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- Filmes: A Sociedade da Neve - O drama real do time uruguaio de rugby preso nos Andes
Dirigido e roteirizado por J. A. Bayona, o longa-metragem que representa a Espanha no próximo Oscar chegou aos cinemas internacionais em dezembro de 2023 e já estreou na Netflix em janeiro de 2024 com grande audiência. Para os cinéfilos de plantão, a safra de filmes de ótima qualidade nessa virada de ano foi farta. Confesso que precisei aumentar minhas visitas às salas de cinema em dezembro e janeiro para dar conta da demanda dos bons lançamentos da sétima arte. O mais legal foi notar que fomos contemplados com excelentes produções em quase todos os gêneros cinematográficos. Em outras palavras, havia opções para os diferentes gostos. Quem curte uma tragicomédia com pegada cult, a melhor pedida era “Folhas de Outono” (Kuolleet Iehdet: 2023), produção germano-finlandesa que chega como principal favorita à categoria Melhor Filme Internacional no Oscar de 2024. Para os adoradores das cinebiografias, dava para escolher entre “Priscilla” (2023), “Maestro” (2023) e “Napoleão” (Napoleon: 2023). Se você for chegadinho(a) aos dramas psicológicos com altíssimas doses de suspense, o japonês “Monster” (Kaibutsu: 2023) era o caminho infalível para a alegria (ou seria para o medo?!). Seu lance é mais o futebol? Nesse caso, valia a pena visitar os cinemas argentinos só para conferir o engraçadíssimo e impactante “Muchachos” (2023). Para o público mais corajoso e sedento por fortíssimas emoções, a melhor opção em cartaz era/é “A Sociedade da Neve” (La Sociedad de la Nieve: 2023), produção espanhola da Netflix. Uma vez conferido tantos filmes ótimos, minha angústia foi transferida automaticamente para o trabalho no Bonas Histórias: qual desses títulos analisar na primeira matéria da coluna Cinema em 2024, hein?! Se meu critério principal fosse a excelência artística, não teria dúvida: o escolhido seria o espetacular e inovador “Folhas de Outono”. Por outro lado, se recorresse à experiência mais inusitada na sala de cinema (Marcelinha está de prova da loucura que foi ver o filme da conquista da última Copa do Mundo pela Seleção Argentina no meio dos hermanos!), aí teria muito o que falar sobre “Muchachos”. Porém, admito que minha decisão recaiu sobre o longa-metragem mais impactante, aquele que mexeu mais com minhas emoções. Por isso, hoje vamos debater “A Sociedade da Neve”, o mais novo filme de Juan Antonio Bayona, mais conhecido como J. A. Bayona. “A Sociedade da Neve” chegou aos cinemas internacionais em dezembro de 2023 e ficou disponível na Netflix já no começo de janeiro de 2024. Como sou do tipo que prefere acompanhar uma boa história nas telonas ao invés de ficar na frente das telinhas, fui ao Multiplex Belgrano na última sexta-feira à noite (com direito à passeio pelo sempre vibrante e colorido Barrio Chino) para uma sessão de pipoca (ou de pochoclo, como preferir!). Pelo visto, a concorrência entre plataformas não esmoreceu a animação do público cinéfilo de Buenos Aires: a sala estava lotadinha! Por essas e outras, me sinto cada vez mais portenho e menos paulistano. Será que meus conterrâneos da cidade de São Paulo priorizam o cinema raiz ao streaming? Tenho lá minhas dúvidas! Dirigido e roteirizado por J. A. Bayona, cineasta espanhol responsável pelo aterrorizante “O Orfanato” (El Orfanato: 2007), pelo suspense dramático “O Impossível” (Lo Imposible: 2012), pelo suspense fantástico “Sete Minutos Depois da Meia-noite” (A Monster Calls: 2016) e pelo midiático “Jurassic World – Reino Ameaçado” (Jurassic World – Fallen Kingdom: 2018), “A Sociedade da Neve” foi inspirado na história real de um acidente aéreo ocorrido na Cordilheira dos Andes na década de 1970. No dia 12 de outubro de 1972, o voo 571 da Força Aérea Uruguaia levava o Old Christians, time amador de rugby de Montevidéu, para uma competição em Santiago. Ao lado dos atletas no avião fretado foram amigos e parentes em um total de 45 pessoas entre passageiros e tripulação. Depois de enfrentar fortes turbulências, a aeronave precisou fazer um pouso de emergência em Mendoza. No dia seguinte, mesmo com o mal tempo persistindo, a viagem foi retomada em direção à capital chilena. E quando o avião sobrevoava a fronteira dos dois países, em uma região com muita neve, ele se chocou com um pico andino e caiu no alto das montanhas. A partir daí, os 29 sobreviventes precisaram encarar todo tipo de adversidade: ar rarefeito dos 4.000 metros de altitude, frio de mais de 30º C negativos, falta de comida, abrigo precário, nevascas e ventanias constantes e, claro, convívio em um grupo fragilizado física e emocionalmente. O filme é baseado no livro homônimo do jornalista uruguaio Pablo Vierci, ex-colega de escola de um dos jogadores de rugby daquele fatídico voo. Vierci, que mora até hoje em Montevidéu, aproveitou a proximidade com um dos sobreviventes para narrar, em 2008, a saga de seus conterrâneos. O resultado é uma obra não ficcional que apresenta um mosaico de vozes que detalham os 72 dias (sim, você leu corretamente, foram quase dois meses e meio!!!) que o grupo permaneceu no alto da montanha a espera de resgate. Como eles conseguiram sobreviver? Esse é o mistério por trás dessa história de superação que reserva polêmicas como a prática de canibalismo. Orçado em 60 milhões de euros, “A Sociedade da Neve” foi filmado ao longo de 2022 em Sierra Nevada, na Espanha, Montevidéu, no Uruguai, e na Cordilheira dos Andes, no próprio local do acidente (na fronteira entre Chile e Argentina). Vale a pena esclarecer que essa não é a primeira vez que essa trama foi levada aos cinemas. Se você tem mais de 40 anos e está sentindo déjà vu, não se preocupe: você deve ter visto uma das outras versões da saga dos jogadores uruguaios de rugby pelos Andes. As outras produções que conheço (e assisti) são “Vivos” (Alive: 1993), longa-metragem do norte-americano Frank Marshall, e o também chamado “A Sociedade da Neve” (La Sociedad de La Nieve: 2018), documentário do uruguaio Gonzalo Arijón. Se formos buscar mais atrás na linha do tempo (mas esse eu não vi, tá?), encontraremos “Sobreviventes dos Andes” (Survive!: 1976), do mexicano René Cardona Jr (filho do genial René Cardona!). Por que tantas regravações de uma mesma história por artistas de várias partes do mundo (América do Sul, América do Norte e Europa) e em épocas distintas (décadas de 1970, 1990, 2010 e 2020)? Simplesmente porque ela é a narrativa contemporânea de superação mais famosa e impactante do Uruguai (e uma das mais extraordinárias do planeta). De tão incrível, nem parece se tratar de fatos verídicos. Nenhum autor ficcional, creio eu, poderia criar um drama tão forte e cruel baseando-se somente na fértil imaginação humana. Curiosamente, J. A. Bayona conheceu o conteúdo do livro de Pablo Vierci quando fazia pesquisas, por volta de 2010, para “O Impossível”, seu segundo filme (outra história inacreditável de superação). Sem titubear, o cineasta espanhol comprou os direitos autorais para a adaptação da obra do jornalista uruguaio para o cinema. Além disso, Juan Antonio Bayona entrevistou todos os sobreviventes e os principais familiares das vítimas daquele voo da Força Aérea Uruguaia. Assim, criou um forte vínculo com as figuras retratadas no longa-metragem. Como consequência, conseguiu a inédita autorização para a apresentação dos nomes verídicos de todos os envolvidos em sua produção. É legal dizer que os filmes anteriores não tinham conseguido essa façanha. No elenco principal de “A Sociedade da Neve”, temos prioritariamente jovens atores uruguaios e argentinos: Enzo Vogrincic, Agustín Pardella, Matías Recalt, Esteban Bigliardi, Diego Vegezzi, Fernando Contigiani García, Esteban Kukuriczka, Rafael Federman, Francisco Romero, Valentino Alonso, Tomás Wolf, Agustín Della Corte, Felipe Otaño, Andy Pruss, Blas Polidori, Felipe Ramusio e Simón Hempe. Com exceção dos argentinos Agustín Pardella e Esteban Bigliardi (e de Louta, que faz uma ponta), confesso que não conhecia os rostos da grande maioria dos intérpretes deste filme. “A Sociedade da Neve” foi exibido ao grande público pela primeira vez no Festival Internacional de Cinema de Veneza, em setembro de 2023. Alguns dias antes, Juan Antonio Bayona teve a sensibilidade de fazer uma sessão exclusiva no Uruguai para os sobreviventes e as famílias das vítimas do voo 571 da Força Aérea Uruguaia. Antes de ser lançado no circuito comercial, o filme conquistou alguns prêmios cinematográficos: Prêmio de Melhor Filme segundo o público no Festival Internacional de Cine de San Sebastián (Espanha), Prêmio de Melhor Trama no Festival de Cine de Mill Valley (Estados Unidos) e Prêmio de Melhor Longa-metragem Internacional segundo público do Festival de Cine de Middleburg (Estados Unidos). Em 13 de dezembro de 2023, “A Sociedade da Neve” estreou nos cinemas uruguaios. Ainda naquela semana, chegou às salas internacionais. No Brasil e na Argentina, por exemplo, seu lançamento foi em 14 de dezembro. Na Espanha, foi em 15 de dezembro. E por falar no país ibérico, “A Sociedade da Neve” foi escolhido para ser o representante espanhol na próxima Premiação do Oscar. Obviamente, ele concorre na categoria de Melhor Filme Internacional. Os finalistas devem ser anunciados na próxima semana. O que já sabemos é que esta produção de Bayona está entre as 15 pré-finalistas. Desde 4 de janeiro de 2024, o longa-metragem está disponível aos assinantes da Netflix. Na primeira semana na plataforma de streaming, “A Sociedade da Neve” tornou-se a produção de língua não inglesa mais vista no mundo. Ou seja, esse é um suspense dramático que, 50 anos mais tarde e com várias versões da mesma narrativa, ainda mexe com a curiosidade do público. Não há prova mais cabal da força de uma boa história, né? Acho que agora deu para entender um pouco mais o porquê escolhi esse título para ser o tema do primeiro post da coluna Cinema em 2024. O enredo de “A Sociedade da Neve” começa no início de outubro de 1972. Uma equipe amadora de rugby de Montevideu é derrotada na última partida do torneio local. A culpa recai em Roberto (interpretado por Matías Recalt), o mais rápido jogador do time. Ao invés de passar a bola para os companheiros desmarcados, ele tentou correr sozinho e foi interceptado pelo adversário no lance decisivo do jogo. A falha e, principalmente, a atitude egoísta do craque uruguaio não passam batidas no vestiário. Como é tradição no rugby, coube a Marcelo (Diego Vegezzi), o capitão da equipe, cobrar Roberto de um jeito mais contundente. Apesar da tristeza pela derrota, o ambiente entre os jogadores é o melhor possível. Nos próximos dias, os rapazes entre 20 e 30 anos da classe média da capital uruguaia vão embarcar para uma competição internacional no Chile. Lá, vão praticar o esporte que mais amam e turistar um pouco. Entretanto, o que mais os motiva é a possibilidade de conhecer hermosas chicas chilenas com quem já trocam correspondências. Por isso, ao invés de se preocuparem tanto em reprender Roberto pela jogada equivocada, os atletas estão mais preocupados em convencer os colegas que não querem acompanhá-los na viagem a mudar de ideia. Por exemplo, Numa (Enzo Vogrincic) é um dos que não querem renunciar à rotina em Montevidéu para ir por alguns dias à Santiago do Chile. Porém, após insistência dos companheiros, ele enfim aceita partir para a aventura no exterior. O voo acontece em 13 de outubro de 1972. Ao invés de utilizar um avião comercial, como seria o mais corriqueiro nessa situação, a equipe recorre a uma pequena aeronave da Força Aérea Uruguaia. Importante contextualizar que o Uruguai (e boa parte do continente sul-americano) vivia nesta época sob o regime ditatorial dos militares. E com o poder executivo, legislativo e judiciário em mãos, os milicos gastavam recursos governamentais em seus interesses particulares e em benefício dos amigos (não, imagine, na época da Ditadura Militar não tinha corrupção!). Ou seja, para que os garotos de classe média de Montevidéu com bons contatos no governo federal não precisassem pagar a viagem dos próprios bolsos, a Força Aérea Uruguaia cedeu gentilmente uma aeronave para o grupo. Junto com os atletas embarcam amigos e parentes, em uma espécie de trem da alegria com asas. Entre passageiros e tripulação, 45 pessoas vão a bordo. No meio da viagem, quando sobrevoa a Cordilheira dos Andes já no Chile, o avião enfrenta uma forte turbulência. Por causa da empolgação dos passageiros e do espírito de camaradagem dos rapazes, a maioria não dá bola à princípio para o mal tempo e para os problemas da aeronave. O clima é de alegria e diversão. Infelizmente, rapidamente a situação sai do controle e o comandante pede para os passageiros ficarem em seus assentos com cinto apertado. O pior acontece. Depois de perder altitude, o avião se choca com as montanhas de gelo e cai em um lugar remoto da Cordilheira dos Andes. No acidente, 29 das 45 pessoas a bordo sobrevivem. Este é o primeiro milagre desta história, se assim podemos chamar a alta taxa de sobrevivência (64%) para uma catástrofe aérea. Quem escapou ileso não tem a oportunidade de comemorar a sorte inicial. Eles caíram em uma região montanhosa desabitada e com frio extremo. Nos dias seguintes, o novo desafio é se manter vivo até a chegada do resgate. Enquanto isso, os passageiros cuidam dos feridos, isolam os corpos dos mortos e procuram fazer sinais para os aviões que sobrevoam a região em busca dos destroços da aeronave. O problema é que o veículo da Força Aérea Uruguai é da cor branca e a região do acidente está com bastante neve. Nunca a equipe de resgate conseguirá achá-los, pensam os mais pessimistas. E é exatamente isso o que ocorre. Pelo rádio da aeronave, os jogadores de rugby ouvem, após algumas semanas no alto da montanha, que os trabalhos de localização foram interrompidos por causa do mal tempo. Só no Verão, quando o clima melhorar, as autoridades chilenas voltarão a enviar equipes para monitorar a área. Na certa, pensam que não há sobreviventes. O desespero toma conta dos passageiros. Agora eles estão sozinhos e isolados em um lugar inóspito. O ar rarefeito dificulta a respiração. A pouca comida que eles tinham achado no avião já acabou faz tempo. Não há roupas de frio suficientes. As tempestades de neve são constantes e provocam avalanches. Como sobreviver algumas horas nestas condições?! Aí surge o segundo milagre: apesar da adversidade, boa parte da equipe consegue se manter viva. Os dias no alto da montanha se transformam em semanas e as semanas viram meses. O que parecia impossível se torna real: os uruguaios insistem em sobreviver. Assim, é formado um novo tipo de sociedade no alto das montanhas nevadas (daí o nome do livro de Pablo Vierci, que o filme de J. A. Bayona se apropriou). A decisão mais polêmica que o grupo de amigos precisa tomar é como obter alimentos. Sem outra opção disponível (não há nada nos Andes além de gelo, gelo e mais gelo), eles cogitam se alimentar dos corpos dos passageiros mortos. O canibalismo é a única alternativa para se manterem vivos, pensam alguns. Para outros, essa hipótese é impensável. A decisão cabe, então, ao capitão do time, Marcelo. E ele é terminantemente contra à prática tão desumana e que afronta sua religião. Esse só é um dos perrengues que os uruguaios passam. Cada dia no alto dos Andes é um exercício de superação do organismo humano contra a natureza selvagem e as carências biológicas. Conseguirá a equipe de rugby sobreviver muito tempo mais naquele cenário de filme de terror? Como eles vão fazer para sair das montanhas ou pedir socorro?! Essas são as dúvidas que movem os espectadores nesse thriller eletrizante. “A Sociedade da Neve” possui quase 2 horas e meia de duração. É, portanto, um filme longo, muito longo (que chamo carinhosamente de longa-longa-metragem). Aqui está o primeiro acerto do cineasta espanhol – e olha que quem está dizendo isso é alguém que não gosta de longas sessões dentro do cinema! Vamos combinar que não dava para J. A. Bayona mostrar o incômodo absurdo de se passar 72 dias no alto dos Andes se isso não mexesse fisicamente com a plateia, né?! O curioso é que o público não pode reclamar de cansaço ou de mal-estar dentro da sala de cinema com ar-condicionado, poltrona confortável e com saco de pipocas em mãos. O que é a reclamação de ficar 145 minutos sentado enquanto os uruguaios na telona estão padecendo de todo tipo de desconforto imaginável e inimaginável por semanas e mais semanas, hein?! Por mais que a longa duração do filme possa incomodar um pouco alguns espectadores mais ansiosos, achei o roteiro de “A Sociedade da Neve” perfeito porque ele se arrasta justamente quando os passageiros da tragédia aérea buscam socorro. Ou seja, esse recurso dá um suspense maior à trama e transmite a ideia de que uma solução para os problemas das personagens é inviável. Além disso, a sensação de que o tempo não passa no alto dos Andes chega no outro lado da tela e atinge em cheio a plateia, em uma dinâmica intertextual e sinestésica maravilhosa. Vejamos o que estou dizendo. A produção de Bayona demora em torno de 15 minutos para mostrar o acidente. Em suma, tudo ocorre muito rapidamente. Depois leva mais 20 minutos para inserir o drama do canibalismo. A partir daí, o enredo cinematográfico vai enfileirando uma série de acontecimentos que colocam a equipe de rugby ao limite máximo. Até aí tudo beleza: é adrenalina pura! O desfecho também é rápido (só não digo mais para não dar o spoiler). Então, onde o longa-metragem se arrasta? Quando os uruguaios partem em busca de ajuda. Nesse momento, as cenas ficam mais lentas e a todo momento achamos que eles vão conseguir, mas não conseguem. Repito: esse recurso é proposital para dar a dimensão da saga impressionante daqueles homens abandonados no fim do mundo. A demora nessa parte do filme (ou o tempo mais lento dos acontecimentos) indica o quanto as personagens estão esgotadas física e emocionalmente. Outro elogio que precisamos fazer para “A Sociedade da Neve” é que ele foi muito bem filmado. A cena do acidente de avião é extremamente realista e angustiante (e uma das melhores cenas de ação dos últimos anos fora do cinema norte-americano). Para completar, a recriação da montanha andina está espetacular. Sabemos o quão fidedigno é o set de filmagem no final do longa-metragem, quando sobem os créditos na tela e são inseridas também fotografias reais (sim, os passageiros tiraram fotos do que viveram naqueles dias pavorosos). Confesso que não consegui diferenciar quais imagens eram fictícias e quais eram verídicas. Ainda nessa linha, repare na preocupação das equipes de fotografia e de maquiagem para mostrarem o definhamento físico das personagens. Temos uma série de indícios que os rapazes estão morrendo: rostos ficando negros, urina preta, fraqueza muscular, cabelos e barbas rebeldes e dentes escurecidos. Mesmo com tanta adversidade, percebe-se que o grupo não vivenciou grandes intrigas. Talvez o único aspecto que gerou maior tensão foi mesmo a decisão de se alimentar de carne humana. Do resto, não houve brigas, intrigas ou picuinhas. Por falar nisso, é bom esclarecer que “A Sociedade da Neve” é muito mais do que um filme sobre canibalismo. Ele traz outras questões tão importantes quanto a maneira como os sobreviventes arranjaram comida. Porém, é impossível falar dessa história sem falar do consumo de carne humana pela equipe uruguaia de rugby. Nesse sentido, gostei do jeito como a produção espanhola expôs a situação: mostrando sem constrangimento pedaços de carne e, em algumas tomadas de câmera, a ossada restante depois da extração do alimento. São cenas muito fortes. Como atenuante, o grupo de passageiros encontrou alternativas para mascarar a delicada decisão de ingerir os corpos dos companheiros. Por exemplo, eles escolheram uma pessoa para fazer o trabalho sujo longe dos olhos de todos. Essa estratégia funcionou por algum tempo. Para quem (como eu) assistiu a “Vivos” e tenha gostado do filme de 1993 com essa mesmíssima história, preciso dizer que “A Sociedade da Neve” tem uma abordagem bem diferente. Enquanto o antigo longa-metragem era mais hollywoodiano (com atores norte-americanos e falando inglês) e priorizava as cenas de ação (com muita coisa inventada), o drama de J. A. Bayona é mais intimista (mostra a angústia psicológica das personagens) e tem tempero totalmente sul-americano (atores do cone sul falando espanhol do Rio da Prata). Ainda nessa linha de comparação entre os filmes, achei “A Sociedade da Neve” mais fiel aos eventos reais de 1972 do que “Vivos”. As mudanças do roteiro de Bayona para o enredo do livro de Pablo Vierci são tão sutis que dá trabalho encontrá-las. Confesso que identifiquei apenas duas ou três adaptações totalmente pertinentes para a produção cinematográfica. Afinal, não fazia sentido mostrar o pouso em Mendoza no meio da viagem por causa do mal tempo nem enfocar a sorte do passageiro que perdeu o voo em Montevideu por ter dormido demais. Também não me incomodei com a ausência de explicações de como o fazendeiro chileno no meio do nada, lá no final do filme, fez para comunicar as autoridades do seu país sobre o aparecimento dos sobreviventes uruguaios (no livro e no filme de 1993, é relatado que ele precisou galopar dez horas, sendo uma figura essencial no salvamento do grupo). Analisando o roteiro de “A Sociedade da Neve”, nota-se a preocupação de mostrar o lado humano dos vários integrantes da equipe de rugby. Assim, não temos um protagonista apenas e sim várias figuras principais que se revezam o tempo inteiro no centro da trama. Talvez possamos ficar com a sensação de que Numa Turcatti, interpretado por Enzo Vogrincic, tenha algum destaque um pouco maior porque é ele quem inicia e termina a narração. Porém, isso é só uma impressão. Todos os rapazes têm a mesma importância dentro da narrativa. Por falar na narração de Numa, achei espetacular colocá-lo nessa posição. Essa opção pouco convencional (não posso explicar o porquê agora, tá?) confere um ar sobrenatural ao filme (se bem que com esse comentário acho que já abaixei as cartas na mesa...). Ao mesmo tempo, presta-se com isso uma bonita homenagem a todos que faleceram no acidente, seja no instante do impacto do avião na montanha seja nos dias posteriores nos Andes. É ou não é uma escolha espetacular, hein? O cuidado do diretor para não macular os nomes, as imagens e as histórias dos envolvidos nesse drama que muitos chamam de “O Milagre dos Andes” é digno de elogios. Podemos reparar na preocupação do diretor quando se insere na tela o nome da pessoa no instante exato em que ela morre (um recurso visual mais comum dos documentários do que da ficção). Não à toa, todas as famílias aceitaram conceder os nomes dos parentes falecidos para a produção espanhola. Quando falo que o roteiro está redondo, redondinho, é porque fiquei encantado com algumas construções narrativas feitas por J. A. Bayona. Peguemos o fato de os protagonistas serem de um time de rugby. A trama não deixou essa informação solta. Pelo contrário, usou-a para potencializar o drama. Para quem não conhece esse esporte a fundo, é importante dizer que se trata de uma das modalidades mais coletivas que existe. Como consequência, um excelente jogador nunca conseguirá se destacar mais do que o trabalho do time como um todo. Esse princípio esportivo do rugby aparece o tempo inteiro no filme, principalmente na comparação metafórica entre a corrida de Roberto no campo de jogo (no início de “A Sociedade da Neve”) e a longa caminhada pelas montanhas andinas (no desfecho do longa-metragem). Quando entendemos a relação entre as duas cenas/responsabilidades de Roberto, compreendemos a enorme dimensão humana por trás dessa história. Ainda falando do rugby, o papel do capitão é de enorme importância para a equipe (muito mais do que esse posto possui no futebol). O capitão é quase um treinador, uma figura que tem muita influência sobre os demais jogadores. Ou seja, quando Marcelo diz que não será permitido comer carne humana, a decisão não é de um mero integrante do grupo e sim do grande líder dos rapazes. Por consequência, se alguém for contra os seus desígnios, isso indicará uma ruptura estrutural muito sensível naquele grupo de pessoas. Acho que essa explicação é muito relevante para o entendimento de uma cena emblemática. O elenco de “A Sociedade da Neve” não é formado por atores e atrizes conhecidos do cinema argentino e do cinema uruguaio. Por isso, é bom esclarecer que eles não comprometem a qualidade do filme. Se ninguém dá show interpretativo na frente da tela, ninguém atrapalhou. É o famoso: deram conta do recado. Ou, na pior das avaliações, ganharam nota para passar de ano. Confira, a seguir, o trailer de “A Sociedade da Neve” (La Sociedad de la Nieve: 2023): Por mais que já tenhamos assistido às outras versões desse filme e conhecemos a história tintim por tintim, ainda assim saímos da sessão de cinema embasbacados. Eu posso garantir isso pela reação da plateia na sala em que estive presente na semana passada. Após o encerramento de “A Sociedade da Neve”, o público permaneceu imóvel nas poltronas por alguns minutos. Aos poucos, o pessoal foi saindo do cinema em total silêncio. Há muito tempo não presenciava uma reação tão forte de um filme nos espectadores. A impressão que tive é que a plateia foi embora em um transe reflexivo. Por isso, resolvi fazer esse post para a coluna Cinema. O meu filme predileto das últimas semanas, insisto, continua sendo o impecável e original “Folhas de Outono” – e é para ele que estou torcendo no Oscar de 2024. O longa-metragem que mais gostei de ter visto de dezembro para cá foi “Muchachos” – a mais incrível experiência cinematográfica dos últimos anos em uma sala de cinema. Contudo, o título que mexeu mais comigo foi mesmo “A Sociedade da Neve”. Isso porque já conhecia sua história. Fiquei imaginando a reação da pessoa que se depara com esse drama pela primeira vez. Deve ser uma experiência incrível, né?! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2023
Confira a lista das vinte obras mais comercializadas nas livrarias brasileiras no ano passado segundo o PublishNews. Há várias maneiras para se analisar o povo brasileiro. Como trabalho com literatura (e estamos hoje em um post da coluna Mercado Editorial), gosto de avaliar meus conterrâneos simplesmente pelos seus hábitos de leitura. A partir de suas compras nas livrarias nacionais, consigo entender um pouco das suas rotinas, preocupações, interesses, crenças e gostos. Por isso, sempre fico empolgado quando, no começo de janeiro, é divulgada a lista com os best-sellers do mercado editorial brasileiro do ano anterior. Aí aproveito esse material ainda quentinho, que muita gente enxerga apenas pelo lado comercial, mas que para mim também tem um forte caráter antropológico, para fazer o diagnóstico reflexivo dos meus compatriotas. Para quem achou curiosa essa minha mania, admito que faço esse levantamento há quase uma década no Bonas Histórias. As últimas três investigações estão nos posts de Livros Mais Vendidos em 2022, Livros Mais Vendidos em 2021 e Livros Mais Vendidos em 2020. Voltando para o presente, o que os livros campeões de venda de 2023 sinalizam, afinal, sobre o país em que nasci há muito, muito tempo (não espalhe, por favor!) e que fugi recentemente (sem nenhuma gota de arrependimento, tá?)? Para responder a essa pergunta filosófico-existencial, recorri aos dados do PublishNews, a fonte da indústria brasileira do livro mais confiável que temos no momento. Não à toa, ele é a minha primeira opção de referência estatística. Os leitores assíduos da coluna Mercado Editorial já estão acostumados com o PublishNews. Sempre o uso quando preciso de informações fidedignas sobre o universo editorial do nosso país. Seus números são obtidos diretamente dos sistemas de venda das maiores redes de livrarias do Brasil e contemplam tanto as operações físicas quanto as operações online dos principais varejistas. Analisando a lista dos 20 títulos mais comercializados entre janeiro e dezembro de 2023, encontramos o predomínio de obras de autoajuda. O brasileiro seria, então, um povo que precisa de tanta ajuda assim? Pelo mais recente ranking do mercado editorial, a resposta é um retumbante e sonoro SIM. São 7 livros no top 20 (35% da lista, se minhas contas não estiverem equivocadas) com essa proposta que podemos chamar de altruísta (se olharmos com bons olhos) ou de pega-otário (se tivermos uma visão negativa do mundo). Através da leitura, meus conterrâneos aprendem vários tipos de receita para ficar milionários (só não é podre de rico hoje em dia quem não quer!), descobrem como fazer amigos (uma carência que não imaginava ser tão recorrente entre os brasileiros), entendem a importância da responsabilidade pessoal (realmente é bombástica essa revelação), compreendem como não cair nas arapucas das tentações diabólicas (cuidado, o Diabo está mais perto do que você imagina) e podem adquirir hábitos saudáveis (juro que nunca tinha pensado sobre isso). E, acredite se quiser, ficam cientes da relevância de se pensar cotidianamente (aí, creio eu, já é exagero dos autores da autoajuda). Incrível quanta coisa brilhante podemos aprender com os best-sellers, né? O mais curioso é que há publicações quase centenárias com esses incríveis conselhos, que pelo visto ainda são novidades imperdíveis para o brasileiro médio. Se você não gosta de autoajuda (e/ou já sabe tudo o que as páginas desses títulos estão ensinando há mais de cem anos), aí a melhor pedida está na estante das publicações religiosas. Como o Brasil é tradicionalmente um país muito religioso (graças a Deus!), os livros sacros figuram sempre entre os best-sellers. Em 2023 não foi diferente. Tivemos 3 exemplares (15% da lista) que trazem conversas muito interessantes com Deus, pílulas de sabedoria espírita e revelações dos segredos das pessoas que encontraram a felicidade seguindo os preceitos católicos. O livro mais vendido na última temporada está justamente nessa categoria. “Café com Deus Pai” de Junior Rostirola vendeu mais de 126 mil unidades em duas edições, uma pela Editora Vida e outra pela Editora Vélos. Impossível não nos emocionarmos com um conteúdo tão puro e belo! Se somarmos a quantidade de livros de autoajuda (7) com o número de títulos religiosos (3) na coletânea das 20 publicações mais vendidas em 2023, chegamos à metade de exemplares do ranking (10). Até aí não há nenhuma novidade. Autoajuda e religião são os carros-chefes do mercado editorial brasileiro desde que Pedro Alvares Cabral trouxe em sua caravela um padre e um motivador profissional. A surpresa é que esse predomínio tem caído nos últimos dois ou três anos. Por quê? Porque tivemos um crescimento da literatura ficcional. Aí está a primeira excelente notícia deste post do Bonas Histórias. Antes que alguém possa soltar fogos de artifício e rezar agradecendo à graça alcançada, preciso alertar que os leitores nacionais ainda têm um gosto bastante imaturo quando o assunto é ficção literária. Dos 9 livros literários no topo do ranking dos mais vendidos, 4 são da literatura infantojuvenil e 1 é da literatura infantil. Em outras palavras, tem muito marmanjo e marmanja lendo histórias mais adequadas para os filhos e netos adolescentes do que para a sua faixa etária. Quando o brasileiro larga as publicações de autoajuda e as obras religiosas, sua primeira opção é a prateleira da literatura young adult. O maior destaque da ficção infantojuvenil (admito que não consigo ver essa categoria como young adult – de adult ela não tem nada ou, sendo muito otimista, tem muito pouco!) continua sendo Colleen Hoover, romancista norte-americana com três títulos no top 20: “É Assim que Acaba” (Galera) na 2ª posição, “É Assim que Começa” (Galera) na 3ª colocação, e “Verity” (Galera) no 14º lugar. Ao todo, Hoover vendeu mais de 250 mil unidades no Brasil no ano passado, sendo ainda a autora mais vendida por essas bandas (posto ocupado desde 2022). A segunda boa nova do ano é que a literatura brasileira de maior qualidade apareceu em ótima posição no ranking dos títulos mais comercializados em 2023. Temos 3 livros (15%) de autores nacionais de excelente qualidade na listagem dos best-sellers: “Onde Estão as Flores” (Buzz), romance de Ilko Minev que ficou na 4ª colocação, “Tudo é Rio” (Record), obra-prima de Carla Madeira no 8º lugar, e “Torto Arado” (Todavia), clássico contemporâneo de Itamar Vieira Junior no 16º lugar. Se esses nomes não são surpresa nenhuma na coletânea das ficções mais vendidas no país, a presença do trio simultaneamente no top 20 dos livros gerais é um sinal de que a literatura brasileira de alto nível está se conectando de forma mais intensa com o público leitor. Há luz no fim do túnel? Talvez! Esperemos para ver se não foi Verão de uma só andorinha ou se essa tendência se repetirá nos próximos anos. Por fim, tivemos um exemplar de difícil classificação (o chamei simplesmente de Não Ficção, um termo para lá de genérico). Sabe aquele livro que não é livro, ou pelo menos não serve para a leitura convencional? Pois bem, terminado o sucesso das obras para colorir que invadiu as livrarias nacionais há seis ou sete anos (ufa!), surgiu agora um exemplar entre os best-sellers do ano passado que é quase um antilivro. “Destrua Este Diário” (Intrínseca), obra da canadense Keri Smith que apareceu na 19ª colocação, é uma publicação para o leitor rasgar, rabiscar, atirar na parede e amassar. Você teria coragem de fazer isso com um livro?! Confesso que eu não consigo sequer pensar nessa possibilidade (sou tão velho, mas tão velho que ainda tenho a mania besta de querer ler as obras que compro nas livrarias). Feito esse breve resumo da ópera (ou seria um desabafo mesmo!), vamos para o que interessa, senhoras e senhores. A seguir, apresento o ranking completo dos livros mais vendidos no Brasil em 2023 em ordem decrescente. Assim, confira quais foram os 20 maiores best-sellers de nosso país no ano passado segundo o PublishNews: 1º) “Café com Deus Pai” (2021) – Junior Rostirola (Brasil) – Religião Nacional – Editora Vida/Editora Vélos – 126,7 mil unidades. 2º) “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 83,1 mil unidades. 3º) “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 80,7 mil unidades. 4º) “Onde Estão as Flores” (2013) – Ilko Minev (Brasil/Bulgária) – Literatura Ficcional Brasileira – Buzz – 78,9 mil unidades. 5º) “Mais Esperto que o Diabo” (1938) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Citadel – 74,8 mil unidades. 6º) “A Biblioteca da Meia-noite” (2020) – Matt Haig (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Bertrand Brasil – 60,3 mil unidades. 7º) “O Poder da Autorresponsabilidade” (2018) – Paulo Vieira (Brasil) – Autoajuda Nacional – Gente – 52,2 mil unidades. 8º) “Tudo é Rio” (2014) – Carla Madeira (Brasil) – Literatura Ficcional Brasileira – Record – 48,5 mil unidades. 9º) “Minutos de Sabedoria” (1966) – Carlos Torres Pastorino (Brasil) – Religião Nacional – Vozes – 38,2 mil unidades. 10º) “Quem Pensa Enriquece – O Legado” (1937) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Citadel – 37,2 mil unidades. 11º) “Os Segredos da Mente Milionária” (2005) – T. Harv Eker (Canadá) – Autoajuda Estrangeira – Sextante – 36,4 mil unidades. 12º) “Mulheres que Correm com os Lobos” (1992) – Clarissa Pinkola Estés (Estados Unidos) – Literatura Ficcional Estrangeira – Rocco – 35,4 mil unidades. 13º) “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” (1936) – Dale Carnegie (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Sextante – 34,0 mil unidades. 14º) “Verity” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 33,1 mil unidades. 15º) “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” (2007) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 32,3 mil unidades. 16º) “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior (Brasil) – Literatura Ficcional Brasileira – Todavia – 31,0 mil unidades. 17º) “Destrua Este Diário” (2007) – Keri Smith (Canadá) – Não Ficção Estrangeira – Intrínseca – 30,3 mil unidades. 18º) “Nunca Foi Segredo” (2023) – Padre Reginaldo Manzotti (Brasil) – Religião Nacional – Petra – 30,0 mil unidades. 19º) “Hábitos Atômicos” (2018) – James Clear (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Alta Life – 29,5 mil unidades. 20º) “O Homem Mais Rico da Babilônia” (1926) – George S. Clason (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – HarperCollins – 29,4 mil unidades. Em abril, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar o ranking das ficções mais vendidas no Brasil em 2023. Como o Bonas Histórias é um blog de literatura que analisa preferencialmente obras ficcionais (como a coluna Livros – Crítica Literária pode comprovar!), acho legal comentar o que os leitores nacionais estão comprando e lendo nessa seção específica das livrarias. Até lá, não perca o conteúdo das demais colunas do nosso site. Porque você bem sabe: enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê. Fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Tango - As características e os detalhes da charmosa dança argentina
Conheça a história, a evolução, as influências, a sensualidade, os encantos e as particularidades do Tango, o estilo dançante criado em Buenos Aires que conquistou admiradores no mundo inteiro. Vamos começar o 2024 da coluna Dança em grande estilo. Hoje falaremos de uma dança envolvente, visualmente impactante e que mexe com as emoções de muita gente, o Tango. Sei que já apresentei no Bonas Histórias as características, os detalhes e os ritmos da Dança de Salão. Naquele momento, não escondi minha preferência pelas diversas modalidades dançantes praticadas a dois. A ideia agora é nos aprofundarmos no Tango, que é um dos estilos mais charmosos e desafiadores da Dança de Salão. É curioso que quando falamos em Dança de Salão, muitas pessoas já se lembram automaticamente do Tango. É quase impossível não associarmos os dois termos. O mesmo princípio vale para quando pensamos em Argentina e Buenos Aires. Em qualquer parte do mundo, citar o país sul-americano e a sua encantadora capital é se lembrar direta ou indiretamente da coreografia passional de um casal dançando Tango. Gosto de comentar logo de cara essa atração universal porque é como se o Tango fosse o parceiro inseparável da Dança de Salão, da Argentina e de Buenos Aires. É como se eles estivessem sempre abraçados, com braços e pernas entrelaçados em um bailado ritmado e intenso. Sem poderem se separar, acabam ficando juntos e dançando eternamente no imaginário popular. É ou não é lindo, hein?! Como fã do Tango desde pequena, como professora dessa modalidade na Dança & Expressão há duas décadas e como praticante desse ritmo há mais de vinte e cinco anos, vou aproveitar o post de hoje da coluna Dança para apresentar vários aspectos do Tango: sua história, sua evolução, suas peculiaridades, suas influências, suas polêmicas, seus encantos, o carisma de suas músicas, seus passos desafiadores e seus artistas mais emblemáticos. Começo esse debate comparando o Tango com as danças brasileiras. Quando pensamos nos nossos ritmos nacionais mais típicos, como o Frevo, o Samba e o Forró, por exemplo, imediatamente nos vem à mente a alegria e a extroversão dos dançarinos em ação. Com certeza, esse conjunto de características não se aplica à modalidade portenha. Como definiu Enrique Santos Discépolo, poeta, compositor, ator e dramaturgo argentino, o Tango é “um pensamento triste que pode ser dançado”. Apesar do tom melancólico e soturno, ele é uma dança envolvente, bela, expressiva e extremamente intensa. É impossível ficarmos indiferentes aos movimentos hipnotizantes de um casal dançando Tango. Essa dança exige muita técnica, entrosamento do par, movimentos precisos e grande habilidade dos pés e das pernas de seus praticantes. Em uma única música, os movimentos misturam sensualidade e agressividade, paixão e tristeza, passos lentos e ágeis e coreografias combinadas e improvisadas. Tudo isso com uma carga dramática elevada, que transmite a ideia de beleza, cumplicidade, luxúria e sensualidade, elementos mais expressivos do Tango. De tão intimidadora e complexa à primeira impressão, essa modalidade é oferecida normalmente nos níveis avançados dos cursos gerais de Dança de Salão da Dança & Expressão (exceção feita aos Cursos de Férias e aos workshops específicos). Porém, não quero desanimar os interessados em praticar Tango. Afinal, há muita gente que não se arrisca a dar os primeiros passos por acreditar que esse ritmo é inalcançável para os dançarinos amadores. Isso não é verdade! Como professora de dança, posso garantir que é possível para todo mundo dançar qualquer modalidade. Basta começar dos passos básicos e ter disciplina e paciência para ir melhorando aos poucos. Aí um dia os dançarinos estarão em uma apresentação para amigos e familiares e ouvirão os aplausos e a admiração do público pelo excelente desempenho no palco. O que acontece com as danças com um grau maior de complicação é que o aprendizado e a fluidez demoram um pouco mais, principalmente se você não tiver experiência em outras modalidades do gênero. Por exemplo, para dançar bem o Tango demanda muito mais tempo do que a Salsa e o Merengue. Aí muitas pessoas mais ansiosas acabam se frustrando. A expectativa delas era que em poucas aulas já chegassem ao patamar dos dançarinos de Tango que se exibem nos palcos e na televisão. Nas primeiras aulas até dá para sair realizando os passos mais simples. Porém, nada que vá impressionar os outros nem que chegue perto do nível das apresentações realizadas nas ruas de Buenos Aires. Nesse momento, eu preciso dizer para os alunos: muita calma nessa hora! O Tango é uma dança realizada com o casal bem juntinho. Isso é fundamental para criar o entrosamento e a conexão entre eles e para desenvolver a estética passional dos passos. Os movimentos são realizados principalmente com os membros inferiores, com os desenhos das pernas das damas e dos cavalheiros. Eles se encostam, afastam, se entrelaçam e muitas vezes parecem que vão dar um nó difícil de desatar. Esses ganchos ou cortes, como são chamados tecnicamente esse entrelaçar de pernas, acompanham a música e são sem dúvida nenhuma o grande charme do Tango. O que transmite a elegância da dança é a variação que se emprega de angulação e velocidade em cada movimento. E a sua sensualidade deriva dos movimentos curvos, sinuosos e orgânicos do entrelaçar de pernas. A dama tem que dançar com o corpo um pouco inclinado ao cavalheiro. Ela precisa deixar o tronco encostado ao parceiro e as pernas mais livres e com mais espaço para desenvolver seus desenhos e figuras. Se você for dançar um Tango, certamente fará muitos ganchos e arremates, além de rodar pelo salão inteiro. A maioria dos ritmos da Dança de Salão exige esse fluxo pelo ambiente. Trata-se de uma dinâmica corriqueira das danças em casal – o padrão é se deslocar pelo salão no sentido anti-horário. O Tango não é diferente. Ele obriga seus praticantes a se movimentarem constantemente, como se um dos principais objetivos fosse justamente ser visto por todos no recinto. Por isso, já nas primeiras aulas os alunos aprendem que dançar Tango é caminhar pelo salão. Muitos estudiosos da dança inclusive afirmam que essa caminhada luxuriante tão típica da modalidade argentina carrega em si os elementos que fizeram o Tango tão apaixonante no mundo inteiro. A sensualidade, a elegância e a expressividade estão intimamente ligadas ao desfile de corpos grudados como se não pudessem se separar e não tivessem vergonha dos olhares alheios. Para os praticantes, essa movimentação natural pelo espaço leva geralmente um tempo para ser amadurecida. A própria base do Tango, constituída em oito tempos, faz com que nos desloquemos permanentemente e nos movimentemos intuitivamente pelo salão. Se você já dança algum outro ritmo de Dança de Salão e quer dar os primeiros passos no Tango, aqui vai uma diferença importante. Em quase todas as modalidades de dança de casal, a pessoa que está sendo conduzida, ou seja, quem está no papel de dama, começa sempre a dançar com a perna direita. E quem está conduzindo, o papel do cavalheiro, inicia a dança com a perna esquerda. Essa regra quase universal da Dança de Salão não funciona no Tango, o que pode confundir os dançarinos mais experientes. Porém, asseguro que esse problema só ocorre no início do processo de aprendizado e/ou na arrancada da dança. A partir daí, a condução do Tango é feita através do movimento preciso do tronco e dos braços do cavalheiro. É ele que passa todas as informações para a dama, algo corriqueiro nas danças a dois. Para quem assiste a uma apresentação de Tango, esses detalhes mais técnicos podem até passar despercebidos. O que acaba chamando mais a atenção do público espectador é o conjunto formado pela sensualidade dos passos, a harmonia do bailado do casal, a caminhada elegante pelo recinto, os giros e ganchos rápidos, as travas e os rodopios dos dançarinos, os movimentos deslizantes no chão e as poses dramáticas. É inegável a importância do Tango para a dança mundial e para a cultura popular internacional. Em 2009, a modalidade foi elevada à categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela Unesco. Esse título veio depois que os governos de Buenos Aires e de Montevideo deixaram de lado momentaneamente a rivalidade de onde o ritmo teria nascido, se uniram e lançaram a candidatura conjunta do Tango para essa honraria. Para quem possa ter estranhado a briga argentino-uruguaia, os dois países reclamam para si o posto de berço do ritmo. Por vezes, essa discussão adquire níveis de passionalidade parecidos aos embates mais ruidosos ocorridos dentro dos campos de futebol. Para entendermos o apelo que o Tango tem até hoje, basta lembrarmos de algumas cenas mágicas do cinema. Quando inseridas a dança e a música argentinas (e/ou uruguaias) no roteiro, a atmosfera do filme se transforma completamente. Como não recordarmos de Al Pacino dançando com Gabrielle Anwar “Por una Cabeza” em “Perfume de Mulher” (Scent of a Woman: 1992). Essa talvez seja a cena de Tango mais famosa da sétima arte. Impossível não nos emocionarmos. Sabendo disso, os argentinos se enchem de orgulho e repetem a definição dada pelo filósofo americano Waldo Frank: “Tango é a dança popular mais profunda do mundo”. Vamos voltar no tempo para conhecer mais sobre a história do Tango. Se hoje ele é conhecido por sua elegância e requinte, lá atrás a coisa era bem, bem diferente. É até difícil imaginarmos o quão popularesca era essa modalidade em sua origem e por onde ela já andou... E saiba que nem sempre o Tango teve esse ar de seriedade e o tom de introversão, duas de suas principais marcas atuais. No início, sua alegria e descontração lembravam muito mais os nossos sambas. Difícil de imaginar, né? Vamos, então, pegar a máquina do tempo para entendermos como essa transformação se efetivou. Um dos fatores que faz com que a Argentina e o Uruguai disputem a primazia do Tango é que ele nasceu nas margens do Rio da Prata. Em qual lado? Aí depende da interpretação de cada país. Segundo a versão dos argentinos, a mais propagada mundialmente, tudo começou por volta de 1877 no bairro de Montserrat, em Buenos Aires. Naquela época, essa região era conhecida como “Barrio del Mondongo” e ficava entre a Casa Rosada e o Congresso Nacional. Nesse local se reuniam os afro-argentinos da capital. Eles se organizavam em associações beneficentes e promoviam festas para angariar dinheiro. Esses eventos eram acompanhados por um tipo de dança que escandalizava os moradores brancos de Buenos Aires. Na época do Carnaval, essas associações se apresentavam nas ruas ao som das batucadas conhecidas na região do Rio da Prata como candombe. A burguesia local achava indecente aquela dança. Nas disputas para mostrar quem tinha sido o melhor grupo nos festejos carnavalescos, sempre havia incidentes. Ou seja, brigas e confusões eram extremamente comuns. Por isso, o governo de Buenos Aires determinou a dissolução dessas associações e a proibição dos festejos nas ruas. Dessa forma, nasceu os tambos, lugares criados pelos afro-argentinos para dançar. Nessa época, a dança era realizada de forma solta, requebrada e com bastante animação. Quem rapidamente passou a frequentar os tambos foram os compadritos. Naquele momento, esse termo não era destinado ao diminutivo de compadre como é hoje. Ele era designado aos homens que viviam de biscates na periferia das cidades. Eles dedicavam-se a jogatina, tocavam violão e tinham o hábito de lavar a honra com sangue. Os compadritos dançavam a milonga, a polca, a quadrilha e a mazurca. Com a chegada dos brancos aos tambos, houve uma modificação sensível das danças que os negros praticavam. Dessa mistura surgiu um novo ritmo, que se convencionou chamar de Tango. A nova dança passou a ser em par. Os casais dançavam colados, mas com irreverência e de maneira jocosa. Pouco a pouco, a animação e a descontração africanas foram cedendo espaço para a elegância e a melancolia dos espanhóis de Buenos Aires. Até então, os compadritos estavam acostumados a dançar apenas em bordéis e nos peringundines, lugar exclusivo para a prática do sexo pago. Assim, o Tango, em seus primórdios, não era dançado pelas mulheres da alta sociedade portenha. Como era malquisto pela burguesia devido à forte conotação sexual, esse ritmo era praticado quase que exclusivamente pelas prostitutas. Afinal, como os compadritos não encontravam mulheres disponíveis para dançar com eles, era preciso improvisar. Aí valia desde pagar pela companhia de meretrizes até convidar outros homens para o bailado. Na década de 1880, chegou à Argentina uma grande leva de imigrantes italianos. Sua contribuição para o Tango foi expressiva tanto na música quanto na dança. Eles adicionaram instrumentos como a flauta, o bandolim e o realejo. E as prostitutas italianas deixaram o Tango menos vulgar. Nessa fase, ainda de transição do Tango dos tambos para o que temos hoje, a dança ficava restrita aos cabarés da esquina da Avenida Corrientes com a Rua Uruguai. Esses espaços logo foram fechados devido à pressão da polícia e se deslocaram para o Centro da cidade. Da nova localidade, o Tango se expandiu para as áreas nobres de Buenos Aires. Os responsáveis pela popularização do ritmo foram os cajetillas, rapazes da classe nobre portenha. Querendo imitar a descontração e a libertinagem dos compadritas, os cajetillas começaram a frequentar os mesmos lugares dos biscateiros. Ali, falavam, gesticulavam e dançavam como seus ídolos. Contudo, os cabarés do Centro não tinham o glamour que a juventude endinheirada estava acostumada a respirar. Assim, os filhos da alta burguesia levaram o Tango para os bairros abastados de Buenos Aires. Ali, a dança ganhou roupagem mais refinada, novos instrumentos e músicos profissionais. Foi nesse instante que se acrescentaram o violino, o piano e o bandonéon. Em 1913, quatro décadas após o aparecimento dos tambos, a Argentina havia crescido muito. O país contava com 1,55 milhão de habitantes, sendo 850 mil homens e 700 mil mulheres. Como consequência a essa diferença entre os sexos, a população masculina frequentava bastante os cabarés. Além disso, é importante dizer que Buenos Aires no início do século XX era uma cidade portuária (não à toa, seu gentílico é portenho, termo que faz menção aos moradores da região do porto). Com uma leva considerável de marinheiros e viajantes, as meretrizes tinham muito trabalho. Em outras palavras, os cabarés ganharam força e cresceram, o que ajudou na divulgação do Tango. Os músicos que tocavam nos estabelecimentos dos bairros nobres passaram a ser mais profissionais devido a exigência da nova clientela, formada por importantes figuras da alta sociedade portenha: advogados, médicos, atores, fazendeiros e banqueiros. Foi assim que o Tango se tornou ao mesmo tempo mais conhecido e refinado, em uma contradição entre a sua popularização e sua sofisticação. Como a elite de Buenos Aires era, naquele momento, uma das mais ricas do mundo e frequentava regularmente Paris, a dança foi levada para a capital francesa, então a metrópole da cultura ocidental. Na Europa, o novo ritmo se tornou uma febre. Na França, o centro da moda e da diversão mundial, ele era praticado tanto nos cabarés quanto nos salões da alta classe. Curiosamente, a fama e o prestígio do Tango no exterior foram superiores ao que ele possuía em nível doméstico. Enquanto na Argentina muitas pessoas ainda marginalizavam aquela dança de origem simplória, no Velho continente o Tango era uma unanimidade. Talvez o correto seja dizer quase unanimidade. Porque alguns bispos franceses queriam a proibição daquela dança que julgavam atentar contra os bons costumes e a moral católica. Depois de receber reclamações formais da Igreja francesa, o Vaticano começou a julgar o caso. Antes que o Papa pudesse acatar as vontades dos opositores do Tango, a embaixada argentina em Roma se adiantou e marcou uma apresentação da dança para a Sua Santidade. Eles queriam mostrar o quão inofensivo e casto era o ritmo que estava contagiando a Europa. Assim, Pio XI assistiu à exibição de um jovem casal de irmãos italianos. Obviamente, a dança fora previamente preparada para ocultar os momentos mais indecorosos e não escandalizar o Sumo Pontífice. Resultado: o Papa não só não se opôs à modalidade como a achou sem muita graça. Pio XI teria recomendado aos jovens algo mais animado, a Furlana, uma dança camponesa do século XIX. Com as bênçãos da Igreja, o Tango voltou para Buenos Aires com novo status. Contudo, seu retorno triunfal foi marcado por uma forte repaginação estética. Ele chegou muito mais elegante e sensual e com menos erotismo. Foi só nesse momento em que ele conquistou definitivamente os argentinos. Todas as classes sociais e gêneros passaram a ver o Tango com bons olhos, motivo de orgulho para a nação inteira. Buenos Aires não apenas abraçou o ritmo como se orgulhava de ter sido seu berço. Na Europa ainda sobrava uma pontinha de dúvida sobre a obscenidade e a imoralidade da modalidade argentina. Em fevereiro de 1924, Pio XI quis novamente analisar o Tango pessoalmente. Pelo visto, os cardeais franceses não tinham engolido a primeira avaliação papal. Outra vez, a apresentação fora organizada pela embaixada argentina em Roma e contemplou a versão mais leve do Tango. Ao final da exibição, o Papa não falou nada. Apesar do silêncio, ele aprovou o que viu. Não havia, portanto, mais dúvidas para o Vaticano que o Tango era uma dança íntegra e que respeitava os valores católicos. A partir daí, o ritmo pôde se expandir para o resto do mundo, onde triunfou galantemente sem qualquer questionamento. Mas será que você já se perguntou o porquê do nome Tango? Há muitas hipóteses para isso. Infelizmente, jamais chegaremos a uma conclusão certa. Para alguns estudiosos, a palavra seria derivada de “tambo”. Para outros, sua origem estaria no termo “tangó” que os espanhóis utilizavam para se referir ao espaço onde aprisionavam os escravos. Para outros tangólogos, Tango viria de Xangô, deus africano da guerra. Outros defendem que deriva de “tang”, que no dialeto africano significa aproximar-se, tocar. Há ainda os que acreditam que o nome teria influência na palavra latina “tangere”, que também significa tocar. Uma outra vertente acredita que a palavra teria se originado de “tambor”, o instrumento musical. O que se sabe exatamente é que o Tango apareceu pela primeira vez em 1839 com a grafia que conhecemos hoje. Foi dessa maneira que ele foi registrado no Diccionario Provincial de Voces Cubanas. É importante dizer que o Tango não é apenas uma dança carismática. Ele também tem um forte componente musical. Ao longo dos anos, grandes compositores e intérpretes contribuíram para a constituição dessa música. A orquestra de Vicente Greco foi a responsável por gravar o primeiro Tango em 1898. “Don Juan” era o título da canção criada pelo compositor Ernesto Ponzio. Em 1926, dois grandes nomes do Tango surgiram: os poetas e compositores Homero Manzi e Enrique Santos Discépolo. Manzi foi mais criativo em suas letras e trouxe novos temas e um certo refinamento às canções. A partir dele, outros compositores ousaram sair dos versos tradicionais. Nesse grupo temos Homero Expósito, Catulo Castillo e Horácio Ferrer. Esse último compôs diversas letras com Astor Piazzolla, talvez o compositor mais popular desse ritmo. Discépolo, ou Discepolín, como era chamado por seus amigos, foi o responsável por criar o Tango Introspectivo. Sua característica principal era o pessimismo. Um dos seus versos mais conhecidos é: “o mundo foi e será uma porcaria”. Ele trouxe à temática musical não apenas aquilo que o rodeava, mas também as angústias íntimas que carregava. Um dos nomes mais célebres do Tango é o cantor Carlos Gardel. Sua origem é questionada ainda hoje. E novamente temos uma peleja entre argentinos e uruguaios. Gardel poderia ter nascido em 1887 no Uruguai ou em 1890 na França. Ele chegou ainda pequeno em Buenos Aires com apenas 2 anos. Umas das vozes mais importantes do Tango, o francês (ou uruguaio) naturalizado argentino levou sua música para diversas regiões do mundo. Carlos Gardel foi o percursor do Tango Canção, um estilo mais romântico. Ele começou a ter prestígio em 1914, quando se apresentava junto com o cantor e compositor uruguaio Jose Razzano no cabaré Armenonville, em Buenos Aires. Em 1917, a dupla interpretou pela primeira vez a música “Mi Noche Triste” com letra. Até então, ela só havia sido executada de forma instrumental. Ainda nesse ano, Gardel protagonizou seu primeiro filme, “Flor de Durazno” (1917). Em 1925, já naturalizado argentino e famoso na América Latina, Espanha e França, Carlos Gardel desfez a parceria com Razzano e passou a se apresentar sozinho. Começou aí sua fase de maior visibilidade. A partir de 1927, ele passou a se apresentar regularmente na Europa em shows muito concorridos. Entre 1931 e 1932, Gardel foi contratado pela Paramount para estrelar quatro filmes que foram gravados na França. Em 1934 e 1935, foi a vez de ele gravar filmes, cantar e participar de programas importantes nos Estados Unidos. Em 24 de julho de 1935, no auge artístico, Carlos Gardel morreu em um acidente aéreo, na cidade de Medellin, Colômbia, enquanto fazia uma turnê pela América Latina. Paradoxalmente, mesmo com a tristeza pela morte do músico e da lacuna deixada por ele, o Tango vivenciou a sua “Era de Ouro” daí em diante. Isso se deu ao longo da segunda metade da década de 1930 e durante os anos 1940. Grandes orquestras se apresentavam na Argentina para o delírio do público. O responsável pelo apogeu do Tango foi o músico Juan D’Arienzo. Extremamente popular entre os argentinos, ele fez com que a orquestra novamente fosse a protagonista dos espetáculos, deixando os cantores em segundo plano. Nesse momento, os shows de Tango voltaram a imperar nos grandes salões e eram aclamados pela população local. Nessa fase, diversos músicos navegaram entre o tradicionalismo e as novidades trazidas pelos mais jovens. Entre os nomes que mais se destacaram podemos citar Oswaldo Pugliese, Aníbal Troilo e, claro, Astor Piazzolla. Piazzolla foi o grande compositor argentino do século XX e é ainda uma grande referência do Tango nesse início de século XXI. Ele foi responsável por trazer novidades ao gênero. Por exemplo, incorporou elementos do Jazz, da percussão, da guitarra elétrica, do violoncelo e das orquestras sinfônicas em suas músicas. Claro que ele não era uma unanimidade. Incomodadas com tantas inovações, as figuras mais tradicionais do Tango sempre achavam algo para criticá-lo. Uma das principais reclamações dos conservadores era a maneira como Astor Piazzolla tocava o bandonéon – de pé e apoiando o instrumento em um joelho. Para seus admiradores, tratava-se de uma ousadia inovadora. Para os críticos, que acreditavam que o correto era tocar sempre sentado, tratava-se de uma blasfêmia. Nadia Boulanger era uma compositora francesa de música erudita que deu aula para diversos músicos, entre eles Piazzolla. Foi ela quem teria descoberto a aptidão do argentino para o Tango. Quando já estava cansada de ver Astor Piazzolla se esforçando sem glória no estudo da vertente erudita, Boulanger perguntou se ele não tinha nada diferente para apresentar. Podia ser algo típico de seu país. E foi aí que ele disse: “Sim, posso mostrar um Tango”. Ao tocar a canção “Triunfal”, a professora viu que aquele jovem até então pouco talentoso e com sérias dificuldades técnicas era na verdade um músico brilhante. Ao notar isso, ela o incentivou a seguir tocando Tango. Foi o que ele fez até o fim da vida. O poeta Horacio Ferrer foi o principal parceiro musical de Piazzolla. Quando o músico conheceu o trabalho do escritor nascido em Montevideo, teria dito: “Isso o que você faz na poesia, eu faço com as canções. Larga tudo e vem trabalhar comigo”. Foi o que Ferrer fez – renunciou ao posto na Universidade da República na capital uruguaia e foi trabalhar com música na Argentina. Uma das grandes obras-primas da dupla surgiu depois que eles assistiram no cinema a “Esse Mundo é dos Loucos” (Le Roy de Coeur: 1966), filme do diretor Philippe de Broca. Inspirado no soldado da ficção que admirava os loucos que fugiram do manicômio, Horacio Ferrer criou um eu-lírico que, por causa da loucura, tinha uma visão positiva da vida. Nascia, assim, “Balada para un Loco” (não confundir com “Balada do Louco”, composição de Arnaldo Baptista e Rita Lee que veio seis anos depois e, que acredito, tenha se inspirado na versão portenha). A canção foi apresentada pela dupla uruguaio-argentina no Festival Ibero-americano de Dança e Canção em 15 de novembro de 1969. Mesmo sendo muito ovacionado pelo público, “Balada para un Loco” não conseguiu o primeiro lugar. A tradição ainda imperava e a vencedora foi a nem um pouco ousada “Até o Último Trem”, de Julio Ahumada e Julio Camillioni. Mesmo sem a conquista do prêmio principal, na semana seguinte ao festival, o disco de Piazzolla e Ferrer que continha essa música foi lançado com enorme êxito na Argentina. Em pouco tempo, cerca de 200 mil cópias foram adquiridas no país. Mais tarde, “Balada para un Loco” foi gravada também por Roberto Goyeneche e se tornou famosa em todo o mundo. A revolução proporcionada por Astor Piazzolla no Tango foi tamanha que uma nova fase deste ritmo só apareceria mais de uma década depois de sua morte. Estamos falando do Tango Techno. Em 1990, o Tango ganhou sua roupagem mais moderna e polêmica. O Tango Techno, também chamado de Tango Eletrônico, mistura as batidas tradicionais do gênero do Rio da Prata ao ritmo do Rock, do Techno, Rap e até do Heavy Metal. Ou seja, mescla o antigo com o novo. Se você acha que não conhece nenhuma canção desse subgênero, lembro que as novelas globais trouxeram em suas trilhas sonoras algumas músicas do Bajofondo, a banda uruguaio-argentina de Tango Eletrônico. Em “A Favorita” (2008), “Pa’ Bailar” foi sua faixa de abertura e em “Avenida Brasil” (2012), “Infiltrado” se tornou a canção-tema da inesquecível Carminha, a vilã do folhetim. O Bajofondo se tornou conhecido no Brasil e em vários países de língua espanhola. É interessante comentar que um de seus integrantes é Gustavo Santaolalla, músico e compositor argentino vencedor de duas estatuetas do Oscar na categoria Melhor Trilha Sonora. Há outros grupos musicais famosos que seguiram por essa vertente. Dá para citar o Gotan Project, banda parisiense que teve mais sucesso na Europa, e o Tanghetto, essa sim uma legítima banda argentina. O ápice do Tango Techno aconteceu entre 2001 e 2002. Depois disso, confesso que não vi mais nenhum grande sucesso nem um forte apelo do público. A sensação é que ele está adormecido nos últimos anos, com raras exceções. Recentemente fui visitar Buenos Aires e, por tudo o que sempre ouvi do Tango, achei que a cidade respirasse mais desse ritmo do que constatei na prática. Pode ser que cheguei com uma expectativa elevada? Pode ser. Pode ser que fui no finalzinho de ano e a capital argentina estava mais devagar? Pode. Apesar da ligeira frustração pela pouca quantidade no dia a dia portenho, reconheço que vi muito Tango de boa qualidade. Como as praças são lugares de encontro e são muito bem frequentadas pelos argentinos, só vi em uma delas aulas e exibições dessa dança – na famosa Barrancas de Belgrano. Ali ocorrem todas as tardes/começos de noites apresentações de Tango. Em San Telmo, uma área mais turística, encontrei um casal dançando na rua. Mas eles estavam bem ao lado da estátua da Mafalda. Como consequência, acabaram ignorados pela multidão de turistas que se acotovelava para tirar uma foto da garotinha contestadora criada por Quino. Outro lugar que, claro, pude encontrar o Tango foi na Puente de La Mujer. Essa ponte é uma obra do arquiteto espanhol Santiago Calatrava que foi inaugurada em dezembro de 2001. Pelo seu desenho futurista, ela se destaca na paisagem de Puerto Madero. A inspiração do arquiteto teria sido um casal dançando Tango. Muitas pessoas passam por ali sem conseguir encontrar o tal casal na obra – um deles é o Ricardo, que fica indignado por não ver nada. Sem querer deixar ninguém inconformado nem suscitar polêmicas, confesso que achei, depois de analisar muito, os dançarinos. O segredo está em olhar a ponte de frente e de longe. Quando a água do rio se mexe, fica mais fácil vermos o casal “se movimentando”. Na minha interpretação, os dançarinos de Tango estão na posição clássica dessa dança. Contudo, eles estão na vertical, como se estivessem dançando deitados. O cavalheiro está reto (no caso, ele é a própria ponte) e na postura ereta da dança. E a dama está dançando inclinada a ele, com o tronco encostado ao cavalheiro e as pernas livres para os movimentos (ela seria o monumento que se destaca da ponte). E agora, você também conseguiu identificar os dançarinos na Puente de La Mujer? Espero ter te encorajado a se aventurar pelo maravilhoso mundo do Tango. Tenho certeza de que uma vez praticado essa dança e tendo a disciplina e a paciência para aprendê-la, você não irá parar mais. E se você for convidado(a) para uma milonga, saiba que esses são os eventos onde as pessoas se reúnem para dançar Tango. Então não dispense esse convite e vamos bailar um Tango! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Pobres Criaturas - A nova parceria de Yorgos Lanthimos e Emma Stone
Dirigida por Yorgos Lanthimos, roteirizada por Tony McNamara e estrelada por Emma Stone, essa ficção científica que mistura fantasia, surrealismo, comédia nonsense e crítica social recebeu 11 indicações para o Oscar de 2024 e é uma das favoritas para conquistar a estatueta de Melhor Filme. Que Scarlett Johansson e Margot Robbie não me leiam, por favor, mas sou apaixonado por Emma Stone. Para mim, Stone é a Meryl Streep de sua geração: uma atriz completa, versátil, carismática, inteligente e de atuações impecáveis. Já pensava dessa maneira antes mesmo de assistir a “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023), o novo filme do grego Yorgos Lanthimos que vamos comentar em profundidade hoje na coluna Cinema. Contudo, depois que saí da sala de projeção do Multiplex Belgrano no final de semana retrasado (em meio às comemorações do Ano Novo Chinês ali do lado no Barrio Chino e em plena visita de Eduardo Villela e sua divertida família por Mi Buenos Aires Querido), tive a confirmação de estar diante de um legítimo MONSTRO do cinema contemporâneo. Para ser franco com você, acompanhar essa ficção científica com pegadas de Surrealismo, fantasia e comédia erótico-escatológica me trouxe três certezas/conclusões que preciso compartilhar com os leitores do Bonas Histórias. A primeira é: essa é a atuação mais brilhante da carreira de Emma Stone (e uma das mais corajosas da história do cinema). Se você ficou deslumbrado(a) – como eu fiquei há alguns anos! – com a interpretação dela no papel de Mia Dolan em “La La Land – Cantando Estações” (La La Land: 2016) e/ou como a Baronesa de Masham em “A Favorita” (Favourite: 2018), saiba que agora a norte-americana se superou. Pode isso, Arnaldo? Achei que não pudesse, mas foi o que aconteceu, senhoras e senhores! Juro que se eu fosse professor de atuação dramática (algo que não tem o menor fundamento, que fique bem claro), colocaria “Pobres Criaturas” para os meus alunos assistirem em sala de aula. Ao final da sessão, decretaria: “Isso é tudo o que vocês precisam saber sobre o ofício de ator e atriz. Se alguém chegar a 1% do que Stone fez neste filme, não apenas estão formados como estarão prontos para o estrelato no cinema, na televisão e no teatro”. Por isso, chego à segunda verdade verdadeira que vem dominando a minha conturbada e caótica cabecinha há dez dias. Para dizê-la, porém, preciso encher os pulmões antes. Pronto. Agora posso gritar aos quatro ventos: O OSCAR DE MELHOR ATRIZ EM 2024 JÁ TEM DONO. No caso, dona. ELE É DA EMMINHA!!! É impossível a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles não reconhecer o óbvio ululante, como diria o título de uma famosa coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues (não sei o porquê, mas lembrei bastante do jornalista e dramaturgo pernambucano ao final da sessão de “Pobres Criaturas”). Juro que se Emma Stone não sair da cerimônia de 10 de março com o seu segundo Oscar em mãos, eu entro com um recurso no STF para o Xandão prender todos os jurados do Oscar por atentado terrorista ao bom senso cinematográfico. Pronto, falei! Quem acompanha o Bonas Histórias há alguns anos (acredite se quiser, mas em dezembro próximo o blog comemorará uma década de existência!), sabe do medo que adquiri nessa trajetória em decretar antecipadamente os vencedores do Oscar. Tenho esse pudor porque EU NUNCA ACERTEI NENHUM PALPITE SEQUER. Quando junto na mesma frase as palavras NUNCA, NENHUM e SEQUER, em um gigantesco pleonasmo, não é por acaso. É até complicado falar sobre isso, mas sou horrível em tentar adivinhar os vencedores da principal estatueta do cinema mundial. Juro que me sinto o Pelé das adivinhações furadas (lembra do título da Copa do Mundo da Colômbia e da Nigéria?!). Quando digo que o filme A sairá vencedor, o longa-metragem B ganha. Se digo que o ator X foi muito melhor do que os concorrentes, ele nem é indicado. O auge dos meus equívocos aconteceu na cerimônia de 2020. Para não errar mais uma vez, decretei nas páginas da coluna Cinema com a consciência tranquila: “tanto “1917” (2019) quanto “Coringa” (Joker: 2019) têm chances de sair vencedores na principal categoria da premiação. As duas produções são incríveis e merecem a conquista”. Resultado: “Parasita” (Gisaengchung: 2019) levou o Oscar, na maior zebra da história do evento de Los Angeles. Depois disso, prometi para mim mesmo que NUNCA mais faria NENHUM palpite (olha o pleonasmo em letras garrafais aí de novo, gente!). Minha decisão foi para o bem dos artistas e dos longas-metragens que torceria. É claro que eu jamais respeitei minha própria promessa. Só em 2024 já fiz alguns palpites – juro que é mais forte do que eu. O mais contundente foi: “Folhas de Outono” (Kuolleet Iehdet: 2023) triunfará como Melhor Filme Internacional. Seu rival mais forte, “Zona de Interesse” (The Zone of Interest: 2023), não me parecia tão bom quanto a comédia romântica árida e original do finlandês Aki Kaurismäki. E o que aconteceu? “Zona de Interesse” foi indicado ao Oscar e é o grande favorito. E “Folhas de Outono” não foi sequer indicado. É, acho que errei. DE NOVO! Entendeu agora o medo que sinto em dizer que Emma Stone será a vencedora do Oscar desse ano?! Apesar de JAMAIS ter acertado um MÍSERO palpite, continuo impassível no meu trabalho de informar (ou seria desinformar?) os leitores do Bonas Histórias sobre os favoritos do prêmio máximo do cinema. Com a convicção de um legítimo integrante de “O Incrível Exército de Brancaleone” (L´armata Brancaleone: 1966), vou além da categoria Melhor Atriz e digo sem corar que, para mim, “Pobres Criaturas” merece conquistar a estatueta de Melhor Filme. Não sei se você percebeu, mas essa é a terceira certeza/conclusão que gostaria de compartilhar no post de hoje, compreensivo(a) leitor(a) desse blog com tanta credibilidade quando o assunto é cinema. Afinal, esse título não pode ser rotulado como o longa-metragem em que sua protagonista brilha isoladamente. Esse drama cômico (ou seria comédia dramática?) com pitadas generosas de crítica social, engajamento feminista e filosofia existencialista tem muitos outros atrativos que o tornam superior, como experiência audiovisual e como narrativa ficcional, a “Oppenheimer” (2023), “Barbie” (2023), “Maestro” (2023) e “Zona de Interesse”. Cito nominalmente esses títulos porque eles são os principais postulantes no próximo evento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles e porque foram as produções que assisti (beijo, Glória Pires). Prova disso é que “Pobres Criaturas” recebeu 11 indicações ao Oscar de 2024. Além de Melhor Filme e de Melhor Atriz (estatueta esta que creio ser a única barbada da noite californiana de 10 de março), ele ainda concorre nas categorias Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção, Melhor Fotografia, Melhor Maquiagem, Melhor Figurino e Melhor Edição/Montagem. Nesse quesito, o filme de Yorgos Lanthimos e Emma Stone só perde para “Oppenheimer”, que teve 13 indicações. Mesmo tendo adorado o filme de Christopher Nolan, um dos meus cineastas favoritos, acho que a paixão por Emma Stone e o impacto do novo longa dela são mais fortes. Daí minha torcida para o vencedor do Oscar ter mudado de lado de agosto de 2023 para fevereiro de 2024. Para quem trocou nos últimos meses o fanatismo do Corinthians pelo Platense, talvez essa mudança cinematográfica não tenha sido tão substancial assim. Nos principais festivais do cinema mundial e nos mais badalados prêmios cinematográficos internacionais já concluídos, “Pobres Criaturas” e Emma Stone fizeram bonito, muito bonito. O filme de Lanthimos conquistou o Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza e o Globo de Ouro na categoria Comédia e Musical. Já a atriz levou para a casa as premiações de melhor atuação no Globo de Ouro e no Critics´s Choice Awards. Seriam esses os melhores indicativos que o Oscar será o próximo feito? Sinto-me inclinado a responder positivamente a esse questionamento meramente retórico. O roteiro de “Pobres Criaturas” foi produzido pelo australiano Tony McNamara, roteirista de “A Favorita” (Oscar de Melhor Roteiro Original naquela oportunidade). Ou seja, McNamara, Yorgos Lanthimos e Emma Stone já tinham trabalhado juntos em uma produção de enorme sucesso. O raio cai sim duas vezes no mesmo lugar, senhoras e senhores! Por isso, acho que não só Stone deve levar para casa a sua segunda estatueta em 2024 como Tony McNamara será bicampeão (ao melhor estilo Mocidade Alegre!). Ai, ai, ai. Ainda bem que o roteirista australiano (e a atriz norte-americana e o diretor grego) não sabe português – certamente sentiria calafrios com minha previsão deste post. Esse filme foi baseado no romance homônimo do escocês Alasdair Gray. Publicado em 1992, o livro “Poor Things” (ainda sem edição no Brasil) mistura ficção científica, fantasia, suspense noir e humor ácido. Ele é ambientado em Glasgow no Período Vitoriano. Além do sucesso editorial no Reino Unido, a obra foi finalista do Whitbread Award (depois de 2005, a premiação passou a se chamar Costa Book Award for Children´s Book) e conquistou o Guardian Fiction Prize daquele ano. Yorgos Lanthimos só conheceu o romance de Gray uma década e meia depois do lançamento nas livrarias britânicas. Tão logo concluiu a leitura da obra, o diretor grego quis conhecer o escritor e mostrar seu interesse pela adaptação da história da inusitada Bella Baxter, a divertida e revolucionária protagonista de “Poor Things”, para o cinema. A dupla se encontrou na Escócia em 2009. Vale a pena dizer que nessa época, Lanthimos era um cineasta com pouquíssima experiência – tinha dirigido apenas três longas-metragens, sendo um em coautoria –, mas já possuía ótimas credenciais – “Kynodontas” (2009), sua segunda direção solo, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (antigo nome da categoria agora chamada de Melhor Filme Internacional). E Alasdair Gray era, em 2009, um senhor de 75 anos que apesar de continuar publicando suas obras ficcionais, estava longe, muito longe dos dias mais criativos. O papo de Alasdair Gray e Yorgos Lanthimos rendeu e o romancista aceitou vender os direitos de adaptação do livro. Aproveitando a estadia do cineasta por Glasgow, Gray levou Lanthimos para conhecer algumas paisagens da capital escocesa que o inspiraram na ambientação do romance. A admiração dos artistas foi mútua. Enquanto o escritor assistiu a “Kynodontas” e se empolgou com o talento do jovem diretor, o cineasta grego afirmou ter se identificado com a proposta literária do experiente autor escocês. Misturar humor ácido, drama profundo, ficção científica, tragicomédia, fantasia e narrativa histórica é uma característica tanto do trabalho do artista das letras quanto do portfólio do artista do audiovisual. Apesar da empolgação de todos para a adaptação cinematográfica, o filme precisou esperar 15 anos para ganhar as telonas. Nesse meio tempo, Alasdair Gray faleceu em 2019, aos 85 anos. Ou seja, ele não viu o longa-metragem do seu romance ficar pronto. Por sua vez, Yorgos Lanthimos é atualmente um dos bons nomes do cinema europeu que trabalha em Hollywood. Além dos espetaculares “A Favorita” e “Pobres Criaturas” (se você não os assistiu, pare tudo o que estiver fazendo, inclusive a leitura deste post, e os assista AGORA mesmo!), ele dirigiu “O Lagosta” (The Lobster: 2015), vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2015, e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (The Killing of a Sacred Deer: 2017), indicado a Melhor Roteiro Original no Oscar de 2017. São muitos filmes de ótima qualidade na bagagem, né? Produção irlandesa coproduzida com estúdios da Inglaterra e Estados Unidos, “Pobres Criaturas” escancara a excelente fase do cinema irlandês no pós-pandemia. No ano passado, por exemplo, torci descaradamente para “Os Banshees de Inisherin” (The Banshees of Inisherin: 2022), um dos melhores filmes que vi nos últimos anos. Cheguei até apontar aqui na coluna Cinema (imagine se não!) que a produção anglo-irlandesa de Martin McDonagh era minha favorita à estatueta (adivinha o que aconteceu?). Caetano Veloso cantaria empolgado: “Alguma coisa acontece no meu coração/ só quando assisto aos novos filmes irlandeses/no duro drama cômico de seus longas/e do mórbido humor de seus diretores”. De curiosidade, “Pobres Criaturas” foi o primeiro filme de Yorgos Lanthimos a ter uma trilha sonora original. Ao invés de utilizar músicas comerciais como sempre fizera, o cineasta grego contratou dessa vez um compositor para criar canções especialmente para seu longa-metragem. O responsável por essa parte da produção cinematográfica foi Jerskin Fendrix, jovem músico inglês que já estreou no ofício com uma indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora. Por falar na equipe técnica, o irlandês Robbie Ryan ficou responsável pela fotografia (e levou para casa também uma indicação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles). Ryan já tem uma estatueta na prateleira do seu escritório pelo excelente trabalho realizado na fotografia de “A Favorita”. Se o time atrás das câmeras é competentíssimo, o que podemos dizer do elenco, hein? Além de Emma Stone, “Pobres Criaturas” tem Willem Dafoe (talvez um dos atores mais subvalorizados de Hollywood), o eterno Sargento Elias de “Platoon” (1987), Mark Ruffalo, de “Spotlight – Segredos Revelados” (Spotlight: 2016), Ramy Yossef, do seriado “Ramy” (2019-2022), Jerrod Carmichael, de “O Sermão da Montanha” (Sermon on the Mount: 2021), Suzy Bemba, de “De Volta à Córsega” (Le Retour: 2023), Kathryn Hunter, a Mrs. Arabella Figg de “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (Harry Potter and the Order of the Phoenix: 2007), Vicki Pepperdine, do seriado “Getting On” (2013-2015), Margaret Qualley, de Noviciado (Novitiate: 2019), e Christopher Abbott, de... de... de... Juro que não faço ideia quem ele seja e o que tenha feito antes deste filme. Orçado em US$ 35 milhões (uma ninharia para os padrões hollywoodianos, mas uma pequena fortuna para o cinema europeu), “Pobres Criaturas” foi gravado entre agosto e dezembro de 2021. Quase todas as cenas foram filmadas em um estúdio em Budapeste, na Hungria – algo que o espectador não pode imaginar por se tratar de um road story/road movie. A única exceção foi a passagem realizada em um salão de baile. No longa-metragem, ela ocorre no salão de um navio transatlântico. Porém, na realidade, a gravação foi feita em um prédio histórico da capital húngara. Por sinal, essa é uma das cenas mais engraçadas de “Pobres Criaturas”: Bella Baxter dança descontroladamente com o apaixonado Max McCandles, que não consegue controlar os ímpetos da namorada/amante. Apresentado ao grande público pela primeira vez em setembro de 2023 no Festival Internacional de Cinema de Veneza, o novo longa-metragem de Yorgos Lanthimos estreou nos cinemas norte-americanos e canadenses em dezembro de 2023. No circuito comercial europeu, ele chegou apenas em janeiro de 2024 e na América do Sul em fevereiro de 2024 (a exceção foi a Argentina, que o recebeu em janeiro). Essa antecipação para chegar às salas da América do Norte ainda em 2023 tem uma explicação plausível. Se não estreasse por lá até dezembro, o filme “Pobres Criaturas” não poderia concorrer ao Oscar deste ano. Com receio de perder algumas estatuetas por mera burocracia, adiantou-se os cronogramas de exibição nos Estados Unidos e no Canadá. No Brasil, a nova produção de Yorgos Lanthimos e Emma Stone vem apresentando ótima bilheteria. Segundo os dados do primeiro final de semana de fevereiro, “Pobres Criaturas” estreou na terceira posição entre os títulos mais vistos nos cinemas nacionais, com aproximadamente R$ 2,4 milhões de receita. Perdeu apenas para o superestimado “Todos Menos Você” (Anyone But You: 2023), que teve faturamento na casa de R$ 5,6 milhões, e o midiático “Nosso Lar 2: Os Mensageiros” (2024), com mais ou menos R$ 5,1 milhões em vendas. Nada mal para um título com viés muito mais cult do que comercial – competir com comédias românticas apimentadas e com produções religiosas é uma covardia em nosso país. O roteiro do filme “Pobres Criaturas” começa em Londres na época Vitoriana. Dr. Godwin Baxter (interpretado por Willem Dafoe) é um renomado e rico cientista que realiza vários experimentos médicos tanto no laboratório de sua mansão quanto na universidade onde leciona. Além da sua inteligência absurda e de seus conhecimentos clínicos muito à frente do tempo, o que mais chama atenção no médico-pesquisador já idoso é seu aspecto fantasmagórico. Ele é todo remendado, como se tivesse sido fruto de uma experiência científica. De tão horripilante que é (é quase um monstro esteticamente), o senhorzinho tem uma vida reclusa e solitária em sua casa na capital inglesa. Uma de suas pesquisas particulares mais ambiciosas envolve a jovem e linda Bella Baxter (Emma Stone). Há alguns meses, Dr. Godwin (a junção de God e Win em seu nome não é por acaso) tinha conseguido o corpo de uma mulher grávida tão logo ela se jogou do alto de uma ponte que cruzava o mar. Para realizar seus experimentos biológicos, é importante que se diga, ele comprava muitos cadáveres. Dessa vez, contudo, a suicida chegou ainda com vida ao laboratório residencial do cientista. Querendo salvar a moça e a criança alojada no ventre materno das inevitáveis mortes, Dr. Godwin Baxter decidiu fazer um experimento para lá de heterodoxo. Ele extraiu o cérebro do feto e o inseriu onde ficava o cérebro da mãe. Assim, conseguiu salvar o corpo da mulher (que ainda funcionava plenamente, apesar da queda no mar) e deu a chance para que seu/sua filho/filha agora recém-nascido(a) pudesse se desenvolver (a mente da criança funcionava perfeitamente). O resultado concreto dessa prática médica inovadora foi a criação de um indivíduo único: a massa encefálica era de um nenê e o corpo era de uma pessoa adulta. A criatura nem um pouco usual gerada pelo experimento do Dr. Godwin foi chamada de Bella Baxter. Ao dar seu sobrenome à jovem, o médico-cientista indicava que a criaria como se fosse uma filha adotiva. Assim, conhecemos Bella, que vive explorando todos os cômodos da mansão londrina do doutor. Ela ainda possui a mentalidade de uma criança pequena, mas está no corpão de uma mulher adulta e charmosa. A contradição não pode ser mais curiosa. A moça vive todas as fases da infância, enquanto descobre o mundo por um ponto de vista libertário e sem filtros sociais. Criada em casa pela supervisão da babá, que acumula as funções de governanta doméstica, Bella Baxter precisa aprender coisas básicas como andar, falar, fazer suas necessidades fisiológicas, comer, beber, sociabilizar, controlar as emoções etc. Acompanhar seu desenvolvimento é ao mesmo tempo hilário e assustador. Ela é a versão gigantesca de um bebê. Empolgado com o sucesso inicial da experiência e analisando a situação pela perspectiva da ciência, Dr. Godwin Baxter contrata Max McCandless (Ramy Youssef), um de seus melhores alunos na universidade, como assistente. Cabe ao rapaz anotar diariamente o progresso cognitivo, físico e emocional de Bella. Assim, os dois jovens (o estudante universitário e a menina-moça) passam os dias juntos. Rapidamente, o rapaz se apaixona pela filha do médico. A beleza e a espontaneidade de Bella são mesmo cativantes, apesar de seu comportamento sempre caótico e imprevisível. Vendo os sentimentos do assistente aflorarem e entendendo que Bella começa a entrar na fase mental equivalente à puberdade, Dr. Godwin Baxter pergunta para Max McCandless se ele não quer se casar com sua filha-adotiva. É claro que o rapaz quer! Ele está de queixo caído pela estonteante Srta. Baxter. Porém, não há tempo para eles prepararem o casório. Com o acentuado desenvolvimento mental da moça, ela não quer mais ficar restrita ao ambiente doméstico. Ela anseia conhecer o mundo, viver mais experiências e interagir com pessoas de fora do lar, algo terminantemente proibido pelo pai. Dr. Godwin teme que a sociedade se aproveite da ingenuidade e da pureza de Bella Baxter. Por isso a superproteção, que beira o aprisionamento na cabeça da jovem. Inconformada com a situação, Bella foge de casa na primeira oportunidade. Ela se aproveita que Duncan Wedderburg (Mark Ruffalo), o advogado que seu pai havia contratado para justamente ver as questões legais do casamento, se apaixonou por ela à primeira vista. Assim, o convence a levá-la para fora da residência. A dupla não só sai da mansão do Dr. Godwin como parte para uma viagem em Lua de Mel para Lisboa. Inicia-se, a partir daí, a experiência surrealista de Bella Baxter pelo mundo adulto. Como namorada (ou amante, como preferir!) de Duncan, a moça vivencia uma série de situações que vão da comédia pastelão até a reflexão filosófica, passando pelo drama social, por aventuras sexuais, pela disruptura social e pelo engajamento feminista. Subvertendo a lógica do mundo dominado por homens e com o predomínio das máscaras sociais, a espontânea e carismática jovem provoca um grande rebuliço por onde passa, para desespero principalmente de Duncan Wedderburg, Dr. Godwin Baxter e Max McCandless. Além de belíssimo, o filme é sensível e muito, muito sagaz. De certa forma, Bella Baxter é uma mulher à frente do seu tempo (o que é uma verdade absoluta se considerarmos que ela é de uma geração posterior – lembremos que sua mentalidade é de um bebê que se desenvolveu rapidamente no corpo materno). Com seu comportamento progressivo e por vezes revolucionário, a protagonista transforma radicalmente a vida de todos que estão ao seu redor, o que gera situações realmente cômicas. “Pobres Criaturas” tem quase duas horas e meia de duração. É, portanto, um filme longo. Se você não estiver preparado para a extensa sessão de cinema nem gostar de experiências cinematográficas diferenciadas, talvez se incomode um pouco com a proposta ousada de Yorgos Lanthimos. Falo isso porque vi reações distintas da plateia na sala de exibição em Buenos Aires na sexta-feira retrasada. Teve o grupo que ficou radiante (me insiro nessa parcela dos espectadores, tá?!) e teve o grupo que saiu bastante incomodado (ao ponto de não esconder de ninguém o desapontamento). Em determinado momento do longa-metragem, deu para ouvir o ronco de alguém sentado lá na frente. Pelo barulho, a pessoa estava em um sono profundo. Talvez ela não tenha gostado tanto assim do filme que concorre ao Oscar. No meu lado esquerdo, havia um grupinho de cinco adolescentes. Achei que eles não fossem curtir tanto essa produção (seria preconceito da minha parte? talvez). Mas pela reação empolgada deles no fim da sessão, eles adoraram. Saíram comentando vários aspectos de “Pobres Criaturas” como se discutissem lances de uma partida de futebol eletrizante. No meu lado direito, havia um jovem casal. Foi nítido o constrangimento deles nas cenas de nudez e sexo de Emma Stone (como sou apaixonado pela atriz, eu é quem deveria ficar com ciúmes!). Achei muito engraçado o pudor deles, o que só aumentou a graça do filme que brincava justamente com esse pseudomoralismo da sociedade. Como já disse no início deste post da coluna Cinema, adorei “Pobres Criaturas”. Para mim, ele é disparado o melhor filme da temporada cinematográfica de 2023 (títulos lançados no ano passado nos Estados Unidos – para seguirmos os padrões da indústria). Daí minha torcida por ele no próximo Oscar. Esse longa-metragem possui vários aspectos que merecem nossa análise mais pormenorizada. Contudo, se tivesse que resumi-lo em uma única frase diria: é um filme que alia história divertida, roteiro interessantíssimo, ótimo ritmo narrativo, efeitos estéticos e visuais apurados, trama com excelente subtexto (que nos faz refletir), temática moderna (sem ser panfletário ou lacrador) e excelentes atuações. Pensando bem, o que mais poderíamos querer de uma produção da sétima arte, hein?! Para começo de conversa (ou de análise, porque nossa conversa já vai longe...), não dá para falar de “Pobres Criaturas” e não citar o desempenho ABSURDO de Emma Stone. Ela não apenas dá um show no papel mais difícil de sua carreira como parece ter tirado de letra os desafios interpretativos que assustariam dez entre dez artistas. Se essa não é a prova cabal que estamos diante da melhor atriz da atualidade, não sei mais o que esperar de um(a) intérprete. Pode ser papo de um fã apaixonado? Pode. Mas também é a opinião de um crítico de cinema que já viu muitas, mas muitas produções e raramente fica embasbacado com a atuação individual de alguém na tela (ou no palco). Juro que o que Stone fez em “Pobres Criaturas” está no nível de Vivien Leigh em “...E o Vento Levou” (...Gone with the Wind: 1940), Gloria Swanson em “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard: 1950), Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany´s: 1961), Bette David em “O que terá Acontecido a Baby Jane?” (What ever Happened to Baby Jane?: 1962), Bibi Andersson em “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam” (Persona: 1966), Kathy Bates em “Louca Obsessão” (Misery: 1990), Fernanda Montenegro em “Central do Brasil” (1998), Adéle Exarchopoulos em “Azul é a Cor Mais Quente” (La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2: 2013) e Julianne Moore em “Para Sempre Alice” (Still Alice: 2014). Conheci o trabalho de Emma Stone no começo de sua trajetória no cinema, quando ela ainda fazia filmes bobinhos, mas encantadores. “Zumbilândia” (Zombieland: 2009), “A Mentira” (Easy A: 2010) e “Amor a Toda Prova” (Crazy, Stupid, Love: 2011) são bons exemplos dessa fase digamos mais comercial e leve. Depois, Stone migrou para produções de enorme sucesso de público e, principalmente, de crítica. Foi aí que meu coraçãozinho começou a bater mais forte. Se em “Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância” (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance: 2014) ela foi coadjuvante (de luxo), em “Magia ao Luar” (Magic in the Moonlight: 2014) e “O Homem Irracional” (Irrational Man: 2015) arrebentou como coprotagonista, mesmo tendo como companhia colegas mais tarimbados (Colin Firth e Joaquin Phoenix, respectivamente). O sucesso definitivo chegou com a inesquecível Mia Dolan, de “La La Land – Cantando Estações”. Por esse papel, Emma Stone ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2017 e entrou para sempre no hall da fama do cinema norte-americano. Foi nesse momento também que ela entrou no âmago do meu combalido e periclitante coração. Depois disso, parece que Stone só cresceu em atuação e em escolhas artísticas. Em “A Favorita”, brilhou ao lado de Olivia Colman e Rachel Weisz. Juro que não me lembro de ter visto um trabalho interpretativo tão contundente nos últimos vinte anos como o deste trio de atrizes de “A Favorita”. Não é errado pensarmos que como Abigail Masham, a Baronesa de Masham, Emma Stone esteve até mesmo melhor do que em “La La Land”. Confesso que não imaginava como a norte-americana poderia se superar e mostrar um trabalho ainda mais brilhante. Mas ela conseguiu. Em “Pobres Criaturas”, Emma Stone arrebentou! Nunca é fácil fazer cenas de sexo, nudez e escatologia. Quando se coloca no receituário a necessidade de aliar humor, drama, deboche e crítica social, as coisas podem ficar ainda mais difíceis. Não para Stone, que parece ter tirado de letra a complexidade de sua personagem. O que mais gostei foi da naturalidade da atriz em cena. Ela age com grande verossimilhança (o caminhar trôpego e a espontaneidade infantil de Bella Baxter no início do filme são simples e precisos) e comicidade (sua volúpia sexual e sua curiosidade de descobrir o mundo são naturais e admiráveis). O mais legal foi notar que “Pobres Criaturas” não é o filme de um só talento interpretativo. O elenco inteiro se saiu muitíssimo bem. O trio masculino que sofre com a ousadia e a irreverência de Bella merece também nossos rasgados elogios. Willem Dafoe está mais uma vez impecável no papel de pai adotivo da protagonista (uma mistura de Geppetto e Dr. Henry Frankenstein). Mark Ruffalo rouba a cena em vários momentos ao dar um ar tragicômico ao homem apaixonado pela protagonista (sua personagem não entende as atitudes revolucionárias da moça). E Ramy Yossef confere um ar bobão e fraco ao par romântico de Bella (uma ótima referência para o mundo masculino em tempos de empoderamento feminino). Quando digo que os atores e atrizes estão muito bem em “Pobres Criaturas”, talvez isso fique mais nítido quando analisamos a atuação individual do elenco de apoio. Mesmo com presenças pontuais, Jerrod Carmichael, Suzy Bemba, Kathryn Hunter, Vicki Pepperdine, Margaret Qualley e Christopher Abbott conferem personalidade única aos seus papéis, enriquecendo ainda mais a história e a produção audiovisual. Outra questão brilhante deste longa-metragem, que acredito não ter ainda mencionado de um jeito tão direto, é o seu roteiro. Eita história bem construída esta, senhoras e senhores!!! O que mais gostei foi da riqueza do seu subtexto. Se a trama principal tem a capacidade de empolgar o público em busca de um entretenimento mais popular (como os adolescentes da minha sessão), as subtramas conferem profundidade e riqueza à narrativa cinematográfica (para quem busca um produto artístico mais culto e refinado). Juro que fiquei com vontade de assistir mais uma ou duas vezes “Pobres Criaturas” para pegar todas as citações e referências. É óbvio que é possível assimilar muita coisa em apenas uma sessão. Porém, fiquei com a sensação de que para compreender a enorme quantidade e complexidade de temas debatidos, alguns indiretamente, a repetição se faz necessária. Por exemplo, a questão do Feminismo salta aos olhos. Enquanto quase todos os homens do filme querem podar as vontades e restringir os movimentos de Bella Baxter, a moça segue impassível em direção aos seus anseios mais íntimos. Assim, a protagonista vive novas experiências, conhece os quatro cantos do mundo e se lança em experiências prazerosas. Sua liberdade sexual é talvez a face mais polêmica para o universo machista da época. Quem melhor representa a incompreensão masculina diante de uma mulher livre, decidida, empoderada e sem amarras sexuais é Duncan Wedderburg. No começo ele é pintado como um advogado canastrão e sedutor. Isso até se apaixonar verdadeiramente por Bella. Nas mãos da jovem com postura revolucionária, ele se torna um tapado, cheio de inseguranças e complexos. É muito divertido assistir a essa transformação (ou desconstrução) do rapaz. Contudo, “Pobres Criaturas” não é apenas um manifesto feminista inteligente e sarcástico. O filme também trata de outros temas de um jeito muito interessante. Estão no subtexto do roteiro questões como Existencialismo, religião, avanço tecnológico, máscaras sociais, choques entre conservadorismo e progressismo, ética, sexualidade, casamento etc. Se você gosta de discussões de altíssimo nível filosófico, saboreie os diálogos de Bella com Harry Astley e Swiney, a dupla de turistas do navio transatlântico. Não apenas a história é excelente (e muito engraçada!), mas a maneira como ela foi contada é ótima. Isso fica evidente no ritmo narrativo de “Pobres Criaturas”. Para um filme de aproximadamente duas horas e meia, ele até que passou voando. Foram poucas as passagens cansativas (sim, elas existem, mas são exceção). Quando fui ver, a sessão cinematográfica já tinha acabado. Incrível! Falo por experiência própria: não gosto de ficar horas e horas sentado na sala de cinema. Dessa vez confesso que o tempo voou durante a exibição do longa. Nem mesmo o meu ciático, conhecido por ser um reclamão de primeira hora, chiou. Juro que para dormir nesse filme, a pessoa tem que estar com muito, muito sono (parabéns para quem conseguiu esse feito na sexta-feira retrasada no Multiplex Belgrano!). O que pode ter ajudado na boa velocidade narrativa foi a divisão da história em partes – como se fosse um livro (conjunto de capítulos) ou uma peça de teatro (formado por três atos). Cada segmento de “Pobres Criaturas” (juro que perdi a conta de quantas partes são: cinco ou seis talvez) possuiu características próprias. É como se tivéssemos vários curtas-metragens dentro do longa-metragem. Em cada fragmento, acompanhamos um aspecto da vida de Bella Baxter. Ela começa a produção cinematográfica aprendendo as habilidades básicas dos seres humanos, como andar, comer, defecar e falar. É afinal um bebê (do ponto de vista mental). À medida que vai se desenvolvendo psicologicamente, Bella precisa controlar os sentimentos e a violência primitiva. Em seguida, há as descobertas sexuais. Mais à frente no longa-metragem, a moça aumentará a interação social, se lançará ao estudo da filosofia, se preocupará com a desigualdade social do mundo e terá que trabalhar. O que torna “Pobres Criaturas” um filme tão brilhante é que cada uma dessas fases da vida de Bella Baxter possui características audiovisuais distintas. A cor, a música, os cenários, o figurino e até o enquadramento das câmeras mudam à medida que os desafios da jovem se transformam. Essa peculiaridade é mais nítida no início do longa. Enquanto a moça é prisioneira do Dr. Godwin Baxter, as cenas possuem muitas sombras, temos um cenário mais antigo, predomina-se o preto nos objetos e no figurino e a melodia é mais pesada. Quando ela vai para Lisboa com Duncan Wedderburg em uma espécie de Lua de Mel proibida (eles não se casaram), as cenas se iluminam, as cores se tornam mais quentes (vermelho, laranja e amarelo, principalmente) e a música se torna leve. Há até elementos futuristas no cenário, indicando o quão moderno e revolucionário é o comportamento de Bella Baxer. É preciso tirar o chapéu para “Pobres Criaturas” e reconhecer que ele foi muito bem filmado. A integração de música, fotografia e figurino a um roteiro muito bem escrito enche nossos olhos. É por isso que não me canso de repetir: temos aqui a melhor produção do ano passado! Chega até a ser difícil acharmos algo negativo para criticar. Por qualquer aspecto que atentamos, o longa-metragem se descortina impecavelmente. Outro ponto alto do filme é a sua forte intertextualidade literária e cinematográfica. É claro que a história de “Pobres Criaturas” foi inspirada na trama de “Frankenstein” (Darkside), cânone de terror de Mary Shelley. A diferença é que o monstro agora é uma mulher bonita e jovem e não um homem feio e de tons fantasmagóricos. As mudanças de gênero e de estética, apesar de sutis, implicaram em uma série de nuances dramáticos que trazem graça, beleza e sagacidade à narrativa cinematográfica. O mais interessante da produção de Yorgos Lanthimos é que ela soube explorar muito bem essa intertextualidade. “Pobres Criaturas” faz referências diretas ao filme original de “Frankenstein”, de 1931. Isso fica mais claro nas cenas das aulas do doutor na universidade e no “nascimento” de Bella, que emulam as tomadas de câmera, a ambientação noir (com muitos jogos de sombra e escuridão) e até os efeitos visuais do clássico de James Whale. Certamente os cinéfilos mais saudosistas vão se emocionar com essa homenagem velada (ou não tão velada assim!). De principal ponto negativo de “Pobres Criaturas”, posso dizer que tive em algumas cenas a forte sensação de déjà vu. Essa história é de certa maneira o inverso do enredo de “O Curioso Caso de Benjamin Button” (Dracena), famoso conto de Francis Scott Fitzgerald que também ganhou uma excelente adaptação para o cinema. Se formos buscar no cinema europeu contemporâneo, o drama de Bella Baxter também pode ser comparado (com o devido distanciamento) ao dos protagonistas de “EO” (IO: 2022) e “Border” (Gräns: 2018). Digo isso para mostrar que apesar de excelente, talvez a história retratada por Lanthimos na telona não seja tão original quanto poderíamos supor à primeira vista. Confira, a seguir, o trailer de “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023): Como disse, “Pobres Criaturas” mistura humor, drama, erotismo, violência, crítica social, intertextualidade artística (cinematográfica e literária), escatologia, ficção científica, filosofia existencialista, ambiente noir e, ufa, feminismo. Se você gosta desse receituário e preza por narrativas inteligentes, histórias originais, interpretações magníficas e o trabalho minucioso dos artistas do audiovisual (música, fotografia, figurino e efeitos visuais, por exemplo, estão impecáveis) certamente curtirá o novo longa-metragem de Yorgos Lanthimos, que acabou de entrar no hall dos meus cineastas contemporâneos favoritos. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Duas Guerras Surreais - A nova novela fantástica de Graziella Moraes
Publicada em ebook em setembro de 2023 e em versão impressa em janeiro de 2024, a trama surrealista da escritora luso-brasileira mistura conflitos familiares, violência bélica e elementos sobrenaturais em uma narrativa poética, rica e surpreendente. Neste Carnaval, reli “Duas Guerras Surreais” (Publicação Independente), a mais recente novela de Graziella Moraes. Conheci essa obra, para ser sincero com os leitores do Bonas Histórias, em setembro do ano passado. Justamente quando me mudava para Buenos Aires, Graziella me enviou de maneira muito simpática seu então recém-lançado ebook. Ele estava concorrendo ao 8º Prêmio Kindle de Literatura e me pareceu uma leitura agradável para se fazer no vai-e-vem dos aeroportos. Nesse caso específico, prefiro as narrativas curtas (coletâneas de contos) e médias (novelas) às longas (romances). E não é que foi uma ótima pedida mesmo! Gostei tanto deste título que o coloquei na minha lista de releituras para analisar depois com maior profundidade. Foi o que fiz na última Quarta-feira de Cinzas. Aí ficou impossível não fazer um post completo sobre ele na coluna Livros – Crítica Literária. “Duas Guerras Surreais” é uma trama fantástica que apresenta os dilemas íntimos de uma jovem que está saindo da adolescência e entrando na vida adulta. Ela vive em uma região conflagrada por conflitos bélicos intermináveis e inexplicáveis. Com pitadas de Surrealismo, uma excelente camada conotativa e uma narrativa ao mesmo tempo ágil e muito bem escrita, essa novela apresenta muitas questões profundas e contemporâneas. Sua versão física está disponível para compra desde o começo do ano. Foi esse texto que li agora. Se na primeira leitura conheci o material do ebook, agora foquei no conteúdo do impresso, que passou por uma ampla revisão e tem elementos adicionais à versão eletrônica. Antes de falar do livro e do trabalho literário de Graziella Moraes, preciso compartilhar um pensamento que me ocorreu durante as leituras (no plural porque foram mais de uma) de “Duas Guerras Surreais”: como os roteiristas de televisão e cinema escrevem bem ficção literária, hein?! Antes que alguém possa dizer que isso é uma obviedade, alerto que não é não. Produzir um roteiro de uma trama audiovisual é completamente diferente de desenvolver uma narrativa literária. Enquanto o primeiro tipo de história é passado essencialmente por elementos visuais – pode não haver nenhuma ou pouquíssimas palavras envolvidas, como no filme “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018) –, o segundo é estritamente textual – com exceção da capa, que é apenas ilustrativa, não há mais nenhum elemento não-textual. Essas mudanças transformam completamente o perfil da criação artística. A diferença é comparável a quem pratica volleyball e futebol. Ninguém exige que um atleta de alto nível de uma modalidade esportiva tenha excelente desempenho em outra. Por quê? Porque apesar de serem esportes praticados com bolas e em equipes, são atividades totalmente distintas, que exigem características e habilidades específicas de seus jogadores. Com a produção de roteiros e livros é a mesmíssima coisa! Parecem artes siamesas na visão do grande público (são praticadas com bola/texto e com equipes/ficção), mas são inteiramente diferentes. Fiz essa explicação para dizer que tenho encontrado nos últimos anos alguns cineastas/roteiristas com enorme talento para a literatura ficcional. Como não domino nenhum dos dois ofícios artísticos (e olha que não foi por falta de tentativa), fico apaixonado por quem domina com desenvoltura as duas áreas. Por exemplo, posso citar dentro da literatura brasileira, além de “Duas Guerras Surreais”, de Graziella Moraes, “Refém da Memória” (Produção Independente), de Helio Martins Jr, e “Diário de Um Exorcista” (Generale), de Renato Siqueira e Luciano Milici, como outros livros de cineastas que me encantaram pela qualidade excepcional. Na minha visão, o profissional que vem do cinema e da televisão, por não poder rodar todas as cenas que deseja no audiovisual, algo que envolve naturalmente um custo elevado de filmagem e de pós-produção, analisa muito bem o que será colocado no papel. E esse hábito seletivo é mantido mesmo no ofício literário. Aí suas narrativas literárias ganham o tamanho certeiro. Não são gordinhas demais (o que poderia cansar os leitores e tornar as tramas enfadonhas), nem são demasiadamente magras (o que prejudicaria a contação da história e a experiência de leitura). Esse foi exatamente um dos aspectos que mais gostei de “Duas Guerras Surreais”. A novela tem o tamanho exato para encantar os leitores mais exigentes, o que demonstra a maturidade e o requinte técnico de Graziella Moraes. Em suma, a trama do novo livro não é nem excessiva nem reduzida. Ela está simplesmente perfeita em extensão e profundidade! Nascida em Figueira da Foz, cidade da região central de Portugal próxima à Coimbra, Graziella morou em Lisboa e desde a adolescência vive no Rio de Janeiro. É, portanto, uma cidadã luso-brasileira. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tendo estudado interpretação cênica com Syd Field e Luiz Carlos Maciel, ela é atualmente roteirista de cinema e televisão. Entre seus trabalhos no cinema estão a produção dos roteiros dos curtas-metragens “Os Super Moleques” (1994), vídeo educativo dirigido por Walter Lima Junior, e “Estado de Alerta” (2017), drama ambientado no Rio e que tem direção de André Mattos. Na televisão, trabalhou na Rede Globo nos roteiros do seriado ficcional “Mulher” (1998-1999) e da segunda versão do jornalístico “Linha Direta” (1999-2007). Fã de Isabel Allende, Fernando Pessoa, José Saramago e Jorge Amado, Graziella Moraes estreou na literatura em maio de 2020 com o romance “O Escambau” (Chiado Books). Nessa trama ambientada na cidade fictícia de Foz, acompanhamos as aventuras investigativas de Maria, uma retratista de rostos que trabalha nas ruas e se divide entre a amizade com o traficante Lampião Urbano e as notícias que são transmitidas pelos programas jornalísticos de televisão com pegada popularesca. Exatamente um ano mais tarde, a autora lançou seu segundo título, “Tutatis” (Chiado Books). Nesse novo romance, Graziella aproveita-se do ambiente, da geografia e das personagens do título anterior para ampliar o universo narrativo de Maria. Agora, a heroína da cidade de Foz está envolvida com os dramas de Ike, um rapaz angustiado pelo sonho de ser jogador de futebol e pela gana de ganhar uma fortuna rapidamente com o tráfico de drogas. A grande novidade desse título é que pela primeira vez a escritora luso-brasileira abraça a Fantasia, gênero que não abandonaria mais (pelo menos está com ele até agora). Os dois livros seguintes de Graziella Moraes foram as novelas “O Bem Cruel” (Publicação Independente), de março de 2022, e “Assassina Inconsciente” (Publicação Independente), de janeiro de 2023. As novidades dessa vez foram: a decisão de não trabalhar mais com editoras comerciais; canalizar as vendas nas plataformas da Amazon (tanto na Loja Kindle quanto nos serviços de produção dos livros físicos sob demanda); seguir com a Fantasia; e a substituição das narrativas longas pelas medianas. Em “O Bem Cruel”, acompanhamos Giovana, uma adolescente que se vê frustrada pela partida do primeiro namorado para o exterior e a chegada de um pastor protestante à sua cidade. O religioso vai morar com a mãe da moça, mas parece sentir atração sexual é pela filha da namorada. E “Assassina Inconsciente” é o thriller psicológico narrado por Camile, uma jovem órfã moradora de uma comunidade carente. A protagonista tem lembranças vagas da noite em que matou Príncipe, seu namorado. O rapaz homofóbico confessou ter assassinado a melhor amiga de Camile só porque ela era gay. Sem ter certeza do que se passou naquela noite, a protagonista se culpa por ser uma criminosa. Portanto, “Duas Guerras Surreais” é o quinto título literário de Graziella. E ouso dizer que este é disparado seu melhor trabalho na narrativa ficcional até aqui. Se você leu algum livro anterior da autora (eu, por exemplo, li “Assassina Inconsciente” na época da sua publicação, conforme revelado no post dos lançamentos de março e abril de 2023 da coluna Mercado Editorial), saiba que não há comparação entre o que foi entregue antes com o que está sendo apresentado agora. Teria a autora chegado à maturidade no ofício do fazer literário em “Duas Guerras Surreais”? Desconfio que sim. Até brinquei com ela dizendo em um e-mail: não sei o que você fez de diferente no processo de produção desta obra, mas funcionou muitíssimo bem! Não apenas temos uma narrativa incrível, como ela é digna de premiação. Sem muito esforço, poderia colocá-la no top 10 das melhores ficções que li no ano passado. Por isso, fiquei com a expectativa que esta publicação poderia ter sido até mesmo finalista da última edição do Prêmio Kindle de Literatura, evento que a cada ano se mostra melhor e mais competitivo. Qualidade para isso “Duas Guerras Surreais” tem de sobra. Porém, a novela acabou preterida nas fases finais do concurso. O que não é nenhum demérito, já que normalmente os indicados e os vencedores são obras espetaculares. Vire e mexe acabo analisando algumas delas na coluna Livros – Crítica Literária, como “Dias Vazios” (Nova Fronteira), de Barbara Nonato e vencedor do IV Prêmio Kindle de Literatura de 2020, e “Machamba” (Nova Fronteira), de Gisele Mirambai e vencedor do I Prêmio Kindle de Literatura de 2017. A ideia para escrever “Duas Guerras Surreais” surgiu no início de 2023, quando o conflito entre Rússia e Ucrânia completava um ano de duração. Naquele momento, Graziella Moraes estava lançando “Assassina Inconsciente” e começava a pensar no enredo de seu próximo título. As cenas da invasão russa e as imagens de destruição na Europa mexeram com a escritora, que passou a pesquisar sobre aquele entrevero e os tempos bélicos de maneira geral. Em seu trabalho investigativo, a portuguesa de alma carioca incluiu a leitura de “Nada de Novo no Front” (L&PM), romance de Erich Maria Remarque que foi recentemente adaptado para uma belíssima produção cinematográfica, estudou várias obras de História da relação russo-ucraniana e acompanhou matérias jornalísticas com depoimentos reais de soldados envolvidos no campo de batalha. Tão logo encerrou os estudos exploratórios, Graziella deu início à produção textual do novo livro. Ao contexto bélico do cenário, ela acrescentou o drama de uma jovem imatura que presencia os conflitos conjugais cada vez mais intensos dos pais (daí a referência às duas guerras do título – uma entre os países das personagens e outra na esfera doméstica). Afinal, o que é mais perigoso: estar em uma região conflagrada por exércitos inimigos em constantes batalhas armadas ou viver em uma casa onde os pais se odeiam, não querem mais viver juntos e convivem com a violência doméstica há muitos anos?! Para o enredo ganhar ares mais metafóricos (e alegóricos), a autora não definiu um espaço temporal determinado nem um espaço geográfico específico. Novamente, temos aqui mais um acerto que trouxe brilhantismo ao material. Entre a ideia da novela e o lançamento do ebook foram aproximadamente seis meses. Curiosamente, quando a obra chegou aos leitores da Loja Kindle e participava do Prêmio Kindle de Literatura, explodiu uma nova guerra: Israel versus Gaza/Palestina (ou deveríamos dizer Israel versus Hamas?). Para quem lê hoje “Duas Guerras Surreais”, a sensação é que a trama do livro se passa mais no Oriente Médio do que no Leste Europeu. Eu, pelo menos, tive essa impressão: até a geografia árida ou semiárida da obra fictícia combina perfeitamente com os desertos do Neguev e da Judeia. Contudo, é importante dizer que a referência criativa de Graziella Moraes foi mesmo a Guerra Russo-ucraniana. O enredo de “Duas Guerras Surreais” se passa na região fronteiriça entre os países Xis (de bandeira azul e que fala xislanês) e Ípsilon (de bandeira vermelha e que fala ípsilianês). As nações vizinhas vivem em eterno conflito bélico, apesar da proximidade histórica, cultural e social de seus povos. De tão acostumada às mortes, à violência e a movimentação dos exércitos, a maioria dos cidadãos acaba levando uma vida normal. Um bom exemplo disso é Leonor Vilela, uma jovem de 18 anos recém-completados. É ela quem narra a história. A moça é filha de Augusto Vilela, um importante desembargador da Justiça, e de Filomena Vilela, uma ex-professora de História que abandonou o magistério tradicional para dar aulas de Teatro. A família vive em Xis. Diferentemente do que poderíamos imaginar, o clã dos protagonistas é bem disfuncional. Leonor vive alcoolizada. Ela não trabalha nem estuda. Depois de passar o dia perambulando de carro, fazendo compras, fofocando com as amigas e reclamando da vida, sai para beber à noite e se divertir um pouco. Aí entorna todas e se lança em aventuras sexuais sem compromisso com parceiros eventuais. No passado, a personagem principal da novela adorava ballet e sonhava em ser bailarina. Entretanto, o alcoolismo afetou seu controle motor e ela abandonou a dança há muito tempo. Leonor parece culpar a mãe por sua infelicidade. Imatura, a jovem só sabe reclamar e se dizer injustiçada. Enquanto mostra ódio pela matriarca, ela adora o pai. Ele mima a filha com enorme devoção. Assim, a garota ganha um carro esportivo novinho em folha. Não falta dinheiro para que possa passear dia e noite e que beba sem limites. Ao mesmo tempo que demonstra enorme dedicação às vontades da rebenta, Augusto Vilela controla rigorosamente cada passo de Leonor, em uma invasão de privacidade que beira a obsessão. Paradoxalmente, a moça não se importa. Ela gosta tanto do pai e é tão grata pelos seus mimos, que não liga nem um pouco em ser vigiada o tempo inteiro. Em mais uma madrugada de bebedeira, Leonor chega embriagada em casa e encontra a mãe de malas prontas na porta. Filomena não aguenta mais sofrer com a violência doméstica do marido e irá fugir. Há anos, Augusto a espanca impiedosamente. Ela só não abandonou o lar até hoje para não se separar da filha. Contudo, agora Leonor é maior de idade e não precisa de tantos cuidados maternos. Assim, Filomena telefonou para seu amigo Maci, uma espécie de bruxo, para levá-la embora para Ípsilon. A dupla vai atravessar a fronteira naquela manhã para ficar o mais distante possível de Augusto, que certamente não irá gostar de saber do abandono da mulher. A decisão da mãe revolta Leonor. Ela acha que Filomena está sendo injusta e desleal com o pai. Onde já se viu abandonar a casa, o casamento, as responsabilidades domésticas e a família em uma decisão passional no meio da madrugada?! Depois de brigar com a fujona, Leonor fica indecisa se deve partir para o novo país com a mãe (e com Maci) ou se deve ficar ao lado do pai (que com certeza continuará a paparicando ilimitadamente). O que fazer? Desacostumada a tomar decisões importantes, é uma jovem extremamente infantil e imatura, a narradora-protagonista espera o pai retornar para casa para agir. Pensando em formas para protelar a escolha, Leonor pede que Augusto a leve até a fronteira de Xis e Ípsilon. Até lá acredita que terá uma ideia do que fazer. Obviamente, o pai insiste para que sua queridinha permaneça com ele. Apesar da pressão paterna, Leonor se muda para um vilarejo chamado Refúgio na nova nação. Ela vive ao lado da mãe e de Maci. Aquela localidade é uma espécie de zona amistosa da guerra. Ali são enterrados os mortos dos dois lados do conflito e os dois exércitos podem descansar sem preocupação. Filomena é, inclusive, professora de Teatro dos soldados. Na nova residência, onde a guerra se faz ainda mais presente, Leonor precisará amadurecer. Ela terá que tratar do alcoolismo e trabalhar. Ao mesmo tempo, encontrará o primeiro amor. Em meio a tantas descobertas, a jovem ficará entre a eterna disputa entre Augusto e Filomena. Ele não quer assinar a papelada do divórcio e quer a família de volta para Xis. E Filomena quer a separação formal para seguir a vida em Ípsilon. Será que com a chegada da maturidade, Leonor verá a briga dos pais por outra perspectiva? E até onde poderá chegar o ímpeto de Augusto Vilela em ter “suas mulheres” outra vez por perto? As respostas para esses questionamentos reservam surpresas de tirar o fôlego. “Duas Guerras Surreais” é um livro curtinho. Por isso, o vejo mais como uma novela do que como um romance – algo que vou discorrer nos próximos três parágrafos. Ele tem 136 páginas, que estão divididas em 12 capítulos. Há também um breve prefácio de Sérgio Marques, autor e roteirista de seriados de televisão. O prefácio é justamente uma das novidades da versão impressa (a outra novidade é a ampla revisão narrativa e idiomática que a publicação passou na virada de ano). Quando li o ebook em setembro, não havia a introdução de Marques. Acho que a edição eletrônica de “Duas Guerras Surreais” ainda não foi atualizada de acordo com as mudanças promovidas pela autora nesse início de 2024. Por isso, na dúvida, leia a edição impressa. Até o início do ano, havia uma demora para a entrega da publicação física aos leitores brasileiros. O serviço de produção sob encomenda da Amazon era feito nos Estados Unidos e levava entre 30 e 40 dias. Porém, a expectativa é que esse processo fique mais rápido com o estabelecimento de um estoque pela Amazon Brasil. Aí valerá muito a pena ter a versão física de “Duas Guerras Surreais”! Levei aproximadamente duas horas para concluir a releitura deste título na noite da Quarta-feira de Cinzas (por mais que o Carnaval de Saavedra seja um dos mais animados de Buenos Aires, ainda assim é um Carnaval portenho, senhoras e senhores!). Foram duas sessões de uma hora de leitura cada. É curioso que alguns autores não gostam quando classifico suas obras como sendo novelas – ainda mais quando insistem em chamá-las de romances. Não sei se Graziella Moraes irá se incomodar com isso (afinal, está grafado bem grande na capa de “Duas Guerras Surreais” a frase: “Um Romance de...”). A questão é que a classificação não é qualitativa (existem romances bons e ruins, assim como há novelas boas e ruins) e sim quantitativa. De acordo com a Teoria Literária, religião (ou ciência, como preferir!) que professo há alguns bons anos, as narrativas ficcionais são divididas de três maneiras segundo sua extensão e complexidade. Os contos são histórias curtinhas (de poucas páginas) e com baixa complexidade narrativa (possuem poucas personagens e um único conflito). São lidas em alguns minutos (não passa de uma hora). As novelas são tramas um pouco maiores (de 80 a 160 páginas) e com uma complexidade narrativa mediana (têm um número de personagens maior que os contos e podem ter mais de um conflito dramático). São lidas em uma ou duas sessões que totalizam no máximo duas horas, duas horas e meia. E os romances são enredos maiores (com mais de 160 páginas), com maior complexidade narrativa (são várias personagens e podem conter vários conflitos simultâneos). São lidos em várias sessões que ultrapassam facilmente as três horas totais. Por esse critério, não é difícil concordar comigo que “Duas Guerras Surreais” é uma novela e não um romance. E por que então as editoras e os escritores gostam de chamar esse tipo de publicação de romance? É meramente uma convenção mercadológica. No mercado editorial, é mais conveniente e charmoso dizer a palavra romance do que novela. Se eu tivesse a habilidade de fazer boas ficções literárias e fosse um autor, talvez usasse também a nomenclatura mais popular (romance) e não a técnica (novela) para as minhas narrativas médias. Contudo, sou um crítico literária ortodoxo e preciso me ater aos dogmas religiosos dos cânones da minha área (o inferno literário pode ser muito mais cruel do que o inferno católico, como Dante tão bem comprovou). Assim, digo e repito: “Duas Guerras Surreais” é uma (ótima) novela (e ponto final). Como os leitores da coluna Livros – Crítica Literária tão bem sabem, não basta dizer que a obra é boa, preciso mostrar. Ciente dessa incumbência, aqui vou eu... O primeiro elogio que tenho que fazer para essa novela é que ela congrega várias temáticas extremamente atuais e impactantes. Listei algumas que me recordo de cabeça: violência doméstica; alcoolismo; corrupção; guerra; privilégios; destruição ambiental; ecologia; assassinatos; machismo; bullying; xenofobia; feminismo; terrorismo; injustiças sociais; intrigas geopolíticas; conflitos migratórios; relacionamentos tóxicos; pseudo patriotismo; abuso de poder; militarização; morte/luto; amadurecimento; genocídio; poder da arte e da cultura; conflitos conjugais; traições; primeiro amor etc. É interessante notar que esses assuntos surgem quase que naturalmente no enredo de “Duas Guerras Surreais”. Em outras palavras, sua história é tão rica e versátil que se torna fecunda. Por isso, considero esse livro ao mesmo tempo atual e atemporal. Esse efeito contraditório foi conseguido pela excelente decisão de não definir precisamente o espaço narrativo nem o tempo narrativo, dois componentes centrais dos elementos das tramas ficcionais. Afinal, onde e quando se passa essa história? Em dois países que se chamam Xis e Ípsilon em um período não pontuado. E onde ficaria Xis e Ípsilon? Depende da perspectiva e da imaginação do leitor e da época em que ele for ler a obra. Nos dias de hoje, podemos achar que a trama se passa na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Iêmen, na Somália, em Burkina Faso, no Sudão, em Mianmar, na Nigéria e na Síria. Amanhã, do jeito que caminha esse mundão velho de guerra e sua geopolítica internacional, poderemos vê-la como encenada na Guiana, em Taiwan, nas Coreias, no Líbano, no Irã, em Mali, no Paquistão e no Sri Lanka. Como resultado, a novela de Graziella tem um forte caráter alegórico. Aí entramos em um dos aspectos mais incríveis de “Duas Guerras Surreais”: seu subtexto riquíssimo. Como uma boa alegoria, essa narrativa transmite muita mensagem nas suas entrelinhas. Personagens, situações, cenas, lugares e objetos adquirem um sentido mais abrangente e subjetivo. Assim, Leonor representa as novas gerações (a esperança de tempos mais pacíficos). Filomena encarna as mulheres subjugadas (que se levantam contra o machismo e o feminicídio). Augusto Vilela assume a pele dos poderosos sem escrúpulos (que colocam os interesses pessoais e privados na frente das vontades do país). General Jesse simboliza as forças bélicas da nação imperialista (pouco preocupada com o que não for seu umbigo). A Organização dos Países do Mundo é a Nações Unidas (tentando colocar alguma ordem no caos global). Maci é o representante espiritual/religioso (oposição ao mundo extremamente racional e cartesiano). E o Teatro e a Música, os ofícios e as paixões de Filomena e Leonor, são as escapadas artístico-culturais que a humanidade tem para refletir os horrores e as belezas do universo real (em uma intertextualidade literária sensacional). Se pensarmos bem, o próprio conflito do livro tem forte conotação metafórica e simbólica. Em meio à ruptura das relações paternas, Leonor precisa decidir: fica em Xis sob o poder e a influência patriarcal (opressão masculina) ou se aventura por Ípsilon em nome do ideal libertário e artístico da mãe (mergulho no feminismo)? Ao mesmo tempo, essa dualidade pode ser vista como o processo de amadurecimento da jovem (abandono da infância idílica e procura pelos desafios espinhentos da vida adulta), o encontro com a própria identidade (largar os vícios e a rotina hedonista e caminhar em direção aos gostos pessoais e à sua vocação profissional) e a busca da independência (fim da mesada e das mordomias recebidas do Sr. Augusto). O mais legal é notar a maneira sutil, natural e até mesmo poética com que a escritora desenrolou esses elementos em sua narrativa. Prova disso são as cenas incríveis que presenciamos em “Duas Guerras Surreais”. Os momentos mais interessantes para mim são do jovem soldado que deseja fazer ballet e do grupo de combatentes ávidos para demonstrar emoções e sentimentos nas aulas de teatro. Além de maravilhosas do ponto de vista literário, essas passagens possuem um humor fino e inteligentíssimo que valorizam ainda mais o texto da novela. O subtexto é tão profundo que confesso que gostei mais desta obra na segunda leitura do que na primeira. Se for lê-la pela terceira vez, tenho certeza de que vou gostar ainda mais. Temos esse efeito porque encontramos mais sentido e significado para os elementos narrativos que à primeira vista pareceram banais. O mesmo princípio se aplica aos ótimos filmes – tô louquinho, louquinho para assistir novamente a “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023). Só conseguimos compreender o sentido mais amplo das palavras dos autores depois do entendimento global de suas obras. Esse painel temático amplo e multifacetado e o texto literário mais profundo estão intimamente interlaçados a uma narrativa que mescla vários gêneros literários. A novela de Graziella pode ser descrita como uma distopia, uma aventura fantástica, um thriller bélico, um mistério policial, um drama surrealista, uma narrativa noir, uma tragicomédia atemporal, uma alegoria existencialista, um neorrealismo brutal ou um romance infantojuvenil (romance nesse caso como sinônimo de paixão, amor). Se fosse um filme, diria que “Duas Guerras Surreais” bebe da fonte do melhor do cinema sul-coreano atual, que adora fazer esse pot-pourri estilístico. Mas como ele é uma obra literária, só posso dizer que é uma publicação versátil e original. Por quaisquer perspectivas que você a veja (eu a enxergo como uma distopia tragicômica), trata-se de um pequeno grande livro. Por falar em mistura estilística, a combinação de fantasia (ora fantasia propriamente dita, ora realismo mágico) com realismo brutal (brutalismo), marca da literatura de Graziella Moraes desde o seu segundo romance, “Tutatis”, é algo sensacional. A beleza, a pureza e o encanto do mundo fantasioso que suas protagonistas tocam ocasionalmente (geralmente mulheres jovens e solitárias que encaram o machismo e a violência da sociedade com algum poder especial) contrastam com as atrocidades da realidade nua e crua (que trazem um leque ilimitado de crueldades, injustiças, tragédias e violências). Juro que às vezes me senti numa trama distópica. E em outros momentos pensava: mas isso é muito real! Adorei esse efeito contraditório entre a realidade concreta versus o universo sobrenatural. Nessa ótica, as tramas de Graziella dialogam diretamente com as narrativas de José Eduardo Agualusa e Isabel Allende (na sua fase inicial). Por falar nos componentes fantásticos de “Duas Guerras Surreais”, a inserção do esotérico, da magia e da espiritualidade foi muito bem-feita. Notei que esses elementos já apareciam nos demais livros de Graziella Moraes, mas sem tanta qualidade (como em “Assassina Inconsciente”). Confesso que não sou muito fã de literatura fantástica, mas aprecio quando o autor usa bem os elementos sobrenaturais – à la “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) de Isabel Allende, “Cem Anos de Solidão” (Record) de Gabriel García Márquez, “O Vendedor de Passados” (Tusquets) de José Eduardo Agualusa, “A Busca das Esferas” (Auroras/Penalux) de Mariana Baroni, “A Varanda do Frangipani” (Companhia das Letras) de Mia Couto e “Iluminadas” (Intrínseca) de Lauren Beukes. Repito: talvez a grande sacada de originalidade e impacto de “Duas Guerras Surreais” tenha sido aliar o realismo fantástico (ao melhor estilo do boom sul-americano) à distopia. Essa combinação é muito boa e foi muitíssimo bem realizada. Por falar em estilo, “Duas Guerras Surreais” é um livro que traz várias características que marcam o portfólio literário de Graziella até aqui. Posso citar dez elementos marcantes das obras da autora que estão presentes nessa novela: (1) o Realismo Mágico ou Fantasia (normalmente mais Fantasia do que Realismo Mágico); (2) Thriller de ação com forte pegada de romance policial (sempre há assassinatos ou crimes para serem investigados pela protagonista); (3) protagonistas são mulheres jovens/adolescentes com habilidades artísticas que encaram o mundo machista e a violência urbana/guerra; (4) personagens redondas (heroínas com defeitos visíveis e vilões com alguns aspectos positivos, o que foge um pouco do estereótipo literário); (5) fortes críticas sociais; (6) narrativas de tamanho mediano (do terceiro livro em diante); (7) excelente ambientação (clima de mistério e suspense); e (8) espaço narrativo geralmente inventado (ao invés de locais reais, as cidades e os povoados das tramas são fictícios); (9) texto muito elegante com boas cenas de ação; (10) narrações prioritariamente em primeira pessoa. Entre os aspectos citados acima, quero destacar uma característica marcante das personagens de Graziella Moraes. Um dos principais méritos da escritora luso-brasileira está em construir figuras redondas. Raramente encontramos em seus títulos personalidades planas ou maniqueístas nos papéis principais. Ou seja, ninguém é totalmente vilão/vilã e ninguém é totalmente mocinho/mocinha. Todos possuem aspectos positivos e admiráveis e têm também aspectos negativos e condenáveis. Tanto os protagonistas quanto os antagonistas apresentam zonas cinzentas. Se isso não for um dos segredos da boa literatura, não sei mais o que esperar dos melhores autores. Pegamos como exemplo Leonor Vilela, a narradora-protagonista. Ela surge como uma jovem alcóolatra, imatura, mimada, fútil e alienada. A moça é insensível aos dramas de seus conterrâneos (que vivem em um cenário de guerra cruel) e aos sofrimentos da própria mãe (vítima da violência doméstica do marido). Sua única preocupação é sair à noite para beber todas, passear com o carrão esportivo que o pai lhe deu e ter relacionamentos sexuais sem compromisso com os homens que conhece por aí. Podemos dizer que ela é uma típica integrante da geração Nem-Nem (nem estuda, nem trabalha) e um exemplar profundamente hedonista da geração Z. Da perspectiva literária, Leonor me lembrou muito Léa Delmas (até os nomes são parecidos, né?), a heroína de Régine Deforges na série “A Bicicleta Azul” (Best Bolso). Tal qual a personagem francesa, Leonor surge nas páginas iniciais da novela meio infantilizada e com problemas típicos de uma adolescente revoltada com a vida. Quando assiste à separação dos pais, sua primeira reação é ficar ao lado do pai (que a mima sem limites e exerce o papel de bom pai, enquanto bate sem piedade na esposa) e condenar a atitude da mãe (de fugir de casa para não continuar sendo surrada diariamente). Como podemos gostar de uma pessoa tão egoísta e desvinculada da realidade, hein? Porém, rapidamente as guerras (tanto aquela ocorrida nos países em que vive quanto a travada dentro de casa) a obrigam a passar pelo traumático processo de amadurecimento. Assim, ela precisa tomar decisões difíceis. Em pouco tempo, já age como uma mulher forte, corajosa e inteligente. Assistir a essa transformação da personagem principal é uma das questões mais emblemáticas do livro. Por mais cruéis e sem sentido que sejam as guerras, elas amadurecem as pessoas. Se a protagonista é uma personagem redonda, o antagonista também é. Augusto Vilela faz o papel do típico marido violento, machista, possessivo, alcóolatra e preconceituoso. Ele também veste a carapuça da autoridade do Judiciário afeita aos privilégios e ao carteiraço para conseguir o que deseja (comportamento que os brasileiros conhecem tão bem de vários integrantes desse poder). Ao mesmo tempo, é um pai zeloso. Augusto faz o que for preciso para ficar ao lado da filha e para tê-la satisfeita. Se é um péssimo marido, precisamos reconhecer que é pelo menos um pai presente e atuante (até demais para ser sincero). Além da excelente construção das personagens principais, considerei “Duas Guerras Surreais” com um ótimo ritmo narrativo. Você começa a leitura e segue até o final sem problema nenhum. A trama não apenas tem uma excelente velocidade (que empolga até as almas mais ansiosas) como as cenas possuem o tamanho ideal. Elas não são longas em excesso nem enxutas demais. Elas têm exatamente o tamanho exato (como expliquei no início deste post). Aposto que nas mãos de um(a) escritor(a) menos habilidoso(a), esse livro se transformaria em um romance (narrativa maior) mais lento e com vários penduricalhos supérfluos. Para quem acha que chegar a essa precisão deve ser fácil é porque nunca se embrenhou no desafio da arte literária. Escolher o que encenar e o que sumarizar é uma das maiores dores de cabeça dos escritores ficcionais. E parece que Graziella Moraes tirou de letra essa questão neste título. Se isso não for reflexo de uma artista que atingiu a maturidade no fazer ficcional e que sabe perfeitamente trabalhar as nuances das linhas da narrativa, então chame de sorte. Depois de tantos elogios, é natural pensarmos que o livro “Duas Guerras Surreais” não tenha defeito nenhum. Infelizmente, isso não é verdade. Ele também possui as suas escorregadas, algo que não posso deixar passar batido em uma análise crítica imparcial e completa do Bonas Histórias. Antes que Graziella Moraes fique chateada comigo, alerto que raramente encontramos obras (pessoas, empresas, cenários e qualquer coisa) imunes às falhas. Até Miley Cyrus (e sua versão catarinense de cabelo curto em fase portentosamente portenha!) devem ter o que melhorar (nesses casos, só ainda não encontrei o que, tá?). Provavelmente, o principal problema de “Duas Guerras Surreais” esteja em sua diagramação pouco profissional. Aí está justamente um dos riscos da autopublicação: recebemos belíssimas histórias mal embaladas. Geralmente as editoras comerciais não cometem esse tropeço visual – no caso delas, acabam embrulhando muito bem até mesmo as narrativas não tão interessantes assim. A falta de um maior cuidado estético da obra de Graziella fica evidente desde o pequeno espaçamento para o início dos parágrafos (às vezes não percebemos que se mudou de um parágrafo para outro, o que pode angustiar um pouco os leitores meticulosos) ao uso do travessão equivocado dos diálogos (utiliza-se o - ao invés do –). Essas características atrapalharam minha leitura tanto na versão digital quanto na leitura do impresso. Até eu entender que estamos em um novo parágrafo ou que aquela frase é um discurso direto, já se foi parte da magia da literatura. Alguém pode chiar: mas isso são detalhes. Concordo. Mas a beleza está exatamente nos detalhes! Por exemplo, a capa de “Duas Guerras Surreais” está primorosa. Porém, nota-se que o título está grafado de um jeito diferente do restante da publicação. Ao invés da palavra “duas” vir por extenso (Duas Guerras Surreais) como seria mais convencional e esperado, ela vem de maneira numérica (2 Guerras Surreais). Ah, mais isso é só um detalhezinho, pode continuar alegando alguém. É verdade. Mas um detalhezinho que passa batido aqui, outro que não é percebido ali, um terceiro que ninguém nota acolá vão se avolumando. Com tantos itens somados à conta, o preço pode ser salgado no fim. Quando notamos o excesso de aspectos menores que passou batido da revisão, da diagramação e do projeto gráfico, podemos achar errado até o que não é efetivamente errado. Por exemplo, Graziella tem um recurso estilístico interessante (acho que o vi também em “Assassina Inconsciente”, mas não tenho certeza) que é trocar os três pontos (...) por uma barra transversal (/). Como sei isso? Porque li outros livros da autora. A questão é que muito possivelmente um leitor novo irá achar que se trata de uma falha de digitação ou mais um equívoco do projeto gráfico da obra. Em relação à narrativa em si de “Duas Guerras Surreais”, achei poucos problemas (diferentemente de “Assassina Inconsciente” que tinha muuuuuuuuuuitos!). Um deles foi o chamamento pouco natural de Leonor aos pais. Em alguns momentos da história, a narradora se referia aos integrantes de sua família como “papai” e “mamãe” ou como “pai” e “mãe”. Até aí tudo bem. A moça era mesmo muito infantil (principalmente no início da trama). E quem não chama o pai e a mãe dessa forma mais direta, né? Contudo, em alguns diálogos, ela se referia à dupla pelo nome próprio: “Augusto” e “Filomena”. Qual a lógica? Aí está o problema. Não vi sentido nisso. Na minha percepção, a autora procurou não repetir os chamamentos e, dessa maneira, recorreu aos sinônimos. Mas temos aí um erro crasso dos discursos. Devemos representar as falas das personagens tais quais aconteceriam na realidade, sem maquiagens ou subterfúgios. Daí o incômodo. Para mim, Leonor nunca chamaria seus pais de Augusto e Filomena. Pelo menos não sóbria. Outra questão menor que notei foi a falta de verossimilhança em algumas passagens dramáticas pontuais. Reafirmo: não é nada muito grave nem geral. Talvez isso se concentre mais no início da novela. Vejamos a cena de abertura (que por sinal é maravilhosa) de Eleonor chegando em casa mais uma vez embriagada em plena madrugada pós-balada. Em sua narrativa, ela começa tentando dizer que não está bêbada. Até aí está perfeito. Nenhum bêbado diz/pensa que está efetivamente alcoolizado. Contudo, o leitor vai percebendo que ela está muy borracha, como diriam meus amigos portenhos. Perfeito! Quando, então, a menina/moça fala mais no final do primeiro capítulo: “ah, estou tão bêbada!” temos não apenas uma inverosimilhança (ELA JAMAIS PENSARIA E EXPRESSARIA ISSO) como algo totalmente desnecessário (estamos vendo sua bebedeira, não precisa ninguém nos dizer textualmente!). O mesmo princípio se aplica à imaturidade da personagem principal. Ninguém em sã consciência reconhece que é imaturo (por mais que seja). Para a pessoa, seus comportamentos são perfeitamente razoáveis e lógicos. Assim, quando Eleonor diz que tem a mentalidade de uma garotinha de 12 anos, achei pouco crível sua fala/pensamento. Ainda nessa linha, os diálogos e a narração são por vezes muito explicativos, o que tira um pouco da espontaneidade e da veracidade das falas e das palavras da narradora. Ah, Ricardo, como você é chato. Isso é só um detalhe! Detalhe, detalhe e detalhe, né? Olha aí eles de novo! Como falei são probleminhas menores (talvez nem devesse chamá-los de problemas) que não estragam em nada a experiência literária. “Duas Guerras Surreais” é uma novela realmente espetacular. Fiquei encantado com sua narrativa, com a atemporalidade do seu texto e a profundidade da sua trama. A boa literatura, na minha visão, é aquela que diz muitas coisas indiretamente. Quanto mais você lê, mais elementos acha e mais conexões com a realidade encontra. E nesse sentido, garanto que o novo livro de Graziella Moraes é perfeito. Por essas e outras, quando descubro que algum roteirista de televisão e cinema está lançando um livro de ficção, fico com a expectativa lá no alto. Penso cá com meus botões: lá vem mais uma trama redonda, ágil e sagaz. Exagero da minha parte?! Pode ser. Mas lendo Graziella Moraes, Helio Martins Jr, Renato Siqueira e Luciano Milici, admito que não me frustrei até agora com minhas altas exigências. Juro que fiquei fã do trabalho literário dessa trupe. E viva a literatura feita pelos olhos e pelas mãos do pessoal do audiovisual! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: Por Una Cabeza - O Tango mais famoso de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera
Clássico da música argentina, a composição de Gardel e Le Pera sobre a desilusão de um apostador de corridas de cavalo está prestes a completar 90 anos e continua encantando as almas mais sensíveis, apesar de suas várias polêmicas. Falemos de Tango hoje no Bonas Histórias. Antes que alguém reclame com um sonoro e injusto “de novo!?”, eu explico com toda a paciência do mundo. No mês passado, a Marcela apresentou na coluna Dança a história e as características da versão dançante do Tango. Ela também deu uma boa pincelada no perfil desse tipo de canção. Nada mais natural, né? Não dá para uma professora de dança comentar uma modalidade sem citar o componente musical. O meu enfoque agora é outro. De certa forma, vou por um caminho parecido, mas ainda assim diferente. Como estamos na coluna Músicas, quero debater a minha canção argentina preferida. Estou me referindo a “Por Una Cabeza”, a composição mais famosa da genial dupla Carlos Gardel e Alfredo Le Pera e um dos Tangos mais populares da história. Essa música vai completar 90 anos em 2025 e merece desde já uma análise completa no blog. Você pode gostar ou não gostar desse gênero musical que representa tão bem a Argentina e Buenos Aires, o país e a cidade que escolhi para viver nos próximos dois anos pelo menos. Se pensarmos bem, todo mundo tem o direito de ter suas preferências sonoro-culturais. Até onde sei, não há ainda uma polarização musical tão intensa quanto existe na política e no futebol (se bem que não é bom dar ideia para esse povo!!!). Além disso, Tango não é como o Samba, a música da minha terra que quem não gosta bom sujeito não é. Porém, goste ou não goste do Tango, é impossível ficar indiferente à força de suas melodias e à passionalidade de suas letras. Confesso que não conheço ninguém minimamente emotivo que não se empolgue ao escutar esse tipo de canção. Se o sujeito (e a sujeita) tiver um coraçãozinho que pulsa com o mínimo de força, certamente se encantará com os versos e as batidas da mais típica manifestação artística portenha. Para mim, quem despreza o Tango não tem bons sentimentos. Estou trazendo essa discussão para o Bonas Histórias porque sempre me perguntei qual seria a principal composição do Tango. Por um acaso, você já parou para refletir sobre isso? Como um admirador de longa data desse gênero e desde o mês passado cidadão argentino (sim, agora tenho DNI, senhoras e senhores!!!), joguei essa dúvida na minha lista de preocupações prioritárias. Não passo um dia sem me questionar a respeito. Brincadeirinha! Minha vidinha não é tão fútil quanto os leitores da coluna Músicas podem imaginar (é só um pouquinho, tá?). No topo das minhas preocupações recentes estão a inflação galopante, a desvalorização do real frente ao peso argentino, as maluquices do Sr. Javier, a quantidade absurda de trabalho que as editoras me passam e o combalido coraçãozinho da guria com o mais lindo sorriso de CABA. Mas essas questões são assuntos para a coluna Contos e Crônicas. Volte para o tema de hoje, Ricardinho! Voltando, voltando... Por muito tempo, o meu Tango favorito foi “Mi Buenos Aires Querido”, outra composição clássica de Gardel e Le Pera. Por vários anos, seu refrão não saía da minha cabeça: “Mi Buenos Aires querido/ Cuándo yo te vuelva a ver/ No habrás más penas ni olvido”. O motivo dessa fascinação? A sensação de que essa canção me perseguia em momentos marcantes da minha vida. Isso começou quando morei pela primeira vez na capital argentina entre 2004 e 2005. Em uma noite especial na Esquina Homero Manzi, essa foi a única música que lembro de ter tocado na belíssima casa de espetáculos de Boedo. Depois, quando regressei ao Brasil, ela continuou me seguindo sorrateiramente para onde eu fosse. Surgiu do nada no jantar em que comuniquei à minha advogada que não iria me mudar para o Rio de Janeiro – ah se arrependimento matasse. Na tratoria da sopa de capeletti da Cidade Baixa em Porto Alegre (não consigo comer esse prato até hoje, Gabi!), o Tangão pintou em pelo menos duas visitas. E, inexplicavelmente, alguém o colocou na playlist da festa de casamento da minha melhor amiga sem a autorização dos noivos. Como um bom romântico que sou (característica essa descoberta somente na semana passada), minhas relações com as músicas são extremamente passionais. “Mi Buenos Aires Querido” era o meu Tango favorito simplesmente porque mexia com meus sentimentos nos momentos certos (e nos errados). Quem nunca! Isso até o ano passado. Desde que voltei a viver na capital argentina, essa primazia passou a girar em torno de “Por una Cabeza”. Aí tenho a impressão de que sou vítima de uma nova e implacável perseguidora. Essa música embalou pelo menos três ótimos momentos da minha atual temporada portenha. Nas Barrancas de Belgrano em uma sexta-feira no finalzinho do outono, ela serviu como excelente fundo musical para o pôr do sol mais lindo do meu pós-pandemia. Acho que o som veio do coreto onde é possível dançar esse ritmo todas as noites. Ouvi também “Por una Cabeza” em um passeio de moto por San Telmo. O Tango foi captado apesar do capacete, das broncas da motoqueira eternamente enfezada e do trânsito absurdo nas estreitinhas ruas de paralelepípedo. Muito provavelmente, o melhor instante tenha ocorrido na visita ao El Boliche do Roberto. Há algumas semanas, fui lá com uma divertida e caótica turminha de amigos. Ver o público entoando os versos de Gardel e Le Pera enquanto a banda tocava a música foi demais! Havia inclusive um brasileiro bêbado consultando a letra no celular só para acompanhar a empolgação dos frequentadores locais – abraço, Pablito! A música “Por Una Cabeza” foi criada entre novembro de 1934 e janeiro de 1935 especialmente para “Tango Bar” (1935), filme gravado em Nova York pela Paramount e dirigido por John Reinhardt. Para entendermos a composição dessa canção, precisamos antes compreender o contexto da carreira de Carlos Gardel, o maior cantor de Tango da história, no início dos anos 1930. Como assim ele fazia filmes nos Estados Unidos? Afinal, ele era músico profissional ou era ator hollywoodiano? Voltemos um pouco mais no tempo. Gardel chegou à Argentina ainda criança no finalzinho do século XIX. Há quem ateste que o artista nasceu no Uruguai e há quem garanta que era francês. Na dúvida, eu o chamo de cantor franco-uruguaio. Assim, não desagrado nenhum dos dois lados. Mal tinha saído da adolescência, ele começou a trabalhar nos teatros portenhos. Realizava várias funções de apoio às produções cênicas. Somente aos 20 anos, Carlos Gardel começou a se apresentar como cantor nos bares de Buenos Aires. Logo fez parceria com José Razzano e a dupla atuou junta por 15 anos. Com a separação profissional de Razzano em 1923, Gardel focou na carreira solo e lançou seus primeiros discos. Mais ou menos nessa época, o cantor conheceu o escritor e jornalista Alfredo Le Pera. Filho de imigrantes italianos que foram tentar a sorte no Brasil, Alfredo nasceu em São Paulo e se mudou ainda bebê para Buenos Aires. Assim que constatou o talento do brasileiro naturalizado argentino para a escrita, Carlos Gardel o aconselhou a abandonar o jornalismo e a literatura e entrar de cabeça na música. Também o convidou para ser seu parceiro musical. Dessa maneira, surgiu uma das parcerias mais bem-sucedidas da música sul-americana. Enquanto Gardel ficava responsável pela criação das melodias, Alfredo Le Pera desenvolvia os versos dos Tangos. Os dois criaram clássicos como “Volver”, “El Dia que me Quieras” e “Silencio”, além dos já citados “Mi Buenos Aires Querido” e, claro, “Por Una Cabeza”. O sucesso da dupla Gardel e Le Pera foi tão grande no início dos anos 1930 que eles assinaram um contrato com a Paramount, importante estúdio de cinema dos Estados Unidos, para a produção de vários filmes. A proposta era que o cantor interpretasse nas telonas as composições da dupla. Vale a pena dizer que naquela época os musicais dominavam as salas de cinema. O público comparecia às sessões para ver os principais cantores interpretando os sucessos musicais do momento. Assim, Carlos Gardel gravou vários filmes tanto nos Estados Unidos quanto na Argentina e na França. Os principais foram “Encuadre de Canciones” (1930), “Luces de Buenos Aires” (1931), “La Casa es Seria” (1931), “Espérame” (1932), “Melodía de Arrabal” (1932), “Custa Abajo” (1934), “Mi Buenos Aires Querido” (1934), “Tango en Broadway” (1934), “El Día que me Quieras” (1935) e “Tango Bar” (1935). Só de olharmos as datas desse portfólio audiovisual dá para vermos o ritmo alucinante das produções na primeira metade dos anos 1930. Eram quase dois filmes por ano. E Carlos Gardel e Alfredo Le Pera compuseram boa parte dos seus maiores sucessos justamente para o cinema. Afinal, o público queria ver novidades nas telonas e não velhos hits. Por exemplo, em “El Día que me Quieras”, Gardel cantou “Sus ojos se cerraron”, “Volver” e “El Día que me Quieras”. Em “Tango Bar”, seu último filme, ele cantou “Lejana Tierra Mía”, “Los Ojos de Mi Moza” e “Por Una Cabeza”. Se hoje eu pagaria um ingresso de cinema para rever Gardel interpretando essas canções, imagine a avidez da plateia naquela época – confesso que fiz isso com “Nove Rainhas” (Nueve Reinas: 2000) recentemente e não me arrependi. Talvez a dupla de compositores de Tango tivesse feito muito mais músicas incríveis se o destino não tivesse sido tão impiedoso. Quando vivia o auge artístico, Carlos Gardel fez uma viagem para a Colômbia. Lá apresentaria um dos shows de sua turnê latino-americana. O avião onde estava o cantor caiu nas proximidades de Medellín em junho de 1935. Algo parecido ocorreria muitos anos mais tarde, em novembro de 2016, na mesma cidade, no voo que levava os jogadores da Chapecoense para a final da Copa Sul-americana. Junto com Gardel na aeronave estavam Le Pera, os empresários da dupla e a banda do cantor franco-uruguaio. Todos morreram. Assim, a música “Por una Cabeza” e o filme “Tango Bar” foram, respectivamente, a última grande criação da dupla e a última produção cinematográfica de Carlos Gardel. Veja, a seguir, a letra completa de “Por una Cabeza”. E assista, logo em seguida, ao trecho do filme “Tango Bar” em que essa música é apresentada pela primeira vez ao público: “Por una Cabeza” (1935) – Carlos Gardel e Alfredo Le Pera Por una cabeza, de un noble potrillo Que justo en la raya, afloja al llegar Y que al regresar, parece decir No olvides, Hermano Vos sabes, no hay que jugar Por una cabeza, metejón de un día De aquella coqueta y risueña mujer Que al jurar sonriendo el amor que está mintiendo Quema en una hoguera Todo mi querer Por una cabeza, todas las locuras Su boca que besa Borra la tristeza Calma la amargura Por una cabeza Si ella me olvida Qué importa perderme Mil veces la vida Para qué vivir Cuántos desengaños, por una cabeza Yo juré mil veces no vuelvo a insistir Pero si un mirar me hiere al passar Su boca de fuego Otra vez quiero besar Basta de carreras, se acabo la timba Un final reñido ya no vuelvo a ver Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo Yo me juego entero Qué le voy a hacer Por una cabeza, todas las locuras Su boca que besa Borra la tristeza Calma la amargura Por una cabeza Si ella me olvida Qué importa perderme Mil veces la vida Para qué vivir Ao mesmo tempo em que é belíssima, “Por Una Cabeza” possui altas doses de polêmica, pelo menos aos olhos contemporâneos. Sim, senhoras e senhores, essa canção reserva questões delicadas de plágio e de machismo. Como é tradição da coluna Músicas, vamos dividir essa análise em duas partes. Daremos uma esmiuçada na melodia e depois faremos um apanhado sobre a letra. Assim, acredito que vou conseguir debater todas as facetas desse clássico do Tango neste post do Bonas Histórias. Quando olhamos a melodia criada por Carlos Gardel, é impossível não ficarmos encantados com a sua força e a sua passionalidade. O começo dessa canção é um dos mais sublimes da história da música popular – podemos chamar o Tango de música popular, hein? Os toques solitários do violino (ou de algum instrumento de corda ou sopro, depende dos recursos da banda que a estiver executando) são doces e harmônicos. A sensação é que o violinista está feliz com a vida pacata e sem ninguém ao lado. Certamente não sente falta de outro instrumento musical em ação. Até que a paz é quebrada por impositivas e estrondosas teclas de piano. Quando o pianista entra em cena na música, ele já chega chegando, como quem grita: estou aqui, pare o mundo que quero mostrar que sou mais importante do que todo mundo; quem manda agora nessa canção sou eu! A partir daí temos os dois instrumentos musicais lado a lado. Incomodado com a chegada do invasor folgado, o violinista sobe o tom e tenta mostrar que ele não irá se sujeitar aos caprichos alheios. Assim, as duas linhas musicais caminham ora abraçadas (como um casal feliz e apaixonado dançando agarradinho), ora em oposição (como se estivessem brigando em uma disputa ácida para ver quem tem razão na última discussão). Por mais que o piano aceite acompanhar o violino (em uma reverência à beleza e à importância do companheiro), tem momentos que ele não se aguenta e dá um ou outro piti. Aí voltam as teclas dissonantes e fortes. Maravilhoso, não?! Temos aqui a mais pura e verdadeira magia do Tango (e da dicotomia das relações amorosas). Quando analisamos atentamente a melodia de “Por una Cabeza” entendemos o motivo dessa canção ser usada em tantas cenas dançantes (e de paixão) nos filmes. Sua sonoridade com os dois jogos de instrumentos musicais (corda ou sopro versus piano) competindo ou em harmonia simboliza perfeitamente a dinâmica de um casal executando uma Dança de Salão. E não é qualquer dança. É a passionalidade, a volúpia e sensualidade do Tango, como a Marcela nos ensinou no mês passado. Quando vemos (ou ouvimos, como preferir) a música por tal perspectiva, a primeira coisa que pensamos é: o criador de “Por Una Cabeza” deve ser um gênio. Realmente, Carlos Gardel era primoroso. Se ele tivesse feito apenas essa canção sublime, poderíamos dizer que foi sorte. A questão é que ele tem várias faixas de extrema beleza. Ou seja, se você acreditar que ele é simplesmente um sortudo, saiba que o raio caiu várias, várias e várias vezes no mesmo lugar. O mais estranho nessa história é que Gardel não era um músico clássico, do tipo tradicional. Ele era um cantor que se atrevia a compor (maravilhosamente bem, por sinal). Como nunca estudara música, o artista franco-uruguaio não conseguia ler nem escrever partituras. Em termos técnicos, era um analfabeto musical. Então como ele fazia para compor? Carlos Gardel usava um sistema próprio para indicar as teclas do piano e a intensidade do toque para os músicos de sua banda. A partir daí, alguém ficava encarregado de traduzir suas anotações para as métricas das notas musicais da partitura. De maneira exagerada, Gardel era a versão rio-platense e do Tango de Patativa do Assaré. Essa ignorância musical (ou seria simplesmente intuição genuína) de Carlos Gardel sempre suscitou muitas suspeitas. Será mesmo que era ele quem compunha as canções em parceria com Alfredo Le Pera?! Os gardelianos de plantão (que parecem ser até mais numerosos do que os maradonianos no dia a dia portenho) se arrepiam até hoje só de ouvir uma pergunta desse tipo. Eles enxergam o questionamento como uma afronta ao talento artístico do maior cantor de Tango (o posto de maior compositor argentino foi dado para Astor Piazzolla sem grandes abalos sísmicos). Se nunca saberemos a verdade sobre alguns elementos do passado, outros surgem à tona mesmo anos, décadas e séculos depois. O fato é que “Por una Cabeza” (se você for gardeliano ou gardeliana, por favor, segure-se na cadeira agora!!!) é uma cópia de uma canção de ninguém mais, ninguém menos do que Amadeus Mozart. Durmamos com essa bomba! Consciente ou inconscientemente, Carlos Gardel usou as bases melódicas de “Rondó em dó maior para violino e orquestra”, composição de 1781 do músico austríaco, para “criar” o seu Tango mais famoso. No caso, o termo “usar as bases melódicas” é só um eufemismo que usei para não ter que escrever “copiar na cara dura”. Talvez isso explique alguns elementos centrais da cultura argentina. Sua música mais famosa é uma melodia copiada de um compositor austríaco do século XVIII. O gol que eles julgam o mais emblemático da La Albiceleste em Copas do Mundo foi realizado com a mão e é o suprassumo da ilegalidade esportiva. A ilha que dizem pertencer ao seu território sempre foi inglesa. A mulher que santificam teve uma juventude para lá de luxuriante. O melhor jogador de futebol que tiveram (aquele que seria melhor do que Pelé) não conseguiu ficar sóbrio e são na maior parte da carreira esportiva. Os ideais políticos mais populares ainda hoje são de um tenente-general falecido há 50 anos e que era conhecido por ser antidemocrático. E o médico argentino, revolucionário e cabeludo que estampou as camisetas dos jovens esquerdistas do mundo todo por muitos anos matou mais pessoas do que salvou. Isso é Argentina em sua essência, senhoras e senhores! Antes que alguém grite lá no fundo da sala “volte ao assunto de hoje, Ricardinho”, eu retomo a minha linha argumentativa. É importante dizer que Carlos Gardel já havia plagiado outras melodias. A mais famosa, depois de “Por una Cabeza”, é “Tomo y Obligado”, composta para o filme “Luces de Buenos Aires” (1931). Ela foi apropriada de “Así es el Mundo”, música de 1926 de Mario Canaro (não o confundir com o irmão, Francisco). O que torna mais nebulosa essa história é que Canaro havia enviado sua canção para o amigo Gardel avaliar e quem sabe cantar. Afinal, quem não queria ter o principal cantor de Tango interpretando sua criação, hein? O cantor franco-uruguaio jamais deu uma resposta ao integrante do Sexteto Hermanos Canaro. Até o dia que Mario foi despretensiosamente ao cinema assistir “Luces de Buenos Aires” e voilà: viu (no caso ouviu) a melodia de sua música em “Tomo y Obligado”. Será que Carlos Gardel copiava as músicas alheias? Será que alguém compunha as melodias e ele dizia que eram dele? Sinceramente, não sei. O que sei é que “Por una Cabeza”, por mais brilhante que seja, é a cópia de uma das seis centenas de composições de Mozart. Isso sim dá para afirmarmos sem dúvida alguma. Basta ouvirmos as duas canções para chegarmos a tal conclusão. Até os meus ouvidos destreinados e desritmados são capazes de notar as óbvias e ululantes semelhanças. Para quem ficou frustrado quanto à originalidade da melodia de Gardel, vamos partir logo para a parte da letra de “Por Una Cabeza”, responsabilidade essa que ficou à cargo de Alfredo Le Pera. Estaria aí a parte realmente original e magnífica desse Tango clássico? É possível. Mesmo assim, já adianto que vem mais polêmica pela frente. O primeiro aspecto que chama nossa atenção nos versos da canção é a sua temática. Le Pera coloca em sua narrativa um viciado em corridas de cavalo que se frusta com as derrotas sucessivas de suas apostas. Para a personagem da música, os potros escolhidos desaceleram propositadamente na reta final como se dissessem: vá embora, meu amigo; essa vida não é para você! Ele fica tão decepcionado com a perda do dinheiro (e do sonho de enriquecer através das apostas) que cogita abandonar definitivamente as visitas aos hipódromos. Convenhamos que não é todo dia em que presenciamos um viciado em corridas de cavalo como eu lírico musical, né? Só por isso podemos dizer que a letra de “Por Una Cabeza” é muitíssimo original. Até então, os assuntos usados pelos compositores de Tango giravam quase sempre em torno das decepções amorosas e da devoção ao amor materno. Enquanto a primeira linha narrativa é um tanto óbvia (essa sempre foi a temática mais popular das canções independentemente do lugar e da época), a segunda pode ser uma novidade para quem não conhece os meandros desse gênero musical e da sociedade argentina. Sim, queridos leitores da coluna Músicas, os argentinos têm uma devoção a suas madres que lembra muito a cultura italiana e judaica. Não por acaso, esses povos constituem a base da formação/colonização da capital da Argentina, cidade onde o Tango nasceu e cresceu. Quando fugiam muito das temáticas usuais, as músicas falavam da beleza e do orgulho de Buenos Aires e do coleguismo e da parceria entre os melhores amigos. Se tratar de corridas de cavalo em uma canção parece inusitado aos olhos atuais, a ousadia disso quase um século atrás é muito maior. E por que, então, Alfredo Le Pera quis falar de turfe? Em primeiro lugar, não podemos nos esquecer que essa composição foi feita especialmente para um filme. A dinâmica cinematográfica de Hollywood exigia mais do que corações partidos, filhos babando por suas mães, portenhos brandando as belezas de sua cidade natal e marmanjos emocionados pela amizade sincera. O interessante é que as corridas de cavalo sempre foram uma das paixões de Carlos Gardel. Assim, o escritor e compositor brasileiro utilizou um assunto comum da conversa de ambos para enriquecer o enredo do filme com uma cena musical trazida do turfe. O termo “por una cabeza” é uma expressão comum desse esporte, que é decidido muitas vezes pela cabeça do cavalo que cruza a linha em primeiro. E onde está a polêmica da letra, Ricardinho?! Para apimentar um pouco a canção, Alfredo Le Pera compara a montaria lenta e perversa que desilude o apostador viciado a uma mulher interesseira e falsa que destrói o coraçãozinho do homem apaixonado. O cavalo derrotado daria um prejuízo tão grande quanto ao da dama adepta do golpe do baú. Ambas as desilusões são causadas por uma cabeça: a cabeça do potro que chegou atrasado na corrida e a cabeça ambiciosa da moça desalmada que pisa nos sentimentos do amado. Pode-se comparar uma mulher a um cavalo?! Aí está justamente a polêmica. Se hoje essa canção seria sumariamente cancelada em qualquer uma das bolhas das redes sociais, nos anos 1930 parece que esse aspecto da letra não suscitou grandes incômodos. Pintar as damas como figuras voláteis, fúteis e maldosas que colocam a vida dos homens em desatino é, no mínimo, pesado e indelicado. Sei disso! Mesmo assim, é difícil não achar a composição dos versos bonita. Se seu conteúdo é uma punhalada no que acreditamos, ao menos a estética da composição poética é sublime. Por mais indelicada que seja a interpretação, confesso que sou fã do refrão de “Por una Cabeza”. Sempre que ouço essa música, passo alguns dias cantarolando: “Por una cabeza/ todas las locuras/ Su boca que besa/Borra la tristeza/ Calma la amargura/ Por una cabeza/ Si ella me olvida/ Qué importa perderme/ Mil veces la vida/ Para qué vivir”. Ainda que a comparação do vício pelo turfe à paixão por uma mulher seja constrangedora, é lindo questionar o motivo de se viver longe da pessoa amada. Mesmo com todos os elementos polêmicos desta canção, descortinados apenas quando os analisamos atentamente (algo que espero ter conseguido fazer neste post da coluna Músicas), confesso que “Por una Cabeza” é meu Tango favorito. “Todas las locuras/ Su boca que besa/ Borra la tristeza/ Calma la amargura. Si ella me olvida/ Qué importa perderme/ Mil veces la vida/ Para qué vivir”. Se esse tipo de música não está presente no dia a dia dos argentinos (algo que pode frustrar os visitantes desavisados), então criamos situações para inseri-lo. Se o rock nacional (rock argentino, no caso) e a cumbia são amigos próximos que chegam sem formalidade em nossas casas e com quem estamos sempre esbarrando na rua, o Tango é aquele amigo antigo e recluso que exige constantes visitas de nossa parte. E como é bom revisitá-lo de tempos em tempos! Se alguém ainda não se convenceu da força melódica dessa criação quase centenária de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, listei abaixo algumas cenas marcantes do cinema contemporâneo que utilizam “Por una Cabeza” como trilha sonora. Para ser sincero, acho até errado dizer que esse Tango é a trilha sonora desses longas-metragens. Em alguns casos, a música (e a dança) é quase um dos personagens da produção cinematográfica. Talvez a aparição mais famosa de “Por una Cabeza” no cinema seja a dança de Al Pacino (como Tenente-coronel Frank Slade) com Gabrielle Anwar (Donna) em “Perfume de Mulher” (Scent of a Woman: 1992). O mais engraçado é que esse filme – um remake de uma produção italiana chamada “Profumo di Donna” (1974) – tem gravíssimos problemas de enredo (por exemplo, como um estudante pobre estuda num colégio caríssimo?) e alguns erros crassos de continuidade (inclusive na gravação do Tango, ora Anwar está usando brinco, ora não está). Em outras palavras, se não fosse a passagem dançante no restaurante entre um senhor cego e uma jovem esperançosa, que consumiu três longos dias de gravação, ninguém hoje citaria “Perfume de Mulher” para nada. Por sua vez, a cena que acho a mais bela do cinema com essa canção é a do filme “Bons Costumes” (Easy Virtue: 2008). O bailado de Jessica Biel (como Larita) com Colin Firth (Mr. Whittaker) não apenas tem enorme sensualidade como retrata com perfeição o conflito da produção cinematográfica e o dilema moral tanto dos protagonistas quanto da sociedade da época. Incrível! Além de ser uma cena impecável, preciso dizer que “Bons Costumes” é um filme muito, mas muito melhor do que “Perfume de Mulher”. Para o posto de longa-metragem com mais aparições de “Por uma Cabeza”, aí tenho que citar “True Lies” (1994). Os protagonistas dessa aventura cômica de Hollywood, Arnold Schwarzenegger (no papel de Harry Tasker) e Jamie Lee Curtis (Helen Tasker), surgem dançando o Tango de Gardel e Le Pera duas vezes. Sim, você leu corretamente. Não foi apenas uma cena com essa música no longa-metragem. Foram DUAS! Pode isso, Arnaldo? Pelo visto pode. Ambas, no contexto dramático do enredo, são momentos engraçadíssimos. Já o título de maior destaque a usar “Por Una Cabeza” – até porque estamos falando de um ganhador do Oscar de melhor filme – foi a “Lista de Schindler” (Schindler's List: 1993). Se não assistimos ninguém dançando (pelo menos nenhum protagonista) na cena do longa-metragem com o Tango, a melodia cria uma enorme contradição dramática na cabeça do angustiado Liam Neeson (intérprete de Oskar Schindler). Com essa produção, Steven Spielberg ganhou definitivamente o respeito da crítica cinematográfica e de Hollywood como um cineasta genial. Acredite se quiser, mas havia ainda naquele momento quem não chegara a essa conclusão. E aí, qual é o seu Tango preferido? E por quê? Acho que já expliquei a evolução das minhas preferências. Afinal, “Todas las locuras/ Su boca que besa/ Borra la tristeza/ Calma la amargura. Si ella me olvida/ Qué importa perderme/ Mil veces la vida/ Para qué vivir”. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: As ficções literárias mais vendidas no Brasil em 2023
Veja o ranking dos 30 livros ficcionais mais comprados pelos leitores brasileiros no ano passado segundo o PublishNews. No início de fevereiro, dei uma passada na coluna Mercado Editorial para apresentar os 20 livros mais vendidos no Brasil em 2023. Afinal, é tradição do Bonas Histórias apontar anualmente o ranking dos best-sellers em nossas livrarias. Acredite se quiser: faço esse levantamento desde que o blog começou em dezembro de 2014. Tão logo a folhinha de 2015 entrou em ação, apresentei os títulos mais adquiridos pelos leitores nacionais em 2014. Desde então, tenho cumprido religiosamente com o meu dever cívico de informar o que mais tem agradado ao paladar do peculiar público brasileiro. Para aqueles que possam duvidar de mim, aí estão os posts anteriores: livros mais vendidos no Brasil em 2022, livros mais vendidos no Brasil em 2021, livros mais vendidos no Brasil em 2020, livros mais vendidos no Brasil em 2019, livros mais vendidos no Brasil em 2018, livros mais vendidos no Brasil em 2017, livros mais vendidos no Brasil em 2016 e livros mais vendidos no Brasil em 2015. Confesso que quase sempre fico decepcionado com as publicações que lideram a lista dos títulos mais comercializados no país. Por quê? Porque sou apaixonado pela ficção literária (conforme comprovado pela linha editorial da coluna Livros – Crítica Literária) e, invariavelmente, esse gênero é preterido pelos meus conterrâneos. Perto das obras de autoajuda, de religião, de biografia e de não ficção que são adquiridas e consumidas à rodo, os romances, as novelas e as coletâneas de contos acabam comendo poeira em qualquer comparação. Ao invés de cortar os pulsos ou choramingar pelo leite derramado, resolvi esse problema de um jeito bem simples: uma vez apresentado o ranking geral dos exemplares de maior sucesso nas livrarias nacionais, volto à coluna Mercado Editorial e divulgo apenas as obras ficcionais mais vendidas no Brasil. Pronto! Questão resolvida. Por isso, estou novamente no Bonas Histórias para trazer um recorte mais divertido da listagem de fevereiro. A ideia hoje é só falar de ficção literária. E, a partir dessa nova perspectiva, o que podemos concluir das obras que estão no top 30 das mais comercializadas em nosso país, hein?! A primeira constatação é que temos uma overdose de livros infantojuvenis. Dos 30 títulos ficcionais da nossa lista de 2023, temos nada mais, nada menos do que 15 obras voltadas originalmente para o público adolescente. Ou seja, esse segmento representa metade (50%) do ranking ficcional. Ao verificar que esse fato tem se mantido intocado há anos, penso em duas possibilidades: ou a juventude brasileira está lendo muito mais ficção do que os adultos ou os leitores adultos têm paladar infantojuvenil. Nem queira saber qual das duas hipóteses eu acredito, tá? De qualquer maneira, a informação objetiva é que a literatura infantojuvenil (ou Young Adult, conforme as definições mercadológicas mais modernas do mercado editorial mundial) continua bombando por aqui. Prova maior desse êxito é que a norte-americana Colleen Hoover manteve o posto de escritora mais vendida do Brasil (status adquirido em 2022 e que se perpetuou em 2023). Ela é dona de cinco livros do nosso top 30 da ficção: “É Assim que Acaba” (Galera), no 1º lugar da lista ficcional, “É Assim que Começa” (Galera), na 2ª colocação, “Verity” (Galera), 7ª posição, “Todas As Suas (Im)Perfeições” (Galera), no 13º lugar, e “O Lado Feio do Amor” (Galera), na 26ª posição. Ao todo, Hoover vendeu mais de 250 mil livros no Brasil no ano passado. É curioso notar que, entre os 15 exemplares mais vendidos da literatura infantojuvenil (desculpem-me, mas não consigo mesmo falar Young Adult por mais que tente), todos são autores estrangeiros. Aí a literatura norte-americana e a literatura britânica dominam completamente a lista. As exceções (que só comprovam a regra da enorme liderança do idioma inglês na ficção juvenil) são a italiana Ali Hazelwood com “A Hipótese do Amor” (Arqueiro) e o japonês Eiichiro Oda com “One Piece – Volume 1” (Panini). Autor brasileiro nessa prateleira? Esquece! Meus compatriotas aparecem bem quando o assunto é literatura infantil. No top 30 da ficção, temos 7 exemplares desse gênero (23%). O norte-americano Jeff Kinney permanece sendo a referência nesse segmento com a espetacular coleção “Diário de Um Banana” (VR Editora). Porém, ele não está mais sozinho. A dupla brasileira formada por Gabriel Dearo e Manu Digilio conseguiu emplacar a interessante série “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta). Os quatro livros dessa saga venderam pouco mais de 80 mil unidades no ano passado e se consolidaram como um dos maiores sucessos da literatura brasileira no século XXI. Seguindo os passos de Dearo & Digilio, Maidy Lacerda vem logo atrás com os dois volumes da coletânea “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (Outro Planeta) – apesar do segundo título dessa série ter ficado fora da lista das 30 ficções mais vendidas em 2023. Quando o assunto é ficção literária adulta (o termo “adulto” aqui não é no sentido de literatura erótica e sim para designar obras para o público com mentalidade mais crescidinha, tá?), os leitores brasileiros se dividem entre a literatura brasileira contemporânea e a literatura internacional clássica. São 8 obras (27%) nessa prateleira. Os autores nacionais de destaque são Ilko Minev, com “Onde Estão as Flores” (Buzz), 3ª ficção mais vendida no Brasil no ano passado, Carla Madeira, com o espetacular “Tudo é Rio” (Record), 5º lugar na nossa lista, e Itamar Vieira Junior, com o multipremiado “Torto Arado” (Todavia), na 9ª posição. Admito que fiquei muito feliz de ter visto três escritores brasileiros de enorme talento e com obras magníficas no alto do ranking. Há muito tempo não via a junção do binômio qualidade literária e êxito comercial com tanta consistência no ranking do Bonas Histórias. Na seção da ficção internacional, os brasileiros continuam levando para casa os autores e os títulos clássicos. O inglês George Orwell, com “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras) e “1984” (Companhia das Letras), a norte-americana Clarissa Pinkola Estés, com “Mulheres que Correm com os Lobos” (Rocco), e o inglês Torquemada/Edward Powys Mathers, com o intrigante (e indecifrável!) “A Mandíbula de Caim” (Intrínseca), apresentaram ótimas vendas. O único livro ficcional adulto que parece ter fugido da polarização entre literatura brasileira contemporânea e literatura estrangeira clássica foi “Antes que o Café Esfrie” (Valentina), do japonês Toshikazu Kawaguchi. Esse romance publicado em 2015 é um típico exemplar da literatura internacional contemporânea que se tornou best-seller internacional. Em nosso país, ele chegou pelas mãos da Editora Valentina, pequena casa editorial carioca, e se converteu em um dos principais sucessos do mercado editorial nacional no ano passado. Feito esse longo raio-X do setor, até poderíamos ir diretamente para o ranking das ficções mais vendidas em 2023 no Brasil. Porém, acho legal dizer antes que para construir essa lista recorri aos dados do PublishNews, a fonte da indústria brasileira do livro mais confiável na atualidade. Uso recorrentemente as informações e as estatísticas do PublishNews nos posts do Bonas Histórias e da coluna Mercado Editorial porque elas são obtidas pelos sistemas da venda física e online das maiores redes de livrarias do Brasil. Pronto! Agora já podemos ir ao que interessa, senhoras e senhores. Sem mais enrolação, confira a seguir o ranking completo dos livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2023 em ordem decrescente segundo os dados do PublishNews: 1º “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 83,1 mil unidades. 2º “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 80,7 mil unidades. 3º “Onde Estão as Flores” (2013) – Ilko Minev (Brasil/Bulgária) – Literatura Ficcional Brasileira – Buzz – 78,9 mil unidades. 4º “A Biblioteca da Meia-noite” (2020) – Matt Haig (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Bertrand Brasil – 60,3 mil unidades. 5º “Tudo é Rio” (2014) – Carla Madeira (Brasil) – Literatura Ficcional Brasileira – Record – 48,5 mil unidades. 6º “Mulheres que Correm com os Lobos” (1992) – Clarissa Pinkola Estés (Estados Unidos) – Literatura Ficcional Estrangeira – Rocco – 35,4 mil unidades. 7º “Verity” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 33,1 mil unidades. 8º “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” (2007) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 32,3 mil unidades. 9º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior (Brasil) – Literatura Ficcional Brasileira – Todavia – 31,0 mil unidades. 10º “A Mandíbula de Caim” (1934) – Torquemada/Edward Powys Mathers (Inglaterra) – Literatura Ficcional Estrangeira – Intrínseca – 27,8 mil unidades. 11º “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (2017) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Paralela – 25,6 mil unidades. 12º “A Revolução dos Bichos” (1945) – George Orwell (Inglaterra) – Literatura Ficcional Estrangeira – Companhia das Letras – 24,9 mil unidades. 13º “Todas As Suas (Im)Perfeições” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 24,7 mil unidades. 14º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 24,4 mil unidades. 15º “As Aventuras de Mike 3 – Mudando de Casa” (2022) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 24,4 mil unidades. 16º “Coraline” (2002) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 21,6 mil unidades. 17º “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Faro Editorial – 19,6 mil unidades. 18º “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (2022) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 18,6 mil unidades. 19º “A Hipótese do Amor” (2021) – Ali Hazelwood (Itália) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Arqueiro – 17,6 mil unidades. 20º “Harry Potter e a Pedra Filosofal – Edição Comemorativa de 20 anos” (1997) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Rocco – 17,4 mil unidades. 21º “Os Últimos Jovens da Terra” (2015) – Max Brallier (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Milk Shakespeare – 17,3 mil unidades. 22º “Eu e Esse Meu Coração” (2018) – C. C. Hunter (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Jangada – 16,7 mil unidades. 23º “As Aventuras de Mike 4 – A Origem de Robson” (2023) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 16,6 mil unidades. 24º “Amor & Gelato” (2016) – Jenna Evans Welch (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 16,2 mil unidades. 25º “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 15,9 mil unidades. 26º “O Lado Feio do Amor” (2014) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 14,9 mil unidades. 27º “1984” (1949) – George Orwell (Inglaterra) – Literatura Ficcional Estrangeira – Companhia das Letras – 13,7 mil unidades. 28º “Diário de Um Banana – Rodrick é o Cara” (2008) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 13,5 mil unidades. 29º “One Piece – Volume 1” (1997) – Eiichiro Oda (Japão) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Panini – 12,9 mil unidades. 30º “Antes que o Café Esfrie” (2015) – Toshikazu Kawaguchi (Japão) – Literatura Ficcional Estrangeira – Valentina – 11,7 mil unidades. Acho que isso é tudo, pessoal. Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Apresentação
A oitava temporada da coluna Contos & Crônicas será dedicada às memórias de um torcedor corintiano sobre o mágico ano de 2012. Em 2022, chegaremos à oitava temporada da coluna Contos & Crônicas. Criada originalmente para a divulgação de coletâneas de narrativas curtas, essa seção do Bonas Histórias tomou alguns caminhos diferentes nos últimos anos. Em 2021, por exemplo, exploramos os romances (juntamente com alguns conceitos do Fazer Literário). Estou me referindo, obviamente, à “Primeira Página”. Em 2020, dedicamos esse espaço a uma novela, “O Ghost Writer”. Por falar nisso, abração, Roberto! E, em 2019, cultivamos por aqui as linhas da Escrita Não Criativa em “Diálogos Urbanos”. No próximo ano, a ideia é voltarmos às raízes dos gêneros que emprestaram seus nomes ao título da coluna. E nada melhor do que mergulharmos na crônica, tipo textual que não praticávamos desde 2017. Naquele momento, publicamos no blog as narrativas de “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora”. Curiosamente, a primeira série de Contos & Crônicas, “Eu e o Mundo”, foi justamente uma coleção de textos não ficcionais. Essas crônicas são do longínquo 2015. Repetimos a dose em 2016 com a minissérie “Março Negro”. A nova coletânea de crônicas do Bonas Histórias se chama “O Ano que Esperávamos Há Anos”. Esse material será apresentado mensalmente ao longo de 2022. Esse post aqui do finalzinho de 2021 é uma mera apresentação da próxima série narrativa que teremos no blog. “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o conjunto de minhas memórias como torcedor corintiano durante o mágico ano de 2012. Para quem não se lembra, há exatamente dez anos, o Sport Club Corinthians Paulista, meu time do coração, vivenciava seu período de maior glória futebolística: a conquista pela primeira vez da Copa Libertadores da América e o triunfo no Mundial de Clubes da FIFA. Ou seja, a equipe do Parque São Jorge papou os principais torneios do continente e do planeta. O que mais os corintianos poderiam querer da vida, né? Esses feitos estão narrados de maneira apaixonante nessa coletânea textual. No papel de um fanático torcedor alvinegro e já prevendo o incrível ano que se anunciava, passei a acompanhar a equipe corintiana com mais afinco. "O Ano que Esperávamos Há Anos" traz dia a dia o que aconteceu em 2012 na ótica dos corintianos: as angústias dos torcedores, as emoções das partidas, os bastidores do clube, a repercussão na imprensa e os detalhes da vida dos jogadores. Isso tudo em um texto ágil, bem-humorado, crítico e muito passional. Impossível não se emocionar com essa incrível história de superação e de fanatismo dos mais fiéis (e loucos) torcedores. Essa é uma leitura obrigatória para os corintianos e para quem ama o futebol. Confesso que fiquei um pouco relutante em publicar esse material no Bonas Histórias. Em 2012, ainda não havia ingressado para valer na produção literária. Para completar, os textos de “O Ano que Esperávamos Há Anos”, vistos pelos meus olhos atuais, se caracterizaram mais como um exercício diário de escrita e menos como uma obra autoral definitiva. E se eu estava no começo da trajetória como escritor e se estava treinando para tal (ainda sem técnica e sem muitos conhecimentos sobre esse ofício), dá para imaginar a qualidade do texto, né? Assim, essas crônicas estão longe, muuuuito longe de terem uma excelência narrativa que faça seu autor se orgulhar. Por outro lado, a chegada da efeméride da maior conquista futebolística do Corinthians (sim, em 2022 completamos dez anos daquela incrível temporada!), senti-me um pouco mais confiante em postar esses textos. Afinal, é muito legal acompanhar passo a passo o que você fez há uma década (ai, meu Deus, uma década!). Eu sei exatamente o que fiz dia a dia. E você, sabe?! Se você for corintiano(a), aposto que saberá me dizer em detalhes onde estava, com quem, o que fazia e as emoções vivenciadas naqueles inesquecíveis dias de 2012. Que tal a proposta de “O Ano que Esperávamos Há Anos”, hein? Convido você a acompanhar mensalmente essa coleção de textos não ficcionais. A estreia da oitava série da coluna Contos & Crônicas será já no começo de janeiro de 2022. Para quem se interessou, segue, a seguir, o calendário completo dos posts de “O Ano que Esperávamos Há Anos”: - 13 de janeiro de 2022 – Prefácio. - 31 de janeiro de 2022 – Janeiro de 2012. - 27 de fevereiro de 2022 – Fevereiro de 2012. - 30 de março de 2022 – Março de 2012. - 25 de abril de 2022 – Abril de 2012. - 25 de maio de 2022 – Maio de 2012. - 20 de junho de 2022 – Junho de 2012. - 20 de julho de 2022 – Julho de 2012. - 20 de agosto de 2022 – Agosto de 2012. - 30 de setembro de 2022 – Setembro de 2012. - 30 de outubro de 2022 – Outubro de 2012. - 30 de novembro de 2022 – Novembro de 2012. - 24 de dezembro de 2022 – Dezembro de 2012. - 30 de janeiro de 2023 – Epílogo. Boas crônicas para todos em 2022! ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Sétima Temporada - Apresentação
Em 2023, Darico Nobar entrevistará mais personagens clássicas da literatura brasileira. Confira, hoje, o novo calendário do programa mais original da televisão. Se você é fã do Talk Show Literário, na certa gostará de conhecer os bastidores que levaram a definição de mais uma temporada do programa mais inteligente e divertido da televisão brasileira. Nova temporada?! Como assim, Ricardo? Vocês não disseram no Bonas Histórias que a atração comandada por Darico Nobar seria encerrada após a sexta coletânea de entrevistas, que foi ao ar no ano passado?! Sim, querido(a) e bem-informado(a) telespectador(a). Compreendemos o seu espanto e, principalmente, a sua incredulidade. Porém, temos novidades para divulgar no post de hoje do blog dos blogs literários. Conseguimos convencer o apresentador mais querido da principal emissora de TV do Brasil a seguir à frente dos bate-papos com as personagens clássicas da literatura brasileira. É verdade, acredite se quiser!!! Não é brincadeirinha de 1º de abril, não. Até porque hoje já é 3 de abril. Nobar continuará conosco em 2023 e, lá vem outra bomba, em 2024. É isso mesmo que você leu, empolgado(a) leitor(a) do Bonas Histórias. Teremos (pelo menos) mais duas temporadas do Talk Show Literário – TSL para os íntimos. Uhu! Podem soltar fogos de artifício e colocar mais cerveja na geladeira. Vamos comemorar este feito grandioso (e, por vezes, difícil de crer) da equipe administrativa do canal de televisão que tanto gostamos de assistir. É de conhecimento geral que Darico Nobar está há um tempinho querendo mudar de programa. Ou melhor, utilizando o linguajar televisivo, sua vontade é trocar de linha editorial ou de pauta programática. A real é que ele não aguenta mais falar de ficção literária e não quer mais conversar com os convidados em estúdio. Desde o final de 2019, seu desejo é capitanear uma atração que envolva gastronomia, sua grande paixão, ou viagens internacionais, seu principal hobby. O problema é que veio uma pandemia para bagunçar o coreto e aí, vocês bem sabem, os planos da emissora de TV tiveram que mudar um pouco. Diante da crise que as empresas de comunicação estão atravessando, as ideias para novos programas foram congeladas momentaneamente e o canal precisou investir nas atrações que já estavam consolidadas. Com sua grande audiência, era natural que o Talk Show Literário fosse mantido na grade de programação. Além do público cativo, o programa já tinha patrocinadores fixos e longevos. Por falar nisso, abraços para vocês: Dança & Expressão, Epifania Comunicação Integrada, Livraria Mandarina e Eduardo Villela Book Advisor. Com a realidade atroz batendo à porta da mídia audiovisual, não dava para simplesmente jogar pela janela um produto com receitas e espectadores garantidos e investir em algo incerto e desconhecido, né? Pode não parecer, mas existe planejamento e lógica por trás das principais decisões tomadas pelas emissoras de TV. Por mais que Nobar se recusasse a seguir no comando do talk show e reclamasse o tempo inteiro, ele aceitou (ou foi forçado a aceitar!) concluir a quarta temporada do TSL, em 2020, em plena quarentena da COVID-19. Na sequência, precisou emendar a contragosto duas novas séries do Talk Show Literário. Daí tivemos a quinta temporada do TSL, em 2021, e a sexta temporada do TSL, em 2022. E para alegria de todo mundo (ou quase todo mundo!), as últimas séries de entrevista se tornaram um retumbante sucesso, com direito à indicação nas mais recentes edições do Prêmio APCA. Vendo a alegria e a empolgação da equipe a sua volta, Darico Nobar foi categórico com a direção do canal: a partir de 2023, quero um novo programa! Do contrário, não fico mais na emissora. Com medo de perder uma de suas principais estrelas, a alta administração aceitou (ou precisou aceitar) a exigência. Aí a história começa a ficar boa. Em janeiro agora, ocorreram as primeiras reuniões sobre o novo programa que o apresentador comandaria. De cara, a ideia de uma atração sobre gastronomia/culinária foi vetada. A equipe de Marketing disse que seria impossível concorrer com Rita Lobo. O programa dela era perfeito, ela era perfeita e a comida dela era perfeita. Como disputar a audiência com uma rival com tanta perfeição, hein? IM-POS-SÍ-VEL!!! Darico Nobar chiou, esperneou e xingou. Só quando assistiu a um programa inteiro da concorrente entendeu que não faria algo melhor. Pior é que nem sei cozinhar, dizem que o apresentador falou baixinho, para espanto geral dos colegas. A atração envolvendo viagens internacionais nem foi cogitada pela equipe técnica. Com o real desvalorizado e com as verbas reduzidas para novos programas, a direção da emissora vetou essa ideia logo de cara. E o que sobrou para eu fazer?!, questionou nosso herói que caminhava a passos largos para a geladeira do canal. A proposta que vingou foi uma atração matutina de variedades voltada para as donas de casa com idades acima dos 70 anos e que sofrem de insônia. Para esse público, garantiu o time de Marketing, Darico Nobar é visto como um galã com enorme credibilidade e carisma. O programa ocorreria ao vivo de segunda a domingo das 4 às 6 horas. De repente, não mais do que de repente, parece que Nobar começou a sentir saudades do Talk Show Literário. Conversar com personagens da literatura não era tão ruim assim, né? Apresentar um programa ao vivo, uma vez por semana e à noite também tinha lá suas vantagens, principalmente para quem jamais acordou antes do meio-dia. Podem acreditar em mim: não foi necessário um mês de reuniões sobre a pauta do programa matutino de variedades para Darico Nobar abandonar a ideia da nova atração e retornar para seu amado e estimado talk show. Aproveitando o momento favorável, alguém colocou um papel para o apresentador assinar e ele assinou sem pestanejar. Para surpresa de todos, inclusive daquele que colocou sua assinatura no documento de forma passional, o contrato estipulava mais duas temporadas de entrevistas. Com Nobar garantidíssimo como apresentador do TSL, o Bonas Histórias se sentiu confiante para renovar a parceria com a emissora de televisão. Assim, teremos a exclusividade para exibir o Talk Show Literário em formato textual para nossos leitores pelos próximos dois anos. Em 2023, vamos divulgar no blog a sétima temporada do TSL e, em 2024, vamos apresentar para vocês a oitava temporada do TSL. Uhu! Há ou não há motivos para comemorarmos as novidades com fogos de artifício e cerveja gelada, hein?! E aí, quer saber os detalhes da programação de 2023 do Talk Show Literário?! Para aqueles que não se aguentam de curiosidade ou para quem deseja simplesmente marcar na agenda esses compromissos imperdíveis, segue a lista com as seis entrevistas da sétima temporada do programa apresentado com brilhantismo por Darico Nobar: - 15 de maio de 2023 – Entrevista 1: Rosa Maria Gonçalves – Zero – 1979 – Ignácio de Loyola Brandão. - 19 de junho de 2023 – Entrevista 2: Cacambo – O Uraguai – 1769 – Basílio da Gama. - 31 de julho de 2023 – Entrevista 3: Gregório de Matos e Guerra – Boca do Inferno – 1989 – Ana Miranda. - 11 de setembro de 2023 – Entrevista 4: Rosinha Lituana – Parque Industrial – 1933 – Pagu. - 23 de outubro de 2023 – Entrevista 5: Roberto Lopes Mascarenhas – O Estudante – 1975 – Adelaide Carraro. - 8 de janeiro de 2024 – Entrevista 6: Padre Fernando – Quarup – 1967 – Antonio Callado. Não sei vocês, mas eu confesso que estou ansioso pela nova coletânea de episódios do Talk Show Literário que o Bonas Histórias irá trazer mais uma vez com exclusividade. Agora é segurarmos a inquietação e esperarmos pela transmissão ao vivo do principal programa literário da televisão brasileira. Até a próxima, pessoal! E ótimas entrevistas para todos em 2023! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: A Floresta que se Move - Shakespeare à brasileira
Hoje assisti ao filme "A Floresta que se Move" (2015) no Reserva Cultural. A produção nacional, dirigida por Vinícius Coimbra, conta com as atuações de Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio, Nelson Xavier e Ângelo Antônio. O enredo do longa-metragem foi inspirado livremente na obra "Macbeth", de William Shakespeare. De certa forma, a história representa uma modernização do clássico do dramaturgo inglês para os dias de hoje. Em "A Floresta que se Move", Elias (interpretado magistralmente por Gabriel Braga Nunes) e César (Ângelo Antônio, o eterno "Beija Flor" da novela "O Dono do Mundo") chegam ao Brasil, vindos de uma viagem de negócios à Alemanha. Ambos são executivos de um importante banco privado brasileiro e são amigos há muitos anos. Ao se dirigirem à sede do banco, a dupla ouve, no meio do caminho, algumas previsões de uma vidente em uma praça: "Elias será transformado em vice-presidente hoje e amanhã será declarado presidente" são as palavras da misteriosa mulher. Os executivos acham graça daquela previsão descabida e não acreditam nas palavras da vidente. Contudo, ao chegarem ao banco, descobrem que o vice-presidente fora despedido por estar envolvido em fraudes. E Elias é promovido ao posto do funcionário demitido. Ou seja, a primeira parte da previsão da vidente se concretizou em poucas horas. À noite, ao chegar a sua casa, Elias conta o ocorrido para sua esposa, Clara (Ana Paula Arósio cada vez mais linda!). A ambiciosa mulher, empolgada com o destino e ciente que a segunda parte da previsão também irá se concretizar, convence o marido a assassinar o presidente do banco (Nelson Xavier) naquela noite, aproveitando-se do fato do chefe ir jantar na residência do casal. Elias fica em dúvida: será mesmo que ele será capaz de realizar um ato como aquele? O plano de Clara, infelizmente, não sai como ela imaginava e se inicia uma série de assassinatos que vão jogar os personagens uns contra os outros, em uma disputa cega pelo poder. O final não poderia ser diferente: é trágico ao melhor estilo de William Shakespeare. O filme de Vinícius Coimbra é muito bom. Há tensão, suspense e muitas reviravoltas durante todo o longa-metragem. O drama vivido por Elias "enche" a tela e não permite que desgrudemos os olhos da narrativa por nada neste mundo. Mesmo reproduzindo passagens inteiras da peça de Shakespeare, o público que não tem tanta familiaridade com o escritor inglês e não conhece "Macbeth" talvez não perceba esta analogia tão direta. A ambientação da história para os dias de hoje consegue sobrepor o enredo histórico da trama. Já quem conhece a obra do inglês deverá gostar de vê-la encenada em outro ambiente e em novo contexto. Eu adorei, chegando à conclusão de que o texto de "Macbeth" é ainda mais incrível. Atuação do experiente elenco é primorosa. Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio, Nelson Xavier e Ângelo Antônio estão excelentes em seus papéis. Não dá para apontar que seja melhor. Talvez Gabriel Braga Nunes consiga se destacar um pouco mais em relação aos seus colegas por ser o protagonista e concentrar a maioria das cenas do longa-metragem. A fotografia do filme também é muito boa. Filmado no Rio Grande do Sul e no Uruguai, os cenários e a ambientação aumentam ainda mais o drama da história narrada. Destaque para a casa do casal Elias e Clara e para as salas e os corredores do banco. Eles são sinistros e aterrorizantes. Dá medo só de olhar para eles. Algumas cenas mais oníricas, como o banho de sangue que o casal protagonista recebe em sua cama, ajudam a tornar a fotografia mais bela. A trilha também ajuda na criação do ambiente de terror e de suspense, pontuando as cenas com músicas solenes e dramáticas. O principal mérito de "A Floresta que se Move" é mostrar que os temas debatidos por William Shakespeare há séculos ainda se mantém atuais. A disputa pelo poder, a ambição desenfreada, a mentira e a solidão estão presentes no nosso dia a dia. Adorei este filme! Ele consegue aliar formalismo com autenticidade, reflexão com ação e passado com modernidade em uma história forte e impactante. Saí da sala de cinema meio chocado, mas feliz com o que presenciei. Veja o trailer de "A Floresta que se Move": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ViníciusCoimbra #WilliamShakespeare #GabrielBragaNunes #ÂngeloAntônio #AnaPaulaArósio #NelsonXavier
- Recomendações: Melhores posts do Bonas Histórias - Parte III
Na terceira e última publicação da Série Melhores, apontamos o conteúdo de destaque de mais seis colunas do blog. Confira essa singela retrospectiva de quase nove anos de trabalho do Bonas Histórias. Se você caiu de paraquedas neste post da coluna Recomendações, o que pode acontecer com qualquer um que navega nesse mundão caótico e por vezes sem lógica chamado Internet, preciso explicar em que território sua pessoa está adentrando. Cá estamos (eu e você, você e eu) no Bonas Histórias, o blog de literatura, cultura e entretenimento criado em 1º de dezembro de 2014 por esse ser humano falível (cada vez menos inteligente e menos artificial!) que te escreve (estas mal traçadas linhas, meu amor). E se você não estiver tão atrasado(a) nessa leitura, algo que também pode ocorrer nesse universo atemporal e imprevisível chamado rede mundial de computadores, irá perceber que estamos há apenas quatro dias do rega-bofe do nosso novo aniversário (pode aparecer, não vai rolar bundalelê). Mas por que mesmo estou falando sobre isso agora se o post do nono aniversário do Bonas Histórias será só na semana que vem?! Ah, lembrei. Estou explicando para os desavisados de plantão o que é essa tal de Série Melhores do Bonas Histórias, o que é a terceira parte das publicações de destaque do blog e o que é (ou deveria ser) a coluna Recomendações. Então senta (ou no caso, continue sentado aí) que lá vem (mais um pouquinho d)a história. Voltando à minha linha (ou seria curva?) de raciocínio. Criado há um tempão (se você está achando muito tempo quase uma década, imagine o que eu, que tenho que produzir esses benditos posts em escala industrial, acho disso!), o Bonas Histórias dedica-se à análise de livros, músicas, filmes, peças de teatro, exposições e um monte de outras manifestações artístico-culturais. Em outras palavras, tratamos daquilo que as almas mais puras acham matéria-prima pecaminosa e perigosa para os cidadãos de bem (nosso público-alvo são, portanto, as pessoas do mal). E nesse processo de escreve-e-ninguém-lê, lá se foram mais ou menos 1.500 publicações (confesso que já perdi as contas desde que celebramos, à la Pelé, Romário e Túlio Maravilha, o milésimo post do blog). Mas o fato em questão é que em meados desse ano (que é outro que já se aproxima a passos céleres do firmamento) em uma mesa de bar (quando o frio paulistano ainda não era um sonho distante) com pessoas simpáticas e bonitas na Vila Madalena (bairro descolado da cidade que nasci e que tive o prazer de fugir há alguns meses, antes que a Cracolândia a tomasse por inteira), surgiu a questão: quais seriam os melhores posts da história do blog? Para ser sincero, essa não foi uma preocupação da minha roda de amigos (eles sequer sabem da existência desse site, muito menos têm a preocupação de lê-lo). Fui eu mesmo que pensei em voz alta sobre essa questão e tive uma única pessoa interessada em me ajudar a compor essa retrospectiva histórica. Beijo, Carlinha. Ou foi uma das ideias transloucadas dela que abracei sem pensar no amanhã? Agora não me lembro dos detalhes sórdidos daquela noite de pura bebedeira. De qualquer forma, foi assim (eu vi você passar por mim) que surgiu a Série Melhores, com os posts (que eu e uma leitora do blog um tanto novata, mas devota e de mente muito aberta) achamos mais interessantes do Bonas Histórias. Pensando em nossos leitores (que julgamos despreparados para overdose de conteúdo diabólico) e nas altas taxas de suicídio dos países lusófonos (Japão, pode esperar, sua hora vai chegar!), decidimos dividir a listagem em três publicações. Na Parte I, lançada em julho de 2023, trouxemos o material de destaque das sete colunas chamadas literárias: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas e Mercado Literário. Na Parte II, apresentada em setembro, revelamos o conteúdo de destaque das seis colunas que intitulamos não literárias: Cinema, Músicas, Teatro, Dança, Exposições e Gastronomia. Hoje, enfim, chegamos à terceira e última parte da Série Melhores. Nesta nova publicação, vamos contemplar os artigos mais representativos das seis colunas derradeiras do Bonas Histórias: Passeios, TV, Rádio e Internet, Cursos e Eventos, Premiações e Celebrações, Melhores Músicas Ruins e Recomendações. E como poderíamos chamar esse conjunto com seções tão exóticas e de temática plural? Como não sou muito criativo, gostei da sugestão da Carlinha: colunas que ninguém lê. Por mais que eu ache esse nome injusto, já que as outras partes do blog também mereciam essa honra, tive que concordar com minha estimada e intelectualizada amiga. Segundo o Google Analytics, trata-se mesmo dos materiais do blog com menos acesso. Explicado o contexto para você que chegou agora ao Bonas Histórias (e ainda não abandonou a leitura desse post – ainda dá tempo, saiba que não entramos no assunto principal de hoje!), vamos sem demora (demora, o que é isso?!) para as melhores matérias das seis últimas colunas do blog. PASSEIOS A coluna: As páginas de Passeios são dedicadas ao relato de programas turísticos e de imersões artísticas. A ordem aqui é debater atrações históricas, viagens, pequenas excursões, realizações de trilhas no meio da natureza e visitas a museus e a centros culturais. As análises dessa parte do blog devem ter o ponto de vista da experiência dos visitantes e englobar as belezas e a história dos lugares visitados. Melhor post: O primeiro lugar dessa coluna foi para a visita à encantadora e misteriosa Vila de Paranapiacaba, localidade no alto da Serra do Mar que guarda a história da ferrovia no Brasil e da imigração inglesa em nosso país. Neste post, discutimos como foi o passeio de um dia à Paranapiacaba, distrito fundado em meados do século XIX em Santo André e que está pertinho da cidade de São Paulo. TV, RÁDIO E INTERNET A coluna: Os posts de TV, Rádio e Internet visam apresentar aos leitores do Bonas Histórias o que de mais interessante está rolando nos principais veículos de comunicação quando o assunto é literatura, cultura, artes e entretenimento. A ideia aqui é comentar programas, documentários, podcasts, entrevistas, blogs, sites e vídeos que conversam intimamente com o conteúdo das demais partes do blog. Melhor post: A medalha de ouro dessa modalidade (quero dizer coluna) vai para a matéria sobre Toma Aí Um Poema. O podcast criado por Jéssica Iancoski para a declamação poética é um espetáculo. Se você gosta de poesia, precisa conhecer a iniciativa da jovem escritora, poetisa, ilustradora, produtora de conteúdo, editora e empreendedora curitibana. E aí, você já tomou sua dose diária de Toma Aí Um Poema? CURSOS E EVENTOS A coluna: O conteúdo de Cursos e Eventos é, obviamente, voltado para a sugestão de aulas, programas acadêmicos, workshops, oficinas, palestras, seminários, feiras e congressos sobre literatura, escrita criativa e mercado editorial brasileiro. A proposta dessa seção do blog é nortear os escritores nas diferentes etapas dos seus desenvolvimentos profissionais. Melhor post: Tanto pela riqueza do conteúdo ministrado quanto pela apresentação sucinta do post, o melhor material sobre o fazer literário do nosso blog é o do workshop Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada. Sucesso até hoje, esse curso que tem uma década de vida é ministrado por Eduardo Villela, um dos principais publishers e book advisors do Brasil. Em Como escrever seu livro e tê-lo publicado por uma editora renomada, Eduardo Vilella ensina aos escritores o que eles precisam fazer para ter suas obras consideradas pelas principais editoras do país. PREMIAÇÕES E CELEBRAÇÕES A coluna: Os posts de Premiações e Celebrações visam a divulgação dos maiores prêmios nacionais e internacionais dos mercados editorial, audiovisual e fonográfico e a comemoração das principais efemérides do Bonas Histórias e do universo cultural. Ou seja, esse é o espaço para festejarmos as grandes façanhas artísticas e para atirarmos confetes naqueles que fizeram por merecer. Melhor post: Essa provavelmente foi a escolha mais passional da Série Melhores do Bonas Histórias. Afinal, não definimos o artigo vencedor pela sua qualidade nem pela repercussão que teve junto aos nossos leitores (critérios principais de decisão até então) e sim pelo valor afetivo que temos em relação à conquista obtida. Estamos falando do post 100 Meses de publicação do blog em que comemoramos o alcance de uma façanha que nos orgulha até hoje. Até porque não são muitas iniciativas no campo artístico no Brasil que podem se gabar de ter atingido a marca de uma centena de meses de vida ativa. Vida longa ao Bonas Histórias! MELHORES MÚSICAS RUINS A coluna: Melhores Músicas Ruins é o evento organizado pelo blog desde 2015 em que premia as pérolas lançadas anualmente no mercado fonográfico nacional. Para ser indicada à já tradicional (e polêmica) honraria da música brasileira, a canção precisa ser ruim de dar dó e, ao mesmo tempo, têm que ser gostosinha à ponto de querermos ouvi-la mais e mais vezes. Melhor post: A primeira colocação dessa seção foi para a Premiação de 2022 das Melhores Músicas Ruins. Os motivos? Além da seleção impecável de canções de alto nível de ruindade (mantivemos a excelência artística das últimas edições), tivemos um dos melhores eventos da honraria (quem foi jamais se esquecerá) e uma repercussão inédita nos principais veículos de comunicação (com direito à transmissão ao vivo no Youtube – não perca seu tempo procurando, tá?). Por essas e outras, a Premiação de 2022 das Melhores Músicas Ruins entrou para a história musical brasileira e para o imaginário popular nacional. RECOMENDAÇÕES A coluna: Recomendações é a décima nona e última coluna do Bonas Histórias. Nessa parte do blog, apresentamos a listagem com o que melhor foi analisado e conferido na cena artístico-cultural. Assim, nossos leitores recebem constantemente os rankings com livros, filmes, peças teatrais, passeios e experiências gastronômicas que valem a pena ser conferidos. Melhor post: No alto do pódio desta coluna está a publicação sobre os Quinze livros tijolões para serem lidos na quarentena. Para quem gosta de longas seções de leitura e de boas ficções literárias, essa seleção de obras volumosas é um banquete. Não é porque a pandemia acabou (e as pessoas deixaram o isolamento) que não devemos continuar mergulhados nas páginas das boas obras. Por que você não lê Quinze livros tijolões para serem lidos na quarentena também no período Pós-pandemia, hein? Isso é tudo, pepepessoal! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Celebrações: Bonas Histórias - Sétimo aniversário do blog
Voltado à divulgação da literatura, da cultura e do entretenimento, o Blog Bonas Histórias teve em 2021 seu melhor ano em audiência. Ontem foi dia de festa!!! O Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento, fez aniversário. Comemoramos seu sétimo ano de vida com muita alegria, orgulho e satisfação. Uhu! Desde 1º de dezembro de 2014, o site traz ininterruptamente análises de livros, filmes, músicas, shows, danças, peças teatrais, exposições, restaurantes e tudo aquilo que abranja o universo cultural. Em outras palavras, acabamos nos tornando um dos blogs mais longevos em língua portuguesa quando o assunto é a produção de conteúdo nos campos literário e artístico. Uhu! Se pensarmos bem, sete anos de estrada nessa seara no Brasil não é pouca coisa. Evidentemente, quando uso as palavras festa e comemoração no parágrafo anterior, estou aplicando-as no sentido figurado (quem me conhece sabe que, como um antissocial inveterado, nunca utilizo esses termos no sentido literal, mas isso é outra história...). Em tempos de cuidados sanitários permanentes e de preocupações pandêmicas, não dá para promover aglomerações nem fazer grandes encontros (essa é a desculpinha perfeita que todos os antissociais adoram dar ultimamente!!!). Mas dá sim para celebrar datas importantes, mesmo que cada um permaneça em seu quadrado. Por isso, sintam-se abraçados e felicitados todos aqueles que participaram direta e indiretamente dessa bonita trajetória do Bonas Histórias. É legal ressaltar que 2021 foi o melhor ano para o blog quando o assunto é audiência. O número de leitores mais do que triplicou em relação a 2020. Se no ano passado nossa média era de 5 mil visitantes por mês, agora chegamos ao respeitável patamar de 15 mil leitores mensais. Desde abril, nossa audiência mensal varia de 12 mil a 20 mil visitantes únicos, o que nos enche de felicidade. Uhu! Se pensarmos que somos um site exclusivamente textual (não somos, por exemplo, um canal no Youtube que obviamente atrai muito mais internautas!) e com conteúdo voltado principalmente para a literatura (um assunto que, convenhamos, nunca foi um campeão de público no Brasil), podemos dizer que esses são números consideráveis. Portanto, não é exagero nenhum falar que o Bonas Histórias é atualmente um dos mais visitados blogs de literatura do país. Uhu! Para 2022, a ideia é continuar aumentando e melhorando nosso conteúdo (só assim, vamos multiplicar ainda mais nossa audiência). A proposta do Bonas Histórias é voltar a divulgar algumas manifestações artísticas que foram interrompidas devido as medidas de combate à Covid-19. Infelizmente, o fechamento de muitos estabelecimentos culturais em boa parte de 2020 e 2021 inviabilizou nossas análises nos dois últimos anos. Queremos muito retornar as visitas a cinemas, shows, teatros, exposições, restaurantes... Se a vacinação prosseguir (vacinem-se!!!!) e a pandemia esmorecer (xô, Ômicron!), a ideia é seguir com nossos posts cinematográficos, teatrais, pictóricos, gastronômicos etc., como fazíamos desde 2014. Ah que saudades do velho e caótico normal!!! A prova concreta que nossa audiência é versátil está no fato de que a segunda coluna mais visitada em 2021 foi a Dança, de Marcela Bonacorci. Pela primeira vez em nossa história, a coluna Livros – Crítica Literária, a campeã recorrente em número de visitação, ganhou uma rival à altura. Entre janeiro e novembro desse ano, os posts da coluna Dança tiveram aproximadamente 43 mil acessos, o que representa 25% de nossa audiência (todos os dados são de 1º de janeiro a 30 de novembro). Parabéns, Marcela. Seus artigos sobre as dançarinas mais importantes, as modalidades dançantes, a história da dança e as dicas de como dançar estão incríveis!!! Os posts mais acessados continuam sendo da coluna Livros – Crítica Literária com quase 100 mil leitores em 2021 (aproximadamente 55% dos nossos visitantes nesse ano até o momento). A diferença é que essa seção do blog tem muito mais matérias do que a Dança. Quando analisamos as dez páginas mais visitadas do Bonas Histórias em 2021 (até ontem!), encontramos cinco posts literários, quatro posts dançantes e um post cinematográfico (a terceira seção mais acessada em nosso site, com 9% da audiência, é justamente a coluna Cinema). Não dá para falar do conteúdo de 2021 do blog e não citar a incrível coluna Miliádios Literários, do sempre astuto e divertidíssimo Paulo Sousa. Com um humor fino, uma proposta original e um texto extremamente cativante, Paulo traz mensalmente as principais efemérides da literatura nacional e internacional. Sua coluna tem quase dois anos de vida e é a prova cabal que no Bonas Histórias respeitamos a memória artística e literária. Parabéns, Paulo, e obrigado por compartilhar conosco seu talento! Outra coluna que está entre minhas favoritas é o Desafio Literário. Nos posts dessa parte do blog, analisamos o estilo narrativo das principais figuras da literatura brasileira e mundial tanto de ontem quanto de hoje. Em 2021, fizemos algumas modificações nessa seção para que nossos estudos literários ficassem mais completos, originais e interessantes. Eu gostei do novo formato. Espero que vocês tenham também curtido as alterações e os novos textos. Infelizmente, não dá para falar de todas as colunas do blog (do contrário, esse post ficaria gigantesco!). Para quem tem curiosidade de conhecê-las, a seguir vão as 19 seções do Bonas Histórias (com seus respectivos links): – Livros - Crítica Literária: análise individual de livros; – Desafio Literário: análise estilística de autores nacionais e internacionais; – Teoria Literária: apresentação dos conceitos da Teoria Literária; – Talk Show Literário: entrevistas com as principais personagens da literatura; – Miliádios Literários: apresentação das efemérides literárias; – Contos & Crônicas: exibição de narrativas curtas inéditas; – Mercado Editorial: divulgação das novidades dos setores livreiro e editorial; – Cinema: análise de filmes clássicos e de produções recém-lançadas nos cinemas; – Música: exame de canções, álbuns, cantores, bandas e compositores históricos; – Teatro: análise de espetáculos cênicos e musicais; – Dança: debate sobre os mais variados aspectos da arte dançante; – Exposições: análise de montagens artísticas e mostras culturais; – Gastronomia: crítica sobre a cena gastronômica paulistana; – Passeios: apresentação de programas turísticos e de atrações voltadas para o lazer e o entretenimento; – TV, Rádio e Internet: divulgação das novidades nas áreas audiovisual e radiofônica; – Cursos e Eventos: apresentação de cursos e eventos na área artístico-cultural; – Premiações e Celebrações: divulgação da entrega de prêmios e a comemoração de datas importantes no campo artístico-cultural; – Melhores Músicas Ruins: apresentação dos vencedores da premiação mais aguardada da música brasileira; – Recomendações: lista com sugestões do blog sobre o que ler, assistir, visitar e conferir quando o assunto é arte e cultura. Não posso terminar esse texto de comemoração do sétimo aniversário do Bonas Histórias sem agradecer aos nossos sete parceiros comerciais. Aqui vai o meu muito obrigado para a Editora Pomelo, para a Escola Dança & Expressão, para o Book Advisor Eduardo Villela, para a Livraria Mandarina, para a Agência Epifania Comunicação Integrada, para a BonaBelle Design e Organização e para o Blog Psicorama. Valeu por nos ajudar a escrever essa história. Acho que isso é tudo por hoje, pessoal. Vim aqui para falar do aniversário do blog e acabei falando de um monte de coisa, né? Paciência! A mensagem final que deixo é que o Bonas Histórias seguirá firme e forte a caminho do seu oitavo aniversário. E obrigado por vocês fazerem parte dessa nossa trajetória. Muito obrigado a todos os leitores! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. 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