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- Filmes: A Love You - A boa comédia de estreia de Lefèvre na direção
Sempre fico com certo receio de assistir às comédias com roteiros aparentemente esdrúxulos. Na maioria das vezes, a decepção é o resultado final da aposta. Contudo, não é isso o que acontece com "A Love You" (A Love You: 2015). Este é um filme francês que passou rapidamente pelas salas de nossos cinemas no ano passado e que merecia mais atenção do público. Este longa-metragem representou a estreia do talentoso ator Paul Lefèvre na direção e no roteiro. Ele também atuou fazendo um dos protagonistas. Em "A Love You", conhecemos dois grandes amigos: Manu (interpretado por Antoine Gouy) e Fred (Paul Lefèvre). Os dois são estudantes de medicina de Paris que gostam de levar a vida na zoeira e na badalação. A dupla não perde uma boa festa e vive atrás de mulheres. Apesar dessas semelhanças, os dois possuem características antagônicas. Enquanto Manu é um romântico inveterado, Fred é um rapaz prático quando a questão é relativa aos seus sentimentos. Ele não se apega a nenhuma mulher e não acredita que possa existir uma segunda metade da laranja o esperando. No dia seguinte a uma festança que teve muita bebida e sexo, Manu aparece na casa de Fred pedindo a ajuda do amigo. Manu quer uma carona até a cidade de Avignon. Como Fred é o único amigo motorizado, a dupla parte para a estrada em direção ao sul do país. O desespero de Manu para chegar a Avignon é que na noite anterior ele conheceu o amor da sua vida. A moça, porém, foi embora deixando anotado seu endereço no braço do apaixonado rapaz. Ela mora na Provença e pediu para Manu aparecer lá no dia seguinte às 20 horas. A viagem de Fred e Manu pela França se mostra um desastre. Tudo parece dar errado. O carro cai em um lago, eles são jogados para fora do trem, o dinheiro acaba, eles fogem de um caminhoneiro maluco, a dupla perde as roupas após uma malsucedida tentativa de pegar carona, entre tantas situações bizarras que acontecem no meio do caminho. E justamente quando estão completamente nus no meio da estrada, os dois amigos conhecem Juliette (Fanny Valette). A moça havia brigado com o pai e tinha saído de casa. Juliette se sensibiliza com a história de Manu e passa a integrar o grupo com destino a Avignon. Assim, a dupla vira um trio, o que só potencializa as confusões durante a viagem. "A Love You" é uma boa comédia. Dá para rir em várias cenas engraçadas. O roteiro foi muito bem produzido por Lefèvre. Quando parece que a trama vai dar uma esfriada, acontece algo de novo e a diversão prossegue. Apesar de todo o longa-metragem ser bom, gostei mais do começo e do final. A narrativa já inicia de forma acelerada e em alguns minutos as personagens principais já estão na estrada viajando. Não se perde tempo com nada que não seja o essencial (e o divertido). O desfecho também é muito engraçado. A sacada criativa para o desfecho é excelente. Além do bom roteiro, os três atores principais estão ótimos em seus papéis. O trio Antoine Gouy, Paul Lefèvre e Fanny Valette estão perfeitos nesse filme. Eles são ajudados pela série de personagens amalucados que aparecem durante toda a narrativa. Não é possível dizer quem é o mais maluco ali. Isso dá margem para o surgimento de cenas impagáveis. Ao final do filme, lembrei muito de "Dom Quixote de La Mancha", de Miguel de Cervantes. Se no clássico espanhol, Sancho Pança conduzia seu amigo louco, Dom Quixote, pela Espanha, aqui Fred acompanha seu amigo apaixonado pela França. Em muitas situações, o homem apaixonado se comporta igualzinho a uma pessoal com problemas psicológicos. No meio do caminho, a dupla se depara com uma versão francesa de Dulcinéia (aqui chamada de Juliette). Apesar dos diálogos e das conversas sobre romantismo e amor permearem o filme inteiro, "A Love You" é uma comédia leve e gostosa. Essa parte mais cabeça (que não poderia faltar em uma produção francesa) torna as ações (e o desfecho da história) mais engraçada. Gostei muito desse filme e o(a) aconselho a ver. Trata-se de um longa-metragem que consegue agradar tanto aos românticos quanto aos não românticos. Ele mostra, de maneira muito bem humorada, os dois lados desta questão, não definindo qual está certo ou errado. Veja o trailer de "A Love You": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: O Tigre na Sombra - O mais recente romance de Lya Luft
"O Tigre na Sombra" (Record) é o último romance lançado por Lya Luft, a escritora analisada no Desafio Literário de outubro. Publicada em 2013, essa obra representou o retorno da autora gaúcha aos romances depois de 13 anos. Nesse período, Luft só escreveu ensaios, crônicas, livros infantis e uma coletânea de contos. O romance anterior de Luft tinha sido "O Ponto Cego" (Record), no longínquo ano de 1999. "O Tigre na Sombra" mantém as principais características estilísticas de Lya Luft. Temos aqui: os dramas femininos, os conflitos conjugais, as intrigas familiares, a inocência da infância, a magia do sobrenatural, a imaginação fértil das crianças e os desafios típicos do envelhecimento. Esse conjunto temático vem embalado em uma trama psicológica profunda e intensa. Misturando realidade com fantasia, prosa com poesia e mistério com cenas banais do cotidiano, Luft apresenta mais uma vez um excelente texto. Apesar das eventuais escorregadas melodramáticas, temos uma história muito comovente. Narrado em primeira pessoa por Dolores, chamada de Dôda pelos amigos e pelos familiares, esse romance apresenta a trajetória completa da protagonista-narradora da infância à velhice. Cada capítulo de "O Tigre na Sombra" foca um momento distinto da vida da personagem principal: a infância (Capítulo 1 - Espelhos que observam), a adolescência (Capítulo 2 - A menina de pernas curtas), a fase adulta (Capítulo 3 - Amores perturbados) e a velhice (Capítulo 4 - O tigre espera). Os tempos de criança não foram fáceis para Dolores. Filha caçula de uma mãe insensível, egoísta e pouco amorosa, a menina sofreu com a indiferença e as críticas maternas. Para agravar o quadro de baixa autoestima da garota, ela ainda tinha um defeito em uma das pernas, que dificultava seu caminhar e provocava reações preconceituosas das outras pessoas. Apesar do apoio incondicional da irmã mais velha, Dália, dos ensinamentos do avô, um ex-marujo, do carinho da avó, chamada de Vovinha, e do pai bondoso, mas pouco atuante e propenso aos caprichos da mulher, Dôda cresceu fechada em seu mundo interior. Introspectiva, a menina criou um mundo imaginário só seu. Nele, ela podia ser livre para exercer plenamente seus sonhos infantis. Simbolizando esse aspecto imaginativo da infância, Dôda tinha como animalzinho de estimação um filhote de tigre de olhos azuis, criado ficticiamente no quintal de casa. E sua melhor amiga era uma garota que aparecia no reflexo do espelho. Com o mesmo nome e com a mesma aparência da menina real, a amiga imaginária tinha uma personalidade diferente da verdadeira Dôda. A Dolores do espelho era geniosa e um tanto maldosa. Porém, isso não impediu a amizade entre as duas. Para brincarem, Dôda (a de carne e osso) e Dolores (a amiga imaginária) se encontravam ora no mundo real ora dentro do espelho. Entre traumas, frustrações, descobertas e conquistas, Dôda cresceu, amadureceu e envelheceu. Pouco a pouco, a menina sonhadora, introspectiva, insegura e pouco confortável com o mundo real foi se transformando na profissional competente, na esposa amorosa, na mãe zelosa e na mulher habituada à realidade. Cada uma das fases da personagem principal é exposta ao leitor de uma maneira poética pela narrativa da própria Dôda. Sempre que a vida caminha para deixar a protagonista realizada, algo trágico acaba acontecendo, impedindo ou boicotando a plena felicidade dela. Muitas vezes, os vilões são as pessoas que Dolores mais admira e confia, o que torna tudo mais complicado para aceitar. "O Tigre na Sombra", assim como todos os romances de Lya Luft, é um livro curto. Ele tem apenas 128 páginas. É possível lê-lo de uma só vez. Gastei pouco mais de duas horas e meia para concluí-lo. Ao final da leitura, fiquei em dúvida se essa obra era um romance ou uma novela. Sinceramente, sempre fico com essa interrogação em minha mente quando leio os trabalhos ficcionais de Luft. Para a escritora e para sua editora, trata-se de um romance e não de uma novela. E ponto final (Não quero entrar nessa discussão). Com apenas quatro capítulos, o livro mistura de maneira interessante poesia e prosa. Apesar de breve, o romance é denso e bem profundo. Sua intensidade está na trama com muitos elementos melodramáticos e nas reflexões da personagem-narradora. Cada página, cada parágrafo, cada linha e cada palavra da obra representam um turbilhão de emoções da protagonista, que narra seus dramas íntimos sem medo de parecer ridícula aos olhos do leitor. O leitor, por sua vez, participa como confidente da narradora. O estilo do texto é de uma conversa confidencial entre amigas, como só as mulheres conseguem travar com naturalidade. O tom do livro é de melancolia. Se no começo impera a imaginação e o aspecto lúdico do retrato da infância, à medida que Dolores/Dôda vai crescendo, isso vai pouco a pouco desaparecendo. A realidade vai suprimindo a fantasia, tornando a vida complicada e sem tanta beleza aparente. A melancolia é a consequência desse processo de amadurecimento. Na velhice, a narradora torna-se pessimista e intolerante, incapaz de perdoar aqueles que lhe fizeram mal no passado. Apesar dos homens serem retratados como vilões (quase nenhum deles presta no romance), muitas vezes são as mulheres que causam as maiores decepções à personagem principal. Se os homens não são confiáveis, não podendo se esperar nada de produtivo ou benéfico deles, as frustrações causadas por eles são, portanto, mais limitadas. O mesmo não ocorre com as decepções femininas. Como as mulheres são mais fortes, carinhosas, altruístas, generosas, conscienciosas e parceiras uma das outras, quando elas vacilam (e vacilam feio, pode acreditar!), o estrago é bem maior (medido pela escala Richter). Por falar nas mulheres, elas são retratadas como incompletas e divididas. De certa forma, "O Tigre na Sombra" se parece com "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia de Bolso), obra clássica de Italo Calvino. Se na trama do italiano o homem era o ser incompleto e divido, aqui com Lya Luft a fragmentação está nas mulheres. Dolores/Dôda é em alguns aspectos parecida ao Visconde Medardo di Terralba. O final de "O Tigre na Sombra" é muito bom. Seu desfecho é interessante, apesar de ser pouco surpreendente. O leitor com um mínimo de experiência na literatura e fazendo uma leitura atenta conseguirá prever o que irá frustrar a protagonista de maneira decisiva. Apesar dessa previsibilidade, o tom amargo, triste e solitário do romance é intensificado no capítulo final. Obviamente, quem exige sempre finais felizes para os romances irá sair frustrado daqui. Contudo, o que Lya Luft narra é a vida real e não a existência fantasiosa (afinal, a fase imaginativa e sonhadora está morta e enterrada na infância de Dolores). A vida pode sim ser triste, amarga e sombria, queiramos ou não admitir isso. A impressão que tenho ao ler os romances de Luft é que sempre o último livro que leio dela é o melhor da escritora. Com "O Tigre na Sombra" não foi diferente. Ele é fruto do trabalho de uma autora madura e com um estilo próprio de narrar. Isso mostra a força da ficção de Luft. Ótima contadora de histórias, Lya tem a capacidade de emocionar seus leitores ao apresentar dramas reais, genuínos e profundos. Ao mergulhar na mente e na vida de suas personagens femininas, a escritora gaúcha descortina uma série de traumas, angústias e frustrações das mulheres de todas as gerações. Ainda bem que Luft retornou aos romances com "O Tigre na Sombra". Por melhor que sejam suas crônicas e seus ensaios (gêneros priorizados pela autora nos últimos anos), Lya Luft também é uma excelente romancista. Em meu ponto de vista, a escritora gaúcha é até melhor romancista do que cronista ou ensaísta. Na ficção, Luft pode narrar muitas histórias diferentes e emocionantes, encantando seus leitores. Infelizmente, isso já não estava acontecendo em seus textos não ficcionais. Seus ensaios e suas crônicas estavam cada vez mais repetitivos e cansativos, não trazendo muitas novidades para a legião de fãs da autora. Por mais interessantes e originais que fossem no começo, as ideias da escritora possuem um limite (assim como a paciência do público). A overdose de publicações dos pensamentos e das opiniões de Luft, que inundaram o mercado editorial brasileiros nos últimos anos, foi a responsável por essa saturação. Assim, "O Tigre na Sombra" é a volta não apenas ao romance, meu gênero preferido quando analiso a literatura de Luft, como também o retorno ao que a escritora sabe fazer de melhor e tem mais a acrescentar aos seus leitores. Com a conclusão do estudo sobre "O Tigre na Sombra", terminamos as análises das seis obras de Lya Luft do Desafio Literário de outubro. O próximo passo é comentar com mais profundidade o estilo literário da autora gaúcha e sua trajetória na literatura comercial. Tendo esse objetivo em mente, retorno ao Blog Bonas Histórias na próxima segunda-feira, dia 30, para apresentar a análise literária de Lya Luft. Não perca a conclusão do Desafio Literário desse mês! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Show musical: Acusticando em Vários Tons - A plateia no centro do palco
Você já foi a um espetáculo musical e saiu lembrando mais dos nomes das pessoas da plateia (Mariana, Eva, Alexandre, Paulo, Enzo, Luiz, Alexandro, Denis...) do que dos nomes dos cantores que estiveram o tempo inteiro no palco?! Ou já presenciou os músicos chamando o público para interpretar e para dançar suas canções sem qualquer receio de alguém roubar as atenções ou de atrapalhar a execução da coreografia programada? Ou, então, já pode conversar com os protagonistas do show a respeito de aspectos das músicas durante o evento e em cima do palco? Admito que essas façanhas pouco convencionais ocorreram, no último sábado, durante "Acusticando em Vários Tons", uma mistura de show musical e teatro interativo. Realizado no teatro Ribalta, no Bixiga, em São Paulo, o espetáculo teve o protagonismo dos cantores Dani Mota e Carlos Melo, candidatos do programa Ídolos em edições passadas. A dupla foi acompanhada pelo músico André Guilherme. A direção e a iluminação couberam a Débora Pesso, que após muitos anos como atriz, dançarina e coreógrafa estreava como diretora. Ao longo de doze canções de vários gêneros (principalmente músicas sertanejas românticas com uma roupagem mais MPB e pop), Dani Mota e Carlos Melo soltaram a voz enquanto interagiram com o público de maneira divertida e franca. Gostei tanto da proposta do show quanto de sua execução. Até mesmo o auditório simples e apertado ajudou na criação do ambiente intimista e amigável. Juro que os shows musicais, principalmente os acústicos, não serão mais os mesmos, pelo menos para mim, depois dessa experiência inusitada. No começo, a proposta de "Acusticando em Vários Tons" pode assustar a plateia. Como assim os cantores estão falando comigo e estão pedindo a minha participação?! Quem é mais tímido e/ou não gosta de muita exposição é bom sentar lá no fundo do auditório para não ser chamado. Ou quem deseja ficar passivo ouvindo a cantoria também pode ficar um pouco frustrado no início. Porém, depois de alguns minutos, é possível entender a ideia do show e mergulhar na diversão. Os artistas querem partilhar as canções escolhidas com o público, compartilhando também experiências e impressões sobre as letras. Isso é o mais legal. Não apenas os cantores se tornam acessíveis como as próprias letras das músicas adquirem uma mensagem mais real e factível. As linhas divisórias entre palco e auditório desaparecem e todos se tornam produtores da experiência sonora. Com isso, a diversão é potencializada. E o clima de romantismo toma conta do teatro. No espetáculo desse sábado, tiveram pessoas da plateia que foram até mais aplaudidas do que os cantores (que são excelentes, por sinal). Um rapaz chamou a atenção pela habilidade de cantar, dividindo o microfone com os cantores profissionais com grande afinação e tempo de voz. Um casal arrasou na hora de dançar forró. Uma moça e um rapaz encararam numa boa as cantadas cênicas lançadas por Dani Mota e Carlos Melo, chegando a assustar os músicos por aceitarem mais do que deveriam aos flertes. E para coroar a noite, um casal driblou a timidez e encarou o desafio de dançar no palco pela primeira vez diante de todos. Incrível! Assim, se a escolha do repertório musical não apresentou grande novidade (as canções são prioritariamente sucessos das rádios), a interação entre músicos e plateia valeu o ingresso. Feito com cuidado e respeito pelos cantores, todos no auditório puderam se divertir e dar a sua contribuição ao espetáculo. Destaque também para a atuação de Dani Mota. Além de muito simpática, ela tem uma excelente voz e uma incrível presença de palco. Espetacular sua atuação! Uma simples canção saída da sua voz adquire contornos riquíssimos e muitos diferentes do que estamos habituados a ouvir. Carlos Melo e André Guilherme também estiveram bem, não deixando o espetáculo esmorecer. Com uma hora e vinte minutos de duração, "Acusticando em Vários Tons" passa tão rápido que a sensação é que o show tem pouco mais de meia hora de duração. Seus únicos pontos negativos são a sonoridade do teatro, bem abaixo da qualidade exigida, e a estrutura simples, que às vezes dificulta um pouco a interação dos cantores com a plateia e atrapalha o vai e vem durante o espetáculo. Ao conhecer um pouco mais a proposta dialogal de "Acusticando em Vários Tons", nota-se também que a composição do enredo poderia ter sido mais bem executada, criando um clima mais convidativo para o público expor seu ponto de vista e suas histórias, relacionando-as melhor com as músicas interpretadas no palco. Infelizmente, esse espetáculo ficará em cartaz só até o final de outubro. Ou seja, só haverá mais uma apresentação nesse ano. A despedida de "Acusticando em Vários Tons" dos palcos paulistanos ocorrerá no próximo sábado, às 20 horas, no teatro da Ribalta (Rua Conselheiro Ramalho, 673, Bixiga). O ingresso custa R$ 30,00 (não há meia-entrada). Se você for ao show do próximo sábado, vá com o espírito participativo. Não fique com vergonha e lance-se na cantoria, na dança e no debate sobre as histórias das letras. É muito legal. Você não irá se arrepender. Palavra de quem é muito tímido e teve que subir no palco (e, acredite, gostou muito da experiência). Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias desta coluna. Para acessar as demais críticas teatrais, clique em Teatro. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Espetáculo #Show #Música #DaniMota #CarlosMelo #AndréGuilherme #DéboraPesso #teatro
- Livros: Em Outras Palavras - Crônicas fraquinhas de Lya Luft
A crônica é naturalmente um gênero narrativo perecível. Em questão de dias, semanas, meses ou (no mais tardar) anos os temas trabalhados pelos escritores se tornam irrelevantes e até mesmo obscuros aos olhos dos leitores. Senti na pele essa característica quando estudei o trabalho não ficcional de Machado de Assis que foi publicado nos jornais cariocas no final do século XIX. Por mais brilhante que o carioca fosse como escritor, a coletânea de crônicas daquela época é atualmente um conjunto de texto pouco atrativo ao público contemporâneo. Isso é algo normal de ocorrer. Esse tipo textual envelhece mal e de maneira muito mais rápida do que outras narrativas, como os romances, as novelas e os contos, por exemplo. Essa particularidade das crônicas, contudo, não pode ser usada como desculpa para acobertar os principais problemas detectados no livro "Em Outras Palavras" (Record). Lida nesse sábado para o Desafio Literário de outubro, a obra com crônicas de Lya Luft é ruim porque já nasceu com graves defeitos. A culpa, portanto, não está em seu envelhecimento precoce, que só agravou suas deficiências, mas está na pobreza conceitual e no debate pobre de temas em que sua autora não tem o que discorrer. Sinceramente, considero Lya Luft uma ótima romancista, porém uma cronista e ensaísta no máximo medíocre. Sua limitação para falar intensamente de alguns temas em que possui domínio de causa e, principalmente, de ser plural (avançar sobre novos assuntos) é evidente e constrangedora. Publicado em 2006, "Em Outras Palavras" reúne artigos produzidos por Lya Luft entre 2004 e 2005 para sua coluna "Ponto de Vista" da revista Veja. Apesar de gostar muito da escritora (principalmente na área romanesca), sempre vi com ressalvas sua atuação como colunista de uma revista semanal. Como leitor da Veja, achava os textos de Luft terrivelmente chatos. Ela era repetitiva e rasa em seu debate sobre os acontecimentos do presente. Era possível apontar o que ela ia dizer antes de iniciar a leitura das crônicas. Raramente errava em minha previsão. Com o tempo, "Ponto de Vista" se tornou para mim a única seção que eu ignorava dessa publicação. Se isso acontecia quando os textos eram atuais, imagine voltar a lê-los uma década depois. Aí a vontade é de chorar! Com 54 crônicas distribuídas em 224 páginas, "Em Outras Palavras" trata de temas comuns às obras de Luft (construção de famílias saudáveis, desafios das relações conjugais, complexidade da alma feminina, beleza da infância, machismo e abuso sexual) assim como assuntos mais genéricos que não são comuns de serem encontrados nos romances da autora (violência da sociedade, corrupção endêmica no país, impunidade, consumo de drogas, tráfico de entorpecentes, injustiças sociais, conflito de classes, política, consumismo, pedofilia, crítica cinematográfica, etc). Há também alguns temas bem pontuais da época em que foram desenvolvidos, como o encalhe de uma baleia nas praias cariocas e a votação pela lei do desarmamento. O que torna "Em Outras Palavras" um livro ruim é o fato de Lya Luft ser uma brilhante pensadora do universo feminino, mas uma fraca analista da realidade contemporânea. Quando embarca nos dramas, nas angústias, nos desafios e na complexidade da alma das mulheres, Luft é brilhante (apesar de repetitiva). Não conheço ninguém mais capacitada e talentosa do que a gaúcha para tratar desse assunto, seja na ficção ou na não ficção. Porém, quando ela resolve debater, por exemplo, os problemas da violência urbana, a corrupção dos políticos no país, a crise moral da sociedade e o comportamento juvenil, temos uma escritora rasa e com um olhar pouco apurado. Esse é o principal problema desse livro. Lya Luft não é original nem brilhante quando escreve sobre temas genéricos. As melhores crônicas de Luft ainda são sobre seus temas preferidos. O que os torna um tanto chatos é que a autora repete exemplos e abordagens já usados. Em muitos casos, ela repete palavra por palavra. Aí não dá! Por isso, prepare-se para ler novamente e integralmente textos já publicados em outras obras da escritora. Esse mesmo defeito já tinha sido detectado em "Pensar é Transgredir" (Record), outro livro de crônicas da gaúcha. "As Paixões Humanas", "O Feio Vício", "Caio F. (Como ele gosta)", "Incômodo e Belo" e "A Conquista da Velhice" são artigos presentes em "No Rio do Meio" (Mandarim), "Perdas & Ganhos" (Record) e "Pensar é Transgredir". A vontade que se tem ao ler o mesmo texto duas vezes (em alguns casos, três) é de atirar o livro na parede ou jogá-lo em uma fogueira. Como Lya Luft pode ser às vezes tão chata e repetitiva?! Se ao menos ela mudasse um pouco as histórias e os exemplos de suas crônicas, até poderia conseguir lê-la sem tanta raiva. Para meu alívio, o sexto e último livro da escritora nesse Desafio Literário é um romance (Ufa!). Na próxima quinta-feira, dia 26, retorno ao Blog Bonas Histórias para comentar "O Tigre na Sombra" (Record), o mais recente romance publicado por Lya Luft. Espero todo mundo lá para debatermos esse livro. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft #ColetâneadeCrônicas #LiteraturaBrasileira
- Filmes: Se Meu Apartamento Falasse - Oscar de 1961
Billy Wilder é um dos meus cineastas favoritos. Na minha lista de filmes preferidos, há vários de sua autoria. "A Montanha dos Sete Abutres" (Ace in the Hole: 1951), "O Pecado Mora ao Lado" (The Seven Year Itch: 1955), "Testemunha de Acusação" (Witness for the Prosecution: 1957) e "Quanto Mais Quente Melhor" (Some Like It Hot: 1959) são alguns. Apesar de tê-los assistido várias vezes, se você me chamar agora para revê-los, eu vou correndo sem pestanejar. Além destes, Billy Wilder produziu também alguns clássicos do cinema. "Farrapo Humano" (The Lost Weekend: 1945) e "Crepúsculo dos Deuses" (Sunset Blvd: 1950) são, com certeza, suas obras-primas. O primeiro foi o vencedor do Oscar de 1946, enquanto o segundo entrou para a história da sétima arte como uma das grandes produções de todos os tempos. Dois aspectos chamam a atenção no trabalho de Billy Wilder. O primeiro é sua longevidade artística. Ele produziu filmes de 1934 a 1981. São quase cinquenta anos na ativa, sempre apresentando ótimos resultados. O segundo aspecto que precisa ser enaltecido é a versatilidade de sua obra. Ele conseguiu produzir tanto comédias quanto dramas, trafegando também com muito êxito pelos suspenses psicológicos, pelas aventuras históricas e pelas tramas ambientadas nos tribunais (um gênero de cinema tipicamente norte-americano). "A Montanha dos Sete Abutres" e "Quanto Mais Quente Melhor", por exemplo, são longas-metragens completamente diferentes um do outro em temática, apelo, estrutura narrativa e gênero. Ambas, por sua vez, são bastante distintas de "Testemunha de Acusação". Os melhores filmes de Wilder, "Farrapo Humano" e "Crepúsculo dos Deuses", também possuem temáticas, cenários e abordagens apostas. É muito difícil encontrarmos na história cinematográfica um diretor tão versátil, que tenha sido tão bom em gêneros de filme tão diferentes. Ou seja, Billy Wilder tinha a capacidade de fazer a plateia se emocionar com suas tramas, não importando o sentimento provocado: risada, choro, susto, apreensão ou horror. Para mim, esta característica o define, colocando-o para sempre na galeria dos maiores cineastas de todos os tempos. Estou comentando, hoje, sobre Billy Wilder por dois motivos. O primeiro é que, nesta segunda-feira, completaram-se 15 anos de sua morte. O cineasta polonês naturalizado norte-americano morreu de pneumonia, aos 95 anos de idade, em 27 de março de 2002, em Los Angeles. O segundo motivo é que assisti neste final de semana a um dos seus grandes filmes que ainda não tinha tido a oportunidade de ver. "Se Meu Apartamento Falasse" (The Apartment: 1960) foi o meu agradável programa de domingo à noite. Esta é uma comédia dramática excelente, um clássico do cinema em preto e branco. Com Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Fred MacMurray, esta produção conquistou cinco estatuetas do Oscar em 1961: Melhor Filme, Melhor Diretor (para Wilder), Melhor Roteiro Original (Wilder também fez o roteiro), Melhor Direção de Arte em Preto e Branco e Melhor Edição. É ou não é um grande filme, hein?! "Se Meu Apartamento Falasse" foi muito importante para Billy Wilder porque apesar de seu prestígio dentro da indústria cinematográfica e fora dela (junto ao público), ele só havia conquistado um Oscar de melhor diretor e um de melhor filme (ambos com "Farrapo Humano", em 1945). Era muito pouco para alguém que havia feito tanta coisa de qualidade (que o tempo provou estar acima do reconhecimento da época). Este equívoco foi reparado, em parte, em 1961. As estatuetas de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro daquele ano foram para as mãos experientes do cineasta. Assim, pela segunda vez na carreira, Billy Wilder via um filme seu ser coroado na festa da academia de Los Angeles. E justamente com uma comédia, gênero historicamente renegado nas cerimônias do Oscar - "Aconteceu Naquela Noite" (Happened One Night: 1934) foi o precursor neste sentido ao levar o prêmio principal em 1935. O enredo de "Se Meu Apartamento Falasse" é saborosíssimo. Calvin Clifford Baxter (interpretado por Jack Lemmon) é um dos milhares de funcionários de uma grande empresa de seguros. A multidão de trabalhadores da companhia se amontoa diariamente pelos andares de um dos arranha-céus de Nova York. Baxter tem um trabalho burocrático e enfadonho ali, mas tem planos ambiciosos para crescer rapidamente. Almejando se tornar um alto executivo, o rapaz aceita ceder seu apartamento, onde vive sozinho, para os encontros extraconjugais de importantes executivos da sua empresa. Assim, ele imagina ganhar pontos com os chefões, o que facilitará na conquista de futuras promoções. Esta estratégia de mimo aos superiores traz vários problemas para o protagonista em sua vida pessoal. Por vários dias seguidos, Baxter acaba privado do conforto do lar para aplacar os instintos lascivos dos patrões. Não é raro o rapaz ficar resfriado por ter dormido ao relento ou simplesmente passar o dia sonolento por não ter conseguido dormir à noite. Além disso, ele é visto como um libertino pelos vizinhos. Os demais moradores do edifício acham que Baxter promove diariamente várias festas em seu apartamento com diferentes mulheres, sendo um voraz predador sexual. Ninguém imagina que o rapaz sofre para conseguir uma namorada e vive de forma casta e solitária. Apesar destes contratempos, Calvin Baxter imagina estar construindo os pilares para o sucesso da sua carreira. Esta dinâmica de misturar vida profissional e pessoal torna-se perigosa para Baxter quando Jeff D. Sheldrake (Fred MacMurray), um dos principais executivos da empresa de seguros, resolve utilizar o apartamento. A intenção do diretor é passar agradáveis momentos com sua jovem amante, Fran Kubelik (Shirley MacLaine), longe do radar da esposa. O problema é que a moça, ascensorista no edifício, é a grande paixão de Calvin Baxter. Aí começam os dilemas do proprietário do apartamento: ele deve dar cobertura para o patrão (o que será benéfico para sua carreira) ou deve empenhar-se para conquistar a mulher de sua vida (e jogar tanto esforço profissional pela janela)? "Se Meu Apartamento Falasse" é realmente uma ótima produção. Seus acertos começam pelo título. Trata-se de uma das raras vezes em que o nome traduzido para o português no Brasil é melhor do que o original. Com pouco mais de duas horas de duração, o filme consegue ser ao mesmo tempo engraçado e melodramático, superficial e profundo e leve e intenso. Repleto de reviravoltas, surpresas e confusões, o longa-metragem chega a empolgar, apesar de seu final ser corriqueiro e previsível (o que, certamente, agrada aos espíritos mais românticos). Seu ritmo é de certa maneira acelerado se considerarmos que são poucos os ambientes de filmagem utilizados (as cenas alternam-se entre o apartamento e o escritório). O que dá esta impressão é, talvez, a sequência interminável de boas e marcantes cenas. Um dos pontos altos do filme está na grande atuação do trio de protagonistas. Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Fred MacMurray estão ótimos. Todos conseguem cativar o público, transmitindo as contradições e dúvidas de suas personagens. Não é coincidência, portanto, que estes atores tenham trabalhado várias vezes com Billy Wilder ao longo dos anos. No início de 1960, este era um elenco de primeira. Jack Lemmon (Melhor Ator), Shirley MacLaine (Melhor Atriz) e Jack Kruschen (Melhor Atriz Coadjuvante) foram indicados ao Oscar por seus papéis nesta produção. Além disso, a fotografia do longa-metragem é excelente. Joseph La Shelle fez um trabalho realmente notável, digno do Oscar conquistado neste quesito. O contraste de claro e escuro, luz e sombra e visível e invisível combina perfeitamente com a temática de "Se Meu Apartamento Falasse". Apesar de ser classificado como uma comédia-dramática, eu acredito que este filme seja muito mais um drama-cômico (85% de drama e 15% de comédia, para usar o critério de avaliação imortalizado por Wesley Safadão). Afinal, a tristeza, a amargura, a solidão e os conflitos pessoais das personagens principais superam em muito (em voltagem) os lances engraçados. Aqui, temos um desfile de pessoas consumidas pela ganância, pela infidelidade matrimonial, pelas necessidades sexuais imediatas e pela aparência. As relações pessoais são frágeis e interesseiras, vinculadas unicamente ao poder, ao dinheiro e ao consumismo. O trabalho é encarado com algo fútil e pouco prazeroso. Curioso perceber como um filme de 1960 pode ser tão atual. Se na época de seu lançamento, o cenário retratado por Billy Wilder para uma grande cidade capitalista podia parecer exagerado e caricaturado, hoje não temos mais esta impressão. Infelizmente, tudo ali parece normal e, de certa forma, lógico quando comparado à nossa vida contemporânea. Agora, posso dizer que tenho mais um filme de Wilder em minha coleção de longas-metragens favoritos. Este seu segundo Oscar foi merecido, apesar de ter vindo com quase uma década de atraso. Em minha opinião, "A Montanha dos Sete Abutres" e "Crepúsculo dos Deuses", produções tão boas quanto "Se Meu Apartamento Falasse", também mereciam tal honraria nos primeiros anos de 1950. Juro que vou morrer sem compreender como esta injustiça foi feita. Vai entender a academia! O que eu consigo entender perfeitamente é o culto a Billy Wilder até hoje. Ele foi mesmo um dos grandes cineastas da história. O décimo quinto aniversário de sua morte deve servir para homenagens e lembranças. Por isso, aconselho você a ver "Se Meu Apartamento Falasse". É uma produção memorável! Veja no vídeo abaixo algumas imagens do filme ouvindo sua trilha sonora: A seguir, temos também uma das cenas em que Sr. Baxter corteja a Srta. Kubelik, a ascensorista do edifício, quando ele se dirige para a sala do Sr. Sheldrake, imaginando que seria promovido: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Pensar é Transgredir - As repetitivas crônicas de Lya Luft
Nesse final de semana, li "Pensar é Transgredir" (Record), o quarto livro de Lya Luft do Desafio Literário de outubro. Admito que, até então, estava muito empolgado com os trabalhos da escritora gaúcha. "As Parceiras" é um romance sombrio e, ao mesmo tempo, encantador. "O Rio do Meio" (Mandarim) é um bonito ensaio sobre a literatura de Luft. E "Perdas & Ganhos" (Record) é um livro espetacular, merecendo a condição de um dos principais best-sellers nacionais dos últimos anos. Fiquei positivamente impressionado com a qualidade e com a profundidade desses textos de Lya Luft. Os três livros falam com incrível beleza dos desafios e das angústias femininas ao longo das gerações. Porém, em "Pensar é Transgredir", Lya Luft derrapa feio. Aqui, o caldo engrossa de vez! Além de apresentar muitas crônicas repetitivas, a escritora aborda também uma variedade de novos temas em que, infelizmente, ela não tem nada de especial para oferecer ao leitor. O resultado, portanto, é terrível! Se esse não foi o pior livro lido nesse ano, na certa está entre os piores. Se você leu "O Rio do Meio" e "Perdas & Ganhos", abdique dessa leitura. Ela não irá lhe acrescentar nada. Qual o pior pesadelo de um leitor de crônicas: se deparar com uma sequência interminável de histórias e exemplos já lidos nos livros anteriores daquele(a) autor(a) ou ver o(a) escritor(a) discorrer sobre temas pouco relevantes? Em "Pensar é Transgredir", infelizmente, não temos que escolher uma opção. Ele nos apresenta as duas alternativas simultaneamente. Quem acompanha os livros de Lya Luft notará o quão raso e fútil é esse trabalho dela (algo que destoa de seu belo repertório). "Pensar é Transgredir" foi publicado em 2004, um ano após o sucesso estrondoso de "Perdas & Ganhos". Ele contém 192 páginas e 50 crônicas. Segundo sua orelha, "algumas dessas crônicas foram escritas para jornais, outras inéditas, faziam parte do acervo pessoal da autora e várias foram feitas especialmente para integrar este livro". Mentira! Não é essa a impressão que temos ao ler seu conteúdo. Grande parte dos textos de "Pensar é Transgredir" já tinha sido publicada em outras obras não ficcionais de Lya Luft. Se você os leu, irá ficar muito frustrado (como eu fiquei). Se você nunca leu nada da autora, poderá até achá-los minimamente interessantes. A sensação é que esse livro foi um oportunismo da editora e/ou da escritora. Com a empolgação pelo ávido interesse dos leitores por Lya Luft depois de "Perdas & Ganhos", resolveu-se lançar mais uma obra da autora. Na certa, não faltaria gente interessada em comprar a nova publicação. Foi o que efetivamente aconteceu. "Pensar é Transgredir" apresentou ótimos resultados nas livrarias, sendo até hoje um dos livros mais vendidos da gaúcha. O problema é que Lya Luft já não tinha muito mais a oferecer ao seu público na área de crônicas e ensaios. Por isso, ela precisou "requentar" vários textos antigos e os lançou como se fossem novos. Pior do que produzir algo ruim é a impressão passada de tentativa de enganar os leitores, principalmente aqueles que acompanham com mais assiduidade as publicações da escritora. Assim, o que me incomodou mais não foi tanto a repetição temática da autora. Sinceramente, já me acostumei com o fato de Lya Luft ficar eternamente falando as mesmas coisas . Não é isso o que me deixou revoltado. O problema maior está no fato das crônicas "Osteoporose na Alma", "A Visita do Anjo", "O Rio das Perdas", "Eu Sou Meus Personagens", "Nem Tanto Assim" e "Histórias de Bruxa Boa", por exemplo, terem sido extraídas de "Perdas & Ganhos" e de "O Rio do Meio". A autora não se preocupou em esconder a cópia. Simplesmente copiou e colou os textos anteriores nesse novo livro. É ou não é revoltante?! Além disso, a tentativa salutar de Luft em variar os temas trabalhados se mostrou frustrante. Quem hoje em dia se incomoda com a condenação da camisinha e do homossexualismo pela Igreja Católica? O quão válido é falar do preconceito aos descendentes alemães (loiros de olhos azuis) em um país onde a discriminação social e racial aos negros é absurda? E qual a tragédia se um amigo muito idoso não quer se inserir no mundo computacional?! Há algumas crônicas boas. São poucas, é verdade, mas elas estão lá presentes. As melhores são "O Lado Negro", "Histórias dos Sentimentos", "Canções dos Homens" e "Canções das Mulheres". Curiosamente, esses textos são de temas recorrentes das obras da escritora (Violência em nossa sociedade, as loucuras do amor e as angústias distintas de homens e mulheres). Ou seja, o problema não está em falar sempre o mesmo assunto. O problema está em repetir exemplos e crônicas já usados. É melhor tratar (de forma original) de assuntos em que o (a) escritor(a) realmente entenda e tenha o que falar do que ficar inventando novos assuntos em que ele/ela não tenha conteúdo ou capacidade discursiva. Ao concluir as páginas finais de "Pensar é Transgredir", juro que me senti enganado pela autora e por sua editora. Também começo a ficar desconfiado de que ao invés de uma ótima cronista e ensaísta, Lya Luft seja na verdade uma ótima romancista (afinal, nenhuma obra desse gênero da autora me frustrou até agora) que teve muito sorte ao publicar "Perdas & Ganhos". Levada a escrever mais e mais livros de crônicas e ensaios, nos deparamos com uma escritora que já havia entregado tudo de interessante que podia ofertar nessa área. Depois de "Perdas & Ganhos", todos os livros de crônicas da autora ou são repetições do que ela já falara em seu best-seller ou são extensões de suas fracas colunas na revista Veja (que são de uma chatice homérica!). Para confirmar essa tese, vou ler no próximo final de semana "Em Outras Palavras" (Record), outro livro de crônicas da gaúcha. Essa obra foi lançada em 2006. Dessa forma, Luft teve quatro anos para preparar algo novo e melhor. Quem quiser conhecer a crítica dessa outra publicação, eu retorno ao Blog Bonas Histórias no domingo, dia 22. Não perca a análise de "Em Outras Palavras". Desejem-se sorte, por favor! Acho que vou precisar... Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft #ColetâneadeCrônicas #LiteraturaBrasileira
- Livros: Perdas & Ganhos - O best-seller de Lya Luft
"Perdas & Ganhos" (Record), o terceiro livro analisado nesse Desafio Literário, é o maior sucesso editorial da carreira de Lya Luft. As vendas da obra atingiram a marca de sete dígitos e transformaram a escritora gaúcha em um dos principais nomes da literatura nacional. A publicação permaneceu por mais de dois anos na lista dos mais vendidos do Brasil e foi traduzida para vários países. Trata-se de um feito espetacular para um livro que é um ensaio, gênero pouco explorado editorialmente e pouco popular em nosso país. Com o êxito de "Perdas & Ganhos", Lya Luft se tornou colunista da revista Veja e adquiriu status de uma das mais influentes intelectuais brasileiras da atualidade. Publicado em 2003, "Perdas & Ganhos" representou o auge da fase ensaísta de Lya Luft. Nas décadas de 1980 e 1990, os lançamentos da autora foram majoritariamente romances. Nesse período, dos catorze livros publicados por Luft, oito eram romances. Até o final da década de 1990, o único ensaio da escritora tinha sido o despretensioso "O Rio do Meio" (Mandarim), de 1996. A partir de 2000 é que essa tendência se inverteu radicalmente. Lya Luft passou a se dedicar mais aos ensaios e às crônicas, deixando em segundo plano a construção dos romances. Por isso, há quem a veja atualmente mais como ensaísta e cronista do que como romancista (um grave equívoco se considerarmos a qualidade dos romances da primeira fase da carreira da escritora). O primeiro livro da nova fase foi "Histórias do Tempo" (Mandarim), de 2000, em que o tema discutido era a maneira como as pessoas encaram a passagem dos anos. Depois, em 2002, foi a vez de "Mar de Dentro" (Record), livro em que a autora narra sua infância, misturando realidade e ficção. "Perdas & Ganhos" foi o terceiro ensaio de Luft no século XXI. O sucesso da obra foi arrebatador. A publicação alcançou o topo da lista dos livros mais vendidos do país entre 2003 e 2005. Como consequência do êxito comercial de "Perdas & Ganhos", nos anos seguintes, foram lançados mais sete livros de crônicas e de ensaios de Lya Luft: "Pensar é Transgredir" (Record), de 2004, "Em Outras Palavras" (Record), de 2006, "Criança Pensa" (Record), de 2009, "Múltipla Escolha" (Record), de 2010, "A Riqueza do Mundo" (Record), de 2011, "O Tempo é um Rio que Corre" (Record), de 2013, e "Paisagem Brasileira" (Record), de 2015. Enquanto isso, a autora lançou apenas dois livros infantis e três ficções adultas nos últimos dezessete anos. A própria Lya Luft considera "Perdas & Ganhos" como sendo uma continuação natural de "O Rio do Meio", seu primeiro ensaio. Veja as palavras da autora escritas no início de "Perdas & Ganhos": "Que livro é este? Talvez um complemento ao 'O Rio do Meio', de 1996. Escrito na mesma linha, retomando vários do que são meus temas. Toda a minha obra é elíptica ou circular: tramas e personagens espiam aqui e ali com nova máscara. Fazem isso porque não se esgotaram em mim, ainda os vou narrando. Provavelmente assim continuarei até a última linha do derradeiro livro. Que livro é este, então? Eu não chamaria de ensaios, porque o tom solene e a fundamentação teórica que o termo sugere não são jeito meu. Certamente não é romance nem ficção. Também não são ensinamentos - o que não os tenho para dar". Diferentemente do que Lya Luft afirma, considero "Perdas & Ganhos" um ensaio sim. Porém, ele é um ensaio informal, em que a escritora fundamenta sua visão sobre a vida e sobre o mundo de maneira coloquial, sem o rigor dos textos científicos e acadêmicos. Luft fala o que sente, vê, pensa e acredita. A obra também pode ser encarada como uma coletânea de crônicas em que os temas convergem para os desafios da mulher madura que acaba, querendo ou não, envelhecendo, mas que não aceita abrir mão de sua felicidade. "Perdas & Ganhos" é um livro pequeno, com apenas 160 páginas. É possível lê-lo em uma tarde ou em uma noite. Os principais temas abordados por ele são: desvalorização da infância, as principais falhas na criação de filhos e netos, o comportamento recorrente das mulheres que se anulam visando a felicidade de filhos e maridos, a violência das sociedades machistas, os temores mais íntimos de mulheres e homens, os dramas dos relacionamentos amorosos, as dificuldades mais comuns do convívio familiar, a angústia de envelhecer em uma sociedade que cultua a juventude, a busca pela felicidade na fase madura da vida, os desafios da velhice e as maneiras de lidar com a morte e as perdas naturais da existência humana. Ler "Perdas & Ganhos" é mergulhar em temas espinhosos que afetam diariamente e diretamente todas as pessoas. Lya Luft produz um texto gostoso e encantador. A impressão é que estamos na sala de casa conversando às sós com a escritora. Nesse bate-papo franco, não há espaço para meias-verdades ou enrolações de nenhuma das partes. Tudo aquilo que nos acostumamos a esconder em baixo do tapete de nossa alma é aqui descortinado de maneira simples pela autora. O tom poético do texto é ressaltado com a apresentação de uma poesia (feita pela própria Luft) na abertura de cada capítulo. Esse livro pode ser (obviamente) lido por todas as pessoas, mas acredito que ele seja mais indicado para quem está em uma fase mais madura da vida. Ou seja, o público-alvo de "Perdas & Ganhos" são homens e mulheres responsáveis pela criação dos filhos e pelo comando familiar ou quem já possui netos e entrou em uma fase em que a juventude está um pouco distante. Apesar de focar nos desafios, nos dramas, nos sonhos e nas angústias femininas, Lya Luft escreve tanto para os homens quanto para as mulheres. Se as leitoras vão se identificar imediatamente com o texto do livro, os leitores, por sua vez, têm a oportunidade de conhecer um lado feminino desconhecido por muitos deles ou raramente debatido na literatura. Lembro que li essa obra pela primeira vez em 2013. O livro foi presente de aniversário dado por uma grande amiga (Beijo, Fabrícia!). Naquela época, achei "Perdas & Ganhos" incrível. Muitas coisas (admito um tanto envergonhado agora) eu não entendia no comportamento "amalucado" das mulheres a minha volta. Elas pareciam estar sempre neuróticas, mal-humoradas e estressadas. Para piorar, culpavam constantemente seus maridos, namorados e companheiros por suas frustrações. Porém, ajudado pela visão de Lya Luft, passei a entender melhor aqueles comportamentos "caóticos" da mulherada. Repare que troquei a expressão "amalucada" por "caótica". Isso, por si só, já foi um grande avanço de minha parte, oriundo da leitura do livro. Grande parte das atitudes e frustrações das mulheres possui origem social e cultural. É nesse ponto que a autora mergulha sua análise de forma impecável. "Perdas & Ganhos" é uma obra libertadora para as mulheres. Ao percorrer as páginas do livro, elas podem entender, enfim, a origem dos seus dramas mais íntimos. Também podem identificar o que acontece/aconteceu em suas vidas em cada fase da existência. Para os homens de todas as idades, a publicação é profundamente didática. Afinal, eles podem entender de uma vez por todas o que se passa com suas companheiras. Com esse conhecimento, será difícil culpá-las quando as coisas não dão certo na família ou no matrimônio (muitas vezes, são elas as maiores vítimas e não as principais vilãs). Foi a partir desse livro que passei a gostar de Lya Luft e a procurar ler outras obras da autora. Antes de 2013, eu só conhecia o trabalho da escritora pelas suas colunas na revista Veja. Ali, considerava os textos da gaúcha chatos e repetitivos. Com a leitura de "Perdas & Ganhos", descobri a riqueza e a profundidade de uma artista com uma visão apurada da realidade contemporânea. Ao reler agora esse livro para o Desafio Literário, solidifiquei minha impressão inicial. Lya Luft é realmente incrível! Se você tiver que ler só um livro dela, leia "Perdas & Ganhos". Esse é daquele tipo de best-seller que faz justiça ao seu status de sucesso editorial. O Desafio Literário de outubro continua na próxima quarta-feira, dia 18. O quarto livro de Lya Luft que será analisado aqui no Bonas Histórias é "Pensar é Transgredir". Espero vocês aqui no blog! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft #ColetâneadeCrônicas #LiteraturaBrasileira
- Filmes: O Melhor Professor da Minha Vida - Desafios da educação
Nesse final de semana, estreou nos cinemas brasileiros o filme "O Melhor Professor da Minha Vida" (Les Grands Esprits: 2017). Essa produção francesa foi dirigida e roteirizada por Olivier Ayache-Vidal, cineasta mais conhecido pelos trabalhos em curtas-metragens, e foi protagonizada por Denis Podalydès, de "Monsieur & Madame Adelman" (2016), "Feito Gente Grande" (Du Vent Dans Mes Mollets: 2011) e Caché (2005). Aqui em São Paulo, o longa-metragem está sendo exibido no Reserva Cultural e no Espaço Itaú de Cinema. "O Melhor Professor da Minha Vida" faz parte de um gênero cada vez mais comum no cinema contemporâneo: o do filme que aborda a relação docente-discente e os problemas da educação nos dias atuais. São vários os exemplares dessa categoria: "Sociedade dos Poetas Mortos" (Dead Poets Society: 1989), "O Sorriso de Mona Lisa" (Mona Lisa Smile: 2002), "A Onda" (Die Welle: 2008) e "Entre os Muros da Escola" (Entre Les Murs: 2008). Mais recentemente, foram comentados aqui no Blog Bonas Histórias os bons filmes "O Que Traz Boas Novas" (Monsieur Lazhar: 2011) e "Escritores da Liberdade" (Freedom Writers: 2007). Apesar de abordar uma temática recorrente no cinema nos últimos anos, "O Melhor Professor da Minha Vida" consegue encantar a plateia, não sendo repetitivo. Com graça, bom humor, alguma originalidade e doses certeiras de dramaticidade, o filme escancara a difícil realidade da educação pública na França. Além disso, ele joga luz em um assunto delicado: a marginalização de negros, islâmicos e famílias pobres nos subúrbios parisienses. Nem sempre problemas graves e complexos podem ser resolvidos de maneira simplista e reacionária. Infelizmente, grande parte da crença da elite intelectual de muitos países não consegue explicar o que acontece nas regiões mais desfavorecidas de seus territórios. O longa-metragem começa com o professor de literatura François Foucault (interpretado por Denis Podalydès) lecionando no Liceu Henri IV, escola particular de Paris. A instituição é uma das mais tradicionais e renomadas da França. O professor Foucault, um homem de 40 anos, solteiro e sem filhos, é rígido e intransigente com seus alunos. Ele parece ter prazer em humilhar os estudantes, ridicularizando o desempenho da turma sempre que possível. Além disso, o professor é adepto do velho sistema educacional. Suas aulas são expositivas, ele gosta de aplicar notas baixas para todos, prioriza a realização de atividades mecânicas como o ditado gramatical e exige a decoreba da garotada. Certa noite, François Foucault, filho de um importante escritor francês, vai ao lançamento do novo livro do pai. Durante o coquetel desse evento, ele comenta corriqueiramente, em uma rodinha de pessoas mais ou menos conhecidas, que o principal problema da educação pública francesa está relacionado ao fato do Estado enviar professores inexperientes aos subúrbios. Enquanto os melhores e mais experientes docentes permanecem nas regiões centrais das metrópoles, os piores e os novatos são enviados para onde a exigência é maior, em um claro contracenso. Assim, a dificuldade da educação nas escolas mais afastadas não está na incapacidade dos alunos, mas na falta de preparação do corpo docente em encarar os desafios impostos por aquela complicada realidade. O discurso do professor Foucault no coquetel é puramente ideológico, feito aparentemente para agradar os ouvintes de alguns esquerdistas que o rodeavam. Além disso, a intenção do mestre é mostrar o quão bom profissional ele é. Afinal, seu trabalho é no conceituado Henri IV, em uma das regiões centrais de Paris, bem longe do subúrbio da cidade. As palavras de Foucault despertam à atenção de uma bonita jovem que estava por perto. A moça se interessa pelo discurso do professor, fazendo várias perguntas para ele. Ao final, ela diz trabalhar no Ministério da Educação e o convida para almoçar com ela. Prontamente ele aceita. A refeição, porém, não é como o professor Foucault imaginava. Ao invés de irem a um restaurante romântico a sós, a dupla se junta com os colegas dela em um almoço de negócios no gabinete do assessor da ministra da Educação. Foucault, para a alegria dos presentes, é apresentado pela amiga como sendo o professor do Liceu Henri IV que deseja lecionar no subúrbio para capacitar os jovens desfavorecidos. O professor até tenta consertar o mal entendido, mas não consegue. Quando a ministra da Educação aparece na sala e o cumprimenta pelo empenho em querer a ajudar o país, ele desiste de revelar a verdade. Assim, ele recebe a incumbência de dar aulas por um ano em uma escola pública distante de Paris. Rapidamente, o excêntrico François Foucault e seus métodos autoritários destoam naquele ambiente povoado de negros, islâmicos e alunos de origem pobre. Nada como o subúrbio parisiense para mostrar a variedade cultural da França contemporânea. Depois de se sentir totalmente impotente frente ao desinteresse coletivo dos estudantes, o professor entende que precisa rever sua metodologia de trabalho. Assim, passa a cativar mais e mais os alunos para suas aulas de literatura e para as belezas das histórias narradas nos livros. Troca, portanto, a rigidez e o autoritarismo pela persuasão e pela humanização da relação docente-discente. Ao mesmo tempo em que fica feliz com os primeiros resultados positivos da turma, ele também começa a gostar genuinamente dos estudantes. Após muitos problemas com o pior aluno da classe, Seydou (Abdoulave Diallo), o professor passa a se interessar pelo desenvolvimento do rapaz. A amizade entre os dois aumenta ao longo do ano letivo. "O Melhor Professor da Minha Vida" é um ótimo filme. Ele possui algumas características bem francesas, como o humor peculiar, o gosto pelos diálogos e o ritmo cadenciado da narrativa. Quem não se incomoda com essas particularidades dessa escola cinematográfica, tenderá a gostar da produção. Além disso, esse é um filme obrigatório para quem trabalha com educação. Professores, pedagogos e licenciados têm o dever de assisti-lo. O primeiro elemento que chama à atenção nesse filme é sua câmera nervosa. A movimentação constante da imagem e os enquadramentos pouco convencionais mostram o inconformismo dos alunos com o novo professor e a preocupação de François Foucault com o ambiente na nova escola. Além disso, esse recurso dá um ar de documentário ao filme, aumentando sua verossimilhança. O detalhamento das diferenças entre o centro e o subúrbio parisiense e entre a realidade da escola particular e da instituição pública francesa também ajudam na composição desse retrato antagônico. Outro ponto que merece elogios é a atuação de Denis Podalydès como o protagonista. Ele está brilhante no papel do professor enérgico, ranzinza, intolerante e patético. O elenco formado essencialmente por jovens não atrapalha em nada a fluidez do filme. Algo que precisa ser comentado aqui é o quanto a realidade da escola pública do subúrbio francês é infinitamente melhor do que a realidade da maioria das escolas brasileiras. A violência, o inconformismo e a agressividade dos adolescentes europeus parece coisa de criança quando comparados à nossa realidade. A infraestrutura local, apesar de parecer precária aos olhos dos europeus, é algo admirada pelos professores brasileiros que convivem diariamente com o abandono das escolas públicas nacionais. Assim, o choque de realidade sofrido pelo personagem principal ao chegar à nova escola não é tão acentuado na ótica dos espectadores brasileiros. Gostei também do recurso criado pelo roteirista para mostrar a passagem do tempo na trama. Eventos sequências específicos (irmã vai viajar por dois meses/ela volta de viagem) e datas marcantes do calendário (Natal, mudanças das estações do ano, férias de verão) são incorporadas à história exclusivamente para indicar a passagem do tempo. Apesar de ser algo simples, Olivier Ayache-Vidal trabalhou muito bem esses elementos em sua narrativa. A trilha sonora também é muito boa. Para quem trabalha com educação, seja como pedagogo, licenciado, professor ou administrador, poder ver na prática o choque de mentalidade entre as metodologias convencionais e as novas do processo de ensino-aprendizado é muito legal. O professor Foucaut, por exemplo, vai pouco a pouco mudando suas crenças e seus métodos de trabalho durante o filme. Não são apenas os alunos que se transformam ao longo da história. O professor também se torna um melhor docente ao procurar cativar os estudantes e ao se interessar por compreender a realidade objetiva de sua turma (ao invés de tentar impor-se através da ordem e da disciplina). Isso fica mais evidente no tipo de aula dada por ele e em sua relação com Seydou, o garoto-problema da escola. As aulas de Foucaut, pouca a pouco, deixam de ser expositivas para se tornarem atividades com metodologias ativas de ensino-aprendizado. A disputa de poder entre professor e Seydou se transforma em uma relação de amizade verdadeira entre a dupla. O desfecho da história é do tipo aberto. O que acontece com o menino Seydou e com o professor François Foucault ao final do ano letivo retratado?! Na verdade, isso não importa. O que o filme tenta mostrar é o que aconteceu com essa dupla de personagens durante aquele ano letivo. Esse período teve a propriedade de mudá-los definitivamente. Gostei da conclusão final, apesar de ela não decretar objetivamente o que será do futuro da dupla de protagonistas. "O Melhor Professor da Minha Vida" é um filme leve (apesar da temática pesada), muito engraçado (não é preciso comentar a ironia do nome da personagem principal, né?) e profundo. O longa-metragem tem a capacidade de discutir uma série de temas ligados à educação com uma singeleza que não torna sua narrativa entediante para as pessoas que não trabalham nessa área. Veja o trailer dessa bela produção francesa: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: O Rio do Meio - O ensaio de Lya Luft sobre sua literatura
Nesse sábado, li "O Rio do Meio" (Mandarim), segundo livro de Lya Luft do Desafio Literário de outubro. Publicada em 1996, essa obra representou a chegada da escritora gaúcha a um gênero literário até então novo para ela: o ensaio. Depois de lançar seis romances, quatro obras poéticas e uma coletânea de contos, Lya Luft sentiu a necessidade de discutir sua literatura e debater alguns temas sensíveis aos seus livros. Em uma prosa que mistura ficção e realidade, Lya conversa abertamente com os leitores sobre o que, afinal, ela se propõe a falar em seus livros. "O Rio do Meio" começa exatamente com esse questionamento. "Há temas que se repetem, perguntas que se perpetuam; inquietações coincidem entre o escritor e seus leitores, entre quem dá algum depoimento e quem assiste. 'Por que você escreve?' é a primeira e universal indagação", escreveu a autora no primeiro parágrafo do capítulo inicial da obra. Para responder a essa dúvida, Lya Luft apresenta, em sete breves capítulos, um conjunto de ensaios informais sobre a vida e a morte. Estão ali os conflitos de relacionamento entre marido e mulher, os desafios de envelhecer em uma sociedade fanática pela juventude eterna, os estilos antagônicos de homens e mulheres de encarar a realidade, os erros na construção das famílias e no gerenciamento do lar, as dificuldades na criação dos filhos e o medo natural da morte, entre tantos outros temas inerentes ao cotidiano moderno. Na época do lançamento dessa obra, Lya Luft não sabia que escrever ensaios iria transformá-la em uma das principais autoras brasileiras da atualidade. "O Rio do Meio" conquistou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) de melhor obra de 1996. Porém, a consagração maior (ou seria definitiva?) viria sete anos mais tarde com a publicação de outro livro de ensaios, "Perdas & Ganhos" (Record), seu maior sucesso editorial até aqui. O best-seller segue a linha do debate direto, sincero e informal sobre temas sensíveis do cotidiano das pessoas maduras. Estava criado um estilo literário único na literatura nacional. "O Rio do Meio" é um livro curto, de apenas 152 páginas. É possível lê-lo em pouco mais de quatro horas. Seus sete capítulos são: "1. Assobiando no escuro", no qual Lya Luft explica o que representa o ato de escrever e qual é a sua relação com a literatura; "2. Eu falo de infância e madureza", em que a autora apresenta as características da menina sonhadora, desajustada e apaixonada pela literatura que foi na infância (e que mantém na fase adulta); "3. Eu falo de mulheres e destinos" é uma reflexão do principal tema trabalhado nos livros da escritora (o papel da mulher na sociedade moderna e as angústias, os medos e os traumas femininos); "4. Eu falo de homens e seus sonhos" é uma análise sobre o papel das personagens masculinas na literatura de Luft e dos homens, de maneira geral, nas sociedades ao longo das gerações; Em "5. Eu falo da vida e de suas mortes", Lya Luft trata do amadurecimento, do envelhecimento, da doença e da morte; "6. Eu falo de ficções como realidade" é sobre o processo de construção dos romances pela autora; e, por fim, "7. Deus é sutil" é a visão da escritora sobre o transcendental. Quem gosta de ensaio, de literatura e de Lya Luft irá adorar esse livro. "Rio do Meio" é uma revisão conceitual dos onze livros publicados anteriormente pela escritora. Nessa décima segunda obra, a autora explica abertamente seu processo criativo, sua relação com as personagens, a dicotomia entre realidade e ficção, a escolha dos temas nos seus livros e a consolidação da carreira como romancista. Trata-se, portanto, de um mergulho na arte de produzir romances, a partir do ponto de vista da própria artista. Além disso, essa obra permite que Lya Luft apresente de forma mais objetiva e contundente seus pontos de vista. Por mais incisivos que sejam as mensagens contidas nos romances, é sempre bom buscar mais esclarecimentos diretamente com a autora. Assim, a gaúcha explica sua visão sobre: o papel da mulher e do homem na sociedade ao longo das últimas gerações, o processo de envelhecimento/amadurecimento, os relacionamentos familiares, os desafios do casamento, as aspirações e sonhos femininos, o receio da morte, a constituição das famílias e as diferentes maneiras de se criar os filhos. Não é preciso ter lido previamente nenhum livro de Lya Luft para adentrar nas discussões propostas pela autora. Afinal, os temas debatidos por ela são universais. Além disso, a escritora usa muitos exemplos pessoais e reais para pontuar suas explanações. É a separação da amiga, a doença do colega, os dramas de um parente próximo e a mentalidade chocante de um conhecido que dão colorido ao texto. Ao mesmo tempo, Lya insere elementos ficcionais para fazer o contraponto à realidade crua. A maior inovação de "O Rio do Meio", portanto, está em misturar vários gêneros literários em um texto fluído e agradável. É difícil, de certa maneira, classificar esse livro como uma ficção ou como um relato jornalístico. No fundo, é uma mistura das duas coisas. Apesar de não ser essencial, a leitura prévia das obras de Lya Luft ajudará o leitor no momento em que a escritora debate aspectos da sua literatura. Ela explica detalhes das suas personagens, de alguns enredos, do processo criativo e da sua ideologia. Quem leu um ou dois romances de Lya Luft (as temáticas, as estruturas e as características narrativas dessas obras se repetem infinitamente) já estará em total condição para compreender as referências mencionadas pela gaúcha. Gostei muito de "O Rio do Meio". O texto é leve apesar dos assuntos serem profundos e pesados. Este um ensaio informal, sem a pretensão acadêmica ou científica. O tom de diálogo, o ar de intimidade e a sensação de confidência entre autora e leitor norteia todo o livro. Se Lya Luft tinha se mostrado uma boa romancista com "As Parceiras", aqui ela se mostra uma exímia ensaísta. Até mesmo quando faz explanações conceituais, Luft mantém a veia de narradora. Seu texto é inteiramente recheado de pequenas histórias, breves relatos e citações pontuais que ajudam a exemplificar o que foi falado e a contextualizar o leitor no assunto. A escritora aborda os temas com naturalidade e com contundência impar. Muito bom! No sábado, dia 14, vou analisar aqui no Desafio Literário o grande sucesso editorial de Lya Luft: "Perdas & Ganhos". Os fãs da autora estão convidados para retornar ao Blog Bonas Histórias e compartilhar comigo suas impressões sobre esse best-seller. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft #LiteraturaBrasileira #Ensaios
- Livros: As Parceiras - O romance de estreia de Lya Luft
No último domingo, li "As Parceiras" (Record), o primeiro romance da carreira de Lya Luft. Publicado em 1980, a obra representou a estreia da gaúcha na ficção. Até então, Lya, com quarenta e um anos de idade, era mais conhecida como tradutora de obras do alemão para o português. Ela já tinha publicado timidamente três livros de sua própria autoria, mas eles eram de poesia e de contos. Quem teve a ideia de transformar a poeta e tradutora em romancista foi seu editor, Pedro Paulo Sena Madureira. Após ler alguns contos de Lya, Madureira sugeriu que ela também passasse a escrever romances. Em sua visão, os contos dela eram embriões de futuros e bons romances. Foi o que Lya Luft fez. Em 1980, o próprio Madureira editou "As Parceiras". O romance de estreia da gaúcha foi muito bem recebido pela crítica. Apesar de novata na função, Luft mostrava maturidade artística de uma escritora experiente. A obra possui um texto marcante e uma trama densa e tensa. "As Parceiras" é o mergulho na alma feminina e nas angústias da mulher madura. O livro questiona os valores da vida e a proximidade com a morte sob o ponto de vista feminino. A produção de "As Parceiras" está diretamente relacionada ao grave acidente automobilístico que a autora sofreu em 1979, que quase a matou. Estar a poucos passos da morte transformou Lya Luft. Ela passou a fazer tudo o que evitava e a questionar aspectos banais do cotidiano. Essas mudanças ajudaram-na a se lançar aos romances e a criar uma temática própria para seus livros (debate constante entre amadurecimento, envelhecimento e morte). Além de "As Parceiras", "A Asa Esquerda do Anjo" (Record), segundo romance da escritora lançado em 1981, também é fortemente influenciado pelo acidente automobilístico. "As Parceiras" é narrado em primeira pessoa pela protagonista, Anelise. A vida da personagem está um caos: ela está se separando do marido e seu filho pequeno acabou de falecer. Por isso, ela decide viajar para a casa de veraneio da família para refletir sobre sua existência e sobre as recentes perdas. Nos sete dias que passa na antiga casa, ela pode fazer uma análise completa sobre sua vida. Ao mesmo tempo em que tenta entender o que aconteceu consigo, Anelise também faz uma retrospectiva da vida de todas as mulheres de sua família. A revisão histórica do clã, que possui certo ar de devaneio, começa com os dramas enfrentados pela avó materna, Catarina. Para desespero de Anelise, algo une as mulheres de sua família ao longo das gerações: todas são fadadas à infelicidade. Ora é a loucura, ora é a morte precoce que as aflige. Ora é a violência masculina que impera, ora é a doença física e psicológica que as atinge. Ora é a impossibilidade da maternidade, ora é o fardo do cuidado da prole que as angustia. Assim, pelas páginas do romance desfilam a maluca com instintos homossexuais, a religiosa que permanece virgem até o fim da vida, a anã com problemas mentais, a artista liberal e casamenteira, a dona de casa frágil e lunática e a jovem apaixonada e independente. Ao lado dessas mulheres complexas e complexadas, os homens são normalmente retratados como seres bárbaros, rudes, violentos, confusos, passivos e/ou insensíveis. "As Parceiras" é um livro pequeno, com apenas 128 páginas. Ele é dividido em sete capítulos. Cada um deles refere-se a um dia que a protagonista passou na casa de veraneio. Assim como a semana, a obra começa no domingo e termina no sábado (os dias da semana são os nomes dos capítulos). Assim como a semana, a leitura da trama passa rapidamente diante dos nossos olhos (li essa obra em pouco mais de quatro horas). Apesar de breve, a narrativa desse romance é profunda e intensa. Misturando cenas do cotidiano da personagem principal com lembranças do passado da família de Anelise, Lya Luft constrói uma trama emotiva e dramática. A impressão que temos ao ler a obra é que cada frase reúne um turbilhão de sentimentos das suas personagens. Ao mesmo tempo, cada frase também é fruto de uma coletânea de fatos tristes que as mulheres descritas precisaram passar. Isso fica evidente logo nos primeiros parágrafos: "Catarina tinha catorze anos quando casou, penso, enquanto seguro a balaustrada, me debruço para aspirar melhor a maresia, e deparo com a mulher postada no morro à minha direita. Bem na pedra saliente, onde a rocha cai na vertical até às águas inquietas. Catorze, recém-feitos. Jogaram com ela um jogo sujo. Não podia mesmo aguentar". Durante a leitura, admito que fiquei com a impressão de a obra ser autobiográfica. Essa sensação é consequência da qualidade do texto e da força narrativa do romance. Lya Luft explica que Anelise é uma criação ficcional que combina várias mulheres que conheceu, tendo inclusive um pouco de si. "As Parceiras" não é uma história que promove o feminismo. Também não parece possuir pretensões ideológicas. Nada disso! O livro tem a propriedade de debater aspectos da vida das mulheres de maneira sincera e direta. Ali estão todas as angústias e todas as frustrações femininas concentradas em uma dezena de personagens. Lya Luft debate os dramas das mulheres de ontem e de hoje com a tranquilidade e a lucidez dos sábios. Enquanto muitas leitoras podem se identificar com as várias neuras descritas nas páginas do livro, os leitores masculinos poderão entender o que, afinal, se passa na mente da mulherada (algo sempre complicado para nós, homens). Para esse leitor masculino, infelizmente, Lya Luft é muito dura. Os homens, nesse livro, são sempre encarados como vilões. Não há um que preste. Há aquele que violenta regularmente sua esposa, o que não consegue amar sua mulher, o que trai compulsivamente e o que abandona o barco familiar no primeiro sinal de fadiga do relacionamento. Todos têm instintos animalescos. Se eles não são os causadores da infelicidade feminina (na maioria das vezes, eles são sim os responsáveis), as personagens masculinas não fazem nada para minimizar o caos da vida das mulheres ao seu redor. A linguagem do livro é similar a de uma confidência entre amigas. Lya Luft produz um texto muito bonito, quase poético. Ela consegue extrair beleza onde a vida se mostra mais triste e árida. O leitor se sente adentrando na mente da narradora. Porém, ao invés de um romance psicológico chato e permeado de fluxos aleatórios e confusos de pensamentos, temos aqui uma trama clara, factível e bem estruturada. O desfecho do romance é do tipo aberto. Ou seja, a compreensão do seu final depende da sensibilidade de quem lê a história, transformando o leitor em uma espécie de coautor. Eu gostei. Achei espetacular o encerramento. O destino da narradora de certa forma está atrelado ao da avó, em um ciclo de vida perpétuo. De alguma forma, a maldição das mulheres daquela família está grudada eternamente às personagens. "As Parceiras" é um retrato ácido e verdadeiro da opressão sofrida pelas mulheres ao longo das gerações. Os pesadelos da avó e da neta muitas vezes são parecidos, ficando distantes apenas no tempo. Esse primeiro romance de Lya Luft foi traduzido para o alemão e foi lançado na Europa. Com a leitura de "As Parceiras", conclui o primeiro livro do Desafio Literário de outubro. Na terça-feira, dia 10, retorno ao Blog Bonas Histórias para analisar a segunda obra de Lya Luft desse mês: "Rio do Meio" (Mandarim). Ao invés de um romance, a próxima publicação é um ensaio que mistura realidade e ficção, em um debate aberto sobre a literatura da autora. Não perca as novidades desse Desafio Literário! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft #Romance #Drama #LiteraturaBrasileira
- Gastronomia: Festa de San Gennaro - Comida italiana na Mooca
São Paulo tem três grandes festas italianas que ocorrem todos os anos nas ruas da cidade. Essa tríade é composta pela Festa de São Vito, pela Festa da Nossa Senhora da Achiropita e pela Festa de San Gennaro. Quem gosta de comida italiana, de celebrações populares e de eventos organizados nas ruas da cidade precisa fazer esse roteiro ao menos uma vez. Eu gosto e repito anualmente tal itinerário, visitando ao menos dois desses eventos. A Festa de São Vito ocorre entre junho e julho no bairro do Brás e é considerada a maior em número de barracas (São normalmente 40). Tenho a sensação que ela possui a melhor organização do trio de eventos italianos. A Nossa Senhora da Achiropita, por sua vez, acontece em agosto no Bixiga e é a mais tradicional e charmosa, além de ser a maior em número de visitantes. E entre setembro e outubro há a Festa de San Gennaro. Afinal, o que a terceira grande festa italiana do calendário paulistano tem de tão especial que mereça nossa visita? Ora, essa é a festa da Mooca, meu! No final de semana retrasado, fui à Mooca para conferir a festa desse ano. Em 2017, San Gennaro chega a sua 44a. edição. São cerca de trinta barracas montadas nas ruas San Gennaro, onde fica uma das entradas da paróquia responsável pela organização do evento, e Lins. A celebração ocorre aos sábados e domingos a partir das 18h. A edição desse ano começou no dia 9 de setembro e se estenderá até o próximo final de semana, dia 8 de outubro. O principal atrativo da festa, como não poderia ser diferente, está na gastronomia italiana. Apesar dos bons shows musicais e das variadas atrações infantis, as pessoas vão para San Gennaro para "mangiare". São servidos vários pratos todas as noites: macarrão, polenta, fogazza, pizza, lasanha, antepasto, folhado, churrasquinho, sanduíches e tantos outros que não me recordo de cabeça. Há também doces e bebidas (água, refrigerante, vinho e cerveja) para acompanhar. Os preços variam de R$ 5,00 a R$ 13,00. O valor médio da refeição completa gira em torno de R$ 25,00 por pessoa (dois pratos salgados, bebida e sobremesa). Quem quiser ficar em um espaço mais reservado, há ainda a opção de frequentar a cantina da festa. Para isso, é necessário fazer a reserva com antecedência e comprar o convite. Na cantina ocorrem apresentações de danças típicas e sorteios de brindes. A vantagem dessa opção é o maior conforto oferecido aos visitantes. Por outro lado, perde-se muito do charme de caminhar entre as barracas e de frequentar um evento de rua popular. Fazia certo tempo que não visitava a San Gennaro e admito que fiquei positivamente impressionado com sua organização. A evolução de sua estrutura nos últimos quatro anos é nítida. São cinco os motivos que fazem dessa festa uma ótima opção para os amantes da cultura italiana: 1) As duas ruas da Mooca onde a festa acontece agora são cobertas durante o evento com uma grande lona. Assim, o público não sofre se o frio for excessivo ou se houver chuva. É um conforto importante que a Festa de São Vito já proporciona aos seus visitantes há alguns anos e que não há na Nossa Senhora da Achiropita. Ponto positivo para os organizadores da San Gennaro! 2) A variedade de pratos e de comidas é absurda em San Gennaro. Você irá ficar maluco com a quantidade de opções servidas. Além do grande número de itens oferecidos, em cada barraca você pode escolher o sabor do seu pedido. Por exemplo, se na Festa da Nossa Senhora da Achiropita você tem um único sabor de fogazza e um único recheio de pizza, em San Gennaro há duas opções de fogazza (calabresa ou mussarela) e vários de pizza (mussarela, quatro queijos, calabresa, portuguesa...). Além disso, você pode comer pizza em fatia, pizza folhada e até comprar a pizza inteira (a redondona) para levar para casa ou para comer ali com a família. É muita opção! 3) Uma inovação na forma de pagamento implantada no ano passado também ajudou a reduzir as filas e tornou o ambiente mais higiênico. Agora, o visitante precisa adquirir um cartão eletrônico (parecido ao Bilhete Único, aquele usado no transporte coletivo) ao custo de R$ 2,00 (vendido na bilheteria da festa). Com ele em mãos, você coloca os créditos necessários que quer gastar no evento. Com esse cartão carregado, é só passar nas barracas e consumir o que você deseja. Assim, não é necessário continuar mexendo com dinheiro nem é preciso enfrentar filas em cada barraca para efetuar o pagamento. Se os créditos acabarem, é só carregar o cartão eletrônico nas bilheterias centrais da festa. Se sobrar crédito, você pode utilizá-lo na próxima visita. O cartão é o mesmo para todas as edições da Festa San Gennaro, não sendo necessário adquirir um novo toda vez. Quem tiver o cartão do final de semana passado ou do ano passado, por exemplo, pode trazê-lo e usar. 4) Para quem está acostumado com a confusão e o aperto da Nossa Senhora da Achiropita e com as intermináveis filas do Bixiga, a festa da Mooca é um paraíso. A menor quantidade de visitantes e a organização mais eficiente nas barracas tornam a visita mais confortável, rápida e agradável. O único item que demora um pouco mais para sair é a fogazza. Mesmo assim, os dez minutos de fila aqui não são nada perto da uma hora que é preciso esperar em média na Achiropita. 5) A comida da Mooca é muito gostosa. A maioria dos pratos é tão saborosa quanto os vendidos em São Vito e na Achiropita. Afinal, nos casos das massas, das polentas e dos sanduíches, os fornecedores são os mesmos para as três festas. Em relação às pizzas e aos doces servidos em San Gennaro, eles são até mais gostosos do que seus concorrentes. A única decepção fica com a fogazza. Apesar de ela ser deliciosa, os fãs das gigantescas fogazzas da Achiropita talvez fiquem frustrados com o tamanho desse item da Mooca. Aqui ela tem a metade do tamanho da festa do Bixiga. Apesar dos protestos de algumas pessoas, a realidade é que não é a fogazza da San Gennaro que é pequena (ela é do tamanho normal). É a fogazza da Achiropita que é um monstro e torna a comparação desleal. Quem quiser provar as delícias da cultura italiana em um dos bairros mais italianos de São Paulo, a Festa de San Gennaro é uma ótima opção para o final de semana à noite. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #FestaItaliana #ComidadeRua #SãoPaulo #Gastronomia
- Desafio Literário de outubro/2017: Lya Luft
O Desafio Literário de 2017 chega ao seu sexto autor. Nesse mês de outubro, o Blog Bonas Histórias analisa a escritora brasileira Lya Luft. Assim, voltamos à realidade da literatura nacional depois de viajarmos pelo mundo por quatro meses (França com Régine Deforges, Japão com Haruki Murakami, Estados Unidos com Nora Roberts e Austrália com Markus Zusak). Permanecemos, contudo, trabalhando com um nome contemporâneo, uma característica do Desafio Literário desse ano. Cinco dos autores estudados em 2017 (Haruki Murakami, Nora Roberts, Markus Zusak, Lya Luft e Ondjaki) são escritores vivos e ainda atuantes. Os únicos falecidos são Machado de Assis e Régine Deforges. Lya Luft é gaúcha e tem setenta e nove anos de idade. Nascida em Santa Cruz do Sul, ela se tornou escritora profissional tarde, quando já passava dos quarenta anos. Lya é formada em letras anglo-germânicas e possui mestrado em literatura brasileira e linguística aplicada. Trabalhou por muitos anos como tradutora de inglês e alemão e foi professora universitária. Atualmente, é colunista da revista Veja. Casada duas vezes e com três filhos (e vários netos), a escritora está viúva desde 1995. Sua estreia como romancista aconteceu em 1980 com a publicação de "As Parceiras". Até então, Lya Luft só havia publicado poesias e contos. "Canções de Limiar", de 1964, e "Flauta Doce", de 1972, foram coletâneas poéticas da escritora, enquanto "Matéria do Cotidiano", de 1978, reúne contos da gaúcha. Apenas na década de 1980, uma editora resolveu apostar no lado ficcional de Lya Luft. Assim, o livro "As Parceiras" foi lançado nacionalmente. Recebido com entusiasmo pela crítica e pela imprensa nacional, o romance de estreia de Lya abriu as porta do mercado editorial para a novata.. No ano seguinte, chegou às livrarias nacionais outro romance de Luft, "A Asa Esquerda do Anjo". Ainda na década de 1980, mais cinco trabalhos da gaúcha foram publicados: "Reunião de Família", romance de 1982, "O Quarto Fechado", romance de 1984, "Mulher no Palco", livro de poesias de 1984, "O Exílio", romance de 1987 e "O Lado Fatal", obra poética de 1989. Na década de 1990, foram lançados quatro romances: "A Sentinela", em 1994, "O Rio do Meio", em 1996, "Secreta Mirada", em 1997, e "O Ponto Cego", em 1999. Desses, o maior destaque foi para "O Rio do Meio", vencedor do prêmio de melhor obra daquele ano concedido pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Sua inovação está em misturar vários gêneros literários, sendo difícil sua classificação como uma ficção ou como um relato jornalístico. O grande sucesso de Lya Luft nas livrarias aconteceu nos anos 2000, quando ela passou a trabalhar principalmente com crônicas e ensaios. Depois de publicar "Histórias do Tempo" e "Mar de Dentro", a escritora lançou "Perdas & Ganhos", em 2003. O livro teve um sucesso imediato. Apesar de já ser uma romancista reconhecida pela crítica, Lya Luft se tornou, após "Perdas & Ganhos", uma escritora best-seller. Reconhecida nacionalmente pelo público leitor, o status da carreira de Lya mudou para sempre. Hoje, ela é uma autora reconhecida, admirada e muito requisitada pelo público. Com uma coluna mensal na revista semanal mais importante do país, Lya Luft é uma voz influente tanto na literatura quanto na sociedade brasileira. Depois de "Perdas & Ganhos", Lya Luft publicou mais doze livros: "História de Bruxa Boa", em 2004, "Pensar é Transgredir", em 2004, "Para Não Dizer Adeus", em 2005, "Em Outras Palavras", em 2006, "A Volta da Bruxa Boa", em 2007, "O Silêncio dos Amantes", em 2008, "Criança Pensa", em 2009, "Múltipla Escolha", em 2010, "A Riqueza do Mundo", em 2011, "O Tigre Na Sombra", em 2012, "O Tempo é um Rio que Corre", em 2013 e "Paisagem Brasileira", em 2015. Desses, destaque para "Pensar é Transgredir" e "O Tigre Na Sombra", que obtiveram expressivas vendas nas livrarias. Lya Luft será nossa companheira durante esse mês no Desafio Literário. Para podermos estudar em profundidade sua literatura e seu estilo literário, serão lidos e analisados seis dos seus livros nas próximas quatro semanas. As obras escolhidas para análise foram: "As Parceiras" (Record), "O Rio do Meio" (Mandarim), "Perdas & Ganhos" (Record), "Pensar é Transgredir" (Record), "Em Outras Palavras" (Record) e "O Tigre nas Sombras" (Record). O calendário de divulgação das análises críticas dessas obras é o seguinte: "As Parceiras" será apresentado aqui no blog no dia 6, "O Rio do Meio" no dia 10, "Perdas & Ganhos" no dia 14, "Pensar é Transgredir" no dia 18, "Em Outras Palavras" no dia 22 e "O Tigre nas Sombras" no dia 26. No dia 30 de outubro, retorno para a conclusão do Desafio Literário, quando montarei um panorama geral sobre a literatura de Lya Luft. Você está convivido(a) para ler comigo essas obras. Nossos encontros para debate e crítica será aqui no Blog Bonas Histórias. Bom Desafio Literário para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LyaLuft
















