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  • Livros: O Castelo Branco - O terceiro romance de Orhan Pamuk

    Publicada em 1985, esta narrativa ambientada no século XVII rendeu os primeiros prêmios internacionais ao autor turco e foi seu primeiro sucesso no exterior. Na semana passada, analisamos “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), o primeiro romance de sucesso de Orhan Pamuk em seu país(e a segunda publicação do autor). Vale a pena lembrar que nesse bimestre o principal escritor turco da atualidade está sendo estudado em profundidade no Desafio Literário. A ideia é comentarmos, no Bonas Histórias, oito dos principais títulos de Pamuk. Assim, no post de hoje, vamos tratar exclusivamente de “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), o segundo livro da nossa lista de leitura de abril e maio de 2021 e o primeiro sucesso internacional do autor. Li esta obra no último final de semana e fiquei realmente encantado com seu texto e sua proposta. Terceira narrativa ficcional de Orhan Pamuk, “O Castelo Branco” foi publicado, em 1985, na Turquia e se tornou um grande sucesso no exterior à medida que foi sendo traduzido para outros idiomas. A versão francesa é do final da década de 1980 e a inglesa é do comecinho dos anos 1990 (edição britânica é de 1990 e a edição norte-americana é de 1991). A primeira versão em português desse romance é de 2000 e foi desenvolvida pela lisboeta Editorial Presença. O título da obra em Portugal é “A Cidadela Branca”. No Brasil, o lançamento da edição nacional de “O Castelo Branco” é de 2007. O tradutor encarregado dessa empreitada foi Sergio Flaksman, carioca responsável pela tradução de grandes nomes da literatura em língua inglesa (Philip Roth, J. M. Coetzee, Mark Twain e William Shakespeare), francesa (Albert Camus, Émile Zola e Molière) e italiana (Pirandello e Umberto Eco). Além de “O Castelo Branco”, Flaksman traduziu para o português outros títulos marcantes de Pamuk como “Istambul – Memória e Cidade” (Companhia das Letras) e “O Livro Negro” (Companhia das Letras). Neste romance histórico, Orhan Pamuk utiliza-se de um dos protagonistas do seu livro anterior, “A Casa do Silêncio”, para construir uma trama envolvente e sensível ambientada no Império Turco-otomano do século XVII. A personagem em questão é Faruk Darvinoglu, o historiador glutão e beberrão que visitou a avó materna em Forte Paraíso e que fazia pesquisas no arquivo histórico da subprefeitura de Gebze. O resultado prático deste trabalho de Pamuk é um dos textos ficcionais mais impactantes da literatura turca contemporânea. Além disso, se pensarmos nos tempos de pandemia de SARS-CoV-2, essa publicação de Orhan Pamuk traz lições interessantíssimas para os leitores de hoje. Nas páginas dessa obra, assistimos à atuação de um governante imaturo e indeciso. Ele desqualifica as opiniões das autoridades científicas e dá razão muitas vezes aos idiotas que o cercam. Obviamente, essa parte do romance suscitará lembranças recentes e macabras nos brasileiros... “O Castelo Branco” conquistou, na Inglaterra, o Prêmio Independent de Ficção Estrangeira de 1990 – no ano seguinte, à título de curiosidade, Milan Kundera conquistaria esse mesmo prêmio com “A Imortalidade” (Companhia das Letras) e, em 1993, José Saramago seria agraciado pela publicação de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras). Até aquele momento, o comecinho dos anos 1990, essa foi a principal honraria recebida por Pamuk, que nos anos seguintes iria colecionar uma série de estatuetas e medalhas literárias em âmbito mundial até culminar com a conquista do Prêmio Nobel de Literatura de 2006. Não é errado dizer que “O Castelo Branco” abriu as portas do mercado editorial internacional para a literatura de Orhan Pamuk. Esse romance recebeu vários elogios da crítica europeia e norte-americana e alçou o nome do turco ao primeiro escalão dos autores contemporâneos de sucesso. Para completar, essa publicação representou uma mudança substancial no estilo narrativo de Pamuk. O escritor abandonou definitivamente o Naturalismo dos dois títulos iniciais, “O Senhor Cevdet e Seus Filhos” (em uma tradução livre pois essa obra, “Cevdet Bey ve Oğulları”, ainda não foi editada em português), de 1982, e “A Casa do Silêncio”, de 1983, e imprimiu propostas mais modernas em suas novas produções. A partir daí estava pautado o caminho de uma trajetória ficcional sólida e bem-sucedida da literatura internacional. Junto com o êxito comercial e dos elogios da crítica, “O Castelo Branco” também trouxe as primeiras polêmicas ao trabalho de Orhan Pamuk. Por causa de trechos muito parecidos a obras de outros autores, Pamuk é acusado regularmente de copiar textos de romances alheios. No caso de “O Castelo Branco”, há alguns parágrafos idênticos a um dos principais livros de Fuad Carim, escritor turco-sírio de grande destaque na metade do século XX. Os defensores de Orhan Pamuk dizem se tratar de mera intertextualidade literária, um recurso corriqueiro na ficção contemporânea. Por outro lado, os acusadores alegam se tratar de apropriação indevida, um recurso criminoso e atemporal. Indiferente à questão, Pamuk não parece muito preocupado em se explicar aos críticos. O enredo de “O Castelo Branco” se passa no século XVII. Narrado em primeira pessoa por um erudito navegante veneziano criado em Empoli (ele não tem seu nome revelado em nenhum momento da trama), o romance inicia-se com uma viagem marítima de cunho comercial de Veneza à Nápoles. Durante o trajeto, as embarcações italianas são atacadas por uma esquadra turca. Facilmente derrotada pelos inimigos, a tripulação veneziana é feita de escrava. Ao fingir ser médico, o narrador, então com 23 anos, tem um pouco mais de sorte – ele se transforma em um escravo de luxo. Como consequência, tem algumas regalias mínimas por atender aos pacientes dos navios adversários. Levado a Istambul, o falso médico, que possui realmente vasto conhecimento astrológico e científico, é encarcerado em uma prisão comum, onde rapidamente aprende o idioma local. Certo dia, ele é chamado pelo paxá Sadik. A autoridade turca está interessada em suas habilidades intelectuais. Por ajudar a organizar um show de fogos de artifício na festa de casamento do filho do paxá, o narrador-protagonista é tirado da prisão e dado como escravo para Hoja, um importante astrônomo de Istambul. Na casa de Hoja, o veneziano passa a trabalhar como assistente do turco nas pesquisas científicas, nos tratados cósmicos, nas previsões astrais, na criação de artefatos comuns e bélicos e no desenvolvimento de histórias ficcionais. É iniciada, assim, uma amizade contraditória. Ao mesmo tempo em que se parecem psicológica e fisicamente (a ponto de serem confundidos como irmãos), patrão e escravo alimentam uma inveja mútua. O turco deseja ter a inteligência e o conhecimento do estrangeiro. Por sua vez, o italiano almeja a liberdade e a influência do patrão para voltar para casa depois de tantos anos de ausência. As afinidades e as diferenças são as responsáveis pelos constantes entreveros e pela forte união dos dois homens. De qualquer forma, os trabalhos da dupla chamam a atenção e se tornam requisitados pelas grandes autoridades do sultanato de Istambul. No início, o paxá Sadik é quem os contrata. Depois, os cientistas são chamados pelo próprio sultão para solucionar problemas administrativos, de saúde pública e de caráter militar. Entre intermináveis brigas e profunda inveja, mas com a manutenção da amizade por longos anos, patrão e escravo irão contribuir para o destino do povo e das autoridades turcas nas décadas seguintes. “O Castelo Branco” possui 200 páginas. Seu conteúdo está dividido em 11 capítulos e em uma pequena introdução. Levei pouco mais de seis horas para concluir essa leitura no último sábado. Comecei o romance de manhã e no finalzinho da tarde já tinha chegado à última página. De certa maneira, finalizei essa obra de Pamuk em três sentadas (parei duas vezes). Se comparado a “A Casa do Silêncio”, “O Castelo Branco” tem a metade do tamanho do livro anterior (sendo, portanto, uma leitura mais rápida). Os quatro principais elementos que chamam nossa atenção nessa publicação de Orhan Pamuk são: (1) o mergulho na intertextualidade literária desde as primeiras páginas; (2) o texto com bastante humor (uma novidade importante no trabalho literário de Pamuk); (3) a estrutura da narrativa é mais parecida a uma novela do que a um romance; e (4) há um vasto conjunto de verossimilhanças e de inverossimilhanças nesse enredo. Em relação à intertextualidade, a brincadeira entre os diferentes universos da ficção literária começa logo que abrimos “O Castelo Branco”. Para surpresa do leitor, o romance é dedicado a Nilgün Darvinoglu, uma das protagonistas do livro anterior de Pamuk. Aí surge a questão: o escritor pode dedicar sua obra a uma personagem ficcional, Arnaldo?! Não há regra que proíba isso, diria acertadamente o antigo juiz de futebol e comentarista esportivo. Dessa forma, logo de cara Orhan Pamuk já ganha um ponto do leitor mais exigente. O romancista turco aumenta ainda mais sua pontuação quando entendemos a citação à neta de Selâhattin e Fatma Darvinoglu. Na introdução de “O Castelo Branco”, descobrimos que aquele texto é uma produção de Faruk Darvinoglu, o neto mais velho de Selâhattin e Fatma e irmão de Nilgün. Usando parte do enredo de “A Casa do Silêncio”, Pamuk recorre às pesquisas feitas pelo historiador gordão e bebum em seu livro anterior para justificar a descoberta de uma trama antiga e profundamente impactante. Encantado com aquela narrativa histórica, Faruk adaptou o antigo texto de um italiano que viveu em Istambul no século XVII para o romance que o leitor tem em mãos. É esse o conteúdo dos 11 capítulos seguintes. É ou não é uma proposta maravilhosa de embaralhar os diferentes campos da ficção, hein?! Achei incrível esse recurso narrativo de Orhan Pamuk. De alguma maneira, esse começo de “O Castelo Branco” lembra bastante as misturas do universo ficcional promovidas por Juan Carlos Onetti. O escritor uruguaio era mestre em promover esses recortes dentro de suas histórias. Ele fez isso magnificamente nas tramas ambientadas na fictícia cidade de Santa María – palco da trilogia iniciada com o romance “A Vida Breve” (Planeta Literário). Pelo visto, Onetti não apenas influenciou os autores sul-americanos do calibre de Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, mas também influenciou Pamuk. Quanto ao humor, há passagens realmente engraçadas e cômicas em “O Castelo Branco”. Essa é uma novidade interessante na produção ficcional de Orhan Pamuk. Até então, o autor turco estava criando textos totalmente sérios. Obviamente, não estou dizendo aqui que o leitor irá morrer de rir durante essa leitura. Não! O humor é sutil e inteligente, o que confere um charme e uma graça especiais à narrativa de “O Castelo Branco”. A parte mais hilária do livro (aqui vai uma pontada de humor negro!) é quando Istambul é acometida por uma peste. Os leitores brasileiros vão se sentir, infelizmente, em casa nessas páginas. O sultão turco é um adolescente mimado, estúpido, autoritário e cercado por assessores idiotas (idiota é o termo usado pelo próprio escritor/tradutor). Enquanto os cientistas dizem ser necessário a implementação de um distanciamento social (inclusive com a decretação de uma espécie de lockdown na cidade) e a intensificação das práticas de higiene pessoal, os assessores diretos do sultão acham isso tudo uma balela. Sem acreditar na ciência, o pessoal que cerca o governante se preocupa apenas com a economia – o que será dos comerciantes se as portas de Istambul forem fechadas? Incrível assistir a esse embate e às consequências práticas das decisões intempestivas do sultão. Nunca pensei que vivenciaria efetivamente e em pleno século XXI alguns dos disparates como os descritos no livro. Sem dúvida nenhuma, há mais semelhanças entre a ficção e a realidade do que poderíamos supor. Em relação à estrutura de “O Castelo Branco”, seu enredo se parece mais com uma novela (complexidade mediana) do que com um romance (de maior complexidade narrativa). Faço essa observação pois o livro tem pouquíssimas personagens (basicamente quatro – o narrador, Hoja, o paxá e o sultão), um conflito simples e único (diferentemente do que ocorreu em “A Casa do Silêncio”, que apresentava múltiplos conflitos), um narrador apenas (obviamente, se excluirmos o texto em primeira pessoa de Faruk na introdução) e poucos cenários (basicamente a prisão, a casa de Hoja e os palácios do paxá e do sultão). Se não fosse a extensão de duas centenas de páginas (o que caracteriza uma narrativa longa – romance), cravaria sem medo de errar que estamos diante de uma novela. Por falar na estrutura de “O Castelo Branco”, sua trama está dividida informalmente em oito partes: (1) a prisão do navegante veneziano; (2) o início de seu trabalho na casa de Hoja; (3) o combate à peste; (4) a obsessão da dupla de amigos em escrever histórias ficcionais; (5) a conquista de Hoja do posto de astrólogo imperial; (6) o protagonista se torna o queridinho do sultão; (7) a campanha bélica dos turcos contra os poloneses; e (8) o desfecho do romance, quando seus protagonistas já são idosos. Contraditoriamente, há altos e baixos nessas partes. Enquanto há passagens muito monótonas (o início do veneziano na casa do patrão turco e, principalmente, a obsessão da dupla em escrever histórias ficcionais), outros trechos são eletrizantes (a prisão do navegante veneziano e o combate à peste, por exemplo). Por isso, se prepare para embarcar em um enredo que oscila muito. Sem querer defender Pamuk (mas já o defendendo), essa característica de “O Castelo Branco” é própria da vida relatada pelo narrador. Afinal, quem é que nunca enfrentou momentos de grande entusiasmo e de grande melancolia em sua trajetória pessoal e profissional, hein? Nesse caso, esses altos e baixos são perfeitamente fidedignos (o que só reforça a verossimilhança da narrativa). Mesmo assim, é preciso certa paciência para encarar a lentidão de alguns capítulos. Em muitos momentos, a rotina melancólica e entediante do narrador-protagonista acaba respingando em seus relatos. A impressão é que às vezes pouca coisa (ou quase nada) acontece em cena. Nessa hora, o que posso desejar para você, bravo(a) leitor(a), é: coragem, meu/minha amigo(a). Não desanime e siga em frente! Por falar em verossimilhança de “O Castelo Branco”, se seu ritmo narrativo oscilante contribui positivamente para a fidedignidade da trama, há também vários tropeços que jogam contra a verossimilhança da história de Pamuk. Vejamos, no parágrafo a seguir, alguns casos de falta de lógica: No século XVII, não havia especialização médica – portanto, o narrador-protagonista jamais iria dizer que ele é um médico, mas não é um cirurgião. Nessa época, astronomia e astrologia caminhavam de mãos dadas – Hoja jamais iria favorecer um campo e ter preconceito em relação ao outro. Como é possível em poucos dias duas pessoas que não entendem nada de fogos de artifício realizarem um show pirotécnico nos céus de Istambul como o descrito nas páginas do livro? – na minha visão isso beira o impossível! E, por fim, no século XVII, a sociedade, a cultura e a tecnologia do Império Turco-otomano eram mais desenvolvidas do que na Itália – diferente do que o romance de Pamuk deixa transparecer. Em suma, não faltam partes desse livro que afrontam a lógica dos fatos. Durante a leitura de “O Castelo Branco”, lembrei de outras obras literárias. De certa maneira, esse terceiro romance de Orhan Pamuk é uma mistura de “Cidades Invisíveis” (Companhia das Letras), obra-prima de Italo Calvino (por causa dos relatos do navegante italiano que descrevem as descobertas feitas em terras distantes e de sua mania de criar tramas ficcionais para encantar o rei), de “O Físico” (Rocco), best-seller de Noah Gordon (devido ao mergulho de um europeu na cultura islâmica) e de “As Mil e Uma Noites” (Biblioteca Azul), clássico da cultura árabe (por descrever os bastidores, as intrigas e o dia a dia do sultanato). Só por esse comentário, deu para perceber que gostei bastante de “O Castelo Branco”, né? Afinal, “Cidades Invisíveis”, “O Físico” e “As Mil e Uma Noites” estão entre minhas leituras favoritas. Entretanto, é inegável que há alguns problemas de ordem narrativa nesse livro de Pamuk (além do seu ritmo vacilante). Um deles é o predomínio de passagens sumarizadas. Essa característica afeta sim a qualidade do texto. A riqueza de uma trama ficcional é maior quando temos mais cenas impactantes do que simples relatos superficiais (o tal sumário, conforme denominado pela Teoria Literária). Outro tropeção de “O Castelo Branco” está na falta de personagens femininas. Nas raras vezes em que elas aparecem, são apenas em citações distantes: a mãe de alguém, as prostitutas que aliviam a libido masculina ou a esposa que o marido não liga). Se pensarmos no quanto a sociedade turca da época (da época?!) era patriarcal e machista, até faz sentido a ausência das mulheres na história contada pelo navegante veneziano. Achei também pouco inspirados os debates filosóficos contidos nas páginas deste romance. Evidentemente, Orhan Pamuk não é um Albert Camus, um Milan Kundera ou um Fiódor Dostoiévski. Por fim, os dois últimos problemas desta obra não são culpa de seu autor e sim da editora brasileira responsável pela sua edição. A versão nacional de “O Castelo Branco” é uma tradução indireta. Assim como já tinha acontecido com “A Casa do Silêncio”, o tradutor brasileiro não usou o texto original (em turco) para produzir o texto em português. Infelizmente, Sergio Flaksman recorreu as traduções em francês e em inglês de “O Castelo Branco”. Na minha visão, um autor do porte de Pamuk merecia sim uma tradução direta. Outra questão que me incomodou um pouco foi o projeto gráfico simplório do livro. A capa da edição brasileira de “O Castelo Branco” é muito feia. Muito provavelmente, se estivesse em uma livraria não compraria esse romance pela sua capa (algo que, querendo ou não, acabamos fazendo muitas vezes). Acredito piamente que esse livro merecia uma nova edição por parte da Companhia das Letras, com uma edição direta e um projeto gráfico mais atrativo. Apesar de alguns tropeções aqui e outros acolá, precisamos reconhecer que “O Castelo Branco” é um romance superior a “A Casa do Silêncio”. Apesar de sua simplicidade estrutural (pouquíssimas personagens, enredo único, conflito evidente, trama linear e poucos narradores), esse terceiro romance de Orhan Pamuk possui algo difícil de ser encontrado por aí: personagens e trama cativantes. Acredito que “O Castelo Branco” seja aquele tipo de livro que conquiste os leitores mais pelos aspectos sentimentais/emotivos do que pelas questões técnicas/narrativas. Se o escritor turco não tinha adquirido ainda experiência e maturidade para tecer uma obra ficcional impecável aos olhos da Crítica Literária e da Teoria Literária, ao menos ele já sabia dialogar diretamente com os leitores (um mérito incontestável e para poucos artistas). A investigação da literatura de Orhan Pamuk prossegue na semana que vem. Na próxima quarta-feira, 21 de abril, volto ao Desafio Literário para analisar mais um livro do autor. A obra que comentaremos no Bonas Histórias será “A Vida Nova” (Companhia das Letras), romance de 1994 que se tornou um dos maiores best-sellers na Turquia. Nessa parábola com forte intertextualidade literária, Pamuk apresenta o drama de um jovem estudante universitário obcecado por um livro mágico que questiona os limites da realidade e da ficção. Não perca a análise de “A Vida Nova” e os próximos capítulos do Desafio Literário desse bimestre. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: As ficções brasileiras mais vendidas em 2020

    Confira o ranking com os seis livros de ficção produzidos por autores brasileiros mais comercializados em nosso país no ano passado. Nesse primeiro semestre de 2021, estamos apresentando, na coluna Mercado Editorial, o ranking dos livros mais comercializados no Brasil no ano passado. Em janeiro, revelamos a lista geral dos livros mais vendidos em 2020. Em março, fizemos um recorte e mostramos as obras ficcionais mais adquiridas no ano passado nas livrarias nacionais. No post de hoje do Bonas Histórias, vamos seguir com esse tipo de análise. Agora, vamos indicar quais foram as ficções brasileiras preferidas pelo público leitor em 2020. Afinal, quais são os autores nacionais no topo dos títulos best-sellers, hein? Para descobrir os livros de maior sucesso, utilizamos no Bonas Histórias as informações do PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial nacional. O PublishNews faz a medição do setor recorrendo-se principalmente aos dados coletados nas maiores redes de livrarias do Brasil. Na liderança do ranking da literatura brasileira, temos Chico Buarque, o Prêmio Camões de 2019. Sua obra mais procurada é exatamente o último romance, “Essa Gente” (Companhia das Letras). Lançado em 2019, esse título vendeu mais de 20 mil exemplares no ano passado. Em 2019, “Essa Gente” já tinha alcançado 27 mil unidades em vendas. Na segunda posição, surge “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt), coletânea organizada por Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira. Esse livro figura no topo dos best-sellers nacionais há três anos. Em 2018, ele foi a ficção mais vendida no Brasil ao ultrapassar a marca de 110 mil unidades comercializadas. E em 2019, “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” ficou em quinto lugar em sua categoria com 58 mil exemplares vendidos. A surpresa não está na vice-liderança da obra mais famosa de Igor Pires da Silva, mas nos êxitos das novas criações do jovem escritor carioca. No topo das ficções nacionais mais vendidas em 2020, Igor ainda tem “O Fim de Doses Homeopáticas” (Globo Alt) e “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente – Onde Dorme o Amor” (Globo Alt), com 8 mil e 6 mil unidades comercializadas respectivamente. As duas publicações integram a coleção “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente”. Não à toa, essa série narrativa é uma das mais bem-sucedidas da literatura brasileira nos últimos anos. Na terceira colocação das ficções brasileiras mais vendidas no ano passado, temos o onipresente Augusto Cury. Ele é figurinha carimbada desse ranking há mais de uma década. “Prisioneiros da Mente” (HarperCollins) é seu romance do momento. A obra vendeu pouco mais de 9 mil unidades entre janeiro e dezembro de 2020. A grata surpresa do mercado editorial no ano passado foi o sexto lugar de “Torto Arado” (Todavia). Publicado em agosto do ano retrasado, o romance de Itamar Vieira Júnior conquistou o Prêmio Jabuti de 2020 na categoria romance literário. Essa obra vendeu aproximadamente 3 mil exemplares no ano passado. Curiosamente, 90% das cópias de “Torto Arado” foram adquiridas em dezembro, na esteira da divulgação do prêmio. Veja, a seguir, o ranking completo com as 6 ficções brasileiras mais vendidas em 2020 em nosso país: 1) “Essa Gente” (2019) – Chico Buarque – Literatura Brasileira Contemporânea – Companhia das Letras – 20 mil unidades. 2) “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (2017) – Igor Pires da Silva & Gabriela Barreira – Literatura Brasileira Contemporânea – Globo Alt – 14 mil unidades. 3) “Prisioneiros da Mente” (2018) – Augusto Cury – Literatura Brasileira Contemporânea – HarperCollins – 9 mil unidades. 4) “O Fim de Doses Homeopáticas” (2020) – Igor Pires da Silva – Literatura Brasileira Contemporânea – Globo Alt – 8 mil unidades. 5) “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente – Onde Dorme o Amor” (2019) – Igor Pires da Silva, Leticia Nazareth, Malu Moreira e Gabriela Barreira – Literatura Brasileira Contemporânea – Globo Alt – 6 mil unidades. 6) “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Júnior – Literatura Brasileira Contemporânea – Todavia – 3 mil unidades. Em julho, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar a lista dos livros infantojuvenis mais vendidos em 2020 no Brasil. Até lá, continue acompanhando os posts do Bonas Histórias. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Recomendações: Retrospectiva - Melhores filmes de 2020

    Chegamos à segunda parte da Retrospectiva de 2020 do Bonas Histórias, quadro de todo começo de ano da coluna Recomendações. Se na semana retrasada apontamos os melhores livros analisados pelo blog nos últimos doze meses, agora vamos apresentar os melhores filmes que foram comentados aqui na última temporada. Ou seja, saímos do conteúdo da coluna Livros - Crítica Literária e entramos nos posts da coluna Cinema. Em nosso ranking cinematográfico, contemplaremos os dez longas-metragens mais interessantes que assistimos em 2020 tanto nas salas de cinema (oito títulos) quanto nos serviços de streaming (uma produção apenas) e em DVD (só um exemplar). Nessa lista, há produções de vários países (Estados Unidos, França, Itália, Brasil, Alemanha e Palestina/Qatar/Canadá/Turquia) e de diversos gêneros (thriller/suspense, terror, ficção científica, comédia, comédia dramática, drama, documentário e western spaghetti). Confesso que estava um pouco preocupado antes da preparação deste post. Afinal, 2020 foi um ano terrível para o cinema internacional. As salas foram fechadas por vários meses, lançamentos acabaram postergados e filmagens tiveram que ser interrompidas no mundo todo. Mesmo com quedas e tropeções, o balanço final do ano acabou sendo até que positivo quando analisamos as qualidades das produções disponíveis. Se os títulos ficaram mais escassos (isso é inegável), não faltaram longas-metragens de excelente nível sendo exibidos nas mais diferentes plataformas. A evidência objetiva desse fato é que na listagem final do Bonas Histórias só temos filmões. Não acredita em mim?! Então, confira, abaixo, a lista completa dos melhores filmes do ano passado segundo este blog: 10º lugar: “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020) – Terror/Suspense – Estados Unidos – Leigh Whannell – Cinema Lançado em março nos cinemas brasileiros, “O Homem Invisível” é o thriller de terror de Leigh Whannell que foi inspirado no livro homônimo de H. G. Wells. A nova versão cinematográfica deste clássico da ficção científica foi estrelada pela excelente Elisabeth Moss. O filme de Whannell traz várias mudanças em relação ao enredo da obra tradicional. Os novos elementos dão uma lufada de inovação, modernidade, empatia e sedução à história. “O Homem Invisível” é um dos títulos imperdíveis de 2020! 9º lugar: “Tenet” (2020) – Ficção Científica – Estados Unidos – Christopher Nolan – Cinema “Tenet” é a mais recente produção de Christopher Nolan. Lançado em outubro, esse filme foi a principal aposta da indústria cinematográfica no complicadíssimo ano de 2020. Estrelado pela afinada dupla formada por John David Washington e Robert Pattinson, a ficção científica de Nolan aborda o instigante conceito da inversão do fluxo temporal. “Tenet” não é o melhor filme do diretor, mesmo assim é uma ótima pedida para quem estava com saudades de uma visita às telonas. 8º lugar: “O Mistério de Henri Pick” (Le Mystère Henri Pick: 2019) – Comédia – França – Rémi Bezançon – Streaming Enquanto os cinemas estiveram fechados, a melhor opção dos cinéfilos brasileiros foi o Festival Varilux em Casa, edição revival e online do tradicional evento do cinema francês. E o melhor filme dessa versão alternativa do festival foi “O Mistério de Henri Pick”, o thriller cômico de Rémi Bezançon. Estrelado pelos ótimos Fabrice Luchini e Camille Cottin, este longa-metragem mistura vários gêneros: é comédia, suspense, trama policial, romance, road story e crítica de costumes. Baseado no romance homônimo de David Foenkinos, “O Mistério de Henri Pick” é uma produção impecável! 7º lugar: “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019) – Comédia Dramática – Palestina/Qatar/Alemanha/Canadá/Turquia – Elia Suleiman – Cinema. O grande mérito de “O Paraíso Deve Ser Aqui”, o mais recente filme de Elia Suleiman, é a criatividade. Nessa comédia dramática que representou a Palestina na última edição do Oscar, assistimos a uma narrativa com um enredo extremamente peculiar, de difícil explicação. Com um ritmo próprio, o longa-metragem de Suleimanderruba barreiras e apresenta assuntos polêmicos da atualidade. No cerne de “O Paraíso Deve Ser Aqui”, temos uma forte crítica social e o orgulho à identidade e à cultura palestina. 6º lugar: “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018) – Comédia Dramática – Alemanha – Veit Helmer – Cinema Dirigido, roteirizado e produzido por Veit Helmer, um dos principais cineastas alemães da atualidade, “De Quem é o Sutiã?” é uma espécie de conto de fadas contemporâneo do terceiro mundo. Ambientada no Azerbaijão, essa comédia dramática apresenta a tocante história de amor de um maquinista solitário. Contudo, o que chama mais a atenção da plateia é a ausência completa de diálogos. “De Quem é o Sutiã?” pode ser classificado como um excelente exemplar do cinema mudo. Imperdível! 5º lugar: “Jojo Rabbit” (2019) – Comédia Dramática – Estados Unidos – Taika Waititi – Cinema Fazer comédia com a temática do nazismo e do holocausto não é algo fácil. E o neozelandês Taika Waititi conseguiu se sair muitíssimo bem desse desafio complicado. “Jojo Rabbit” é um filme divertidíssimo e comovente. Estrelado por Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie e Scarlett Johansson, esta comédia dramática conquistou a estatueta de melhor roteiro adaptado no Oscar de 2020, além de ter concorrido em outras cinco categorias: melhor filme, melhor atriz coadjuvante (Scarlett Johansson), melhor figurino, melhor montagem e melhor direção de arte. 4º lugar: “Belle Époque” (La Belle Époque: 2019) – Comédia Dramática – França –Nicolas Bedos – Cinema Apresentado no Festival Varilux de Cinema Francês do ano passado, “Belle Époque” é aquele filme que parte de uma premissa simples e entrega uma história repleta de surpresas e de belezas. Dirigido e roteirizado por Nicolas Bedos, essa comédia dramática francesa conquistou três estatuetas no último César: melhor roteiro original, melhor atriz coadjuvante e melhor design de produção. Com humor e inteligência, “Belle Époque” consolidou Bedos como um dos principais cineastas franceses da atualidade. 3º lugar: “Babenco” (2018) – Documentário – Brasil – Bárbara Paz – Cinema “Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” é o documentário dirigido por Bárbara Paz que apresenta a trajetória pessoal e profissional de Héctor Babenco, um dos principais cineastas sul-americanos. Com uma narrativa entrecortada e com uma linguagem bastante inovadora, o filme de Paz foi indicado pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais para representar o país na próxima edição do Oscar. Quem gosta de cinema, não pode perder esse longa-metragem. 2º lugar: “Trinity é o Meu Nome” (Lo Chiamavano Trinità: 1970) – Western Spaghetti – Itália – Enzo Barboni – DVD Com as salas de cinema fechadas por meses, nada melhor do que recorrer aos clássicos da sétima arte. “Trinity é o Meu Nome”, filme dirigido por Enzo Barboni e estrelado pela impagável dupla formada por Terence Hill e Bud Spencer, completou em 2020 cinquenta anos de existência. O enredo desse Western Spaghetti usa e abusa das cenas cômicas e de brigas. O resultado é um longa-metragem memorável do cinema italiano. A partir de “Trinity é o Meu Nome”, Terence Hill e Bud Spencer se tornaram internacionalmente conhecidos. 1º lugar: “1917” (2019) – Ação/Drama/Guerra – Estados Unidos – Sam Mendes – Cinema “1917” foi preterido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles justamente no momento decisivo da cerimônia do Oscar de 2020: na escolha do melhor filme, a categoria principal da premiação. Contudo, para o Bonas Histórias, o longa-metragem dirigido por Sam Mendes e estrelado por George MacKay foi sim a melhor produção da última temporada. Como experiência cinematográfica, “1917” é superior a “Parasita” (Gisaengchung: 2019) e “Coringa” (Joker: 2019), seus principais concorrentes na última edição do Oscar. Se a estatueta mais importante do cinema mundial escapou, o filme de Mendes saiu vitorioso em ao menos três categorias técnicas: melhor fotografia, melhor efeitos visuais e melhor mixagem de som. Bom cinema em 2021 para todos! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Análise Literária: John Green

    Depois de analisar a literatura de Mia Couto (abril), Nick Hornby (maio) e Jorge Amado (junho), o Desafio Literário investigou, ao longo deste mês, as obras, a carreira e o estilo de John Green, um dos principais autores norte-americanos da atualidade. Agora o Blog Bonas Histórias apresenta as conclusões desta pesquisa. John Green é natural de Indianápolis, Estados Unidos, cidade onde mora atualmente com a esposa e seus dois filhos. Nascido em agosto de 1977, John se mudou ainda bebê para a Flórida. No sul do país, ele passou a infância e adolescência. Formado em 2000, em Língua Inglesa e Estudos Religiosos, Green trabalhou alguns anos em Chicago em um jornal local. Primeiro como assistente de produção e depois como editor. Em Nova York, para onde se mudou na sequência, trabalhou como crítico literário em uma revista. Somente após 2005, com o lançamento e o sucesso imediato de "Quem é Você, Alasca?" (Intrínseca), sua primeira obra publicada, John passou a se dedicar essencialmente à carreira de escritor. Hoje em dia, John Green divide seu tempo entre seus livros e a manutenção de seu videoblog, chamado "Vlogbrothers". Desde 2007, ele mantém, junto com o irmão, este canal no Youtube no qual interage com os internautas postando vídeos sobre os mais variados assuntos. A página é uma das mais populares da Internet e aproxima o escritor do seu público. Best-seller internacional, John Green tem seis livros lançados no mercado brasileiro. Quatro levam apenas a sua autoria e outros dois foram feitos com parceiros. Os títulos de sua exclusiva autoria são: "Quem é Você, Alasca?", lançado originalmente em 2005, "O Teorema Katherine" (Intrínseca), de 2006, "Cidades de Papel" (Intrínseca), de 2008, e "A Culpa é das Estrelas" (Intrínseca), de 2012. As obras de coparticipação são: "Deixe a Neve Cair" (Rocco), escrita com Maureen Johnson e Lauren Myracle e lançada em 2008, e "Will & Will" (Record), escrita com David Levithan e editada em 2010. Neste mês de julho, li e analisei as quatro obras independentes do escritor. A primeira coisa que me chamou a atenção é que além do sucesso editorial, John Green também coleciona muitos prêmios (algo raro, pois normalmente há certa dicotomia entre sucesso de vendas e reconhecimento da crítica especializada). Os críticos não se cansam de elogiá-lo e de premiá-lo. Green ganhou o Printz Medal, o Pintz Honor da American Library Association e o Edgar Awards, além de ter sido finalista duas vezes no prêmio do LA Times. Suas obras frequentam constantemente a lista dos mais vendidos do The New York Times. O maior sucesso editorial de Green é o livro "A Culpa é das Estrelas", transformado em filme no ano passado. Porém, em minha opinião, a melhor obra dele ainda é "Quem é Você, Alasca?". "A Culpa é das Estrelas" aborda a vida de Hazel Grace, uma jovem de dezessete anos que sofre de um tipo raro de câncer de pulmão. O livro é bonito, tocante e muito sensível. Por isso, acho que caiu no gosto do público. "Quem é Você, Alasca?", por sua vez, é uma obra que narra a chegada do adolescente Miles Halter ao colégio interno. Com pitadas semibiográficas, o livro retrata brilhantemente os dramas, as incongruências, os desejos e os medos dos adolescentes. É um livro mais crítico e polêmico. Por isso mesmo é mais interessante. Enquanto "A Culpa é das Estrelas" representou a afirmação do estilo literário de John Green para o grande público, "Quem é Você, Alasca?" significou a inserção do nome do norte-americano entre os grandes escritores contemporâneos. Seu romance de estreia projetou os holofotes do mercado para o autor e atraiu análises elogiosas dos críticos para suas obras. "Cidades de Papel" é um livro razoável, enquanto "O Teorema Katherine" é uma obra de qualidade discutível, meio repetitiva e sem grande conteúdo, apesar de leve e engraçadinha. Eu não perderia tempo lendo essas duas publicações. "Cidades de Papel" relata a procura do adolescente Quentin Jacobsen pela vizinha Margo Roth Spielgelman, que fugiu de casa após uma noite de aventuras. "O Teorema Katherine" narra a tentativa de Colin Singleton, jovem que só namora moças chamadas Katherine, em encontrar a fórmula matemática do amor. Conhecido como porta-voz do público jovem, John Green e suas obras são aclamados pela garotada. O autor norte-americano escreve histórias de adolescente para os adolescentes. Suas narrativas são sensíveis, possuem alguma profundidade filosófica e são engraçadas. As personagens são essencialmente garotos e garotas recém-saídos da puberdade. As tramas giram em torno do universo adolescente: o primeiro amor, o desejo de sair de casa e explorar o mundo, o receio da morte precoce, a incompreensão da sociedade, os conflitos de relacionamento e o universo escolar. O grande mérito de John Green está em abordar esses temas com grande naturalidade, como se ele tivesse a idade das suas personagens e pensasse como elas. Fazendo uma analogia, pode-se afirmar que John Green é o Nick Hornby norte-americano do século XXI. Afinal, enquanto o escritor inglês conseguiu retratar o estilo de vida e as angústias dos jovens adultos da década de 1990, Green faz o mesmo com os adolescentes nos dias atuais. Outras características fortes das obras de Green são a rica e dinâmica narrativa, a composição de personagens complexas e envolventes e o humor que embala todos os momentos da trama. Mesmo recheado de personagens problemáticos (Colin de "Teorema Katherine" e Margo de "Cidades de Papel"), de caráter duvidoso (o Coronel e Alasca em "Quem é Você, Alasca?") e com doenças terminais (Hazel e Augustus de "A Culpa é das Estrelas"), as obras conseguem passar longe da depressão e do clima fúnebre. John Green consegue falar de assuntos complicados com leveza, bom-humor e sutileza, espantando a tristeza para longe. Não há apelação para o melodrama e para o sensacionalismo. Os medos, as angústias, os preconceitos e os sofrimentos dos jovens são encarados com coragem pelas personagens. Outro elemento interessante é como o autor discute alguns pontos da vida das suas personagens com inteligência e perspicácia. Green não subestima o intelecto dos seus jovens leitores (esse talvez seja o principal motivo dele ser tão adorado pelos fãs). Pelo contrário. Ele parece considerá-los capazes de compreender suas divagações filosóficas sobre a vida e suas reflexões sobre a adolescência, não aliviando nas suas considerações existencialistas. Com isso, o livro ganha em conteúdo e adquire um verniz filosófico. Repare, antes que alguém queira me linchar, que usei a palavra verniz na última frase. Também chama a atenção nos livros de Green a forma como o escritor prende a atenção de quem está lendo. O ritmo da narrativa geralmente é muito bom e estilo de escrita do autor faz com que pareça que ele esteja conversando diretamente com o leitor. Assim, depois que você começa a ler o livro, é difícil parar. O estilo de John Green fica claro após a leitura das primeiras obras. Não é necessário, portanto, ler todas as suas publicações para compreender como elas estão estruturadas. A forma como todos os livros foram escritos é muitíssimo parecida. Às vezes, temos a sensação de estar lendo uma mesma narrativa. Nas histórias de Green, sempre há um adolescente complexado como personagem principal (na maioria das vezes é um rapaz relatando sua vida em primeira pessoa). Ele é cheio de manias e tem problemas sentimentais (amor não correspondido por uma garota). Assim, a personagem principal decide sair de casa e enveredar em uma viagem reflexiva ao lado do melhor amigo. Não é à toa que John Green é comparado muitas vezes a J. D. Salinger, autor de "O Apanhador no Campo de Centeio". Mesmo não sendo mais adolescente (o verdadeiro público-alvo dessas publicações), admito que gostei muito das obras de John Green. Elas são divertidas, possuem boas tramas, conseguem prender a atenção do leitor e oferecem uma reflexão interessante para alguns temas delicados, além de retratar fielmente as angústias, os sonhos e o dia a dia dos jovens atuais. Chegamos ao fim do Desafio Literário de julho. E para ninguém perder o ritmo de leituras, já anuncio o próximo escritor que será analisado aqui no Blog Bonas Histórias. O mês de agosto será dedicado à literatura de Ignácio de Loyola Brandão, um dos principais autores brasileiros da atualidade. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnGreen #AnáliseLiterária

  • Livros: O Teorema Katherine - A fórmula do amor de John Green

    Cheguei ao quarto e último livro de John Green que me propus a analisar neste Desafio Literário de julho. "O Teorema Katherine" (Intrínseca) foi o segundo livro publicado pelo escritor norte-americano. Após o sucesso inicial de "Quem é Você, Alasca?", em 2005, "O Teorema Katherine" chegou às livrarias no ano seguinte. Nesta nova história de John Green, Colin Singleton é um adolescente superdotado. Seu QI é superior a 200, o que o torna um prodígio. Ele é extremamente inteligente, sendo capaz de decorar fatos e informações como um computador. Treinado pelo pai desde a mais tenra infância, o rapaz é um nerd que passa várias horas do dia lendo e estudando sem parar. O problema de Colin está em sua pouca habilidade para se relacionar com as pessoas. Em se tratando de mulheres, ele é uma negação completa. O rapaz só namora meninas com nome Katherine. Ao todo foram dezenove. E a última, por quem ele mais se apaixonou, acabou dando um grande pé na bunda dele (assim como todas as demais fizeram). O trauma e o sofrimento dessa vez foram de mais para Colin. Por isso, ele pegou suas coisas e, ao lado do melhor amigo, caiu na estrada. Sem ter um destino para ir, Colin só queria saber de dirigir seu carro e ir para longe, para tentar esquecer Katherine 19. Durante a viagem, um pensamento obsessivo passa a frequentar a cabeça de Colin. E se ele conseguisse desenvolver uma fórmula matemática na qual pudesse prever o desfecho dos relacionamentos amorosos? Com essa pretensão em mente e com o histórico de foras levados por todas as suas namoradas, o rapaz tenta encontrar a fórmula mágica do amor. O enredo de "O Teorema Katherine" é até interessante, mas a execução da história é bem fraquinha. Sem sombra de dúvidas, esse é o pior livro de John Green. Se achei "Quem é Você, Alasca?" muito bom, "A Culpa das Estrelas" bom e "Cidades de Papel" razoável, só posso dizer que "O Teorema Katherine" é ruim. A sensação de ler "mais do mesmo" também não ajuda. Estamos mais uma vez lendo uma história de um adolescente complexado, cheio de manias, com um problema sentimental (amor não correspondido por uma garota), que decide sair de casa e enveredar em uma viagem reflexiva ao lado do melhor amigo. Praticamente é o quarto livro de John Green com esse roteiro! É verdade que o livro é engraçado e tem momentos divertidos (principalmente pela forma como Green insere a questão da matemática e pelo paradoxo entre a lógica cartesiana e as imprevisibilidades das relações afetivas). Também gostei muito das notas de rodapé colocadas pelo autor, que trazem leveza e graça à narrativa. Porém, "O Teorema Katherine" não traz nenhuma novidade nem surpreende o leitor (que já leu os outros três livros do autor). Até mesmo os debates pretensiosamente filosóficos propostos por Green parecem, desta vez, repetitivos e pobres conceitualmente. Ou seja, não gostei deste livro. Talvez se "O Teorema Katherine" fosse a primeira obra lida por mim da lista deste mês, minha opinião a respeito dela pudesse ser diferente. Como não foi, fica aqui registrada a minha grande decepção. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnGreen #Romance #Drama #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea #Livros #ComédiaRomântica

  • Livros: Quem é Você, Alasca? - A estreia com o pé direito de John Green

    Depois da leve decepção ao ler "Cidades de Papel", admito que fiquei muito satisfeito com o que encontrei em "Quem é Você, Alasca?" (Intrínseca). Desta vez, John Green mostrou todo o seu repertório habitual e seu talento para contar uma boa história. Gostei muito desta obra. "Quem é Você, Alasca?" foi o livro de estreia de John Green. Lançada em 2005, esta obra rapidamente caiu no gosto do público e recebeu muitos elogios da crítica especializada. No ano seguinte ao lançamento, a publicação ganhou o prêmio Michael L. Printz da American Library Association (ALA) como a melhor obra infanto-juvenil do ano, catapultando a carreira de John Green e o tornando um fenômeno literário instantaneamente. Vale destacar que a premiação de um escritor novato pela ALA é algo extremamente raro. Mesmo com pouco tempo desde o seu lançamento (dez anos), para muitos críticos, "Quem é Você, Alasca?" já se tornou um clássico da categoria infanto-juvenil, marcando uma época e colocando o nome de Green na história. Assim, enquanto "A Culpa é das Estrelas" representou a afirmação do estilo literário de John Green e aumentou o sucesso dele junto aos fãs, "Quem é Você, Alasca?" significou a inserção do nome do norte-americano entre os grandes escritores contemporâneos, projetando os holofotes do mercado para o autor e atraindo as análises dos críticos para suas obras. A história deste livro é sobre a vida do adolescente Miles Halter. Logo no início da obra, Miles decide abandonar a vida sem graça e pacata levada na Flórida. O adolescente não aguenta mais morar com os pais nem aguenta frequentar sua escola, onde não tem nenhum amigo. Seu plano é se mudar para um colégio interno no Alabama, chamado Culver Creek. Trata-se da mesma escola frequentada pelo pai e por boa parte da sua família no passado. Lá o rapaz pretende buscar o "Grande Talvez", conforme as últimas palavras proferidas pelo escritor François Rabelais e registradas em sua biografia. Miles é obcecado por ler biografias de grandes personalidades históricas e memoriza as últimas palavras ditas por essas pessoas. O "Grande Talvez" é a esperança do jovem em poder viver intensamente e descobrir coisas novas em sua nova vida longe dos pais e a sua cidade natal. Conforme o idealizado, assim que Miles Halter chega a seu novo colégio, ele faz amigos e ganha um apelido destes: Bujão. Os amigos de Bujão são Chip Martin, mais conhecido como Coronel, Alasca Young e Takumi Hikohito. O trio ensina o novato a beber, a fumar, a se relacionar com as garotas e a se virar no novo ambiente. Além disso, o grupo é especialista em se meter em confusões. Eles adoram pregar trotes nos professores, no diretor da instituição (Sr. Starnes, chamado pelos alunos de Águia) e nos alunos considerados inimigos (estudantes ricos que não dormem no colégio interno durante os finais de semana). Coronel, Alasca e Takumi são o que podemos chamar dos piores alunos da escola. Depois de se habituar à nova escola e se entrosar com esses amigos "barra pesada", Bujão se vê apaixonado por Alasca. O amor platônico do rapaz é em parte correspondido pela garota. Ela parece gostar dele, mas ao mesmo tempo ratifica o tempo inteiro que é fiel e que ama o namorado, não querendo nada com Miles. Além disso, Alasca tem o gênio forte e sofre de algo parecido com a bipolaridade. Às vezes ela está bem-humorada e de repente ela fica mal-humorada sem um motivo aparente. Às vezes ela está conversando e interagindo com os amigos e, em alguns instantes depois, ela se torna arisca e introspectiva. Quando finalmente consegue beijar Alasca, em uma noite em seu quarto, Bujão se vê surpreendido na manhã seguinte com uma notícia que mudaria sua vida para sempre (se você ainda não leu o livro e deseja lê-lo, pare a leitura deste parágrafo neste ponto, e a retome no parágrafo seguinte - não quero estragar a leitura de ninguém). O evento na ótica dos alunos da Culver Creek e principalmente do trio de amigos Bujão-Coronel-Takumi é comparado em magnitude ao 11 de Setembro, às Grandes Guerras Mundiais e à chegada do Homem à Lua. Trata-se da morte de Alasca em um acidente de carro naquela madrugada. Totalmente embriagada, a jovem saiu misteriosamente do quarto de Bujão e pegou a estrada. E o carro dela se checou com a viatura policial parada no meio do trajeto (havia ocorrido um acidente na via). Alasca morreu instantaneamente, provocando grande comoção nos dias seguintes em sua escola. Assim, Miles juntamente como Coronel e Takumi passam a investigar os motivos que levaram a amiga falecida a dirigir sem condições naquela madrugada. "Quem é Você, Alasca?" é um livro excelente. Ele consegue retratar os dramas, as incongruências, os desejos e os medos dos adolescentes como poucos. Muita gente compara esta obra ao "O Apanhador no Campo de Centeio" (Editora do Autor) de J. D. Salinger. A força dessa história está no processo de amadurecimento do personagem principal. Existem dois Miles: um antes de chegada ao colégio interno e outro depois. Inclusive ele ganha um novo nome (apelido) quando chega à escola do Alabama, como se fosse novamente batizado (como se nascesse de novo). O livro também sobre uma grande transformação. Há duas histórias praticamente distintas, uma antes do acontecimento decisivo que mudará a vida de todos os personagens (bem no meio do livro) e outra depois. Neste último ponto, devemos resaltar a habilidade de John Green. A segunda metade do livro estava fadada a se tornar chata e arrastada por causa dos acontecimentos precedentes, porém o escritor consegue fazer a trama ficar aquecida e interessante. É de tirar o chapéu. Gostei também das polêmicas lançadas por Green durante a narrativa. Há cenas de sexo de adolescentes e várias passagens nas quais os jovens bebem e fumam excessivamente. Ou seja, nada que não aconteça na realidade, mas que suscitam às vezes críticas dos mais conversadores. Além disso, a riqueza dos personagens principais é grande. Miles e seus amigos são difíceis de serem definidos. Eles possuem muitas qualidades e vários defeitos. Fazem muitas coisas certas e também fazem muitas coisas erradas. Às vezes são os heróis da história. Às vezes, são os vilões. O único ponto negativo é compreender que a fórmula criada por John Green fica um pouco manjada quando você já leu algumas de suas obras. Basicamente o enredo gira em torno de um adolescente (quase sempre do sexo masculino) que conta sua história em primeira pessoa. Ele está envolvido com um grande amor (platônico). E precisa viajar e/ou sair de casa para fazer as "descobertas" típicas da passagem para a vida adulta. Para isso, ele se apoia nos amigos, que também estão vivendo um processo de amadurecimento parecido. O livro prende você de certa forma, que eu o devorei em três noites. Acabei lendo a versão comemorativa dos dez anos. Recomendo esta versão, pois além da narrativa, ela vem com os detalhes de como John Green escreveu a história e como ela foi editada depois. Há inclusive cenas cortadas e reescritas pelo autor que não chegaram à edição definitiva. Tem também uma ótima entrevista com o escritor, no qual ele explica detalhes sobre o livro e sobre os personagens. Nesta parte, é possível descobrir que o livro é semibiográfico. Assim como Miles Halter, John Green também viveu em um colégio interno no Alabama. E nesta escola real aconteceram muitos dos fatos narrados pelo escritor. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnGreen #Romance #Drama #Livros #LiteraturaContemporânea #LiteraturaNorteAmericana

  • Livros: Cidades de Papel - A caçada ao primeiro amor por John Green

    "Cidades de Papel" (Intrínseca) foi o terceiro livro "independente" publicado por John Green. O escritor norte-americano já havia lançado "Quem é Você, Alasca?" (Intrínseca) e "O Teorema Katherine" (Intrínseca) em 2005 e 2006, respectivamente, quando "Cidades de Papel" chegou às livrarias em 2008. Neste mesmo ano, Green lançou outro livro, "Deixe a Neve Cair" (Rocco), em parceria com Maureen Johnson e Lauren Myracle. A história de "Cidades de Papel" foi adaptada para o cinema neste ano de 2015. É, portanto, a segunda obra de John Green a migrar dos livros para as telonas. "Culpa das Estrelas" foi a primeira no ano passado. Em 2016, há a previsão que "Quem é Você, Alasca" e "Deixe a Neve Cair" repitam esse feito. "Cidades de Papel" conta a história do adolescente Quentin Jacobsen. Ele nutre uma paixão platônica pela vizinha chamada Margo Roth Spielgelman, a garota mais popular da escola frequentada por ambos. O problema é que Margo não dá bola para o rapaz. Parece que ela nem sabe da existência de Quentin, apesar de ambos terem sido amigos em uma remota infância, por causa da amizade dos pais. Q, como Quentin é chamado pelos amigos, é um rapaz tímido, nada popular e um tanto sonhador. Algumas semanas antes da formatura da escola, em uma noite de meio de semana, Margo invade surpreendentemente o quarto de Quentin, escalando a janela, e pede ajuda para o rapaz. Ela quer se vingar do namorado que a traiu com a melhor amiga. Também deseja se vingar de algumas amigas interesseiras e de alguns amigos falsos. Para isso, Margo vai precisar de um parceiro para esta empreitada. Q aceita o pedido e se lança em uma aventura durante a noite e a madrugada com o amor de sua vida. Depois de deixarem peixes como presentes para alguns amigos de Margo, fotografarem o ex-namorado da moça pelado, visitarem clandestinamente o Sea World e o SunTrust e depilarem as sobrancelhas de um dos desafetos de Quentin, eles voltam para suas respectivas casas com a missão cumprida. Para Q, aquela foi a melhor noite de sua vida. Para Margo, foi uma noite corriqueira. Sonhando com a oportunidade de estreitar o relacionamento com Margo de uma vez por todas, Quentin imagina que na manhã seguinte eles vão se tornar grandes amigos. Quem sabe inseparáveis. Com um pouco de sorte, ele pode se tornar o novo namorado da moça. Este é o pensamento dele... O problema é que Margo desaparece no dia seguinte. Ela abandona a casa dos pais e some. A polícia é chamada e começa a procura pelo paradeiro da moça. Não querendo esperar os trabalhos das autoridades, Quentin reúne seus amigos e passa a procurar Margo de maneira independente. Ela, para isso, deixou algumas pistas espalhadas para que ele a localizasse. Começa, então, a brincadeira de solucionar o quebra-cabeça deixado pela moça. O livro tem um ritmo tranquilo. Ele não é parado, mas também não chega a empolgar. A brincadeira de tentar descobrir os significados das pitas deixadas por Margo no começo é interessante, porém depois chega a cansar. É uma brincadeira meio infantil, que pode agradar algumas pessoas. A mim, se tornou meio entediante a partir de determinado ponto. A história não tem a profundidade e as reflexões de "A Culpa é das Estrelas". Em seu lugar, a narrativa é recheada com cenas de aventura e de romance juvenil. Considerei o livro lido anteriormente muito melhor. Entretanto, deve-se considerar que não sou mais adolescente (há muito tempo, por sinal), e por isso não faço parte do púbico alvo no qual esta obra é dirigida. Os jovens devem gostar dos mistérios da trama, da aventura de se procurar uma pessoa, da viagem protagonizada por Q e seus amigos atrás de Margo, as festas e os romances. Para mim, tudo pareceu um pouco bobo. O final da história foi o ponto que mais gostei da trama. John Green conseguiu me surpreender. Esperava por um tipo de encerramento e ele conseguiu inverter um pouco a lógica, descartando o final hollywoodiano. Há, é verdade, algumas reflexões pretensiosamente filosóficas durante toda a narrativa e, principalmente, no final. Contudo, as considerei muito fracas, se comparadas as tidas em "A Culpa é das Estrelas". Por isso a sensação, ao virar a última página de "Cidades de Papel", foi a de ter tido uma ligeira decepção. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnGreen #Suspense #Livros #Romance #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea

  • Livros: A Culpa é das Estrelas - O maior sucesso de John Green

    Começarei a análise das obras de John Green pelo seu livro de maior sucesso: "A Culpa é das Estrelas" (Intrínseca). Diferente das demais publicações deste autor que irei ler pela primeira vez, esta eu li em maio de 2014. Aproveitei uma das viagens de ônibus feitas à São Paulo (na época morava em Minas Gerais) para conhecer a principal obra do mais badalado escritor norte-americano da atualidade. Best-seller tanto nacional quanto internacionalmente, "A Culpa é das Estrelas" é o sexto (e último) romance de John Green. Este livro foi publicado em janeiro de 2012 e rapidamente chegou ao topo das vendas das livrarias. O sucesso da publicação chamou a atenção dos estúdios de Hollywood que compraram os direitos da história e a transformaram em filme. Com direção de Josh Boone e atuação de Shailene Woodley e Ansel Elgort, o longa-metragem chegou às telas de cinema do mundo todo na metade do ano passado com grande êxito. "A Culpa é das Estrelas" aborda a vida de Hazel Grace, uma jovem de dezessete anos que sofre de um tipo raro de câncer de pulmão. A doença a obriga a andar o tempo inteiro com um cilindro de oxigênio a tira colo, limitando os seus movimentos. Por causa de suas limitações, a menina deixou de frequentar a escola e passa a maior parte do tempo em seu quarto assistindo à televisão ou lendo livros. A mãe da garota, temendo que a filha estivesse com princípio de depressão, a incentiva a frequentar um grupo de apoio aos adolescentes com doenças terminais. Nesses encontros, Hazer faz amizade com Isaac, um rapaz que perdeu um dos olhos e está preste a perder o outro, e se apaixona por Augustus Waters, um garoto que teve câncer nos ossos e por isso perdeu uma das pernas. O trio passa a compartilhar os medos, as inseguranças, os prazeres e as descobertas da adolescência enquanto enfrentam os desafios das suas doenças. Isaac sofre com o abandono da namorava, Augustus tem medo ser esquecido e Hazer teme machucar aqueles que a amam quando ela morrer (ela se considera uma granada pronta para explodir). A trama ganha em emoção quando o casal de namorados Hazer e Augustus decide viajar para a Holanda em busca do escritor favorito da moça. Peter Van Houten é o autor de “Uma Aflição Imperial”, a obra de cabeceira de Hazer. Na história do livro, uma menina chamada Anna, que sofre de leucemia, tem sua narrativa interrompida no meio de uma frase. A publicação, assim, não tem um final. Isto deixa Hazer angustiada. Por isso, ela procura Peter Van Houten. Ela quer saber o que aconteceu com a personagem do seu livro favorito. Enquanto tenta descobrir o final da história de Anna, o jovem casal aproveita para estreitar seu relacionamento durante a viagem e para se divertir com coisas simples da vida, que às vezes são impedidos de usufruir em suas casas por causa das suas doenças. "A Culpa é das Estrelas" é um livro sobre adolescentes feito para adolescentes. Ele é bonito, tocante e muito sensível. Mesmo recheado de personagens com doenças terminais e com limitações físicas, a obra consegue passar longe da depressão e do clima fúnebre. John Green consegue falar de assuntos tristes com leveza, bom-humor e sutileza, espantando a tristeza para longe de sua história. É verdade que há momentos mais tristes, porém na maior parte do tempo o clima é descontraído. Ou seja, não há apelação para o melodrama e para o sensacionalismo. Os medos, as angústias, os preconceitos e os sofrimentos são encarados com coragem pelos personagens. Outro elemento interessante dessa obra é como o autor discute alguns pontos da vida dos seus personagens com inteligência e perspicácia. John Green não subestima o intelecto dos seus jovens leitores (esse talvez seja o principal motivo dele ser adorado pelos fãs). Pelo contrário. Ele parece considerá-los capazes de compreender suas divagações filosóficas sobre a vida humana e suas reflexões sobre a morte, não aliviando nas suas considerações existenciais. Com isso, o livro ganha em conteúdo e adquire um verniz filosófico. Uma característica importante de John Green é conseguir retratar o dia a dia e as angústias dos adolescentes como se ele fosse um deles. Ao ler o livro, parece que o escritor é um jovem de dezesseis ou dezessete anos, tamanha é a naturalidade com a qual aborda este universo. Outros aspectos que gostei dessa obra: ela apresenta algumas mudanças de enredo, surpreendendo o leitor; há bons diálogos; e há muitas citações de elementos da cultura pop. "A Culpa é das Estrelas" é um belo livro. Ele nos faz refletir sobre a finitude da vida e sobre o que queremos para nosso futuro. Admito que, diferente de muita gente, não consegui chorar em nenhuma de suas partes, apesar de haver algumas passagens bem tristes. Mesmo não sendo uma obra esplendida com capacidade para entrar para os clássicos da literatura mundial, "A Culpa é das Estrelas" cumpre seu papel de emocionar e provocar a reflexão na mente dos leitores. Por isso, gostei de lê-lo e o recomendo. Como ponto de partida para a análise das obras de John Green, considerado que saí de um bom estágio. Dentro da categoria infanto-juvenil, com certeza, é uma das melhores obras lançadas nos últimos anos. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnGreen #Drama #Romance #Livros #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea

  • Desafio Literário de julho/2015: John Green

    O mês de julho no Desafio Literário será dedicado a John Green, um dos mais importantes escritores norte-americanos da atualidade. Apesar de jovem, tem apenas 37 anos, ele já conseguiu angariar um público fiel, principalmente entre os adolescentes, e o respeito da crítica especializada. Best-seller internacional, John Green se destaca pela atenção que dá aos seus leitores. Recentemente, o escritor veio à Bienal do Livro de São Paulo e participou da pré-estreia de uma de suas obras no Rio de Janeiro. Nesses dois eventos, foi extremamente atencioso com os fãs e com os jornalistas. Desde 2007, John Green mantém, junto com o irmão, um canal no Youtube chamado "Vlogbrothers" no qual interage com os internautas postando vídeos sobre os mais variados assuntos. “(O canal) Não é sobre nada em especial. Falamos da nossa vida, fazemos os outros rirem... As pessoas parecem gostar e se divertir com isso”, disse Green sobre o videoblog. A página é uma das mais populares da Internet mundial. O escritor é tão querido pelos seus fãs que há poucos dias ganhou uma data em sua homenagem em sua cidade natal, Indianápolis. O dia 14 de julho é oficialmente o Dia de John Green (John Green Day, no original). A crítica não se cansa de elogiá-lo e premiá-lo. John Green ganhou o Printz Medal, o Pintz Honor da American Library Association e o Edgar Awards, além de ter sido finalista duas vezes no prêmio do LA Times. Suas obras frequentam constantemente a lista dos mais vendidos do The New York Times. O grande sucesso de Green é o livro "A Culpa é das Estrelas" (Intrínseca), transformado em filme no ano passado. Além dessa obra, a editora Intrínseca lançou, no Brasil, mais três títulos do autor: "Cidades de Papel", história que neste ano ganhou as telas do mundo todo, "Quem é Você, Alasca?", obra de estreia do autor, publicada em 2005, e "O Teorema Katherine", o segundo livro da carreira do escritor, lançado já no ano seguinte à sua estreia. Todas estas obras estão presentes na lista dos mais vendidos do mercado editorial brasileiro. Além desses títulos, John Green lançou outros dois livros em parceria com colegas escritores: "Deixe a Neve Cair" (Rocco) com Maureen Johnson e Lauren Myracle e "Will & Will" (Record) com David Levithan. Destas publicações, eu li apenas a primeira ("A Culpa é das Estrelas") no meio do ano passado. Ou seja, precisarei ler as outras três ("Cidades de Papel", "Quem é Você, Alasca?" e "O Teorema Katherine") ao longo deste mês para ter uma visão completa desse conceituado escritor. Focarei minha análise exclusivamente nas publicações exclusivas do autor, descartando no momento as parcerias literárias com outros escritores. John nasceu em Indianápolis, Indiana, nos Estados Unidos, em agosto de 1977. A família do escritor se mudou quando ele ainda era bebê para a Flórida, onde passou a infância e adolescência. Formado em 2000, em Língua Inglesa e Estudos Religiosos, Green trabalhou alguns anos em Chicago em um jornal local como assistente de produção e editor e em Nova York como crítico literário para uma revista, antes de voltar para sua cidade natal. Atualmente, ele mora em Indianápolis com a esposa e seus dois filhos. Conhecido como porta-voz do público adolescente, John Green e suas obras são aclamados pelos jovens. O autor norte-americano escreve histórias sensíveis, profundas e engraçadas tendo essencialmente personagens recém-saídos da puberdade. Suas histórias giram em torno do universo adolescente: o primeiro amor, o desejo de sair de casa e explorar o mundo, o receio da morte precoce, a incompreensão da sociedade, os conflitos de relacionamento e o universo escolar. O grande mérito de John está em abordar esses temas com grande naturalidade, como se ele tivesse a idade das suas personagens e pensasse como elas. Outras características fortes das obras de Green são a rica e dinâmica narrativa, a composição de personagens complexas e envolventes e o humor que embala todos os momentos da trama. Ao longo desse mês, no Desafio Literário de julho, iremos conhecer mais sobre John Green e suas obras. Fique ligado no Blog Bonas Histórias e não perca as análises deste grande escritor. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnGreen

  • Talk Show Literário: Castelo

    O segundo entrevistado de 2021 é o narrador-protagonista de O Homem que Sabia Javanês, conto de Lima Barreto publicado em 1911. Darico Nobar: Boa noite, Brasil! Plateia: Boooooa noooooite! Darico Nobar: No programa de hoje, vou conversar com uma das mais importantes figuras da história da diplomacia nacional. Ele já foi adido, cônsul, embaixador, ministro das Relações Exteriores e Senador da República, além de professor das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia. Atualmente, nosso convidado é acadêmico, tradutor, escritor e influenciador digital. É com muita alegria que anuncio, no palco do Talk Show Literário, um dos indivíduos mais versáteis e cultos do nosso país. Vem para cá, Castelo!!! [O público no auditório aplaude a entrada de um senhor mestiço. Ele tem os cabelos corridos, duros e grossos na cor branca e veste terno e gravata de fina estirpe]. Seja bem-vindo, meu amigo. [Entrevistador e entrevistado cumprimentam-se antes de se acomodarem nos sofás no centro do palco]. Castelo: Como estás, Darico? É um prazer imenso estar em seu programa de TV. Sempre que não estou lendo, escrevendo, estudando ou trabalhando, eu aproveito para assistir ao Talk Show Literário. Parabéns pelo seu trabalho de promoção à literatura brasileira clássica. Sou muito fã de vocês. Darico Nobar: Obrigado pelas suas palavras, Castelo. Fico feliz de saber que temos um telespectador tão renomado nos acompanhando. Para começarmos esse bate-papo, diga-me: tens levado uma vida bem agitada, certo? Castelo: Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece-me. Ainda bem que não tem me faltado trabalhos lá no consulado, lá na universidade. Por sinal, não fico parado um dia sequer. É um tal de viajar para Brasília, Macau, São Paulo, Londres, Kuala Lumpur, Paris, Jacarta, Nova York, Timor Leste. Quando passo uma semana inteira no Rio, levanto as mãos para o céu e agradeço. Darico Nobar: E como você ingressou no Itamaraty? Foi por causa do seu conhecimento de javanês, né? Castelo: Quando eu era novinho, li um anúncio no Jornal do Commercio que dizia: “Precisa-se de um professor de língua javanesa”. Como conheço esse idioma desde pequeno, apresentei-me na Rua Conde de Bonfim. Lá falei com o doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, o Barão de Jacuecanga, e me tornei seu professor particular de javanês. Darico Nobar: E a partir daí sua ascensão na diplomacia foi meteórica. Castelo: Antes de ingressar na diplomacia, traduzi um livro com histórias do nosso Príncipe Kulanga, um clássico da literatura malaia, isto é, da literatura javanesa. Darico Nobar: Príncipe Kulanga? Castelo: Foi um escritor de muito mérito e um soberano de rara cultura, bondade e honestidade. Para os brasileiros entenderem, costumo dizer que Príncipe Kulanga foi uma espécie de José Sarney para o povo javanês. Darico Nobar: Comparação mais inusitada! [Faz uma careta involuntária]. E onde se fala javanês, Castelo? Castelo: É uma língua lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é? Darico Nobar: Mais ou menos. Nunca fui para aqueles lados. E como você aprendeu esse idioma? Castelo: Meu pai era javanês da gema. Tripulante de um navio mercante, ele veio ter na Bahia, estabeleceu-se nas proximidades de Canaviera como pescador, casou-se, prosperou e foi com ele que aprendi javanês. Pouca gente sabe, mas sou natural de Canaviera, na Bahia. Não nasci na Ilha de Java, não. Darico Nobar: Nota-se pela sua constituição física os traços típicos dos povos do sudeste asiático. Castelo: Tu sabes bem que, entre nós javaneses, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro. Soube que Gilberto Freyre disse que se não fosse brasileiro, ele queria ter nascido em Java. Darico Nobar: Deve ser muito difícil falar essa língua, né? Castelo: Não quando se aprende de pequeno, como foi o meu caso. Uma vez adulto, admito que é mais difícil. Os linguistas dizem que esse é um dos idiomas mais complexos. Por isso, desisti de ensiná-lo. O brasileiro é um povo pouco diligente. Não consegue aprender a distinguir e a escrever bem sequer quatro letras. É um tal de aprende e desaprende. Às vezes acho que é parvoíce mesmo. Para não passar nervoso, há anos não leciono javanês; ao menos para os brasileiros eu não ensino mais! Darico Nobar: E como você saiu de professor de javanês e chegou aos principais postos da diplomacia brasileira? Estou muito curioso para conhecer sua trajetória profissional. Castelo: A filha e o genro do Barão de Jacuecanga vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo. Mas para meu assombro, meu caro Darico, o genro do barão ficou admirado com minha habilidade poliglota. Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!”. Ele era desembargador, homem bem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo mundo a sua admiração pelo meu javanês. Naquela época, não era comum os jovens brasileiros falarem uma língua estrangeira, muito menos um idioma de origem asiática. Darico Nobar: Entendo... Castelo: Não sei se foi o genro ou o próprio barão que enviou uma carta ao Visconde de Caruru para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo – “Qual! Retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!”. Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso! Por onde passava, os chefes de seção, os oficiais, os diretores, as altas autoridades diplomáticas, os cônsules, os embaixadores, os políticos comentavam: “Vejam só, um homem que sabe javanês – que portento!”. Darico Nobar: Castelo, você nunca foi alvo da inveja de seus colegas brasileiros por seus conhecimentos? Castelo: Um ou outro me olhava mais com ódio do que com inveja ou admiração. Eu percebia quando o sujeito se aproximava e comentava: “Falas javanês, né? Mas eu sei canaque. O senhor sabe?”. Na diplomacia tem de tudo: quem fale canaque, turmelano, kiputense, indquisto, melonênse... Eles queriam que eu soubesse de seus conhecimentos idiomáticos. Darico Nobar: Mas nada se compara ao javanês! Castelo: Ah! [Solta uma risada com satisfação e orgulho]. Eu costumo dizer para os calouros do Instituto Rio Branco que, nos dias de globalização intensa, eles precisam dominar o inglês, o espanhol, o mandarim, o javanês e o francês. Com esses cinco idiomas [mostra a mão ostentando os cinco dedos esticados], eles conseguem trabalhar tranquilamente em qualquer parte do mundo. Darico Nobar: E como o senhor se tornou um dos principais linguistas brasileiros, com obras traduzidas para vários idiomas? Castelo: Uma coisa puxou a outra. Como eu participava de congressos nos quatro cantos do planeta divulgando a cultura brasileira e javanesa, fui me aproximando da Linguística. Estudei Abel Hovelacque, Ferdinand de Saussure, Max Müller, Noam Chomsky, Roman Jakobson, entre outros. Darico Nobar: Quando você começou a trabalhar com a Linguística, você já era famoso no Brasil? Castelo: Minha fama só crescia por aqui. Na rua os informados apontavam aos outros: “Lá vai o sujeito que sabe javanês”. Nas livrarias, nos corredores das universidades, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Antes de eu virar Ministro das Relações Exteriores, o Presidente da República me convidou para acompanhá-lo a uma viagem de negócios pela Europa. Mas quando eu lancei um livro sobre as influências das línguas malaio-polinésicas nas gírias modernas dos jovens sul-coreanos, aí meu nome se tornou conhecido internacionalmente. Darico Nobar: Isso aconteceu quando a cultura K-Pop se tornou uma febre mundial, não foi? Castelo: Foi o meu estudo que propiciou a explosão músico-cultural do Leste Asiático. Darico Nobar: Interessante... Não tinha parado para analisar as coisas por essa perspectiva. [Fica alguns segundos refletindo com a mão no queixo. Pela sua fisionomia, não sabemos se está acreditando ou não nas palavras do entrevistado]. Castelo, olhando para sua carreira diplomática e acadêmica, o que te deixa mais orgulhoso? Castelo: Sem dúvida foi ter participado do programa do Sílvio Santos. Darico Nobar: Qual programa?! Castelo: O Maior Brasileiro de Todos os Tempos. Darico Nobar: Você foi mencionado? Castelo: Sim. Meu nome chegou à final. A decisão ficou entre mim, Chico Xavier, Santos Dumont e Princesa Isabel. Darico Nobar: Sério!? O pessoal da produção não me reportou isso. [Procura tal informação em suas fichas. Ao não encontrar nada a respeito, desiste de olhar os papéis sob a mesa e volta-se novamente para o convidado]. Para ser sincero, não me recordo deste programa de televisão. Mas me diga, Castelo, quem venceu O Maior Brasileiro de Todos os Tempos? Castelo: Ora, caro Darico, foi este que vos fala. Recebi 71,4% dos votos do público. Chico Xavier ficou em segundo, Santos Dumont em terceiro e Princesa Isabel em quarto. Pelo que soube, nenhum deles falava javanês. Darico Nobar: Foi uma escolha justa. [As palavras vêm acompanhadas de uma risadinha]. Castelo: Assim que se fala, meu amigo. Darico Nobar: Com essa informação surpreendente, eu encerro o Talk Show Literário de hoje. Castelo, obrigado por nos conceder essa entrevista. [O convidado assente com uma leve mexida de cabeça]. Pessoal de casa e no auditório, agradeço o carinho de vocês. Até semana que vem. Boa noite! [O entrevistado deixa o palco em direção aos camarins do teatro. O público, tendo a companhia do apresentador, aplaude de pé a caminhada final do convidado]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Romances: Primeira Página - Um Homem Fiel

    Utilizando-se do recurso da comparação, Ricardo Bonacorci apresenta o texto de estreia da nova série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Ele acreditava que o homem era a maior criação de Deus. Ela tinha a certeza de que deus era a maior brincadeira do Homem. Se os relacionamentos amorosos fossem baseados nas leis da natureza, aquela união não teria acontecido e, muito menos, se transformado em um matrimônio longo e frutífero. Já diziam os cientistas que água e óleo não se misturam. E os biólogos alertam para os perigos da procriação entre espécies tão distintas. Para Ângelo, sorriso fácil, mulato alto, evangélico doente, amigo de muitos, malufista cego, monoglota, corintiano não praticante, de origem humilde, fanático por coxinhas de padaria, professor de português do ensino médio e marido fiel, seu casamento com Luciana Tomé era mais uma das obras do Pai misericordioso. Aleluia! Ele, lá em cima de tudo e de todos, sabe o que faz. Para Lucy, cara amarrada, caucasiana corpulenta, ateia convicta, de pouca conversa, petista radical, poliglota, são-paulina fanática, de família abastada, apaixonada por cerveja trincando de gelada e jornalista política de revista mensal, o casório com Ângelo Nazário não passava dos resultados práticos da produção hormonal de seus corpos quando jovens. Inferno! Eles, ali embaixo dos lençóis, não sabiam o que estavam fazendo. Viver um casamento de duas décadas é sobreviver diariamente sem raciocinar. Liga-se o piloto automático e a aeronave decola e pousa suavemente nas pistas cotidianas do relacionamento à dois. Ou à três. Há muito que, na família Tomé-Nazário, um mais um somava três. Bastava contar as xícaras na mesa do café da manhã, única hora do dia em que a divina trindade se reunia integralmente. Faça sol ou faça chuva, uma xícara tem café puro e quente, outra café com leite morno e a terceira chocolate gelado. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “Um Homem Fiel”: comparação. A comparação é a estratégia de contar uma história relacionando-a com outras ou de associar elementos, personagens, cenários ou situações. Além de enriquecer a narrativa, a comparação oferece imagens mais polissêmicas ao texto em prosa. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Miliádios Literários: maio/2021

    Inspirado no inconfundível estilo de José Saramago, Paulo Sousa brinda os leitores do Bonas Histórias com as efemérides literárias deste mês. São dias contados em mil, milhar de dias, um a um como desde o começo do universo, uma hora faz sol, outra faz lua, independente dos dias nublados que, apesar da impossibilidade de ver os astros, seguem na lógica rotacional, São dias em mil, enfim, miliádios, que na infinitude cósmica escolhemos o mês de maio de 2021 para analisar, mas poderiam ser outros, outras estórias, outras épocas, outros autores. José Saramago, a quem a coluna Miliádios Literários tenta galhofamente e em vão copiar, falecera há apenas 4 miliádios, a serem completados em 31 de maio, O autor é o único ganhador lusófono do Nobel de Literatura, ao menos até a feição desta coluna do Bonas Histórias, e escreveu “Ensaio sobre a Cegueira”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Memorial do Convento” e inúmeras outras estórias, tão belas, profundas e misteriosas quanto os astros, todos pela Companhia das Letras, os livros, claro, não os astros, pois estes estiveram, estão e, ao que tudo indica, estarão, sob a companhia de fótons, quarks e antimatérias, essas coisas que só se encontram no Universo. O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen foi também diretor teatral, algo até esperado, dado sua proximidade com o tema, entre diretor e autor a distância é pouca, as cadeiras sempre perto das frisas, os bolsos longe das moedas, mas a voz, ah! a voz, mais alta e retumbante naquele do que neste (que prefere ecoar pelas cordas vocais dos atores). Mas para entrar nesta intrépida Coluna, a alcunha de escritor, mais a consagração histórica, mesmo que nichada, é suficiente, o que legitima a menção de seus 42 miliádios de morte no dia 19 e de seus livros “Um Inimigo do Povo” e “Casa de Bonecas”, ambos pela Companhia das Letras, mantendo as ressalvas supracitadas, exceto a parte do Universo. Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde, eternizado como Oscar Wilde, é um escritor que desde sua época de Irlanda com batatas empestiadas influencia com frases inspiradas e motivacionais, no começo sensatamente, contemporaneamente avacalhadamente, mas miliadicamente justo, tão justo que apenas “O Retrato de Dorian Gray” (Via Leitura) é condição suficiente e necessária para citar seu falecimento há 44 mil dias, a serem completados em 19 do presente mês. Italo Calvino, por ironia, ao contrário do sugerido, não nasceu na Itália, mas em Cuba, uma ilha ao invés de istmo, mas que em nada o impediu de cumprir sua sina sacramentada em cartório na morte, afinal, morreu na Itália, especificamente, em Siena, medieval feudo toscano tão antiquado quanto a ilha caribenha que fora seu berço. Italo é ítalo-cubano, ou cubano-italiano, para respeitar a ordem cronológica, e viveu sonoros 22.650 dias, até morrer em vida há 13 mil dias a serem completados dia 23, e morrer em vida não é pleonasmo para tamanho autor, um dos maiores do século XX, afinal, em livros como “Cidades Invisíveis” (Companhia das Letras), “O Visconde Partido ao Meio” (Companhia de Bolso) e “Se Um Viajante Numa Noite de Inverno” (Planeta DeAgostini), ele se eterniza. Vão-se miliádios, ficam lembranças, e a Coluna deste mês se despede, ao fim e ao cabo, sem ironias gentílicas, que permeariam esta Coluna se Lima Barreto tivesse nascido na capital do Peru ou na capital dos Rodeios, piadas tão prontas, azedas e rasteiras quanto o “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Penguin), não no esmero literário, mas na metonímia da falência brasileira, vigente até hoje, após tantos miliádios passados. Lima foi carioca e faleceu há 36 mil dias completados no dia 25. Em memória de... ... Agustina Bessa-Luís, escritora portuguesa de “A Sibila”, “Um Concerto em Tom de Conversa” e “Breviário do Brasil” (Relógio D’Água), que faria 36 miliádios no dia 8. ... José Cândido de Carvalho, cujo nascimento faz 39 miliádios no dia 15, autor de “O Coronel e o Lobisomem”, “Porque Lulu Bergantim Não Atravessou o Rubicon” e “Um Ninho de Mafagafes Cheio de Mafagafinhos”, todos pela Companhia das Letras. ... Miguel de Cervantes, autor de “Dom Quixote” (Nova Fronteira), cujo falecimento completa 173 mil dias no dia 26. ... Júlia Lopes de Almeida, carioca e autora de “A Falência”, “A Intrusa” e “A Viúva Simões” (Principis), cujo nascimento faz 47 miliádios no dia 31. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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