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- Crônicas: Eu e o Mundo - 5 - A Joaninha e a Aranha
Eu fiquei confuso. Muito confuso! O que fazer? Apoiar a aranha ou salvar a joaninha. Às vezes, nessa vida, precisamos tomar decisões importantes rapidamente, mas não sabemos como agir. Isso aconteceu comigo há algumas horas. Estava no jardim da minha casa no final da tarde deste domingo quando vi uma bela joaninha voando. Ela era linda. Vermelha, rechonchuda e grandona. Depois de planar um pouco, ela pousou no gramado do jardim. Sem muito o que fazer naquela hora do dia, eu fiquei observando a cena com atenção. O belo inseto pousou na grama rala e começou a andar pelo terreno. O passeio da joaninha foi interrompido bruscamente quando ela encostou na parede lateral do jardim. Ela ficou estática, reparei, tendo muita dificuldade para sair dali. Sem entender sua paralisia, precisei me aproximar para ver melhor. A joaninha tinha caído em uma teia de aranha. A aranha, dona dos fios tecidos, tinha prendido sua vítima e a estava agora atacando. Era o jantar perfeito para um domingo. A presa era apetitosa e gigantesca. O meu instinto inicial foi salvar a joaninha. Não era justo deixar um inseto tão bonito morrer de forma tão trágica, vítima de uma aranha má e cruel. Na hora de desprender o bichinho da teia, pensei novamente no meu ato. O que eu estava fazendo? Se eu intercedesse, a aranha iria se dar mal. Seria justo com ela? O aracnídeo, talvez, tenha passado horas, dias ou semanas esperando uma refeição apetitosa e quando tem a oportunidade de fazê-la, eu apareço para atrapalhar. Fiquei imaginando alguém tirando da minha boca um suculento pedaço de picanha. Eu ficaria doido da vida se fizessem isso comigo! Dessa maneira, o que eu podia fazer? Salvar a joaninha ou deixar a aranha se divertir?! Qualquer medida iria beneficiar alguém e prejudicar a outra parte. Parei e fique analisando a situação por alguns minutos. Eu tinha certo tempo, pois a joaninha era grande e a aranha parecia não conseguir matá-la rapidamente, apesar de tê-la prendido bem. Depois de muito refletir, cheguei a uma conclusão: não cabia a mim tal escolha. Não deveria agir. Eu não pertencia aquele jardim e não seria justo se eu intercedesse naquela história. Quem eu pensava ser? O super-homem com capacidade de salvar o mundo? Não. Eu sou apenas um "zé mané" a se meter na história da joaninha e da aranha. Se eu agisse seria com algum viés equivocado: salvando a bela joaninha só porque ela era visualmente agradável ou deixando aflorar o instinto faminto da aranha só porque ficamos com dó de quem passa fome. A verdade é que não era justo a minha ação. A briga entre as duas precisava ser resolvida por elas mesmas. A mais forte, a mais rápida e a mais astuta seria a vencedora do confronto. Não é essa a teoria de Darwin, afinal? A decisão tinha sido tomada. Não faria nada. Melhor ainda. Iria embora. Não queria também ficar vendo aquele embate cruel. Quando estava saindo do jardim, fui surpreendido pela chegada do meu pai. O patriarca da família, vendo minha curiosidade, resolveu conferir o que se passava. Ao avistar a joaninha, ele não pensou duas vezes. Tirou-a da teia e a fez voar. Quase dei um pulo quando vi seu gesto. Bradei para ele não interceder. Aquilo era injusto. Aquilo era indigno. Aquilo era cruel. Aquilo era antinatural. Aquilo era brincar de Deus! Meu pai não entendeu nada das minhas palavras e do meu discurso inflamado. Para ele, ele só tinha salvado uma joaninha de uma aranha. Para mim era muito mais do que isso. Ele tinha impedido uma aranha de jantar um inseto. Por mais que eu explicasse o meu ponto de vista e argumentasse que não deveríamos ter feito nada para impedir o desfecho da cena, meu pai não me deu ouvidos e retornou para dentro da casa com a sensação de dever cumprido. Na certa, refletiu também se eu não teria endoidecido. Esse post é apenas um desabafo. Precisava compartilhar com alguém essa história. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Eu e o Mundo - 4 - O que vem depois do Carnaval?
O Carnaval é considerado historicamente a festa mais popular do país. Há quem diga que o ano no Brasil só comece efetivamente depois dele. Não há restrições nem preconceitos entre o Sábado carnavalesco e a Quarta-feira de Cinzas. As pessoas, independentemente da idade, do sexo, da classe social e da cor de pele, vão às ruas para brincar e se divertir. Acho esse hábito interessante e válido. Não me incomodo, como alguns mais conservadores, com os excessos alheios e com o comportamento fora do habitual de muita gente. Cada um faz o que acha melhor e arca depois com as consequências dos seus próprios atos. Nada mais natural e justo! Como todo período catártico e de descompressão psicológica, são normais alguns deslizes e abusos. Acho muita graça quando as pessoas falam: “Não gosto do Carnaval. Nessa época do ano eu fujo da cidade e fico enfurnado no meu sítio”; “Este é o período do ano da luxúria e da sem-vergonhice”; e “Todo ano é a mesma coisa, pessoas peladas por todos os lados”. O que me angustia, para ser sincero, é a falta de uma data em nosso calendário para as pessoas estimularem seus cérebros e suas mentes. Você já refletiu sobre isso? O Carnaval é a época do ano para as pessoas se soltarem e exibirem seus corpos sarados. O Natal é o período no qual os indivíduos trocam gentilezas e afetos. Nas eleições, o povo discute política e emite suas opiniões partidárias. Durante os grandes eventos esportivos é a hora de partilhar o patriotismo e de incentivar as práticas esportivas. Nesse calendário repleto de atividades com as mais variadas finalidades, onde está o momento em que vamos nos esbaldar em reflexões e leituras? Qual é a época do ano em que vamos despir as páginas dos livros e vamos interagir com autores desconhecidos sem preconceito? Não há! O problema não é o Carnaval estar propenso aos prazeres carnais. A verdadeira inquietação, pelo menos da minha parte, está em saber que não haverá nada parecido, ao longo do ano, em relação aos encantos intelectuais. Que povo é esse que não quer ou não gosta de se esbaldar mentalmente?! Por que não temos um Carnaval Cultural?! Estou tão carente de bons e intensos momentos de cultura que estou seriamente pensando em criar uma festa pagã intelectual. Já imaginou isso? Cinco dias com distribuições de livros, mergulho em sessões de cinema, apresentações cênicas e musicais e visitações gratuitas em exposições visuais? Consigo, desde já, antever os debates acalorados na televisão, na internet e nos jornais sobre os vários aspectos artístico-culturais desse evento. Quem sabe o Zulu não apresente as notas dos quesitos com sua voz rouca: “Novo livro do Umberto Eco, categoria originalidade, nota DEZ!; ou “Novo filme do José Padilha, nota nove e meeeeeio.”. E a multidão, alojada nas arquibancadas, acompanhando avidamente a análise crítica dessas obras. É claro que haverá quem recrimine esses dias: “Não gosto do Carnaval Cultural. Nessa época do ano eu fujo da cidade e fico enfurnado no meu sítio”; “Este é o período do ano da introspecção e da reflexão – uma chatice completa!”; e “Todo ano é a mesma coisa, intelectuais se exibindo por todos os lados”. O único problema desse novo evento seria escolher a melhor data para a sua realização. Uma coisa eu sei: ela não seria entre fevereiro e março. Afinal, todos devemos e podemos aproveitar essa época para nos divertir também. O principal defeito do Carnaval tradicional, portanto, é a falta de uma extensão intelectual. O que fazer, afinal, quando os dias de folia acabarem? Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Eu e o Mundo - 3 - Uma Partida de Tênis no Parque
Por que resolvi colocar os pés na rua hoje?! Essa foi a pergunta que me fiz ao final do trágico domingo. Ao invés de ficar tranquilo em minha casa, assistindo ao futebol na televisão e tomando uma cervejinha gelada no sofá, como estava acostumado a fazer desde sempre, decidi largar o sedentarismo e me exercitar. Correr no parque de manhã foi o programa escolhido. Basicamente, foram dois os motivos que me levaram a esta radical mudança de hábito: não havia nenhum jogo sendo transmitido pela TV nesse final de semana e minha calça jeans mais larga não havia fechado na última vez que tentara usar. Ou seja, eram dois acontecimentos muito tristes que exigiam uma atitude drástica da minha parte. Assim, parti de manhãzinha para o Parque Villa-Lobos para aproveitar de maneira positiva o calor do verão paulistano. O céu ensolarado, quase sem nuvens, era um convite traiçoeiro à prática aeróbica. Uma vida saudável, atlética e, principalmente, em forma (resumindo: com uma paz relativa com a balança) não é conseguida sem grandes sacrifícios. É preciso sofrer para se obter o que se deseja! O que eu não sabia era o quão trágica poderia ser uma visita corriqueira ao parque em um final de semana de janeiro. Após ter me exercitado por quase duas horas, mesclando longas caminhadas com algumas corridas leves, comecei a procurar um lugar para comprar água. Gostaria de saber quem foi que projetou um parque gigantesco como esse e se esqueceu de inserir quiosques de bebida e comida! Na certa, o arquiteto, o urbanista ou sei lá o nome de quem cria áreas verdes em metrópoles nunca frequentou esse tipo de local ou jamais fez atividades físicas na vida. Essa é a única explicação para seu desconhecimento das necessidades mais elementares dos atletas amadores. Nós precisamos nos alimentar e nos hidratar. Em outras palavras, precisamos repor as energias gastas. Enquanto caminhava a procura de água (uma caminhada cada vez mais desesperada, admito), descobri que aconteceria ali, dentro do Villa-Lobos, a final do Aberto de Tênis de São Paulo, um torneio profissional e internacional dessa modalidade. Uma das vantagens de se morar em São Paulo é esta: você descobre o tempo inteiro algo acontecendo na cidade. Os caras podem não se lembrar de hidratar e alimentar os usuários do parque, mas não se esquecem de montar um bom torneio esportivo para atrair a atenção do público. A partida começaria às 11 horas em uma arena montada especificamente para a competição. O jogo final seria disputado entre o brasileiro Thiago Alves e o português Gastão Elias. Fazendo jus à minha total ignorância no universo do tênis, eu nunca tinha ouvido falar nesses jogadores. Mesmo assim, decidi ficar para ver a disputa. Eu jamais assistira a uma partida deste esporte ao vivo e fiquei interessado em vê-la. Ok! Preciso reconhecer que o fato de minhas energias terem sido totalmente consumidas nas últimas duas horas também me incentivou a querer ficar sentado por algum tempo. Mesmo não entendendo nada de tênis (quando digo nada, é nadinha mesmo!), só de imaginar ficar paradinho na arquibancada por vários minutos já me deixou mais feliz. Além disso, a fila para entrar na arena era grande. Como um bom paulistano, eu me amarro em uma fila. Aqui, a gente pensa: "Se esse bando de gente está indo para lá é porque o lance vai ser bom. Também vou!". Todas as filas quilométricas de Sampa começam dessa maneira. Depois de comprar algumas garrafinhas de água (ufa, achei um quiosque! Obrigado, meu Deus!), fui para a arquibancada da arena. Aí, surgiu a primeira curiosidade. Diferentemente de um estádio de futebol, local que estou mais acostumado a frequentar, o melhor lugar para se assistir às partidas de tênis é atrás da quadra. Assim, a pessoa não precisa ficar virando para lá e para cá seu pescoço o tempo todo. Falando assim, parece um tanto óbvia essa informação. Entretanto, quando eu percebi ou me lembrei disso, a arquibancada já estava lotada e eu não podia mais mudar de assento. Eu havia sentado no meio da quadra... Raiva! A segunda particularidade é: nos jogos de tênis, o público não pode conversar. Não sei o motivo exato dessa norma. Parece que os jogadores se desconcentram com o falatório vindo da arquibancada. Quanta frescura! O difícil foi explicar isso para minha amiga Thalita, que me acompanhava nessa grande aventura pelo mundo dos esportes. Ela ficou um tanto chocada quando a alertei para os olhares raivosos que vinham em nossa direção. Infelizmente, os demais torcedores não estavam aprovando o alto tom da voz dela nem a iniciativa da moça de querer conversar comigo. O ápice do mal-estar ocorreu quando um dos jogadores em quadra se incomodou com o toque do telefone celular dela. O som do aparelho era a risada do Pica-pau, aquele personagem do desenho infantil. Só mesmo a Thalita para me aprontar algo assim... Que vergonha! Com alguma diplomacia, pedi para ela não falar mais comigo e para desligar o celular. Pedir essas duas coisinhas para uma mulher é correr risco de morte! Não é à toa que, depois disso, a Thalita passou a me tratar de maneira fria e pouco simpática no restante do domingo. Na certa, me culpava por não tê-la defendido contra a ira de três mil pessoas e da etiqueta antiquada dos tenistas profissionais. A terceira diferença do tênis para o futebol (ou para qualquer outro esporte sensato) é que o público não pode sair do seu lugar durante a disputa das jogadas. É preciso esperar o término dos games ou do set para se entrar ou sair da arena. As portas ficam fechadas por alguém da organização. Eu descobri isso da pior maneira possível. Depois de ter tomado quase um litro de água, minha bexiga estava quase transbordando quando os jogadores resolveram disputar um equilibradíssimo game. Enquanto o público delirava, eu me contorcia na arquibancada para segurar os líquidos dentro de mim. A Thalita disse que a disputa demorou quinze minutos. Para mim, pareceu ter demorado muito, muito mais! E para terminar, a quarta curiosidade desta modalidade diabólica é: um jogo de tênis não tem hora para terminar. Ele pode durar menos de uma hora ou pode se alongar por mais de cinco horas. O tempo total depende do desenrolar e do equilíbrio da partida. E quando a disputa é realizada sob o sol do meio dia, em um dia de verão de uma cidade tropical, é bom a plateia ter passado protetor solar e estar usando boné. Infelizmente, nem eu nem a Thalita havíamos pensado nesse detalhe. Até tiramos um sarro de uma garota que estava sentada a nossa frente. Ela estava de boné, de camisa de manga comprida e de calça esportiva. "Ela deve estar imaginando que estamos no inverno para vir vestida assim, coberta dos pés à cabeça", disse baixinho a Thalita (Ela fez isso antes do pacto de silêncio ter sido decretado entre nós). Só quando fomos embora, completamente queimados pelo sol, entendemos o motivo da esperta garota ter se protegido dos fortes raios solares. Para resumir a história: eu jamais voltarei a uma quadra de tênis novamente. É horrível! Tênis só é bom quando calçado nos pés. Essa é a verdade! Para não correr riscos de entrar em novas frias como essa, eu comunico também que abandonei as corridas nos parques aos finais de semana. O lance mais divertido do domingo é ficar em casa sentado à frente da televisão assistindo a um joguinho de futebol e tomando uma cervejinha bem gelada. Fazer isso enquanto sentimos nossa barriguinha crescer é maravilhoso. Isso sim é vidão! Isso sim é verão! Um homem trabalha incansavelmente a semana inteira esperando unicamente esse momento sublime de sua existência. Às vezes, acho que deviam obrigar a ter futebol na TV todo domingo, independentemente da época do ano ou das festividades. O que fazem os políticos em Brasília que não votam rapidamente uma lei que regulamente uma lei desse tipo? Pensando nas possíveis respostas para essa última questão, é melhor enterramos definitivamente esse assunto. Não está mais aqui quem falou! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #esportes
- Crônicas: Eu e o Mundo - 1 - O Adeus Com Um Sorriso no Rosto
Esta é a primeira crônica da série “Eu e o Mundo”, coletânea de textos que será apresentada aqui na coluna Contos & Crônicas até dezembro do próximo ano. Afinal de contas, o Bonas Histórias não abre espaço apenas para as análises de livros, filmes, peças de teatro, exposições e outros gêneros artísticos. O blog também é lugar para debatermos os mais variados assuntos sobre a vida, tema norteador desta série. E hoje, quero discutir algo que mexeu de mais comigo neste finalzinho de ano. E, curiosamente, inauguro os textos de “Eu e o Mundo” tratando de algo que é exatamente o oposto de quando falamos em vida... Passei nos últimos dias de novembro por mais uma experiência de luto. Dessa vez, foi o falecimento de minha avó paterna. Ela era a minha única avó ainda viva. A mãe da minha mãe havia falecido há um ano, enquanto meus avôs morreram quando eu era criança. E por que estou falando sobre isso? Porque me senti mal por não ter chorado durante o velório e o enterro dela. No meio do derramamento interminável de lágrimas dos amigos e dos familiares, eu permanecia imune à tristeza coletiva. Meu coração, de alguma forma, não estava de luto. Eu não apenas não chorava como não conseguia enxergar uma tragédia naquele acontecimento. Fiz uma retrospectiva do mesmo evento, ocorrido um ano antes com a minha outra avó, e percebi, surpreendido, ter me comportado da mesma forma naquela oportunidade. O que será que estava acontecendo comigo? Eu sempre fora um chorão, de me emocionar fácil com as coisas alegres e tristes da vida. Por que não estava em prantos como todos? Eu nem estava amargurado com aquele episódio fúnebre. Não teria amado minha avó suficientemente para poder derramar um rio de lágrimas em seu enterro?! Seria eu um psicopata insensível, imune à dor e à tristeza de um ente querido? "É uma perda irreparável", disse uma tia ao lado do caixão. "Ela sempre teve uma saúde de ferro, poderia ter vivido mais", falou uma prima. "Eu não a via fazia tanto tempo" desabafou um tio, talvez arrependido por não tê-la visitado com mais regularidade nos últimos anos. Aqueles três comentários me chamaram a atenção no velório. Infelizmente (ou seria felizmente) eu não concordava com nenhum deles. Naquele instante descobri: não estava penalizado como os meus familiares com os acontecimentos da véspera simplesmente por não enxergar as coisas da mesma forma como eles. Esse era o segredo do meu comportamento estranho e surpreendente. Minha visão até pode ser analisada como uma atitude fria e insensível por quem não me conhece. Antes de ser acusado injustamente, me deixe justificar todo o processo. Primeiro, eu não via a morte da minha avó como uma "perda". Ela já tinha mais de noventa anos e era natural, uma hora ou outra, o seu falecimento. A mulher vive por quase um século, constrói uma família grande e feliz, realiza muitas coisas e permanece independente e lúcida até o final da vida. Essa trajetória não pode ser considerada como uma "perda". Ela foi um "ganho" para a nossa família e para quem a conheceu. Eu não vejo a morte dela como um aspecto negativo e sim como o encerramento de uma jornada feliz por este mundo. Ao ver sua história em retrospectiva, fiquei com mais vontade de comemorar a vida longa e produtiva da minha avó do que lamentar seu luto. Se pudesse daria uma festa para ela ao invés de colocá-la no meio de um monte de flores e de pessoas chorando. Outra curiosidade da minha avó é o fato dela jamais ter ido para um hospital ou ter ficado seriamente doente. No máximo, ela pegou um resfriado aqui e uma gripe ali. "Ela sempre teve uma saúde de ferro, poderia ter vivido mais" foi algo dito por quase todos no enterro. Eu não concordei com aquela observação. O que eles queriam? Que a mulher, antes de morrer, tivesse sofrido com alguma doença grave e passado por limitações físicas e/ou mentais por alguns meses ou anos? Felizmente, ela faleceu após ter vivido com uma boa saúde e sem sofrimento. Eu não concordo com a opinião de que devemos viver mais, independentemente da qualidade de vida. Eu não queria a morte da minha avó, mas não lamentei sua retirada de cena em ótimas condições. Feliz da pessoa que deixa este mundo com idade avançada sem sofrer as intempéries típicas da passagem do tempo. E por fim, diferentemente da maioria dos presentes no velório e no enterro, eu não estava há muito tempo sem ver minha avó. "Eu não a via fazia tanto tempo" diziam muitos dos familiares e amigos. Eu estava tranquilo comigo mesmo porque a via regularmente. Eu me programei, há mais de quinze anos, de visitá-la ao menos uma vez por semana (nas manhãzinhas de sábado). Era um dos momentos prediletos da minha rotina semanal. Ao visitá-la, tomava café com ela, comia algum bolo caseiro feito pela dona da casa, conversávamos sobre a vida e sobre o passado. Como é bom ouvir as histórias antigas. Sempre gostei disso e minha avó me proporcionava ótimos "causos". Acho que aproveitei muito a companhia daquela mulher. Quando garoto, passava minhas férias e muitos finais de semana na casa dela. Quando adulto, podia conversar animadamente com ela na mesa do café da manhã e provar as delícias feitas por ela naquele fogão antigo. Eu não fiquei triste. Pelo contrário. Fiquei feliz por ter conhecido e convivido tanto tempo ao lado daquela figura tão especial que chegava a ter nome de santa. Com um sorriso no canto da boca, me despedi sem uma lágrima de tristeza no rosto. Podem me chamar de insensível ou de maldoso. Eu sei que, nas últimas três décadas, ninguém aproveitou tanto a companhia de minha avó como eu. E por isso mesmo me despeço dela com a alma lavada e agradecida por tudo o que ela fez por mim e pela minha família Tristeza? No meu coração eu não tenho espaço para esse sentimento, pelo menos quando o assunto é a minha avó. “Bom descanso, Dona Santa! Foi um prazer conhecê-la e uma felicidade inenarrável poder conviver com a senhora por tantos anos. Obrigado por tudo e descanse em paz”, essas foram as últimas palavras ditas baixinho por mim quando o caixão baixou no jazigo. Esse foi o meu adeus para ela. Um adeus com um sorriso no rosto Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Eu e o Mundo – Apresentação da série
É com alegria que anuncio a criação de uma nova coluna no Blog Bonas Histórias. A partir de agora, além de analisarmos o que há de mais relevante no cenário editorial, cinematográfico, teatral, musical e cultural, também vamos abrir espaço para a publicação de textos inéditos de jovens autores nacionais. Essas produções serão divulgadas mensalmente aqui, em Contos & Crônicas. Quem gosta de boa literatura não poderá perder os posts desta nova seção do blog. A ideia é que, em todos os anos, tenhamos um autor diferente apresentando suas narrativas para nossos leitores. Esses textos deverão compor uma série narrativa, técnica também chamada de moldura narrativa. De maneira geral, uma moldura narrativa é caracterizada quando as tramas dos seus episódios possuem alguma relação entre si (sentido de série), mas também têm certa independência, com começo, meio e fim próprios (sentido individual). As definições dos autores e dos temas a serem trabalhados nas séries narrativas serão feitas anualmente. Cada ano teremos um escritor apresentando seu trabalho em Contos & Crônicas. A princípio, não existe uma lógica pré-definida para essas escolhas. O que buscamos, de forma geral, são textos que debatam temas importantes da nossa realidade de maneira inteligente, criativa e bem-humorada. Para o próximo ano, já temos nossa primeira série narrativa selecionada. Trata-se de “Eu e o Mundo”, uma coletânea de crônicas de minha autoria. Nesses textos, irei falar de aspectos abrangentes da vida humana. Os temas tratados nessas crônicas serão o luto, o sonho, o envelhecimento, a ambição, os relacionamentos familiares e amorosos, a situação financeira, o ambiente político e econômico do país, nossa relação com a natureza, etc. A proposta é discutir esses assuntos que são gerais (afetam a todos nós) a partir de uma perspectiva individual (introspectiva). A primeira crônica de “Eu e o Mundo” já será apresentada neste mês e se chamará “Adeus com um Sorriso no Rosto”. Não deixe de acompanhá-la. Em 2016, anuncio desde já, os textos que serão apresentados em Contos & Crônicas serão de Paulo Sousa, jornalista e escritor. Ele trará para vocês a série de 11 contos que integram “Histórias de Macambúzios”, sua divertida sátira sobre uma cidade fictícia chamada Armação de Búzios. Na série de Paulo Sousa, poderemos ver os dramas dos amalucados habitantes de Armação de Búzios, um retrato fidedigno da realidade contemporânea do Brasil. Viu como o Bonas Histórias tem muitas novidades a sua espera?! Confio que todos curtam Contos & Crônicas e acompanhem mensalmente esta nova coluna do blog. Vida longa a esta seção e boa leitura a todos! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Março Negro – A nova série narrativa do Bonas Histórias
A proposta da coluna Contos & Crônicas sempre foi apresentar uma série narrativa por ano. Em 2016, a escolha recaiu sobre a coletânea de contos “Histórias de Macambúzios”, de Paulo Sousa. Inclusive, já divulgamos os primeiros capítulos desta trama no Blog Bonas Histórias. Os demais serão lançados mensalmente até dezembro. Contudo, diante do cenário que o país passa de grave crise política, social e econômica, achei interessante abrir uma exceção e divulgar neste mês um pequeno conjunto de crônicas de minha autoria. Intitulado “Março Negro”, esse material terá quatro ou cinco crônicas que debaterão os acontecimentos recentes que levaram o Brasil a uma das mais graves crises institucionais das últimas décadas. Neste momento, a realidade nua e crua acaba, infelizmente, sobrepondo-se à magia da ficção. Assim, encaremos os fatos e, principalmente, nos posicionemos sobre os acontecimentos ao nosso redor. Afinal, viver é se posicionar sobre o mundo. Não existe cidadão consciente e minimamente engajado sem um elo prático e mobilizador. “Março Negro” é um convite à reflexão. A ideia é apresentar pequenas análises sobre o cotidiano de um ponto de vista diferente ao ofertado pela grande mídia. Espero chegar ao final do mês tendo cumprido esse objetivo. Na próxima terça-feira, dia 8, retorno a Contos & Crônicas com a publicação da primeira crônica de “Março Negro”. O texto se chamará “O Meu Protesto”. Não perca as novidades do Bonas Histórias! E boa leitura a todos. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Março Negro - O meu protesto!
Em tempos de radicalização política e de protestos em todo o país, resolvi fazer a minha parte em prol da nação. Por isso, amanhã planejei fazer o meu próprio protesto. A ação visa dar uma chacoalhada nas estruturas do Brasil e servir de exemplo para políticos, partidários e para a população em geral. A seguir vai o cronograma do protesto: - 6h00 – Acordar. - 6h20 – Após o banho matinal, ler o jornal enquanto toma-se o café da manhã. - 7h00 – Sair de casa e caminhar a pé (pela calçada) até o ponto de ônibus. - 7h15 – Pegar o ônibus e pagar a passagem. - 8h00 – Chegar ao trabalho. - 8h01 – Trabalhar. - 12h30 – Sair para o almoço. - 13h30 – Voltar do almoço e trabalhar. - 18h30 – Sair do trabalho e ir para a faculdade. - 19h30 – Assistir às aulas da faculdade. - 23h00 – Sair da faculdade e regressar para casa. - 23h50 – Chegar em casa e comer alguma coisa. - 00h45 – Colocar o despertador para tocar as 6h00 e ir dormir. Quem quiser participar desse tipo de protesto, fique à vontade para se juntar ao movimento. Tenho certeza que o Brasil será um país melhor com a sua adesão. Se quiser repetir essa ação diariamente em sinal de protesto, saiba que estarei lá. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Março Negro - Protestar é fácil, difícil é aprender a votar
Antes que alguém me acuse de ser contra as manifestações recentes, preciso fazer uma ressalva: achei interessante a iniciativa das 4 milhões de pessoas que foram às ruas em todo o país para protestar, no dia 13 de março, contra a corrupção e a incompetência governamental. Um povo atuante e esclarecido é peça fundamental para a construção de uma grande nação. Posta essa introdução, gostaria de lamentar duas coisas: infelizmente não somos um povo formado por pessoas politicamente atuantes e compromissadas com o ideal coletivo; e essa ação pontual do mês passado em nada vai mudar o destino do nosso país. Para chegar a esta triste conclusão, convido o amigo ou a amiga para uma reflexão rápida. Por que nações como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Alemanha, por exemplo, não realizam manifestações desta magnitude nas ruas de suas cidades? Será que lá não há governo incompetente ou corrupto? Será que suas populações não são tão cívicas quanto a nossa? É claro que há problemas em seus governos (talvez não nos níveis do nosso) e que seus cidadãos são atuantes politicamente (muito mais do que os daqui). O que acontece por lá é que o eleitor tira a corja de bandidos e de incompetentes da administração pública. Simples assim. O voto é a principal arma da população! Independentemente do modelo de governo (repare que citei um país presidencialista, uma monarquia e uma nação parlamentarista), a eleição é a melhor ferramenta para punir políticos pouco comprometidos com os anseios populares. Aí está o nosso problema. Certa vez, o Pelé foi criticado, mas ele estava certo em sua célebre frase: “O brasileiro não sabe votar”. Ou você acha que sabe?! Vamos fazer uma rápida recapitulação: Fernando Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff foram nossos presidentes eleitos. Eleitos! Com todo o respeito a estas figuras históricas, o melhorzinho destes comia alfafa de café da manhã ou tinha algum trambique, seja para colocar um novo carro na garagem, para pagar a pensão do filho bastardo ou para mobiliar a casa de praia. Parece pouco? OK, vamos, então, aos nomes que podem substituir Dilma Rousseff em caso de impeachment: Michel Temer (vice-presidente), Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) e Renan Calheiros (presidente do Senado). Se a chapa do PT-PMDB for cassada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) quem assume é o Aécio Neves. Para quem não se lembra, esse é o homem que é acusado de agredir a mulher, de construir aeroporto público em terras da sua família, de receber propinas milionárias de empresas do setor elétrico e de nunca ter trabalhado na vida. Parece-me que o desfecho do impeachment será tão ruim quanto a manutenção da atual situação. E qual é a perspectiva para o médio e o longo prazo? Não querendo ser ainda mais pessimista (mas já sendo), o nosso Congresso está recheado de figuras descompromissadas com os interesses públicos: Tiririca, Paulo Maluf, Jader Barbalho, Sarney, etc., etc., etc. Há quanto tempos eles estão lá? Uma, duas, três décadas ou a vida inteira! Como esses caras foram parar lá? As mesmas pessoas que hoje se indignam com a situação são as verdadeiras responsáveis pela condição atual do nosso país. Afinal, não há político eleito sem uma massa de eleitores a seu favor. O que acho, afinal, dessas manifestações? Infelizmente, elas não mudarão a essência da nossa política (e da nossa cultura). Mudarão os nomes, mas as práticas obscuras e a corrupção endêmica irão se perpetuar. Enquanto o povo não souber votar, nada vai mudar. Trocam-se as peças, mas não se mudam os movimentos dos jogadores. Ao invés de ir para a rua e levantar faixas e bandeiras, que tal ficar em casa, ler alguns jornais e várias revistas?! Quem sabe, assim, vamos adquirir conhecimento para a próxima eleição, aprendendo a praticar o ato de votar. Isso sim poderá mudar o Brasil. Pense nisso! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Março Negro - Manchetes de 17 de março
Algumas manchetes e notícias do dia 17 março, período marcado pela iminência de um acontecimento histórico em nosso país: “Líderes julgam ameaçado o regime: reunião permanente – Os líderes de bancada da Assembléia Legislativa decidiram ontem, depois de reunião com o presidente Ciro Albuquerque, declarar-se em reunião permanente, para a defesa do regime e das instituições, considerando grave a situação nacional, depois do pronunciamento de sexta-feira última do presidente da República” (Jornal Folha de São Paulo, 17 de março). “Congresso e partidos reagem à pressão do Governo – Congresso e partidos políticos começaram a reagir contra o que denominam de tendências subversivas nas afirmações reformistas do presidente (...). Ao assumir a presidência da Câmara dos Deputados, o Sr. Ranieri Mazzilli garantiu que o Congresso não quer invadir atribuições alheias, mas não abrirá mão das liberdades e deveres que lhe determinam a Constituição” (Jornal do Brasil, 17 de março). “O Pânico e a Mensagem – Quem lesse o noticiário de ontem, diria que a Nação foi coberta por uma cortina de pânico. Não é verdade. Quem está em pânico é uma infama parcela da população. Ínfima, mas poderosa, e que, pelos seus imensos recursos de divulgação e pressão, como o sapo da fábula, parecer elefante, representando todo o País” (Última Hora, 17 de março). O único problema é que essas notícias, estampadas nas primeiras páginas dos principais jornais brasileiros, não são de 2016. São de 1964! Ou seja, o tempo passa e as coisas não mudam. Agora, infelizmente, é esperar o mesmo desfecho de outrora. Aí ninguém poderá se dizer surpreendido com os acontecimentos. Para compreender o futuro, basta reler o passado. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Crônicas: Março Negro - Pontos de vista
Semana passada, fiquei um tanto perplexo com a intransigência de dois amigos meus. Conversando animadamente com eles em um bar, o assunto acabou desviando para a política. E não há nada mais inflamável nos dias de hoje do que abordar esse tema em qualquer roda social. Ainda mais quando você está cercado por pessoas com visões tão radicais. Em minha opinião, não há nada errado no fato das pessoas terem um julgamento firme sobre o impeachment, tanto a favor quanto contra. Acredito que quem apoia o impedimento da presidente da República tem ótimos motivos para tal e quem é contra também tem interessantes argumentos para validar seu ponto de vista. O problema está na radicalização ideológica. Você já reparou que as pessoas mais politicamente engajadas são contra o diálogo e não aceitam as opiniões que vão contra as suas? Foi o que aconteceu naquele bar com os meus dois amigos. Eles começaram a discutir acaloradamente. Cada lado tentava apresentar seu ponto de vista sem nem ao menos analisar o argumento que vinha do outro lado do debate. Eu já estava ficando preocupado e um tanto envergonhado com aquela situação, afinal as pessoas das mesas ao lado já estavam olhando feio para a gente, quando ouvi a indagação: - E você, não vai opinar?! O que você acha disso tudo que está acontecendo em Brasília? Meus amigos, enfim, se lembraram que eu estava partilhando aquela mesa com eles e que também podia emitir minha opinião. Vi em seus olhos a ansiedade para que eu apoiasse seus lados na discussão. Percebendo isso, permaneci em silêncio alguns segundos, aumentando o clima de mistério. Depois, falei secamente: - Vocês não estão preparados para ouvir a minha opinião... A frase saiu com um certo pedantismo e uma elevada dose de arrogância que deixou meus companheiros de mesa revoltados. Após eles protestarem, conclui: - Vocês estão errados em suas opiniões. Os dois estão se comportando como extremistas. Vocês estão analisando a situação de maneira bem polarizada. Falta um discernimento e uma imparcialidade em suas reflexões para compreender o problema em todas as suas dimensões. Tentei explicar que, na minha visão, os dois estavam sendo cegos. Eles apenas olhavam as coisas por uma única perspectiva, não aceitando a opinião oposta. Acho isso um grande equívoco. Para entendermos a realidade, precisamos compreender todas as facetas das notícias e das informações. Minha explicação emudeceu meus amigos. Aproveitando a diminuição do ânimo belicoso deles, saquei da minha mochila a revista Carta Capital que tinha comigo. Eu a tinha lido no dia anterior. - Leia isso e depois conversamos – disse para o meu amigo de direita. - Não leio esse lixo! Eles mentem o tempo inteiro. Expliquei que não havia nenhuma mentira naquela publicação. Havia sim um ponto de vista diferente do dele. E por isso era importante ele ler. Meu outro amigo se divertia imaginando o orgulhoso direitista lendo uma revista de esquerda. Aproveitando a sua alegria, completei: - E para você – disse ao esquerdista do grupo - leia isso. Fará bem para você. Entreguei-lhe a revista IstoÉ daquela semana, que acabara de concluir e que também estava alojada em minha mochila. Ele também ficou indignado. Novamente expliquei que se ele achava que nosso outro amigo iria ter uma visão mais completa dos fatos lendo uma revista de esquerda, ele também teria uma visão mais apurada se lesse uma publicação de direita. Os dois ficaram um pouco ressentidos comigo. Contudo, acabei com aquela discussão interminável em nossa mesa de bar. Não sei se eles leram ou lerão algum dia as revistas sugeridas. O importante é entendermos que não existem verdades nem mentiras na realidade dos fatos. O que existem são pontos de vista. E para sermos pessoas esclarecidas, precisamos captar a maior quantidade de opiniões diferentes para construirmos o quebra-cabeça da situação. É isso que tento fazer e que incentivo as pessoas a fazerem. Por exemplo: vejam esses dois vídeos aqui abaixo. Ambos repercutem a situação política no Brasil no momento. São jornalistas do exterior analisando nossa realidade interna. Um com um determinado viés e outro com outro. Qual dos dois está certo? Na minha humilde visão, os dois! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Março Negro – Fechamento da minissérie narrativa do Bonas Histórias
Como prometido no início de março, encerramos hoje a minissérie narrativa da coluna Contos & Crônicas. Ao longo deste mês, reunimos quatro crônicas de minha autoria que debateram, no Blog Bonas Histórias, os acontecimentos recentes que levaram nosso país a uma das mais graves crises políticas da sua história. O nome desta coletânea de texto é “Março Negro”. O cenário institucional, infelizmente, ainda não mudou (a tendência é que piore nos próximos meses), mas nossas reflexões sobre esse tema terminam aqui. Voltemos, portanto, ao universo da ficção. A importância de “Março Negro”, como apontei no post introdutório sobre a série, foi o de esclarecer para o nosso público o que estava acontecendo nas últimas semanas no Brasil. Naquela oportunidade, escrevi: “(...) Encaremos os fatos e, principalmente, nos posicionemos sobre os acontecimentos ao nosso redor. Afinal, viver é se posicionar sobre o mundo. Não existe cidadão consciente e minimamente engajado sem um elo prático e mobilizador”. Nas demais crônicas de “Março Negro”, falamos sobre: 1) Protestos de março de 2016; 2) Importância de se respeitar os resultados das eleições (e em votar direito); e 3) Consequências históricas ao desrespeito à democracia. 4) Respeito à opinião do outro. Espero que vocês tenham gostado. Até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Histórias de Macambúzios - 0 - A Cidade Vertical
Uma península é quase uma ilha, pelo fato de ter alguma ligação com o resto do continente. Uma quase-ilha, pode-se dizer, que infelizmente é obrigada a manter contato com alguma formação muito menos interessante. Esse fenômeno geológico é uma dádiva da teoria evolutiva, pois garante os benefícios de ambas as partes, como o exílio de uns e o reino de outros. Trocando em miúdos, uma península é o paraíso. Imaginem oito quilômetros de pura península, como seria cobiçada! Os índios tupinambás logo aprenderam sobre a sabedoria da vida, e em uma se instalaram. Viviam basicamente da pesca, da caça e do cultivo de mandioca. Logo perceberam que poderiam prosperar, principalmente com a inesperada chegada de corsários franceses, e entraram em negócios mais lucrativos, como desmatar o pau-brasil e vender escravos. Séculos se passaram de histórias muito enervantes e belas, daquelas que um livro seria pouco para descrever. Somente as praias daquela península sabem o quanto de história carregam. Mas não são essas histórias sobre formação do Brasil que serão contadas aqui. Fato é que, no início do século vinte, a cidade de Armação de Búzios, ou simplesmente Búzios, para os íntimos, era ainda um vilarejo de pescadores, que faziam armações para pegarem seus peixes. Mas também não é essa cidade que será a protagonista desse livro. Vale ressaltar que ao falar do passado são citados heróis, guerras, revoluções, crimes e injustiças. E uma das maiores injustiças que os compêndios da história da humanidade cometem é o anonimato de um grande homem de vanguarda. Um homem chamado Jeremiah Bonsucesso. Vindo de uma família tradicional do Rio de Janeiro, que naquela época devia ser muito mais animada que hoje, Jeremiah sempre foi autodidata. Ainda jovem, sonhava em conhecer o mundo, singrando oceanos e enfrentando maremotos. Uma grave crise de varíola o impediu de sair do país. Entretanto, Jeremiah era perseverante, e resolveu criar seu próprio mundo, incrustado no Rio de Janeiro. Um dia, avistou um pequeno vilarejo de pescadores, em uma península maravilhosa. Anteviu, então, o quanto as pessoas do mundo inteiro poderiam admirar aquela região de Búzios. Jeremiah não precisava ir ao mundo; o mundo viria a Jeremiah. Polímata, dominava vários assuntos. Dizem que seus manuscritos sobre relógios de pulso foram plagiados por Santos Dummont, e que seus ensaios sobre uma substância de efeitos benéficos chamada penicilina foram o ponto de partida de Alexander Fleming. Além de dominar geometria, história, política, oratória, filosofia e religiões comparadas, era também um empreendedor. Visionário, logo vislumbrou que Búzios rapidamente se encheria de turistas, hotéis, restaurantes, pousadas e charutarias. “Quem trabalharia nesses lugares?”, perguntou-se. A cidade precisava de pessoas dispostas a doar seus trabalhos para o mundo inteiro admirar. Pessoas engajadas, com motivação para a labuta. Para tal, Jeremiah não confiava nos remanescentes tupinambás, por considerá-los preguiçosos; tampouco dava seu aval aos pescadores, cuja visão considerava pequena, e a corsários franceses, por pura homofobia, que na época era uma opinião mais tolerada. Os trabalhadores da futura Búzios não poderiam lá morar, pois assim iriam gozar dos luxos iminentes e se tornariam preguiçosas. Também deveriam estar dispostas a longas jornadas de trabalho, muitas vezes mal remunerada. Bem relacionado, Jeremiah se aproximou de prefeitos, cônegos e autoridades diversas, e após subornos e reuniões a portas fechadas, conseguiu a liberação de um terreno dentro da península para construir sua cidade, que não era lá essas coisas. Tratava-se de um morro incrustado aos oito quilômetros, sem fronteira para nada além de Búzios, com vista distante para o mar. A cidade seria em um lugar muito íngreme, chegando a alguns pontos a ter constantes desmoronamentos. Mas isso não seria problema, pois o concreto se encarregaria de dar sustentação às casas de futuros operários do mundo, e a cidade poderia ser toda vertical. No começo, Jeremiah tentou convencer as pessoas no centro do Rio de Janeiro, local de precárias condições sanitárias, a irem morar em sua cidade, mas a ideia não teve muitos adeptos. Conversou com associações, igrejas, governantes, mas a resposta era sempre a negativa. Mas Jeremiah era perseverante, e resolveu povoar sua cidade com pessoas um pouco menos exigentes. Visitou os cais dos portos e cortiços superlotados, e as afirmativas começaram a surgir. Em pouco tempo, já acumulara quase cem pessoas, os primeiros moradores, que teriam a oportunidade vislumbrada por Jeremiah de ter uma vida melhor e mais altruísta para com o mundo. E foi com estivadores, prostitutas, jurados de morte e afins que a cidade foi fundada. Jeremiah, elegante e irônico, batizou o município de Macambúzios, em clara referência tanto ao nome da cidade vizinha quanto ao tamanho da alma de sua gente. E a cidade prosperou. As casas construídas eram simples, sem vitrais ou azulejos, mas confortáveis e melhores que cortiços. Foram todas dispostas ao pé do morro, para facilitar a locomoção para Búzios. Jeremiah queria observar a movimentação de sua obra do alto, e um pouco mais acima das demais casas, construiu seu modesto palacete. Entretanto, em alguns meses, os moradores já tinham trazido seus familiares, principalmente ex-escravos que foram libertados e não conseguiram trabalho nas lavouras de café como semi-servos. Quase todos chegavam descalços. Então, quase quinhentas pessoas se instalaram em Macambúzios. As casas foram construídas com madeira e tapumes, poucas de alvenaria, e acima das primeiras. Jeremiah foi obrigado a levantar outro palacete, acima deste segundo andar. Após dois anos, Búzios ainda não tinha alcançado a glória, ao contrário de Macambúzios, que aumentava exponencialmente sua população. Aquilo enchia Jeremiah de orgulho, mas dar assistência àquelas pessoas, até que a cidade litorânea desencantasse, se tornava cada dia mais dispendioso. O fundador, que já distribuía lenha e óleo para os lampiões, promoveu o comércio local vendendo concessões para o comércio de mercadorias, principalmente alimentos e bebidas. Os moradores aprovaram, e montaram mercearias. Entretanto, outros produtos acabaram sendo vendidos por lá, como bebidas alcoólicas, programas sexuais e diamba, que fazia muito sucesso. Como Jeremiah era terminantemente contra tal comércio, poderes paralelos surgiram para coordenar essas atividades, camuflando-as e distribuindo concessões. Foi nesse momento que Jeremiah viu-se perdendo o controle sobre seu município, e instituiu leis drásticas, que desafiavam seu poder moderador. Chamou a todos, que no momento somavam mais de dois mil, e divulgou a Lei dos Sexagenários Senis, que proibia a entrada de moradores acima de sessenta anos, e a Lei do Ventre Assistido, que limitou a vinte o número de nascimentos na cidade. O povo se opôs aos mandados do fundador, e elegeu um representante para conversar com Jeremiah, a fim de solucionar o impasse. Seu nome era João Cândido Felisberto, filho de ex-escravos, que passava por um período de afastamento da marinha por atos de desobediência à hierarquia. “Caro Jeremiah, essas medidas serão inócuas”, iniciou João Cândido. “Meu povo já passou por leis parecidas que em nada acrescentaram. “João, eu discordo”, respondeu Jeremiah. “Eu sempre digo que o progresso é inevitável, mas temos que tomar certas medidas. Entenda, eu faço de tudo para a cidade dar certo, e com o tempo as coisas vão melhorar.” Triste Jeremiah, mal sabia que a previsão de João Cândido levaria pouco tempo para se confirmar. No fim daquele ano a cidade foi tomada por mais de quatro mil pessoas que participaram da Revolta da Vacina e foram desalojadas. Suas casas foram levantadas acima da segunda leva, obrigando Jeremiah a novamente subir seu palacete e a criar uma via principal para os transeuntes, chamada jocosamente de Ladeira Oswaldo Cruz. A cidade se tornava mais vertical com o passar do tempo. A população, aos poucos, foi formando sua cultura. Já eram notórias figuras distintas do povoado, como a principal prostituta, chamada Camélia. Ela era muito altruísta, e antes de ir para Macambúzios oferecia favores sexuais a um famoso comerciante português chamado José de Seixas Magalhães, que foi quem lhe deu o apelido profissional. Outra personalidade marcante era Navalha, malandro mulherengo famoso por brigas com mendigos e travestis. Sua origem anterior ao município é desconhecida. A cidade passava por uma onda de óbitos causados por varíola. Jeremiah viu que Macambúzios carecia de melhores condições, não só sanitárias, mas de urbanização. Começaria seu projeto de revitalização com a substituição de lampiões e fornalhas por energia elétrica. “Macambúzios ficará tão desenvolvida quanto Campos dos Goytacazes”, dizia. A mudança geraria um custo enorme para o autointitulado prefeito Jeremiah, mas fazia parte do projeto a cobrança de um mísero imposto dos moradores. Isso foi suficiente para que corresse o boato que Jeremiah queria, na verdade, explorar as pessoas da cidade, uma imensa pilhéria. A história foi se avolumando, com manifestações populares intensas, sendo a mais significativa a formada por Navalha, Camélia e João Cândido, líder do grupo. Eles se reuniram e formularam um plano para expulsar Jeremiah da cidade, no movimento que ficou conhecido como Conjuração dos Macambúzios. “Camélia, tudo vai começar contigo”, iniciou João Cândido. “Você vai até o palacete e se oferece a Jeremiah. Mas você o obriga a ir até seu puteiro. Navalha e eu estaremos lá dentro, e vamos intimidá-lo a sair da cidade.” O que João Cândido não sabia era que Navalha tinha um plano mais ambicioso e inconfidente. No dia da execução, Camélia foi ao palacete, como combinado. Entretanto, o malandro mentiu para João Cândido, dizendo que Camélia declinara do plano de última hora. Isso enfureceu o líder, que foi até a casa dela reclamar. Quando Camélia e Jeremiah chegaram ao puteiro, viram apenas Navalha, que rapidamente pediu para que a horizontal se retirasse e ficou a sós com o fundador. O diálogo, crucial para entender o prumo da narrativa, segue. “Jeremiah, queria ter com o senhor.” “É claro, Navalha. Mas poderia ser amanhã? Hoje tenho uma conversa com Camélia.” “Não. Ouvi dizer que o senhor vai cobrar para colocar a energia elétrica.” “Sim, uma mísera quantia. Pouco comparado ao avanço que a cidade terá!” “Mas o senhor não vai fazer isso.” “Porque não, Navalha? O progresso é inevitável.” “Porque quem vai fazer isso sou eu.” Com isso, Navalha saca sua arma homônima, e com uma lambida ágil e sem resistência, degola o pescoço de Jeremiah, não deixando tempo para uma súplica ou um último suspiro. Os outros conjuradores, ao perceberem que foram traídos, voltam para o puteiro, mas já encontram Jeremiah morto e Navalha proclamando-se o novo dono de Macambúzios. Camélia voltou aos seus programas habituais, mas era obrigada a dormir com Navalha sem ordenados. João Cândido voltou para a marinha, embora fosse contrário aos castigos físicos impostos pelos superiores. Navalha, por sua vez, tomou como primeira medida a vacinação obrigatória contra varíola de todos da cidade. “Se alguém se opuser, eu mesmo vou tomar providências”, disse à população. “Acreditem, chora menos quem pode mais.” Ao longo dos anos, muitas navalhas se cortaram, muitas águas rolaram, e muitos homens provaram do poder. Postes, botijões de gás, canais a cabo e substâncias ilícitas também eram de domínio destes, que viam do alto do morro os oito quilômetros de península, cada vez mais repleta de turistas, hotéis, restaurantes, pousadas e charutarias. Muitas histórias aconteceram em Macambúzios, a cidade vertical, e são essas que serão contadas a partir de agora. Até hoje a cidade existe, em algum lugar incrustado em Búzios, como se poderá provar pelas narrativas que seguem. Entretanto, é ignorada por cidadãos desatentos e autoridades políticas. Até que se prove o contrário, todas as histórias são completamente verídicas e fidedignas à realidade. Boa leitura. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
















