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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Livros: Anne de Green Gables – O início da saga literária de Lucy Maud Montgomery

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • 24 de ago.
  • 17 min de leitura

Publicado em 1908, o drama histórico de Anne Shirley, a menina órfã da Nova Escócia que foi adotada por dois irmãos idosos da Ilha do Príncipe Eduardo, se transformou em um clássico da literatura canadense e deu origem a uma das mais famosas séries da ficção infantojuvenil.


Publicado em 1908, Anne de Green Gables é o romance de estreia de Lucy Maud Montgomery e um dos títulos mais famosos da literatura infantojuvenil canadense

No mês passado, li seis livros. Dessa pequena lista de leitura, os de que mais gostei foram: “A Coragem de Ser Imperfeito” (Sextante), trabalho acadêmico da norte-americana Brené Brown publicado em 2012 que é até hoje um best-seller internacional na prateleira da não ficção; e “Anne de Green Gables” (Lafonte), obra ficcional que consagrou a canadense Lucy Maud Montgomery como uma das autoras clássicas da literatura infantojuvenil. Como a coluna Livros – Crítica Literária é dedicada essencialmente à arte ficcional, não tive qualquer dúvida sobre qual desses títulos deveria analisar hoje. Portanto, vou comentar neste post o encantador romance de Montgomery sobre a menina órfã mais carismática e tagarela da literatura mundial.


Para ser bem franco com os leitores do Bonas Histórias, estava há muuuito tempo com vontade de conhecer “Anne de Green Gables”, drama histórico ambientado no fim do século XIX. Inclusive, este romance repousava placidamente na estante da minha biblioteca particular desde o fim de 2021. Eu o comprei quando encontrei uma publicação lindíssima da Editora Lafonte por um valor promocional. Acho que paguei R$ 15,00 ou R$ 18,00 em um quiosque de alguma dessas livrarias de baixo preço que são montadas sazonalmente nos shopping centers de São Paulo (e que nunca me lembro o nome). Vamos combinar que adquirir uma obra-prima da ficção internacional por esse valor é uma pechincha digna de Prêmio Nobel de Economia.


Entretanto, por quase cinco anos, pensava rotineiramente ao ver a lombada verde e branca de “Anne de Green Gables” na minha prateleira: “no mês que vem lerei sem falta este título”. E nada do tão aguardado dia de conhecer a narrativa mais famosa de L. M. Montgomery chegar. Aposto que as almas procrastinadoras ou os leitores com coletâneas intermináveis de livros para degustar irão entender o meu drama pessoal. Fiquei nessa angústia até que, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, o momento desta leitura, enfim, aconteceu. Saravá! Depois de conferir o primeiro tempo de uma partida sofrível do Canadá, passei a mão na narrativa infantojuvenil que é adorada por dez entre dez habitantes do país da folha vermelha com 11 pontas. Na minha humilde concepção, os capítulos iniciais do romance seriam muuuito melhores do que o segundo tempo do futebol da equipe coanfitriã do torneio da FIFA.  


Autora de Anne de Green Gables, romance que dá início à série literária protagonizada por Anne Shirley, L. M. Montgomery é uma das escritoras mais cultuadas do Canadá e da literatura infantojuvenil

Curiosamente, esta obra era o último clássico da literatura canadense que não conhecia a fundo. Na minha lista de obras essenciais do país mais gélido da América do Norte, já tinha lido: “O Conto da Aia” (Rocco), distopia de Margaret Atwood cada vez mais real; “O Paciente Inglês” (Editora 34), romance histórico de Michael Ondaatje com fortes tintas sentimentais; “A Vida de Pi” (Magnética), drama filosófico infantojuvenil de Yann Martel; e “O Progresso do Amor” (Biblioteca Azul), uma das melhores coletâneas de contos de Alice Munro sobre os relacionamentos amorosos. Até comentei, com certa empolgação, algumas dessas obras aqui no blog.


Publicado em 1908, “Anne de Green Gables” representou a estreia de Lucy Maud Montgomery no mercado editorial. Aos 34 anos de idade, a escritora utilizou as lembranças da infância difícil para criar a trama de uma das protagonistas mais sensacionais da ficção mundial. O sucesso deste livro foi imediato, o que incentivou a autora a escrever e lançar a sequência da narrativa sobre Anne Shirley (Anne com “e” no final, por favor!). Dessa maneira, o público consegue acompanhar a trajetória da ruivinha da infância à maturidade. A saga original é retratada nas páginas de seis livros.


Em “Anne de Green Gables”, a protagonista, então com 11 anos, é adotada pelos irmãos Matthew e Marilla Cuthbert e vai viver na pequena cidade de Avonlea, na Ilha do Príncipe Eduardo. O nome da propriedade da nova família da garotinha é Green Gables – daí o título do romance. O primeiro livro da coletânea de Montgomery percorre a fase final da infância de Anne, período de muitas confusões, de amizade intensa com Diana Barry e de adaptação à cultura local e à família Cuthbert. A obra acaba justamente quando a menina deixa de ser efetivamente uma criança e se torna uma jovem (talvez o correto seja dizer adolescente) de 16 anos (e meio).


“Anne de Avonlea” (Lafonte), o segundo título da série literária de L. M. Montgomery, foi publicado em 1909. Nele, a escritora canadense retrata os desafios de sua principal personagem como professora iniciante em Avonlea. Além disso, nesta migração da adolescência para a vida adulta, a jovem sonhadora terá que cuidar da mãe adotiva cada vez mais doente e precisará encarar as agruras e os deleites da amizade cada vez mais forte com Gilbert Blythe, seu grande rival no primeiro volume. Não é preciso ser um sábio para ver que existe algo mais entre Anne Shirley e Gilbert Blythe, né?


Lançado em 1908, Anne de Green Gables é o primeiro livro da saga de Lucy Maud Montgomery protagonizada por Anne Shirley, uma das principais personagens da literatura canadense e da ficção infantojuvenil

Por sua vez, “Anne da Ilha” (Lafonte) retrata o período em que a ruivinha, agora com 18 anos, se muda para Kingsport, na Nova Escócia, para fazer faculdade em Redmond College. Este romance foi lançado em 1915 e marca o instante em que a protagonista se descobre apaixonada (oh, que surpresa!) pelo melhor amigo. Gilbert Blythe também viaja para Kingsport com a ideia de fazer medicina e, claro, se declarar para a moça que vira sua cabeça desde a infância em Avonlea.  


Em “Anne e a Casa dos Sonhos” (Lafonte), de 1917, “Anne de Windy Poplars” (Lafonte), de 1936, e “Anne de Ingleside” (Lafonte), de 1939, conhecemos, respectivamente, o casamento de Anne Shirley e sua vida dos 22 aos 25 anos, a atuação como diretora escolar em Windy Willows entre os 25 e os 27 anos e a vida como mãe em Ingleside dos 34 anos aos 40 anos.


Há, contudo, outros dois livros que expandem o universo ficcional desta série narrativa. Enquanto “Vale do Arco-Íris” (Ciranda Cultural), publicado em 1919, apresenta a infância dos filhos de Anne, “Rilla de Ingleside” (Ciranda Cultural), de 1921, concentra-se nos dramas da filha menor de Anne durante a Primeira Guerra Mundial. Em ambas as obras, Anne Shirley não é a protagonista, papel desempenhado por seus filhos. Por causa dessa característica, considero “Vale do Arco-Íris” e “Rilla de Ingleside” como um complemento à coletânea de romances formada por “Anne de Green Gables”, “Anne de Avonlea”, “Anne da Ilha”, “Anne e a Casa dos Sonhos”, “Anne de Windy Poplars” e “Anne de Ingleside”.


De qualquer maneira, não é totalmente descabido adicionar a dupla de títulos à saga principal, como muitas pessoas gostam de fazer. Da mesma forma, é válido acrescentar alguns contos de L. M. Montgomery retratando a juventude de Anne à coleção original. O que me parece um gigantesco absurdo é incluir as histórias de autores contemporâneos a esta trama, mesmo quando aprovadas pela família da autora. Aí não dá, senhoras e senhores. Minha mente progressista tem limites que não aceitam algumas modernidades literárias – como um escritor atual seguir produzindo um drama clássico de uma escritora há muito tempo falecida. Nananinanão!


Clássico da literatura canadense e da literatura infantojuvenil, Anne de Green Gables é o romance de estreia de L. M. Montgomery que deu origem à série literária protagonizada por Anne Shirley

L. M. Montgomery, como Lucy Maud Montgomery ficou mais conhecida no universo literário, publicou outros livros. Seu trabalho autoral não se restringiu às narrativas de Anne Shirley. Por exemplo, seu portfólio reúne duas dezenas de romances, cinco centenas de contos, uma biografia, uma antologia poética e um título não ficcional. Ainda assim, é inegável que a saga literária iniciada com “Anne de Green Gables” é o ponto alto de sua carreira como escritora e segue sendo cultuada até hoje por milhões de leitores mundo afora.  


Para termos uma ideia do quão importante é Anne Shirley para a cultura canadense, a história da ruivinha órfã se tornou um ícone nacional. Os livros de Montgomery tiveram incontáveis adaptações televisivas, cinematográficas e teatrais tanto na América do Norte quanto no exterior. A Ilha do Príncipe Eduardo, cenário da fazenda da família Cuthbert, até se tornou ponto turístico. Leitores dos quatro cantos do planeta visitam anualmente a província marítima no leste do Canadá para conhecer as paisagens descritas pela autora local. Só quem leu a série infantojuvenil entenderá o apelo da geografia deste lugar para os fãs da literatura. 


Quando escrevi logo acima que Lucy Maud Montgomery é uma escritora local, não foi força de expressão, não. Ela nasceu, em novembro de 1874, em Clifton (atualmente New London), cidade da Ilha do Príncipe Eduardo. Portanto, suas descrições são fidedignas, assim como o drama de sua principal protagonista. Tal qual Anne Shirley, Montgomery perdeu a mãe quando ainda era bebê. Abalado pela viuvez precoce, seu pai a abandonou com os avós maternos. Não é por acaso que as tramas ficcionais da romancista girem quase sempre em torno de órfãos. Só aos sete anos, ela foi morar com o pai, que havia se mudado para Saskatchewan (e se casado novamente). Aí sua criação ficou a cargo ora da madrasta, ora dos avós paternos, que eram rigorosos e frios, principalmente para uma alma sonhadora e para uma mente tão imaginativa. De certa maneira, Anne Shirley é o alter ego de Lucy Maud Montgomery.


Há outras semelhanças entre as duas. Ambas concluíram a certificação como professoras, atuaram alguns anos no magistério, fizeram faculdade na Nova Escócia, receberam propostas de casamento de seus melhores amigos, cuidaram de familiares doentes e tiveram seis filhos. A diferença substancial é que, em oposição à trajetória de Anne, Montgomery nunca foi verdadeiramente feliz no matrimônio. Ela teve como marido um pastor que sofria de depressão e era doente, que exigia muitos cuidados domésticos. Depois de viver vários anos com depressão, Lucy Maud Montgomery morreu em abril de 1942, em Toronto. A principal suspeita é que tenha se suicidado com a ingestão de remédios. Tinha 67 anos.


Anne de Green Gables é o drama histórico de uma garotinha órfã que se transformou em um clássico da literatura canadense e da ficção infantojuvenil de língua inglesa

No Brasil, “Anne de Green Gables” foi publicado pela primeira vez em 1939, pela Companhia Editora Nacional. Curiosamente, o título da obra foi diferente do original. Até meados do século passado, os brasileiros encontravam nas livrarias nacionais o romance com o nome de “Anne Shirley”. O livro com o título convencional só seria lançado por aqui em 1956. Porém, nessa segunda edição, ele foi publicado em dois volumes. A versão que conhecemos atualmente, fiel à edição canadense e traduzida para o português, é algo bem mais recente, do século XXI. A Editora Martins Fontes lançou “Anne de Green Gables” em volume único em 2009. De lá para cá, outras editoras, como a Editora Pedrazul e a Ciranda Cultural, não apenas publicaram esse romance como apresentaram ao público nacional a coletânea inteira de Anne Shirley.


A edição que li no comecinho de julho foi a mais recente que encontrei nas livrarias brasileiras. Publicada em novembro de 2020 pela Editora Lafonte, essa versão foi traduzida por Luciane Gomide. Formada em Letras pela USP e Jornalismo pelo Mackenzie, e pós-graduada em Comunicação pela Cásper Líbero, Gomide atua em várias editoras nacionais como tradutora, editora, preparadora e revisora de textos. Apesar de ser uma edição impecável, com belíssimo projeto gráfico e tradução de excelente qualidade, confesso que escolhi essa opção por pura casualidade. Lembrem-se que foi o livro que comprei por impulso promocional (e que quase me rendeu o primeiro Nobel). Desculpe-me pela sinceridade. Como diria Chicó, personagem icônica de Ariano Suassuna: "Não sei, só sei que foi assim!".


Já que vamos analisar “Anne de Green Gables” em profundidade (é para isso que servem os posts da coluna Livros – Crítica Literária, não é?!), acho válido detalhar o enredo deste primeiro romance de L. M. Montgomery. Aí vamos nós, galerinha sempre animada e curiosa do Bonas Histórias, o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento que recheia a internet em língua portuguesa com análises completas e originais.


Ambientada no fim do século XIX, esta trama de L. M. Montgomery inicia-se com a decisão de Matthew e Marilla Cuthbert, uma dupla de irmãos, de 60 e 50 anos, respectivamente, em adotar uma criança. Nenhum dos dois se casou e o dia a dia na fazenda Green Gables, em Avonlea, está cada vez mais difícil para eles, que se aproximam da velhice. Em vez de contratar um funcionário da Ilha do Príncipe Eduardo, Matthew e Marilla optam por adotar um garoto órfão de um orfanato da província da Nova Escócia. Assim, terão alguém de confiança para fazer o trabalho pesado no campo, além de ganhar uma companhia jovial para espantar a solidão pela solteirice e pelo cotidiano rural.


Best-seller no Canadá desde o início do século XX, Anne de Green Gables é um romance de formação de Lucy Maud Montgomery que deu origem a uma aclamada série literária infantojuvenil

Depois da irmã avisar uma amiga da predileção por um jovem de 11 anos, Matthew vai de charrete à estação de trem, na data combinada, para buscar o menino que irão adotar. Contudo, ao chegar à estação, ele se surpreende com a criança que o está aguardando no banco da plataforma. Trata-se de uma menininha de 11 anos. Seu nome é Anne Shirley. De temperamento introvertido, o Sr. Cuthbert prefere não avisar logo de cara à recém-chegada sobre a confusão provocada pelo orfanato. Ele deixará que Marilla explique o mal-entendido quando chegarem em casa.


Na viagem para Green Gables, o tímido e calado Matthew se encanta com a postura sonhadora e tagarela de Anne. A garotinha faz o percurso inteiro de charrete falando sem parar, maravilhada com a beleza da natureza na Ilha do Príncipe Eduardo e com a possibilidade de ter um lar próprio e uma família. Quando a dupla chega na residência em Avonlea, Marilla quase surta com o erro cometido. Sem esconder a decepção, ela reafirma que quer um menino que ajude seu irmão mais velho no campo, não uma menina para lhe auxiliar nas tarefas domésticas. Dessa maneira, Anne Shirley terá que ser devolvida para o orfanato na Nova Escócia. Não é preciso dizer que a criança passa aquela noite chorando, chorando, chorando. Mal chegou à casa que acreditava ser a de sua nova família, ela será implacavelmente desprezada.


Entretanto, na manhã seguinte, Matthew consegue convencer a irmã de que eles devem ficar com aquela adorável garotinha sonhadora e falante. Pelo menos, podem tentar ver se Anne se adapta à fazenda e à rotina deles. Um pouco contrariada e com bastante dúvidas se está fazendo o correto, Marilla aceita a permanência da criança. Ao receber a notícia, a menina fica radiante e promete se comportar e fazer todas as tarefas que lhe forem designadas.


Na prática, à medida que os dias, as semanas, os meses e os anos vão passando, Anne Shirley se transforma em um para-raios de confusão. Seu jeito espontâneo, devaneador e carinhoso atrai uma série de problemas para ela e para seus pais adotivos em Green Gables. Contudo, ninguém consegue ficar muito tempo bravo com a ruivinha inteligente e doce. Os mal-entendidos não são provocados por sua má índole e, sim, pelo acaso, pelos choques culturais (Anne é bastante diferente de Marilla e Matthew Cuthbert) e, obviamente, pelas peraltices típicas da infância.


Publicado em 1908, Anne de Green Gables é uma das obras mais famosas de L. M. Montgomery, considerada um clássico da literatura infantojuvenil e um patrimônio cultural canadense

Os capítulos do romance mostram as várias aventuras da protagonista: a chegada à Avonlea; a tensão da confirmação de sua adoção; o início do relacionamento com os irmãos Cuthbert; a briga com a Sra. Rachel Lynde, a vizinha fofoqueira que ofendeu Anne; o primeiro piquenique; a construção da amizade com Diana Barry; a ida à escola municipal; o bullying dos meninos no colégio; a rivalidade acadêmica com Gilbert Blythe; a ida ao primeiro concerto; e a desconfiança natural dos moradores da cidade e da própria família em relação à pequena forasteira que chegou causando incontáveis confusões.


A cada dificuldade, Anne Shirley consegue superar os problemas sem perder seu jeitinho tão característico: a visão romântica, a inventividade criativa, o gosto por falar sem parar, a postura destemida, a mania de sonhar acordada e o comportamento carinhoso. É impossível não se apaixonar pela ruivinha levada e gente boa do interior canadense.


“Anne de Green Gables” é realmente uma leitura muito agradável. Certamente, esta obra estará entre as melhores que li no segundo semestre de 2026 – lista que apresento regularmente na coluna Recomendações. Percorri as 288 páginas e os 38 capítulos do volume 1 da mais famosa série literária de Lucy Maud em seis horas. Obviamente, não fiz esse trabalho em um único dia, né? Precisei do sábado e do domingo para concluir a leitura. Basicamente, foram duas sessões de uma hora e meia cada no primeiro dia e outras duas, com a mesma duração, no dia seguinte.


No início deste post, classifiquei este livro como sendo um drama histórico. Reafirmo o meu entendimento. Como ele foi produzido na primeira década do século XX e enfocava o período em que a autora canadense era criança, na penúltima década do século XIX, temos aí um hiato temporal de pelo menos duas décadas, o que já é suficiente para caracterizar este tipo de gênero literário. Porém, “Anne de Green Gables” também é um romance de formação com fortes componentes de humor, crítica social, questionamentos morais e descrição de costumes. Afinal, ele retrata a trajetória de Anne Shirley da infância à maturidade durante a penúltima virada de século.


Anne de Green Gables é o romance de Lucy Maud Montgomery que narra as aventuras de Anne Shirley, uma menina órfã da Nova Escócia que é adotada por uma família de Avonlea, cidade na Ilha do Príncipe Eduardo

Para completar a variedade tipológica, esta obra adquiriu o status de clássico da literatura infantojuvenil de língua inglesa a partir da segunda metade do século XX. Foi neste momento que os títulos da saga de Montgomery se tornaram, merecidamente, leituras obrigatórias nas escolas no Canadá. Assim, o mercado editorial internacional seguiu com a classificação dos livros voltados para as crianças e os adolescentes. Contudo, reforço que ele pode ser degustado normalmente pelo público adulto, principalmente pelos leitores mais sensíveis e pela galera que aprecia as boas histórias.


O primeiro aspecto que me chamou a atenção nesta leitura foi a pegada de moldura narrativa do romance. A partir da chegada de Anne à Avonlea, a filha adotiva dos Cuthbert é constantemente colocada à prova. Em cada capítulo, a protagonista se envolve num tipo de confusão diferente e precisa solucionar os problemas gerados voluntária ou involuntariamente por ela mesma. Em outras palavras, a dinâmica da narrativa é sempre a mesma, o que muda é o contexto. Usando um conjunto fixo de personagens e de cenários, Lucy Maud Montgomery desenvolve, capítulo a capítulo, várias aventuras da ruivinha tagarela e encantadora. 


A abertura de “Anne de Green Gables” é simplesmente sensacional. A romancista canadense vai direto ao ponto, sem grandes enrolações nem excessos descritivos, algo que considero particularmente positivo em uma obra publicada no começo do século XX. Em apenas dois ou três capítulos, sabemos do interesse dos irmãos solitários da Ilha do Príncipe Eduardo por adotar uma criança e acompanhamos a chegada da menina à fazenda de Green Gables. Além disso, os leitores são imediatamente enfeitiçados pelo carisma de Anne Shirley. Dessa maneira, entendemos o fascínio de Matthew pela garotinha em tão pouco tempo. Aí queremos, custe o que custar, acompanhar as aventuras e os dramas dela na nova residência.


Já que falamos de Anne, é preciso salientar que ela é uma protagonista impecável, daquelas que abrilhantam a literatura. Coloco esta criação de Montgomery, por exemplo, ao lado de outras personagens marcantes das séries ficcionais internacionais, como Léa Delmas, de “A Bicicleta Azul” (BestBolso), da francesa Régine Deforges, Elena Greco, de “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), da italiana Elena Ferrante, Claire Randall, de “Outlander – A Viajante do Tempo” (Saída de Emergência), da norte-americana Diana Gabaldon, e Lisbeth Salander, de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Companhia das Letras), do sueco Stieg Larsson. Nesse sentido, o que mais gostei é que Anne Shirley é uma figura verdadeiramente redonda, com qualidades e defeitos acentuados. É, portanto, uma personagem extremamente verossímil.


Lançado em 1908, Anne de Green Gables é o primeiro livro da saga de Lucy Maud Montgomery protagonizada por Anne Shirley, uma das principais personagens da literatura canadense e da ficção infantojuvenil

Para começo de conversa, a garotinha não é bonita (para o padrão de beleza da época). A magreza, o cabelo vermelho e as sardas vão contra o modelo estético feminino de então. Para completar, as roupas que Marilla Cuthbert faz para a filha adotiva são um atentado ao bom gosto e às tendências da moda. Anne Shirley também é vaidosa, orgulhosa e rancorosa. Além do mais, é bastante falante (ao ponto de incomodar os outros), competitiva e atrapalhada. Para fechar o cardápio do gênio difícil da figura central do livro, a garota não consegue se concentrar nas atividades rotineiras. Hoje, talvez alguns leitores reconhecessem nesse comportamento características que a associariam ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).


Por outro lado, a protagonista deste romance infantojuvenil é criativa e inteligente. Se expressa muitíssimo bem, tem presença de espírito e sabe manipular os outros. É honesta, doce, sincera, sentimental, apaixonada pela vida e tem a alma romântica, típica dos sonhadores inveterados. Em resumo, Anne é uma boa menina, que irradia carisma o tempo inteiro. Até mesmo as pessoas mais complicadas da Ilha do Príncipe Eduardo, como a vizinha fofoqueira e a tia petulante da melhor amiga, acabam uma hora ou outra se rendendo ao jeitinho meigo e ao charme natural da ruivinha.


Durante a leitura de “Anne de Green Gables”, note o choque de realidades entre o comportamento dos irmãos Cuthbert e as atitudes da filha adotiva. A contradição entre eles é gigantesca. O mundo de Matthew e Marilla gira em torno da velhice, do trabalho manual, da praticidade cotidiana, da postura meio abrutalhada, da resignação, da segurança, do silêncio e da conformidade social. Enquanto isso, o universo de Anne Shirley é constituído pela jovialidade, pelo trabalho mental, pela divagação onírica, pelas reações passionais, pela imaginação ilimitada, pelos grandes desafios, pelo barulho e pela influência social/sociabilidade. Quando respeitados e compreendidos, os opostos são complementares e podem viver harmonicamente. Porém, até que se chegue a essa situação, muita confusão ainda passa por baixo dessa ponte familiar.


Para entendermos certas particularidades da literatura de Montgomery, precisamos conhecer o contexto social, geográfico, demográfico e histórico da narrativa de “Anne de Green Gables”. Por exemplo, para o padrão de vida na virada do século XIX para o século XX, Matthew e Marilla, com 60 e 50 anos de idade, respectivamente, eram considerados idosos ou muito idosos. A expectativa de vida neste país da América do Norte era, na época, entre 45 e 50 anos. Também era inusitado o fato de os proprietários rurais não casarem e não terem filhos/herdeiros. Quando enxergamos esse panorama, compreendemos os medos e as preocupações dos irmãos de Avonlea nas páginas iniciais da obra literária.


Clássico da literatura canadense e da literatura infantojuvenil, Anne de Green Gables é o romance de estreia de L. M. Montgomery que deu origem à série literária protagonizada por Anne Shirley

Além disso, se algumas províncias canadenses são ainda hoje despovoadas e fazem políticas de imigração para atrair jovens moradores, imagine como era a condição demográfica há 100, 125, 150 anos. Certamente, deveria ser beeem pior. Por isso, havia naquele momento um programa nacional de adoção de crianças órfãs. Meninos e meninas eram enviados para viver com famílias em regiões pouco habitadas do país. Essa migração interna ajudava no povoamento de áreas remotas e, ao mesmo tempo, atenuava um problema dos grandes centros urbanos, que viviam com orfanatos cheios de crianças sem pais e sem mães. Lembremos que se morria muito jovem naquela época e o trabalho de parto era uma operação arriscadíssima para as mulheres. A própria história familiar de L. M. Montgomery ajuda a compreender como a orfandade estava presente em sua experiência pessoal: sua mãe morreu quando ela ainda era um bebê.


Outra surpresa de muitos leitores contemporâneos é com o padrão de beleza do final do século XIX. Uma menina ruiva, magra e com sardas era, sim, malvista ou mesmo malquista pela população canadense. Esse preconceito ainda estava muito associado ao período da inquisição na Europa, que perseguiu mulheres consideradas bruxas, e à estética burguesa, que via na gordura e na corpulência símbolos de status social. Como uma ex-colônia inglesa e francesa, o Canadá ainda respirava os anseios do Velho Continente.         


Outro componente adorável deste romance é o humor sutil e extremamente inteligente de sua narrativa. A sagacidade cômica do texto é compatível com o perfil da protagonista de “Anne de Green Gables”. Esta característica só reforça a associação entre a personalidade de Anne Shirley e os gostos e a biografia de Montgomery. Querendo ou não, a sensação é de estarmos diante do alter ego da escritora canadense, né?


Por mais que esse livro tenha incontáveis pontos positivos, como acabamos de relatar, ele apresenta alguns aspectos questionáveis. O principal deles é o estilo narrativo bastante pesado. As frases gigantes e o uso excessivo de certos recursos textuais delicados como o ponto e vírgula (;) e o travessão (–) tornam a obra densa e meio truncada, o que contrasta com a leveza e a perspicácia de sua trama. A combinação dessas características faz com que a leitura, infelizmente, fique um pouco cansativa. Digo isso como um adulto acostumado ao mergulho na literatura ficcional. Fico imaginando a sensação de incômodo da garotada, público-alvo de “Anne de Green Gables”. Confesso que não gostei nem um pouco da fluidez textual deste título.


Uma das principais autoras do Canadá e da literatura infantojuvenil em língua inglesa, Lucy Maud Montgomery escreveu Anne de Green Gables, romance protagonizado por uma menina órfã da Nova Escócia que foi adotada por dois irmãos da Ilha do Príncipe Eduardo

Outra questão negativa é que o narrador em terceira pessoa fica voando livremente pelos cenários, podendo se fixar em qualquer personagem, inclusive em coadjuvantes. Nota-se que não havia, naquela época e, principalmente, na literatura de Lucy Maud Montgomery, a preocupação com a consistência e a fixação do foco narrativo. Evidentemente esse é um problema que incomoda mais os pesquisadores da Teoria Literária e os estudiosos dos elementos da narrativa ficcional do que os leitores recreativos.


Há, por fim, algumas passagens textuais equivocadas nesta edição brasileira que misturam a narração ao discurso. Outra vez: não é algo que possa incomodar a maioria dos leitores, mas é um aspecto que eu não poderia deixar de comentar numa análise mais abrangente da coluna Livros – Crítica Literária. O que não sei precisar é se essa questão é fruto de problemas do texto original ou da tradução nacional. De qualquer maneira, poderiam ter separado com mais clareza o que é diálogo e o que é narração.


Mesmo com um tropecinho aqui e outro acolá, “Anne de Green Gables” é indiscutivelmente um livrão. Como todo clássico internacional, este romance de Montgomery serviu de inspiração para outras obras literárias e produções audiovisuais. Durante esta leitura, por exemplo, me recordei de “Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), romance infantojuvenil de José Mauro de Vasconcelos lançado em 1968, e de “Punky, A Levada da Breca” (Punky Brewster: 1984 a 1986), seriado de televisão bastante popular entre o público infantil nos Estados Unidos e no Brasil quatro décadas atrás. Essas duas histórias utilizam alguns componentes narrativos que também encontramos no livro canadense, o que ajuda a compreender parte de seus apelos junto ao público. Ainda hoje, vale destacar, a linha dramática de “Anne de Green Gables” segue influenciando artistas nos quatro cantos do planeta.  


Admito que fiquei com vontade de comentar, nas páginas do Bonas Histórias, os demais títulos desta saga literária. Contudo, isso é outra pauta, para outro dia. Por hoje, ficamos por aqui, senhoras e senhores. Como conclusão para esse texto que saiu mais longo do que eu previ, posso afirmar que a literatura canadense e o trabalho ficcional de L. M. Montgomery são realmente espetaculares. Todo bom leitor deveria conhecer pelo menos algumas dessas obras.


Até a próxima!


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