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- Livros: O Grande Mentecapto – O segundo romance de Fernando Sabino
“O Grande Mentecapto” (Record) é o segundo romance de Fernando Sabino. Depois de “O Encontro Marcado” (Record), seu romance de estreia de 1956, o escritor mineiro demorou 23 anos para produzir uma nova narrativa longa. Esse hiato temporal é justificável. No intervalo de publicação dessas obras, Sabino concentrou seu trabalho literário no desenvolvimento de crônicas e contos. Não à toa, se tornou referência nesse gênero narrativo. Entre as décadas de 1950 e 1970, ele manteve uma coluna diária no Jornal do Brasil e uma mensal na Revista Senhor. Fernando Sabino também colaborou por muitos anos com as revistas Manchete e Claudia. Esses textos serviram de matéria-prima para a maioria de suas obras literárias. Entre “O Encontro Marcado” e “O Grande Mentecapto”, Sabino lançou sete livros - todos eram coletâneas de crônicas e contos. Publicado em 1979, “O Grande Mentecapto” conquistou, no ano seguinte, o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, na categoria melhor romance. Curiosamente, a ideia de escrever este livro remonta o ano de 1946, quando Fernando Sabino tinha apenas 23 anos de idade e era ainda um recém-chegado à cidade do Rio de Janeiro. A proposta do autor era produzir uma aventura quixotesca por Minas Gerais. Enquanto acompanhava as peripécias do amalucado protagonista, o leitor poderia visitar, na ficção, algumas das mais famosas cidades do estado e teria a oportunidade de conhecer um pouco do trabalho dos principais escritores mineiros. Contudo, após iniciar a produção da obra, Sabino preferiu deixá-la guardada na gaveta por anos e anos. Somente em 10 de abril de 1979, ele retomou os trabalhos do romance. De tão ávido que estava para finalizar a história, Fernando Sabino trabalhou sem parar por 18 dias. Assim, no dia 28 de abril de 1979, “O Grande Mentecapto” estava, enfim, concluído. Se “O Encontro Marcado” é o romance mais famoso de Sabino, “O Grande Mentecapto” é, por sua vez, o mais aclamado pela crítica. Juro que é difícil apontar qual dos dois é o melhor. Apesar de ter produzido apenas duas narrativas longas em toda a sua carreira (os outros livros do autor são coletâneas de crônicas e contos, novelas e obras infantojuvenis), Fernando Sabino é visto também como um grande romancista. Afinal de contas, seus dois únicos romances fazem parte dos cânones da literatura brasileira. Nada mal, hein? Diria que seu índice de sucesso é de 100% neste gênero narrativo. Em 1989, o cineasta Oswaldo Caldeira resolveu transformar a história de “O Grande Mentecapto” em filme. No elenco do longa-metragem homônimo estavam nomes de peso do cinema nacional, como Diogo Vilela, Debora Bloch e Luiz Fernando Guimarães. A produção de Caldeira foi indicada ao prêmio de melhor filme do Festival de Gramado daquele ano. Nas décadas seguintes, o romance ganhou também versões cênicas. “O Grande Mentecapto” é uma espécie de biografia póstuma de Geraldo Boaventura, que se dizia chamar José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva, mas era conhecido mesmo como Geraldo Viramundo. O narrador do romance é alguém aparentemente letrado que está interessado em recontar a trajetória mambembe de Viramundo, o herói dos fracos, dos pobres e dos oprimidos. Para compor um quadro fidedigno dessa figura exótica, o narrador se utiliza de relatos coletados de pessoas simples do povo. Ele também consulta, ao longo dos anos, várias fontes bibliográficas e faz uma intensa pesquisa documental pelas cidades mineiras por onde o protagonista passou. Geraldo nasceu em Rio Acima, cidade localizada no centro de Minas Gerais. Filho de europeus, o pai era um comerciante português e a mãe era uma dona de casa italiana, o menino cresceu aprontando inúmeras estripulias em sua cidade. A principal delas foi ter parado o trem que cruzava o município. O feito foi tão marcante que, tempos depois, a companhia férrea decidiu instalar uma estação em Rio Acima. Dessa maneira, pensaram os engenheiros da empresa, ninguém mais iria parar a locomotiva sem necessidade. Já adolescente, Geraldo escolheu seguir o caminho da religião. Com o apoio do padre Limeira, um amigo da família, o rapaz foi encaminhado para o seminário em Mariana. Com isso, Geraldo deixou para sempre o lar dos Boaventura e a cidade de Rio Acima. Em Mariana, o protagonista continuou aprontando as suas. A pior delas foi ter “pegado” a confissão da viúva Correia Lopes sem que ela soubesse que seu confessor era um seminarista. A confusão provocada pelas revelações dos pecados da Sra. Correia Lopes acabou gerando uma revolta de grandes proporções na cidade. Como consequência, Geraldo, então com dezoito anos, foi expulso do seminário. Sem ter para onde ir, o jovem decidiu ganhar o mundo (foi aí que ele adquiriu o apelido pelo qual ficaria conhecido mais tarde). Viramundo passou a viver como um indigente, sem trabalho, sem posses materiais e sem residência fixa. Com quase nenhuma responsabilidade, viajava de cidade em cidade, conhecendo cada pedacinho de Minas Gerais. Em cada lugar que passava, deixava um rastro de muitas confusões e de vários apelidos curiosos. Seu biógrafo não se furtou à tarefa de listá-los: Geraldo Viramundo, Geraldo Giramundo, Geraldo Rolamundo, Geraldo Vira-Lata, Geraldo Acaba-Mundo, Geraldo Furibundo, Geraldo Virabosta, Geraldo Virabola, Geraldo Sacristia, Geraldo Epístola, Geraldo Sitibundo, Geraldo Vila Rica, Geraldo Facada, Geraldo Pancada, Geraldo Boi, Geraldo Carneiro, Geraldo Capelinha, Geraldo Uai, Geraldo Pitimba, Geraldo, o Cagado de Arara, Geraldo Passa-Quatro, Geraldo Nerval, Geraldo Pecaldo, Geraldo Ziraldo, Geraldo Sacrilégio, Geraldo Responsus, Geraldo Ingrizia, Geraldo Já Começa, Geraldo Merdakovski, General Búlgaro, Geraldo Molambo, Geraldo Melda, Geraldo Ladainha, Geraldo Capítulo, Geraldo Trindade, Geraldo Sepultura, Geraldo Eucaristia, João Geraldo, o Peregrino, Geraldo Cordeiro de Deus, Geraldo J. Nunes, Geraldo Labirinto, Geraldo Caramujo, Geraldo Pé na Cova, Geraldo Cuba, Geraldo Jacuba, Geraldo Caraminhola, Geraldo Ceca, Geraldo Meca, Geraldo Ceca em Meca, Geraldo Eira, Geraldo Beira, Geraldo sem Eira nem Beira, Geraldo Tremebundo e, como não poderia faltar, José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva. A peregrinação errante de Geraldo Viramundo passou por Ouro Preto (onde conheceu o amor de sua vida), Barbacena (ali quase que virou prefeito), Juiz de Fora (onde se tornou militar, integrando por algum tempo o esquadrão de Cavalaria local), São João Del Rei (estragou uma festa pomposa em homenagem ao governador), Tiradentes (onde foi preso sem ter cometido qualquer crime), Congonhas do Campo (presenciou a tragédia ocorrida com o velho Elias, seu amigo cego), Uberaba (salvou sua antiga amada do ataque de um touro bravo), Ceca em Meca (onde enfrentou o fantasma que amaldiçoava uma casa antiga) e Belo Horizonte (onde liderou uma revolta de retirantes, mendigos, prostitutas e loucos contra o governador). Por fim, retorna descuidadamente para Rio Acima, encerrando suas andanças por onde começou. “O Grande Mentecapto” tem 236 páginas e sua narrativa está dividida em 8 capítulos. Achei a leitura desta obra rápida e fácil, além de muito agradável. Li o romance inteiro em duas noites, não gastando mais do que quatro horas ao todo. A primeira questão que salta aos olhos do leitor acostumado com a literatura de Fernando Sabino é a diferença gritante de estilo narrativo desta obra. “O Grande Mentecapto” possui um jeitão totalmente distinto de tudo aquilo que o autor mineiro produziu ao longo de sua carreira. Juro que pensei no meio desta leitura: “Será mesmo que este é um livro de Fernando Sabino?”. Só depois de consultar novamente a capa tive certeza de estar lendo a publicação correta. O curioso é que este romance mistura elementos épicos com uma prosa galhofeira. Ele mescla também pitadas satíricas com dramas comoventes, dando um ar trágico-cômico à história. Além disso, a pretensão de Sabino, desde o início, era fazer uma rica homenagem à literatura mineira e aos grandes escritores do seu estado natal. E a obra faz isso, paradoxalmente, com uma narrativa escrachada e de exaltação à pobreza, ao ridículo e à loucura. São muitos os contrapontos presentes nas páginas deste livro. Achei “O Grande Mentecapto” mais parecido ao estilo, por exemplo, de “Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (Nova Fronteira), de Ariano Suassuna, de “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Penguin), de Lima Barreto, de “Macunaíma” (Nova Fronteira), de Mário de Andrade, de “Memórias de um Sargento de Milícias” (Penguin), de Manuel Antônio de Almeida, de “O Coronel e o Lobisomem” (Companhia das Letras), de José Cândido de Carvalho, e de “Fogo Morto” (Jose Olympio), de José Lins do Rego. Ou seja, Fernando Sabino fugiu de suas próprias características e se utilizou de um tipo de narrativa muito popular e rica em nossa literatura. Para sermos justos, esse tipo de romance foi criado no início do século XVII por Miguel de Cervantes. E, a partir de então, foi reproduzido à exaustão nos quatro cantos do mundo. Portanto, esqueça o relato fiel da realidade, os cenários urbanos, as personagens cosmopolitas e intelectualizadas, a linguagem jornalística e os conflitos de ordem psicológica que marcaram o estilo de Fernando Sabino. O que temos em “O Grande Mentecapto” é uma narrativa picaresca, tipo de literatura caracterizado pelo retrato realista e bem-humorado de um herói pobre e inteligente em meio a uma sociedade corrupta, violenta e injusta. O protagonista de “O Grande Mentecapto”, Geraldo Viramundo, é o exemplo típico de um anti-herói. Criado em um lar amoroso e, depois, educado em um seminário religioso, ele carrega consigo bons modos e valores nobres. É honesto, consciencioso, solidário, humilde, destemido, astuto e culto. Ou seja, tem tudo para ser classificado como um herói clássico. Porém, ele é ingênuo, não tem trabalho fixo, é paupérrimo, vive a maior parte do tempo da mendicância, nunca mais procurou sua família, vive de maneira errante pelas cidades de Minas e sempre se mete em grandes confusões. Aí temos os elementos que o caracterizam como um anti-herói. Seu comportamento refinado e sua linguagem erudita causam estranheza nas demais personagens, que parecem julgar o homem maltrapido apenas pela sua aparência (evidenciando alguns preconceitos da população). A contradição entre aparência precária e postura elevada (ele é muito inteligente também) faz as pessoas enxergarem Viramundo como um louco. Achei a personagem principal do romance muito mais ingênua do que maluca. Mesmo não querendo causar confusão por onde passava, o jeitão simplório e honesto do protagonista o tornava alvo fácil das injustiças e das malandragens de boa parte da sociedade brasileira. Assim, ele acabava provocando, querendo ou não, grandes rebuliços. Geraldo Viramundo é uma ótima personagem. Gostei também da contradição entre as linguagens erudita (de Viramundo e do narrador) com a popular (das demais personagens e de boa parte da narrativa). Essa mistura dá um tom maior de galhofa à história. E por falar em texto, “O Grande Mentecapto” possui vários elementos que fazem referências às biografias e aos estudos acadêmicos (citações, notas de rodapés e bibliografia nas páginas finais). A impressão que o leitor tem é de estar lendo realmente uma biografia feita há muito tempo. Esse ar antigo da narrativa se dá, por exemplo, pelo resumo de cada capítulo já no subtítulo da seção, recurso muito utilizado pelos romances dos séculos passados. O humor também pontua esta história do início ao fim. O tom trágico-cômico da narrativa surge em cada caso protagonizado por Geraldo Viramundo e seus amigos. As passagens engraçadas e tristes se sobrepõem o tempo inteiro. A alegria, por exemplo, do jovem protagonista de ter conseguido parar um trem em sua cidade (sendo motivo de elogios e de admiração dos adultos de Rio Acima) é sobreposta pela tragédia do menino que morreu atropelado, alguns dias depois, pela locomotiva (e, aí, os adultos do povoado se voltam contra Geraldo e sua família). Adorei as referências literárias que são colocadas frequentemente no meio da trama pelo narrador. De algum modo, esse narrador misterioso é alguém que deseja homenagear os grandes escritores mineiros (um intuito explícito de Fernando Sabino). Às vezes mais diretamente e outras vezes de maneira mais velada, são citados os trabalhos e os estilos literários de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Guimarães Rosa, Murilo Rubião, e etc. No meio dessa exaltação à literatura mineira, são lembrados também grandes autores de outros estados (Mário de Andrade, Jorge Amado, etc.) e figuras internacionais (Miguel de Cervantes, por exemplo). O desfecho do romance é surpreendente e trágico. Cuidado que aí vem um gigantesco spoiler. Se você ainda for ler este livro, sugiro pular este parágrafo. Como se fizesse uma Via-Sacra por Minas Gerais, Geraldo Viramundo acaba voltando para Rio Alto, onde sua vida e sua história começaram. E lá, como sempre aconteceu em todos os lugares por onde passou, Viramundo é acusado injustamente de um crime. E o algoz, neste caso, é alguém da sua família, que não leva em consideração nem mesmo o grau de parentesco entre eles para solucionar o conflito. Ou seja, Geraldo é agora visto unicamente como um mendigo desprezível (até mesmo pelos Boaventura). “O Grande Mentecapto” é um livro magistral. Como narrativa, achei este romance de Sabino melhor do que “O Encontro Marcado”. Ao menos tem mais ação, aventura, reviravoltas e um humor mais forte. Se formos comparar esta obra às suas similares nacionais do subgênero picaresco, “O Grande Mentecapto” também é superior. Esta publicação tem um texto mais direto e compreensível, o que torna sua leitura muito agradável. Terminada as análises dos romances de Fernando Sabino, na próxima terça-feira, dia 13, retorno ao Desafio Literário para comentar uma obra infantojuvenil deste autor. O livro em questão é “O Menino no Espelho” (Record), um clássico da literatura infantil brasileira. Não perca o post do terceiro livro de Sabino que o Bonas Histórias apresenta neste mês. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FernandoSabino #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica #Romance
- Livros: O Encontro Marcado – O primeiro romance de Fernando Sabino
O Desafio Literário de novembro começa, como não poderia ser diferente, com a análise do primeiro romance de Fernando Sabino. O título em questão é “O Encontro Marcado” (Record), uma narrativa em que o autor mineiro se utiliza de sua própria biografia para compor um drama sensível e profundo sobre a juventude das décadas de 1940 e 1950. Li este livro no último final de semana e, agora, gostaria de comentá-lo com vocês neste post do Bonas Histórias. Considerado, até hoje, uma obra cult, “O Encontro Marcado” é o livro que melhor retratou os anseios de uma geração de brasileiros. Ele expôs, como poucos romances fizeram até então no Brasil, as angústias dos jovens de sua época. Os anos de 1950, vale a pena lembrar, ficaram caracterizados pelo fim das grandes guerras mundiais, pelo início do rápido processo de urbanização do Brasil, pelo crescimento acelerado da economia nacional e pela efervescência que atingia a cultura, principalmente o cinema e a música, o esporte, a moda e a arquitetura brasileira. Diante do otimismo que tomava conta do restante do país, uma parcela da juventude nacional exalava a preocupação quanto ao seu futuro. Ela se questionava sobre como agir diante de tantas mudanças sociais. A insegurança, o pessimismo e o descompasso de valores levaram muitos jovens desse período à depressão ou ao inconformismo. E o que tem “O Encontro Marcado” efetivamente com esse panorama histórico? O romance de estreia de Fernando Sabino, que mistura ficção com muitas passagens autobiográficas, retrata fielmente esse drama geracional. Não à toa, a publicação se tornou leitura de cabeceira de muitos jovens daquela época. Ela foi, mais tarde, traduzida para outros idiomas e lançada no exterior. No Brasil, onde se tornou best-seller, “O Encontro Marcado” ganhou também versões teatrais. Escrito entre março de 1954 e julho de 1956, “O Encontro Marcado” foi publicado no finalzinho de 1956. A versão inicial da obra tinha mais de 1.300 páginas. Coube ao autor cortar mais de 80% do seu texto para chegar ao tamanho padrão dos romances. Na metade da década de 1950, Fernando Sabino era um jornalista na casa dos trinta anos de idade. Integrante de um círculo famoso de escritores, Sabino havia deixado Belo Horizonte e morava há uma década no Rio de Janeiro. Ele trabalhava em jornais e revistas de porte nacional e já era relativamente conhecido como um dos bons cronistas nacionais. Por isso, a surpresa do público e do mercado editorial quando ele apresentou seu romance. A passagem entre a escrita jornalística/literatura de crônicas para a ficção longa tinha sido concluída com êxito. O sucesso imediato da obra permitiu a Fernando Sabino, já em 1957, realizar um sonho acalentado desde a infância: viver exclusivamente da escrita. Foi o que ele fez a partir de então, abandonando para sempre o trabalho de funcionário público. Além de publicar regularmente novos livros, Sabino passou a escrever crônicas diárias no Jornal do Brasil. Na conceituada Revista Senhor, suas crônicas eram mensais. Estava pautado o caminho para o surgimento de um dos maiores escritores de sua geração e de um dos principais cronistas da história brasileira. Apesar de ser uma descrição dos dramas dos jovens da metade do século XX, “O Encontro Marcado” permaneceu, nas décadas seguintes, com sua reputação inabalada. Ele é visto, ainda hoje, como um romance icônico. Prova disso está no número de reedições do livro. A obra se aproxima de atingir a marca de 100 edições, algo extremamente raro de ocorrer no mercado editorial brasileiro. Para a maioria dos leitores nacionais, esta é a publicação mais famosa de Fernando Sabino. Mesmo com outros títulos do autor sendo mais premiados, “O Grande Mentecapto” (Record), prêmio Jabuti de 1980, e “Livro Aberto” (Record), prêmio Jabuti de 2002, e de melhor qualidade, “Melhores Crônicas de Fernando Sabino” (Record) e “O Menino no Espelho” (Record), por exemplo, “O Encontro Marcado” continua no imaginário coletivo quando o nome de Sabino é citado. O protagonista deste romance é Eduardo Marciano, o filho único de um casal de classe média que morava em Belo Horizonte. O leitor acompanha as diferentes fases de vida de Eduardo, de sua infância na capital mineira até o instante que ele, já morando no Rio de Janeiro e com aproximadamente 30 anos de idade, se separa da sua esposa. Ou seja, temos aqui um exemplo clássico de romance de formação, tipologia criada pelos teóricos da literatura. Nesse tipo de narrativa, o leitor conhece a trajetória de uma personagem do seu nascimento/infância até o seu crescimento/amadurecimento. Assim, é possível verificar o seu desenvolvimento moral, físico, psicológico, social e ideológico. A principal característica deste romance é o drama psicológico do seu protagonista. Eduardo Marciano é uma pessoa melancólica, solitária e eternamente angustiada com sua vida. Nada parece contentá-lo. Se está morando em Minas, ele quer ir para o Rio de Janeiro. Uma vez no Rio, passa a ver com saudosismo o tempo vivido em sua terra natal. Quando solteiro, queria se casar. Casado, queria viver como solteiro. No período em que praticava natação, achava entediantes os treinos e as competições. Depois que abandonou as piscinas, sentia falta das braçadas e lembrava emocionado de suas conquistas e recordes. Se estivesse sozinho à noite, ansiava por uma companhia feminina na cama. Quando a conseguia, sentia nojo da parceira, remorso pela infidelidade conjugal ou raiva de si mesmo pelo sexo descompromissado. Preferia, assim, terminar a noite dormindo casto e sem ninguém por perto. Realmente, era quase impossível contentá-lo! O único desejo imutável de Eduardo é o de se tornar escritor. Sua paixão pela literatura percorre todas as páginas do livro. Ao mesmo tempo em que ele se sente atraído pelo ofício da escrita, algo sempre parece bloqueá-lo. No início é a oposição da família. Depois, as noites passadas com os amigos na boemia e na bebedeira. Mais tarde, é a vida de casado e o trabalho como funcionário administrativo em uma repartição pública. Sempre há algo a minar seu sonho e a adiar a produção do seu primeiro romance. De certa maneira, o passar dos anos e o amadurecimento do protagonista conspiram contra seus desejos literários. Isso também acontece com os amigos próximos de Eduardo Marciano. Em algum momento de suas trajetórias, eles deixaram a poesia ou a ficção de lado, investindo exclusivamente em profissões comuns. Apesar de ninguém produzir efetivamente literatura, todo mundo adora discutir sobre os caminhos que ela segue. Os debates literários feitos pelas personagens são um dos pontos altos da obra de Fernando Sabino. “O Encontro Marcado” possui aproximadamente 290 páginas. Ele está dividido em duas partes: “I - A Procura” e o “II – O Encontro”. Essas partes têm, cada uma, três capítulos e são narradas em terceira pessoa (narrador observador muito próximo ao protagonista). Em “A Procura”, temos o relato da época em que Eduardo Marciano viveu em Belo Horizonte. “O Ponto de Partida” narra a infância, “Geração Espontânea” a adolescência e “O Escolhido” o início da fase adulta da personagem principal. Na infância, temos um Eduardo muito arteiro e bastante mimado pelos pais. Ele está sempre aprontando suas traquinagens dentro de casa. Na adolescência, os traços de revolta e de inconformismo do rapaz surgem com intensidade. As descobertas da sexualidade, os primeiros namoros, a paixão pela literatura e as desavenças com os pais marcam esse estágio de vida. No começo da fase adulta, as bebedeiras frequentes com os amigos literatos, Mauro e Hugo, por Belo Horizonte, o sonho de ser escritor, o difícil começo na carreira de jornalista e as arruaças pelas ruas da cidade acabam moldando a rotina do jovem. Nessa época, ele também se apaixona por Antonieta. A moça é filha de um importante ministro do governo federal. Ou seja, ela mora no Rio de Janeiro. Na segunda parte do romance, “O Encontro”, Eduardo Marciano já está morando no Rio. Os três capítulos dessa parte são: “Os Movimentos Simulados”, “O Afogado” e “A Viagem”. No primeiro, temos o início do casamento de Eduardo e Antonieta. O novo círculo de amizades do rapaz na capital federal e o trabalho como funcionário público ganham destaque. No segundo capítulo, as crises existenciais do protagonista se intensificam. Ele passa a questionar tudo, inclusive seu casamento, que entra em crise. E, por fim, no último capítulo da obra, temos um homem solitário e triste, que poderá ser salvo apenas pela literatura. “O Encontro Marcado” é um livro muito bom. Sua leitura se revelou mais difícil do que eu imaginei à princípio. Apesar de retratar uma época específica, não achei o romance datado ou envelhecido. As angustias das personagens, principalmente do protagonista, são parecidas com as sentidas pelos jovens de outras épocas. É verdade que algumas coisas mudam aqui e ali, mas o sentimento de contestação, o pessimismo juvenil, a incompreensão com a vida da geração anterior, o receio com o futuro, o vazio interior, as dúvidas quanto à sexualidade, a busca pelo verdadeiro amor e o sentimento de não pertencimento à sociedade são universais. Se o leitor procura essencialmente uma narrativa com muita ação e reviravoltas na trama, é possível que se frustre com este livro. “O Encontro Marcado” está mais para um drama psicológico do que para um thriller. Por isso, é preciso mergulhar na mente de Eduardo Marciano e encarar seus conflitos que são, na maioria das vezes, de ordem emocional. Como retrato da vida de Fernando Sabino antes da fama e sob o ponto de vista do estudo pormenorizado de sua biografia, esse romance é sensacional. Apesar de incluir muita ficção em seus relatos, é possível verificar nesta história a enorme quantidade de passagens autobiográficas e de personagens reais. Se fosse lançado hoje em dia, muita gente iria classificar esta obra como uma autoficção. Quanto às personagens reais, é interessante relacionarmos os amigos, os parentes e os conhecidos de Fernando Sabino com os de Eduardo Marciano (não é preciso dizer que o protagonista do romance é o alter ego do escritor). Mauro e Hugo são, respectivamente, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Sabino, Pellegrino e Lara Resende formavam juntamente com Paulo Mendes Campos um grupo de jovens literatos de Belo Horizonte. A trupe era autointitulada de “Os Vintanistas”, pois seus integrantes tinham cerca de vinte anos na época. A troca de correspondência de Fernando Sabino com esses amigos seria, mais tarde, publicada em um livro: “Cartas na Mesa” (Record), de 2002. Antonieta é Helena Valladares, a primeira esposa do autor. E Toledo, personagem que atua como uma espécie de ídolo e mentor literário do protagonista do romance, é Guilherme César. A relação entre passagens reais e fictícias da obra fica clara desde o primeiro momento. No primeiro capítulo, temos a história de Eduardo, ainda criança, tentando salvar uma galinha comprada pela mãe. Esse mesmo episódio seria, tempos depois, inserido no livro “O Menino do Espelho” (Record), outra obra que mistura episódios reais e trechos imaginados pelo autor. Por outro lado, nas páginas iniciais de “O Encontro Marcado”, vemos que Eduardo é filho único (uma invenção, pois Sabino tinha irmãos). O tempo inteiro há essa mescla, de passagens verdadeiras e fictícias. A profundidade do texto de “O Encontro Marcado” se dá pelo discurso existencialista embutido no meio da trama. As próprias personagens discutem aspectos filosóficos de suas vidas, questionando, por exemplo, a morte, o efêmero, o contraditório, a inutilidade das coisas e o materialismo. Esse debate é feito principalmente nas conversas entre Eduardo, Hugo e Mauro e possui um verniz pessimista e um tanto sombrio, elementos típicos das personalidades dessas personagens. Juntamente com os comentários existencialistas, o texto do romance amarra uma forte discussão literária. Os aspirantes a escritor conversam sobre os movimentos estilísticos da época e apresentam suas dúvidas sobre como produzir de fato literatura. Os medos e a insegurança do grupo conferem boas passagens, tornando a trama ainda mais emocionante e verossímil. Se alguns trechos desse debate literário se tornaram datados e até mesmo incompreensíveis para os novos leitores, na maior parte do tempo é possível acompanhar as divagações e opiniões de Eduardo, Hugo e Mauro. Outro ponto que gostei de “O Encontro Marcado” foi o do contexto político. Ao fundo do conflito principal, temos o fim do Estado Novo, o retorno às eleições no país e o último governo Getúlio Vargas. Muito sutilmente, é possível notar que a crise política dessa época já era orquestrada pela elite conservadora com o apoio dos militares. Não é possível falar de “O Encontro Marcado” sem citar a linguagem utilizada por Fernando Sabino. A oralidade dos discursos e o coloquialismo do texto são marcas muito fortes desse romance e características estilísticas que o autor levaria para suas futuras obras. Este estilo de escrita, simples, direto e com palavras muito relacionadas ao cotidiano das pessoas comuns, foi trazido do jornalismo e das crônicas, materiais que Sabino produziu à exaustão. Esse recurso também potencializa o efeito de confidência e de ar autobiográfico que o romance carrega. A impressão é que estamos lendo um texto que foi produzido outro dia (na verdade, o romance tem mais de 60 anos). E, por fim, é preciso mencionar o desfecho espetacular deste livro. Se há algumas partes em que a trama se torna arrastada, repetitiva e um tanto chata, o leitor precisa seguir em sua leitura para encontrar um dos finais mais interessantes e originais da literatura nacional. Aqui, Fernando Sabino utiliza o cruzamento de diferentes realidades no meio da trama, misturando realidade e ficção dentro da própria história. É uma maluquice genial inventada por Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio que influenciou grandes autores latino-americanos nas décadas de 1950 e 1960, como Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e, neste caso, Fernando Sabino. Esse expediente narrativo que marcou a prosa de Onetti é caracterizado pela “entrada” do autor na sua própria história ficcional e, como consequência, o diálogo direto dele com suas personagens. Nas páginas finais de “O Encontro Marcado”, há a aproximação de Fernando Sabino com Eduardo Marciano, em uma mistura deliciosa de verdade e de invenção. Ou seja, autor e seu alter ego passam a interagir diretamente, sem qualquer divisão de planos existenciais entre eles. É ou não é um recurso maravilhoso, hein? Não havia forma melhor de começar o Desafio Literário de novembro. “O Encontro Marcado” é um livro incrível. Apesar de ser uma leitura difícil e com vários elementos específicos de sua época de publicação, ele ainda mantém a força do seu texto, um retrato fidedigno dos dramas existencialistas da juventude. Com este livro, Fernando Sabino mostrou que não era apenas um ótimo cronista, mas que podia ser também um excelente romancista. Sua narrativa criativa e sua estética ousada fizeram de “O Encontro Marcado” um clássico da literatura brasileira. Seguindo no estudo da ficção de Sabino, na próxima sexta-feira, dia 9, volto ao Bonas Histórias para postar a análise de outro romance marcante deste autor: “O Grande Mentecapto” (Record). Não perca as próximas etapas do Desafio Literário de Fernando Sabino! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Filmes: O Doutrinador – Herói ou vilão brasileiro?
Nessa quinta-feira, dia 1º de novembro, estreou no circuito nacional o filme “O Doutrinador” (2018). Esta produção marca a primeira adaptação de um HQ brasileiro para o cinema, uma tendência em voga há muitos anos no exterior. O Doutrinador é uma criação de Luciano Cunha, que concebeu, em 2008, uma personagem disposta a matar os políticos corruptos do país. Atire a primeira pedra quem nunca teve a vontade de fazer isso! Os quadrinhos de Cunha se tornaram um grande sucesso em 2013, em meio aos intensos protestos da população contra os aumentos das tarifas do transporte público. Agora, o Doutrinador, uma espécie de anti-herói brasileiro moderno, ganha uma versão cinematográfica. “O Doutrinador” foi dirigido pelo jovem Gustavo Bonafé, codiretor de “Chocante” (2017) e “Legalize Já!” (2016). Este novo longa-metragem de Bonafé teve orçamento de R$ 6 milhões e foi gravado quase que inteiramente na cidade de São Paulo. Luciano Cunha integrou a equipe de roteiristas desta produção. O super-herói do filme foi interpretado por Kiko Pissolato, em seu primeiro protagonismo nas telonas. Até então, o ator nascido em Piracicaba só tivera papéis secundários nas novelas da Globo e da Record. Apenas no teatro e na Internet, ele conseguira papéis com maior destaque, onde pôde mostrar seu talento. Acompanho o trabalho de Pissolato há alguns anos porque ele é marido de uma grande amiga minha (beijo, Bruna!). Independentemente da minha torcida pessoal, ele já estava merecendo subir esse degrau em sua carreira. Completam o quadro de protagonistas do filme Tainá Medina, Eduardo Moscovis e Tuca Andrada. O elenco também conta com nomes de peso da TV e do cinema como Helena Ranaldi, Marília Gabriela, Natalia Lage e Eucir de Souza. “O Doutrinador” se passa na fictícia cidade de Santa Cruz. Ali, o governador Sandro Correa (Eduardo Moscovis) é preso pela divisão de elite da polícia – uma instituição parecida com a nossa Polícia Federal. O político é acusado de envolvimento em desvio de verba pública no setor da saúde. A operação policial que prendeu o governador é similar à Lava-Jato brasileira. A prisão de Sandro Correa é comemorada pelos policiais, principalmente por Miguel Montessant (Kiko Pissolato), um dos melhores agentes da corporação. É Miguel o responsável por interrogar Correa, que obviamente não quer falar nada a respeito das suas ações à frente do Estado. Para perplexidade geral, o governador não fica muito tempo atrás das grades. Ajudado pelos juízes corruptos do Supremo Tribunal Federal (alguém aí se lembrou do ministro Gilmar Mendes?), Sandro Correa é solto por meio de um habeas corpus. Assim, ele pode retornar para casa e, o que é pior, para seu trabalho como chefe do executivo do Estado. A população, então, se revolta. Começam os protestos nas ruas. Indignado com a ação dos policiais, o governador promete se vingar de quem o afrontou. Iniciam-se também as represálias do comandante de Santa Cruz. Ao levar sua filha pequena para um jogo da Seleção Brasileira de futebol, Miguel vê a menina ser vítima de uma bala perdida perto do estádio. O policial leva a filha baleada para um hospital público, mas não há médicos nem infraestrutura para socorrer a criança. Ela acaba morrendo sem receber qualquer atendimento médico. Miguel entra em desespero com o descaso geral. Depois de ficar vários dias deprimido, o policial se revolta contra todos os políticos corruptos do país que causaram indiretamente a morte da filha. Ele se junta às pessoas que protestam na frente do palácio de Sandro Correa. Em meio a pancadaria provocada pela guarda oficial que tenta dispersar a multidão, Miguel coloca uma máscara contra gás molotov e invade a residência do governador. O policial acaba espancando o chefe do executivo de Santa Cruz até a morte. Por estar mascarado, ele não é identificado. No dia seguinte, sai nas manchetes de todos os jornais: “O Doutrinador mata o governador”. O sujeito mascarado que entrou no palácio onde estava Sandro Correa ganha, então, um apelido e o status de super-herói do povão. Vendo o quanto está ajudando o país, Miguel se veste mais vezes de Doutrinador e continua matando políticos corruptos. O rapaz tem a ajuda de Nina (Tainá Medina), uma amiga que atua como ativista política. A mídia e a população exaltam o herói mascarado até o momento em que o Doutrinador começa a “fugir do controle”. Ele acaba matando inocentes e se envolve, querendo ou não, em questões políticas. Neste instante, o espectador do longa-metragem começa a se perguntar: seria o Doutrinador um herói ou um vilão justiceiro? A dúvida é o ponto de reflexão que torna a discussão sobre a justiça do tipo “olho por olho, dente por dente” interessantíssima. Até onde é certo combater a violência com mais violência? “O Doutrinador” é um filme original e ousado para os padrões brasileiros. A simples proposta de filmar um super-herói nacional dos HQs já é por si só admirável. Quando esse protagonista e sua narrativa possuem cores e dramas genuinamente verde-amarelos, a sacada dos produtores e roteiristas fica ainda melhor. Porém, a maior surpresa está relacionada à qualidade técnica desta produção. O longa-metragem foi muito bem feito. Sua fotografia e suas cenas de ação estão impecáveis. Outra questão que merece menção elogiosa é o quão atual é “O Doutrinador”. Parece que o filme foi rodado há uma semana e se utilizou de vários elementos verídicos da última eleição presidencial. Contudo, o longa-metragem foi rodado no ano passado. E seu roteiro já estava pronto há muito mais tempo. Então como os roteiristas poderiam adivinhar que um atentado político iria ajudar um dos candidatos à presidência da República? Como poderiam supor que essa seria a mais polarizada eleição da história? Como poderiam prever que o debate sobre a violência iria caminhar para a radicalização? As coincidências são assustadoras. Apesar de bem produzido, o filme também dá as suas derrapadas. O maniqueísmo exagerado destoa um pouco da qualidade da narrativa. Não há, por exemplo, nenhum vilão minimamente bonzinho ou com alguma característica positiva. Outro recurso que não caiu bem foi a narração em off da realidade político-social do país. Se esse elemento é uma das chaves do sucesso de “Tropa de Elite”, em “O Doutrinador” a narração ganha ares infanto-juvenis. As explicações são óbvias e tolas para quem está careca de saber o que acontece nos meandros políticos nacionais. Assim, por mais interessantes que sejam as questões levantadas pelo filme, a impressão é que a mensagem dele é rasa e simplória. Como o Doutrinador, Kiko Pissolato peca um pouco nos momentos de maior dramaticidade. Se ele está ótimo nas cenas de ação, no instante de demostrar a fragilidade sentimental do super-herói, ele fica um tom abaixo do esperado. É uma pena. Outros deslizes consideráveis do filme são quanto à caracterização de Santa Cruz e à existência de pequenos erros de continuidade narrativa. Como o filme foi filmado basicamente todo em São Paulo, a impressão que se tem é que a cidade onde a trama se passa seja a capital paulista. Por isso, causa estranheza ao espectador que o governo do Estado não seja o palácio dos Bandeirantes. E que o estádio onde Miguel leva sua filha para ver a Seleção Brasileira não seja uma das arenas do município. E o que dizer então da capital do país não ser Brasília? O Congresso nacional do longa-metragem é uma versão genérica da obra projetada por Oscar Niemeyer... Entendi que o lugar ficcional da trama seja Santa Cruz e não São Paulo e o Brasil, mas a maioria do público vai entender que faltou um cuidado maior na ambientação da cidade e do país apresentados. E por falar em maior cuidado, “O Doutrinador” tem alguns erros de continuidade. Por exemplo, em determinado momento da trama, o super-herói é ferido no ombro. Por isso, Miguel é atendido por Nina, que tenta costurar o ferimento de maneira improvisada. O policial urra de dor. Na cena seguinte, entretanto, ele já aparece treinando tiro na polícia usando o braço ferido normalmente, sem qualquer lembrança da dor antiga. E para terminar, sinceramente não entendi a questão da máscara de gás molotov ser a vestimenta do Doutrinador. Sei que esse é um elemento extraído dos quadrinhos (e das revoltas populares que originaram o super-herói), mas na telona esse aspecto tornou o personagem principal mais infantil do que o necessário. Entendo que as vestimentas dos super-heróis sejam um capítulo à parte nas discussões das HQs, porém achei que Luciano Cunha não foi tão feliz nessa escolha. Em resumo, “Doutrinador” é um filme interessante e muito bem produzido. Apesar de umas escorregadinhas aqui e outras acolá, o resultado final é positivo. Não duvido que ele ganhe continuações caso sua bilheteria seja satisfatória. É esperar para ver. Veja, a seguir, o trailer de “O Doutrinador”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Desafio Literário de novembro/2018: Fernando Sabino
O Desafio Literário de 2018 está chegando ao seu final. Em novembro, vamos analisar o oitavo e último escritor desta temporada. Neste ano, vale lembrar, já estudamos as literaturas de J. M. Coetzee, em abril, Juan Carlos Onetti, em maio, Herta Müller, em junho, Rubem Fonseca, em julho, Xinran, em agosto, Albert Camus, em setembro, e Patricia Highsmith, em outubro. Agora, o Bonas Histórias irá promover um mergulho no trabalho artístico de Fernando Sabino, um dos principais autores brasileiros da segunda metade do século XX. Fernando Sabino nasceu em Belo Horizonte, em 1923, e se mudou, aos vinte anos de idade, para o Rio de Janeiro. Foi na cidade carioca que o escritor viveu a maior parte da vida. Ele também morou por dois anos em Nova York na década de 1940 e por outros dois em Londres na década de 1960. Em ambas oportunidades, trabalhou nos consulados brasileiros. Desde cedo, Sabino desejava ser escritor. Ainda criança, produziu contos que foram premiados em concursos literários de abrangência nacional. Essa sua precocidade o colocou rapidamente em contato com famosos nomes da literatura brasileira, fascinados com o talento e com o potencial do jovem mineiro. Seu primeiro livro, uma coletânea de pequenas narrativas chamada “Os Grilos Não Cantam Mais”, de 1941, foi publicado antes que seu autor atingisse a maioridade. Ainda antes dos dezoito anos, Fernando começou a trabalhar como redator em um jornal de Belo Horizonte. Estava iniciada, assim, sua trajetória no jornalismo. Quando se mudou para o Rio de Janeiro, Sabino continuou atuando como jornalista. Porém, para conseguir mais dinheiro, dividia seu tempo trabalhando também como funcionário público. Fernando Sabino se notabilizou como um dos principais cronistas brasileiros. Seus textos publicados em jornais e revistas por décadas ajudaram a consolidar esse gênero narrativo em nosso país. Eles também influenciaram gerações de escritores e encantaram milhões de leitores. Para conhecer essa vertente do seu trabalho, vou analisar o livro “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” (BestBolso). Esta coletânea foi lançada em 1986 e reúne 50 textos selecionados pelo próprio autor. Além de ter sido um dos maiores cronistas da história do nosso país, Sabino também se tornou um importante romancista. “O Encontro Marcado” (Record) foi sua primeira narrativa longa. Publicado em 1956, o livro é considerado até hoje uma obra-prima, cultuado como um retrato fiel das agonias juvenis. “O Encontro Marcado”, que na época do seu lançamento se tornou rapidamente um best-seller, é visto como ícone de uma geração. Depois vieram outros grandes sucessos. O mais aclamado deles é “O Grande Mentecapto” (Record), de 1979. A obra conquistou o Prêmio Jabuti de 1980 na categoria melhor romancee foi transformada em filme em 1989. Contudo, a literatura de Fernando Sabino não ficou restrita às crônicas e aos romances. O escritor mineiro também produziu novelas memoráveis. A mais famosa delas é a “A Nudez da Verdade” (Ática), de 1994. Lançada originalmente em uma coletânea de contos em 1960, seu título era “O Homem Nu”, essa história foi, depois, revisada e expandida na década de 1990. A nova versão, classificada como novela, ganhou um título mais filosófico: “A Nudez da Verdade”. “O Homem Nu”/“A Nudez da Verdade” foi adaptado duas vezes para o cinema. Outra novela importante de Sabino é “Martini Seco” (Ática), de 1987. Para muitos críticos literários, esse seria o melhor trabalho do autor, produzido no momento de maior maturidade artística. Se não bastasse essa variedade de materiais produzidos, o escritor mineiro ainda se aventurou pelos livros infantojuvenis. E alguns de seus títulos marcaram época. “O Menino no Espelho” (Record), de 1982, é a principal publicação do autor nessa área, sendo visto atualmente como um clássico da literatura infantil brasileira. Pelo conjunto do seu trabalho, Fernando Sabino recebeu, em 1999, o Prêmio Machado de Assis, a principal honraria da literatura nacional. O prêmio é concedido anualmente pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Em outubro de 2004, às vésperas de completar 81 anos, o escritor morreu em sua casa no Rio de Janeiro, vítima de um câncer no fígado. É este o escritor que iremos estudar no Desafio Literário de novembro. As seis obras de Sabino que iremos ler e comentar no Bonas Histórias, ao longo deste mês, são: “O Encontro Marcado” (post agendado para 5 de novembro), “O Grande Mentecapto” (9 de novembro), “O Menino no Espelho” (13 de novembro), “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” (17 de novembro), “Martini Seco” (21 de novembro) e “A Nudez da Verdade” (25 de novembro). Repare que a seleção deste portfólio tentou abranger todas as facetas da produção literária deste autor: crônicas, romances, novelas e obras infantojuvenis. A partir dessas leituras e críticas, irei produzir, no dia 29, uma análise completa da literatura de Fernando Sabino. E aí, preparado(a) para ler comigo esses livros? Hoje à noite ou amanhã à tarde, dou início a leitura de “O Encontro Marcado”, a primeira publicação de Sabino que será comentada. Bom Desafio Literário de novembro para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FernandoSabino
- Músicas: Todos Estão Surdos – A canção de Roberto Carlos mais atual do que nunca
Em 1971, Roberto Carlos lançou seu décimo terceiro álbum. Chamado simplesmente de “Roberto Carlos”, como a maioria dos seus discos daquela época, o LP marcava o início da fase de maturidade artística do compositor capixaba. Saía de cena o Roberto rebelde da Jovem Guarda e surgia o Roberto romântico da MPB. Este álbum é tão importante que muita gente o coloca como o melhor da carreira de Roberto Carlos e um dos mais relevantes da história musical brasileira. Os elogios não são à toa. Neste disco, temos canções como “Detalhes”, a minha favorita do Rei, “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, imortalizada mais tarde na voz de Caetano Veloso, “A Namorada”, criação de Maurício Duboc e Carlos Colla, “Traumas”, outra composição de Roberto e Erasmo, e “Como Dois e Dois”, música de Caetano Veloso. É tanta canção boa que “Todos Estão Surdos”, a sétima faixa, acabou ficando em parte ofuscada. Trata-se de uma grande injustiça. Criação de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, “Todos Estão Surdos” é daquele tipo de canção que nos faz pensar e, ao mesmo tempo, cantar. Lembro até hoje a primeira vez que a ouvi. Adorei sua mensagem e fiquei cantarolando seu refrão o dia inteiro. E o que posso dizer do seu apoteótico La ra la ra la ra la ra La ra la ra la ra la ra La ra la ra la ra la ra, hein? A versão original cantada por Roberto Carlos mistura cantoria com trechos de discurso/pregação. Esse recurso dá ainda mais força à excelente letra da música. Com uma mensagem bonita e universal, somos contagiados pelo seu conteúdo. Além disso, sua melodia simples e carismática gruda em nossa mente quase que instantaneamente. Impossível não acompanhar sua execução. La ra la ra la ra la ra La ra la ra la ra la ra La ra la ra la ra la ra. Veja, a seguir, a letra de “Todos Estão Surdos”: “Todos Estão Surdos” – Roberto Carlos e Erasmo Carlos (1971) Desde o começo do mundo Que o homem sonha com a paz Ela está dentro dele mesmo Ele tem a paz e não sabe É só fechar os olhos E olhar pra dentro de si mesmo Tanta gente se esqueceu Que a verdade não mudou Quando a paz foi ensinada Pouca gente escutou Mas meu Amigo volte logo Venha ensinar meu povo Que o amor é importante Vem dizer tudo de novo Outro dia, um cabeludo falou "Não importam os motivos da guerra A paz ainda é mais importante" Esta frase vive nos cabelos encaracolados Das cucas maravilhosas Mas se perdeu no labirinto Dos pensamentos poluídos pela falta de amor Muita gente não ouviu porque não quis ouvir Eles estão surdos! Tanta gente se esqueceu Que o amor só traz o bem Que a covardia é surda E só ouve o que convém Mas meu Amigo volte logo Vem olhar pelo meu povo O amor é importante Vem dizer tudo de novo Um dia o ar se encheu de amor E em todo o seu esplendor as vozes cantaram Seu canto ecoou pelos campos Subiu as montanhas e chegou ao universo E uma estrela brilhou mostrando o caminho "Glória a Deus nas alturas E paz na Terra aos homens de boa vontade" Tanta gente se afastou Do caminho que é de luz Pouca gente se lembrou Da mensagem que há na cruz Mas meu Amigo volte logo Venha olhar pelo meu povo O amor é importante Vem dizer tudo de novo Veja e ouça o clipe original da música: Composto há quase cinquenta anos, “Todos Estão Surdos” se encaixa, curiosamente, como uma luva no panorama atual de nosso país. Você percebeu isso? A música se ajusta perfeitamente aos dias que estamos vivendo hoje. Talvez não haja composição mais perfeita do que ela para este 28 de outubro de 2018. Quem me alertou sobre esse fato foi minha irmã. Ontem à noite, ela apareceu cantando essa música e pediu para que eu notasse o teor da letra. Achei maravilhoso! Enquanto milhões de brasileiros vão às urnas hoje, vou aproveitar para continuar ouvindo as sábias palavras de Roberto Carlos e para cantarolar La ra la ra la ra la ra La ra la ra la ra la ra La ra la ra la ra la ra. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RobertoCarlos #ErasmoCarlos
- Livros: Small G – O último romance de Patricia Highsmith
Em 1994, Patricia Highsmith já era uma escritora consagrada. Tida como uma das melhores autoras policiais da segunda metade do século XX, a norte-americana, então com 73 anos, colecionava vários prêmios internacionais, uma indicação ao Nobel de Literatura e uma polpuda conta bancária. Por isso, causou estranheza a recusa da Knopf, sua editora nos Estados Unidos, em publicar “Small G” (Mandarim), seu último romance. “Como assim não editar uma obra de uma das escritoras mais conhecidas do mundo?”, indagaram-se os profissionais do mercado editorial, o público leitor e, creio eu, até mesmo a própria autora. Devido ao impasse na América do Norte, “Small G” foi lançado primeiramente na Inglaterra, em março de 1995. O livro chegou às livrarias europeias um mês após o falecimento de Patricia Highsmith. A obra é a única narrativa longa desta escritora lançada postumamente. Nos últimos dez anos de vida, Highsmith só havia publicado dois romances: “Ripley Debaixo D´Água” (Companhia das Letras), em 1991, a última história da série “The Ripliad”, e “Found in the Street”, de 1986, livro ainda não editado em língua portuguesa. Para justificar sua recusa em lançar a obra, a Knopf, na época, alegou que “Small G” era um livro com uma trama confusa e que fugia um pouco da proposta da literatura de Highsmith. Em suma, a editora norte-americana dizia que não via potencial mercadológico no novo romance. Para um bom entendedor poucas palavras bastam, já dizia o velho ditado. O que eles quiseram falar eufemisticamente foi que a obra era ruim. Curioso para saber a verdadeira qualidade deste livro, li nesta semana “Small G”. Não podia terminar o Desafio Literário de outubro sem conhecer um romance questionável de Patricia Highsmith. Será que a norte-americana foi injustiçada no final de sua carreira pelos editores ou realmente havia produzido uma narrativa muito aquém de sua excelência literária? Após três noites de leitura, cheguei à conclusão que a segunda hipótese era a mais correta. O enredo de “Small G” se passa essencialmente em Aussersihl, um bairro de Zurique. O livro começa com um assassinato. O jovem Peter Ritter, um gay de vinte anos de idade, é assassinado em uma rua do centro da capital suíça ao sair de um cinema à noite. A polícia não consegue identificar os autores do crime. Para as autoridades de segurança pública, o rapaz foi morto após a tentativa de um assalto comum. Contudo, a morte de Petey vira assunto no bairro onde o rapaz morava. Muita gente acredita que ele foi morto na cama de seu namorado, Rickie Markwelder. Rickie tem 46 anos, é design gráfico, possui um estúdio publicitário em Aussersihl e cuida de Lulu, um esperto cachorrinho com habilidades circenses. Segundo a versão passada aos vizinhos por Renate Hagnauer, uma velha fofoqueira que odeia os gays, Peter foi morto quando transava com um garoto de programa na residência de Rickie. O rapaz assassinado aproveitava que o namorado estava trabalhando fora de casa para transar com alguém de sua idade. Aí, um bandido entrou na casa e pum, matou o garoto. Rickie Markwelder, o protagonista do romance, fica muito abalado com a morte do namorado mais jovem, não dando ouvidos às fofocas maldosas que correm sobre o assassinato de Peter. Rickie é aidético e frequenta o bar-restaurante Jakob's, apelidado de Small G por ter como cliente majoritário o público LGBT. O publicitário mantém sua rotina, porém não consegue se relacionar amorosamente com mais ninguém. Ele realmente amava Peter Ritter. Outra pessoa que sente muito a morte do jovem é Luisa Zimmermann, vizinha de Rickie e Peter. A moça de dezessete anos é estagiária de Renate Hagnauer, a velha fofoqueira do bairro, e era apaixonada por Peter. Luisa mora e trabalha com Renate há um ano. Depois de ter fugido da casa dos pais ainda adolescente (seu pai a assediava e tentara estuprá-la), Luisa foi praticamente adotada por Renate, sendo obrigada a viver sob o autoritarismo da velha. Para os vizinhos, Renate, que tem um problema físico em um dos pés e é extremamente antipática, é apaixonada platonicamente pela jovem funcionária. Por isso, não permite que a moça tenha qualquer diversão ou vida social. E sabendo da paixão da jovem por Peter, resolveu criar versões mentirosas sobre a morte do namorado de Rickie. Renate queria mostrar para sua filha adotiva/estagiária o quanto os gays eram pessoas pouco confiáveis e moralmente condenáveis. Após um longo tempo sozinho, Rickie conhece, em um final de semana, Teddie Stevenson, um rapaz de fora do bairro que estava frequentando por acaso o Jakob's. Teddie tem vinte anos e sonha em ser jornalista. O publicitário se apaixona à primeira vista. Entretanto, Teddie não é gay. O rapaz se apaixona por Luisa, que também acaba ficando encantada com a beleza do jovem. A paixão em comum por Peter aproxima Luisa e Rickie. Os dois se tornam grandes amigos, para desespero de Renate. Rickie e Dorrie Wyss, uma amiga lésbica de Rick que frequenta regularmente o Small G, irão tentar ajudar Luisa a fugir da vigilância cerrada de Renate e a se encontrar com Teddie. Inicia-se, portanto, um intrincado jogo amoroso. Rickie gosta de Teddie, que ama Luisa, que é a paixão da vida de Renate. Luisa também gosta de Peter e será ajudada por Dorrie, que rapidamente se apaixona por Luisa. É ou não é uma narrativa cômica, hein?! A impressão é que Patricia Highsmith foi muito mais criativa (e ousada) do que Carlos Drummond de Andrade ao criar sua “Quadrilha” - aquele famoso poema em que João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim... “Small G” é um romance grande, com 371 páginas. Sua leitura é fácil, o que permitiu que eu concluísse a publicação em apenas três noites. Os principais problemas deste romance são: demora no aparecimento do conflito central, longas descrições de cenas banais, o desfecho muito pobre, a falta de ação e de suspense e o derretimento dos aspectos mais fortes da trama. Ou seja, o livro é muito fraquinho. É difícil acreditar que se trate de uma obra produzida por Patricia Highsmith. Muitos críticos literários, na época do lançamento de “Small G”, sentenciaram que este livro parecia inacabado. A impressão é que publicaram a primeira versão desenvolvida pela autora, o esboço inicial de um romance que precisava passar por várias depurações. No papel de editor, se eu recebesse algo assim, diria para seu(sua) escritor(a) que ele(a) tinha um ótimo ponto de partida em mãos, que precisaria ser melhorado ao longo dos meses ou, quem sabe, dos anos seguintes. Talvez Patricia Highsmith soubesse que não tinha esse tempo todo. Por isso, a vontade de publicar o romance desta forma mesmo. Os conflitos principais de “Small G” (a sequência interminável de paixões não correspondidas entre as personagens e o conluio de Rickie e seus amigos para unir Teddie e Luisa) demoram mais de 100 páginas para se evidenciar. Para o meu gosto, é muito tempo para uma história engrenar. Enquanto isso não acontece, o leitor fica se perguntando qual é a proposta central desta narrativa. O que parecia ser a teia de um elaborado romance policial (quem assassinou Peter Ritter?), acaba se tornando um livro romântico (quem vai ficar com Luisa Zimmermann?). Convenhamos que é uma guinada e tanto para um romance. Curiosamente, o crime visto no primeiro capítulo não é resolvido e, pior ainda, é esquecido pela autora no decorrer da trama. As personagens passam a investigar uma agressão sofrida por Teddie, que também acabaria esquecida mais tarde. Fica difícil classificar esta obra como um thriller policial. Para mim, ela está mais para um drama romântico homossexual. Ou seja, este livro é mais parecido com “Carol” (L&PM Pocket) do que com “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso) ou “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), os mais famosos romances de Patricia Highsmith. Contudo, “Small G” não chega aos pés, em relação à qualidade do drama e à profundidade da intriga narrativa, de “Carol”, este sim um bom romance. Outro ponto negativo é a coleção interminável de cenas banais que inundam esta história. O leitor acompanha as personagens em momentos corriqueiros de suas rotinas, algo que torna a trama extremamente pobre. Muitos encontros ocorridos no Jakob's são supérfluos. Apesar de ser um ótimo local para o desenvolvimento de um romance, o bar-restaurante apresenta efetivamente poucos momentos de ação e de intriga. A sensação é que em “Small G”, Patricia Highsmith optou pela crônica de costumes da comunidade gay da Suíça, abrindo mão da narrativa policial. A escolha mais correta, em um primeiro momento, seria unir os dois elementos e não em optar por um deles. Pior mesmo é o desfecho da obra. Renate Hagnauer é, desde o início, a principal vilã da trama. E a felicidade de todas as personagens passa necessariamente por uma ação que impeça a velha de continuar atrapalhando a vida de Luisa. “Como isso será feito?”, perguntam-se os leitores. A escolha de Patricia Highsmith me pareceu de uma infantilidade absurda. O plano de Rickie e Dorrie para salvar a amiga das garras de Renate já era bobinho. E as consequências do ato da dupla se tornaram ainda mais simples. Fazia um bom tempo que não via um final de romance tão besta quanto este. E, para piorar, o livro ainda demora mais 50 páginas para ser encerrado após o desencadeamento do clímax. E, por fim, outro ponto que não gostei foi do derretimento de aspectos fortes da trama. Por exemplo, “O que será que acontecerá com Rickie Markwelder, um soropositivo?”, pensam os leitores mais curiosos. Apesar de saber que a opção de Highsmith para seu protagonista foi baseada em um episódio real que acontecera com um amigo gay da autora, o desfecho de Rickie me pareceu totalmente inverossímil. Já dizia Luigi Pirandello em seu livro "O Falecido Mattia Pascal" (Abril), de 1904: “Os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros. Ao contrário dos da arte que, para parecerem verdadeiros, precisam ser verossímeis. E sendo verossímeis, deixam de ser absurdos”. A escritora norte-americana parece não ter dado ouvidos aos conselhos do antigo italiano. Devo reconhecer que “Small G” também tem alguns pontos positivos. As escolhas da escritora por retratar a comunidade gay e os preconceitos da sociedade mais conservadora foram excelentes. A grande quantidade de personagens do romance também não me incomodou muito (apesar de muitos deles serem figuras estereotipadas). A linguagem leve e a narrativa em tom de confidência deixaram o romance gostoso de ler. A liberdade sexual das principais personagens também mostra o quanto a obra é atual, mesmo tendo sido escrita há vinte e cinco anos. Quando colocado na balança, este último romance de Patricia Highsmith acaba pendendo muito mais para o lado negativo. Para se tornar uma obra minimamente aceitável, “Small G” precisava ter passado por algumas revisões narrativas. Na certa, a autora não teve o apoio de nenhum bom editor durante este trabalho. Para um leitor minimamente exigente e conhecedor do trabalho formidável da escritora norte-americana, este último romance de Highsmith é uma grande decepção. No próximo domingo, dia 28, retorno ao Bonas História para apresentar a análise literária completa de Patricia Highsmith, a autora foco do Desafio Literário deste mês. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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- Livros: O Álibi Perfeito – A coletânea de contos de Patricia Highsmith
O quinto livro de Patricia Highsmith que vamos analisar neste mês no Desafio Literário é “O Álibi Perfeito” (Biblioteca Visão). Encontrei esta obra na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, em uma edição antiga produzida por uma editora portuguesa. Desconheço o lançamento deste livro por uma editora brasileira. Também acho difícil encontrar este título à venda em nosso país. Se você tiver muita sorte, pode achá-lo em um sebo. A procura mais certa parece ser em uma boa biblioteca. É esta a obra de Patrícia Highsmith que discutiremos hoje no Blog Bonas Histórias. “Álibi Perfeito” integra a Coleção Lipton da Biblioteca Visão, a tal editora portuguesa responsável pela sua publicação. Essa série reúne 20 histórias policiais clássicas da literatura europeia e norte-americana. Fazem parte dos títulos selecionados pela Lipton: “As Aventuras de Sherlock Holmes”, de Arthur Conan Doyle, “Um Crime no Expresso do Oriente”, de Agatha Christie, “A Dama do Lago”, de Raymond Chandler, “Cara ou Coroa”, de Ellery Queen, “Cidade Escaldante”, de Chester Himes, entre outras obras canônicas desse gênero ficcional. Para quem gosta de uma boa narrativa policial, a antiga coleção da Biblioteca Visão é imperdível. “O Álibi Perfeito” é uma coletânea de cinco contos policiais de Patricia Highsmith. Vale lembrar que a autora norte-americana ficou internacionalmente conhecida pelos seus romances criminais. Contudo, ela também escreveu narrativas curtas. Sua entrada na literatura ficcional, na década de 1940, aconteceu justamente com a publicação de contos policiais em revistas especializadas. A partir de 1970, a escritora voltaria a publicar suas pequenas histórias, dessa vez em coletâneas de contos. Ao todo foram oito livros desse tipo. No final da vida de Patricia e após a morte da autora, alguns de seus contos antigos foram selecionados e reunidos por editores independentes, o que deu origem a novas obras. É o caso de “O Álibi Perfeito”, minha leitura no último final de semana. Publicado pela primeira vez em 1993, na Suíça, “O Álibi Perfeito” reúne histórias escritas por Highsmith em diferentes fases de sua carreira. Em comum, essas cinco tramas têm assassinatos ocorridos em Nova York, dão a impressão que são homicídios perfeitos e possuem reviravoltas impressionantes no último parágrafo, além do fato de terem narrativas de tamanho reduzido. Em média, cada um destes contos possui entre 15 e 20 páginas. Ah, outra coincidência entre eles é que todos são excelentes! Adorei esta obra. Patricia Highsmith não é apenas uma romancista talentosa como é também uma contista exímia. Os contos desta coletânea são: “O Álibi Perfeito”, que empresta seu título ao nome do livro, “Não Se Pode Confiar em Ninguém”, “Variações de um Jogo”, “Uma Segurança Assente em Números” e “Maquinações”. No conto “O Álibi Perfeito”, Howard Quinn mata George Frizell em uma estação de metrô lotada de Nova York. O assassino consegue fugir sem ser identificado. Ele acha que a polícia jamais suspeitará dele. Howard é noivo de Mary Purvis e trabalha como vendedor. Depois que o pai de Mary faleceu há alguns anos, a moça passou a ser tutelada pelo melhor amigo do pai, o tal George. George é contra o relacionamento de Mary e Howard. Por isso, o plano para matá-lo. Contrariando as expectativas do criminoso, a polícia nova-iorquina rapidamente localiza Howard. Os apuros do vendedor parecem terminados quando o acaso entra em ação. Parece que viram o carro de Howard em outro local da cidade na hora do crime. Será que ele se safará dessa? “Não Se Pode Confiar em Ninguém” narra o assassinato de Lola Parson por seu ex-marido, Claude Merrivale, um ator em decadência que vive uma grave crise financeira. Lola, que já fora uma linda atriz no passado, trocou há alguns meses Claude por Ralf Carpenter, um jovem ator em início de carreira. Entretanto, Lola ainda não mudou seu testamento. O herdeiro de sua pequena fortuna continua sendo Claude. Dessa maneira, o ex-marido mata a antiga companheira e, ainda por cima, faz tudo de um jeito que a culpa do crime recaía em Ralf. Ele acredita que não haverá erro: assim que descobrirem que Lola morreu, ele colocará a mão na grana. O problema é que os dias passam e ninguém parece sentir falta de Lola. A atriz jaz sem vida no apartamento dela e ninguém, além do assassino, dão por sua ausência. Claude entra em desespero com a espera interminável pela confirmação do crime pela polícia. Em “Variações de um Jogo”, o terceiro conto da coletânea, Penn Knowlton é o jovem assistente de David Ostrander, um escritor de ficção científica. Penn também é amante da esposa do patrão, a bela e jovial Ginnie. Os amantes querem viver juntos, mas Ginnie diz que seu marido jamais aceitará o divórcio. Incomodado por manter um relacionamento extraconjugal, o assistente do escritor decide abandonar o emprego. Não quer encontrar diariamente David nem Ginnie. Após anunciar ao casal sua decisão de partir, Penn se vê acusado de um crime. David sumiu misteriosamente e a última pessoa que o viu foi seu assistente. Para a polícia, parece óbvio que Penn é o assassino do marido de sua amante. O rapaz alega inocência e desconfia de Ginnie. “Uma Segurança Assente em Números” é a trama em que três irmãos, Laura, Mary e Joel, decidem matar o próprio pai, Gordon Sommersby. Gordon é visto pelos filhos como um velho avarento e insensível. Milionário antes dos quarenta anos, o pai do trio jamais proporcionou uma vida confortável para a falecida esposa e para os filhos. O plano de Laura, Mary e Joel é simples. Eles vão empurrar Gordon da escada de um jeito que pareça que o velho tropeçou sozinho. A última narrativa da obra é “Maquinações”. Esta é também a história mais engraçada do livro. Olivia Amory mata seu marido, Loren Amory, um profissional da Bolsa de Valores. Ela queria tirar Loren do seu caminho para poder viver com seu amante, o jovem ator Stephen Castle. Como a morte de Loren pareceu um acidente doméstico, Olivia não foi criminalizada. Uma vez viúva, a assassina rapidamente se casa com Stephen. A vida idílica do novo casal logo se transforma em um inferno. Olivia e Stephen têm medo que o parceiro queira repetir a estratégia anterior: matar o companheiro em uma ocasião que pareça um acidente doméstico para ficar sozinho com a fortuna deixada por Loren. Assim, tanto a esposa quanto o marido passam a arquitetar planos para eliminar o inimigo (ou seria companheiro?). Ao mesmo tempo, cada um deles precisa evitar que o outro seja bem-sucedido em perpetuar o crime. “O Álibi Perfeito” é um livro curtinho. Ele tem menos de 100 páginas. É possível lê-lo em uma batida só. Demorei menos de duas horas para concluir sua leitura no último sábado à tarde. Apesar de todas as histórias serem muito parecidas, gostei bastante desta coletânea de contos. Patricia Highsmith mostrou mais uma vez ser uma escritora inteligente, muito bem-humorada, sintética e perspicaz. As reviravoltas nas tramas são espetaculares. Diferentemente do que acontece na saga literária de Tom Ripley, aqui o assassino sempre acaba se dando mal. Afinal de contas, por que as narrativas do livro são tão parecidas? Todos os cinco contos de “O Álibi Perfeito” são ambientados em Nova York, há sempre um triângulo amoroso em cada enredo, o assassinato mistura interesses financeiros e passionais e o crime parece perfeito até que um detalhezinho no último parágrafo muda toda a história. Repare também no humor dessas tramas. Mesmo diante de cenas bárbaras e de personagens insensíveis, é possível achar graça em muitas passagens. Nesse sentido, “Não Se Pode Confiar em Ninguém” e “Maquinações” são os melhores contos da obra. Não me recordo de ter lido nada com tanto humor negro nos últimos anos. Apreciei tanto estas tramas que fiquei imaginando que elas poderiam muito bem ter dado origem a ótimos romances. Talvez, esse seja o melhor indicativo de uma boa coletânea de contos. Fiquei com vontade de ler outros livros de narrativas curtas de Patricia Highsmith. Porém, sei que não será dessa vez. Agora preciso ler “Small G” (Mandarim), o último romance publicado pela escritora norte-americana. Essa leitura fechará o Desafio Literário deste mês e sua análise será publicada no Bonas Histórias na próxima sexta-feira, dia 26. Quem sabe eu não deixe para ler mais contos de Highsmith no próximo ano, hein? Podem me cobrar. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PatriciaHighsmith #RomancePolicial #RomanceNegro #ColetâneadeContos #LiteraturaNorteAmericana #Suspense
- Livros: Ripley Subterrâneo – A sequência da série literária de Patricia Highsmith
Gostei tanto de “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), romance de Patricia Highsmith analisado no último domingo no Desafio Literário, que aproveitei o embalo e li em seguida o segundo livro de sua série literária. “Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras) dá sequência às aventuras de Tom Ripley, o serial killer trambiqueiro criado pela escritora norte-americana. De tão empolgado que estava para conhecer os próximos passos do anti-herói, acabei concluindo a leitura deste livro em apenas duas noites. Patricia Highsmith levou quinze anos para lançar a primeira sequência de “The Ripliad”, apelido dado pelos fãs à série literária que tem Tom Ripley como protagonista. Se “O Talentoso Ripley” é um livro de 1955, “Ripley Subterrâneo” é de 1970. Nota-se que a autora não teve pressa para construir a saga. “O Jogo de Ripley” (Companhia das Letras), o terceiro romance da coleção, chegou às livrarias em 1974 e “O Garoto que Seguiu Ripley” (Companhia das Letras), o quarto título, foi lançado em 1980. O último livro de “The Ripliad” é “Ripley Debaixo D´Água” (Companhia das Letras), publicado em 1991, nos últimos anos de vida da escritora. Assim como aconteceu com “O Talentoso Ripley”, “Ripley Subterrâneo” também ganhou algumas adaptações para o cinema. A mais famosa delas é “Ripley No Limite” (Ripley Under Ground: 2005), filme dirigido por Roger Spottiswoode. Quem ficou responsável por interpretar o protagonista da história foi o canadense Barry Pepper. Este romance de Patricia Highsmith se passa seis anos após o término do livro anterior. Agora, Tom Ripley está morando na Europa de maneira definitiva. O norte-americano de trinta e dois anos vive com a esposa Heloise Plisson, filha de um milionário francês, em uma casa confortável na zona rural da França. O casal leva uma vida tranquila. Nenhum dos dois trabalha e ambos vivem dos rendimentos de suas fortunas. A rotina do casal é composta por viagens, eventos sociais, refeições em locais luxuosos e de muitas horas de ociosidade. Ou seja, Tom está vivendo como sempre sonhou, como um grã-fino culto. Grande parte do dinheiro de Ripley foi herdada de Richard Greenleaf, conforme o desfecho de “O Talentoso Ripley”. Esse valor rende uma considerável quantia anual para o criminoso. Apesar de não ter ficado provado o envolvimento de Tom Ripley no desaparecimento de Dickie, as suspeitas de todos (tanto da polícia quanto da alta sociedade europeia) ainda permanecem. Isso não parece preocupar o protagonista, que mantém sua rotina e os antigos hábitos normalmente. Além da herança de Richard, Tom Ripley também fatura com novos golpes. Afinal de contas, uma vez trambiqueiro, sempre trambiqueiro. O rapaz age como receptador internacional de um homem chamado Reeves Minot. Para completar a “vida bandida”, Tom é sócio minoritário da Derwatt Ltd, uma empresa criada para falsificar obras de um pintor já morto, Philip Derwatt. Foi ideia de Ripley ocultar a morte de Derwatt e contratar alguém, o pintor desconhecido Bernard Tufts, para continuar produzindo novos quadros como se fossem originais do artista já falecido. Com essa maracutaia, a Derwatt Ltd tornou-se uma empresa valiosa na Europa. Os problemas de Tom Ripley e de seus sócios na Derwatt Ltd, o fotógrafo Jeff Constant e o jornalista Ed Banbury, começam quando Thomas Murchison, um norte-americano colecionador de arte, viaja até Londres e alega ter comprado um quadro de Philip Derwatt falsificado. Ele vai além e garante ter descoberto a falsificação promovida pela empresa. Para convencer o norte-americano da veracidade dos novos quadros do pintor, Tom Ripley usa suas habilidades cênicas e finge ser Philip Derwatt. Mesmo assim, Thomas Murchison continua inflexível e passa a investigar por conta própria a veracidade das obras produzidas pelo artista. Sem mais o que fazer para convencer o Sr. Murchison, Tom Ripley acaba assassinando seu conterrâneo. O problema é que o crime foi feito na casa de Ripley. Assim, o anfitrião se torna o principal suspeito do homicídio. Novamente, o protagonista se vê obrigado a ocultar um crime bárbaro. Para se livrar das suspeitas que o incriminam, mais uma vez Tom precisará usar todo o seu talento para limpar a barra. Inicia, assim, um intrincado plano de sobrevivência que contempla muitas viagens pela Europa, novos disfarces e ações para enganar a polícia. A vantagem de Ripley é que ele tem agora alguns comparsas: Jeff Constant, Ed Banbury, Reeves Minot e Bernard Tufts. Até mesmo a esposa, Heloise Plisson, está disposta a ajudá-lo sempre que necessário. “Ripley Subterrâneo” tem pouco mais de 320 páginas, distribuídas em 25 capítulos. Como é característico das obras de Patricia Highsmith, não faltam suspense, intrigas complexas e muita ação neste romance. O livro é bom, porém ele é muito inferior a “O Talentoso Ripley”. Por isso, minha sensação é de decepção ao final da leitura. Sinceramente, esperava muito mais... O principal problema de “Ripley Subterrâneo” está relacionado ao seu protagonista. Antes, Tom Ripley era uma figura misteriosa e muito mais complexa. Em “O Talentoso Ripley”, por exemplo, ele era uma personagem de sexualidade indefinida, que carregava um grande complexo de inferioridade, ansiava por se dar bem na vida e usava seus talentos de disfarce para crescer socialmente. Os crimes praticados por ele faziam todo o sentido. Contudo, agora esse ar de mistério e de grande complexidade desapareceram completamente. Em outras palavras, o protagonista que era uma personagem redonda se transformou em uma personagem plana. Neste romance, Tom Ripley aparece misteriosamente casado com Heloise Plisson. Mas ele não odiava as mulheres? O leitor mais atento pode até pensar: “Ele fez isso porque ela era milionária. Foi um golpe do baú. Esse comportamento é a cara de Tom”. À medida que os capítulos vão evoluindo, nota-se que o casal é muito apaixonado e Ripley adora a esposa. Como assim?! E a atração velada do protagonista por homens? Essa característica é ignorada neste segundo romance da série. Além da mudança radical do comportamento sexual de Tom Ripley, as novas atitudes criminosas do rapaz me pareceram artificiais. Se ele está agora rico e casado com uma mulher milionária, por que continuaria praticando delitos menores, hein? Não faz sentido. Ele não gosta de correr riscos e, neste novo cenário, tem muito mais a perder se for revelado seu passado e presente criminosos. Sinceramente, não consegui enxergar o antigo Ripley neste livro. Para mim, a personagem anterior possuía uma envergadura muito maior do que a atual. O lado positivo de “Ripley Subterrâneo” é que continuamos com uma intrincada narrativa policial. O leitor novamente fica torcendo pelo bandido contra a polícia. Para ocultar o novo assassinato, Tom precisará se desdobrar como nunca. Ele fica viajando pela Europa para atrapalhar a investigação policial. Neste sentido, o livro é tão bom quanto o anterior. Não faltam boas doses de ação. Outro problema sério de “Ripley Subterrâneo” é que sua trama possui muitas partes estáticas. Se no primeiro romance da série isso ocorria apenas em alguns momentos dos capítulos iniciais, agora o marasmo se espalha pela obra inteira. O assassinato de Thomas Murchison só acontece na página 100. E, depois disso, o protagonista fica tentando socorrer o traumatizado Bernard Tufts por vários e vários capítulos. Será que Ripley com a frieza emocional que lhe é tão peculiar iria se preocupar com um rapaz que não é tão amigo seu? Acho que não. A tentativa de Tom de ajudar Bernard me pareceu muito enfadonha e sem sentido. São vários os pontos que não colam em “Ripley Subterrâneo”. Além de ter descaracterizado seu principal personagem, Patricia Highsmith criou uma trama um tanto embolada. Não gostei do seu resultado. Talvez minha frustração seja mais fruto da minha alta expectativa inicial do que da baixa qualidade desta publicação. Se “O Talentoso Ripley” é uma obra-prima dos romances policiais modernos, “Ripley Subterrâneo” não passa de um livro razoavelmente bom. Daí o sabor amargo ao final da sua leitura. Fiquei tão decepcionado com o conteúdo desta publicação que não vou mais ler as sequências de “The Ripliad”. A próxima obra que vou analisar no Desafio Literário de Patricia Highsmith é “O Álibi Perfeito” (Biblioteca Visão), uma coletânea de contos da escritora norte-americana. Assim, vou deixar um pouco a análise dos romances de Highsmith e mergulharei em seu lado contista. O post sobre esse novo livro estará disponível no Bonas Histórias na próxima segunda-feira, dia 22 de outubro. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PatriciaHighsmith #RomancePolicial #RomanceNegro #Romance #LiteraturaNorteAmericana #Suspense
- Livros: O Talentoso Ripley – O maior sucesso de Patricia Highsmith
Neste final de semana, li “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), o título mais famoso da carreira de Patricia Highsmith. Admito que estava ansioso para conhecer este livro, o terceiro do Desafio Literário de outubro. Considerado um clássico da literatura policial norte-americana, este romance fez tanto sucesso que se transformou, ao longo dos anos, em uma série literária. Highsmith produziu mais quatro obras com a personagem Tom Ripley, um trambiqueiro frio e calculista que tinha a habilidade de ocultar seus crimes da polícia. Os cinco títulos da série, apelidada pelos fãs de “The Ripliad”, venderam milhões de cópias no mundo inteiro e se tornaram best-sellers. “Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras), publicado em 1970, deu sequência à narrativa de “O Talentoso Ripley”. Essa segunda parte da saga será apresentada na próxima quinta-feira, dia 18, em um novo post do Blog Bonas Histórias. Depois vieram “O Jogo de Ripley” (Companhia das Letras), de 1974, e “O Garoto que Seguiu Ripley” (Companhia das Letras), de 1980. “Ripley Debaixo D´Água” (Companhia das Letras), lançado em 1991, fechou a coletânea. Publicado em 1955, “O Talentoso Ripley” conquistou vários prêmios importantes. Em 1956, o livro de Patricia Highsmith ganhou o Prêmio Edgar Allan Poe, conferido pela Associação dos Escritores Policiais dos Estados Unidos ao melhor romance de mistério e suspense do ano anterior. Até hoje, essa é uma das maiores honrarias do mercado editorial norte-americano para um thriller. Em 1957, veio o reconhecimento da crítica europeia. A obra ganhou o Grande Prêmio Francês de Literatura Policial como o melhor romance criminal produzido em língua não francesa. Além do sucesso entre os críticos literários, “O Talentoso Ripley” também conseguiu agradar os leitores. O livro apresentou rapidamente ótimos resultados nas livrarias norte-americanas e europeias, tornando-se um best-seller mundial. Como consequência, em 1960, ele ganhou sua primeira adaptação para o cinema. O “Sol sob Testemunha” (Plein Soleil: 1960) é o nome desse longa-metragem, uma produção ítalo-francesa. Coube a René Clément a direção e a Alain Delon a interpretação de Tom Ripley. Em 1999, uma nova filmagem do clássico de Patricia Highsmith foi feita, agora com o nome “O Talentoso Ripley” (The Talented Mr. Ripley: 1999). Na nova versão, uma superprodução hollywoodiana, Anthony Minghella ficou à cargo da direção e Matt Damon ficou com o papel principal. O longa-metragem foi indicado ao Oscar em algumas categorias, entre elas a de melhor roteiro adaptado. O romance de Patricia Highsmith começa com Tom Ripley, o protagonista da trama, vivendo em Nova York de maneira precária. O rapaz de vinte e seis anos não possui emprego nem moradia fixa. Órfão desde a infância, ele foi criado por uma tia autoritária, que ele odeia e que não vê há anos. Tom ganha a vida realizando pequenos crimes. Ele é excelente na arte de imitar as pessoas e em se passar pelos mais diferentes tipos de indivíduos. Ele imita a voz, os trejeitos e a assinatura de qualquer um. Se Ripley não estivesse no mundo da bandidagem, na certa poderia usar seus vários talentos no show business. O ganha pão de Tom no início do livro é enganar pessoas com um golpe envolvendo o Imposto de Renda. Assim, o rapaz consegue algum dinheiro para se manter minimamente. Ele mora de favor no apartamento de um amigo em um dos lugares mais barras-pesadas da cidade. A maré de azar de Ripley parece piorar quando, numa noite, ele é seguido por um homem misterioso pelas ruas escuras de Nova York. Na hora, o trambiqueiro pensa ter sido descoberto pela polícia. Ao entrar em um bar, Tom é, enfim, abordado pelo sujeito. Só, então, o protagonista da narrativa descobre que seu perseguidor não é um tira e sim um rico industrial. Herbert Greenleaf está procurando Tom, pois ouviu falar que ele já fora um grande amigo do seu filho, Richard. Tom confirma os relatos ouvidos pelo milionário, apesar de nunca ter sido próximo de Dickie, apelido de Richard Greenleaf. Apenas uma vez, Tom Ripley e Dickie foram juntos a uma festa. E isso foi há alguns anos. Pensando estar falando com alguém de confiança, Herbert Greenleaf conta seu drama para Tom na mesa do bar. Ele quer que o filho volte a morar nos Estados Unidos e passe a tomar conta das empresas da família. Contudo, Dickie não quer saber da vida empresarial norte-americana. O rapaz que tem a idade de Tom mora em uma pequena vila litorânea na Itália com uma mulher. Lá, o herdeiro dos Greenleaf passa os dias tranquilamente sem se preocupar com os negócios e sem ver os pais. Esse estilo de vida blasé deixa o Herbert Greenleaf desesperado. O pai já tentou inúmeras vezes convencer o filho a regressar, mas nunca conseguiu. Conversando com Tom Ripley, o Sr. Greenleaf tem uma ideia. Ele poderia enviar o amigo do filho para a Europa para convencer Dickie a retornar ao seu país. Na certa, Richard iria ouvir as palavras de um amigo próximo, pensa o milionário. Empolgado com a sua ideia, Herbert Greenleaf faz uma proposta tentadora para Ripley. O rapaz iria viajar ao exterior com a missão de trazer Dickie. O Sr. Greenleaf pagaria tudo, oferecendo uma viagem e uma estadia luxuosa na Europa para o amigo do filho. Obviamente, Tom aceita o convite. Trata-se de um lance de sorte que o pobre criminoso jamais teve na vida. Na Itália, Ripley tem dificuldade, no primeiro momento, de se aproximar como desejava de Richard Greenleaf. Por isso, Tom logo abre o jogo, dizendo que foi enviado pelo pai de Dickie para convencê-lo a voltar. A sinceridade de Tom ajuda-o a se aproximar do herdeiro dos Greenleaf. Os dois se tornam grandes amigos. A amizade da dupla é tão forte que eles passam a morar e a viajar juntos pela Europa. A relação de Tom e Dickie começa a levantar suspeitas. Os dois seriam homossexuais? E estariam tendo um romance? Essas são as perguntas que Marge Sherwood, a grande amiga de Dickie na Itália, se faz o tempo inteiro. As suspeitas de estar sendo substituída no coração de Richard deixam a moça desesperada. Antes da chegada de Tom, era ela quem participava ativamente da rotina de Dickie. Depois da vinda do norte-americano, ela foi deixada de lado, sendo até mesmo desprezada por Richard em muitos momentos. Aos olhos de Marge, Tom Ripley não passa de um aproveitador barato, alguém interessado unicamente na fortuna e no prestígio social dos Greenleaf. À medida que os meses passam na pacata vila italiana, Dickie começa a se sentir enfadado com a companhia de Ripley. Com medo de perder a boa vida que estava levando na Europa ao lado do amigão rico, Tom acaba matando Richard em um passeio de barco em alto-mar. Ao sumir com o corpo do filho de Herbert Greenleaf, Tom decide assumir a identidade do homem assassinado. Assim, poderá manter seu padrão de vida atual. Iniciam-se, aí, as peripécias do trambiqueiro para levar a vida de luxo de Dickie e, ao mesmo tempo, não levantar suspeitas de que ele seja um impostor. A vantagem de Ripley é que ele é excelente nos disfarces e Richard Greenleaf era um rapaz solitário e com uma vida social limitada. O problema é que o rapaz brutalmente morto tinha Marge, uma mulher apaixonada, e um pequeno grupo de amigos fiéis. Eles não descansaram enquanto não falarem com Dickie pessoalmente. Conseguirá Tom Ripley ocultar seu crime e manter a identidade falsa que assumiu? “O Talentoso Ripley” é realmente uma obra-prima dos romances negros, um subgênero da narrativa policial. Patricia Highsmith é mestre em escrever tramas com muito suspense. Suas histórias são recheadas de intrigas inusitadas, possuem personagens diferenciadas, têm conflitos originais, tocam em temas ousados para a época e apresentam desfechos de tirar o fôlego. Quem gosta de uma boa narrativa policial irá gostar, na certa, da literatura de Highsmith. “O Talentoso Ripley” é, muito provavelmente, o melhor exemplar dessas características da escritora norte-americana. Em minha opinião, o ponto alto deste livro está justamente na complexidade psicológica de seu protagonista. Tom Ripley é uma das personagens mais originais e enigmáticas da literatura policial. Em um primeiro momento, ele pode até parecer um anti-herói comum, como vários que inundam os romances negros: uma pessoa fria, extremamente calculista e muito inteligente. É, a princípio, um serial killer como muitos por aí. Contudo, ele possui algumas camadas psicológicas que o fazem único. O brilhantismo do trabalho de Patricia Highsmith fica evidenciado justamente nesses pequenos detalhes. Seu principal personagem literário nasceu de uma ousadia rara. Para começo de conversa, o que é possível afirmar sobre a sexualidade de Tom Ripley? Ele não gosta das mulheres como os homens normalmente gostam. Ponto. Isso está claro desde os primeiros capítulos. A maneira como age com Marge Sherwood nos faz ter certeza absoluta dessa característica. Seria, então, ele um homossexual? A tia do rapaz já afirmara isso há muitos anos. Ele mesmo mostrou, em alguns momentos, algum interesse por rapazes bonitos. Porém, em nenhum momento da história, Ripley agiu lascivamente. Nem com Richard Greenleaf, ele expôs qualquer comportamento gay. O que seria, então, o protagonista de “O Talentoso Ripley”? Um homem assexuado? Esse é um dos grandes mistérios que intrigam o público durante a leitura do romance. Ao mesmo tempo em que vive junto de pessoas ricas e frequenta a alta sociedade europeia exercendo um papel específico, o de intelectual milionário, Tom Ripley no fundo continua sendo o caipira criado pela tia pobretona. Sua essência de pequeno trambiqueiro o angustia, mas está lá o tempo inteiro. Evidenciar esse seu lado aos novos amigos o preocupa acima de tudo. O jeito como Patricia Highsmith constrói essa contradição é maravilhoso. Para completar o perfil desta personagem, as habilidades de imitação a tornam uma pessoa perigosíssima. Além de dar mote aos conflitos do romance, essa competência de Sr. Ripley permite o surgimento de cenas tragicômicas. É verdade que é preciso uma imaginação flexível por parte do leitor para acreditar que um homem possa parecer outra pessoa fisicamente apenas com a mudança de roupas e com a aquisição de novos trejeitos. De qualquer forma, essa pequena liberdade criativa da autora não desmerece a força de Tom Ripley como personagem. Ele é uma das mais magistrais invenções da ficção policial. A trama de “O Talentoso Ripley” é muito bem construída. Com a morte de Richard, inicia-se uma intricada narrativa, em que a ousadia de Patricia Highsmith (e, por consequência, de Tom Ripley) parece não ter limites. Um evento puxa outro, que gera um terceiro, que, por sua vez, provoca um novo acontecimento surpreendente. O fio narrativo é muito bem conduzido, assim como o plano criminoso do protagonista parece ser perfeito. Será que alguém conseguirá desmascará-lo? O leitor fica se perguntando sobre essa questão o tempo inteiro. Assim, temos mistério, suspense e aventura até o último parágrafo. É verdade que a história demora um pouco até chegar ao seu conflito principal. A morte de Richard Greenleaf só acontece na página 100. Até lá, o livro acaba emperrando em alguns momentos, principalmente nas cenas banais protagonizadas por Tom, Dickie e Marge na cidadezinha italiana. Entretanto, esse pequeno deslize não atrapalha em quase nada o ritmo da obra. Uma vez chegado ao conflito, as emoções não param mais até a última página. A tensão é do tipo crescente. Quanto mais Tom Ripley apronta para fugir da polícia, mas ele se torna suspeito. Por isso, os últimos capítulos do romance são eletrizantes. A agonia do rapaz é digna de pena. O desfecho do romance é incrível. Gostei muito da maneira como Patricia Highsmith apresenta os principais problemas da narrativa e os resolve. O final é tão surpreendente que ficamos sem reação. Como é possível que Tom termine desse jeito?, pensam os leitores incrédulos. Não posso dizer mais nada sobre isso se não corro o risco de estragara a experiência de leitura de alguém. O fato é que “O Talentoso Ripley” é uma trama policial impecável. Você pode gostar ou não gostar desse romance, mas não poderá ficar indiferente à sua arquitetura narrativa. Gostei tanto do livro que já iniciei a leitura de “Ripley Subterrâneo”, o segundo título da série. Volto ainda nesta semana aqui no Bonas Histórias para comentar essa nova obra do Desafio Literário de Patricia Highsmith. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PatriciaHighsmith #RomancePolicial #RomanceNegro #Romance #Suspense #LiteraturaNorteAmericana
- Livros: Carol – A obra mais polêmica de Patricia Highsmith
Neste final de semana, li o livro mais polêmico da carreira de Patricia Highsmith. “Carol” (L&PM Pocket) é o romance lésbico da autora norte-americana. Nesta trama, uma jovem pobre de dezenove anos e uma socialite experiente se apaixonam depois de se conhecerem por acaso em uma loja de departamentos de Nova York. O relacionamento irá causar sérios problemas para as duas mulheres. Se hoje em dia uma história assim é vista com banalidade, no início da década de 1950, quando a obra foi lançada, a sociedade e o mercado editorial eram muito mais conservadores quando o tema era a homossexualidade feminina. Assim, a proposta de Highsmith de construir uma narrativa lésbica com um final feliz não deixava de ser inovadora e ousada. Curiosamente, a escritora norte-americana sabia que estava produzindo um romance polêmico. Por isso, Patricia Highsmith não reconheceu, por muitos anos, a autoria desta obra. “Carol” foi publicado inicialmente com o título de “O Preço do Sal” em 1952. O nome da autora que estampava a capa do livro era de Claire Morgan, obviamente um pseudônimo. Demoraram-se quase quatro décadas para Highsmith admitir ser Claire Morgan. Quando isso, enfim, aconteceu, no final dos anos de 1980, a escritora já estava no final da carreira e era uma artista internacionalmente reconhecida. Ou seja, ela não tinha muito o que perder com a revelação. Foi apenas neste momento em que “O Preço do Sal” de Claire Morgan passou a ser publicado com o título de “Carol” e tendo a autoria de Highsmith. Por que Patricia Highsmith levou tanto tempo para confessar ser a autora deste romance?! Uma possível explicação para essa demora está no grande teor autobiográfico da obra. Se admitisse que tinha escrito o livro, ela estaria automaticamente divulgando publicamente seu homossexualismo. Highsmith teve relacionamentos tanto com homens quanto com mulheres ao longo dos anos. Nas páginas de seus diários, a autora admitiu que os grandes amores de sua vida foram pessoas do seu sexo. Apesar de ir para cama com homens, ela nunca gostou verdadeiramente dos parceiros sexuais masculinos. Se no âmbito privado a preferência por relacionamentos lésbicos nunca pareceu ser um problema para Highsmith, divulgar isso aos quatro ventos na década de 1950 pareceu excessivo para uma escritora iniciante. “O Preço do Sal” começou a ser escrito logo depois da publicação de “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), em 1950. Nesta época, Patricia Highsmith morava de maneira precária em Nova York. Seu romance de estreia ainda não tinha feito sucesso e a jovem de 28 anos estava tendo dificuldades financeiras. Para conseguir um dinheiro extra no final de ano, Patricia foi trabalhar como vendedora temporária em uma loja de departamentos no setor de brinquedos. A ideia para o enredo do livro surgiu em uma manhã, quando uma rica senhora solicitou a ajuda da jovem vendedora. A própria Patricia Highsmith descreveu, anos mais tarde, como aconteceu seu insight. “Certa manhã, nessa confusão de comércio e barulho, eis que entra uma mulher meio loira em um casaco de pele. Meio à deriva, ela se aproximou do balcão das bonecas com um aspecto inseguro – deveria ela comprar uma boneca ou outra coisa? – e acho que ela batia distraidamente um par de luvas em uma das mãos. Talvez eu a tenha notado porque ela estava sozinha, ou porque um casaco de mink era uma coisa rara e porque ela era meio loira e parecia emanar luz. Com o mesmo ar pensativo, ela comprou uma boneca, uma das duas ou três que eu lhe mostrara, e escrevi seu nome e endereço no recibo, porque a boneca era para ser entregue em um estado vizinho. Era uma transação de rotina, a mulher pagou e foi embora. Mas eu me senti estranha, com a cabeça esvoaçante, perto de desmaiar, ao mesmo tempo enlevada, como se tivesse tido uma visão. Como sempre, depois do trabalho fui para casa, para o apartamento onde morava sozinha. Naquela noite escrevi uma ideia, um roteiro, uma história sobre a mulher meio loira no casaco de pele. Escrevi cerca de oito páginas à mão no meu livro de anotações ou cahier de então. E a história de “O Preço do Sal”, como originalmente se chamava “Carol”, fluiu de minha caneta como se saísse do nada – começo, meio e fim. Levou-me duas horas, talvez menos”. Depois de escrever o rascunho do primeiro capítulo do novo romance, Patricia Highsmith preferiu deixar as ideias se consolidarem em sua mente. Ela só voltaria a trabalhar em “O Preço do Sal” meses depois, quando, enfim, “Pacto Sinistro” já havia se tornado um sucesso e os direitos comerciais do livro tinham sido vendidos para Alfred Hitchcock. Contudo, ao finalizar “O Preço do Sal”, Patricia foi surpreendida pela decisão de sua editora. Se até então a companhia estava cobrando avidamente a autora para produzir seu segundo romance, quando viu a narrativa homossexual, os editores recusaram o livro. Assim, Highsmith teve de procurar outra editora para lançar seu segundo livro comercial. Foi, então, que surgiu a ideia de publicar a obra com um pseudônimo. “O Preço do Sal” recebeu algumas críticas positivas logo de cara. Seu grande sucesso, porém, demorou um pouquinho mais para acontecer. Só quando uma edição de bolso foi publicada é que as vendas do romance atingiram quase um milhão de exemplares. O livro tornava-se um best-seller. Claire Morgan passou a ser uma influente figura do meio editorial norte-americano, recebendo muitas cartas dos leitores diariamente. Patricia Highsmith lia as mensagens e as respondia, sem nunca revelar sua verdadeira identidade. Em “Carol”, conhecemos a jovem Therese Belivet, a protagonista da trama. A moça de dezenove anos vive sozinha em Nova York e tem uma rotina um tanto melancólica. Ela é cortejada por Richard, um quase namorado. Entretanto, Therese não gosta do rapaz, preferindo não iniciar um relacionamento mais sério com ele. Therese sonha em trabalhar como cenógrafa em produções teatrais, mas seu ganha pão atual é como vendedora temporária em uma loja de departamentos. Ela trabalha no setor de brinquedos. Um certo dia, uma mulher rica e loira aparece na loja para comprar uma boneca para sua filha. Therese fica fascinada com o jeito da cliente. Na hora de enviar a compra para a casa da menina, que não mora em Nova York, a jovem vendedora aproveita para enviar um cartão de Natal para o endereço da cliente. Assim, as duas mulheres se tornam amigas. Carol Aird é uma socialite que está passando por um difícil processo de separação matrimonial. Em meio à disputa pela guarda da filha, a senhora encontra em Therese uma amiga fiel. As duas passam a se ver frequentemente. Rapidamente, Therese se apaixona por Carol. Pouco a pouco, a companhia de Richard passa a ser vista como algo enfadonho pela garota, que só quer ficar ao lado da amiga mais velha. Carol e Therese decidem viajar juntas de carro pelos Estados Unidos. A viagem que tinha tudo para ser uma Lua-de-mel para as duas acaba se tornando uma armadilha para Carol. Há pessoas interessadas em expor a vida privada da Sra. Aird. O que ela fará: Dará sequência ao relacionamento com a moça bem mais jovem ou irá se expor menos, preservando um pouco mais sua vida particular? “Carol” é um romance robusto, com mais de 300 páginas. Logo de cara, o que chama a atenção do leitor é a lentidão de sua narrativa. Os acontecimentos demoram para se suceder. As cenas cotidianas e a banalidade da vida de Therese Belivet acabam ocupando muitas páginas da história, esvaziando um pouco a força da trama. É preciso, aviso desde já, paciência para aguardar os desdobramentos se materializarem. Na certa, os leitores mais afobados e impacientes não vão gostar da evolução da narrativa deste livro. Realmente, essa é a sua principal fragilidade. O ponto alto do romance, como não poderia ser diferente, está no clima de mistério e de apreensão quanto à amizade colorida de Therese e Carol. Até onde o relacionamento das duas mulheres poderá chegar? É essa a pergunta que os leitores se fazem durante a leitura. Também neste aspecto, achei que “Carol” envelheceu mal. Se uma trama assim era extremamente polêmica na metade do século XX, hoje em dia ela não é mais tão forte para segurar uma narrativa inteira. Se não fosse o homossexualismo das protagonistas, diria que “Carol” é um livro sem um atrativo especial. O que atrapalha um pouco o desenvolvimento do romance é a mistura indiscriminada de elementos mais explícitos e de recursos mais sutis sobre o relacionamento amoroso das personagens centrais. Vejamos: Therese e Carol se apaixonam perdidamente a ponto de saírem em Lua-de-Mel. Até aí, beleza! Contudo, as duas mulheres demoram mais de 200 páginas para trocarem o primeiro beijo na boca. E, mesmo assim, elas seguem parecendo duas estranhas uma para a outra. Elas não dividem a mesma cama em nenhum momento e Carol se incomoda quando, por exemplo, Therese invade seu banheiro enquanto ela está de toalha. Será mesmo que as duas protagonistas são tão tímidas ou o conservadorismo da sociedade da época acabou influenciando Patricia Highsmith? Acredito mais na segunda hipótese. Paradoxalmente, enquanto as personagens principais se mantêm aparentemente castas, todo mundo em volta (tanto dentro do livro quanto fora dele) já percebeu o affair das duas. É natural que os leitores queiram ver os detalhes desse relacionamento, mas a autora parece receosa de expor as intimidades das suas protagonistas. Essa é a principal diferença de “Carol” para “O Diário Roubado” (Klick), novela lésbica da francesa Régine Deforges. Se Highsmith opta pela discrição, Deforges não economiza nos detalhes quando a porta do quarto é fechada. Para mim, uma das graças de um livro como este está em manter o suspense sobre o relacionamento dos protagonistas. É preciso mostrar uma evolução nas atitudes e nos comportamentos. Se o autor optar por ocultar algumas cenas, tudo bem. Mas deverá mostrar outras. É algo que foi feito com grande excelência em “Lolita” (Alfaguara), romance de Vladimir Nabokov. Em “Carol”, por sua vez, falta certa dose de ousadia para mostrar as personagens em ambientes privados. Só há um único momento de maior lascividade em toda a trama, um rápido sexo oral entre as duas mulheres. E mesmo assim, uma das parceiras reclama daquela ousadia. Reclamar do quê?! Achei que “Carol” tem um bom começo, mas um desenvolvimento extenso e enfadonho. O livro só volta a ficar interessante nos últimos capítulos, quando o conflito se torna mais forte e nítido para os leitores. Aí a história adquire um ar de trama policial, algo em que Patricia Highsmith sabe fazer muito bem. De certa forma, o desfecho também é surpreendente. Quando imaginamos que o destino das protagonistas já foi decidido pela autora, nas últimas linhas temos uma grande reviravolta. Gostei desse expediente. A sensação final da leitura de “Carol” é de certa decepção. Admito que esperava muito mais de uma obra tão polêmica. No final das contas, sua história é bobinha e a autora não foi tão ousada assim para detalhar a vida à dois das duas mulheres. Uma pena! Em 2015, “Carol” foi adaptado para o cinema. O filme do diretor Todd Haynes teve Rooney Mara interpretando Therese Belivet e Cate Blanchett como Carol Aird. O longa-metragem orçado em US$ 12 milhões recebeu cinco indicações ao Globo de Ouro de 2016, sendo um dos destaques daquela temporada no cinema norte-americano. Aparentemente, o filme parece ser muito melhor do que o livro. O Desafio Literário de Patricia Highsmith prossegue na próxima semana com a análise do romance mais famoso da escritora, “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso). Não perca os próximos passos do Desafio de outubro do Blog Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PatriciaHighsmith #Romance #Drama #LiteraturaNorteAmericana
- Livros: Pacto Sinistro – O romance de estreia de Patricia Highsmith
Em março de 1950, Patricia Highsmith estreava nas narrativas longas com “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), um romance policial noir. Até então, a escritora norte-americana só havia publicado alguns contos em revistas literárias. A maioria dessas pequenas histórias era constituída de tramas criminais, um gênero que se transformaria ao longo da carreira de Highsmith em sua especialidade. A recepção de “Pacto Sinistro”, em um primeiro momento, foi modesta nas livrarias da América do Norte. Contudo, um leitor em particular acabou adorando o livro da jovem romancista. Este leitor era ninguém mais, ninguém menos do que Alfred Hitchcock. O cineasta britânico comprou os direitos da obra alguns meses após o lançamento do romance e iniciou quase que imediatamente as gravações do filme. O longa-metragem “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train: 1951) chegou às telonas um ano depois do lançamento do livro e se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Hitchcock. A partir do êxito desta história no cinema, o público passou a ver com outros olhos a obra de Patricia Highsmith. Em pouco tempo, o livro não apenas tinha sua primeira edição esgotada nas livrarias como se tornaria, alguns anos depois, um clássico dos romances policiais norte-americanos. A trama deste romance começa com o encontro casual de Guy Daniel Haines e Charles Anthony Bruno em um vagão de trem. Guy é um arquiteto do Texas que vive um momento favorável na carreira. Contudo, na vida pessoal, o rapaz de 29 anos tem alguns dissabores. Miriam, sua esposa (esposa no papel, pois eles não vivem juntos há um bom tempo), não quer assinar o divórcio. A moça de 22 anos espera que o marido cresça ainda mais na profissão e ganhe muito dinheiro. Só assim, ela aceitará a separação, o que lhe renderá uma rescisão matrimonial polpuda. Para desespero de Guy, ele já está noivo de Anne Faulkner, enquanto Miriam está grávida do seu atual namorado. Charles Bruno, por sua vez, é o filho único de um rico empresário de Nova York, Samuel Bruno. Alcóolatra, mimado pela mãe e bipolar, Charles é um rapaz que nunca trabalhou na vida e que vive às custas do pai. O rapaz de 25 anos odeia seu pai por ele ser contra esse estilo de vida fútil e adora a mãe pois ela permite que ele faça o que bem deseja. No trem, Bruno é extremamente indelicado e força uma aproximação com Guy. Assim, os dois homens que eram até então desconhecidos começam a conversar sobre suas vidas. Bruno afirma que deseja matar seu pai. O herdeiro dos Bruno não aguenta mais viver com o pai renegando dinheiro para ele. Já Guy lamenta a decisão de Miriam em não lhe conceder o divórcio. O arquiteto imagina que a ex-esposa só irá assinar os papéis se receber uma boa grana. Diante desse cenário, Bruno tem uma ideia aparentemente genial. E se eles assassinassem o desafeto um do outro? Como eles são, a princípio, desconhecidos, ninguém iria conseguir relacionar os crimes. Trata-se de um crime perfeito. Assim, Bruno se livraria do pai e Guy não teria mais Miriam no seu caminho. O filho do milionário de Nova York faz a proposta para o arquiteto texano, mas Guy se revolta com o que ouve. Ele jamais faria uma atrocidade dessa. Indignado com o colega de trem, Guy passa a ignorar Bruno até desembarcar em sua estação. Alguns dias depois da viagem, Guy Daniel Haines começa a receber cartas e telefonemas de Charles Bruno insistindo na proposta. O arquiteto recusa todas as investidas do maluco. Mesmo assim, em certa noite, Bruno viaja a Metcalf e mata friamente Miriam. A polícia suspeita inicialmente de Guy, mas não há nada que possa incriminá-lo. No começo, Guy fica preocupado se aquela ação fora praticada por Bruno. Depois, ele tenta se convencer que talvez a morte de Miriam tenha sido provocada por um maníaco ou pelo namorado da jovem. Algumas semanas mais tarde, Bruno visita Haines e confessa ter sido ele o assassino. Guy ameaça relatar o fato à polícia, mas Bruno não deixa. Se o nova-iorquino for incriminado, ele irá dizer que Guy fora o mandante do crime. Além do mais, se o arquiteto não fizesse a segunda parte do plano, matar Samuel Bruno, Charles iria dificultar o casamento do “amigo” com Anne Faulker, além de arruinar a próspera carreira do arquiteto. Guy Daniel Haines fica em dúvida. O que fazer?! Assassinar o pai de Charles Bruno e viver sua vida como sempre sonhou ou se recusar a cometer tamanha atrocidade e perder a mulher e o trabalho que sempre almejou? A indecisão torna a rotina de Guy um inferno. Charles Bruno não irá descansar até que o “amigo” cumpra sua parte no plano traçado dentro do trem. “Pacto Sinistro” tem aproximadamente 300 páginas. Seus capítulos são normalmente curtos, possuindo seis páginas em média. O ritmo do romance pode ser dividido em duas partes distintas. Na primeira metade da obra temos um thriller com muita ação e mistério. O que Guy fará? É essa a pergunta que ronda a cabeça do leitor curioso. Depois que o protagonista toma sua decisão, temos então um suspense psicológico. Essa é a característica da segunda parte do livro. O arquiteto passa a sofrer com sua escolha e a ser perseguido por um cada vez mais desequilibrado Charles Bruno. Patricia Highsmith construiu uma obra-prima dos romances negros. “Pacto Sinistro” é um livro excelente, com alto nível de tensão e de suspense. É impressionante notar que este é o romance de estreia da norte-americana. Estreia! Se Patricia Highsmith já começou escrevendo assim, até onde ela poderia chegar? Deve ter sido essa a pergunta que os críticos literários da época se fizeram. Hoje em dia sabemos a resposta. “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), obra lançada cinco anos mais tarde, representou o ápice da carreira de Highsmith, um dos melhores romances noir de todos os tempos. É verdade que não temos em “Pacto Sinistro” uma narrativa perfeita. A trama tem alguns pontos altos (principalmente na primeira metade) e alguns pontos baixos (a maioria na metade final). Curiosamente, essa oscilação é algo que se nota em outras obras de Patricia Highsmith. Além disso, o ritmo do romance cai um pouco no terço final da trama. Nesse momento, a narrativa torna-se um pouco arrastada. Há também alguns erros de nomeação das personagens. Onde era para aparecer a palavra Guy vem escrito Bruno e onde era para estar escrito Bruno no texto vem a palavra Guy. Sinceramente, não sei se este é um erro da autora ou da equipe de tradução. Pela recorrência, achei que fosse um problema do texto original. Para completar, considerei o desfecho do filme de Alfred Hitchcock muito melhor do que o do livro de Patricia Highsmith (eles são diferentes). Contudo, esses tropeços são quase que irrelevantes diante da força da história de “Pacto Sinistro”. O conflito que Guy Daniel Haines acaba vivenciando é maravilhoso do ponto de vista narrativo. Impossível o leitor não se solidarizar com o drama do texano. Em muitos momentos, a agonia do Sr. Haines é muito parecida a vivenciada por Rodion Românovitch, um dos mais famosos personagens de Fiódor Dostoiévski, protagonista de “Crime e Castigo” (Editora 34). Se Guy é um excelente protagonista, Charles Anthony Bruno é um dos mais incríveis vilões dos romances policiais modernos. Não é possível gostar dessa personagem. O que faz “Pacto Sinistro” ser um livro tão bom é a aversão que Bruno causa nos leitores. Ele é arrogante, mimado, infantilizado e desprovido de compaixão ao próximo. Na maior parte do tempo, ele está bêbado e/ou age de maneira desequilibrada. Os únicos sentimentos positivos que ele nutre é o amor pela mãe e a admiração genuína por Guy, este sim um homem correto, trabalhador e honrado. Até mesmo essas paixões podem ser vistas de uma forma desvirtuada. O amor de Bruno pela mãe possui sim tons edipianos. Isso fica claro em algumas passagens sutis do romance. E a admiração de Charles Bruno por Guy poderia sim ter alguma conotação homossexual. A própria sexualidade de Bruno é algo que pode gerar acalorados debates. O rapaz é apresentado muitas vezes como um homem assexuado. Ele afirma não gostar das mulheres (com exceção da mãe, por quem tem muito ciúmes) e não parece ter atração sexual por homens (apenas uma exagerada admiração por Guy). Nesses momentos, Charles Bruno lembra muito Tom Ripley, o protagonista de “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso). Ambos parecem não possuir qualquer desejo libidinoso. Gostei muito de “Pacto Sinistro”. Este é o típico exemplar do romance negro em que torcemos para os assassinos se safarem. Por consequência, a polícia e os investigadores particulares responsáveis por elucidar as mortes são encarados pelos leitores como adversários do protagonista. Incrível essa mudança de valores que a literatura é capaz de fazer. Não por acaso, esta é uma das marcas estilísticas de Patricia Highsmith: seus heróis são normalmente os criminosos (e é por eles que torcemos). Acredito que o Desafio Literário de outubro começou em altíssimo nível. O segundo livro que será analisado neste mês no Bonas Histórias é “Carol” (L&PM Pocket), romance de Patricia Highsmith publicado em 1953. Não perca os próximos passos deste Desafio Literário! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PatriciaHighsmith #RomancePolicial #RomanceNegro #LiteraturaClássica #Romance #Suspense #LiteraturaNorteAmericana
- Desafio Literário de outubro/2018: Patricia Highsmith
Em outubro, o Bonas Histórias analisará, no Desafio Literário, a literatura de Patricia Highsmith. A escritora norte-americana é especializada na produção de narrativas policiais do tipo noir. Alguns críticos e teóricos da literatura classificam também esse subgênero policial como Romance Negro ou Brutalista. Seja qual for o nome dado, Patricia Highsmith é considerada uma das principais figuras desse tipo de literatura da segunda metade do século XX. Seu portfólio artístico abrange 22 romances e 8 coletâneas de contos, além de mais de 8 mil páginas com crônicas e relatos de sua vida. Em 1991, quatro anos antes de falecer, a escritora foi candidata ao Nobel de Literatura. A vencedora naquela oportunidade foi a sul-africana Nadine Gordimer, autora crítica do Apartheid em seu país. Apesar de não ter conquistado o Nobel, Patricia Highsmith colecionou vários e importantes prêmios internacionais ao longo de sua carreira. O jornal britânico The Times, por exemplo, elegeu-a, em 2008, como a melhor escritora de romances policiais do século XX. Patricia Highsmith nasceu no Texas, em 1921, com o nome de batismo de Mary Patricia Plangma. Seus pais se separaram antes que ela nascesse. Ainda criança foi morar com a mãe e o padrasto em Nova York, cidade onde ambientou boa parte dos seus romances. Foi do padrasto que ela adotou o sobrenome que a tornaria famosa, Highsmith. Patricia só viria conhecer pessoalmente o pai biológico aos 12 anos de idade. Na década de 1940, a jovem Patricia Highsmith formou-se em Cultura Inglesa, Dramaturgia e Prosa Curta e começou a trabalhar como roteirista em uma editora de histórias em quadrinhos. Nessa época, iniciou na literatura escrevendo seus primeiros contos policiais. Alguns deles chegaram a ser editados em revistas especializadas, mas a receptividade da crítica e do público foi modesta. Seu primeiro romance foi “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), publicado em 1950. A estreia de Highsmith nas narrativas longas foi tão exitosa que, já no ano seguinte, essa história foi adaptada para o cinema por ninguém menos do que Alfred Hitchcock. O longa-metragem “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train: 1951) é até hoje um dos principais trabalhos do mestre do suspense. Homossexual, Patricia Highsmith tentou aplacar por certo tempo seu desejo por mulheres fazendo psicanálise e tentando engatar relacionamentos com homens. A empreitada, obviamente, não deu certo. Em 1952, a escritora lançou seu segundo romance, “Preço do Sal”, com o pseudônimo de Claire Morgan. Por muitas décadas, Patricia negou a autoria do livro. Em 1990, o romance mudaria de título, passando a se chamar “Carol” (L&PM Pocket). Nessa trama semiautobiográfica, duas mulheres se conhecem em uma loja de departamentos em Nova York e se apaixonam. A obra é considerada um dos marcos da literatura lésbica em língua inglesa. Em 2015, um filme com essa história foi lançado no cinema pelo diretor norte-americano Todd Haynes. O orçamento do longa-metragem foi de US$ 12 milhões. Em 1955, foi publicado “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), quarto romance da autora. Este foi o livro de maior sucesso de Patricia Highsmith. As aventuras de Tom Ripley, um anti-herói trambiqueiro e sanguinário, viraram nas décadas seguintes uma série literária. “Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras), de 1970, deu sequência à narrativa do serial killer que se safava da polícia. Depois deste livro, mais três títulos abordaram a vida de Tom Ripley: “O Jogo de Ripley”, de 1974, “O Garoto que Seguiu Ripley”, de 1980, e “Ripley Debaixo D´Água”, de 1991. As obras da série, apelidada pelos fãs de “The Ripliad”, venderam milhões de cópias no mundo inteiro. No final da década de 1990, o livro inicial da série foi adaptado para o cinema pelo britânico Anthony Minghella. O longa-metragem recebeu várias indicações para o Oscar e para o Globo de Ouro. Era mais um filme de sucesso baseado em um romance de Highsmith. Além de “Pacto Sinistro”, “Carol” e “O Talentoso Ripley”, “O Sol Sob Testemunha” e “O Amigo Americano” também ganharam as telonas. Já no final da carreira de Highsmith, foi lançado um livro de contos chamado “O Álibi Perfeito” (Biblioteca Visão). A obra com cinco pequenas narrativas policiais escritas pela norte-americana nas décadas anteriores foi lançada em 1993. Nessa época, Patricia Highsmith já vivia há anos na Europa. Ela deixou os Estados Unidos em 1963 e passou a morar em vários países do Velho Continente. Primeiramente, viveu na Itália. Depois, se mudou para Inglaterra, França e, por fim, Suíça. Foi em uma cidade suíça que a autora morreu. O último romance de Highsmith é “Small G” (Mandarim), de 1995. O livro chegou às livrarias um mês após o falecimento da escritora norte-americana. A curiosidade sobre “Small G” é que a obra foi lançada primeiramente na Europa e não nos Estados Unidos. A editora de Patricia na América do Norte recusou-se a publicar esse título, duvidando da qualidade de sua narrativa e de seu potencial editorial. Para montar o perfil literário de Patricia Highsmith para este Desafio Literário, irei ler e analisar durante o mês de outubro seis livros da autora. Começarei com romance “Pacto Sinistro”, cujo post estará disponível aqui no Blog Bonas Histórias no dia 6. “Carol” será comentado no dia 10. Na sequência, teremos as discussões das duas primeiras obras da série “The Ripliad”. “O Talentoso Ripley” e “Ripley Subterrâneo” serão analisados, respectivamente, nos dias 14 e 18 de outubro. Para terminar o Desafio, ainda teremos posts sobre “O Álibi Perfeito” e “Small G”, respectivamente, nos dias 22 e 26. A análise literária de Patricia Highsmith será feita no dia 30. Admito que estou empolgado para começar logo o Desafio Literário deste mês. Espero que os leitores do Bonas Histórias possam me acompanhar nestas leituras. Até os próximos posts, pessoal! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PatriciaHighsmith #RomancePolicial #RomanceNegro
















