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- Mercado Editorial: As ficções mais vendidas no Brasil em 2020
Na lista dos dez livros de ficção mais vendidos nas livrarias brasileiras no ano passado, temos oito títulos estrangeiros e dois nacionais. Em janeiro, apresentamos na coluna Mercado Editorial os dez livros mais vendidos nas livrarias brasileiras no ano passado. Como essa listagem estava recheada de obras de autoajuda (sete), de literatura infantojuvenil (dois) e de negócios (um), senti a necessidade de apresentar, agora, um ranking exclusivo com os títulos ficcionais mais comercializados em 2020. Afinal, esse é o gênero narrativo no qual o Bonas Histórias se propõe a analisar em seus posts. De outra forma, seria complicadíssimo saber quais são os best-sellers da ficção em nosso país. Infelizmente, ainda somos uma nação com leitores que priorizam livros da categoria não ficcional (geralmente, obras de autoajuda, religiosas ou produzidas por celebridades da Internet) e que desprezam os romances, as novelas e as coletâneas de contos. Para descobrir os títulos das ficções mais vendidas, recorremos aos dados do PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial brasileiro. O PublishNews faz a medição do setor utilizando-se principalmente das informações coletadas nas principais redes de livrarias do país. Nas seis primeiras posições do ranking das ficções mais vendidas no Brasil em 2020, só temos romances internacionais que foram produzidos originalmente em língua inglesa. É o predomínio da literatura britânica, da literatura norte-americana e da literatura canadense, uma tendência que se repete há pelo menos duas décadas em nosso país. Dos primeiros colocados, três são livros contemporâneos – (1ª posição) “Sol da Meia-noite” (Intrínseca), de Stephenie Meyer, (2º) “A Garota do Lago” (Faro Editorial), de Charlie Donlea, e (5º) “O Homem de Giz” (Intrínseca), de C. J. Tudor –, e três são clássicos – (3º) “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras) e (4º) “1984” (Companhia das Letras), de George Orwell, e (6º) “O Conto da Aia” (Rocco), de Margaret Atwood. Os primeiros títulos da literatura brasileira só surgem na sétima e na oitava colocações do ranking. A honraria cabe ao romance “Essa Gente” (Companhia das Letras), de Chico Buarque, e à coletânea de narrativas curtas “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt), de Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira. A nossa lista termina com outros dois livros da literatura contemporânea internacional: “Mitologia Nórdica” (Intrínseca), romance de Neil Gaiman, e “Eleanor & Park” (Novo Século), de Rainbow Rowell. Se pensarmos que “Sol da Meia-noite” é uma continuação da saga “Crepúsculo”, podemos dizer que os dez livros no topo do ranking das ficções mais comercializadas no ano passado em nosso país já haviam aparecido na liderança das vendas nos últimos anos. Ou seja, não tivemos nenhuma novidade entre as obras mais procuradas pelos leitores nacionais (prova cabal da escassez de lançamentos impactantes em 2020, algo que noticiamos nos últimos meses aqui na coluna Mercado Editorial). Veja, a seguir, o ranking completo com os 10 títulos ficcionais mais vendidos em 2020 no Brasil: 1) “Sol da Meia-noite” (2020) – Stephenie Meyer (Estados Unidos) – Literatura Contemporânea Internacional – Intrínseca – 44 mil unidades. 2) “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Contemporânea Internacional – Faro Editorial – 42 mil unidades. 3) “A Revolução dos Bichos” (1945) – George Orwell (Inglaterra) – Literatura Clássica Internacional – Companhia das Letras – 33 mil unidades. 4) “1984” (1949) – George Orwell (Inglaterra) – Literatura Clássica Internacional – Companhia das Letras – 31 mil unidades. 5) “O Homem de Giz” (2018) – C. J. Tudor (Inglaterra) – Literatura Contemporânea Internacional – Intrínseca – 27 mil unidades. 6) “O Conto da Aia” (1985) – Margaret Atwood (Canadá) – Literatura Contemporânea Internacional – Rocco – 23 mil unidades. 7) “Essa Gente” (2019) – Chico Buarque (Brasil) – Literatura Contemporânea Nacional – Companhia das Letras – 20 mil unidades. 8) “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (2017) – Igor Pires da Silva & Gabriela Barreira (Brasil) – Literatura Contemporânea Nacional – Globo Alt – 14 mil unidades. 9) “Mitologia Nórdica” (2017) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Contemporânea Internacional – Intrínseca – 12 mil unidades. 10) “Eleanor & Park” (2013) – Rainbow Rowell (Estados Unidos) – Literatura Contemporânea Internacional – Novo Século – 12 mil unidades. Em maio, minha ideia é voltar à coluna Mercado Editorial para apresentar aos leitores do Bonas Histórias o ranking dos livros mais vendidos de 2020 considerando apenas a literatura brasileira. Aí vamos saber exatamente os autores e as obras nacionais que estão no topo dos mais comercializados. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Alto das Lágrimas - O romance de estreia de Marcelo Coutinho
Publicado em 2018, o thriller dramático do jovem autor maranhense gira em torno de um relacionamento incestuoso. Neste final de semana, li um romance muito interessante. “Alto das Lágrimas” (Autografia) é a obra ficcional de estreia de Marcelo Coutinho, escritor maranhense mais conhecido pela produção acadêmica nas áreas das Ciências Políticas e das Relações Internacionais. Pela qualidade deste livro, é legal ficar de olhos abertos nos novos títulos de ficção de Coutinho. Não me surpreenderei se, nos próximos anos, ele despontar como um dos bons nomes da literatura brasileira contemporânea. Afinal, talento e competência para a construção de thrillers dramáticos ele já provou ter. “Alto das Lágrimas” possui um texto elegante, uma trama madura e está recheado de surpresas que são capazes de mexer com as emoções dos leitores. Para um romance de estreia, essa narrativa superou em muito as minhas expectativas. Além de escritor, Marcelo Coutinho é acadêmico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apesar de ser novato na literatura, ele já publicou quatro livros não ficcionais. Nascido em São Luís e criado em Brasília, Coutinho vive no Rio de Janeiro desde 2001. Doutor em Ciências Políticas e Relações Internacionais, o autor já foi Comissário Geral da Cultura Brasileira no Mundo e Diretor de Relações Internacionais do Ministério da Cultura. Atualmente, é diretor do Observatório da Inteligência Artificial. Ele também escreve frequentemente artigos para jornais, é colunista do O Estado do Maranhão e se aventura pela poesia. Lançado em janeiro de 2018 de forma independente, “Alto das Lágrimas” está disponível nas versões impressa e digital. Como a Autografia é uma editora pequena de autopublicação do Rio de Janeiro, já aviso aos interessados que não é tão fácil assim encontrar este livro nas estantes das livrarias brasileiras. Eu só achei a obra física no site da Livraria Martins Fontes Paulista (para compra online). Por isso, talvez seja mais rápido e fácil a aquisição da obra digital pela Amazon. Isto é, se você tiver o Kindle. O enredo de “Alto das Lágrimas” começa com uma viagem romântica às montanhas. Um jovem casal de namorados aproveita o final de semana para escapar da rotina agitada da metrópole. Juntos há apenas quatro meses, eles querem viver bons momentos à dois longe dos olhos inquisidores da sociedade. Além disso, os amantes querem se conhecer melhor. Normalmente, seus encontros são rápidos e ocasionais e têm como cenários os impessoais quartos de motel. Por isso, o bate-e-volta (ida no sábado de manhã e retorno no domingo à noite) à cidade serrana os empolga tanto. Nada como o friozinho das montanhas para despertar o romantismo! Elisa Andreozzi é uma bem-sucedida gerente financeira de um dos maiores bancos do país. Workaholic e perfeccionista no trabalho, a moça de 27 anos tem uma carreira meteórica. Não à toa, ela é uma das funcionárias preferidas da família proprietária da instituição financeira. Elisa é mãe da pequena Maria, de dois anos de idade. A gravidez indesejada aconteceu na época em que ela era estudante universitária e atrasou um pouco sua ascensão profissional (por isso, sua vontade desmedida de recuperar o tempo perdido). O pai da criança é Henrique Albuquerque, um ex-colega de Elisa do curso de Administração de Empresas. Apesar do nascimento da filha, Elisa e Henrique não se casaram. Cada um seguiu a vida de maneira independente após a obtenção do diploma universitário. Enquanto Elisa namora Eli (um namoro ainda meio xoxo é verdade), Henrique está noivo de Violeta, uma colega de Elisa no banco. Apesar de não ser um pai tão presente, Henrique sempre ajudou financeiramente a filha e manteve um relacionamento respeitoso com a mãe da menina. Quem viaja para as montanhas com Elisa é Eli, um ex-seminarista. Alguns anos mais velho do que a namorada, ele concluiu recentemente o mestrado ecumênico em um dos mais importantes centros de teologia do país e está agora desempregado. Eli sempre acalentou o sonho de ser padre, mas ainda não está seguro se deve seguir o caminho do sacerdócio. É ele quem narra a história em primeira pessoa. Mesmo querendo ser padre (e sabendo de sua vocação), o rapaz está encantado com o relacionamento com Elisa. Definitivamente, o celibato é algo que não o preocupa nem um pouco. O sábado do casal caminha à mil maravilhas até Elisa receber uma mensagem da mãe, Dona Dúnia, no comecinho da noite. Pelo celular, a avó de Maria avisa que a menina, que está sob seus cuidados naquele final de semana, está com uma forte e insistente febre. Preocupada com a saúde da neta, Dona Dúnia avisa Elisa que levará a criança para o hospital. Se sentindo culpada por viajar com o namorado justamente no final de semana em que a filha se mostrava adoentada, Elisa encerra o passeio e pede para Eli levá-la imediatamente ao hospital. A viagem de carro de Elisa e Eli das montanhas para a cidade grande é feita embaixo de um grande aguaceiro. Além da chuva torrencial e da lama na estrada de terra, os namorados enfrentam uma série de percalços no meio do caminho que irão abalá-los consideravelmente. Contudo, nada será páreo para o que vivenciarão no hospital. No centro médico, eles descobrirão os segredos incestuosos das famílias Andreozzi e Albuquerque que culminarão em uma madrugada trágica. A partir deste momento, as vidas de Elisa e Eli nunca mais serão as mesmas. É o início de um drama comovente e recheado de intrigas e surpresas. “Alto das Lágrimas” é um romance de 224 páginas. O livro está dividido em 30 capítulos. É possível ler esta obra em um único dia. Foi o que fiz no último sábado. Comecei a leitura de manhã e no meio da tarde já a tinha concluído. Devo ter levado pouco mais de cinco horas para percorrer todo o seu conteúdo. A narrativa de Marcelo Coutinho é tão saborosa e intrigante que é difícil interromper a leitura no meio. Praticamente o li em duas sentadas (só parei para almoçar). O primeiro aspecto que me chamou a atenção neste livro foi a série de passagens reflexivas do narrador. Ele interrompe a trama ficcional o tempo inteiro para inserir comentários, observações e divagações sobre os mais variados assuntos. Não é errado enxergarmos esta obra como pot-pourri de crônicas e de ensaios sobre as incongruências da vida contemporânea. Curiosamente, esses trechos mais analíticos e existencialistas não atrapalham em nada o ritmo da narrativa. Pelo contrário: eles ajudam na construção da ambientação, na composição da psique do narrador-protagonista e na contextualização da trama. Incrível ver esse expediente literário tão bem-feito (e que infelizmente vem sendo tão pouco explorado na maioria dos títulos comerciais mais recentes). Marcelo Coutinho aborda ora de maneira mais filosófica ora com uma pegada mais informal as seguintes temáticas em “Alto das Lágrimas”: os desafios dos relacionamentos modernos; as angústias de homens e mulheres perante as novas dinâmicas sociais; as diferentes estruturas das famílias pós-modernas; a dicotomia entre religião e ciência; as características do mercado de trabalho nos tempos de capitalismo feroz; a ressignificação das partes do Espírito Santo em uma perspectiva mais feminista; os diferentes tipos de pecados bíblicos; a retrospectiva histórica do incesto; os choques geracionais; o empoderamento feminino tanto no ambiente de trabalho quanto nas demais esferas sociais; os efeitos deletérios da tecnologia na vida das pessoas comuns; e as consequências práticas do celibato para os padres. Mesmo diante de um panorama tão multitemático, o assunto central deste romance é, sem dúvida nenhuma, a questão do incesto. Vale a pena ressaltar que esse tema é delicadíssimo de ser utilizado na literatura. Lembremos as polêmicas envolvendo, por exemplo, “Lavoura Arcaica” (Companhia das Letras), a novela mais celebrada de Raduan Nassar (paixão entre irmãos), “Proibido” (Valentina), título da britânica Tabitha Suzuma (amor carnal entre irmãos), “Lolita” (Alfaguara), obra mais conhecida do russo Vladimir Nabokov (obsessão sexual do padrasto pela filha adotiva menor de idade), e, em uma volta ainda maior no tempo, “Édipo Rei” (Clássicos Zahar), clássico do grego Sófocles (casamento do filho com a mãe). Sabendo do quão arriscado é utilizar esse assunto na ficção (para cada obra que deu certo, existem milhares que fracassaram), é bom ver que Coutinho se saiu muitíssimo bem. Ele tirou de letra o complicado desafio de tratar o incesto – seu texto tem uma pegada original (mistura de romance com ensaio), corajosa (coloca o dedo em várias feridas sociais) e elegante (e põe elegância nisso!). Dessa forma, “Alto das Lágrimas” está longe de ser uma publicação panfletária, sensacionalista ou com polêmicas vazias. A obra é coerente, autoexplicativa, rica e com um enredo excitante. Em outras palavras, Marcelo Coutinho conseguiu fugir dos perigos naturais de um tópico tão controverso e, ainda por cima, entregou uma história criativa e com um ótimo conteúdo. Outra questão para ser elogiada neste romance é a construção das cenas. Há várias passagens muito bem executadas. Um bom exemplo disso é a cena inicial. Ela é impecável – o carro entalado na estrada lamacenta e o desespero de seus ocupantes para concluir a viagem o quanto antes. Ao mesmo tempo em que acompanhamos os acontecimentos objetivos do presente (retorno apressado dos namorados para a cidade grande), somos levados aos meandros dos pensamentos do narrador-protagonista e aos dramas antigos de Elisa e de sua família. Tudo isso é embalado com os mistérios de acontecimentos mal explicados (ou não justificados pela ciência) e pelas reflexões existencialistas do narrador (que embelezam a trama). Impossível não gostar deste tipo de literatura. Outro trecho memorável é o capítulo 7. Nele, Marcelo Coutinho faz uso das comparações de um jeito maravilhoso. É verdade que o autor maranhense usa esse recurso muito bem em todo o livro (à la Marcel Proust). Porém, no capítulo 7 especificamente, ele chega ao ápice da beleza textual. Associar o desenvolvimento físico e mental de Elisa Andreozzi à formação das cadeias montanhosas é simplesmente sublime. Juro que não consigo imaginar um jeito melhor de descrever as características desta personagem. Por mais surrealista que pareça essa comparação (mulher e montanha), ela é perfeita neste caso! Também gostei muito das misturas antagônicas promovidas ao longo de “Alto das Lágrimas”. Repare nas contradições entre as referências religiosas que inundam a história (afinal, o protagonista é um homem religioso) e as altas doses de erotismo da narrativa (Eli não pensa duas vezes antes de pular na cama das mulheres que ama). Nesse sentido, o romance todo possui muitos significados ocultos (por exemplo, a ida à montanha é quase uma subida ao Céu Mundano, onde o narrador pode dar vazão às suas vontades mais carnais). Um leitor mais atento irá apreciar as descobertas polissêmicas deste livro. Ainda no quesito “misturas antagônicas”, há também uma preocupação de explicar o mundo pelo olhar científico (o que por si só já é contraditório com a crença no Deus cristão onipresente e onisciente) ao lado de passagens fantásticas (febres de Maria são prenúncios de tempos difíceis para sua família, surgimento de figuras de aspectos sobrenaturais, coincidências diabolicamente assustadoras...). Adorei esses choques (religião versus ciência e realidade versus fantasia). Não dá para ler “Alto das Lágrimas” sem encarar suas séries de contradições (Deus versus pecado, família versus sexo, vida profissional versus vida pessoal etc.). Em relação à estrutura narrativa, este livro de Marcelo Coutinho tem duas partes bem definidas. A primeira se passa na noite/madrugada trágica em que Elisa descobre o incesto involuntário. Essa parte se estende por metade das páginas do romance. Gostei mais desta seção inicial da trama pois ela foi desenvolvida inteiramente com personagens redondas e sem qualquer maniqueísmo (prova de que Coutinho é sim um ótimo escritor). Após a descoberta dos segredos pecaminosos das famílias Andreozzi e Albuquerque, o leitor é jogado vários anos à frente na linha do tempo. Nessa segunda parte de “Alto das Lágrimas”, assistimos a Eli cuidando sozinho de Maria, agora uma adolescente. Apesar do ritmo narrativo e da constituição da trama se mantiverem em bom nível, nota-se que o surgimento de personagens caricatas (leia-se planas) e de um forte maniqueísmo acabam atrapalhando um pouco o enredo. Mesmo assim, o resultado é para lá de satisfatório. Outra questão que merece um elogio à parte é o projeto gráfico de “Alto das Lágrimas”, principalmente sua capa. A ilustração estampada na capa é impactante e belíssima. Além disso, ela traz sutilmente muitas questões levantadas pela história. Admito que após encerrar a leitura, fiquei contemplando a imagem da capa em busca das referências narrativas. É muito legal quando uma capa chama nossa atenção não apenas antes da leitura, mas também depois. Não me recordo da última vez que isso tenha ocorrido comigo. Para quem gosta de comentários intertextuais (sempre há um maluco como eu que faz essas relações), “Alto das Lágrimas” me lembrou, em determinados momentos, “Pássaros Feridos” (Bertrand Brasil), o romance mais celebrado de Colleen McCullough. A partir desse ponto de vista, Eli seria a versão nacional e mais moderna de Ralph de Bricassart. Se a personagem australiana sofreu consideravelmente para equilibrar sua vocação sacerdotal com a paixão por Meggie Cleary, o protagonista brasileiro não pareceu tão preocupado em ultrapassar as linhas da profanação do corpo (seus relacionamentos com Elisa e Eleonora são provas cabais desse desprendimento). Por falar em Eli, considerei ótima a construção das personagens deste livro. Além do narrador-protagonista, quase todas as personagens de “Alto das Lágrimas” são figuras redondas (possuem simultaneamente características positivas e características negativas). Ou seja, não há ninguém totalmente bonzinho e não tem ninguém inteiramente mauzinho. A única exceção parece ser Violeta, a grande vilã desta história. A noiva de Henrique é descrita quase como uma bruxa dos contos de fadas (ela me lembrou a madrasta da Cinderela). O problema da composição de Violeta como personagem é que ela é muito caricata e não tem qualquer nuance (a moça só tem defeitos e nenhuma virtude). Achei que “Alto das Lágrimas” merecia uma antagonista com maior riqueza de características. Se ela fosse uma personagem redonda, talvez o livro de Coutinho ganhasse ainda mais em dimensão dramática. Outro defeito deste livro está nos errinhos textuais e de digitação. Infelizmente, eles aparecem em algumas páginas. Uma obra como esta merecia uma revisão mais atenta tanto por parte da editora quanto de seu autor. É verdade que esses tropeções não afetam em nada a experiência de leitura (os errinhos são bem pontuais). Contudo, para um leitor mais exigente, essas falhas podem incomodar um pouco. Confesso ter ficado embasbacado com a qualidade do texto de “Alto das Lágrimas”. Saibam que quando Marcelo Coutinho – não o confundir com Marcelo Moutinho, autor de “Ferrugem” (Record) – publicar uma nova obra ficcional, vou correr para comprá-la. Quero ver se as novas produções do escritor maranhense irão continuar nesse alto padrão estético. Quem gosta de literatura, deve acompanhar os próximos passos desse talentoso autor. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Danças: Raça Cia de Dança - A beleza da arte contemporânea
Nesta sábado à noite, fui ao teatro João Caetano, na Vila Mariana, para assistir aos espetáculos da Raça Cia de Dança de São Paulo. A Raça é um dos mais tradicionais grupos de dança da cidade, especializado em Jazz e Dança Contemporânea. Com mais de três décadas de existência, a companhia da Vila Maria fundada por Roseli Rodrigues mostra-se, mais uma vez, revigorada e recheada de novos talentos. Nos espetáculos desse sábado, a plateia que lotou o aconchegante teatro pode conferir “Traços e Linhas”, “A Flor da Pele” e “Cartas Brasileiras”, três obras do repertório da companhia. Enquanto “Cartas Brasileiras” é uma criação da própria Roseli, “Traços e Linhas” e “A Flor da Pele” são de autoria de Jhean Allex, diretor artístico responsável por estas produções. A direção geral ficou a cargo de Renan Rodrigues. Ao longo de uma hora e meia de apresentações (com 10 minutos de intervalo), 12 dançarinos (6 mulheres e 6 rapazes) revezaram-se no palco. Achei as apresentações e as atuações de todos os dançarinos incríveis. É difícil apontar qual espetáculo, qual cena e quem se destacou mais no palco. A sensação que tive é que o público saiu extasiado do teatro, tamanho foi o esplendor de imagem, música e ação que passou pelos olhos de todos. O mais interessante, em minha opinião, não foram a coreografia primorosa, a ótima execução dos dançarinos em cena, o bom efeito de luz e a música marcante. Não! O que me deixou mais impressionado foi a combinação harmônica desses elementos em uma apresentação ao mesmo tempo leve e profunda. A simplicidade da interpretação dos dançarinos contrasta com as dificuldades de movimentos exigidos e com a profundida temática dos enredos. “Traços e Linhas” teve uma pegada mais moderna e contemporânea. Com meia hora de duração, essa foi talvez a apresentação mais marcante. A música instigante e as cenas com grande número de dançarinos (o palco sempre estava cheio) foi um ótimo cartão de visita. Depois veio “Flor da Pele”, com vinte minutos de duração. Essa foi uma apresentação mais sensual e ritmada. Aqui os dançarinos tiveram que demonstrar a técnica corporal aliada ao erotismo dos seus corpos. Como essa apresentação tinha um público mais família, as moças dançaram inteiramente vestidas (normalmente elas se apresentam seminuas, de seios à mostra). Para terminar, “Cartas Brasileiras” foi a expressão da musicalidade e da expressividade do cotidiano nacional. Em meia hora de duração, os dançarinos se revezaram em pares, trios, casais e pequenos grupos para interpretar alguns gêneros musicais típicos do nosso país. Assim, foi possível ver adaptações de bossa nova e samba, por exemplo, à Dança Contemporânea. Com menos gente no palco, deu para notar com mais detalhes a técnica apurada de cada um dos dançarinos. Não é errado afirma que todos estiveram ótimos. Gostei muito de conhecer mais de perto o trabalho da Raça Cia. Para os interessados, esses espetáculos são gratuitos e acontecem nas próximas semanas em alguns teatros da cidade. Como a Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo está apoiando o grupo, essas apresentações não estão reservadas para um único local. A proposta itinerante permite que mais pessoas conheçam a Raça Cia. Além do teatro João Caetano (Zona Sul), há apresentações agendadas para o teatro Alfredo Mesquita (Zona Norte) e Martins Penna (Zona Leste). “Traços e Linhas”, “A Flor da Pele” e “Cartas brasileiras” também farão parte da 12ª Virada Cultural da cidade de São Paulo, que acontecerá na próxima semana. Quem estiver procurando algo diferente para ver e gostar de dança, fica aqui a dica. Veja um trecho deste espetáculo: Dança é a coluna do Bonas Histórias que apresenta as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Frevo - A história e as características da fervorosa arte pernambucana
2020 foi um ano diferente, estranho e até mesmo áspero. E uma de suas sequelas é que o Carnaval de 2021 foi adiado para julho. Mas essa festa é tão tradicional que, em nossos corações, ela está vibrando ao longo de fevereiro, sim! Sabendo disso, vamos falar neste mês, na coluna Dança, de uma modalidade que tem a cara do Carnaval brasileiro, o Frevo. A ideia é discutirmos, no post de hoje do Bonas Histórias, o seu surgimento e suas principais características. Assim, depois de comentarmos a História da Dança e de detalharmos as particularidades do Ballet Clássico, da Dança Moderna e Contemporânea e da Dança de Salão, vamos mergulhar em um ritmo genuinamente nacional. Falar do Frevo é falar de uma arte propriamente brasileira, que se estende para as expressões musicais, coreográficas e poéticas. O Frevo possui dois títulos que o reconhecem como patrimônio cultural: Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, oferecido pelo Iphan em 2007; e Patrimônio Imaterial da Humanidade, concedido pela Unesco, em 2012. Essa modalidade é uma das mais ricas expressões da inventividade brasileira. Ela mistura os gêneros musicais e dançantes com a Capoeira e o artesanato. Suas apresentações se dão principalmente durante o Carnaval de Pernambuco. Foi em terras pernambucanas, inclusive, que, nas festas carnavalescas do final do século XIX, o Frevo surgiu. E entender sua trajetória é acompanhar a história das classes populares urbanas de Olinda e de Recife. No período de nascimento do Frevo, Pernambuco, especialmente Recife, entrava em uma fase de intensa modernização. A industrialização e a urbanização mudaram a cara da capital do Estado. A cidade passava por grandes transformações sociais, políticas e econômicas, consequências da abolição da escravatura, em 1888, e da Proclamação da República, em 1889. Esses fatores socioculturais desencadearam na criação do Frevo. A invenção desta dança está intimamente relacionada à vida e à história dos recifenses – sua organização social, seus hábitos de promover festas populares e seu cotidiano de engajamento político. O surgimento da classe de trabalhadores urbanos em Pernambuco, operários de fábrica e da construção civil principalmente, influenciou tanto a formação do Frevo que os nomes de seus passos são, até hoje, associados ao universo dessas profissões. Alicate, serrote, tesoura, ferrolho, martelo e parafuso são alguns movimentos típicos desta dança. A classe trabalhadora que estava ligada às origens do Frevo era constituída, em sua maioria, por pessoas negras e mestiças. Elas misturaram o que já traziam da cultura tradicional africana com o que aprendiam e viam nos novos tempos de urbanização no Brasil. Buscavam, assim, uma nova forma de se organizar política e economicamente, além de poderem se expressar culturalmente de um jeito mais genuíno. O resultado disso tudo tem um nome: Frevo! Essa expressão artística é composta pelo Passo (a dança Frevo é vibrante, rica e rápida) e pela musicalidade (derivada das orquestras de metais e de pau-e-corda). A dança e a música andam juntas, se misturam e se complementam. A poesia do Frevo registra os lugares, as épocas, as falas dos seus grupos sociais e é marcada por uma forte crítica social. Seu discurso mostra as inquietudes e os questionamentos do povo mais simples de Pernambuco. Como já falei, o Frevo vai além da dança, da música e da literatura. Ele também tem um pé no artesanato. Tão logo falamos dessa arte, já vem em nossa mente os estandartes, os flabelos e os bonecos gigantes que desfilam no Carnaval de Pernambuco. Os estandartes são as bandeiras em tecido. Eles são levados na frente dos blocos de Frevo. Os flabelos são os abre-alas, objetos decorativos usados na abertura ou na entrada dos clubes carnavalescos. Eles são feitos de material resistente e no formato de leque. Os bonecos gigantes chegaram em Pernambuco, na cidade de Belém de São Francisco, trazidos pela tradição dos bonecos da Europa. No Velho Continente, eles eram muito usados nas festas religiosas. Na pequena cidade pernambucana, o primeiro boneco gigante foi às ruas no Carnaval de 1919 com o personagem Zé Pereira. Apenas em 1929, ele ganhou sua companheira, a Vitalina. E em 1932, os bonecos gigantes chegaram, enfim, às ladeiras de Olinda. O primeiro personagem olindense foi o Homem da Meia-noite, criado pelos artistas plásticos Anacleto e Bernardino da Silva. Depois, em 1937, surgiu a Mulher do Meio-dia e, em 1974, apareceu o Menino da Tarde, ambos do artista plástico Silvio Botelho. Botelho popularizou as apresentações dos bonecos ao criar o Encontro dos Bonecos Gigantes de Olinda, um dos eventos mais famosos do Carnaval nordestino. Nesses encontros, que acontecem às terças-feiras de Carnaval, diversos artistas apresentam seus bonecos em um grande desfile pelas ruas históricas de Olinda. E quem visita Recife pode ver os Bonecos Gigantes pois eles ficam expostos, no restante do ano, na Embaixada de Pernambuco – Bonecos Gigantes de Olinda, localizada na mítica Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo. Quando o Frevo começa a tocar não dá para confundir. Sua música é marcante, frenética, rápida e vigorosa. Sua formação se deu pela junção de alguns ritmos como a Marcha, o Dobrado, o Maxixe, a Quadrilha, a Polca, as peças de repertório erudito, entre outros. Nos primórdios, ela era executada pelas bandas marciais e fanfarras. Na década de 1930, o Frevo passou a ser dividido em três ritmos: Frevo de Rua, Frevo de Bloco e Frevo Canção. O Frevo de Rua foi o primeiro estilo que surgiu. Esse ritmo é totalmente instrumental e acelerado, tocado pelas orquestras nas ladeiras e ruas. Ele é feito exclusivamente para dançar, possui notas agudas e tem predominância de pistões, saxofones, tubas, clarinetes, taróis, surdos, bombardinos e trombones. O Frevo de Bloco, com origem nas serenatas, tem sua instrumentação típica chamada de conjunto de pau-e-corda. Ele é composto de banjos, violões, bandolins, flautas, cavaquinhos e, mais recentemente, o clarinete. Esse ritmo é mais lento do que o anterior e suas letras têm um tom saudosista. Já o Frevo Canção é o mais lento de todos. Possui uma instrumentação parecida com o Frevo de Rua. Ele se assemelha um pouco às marchinhas cariocas, por isso também é conhecido como Marcha-canção. Suas músicas têm uma introdução e uma parte cantada. Elas terminam ou começam quase sempre com um refrão e suas letras tratam costumeiramente do contexto político-social contemporâneo. E quando o Frevo começa a tocar, não dá para ficar parado. A dança Frevo também é conhecida como Passo e teve grande influência da Capoeira. Essa modalidade é frenética e exige dos dançarinos a habilidade da improvisação. O Passo é caracterizado por movimentos rápidos com os pés e com o corpo, como se o chão estivesse “fervendo”. Embora seja uma dança de rua, que arrasta milhões de foliões, ele é complexo e exige muito preparo físico e destreza. O Frevo é constituído por saltos, rodopios, passos miúdos e rápidos e movimentos de descida que exigem muito das articulações dos joelhos. Mesmo assim, ele cumpre seu papel de espalhar alegria e divertimento. No começo, o Frevo era apenas uma folia de rua singela. Ele contagiava com sua música frenética e atraía muitas pessoas. À medida que o tempo foi passando e o evento foi se tornando mais sério, o número de foliões foi aumentando e muitas brigas e discussões passaram a acontecer, principalmente pela rivalidade das agremiações. Visando conter as arruaças, capoeiristas foram contratados para acompanhar a festa. Eles iam à frente dos blocos, afastando os intrusos com seus movimentos rápidos e apartando as confusões. Os capoeiristas usavam, para se defender ou para atacar, guarda-chuvas. E por que eles começaram a usar esse acessório como arma? Os capoeiristas sofriam muita repressão por parte do poder público da época, que acabava confiscando suas bengalas e seus cassetetes, os instrumentos preferenciais nas brigas do dia a dia. Ao adotarem o guarda-chuva ou a sombrinha, eles usavam como desculpa a necessidade de se proteger da chuva e do sol. A partir daí, não tiveram mais seus pertences apreendidos pela polícia e tinham algo para usar na hora das brigas. Em função das ações dos capoeiristas, as brigas nos desfiles foram diminuindo até rarear. Mesmo assim, os capoeiristas foram mantidos na festança, mesmo que só para se divertir. E seus guarda-chuvas também continuaram. Esses utensílios deram origem às famosas sombrinhas do Frevo, uma das marcas mais fortes dessa dança. A Capoeira influenciou o Frevo por emprestar muitas de suas características à nova modalidade. O Frevo tem em seus fundamentos a destreza, a força, a ginga, a resistência, os movimentos de flexões e a formação de roda, que confere destaque ao dançarino que fica no centro. Por isso, costumamos dizer que a Capoeira é uma arte irmã do Frevo. O Frevo mantém muitas de suas tradições, mas foi passando por transformações nos últimos anos, que continuam acontecendo até hoje. Ele mantém a pegada de manifestação cultural urbana, com desfiles de agremiações carnavalescas, passistas dançando na rua, nas ladeiras, nas pontes e nos palcos, músicas contagiantes e símbolos visuais tão característicos. Inicialmente, os passistas desfilavam com as roupas comuns dos trabalhadores urbanos, que eram trajes com mangas longas e de cores sóbrias. Hoje, o figurino, já tradicional do Carnaval, é composto por roupas mais leves e coloridas, lembrando as cores da bandeira de Pernambuco. O próprio guarda-chuva, originalmente grande e preto quando tinha a função de defesa e ataque nas brigas, foi ganhando cor e passou a ser menor, quase uma sombrinha de criança. Ele também foi incorporado aos movimentos da dança. Um dos nomes mais importantes do Frevo é Egídio Bezerra. Conhecido como Rei do Passo entre as décadas de 1950 e 1970, ele incorporou a sombrinha à dança do Frevo. Outro nome de destaque deste ritmo, que também não largava o instrumento colorido na hora de fazer seus movimentos dançantes, foi Mestre Nascimento do Passo. Há muita gente que o considera o maior nome do Frevo. Mestre Nascimento do Passo foi o responsável por criar muitas das coreografias e sequências do Frevo atual. Ao catalogar mais de 80 passos, ao difundir essa dança em aulas e ao promover o Frevo como manifestação cultural, ele contribuiu para a consolidação dessa arte no cenário nacional. O termo Frevo surgiu da palavra ferver, que dá a ideia de agitação e de rebuliço. Na pronúncia popular, dita rapidamente, ferver virou “frever”. E daí para Frevo foi um pulinho. Não dá para falar dessa arte sem citar os famosos bloquinhos que ajudaram e ajudam a perpetuar sua cultura e afirmar o Frevo como patrimônio cultural brasileiro. Os dois mais importantes bloquinhos são o Galo da Madrugada, de Recife, e o Clube de Vassourinhas, de Olinda. O Galo da Madrugada surgiu em 1978 com a intenção de resgatar o Frevo de rua. No primeiro ano, ele saiu à rua com 75 foliões e 22 músicos. A partir de então, todos os anos ele foi ganhando mais e mais passistas. Em 1994, O Galo da Madrugada entrou para o Guiness Book como o maior bloco de Carnaval do planeta ao levar à rua 1,5 milhão de foliões. Atualmente, esse número já ultrapassou a marca dos 2 milhões de foliões. Os desfiles do Galo da Madrugada acontecem todos os sábados de Carnaval. Seu hino, composto por José Mário Chaves, já foi gravado por Alceu Valença e é sempre cantado com muita alegria no Carnaval pernambucano. O Clube de Vassourinha desfila há mais de cem anos pelas ruas de Olinda. Uma de suas músicas, a “Vassourinha’, passou a ser uma das músicas-símbolos do Frevo. Essa canção, composta por Matias da Rocha e Joana Batista, em 1907, se tornou tão popular que foi adaptada para um jingle político quando Jânio Quadros se candidatou à Presidência do Brasil (sim, é aquela do “Varre, varre, Vassourinha”!). Nos últimos anos, o Clube vem sofrendo com a má administração e a falta de recursos. No ano retrasado, ele quase não conseguiu sair às ruas. Para respeitar a tradição e manter seu nome vivo, o Clube de Vassourinha desfilou em uma categoria abaixo da sua. O carnaval de Pernambuco é realizado pelo povo e por milhares de famílias que saem às ruas para festejar. Ele não pode ser considerado o maior Carnaval do país, pois não possuí escolas de samba nem trios elétricos, mas é sem dúvida o mais popular do Brasil. O Frevo não para de crescer. Além dos reconhecimentos de patrimônio cultural que já falamos, ele ganhou, em 2014, um museu dedicado à sua valorização. Trata-se do Paço do Frevo. Ele está localizado no Recife Antigo e é responsável por planejar, coordenar e promover tudo o que se refere à esta dança. Alguns fatos demonstram que não só o Frevo continua em expansão no Brasil como também é cada vez mais reconhecido mundialmente. Em 2014, a SpokFrevo Orquestra fez uma apresentação no Lincoln Center, uma das maiores casas de espetáculos de Jazz dos Estados Unidos. Seu diretor musical e trompetista, Wynton Marsalis, esteve no Paço do Frevo no ano seguinte e falou da importância desse gênero. Em 2016, o Paço do Frevo recebeu pesquisadores da Itália, de Portugal e do Japão que estão estudando à fundo essa dança e essa música. Em 2017, aconteceu o 1º Concurso Europeu de Passistas de Frevo. O evento foi realizado pela Escola Brasil da Suíça e pelo Grupo Alto Astral de Lisboa. Fico na torcida para que possamos ter a inteligência e o respeito para valorizar cada vez mais o Frevo como uma expressão artística brasileira rica e genuína. E para terminar este post da coluna Dança, deixo aqui um pedacinho da música “Bom Demais” de Alceu Valença, considerado o embaixador do Frevo no Rio de Janeiro. Confira: “Eu tenho mais que tá nessa/Fazendo mesura na ponta do pé/Quando o Frevo começa/Ninguém me segura/Vem ver como é...”. Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Primeiros Passos - Dicas para quem quer começar a dançar
Uma das novidades mais legais que pintaram no universo da dança nos últimos anos foi a explosão de coreografias que é postada diariamente nas redes sociais. Se você não chegou agora neste planeta, creio que já viu uma porção delas no Instagram, no TikTok, no Facebook. São pessoas de todas as idades se divertindo com passos ritmados ou gingados improvisados. Em poucos segundos, conseguimos ver a força e a magia da dança se concretizando. É uma overdose de serotonina para quem assisti e de adrenalina para quem pratica. Como dançar é uma atividade saudável e divertida, né?! Ela é capaz de trazer emoção e prazer aos dançarinos e de levar alegria e entusiasmo à plateia. Foi pensando em quem deseja começar a dançar, e que logo mais poderá desfrutar desses benefícios, que fiz este post do Bonas Histórias. A ideia é tirar as principais dúvidas que costumam aparecer no momento crucial da vida do(a) novo(a) dançarino(a) – o começo da jornada pela dança. E olha que não estou me referindo apenas a quem deseja publicar vídeos nas redes sociais ou a quem pretende se tornar um profissional na área. Não! Quero falar com a multidão de dançarinos amadores, com todos aqueles que pretendem dançar para se divertir, para socializar, para perder peso ou para entrar em forma. Assim, no texto de hoje da coluna Dança, vou mostrar o passo a passo do que você deve fazer para começar a dançar, independentemente dos motivos e da modalidade escolhida. São sete dicas infalíveis que recomendo para os(as) iniciantes. O que você está esperando, hein? Bora dançar comigo! 1. Coloque a dança na sua lista de prioridades. Costumo dizer que o momento ideal para se começar a dançar é agora, agora mesmo! E para iniciar algo, a primeira providência é colocá-lo no topo da lista de prioridades. Parece um tanto óbvio, né? Contudo, muita gente não faz isso e acaba postergando para sempre o que tem vontade de realizar. Quando estamos inclinados a fazer algo, temos que estipular um prazo e colocar uma meta. Tipo: até semana que vem eu preciso me matricular em uma escola de dança; ou até o fim do mês tenho que fazer minha primeira aula de dança. Se você ainda não se convenceu que o momento para dançar é agora, aproveite que estamos no começo do ano e mergulhe de corpo e alma nessa ideia. Afinal, janeiro é o mês em que fazemos a relação de metas para o novo ano. Listamos tudo o que queremos fazer de diferente, as pendências que vamos resolver e os sonhos que pretendemos concretizar. E por que não colocar a dança como uma das principais metas de 2021? Se sua resposta for sim para a pergunta anterior, então esse texto é para você. Parta logo para o passo dois. Porém, se você ainda não incluiu a dança nas novas atividades para esse ano, mas na sua lista há itens como fazer uma atividade física, conquistar novos amigos, intensificar a socialização e cuidar mais da saúde física e mental, então continue ligado(a) neste post. Saiba que com a dança, você poderá ticar todos esses itens de uma só vez do seu planejamento pessoal. 2. Descubra sua dança. Uma vez convencido(a) que a dança é para você, o próximo passo é descobrir o seu estilo. Há diversas modalidades que você pode gostar e, como consequência, que você pode não gostar. As pessoas têm preferências e gostos distintos. Para saber o que irá agradar mais, assista a vídeos, pesquise, se informe, teste, pratique. Minha proposta é apresentar aos poucos, no Bonas Histórias, as diferentes modalidades dançantes. Já tratamos na coluna Dança, por exemplo, do Ballet Clássico, da Dança Moderna e Contemporânea e da Dança de Salão. Saibam que ainda virá muito mais pela frente em 2021. Os vídeos são ótimos para ver a dança em movimento. Porém, cuidado! Eles mostram geralmente performances avançadas, o que pode intimidar um pouco o(a) iniciante ou quem deseja permanecer no amadorismo. Ao ver dançarinos em um estágio muito avançado, podemos achar que jamais alcançaremos determinado nível de excelência. As danças são divididas basicamente em duas categorias: as danças realizadas em casal e as danças executadas individualmente. O que você prefere? A dança em casal é a Dança de Salão. E existem diversos estilos dessa modalidade. Naturalmente, você não precisa gostar de todos. Na Dança de Salão, temos os Sambas (de Gafieira, Pagode e Samba-rock), Salsa, Zouk, Sertanejo, Forró, Rock and Roll, Bolero, Valsa, West Coast, Lindy Hop e tantos outros ritmos. Se você gosta de dançar à dois e aprecia algum desses ritmos, então você já pode ter encontrado sua modalidade. Saiba que nem sempre o ritmo que gostamos de dançar é também aquele que mais colocamos para ouvir no dia a dia. Conheço muita gente que não ouve Forró, mas adora dançá-lo. Isso é algo que só descobrimos com o tempo. Uma dica que costumo dar é: esteja aberto(a) ao novo e não tema experimentar ritmos diferentes. A Dança de Salão é ideal para quem quer sair para se divertir com os amigos (e não ficar sentado nas festas e nos encontros sociais). As danças individuais são o Ballet, o Jazz, a Dança Moderna, a Dança Contemporânea, a Dança de Rua, o Sapateado, a Dança do Ventre e o Zumba, entre outros estilos. Essas são as modalidades em que os dançarinos praticam sozinhos. Ou seja, não há a necessidade de um par. Se você estiver buscando melhorar seu alongamento, a flexibilidade e a força muscular, as danças mais indicadas são o Ballet, o Jazz e a Dança Contemporânea. Os outros estilos também trarão esses benefícios, mas de uma forma mais demorada ou de um jeito mais limitado. O Ballet é uma dança para quem gosta de disciplina e técnica. O Jazz mantém muito da proposta do Ballet, mas é bem mais dançante e descontraído. Diferentemente do que muitas pessoas pensam, a dança Jazz não tem qualquer ligação com o ritmo musical homônimo. É possível dançar Jazz com diversas músicas. Já a Dança Contemporânea quebra com a rigidez e com o formalismo típicos do Ballet. Essa modalidade exige mais da consciência corporal do(a) dançarino(a) e usa e abusa dos movimentos livres, que se desenrolam tanto no chão quanto de pé. A Dança de Rua compreende o Hip Hop e o Street Dance. Essas modalidades ajudam a desenvolver a coordenação motora através de músicas com batidas fortes e com coreografias que envolvem todo o corpo. O Sapateado é para quem quer acompanhar o ritmo da música com as batidas dos pés. Há o Sapateado Americano, na qual a dança não se restringe às coreografias dos pés. Ele também utiliza os braços para se expressar. Já o Sapateado Irlandês é uma dança restrita aos movimentos dos pés. A Zumba é uma dança para quem busca algo mais aeróbico e desprovido de técnica. Esse tipo de dança segue coreografias que cada um executa de acordo com suas habilidades e conforme seu preparo físico. A Dança do Ventre é uma modalidade mais feminina e sensual. Ela trabalha o corpo de forma sinuosa e expressiva. E agora, será que já deu para você ter uma ideia de qual é a sua dança? 3. Encontre um lugar para dançar. Há diversas escolas e academias de dança que podem ajudar o(a) novato(a) nessa atividade. Procure dar preferência, inicialmente, para os estabelecimentos que estejam mais próximos de sua casa ou do seu trabalho. Essa proximidade física irá influenciar na sua frequência às aulas e facilitar sua logística no dia a dia. Pesquise se o espaço tem a dança que você gostaria de fazer. Geralmente, as escolas de dança permitem a realização de aulas experimentais gratuitas. Elas são fundamentais para quem está procurando o seu estilo. Além disso, este tipo de aula permite ao(à) novato(a) conhecer a estrutura, o ambiente, os professores e os alunos. Invista seu tempo e energia nas aulas experimentais. E as faça sempre em turmas que estejam, como você, iniciando na prática dançante. No caso de você assistir às aulas de turmas mais avançadas, não se assuste. Lembre-se: você está começando e não pode se comparar a quem já está praticando há mais tempo. 4. Comece por uma turma do seu nível. É importante você se sentir bem na modalidade de dança escolhida já na primeira aula. Lógico que ela não será fácil. Muito provavelmente, a primeira aula será a mais difícil de sua jornada como dançarino(a). Isso ocorre porque todas as informações são novas e o seu corpo ainda não está acostumado com a nova linguagem. Perseverança é fundamental. Se você gostou do estilo da dança, não desista na primeira aula. Faça a segunda, a terceira, a quarta, a quinta... Se dê pelo menos o tempo de um mês para o seu corpo adquirir essa nova forma de se expressar. Comece sempre por uma turma de nível iniciante: adquirir as bases de qualquer modalidade é algo fundamental para o(a) dançarino(a). Se você iniciar em uma turma que for acima do seu nível, você terá mais dificuldades nas aulas. Nesse caso, há grande chance de você não conseguir acompanhar os colegas de turma e de sair frustrado(a). E com isso, poderá ter uma visão equivocada daquele estilo ou mesmo da aula. E aí você irá desistir da dança por razões equivocadas. 5. Espante a timidez e as inseguranças. Algo que ouço corriqueiramente é: a dança não é para mim, sou muito tímido(a). Ou nunca vou conseguir dançar, tenho dois pés esquerdos – e não sou canhoto(a). De certa forma, três entre quatro alunos que chegam às aulas vem com esses discursos ou falando frases parecidas a essas. Espantar a timidez e dar um pontapé na insegurança são atitudes que o(a) dançarino(a) iniciante deve fazer. Lembre-se que, assim como tudo será novo para você nas primeiras aulas, também será dessa maneira para os demais alunos da sua turma. Em um ambiente em que todos estão no mesmo barco, os medos e os receios ficam mascarados. Se você é muito, muito tímido(a) ou está extremamente inseguro(a), chame um(a) amigo(a) para ir junto na primeira aula. Depois ficará mais fácil para você dar continuidade, mesmo que sozinho(a). Você pode escolher fazer aulas particulares ou em grupo. As aulas particulares são recomendadas para aqueles mais receosos, para quem quer aprender um ritmo específico de forma mais personalizada ou até mesmo para aqueles que querem pegar um pouco mais de confiança antes de entrar em uma turma. As aulas em grupo são ótimas para dividirmos experiências, para socializarmos e para entendermos que todos temos dificuldades (muitas vezes parecidas). 6. Tenha persistência. Normalmente, o passo mais difícil de qualquer dança é o primeiro passo: aquele que o(a) faz chegar até a primeira aula. Uma vez que você já chegou à escola e começou a praticar a modalidade escolhida, é preciso persistência. Como já falei, a primeira aula é a mais difícil de todas. O corpo precisa de um tempo para se adaptar a expressão corporal da dança, independentemente do estilo escolhido. Em pouco tempo (um ou dois meses), seu corpo se acostumará à intensidade dos exercícios e, até posso garantir, se viciará à dança. O mais legal é que, nesse caso, esse será o vício mais saudável e contagiante que você poderá ter em sua vida. 7. Crie sua turma e adquira o hábito de sair para dançar. Uma das principais vantagens da dança é a grande sociabilização que seus praticantes vivenciam. Mesmo nos ritmos executados individualmente, as aulas, as coreografias e os espetáculos são realizados com outros(as) dançarinos(as). Nas modalidades em casal, parte do aprendizado e da diversão está nas saídas à noite para se dançar com os amigos. É aí que a mágica da dança se intensifica. Por isso, cria a sua turminha da dança. Saía com os amigos para praticar o que você aprendeu nas aulas. Participe de espetáculos. Poste vídeos de suas coreografias nas redes sociais. Viva intensamente a dança no dia a dia. O que eu sempre notei é que os(as) dançarinos(as) iniciantes que criam suas turmas para praticar as modalidades que gostam são aqueles que evoluem mais rapidamente e que dificilmente largarão as aulas depois. Dançar é um hábito que deve ser incorporado. E fazer isso ao lado de pessoas queridas e divertidas é melhor ainda. Espero ter ajudado um pouco quem quer dar o primeiro passo na dança. Desejo que 2021 seja um ano muito dançante para todos. Então, agora sim, posso convidar: bora dançar! E para finalizar este post com uma frase de pura inspiração, cito Martha Graham: “A dança é a linguagem escondida da alma”. Lindo e certeiro! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Dança de Salão - Origem, características e estilos
Pode arrastar os móveis da casa e abrir um bom espaço na sala! Hoje, na coluna Dança, vamos falar de Dança de Salão. Depois de detalharmos modalidades individuais, Ballet Clássico (em novembro) e Dança Moderna e Dança Contemporânea (em outubro), chegou a vez de tratarmos das danças em casal. Chame seu(sua) parceiro(a) para o baile e embarque conosco no post mais dançante do Bonas Histórias. A Dança de Salão é uma das modalidades mais praticadas na atualidade, tanto no Brasil quanto no mundo. Esse gênero compreende todas as danças executadas em dupla/casal. Essa é justamente sua primeira (e mais marcante) característica. Esqueça, portanto, as apresentações solitárias e as coreografias individuais. O lance aqui é se movimentar com a cumplicidade do parceiro. Os ritmos da Dança de Salão são bem variados. Eles incluem Samba, Samba de Gafieira, Forró, Lambada, Salsa, Rock, Bolero, Zouk, Soltinho, Tango, Lindy Hop, Maxixe, Mambo, Bachata, Kizomba, Vanera, Merengue, Rumba, Cha-cha-chá, Cumbia, Polca, Valsa, Milonga... São tantas opções que é difícil mencionar todas. Exatamente por essa grande variedade musical, a Dança de Salão consegue atrair amantes dos mais diversos gostos. A palavra de ordem desse gênero é inclusão. Além de ser uma modalidade praticada por casais, a Dança de Salão é classificada também como uma dança social. Afinal, sua prática não se restringe às salas de aula e às apresentações. Há muitos lugares para se dançar os diferentes gêneros da Dança de Salão, como bares, casas de shows, festas, casamentos, aniversários. Qualquer encontro com os amigos já é um ótimo pretexto para se dançar à dois. No entanto, essa dança não é só praticada socialmente, como forma de entretenimento. Há muitas competições e concursos de vários ritmos em que os casais são desafiados a provar suas habilidades. A Dança Esportiva é a Dança de Salão realizada em campeonatos. Daqui a pouco falamos mais sobre essa ramificação. Como já vimos em Breve História da Dança, post de setembro da coluna Dança, a primeira modalidade dançante praticada pelos casais foi a Valsa. Ela surgiu no final do século XVIII, na Áustria. Em um primeiro momento, essa dança causou grande escândalo na corte austríaca. Dá para imaginar a polêmica que foi homens e mulheres dançarem juntos, abraçados e um de frente para o outro, hein? A Dança de Salão se desenvolveu primeiro na corte, entre a nobreza. Acredita-se que a forma que dançamos atualmente (com o cavalheiro com o braço esquerdo aberto) deva-se ao fato de os soldados da época usarem a espada no lado esquerdo da cintura. A postura ereta e imponente dos dançarinos da Valsa veio do Ballet Clássico, que por muito tempo foi a dança da corte com mais prestígio. O termo salão foi dado porque essa modalidade se desenvolveu nos grandes salões da nobreza europeia. Essa dança exigia espaço amplos, onde os dançarinos poderiam bailar livremente, sem o risco de trombarem com outros casais. Os colonizadores europeus foram os responsáveis por trazer a Dança de Salão para o continente americano. A partir daí, as modalidades europeias foram se misturando aos hábitos e à cultura local. Não à toa, hoje em dia, muitos dos gêneros mais populares da Dança de Salão são justamente as danças latino-americanas. No Brasil, a Dança de Salão chegou, em 1808, com o desembarque da corte portuguesa no Rio de Janeiro. A nobreza lusitana, quando se instalou por aqui, trouxe seus hábitos e costumes. E a prática de se bailar frequentemente em eventos sociais veio junto. Professores europeus vinham para cá ensinar as novidades para os dançarinos portugueses e brasileiros. Mesmo depois da independência do país, em 1822, e da Proclamação da República, em 1889, a Dança de Salão continuou a ter um papel importante na formação cultural do Brasil. Ela tornou-se até mesmo mais popular – deixou os salões da nobreza e ganhou as ruas, os pequenos eventos do povão. O poeta Olavo Bilac, em um artigo para a revista Kosmos, em 1906, chegou a escrever: “(...) No Rio de Janeiro, a dança é mais do que um costume, é um divertimento; é uma paixão, uma mania, uma febre. Nós somos um povo que vive dançando.” Os tempos áureos da Dança de Salão duraram até a década de 1960. O surgimento das discotecas mudou a concepção dos jovens e da sociedade de modo geral em relação ao ato de dançar. Os dançarinos passaram a se exercitar sozinhos, afastados. Nas discotecas, eles não precisavam se tocar e agiam de forma mais livre, totalmente independentes. A partir daí, a Dança de Salão, principalmente nas grandes cidades ocidentais, perdeu adeptos e esfriou. Esse ocaso perdurou por duas décadas. Nesse período, a modalidade ficou muito rotulada: ela seria a dança de gente velha, a modalidade preferida de dançarinos de estilo conservador e o gênero típico das pessoas de classe econômica mais baixa. Em outras palavras, era vista como a dança dos velhos, dos caretas e dos pobres! A Dança de Salão voltou a ganhar mais espaço no Brasil na segunda metade da década de 1980. Primeiramente, tivemos a onda da Lambada. Depois, mais para o início dos anos 1990, surgiu a febre do Forró Universitário. Bandas como Falamansa e Rastapé foram as responsáveis por levar a dança de casal para as universidades e por despertar o gosto dos jovens para a prática da dança à dois. Hoje, a Dança de Salão é vista como uma forma descontraída e divertida de se praticar exercício físico. Como é uma atividade social, ela é ótima para fazer novas amizades. Trata-se de um gênero muito democrático: inclui todas as idades e permite que todos os gostos se abracem perfeitamente. Podemos separar os ritmos da Dança de Salão em dois grupos. O primeiro grupo é formado pelas danças em que os casais ficam abraçados. Esse é o caso do Samba de Gafieira, do Tango, do Bolero e da Valsa. A proposta desses gêneros é que seus dançarinos se desloquem pelo salão (o que é chamado de ronda). E em qualquer lugar do mundo em que você for dançar, o fluxo de dançarinos no salão é sempre o mesmo - deslocamento circular no sentido anti-horário. Nesses ritmos, os desenhos dos passos se dão essencialmente pelas variações das posições dos pés e das pernas. É verdade que os movimentos dos braços também aparecem nessas danças, mas eles têm uma função meramente complementar. O segundo grupo é formado pelos ritmos em que a maioria dos passos acontece com os casais afastados, conectados apenas pelos braços (eles não ficam totalmente abraçados). Como exemplo dessas modalidades, temos a Salsa, o Forró, o Samba-rock e o Rock. Neles, o deslocamento ordenado pelo salão inexiste. A ideia é que o casal dance no mesmo lugar, sem precisar fazer a ronda. E são os movimentos dos braços que mais aparecem. Os desenhos coreográficos dos braços são os responsáveis por ditar os passos das danças. Assim, as posições dos pés e das pernas adquirem um papel secundário. Independentemente do grupo de dança e do ritmo praticado, uma coisa nunca muda na Dança de Salão – a importância de o casal estar conectado. Há sempre um dançarino que desempenha a função de condutor e um dançarino que é conduzido. O condutor faz o papel do cavalheiro. É ele o responsável por dançar no ritmo da música e de escolher a ordem dos passos a serem executados. Por isso mesmo, o cavalheiro tem que avisar a dama, dançarino(a) que é conduzido(a), quais passos fará. Suas sinalizações são com os braços e com o corpo. Como falei no começo deste post, a Dança de Salão também é uma dança esportiva. A dança para competição é conhecida como Dancesport ou Ballroom Dance. Existe, inclusive, um Conselho Mundial de Dança (World Dance Council – WDC). Essa entidade internacional, uma espécie de FIFA da Dança de Salão, dita as regras, estipula os passos obrigatórios de cada ritmo e separa as modalidades por níveis e categorias. Os ritmos que entram para a dança de competição são: a Valsa (tanto a lenta, que é a Valsa Inglesa, quanto a rápida, a Valsa Vienense), o Foxtrote, o Tango, o Samba, o Quickstep, o Cha-cha-chá, o Passo-doble, a Rumba e o Jive. Se você faz aulas de Dança de Salão em escolas ou costuma sair para dançar socialmente, irá estranhar as apresentações da Dança Esportiva. Isso ocorre porque a maioria das danças de competição ganha novas características e linguagens corporais. Assim, os passos e as formas de se dançar dos atletas da WDC não se parecem em nada com o ritmo dos dançarinos sociais. Ainda falaremos mais sobre a Dança de Salão aqui na coluna Dança. Pretendo explicar, por exemplo, as diferenças de cada um dos ritmos. Isso ficará para novos posts do Bonas Histórias. Contudo, para situar rapidamente quem está chegando agora ao mundo da Dança de Salão, fiz uma relação dos ritmos e suas origens. As danças de origem brasileira são: Samba (de Gafieira, Pagode, Samba-rock e o Funkeado), Lambada, Soltinho, Forró, Maxixe e Vanera. As de origem argentina são: Tango e Milonga. As modalidades de origem caribenha são: Salsa, Rumba, Mambo, Merengue, Cha-cha-chá, Rumba e Bachata. E as de origem norte-americana são: Lindy Hop, Foxtrote e West Coast Swing. E para inspirá-los a dançar, deixo aqui uma frase do filósofo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano, Friedrich Nietzsche. Certa vez, ele disse/escreveu: “Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!”. Bora dançar agora mesmo! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Breve História da Dança
Inauguro, hoje, a minha participação na coluna Dança do Bonas Histórias falando um pouco sobre a história da dança - seu surgimento e desenvolvimento. A dança, junto com o teatro e a música, foi uma das principais artes cênicas da Antiguidade. Ela é uma das poucas artes que não precisa de instrumentos nem de ferramentas para se manifestar. A dança depende apenas do nosso corpo, dos corpos em movimento. Gosto muito da definição do filósofo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano Friedrich Nietzsche (1844 – 1900): “A dança é a única arte em que o artista se torna a própria obra de arte”. A dança está presente em todos os países e culturas, envolvendo desde as crianças até os idosos. Através desta arte pode se transmitir amor, contentamento, tristeza e incontáveis sentimentos. A história da dança é longa, sendo uma das expressões artísticas mais antigas. Quem aqui nunca bateu o pé ouvindo uma música? Pois era assim, com as batidas dos pés, que tivemos as primeiras manifestações de dança. Isso se deu na Pré-história. Através das pinturas nas paredes das cavernas, a arte rupestre, tivemos conhecimento que já se dançava naquela época. A dança, em seus primórdios, não era acompanhada de música. Porém, aos poucos, o homem foi percebendo que com as diferentes intensidades das batidas dos pés podia-se criar sons variados. E depois, os movimentos das mãos foram incorporados à dança, e com as palmas se produziram mais ritmos. Na Pré-história, a dança tinha um caráter de certa forma mágico: ela servia para que cada povo pudesse ter melhores colheitas, induzisse à chegada da chuva, enfrentasse grandes animais, saísse em busca de alimentos e água, celebrasse datas especiais e agradecesse às divindades. No Egito antigo, a dança adquiriu um papel religioso. Ela era vista como algo sagrado, feita para agradecer ou para se fazer pedidos aos deuses. Essa característica transcendental também foi muito comum aos povos asiáticos, tendo sobrevivido até hoje na cultura de países como o Japão e a Índia. Na Antiguidade grega, a dança era utilizada em rituais religiosos. Por isso, sua prática era invariavelmente em grupo. Ela também servia para que os guerreiros se preparassem fisicamente para os combates. Esta arte tinha uma grande importância no teatro, onde era interpretada por meio do coro. Com o passar do tempo, a dança foi perdendo seu aspecto estritamente religioso, passando a se associar aos jogos, principalmente aos jogos olímpicos. Aristóteles chegou a comparar a dança à poesia. Ele disse que o dançarino, assim como o poeta, era capaz de expressar suas emoções, desejos e atitudes. Na Roma antiga, a dança não tinha qualquer caráter religioso, entrando inclusive em decadência. Ela era usada apenas em festas e bacanais. Foi aí que ela ganhou um aspecto mais sensual. Na Idade Média, com a expansão do Cristianismo pela Europa, a dança perdeu importância e foi depreciada. A moral cristã via o corpo como fonte de pecado e, assim, considerava a dança como uma arte profana. Por isso, diferente das outras artes, a dança não entra de jeito nenhum nas igrejas, se restringindo às festas populares. Apenas nos séculos XVI e XVII, no Renascimento, a dança (re)começou a ganhar destaque. Ela passou a ser apreciada pela nobreza e voltou a ter um caráter teatral e social. Nesse período, ela passou a ser mais estudada, ganhando manuais e professores especializados. E deixa, assim, de ser uma atividade apenas lúdica para se tornar mais complexa e com um repertório de movimentos mais elaborados. Os espetáculos teatrais ganharam passos ensaiados, músicas, figurinos próprios, iluminação e cenários majestosos. Na Itália, a dança integrada ao conjunto de passos e ritmos começou a ser chamada de “balleto”, que significa bailar. Esta modalidade de dança era uma releitura das danças tradicionais da corte, misturando arte, política e socialização. Se antes a dança tinha um cunho religioso e sagrado, aqui ela passa a ser usada especialmente para exaltar o Estado. A princesa florentina Maria de Médice, apaixonada por música e dança, casou-se, em 1600, com o rei da França Henrique IV. Foi ela quem introduziu o “balleto” na França, que neste país passou a ser chamado de ballet, uma arte digna de ser praticada na corte. A França da dinastia dos Bourbon vivencia a era dourada da produção cultural. A dança deixa de se restringir aos salões e invade os palcos dos grandes teatros. É o início dos grandes espetáculos dançantes. O século XVII é considerado a grande fase do ballet. No século seguinte, o ballet foi incorporado à Ópera de Paris. Assim, o ballet ganhou mais reconhecimento, se fortalecendo como arte. A partir daí, os dançarinos passam a expressar seus sentimentos e emoções com mais liberdade e veracidade. Os grandes espetáculos de ballet passam a contar histórias nos palcos, com começo, meio e fim. Foi neste período que os dançarinos de ballet começaram a usar as sapatilhas para dançar. A dança passou a fazer parte da educação da nobreza. As modalidades mais conhecidas eram o minueto, a gavote, a zarabanda, a allamande e a giga. Foi no final do século XVIII, na Áustria, que surgiu a valsa. Esta foi a primeira dança em que os casais tinham que dançar abraçados e de frente um para o outro. Por isso, esta modalidade dançante causou inicialmente grande escândalo, principalmente entre os mais conservadores. Mas logo a valsa se espalharia por toda a Europa, chegando até o Brasil através da corte portuguesa. O Romantismo, no século XIX, é incorporado ao ballet, que até então narrava histórias de fadas, de fantasias e de bruxas. Neste período, o ballet se consolida como forma de expressão artística e ganha mais notoriedade na corte russa. O ballet romântico teve seu auge com a criação das obras do compositor russo Piotr Ililch Tchaikovsky (1840 – 1893) e com as atuações do bailarino Marius Petipa. Os espetáculos mais famosos desta época são “O Lago dos Cisnes” e “O Quebra-Nozes”. No final do século XIX, as antigas colônias americanas também passaram a fazer suas próprias criações, a partir das releituras das danças e das músicas europeias. Foi também neste período que as danças em pares, hoje conhecidas como Danças de Salão, se desenvolveram, como o choro e o samba, no Brasil, e o tango, na Argentina e no Uruguai. A partir do século XX, a dança moderna faz uma ruptura com as tradições e a rigidez do ballet. Novas formas de se dançar e de se expressar com o corpo são criadas. Portanto, abrem-se as portas para muitas linguagens. A diversidade passa a ditar os movimentos e a incorporar os sons dos mais variados ritmos. A dança atual tem muitos elementos e muitas modalidades. Não há qualquer restrição para a criatividade dos dançarinos e dos coreógrafos contemporâneos. No próximo post da coluna Dança, vamos falar mais da Dança Moderna e da Dança Contemporânea. E para terminar o texto de hoje do Bonas Histórias com uma pegada inspiradora, deixo aqui uma frase de George Balanchine, um dos grandes nomes do ballet russo: “Dançarinos são instrumentos, como um piano que o coreógrafo toca”. Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Novela: O Ghost Writer - Apresentação
Trago uma novidade desconcertante para a coluna Contos & Crônicas. Em sua sexta temporada, a seção de produção ficcional própria do Bonas Histórias não terá uma nova coletânea de contos nem uma nova coleção de crônicas. Pode isso, Arnaldo?! Antes que as reclamações se propaguem entre os conspiradores de plantão, vou logo avisando: ao invés da tradicional série narrativa, teremos, em 2020, uma novela. Uma novela no Contos & Crônicas?! Isso é uma vergonha! Calma, muita calma nessa hora. No fundo, a mudança não será tão grande assim. Saem as tramas independentes conectadas por uma temática única e entra uma só história dividida em pequenas partes. Viu como é possível juntarmos as novelas às narrativas curtas? Não é o fim do mundo, vai? Para ser justo, muito justo, justíssimo, esse expediente já ocorreu uma vez em nossa coluna. Na segunda temporada de Contos & Crônicas, apresentamos “Histórias de Macambúzios”, narrativa de estreia de Paulo Sousa na ficção comercial. Atualmente, Sousa é o autor do elogiado romance “A Peste das Batatas” (Pomelo). Ao mesmo tempo em que podíamos classificar “Histórias de Macambúzios” como uma coletânea de contos (foi o que fizemos aqui no blog), também poderíamos enxergá-lo como uma novela (foi o que seu autor sempre fez). Afinal, suas pequenas tramas independentes se realizavam sempre em um mesmo cenário e tinham corriqueiramente as mesmas personagens. Não sei não. Tô de olho no senhor! Além disso, podemos recuperar um pouco a proposta e a nostalgia dos fascículos literários, uma moda tão século XVIII. Né brinquedo não! No lugar dos romances românticos publicados aos poucos nos jornais, teremos uma novela (no sentido original do termo, não na concepção televisiva) dividida em pequenos capítulos e divulgada periodicamente em um blog literário. Confesse: é um charme ter, em pleno século XXI, uma experiência de leitura como essa, hein? Tô certo ou tô errado? A novela que apresentaremos, em 2020, no Bonas Histórias, será “O Ghost Writer”. Essa história será produzida por mim, Ricardo Bonacorci, e por Roberto S. Inagaki e será divulgada mensalmente, de junho a dezembro, na coluna Contos & Crônicas. Além desse post de apresentação/introdução à trama, teremos, portanto, mais sete capítulos. Eu conheço o Roberto S. Inagaki há quase duas décadas. Trabalhamos muito tempo juntos em uma empresa de consultoria e agora ele se transformou em meu parceiro de escrita. Em dupla, estamos produzindo o livro “Guerra e Paz nos Negócios” cujo tema é planejamento estratégico. A previsão é que a Editora Pomelo lance “Guerra e Paz nos Negócios” entre o final desse ano e o início do próximo (isto é, se até lá a quarentena do novo coronavírus já tiver se encerrado...). Em meio ao desenvolvimento dessa obra, tivemos a sacada de aproveitar parte das ideias e do conteúdo mais literário dessa publicação para criarmos uma novela independente. Assim, da costela do livro de planejamento estratégico nasceu “O Ghost Writer”. Nessa narrativa ficcional (não tão ficcional assim, confesso!), um jovem aspirante a escritor precisará superar alguns obstáculos para realizar o sonho de trabalhar com a escrita profissional. Além disso, ele, como um ghost writer (daí o título da novela), terá o desafio de produzir um livro sem que o verdadeiro autor queira participar da empreitada. Fala séééééério! Anote aí o calendário de “O Ghost Writer”: - 7 de junho de 2020 - Capítulo 1: Oportunidade Imperdível. - 11 de julho de 2020 - Capítulo 2: Rumo ao Desconhecido. - 20 de agosto de 2020 - Capítulo 3: Encarando os Medos. - 11 de setembro de 2020 - Capítulo 4: Pé Esquerdo. - 7 de outubro de 2020 - Capítulo 5: Para Se Molhar. - 13 de janeiro de 2021 - Capítulo 6: Sem saída. - 23 de janeiro de 2021 - Capítulo 7: Entre Mortos e Feridos. - 17 de fevereiro de 2021 - Capítulo 8: Costura. Boa temporada de Contos & Crônicas e ótima leitura para todos! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Garoto da Loteria - O grande sucesso de Michael Byrne
No último final de semana, li “O Garoto da Loteria” (Rocco Jovens Leitores), o romance de estreia do inglês Michael Byrne. Sucesso nas livrarias do Reino Unido há aproximadamente cinco anos, esta obra foi traduzida para uma dezena de idiomas e lançada com êxito no exterior. Em vários países da Europa, o livro de Byrne chegou a figurar na lista dos mais vendidos. No Brasil, ele foi editado no primeiro semestre de 2017, mas não conseguiu entrar ainda no ranking dos títulos ficcionais mais comercializados. Mesmo assim, esta publicação obteve por aqui números razoáveis, que muitos autores nacionais ou internacionais dificilmente conseguem conquistar, ainda mais em se tratando de um primeiro trabalho. Não sei se “O Garoto da Loteria” foi o melhor romance que li neste ano (desconfio que não), mas foi sem dúvida nenhuma o que mais mexeu comigo (disso tenho certeza!). Fiquei tão angustiado com o suspense dramático do menino de doze anos e sua valente cachorrinha (a dupla percorre sozinha as ruas de Londres enfrentando todo tipo de perigo e adversidade) que estou até agora, três dias depois da leitura, com as cenas desta trama atormentando minha mente. Há um bom tempo não sentia tanta inquietação durante uma história ficcional. Por isso, minha vontade de analisar este livro o quanto antes na coluna Livros – Crítica Literária do Bonas Histórias. Publicado originalmente em maio de 2015 na Inglaterra, “O Garoto da Loteria” transformou o desconhecido Michael Byrne em um escritor profissional. Depois de trabalhar por alguns anos como professor de inglês em escolas de ensino médio da região metropolitana de Londres, Byrne resolveu mudar de profissão – ele se tornou taxista. Quando não estava nas ruas levando e trazendo os passageiros, Michael Byrne, um apaixonado pela literatura e, principalmente, pelo fazer literário, se arriscava de maneira amadora na produção ficcional. “O Garoto da Loteria” surgiu do hobby/sonho do autor em adentrar no mundo da prosa comercial. Provando que a literatura inglesa contemporânea é uma bem azeitada oficina (ou seria usina, máquina ou fábrica?) de revelação e disseminação de novos talentos (uma realidade que, infelizmente, ainda estamos muito, muito e muito longe de atingir no Brasil), os originais de Michael Byrne caíram na roda da indústria ficcional local. Daí o texto de “O Garoto da Loteria” passou pelas mãos hábeis de agentes literários, editores, editoras, gráficas, livreiros, críticos literários e, por fim, consumidores. Estava pautado, assim, o caminho para o lançamento de um thriller com uma narrativa forte e emocionante, capaz de encantar os leitores de todas as idades. Com o sucesso quase que meteórico de “O Garoto da Loteria”, Michael Byrne abandonou definitivamente o táxi e o magistério. Atualmente, ele é escritor em tempo integral. Contudo, seus novos títulos ainda não foram traduzidos para o português. A maioria deles está por enquanto apenas na versão em inglês. Ou seja, será preciso esperar um pouco mais para sabermos se Byrne terá uma carreira internacional vigorosa e longeva como a de muitos de seus compatriotas (a literatura britânica é uma das líderes do Mercado Editorial brasileiro há algum tempo, superando em muitos anos a badalada literatura norte-americana). O enredo de “O Garoto da Loteria” se passa em agosto de 2013. O cenário é a capital inglesa. A narração é feita em terceira pessoa por um narrador colado a Bully, o jovem protagonista. Bully, cujo nome verdadeiro é Bradley, é um menino de doze anos que mora nas ruas de Londres. Ele sobrevive entre a mendicância e a prática de pequenos delitos. Sua única companhia é a cachorrinha Jack (apesar do nome masculino, trata-se de uma fêmea), uma mistura de Bull Terrier com alguma raça desconhecida. A dupla de personagens vive ao relento desde que a mãe de Bully morreu há mais ou menos seis meses. Como o garoto não gostava do padrasto nem da meia-irmã, ele resolveu simplesmente abandonar o lar sem dar quaisquer explicações para a família. A partir daí, o menino passa os dias e as noites nas ruas londrinas ao lado da fiel, obediente e corajosa Jack. Eles tentam superar como podem a fome, a pobreza e a violência das quais os moradores de rua das grandes cidades do mundo são vítimas cotidianamente. De repente, a sorte parece sorrir para o garoto órfão. Ao abrir o cartão de aniversário que a mãe deixou (obviamente, antes de falecer), Bully encontra um bilhete de loteria. Foi ele quem fez aquela aposta e deu para a mãe, quando ela estava internada no hospital. Prevendo a possível morte e esperançosa de ganhar uma bolada na loteria, a mulher escondeu o bilhete no cartãozinho de aniversário do filho e o entregou ao menino. Por isso, demorou tanto tempo para Bully achá-lo, apesar de abrir diariamente o cartão para se lembrar da matriarca. Ao visitar uma lotérica para ver se tinha ganhado o prêmio, o protagonista é surpreendido duplamente pelas informações dadas pelos profissionais do estabelecimento: sim, ele tinha ganhado o prêmio máximo (de valor milionário); e ele possui pouco mais de cinco dias para ir até Camelot, a empresa encarregada do concurso, para retirar a bolada. Afinal de contas, o vencedor da loteria tem um tempo limite de seis meses para reclamar o prêmio. Como o sorteio aconteceu mais ou menos nesse intervalo, o prazo que o garoto tem para apresentar o bilhete e sacar a grana é de menos de uma semana. De certa forma, trata-se de uma corrida contra o tempo. O problema inicial de Bully é que ele não tem dinheiro para pegar um táxi e ir até Watford, sede da Camelot. Watford é uma cidade da região metropolitana de Londres que fica a cerca de 30 quilômetros ao norte do centro da capital inglesa, onde o garoto vive. Ele também tem medo de pegar trem ou ônibus e ser preso pelos policiais (lembremos que Bully é um menino de rua). Por isso, o protagonista resolve caminhar a pé até Camelot. Em seu raciocínio, ele chegará à empresa de loteria em menos de cinco dias. Porém, o menino não contava com um segundo obstáculo – ele não conhecia o caminho que precisaria percorrer. As agruras de Bully se tornam realmente intransponíveis quando, ingenuamente, ele conta para uns amigos mendigos que ganhou na loteria e que irá até Watford sacar o prêmio milionário. Não demora para a notícia se espalhar entre a população de rua de Londres. Aquela informação chega aos ouvidos de Janks, um sujeito que vive fazendo maldades com os mendigos e que adora rinhas de cachorro. Ele mobiliza sua gangue para achar Bully e tomar seu bilhete premiado antes que o garoto chegue à Camelot. Iniciam-se, a partir daí, os cinco dias mais eletrizantes e dramáticos da vida de Bully e Jack. A dupla de amigos precisará lutar sozinha contra tudo e contra todos para não ser assaltada nem morrer nas mãos dos criminosos do centro de Londres. Sem poder confiar em ninguém, Bully sabe que qualquer novo erro poderá ser fatal tanto para ele quanto para sua cachorrinha. “O Garoto da Loteria” tem 256 páginas e está dividido em 30 capítulos. A tradução para o português brasileiro ficou à cargo de Marcelo Schild Arlin (o título original é “Lottery Boy”). Marcelo Schild é licenciado em língua inglesa e possui mais de uma década de experiência na tradução de obras ficcionais e não ficcionais para as principais editoras do Brasil. Levei, no último sábado, entre cinco horas e meia e seis horas para percorrer todo o conteúdo desta publicação. Fiquei tão comovido com esta história que li o romance inteiro no mesmo dia (não consegui desgrudar de suas páginas). Comecei a leitura de manhã e no começo da noite já havia chegado ao último capítulo. Este livro de Michael Byrne é um thriller melodramático. O suspense da trama (conseguirá Bully fugir dos criminosos que o perseguem e sacar o prêmio que lhe pertence por direito?) vem acompanhado por um drama comovente (o garotinho precisa sobreviver sozinho pelas ruas de Londres tendo como única companhia seu amado cachorrinho). Impossível não se envolver com um enredo como este. Ao mesmo tempo em que somos tocados pela adrenalina da ação (e põe ação nisso!), também acabamos sensibilizados pela trajetória difícil do protagonista. Não estou exagerando quando digo que há partes neste livro de deixar o leitor com o coração na mão. Em vários momentos, quase perdi o fôlego. Como já falei no início deste post, há muito tempo não ficava tão angustiado lendo uma obra ficcional. Para você ter uma ideia de como “O Garoto da Loteria” mexeu comigo, minha irmã veio me visitar no sábado na hora do almoço. Surpresa, ela me questionou: “Por que você está mal-humorado hoje? Eu fiz alguma coisa para você ficar chateado comigo?”. Minha tensão com a leitura era tamanha que não consegui relaxar nem mesmo quando larguei temporariamente o livro. Minha irmã não acreditou quando disse que não estava mal-humorado e sim tenso com a leitura. Na certa, ela é daquele tipo de pessoa que não crê que a literatura é capaz de mexer tão intensamente conosco. A ação e o suspense do romance de Byrne são potencializados por vários recursos narrativos bem executados: roteiro ao estilo cinematográfico (ao melhor estilo Harlan Coben), ritmo narrativo impecável (a tensão não esmorece) e presença de um cronômetro que mostra ao leitor quanto tempo o protagonista tem para concluir a missão. A contagem regressiva transforma “O Garoto da Loteria” quase que em um escape game. A leitura desta obra se torna mais forte quando entramos para valer em sua proposta estética. Outro ponto positivo de “O Garoto da Loteria” está em sua dupla de protagonistas. Eles são extremamente carismáticos. Ou alguém em sã consciência não iria se solidarizar com um menino de doze anos e seu esperto cãozinho que precisam encarar bravamente os perigos das ruas, hein? Além disso, Bully está longe de ser uma personagem plana. De maneira sábia, Michael Byrne construiu uma figura redonda para protagonizar sua obra de estreia na ficção. O menino possui qualidades positivas (é carinhoso e responsável com Jack, nutre grande saudades da mãe e tem um bom coração) e defeitos (é arruaceiro, impertinente e mal-educado e, quando precisa, comete pequenos crimes). Note que Bully é, em uma perspectiva naturalista, quase como um vira-lata social. Ele age quase sempre de forma contraditória: é inteligente e esperto, mas não tem escolaridade nem conhecimento teórico e prático da vida; é corajoso para muitas situações e medrosos para outras tantas (lembremos que ele só tem doze anos!); fica preso à realidade brutal do seu cotidiano, mas não deixa de sonhar com um futuro melhor; é carinhoso e sentimental com Jack e, ao mesmo tempo, é frio e insensível em relação às demais pessoas (principalmente se elas tiverem dinheiro); e diz não ter qualquer apreço pela família, mas não consegue se esquecer da mãe. Assim, temos um protagonista mais verossímil e interessante. Outra questão a ser elogiada em “O Garoto da Loteria” é a forma como o narrador observador cola na personagem principal. Essa aproximação é escancarada na tentativa de olhar para a sociedade pelo ponto de vista de Bully. Achei excelente essa iniciativa. Em muitas partes, Michael Byrne é bem-sucedido nessa empreitada, principalmente quando o narrador e o protagonista chamam os homens e as mulheres que transitam com pressa pela cidade de “zumbis” (aos olhos dos moradores de rua, os cidadãos apressados e insensíveis à pobreza são zumbis) e quando eles chamam as pessoas que têm mais afinidade de Davey (parece haver alguns Davey pelo centro de Londres). Em outras partes, esse recurso não é tão eficiente. Parece-me pouco crível que um menino esperto como Bully faça a marcação do tempo pela duração do programa do Scooby-Doo e não pelo jeito tradicional (horas, minutos). Aí o escritor inglês deu uma exagerada. É inegável a forte crítica social contida em “O Garoto da Loteria”. Além disso, o livro tem uma forte pegada de road story. A aventura tem como cenários vários pontos turísticos de Londres. As cenas acontecem, por exemplo, no Big Ben, na London Eye, na frente do Palácio de Buckingham, junto à estátua de Winston Churchill, no zoológico, no Tâmisa, no cemitério de Highgate, no metrô, em Oxford Street, no Museu de Guerra Imperial, no Piccadilly Circus e no Royal Free Hospital (se bem que este último não tem nada de turístico, né?). Apesar do vilão principal da trama ser Janks (uma personagem plana), “O Garoto da Loteria” é o típico romance em que o conflito se dá entre o protagonista e o mundo (algo que na Teoria Literária é chamado de conflito do Personagem versus Sociedade). Essa característica do enredo é outro acerto de Byrne. Só entendemos as escolhas equivocadas de Bully (e o garoto tem uma série delas ao longo do livro) se compreendermos que ele é um menino de rua e que enxerga os “zumbis” e a polícia como seus maiores inimigos. Por isso, a opção pelo caminho mais longo e tortuoso até Watford (quando entrar em um táxi ou embarcar no metrô seria algo mais sensato a se fazer, pelo menos do ponto de vista de um cidadão normal). Esta leitura me fez recordar outras tramas ficcionais. Em primeiro lugar, o estilo de Michael Byrne me lembrou muito o de Nick Hornby. Exatamente por isso, “O Garoto da Loteria” pode ser visto como uma versão contemporânea e mais violenta de "Um Grande Garoto" (Rocco). Também me veio à mente “Um Gato de Rua Chamado Bob” (Novo Conceito), obra escrita por Garry Jenkins a partir da história real de James Bowen, e “Na Pior em Paris e Londres” (Companhia das Letras), romance autobiográfico de George Orwell. Se formos expandir as comparações para os exemplares da literatura brasileira, aí a associação é com “Capitães da Areia” (Companhia das Letras), clássico de Jorge Amado. No caso de uma referência cinematográfica, quem desponta é “Quem Quer Ser Um Milionário?” (Slumdog Millionaire: 2008), filme dirigido por Danny Boyle e escrito por Simon Beaufoy. Se voltarmos um pouco mais no tempo, podemos lembrar de “O Garoto” (Kid: 1921), clássico de Charles Chaplin. Nota-se, portanto, que o enredo de “O Garoto da Loteria” não é lá muito criativo. Contudo, este livro foi muitíssimo bem executado. Às vezes, mais vale uma narrativa banal bem escrita do que uma trama original e mal desenvolvida. Admito que mesmo me recordando de meia dúzia de obras literárias e cinematográficas parecidas, ainda assim adorei o romance de Michael Byrne. Algo que considerei destoante nesta obra foi o seu desfecho. Depois de uma série de capítulos com muita emoção e adrenalina que culmina em um clímax impecável, entramos em uma fase meio paradona da história. Aí a ação cessa (ou diminui muito de intensidade) e a trama se arrasta por algumas dezenas de páginas. Minha impressão é que o autor não soube terminar adequadamente o livro ou não se dedicou a essa parte como deveria. Curiosamente, “O Garoto da Loteria” é classificado como um título infantojuvenil. Porém, ele pode e deve ser apreciado por todos os públicos. Temos aqui aquela obra ficcional destinada para os jovens que consegue encantar também os leitores mais velhos – algo que comentei no mês passado durante a análise de “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), clássico de José Mauro de Vasconcelos. Talvez esse seja um dos segredos dos melhores títulos da literatura infantojuvenil: suas histórias conseguem dialogar em alto nível com todos os integrantes da família independentemente da idade. Incrível! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Livros: A Falência - A obra-prima de Júlia Lopes de Almeida
Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o Bonas Histórias analisa, no post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária, a obra-prima de Júlia Lopes de Almeida, uma das principais autoras brasileiras de todos os tempos. “A Falência” (Penguin & Companhia das Letras) é o romance mais conhecido da escritora e jornalista carioca que se tornou sucesso de público e de crítica entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Merecidamente, Júlia Lopes de Almeida é apontada como um dos grandes nomes da literatura realista nacional. Além disso, ela se destacou na produção de crônicas (manteve por mais de vinte anos uma coluna de destaque em um dos jornais de maior influência do Rio de Janeiro), foi pioneira no desenvolvimento de títulos para o público infantojuvenil (inclusive com publicações paradidáticas) e se aventurou pela dramaturgia (foram oito as peças criadas). Se você nunca ouviu falar de Júlia Lopes de Almeida e de “A Falência”, por favor, não estranhe nem se penitencie pelo seu desconhecimento. Mesmo tendo adquirido, há mais ou menos um século, o status de uma das vozes mais importantes da literatura brasileira, a escritora foi inexplicavelmente esquecida pelo mercado editorial após sua morte em 1934. Os livros de Júlia ficaram, acredite se quiser, sem novas republicações por mais de seis décadas. Somente nos últimos anos, as editoras, os críticos literários, os estudiosos da teoria literária e os profissionais envolvidos com a historiografia literária passaram a redescobrir e a revalorizar o trabalho desta autora. Como consequência, os leitores brasileiros ganharam recentemente edições renovadas de várias obras de Júlia Lopes de Almeida. Nesse sentido, foi admirável a iniciativa da Companhia das Letras (pelo selo Penguin) de relançar, em março de 2019, “A Falência”. A partir daí, outras editoras seguiram o exemplo da líder de mercado e desenvolveram novos projetos com os antigos sucessos da autora. Nascida em 1862, Júlia Lopes de Almeida morou em várias cidades do Brasil (Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro) e da Europa (Lisboa e Paris). Filha de ricos imigrantes portugueses, ela estreou na literatura em 1886. Então com 24 anos e ainda estampando o sobrenome de solteira (o Almeida seria incorporado após o casamento com o português Filinto de Almeida), Júlia Lopes lançou, ao lado da irmã Adelina Lopes Vieira, “Contos Infantis” (Livraria Francisco Alves), uma coletânea de narrativas curtas voltada para o público infantil. A publicação de um título especialmente para a criançada configurou-se uma grande novidade para a época. Monteiro Lobato, tido por muitos como pioneiro nesse segmento, só lançaria seus textos algumas décadas mais tarde. Em 1887, Júlia Lopes de Almeida publicou sua primeira ficção adulta: “Traços e Iluminuras” (Livraria Francisco Alves), outra coleção de contos. Em 1889, a escritora carioca viu seu primeiro romance ser publicado. “Memórias de Marta” (Casa Durski Editora) saiu em folhetim pelo jornal Tribuna Liberal entre dezembro de 1888 e janeiro de 1889 e em livro no final de 1889. Em 1891, “A Família Medeiros” (Livraria Francisco Alves), o segundo romance da escritora, foi publicado primeiro em folhetim e depois em livro. Esse foi o pontapé inicial de uma carreira longa na literatura (40 anos de produção ficcional) e no jornalismo (além de ter seus folhetins publicados pelos periódicos, Júlia Lopes de Almeida se tornou uma das principais colunistas brasileiras e trabalhou em uma série de veículos de comunicação: nos jornais O País, Gazeta de Notícias, A Estação, O Estado de São Paulo, Ilustração Brasileira, Jornal do Commercio e Kosmos e na revista feminista A Mensageira). Vale lembrar que isso ocorreu em um período da história que era raro ver as mulheres no mercado de trabalho (ainda mais na mídia impressa). Tão importante quanto sua presença na literatura e no jornalismo no final do século XIX e no início do século XX foi a pauta dos textos de Júlia. Ela defendeu abertamente os ideais feministas, anticolonialistas, pacifistas, antiescravistas, burgueses, antirracistas e republicanos. Em outras palavras, a escritora estava muito à frente do seu tempo (sua pauta é atualíssima e não envelheceu quase nada). Com críticas fortes à desigualdade social no Brasil, ao comportamento conservador da elite nacional e ao machismo de seus conterrâneos, Júlia Lopes de Almeida está no grupo dos grandes autores realistas brasileiros, que conta com figuras como Machado de Assis, Raul Pompéia, Aluísio de Azevedo, Xavier Marques, Arthur de Azevedo e João Lúcio Brandão. Portanto, não é errado enxergá-la também como uma das principais intelectuais do país durante a transição da Monarquia para a República Velha. Aliando forte formação educacional com cultura sofisticada, vivência internacional, valores liberais, engajamento social e independência financeira (proveniente de seu salário como colunista e ficcionista), Júlia Lopes de Almeida destoava totalmente do padrão feminino da época. Até então, as mulheres eram obrigadas a ficar em casa cuidando exclusivamente das tarefas domésticas, da criação dos filhos e dos assuntos familiares. Júlia, por outro lado, tinha uma carreira exitosa e estava antenada com o que acontecia no país e no mundo. Sua casa no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, era frequentada pela nata dos artistas, dos intelectuais e dos jornalistas da Capital Federal do início do século XX. Em uma comparação ousada (quase escrevi polêmica), podemos enxergar Júlia Lopes de Almeida como sendo a versão brasileira de Virginia Woolf. As semelhanças entre as duas escritoras são extensas: ambas as artistas foram intelectuais brilhantes, defenderam o feminismo, revolucionaram a literatura do seu tempo, atuaram como colunistas de destaque na imprensa, obtiveram independência financeira pelo seu próprio trabalho e serviram de inspiração para as demais mulheres. Até a casa de Júlia em Santa Tereza, apelidada de Salão Verde pelos amigos, pode ser vista como a sede tupiniquim do nosso Grupo de Bloomsbury. Vale a pena esclarecer que a romancista inglesa era vinte anos mais jovem do que a escritora carioca - quando a Sra. Woolf começou a despontar na Europa, a Sra. Almeida já fazia grande sucesso por aqui. Por isso, se você quiser ver Virginia Woolf como sendo a versão britânica de Júlia Lopes de Almeida, também pode. Ainda está duvidando da excelência do trabalho literário de Júlia, hein?! Então aí vai a prova definitiva de seu talento com as palavras escritas: a romancista carioca foi cogitada para integrar o grupo de fundadores da Academia Brasileira de Letras. No final de 1896, Júlia Lopes de Almeida apareceu na lista dos escritores que ganhariam uma cadeira na instituição que seria criada no ano seguinte. Contudo, na última hora, seu nome foi preterido por um detalhe assustador: ela era mulher! No momento da fundação da Academia Brasileira de Letras, optou-se por aceitar apenas homens em seu quadro de participantes. Para estarrecimento geral, essa regra machista permaneceu intacta por mais oito décadas. A primeira mulher a ser aceita ali foi Rachel de Queiroz, em 1977. Envergonhado por não poder contar com Júlia Lopes de Almeida (afinal, já tinham até mesmo comunicado a autora de sua convocação para Academia Brasileira de Letras), o grupo original de imortais acabou (olha só a ideia!) convidando para seu lugar Filinto de Almeida. Lembram de Filinto de Almeida? Ele era o poeta português que (pasmem!) havia se casado com Júlia. No arranjo dos intelectuais do século XIX (que faria os políticos atuais de Brasília corarem de vergonha), a cadeira da instituição mais renomada da literatura brasileira ficaria, desta forma, com o casal Almeida. E todos sabiam que aquele assento era por mérito da esposa e não do marido (apesar de Júlia não poder ocupá-lo efetivamente). Vale lembrar que até hoje a Academia Brasileira de Letras não emitiu um pedido público de desculpas pela exclusão de Júlia Lopes de Almeida de seu quadro de fundadores. Publicado em 1901, “A Falência” é considerado pela crítica literária nacional o trabalho mais brilhante de Júlia. Não é errado apontá-lo também como uma das grandes obras ficcionais da virada do século XIX para o século XX. Assim, “A Falência” equipara-se a “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Martin Claret), "Quincas Borba" (Penguin & Companhia das Letras), “Dom Casmurro” (Ática), “O Ateneu” (Penguin & Companhia das Letras), “O Cortiço” (Melhoramentos) e “O Mulato” (Martin Claret) como os grandes clássicos do Realismo Brasileiro. Este romance de Júlia Lopes de Almeida integra a fase mais madura da produção literária da autora, que foi de 1895 a 1905. Além de “A Falência”, a lista com seus principais títulos abrange “A Viúva Simões” (Livraria Francisco Alves), romance publicado em folhetim em 1895 e em livro em 1897, “O Livro das Noivas” (Livraria Francisco Alves), ensaio não ficcional de 1896, e “A Intrusa” (Livraria Francisco Alves), romance publicado ao longo de 1905 no Jornal do Commercio e naquele mesmo ano em livro. Felizmente, as três obras ficcionais da fase dourada da carreira de Júlia Lopes de Almeida ganharam novas edições nos últimos anos. O selo Principis da Editora Ciranda Cultural, por exemplo, lançou “A Viúva Simões”, “A Intrusa” e “A Falência”. Só “O Livro das Noivas”, um título evidentemente datado (onde já se viu, em pleno século XXI, ensinar as mulheres a se comportar antes e durante o matrimônio, hein?!), não ganhou uma reedição (ufa!). Curiosamente, “A Falência” foi um dos primeiros romances escritos por Júlia Lopes de Almeida. Sua primeira versão é do início da década de 1880, quando a escritora era ainda solteira e dava os primeiros passos na produção ficcional. Insatisfeita com a qualidade do texto inicial desta obra, Júlia não deu prosseguimento à trama. Apesar de ter incluído alguns capítulos na coletânea de contos “Traços e Iluminuras”, o restante do material foi simplesmente rasgado e jogado fora. Apenas no final da década seguinte, já casada e com cinco filhos, a autora teve a inspiração para o enredo definitivo de “A Falência”. Assim, reescreveu a história da família Teodoro agora para valer. Com estilo simples, texto elegante, personagens controversas, trama dramática, humor sutil e conteúdo engajado, “A Falência” é um ótimo exemplar da literatura praticada pela romancista carioca. Não à toa, o lançamento do livro no início do século XX se tornou um grande sucesso tanto de público quanto de crítica. Hoje, “A Falência” é visto como um clássico da ficção brasileira. Depois de um tempo esquecida, esta obra voltou a ser encontrada nas prateleiras das livrarias nacionais e vem sendo listada como leitura obrigatória em algumas provas de vestibular. Por exemplo, o processo seletivo da Unicamp, uma das universidades mais renomadas do país, exige de seus vestibulandos o conhecimento do romance de Júlia Lopes de Almeida desde 2019. O enredo de “A Falência” se passa em 1891, no Rio de Janeiro. Narrado em terceira pessoa, o livro retrata os dramas dos Teodoro, uma riquíssima família burguesa. Francisco Teodoro é casado há cerca de duas décadas com Camila. O casal tem quatro filhos: Mário, o primogênito de 19 anos, Ruth, uma adolescente prestes a completar 15 anos, Rachel e Lia, as pequenas gêmeas de 6 anos. O clã vive em um palacete no bairro do Botafogo. Moram com eles a sobrinha Nina (filha de um irmão de Camila) e a empregada mulata Noca (que é a responsável pela manutenção das atividades domésticas). Francisco Teodoro é um imigrante português que chegou ao Brasil ainda criança. Extremamente pobre, ele passou a infância, a juventude e o início da fase adulta trabalhando como um burro de carga. Se por um lado abdicou da vida pessoal e dos prazeres da mocidade, por outro conseguiu enriquecer. Francisco tornou-se um dos mais bem-sucedidos comerciantes de café do país. Ele é dono da Casa Teodoro, um dos maiores armazéns de exportação de café do Rio de Janeiro. Pelos seus galpões, passa boa parte da safra cafeeira plantada em São Paulo e em Minas Gerais e enviada para os Estados Unidos e para a Europa. Obcecado por ser o maior comerciante de café do Brasil, Francisco fica incomodado com a meteórica ascensão de Gama Torres. O jovem rival conseguiu prosperar ao entrar de cabeça na especulação do preço da principal commodity brasileira da época. Como os valores do café não paravam de subir no mercado internacional, Gama Torres conseguiu ganhar uma fortuna apenas especulando na Bolsa de Valores, algo que Francisco Teodoro nunca fez. Contudo, ao perceber que estava ficando para trás, o proprietário da Casa Teodoro resolve arriscar pela primeira vez. Os novos tempos eram dos homens de negócios arrojados e não dos conservadores, diziam os amigos diariamente. Assim, ele aproveita uma proposta ousada de Inocêncio Braga, um respeitado empresário carioca, para enfim especular com o preço do café. Se a cotação do produto continuasse subindo na Bolsa de Valores, Francisco iria potencializar sua fortuna. Enquanto se preocupa com os negócios, Francisco Teodoro não repara no que está acontecendo em sua residência. Camila o trai explicitamente com Dr. Gervásio, o médico da família. Todos parecem notar a infidelidade da esposa cada vez mais nítida até mesmo para os de fora da casa, menos o marido. Aproveitando-se da pouca instrução e cultura de Francisco, Dr. Gervásio age como o amigo sofisticado e intelectualizado que traz lufadas de sabedoria e arte para os Teodoro. Ao mesmo tempo em que traz certo requinte àquele lar, o médico vai para a cama com Camila sem qualquer arrependimento. Além da infidelidade da esposa, outro problema que Francisco Teodoro insiste em não ver é a mentalidade fútil de seus filhos mais velhos. Eles vivem no mundo da lua. Mário, um rapagão que chegou à idade adulta sem nunca ter trabalhado, passa os dias torrando o dinheiro do pai com mulheres de má fama. Sua amante atual é Luiza, uma francesa com histórico de explorar economicamente os parceiros sexuais. Aos olhos da família e dos amigos, o primogênito de Francisco não tem juízo. Ruth, por sua vez, vive exclusivamente para a música. A moça adora tocar violino e piano por horas e horas. Indiferente com o que se passa ao seu redor (não consegue sequer notar a relação extraconjugal da mãe com Dr. Gervásio), ela tem uma rotina inteiramente desconectada da realidade. Enquanto acompanhamos os passos perigosos de Francisco nos negócios, assistimos simultaneamente à implosão da dinâmica familiar no palacete de Botafogo. Obrigado a abandonar o amor de Luiza por um pedido de Camila, Mário volta-se contra o adultério da mãe. O relacionamento de Camila e Dr. Gervásio sofre outro abalo considerável com o aparecimento do Capitão João Rino. O jovem marinheiro se mostra apaixonado pela Sra. Teodoro, o que a faz ficar em dúvidas sobre como agir. À medida que a fortuna da família corre riscos (algo que só Francisco tem ciência), as bases familiares também estão na iminência de desabar (algo que só Francisco parece não notar). Pelo título do romance, é possível imaginar o que irá acontecer com o clã de protagonistas. “A Falência” é um romance de 304 páginas. Seu conteúdo está distribuído em 25 capítulos. Na edição da Companhia das Letras que tenho em mãos, há ainda um prefácio de Luiz Ruffato. Nesse texto introdutório, o escritor brasileiro explica a trajetória e a importância de Júlia Lopes de Almeida e de “A Falência” para a literatura brasileira. Além disso, Ruffato comenta criticamente o conteúdo do livro – ele destaca os pontos principais desta obra ficcional. Devo ter levado entre sete e oito horas para percorrer todas as páginas de “A Falência”. Precisei de apenas um dia para concluir essa leitura. Comecei a ler o romance no domingo de manhãzinha e à noite já tinha chegado ao seu final. Quem não curte longas sessões de leitura como eu, imagino que deva levar de dois a três dias para finalizar esta publicação. O ponto alto de “A Falência” está em sua crônica de costumes. Ao mesmo tempo em que apresenta ótimas cenas do dia a dia carioca no início do século passado (trabalhadores braçais movimentam as sacas de café, o início da ocupação dos morros da então Capital Federal pela camada mais pobre, a efervescência da Bolsa de Valores, a vida abastada da elite econômica do país, a tentativa da população negra de se inserir naquela sociedade agora como mão de obra livre e o conservadorismo de uma grande parcela dos brasileiros), o livro de Júlia Lopes de Almeida não se esquece de apontar os problemas sociais da época (violência doméstica, machismo, feminicídio, falso moralismo religioso, traição conjugal, grande desigualdade social, disputas políticas da época – republicanos versus monarquistas, catolicismo tóxico, corrupção, avareza, ambição desenfreada). Dos vários temas que saltam aos olhos dos leitores, aquele mais explícito é a defesa do feminismo (ou o combate ao machismo e ao patriarcalismo da sociedade brasileira na República Velha). O trecho do romance em que essa questão fica mais evidente é no diálogo de Catarina, a irmã do Capitão Rino, com Dr. Gervásio e Francisco Teodoro. A conversa do trio se dá quando estão a bordo do navio Netuno. No capítulo final, temos outra cena emblemática dos ideais feministas, mas dessa vez mais sutil. Note a diferença de postura das mulheres da família Teodoro no início do livro (quando estão no meio dos homens) e no final da narrativa (quando, enfim, estão sozinhas). A impressão é que elas tomaram as rédeas de suas vidas e encararam o desafio de ser as protagonistas de seus destinos. Em outras palavras, empoderaram-se. Para entender os nuances do enredo de “A Falência” é preciso compreender antes o panorama histórico do Brasil na virada do século XIX para o século XX. Direta e indiretamente, a trama de Júlia Lopes de Almeida exige referências político-sociais dos leitores. Quanto mais eles souberem das dinâmicas históricas da época em que o livro está ambientado (Proclamação da República, auge da economia cafeeira, febre da bolsa de valores, libertação recente dos escravos negros, religiosidade e conservadorismo acentuado de boa parte da população, propensão dos imigrantes portugueses em defender os ideais monarquistas, começo do patriotismo brasileiro etc.), mais interessante ficará a leitura. Outro ponto que adorei em “A Falência” foi a construção das personagens. Júlia Lopes de Almeida opta quase sempre por figuras redondas. Além disso, a maioria dos protagonistas possui mais defeitos do que qualidades. O romance é um desfile de tipos controversos, polêmicos e contraditórios. Para quem gosta de narrativas ricas e plurais, trata-se de um prato cheio. Gostei também do tipo de humor deste romance. Ele é sutil e inteligente. Evidentemente, “A Falência” não é uma história em que vamos soltar muitas e altas gargalhadas. Mesmo assim, é possível notar graça em sua trama. A pegada aqui está mais para a tragicomédia do que para a comédia pastelona. Aprecio esse tom de humor fino. Para terminar os elogios a esta obra, não poderia deixar de comentar o seu desfecho. Ele é simplesmente espetacular. E surpreendente. Confesso que achei que acertaria o desenlace da trama de Júlia. E tudo parecia indicar que eu estava certo. Aí no último parágrafo da última página (aos 45 minutos do segundo tempo), uma frase com apenas duas palavras muda tudo. Incrível! Nunca um “Para quê?” disse tanto. O único aspecto negativo de “A Falência” é o seu narrador. Admito que não gostei dele. Ele não fica colado a ninguém especificamente. O narrador pula de uma personagem para outra no meio dos capítulos sem qualquer lógica. No começo da leitura, até achei que haveria um certo padrão: cada capítulo iria acompanhar uma protagonista. No primeiro e no segundo capítulos, por exemplo, o narrador ficou colado a Francisco Teodoro. No terceiro, ele ficou junto a Camila e Noca. Na quarta seção, o alvo foi Dr. Gervásio. Porém, essa lógica não foi seguida até o final. Há partes em que o narrador acompanha várias personagens ao mesmo tempo (no mesmo capítulo!). Para piorar, em determinadas cenas, ele fica junto a personagens coadjuvantes. É verdade que quando Júlia Lopes de Almeida escreveu este romance, os estudos do Foco Narrativo não apontavam para esse tipo de tropeção narrativo (a Teoria Literária evoluiu muito nas últimas sete décadas). Mesmo assim, é estranho acompanhar um narrador tão solto (e caótico). Não gostei dele! Se aceito os equívocos do Foco Narrativo de “A Falência”, não admito o erro crasso cometido por Luiz Ruffato no prefácio desta obra. Onde já se viu contar para o leitor, antes que ele lesse o romance, o que irá acontecer na trama?!!! Sim, foi isso o que o escritor brasileiro fez. Ele simplesmente detalha o que acontecerá com os protagonistas quase até o final do livro. Meu Deus, isso não se faz, Arnesto. Se você quer apresentar o enredo para o leitor, fale o que irá acontecer pelo menos até a metade do livro (eu costumo usar esse expediente nos posts do Bonas Histórias). Se você for contar o desfecho da narrativa ou o que aconteceu no clímax, então coloque esse texto no posfácio. Nunca no prefácio. Admito que minha experiência de leitura foi sensivelmente comprometida por já saber o que aconteceria em 95% do livro. Sabendo disso, minha sugestão é: só leia o prefácio de Ruffato após concluída a leitura de “A Falência” (como posfácio, ele é ótimo). E por falar em sugestão, não deixe de conhecer essa obra-prima da literatura brasileira. O romance mais famoso de Júlia Lopes de Almeida é realmente espetacular. Vale a pena lê-lo. Em 2021, “A Falência” completa 120 anos de publicação. Outra marca incrível desse título atemporal. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Quarta Temporada - Apresentação
Trago uma ótima notícia para os leitores do Bonas Histórias. O Talk Show Literário, o programa fictício mais amado da televisão, ganhará uma nova temporada. Uhu! Esta será a quarta edição da série de entrevistas com as grandes personagens da literatura brasileira. Portanto, uma vez por mês, traremos um bate-papo exclusivo e interessante conduzido por Darico Nobar. Sim, o âncora da atração permanece o mesmo. Inclusive, conversei no final do ano passado com Nobar. Naquela oportunidade, ele havia renovado seu contrato com o Bonas Histórias para mais um ano e falou informalmente sobre a nova temporada de seu programa. Curiosamente, o apresentador não apenas tratou, neste bate-papo comigo, da série de entrevistas de 2020 como também adiantou algumas novidades de 2021. Veja as suas palavras: “Muito provavelmente, esta será a edição mais desafiadora do Talk Show Literário. Depois de três anos de enorme sucesso, que tornaram nosso programa uma das colunas mais populares do blog, precisaremos nos reinventar. Fico tranquilo porque os entrevistados confirmados até agora são de excelente nível. Contudo, tenho a impressão de que este será o último ano com convidados da literatura brasileira. Estou com vontade de mudar um pouco para 2021. Quem sabe não teremos uma atração com figuras internacionais, hein? Mas isso fica para o próximo ano...”. A seguir, apresentamos a programação das entrevistas do Talk Show Literário de 2020. Note que serão nove programas nesta temporada. - 21 de janeiro de 2020 - Entrevista 1: Lia Ribeiro - "Pornopopéia" (2009) - Reinaldo Moraes. - 10 de fevereiro de 2020 - Entrevista 2: Edmundo - “O Gênio do Crime” (1969) - João Carlos Marinho Silva. - 13 de março de 2020- Entrevista 3: Doutor Camarinha - “O Casamento” (1966) - Nelson Rodrigues. - 20 de abril de 2020 - Entrevista 4: Lia de Melo Schultz - “As Meninas” (1973) - Lygia Fagundes Telles. - 11 de maio de 2020 - Entrevista 5: Geraldo Viramundo - “O Grande Mentecapto” (1979) - Fernando Sabino. - 12 de junho de 2020 - Entrevista 6: Nego Leléu - “Viva o Povo Brasileiro” (1984) - João Ubaldo Ribeiro. - 8 de agosto de 2020 - Entrevista 7: Hillé - “A Obscena Senhora D” (1982) - Hilda Hilst. - 28 de agosto de 2020 - Entrevista 8: José Pinagé de Vasconcelos - “O Meu Pé de Laranja Lima” (1968) - José Mauro de Vasconcelos. - 19 de setembro de 2020 - Entrevista 9: Alfredo de Lemos - “Éramos Seis” (1943) - Maria José Dupré. O Talk Show Literário de 2020 promete! Desejo ótimas entrevistas e excelentes leituras para todos. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da programação de entrevistas. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: O Que Sabe o Coração - O maior sucesso de Jessi Kirby
Neste final de semana, li “O que Sabe o Coração” (Rocco Jovens Leitores), o romance de maior sucesso de Jessi Kirby. A escritora californiana é uma das principais revelações da literatura infantojuvenil norte-americana. Com textos elegantes, narrativas originais, dramas românticos e enredos ambientados no universo adolescente, Kirby conquistou uma legião de fãs entre os jovens e os jovens adultos da América do Norte. Publicado em 2015, “O que Sabe o Coração” se tornou um grande sucesso nos Estados Unidos tão logo chegou às livrarias. Este livro foi traduzido para vários idiomas e lançado com entusiasmo no exterior. Até então, a principal obra de Kirby era “Moonglass” (sem tradução para o português), título infantojuvenil selecionado pelo ABA New Voices em 2011 como um dos destaques daquela temporada. Apesar dos elogios da crítica, “Moonglass” não apresentou um volume impactante de vendas. O êxito comercial da autora demoraria mais cinco anos para chegar (e viria com sua quarta publicação). Quando escreveu “O que Sabe o Coração”, Jessi Kirby trabalhava como bibliotecária em uma escola de ensino médio em Orange County, uma pequena cidade na região metropolitana de Los Angeles. Antes, ela atuou também como professora de inglês. Dividindo o tempo entre as obrigações escolares e a produção ficcional, a escritora usava sua proximidade com os estudantes para entender suas realidades e seus cotidianos e, a partir daí, construir histórias com a cara dos jovens contemporâneos. Atualmente, Kirby tem meia dúzia de livros publicados. Além de “O que Sabe o Coração” e “Moonglass”, seu portfólio abrange os romances “In Honor” e “Golden”, ambas as obras lançadas em 2013, “The Secret History of Us”, de 2017, e “The Other Side of Lost”, seu título mais recente, de 2018. Nenhum deles ganhou uma versão para o português até agora. Morando há mais de uma década em Crystal Cove, badalado bairro de Newport Beach, na Califórnia, com o marido e os dois filhos pequenos, Jessi Kirby continua se dividindo entre a produção ficcional e a rotina na biblioteca escolar. Apaixonada por praias, admiradora das paisagens suntuosas da costa Oeste dos Estados Unidos, fanática por literatura, assídua corredora e romântica inveterada, a autora leva para sua literatura essas características e gostos pessoais. O resultado é geralmente muito positivo. O enredo de “O que Sabe o Coração” se passa na Califórnia. A trama é narrada em primeira pessoa por Quinn Sullivan, uma adolescente que acabou de concluir o ensino médio. Ao invés de pensar em qual faculdade cursar e o que fazer da vida, ela está presa a uma tragédia que ocorreu há 400 dias (sim, ela conta um a um os dias a partir de tal fatalidade). Trent, seu primeiro e grande amor, morreu em um acidente aos 17 anos. Presa ao luto do namorado, Quinn não consegue reconstruir sua rotina nem seguir em frente. Em estado de luto permanente, a moça vive em uma depressão profunda. Depois de mais de um ano da morte de Trent, Quinn resolve procurar as cinco pessoas que receberam, por meio do sistema de doação, os órgãos do namorado. De certa forma, ela acreditava que interagir com aqueles que foram ajudados indiretamente pelo falecimento do amado poderia ajudá-la em sua recuperação. Assim, a moça descobre que o pulmão de Trent foi dado para Norah, uma jovem mãe. O rim foi transplantado em Luke Palmer, um rapaz de 25 anos que gostava de tocar violão. O fígado e a retina foram destinados, respectivamente, para John Williamson, um senhor de cinquenta e poucos anos, e Ingrid Stone, uma pintora de olhos azul-claros. O único doador que não quis conversar com Quinn foi o jovem de 19 anos que recebeu o coração de Trent. Interessada em descobrir a identidade do transplantado, a narradora-protagonista faz uma pesquisa na Internet e acha o blog de Shelby Thomas. Nas páginas do seu site pessoal, Shelby narra a agonia do irmão menor, Colton Thomas, para superar uma doença no coração identificada quando ele tinha 14 anos. O drama da família só terminou quatro anos depois. O rapaz teve sua rotina de volta após receber a doação de um coração. Ao cruzar as informações sobre a data da morte de Trent e a data da operação de Colt, Quinn desvenda o mistério. Aquele rapaz, o irmão caçula de Shelby, foi quem recebeu o coração de seu namorado. Ansiosa para saber mais detalhes sobre Colt, Quinn viaja em uma manhã para Shelter Cove, a cidade litorânea da Califórnia onde a família Thomas vive. Eles são donos de uma loja de caiaques. A ideia de Quinn é aparentemente simples: ela quer observar o jovem, que tem mais ou menos a sua idade, para saber quem ele é e o que faz da vida. O que a move é a curiosidade, além da saudade incontrolável que sente por Trent. Em Shelter Cove, os planos da protagonista sofrem uma alteração significativa. Sem querer, ela acaba esbarrando com Colt em um café. Ao descobrir a identidade do rapaz, Quinn tenta fugir dele e acaba sofrendo um pequeno acidente de carro. Prestativo, Colt a leva para o hospital e passa o dia inteiro ao seu lado. O tempo que ficam juntos naquele dia é o bastante para despertar algo no coração do adolescente transplantado. Colt se apaixona por Quinn, que, por sua vez, tenta à princípio manter uma distância minimamente segura dele. Ela não quer se envolver com ninguém, muito menos com o novo dono do coração de Trent. Contudo, Colt e Quinn não são bem-sucedidos em ficar separados. Algo no coração dele diz que Quinn é a garota ideal. Para ela, Colt é a única pessoa que conseguiu fazê-la esquecer do antigo namorado. Estaria ela conseguindo superar a morte de Trent e seguir em frente?! Essa possibilidade deixa Quinn angustiada. Viver e se apaixonar novamente parece errado aos seus olhos, como se estivesse traindo o namorado falecido. Essa é uma história de amor inusitada. Os dramas do jovem casal estão nos segredos que cada um esconde do outro. O conflito se dá justamente no paradoxo criado: quanto mais próximos os novos pombinhos ficarem, maiores serão as chances de eles descobrirem os segredos do parceiro (e assim, se desiludirem e terminarem a relação para sempre). Conseguirão Quinn e Colt superar as agruras do passado? Eles viverão juntos uma nova etapa de suas vidas? “O que Sabe o Coração” possui 320 páginas. O conteúdo deste romance está dividido em 35 capítulos (a última seção não foi numerada e foi intitulada de prólogo). A tradução para o português brasileiro ficou à cargo de Ryta Vinagre, tradutora responsável, entre outros títulos, pela edição nacional da série “Crepúsculo” (Intrínseca), o best-seller infantojuvenil de Stephenie Meyer. Levei entre sete e oito horas para concluir a leitura de “O que Sabe o Coração”. Precisei apenas de um dia (sábado passado) para percorrer todo o conteúdo deste livro. Comecei a leitura de manhãzinha e à noite já tinha chegado à sua última página. A trama envolvente e a linguagem acessível de Jessi Kirby são muito convidativas. Quem gosta de fazer longas sessões de leitura (como eu) conseguirá devorar esta obra em um único dia. O leitor que não for chegado a passar várias horas consecutivas lendo deve concluir este título em dois dias/um final de semana ou em três, quatro noites. De qualquer maneira, temos aqui uma narrativa comovente e de degustação fácil, ideal para o público infantojuvenil (que atualmente é chamado pelas editoras de jovens adultos). A primeira questão que chamou minha atenção em “O que Sabe o Coração” foi o conjunto de textos referenciais que abre cada um dos capítulos do romance. Utilizando-se de uma variada coleção de citações científicas, médicas, semânticas, literárias, filosóficas, psicológicas, políticas, poéticas e históricas, Kirby tece um interessante ensaio sobre o amor. Essa parte do livro é quase como uma crônica romântica construída 100% em cima de referências bibliográficas. A escritora norte-americana usa os aspectos conotativos e denotativos das propriedades do coração para enriquecer sua trama principal. Assim, os universos ficcional e não ficcional caminham de mãos dadas o tempo inteiro e potencializam a experiência de leitura. O segundo ponto marcante deste título é o mote usado pela autora para desenvolver seu enredo. Achei espetacular a ideia de relacionar o transplante do coração com a perpetuação do amor. Os sentimentos e as paixões do doador do órgão parecem migrar para o transplantado. Por mais difícil que pareça crer em algo assim, isso não impede de apreciarmos a beleza poética dessa associação. Você pode gostar ou não dessa proposta narrativa (eu gostei, mesmo não sendo lá muito romântico), mas não pode negar que seja algo criativo. Adoro encontrar romances construídos em cima de sacadas originais. Sem dúvida, é o caso aqui. Não posso me esquecer de elogiar também o excelente começo desta obra. Os capítulos iniciais de “O que Sabe o Coração” atiram o leitor rapidamente aos problemas pessoais da narradora-protagonista. Dessa forma, mal abrimos a publicação e já vemos a roda do conflito girar. Em poucas páginas, já estamos diante de uma Quinn Sullivan angustiada/traumatizada e um Colton Thomas apaixonado. As duas personagens sabem os riscos daquela união, mas também têm ciência do quão bom é estar juntos. Outros dois elementos interessantíssimos de “O que Sabe o Coração” são a ambientação e o ritmo narrativo. Quanto à ambientação, repare no clima praiano que costura toda a trama. Kirby é impecável na arte de construir uma história que dialoga com o mar, com o sol, com a natureza e com o clima litorâneo. Nesse sentido, sua obra é impecável. Em relação ao ritmo, achei essa narrativa ótima. Apesar da maioria das cenas ser baseada na rotina doméstica da narradora e em seus encontros amorosos/flertes com Colt (o que poderia tornar a trama parada e enfadonha), “O que Sabe o Coração” mantém seu conflito aceso o tempo inteiro. Em muitos momentos, “O que Sabe o Coração” me lembrou “A Culpa é das Estrelas” (Intrínseca), o romance mais famoso do norte-americano John Green. Afinal, não dá para falar de romance adolescente ancorado em dramas médicos e não pensar automaticamente no best-seller do conterrâneo de Jessi Kirby. Se bem que em uma comparação direta, “A Culpa é das Estrelas” é muito mais livro. Pelo menos foi esta a minha impressão. O principal ponto negativo de “O que Sabe o Coração” está na previsibilidade de sua narrativa. Um leitor minimamente experiente consegue deduzir tudo (ou quase tudo) o que acontecerá nos capítulos seguintes (equívoco que John Green não cometeu – suas obras reservam normalmente várias surpresas). Isso é bastante frustrante. A única novidade realmente impactante de “O que Sabe o Coração” é sobre um segredo escondido por Colt (e isso porque eu não conhecia as particularidades da vida de um transplantado). Essa parte da trama é excelente e dá um tchananã ao romance (obviamente, não posso contar o que é!). É uma pena que essa lufada de novidade seja a exceção e não a regra do romance. Outra escorregada feia está no desfecho comercial do livro. Kirby se rende aos anseios populares e apresenta um desenlace óbvio e quadradão. Não é que eu seja avesso aos finais “eles foram felizes para sempre” ou “depois do dramalhão, tudo deu certo para os nossos heróis”. Porém, tudo tem limite, né? Para uma autora que desenvolveu uma trama tão criativa, assistir a uma conclusão tão abaixo da média é frustrante. De qualquer maneira, o resultado de “O que Sabe o Coração” é positivo. Muito positivo, por sinal! Como um romance infantojuvenil e um drama romântico leve, este título é ótimo. Confesso que gostei da ficção praticada por Jessi Kirby. Ela é uma excelente escritora e merece o sucesso que está fazendo. Torçamos para que ela continue produzindo novas e melhores histórias por muitos anos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















