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- Mercado Editorial: Livros novos e baratos - A tendência das livrarias populares
Livro no Brasil é artigo de luxo. Quem diz isso não sou eu e sim as pesquisas. Diferentemente do que acontece em muitos países, por aqui apenas uma parcela restrita da população tem o costume de frequentar livrarias e de adquirir constantemente obras literárias. Esses hábitos são inclusive vistos como elitistas pela maioria dos nossos compatriotas. É verdade que grande parte desse problema se dá pelo gigantesco analfabetismo funcional dos brasileiros e do nosso baixo desenvolvimento cultural. Quem manda ter um dos piores sistemas educacionais do mundo, né? Por outro lado, esse triste cenário também é culpa dos preços altos. Aí volto à frase que abriu esse post: livro no Brasil é artigo de luxo. Você já reparou que em nosso país são poucas as iniciativas para baratear os preços das obras literárias?! Parece que todas as partes da cadeia editorial estão satisfeitas com os valores dos títulos comercializados por aqui: R$ 39,90, R$ 49,90, R$ 59,90 e R$ 69,90. Notamos o quanto os livros nacionais são caros quando os comparamos com os preços de seus similares estrangeiros. Lá fora, é comum existirem faixas mais econômicas: livros pockets (ou livros de bolso) e livros ainda mais simples (em papel simplório e com acabamento rudimentar). Ou seja, se você quer comprar um livro tradicional, pagará um valor maior. Se não pode arcar com esse custo, há opções mais em conta. Legal, né? Contudo, entre o Oiapoque e o Chuí essa tendência não pegou. As editoras brasileiras desenvolvem obras com qualidade gráfica e editorial espetaculares, mas não investem em opções populares. No Brasil, livro barato só em sebo, que comercializa obras usadas e antigas. Se você quer um título novo (zero bala) terá que abrir a carteira. Não seria possível vender publicações novas e em primeira mão a preços de exemplares de sebos?! Como seria legal se isso ocorresse nas livrarias dos principais shopping centers do país, né? Se você almeja isso como eu, saiba que nossos sonhos podem estar se tornando realidade. Desde o ano passado, tem crescido o número de livrarias com preços populares. Pelo menos na cidade de São Paulo elas estão surgindo com força. Eu conheço duas redes de livrarias com propostas de baixo custo que gostaria de compartilhar no post de hoje da coluna Mercado Editorial. Quem disse que o Bonas Histórias só dá dicas de leitura, hein? Nós também nos preocupamos em indicar onde você pode comprar bons títulos por preços acessíveis. Afinal, sem essa parte do processo (a compra), a anterior (a leitura propriamente dita) fica inviável. A primeira livraria que gostaria de citar é a Promolivros. Ela vende normalmente títulos por R$ 10,00 em shopping centers. Na frente de suas lojas, temos a seguinte informação estampada: qualquer livro por R$ 10,00 - exceto livros jurídicos, boxes, HQs e etiqueta branca. A Promolivros nasceu operando exclusivamente em bienais do livro e em feiras do mercado editorial. Quem visitou a Bienal do Livro de São Paulo e a Bienal do Livro do Rio de Janeiro deve se lembrar dela. Desde o ano passado, a empresa instalou-se em lojas de shopping e passou a atender diretamente aos clientes. Ela já possui sete unidades na cidade de São Paulo: Butantã Shopping, Central Plaza, Shopping Metrô Itaquera, Shopping Metrô Tucuruvi, Raposo Shopping, Tietê Plaza e West Plaza. Na Promolivros, os livros ficam expostos em bancadas temáticas (infantil, infantojuvenil, romances, negócios, jurídicos, histórias em quadrinhos...). Aí o cliente escolhe o que deseja e se dirige ao caixa para pagar. Normalmente, a loja tem entre um e dois funcionários. Nos dias e horários de pico, uma dupla atua em conjunto, enquanto nos dias e horários mais tranquilos apenas um integrante da equipe cuida da operação. Como não há consulta de títulos (o que está a venda está aos olhos dos clientes) nem quaisquer serviços mais elaborados, não se exige tanto dos funcionários (não sendo necessário, portanto, um quadro grande de trabalhadores). A outra rede é a Top Livros. Com sede em Curitiba, a empresa trabalha com mais de 200 editoras e tem como proposta vender livros a custo baixo. Atuando tanto no varejo quanto no atacado e possuindo uma loja virtual, a Top Livros está presente em feiras de livros, estandes temporários em shopping centers, em supermercados, em estações de metrô, em bienais de livros e em eventos especiais. As obras vendidas nas lojas físicas também têm um preço fixo: R$ 10,00. A diferença é que sua operação é até mais simples do que a Promolivros. Segundo o sistema pegue-pague, mais comum no exterior e uma raridade no Brasil, o consumidor escolhe os títulos que deseja e se dirige ao caixa. Na Top Livros não há funcionários para fazer o atendimento. Assim, cabe ao próprio cliente passar o valor da compra nas máquinas de cartão ou deixar o dinheiro em uma caixinha. Diferentemente da Promolivros que investe mais em lojas fixas, a Top Livros prefere atuar em estandes no meio dos corredores dos shoppings centers. Pelo menos é assim que eles estão dando as caras na maioria dos pontos comerciais aqui na cidade de São Paulo. Em Curitiba, há mais lojas regulares e convencionais. Por enquanto, a empresa paranaense opera em quatro unidades na capital paulista: no Boavista Shopping, no Shopping D, no Raposo Shopping e no Tietê Plaza. Comprar livros novinhos por R$ 10,00 é bom demais. A operação enxuta (quase sem serviço nenhum), os poucos títulos disponíveis e a ausência de lançamentos explicam os preços competitivos dessas redes de livrarias. Portanto, não espere encontrar entre as opções disponíveis os best-sellers do momento e os últimos lançamentos do mercado editorial. Há nos catálogos da Promolivros e da Top Livros muitas obras infantis, infantojuvenis e clássicos da literatura brasileira e mundial. Os best-sellers comercializados são aqueles que deixaram há muito tempo de frequentar a lista dos mais vendidos. Ou seja, o consumidor precisa dar uma boa garimpada para achar boas leituras (ossos do ofício que qualquer fanático por literatura não irá se importar em realizar). Este tipo de loja é excelente para quem está passeando pelo shopping e procura uma oferta de ocasião. Falo por experiência própria. Quando entro em uma livraria de desconto sempre saio com ao menos um exemplar. Minhas últimas compras foram: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” (Leya), best-seller de Leandro Narlock, “Órfão X” (Planeta do Brasil), romance policial de Gregg Hurwitz, e “Mundo Bizarro: as Histórias Mais Estranhas e as Imagens Mais Esquisitas do Planeta” (Panda Books), coletânea da Bradt Travel Guides - Wanderlust. Em época de dinheiro curto e de lenta retomada econômica, dar uma passadinha na Promolivros e/ou na Top Livros pode ser um bom negócio. Quem sabe você não acha aquele título que está postergando em comprar há tempos, hein? Sua próxima visita ao shopping pode ser mais lucrativa do que você imagina. Boa leitura a todos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: A Turma da Rua Quinze – O clássico infantojuvenil de Marçal Aquino
É impossível falar de literatura infantojuvenil no Brasil sem citar a coleção Vaga-Lume. A série da Editora Ática foi lançada em 1973 e de lá para cá teve aproximadamente uma centena de títulos publicados. Não é errado afirmar que essas obras embalaram a infância de milhões de jovens leitores brasileiros nas últimas quatro décadas. E um dos livros mais famosos da Vaga-Lume foi “A Turma da Rua Quinze” (Ática), o romance policial de Marçal Aquino. Li esta publicação pela primeira vez quando era criança/adolescente e ela jamais saiu de minha memória. Ainda me recordo das aventuras do grupo de meninos que investiga o desaparecimento de um coleguinha e as movimentações suspeitas em uma casa da vizinhança. Para os mais empolgados, esta obra de Aquino é a melhor história da série Vaga-Lume. Para os mais céticos, ela é uma das melhores. Sabendo da qualidade indiscutível deste título, resolvi relê-lo mais uma vez neste final de semana. Minha curiosidade agora era para saber se “A Turma da Rua Quinze” se mantém ainda hoje tão interessante quanto era na época do seu lançamento (e/ou quando o li na minha infância/adolescência). Publicado pela primeira vez em 1989, a “Turma da Rua Quinze” integra ao lado de “A Ilha Perdida” (Ática), de Maria José Dupré, “Açúcar Amargo” (Ática), de Luiz Puntel, “O Escaravelho do Diabo” (Ática), de Lúcia Machado de Almeida, “Deu a Louca no Tempo”, de Marcelo Duarte, e “O Mistério do Cinco Estrelas” (Ática), de Marcos Rey, a seleta lista dos livros mais vendidos da série Vaga-Lume. Cada uma dessas obras alcançou a marca de sete dígitos em exemplares comercializados ao longo dos anos. Para conferir a popularidade desses títulos, basta dar uma olhadinha rápida no portfólio de qualquer biblioteca pública ou particular do nosso país. Na certa, essas obras fazem parte do acervo bibliográfico. Eu consegui um exemplar de “A Turma da Rua Quinze” na estante da biblioteca da casa dos meus pais em São Paulo. Sem sombra de dúvida, o livro é o mesmo que li na primeira metade da década de 1990. Curiosamente, “A Turma da Rua Quinze” representou a estreia de Marçal Aquino, escritor, jornalista e roteirista de cinema nascido em Amparo, no interior de São Paulo, na literatura infantojuvenil. Hoje, este primeiro livro de Aquino é considerado um clássico em seu gênero, estando no patamar, por exemplo, de “O Gênio do Crime” (Global), romance de João Carlos Marinho Silva. “Turma da Rua Quinze” é um thriller policial que apresenta uma ótima narrativa e tem a capacidade de atiçar a leitura dos jovens leitores. A obra tem tudo o que um bom romance policial pede: suspense, ação, perigo, reviravoltas, intrigas, investigação e paixonites. E o melhor: esses elementos são adaptados para a realidade e para o universo infantil. Não à toa, transformou-se em uma obra-prima da literatura infantojuvenil brasileira. O sucesso de crítica e de público deste livro incentivou Marçal Aquino a prosseguir na produção de tramas para as crianças e para os adolescentes durante quase toda a década de 1990. “O Mistério da Cidade-Fantasma” (Ática), de 1994, “O Primeiro Amor e Outros Perigos” (Ática), de 1996, e “O Jogo do Camaleão” (Ática), de 1997, são outros títulos do autor que integraram a coleção Vaga-Lume. O escritor paulista também participou da Coleção Sete Faces, uma série infantojuvenil lançada na mesma época pela editora Veredas. A partir de 1998, Marçal Aquino mudou o foco do seu trabalho literário e passou a priorizar a literatura adulta. Em 2000, “Amor e Outros Objetos Pontiagudos” (Geração Editorial) conquistou o Prêmio Jabuti na categoria Contos & Crônicas. Dois anos mais tarde, “O Invasor” (Má Companhia) foi lançado quase que simultaneamente nos cinemas (como longa-metragem roteirizado por Aquino) e nas livrarias (na versão romance). Esse livro é uma das histórias mais conhecidas do autor paulista até hoje. O maior sucesso de Marçal Aquino viria em 2005 com “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras). Esta é sua obra-prima na literatura adulta e o meu livro favorito de Marçal Aquino (como deixei bem claro em um post do Bonas Histórias no final do ano passado). A trama da “A Turma da Rua Quinze” se passa em julho de 1969. Enquanto o mundo acompanha com empolgação a chegada dos astronautas norte-americanos à Lua, a garotada da Rua Quinze está curiosa para saber o que aconteceu com Marcão. O irmão mais velho de Serginho desapareceu repentinamente de casa sem avisar ninguém. Os pais do garoto estão desesperados por notícias do filho. Depois de relatar o caso à delegacia mais próxima, a família de Marcão precisa esperar o desenrolar da investigação policial, algo que demorará alguns dias, semanas ou, quem sabe, meses. Os amigos da Rua Quinze resolvem, então, intervir. Pedro, Ricardo “Tigre”, André, Renato e Serginho, meninos que integram um pequeno clube local, decidem investigar por conta própria o desaparecimento do colega e vizinho. Eles terão a ajuda de Napoleão, o esperto cachorrinho de Tigre, e de Bia, uma bonita menina que se mudou recentemente para o bairro, nessa complicada missão. Enquanto procuram por Marcão, os amigos notam uma movimentação suspeita em uma casa da região. O morador é um homem com uma enorme cicatriz no rosto. Obviamente, o rapaz recebe o apelido de Cicatriz. Ele alugou há pouco tempo o imóvel. O que intriga mais a garotada é as visitas noturnas àquela residência. Sujeitos mal-encarados e com atitudes misteriosas entram e saem da casa de Cicatriz na calada da noite. Para saber o que se passa ali, Pedro, Tigre, André, Serginho e Renato optam por invadir clandestinamente a residência do estranho morador do bairro. Sem saber, os meninos estão entrando em uma fria danada. O desfecho da investigação da garotada colocará o grupo em perigos incalculáveis. Como é típico dos romances infantojuvenis, “A Turma da Rua Quinze” é um livro curtinho. Ele possui pouco mais de 100 páginas. Um adulto consegue ler esta obra em algumas horas. Eu, por exemplo, concluí esta leitura em aproximadamente duas horas e meia no último sábado. Obviamente, uma criança ou um adolescente deve demorar quatro ou cinco vezes mais. Entretanto, independentemente da idade do leitor, o que é consensual é a qualidade desta narrativa. Marçal Aquino está ao lado de Maria José Dupré, Monteiro Lobato, João Carlos Marinho Silva e Marcos Rey na lista de escritores nacionais que escrevem com exímia excelência para o público mirim. Afinal, não é porque uma trama é direcionada às crianças e aos adolescentes que ela precisa ser de menor qualidade ou simplista. O primeiro mérito de “A Turma da Rua Quinze” está justamente em sua narrativa. Como romance policial, o livro de Marçal Aquino é ótimo. A história apresenta um intrincado suspense que empolga o leitor desde as primeiras páginas. Há também boas doses de ação, humor e reviravolta ao longo dos capítulos. O clímax reserva uma ótima cena em que a garotada estará diante de perigosos e sanguinários bandidos. Esses elementos todos são apresentados a partir do universo infantil. Nesta trama, temos os primeiros amores, a paquera de meninos e meninas, a importância do clubinho e dos jogos de futebol, a sensação de liberdade ao caminhar sozinho pelas ruas do bairro, a valorização da amizade e o espírito de aventura típico das crianças. Não é errado dizer que “A Turma da Rua Quinze” não subestima a inteligência dos jovens leitores em nenhum momento. Marçal Aquino constrói uma história sólida, divertida e emocionante. Como narrativa, temos um romance impecável. Apesar de se utilizar de matérias-primas literárias simples (narrador observador colado aos meninos, clímax acontece quando a garotada consegue entrar na casa de Cicatriz, discurso indireto livre, cenas com muitas ações, ritmo veloz e desenlace surpreendente), o escritor paulista entrega uma trama extremamente bem costurada. Impossível não gostar desta história. Em suma, duas décadas e meia depois da minha primeira leitura, “A Turma da Rua Quinze” continua tão encantador quanto antes. Apesar de lembrar de algumas passagens, a maior parte dos acontecimentos do livro eu não me recordava. Tão importante quanto a manutenção dessa experiência de leitura é a atemporalidade de sua trama. A obra de Marçal Aquino é ainda hoje uma ótima opção de leitura para as crianças contemporâneas. Se você reclama que seu filho ou sua filha não lê muito, tente incentivar algo que atice a imaginação e a curiosidade deles. Neste sentido, “A Turma da Rua Quinze” é um romance impecável. O bom é que ele é tão interessante que você mesmo poderá se pegar devorando as páginas da publicação. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: O Horror Sobrenatural em Literatura – O ensaio de H. P. Lovecraft
É muito legal quando renomados escritores produzem textos sobre seu ofício, sobre suas carreiras ou sobre a literatura de maneira geral. De cabeça, recordo de algumas obras maravilhosas neste sentido: “Sobre a Escrita” (Suma das Letras), de Stephen King, “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), de Milan Kundera, “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), de Virginia Woof, “Auto-retrato do Escritor quando Corredor de Fundo”, de Haruki Murakami, “História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas” (Cultrix), de Sandra Newman, e “Por que Ler os Clássicos?” (Companhia das Letras), de Italo Calvino. Boa parte desta lista já foi analisada no Bonas Histórias. Hoje, gostaria de comentar um antigo ensaio sobre a história da literatura de terror, um dos meus gêneros narrativos favoritos. “O Horror Sobrenatural em Literatura” (Iluminuras) é o único livro não ficcional de Howard Phillips Lovecraft, escritor norte-americano que revolucionou as histórias de terror na primeira metade do século XX. Seu trabalho foi tão marcante que ele influenciou vários autores contemporâneos deste gênero. A obra mais famosa de Lovecraft é a coletânea de contos “Histórias de Horror – O Mito de Cthulhu” (Martin Claret). Nessa publicação, a Terra é alvo de uma intensa disputa entre seres humanos e uma organização secreta formada por alienígenas. Os contos desta série misturam terror e ficção científica, uma das principais características literárias do autor. O Mito de Cthulhu é até hoje uma criatura cultuada por diversas seitas pagãs e por fãs da ficção sobrenatural de Lovecraft, o que torna o trabalho deste autor atemporal. Em “O Horror Sobrenatural em Literatura”, H. P. Lovecraft deixa de lado as suas tramas ficcionais e apresenta um longo ensaio sobre a história das narrativas de terror. Seu foco neste livro é a produção literária dos seus colegas do presente e do passado. De início, Lovecraft explica o fascínio que este tipo de texto exerce sobre o leitor. Para o autor norte-americano, o medo é a mais antiga emoção humana. Ela está presente desde os primórdios de nossa espécie. Assim, é natural que contos, novelas, romances e sagas horripilantes possuam um público cativo ao longo do tempo e emocionem de forma considerável os fãs de literatura. Esta é uma das partes mais interessantes da obra. Na sequência, Lovecraft passa a explicar o surgimento dos contos de terror e sua evolução para as novelas góticas. Depois das novelas góticas, vieram os romances sobrenaturais. O enfoque principal dessa retrospectiva histórica está na literatura de língua inglesa, território mais familiar para Howard Phillips Lovecraft. Há também algumas citações a obras alemãs e francesas. No meio do livro, temos a explicação sobre a contribuição de Edgar Allan Poe para este gênero literário. O escritor norte-americano do século XIX revolucionou os thrillers macabros e deu a receita para a moderna literatura que viria a seguir. Poe influenciou muitos autores norte-americanos e artistas de língua inglesa. Por fim, Lovecraft apresenta as obras contemporâneas mais significativas desse gênero, comentando-as e citando as contribuições dos novos escritores. Produzido há quase cem anos, “O Horror Sobrenatural em Literatura” foi publicado pela primeira vez em 1927. Em suas 125 páginas, temos dez capítulos: “Introdução”, “O Início do Conto de Horror”, “Os Primórdios da Novela Gótica”, “O Apogeu do Romance Gótico”, “Os Desdobramentos da Ficção Gótica”, “Literatura Espectral no Continente Europeu”, “Edgar Allan Poe”, “A Tradição Fantástica nos Estados Unidos”, “A Tradição Fantástica nas Ilhas Britânicas” e “Os Mestres Modernos”. A edição brasileira ainda tem um prefácio intitulado “A Estética do Medo”, de Oscar Cesarotto, psicólogo e professor universitário. Obviamente, este tipo de leitura é indicado para quem gosta de Teoria Literária e da História da Literatura Universal. Quem procura referências de obras clássicas de terror também pode apreciar este livro. Li “O Horror Sobrenatural em Literatura” no último sábado. Trata-se de uma leitura rápida e muitíssimo agradável (ao menos para um fã da Teoria Literária e para alguém apaixonado por narrativas macabras). Devo ter levado entre três e quatro horas para percorrer todas as páginas de “O Horror Sobrenatural em Literatura”. Como todo ensaio literário, este livro de H. P. Lovecraft possui alguns pontos positivos e outros negativos. O legal é que os aspectos favoráveis são predominantes. É inegável a profundida do debate proposto e o domínio sobre o assunto por parte de seu autor. Além de ter sido um dos principais escritores de terror da primeira metade do século XX, Lovecraft mostra-se um grande entendedor do tema. Ele calcou sua produção literária no estudo e na leitura dos clássicos de horror. Nesse sentido, ele me lembrou muito Italo Calvino, escritor italiano que desenvolvia seu trabalho literário juntamente com uma profunda análise do portfólio dos colegas. Na minha opinião, o principal mérito de “O Horror Sobrenatural em Literatura” está em sua linguagem acessível e na maneira direta como são apresentadas as explanações do seu autor. Esqueça os ensaios com ar acadêmico e com um formalismo excessivo. Isso passa longe desta obra. Lovecraft usa um tom direto, palavras simples e termos corriqueiros para debater a história da literatura de terror. Na certa, o autor norte-americano pretendia falar com um público maior e menos especializado quando iniciou a produção desse material. A didática deste livro também deve ser elogiada. O jeito leve e descontraído de escrever de Lovecraft se traduz em um texto muito agradável e convidativo. O mais interessante é a sensibilidade do autor para compreender quais são as obras que os leitores devem conhecer e quais provavelmente eles não conhecem. No primeiro caso, como “O Morro dos Ventos Uivantes” (Martin Claret), de Emily Brontë, “O Médico e o Monstro” (L&PM Pocket), de Robert Louis Stevenson, “Frankenstein” (Darkside Books), de Mary Shelley, e “Drácula” (Penguin Companhia), de Bram Stoker, temos apenas a análise de suas narrativas. No segundo caso, como “Zanoni” (Zefiro), de Edward Bulwer-Lytton, “O Monge” (Pedra Azul), de Matthew Gregory Lewis, “Mistérios de Udolpho” (Pedra Azul), de Ann Radcliffe, e “A Casa na Fronteira” (Sem edição em língua portuguesa), de William Hope Hodgson, há o cuidado para a apresentação do enredo da trama. Achei isso espetacular. Afinal, é preciso conhecer a história do livro para se interessar por sua análise. Até parece que Lovecraft adivinhou quais obras conhecemos e quais ficariam em segundo plano um século mais tarde. Gostei também da escolha de grande parte dos títulos comentados em “O Horror Sobrenatural em Literatura”. As obras e os escritores de língua inglesa selecionados para a análise e para a composição histórica são realmente clássicos até hoje. Não é fácil fazer uma seleção como esta, assim como não é nada tranquilo narrar a trajetória artística de um gênero literário ao longo dos séculos. Repare na sensibilidade e na humildade do autor de não se incluir como um dos escritores mais importantes da ficção macabra. Quando escreveu este livro, Howard Phillips Lovecraft já sabia da sua importância histórica para este tipo de literatura. Contudo, ele preferiu se abster de se referendar ou de citar seu próprio trabalho nas páginas desta obra. Apesar de perdermos uma importante parte da produção literária do início do século XX, essa opção se mostrou acertada por indicar a isenção completa do estudo realizado. O principal ponto negativo de “O Horror Sobrenatural em Literatura” está no fato do livro ter sido publicado em 1927. Ou seja, não temos a continuação da trajetória das narrativas de terror de lá para cá. O hiato é de quase cem anos. Obviamente, Lovecraft não tinha como prever o que aconteceria ao longo do século XX e no início do século XXI. Mesmo assim, o leitor de hoje sente uma certa decepção por ver terminada uma análise tão boa “ao meio”. “E os autores atuais?!” e “Cadê a contribuição de Stephen King, Ira Levin e Scott Smith?”, pensamos um tanto frustrados. Para Lovecraft, os escritores contemporâneos são Arthur Machen, Algernon Blackwood, Lord Dunsany e Montague Rhodes James, autores do final do século XIX e do início do século XX. Apesar da excelente escolha de obras e de autores analisados, fica evidente o quanto o olhar de H. P. Lovecraft é enviesado para a literatura de língua inglesa. Cadê a contribuição dos outros países e das outras línguas para o desenvolvimento das tramas de terror?! Para quem lê “O Horror Sobrenatural em Literatura” a impressão que fica é que não há este tipo de produção literária fora dos Estados Unidos e do Reino Unido. Há citações rápidas de obras desenvolvidas na França e na Alemanha, mas não há a menção à contribuição de autores e livros estrangeiros (de fora da literatura inglesa) para o desenvolvimento deste gênero. De qualquer forma, “O Horror Sobrenatural em Literatura” é uma obra fundamental para quem deseja conhecer a história das narrativas de terror ou precisa estudar os clássicos deste gênero. Se esse é o seu caso, desejo desde já boa leitura. Na certa você não se arrependerá de mergulhar este ensaio. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Filmes: De Quem é o Sutiã? - O conto de fadas moderno do Azerbaijão
Fazer cinema mudo (ou quase mudo) em pleno século XXI não é uma raridade tão surpreendente assim. Vale lembrar que “O Artista” (The Artist: 2011) conquistou merecidamente cinco estatuetas do Oscar em 2012, incluindo o de melhor filme, ao usar este expediente. Em 2020 mesmo, já comentei no Bonas Histórias o hilário “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019), produção de Elia Suleiman em que o protagonista quase não fala. Mesmo assim, não deixa de ser inusitado (e até gracioso) quando o cineasta contemporâneo filma ancorando-se exclusivamente nas imagens. Esse é o caso do belíssimo “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018), comédia-dramática alemã ambientada no Azerbaijão. Sem dúvida nenhuma, trata-se do título mais charmoso e do roteiro mais criativo em cartaz neste momento no circuito comercial brasileiro. Assisti, no último final de semana, a este filme no Petra Belas Artes e confesso ter saído da sessão encantado com sua proposta cinematográfica e com sua narrativa coesa. Como é bom ver um longa-metragem diferente e com qualidades variadas, que sabe fugir do convencional sem abrir mão da excelência técnica. Incrível esta produção, um típico exemplar do que há de melhor no cinema alemão! Dirigido, roteirizado e produzido por Veit Helmer, cineasta alemão de 51 anos, “De Quem é o Sutiã?” é uma espécie de conto de fada moderno do terceiro mundo. Apesar de sua ótima história, o que mais chama a atenção do público, ao menos no primeiro momento, é a ausência completa de diálogos durante todo o filme. É inacreditável essa façanha para um longa-metragem contemporâneo! Antes que alguém reclame (corretamente) dos meus comentários do primeiro parágrafo deste post, deixe-me explicar melhor: tecnicamente, não podemos considerar esta produção como um caso de cinema mudo (esse mesmo conceito é aplicável a “O Paraíso Deve Ser Aqui”). Afinal, há todo tipo de som neste longa-metragem, tanto proveniente da trilha sonora quanto do que acontece em cena (gritos e lamúrias das pessoas, barulhos do trem se locomovendo, manuseios de objetos, pessoas batendo à porta, máquinas operando nas fábricas, etc.). As únicas coisas que não temos são as conversas entre as personagens (se houvesse, elas seriam transmitidas normalmente à plateia). Por isso, “De Quem é o Sutiã?” não é um exemplar do cinema mudo (a opção pela inexistência de diálogos foi algo definido no roteiro). Contudo, que se parece com cinema mudo, isso sim parece (prefiro chamá-lo de cinema quase mudo...). Para quem acha impossível contar uma boa história sem nenhuma palavra falada, veja “De Quem é o Sutiã?”. Na certa, você sairá estupefato da sessão (sim é possível uma proeza como esta!). Estrelado por Miki Manojlović, Chulpan Khamatova, Denis Lavant, Ismail Quluzade, Maia Morgenstern e Paz Vega, este novo filme de Helmer foi filmado inteiramente no Azerbaijão, em 2017. Seu lançamento na Europa aconteceu no ano seguinte. Porém, só agora ele chega, por aqui, às salas de cinema das nossas grandes redes de distribuição. Sua exibição se deu, até então em nosso país, apenas em festivais, como na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2019. Em “De Quem é o Sutiã?”, assistimos à rotina melancólica do maquinista Nurlan (interpretado por Miki Manojlović). Solitário, ele trabalha há décadas em uma linha de cargas que liga Baku, a capital azerbaijana, ao interior do país. Os únicos colegas com quem o protagonista convive minimamente são o maquinista novato que ele treina (Denis Lavant) e a operadora da linha (Chulpan Khamatova). De bom coração, Nurlan sempre devolve os objetos que seu trem acaba levando sem querer de uma vila próxima à estação principal de Baku. Como a linha passa bem no meio dessa comunidade pobre, acidentes acontecem, por mais que haja um garoto (Ismail Quluzade) que alerte os moradores sobre a chegada iminente da composição férrea. Os problemas mais comuns são a derrubada de varais de roupa. Perto de se aposentar, Nurlan sonha em se casar. Após cortejar uma bela e jovem vizinha de sua propriedade nas montanhas, ele se vê renegado pela mãe da moça. A possível sogra o considera muito velho para sua filha, apesar da própria pretendente e do pai dela gostarem da ideia do casório. Assim, o maquinista desiste da vizinha, mas continua sonhando em encontrar a pessoa certa para se unir. A chance de encontrar a companheira ideal aparece na última viagem de trem que ele realiza até Baku. Na jornada derradeira antes da aposentadoria, um sutiã azul fica preso ao vagão dirigido por Nurlan. Na mente do funcionário, a peça é da mulher de sua vida, uma moradora do vilarejo humilde que ele conhece tão bem. Aproveitando que não trabalha mais na companhia de trem, a personagem principal do longa-metragem inicia uma aventura inusitada pelas ruas da comunidade à beira da linha férrea. Ele deseja encontrar a dona do sutiã azul, com quem acredita que irá se casar. Assim, Nurlan inicia sua epopeia tragicómica batendo em porta em porta. As reações das mulheres abordadas são as mais inusitadas possíveis. Apesar de despertar a simpatia de algumas damas, o que ele mais gera é a repulsa e a indiferença delas (além do ódio dos homens locais). Mesmo conquistando algumas pretendentes, o obstinado Nurlan quer achar a verdadeira proprietária do sutiã, a única mulher com quem ele acredita ser possível se relacionar amorosamente. “De Quem é o Sutiã?” tem 90 minutos de duração. Seu principal mérito é prender a atenção do espectador do início ao fim. Por mais que sua trama se desenrole de maneira mais lenta do que o habitual (afinal, é preciso explicar TUDO através das imagens), ainda sim a narrativa não esmorece em nenhum momento. Admito que fiquei com meus olhos presos a esta história o tempo inteiro. Em se tratando de um filme sem qualquer diálogo, essa é uma façanha que merece nossos aplausos. Parte do sucesso deste longa-metragem deve-se à combinação entre o início didático e o desfecho arrebatador. As primeiras cenas já inserem o público no cerne do conflito. O roteiro de Veit Helmer é bastante feliz por ir direto ao ponto, não dando margem a rodeios ou à perda de tempo. E o final do filme é um dos mais espetaculares que vi nos últimos tempos. As surpresas acontecem sucessivamente. Eu que gosto de tentar prever o que irá acontecer (sim, tenho essa mania!), fiquei com o queixo caído na parte final. É impossível tentar descobrir o que irá ocorrer nos últimos 20 minutos de “De Quem é o Sutiã?”. Até mesmo a identidade da dona da peça íntima perdida é de derrubar qualquer um da cadeira do cinema. Fantástico! As referências suscitadas por “De Quem é o Sutiã” são claras: “Cinderela”, clássico conto de fadas de Charles Perrault, e “O Garoto” (The Kid: 1921), um dos maiores sucessos cinematográficos de Charlie Chaplin. Se na narrativa do escritor francês o príncipe buscava a dona do sapatinho de cristal perdido, nesta produção de Helmer o maquinista procura obstinadamente sua pretendente através do sutiã achado em seu trem (o que suscita, convenhamos, mais comicidade e erotismo ao drama). Por mais que as feministas possam chiar (o sutiã já foi o grande vilão deste movimento), a escolha da peça foi acertada (pensando, obviamente, no lado cômico da história). Quando o menino pobre e abandonado que vive nas ruas de Baku se junta ao aposentado apaixonado pela mulher do sutiã azul, aí a trama pende mais para o clássico de Charlie Chaplin. Assim como Carlitos e o garotinho abandonado pela mãe se tornam uma dupla inseparável e aprontam todas pelas ruas norte-americanas na década de 1920, Nurlan e seu aliado mirim se tornam unha e carne e vão barbarizar pelas ruas azerbaijanas do século XXI. É inegável que a ausência de diálogos dê um charme todo especial a esta produção. Eu, por exemplo, estou dizendo para todo mundo que assisto a filme alemão sem legenda... O mais importante, porém, é que as conversas entre as personagens eram mesmo desnecessárias. A narrativa não tem qualquer perda de conteúdo pelo silêncio permanente dos indivíduos em cena. Realmente, os diálogos não foram necessários em nenhum momento. Daí a beleza do filme (e coragem para usar um expediente como este). Isso também prova, mais uma vez, a excelência do roteiro. Com a falta total de diálogos, o que ganha destaque em “De Quem é o Sutiã?” é a trilha sonora (toda ela instrumental) e a fotografia. E ambos são impecáveis. A trilha sonora ficou à cargo de Cyril Morin, francês especializado em compor para o cinema. Repare que a mudança de clima do filme passa quase sempre pelo tipo de canção de fundo apresentada. Destaque para a execução em piano que confere graça e humor às cenas hilárias de Nurlan visitando suas pretendentes. Já a fotografia realça as belezas e as pobrezas do Azerbaijão, um país muitas vezes ignorado pelos brasileiros. Ao mesmo tempo em que assistimos aos imponentes cenários concebidos pela natureza (montanhas, rios, planícies, florestas e desertos de tirar o fôlego), também vemos a vida dura no subúrbio de Baku e no alto das montanhas azerbaijanas. Diferentemente do que tinha imaginado à princípio, o humor de “De Quem é o Sutiã?” não é apenas do tipo pastelão. Na maioria das vezes, a graça se apresenta pelas situações inusitadas, trágicas e pitorescas vivenciadas pelo protagonista e pelas mulheres ao seu redor. Ou seja, Veit Helmer não é muito apelativo, recorrendo mais à inteligência e à sagacidade para compor as cenas mais cômicas do seu filme do que ao pastelão raso e barato. Para um espectador mais exigente, essa questão foi um acerto. Ao mesmo tempo em que vemos uma história muito engraçada, também somos atirados à realidade complicada do Azerbaijão. Naquele pedacinho distante do planeta, a violência de todos os tipos, o machismo e a secura tanto do ambiente quanto das relações humanas parecem predominar o tempo inteiro. Por falar no vazio dos relacionamentos, a falta de diálogo se encaixa justamente aí. Nurlan é tão solitário, mas tão solitário, que ele não consegue conversar com ninguém (daí a ausência de diálogos se torna natural e não artificial). De certa forma, há um forte tom naturalista nesta história. Se alguém achar inverossímil o que se passa no povoado de Baku entrecortado pelos trilhos do trem (as pessoas correm diariamente para não serem atropeladas pela locomotiva), é importante ressaltar que isso sempre aconteceu no Brasil (e continua acontecendo!). Vale lembrar que o cantor Roberto Carlos perdeu a perna direita em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, quando era criança por causa da passagem de um trem. Na década de 1940, o menino estava em cima da linha de trem e não viu/ouviu a chegada do vagão. Ou seja, os dramas dos moradores do vilarejo retratado no longa-metragem são perfeitamente factíveis. Por fim, é preciso enaltecer a atuação do elenco de “De Quem é o Sutiã?”. Todos os atores e atrizes estiveram formidáveis nesta produção. Miki Manojlović dá um show de interpretação na pele de Nurlan. O carisma de Manojlović é passado automaticamente para seu personagem. Assim, torcemos pelo sucesso do protagonista do longa-metragem mesmo quando ele comete derrapadas éticas em busca da mulher dos seus sonhos (e olha que não são poucas as derrapadas...). O pequeno Ismail Quluzade também está brilhante. O garoto é uma das gratas surpresas desta produção de Helmer. Em sua estreia no cinema, o ator mirim emociona a plateia com a simplicidade, a graça e a humanidade de sua personagem. Até mesmo as inverosimilhanças de suas proezas passam batidas para a maioria dos espectadores (como vamos contestar alguém tão incrível quanto esse menino, hein?). Em muitos momentos, ao ver a personagem de Quluzade, me lembrei do clássico mexicano Chaves, o personagem mais famoso de Roberto Gómez Bolaños. A trajetória de vida e o tipo de peraltices de ambos são parecidíssimos. Por exemplo, repare onde o menino do filme dorme e como ele é tratado pela maioria das pessoas de sua comunidade. “De Quem é o Sutiã?” é um filmão. Sua aparente leveza esconde questões profundas e delicadas tanto de ordem individual quanto do aspecto social. Como entrou em cartaz em 20 de fevereiro, antes do Carnaval portanto, ele já está saindo das salas de cinema no Brasil. Se você ficou interessado(a), saiba que há ainda alguns locais em que é possível assisti-lo. Na cidade de São Paulo, por exemplo, há sessões no Petra Belas Artes. Por isso, corra para vê-lo, se não o trem passa e você fica na mão! Assista, a seguir, ao trailer de “De Quem é o Sutiã?”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Tijucamérica – O futebol sobrenatural de José Trajano
Sabe quando você pega um livro para ler de maneira despretensiosa, sem esperar grande coisa dele, e no meio da leitura você repara que está diante de uma obra muito interessante?! Todo leitor experiente já deve ter passado por isso algumas vezes. Pois esse fato aconteceu comigo nesta semana. Comecei a ler “Tijucamérica” (Paralela), a segunda publicação ficcional de José Trajano, esperando algo simples e meramente banal. E não é que a publicação do jornalista esportivo, um dos mais famosos e bem-sucedidos de sua geração, é um romance sobre futebol muitíssimo saboroso. Para quem reclamava que não havia livros ficcionais de qualidade tratando do esporte mais popular do mundo, este ano já achei duas pérolas. Em janeiro, comentei aqui no Bonas Histórias, “O Drible” (Companhia das Letras), obra-prima de Sérgio Rodrigues. Agora tenho a felicidade de analisar “Tijucamérica”, minha mais nova descoberta nessa área. José Trajano é mais conhecido do público como jornalista esportivo do que como escritor. Quem tem mais de 25 anos e gosta de esporte, na certa já viu muito o rosto e o nome dele na TV. Nascido no Rio de Janeiro e atualmente com 73 anos de idade, Trajano virou símbolo da ESPN Brasil, canal esportivo que ajudou a fundar em 1995 e que dirigiu até 2012. Sua imagem ficou muito associada aos programas Cartão Verde, da TV Cultura, na década de 1990, e Linha de Passe, da ESPN, nos anos de 2000 e 2010. Em ambas atrações, atuava como comentarista de futebol. Jornalista rabugento e eternamente inconformado com a realidade nacional e futebolística, José Trajano se meteu nos últimos anos em várias polêmicas, que culminaram com sua saída da ESPN em setembro de 2016. Pelo visto, o pessoal da emissora de Perdizes já não aguentava mais o mau humor e os chiliques homéricos do velho jornalista. Na literatura, José Trajano estreou em 2014 com “Procurando Mônica” (Paralela), romance sobre um amor antigo não correspondido. “Tijucamérica” veio em seguida, lançado em 2015. Esta obra, por sua vez, mistura ficção e memórias do autor. Mais recentemente, o jornalista-escritor carioca publicou “Os Beneditinos” (Alfaguara), romance no estilo de “Tijucamérica”, que mistura passagens autobiográficas com fatos do futebol de ontem e de hoje. Podemos sim dizer que “Tijucamérica” é uma narrativa híbrida. O livro apresenta simultaneamente uma retrospectiva dos anos de sucesso do América-RJ, o time do coração do escritor e que hoje oscila precariamente entre a primeira e a segunda divisões do Campeonato Carioca, e as lembranças saudosas da meninice do autor, que foi passada na Tijuca. Além disso, o romance traz uma criativa trama ficcional que tem como pano de fundo a história do futebol brasileiro do ponto de vista de um americano. Neste caso, americano é o torcedor do Ameriquinha, como o clube da Tijuca é carinhosamente chamado. Para completar, o autor ainda salpica elementos autobiográficos em sua história. O resultado é uma mistura bem azeitada que se aproxima muito da autoficção, um gênero literário cada vez mais comum. “Tijucamérica” se passa no tempo presente (época em que o livro foi lançado). Trajano (sim, o autor é o narrador-protagonista da trama) realiza o sonho de todo torcedor fanático: vira presidente do seu time do coração. Para administrar o América-RJ, Trajano pede demissão da ESPN (até então ele ainda trabalhava lá) e se muda para a Tijuca, local que conhece como a palma de sua mão. Seus objetivos como mandatário principal do clube do coração são ousados: revitalizar a sede social da Rua Campos Sales (atualmente abandonada pelo descaso e pela passagem do tempo); reconstruir o antigo estádio do clube no bairro da Tijuca (ele foi demolido para a construção de um shopping e um novo campo foi erguido no distante bairro de Edson Passos, no município de Mesquita, na Baixada Fluminense); e montar uma equipe competitiva que traga novamente o troféu do Campeonato Carioca para a Tijuca (algo que não acontece desde a década de 1960). As duas primeiras metas do novo presidente do Ameriquinha são fáceis de ser concluídas. Uma reforma na sede é iniciada para torná-la tão bonita quanto foi no passado. E o Estádio de Edson Passos começa a ser reconstruído em um terreno ao lado do clube social. O problema do narrador-protagonista é montar um elenco competitivo para o próximo estadual. Como Trajano conseguirá bons jogadores dispostos a vestir a camisa do América?! Sem alternativa e dinheiro em caixa, o presidente americano tem uma ideia um tanto amalucada: trazer de volta os principais jogadores e os melhores profissionais que trabalharam no clube no período dourado da agremiação. Vale lembrar que o auge do time aconteceu entre as décadas de 1930 e 1960. Como assim trazê-los de volta se eles já morreram?! Por meio de reuniões, sessões e trabalhos mediúnicos com os melhores videntes, mágicos, gurus, pais de santo, espíritas e macumbeiros do Rio de Janeiro, os grandes nomes do Ameriquinha reencarnam. Do dia para a noite, os 25 melhores atletas do time deixam o Além e voltam à vida. Além deles, Trajano pede o retorno dos melhores diretores, médicos e preparadores físicos que já passaram por Edson Passos. Afinal de contas, é preciso uma boa e experiente comissão técnica para levar o time a novas conquistas dentro de campo. Para completar, de lambuja, ainda retornam do Além Lamartine Babo, compositor do hino do clube, e Manduca, o torcedor-símbolo da equipe americana. Agora a trupe está completa mais uma vez. Com essa equipe mágica e talentosa, Trajano acredita que o América-RJ está preparado para a disputa do próximo Campeonato Metropolitano do Rio de Janeiro. Conseguirão os lendários americanos vencer os poderosos rivais (Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama e Botafogo) novamente em um torneio de turno único?! O plano engenhoso parece infalível, mas esconde alguns perigos que o leitor só descobrirá durante a leitura. “Tijucamérica” é um livro sensacional. Ele possui 232 páginas que estão divididas em 32 capítulos (além de um prefácio de Aldir Blanc, outro tijucano célebre). Como seu texto é leve e muito engraçado, é possível ler esta obra em um único dia ou mesmo em duas noites consecutivas. Foi o que aconteceu comigo entre quinta e sexta-feira dessa semana. Admito que devorei as páginas do romance nas últimas noites. O que faz desta publicação uma narrativa tão interessante?! Em primeiro lugar, temos uma mistura bem-casada entre ficção e realidade. Todas as personagens citadas pelo autor e os principais eventos rememorados pelo livro são verídicos, o que confere grande charme à trama. Diria até que mais interessante do que a história ficcional do livro é a recapitulação histórica do América-RJ e da Tijuca. É uma delícia percorrer as ruas do bairro, os acontecimentos da localidade e as façanhas do time do coração do autor durante a metade do século XX. Quando analisamos a história ficcional da obra, nos deparamos com um humor que oscila entre o pastelão e a ironia inteligente. De qualquer forma, ambas apresentam resultados excelentes, proporcionando boas risadas ao leitor. O humor escrachado surge das cenas inusitadas de magia, das confusões causadas na cidade do Rio de Janeiro pela reencarnação da antiga equipe da Tijuca e das mudanças de nome de personalidades conhecidas do futebol brasileiro. A ironia está relacionada aos métodos antiquados do preparador físico e do médico da década de 1950, às mudanças das regras do esporte e à nova arquitetura do Maracanã. Ao mesmo tempo que apresenta um retrato histórico muito bem-feito da Tijuca e do futebol nacional de 70 anos atrás, “Tijucamérica” também oferece graça ao leitor por comparar de maneira pitorescas as realidades de ontem e de hoje. É hilário notar como José Trajano utiliza alguns detalhezinhos de sua trama para potencializar o conflito do livro. As intertextualidades futebolística, musical, literária, religiosa, televisiva e jornalística também são uma importante marca deste romance. “Tijucamérica” cita diretamente canções e livros que tratam do futebol. Sinceramente, não sei onde está a maior riqueza da obra de José Trajano: na retrospectiva literária das grandes publicações sobre futebol ou na análise das magistrais letras de músicas antigas (criadas para contar eventos saudosos do tempo em que Don-don jogava no Andaraí)? Para completar o acervo multicultural, há várias passagens sobre personalidades da TV e do jornalismo esportivo, além de menções a figuras de várias religiões. Curiosamente, a estratégia de Trajano é misturar em seu relato pessoas comuns do seu bairro e do seu clube com personalidades conhecidas nacionalmente. Com isso, a impressão que se dá é que os tijucanos e os americanos célebres são figuras muito mais famosas do que de fato são. Ótimo recurso! Outro ponto impressionante de “Tijucamérica” é a reconstituição de época feita em sua narrativa. Não é errado classificarmos esta obra como um romance histórico. A trama leva o leitor efetivamente ao passado. Boa parte da ambientação é típica das décadas de 1950 e de 1960. Os produtos usados, as localidades visitadas, os hábitos, as crenças e os métodos de trabalho das personagens reencarnadas escancaram o choque temporal. O hiato entre o futebol (e o mundo) de ontem e de hoje é muito maior do que podemos cogitar. Até do desfecho do romance eu gostei. Não me importei nem um pouco com a obviedade do seu desenlace (e põe obviedade nisso!) nem com a interminável festa dos jogadores americanos (que se estendeu por vários e vários capítulos). O único ponto que não entendi de “Tijucamérica” foi a escalação de jogadores antigos/desconhecidos pelos adversários do América. Como isso foi possível se só a equipe de Edson Passos havia reencarnado seu elenco? Achei muito estranha a não citação aos jogadores atuais dessas equipes, o que poderia ter deixado a narrativa das partidas do Campeonato Metropolitano ainda mais legal. Em suma, quem gosta de futebol, quem curte romances bem-humorados, quem aprecia tramas históricas e quem não abre mão de uma narrativa inteligente, na certa irá adorar “Tijucamérica”. Esqueça o José Trajano chato, bravo e intransigente dos programas esportivos. Como escritor, ele é completamente oposto: leve, engraçado e extremamente inteligente. Se a crítica futebolística não perdeu muita coisa (infelizmente, Trajano já não acrescentava muito nos últimos anos para o jornalismo esportivo), a literatura nacional parece que ganhou um autor talentoso e criativo. Ainda bem que surgiu alguém para fazer companhia a Sérgio Rodrigues na produção de boas tramas ficcionais sobre futebol. Este tema merecia escritores com habilidade para produzir narrativas de qualidade. Bem-vindo José Trajano ao primeiro plano da literatura autoficcional. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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- Livros: O Médico e o Monstro – O clássico de terror de R. L. Stevenson
Há alguns livros que marcam seus gêneros literários de tal forma que se tornam clássicos da literatura quase que imediatamente. Sucesso de público e de crítica, eles rapidamente passam a ser vistos como referências por leitores e pelos demais escritores. O problema surge nas décadas seguintes. Suas histórias são tão copiadas por outros autores e corriqueiramente adaptadas para o cinema, para a TV e para o teatro que suas receitas narrativas ficam um tanto batidas. Aí, um leitor contemporâneo (e desavisado) pode não conseguir perceber a grandeza e a ousadia dessas tramas. Por causa dos incontáveis similares e genéricos lançados posteriormente no mercado, há quem considere o clássico como uma obra banal e até mesmo óbvia. Isso é muito comum de acontecer nos romances policiais, nos thrillers, nas tramas de terror, nas obras de ficção científica e nos dramas românticos bem-sucedidos. A repetição incansável por muitos e muitos anos acaba, infelizmente, desgastando também o livro que apresentou ao público determinada fórmula pela primeira vez. Falo sobre tal questão hoje no Bonas Histórias porque foi mais ou menos essa a impressão que tive na leitura de “O Médico e o Monstro” (L&PM Pocket) no último final de semana. Esta novela gótica de Robert Louis Stevenson, escritor escocês da segunda metade do século XIX, é considerada uma das mais importantes criações da história da literatura de terror. Prova maior de sua inventividade narrativa está justamente no quanto ela vem sendo copiada de lá para cá. Posso listar de cabeça alguns livros que adotaram, no século XX, a essência narrativa ou os elementos filosóficos de “O Médico e o Monstro”: “Psicose” (Darkside Books), de Robert Bloch, “O Visconde Partido ao Meio” (Companhia das Letras), de Italo Calvino, e “O Retrato de Dorian Gray” (Penguin Companhia), de Oscar Wilde. No cinema, os similares são “O Amigo Oculto” (Hide and Seek: 2005), “Fragmentado” (Split: 2017), “Clube da Luta” (Fight Club: 1999) e “O Silêncio dos Inocentes” (The Silence of the Lambs: 1991). Na TV, temos, por exemplo, “The Following” e “The Fall”, duas produções recentes. Robert Louis Stevenson é considerado um dos mais influentes escritores britânicos do século retrasado. Traduzido para dezenas de idiomas, ele produziu não apenas obras ficcionais de destaque como também se dedicou à poesia e à não-ficção. Contudo, para a crítica literária e para os leitores ao redor do mundo, os trabalhos mais primorosos do escocês estão nos romances de aventura, nas novelas de terror e de mistério e nas narrativas para as crianças. Suas obras mais conhecidas, além de “O Médico e o Monstro”, são “A Ilha do Tesouro” (L&PM Pocket), clássico da literatura infantojuvenil, e “As Aventuras de David Balfour”, série de dois romances de aventura – “Raptado” (Ática) e “Catriona” (Sem edição no Brasil). Outra novela memorável de Stevenson que vale a pena a leitura é “O Clube dos Suicidas” (Rocco). Publicado pela primeira vez em 1886, “O Médico e o Monstro” rapidamente se tornou um grande sucesso na Inglaterra. Já no ano seguinte ao seu lançamento nas livrarias, esta história era encenada nos palcos dos teatros londrinos. Foram várias as adaptações desta trama para o cinema ao longo dos séculos XX e XXI. A primeira aconteceu em 1920, nos primórdios do cinema. A mais famosa é uma produção de 1931 dirigida por Rouben Mamoulian e estrelada por Fredric March, Miriam Hopkins e Rose Hobart. Importante salientar que o enredo do longa-metragem de Mamoulian possui várias diferenças em relação à história original do livro. Este “O Médico e o Monstro” (Dr. Jekyll and Mr. Hyde: 1931) foi o primeiro filme do gênero de terror a conquistar um Oscar. A mais recente produção cinematográfica baseada na novela de Robert Louis Stevenson é um filme de 2003. O livro “O Médico e o Monstro” também foi transformado em programas de rádio e, mais tarde, em séries de TV e em histórias em quadrinhos. Não é errado dizer que 134 anos depois de sua publicação, esta narrativa continue presente direta ou indiretamente no imaginário coletivo. De lá para cá, este livro de Stevenson já foi editado incontáveis vezes e se tornou um título onipresente nas principais livrarias e bibliotecas dos quatro cantos do planeta. Não à toa, adquiriu o status de clássico das histórias de terror. “O Médico e o Monstro” integra, juntamente com “Frankenstein” (L&PM Pocket), de Mary Shelley, e “Drácula” (Penguim Companhia), de Bram Stoker, a trinca dos maiores sucessos das narrativas de horror de todos os tempos. Curiosamente, as três novelas são criações do século XIX, um período extremamente produtivo para este gênero literário. O enredo de “O Médico e o Monstro” se passa em Londres, no final da segunda metade do século XIX, e é narrado na maior parte do tempo em terceira pessoa. Nele, o advogado Gabriel John Utterson está intrigado com uma questão misteriosa. Por que seu amigo e cliente Henry Jekyll, um médico rico e bem-conceituado da capital inglesa, tem como único beneficiário de seu testamento uma figura rude e desagradável que poucas pessoas da sociedade londrina conhecem?! Por estar de posse do testamento do Dr. Jekyll, Utterson sabe que em caso de morte ou de desaparecimento do amigo, o herdeiro da fortuna do médico é um tal de Edward Hyde. Essa dúvida passa a atormentar Gabriel John Utterson quando ele presencia Hyde sendo preso por populares, no meio da madrugada, por ter constrangido uma menina de 8 anos. Para não ser linchado no meio da rua, Edward Hyde aceita pagar uma indenização para os pais da garota. Para espanto do advogado, Hyde dá um cheque do Dr. Jekyll como pagamento. Na mente de Utterson, não há dúvida: Edward Hyde, uma figura repugnante e com aspecto horripilante, está chantageando seu amigo e cliente. Na certa, Hyde descobriu algo de Jekyll e, assim, está o extorquindo. Essa é a única explicação para a condescendência do médico em pagar as despesas do criminoso, de aceitar sua presença em casa e em tê-lo com único herdeiro. Porém, quando perguntado sobre a razão desse comportamento, Dr. Jekyll tenta minimizar a polêmica. Diz que a resposta para tal questão é pessoal e que um dia Utterson saberá a verdade. A tranquilidade de Gabriel John Utterson acaba de vez quando Edward Hyde é acusado de matar um conhecido parlamentar. Na visão do advogado, não há dúvida que Hyde seja o verdadeiro culpado pelo crime. Além disso, ele acredita que a próxima vítima do assassino será Henry Jekyll. Afinal, essa é a única maneira de Hyde colocar as mãos na fortuna do médico. Coincidentemente ou não, Dr. Jekyll torna-se uma pessoa extremamente reservada e enclausurada em sua residência depois que Hyde foge para não ser preso. O médico raramente vai para a rua e não quer mais receber as visitas dos amigos nem dos clientes. Para perplexidade de Utterson, Henry Jekyll passa também a se comportar de maneira cada vez mais estranha. O que há por trás da relação misteriosa e polêmica entre Dr. Jekyll e o Sr. Hyde, hein?! Com 112 páginas, divididas em dez capítulos, “O Médico e o Monstro” é uma novela gótica original por algumas razões. Em primeiro lugar, temos a inserção de elementos de ficção científica e de filosofia existencialista em sua trama. Obviamente essa combinação não se trata de algo totalmente novo na literatura de terror. “Frankenstein” é uma novela de 1823 que já se utilizava dos mesmos expedientes. Contudo, o livro de Stevenson faz isso ao abordar uma intriga de alto teor psicológico, algo que só seria habitual na metade do século XX. Exatamente por isso, a surpresa do seu desfecho. Se hoje é possível um leitor experiente matar a charada ainda na metade da obra (foi o que aconteceu comigo), no final do século XIX e no início do século XX o desenlace da novela era extremamente bombástico e inesperado. Esse é o segundo motivo de sua originalidade narrativa. A obra revela-se ousada por abordar em seu arremate as doenças psicológicas e as angústias mentais de uma personagem transtornada. Incrível! Interessante notar o tipo de atmosfera criada por Robert Louis Stevenson. “O Médico e o Monstro” tem muitas cenas, situações e cenários sombrios. Praticamente toda a história se passa à noite ou de madrugada em residências e ambientes angustiantes (ruas escuras, laboratório de cientista, casas frias, quartos pobres e cômodos claustrofóbicos). As características das personagens principais também contribuem para o clima pesado da trama. Homens solitários, melancólicos, misteriosos, dúbios constituem boa parte do elenco do livro. Outra questão central do sucesso de “O Médico e o Monstro” está na manutenção do seu suspense. Da primeira à última página da novela, temos um segredo bem guardado que instiga o leitor. Este é o tipo de livro que se você começa a ler na certa vai querer terminá-lo o mais rapidamente possível. Li esta obra em uma única tarde. Comecei-a no sábado depois do almoço e antes do escurecer já a tinha concluído. Devo ter levado aproximadamente três horas para percorrer todas as suas páginas. Outro ponto elogiável está no estabelecimento do foco narrativo. O narrador em terceira pessoa fica o tempo inteiro colado a Gabriel John Utterson. De certa forma, o advogado compartilha com o leitor sua curiosidade sobre o caso e tudo aquilo que sabe sobre o episódio. O clímax e a revelação do mistério se dão, respectivamente, no penúltimo e no último capítulo da obra. Nesse instante, a história passa a ser contada em primeira pessoa por Dr. Lanyon, médico que é amigo tanto do Sr. Utterson quanto do Dr. Jekyll, e pelo médico-protagonista da trama. Através de cartas deixadas por ambos ao advogado, ficamos sabendo dos segredos que movimentam esta narrativa. Se hoje o debate filosófico proposto por “O Médico e o Monstro” (lado bom e lado mau de cada indivíduo) e o desfecho do livro (personagem que sofre de múltipla personalidade) podem parecer temas corriqueiros da literatura e do cinema, isso é em parte méritos da novela gótica de L. R. Stevenson. Lá atrás, ela revolucionou seu gênero ao acrescentar doses ousadas e inusitadas de drama existencialista em uma história aterrorizante. O leitor contemporâneo precisa entender essa particularidade e esse contexto histórico quando for ler este clássico. E por falar em lê-lo, todo fã de tramas de mistério e narrativas de terror não pode deixar de conhecer essa história incrível. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaEscocesa #LiteraturaClássica #Terror #RobertLouisStevenson #FicçãoCientífica #Novela #LiteraturaInglesa
- Desafio Literário: Sexta Temporada - Calendário de 2020
Tenho o prazer de anunciar que o Desafio Literário, a coluna mais antiga e popular do Bonas Histórias, chega em 2020 à sua sexta temporada. Nesta seção, analisamos os trabalhos de renomados autores nacionais e internacionais dos mais variados gêneros. A proposta é identificar mensalmente o estilo de cada escritor selecionado. Antes, porém, avaliamos, ao longo de todo mês, suas principais obras. É a partir da análise detalhada dos principais livros de cada autor que conseguimos compor o cenário completo de seu estilo literário. Em 2020, os oito escritores escolhidos para compor nossos estudos foram: Jack Kerouac (Estados Unidos), Maria José Dupré (Brasil), Kenzaburo Oe (Japão), Virginia Woolf (Inglaterra), Julio Cortázar (Argentina), Nadine Gordimer (África do Sul), António Lobo Antunes (Portugal) e Miguel Ángel Asturias (Guatemala). Note que optamos por ao menos um artista de cada continente: América do Sul, América Central, América do Norte, Europa, África e Ásia. Apenas a Oceania não terá um representante dessa vez. Além disso, por sermos uma nação lusófona, optamos por incluir um(a) autor(a) brasileiro(a) e um português. Ou seja, em nossa viagem pelo mundo da literatura vamos visitar os quatro cantos do planeta. Entre as oito personalidades selecionadas, temos escritores contemporâneos e antigos. A única semelhança entre eles é a qualidade comprovada de suas produções ficcionais. Impossível alguém gostar de literatura e não ficar empolgado(a) com esse cardápio de leituras. Ficou interessado(a) em acompanhar o Desafio Literário de 2020? Então, anote na sua agenda nosso calendário de análises deste ano. A seguir, segue a programação de Crítica Literária do Bonas Histórias entre abril e novembro: Calendário do Desafio Literário de 2020: - Abril - Jack Kerouac (Estados Unidos) 2 de abril - Introdução à Literatura de Jack Kerouac 6 de abril - "Cidade Pequena, Cidade Grande" (1950) 10 de abril - "On The Road - Pé na Estrada" (1957) 14 de abril - "Os Subterrâneos" (1958) 18 de abril - "Os Vagabundos Iluminados" (1958) 22 de abril - "Big Sur" (1962) 26 de abril - "Pic" (1971) 30 de abril - Análise Literária de Jack Kerouac - Maio - Maria José Dupré (Brasil) 2 de maio - Introdução à Literatura de Maria José Dupré 6 de maio - "Éramos Seis" (1943) 10 de maio - “A Ilha Perdida” (1945) 14 de maio - "Gina" (1945) 18 de maio - "A Mina de Ouro" (1946) 22 de maio - "Os Rodriguez" (1946) 26 de maio - "O Cachorrinho Samba" (1949) 30 de maio - Análise Literária de Maria José Dupré - Junho - Kenzaburo Oe (Japão) 1º de junho – Introdução à Literatura de Kenzaburo Oe 5 de junho - “A Captura” (1958) 9 de junho - “O Grito Silencioso” (1960) 13 de junho - “Uma Questão Pessoal” (1964) 17 de junho - “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!” (1982/1983) 21 de junho - “14 Contos de Kenzaburo Oe” (1957/1990) 29 de junho - Análise Literária de Kenzaburo Oe - Julho - Virginia Woolf (Inglaterra) 1º de junho - Introdução à Literatura de Virginia Woolf 5 de julho - "A Viagem" (1915) 9 de julho - "Mrs. Dalloway" (1925) 13 de julho - "Passeio ao Farol" (1927) 17 de julho - "Orlando" (1928) 21 de julho - "Um Teto Todo Seu" (1929) 25 de julho - "Flush - Memórias de um Cão" (1933) 29 de julho - Análise Literária de Virginia Woolf - Agosto - Julio Cortázar (Argentina) 2 de agosto - Introdução à Literatura de Julio Cortázar 6 de agosto - "Os Reis” (1949) 10 de agosto - "O Bestiário" (1951) 14 de agosto - "Final de Jogo" (1956) 18 de agosto - “História de Cronópios e Famas" (1962) 22 de agosto - "Jogo da Amarelinha" (1963) 26 de agosto - "62/ Modelo para Amar" (1968) 30 de agosto - Análise Literária de Julio Cortázar - Setembro - Nadine Gordimer (África do Sul) 1º de setembro - Introdução à Literatura de Nadine Gordimer 5 de setembro - “Um Mundo de Estranhos” (1958) 9 de setembro - “O Falecido Mundo Burguês” (1966) 13 de setembro - “O Pessoal de July” (1982) 17 de setembro - “A Arma da Casa” (1998) 21 de setembro - “O Engate” (2001) 25 de setembro - “Beethoven era 1/6 Negro” (2009) 29 de setembro - Análise Literária de Nadine Gordimer - Outubro - António Lobo Antunes (Portugal) 1º de outubro - Introdução à Literatura de António Lobo Antunes 5 de outubro - "Memória de Elefante" (1979) 9 de outubro - "Os Cus de Judas" (1979) 13 de outubro - "Não Entre Tão Depressa Nessa Noite Escura" (2000) 17 de outubro - "Sôbolos Rios Que Vão" (2010) 21 de outubro - "As Coisas da Vida" (2011) 25 de outubro - "Não e Meia-Noite Quem Quer" (2012) 29 de outubro - Análise Literária de António Lobo Antunes - Novembro - Miguel Ángel Asturias (Guatemala) 2 de novembro - Introdução à Literatura de Miguel Ángel Asturias 6 de novembro - “O Senhor Presidente” (1946) 10 de novembro - “Vento Forte” (1950) 14 de novembro - “O Papa Verde” (1954) 18 de novembro - “Week-end na Guatemala” (1956) 22 de novembro - “Mulata de Tal” (1963) 26 de novembro - “Maladrón” (1969) 30 de novembro - Análise Literária de Miguel Ángel Asturias Até agora (março de 2020), já estudamos, no Desafio Literário, 37 escritores e 205 obras. Todos os posts desta coluna, tanto dos livros comentados individualmente quanto das conclusões obtidas sobre o estilo literário de cada escritor, estão disponíveis para consulta pelos leitores do Bonas Histórias. Para acessar esse conteúdo clique em Desafio Literário. Nossa lista de autores estudados é formada, até o momento, por Mia Couto (Moçambique), Nick Hornby (Inglaterra), Jorge Amado (Brasil), John Green (Estados Unidos), Ignácio de Loyola Brandão (Brasil), Harlan Coben (Estados Unidos), Stephen King (Estados Unidos), Graciliano Ramos (Brasil), Agatha Christie (Inglaterra), Pablo Neruda (Chile), Sidney Sheldon (Estados Unidos), Paulo Coelho (Brasil), Khaled Hosseini (Afeganistão), Italo Calvino (Itália), Machado de Assis (Brasil), Régine Deforges (França), Haruki Murakami (Japão), Nora Roberts (Estados Unidos), Markus Zusak (Austrália), Lya Luft (Brasil), Ondjaki (Angola), J. M. Coetzee (África do Sul), Juan Carlos Onetti (Uruguai), Herta Muller (Alemanha), Xinran (China), Albert Camus (França), Patricia Highsmith (Estados Unidos), Fernando Sabino (Brasil), José Saramago (Portugal), Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria), Noah Gordon (Estados Unidos), Rachel de Queiroz (Brasil), Milan Kundera (República Tcheca), Gabriel García Márquez (Colômbia) e Colleen McCullough (Austrália). Sejam bem-vindos ao melhor da literatura mundial. Boas leituras e excelentes análises para todos que integrarem o Desafio Literário em 2020! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Angola Janga – O premiado romance gráfico de Marcelo D´Salete
Aproveitei o Carnaval para ler “Angola Janga – Uma História de Palmares” (Veneta), o celebrado romance gráfico de Marcelo D´Salete. A obra foi desenvolvida ao longo de onze anos e foi produzida com o apoio do ProAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo). Não é errado afirmarmos que “Angola Janga” seja, desde já, um clássico contemporâneo das Histórias em Quadrinhos de nosso país. Esqueça as tramas fantasiosas de super-heróis que inundam as publicações comerciais desse gênero (sinceramente, nunca fui fã de nenhuma delas). O que Marcelo D´Salete fez de maneira sublime foi usar a plataforma da HQ para narrar a trajetória de vida de Zumbi como principal líder quilombola brasileiro. Assim, o livro adquire ao mesmo tempo uma pegada de reparação histórica e de conscientização social para as novas gerações de brasileiros. Sinceramente, não vejo “Angola Janga” simplesmente como um belo graphic novel. Encaro este romance como uma das mais originais e impactantes criações em língua portuguesa dos últimos anos, independentemente de sua categoria literária. Admito que estava há pelo menos dois anos com muita vontade de conhecer esta publicação. Depois de ver várias matérias jornalísticas enaltecendo os prêmios e a qualidade do livro de D´Salete, sabia que tinha a obrigação de lê-lo. Apesar de minha grande curiosidade, só agora conseguir aplacá-la. Aproveitei uma visita despretensiosa à Livraria Cultura da Avenida Paulista para adquirir “Angola Janga”. Na certa, esta obra ficará na lista de melhores títulos analisados pelo Bonas Histórias neste ano. Confira em dezembro a coluna Recomendações para verificar a acuracidade de minha previsão. D´Salete é um autor paulistano de 41 anos que atua também como historiador, ilustrador, quadrinista, designer gráfico e professor. Ele realizou uma acurada pesquisa histórica sobre Palmares, o maior quilombo do Período Colonial brasileiro, para produzir “Angola Janga”. Através deste trabalho bibliográfico, o artista conseguiu recriar os momentos decisivos da vida de Zumbi de Palmares por um ponto de vista próprio. Afinal, quando os registros históricos se tornaram muito vagos ou parciais (lembremos que a história oficial é sempre contada pelos vencedores e nunca pelos subjugados), o escritor e ilustrador precisou inserir doses ficcionais à sua narrativa para ela dar liga. O resultado é espetacular. Nem mesmo esses elementos de ficção tiraram o caráter histórico da trama. Publicado em 2017, “Angola Janga” conquistou no ano seguinte o Prêmio Jabuti de melhor história em quadrinho e o Troféu HQ Mix de melhor edição especial nacional. Para se ter uma ideia desses feitos, vale lembrar que o Jabuti é a principal honraria da literatura brasileira e o HQ Mix é a mais tradicional premiação dos quadrinhos brasileiros. Nada mal levar para casa este “doblete” (como diriam os futebolistas espanhóis), hein? A obra de Marcelo D´Salete também foi traduzida para outros idiomas e lançada no exterior. Estados Unidos e Europa ganharam suas próprias versões do HQ. Curiosamente, esta não é a primeira publicação do autor. Antes de “Angola Janga”, D´Salete já tinha lançado três graphic novels. Nenhuma delas, contudo, chegou perto do sucesso alcançado pelo seu último livro. Depois de trabalhar alguns anos como quadrinista nas revistas Quadreca e Front, Marcelo D´ Salete estreou como autor de HQ, em 2008, com “Noite Luz” (Via Lettera). Este livro apresenta o drama de um menino solitário que vaga à noite pela cidade grande. Em 2011, veio “Encruzilhada” (Leya), que aborda a vida complicada de pessoas marginalizadas socialmente na cidade de São Paulo. Meninos de rua, usuários de drogas, prostitutas, ladrões e vendedores ambulantes são os protagonistas dessa história. “Cumbe” (Veneta), de 2014, se aproxima muito da proposta de “Angola Janga”. Nesse terceiro livro do autor, os negros escravizados são colocados no papel de heróis da narrativa. Eles buscam liberdade e resistem às opressões, às violências e às injustiças do Período Colonial brasileiro. “Angola Janga”, o título do quarto romance gráfico de D´Salete, era o termo utilizado pelos próprios quilombolas para designar a sua comunidade. Importante ressaltar que Palmares era o nome usado pelos portugueses para se referir ao quilombo. Ou seja, Angola Janga significava “Pequena Angola” na língua dos negros. Localizado na Serra da Barriga na então Capitania de Pernambuco (região pertencente hoje em dia ao Estado de Alagoas), Palmares/Angola Janga começou a ser habitado por negros fugidos já na segunda metade do século XVI. Pouco a pouco, a comunidade foi crescendo. Sua maior expansão ocorreu entre 1624 e 1654, justamente durante as invasões holandesas a Pernambuco (que desestabilizou politicamente a região). Em seu auge, no final do século XVII, Palmares/Angola Janga chegou a abrigar cerca de 20 mil negros que fugiram da vida cruel nas fazendas e nos engenhos de cana de açúcar do Nordeste. O quilombo se tornou tão grande que ele possuía vários mocambos (termo do Período Colonial que designava as pequenas vilas formadas por escravos fugidos). Macaco era a capital de Angola Janga e tinha aproximadamente 6 mil habitantes (tamanho próximo de muitas vilas pernambucanas da época). Em “Angola Janga” acompanhamos os passos de Zumbi, o mítico líder quilombola de Palmares, e seu fiel escudeiro, Soares. A narrativa percorre desde a infância dos garotos até o desfecho trágico da guerra na Serra da Barriga, momento decisivo da história do quilombo. A infância de Zumbi foi marcada pela morte dos seus pais quando ele era um bebê de colo. Um grupo de caçadores de escravos fugitivos assassinou o pai e a mãe do futuro líder quilombola. Após o recebimento da comissão pela morte dos negros, os assassinos deixaram o bebê órfão em um convento. Assim, o pequeno Francisco (como Zumbi foi inicialmente chamado) foi criado por um padre católico, que o ensinou a língua portuguesa e o latim. Ainda pequeno, o menino pôde sentir a intensidade do racismo da sociedade colonial brasileira. Francisco teve vários dissabores causados unicamente pela sua cor de pele. Os meninos brancos que visitavam a igreja xingavam, agrediam e humilhavam frequentemente o “filho adotivo” do padre local. Depois de ser alvo de tanta violência gratuita e injusta, o garoto negro resolveu fugir para Palmares. A partida para o quilombo depois de tanto sofrimento também é o enredo da vida de Soares. Quando ele, um escravo querido e respeitado pela família Gonçalves, ia, enfim, receber sua carta de alforria de Dona Catarina, sua patroa, ela morreu. Por crueldade (ou seria por ciúmes?), o Sr. Gonçalo, filho de Catarina, não concedeu a liberdade ao escravo favorito da mãe e ainda por cima passou a persegui-lo. Após violentas e covardes surras, o escravo percebeu que não tinha alternativa a não ser fugir para o quilombo da Serra da Barriga. Lá ele poderia conseguir sua tão desejada liberdade. Uma vez instalado e habituado à vida no mocambo, Zumbi passou a exercer sua liderança junto aos demais moradores do lugar. Para tal, sempre contou com o apoio incondicional de Soares. Os dois amigos passaram a se envolver com a política local e a influenciar as decisões tomadas em Palmares/Angola Janga. A ascensão econômica do mocambo causou inveja e preocupação nos portugueses donos de escravos e de fazenda de cana de açúcar da região. Com o apoio do governador da capitania de Pernambuco, várias expedições armadas foram realizadas com o objetivo de destruir Palmares (principalmente a capital Macaco) e de matar seu líder. Entre janeiro de 1694 e novembro de 1695, coube a dupla de bandeirantes paulistas Domingos Jorge Velho e André Furtado, cada um em uma oportunidade, alcançar essas proezas sonhadas pelo governador. É essa trama riquíssima, que ficou muitos anos renegada ao segundo plano dos livros de História do Brasil, que é agora contada em detalhes extremamente realistas por Marcelo D´Salete. “Angola Janga” tem 432 páginas. Dá para ler o livro inteiro em uma única tarde ou em duas noites consecutivas (lembremos que se trata de uma HQ). Depois do romance gráfico, o leitor ainda é brindado com parte do material proveniente das pesquisas históricas do autor paulista. É espetacular ler os pormenores reais e os fatos históricos que originaram a construção do romance. Cada peça da obra foi muito bem pensada e tem um fundamento documental. Não à toa, D´Salete levou 11 anos para concluir “Angola Janga”. Vale destacar que a narração ficcional sobre o quilombo dos Palmares e sobre a vida de Zumbi não é nenhuma novidade. Antes de Marcelo D´Salete, vários artistas já tinham construído tramas com essa temática tanto no cinema quanto na literatura. Até nas histórias em quadrinhos esse assunto já tinha sido abordado. Clóvis Moura e Álvaro de Moya, por exemplo, produziram a HQ “Zumbi dos Palmares” em 1955. Antônio Krisnas e Allan Alex, de “Zumbi – A Saga de Palmares”, e Carlos Ferreira e Moacir Martins, de “A Guerra de Palmares”, também lançaram obras na mesma linha. Contudo, em nível de qualidade, a obra de D´Salete se destaca quando comparado aos seus antecessores. Se “Angola Janga” não é um romance gráfico assim tão original em relação a sua temática, por outro lado ele surpreende positivamente o leitor pela sua originalidade narrativa e pelo seu embasamento histórico (além de artista, o autor deste livro é um historiador!). É inegável o poder dramático desta trama. Da maneira como ela foi contada, os acontecimentos ganham uma dimensão humana ainda mais forte. Desnudamos as personagens principais (todas têm defeitos e qualidades; são, portanto, personagens redondas) e vemos o quão grandioso (e polêmico) foram seus feitos. Gostei bastante do jeito como Marcelo D´Salete conduz sua história. Ele não subestima a inteligência do leitor em nenhum momento e explora alguns recursos narrativos bastante ousados. O romance vai e volta no tempo (ora avançamos ao futuro, ora retornamos ao passado). Em alguns quadrinhos, um detalhezinho na ilustração é o que confere sentido à narrativa e o que cria o conflito da trama. Não se pode deixar passar despercebido nenhum aspecto visual e textual da obra. Concentre-se nos quadrinhos e na leitura! Caso contrário, você poderá ficar um pouco perdido nessa história. Sinceramente, até agora não sei o que é melhor: o conjunto de ilustrações ou o texto de “Angola Janga”. Enquanto o primeiro é maravilhoso (boa parte da trama é contada em imagens e não em palavras), o segundo respeita os termos e o linguajar empregados na época em que a história se passa. Com isso, nos sentimos realmente no século XVII. No caso das imagens, a escolha do preto e branco se mostrou acertadíssima. O contraste das cores reforça ainda mais a dramaticidade e a violência da narrativa. Na parte textual, preciso comentar a bem-sucedida escolha do autor por apresentar diferentes trechos informativos e históricos no começo de cada capítulo. Assim, o leitor tem acesso a jornais antigos, a cartas do período retratado e a trechos de comentários de livros atuais de História, por exemplo. Como resultado mais concreto desse expediente narrativo, o leitor consegue ter uma visão mais abrangente e profunda do que está acontecendo no romance tanto em nível macro quanto no nível microambiental. Talvez o mais incrível seja o desfecho do romance, que obviamente não poderei detalhar neste post (sou terminantemente contrário a spoilers no Bonas Histórias!). Apesar de já sabermos o que vai acontecer (não é preciso ser um grande entendedor da História brasileira para lembrar o desfecho da história de Zumbi de Palmares), D´Salete acrescenta doses arrojadíssimas de ficcionalidade à sua trama, o que a torna ainda mais contundente e polissêmica. A brincadeira de ida e volta no tempo (passado e futuro estão intimamente ligados) fica ainda mais incrível na última parte da HQ. Com isso, o leitor reflete sobre o país que temos hoje e o que representou a luta das personagens retratadas. Simplesmente incrível! Para mim, “Angola Janga” é magnífico e ganhará uma posição de destaque na estante da biblioteca da minha casa. Esse tipo de leitura é aquele que nos deixa estupefatos quando chegamos à sua última página. Acredito que não poderia ter lido nada melhor neste Carnaval. Parabéns, Marcelo D´Salete, por esta sua criação espetacular! A literatura brasileira ganhou um excelente romance gráfico que tem tudo para figurar entre os clássicos de seu gênero. Tomara que mais e mais brasileiros possam conhecer essa obra-prima. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #MarceloDSalete #HistóriaemQuadrinhos #RomanceHistórico #ZumbidePalmares #HistóriadoBrasil #Romance
- Filmes: Jojo Rabbit - A comédia ousada de Taika Waititi
É verdade que o Carnaval combina mais com viagens, descanso, bloquinhos, azaração, pegação e desfiles de escolas de samba. Porém, esta época é também ótima para quem deseja pegar um cineminha. Entre um e outro evento tipicamente carnavalesco, os foliões podem, por que não, assistir aos filmes em cartaz nas telonas do nosso país. Em 2020, as boas opções se acumulam. Além dos títulos interessantes que entram agora no circuito comercial, como “De Quem é o Sutiã” (The Bra: 2018), “O Jovem Ahmed” (Le Jeune Ahmed: 2019) e “Uma Vida Oculta” (A Hidden Life: 2019), podemos ainda conferir quase todos os títulos que brilharam na última cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, como “1917” (2019), “Parasita” (Gisaengchung: 2019) e “Coringa” (Joker: 2019). É ou não é um programa melhor do que ver os desfiles das escolas de samba, hein?! Pensando assim, fui, no último final de semana, ao Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompéia para conferir “Jojo Rabbit” (2019), o longa-metragem vencedor da estatueta de melhor roteiro adaptado do Oscar deste ano. Esta comédia dramática concorreu em outras cinco categorias: melhor filme, melhor atriz coadjuvante (Scarlett Johansson), melhor figurino, melhor montagem e melhor direção de arte. Lançado no Brasil há três semanas e orçado em US$ 14 milhões, “Jojo Rabbit” foi dirigido pelo neozelandês Taika Waititi, de “Thor - Ragnarok” (2017), “Uma Fuga para a Liberdade” (Hunt For The Wilderpeople: 2016) e “O que Fazemos nas Sombras” (What We Do in the Shadows: 2014). Não é errado afirmar que este novo trabalho representa, até aqui, o ponto alto da carreira do neozelandês. O filme tem em seu elenco principal Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie e Scarlett Johansson, além da participação em cena do próprio Taika Waititi. A grande ousadia de “Jojo Rabbit” é misturar o holocausto e o nazismo com um roteiro cômico. Brincar com temas tão delicados ou satirizar tragédias humanas é normalmente algo arriscadíssimo, algo que quase todos os cineastas evitam adentrar. Afinal, há uma linha tênue entre a graça e a grosseria. A última vez que um humor deste tipo foi bem-feito tinha sido com “A Vida é Bela” (La Vita e Bela: 1998), obra-prima do italiano Roberto Benigni que conquistou três estatuetas do Oscar (melhor filme, melhor trilha sonora de drama e melhor ator – Roberto Benigni). Ou seja, o risco tem duas facetas: pode exterminar reputações quando a receita desanda ou pode render bons prêmios quando os ingredientes aparentemente incompatíveis acabam se harmonizando com êxito. No caso do filme de Taika Waititi, podemos dizer que o cineasta neozelandês foi profundamente feliz na execução de sua difícil receita narrativa. O enredo de “Jojo Rabbit” se passa na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Jojo Betzler (interpretado por Roman Griffin Davis) é um menino tímido, medroso e sonhador que mora com sua mãe, Rosie Betzler (Scarlett Johansson). O pai desapareceu há algum tempo. Os boatos dizem que o patriarca dos Betzler era um grande covarde e, por isso, fugiu para não precisar seguir para a frente de batalha. Apesar de ainda pequeno, Jojo é um nazista fanático. O garoto sonha em se tornar um soldado do Terceiro Reich para matar os inimigos e dizimar os judeus. Seu fascínio por Adolf Hitler é tamanho que o menino tem como amigo imaginário o próprio führer (Taika Waititi). O Hitler imaginário de Jojo é quem o incentiva a se tornar um grande nazista e a ingressar na Juventude Hitlerista. Entretanto, as pretensões do protagonista vão por água abaixo depois de um final de semana lamentável. Ao lado de outras crianças, Jojo Betzler participou de um acampamento militar destinado a jovens nazistas - uma espécie de grupo escoteiro que ensina os princípios básicos da sobrevivência na floresta e do confronto no campo de batalha. Nessas atividades, a covardia e a inaptidão de Jojo para a guerra ficaram mais que evidentes, gerando piadas e zombarias por parte dos outros meninos. De tão medroso, ele foi apelidado de Rabbit (coelho). Tentando provar seu valor, Jojo Rabbit acabou se acidentando gravemente. Uma granada explodiu perto dele. Sequelado, o menino voltou para a casa, onde precisará passar por uma longa recuperação médica. Como sua mãe está sempre fora de casa, Jojo fica muito tempo sozinho, o que aprofunda sua relação com o amigo imaginário. Um dia, sem querer, o garoto descobre uma menina judia escondida em um cômodo de sua casa. Elsa (Thomasin McKenzie) é uma adolescente que está fugindo da perseguição na Alemanha e foi ocultada ali por Rosie, a mãe de Jojo. O que o garoto deve fazer: denunciar a invasora ou aceitar sua presença ali? Se ele usar a razão e pender para o lado do fanatismo político, deverá relatar a presença da inimiga para as autoridades nazistas. Se ele usar a emoção e pender para o lado afetivo, deverá conviver com a jovem. Considerei “Jojo Rabbit” um filme espetacular. Se você for assisti-lo pensando exclusivamente em sua parte cômica, poderá sair um pouco frustrado da sessão cinematográfica. Afinal, o filme é engraçadinho, mas não é uma produção que o leve a ficar com os olhos molhados de tanto rir. Seu maior mérito está no conflito dramático do protagonista mirim. É aí que o longa-metragem de Taika Waititi ganha em beleza, em força narrativa e em grandiosidade. Quando digo que “Jojo Rabbit” não é um filme tão engraçado assim, não estou dizendo que não haja humor. Há sim bastante comicidade, com cenas que rendem boas gargalhadas. Só estou falando que não é nesse ponto que reside seus principais méritos. Na primeira parte das suas quase uma hora e cinquenta minutos de sessão, “Jojo Rabbit” apela mais para o humor pastelão, para a inocência pueril do seu personagem principal e para a caricatura. O filme de Taika Waititi lembra muito, assim, “Meu Pequeno Nicolau” (Le Petit Nicolas: 2010) e “As Férias do Pequeno Nicolau” (Les Vacances du Petit Nicolas: 2014). O ponto alto desta primeira parte está nas cenas do acampamento militar para os jovens nazistas. Hilário! Na segunda parte do longa-metragem (iniciada após a descoberta da jovem judia na casa de Rosie e Jojo), o humor passa a ser mais sutil, inteligente e sensível, além de dar espaço para o crescimento substancial do teor dramático do enredo. Não à toa, é aqui que o filme se torna magnífico. É preciso delicadeza e astúcia para compreender o que está se passando na casa dos Betzler e, principalmente, para entender o drama de pequeno Jojo. Ou seja, se no começo de “Jojo Rabbit” temos uma comédia dramática, no fim assistimos a um drama cômico. O conflito de Jojo Betzler é, no final das contas, de natureza sentimental-psicológica. Até onde a concepção ideológica e a projeção social de alguém pode sobrepor a concepção humana e a natureza íntima do indivíduo?! O longa-metragem de Waititi é, sob essa ótica, simplesmente maravilhoso. Outra questão que merece ser elogiada neste filme é a forma sutil e extremamente delicada como algumas questões narrativas mais fortes e chocantes são apresentadas ao público. Ao invés de escancarar as tragédias de um jeito sensacionalista, a câmera de “Jojo Rabbit” adquire um tom inocente e infantil (compatível com a mentalidade do protagonista – um menino puro e sonhador). O ápice dessa forma indireta de filmar os acontecimentos cruéis é a cena do enforcamento na praça da cidade. Descobrimos a identidade das vítimas por detalhes de sua roupa. Incrível! Compreender o que Rosie Betzler faz tanto fora de casa também exige a montagem de um pequeno e simples quebra-cabeça narrativo. De certa forma, o expectador vivencia um pouco a experiência de uma criança. Na infância, muitas vezes, os pequenos e as pequenas acabam descobrindo sozinhos o que está se passando ao seu redor, pois ninguém quer explicar as partes difíceis e cruéis do mundo dos adultos. Tão interessante quanto o criativo roteiro de Waititi é a maneira fantástica como o cineasta produziu seu filme. Tecnicamente, “Jojo Rabbit” é impecável. Sua trilha sonora é ótima, seu figurino e sua recriação histórica saltam aos olhos, a fotografia merece elogios, seu ritmo cinematográfico é excelente e a direção conseguiu imprimir características bem próprias a esta produção. A combinação desse conjunto de fatores impacta positivamente a experiência do expectador (e explica as várias indicações do longa-metragem ao Oscar de 2020, tanto nas categorias técnicas quanto na de melhor filme). Se já não sobrassem elogios para Taika Waititi e para “Jojo Rabbit”, ainda temos uma atuação magistral do elenco principal. Scarlett Johansson rouba a cena em todos os momentos em que aparece na telona. Vivendo o melhor momento de sua carreira - as duas indicações ao último Oscar provam isso: como melhor atriz principal em “História de Um Casamento” (Marriage Story: 2019) e melhor atriz coadjuvantes em “Jojo Rabbit” -, ela confere charme, graça e uma profundidade psicológica absurda à sua personagem. Se Rosie parece inicialmente fútil, desleixada com o filho, indiferente ao paradeiro do marido e presa eternamente ao mundo da lua, o decorrer do filme mostrará uma nova e surpreendente faceta da mãe de Jojo. Assim, ela se assemelha um pouco com Guido, personagem mítico de Roberto Benigni. E a atuação fenomenal de Scarlett Johansson não está isolada neste filme. Roman Griffin Davis e Thomasin McKenzie estão ótimos e conseguem, apesar da pouca idade, encantar a plateia. É a jovem dupla de atores a responsável por fazer a roda dramática do filme girar. E o Hitler de Taika Waititi está engraçadíssimo, por mais caricato que seja. “Jojo Rabbit” é um filme ótimo e merece ser visto. Por mais que as salas de cinema tenham sido invadidas, nas últimas semanas, por uma overdose de títulos bélicos - “1917”, “Meu Nome é Sara” (My Name Is Sara: 2019) e “Uma Vida Oculta” -, ainda sim o longa-metragem de Waititi se destaca por sua originalidade e ousadia. Vale a pena embarcar nas aventuras imaginárias e nos dramas reais de Jojo Betzler. Assista, a seguir, ao trailer de “Jojo Rabbit”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Livros: Emboscada no Forte Bragg – O romance de Tom Wolfe sobre o jornalismo
Aproveitei esse final de semana de Carnaval para conhecer “Emboscada no Forte Bragg” (Rocco/L&PM Pocket), o romance do norte-americano Tom Wolfe sobre os meandros éticos do jornalismo investigativo. Peguei emprestada esta obra na Biblioteca Parque Villa-Lobos na semana passada e só agora tive a oportunidade de lê-la. Em época de vazamento de dados pessoais de autoridades, da manipulação de imagens e depoimentos pela mídia e da exposição pública de conversas privadas, a temática deste livro de Wolfe continua surpreendentemente atual. Infelizmente, isso se aplica tanto ao Brasil quanto aos principais países do mundo. Mais conhecido como um dos fundadores do New Journalism (olhar literário para os fatos do cotidiano e para os textos jornalísticos) e autor de várias obras não ficcionais, Tom Wolf, que faleceu em maio de 2018, escreveu cinco romances. O mais famoso deles foi exatamente sua estreia na ficção: “Fogueira das Vaidades” (Rocco), de 1987, um clássico da literatura norte-americana. “Emboscada no Forte Bragg” é seu segundo livro desse gênero, lançado quase dez anos depois de “Fogueira das Vaidades”. Considerada leitura obrigatória nos bons cursos de jornalismo, “Emboscada no Forte Bragg” apresenta boa parte das características que notabilizaram a literatura de Wolfe. Além disso, este título tece uma crítica ácida (diria até mordaz) sobre a atividade e o papel da imprensa livre. Impossível ficarmos indiferentes a um debate tão polêmico quanto esse. Curiosamente, a primeira publicação desta história aconteceu, entre dezembro de 1996 e março de 1997, na revista Rolling Stone. A trama foi lançada em quatro capítulos (“Eu, Irv”, “A Importância de Lola Thong”, “O Verdadeiro Macho” e “Culpado, Culpado, Culpado!”). Somente depois da boa repercussão no periódico é que “Emboscada no Forte Bragg” ganhou uma versão em brochura e passou a ser vendido regularmente nas livrarias. Pelo tamanho enxuto (são apenas 136 páginas), há quem classifique este título de Tom Wolfe como uma novela (concordo com essa opinião). De qualquer forma (sendo um romance pequeno ou mesmo uma novela), trata-se de uma leitura muito rápida. Precisei de aproximadamente três horas e meia para ir da primeira à última página do livro. Ou seja, é possível lê-lo em uma única tarde. Foi o que fiz no último sábado (quem disse que não dá para juntar Carnaval e literatura, hein?). “Emboscada no Forte Bragg” mostra ao leitor o trabalho da equipe de jornalismo do Dia & Noite, um programa de notícias de uma emissora de televisão sediada em Nova York. Irv Durtscher é o produtor executivo da atração. Ele, um judeu gordinho, careca e careta de 42 anos de idade, anseia por reconhecimento tanto do público quanto dos colegas de profissão. Responsável principal pelo sucesso do programa, Irv é apenas uma figura patética que fica escondida nos bastidores da TV. Nem os chefões do canal parecem reparar nele e em seu trabalho. A principal personalidade do Dia & Noite é Mary Cary Brokenborough, a âncora da atração. Com mais de 40 anos de idade, a loira elegante e charmosa vinda do Sul do país é uma das mais famosas jornalistas norte-americanas da atualidade. Para infelicidade de Irv Durtscher, é ela quem ganha todos os méritos pelo excelente trabalho realizado pela equipe do programa. Além da dupla produtor executivo-apresentadora, integram o Dia & Noite vários profissionais (câmeras, maquiadores, repórteres). Anthony Ferratti, por exemplo, é um dos mais carismáticos produtores regionais. Em busca de um furo (notícia dada em primeira mão), a equipe do programa monta uma emboscada para pegar os culpados pelo assassinato de Randy Valentine, um jovem soldado gay do Exército dos Estados Unidos. Valentine foi espancado até a morte em um banheiro de um bar em Bragg Boulevard, na cidade de Fayetteville, na Carolina do Norte. Os principais suspeitos são James Lowe, Virgil Ziggefoods e Randall Flory, soldados de elite das Forças Armadas norte-americanas. O trio está alocado no Forte Bragg, uma base militar naquela região. Apesar das suspeitas que pairam sobre eles, o porta-voz do Exército veio à público para rechaçar qualquer culpa dos seus soldados e depositar total confiança em Lowe, Ziggefoods e Flory. A maioria da imprensa acreditou nas palavras da autoridade do governo. Entretanto, a equipe do Dia & Noite não engoliu a versão oficial das Forças Armadas e decidiu extrair por conta própria uma confissão dos soldados. Liderada por Irv Durtscher, a reportagem investigativa do programa tenta elucidar de uma vez por todas o caso. Para tal, os jornalistas se valem de todos os expedientes possíveis (éticos e não éticos) para alcançar seus objetivos: grampeiam com microfones e câmeras um bar de striptease onde Lowe, Ziggefoods e Flory costumam frequentar; contratam uma prostituta para seduzir os rapazes; aproveitam-se do estado de embriaguez dos jovens para entrevistá-los sem que eles saibam; produzem um vídeo erótico para captar a atenção dos rapazes; levam os suspeitos para uma arapuca; e, por que não, usam e abusam da edição nas entrevistas realizadas. Pronto! Com uma armação dessas (coisa de profissional, né?), o time do Dia & Noite acredita que conseguirá extrair a confissão do trio e, assim, produzir um furo que será noticiado no país inteiro. A principal discussão proposta por Tom Wolfe em “Emboscada no Forte Bragg” é: até onde pode ir o trabalho dos jornalistas na investigação de um caso? O leitor sabe exatamente o que aconteceu no bar no dia em que Randy Valentine foi espancado até a morte (portanto, não estou revelando aqui nenhum spoiler!). O jovem foi assassinado porque seu agressor era homofóbico (o criminoso o pegou praticando sexo oral em um homem no banheiro do estabelecimento). Porém, é aceitável manipular imagens, depoimentos e situações para se conseguir uma confissão?! Essa é uma pergunta delicadíssima que fazemos o tempo inteiro durante a leitura desse romance. Os jornalistas do Dia & Noite ultrapassam várias vezes a linha da ética (no melhor dos casos, chegam ao tênue limiar entre o certo e o errado). Na TV e na imprensa de modo geral, os fins seriam as justificativas dos meios escolhidos? A resposta aqui é, infelizmente, positiva. Outra questão que pode ser levantada, que vem na esteira da anterior, é sobre a vaidade dos jornalistas. São nítidas as rivalidades dentro da equipe do programa. Irv Durtscher e Mary Cary Brokenborough não se suportam, mas trabalham juntos em busca de um objetivo em comum: a busca pelo furo jornalístico. E para alcançá-lo vale tudo. A busca pela audiência a qualquer custo é a mola propulsora da atividade dos repórteres investigativos. Não há nada, inclusive a ética e o bom senso, que os impeça de seguir agindo livremente em busca da verdade. Portanto, temos nesta obra uma crítica extremamente ácida e contundente da sociedade e da prática jornalística. Por essa pegada de engajamento social e de denúncia, “Emboscada no Forte Bragg” é uma publicação muitíssimo original. Sinceramente, não lembro agora de nenhum outro título literário que tenha debatido tais questões sobre o jornalismo com tanta ênfase. Já no cinema, recordo de alguns exemplares. “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole: 1951) é um clássico de Billy Winder que mostra até onde pode atingir a ambição de um repórter atrás de uma boa notícia. Mais recentemente, fiquei encantado com “O Abutre” (Nightcrawler: 2014), longa-metragem de Dan Gilroy que apresenta os bastidores dos programas de TV sensacionalistas. Em relação à narrativa deste romance, o que mais me impressionou positivamente foi o realismo da história de Tom Wolfe. A sensação que temos durante a leitura é que a trama é verídica (não, ela não é – trata-se de uma ficção!). Como o escritor norte-americano conseguiu esse efeito de transformar sua história inventada em algo próximo ao real? A explicação passa pela descrição minuciosa de personagens e cenários, pelo relato das especificidades técnicas dos jogos de câmera e de som utilizadas na gravação do programa e, principalmente, pelo tipo de conflito dramático armado (complexo e variado). Não apenas temos a impressão de que os fatos narrados aconteceram de verdade como também conseguimos vê-los em nossa imaginação. Wolfe é mestre na construção de enredos verossímeis. Observar os detalhes do desenvolvimento de sua literatura é algo maravilhoso. As outras características marcantes de “Emboscada no Forte Bragg” são: humor inteligente e sarcástico (por vezes, caricato), narrativa com alta velocidade (apesar das muitas descrições), desfecho esplendido, protagonistas são na maioria das vezes personagens esféricas (o que enriquece ainda mais a trama), intertextualidade cultural e literária, texto com um tom muito crítico e linguagem que tenta se aproximar da oralidade e do coloquialismo (essencialmente na reprodução das falas dos soldados). De maneira geral, temos um romance/novela quase perfeito. Nem mesmo os pequenos tropeços narrativos (em uma cena Mary Cary Brokenborough não entende o linguajar de Lowe, Ziggefoods e Flory, para logo depois entender tudo o que eles dizem) e os preconceito linguístico (ridicularização do jeito de falar dos jovens soldados sulistas) conseguem prejudicar a qualidade excepcional de “Emboscada no Forte Bragg”. Indubitavelmente, o conjunto interminável de pontos positivos da obra acaba escondendo um ou outro aspecto negativo. Tom Wolfe pode até ser um dos jornalistas mais revolucionários da segunda metade do século XX. Entretanto, na minha visão, ele também é um grande escritor ficcional. Conhecer esse outro lado do trabalho do cultuado pioneiro do New Journalism é muito prazeroso (até mesmo para quem está em pleno Carnaval). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Literatura #Livros #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaClássica #TomWolfe #Drama #Suspense #Jornalismo #NewJournalism #Romance #Novela
- Livros: Fim – O romance de estreia de Fernanda Torres
Fernanda Torres surpreendeu o público e o mercado editorial ao lançar, em novembro de 2013, “Fim” (Companhia das Letras), seu primeiro romance. Afinal de contas, não é todo dia que assistimos a uma conceituada atriz da televisão, do cinema e do teatro se enveredar em uma nova carreira. E como escritora, Fernanda se mostrou tão talentosa quanto nas telas e no palco. Para se ter uma ideia do quão exitosa foi essa estreia na literatura, “Fim” foi finalista do Prêmio Jabuti de 2014, o mais importante do país. Além disso, a obra tornou-se um best-seller nacional, ficando, em 2014, no posto de oitavo livro ficcional mais comercializado no Brasil. A vendagem do romance já chegou à casa dos seis dígitos, uma marca para poucos autores brasileiros. Nada mal para quem iniciava na literatura ficcional próxima de completar 50 anos de idade, né? Se alguém pensou que a estreia apoteótica de Fernanda Torres poderia ter sido sorte de estreante, a escritora carioca mostrou o quão sólido era seu novo trabalho com as duas publicações seguintes. “Sete Anos” (Companhia das Letras), coletânea de crônicas de 2014, e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores” (Companhia das Letras), romance de 2017, receberam muitos elogios da crítica especializada e agradaram em cheio os leitores. Para muita gente, Fernanda Torres é atualmente uma das mais originais vozes da literatura brasileira contemporânea. Principal prova do carisma e da receptividade dos livros de Fernanda foi suas apresentações na FLIP, Feira Literária Internacional de Paraty. A autora arrematou uma pequena multidão para vê-la e ouvi-la todas as vezes em que compareceu ao evento. Para conhecer um pouco desse trabalho da artista carioca, li nesta semana “Fim”. E admito, desde já, que fiquei encantado com a força de sua narrativa e com a beleza do seu texto. O enredo deste romance se passa na cidade do Rio de Janeiro e acompanha o dia da morte de cinco amigos: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro. Cada um deles faleceu em uma época, entre agosto de 1990 e abril de 2014, mas todos tinham em comum as desilusões amorosas. O grupo de amigos se conheceu na juventude e permaneceu junto, entre brigas e afastamentos, até o final. Enquanto narram o último dia de vida, as personagens fazem um balanço de suas existências. Álvaro era morador de Copacabana. Impotente, melancólico, racista e egoísta, ele se separou da esposa, Irene, após ser traído por ela. Do quinteto de amigos, foi o que mais viveu (e o único que não gostava de sexo). Aos 85 anos de idade, foi atropelado na porta de casa após mais uma visita ao médico. Sílvio era o imoral da turma. Hedonista, gostava de drogas, bebidas e orgias. Abandonou a esposa e os filhos para viver na boemia e na putaria. Aos 75 anos, morreu de overdose quando pulava o Carnaval na Cinelândia. Sofria de Parkinson, mas não gostava de tomar os remédios que os médicos receitavam. Ribeiro era o esportista. Aos 80 anos, ainda frequentava diariamente a praia e jogava vôlei com os amigos. Fã de Viagra, gostava de tirar a virgindade das mocinhas. Amou Suzana, uma namorada gaúcha, até ela o trocar por Sílvio. Sofreu um infarto enquanto tomava banho em casa e se preparava para um encontro romântico. Há quem diga que sua morte foi culpa do Viagra que tomou algumas horas antes. Neto era moreno e veio de uma família pobre. Conservador, tímido e honrado, cresceu na vida na base de muito estudo e de muito trabalho. Diferentemente dos amigos, se manteve fiel à esposa, Célia, sem jamais se separar dela. Célia odiava Álvaro, Sílvio, Ribeiro e Ciro, assim como era odiada pelo grupo por sua caretice. Neto viveu até os 62 anos, quando ficou abalado com o falecimento precoce de Célia, por quem nutria uma mistura de ódio e amor. Ciro, por sua vez, era o galã da turma. Bonitão, culto e carismático, ele mexia com o coração de todas as mulheres por onde passava. Advogado e morador de Copacabana, Ciro casou-se com Ruth, uma linda moça que conheceu em uma festa. Após dez anos juntos em um casamento que causava inveja a todos, Ciro entrou em uma crise existencial grave. Ele não queria mais permanecer fiel ao lado de Ruth. Assim, passou a traí-la com todo o Rio de Janeiro, deixando a esposa desesperada. Morreu após uma cirurgia para extração de um câncer no cérebro. Enquanto acompanhamos o dia derradeiro dos cinco protagonistas, somos levados a vários momentos decisivos de suas vidas. Através da mescla de flashbacks com lembranças das personagens principais e as opiniões de terceiros, assistimos aos dramas conjugais, as incertezas quanto ao legado deixado, aos sonhos frustrados e os medos que perseguiam o quinteto de amigos durante toda a vida. Assim, a trama do livro aborda não apenas a finitude do grupo, mas também suas juventudes e a fase de maturidade. O romance de Fernanda Torres traz um retrato bem-humorado, ácido e corajoso de homens nascidos entre o final da década de 1920 e o comecinho dos anos de 1940, geração classificada pelos psicólogos e sociólogos como dos Veteranos ou Tradicionais. “Fim” tem 208 páginas e está dividido em seis partes. As cinco primeiras são dedicadas a cada um dos protagonistas do romance. Por isso, são nomeadas, respectivamente, de “Álvaro”, “Sílvio”, “Ribeiro”, “Neto” e “Ciro”. A sexta e última parte, intitulada de “O Próximo”, apresenta o prólogo da obra, com uma visão rápida do que restou após a “partida” do grupo de amigos. Li este livro em duas noites nesta semana (comecei na segunda-feira e o concluí já na terça). Como a leitura é agradável, devorei suas páginas. Não devo ter gastado mais do que oito horas ao todo para percorrer seu texto de ponta a ponta. O que mais gostei neste livro de estreia de Fernanda Torres? É difícil responder a esta pergunta. São vários os elementos encantadores de “Fim”, além de algumas boas surpresas que nos são reservadas. Para começo de conversa, adorei a construção das personagens masculinas do romance. Vale a pena ressaltar que normalmente não é fácil para um escritor escrever sobre pessoas do sexo oposto. Contudo, Fernanda foi sublime ao descrever não apenas um, mas cinco (CINCO!) protagonistas masculinos. Se isso não é um trabalho ficcional brilhante, não sei mais o que é. Os dramas, os discursos e os conflitos destes homens são bastante verossímeis. A impressão que se tem é que a autora carioca entrou realmente na cabeça desses indivíduos fictícios para extrair o que mais os incomodava. Incríveis e memoráveis as construções dessas personagens. As figuras femininas também são muito bem descritas. Assim como ocorre com os homens, as mulheres de “Fim” são pintadas com tintas negativas. A sensação é que não há mocinhos nem mocinhas (heróis) nesta trama, apenas vilões. Todos são indivíduos egoístas, carentes emocionalmente, solitários e completamente perdidos no mundo (uma antítese às características típicas da geração Tradicional). Como consequência, o grande inimigo de todas as personagens (tanto as masculinas quanto as femininas) parece ser o casamento e o relacionamento monogâmico. A prolongada e enfadonha união conjugal é capaz de destruir até mesmo o amor genuíno entre os casais. Se não falei até agora que “Fim” possui uma narrativa com forte pegada corrosiva, fique aqui esse registro. Para contrabalancear o tom pessimista da história, somos brindados com um texto divertido e leve, além de muito bem escrito. O humor de suas páginas oscila entre a ironia e o humor negro, ambos na medida certa. Há também várias passagens com forte carga poética, o que torna a experiência de leitura ainda mais incrível. “Fim” é aquele tipo de romance que possui uma prosa bem trabalhada, onde cada linha parece ter sido pensada e lapidada em nome da estética literária. Incrível o resultado deste livro. Quanto ao seu conteúdo, a obra aborda com coragem o desbunde dos anos de 1960, quando os jovens da época se lançavam de cabeça à vadiagem e aos prazeres mundanos. A vida para os personagens de “Fim” era uma eterna festa regada com muita bebida, droga e sexo. Ao mesmo tempo em que os excessos traziam prazeres imediatos, eles também vinham carregados de frustrações, melancolias e solidão. A engrenagem paradoxal só alimentava a busca por mais emoções hedonistas, que por sua vez, provocavam um gosto de mais amargura e de infelicidade, em uma bola de neve crescente e interminável. Também gostei muito da ousadia narrativa proposta por Fernanda Torres. Seu romance mistura capítulos em primeira pessoa com capítulos em terceira pessoa. Os relatos pessoais são feitos pelos cinco protagonistas. Cada um tem a oportunidade de extravasar seus pensamentos, seus sentimentos e suas opiniões em algum momento. O efeito mais imediato dessa multiplicidade de focos narrativos é uma visão mais abrangente e imparcial da trama. Outra ousadia de “Fim” foi a produção de um romance sem um conflito definido. Acompanhamos com muita curiosidade o desespero de cinco homens que caminham para a morte, mas não conseguimos identificar rapidamente qual é o conflito central do livro. Espetacular esse expediente! Trata-se de uma escolha ao mesmo tempo arriscada (a chance de dar errado é enorme) e brilhante (pois foi muito bem executada por Fernanda Torres, enriquecendo consideravelmente a experiência de leitura). O único aspecto que não gostei foi do desfecho do livro (a sexta parte, “O Próximo”). Sinceramente, não entendi a relevância da narrativa olhar com atenção para duas personagens secundárias do romance (Maria Clara e Padre Graça) no momento de encerramento. Seriam as duas figuras a antítese do quinteto de protagonistas, responsáveis por construir nas páginas finais os valores morais e emocionais da nova geração? Pode até ser, mas isso não ficou claro em nenhum momento (ao menos para mim). A falta de compreensão da relevância dos dois capítulos derradeiros me deixou bastante intrigado. Seria um erro da autora ao estender sua narrativa desnecessariamente e/ou eu que não tive a capacidade de elucidar a importância das páginas finais? Outro ponto que me causou alguma estranheza (que está longe de ser uma falha narrativa, que fique bem claro) foi a desconexão entre alguns capítulos e as partes em que eles estavam inseridos na obra. Explico melhor: capítulos da parte de “Ribeiro” e “Neto” acabaram falando pouco das personagens em foco naquele momento (Neto e Ribeiro, respectivamente) e trataram mais dos protagonistas que viriam mais tarde (por exemplo, Ciro). Não entendi o porquê desse deslocamento. Para mim, pareceu que os capítulos foram colocados nas partes erradas (quebrando a ordem das demais seções do livro). Apesar dessas leves derrapadas, “Fim” é indiscutivelmente um romance com R maiúsculo. Sua narrativa é engraçada, profunda e interessantíssima. A combinação da trama tragicômica com um texto com um refinamento incomum transforma a experiência de leitura em algo bastante agradável. Mergulhar nas maluquices e nos devaneios do grupo de amigos do Rio de Janeiro é tão prazeroso para o leitor quanto é angustiante para os protagonistas do livro. Minha única dúvida é saber se Fernanda Torres é melhor como escritora ou atriz. Difícil responder a essa questão. “Fim” parece ser o início de uma carreira longa e bem-sucedida na literatura. Ainda bem! Novos nomes são sempre bem-vindos à ficção brasileira. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #FernandaTorres #Romance #Drama
- Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2019
O ano passado não foi nada fácil para o mercado editorial brasileiro. Depois de cinco anos consecutivos de retração nas vendas, os números mais positivos do setor indicam uma possível estagnação em 2019. Para muita gente, esses dados já seriam por si só dignos de comemoração. Há quem duvide até mesmo disso, esperando uma nova queda no faturamento total (assim, o fundo do poço estaria próximo, mas ainda não teria sido alcançado). Vale lembrar que os números oficiais deste mercado só virão em um ou dois meses. Por outro lado, há vozes espaçadas que indicam uma ligeira retomada no crescimento do setor editorial. Algo mínimo, como 0,1% ou 0,2% de expansão. Será?! Precisamos esperar para ver. O que já conseguimos fazer, neste momento, é analisar a lista dos livros mais vendidos no ano passado nas livrarias brasileiras. Em 2019, o ranking dos best-sellers não foi muito diferente do ranking dos mais comercializados em 2018. Entre os principais sucessos nacionais estão livros de autoajuda, obras religiosas e títulos produzidos por celebridades da Internet. Em tempo de crise econômica, também prosperaram publicações voltadas para a saúde financeira. E os romances, você deve estar se perguntando, né? Infelizmente, não há nenhuma obra ficcional entre os 10 livros mais vendidos no Brasil entre janeiro e dezembro do ano passado. Se isso entristece os amantes da ficção, saiba que esse fenômeno já tinha se repetido em 2018. Uma pena! Os dados que usamos no Bonas Histórias para apontar os mais vendidos no Brasil são extraídos do PublishNews, a fonte mais confiável atualmente do mercado editorial nacional. O PublishNews faz seu levantamento usando os números das principais redes de livrarias do país. Não à toa, essa é a nossa referência há alguns anos. Os números do PublishNews balizam tanto o conteúdo geral do blog quanto as estatísticas da coluna Mercado Editorial. A liderança dos mais vendidos permanece com “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (Intrínseca), obra de autoajuda do norte-americano Mark Manson. Esse livro já tinha ficado no topo do ranking nacional em 2018. Dessa vez, a publicação de Manson vendeu 386 mil exemplares em nosso país, uma queda de 50 mil unidades em relação ao ano retrasado, o que não atrapalhou o alcance do primeiro lugar. Logo atrás no ranking dos mais vendidos vem “O Milagre da Manhã” (BestSeller), do norte-americano Hal Elrod, e “Seja Foda!” (Buzz), do paulistano Caio Carneiro. Os dois títulos de autoajuda já estavam na lista de 2018 e agora conquistaram uma posição a mais cada um em relação ao ranking do ano passado. “O Milagre da Manhã” e “Seja Foda!” venderam, desta vez, 257 mil e 192 mil unidades, respectivamente. Outras obras que se perpetuaram na lista de 2019 foram: “O Poder da Autorresponsabilidade” (Gente) e “O Poder da Ação” (Gente), ambos de Paulo Vieira (quinto e nono lugar, respectivamente), e “Os Segredos da Mente Milionária” (Sextante), de T. Harv Eker (décima colocação). Os estreantes no ranking deste ano, por sua vez, são: “Do Mil ao Milhão” (HarperCollins), de Thiago Nigro (quarta posição), “Me Poupe!” (Sextante), de Nathália Arcuri (sexta colocação), “O Poder Oculto” (Petra), de Padre Reginaldo Manzotti (sétima colocação) e “Mais Esperto que o Diabo” (CDG), de Napoleon Hill (oitavo lugar). Veja, a seguir, o ranking dos 10 livros mais vendidos em 2019 no Brasil, segundo o PublishNews: 1) “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” - Mark Manson (Estados Unidos) - Intrínseca - 386 mil unidades. 2) “O Milagre da Manhã” - Hal Elrod (Estados Unidos) - BestSeller - 257 mil unidades. 3) “Seja Foda!” - Caio Carneiro (Brasil) - Buzz - 192 mil unidades. 4) “Do Mil ao Milhão” - Thiago Nigro (Brasil) - HarperCollins - 155 mil unidades. 5) “O Poder da Autorresponsabilidade” - Paulo Vieira (Brasil) - Gente - 149 mil unidades. 6) “Me Poupe!” - Nathalia Arcuri (Brasil) - Sextante - 126 mil unidades. 7) “O Poder Oculto” - Padre Reginaldo Manzotti (Brasil) - Petra - 125 mil unidades. 8) “Mais Esperto que o Diabo” - Napoleon Hill (Estados Unidos) - CDG - 122 mil unidades. 9) “O Poder da Ação” - Paulo Vieira (Brasil) - Gente - 117 mil unidades. 10) “Os Segredos da Mente Milionária” - T. Harv Eker (Canadá) - Sextante - 105 mil unidades. Esperemos que as próximas notícias do mercado editorial brasileiro sejam, enfim, positivas. Porque do jeito que está, fica difícil olhar com otimismo para o cenário futuro. Pensando bem, agora entendo o sucesso dos títulos de autoajuda, das obras religiosas e dos livros de assessoria financeira. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
















