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- Livros: Paisagens Menores – Reflexões sobre a arte da Escrita Criativa
Publicada em 2017, a obra reúne dez ensaios literários organizados por Geruza Zelnys e Alexandre Filordi de Carvalho. Li, neste sábado, um livro que ganhei, no finalzinho do ano passado, ao realizar uma atividade no Centro de Apoio ao Escritor (CAE) da Casa das Rosas. O presente me foi dado pelo próprio Reynaldo Damazio, coordenador do CAE e editor da Dobradura Editorial, a editora responsável por essa publicação. O título em questão é “Paisagens Menores – Experiências com a Escrita Criativa” (Dobradura), uma coletânea de ensaios e artigos sobre o fazer literário. A proposta do material organizado por Geruza Zelnys e Alexandre Filordi de Carvalho é promover reflexões sobre o ato de ensinar e de aprender a escrever literatura. Assim, mergulhamos no universo dos cursos e das oficinas literárias, modalidades educativas que têm crescido muito nos últimos anos em nosso país. As análises feitas nas páginas de “Paisagens Menores” têm o ponto de vista tanto dos professores quanto dos alunos dessas oficinas. Achei a ideia do livro tão diferente e interessante que resolvi postar, hoje, uma análise sobre ele aqui no Blog Bonas Histórias. Lançado em julho de 2017, “Paisagens Menores” possui dez ensaios, além de uma pequena introdução e de uma apresentação escritas pelos organizadores da obra. Cada ensaio ou artigo foi desenvolvido, basicamente, por um profissional diferente. Assim, temos escritores, professores de literatura e de oficinas literárias, tradutores, pesquisadores, editores e coordenadores compartilhando suas experiências sobre a escrita criativa. Na introdução, os organizadores da publicação explicam o motivo do título da obra. O termo Paisagens Menores, neste sentido, refere-se a algo que condensa um tipo de beleza, algo que se mantém minoritário e, porquê não, marginal frente aos elementos massivos da sociedade. Assim, a literatura e, principalmente, a escrita criativa adquirem essa característica de ser algo pequeno (porém, não menos importante). Na apresentação do livro, Gerusa Zelnys e Alexandre Filordi de Carvalho explicam a proposta desta obra: “Como tentativa de apresentar “paisagens menores” ou práticas pessoais de meditar a criação literária, pedimos que os autores, reunidos nesse livro, escrevessem textos, em forma de artigos ou ensaios, nos quais dividissem com os leitores suas experiências, refletindo sobre suas particularidades seja do ponto de vista pedagógico, institucional, dos processos criativos, entre outros temas e assuntos que lhes interessassem”. Em “Moleskine Tropical: Quinze Notinhas Sobre a Pajelança”, o primeiro texto da coletânea, Nelson de Oliveira dá dicas de como uma oficina literária deve ser conduzida. “Quando uma Rima Rica Não é Uma Solução – Editando a Revista Raimundo” é o relato de Raquel Parrine sobre sua experiência como editora de uma revista literária. “Escrita em Movimento: A Escola Dinâmica de Escritores de Mario Bellatin” é o texto de Cristina Paiva que aborda o case de uma inovadora escola para escritores criada no México. Em “Caminhos da Escrita Criativa”, quarto ensaio de “Paisagens Menores”, Reynaldo Damazio comenta sobre os tipos de curso à disposição no Brasil para os jovens escritores. “Do Ofício do Ensino do Ofício”, de Claudia Pucci Abrahão, debate se é possível ensinar alguém a escrever. “Da Escrita Criativa à Escrita Curativa” é o texto de Geruza Zelnyns sobre a utilização da escrita como ferramenta para superar traumas psicológicos. O sétimo capítulo do livro é “Intelecção Literária e Língua Estrangeira: Encontrar a Si Através do Outro”. Nele, Francesca Cricellie analisa os desafios da tradução dos materiais literários. Em “Da Criação Artística à Escrita como Gosto de Contra-Hábito: Uma Ideia Proustiana ou Por que Não Subir aos Ares?”, Alexandre Filordi de Carvalho e Lilian dos Santos Silva relacionam a escrita e a literatura com a fuga da rotina e, ao mesmo tempo, o encontro dos hábitos. “Criatividade como Sugestão Metodológica Possível para o Ensino da Criação Literária: Três Casos Práticos que Envolvem Escuta, Educação Popular e Empatia” é a apresentação de Ana Rüsche sobre suas experiências como professora de cursos de escrita criativa. E, por fim, “Escrever é Fácil” é a divertida crônica de Marcia Tiburi sobre o grau de dificuldade de se produzir literatura. “Paisagens Menores” é um livro curtinho, com pouco mais de 100 páginas. Para quem gosta do tema debatido, é possível ler esta obra em uma única tarde ou em duas noites consecutivas. Acho que não levei mais de quatro horas para concluí-la ontem à tarde. O legal desta publicação é a visão diversificada que os autores escolhidos têm sobre o processo do fazer literário. Na maioria das vezes, cada capítulo possui uma abordagem e um ponto de vista distintos dos demais. Apesar de diferentes, de certa forma, eles convergem em alguns pontos. Aí está a riqueza deste material. Muitas vozes conseguem, no final das contas, chegar a um denominador comum. Outro aspecto legal é que mesmo se utilizando, em muitas oportunidades, de pesquisas universitárias e de materiais acadêmicos, os autores não produziram textos carregados de formalismo ou com linguagens herméticas. A sensação, na maior parte do livro, é de estarmos ouvindo uma conversa informal com os escritores. Eu, particularmente, adoro esse tipo de abordagem, além de compreender melhor o que estou lendo. Mesmo sendo uma publicação de pequenas dimensões, “Paisagens Menores” é uma obra profunda. Suas discussões são relevantes e inteligentes. Ela tem a capacidade de ajudar tanto aqueles que se propõem a lecionar para jovens escritores quanto aqueles que se dedicam a aprender o ofício da escrita criativa. Os dois únicos pontos negativos do livro são sua publicação de baixa qualidade e a fragmentação excessiva dos temas propostos. A primeira questão é um problema relacionado ao trabalho da editora. A edição que tenho em mãos possui alguns erros imperdoáveis, como páginas com falhas de impressão ou mesmo páginas totalmente em branco, sem o conteúdo integral desenvolvido pelo autor. No meu livro, isso aconteceu ao menos em quatro ou cinco páginas. Um absurdo! No caso da fragmentação temática, é notável que cada autor escreveu seu texto sem dialogar em nenhum momento com os materiais dos colegas. Assim, o leitor mais exigente acaba ficando com a sensação, em algumas partes, de ler um catado de textos reunidos aleatoriamente, sem uma boa amarração conceitual e/ou ideológica. O correto seria ter ao menos um diálogo mínimo entre os capítulos, que evitasse repetições ou negações. De forma geral, gostei muito de “Paisagens Menores” e do seu resultado final. Para quem estiver interessado nesta leitura, a má notícia é que não sei se o livro se encontra à venda nas livrarias ou mesmo na loja virtual da Dobradura Editorial. Acredito que esta obra seja mais um material de divulgação dos seus autores e do Centro de Apoio aos Escritores da Casa das Rosas e menos um produto comercial. Se eu estiver certo a esse respeito, é uma pena, pois a qualidade e a relevância de “Paisagens Menores”, muito possivelmente, seduziria leitores ávidos em adquirir um livro que fale tão abertamente sobre os meandros da escrita criativa e os desafios da produção literária. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ReynaldoDamazio #GeruzaZelnys #AlexandreFilordideCarvalho #LiteraturaBrasileira
- Livros: Tartarugas Até Lá Embaixo - O mais recente romance de John Green
Publicada em 2017, essa obra é a quinta narrativa ficcional solo do autor norte-americano, um dos principais nomes da literatura juvenil contemporânea. No último final de semana, li “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Intrínseca), a mais recente ficção de John Green, um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea e figura proeminente da literatura juvenil internacional. Esta obra é o seu quinto romance exclusivo. Digo exclusivo porque Green foi coautor de dois outros livros: “Deixe a Neve Cair” (Rocco), título de 2008 escrito ao lado de Lauren Myracle e Maureen Johnson, e “Will e Will, Um Nome, Um Destino” (Galera), trama de 2010 desenvolvida em parceria com David Levithan. Quem acompanha o Bonas Histórias há mais tempo deve se lembrar que já estudamos a literatura de John Green aqui no blog. Em julho de 2015 (e lá se vão seis anos...), o Desafio Literário comentou os quatro romances solos do norte-americano: “Quem é Você, Alasca?” (Intrínseca), publicação de 2005, “O Teorema Katherine” (Intrínseca), título de 2006, “Cidade de Papel” (Intrínseca), obra de 2008, e “A Culpa é das Estrelas” (Intrínseca), best-seller de 2012. No final daquele mês, ainda postamos uma análise completa sobre suas narrativas ficcionais, seu estilo literário e sua trajetória pessoal e profissional. De lá para cá, não li mais nada de Green. Por isso, confesso que estava curioso para conhecer seu mais recente romance. Publicado em outubro de 2017, “Tartarugas Até Lá Embaixo” quebrou um jejum de quase seis anos sem qualquer lançamento do autor nas livrarias. Esse período menos produtivo (pelo menos no âmbito literário) foi devidamente calculado. Na época da divulgação de “A Culpa é das Estrelas”, seu maior sucesso até aqui, John Green avisou aos fãs que ficaria uns bons anos sem apresentar um novo romance. Ele preferiu se dedicar mais intensamente ao Vlogbrothers, vlog e canal no Youtube que mantém ao lado do irmão e que possui milhões de seguidores (na maioria nerds adolescentes), e às adaptações de suas histórias para o cinema (no caso de “Cidade de Papel” e “A Culpa é das Estrelas”) e para a televisão (“Quem é Você, Alasca?”). Para quem não conhece o trabalho de empreendedor digital de John Green (afinal, no Brasil, ele é visto exclusivamente como escritor – vendeu quase 5 milhões de livros em nosso país e comercializou mais de 50 milhões de exemplares no mundo), é preciso dizer que ele é um dos youtubers de maior audiência em língua inglesa. A programação do Vlogbrothers, por exemplo, acabou originando novos subprodutos que abrangem de causas sociais a podcasts e cursos de capacitação. A maior dedicação de Green aos seus projetos na Internet ajudou, nos últimos anos, a consolidá-lo como um dos principais influenciadores digitais e produtores de conteúdo infantojuvenil dos Estados Unidos. Na América do Norte, ele é visto preponderantemente como influenciador digital (uma espécie de Felipe Neto norte-americano, mas com dons literários) e não apenas como mero autor ficcional. Não à toa, a revista Times elegeu John Green como uma das cem personalidades mais influentes do mundo. Lançado simultaneamente em vários países (inclusive no Brasil) em uma grande campanha internacional de divulgação, “Tartarugas Até Lá Embaixo” já estreou ocupando a primeira posição na tradicional lista dos bestsellers do jornal New York Times. No mercado brasileiro, o sucesso foi parecido. Mesmo com apenas dois meses de publicação, o livro encerrou 2017 como o décimo romance mais comercializado em nosso país e, no ano seguinte, alcançou a quinta colocação entre os títulos ficcionais mais vendidos por aqui. Sem dúvida, os jovens leitores estavam ávidos por textos literários inéditos de John Green e transformaram seu novo livro em um dos principais projetos editoriais do biênio 2017-2018. Curiosamente, “Tartarugas Até Lá Embaixo” é o romance mais autobiográfico do escritor. Sem nunca esconder que foi um adolescente nerd (há quem ache que ele continua sendo...), alvo de bullying na infância e vítima de transtorno obsessivo-compulsivo desde pequeno (doença conhecida popularmente como TOC), Green construiu uma narrativa ficcional ancorada nos dramas de Aza Holmes. A narradora-protagonista de “Tartarugas Até Lá Embaixo” é uma garota de 16 anos que precisa conviver com alguns problemas mentais. Mais uma vez, temos o universo juvenil retratado por uma perspectiva original, tocante e corajosa. Não por acaso, esse é justamente o grande diferencial da literatura de John Green na minha opinião. Provando a força da narrativa de “Tartarugas Até Lá Embaixo”, Green assinou em dezembro de 2017, somente dois meses após o lançamento do livro nas livrarias, a adaptação dessa história para o cinema. Com direção de Hannah Marks, mais conhecida pelo seu trabalho como atriz na série Dirk Gently's Holistic Detective Agency, e roteiro da dupla Elizabeth Berger e Isaac Aptaker, do ótimo “Com Amor, Simon” (Love, Simon: 2017), esse filme seria produzido no ano passado. Seria se não fossem as restrições impostas pela pandemia da Covid-19 que interromperam todos os trabalhos de Hollywood a partir de março de 2020. Por enquanto, não há previsão de quando o terceiro longa-metragem de uma trama criada por John Green será produzido e muito menos quando chegará aos cinemas. No Brasil, a versão literária de “Tartarugas Até Lá Embaixo” foi traduzida para o português por Ana Rodrigues, carioca especialista nas traduções em inglês de romances adultos, juvenis e históricos e de obras não ficcionais. Ela trabalha para as principais editoras nacionais (Intrínseca, Globo Livros, Arqueiro, Rocco etc.) e já adaptou para nosso idioma títulos de Nora Roberts, Jojo Moyes, Julia Quinn, Daniel Cole, Stephanie Perkins, entre outros. O enredo de “Tartarugas Até Lá Embaixo” se passa na cidade de Indianápolis, capital do estado de Indiana, no Nordeste dos Estados Unidos, e é narrado em primeira pessoa por sua protagonista, Aza Holmes. Estudante do segundo ano do ensino médio, Aza é uma adolescente de 16 anos que vive só com a mãe, uma professora de matemática do ensino fundamental, após o falecimento do pai. Ela estuda no White River High School e tem como melhores amigos Daisy Ramirez, uma moça falante que trabalha como garçonete na Chuck E. Cheese's e tem como hobby escrever fanfics de Star Wars, e Mychal Turner, um garoto que adora desenhar, aspira se tornar um artista renomado no futuro e é apaixonado por Daisy. Apesar de possuir uma rotina aparentemente comum, Aza Holmes esconde uma patologia psicológica que a acompanha desde pequena. Muito ansiosa (ao ponto de sofrer graves crises de ansiedade), hipocondríaca inveterada (tem medo de morrer ao tocar em algo contaminado pela bactéria Clostridium difficile), com transtornos obsessivo-compulsivos (o TOC a faz trocar regularmente o band-aid do polegar pois tem medo que a ferida no dedão da mão possa infeccionar) e com problemas de concentração (divaga em pensamentos intrusivos que a deixam alienada da realidade), a jovem é atendida pela terapeuta Karen Singh desde que sofreu um colapso nervoso há alguns anos. A saúde mental de Aza é mantida à base de remédios, que ela insiste em não tomar com a frequência prescrita. O cotidiano já caótico por natureza da protagonista do romance é abalado com uma notícia estampada em todos os jornais da cidade. O CEO da Pickett Engenharia, uma empreiteira gigantesca de Indianápolis, desaparece após a Justiça decretar sua prisão. Russel Pickett é acusado de fraude e de suborno. Sabendo que o tempo estava fechando para ele, o empresário decidiu fugir momentos antes que os policiais invadissem sua mansão às margens do White River. Em troca de informações que levem à captura do Sr. Pickett, as autoridades oferecem um prêmio de US$ 100 mil a quem dê pistas que levem a prisão do ilustre foragido. Interessada na recompensa polpuda e sabendo que Aza foi amiga de infância de David Pickett, o filho mais velho de Russel, Daisy Ramirez resolve iniciar uma investigação particular do caso. Obviamente, ela envolve a melhor amiga nessa empreitada, por mais desmiolada que Aza pareça. Assim, a dupla de adolescentes parte para a mansão de David Pickett em busca de informações exclusivas sobre o sumiço do CEO da Pickett Engenharia. Para surpresa de Daisy, Aza e David sentem atração mútua mesmo depois de muito tempo sem se verem. A ligação sentimental entre eles é a principal arma de Daisy para colocar as mãos nos US$ 100 mil (ou nos US$ 50 mil, já que dividirá meio a meio o prêmio com a melhor amiga). A intimidade de Aza com David é ao mesmo tempo vantajosa para as jovens investigadoras (elas possuem acesso a informações e segredos da família Pickett que os policiais e os jornalistas jamais terão) como também poderá trazer problemas graves para alguém que sofre de TOC (o affair com David irá provocar uma crise de ansiedade sem precedentes na narradora). Conseguirão Daisy e Aza descobrir o paradeiro de Russel Pickett? Conseguirá Aza Holmes iniciar um namoro com David Pickett mesmo com seu quadro de iminente colapso mental provocado pelas suas obsessões? Esses são os mistérios dessa narrativa de John Green. “Tartarugas Até Lá Embaixo” é um romance de tamanho mediano. Suas 256 páginas estão divididas em 24 capítulos. Li esta obra em um único dia, no sábado passado. Precisei de aproximadamente seis horas para percorrer todo o conteúdo deste livro. Iniciei a leitura de manhãzinha e no final da tarde já tinha chegado à última página. Como é típico do portfólio literário de John Green, temos aqui um texto de fácil consumo, uma trama envolvente, personagens carismáticas e dramas originais, o que facilita o trabalho dos leitores. Não se surpreenda se você concluir esse título em duas ou três sentadas (foi o que precisei). É interessante notar que, apesar de abordar um conflito mais pessoal (protagonista com TOC, doença que o autor reconheceu possuir e tratar até hoje), John Green recorreu em “Tartarugas Até Lá Embaixo” às estratégias narrativas de seus sucessos anteriores. De certa maneira, temos aqui um romance policial (como em “Cidade de Papel”), personagem envolvida com doença que a impede de ter uma vida normal (parecida à figura central de “A Culpa é das Estrelas”), dramas adolescentes explorados por pontos de vistas inusitados (como em “Quem é Você, Alasca?”) e encontros e desencontros sentimentais dos jovens contemporâneos (à la “O Teorema Katherine”). Não é errado enxergar “Tartarugas Até Lá Embaixo” como uma narrativa que junta os principais aspectos da literatura de Green – alguém aí usou a expressão pot-pourri?! O ponto alto deste livro está no mergulho para o interior da mente nada tranquila de Aza Holmes. Por isso, a escolha de um texto em primeira pessoa e narrado pela própria adolescente é magnífico. Os pensamentos intrusivos que atordoam a personagem principal do romance de Green aparecem o tempo inteiro no texto, tumultuando a trama assim como acontece com a vida da adolescente. Esse recurso permite que compreendamos suas angústias e seus dramas mais íntimos. Nesse caso, Aza Holmes é uma versão juvenil e feminina de Patrick Peoples, o narrador-protagonista de "O Lado Bom da Vida" (Intrínseca), o romance de estreia do também norte-americano Matthew Quick. Juntamente com o turbilhão emocional de Aza, acompanhamos em “Tartarugas Até Lá Embaixo” uma narrativa colorida com aspectos do universo Pop contemporâneo. Navegar pelas tramas de John Green é dialogar a todo instante com citações literárias (Charlotte Brontë, Toni Morrison, William James, J. D. Salinger, Virginia Woolf, William Shakespeare, John Keats, J. M. Coetzee, Edgar Allan Poe, Alice Walker, Alexander Hamilton, W. B. Yeats, Robert Penn Warren, James Joyce, F. Scott Fitzgerald, Edna St. Vincent Millay, Robert Frost, Emily Dickinson, Jane Austen), cinematográficas (Star Wars), filosóficas (Demócrito, René Descartes), musicais (Missy Elliott, Beyoncé, Drake, Black Flag, Greta van Fleet, Beatles, Thelonious Monk, Otis Redding, Leonard Cohen, Billie Holiday) e pictóricas (Picasso, Robert Rauschenberg, Kerry James Marshall, Raymond Pettibon), além de referências aos esportes (Jimmy Butler), aos videogames, aos desenhos animados (Scooby-Doo) e às histórias em quadrinhos (Homem de Ferro). O universo Pop contemporâneo fica mais evidente e contextualizado de uma forma mais relevante quando ele está inserido no meio da trama e não apenas quando vem em citações atiradas ao léu. Os exemplos mais concretos disso são as menções diretas aos Applebee's e Chuck E. Cheese's, redes de restaurantes tipicamente norte-americanas, e às músicas de boy bands. Aí “Tartarugas Até Lá Embaixo” fica mais interessante e com a cara da juventude atual. Por falar em citações, é legal notar que o livro faz algumas referências diretas ao Brasil (uma ou duas). Isso não é por acaso. Trata-se de uma singela homenagem do autor aos fãs localizados entre o Oiapoque e o Chuí. Nosso país representa cerca de 10% das vendas dos exemplares dos livros de John Green. Por isso, é natural que ele queira fazer uma gracinha com os leitores brasileiros em algum momento do romance. Algo que gostei muito nessa nova obra ficcional de Green é que o autor norte-americano abordou temas importantes e em voga no noticiário. Ele trata, por exemplo, da saúde mental dos jovens (não me recordo de ter visto esse assunto em uma trama ficcional), a falta de privacidade nas redes sociais, o phishing, os haters da Internet, entre outros temas profundamente atuais do universo adolescente. O desfecho de “Tartarugas Até Lá Embaixo” é simplesmente espetacular! A metalinguagem literária atinge o auge nos últimos parágrafos do livro. A entrada abrupta de outro narrador (em primeira pessoa) nos momentos derradeiros da trama pega os leitores de surpresa e confere um sentido aberto ao desenlace do romance. De quem seria a nova voz que surge do nada nos capítulos finais da obra? Seria o autor adentrando no texto da protagonista (seu alter ego) e explicitando o caráter autobiográfico do enredo? Seria a própria Aza alguns anos mais tarde relatando o que se passou consigo? Seria Deus ou uma entidade com poderes de onisciência e onipresença contando os episódios futuros da personagem principal? Não dá para saber a resposta concreta. Cada leitor terá uma interpretação distinta. O que fica evidente é a pegada metalinguística – a transformação efetiva de Aza em uma personagem realmente ficcional, algo que ela sempre temeu ou cogitou que pudesse ocorrer (leia novamente a primeira frase do livro e repare nessa preocupação da garota). Incrível isso! As reflexões filosóficas de “Tartarugas Até Lá Embaixo” são leves e superficiais, algo interessante para o público-alvo dos títulos de Green – os jovens adultos (que em um passado não tão distante eram chamados de adolescentes ou de público juvenil). Para um leitor mais maduro, os debates existencialistas promovidos por John Green podem parecer rasos e extremamente pueris. Ele está, portanto, mais próximo de Jostein Gaarder e Paulo Coelho, por exemplo, do que de Albert Camus, Milan Kundera, Franz Kafka ou Fiódor Dostoiévski. Pela perspectiva do público juvenil contemporâneo (lembremos sempre que Green escreve para a moçadinha!), o texto do norte-americano cai como uma luva, mesclando muito bem o entretenimento comercial com uma pegada de baixa intelectualidade. O maior ponto negativo de “Tartarugas Até Lá Embaixo” está em algumas passagens pouco verossímeis de sua trama. Sinceramente, não colou o fato de Aza ter nojo de um beijo na boca ou de comer um sanduíche feito em casa (gestos corriqueiros), mas entrar tranquilamente na rede de esgoto da cidade ou embarcar em um rio poluído (atitudes com maior chance de infecção ou contaminação bacteriológica). Se ela é hipocondríaca e possui comportamentos obsessivo-compulsivos, qual o motivo de em momentos de maior risco para sua saúde o cérebro dela não sinalizar para o perigo iminente? Faltou uma explicação mais objetiva por parte do escritor – mencionar essas contradições não aliviou em nada a falta de justificativas racionais e plausíveis. E o que dizer, então, de quase todas as personagens da narrativa discorrerem naturalmente sobre questões literárias e filosóficas, hein?! Os adolescentes de quinze, dezesseis e dezessete anos já leram as principais obras dos escritores clássicos e contemporâneos ao ponto de citar de cabeça seus trechos e algumas passagens memoráveis. A terapeuta de Aza debate tranquilamente questões existencialistas. A mãe da protagonista, uma professora de Matemática, tem grande conhecimento sobre literatura. Como falei, há várias passagens deste livro que não conversam com a realidade. Por isso, a sensação é, muitas vezes, de inverossimilhança. De qualquer maneira, “Tartarugas Até Lá Embaixo” é um ótimo romance juvenil (desculpem-me, mas não consigo usar o termo young adults nem jovens adultos). Admito que estava com saudades das narrativas inteligentes e saborosas de John Green. Para mim, esse quinto romance do autor é tão bom quanto “Quem é Você, Alasca?” e “A Culpa é das Estrelas”, seus melhores dramas até aqui. Ou seja, o escritor continua em ótima forma. É uma pena que ele não tenha colocado a produção literária em sua lista de prioridades nos últimos anos. Se essa tendência persistir, não será surpresa nenhuma se precisarmos de mais cinco ou seis anos até ver mais um novo romance de Green chegar às livrarias. Esperemos. Fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Outros Jeitos de Usar a Boca – A poesia visual de Rupi Kaur
Depois de algumas postergações, li, na última segunda-feira à noite, um livro que tem frequentado há algum tempo a lista dos mais vendidos do país. A obra em questão é “Outros Jeitos de Usar a Boca” (Planeta), publicação de estreia da indiana Rupi Kaur. Este título vendeu, no Brasil, mais de 100 mil unidades até agora, o que o coloca na posição de um dos maiores sucessos editoriais recentes. Nos últimos meses, Kaur lançou o segundo livro de sua carreira literária. ”O que o Sol Faz com as Flores” (Planeta) já aparece no ranking dos mais comercializados nas livrarias nacionais. Para ser sincero, eu relutava em ler “Outros Jeitos de Usar a Boca” por achar que se tratava de literatura erótica, ao estilo de “Cinquenta Tons de Cinza” (Intrínseca). Cito o romance de Erika Leonard James porque ele passou a simbolizar, nos últimos anos, um subgênero narrativo. Meu equívoco tem explicação. Afinal de contas, o que eu poderia pensar de um título como “Outros Jeitos de Usar a Boca”, hein? Contudo, neste final de semana, ao visitar a Livraria Cultura do Shopping Bourbon Pompeia, pude, enfim, folhear a obra com a atenção que ela merecia. E qual foi minha surpresa ao descobrir que esta publicação de Rupi Kaur é uma coletânea poética com alguns elementos de prosa. Junto com o texto, a autora produziu à mão desenhos que ilustram visualmente seus sentimentos e suas opiniões. É verdade que há muito erotismo também, porém esse é apenas um dos vários elementos complementares da obra, não representando a essência do material poético. Maravilhado com a proposta de Kaur em unir poesia, prosa e ilustração, comprei seu livro por impulso. Lançado no final de 2014, “Outros Jeitos de Usar a Boca” é um best-seller mundial. Esta coletânea prosa-poética (não sei se existe esse termo, mas foi a melhor definição que encontrei para classificar a obra de Rupi Kaur) já vendeu aproximadamente 3 milhões de cópias nos quatro cantos do planeta. A publicação figurou por mais de 77 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e foi traduzida para 25 idiomas. Nascida na Índia, Rupi Kaur vive desde os quatro anos de idade no Canadá. Já adulta, estudou Retórica e Escrita Profissional na universidade. Sua carreira artística começou com posts nas redes sociais. A escritora usava o Instagram e o Tumblr para publicar seus versos e suas performances. Em muitas oportunidades, seus trabalhos uniam texto e imagem, em uma espécie de poesia visual. Suas produções falavam quase sempre de desilusão amorosa, violência, abusos sexuais, feminilidade, perda e dor. Kaur nunca teve medo de abordar temas que fossem tabus ou que explicitassem sua visão feminista. De certa maneira, “Outros Jeitos de Usar a Boca” trabalha com todos esses elementos. A ideia de escrever o livro nasceu após uma forte desilusão amorosa. Para superar a dor da separação, a artista resolveu escrever e desenhar, atividades que sempre gostou de fazer. Colocando para fora tudo o que estava sentindo, ela pensou na época, poderia exorcizar os demônios que a perseguiam. Assim, a experiência adquiriu uma função catártica. Não sei se ela conseguiu superar seus traumas. O que sei é que o resultado mais prático desse processo foi a produção de um livro espetacular. “Outros Jeitos de Usar a Boca” é uma obra profunda, inteligente e extremamente sensível. Sem medo de se expor e de falar o que pensa/sente, Rupi Kaur narra os momentos mais intensos de sua vida, uma compilação de fatos recheados de desilusões, assédios, traições e amargura. Coincidentemente ou não, os instantes decisivos de sua vida estão sempre ligados à relação nociva com os homens. Desde pequena, a escritora é vítima dos abusos, do egoísmo, das imposições e da violência masculina, tanto física quanto social e doutrinária. Dividido em quatro partes (“Dor”, “O Amor”, “A Ruptura” e “A Cura”), “Outros Jeitos de Usar a Boca” possui 208 páginas. Apesar de ter um tamanho volumoso para os padrões das coletâneas poéticas (geralmente as obras deste gênero não ultrapassam muito mais do que 100 páginas), sua leitura é extremamente rápida. Eu li o livro inteiro em aproximadamente uma hora (isso porque leio três vezes cada poema – uma mania que eu tenho). Os leitores mais impacientes e ansiosos na certa vão ler esta publicação muito mais rápido do que eu. As seções do livro representam as fases mais importantes da vida de Kaur. Cada uma dessas etapas foi capaz de ser um divisor de águas na existência da artista, apresentando características e dramas peculiares que ela não tem vergonha ou receio de expor aos leitores. Em “Dor”, Rupi Kaur narra os abusos sofridos na infância e na adolescência. Seu desenvolvimento como mulher foi baseado na relação fria e distante com o pai, no crescimento em um país diferente que a via como uma pessoa de fora, na relação pouco afetuosa com a mãe, nos abusos sexuais sofridos por tios, primos e outros homens, no primeiro beijo que um menino lhe roubou na escola, etc. Sua formação como indivíduo é, portanto, uma mistura de experiências opressoras e traumáticas. Na segunda parte da obra, “O Amor”, a narradora (ou seria o eu-lírico?) se apaixona. A paixão acaba mudando o ponto de vista que ela tinha do mundo e de si mesma. A relação com o “homem da sua vida” abre um período mágico de sua existência. O sexo intenso e sem culpa, o companheirismo sincero, os carinhos intermináveis, o romantismo desenfreado, as confidências íntimas e a união integral do casal mostram que dias maravilhosos podem integrar sim a rotina da mulher moderna. Os traumas do passado por ora são esquecidos e, de certa medida, até superados. O amor é capaz de realizar milagres. Entretanto, o relacionamento conjugal parece ter um fim. As discussões, as traições, as brigas e os desentendimentos do casal marcam a terceira parte de “Outros Jeitos de Usar a Boca”, chamada de “A Ruptura”. Essa é a seção mais longa do livro. Nesse momento, vemos uma mulher totalmente desesperada pela saída de casa do homem para quem entregou sua vida. A agonia dela é comovente. Nos poemas, nos desenhos e nos textos em prosa (que ganham destaque nesta parte), vemos um coração não apenas partido, mas completamente dizimado. A última parte é “A Cura”. Depois de muito sofrer, a narradora/eu-lírico encontra, enfim, um equilíbrio saudável. Ao compreender pela primeira vez como é viver de maneira a respeitar suas vontades e seus desejos mais íntimos, ela passa a enxergar o mundo e sua posição como mulher de outras formas. A transformação se efetuou nela. Escrevendo o enredo do livro, como fiz a pouco, corro o risco de passar uma imagem equivocada de “Outros Jeitos de Usar a Boca”. Quem ainda não leu esta publicação não pense, por favor, que ela seja boba, rasteira e/ou fútil, como minha descrição do enredo possa ter parecido em um primeiro momento. Ela não é não! Rupi Kaur utiliza-se de um pé na bunda que recebeu para dialogar com questões pesadas, universais e profundas. É muito bonito e corajoso o jeito como ela escreve e desenha. Os poemas em versos livres são muito interessantes. Em poucas linhas, a escritora indiana exprime seus sentimentos, medos, frustrações e sonhos sem qualquer complicação ou filtro. Ao mesmo tempo que o texto é sintético e claro, cada palavra parece representar um desabafo há muito tempo preso na garganta de Kaur. A combinação de texto e ilustrações também confere um charme e uma profundidade ainda maior ao material. Em alguns casos, é na relação simbiótica entre os dois elementos (textual e visual) que o sentido almejado por Rupi Kaur se faz plenamente compreensível. A força da poesia visual é maior do que a soma de suas partes separadas. Impossível o leitor não se emocionar ao descobrir isso durante a leitura. “Outros Jeitos de Usar a Boca” é um livro incrível! Sua proposta pode até parecer simples à primeira vista, mas sua execução esconde um trabalho árduo e difícil. Gosto de ver quando uma escritora faz uma produção complexa, original, multiperformática e profundamente inteligente, mas isso não esbarra em um texto hermético. Pelo contrário. O lapidar trabalho de Kaur deixou sua obra gostosa e palatável. “Outros Jeitos de Usar a Boca” fala de maneira poética de problemas atuais e relevantes de nossa sociedade, o que só incentiva o debate sobre essas questões ao grande público. Só não gostei de dois pontos neste livro de estreia de Rupi Kaur: seu nome e seu desfecho. Em primeiro lugar, a tradução do título para o português acabou atrapalhando um pouco a experiência de leitura. O nome original da obra é “Milk and Honey” (Leite e Mel, em uma tradução direta do inglês). Ele faz todo o sentido porque a autora vê as transformações que as mulheres passaram nos últimos anos (ela usa sua experiência pessoal como um microcosmo do que todas as integrantes do seu sexo sofreram) como um processo “suave como leite e grossa como mel”. O legal é que vários poemas do livro fazem menção direta ao termo leite e mel (juntos ou separados). Além disso, a combinação dessas duas palavras confere um sentido poético ao título, algo que vai de encontro à proposta da coletânea. Infelizmente, essas questões são perdidas no título em português. “Outros Jeitos de Usar a Boca” é uma frase com forte conotação sexual e vulgar, que não representa a essência da publicação de Kaur. A outra questão que não gostei foi do final do livro. Na última parte, “A Cura”, o texto se torna uma pregação moral da escritora para com seus leitores. Isso destoa das outras três partes, quando o foco era a experiência pessoal da autora (algo muito mais intenso e profundo). Por isso, o desfecho adquire um ar de autoajuda piegas para as mulheres que estão sofrendo de desilusão amorosa. Para completar, a mensagem que se passa é que a felicidade feminina só será encontrada longe dos homens, os verdadeiros culpados por todas as dores e traumas que elas sentem. Será mesmo? Apesar da derrapada dos tradutores quanto ao título e do desenlace destoante do livro, “Outros Jeitos de Usar a Boca” é uma leitura que vale muito a pena conhecer. Rupi Kaur é uma artista criativa, talentosa e ousada. Admito que estou curioso para ler ”O que o Sol Faz com as Flores”. Esta segunda obra da escritora indiana foi lançada no final do ano passado no Brasil e está agora na minha lista de compras. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RupiKaur #Romance #Poesia #LiteraturaIndiana
- Miliádios Literários: junho/2021
Influenciado pelas energias holísticas do zodíaco, Paulo Sousa comenta as principais efemérides da literatura deste mês. Namastê, querido leitor do Bonas Histórias! Este mês traz uma energia holística muito abundante, pois apresentaremos o zodíaco miliádico! Ao contrário dos signos tradicionais, já desmentidos até pela NASA, o nosso é anterior às observações atenienses do céu. Afinal, o movimento de rotação já existia antes da Pangeia, e a numeração de mil sempre existiu, os romanos só colocaram nela um nome. Aos que argumentarem que o zodíaco miliádico é uma invenção, a Coluna Miliádios Literários lança uma pergunta: qual signo não é uma invenção? Julio Cortázar, belga de nascimento e autor de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), naturalizou-se francês, numa decisão nitidamente esnobe. Seu sangue argentino é oriundo de seus pais, e fica nítida sua inveja do Brasil, pois no jogo da amarelinha, somos pentacampeões. A inveja e o esnobismo são típicos do signo da Serpente, fase na qual ele entra ao completar 39 miliádios no dia 5. Caso você não tenha percebido, os signos miliádicos mudam de acordo com o miliádio vigente da pessoa, o que fica claro ao falarmos de John Green, que nasceu há 16 miliádios a se totalizarem dia 14. Ele é autor de “A Culpa é das Estrelas”, “Cidades de Papel” e “O Teorema de Katherine” (Intrínseca). Seus livros são sucessos absolutos nos metrôs de São Paulo e nos amigos-secretos da família brasileira. Ele entra no signo de Abelha, que produz mel, tão doce quanto a água com açúcar que são suas histórias. Já Veronica Roth nasceu há apenas 12 mil dias, a serem completados dia 27. Com tão pouca idade, a autora da “Trilogia Divergente” (Rocco) amealha 17 milhões de dólares por ano, e sua legião de fãs teenagers não para de crescer. Tão nova e tão rica, Veronica só poderia estar sob o signo do Leprechaun. Ignácio de Loyola Brandão, um dos maiores romancistas brasileiros vivos, completa 31 miliversários no dia 15 e entra no signo do Jabuti. Óbvio, pois com tanta sabedoria derramada em páginas, como nas obras “Zero” e “Não Verás País Nenhum” (Global), ele já ganhou o prêmio homônimo, além do Prêmio São Paulo de Literatura. Augusto de Campos é um típico joão-de-barreano. Aos 33 miliádios de vida completados no dia 21, o poeta e tradutor já ganhou inúmeros prêmios, todos muito elegantes. Com livros como “Poesia, Antipoesia, Antropofagia & Cia” e “O Anticrítico” (Companhia das Letras), vemos que sua poesia é papo reto, embora às vezes faça curvas ou outras formas geométricas. Sua obra é sólida, aguenta firme intempéries climáticas ou linguísticas. Oswald de Andrade nasceu há 48 mil dias, a serem completados no dia 13. Um dos expoentes do movimento modernista brasileiro, o autor de “O Rei da Vela”, “Memórias Sentimentais de João Miramar” e “Manifesto Antropofágico” (Companhia das Letras), Oswald entra no signo da Louva-a-deus fêmea. Finalmente, Raymond Carver, contista e poeta, sempre minimalista e conciso, é autor de “Iniciantes” e “68 Contos de Raymond Carver” (Companhia das Letras). Seu falecimento completa 12 miliádios no dia 10. Engana-se que, por isso, ele adentrara no signo de Joaninha. Afinal, os signos são determinados em relação ao nascimento, não à morte. Um erro de iniciante, como o próprio autor tentara nos alertar. Na atual data, Raymond está em seu trigésimo miliádio de nascimento, ou seja, no signo de Plâncton. Em memória de... ... Marcel Proust, autor de “Em Busca do Tempo Perdido” (Nova Fronteira), cujo falecimento completa 36 miliádios no dia 11. ... Matilde Rosa Lopes de Araújo, autora de “O Livro da Tila” e “As Fadas Verdes” (Porto Editora), cujo falecimento completa 4 miliádios no dia 18. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Andante das Gerais - As crônicas de viagem de Roberto Marcio
Em seu livro de estreia, professor mineiro escancara sua paixão por conhecer culturas, pessoas e lugares diferentes. A Covid-19 está sendo terrível para alguns setores da economia. Um dos segmentos mais afetados pela pandemia é o turismo. Do dia para a noite, milhões de viajantes cancelaram ou adiaram seus planos e precisaram ficar em casa. Como consequência, a indústria do turismo (formada por companhias aéreas, empresas de ônibus, taxistas, hotéis, pousadas, resorts, albergues, museus, restaurantes, cafés, parques, guias turísticos, companhias de viagem, casas de câmbio etc.) ficou simplesmente às moscas. Em um cenário de grande melancolia e desolação, o que os assíduos viajantes poderiam fazer, hein?! A maioria teve que cruzar os braços e esperar a volta da normalidade. Nesse cenário caótico, Roberto Marcio, um andarilho inveterado, teve uma ideia muito melhor. O tempo de confinamento obrigatório serviu para ele, um professor mineiro apaixonado por conhecer culturas, pessoas e lugares, finalizar um antigo projeto editorial: a publicação de um livro sobre viagens. Nesta obra, Roberto Marcio mostra como suas andanças pelo Brasil e pelo mundo o ajudaram a descobrir sua identidade e a amadurecer pessoal e profissionalmente. Assim, o professor, que também trabalha em vários campos do mercado editorial, lançou-se na literatura agora no papel de escritor. O resultado dessa empreitada é “Andante das Gerais” (Páginas Editora), uma coletânea de crônicas sobre a paixão por viajar e os aprendizados obtidos pelo conhecimento de povos, regiões e pessoas diferentes. Li esta obra no último final de semana e fiquei encantado com sua proposta. Além de apresentar as particularidades dos locais visitados, Roberto Marcio vai muito além do que um guia turístico informaria ao público. Ele constrói uma verdadeira ode ao ato de cair na estrada. Em um texto franco, objetivo, divertido e original, o autor mineiro apresenta os aprendizados, as amizades, as reflexões, os choques culturais, os perrengues e o amadurecimento que duas décadas de viagens sistemáticas pelo Brasil e pelo mundo lhe propiciaram. “Andante das Gerais” foi lançado no segundo semestre do ano passado e é o primeiro livro de Roberto Marcio. Curiosamente, além de professor de idiomas, o autor também atua como revisor, tradutor e redator. Agora, ele completou o ciclo no mercado editorial ao se tornar autor. Apesar da estreia na nova posição, não espere encontrar aqui um texto vacilante ou imaturo. “Andante das Gerais” possui uma proposta ousada, uma narrativa gostosa e um tom de voz firme e marcante, elementos poucas vezes encontrados em um livro inaugural. Pelo visto, Roberto Marcio tardou para migrar para a função autoral, mas o fez já com grande maturidade literária. Nascido em Nova Lima, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, Roberto Marcio mora há muitos anos na capital mineira. Formado em Letras e com mestrado em Educação Tecnológica, o escritor já lecionou em escolas públicas, faculdades e escolas de idiomas, além de ter trabalhado como freelancer para várias empresas e editoras. Engajado politicamente e atuante nas redes sociais, principalmente no Facebook, Roberto Marcio escancara em seus posts as maluquices, as arbitrariedades e as incongruências dos (des)governos que seus compatriotas insistem em alçar ao poder na esfera federal. Apaixonado por literatura, cinema e música, bastante introspectivo, extremamente educado no trato diário e com um texto muito sagaz, o escritor mineiro me lembra os paulistas Paulo Sousa, autor de “A Peste das Batatas” (Pomelo), e Carolina Zuppo Abed, autora de “Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio) e “Tecle 2 Para Esquecer” (Patuá). Afinal, esse trio de artistas é do tipo que não sabemos o que é melhor: se a leitura atenta de suas obras ou a conversa descontraída em uma mesa de bar. As duas experiências são igualmente ricas e surpreendentes. “Andante das Gerais” possui 200 páginas e foi publicado pela Páginas Editora, uma empresa belo-horizontina voltada para a autopublicação e com cerca de cinco anos de existência. Li este título em um único dia. Comecei a leitura no domingo passado de manhãzinha e no final da tarde já tinha chegado à sua última página. Devo ter investido cerca de cinco horas para percorrer integralmente seu conteúdo – fiz, obviamente, duas ou três pausas no meio do caminho. Esta coletânea de crônicas está dividida basicamente em cinco partes. Na primeira, temos as introduções de praxe. No “Prefácio”, Mônica Baêta Neves Pereira Diniz revela a proposta do livro de Roberto Marcio e comenta sua experiência de leitura. Na “Apresentação”, o próprio autor explica a ideia de sua obra a partir dos múltiplos significados e significações do termo viagem. Na seção seguinte, chamada de “Parte 1 – Recordando...”, adentramos efetivamente na coletânea de crônicas. Aqui, Roberto Marcio expõe as memórias aleatórias (ou não) de um viajante compulsivo. De forma inteligente, o escritor apresenta-se para o leitor e revela como surgiu sua paixão por conhecer lugares, pessoas e culturas distantes. As três crônicas dessa parte são: “Souvenirs”, “Refúgios” e “Memórias e Inspirações”. Em “Souvenirs”, Roberto Marcio comenta o valor sentimental que os objetos dispostos na estante de sua casa carregam para ele. Cada item ali é uma espécie de tatuagem na alma, que transmite vivências, aprendizados e memórias dos lugares trafegados e das pessoas conhecidas mundão à fora. Em “Refúgios”, ficamos sabendo que as viagens ajudaram o autor, então um menino tímido, solitário e introspectivo do interior de Minas Gerais, a descobrir sua verdadeira identidade. O lançar-se pelas estradas também contribuiu para seu amadurecimento pessoal e para seu crescimento profissional e espiritual. E em “Memórias e Inspirações”, assistimos aos sonhos do garoto nas décadas de 1970 e 1980. No interior de Minas, tudo era motivo para ele sonhar com as viagens: postais, cartas, músicas, livros de geografia, romances, filmes, músicas, novas amizades com pessoas de locais distantes e anúncios de jornais e revistas. Na “Parte 2 – Pé na Estrada...”, Roberto Marcio começa a relatar suas experiências de viagem propriamente ditas. Essa seção possui 30 crônicas: “Minas do Coração e Vizinhos (Minas Gerais e o Sudeste Brasileiro)”; “Cariocas pelo Mundo - A História de Antônio”; “Sonhos Americanos (Estados Unidos)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Fátima”; “Esquecendo uma Perda (Canadá)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Júlia”; “Nórdico Frio (Suécia & Holanda)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Adriane”; “Arte, História e Grifes (França)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Rosana”; “Congresso, Vinho e Chimarrão (Sul do Brasil)”; “Gaúchos pelo Mundo - A História de Gisele”; “Na Terra da Rainha (Reino Unido)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Higor”; “Experiência Luso-brasileira (Portugal)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Letícia”; “Do Outro Lado do Mundo (Turquia, Grécia, Tailândia, Singapura & Malásia)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Vera”; “Pubs, U2 e Oscar Wilde (Irlanda)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Cláudio”; “Em Pleno Safári (África do Sul)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Vanessa”; “Mergulho em 7 Milênios (Malta, Alemanha & Itália)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Marlon”; “Mochilando na Terra da Macaxeira (Nordeste do Brasil)”; “Baianos pelo Mundo - A História de Jorge”; “Na América Espanhola (Chile, Colômbia, Uruguai, Panamá & México)”; “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Luciano”; “Em 10 Dias, as 1001 Noites (Marrocos)”; e “(Outros) Mineiros pelo Mundo - A História de Wágner”. Interessante notar que nessa seção, Roberto Marcio mescla suas experiências de viagem com o relato de pessoas (normalmente mineiras e desconhecidas) que ele trombou nessas incursões mundo à fora. Ao mesmo tempo em que apresenta o que aprendeu em suas andanças pelo Brasil e no exterior, o autor reforça sua paixão por Minas Gerais (a mineiridade) e pela literatura e pela música. Na “Parte 3 – Refletindo...”, assistimos a 9 crônicas em tom conclusivo-reflexivo. Afinal, o que Roberto Marcio extraiu de quase duas décadas perambulando por aí? Ele responde diretamente a essa questão que os leitores intuitivamente formulam. Além disso, temos aqui mais algumas dicas práticas para os viajantes em início de jornada. Esses textos são: “Chegadas e Partidas”; “Aparências Enganam”; “Pé na Estrada e Tempo de Vida”; “Turista Profissional”; “Bagagem de Volta”; “A Máquina do Tempo”; “A Mais Longa Jornada”; “Proibido Viajar” e “Epílogo”. A quinta e última seção de “Andante das Gerais” é uma espécie de anexo fotográfico e linguístico. Além de apresentar imagens de suas viagens (um pequeno álbum de fotografias, algo inerente a toda boa viagem), Roberto Marcio brinda o leitor com algumas dicas práticas de como se comunicar no Brasil (glossário com variações idiomáticas do português) e no mundo (termos mais comuns e essenciais do inglês). Nessa última parte, o autor entrega-se ao papel de turista e de professor de idiomas. A questão mais legal de “Andante das Gerais” é que ele é um livro de crônicas de viagem que vai muito além da descrição dos lugares visitados. O ponto alto desta obra está justamente na experiência, no conhecimento e no amadurecimento obtidos pelo autor-viajante e em suas reflexões sobre a paixão por viajar. Exatamente por isso, mesmo o leitor que não gosta de cair na estrada (será que tem alguém que não gosta de viajar?!) poderá se interessar por essa leitura. Adorei também o texto e a linguagem utilizados por Roberto Marcio em “Andante das Gerais”. As crônicas desta coletânea são quase sempre leves, objetivas, sinceras e informais. O tom é quase de um diálogo aberto entre o autor e o leitor. Minha impressão é que eu estava na sala da casa do escritor mineiro ouvindo suas histórias (enquanto degustava um bom café e apreciava alguns pães de queijo). Parte da força narrativa deste título está no clima de intimidade criado desde a primeira página. Mesmo não conhecendo Roberto, você se sente próximo e amigo dele. Ao ler este livro, admito que fiquei me perguntando: por que não temos mais tantas coletâneas de crônicas como essa à nossa disposição?! Infelizmente, esse tipo de gênero narrativo perdeu muito destaque nos primeiros anos do século XXI. Minha teoria é que a ascensão das redes sociais e o declínio do jornalismo impresso diário são parte desse processo de esquecimento das crônicas. Escrevo isso com tristeza no coração porque adoro este tipo de texto – não à toa, sou fã dos trabalhos de Rubem Braga (o melhor de todos!), Clarice Lispector (a melhor de todas!), Luís Fernando Veríssimo (o mais engraçado), Fernando Sabino, Ignácio de Loyola Brandão, Lya Luft, Fabrício Corsaletti (o melhor da nova geração), Tati Bernardes (a melhor da nova geração), entre outros. Fazendo jus à essa tradição, Roberto Marcio é um cronista de mão-cheia. Ele precisa produzir outros livros nessa linha (e quem sabe títulos ficcionais, hein?). Se estivéssemos nas décadas de 1980 e 1990, na certa bons diretores de redação o convidariam para escrever uma coluna sobre turismo em jornais e revistas. Como estamos no século XXI, a vontade é de acompanhar o autor-viajante por um blog de turismo (será que ele já pensou nisso?!). Um dos pontos positivos de “Andante das Gerais” está em sua organização/estrutura textual. A divisão das partes do livro facilita tanto a aproximação do leitor com o autor (“Parte 1 – Recordando...” é fundamental para isso) quanto ajuda na compreensão do assunto abordado (agora estou falando da “Parte 2 – Pé na Estrada...”). Assim, ficamos próximos de Roberto Marcio desde as primeiras páginas e nos sentimos convidados para acompanhá-lo em suas viagens. Incrível isso! Para completar, cada viagem é delimitada por uma temática, o que potencializa sua importância e as experiências adquiridas. A cereja no bolo é a parte final, com reflexões ora filosóficas e sentimentais (“Parte 3 – Refletindo...”) ora práticas e de sobrevivência fora de casa (“Anexos”). Confesso que adorei a postura do autor. Roberto Marcio apresenta suas experiências com humildade e franqueza. Ele não esconde os perrengues, por exemplo financeiros, operacionais e de relacionamentos, que passou nas viagens. Isso é ótimo porque a maioria dos leitores vai se identificar com ele (ele é gente como a gente!). Sempre que assistimos aos problemas do autor, o livro ganha em profundidade e relevância. Em uma comparação com os apresentadores de programas de viagem, Roberto Marcio está mais para uma versão masculina de Titi Müller (engraçada e desbocada) do que para Mel Fronckowiak (sempre linda e elegante). Ele está mais próximo do casal do Num Pulo, os também mineiros Paula Albino e Daniel Negreiros (leves, naturais e sensatos) do que do casal Sonho e Destino, Fernando e Gisella De Borthole (metidos, artificiais e elitistas). Nota-se que a personalidade do autor ajuda nesse sentido. Roberto Marcio é corajoso para encarar sozinho alguns desafios realmente complicados e possui certa cara de pau de viajar mesmo com pouco dinheiro no bolso. Não à toa, ele precisa muitas vezes ficar alojado onde dá (coitada da amiga dele de Boston!) e precisa fazer algumas loucuras financeiras (atire a primeira pedra quem nunca fez maluquices para concretizar aquele sonho de viagem!). Incrível ver essas coisas nas páginas da publicação! Nesse aspecto, Roberto Marcio quebra vários paradigmas das viagens (principalmente internacionais) e se torna um ótimo exemplo (por mais que ele refute essa posição) para aqueles que aspiram viajar. Adorei também a intertextualidade literária e musical de “Andante das Gerais”. Roberto Marcio prova que é fanático por essas duas modalidades artísticas ao citá-las o tempo inteiro em seu livro. Assim, nos deparamos com referências a Herman Melville, Goethe, Guimarães Rosa, Edgar Allan Poe, Airton Ortiz, Lao-Tsé, Monteiro Lobato, Cecília Meirelles, Jorge Luis Borges, Victor Hugo, Henry Miller, Érico Veríssimo, Carlos Eduardo Back, Oscar Wilde, Bráulio Bessa, Jorge Amado, Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Fernando Pessoa, Albert Camus, Santo Agostinho e Mário Quintana. E encontramos muitos trechos em que são citados Beatles, Queen, ABBA, Carpenters, Diana Ross, Michael Jackson, Marcus Viana, Tom Jobim, Braguinha, Roxette, Elis Regina, Michel Teló, U2 e Raul Seixas. É elogiável a forma como Roberto Marcio amarra os três elementos principais do seu livro: viagem, literatura e música. Por falar nisso, chamou minha atenção a capa de “Andante das Gerais”. A foto da estante com livros e CDs estampada na abertura do livro de Roberto Marcio é muito parecida à imagem que abria o Bonas Histórias nos primeiros anos do blog (algo que só meia dúzia de leitores mais antigos vai se lembrar). Juro que dei um pulo para trás quando vi a capa desta obra. Na hora, pensei: o que a imagem antiga do blog (e da minha antiga estante de livros) está fazendo aqui?! Porém, um segundo olhar me mostrou que não era a mesma foto – apenas eram parecidas. Ou seja, eu não tinha aberto a coletânea de crônicas de Roberto Marcio e já tinha gostado dela. Se por um lado lançar um livro como esse no meio da pandemia pode ser questionável (afinal, ele fala de viagens em uma época em que a maioria dos viajantes está em casa), por outro lado ajuda a matar as saudades dos bons tempos. Confesso que fiquei com vontade de viajar. “Andante das Gerais” é um ótimo incentivo para planejarmos nossas próximas viagens quando tudo voltar ao normal. Por esse aspecto, Roberto Marcio motiva o viajante inveterado que mora dentro da gente a não desistir dos seus sonhos. Gostei muito disso. Achei espetacular a ideia de vincular o relato de viagens e das experiências de viajante do autor com a mineiridade. A apresentação de pequenas biografias de mineiros desconhecidos espalhados pelo mundo também enriqueceu a leitura e fez um belo contraponto à narração em primeira pessoa. Por isso, em nenhum momento o texto caiu na monotonia – um risco sempre iminente neste tipo de obra. A consequência de se falar da mineiridade enquanto se mostra as viagens do autor pelo Brasil e pelo planeta é tratar da velha contradição: a vontade de ganhar o mundo e a necessidade de ficar preso à terra natal. Roberto Marcio é poético ao expor a dicotomia: a paixão pelo diferente/distante e o amor pela terra natal. Se ele quer sempre fazer descobertas fora de Minas Gerais, ele também quer voltar para casa no final da viagem. É muito legal notar esse processo de constante vai-e-volta. Seria, então, esse o motivo dele admirar os conterrâneos que acabaram passando vários anos no exterior? Pode ser. Gostei do contraste entre o professor sério e dedicado à educação dos alunos e o texto engraçado e despojado da versão à paisana de Roberto Marcio. À medida que os capítulos vão avançando, o autor vai ficando mais à vontade para contar episódios mais íntimos e curiosos de sua biografia. Adorei o seu tipo de humor – inteligente e sutil. Minha impressão é que aos poucos o autor foi tirando a roupagem de professor (sério, comportado, formal e preocupado com sua imagem) e foi vestindo o traje de aventureiro que gosta de aproveitar a vida (independentemente do que seus alunos vão pensar e dizer sobre isso). No final do livro, ele já está chegando bêbado em casa em plena madrugada, para desespero dos vizinhos e dos moradores da casa onde está hospedado. Impossível não gostar de alguém assim! Por mais intensas que sejam as diferenças entre Roberto e Jack Kerouac (sim, eles têm personalidades muito distintas mesmo!), admito que nesses momentos me recordei do saudoso e amalucado escritor beat (talvez o viajante mais famoso do século XX). As dicas dadas em “Andante das Gerais” aos viajantes, principalmente aos de primeira viagem, são excelentes. Roberto Marcio fala um pouco de tudo: melancolia de deixar os entes queridos no aeroporto, preocupação de ir e deixar os problemas não resolvidos para trás, perrengues com bagagens extraviadas, episódios de violência ou acidentes no exterior, escolhas equivocadas de hospedagem etc. É difícil não concordar com seus argumentos e seus conselhos. E no desfecho, ele ainda oferece um pequeno guia de sobrevivência para o futuro/novo viajante. A ideia de colocar fotos do autor na parte final da obra foi ótima. Depois de quase duas centenas de páginas, ver a materialização física das viagens de Roberto Marcio é prazeroso para o leitor. Tive a sensação de estar acompanhando, nesse momento, as imagens de um amigo (de certa maneira, Roberto Marcio se torna o amigo próximo de cada leitor ao final da experiência de leitura) recém-chegado de suas andanças. Exatamente pela bela exposição da mineiridade do autor e pelo acurado relato de seus conterrâneos, achei desnecessários os capítulos em que personalidades famosas e não mineiras foram apresentadas. Falar de Jorge Amado, Tom Jobim e Gisele Bündchen, por exemplo, destoou do restante do conteúdo de “Andante das Gerais”. E, pior ainda, esses trechos não trouxeram qualquer contribuição ou novidade para os leitores. Na certa, valia mais a pena usar esses capítulos para comentar a vida de outros mineiros que estão espalhados por esse Brasilzão ou pelo mundo à fora e que são desconhecidos pela maioria dos brasileiros. Talvez o principal ponto negativo do livro esteja nas arestas deixadas na “Parte 1 – Recordando...”. Os três capítulos dessa seção inicial são realmente ótimos para contextualizar o leitor. Ficamos muito próximos do autor (algo fundamental para seguirmos na leitura e um aspecto já comentado nesse post). Roberto Marcio mostra-se um menino do interior de Minas Gerais tímido, introspectivo e com problemas de relacionamento. Se por um lado ele é sincero ao expor seus problemas familiares e características pessoais, há algo oculto nesse momento que o escritor não quis expor. Por exemplo, quais foram os motivos que o levaram a brigar com o pai na infância e na adolescência? Isso estaria relacionado à sua grande introspecção? E por que a dificuldade de fazer amizades na escola? É preciso respeitar a decisão de Roberto Marcio de não aprofundar essas questões mais íntimas (até porque não é sobre isso o que sua obra se propõe a abordar). Porém, é inegável que essa omissão contrasta com a sinceridade e a postura franca das demais partes de “Andante das Gerais”. Minha sensação é que esses temas mal explicados (na verdade, não explicados) do passado do autor contenham alguns aspectos pessoais importantes que explicariam boa parte das questões levantadas mais tarde na coletânea de crônicas. Curiosamente, para um leitor mais atento e experiente não é difícil desvendar esses segredos ocultos. O espírito conservador do interior de Minas Gerais (que conheço bem – apesar de ser paulistano e viver em São Paulo, morei em Varginha-MG por um tempo) é outro ponto que afetou de alguma maneira as narrativas de “Andantes das Gerais”. Por exemplo, em relação à homossexualidade masculina, há certo pudor em apresentá-la mais explicitamente. Como um paulistano que tem muitos amigos homossexuais, admito que não entendi essa necessidade de deixar tudo embaixo dos panos. Contudo, compreendo que nem todo lugar aspira ares de liberdade sexual como na minha cidade (que, por sua vez, em comparação com outras metrópoles mundiais, não é tão libertária assim). O fato é que na minha leitura tive a impressão de que Leif e Gustavo formavam um casal e que Higor era homossexual ou bissexual (ele namorava “pessoas” da Irlanda). Pareceu-me que os relacionamentos homoafetivos acabaram ficando subentendidos. O único ponto em que os gays são apresentados abertamente foi na história do Cláudio e do namorado irlandês. Ou seja, senti um ar de um livro que não quis sair do armário. É preciso respeitar essa decisão do autor de não levantar outras bandeiras além da paixão pelas viagens (até porque a alternativa encontrada em nada atrapalhou a leitura e a experiência literária). Também achei curiosas as partes em que Roberto Marcio brigou com as donas das casas em que ficou hospedado no Canadá e na Irlanda. Nota-se certa infantilidade e até certo egoísmo do autor (pontos falhos de sua personalidade que nos fazem ficar mais próximos dele – o cronista mineiro é como todos nós, falível e imperfeito). Mesmo aos 40 anos, ele se comporta como um adolescente mimado e birrento. O cara quase põe fogo na casa da mulher e fica ofendidinho porque ela falou mal dele para a vizinha. Ele chega bêbado tarde da noite, faz barulho, dispara o alarme da casa e acorda os vizinhos. E, acredite, na manhã seguinte, o rapaz se sentiu humilhado porque brigaram com ele. Sinceramente, não vi nessas descrições problemas sérios de homestay (pelo menos não foi isso o que mais chamou minha atenção no texto). Quem já viajou para o exterior por essa modalidade de intercâmbio sabe que há episódios muito mais graves e verdadeiramente delicados, que poderiam ter sido citados pelo autor (mesmo que não vivenciados na prática). Aos meus olhos, as duas histórias de “Andante das Gerais” escolhidas para representar as condutas impertinentes dos anfitriões locais pareceram mais comportamentos temerários do visitante estrangeiro. Em suma, “Andante das Gerais” é um belo livro. Se lembrarmos que essa obra é de um autor estreante, os méritos de Roberto Marcio são ainda mais evidentes. O escritor mineiro tem um texto elegante e gostoso. Nota-se que ele tem muito o que nos contar tanto na área da não ficção (crônicas e ensaios) quanto no campo ficcional (romances, novelas e contos). Por isso, não me surpreenderei se encontrar, nos próximos anos, novos títulos de sua autoria. No caso de “Andante das Gerais”, trata-se de uma leitura recomendada para quem é apaixonado por viagens e para aqueles que gostam de mergulhar em textos não ficcionais originais, sensíveis e instigantes. O único efeito colateral de “Andante das Gerais” é que ele dá uma vontade ainda maior de viajar. Não se surpreenda se você, ao fechar o livro, já começar a planejar seu próximo itinerário. Foi o que aconteceu comigo. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Mais Estranho que a Ficção - A comédia sobre o fazer literário
Dirigido por Marc Foster e roteirizado por Zach Helm, esse longa-metragem de 2006 mistura realidade e ficção em uma trama inteligente, divertida e original. Na última sexta-feira, assisti a “Mais Estranho que a Ficção” (Stranger Than Fiction: 2006), uma comédia dramática deliciosa que brinca com várias questões metalinguísticas do fazer literário. Afinal, o que você faria se fosse um(a) escritor(a) e descobrisse que o protagonista de seu novo romance é uma pessoa real, hein? E ainda por cima, ele não quer sua interferência na vida dele, principalmente ao saber que você quer matá-lo. Se preferir o ponto de vista oposto, o que você faria se de repente descobrisse que sua existência é regida pelos desígnios de um(a) romancista?! Pois esse é o incrível roteiro de “Mais Estranho que a Ficção”, uma das produções cinematográficas mais inventivas que vi nos últimos anos. E saiba que esse filme reserva ainda ótimas surpresas para quem gosta das várias áreas da literatura. Temos aqui uma forte intertextualidade com a criação literária, a crítica literária e a teoria literária. Graças à junção umbilical de diferentes campos artísticos (literatura e cinema) e à união de planos existenciais distintos (realidade e ficção), o post de hoje do Bonas Histórias poderia muito bem entrar em várias colunas do blog: Cinema, Teoria Literária, Crítica Literária, Mercado Editorial, Talk Show Literário, Contos & Crônicas... Porém, para fins práticos, acabei optando pelo caminho tradicional, a postagem exclusivamente na seção cinematográfica (que por sinal está um pouco abandonada em tempos de repique da pandemia do novo coronavírus – desculpem-me; quando os cinemas voltarem para valer, prometo retornar às análises de filmes com a frequência de outrora). É importante dizer que a integração entre literatura e produção cinematográfica não é uma grande novidade na sétima arte. Já comentamos no Bonas Histórias alguns títulos com essa característica. De cabeça, lembro de “O Mistério de Henri Pick” (Le Mystère Henri Pick: 2019), "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016), "Os Olhos Amarelos do Crocodilo" (Les Yeux Jaunes des Crocodiles: 2012) e "O Crítico" (El Crítico: 2013). A própria metalinguagem artística já foi explorada em outras produções como “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017), "Quero Ser John Malkovich" (Being John Malkovich: 1999) e "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance): 2014). O que precisa ser exaltado em “Mais Estranho que a Ficção” é que esse filme veio antes de quase todas as citações acima. Ou seja, estamos falando de uma produção realmente inovadora (só não é tão distópica quanto o pioneiro e espetacular "Quero Ser John Malkovich"). Além disso, esse longa-metragem aprofunda a mistura de realidade e ficção como se estivéssemos em um livro de Juan Carlos Onetti, Kenzaburo Oe ou Orhan Pamuk. Para completar, temos aqui uma comédia engraçada e inteligente, algo que cativa também o público que não é tão fã assim de literatura e que só quer conferir uma boa trama cinematográfica (com uma perninha na comédia romântica). Dirigido por Marc Foster, responsável pela adaptação cinematográfica de “O Caçador de Pipas” (Nova Fronteira), romance de Khaled Hosseini, e roteirizado por Zach Helm, de “A Loja Mágica de Brinquedos” (Mr. Magorium's Wonder Emporium: 2019), “Mais Estranho que a Ficção” tem em seu elenco Will Ferrell, Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal, Dustin Hoffman e Queen Latifah. Lançado nos Estados Unidos em novembro de 2006 e no Brasil em janeiro do ano seguinte, esse filme está disponível atualmente em várias plataformas de streaming (eu, por exemplo, assisti no NOW) e em DVD. Com um orçamento de US$ 30 milhões, “Mais Estranho que a Ficção” faturou pouco mais de US$ 53 milhões nas bilheterias dos cinemas. Vale a pena dizer que este filme não é (eu disse NÃO É) uma adaptação do livro homônimo de Chuck Palahniuk, autor norte-americano de ascendência ucraniana que se tornou referência no gênero da Escrita Transgressiva. Sua obra mais famosa é “Clube da Luta” (Rocco), romance de 1996 que foi levado com bastante êxito aos cinemas três anos mais tarde. A única semelhança entre o longa-metragem de Marc Forster e Zach Helm e a versão literária de “Mais Estranho que a Ficção” (Rocco) é, portanto, o título em comum (coincidências que acontecem!). Isso fica evidente ao notarmos que a ideia do roteiro de Helm é anterior ao lançamento do livro de Palahniuk. Enquanto Zach Helm já trabalhava na ideia dessa história em 2001, a coletânea de contos, crônicas, ensaios, textos jornalísticos e passagens autobiográficas de Chuck Palahniuk só foi publicada em 2004 nos Estados Unidos. Curiosamente, quando o livro de Palahniuk chegava às livrarias norte-americanas, o roteiro do filme já tinha sido aprovado (evidentemente com o mesmo nome em inglês) e estava em processo de pré-produção (escalação dos atores, definição dos locais de filmagem, planejamento de produção, estabelecimento do orçamento...). O enredo de “Mais Estranho que a Ficção” se passa em uma grande cidade dos Estados Unidos e aborda o dia a dia de Harold Crick (interpretado por Will Ferrell), um jovem auditor da Receita Federal. Sem amigos, sem familiares próximos e extremamente sistemático, o rapaz tem uma rotina sem graça e solitária, que se resume a ir e a voltar do trabalho. Para passar o tempo, ele fica contando as escovações de dentes e os passos que dá até o ponto de ônibus. Ele também gosta de controlar meticulosamente o tempo gasto em cada atividade diária, como tomar café, almoçar e dormir. Em outras palavras, o cara é um mala! Certo dia, Harold é surpreendido por uma voz feminina que passa a narrar o que ele está fazendo, sentindo e pensando. Desconcertado com aquela invasão de privacidade, ele questiona as pessoas que estão a sua volta se alguém mais está ouvindo aquela locução em off. Ninguém ouve, só ele. A narração de sua vida o deixa desesperado, principalmente quando Harold descobre que está prestes a morrer. Essa revelação é feita pela tal voz feminina. Ela diz com todas as letras que ele morrerá em breve. Para piorar ainda mais as coisas (sim, é possível piorar!), Harold Crick se vê apaixonado pela primeira vez. Ao realizar a auditoria fiscal na padaria de Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), uma pequena empresária que burlou propositadamente o fisco, ele não consegue mais tirar a bela moça da cabeça. Para sua infelicidade, ele não leva muito jeito com as mulheres. Se Ana já não gosta de Harold por causa da profissão dele (quem iria ficar feliz com a visita de um funcionário da Receita Federal em seu negócio, hein?), as mancadas sistemáticas e as esquisitices do rapaz não contribuem em nada para cativar o coraçãozinho da jovem empreendedora. Sem saber o que fazer para resolver a situação da insistente voz que o acompanha em todos os momentos (até mesmo naqueles mais íntimos), Harold Crick procura uma terapeuta. Depois de analisar o caso dele, ela diz que muito possivelmente ele está sofrendo de alucinações. Não concordando com esse diagnóstico e notando que parece estar dentro de um romance, Harold recorre a ajuda de Jules Hilbert (Dustin Hoffman), um professor de teoria literária. Acadêmico experiente, o professor Hilbert é a única esperança do auditor da Receita para encontrar a escritora que está por traz da construção de sua narrativa. Curiosamente, Harold está correto em sua suposição. Ele está mesmo dentro de um livro. Harold Crick é o personagem ficcional de Karen Eiffel (Emma Thompson), uma famosa romancista que está há dez anos sem publicar nada novo e que tem o hábito de terminar suas obras sempre de uma maneira trágica. A autora está passando por um bloqueio criativo e não sabe como finalizar sua obra. Ela sabe que Harold irá morrer no desfecho, mas não definiu exatamente como irá tirar a vida de seu protagonista. Para ajudar Karen a escrever os últimos capítulos do novo romance, sua editora envia Penny Escher (Queen Latifah), uma assistente de produção literária. Com a contribuição de Penny, a editora acredita que a escritora conseguirá concluir sua narrativa ficcional dentro do prazo. Para desespero de Harold, à medida que Karen Eiffel caminha para a finalização do livro, mais perto da morte ele está. Nessa mistura inusitada de ficção e realidade, a alternativa salvadora do protagonista do livro/filme será encontrar a escritora e pedir para ela mudar o desfecho da trama. Mas como achá-la e como falar com ela? Esse é o desafio do rapaz, que precisará tomar as rédeas de sua vida dali para frente se quiser sobreviver às agruras das histórias ficcionais. “Mais Estranho que a Ficção” possui quase duas horas de duração (são exatamente 113 minutos) e tem ótimo ritmo narrativo. O longa-metragem já começa apresentando o protagonista e seus dramas e avança rapidamente para as maluquices da metalinguagem literária. Esse filme pode ser classificado como comédia, comédia romântica, tragicomédia, suspense dramático ou thriller existencialista. Acho que ele é uma mistura disso tudo. A primeira coisa que chama a atenção nesse filme é o ótimo roteiro de Zach Helm. Nota-se que essa história está redondinha, redondinha. Além de criativo e inusitado, o enredo de “Mais Estranho que a Ficção” tem peças que se encaixam perfeitamente e que não causam ruídos na dinâmica narrativa. Prova maior da excelência do roteiro é que Helm foi indicado a alguns prêmios cinematográficos por este trabalho e conquistou o National Board of Review Award de 2007 como melhor roteiro original. É preciso elogiar também a bela atuação do elenco principal. A sensação é que todos os atores estão perfeitos em seus papéis, mesclando muito bem o lado cômico e o lado trágico. Meu destaque vai para Will Ferrell e Maggie Gyllenhaal. A jovem dupla de atores consegue acompanhar os gabaritados e experientes Emma Thompson e Dustin Hoffman (que dispensam apresentações) em interpretações de alto nível do começo ao fim do longa-metragem. É até difícil dizer quem está melhor: se os jovens atores ou os intérpretes mais rodados. Há nessa produção várias intertextualidades literárias, filosóficas e científicas. Algumas são mais evidentes como a diferença de classificação entre comédia e tragédia (isso faz parte do enredo do filme), os dramas da escritora na hora de finalizar sua obra (questões centrais da teoria literária) e o papel do relógio de Harold em seu aprisionamento (o tempo controla a vida das pessoas). Porém, para quem gosta de buscar as relações intertextuais mais sutis é importante saber que há várias referências indiretas na trama de “Mais Estranho que a Ficção”. Por exemplo, o nome de cada personagem é uma homenagem a cientistas, matemáticos e filósofos famosos. Outro caso é a lista de perguntas feitas pelo professor Hilbert a Harold. O questionário do teórico da literatura é uma menção aos 23 problemas matemáticos propostos pelo alemão David Hilbert no Congresso Internacional de Matemática ocorrido em Paris em 1900. Já o título do filme veio de uma citação de Lord Byron (e não do livro de Chuck Palahniuk): “Pois a verdade é sempre estranha, mais estranha do que a ficção” (em uma tradução livre). Apesar do maior charme de “Mais Estranho que a Ficção” estar em sua dinâmica metalinguística e em suas referências literárias e científicas, a parte da comédia romântica também é interessante. O relacionamento amoroso de Harold e Ana é daquele tipo em que os opostos se atraem. Afinal, ele é o certinho, racional, formal e individualista e ela é a erradinha, passional, informal e altruísta. A fotografia do filme potencializa a verticalidade das grandes cidades modernas (o longa foi filmado em Chicago) e explora a claustrofobia da rotina de Harold Crick. O protagonista está sempre em ambientes impessoais e muito apertados. Até quando caminha pela calçada, ele está perto de inúmeras pessoas que insistem em se aglomerar. Como consequência, temos a sensação de vazio existencial, frieza emocional, vertigem e falta de conforto da vida contemporânea. A trilha sonora de “Mais Estranho que a Ficção” mescla composições instrumentais desenvolvidas pela dupla Britt Daniel e Brian Reitzell especialmente para o filme e canções comerciais de bandas de rock. Destaque para “Whole Wide World”, faixa gravada originalmente por Wreckless Eric. Essa é justamente a música que Harold toca no violão para Ana na primeira vez em que ele vai à casa da moça. Essa, por sinal, é uma das cenas mais famosas do filme. Assista, a seguir, ao trailer de “Mais Estranho que a Ficção”: Se você estiver procurando um filme engraçado, com um roteiro diferentão e com uma pegada metalinguística, que dialoga com o fazer literário, “Mais Estranho que a Ficção” é uma ótima opção. Ainda mais agora com a supremacia do streaming e das outras sessões caseiras (leia-se DVD) às exibições nas telonas de cinema. Eu gostei muito desse filme. Aprecio quando o longa-metragem é divertido sem abrir mão da inteligência e da originalidade. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Vida Nova - O maior sucesso comercial de Orhan Pamuk
Publicada em 1994, esta obra bateu todos os recordes de venda na Turquia e se tornou o título mais popular de Pamuk em seu país. Nas últimas semanas, analisamos no Desafio Literário de Orhan Pamuk dois livros do início da carreira do autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006: “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), drama de 1983, e “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), aventura histórica de 1985. No post de hoje, a ideia é discutirmos mais uma obra do principal escritor turco do nosso tempo. O título em questão é “A Vida Nova” (Editorial Presença), o quinto romance de Pamuk. Assim, damos sequência ao estudo da ficção de um dos mais premiados romancistas da atualidade. Até o fim de maio, vale aqui o lembrete, o Bonas Histórias irá comentar mais cinco publicações de Orhan Pamuk. Se você gosta do melhor da literatura contemporânea, não perca o conteúdo deste bimestre do Desafio Literário. Publicado em 1994, “A Vida Nova” recebeu uma enxurrada de críticas negativas assim que foi lançado. Os críticos literários da Turquia definiram o novo trabalho de Pamuk como incompreensível. Para eles, este romance não possuía uma narrativa lógica nem palatável. Paradoxalmente, enquanto as análises iniciais da obra eram as piores possíveis, o livro caía imediatamente no gosto dos leitores turcos. Contrariando todos os prognósticos, “A Vida Nova” se tornou o maior sucesso do mercado editorial turco do século XX. Até hoje, esse é o título com a venda mais rápida da história da nação euroasiática. Não é errado dizer que essa publicação virou uma febre nas livrarias de seu país na metade dos anos 1990. Para se ter uma ideia da dimensão do êxito deste romance de Orhan Pamuk, em um ano, ele já tinha ultrapassado a marca de 160 mil cópias comercializadas. Vale lembrar que a Turquia, nessa época, tinha pouco mais de 60 milhões de habitantes. Ou seja, esse é um recorde que dificilmente será superado. A título de comparação, o Brasil tem atualmente 200 milhões de habitantes e seu romance nacional de maior vendagem em 2020 foi “Essa Gente” (Companhia das Letras), romance de Chico Buarque com (acredite!) 20 mil exemplares vendidos – 1/8 da marca atingida pelo livro turco. Com “A Vida Nova”, Pamuk, até então uma figura de grande destaque da literatura turca, se transformou em uma personalidade pop e midiática, além de ter alcançado o posto de número um entre os best-sellers turcos. Até hoje, este romance é uma das obras ficcionais mais vendidas da história da nação euroasiática e um dos mais lembrados trabalhos literários de Orhan Pamuk. Dentro das fronteiras turcas, essa é a publicação de maior sucesso comercial do autor. No exterior, esse posto é ocupado por “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), o título seguinte de Pamuk (e considerado uma obra-prima da ficção contemporânea). Curiosamente, “A Vida Nova” começou a ser escrito em uma madrugada de 1992. De volta ao seu país, Orhan Pamuk estava sofrendo de forte insônia. O causador do mal era o jet lag de uma viagem longa de avião ao exterior. Sem conseguir pregar os olhos na cama, o escritor simplesmente se levantou, foi até a escrivaninha e começou a criar a narrativa desse livro. À medida que a insônia não passava, a obra ficcional evoluía. Quando Orhan conseguiu dormir semanas mais tarde, ele já tinha a linha mestre da narrativa. O texto foi finalizado no primeiro semestre de 1994. O nome desta publicação é uma referência intertextual à obra homônima de Dante Alighieri. Com a fama internacional de Orhan Pamuk adquirida com “O Castelo Branco” e “O Livro Negro” (Companhia das Letras) nos anos anteriores, não demorou para “A Vida Nova” ganhar traduções para outros idiomas. A versão em inglês é, por exemplo, de 1997 – três anos após o lançamento da edição original em turco. Infelizmente, os leitores brasileiros não têm acesso direto a esse livro em seu idioma materno. Até agora, nenhuma editora nacional publicou esse romance de Pamuk por aqui. Quem deseja ler “A Vida Nova” em português precisa recorrer à edição portuguesa. A Editorial Presença, companhia lisboeta com um portfólio literário de dar inveja aos leitores e aos editores brasileiros mais exigentes, publicou esse título em 2006. A tradução foi feita por Filipe Guerra. Como não encontrei “A Vida Nova” na Estante Virtual (de vez em quando pinta um exemplar para venda ali), precisei importá-lo. Ainda bem que a FNAC, rede francesa especializada em artigos de cultura, lazer e tecnologia que atuou no Brasil há alguns anos, não deixou Portugal (após ser vendida na metade de 2017 para a Livraria Cultura, as lojas brasileiras da FNAC fecharam as portas no final de 2018). Só em Lisboa, há quase uma dezena de lojas da rede francesa. É possível encomendar este livro pelo site da unidade portuguesa da empresa. Os únicos problemas, nesse caso, são o pagamento em euro (cerca de 18,90 €, fora o frete!) e a demora (é necessário quase um mês de espera). Quem é fã da literatura de Orhan Pamuk não verá, provavelmente, problemas em fazer essa aquisição. O enredo de “A Vida Nova” é narrado em primeira pessoa por Osman, um jovem universitário de 22 anos que mora com a mãe em Istambul. Seu pai, funcionário por décadas da Companhia Ferroviária, faleceu há um ano, vítima de ataque cardíaco. A família do protagonista se limita, então, a Tia Rabite, uma viúva sem filhos que passa os dias sozinha em casa assistindo à televisão. Tio Rifki, o antigo marido de Tia Rabite, foi assassinado dois anos atrás. Depois de trabalhar por muitos anos na Companhia Ferroviária, Tio Rifki se tornou um renomado autor da literatura infantojuvenil. Em sua infância, Osman era fanático pelos livros do parente próximo. Dizem que o escritor morreu vítima de ciúmes. Contudo, ninguém nunca soube apontar quem foi o assassino do Tio Rifki e qual era o motivo dos tais ciúmes. Estudante do Instituto de Engenharia da Universidade Técnica de Taksim, Osman é filho único, não tem amigos e é bastante tímido. O rapaz tem uma rotina banal e extremamente melancólica. Acostumado a se masturbar com as revistas de mulheres nuas que esconde em seu quarto, o narrador do romance tem uma quedinha por Janan, uma linda aluna do curso de Arquitetura da Universidade de Taksim. Apesar de admirar a beleza da moça, ele nunca trocou uma palavra com ela. O estudante de Engenharia apenas observa de longe a passagem da aluna de Arquitetura pelo campus universitário. Certo dia, Osman encontra por acaso Janan caminhando na rua e resolve segui-la por curiosidade. A jovem para em frente a uma livraria e contempla um livro ali exposto. A atenção dela pelo título à venda é o que basta para o rapaz entrar na loja e comprá-lo. Na cabeça dele, se uma linda mulher gosta daquela publicação, ele também irá gostar. Além disso, a leitura em comum poderá ser usada mais tarde como uma estratégia de flerte. À noite, ao chegar em casa, Osman começa a leitura da nova aquisição. A obra se chama “A Vida Nova”. O que ele não sabia é que essa publicação tinha poderes mágicos. Sem conseguir desgrudar os olhos das páginas por um segundo sequer, Osman passa a noite e a madrugada inteira lendo. Na manhã seguinte, o jovem universitário se sente transformado. O livro causou uma revolução em sua alma. A partir de então, o narrador não encontra mais sentido para a vida que levava até ali. É como se sua rotina fosse uma grande peça de ficção, enquanto a verdade está contida exclusivamente na história da obra recém-lida. A impressão é que aquela trama fora escrita especialmente para ele. Transtornado com as revoluções internas geradas pela leitura, Osman procura Janan na universidade. Ele quer contar o que lhe aconteceu na noite/madrugada anterior. Ao ouvir da boca do rapaz que “A Vida Nova” provocou em sua mente e em sua alma a abertura de novos universos até então inimagináveis, Jansan não contém a euforia e tasca um beijão na boca do colega. Aquele gesto impulsivo da moça é o que precipita a explosão da paixão de Osman. A partir daquele instante, ele não conseguirá mais esquecer a jovem colega, seu primeiro amor. Por sua vez, Jansan agiu daquela maneira mais para expressar o contentamento de ter encontrado alguém que compartilhava de suas visões e opiniões do que por paixão. Assim, Jansan leva Osman até Mehmet, um colega mais velho de universidade que conhece mais profundamente os poderes de “A Vida Nova”. Para tristeza do narrador, Mehmet é o namorado de Jansan. Por outro lado, o sujeito mostra saber muita coisa sobre o tal livro com poderes mágicos. Mehmet conta para Osman que aquela publicação desperta sentimentos revolucionários nos leitores. É impossível levar a mesma vida depois de ler suas páginas. Há pessoas espalhadas pelo país que após conhecer o conteúdo daquele título procuram desvendar o sentido oculto em suas linhas, o que os leva para a busca incessante por um novo universo, uma nova realidade. O problema, afirma Mehmet, é que, assim como há um grupo de adoradores do livro, existe um bando opositor. Os adversários simplesmente procuram os leitores de “A Vida Nova” para assassiná-los. Eles não querem saber das novas ideias trazidas pela publicação misteriosa. E eles são contrários a todas as novidades trazidas pelas novas realidades apontadas pela obra e seguidas pela nova geração (na maioria das vezes, quem lê esse livro são os jovens). Assim, ao mesmo tempo em que traz infinitas e estimulantes possibilidades, “A Vida Nova” é uma ameaça constante aos seus leitores. Desanimado, Mehmet insiste para Osman não largar sua vida normal nem mergulhar na busca de novas realidades, conforme apontado pelo livro. Ele já teria viajado por alguns anos pelos quatro cantos do país e constatado que não valia a pena largar o conforto da rotina e da realidade. Ainda encantado pela leitura de “A Vida Nova”, Osman não concorda com essa visão negativa de Mehmet. Ele quer sim descobrir o que há por trás daquela obra. Ao se despedir de Mehmet no campus da Universidade de Taksim, o narrador-protagonista assiste a uma cena chocante. Enquanto caminhava pela praça, na saída da instituição de ensino, Mehmet é alvejado por tiros vindos de um desconhecido. O homem sacou uma arma de fogo e atirou à queima roupa no namorado de Jansan. Ou seja, em questão de segundos, Osman pôde ver que os perigos descritos por Mehmet eram verídicos. Assustada com o crime, Jansan fugiu e não foi mais vista por ninguém, nem pela própria família. Querendo desvendar os segredos do tal livro mágico, Osman inicia uma longa jornada atrás de respostas. Ele quer saber: quem escreveu “A Vida Nova”?; por que essa obra foi escrita?; qual é o seu verdadeiro poder?; quem é o grupo de assassinos que quer exterminar os leitores mais aficionados dessa publicação?; o que aconteceu com Mehmet (ele morreu ou não?); para onde fugiu Jansan?; e quais os universos paralelos que essa leitura indica? Trata-se, portanto, de uma investigação sobre o que é realidade e o que é ficção. Para dar início à verificação, Osman começa uma longa e aleatória peregrinação pelos ônibus intermunicipais que cruzam a Turquia. Ele sai de uma linha de ônibus e entra na próxima compulsivamente. Nesse sobe e desce dos veículos, ele passa semanas na estrada a espera que algo aconteça. E algo irá acontecer. Um acidente. Um grave acidente de trânsito. Certo dia, o ônibus onde ele estava bateu de frente com o caminhão de cimento. Começa, dessa forma, as primeiras respostas que o jovem busca tão avidamente. Em extensão, “A Vida Nova” fica entre “O Castelo Branco” e “A Casa do Silêncio”. Ele é maior do que “O Castelo Branco” (que demanda cerca de seis horas de leitura) e menor do que “A Casa do Silêncio” (que demanda doze horas). As 296 páginas do quinto romance de Orhan Pamuk estão divididas em 17 capítulos. Levei aproximadamente nove horas para concluir seu conteúdo no último final de semana. Utilizei o sábado e o domingo para ler “A Vida Nova”. Praticamente li nas tardes/noites (quatro horas e meia em cada dia). A primeira questão que me chamou a atenção neste livro foi a variedade de gêneros narrativos contida em sua trama. É até difícil de classificarmos esta obra. Afinal, “A Vida Nova” é um romance policial, um thriller fantástico, um drama sentimental, uma aventura política ou um road story existencialista? A resposta que cheguei é: ele é uma mistura de todos esses tipos textuais. Essa é justamente uma das principais graças deste título de Orhan Pamuk. O leitor tem acesso a uma publicação extremamente versátil, plural e rica. Outro elemento chave para se compreender este romance está na multiplicidade de interpretações que “A Vida Nova” propõe aos leitores. Cada parte do livro indica um possível caminho interpretativo. Em alguns momentos, entendi que a nova realidade proposta pelo texto seria espiritual (vida versus morte), algo parecido à trama do seriado televisivo “Lost”. Depois, achei que estivéssemos assistindo a um choque de planos literários (ficção versus mundo real), como o encontrado no romance “O Castelo Branco”. Na sequência, minha sensação foi que estava diante de um conflito religioso (islamismo versus ocidentalização da sociedade turca), algo que já fora abordado em “A Casa do Silêncio”. A cada novo capítulo de “A Vida Nova”, surgiam novas alternativas interpretativas: visão político-ideológica (capitalismo versus sistema econômico tradicional da Turquia), questionamentos existencialistas (múltiplas realidades possíveis) e debate temporal-geracional (nova geração versus velha geração). Curiosamente, a resposta por qual linha o romance está efetivamente caminhando (espiritual, literária, religiosa, político-ideológica, existencialista ou temporal-geracional) depende mais da opinião (de cada um) dos leitores do que de uma definição clara do texto. Na minha visão, Pamuk abraça simultaneamente todas essas linhas de possibilidade. Portanto, “A Vida Nova” é, ao menos para mim, uma publicação com uma overdose de reflexões interdepartamentais. Não é preciso dizer que temos aqui uma obra com forte pegada filosófica. O livro ficcional contido dentro do romance de Pamuk (em claro sinal de metalinguagem literária) aborda questões como partida, missão de vida, paz, amor, morte, nascimento, tempo, peso na consciência etc.). O existencialismo apresentado por Orhan Pamuk em “A Vida Nova” é bastante polissêmico. Gostei disso, apesar de entender que esse recurso torne seu texto um pouco confuso e frustre quem deseja encontrar respostas objetivas ao final da trama. O desfecho da obra, aviso desde já, é do tipo aberto. Como proposta filosófica, “A Vida Nova” é muito (e põe muito nisso) superior a “O Castelo Branco”. O ritmo narrativo de “A Vida Nova” tem dois momentos distintos. A primeira metade do romance é mais lenta. Nessa parte, a trama se arrasta com muitas descrições de cenários, detalhes de cenas banais de pessoas comuns em seu dia a dia e um protagonista mergulhado em uma rotina melancólica e profundamente monótona. Osman passa o tempo: viajando de ônibus para cima e para baixo; assistindo compulsivamente a filmes na televisão dos hotéis e nos ônibus; e desejando por uma relação amorosa com Jansan. O intenso fluxo de consciência do narrador também contribui diretamente para esse caminhar mais vagaroso. Esta parte inicial do romance me lembrou muito o filme “As Asas do Desejo” (Der Himmel Über Berlin: 1987), obra-prima de Wim Wenders. Não à toa, Osman e Jansan são retratados como uma dupla de anjos em alguns capítulos do livro. A segunda metade do romance é um pouco mais ágil. A virada de ritmo narrativo se dá mais especificamente quando o protagonista conhece Dr. Fino, o líder da Contra Maquinação, organização que assassina os leitores de “A Vida Nova”. Após encontrar Jansan em suas andanças pelas estradas da Turquia, Osman inicia ao lado da moça a investigação propriamente dita pelos segredos ocultos do livro que leu. Aí a narrativa adquire uma forte pegada de romance policial e de thriller recheado de teorias da conspiração. Em outras palavras, a trama pega fogo, além de caminhar com mais intensidade (ufa!). A ambientação deste romance oscila entre a fantasia onírica e a brutalidade da vida nua e crua. O tempo inteiro nos deparamos com os paradoxos de duas dicotomias: a vida versus a morte e a imaginação versus a realidade. Além disso, acompanhamos, na parte final de “A Vida Nova”, ao entrelaçamento de identidades. Osman e Mehmet possuem incontáveis semelhanças, que dificilmente podem ser descritas como meras coincidências. Ou você acredita em coincidências, hein? Como marcas finais deste livro, podemos citar o humor negro e a forte intertextualidade literária e cinematográfica, elementos esses já encontrados nos títulos anteriores de Pamuk. Em relação à intertextualidade literária, temos outra vez uma interação com outras obras ficcionais do autor. Essa característica fica evidente desde a dedicatória. Como ocorrera em “O Castelo Branco”, dedicado a uma personagem de “A Casa do Silêncio”, “A Vida Nova” é dedicado à Seküre/Shekure, uma das figuras centrais do livro seguinte de Orhan Pamuk, “Meu Nome é Vermelho”. Acho incrível este diálogo entre os diferentes textos do turco. Para os leitores mais pragmáticos, a dedicatória de “A Vida Nova” pode ser destinada à mãe do romancista, Seküre Pamuk (talvez o nome da personagem de “Meu Nome é Vermelho” seja uma homenagem à mãe do escritor). Por causa do mergulho em realidades paralelas, “A Vida Nova” me lembrou muito a trilogia “1Q84” (Alfaguara), série literária de Haruki Murakami publicada quinze anos depois. É também impossível não recordarmos das maluquices narrativas (mistura de realidade e literatura em um mesmo plano) de Juan Carlos Onetti, autor uruguaio de grande sucesso no século XX. Para os leitores brasileiros, a leitura de um livro no português de Portugal ainda reserva as delícias das variantes geográficas da nossa língua: comboio, rapariga, pequeno almoço, miúdo, sítio (como sinônimo de lugar), chávena, caminho-de-ferro, camiões. Como estou acostumado às edições originais de José Saramago, José Eduardo Agualusa, Ondjaki, José Vieira/Teresa Vieira Lobo e António Lobo Antunes, confesso que não tive qualquer dificuldade de leitura. Sinceramente, não sei se todos os meus conterrâneos terão essa facilidade (acho que sim!). Gostei muito de “A Vida Nova”. Sua leitura é mais difícil do que os romances anteriores de Orhan Pamuk (e isso não tem a ver com o português de Portugal, e sim com a estrutura narrativa da obra), mas ao mesmo tempo possibilita uma experiência literária mais intensa. De forma sucinta, se “A Casa do Silêncio” e “O Castelo Branco” são bons títulos ficcionais, “A Vida Nova” é uma ótima publicação. Nota-se que o escritor turco, nessa altura da carreira, conseguia inovar consideravelmente em suas tramas e estava chegando ao seu auge artístico. E por falar em auge artístico, na semana que vem vamos comentar mais um livro de Pamuk. “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), o quarto título que analisamos no Desafio Literário desse bimestre, é considerado a obra-prima de Orhan Pamuk e da literatura contemporânea como um todo. O post de “Meu Nome é Vermelho” estará disponível no Bonas Histórias na próxima terça, dia 27. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Uma Sensação Estranha - O nono romance de Orhan Pamuk
Publicada na Turquia em 2014, esta obra foi a última narrativa ficcional de Pamuk a ser traduzida para o português e lançada no Brasil. No último final de semana, li “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), uma das mais recentes narrativas ficcionais de Orhan Pamuk. Publicada na Turquia em 2014, esta obra foi traduzida para o português e lançada no Brasil em 2017. Desde então, não tivemos mais nenhum novo trabalho do escritor turco em nossa língua. Vale a pena dizer que após “Uma Sensação Estranha”, seu nono romance, Pamuk publicou em seu país natal seis títulos: um romance, uma novela, um livro de memórias, uma coletânea de ensaios e crônicas e dois ensaios fotográficos. A maioria deles ainda não ganhou traduções para os principais idiomas. Para 2021, há a previsão do lançamento de mais um livro em turco. Ou seja, o autor mais importante da literatura turca da atualidade não parou de aumentar seu portfólio nos últimos anos. Ainda bem! Uma vez entendido esse cenário, as questões que ficam são: a produção literária de Orhan Pamuk mudou ou não após a conquista do Nobel de Literatura de 2006?; e suas novas tramas ficcionais estão melhores ou piores do que os enredos construídos antes do recebimento da honraria máxima da literatura mundial? “Uma Sensação Estranha” é um livro emblemático que nos ajuda a responder simultaneamente a essas duas interrogações. Para quem não gosta de suspense, já adianto as conclusões desse post do Bonas Histórias. Pamuk não mudou (quase) nada em seu estilo e não alterou as temáticas abordadas em seus romances nos últimos quinze anos. Porém, ao invés de cair na mesmice, ele conseguiu potencializar seus textos. Para mim, o escritor turco está melhor agora do que nunca. “Uma Sensação Estranha” é, na minha visão, seu melhor trabalho até aqui, uma obra-prima da literatura contemporânea. Esse livro chega a ser melhor até mesmo do que “A Vida Nova” (Editorial Presença) e “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), os títulos mais celebrados do autor. Sim, isso é possível! Escrito entre 2008 e 2014, “Uma Sensação Estranha” foi o primeiro trabalho ficcional de Orhan Pamuk produzido inteiramente após a conquista do Nobel. Se “Neve” (Companhia das Letras), o sétimo romance do autor, foi publicado em 2002, quatro anos antes da premiação, “O Museu da Inocência” (Companhia das Letras), a oitava narrativa longa do turco, foi lançado em 2008, mas já estava em desenvolvimento há alguns anos quando a Academia de Letras da Suécia anunciou o vencedor do prêmio de 2006. Por isso, “Uma Sensação Estranha” é uma obra que merece uma análise tão atenta por parte do Desafio Literário desse bimestre. Confesso que sempre fico curioso para saber se um artista consagrado irá mudar algo em sua proposta literária ou ficará preso eternamente ao estilo que o glorificou. No caso de Pamuk, entendo que ele se sentiu fortalecido com o reconhecimento do público e da crítica. Na posição de um dos principais escritores internacionais de sua geração, ele reforçou seu estilo e conseguiu construir histórias ficcionais ainda mais ricas e impactantes. Não por acaso, “Uma Sensação Estranha” é o título mais volumoso do turco, com quase 600 páginas. E apesar do grande tamanho (trata-se de um tijolão!), esse livro possui uma narrativa ágil, um texto gostoso e personagens carismáticas. Para quem leu “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), é como se Orhan Pamuk desse mais vasão ao lado ingênuo (romancista ingênuo é espontâneo e sensitivo, usa as técnicas intuitivamente e canaliza suas inspirações livremente) do que ao lado sentimental (romancista sentimental é mais reflexivo e artificial, preocupa-se com os métodos empregados e vive atento a como seus leitores irão receber suas obras). Essa é justamente a grande diferença dessa obra – temos aqui um escritor mais livre, leve e solto. O resultado é um romance saborosíssimo! Típico romance de formação, “Uma Sensação Estranha” acompanha os dramas sentimentais, familiares, financeiros e profissionais de Mevlut Karatas, o protagonista da trama, da infância aos 12 anos até a idade de maturidade aos 55 anos. Após migrar de um pequeno povoado da Anatólia Central para Istambul ainda menino, o jovem Mevlut passa a auxiliar o pai, um vendedor ambulante de iogurte e de boza, pelas ruas da metrópole turca. Identificado com essa profissão, a personagem central da obra de Pamuk irá perambular por Istambul assistindo às transformações da cidade e às consequências dos eventos históricos nacionais e internacionais das quatro décadas seguintes. Contudo, o que marcará realmente a trajetória do protagonista é uma confusão ocorrida em junho de 1982, quando ele tinha 25 anos. Após organizar a fuga da moça pela qual estava apaixonado, Mevlut Karatas nota que cometeu um erro crasso. Ele roubou a mulher errada da casa do sogro: ao invés da irmã mais jovem e bonita, ele raptou a irmã mais velha e feia. O equívoco nada sutil afetará para sempre sua vida dali para frente. Esse tropeço imperdoável do destino só foi possível porque a ação, que contou com o consentimento da jovem, ocorreu à noite, na total escuridão, o que impossibilitou que o herói do livro conseguisse ver o rosto da amada (que não era tão amada assim!). Além disso, a troca nos nomes das irmãs (Mevlut se correspondeu com a moça errada por quatro anos através de cartas apaixonadas) também contribuiu significativamente para a confusão. “Uma Sensação Estranha” é, assim sendo, tanto um romance de formação quanto um romance histórico. Esse drama, ao melhor estilo dos melodramas turcos, possui um ar de documentário – se fosse um filme, essa obra seria uma mistura de ficção e documentário). Afinal, o livro apresenta, simultaneamente à narrativa de Mevlut, a história do crescimento da cidade de Istambul, a constituição da Turquia como uma República laica e os eternos conflitos entre a população mais moderna, europeia e secular e a população tradicional, asiática e islâmica do país. Quem está acompanhando o Desafio Literário de Orhan Pamuk já deve ter percebido: essas temáticas são muito parecidas às das tramas de “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), “A Vida Nova”, “O Meu Nome é Vermelho” e “Neve”, os romances anteriores do autor. A edição brasileira de “Uma Sensação Estranha” foi traduzida por Luciano Vieira Machado, sergipano com vários prêmios internacionais no currículo. Luciano foi o responsável também pela adaptação para o português de “Neve”, outro livro de Pamuk. Nos dois casos, ele utilizou a tradução indireta. Se em “Neve” o tradutor brasileiro recorreu à versão inglesa, em “Uma Sensação Estranha” ele usou as versões em inglês e em espanhol. Para quem fica incomodado com essa prática, é importante dizer que todas as obras ficcionais de Orhan Pamuk lançadas no Brasil em nosso idioma são frutos de traduções indiretas. Aí a culpa não é do tradutor (ele foi simplesmente contratado para esse serviço) e sim da editora (responsável por acertar o trabalho com alguém que não é fluente em turco). O enredo de “Uma Sensação Estranha” se passa entre setembro de 1968 e outubro de 2012. A primeira cena do romance ocorre em junho de 1982. Esse dia é inesquecível para Mevlut Karatas, um rapaz pobre nascido em 1957, em Cennetpinar, um povoado da Anatólia Central, e que trabalha desde 1969 em Istambul com o pai, um vendedor ambulante de iogurte e de boza (um tipo de bebida alcóolica tradicional da Turquia que remonta a época do Império Otomano). Nessa data, Mevlut viaja de Istambul para Gümusdere, outra pequena vila anatoliana, na caminhonete do primo Süleyman Aktas. A dupla volta para a terra natal para raptar Rayiha Yenge. A moça, então com 16 ou 17 anos, é filha de Abdurrahman Yenge, mais conhecido pelo apelido de Pescoço-Torto. Abdurrahman é um viúvo pobre de Gümusdere e possui três filhas: Vediha, a mais velha (e mais inteligente), Rayiha, a do meio (e a mais feia), e Samiha, a caçula (de uma beleza estonteante). Mevlut acredita ter conhecido Rayiha na festa de casamento de Korkut, seu primo de primeiro grau (e irmão mais velho de Süleyman), com Vediha (justamente a filha mais velha de Abdurrahman Pescoço-Torto). O matrimônio foi realizado há quatro anos em Istambul e reuniu obviamente os parentes dos noivos. Na festança de união dos pombinhos, Mevlut Karatas, então com 21 anos, trocou olhares apaixonados com a jovem irmã da noiva, na época com 12 ou 13 anos. Aquele flerte foi suficiente para conquistar o coração de Mevlut Karatas. Ao perguntar para o primo quem era aquela adolescente linda, ele ouviu de Süleyman Aktas que se tratava de Rayiha, uma das filhas de Abdurrahman Pescoço-Torto. A partir daquele momento, Mevlut Karatas passou a enviar rotineiramente cartas de amor para Rayiha. Para isso, ele contou com a ajuda do primo, Süleyman, e da irmã da menina, Vediha. Depois de quatro anos de um namoro 100% epistolar, Süleyman deu uma notícia bombástica para Mevlut. Segundo os boatos que ouvira, o pai de Rayiha queria casá-la com um rapaz rico de Istambul. Desesperado e sem dinheiro para fazer uma contraproposta pela mão da amada, o vendedor de iogurte e de boza decidiu fugir escondido com Rayiha. Após obter o consentimento da jovem para a tão ousada ação, Mevlut Karatas viaja ao lado de Süleyman para a Anatólia Central. E naquela emblemática noite de junho de 1982, ele consegue tirar Rayiha da casa do pai e fugir para a estação de trem de Aksehir, onde partem para Istambul como um novo casal. Entretanto, como a operação de captura da moça aconteceu no meio da escuridão da noite, ele só viu o rosto dela quando chegou à estação de trem. E ali conferiu o grande equívoco. A moça que estava ao seu lado era Rayiha, a irmã feia de Vediha, e não a menina linda que ele tinha trocado olhares na festa (esta era Samiha, que provavelmente ainda estava dormindo na casa de Abdurrahman Pescoço-Torto). Terminada essa cena, o livro dá um salto temporal. A história vai para março de 1994. Nesse momento da trama, Mevlut Karatas já está casado há mais de uma década com Rayiha. O matrimônio deles pode ser considerado feliz. O casal vive em uma casinha alugada em Tarlabasi, bairro proletário de Istambul, e tem duas filhas pequenas, Fatma e Fevziye. Apesar de ainda serem pobres, Mevlut e Rayiha Karatas conseguem levar uma rotina satisfatória de união e alegria familiar. Enquanto o marido vende boza preparada artesanalmente pelas ruas de Istambul à noite, a esposa faz serviços de costura para fora. Assim, eles vão levando a vida de um jeito honesto e digno. Para Mevlut Karatas, o emprego de vendedor ambulante de boza é uma tradição otomana que ele não quer abandonar por menor que seja a demanda pela antiga bebida nos dias de hoje. Contra todos os prognósticos, ele insiste em percorrer as ruas da metrópole turca à procura de clientes. Porém, depois de 25 anos nessa profissão, Mevlut chega em casa e anuncia para a esposa que irá parar de vender boza para sempre. O que o fez mudar de opinião foi um assalto em que foi vítima. Pela primeira vez, uma dupla de criminosos o abordou e levou o dinheiro ganho naquela noite. Na visão do ambulante, o que mais o entristeceu foi constatar que os bandidos não respeitaram a icônica figura do vendedor de boza, uma instituição turca até então imune a esse tipo de agressão. O que Mevlut Karatas irá fazer a partir dali?! E como ele e Rayiha conseguiram transformar o inusitado episódio do rapto da irmã errada em um matrimônio feliz, longevo e frutífero?! Para responder a essas duas questões que intrigam os leitores logo nas primeiras páginas de “Uma Sensação Estranha”, Orhan Pamuk construiu uma narrativa que caminha em duas direções: para o passado de Mevlut e Rayiha e para o futuro do casal. Assim, ficamos sabendo o que aconteceu antes de 1982 (os primeiros anos de Mevlut em Istambul após sua chegada de Cennetpinar), os episódios entre 1982 e 1994 (a primeira década de seu casamento com Rayiha) e a narrativa depois de 1994 (após a decisão de não mais vender boza pelas ruas de Istambul). “Uma Sensação Estranha” tem 592 páginas. O livro está dividido em 7 partes, que por sua vez possuem ao todo 56 capítulos. As duas primeiras cenas relatadas aqui estão nas duas primeiras seções da obra: a parte 1 ocorre em junho de 1982 e narra o rapto de Rayiha; e a parte 2 acontece em março de 1994 e descreve o assalto ao vendedor de boza. Ambas as seções possuem um único capítulo cada uma. A parte 3 se passa entre setembro de 1968 e junho de 1982 e tem 19 capítulos. A parte 4 se desenrola entre junho de 1982 e março de 1994 e possui 18 capítulos. A parte 5, por sua vez, tem 16 capítulos e sua trama acontece entre março de 1994 e setembro de 2002. E, por fim, temos as duas últimas seções do romance: a parte 6 se dá em um único capítulo datado de abril de 2009 e a parte 7 tem também um capítulo só que se passa em outubro de 2012. Devo ter levado mais ou menos 16 horas para percorrer todas as páginas de “Uma Sensação Estranha” no último final de semana. Comecei a leitura na sexta-feira após o almoço e só a encerrei no domingo à noitezinha. Não seria errado dizer que passei quase todos esses dias (principalmente o sábado e o domingo) com os olhos grudados nesse livro de Pamuk. Ainda bem que sua narrativa é ótima, capaz de prender a atenção do início ao fim da leitura. Se já tinha gostado muito de “A Vida Nova” e “Meu Nome é Vermelho”, preciso admitir que a partir de agora tenho uma nova obra favorita de Orhan Pamuk. E “Uma Sensação Estranha” foi quem passou a ocupar esse posto de maneira exclusiva desde o último domingo. Sem medo de exagerar, acho que esse foi o melhor título ficcional que li nesse ano. O primeiro aspecto que chama nossa atenção nessa narrativa é o caráter duplo da trama. Temos aqui dois enredos que caminham simultaneamente: um particular e um coletivo. No campo particular, assistimos aos dramas pessoais de Mevlut Karatas, um pobre coitado que só se dá mal. E, curiosamente, ainda assim ele consegue ser mais feliz do que muita gente a sua volta. No campo coletivo, acompanhamos a trajetória dos principais familiares de Mevlut, o crescimento da cidade de Istambul e os mais marcantes acontecimentos históricos da Turquia ao longo do século XX e no início do século XXI. Por causa dessa dupla linha narrativa, “Uma Sensação Estranha” me fez lembrar “Gabriela, Cravo e Canela” (Companhia das Letras), um dos romances mais famosos de Jorge Amado que usava esse recurso literário (no caso do brasileiro, seu livro narra as reviravoltas da cidade de Ilhéus). As passagens históricas e as intrigas políticas da República da Turquia descritas nesse título não são parecidas às de “Neve”, o romance de Pamuk que analisamos no começo do mês no Bonas Histórias. Enquanto lá tínhamos uma alegoria histórico-política, aqui temos uma trama fortemente ambientada em acontecimentos reais. Por isso, disse no início desse post que essa obra ficcional tem uma pegada de documentário. Enquanto acompanhamos os dramas do protagonista de “Uma Sensação Estranha”, assistimos também as transformações urbanas de Istambul e a construção da Turquia como nação. Dos episódios nacionais descritos no romance, posso citar: a Proclamação da República por Atatürk em 1923, o enforcamento do primeiro-ministro Adnan Menderes, os vários golpes militares (1960, 1971, 1980 e 1997), a guerra contra a Grécia pela Ilha de Chipre, o assassinato de Hüseyin Alkan, a disputa política entre os Lobos Cinzentos e os marxistas, o ataque às igrejas ortodoxas e às lojas de judeus, gregos e armênios em setembro de 1955, a perseguição aos curdos e o grande terremoto de 1999. Ainda é possível conferir vários acontecimentos de âmbito mundial: Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Guerra Fria, a Revolução Islâmica no Irã, a Guerra da Malvinas, o acidente nuclear em Chernobyl, os protestos na Praça da Paz Celestial, os ataques de 11 de setembro de 2001 etc. Ler “Uma Sensação Estranha” é caminhar pela história do século XX. Como um bom romance pamukiano, esse livro tem como tema central a oposição entre a tradição e a modernidade. Enquanto Mevlut Karatas representa os valores históricos de seu país (islamismo, hábitos otomanos, valorização do passado e identidade asiática), seus adversários escancaram os valores contemporâneos (secularismo, hábitos europeus, valorização da tecnologia e do capitalismo e busca por uma aproximação à identidade ocidental). O leitor só consegue extrair mais dos textos de Orhan Pamuk quando compreende que ele escreve sempre sobre essa eterna dicotomia: passado e presente. A narrativa de “Uma Sensação Estranha” possui alguns elementos com forte carga simbólica. Identifiquei pelo menos quatro: a boza, o gecekondu, a Escola Secundária Masculina de Atatürk e os cães. A boza remete ao símbolo de uma era (o Império Turco-otomano e as tradições islâmicas). A gecekondu é o retrato da pobreza da Turquia e de Istambul. Já a Escola Secundária Masculina de Atatürk é um pequeno microcosmo do país (a instituição de ensino pode ser vista como uma alegoria da República turca). E os cães simbolizam os medos, os inimigos e até mesmo a consciência de Mevlut. Um dos aspectos mais legais de “Uma Sensação Estranha” é o seu começo. As primeiras páginas desse romance são fulminantes! Os dois capítulos/partes iniciais do livro são uma aula de como produzir logo de cara um romance inteligente, gostoso e instigante. Impossível não ficarmos curiosos para desvendar os segredos que o restante do conteúdo da obra nos reserva. Temos aqui vários narradores simultâneos. Essa é uma prática, vale a pena destacar, que já tínhamos visto em outras narrativas ficcionais de Orhan Pamuk como “A Casa do Silêncio” (cinco narradores), “O Castelo Branco” (dois narradores) e “Meu Nome é Vermelho” (doze narradores). Em “Uma Sensação Estranha”, temos a potencialização desse recurso. Além de aumentar o número de vozes (são 16 narradores diferentes: narrador principal, Süleyman, Abdurrahman, Mustafa, Korkut, Esqueleto, Noivo, Mohini, Vediha, Rayiha, Samiha, Ferhat, Hadji Hamit Vural, Tia Safiye, Melahat e Tio Hasan), as várias falas aparecem juntas no texto (nos livros anteriores, havia a divisão de narrador por capítulo, algo inexistente aqui). Curiosamente, o protagonista do romance, Mevlut Karatas, não tem sua narrativa em primeira pessoa. Quem relata o que acontece com ele é um narrador em terceira pessoa que fica muito próximo à personagem principal, com acesso ilimitado aos seus sentimentos, pensamentos e atos. O estilo desse narrador em terceira pessoa (os demais são todos narradores em primeira pessoa) é muito parecido aos narradores de J. M. Coetzee – chegamos até a pensar que se trata de uma narração em primeira pessoa de Mevlut, mas não é não. Não há a explicação no texto para quem seria esse narrador onisciente que vive colado a Mevlut. No começo da leitura de “Uma Sensação Estranha”, confesso que achei esse recurso de múltiplos narradores um tanto exagerado. Porém, na metade do livro para frente eu já tinha comprado sua proposta e entendido a estratégia de Pamuk. Para dar vazão às várias histórias da trama e ao ponto de vista das incontáveis personagens, o autor turco só poderia utilizar diferentes vozes em seu texto. Do contrário, ele cometeria um erro grave de foco narrativo (afinal, o narrador em terceira pessoa era onisciente ao que acontecia com o protagonista, mas não ao que se passava com as demais figuras retratadas no romance). O ambiente narrativo de “Uma Sensação Estranha” lembra muito os romances noir. Afinal, o clima preponderante desse livro de Pamuk reúne elementos como pobreza, violência, injustiça, golpe, avareza, briga, opressão, instabilidade política, intolerância religiosa, extermínio étnico e preconceito. Por falar em preconceito, temos aqui preconceitos de todas as ordens: sexistas, sexuais, étnicos, econômicos, raciais, religiosos, geográficos, ideológicos etc. A violência é também bem variada: violência doméstica, violência policial, violência psicológica etc. Não por acaso, a impressão de escuridão e de noite permeia toda a narrativa. O que mais gostei em “Uma Sensação Estranha” foi do seu ritmo narrativo. Se os trabalhos ficcionais de Orhan Pamuk até então eram caracterizados pela velocidade lenta da trama (com muitas descrições de cenários, várias pequenas histórias dentro da trama principal e divagações filosóficas sem fim dos narradores), aqui temos um texto mais ágil e direto e uma grande quantidade de acontecimentos simultâneos (temos praticamente uma grande novidade por capítulo). Como consequência, a leitura fica mais fácil e saborosa. Esse é o tipo de livro em que ao piscarmos os olhos, alguma coisa interessante aconteceu no enredo e algumas dezenas de páginas foram consumidas. Para encerrar essa análise, precisamos falar do final do romance. O desfecho desta obra é simplesmente espetacular, um dos mais contundentes que já li. A última frase do livro é matadora e leva o leitor a refletir sobre os paradoxos do coração. Com uma só sentença, Orhan Pamuk conseguiu explicar a sensação de estranhamento que seu protagonista vinha sentindo há anos. Nessa hora, lembrei-me do encerramento de “E o Vento Levou” (Nova Fronteira), clássico norte-americano de Margaret Mitchell. Se Mevlut Karatas é uma personagem bem diferente de Scarlett O’Hara (apesar de ambos serem belos, terem tido vidas sofridas, serem extremamente fortes e terem se casado com quem não amavam, ele nunca foi mimado, impulsivo, egoísta, orgulhoso nem prepotente como a protagonista de Mitchell), ele chegou ao final da vida na mesma conclusão que ela. Se alguém me perguntar se “Uma Sensação Estranha” tem algum ponto falho, respondo com um contundente sim! Não existe obra perfeita, afinal de contas. A questão é que eu não consegui encontrar as falhas desse trabalho de Pamuk em apenas uma leitura. Aos meus olhos, essa narrativa parece perfeita. Talvez algum equívoco histórico possa ser encontrado por um conhecedor mais profundo do passado da Turquia. Talvez algum tropeço de ordem narrativa também possa ser identificado por um leitor mais atento (eu, por exemplo, só achei um: em um momento da trama, Mevlut instala telefone em sua residência; tempos depois, não há telefone ali). E talvez um leitor mais impaciente possa ficar incomodado com o ritmo mais lento de alguma parte da história (a parte 3 tem sim uma velocidade menor do que as demais). Porém, peço desculpas aos leitores do Bonas Histórias: fiquei tão apaixonado por esse romance que me sinto impossibilitado de criticá-lo negativamente. Foi mal aí! Na semana que vem, encerrarei o Desafio Literário desse bimestre com a análise completa da literatura de Orhan Pamuk. Depois de comentarmos oito livros do principal escritor turco da atualidade, já estamos aptos para discorrer sobre seu estilo narrativo, suas obras, sua trajetória pessoal e sua carreira. O post com o panorama integral do portfólio artístico de Pamuk estará disponível no Bonas Histórias na próxima quinta-feira, dia 27. Não perca essa última etapa do Desafio Literário de Orhan Pamuk. Até lá. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Romancista Ingênuo e o Sentimental - O ensaio literário de Orhan Pamuk
Publicado em 2010, o texto dessa obra foi extraído de seis palestras ministradas na Universidade de Harvard, em 2009, pelo principal escritor turco da atualidade. Nesta semana, li “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), o principal ensaio literário de Orhan Pamuk. Curiosamente, esse é o primeiro livro analisado no Desafio Literário do autor turco que foi escrito e lançado após ele ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 2006. Até aqui, o Bonas Histórias só havia comentado obras de Pamuk antecedentes à conquista da maior honraria literária do planeta – “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), romance de 1983, “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), romance de 1985, “A Vida Nova” (Editorial Presença), romance de 1994, “O Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), romance de 1998, “Neve” (Companhia das Letras), romance de 2002, e “Istambul – Memória e Cidade” (Companhia das Letras), autobiografia de 2003. De certa forma, a intenção inicial era descobrir os caminhos trilhados pelo romancista até a sua coroação como um dos nomes mais relevantes da literatura contemporânea. Uma vez concluída essa etapa, a partir de agora inauguramos um novo olhar para a produção literária de Orhan Pamuk. Nos próximos dias, o Desafio Literário de abril e maio de 2021 vai mergulhar no trabalho de Pamuk pós-consagração. Se hoje vamos focar nos pormenores de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”, na semana que vem a ideia é investigarmos os detalhes de “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), romance de 2014. Assim, acredito eu, conseguiremos fechar o ciclo de estudo desse autor. Publicado em 2010, o texto de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” foi extraído de seis palestras conferidas na Universidade de Harvard, em 2009, por Orhan Pamuk, o primeiro (e até hoje único) escritor turco a receber o Prêmio Nobel de Literatura. O convite da tradicional instituição de educação norte-americana visava a Conferência Charles Eliot Norton. Anualmente, uma figura de prestígio mundial é selecionada para ministrar apresentações em Harvard sobre determinado tema. Em 2009, Pamuk ficou encarregado de falar sobre sua experiência como autor ficcional de sucesso, de abordar o papel do romance como gênero narrativo e de comentar os desafios de um artista de um país periférico em conquistar o reconhecimento mundial. Utilizando-se de sua experiência como escritor comercial e como leitor inveterado e dialogando diretamente com ensaios clássicos, como os conceitos literários desenvolvidos por E. M. Forster, György Lukács e Friedrich Schiller, Orhan Pamuk, então com 57 anos e no auge da carreira, ministrou um conteúdo riquíssimo na Conferência Charles Eliot Norton de 2009. “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” é o registro escrito das seis palestras de 50 minutos cada que o autor realizou nos Estados Unidos. Esse livro, vale a pena salientar, é leitura obrigatória para quem se interessa pelo fazer literário, para quem estuda Teoria Literária e para quem investiga as engrenagens da produção ficcional. Não à toa, esse título é indicado em muitos cursos de Escrita Criativa. No Brasil, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” foi lançado em 2011. A tradução da edição nacional desta obra de Pamuk é de Hildegard Feist, uma das principais tradutoras de inglês e francês do nosso país. Diferentemente das outras publicações do escritor turco que por aqui ganharam traduções indiretas, a tradução desse livro foi direta. Afinal, o texto original de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” estava em inglês e não em turco, como é de praxe no trabalho literário de Orhan Pamuk. O nome dos seis capítulos de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” são os títulos das seis palestras de Pamuk em Harvard: (1) “O que Nossa Mente Faz Quando Lemos um Romance”; (2) “Sr. Pamuk, Tudo Isso Aconteceu Realmente com o Senhor?”; (3) “Personagem Literária, Trama, Tempo”; (4) “Palavras, Quadros, Objetos”; (5) “Museus e Romances”; (6) “O Centro”. Na sequência do conteúdo da conferência, o livro ainda apresenta o “Epílogo”. Levei pouco mais de quatro horas para concluir essa leitura na última quinta-feira. Comecei a obra depois do almoço e no começo da noite já tinha chegado à sua última página. Dá para ler “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” em uma só sentada, mas acabei fazendo em duas (com um intervalo rápido no meio). “O que Nossa Mente Faz Quando Lemos Um Romance”, o texto inicial dessa publicação, é talvez a melhor parte deste livro (e com certeza é a sua parte mais famosa, ao lado do capítulo 6). Aqui, Orhan Pamuk apresenta aspectos da arte do romance tanto da perspectiva do leitor quanto da perspectiva do escritor. Quando lemos um romance, entramos em um novo mundo. Esse novo lugar deve emular o mundo real para potencializar a experiência literária. Ao mergulhar na leitura, o leitor desconecta-se totalmente de sua vida concreta e abraça o universo ficcional. Encaramos, assim, as novas paisagens, as novas ambientações e as novas personagens como se analisássemos pela janela de nossa casa a vista disponível. O que vemos ali é, portanto, a nova realidade. E o mais interessante é que encaramos o novo mundo (o mundo ficcional) a partir do ponto de vista de quem está inserido nesse universo. Olhamos, sentimos e vivenciamos a narrativa pela perspectiva de suas personagens e no calor de suas emoções. Essa é justamente uma das maravilhas do romance. Recorrendo a um ensaio de Friedrich Schiller, “Sobre a Poesia Ingênua e Sentimental”, de 1795/1796, Pamuk apresenta os dois tipos de escritores. O primeiro é o romancista ingênuo. Esse artista utiliza as técnicas narrativas de forma espontânea. Sua ação é totalmente intuitiva. Ele quase não pensa nas consequências do que está produzindo. O romancista ingênuo age de uma maneira sensitiva e escreve no piloto automático (como se estivesse dirigindo um carro), usufruindo de sua inspiração e de suas percepções da realidade. Sua visão sobre a literatura e a arte é mais romântica. O escritor que melhor exemplifica esse processo criativo é Goethe. Por outro lado, temos o romancista sentimental. Esse artista dá mais atenção aos métodos empregados do que às suas intuições. Utilizando-se das reflexões e da racionalidade, ele molda seus textos a partir do que acredita impactar mais intensamente os leitores. O romancista sentimental age de maneira analítica, reflexiva e escreve artificialmente, preocupando-se mais com a recepção de sua narrativa do que com suas ideias originais. Sua visão sobre a literatura e a arte é mais moderna, contemporânea. O escritor que melhor exemplifica esse processo criativo é justamente Schiller. Orhan Pamuk afirma que, após 35 anos no ofício de escritor, ele encontrou um certo equilíbrio entre esses dois tipos de romancista. Além disso, ele diz ser possível classificar os leitores dessa mesma forma: temos o leitor ingênuo (mergulha no texto sem refletir sobre o processo de leitura, dando vazão às suas impressões espontaneamente); e o leitor sentimental (analisa as técnicas empregadas pelo escritor e tenta racionalizar em cima da narrativa consumida). Para completar, Pamuk lista as nove operações que a mente executa durante a leitura dos romances: (1) acompanha a narrativa e tenta descobrir o significado e a ideia principal propostos pela obra; (2) transforma as palavras em imagens (mente constrói a nova realidade); (3) tenta separar o que é realidade do que é ficção; (4) busca pela fidedignidade da trama ficcional; (5) avalia e desfruta do poder da fantasia e da força da narrativa; (6) procura por juízo moral (julgando tanto as personagens quanto os escritores); (7) relaciona o texto lido a sua própria realidade (conexão entre leitor e leitura); (8) potencializa as várias atividades mentais (usadas para compreender todas as nuances da narrativa); e (9) busca incessante pelo centro secreto do romance (toda história ficcional tem um centro, o que Tolstói chamou de “sentido da vida”). “Sr. Pamuk, Tudo Isso Aconteceu Realmente com o Senhor?” é o segundo capítulo de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”. Nessa seção, Orhan Pamuk aborda a inquietação dos leitores por saber o que é, afinal de contas, real e o que é mera ficção dentro de um romance. Para o autor turco, a força da arte do romance reside justamente nessa dualidade/contradição. Um romance não é resultado 100% da imaginação do escritor (afinal, ele usou sua experiência de vida e sua própria realidade para extrair as impressões daquela trama), mas também não é algo 100% factual (há doses generosas de imaginação nas páginas de cada livro). Mesmo sabendo disso, os leitores questionam-se: onde termina uma parte e onde começa a outra? Segundo a crença geral, se um escritor tem o dom de exprimir sensações tão fortes e fidedignas é porque ele deve ter as vivenciado em sua totalidade ou em parte. O que ele produziu em palavras é fruto do mundo real. Por essa perspectiva, todas as obras de um romancista revelam dezenas de milhares de pequenas observações sobre a realidade. E essas impressões só podem ter sido extraídas das experiências de vida baseadas em sensações particulares. Por isso, os leitores perguntam o tempo inteiro: quais aspectos são baseados em experiências concretas e quais aspectos são imaginadas? Essa eterna dúvida é um dos prazeres principais que os romances proporcionam ao público. Normalmente, sucumbimos a essa ilusão não porque esquecemos que um romance é por essência/definição uma narrativa ficcional e porque é impossível extrair as memórias e as sensações do autor, mas porque a própria experiência literária suscita essa ilusão nos leitores. Gostamos de ler romances porque eles permitem que misturemos o imaginário ao real. Para Pamuk, o leitor ingênuo é aquele que lê um romance e acredita piamente que sua história é uma autobiografia ou uma coleção de crônicas (enredo, conflito e personagens baseados em fatos reais). Já o leitor sentimental é aquele que tem a certeza de que o romance lido é totalmente ficcional, sem qualquer relação com a realidade (narrativa baseada unicamente na imaginação do autor). Invariavelmente, esses dois leitores estão equivocados. Em “Personagem Literária, Trama, Tempo”, o terceiro capítulo dessa publicação, Orhan Pamuk aborda três elementos centrais da narrativa romanesca: as personagens, a trama e o tempo. Para o autor turco, o ser humano é essencialmente curioso. E o romance ajuda-nos a dar vazão ao interesse pela vida alheia e pelo desfecho de episódios sensíveis. Em outras palavras, nos interessamos naturalmente pelo caráter, pelos dramas, pela psicologia, pelo estado emocional e pela história das personagens ficcionais. Acompanhar um romance é encarar o mundo através dos olhos, da mente e da alma das figuras retratadas naquela história. Vemos o universo ficcional pelo ponto de vista de seus protagonistas. A partir de suas sensações, suas neuroses, suas impressões e suas palavras, criamos a realidade por uma perspectiva original. Uma das partes mais legais (e polêmicas) dessa seção é quando Pamuk desmistifica a centralidade das personagens nos romances. Ele afirma se tratar de uma inverdade o fato de as personagens literárias dominarem a trama, o cenário e os temas do livro. Não são elas que guiam os escritores (algo disseminado até mesmo em cursos de redação criativa e repetido em entrevistas de grandes autores) e sim o contrário. Para Orhan Pamuk, mais importante do que o caráter dos protagonistas é a maneira como esse elemento se encaixa na paisagem, no contexto da trama e nos eventos apresentados. Antes de pensar em uma personagem propriamente dita, o que o escritor turco esboça quando começa uma produção literária é o tema do romance, os tópicos que quer abordar e os aspectos da vida que o motivaram a escrever. O caráter e as características das personagens são consequências disso tudo (e não o oposto). Na visão de Pamuk, a trama é o que liga os vários pontos da narrativa, dando sentido e lógica à história. O protagonista é alguém moldado por essas situações e a figura que nos ajuda a elucidá-las. Por sua vez, o tempo de um romance não é igual ao tempo da física (do mundo real). O tempo narrativo pode ser cronológico ou psicológico. O segundo tipo não é linear e objetivo como o primeiro. Graças aos escritores modernistas, os saltos temporais na trama ou os períodos desconexos se tornaram aceitos e comuns nos romances, apontando o caráter, os hábitos e os estados emocionais das personagens. “Palavras, Quadros, Objetos”, o quarto capítulo dessa obra, é aquele em que Orhan Pamuk revela grande parte da peculiaridade de seu portfólio narrativo. Para o romancista turco, todo texto literário destina-se simultaneamente a despertar a inteligência visual e a inteligência textual dos leitores. Generalizando, alguns escritores são melhores ao cativar nossa imaginação verbal e outros são mais bem-sucedidos em incentivar nossa imaginação visual. Enquanto o primeiro tipo de autor pode ser chamado de escritores verbais, o segundo pode ser intitulado de escritores visuais. Assim, ficamos mais envolvidos com as palavras, com o curso do diálogo, com os paradoxos e/ou com pensamentos que o narrador está explorando quando lemos obras dos escritores verbais. E ficamos mais impressionados com as imagens, as visões, as paisagens e os objetos descritos pelos autores visuais. Há, a partir dessa divisão, uma literatura (mais) verbal e uma literatura (mais) visual. Quando escreve um romance, Pamuk afirma se atentar primeiramente para a formação de um quadro, uma imagem em sua mente. Ou seja, ele penderia mais para o lado dos escritores visuais. Essa constatação chega a ser natural já que antes de enveredar pela literatura, Orhan Pamuk foi pintor (dos sete aos vinte e dois anos – conforme descobrimos em sua autobiografia, “Istambul – Memória e Cidade”). Não por acaso, o escritor vê uma íntima relação entre a pintura e a produção ficcional. Além do mais, ele afirma “pintar com palavras”. Por essa perspectiva, as cenas, as paisagens, os locais, os objetos e as roupas não são elementos secundários de uma trama e sim evidências da história, da realidade, das intenções e das emoções das personagens. Entender profundamente as figuras representadas em uma história ficcional passa necessariamente pela compreensão de todos os elementos colocados em cena (eles não estão ali por acaso!). O romancista, segundo Orhan Pamuk, não quer se igualar aos pintores; ele busca, acima de tudo, conquistar a habilidade de pintar com palavras. O escritor sente duas obrigações ao mesmo tempo quando produz um texto literário: (1) ele quer identificar e ver o mundo aos olhos das personagens principais e (2) ele deseja descrever coisas através das palavras certas/precisas. “Museus e Romances” é o quinto capítulo de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”. Aqui, Pamuk explica como desenvolveu seu (até então) mais recente livro, “Museu da Inocência” (Companhia das Letras). Parte do trabalho do escritor foi selecionar roupas, objetos, fotografias e quadros que as personagens ficcionais da obra usariam/teriam. E qual seria o motivo dessa coleta, hein? Para Orhan Pamuk, os romances são como museus e/ou os leitores dos romances são como visitantes de museus. Afinal, as narrativas guardam registros sociais, históricos, expressões idiomáticas, costumes, atitudes e estilos de vida de uma época (função de arquivo); exigem certo esforço interpretativo (qual o sentido e o significado daquilo que está sendo exposto?); e exibem conotações político-ideológicas (são a ponta do iceberg de uma mensagem). Em “O Centro”, o sexto e último capítulo, assistimos ao debate sobre o que seria o centro do romance. Esse conceito refere-se à opinião ou ao insight que o escritor pretende aprofundar em seu texto. O centro pode ser real ou imaginário. Os romancistas escrevem para investigar esse local/ponto e para descobrir suas implicações. E os leitores, por sua vez, leem as narrativas ficcionais para descobrir o tal centro do romance. Muitas vezes, a dificuldade de sua localização/descoberta é algo positivo. Os leitores não querem um centro óbvio demais, o que tornaria banal a experiência literária. Escrever um romance é criar um centro, que não pode ser encontrado facilmente na vida real ou no mundo normal, e ocultá-lo na paisagem da narrativa. Ler um romance é realizar o mesmo gesto pelo caminho oposto. A força do centro do romance está justamente não no que ele é exatamente, mas em nosso esforço em buscá-lo, enquanto leitores. “Epílogo”, paradoxalmente, é a explicação de Orhan Pamuk para o convite de Harvard e os preparativos para o desenvolvimento das palestras e, depois, para a produção do livro (algo, que na minha humilde opinião, deveria vir como prefácio da obra e não como seu epílogo). A ideia para a participação de Pamuk na Conferência Charles Eliot Norton surgiu no outono de 2008 e partiu de Homi K. Bhabha, crítico literário indo-britânico que leciona em Harvard. Nessa época, o escritor turco acabara de lançar “O Museu da Inocência”, romance que levou dez anos de planejamento e quatro de execução. Além disso, Pamuk já dava aulas na Universidade de Columbia, em Nova York, e se interessava por produzir algo mais teórico sobre a literatura e a arte dos romances. O conteúdo de “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” foi desenvolvido entre o final de 2008 e o primeiro semestre de 2009. Orhan Pamuk aproveitou suas viagens pelo mundo (estadias em hotéis, espera nos aeroportos, traslados de carros...) para construir esse texto. Sobre a proposta do livro, ele afirma: “Com relação a meus objetivos: eu queria falar sobre minha trajetória de romancista, as escalas que fiz no caminho, o que a arte e a forma do romance me ensinaram, os limites que me impuseram, minhas lutas com eles e meu apego a eles. Ao mesmo tempo, eu queria que as palestras fossem um ensaio ou meditação sobre a arte do romance, e não uma viagem pela ladeira da memória ou uma discussão de meu desenvolvimento pessoal. Este livro é um todo, compreendendo todas as coisas mais importantes que sei e aprendi acerca do romance”. “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” é baseado em três ensaios literários de outros autores: “Aspectos do Romance”, de E. M. Forster, “A Teoria do Romance”, de György Lukács, e “Sobre Poesia Ingênua e Sentimental”, de Friedrich Schiller. O tempo inteiro, Orhan Pamuk dialoga com os conceitos desses três autores. Enquanto discute a teoria, o romancista turco apresenta exemplos concretos do que fala seja apontando as particularidades de sua carreira e de suas obras como listando tramas, personagens e passagens interessantes dos títulos de outros escritores ficcionais. Na verdade, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” é um texto de pura intertextualidade literária. Além de mencionar Forster, Lukács, Schiller e Goethe, Pamuk cita uma infinidade desconcertante de autores clássicos: Liev Tolstói, Franz Kafka, Gérard de Nerval, Stendhal, Laurence Sterne, Dante Alighieri, Thomas Mann, Honoré de Balzac, Samuel Beckett, Miguel de Cervantes, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, Gustave Flaubert, Daniel Defoe, Herman Melville, Mikhail Bulgakov, Sadegh Hedayat, Junichiro Tanizaki, Ahmed Hamdi Tanpinar, Marcel Proust, Umberto Eco, Michel Foucault, Wolfgang Iser, Jean-Jacques Rousseau, Abu Nuwas, Jorge Luis Borges, Max Brod, Jane Austen, Homero, Evliya Çelebi, William Shakespeare, Molière, Fiódor Dostoiévski, Charles Dickens, Nikolai Leskov, Jean-Paul Sartre, Viktor Chklovski, Vladimir Nabokov, Aristóteles, James Joyce, Horácio, Virginia Woolf, William Faulkner, Joseph Conrad, D. A. Russell, W. H. Auden, T. S. Eliot, Washington Allston, Charles Baudelaire, Théophile Gautier, Émile Zola, Henry James, Victor Hugo, August Strindberg, Michel de Montaigne, Marguerite Yourcenar, Gabriel García Márquez, Recaizade Mahmut, V. S. Naipaul, Milan Kundera, J. M. Coetzee, Peter Handke, Italo Calvino, Thomas Bernhard, Stanislaw Lem, Philip K. Dick, Patricia Highsmith, John Le Carré, Alessandro Manzoni, Eugène Sue, Julio Cortázar, Guillermo Cabrera Infante, Mario Vargas Llosa, Georges Perec e Julian Barnes. É ou não é um baita mergulho nos clássicos da literatura, hein? A vontade que tive ao concluir esse livro era de lê-lo novamente. Sabe uma obra que diz tantas coisas legais e profundas a cada capítulo, a cada página, a cada linha, a cada palavra que você tem a impressão de não ter conseguido capturar todo o conteúdo com apenas uma leitura?! Pois foi exatamente essa a sensação que tive em relação a “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”. Talvez você fique também com esse gostinho de quero ler mais uma vez. De alguma maneira, essa publicação de Pamuk me lembrou outros ensaios literários de enorme qualidade: “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), de Milan Kundera, “Seis Propostas para o Novo Milênio” (Companhia das Letras) e “Por que Ler os Clássicos” (Companhia de Bolso), de Italo Calvino, “E Se Obama Fosse Africano?” (Companhia das Letras), de Mia Couto, “Sobre a Escrita – A Arte em Memórias” (Suma das Letras), de Stephen King, “O Rio do Meio” (Mandarim), de Lya Luft, “Romancista Como Vocação” (Alfaguara), de Haruki Murakami e “A Arte de Escrever” (L&PM Pocket), de Arthur Schopenhauer. Na semana que vem, irei comentar o último livro de Pamuk desse Desafio Literário. Na próxima sexta-feira, 21 de maio, retornarei ao Bonas Histórias para analisar “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), um dos mais recentes romances do escritor turco publicado em nosso país. Não perca as últimas etapas do Desafio Literário de Orhan Pamuk. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Istambul, Memória e Cidade - A autobiografia de Orhan Pamuk
Publicada em 2003, esta obra mistura as memórias do autor turco com crônicas da cidade de Istambul e ensaios sobre a história da Turquia. Depois de analisar cinco livros ficcionais de Orhan Pamuk, “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), “A Vida Nova” (Editorial Presença), “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras) e “Neve” (Companhia das Letras), o Bonas Histórias comenta hoje uma das obras não ficcionais do mais famoso escritor turco da atualidade. Estou me referindo a “Istambul – Memória e Cidade” (Companhia das Letras), minha leitura da última semana. Com a inclusão desse título no Desafio Literário de Pamuk, nosso estudo se torna, creio eu, mais completo, versátil e plural. Afinal, há coisas que um autor não registra explicitamente em seus romances. É preciso ler suas crônicas, seus ensaios e suas memórias para compreendermos as nuances, a profundidade e o alcance de sua produção artística. Nesse sentido, “Istambul – Memória e Cidade”, a principal coletânea de memórias, crônicas e ensaios de Orhan Pamuk, não decepciona. Mesclando gêneros não ficcionais distintos, o romancista turco aborda desde sua trajetória de vida (do nascimento ao momento em que decidiu se tornar escritor) até sua relação com a cidade natal (Istambul), a história de seu país (por vezes turbulenta) e algumas passagens biográficas de artistas (tanto escritores, pintores e jornalistas turcos quanto estrangeiros que visitaram a antiga capital do Império Bizantino e do Império Turco-otomano) que o influenciaram e/ou que ajudaram a construir a visão atual de Istambul. De certa forma, temos em “Istambul – Memória e Cidade” dois protagonistas simultâneos: o jovem Orhan Pamuk (antes de se tornar romancista) e a mítica cidade de Istambul (pelo olhar de quem nasceu, cresceu e vive ali). Se Pamuk e sua literatura são frutos das características e da identidade cultural da metrópole euroasiática, Istambul, por sua vez, representa as principais contradições, angústias e decadência da Turquia. Vale lembrar que no passado o município localizado às margens do Estreito do Bósforo foi uma das principais metrópoles do planeta e capital do Império Bizantino e do Império Turco-otomano (sob o nome de Constantinopla). E atualmente, ele não é nem capital da República da Turquia, posto dado à Ancara. Assim, percorrer as páginas desse livro é encarar as relações pessoais e familiares do escritor turco e, ao mesmo tempo, caminhar atentamente pelas ruas e pela história de sua terra natal (com o olhar de um morador crítico e inteligente e não apenas de um turista estrangeiro sonhador e romântico). Publicado em 2003, “Istambul – Memória e Cidade” é anterior à conquista do Prêmio Nobel de Literatura, honraria entregue a Orhan Pamuk em 2006. Curiosamente, quando escreveu essa obra, nos primeiros anos do século XXI, o romancista estava à beira da depressão. Em parte, a melancolia e a visão negativa de seus familiares e de sua cidade retratadas nas páginas desse título foram reflexos do estado de espírito do autor. Apesar de já ser um escritor famoso no cenário turco e no contexto europeu, Pamuk ficou abalado com o divórcio (em 2001, ele se separou da historiadora Aylin Turegen, com quem se casou em 1982 e com quem teve uma filha, Rüya, hoje com 30 anos), com a morte do pai (não à toa, “Istambul – Memória e Cidade” é dedicado a Gündüz Pamuk, falecido em 2002) e o início da pressão pública por sua visão política (lembremos que em “Neve”, romance de 2002, ele teceu uma forte crítica política à Turquia e escancarou passagens polêmicas do país, como o genocídio armênio durante a Primeira Guerra Mundial e a perseguição aos curdos). Segundo Orhan Pamuk, escrever “Istambul – Memória e Cidade” o ajudou a superar essa fase difícil – rememorar sua trajetória e narrar o passado de sua cidade foi uma experiência catártica. Contudo, o lançamento do livro trouxe novos dissabores para o autor. O principal dele foi a briga com a família, principalmente com o irmão, Sevket Pamuk, e com a mãe, Seküre Pamuk. A dupla não gostou de como foi representada nas páginas dessa obra. Se a mãe do autor o perdoou mais tarde, o mesmo não pode ser dito do irmão mais velho. Sevket nunca mais falou com Orhan. Escrever uma autobiografia (ainda mais quando se está à beira de uma depressão) tem esses efeitos colaterais, né? Se por um lado a sinceridade do romancista causou fissuras irreparáveis na família Pamuk, por outro lado os leitores têm acesso a um texto extremamente sincero, corajoso e sem filtros. Azar de uns, sorte de outros! No Brasil, “Istambul – Memória e Cidade” foi publicado pela Companhia das Letras em 2007. Sergio Flaksman, carioca responsável pela adaptação para o português de vários romances de Pamuk como “O Castelo Branco”, “O Museu da Inocência” (Companhia das Letras), “O Livro Negro” (Companhia das Letras) e “A Maleta do Meu Pai” (Companhia das Letras), ficou novamente encarregado da tradução desse texto para nosso idioma. Sua tradução foi indireta – usou como referência a versão em inglês de “Istambul – Memória e Cidade”. Infelizmente, essa é uma prática corriqueira em nosso país para a adaptação dos livros de Orhan Pamuk. Ainda acho que ele merecia uma tradução direta – feita do turco para o português. “Istambul – Memória e Cidade” tem 400 páginas e está dividido em 37 capítulos: (1) “O Outro Orhan”; (2) “As Fotografias da Sombria Casa-museu”; (3) “Eu”; (4) “A Destruição das Mansões dos Paxás – Um Triste Passeio pelas Ruas”; (5) “Em Preto e Branco”; (6) “Explorando o Bósforo”; (7) “A Paisagem do Bósforo por Melling”; (8) “Minha Mãe, Meu Pai e Vários Desaparecimentos”; (9) “A Outra Casa: Cihangir”; (10) “A Hüzün”; (11) “Quatro Escritores Solitários e Melancólicos”; (12) “A Minha Avó”; (13) “A Alegria e a Monotonia da Escola”; (14) “Ripsuc oãn Rovaf”; (15) “Ahmet Rasim e Outros Colunistas da Cidade”; (16) “Não Ande pela Rua de Boca Aberta”; (17) “Os Prazeres da Pintura”; (18) “Resat Ekren e sua Coletânea de Fatos e Curiosidades – a Enciclopédia de Istambul”; (19) “Conquista ou Declínio? A Turquificação de Constantinopla”; (20) “Religião”; (21) “Os Ricos”; (22) “Sobre Navios que Passavam pelo Bósforo, Incêndios Famosos, Mudanças e Outras Catástrofes”; (23) “Nerval em Istambul – Caminhadas por Beyoglu”; (24) “Os Passeios Melancólicos de Gautier pela Cidade”; (25) “Aos Olhos Ocidentais”; (26) “A Melancolia das Ruínas – Tanpınar e Yahyal Kemal nos Bairros Pobres da Cidade”; (27) “O Pitoresco e os Bairros Afastados de Istambul”; (28) “Pintando Istambul”; (29) “A Pintura e a Felicidade em Família”; (30) “A Fumaça Emitida pelos Navios do Bósforo”; (31) “Flaubert em Istambul – o Oriente, o Ocidente e a Sífilis”; (32) “As Brigas com Meu Irmão Mais Velho”; (33) “Estrangeiro Numa Escola Estrangeira”; (34) “A Infelicidade é Detestar a Si Próprio e à sua Cidade”; (35) “Primeiro Amor”; (36) “O Navio no Chifre de Ouro”; e (37) “Uma Conversa com Minha Mãe – Paciência, Cautela e Arte”. Ao final de “Istambul – Memória e Cidade”, ainda temos uma lista com as referências das imagens que ilustram suas páginas (são mais de 200 fotografias, pinturas, anúncios antigos de jornais, capas de livros e informativos técnicos extraídos dos álbuns da família Pamuk e dos acervos de fotógrafos turcos, como Ara Güler, Selahattin Giz e Hilmi Sahenk) e um índice remissivo (com a relação de artistas, locais de Istambul e passagens históricas citadas pelo autor). Levei entre oito e nove horas para concluir essa leitura na semana passada. Precisei de dois dias, quinta e sexta-feira, para ir da primeira à última página desta obra. O primeiro aspecto que chama a atenção em “Istambul – Memória e Cidade” é a característica híbrida de seu texto. Esse livro é uma biografia ou, para ser mais preciso, uma autobiografia de Orhan Pamuk. Até aí nenhuma novidade, certo? O interessante é que essa publicação vai além de narrar a trajetória de vida do autor do nascimento até os 22 anos, quando ele abandona a pintura (sua paixão desde a infância) e decide pela literatura como caminho profissional. Essa obra é também uma coletânea de crônicas sobre Istambul – cenas do cotidiano, pequenas narrativas de personalidades locais, análises de antigas imagens e textos jornalísticos, descrição de fatos marcantes da história da região e apresentação das particularidades do município. É uma coleção de ensaios literários sobre os artistas turcos (Ahmet Rasim, Yahya Kemal Beyatlı, Resat Ekrem Koçu, Abdülhak Sinasi Hisar e Ahmet Hamdi Tanpınar) e artistas estrangeiros (Antoine-Ignace Melling, Gustave Flaubert, Gerald de Nerval e Théophine Gautier) que retrataram a cidade natal de Orhan Pamuk ao longo do tempo. Ela é uma publicação sobre a história da Turquia – relata o auge do Império Bizantino e do Império Turco-otomano até a decretação da República Turca e seus tropeços como jovem democracia. É um tratado filosófico-existencialista – relaciona o sentimento de hüzün, uma espécie de melancolia coletiva dos Istanbullus, ao declínio, ao empobrecimento e à perda dos antigos valores culturais bizantinos, otomanos e islâmicos (em outras palavras, a ocidentalização da cidade). E, para completar, esse livro ainda oferece de lambuja uma bela exposição fotográfica de Istambul e da família Pamuk. Comecemos nossa análise propriamente dita por esse último elemento. As fotos inseridas no meio da narrativa de “Istambul – Memória e Cidade” ajudam a aproximar os leitores do texto de Pamuk. O autor turco selecionou muito bem as imagens desta obra e as colocou nos lugares certos. Quando ele trata de aspectos pessoais, temos fotos do álbum familiar. Quando ele fala dos diferentes bairros de Istambul, aí temos imagens da cidade. De certa forma, os elementos visuais e textuais dialogam entre si o tempo inteiro. Se você reparar bem, a própria capa de “Istambul – Memória e Cidade” é a junção de duas fotografias desses dois lados, o pessoal e o coletivo. Assim, temos Orhan Pamuk menino (imagem extraída do acervo pessoal da família e representada na página 11) com o Bósforo ao fundo (imagem selecionada do acervo do Conselho Municipal de Istambul, cuja autoria é de Hilmi Sahenk, e representada na página 367). O único problema visual, na minha opinião, é o fato de as imagens estarem em preto e branco no miolo da publicação, evidentemente uma exigência comercial da editora brasileira ao projeto gráfico. Como muitas fotos apresentam o lado soturno de Istambul, uma das principais sensações do romancista sobre sua cidade, em uma impressão P&B quase não vemos os detalhes das imagens retratadas. É uma pena não termos uma edição totalmente colorida! Por falar em Istambul, esse livro expõe um retrato franco e completo de Orhan Pamuk sobre sua cidade. Aqui não temos simplesmente um passeio turístico pela metrópole turca, apesar de termos uma boa visão de seus locais mais famosos: Bósforo, Chifre de Ouro, ponte Galata, Avenida Halaskargazi, palácio Topkapı, as fortalezas de Rume Lihisari e Anadoluhisari e as mesquitas de Süleymaniye, Hagia Sophia, Beyazit e Yavuz Sultan Selim. O escritor percorre principalmente os bairros mais pobres do município. Ele caminha à noite por becos e vielas escuras e mostra sem preocupação o lado pouco nobre de Istambul. O leitor brasileiro é agraciado com algumas comparações envolvendo seu país e sua maior cidade. Em determinada altura de “Istambul – Memória e Cidade”, Pamuk faz uma analogia da cultura turca à cultura brasileira. Em outro capítulo, ele diferencia as características de Istambul ao perfil da cidade de São Paulo. É muito legal encontrar essas referências à nossa terra. O mais sensacional é que a visão da cidade euroasiática apresentada em “Istambul – Memória e Cidade” não é apenas aquela obtida pelos relatos pessoais de Orhan Pamuk. O romancista turco exibe juntamente com sua visão particular de Istambul a impressão que outros artistas famosos tiveram da localidade. Dessa maneira, o texto da obra adquire muitas vezes um caráter histórico, uma pegada de ensaio e um ar de crônicas urbanas. A união dessas duas imagens (impressões de Pamuk e as constatações de seus colegas) é o elemento mais rico recebido pelos leitores ao longo dos capítulos. Quem gosta de história, na certa vai adorar esse livro! Cerne do espírito dos Istanbullus e da atmosfera da cidade, o hüzün explica muitas das características da literatura de Pamuk e de seus protagonistas. Na visão de Orhan Pamuk, a melancolia não é algo exclusivamente dele, de sua família, de suas personagens ou da ambientação de suas narrativas ficcionais. A questão do hüzün é algo intrínseco a todos os Istanbullus. Istambul é a responsável por emanar esse sentimento de desolação e pessimismo para seus moradores e para os turcos. A melancolia é, acima de tudo, um traço cultural da Turquia contemporânea. E o que levou a disseminação do hüzün? São várias as explicações do autor: (1) o choque entre o estilo de vida ocidental e o estilo de vida oriental; (2) o desejo de parte da população por uma maior aproximação com a religião islâmica e o desejo da outra parcela por uma rotina secular; (3) o paradoxo entre ter orgulho do passado de riqueza e de poder de Constantinopla e a vergonha do presente decadente de Istambul (que não tem nem ao menos o status de capital do país); (4) vontade de caminhar em direção à modernidade e lamento pela perda das ruínas e construções históricas de otomanos e bizantinos (muitas vezes, consumidas por incêndios). Acompanhar esse debate riquíssimo é compreender, ao mesmo tempo, os aspectos culturais da Turquia atual e os elementos-chave da produção ficcional pamukiana. Na parte autobiográfica do livro, assistimos ao nascimento de Orhan Pamuk (segundo relatos obtidos de terceiros, obviamente), sua infância passada no Edifício Pamuk (casarão de cinco andares na Av. Tesvikiye, em Nisantasi, que abrigava vários ramos do clã), o ambiente doméstico (o pai, a mãe, o irmão mais velho e Orhan viviam no quarto andar do prédio, logo abaixo do apartamento da avó, a matriarca), as relações e as brigas da família Pamuk (as desavenças tinham sempre como motivo o dinheiro, mas isso não impedia que os parentes se reunissem nas festas comemorativas), os passeios pela cidade (principalmente de barco pelo Bósforo), o ingresso na escola e sua postura como aluno (no início um estudante brilhante e depois um estudante relapso), os amigos (ora riquinhos mimados, ora arruaceiros), as desavenças com o irmão mais velho (pintado como um rapaz extremamente violento), a infidelidade recorrente do pai (retratado como um bon-vivant, charmoso, lascivo, inconsequente e ausente do lar) e a admiração pela mãe (muito presente, mas que alimentava a rivalidade dos filhos e que, em determinado momento, despachou o caçula de casa – ele foi morar com os tios em Cihangir). Ainda no universo da biografia do autor, acompanhamos o trauma pelo abandono dos pais (até hoje, Orhan não entende o motivo de ter sido defenestrado do Edifício Pamuk!), o primeiro amor (com uma moça que ele chamou no livro de Rosa Negra, poupando sua identidade verdadeira), as caminhadas por Istambul para refletir e espairecer (mania que Orhan Pamuk sempre teve), a paixão pela pintura (algo trazido da infância), os trabalhos no ateliê em Cihangir, a decadência financeira da família (o pai e o tio conseguiram detonar a herança deixada pelo avô de Orhan; a dupla colecionou uma série de empreendimentos comerciais fracassados), as várias mudanças de casa (Gündüz e Seküre Pamuk precisavam constantemente se adequar as novas e limitadas realidades orçamentárias) e o ingresso na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Istambul. Em alguns momentos, “Istambul – Memória e Cidade” adquire um tom de conversa íntima e de confidência. Em outras partes, o livro possui um caráter mais de ensaio sério e de relato histórico profundo. Sinceramente, gostei muito da mescla entre as duas tonalidades textuais. Esse contraste (narrativa pessoal e biográfica versus narrativa coletiva da cidade e da história turca) ajudou a quebrar a monotonia da obra. Afinal, estamos falando de um livro de 400 páginas. A manutenção do mesmo tom por quatro centenas de páginas poderia, muito provavelmente, cansar o leitor em algum instante. O desfecho de “Istambul – Memória e Cidade” é espetacular! O capítulo final é dedicado ao tenso diálogo de Seküre Pamuk, a mãe do autor, com o filho caçula, o problemático Orhan. Aos 22 anos, o narrador da história estava perdido, perdidinho da Silva. O rapaz não queria trabalhar nem estudar. Enfurnado dentro de casa, Orhan Pamuk estava desiludido com a perda do seu grande amor (Rosa Negra foi enviada para estudar e morar na Europa) e já não via graça nenhuma em passar os dias pintando em seu ateliê. O que fazer diante de tal impasse?! O livro termina justamente quando o jovem decide se tornar um escritor. Apesar desse tipo de desenlace em uma obra biográfica não ser tão original assim, ocultar a fase de sucesso em suas memórias foi algo utilizado por vários escritores, como Isaac Bashevis Singer, Rubem Fonseca –lembremos de “José” (Nova Fronteira) – e Jack Kerouac, ainda assim é interessante acompanhar esse recurso narrativo. Confesso ter adorado a leitura de “Istambul – Memória e Cidade”. Pelas páginas dessa obra, conseguimos simultaneamente: (1) conhecer os detalhes da biografia de Orhan Pamuk, um nome de referência da literatura turca e da literatura contemporânea mundial; (2) mergulhar nas características de Istambul e na atmosfera cultural de seus habitantes; (3) passear pelos meandros da história turca e pelos reflexos da ocidentalização da nação islâmica; e (4) entender os principais aspectos da produção ficcional pamukiana (seus romances são reflexos de sua trajetória pessoal e, principalmente, de sua identidade cultural). O novo capítulo da investigação da literatura de Orhan Pamuk está marcado para o próximo sábado, 15 de maio. Nessa data, voltarei ao Desafio Literário para analisar “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das letras), outro título não ficcional do autor turco. Se “Istambul – Memória e Cidade” é a autobiografia de Pamuk, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” é seu ensaio literário. Publicado em 2010, essa obra apresenta a visão do escritor sobre os diferentes aspectos da produção ficcional e de seu portfólio artístico. Não perca o post desse próximo título de Pamuk no Bonas Histórias. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Neve - O romance mais político de Orhan Pamuk
Publicada em 2002, a sétima narrativa ficcional de Pamuk escancara os conflitos político-religiosos da Turquia contemporânea. Todos os livros de Orhan Pamuk, escritor turco que está sendo analisado no Desafio Literário deste bimestre, abordam, em maior ou menor escala, os conflitos político-religiosos de seu país. Grande parte da instabilidade política e social da Turquia na segunda metade do século XX passa pela discussão entre a adoção ou não do Islamismo como código de ética da população e pela atuação dos militares para evitar a tomada do poder pelos fundamentalistas islâmicos. Em outras palavras, uma parte da sociedade turca deseja implementar um estado religioso (inspirado na teocracia iraniana) e outra parcela quer um estado secular (inspirado nas democracias europeias). Essa eterna briga (abraçar a religião ou construir uma sociedade laica) molda a identidade cultural desse país e de sua população. Sabendo disso, Pamuk expõe de forma corajosa as contradições turcas em seus textos ficcionais. De certa maneira, é como se a discussão passasse sempre por qual ponta do Chifre de Ouro a Turquia/Istambul deve se inclinar: para o lado europeu ou para a face oriental de seu território. Essa dicotomia existencialista esteve presente, por exemplo, em “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), “A Vida Nova” (Editorial Presença) e “O Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), as obras de Orhan Pamuk que foram analisadas no Bonas Histórias no mês passado. Em alguns desses trabalhos, o conflito religioso assume o protagonismo dos romances, como em “A Casa do Silêncio” e “O Meu Nome é Vermelho”. Em outros títulos, ele estabelece o pano de fundo dos enredos, como em “O Castelo Branco” e “A Vida Nova”. Contudo, em nenhuma publicação do principal nome da literatura turca da atualidade essa questão fica tão evidente quanto em “Neve” (Companhia das Letras), livro que li neste final de semana. Sétimo romance da carreira de Pamuk, “Neve” foi lançado na Turquia em 2002 e escancara as divisões políticas e religiosas da nação euroasiática como seu autor jamais havia feito. E aproveitando-se que estava colocando o dedo nas feridas nacionais, Orhan Pamuk foi além ao expor episódios controversos da história da Turquia. Nessa obra, o escritor trata abertamente do genocídio armênio (algo negado até hoje pelas autoridades de Ancara, como ficou provado no mês passado com o mal-estar diplomático gerado pelas declarações de Joe Biden) e da perseguição aos curdos (algo que é sistematicamente encoberto pela mídia ocidental e oriental). Não à toa, este título ficcional pode ser encarado como o mais polêmico de Orhan Pamuk. Escrito entre abril de 1999 e dezembro de 2001, “Neve” ganhou vários prêmios internacionais à medida que foi traduzido para outros idiomas. As principais honrarias estrangeiras conquistadas foram os franceses Prix Medicis de Literatura Estrangeira de 2005 e Prix Méditeranée de Literatura Estrangeira de 2006. Além disso, esse romance foi finalista do britânico Prêmio Independent de Ficção Estrangeira de 2005 – concurso conquistado por Pamuk em 1990 com “O Castelo Branco” e no qual ele foi finalista em 2011 com “O Museu da Inocência” (Companhia das Letras). No Brasil, “Neve” foi publicado em português pela Companhia das Letras em 2006, ano em que Orhan Pamuk conquistou o Prêmio Nobel de Literatura. O tradutor encarregado desse trabalho foi Luciano Viera Machado. Sua tradução foi feita a partir da versão inglesa. Ou seja, temos aqui mais um caso de tradução indireta de um texto ficcional de Pamuk. Infelizmente, esse é o padrão (tradução indireta) das adaptações dos livros do autor turco em nosso país. O enredo de “Neve” se passa essencialmente em Kars, povoado montanhoso no nordeste da Turquia. Localizada na região da Anatólia Oriental e próxima à fronteira com a Armênia, a cidade pobre e interiorana é um caldeirão multifacetado. Em Kars, convivem fundamentalistas islâmicos, nacionalistas curdos, guerrilheiros comunistas, militares de extrema-direita, capitalistas com visão democrata e indivíduos que querem governos seculares (e, portanto, admiram o estilo de vida ocidental). As diferenças sociais, econômicas, religiosas e políticas são tão gritantes que a impressão que se tem é que o município é um barril de pólvora pronto para explodir (sensação que não demora para ser consumada). Depois de doze anos no exílio, passados em Frankfur, na Alemanha, o poeta turco Kerim Alakusoglu, chamado simplesmente de Ka, resolve voltar para seu país e visitar Kars. Natural de Istambul e ateu convicto, Ka, um sujeito de 42 anos profundamente solitário e melancólico, é levado para a Anatólia Oriental por questões sentimentais. Ipek Hanim, sua antiga colega de universidade e com quem ele teve pouquíssimo contato, se separou recentemente do marido, Muhtair. Esperançoso em poder namorar a bela Ipek, Ka larga momentaneamente a vida tranquila na Alemanha e resolve passar alguns dias no interior da Turquia. Para não escancarar suas pretensões amorosas, o poeta extraditado afirma a todos que está viajando a trabalho (uma desculpa aparentemente mais nobre e menos melodramática). Em nome do jornal Republicano, um periódico secular de Istambul, ele se apresenta como jornalista encarregado de cobrir as eleições municipais (o favorito na disputa pela cadeira de prefeito é Muhtair, que, além de ex-marido de Ipek Hanim, é o candidato do Partido de Deus, uma agremiação política curda) e de investigar uma onda de suicídios femininos (algumas moças islamitas da cidade tiraram a própria vida, algo inexplicável pois esse é um grande pecado para os adeptos da religião de Maomé). A chegada de um artista tão proeminente mobiliza os moradores de Kars. Todos querem ver e falar com Ka, inclusive as autoridades, que desconfiam de suas reais intenções. A aparição do poeta coincide com o auge do inverno. A neve acumulada nas ruas e na paisagem da Anatólia Oriental se torna a companheira de viagem do protagonista. E é justamente a forte nevasca uma das responsáveis por precipitar a revolução política no município. Aproveitando-se que as linhas de comunicação e as estradas de Kars fecharam por causa da neve, militares locais dão um golpe de Estado (mais um entre os vários perpetrados na Turquia ao longo da segunda metade do século XX). Sob a bandeira do patriotismo (sempre ele!), os milicos cancelam as eleições e prendem seus adversários, principalmente os fundamentalistas islâmicos (que não aceitam que as mulheres andem em público com as cabeças descobertas). Em nome da manutenção do estado secular, as Forças Armadas agem em nome da manutenção da ordem e do progresso. Os militares usam como desculpa para sua ação inconstitucional a baderna gerada em uma peça teatral que estava sendo transmitida pela televisão. A plateia de jovens radicais islâmicos protestou contra uma atriz que, em cima do palco, tirava o manto da cabeça. Em meio a baderna social daquele Inverno em Kars, Ka vive um momento peculiar. Após vários anos de bloqueio criativo, ele passa a produzir poemas em série. Além disso, o escritor se vê totalmente apaixonado por Ipek Hanim. Enquanto deseja escrever o maior número possível de versos e sonha em iniciar um relacionamento sério com Ipek, Ka é arrastado ao olho do furacão político da cidade visitada. Sem querer, ele se torna uma figura central para resolver os conflitos de Kars. Parece que todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o golpe de Estado – prefeito, subprefeito, militares, fundamentalistas islâmicos, nacionalistas curdos, guerrilheiros comunistas, capitalistas eurocentristas, jornalistas independentes (e não tão independentes assim), organizações terroristas, políticos, artistas (poetas, romancistas, dramaturgos, cineastas, músicos), policiais municipais, agentes do serviço secreto turco, camada pobre da população, jovens locais e mulheres islamitas – enxergam o poeta que mora na Alemanha como seu intermediário. Conseguirá Ka sair dessa confusão vivo e são? É esse o mistério deste romance de Orhan Pamuk. “Neve” possui 488 páginas e está dividido em 44 capítulos. Levei cerca de catorze horas para concluir sua leitura nesse final de semana. Precisei de boa parte do sábado (seis horas) e do domingo (oito horas) para percorrer todo o seu conteúdo. Esse é o segundo romance mais extenso de Orhan Pamuk que analisamos até o momento no Desafio Literário de abril/maio de 2021. “Neve” só perde em volume para “Meu Nome é Vermelho”, que tem 536 páginas. “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), que ainda será comentado no Bonas Histórias neste mês, é ainda maior do que seus títulos anteriores. Ele tem 592 páginas. A primeira questão que chama a atenção em “Neve” é o tipo de narrador usado por Pamuk. Quem conta a história de Ka em Kars é um romancista chamado Orhan (olha a mistura entre ficção e realidade aí, gente!!!). Amigo de infância do poeta, o tal escritor de Istambul e famoso nacionalmente (estamos falando aqui do narrador e não do autor, tá?) reconstrói a trajetória de Kerim Alakusoglu quatro anos após sua morte. Para tal, ele realiza uma grande pesquisa documental e jornalística. Por isso, a sensação é de estarmos acompanhando um documentário ou um texto biográfico. No primeiro momento, o texto parece ter sido feito em terceira pessoa, mas depois entendemos que está em primeira pessoa. Orhan, o narrador, sabe tudo o que aconteceu com o protagonista do romance, tendo acesso inclusive aos pensamentos, às memórias e aos sentimentos da personagem principal. Essa mistura entre ficção e realidade (coincidência entre o primeiro nome e as características do narrador e do autor do livro) confere grande verossimilhança à trama. Em várias passagens de “Neve”, acreditamos piamente se tratar de uma narrativa verídica. Ou seja, Orhan Pamuk teria escrito um livro a partir da biografia de uma figura real. Contudo, isso é só impressão – no caso de algum leitor desavisado ter cogitado também essa hipótese. Kerim Alakusoglu, o tal Ka, nunca existiu fora da ficção. A escolha de um narrador homônimo (algo que fora flertado em “Meu Nome é Vermelho”), o diálogo metalinguístico com algumas personagens do romance (principalmente nos capítulos finais de “Neve”) e a apresentação de fatos históricos do Império Turco-otomano e da República da Turquia intensificam essa sensação de que a trama seria verídica (não, ela não é!). Por falar nisso, algo que é comum na literatura de Orhan Pamuk voltou a aparecer aqui: a presença de um livro dentro de outro livro (metalinguagem literária na veia!). “Neve” é ao mesmo tempo o nome do romance que temos em mãos e o título da coletânea de poemas de Ka, obra que o narrador busca obstinadamente encontrar. Esse recurso narrativo (livro ficcional dentro de um livro concreto), vale a pena lembrar, já tinha sido usado em “O Castelo Branco”, “A Vida Nova” e “Meu Nome é Vermelho”. Além disso, temos em “Neve” uma forte intertextualidade literária e teatral. Com uma típica publicação de Pamuk, esse romance possui características que dialogam com vários gêneros ficcionais. “Neve” pode ser visto como uma aventura policial, um thriller político, uma saga histórica, um drama sentimental, uma biografia artística, um enredo com engajamento social, um suspense de espionagem, uma coletânea de contos (pequenas narrativas dentro do enredo principal), uma ficção existencialista e (ufa!) uma narrativa fantástica. Grande parte da graça do texto de Orhan Pamuk está nessa pluralidade estética, que permite ao leitor novas descobertas a cada capítulo. Para mim, entre os vários tipos de narrativa que esta obra pode ser classificada, aquele que melhor define “Neve” é, acredite se quiser, a alegoria política. Repare no quanto as principais personagens desta obra são figuras alegóricas. Temos nesse texto ficcional representantes de cada um dos mais significativos estratos sociais da Turquia: o jornalista pelego, o militar intransigente, o fanático religioso, o temido terrorista de esquerda, o líder islâmico, o jovem estudante, a moça religiosa, a mulher com visão mais ocidentalizada, o líder guerrilheiro, o político burocrata, o policial comum, o policial do serviço secreto, o artista ambicioso, o romancista novato, o poeta melancólico, o escritor famoso, o empresário elitista, o cidadão abitolado, o expatriado enxerido etc. Só é possível compreender o contexto geral da trama (a história da Turquia e a situação social do país) se o leitor tiver um olhar mais abrangente para cada individuo retratado em “Neve”. Mais do que simples personagens, as pessoas que desfilam nas páginas deste romance representam na verdade grupos sociais. As críticas políticas de Pamuk residem justamente nessa transferência de valores (dos indivíduos para sua coletividade). Por essa perspectiva, o livro é extremamente polêmico – ele não poupa ninguém. Em uma comparação com a literatura brasileira, é como se “Neve” fosse a versão turca e contemporânea de “Viva o Povo Brasileiro” (Alfaguara), clássico de João Ubaldo Ribeiro. Ao mesmo tempo em que temos personagens alegóricas, também encontramos nesse livro componentes simbólicos. Os principais são a neve e o manto (o véu feminino). Encontrar os significados filosóficos desses elementos ajuda o leitor a entender o enredo pamukiano. Nesse caso, a neve está relacionada com a pureza, a força da natureza, as lembranças da infância, o sentido da vida, a inspiração poética e a sensação da presença de Deus. E o manto (chamo de manto porque foi assim que Luciano Machado traduziu o hijabe, o véu islamita usado pelas mulheres) representa a feminilidade, a opressão masculina, a liberdade ou o aprisionamento da mulher, o orgulho islamita e a preponderância dos valores orientais aos ocidentais. Esse sentido maior para cada um desses componentes (neve e manto) explica as confusões que as personagens do romance se envolvem para defendê-los ou para combatê-los (as intrigas são mais conceituais do que práticas). Outra questão marcante em “Neve” é o seu protagonista. Ka é a personagem mais melancólica, solitária e confusa que Orhan Pamuk criou (e olha que não faltaram homens com essas características na literatura do autor turco). Kerim Alakusoglu também é uma figura extremamente controversa e cômica (diria tragicômica). Em meio à confusão política e social que Kars está vivenciando, ele só pensa em sua poesia e em conquistar o amor de Ipek Hanim. Para completar as contradições, no instante em que os militares subjugam os fundamentalistas islâmicos, Ka que sempre foi ateu começa a acreditar em Deus. Ou seja, o cara é uma figura! Por mais que tente ficar longe dos conflitos de seu país natal, o protagonista, agora um cidadão com perfil mais alemão do que turco, acaba envolvido até o pescoço com as intrigas locais. A ambientação de “Neve” também merece ser citada nessa análise do Bonas Histórias. Orhan Pamuk desenvolveu um romance com muita violência: violência doméstica, violência política, violência religiosa, violência étnica, violência urbana, violência contra a natureza e os animais, violência contra as mulheres, violência contra os ocidentais etc. A Turquia, aos olhos do autor, não é um lugar nada pacífico. Juntamente com esse clima de vulnerabilidade, temos muita pobreza, opressão e sensação de frio. Para contrabalancear a pegada noir da trama, temos bons momentos de humor e de fantasia. Na minha opinião, uma das partes mais interessantes e fortes de “Neve” está na construção histórica da Turquia. Ao misturar realidade (contexto político, panorama social, desafios econômicos, trajetória histórica e elementos de identidade nacional) e ficção (enredo sobre Ka em Kars), Orham Pamuk teceu um retrato fidedigno e polêmico de sua nação. Minha impressão é que o escritor desnudou seu país e seus conterrâneos nesse texto. Pamuk não se limitou a explicar os conflitos de ontem e de hoje da Turquia. Sua ideia, acredito, foi jogar tudo no ventilador para ver o que acontecia. Mais importante do que tomar uma posição ideológica (quem está certo e quem está errado?) foi entender as motivações de cada um dos lados na eterna disputa pela hegemonia da identidade cultural turca. Não custa nada lembrar: a Turquia é o único país mulçumano que possui um Estado laico! Por esse aspecto histórico-alegórico, “Neve” é um livro impecável. Não me surpreenderei se alguns leitores preferirem esse romance a “A Vida Nova”, o maior sucesso comercial do autor em seu país, e “Meu Nome é Vermelho”, a obra-prima do escritor no cenário internacional. Se esses dois títulos anteriores de Pamuk têm narrativas mais saborosas e carismáticas (isso é inegável, tá?), “Neve”, por sua vez, dialoga mais intimamente com os desafios da identidade dos cidadãos turcos. O único problema que detectei em “Neve” foi a recorrência de algumas palavras grafadas incorretamente – a falta de um acento aqui e um ou outro erro de digitação ali. Portanto, trata-se de tropeços da revisão feita pela editora brasileira e não do trabalho literário do autor. Entretanto, esses errinhos não atrapalham em nada a experiência de leitura. A cada livro lido de Pamuk tenho a sensação de que ele é um artista mais talentoso, original e completo. Na próxima semana, darei prosseguimento ao Desafio Literário de Orhan Pamuk com a análise de mais um dos seus livros. A obra a ser discutida no Bonas Histórias será “Istambul – Memória e Cidade” (Companhia das Letras). Publicado em 2003, esse título não é um romance e sim um livro de memórias. Ou seja, depois de cinco narrativas ficcionais do autor turco, vamos mergulhar em um texto não ficcional. Acho que será bom conhecer mais detalhes sobre a vida pessoal e profissional de Pamuk e a relação dele com sua cidade natal, Istambul. O post sobre “Istambul – Memória e Cidade” estará disponível no blog no próximo domingo, dia 9. Não perca a continuação do Desafio Literário desse bimestre. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Meu Nome é Vermelho - A obra-prima de Orhan Pamuk
Publicado em 1998, o sexto romance do principal escritor turco da atualidade é um clássico contemporâneo da literatura mundial. Neste final de semana, li “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), o livro mais famoso de Orhan Pamuk. Esta publicação é considerada a obra-prima do escritor turco (e um dos títulos mais importantes da literatura turca e da literatura contemporânea). Traduzido para mais de 60 idiomas, o sexto romance de Pamuk é uma mistura de narrativa histórica, aventura policial, thriller filosófico, drama sentimental e suspense fantástico. Impossível não gostar de uma combinação dessas, né? Quem está acompanhando essa temporada do Desafio Literário já sabe: “Meu Nome é Vermelho” é o quarto dos oito livros de Orhan Pamuk que estamos/vamos analisar no Bonas Histórias entre abril e maio de 2021. As três primeiras obras comentadas no blog foram: “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), “O Castelo Branco” (Companhia das Letras) e “A Vida Nova” (Editorial Presença). Publicado na Turquia em 1998, “Meu Nome é Vermelho” ganhou vários prêmios internacionais à medida que foi traduzido para outros idiomas. As principais honrarias conquistadas foram o Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro de 2002 (romance traduzido para o francês), o Prêmio Grinzane Cavour de 2002 (melhor romance traduzido para o italiano) e o Prêmio Literário Internacional de Dublin de 2003 (melhor romance traduzido para o inglês). Não por acaso, o prestígio do autor turco foi potencializado com o sucesso de crítica e de público dessa obra. Se antes desse lançamento Pamuk já era visto como um dos principais escritores da literatura turca contemporânea, depois de “Meu Nome é Vermelho” ele se tornou uma das referências da literatura mundial. Não é errado dizer que esse título foi decisivo para Orhan Pamuk conquistar, em 2006, o Prêmio Nobel de Literatura. Afinal, todo grande portfólio literário precisa de uma cerejinha no bolo. E “Meu Nome é Vermelho” é um cerejão! No Brasil, o romance mais celebrado de Pamuk foi publicado pela Companhia das Letras em 2006, justamente no ano da conquista do Nobel pelo autor. A tradução para o português foi feita por Eduardo Brandão. Como já tinha acontecido com os livros anteriores desse escritor, a tradução nacional foi indireta (feita a partir das versões em francês e inglês). Curiosamente, “Meu Nome é Vermelho” foi escrito em duas fases: entre 1990 e 1992 e entre 1994 e 1998. Ou seja, essa obra começou a ser desenvolvida tão logo Pamuk enviou para a editora os originais de “O Livro Negro” (Companhia das Letras), sua quarta publicação. Porém, em 1992, ele interrompeu os trabalhos de sua obra-prima para produzir a peça “Gizli Yüz” (sem tradução para o português) e o romance “A Vida Nova”. Orhan Pamuk só voltaria a mergulhar na confecção do texto de “Meu Nome é Vermelho” após o lançamento de “A Vida Nova”. Aí ele não parou mais. O esforço de seis anos de trabalho parece que valeu a pena. Várias das listas de melhores narrativas ficcionais dos 30 últimos anos incluem merecidamente esse título em seus rankings. O enredo de “Meu Nome é Vermelho” se passa em Istambul durante o Império Turco-otomano. No final do século XVI, a então capital turca era governada por um sultão apaixonado pelas artes e grande incentivador da produção cultural. Para celebrar o milenário da Hégira e mostrar que os artistas de seu reino eram tão bons quanto os europeus, o sultão solicitou a confecção de um livro de miniaturas. A obra deveria ser feita segundo o padrão visual dos artistas venezianos. Como o Grande Ateliê, comandado pelo Grande Mestre Iluminador Osman, estava inteiramente envolvido na criação de outro título, o Livro das Festividades, o novo pedido real foi encaminhado para o Tio Efêndi, um mestre não tão famoso. Temendo polêmicas, o sultão pediu segredo absoluto para Tio Efêndi. Ninguém poderia saber que o líder otomano estava por trás da criação de pinturas que iam contra os preceitos da religião islâmica. Se Nusret Hodja de Erzurum, um fanático religioso que não pensava duas vezes para descambar para a violência quando via comportamentos hereges de seus conterrâneos (uma espécie de líder do Estado Islâmico daquela época), soubesse de algo assim, na certa todos por trás da criação do livro teriam problemas. Para desenvolver as imagens da publicação encomendada pelo sultão, Tio Efêndi contratou quatro miniaturistas: Cegonha, Oliva, Elegante e Borboleta. O quarteto era oriundo do Grande Ateliê do Mestre Osman. Ou seja, eles eram os melhores ilustradores do sultanato turco-otomano. O trabalho da equipe do Tio Efêndi caminhava bem até o fatídico Inverno de 1591. Para consternação de todos, Elegante foi brutamente assassinado e seu corpo foi atirado dentro de um poço. Sem saber a quem recorrer, Tio Efêndi escreveu para Negro, seu sobrinho que trabalhava como secretário de paxás na fronteira persa, para que ele regressasse a Istambul. O mestre queria que o jovem parente liderasse uma investigação que levasse a revelação da identidade do assassino de Elegante. Os principais suspeitos eram justamente os colegas do miniaturista morto: Cegonha (cujo nome real era Mustafá Chelebi), Oliva (Velidjan) e Borboleta (Hassan Chelebi). Atendendo ao pedido do Tio Efêndi, Negro retornou para Istambul, cidade em que nasceu e foi criado, depois de doze anos de ausência. Ele deixara sua terra natal após uma confusão sentimental. Apaixonado pela prima Shekure, a filha belíssima do Tio Efêndi e com doze anos na época, Negro, então com vinte e quatro anos, fora preterido pela família da moça. Com o coração partido, ele preferira ganhar o mundo ao ter que ficar na mesma localidade de sua amada. Assim, o rapaz passou a trabalhar no exterior para os paxás. Sua rotina era viajar de um lado para outro coletando os impostos e levando as correspondências das autoridades. Em sua volta para Istambul, o rapaz encontrou Shekure tão deslumbrante como outrora. A moça, agora com vinte e quatro anos, era mãe de dois meninos, Orhan, de seis anos, e Shevket, de sete anos. O marido dela estava desaparecido há quatro anos. Soldado, ele não regressara da guerra contra os safávidas. Enquanto ainda nutria esperanças no regresso do marido, Shekure precisava resistir aos avanços indecorosos do cunhado, Hassan. Imaginando que o irmão já estaria morto há muito tempo, ele queria se casar com Shekure. Temendo o comportamento de Hassan, a moça deixou a casa da família do marido e voltou a viver com o pai. Obviamente, ela levou os filhos consigo. É esse o cenário encontrado por Negro depois de mais de uma década de ausência. Ao mesmo tempo em que precisa desvendar o assassinato de Elegante, ele quer se acertar com Shekure. O rapaz continua tão apaixonado pela formosa prima quanto esteve no passado. Para sua sorte, a repulsa da moça por Hassan pode ajudá-lo a conquistar o coração de Shekure. O que será mais difícil: descobrir o autor de um crime bárbaro (investigação que passa necessariamente por uma imersão na produção pictórica turco-otomana) ou conquistar o coração da mulher que ele tanto deseja (batalha em que tem muitos e perigosos inimigos). O rigoroso inverno de 1591 não será nada fácil para Negro. “Meu Nome é Vermelho” possui 536 páginas. Este é o livro mais extenso do autor que analisamos até aqui no Bonas Histórias e o segundo mais volumoso do Desafio Literário de Orhan Pamuk – ele perde em número de páginas apenas para “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), romance com 592 páginas e que será analisado no final do próximo mês (mais precisamente em 21 de maio). Dividido em 59 capítulos, “Meu Nome é Vermelho” inclui, em seu final, uma cronologia com os fatos históricos do Império Turco-otomano (algo interessante para quem não está tão por dentro da história turca) e um pequeno glossário com os principais termos árabes (recurso fundamental para quem não domina, como eu, as particularidades dessa cultura). Precisei de boa parte do último final de semana para percorrer todo o conteúdo dessa obra. Iniciei a leitura no sábado de manhã e a concluí no domingo à tarde. Devo ter levado em torno de dezesseis horas para ir de uma ponta a outra do livro - foram praticamente nove horas de leitura no primeiro dia e mais sete horas no segundo dia. A primeira questão que nos chama a atenção nesse romance é a multiplicidade de narradores. Em “Meu Nome é Vermelho” temos (acredite!) doze narradores diferentes: Elegante Efêndi, Negro, o satirista que interpreta várias figuras no bar (como um cachorro, uma árvore, a morte, a cor vermelha, um cavalo, uma dupla de dervixes e uma mulher), o assassino de Elegante, Tio Efêndi, Orhan, Ester (uma comerciante judia), Shekure, Borboleta, Cegonha, Oliva e Mestre Osman. Se você considerar que o assassino de Elegante é uma dessas personagens, então temos onze narradores. Eles se revezam capítulo a capítulo no relato da trama (cada capítulo tem apenas um narrador). Com esse expediente, Orhan Pamuk potencializa a experiência estética de “A Casa do Silêncio”, que tinha (apenas?!) cinco narradores. Outro elemento que precisa ser elogiado é a maneira como esse romance policial foi construído, o que intensificou ainda mais o suspense do livro. Apesar de ouvirmos a voz, de acompanharmos os passos e de entendermos as motivações do assassino de Elegante (afinal, ele é um dos narradores da obra), não sabemos sua identidade. O tempo inteiro, o criminoso oculta seu nome (algo que será revelado apenas nos capítulos finais). Incrível esse recurso narrativo. Há também muita fantasia em “Meu Nome é Vermelho”. Essa particularidade surge logo no início do romance. O primeiro narrador é Elegante Efêndi, o miniaturista assassinado. Ele conta o crime em que foi vítima já na condição de morto. Por isso, essa personagem clama por justiça e, em troca de vingança, oferece aos leitores as revelações de como é a existência no outro lado. Ao longo do livro, esses componentes fantásticos serão repetidos. Teremos, por exemplo, outro defunto que assistirá deslumbrado ao seu próprio velório/enterro. Se em “A Vida Nova”, a obra anterior de Pamuk, os elementos fantásticos eram mais de natureza onírica e existencialista, aqui temos um diálogo mais direto entre os dois planos espirituais (vida e morte). Como falei no início deste post, a trama de “Meu Nome é Vermelho” mistura vários gêneros distintos: romance policial, narrativa histórica, drama sentimental, coletânea de contos clássicos, thriller político, suspense noir e aventura fantástica. Grande parte do charme de seu texto está nessa pluralidade de estilos. Orhan Pamuk caminha muito bem pelos diferentes nuances dessa história. Não é fácil embaralhar todos esses gêneros em um romance, algo que o escritor turco faz parecer simples e corriqueiro (saiba que não é!). Quanto ao enredo desse romance, os principais conflitos (o assassinato de Elegante e a intriga amorosa de Negro e Shekure) se dão por questões religiosas. Esse talvez seja o grande mote da literatura de Orhan Pamuk. A questão religiosa apareceu em todos os seus livros analisados até aqui: “A Casa do Silêncio”, “O Castelo Branco” e “A Vida Nova”. É como se as personagens pamukianas estivessem o tempo inteiro combatendo as contradições de uma vida baseada no Islamismo e uma vida mais laica/profana. Por consequência, a rotina oriental se contrapõe totalmente à rotina ocidental. Qual caminho seguir? Esse grande questionamento intriga tanto as pessoas individualmente quanto a sociedade turca de maneira geral (de ontem e de hoje). Em “Meu Nome é Vermelho”, temos uma forte intertextualidade literária e pictórica. Orhan Pamuk usou seus amplos conhecimentos de literatura e de pintura para produzir esse romance. Para quem não conhece os detalhes da vida particular do escritor, Orhan se dedicou por muitos anos à pintura. Essa era a sua maior paixão e ela perdurou da infância até a idade adulta. Por isso, sua família sempre pensou que ele se tornaria um pintor quando crescesse e começasse a trabalhar. Para a surpresa de todos (e até mesmo para ele), Orhan seguiu para os caminhos da literatura. Sem se esquecer totalmente de sua antiga paixão, Pamuk produziu, em “Meu Nome é Vermelho”, uma belíssima trama ambientada no universo da pintura clássica (algo que somente um pintor ou um grande amante dessa arte conseguiria desenvolver). Outro elemento central desta obra é a metalinguagem. Temos aqui um livro dentro de outro livro. Vale a pena salientar que esse recurso já havia aparecido em “O Castelo Branco” e, principalmente, “A Vida Nova”. Minha impressão é que Orhan Pamuk gosta desse diálogo metalinguístico. Prova maior desse fato é que os principais debates promovidos em “Meu Nome é Vermelho” são de natureza artística: a autoria, o estilo, as inovações, as inspirações, a assinatura, a dicotomia entre clássico e contemporâneo, as influências, o aprendizado, o ensino, o papel dos grandes mestres, a importância dos mecenas etc. Por consequência, a pegada filosófica de “Meu Nome é Vermelho” está mais para as questões artístico-culturais do que para as reflexões existencialistas. Feita essa ressalva, não espere encontrar nesse romance um debate do nível de “A Vida Nova” (esse sim um texto profundamente questionador e riquíssimo no que se refere às inquietações verdadeiramente filosófico-existencialistas). Aqui as indagações são mais sobre os caminhos da produção literária e pictórica e menos sobre os caminhos filosóficos que as pessoas devem seguir. Outro elemento marcante deste livro é a inserção de várias historietas (tramas secundárias) no meio do enredo maior (trama principal). Praticamente, todos os narradores gostam de contar pequenas narrativas ficcionais durante seus relatos. Dessa maneira, temos uma coleção informal de contos dentro do romance. Impossível não nos lembrarmos de “As Mil e Uma Noites” (Biblioteca Azul)”, obra que popularizou essa técnica (várias pequenas histórias no cerne de um enredo maior). Para ser mais preciso na analogia, “Meu Nome é Vermelho” é quase uma mistura de “As Mil e Uma Noites” (pela contação sem fim de várias pequenas narrativas no meio da trama maior), “O Nome da Rosa” (Record), romance de Umberto Eco (pelos mistérios, pelos crimes inseridos em um drama histórico e pela ambientação noir), e “A Varanda do Frangipani” (Companhia das Letras), título de Mia Couto (pelos elementos fantásticos, como finados narradores falando do além). Outros três pontos positivos desse livro de Pamuk são: o excelente contexto histórico, cultural e político; o ritmo narrativo mais veloz; e o humor. Uma das partes mais deliciosas da leitura de “Meu Nome é Vermelho” está na imersão à cultura turco-otomana da virada do século XVI para o século XVII. Pelas páginas dessa obra, assistimos a conflitos familiares, religiosos, sociais, políticos, geopolíticos e artísticos daquela época. E isso é feito com um ritmo narrativo muito mais veloz do que Orhan Pamuk vinha empregando até então. Não à toa, uma das minhas críticas a seus títulos anteriores estava justamente na lentidão de suas tramas (algo que não falta neste romance). “Meu Nome é Vermelho” também apresenta relatos bem-humorados. Mesmo em um clima predominantemente de violência intensa e de grande opressão, é possível notar a graça e a comicidade de algumas passagens e comentários. O humor ajuda a amenizar a ambientação tão pesada. Como grande ponto negativo deste livro temos a falta de diferenças claras entre os três principais suspeitos do crime investigado por Negro. Juro que até agora não sei distinguir Borboleta, Cegonha e Oliva um do outro. Isso prova que Orhan Pamuk é um ótimo escritor, mas como romancista criminal ainda está muito distante de, por exemplo, Agatha Christie (que tinha a habilidade de tornar único cada um dos seus suspeitos). Sem qualquer característica que diferencie o trio de prováveis assassinos, o leitor não consegue fazer conjecturas (uma das graças dos romances policiais é tentarmos descobrir por conta própria o culpado). Nesta trama, isso não acontece (pelo menos eu não consegui brincar de detetive; aos meus olhos, Borboleta, Cegonha e Oliva eram quase uma só personagem). Outra questão a ser lamentada é a falta de uma tradução direta (do turco para o português). Infelizmente, a edição nacional de “Meu Nome é Vermelho” teve uma tradução indireta: a partir do texto em inglês e em francês. E esse não é um problema exclusivo desse romance de Orhan Pamuk. Todos os títulos do escritor turco editados em nosso país foram traduzidos indiretamente. É uma pena. Um autor da qualidade de Pamuk merecia um cuidado maior das editoras do nosso país. Sem dúvida nenhuma, “Meu Nome é Vermelho” é uma obra-prima. Fiquei encantado com seu texto. Esse é realmente o melhor livro de Orhan Pamuk que analisamos até agora. Nota-se que estamos diante de uma narrativa de um escritor maduro e com uma proposta estética clara e poderosa. Se já estava gostando da literatura de Pamuk, agora posso dizer que fiquei fã de seu trabalho ficcional. Com certeza, “Meu Nome é Vermelho” irá figurar na minha lista de melhores obras lidas em 2021, conteúdo esse que farei no final do ano e que será postado na coluna Recomendações. O quinto livro do Desafio Literário de Orhan Pamuk é “Neve” (Companhia das Letras). Esse romance de Pamuk, o sétimo de sua carreira, foi publicado em 2002 e narra o drama do poeta Ka. Aprisionado pela neve em um povoado interiorano da Turquia, ele precisa encarar os conflitos sacro-raciais de seus conterrâneos. O post com a análise completa de “Neve” estará disponível, no Bonas Histórias, na próxima segunda-feira, 3 de maio. Continue acompanhando o Desafio Literário desse bimestre. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















