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  • Músicas: A Lenda dos Três Pinheiros - Os mitos de Campos do Jordão em versão musicada

    A banda Alquimistas Sonorus lançou a canção que narra a lenda mais antiga da cidade da Serra da Mantiqueira. Nos últimos anos, algumas músicas famosas foram transformadas em filmes. De cabeça, dá para citar “O Menino da Porteira”, canção imortalizada nas vozes de Sérgio Reis e Tião Carreiro, “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica”, dois hits da Legião Urbana. Essas músicas migraram para o cinema com certo êxito. Há também episódios verídicos da esfera política que ganharam versões musicadas e com uma pegada de protesto. “Micheque” dos Detonautas é provavelmente a melhor exemplificação desse processo criativo. A inusitada criação do grupo de rock carioca chegou a figurar na quinta posição entre as mais tocadas no Spotify no segundo semestre de 2020. Agora, se alguém pedir para listarmos uma canção contemporânea que foi desenvolvida a partir de uma lenda colonial fica mais difícil de apontarmos, né? Exatamente por isso, a ideia de fazermos hoje, na coluna Músicas, um post sobre a canção “A Lenda dos Três Pinheiros”. “A Lenda dos Três Pinheiros” foi gravada, no comecinho de 2021, pela banda Alquimistas Sonorus e sua letra conta a lenda mais antiga de Campos do Jordão. Como a história por trás dessa música é ótima, não podíamos deixar de comentá-la aqui no Bonas Histórias. Então aí vai a narrativa que inspirou a letra dessa canção. Cidade paulista localizada na Serra da Mantiqueira, Campos do Jordão foi fundado em 1874 e é considerado o município brasileiro de maior altitude (está a mais de 1.600 metros do nível do mar). A lenda jordanense mais antiga remonta aos tempos do Brasil Colônia, quando o povoado ainda não tinha sido criado oficialmente, mas já era habitado e visitado regularmente por fazendeiros e aventureiros ambiciosos. Em 1790, consta que o desbravador português Ignácio Caetano Vieira de Carvalho chegou à região e iniciou uma intensa disputa por terras. Como não havia autoridade pública por perto nem um sistema de posse da terra confiável, as disputas territoriais eram decididas na base do grito e da pistola. Os principais adversários do recém-chegado eram os indígenas locais e João Costa Manso, um fazendeiro poderoso que já tinha fixado residência em Campos do Jordão há alguns anos (e, por consequência, apropriado grandes extensões de território). Enquanto brigava por hectares de terra no alto da montanha que separa os estados de São Paulo e Minas Gerais, Ignácio Caetano Vieira de Carvalho tinha medo de perder a fortuna que havia amedalhado até ali. Como precaução, ele teria enterrado sua riqueza em um baú aos pés de três araucárias, a árvore símbolo da Serra da Mantiqueira. Para ninguém saber a localização exata do baú, o português matou os escravos que o ajudaram a enterrar a fortuna. Quando Vieira de Carvalho morreu em 1823, em uma disputa armada que também vitimou seu maior inimigo, João Costa Manso, sua riqueza ficou então oculta embaixo do solo. Há quem diga que muitos aventureiros foram para Campos do Jordão ao longo do século XIX para tentar desvendar o paradeiro da riqueza de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho. Há também quem diga que alguns moradores do Alto da Boa Vista, um dos bairros da cidade paulista, viam o fantasma do desbravador português nas noites de sexta-feira. Com roupas pretas e montado em um cavalo, o espírito de Vieira de Carvalho gritava os versos: “Lomba larga/três pinheiros/onde estão/meus dinheiros?”. Essa história é tão marcante em Campos que as tais três araucárias dessa lenda foram parar no brasão do município. E lá estão até hoje, o que ajudou a propagar essa narrativa dos tempos coloniais. Em 2021, a lenda do tesouro de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho foi desenterrada. Ao menos simbolicamente, né? Essa trama histórica foi musicada pela banda Alquimistas Sonorus. Natural de Campos do Jordão, o quinteto de músicos do Alquimistas Sonorus é formado pelo vocalista Mauro Alquimista, pelo baixista Jefferson Joker, pelo baterista Jorge Campos Alquimista e pelos guitarristas Marcelo Alquimista e Punk Alquimista. Pelo sobrenome em comum da maioria dos integrantes, deu para perceber que estamos falando de músicos de uma mesma família. Com o apoio da lei Aldir Blanc, os Alquimistas Sonorus gravaram “A Lenda dos Três Pinheiros” no início desse ano. A banda lançou inclusive um clipe com essa música em março. O grupo iria apresentar essa canção em alguns eventos em Campos do Jordão ao longo de 2021, mas a nova onda da pandemia do coronavírus atrapalhou os planos (ou, na melhor das hipóteses, adiou um pouco as apresentações). A musicalidade da banda Alquimistas Sonorus é diferenciada. Eles misturam vários estilos musicais em uma experiência sonora única. Confesso que não consegui até hoje defini-los a partir de uma classificação pré-determinada. Por isso, prefiro enxergá-los como um grupo experimental. Veja (e ouça!), a seguir, “A Lenda dos Três Pinheiros”: Em “A Lenda dos Três Pinheiros”, a sensação é de estarmos ouvindo uma música com aspecto colonial. As batidas fortes e os gritos roucos (quase sussurros de desespero) representam, de alguma forma, a violência e a dureza da vida que se levava no alto da montanha paulista entre os séculos XVIII e XIX. A letra, por sua vez, dialoga diretamente com o mito da fortuna de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho. O clipe foi gravado na própria Serra da Mantiqueira (o que rende imagens de tirar o fôlego da paisagem local) e brinca com as histórias do fantasma do rico desbravador português (repare no desfecho do vídeo). Nas tomadas dos músicos tocando a céu aberto é possível ver ao fundo a Pedra do Baú, um importante ponto turístico da região (e destino imperdível para quem gosta de fazer trilhas montanha acima!). Achei muito interessante a proposta da banda Alquimistas Sonorus e da música “A Lenda dos Três Pinheiros”. É muito legal ver/ouvir músicos com ideias diferentes e estilos tão inusitados. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Dança: Dia Mundial da Dança - Celebremos a data mais dançantes do ano

    Criado em 1982 pela UNESCO, o Dia Internacional da Dança homenageia a data de nascimento do bailarino Jean-Georges Noverre. Hoje é dia de festa e comemoração na coluna Dança! Em 29 de abril, celebramos o Dia Mundial da Dança. Também conhecida como o Dia Internacional da Dança, essa data foi criada em 1982 pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) por meio do Comitê Internacional da Dança (CID). A efeméride homenageia o dia do nascimento do bailarino e professor francês Jean-Georges Noverre (1727 – 1810). Noverre inovou ao trazer expressividade às apresentações dançantes. Como bailarino e coreógrafo, ele simplificou a execução dos movimentos do Ballet e fez uso dos gestos das mãos, dos braços e das feições para transmitir mais emoções às encenações. O francês é autor de um dos livros mais importantes sobre a dança, referência até hoje nos estudos da técnica e da teoria do Ballet, “As Cartas Sobre a Dança” (EDUSP). A dança é uma das artes mais antigas, como já vimos aqui no Bonas Histórias no post Breve História da Dança. Essa expressão artística é rica em formas de manifestação e de estilo. Ela consegue não apenas transmitir emoções como também revela as particularidades e a cultura de uma região. Dançar é libertar a alma. Através dos movimentos corporais, nos tornamos livres, nos conectamos a outras expressões culturais, dialogamos com diferentes povos e contamos histórias. As nações mais comprometidas com a cultura e a arte sabem valorizar a dança. Infelizmente, o Brasil ainda não dá a devida atenção a essa manifestação artística, principalmente no que se refere às ações governamentais e de política pública. Mesmo assim, é possível notar que nosso país é um lugar onde a música e a dança fazem parte do dia a dia do povo. A riqueza e a diversidade de ritmos de dança são admiráveis por aqui. Além do brasileiro dançar estilos locais, oriundo das raízes de cada cantinho da nação, ele também é aberto às influências externas, incorporando movimentos, passos e gingados estrangeiros. Com um território de dimensão continental, o Brasil apresenta vários tipos de dança. Cada região tem uma modalidade típica, que quando levada para outras partes do país adquire nuances próprios. O Forró, por exemplo, se dança de um jeito diferente dependendo do lugar praticado. No Nordeste, ele é mais rápido e com passos miudinhos do que quando dançado no Sul e no Sudeste. Como danças tipicamente brasileiras temos: - O Frevo, que foi matéria do post de fevereiro da coluna Dança – Frevo - A História e as Características da Fervorosa Arte Pernambucana -, é uma dança muito forte em Pernambuco e em vários estados nordestinos. - Carimbó é uma dança da região norte do país que tem origem em Belém do Pará. - Samba é a modalidade dançada no país todo. Mesmo tendo origem na África, ele ganhou aqui uma nova forma e incorporou mais instrumentos à sua música. - Bumba-meu-boi, também conhecida como Boi-bumbá, é considerado uma das danças principais do folclore brasileiro, sendo muito praticado nas regiões Norte e Nordeste. - Maracatu é outra dança típica do Nordeste. Ele tem sua origem no tempo do Brasil Colônia e foi influenciado pelos cultos religiosos dos escravos africanos. - Vanerão, típica dança da região Sul do país, é mais dançado no Rio Grande do Sul. - Forró, como já citamos aqui, nasceu no Nordeste e se espalhou para o país inteiro. De fora, trouxemos da Espanha o Flamenco e o Bolero. O Lindy Hop, Rock and Roll e o Fox são modalidades de dança importadas dos Estados Unidos e que caíram no nosso gosto. Afinal, as encontramos facilmente por aqui, seja quando saímos para dançar (em tempos normais sem pandemia) ou quando fazemos aula de dança. Dos nossos irmãos argentinos, compartilhamos o Tango, essa dança precisa, bela e forte. Da nossa vizinha Colômbia, trouxemos a Cumbia. As danças latinas ganharam grande repercussão em nosso país, como a Salsa, o Mambo, a Bachata e o Merengue. Não podemos nos esquecer do Ballet, essa dança tradicional que já comentamos no post Ballet Clássico – História, Curiosidades e Características. Ela é praticada no país todo e temos importantes companhias nacionais de Ballet. Também não podemos deixar de citar uma dança que é tão usada em nossas festas de formatura e de casamento, a Valsa Vienense. Curiosamente, por mais que tenhamos uma ligação histórica mais forte com Portugal, as danças tipicamente lusitanas como o Vira, a Chula e o Corridinho não fazem parte do nosso cotidiano nem mesmo são encontradas facilmente seja para assistir a uma apresentação ou para aprender a dançar. O mais legal é que a dança é uma arte que extrapola a esfera artístico-cultural. Ela é também uma atividade física. Quem a pratica não apenas está se expressando, mas também está cuidando de sua saúde física e mental. Dançar nos faz movimentar todos os nossos músculos, trabalha nossa respiração e batimentos cardíacos e nos afasta completamente do sedentarismo. Além de combater a ansiedade, a depressão e fazer com que nossa mente flutue durante alguns segundos, minutos ou até mesmo horas, sem tempo para pensarmos em problemas ou nas coisas que nos afligem. O 29 de abril é mais do que uma simples data a ser comemorada. Ele serve para que possamos valorizar essa arte tão expressiva, completa e contagiante. A celebração desse dia ajuda a difundir ainda mais a própria dança, enaltece seus profissionais e seus praticantes, mostra a sua importância para o público em geral e lembra os governantes que é preciso incentivos e políticas públicas voltadas para o seu crescimento, valorização e aperfeiçoamento. Então, para comemorar essa data tão especial junto comigo, não deixe de dançar hoje. Nem que seja só por uns minutinhos. Afaste os móveis, ache um espacinho onde você estiver e dance! Sinta-se leve e feliz. E para terminar este post do Bonas Histórias e incentivá-los ainda mais a dançar, se expressar e viver essa arte hoje e sempre, deixo uma frase do filósofo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano Friedrich Nietzsche que traduz muito bem a relevância dessa modalidade cultural: “A dança é a única arte em que o artista se torna a própria obra de arte”. E feliz Dia Mundial da Dança. Se preferir, feliz Dia Internacional da Dança! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. Para conferir os posts sobre as datas comemorativas, clique em Premiações e Celebrações. 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  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em março e abril de 2021

    Confira os 76 títulos de ficção e poesia que chegaram às livrarias brasileiras no segundo bimestre desse ano. Alô, turminha das Letras! A livraria fecha se está chovendo, mas ela abre se o sol está aparecendo. A livraria fecha quando está chovendo. A livraria abre quando o sol está aparecendo. Fechou, abriu. Fechou, abriu, fechou. Abriu, fechou. Abriu, fechou, abriu. É no ritmo de pode funcionar e não pode funcionar o comércio que o mercado editorial brasileiro vai se equilibrando neste segundo bimestre de 2021. Não à toa, a música “A Janelinha Abre e Fecha” vem a calhar. Com pequenas adaptações em sua letra, a canção do Elefantinho Bonitinho poderia muito bem ser o mote musical do mercado livreiro neste momento. A boa notícia é que, mesmo com tantas indefinições no cenário político-econômico-sanitário do país, os lançamentos de livros não param no Brasil. Em março e abril, novidades bem interessantes foram disponibilizadas para os consumidores nacionais. A ideia é apresentá-las neste post da coluna Mercado Editorial. Antes disso, deixo aqui uma pergunta retórica aos leitores do Bonas Histórias: para vocês, as livrarias prestam serviços essenciais ou não? Curiosamente, já vi um monte de gente discutindo se escola, igreja, loja de material de construção, prostíbulo, ótica, restaurante e bar são atividades fundamentais para a sociedade. Porém, não vi em nenhum lugar o debate se as livrarias seriam essenciais ou não. Tal fato só demonstra o nível de intelectualidade da nossa nação. Durmamos com mais essa em nossas consciências! Feito esse questionamento (com alguma dose de desabafo), voltemos ao assunto principal do post de hoje. É verdade que os lançamentos de livros não pararam nas últimas semanas. Contudo, as indefinições sobre as regras de funcionamento do comércio afetaram sensivelmente os tipos de títulos publicados pelas principais editoras. Na dúvida, os grandes selos deram preferência para as obras de escritores estrangeiros (leia-se, ficção de língua inglesa) e para as novas edições dos clássicos literários (tanto brasileiros quanto internacionais). Em outras palavras, a ficção nacional e, principalmente, o trabalho dos escritores brasileiros novatos foram mais uma vez renegados (na melhor das hipóteses, escanteados) pelas grandes companhias, algo que já tinha acontecido em 2020. Não por acaso, as pequenas editoras (talvez o único caminho atualmente viável para os jovens romancistas, contistas, cronistas e ensaístas nacionais) amedalharam os principais prêmios literários do país – elas souberam identificar os novos livros e os autores de mais talento. É muito satisfatório ver o sucesso de quem soube apostar em boas novidades. Os destaques da literatura internacional deste bimestre são os novos romances de Joël Dicker, Irvine Welsh, Nico Walker e Hilary Mantel. O novo trabalho do suíço Dicker, um dos principais escritores policiais europeus da atualidade, é “O Enigma do Quarto 622” (Intrínseca). Ainda na linha dos thrillers com pegada underground, temos “A Calça dos Mortos” (Rocco), de Welsh, e “Cherry: Inocência Perdida” (Darkside), de Walker. Em “A Calça dos Mortos”, o autor escocês volta a construir uma trama com sua personagem mais conhecida, Mark Renton, o protagonista do best-seller “Trainspotting” (Rocco). Já “Cherry: Inocência Perdida” é a narrativa longa que usou episódios da própria biografia do autor norte-americano. Nesse suspense dramático, assistimos a uma história de violência, intransigência e perigo causada pela obsessão bélica dos Estados Unidos. E “O Espelho e a Luz” (Todavia) é o mais recente romance histórico da talentosa Hilary Mantel. Com esse lançamento, o público brasileiro tem acesso a terceira parte da trilogia “Wolf Hall”, o principal trabalho literário da autora inglesa até aqui. Outro destaque que merece citação é a coletânea de contos “O Projeto Decamerão” (Rocco). Esse livro reúne pequenas narrativas de vários autores internacionais, como Margaret Atwood, Mia Couto, Leïla Slimani, Alejandro Zambra, Julián Fuks e Colm Tóibín, que retratam os dramas contemporâneos causados pela pandemia do novo coronavírus. A proposta dessa obra é emular a linha do clássico “Decamerão” (Nova Fronteira), a criação medieval de Giovanni Boccaccio. Olhando mais especificamente para a literatura brasileira, as principais novidades são “Mapas para Desaparecer” (Faria e Silva), livro de Nara Vidal, e “O Som do Rugido da Onça” (Companhia das Letras), obra de Micheliny Verunschk. A nova criação textual de Vidal, uma das mais talentosas escritoras nacionais da atualidade, é uma coletânea de contos sobre neuroses individuais e problemas sociais (relacionamentos corroídos e falsos, abusos psicológicos e sexuais, famílias tragicamente separadas e abusos de vários tipos). Por sua vez, o mais recente trabalho de Verunschk é um romance histórico sobre duas crianças indígenas raptadas por exploradores europeus no século XIX. Por falar na literatura de Micheliny Verunschk, a escritora pernambucana também lançou uma coletânea poética. Em “O Movimento dos Pássaros” (Martelo), Verunschk demonstra mais uma vez que trafega muito bem por gêneros distintos: pela ficção em prosa, pela poesia e pela não ficção. Por falar em poesia, a Editora Iluminuras lançou “O Acumulador”, uma coleção poética de Sérgio Medeiros, poeta sul-mato-grossense que angariou importantes prêmios nos últimos anos. Para não falarem que esqueci dos clássicos, temos novas edições para os romances “Memorial de Maria Moura” (José Olympio), de Rachel de Queiroz, e “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Antofágica), de Lima Barreto, e para o ensaio “Um Quarto Só Seu” (Bazar do Tempo), de Virginia Woolf (que em outras traduções é chamado também de “Um Quarto Todo Seu”). Os principais lançamentos do mercado editorial brasileiro nos últimos dois meses (março e abril de 2021) estão listados abaixo. Seguindo a convenção do Bonas Histórias, nossa lista concentra-se nos títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e nas coletâneas poéticas. Ao todo foram publicadas 76 obras de autores nacionais e estrangeiros neste segundo bimestre do ano. Confira: FICÇÃO BRASILEIRA: “O Som do Rugido da Onça” (Companhia das Letras) – Micheliny Verunschk – Romance – 168 páginas. “Memorial de Maria Moura” (José Olympio) – Rachel de Queiroz – Romance – 504 páginas. “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Antofágica) – Lima Barreto – Romance – 432 páginas. “Quarup” (José Olympio) – Antonio Callado – Romance – 574 páginas. “Crônica da Casa Assassinada” (Companhia das Letras) – Lúcio Cardoso – Romance – 560 páginas. “Fogo Morto” (Global) – José Lins do Rego – Romance – 392 páginas. “Escato” (7 Letras) – Rui Rocha – Romance – 328 páginas. “Garimpo de Almas” (Tordesilhas) – Stepan Nercessian – Romance – 224 páginas. “Apague a Luz Se For Chorar” (Alfaguara) – Fabiane Guimarães – Romance – 176 páginas. “As Noites Mais Escuras do Inverno” (Páginas Editora) – Bruno Marques – Romance – 160 páginas. “Mapas para Desaparecer” (Faria e Silva) – Nara Vidal – Coletânea de Contos – 136 páginas. “Parados e Peripatéticos” (7 Letras) – Pedro Dutra Pedra – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Sete Veredas de Solidão” (Patuá) – Ivan Freitas – Coletânea de Contos – 192 páginas. “O Canto do Sabiá-laranjeira” (M3) – Bruno Emanuel – Coletânea de Contos – 164 páginas. “Carolinas: A Nova Geração de Escritoras Negras Brasileiras” (Bazar do Tempo) – Julio Ludemir (org.) – Coletânea de Contos e Crônicas – 548 páginas. “Quarto do Despejo” (Ática) – Carolina Maria de Jesus – Coletânea de Crônicas – 272 páginas. “Conversas Sobre Política Para Todos os Tempos” (Companhia Editora Nacional) – Rubem Alves – Coletânea de Crônicas – 152 páginas. “Tudo que Já Nadei: Ressaca, Quebra-mar e Marolinhas” (Planeta) – Letrux – Coletânea de Crônicas e Poesias – 160 páginas. “Procura-se o Curupira” (Brinque-Book) – Alexandre de Castro Gomes – Literatura Infantojuvenil – 104 páginas. “Menino Baleia” (Mil Caramiolas) – Lulu Lima & Natália Gregorini – Literatura Infantojuvenil – 72 páginas. “Ô Abre Alas” (Saíra) – Duda Oliva – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “O Inimigo Invisível (Volta e Meia) – Mara Luquet & Eliana Cardoso – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Olha Aqui o Haiti” (Estrela Cultural) – Carla Caruso & Marcia Camargos – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Corvo-correio” (Mazza Edições) – Isabel Cintra – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Troca-tintas” (Boitatá) – Gonçalo Viana – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Lengalenga” (Amelì) – Luci Sacoleira – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “O Elefante” (Companhia das Letrinhas) – Carlos Drummond de Andrade – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Só Rindo Mesmo” (Tordesilhas) – Lauro Henriques Júnior, Natalie Catlett e Ionit Zilberman – Literatura Infantojuvenil – 24 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “O Enigma do Quarto 622” (Intrínseca) – Joël Dicker (Suíça) – Romance – 528 páginas. “Cherry: Inocência Perdida” (Darkside) – Nico Walker (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “O Espelho e a Luz” (Todavia) – Hilary Mantel (Inglaterra) – Romance – 768 páginas. “A Calça dos Mortos” (Rocco) – Irvine Welsh (Escócia) – Romance – 432 páginas. “Os Cristais do Sal” (Moinhos) – Cristina Bendek (Colômbia) – Romance – 196 páginas. “A Idiota” (Companhia das Letras) – Elif Batuman (Estados Unidos) – Romance – 488 páginas. “Upstate” (Sesi-SP Editora) – James Wood (Inglaterra) – Romance – 248 páginas. “Mérito” (Todavia) – Rachel Cusk (Canadá) – Romance – 192 páginas. “Niketche: Uma História de Poligamia” (Companhia de Bolso) – Paulina Chiziane (Moçambique) – Romance – 296 páginas. “Sidarta” (Record) – Hermann Hesse (Alemanha) – Romance – 168 páginas. “Morte na Água” (Companhia das Letras) – Kenzaburo Oe (Japão) – Romance – 456 páginas. “Ponte Sobre O Drina” (Grua) – Ivo Andric (Bósnia e Herzegovina) – Romance – 448 páginas. “Eugénie Grandet” (Editora Unesp) – Honoré de Balzac (França) – Romance – 208 páginas. “A Saga de Gösta Berling” (Carambaia) – Selma Lagerlöf (Suécia) – Romance – 416 páginas. “Sobre a Terra Somos Belos Por Um Instante” (Rocco) – Ocean Vuong (Vietnã) – Romance – 224 páginas. “Tungstênio” (Iluminuras) – César Vallejo (Peru) – Romance – 168 páginas. “O Jardim dos Finzi-Contini” (Todavia) – Giorgio Bassani (Itália) – Romance – 280 páginas. “Recordações da Minha Inexistência: Memórias” (Companhia das Letras) – Rebecca Solnit (Estados Unidos) – Romance – 264 páginas. “O Dinheiro” (Boitempo) – Emile Zola (França) – Romance – 412 páginas. “O Rei Lear da Estepe” (Editora 34) – Ivan Turguêniev (Rússia) – Romance – 136 páginas. “As Ondas” (Autêntica) – Virginia Woolf (Inglaterra) – Romance – 200 páginas. “O Livro do Chá” (Estação Liberdade) – Kakuzo Okakura (Japão) – Romance – 144 páginas. “A Ilha Misteriosa” (Martin Claret) – Julio Verne (França) – Romance – 888 páginas. “A Visão das Plantas” (Todavia) – Djaimilia Pereira de Almeida (Angola) – Novela – 88 páginas. “Beirute Noir” (Tabla) – Iman Humaydan (org.) (Líbia) – Coletânea de Contos – 352 páginas. “O Projeto Decamerão” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá), Mia Couto (Moçambique), Leïla Slimani (França/Marrocos), Alejandro Zambra (Chile), Julián Fuks (Brasil), Colm Tóibín (Irlanda) e outros – Coletânea de Contos – 336 páginas. “O Sussurro das Estrelas” (Carambaia) – Naguib Mahfuz (Egito) – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Um Quarto Só Seu” (Bazar do Tempo) – Virginia Woolf (Inglaterra) – Ensaio – 240 páginas. “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letrinhas) – Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria) – Literatura Infantojuvenil – 88 páginas. “A Lua Rodou” (FTD) – W. B. Yeats (Irlanda) – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “Fábulas” (FTD) – Natalie Portman (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “Noite Vira Dia” (Companhia das Letrinhas) – Richard McGuire (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Bichos Malvados” (Editora 34) – Roald Dahl (País de Gales) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Juca Mil-perguntas” (Carochinha) – Antonis Papatheodoulou (Grécia) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “O Acumulador” (Iluminuras) – Sérgio Medeiros – 308 páginas. “26 Poetas Hoje [1976]” (Companhia das Letras) – Heloisa Buarque de Hollanda (Org.) –264 páginas. “Feitio” (Imprimatur) – Fernanda Oliveira – 256 páginas. “Eu Mesmo Sofro, Eu Mesmo Me Dou Colo” (Outro Planeta) – Pedro Salomão – 176 páginas. “A Mulher Submersa” (Urutau) – Mar Becker – 128 páginas. “Desaboios” (Penalux) – Pedro Américo de Farias – 128 páginas. “Alguns Dias Violentos” (Macondo) – Ismar Tirelli Neto – 104 páginas. “O Movimento dos Pássaros” (Martelo) – Micheliny Verunschk – 96 páginas. “Essa Casa Feita de Palavras” (Voamundo) – Sara de Melo – 92 páginas. “Vende-se um Elefante Triste” (Produções do Ó) – João Gabriel – 84 páginas. “Dentes Brancos, Mandíbula Presa” (Urutau) – João Victtor Gomes Varjão – 64 páginas. “Coisas que Você Mesmo Poderia Ter Dito” (Edição do Autor) – Diego Gregório – 56 páginas. “Poemas Cheios de Vazios” (Edição do Autor) – Christian Koenig – 40 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Poemas e Contos” (Oficina Raquel) – Florbela Espanca (Portugal) – 120 páginas. Retornarei à coluna Mercado Editorial em junho para divulgar os lançamentos do terceiro bimestre de 2021. Enquanto isso, continue acompanhando as novidades dos setores livreiro e editorial no Bonas Histórias. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: Mãe Susana

    No primeiro programa da nova temporada, a entrevistada é uma das personagens mais marcantes de Úrsula, romance de Maria Firmina dos Reis publicado em 1859. Darico Nobar: Boa noite! Eu sou Darico Nobar e você está ligado no Talk Show Literário, o principal programa de entrevistas da ficção brasileira. [Em uma nova tomada de câmera, a imagem vai para a banda no canto do palco. O sexteto musical toca o refrão da canção de abertura da atração televisiva]. Darico Nobar: Hoje, nossa convidada é uma personagem que sofreu na pele os horrores da escravidão. Com vocês, Mãe Susana! [Uma idosa negra se levanta da primeira fileira do auditório e caminha, sob aplausos da plateia, em direção ao apresentador. Ela vem trajando uma saia de grosseiro tecido de algodão preto, cuja orla chega ao meio das pernas magras. Na cabeça, traz um lenço encarnado e amarelo que mal lhe oculta as cãs]. Mãe Susana: Boa noite! [Ao se sentar no sofá, estende a mão ao homem de pele alva que a convidou para a entrevista]. Darico Nobar: Seja bem-vinda a este mesquinho e humilde programa de TV que apresento. [No elevado requinte de delicadeza, pega a mão negra e calejada pelo trabalho e pelo tempo e a beija]. Mãe Susana: Que ventura, meu senhor! Que ventura poder conhecer-te. [Deixa fugir um breve suspiro e cerra os olhos por alguns segundos]. Darico Nobar: Minha amiga, pode acreditar no meu acolhimento e na minha amizade. É muito bom ter a senhora aqui conosco. Mãe Susana: Pudera todos os corações assemelharem-se ao teu... Minha condição é a de mísera escrava! Meu senhor, calculastes já, soldastes vós a distância que nos separa? Ah! O escravo é tão infeliz... tão mesquinha e rasteira é a nossa sorte. Darico Nobar: Mãe Susana, a senhora não é mais escrava. Mãe Susana: Eu? Eu livre? Ah não me iludas. Estou distante de ser livre, livre como o pássaro, livre como as águas, livre como o és na vossa pátria. Darico Nobar: Isso foi lá atrás. Reconheço o sofrimento e a amargura que a senhora e muitos passaram. Amaldiçoo ao primeiro homem que escravizou o seu semelhante. Agora a escravidão faz parte do passado. Ela é uma triste página de nossa história. No Brasil atual, homens e mulheres de todas as cores se reconhecem como semelhantes... Mãe Susana: Não sei, meu senhor, não sei. [Retira o cachimbo do bolso e o enche de tabaco. Acende o fumo e tira dele algumas baforadas]. Parece-me que ainda estamos entregues às vicissitudes da sorte. Continuam assassinando nossa honra e nossa ventura... Os negros seguem morrendo com tiros de pistolas ou encerrados em escuras e úmidas prisões. E aí os deixam entregues aos vermes, à fome e ao desespero. Darico Nobar: Na sua opinião, a escravidão ainda não acabou no Brasil? Mãe Susana: Quem poderia dizer ao certo? Que louca esperança é essa. Não podes imaginar que sob as aparências da democracia social, uma nação oculte uma pérfida segregação racial. Cambiam-se as dinâmicas do mundo, mas para os negros só se alteram o tipo de cativeiro em que padecem. Darico Nobar: Admito que não dá para negar a validade desse ponto de vista. Mãe Susana: Não troco um cativeiro por outro cativeiro, oh não! Troco escravidão por liberdade, por ampla liberdade! E sem esquecer de ser grata aos que me pouparam dos mais acerbos desgostos da servidão. Posso até me engolfar em profunda tristeza, mas não hei de me calar. Darico Nobar: Deixe-me aproveitar dessa sua vontade de falar para pedir que nos conte os detalhes de ter sido uma escrava na época do Império. Mãe Susana: Oh! Senhor! Que triste coisa é a escravidão. Meu Deus! Um ano de escravidão é um século de desesperação. E o que seria, então, séculos de cólera?! Darico Nobar: Se a escravidão terminou, ou aparentemente cessou, o racismo não. Como a senhora definiria o racismo? Mãe Susana: O racismo é como o homem maligno e perverso, que bafeja com hálito impuro a donzela desvalida, e foge, e deixa-a entregue à vergonha, à decepção, à morte! – e depois, ri-se e busca outra, e mais outra vítima! E a donzela e a flor choram em silêncio, e o seu choro ninguém compreende. Darico Nobar: Mãe Susana, como a senhora vê o futuro? Há esperança de mudanças para os negros? Viveremos tempos melhores com mais justiça social e oportunidades? Mãe Susana: Meu senhor, vivemos apenas o alvorecer. Não é porque a manhã está escura, fria e insossa que não teremos momentos de luminosidade, calor e alegria ao longo do dia. Permita-me dizer, Seu Darico, que, ainda distante da perfeição, a vida é bela, majestosa e sedutora, até para quem o sangue africano referve nas veias. Darico Nobar: O caminho até o fim do racismo será longo ou curto? Mãe Susana: Longínquo ou breve, ainda há caminho a ser percorrido. Oh! Nunca desistiremos de seguir em frente na busca pelo fim dos preconceitos. Não quero pressagiar, mas antevejo um mundo remediado, onde almas generosas se tornarão irmãs para todo o sempre, sem distinção de raças, crenças, gêneros e opções sexuais. Darico Nobar: Então a senhora está otimista em relação ao futuro, certo? Mãe Susana: Deveras! Um salutar pressentimento diz-me que não será eterno o racismo entre nossos irmãos. O abismo de desgosto irá terminar. Deus não é injusto e insensível. Louvemos a Sua generosidade, meu nobre amigo. Ele não protegerá a quem se opor à vontade maior de união e harmonia, os verdadeiros desígnios da mão onipotente do Rei da criação. [A plateia aplaude as palavras da entrevistada. Com um acanhamento que os anos de sofreguidão geraram, a convidada fica alguns segundos em silêncio melancólico]. Darico Nobar: Agora gostaria de falar da vida da senhora... Mãe Susana: Ah! Senhor! Sou tão desditosa, que falando de mim, só poderei dizer-vos coisas tão tristes e fastidiosas, que vos cansaríeis de as ouvir. Darico Nobar: Pelo contrário, Mãe Susana. Tenho grande interesse de ouvir sua história. Imagino o quanto ela deve ser triste... É importante conhecermos esses tormentos do passado para que eles não se repitam com outras pessoas no futuro. Mãe Susana: Ah, Seu Darico! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! [Solta um gemido magoado. Curva-se a fonte para frente e com ambas as mãos cobre os olhos marejados]. Oh! Tudo, tudo até a própria liberdade! Darico Nobar: Por favor, não chore. Não queria deixá-la tão triste. Mãe Susana: Estas lágrimas são inúteis, meu Deus! [Limpa o rosto com as mãos]. Mas são um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo o que me foi caro! Liberdade! Liberdade... Ah! Eu a gozei na minha mocidade! Não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, primeiro ao lado de minhas amigas, depois do meu esposo e por fim da minha filhinha, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma – uma filha, que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, que veio selar a alegria dos meus dias. Darico Nobar: E o que aconteceu a partir daí? Mãe Susana: Vivia em minha terra ao lado de meu esposo querido e dessa filha tão amada quando chegou o tempo da colheita. O milho, o inhame e o mendobim vinham em abundância nas nossas roças. Deixei minha filha nos braços de minha mãe e fui-me à roça colher milho. Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar a cerca do perigo eminente, que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram e amarraram-me com cordas. Virei uma prisioneira. Tornei-me uma escrava. Darico Nobar: A senhora teve medo de morrer? Mãe Susana: Não matam, meu senhor. Se matassem, há muito que estaria morta, pois meu martírio, a saudade de meu esposo e da minha filhinha, vive comigo todas as horas. Darico Nobar: E aí a senhora veio para o Brasil? Mãe Susana: Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é necessário à vida, abordamos às praias brasileiras. Darico Nobar: E aí a senhora virou oficialmente uma escrava? Mãe Susana: Virei mercadoria humana. A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foi sufocada pelo horror constante de tamanhas atrocidades que passamos a vivenciar na nova terra. Não sei ainda como resisti – é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. O comendador P. foi o senhor que me escolheu. Darico Nobar: Soube que ele era uma pessoa cruel. Mãe Susana: Oh! Vós não conhecestes o comendador, e vossa alma generosa teria de repugnar em face das barbaridades, que ele praticava a cada dia. Implacável era o seu ódio. A cólera deste homem o seguia por toda a parte, e só Deus sabe o quanto padecemos. Darico Nobar: E o que a senhora tem a nos dizer sobre Úrsula B., o grande amor de Fernando P.? Mãe Susana: Deus meu! [Dá uma longa baforada no cachimbo]. Ela era um anjo de beleza e candura. Úrsula era uma donzela de sublime doçura, tão carinhosa, tão formosa, tão pura, tão ingênua, tão louça. Darico Nobar: E o que a senhora acha de Tancredo? Mãe Susana: Oh! Ele foi o mancebo que deu lume à nossa existência. Seu coração era bom, sua amizade era sincera e seus valores eram distintos. Apenas não sabíamos o quanto nos queimaríamos quando ele resolveu tomar as rédeas do ginete. Darico Nobar: E Túlio, hein? Ele era o filho que a senhora não teve? Mãe Susana: Prefiro vê-lo como o último filho que me extirparam. Não sabes o quanto sofro quando me recordo de todos os queridos filhos que me foram amputados. Darico Nobar: Pessoal, a entrevista de hoje terminou. Plateia: Ohhhhhhhhhhhhhh. Mãe Susana: Aceite meus sinceros agradecimentos pelo generoso convite, Seu Darico. Estava tão ansiosa por ver-te. Darico Nobar: Sou eu quem precisa agradecer a senhora pela visita. Muito obrigado, Mãe Susana, pela conversa. Ela foi muito rica. [Eles se cumprimentam com um carinhoso afago de mãos]. Este Talk Show Literário fica por aqui. [O apresentador volta-se para a câmera que está posicionada ao seu lado]. Mas na semana que vem voltaremos com mais um programa ao vivo e exclusivo para vocês. [Enquanto fala, os créditos sobem na tela]. Boa noite e até a próxima! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Cem Sonetos de Amor - A obra-prima de Pablo Neruda

    Li, ontem à noite, a terceira obra de Pablo Neruda do Desafio Literário deste mês. “Cem Sonetos de Amor” é o principal livro da carreira do poeta chileno. Publicada originalmente em 1959, a coletânea de poemas amorosos tornou-se uma peça da cultura ocidental. Alguns dos seus versos foram musicalizados por Peter Lieberson e outros foram citados pelo protagonista no filme “Patch Adams – O Amor é Contagioso” (Patch Adams: 1998) para demonstrar o amor que sentia pela mulher desejada. “Cem Sonetos de Amor” é dedicado a Matilde Urrutia, a terceira e última esposa do Nobel de Literatura. Matilde, uma soprano chilena, conheceu o poeta quando ele morava no México e trabalhava como diplomata. Nessa fase, ele era casado com Delia. Nem mesmo o matrimônio dele impediu os dois de iniciarem um tórrido romance. A relação extraconjugal se transformou em casamento quando ambos voltaram para o Chile. O túmulo do casal está até hoje na casa de Isla Negra, morada onde viveram entre 1966 e 1973 (ano na morte do poeta). O livro é dividido em quatro partes: "Manhã", "Meio Dia", "Tarde" e "Noite". Em cada etapa, Pablo Neruda caracteriza seu amor por Matilde de uma maneira diferente. A obra possui as características típicas do autor: criação de neologismos, comparação dos sentimentos e dos atos humanos com os acontecimentos da natureza, linguagem erótica e passionalidade exacerbada. Apesar de na edição aportuguesada os versos parecerem sem metrificação e as rimas livres, isso não acontece na versão original, escrita em espanhol. Nela, Pablo Neruda produziu os catorze versos alejandrinos (dois quartetos e dois tercetos) com rimas consoantes (a,b,a,b). A nomeação dos sonetos é feita em numeração romana (I, II, III, IV...). "Manhã" é a parte mais extensa, com 32 sonetos (quase um terço da obra). Nela, vemos o relato do autor da fase inicial da sua paixão. Assim como a primeira parte do dia é cercada de expectativas e desejos, seu amor por Matilde é, nesse momento, intenso e carnal. Esta é a parte mais erótica do livro, quando os corpos de ambos não se desgrudam. A necessidade dos dois amantes estarem junto é quase uma necessidade fisiológica e uma extensão dos acontecimentos da natureza. Veja três sonetos dessa parte do livro: XI “Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo, e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado, não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra, busco o som líquido de teus pés no dia. Estou faminto de teu riso resvalado, de tuas mãos cor de furioso celeiro, tenho fome de pálida pedra de tuas unhas, quero comer tua pele como uma intacta amêndoa. Quero comer o raio queimado em tua beleza, O nariz soberano do arrogante rosto, quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo buscando-te, buscando teu coração ardente como uma punha na solidão de Quitratúe”. XVII “Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio ou flecha de cravos que propagam fogo: te amo como se amam certas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma. Te amo como a planta que não floresce e leva dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, e graça a teu amor vive escuro em meu corpo o apertado aroma que ascendeu da terra. Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, te amo diretamente sem problema nem orgulho: assim te amo porque não sei amar de outra maneira, senão assim deste modo em que não sou nem és tão perto que tua mão sobre meu peito é minha tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho”. XXV “Antes de amar-te, amor, nada era meu: vacilei pelas ruas e as coisas: nada contava nem tinha nome: o mundo era do ar que esperava. E conheci salões cinzentos. túneis habitados pela lua, hangares cruéis que se despediam, perguntas que insistiam na areia. Tudo estava vazio, morto e mudo, caído, abandonado e decaído, tudo era inalienavelmente alheio, tudo era dos outros e de ninguém, até que tua beleza e tua pobreza de dádivas encheram o outono”. "Meio dia" é a fase em que os amantes estão extenuados pelo sexo e pela paixão intensa e, por isso, acabam se dobrando à rotina da casa e da união matrimonial. Esta é a parte mais breve do livro, com apenas 21 sonetos. Neste momento, presenciamos o sossego dos corpos e o estabelecimento da harmonia do convício diário a dois. Os simples gestos como preparar a refeição, deitar-se para ler algo ou apreciar uma paisagem ganham a conotação de uma ternura conjugal. A vida acaba abraçando o amor dos amantes e a paixão carnal se transmuta em atos cotidianos simples. A seguir, vão três sonetos do "Meio dia": XXXVIII “Tua casa ressoa como um trem ao meio dia, zumbem as vespas, cantam as caçarolas, a cascata enumera os feitos do orvalho teu riso desenvolve seu trinar de palmeira. A luz azul do muro conversa com a pedra, chega como um pastor silvando um telegrama e, entre as duas figueiras de voz verde, Homero sobe com sapatos sigilosos. Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto, nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzinas mas um discurso de cascata e de leões, e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces, plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas ou te foste e se sabe que começou o inverno”. XLIV “Saberás que não te amo e que te amo posto que de dois modos é a vida, a palavra é uma asa do silêncio, o fogo tem uma metade de frio. Eu te amo para começar a amar-te, para recomeçar o infinito e para não deixar de amar-te nunca: por isso não te amo todavia. Te amo e não te amo como se tivesse em minhas mãos as chaves da fortuna e um incerto destino desditoso. Meu amor em duas vidas para amar-te. Por isso te amo quanto não te amo e por isso te amo quando te amo”. LIII “Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada: o ofício do homem, a mulher e a vida: a este lugar corria a paz vertiginosa, por esta luz ardeu a comum queimadura. Honra a tuas duas mãos que voam preparando os brancos resultados do canto e a cozinha, salve! A inteireza de teus pés corredores, viva! A bailarina que baila com a escova. Aqueles bruscos rios com águas e ameaças, aquele atormentado pavilhão da espuma, aqueles incendiários favos e recifes são hoje este repouso de teu sangue no meu, este leito estrelado e azul como a noite esta simplicidade sem fim da ternura”. "Tarde" tem 25 sonetos. Nela, percebemos um pouco a mudança do espírito do poeta. Nem tudo é alegria e felicidade no relacionamento do casal. A chegada da noite (maturidade) torna os amantes mais sábios e menos passionais. O amor continua existindo, contudo, ele não é aquele sentimento avassalador e imperativo. As dificuldades do cotidiano e a chegada da idade (doenças) trazem obstáculos que os amantes conseguem superar pois continuam nutrindo um amor genuíno e sincero um pelo outro. Veja três sonetos dessa terceira etapa da obra: LV "Espinhos, vidros rotos, enfermidades, pranto assediam dia e noite o mel dos felizes e não serve a torre, nem a viagem nem os muros: a desventura atravessa a paz dos adormecidos, a dor sobe e desce e acerca suas colheres e não há homem sem este movimento, não há natalício, não há teto nem cercado: há que tomar em conta este atributo. E no amor que valem tampouco olhos fechados, profundos leitos longe do pestilente ferido, ou do que passo a passo conquista sua bandeira. Porque a vida pega como cólera ou rio e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam os olhos de uma imensa família de dores". LXI "Trouxe o amor sua cauda de dores, seu longo raio estático de espinhos, e fechamos os olhos porque nada, para que nenhuma ferida nos separe. Não é culpa de teus olhos este pranto: tuas mãos não cravam esta espada: não buscaram teus pés este caminho: chegou teu coração o mel sombrio. Quando o amor como uma intensa onda nos estrelou contra a pedra dura, nos amassou com uma só farinha, caiu a dor sobre outro doce rosto e assim na luz da estação aberta se consagrou a primavera ferida". LXXI "De pena em pena cruza suas ilhas o amor e estabelece raízes que logo roga o pranto, e ninguém pode, ninguém pode evadir os passos do coração que corre calado e carniceiro. Assim tudo e eu buscamos um vazio, outro planeta onde não tocasse o sal tua cabeleira, onde não crescem dores por minha culpa, onde viva pão sem agonia. Um planeta enredado por distância e folhagens, um páramo, uma pedra cruel e desabitada, com nossas próprias mão fazer um ninho duro. Queríamos, sem dano nem ferida nem palavra, e não foi assim o amor, senão uma cidade louca onde as pessoas empalidecem nas sacadas". A quarta e última parte do livro "Cem Sonetos de Amor" é a "Noite". "Noite", com seus 22 sonetos, pode ser compreendida, neste contexto, como fim da vida ou como o término do amor do casal depois de muitos anos juntos. Com a proximidade da morte ou com o enfraquecimento acentuado dos sentimentos do poeta, a relação dos amantes se transforma sensivelmente. Com certeza, essa é a parte mais sombria do livro, com elementos mórbidos e angustiantes. É muito difícil acreditar que o amor exposto na fase inicial do livro (em "Manhã") pode ter se transmutado em algo frio, mesquinho e racional. Ao mesmo tempo, é somente nesse estágio da vida em que se pode saber se este amor será eterno (persistindo mesmo após a morte) ou efêmero. LXXXI "Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho. Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora. Gira a noite sobre suas invisíveis rodas e junto a mim és pura como o âmbar dormido. Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos. Irás, iremos juntos pelas águas do tempo. Nenhuma viajará pelas sombras comigo, só tu, sempre viva, sempre sol, sempre lua. Já tuas mãos abriram os punhos delicados e deixaram cair suaves sinais sem rumos teus olhos se fecharam como duas asas cinzas, enquanto eu sigo a água que levas e me leva: a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino, e já não sou sem ti senão apenas teu sonho". LXXXIX "Quando eu morrer quero tuas mãos em meus olhos: quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas passar uma vez mais sobre mim seu viço: sentir a suavidade que mudou meu destino. Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero, quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento, que cheires o amor do mar que amamos juntos e que sigas pisando a areia que pisamos. Quero que o que amo continue vivo e a ti amei e cantei sobre todas as coisas, por isso segue tu florescendo, florida, para que alcances tudo o que meu amor te ordena, para que passeie minha sombra por teu pelo, para que assim conheçam a razão de meu canto". XCIII "Se alguma vez teu peito de detém, se algo deixa de andar por tuas veias, e tua voz em tua boca se vai sem ser palavra, se tuas mãos se esquecem de voar e dormem, Matilde, meu amor, deixa teus lábios entreabertos porque esse último beijo deve durar comigo, deve ficar imóvel para sempre em tua boca para que assim também me acompanhe em minha morte. Morrerei beijando tua louca boca fria, abraçando o cacho perdido de teu corpo, e buscando a luz de teus olhos fechados. E assim quando a terra receber nosso abraço iremos confundidos numa única morte a viver para sempre de um beijo a eternidade". "Cem Sonetos de Amor" é um livro espetacular. Se não for a melhor obra poética que já li, deve figurar entre as melhores. Para a leitura ficar ainda mais interessante, é legal fazê-la sem muitas interrupções. Com a mensagem é única (retratar a mutação do amor ao longo do tempo), é necessário ler os sonetos de forma sequencial, principalmente dentro de cada fase ("Manhã", "Meio Dia", "Tarde" e "Noite"). Gostei muito dessa publicação. Aqui está o melhor de Pablo Neruda! Na próxima quinta-feira, dia 21, o Desafio Literário prossegue com suas análises. Será a vez de comentarmos o livro "Canto Geral", o quarto de Pablo Neruda deste estudo promovido pelo Blog Bonas Histórias. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PabloNeruda #Poesia #MatildeUrrutia #LiteraturaChilena

  • Filmes: Doce Vingança - Para quem tem coragem e estômago forte

    O sucesso estrondoso de "Jogos Mortais" (Saw: 2004) colocou em primeiro plano um gênero cinematográfico que até então ocupava um papel secundário no cinema comercial: os filmes de terror que abordam a tortura física. De 2004 para cá, não foram poucos os longas-metragens que mergulharam nesta temática. "Jogos Mortais" se transformou em uma sequência interminável de filmes, todos com grande bilheteria. "O Albergue" (Hostel: 2005) veio na sequência aterrorizando a plateia e criando uma nova franquia bem-sucedida (foram duas as sequências). Neste estilo de filme que obriga o espectador a ter coragem para ver as cenas fortes de violência física, "Doce Vingança" (I Spit on Your Grave: 2010) é uma produção que se destaca. Além da violência já comum neste tipo de produção, aqui temos alguns componentes ainda mais explosivos. O estupro coletivo realizado contra a protagonista choca pela sequência de cenas assustadoramente detalhistas. Outro elemento marcante é o desejo de vingança da personagem feminina contra os homens que a humilharam. A vontade de fazer justiça com as próprias mãos irá produzir mais episódios de dor e sofrimento. "Doce Vingança" é um remake de "A Vingança de Jennifer" (Day of the Woman: 1978), filme que foi um fracasso de bilheteria na época do seu lançamento. Na certa, a plateia da década de 1970 não estava preparada para uma produção tão forte. Além disso, a qualidade daquele longa-metragem ficou a desejar, sendo apontado por alguns críticos como de péssima qualidade. A nova versão teve a direção de Steven R. Monroe, especialista em filmes de terror. Ele dirigiu a sequência desta série, "Doce Vingança 2" (I Spit on Your Grave 2: 2013), e "O Exorcismo de Molly Hartley" (The Exorcism of Molly Hartley: 2015). O papel principal ficou a cargo da corajosa atriz Sarah Butler, da série televisiva "CSI" e do filme "O Garoto de Ouro" (The Philly Kid: 2012). Curiosamente, Butler não queria fazer o longa-metragem. Ela não gostava de assistir filmes de terror e temia as cenas mais perturbadoras. Porém, ela foi convencida pelo seu agente a aceitar a proposta de ser a protagonista de uma grande produção. Neste "Doce Vingança", Jennifer Hills (Sarah Butler) é uma romancista que procura um lugar tranquilo e isolado no interior dos Estados Unidos para escrever seu novo livro. Após se perder na estrada de acesso à casa alugada, ela pede informação em um posto de gasolina. Os três funcionários do estabelecimento, homens mal-encarados, informam como ela deve fazer para chegar à sua nova moradia. Alguns dias depois, o trio de rapazes e mais um amigo com problemas mentais invadem a casa da moça. Chocada com a violência que o grupo ameaça fazer, Jennifer consegue fugir. Na floresta que rodeia a casa, ela encontra o delegado da cidade. A autoridade policial vai até a residência para prender o grupo de arruaceiros. Porém, nem mesmo o delegado conseguirá impedir o grupo de violentar a moça. O estupro coletivo acontece diante dos olhos da plateia. Os homens ainda espancam e humilham sua vítima. Para completar, os estupradores filmam a violência toda em uma câmera amadora. Depois da farra sexual, os rapazes decidem matar Jennifer. Afinal, para segurança deles, ela não pode ficar viva. Na hora da execução, há um vacilo e a moça consegue se jogar em um rio, desaparecendo misteriosamente. Um mês depois do estupro, a vida dos homens segue normalmente na pacata cidade interiorana. Isso até alguns episódios estranhos começarem a acontecer com os criminosos que saíram impunes. Aos poucos vai ficando claro que Jennifer Hills está viva e deseja vingança. Os rapazes não imaginam o que aquela mulher, que acreditam estar morta, irá fazer com eles. "Doce Vingança" é um ótimo filme de terror/violência. Há várias cenas em que naturalmente qualquer pessoa de bom-senso acaba virando o rosto por não querer presenciá-las. A força desta narrativa está em sua história triste e macabra. Além disso, a vingança perpetrada pela protagonista é marcante. Impossível esquecê-la. Jennifer Hills planeja e executa seu contragolpe com maestria. Cada um dos seus estupradores tem um final que a personagem julga merecedor. O sucesso deste longa-metragem foi tão grande que ele ganhou duas sequências. Na primeira, "Doce Vingança 2" contou outra vez com o trabalho do diretor Steven R. Monroe, mas não teve a participação de Sarah Butler. A história é independente da primeira edição. Já a segunda sequência, "Doce Vinganca 3 - A Vingança é Minha" (I Spit On Your Grave 3 - Vengeance is Mine: 2015) foi lançada apenas na TV. Esta não teve a direção de Monroe, mas voltou a contar com a atuação de Butler. Ao invés de contar uma nova história, neste último episódio da série retomamos a narrativa de Jennifer Hills, anos depois do abuso sexual que ela sofreu na cidade interiorana. Se você tem coragem e estômago forte, saiba que este é um filme marcante e polêmico. Veja o trailer de "Doce Vingança": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #StevenRMonroe #SarahButler

  • Miliádios Literários: abril/2021

    Com o rigor estético de João Cabral de Melo Neto e a sagacidade de Rubem Alves, Paulo Sousa apresenta as principais efemérides literárias deste mês. Abril de 2021, quem diria que chegaríamos tão longe. Mas a vida é o que é, temos que aceitá-la e jogar com as cartas na mesa. Desculpe-me pelo rigor com que inicio os Miliádios Literários, mas ando lendo muito João Cabral de Melo Neto. O poeta brasileiro, autor de “Morte e Vida Severina” e “O Cão Sem Plumas” (Alfaguara), tinha rigor estético apurado e faria 37 miliversários no dia 28. Membro da Academia Brasileira de Letras, ganhou o Prêmio Camões e o Prêmio Neustadt, o Nobel norte-americano. Não chegou a ganhar o Nobel original, azar dos nórdicos. João Cabral é muito maior! Quem ganhou o Nobel foi Thomas Mann, cujo falecimento completa 24 miliádios no dia 27. O autor de “A Montanha Mágica”, “Morte em Veneza” e “Os Buddenbrook” (Companhia das Letras) foi agraciado com o prêmio em 1929, além de ter se consagrado como um dos maiores romancistas do século XX. Quem nunca ganhou o Nobel, mas não se importa em nada com isso, é J. K. Rowling. A autora da saga Harry Potter (Rocco) faz 24 miliversários no dia 15. Estima-se que suas reinações mais famosas tenham faturado em torno de 9 bilhões de dólares só no cinema. Cinema, a sétima arte, que bebeu da escola do teatro para chegar ao topo dos programas de fim de semana. E não dá pra falar de teatro sem mencionar o irlandês Samuel Beckett. O autor de “Esperando Godot” (Companhia das Letras), “Primeiro Amor” (Nova Fronteira) e “Molloy” (Companhia das Letras) faria 42 miliversários no dia 9. Voltando ao Brasil, Rubem Alves foi um grande pedagogo. Ele contribuiu com sua sabedoria em várias áreas, desde renomadas como sociologia e psicanálise, até a teologia. O afiado debatedor completaria 32 miliádios no dia 26, e escreveu “Ostra Feliz não Faz Pérola”, “A Grande Arte de Ser Feliz” e “Pimentas” (Planeta). Não à toa, seu desejo post-mortem foi ser cremado em Guarulhos e ter as cinzas jogadas sob um ipê amarelo. Paulo Leminski, escritor, poeta e tradutor, faria 28 miliversários no dia 22. O curitibano é autor de “Vida” (Companhia das Letras), “Distraídos Venceremos” (Companhia das Letras) e “O Ex-Estranho” (Iluminuras). Ele é considerado um dos maiores haicaístas do Brasil. Outro haicaísta é Luiz Ruffato, que faz 22 miliversários no dia 30. O autor de “O Verão Tardio” e “Eles eram Muitos Cavalos” (Companhia das Letras) é mais aclamado como romancista e, sob esta égide, venceu os prêmios APCA e Machado de Assis. Já Ondjaki, poeta e escritor angolano, ganhou o Jabuti e o José Saramago. São dois prêmios lusófonos disputadíssimos, fazendo com que a menção do autor nesta coluna seja completamente irrelevante para os anais da história. Mas uma pérola para os leitores do Bonas Histórias. Enfim, o autor de “Os Transparentes”, “Avódezanove e o Segredo Soviético” e “Bom Dia Camaradas” (Companhia das Letras) completa 16 miliversários no dia 25. E assim, citando grandes prêmios e grandes autores, nos despedimos da coluna miliádica de abril, que começou rigorosa, mas terminou inspiradora. Até que não foi tão ruim, não é? Em memória de... ... Henry James, autor de “Retrato de uma Senhora” (Companhia de Bolso) e “A Outra Volta do Parafuso” (Penguin Companhia) que, sem mentiras, faria 65 mil dias de vida no dia 1º de abril. ... Raul Brandão, jornalista português que escreveu “As Ilhas Desconhecidas” (Raul Brandão), cuja morte faz 33 mil dias no dia 11. ... Manuel da Fonseca, escritor português autor de “Aldeia Nova” (Caminho), que faria 40 mil dias de vida no dia 20. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Contos: Histórias de Macambúzios – Apresentação e Sumário

    É com muita alegria que anuncio a nova série narrativa do Bonas Histórias. Se em 2015 a coluna Contos & Crônicas apresentou a coletânea de crônicas “Eu e o Mundo”, de minha autoria, em 2016 é a vez de conhecermos a coleção de contos de “Histórias de Macambúzios”, de Paulo Sousa. Ou seja, permanecemos no universo das narrativas curtas (afinal, é esta a proposta desta seção do blog), só mudando o gênero narrativo (das crônicas para os contos). Para quem ainda não conhece Paulo Sousa, ele é escritor, jornalista, empresário e, antes de qualquer coisa, meu grande amigo. “Histórias de Macambúzios” é sua primeira imersão na ficção. Como gosto muito deste rapaz, sou suspeito para falar do seu talento literário e profissional. O que posso dizer é que sou fã incondicional dos seus textos. Trabalhamos juntos em algumas editoras e sempre me inspirei no seu jeito simples, direto e bem-humorado de se comunicar com os leitores. Conheci os contos que integram esta série no ano passado. E, desde então, tenho insistido ao seu autor para publicar “Histórias de Macambúzios” aqui no blog. Acredito que com a sua autorização feita no último mês, os leitores do Bonas Histórias receberão em primeira mão um material rico e inovador. Trata-se de mais um texto de excelente qualidade que publicamos com exclusividade na seção Contos & Crônicas. "Histórias de Macambúzios" é uma série de contos bem-humorada que retrata a realidade brasileira. Paulo Sousa narra a vida de personagens que habitam ou habitaram a fictícia cidade de Armação de Bú­zios, incrustada no litoral brasileiro. Ao conhecermos os heróis e as pessoas comuns do município, também ficamos sabendo da história da localidade, recheada de violência, amores e injustiças sociais. Em uma trama agradável e recheada de reviravoltas, o autor consegue fazer uma crítica perspicaz da História e do presente de nosso país. “Histórias de Macambúzios” possui onze contos. Eles serão apresentados mensalmente (de fevereiro a dezembro). Como uma boa moldura narrativa, essas histórias podem ser lidas independentemente (têm começo, meio e fim próprios), porém também integram uma série unificada (as tramas se relacionam entre si). Segundo o sumário intitulado por Paulo Sousa como von Trierista, “Histórias de Macambúzios” iniciam-se por um conto numerado como zero (seria sua introdução?) e seguem até o número dez (seria seu desfecho?). Veja, a seguir, a programação de posts com estas narrativas: Sumário von Trierista de “Histórias de Macambúzios”: 0 - A cidade vertical – Post em fevereiro de 2016: O prólogo do livro trata sobre a evolução da protagonista. Também é feita uma breve biografia de um grande homem brasileiro. 1 - O divã das bichas – Post em março de 2016 O primeiro conto apresenta Júlio e sua luta contra si mesmo, a miséria e a ganância. Apresenta também Jaime, um rábula psiquiatra com ótima leitura da essência das pessoas. 2 - Espelho do Mundo – Post em abril de 2016: É uma história interessantíssima sobre como os valores de toda a humanidade podem ser representados em tempo real, e tudo isso no Brasil. 3 - Sobre obviedades – Post em maio de 2016: Mais uma vez uma evolução é apresentada, na pele de um homem justo. Acaba sendo um convite à reflexão sobre Jean-Jacques Rousseau e John Locke. 4 - O afrossemita – Post em junho de 2016: História de amor entre duas pessoas de diferentes realidades, mas de origens iguais. Fala também sobre a luta interminável de um povo, naturalmente reservado, na vida de um homem expansivo. 5 - A invasora – Post em julho de 2016: A modernidade encontra aqui sua vez, mas sem críticas à industrialização. Luíza tinha oportunidades para virar exceção, mas preferiu a regra. 6 - O velho e o ar – Post em agosto de 2016: Homenagem a um grande escritor e jornalista, que revolucionou a estética literária. Repare como o ser humano é posto no mesmo patamar de outras espécies. 7 - Freedom Experience – Post em setembro de 2016: Uma boa ideia e uma execução desastrosa; nisso se resume o conto. O protagonista é movido pelo ímpeto de aprimorar a raça humana, estudando-a pelo método empírico de Francis Bacon. 8 - Três gerações – Post em outubro de 2016: Como o próprio nome diz, fala de conflitos e harmonias entre três gerações distintas ideologicamente, mas socialmente iguais. 9 - Aquilo que os une – Post em novembro de 2016: Título autoexplicativo. 10 - A cidade um pouco mais vertical – Post em dezembro de 2016: O epílogo do livro é conciso e sem rodeios. Adota uma postura clara, a qual pode ser vista em boa parte do livro, especialmente em “Sobre obviedades”. Acompanhe mensalmente os contos de “Histórias de Macambúzios” aqui no Blog Bonas Histórias! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Livros: A Peste das Batatas - O romance de estreia de Paulo Sousa

    No sábado retrasado, dia 19, ocorreu o lançamento oficial de “A Peste das Batatas” (Pomelo), romance de estreia de Paulo Sousa. Este livro é uma sátira muito engraçada e extremamente inteligente sobre a realidade político-social brasileira. Através de uma narrativa que se aproxima intimamente do realismo fantástico, o autor apresenta os dramas contemporâneos dos agricultores do Vale das Batatas, região fictícia de alguma zona rural no rincão do Brasil. A partir de um belo dia (não tão belo assim!), suas plantações são afetadas por uma peste inexplicável e bastante agressiva, que transforma todas as batatas em sal de cozinha. Para piorar ainda mais o quadro, a praga se alastra rapidamente pelo país inteiro, tornando este tubérculo um artigo raro em nosso território. Como os brasileiros se comportarão sem o tão querido alimento em sua mesa? Esse drama agrícola-culinário acaba resvalando até nas eleições presidenciais, deixando os políticos de Brasília angustiados. Esse é o pontapé inicial de uma trama ágil, envolvente e com um subtexto riquíssimo. Sutilmente, Paulo Sousa trata de inúmeros males da nossa sociedade, como a corrupção, a injustiça social e a violência. Incrível! Apesar de chegar só agora às livrarias nacionais, “A Peste das Batatas” foi publicado originalmente, em outubro de 2018, no formato de ebook. Naquela oportunidade, a obra de Sousa participou da 3ª edição do Prêmio Kindle de Literatura. Apesar de não ter conquistado o troféu principal, o romance chamou a atenção dos editores da Pomelo, editora recém-lançada e dedicada exclusivamente à literatura brasileira contemporânea. Assim, esta história ganhou, no finalzinho de 2019, uma merecida versão impressa. Para tal, ela passou por revisões e melhorias ao longo do último ano (algo natural em se tratando de publicações em papel). Sousa, portanto, faz o caminho traçado por muitos escritores de sucesso do século XXI: publicam de forma independente em ebook e, a partir daí, são descobertos por editoras do mercado tradicional. Por falar em Paulo Sousa, ele nasceu na cidade de São Paulo, em 1986, e atua como jornalista, empresário do setor de Comunicação e escritor. Quem acompanha o Bonas Histórias já deve estar familiarizado com o autor. Sousa produziu, em 2016, a série de contos/novela “Histórias de Macambúzios”, disponível na coluna Contos & Crônicas. Confesso que sou fã desta narrativa sobre a fictícia Armação dos Búzios, cidade do litoral fluminense que é palco de males e dramas tipicamente brasileiros. Desde então, Sousa se destaca por agrupar em seu texto muito humor, críticas sociais e sacadas perspicazes. Assim, suas tramas são ao mesmo tempo criativas, emocionantes e engraçadíssimas. Apesar das narrativas de “Histórias de Macambúzios” serem ótimas, nota-se uma grande evolução na literatura de Paulo Sousa com a chegada de “A Peste das Batatas”. Apesar de ser apenas a sua estreia nos romances, nota-se um autor maduro, com um estilo ficcional ousado e com muita coisa para nos dizer. Como primeira narrativa longa, esta obra está acima da média. Não é errado apontar Sousa com um dos promissores nomes da literatura paulistana deste momento. Admito que estou curioso para ver os seus próximos passos na carreia ficcional. A trama de “A Peste das Batatas” começa em setembro de 2018. Omar Salgado é um pequeno produtor do Vale das Batatas que passa por sérias dificuldades financeiras. O bataticultor mora e trabalha na propriedade deixada pelo pai, falecido há alguns anos. Omar é casado e tem duas filhas pequenas. Sua família anseia pelos empréstimos federais prometidos pelo governo, mas que nunca chegam para os Salgado. Por isso, Omar odeia todos os políticos, vistos como corruptos e insensíveis às necessidades do povo. Sem o dinheiro que lhe fora apalavrado, Omar não sabe como fará para plantar a próxima safra de batatas, seu único ganha pão (desculpe-me pelo trocadilho involuntário). As preocupações do agricultor só aumentam quando uma peste misteriosa invade a região do Vale das Batatas. De repente, as batatas começam a sumir. Elas se transformam em sal de cozinha, aterrorizando produtores e comerciantes. O pânico se alastra rapidamente pelo país. Consumidores das grandes cidades passam a ter medo de se alimentar com esse produto. Eles acham que serão contaminados com um mal desconhecido. Os demais fazendeiros passam a culpar os bataticultores como se eles fossem os principais culpados pelo caos que se instala na agricultura brasileira. Se as coisas já estavam difíceis para Omar antes da peste, depois elas se tornam um pesadelo de proporções gigantescas. Sem ninguém para recorrer, Omar Salgado vai até a Universidade Federal do Vale das Batatas para falar com seu amigo Jameson Playfair Lindley. Doutor Jameson, como o cientista é mais conhecido, é um dos mais conceituados especialistas em batatas do Brasil e, quem sabe, do Mundo. Todo o seu trabalho acadêmico teve como tema os tubérculos. Ele chegou até a prever uma reação parecida à transformação das batatas em sal (na sua tese, contudo, a transformação era em açúcar). Por isso, o doutor fica estarrecido com o que descobre previamente sobre a peste. Não à toa, Jameson rapidamente é convocado às pressas pelo ministro da Agricultura, Maldos Bagos, e pelo Presidente da República, José Vlad da Silva. Cientes da capacidade técnica do cientista, os principais políticos de Brasília colocam o Doutor Jameson no posto de Presidente da Comissão de Urgências Tuberculares. Por ser época de eleição presidencial, a Comissão recebe recursos ilimitados para resolver o problema que aflige diretamente os bataticultores e indiretamente todos os brasileiros. Inicia-se uma corrida para a cura da peste antes que os eleitores nacionais cheguem perto das urnas, o que ocorrerá impreterivelmente em outubro de 2018. Conseguirá Jameson Playfair Lindley resolver o grande problema do desaparecimento das batatas em solo brasileiro? Não apenas o futuro de sua carreira acadêmica dependerá de uma solução rápida e eficiente para a praga das batatas como os destinos de Omar Salgado e do país inteiro estão ligados ao trabalho do doutor. Uma vez com tanto poder em mãos, Jameson mostrará uma faceta que deixará Omar bastante assustado (e decepcionado). Talvez, o cientista que preside a Comissão de Urgências Tuberculares não seja o herói que almejamos (mas que nosso país tem no momento). Gostei muito de “A Peste das Batatas”. Com 192 páginas, o romance está dividido em 44 capítulos. Dá para lê-lo tranquilamente em duas noites. Foi o que fiz neste comecinho de janeiro. A obra de Paulo Sousa tem um prefácio de Joaquim Botelho, escritor, jornalista e crítico literário que presidiu a União Brasileira de Escritores entre 2010 e 2015. E, ao final, o livro tem um posfácio desenvolvido pelo humilde crítico que escreve este post. Sim, eu já tinha lido “A Peste das Batatas” algumas vezes no ano passado. As primeiras leituras foram como editor (também trabalho na Editora Pomelo e participei ativamente do projeto editorial desta obra). Ou seja, sou suspeitíssimo para falar dela (sei disso e não nego!). E as últimas leituras foram para desenvolver a seção final da obra. Eu até poderia escrever uma nova crítica sobre este livro de Paulo Sousa que conheço tão bem, mas preferi apresentar no post de hoje do Bonas Histórias o texto que produzi em seu posfácio. Afinal, ele resume bem minha impressão. Segue, a seguir, este material para leitura: Absurdos Reais Paulo Sousa acerta em cheio ao fazer de seu romance de estreia uma sátira do Brasil contemporâneo. Como reza a cartilha do bom texto satírico, “A Peste das Batatas” coloca o dedo nas feridas sociais e aponta os absurdos da realidade da política nacional. E o tom crítico de sua narrativa vem acompanhado de uma combinação quase sempre infalível: bom humor, intertextualidade literária e reflexões acuradas sobre os meandros da vida cotidiana dos brasileiros. Para começo de conversa, é impossível não dar boas risadas com os dramas genuínos de Omar Salgado, do Doutor Jameson Playfair Lindley e dos demais habitantes do fictício Vale das Batatas. Através do deboche, da ironia, do sarcasmo, do exagero e da caricatura, o autor revela uma trama que mistura elementos extremamente verossímeis com um cenário um tanto apocalíptico. A sensação é que as personagens desta obra foram extraídas ora das páginas dos jornais ora dos rincões do nosso país. Parte da graça desta leitura está em perceber a relação simbiótica entre a ficção e a realidade. Para o leitor mais atento e com bom repertório, o texto engraçado de Sousa descortina uma intrincada rede de referências literárias que vão de Albert Camus (A Peste) a Rubem Fonseca (Passeio Noturno). É aí que "A Peste das Batatas" ganha em força narrativa e em charme. Se a camada mais superficial do texto agrada ao público que busca apenas uma leitura recreativa e divertida, por outro lado a camada mais profunda do livro esconde boas discussões de cunho filosófico. Por isso, não se atenha apenas à leveza e ao humor do romance. Mergulhe nas entrelinhas e procure as incontáveis pérolas que só os mais sagazes autores conseguem produzir. Sutileza é o nome do jogo praticado por Paulo Sousa. Ele trata de assuntos sérios e bastante delicados com um verniz de deboche e com uma aura de amenidade. Por exemplo, a corrupção é algo exclusivo dos políticos brasileiros ou é uma característica da nossa sociedade como um todo? Para responder à questão tão espinhosa, Paulo Sousa cria um protagonista com um perfil mais próximo do anti-herói do que do herói tradicional. Doutor Jameson é egoísta, orgulhoso, ganancioso, hedonista e, por que não, corrupto. Diria até que ele é “sutilmente” corrupto (seria essa uma marca da nossa cultura?). Em muitos momentos, o cientista está mais preocupado com sua reputação, com sua carreira e, principalmente, com as mordomias recebidas do governo federal do que com o bem-estar da população brasileira. Jameson é tão larápio, tão larápio que chega ao ponto de roubar o protagonismo do romance de Omar, um pobre coitado enganado por todos (até pelo autor do livro). Sem dúvida nenhuma, esse é o lance mais incrível da "A Peste das Batatas". Sim, Omar Salgado é uma vítima não apenas dentro do romance de Paulo Sousa, mas também em relação à sua estrutura narrativa. É surpreendente notar a materialização desse crime literário! A migração do texto de terceira pessoa do singular para a primeira pessoa do singular passa por esse processo de usurpação da formação do herói. Não à toa, Jameson sente-se tão culpado em relação ao amigo no final da narrativa. Juro que fiquei refletindo cá com meus botões: se ele faz isso com um amigo, imagine o que não é capaz de fazer com as outras pessoas, hein? Se por um lado Doutor Jameson exerce o posto de anti-herói da trama, não dá para terminar a leitura de "A Peste das Batatas" sem refletir um pouco sobre o papel exercido por Omar. O pequeno proprietário rural do Vale das Batatas é, de certa maneira, uma versão atual e mais instruída (diria classe média) de Fabiano, personagem clássica de Graciliano Ramos. Tanto Omar (agora) quanto Fabiano (no passado) sofrem/sofreram com a tirania dos poderosos e com a injustiça das engrenagens sociais do seu país - essas as verdadeiras vilãs da história. Naturalmente, o leitor se solidariza com uma figura trabalhadora, oprimida e de coração puro que não consegue alcançar o que é seu por direito. Outro ponto que chamou minha atenção em "A Peste das Batatas" é o seu desfecho catártico. Fiquei pensando se o desenlace do romance foi o resultado de um processo racional ou veio do subconsciente de Paulo Sousa. Sinceramente, acredito mais na segunda hipótese. Afinal, o escritor, como qualquer cidadão minimamente consciente das injustiças sociais em que está inserido, também tem necessidade de canalizar seus desejos e suas vontades para algum lugar. Ainda bem que, nesse caso, foi para a produção ficcional. Independentemente da discussão sobre o que é certo e o que é errado, atire a primeira pedra quem nunca pensou em agir como Omar Salgado na parte final deste livro! Nesse sentido, lembrei das palavras de Sigmund Freud em "Obras Completas – Volume 8: O Delírio e os Sonhos na Gradiva, Análise da Fobia de Um Garoto de Cinco Anos e Outros Textos". No capítulo "O Escritor e a Fantasia", o pai da psicanálise relaciona o processo de criação literária ao ato das crianças de brincar. Assim, o autor ficcional constrói histórias que dão vazão aos seus sentimentos mais íntimos. É na (re)criação da realidade fantasiosa da literatura que ele canaliza um mundo como gostaria de ser ou age, na pele de suas personagens, como adoraria se comportar no mundo real. O escritor faz o mesmo que a criança ao brincar; constrói um mundo de fantasia que leva bastante a sério, ou seja, dota de grandes montantes de afeto, ao mesmo tempo que o separa da realidade (...). Mas a irrealidade do mundo imaginário traz consequências importantes para a técnica artística, pois muitas coisas que, sendo reais, não poderiam dar prazer, podem proporcioná-lo no jogo da fantasia, muitas emoções que são dolorosas em si mesmas podem se tornar fonte de fruição para os ouvintes e espectadores do escritor (...). A meu ver, todo o prazer estético que o escritor nos propicia tem o caráter de um prazer preliminar desse tipo, e a autêntica fruição da obra literária vem da libertação de tensões da nossa psique. E talvez contribua para isso, em não pequena medida, o fato de que o escritor nos permite desfrutar nossas próprias fantasias sem qualquer recriminação e sem pudor (FREUD, 1908, 325-338). Fazia um bom tempo que eu não lia uma obra cômica com tanto conteúdo crítico. Felizmente, "A Peste das Batatas" retoma um estilo que (não sei o porquê) foi preterido nas últimas duas décadas pela maioria dos autores brasileiros. De cabeça, recordo de títulos recentes de Reinaldo Moraes, Marcelo Rubens Paiva, José Roberto Torero, Jô Soares e Antônio Prata. Essas obras foram publicadas no século XX e dão continuidade à comédia na literatura nacional. Portanto, Paulo Sousa segue a tradição de escancarar os dramas do nosso país sob a ótica do bom humor - não há nada mais brasileiro do que rir de suas próprias desgraças. Se olharmos mais para trás, Sousa caminha lado a lado com nomes como Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto, Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Sob a perspectiva da segunda metade do século XX, diria que A Peste das Batatas dá prosseguimento ao legado de Campos de Carvalho, José Cândido de Carvalho, Ignácio de Loyola Brandão, Nelson Rodrigues, Márcio Souza, Ariano Suassuna, Luís Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Eleonora V. Vorsky, Fernando Sabino, Diego Mainardi, João Ubaldo Ribeiro, Dalton Trevisan, Mário Prata e tantos outros que nos faziam morrer de rir sem deixar de transmitir mensagens contundentes sobre a realidade brasileira. Esse é o meu posfácio da “A Peste das Batatas”. O livro está à venda no site de sua editora e em várias livrarias do nosso país. Esta publicação de Paulo Sousa é aconselhada para quem gosta de leituras críticas e inteligentes. Os dramas tragicômicos do Brasil são, infelizmente, um prato cheio para um autor astuto e competente na arte de nos fazer rir com o que há de mais sórdido em nossa realidade social. Parabéns, Paulo, pela ótima estreia! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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  • Crônicas: Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora - Item 2 - Não ter celular

    "Passe o seu WhatsApp!". Entro em pânico toda vez que ouço essa frase. O pior é que ela tem se tornado cada vez mais frequente em meu dia a dia. Não há semana que meus ouvidos não sejam contemplados com essa angustiante combinação de palavras. Nos piores dias, acabo escutando essa frase mais de uma vez. Afinal de contas, por que todo mundo quer o meu número? Por que todos querem falar comigo o tempo inteiro? E por que sou obrigado a ter este tal de WhatsApp?! Não entendo a reação de perplexidade das pessoas quando digo que não tenho. "Ok, então me passe o número do seu celular" é o que sempre ouço em seguida à minha negativa inicial. Sinto que a sociedade me obriga a ter um famigerado celular. Meus pais, meu chefe, minha namorada, o gerente do banco, o vizinho, a operadora de televisão a cabo, o corretor de imóveis, a tia chata, a moça que se senta ao meu lado no ônibus, a rapaziada do barzinho de sexta-feira à noite, os entrevistadores do novo emprego que tentei e a turma do futebol clamam para que eu use esta geringonça. TODO MUNDO parece viver exclusivamente ao redor do pequeno aparelhinho. Juro que não entendo onde essa gente está com a cabeça! Quando digo que não tenho (nunca tive) um celular, a cara de espanto das pessoas se intensifica. É hilário acompanhar suas reações. Elas são as mais variadas e curiosas possíveis. "Onde já se viu não ter telefone celular?!" é o sentimento padrão daqueles que ouvem minha confidência. Gostaria de deixar bem claro neste texto: não ter telefone celular não é uma falta grave de personalidade. Os desconectados também podem ser pessoas legais, felizes, carinhosas, ativas e produtivas. Apesar de sermos uma espécie quase em extinção, temos também algum valor. Por favor, não nos julguem precipitadamente. Item 2 da Lista de 12 Indícios que Envelheci Antes da Hora: Não ter celular. "Como vou achá-lo?!" é o questionamento que me fazem com mais frequência quando explico (sim, é necessário explicar os motivos sempre!) que não faço uso de aparelho celular. Engraçada essa mania das pessoas de querer localizar os outros a todo instante e em qualquer lugar. Nunca dei esta intimidade para a maioria. "E se eu precisar falar com você em um sábado às duas horas da manhã?" me perguntou certa vez um cliente. Juro que olhei para ele e respondi com o máximo de educação possível para tal ocasião: "E quem disse que dou essa liberdade para você me telefonar de madrugada em um final de semana?! Você é meu cliente, mas eu não sou seu escravo para estar 24 horas disponível ao seu bel prazer". Ele riu sem graça e concordou comigo. Pelo menos disse concordar. Uma moça com quem comecei a sair fez a mesma pergunta do cliente folgado. Para ela, obviamente, respondi de outra maneira: "Amorzinho, se tudo der certo entre a gente, você não precisará de um celular para me chamar à noite. Bastará você virar para o outro lado da cama e me chamar. Estarei dormindo agarradinho a você". Ela sorriu, concordando com o meu ponto de vista (e minhas intenções). Contudo, depois de algumas semanas nosso relacionamento esfriou. Ninguém me tira da cabeça que a culpa foi da falta do aparelhinho para me rastrear sempre que ela, assim, desejasse. Um namorado ou uma namorada sem celular é um perigo em potencial para companheiros ciumentos... Para quem não acredita que seja possível viver sem telefone celular hoje em dia, eu garanto: Não há nada melhor para a qualidade de vida do sujeito! Em minha opinião, celular não é coisa de Deus. E o WhatsApp é, definitivamente, uma invenção do Capeta! A pergunta correta não é "Como alguém consegue viver SEM estes aparelhos e aplicativos atualmente?" e sim "Como alguém consegue viver BEM tendo estes malditos aparelhos e aplicativos tocando o tempo inteiro?". O dia em que eu ficar convencido de que ter um telefone celular é mais vantajoso do que não tê-lo, prometo adquirir e usar um. Enquanto esse dia não chega, por favor, não me olhem torto. Como disse, não sou uma má pessoa por não ter WhatsApp nem usar celular. Juro! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Peças teatrais: 60! Década de Arromba - Doc.Musical - Wanderléa e a década de 60

    A eterna ternurinha da Jovem Guarda é a protagonista deste espetáculo musical que homenageia os anos 1960. No sábado passado assisti ao espetáculo “60! Década de Arromba - Doc.Musical”, no qual Wanderléa, a eterna ternurinha da Jovem Guarda, nos mostra que não perdeu o jeito com o público e manteve a voz potente de outros tempos. Em cartaz no Teatro NET (dentro do Shopping Vila Olímpia) com temporada prorrogada até o dia 08 de outubro (depois retorna ao Rio de Janeiro), a produção conta com mais de 60 pessoas. Uma mistura de musical e documentário, “60! Década de Arromba - Doc.Musical” nos mostra os acontecimentos mundiais entre 1960 até 1969. Em um telão aparecem desde Gene Kelly em “Cantando na Chuva” (Singin´in the Rain: 1952) até o homem na lua, passando pelo assassinato de Kennedy, a Jovem Guarda, o golpe militar de 1964 e muitas propagandas e programas de televisão da citada década. Foi uma forma de aproveitar também para a troca de figurino, que, diga-se de passagem, é estonteante. Os modelitos que a Wanderléa usa são longos lindíssimos, além de um micro vestidinho com bota de cano longo. Os outros solos musicais também não ficam atrás no quesito vestimenta de época e cores. A primorosa iluminação ajuda a criar os ares necessários de poesia, drama e comédia. O elenco está afinadíssimo tanto nas coreografias quanto nas músicas. Quem gosta de teatro musical (o que não é o meu caso), irá adorar a peça. Um dos pontos altos está justamente no intervalo: dois atores vestidos de freiras interagem com o público no momento mais divertido da peça. Não posso falar mais, caso contrário estrago a surpresa e solto um spoiler indesejado. Quem viveu a década entenderá a brincadeira na hora, porém o fato de ser mais jovem não tira a graça da cena. Os atores pedem e o público canta junto a maioria das músicas, que não se restringem à jovem guarda: há para todos os gostos entre as nacionais e internacionais. Aguardem: eles lançaram a campanha #vem708090, ou seja, em breve teremos as versões musicais das décadas de 70, 80 e 90. Pontos negativos: - apesar de venderem bebidas e pipocas no foyer, não há lugar no assento para colocá-los (como no cinema, por exemplo); - as 3 horas de peça são um tanto cansativas. Muitas passagens do telão poderiam ser cortadas ou reduzidas à metade. - quem vai apenas pela Wanderléia, vai cair do cavalo. Ela só entra em cena na metade final. Convenhamos que é uma senhora e não teria fôlego para as 3 horas da peça. - se este é o seu primeiro musical, não vá esperando grandes interpretações. O foco aqui são as músicas e coreografias. Depois não diga que não avisei. Ficha Técnica: Onde: Teatro NET - Rua Olimpíadas, 360 - 5º piso Quando: até 08/out - Quintas e Sextas às 20h30 e aos sábados e domingos às 17h Direção: Frederico Reder Roteiro: Marcos Nauer Elenco: Wanderléa e outros Ingresso: de R$25,00 até R$200,00 (assinante NET tem 50% de desconto em até 4 ingressos) Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias desta coluna. Para acessar as demais críticas teatrais, clique em Teatro. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Wanderléa #peçadeteatro #teatro #Musical #Espetáculo #MúsicaBrasileira

  • Livros: A Arte de Escrever - O ensaio de Arthur Schopenhauer sobre o fazer literário

    Com quase dois séculos de existência, esta obra é praticamente um manual contemporâneo da produção textual. Na semana passada, li um livro que há muito tempo jazia desprezado na estante de minha biblioteca. Sabe aquele título que você tem uma curiosidade enorme para conhecer, mas sempre pensa: depois eu leio. E esse depois nunca chega... Foi mais ou menos o que aconteceu comigo em relação a “A Arte de Escrever” (L&PM Pocket), a coleção de ensaios de Arthur Schopenhauer sobre o fazer literário. Admito que já tinha lido algumas partes dessa publicação nas oficinas literárias e nos cursos de escrita criativa que realizei nos últimos cinco anos. Entretanto, faltava-me disposição (ou seria coragem?!) para pegar o dito cujo pela capa e lhe dar um trato da primeira à última página. Estaria eu começando este post da coluna Livros – Crítica Literária de forma melodramática? Talvez. O problema é que me considero um estudioso inveterado do processo artístico de produção textual. O histórico do Bonas Histórias atesta essa minha predileção. Pelo blog já passaram avaliações de “Sobre a Escrita” (Suma das Letras), de Stephen King, “Como Melhorar Um Texto Literário” (Gutenberg), de Lola Sabarich e Felipe Dintel, “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), de Milan Kundera, “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar” (Tinta da China), de Ricardo Araújo Pereira, “Como Se Encontrar na Escrita” (Biblioteca Azul), de Ana Holanda, “A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar” (Ateliê Editorial), de Nelson de Oliveira, “Manual do Futuro Redator” (Novatec), de Sérgio Calderaro, “O Rio do Meio” (Mandarim), de Lya Luft, entre outros. Agora deu para entender a minha agonia pelo adiamento perene desta obra de Schopenhauer, hein? O principal mérito de “A Arte de Escrever” é que ele serviu de base para todos os livros posteriores que abordaram as peculiaridades da produção literária. Ou seja, estamos falando aqui de um título clássico de seu gênero e leitura obrigatória para quem trabalha ou deseja trabalhar com literatura. Obviamente, Arthur Schopenhauer, em pleno século XIX, não foi o primeiro pensador a debater as questões do fazer literário. Lembremos que esse tema já era amplamente discutido na Grécia Antiga e na Roma Antiga. O conteúdo de “Poética” (Edipro) e “Retórica” (Edipro), de Aristóteles, e de “Arte Poética” (Autêntica), de Horácio, corroboram com essa minha afirmação. Na Antiguidade, os aspectos formais da produção textual já eram estudados em profundidade. Contudo, Schopenhauer pode ser visto como um dos pioneiros a trazer esse velho debate para a Modernidade ocidental. Com seu jeitão impositivo, que não fugia das polêmicas, e um texto sincero, sujeito obviamente a críticas, o filósofo alemão construiu as bases contemporâneas pelas quais a arte literária está ancorada até hoje. Suas dicas, seus ensinamentos e suas opiniões são, atualmente, propagadas direta ou indiretamente pelos escritores, editores, críticos literários e estudiosos da Teoria Literária. Sabendo disso, não faltavam motivos para eu correr para a estante e ler “A Arte de Escrever”. Porém, confesso um pouco envergonhado que tinha também certo preconceito em relação a este título. Sempre que o pegava e olhava a sua capa, eu pensava: “O que um livro do século XIX pode trazer de novidade no campo da literatura, hein?! Talvez seja mais interessante conhecer o que os novos estudiosos desse tema estão dizendo”. Por isso, fui postergando, postergando, postergando a leitura de Arthur Schopenhauer. Até que, no começo deste mês, Débora Pesso, minha amiga de longa data e artista versátil (escritora, atriz, dançarina, coreógrafa, redatora, tradutora, diretora e crítica teatral e mais um monte de coisa que nunca consigo lembrar), avisou-me toda empolgada que tinha lido “A Arte de Escrever” e que (pasmem!) havia gostado. Pronto! Era o pontapé que precisava para sair da letargia. Valeu, Debinha! Agora posso dizer em alto e bom som: também li esta obra. Minha leitura aconteceu na quinta-feira passada e (voila!) fiquei encantado com seu conteúdo. Este livro é muito melhor do que imaginava. “A Arte de Escrever” reúne oito ensaios de Schopenhauer sobre o fazer literário. Antes de serem conectados em uma publicação, esses textos foram lançados de maneira independente. Alguns são datados das primeiras décadas do século XIX. Portanto, há partes deste título com quase 200 anos! A reunião deles em uma obra só é decorrência da temática em comum. O resultado dessa integração potencializou realmente o conteúdo. O leitor é agraciado com uma visão completa e crítica de Arthur Schopenhauer sobre vários aspectos da produção textual: o papel do livro no desenvolvimento do conhecimento dos leitores; a importância da fluência de mais de um idioma; os erros e os acertos dos autores; as dicas práticas do bom estilo literário; o processo de consolidação dos cânones; o papel da crítica literária; e os elementos que fazem um escritor e um livro serem considerados geniais. Curiosamente, Schopenhauer nunca escreveu um livro chamado “A Arte de Escrever”. Ele até pode ter desenvolvido vários tratados sobre os mais diferentes assuntos – “A Arte de Se Fazer Respeitar” (Sextante), “A Arte de Insultar” (Martins Fontes), “A Arte de Ter Razão” (Vozes de Bolso), “A Arte de Ser Feliz” (Martins Fontes) e “A Arte de Lidar com as Mulheres” (Martins Fontes) –, mas nunca fez algo especificamente sobre a produção literária. Os ensaios contidos em “A Arte de Escrever” foram extraídos essencialmente de outro livro, “Parerga e Paralipomena” (Editora Zouk). Essa obra foi publicada em 1851 e compilou boa parte do trabalho do alemão. Foi exatamente “Parerga e Paralipomena” que rendeu fama e prestígio a Arthur Schopenhauer, que até então era um grande desconhecido para seus compatriotas e conterrâneos. O reconhecimento de suas crenças e pensamentos veio tarde, quando o filósofo tinha mais de 60 anos. Juntamente com os vários tratados filosóficos que discorriam sobre inúmeros temas, “Parerga e Paralipomena” trazia textos que abordavam diretamente o fazer literário. Aí um editor contemporâneo teve a ideia genial de lançar um livro apenas com esses trechos mais voltados para a arte da escrita. O resultado dessa combinação é simplesmente espetacular. Nascia, assim, “A Arte de Escrever”. Vale a pena esclarecer que há uma versão menor desta obra que ganhou, no Brasil, o título de “Sobre o Ofício do Escritor” (Martins Fontes). Essa edição é mais enxuta e traz apenas três ensaios de Schopenhauer sobre o fazer literário (contra os oito de “A Arte de Escrever”). Nascido em Danzig (hoje cidade polonesa, mas na segunda metade do século XVIII era um povoado prussiano) em 1788 e falecido em Frankfurt (onde morou por quase três décadas) em 1860, Schopenhauer foi um dos principais filósofos do século XIX. Adepto do Pessimismo, introdutor do Budismo na metafísica alemã e seguidor incondicional das teorias kantianas, Arthur Schopenhauer influenciou figuras do porte de Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche e Henri Bergson. Além de “Parerga e Paralipomena”, sua obra mais famosa é “O Mundo Como Vontade e Representação” (Contraponto). Lançado em 1819, esse clássico da filosofia ocidental apresenta o mundo como um mero produto das vontades cegas e malignas do universo metafísico. Agora entendeu a pegada pessimista deste alemão? “A Arte de Escrever” é um livro enxuto. A edição que tenho em mãos possui apenas 172 páginas. Seus oito capítulos são: (1) “Sobre o Aprendizado do Homem”; (2) “Do Estudo do Latim”; (3) “Dos Autores”; (4) “Do Estilo”; (5) “Pensando por Si Mesmo”; (6) “Sobre a Crítica”; (7) “Sobre a Fama”; e (8) “Sobre o Gênio”. Levei cerca de cinco horas para percorrer seu conteúdo. Inicie a leitura na quinta-feira depois do almoço e no começo daquela noite já tinha concluído a obra. No primeiro capítulo, “Sobre o Aprendizado do Homem”, Schopenhauer apresenta os caminhos, as possibilidades e os erros mais comuns no processo de desenvolvimento intelectual. Ele mostra, por exemplo, a tendência de mercantilização da educação, explora as diferenças conceituais de obtenção da informação e de conquista da sabedoria e debate se o conhecimento ainda está prioritariamente nas mãos da academia e das instituições formais de ensino. Além disso, discute-se nessas páginas o perigo da proliferação de conteúdos falsos e vazios por amadores, a importância das bibliotecas (e dos livros) como fonte principal de conhecimento, as rupturas estéticas, ideológicas e conceituais provocadas sempre que há mudanças geracionais e o perigo da especialização (ela vai contra o aumento potencial do conhecimento; nesse sentido, a generalização é mais vantajosa). Em “Do Estudo do Latim”, o filósofo alemão discorre sobre a importância do idioma de Horácio como língua integradora entre os diferentes povos. Além disso, o latim é uma ponte entre passado, presente e, quem sabe, futuro. Assim, o desuso desse idioma representou uma fragmentação da comunicação e, principalmente, de acesso ao conhecimento clássico (de gregos e romanos da Antiguidade). Para completar, o aprendizado e a fluência de vários idiomas trazem habilidades linguísticas que afetam a capacidade cognitiva das pessoas. “Dos Autores” é a terceira seção de “A Arte de Escrever”. Aqui, entramos efetivamente nas questões mais concretas do fazer literário. Primeiramente, Arthur Schopenhauer faz uma distinção entre o que é uma boa literatura e o que é uma má literatura. Na sequência, apresenta uma série de dicas práticas do que os autores devem se atentar na hora de produzir uma obra de qualidade. Assim, ele fala dos diferentes tipos de escritores (os movidos pela paixão/vontade de transmitir um conhecimento salutar e os movidos pelo interesse particular/vontade de ganhar dinheiro), da relação entre a escrita e a formulação do processo de produção textual (autores que pensam enquanto escrevem e autores que pensam antes de escrever), da importância do estudo do processo literário, da intrínseca união de conteúdo e forma e das características elementares dos livros (eles devem ser autoexplicativos, não precisando exigir quaisquer explicações posteriores dos seus autores). No quarto capítulo, “Do Estilo”, a coisa começa a pegar fogo. Nessa parte, recebemos um pequeno manual da boa escrita. Schopenhauer lista os oito aspectos que um bom livro obrigatoriamente possui: (1) tem algo útil para dizer; (2) tem um texto claro; (3) não é excessivamente informal; (4) evita exageros (predominância dos substantivos aos adjetivos); (5) é objetivo (menos é mais); (6) esforço do autor para se atingir a precisão das palavras; (7) exposição de uma ideia de cada vez; (8) seu título tem uma única palavra (OK, essa é difícil de engolir!); uso de metáforas e símiles como estratégias de comparação; (10) planejamento da escrita antes de começá-la. Em contraponto, são apresentadas também as cinco características do escritor limitado/medíocre: (1) imita o estilo dos outros; (2) abusa das frases longas; (3) usa um linguajar rebuscado (como estratégia para ocultar a fraqueza de seu conteúdo); (4) escreve desnecessariamente muitas páginas (como se isso fosse compensar o leitor pela falta de profundidade dos conceitos abordados); e (5) simplesmente não tem o que dizer de novo (o equívoco principal dos escritores limitados/medíocres). Em “Pensando por Si Mesmo”, assistimos a um dos mais famosos e importantes ensaios de Arthur Schopenhauer. Nesse texto, ele fala da importância da reflexão e da organização do pensamento como forma de desenvolvimento intelectual. O homem realmente inteligente é aquele que possui a capacidade de pensar por si mesmo (e não aquele que extrai as opiniões de terceiros dos textos lidos). Portanto, mais importante do que ler livros (conhecer as ideias alheias) é pensar sobre o que leu (processar as informações recebidas). As conclusões obtidas por si mesmo são mais intensas, duradouras e poderosas do que aquelas recebidas pelos outros. Pensar pela própria cabeça é muito mais coerente, apesar de não ser fácil. A leitura, vale a pena dizer, é apenas o primeiro passo para a reflexão ativa. As fontes do pensamento são a soma de leitura e de conhecimento concreto do mundo físico (uma parte não vive sem a outra). Ainda neste capítulo, Schopenhauer avança em mais conceitos da produção textual. Para ele, uma mente capaz tem o que expressar e sabe como fazê-la. Nem todo pensamento importante deve ser colocado no papel. Afinal, ele pode ser relevante para seu autor, mas não para o restante da humanidade. Assim, há dois tipos de escritores: o que escrevem pensamentos para os outros; e o que escrevem pensamentos para si. Para finalizar essa parte, temos a explicação sobre as engrenagens clássicas do drama, os dois tipos de histórias (resumidamente: a história real e a estória ficcional), uma forte crítica ao jornalismo (que levaria os radicais de direita e de esquerda ao delírio!), as características dos cânones literários e as maneiras distintas de se ler um texto. “Sobre a Crítica”, o sexto e antepenúltimo capítulo desta coleção ensaística, é voltado exclusivamente para a análise da crítica literária. Esse texto expõe as distorções, as imprecisões, as falhas e as más intenções dos críticos na hora de julgar as obras de arte. Segundo Arthur Schopenhauer, toda obra, por mais brilhante que seja, tem lá seus defeitos (todos somos imperfeitos!). A dificuldade do crítico literário está em distinguir os textos ótimos dos regulares. E não é só ele que tem essa dificuldade. De maneira geral, o público médio não consegue reconhecer os gênios e as obras-primas. Por isso, pouquíssimos artistas fenomenais e suas grandes produções artísticas são valorizados em seu tempo. O reconhecimento demora porque precisa se solidificar. E essa solidificação passa essencialmente pela validação das autoridades (são elas que definem o que é genial e não os críticos nem o público em geral) e pelas gerações posteriores (mais capazes de distinguir o que é superior do que é simplesmente comum). Ainda nessa seara, é interessante notar a grande quantidade de julgamentos negativos que Schopenhauer faz do trabalho dos críticos. Para o filósofo alemão, a crítica literária apresenta falhas tanto de ordem técnica (não consegue ver o que é ótimo em meio à banalidade) quanto de natureza ética (é corrupta, injusta e pouco rigorosa) e ideológica (valorização dos autores do presente em detrimento aos do passado). Por isso mesmo, é fundamental a autoria do crítico literário nos veículos de imprensa (o anonimato pode potencializar injustiças e leviandades). “Sobre a Fama” é a sétima seção de “A Arte de Escrever”. Aqui temos uma explicação detalhada sobre o processo de conquista do sucesso – sucesso, obviamente, do ponto de vista do universo artístico-literário. De acordo com Arthur Schopenhauer, os escritores podem ser divididos em três grupos: os meteóricos (fama rápida e efêmera), os planetas (sucesso mais longo, mas sem luz própria) e os estrelas (reconhecimento perene e feito com base na luz própria). O filósofo alemão também trata dos efeitos deletérios da inveja e da má crítica sobre o trabalho genial. Não por acaso, uma obra de grande dimensão artístico-intelectual acaba demorando tanto tempo para ser valorizada (às vezes, precisa esperar mais de uma geração para alcançar o posto merecido). A partir desse ponto de vista, o tempo é o melhor remédio contra a inveja, a maldade e a incompetência dos contemporâneos do artista genial. De certa forma, esse processo mais demorado é positivo porque uma vez consolidado o cânone, dificilmente ele perde seu valor depois. Por fim, temos “Sobre o Gênio”. Nessa parte final do livro assistimos à descrição das características do artista genial. Suas preocupações e comportamentos diferenciam do homem normal. Basicamente, o gênio: (1) aparece raramente; (2) pode demorar para ser reconhecido; (3) ilumina algo que até então era obscuro para a humanidade; (4) não se preocupa com as opiniões e as impressões que os outros têm de si; (5) sua mente tem luz própria; (6) trabalha para a posteridade (e não para o presente); (7) muitas vezes são indivíduos insociáveis, repelentes e arrogantes; (8) o trabalho intelectual é mais importante do que as questões práticas e rotineiras; (9) não está imune a falhas (ele é genial, mas não é perfeito!); (10) e não trabalha pensando em dinheiro, fama e/ou reconhecimento. “A Arte de Escrever” é um livro rico, interessante e extremamente atual. É difícil até de acreditar que seu conteúdo tenha por volta de dois séculos. Mesmo sendo uma obra tão antiga, ela dialoga com questões contemporâneas e aborda assuntos ainda hoje relevantes. Um leitor mais atento e que não se interesse tanto pelo processo de escrita criativa poderá ainda relacionar os conceitos trazidos pelo filósofo alemão do século XIX a temas do momento. Acredite se quiser, mas Schopenhauer aborda assuntos com a cara do século XXI: o perigo da proliferação de informações falsas por amadores e por pessoas mal intencionadas (olha os vídeos e as correntes do WhatsApp aí gente!); a overdose de informações em oposição ao emburrecimento da população média (é só entrar nas redes sociais para conferir os comentários dos usuários mais reacionários); o aumento exponencial de produções literárias (o que chamo de Efeito Kindle), mas de péssima qualidade em sua maioria; a mercantilização da educação e do conhecimento; o questionamento se a maior parte do conhecimento atual ainda está nas mãos da academia e das instituições formais de ensino... Achou que a lista terminou? Ela não acabou, não! Os temas contemporâneos prosseguem: a necessidade de idiomas verdadeiramente universais; os erros mais comuns dos livros (por incrível que pareça, eles continuam os mesmos de duzentos anos atrás); a importância de se refletir as informações recebidas (com risco de se propagar mentiras e de viver em um mundo da lua); a supervalorização de autores e de obras medíocres (em oposição à subvalorização de escritores e trabalhos geniais); o comportamento meio amalucado de artistas geniais; e as falhas da crítica literária (muitas delas propositais). Se por um lado ficamos embasbacados com a contemporaneidade de “A Arte de Escrever”, por outro lado notamos um certo déjà vu. Sabe quando um autor fala/escreve um monte de coisa e temos a impressão de que já ouvimos/lemos antes aquilo em algum lugar? Foi mais ou menos essa minha sensação durante a leitura deste livro. Aí preciso apontar um detalhe que o leitor atual pode se esquecer. Se vários conceitos abordados por Arthur Schopenhauer são propagados em excesso até hoje, trata-se de mais um mérito do trabalho analítico deste filósofo e não um defeito de sua obra. Se estão reproduzindo constantemente os argumentos de Schopenhauer em pleno século XXI, é porque eles têm qualidade e perenidade. De maneira geral, Arthur Schopenhauer acerta muito mais do que erra em suas posições. Há alguns comentários que nos deixam em dúvida (será mesmo?). Outros demoram para cair a ficha (o que ele quis dizer exatamente com isso?). O que pode causar alguma estranheza são os exemplos utilizados pelo escritor (obviamente, são muito antigos e estão desvinculados da realidade do leitor contemporâneo) e as generalizações (normalmente toda generalização é burra). Além disso, o autor peca pela visão excessivamente romântica da arte textual e da produção artística e por alguns preconceitos de ordem linguística. Mesmo assim, o placar é favorável para o alemão (tipo 7 a 1). “A Arte de Escrever” é uma obra mais adequada para ensaístas, filósofos, cronistas e autores não ficcionais. Afinal, seus capítulos abordam muito mais a questão conceitual do texto em detrimento à parte estética. Mesmo assim, acredito que romancistas, contistas, novelistas e poetas conseguem extrair dicas valiosas para melhorar sua produção textual. Arthur Schopenhauer acerta quando valoriza o passado e os cânones literários, quando propõe um consumo mais ativo por parte dos leitores, quando questiona o processo de obtenção de conhecimento e, principalmente, quando faz uma análise profunda e rigorosa do desenvolvimento literário. Apesar dos vários aspectos positivos, seu maior mérito está em fazer tudo isso utilizando-se das dicas e das sugestões contidas em seu próprio livro. Repare, por exemplo, que o escritor alemão usa nessas páginas todos os elementos citados em seu manual da boa escrita (conteúdo do capítulo 4). Ou seja, “A Arte da Escrita” é, por si só, uma exemplificação perfeita do material proposto aos leitores. Nesse caso específico, fiquei encantado com algumas comparações feitas (lembremos que uma das dicas de Schopenhauer é a utilização de metáforas e símiles). Elas são simplesmente fantásticas (dignas de um autor que domina completamente a arte da produção textual). Por tudo isso, eu só tenho mais uma coisa para dizer: se você tem esse livro em casa e está de nhenhenhém para lê-lo, não perca mais tempo. Conhecer as ideias de Arthur Schopenhauer contidas em “A Arte de Escrever” é como entrar em contato com as questões clássicas da produção textual. Não me surpreenderia se esse texto se mantiver atual e válido pelos próximos dois séculos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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