• Ricardo Bonacorci

Livros: A Amiga Genial - O primeiro romance da série Napolitana de Elena Ferrante

Lançada em 2011, essa publicação se tornou o maior sucesso editorial da autora italiana e virou um best-seller mundial.

A Amiga Genial é o romance de Elena Ferrante que inaugura a série Napolitana, o maior sucesso da autora italiana

No último final de semana, li “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), o livro mais famoso de Elena Ferrante, uma das principais escritoras europeias da atualidade. Essa publicação ficcional é considerada a obra-prima da romancista e um dos títulos mais bem-sucedidos não só da literatura italiana moderna como também da literatura contemporânea. Best-seller mundial com mais de 16 milhões de exemplares vendidos, o quarto romance de Ferrante foi traduzido para dezenas de idiomas e deu início à tetralogia nomeada de série Napolitana. Os demais títulos dessa coletânea são: “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul).


Quem está acompanhando o Desafio Literário já deve saber: “A Amiga Genial” é o quarto dos oito livros de Elena Ferrante que estão programados para serem analisados no Bonas Histórias em julho e agosto de 2021. As três primeiras obras comentadas até aqui no blog foram: “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), romance de 1992, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), romance de 2002, e “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), coletânea não ficcional de 2003. Nosso estudo enfocando a principal escritora italiana viva será complementado nas próximas quatro semanas com posts críticos aos outros três volumes da série Napolitana e ao romance “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), o título mais recente de Ferrante.


Publicado na Itália em outubro de 2011, “A Amiga Genial” apresenta as mesmas características dos três romances anteriores de Ferrante: drama psicológico denso, relações familiares conturbadas, suspense eletrizante desde as primeiras linhas, narradora-protagonista com forte pegada de anti-heroína (poderia dizer que ela possui fortes impulsos de psicopatia), romance de formação e trama desenvolvida na caótica, violenta, pobre e mística Nápoles. As novidades aqui são o acréscimo de alguns novos elementos narrativos: romance histórico (o enredo vai do início da década de 1950 até os dias de hoje e apresenta os problemas sócio-políticos da Itália na segunda metade do século XX), trama com maior fôlego (narrativa parruda em contraste aos textos anteriores que tinham mais aspecto de novela do que de romance) e overdose de personagens (ao melhor estilo dos romances históricos russos).

Elena Ferrante, autora de A Amiga Genial, primeiro livro da série Napolitana

Então, “A Amiga Genial” seria apenas uma continuação natural de “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” (Intrínseca)? Nananinanão!!! O que temos aqui é uma autora com um estilo já consolidado que atinge um patamar ainda mais elevado de excelência narrativa, beirando a perfeição (isso é, se não a atingiu). Se você já tinha gostado dos três primeiros romances de Elena Ferrante, saiba que “A Amiga Genial” é ainda melhor (sim, isso é possível!). Não à toa, essa foi a melhor obra ficcional que li nesse ano até o momento e um dos romances mais interessantes que pude ler na minha vida.


Conforme Elena Ferrante afirmou em “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”, livro que reúne cartas, entrevistas, crônicas e ensaios produzidos pela escritora italiana nas últimas três décadas, a história da série Napolitana nasceu de passagens autobiográficas e foi concebida para ser apenas um único romance. Contudo, à medida que começou a produzir o texto e os capítulos de “A Amiga Genial”, Elena Ferrante viu as páginas se proliferarem incessantemente em cima de sua mesa de trabalho. Naquele momento, ela compreendeu que seria inviável entregar o material em apenas um livro. Daí surgiu a ideia de dividir a trama em alguns volumes.


Com mais de 1.700 páginas, o drama de Elena Greco (apelidada de Lenuccia e de Lenu) e de sua melhor amiga, Rafaella Cerullo (cujos apelidos eram Lila e Lina), se transformou em uma tetralogia (com as obras tendo em média pouco mais de 400 páginas). Nascia, assim, um dos maiores sucessos editoriais do século XXI e uma das sagas mais criativas e contundentes sobre a relação de amizade feminina baseada na inveja e na admiração mútuas.


Tão logo foi lançado na Itália, onde se tornou um sucesso instantâneo, “A Amiga Genial” ganhou traduções para os principais idiomas do mundo e foi publicado rapidamente na Europa e na América do Norte com bastante êxito. Vale destacar que, no início da década passada, Elena Ferrante já era uma autora renomada nacional e internacionalmente. “Um Amor Incômodo” se tornara um grande sucesso nas livrarias italianas e “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” apresentaram sólida trajetória internacional. Esses três romances, chamados mais tarde de “Trilogia do Desamor” (nome que Ferrante nunca aprovou), conquistaram também importantes prêmios literários na Itália e no exterior. Entretanto, foi somente com a série Napolitana que Elena Ferrante alcançou o status de um dos maiores nomes da literatura contemporânea mundial e sua ficção se transformou referência cultural nos quatro cantos do planeta.

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

Finalista do Prêmio Literário Internacional IMPAC Dublin, um dos principais em língua inglesa, na categoria obra traduzida, o livro “A Amiga Genial” foi apontado como o 11º melhor romance da primeira década do século XX pelo jornal britânico The Guardian. Já a série Napolitana foi descrita como um dos 12 clássicos contemporâneos do século XX pela revista multicultural Vulture dos Estados Unidos.


O sucesso da história conturbada das duas amigas napolitanas que cresceram juntas e depois se separaram foi adaptado para a televisão e há quem diga que brevemente poderá ganhar uma versão cinematográfica. Lançada em 2018 e já com duas temporadas no ar, a série de TV “A Amiga Genial” foi dirigida por Saverio Costanzo e produzida pela HBO em parceria com a RAI e TIMvision. A continuação do seriado é aguardada avidamente tanto pela emissora (que comprou os direitos de adaptação dos outros livros da Tetralogia Napolitana) quanto pelo público. Em meio ao êxito editorial e televisivo da série narrativa de Elena Ferrante, novos boatos sobre a migração da trama literária para as telonas não param. Porém, não há nada confirmado até agora sobre as vendas dos direitos de adaptação dos romances para Hollywood. O que ocorreu nos últimos meses foi a assinatura dos contratos de venda de outros livros da italiana para o cinema, mas nada envolvendo “A Amiga Genial” e suas sequências.


No Brasil, o livro mais famoso de Elena Ferrante foi publicado em 2015 pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo. A empresa carioca escalou Maurício Santana Dias, tradutor baiano e um dos maiores especialistas na língua e na literatura italianas de nosso país, para fazer a adaptação do texto de Ferrante para o português brasileiro. Dias não apenas traduziu “A Amiga Genial” como também traduziu os demais títulos da série Napolitana. Inegavelmente, ele é, ao lado de Marcello Lino, o principal tradutor da literatura de Elena Ferrante para nosso idioma.


O enredo de “A Amiga Genial” começa em Turim nos dias de hoje. A trama é narrada em primeira pessoa por Elena Greco, uma escritora famosa. Já idosa e morando longe de sua cidade natal, Nápoles, há algum tempo, ela recebe a ligação telefônica de Rino, o filho irresponsável de Rafaella Cerullo. No início, Elena pensa que o rapaz irá pedir dinheiro. Porém, ele a surpreende ao perguntar se a mãe está visitando a melhor amiga no Norte da Itália. Incrédula com tal questionamento, Elena nega ter se encontrado com Lila. Lila é o apelido que somente Elena usa para se referir à amiga. As demais pessoas chamam Rafaella carinhosamente de Lina. Há muitos anos elas não se falam nem se veem.

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

Desolado, Rino conta para Elena que a mãe fugiu de casa e está desaparecida faz duas semanas. Ninguém sabe o seu paradeiro. Aquela situação inusitada deixa o rapaz sem rumo. Apesar de ser um homem grandão e ter mais de quarenta anos, Rino age quase como uma criança indolente e imatura. Ele não faz ideia de como agir e se comportar sem a presença de Rafaella por perto.


Curiosamente, há pelo menos trinta anos, Lila dizia para sua melhor amiga que sumiria sem deixar rastros. Enfim, parece que ela cumpriu a velha promessa. Interessada em contar sua história e a relação um tanto tóxica que sempre teve com Rafaella Cerullo, Elena Greco senta-se no computador da casa em Turim e começa a escrever um romance que rememora a trajetória que teve ao lado da amiga napolitana.


Assim, as páginas do livro vão para Nápoles. É o comecinho da década de 1950. Aos seis anos, a pequena Elena conhece Rafaella. As duas são coleguinhas de escola e moram no mesmo edifício, um bairro pobre e violento longe do litoral. Mesmo se vendo diariamente na classe e no conjunto habitacional, as meninas demoram aproximadamente um ano até se falarem e começarem efetivamente a amizade. Enquanto Elena se esforça para ser a melhor aluna da classe, dedicação essa que conquista a admiração de colegas, professores e familiares, Rafaella ocupa o posto de estudante número um do colégio sem qualquer esforço e com uma postura hostil. Extremamente inteligente e desbocada, Lila assusta a todos à sua volta com o comportamento agressivo, astuto e, por vezes, arrogante. Não é preciso dizer que ela é odiada por colegas e professores. A única que parece aceitá-la é Elena, uma menina compreensiva e boazinha que não dá bola para as excentricidades da amiga superdotada.


Apesar das enormes diferenças de comportamento entre as duas garotas (Elena é a certinha: afável, bondosa, carinhosa, tímida, covarde, inofensiva, responsável com as obrigações diárias, dedicada ao estudo, obediente e extremamente comportada dentro e fora de casa; e Rafaella é a erradinha: arredia, malvada, nervosa, extrovertida, corajosa, violenta, irresponsável, relapsa na escola, desobediente e profundamente arruaceira dentro e fora de casa), elas se aproximam e viram as melhores amigas. Com o tempo, a dupla se torna inseparável. Onde uma está, tenha a certeza, a outra também estará junto.

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

A única semelhança entre Elena Greco e Rafaella Cerullo é a realidade atroz em que vivem. Ambas as meninas são pobres (o pai de Elena é contínuo na prefeitura e o pai de Rafaella é sapateiro no bairro), possuem relações conturbadas com suas famílias e assistem diariamente à violência, ao machismo, às injustiças sociais e aos desmandos da Camorra, mazelas essas que a população do subúrbio napolitano precisa encarar diariamente no pós-Segunda Guerra Mundial.


Ao mesmo tempo em que nasce uma forte amizade entre Elena e Lila, surge também uma relação baseada na inveja e na competição. Desde muito cedo, Elena Greco não se conforma com o fato de a amiga ser a melhor aluna do colégio, status que ela tanto almeja. Além disso, a narradora-protagonista admira a coragem, a postura altiva, o jeitão desbocado e a liberdade que Rafaella tem, coisas totalmente distantes da personalidade e da realidade de Elena. Por outro lado, Elena acredita que a amiga tenha inveja de sua beleza. Enquanto Lila é magra, baixinha e não possui nenhum atrativo estético, Elena é alta, tem um corpo bem definido desde pequena e tem sua beleza admirada pelos garotos. Não é errado ver essa dupla de meninas como a união de figuras totalmente diferentes.


Ao concluírem o ensino fundamental e entrarem na adolescência, Elena Greco e Rafaella Cerullo invertem completamente os papéis. Na nova fase de vida, Elena engorda e fica feia e Lila cresce, encorpa e começa a ser cortejada por todos os rapazes do bairro. Por outro lado, Elena passa no exame de admissão do ensino médio e continua os estudos agora em um colégio bacana fora do bairro, em um evidente progresso que pouquíssimos de seus colegas tiveram a oportunidade de usufruir. Apesar de ser uma menina superdotada, Rafaella abandona definitivamente a escola com o término do ensino fundamental e vai trabalhar na sapataria do pai.


Paradoxalmente, a nova situação provoca novas angústias na narradora do romance. Elena agora sente inveja da beleza de Lila e não acha mais graça em ser a melhor aluna do colégio. O que ela quer é ser admirada pelos rapazes mais velhos, algo que a amiga consegue fazer sem qualquer esforço. Dessa maneira, Elena pautará seus relacionamentos e sua rotina de acordo com o que acredita que Lila esteja fazendo. A estudante certinha e aplicada não irá mais agir pelo que sente e pelo que deseja, mas será motivada acima de tudo para não ficar muito atrás daquilo que a amiga de infância tem conseguido e esteja vivenciando.

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

“A Amiga Genial” possui 336 páginas e foi o maior romance em extensão de Elena Ferrante até então (“Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”, os títulos ficcionais anteriores da italiana, têm entre 176 e 184 páginas). Porém, se for comparado ao restante da série Napolitana, essa obra é a mais enxuta (“História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida” possuem entre 416 e 480 páginas).


O conteúdo de “A Amiga Genial” está dividido em três partes: “Prólogo – Apagar os Vestígios” tem 3 capítulos e mostra a preocupação de Elena e Rino com o desaparecimento de Rafaella (a trama se passa nos dias de hoje); “Infância – História de Dom Achille” possui 18 capítulos e apresenta a meninice da dupla de amiga dos 6, 7 anos até os 10, 11 anos (a narrativa acontece durante a primeira metade dos anos 1950); e “Adolescência – História dos Sapatos” tem 62 capítulos e desenrola-se quando as protagonistas têm em torno de 16 anos (início dos anos 1960).


Além dessas seções, que são o cerne da narrativa, o romance ainda traz uma epígrafe (citação a J.W. Goethe) e a lista de personagens (se você não a usar agora, tenha a certeza de que essa listagem será muito útil nos romances seguintes da tetralogia – impossível nos lembrarmos de tantos nomes!). Levei ao todo entre 9 e 10 horas para concluir essa leitura no final de semana passado. Usei para tal boa parte das horas das manhãs e das tardes do sábado e do domingo. Por mais fôlego de leitura que se tenha, acho difícil concluir esse livro em menos do que dois dias.


O centro do romance em “A Amiga Genial” é a inveja. Centro do romance, vale a pena a menção, é um conceito da teoria literária apresentado por Orhan Pamuk, escritor turco que foi analisado no Desafio Literário do bimestre passado, e descrito em detalhes em “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), seu principal ensaio literário. Não dá para entender esse livro de Elena Ferrante sem ponderar o sentimento negativo que Elena Greco sempre sentiu por Rafaella Cerullo e o espírito de competição que as duas meninas alimentaram desde a mais tenra infância. Por essa linha de avaliação, o que as une não é o sentimento de amor fraternal nem a intenção de cooperação sincera (o que seria normalmente esperado em uma amizade genuína), mas sim um relacionamento tóxico pautado pelo egoísmo e pela busca pela primazia frente à infelicidade da outra. É ou não é um forte soco no estômago do leitor, hein?

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

Como deu para perceber no parágrafo anterior, “A Amiga Genial” não é uma obra rasa (longe, muito longe disso!!!) nem um romance água com açúcar (está mais para uma narrativa do tipo limonada ácida e amarga). Tratar da inveja com tanta força e propriedade em uma obra ficcional é algo que raramente vi na literatura clássica e na literatura contemporânea. Parece-me que esse tema é de certa maneira um tabu entre os escritores. Nem no cinema esse assunto é muito debatido. Mesmo assim, há mais filmes do que livros ficcionais utilizando-se dessa temática. De cabeça posso citar alguns longas-metragens: “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard: 1950), “O Anjo Malvado” (The Good Son: 1993), “Inveja Assassina” (Best Friends: 2005), “Branca como a Neve” (Blanche Comme Neige: 2019) e “Respire” (2014). No caso da literatura, confesso que não me recordo de muitos títulos (além de alguns contos de fadas clássicos). Por isso mesmo, acho que Elena Ferrante foi muito feliz na escolha temática e foi ainda mais competente ao retratar os dramas psicológicos de Elena Greco, sua personagem quase homônima.


O elemento narrativo que faz “A Amiga Genial” ser um romance tão espetacular é o tipo de narrador escolhido por Ferrante. Temos novamente nessa obra outro relato pouquíssimo confiável apresentado por uma mulher napolitana com sérios problemas psicológicos e emocionais. É verdade que essa característica é uma constante na literatura da romancista italiana. Lembremos, afinal, da frieza emocional de Delia em “Um Amor Incômodo”, do surto psicótico de Olga, a esposa traída de “Dias de Abandono”, e das maldades perpetradas por Leda em “A Filha Perdida”. Porém, agora a narradora não tem seu papel de anti-heroína tão explícito como ocorreu nos títulos anteriores. Aí está justamente a competência de Elena Ferrante como escritora. Ela potencializou até as últimas consequências um recurso narrativo que já vinha utilizando. É incrível notar esse tipo de construção ficcional.


Elena Greco é, à princípio, uma boa pessoa, vítima das maldades e das irresponsabilidades de Rafaella Cerullo, essa sim uma pessoa de caráter para lá de duvidoso. Como disse, essa é a impressão inicial que o leitor tem ao se deparar com os primeiros capítulos dessa história. Contudo, é preciso entrar nas entrelinhas do texto de Ferrante. É fundamental considerar que esse relato é feito exclusivamente do ponto de vista de Elena Greco. E, acredite, ela não é uma narradora nem um pouco confiável.

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

O que move a narradora-protagonista é um sentimento de enorme inveja pela melhor amiga. Desde pequenininha, Elena nutre um sentimento extremamente ruim por Lila, por mais que não queira demonstrar isso (a inveja é velada em muitos momentos e mais explícita em outros). Se você notar bem, Rafaella não é uma pessoa tão ruim como ela é pintada nos relatos de Elena Greco. Pelo contrário! Se repararmos bem aos fatos narrados, Rafaella Cerullo não comete nenhum deslize que a desabone. É verdade que ter tacado a boneca da coleguinha no porão do prédio não é algo para lá de simpático, mas isso ocorreu aos 6 anos de idade. Fora essa passagem antiga, não encontrei nada muito grave que mereça uma crucificação da reputação de Rafaella. Pelo menos não nesse primeiro volume da série Napolitana (pode ser que lá para frente venha aparecer algo grave, mas por ora isso não ocorreu). O problema está mais na cabeça de Elena Greco do que nas atitudes e na índole de sua amiga. A narradora-protagonista não enxerga as ações altruístas e bondosas da companheira de infância, que não são poucas nesse romance.


Curiosamente, Lila se parece com algumas personagens clássicas da literatura. Na infância, ela é como José de Vasconcelos, protagonista de “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), obra mais famosa de José Mauro de Vasconcelos (sim, a personagem mirim e brasileira é também quase homônima ao autor carioca). Assim como o garotinho nascido e criado em Bangu, Rafaella é superdotada e está sempre se metendo em confusão (mais por traquinagem do que por maldade). Na adolescência, Lila me lembrou muito Lea Delmas, protagonista da série “A Bicicleta Azul” (Best Bolso), a coletânea de romances mais famosa de Régine Deforges. A maior diferença entre as duas jovens é que a pseudo-vilã de Ferrante não tem (ao menos por enquanto) a sexualidade tão aflorada como a da heroína da romancista francesa.


Se você achou Rafaella Cerullo uma figura marcante da literatura contemporânea (e ela é mesmo!), é porque você não se atentou para a personalidade contraditória e bélica (tudo para não dizer novamente invejosa) de Elena Greco, essas sim uma das personalidades mais preciosas da ficção moderna. Você até pode achar graça da minha comparação, mas realmente achei a narradora de “A Amiga Genial” parecidíssima com (aí vai, se prepare!) com Antonio Salieri, o músico rival de Wolfgang Amadeus Mozart no filme “Amadeus” (1984). Nesse caso, Lila seria a versão feminina e italiana de Mozart e Elena seria a versão feminina e literária do pobre coitado do Salieri, que viveu inconformado com a genialidade do rival que o desbancou facilmente (olha aí mais um filme que trata da inveja!).


Outra questão que precisa ser elogiada em “A Amiga Genial” é a ambientação do livro. Temos aqui uma Nápoles violenta, pobre, suja, barulhenta, machista, injusta e calamitosa. Não há lugar seguro para nenhum dos seus moradores, nem mesmo dentro de casa (o lar, dependendo da família, pode ser o pior local possível para se estar). A sensação é que não há ninguém realmente confiável, nem dentro da família ou no grupo de amigos mais antigos, e o perigo está a espreita das personagens. O clima é de um verdadeiro romance noir. Dos títulos de Elena Ferrante, esse é aquele que consegue transmitir a maior sensação de desconforto e insalubridade. Por isso, é preciso cuidado ao avançar pelas páginas da obra. Você não sabe o que poderá encontrar logo ali na esquina. Cuidado!

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

Outra questão deliciosa em “A Amiga Genial” é a imersão na realidade e na cultura italiana de meados do século XX. Se você for de família que veio da Itália entenderá o que estou me referindo. Há desde comemorações típicas daquele país (o dia da Befana, algo que meu avô sempre celebrou com os netos, o dia onomástico e mais uma infinidade de datas religiosas) até hábitos alimentares, culturais, religiosos e de vestimenta. Para completar, temos um retrato maravilhoso do sul da Itália com suas belezas naturais e, ao mesmo tempo, com sua situação socioeconômica e caos criminal (leia-se máfia) tão particulares.


Algo que me chamou a atenção nesse primeiro volume da tetralogia Napolitana foi que as relações conturbadas da família da narradora-protagonista ficaram em segundo plano (uma novidade em se tratando da literatura de Ferrante). Quase não assistimos às brigas e aos problemas domésticos do clã Greco (até há, mas eles são leves e pouco explorados). Isso quer dizer que não temos confusões familiares intensas nesse romance, certo? Errado! O foco dramático em “A Amiga Genial” está muitas vezes nas intrigas desenvolvidas no âmago da família Cerullo e de alguns vizinhos (como os Carracci, os Cappuccio, os Sarratore e os Solara). Nesse sentido, em alguns momentos do livro, temos a impressão de que a personagem principal da obra é Rafaella (e os Cerullo) e não Elena (e os Greco). Considerando seus títulos ficcionais anteriores, é curiosa essa escolha narrativa por parte da romancista italiana.


Nota-se também que a trama de “A Amiga Genial” é muito bem amarrada. As escolhas dos temas de cada seção (história de Dom Achille na parte I e história dos Sapatos na parte II) entrelaçam os capítulos de um jeito primoroso. O melhor exemplo disso é o desfecho do romance. Ele poderia ser banal se não estivesse tão bem amarrado com o drama das protagonistas (lembre-se, por exemplo, da importância para Lila dos sapatos construídos por ela e pelo irmão). Exatamente por isso, o desenlace do livro é sublime. Ele diz muita coisa de maneira indireta, valorizando a inteligência do leitor e suscitando interpretações polissêmicas.


Por falar em desfecho, é preciso comentar o quanto o começo de “A Amiga Genial” é brilhante. Outra vez, temos a construção de um início de livro impecável por parte de Elena Ferrante (algo já constatado em “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”). A diferença é que aqui temos mais elementos de suspense e pitadas de romance policial – afinal de contas, o que teria acontecido com Rafaella Cerullo para ela ter sumido sem avisar ninguém agora que está velha? Algo me diz que só teremos uma resposta para tal questão no final do quarto livro da série. Ou seja, os três capítulos iniciais de “A Amiga Genial” não só alimentam o suspense do romance como de toda a tetralogia.

Livro A Amiga Genial, romance 1 da série Napolitana de Elena Ferrante

O único problema, na minha opinião, da versão brasileira desse livro de Elena Ferrante está na tradução dos níveis escolares. Segundo o texto adaptado para o português por Maurício Santana Dias, os estudantes italianos cursam o ensino fundamental (até aí beleza), depois ingressam no ensino médio (OK também) e em seguida vão para o ginásio. Como assim depois do ensino médio vem o ginásio?! Não está correta essa divisão. O ginásio é na verdade uma das fases do ensino médio. Para evitar esse tropeço, seria melhor dividir o ensino médio em ginásio e colegial. Admito que esse foi o único probleminha que encontrei na tradução. Do restante, o trabalho de Dias está impecável.


Sem medo de parecer exagerado, afirmo categoricamente que “A Amiga Genial” é uma obra-prima da literatura italiana e da ficção contemporânea. Esse é realmente o melhor livro de Elena Ferrante que analisamos até aqui no Bonas Histórias. Se “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” são romances excelentes, a quarta publicação ficcional da escritora italiana conseguiu alcançar degraus ainda mais elevados de primor narrativo. É evidente que estamos diante de uma autora madura e totalmente à vontade no uso das técnicas literárias mais sofisticadas. Se eu já estava encantado com os textos de Ferrante, reconheço que agora virei fã incondicional da romancista napolitana. E “A Amiga Genial” é, a partir do último final de semana, um dos meus livros favoritos. Sem dúvida, esse título estará presente na minha lista de melhores obras lidas em 2021, ranking a ser divulgado no final do ano na coluna Recomendações.


Aproveitando a minha empolgação com a série Napolitana, a quinta obra do Desafio Literário de Elena Ferrante que vamos analisar nesse bimestre é “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul). Publicado em 2012, um ano depois de “A Amiga Genial”, o segundo volume da tetralogia continua narrando os dramas de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Dessa vez, a trama enfoca a juventude das protagonistas. Vou ler “História do Novo Sobrenome” no próximo final de semana e prometo publicar o post com minhas avaliações sobre essa obra na quarta-feira da semana que vem, dia 4 de agosto. Não perca a sequência do Desafio Literário e as novas fases do estudo da literatura de Elena Ferrante. Até mais!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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