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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 42 anos, mora em Buenos Aires e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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Livros: Duas Guerras Surreais - A nova novela fantástica de Graziella Moraes

Publicada em ebook em setembro de 2023 e em versão impressa em janeiro de 2024, a trama surrealista da escritora luso-brasileira mistura conflitos familiares, violência bélica e elementos sobrenaturais em uma narrativa poética, rica e surpreendente.


O livro Duas Guerras Surreais é a quinta publicação literária de Graziella Moraes, roteirista e escritora portuguesa que mora no Brasil desde a adolescência

Neste Carnaval, reli “Duas Guerras Surreais” (Publicação Independente), a mais recente novela de Graziella Moraes. Conheci essa obra, para ser sincero com os leitores do Bonas Histórias, em setembro do ano passado. Justamente quando me mudava para Buenos Aires, Graziella me enviou de maneira muito simpática seu então recém-lançado ebook. Ele estava concorrendo ao 8º Prêmio Kindle de Literatura e me pareceu uma leitura agradável para se fazer no vai-e-vem dos aeroportos. Nesse caso específico, prefiro as narrativas curtas (coletâneas de contos) e médias (novelas) às longas (romances). E não é que foi uma ótima pedida mesmo! Gostei tanto deste título que o coloquei na minha lista de releituras para analisar depois com maior profundidade. Foi o que fiz na última Quarta-feira de Cinzas. Aí ficou impossível não fazer um post completo sobre ele na coluna Livros – Crítica Literária.


“Duas Guerras Surreais” é uma trama fantástica que apresenta os dilemas íntimos de uma jovem que está saindo da adolescência e entrando na vida adulta. Ela vive em uma região conflagrada por conflitos bélicos intermináveis e inexplicáveis. Com pitadas de Surrealismo, uma excelente camada conotativa e uma narrativa ao mesmo tempo ágil e muito bem escrita, essa novela apresenta muitas questões profundas e contemporâneas. Sua versão física está disponível para compra desde o começo do ano. Foi esse texto que li agora. Se na primeira leitura conheci o material do ebook, agora foquei no conteúdo do impresso, que passou por uma ampla revisão e tem elementos adicionais à versão eletrônica.


Antes de falar do livro e do trabalho literário de Graziella Moraes, preciso compartilhar um pensamento que me ocorreu durante as leituras (no plural porque foram mais de uma) de “Duas Guerras Surreais”: como os roteiristas de televisão e cinema escrevem bem ficção literária, hein?! Antes que alguém possa dizer que isso é uma obviedade, alerto que não é não. Produzir um roteiro de uma trama audiovisual é completamente diferente de desenvolver uma narrativa literária. Enquanto o primeiro tipo de história é passado essencialmente por elementos visuais – pode não haver nenhuma ou pouquíssimas palavras envolvidas, como no filme “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018) –, o segundo é estritamente textual – com exceção da capa, que é apenas ilustrativa, não há mais nenhum elemento não-textual. Essas mudanças transformam completamente o perfil da criação artística.


A diferença é comparável a quem pratica volleyball e futebol. Ninguém exige que um atleta de alto nível de uma modalidade esportiva tenha excelente desempenho em outra. Por quê? Porque apesar de serem esportes praticados com bolas e em equipes, são atividades totalmente distintas, que exigem características e habilidades específicas de seus jogadores. Com a produção de roteiros e livros é a mesmíssima coisa! Parecem artes siamesas na visão do grande público (são praticadas com bola/texto e com equipes/ficção), mas são inteiramente diferentes.


Fiz essa explicação para dizer que tenho encontrado nos últimos anos alguns cineastas/roteiristas com enorme talento para a literatura ficcional. Como não domino nenhum dos dois ofícios artísticos (e olha que não foi por falta de tentativa), fico apaixonado por quem domina com desenvoltura as duas áreas. Por exemplo, posso citar dentro da literatura brasileira, além de “Duas Guerras Surreais”, de Graziella Moraes, “Refém da Memória” (Produção Independente), de Helio Martins Jr, e “Diário de Um Exorcista” (Generale), de Renato Siqueira e Luciano Milici, como outros livros de cineastas que me encantaram pela qualidade excepcional.


Roteirista e escritora luso-brasileira, Graziella Moraes é autora dos livros O Escambau, Tutatis, O Bem Cruel, Assassina Inconsciente e o recém-lançado Duas Guerra Surreais

Na minha visão, o profissional que vem do cinema e da televisão, por não poder rodar todas as cenas que deseja no audiovisual, algo que envolve naturalmente um custo elevado de filmagem e de pós-produção, analisa muito bem o que será colocado no papel. E esse hábito seletivo é mantido mesmo no ofício literário. Aí suas narrativas literárias ganham o tamanho certeiro. Não são gordinhas demais (o que poderia cansar os leitores e tornar as tramas enfadonhas), nem são demasiadamente magras (o que prejudicaria a contação da história e a experiência de leitura). Esse foi exatamente um dos aspectos que mais gostei de “Duas Guerras Surreais”. A novela tem o tamanho exato para encantar os leitores mais exigentes, o que demonstra a maturidade e o requinte técnico de Graziella Moraes. Em suma, a trama do novo livro não é nem excessiva nem reduzida. Ela está simplesmente perfeita em extensão e profundidade!


Nascida em Figueira da Foz, cidade da região central de Portugal próxima à Coimbra, Graziella morou em Lisboa e desde a adolescência vive no Rio de Janeiro. É, portanto, uma cidadã luso-brasileira. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tendo estudado interpretação cênica com Syd Field e Luiz Carlos Maciel, ela é atualmente roteirista de cinema e televisão. Entre seus trabalhos no cinema estão a produção dos roteiros dos curtas-metragens “Os Super Moleques” (1994), vídeo educativo dirigido por Walter Lima Junior, e “Estado de Alerta” (2017), drama ambientado no Rio e que tem direção de André Mattos. Na televisão, trabalhou na Rede Globo nos roteiros do seriado ficcional “Mulher” (1998-1999) e da segunda versão do jornalístico “Linha Direta” (1999-2007).


Fã de Isabel Allende, Fernando Pessoa, José Saramago e Jorge Amado, Graziella Moraes estreou na literatura em maio de 2020 com o romance “O Escambau” (Chiado Books). Nessa trama ambientada na cidade fictícia de Foz, acompanhamos as aventuras investigativas de Maria, uma retratista de rostos que trabalha nas ruas e se divide entre a amizade com o traficante Lampião Urbano e as notícias que são transmitidas pelos programas jornalísticos de televisão com pegada popularesca. Exatamente um ano mais tarde, a autora lançou seu segundo título, “Tutatis” (Chiado Books). Nesse novo romance, Graziella aproveita-se do ambiente, da geografia e das personagens do título anterior para ampliar o universo narrativo de Maria. Agora, a heroína da cidade de Foz está envolvida com os dramas de Ike, um rapaz angustiado pelo sonho de ser jogador de futebol e pela gana de ganhar uma fortuna rapidamente com o tráfico de drogas. A grande novidade desse título é que pela primeira vez a escritora luso-brasileira abraça a Fantasia, gênero que não abandonaria mais (pelo menos está com ele até agora).


Os dois livros seguintes de Graziella Moraes foram as novelas “O Bem Cruel” (Publicação Independente), de março de 2022, e “Assassina Inconsciente” (Publicação Independente), de janeiro de 2023. As novidades dessa vez foram: a decisão de não trabalhar mais com editoras comerciais; canalizar as vendas nas plataformas da Amazon (tanto na Loja Kindle quanto nos serviços de produção dos livros físicos sob demanda); seguir com a Fantasia; e a substituição das narrativas longas pelas medianas.


Em “O Bem Cruel”, acompanhamos Giovana, uma adolescente que se vê frustrada pela partida do primeiro namorado para o exterior e a chegada de um pastor protestante à sua cidade. O religioso vai morar com a mãe da moça, mas parece sentir atração sexual é pela filha da namorada. E “Assassina Inconsciente” é o thriller psicológico narrado por Camile, uma jovem órfã moradora de uma comunidade carente. A protagonista tem lembranças vagas da noite em que matou Príncipe, seu namorado. O rapaz homofóbico confessou ter assassinado a melhor amiga de Camile só porque ela era gay. Sem ter certeza do que se passou naquela noite, a protagonista se culpa por ser uma criminosa.


Duas Guerras Surreais é a nova novela fantástica de Graziella Moraes, escritora luso-brasileira que vive há muitos anos no Rio de Janeiro e atua também como roteirista de televisão e cinema

Portanto, “Duas Guerras Surreais” é o quinto título literário de Graziella. E ouso dizer que este é disparado seu melhor trabalho na narrativa ficcional até aqui. Se você leu algum livro anterior da autora (eu, por exemplo, li “Assassina Inconsciente” na época da sua publicação, conforme revelado no post dos lançamentos de março e abril de 2023 da coluna Mercado Editorial), saiba que não há comparação entre o que foi entregue antes com o que está sendo apresentado agora.


Teria a autora chegado à maturidade no ofício do fazer literário em “Duas Guerras Surreais”? Desconfio que sim. Até brinquei com ela dizendo em um e-mail: não sei o que você fez de diferente no processo de produção desta obra, mas funcionou muitíssimo bem! Não apenas temos uma narrativa incrível, como ela é digna de premiação. Sem muito esforço, poderia colocá-la no top 10 das melhores ficções que li no ano passado.


Por isso, fiquei com a expectativa que esta publicação poderia ter sido até mesmo finalista da última edição do Prêmio Kindle de Literatura, evento que a cada ano se mostra melhor e mais competitivo. Qualidade para isso “Duas Guerras Surreais” tem de sobra. Porém, a novela acabou preterida nas fases finais do concurso. O que não é nenhum demérito, já que normalmente os indicados e os vencedores são obras espetaculares. Vire e mexe acabo analisando algumas delas na coluna Livros – Crítica Literária, como “Dias Vazios” (Nova Fronteira), de Barbara Nonato e vencedor do IV Prêmio Kindle de Literatura de 2020, e “Machamba” (Nova Fronteira), de Gisele Mirambai e vencedor do I Prêmio Kindle de Literatura de 2017.


A ideia para escrever “Duas Guerras Surreais” surgiu no início de 2023, quando o conflito entre Rússia e Ucrânia completava um ano de duração. Naquele momento, Graziella Moraes estava lançando “Assassina Inconsciente” e começava a pensar no enredo de seu próximo título. As cenas da invasão russa e as imagens de destruição na Europa mexeram com a escritora, que passou a pesquisar sobre aquele entrevero e os tempos bélicos de maneira geral. Em seu trabalho investigativo, a portuguesa de alma carioca incluiu a leitura de “Nada de Novo no Front” (L&PM), romance de Erich Maria Remarque que foi recentemente adaptado para uma belíssima produção cinematográfica, estudou várias obras de História da relação russo-ucraniana e acompanhou matérias jornalísticas com depoimentos reais de soldados envolvidos no campo de batalha.


Tão logo encerrou os estudos exploratórios, Graziella deu início à produção textual do novo livro. Ao contexto bélico do cenário, ela acrescentou o drama de uma jovem imatura que presencia os conflitos conjugais cada vez mais intensos dos pais (daí a referência às duas guerras do título – uma entre os países das personagens e outra na esfera doméstica). Afinal, o que é mais perigoso: estar em uma região conflagrada por exércitos inimigos em constantes batalhas armadas ou viver em uma casa onde os pais se odeiam, não querem mais viver juntos e convivem com a violência doméstica há muitos anos?! Para o enredo ganhar ares mais metafóricos (e alegóricos), a autora não definiu um espaço temporal determinado nem um espaço geográfico específico. Novamente, temos aqui mais um acerto que trouxe brilhantismo ao material.


Lançada em ebook no final de 2023 e em versão impressa no início de 2024, Duas Guerras Surreais é a novela surrealista da escritora luso-brasileira Graziella Moraes

Entre a ideia da novela e o lançamento do ebook foram aproximadamente seis meses. Curiosamente, quando a obra chegou aos leitores da Loja Kindle e participava do Prêmio Kindle de Literatura, explodiu uma nova guerra: Israel versus Gaza/Palestina (ou deveríamos dizer Israel versus Hamas?). Para quem lê hoje “Duas Guerras Surreais”, a sensação é que a trama do livro se passa mais no Oriente Médio do que no Leste Europeu. Eu, pelo menos, tive essa impressão: até a geografia árida ou semiárida da obra fictícia combina perfeitamente com os desertos do Neguev e da Judeia. Contudo, é importante dizer que a referência criativa de Graziella Moraes foi mesmo a Guerra Russo-ucraniana.


O enredo de “Duas Guerras Surreais” se passa na região fronteiriça entre os países Xis (de bandeira azul e que fala xislanês) e Ípsilon (de bandeira vermelha e que fala ípsilianês). As nações vizinhas vivem em eterno conflito bélico, apesar da proximidade histórica, cultural e social de seus povos. De tão acostumada às mortes, à violência e a movimentação dos exércitos, a maioria dos cidadãos acaba levando uma vida normal. Um bom exemplo disso é Leonor Vilela, uma jovem de 18 anos recém-completados. É ela quem narra a história. A moça é filha de Augusto Vilela, um importante desembargador da Justiça, e de Filomena Vilela, uma ex-professora de História que abandonou o magistério tradicional para dar aulas de Teatro. A família vive em Xis.


Diferentemente do que poderíamos imaginar, o clã dos protagonistas é bem disfuncional. Leonor vive alcoolizada. Ela não trabalha nem estuda. Depois de passar o dia perambulando de carro, fazendo compras, fofocando com as amigas e reclamando da vida, sai para beber à noite e se divertir um pouco. Aí entorna todas e se lança em aventuras sexuais sem compromisso com parceiros eventuais. No passado, a personagem principal da novela adorava ballet e sonhava em ser bailarina. Entretanto, o alcoolismo afetou seu controle motor e ela abandonou a dança há muito tempo.  


Leonor parece culpar a mãe por sua infelicidade. Imatura, a jovem só sabe reclamar e se dizer injustiçada. Enquanto mostra ódio pela matriarca, ela adora o pai. Ele mima a filha com enorme devoção. Assim, a garota ganha um carro esportivo novinho em folha. Não falta dinheiro para que possa passear dia e noite e que beba sem limites. Ao mesmo tempo que demonstra enorme dedicação às vontades da rebenta, Augusto Vilela controla rigorosamente cada passo de Leonor, em uma invasão de privacidade que beira a obsessão. Paradoxalmente, a moça não se importa. Ela gosta tanto do pai e é tão grata pelos seus mimos, que não liga nem um pouco em ser vigiada o tempo inteiro.


Em mais uma madrugada de bebedeira, Leonor chega embriagada em casa e encontra a mãe de malas prontas na porta. Filomena não aguenta mais sofrer com a violência doméstica do marido e irá fugir. Há anos, Augusto a espanca impiedosamente. Ela só não abandonou o lar até hoje para não se separar da filha. Contudo, agora Leonor é maior de idade e não precisa de tantos cuidados maternos. Assim, Filomena telefonou para seu amigo Maci, uma espécie de bruxo, para levá-la embora para Ípsilon. A dupla vai atravessar a fronteira naquela manhã para ficar o mais distante possível de Augusto, que certamente não irá gostar de saber do abandono da mulher.


Quinto livro ficcional de Graziella Moraes, Duas Guerras Surreais é a distopia surrealista que mistura conflitos familiares, violência bélica e elementos sobrenaturais

A decisão da mãe revolta Leonor. Ela acha que Filomena está sendo injusta e desleal com o pai. Onde já se viu abandonar a casa, o casamento, as responsabilidades domésticas e a família em uma decisão passional no meio da madrugada?! Depois de brigar com a fujona, Leonor fica indecisa se deve partir para o novo país com a mãe (e com Maci) ou se deve ficar ao lado do pai (que com certeza continuará a paparicando ilimitadamente). O que fazer?


Desacostumada a tomar decisões importantes, é uma jovem extremamente infantil e imatura, a narradora-protagonista espera o pai retornar para casa para agir. Pensando em formas para protelar a escolha, Leonor pede que Augusto a leve até a fronteira de Xis e Ípsilon. Até lá acredita que terá uma ideia do que fazer. Obviamente, o pai insiste para que sua queridinha permaneça com ele.


Apesar da pressão paterna, Leonor se muda para um vilarejo chamado Refúgio na nova nação. Ela vive ao lado da mãe e de Maci. Aquela localidade é uma espécie de zona amistosa da guerra. Ali são enterrados os mortos dos dois lados do conflito e os dois exércitos podem descansar sem preocupação. Filomena é, inclusive, professora de Teatro dos soldados.


Na nova residência, onde a guerra se faz ainda mais presente, Leonor precisará amadurecer. Ela terá que tratar do alcoolismo e trabalhar. Ao mesmo tempo, encontrará o primeiro amor. Em meio a tantas descobertas, a jovem ficará entre a eterna disputa entre Augusto e Filomena. Ele não quer assinar a papelada do divórcio e quer a família de volta para Xis. E Filomena quer a separação formal para seguir a vida em Ípsilon. Será que com a chegada da maturidade, Leonor verá a briga dos pais por outra perspectiva? E até onde poderá chegar o ímpeto de Augusto Vilela em ter “suas mulheres” outra vez por perto? As respostas para esses questionamentos reservam surpresas de tirar o fôlego.


“Duas Guerras Surreais” é um livro curtinho. Por isso, o vejo mais como uma novela do que como um romance – algo que vou discorrer nos próximos três parágrafos. Ele tem 136 páginas, que estão divididas em 12 capítulos. Há também um breve prefácio de Sérgio Marques, autor e roteirista de seriados de televisão. O prefácio é justamente uma das novidades da versão impressa (a outra novidade é a ampla revisão narrativa e idiomática que a publicação passou na virada de ano). Quando li o ebook em setembro, não havia a introdução de Marques. Acho que a edição eletrônica de “Duas Guerras Surreais” ainda não foi atualizada de acordo com as mudanças promovidas pela autora nesse início de 2024. Por isso, na dúvida, leia a edição impressa. Até o início do ano, havia uma demora para a entrega da publicação física aos leitores brasileiros. O serviço de produção sob encomenda da Amazon era feito nos Estados Unidos e levava entre 30 e 40 dias. Porém, a expectativa é que esse processo fique mais rápido com o estabelecimento de um estoque pela Amazon Brasil. Aí valerá muito a pena ter a versão física de “Duas Guerras Surreais”!


Misturando fantasia, distopia e surrealismo, Duas Guerras Surreais é a novela de Graziella Moraes que encanta pela narrativa ágil, pela trama original e pelo subtexto riquíssimo

Levei aproximadamente duas horas para concluir a releitura deste título na noite da Quarta-feira de Cinzas (por mais que o Carnaval de Saavedra seja um dos mais animados de Buenos Aires, ainda assim é um Carnaval portenho, senhoras e senhores!). Foram duas sessões de uma hora de leitura cada. É curioso que alguns autores não gostam quando classifico suas obras como sendo novelas – ainda mais quando insistem em chamá-las de romances. Não sei se Graziella Moraes irá se incomodar com isso (afinal, está grafado bem grande na capa de “Duas Guerras Surreais” a frase: “Um Romance de...”).


A questão é que a classificação não é qualitativa (existem romances bons e ruins, assim como há novelas boas e ruins) e sim quantitativa. De acordo com a Teoria Literária, religião (ou ciência, como preferir!) que professo há alguns bons anos, as narrativas ficcionais são divididas de três maneiras segundo sua extensão e complexidade. Os contos são histórias curtinhas (de poucas páginas) e com baixa complexidade narrativa (possuem poucas personagens e um único conflito). São lidas em alguns minutos (não passa de uma hora). As novelas são tramas um pouco maiores (de 80 a 160 páginas) e com uma complexidade narrativa mediana (têm um número de personagens maior que os contos e podem ter mais de um conflito dramático). São lidas em uma ou duas sessões que totalizam no máximo duas horas, duas horas e meia. E os romances são enredos maiores (com mais de 160 páginas), com maior complexidade narrativa (são várias personagens e podem conter vários conflitos simultâneos). São lidos em várias sessões que ultrapassam facilmente as três horas totais.


Por esse critério, não é difícil concordar comigo que “Duas Guerras Surreais” é uma novela e não um romance. E por que então as editoras e os escritores gostam de chamar esse tipo de publicação de romance? É meramente uma convenção mercadológica. No mercado editorial, é mais conveniente e charmoso dizer a palavra romance do que novela. Se eu tivesse a habilidade de fazer boas ficções literárias e fosse um autor, talvez usasse também a nomenclatura mais popular (romance) e não a técnica (novela) para as minhas narrativas médias. Contudo, sou um crítico literária ortodoxo e preciso me ater aos dogmas religiosos dos cânones da minha área (o inferno literário pode ser muito mais cruel do que o inferno católico, como Dante tão bem comprovou). Assim, digo e repito: “Duas Guerras Surreais” é uma (ótima) novela (e ponto final).   


Como os leitores da coluna Livros – Crítica Literária tão bem sabem, não basta dizer que a obra é boa, preciso mostrar. Ciente dessa incumbência, aqui vou eu... O primeiro elogio que tenho que fazer para essa novela é que ela congrega várias temáticas extremamente atuais e impactantes. Listei algumas que me recordo de cabeça: violência doméstica; alcoolismo; corrupção; guerra; privilégios; destruição ambiental; ecologia; assassinatos; machismo; bullying; xenofobia; feminismo; terrorismo; injustiças sociais; intrigas geopolíticas; conflitos migratórios; relacionamentos tóxicos; pseudo patriotismo; abuso de poder; militarização; morte/luto; amadurecimento; genocídio; poder da arte e da cultura; conflitos conjugais; traições; primeiro amor etc. É interessante notar que esses assuntos surgem quase que naturalmente no enredo de “Duas Guerras Surreais”. Em outras palavras, sua história é tão rica e versátil que se torna fecunda.


Por isso, considero esse livro ao mesmo tempo atual e atemporal. Esse efeito contraditório foi conseguido pela excelente decisão de não definir precisamente o espaço narrativo nem o tempo narrativo, dois componentes centrais dos elementos das tramas ficcionais. Afinal, onde e quando se passa essa história? Em dois países que se chamam Xis e Ípsilon em um período não pontuado. E onde ficaria Xis e Ípsilon? Depende da perspectiva e da imaginação do leitor e da época em que ele for ler a obra. Nos dias de hoje, podemos achar que a trama se passa na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Iêmen, na Somália, em Burkina Faso, no Sudão, em Mianmar, na Nigéria e na Síria. Amanhã, do jeito que caminha esse mundão velho de guerra e sua geopolítica internacional, poderemos vê-la como encenada na Guiana, em Taiwan, nas Coreias, no Líbano, no Irã, em Mali, no Paquistão e no Sri Lanka.


Duas Guerras Surreais é a alegoria de Graziella Moraes, escritora luso-portuguesa, que apresenta a história de Leonor Vilela, uma jovem de 18 anos que padece de dois conflitos graves: a separação dos pais e a violência da guerra na fronteira do seu país

Como resultado, a novela de Graziella tem um forte caráter alegórico. Aí entramos em um dos aspectos mais incríveis de “Duas Guerras Surreais”: seu subtexto riquíssimo. Como uma boa alegoria, essa narrativa transmite muita mensagem nas suas entrelinhas. Personagens, situações, cenas, lugares e objetos adquirem um sentido mais abrangente e subjetivo.


Assim, Leonor representa as novas gerações (a esperança de tempos mais pacíficos). Filomena encarna as mulheres subjugadas (que se levantam contra o machismo e o feminicídio). Augusto Vilela assume a pele dos poderosos sem escrúpulos (que colocam os interesses pessoais e privados na frente das vontades do país). General Jesse simboliza as forças bélicas da nação imperialista (pouco preocupada com o que não for seu umbigo). A Organização dos Países do Mundo é a Nações Unidas (tentando colocar alguma ordem no caos global). Maci é o representante espiritual/religioso (oposição ao mundo extremamente racional e cartesiano). E o Teatro e a Música, os ofícios e as paixões de Filomena e Leonor, são as escapadas artístico-culturais que a humanidade tem para refletir os horrores e as belezas do universo real (em uma intertextualidade literária sensacional).


Se pensarmos bem, o próprio conflito do livro tem forte conotação metafórica e simbólica. Em meio à ruptura das relações paternas, Leonor precisa decidir: fica em Xis sob o poder e a influência patriarcal (opressão masculina) ou se aventura por Ípsilon em nome do ideal libertário e artístico da mãe (mergulho no feminismo)? Ao mesmo tempo, essa dualidade pode ser vista como o processo de amadurecimento da jovem (abandono da infância idílica e procura pelos desafios espinhentos da vida adulta), o encontro com a própria identidade (largar os vícios e a rotina hedonista e caminhar em direção aos gostos pessoais e à sua vocação profissional) e a busca da independência (fim da mesada e das mordomias recebidas do Sr. Augusto).


O mais legal é notar a maneira sutil, natural e até mesmo poética com que a escritora desenrolou esses elementos em sua narrativa. Prova disso são as cenas incríveis que presenciamos em “Duas Guerras Surreais”. Os momentos mais interessantes para mim são do jovem soldado que deseja fazer ballet e do grupo de combatentes ávidos para demonstrar emoções e sentimentos nas aulas de teatro. Além de maravilhosas do ponto de vista literário, essas passagens possuem um humor fino e inteligentíssimo que valorizam ainda mais o texto da novela.


O subtexto é tão profundo que confesso que gostei mais desta obra na segunda leitura do que na primeira. Se for lê-la pela terceira vez, tenho certeza de que vou gostar ainda mais. Temos esse efeito porque encontramos mais sentido e significado para os elementos narrativos que à primeira vista pareceram banais. O mesmo princípio se aplica aos ótimos filmes – tô louquinho, louquinho para assistir novamente a “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023). Só conseguimos compreender o sentido mais amplo das palavras dos autores depois do entendimento global de suas obras.


Esse painel temático amplo e multifacetado e o texto literário mais profundo estão intimamente interlaçados a uma narrativa que mescla vários gêneros literários. A novela de Graziella pode ser descrita como uma distopia, uma aventura fantástica, um thriller bélico, um mistério policial, um drama surrealista, uma narrativa noir, uma tragicomédia atemporal, uma alegoria existencialista, um neorrealismo brutal ou um romance infantojuvenil (romance nesse caso como sinônimo de paixão, amor). Se fosse um filme, diria que “Duas Guerras Surreais” bebe da fonte do melhor do cinema sul-coreano atual, que adora fazer esse pot-pourri estilístico. Mas como ele é uma obra literária, só posso dizer que é uma publicação versátil e original. Por quaisquer perspectivas que você a veja (eu a enxergo como uma distopia tragicômica), trata-se de um pequeno grande livro.   


Duas Guerras Surreais é a nova novela fantástica de Graziella Moraes, escritora luso-brasileira que vive há muitos anos no Rio de Janeiro e atua também como roteirista de televisão e cinema

Por falar em mistura estilística, a combinação de fantasia (ora fantasia propriamente dita, ora realismo mágico) com realismo brutal (brutalismo), marca da literatura de Graziella Moraes desde o seu segundo romance, “Tutatis”, é algo sensacional. A beleza, a pureza e o encanto do mundo fantasioso que suas protagonistas tocam ocasionalmente (geralmente mulheres jovens e solitárias que encaram o machismo e a violência da sociedade com algum poder especial) contrastam com as atrocidades da realidade nua e crua (que trazem um leque ilimitado de crueldades, injustiças, tragédias e violências). Juro que às vezes me senti numa trama distópica. E em outros momentos pensava: mas isso é muito real! Adorei esse efeito contraditório entre a realidade concreta versus o universo sobrenatural. Nessa ótica, as tramas de Graziella dialogam diretamente com as narrativas de José Eduardo Agualusa e Isabel Allende (na sua fase inicial).


Por falar nos componentes fantásticos de “Duas Guerras Surreais”, a inserção do esotérico, da magia e da espiritualidade foi muito bem-feita. Notei que esses elementos já apareciam nos demais livros de Graziella Moraes, mas sem tanta qualidade (como em “Assassina Inconsciente”). Confesso que não sou muito fã de literatura fantástica, mas aprecio quando o autor usa bem os elementos sobrenaturais – à la “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) de Isabel Allende, “Cem Anos de Solidão” (Record) de Gabriel García Márquez, “O Vendedor de Passados” (Tusquets) de José Eduardo Agualusa, “A Busca das Esferas” (Auroras/Penalux) de Mariana Baroni, “A Varanda do Frangipani” (Companhia das Letras) de Mia Couto e “Iluminadas” (Intrínseca) de Lauren Beukes. Repito: talvez a grande sacada de originalidade e impacto de “Duas Guerras Surreais” tenha sido aliar o realismo fantástico (ao melhor estilo do boom sul-americano) à distopia. Essa combinação é muito boa e foi muitíssimo bem realizada.  


Por falar em estilo, “Duas Guerras Surreais” é um livro que traz várias características que marcam o portfólio literário de Graziella até aqui. Posso citar dez elementos marcantes das obras da autora que estão presentes nessa novela: (1) o Realismo Mágico ou Fantasia (normalmente mais Fantasia do que Realismo Mágico); (2) Thriller de ação com forte pegada de romance policial (sempre há assassinatos ou crimes para serem investigados pela protagonista); (3) protagonistas são mulheres jovens/adolescentes com habilidades artísticas que encaram o mundo machista e a violência urbana/guerra; (4) personagens redondas (heroínas com defeitos visíveis e vilões com alguns aspectos positivos, o que foge um pouco do estereótipo literário); (5) fortes críticas sociais; (6) narrativas de tamanho mediano (do terceiro livro em diante); (7) excelente ambientação (clima de mistério e suspense); e (8) espaço narrativo geralmente inventado (ao invés de locais reais, as cidades e os povoados das tramas são fictícios); (9) texto muito elegante com boas cenas de ação; (10) narrações prioritariamente em primeira pessoa.


Entre os aspectos citados acima, quero destacar uma característica marcante das personagens de Graziella Moraes. Um dos principais méritos da escritora luso-brasileira está em construir figuras redondas. Raramente encontramos em seus títulos personalidades planas ou maniqueístas nos papéis principais. Ou seja, ninguém é totalmente vilão/vilã e ninguém é totalmente mocinho/mocinha. Todos possuem aspectos positivos e admiráveis e têm também aspectos negativos e condenáveis. Tanto os protagonistas quanto os antagonistas apresentam zonas cinzentas. Se isso não for um dos segredos da boa literatura, não sei mais o que esperar dos melhores autores.


Pegamos como exemplo Leonor Vilela, a narradora-protagonista. Ela surge como uma jovem alcóolatra, imatura, mimada, fútil e alienada. A moça é insensível aos dramas de seus conterrâneos (que vivem em um cenário de guerra cruel) e aos sofrimentos da própria mãe (vítima da violência doméstica do marido). Sua única preocupação é sair à noite para beber todas, passear com o carrão esportivo que o pai lhe deu e ter relacionamentos sexuais sem compromisso com os homens que conhece por aí. Podemos dizer que ela é uma típica integrante da geração Nem-Nem (nem estuda, nem trabalha) e um exemplar profundamente hedonista da geração Z.


Lançada em ebook no final de 2023 e em versão impressa no início de 2024, Duas Guerras Surreais é a novela surrealista da escritora luso-brasileira Graziella Moraes

Da perspectiva literária, Leonor me lembrou muito Léa Delmas (até os nomes são parecidos, né?), a heroína de Régine Deforges na série “A Bicicleta Azul” (Best Bolso). Tal qual a personagem francesa, Leonor surge nas páginas iniciais da novela meio infantilizada e com problemas típicos de uma adolescente revoltada com a vida. Quando assiste à separação dos pais, sua primeira reação é ficar ao lado do pai (que a mima sem limites e exerce o papel de bom pai, enquanto bate sem piedade na esposa) e condenar a atitude da mãe (de fugir de casa para não continuar sendo surrada diariamente). Como podemos gostar de uma pessoa tão egoísta e desvinculada da realidade, hein?  


Porém, rapidamente as guerras (tanto aquela ocorrida nos países em que vive quanto a travada dentro de casa) a obrigam a passar pelo traumático processo de amadurecimento. Assim, ela precisa tomar decisões difíceis. Em pouco tempo, já age como uma mulher forte, corajosa e inteligente. Assistir a essa transformação da personagem principal é uma das questões mais emblemáticas do livro. Por mais cruéis e sem sentido que sejam as guerras, elas amadurecem as pessoas. 


Se a protagonista é uma personagem redonda, o antagonista também é. Augusto Vilela faz o papel do típico marido violento, machista, possessivo, alcóolatra e preconceituoso. Ele também veste a carapuça da autoridade do Judiciário afeita aos privilégios e ao carteiraço para conseguir o que deseja (comportamento que os brasileiros conhecem tão bem de vários integrantes desse poder). Ao mesmo tempo, é um pai zeloso. Augusto faz o que for preciso para ficar ao lado da filha e para tê-la satisfeita. Se é um péssimo marido, precisamos reconhecer que é pelo menos um pai presente e atuante (até demais para ser sincero).


Além da excelente construção das personagens principais, considerei “Duas Guerras Surreais” com um ótimo ritmo narrativo. Você começa a leitura e segue até o final sem problema nenhum. A trama não apenas tem uma excelente velocidade (que empolga até as almas mais ansiosas) como as cenas possuem o tamanho ideal. Elas não são longas em excesso nem enxutas demais. Elas têm exatamente o tamanho exato (como expliquei no início deste post). Aposto que nas mãos de um(a) escritor(a) menos habilidoso(a), esse livro se transformaria em um romance (narrativa maior) mais lento e com vários penduricalhos supérfluos.


Para quem acha que chegar a essa precisão deve ser fácil é porque nunca se embrenhou no desafio da arte literária. Escolher o que encenar e o que sumarizar é uma das maiores dores de cabeça dos escritores ficcionais. E parece que Graziella Moraes tirou de letra essa questão neste título. Se isso não for reflexo de uma artista que atingiu a maturidade no fazer ficcional e que sabe perfeitamente trabalhar as nuances das linhas da narrativa, então chame de sorte.    


Quinto livro ficcional de Graziella Moraes, Duas Guerras Surreais é a distopia surrealista que mistura conflitos familiares, violência bélica e elementos sobrenaturais

Depois de tantos elogios, é natural pensarmos que o livro “Duas Guerras Surreais” não tenha defeito nenhum. Infelizmente, isso não é verdade. Ele também possui as suas escorregadas, algo que não posso deixar passar batido em uma análise crítica imparcial e completa do Bonas Histórias. Antes que Graziella Moraes fique chateada comigo, alerto que raramente encontramos obras (pessoas, empresas, cenários e qualquer coisa) imunes às falhas. Até Miley Cyrus (e sua versão catarinense de cabelo curto em fase portentosamente portenha!) devem ter o que melhorar (nesses casos, só ainda não encontrei o que, tá?).


Provavelmente, o principal problema de “Duas Guerras Surreais” esteja em sua diagramação pouco profissional. Aí está justamente um dos riscos da autopublicação: recebemos belíssimas histórias mal embaladas. Geralmente as editoras comerciais não cometem esse tropeço visual – no caso delas, acabam embrulhando muito bem até mesmo as narrativas não tão interessantes assim.


A falta de um maior cuidado estético da obra de Graziella fica evidente desde o pequeno espaçamento para o início dos parágrafos (às vezes não percebemos que se mudou de um parágrafo para outro, o que pode angustiar um pouco os leitores meticulosos) ao uso do travessão equivocado dos diálogos (utiliza-se o - ao invés do –). Essas características atrapalharam minha leitura tanto na versão digital quanto na leitura do impresso. Até eu entender que estamos em um novo parágrafo ou que aquela frase é um discurso direto, já se foi parte da magia da literatura.


Alguém pode chiar: mas isso são detalhes. Concordo. Mas a beleza está exatamente nos detalhes! Por exemplo, a capa de “Duas Guerras Surreais” está primorosa. Porém, nota-se que o título está grafado de um jeito diferente do restante da publicação. Ao invés da palavra “duas” vir por extenso (Duas Guerras Surreais) como seria mais convencional e esperado, ela vem de maneira numérica (2 Guerras Surreais). Ah, mais isso é só um detalhezinho, pode continuar alegando alguém. É verdade. Mas um detalhezinho que passa batido aqui, outro que não é percebido ali, um terceiro que ninguém nota acolá vão se avolumando. Com tantos itens somados à conta, o preço pode ser salgado no fim.


Quando notamos o excesso de aspectos menores que passou batido da revisão, da diagramação e do projeto gráfico, podemos achar errado até o que não é efetivamente errado. Por exemplo, Graziella tem um recurso estilístico interessante (acho que o vi também em “Assassina Inconsciente”, mas não tenho certeza) que é trocar os três pontos (...) por uma barra transversal (/). Como sei isso? Porque li outros livros da autora. A questão é que muito possivelmente um leitor novo irá achar que se trata de uma falha de digitação ou mais um equívoco do projeto gráfico da obra. 


Nascida em Figueira da Foz, Portugal, e morando há décadas no Rio de Janeiro, Graziella Moraes é autora de O Escambau, Tutatis, O Bem Cruel, Assassina Inconsciente e Duas Guerra Surreais e roteirista dos curtas-metragens Os Super Moleques e Estado de Alerta, do seriado Mulher e do jornalístico Linha Direta

Em relação à narrativa em si de “Duas Guerras Surreais”, achei poucos problemas (diferentemente de “Assassina Inconsciente” que tinha muuuuuuuuuuitos!). Um deles foi o chamamento pouco natural de Leonor aos pais. Em alguns momentos da história, a narradora se referia aos integrantes de sua família como “papai” e “mamãe” ou como “pai” e “mãe”. Até aí tudo bem. A moça era mesmo muito infantil (principalmente no início da trama). E quem não chama o pai e a mãe dessa forma mais direta, né? Contudo, em alguns diálogos, ela se referia à dupla pelo nome próprio: “Augusto” e “Filomena”. Qual a lógica? Aí está o problema. Não vi sentido nisso. Na minha percepção, a autora procurou não repetir os chamamentos e, dessa maneira, recorreu aos sinônimos. Mas temos aí um erro crasso dos discursos. Devemos representar as falas das personagens tais quais aconteceriam na realidade, sem maquiagens ou subterfúgios. Daí o incômodo. Para mim, Leonor nunca chamaria seus pais de Augusto e Filomena. Pelo menos não sóbria.


Outra questão menor que notei foi a falta de verossimilhança em algumas passagens dramáticas pontuais. Reafirmo: não é nada muito grave nem geral. Talvez isso se concentre mais no início da novela. Vejamos a cena de abertura (que por sinal é maravilhosa) de Eleonor chegando em casa mais uma vez embriagada em plena madrugada pós-balada. Em sua narrativa, ela começa tentando dizer que não está bêbada. Até aí está perfeito. Nenhum bêbado diz/pensa que está efetivamente alcoolizado. Contudo, o leitor vai percebendo que ela está muy borracha, como diriam meus amigos portenhos. Perfeito! Quando, então, a menina/moça fala mais no final do primeiro capítulo: “ah, estou tão bêbada!” temos não apenas uma inverosimilhança (ELA JAMAIS PENSARIA E EXPRESSARIA ISSO) como algo totalmente desnecessário (estamos vendo sua bebedeira, não precisa ninguém nos dizer textualmente!).


O mesmo princípio se aplica à imaturidade da personagem principal. Ninguém em sã consciência reconhece que é imaturo (por mais que seja). Para a pessoa, seus comportamentos são perfeitamente razoáveis e lógicos. Assim, quando Eleonor diz que tem a mentalidade de uma garotinha de 12 anos, achei pouco crível sua fala/pensamento. Ainda nessa linha, os diálogos e a narração são por vezes muito explicativos, o que tira um pouco da espontaneidade e da veracidade das falas e das palavras da narradora. Ah, Ricardo, como você é chato. Isso é só um detalhe! Detalhe, detalhe e detalhe, né? Olha aí eles de novo!


Como falei são probleminhas menores (talvez nem devesse chamá-los de problemas) que não estragam em nada a experiência literária. “Duas Guerras Surreais” é uma novela realmente espetacular. Fiquei encantado com sua narrativa, com a atemporalidade do seu texto e a profundidade da sua trama. A boa literatura, na minha visão, é aquela que diz muitas coisas indiretamente. Quanto mais você lê, mais elementos acha e mais conexões com a realidade encontra. E nesse sentido, garanto que o novo livro de Graziella Moraes é perfeito.


Por essas e outras, quando descubro que algum roteirista de televisão e cinema está lançando um livro de ficção, fico com a expectativa lá no alto. Penso cá com meus botões: lá vem mais uma trama redonda, ágil e sagaz. Exagero da minha parte?! Pode ser. Mas lendo Graziella Moraes, Helio Martins Jr, Renato Siqueira e Luciano Milici, admito que não me frustrei até agora com minhas altas exigências. Juro que fiquei fã do trabalho literário dessa trupe. E viva a literatura feita pelos olhos e pelas mãos do pessoal do audiovisual!


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