conhecer. “Bonsai” (Cosac Naify) é a premiada novela de Alejandro Zambra, poeta, ensaísta, contista e novelista chileno. Esta obra representou a estreia do escritor no universo da prosa. Até então, Zambra só tinha lançado coletâneas poéticas, sua especialidade até aquele momento. “Bahía Inútil” (sem edição em português), de 1998, e “Mudanza” (também sem edição no Brasil), de 2003, foram publicados no Chile por pequenas editoras de Santiago. Ambos os livros não tiveram grande repercussão nem de crítica nem de público. Contudo, com a chegada de “Bonsai” nas livrarias do país, a história foi completamente diferente. Não é errado afirmarmos que a primeira história em prosa do jovem escritor chileno representou uma guinada de 180 graus em sua carreira literária. Ficava para trás o poeta desconhecido no Chile e surgia o prosador reverenciado pelo público e pela crítica internacional. Publicado em 2006, “Bonsai” rapidamente se tornou um grande sucesso. A obra conquistou os principais prêmios literários em âmbito nacional. Eleito a melhor novela chilena, o livro ganhou, em 2007, o Prêmio da Crítica do Chile e o Prêmio do Conselho Nacional do Livro do Chile. Além disso, foi finalista do Prêmio Altazor naquele mesmo ano. Traduzido para vários idiomas, “Bonsai” seguiu para o exterior, onde continuou encantando o público e colecionando prêmios. Em 2008, foi finalista do Best Translated Book of the Year, premiação norte-americana que reconhece os melhores trabalhos traduzidos para a língua inglesa. Com a boa receptividade da sua primeira novela, Alejandro Zambra decidiu deixar um pouco a poesia de lado e passou a investir em novas produções em prosa. Depois de “Bonsai”, foram lançadas mais três novelas. Os títulos são: “A Vida Privada das Árvores” (Cosac Naify), de 2007, “Formas de Voltar a Casa” (Cosac Naify), de 2011, e “Facsímil” (sem edição no Brasil), de 2014. “A Vida Privada das Árvores” e “Formas de Voltar a Casa” seguiram os passos de seu antecessor e foram premiados tanto no Chile quanto internacionalmente. Como consequência, o nome de Alejandro Zambro foi catapultado para a lista dos grandes escritores sul-americanos da atualidade. Em 2010, a revista literária britânica Granta o colocou como um dos melhores autores ficcionais latino-americanos com menos de 35 anos. Sabendo disso, admito que iniciei a leitura de “Bonsai” com uma grande expectativa (talvez o problema tenha sido esse!). Na certa, estaria lendo um dos melhores livros dos últimos anos, pensei hiperbolicamente. No fim das contas (ou seria da leitura?), não achei esta obra de Zambra tão espetacular assim. “Bonsai” é realmente uma publicação incrível, uma novela maravilhosa, isso não nego. Sua construção narrativa é impecável e a maneira como sua história é contada emociona os leitores. Porém, o livro está um pouco distante de poder ser apontado como uma das grandes criações da literatura mundial do século XXI, como já cheguei a ouvir por aí. Menos, menos, por favor! Não façamos de uma ótima refeição um banquete inesquecível, capaz de entrar nos anais do melhor da gastronomia internacional de todos os tempos. A história de “Bonsai” é sobre o relacionamento amoroso frustrado entre Emilia e Julio, dois jovens estudantes chilenos de Letras. Eles se conheceram na casa de uma amiga em comum, quando estudavam para uma prova da faculdade. O estudo em grupo de Sintaxe Espanhola II se transformou rapidamente em uma festa animada. E Emilia e Julio, que até então não nutriam uma forte admiração um pelo outro, acabaram indo para a cama naquela noite. Depois de repetirem essa prática (estudo com sexo) mais uma vez (assim como os colegas, acabaram precisando estudar novamente Sintaxe Espanhola II para a prova de recuperação), eles começaram a namorar. O livro narra de forma breve os relacionamentos sentimentais de Julio e Emilia. O namoro deles terminou ainda na época da faculdade e cada um seguiu um rumo diferente. Ele continuou morando em Santiago, onde passou a trabalhar como um humilde professor de Literatura. Seu sonho era tornar-se um escritor. Ela, por sua vez, foi morar em Madri, com uma amiga. A vida solitária da moça acabou levando-a às drogas e à depressão. O relato da vida de ambos é feito com um enfoque maior nas relações sexuais. Assim, conhecemos em detalhes os parceiros e os amores que cada um dos protagonistas teve ao longo dos anos. “Bonsai” é dividido em cinco capítulos: “Vulto”, “Tantalia”, “Empréstimos”, “Sobras” e “Dois Desenhos”. Com apenas 64 páginas, a obra é bem pequena e permite uma leitura em menos de uma hora. Classificado como novela, não seria um absurdo se “Bonsai” fosse considerado um conto pela extensão de sua narrativa (já li contos muito maiores de Alice Munro e Anton Tchekhov). Na minha visão, como conto esta publicação é espetacular, um dos textos mais impactantes e originais deste gênero que li em minha vida. Como novela, por outro lado, achei que a trama perde um pouco de sua força. Mesmo assim, é inegável que ela ainda seja uma criação digna de muitos elogios e está à altura dos vários prêmios conquistados. Independentemente do nível em que se aprecie “Bonsai” (duvido que alguém em sã consciência não reconheça o excelente trabalho literário feito por Zambra), uma coisa é indiscutível: o espetacular começo da novela. Com um jeito (falsamente) meio brejeiro, Alejandro Zambra inicia sua história contando o desfecho da trama. Veja o primeiro parágrafo da obra: “NO FINAL ELA MORRE E ELE FICA SOZINHO, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura”. Curiosamente, saber o final da narrativa não tira a curiosidade do leitor. Pelo contrário, o recurso inusitado utilizado pelo autor só aumenta o suspense. Quem é Julio e quem é Emilia? Por que ele ficou sozinho? E por que ela morreu de maneira precoce? Outro aspecto da narrativa que achei muito interessante foi o da escolha das personagens secundárias. As histórias de Julio e de Emilia (no início a trama é conjunta, mas depois ela se transforma em duas histórias paralelas) são pontuadas por pessoas que acabam cruzando, em um momento ou outro, com os dois protagonistas. Essa costura narrativa é maravilhosa. Alejandro Zambra consegue escrever uma novela sensível, triste e poética amarrando muito bem todas as pontas da novela. Não dá para não se emocionar quando vemos uma história tão bem confeccionada como esta. Como poeta, o escritor chileno traz elementos líricos para a sua prosa, o que enriquece ainda mais a leitura de “Bonsai”. Nota-se que cada frase, cada termo e cada palavra foram pensados para surtir um determinado efeito no leitor. Se a vida e a personalidade dos protagonistas do livro passam a sensação de secura, melancolia e tristeza à história, por outro lado, a escrita de Zambra confere um tom de grandiosidade e beleza à narrativa. Esse contraste (história em si trágica, mas com uma estética literária bela) é o que mais choca o leitor atento, que passa a ver as desgraças das personagens principais com uma dimensão sublime do relato ficcional. Não sei o porquê, mas ao ler “Bonsai” me lembrei um pouco de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), romance clássico de Milan Kundera. Talvez tenha, com um grande esforço comparativo, alguma relação entre as obras. Assim como o escritor tcheco fazia, Alejandro Zambra mergulha no interior sentimental de suas personagens para descobrir as razões para as crises conjugais e as desilusões amorosas. Sinceramente, não sei se “Bonsai” possui elementos autobiográficos. Minhas suspeitas são que sim, mas não encontrei em nenhum lugar o escritor chileno afirmando categoricamente esta associação entre a ficção e a realidade de sua vida. Adorei ter lido um dos principais escritores sul-americanos da atualidade. “Bonsai” é um livro pequeno (seria um conto ou uma novela? – ainda permaneço com essa dúvida), mas contém a força narrativa digna das narrativas mais longas (ou seria, por causa disso, um romance? – essas classificações só me confundem). Confesso que fiquei com vontade de ler “A Vida Privada das Árvores” e “Formas de Voltar a Casa”. Há quem diga que a segunda e a terceira novelas de Alejandro Zambra sejam até melhores do que a primeira. Isso ainda não posso afirmar. Quem sabe em breve eu retorne ao Bonas Histórias com um post com a resposta para essa questão. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlejandroZambra #Novela #LiteraturaChilena #Drama

  • Talk Show Literário: Marcelo

    No quinto programa dessa temporada, Darico Nobar entrevista a personagem mais famosa da literatura infantil de Ruth Rocha. Darico Nobar: Boa noite, galerinha do Talk Show Literário. Sejam muito bem-vindos a mais uma entrevista do melhor programa de televisão da ficção brasileira. O nosso convidado de hoje é o protagonista de um dos contos mais famosos da literatura infantil. Agora, com vocês, Marcelo!!! [Sob os aplausos do público, menino loirinho vestindo camiseta marrom, short vermelho, meias amarelas e tênis branco surge no meio da plateia. Ele caminha até o entrevistador no centro do palco. Apesar da baixa estatura, ele pula no sofá sem dificuldade e se ajeita]. Marcelo: Quem é você? [Balança os pés que ficam flutuando no alto do assento]. Darico Nobar: Oi, Marcelo. Eu sou Darico, o apresentador desse programa. Saiba que é um prazer conhecê-lo pessoalmente. Marcelo: Por que você se chama Darico? Darico Nobar: Porque... porque... [Dá uma leve gaguejada]. Nunca pensei nisso. Acho que foi porque o meu pai e a minha mãe escolheram esse nome para mim. Marcelo: E por que é que não escolheram Daronco? Darico Nobar: Ah, Marcelo, Daronco não é nome de artista das letras! É nome de juiz de futebol... Marcelo: Por que é que não escolheram damasco? Darico Nobar: Porque damasco é nome de fruta, menino! Marcelo: E a fruta não podia chamar Darico, e você chamar damasco? Darico Nobar: Poder até podia, mas não foi assim que as coisas aconteceram. O fato é que damasco é nome de fruta e Darico é nome de gente, é meu nome. Marcelo: Por que é que ônibus chama ônibus? Darico Nobar: Porque essa palavra vem do latim. Omnibus significava “para todos”. [Faz as aspas com os dedos]. Marcelo: Puxa, do latim? E latim não é língua de cachorro? Darico Nobar: Até poderia ser... [Ri com gosto do comentário do garoto]. A língua dos cachorros é o latido. Sabe, Marcelo, o latim é uma língua de gente e é um idioma muito, muito antigo. Marcelo: E por que esse tal de latim não botou no ônibus nome de carro, no carro nome de motocicleta, e na motocicleta nome de bicicleta? Darico Nobar: Ai, meu Deus, este menino está me deixando louco. Ele não para de fazer perguntas. [Vira o corpo e olha desolado para a câmera 2, que está posicionada ao seu lado. Sua fala sai baixinho e lembra mais uma confissão]. Marcelo: E se o tal de latim botou nome errado nas coisas? Será que estamos falando tudo errado por causa dele? Darico Nobar: Isso não é uma coisa que me tira o sono. Se eu fosse você, Marcelo, não ficaria tão preocupado com essas questões. Marcelo: Pois eu fico, está tudo errado. Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo, né? E por que será que a bola não é a mulher do bolo? E bule? E belo? E bala? Eu acho que as coisas deviam ter nomes mais apropriados. Cadeira, por exemplo. Devia chamar sentador, não cadeira, que não quer dizer nada. E travesseiro? Devia chamar cabeceiro! Darico Nobar: Sabe que você não está totalmente errado no que está falando. [Apoia a mão no queixo e coça a barba]. Até hoje não sei o porquê estranho não é uma palavra estranha, mas estapafúrdio é uma palavra estapafúrdia. Marcelo: Está vendo! Estou falando, está tudo errado. Darico Nobar: Alegria é uma palavra mais curta que tristeza. Para o bem de todos, penso que poderia ser o inverso. Alegria deveria ser grandona, tipo anticonstitucionalissimamente. E tristeza podia ser bem curtinha, igual a só, nó e lá. Marcelo: Tristeza combina mesmo com só e nó. E bem que poderia ficar lá. Darico Nobar: Exatamente!!! Marcelo: Por essas e outras é que eu inventei nomes melhores para as coisas. Darico Nobar: Você fez muito bem. É um jeito de acabar com essa confusão. Marcelo: Vamos ver se você adivinha. O que é suco de vaca? Darico Nobar: Leite. Marcelo: Muito bem. E grudador. Darico Nobar: Grudador... grudador... [Olha para cima]. Cola! É a cola comum. Marcelo: Certo! E moradeira? Darico Nobar: Essa é moleza, molezinha. É casa. Marcelo: Não dá para brincar com você, damasco. Darico Nobar: É Darico. Marcelo: Acertou outra. Darico Nobar: Marcelo, isso não é um programa de adivinhação. Marcelo: Outra coisa que está muito errada aqui. Programas de adivinhação são muito mais legais que programas de entrevista. Acho que só meu pai deve ver o Talk Show Literário. Darico Nobar: Fico imaginando como deve sofrer a professora desse menino. [A fala sai novamente em um tom baixinho, mas dessa vez ela é ouvida pelo entrevistado]. Marcelo: A ensinadora sofre bastante com os aprendidores. A pior de todas é a Gabriela. Darico, conhece Gabriela sapeca, Gabriela levada, Gabriela serelepe? Darico Nobar: Não conheço, não. Marcelo: É minha amiguinha lá na missa sem reza. Ela é amiga de todo mundo para falar a verdade. Até da Teresinha. No começo não, mas agora elas são inseparáveis. Darico Nobar: Missa sem reza... missa sem reza... calma que eu vou adivinhar. Não preciso de ajuda. Espera. Missa sem reza. Claro! É a escola. Missa sem reza porque é uma obrigação chata que a criançada precisa ter para agradar aos adultos, os Deuses mandões. Marcelo: A Gabriela não deixa a ensinadora em paz. Vive fazendo perguntas malucas. É um tal de céu da boca tem estrela? Barriga da perna tem umbigo? Pé de alface tem calo? Darico Nobar: Não deve ser fácil conviver com quem passa o dia fazendo perguntas. Marcelo: O problema não é a pergunta em si. O problema é fazer pergunta besta. Você faz pergunta besta, Darico, Daronco, damasco? Darico Nobar: Espero que não. Marcelo: Meu pai disse que você só faz pergunta besta. Ele não gosta do seu programa. Só vê para conseguir dormir rápido. Darico Nobar: Ah! [Faz uma careta]. Marcelo: É o que ele fala. Gente grande não entende nada de nada, mesmo! Darico Nobar: Tenho uma pergunta para você. Marcelo: Vou adivinhar. Você quer saber quem é o meu melhor amigo, certo? Darico Nobar: Não era bem essa a minha questão. Marcelo: Depois do Latildo, é o Caloca o meu melhor amigo. Antigamente não, ele era o menino mais enjoado de toda a rua. E não se chamava Caloca, claro. Era só Carlos Alberto. Mas depois ele mudou. Agora é um amigo legal. [Fica alguns segundos em silêncio]. Mas não era isso o que você queria saber, né? [Apresentador balança a cabeça concordando]. Já sei. Qual é a minha brincadeira favorita? Darico Nobar: Também não era isso. [A voz sai desanimada]. Marcelo: Essa é fácil. Palavra cruzada. Darico Nobar: Sei. [Cruza os braços]. Marcelo: Por que você não pergunta o que eu quero ser quando crescer? Todo mundo pergunta isso o tempo inteiro. Darico Nobar: Nem preciso, acho que já sei. Você será o novo Professor Pasquale. Marcelo: Ensinador? Cruz credo! Quero é ser jogador de futebol, igual ao Neymar. Vou sair por aí driblando todo mundo. [Mexe os pezinhos no ar simulando os lances]. Darico Nobar: Está bem, Marcelo. Obrigado pela entrevista de hoje. Pode voltar a brincar que eu vou encerrar o programa. Marcelo: Valeu pela papoeira, seu damasco. Bom lunário! [O menino pula do sofá e corre para trás do palco, onde estão os camarins. A imagem é captada por um take aberto da câmera 1. O público presente no auditório aplaude a cena]. Darico Nobar: Pessoal, obrigado por acompanharem mais um Talk Show Literário. [Olha em close na câmera 3]. Eu fico agora por aqui, mas na semana que vem teremos mais uma entrevista ao vivo e exclusiva com uma personagem dos clássicos da literatura brasileira. Não perca. Até a próxima! E bom lunário para todos. [Enquanto os créditos da atração televisiva sobem na tela, o diretor do programa corta o áudio dos microfones para que o público não ouça o que será dito no palco. A imagem é novamente do take aberto da câmera 1. Por ela, se vê o apresentador falando sozinho]. Darico Nobar: Essa entrevista foi difícil pra caramba. Não pensei que conversar com um garotinho fosse ser tão complexo. Diretor do programa: Darico, esse foi o primeiro talk show em que você não fez uma pergunta sequer, sabia? [A fala é transmitida pelo ponto colocado no ouvido do âncora]. Darico Nobar: Não é possível! Devo ter feito algumas perguntas sim. Diretor do programa: Não, você não fez. Suba à minha sala agora mesmo. Venha assistir à entrevista. Ao invés de entrevistar o Marcelo, você foi entrevistado por ele. Darico Nobar: Meu Deus! [Se levanta e sai do palco]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Miliádios Literários: agosto/2021

    No mês do desgosto, a Coluna Miliádica é um ponto alto na montanha-russa da vida. Oh, agosto! Que desgosto traz! Isso desde os tempos das navegações portuguesas. Dizia-se que se casar em agosto trazia desgosto pois, nesse mês, as naus portuguesas lançavam-se ao mar, deixando noivas e esposas a ver navios e maridos partindo para talvez nunca mais retornarem. Quem sabe descrever muito bem os altos e baixos da vida é Stephen King, que completa 27 miliversários no dia 23. Ele é autor de “O Iluminado”, “A Dança da Morte” e “Carrie, a Estranha” (Suma das Letras). Sua obra aborda o terror e os sentimentos universais do ser humano, um best-seller de respeito. Quem enfrentou altos e baixos foi Vinicius de Moraes, cujo falecimento faz 15 miliádios no dia 3. O poetinha nos alertou que “é melhor ser alegre do que ser triste”, mesmo sendo alguém que sofria demais por amor. Vinicius escreveu “Livro de Sonetos”, “Todo Amor” (Companhia das Letras) e “O Poeta Não tem Fim” (V&R). Para dar uma animada na coluna Miliádios Literários desse mês, vamos com o irreverente Luís Fernando Veríssimo, que faz 31 miliversários no dia 11. O escritor do Rio Grande do Sul já ganhou o Prêmio Jabuti e agrada leitores tupiniquins há muitos anos com obras como “Diálogos Impossíveis”, “Em Algum Lugar do Paraíso” e "As Melhores do Analista de Bagé" (Objetiva). Augusto dos Anjos faleceu há 39 mil dias completados no dia 22. Teve uma vida curta, apenas 11 miliádios, uma pena. O poeta, advogado e professor publicou apenas uma obra, “Eu” (Attar), que o deixaria na história da poesia brasileira, sendo até hoje reverenciado. Uma autora celebrada hoje em dia é Jojo Moyes, autora de “Como Eu Era Antes de Você”, “Ainda sou Eu” e “O Navio das Noivas” (Intrínseca). Ela é uma jornalista britânica que faz sucesso nos livros, e comemora 19 miliversários no dia 11. Ela já ganhou duas vezes o prêmio de Romance do Ano pela Associação dos Romancistas do Reino Unido. Outro romancista premiado é Luiz Alfredo Garcia-Roza, que nos deixou recentemente. Ele é autor de “O Silêncio da Chuva” (Companhia das Letras), livro de estreia que levou o Prêmio Jabuti. Seu nascimento completaria 31 miliádios no dia 1º. Mas vamos terminar por cima! Vamos finalizar com um nascimento importantíssimo para a literatura brasileira, quiçá mundial. Um potencial ganhador de prêmios, um arrebatador de corações cujas palavras evocam mistério e excitação. Falamos de Paulo Sousa, que nasceu há 13 miliádios completados no dia 11. Sua carreira literária começou da melhor forma, com o estupendo livro “A Peste das Batatas” (Pomelo), e tem tudo para se tornar o maior escritor de todos os tempos. Coincidentemente, ele escreve para o Bonas Histórias e é o autor desta coluna isenta e imparcial em sua análise. E com ele finalizamos o mês. Não se esqueça, se agosto traz desgosto, setembro chove literatura. Até lá! Parabéns pelo Miliversário... ... Luciano Milici, autor de “Diário de um Exorcista” e “A Página Perdida de Camões” (Generale), pelos 17 mil dias completados no dia 27. Em memória de... ... Heinz G. Konsalik, autor de “Amor em São Petersburgo” (Best Bolso), cujo falecimento faz 8 miliádios no dia 27. ... Irene Lisboa, autora de “O Sujeito e o Tempo” (Edições Colibri) e “Queres Ouvir? Eu Conto” (Editorial Presença), cujo nascimento faz 47 miliádios no dia 31. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento

bottom of page