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- Livros: Os Vestígios do Dia – O principal romance de Kazuo Ishiguro
Ontem, concluí a leitura de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), a principal obra de Kazuo Ishiguro. O escritor nipo-britânico conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 2017 e é aclamado pela crítica e pelo público como uma das vozes mais contundentes da ficção contemporânea. Por não ter lido nada deste autor até então, resolvi começar logo pelo seu romance mais famoso. E admito que estou até agora estupefato com a qualidade do livro que passou pelas minhas mãos neste final de semana. “Os Vestígios do Dia” é um trabalho literário sublime! Com extrema delicadeza e precisão, Ishiguro constrói uma narrativa dramática sobre um velho mordomo inglês. O protagonista-narrador da trama é um homem obcecado pela sua profissão e fanático pela obtenção da perfeição profissional. O resultado não poderia ter sido outro: a conquista do Man Booker Prize, o principal prêmio literário de língua inglesa. Mais tarde, esta história foi adaptada para o cinema. O longa-metragem de 1993 teve a direção de James Ivory e contou com um elenco de primeira (Anthony Hopkins, Emma Thompson, James Fox, Christopher Reeve e Hugh Grant). O filme recebeu oito indicações ao Óscar. Nascido em Nagasaki, em 1954, Kazuo Ishiguro se mudou com os pais ainda pequeno para a Inglaterra. Criado desde os cinco anos de idade na Europa, onde permanece morando até hoje, o escritor é visto pela crítica literária e pelo mercado editorial mais como um autor inglês do que propriamente japonês. Afinal, seu texto é produzido na língua de Shakespeare e suas tramas são ambientadas essencialmente no Reino Unido. Formado em Inglês e em Filosofia no final da década de 1970, Ishiguro fez, em 1980, o curso de Escrita Criativa do britânico Malcolm Bradbury (não confundir com o norte-americano Ray Bradbury). Iniciava-se ali a carreira do nipo-britânico na literatura comercial. Após publicar contos e artigos em revistas e lançar uma coletânea de pequenas narrativas, Kazuo Ishiguro passou a escrever romances. Até este momento foram sete. O primeiro foi “Uma Pálida Visão dos Montes” (Rocco), título de 1982. O mais recente é “O Gigante Enterrado” (Companhia das Letras), de 2015. Publicado em 1989, “Os Vestígios do Dia” é o terceiro romance de Ishiguro. Esta obra veio na sequência de “Um Artista do Mundo Flutuante” (Companhia das Letras), de 1986. Produzido em apenas quatro semanas, “Os Vestígios do Dia” é o retrato mais bem-acabado da força dramática da literatura praticada por Kazuo Ishiguro. Além de ganhar o Man Booker Prize, este romance é apontado por muitos críticos literários como uma das melhores ficções em língua inglesa da segunda metade do século XX. O jornal The Observer, por exemplo, colocou este livro na oitava posição dos melhores romances britânicos escritos entre 1980 e 2005. E o The Guardian vai além ao incluir esta obra de Ishiguro na lista de 1.000 romances universais que todo leitor de bom gosto deveria ler. “Os Vestígios do Dia” é narrado em primeira pessoa por Stevens, o velho mordomo de Darlington Hall, uma das residências mais tradicionais da Inglaterra. A história se passa no Verão de 1956. Stevens já está trabalhando ali há trinta anos. Entre o início da segunda metade da década de 1920 e o final da primeira metade dos anos de 1950, ele serviu Lord Darlington, um influente e engajado cavalheiro inglês. O longo tempo de permanência em um posto tão importante fez Stevens conhecer os principais mordomos de sua geração, que obviamente trabalhavam para as famílias mais nobres do país. Para o protagonista-narrador do romance, Mr. Marshall e Mr. Lane são os melhores mordomos que a Inglaterra já teve. Obcecado por integrar o grupo de elite de sua profissão, Stevens se dedicou com afinco durante anos para se tornar um mordomo perfeito. Com a morte recente de Lord Darlington, a mansão foi vendida para John Farraday, um ricaço norte-americano. Apesar da mudança de proprietário, Stevens continuou sendo o mordomo da residência. Contudo, os tempos dourados de Darlington Hall ficaram definitivamente para trás. Ao invés de dezenas e dezenas de funcionários para administrar o palacete e para recepcionar os vários convidados que eram presença constante na época de Lord Darlington, agora a casa tem apenas meia dúzia de empregados para cuidar de uma rotina com poucos visitantes. Isso é decorrência do estilo mais prático e menos requintado do Sr. Farraday. A nova configuração do trabalho deixa Stevens muito preocupado. A idade avançada e as atividades que se acumulam diariamente o fazem cometer pequenos deslizes, algo imperdoável para alguém perfeccionista e que deseja manter o status de grande mordomo. Quando John Farraday comunica que precisará viajar algumas semanas para os Estados Unidos, Stevens é incentivado pelo patrão a sair alguns dias de férias. Para tirar o mordomo de casa, algo incomum nas últimas três décadas, o Sr. Farraday chega a oferecer seu carro e o custeio das despesas de gasolina para que o funcionário pegue a estrada e passeie um pouco. Com a intenção de visitar uma antiga governanta, Miss Kenton (agora Mrs. Benn), Stevens aceita o convite do patrão. Assim, ele realizará uma viagem em direção ao Oeste do país com o propósito de convencer Mrs. Benn a retornar à Darlington Hall para sua antiga função. Para tal, vai se aproveitar dos problemas matrimoniais que a ex-governanta aparentemente enfrenta. Com a possível contratação de Mrs. Benn, Stevens acredita que parte dos problemas com os funcionários na residência de Sr. Farraday serão resolvidos. Entretanto, enquanto viaja para se encontrar com a antiga colega, o narrador tem suas lembranças afloradas. Ao invés de descrever sua viagem realizada no presente, Stevens relata na verdade os acontecimentos do passado. Ele narra sua trajetória como mordomo em Darlington Hall, sua relação com o pai, o relacionamento com Lord Darlington, as pessoas importantes que conheceu na residência e os entreveros com Miss Kenton. Mordomo e governanta tiveram um relacionamento profissional de altos e baixos. Ora eles tinham brigas homéricas e ficavam sem se falar por semanas, ora estavam em harmonia, analisando as atividades dos funcionários da residência em agradáveis chás. “Os Vestígios do Dia” possui 288 páginas. Elas estão divididas em sete capítulos, além do prólogo. Cada capítulo descreve um dia da viagem do protagonista (na verdade, cada seção do livro apresenta as lembranças que Stevens teve em cada etapa de sua jornada para o Oeste da Inglaterra). É possível ler este livro em apenas dois dias. Eu o comecei na sexta-feira à tarde e o concluí já no sábado. Não preciso dizer que esta leitura me prendeu como poucas. Simplesmente não consegui largar esta obra até chegar à sua última página. Na versão brasileira editada pela Companhia das Letras, ainda temos ao final do romance um conto de Kazuo Ishiguro. A pequena narrativa chamada de “Depois do Anoitecer” foi publicada originalmente na revista New Yorker em maio de 2001 e apresenta o drama de Fletcher, o morador ilustre de um pequeno povoado. Depois de ter se tornado famoso nacionalmente, o protagonista retorna depois de muitos anos para sua terra natal, despertando as mais diferentes emoções nos habitantes do lugar. Apesar de interessante, o conto fica esvaziado quando colocado ao lado de um romance tão sensacional. Mesmo com a aparente relação entre os títulos das duas narrativas (“Os Vestígios do Dia” e “Depois do Anoitecer”), sinceramente não consegui encontrar nenhuma associação mais significativa entre essas histórias. É difícil precisar o que é mais incrível em “Os Vestígios do Dia”. Para começo de conversa, a escolha do protagonista foi acertadíssima. Stevens é uma personagem riquíssima e bastante contraditória. A obsessão do mordomo pelo trabalho e pela perfeição profissional o transforma em uma figura solitária, triste e melancólica. Até mesmo sua humildade é apenas aparente (ele aceita parecer mais importante do que é para os desconhecidos e para os pobres). No fundo, Stevens é um homem frio e calculista que tenta abafar qualquer tipo de sentimento que nutre pelas pessoas ao seu redor. Isso fica mais evidente no relacionamento com seu pai e com a governanta de Darlington Hall. Outro indício da frieza emocional da personagem é sua dificuldade para ser engraçado. A inabilidade para fazer pequenos gracejos o aflige profundamente. Na vida de Stevens, não sobra espaço para nada que não seja seu trabalho sério de servir ao seu patrão vinte quatro horas por dia, sete dias por semana. De certa forma, Stevens não vive, ele apenas trabalha. Ele não tem um passado pessoal e sim uma trajetória profissional. A obsessão pela sua carreira molda não apenas sua rotina como também sua personalidade. Nesse sentido, temos um workaholic do nível mais grave. O mordomo se cobra o tempo inteiro na busca pela perfeição profissional. Ele deseja atingir o status de “grande mordomo” de sua geração, colocando seu nome na história de sua profissão. Porém, por mais que tente reprimir suas emoções ao máximo, Stevens acaba sutilmente dando sinais de vacilo pouco a pouco nessa área. O leitor mais atento poderá constatar nas páginas de “Os Vestígios do Dia” o quanto o mordomo sofre para não dar vazão ao seu lado humano e passional. Paradoxalmente, é nos momentos de maior importância da carreira do mordomo quando acontecem eventos de maior relevância em sua vida pessoal. Sem pensar duas vezes em qual atitude tomar, o protagonista acaba escolhendo sempre um lado para focar, desprezando completamente o outro. Somente no final da vida, ele se questionará se suas escolhas foram acertadas. Incrível! O formalismo, a seriedade e o jeitão contido do protagonista (um típico mordomo inglês) estão presentes no texto do livro. Essas características foram justamente o elemento que primeiro chamou minha atenção nesta leitura. O tom da narrativa é totalmente condizente com a personalidade e a função exercita pelo narrador na trama. Realmente, a impressão que temos é estar ouvindo a voz de um mordomo de uma tradicional família inglesa. A elegância e o formalismo de suas palavras e do seu relato intensificam a experiência literária. A personagem principal deseja relatar essencialmente a vida de seu ex-patrão, envolvido com o nazismo durante o período entre guerras, a dinâmica de trabalho em Darlington Hall em sua fase dourada e as particularidades da profissão de mordomo. Contudo, sem querer, ele acaba expondo seus dramas mais íntimos, obviamente a parte mais interessante do romance. Por mais que tente colocar sua trajetória pessoal e suas particularidades em segundo plano nesta história (como mordomo, ele está acostumado a passar despercebido aos olhos das outras pessoas), Stevens é alçado magicamente para o primeiro plano da trama. Ao mesmo tempo, “Os Vestígios do Dia” também tem um aspecto de confidência muito forte. Stevens conversa diretamente com o leitor, apresentando aspectos de sua vida e de suas experiências sem qualquer temor ou rodeio. O tom de diálogo é bastante acentuado, principalmente quando o narrador chama os leitores para a conversa e quando apresenta figuras até então desconhecidas para eles (que pouco a pouco vão se tornando familiares também a quem lê o romance). Nesse aspecto, achei primoroso o expediente narrativo utilizado por Kazuo Ishiguro. O escritor fala de um assunto particular do universo do narrador-protagonista (profissão de mordomo) com tanta beleza e paixão que acaba cativando o leitor, que a princípio não se interessaria por um tema tão específico como este. Aí reside o grande charme de “Os Vestígios do Dia”. A leitura se torna agradabilíssima pela curiosidade que temos para desvendar o que há por trás do relato conceitual e prático de um mordomo sobre sua profissão. Curiosamente, ao invés de avançar (seguir para frente) no relato da viagem do protagonista, o romance acaba caminhando o tempo inteiro para trás (mergulhando no passado de Stevens). Somente no último capítulo da obra, passado e presente se juntam. O impacto desse encontro é inevitável e profundo. Apenas nesse instante, o leitor consegue compreender o genuíno drama da personagem principal. O ritmo da narrativa não é, vale a pena alertar, acelerado. Talvez isso desagrade um pouco os leitores mais ansiosos e com dificuldades para se ater ao subtexto do romance. A trama vai se desenrolando aos poucos, de maneira bem tímida (o que é perfeitamente compatível com a personalidade do narrador-protagonista). Para entender a intensidade dos relatos do mordomo é preciso investigar o que está nas entrelinhas. “Os Vestígios do Dia” é o típico livro em que o subtexto é mais forte, grande e contundente do que sua parte denotativa. Outra questão que merece destaque é o humor fino desta história. Diferentemente do que Stevens diz nas páginas do romance, ele consegue sim ser engraçado (ao menos é em sua narrativa para o leitor). Há relatos hilários durante os capítulos: episódio protagonizado pelo pai da personagem principal, que também foi mordomo, quando uma onça apareceu embaixo da mesa da sala; explicação da vida sexual dos homens através da analogia de pássaros e de abelhas para o filho de um hóspede que está prestes a se casar; chegada de Stevens em um carro fino em uma pequena e pobre aldeia do interior do país; etc. O humor aqui é na maioria das vezes trágico-cômico. Há também ótimas cenas dramáticas que ficarão por muito tempo na cabeça do leitor. As principais delas são referentes ao auge da carreira da personagem principal. Justamente quando vivia os momentos máximos de sua carreira, episódios decisivos de sua vida pessoal afloravam (morte do pai e noivado de Miss Kenton). O livro de Ishiguro também apresenta vários choques culturais: entre gerações (mordomos da época do pai de Stevens e mordomos da época de Stevens), entre nações (estilo de vida nos Estados Unidos versus estilo de vida na Inglaterra), entre ricos e pobres, entre patrões e empregados, entre famílias tradicionais e novos ricos e entre a fase madura e a juventude do protagonista. O romance caminha sempre entre uma dessas dualidades. Ao mesmo tempo em que assiste ao drama particular de Stevens em Darlington Hall, o leitor também acompanha os principais acontecimentos geopolíticos das décadas de 1930, 1940 e 1950: a ascensão do nazifascismo na Europa Pós-Primeira Guerra Mundial, o surgimento do antissemitismo, do totalitarismo e de grupos paramilitares (“camisas negras”), o crescimento da germanofobia na Inglaterra e na França, a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o início da supremacia norte-americana na política mundial. Quem gosta e conhece História, na certa irá se deliciar com as citações de passagens e de personagens reais de uma das épocas mais turbulentas do continente europeu. “Os Vestígios do Dia” é realmente um dos melhores livros que li nos últimos cinco anos. Somente pela leitura desta obra já é possível dizer que a entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2017 foi parar em boas mãos. Kazuo Ishiguro é um dos principais escritores da atualidade e precisa ser lido. Admito que fiquei com vontade de conhecer mais romances seus e até de incluir o autor no Desafio Literário do próximo ano. Quem sabe não tenhamos mais análises das obras de Ishiguro em um futuro próximo no Bonas Histórias, hein? Confira! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaContemporânea #LiteraturaJaponesa #LiteraturaInglesa #KazuoIshiguro #Drama #Romance
- Livros: O Silêncio da Chuva – A premiada estreia de Luiz Alfredo Garcia-Roza
Luiz Alfredo Garcia-Roza é atualmente um dos mais importantes romancistas policiais do Brasil. Aclamado pela crítica e pelo público, o escritor carioca de 84 anos tem onze livros ficcionais publicados, alguns deles best-sellers. A maioria de suas tramas é protagonizada pelo Inspetor Espinosa, um policial honesto, introspectivo e amante de literatura e de música, e se passa essencialmente em Copacabana, bairro do Rio de Janeiro onde a personagem principal mora. Para conhecer um pouco do trabalho literário de Garcia-Roza, li no último final de semana “O Silêncio da Chuva” (Companhia das Letras), seu primeiro romance. O livro também é considerado a principal obra do autor. Fiquei tão empolgado com esta leitura que não via a hora de comentá-la no Bonas Histórias. Por isso, aqui vai o post sobre o romance que me fez ficar acordado até tarde nos últimos dias. Curiosamente, a trajetória de Luiz Alfredo Garcia-Roza na literatura comercial começou bem tarde. Até os 60 anos de idade, ele era um professor de filosofia e de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Até essa época, suas oito publicações se restringiam a obras técnicas das áreas em que lecionava. “Freud e o Inconsciente” (Zahar), “O Mal Radical em Freud” (Zahar) e “Introdução à Metapsicologia Freudiana” (Zahar) são livros que se tornaram referências sobre a psicanálise. Com a carreira acadêmica consolidada, Garcia-Roza resolveu produzir romances policiais. E o sucesso veio logo de cara, com “O Silêncio da Chuva”. Publicada em 1996, esta obra conquistou o Prêmio Nestlé de Literatura de 1996 e o Prêmio Jabuti de 1997 como o melhor romance nacional. Ou seja, ela abocanhou dois dos principais prêmios literários do país. A partir do êxito do livro de estreia, Garcia-Roza resolveu investir na carreira de romancista. Nos 18 anos seguintes, ele lançou outros dez livros ficcionais. O último deles é “Um Lugar Perigoso” (Companhia das Letras), de 2014. Todos os romances do carioca foram publicados pela Companhia das Letras, um dos maiores selos editoriais do Brasil. Hoje em dia, Luiz Alfredo Garcia-Roza é visto não apenas como um dos grandes autores nacionais do gênero criminal, mas também como um dos mais inventivos escritores ficcionais do país. Casado com a também escritora e psicanalista Livia Garcia-Rosa, Luiz Alfredo permanece morando em sua cidade natal. O enredo de “O Silêncio da Chuva” começa com um suicídio. Ricardo Fonseca de Carvalho, diretor-executivo da Planalto Minerações, entra em seu carro. É final de tarde e a personagem encerrou mais um expediente de trabalho. O veículo está na garagem do edifício da Planalto Minerações no centro do Rio de Janeiro. Ao invés de dar a partida no automóvel e voltar para sua casa, Ricardo fuma um cigarro e dá um tiro em sua cabeça. Para ninguém saber que sua morte foi um suicídio, o executivo de 42 anos deixa no banco ao lado uma carta e uma mala com 20 mil dólares. A carta é direcionada aos policiais que irão investigar o ocorrido. Nela, o morto oferece dinheiro para os investigadores sumirem com a arma e simularem um assassinato ao invés de um suicídio. Só assim, a esposa de Ricardo, Bia Vasconcelos, poderá receber o seguro de vida dele, avaliado em um milhão de dólares. Contudo, antes da chegada dos policiais na cena do crime, Max, um assaltante pé-rapado, encontra o executivo morto na garagem do prédio. O bandido, que estava perambulando pelo local, rouba a carteira do falecido, a mala com o dinheiro e a arma. Na correria, ele também leva a carta. Assim, quando o Inspetor Espinosa chega à garagem algumas horas depois, a impressão que ele tem é que um crime fora praticado ali. A hipótese de suicídio parece ser a menos provável. Inicia-se a investigação do caso. Para Espinosa, um policial honesto, solitário e bastante melancólico de 42 anos, os principais suspeitos são a esposa do executivo, uma renomada designer internacional, e alguns diretores da Planalto Minerações. Ao lado de seu assistente, o jovem Welber, o inspetor começa a investigação criminal. Enquanto isso, Max, que mora em um barraco com a irmã em uma favela carioca, descobre a intenção de Ricardo de Carvalho de deixar uma bolada para a família (entenda-se a esposa, a única beneficiada pelo seguro milionário). Por isso, o bandido telefona para Rose Chaves Benevides, a secretária do falecido na Planalto Minerações, para chantageá-la. Se Max não receber uma parte da bolada, ele enviará a carta para a empresa de seguros. Nesse caso, ninguém ganhará dinheiro nenhum (suicídio não é contemplado nos contratos de seguro de vida). Rose percebe uma oportunidade excelente para também lucrar com a situação e entra no esquema de chantagem. A dupla Max e Rose vão exigir de Bia Vasconcelos uma parte no prêmio do seguro. Quando Rose se dirige para a casa da esposa de Ricardo de Carvalho para comunicá-la da chantagem, a funcionária da empresa de mineração desaparece misteriosamente. O sumiço intriga o Inspetor Espinosa. Para o policial, é óbvio que esse fato está relacionado com a morte do executivo. Para piorar ainda mais a situação, Max, que fora identificado alguns dias depois do “assassinato” como o portador da arma do crime, também desaparece sem deixar rastros. Na concepção de Espinosa, o assassino está eliminando as testemunhas. É o início de uma trama intricada e recheada de reviravoltas. O mistério é saber quem está envolvido com os sumiços de Rose e de Max. Além disso, Bia Vasconcelos e seu amigo, Júlio Campos de Azevedo, um arquiteto que estava dando em cima da viúva, começam a ser seguidos e ameaçados. Quem é o responsável pelos crimes desencadeados pela morte de Ricardo de Carvalho?! O Inspetor Espinosa e seu assistente terão muito trabalho para descobrir o que está acontecendo. “O Silêncio da Chuva” é um romance policial de tirar o fôlego. O suspense permeia toda a sua trama e fica ainda mais eletrizante em seu desfecho. Aí será impossível interromper a leitura do livro. Luiz Alfredo Garcia-Roza demonstra ser um escritor talentosíssimo e bastante criativo. “O Silêncio da Chuva” é um dos melhores thrillers criminais que li nos últimos anos. Esta obra possui 266 páginas e está dividida em três partes. Na primeira, a narrativa é em terceira pessoa (narrador observador que acompanha todas as personagens). Na segunda parte, temos o relato em primeira pessoa feito pelo protagonista, o Inspetor Espinosa. E na última, voltamos à narrativa em terceira pessoa (mais uma vez o narrador observador trafega pelos diferentes cenários com liberdade). A escolha de dois focos narrativos distintos torna o romance mais emocionante e potencializa seu suspense. Afinal de contas, sabemos algumas coisas que o Inspetor Espinosa não sabe, mas também desconhecemos os elementos principais dos crimes perpetrados (como a identidade do responsável pelas várias mortes). A primeira surpresa que o leitor tem é perceber que o mistério inicial do livro (como os policiais envolvidos na investigação descobrirão que Ricardo se suicidou e que há um plano de chantagem perpetrado por Max e Rose?) não é o que realmente alimenta a trama do romance. Há novos mistérios até mesmo mais emocionantes que vão surgindo à medida que os capítulos vão se desenrolando. Ou seja, “O Silêncio da Chuva” é uma narrativa com várias facetas, todas elas empolgantes. O leitor precisará avançar na leitura do livro para descobrir qual é o conflito principal (mais um mistério ofertado por Garcia-Roza). Admito que não consegui parar de ler esse livro quando cheguei à sua metade. Como li a obra no final da tarde, acabei precisando entrar na madrugada com o mistério a atiçar minha curiosidade. E o final do livro não decepciona. Pelo contrário: o desfecho da trama torna o romance ainda mais interessante. Há muitas cenas de ação no terço final da história que tornam a obra eletrizante. E há uma cena antológica, que brinda o leitor pela sua originalidade, pela crueldade e pela ousadia narrativa. Não posso dizer mais nada para não estragar a experiência de leitura (só digo que ela envolve uma cena de sexo com um desfecho incomum). O que mais gostei foi do desfecho surpreendente que o romance apresenta. Curiosamente, não desconfiei de quem é o principal vilão do livro, por mais óbvio que ele (ou seria ela?) pareça. “O Silêncio da Chuva” é o tipo de romance policial que deixa várias pistas no meio do caminho, mas que o leitor acaba ignorando. Eu pelo menos fui enganado completamente, o que reforça ainda mais a tese do quão impecável é a narrativa e o trabalho de seu autor. E mesmo enganado, reconheço que o final é bastante lógico (totalmente condizente com os fatos narrados ao longo de toda a obra). Não espere encontrar em “O Silêncio da Chuva” novas peças do quebra-cabeça no instante final, que mudam completamente o entendimento da trama. Garcia-Roza é coerente do início ao fim com sua história e com seus leitores. Isso é o mais legal de ser enaltecido. Gostei também da intertextualidade literária. Apesar de ser um recurso um tanto convencional dos romances policiais, ele é bem explorado neste livro. As leituras que a personagem principal faz durante a trama aparecem uma hora ou outra no texto. O leitor mais experiente notará a série de referências literárias deixadas ao longo das páginas por Luiz Alfredo Garcia-Roza. Outro aspecto elogiável de “O Silêncio da Chuva” é a construção de suas personagens. Temos uma variedade de figuras fortes e contraditórias, o que só alimenta a dúvida de quem está lendo a obra (afinal, quem é o responsável pelos crimes, hein?). Com exceção do protagonista (um policial sério e honesto), todas as demais personagens são pessoas dúbias e com algum ponto a levantar suspeita. Incrível como Garcia-Roza conseguiu compor um quadro tão rico como este. Minha única decepção com “O Silêncio da Chuva” está relacionada às características do Inspetor Espinosa. Apesar de muitíssimo carismático, o protagonista do romance (ou melhor, dos romances de Luiz Alfredo Garcia-Roza) é um policial muito parecido ao que encontramos em muitas obras do gênero. Para mim, faltou certa dose de originalidade na construção do perfil do investigador. Em alguns momentos, lembrei do Comissário Mattos, de “Agosto” (Companhia das Letras), romance de Rubem Fonseca. Tanto Espinosa quanto Mattos são honestos, solitários, melancólicos e apaixonados pela literatura e pela música. E ambos não têm bons relacionamentos com os demais profissionais de suas corporações. Nesse sentido, qual a originalidade do Inspetor Espinosa? Nesse livro não é possível identificar uma resposta elucidativa para essa questão. Minha esperança é que ela apareça nos demais livros protagonizados por essa personagem. Apesar desse detalhe sobre o seu protagonista, “O Silêncio da Chuva” pode ser sim classificado como um romance impecável. Acredito que ele agrade tanto os apaixonados pelas narrativas policiais quanto os leitores desejosos de um bom thriller. Depois desta leitura, também passei a reforçar o coro de quem coloca Luiz Alfredo Garcia-Roza como um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Como um apreciador dos romances policiais, fiquei fã da literatura do autor carioca. Quem saiba não analise mais obras suas no Bonas Histórias nos próximos meses, hein? Vontade não me falta. Admito ter ficado bastante curioso para saber os passos seguintes de Espinosa e de Welber. 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- Livros: Assassinato no Expresso Oriente – O mais vendido de Agatha Christie
Em junho de 2016, a escritora analisada no Desafio Literário foi Agatha Christie, a autora mais vendida da história. Naquela oportunidade, estudamos no Bonas Histórias cinco romances da Rainha do Crime, como a inglesa foi apelidada pelos críticos literários e pelos leitores. Tais obras foram: “E Não Sobrou Nenhum” (Globo), "Cai o Pano" (Nova Fronteira), "O Assassinato de Roger Ackroyd" (Globo), "Morte na Mesopotâmia" (Nova Fronteira) e "O Inimigo Secreto" (Record). Apesar de ter me divertido com as leituras dessa lista, admito que senti falta de um livro em particular. “Assassinato no Expresso Oriente” (L&PM Pocket), um dos maiores sucessos de Christie, acabou preterido por mim há três anos e meio. Isso aconteceu porque em 2016 o Desafio Literário contemplava apenas cinco leituras (atualmente são seis). É natural que alguns títulos importantes da escritora tenham ficado de fora da coletânea analisada. Ainda sim lamentei a ausência de “Assassinato no Expresso Oriente”. Para corrigir essa pequena falha da minha parte, resolvi ler agora este romance. Publicado em janeiro de 1934 na Inglaterra e em fevereiro daquele ano nos Estados Unidos, “Assassinato no Expresso Oriente” é o livro mais vendido de Agatha Christie. Apenas no ano de seu lançamento, ele vendeu três milhões de unidades. Trata-se de um feito extraordinário para o mercado editorial da década de 1930. Naquele momento da história, Christie já era uma escritora best-seller mundial. Suas obras eram traduzidas para dezenas de idiomas e eram vendidas nas livrarias dos quatro cantos do planeta. Importante salientar que a partir de 1930, Agatha Christie já tinha entrado na fase das tramas internacionais de seu principal protagonista, o detetive Hercule Poirot. O belga, assim como sua escritora, viajava o planeta para elucidar os crimes que aconteciam fora da Europa. No caso de Christie, seu segundo marido era um arqueólogo inglês que precisava viajar pelo mundo a trabalho. Ela o acompanhava e aproveitava os cenários recém-conhecidos para compor as narrativas de seus romances policiais. Curiosamente, o casal se conheceu no interior do trem do Expresso Oriente, em uma viagem para Bagdá em 1930. “Assassinato no Expresso Oriente” foi, portanto, produzido no meio de uma das viagens da autora inglesa pela Ásia. A obra foi escrita quando Christie ficou hospedada em um hotel em Istambul. Da janela de seu quarto, ela tinha visão para o terminal ferroviário da cidade turca. Para homenagear a escritora famosa que se hospedou ali, o hotel mantém até hoje um pequeno memorial no quarto usado por ela. O sucesso de “Assassinato no Expresso Oriente” acabou levando sua história inúmeras vezes para as telas do cinema e para os palcos dos teatros. O primeiro filme adaptado deste romance de Christie é de 1974. Essa produção inglesa foi dirigida por Sidney Lumet e teve Albert Finney no papel de Hercule Poirot. Em 2017, a adaptação mais recente do livro foi dirigida por Kenneth Branagh, que também acumulou a interpretação do mais famoso detetive da história da ficção policial. O que transformou “Assassinato no Expresso Oriente” no maior sucesso comercial de Agatha Christie foi uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, temos mais um romance com final surpreendente da autora inglesa. Porém, "O Assassinato de Roger Ackroyd", “E Não Sobrou Nenhum” e "Cai o Pano" também tinham, alguém pode questionar. É verdade. Por isso, não digo que o desfecho inusitado seja o único fator que explica o êxito desta obra. O segundo motivo é sua incrível ambientação. A história se passa no Expresso Oriente, o mais luxuoso trem de passageiros que ligava a Ásia à Europa. Inaugurada em 1883 e com mais de três mil quilômetros de extensão, essa linha ia de Paris à Istambul, na Turquia, e era usada habitualmente pelos milionários e pela nobreza europeia. É inegável o charme de uma trama ambientada em um trem histórico e com tanto requinte. Outro fator que pode explicar a popularidade de “Assassinato no Expresso Oriente” está no debate moral que sua trama suscita. O homem assassinado no trem era um serial killer odiado por todo mundo e procurado pela polícia. Sob esse ponto de vista, seria correto identificar e prender alguém que teria matado uma pessoa tão monstruosa? É certo fazer justiça com as próprias mãos quando a polícia não age rápida e certeiramente?! Essas questões são atemporais e ainda hoje promovem intensos debates. Por isso, o comportamento de Hercule Poirot e o desfecho do romance são tão polêmicos (e geniais quando inseridos em uma narrativa ficcional). Curiosamente, este livro de Agatha Christie usou um episódio real ocorrido nos Estados Unidos em 1932. O sequestro de uma menina de uma família riquíssima e muito conceituada sensibilizou o país inteiro e foi noticiado com estardalhaço na Europa. A escritora inglesa usou esse fato verídico para contextualizar sua narrativa e construir o perfil do homem assassinado. Ou seja, Christie criou alguns romances de finais surpreendentes. Também construiu narrativas ambientadas em locais extremamente charmosos. Além disso, alguns dos seus livros levantaram questionamentos morais sobre o comportamento das personagens. Para completar, a autora usou, ao longo de sua carreira, várias passagens reais para compor suas tramas ficcionais. A beleza e a força de “Assassinato no Expresso Oriente” estão justamente na reunião desses elementos em um único título. Ao menos é essa a explicação que esboço para o sucesso impressionante desta obra. O enredo deste livro se passa quase que integralmente no interior do Simplon Expresso Oriente, o luxuoso trem da Compagnie Internationale des Wagons Lits. A viagem começou em Istambul, na Turquia, e iria até Calais, na França. Na estação de Haydapassar, cidade turca, Hercule Poirot embarca no trem. Algumas horas antes, ele tinha recebido uma carta solicitando que voltasse imediatamente para a Europa. O detetive belga era requisitado para mais uma investigação no Velho Continente. Assim, ele interrompe as curtas férias na Ásia, onde fora para resolver um caso criminal, e parte imediatamente para sua terra natal. Por uma coincidência absurda, o Simplon Expresso Oriente está lotado naquele dia. Inexplicavelmente, todos os vagões do trem estão ocupados. A sorte de Poirot é que seu amigo Monsieur Bouc, diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits, estava presente no comboio e não deixou que o detetive ficasse na mão. Com jeitinho, ele conseguiu encaixar o belga no trem e a viagem prosseguiu com Hercule Poirot a bordo. Entre Viscovci e Brod, na Iugoslávia, uma nevasca obriga o trem a parar em plena madrugada. Pelo horário avançado, alguns passageiros notam a paralização da linha e outros não. Ao acordar na manhã seguinte, Hercule Poirot é chamado na cabine de Monsieur Bouc. Ali, o diretor da companhia férrea informa ao amigo que um assassinato aconteceu justamente naquela madrugada no interior do trem. A vítima é um norte-americano chamado Samuel Edward Ratchett. Na fatídica noite, o ricaço estava acompanhado por um secretário, por um lacaio e por um detetive particular que era o responsável por zelar pela sua segurança. Atendendo ao pedido de Bouc, Poirot passa a investigar o ocorrido. O belga terá ao seu lado o Dr. Constantine, um médico grego que é amigo de Monsieur Bouc, e o próprio diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits na missão de descobrir quem entre os passageiros e a tripulação do trem teria matado o Sr. Ratchett. “Assassinato no Expresso Oriente” é realmente uma leitura eletrizante. Se ele peca na maior parte do tempo pela inverossimilhança de sua trama (difícil crer na viabilidade de uma história assim fora da ficção e nas descobertas improváveis de Poirot), por outro lado o livro mantém o clima de suspense do início ao fim. Li (ou seria devorei?) este romance em duas noites. Comecei “Assassinato no Expresso Oriente” na quinta-feira à noite e na madrugada de sexta para o sábado já o tinha concluído. Gostei muito de seu conteúdo, mas não o achei a melhor obra de Agatha Christie. Para mim, "O Assassinato de Roger Ackroyd" continua inigualável. “E Não Sobrou Nenhum” e "Cai o Pano", por exemplo, também são melhores do que esta publicação. Com 272 páginas, “Assassinato no Expresso Oriente” é dividido em três partes. Essas seções podem ser classificadas como: (1) contextualização e crime, (2) investigação/depoimentos e (3) análise/conclusão. Na segunda parte, a maior da obra em número de páginas, praticamente cada capítulo é dedicado ao depoimento de um dos possíveis assassinos. São ao todo doze suspeitos entre passageiros e profissionais que trabalhavam no trem. Mais uma vez, não consegui descobrir o assassino de um caso de Hercule Poirot. Quem acompanhou o Desafio Literário de Agatha Christie do Bonas Histórias em 2016 lembrará que continuo zerado nessa missão. Nunca identifiquei o criminoso em um romance de Christie. Sempre acho que estou no caminho certo, mas aí nos três ou quatro capítulos finais descubro estarrecido que estou totalmente errado... No caso de “Assassinato no Expresso Oriente”, somente uma mente insana (como a do detetive belga) poderia supor algo tão estrambólico como o desfecho deste romance. Apesar do final inimaginável e um tanto forçado, gostei bastante deste livro. Agatha Christie se superou mais uma vez ao criar uma história extremamente original e com um desenlace inimaginável. Por falar em Poirot, temos o principal protagonista dos romances policiais de Agatha Christie vivendo o auge de sua carreira de detetive. Ele é experiente na profissão e é extremamente famoso, sendo reconhecido por algumas das personagens do trem. A maturidade permite que o belga domine a arte da investigação criminal como poucos. Assim, ele não cai na manipulação das provas deixadas pelo(s) assassino(s) e, ainda por cima, pode ensinar seus métodos aos amigos, neste caso, Monsieur Bouc e o Dr. Constantine. O fato de termos um trio de investigadores torna o romance mais didático. Hercule Poirot explica para os amigos o passo a passo de seu raciocínio, algo que atiça ainda mais a curiosidade dos leitores. Além disso, não faltam elementos para ajudar quem está lendo o livro a compreender os acontecimentos: resumos, mapas e a planta do trem estão disponíveis. É legal também notar os detalhes do ambiente político da primeira metade da década de 1930. O leitor de “Assassinato no Expresso Oriente” visualiza no texto de Agatha Christie, por exemplo, a tensão política entre as Guerras Mundiais, a rivalidade entre as nações europeias, o caos econômico provocado pelo crash da Bolsa de Nova York, o início da ascensão dos Estados Unidos como potência mundial e o fascínio que a cultura asiática provocava na elite ocidental no primeiro terço do século XX. “Assassinato no Expresso Oriente” é um romance memorável, uma das grandes criações da história da ficção policial. Se ele peca um pouco pelo enredo estrambólico, pela sua falta de verossimilhança e pelo tom de pastelão do seu desfecho, por outro lado, ele é o exercício genuíno da criatividade de uma das maiores escritoras da literatura mundial. Cada vez mais sou fã de Agatha Christie. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AgathaChristie #LiteraturaInglesa #LiteraturaClássica #RomancePolicial
- Filmes: 1917 - A boa surpresa do Oscar 2020
Até meados de dezembro do ano passado, “Coringa” (Joker: 2019) era o grande favorito à conquista do Oscar de 2020. Para muitos críticos cinematográficos, o polêmico filme de Todd Phillips largava na frente na disputa às estatuetas de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Ator (Joaquin Phoenix). Afinal, não havia narrativa mais disruptiva, impactante e forte (leia-se ácida) concorrendo aos prêmios desta edição. Por isso, foi uma grande surpresa quando, no início de janeiro, “1917” (2019), longa-metragem anglo-estadunidense sobre a 1ª Guerra Mundial, levou para casa os principais prêmios do Globo de Ouro, uma espécie de prévia do evento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. “1917” ganhou os prêmios nas categorias Melhor Filme Dramático e Melhor Diretor. De uma hora para outra, o favoritismo ao Oscar se invertia completamente. Interessado em conhecer a nova menina dos olhos da crítica cinematográfica, fui ao Espaço Itaú de Cinemas no final de semana retrasado para conferir “1917”. Minha dúvida era se esta produção conseguia superar o filme de Todd Phillips em qualidade e em força narrativa. Confesso que saí da sessão de cinema de “1917” bastante impressionado (positivamente) com o que vi. Se a história em si de “Coringa” me parece mais impactante e recheada de nuances psicológicos, “1917” é, como produção cinematográfica, uma experiência mais ousada e completa. O drama épico ambientado no início do século XX apresenta um conjunto variado de inovações na arte de filmar: takes longos, quase sem cortes, câmera com movimentações inacreditáveis, ausência quase que absoluta de trilha sonora, fotografia impecável e clima permanente de tensão do início ao fim. O uso desses recursos é digno de intermináveis elogios. Na certa foi isso o que encantou o júri do Globo de Ouro e que pode arrematar os corações dos jurados do Oscar deste ano. Lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra em dezembro do ano passado, “1917” chegou aos cinemas brasileiros e nos demais países no final de janeiro. Por aqui, sua estreia aconteceu mais precisamente em 23 de janeiro. Com orçamento de US$ 100 milhões, o longa-metragem foi dirigido, produzido e roteirizado por Sam Mendes, diretor de “Beleza Americana” (American Beauty: 1999), “Estrada para Perdição” (Road to Perdition: 2002) e “007 - Operação Skyfall” (Skyfall: 2012). É verdade que Mendes contou com a colaboração de Krysty Wilson-Cairns na produção deste roteiro. No elenco principal de “1917”, curiosamente, não temos nenhum nome tão conhecido do grande público: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth e Benedict Cumberbatch. A história deste filme é aparentemente real. Ela foi contada a Sam Mendes por seu avô paterno, Alfred Mendes, que participou ativamente da 1ª Guerra. Alfred, que trabalhou depois como romancista, ouvira de colegas da sua época de soldado que dois cabos britânicos precisaram, em plena sangrenta disputa de trincheiras, avançar sozinhos para o lado inimigo. Nessa missão quase suicida, a dupla precisava enviar uma mensagem urgente para um batalhão avançado. Vendo o potencial de uma trama como esta, o cineasta inglês resolveu filmar as memórias do avô. É claro que Sam deu uma mexidinha aqui e outra ali na história para deixá-la mais interessante. A aprovação do projeto do filme ocorreu em junho de 2018. Dez meses depois, as filmagens começaram. Por dois meses, a equipe rodou as imagens na Inglaterra e na Escócia (apesar da história em si se passar na França). O enredo de “1917” começa em 6 de abril do ano que dá título à produção. Naquela Primavera, os alemães, depois de três anos de guerra de trincheiras, resolveram se retirar da chamada Linha Hindenburg, que dividia os campos inimigos no norte da França. Porém, os Aliados não perceberam imediatamente esse recuo. Por isso, os cabos William Schofield (interpretado por George MacKay) e Tom Blake (Dean-Charles Chapman), integrantes do Oitavo Batalhão, são surpreendidos com uma ordem dada diretamente pelo General Erinmore (Colin Firth). A dupla deveria avançar sozinha pela linha inimiga para enviar uma mensagem para o Segundo Batalhão do Regimento de Devonshire. Na carta que os soldados carregavam estava a ordem do general para cancelar o ataque da manhã seguinte. Se eles não chegassem a tempo, 1.600 homens do Exército Aliado seriam massacrados pelos alemães, que prepararam uma emboscada contra os inimigos naquela região francesa. A missão está, sem dúvida nenhuma, fadada ao fracasso. Os dois soldados britânicos sabem disso. Contudo, Tom Blake não se importa de colocar sua vida em risco. Seu irmão mais velho, o tenente Joseph Blake (Richard Madden), está servindo ao Segundo Batalhão e na certa será um dos mortos se a mensagem não chegar ao seu destino. É com o propósito de salvar o familiar e os colegas dele que Tom incentiva William, seu amigo, a seguirem juntos pelas linhas adversárias. Para piorar ainda mais a situação já delicadíssima da dupla, eles têm poucas horas para concluir sua missão. William Schofield e Tom Blake saem à tarde da sua trincheira e precisam chegar antes do amanhecer seguinte à floresta francesa onde estão os soldados do Segundo Batalhão. Além de enfrentarem os inimigos remanescentes, o desconhecimento do novo território e as armadilhas deixadas pelos alemães, os dois cabos precisam percorrer parte do caminho na escuridão tenebrosa da noite. É ou não é uma missão quase impossível?! Com duas horas de duração, “1917” é o melhor filme de guerra que já assisti. Juro que pensei quando estava entrando na sala de cinema: lá vem mais um longa-metragem bélico igual a tantos outros. Na certa, este será muito parecido a “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan: 1998), “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds: 2009), “Apocalypse Now” (1979), “Platoon” (1986), “Fomos Heróis” (We Were Soldiers: 2002) ou “Até o Último Homem” (Hacksaw Ridge: 2016). Não! Pensar assim foi um ledo engano de uma alma pessimista que até então estava torcendo avidamente por “Coringa” no próximo Oscar. “1917” não é igual a nenhum exemplar de seu gênero. Para começo de conversa, o grande mérito do novo filme de Sam Mendes está na maneira como sua história foi contada e, principalmente, na forma como sua produção foi filmada. Usando longos takes, quase sem cortes aparentes, a impressão que o espectador tem é de estar vendo uma única cena. Incrível esse recurso! A sensação é de estarmos acompanhando a dupla de protagonistas em tempo real. Juro que não sei como o cineasta conseguiu realizar essa proeza, mas que ela é fabulosa isso é! A cena inicial é um bom exemplo dessa ousadia (que permanece até o final). Em meio ao caos das trincheiras do Exército Aliado, Schofield e Blake caminham por um bom tempo sem que ocorra qualquer corte na cena. Eles têm como companhia inseparável uma câmera ligeira e com movimentos inusitados. Por falar em câmera, repare na sua atuação (ela quase se torna uma personagem do longa-metragem). Sua agilidade e mobilidade são um capítulo à parte em “1917”. Tanto em ambientes claustrofóbicos como nas trincheiras quanto no descampado do interior francês, ela segue os protagonistas de um jeito um tanto peculiar. Sua proximidade cria um ar de intimidade com os soldados e sua movimentação potencializa o suspense e o drama retratados no filme. A câmera se desloca velozmente para todos os lados (sobe, desce, vai para a direita, vai para a esquerda, dá looping, recua, etc.). Grande parte da exuberante experiência visual que o público tem com esta produção passa diretamente pelo tipo de câmera escolhido (e pela ausência de cortes nas cenas). A fotografia de “1917” também precisa ser muito elogiada. A recriação do clima histórico do início do século XX, o ambiente aterrorizante e insalubre dos campos de batalha, as escolhas acertadas para a filmagem noturna e as cenas de batalhas são primorosos. Junto com a fotografia, é preciso fazer menção honrosa ao figurino e à maquiagem. Esse trio (fotografia, figurino e maquiagem) permite que as inovações promovidas pela câmera e pela ausência de cortes potencializem o drama das personagens. Simplesmente ESPETACULAR! Note que boa parte do filme de Sam Mendes não possui trilha sonora. Esse expediente aumenta ainda mais a tensão dramática do longa-metragem, em um novo acerto do cineasta. Por falar em tensão, prepare-se para ficar com o coração na mão por quase duas horas. Desde a primeira cena, “1917” cria um clima de suspense, terror e angústia que não se dissipará mais. Somente quando as letrinhas dos créditos subirem na tela, o público poderá respirar minimamente aliviado. Por isso, é preciso sangue-frio para acompanhar esta aventura. O mais legal é que não faltam surpresas nem sustos. Confesso que dei alguns pulos da poltrona e soltei alguns gritos de desespero na sala de cinema (espero que ninguém tenha percebido). O elenco também não se sai nada mal em “1917”. Meu destaque vai para o jovem George MacKay. O britânico de 27 anos consegue transmitir, ao mesmo tempo, o pânico de estar em um campo de batalha (repare em seus olhares de medo) e a perseverança dos destemidos (repare em sua postura corporal altiva). É incrível acompanhar a transformação de sua personagem ao longo do filme (jornada do herói). Daqui para frente, MacKay deverá receber mais papéis de protagonista do que de coadjuvante, invertendo a lógica de sua carreira até aqui. Como protagonista estreante de uma grande produção do cinema internacional, ele se saiu muitíssimo bem. Até mesmo a inverossimilhança típica das tramas épicas em que nada de grave parece acontecer com o herói é minimizada com detalhes formidáveis e extremamente humanos da rotina no campo de batalha. A cena em que os soldados britânicos enaltecem a tecnologia das trincheiras e dos armamentos alemães é uma prova disso (a grama do vizinho sempre é mais verde, independentemente da situação). Outra é quando William Schofield é salvo por Tom Blake de uma explosão. As conversas corriqueiras e banais da dupla de cabos do Exército Aliado, enquanto percorrem sozinhos o território inimigo, ajudam na construção do clima de realidade nua e crua. Nada mais humano do que dois jovens conversarem e fofocarem sobre coisas do dia a dia, mesmo em plena guerra. Em suma, quem é melhor: “Coringa” ou “1917”? Vamos aos fatos. Como história em si, “Coringa” é muito mais interessante do que “1917”. Acompanhar o drama genuíno do vilão de Batman, vítima da violência e do bullying da sociedade, é uma experiência narrativa mais rica. Agora, quando olhamos para ambas as produções pela perspectiva da estética cinematográfica, o filme de Sam Mendes bate tranquilamente o de Todd Phillips. “1917” é uma experiência visual muito mais original e impactante. O público fica extasiado com o que vê na tela. Nunca duas horas passaram tão rapidamente quanto na sala de cinema de “1917”. Assim, não dá mais para torcer por “Coringa” sabendo das qualidades absurdas de um concorrente melhor tecnicamente. Parece um tanto óbvio, agora, quem irá levar as estatuetas de Melhor Filme (“1917”) e Melhor Direção (Mendes). Restará para “Coringa” as chances de prêmio em Melhor Roteiro Original (Todd Phillips) e Ator (Joaquin Phoenix). Assista, a seguir, ao trailer de “1917”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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- Livros: Opisanie Swiata – O premiado romance de Veronica Stigger
Quando lançou, em 2013, “Opsianie Swiata” (Cosac Naify), seu romance de estreia, Veronica Stigger já era uma das mais criativas escritoras brasileiras. Contudo, sua fama estava, naquele momento, restrita às narrativas curtas, gênero narrativo em que a autora sempre se identificou mais. “O Trágico e Outras Comédias” (7Letras), de 2004, “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify), de 2007, e “Os Anões” (Cosac Naify), de 2010, são coletâneas de contos que se destacam pelo experimentalismo estético e pelo tom anárquico de seus textos. “Os Anões”, por exemplo, já foi analisado no Bonas Histórias em 2018. Na época, fiquei tão encantado com a literatura praticada por Stigger (considerei esse livro uma das coletâneas de contos e minicontos mais inovadoras dos últimos anos) que coloquei “Opsianie Swiata” na minha lista de leitura. Ou seja, há certo tempo estava com vontade de conhecer o que é considerada a principal obra desta escritora. Como só agora consegui ler o romance (nada como a tranquilidade do começo de ano, né?), aí vai o post com a análise crítica que eu estava me cobrando. “Opsianie Swiata” conquistou alguns dos principais prêmios literários do país. Ele levou o Prêmio Machado de Assis de 2013 como o melhor romance do ano, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2014 na categoria Melhor Romance de Escritor Estreante Acima de 40 anos e recebeu o Prêmio Açorianos de 2014 como a Melhor Narrativa Longa da temporada. Nada mal para quem estreava nos romances, hein? A partir de “Opsianie Swiata”, enfim, Stigger passou a ser vista não apenas como uma grande contista, mas também como uma talentosa romancista/novelista. Em 2016, ela lançou seu quinto livro, “Sul” (Editora 34), uma obra híbrida que mistura conto, teatro e poesia em mais uma de suas criações ousadas e inusitadas. Veronica Stigger nasceu em Porto Alegre, mas vive há anos na cidade de São Paulo. Além de escritora, ela é jornalista, crítica de arte, pesquisadora acadêmica e professora de oficinas literárias. Em 2018, eu a conheci no curso de Pós-Graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, onde ela leciona e onde estudei. Além de ótima escritora, posso assegurar que ela é excelente professora e é também muito gente boa. O enredo de “Opsianie Swiata” se passa no final da década de 1930 e aborda uma viagem da Europa para a América do Sul. Natanael, um jovem de trinta anos que vive na Amazônia e que está à beira da morte, escreve uma carta para seu pai. O rapaz pede uma visita ao hospital o mais rápido possível, antes que seja tarde. Opalka, o pai de Natanael, é um senhor polonês com aproximadamente sessenta anos de idade que viveu no Brasil no início do século XX. Sem saber, ele engravidou uma brasileira antes de retornar para seu país natal. Só agora, ao receber a carta do filho desconhecido, Opalka ficou ciente de sua paternidade. Por isso, aceitou realizar às pressas a viagem da Polônia para Manaus. Ele quer conhecer Natanael. O deslocamento de Opalka, o protagonista do romance, é feito primeiramente de trem (da Polônia até um porto na costa mediterrânea) e depois de navio (da Europa para o Brasil). Logo no início da jornada, o polonês conhece Boop, um extrovertido e atrapalhado viajante brasileiro que já percorreu boa parte do planeta em suas andanças. Os dois fazem amizade e realizam juntos a viagem até Manaus. Para tal, Boop aceita interromper seu giro pela Europa para acompanhar o novo amigo no desafio de conhecer o filho doente. Esta trama é basicamente uma crônica divertida e ficcional desta viagem intercontinental. Veronica Stigger apresenta várias personagens secundárias e algumas pequenas histórias ocorridas tanto no trem quanto no navio em que Opalka e Boop utilizaram. Dessa maneira, o leitor acompanha de perto o dia a dia dos viajantes em seus deslocamentos. “Opsianie Swiata” é um livro curto. São 158 páginas distribuídas em uma diagramação bem generosa. Por isso, sua leitura é extremamente rápida. Concluí seu conteúdo em aproximadamente duas horas e meia no último sábado à tarde. Apesar de ter concorrido a vários prêmios literários como romance e ter sido classificado assim pela escritora e por sua editora, “Opsianie Swiata” pode ser visto também como uma novela pelo seu tamanho mais reduzido. Ao menos para mim, trata-se muito mais de uma narrativa média (novela) do que longa (romance). Porém, respeito a definição dada por Stigger e pela Cosac Naify. Quem sou eu para questioná-los? A obra, cujo título significa “Descrição do Mundo” em polonês (juro que não faço a mínima ideia de como se pronuncia Opsianie Swiata), faz referência direta ao livro mais famoso de Marco Polo, “As Viagens” (Martin Claret). A obra do viajante italiano foi traduzida para o polonês justamente como Opsianie Swiata. O nome do protagonista do livro de Stigger é uma homenagem a um pintor polonês, Roman Opalka, que ela estudou em seus projetos acadêmicos. Curiosamente, Roman Opalka tem uma série de pinturas intitulada Opsianie Swiata. Esta publicação da escritora gaúcha é uma espécie de romance histórico inspirado na literatura modernista brasileira, principalmente a da primeira fase ocorrida na década de 1920. Nota-se a forte influência do cubismo, do futurismo e do surrealismo, além da relação com o trabalho de Oswald de Andrade e Mário de Andrade. A ideia para escrever este livro surgiu do marido de Verônica, o poeta e crítico literário Eduardo Sterzi. Foi ele quem sugeriu que a esposa escrevesse um romance que iniciasse na Polônia e terminasse na Amazônia brasileira. Empolgada com a ideia, Stigger colocou a mão na massa e por seis anos concebeu os detalhes desta história. Por mais paradoxal que seja, o que faz de “Opsianie Swiata” uma obra sublime não é propriamente sua trama. Até porque seu enredo é bem simples (um europeu recebe a carta de um filho moribundo e viaja para o Brasil para conhecê-lo). O que torna este romance/novela espetacular é a forma com que a autora encontrou para narrá-lo(a). Aí está o brilhantismo e a criatividade de Veronica Stigger. Ela produz textos multifacetados que conversam maravilhosamente entre si e que, ainda por cima, possuem finalidades estéticas bem definidas. Por exemplo, em “Opsianie Swiata” temos quatro linhas narrativas entrelaçadas: as cartas trocadas entre pai e filho, o relato em terceira pessoa da viagem de Opalka e Boop, os comentários em primeira pessoa de Opalka sobre sua jornada e as anotações pessoais de Boop em seu caderno. Para completar, ainda vemos anúncios publicitários da década de 1930, fotos de viagens marítimas da época e pequenas mensagens avulsas, que podem ser informativos do navio e dicas gerais para os viajantes de primeira viagem. O mais interessante é que o livro ainda tem um projeto gráfico impecável. Cada parte da narrativa possui uma identidade visual própria, o que ajuda o leitor na navegação de sua leitura. Essa identidade visual é feita principalmente pelas cores das folhas das páginas. Praticamente cada seção do livro possui uma folha com uma cor específica. Juro que nunca tinha visto isso antes (nem ao menos sabia que algo assim poderia ser feito). Incrível o trabalho realizado pela Cosac Naify (só mesmo ela para produzir uma obra com tanto esmero). Mais uma vez, Stigger mostra-se competente na arte de propiciar uma experiência estética inovadora e intensa aos seus leitores. Vale a pena citar que a proposta de produzir o livro dessa maneira partiu da própria escritora, ciente da importância do projeto gráfico para sua realização literária. Outra característica forte de “Opsianie Swiata” é o seu bom humor (uma característica da literatura e da personalidade de Veronica). A trama é muito divertida, com personagens, cenas e situações cômicas. O lado bem-humorado do livro vai do humor negro ao crítico, passando pelo escrachado. Bopp é sem dúvida nenhuma a figura mais hilária da obra. Suas vestimentas, seu comportamento, seus hábitos e seu jeito de falar rendem boas risadas. A contradição entre a proposta aparentemente séria e histórica da trama com seu enredo cômico é outra questão que chama a atenção durante a leitura. Veronica Stigger é engraçada sem almejar parecer ser. Sabe aquele cara que é divertidíssimo, mas mantém a seriedade o tempo todo, como se não quisesse demonstrar seu lado bem-humorado? Pois bem, se fosse uma pessoa, “Opsianie Swiata” na certa seria assim. Também gostei das pitadas de erotismo que o romance/novela acrescenta. Em algumas situações, a viagem de navio pelos oceanos é apenas uma desculpa esfarrapada para as pessoas lançarem-se em orgias com desconhecidos de toda a parte do planeta. Note, nesse sentido, a ironia da classificação dos passageiros da primeira classe e da classe turística, além da distinção entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não creem no divino. Hilário! Você pode gostar ou não gostar da história de “Opsianie Swiata”, mas na certa ficará impressionado positivamente com a experiência de leitura que ele provoca. Só por isso, sua leitura vale a pena. Cada vez que leio algo de Veronica Stigger fico mais encantado com sua criatividade e com a força de sua literatura. Ela sabe ousar, transformando seus textos em verdadeiras obras de arte. Minha próxima leitura dela já está anotada. Será o “Sul”. Aguardem que em um futuro próximo postarei os comentários sobre essa obra no Bonas Histórias. Poderei demorar um pouco, como aconteceu com “Opsianie Swiata”, mas não esquecerei. Prometo! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Livros: Adeus, Minha Adorada – O segundo romance de Raymond Chandler
Nesta semana, li “Adeus, Minha Adorada” (L&PM Pocket), uma das obras mais famosas de Raymond Chandler. Chandler foi um dos principais romancistas policiais dos Estados Unidos. Ao lado de Dashiell Hammett, ele foi pioneiro na modernização desse gênero literário nas primeiras décadas do século XX. A dupla de escritores deu novos contornos às tramas criminais. Nascia, assim, para os olhos dos teóricos da literatura, o Romance Negro. Também chamado de Romance Noir ou Romance Brutalista, o Romance Negro é uma categoria de Romance Policial, gênero que está intimamente associado à literatura norte-americana e que é um dos grandes sucessos editoriais da literatura mundial. Para entender suas características e suas particularidades é preciso fazer uma pequena retrospectiva da história desse tipo de narrativa. O Romance Policial nasceu com Edgar Allan Poe. “Assassinatos na Rua Morgue“ (L&PM Pocket), conto publicado em 1841, teve como protagonista o detetive particular C. Auguste Dupin. Usando-se de sua extraordinária inteligência e de uma habilidade de observação surpreendente, Dupin conseguiu desvendar um crime classificado como insolúvel pela polícia. A partir do herói de Poe, os escritores subsequentes desenvolveram um tipo de narrativa policial clássica: o detetive inteligente e excêntrico que desvenda crimes a partir de um apurado senso de observação, de raciocínio lógico e, por que não, de imaginação acima da média. Conan Doyle (e seu inesquecível Sherlock Holmes), G. K. Chesterton (Padre Brown), Agatha Christie (e o famoso Hercule Poirot), Ruth Rendell (Inspetor Wexford) e Rex Stout (Detetive Nero Wolfe) foram adeptos dessa fórmula narrativa e produziram nos quase 100 anos seguintes romances que emularam a história protagonizada pelo detetive Dupin. Contudo, na década de 1920, Dashiell Hammett inverteu um pouco essa lógica ao criar a personagem Sam Spade. O detetive não era mais o herói inteligente, ético e isento de perigos. As personagens principais de Hammett, a partir de então, eram homens com graves defeitos de caráter e de comportamento, que ganhavam a vida de maneira quase marginal. As soluções para os casos criminais não vinham mais da inteligência do investigador e sim de sua cara-de-pau e de sua ousadia por meter o nariz onde não era chamado. Como consequência, a vida do detetive particular se transformou em um inferno, com um perigo a cada esquina. De grosso modo, essas são as principais características do Romance Negro, uma variação do Romance Policial Tradicional ou Clássico. Quem tiver interesse em conhecer mais sobre esses conceitos, a coluna Teoria Literária desta temporada apresentará com mais profundidade as particularidades dos Romances Policiais. Voltando ao tema do post de hoje do Bonas Histórias, Raymond Chandler foi o primeiro adepto da nova linha editorial proposta por Hammett. Entre o final da década de 1930 e o final da década de 1950, Chandler produziu sete romances noir. A maioria dessas tramas teve a atuação do detetive de Los Angeles Philip Marlowe (que em sua essência é muito parecido a Sam Spade). Ao longo de toda a segunda metade do século XX, os novos escritores policiais usaram mais as bases literárias deixadas por Hammett e Chandler do que por Poe, Doyle, Chesterton e Christie. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos Patricia Highsmith e, mais recentemente, Andrew Vachss como autores brutalistas. No Brasil, o caso mais famoso é de Rubem Fonseca. “Adeus, Minha Adorada” foi publicado em 1940, um ano depois de “O Sono Eterno” (Alfaguara), o romance de estreia de Raymond Chandler. O detetive Philip Marlowe já era o protagonista de “O Sono Eterno” e retorna à ação em um novo caso em “Adeus, Minha Adorada”. Essa personagem é considerada uma das mais importantes dos romances criminais norte-americanos, tendo influenciado gerações de detetives particulares da literatura. A produção de “Adeus, Minha Adorada” foi inspirada em três contos que seu autor já havia publicado na década de 1930: "Try the Girl", "Mandarin's Jade" e "The Man Who Liked Dogs" (nenhum deles com tradução para o português). Ao unir o drama do bandido que procurava a antiga namorada (enredo de "Try the Girl"), o mistério sobre o roubo de uma valiosa joia ("Mandarin's Jade") e o desfecho em um barco-cassino na costa de Santa Mônica ("The Man Who Liked Dogs"), Raymond Chandler costurou tudo em uma narrativa nova e maior. A amarração ficou tão bem-feita que o romance se tornou um dos mais famosos da carreira do escritor norte-americano. Com o sucesso do livro, “Adeus, Minha Adorada” foi adaptado para o cinema em duas oportunidades, em 1944 e em 1975. O primeiro longa-metragem foi dirigido por Edward Dmytryk e recebeu o mesmo nome do livro aqui no Brasil. Este filme é considerado uma das melhores adaptações cinematográficas dos romances de Raymond Chandler, sendo também apontado como um dos precursores do estilo noir no cinema. Em 1975, o diretor do remake foi Dick Richards e a produção ganhou o título, em nosso país, de “O Último dos Valentões” (Farewell, My Lovely: 1975). Além do cinema, essa história também chegou aos palcos, se tornou programas de rádio e inspirou outros enredos de filmes, como “The Falcon Takes Over” (1942). O enredo de “Adeus, Minha Adorada” se passa na região metropolitana de Los Angeles. Philip Marlowe está na frente da Florian´s, uma boate localizada em uma região barra-pesada da capital californiana. O detetive particular procura um barbeiro grego, marido de uma cliente. Após uma séria briga conjugal, a esposa expulsou o esposo de casa. Agora arrependida, ela o quer de volta. Para achá-lo, contratou Marlowe. Enquanto procura o barbeiro, o protagonista do romance é empurrado para dentro do Florian´s por um sujeito grandalhão e um tanto atabalhoado. O desconhecido, saberíamos mais tarde, é Búfalo Malloy, um cara com quase dois metros de altura e com aproximadamente 100 quilos. Malloy saiu recentemente da prisão, onde cumpriu pena de oito anos por um roubo a banco. Novamente livre, ele quer encontrar Velma, sua antiga namorada. A moça ruiva trabalhava no Florian´s quando ele foi preso. Ainda apaixonado por ela, o rapaz quer saber o paradeiro de Velma a qualquer custo. Armado, Búfalo Malloy briga com o proprietário da boate, que não sabe onde Velma está. O resultado da briga é o corpo inerte e cheio de sangue do dono do estabelecimento no chão e Malloy fugindo da cena do crime. Para Philip Marlowe, que teve a infelicidade de presenciar o assassinato, coube a burocracia de ir à delegacia de polícia como testemunha. O investigador responsável pelo assassinato no Florian´s é Nutty, um policial de Los Angeles preguiçoso que não gosta de sair de sua sala e parece estar sempre dormindo. Ao descobrir que a principal testemunha do caso é um detetive particular, Nutty incentiva Marlowe a investigar por conta própria o episódio. De má vontade, ele aceita. Apesar de não lucrar nada com isso a curto prazo, Philip Marlowe recebe a promessa do investigador que receberá sua ajuda sempre que precisar. Para um detetive particular, é sempre bom ter as portas abertas de uma delegacia próxima. A primeira pista que Marlowe encontra é o endereço da viúva de Florian, o antigo dono e fundador da boate em que o crime aconteceu. Para achar Búfalo Malloy, Philip Marlowe entende que precisará achar antes a tal Velma. Por isso, vai até a casa da Sra. Florian para saber do paradeiro da ex-namorada do assassino. Lá, ele consegue uma foto antiga da moça e alguns detalhes sobre o histórico de Malloy e Velma. Algumas noites mais tarde, Philip Marlowe é contratado para acompanhar Lindsay Marriott, um ricaço, em uma negociação perigosa com ladrões de joias. Marriott tem que levar US$ 8 mil para a quadrilha em um local ermo na região montanhosa fora da cidade. Só assim receberá de volta um colar de jade avaliado em US$ 80 mil que sua amante teve roubado. Com medo de ir sozinho, o ricaço contratou Marlowe. Na hora do encontro com os bandidos, a dupla é atacada. O detetive fica desacordado no chão e Lindsay Marriott é assassinado. Não é preciso dizer que os bandidos levaram o dinheiro todo e não devolveram a joia. Mais uma vez, Marlowe é levado à delegacia para prestar depoimento sobre um assassinato. Agora, o responsável pela investigação do novo crime é o detetive tenente Randall. Diferentemente de Nutty, Randall pede para Philip Marlowe ficar longe dessa investigação. Entretanto, o detetive particular não aceita a sugestão do policial e passa a investigar por conta própria mais esse crime. Para tal, ele conta com a ajuda de Anne Riordan, a moça que o encontrou desacordado nas montanhas de Los Angeles na noite do assassinato de Lindsay Marriott. Assim, Philip Marlowe passa a averiguar os dois assassinatos (se esquecendo do caso da mulher do barbeiro grego). À medida que as investigações vão avançando, o detetive particular descobre que há uma intrínseca relação entre o caso de Búfalo Malloy e de Lindsay Marriott. Quanto mais perto Marlowe chegar da solução dos crimes, mais sua vida correrá perigo. Tanto os policiais quanto os bandidos de Los Angeles vão querer tirá-lo da jogada. Se o detetive particular não fosse tão teimoso e obstinado, na certa teria desistido logo no início da empreitada. “Adeus, Minha Adorada” tem pouco mais de 280 páginas (na versão pocket). Concluí esta leitura em três noites. O romance é interessante principalmente para se ver o perfil do detetive Philip Marlowe, uma das grandes figuras da literatura policial norte-americana, e as características narrativas de uma das primeiras publicações noir. Só por esses dois aspectos, o livro de Raymond Chandler já valeria a pena. Trata-se de uma obra realmente muito original. Os fãs das narrativas criminais na certa vão se emocionar ao ler uma obra marcante desse gênero. No caso do protagonista, é hilário o contraste de sua personalidade com as dos detetives das tramas policiais clássicas. Marlowe trabalhou muitos anos na Promotoria Pública de Los Angeles, antes de ser demitido. Só então decidiu virar um detetive particular suburbano. Ele é alcoólatra, divertido, durão, cara de pau, solitário e está sempre metendo o nariz onde não é chamado. Por isso, está sempre apanhando dos inimigos. Com aproximadamente 1,90 metros de altura e pesando mais de 90 quilos, ele tem uma beleza que atrai as mulheres. Obviamente, Philip Marlowe não pensa duas vezes antes de levá-las para a cama. Porém, ele está sempre sem dinheiro. Como consequência, está sempre disposto a correr riscos e entrar em casos complicados por algumas dezenas de dólares. A ambientação dos romances de Chandler é marcada por cenários violentos, sombrios e perigosos e personagens marginalizadas, corruptas e desesperadas. Esqueça o glamour e o luxo das histórias de Ian Fleming. Nos romances noir, os crimes ocorrem em locais pobres, escuros e sujos. Esses ambientes com drogas, muito álcool, prostituição, trambiques, assaltos e violência fazem parte da rotina diária que os detetives particulares e os policiais precisam conviver. Ler “Adeus, Minha Adorada” (e Raymond Chandler de maneira geral) é adentrar no submundo da criminalidade de Los Angeles. Gostei também do desfecho do romance, do texto bem-humorado e da intertextualidade literária presente no material. Além de ser surpreendente, as peças deixadas soltas durante toda a trama se encaixam perfeitamente em seu desenlace, produzindo um efeito interessante à narrativa. A história é contada em primeira pessoa pelo próprio Philip Marlowe. E o detetive é uma personagem divertidíssima. Seu jeito desbocado e encrenqueiro é traduzido em um texto leve e bastante descontraído. É possível dar boas risadas enquanto assistimos à personagem principal enchendo a cara (ele bebe desde que acorda), apanhando o tempo inteiro e entrando em locais em que ele não foi chamado. Por fim, temos várias referências a outras tramas literárias. Durante a narrativa de “Adeus, Minha Adorada” nos deparamos com citações a personagens e histórias de William Shakespeare, Conan Doyle e Ernest Hemingway, por exemplo. Essa intertextualidade deixa o romance ainda mais rico e divertido. Por outro lado, se formos analisar este livro exclusivamente pela perspectiva de sua trama e de seu conflito, ele fica devendo um pouco, principalmente quando comparado às tramas atuais desse gênero. Isso é normal. Os romances noir evoluíram ao longo das décadas e é natural que seus novos exemplares tenham trazido mais dinâmica e ação às histórias. Por isso, quando lemos “Adeus, Minha Adorada” do ponto de vista atual, sua narrativa parece um tanto bobinha. Há também várias passagens problemáticas em sua trama. Há cenas totalmente inverossímeis (como a conversa de Marlowe com Ruivo no barco, em Bay City), tacadas certeiras de mais para uma investigação tão complexa (o protagonista chega facilmente à solução do caso), muitas coincidências (os dois casos que o detetive trabalha se cruzam) e algumas respostas não são dadas (por que a personagem principal que precisava tanto de dinheiro não se preocupou em descobrir o paradeiro do barbeiro grego, seu primeiro caso, que lhe renderia um dinheiro aparentemente fácil?). Na verdade, “Adeus, Minha Adorada” é um livro fraquinho até mesmo se analisarmos o portfólio literário de Raymond Chandler. A impressão que se tem é que o autor remendou algumas histórias em uma trama só (e foi exatamente isso o que ele fez). “O Sono Eterno” e “O Longo Adeus” (Alfaguara) são, por exemplo, livros muito melhores do ponto de vista narrativo. Entretanto, até mesmo quando derrapa feio, Chandler e seu detetive Marlowe conseguem encantar seu público. Esse é o poder das narrativas e das personagens carismáticas. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RaymondChandler #LiteraturaNorteAmericana #literaturaclássica #RomancePolicial #RomanceNegro #RomanceNoir #Brutalismo
- Recomendações: Melhores Filmes de 2019
Como reza a tradição do Bonas Histórias, janeiro é o mês de apontarmos as melhores obras analisadas pelo blog no ano anterior. Desta vez não será diferente. Nesta edição do Recomendações, coluna reservada aos destaques da última temporada, vamos selecionar os melhores livros e os melhores filmes que foram comentados no ano passado. No post de hoje, trataremos exclusivamente da retrospectiva cinematográfica de 2019. E em um próximo post de Recomendações, faremos a retrospectiva literária do último ano. Ao longo de 2019, analisamos no Bonas Histórias 23 filmes. E como já é uma marca antiga do blog, nosso cardápio cinematográfico foi o mais variado possível. Teve de tudo em nossos posts: comédia, comédia romântica, terror, suspense, ação policial, aventura, drama, ficção científica, fantasia, tragédia e reconstituição histórica. Quando olhamos para as nacionalidades dos títulos avaliados, notamos a mesma pluralidade: Estados Unidos (8), França (3), Argentina (2), Suécia/Dinamarca (2), Brasil (2), Espanha (1), Bélgica (1), Japão/China (1), Israel (1), Reino Unido (1) e Coréia do Sul (1). Muitos longas-metragens de ótimos níveis foram apresentados em primeira mão aos nossos leitores. Chega de suspense! Vamos agora mesmo ao ranking dos melhores do cinema internacional em 2019. A seguir, temos a lista dos 10 melhores filmes do ano passado segundo o Bonas Histórias. Boa retrospectiva cinematográfica para todos nós: 10a posição: “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018) - Estados Unidos - Comédia Romântica Em seu mais recente longa-metragem, Woody Allen volta a ter como cenário a cidade de Nova York. Misturando as características dos filmes do cineasta norte-americano das décadas de 1970 e 1980 com o estilo de suas produções contemporâneas, “Um Dia de Chuva em Nova York” é uma ótima comédia romântica estrelada por Timothée Chalament, Elle Fanning e Selena Gomez. 9a posição: “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019) - Argentina - Comédia Em mais uma bela atuação de Ricardo Darín, este filme argentino foi adaptado do romance “La Noche de La Usina” (Alfaguara), de Eduardo Sacheri. Dirigido e roteirizado por Sebastián Borensztein, “A Odisseia dos Tontos” retrata um dos períodos mais difíceis da Argentina, a crise econômica da virada do século XX para o XXI, que culminou com a decretação do Corralito. 8a posição: “Border” (Gräns: 2018) - Suécia - Terror/Ficção Científica Esta produção de Ali Abbasi, cineasta iraniano naturalizado sueco, é um dos títulos mais originais dos últimos anos. Não à toa, o filme conquistou vários prêmios internacionais. Inspirado em um conto homônimo de John Ajvide Lindqvist, escritor sueco especialista em narrativas fantásticas e de terror, “Border” retrata o drama de integrantes de uma espécie chamada Trolls. 7a posição: “Morto Não Fala” (2019) - Brasil - Terror Quem disse que não há bons títulos no cinema nacional? Basta procurar. “Morto Não Fala” foi a grata surpresa do ano passado. Este filme de terror foi dirigido por Dennison Ramalho e foi roteirizado pelo próprio diretor, por Cláudia Jouvin e por Jorge Furtado. No elenco, estão Daniel de Oliveira, Fabiula Nascimento, Bianca Comparato, Marco Ricca, Cauã Martins e Annalara Prates. 6a posição: “Dor e Glória” (Dolor y Gloria: 2019) - Espanha - Drama Esta é a produção mais autobiográfica de Pedro Almodóvar, o cineasta espanhol mais famoso da atualidade. Neste novo filme, Almodóvar mistura realidade e ficção para apresentar as angústias, as fobias e os traumas de um artista homossexual que chega à meia-idade com bloqueio criativo. “Dor e Glória” tem em seu elenco Antonio Banderas, Penélope Cruz, Julieta Serrano e Asier Etxeandia. 5a posição: “Yesterday” (2019) - Estados Unidos - Comédia Musical Em um dos roteiros mais criativos de 2019, o longa-metragem do diretor Danny Boyle e do roteirista Richard Curtis coloca o repertório musical dos Beatles no centro da trama. Estrelado por Himesh Patel, Lily James, Kate McKinnon, Joel Fry e Ed Sheeran, “Yestarday” tem a capacidade de maravilhar tanto os fãs da banda de Liverpool quanto aqueles que desejam apenas ver um bom longa-metragem. 4a posição: “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019) - Dinamarca/Suécia – Drama Este thriller da cineasta dinamarquesa May El-Toukhy é audacioso e polêmico. Além de cenas de sexo explícito entre uma mulher mais velha e um rapaz menor de idade, o longa-metragem aborda temas sensíveis como traição conjugal, assédio sexual, incesto e delinquência juvenil. “Rainha de Copas” é estrelado por Trine Dyrholm, Gustav Lindh e Magnus Krepper. 3a posição: “Era Uma Vez em... Hollywood” (Once Upon A Time...in Hollywood: 2019) - Estados Unidos - Drama Em seu nono longa-metragem, Quentin Tarantino faz uma homenagem ao cinema antigo e ao Western, seu gênero cinematográfico favorito. Orçado em quase US$ 100 milhões, “Era Uma Vez Em...Hollywood” tem em seu elenco principal Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch e Margaret Qualley. Essa história é ambientada na Los Angeles do final da década de 1960. 2a posição: “Parasita” (Gisaengchung: 2019) - Coréia do Sul - Suspense Bong Joon Ho é o principal cineasta sul-coreano da atualidade. “Parasita”, seu sétimo longa-metragem, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019 e é o principal favorito ao Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano. Este filme é estrelado por Kang-ho, Hye-jin Jang, Woo-sik Choi, So-dam Park, Yeo-jeong Cho, Ji-so Jung, Hyun-joon Jung, Sun-kyun Lee e Jung-eun Lee. 1a posição: “Coringa” (Joker: 2019) - Estados Unidos - Drama Bombástico! Esta é a minha definição para “Coringa”, produção de Todd Phillips que inverteu totalmente a lógica dos filmes de super-heróis. Com uma atuação soberba de Joaquin Phoenix, escolha quase certa para o Oscar de Melhor Ator, este longa-metragem reconstrói a trajetória do principal vilão do Batman. “Coringa” é um drama psicológico sensível e com uma pegada hiper-realista. Imperdível! Bom cinema para todos em 2020! Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos quatro anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. 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- Filmes: O Escândalo - Assédio sexual no jornalismo norte-americano
Nesse comecinho de ano, os cinemas brasileiros recebem uma overdose de produções sobre os meandros nada admiráveis do jornalismo norte-americano. São três títulos em cartaz neste momento nas salas do nosso país: “O Escândalo” (Bombshell: 2019), “O Caso Richard Jewell” (Richard Jewell: 2020) e “Um Lindo Dia na Vizinhança” (A Beautiful Day in the Neighborhood: 2019). O primeiro trata do ruidoso caso de assédio sexual que abalou, em 2016, a Fox News, uma das principais emissoras de televisão dos Estados Unidos. O segundo aborda o papel dos veículos de comunicação no episódio do atentado à bomba nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. E o terceiro descreve o comportamento dos jornalistas encarregados de entrevistar, em 1998, um célebre apresentador de programas infantis da década de 1960. É verdade que mostrar o lado sombrio da imprensa não é algo assim tão novo na sétima arte. Do clássico “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole: 1951) ao contemporâneo “O Abutre” (Nightcrawler: 2014), não faltam exemplos de filmes com esse tipo de enredo. O que chama a atenção dos três lançamentos deste ano é o uso de casos reais para ancorar suas narrativas cinematográficas. De certa forma, todos repetem os passos de “Spotlight - Segredos Revelados” (Spotlight: 2015), que surpreendeu o público e a crítica ao conquistar o Oscar de 2016 nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Para conferir a qualidade dos novos longas-metragens, fui ao Reserva Cultural no final de semana passado para assistir a “O Escândalo”. Dirigido por Jay Roach, do bom “Trumbo - Lista Negra” (Trumbo: 2015) e do inesquecível “Entrando Numa Fria” (Meet the Parents: 2000), e escrito por Charles Randolph, roteirista do ótimo “A Grande Aposta” (The Big Short: 2015) e do bom “A Intérprete” (The Interpreter: 2005), “O Escândalo” teve orçamento de US$ 32 milhões. No elenco principal, o trio feminino formado por Charlize Theron, de “Casal Improvável” (Long Shot: 2019), Nicole Kidman, de “Grace de Mônaco” (Grace of Monaco: 2014) e Margot Robbie, de “Era Uma Vez Em... Hollywood” (Once Upon A Time...in Hollywood: 2019) e “Golpe Duplo” (Focus: 2015), teve a companhia do experiente John Lithgow, de “Dívida de Honra” (The Homesman: 2014). É inegável que se trata de um time de primeiro nível de Hollywood. Esta produção concorre ao Oscar em três categorias: Melhor Atriz (Charlize Theron), Melhor Atriz Coadjuvante (Margot Robbie) e Melhor Maquiagem. “O Escândalo” retrata os dias conturbados de julho de 2016 na Fox News, canal de notícias extremamente conservador da TV a cabo norte-americana. Comandada há mais de uma década por Roger Ailes (interpretado por John Lithgow), a emissora é a joia do império do magnata das comunicações Rupert Murdoch (Malcolm McDowell). O prestígio da Fox News é tão grande que Ailes se tornou uma das figuras mais poderosas do cenário político dos Estados Unidos. Não há candidato à Presidência da República que não precise se alinhar ao comandante do canal. Se Roger Ailes é tão respeitado fora dos muros da sua emissora, não é difícil imaginar como ele é tratado pelos jornalistas que ocupam um gigantesco prédio em Nova York. Ele é um quase Deus para os funcionários da companhia, capaz de levar alguém ao estrelato repentino ou à demissão sumária. Os dias de fama, glória e poder de Roger Ailes são abalados pela denúncia de assédio sexual feita por Gretchen Carlson (Nicole Kidman). Ao ser demitida da Fox News, a jornalista que apresentava um programa no horário nobre na emissora expôs o comportamento pouco decoroso do comandante do canal com as mulheres. Segundo Carlson, Ailes e os principais executivos da empresa incorporaram na cultura organizacional a prática do assédio. Assim, era impossível para uma jornalista bonita passar ilesa pelos olhos e pelas mãos dos chefes. Se elas não colaborassem, não poderiam crescer profissionalmente. Os assédios sexuais na Fox News aconteciam sistematicamente. Tais crimes ocorreram no passado com Megyn Kelly (Charlize Theron), uma das jornalistas mais famosas do país, e são ainda protagonizados no presente, como provou a jovem Kayla Pospisil (Margot Robbie). Para estarrecimento do público, as denúncias de Gretchen Carlson dividem os funcionários da Fox News. Há quem defenda cegamente Roger Ailes e há quem o condene. O destino do mandatário da emissora passará pela postura corajosa das vítimas deste tipo de violência. Revelar publicamente um caso de assédio nunca é fácil nem indolor. Se as atuais e ex-funcionárias se unirem, terão alguma chance de fazer justiça. Do contrário, Ailes sairá impune e, o que é pior, continuará molestando suas jornalistas. “O Escândalo” é um bom filme. Seu principal mérito é apresentar didaticamente os episódios reais que jogaram luz aos casos de assédio sexual que inundaram a indústria de cinema e da televisão dos Estados Unidos em 2016. Não à toa, o movimento do Me Too iniciou-se exatamente aí. Se as denúncias contra Charles Randolph, um dos principais cineastas do mundo, foram noticiadas com mais estardalhaço no exterior, os episódios envolvendo Roger Ailes acabaram ocupando apenas algumas notas da imprensa internacional. Daí a importância deste filme de Jay Roach e Charles Randolph. Um caso tão terrível e emblemático como este não poderia ser esquecido ou pouco divulgado. O maior ponto positivo de “O Escândalo” está na criação de um clima permanente de tensão e de angústia que ultrapassa a linha divisória da tela. A plateia fica sensivelmente incomodada com os acontecimentos encenados pelas personagens, o que evidencia a força desta história. Há algumas cenas extremamente constrangedoras que expõem o quanto é repugnante o assédio. Nesse sentido, as escolhas dos cineastas foram brilhantes. Ao mesmo tempo que não se furtam em mostrar momentos profundamente delicados da rotina da Fox News, eles deixam outros mais constrangedores nas entrelinhas (o que não diminui o inconformismo do público e das personagens). Note a ausência de trilha sonora em algumas passagens do filme, o que potencializa a tensão dramática. Outro aspecto primoroso desta produção é a mistura acertada entre realidade e ficção. As principais personagens (Gretchen Carlson, Megyn Kelly, Roger Ailes e Rupert Murdoch) são figuras verídicas. Ao lado delas, há criações fantasiosas, como Kayla Pospisil, que simboliza um conjunto grande de vítimas reais de Ailes. Essas personagens inventadas contribuem para o desenrolar minimamente harmonioso da trama. Contudo, o que torna a junção entre realidade e ficção tão bem-feita em “O Escândalo” é a inserção de cenas reais da cobertura televisiva e das aparições de políticos famosos (como Donald Trump, por exemplo). Quando isso acontece, há a sensação de estarmos vendo um documentário e não um filme comercial. Assim, a distinção entre as duas linhas da realidade desaparece completamente. Incrível isso. Não é possível elogiar “O Escândalo” sem falar da atuação magistral do seu elenco principal. Charlize Theron e Margot Robbie, até então conhecidas mais pelas suas belezas estonteantes e por escolhas profissionais mais comerciais do que artísticas, conseguem, enfim, papéis à altura de seus talentos. Elas estão simplesmente sensacionais. Enquanto Charlize Theron está parecidíssima com a Megyn Kelly real e mantém um alto nível do início ao fim, Robbie protagoniza duas cenas antológicas. Impossível não ficar encantado com suas atuações impecáveis. O mais legal é notar que Nicole Kidman e John Lithgow não ficaram muito atrás de Charlize Theron e Margot Robbie quando o assunto é qualidade cênica. As cenas de assédio são um capítulo à parte neste filme. Elas foram muito bem escolhidas e, principalmente, encenadas. Parte da sensação de incômodo absoluto da plateia passa pela visualização concreta da violência contra as funcionárias da Fox News. Respire fundo e segure-se na poltrona nestes momentos! É preciso sangue-frio e estômago forte para encarar os atos criminosos de Roger Ailes. Para completar, o caos instalado na emissora de TV com a explosão das acusações de assédio acontece em meio à corrida presidencial dos Estados Unidos. Assim, ao mesmo tempo em que é um veículo de comunicação, a Fox News (e seus jornalistas) também viram notícias (em uma inversão de papéis). Destaque para a aparição de Donald Trump e de seus seguidores no contexto desta história (o que prova que as posturas machistas, misóginas, violentas e assediadoras não se limitam à Fox News nem ao universo do jornalismo). O final de “O Escândalo” é magistral, com um sabor agridoce (cuidado: aí vai um pequeno spoiler). Se por um lado se faz justiça no desenlace, por outro a “justiça” não é tão justa assim (repare no valor das indenizações conferidas pelo Grupo Fox às vítimas e aos culpados). Quem melhor explica ao espectador o que virá pela frente é a personagem de Margot Robbie. A atitude final de Kayla Pospisil escancara o quão difícil é mudar a cultura de uma empresa (mudam-se as peças, mas permanecem as velhas práticas...). Apesar dos vários pontos positivos, “O Escândalo” também tem uma série de elementos negativos. O principal deles é quanto às falhas no foco narrativo. A trama é apresentada do ponto de vista de três personagens femininas. Essa escolha aparentemente acertada é muito mal executada. A visão tripla torna a narrativa desconexa, confusa e empobrece consideravelmente a história. Não há qualquer lógica neste expediente. O que dizer, então, da apresentação didática de Megyn Kelly sobre a estrutura e a dinâmica da Fox News nas cenas iniciais do filme, hein? Lamentável! Ela fala olhando para a câmera e repassando diretamente ao público a rotina de trabalho em sua empresa. Tal recurso, popularizado por Woody Allen, é totalmente descabido no contexto da narrativa criada por Charles Randolph. Também é complicado esperar uma narrativa rica com personagens planas. Muitas figuras são caricatas e sem qualquer nuance psicológico. Isso acontece tanto no lado das vítimas quanto dos criminosos. Não há qualquer contradição em suas atitudes, o que torna a história unidimensional. Neste sentido, “Não Mexa com Ela” (Isha Ovedet: 2018), filme do israelense Michal Aviad que aborda o assédio no ambiente de trabalho, é muito mais rico e interessante. Por falar em “Não Mexa com Ela”, “O Escândalo” não mostra as consequências psíquicas nem clínicas do assédio para as mulheres vítimas deste crime (algo que o filme israelense faz brilhantemente). A impressão que se tem é que os problemas decorrentes deste crime são meramente profissionais, o que é um grande engano. Para piorar, o bullying praticado por Donald Trump e pelos seguidores do então candidato Republicano a Megyn Kelly são insistentemente explorados, inclusive com suas consequências para a vida pessoal da jornalista. Aí, o espectador se pergunta: por que mostrar isso e não os desdobramentos do assédio à vida das mulheres?! Não dá para entender essa escolha. É inegável que o universo contraditório do jornalismo sempre rendeu ótimos filmes (e livros). Infelizmente, “O Escândalo” tem alguns tropeços narrativos que muito possivelmente irão excluí-lo da lista dos melhores desta temática. Mesmo assim, é enriquecedor assisti-lo. Um assunto tão relevante, delicado e, porque não assustador, precisa ser abordado e disseminado em nossa sociedade. Ainda mais porque sabemos que o assédio sexual no ambiente de trabalho não é uma exclusividade da indústria televisiva. Assista, a seguir, ao trailer de “O Escândalo”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinema #Filme #Cinemanorteamericano #Drama #JayRoach #CharlesRandolph #CharlizeTheron #NicoleKidman #MargotRobbie #JohnLithgow
- Livros: Melancia – 25 anos do best-seller de Marian Keyes
Nesta semana, li o maior sucesso de Marian Keyes, best-seller irlandesa com cerca de 40 milhões de livros comercializados em todo planeta. A obra em questão é “Melancia” (Bertrand), o romance de estreia da autora que tem atualmente 56 anos de idade. Escolhi este título para ser analisado hoje no Bonas Histórias porque em 2020 esta publicação comemora 25 anos de seu lançamento. “Melancia” aborda o drama de uma mulher abandonada pelo marido no dia em que dá à luz à primeira filha do casal. Não é preciso dizer que o enredo é bastante original e dá margem a muitas peripécias narrativas. A partir do sucesso desta obra, Marian Keyes construiria uma carreira exitosa como romancista internacional. Depois de “Melancia”, Keyes lançou outros vinte livros: quinze romances e cinco obras não ficcionais. Muitos desses títulos se tornaram também líderes de venda na Grã-Bretanha e em vários países. “Casório?!” (Bertrand), seu segundo romance publicado em 1996, e “Cheio de Charme” (Bertrand), o décimo primeiro romance lançado em 2008, se aproximaram do sucesso da obra de estreia da irlandesa, ganhando várias edições pelo planeta. A história de “Casório?!” foi adaptada pela televisão britânica em 1999, transformando-se em uma série televisiva. “Cheio de Charme”, por sua vez, conquistou o Irish Book Awards de 2009 na categoria Melhor Livro Ficcional Popular. A literatura produzida por Marian Keyes é chamada de Chick Lit. Neste tipo de obra, aborda-se o universo feminino a partir do ponto de vista da mulher moderna. A pegada dessas publicações é normalmente leve, divertida e cosmopolita. E suas protagonistas são essencialmente personagens femininas independentes, cultas e aguerridas, que acabam ficando abaladas por algum drama pessoal sério. Helen Fielding, de “O Diário de Bridget Jones” (Paralela), Candace Bushnell, de “Sex And The City” (Record), Meg Cabot, de “O Diário da Princesa” (Galera Record), e Lauren Weisberger, de “O Diabo Veste Prada” (Record), são outros nomes populares do Chick Lit. Coincidentemente, todas essas escritoras citadas são de língua inglesa. No caso específico de Marian Keyes, seus romances tratam de questões como alcoolismo, depressão, crises conjugais, dependência química, luto, violência doméstica e abandono. Isso tudo regado com muito romantismo e conflitos de natureza sentimental. A trajetória de Keyes na literatura é singular. Graduada em Direito, sem nunca ter atuado na advocacia, Marian trabalhou por anos em empregos administrativos em Dublin. Em 1986, ela decidiu se mudar para Londres, onde passou a trabalhar como garçonete e a viver sozinha. A distância da família e a solidão cobraram seu preço. Ela desenvolveu alcoolismo e foi diagnosticada com depressão. O fundo do poço foi atingido quando Marian Keyes tentou se suicidar. Por sorte, não conseguiu. Em 1995, a irlandesa retornou para Dublin e se internou em uma clínica para tratar da depressão e do alcoolismo. Como parte das atividades terapêuticas, ela começou a escrever contos. Uma nova porta se abriu em sua vida. Foi na escrita que Marian, enfim, se encontrou. Uma vez recuperada das doenças, ela voltou a morar em Londres e continuou escrevendo pequenas narrativas. Depois de receber muitos elogios por seus trabalhos literários, Marian decidiu produzir seu primeiro romance. “Melancia” foi publicado ainda em 1995, tornando-se rapidamente best-seller no Reino Unido. Em 2013, esta história foi adaptada para a televisão. O filme “Watermelon” foi dirigido por Kieron J. Walsh e teve como protagonistas Anna Friel, Jamie Draven e Ciarán McMenamin. Curiosamente, a protagonista de “Melancia” pegou emprestados vários elementos autobiográficos de sua autora. Assim como Marian Keyes, Claire Walsh Webster, a narradora da trama, é uma irlandesa que se mudou para Londres. Na capital inglesa, ela morava sozinha, trabalhava como garçonete e sofria de alcoolismo e de depressão. Ou seja, qualquer semelhança entre as duas mulheres (a real e a ficcional) não é mera coincidência. O enredo de “Melancia” começa em Londres, no dia em que Claire, uma mulher de 29 anos, culta, divertida e vaidosa, dá à luz à Kate, sua primeira filhinha. A menina é fruto do relacionamento da narradora com James Webster, seu marido. James, um contador inglês bem-sucedido, é um homem sério, responsável e trabalhador. O casal está junto há pelo menos sete anos e parece se amar. Por isso, Claire é pega de surpresa quando o esposo diz, ainda no quarto do hospital, que quer o divórcio. Ele ainda informa que tem uma amante e que viverá a partir de então com ela. O que era para ser o dia mais feliz da vida de Claire se transforma no pior. O sonho da maternidade vira, no final das contas, em pesadelo da separação matrimonial traumática. Sem chão, Claire decide retornar imediatamente para Dublin, sua cidade natal. Ela viverá na casa dos pais enquanto está de licença maternidade. Na casa da família Walsh, Claire convive com seus pais e com duas irmãs mais jovens, as divertidas Anna e Helen. Enquanto cuida da filha recém-nascida, a narradora-protagonista espera receber ao menos um telefonema de James. Entretanto, o marido (ou já seria ex-marido?) não quer saber dela nem da criança. Claire entra em depressão e atira-se na bebida, um problema antigo dela e de seus familiares. Vivendo a pior fase de sua vida, um momento de enormes dúvidas e de grande carência afetiva, Claire conhece Adam, um jovem universitário alto e bonito. Ela se apaixona pelo rapaz. O problema é que Adam é namorado de sua irmã, Helen. Para piorar um pouco mais o quadro trágico-cômico, Claire ainda não se enxerga como uma mulher separada. Em sua cabeça, James irá entrar em contato a qualquer momento para ambos resolverem o mal-entendido e retornarem ao matrimônio. “Melancia” é um romance robusto. Ele tem quase 500 páginas. Precisei de três noites para concluir seus 39 capítulos. Não falo isso com nenhum pesar, pelo contrário. A leitura deste livro se mostrou muito agradável. Basta ler o primeiro capítulo para você ter vontade de continuar lendo a obra até o final. Marian Keyes é uma romancista que sabe como conduzir sua história e consegue cativar os leitores. Seus comentários no meio da trama são espirituosos e sagazes, tornando a experiência de leitura ainda mais rica. Acredito que até mesmo os marmanjos que têm preconceitos com os romances do Chick Lit poderão gostar desta publicação. Apesar de ser obviamente um título direcionado ao público feminino, “Melancia” tem tudo para agradar também os homens que gostam de narrativas leves e muito engraçadas. Admito que foi o meu caso. O primeiro elemento que chama a atenção neste romance de Marian Keyes é o humor. O livro é bastante divertido. A narradora é muito espirituosa, fazendo graça de tudo, até mesmo de sua situação calamitosa. Temos aqui um humor autodepreciativo que navega entre o humor negro e o escrachado. Há também o uso da ironia e, em muitos momentos, a sacadas hilárias são extraídas do universo literário. Na maior parte das vezes, a graça surge dos comentários espirituosos da narradora, que avalia sua situação com um jeito desbocado. Não dá para não gostar da sua maneira de contar a história. Por falar nos comentários da narradora-protagonista, outro ponto elogioso da narrativa é o da composição entre ação e pensamentos da personagem principal. A maior parte do texto é composta por análises, lamentações, angustias e medos de Claire Walsh Webster. Apesar da narrativa ser essencialmente reflexiva, isso não atrapalha em nada o ritmo do romance. Pelo contrário. Sua graça reside justamente dessa característica inusitada. Com poucas e ótimas cenas, o livro se torna carismático exatamente por mergulhar o leitor na mente divertida da esposa traída e abandonada. Essa constatação até pode parecer um tanto paradoxal à primeira vista, mas não é não. O estilo de escrita de Marian Keyes é saboroso e não está vinculado necessariamente às ações da trama. Fazia muito tempo que não lia algo tão encantador que não estivesse baseado diretamente nos acontecimentos do enredo e sim em suas interpretações. É preciso elogiar também as construções das personagens. Mesmo sendo quase todas figuras planas e caricatas (algo que convenhamos não é enobrecedor a um romance), elas são muito engraçadas. Juro que me diverti bastante com a família Walsh. Tanto os pais quanto as irmãs caçulas de Claire rendem ótimas situações. Às vezes você tem a impressão de estar em uma casa onde só residem malucos. Quem não se sente assim em sua própria casa, hein? Não posso me esquecer de citar a intertextualidade presente em abundância no texto de Marian Keyes. As páginas de “Melancia” são recheadas de referências literárias, televisivas e da cultura Pop britânica. É possível acompanhar tranquilamente a maioria das citações feitas pela narradora/autora, porém tiveram algumas que admito não conhecer sua origem (principalmente no caso das novelas australianas). Isso não estraga em nada a experiência de leitura. Os únicos pontos negativos do romance são a previsibilidade de sua trama e a demonização das personagens masculinas (males corriqueiros do Chick Lit). Não sei se você vai acreditar em mim, mas consegui adivinhar tudo o que ia acontecer na narrativa após o terceiro capítulo (se faltou originalidade na sequência, ao menos o início do livro é muito original). Se houvesse um pouquinho de surpresas e reviravoltas inesperadas, na certa esta leitura teria se tornado mais interessante. Além disso, fico pensando se a mulherada que lê essas obras não se cansa de demonizar os homens, os únicos e grandes vilões dessas tramas. Juro que sinto pena de quem terceiriza a causa dos seus problemas o tempo inteiro, acreditando que a felicidade e a tristeza de suas vidas estão ligadas exclusivamente às ações dos seus parceiros. Se alguém ficou curioso para saber o motivo do nome do livro, aí vai a explicação extraída do próprio romance. A palavra melancia surge apenas em uma passagem, mais precisamente no capítulo 2. Veja também o humor autodepreciativo que falei a pouco: “Nas poucas semanas antes de dar à luz, eu estava absolutamente enorme. Inteiramente redonda. Como a única coisa que cabia em mim era minha bata de lã verde, combinando com meu rosto sempre verde, por causa do enjoo contínuo, fiquei com a aparência de uma melancia usando botas e um pouco de batom”. Admito que fiquei surpreso positivamente com “Melancia”. Passados um quarto de século de sua publicação, o romance de Marian Keyes continua atual, divertido e emocionante. Para quem deseja ler algo descontraído e leve nesse começo de ano, temos aqui uma bela opção. E olha que quem está dizendo (escrevendo?) isso é alguém que não é um leitor nem um pouco assíduo do Chick Lit. Não é porque este não seja meu gênero literário favorito que eu não possa reconhecer as qualidades de um dos seus melhores exemplares. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaContemporânea #LiteraturaIrlandesa #MarianKeyes #ChickLit #Drama #Humor
- Exposições: Susan Meiselas Mediações – Retrospectiva do trabalho da fotógrafa norte-americana
O Instituto Moreira Sales (IMS) da Avenida Paulista, em São Paulo, está com uma exposição imperdível para quem é apaixonado por fotografias. “Susan Meiselas: Mediações” é a mais completa retrospectiva do trabalho da fotógrafa norte-americana que atuou por décadas na lendária agência Magnum Photos. A mostra em cartaz na capital paulista abrange uma seleção de obras que vão do início da carreira de Susan Meiselas, nos primeiros anos da década de 1970, à sua maturidade profissional, nos dias de hoje. Dessa forma, conseguimos ter uma visão completa do seu portfólio artístico e, principalmente, uma compreensão mais precisa do seu legado e do seu estilo. Meiselas ficou conhecida mundialmente por seus trabalhos fotográficos na América Central entre o final da década de 1970 e o começo dos anos 1980. Nesta época, boa parte do continente americano (principalmente a área latina) vivia intensos e sangrentos conflitos político-militares. Não à toa, o principal clique de Susan Meiselas foi a icônica imagem do “O Homem-Molotov” (julho de 1979). Nela, um guerrilheiro sandinista atira uma bomba em uma garrafa de Pepsi contra o muro do quartel-general da Guarda Nacional da Nicarágua. Essa foto rodou o mundo e até hoje é lembrada como uma das mais marcantes da história da Magnum. Exatamente por isso, muita gente crê equivocadamente que Susan Meiselas seja uma fotógrafa especializada em coberturas de guerras e em áreas de conflitos bélicos. Este é um dos enganos que a exposição “Susan Meiselas: Mediações” ajuda a corrigir. A norte-americana é, no fundo, mais uma fotógrafa com preocupações sociais do que com engajamento político. Isso fica evidenciado desde os seus primeiros trabalhos, quando ela era ainda amadora e clicou de forma brilhante seus vizinhos em uma pensão humilde em Cambridge, Massachusetts. Esta mostra está montada na Galeria 2, no 7º andar do prédio do IMS da Paulista. Com a curadoria de Marta Gili, Pia Viewing e Carles Guerra, “Susan Meiselas: Mediações” estreou em 15 de outubro de 2019 e ficará em cartaz até 16 de fevereiro de 2020. A exposição possui mais de 180 fotografias, videoinstalações, cartas e documentos pessoais da artista. Esse acervo está dividido em seis seções: “Primeiros Trabalhos”, “Strippers de Festivais”, América Central”, “Curdistão”, “Violência Doméstica” e “Caixa de Pandora”. É interessante reservar ao menos uma hora e meia para a visitação total da mostra. Foi mais ou menos esse o tempo que levei para percorrer todas as suas partes na semana passada. Na primeira seção de “Susan Meiselas: Mediações”, chamada de “Primeiros Trabalhos”, o público visitante do IMS conhece os cliques iniciais da jovem fotógrafa, ainda desconhecida do grande público. Através dessas imagens, assistimos às coletâneas “Rua Irvin, 44”, “As Meninas de Prince Street” e “Retratos na Varanda”. “Rua Irvin, 44” é o conjunto de fotos de 1971 que tem como protagonistas os vizinhos de Susan na pensão em Massachusetts que ela morava. Em “As Meninas de Prince Street”, a fotógrafa acompanhou ao longo de uma década e meia o crescimento de um grupo de meninas do bairro nova-iorquino de Little Street. Por fim, “Retratos na Varanda” é o ensaio fotográfico feito na Carolina do Sul quando Meiselas lecionou fotografia. Apesar de já ser professora do ofício, ela ainda não era conhecida. Em comum, o trio de ensaios de “Primeiros Trabalhos” apresenta uma visão social da norte-americana com os desfavorecidos. O primeiro grande ensaio fotográfico de Susan Meiselas foi “Strippers de Festivais”, tema da segunda parte da exposição. Por três verões seguidos, entre 1972 e 1975, a fotógrafa acompanhou um grupo de strippers em festivais do gênero na Nova Inglaterra. Assim, ela captou tanto imagens quanto sons das garotas, de seus clientes e de seus cafetões. Os retratos são íntimos e por vezes despudorados. As lentes da fotógrafa têm acesso aos momentos mais delicados dos festivais de strippers. A realidade nua e crua de corpos em exposição extermina qualquer tipo de glamour ou excitação que alguém poderia ter desta profissão e desses eventos. As mulheres são retratadas como meras mercadorias e como objetos sem valor emocional. Não à toa, o panorama de infelicidade e o contexto de pobreza extrema predominam nessas imagens. A terceira seção da mostra é a que ocupa o maior espaço da galeria do 7º andar do IMS. Ali estão reunidas as fotos de “América Central”, o principal trabalho até hoje de Susan Meiselas. Em 1978, quando já estava há dois anos na agência Magnum, a fotógrafa norte-americana foi enviada para a América Central para cobrir os conflitos armados que se proliferavam na região. Primeiro, ela assistiu, na Nicarágua, à revolta popular contra o ditador Anastasio Somoza Debayle. Entre 1979 e 1982, Susan acompanhou a Revolução Sandinista, que inspirada na Revolução Cubana tentou implantar o socialismo na Nicarágua. Durante esse período, a norte-americana também presenciou in loco a Guerra Civil em El Salvador, iniciada em 1979 com a decretação de um Golpe Militar. Junto com as imagens deste período, “Susan Meiselas: Mediações” apresenta objetos, equipamentos, cartas e registros pessoais da fotógrafa. Essa parte da exposição reserva as imagens mais icônicas de Meiselas. Por isso, há um espaço especial para a fotografia “O Homem-Molotov”, que completou 40 anos. Além da história do clique que deu origem à foto mais famosa da norte-americana, também há várias curiosidades sobre esse registro: vídeo com a entrevista contemporânea do guerrilheiro sandinista que atirou a bomba com a garrafa de refrigerante (hoje, ele é um homem comum, com família e filhos, e vive de maneira modesta na Nicarágua), popularização desta imagem em ícone pop da esquerda latino-americana (o que a fez estampar camisetas, bonés, canecas, brinquedos e uma dezenas de artigos de consumo) e reportagens jornalísticas (em que a foto foi apresentada em destaque). Sem dúvida nenhuma, esta ala da galeria reserva o clímax da amostra. A quarta seção de “Susan Meiselas: Mediações”, “Curdistão, é uma continuação natural da parte anterior. Nela, vemos os trabalhos de Meiselas entre 1991 e 2007. Neste período, ela fotografou os dramas dos curdos, povo que vive no norte do Iraque e que é perseguido implacavelmente há algumas gerações. Saddam Hussein, na década de 1990, chegou a comandar pessoalmente um genocídio contra os curdos. O ditador iraquiano queria “limpar” essa parte do seu território do “povo estrangeiro” que o “infestava”. Os curdos, vale a pena lembrar, são atualmente o povo com maior número de pessoas que não possuem um território próprio (eles sonham com a implantação do Curdistão, seu pedaço de terra). Nas duas partes finais da exposição, assistimos aos trabalhos mais contemporâneos de Susan Meiselas. Ali estão “Violência Doméstica” e “Caixa de Pandora”, ambos produzidos no século XXI. O primeiro apresenta casos de feminicídio cometidos no ambiente residencial. As mulheres são atacadas por parceiros e familiares extremamente violentos e cruéis. Além de imagens, o público da mostra tem acesso, em “Violência Doméstica”, às cartas, aos documentos policiais e às entrevistas das vítimas, além de campanhas de conscientização da sociedade contra essa barbárie. O segundo ensaio desta parte reúne o estudo visual da artista norte-americana sobre um clube de sadomasoquismo de Nova York. Seguindo a linha de “Strippers de Festivais”, “Caixa de Pandora” narra os detalhes das performances de quem se sujeita a ser dominador(a) e dominado(a), além de mostrar a rotina do gerente, dos clientes e dos apreciadores dessa prática (estes visitam o clube só para assistir aos sofrimentos alheios). “Susan Meiselas: Mediações” é realmente uma exposição magnífica. O IMS consolida-se como uma referência nacional (quem sabe internacional até) na divulgação da arte fotográfica. Essa mostra é a melhor dos últimos anos (e olha que não faltaram excelentes eventos ao instituto da família Moreira Sales). Antes de chegar à São Paulo, “Susan Meiselas: Mediações” foi apresentada em Barcelona, Paris e São Francisco. É uma pena que faltam apenas quatro semanas para ela sair de cartaz na capital paulista. Por isso, se você quiser conferi-la, não perca tempo. A entrada na mostra da fotógrafa norte-americana é gratuita. O IMS abre todos os dias, exceto às segundas-feiras. Aproveite. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises sobre essa área, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Exposição #Mostra #Fotografia #SusanMeiselas #MagnumPhotos
- Livros: O Orangotango Marxista – A fábula irônica de Marcelo Rubens Paiva
Há um grupo de escritores que não consegue produzir trabalhos ruins. Esse tipo de artista é imune ao que chamo de obras insípidas e inodoras. Pelo menos é essa a impressão na perspectiva dos seus leitores mais fiéis. Quando alguns de seus livros não saem como supúnhamos, ou seja, ficam abaixo da média do portfólio do autor, ainda sim eles conseguem provocar reações positivas. A quantidade de acertos destas publicações sempre supera em muito a de equívocos. Obviamente, não são livros para entrarem para a história da literatura ou para serem lembradas em um futuro próximo. Mesmo assim, conseguem angariar a admiração momentânea do público, transformando-se em uma excelente leitura recreativa. Nesse grupo seleto, o de escritores que dificilmente erram a mão, está Marcelo Rubens Paiva. Ou você conhece algum texto ruim dele, hein?! Eu sinceramente desconheço. Até hoje, tudo o que ele produziu, seja na crônica, na dramaturgia ou no romance, me impressionou positivamente. Não à toa, Rubens Paiva é considerado um dos principais autores brasileiros vivos e um ícone de sua geração. Estou falando sobre ele, hoje, no Bonas Histórias, porque li recentemente “O Orangotango Marxista” (Alfaguara), o décimo sexto livro do escritor paulistano. Na minha opinião, a obra deixa muito a desejar, principalmente se for comparada a “Feliz Ano Velho” (Alfaguara), história autobiográfica lançada em 1982, “Blecaute” (Mandarim), romance de 1986, e “Malu de Bicicleta” (Objetiva), drama familiar de 2003. Por outro lado, “O Orangotango Marxista” está muito longe de desagradar os leitores. Seu texto é engraçado, sua narrativa é inteligente, os debates propostos são de alto nível e as reflexões geradas são bastante interessantes. Assim, mesmo não sendo o melhor trabalho de Rubens Paiva, este romance ainda apresenta ótimos predicados que justifiquem sua compra e sua leitura. Publicado em abril de 2018, “O Orangotango Marxista” nasceu de uma ideia que seu autor teve após visitar o zoológico de Americana, cidade do interior de São Paulo. O estabelecimento fica em frente à casa do sogro de Marcelo Rubens Paiva. Ao percorrer as jaulas do zoológico, o escritor pôde acompanhar o marasmo e a melancolia da vida dos animais ali aprisionados. Dessa forma, surgiu a proposta de narrar esse drama do ponto de vista de um macaco enjaulado. Juntamente com um contundente manifesto ecológico, o escritor inseriu em seu texto doses saborosas e ácidas de críticas sociais, comportamentais e políticas. Ao invés de ser observado pelos homens no zoológico, o narrador-protagonista do romance é quem observa o ser humano de uma posição privilegiada. O resultado é um retrato bem-humorado e, ao mesmo tempo, desalentador dos hábitos de nossa espécie. “O Orangotango Marxista” é, como já disse, o relato em primeira pessoa de um macaco (seu nome não é informado ao longo da trama) que foi trazido ao nosso país após ser capturado em uma floresta de Bornéu, ilha do sudeste asiático. Separado ainda pequeno da mãe, o orangotango foi enviado ainda criança para o interior de São Paulo para ser usado em pesquisas comportamentais de símios. A bióloga responsável pelos estudos com o animal foi Kátia, uma universitária tímida e bonita. Os dois rapidamente estabeleceram uma relação de amizade e respeito. Por sorte (ou azar) do destino, orangotango pôde, de dentro de sua jaula, assistir às aulas de alfabetização de crianças humanas, que eram ministradas na sala ao lado do laboratório. Assim, a personagem principal do romance acabou aprendendo a linguagem oral e escrita dos homens. Uma vez alfabetizado, porém mantendo sigilo sobre essa sua habilidade, o orangotango passou a escapar durante as noites do laboratório para ler livros, jornais e revistas disponíveis em uma biblioteca próxima. Dessa maneira, se tornou um exímio leitor, principalmente de filosofia. Além de ter ficado fascinado pela história do Batman, por horóscopo e pela prática do sexo entre os humanos, o orangotango se apaixonou por sua tratadora, Kátia. Apesar da moça transar em sua frente com um professor, o jovem macaco caiu de amores pela bióloga. Com o intuito de agradar cada vez mais sua amada, o orangotango passou a mostrar o quanto era inteligente, destacando-se em todos os testes feitos pela pesquisadora. O resultado foi uma aproximação maior entre os dois. Certo dia, ao receber carinho de Kátia, o macaco já adolescente não se conteve e ejaculou na moça. O ato foi visto como ofensivo pelos acadêmicos e o animal foi expulso do laboratório. A partir de então, ele foi levado para um zoológico em outra cidade do interior de São Paulo, onde deveria ficar em exposição em uma pequena jaula. Ali, ele seria alvo da observação das famílias de humanos, uma rotina para lá de entediante. Na nova morada, o narrador, enfim, entendeu o sofrimento dos seus colegas animais. A falta de liberdade era o pior pesadelo que alguém poderia passar. Utilizando-se dos conceitos de Darwin e de Marx, ele passou a se identificar como um orangotango marxista darwinista, alguém que queria a revolução em respeito à evolução das espécies. Como consequência, esperava derrubar o sistema opressor do qual os animais eram subjugados. A revolta do orangotango começou com a morte de Fidel, gorila que era a estrela do zoológico e o único que não aceitava as imposições ditatoriais dos humanos. O carismático bicho foi morto por seus tratadores cruéis. Ao testemunhar tamanha barbaridade, o orangotango resolveu, enfim, colocar seu plano revolucionário em prática. “O Orangotango Marxista” é um romance pequeno. Ele possui pouco mais de 110 páginas. É possível lê-lo tranquilamente em uma única tarde ou em duas noites consecutivas. Foi o que fiz neste comecinho de ano. Concluí integralmente a leitura desta obra na tarde de ontem, sexta-feira. Como leitura de entretenimento, este novo livro de Marcelo Rubens Paiva é excelente. Ele possui muito humor, tem sacadas inteligentes e apresenta uma trama bem costurada. Para completar, ele faz uma crítica ácida à condição humana e aos hábitos modernos da nossa espécie. Por outro lado, o leitor mais experiente terá a sensação que já viu algo parecido em outros lugares (livros de outros autores e filmes antigos), além de ter a impressão de que há algumas fortes incoerências no discurso do narrador. Ou seja, apesar de ser um romance interessante, “O Orangotango Marxista” tem lá suas derrapadas. O bom humor do texto está presente do início ao fim deste romance e é uma das marcas de Rubens Paiva, principalmente em suas crônicas publicadas há mais de quinze anos no jornal O Estado de São Paulo. O humor empregado pelo autor em sua trama é variado: ora é irônico e escrachado, ora é sutil e inteligente. A descrição do sexo praticado pelos homens, por exemplo, faz parte da primeira categoria, enquanto o ponto de vista político do protagonista enquadra-se mais no segundo tipo. Nos dois casos, o resultado é um inevitável riso. Por falar no trabalho de Marcelo Rubens Paiva como cronista, temos aqui uma produção literária que conversa muito bem com este tipo de narrativa mais informal, direta e perecível. “O Orangotango Marxista” é um romance com fortes elementos das crônicas diárias dos jornais. Isso fica mais evidente quando notamos o quão preocupado está o autor em relatar a vida comum do homem moderno, dando ênfase aos seus dramas e aos seus comportamentos paradoxais. Impossível não se angustiar com as críticas à obesidade da população e ao vício pelos celulares, por exemplo. Como sou um apaixonado pelas crônicas, foi legal encontrar esse aspecto neste livro, de certa maneira um romance híbrido (formado, digamos, por 80% de prosa ficcional e 20% de narrativa das crônicas). Ao mesmo tempo em que é muito bem-humorado, “O Orangotango Marxista” também possui um tom pessimista. A violência, as injustiças, as mazelas sociais, os crimes ecológicos e o descaso ambiental acabam muitas vezes se sobrepondo à ironia e à comicidade da história. Do ponto de vista do macaco que narra o romance, tanto a vida dos seus semelhantes (animais) quanto a existência dos seres humanos correm perigo frente ao comportamento caótico e insustentável das novas gerações de homens e mulheres. Este livro também pode ser encarado como um bom e original manifesto ecológico. Ao mesmo tempo em que apresenta um texto leve e descontraído, Marcelo Rubens Paiva também acrescenta doses de filosofia e de análise sociológica à trama. As digressões filosóficas do narrador-protagonista enriquecem o romance e ajudam o leitor na compreensão da psicologia dessa inusitada personagem. Incrível. O macaco debate conceitos tipicamente humanos: amor, liberdade, razão, emoção e sentido da vida. Sem querer, o bichano questiona os valores centrais da identidade humana. Impossível não gostar desse paradoxo. Só não considerei este livro como merecedor de estar na prateleira dos melhores trabalhos de Marcelo Rubens Paiva por dois motivos. Em primeiro lugar, há algo de déjà vu em seu enredo. Qualquer um que tenha lido “Um Relatório para a Academia”, de Franz Kafka, irá verificar as perigosas semelhanças entre as duas obras. O conto kafkiano de 1917 narra justamente a opressão humana do ponto de vista de um macaco que adquiriu as habilidades linguísticas dos homens. Colocar um animal como narrador fora das fábulas infantis também não é nenhuma grande novidade desde que Franz Kafka publicou, em 1915, sua angustiante novela “A Metamorfose” (Companhia das Letras). E o que dizer de um macaco que se apaixona por uma mulher? Para mim, isso é “King Kong” (1933), um clássico do cinema. E um símio que deseja promover uma revolução, hein? É muito “O Planeta dos Macacos” (1968) para o meu gosto. O segundo desconforto que tive durante a leitura de “O Orangotango Marxista” foi sobre as contradições do relato do protagonista. Ora ele sabia em detalhes a vida dos humanos, ora não sabia aspectos banais, como uma palavra ou um termo mais exato. Como isso é possível? Ou a personagem havia realizado uma observação acurada da realidade humana ou não tinha condições para compreender aspectos corriqueiros da rotina dos homens. Posicionar a narrativa no meio termo me pareceu um tanto forçado, apesar de render algumas passagens bem engraçadas. De maneira geral, entre um ou outro equívoco, “O Orangotango Marxista” é uma boa leitura. É legal ver os novos trabalhos de Marcelo Rubens Paiva sendo produzidos e lançados quase que anualmente. Apesar de ter gostado muito mais de “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara), romance autobiográfico de 2015, e “Meninos em Fúria” (Alfaguara), outra narrativa autobiográfica de 2016, “O Orangotango Marxista” dá para o gasto (entenda-se: rende boas risadas e permite uma reflexão profunda e inteligente dos nossos hábitos). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #MarceloRubensPaiva #Humor #Drama #Existencialismo
- Livros: O Conto da Aia – O romance mais famoso de Margaret Atwood
Quando lançou, em 1985, “O Conto da Aia” (Rocco), Margaret Atwood já era uma escritora conceituada no Canadá. Com 46 anos de idade naquela época, ela tinha um portfólio extenso e bem variado: cinco romances, treze livros de poesia, três coletâneas de contos, duas obras infantis e três publicações de não ficção. Alguns desses trabalhos foram premiados no âmbito doméstico. “The Circle Game” (sem publicação no Brasil), de 1964, e “Dancing Girls” (sem tradução para o português), de 1977, ganharam, respectivamente, o Prêmio Governor General´s de melhor coleção poética e o Prêmio St. Lawrence de melhor coletânea de contos. Contudo, foi o romance distópico que mistura totalitarismo religioso e opressão feminina o responsável por catapultar a carreira da canadense para fora das fronteiras do seu país natal. “O Conto da Aia” é apontado por muitos críticos literários como uma das principais ficções científicas do século XX. Esta obra está, portanto, lado a lado de clássicos como “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, “Admirável Mundo Novo” (Globo de Bolso), de Aldous Huxley, “Laranja Mecânica” (Aleph), de Anthony Burgess, “Eu, Robô” (Aleph), de Isaac Asimov, “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (Aleph), de Arthur C. Clarke, “1984” (Companhia das Letras), George Orwell, e “O Guia do Mochileiro da Galáxia” (Arqueiro), de Douglas Adams. Nada mal para uma autora que não era especialista nesse gênero ficcional! “O Conto da Aia” se tornou o maior best-seller de Margaret Atwood. A obra vendeu milhões de unidades ao redor do mundo e nunca mais deixou de ser editado. Em 2017, o interesse pelo livro explodiu depois do lançamento de uma série de TV inspirada em sua história. Criada por Bruce Miller e produzida pela Hulu, a versão televisiva se tornou um grande sucesso e já ganhou novas temporadas. O êxito nas telas fez com que a publicação de Atwood voltasse ao topo das ficções mais vendidas no Brasil e em alguns países. Além do seriado, que conquistou o Prêmio Emmy de melhor Série Dramática de 2017, “O Conto da Aia” já foi transformado em filme, em 1990, e em ópera, em 2000. Além do sucesso nas livrarias e das adaptações para novos formatos, outro aspecto que chama a atenção é a quantidade de prêmios literários que este livro de Atwood arrematou. Em seu país, “O Conto da Aia” ganhou o Prêmio Governor General´s de 1985 como o melhor romance canadense daquele ano. No exterior, a obra conquistou o Prêmio Nebula de 1986, a mais importante honraria da ficção científica dos Estados Unidos, e o Prêmio Arthur C. Clarke de 1987, a mais relevante premiação da ficção científica do Reino Unido. Poucos anos depois do seu lançamento, portanto, o romance recebia o reconhecimento da crítica especializada. Empolgada com o sucesso da série de TV e com a explosão das vendas de “O Conto da Aia” nas livrarias, Margaret Atwood produziu uma continuação para sua história mais famosa. Lançado no ano passado nos Estados Unidos, “Os Testamentos” (Rocco) se passa 15 anos depois da cena final de “O Conto da Aia”. Narrado por três personagens femininas, o novo romance dá continuidade à trama de Offred, a protagonista do primeiro livro, na República de Gilead. Não será surpresa nenhuma se a nova obra se tornar um dos best-sellers deste ano. Resolvi comentar hoje, no Bonas Histórias, o primeiro livro desta série porque em 2020 ele completa 35 anos de sua publicação original. Minha dúvida era saber se o romance da canadense envelheceu bem ao longo dessas três décadas e meia. Precisei de quatro dias para concluir a leitura de “O Conto da Aia”. Aproveitei a calmaria da primeira semana do ano para fazer isso. Para os fãs da série homônima, vou logo avisando: infelizmente não vi nenhum episódio da adaptação televisiva. Infelizmente, não sou muito chegado a acompanhar séries de TV. Quem leu “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora”, série narrativa da terceira temporada de Contos & Crônicas, na certa se lembrará dessa minha particularidade. Havia justamente uma confidencia chamada “Não Assistir às Séries de TV”. Por isso, vou me ater exclusivamente, neste post, ao material literário produzido por Atwood. O enredo de “O Conto da Aia” se passa na República de Gilead em um futuro próximo. Depois que o presidente dos Estados Unidos e boa parte dos congressistas norte-americanos são mortos em um ataque terrorista, um grupo fundamentalista cristão dá um golpe de Estado e derruba a Constituição do país. Em seu lugar, eles decretam um governo totalitário, militarizado e baseado nas leis da Bíblia. Assim, todos aqueles que não são cristãos acabam expulsos da nação e passam a viver em colônias pobres e perigosas no exterior. Os que ficam, têm de se adaptar à nova sociedade imposta pelos teocratas. Seguindo uma leitura polêmica e enviesada do Antigo Testamento, a República de Gilead é administrada através de uma rígida divisão de castas. A consequência mais imediata disso foi a retirada dos direitos individuais e sociais das mulheres, que passaram a viver sem a possibilidade de trabalhar, de possuir propriedade privada, de ter seu próprio dinheiro e de escolher seu destino (o que fazer, onde viver e com quem conviver). Dessa maneira, do dia para a noite, as integrantes do sexo feminino perderam o livre-arbítrio, passando a ser tratadas como meros objetos pelos integrantes do sexo masculino. Voltou-se, de certa maneira, ao estilo de vida da Idade Média. A narrativa é contada em primeira pessoa por uma mulher chamada Offred. Em inglês, Of Fred significa “do Fred” – aquela que pertence ao Fred. A moça de 33 anos, cabelos castanhos, 1,70 metro de altura e bem instruída (no passado, havia frequentado a universidade) vive em uma cidade onde um dia já foi a Nova Inglaterra. Offred é uma aia, ou seja, sua função em Gilead é exclusivamente reprodutiva. Ela vive na casa de uma família de destaque da sociedade local. Lá, a jovem precisa respeitar as rígidas ordens que lhe são impostas pelo Comandante, o patriarca (o tal Fred), pela Esposa dele, uma senhora idosa que age exclusivamente em função do marido, e pelas Marthas, como são chamadas as funcionárias domésticas. Como uma aia, a tarefa de Offred é emprestar periodicamente seu corpo para o Comandante na hora da prática sexual. O ritual é acompanhado atentamente pela Esposa dele, que precisa estar presente, segundo o código social e religioso da República, durante o ato que é estritamente mecânico. Por causa da elevada poluição e de alguns desastres químicos e nucleares que a América do Norte passou nos últimos anos, a maioria das mulheres do país se tornou estéril. As que permaneceram com a capacidade reprodutiva intacta viraram aias. Sua função é engravidar. Os filhos gerados serão entregues para a família (no caso de Offred, para o Comandante e sua Esposa) cuidar como se fossem seus descendentes legítimos. Se não conseguir gerar uma criança, a aia é expulsa do país (enviada para as colônias no exterior) como uma traidora da nação. Não é preciso dizer que o sonho de toda aia é ter um filho. Na estratificada sociedade da República de Gilead, as mulheres se vestem com roupas que as caracterizam rapidamente aos olhos das demais pessoas. Assim, as Esposas se vestem de azul, suas filhas de branco, as Marthas de verde e as aias de vermelho. O uniforme das aias é composto por um longo vestido vermelho e toucas brancas de abas largas. Elas só podem andar em duplas pela cidade (ao lado de outras aias) e munidas de autorização dos seus proprietários. Também não podem conversar com ninguém estranho. Na maior parte do tempo, essas jovens ficam fechadas em seus quartos aguardando o momento de irem para a cama de seus Comandantes. Sem o afeto e a amizade genuína de ninguém, as aias têm uma rotina não apenas vazia como também de muita carência emocional. O drama de Offred é potencializado pela angustiante incerteza sobre o paradeiro de sua filha pequena e de seu antigo marido, Luke. A família foi separada após a queda dos Estados Unidos e a implementação da República de Gilead, o que ocorreu há cerca de três anos. Sem saber onde a filha e o marido estão, Offred tem a esperança de poder reencontrá-los um dia. Entretanto, com sua rotina de prisioneira sexual e com a total falta de liberdade para trafegar pelas ruas da cidade, esse desejo torna-se quase impossível de ser concretizado. Mesmo assim, a moça não tira sua antiga família da cabeça. A melancólica e pacata rotina de Offred em Gilead se tornará mais excitante (e, por consequência, mais perigosa) quando uma série de acontecimentos confluírem. A partir daí, sua vida se transformará e ficará de ponta-cabeça. A moça passa a se encontrar com o Comandante sem a presença da Esposa (uma atitude antiética). Além disso, a aia inicia um caso amoroso com Nick, um Guardião que trabalha na casa da família como motorista (algo que não é preciso dizer proibidíssimo). Para completar, Offred descobre a existência de uma rede subversiva de opositores ao regime teocrata. Sem perceber, em pouco tempo, ela contribuirá de alguma maneira para as ações deste grupo. Se por um lado os perigos da nova rotina fazem a narradora-protagonista temer pela sua segurança, por outro lado as emoções das novas aventuras proibidas fazem com que ela volte a ter prazer em viver. “O Conto da Aia” possui 368 páginas, o que me faz classificá-lo como uma obra volumosa. Ele tem 46 capítulos, divididos em 15 partes. Há também um capítulo/parte final chamado(a) de “Notas Históricas Sobre o Conto da Aia” que age como uma espécie de desfecho ou como uma conclusão do romance. Para ser sincero, fiquei um pouco frustrado com esta leitura. Esperava mais de uma publicação tão premiada e elogiada pela crítica literária. O que mais me incomodou foi a demora para a história “pegar”. A primeira metade do livro é composta quase que exclusivamente por descrições de cenários e por relatos da banalidade da rotina das personagens. São 180 páginas em que não sabemos qual é o conflito da narrativa e não assistimos a nenhuma ação importante de sua protagonista. Com isso, fica difícil apreciar o conteúdo da obra e permanecer lendo o romance. Se eu não estivesse imbuído da tarefa de escrever uma análise crítica sobre este livro para o Bonas Histórias, na certa teria interrompido sua leitura logo no começo. Contudo, para os leitores corajosos que não desistem nunca, no meio da obra há um “estalo” em sua trama e, de repente, um conflito aparece, a história parece fazer sentido e ações surpreendentes surgem nas páginas. Ufa, pensei aliviado, temos um romance de verdade! Aí a leitura se torna realmente agradável e “O Conto da Aia” adquire uma nova dimensão. Para se ter uma ideia da diferença gritante entre as duas partes da publicação, demorei três dias para chegar à metade do livro. E em um único dia, concluí integralmente a segunda metade. Se na primeira parte a leitura foi por obrigação (arrastada e monótona), na segunda ela foi por prazer (daí a minha empolgação, o que é traduzida na maior velocidade em que percorri as páginas). Entendo que uma das características principais de um romance de ficção científica é detalhar os cenários e descrever a rotina de suas personagens. Sua narrativa só se tornará verossímil e clara quando o leitor conseguir enxergar a nova realidade proposta pelo autor. Entretanto, acho que Margaret Atwood exagerou na dose (para não dizer que errou feio na aplicação desse recurso). É possível sim criar a ambientação e o contexto de uma trama distópica sem que a ação e o conflito sejam esquecidos completamente por quase duas centenas de páginas. Esse é sem dúvida nenhuma o maior problema de “O Conto da Aia”. Outra questão que me incomodou bastante foi a grande quantidade de pontos que não “colam” quando pensamos em uma ficção científica. Há passagens do enredo que nos parecem pouco críveis quando vistas hoje, 35 anos depois de o romance ter sido escrito. O grande perigo de qualquer história desse gênero é ficar obsoleta com o tempo. Por exemplo, a tecnologia da República de Gilead é rudimentar quando analisada aos olhos dos leitores do século XXI. Em alguns momentos há futurismos infantis e em outros momentos a rotina das personagens do livro é totalmente obsoleta da perspectiva da nossa realidade atual. Infelizmente, “O Conto da Aia” caducou precocemente. Alguém pode até alertar: a trama se passa entre as décadas de 1980 e 1990 e não em uma época futura. Ok, entendi essa opção, mas para mim trata-se de um novo erro da autora. Por que então estabelecer algumas tecnologias avançadas se o período temporal era tão próximo ao da realidade da escritora (o livro foi escrito na primeira metade dos anos de 1980)? Não faz sentido novamente! Algumas vezes, parece que o tempo avançou bastante e em outras oportunidades a impressão que se tem é que nada mudou. Essa incongruência aparece com mais clareza no desfecho do romance, que se passa em 2195. A sensação é de estarmos vendo uma palestra do final do século XX e não uma que se passa quase no século XXII. Para completar, há episódios que hoje sabemos que não ocorreram efetivamente: a epidemia de AIDS não dizimou boa parte da população norte-americana (ela já foi controlada em muitos países) e os Estados Unidos não foram vítimas de nenhuma catástrofe radioativa (acidentes desse tipo ocorreram sim em Chernobyl e em Fukushima). Apesar desses vários tropeços, não podemos falar que como ficção científica “O Conto da Aia” seja uma negação total. Sua história também tem alguns acertos interessantes. O fim do papel moeda é algo que podemos enxergar hoje (os pagamentos eletrônicos já são realidade em nosso dia a dia). O atentado terrorista perpetrado por uma organização terrorista muçulmana nos Estados Unidos é algo que ocorreu para valer em 2001 (impossível não lembrarmos do 11 de Setembro). A queda da natalidade é um problema sério e atual para algumas nações desenvolvidas. A radicalização ideológica (leia-se intransigência às pessoas diferentes) é um tema central tanto nos Estados Unidos quanto na Europa nos dias de hoje. A ascensão de forças religiosas conservadoras e fundamentalistas é uma tendência preocupante em boa parte do mundo (olhemos o crescimento da influência dos evangélicos na política e na sociedade brasileira, por exemplo). E a persistente violência contra as mulheres é ainda um mal a ser extirpado (basta assistirmos aos telejornais para vermos a epidemia de casos de feminicídios que assolam nosso país). Nesse contexto sombrio, a imposição de uma teocracia não é tão absurda assim. Portanto, do ponto de vista de uma ficção científica, o livro de Margaret Atwood tem também seus acertos. De pontos positivos, gostei muito de “O Conto da Aia” misturar diferentes tempos narrativos. Offred conta sua história no presente (sua vida como aia na casa do Comandante), lembrando-se o tempo inteiro do seu passado mais remoto (quando ela era pequena e depois quando se casou com Luke e teve uma filhinha) e do seu passado mais recente (quando viveu no Centro Raquel e Lea, apelidado de Centro Vermelho, local de formação das aias). Esse caminhar simultâneo entre presente e passado torna a trama mais dinâmica e rica. Adorei também alguns recursos narrativos bem criativos que Margaret Atwood utilizou na construção do seu romance. Por exemplo, quando ela apresenta diálogos no presente, há o uso de travessões para pontuar as falas das personagens. Porém, quando os discursos se dão no passado, aí não há travessão e as falas se misturam ao texto narrativo. Legal ver inovações deste tipo. Outro elogio que preciso fazer é para a ambientação do romance. A escritora canadense conseguiu criar uma história com um clima de suspense e de terror impressionante. A contextualização da formação da República de Gilead também é ótima. Impossível não se solidarizar com o drama vivido pela protagonista e pelas demais personagens do livro. Curiosamente, não apenas as mulheres sofrem na teocracia cristã, mas os homens também padecem da falta de liberdade, de carinho e de perspectivas. Repare no humor sutil e extremamente inteligente do texto de Atwood. Ele aparece principalmente nas críticas à imposição religiosa da nova sociedade. O texto da Bíblia é desvirtuado (ora são retiradas partes do seu conteúdo, ora são acrescidas novas passagens) para embasar um tipo de crença totalmente insana. Nesses momentos, juro que me lembrei das críticas de José Saramago ao Catolicismo, principalmente em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras) e “Caim” (Companhia das Letras). Além disso, há cenas ótimas e personagens muito bem construídas em “O Conto da Aia”. Destaque para a cena de sexo de Offred com o Comandante. A aia fica deitada na cama junto com a esposa do patriarca da família, dando a impressão que as mulheres são uma só. Ou seja, o Comandante faz sexo com a aia, mas parece que está transando com sua esposa (que fica posicionada literalmente em cima do corpo da funcionária). Incrível isso! E veja com atenção a construção das personalidades de Moira e Ofglen, as duas amigas de Offred. As duas mulheres passam por uma transformação ao longo da história, na qual seus engajamentos às causas feministas serão colocados à prova. Em suma, “O Conto da Aia” é um livro razoável, com muitos altos e baixos. Se ele apresenta um resultado positivo no final das contas, por outro lado me parece um exagero classificá-lo como um clássico dos romances distópicos do século XX. Se não fosse a pegada feminista do seu enredo (um elemento inovador e muitíssimo interessante, reconheço), na certa ele não teria grande relevância hoje em dia. Infelizmente, sua trama é muito parecida a de “Fahrenheit 451”. Durante a leitura do livro de Margaret Atwood, confesso que muitas vezes pensei: “Nossa! Isso é igualzinho à obra do Ray Bradbury”. Nessa perspectiva, Offred seria a versão feminina de Guy Montag. Por tudo isso, confesso não ter achado muita graça em “O Conto da Aia”. Para mim, ele é uma ficção científica meramente regular. Sua leitura até vale a pena, mas não para quem almeja ler uma obra-prima desse gênero literário. Dosemos na expectativa dos leitores para não frustrarmos ninguém. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MargaretAtwood #LiteraturaCanadense #LiteraturaContemporânea #Distopia #RomanceDistópico #FicçãoCientífica
















