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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em novembro e dezembro de 2021
Confira os 75 principais títulos de ficção e poesia que foram publicados no Brasil no último bimestre desse ano. O final de ano não é tradicionalmente um período de muitos lançamentos para o Mercado Editorial. As editoras brasileiras preferem publicar suas novidades até o finalzinho de outubro ou no mais tardar até a primeira quinzena de novembro. Depois, elas só voltam a intensificar a entrega de novos livros em fevereiro ou março. Em outras palavras, esperam o Carnaval passar. Não dá para criticá-las – o ano só começa para valer, aqui no lado de baixo do Equador, após os festejos carnavalescos (com pandemia ou sem pandemia). Portanto, não espere, caro fã de literatura, muitos títulos sendo lançados nesse último bimestre de 2021 (nem mesmo no primeiro bimestre de 2022). Se não dá para termos quantidade, a boa notícia é que dá para esperarmos sim qualidade. E foi o que vimos nas livrarias nacionais em novembro e dezembro. Trago, nesse post do Bonas Histórias, os 75 principais livros recém-lançados em nosso país nas categorias romance, novela, coletâneas de contos, crônicas e ensaios, literatura infantojuvenil e antologias poéticas. Dessa lista, uma exclusividade da coluna Mercado Editorial, gostaria de destacar oito obras de autores brasileiros e oito títulos de escritores estrangeiros. Essas 16 publicações foram as que mais chamaram minha atenção nesse finalzinho de 2021. Tem muita novidade legal nas estantes de nossas livrarias, meu povo! Começo meus destaques pela literatura brasileira. Na seção dos romances, os principais lançamentos são “Véspera” (Record), terceira publicação ficcional de Carla Madeira, e “O Obsceno Sono dos Ciprestes” (Autêntica), terceira narrativa longa de Alex Sens. Carla e Alex estão entre os principais autores nacionais da atualidade. Ela é de Belo Horizonte, tem 57 anos e se destacou com “Tudo é Rio” (Record), de 2014, e “A Natureza da Mordida” (Quixote), de 2018. Ele é de Florianópolis (mas se mudou ainda garoto para o Sul de Minas), tem 33 anos e foi premiado com os romances “O Frágil Toque dos Mutilados” (Autêntica), de 2015, e “A Silenciosa Inclinação das Águas” (Autêntica), de 2019. Em “Véspera”, Carla Madeira apresenta o drama de Vedina, uma mãe que, em um momento de descontrole emocional, abandona o filho por um instante. Quando retorna para buscá-lo, ela não o encontra. Esse é o ápice da agonia de uma mulher já devastada por relações familiares marcadas por violência, desamor e tumulto: casamento fracassado, pai alcóolatra, mãe controladora etc. Incrível! “O Obsceno Sono dos Ciprestes” é a terceira parte da tetralogia iniciada por “O Frágil Toque dos Mutilados” e “A Silenciosa Inclinação das Águas”. No novo romance da série, Alex Sens continua o drama de Magnólia e de sua família. Agora, a história vai para a Suécia, onde as personagens enfrentam de diferentes formas a dor do luto. Imperdível para quem já iniciou a leitura dessa coleção ficcional. Outra grata surpresa desse final de ano foi o lançamento da novela “Refém da Memória” (E-book independente), do cineasta (e agora escritor) Helio Martins Junior. Em sua estreia na literatura, Helio traz um thriller psicológico de tirar o fôlego. A história de “Refém da Memória” é protagonizada por Lucas, um homem que acorda no vagão do metrô sem memória. Sem saber quem é, o que fazer e para onde ir, o rapaz se vê no meio de uma intriga que envolve a polícia, a Justiça, um grupo de criminosos, os médicos, a esposa e os funcionários de uma agência bancária. Gostei tanto dessa obra que não quero falar muito dela nesse momento. Em janeiro de 2022, farei um post com a análise completa desse livro de Helio Martins Junior na coluna Livros – Crítica Literária. “Refém da Memória” está disponível em formato eletrônico e é vendido na loja Kindle. Quando o assunto é a coletânea de contos, meus destaques vão para “Anos de Chumbo e Outros Contos” (Companhia das Letras), novo título de Chico Buarque, e “Seleta – Por Pior que Pareça” (José Olympio), seleção com as melhores narrativas curtas de Marcelino Freire. Essa dupla está na minha lista de escritores brasileiros favoritos. Cada vez mais à vontade no papel de escritor ficcional, Chico Buarque mergulha, em sua nova publicação (trata-se de sua primeira coletânea de contos), na beleza, na violência, nas surpresas e nas mazelas do Rio de Janeiro. “Anos de Chumbo e Outros Contos” tem oito contos que escancaram a realidade tragicômica de nosso país. Por sua vez, “Seleta – Por Pior que Pareça” traz as principais narrativas curtas de Marcelino Freire, um dos autores mais originais e relevantes da atualidade. Os contos dessa coleção foram extraídos de “Angu de Sangue” (Ateliê Editorial), “BaléRalé” (Ateliê Editorial), “Contos Negreiros” (Record), “Rasif” (Edith), “Amar é Crime” (Edith) e “Bagageiro” (José Olympio). O próprio Marcelino se encarregou de escolher suas melhores histórias. Ainda na área das coletâneas, mas não mais nas de contos e sim nas de crônicas, a boa nova é “A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta” (Companhia das Letras). Esse título reúne alguns dos textos de Stanislaw Ponte Preta, um dos mais engraçados cronistas brasileiros da metade do século XX. As crônicas de “A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta” foram selecionadas por Alvaro Costa e Silva a partir dos livros “Tia Zulmira e Eu” (Círculo do Livro), “Primo Altamirando e Elas” (Agir), “Rosamundo e os Outros” (Agir), “Garoto Linha Dura” (Nova Fronteira), “Febeapá” (Agir) e “Bola na Rede” (Civilização Brasileira). Ao mesmo tempo em que morremos de rir com os textos sempre inteligente de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto), acabamos ficando com a impressão de que o Brasil não mudou NADA nas últimas seis, sete décadas. Chega a ser assustadora a contemporaneidade das crônicas produzidas por Ponte Preta nos anos 1950 e 1960. Na prateleira dos livros infantojuvenis, gostaria de destacar o incrível “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear sua História” (Edelbra). Escrita por Heloisa Prieto, uma das mais premiadas escritoras brasileiras do universo infantil, e Victor Scatolin, poeta, performer e tradutor, essa obra é a continuação de "No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema” (Edelbra), de 2016. Além de ter uma linda edição (que me foi enviada com muita consideração por Heloisa), “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear sua História” apresenta uma excelente narrativa. Vou comentar esse livro com todos os detalhes que ele merece no próximo mês, aqui no Bonas Histórias. Não percam! Por fim, meu último destaque entre os lançamentos da literatura brasileira em novembro e dezembro de 2021 é “Sonetos de Amor e Sacanagem” (Companhia das Letras), coletânea de poemas de Gregório Duvivier. Sou fã dos textos e do humor de Duvivier há algum tempo. Porém, não imaginei que ele pudesse produzir uma antologia poética tão interessante como essa. “Sonetos de Amor e Sacanagem” me lembrou (com o devido respeito pela comparação histórica) os melhores momentos de Gregório de Matos. Agora falemos um pouco de literatura internacional. Os lançamentos de autores gringos foram o dobro dos livros publicados pelos escritores nacionais nos últimos dois meses. Em relação à qualidade, posso destacar quatro romances estrangeiros disponíveis em português: “Autobiografia do Vermelho” (Editora 34), de Anne Carson, “Sula” (Companhia das Letras), de Toni Morrison, “A História de Shuggie Bain” (Intrínseca), de Douglas Stuart, e “Lar em Chamas” (Grua), de Kamila Shamsie. “Autobiografia do Vermelho” é o título ficcional mais conhecido da canadense Anne Carson, que enfim ganha uma edição em português. Nessa obra em prosa poética (que lembra um pouco “Os Reis”, a narrativa de estreia de Julio Cortázar), Carson reconstrói o mito grego de Gerião, monstro que Herácles desafiou. Em “Sula”, Toni Morrison, norte-americana vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, apresenta o comovente drama de duas amigas que acabaram seguindo por caminhos diferentes na vida. Esse é o segundo romance de Morrison e um dos seus principais títulos. A maior novidade desse bimestre é o espetacular “A História de Shuggie Bain”. Obra vencedora do Booker Prize de 2020, esse livro do escocês Douglas Stuart relata o drama de Shuggie e sua família. A narrativa se passa em Glasgow no início dos anos 1980. Diante da fome, da miséria, da violência e do abandono do pai, Shuggie Bain precisará encarar dias sombrios. Prepare-se para surpresas de tirar o sono! “Lar em Chamas”, por sua vez, é a trama da paquistanesa Kamila Shamsie que venceu o Prêmio Women’s Prize for Fiction de 2018. Essa história é protagonizada por Isma, uma jovem muçulmana de 19 anos que vive na periferia de Londres. Com a morte precoce da mãe, coube a Isma cuidar dos irmãos menores e ganhar a vida, algo com potencial para provocar um choque cultural dentro da comunidade religiosa de paquistaneses da Inglaterra. Quando entramos na categoria das coletâneas de contos, as boas novas são: “O Círculo das Sete Pedras – Uma Coletânea de Histórias de Outlander” (Arqueiro), de Diana Gabaldon, “Contos Morais” (Companhia das Letras), de J. M. Coetzee, e “As Meninas” (Editora 34), de Liudmila Ulítskaia. Em “O Círculo das Sete Pedras – Uma Coletânea de Histórias de Outlander”, Diana Gabaldon continua expandindo a série best-seller de “Outlander” (Saída de Emergência). A novidade é que, ao invés de lançar mais um romance tijolão, a norte-americana traz um conjunto de narrativas breves ambientado na Escócia do século XVIII, para onde a enfermeira inglesa Claire Randall foi parar após descobrir sem querer uma fenda temporal nas montanhas de Inverness. Essa série literária é incrível!!! “Contos Morais” é um dos mais recentes trabalhos ficcionais do sul-africano vencedor do Nobel de Literatura em 2003. Mais conhecido pelos romances, J. M. Coetzee apresenta sua segunda coleção de narrativas curtas. Esse livro é uma mistura de “A Vida dos Animais” (Companhia das Letras), de 1999, e “Three Stories” (sem publicação em português), de 2014. Como é típico da literatura de Coetzee, temos histórias protagonizadas por figuras melancólicas, solitárias e com atitudes questionáveis. Além disso, esse título tem a presença de muitos (muitos!) animais (daí a lembrança de “A Vida dos Animais”). “As Meninas” é um dos livros mais famosos de Liudmila Ulítskaia, uma das principais escritoras russas da atualidade. A partir desse trabalho primoroso realizado pela Editora 34, sempre muito cuidadosa com suas traduções, os leitores brasileiros têm acesso à primeira obra em português da Ulítskaia. Essa coletânea de contos é imperdível para quem gosta do melhor da ficção russa. Para terminar as citações de autores internacionais, preciso falar de um lançamento infantojuvenil com potencial de vender bastante nas livrarias brasileiras. “Diário de Um Banana 16 – Bola Fora” (VR) é a mais recente publicação de Jeff Kinney. O escritor e ilustrador norte-americano não se cansa de mostrar os desafios enfrentados por Greg Heffley, um garoto ao melhor estilo “total loser”. Mesmo com todas as adversidades, o admirável Greg tenta dar a volta por cima e viver alguns momentos de êxito em sua conturbada puberdade. Essa série infantil é desde já um clássico contemporâneo do gênero. Veja, a seguir, a listagem do Bonas Histórias com os 75 principais livros que foram publicados no Brasil no último bimestre de 2021. Para quem não conhece ainda nosso levantamento, selecionamos as obras ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos, coleções de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e as antologias poéticas recém-lançadas nas livrarias e lojas do país. Confira as novidades de novembro e dezembro da coluna Mercado Editorial: FICÇÃO BRASILEIRA: “Véspera” (Record) – Carla Madeira – Romance – 280 páginas. “O Obsceno Sono dos Ciprestes” (Autêntica) – Alex Sens – Romance – 288 páginas. “Atirem Direto no Meu Coração” (HarperCollins) – Ilze Scamparini – Romance – 304 páginas. “Gente Rica – Cenas da Vida Paulistana” (Chão) – José Agudo – Romance – 200 páginas. “O Livro dos Pequenos Nãos” (Companhia das Letras) – Heloisa Seixas – Romance – 168 páginas. “Porco de Raça” (Darkside) – Bruno Ribeiro – Romance – 192 páginas. “Vantagens que Encontrei na Morte do Meu Pai” (Darkside) – Paula Febbe – Romance – 224 páginas. “O Homem que Enterrou Hitler” (Contracorrente) – Marcelo Netto e Aldo Gama – Romance – 216 páginas. “O Amor Vem Depois” (Planeta) – Bruno Fontes e Zack Magiezi – Romance – 160 páginas. “O Último Ancestral” (HarperCollins) – Ale Santos – Romance – 352 páginas. “Refém da Memória” (E-book independente) – Helio Martins Junior – Novela – 116 páginas. “Isto Não É Um Romance” (Nova Fronteira) – Cunha de Leiradella – Novela – 120 páginas. “Anos de Chumbo e Outros Contos” (Companhia das Letras) – Chico Buarque – Coletânea de Contos – 168 páginas. “Seleta – Por Pior que Pareça” (José Olympio) – Marcelino Freire – Coletânea de Contos – 128 páginas. “Eva Brava” (Fósforo) – Paulliny Tort – Coletânea de Contos – 104 páginas. “Inventário de Predadores Domésticos” (Darkside) – Verena Cavalcanti – Coletânea de Contos – 104 páginas. “Morto Não Fala e Outros Segredos de Necrotério” (Darkside) – Marco de Castro – Coletânea de Contos – 272 páginas. “A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta” (Companhia das Letras) – Stanislaw Ponte Preta – Coletânea de Crônicas – 360 páginas. “Vento Vadio” (Todavia) – Antônio Maria – Coletânea de Crônicas – 472 páginas. “Vão – Trens, Marretas e Outras Histórias” (Patuá) – Jéssica Moreira – Coletânea de Crônicas e Poemas – 472 páginas. “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear sua História” (Edelbra) – Heloisa Prieto e Victor Scatolin – Infantojuvenil – 88 páginas. “O Primeiro Beijo de Romeu” (Galera) – Felipe Cabral – Infantojuvenil – 434 páginas. “A Vida Não É Uma Linha Reta” (Planeta) – Fabi Santina – Infantojuvenil – 224 páginas. “O Império dos Mortos” (Rocco) – André Gordirro – Infantojuvenil – 400 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Autobiografia do Vermelho” (Editora 34) – Anne Carson (Canadá) – Romance – 192 páginas. “Sula” (Companhia das Letras) – Toni Morrison (Estados Unidos) – Romance – 176 páginas. “A História de Shuggie Bain” (Intrínseca) – Douglas Stuart (Escócia) – Romance – 528 páginas. “Lar em Chamas” (Grua) – Kamila Shamsie (Paquistão) – Romance – 288 páginas. “Autobiografia” (Companhia das Letras) – José Luís Peixoto (Portugal) – Romance – 272 páginas. “Luxúria” (Companhia das Letras) – Raven Leilani (Estados Unidos) – Romance – 232 páginas. “Agora Veja Então” (Alfaguara) – Jamaica Kincaid (Antígua e Barbuda) – Romance – 144 páginas. “O Desejo” (Arqueiro) – Nicholas Sparks (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Procura-se Um Namorado” (Paralela) – Alexis Hall (Inglaterra) – Romance – 424 páginas. “A Mulher das Dunas” (Estação Liberdade) – Kobo Abe (Japão) – Romance – 288 páginas. “Escrever” (Relicário) – Marguerite Duras (França) – Romance – 148 páginas. “De Sangue e Cinzas” (Galera) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Romance – 672 páginas. “Adultos” (Bertrand Brasil) – Marian Keyes (Irlanda) – Romance – 658 páginas. “Quando Ninguém Está Olhando” (Intrínseca) – Alyssa Cole (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Princípio de Karenina” (Companhia das Letras) – Afonso Cruz (Portugal) – Romance – 200 páginas. “Mapa do Coração” (Harlequin) – Susan Wiggs (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Loja dos Sonhos” (Intrínseca) – Jojo Moyes (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “O Paciente” (Minotauro) – Jasper DeWitt (Estados Unidos) – Romance – 192 páginas. “SMS Para Você” (Jangada) – Sofie Cramer (Alemanha) – Romance – 340 páginas. “Hell House – A Casa do Inferno” (Darkside) – Richard Matheson (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “O Amigo Perdido” (Rua do Sabão) – Hella Haasse (Holanda) – Romance – 136 páginas. “Separação” (Companhia das Letras) – Katie Kitamura (Estados Unidos) – Romance – 216 páginas. “Bem-vinda à América” (Rua do Sabão) – Linda Boström Knausgård (Suécia) – Romance – 120 páginas. “Eu Não Sei Quem Você É” (Dublinense) – Penny Hancock (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “A Rua” (Carambaia) – Ann Petry (Estados Unidos) – Romance – 412 páginas. “A Garota e a Noite” (L&PM Editores) – Guillaume Musso (França) – Romance – 296 páginas. “Tentação dos Bastardos – Série Irmãos Trewlove – Livro 6” (Harlequin) – Lorraine Heath (Estados Unidos) – Romance – 426 páginas. “Cães Negros” (Companhia de Bolso) – Ian McEwan (Inglaterra) – Romance – 168 páginas. “Meu Nome Era Eileen” (Todavia) – Ottessa Moshfegh (Estados Unidos) – Romance –272 páginas. “Lilith – Um Romance” (Thomas Nelson Brasil) – George MacDonald (Escócia) – Romance – 384 páginas. “Elementais” (Darkside) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Sardas” (HarperCollins) – Cecelia Ahern (Irlanda) – Romance – 320 páginas. “Paixão – Livro II da Série Crave – Volume 2” (Austral Cultural) – Tracy Wolff (Estados Unidos) – Romance – 608 páginas. “Cara ou Coroa” (Bertrand Brasil) – Jeffrey Archer (Inglaterra) – Romance – 518 páginas “A Outra Garota Negra” (Intrínseca) – Zakiya Dalila Harris (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Queenie” (Austral Cultural) – Candice Carty-Williams (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Rastro de Sangue – Holmes, o Maligno 4” (Darkside) – Kerri Maniscalco (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “Piranesi” (Morro Branco) – Susanna Clarke (Inglaterra) – Romance – 232 páginas. “Destransição, Baby” (Tordesilhas) – Torrey Peters (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “O Círculo das Sete Pedras – Uma Coletânea de Histórias de Outlander” (Arqueiro) – Diana Gabaldon (Estados Unidos) – Coletânea de contos – 544 páginas. “Contos Morais” (Companhia das Letras) – J. M. Coetzee (África do Sul) – Coletânea de contos – 152 páginas. “As Meninas” (Editora 34) – Liudmila Ulítskaia (Rússia) – Coletânea de contos – 168 páginas. “A Cidade de Vapor – Contos Reunidos” (Suma) – Carlos Ruiz Zafón (Espanha) – Coletânea de contos – 184 páginas. “Mau Comportamento” (Fósforo) – Mary Gaitskill (Estados Unidos) – Coletânea de contos – 256 páginas. “H. P. Lovecraft – Medo Clássico Volume 2” (Darkside) – H. P. Lovecraft e Virgil Finlay (Estados Unidos) – Coletânea de contos – 400 páginas. “O Direito ao Sexo” (Todavia) – Amia Srinivasan (Bahrein) – Coletânea de ensaios – 320 páginas. “Os Diários de Virginia Woolf – Seleção [1897 – 1941]” (Rocco) – Virginia Woolf (Inglaterra) – Memórias – 432 páginas. “Sem Amor” (Rocco) – Alice Oseman (Inglaterra) – Infantojuvenil – 480 páginas. “Diário de Um Banana 16 – Bola Fora” (VR) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Sonetos de Amor e Sacanagem” (Companhia das Letras) – Gregório Duvivier – 112 páginas. “Risca Faca” (Demônio Negro) – Ademir Assunção – 132 páginas. Agora a coluna Mercado Editorial só volta em 2022. Em janeiro do ano que vem, retornarei para apontar quais foram os livros mais vendidos em 2021 nas livrarias brasileiras. Enquanto 2022 não chega, continue acompanhando os demais posts do Bonas Histórias. Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Quando Ninguém Está Olhando - O thriller dramático de Alyssa Cole
Publicado em setembro de 2020, o romance da escritora nova-iorquina apresenta um suspense baseado no racismo e na especulação imobiliária que vitimizam os moradores antigos do Brooklyn. No final de semana retrasado, li “Quando Ninguém Está Olhando” (Intrínseca), romance de Alyssa Cole ambientado no Brooklyn, bairro tradicional de Nova York. Famosa pelos dramas históricos protagonizados por mulheres negras e de personalidade forte, como a impecável série literária “Liga da Lealdade”, a autora de 41 anos é atualmente um dos bons nomes da ficção norte-americana. Confesso que há um tempinho estava curioso para conhecer mais de perto o seu trabalho. E, sem querer, consultando a biblioteca do meu Kindle no início do mês, achei justamente “Quando Ninguém Está Olhando”, uma das obras mais recentes de Cole. Acho que comprei esse título em alguma promoção no final do ano passado – teria sido na última Black Friday ou no último Amazon Prime Day de 2022. Então pensei: por que lê-lo? Por que não o ler? Por que lê-lo? Li-o. E, como diria Armando Volta, aceite esse post da coluna Livros – Crítica Literária porque é de coração, sem o menor interesse do Bonas Histórias. Publicado nos Estados Unidos em setembro de 2020, “Quando Ninguém Está Olhando” foi lançado em português em novembro de 2021 pela Editora Intrínseca. A tradutora responsável pela adaptação do romance (When No One Is Watching é o título original) para nosso idioma foi Thaís Britto. Se eu não estiver enganado, citei a chegada dessa obra em nossas livrarias no post dos lançamentos do último bimestre do ano retrasado na coluna Mercado Editorial. Curiosamente, esse é o único título de Alyssa Cole que teve os direitos comprados pela Intrínseca. Os livros em português da série “Liga da Lealdade” – “Uma União Extraordinária”, “Uma Esperança Dividida” e “Uma Liberdade Incondicional” – são da Editora Harlequin Brasil e da série “Reluctant Royals” – “Teoricamente Princesa” – são da TopSeller, selo da lusitana Penguin Livros. Alyssa Cole não escreve apenas romances históricos. Ela também navega com frequência pelas narrativas contemporâneas e pela ficção científica. De certa maneira, “Quando Ninguém Está Olhando” se enquadra nessas outras definições – apesar de ser um exagero chamar essa obra de ficção científica ou de distopia. Infelizmente, suas denúncias são beeeeeem reais. Além de apresentar histórias que denunciam o racismo e exaltam o feminismo, a norte-americana constrói tramas com personagens homossexuais, com forte contexto político e com engajamento social. Ou seja, é uma autora com um olhar atual e com opiniões bastante críticas em relação à sociedade de seu país. Nascida no Bronx, bairro populoso de Nova York e com predominância de população de origem latino-americana, e criada no outro lado da ponte, em Nova Jersey, Alyssa Cole mora atualmente em Martinica. Basicamente, ela vive na ilha caribenha, onde escreve a maioria dos seus livros, e só voa para Nova York a trabalho, o que ocorre em várias semanas por ano. Dá para dizer que em épocas de lançamento literário e de divulgação do trabalho editorial, a escritora divide-se entre a América Central e a América do Norte. Depois de “Uma União Extraordinária”, livro 1 de “Liga da Lealdade”, e “A Prince on Paper” (ainda sem edição em português), quinto título da série “Reluctant Royals”, “Quando Ninguém Está Olhando” é o romance de Cole mais premiado pela crítica e mais aclamado pelo público. Ele conquistou o Edgar Award de 2021, uma tradicional premiação literária dos Estados Unidos do gênero de mistério, como a melhor obra original daquela temporada. A versão em audiolivro dessa publicação também arrematou o Audie Award de 2021, prêmio voltado para os audiobooks norte-americanos, na categoria melhor thriller/suspense. O enredo de “Quando Ninguém Está Olhando” se passa no tempo presente em Gifford Place, uma comunidade tradicionalmente negra do Brooklyn. Esse pedaço do bairro nova-iorquino, que historicamente foi marginalizado e ignorado pelas autoridades públicas, tem sofrido uma intensa especulação imobiliária nos últimos anos, algo que os especialistas do setor chamam de gentrificação. Basicamente, os imóveis são comprados por gente mais rica e de fora da região, o que eleva seus preços a níveis absurdos. Como consequência, os aluguéis e os impostos se tornam impraticáveis para os moradores antigos, que acabam expulsos por pressão financeira do local em que nasceram e viveram desde pequenos. Na ânsia de lucros maiores, os investidores do mercado imobiliário e as construtoras tentam acelerar esse processo de mudança do perfil dos habitantes do Brooklyn. A nova realidade é sentida com força em Gifford Place. Essa parte do bairro era formada essencialmente pela população negra e pobre de Nova York. Contudo, os novos moradores que chegam agora são pessoas brancas e mais elitizadas da cidade. À medida que os novos habitantes se instalam e muitos dos antigos cidadãos se mudam para longe, começam a surgir conflitos econômicos (ricos versus pobres) e raciais (brancos versus negros). A tensão aumenta e as brigas entre os vizinhos se tornam rotineiras. Os novatos veem com maus olhos os moradores antigos e os moradores antigos não engolem a vinda de gente tão metida. Se o racismo já era praticado fora de Gifford Place, agora ele adentra com mais intensidade nas ruas da comunidade. Inconformada com a situação de injustiça social, Sydney Green, uma mulher negra de trinta anos e moradora antiga do bairro, resolve criar uma visita guiada para os turistas que se interessam pelo Brooklyn. Ao invés de contar a história da região pelo olhar das pessoas brancas, como vem sendo feito até ali pelos guias turísticos e pelos historiadores convencionais, ela irá narrar a história do seu bairro pela perspectiva das pessoas negras. A moça acredita que conseguirá valorizar os verdadeiros heróis daquele pedacinho da cidade natal através do tour inovador e mais fidedigno. O problema é que Sydney passa por uma forte crise emocional. Recém-separada, ela ainda não conseguiu superar o fim do matrimônio, que sempre fora marcado pelo relacionamento tóxico do ex-marido. Além disso, a mãe dela está doente e vive em uma clínica médica. Isolada dentro de casa, a moça está deprimida e parece ter surtos de alucinação. Por isso, está sempre com a sensação de que está em perigo. As coisas se tornam insustentáveis quando Sydney não aceita o comportamento presunçoso e preconceituoso de Kimberly, uma nova e rica vizinha branca. As duas vivem às turras e não se suportam. Tentando sair da fossa sentimental e das paranoias que parecem lhe dominar, Sydney Green encontra na pesquisa histórica do bairro para seu passeio turístico uma maneira de sociabilizar com os antigos vizinhos e de aliviar a mente dos problemas atuais. Curiosamente, quem se prontifica para ajudá-la nessa empreitada é Theodore, um homem branco recém-chegado à Gifford Place. Ele é, acredite se quiser, namorado de Kimberly. Porém, o casal de novatos no bairro enfrenta uma série crise conjugal e só segue dividindo a mesma casa porque Theo está desempregado e não tem dinheiro para pagar aluguel. Assim, aceita continuar convivendo com a ex-namorada, que não esconde o desprezo por ele nem o novo relacionamento que engatou com um tal de David. Amargurado com a decadência sentimental, material e profissional, o rapaz vive embriagado e enfurnado no sótão da casa, para onde foi despachado pela antiga amada. Theodore encara a ajuda na pesquisa de Sydney como um jeito de se aproximar da comunidade negra de Gifford Place, que parece odiá-lo, e, principalmente, de ficar mais íntimo da bela e sexy vizinha da casa da frente. Rapidamente, pinta um clima entre a dupla. Mais do que os sentimentos que brotam e se intensificam entre Sydney e Theo, o que os une é a sensação de que episódios muito estranhos estão ocorrendo naquele pedaço do Brooklyn. Seria só uma impressão dos protagonistas abalados psicologicamente ou o conflito socio-racial que Gifford Place vivencia ultimamente está tomando contornos dignos de um thriller de terror?! Esse é o mistério que move a trama do romance de Alyssa Cole. Além de torcer para que as personagens principais fiquem juntas, o leitor tenta entender o que se passa nas ruas e casas daquela região de Nova York. “Quando Ninguém Está Olhando” é um romance parrudão. Ele possui 400 páginas, que estão divididas em 25 capítulos. Há ainda um prólogo e um epílogo. Levei aproximadamente oito horas para lê-lo de ponta a ponta no sábado retrasado. Para isso, fiz basicamente quatro sessões de duas horas de leitura (não li tudo de uma vez só, caso você tenha pensado nessa possibilidade!). Uma sessão foi de manhã, duas foram à tarde e uma foi à noite. Ou seja, consumi este livro de Alyssa Cole em um único dia sem grandes complicações. Quem gosta de fazer longas imersões literárias como eu, a boa notícia é que esta obra é um convite sedutor para os leitores hardcore e dá para devorá-lo rapidamente. Quem não gosta de fazer longas leituras, dá tranquilamente para degustá-lo em dois ou três dias ou mesmo em três ou quatro noites. O primeiro elemento que chama a atenção em “Quando Ninguém Está Olhando” é a pegada engajada do romance. Alyssa Cole produz uma narrativa com fortes e contundentes críticas sociais, uma de suas marcas literárias. A diferença deste livro para seus títulos mais famosos é que o tom de denúncia está ancorado no presente e não apenas no passado. É até difícil listar todos os assuntos abordados pela autora nova-iorquina: racismo estrutural e histórico dos Estados Unidos, crise dos opioides, homofobia, violência urbana, epidemia de crack, especulação imobiliária, falta de um sistema público de saúde, violência policial, sexismo, choque de classes sociais, gentrificação, injustiça social, descaso público com determinados segmentos da população, perspectiva enviesada da história etc. Minha sensação é que a ficção foi abraçada com rara felicidade pelo contexto narrativo e pela realidade nua e crua. Nesse sentido, quem ganha destaque é a ambientação do livro. Repare no clima de thriller de terror e de romance noir de “Quando Ninguém Está Olhando”. A atmosfera pesada e recheada de incertezas atiça a curiosidade dos leitores e move a dinâmica do enredo para caminhos inimagináveis. Usando uma analogia cinematográfica (numa mistura das colunas Livros – Crítica Literária e Cinema), a ambientação desta obra de Cole mescla o suspense psicológico de “Janela Indiscreta” (Rear Window: 1954), o terror surrealista de “Corra!” (Get Out: 2017), a opressão social de “Estranhos Vizinhos” (Neighbors: 1981), o racismo e o sexismo de “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures: 2016) e a angústia pela sociedade preconceituosa e injusta de "Marshall - Igualdade e Justiça" (Marshall: 2017). O resultado não poderia ter sido melhor! O legal é notar que o clima da narrativa é de insegurança para todas as personagens, não apenas para a dupla de protagonistas e para os vizinhos negros de Gifford Place. Até mesmo os novos moradores do bairro, gente branca e mais endinheirada, se sentem deslocados e em perigo constante. A culpa é, obviamente, das diferenças sociais e raciais. É como se uma bomba-relógio estivesse para explodir no Brooklyn a qualquer momento e seus efeitos imprevisíveis fossem atingir a todos indistintamente. Repare que a ambientação de medo e angústia por mais forte que seja ainda assim possui certo tom de incerteza. Afinal, o clima pesado da vizinhança de Gifford Place seria real ou fruto da imaginação de Sydney Green e Theodore, hein? As dúvidas que surgem nas cabeças dos leitores são válidas porque as duas personagens principais de “Quando Ninguém Está Olhando” são figuras nem um pouco confiáveis. Ambos os protagonistas vivem fases complicadíssimas e não estão em seus perfeitos juízos mentais. Enquanto Sydney padece de depressão pela doença da mãe e pelo término do casamento, o que a deixa irritadiça e sem conseguir dormir, Theo está amargurado pela traição e abandono da namorada e pelo desemprego insistente, o que o faz mergulhar no alcoolismo. Em outras palavras, ela está a ponto de enlouquecer (a falta de sono a faz delirar) e ele está mergulhado no abismo emocional (a tristeza o deixa suscetível a reações passionais). Por falar nisso, é preciso elogiar a construção das personagens desse romance. Achei o trabalho de Alyssa Cole ótimo quando o assunto é a constituição das figuras ficcionais. Note que há o predomínio de tipos redondos. Até os protagonistas possuem um farto conjunto de características negativas e de comportamentos questionáveis. Ou seja, eles não são heróis tradicionais, não estão imunes aos erros nem são infalíveis. São pessoas com vários defeitos como eu e você (se bem que é difícil achar algum defeito nos leitores do Bonas Histórias!). Adorei esse recurso! Se Sydney ainda se salva em uma avaliação geral (na minha visão, ela é apenas alguém amargurada que passa por uma fase complicada; não é, portanto, uma mulher chata, mas alguém que está sendo chata diante dos tormentos vivenciados recentemente), Theo não escapa de ser classificado de um legítimo anti-herói. Paradoxalmente, o que o ex-namorado de Kimberly, um rapaz branco e boa-pinta, faz na surdina é justamente aquilo que os novos moradores brancos do Brooklyn acusam os antigos moradores negros do bairro de fazerem. Não poderia existir contradição mais espetacular do que essa, né?! Por mais que a trama tenha uma overdose de maniqueísmo (aspecto que vamos debater mais à frente nesse post da coluna Livros – Crítica Literária e que me incomodou um pouco), esse efeito não atinge a maioria das personagens, principalmente os protagonistas e os coadjuvantes. A questão sensível é que os vilões não receberam o mesmo tratamento e são, infelizmente, figuras estritamente planas. Esse é o único equívoco na construção das personagens que notei neste romance. Se tivéssemos antagonistas com um maior equilíbrio entre elementos positivos e negativos, a qualidade de “Quando Ninguém Está Olhando” como trama ficcional iria crescer substancialmente. Outra questão que gostei foi da construção das cenas. Temos nesse livro boas passagens do início ao fim. Percebe-se que Cole possui total domínio da técnica narrativa e soube colocar sua competência ficcional em prol da sagacidade do enredo do romance. Até mesmo as cenas aparentemente pouco relevantes, como as visitas de Sydney e Theo por algumas instituições do Brooklyn e as pesquisas da dupla pelo passado do bairro, têm função objetiva, seja para estreitar o relacionamento do par romântico, seja para compor o contexto da história que será puxado no desfecho. Por falar na encenação, é preciso dizer que o início de “Quando Ninguém Está Olhando” foge bastante do padrão dos thrillers comerciais, dos suspenses literários contemporâneos e dos romances policiais clássicos. Admito que gostei dessa inovação, algo inimaginável nos livros de Harlan Coben, Agatha Christie, Rubem Fonseca, Nora Roberts e Sidney Sheldon, por exemplo. Ao invés de apresentar logo de cara o mistério que vai fazer a roda da trama girar ou o crime que será investigado pelos narradores-protagonistas, Alyssa Cole prefere focar na dinâmica cotidiana do bairro. É como se o Brooklyn e, mais especificamente, Gifford Place se tornassem uma personagem principal do romance. Assim, assistimos a uma espécie de crônica de costumes à la “O Cortiço” (Penguin), clássico naturalista de Aluísio Azevedo, “Os Transparentes” (Companhia das Letras), romance adulto de Ondjaki, e “Capão Pecado” (Tusquets), obra-prima de Ferréz. A preocupação inicial de Alyssa Cole é mais apresentar os dramas pessoais e familiares da localidade retratada do que inserir um conflito evidente e específico na sua história. Se você acha que tal inovação pode desestimular a leitura, aviso desde já que não senti isso em minha experiência literária. A trama me prendeu e eu não larguei o livro durante o dia inteiro. Contudo, é bom avisar que “Quando Ninguém Está Olhando” apresenta características muito mais de drama psicológico, romance romântico e saga racial do que de suspense, thriller de ação e romance policial. É tudo uma questão de perspectiva! Como drama noir, história romântica e narrativa de crítica social, essa obra de Cole é excelente. Já como suspense, ela é razoável. E como thriller de ação e trama policial, trata-se de um título razoável. E por que estou fazendo tal distinção? Simplesmente porque o suspense só surge na segunda metade de “Quando Ninguém Está Olhando”. As cenas de ação e a investigação criminal demoram ainda mais: só aparecem no terço final. Por mais eletrizante que seja o desfecho (há várias reviravoltas e surpresas no desenlace do romance!), a história demora para engrenar para quem anseia mistério, aventura e adrenalina. Essa longa espera não acontece para quem tem a expectativa de encontrar um enredo dramático, sentimental e engajado. Exatamente por isso, eu não concordo com a classificação que foi dada para esse livro de Alyssa Cole. Para mim, ele deveria ser vendido como drama social e romântico. E ponto. A escolha pela narração dupla também foi positiva. Quando temos dois narradores em primeira pessoa (Sydney e Theo), é possível acompanharmos a história por diferentes perspectivas e cenários. A dupla de protagonistas se reveza na contação da trama, com cada um sendo responsável pela voz de um capítulo (com predomínio de Sydney Green quando analisamos o conteúdo integral do romance). Assim, não há risco de se cometer erro de foco narrativo ou de se forçar a barra para acompanhar determinada cena ou episódio. Por mais banal que seja esse recurso atualmente (muitos suspenses têm recorrido à narrativa dupla), admito que ele foi bastante eficiente em “Quando Ninguém Está Olhando”. A impressão que temos é que sua narrativa está redondinha, redondinha. Eu, pelo menos, não achei nenhum erro no que se refere à narração. Por mais que eu fale dos aspectos técnicos desse título, seu principal mérito está no conteúdo sensível, forte e revelador. A opressão, as injustiças e a violência sofrida pela população negra do Brooklyn nos dias atuais são assustadoras. Ou você acha que o racismo era maior no passado? Ou acha que Alyssa Cole exagerou nas tintas dessa história que pode ser vista como uma distopia étnica?! As respostas para essas questões passam pelo debate sobre os choques raciais que explodem de tempo em tempo nos Estados Unidos. Talvez, o racismo contemporâneo não seja maior ou menor do que o do passado, apenas diferente. A impressão durante a leitura de “Quando “Ninguém Está Olhando” é que ele se mascara em engrenagens mais eficientes, cruéis e ocultas da sociedade branca. Qualquer semelhança com o que acontece no lado de baixo da linha do equador não é mera coincidência. O que ajuda a corroborar com a tese de Alyssa Cole é a belíssima construção histórica do racismo nos Estados Unidos que a obra ficcional traz. Já sabemos que a autora nova-iorquina é excelente no retrato do passado pelos seus títulos mais famosos. E aqui novamente temos uma gostosa viagem pela história, mesmo em uma trama contemporânea. A pesquisa realizada por Sydney e Theo apresenta aos leitores o passado da formação dos Estados Unidos e do Brooklyn. O mais interessante é que esse passeio pelas páginas dos livros de História é feito, em “Quando “Ninguém Está Olhando”, pela perspectiva dos negros norte-americanos. Incrível! Confesso que as únicas passagens históricas que eu não conhecia (e que me fizeram pesquisar) foram o Pânico de 1837 (só conhecia o de 1929) e os apagões de luz sofridos no bairro em que o enredo do livro se passa (maneira de prejudicar a população negra). Também gostei da tradução de Thaís Britto, com direito a escolha de uma palavra inusitada como “birosca” (adorei!), do ritmo narrativo (para um drama sentimental) e da linguagem direta e eficiente (o que torna a leitura fluida e rápida). De certa maneira, a literatura de Alyssa Cole me lembrou um pouco a literatura ficcional de Chimamanda Ngozi Adichie. Em outras palavras, “Quando Ninguém Está Olhando” interage intertextual e tematicamente com “Americanah” (Companhia das Letras). Talvez o correto seria dizer que as duas obras são complementares para entendermos a realidade dos negros nos Estados Unidos (tanto dos imigrantes quanto dos nascidos em território norte-americano há algumas gerações). Apesar da interminável lista de pontos positivos, o romance de Cole também tem aspectos que deixam um pouco a desejar. O primeiro deles é, como já citado, o forte maniqueísmo da trama. A escolha dos vilões e dos heróis é até adequada do ponto de vista narrativo, mas ainda assim é um tanto exagerada e caricata. Se tivéssemos uma pegada menos maniqueísta, acredito que “Quando Ninguém Está Olhando” se tornaria um livro ainda melhor. Outra questão que já levantei a bola e que preciso detalhar mais, afinal estamos na coluna Livros – Crítica Literária, é a demora para o conflito principal da publicação surgir aos olhos dos leitores. Esperar 200 ou 250 páginas para se pegar o atrito central da história talvez seja um tempo excessivo para a maioria do público, principalmente para aqueles que esperam por um título de suspense, mistério e ação. Nesse caso, é provável que essa obra de Cole decepcione alguns, por melhor que seja a construção narrativa da primeira parte do livro. Daí minha ideia de mudar a classificação da publicação para drama psicológico, romantismo e/ou romance noir. Se a expectativa dos leitores fosse outra, tenho certeza de que o índice de decepção cairia substancialmente. Ainda assim, o saldo de “Quando Ninguém Está Olhando” é para lá de satisfatório. Adorei esse livro e o estilo narrativo de Alyssa Cole. Vale a pena conhecer o trabalho dessa ótima escritora da literatura norte-americana e o jeito interessantíssimo com o qual aborda o racismo em seu país natal. Por tudo isso, ainda reafirmo minha vontade de ler “Uma União Extraordinária”, seu romance mais celebrado, e de debatê-lo no Bonas Histórias. Quem sabe não compre esse título na próxima Black Friday ou no próximo Amazon Prime Day, hein? Veremos. Veremos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Músicas: O Vira - Cinquentenário da estreia apoteótica do Secos & Molhados
Lançada no primeiro álbum do grupo em 1973, a composição de João Ricardo e Luli, que mistura vários ritmos e aborda o folclore nacional, se tornou um clássico da música popular brasileira e alçou a exótica banda de rock à consagração. Na coluna Músicas de hoje, vamos discutir “O Vira”, uma das composições mais importantes da música popular brasileira e um ícone do rock nacional. Apesar de sua importância histórica e cultural, quando falamos do título dessa canção em 2023, muita gente acha que estamos nos referindo ao famoso hit do português Roberto Leal ou à hilária paródia do Mamonas Assassinas. Não! “O Vira” da qual estou me referindo neste post do Bonas Histórias é a principal criação de João Ricardo e Luli (cantora, compositora e escritora carioca também grafada como Luhli). A faixa foi interpretada pelo Secos & Molhados, banda composta por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad e que surgiu como um meteoro nos anos 1970. E como todo bom meteoro que se preze, o grupo explodiu rapidamente no cenário musical, mas teve trajetória coletiva abreviada em pouco menos de dois anos. “O Vira” foi a canção que catapultou a carreira do Secos & Molhados, um dos mais emblemáticos e originais conjuntos musicais brasileiros. O hit foi lançado no primeiro álbum do grupo, em 1973. Por falar neste disco, ele é considerado um dos mais importantes da nossa história. A Revista Rolling Stone Brasil elegeu, em outubro de 2007, “Secos & Molhados” (o álbum é homônimo à banda) como o quinto melhor da música nacional. Ele só perde em impacto e importância para “Acabou Chorare” (1972), dos Novos Baianos (1º lugar na lista da Rolling Stone), “Tropicália ou Panis et Circencis” (1968), dos tropicalistas Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Nara Leão e Tom Zé (2º lugar), “Construção” (1971), de Chico Buarque (3º lugar), e “Chega de Saudade” (1959), de João Gilberto (4º lugar). O motivo dessa relevância é que “Secos e Molhados” não foi um álbum de uma só música. Ele trazia vários sucessos e canções que permanecem até hoje no imaginário coletivo dos brasileiros. Além da fenomenal “O Vira” (música mais tocada no Brasil em 1973), o LP tinha “Sangue Latino”, composição de João Ricardo e Paulinho Mendonça que foi imortalizada pela interpretação impecável de Ney Matogrosso (terceira faixa mais executada naquele ano), “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinicius de Moraes que fora musicado pelo Secos & Molhados (vigésima nona música mais tocada em 1973), e “Assim Assado”, uma das melodias mais experimentais de João Ricardo. Outras duas faixas que adoro deste LP são “Primavera dos Dentes”, de João Ricardo e João Apolinário, e “El Rey”, de Gérson Conrad e João Ricardo. Vale a pena ouvi-las! Certamente você deve conhecer algumas delas, principalmente “Sangue Latino” e “Rosa de Hiroshima”, clássicos da MPB. Em relação à sonoridade musical, os integrantes dos Secos & Molhados provocaram uma legítima revolução na música brasileira. Suas composições misturavam vários gêneros diferentes que contagiaram o público. Eles combinaram Rock Psicodélico, Folk, Pop Romântico, Underground, Baião, Jazz, Forró e Música Latina. Para completar, ainda mesclavam poesia, folclore nacional, crítica social e, por que não, ingredientes do que podemos chamar atualmente como empoderamento LGBT (algo impensável para a época) às canções e às apresentações. Em alguns casos, como em “O Vira”, até valia salpicar à composição ritmos pouco comuns por aqui como o Vira, a folclórica dança portuguesa original do século XVI. A sensação é que tudo era possível e nada podia ser censurado, justamente o que os milicos que estavam no poder em Brasília mais temiam e queriam evitar a todo custo. Além da rebeldia estilística das músicas, o Secos & Molhados ficou famoso pela ousadia de suas apresentações. O trio se exibia normalmente com o rosto pintado (à la Kiss – muitos dizem que os norte-americanos copiaram os brasileiros, hipótese que acredito tamanhas são as semelhanças de figurino entre as duas bandas) e com roupas extravagantes. No caso de Ney Matogrosso, o vocalista mais performático da história do show business nacional, ele gostava de se apresentar nu da cintura para cima e com o corpo banhado de purpurina. Com um rebolado escrachado, uma interpretação passional e a voz aguda, Matogrosso se tornou a personificação midiática do grupo. Ele chamava mais atenção do público e da imprensa do que o próprio João Ricardo, criador do grupo e seu principal compositor. Esse choque de egos entre criador e criatura não demoraria para se transformar em briga e ser o responsável pelo fim precoce da banda. Não é errado dizer que o Secos e Molhados representou uma ruptura conceitual e performática para a música brasileira e para o rock nacional. Até então, as bandas não transgrediam o conservadorismo da sociedade com tamanha afronta. O período entre o final dos anos 1960 e o início dos 1970 foi marcado justamente por uma forte reação artística ao reacionarismo imposto pelos militares, que deram o golpe político em 1964 e implementaram uma ditadura com forte censura a partir de 1969 (o famigerado ano do AI-5). Diante do cenário político-social trágico que se descortinava, os músicos extravasavam em suas criações o sentimento de revolta e de crítica ao sistema careta, impositivo e retrógrado. Não à toa, várias canções afrontavam o status quo. Desse período, podemos citar “Balada do Louco”, composição de 1972 dos Mutantes, “Ouro de Tolo”, grito angustiante de Raul Seixas de 1973, “Cálice”, composição de 1973 de Chico Buarque e Milton Nascimento, “Alegria, Alegria”, protesto musical de Caetano Veloso de 1967, “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, criação de 1973 de Sérgio Sampaio, “Como Nossos Pais”, obra-prima de Belchior de 1976, “Sinal Fechado”, canção mais famosa de Paulinho da Viola de 1969, e “Domingo no Parque”, música de Gilberto Gil de 1967. Note que em um intervalo de apenas seis anos (de 1967 a 1973) surgiram no Brasil várias faixas musicais clássicas, algumas letras mais fortes de protesto social e alguns dos álbuns mais icônicos de nossa história. Ou seja, a efervescência juvenil contra o conservadorismo já estava acontecendo quando o Secos & Molhados apareceram. Porém, a banda de João Ricardo, Ney Matogrosso e Gérson Conrad representou a potencialização dessa sanha questionadora de crenças e costumes em duas frentes: musical e visual. Não havia no início dos anos 1970 grupo ou cantor tão exótico aos olhos da burguesia cristã e certinha. Chico Buarque era o bom moço que cantava letras de protesto. Os tropicalistas tinham visual hippie que as pessoas já estavam acostumadas. Raul Seixas fazia o estilo roqueiro norte-americano tão em voga no cinema. E os integrantes do Mutantes podem ser descritos como comportados perto do que o trio do Secos & Molhados fazia nos palcos, algo que não dava para classificar com o olhar da época. Eles eram tão ousados que a ideia de aparecer pintado nas apresentações veio de Ney Matogrosso. Filho de um militar, ele não queria ser reconhecido pelo pai. Embaixo da máscara social e do nome artístico criados para ocultar a verdadeira identidade, o vocalista podia liberar sua veia artística sem qualquer filtro. Para acompanhá-lo na estética abertamente exótica e gay, Gérson Conrad e João Ricardo aceitaram se fantasiar também. Curiosamente, no primeiro ano de sucesso da banda, em 1973, a dupla que acompanhava Matogrosso era mais comportada no gestual e na dança, deixando o lado estravagante para as roupas. Só no ano seguinte, após a consolidação do sucesso, Gérson Conrad e João Ricardo se soltaram mais e acompanharam o vocalista nas roupas femininas e nos rebolados exagerados. Estava criada a receita do sucesso e da originalidade de um dos grupos mais icônicos da música popular brasileira. O primeiro disco do grupo vendeu mais de um milhão de cópias. Gravado em São Paulo entre maio e junho e lançado em agosto de 1973 (portanto, há exatamente cinquenta anos!), o LP trazia uma capa interessantíssima. Na imagem estampada no álbum, o público assistia às cabeças do trio de músicos e à cabeça de Marcelo Frias, baterista que pulou fora do barco pouco antes do lançamento do disco (sim, o Secos & Molhados era para ter sido um quarteto!), sendo servidas em uma espécie de banquete mórbido. As cacholas aparentemente decapitadas dos integrantes da banda aparecem na mesa em meio aos produtos de uma refeição. O visual pode ser interpretado como uma crítica religiosa à Santa Ceia ou até mesmo uma referência direta ao nome do grupo – secos e molhados era uma espécie de armazém ou empório onde se vendiam comidas (os tais secos) e bebidas (os tais molhados da denominação). De certa maneira, o visual da capa do disco “Secos & Molhados” de 1973 me lembra muito os versos de “Metrô Linha 743” que Raul Seixas lançaria uma década mais tarde: “Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha/ Eu era agora um cérebro/ Um cérebro vivo à vinagrete/ Meu cérebro logo pensou/ Que seja, mas nunca fui tiete” e “Fui posto à mesa com mais dois/ E eram três pratos raros, e foi o maitre que pôs/ Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado/ Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado/ Quem será este desgraçado dono desta zorra toda”. Por mais que a consagração do Secos & Molhados estivesse no conjunto da obra, é preciso reconhecer que “O Vira” foi a canção que atirou o grupo para o alto das paradas de sucesso. De certa forma, a música resgata as origens e as personalidades de seus compositores. João Ricardo, idealizador da banda, era português. Ele veio para o Brasil ainda na adolescência. Fugiu da ditadura salazarista, mas acabou caindo na ditadura tupiniquim. Em uma espécie de sátira mais sutil e menos escrachada daquela do Mamonas Assassinas, João Ricardo conseguiu misturar o vira lusitano e tradicional ao rock brasileiro e moderno. A letra que trata do folclore nacional (sacis e lobisomens) e figuras místicas (fadas, gato preto e coruja) é contribuição de Luli. Muito ligada ao universo esotérico, a cantora que ficou famosa ao formar dupla com Lucina (eram Luli & Lucina – lembra delas?!) era autora de livros místicos. Antes de discutirmos os detalhes de “O Vira”, confira a seguir a letra da composição de João Ricardo e Luli. Logo depois, assista a uma das apresentações mais marcantes do Secos & Molhados. Ela ocorreu no ano de lançamento do primeiro álbum do grupo e foi exibida no programa “Sempre aos Domingos” da TV Tupi. Essa atração ia ao ar, como o próprio nome diz, aos domingos à noite e era apresentada pelo mexicano Raúl Velazcos. O Vira (1973) – João Ricardo e Luli O gato preto cruzou a estrada Passou por debaixo da escada E lá no fundo azul, na noite da floresta A lua iluminou a dança, a roda, a festa Vira, vira, vira Vira, vira, vira homem Vira, vira Vira, vira, lobisomem Vira, vira, vira Vira, vira, vira homem Vira, vira Bailam corujas e pirilampos Entre os sacis e as fadas E lá no fundo azul, na noite da floresta A lua iluminou a dança, a roda, a festa Vira, vira, vira Vira, vira, vira homem Vira, vira Vira, vira, lobisomem Vira, vira, vira Vira, vira, vira homem Vira, vira Um dos principais méritos de “O Vira” está na mistura de ritmos. A canção começa com acordes de rock in roll mais pesado. Porém, a pegada que parecia caminhar para o lado mais psicodélico e underground se torna rapidamente um pop rock mais leve e com jeitão de folk e forró. Quando o ouvinte acha que entendeu o estilo dúbio da música, no meio para o final da execução, quando os versos são repetidos, surgem os tradicionais acordes do vira. A overdose sonora caminha até o fim com cada vez mais influência da melodia portuguesa e menos tom de rock. Incrível perceber essa transformação sonora durante a canção! Outra questão que não pode ser esquecida é a performance absurdamente hipnotizante de Ney Matogrosso. Sua interpretação é impecável e sua atuação no palco é de encher os olhos. Você pode gostar ou não gostar da personalidade dele e de seu jeito espalhafatoso de se apresentar. Mas não dá para negarmos que o cantor criou um estilo forte e marcante que permanece vivo até hoje. Na minha humilde opinião, ele é um dos melhores intérpretes nacionais da nossa história. Na prateleira dos gênios da voz e da interpretação musical do Brasil, Matogrosso está lado a lado com Elza Soares, Nelson Rodrigues, Elis Regina, Tim Maia, Orlando Silva, Gal Costa e Vicente Celestino. Acredito que “O Vira” não teria se tornado o sucesso que foi/é se tivesse sido executada por um vocalista mais comportado e menos passional. Em relação à letra, confesso que não a acho lá grande coisa. Os versos de “O Vira” são pueris, quase infantis. A brincadeira maior é entrelaçar os diferentes elementos do folclore nacional em uma música gostosa e carismática. Daí a minha preferência pela melodia. Se pensarmos bem, o conteúdo cantado por Ney Matogrosso é completamente oposto à postura do cantor no palco. Esse contraste entre a letra ingênua e infantil e a postura exótica, sexualizada e gay do vocalista foi um murro na cara do conservadorismo da primeira metade da década de 1970. Por isso, há quem ouça nos versos “Vira, vira, vira/ Vira, vira, vira homem/ Vira, vira/ Vira, vira, lobisomem/ Vira, vira, vira/ Vira, vira, vira homem/ Vira, vira” uma referência explícita ao homossexualismo. Ainda olhando exclusivamente para os versos, me incomodou o fato de termos uma sequência sem rima: “Bailam corujas e pirilampos/ Entre os sacis e as fadas”. A música é curtinha, tem poucos versos e ainda assim os compositores não tiveram o cuidado de deixá-la inteiramente rimada! Ai, ai, ai. Para mim não colou. Do que adianta mesclar rimas sequenciais e rimas alternadas durante a canção (um ótimo expediente poético), mas deixar um verso sem rima (erro amador), hein?!! Antes que alguém brigue comigo, o que acontece de vez em quando na coluna Músicas (vide os comentários dos posts de “Se Eu Quiser Falar com Deus” e “O Teu Cabelo Não Nega”), preciso esclarecer o que quis dizer com “não acho lá grande coisa essa letra da canção dos Secos & Molhados”. Perto de outras composições do grupo, “O Vira” possui versos mais fracos e menos impactantes. “Sangue Latino”, “Assim Assado”, “Primavera dos Dentes” e “El Rey”, por exemplo, têm letras muito mais interessantes. E olha que minha comparação ficou apenas no primeiro álbum da banda (em 1974, o trio lançou o segundo disco). Talvez esse seja um dos belos paradoxos das carreiras de Ney Matogrosso e do Secos & Molhados: apesar de terem ficado famosos pelos versos contundentes e críticos, o maior sucesso de ambos está em uma letra extremamente rasa. Infelizmente, o Secos & Molhados terminou no final de 1974 após o desentendimento de João Ricardo e Ney Matogrosso. O motivo da briga foi, obviamente, dinheiro. A troca de empresário da banda foi a gota d´água que culminou com a saída de Matogrosso e, como consequência, a dissolução do trio. A partir dali, Gérson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso seguiram em carreira solo, com apenas o último mantendo a relevância artística e o sucesso musical. Por mais que João Ricardo tenha conseguido mais tarde os direitos de uso da marca Secos & Molhados e montado novas configurações para sua banda, jamais conseguiu chegar perto do apelo de público e de crítica da versão original. No imaginário popular, o Secos & Molhados encerrou definitivamente as apresentações na virada de 1974 para 1975. O que permanece é o legado cultural de um dos grupos mais originais, emblemáticos e impactantes da música popular brasileira. E para celebrar a efeméride de cinquenta anos do lançamento de “O Vira”, fiz esse singelo post para o Bonas Histórias. Espero que vocês gostem. Quem não gostar, desejo que o gato preto cruze sua estrada e que você passe embaixo da escada. Quem gostar, sugiro nos encontrarmos lá no fundo azul, na noite da floresta, onde a lua ilumina a dança, a roda, a festa. Até a próxima! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Gastronomia: Festa da N. S. da Achiropita - Comida italiana no Bixiga
A Festa da Nossa Senhora da Achiropita chega, neste ano de 2017, a sua 91ª edição. O evento gastronômico tem mais de um século de tradição e é promovido anualmente pela paróquia da Achiropita (daí seu nome). O local, a data e a culinária da confraternização continuam sendo os mesmos desde 1908: as ruas do bairro do Bixiga, em São Paulo, os finais de semana do mês de agosto e a comida de origem italiana. Como vem acontecendo nas últimas edições, o evento de 2017 se prolongará até a primeira semana de setembro. Portanto, quem tiver o interesse de participar da festa ainda neste ano terá mais um final de semana para ir. São esperadas cerca de 250 mil pessoas nos cinco finais de semana. O público é atraído por 30 barracas que vendem pratos e bebidas tipicamente italianos. São encontrados por lá pizza, macarrão, fogazza, fricazza, polenta, doces italianos e vinhos, além dos bem brasileiros sanduíche de linguiça e o churrasquinho na brasa. Refrigerantes e cervejas completam o cardápio. Os números da Festa da Nossa Senhora da Achiropita são grandiosos. Por noite, passam pelo local mais ou menos 25 mil pessoas. Elas consomem ao longo dos dez dias de evento aproximadamente 17 toneladas de farinha, 11 toneladas de macarrão, 10 toneladas de queijo mussarela e 10 mil litros de vinho. Mama mia! Não é errado afirmar que se trata de um dos maiores eventos gastronômicos de rua do país. A proposta da festa é angariar fundos de maneira beneficente para a paróquia da Achiropita. Todos os produtos vendidos no local são doados por patrocinadores (normalmente grandes empresas dos setores de alimentação e de bebida) e os funcionários que trabalham nas barraquinhas são voluntários. Desta maneira, a totalidade da receita da festa é destinada à igreja do Bixiga, que realiza trabalhos sociais pela cidade. Entretanto, tenho a impressão que a maioria das pessoas que se aglomeram nas frias noites de sábado e de domingo não sabe disso. Elas são levadas até lá normalmente pelos apetitosos pratos italianos e pelo clima alegre e familiar do evento. Assim, o caráter religioso e altruísta do encontro acaba ficando um pouco em segundo plano. A Festa da Achiropita surgiu da iniciativa dos italianos que chegaram ao bairro do Bixiga entre o final do século XIX e o início do século XX. Esses imigrantes se resentiam do fato de não existir no bairro uma igreja católica onde pudessem rezar e cultuar sua fé. Por isso, decidiram, em 1908, montar uma quermesse durante o mês de agosto. Ali venderiam pratos típicos do seu país natal. Os recursos obtidos pela venda dos quitutes seriam destinados à compra de um terreno onde seria erguida a igreja católica do bairro. A empreitada deu tão certo que rapidamente o dinheiro do terreno foi levantado. Depois de comprar o terreno, o grupo manteve a festa e seu caráter beneficente. A ajuda financeira passou a ser canalizada para as obras de construção da igreja. Mais tarde, uma vez erguido o prédio, a quermesse passou a contribuir para as ações sociais da paróquia e para a ampliação da igreja. É mais ou menos o que acontece até hoje. A quermesse cresceu ao longo dos últimos 109 anos e se transformou em uma grande festa que mobiliza pessoas dos vários cantos da cidade. O apoio da Rede Globo para divulgar o evento na televisão também contribuiu para seu grande crescimento. Por que estou falando sobre isso aqui no Blog Bonas Histórias? Porque fui neste sábado à Festa da Achiropita. Queria ver como estava a edição de 2017. Sempre que estou em São Paulo nesta época do ano, costumo dar uma passada por lá. Aproveito as delícias servidas nas barraquinhas e vivo um pouco a atmosfera italiana daquela região da cidade. Confesso que não vi nenhuma grande novidade em meu passeio de ontem. A festa continua sendo realizada aos sábados (das 18h00 à 00h00) e domingos (das 17h30 às 22h30) em três ruas do bairro: 13 de Maio, São Vicente e Doutor Luís Barreto. O trajeto faz um "U". Essas vias são fechadas para os carros e somente as pessoas podem circular pelo local. Além disso, continuam sendo servidos os mesmos pratos nas barracas. Isso não é uma crítica, tá? Eu gosto do mix de produtos oferecidos. É apenas uma constatação. Para completar, o local permanece recendo milhares de visitantes todas as noites. É muita gente! Nos momentos mais críticos (das 18h30 às 21h30 de sábado) chega a ser difícil caminhar ou até mesmo se mexer no meio da multidão. A fila mínima em uma barraquinha de comida é de meia hora. Ou seja, se você já foi a esta festa nos últimos dez anos, encontrará tudo exatamente igual. Nada mudou. É a tradição que rege o espírito da Nossa Senhora da Achiropita e não a inovação. Eu, como gosto do ambiente, da celebração e dos pratos vendidos, volto sempre sem reclamar. Encaro com disposição os desafios típicos deste tipo de confraternização. Para quem deseja ir ao evento pela primeira vez ou está em dúvida se deve ir ou não à festa, criei um pequeno guia com quinze informações essenciais sobre a Achiropita. São informações básicas que você precisa saber antes de sair de casa. Com essas dicas práticas, tenho certeza que você não será surpreendido ao chegar às ruas do Bixiga. Lá vão as quinze informações que o visitante de primeira viagem precisa saber sobre a Achiropita: 1) A Festa da Nossa Senhora da Achiropita é um evento gastronômico. Ponto! Por mais que a organização tente vendê-la como sendo um encontro cultural, com muita música, dança e tradição italiana, a festa se restringe à culinária. Não há nada de interessante no local além das barraquinhas de comida. Por mais que todos os anos aumentam-se as barracas de jogos e de atrações para a criançada, ninguém parece se interessar por elas (nem as crianças). Tudo se resume à comilança. Por isso, se você não está com fome, não quer comer nada muito calórico, não quer gastar dinheiro com comida de rua ou está à procura de uma festa para dançar e se divertir com desconhecidos, este, definitivamente, não é o lugar que você procura. 2) Para não dizer que não há nada além da comilança, a festa promove missas na igreja local (afinal, faz parte da tradição do evento a celebração religiosa). Como não sou católico, visito o culto apenas para ouvir o padre falar italiano. Aos sábados, às 18h30, um padre italiano é convidado para realizar a missa em sua língua natal. Como diria Elizabeth Gilbert, autora do livro "Comer, Rezar e Amar", a língua italiana é a mais bonita do mundo. Ela é música para os ouvidos mais sensíveis. Como eu concordo com este ponto de vista, aproveito a visita à festa para dar uma passadinha na missa (talvez seja a única época do ano em que entro voluntariamente em uma igreja). 3) Quem deseja fazer um passeio mais cultural, há várias opções na região que podem ser atreladas à Festa da Achiropita. A melhor delas é juntar comida italiana com peça teatral. O teatro Ruth Escobar fica muito próximo ao local do festival culinário. É possível assistir aos espetáculos cênicos antes ou depois de dar uma passada na Achiropita. Fiz várias vezes essa combinação e recomendo. Quando não há nada interessante em cartaz neste tradicional teatro de São Paulo (como é caso neste momento), há várias opções de peças na Avenida Paulista, que fica apenas a algumas quadras do Bixiga. 4) Para encarar a Festa da Achiropita é preciso paciência. A superlotação (imagine milhares de pessoas se espremendo em três estreitas ruas!) é geral. Para percorrer alguns metros da rua, você precisa caminhar a passo de tartaruga e dar algumas cotoveladas nas pessoas ao lado. Este é o espírito da festa. Se você está com fome, as filas nas barraquinhas podem ser intermináveis. Ontem, fiquei exatamente uma hora na fila da fogazza da Rua Doutor Luís Barreto, que é a mais tranquila. Na Rua 13 de Maio, eu não consegui sequer encontrar o final da fila para entrar. Na igreja, se você não chegar com 45 minutos de antecedência, você não encontrará um lugar para sentar. 5) Para fugir um pouco das enormes filas (cada ponto de venda tem sua própria fila quilométrica), opte pelas barracas da Rua Doutor Luís Barreto. Sempre tenho a impressão que elas são um pouco menos superlotadas do que as da Rua 13 de Maio. Como a igreja tem entrada apenas na Rua 13 de Maio, é normal haver mais pessoas por ali. Quem estiver com criança e quiser aproveitar mais as atrações infantis, opte pela Rua São Vicente. As barracas com jogos e diversões concentram-se neste ponto da festa. Além disso, os melhores horários são antes das 18h30 e depois das 22h00. Aí, o movimento deixa de ser totalmente caótico e passa a ser levemente caótico. O domingo é um pouco menos agitado do que o sábado. 6) Apesar da confusão (no sentido de excesso de pessoas), eu gosto do clima da Achiropita. O público que visita a festa é formado tradicionalmente por famílias, grupos de amigos e casais de namorados. O perfil dos visitantes é acima da média para um evento aberto e realizado nas ruas. A segurança intensiva da polícia militar e dos seguranças contratados pela paróquia ajuda a manter a ordem. Nunca vi pedintes, mendigos ou trombadinhas se aproveitando da aglomeração. Só acho que a festa é ruim para as pessoas de mais idade (apesar de muitas encarem o evento com alegria). O caminhar pelas ruas cheias de gente é uma dificuldade maior para quem não tem a mesma mobilidade dos jovens. Por outro lado, as filas preferenciais evitam que os idosos passem horas de pé aguardando serem atendidos nas barracas. 7) O gasto médio para quem quer comer bem (com direito a um prato de massa ou uma opção mais farta de salgado, um salgado menor como complemento, uma bebida e um doce como sobremesa) fica entre R$ 22,00 e R$ 30,00. Acho um preço justo. De modo geral, os preços se mantiveram parecidos ao do ano passado. 8) A fogazza é a opção preferida do público. Para chegar a esta conclusão basta ver o tamanho de sua fila. A fogazza, que é gigantesca, custa R$ 8,00. Ela vale por uma refeição. Segundo uma amiga minha meio exagerada, o salgado pode alimentar uma família subnutrida da África por uma semana. Esta é a opção com melhor custo-benefício. Eu que tenho um voraz apetite nunca consegui comer uma fogazza inteira. Sempre acabo deixando um pouco. Por isso, uma alternativa inteligente é divida-la com alguém conhecido. Pedindo com jeitinho, os atendentes até cortam o salgado na metade e colocam em dois saquinhos. 9) Outra ótima opção para quem está com fome ou deseja um prato mais parrudo é o macarrão (spaghetti ou penne). Ele custa R$ 12,00 e também é servido em porção generosa (neste caso não dá para dividir). Para quem não é muito esganado, um prato de macarronada vale por uma refeição. O spaghetti e o penne são acompanhados, ao melhor estilo italiano, por rodelas de pãezinho. A massa e o molho são gostosos, porém dependendo de como é servido ele pode vir um pouco frio. 10) Uma tática muito utilizada por quem vai com frequência à Achiropita é comprar algo em uma barraquinha mais vazia (geralmente a da pizza, da polenta ou da fricazza) e levar o quitute para ser comido enquanto se está na fila maior (da fogazza ou do macarrão). Este, por sinal, é o único motivo para se comprar a pizza (R$ 5,00), a polenta (R$ 6,00) ou a fricazza (R$ 6,00). Esses pratos são os mais fraquinhos da festa em relação ao sabor. Não vejo nada de especial neles. Perdem, portanto, de goleada para a fogazza, para o macarrão e para o sanduíche de linguiça. 11) Sanduíche de linguiça! Será que tem alguém que vai a uma festa italiana para comer pão com linguiça? Sim, há sim. Não só tem como você está lendo o texto de alguém que considera o sanduíche de linguiça da Achiropita a melhor opção do evento. Esta é sempre a minha primeira opção todos os anos. O lanche com vinagrete é simples e delicioso. O problema nesta edição de 2017 é seu preço. Ele aumentou 50% em relação ao ano passado. Pagar R$ 12,00 por um pão francês com vinagrete e linguiça é um absurdo. Acho que erraram à mão neste valor. Os demais produtos estão com valores mais aceitáveis. 12) A Festa da Nossa Senhora da Achiropita é um passeio tipicamente paulistano porque você ficará 90% do tempo na fila aguardando ser atendido. Por isso, é fundamental escolher bem suas companhias. São elas que farão o evento ser legal ou não. As conversas informais e descontraídas nas filas são o que dão graça à festa. É difícil pessoas que não se conhecem começar a conversar. Apesar de raro pode sim acontecer. Eu tinha um casal de amigos que se conheceu na fila da fogazza. Eles começaram a conversar, se apaixonaram e depois se casaram. Tiveram dois filhos e quando a fogazza chegou eles já tinham se separado (Ok, isso foi uma piada sobre a demora no atendimento nas barraquinhas). Porém, é verdade sobre a graça do evento estar no que se faz na fila e na importância de se estar bem acompanhado. 13) Esta época do ano é a mais fria em São Paulo. Como este é um evento realizado na rua e à noite (e as pessoas ficam paradas na fila a maior parte do tempo), vá bem agasalhado(a) porque o frio vai quere pegá-lo(a). Mesmo se você não estiver sentindo frio ao sair de casa, vá encapuzado(a), como diria minha avozinha. 14) Quase sempre tenho a impressão que os funcionários voluntários das barraquinhas estão mais preocupados em servir comida aos funcionários das outras barraquinhas do que ao público que está pagando pelos produtos. Sabendo previamente desta particularidade da equipe de voluntários, tenha paciência com eles. Não espere rapidez muito menos prontidão de ninguém na festa. Por outro lado, todos são muito corteses e atenciosos. 15) Não espere muito conforto ou qualquer sofisticação nas instalações da Achiropita. Lembre-se: esta festa é um evento de rua. Você comerá de pé e exprimido na calçada. É preciso possuir um espírito meio aventureiro para curtir o passeio. Com essa coleção de informações, acho que você estará pronto(a) para decidir se deve ou não ir ao evento. E se for, tenho certeza que não será surpreendido(a) facilmente. A Festa da Nossa Senhora da Achiropita é um bom passeio para ser feito no inverno paulistano. Divirta-se e bom apetite! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #FestaItaliana #ComidadeRua #Gastronomia #SãoPaulo
- Filmes: Oppenheimer - A cinebiografia do Pai da Bomba Atômica por Christopher Nolan
Lançada nos cinemas em 20 de julho, a nova produção do diretor britânico é o drama histórico que retrata a trajetória de Robert Oppenheimer, o físico norte-americano que chefiou o projeto científico mais polêmico do século XX. Na semana passada, fui ao cinema para conferir “Oppenheimer” (2023), o novo filme de Christopher Nolan e um dos blockbusters do momento. O longa-metragem do diretor de “Tenet” (2020) rivaliza com “Barbie” (2023), produção de Greta Gerwing que é estrelada por Margot Robbie, como os principais chamarizes de público do circuito comercial cinematográfico nesta virada de semestre. Pela movimentação nas salas, os espectadores estão realmente empolgados com ambas as propostas (que não poderiam ser mais distintas!). Fui ao cinema em plena quarta-feira à tarde, horário tipicamente bem fraco em movimento, e minha sessão estava com mais da metade da lotação. E na sala ao lado, onde rolava “Barbie”, o fluxo era até maior. Será que estamos assistindo à retomada do hábito de frequentar as telonas após a pandemia da COVID-19, hein? Tomara! Curiosamente, a ousadia de se lançarem dois arrasa-quarteirões na mesma data, uma estratégia mercadológica rara dos grandes estúdios cinematográficos, se mostrou acertada nesse caso. Acho que o público de um filme acaba puxando o outro. É muito comum uma pessoa, na fila da bilheteria do cinema, falar para a sua companhia: só assisto com você a essa produção se você assistir comigo depois àquela outra. E voilà: um par de ingressos se transforma milagrosamente em dois pares. Por consequência, um post da coluna Cinema também pode se transformar em uma dupla de análises da sétima arte. Espero que os leitores do Bonas Histórias apreciem tal combinação, como acho que eu mesmo vou curtir. Desconfio da venda casada tanto por experiência própria quanto pelo fato de “Oppenheimer” ter alcançado bilheteria de US$ 344 milhões no mundo em seu primeiro final de semana em cartaz e de “Barbie” ter atingido a marca de US$ 337 milhões no mesmíssimo período. São números invejáveis e muito parecidos! No Brasil, a semana de estreia gerou arrecadação de R$ 13 milhões para o longa-metragem de Christopher Nolan e de aproximadamente R$ 37 milhões para o de Greta Gerwing. Então, o que explica a supremacia do filme da boneca sobre o drama histórico em nosso país? Para mim, isso é fruto do cavalheirismo (prática que você nunca viu, Carla, mas que ainda deve existir por aí!). A maioria dos casais assistiu primeiramente à “Barbie” para só depois ver “Oppenheimer”. De qualquer maneira, a dupla Barbenheimer (sim, a dobradinha ganhou um apelido próprio nas redes sociais!) levou mais de 4 milhões de pessoas para frente das telonas. Nada mal em uma época que as salas de cinema estavam às moscas, né? Baseado na biografia “Oppenheimer – O Triunfo e a Tragédia do Prometeu Americano” (Intrínseca), de Kai Bird e Martin J. Sherwin, livro gerado após anos de pesquisa e recém-lançado no Brasil, “Oppenheimer” é o décimo segundo longa-metragem de Christopher Nolan na direção. O cineasta britânico, responsável por sucessos como “Batman Begins” (2005), “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight: 2008), “A Origem” (Inception: 2010), “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises: 2012), “Interestelar” (Interstellar: 2014), “Dunkirk” (2017) e “Tenet”, também assinou o roteiro do novo longa-metragem. Orçado em cerca de US$ 100 milhões, o filme apresenta o drama histórico de Julius Robert Oppenheimer, físico norte-americano que liderou o Projeto Manhattan, iniciativa científica realizada no Laboratório de Los Alamos, no deserto do Novo México, nos anos 1940, que gerou a tecnologia da bomba de hidrogênio. Não por acaso, Oppenheimer ganhou o apelido de Pai da Bomba Atômica. Após ser aclamado como um dos cientistas mais importantes do século XX e virar figura midiática, Robert Oppenheimer foi perseguido no período do Macarthismo por ter se envolvido nos tempos de universidade com comunistas. Em plena Guerra Fria, essa ligação poderia causar sérios problemas de segurança nacional. Pelo menos foi essa a alegação do governo dos Estados Unidos e dos colegas de Projeto Manhattan que correram para trair o físico que até então era idolatrado pela nação. Lançado mundialmente em 21 de julho (no Brasil, entrou em cartaz um dia antes), “Oppenheimer” foi filmado entre fevereiro e maio de 2022 e teve como principal locação Ghost Ranch, no Estado do Novo México, no Sul dos Estados Unidos. Depois de participar como coadjuvante de cinco filmes de Nolan (“Batman Begins”, “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, “A Origem”, “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e “Dunkirk”), o irlandês Cillian Murphy, do seriado “Peaky Blinders” (2013-2022) e do longa-metragem “No Coração do Mar” (In The Heart of the Sea: 2015), foi escalado, enfim, como protagonista. Completam o elenco principal do filme: Emily Blunt, Matt Damon, Robert Downey Jr., Florence Pugh, Josh Hartnett, Casey Affleck, Rami Malek, Kenneth Branagh, Jason Clarke, David Krumholtz, Gary Oldman e Tom Conti. O enredo de “Oppenheimer” começa em 1926. Nas cenas iniciais do filme, acompanhamos o jovem Robert Oppenheimer (interpretado por Cillian Murphy), então com 22 anos, no doutorado em física em Cambridge. Deprimido, o norte-americano sofre com as saudades de casa e com as exigências dos professores da universidade britânica. Apesar de ser considerado um estudante inteligente e talentosíssimo, ele é visto como um cientista petulante, pouco disciplinado e atrapalhado nas tarefas em laboratório. Após a sugestão de um professor para que estudasse física teórica, Robert conclui o doutorado na Alemanha. Nessa passagem pela Europa, ele conhece os principais cientistas do mundo, networking que seria essencial em alguns anos. De volta aos Estados Unidos, Robert Oppenheimer realiza pesquisas em física quântica enquanto leciona em universidades californianas durante os anos 1930. No ambiente acadêmico, o protagonista conhece várias pessoas que são ligadas ao Partido Comunista e aos ideais de esquerda, apesar de nunca ter se identificado com qualquer ideologia política. O irmão de Robert, Frank Oppenheimer (Dylan Arnold), é um ferrenho esquerdista que insiste para o cientista frequentar os encontros comunistas da universidade. Em uma dessas reuniões, Robert Oppenheimer conhece Jean Tatlock (Florence Pugh), uma ferrenha militante socialista. Os dois têm um tórrido relacionamento que não cessa nem mesmo quando o físico se casa com Katherine (Emily Blunt). A vida de Robert sofre uma grande transformação quando, em 1942, no meio da Segunda Guerra Mundial, o general do Exército Leslie Groves (Matt Damon) o convoca para liderar o Projeto Manhattan. O governo norte-americano precisa desenvolver uma bomba atômica para reverter as ações bélicas dos países do Eixo, que até então venciam os países Aliados no conflito. Por isso, Groves e a cúpula governamental não tiveram alternativa: precisaram ignorar as ligações do principal físico teórico do país com os comunistas. O inimigo maior naquele momento era o Nazismo e não a União Soviética. Com carta branca do Exército e dinheiro ilimitado do governo federal, Robert Oppenheimer monta uma nova cidade em Los Alamos, no deserto do Novo México. E para lá, ele recruta os principais cientistas dos Estados Unidos e da Europa para trabalhar incansavelmente no laboratório montado especificamente para o Projeto Manhattan. Na equipe, estão Edward Teller (Benny Safdie), Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz), Enrico Fermi (Danny Deferrari) e David L. Hill (Rami Malek). Os principais cérebros da América se envolvem na confecção da maior e mais destruidora arma de guerra da história. Os problemas de Robert surgem depois da Segunda Guerra Mundial e no auge de sua popularidade, quando é reverenciado pela mídia como o Pai da Bomba Atômica. Em pleno Macarthismo, período em que os comunistas eram perseguidos nos Estados Unidos, o físico é acusado de ligação com a União Soviética, o novo grande inimigo do país, e de ter transmitidos segredos industriais e científicos para os pesquisadores de Moscou. Querendo provar sua inocência, Robert Oppenheimer contrata um advogado e participa ativamente de uma comissão governamental (uma espécie de CPI norte-americana) organizada para julgar o físico. O tribunal o acusa de risco à segurança nacional e quer suspender suas credenciais de cientista. Será que Oppenheimer conseguirá comprovar sua inocência? Esse é o mistério que move a trama. Para começo de análise, é preciso dizer que “Oppenheimer” é um filme longo. Bem longo! Ele tem três horas de duração. É necessária muita disposição para encarar uma sessão cinematográfica 50% mais extensa do que o convencional. Confesso que não curto normalmente assistir às produções muito extensas nas salas de cinema. Chega uma hora que quero me levantar, esticar as pernas e descansar um pouco a mente. Por isso, geralmente reservo esse tipo de longa-metragem (que chamo carinhosamente de longa-longa-metragem) para acompanhar no conforto de casa (quando o botão de pause do streaming pode ser usado ilimitadamente). Porém, devo reconhecer que não senti tanto cansaço na sessão de “Oppenheimer”. A impressão que tive é que ele tinha duas horas de duração e não três. Evidentemente, esse efeito foi conseguido pelo ótimo ritmo narrativo, principalmente se considerarmos que se trata de um drama histórico com muitas personagens e ancorado essencialmente em diálogos, o que torna sua história mais pesada e menos saborosa para paladares mais infantojuvenis. Nesse sentido, o trabalho de Christopher Nolan está primoroso. Nas mãos de um diretor menos talentoso, esse filme corria o risco de se tornar um sonífero cinematográfico ou de precisar ter muitas cenas cortadas (para agradar a maioria do público). Infelizmente, não posso dizer que a plateia inteira do Espaço Itaú de Cinema do Bourbon Shopping Pompeia concorde com a minha opinião. Durante a sessão em que estive presente na quarta-feira à tarde, deu para ouvir vários roncos vindo dos quatro cantos da sala, principalmente na metade do filme para frente. A mocinha que estava do meu lado, por exemplo, chegou a babar, além de ressonar um pouco (mulher bonita não ronca, ressona!). Por isso, minhas recomendações para as almas mais ansiosas são: não vá para o cinema se você não tiver tido uma boa noite de sono (ou assista a “Barbie” nesse dia); exagere no café antes da sessão; e leve um babador (se você não precisar dele diretamente, pelo menos ofereça para quem estiver ao seu lado!). Apesar de minha opinião não ter sido constatada in loco pela totalidade do público na sala de cinema, adorei a tensão dramática e o suspense de “Oppenheimer”. Percebemos que o filme é bom quando, mesmo sabendo de boa parte da sua história (afinal, são fatos conhecidos e reais), ainda sim acabamos nos emocionando com os acontecimentos presenciados na telona. Repare, por exemplo, na adrenalina dos cientistas no primeiro teste da bomba de hidrogênio no Novo México. Você até pode saber o que vai acontecer ali. Mas não conseguirá piscar os olhos da tela. Incrível! Grande parte dos méritos de “Oppenheimer” está nas características contraditórias de seu protagonista. Como personagem cinematográfica, Robert Oppenheimer é perfeito por ser uma legítima figura redonda. Por um lado, ele é um físico brilhante, um irmão confiável, um amante competente, um amigo generoso, um líder eficaz, um erudito versátil, um intelectual com consciência humanista e um homem público honrado. Sua obstinação em liderar o Laboratório Nacional de Los Alamos e o Projeto Manhattan vinha, de certa maneira, de causas nobres: suplantar os nazistas no poderio bélico e acabar com a perseguição alemã aos judeus. Essa preocupação social se torna ainda mais evidente após o término da Segunda Guerra, quando Robert se torna uma das vozes mais poderosas a favor da não proliferação das armas atômicas e dos tratados internacionais para evitar seu (re)uso. Em nome dos seus ideais e da obstinação em provar sua inocência, ele não mede esforço e encara frente a frente os piores inimigos. Por outro lado, Robert Oppenheimer é um marido infiel, um pai nada presente, um profissional inflexível e um subordinado pouquíssimo afeito às ordens superiores. Para completar, era vaidoso, boêmio, pretensioso, inconsequente e, por vezes, cruel, ao ponto de humilhar publicamente desafetos e de querer envenenar o professor exigentes nos tempos de faculdade. Como cereja no bolo, usou todo o seu conhecimento científico e influência política para construir a bomba atômica, a arma mais destrutiva inventada pela humanidade que tem a capacidade de exterminar não apenas os inimigos como a vida no planeta inteiro. É ou não é uma personagem redonda, hein? Não é preciso dizer que Cillian Murphy, pela primeira vez como protagonista em um filme de Nolan, dá um verdadeiro show de interpretação. A força de sua atuação está muitas vezes em seu olhar, nos gestos e na postura. Repare que o ator não precisa dizer nada para expressar seus sentimentos. Ele é uma bomba (desculpe-me o trocadilho nem um pouco involuntário) de medos, ressentimentos, angústias e contradições. Visualmente, a representação cinematográfica de Robert Oppenheimer lembrou-me um pouco Sheldon Cooper de Jim Parsons (em uma versão, obviamente, mais velha e menos nerd). Desde já, Murphy é um dos candidatos ao Oscar de 2024. Ele pode até não ganhar o prêmio, mas certamente será indicado à premiação do ano que vem da Academia de Los Angeles. Por falar em Academia, repare que o elenco de “Oppenheimer” está recheado de estrelas de primeira grandeza do cinema norte-americano. São nada menos do que cinco vencedores do Oscar: Matt Damon (no engraçadíssimo e caricato Coronel Groves), Casey Affleck (irreconhecível na pele de Boris Pash – juro que não reparei que fosse Affleck nesse papel), Rami Malek (como o físico nuclear David Hill), Gary Oldman (na figura emblemática do presidente Harry S. Truman) e Kenneth Branagh (como o cientista Niels Bohr). Para completar o time de atores (ou seria seleção?!) de Hollywood, ainda temos os espetaculares Robert Downey Jr. (candidatíssimo a estatueta de ator coadjuvante como Lewis Strauss), Emily Blunt (que, como a esposa de Robert, rouba muitas vezes as cenas da metade para o final do filme), Tom Conti (no hilário Albert Einstein) e Florence Pugh (encarnando a sensual e desnuda militante comunista que conquista o coração do protagonista). Por mais que Cillian Murphy, Robert Downey Jr. (em seu melhor papel e desempenho na carreira), Emily Blunt e Matt Damon chamem mais a atenção da plateia de forma geral, um dos principais méritos de “Oppenheimer” é a atuação impecável de todo o elenco. A sensação é que não há ator ou atriz ruim nesse filme (e não há!). Todos vão muitíssimo bem, o que torna a narrativa do longa-metragem de Christopher Nolan ainda mais forte, contundente e dramática. Por falar em narrativa, é preciso elogiar seu desfecho (calma que não damos o spoiler nos posts da coluna Cinema!). O desenlace do longa-metragem reserva boas e emocionantes surpresas. Admito que não matei antes da hora a charada da trama, daquelas que são óbvias só depois que a descobrimos. Gosto quando a resposta para o enigma principal da produção (quem traiu Robert Oppenheimer?!) está diante dos nossos olhos, mas vem ocultada de maneira brilhante pelo enredo perspicaz. Saindo um pouco do conteúdo em si e entrando na seara da técnica narrativa, o filme “Oppenheimer” se diferencia do livro “Oppenheimer – O Triunfo e a Tragédia do Prometeu Americano” principalmente pela escolha do tempo narrativo. Enquanto a obra de Kai Bird e Martin J. Sherwin recorre ao tempo cronológico (a história é retratada linearmente), a produção de Christopher Nolan utiliza o tempo psicológico (vai e vem entre passado, presente e futuro). Essa opção do diretor britânico me pareceu acertadíssima. Creio que parte do dinamismo do longa-metragem se deve aos recursos de flashback e de flashforward inseridos no enredo. O fã mais atento da arte cinematográfica irá notar que os efeitos do flashback e do flashforward não foram inseridos em “Oppenheimer” sem um cuidado estético. Aí está outra questão admirável desta produção. Nolan utiliza as imagens coloridas e em preto e branco para pontuar ao espectador a ordem temporal da sua história. O filme começa embaralhando três períodos temporais distintos: (1) juventude de Robert Oppenheimer na Europa, (2) sessão de interrogatórios na salinha apertada e fechada ao público e (3) audiência aberta ao público no auditório gigantesco do Congresso norte-americano. Curiosamente, a parte mais antiga (momento 1) é transmitida por cores e as partes mais avançadas (momentos 2 e 3) surgem em preto e branco. Usei o termo “curiosamente” porque o mais comum seria assistirmos às passagens mais antigas em P&B e as mais recentes em cores. Ou seja, até nisso Christopher Nolan consegue nos surpreender. O mais interessante desse efeito é que na medida em que a parte 1 do filme atinge cronologicamente a parte 2, as cenas da parte 2 se tornam automaticamente coloridas. O surgimento da cor na tela, portanto, indica a mudança temporal (fim da parte 1). E quando o momento que chamei de 2 atinge o momento 3, aí temos o colorido para essa última parte. Se pensarmos bem é um recurso simples, mas bastante impactante. Confesso que achei bonita e até mesmo poética essa opção estética de filmagem. Já que falei das cenas em preto e branco, é legal mencionar que Christopher Nolan recorreu a uma tecnologia totalmente nova para gravá-las. Em parceria com a Kodak, o diretor rodou essas cenas em uma câmera IMAX com filtro preto e branco. A câmera foi criada exclusivamente para “Oppenheimer” e estreou justamente no set de filmagens. O efeito salta aos olhos da plateia logo de cara. Tive a impressão, no início da sessão, de que as tomadas em P&B eram reais. Ainda pensei: “Que interessante, eles mesclaram cenas reais e ficcionais”. Não caia nessa ilusão de ótica! É tudo gravação ficcional, algo que descobrimos sozinhos à medida que o longa-metragem vai se desenrolando. Ainda tratando da tecnologia, as cenas das explosões nucleares do filme não tiveram o uso da computação gráfica, conforme seria o esperado para uma produção com orçamento generosíssimo. Segundo Nolan, ele quis transmitir mais veracidade às imagens ao simular os efeitos práticos da detonação dos explosivos. Não deve ter sido fácil fazer isso, mas o resultado valeu a pena (principalmente porque não há som na maioria das explosões, o que potencializa seu apelo visual!). As cenas das explosões estão maravilhosas. Para quem detonou um Boeing 747 de verdade nas filmagens de “Tenet”, expertise não faltou. O fato é que Christopher Nolan não é chegadinho em usar efeitos visuais em seus filmes. Ele prefere recriar efetivamente as cenas ao invés de passar a bola para a equipe técnica. Outro componente interessante de “Oppenheimer” é o retrato de personalidades famosas. Por mais inverídicos que sejam os diálogos de Robert Oppenheimer com Albert Einstein (a dupla de cientistas se conheceu de verdade, mas jamais foi próxima ao ponto de discutir as consequências da detonação da bomba atômica na atmosfera terrestre), é engraçado acompanharmos o físico alemão em cena. Sua figura é tão marcante que chama muito atenção quando inserida no filme. Esse mesmo efeito ocorre (mas com menor intensidade) quando Harry S. Truman aparece. Aí sai o tom jocoso/cômico de um Einstein de cabelos brancos e esvoaçantes e entra em cena a impetuosidade de quem autorizou (aparentemente sem remorsos) a explosão das bombas em Nagasaki e Hiroshima. Quem gosta de História, o longa-metragem de Nolan é importante para desfazer alguns maus entendidos. Reconheço que eu era um daqueles que fora ludibriado pela tese atualmente esdrúxula de que Robert Oppenheimer tinha passado os segredos da bomba atômica para os soviéticos em nome de uma equidade de posições entre as superpotências da Guerra Fria. Ouvi essa tese na época da escola e, desde então, acreditava piamente nela. Hoje sabemos que, conforme Oppenheimer sempre alegou, os cientistas da União Soviética chegaram (mais ou menos) sozinhos à sua própria bomba de hidrogênio. O mais ou menos entre parentes é porque havia sim espiões comunistas em Los Alamos (mais do que um, que o filme preferiu concentrar em apenas um único traidor) que transmitiram segredos de pesquisa para os cientistas de Moscou. Contudo, Robert Oppenheimer nunca esteve envolvido com tal vazamento de informações (como seus inimigos insistiram em acusá-lo). Se temos essa reparação histórica, “Oppenheimer” segue martelando algumas linhas de pensamento que são difíceis de engolir para alguém minimamente inteligente e que viva fora dos Estados Unidos. Por questões políticas, o governo norte-americano sempre transmitiu a ideia de que as bombas lançadas em Nagasaki e Hiroshima pouparam vidas. Afinal, os japoneses (e seus soldados kamikazes) jamais iriam se render sem que uma atitude mais drástica fosse tomada. Se a guerra transcorresse normalmente, muito mais pessoas morreriam. Confesso que nunca comprei essa linha de raciocínio. Para mim, ela sempre soou como uma desculpinha esfarrapada para o maior atentado terrorista da humanidade (grande parte dos mortos eram civis). Se o povo norte-americano a aceitou, eu não aceito facilmente. Se Truman conseguia dormir a noite com isso na cabeça, eu não conseguiria se estivesse no lugar dele. O filme também mostra os inúmeros argumentos para convencer os cientistas a participarem do projeto da criação da bomba de todas as bombas. Aí valia de tudo para seduzi-los: vaidade profissional, aversão ao nazismo, patriotismo norte-americano, afago intelectual, desafio científico e, acredite se quiser, espírito humanista. Quem concentra todas essas razões (em uma espécie de pot-pourri de desculpas para aliviar a consciência) é o próprio Robert Oppenheimer, que só se tornaria um opositor das armas nucleares no fim dos anos 1940. Confesso que sempre me perguntei como os cientistas aceitaram participar do Projeto Manhattan e integrar o Laboratório de Los Alamos. Nesse sentido, “Oppenheimer” é extremamente claro e didático nos motivos pessoais, acadêmicos e profissionais que levaram os principais cérebros dos Estados Unidos a embarcarem nessa empreitada aterrorizante. Apesar de ser um filmão, a nova produção de Nolan não está imune aos problemas. Para começo de reclamação, três horas é muita coisa. Dava muito bem para ter cortado várias das cenas do interrogatório na salinha apertada e claustrofóbica. É justamente nesse ponto em que o longa-metragem se torna arrastado e pouco surpreendente (até porque sabemos o que aconteceu e não precisamos acompanhar as personagens rememorando os fatos). Com um pouco de esforço por parte do diretor e da equipe de edição, dava para sintetizar as descobertas de quais colegas traíram e de quais colegas foram fiéis até o fim ao protagonista. Duas horas e meia ou duas horas e quinze minutos de sessão estariam de bom tamanho. Outro aspecto que preciso comentar é o excesso de personagens. Essa foi a principal reclamação da Bela Adormecida (que ressona e baba) ao final da sessão. Carla disse já na mesa da Cafeteria Havanna com cubanitos e cappuccino em mãos: “Teve uma hora que não sabia mais quem era quem”. Talvez não seja exatamente esse o pensamento de quem permanece acordado durante o filme inteiro. Mas é inegável que temos uma overdose de figuras em cena. Não dá para fixar e contextualizar todas elas. Também achei algumas personagens bastante caricatas. Ciente dessas características peculiares de “Oppenheimer”, acredito que os cinéfilos vão curtir a nova produção de Christopher Nolan. Dentro do portfólio cinematográfico do diretor britânico, “Oppenheimer” se junta a “Dunkrik” como os dois integrantes da faceta dos dramas históricos ambientados na Segunda Guerra Mundial. Se esse pedaço do trabalho de Nolan não ganha em qualidade das ficções científicas, como o ótimo “Tenet”, o espetacular “Interestelar” e o brilhante “A Origem” (para mim, ainda o melhor filme do cineasta), pelo menos dá de goleada nos filmes de super-heróis, como “Batman Begins”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e “Liga da Justiça” (Justice League: 2017), esse último com Christopher Nolan como executivo e não como diretor. Confira, a seguir, o trailer de “Oppenheimer” (2023): Conforme prometido, meu próximo desafio cinematográfico é assistir a “Barbie”. Combinado é combinado, Carlinha! Se o filme de Greta Gerwig for mesmo bom como todos estão falando, voltarei ao Bonas Histórias, mais especificamente à coluna Cinema, para analisá-lo com o devido cuidado. Do contrário, guardarei só para mim (e para a Bela Adormecida) a experiência de acompanhar Margot Robbie por duas horas vestida de rosa (que Scarlett Johansson não saiba!). Pensando bem, acho que não sairei tão decepcionado assim da próxima sessão. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Gregório de Matos e Guerra
Na nova entrevista da sétima temporada do TSL, Darico Nobar conversa com o protagonista de Boca do Inferno, romance histórico de Ana Miranda que conquistou o Prêmio Jabuti de 1990. [No canto de um estúdio de TV qualquer, no lado obscuro do mundo, alguém dedilha uma guitarra. No centro do palco e atrás da mesa do entrevistador, um senhor espera o fim da melodia. A cena é acompanhada pela plateia atenta e, por vezes, inculta]. Darico Nobar: No Talk Show Literário de hoje, receberemos ele, cuja difamação é o seu Deus. Loquaz, sedutor, um poeta afundado no colo das meretrizes. Graduado na escola da luxúria, que é a mais brava das universidades da vida. Herói nacional das trovas burlescas, tem o pecado como parte de sua natureza. Nas horas vagas, é tesoureiro e desembargador da Sé. E, nos últimos anos, acreditem se quiser, é protagonista de um romance histórico premiado. Com vocês, Doutor Gregório de Matos! [Sob os aplausos do público, o homem de cabelos tonsurados entra no palco. Veste-se como um leigo, elegante e limpo, com um colete de pelica de âmbar. O suor escorre da testa. No rosto muito branco, os óculos fazem os olhos parecerem minúsculos]. Darico Nobar: É um enorme prazer receber um dos maiores poetas brasileiros... Gregório de Matos: Valha-me Deus! [Suspira e balança a cabeça negativamente]. É mais difícil viver do que interpretar um papel social ou literário. Darico Nobar: Tens teu lugar garantido na literatura! Gregório de Matos: Que ingênuo tu és, Dom Darico [Coloca a mão sobre o ombro do velho apresentador]. Eles me odeiam pois sou um artista torto que caiu na mal falada boca do povo. Ser poeta é uma maldição da nossa língua e uma perdição em nosso país. Darico Nobar: Não rascunhes teu talento para o deboche e para o riso franco. Gregório de Matos: Talento?! Pois eu, de minha parte, vejo como uma habilidade que fui aprimorando em disputas verbais e que hoje me causa tanta dor de cabeça. Estou cansado de tentar ser Gongora y Argote. Minhas composições são mais profanas. Na verdade, temo a pena da inquisição. Darico Nobar: Temes a Santa Inquisição?! Gregório de Matos: O que me tira o sono é a inquisição do governador da Bahia. Darico Nobar: Tenho ouvido notícias. Soube das disputas entre as facções dos Menezes e dos Ravasco. Como começou essa rixa? Gregório de Matos: Os problemas políticos são o retrato da Capital do Brasil. O poder fica restrito a um pequeno grupo, quase sempre impune. A população desobediente quanto às normas de convivência está sujeita a castigos que vão desde a multa em dinheiro, exílio, galés, até marcação com ferro quente, espancamento, enforcamento e decapitação. Esta é a São Salvador da Bahia de Todos os Santos, meu amigo! Darico Nobar: Por que assassinaram o alcaide-mor, Doutor Gregório? Gregório de Matos: O Braço de Prata montou um forte ardil muito bem calçado em cima de três pés: ele próprio, com seus sequazes de sangue de carrapato, na Fazenda e na política. Os desembargadores Palma e Gois, que lhe dão o sustento no Tribunal, arrebanhando outros juízes venais. E, finalmente, o alcaide-mor, o falecido, que o dominava e assegurava sua supremacia na área municipal. Sem o alcaide, uma das três pernas da besta-fera, tudo começa a desmoronar. Darico Nobar: Condenas o assassinato do alcaide? Gregório de Matos: Não considero injustiça o que está feito. Darico Nobar: Temes ser envolvido na conspiração? Gregório de Matos: Em cada esquina há um olheiro que pesquisa, escuta, espreita, denuncia. Esse povo não tem eira nem beira. Darico Nobar: Tuas sátiras ao Braço de Prata não te ajudam em nada a ficar em paz com o governador. Poderias nos contar uma ou duas delas, por favor? Gregório de Matos: Vamos lá. [Pega as folhas do bolso e começa a leitura]. Xinga-te o negro, o branco te pragueja, e a ti nada te aleija. Por teu sensabor e pouca graça, és fábula do lar, riso da praça, até que a bala, que o braço te levara, venha uma segunda vez levar-te a cara. [Plateia e apresentador caem na risada]. Outra! Oh, não te espantes não, Dom Antônio, que se atreva a Bahia com oprimida voz, com plectro esguio, cantar ao mundo teu rico feitio, que já é velho em poetas elegantes o cair em torpezas semelhantes. O bigode fanado feito ao ferro está ali num desterro, e cada pelo em solidão tão rara, que parece ermitão da sua cara: da cabeleira, pois, afirmam cegos, que a mandaste comprar no arco dos Pregos. Olhos cagões que cagam sempre à porta, mas tem esta alma torta, principalmente vendo-lhe as vidraças no grosseiro caixilho das couraças: cangalhas que formaram, luminosas, sobre arcos de pipa duas ventosas. De muito cego, e não de malquerer a ninguém podes ver; tão cego és que não vês teu prejuízo, sendo cousa que se olha com juízo: tu és mais cego que eu que te sussurro, que, em te olhando, não vejo mais que um burro. Darico Nobar: Ainda vás terminar homiziado, preso ou degredado! Gregório de Matos: Não temo o Braço de Prata. Darico Nobar: Braço de Prata é um nome pitoresco, né? Gregório de Matos: Antônio de Souza de Menezes tem uma peça de prata que usa no lugar do braço direito, perdido numa batalha em Pernambuco, na armada do Conde da Torre, após uma refrega. O membro artificial é quem lhe empresta a odienta alcunha. Segundo dizem, o objeto foi feito pelo mais famoso ourives do Porto. Os dedos são perfeitos. Até mesmo as unhas e o desenho da pele nas articulações foram esculpidos. Darico Nobar: Chega de falar de política! Falemos agora de assuntos mais leves. Tu sempre foste um namorador, Doutor Gregório? Gregório de Matos: Sentia-me um idiota, fraco e delicado, já precisava de meus óculos, mas, com a graça de Deus, meu traseiro era seco e murcho, repugnante. Meu caralho passava o dia inteiro como uma espiga de milho, empinado. Eu só pensava nas negras. Assim, começou minha fama. Darico Nobar: O senhor tem visitado Anica de Melo no lupanar? Gregório de Matos: Anica de Melo é uma senhorita de grande compaixão pelos pobres. Ela estende os serviços de sua casa para gente de todas as condições. Apenas os escravos não podem entrar ali, pois afugentam os demais fregueses, ainda que as mais solicitadas damas do alcouce sejam as negras. Darico Nobar: Um bando de mulheres corre atrás de ti. Não pensas em te casar? Gregório de Matos: Sou viúvo e não encontrei nenhuma que me sirva. Mas sei que existe uma mulher para mim em algum lugar como uma princesa de meus sonhos. Darico Nobar: Talvez num convento. Ou numa cozinha. Talvez a encontre no banho público. Ou mesmo numa procissão. Gregório de Matos: Eu a amarei como Jaufré de Rudel amou a condessa de Trípoli, que jamais vira, e matou-se de amor por ela. Darico Nobar: E se ela for feia? Gregório de Matos: Amarei do mesmo jeito. Darico Nobar: E se for... uma meretriz? Gregório de Matos: Mesmo que cheire a cebola ou que não tenha um dente ou que não tenha um olho. Darico Nobar: És um romântico. Soube do teu recente interesse por Maria Berço. Gregório de Matos: É uma moça direita que está tendo problemas com a lei. Me sinto na obrigação de interceder ao seu favor já que sou um advogado. Darico Nobar: É isso apenas? É tudo? Gregório de Matos: Para mim é tudo. A justiça é o que me basta. Darico Nobar: Fale-me um pouco da Salvador do século XVII. Gregório de Matos: Esta cidade acabou-se, Dom Darico. Não é mais a Bahia. Antigamente, havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, na frente da forca, fazem assaltos à vista. Salvador parece ser a imagem do Paraíso, mas é onde demônios aliciam almas para povoarem o Inferno. As portas das igrejas estão repletas de miseráveis e loucos. Com tanta riqueza interna, há grande pobreza e muita gente morrendo de fome no lado de fora. Darico Nobar: A violência urbana e a pobreza são mesmo problemas graves. Gregório de Matos: Não há grandes assaltantes na Bahia, mas quase todos furtam um pouquinho. Alguns salteadores de estradas, raros ladrões violentos ou cortadores de bolsas andam por ali. Porém uma desonestidade implícita e constante faz parte do procedimento das pessoas da nossa terra. Negros fugidos tornam as estradas e certas ruas mais perigosas. A cobiça do dinheiro ou a inveja dos ofícios, além disso, é um sentimento comum. Muitos querem ver seus patrícios abatidos de crédito, ou arrastados pela pobreza, ou mortos, numa luta destra e sinistra. Nem ao sagrado perdoam, fosse rei, bispo, sacerdote ou donzela metida em seu retiro. Todos levam seus golpes e todos sofrem com as intrigas cruéis e nefandas. Darico Nobar: Mas deve haver algo de bom nesse lugar, né? Gregório de Matos: A serpentina vai veloz pelas ladeiras. As ruas principais são largas e cobertas com pedregulhos. Há passeios públicos nos lugares mais notáveis e muitos jardins dentro ou fora da cidade, com árvores frutíferas, plantas medicinais, verduras para saladas e flores variadas. Muitas igrejas surgem no caminho, quase todas em pedra-lioz creme com veias cor-de-rosa. Os conventos são espaçosos e imponentes. Ah, esta notável cidade, a primeira Capital desaventurada de um povo néscio e sandeu. De dia, as missas se sucedem interminavelmente, às quais o povo comparece para expiar suas culpas e poder cometer novos pecados: concubinatos, incestos, jogatinas, nudez despudorada, bebedeiras, prevaricações, raptos, defloramentos, poligamia, roubos, desacatos, adultério, preguiça, paganismo, sodomia, lesbianismo, glutonaria. Darico Nobar: Se pudesses pedir algo para Deus, o que seria? Gregório de Matos: Não seria exatamente o céu, tampouco a riqueza material. Pediria para mim paz de espírito e para todos um mundo mais justo. Darico Nobar: Te ouvindo falar, pensei que... [Sem explicação, o sinal do programa é cortado. Após alguns segundos de chiado na tela, entra no ar o pronunciamento do governador da sede administrativa da colônia]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Menino Amarrado ao Manacá - O segundo romance de José Carlos Martins
Publicado em janeiro de 2023, o drama psicológico do autor mineiro retrata a trajetória de vida de um anti-herói contemporâneo e com traços bem brasileiros. Em janeiro, recebi gentilmente de José Carlos Martins o livro “O Menino Amarrado ao Manacá” (Publicação independente), seu segundo romance. Como já tinha lido (e adorado!) “O Velho e o Menino, o Rio” (Cria Editora), a obra de estreia do autor mineiro – inclusive fiz a análise completa dela no Bonas Histórias –, tratei logo de conhecer a nova publicação. E qual foi a minha surpresa ao descobrir que Martins produziu um título ficcional ainda melhor do que o primeiro. Se “O Velho e o Menino, o Rio” possui uma trama sensível, bonita e impactante, “O Menino Amarrado ao Manacá” é uma pequena obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Digo pequena porque seu tamanho está justamente entre a novela e o romance. Eu o classifiquei como romance (narrativa longa), mas não seria errado vê-lo como uma novela (narrativa média). Tudo depende do ponto de vista. O que parece unânime é a qualidade elevada do novo texto de José Carlos Martins. Falei sobre isso quando apresentei, em fevereiro, na coluna Mercado Editorial, os livros que foram lançados no Brasil no primeiro bimestre de 2023. Obviamente, destaquei “O Menino Amarrado ao Manacá” na lista das melhores novidades que chegaram às livrarias nacionais no comecinho do ano. Os leitores mais assíduos e atentos do blog deverão se lembrar que prometi, naquela oportunidade, a análise detalhada de “O Menino Amarrado ao Manacá” na coluna Livros – Crítica Literária. Aqui vai justamente o post prometido. Sei que demorei um pouco para cumprir a promessa (havia uma sequência de títulos programada para o debate). Antes tarde do que nunca, né? Por falar em atraso (prefiro o termo “prazo alongado de entrega”...), nos próximos meses vou comentar no Bonas Histórias duas obras ficcionais que estou devendo para vocês: “Deixe a Música Contar” (Sete Autores), a novela musical de Roberto Marcio, e “A Contra-história” (Valentina), o terceiro volume da série “A Contrapartida” de Uranio Bonoldi. Minha ideia é publicar a análise desses bons livros em julho e setembro, respectivamente. Reparem que aos poucos vou pagando minhas dívidas. A frase anterior é mais abrangente do que vocês podem imaginar... Brincadeirinha! Ou não. José Carlos Martins nasceu em Areado, Sul de Minas Gerais. Em sua cidade natal, o escritor viveu até o final do ensino médio. Para ingressar na graduação, ele se mudou para Guaxupé, onde cursou Filosofia no seminário diocesano e onde se formou em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guaxupé (FAFIG). Depois de concluído os estudos, José Martins retornou para Areado e lecionou por doze anos. Foi nessa época que ele se casou com Marciana Prado Martins, bancária que se aposentou recentemente, e teve duas filhas: Lara Prado, atriz, e Lívia Prado, tradutora e revisora. Em 1993, Martins resolveu fazer grandes mudanças em sua trajetória de vida. Ele foi morar em Alfenas para estudar Direito na Universidade de Alfenas (UNIFENAS). Com o diploma em mãos, ele trabalhou por 25 anos na Vara do Trabalho daquela cidade de Minas. Ao se aposentar em julho de 2018, José Carlos tomou duas importantes decisões: permanecer vivendo em Alfenas; e se dedicar à produção literária, paixão antiga que ficara adormecida por esses anos todos. E pelo visto, José Carlos Martins está trabalhando intensamente no novo ofício. O romance “O Velho e o Menino, o Rio” foi lançado em setembro de 2022 pela Cria Editora, uma casa editorial de Alfenas especializada em literatura infantojuvenil. E em janeiro de 2023, recebemos seu segundo livro ficcional, “O Menino Amarrado ao Manacá”. Dessa vez, a opção do autor foi pela publicação independente (desvinculada de uma editora formal). Para tal, ele contou com a assessoria da LC Design & Editorial, braço da LC Agência de Comunicação que presta uma série de serviços editoriais: revisão, ilustração, design de capa, desenvolvimento do projeto gráfico da obra, diagramação, coordenação editorial, ficha catalográfica, obtenção do ISBN, impressão gráfica e conversão do texto em livro digital. Provando que abraçou com entusiasmo a profissão de escritor ficcional, José Carlos Martins está preparando sua terceira publicação. Trata-se de “O Menino Chicão e o Gato Vicente”, sua estreia na literatura infantil. Esse título está na fase final de desenvolvimento e deve chegar às mãos do público em breve. Se tudo sair dentro da programação prevista, o autor mineiro deverá ostentar a incrível marca de três livros lançados em apenas um ano (setembro de 2022 a agosto de 2023). Além da invejável quantidade de obras recém-publicadas, o que é admirável nessa primeira leva de títulos literários é a qualidade das narrativas. Para isso, vamos debater com mais profundidade o romance que foi lançado em janeiro por Martins. Afinal, estamos na coluna Livros – Crítica Literária, né? Em “O Menino Amarrado ao Manacá”, acompanhamos o relato em primeira pessoa de Francisco das Chagas Marins Filho. O narrador-protagonista é uma espécie de anti-herói. Ele conta sua trajetória de vida recheada de polêmicas, crimes, mágoas, amores e desamores. Ou seja, ficamos conhecendo seus trambiques e suas traições. Na verdade, as palavras de Francisco não são dirigidas diretamente aos leitores do livro. A personagem principal de José Carlos Martins conversa o tempo inteiro com uma mulher, que ele chama apenas de doutora. A impressão que tive é que Francisco fala com uma advogada, uma delegada, uma juíza ou mesmo uma psicóloga. Não podemos saber com precisão quem é a pessoa com quem ele conversa, já que temos acesso única e exclusivamente às palavras do narrador (ele não detalha quem é a tal doutora). Por falar nisso, achei interessantíssimo o efeito desse expediente narrativo. O fato de o protagonista ter um(a) único(a) e misterioso(a) interlocutor(a) atiça nossa curiosidade e eleva o clima de suspense e tensão dramática da história (não é errado enxergarmos esse livro como um thriller e/ou como um romance histórico). Essa característica do romance me lembrou a estrutura de “Grande Sertão: Veredas” (Companhia das Letras). Se no clássico de Guimarães Rosa tínhamos apenas a voz de Riobaldo ecoando pelas páginas, agora é Francisco das Chagas Marins Filho o dono do monólogo. Assim, acompanhamos a saga do narrador-protagonista da infância à vida adulta. Francisco nasceu em Carvoeiro, sítio localizado em Cafundó. Cafundó (chamado carinhosamente de Cafundó dos Judas) fica próximo a Brejo das Almas, vilarejo situado no interior do interior do interior do rincão do Brasil. Filho caçula e único menino de uma família de agricultores (o pai cuidava sozinho da propriedade rural enquanto a mãe era dona de casa), Francisco era o que podemos chamar de criança arteira. Por ser o menor e o único homem entre tantas irmãs, ele sofria nas mãos das cinco meninas da casa (uma sexta garota faleceu pouco depois de nascer). Para conter a sanha bagunceira do garoto, as irmãs tinham o hábito de amarrar o pequeno Francisco em um manacá da serra, árvore vistosa que fora plantada pela mãe no quintal de casa antes do casamento. Mesmo assim, as irmãs não conseguiam conter a alma questionadora e indisciplinada do caçula. Sempre que podia, o menino aprontava das suas. Se sentindo deslocado em Carvoeiro e não querendo trabalhar com o pai na enxada, Francisco fugiu para o litoral com 15 anos de idade. Curiosamente, esse foi o mesmo destino de suas irmãs. Uma a uma, elas deixaram o sítio paterno para construir a vida na cidade. Por ser o caçula, o narrador-protagonista foi o último a abandonar o lar natal. Em Barra de São Caetano, cidade às margens da praia, Francisco das Chagas Marins Filho se fixou. Primeiramente, ele trabalhou em Planalto, empresa que produzia peixes enlatados. Sua função era despedaçar os pescados. Nessa época, o rapaz vivia na casa da irmã mais velha, Ana Maria. Porém, Francisco não demorou para ser expulso da residência da primogênita dos Marins e foi morar na pensão de Dona Cotinha. Ele também trocou de emprego e foi atuar como magarefes (adoro essa palavra!!!) no Matadouro Municipal. Antes de deixar Planalto, Francisco começou a namorar uma colega de trabalho, Virgínia. Como a moça ficou grávida, o casamento foi sacramentado. Tão logo se uniu e passou a viver em uma casa própria, o casal teve Sebastian Emanuel, o único filho daquela relação. Entretanto, o matrimônio trouxe muitos aborrecimentos e frustrações para os cônjuges. Virgínia não suportava a frieza e as grossuras do marido. Por sua vez, Francisco preferia a companhia das duas amantes: Maria Tereza, a professora mais velha que o desvirginara, e Minha Menina Morena, a jovem prostituta com quem ele se encontrava regularmente no prostíbulo local. Com o fim do casamento, Francisco passou a namorar Ester, uma moça fogosa e evangélica que via com maus olhos o ateísmo do amado. Ao ter certeza de que ele jamais iria se tornar crente, ela o abandonou. Ao mesmo tempo que se desiludiu com as mulheres (no caso, com os relacionamentos convencionais, já que mantinha as visitas frequentes às camas de Maria Tereza e Minha Menina Morena), a personagem principal do romance largou o emprego de magarefes e decidiu empreender. O problema é que o quiosque na praia que ele montou foi vandalizado e o jovem empresário perdeu tudo. Aquilo foi a gota d´água. Agir dentro da lei e procurar ser certinho não estava se mostrando uma estratégia bem-sucedida. Não por acaso, a partir desse ponto da história, Francisco das Chagas Marins Filho resolveu radicalizar. Seus novos trabalhos eram nos campos da segurança patrimonial e do entretenimento masculino. Só pela escolha das palavras dá para ver que esses trampos eram, como o próprio protagonista gostava de dizer, termos eufemísticos. Afinal, eles podiam ser vistos como eticamente condenáveis ou legalmente questionáveis. Sem se importar com a opinião alheia, o jovem empreendedor alcançou, enfim, o sucesso financeiro. Como tudo no Brasil, as coisas que vão contra a ética, a lei, a moral e os bons costumes acabam se tornando extremamente lucrativas. Como diria os antigos versos de Roberto Carlos: “E como vou saber/ o que devo fazer?/ Que culpa tenho eu?/ Me diga amigo meu/ Será que tudo o que eu gosto/ é ilegal/ é imoral/ ou engorda”. Numa mistura bem-azeitada das colunas Livros – Crítica Literária e Músicas, diria que a trilha sonora que se encaixa perfeitamente no drama psicológico de Francisco das Chagas Marins Filho é “Ilegal, Imoral ou Engorda”. O único efeito colateral da vida bandida foi o surgimento de alguns inimigos, que fariam qualquer coisa para acabar com a vida de bem-bom de Francisco. Será que o anti-herói conseguirá passar imune aos vários crimes e safadezas praticados ao longo da vida adulta? Esse é o mistério que rege a leitura do novo livro de José Carlos Martins. “O Menino Amarrado ao Manacá” possui 164 páginas, que estão divididas em 175 capítulos. Há também um prefácio que foi produzido por Eneida D´Ávila Figueiredo, professora do autor que o incentivou a seguir com a escrita literária. Com quase 90 anos e morando em Belo Horizonte, a Professora Eneida analisou, no início do livro, os principais elementos da nova narrativa do antigo aluno. Levei em torno de quatro horas para concluir essa leitura. Precisei de apenas um dia para ir da primeira à última página de “O Menino Amarrado ao Manacá”. Basicamente, fiz a leitura em duas sessões: uma de manhã (com duas horas de duração) e outra à tarde (com mais duas horinhas). A principal característica positiva deste livro é a narrativa deliciosa. Também temos um conjunto de ótimas cenas, excelentes personagens e um conflito forte. Apesar de saber/entender tudo isso, ainda sim achei que o maior mérito de “O Menino Amarrado ao Manacá” reside justamente na sua narrativa fluida, gostosa e impactante. O que ajudou na beleza descomunal do texto foi a linguagem impecável de Francisco. Acompanhar o relato do seu drama pessoal é uma experiência literária indescritível. Por mais inverossímil que a narrativa seja (falarei sobre isso daqui a pouco), não dá para não reconhecermos a riqueza das palavras e da apresentação da história do narrador-protagonista. O que o autor mineiro fez nesta publicação é de tirar o chapéu. Outro mérito de “O Menino Amarrado ao Manacá” é a trama impecável e clara. O livro tem ótimo começo, ótimo meio e ótimo final. Nem por isso, o romancista se preocupou em ser muito didático ou extremamente formal. José Carlos Martins emulou uma conversa entre duas pessoas, mas só mostrou o que uma delas disse. Assim, temos todos os elementos comuns de um diálogo: oralidade, mudança abrupta de assunto, retomada de temas esquecidos, repetição, dissimulação, falta de ordem temporal, esquecimentos... Também temos uma forte intertextualidade literária em “O Menino Amarrado ao Manacá”. O leitor atento e com um maior repertório ficcional conseguirá pescar as várias referências deixadas sutilmente ao longo dos capítulos do romance. Seria coincidência o surgimento de nomes como Paulo Honório, protagonista de “São Bernardo” (Record), clássico de Graciliano Ramos, e de Virgínia, um dos amores do anti-herói de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Martin Claret), obra máxima de Machado de Assis? Sinceramente, acho que não é mero acaso. Se você procurar bem, achará mais passagens intertextuais. O legal é que José Carlos Martins não se preocupou em explicitar as correlações de seu livro com os clássicos nacionais. Adoro quando os autores valorizam e investem na inteligência dos leitores. Ainda na seara da astúcia do texto de “O Menino Amarrado ao Manacá”, é preciso elogiar a inserção de críticas sociais e de reflexões religiosas de altíssimo nível no meio da trama ficcional. Não à toa, as melhores partes da narrativa de Francisco (e as mais engraçadas também) são exatamente aquelas em que ele debate as mazelas brasileiras e as contradições e a falta de lógica dos preceitos do Cristianismo. Já tínhamos visto esse tipo de proposta em “O Velho e o Menino: o Rio”, o título de estreia de José Carlos Martins. É possível notar que o romancista segue com uma visão crítica da religião. Se na obra anterior achei excessivo e gratuito o ódio do protagonista pela Igreja (apesar de concordar com seu conteúdo), em “O Menino Amarrado ao Manacá” isso não ocorre. São evidentes os motivos que levaram Francisco a se opor à religiosidade da mãe e de Ester. Além disso, não temos o gasto de mais páginas do que o necessário para tratar desse tema. A fixação do narrador-protagonista de provar a validade do seu ateísmo é totalmente lógica dentro do romance (algo que não aconteceu em “O Velho e o Menino: o Rio” com Manuel Vieira Vasconcelos de Quental). Outra questão interessante para ser observada neste romance é o mistério sobre quem seria a interlocutora da conversa de Francisco das Chagas Marins Filho. Como só ouvimos a voz do protagonista ao longo de toda a obra e ele chama a pessoa com quem conversa de doutora, não sabemos exatamente quem seria a tal doutora. Seria ela uma advogada, uma juíza, uma delegada, uma médica ou uma psicóloga, hein? Não dá para precisar. Acertadamente, José Carlos Martins não revela a identidade da misteriosa mulher que ouve tão atentamente Francisco em “O Menino Amarrado ao Manacá”. Nesse caso, podemos dizer que o desfecho do livro é aberto. Adoro finais interpretativos. Por exemplo, juro que achei desde o início que a doutora fosse uma delegada, juíza ou advogada que estivesse tratando de livrar o narrador-protagonista de seus crimes. Terminei a leitura com essa mesma sensação. Já Eneida D´Ávila Figueiredo disse no prefácio que acha que a personagem oculta é uma psicóloga. E você, o que acha, hein? Como diria Dona Milu: misteeeeeeeeeeeeeeeeeeério!!! Adorei também o humor do romance. Repare que, do ponto de vista estritamente do conteúdo de “O Menino Amarrado ao Manacá”, a narrativa é densa e bastante pesada. Ela é quase uma trama de terror. Afinal, há muitas traições, maldades e crimes ao longo do relato de Francisco. Mesmo assim, é possível notarmos que o texto é bonito, sensível e muito agradável. Gosto dessa dicotomia entre conteúdo (árido) e estética (aprazível). Por isso, a semelhança que vem à mente é com “Grande Sertão: Veredas”. Para completar com chave de ouro a beleza desta narrativa, a obra de José Carlos Martins ainda tem um humor inteligente e sutil. É possível dar algumas boas risadas ao ler as contradições e as tiradas espirituosas de Francisco das Chagas Marins Filho. Esse lado cômico dele ajuda a humanizá-lo, trazendo um tom acertado de contradições ao protagonista. Gosto quando a construção da personagem redonda é bem-feita! E o componente do humor foi, sem dúvida nenhuma, um acerto. O lado satírico e a veia sarcástica de Francisco contagiam a leitura. O único defeito mais sério de “O Menino Amarrado ao Manacá” está na inverossimilhança de sua narrativa, algo que curiosamente apontei também em “O Velho e o Menino: O Rio”. No caso, a falta de veracidade (de ambos os romances de José Carlos Martins) está na incompatibilidade entre o tipo do narrador-protagonista (um homem simples, sem estudos formais e meio brucutu) e o texto por ele produzido (elegante, inteligente, engraçado e cheio de referências literárias, filosóficas e culturais). Por mais que o autor tenha se esforçado para justificar como alguém tão ogro conseguiu tecer uma narrativa tão refinada (em “O Menino Amarrado ao Manacá” é Francisco das Chagas Marins Filho e em “O Velho e o Menino: O Rio” era Manuel Vieira Vasconcelos de Quental), ele não conseguiu me convencer (e acho que não convence a maioria dos leitores). Sempre fico com a sensação de que Martins se apropria indevidamente das falas de suas personagens para expressar suas próprias opiniões (um erro crasso da ficção literária – o escritor não pode interferir no texto do narrador, que é uma outra pessoa). Por exemplo, Francisco diz que nunca leu a Bíblia (na verdade, parou no comecinho) e jamais se preocupou com assuntos cristãos (nem mesmo prestava atenção ao culto quando ia com Ester, a namoradinha evangélica). Entretanto, ele discorre com enorme propriedade de passagens do Velho e do Novo Testamento como um entendido no assunto. Como isso é possível, senhoras e senhores? Não sei. Ele também não é nem um pouco chegadinho em literatura, história, filosofia, filme, música, ecologia, antropologia, sociologia e futebol. Porém, consegue citar obras, autores, temas e personalidades desses universos com enorme facilidade como se fosse um intelectual ou uma pessoa engajada com causas sociais. Aí não dá, né?! Ao invés de tentar explicar o inexplicável, por que não dar educação e alguma erudição à personagem, como João Guimarães Rosa fez com Riobaldo, né? Acho que seria mais fácil e lógico. O problema da narrativa de “O Menino Amarrado ao Manacá” não está apenas na elegância e na riqueza do conteúdo, algo que Francisco jamais conseguiria produzir sozinho (ou com a ajuda indireta de Maria Tereza, a professora com quem ele compartilhava a cama). O equívoco se estende para as opiniões do protagonista do romance. Não me parece fidedigno que um sujeito como o que nos conta uma história tão atroz e egoísta seja (além de extremamente erudito) um crítico do machismo, da misoginia, do racismo, das injustiças sociais e da falta de cuidado ambiental em nosso país. A única característica que caiu como uma luva nele foi o ateísmo (faz todo o sentido ele se questionar sobre a existência e, principalmente, a atuação de Deus nesse mundão repleto de maldades e injustiças). Pelo perfil e pelos comportamentos da personagem principal de “O Menino Amarrado ao Manacá”, o mais correto seria se Francisco das Chagas Marins Filho fosse mais reacionário e menos progressista. Talvez se assistíssemos às falas mais polêmicas (contra as mulheres, contra os negros, contra os pobres, contra a ecologia etc.) dele poderíamos entender o quão descabido e nojento é esse tipo de discurso aos olhos dos leitores contemporâneos e com alguma inteligência. O que não colou foi a defesa de alguns princípios que sabemos que não estão na essência da personagem principal do livro de José Carlos Martins (por mais pertinentes que sejam). A construção de figuras polêmicas e a distinção da visão de mundo das personagens com as opiniões do próprio autor são uma das qualidades dos melhores romancistas. Outras coisas que não gostei foram dos conteúdos do Índice para Catálogo Sistemático (CDD) e dos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP). Sim, eu leio essas partes também (antes de iniciar a leitura). Na verdade, eu leio TUDO dos livros analisados!!! Acho que falei rapidamente sobre o equívoco na classificação da nova obra de José Carlos Martins no post da coluna Mercado Editorial em que apresentei os livros que foram lançados em janeiro e fevereiro de 2023. Pela extensão desta publicação (pouco mais de 160 páginas), “O Menino Amarrado ao Manacá” pode ser visto tanto como uma novela (narrativa média) quanto como um romance (narrativa longa). De qualquer maneira, estamos no universo da ficção literária (e não saímos dele em nenhum momento). O problema é que, lendo o Índice para Catálogo Sistemático e os Dados Internacionais de Catalogação na Publicação, temos a impressão de que este é um título não ficcional. É só olhar lá. “O Menino Amarrado ao Manacá” foi catalogado como sendo um livro de Crítica Social: Sociologia e de Crônicas – História e Crítica. Não!!! Ele não é uma publicação não ficcional nem uma coletânea de crônicas. Ele é sim uma ficção e está entre a novela e o romance, não sendo uma coleção de narrativas curtas (contos ou crônicas). Ai, ai, ai. Por fim, preciso falar do projeto gráfico. Achei os elementos visuais e de diagramação de “O Menino Amarrado ao Manacá” muito simplórios. E olha que estou comparando esse livro ao anterior de José Carlos Martins e não às publicações das grandes editoras nacionais. Perto de “O Velho e o Menino: O Rio”, “O Menino Amarrado ao Manacá” tem um projeto gráfico mais pobre, mais tímido. Por exemplo, o espaçamento entre as linhas é menor, o que dificulta um pouco a leitura e passa a sensação de um texto menos convidativo. E a mistura de vários capítulos na mesma página também transmite a sensação de que se priorizou a economia de folhas impressas à experiência de leitura. Pela qualidade altíssima desta narrativa, acredito que o novo romance de José Carlos Martins merecia sim um capricho maior em seu visual e em sua diagramação. De qualquer maneira, a maioria dos problemas que apontei em “O Menino Amarrado ao Manacá” não se refere à narrativa em si (a exceção, obviamente, é em relação à incompatibilidade da narrativa e o perfil do narrador-protagonista). Por isso, não achei que esses aspectos atrapalharam substancialmente minha experiência literária. Os pontos positivos do texto são mais fortes e numerosos, o que transforma esse romance em uma ótima leitura. O que mais gostei foi de ter acompanhado o crescimento do trabalho ficcional de José Carlos Martins de um livro para outro. Mesmo mantendo-se fiel à sua proposta literária (reparem que “O Velho e o Menino: O Rio” e “O Menino Amarrado ao Manacá” possuem uma mesma linha estético-narrativa e/ou uma mesma pegada editorial), a segunda obra tem uma qualidade muito maior do que a primeira. E a diferença entre as publicações foi de apenas um ano. Em outras palavras, estamos assistindo ao amadurecimento muito rápido do autor. Se continuar nessa franca evolução, José Carlos Martins se posicionará rapidamente como um dos melhores nomes da atual geração da literatura brasileira e da literatura mineira. Como falei, a próxima novidade do escritor mineiro será o lançamento de seu primeiro título infantil. “O Menino Chicão e o Gato Vicente” deverá chegar em breve aos leitores mirins. Aguardemos ansiosos pela terceira publicação do autor. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: Amanhecendo – A canção de Billy Blanco que é a cara de São Paulo
Hoje, é aniversário da cidade de São Paulo. Ela completa 461 anos de vida neste 25 de janeiro. Por isso, resolvi comentar no Blog Bonas Histórias uma música que é a cara da metrópole paulistana. Acho difícil algum morador daqui nunca ter ouvido esta canção. Basta começar o refrão “Vambora, vambora/Olha a hora, vambora” para todos se lembrarem e, principalmente, se identificarem com ela. Contudo, a maioria dos habitantes da cidade não a reconhece pelo nome. “Como se chama a música do “Vambora, vambora?”, muitos se perguntaram a vida inteira. A resposta é “Amanhecendo”. Lançada em 1974, no disco "Sinfonia Paulistana", “Amanhecendo" foi composta por Billy Blanco. Curiosamente, Blanco, cujo nome completo é William Blanco Trindade, é paraense. Nascido em 1924 em Belém, ele se mudou para a capital paulista aos vinte e poucos anos para estudar arquitetura. Por aqui, rapidamente começou a alimentar o interesse pela música, deixando pouco a pouco a arquitetura em segundo plano. O disco "Sinfonia Paulistana" demorou dez anos para ser composto. Das suas quinze canções, nenhuma ficou tão famosa quanto “Amanhecendo”. A canção se popularizou rapidamente. Ela foi inserida na vinheta do Jornal da Amanhã, tradicional programa de notícias da Rádio Jovem Pan, ainda em 1974. Com isso, milhares (quem sabe milhões) de paulistanos passaram a ouvi-la no caminho do trabalho e da escola. Foi o meu caso. Meus pais me levavam para o colégio todas as manhãs ao som do programa da rádio e, por consequência, da música de Blanco. Para matar as saudades dessa parte da minha infância (a canção continua sendo executada pela Jovem Pan, mas eu não a ouço com tanta frequência), aí vai “Amanhecendo”. Veja, abaixo, a letra da música e assista a um dos seus vídeos. “Amanhecendo” (1974) – Billy Blanco Começou um novo dia Já volta quem ia, O tempo é de chegar, De Metrô chego primeiro, Se tempo é dinheiro, Melhor vou faturar. Sempre ligeiro na rua, Como quem sabe o que quer, Vai o paulista na sua, Para o que der e vier. A cidade não desperta, Apenas acerta, A sua posição, Porque tudo se repete, São sete, e às sete, Explode em multidão. Portas de aço se levantam! Todos parecem correr! Não correm "de" correm "para" Para São Paulo crescer! Vamobora, vamobora Olha a hora, Vamobora, vamobora Vamobora, vamobora Olha a hora, Vamobora, vamobora Vamoembooooooooora... Veja o vídeo em que o próprio Billy Blanco canta sua criação mais famosa. Nesta interpretação, ele é acompanhado pela Banda Sinfônica Jovem. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SãoPaulo #BillyBlanco #DataEspecial #celebração #Música #MúsicaBrasileira
- Gastronomia: Tiro Liro Bar - Um pedacinho de Portugal no bairro da Pompeia
Com duas décadas de existência, o bar dos irmãos Toninho e Sérgio Bastos oferece petiscos originais em ambientação típica das tascas lisboetas. Em um sábado de janeiro, conheci o Tiro Liro Bar, um boteco refinado com atmosfera portuguesa encravado nas charmosas ladeiras do bairro da Pompeia, Zona Oeste da cidade de São Paulo. Quem me apresentou o local foi Eduardo Villela, amigo dos tempos de colégio e atualmente um dos principais book advisors do país. Depois de fazermos uma reunião literária nas dependências da Dança & Expressão (com direito a celebração pela chegada do segundo filho do Eduardo, a pequena Larissa), saímos à procura de um restaurante para almoçar. Como sou da região, sugeri algumas opções: poderíamos apreciar a comida árabe no Shawarma Anwar, embarcar nas delícias da culinária turca do Kebab Paris ou encarar o extenso e sempre agradável cardápio da Lanchonete Souza. Meu velho amigo me olhou com cara desconfiada e disse em tom de indignação: você acha que eu estou na Pompeia e não vou no Tiro Liro, hein?! Foi aí que descobri esse bar encantador e com petiscos de dar água na boca, tema do post de hoje do Bonas Histórias. Graças à indicação feita pelo Eduardo no início do ano, passei a frequentar com regularidade esse estabelecimento que possui qualidades que vão deixar os leitores mais exigentes da coluna Gastronomia empolgados. Localizado na esquina da Rua Cotoxó com a Rua Cajaíba, o Tiro Liro Bar é um empreendimento dos irmãos Antônio Carlos Bastos (mais conhecido como Toninho) e Sérgio Bastos. De família portuguesa, eles são filhos de Manuel Bastos (o Seu Mané), imigrante que chegou ao Brasil com catorze anos e sempre trabalhou com bares na capital paulista, e Felicidade Bastos (a famosa Dona Felicidade), proprietária do restaurante que tem seu apelido no nome, o mais tradicional e badalado da Vila Romana. Acostumada ao comércio familiar desde a infância e ao lado da mãe na administração do Dona Felicidade (ainda vou fazer um post desse belíssimo restaurante na coluna Gastronomia e comentar a emoção de ter encontrado personalidades famosas como Walter Casagrande e Rita Lee em suas mesas), a dupla de empresários montou um bar com atmosfera portuguesa que dialoga com suas origens. O nome do bar é um tanto óbvio para quem possui descendência portuguesa (não se engane com o meu sobrenome italianíssimo; há um Teixeira entre meu primeiro nome e o meu último sobrenome). Quem é fã de Amália Rodrigues como eu, já ouviu muito a música Tiro Liro Liro, clássico da canção folclórica lusitana. Na letra de um dos fados mais emblemáticos de todos os tempos, conhecemos dois amigos: o Tiro Liro Liro que estava lá em cima e o Tiro Liro Ló que estava cá embaixo. Eles se juntaram na esquina para tocar a concertina e dançar o solidó. Sérgio e Toninho Bastos pegaram emprestado a parte incomum dos nomes das personagens da música para nomear seu estabelecimento. Fundado em outubro de 2002, o Tiro Liro Bar participa com regularidade do Comida di Buteco, um dos principais concursos gastronômicos do país (que tive a honra de atuar rapidamente na organização em 2015/2016 – beijo, Crica!). E saiba que a casa na Vila Pompeia não entra na competição só por entrar. Vire e mexe, ela aparece no pódio dos petiscos campeões da cidade de São Paulo. Sua melhor colocação até agora foi o segundo lugar em 2012 com o incrível Bacaninho, uma pequena cesta de parmesão com batata recheada com lombo de bacalhau e temperada com azeite e alho. Naquele ano, o prato inventado pelo Tiro Liro só foi superado pelo bacalhau refogado do Bar do Magrão, estabelecimento do Ipiranga que voltaria ser campeão em 2019. Até hoje, o Bacaninho segue como um dos carros-chefes do bar da Pompeia. Não por acaso, esse foi o pedido que eu e o Eduardo fizemos em nossa visita por lá. Meu amigo foi de Bacaninho Tradicional, que é recheado com bacalhau em lascas, e eu fui de Bacanão Seara, cujo recheio é linguiça portuguesa. A história do Tiro Liro Bar é curiosíssima. Antes de ser administrado pelos Irmãos Bastos, o estabelecimento que ficava na Rua Cotoxó 1185 era uma mercearia decadente e desanimada. Há muito tempo cuidando daquele negócio, o antigo proprietário não tinha mais ânimo para tocar o dia a dia. Quem percebeu isso foi Toninho, que gostava de passar na Mercearia Cotoxó quando deixava o Dona Felicidade a caminho de casa. Ele parava ali uma ou duas vezes por semana para descansar, conversar, tomar algo, comer um tira-gosto e esfriar a cabeça dos problemas do restaurante da Vila Romana. Mais relaxado, sentia-se pronto para retornar ao lar. Toninho sempre pedia um Jack Daniels e uma cerveja na Mercearia Cotoxó. Porém, muitas vezes ouvia o proprietário dizer sem a menor gota de lamento que não tinha. Os produtos acabaram e não tinham sido recomprados ainda. Conhecedor daquele ofício desde que nascera, o filho de Seu Mané e Dona Felicidade não se cansava de dar dicas para incrementar o cardápio e de sugerir melhorias para a gestão do negócio. Ele enxergava aquele ponto comercial nas ladeiras da Vila Pompeia como excelente. Mas o dono precisava se esforçar um pouco para tornar seu estabelecimento mais agradável para a clientela. Ao constatar que não era ouvido e que a Mercearia Cotoxó jamais seria revitalizada pelo até então proprietário, Toninho se reuniu com o irmão Sérgio no início de 2002 e decidiram comprar o local. Aí surgiu o Tiro Liro Bar. Após alguns meses de reforma, a casa foi aberta do jeito que Toninho imaginou e que tanto havia pedido ao dono anterior. Ele concebeu o negócio do ponto de vista de um cliente que ansiava por boa oferta de bebidas, ambientação agradável, clima amistoso, instalações confortáveis e tira-gostos de alta qualidade. Para completar, decorou o bar emulando as boas e tradicionais tascas lisboetas. Hoje, aquela é uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa. Estava criada a receita do sucesso! Por capricho do destino, Toninho segue indo quase todos os dias para a Rua Cotoxó após deixar o Dona Felicidade. Só que agora é para tocar o seu negócio e não mais como cliente. Gostei tanto do bar de Toninho e Sérgio que passei a frequentá-lo com frequência. Basicamente estou dividindo minhas saídas gastronômicas pela Pompeia pela dinâmica do rolê, pelo tipo de companhia e pelo horário da visitação. Por exemplo, depois das onze da noite, meu lugar preferido continua sendo a Lanchonete Souza, a melhor opção 24 horas da Zona Oeste de São Paulo. No fim de um programa noturno ou em uma madrugada perdida pela cidade, não há nada melhor do que provar o infinito e delicioso cardápio do Souza (abraço, Paulinho e Vitão!). Se a pegada for de happy hour entre amigos, a melhor escolha é o Shawarma Anwar (abraço, Marcelinha, Menina Mara, Sandrinha e Enzo!). Se estou sozinho e quero provar um bom sanduíche, aí vou até o Kebab Paris. Mas se estou na companhia de amigos de bom gosto (abraço, Dudu) e de belas damas com paladar mais requintado (beijão, Carlinha!), aí sigo sem pestanejar para o Tiro Liro Bar. Acho que está aí o primeiro aspecto que preciso comentar desse estabelecimento. Todas as vezes em que fui ao Tiro Liro, notei que seu público é formado por pessoas mais experientes (pegaram o eufemismo?!). Portanto, não estamos falando de um point da moçadinha que está em busca de descontração, azaração e diversão. Não! As mesas do bar da Rua Cotoxó têm normalmente casais ou grupos de amigos com mais de 40 anos (em alguns casos, bem mais do que 40 anos...). Leve uma rapariga de 30 anos para lá e ela certamente se sentirá uma miúda. O objetivo da visita da maioria dos clientes é provar as delícias do local e respirar a atmosfera aconchegante de Portugal. Convenhamos que não é isso o que os jovens procuram quando vão em um bar, né? Assim, o que chama a atenção logo de cara do visitante é ambientação do Tiro Liro Bar. Os clientes podem ficar na meia dúzia de mesas da calçada (melhor local nas noites quentes), nas quase duas dezenas de mesas do salão interno (ideal para as noites frias) ou nos cinco assentos do balcão (para quem só deseja tomar uns tragos sozinho). As mesas de madeira são cobertas por toalhas de tecido com estampas floridas, com desenhos quadriculares, com figuras do Galo de Barcelos e com imagens que remetem aos tradicionais azulejos lusos. Juro que me senti voltando à casa de Dona Júlia, minha avozinha natural da Ilha da Madeira. No salão do bar, a decoração à la tasca lisboeta (cheira bem, cheira a Lisboa!) salta aos olhos. No teto, as bandeiras, flâmulas e faixas de Brasil e Portugal dão as boas-vindas à clientela. Nas paredes, o caos visual é produzido pela junção de incontáveis quadros (com direito a uma curiosa e inexplicável réplica de Monalisa), pratos decorativos (bem ao estilo de uma casa portuguesa), reportagens jornalísticas enaltecendo o estabelecimento, prateleiras com garrafas de vinhos, poster da seleção lusa campeã da Eurocopa em 2016, faixa do time do Benfica, ferraduras, logomarca de empresas de cervejas etc. Ao redor da coluna central do imóvel, há uma pequena adega recheada de vinhos. E no fundo do bar, uma gigantesca prateleira em que a peculiar poluição visual persiste: garrafas, copos, taças, abridores de lata, saca-rolhas, televisão, espelho, bonecos de decoração, réplicas de carrinhos antigos, chaveiros, inscrições com frases de poetas enaltecendo as bebidas, desenhos infantis, ilustrações e mais uma infinidade de elementos que exigem atenção do visitante para achá-los. No meio dessa overdose decorativa, você ainda encontrará, acredite se quiser, geladeiras, fornos, pias e chopeiras atrás do balcão do bar. No cantinho mais ao fundo, é montado aos finais de semana uma espécie de buffet de aperitivos, doces e frios. Confesso que até hoje não sei como funciona essa parte do negócio. Paga-se à parte, é só para ver o que a casa oferece ou dá para pegar porções? Não faço ideia! O que gostei dessa pequena ala do bar é que ela parece com o balcão de uma mercearia antiga. Ou seja, propositadamente ou não, se faz referência à antiga Mercearia Cotoxó, que deu origem ao estabelecimento dos Irmãos Bastos. Muito legal isso, né?! Admito que a decoração do Tiro Liro Bar é um tanto polêmica. Como peguei quase todas as referências visuais e curto o seu jeitão de tasca, adorei a ambientação e o clima de casa portuguesa. Contudo, não espere unanimidade na apreciação desse proposital caos estético (ainda mais se a pessoa não tiver descendência lusa). Carla, minha companhia no último sábado, odiou. Suas palavras foram categóricas: jamais uma poluição visual pode ser positiva! Não concordo. A Times Square é caracterizada pela overdose de luminosos e ainda assim é um lugar charmoso. Os pubs irlandeses e as cantinas italianas, por exemplo, também têm salões apertados e com muitos elementos visuais e são encantadores. Resumidamente: uma coisa é visitar de vez em quando um local com decoração excessiva e ficar nele por algumas horas. Aí tudo bem. Outra coisa completamente diferente é frequentá-lo diariamente ou passar muitas horas seguidas em seu interior. Aí não dá. Por isso, gosto de ir ao Tiro Liro, mas juro que não conseguiria trabalhar nesse bar. Depois da ambientação tão marcante, outro aspecto elogiável desse boteco requintado é o seu cardápio. Na parte de comes dos comes-e-bebes, há várias opções que vão empolgar os clientes com paladar mais apurado. A seção que mais gosto é chamada de “Comida de Buteco”. Nela, a casa oferece todos os pratos que participaram do concurso gastronômico homônimo. Além dos já citados Bacanão de linguiça (versão maior para duas pessoas por R$ 42) e do Bacaninho de bacalhau (versão menor para uma pessoa por R$ 36,00), o Tiro Liro Bar apresenta o Bacalhau com Natas (bacalhau desfiado com batatas e creme de natas por R$ 36 para uma pessoa), Murrinho de Bacalhau (bacalhau com batatas ao murro por R$ 34 para uma pessoa), Vesuvio (beringela e rosbife com mostarda por R$ 42 para uma pessoa) e Bob Almondegas (porção por R$ 38 para uma pessoa com fome ou duas sem fome). Se você for pela primeira vez ao bar e não quiser correr riscos, peça qualquer um dos pratos da seção “Comida de Buteco”. Eles são excelentes! Desenvolvidas pelo próprio Toninho (que também monta drinks originais), essas opções do cardápio são de encher a boca. Meu favorito é o Bacanão de linguiça (sempre peço um para começar os trabalhos), mas os outros não são de se jogar fora. Quem gosta de bacalhau (confesso que não sou muito fã – algo que fazia Dona Júlia se revoltar com o neto ingrato), não faltam pedidas de qualidade. O Bob Almondegas vem logo atrás do Bacanão na minha preferência. Ele é simples e saboroso. Outra parte interessante do cardápio do Tiro Liro Bar é a das porções. Há petiscos tradicionais: bolinhos de bacalhau (6 unidades por R$ 46), punheta de bacalhau (R$ 68), alheia (R$ 38), sardinha portuguesa (4 unidades por R$ 54), frango a passarinho (R$ 39), pastéis de carne (6 unidades por R$ 38), linguiça acebolada (R$ 38), filé mignon (com farofa e vinagrete por R$ 82), rosbife (R$ 44) e bolinhos de arroz (R$ 34). E há petiscos menos tradicionais: ostras (12 unidades por R$ 68) e rã a dôre (R$ 34 a unidade). Na minha última passada por lá, fomos de porção de filé mignon. O Tiro Liro Bar ainda disponibiliza sanduíches (calabresa a vinagrete por R$ 28, calabresa com queijo por R$ 32, rosbife com provolone por R$ 34, cheese filé mignon por R$ 35 e cheese filé mignon salada por R$ 36) e feijoada aos sábados (R$ 85 para uma pessoa e R$ 145 para duas pessoas). Para quem deseja comida mesmo e não petiscos e lanches, aí as pedidas são o bacalhau grelhado com cebolas e batatas (R$ 125 para uma pessoa e R$ 220 para duas pessoas), carnes grelhadas (Bife Ancho por R$ 135, T-Bone Steak Red Angus por R$ 145 e Prime Rib Red Angus Steak por R$ 165) e peixes grelhados (Filé de Linguado com alcaparras, arroz e batata soute por R$ 64, Filé de Salmão com alcaparras, arroz e legumes por R$ 68 e Sardinha Portuguesa com arroz de brócolis por R$ 68). As guarnições são: arroz (R$ 16), feijão (R$ 17), batatas fritas (R$ 26), polenta frita (R$ 26), mandioca frita (R$ 26) e farofa (R$ 11). Admito que nunca provei os sanduíches, a feijoada nem as carnes grelhadas de lá. Na minha visão, o Tiro Liro combina apenas com as porções de petiscos para serem degustadas à dois. Se você pede um prato de comida, você não está mais em um bar e sim em um restaurante, né? Por fim, a casa oferece três opções de doces: desmaiado (R$ 16), pudim de leite (R$ 16) e pastel de Santa Clara (R$ 16). Aqui talvez seja o maior ponto fraco do cardápio. Não achei nenhum doce da casa gostoso. Na parte etílica do comes-e-bebes, a carta de bebidas é enorme. Se eu fosse citar as opções uma a uma, acho que ficaria um bom tempinho descrevendo-as. Para resumir, posso dizer que Paulo e Enzo, a dupla de cachaceiros-mor da minha turmita, não passariam aperto aqui. E Eduardo, o maior sommelier que conheço, também não ficaria desapontado se pedisse uma garrafa de vinho. Talvez o trauma vivenciado por Toninho na época em que queria tomar uns tragos na Mercearia Cotoxó tenha influenciado no portfólio etílico do seu negócio. Nesse sentido, o único pesar que posso apontar é o restrito leque de cervejas, que merecia um olhar mais cuidadoso do proprietário. E olha que não sou nem um pouco beberrão (diferentemente dos meus acompanhantes habituais). O atendimento é simpático e eficiente. A equipe de garçons parece que está há anos trabalhando ali e é composta por profissionais experientes. Acredito que Toninho é quem abra e feche a casa normalmente. Nas quatro vezes em que visitei o Tiro Liro, era ele quem tocava o barco, dividindo-se entre o caixa e uma prosa rápida com os clientes nas mesas. Nunca vi o Sérgio por lá. Para ser sincero, nem o conheço pessoalmente. Desconfio que ele não vá muito ao bar da Pompeia. Será que fica mais na Dona Felicidade?! Pode ser. Pelo menos aos finais de semana (todas as vezes em que fui lá foi aos sábados na hora do almoço), Toninho cuida sozinho da operação. Por tudo isso, reconheço que o Tiro Liro Bar é uma excelente opção para quem deseja visitar um boteco charmoso, diferentão e delicioso na Pompeia. Se você for de família portuguesa e curtir bacalhau, uma passada lá é programa obrigatório. Se você simplesmente gostar de um papo à dois (seja com um velho amigo que não via há um tempão ou com a gatinha com enorme conhecimento literário) em um ambiente requintado e com petiscos saborosos também vale a pena enveredar pelas ladeiras da Rua Cotoxó. Certamente, você não irá se arrepender do atendimento e dos pratos servidos pela equipe de Toninho. Só recomendo a galera que gostou dessa sugestão de passeio gastronômico do Bonas Histórias que, antes de rumar empolgada para a Vila Pompeia, faça a consulta prévia dos horários da casa. O Tiro Liro Bar possui uma janela de funcionamento bem peculiar. Por exemplo, ele não abre aos domingos e às segundas-feiras. Até entendo não operar às segundas. Mas por que não funcionar aos domingos, hein?! Somente aos sábados é possível almoçar por lá. Em contrapartida, o bar não funciona depois das 18 horas nos sábados (quando normalmente esse tipo de estabelecimento começa a encher). De terça a sexta-feira, abre-se às 16 horas e vai até as 23 horas. Desconfio que o funcionamento para lá de alternativo do Tiro Liro seja para Toninho conciliar o trabalho com o Dona Felicidade, onde continua atuando. De qualquer maneira, é chato um bar que abre e fecha a partir da disponibilidade do proprietário e não dos desejos dos clientes, né? Aposto que até o antigo dono da Mercearia Cotoxó iria reclamar se soubesse disso. Para terminar esse post da coluna Gastronomia em grande estilo, me sinto na obrigação de colocar um pé na coluna Músicas e apresentar a versão de Amália Rodrigues de Tiro Liro Liro. Quem ficou curioso(a) para conhecer ou mesmo recordar a canção portuguesa que inspirou o nome do bar da Pompeia, segue a interpretação que mais gosto (e que embalou as festas da minha família durante toda a minha infância e adolescência): Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Recomendações: Melhores posts do Bonas Histórias - Parte I
Selecionamos as publicações mais interessantes de cada coluna do blog. Nessa primeira parte da Série Melhores, apresentamos os posts mais significativos das sete seções literárias do Bonas Histórias. Na semana retrasada, fui a um barzinho na Vila Madalena perto do Beco do Batman com um grupo de amigos. Turma das antigas, velha de guerra! No meio dos incontáveis assuntos que discutimos animadamente, alguém perguntou como estava indo o Bonas Histórias. Disse que ele estava bem, crescendo mês a mês. Tentei mudar o foco da conversa (nunca gostei de falar de mim e do que faço), mas a curiosidade do povo foi maior (afinal, já tínhamos esgotado a temática “quem separou de quem”). Pelos questionamentos que me eram dirigidos, reparei que meus amigos acompanhavam o trabalho que faço no blog há oito anos e meio, mas não liam os posts (exceção da Iris, que jura de pé junto ver TUDO o que publico). Até aí nada demais. A grande maioria das pessoas do meu convívio não se interessa pelo conteúdo literário-cultural do Bonas Histórias. E aquelas que poderiam se interessar não têm o hábito da leitura fora das redes sociais. Normal. Muito normal. Normalíssimo! A surpresa, porém, foi verificar que havia alguém na mesa do bar que conhecia a fundo minhas publicações. A mosca albina era justamente a única pessoa daquele grupinho que eu não conhecia até então: era uma prima da amiga da vizinha da cunhada do melhor amigo do dog do João. Brincadeirinha, Carla! A moça garantiu que era leitora antiga do blog (acho que da época em que só a Vanessa, o Paulo e a Iris o liam). Como ela viu que eu não acreditei em suas palavras (até hoje desconfio dos números do Google Analytics – impossível alguém perder tempo me lendo), começou a falar quais eram os posts que mais tinha gostado. Educadamente, omitiu os que menos apreciou. Obrigado pela consideração! Foi nesse momento em que percebi que meus amigos não me liam (eles ouviam a moça falar como se a pobrezinha fosse um ET que acabara de cair na Terra) e que eu jamais tinha feito uma seleção com as publicações mais interessantes do Bonas Histórias. Para ser sincero, jamais cogitara tal ideia. Obviamente, esse conteúdo seria perfeito para um novo post da coluna Recomendações, pensei mais tarde. Incentivado pela própria Carla, que desde aquele dia (no caso, noite) é MINHA ÚNICA E MELHOR AMIGA (coloco todos que não me leem no caderninho com estampa de caveira na capa!!!), está aí a primeira parte do que definimos como a Série Melhores do Bonas Histórias. Hoje, vamos apresentar (minha frase está na primeira pessoa do plural porque as escolhas das publicações foram realizadas a quatro mãos – ou seriam a quatro olhos verdes?!) os melhores posts das sete colunas literárias do blog: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas e Mercado Literário. A proposta é voltarmos aqui mais duas vezes até o final do ano para revelar os melhores textos das outras 12 seções (que chamo vulgarmente de parte não literária). E qual foi o critério que usamos para definir os campeões de cada coluna? Simplesmente nossos gostos pessoais. Listamos o que mais curtimos no trabalho de quase uma década do Bonas Histórias. E, para sermos justos, as opiniões deixadas pelos leitores do blog também foram fundamentais para a decisão final. Há algumas publicações com tantos elogios que foi impossível não as alçar ao alto do nosso ranking. Chega de papo e vamos aos melhores posts da editoria de literatura do Bonas Histórias. Depois você me fala se achou justas as escolhas. LIVROS – CRÍTICA LITERÁRIA A coluna: As páginas de Livros – Crítica Literária são dedicadas à análise individual das obras ficcionais. Cada post aborda em profundidade um título. Consideramos tanto a literatura brasileira quanto a literatura internacional. Entram aqui os estudos das publicações contemporâneas e as clássicas. O charme dessa seção está no olhar cuidadoso, técnico e com linguagem informal pelo qual os livros são avaliados. Melhores posts: Seria muitíssimo difícil escolher apenas uma análise entre os quase 500 livros debatidos no blog. Por isso, resolvemos pela praticidade e vamos apresentar uma lista de vencedores. Confira as 15 publicações desta coluna que enchem os olhos de quem curte análise literária: Kim Jiyoung, Nascida em 1982 (Intrínseca), best-seller de Cho Nam-Joo, A Verdade e a Vertigem (Emporium), a coletânea de microcontos de José Vieira, Histórias de Cronópios e de Famas (Best Seller), obra-prima de Julio Cortázar, Maria Quitéria – A Soldada que conquistou o Império (Poligrafia), romance histórico de Rosa Symanski, O Meu Pé de Laranja Lima (Melhoramentos), clássico de José Mauro de Vasconcelos, Suíte Tóquio (Todavia), o mais recente trabalho de Giovana Madalosso, Meu Nome é Vermelho (Companhia das Letras), título que consagrou Orhan Pamuk, A Amiga Genial (Biblioteca Azul), romance mais popular de Elena Ferrante, O Garoto da Loteria (Rocco Jovens Leitores), suspense espetacular de Michael Byrne, Éramos Seis (Ática), clássico de Maria José Dupré, O Contra-ataque (Valentina), o segundo romance de Uranio Bonoldi da Série A Contrapartida, Os Vestígios do Dia (Companhia das Letras), principal romance de Kazuo Ishiguro, On The Road – Pé na Estrada (L&PM Pocket), obra máxima de Jack Kerouac e da Geração Beat, A Casa dos Espíritos (Bertrand Brasil), obra-prima de Isabel Allende, e O Vendedor de Passados (Tusquets), o livro mais famoso de José Eduardo Agualusa. DESAFIO LITERÁRIO A coluna: Desafio Literário apresenta a análise estilística dos grandes autores. A proposta aqui é analisar a vida, a carreira, os livros e o legado artístico dos principais escritores brasileiros e internacionais e descobrir o segredo da excelência de seus textos. Em cada post, mergulhamos no portfólio literário e no estilo de uma figura de destaque da literatura contemporânea e da literatura clássica. Melhor post: Pela profundidade do conteúdo, a publicação vencedora dessa seção foi a Análise Literária – Elena Ferrante. Ousamos dizer que o estudo da misteriosa e talentosa escritora italiana foi um dos melhores trabalhos realizados pelo Bonas Histórias. Vale a pena conferi-lo. TEORIA LITERÁRIA A coluna: Teoria Literária é voltada para o estudo dos elementos do fazer literário. Nas páginas dessa seção, investigamos a concepção mais científica, filosófica e técnica da Teoria Literária, a área que estuda a literatura pela perspectiva acadêmica. Ou seja, aqui tratamos dos diferentes aspectos literários por uma perspectiva menos crítica e mais formal. Melhor post: Enredo – Item 1 dos Elementos da Narrativa foi selecionado pela apresentação completa e profunda do assunto abordado. Esse texto poderia muito bem ser transformado em um livro sobre os diferentes aspectos do enredo, peça essencial de qualquer narrativa ficcional. Com um texto convidativo, uso de vários exemplos e a utilização de linguagem simples, essa publicação é um ótimo jeito de se debater a Teoria Literária de uma maneira mais abrangente e fácil. TALK SHOW LITERÁRIO A coluna: Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as personagens clássicas da literatura brasileira. Darico Nobar, o apresentador, conversa em cada episódio com um protagonista das principais obras nacionais. A partir do bate-papo franco e, por vezes, surpreendente, conhecemos um pouco (ou relembramos) as figuras e os títulos literários que marcaram a cultura do nosso país. Melhores posts: Não foi possível chegarmos ao consenso sobre qual foi a mais interessante entrevista de Darico Nobar. Por isso, excepcionalmente, selecionamos três programas, que ficaram empatadas no alto do pódio. O trio vencedor é formado por: Entrevista 4 da Temporada VI com Cecília de Mariz, heroína de “O Guarani” (Paulus), romance romântico de José de Alencar; Entrevista 2 da Temporada VI com Stanislaw Ponte Preta, jornalista cômico inventado por Sérgio Porto e imortalizado nas páginas de “FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País” (Civilização Brasileira); e Entrevista 7 da Temporada IV com Hillé, protagonista de “A Obscena Senhora D” (Globo), novela mais famosa de Hilda Hilst. MILIÁDIOS LITERÁRIOS A coluna: Miliádios Literários era o pedacinho do Bonas Histórias que homenageava as principais efemérides da literatura. Essa seção foi ao ar por duas temporadas, entre maio de 2020 a dezembro de 2021. Em seus textos engraçadíssimos (fruto do talento de Paulo Sousa) e com a contagem alternativa do tempo (o tal miliádio), conhecíamos e lembrávamos de autores e obras marcantes da literatura brasileira e internacional. Melhores posts: Tivemos um empate no primeiro lugar dessa categoria. O prêmio foi dividido entre a edição de Julho de 2021 da Segunda Temporada de Miliádios Literários e a edição de Outubro de 2020 da Primeira Temporada de Miliádios Literários. Impossível dizer qual delas é a melhor. CONTOS & CRÔNICAS A coluna: Contos & Crônicas é a parte do blog dedicada à nossa própria produção literária. Ou seja, nessas páginas, saem de cena os textos feitos pelos autores externos e entram no palco as narrativas concebidas pela nossa equipe. Nessa coluna, apresentamos coletâneas de contos e crônicas, novelas e romances que se destacam pela qualidade, leveza, humor e inteligência. Melhor post: Paradoxalmente, a publicação vencedora da seção chamada de Contos & Crônicas foi Capítulo 1: Oportunidade Imperdível, abertura da novela O Ghost Writer. Uma novela?! Pode isso, Arnaldo? Pode, sim! O texto gostoso e ágil do capítulo inicial de O Ghost Writer, coautoria com o espetacular Roberto S. Inagaki, é um convite para a leitura do restante da narrativa sobre um jovem escritor em busca de dias melhores na profissão. MERCADO EDITORIAL A coluna: Mercado Editorial apresenta as novidades do setor de livros no Brasil. Bimestralmente, listamos os melhores lançamentos que chegam às livrarias do país. Também divulgamos anualmente o ranking dos títulos mais vendidos e debatemos o crescimento e os problemas do mercado. A ideia aqui é ter um olhar mais geral e estrutural da área editorial. Melhor post: O campeão foi também o mais polêmico da coluna e do blog nos últimos três anos. Meu Sim ao Imposto dos Livros foi na contramão do mercado e apresentou um ponto de vista diferente daquele praticado pelos profissionais do setor. Nada como ver e ler um problema por uma nova perspectiva, né? Por isso, esse post ficou com o primeiro lugar. Essa foi a primeira parte da Série Melhores do Bonas Histórias. Em setembro, prometo voltar com as publicações mais interessantes das colunas Cinema, Músicas, Teatro, Dança, Exposições e Gastronomia. A dinâmica da escolha seguirá inalterada: Carla decreta e eu obedeço. Simples assim. Até a próxima! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Deixe a Música Contar - A novela musical de Roberto Marcio
Lançada em dezembro de 2022, a terceira publicação literária do escritor de Nova Lima apresenta um drama histórico com a trilha sonora dos anos 1980. Em fevereiro, li “Deixe a Música Contar” (Sete Autores), a mais nova publicação de Roberto Marcio, escritor nascido em Nova Lima e que vive há décadas em Belo Horizonte. Gostei tanto dessa novela que a coloquei na lista de obras para discutir na coluna Livros – Crítica Literária em 2023. Depois de um semestre de atraso (meu delay natural, que vocês já conhecem tão bem), agora consigo comentar as características desse título com a atenção e o detalhamento que o trabalho literário de Roberto merece. Reli esse drama histórico na semana passada para debatê-lo com mais propriedade neste post do Bonas Histórias. E, mais uma vez, fiquei com uma ótima impressão. O mais interessante de “Deixe a Música Contar” é que sua narrativa mistura ficção literária e música de maneira bastante atraente. Além disso, o livro presta uma belíssima homenagem aos 100 anos do Rádiono Brasil, efeméride de três dígitos comemorada no ano passado. Parafraseando o próprio autor, que definiu seu novo trabalho de um jeito preciso, trata-se de uma novela musical. Confesso que a história e a estética dessa obra de Roberto Marcio me lembraram bastante “Alta Fidelidade” (Companhia das Letras), clássico de Nick Hornby que apresenta um jovem protagonista melancólico e apaixonado por música, e um pouco os romances de Haruki Murakami, em que são inseridos elementos musicais e da cultura Pop no meio de dramas amorosos ácidos e trágicos, como “Norwegian Wood” (Alfaguara) e “Ouça a Canção do Vento” (Alfaguara). Antes de me aprofundar nas particularidades de “Deixe a Música Contar”, preciso confidenciar que testemunho o que chamo de boom da Literatura Mineira no Bonas Histórias. O recente lançamento de Roberto Marcio é, acredite se quiser, o sexto título de escritores mineiros que discuto no blog nos últimos doze meses. Já perdi a conta de quantos livros com cheirinho de café forte e sabor de pão de queijo eu li ultimamente – apenas uma pequena parcela das leituras que faço, as obras que mais gosto, se transforma em posts da coluna Livros – Crítica Literária. Se continuar assim, talvez seja melhor eu me mudar de novo da cidade de São Paulo para Belo Horizonte para entrar mais no clima da literatura local. Brincadeirinha! Buenos Aires, como cantaria Eduber Ascanio, no te he olvidado. E imaginar que, há exatos dez anos, era justamente o caminho pela Fernão Dias que minha vida seguia (ao som de “Paixão Mineira”, de César Menotti & Fabiano). Saudades dos tempos em Minas, que posso matar através das páginas da boa ficção (e da boa música), né? Os leitores mais assíduos do blog vão se lembrar que analisei, neste período de um ano, “O Menino Amarrado ao Manacá” (Publicação independente), drama psicológico de José Carlos Martins, “O Homem que Ria Demais” (Páginas Editora), thriller fantástico de Magela de Faria, “O Coração do Imperador” (Gulliver), romance policial de Guilherme Santos, “O Velho e o Menino: o Rio” (Cria Editora), drama histórico de José Carlos Martins, e “A Menina que Viu a Lua” (Adonis), história infantojuvenil de Janeth Vieira da Silva. Em outras palavras, “Deixe a Música Contar” é mais um excelente título da leva da boa ficção mineira contemporânea que temos à disposição nas livrarias nacionais. Fiquei tão fã desse povo que não sei quem é melhor: se José Carlos Martins, Magela de Faria, Guilherme Santos, Janeth Vieira da Silva ou Roberto Marcio?! Para mim, todos se tornaram amigos. Adoro acompanhar os novos passos desse seleto grupo de autores ficcionais da querida Minas. E, sinceramente, vibro bastante com seus lançamentos e com suas conquistas na literatura brasileira. “Deixe a Música Contar” é a terceira publicação literária de Roberto Marcio no papel autoral e sua primeira novela (narrativa de tamanho médio). As obras anteriores foram coletâneas de narrativas curtas: “Andante das Gerais” (Páginas Editora), coleção de crônicas de 2020, e “Janelas Visitadas” (Sete Autores), coleção de contos de 2021. Vale dizer que ambos os títulos foram analisados na coluna Livros – Crítica Literária. No ano retrasado, o autor mineiro também fez uma nova tradução de “A Revolução dos Bichos”, fábula clássica de George Orwell, para a Editora Dialética. Além de escritor, Roberto Marcio é professor de inglês, tradutor e revisor de texto. Nas horas vagas, é apaixonado por música, cinéfilo de carteirinha, leitor inveterado e viajante compulsivo. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET), ele ocupa a cadeira de número 32 da Academia Nova-Limense de Letras (ANLL) desde 2021. “Deixe a Música Contar” levou aproximadamente um ano para ser desenvolvido. A ideia de Roberto era produzir um conto. Porém, a trama foi crescendo, se encorpando, ganhando mais personagens e, aí, quando ele viu já tinha uma novela. No caso, uma novela musical. As cerca de 60 canções do livro permitem ao leitor fazer uma viagem pela discografia dos anos 1980. Segundo o autor, a obra apresenta a trilha sonora de sua juventude. De maneira sagaz, as principais canções dessa época foram transplantadas para a narrativa ficcional a partir da paixão pela música das personagens centrais. O rádio, nesse caso, se torna quase que uma figura fundamental para a novela. Juntamente com a trilha sonora, também assistimos ao contexto político-social, aos principais acontecimentos históricos do Brasil e do mundo e às manifestações artístico-culturais da turbulenta e fascinante década de 1980. Impossível não ficar cantarolando os grandes hits durante a leitura e não se envolver com seu enredo! O lançamento oficial de “Deixe a Música Contar” aconteceu em 10 de dezembro de 2022, no charmoso Café com Letras, misto de livraria e cafeteria na Savassi, em Belo Horizonte. Em fevereiro, Roberto Marcio promoveu uma noite de autógrafos em sua cidade natal, Nova Lima. Há ainda a previsão de uma sessão de autógrafos em Diamantina, município no Norte do estado utilizado como um dos cenários principais da novela. Atualmente, o livro está disponível para compra, entre outros pontos de venda, na mineiríssima Livraria Leitura e na paulista Livraria Martins Fontes. Ainda não há uma versão digital dessa novela de Roberto (e acredito que não se terá). O projeto gráfico dessa obra está tão fantástico que, mesmo se tivesse uma edição disponível na Loja Kindle, eu falaria para você adquirir a versão impressa. Ela está lindíssima. É provavelmente a obra ficcional mais bonita que li nesse ano. O enredo de “Deixe a Música Contar” começa em Copenhague. Em junho de 2022, Fernando e Elaine Pereira, um casal de brasileiros que emigrou para Portugal, passam as férias de Verão na Dinamarca. Durante a excursão ao país nórdico, eles descobriram que a Seleção Brasileira Feminina de Futebol enfrentaria a Dinamarca em um amistoso e que havia um restaurante de comida brasileira na capital dinamarquesa. Na visão dos turistas, não havia nada melhor do que ver a partida em um estabelecimento genuinamente verde-amarelo. E para lá eles foram empolgados. Ao som da Música Popular Brasileira e entre pratos de feijão tropeiro e leitão à pururuca, porções de pão de queijo, doses de caipirinha e potes de doce de leite e cajuzinho, a dupla pôde matar a saudade da terra natal. E no Dinamantina (o nome do restaurante era a união das palavras Dinamarca e Diamantina), Fernando e Elaine conheceram Gustaf, o proprietário brasileiro. Quando interrogado pelos clientes como havia parado ali e por que tinha aberto um negócio voltado à cultura e à gastronomia brasileira em Copenhague, Gustaf preferiu responder aos questionamentos de um jeito diferente. Ele entregou aos conterrâneos um livro sobre sua vida. A obra fora escrita por um amigo de Nova Lima. É através das páginas de Deixe a Música Contar, publicação dentro da publicação, que o casal obtém as respostas que atiçaram sua curiosidade durante a partida de futebol no Dinamantina. Gustaf era um brasileiro que morava na Dinamarca desde os três anos. Filho de uma dinamarquesa e de um mineiro de Diamantina (o nome do restaurante era uma homenagem à união dos pais), ele vivia com os avós maternos na Europa desde a tragédia familiar ocorrida em sua infância. Greta, a mãe de Gustaf, morreu em dezembro de 1989, vítima de um assalto à mão armada no Rio de Janeiro. Ela morava na capital fluminense com o marido, João Pedro, desde fevereiro de 1986. Quando o filho único do casal nasceu em novembro daquele ano, a família se tornou um trio. Isso até as vésperas do Natal de 1989. Como o pai não apareceu para cuidar da criança após o falecimento da mãe e ninguém no Rio conhecia a família de João Pedro, que residia no interior de Minas, couberam a Ludvig e Blenda, os pais de Greta, a guarda do neto. Eles viajaram da Dinamarca para o Brasil só para resgatar a criança órfã. Desde então, Gustaf vivia em Copenhague e nunca conheceu o pai nem ninguém do lado brasileiro da família. O problema é que o passado do rapaz vivido na América do Sul sempre foi algo mal explicado pelos avós. Ludvig e Blenda desconversavam quando o assunto da infância brasileira de Gustaf era colocado à mesa, além de aparentarem algum nervosismo com a questão. A única coisa que diziam era que Greta e João Pedro se conheceram no início dos anos 1980 através da troca de cartas. Apaixonada, Greta se mudou para o Rio para viver ao lado do namorado. Em pouco tempo, casaram e tiveram Gustaf. Com a morte repentina da mãe do garoto, mais uma provocada pela violência urbana nas grandes cidades nacionais, os avós viajaram para o Brasil, procuraram o genro, mas não o localizaram. Também não conseguiram contato com a família de João Pedro. Assim, conseguiram na Justiça o direito de levar o neto para a Europa, onde seria criado com todo amor e carinho. Ciente da agonia dos velhinhos, que tanto o amavam e que ele tanto amava, com as lembranças amargas do passado, Gustaf não insistia nas perguntas. Contentava-se com a versão passada bem superficialmente pela família dinamarquesa sobre os tempos vividos no Brasil com a mãe e com o pai. Mesmo assim, o meio carioca, meio dinamarquês alimentava o sonho de um dia viajar para o Brasil para descobrir suas raízes e, principalmente, procurar o misterioso pai. Depois de muito postergar a tão almejada viagem, Gustaf resolveu, em outubro de 2021, aos 25 anos, realizar a jornada pelo seu passado. Em busca de respostas que os avós não queriam ou não conseguiam dar, ele chegou ao Brasil com a missão de procurar a parte brasileira de sua família e a metade de sua essência que sentia falta. Após chegar ao Rio de Janeiro, Gustaf pegou um ônibus para Diamantina, onde seu pai nasceu e, à princípio, moraria. Ao entrar no endereço que tinha anotado, surgiu a primeira surpresa: João Pedro não vivia mais ali. O pai falecera em 2006. Porém, na residência estavam Cássia, irmã de João, e o filho dela, Fábio, um rapaz de 19 anos com Síndrome de Down. A tia e o primo acolheram tão bem o visitante ilustre que Gustaf já se sentia efetivamente parte da família e morador de Diamantina. Foi pelas conversas com Cássia que o protagonista da novela conseguiu coletar boa parte das peças do quebra-cabeça de sua infância. E assim que recebeu das mãos da tia o diário que o pai escreveu ao longo dos anos 1980, o carioca-dinamarquês teve quase todos os elementos que precisava para elucidar os enigmas da infância destruída. Em seu diário, João Pedro relatou sua paixão pela música e descreveu as canções que mais marcaram cada etapa de sua vida. Dessa forma, acompanhamos o panorama riquíssimo da música brasileira e internacional na década de 1980 e a intersecção desse pot-pourri saudosista com o dia a dia da personagem. Curiosamente, temos aqui mais um livro (o diário do pai de Gustaf) dentro de um livro (aquele recebido por Fernando e Elaine no Dinamantina), que, por sua vez, já estava dentro de outro livro (a obra que temos em mãos e que foi produzida por Roberto Marcio). Maluquice? Não. Isso é literatura, bebê! Por ser extremamente tímido e não ter amigos, o pai de Gustaf tinha o rádio como fiel companheiro. Era com o rádio e com o diário que ele conversava de um jeito franco e descompromissado. João Pedro também citava nas páginas dos seus cadernos pessoais as passagens mais importantes da história do Brasil e do mundo, os filmes, os livros, os programas de televisão e os eventos esportivos que foram manchetes e que lhe marcaram de certa forma. Ao juntar as peças da Diamantina do presente com as peças do Rio de Janeiro do passado, Gustaf poderá descobrir a verdade por trás da morte da mãe e do sumiço do pai, fatos que destruíram sua família há mais de duas décadas e que afetavam sua existência até hoje. Se prepare, leitor! Porque muitas surpresas e intensas reviravoltas estão previstas nas páginas dessa obra. Esse é o meu prognóstico para a sua leitura. “Deixe a Música Contar” possui 140 páginas. Sua história vem emoldurada por um prólogo e um epílogo (a parte em que Fernando e Elaine visitam o restaurante de Gustaf em Copenhague). O cerne da obra (a procura de Gustaf pelos segredos dos pais) tem sete capítulos: “A Busca pela Identidade”, “Rumo ao Passado”, “Primeiras Revelações”, “Mergulhando no Diário”, “Com Pressa”, “Virada do Destino” e “Vida que Segue”. Ao final, ainda recebemos dois anexos: “Letras Traduzidas” (tradução para o português das músicas internacionais) e “Trilha Sonora” (lista das canções citadas pelas personagens). Antes que o Roberto Marcio fique bravo comigo, preciso esclarecer o motivo de eu chamar “Deixa a Música Contar” de novela (algo que fiz desde o início deste post da coluna Livros – Crítica Literária) e não de romance (como o autor e a editora estão divulgando comercialmente desde o lançamento da obra em dezembro). Levei aproximadamente três horas para percorrer o conteúdo inteiro dessa publicação na quarta-feira à noite. Praticamente fui de cabo a rabo sem parada. Ok, dei um rapidíssimo intervalo para brincar com o cachorrinho que exigia minha atenção, mas depois voltei a me concentrar e fui até o final (por isso nem considero como sendo uma parada). Além da leitura fluida e da trama convidativa (méritos do livro), a razão de tal celeridade está ligada, na minha opinião, ao tamanho mediano do novo título de Roberto, que está entre o conto (leitura instantânea) e o romance (leitura que exige várias sessões). Costumo classificar as narrativas de extensão mediana (leituras de menos de quatro horas, feitas normalmente em uma ou duas sessões e com extensão entre 80 e 160 páginas) de novela. Pelo meu critério (e da Teoria Literária), os romances são tramas ficcionais com uma quantidade superior a 160 páginas e que pedem naturalmente respiros do leitor no meio da imersão literária (além de possuírem maior complexidade narrativa, grande quantidade de cenas e maior número de personagens). Acho importante alertar que chamar uma obra de novela ou de romance não indica qualquer juízo em relação à qualidade. Há novelas boas, como “Refém da Memória” (Produção independente) de Helio Martins Jr., e ruins, como “Através do Espelho” (Companhia das Letras) de Jostein Gaarder. E há romances bons, como “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” (Poligrafia) de Rosa Symanski, e ruins, como “Jogo de Cena” (CEPE Editora) de Andrea Nunes. O que diferencia um gênero narrativo do outro é apenas a extensão (e complexidade!) da trama ficcional. Em suma, enquanto as novelas são histórias de tamanho mediano, os romances são histórias mais longas e os contos são histórias menores (e mais simples – menor quantidade de cenas, personagens e conflitos). Porém, entendo perfeitamente a opção do autor e da editora em apresentar “Deixe a Música Contar” como um romance. O termo romance é mais comum e mais abrangente do que novela. E, de certa maneira, é também mais comercial. Mas como no Bonas Histórias a minha função é analítica e não comercial, precisei dar os verdadeiros nomes aos bois. Feita essa ressalva técnica, vamos para a análise literária propriamente dita. O primeiro elogio que preciso fazer para “Deixe a Música Contar” é para a congregação de vários gêneros literários num mesmo texto ficcional. Notei essa característica quando quis classificar a novela de Roberto Marcio. Afinal, qual gênero ela se enquadra?! A resposta não é tão simples. O livro pode ser catalogado como drama familiar, narrativa histórica, novela musical, thriller de ação, romance de formação, crônica de época, romance policial, autoficção musical, suspense existencialista e narrativa ao estilo road story. O interessante é que, por qualquer perspectiva que se tome, a obra é agradável e forte. Porém, para mim, um de seus maiores méritos está justamente nessa junção estilística – algo difícil de se aplicar com êxito na literatura (e que o cinema sul-coreano, por exemplo, faz corriqueiramente). Outra questão muito positiva é o realismo da trama. Realismo da trama, Ricardo? Sim, querido(a) amigo(a) do Bonas Histórias! A sensação que tive (e que imagino que a maioria dos leitores do livro deve ter) é que boa parte dos eventos descritos na novela aconteceu de verdade ou foi extraída de passagens verídicas. Por exemplo, será que existe mesmo um restaurante em Copenhague chamado Dinamantina e que é comandado por um brasileiro expatriado? E o casal que vive em Portugal teria sido inspirado em figuras reais? Para completar, o drama de Gustaf e a tragédia do casal João Pedro e Greta teriam um pé fora da ficção? A impressão é que sim, por mais que os únicos elementos efetivamente verdadeiros tenham sido a impecável contextualização histórica e a maravilhosa trilha sonora da década de 1980. Acredite se quiser, mas todo o restante da obra de Roberto Marcio foi fruto da imaginação dele. Isso é o que chamo de boa ficção: ela é tão forte e legítima que parece aos leitores que foi recortada integralmente da realidade. Por falar em reconstrução histórica e em trilha sonora, quero explorar mais esses dois elementos tão marcantes de “Deixe a Música Contar”. O mergulho nos anos 1980 é feito através do diário de João Pedro, que não por acaso começa em 8 de maio de 1980, quando o pai de Gustaf completa 16 anos e inicia a ascensão da vida adulta, e vai até 18 de dezembro de 1989, quando aos 25 anos vivencia o ocaso pessoal e familiar. De forma poética, a evolução e o declínio da personagem são compartilhados pelo desenvolvimento da década, que também passa naturalmente pelo início, apogeu e fim. É muito legal acompanhar essa comparação entre a personagem e a própria linha temporal. Outro aspecto que não poderia passar batido foi o excelente retrato dos anos 1980. Quem acompanhou de perto essa época poderá atestar o quão fidedigno é a narrativa de “Deixe a Música Contar”. Estão lá o período de redemocratização do país (campanha das Diretas Já, nova Constituição, primeira eleição direta para presidente depois de muito tempo), o caos da inflação (Plano Cruzado I, Plano Cruzado II...), os maiores feitos esportivos nacionais (quase sempre desatrelados ao futebol), a força midiática das telenovelas globais (quem matou Odete Roitman?), os acidentes que mobilizaram a opinião pública (Chernobyl, Bateau Mouche) e o cenário político internacional (final da Guerra Fria, queda do muro de Berlim, imperialismo norte-americano). Como vivenciei intensamente esse período, posso afirmar com propriedade: o recorte temporal feito por Roberto Marcio nesse livro está perfeito! Ainda na linha da reconstrução da década de 1980, nota-se a preocupação pela recapitulação do cenário artístico-cultural da época, algo valorizado por João Pedro. Por isso, entraram nas páginas da novela os principais filmes, programas de televisão (seriados e programas de auditório), livros, peças teatrais, artistas e shows. E, claro, o destaque maior é para o cenário musical. Não me canso em dizer que a seleção de músicas de “Deixe a Música Contar” está impecável. Ouso dizer que o pot-pourri proposto pelo livro não é a trilha sonora apenas de João Pedro e de Roberto Marcio (como eles insistem em dizer) e sim de uma geração. Admito que me peguei cantarolando vários hits durante a leitura e me identifiquei com várias canções como se elas fossem minhas. O mais incrível foi perceber que a discografia dos anos 1980 não foi pintada apenas pela citação das músicas e pela exposição de suas letras. O autor mineiro teve a preocupação em descrever a força do rádio para a juventude oitocentista, a cultura da fita cassete e do gravador de cassete, a liberdade conferida pelo walkman, a paixão pelo LP e pelo toca-discos, a inovação proporcionada pelo CD e pelo CD player, o impacto dos videoclipes e o surgimento dos primeiros festivais musicais no Brasil. Acredito que a geração que viveu essa época irá olhar com saudosismo os hábitos antigos. Já a nova geração poderá entender como era o universo melódico antes da Internet. Não por acaso, uma das partes mais deliciosas desse livro está exatamente na união da seleção sonora impactante com a reconstituição dos hábitos musicais da juventude dos anos 1980. E essa integração foi viabilizada, o que é mais legal ainda, dentro de uma boa trama ficcional. Aqui é importante esclarecer que não apenas a proposta da novela musical possui méritos (ela é original e ousada), mas sua execução (o ponto mais difícil de se conseguir) foi brilhantemente realizada. A alternativa mais fácil, imagino eu, seria pegar esse conhecimento musical de Roberto Marcio e transformá-lo em uma coletânea de crônicas ou em um ensaio com cara de documentário musical. Mas não foi isso o que ele fez. Aproveitando-se de seu talento ficcional, o escritor mineiro aproveitou para inserir seu know-how melódico em uma história gostosa e profunda. Incrível, né? Como novela musical, “Deixe a Música Contar” é um livro primoroso! Do ponto de vista literário, uma das coisas que mais gostei da nova publicação de Roberto Marcio foi das brincadeiras entre os diferentes universos ficcionais e do diálogo intenso entre realidade e ficção. Nesse sentido, a semelhança deixa de ser com a literatura de Nick Hornby e a literatura de Haruki Murakami e passa a ser com a literatura de Juan Carlos Onetti. O escritor uruguaio (um dos meus autores sul-americanos de língua espanhola preferidos, ao lado de Julio Cortázar, Isabel Allende, Pablo Neruda e Jorge Luiz Borges) era mestre em utilizar esse expediente (embaralhar vários planos ficcionais e relacioná-los com a realidade de maneira inteligente). E o que eu quero dizer exatamente com diferentes universos ficcionais?! Note que há praticamente três livros dentro do livro que o leitor adquire. A primeira obra é pontuada pelo Prólogo e Epílogo, a parte da trama com o casal brasileiro que vive em Portugal e visita Copenhague. Aí eles recebem um título biográfico (o segundo livro de “Deixe a Música Contar”) da personagem que acabaram de conhecer no restaurante Dinamantina. E quando leem a história de Gustaf, eles se deparam com o diário de João Pedro, o pai do protagonista. É, portanto, uma nova narrativa (a terceira em questão). É muito legal descobrir uma história dentro da história, que, por sua vez, está dentro de outra história. Isso é Onetti puríssimo! Para potencializar ainda mais a experiência entre as diferentes linhas ficcionais, Roberto Marcio ainda adicionou um tempero especial à novela, que foi sua presença indireta (ou seria sutil?) no enredo. Ou você não percebeu que ele é Sérgio, o primo de João Pedro que vive (no caso vivia) em Nova Lima, hein?! Eu percebi rapidamente pois conheço um pouco o escritor real: é tímido, adorava se corresponder por cartas com amigos estrangeiros, é apaixonado por literatura desde a infância e sempre foi fascinado pelo aprendizado de línguas e novas culturas. A leitura de “Andante das Gerais” me deu bastante subsídio. Mas acho que mesmo um leitor que não tenha lido os livros anteriores de Roberto nem conheça a sua biografia consiga fazer essa relação sem grande dificuldade. De qualquer maneira, é belíssima essa fresta deixada pelo autor entre realidade e ficção literária. Se fosse só o conteúdo do livro que tivesse chamado minha atenção, eu não comentaria seu projeto gráfico. Contudo, “Deixe a Música Contar” não é apenas um livro com bons predicados literários. Ele é também uma obra impactante do ponto de vista estético. Como disse no início deste post do Bonas Histórias, essa é provavelmente a publicação ficcional com a melhor capa e com a melhor diagramação interna que passou por minhas mãos em 2023 (até agora). Entre as publicações não ficcionais, esse prêmio informal está provisoriamente com “Como Ler Livros – O Guia Clássico para a Leitura Inteligente” (É Realizações), de Mortimer J. Adler & Charles Van Doren (que ainda vou comentar no blog). Note a riqueza visual da capa da novela de Roberto Márcio, obra-prima feita pela designer Luísa Rebelo. Se for verdade que as pessoas compram os livros pela capa, esse será o próximo best-seller da literatura brasileira e da literatura mineira. E internamente, a diagramação explora muito bem a dinâmica do livro dentro do livro dentro do livro. A escolha visual diferenciada para a representação do diário de João Pedro também foi um acerto inegável do projeto gráfico. Para completar, há ilustrações maravilhosas na abertura dos capítulos e no rodapé dos anexos. Para terminar a lista de elementos positivos de “Deixe a Música Contar”, quero falar sucintamente de mais cinco aspectos que gostei dessa obra: (1) agilidade do texto narrativo, (2) crítica social, (3) pegada de road story, (4) beleza entre as semelhanças entre pai e filho e (5) profundidade do diário de João Pedro. A agilidade do texto fica evidente pela rapidez com que lemos a nova publicação de Roberto Marcio. Na primeira vez que a li, no início do ano, lembro que precisei de uma tarde de sábado para isso (fiz duas sessões de leitura de uma hora e meia cada naquela oportunidade). Agora, na releitura, precisei de apenas uma noite (sessão única de três horas). Se a narrativa não fosse gostosa e se a trama não fosse atrativa, na certa o leitor não devoraria o livro de uma tacada só e tão velozmente. A crítica social de “Deixe a Música Contar” está presente no desconforto étnico-racial sentido por Gustaf na Europa (e do racismo ora velado ora mais direto que o brasileiro vivencia no exterior), na violência urbana do Brasil (uma epidemia que não se restringe ao Rio de Janeiro nem ficou limitada à década de 1980), na atuação das organizações criminosas internacionais (que se tornaram mais profissionais e diversificadas com os anos) e no estereótipo que os estrangeiros fazem do nosso país (será que é só culpa deles ou será que também contribuímos de alguma maneira com tal visão deturpada?!). A pegada de road story permeia o livro inteiro de Roberto Marcio. O enredo se passa, segundo a minha contabilidade, em pelo menos doze cidades: Copenhague (Dinamarca), Saint Julian's (Malta), Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Diamantina, Nova Lima, São Lourenço, Brasília, Niterói, Cruzília, Aiuruoca e Bali (Indonésia). Provavelmente devo ter me esquecido de algumas localidades – não me surpreenderia se o número efetivo alcançasse duas dezenas. É bem a cara do Roberto Márcio escrever uma história que faz as personagens colocarem o pé na estrada, né? Achei bonito constatar as semelhanças de preferências, aptidões e gostos de pai e filho que não puderam se conhecer. Gustaf é uma cópia de João Pedro, mesmo não tendo convivido com o mineiro de Diamantina. E, por isso, o impacto provocado no rapaz (aos 25 anos) da leitura do diário de João Pedro (que parou de escrever suas confidências quando tinha também 25 anos). A sensação que tive (ajudada pela coincidência da idade das personagens) é que o diário do pai serviu de passagem de bastão para que o filho pudesse viver sua vida a partir de sua real identidade (que é idêntica ao do pai). É ou não é linda essa sutileza narrativa, hein? A primeira parte do diário de João Pedro é mais musical, sonhadora e inocente (típica da adolescência). A segunda parte é menos musical, mais prática e mais familiar (típica do amadurecimento). Em relação aos defeitos (até as boas ficções possuem pontos negativos, tá?!), “Deixe a Música Contar” tem dois problemas sérios, que afetam diretamente a experiência do leitor, e cinco menores, que não comprometem em nada a qualidade da obra. As questões mais graves são: (1) a inverossimilhança na construção dramática de Gustaf; e (2) a falta de uma revisão textual mais cuidadosa que deixou passar inconsistências narrativas de algumas personagens. Vamos agora a tais pontos delicados. O que chamei de inverossimilhança na construção dramática de Gustaf está ligado ao estranhamento que senti com uma personagem que vai morar na Dinamarca aos três anos de idade com os avós gringos e ainda assim mantém sua brasilidade, mesmo sem nenhum conterrâneo por perto. Se Ludvig e Blenda, os pais de Greta, fizeram de tudo para esconder o passado sul-americano do neto, eu esperava que o garoto crescesse no novo lar mais como um dinamarquês do que como um brasileiro. Mas não! Inexplicavelmente, Gustaf é fluente em português (não sei como!), conhece boa parte da cultura natal (como é possível se os avós não o estimulavam?) e possui uma forte ligação com o país do pai (sem que ninguém o incentivasse). Confesso que achei um tanto esquisito essa linha narrativa. Para mim, seria mais natural que uma criança que more em um país estrangeiro desde os três anos ficasse ligada mais à cultura local do que à cultura original (que normalmente é esquecida da mente dos pequenos em pouquíssimo tempo). O segundo problema sério foi a falta de uma revisão textual mais cuidadosa, que deixou escapar mudanças no enredo do livro e que se transformaram em erros gritantes da narrativa na versão final. Por exemplo, Cássia é descrita no início como tia de Gustaf (portanto, é irmã de João Pedro). Mais à frente, no capítulo 3 “Primeiras Revelações”, ela vira inexplicavelmente irmã de Gustaf (ou seja, filha mais nova de João Pedro). Algumas páginas adiante, Cássia volta a ser tia do protagonista. E mais à frente retorna a ser irmã de Gustaf e novamente tia do rapaz no desfecho. O mesmo efeito ioiô pode ser verificado (mas em menor intensidade) com Sérgio, o escritor de Nova Lima. No Epílogo, ele é descrito por Gustaf como um amigo. Porém, no meio da narrativa de João Pedro, Sérgio é primo do pai do protagonista (no caso, é primo de Gustaf, não um mero amigo). Fica evidente que “Deixe a Música Contar” não passou por uma revisão final mais cuidadosa, que notaria rapidamente essas incongruências narrativas. Os demais problemas do livro são questões menores e podem passar batidos nas leituras mais recreativas. Por exemplo, achei as personagens muito planas (quando a boa literatura exige personagens redondas) e notei a priorização de passagens sumarizadas (quando a graça da ficção está na encenação), aspectos já detectados em “Janelas Visitadas”. Quando as figuras principais da história são boazinhas demais ou ruins demais, a trama se torna muito maniqueísta e pouco crível. Ninguém, no mundo real, é 100% correto nem 100% errado (exceções feitas a Scarlett Johansson, a única pessoa perfeita, e Vitor Pereira, o único ser humano inteiramente equivocado). E quando temos muitos sumários e poucas cenas em um livro, a sensação é que não pudemos acompanhar mais de perto a narrativa. Se “Deixe a Música Contar” tivesse mais encenações, certamente a novela de Roberto Marcio teria se transformado automaticamente em um romance. Confesso que não engoli a justificativa para os desencontros de João Pedro com o filho pequeno na virada de 1989 para 1990. Segundo a narrativa ficcional, após a morte de Greta, o pai do protagonista não conseguiu localizar os sogros na Dinamarca nem foi contactado por ninguém no Rio de Janeiro quando estava viajando para Diamantina. A culpa foi atribuída a ausência de celular e de Internet naquele tempo. Será mesmo?! Então naquela época devia haver vários desencontros só porque as pessoas não tinham telefone celular nem correio eletrônico, certo?! Pode parecer surpreendente para as novas gerações, mas na década de 1980 havia várias formas de localizar as pessoas (o telefone fixo era o principal). Desencontros desse tipo eram raríssimos. E a culpa, quando acontecia, pode acreditar, não era da ausência de celular ou da Internet. Apesar do texto excelente de “Deixe a Música Contar”, admito que não gostei de algumas passagens de seu início, quando temos partes muito repetitivas. Por exemplo, a explicação das características sociais da Dinamarca e o detalhamento de que o país nórdico é apontado como a terra da felicidade são retomadas duas ou três vezes em poucas páginas. Achei excessivo e desnecessário. E senti falta da extrapolação das músicas dos anos 1980 (um dos maiores charmes de “Deixe a Música Contar) para fora da plataforma física do livro. Já li obras literárias, como “Diário de Um Exorcista” (Generale), terror de Renato Siqueira e Luciano Milici, que forneceram CDs com as trilhas sonoras de suas histórias para os leitores ouvirem. Isso é muito legal. Depois que o CD se tornou uma mídia em desuso, algumas manifestações culturais, como a peça “Sex Shop Café”, criação de Gilberto Amendola realizada pela Encena Companhia de Teatro, disponibilizam para o público a playlist musical no Spotify. Já pensou que legal seria se o livro de Roberto Marcio tivesse compilado as canções citadas em um serviço de streaming, hein? Aí o leitor poderia ouvir as músicas à medida que elas fossem aparecendo nas páginas. Seria muito divertido, né? Senti falta desse maior aproveitamento das canções para fora da plataforma convencional da publicação. Resumo da ópera: “Deixe a Música Contar” é uma novela musical de boa qualidade que irá encantar os leitores apaixonados por música, cultura e história. Quando analisada dentro do portfólio literário de Roberto Marcio, essa obra é inegavelmente mais arrojada e profunda. Mesmo tendo adorado “Andante das Gerais”, ainda hoje meu título favorito do autor, preciso reconhecer que “Deixe a Música Contar” é uma publicação superior (tem mais e melhores elementos técnicos, como expus nesse post da coluna Livros – Crítica Literária). Se compararmos diretamente esta novela com “Janelas Visitadas”, o título ficcional anterior de Roberto Marcio, poderemos verificar a enorme evolução do autor mineiro em pouco tempo (menos de dois anos!). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Passeios: Paranapiacaba - Um domingo na vila fundada pelos ingleses no século XIX
Localizado no alto da Serra do Mar e a 50 quilômetros do Centro da cidade de São Paulo, o distrito de Santo André reúne encantos turísticos e maravilhas históricas que valem a viagem. Confesso que esse era para ser mais um post da coluna Passeios sobre trilhas no meio do mato, uma de minhas diversões favoritas em São Paulo. Se eu seguisse meu plano inicial, o novo conteúdo do Bonas Histórias trataria exclusivamente de uma caminhada florestal pelos arredores de Paranapiacaba e se somaria ao relato da subida ao Pico do Jaraguá e da jornada a pé pelo Parque da Cantareira até o Mirante da Pedra Grande. Porém, fui hipnotizado pelas belezas históricas e pelas preciosidades arquitetônicas da vila fundada em meados do século XIX pelos ingleses que construíram a São Paulo Railway, a primeira ferrovia paulista. Aí o maior atrativo do passeio deixou de ser o trajeto pela natureza (que também tem lá seus encantos) e passou a ser a volta pelas ruas e casas do charmoso vilarejo encravado no alto da Serra do Mar (que, como programa turístico e histórico, tem muito mais valor). Em outras palavras, troquei a narrativa das trilhas pela narrativa dos trilhos. Desculpem-me, não resisti ao trocadilho fácil! Fui no domingo retrasado para Paranapiacaba para fazer uma trilha com o grupinho de amigos. Quem escolheu o programa foi o Alan, o mexicano mais paulistano que se tem notícia desde a passagem meteórica de Arturo Barrios. Mara, a bruxinha oficial da turma, Marcela, a chefona da gangue, e Caio, o bom menino de Perdizes que está de mala pronta para Tóquio, completaram o quinteto da caravana mambembe. Só faltaram Paulo, o filho zeloso que visita os pais todos os domingos, mas que está há meses sem vê-los (ele é o único que não percebe tal paradoxo!), Enzo, que engata novos namoros todas as sextas-feiras à noite e está sempre ocupado aos domingos de manhã (não adianta perguntar o segredo do xaveco, ele não conta!), e Rose, a menina que dança por dias e dias ininterruptamente, mas se recusa a fazer caminhadas de cem metros (a exceção é quando se coloca uma porção de batatas fritas no fim do percurso). Como já disse, nossa proposta original era explorar a Mata Atlântica da região e almoçar um piquenique no meio do mato. Se desse tempo, exploraríamos rapidamente a vila antes de retornar para a cidade de São Paulo no final da tarde, início de noite. Reconheço envergonhado que sempre subestimei o valor histórico e a beleza arquitetônica de Paranapiacaba. Como nunca tinha ido para lá, minha visão era que o distrito de Santo André era feio e estava abandonado. Não atirem pedras, por favor. Estou sendo sincero e já mudei de opinião após a visita, tá? Acho que vivia impactado pelas cenas que tinha em mente de trens em ruínas e dos vários ramais de trilhos desativados que compõem o cenário local. Mas chegando lá, fui seduzido pelos encantos do lugar. E, acredite, até as carcaças dos trens e o festival de trilhos desativados possuem seu charme. Nada como estar in loco para entender os detalhes da região, né? Antes de contar, aos leitores do Bonas Histórias, os pormenores do dia passado na mais famosa vila de Santo André e de dar dicas para quem pretende visitar Paranapiacaba (as novas propostas desse transformado post da coluna Passeios), acho que vale o registro da importância e das particularidades desse pedacinho de São Paulo com tanta história e beleza. Como diria o antigo programa de televisão infantil: senta que lá vem a história! A Vila de Paranapiacaba, chamada originalmente de Vila Martin Smith, foi fundada em meados do século XIX pelos ingleses que vieram ao Brasil para construir a ferrovia que ligaria o interior paulista ao Porto de Santos. A ideia era escoar de maneira mais barata e rápida o café, o principal produto da economia brasileira durante o reinado de Dom Pedro II. Assim, foi criada a São Paulo Railway, companhia britânica de capital privado que construiria a estrada de ferro e a operaria por quase um século. A linha férrea ligava Jundiaí (estação do bairro de Arens) a Santos (estação do Largo Marquês de Monte Alegre, pertinho do porto) e passava pela cidade de São Paulo (estações da Luz, Barra Funda, Brás, Lapa, Pirituba e Jaraguá). Quem pega atualmente a linha 7 - Rubi da CPTM entenderá o traçado da ferrovia entre o interior e a capital. O maior desafio da engenharia era construir a estrada férrea pela Serra do Mar (e não tanto do interior até a cidade de São Paulo, que tem um trajeto mais plano). Podemos dizer que foi um feito grandioso para a tecnologia da época ligar a capital paulista ao litoral. Como os ingleses tinham esse know-how e estavam investindo em projetos de infraestrutura na América (algo que os chineses estão fazendo em escala global no século XXI com o Projeto Nova Rota da Seda), eles se propuseram à empreitada. A ferrovia começou a ser construída em 1860 e entrou em operação em 1866 (imagine quanto tempo demoraria se fosse feita hoje por uma parceria entre uma estatal comandada por políticos do Centrão e uma empreiteira com negócios escusos em Brasília!). Segundo o acordo contratual assinado com o governo brasileiro, a São Paulo Railway tinha a concessão da administração dos trilhos por 80 anos a partir do início de suas atividades comerciais. Aí alguém pode me perguntar: e onde Paranapiacaba aparece no meio desse relato sobre trem, café e empreendedorismo inglês no século XIX?! Aí está a parte interessante da história. A região onde está hoje Paranapiacaba foi escolhida pelos donos da São Paulo Railway para servir de base operacional e de polo residencial dos funcionários da companhia de trem. A vila erguida em uma remota localidade no alto da Serra do Mar serviu de QG dos ingleses tanto no período da construção da linha férrea quanto na época de sua administração. Por estar em uma região bem alta entre a capital paulista e Santos, o lugar era estratégico para quem precisava coordenar trabalhos nas duas pontas. Dessa maneira, foi erguida na década de 1860 a Vila Martin Smith, um povoado inglês que atualmente conhecemos como Paranapiacaba (nome tupi que quer dizer: “lugar de onde se vê o mar”). Vale a pena dizer que os principais engenheiros e vários dos funcionários da São Paulo Railway eram britânicos que vieram ao Brasil exclusivamente para viabilizar e operar a estrada de ferro. E eles moravam na vila criada justamente para a acomodação de suas famílias e para ser o centro da administração da empresa. Por estar originalmente em uma propriedade particular e isolada do centro urbano (se até hoje Paranapiacaba está distante de tudo e todos, imagine como era há 160 anos!), o pequeno vilarejo era governado pelos chefões da ferrovia. Além de líderes da empresa, os ingleses tinham poderes de prefeitos na Vila Martin Smith no século XIX. Como diz o ditado popular, eles mandavam prender e mandavam soltar. Como consequência, construíram uma pequena cidade com arquitetura de seu país natal, justamente o charme que atrai tantos turistas contemporâneos. Segundo cálculos do Centro Turístico local, são 250 mil visitantes anuais que vão até o alto da serra para conhecer o pedacinho da Inglaterra na Grande São Paulo. O controle privado dos ingleses em Paranapiacaba durou até novembro de 1907, quando a vila foi elevada a distrito de São Bernardo do Campo. Em novembro de 1938, o vilarejo passou a pertencer a Santo André, que é quem o administra até hoje. Na década de 1960, tentou-se fazer a emancipação do lugar para que se tornasse uma cidade independente, mas o projeto não prosperou (era muito pequeno para virar um município autônomo). Portanto, por mais que tenha ares de cidadezinha interiorana (como acontece, por exemplo, com Monte Verde, no alto da Serra da Mantiqueira em Minas Gerais, que é um bairro de Camanducaia, mas parece ser um município independente), Paranapiacaba pertence a Santo André. Ou como preferem os moradores locais: Santo André pertence a Paranapiacaba... Dessa forma, é errado chamá-la de cidade. Mas que dá vontade, dá! Segundo o último Censo, ocorrido em 2010, Paranapiacaba tinha pouco mais de 3 mil habitantes. Entretanto, de acordo com o que os moradores locais me falaram, esse número não passa atualmente de mil pessoas (seriam novecentas e poucas). Pela minha observação totalmente fortuita, acredito que a quantidade verdadeira de residentes deve estar no meio do caminho (3 mil me parece uma quantia excessiva, enquanto mil me parece uma estatística subvalorizada). Localizada a 50 quilômetros do Centrão de São Paulo e 30 do Centro de Santo André (a distância do Centro de Mogi das Cruzes e do Centro de Santos são, respectivamente, de 40 e 55 quilômetros), Paranapiacaba está a uma altitude entre 750 e 900 metros. Uma das características marcantes da paisagem local é a névoa, que invade as ruas no final da tarde e só a abandona no meio da manhã. Por isso, acho que visitar o distrito no frio tem muito mais charme (névoa, para mim, combina perfeitamente com friaca). Não à toa, Paranapiacaba é um ótimo destino de Inverno principalmente para quem mora na Grande São Paulo e quer fazer um passeio diferente, divertido e rico do ponto de vista cultural e histórico. Dá muito bem para fazer um bate-e-volta de final de semana. A maioria dos turistas chega de manhãzinha, explora a vila o dia inteiro e retorna no final da tarde ou no início da noite para casa. O domingo é o dia mais concorrido, independentemente da estação do ano. Há três maneiras para se chegar à Paranapiacaba. A mais legal é pelo Trem Turístico, que faz apenas uma viagem aos domingos. O trem dos anos 1960 sai da Estação da Luz às 8h30 e chega à vilinha inglesa aproximadamente às 10h. E, na volta, ele sai do distrito histórico de Santo André às 16h30 e chega ao Centro de São Paulo mais ou menos às 18h. Ou seja, a viagem dura em torno de 1h30 para ir e mais 1h30 para regressar. O valor unitário do ingresso de R$ 50,00 dá direito à dupla jornada (ir e vir). Há descontos para quem vai em dupla (R$ 41,00 cada), trio (R$ 38,33 cada) ou em quarteto (R$ 37,00 cada). Idosos com mais de 60 anos e estudantes podem adquirir a passagem pela lei da meia-entrada (R$ 25,00). Esses valores são de junho e julho de 2023. O bacana dessa opção é vivenciar o charme e a emoção da viagem pela ferrovia com caráter turístico, algo que infelizmente é pouco difundido em nosso país. Só o passeio do trem antigo já vale a experiência. Por mais que o Trem Turístico utilize boa parte da linha tradicional da CPTM (da Estação da Luz até a Estação Rio Grande da Serra, mas sem paradas; a novidade é a parte que liga Rio Grande da Serra a Paranapiacaba, trecho inoperante para as locomotivas normais), ainda sim é muito divertido poder percorrer os trilhos em vagões históricos e adaptados para viajantes que buscam lazer e entretenimento. O clima no interior do Trem Turístico é geralmente contagiante. Se você estiver em uma turminha animada, melhor ainda. Outro aspecto interessante desse tipo de deslocamento é que é possível ficar 6h30 em Paranapiacaba. Parece pouco?! Pois saiba que é tempo mais do que suficiente para explorar a vila inteira (ela é bem pequenina!), almoçar em um restaurante local, fazer uma trilha mais curta pela mata da região e ainda acompanhar o entardecer com direito a chegada da névoa. Na viagem de volta do trem, dá para descansar no vagão. Quase sempre, a empolgação (ou seria a energia?!) dos passageiros é menor no regresso (quando o passeio pela ferrovia já deixou de ser uma grande novidade) e há muitos que aproveitam para dormir. Até as crianças, nesse momento, estão com as baterias meio descarregadas ou no finalzinho – obrigado, Santo Deus!!! Porém, essa opção não está imune aos problemas. O primeiro deles é a dificuldade para se conseguir ingressos. Por causa da alta demanda (e da oferta limitada), é preciso adquirir com algumas semanas de antecedência a passagem pela página da CPTM no site do Sympla – há viagens do Trem Turístico para Jundiaí, Paranapiacaba e Mogi das Cruzes. Mal são disponibilizados, os ingressos acabam em um piscar de olhos. Desde maio, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos colocou um quarto carro na locomotiva para aumentar a oferta de passageiros, mas a dificuldade para se conseguir as passagens continua. Há a previsão de que um quinto carro seja inserido no comboio até o final do ano, mas ele será um vagão-restaurante, o que parece que não ajudará em nada no aumento do número de ingressos disponibilizados. Outra questão delicada é que essa alternativa de viagem é exclusiva para os domingos de manhã, quando o uso comercial dos trilhos de trem da Grande São Paulo não está sobrecarregado. Se você quiser ir aos sábados e feriados ou em horários alternativos para Paranapiacaba pelo Trem Turístico não irá conseguir. É de domingo de manhã ou é de domingo de manhã. Ponto. Também é estranho embarcar em um trem da década de 1960 para conhecer uma ferrovia que foi inaugurada nos anos 1860. Você não percebe essa defasagem temporal do passeio quando embarca de manhã na Estação da Luz. Contudo, no retorno à São Paulo, depois de ter percorrido as ruas antigas de Paranapiacaba e de ter visitados seus museus, você se pergunta o quão legal teria sido a utilização de um trem verdadeiramente histórico para a atração. Se você quiser chegar de transporte público à Paranapiacaba (o Trem Turístico não é considerado um serviço público, tá?), a outra opção é utilizar a dobradinha entre trem e ônibus (com exceção da viagem especial aos domingos de manhã, a vila inglesa não é atendida regularmente pela linha férrea, por mais paradoxal que isso possa parecer do ponto de vista histórico). Aí a alternativa é ir até a Estação Rio Grande da Serra (pela linha 10 – Turquesa da CPTM, que parte da Estação Brás) e lá pegar um ônibus intermunicipal até o Centrinho de Paranapiacaba (linha 424: Rio Grande da Serra/Centro – Santo André/Paranapiacaba ou linha 040: Santo André/Terminal Metropolitano Leste – Santo André/Paranapiacaba). O tempo total do trajeto saindo do Brás é de aproximadamente duas horas. Não é preciso dizer que esse passeio, por mais que utilize quase todo o caminho usado pelo Trem Turístico, não tem um décimo da graça da primeira opção. O terceiro e último jeito para se chegar à Paranapiacaba é, claro, de carro ou moto. Quem for por essa alternativa precisa saber que as estradas para lá podem estar em péssimo estado. É o caso da Estrada de Paranapiacaba, normalmente a primeira opção que o Waze dá para quem (de forma desavisada) deixa a cidade de São Paulo em direção ao vilarejo inglês de Santo André. Além da buraqueira incorrigível, há longos trechos de chão de terra e de cascalho, partes interditadas em que a via se torna única para quem vai e para quem vem, ausência ou péssima iluminação e (rufam os tambores!) travessia sobre os trilhos de trem, o que sempre faz o coração disparar. Não por acaso, é muito comum encontrarmos veículos 4x4 no distrito (inclusive motos de motocross). Paranapiacaba é um ótimo destino para quem curte fazer off road. Há também muitos ciclistas de mountain bike e andarilhos, fãs da Rota da Madeira, trecho turístico que usa justamente a Estrada de Paranapiacaba como trajeto. No caso específico desses grupos de aventureiros, quanto piorem forem as vias, melhores são os passeios (visão que os turistas normais com carros não adaptados para o caos dos pisos nacionais não compartilham). Quem não quiser passar por perrengues durante o caminho, o melhor é escolher a Rodovia Deputado Antonio Adib Chammas (SP-122), que liga Ribeirão Pires a Paranapiacaba. Ela está em melhores condições do que a Estrada de Paranapiacaba. Pelo menos, a rodovia é toda asfaltada, possui acostamento e não tem crateras na via, o que permite uma viagem muito mais tranquila de carro e moto. Porém, saiba que talvez o Waze ignore essa opção de imediato e indique a Estrada de Paranapiacaba – juro que não sei o porquê! Por falar nisso, não confie cegamente nas coordenadas oferecidas pelos aplicativos de localização e de trânsito. Eles costumam cometer erros bisonhos, que o mínimo de bom senso desconfiaria (beijo, Marcelinha). De maneira geral, para se pegar a SP-122, o paulistano deve usar a Via Anchieta. No km 29, usando a pista marginal sentido Riacho Grande, entra-se na Estrada Velha do Mar (SP-148) no sentido de Ribeirão Pires. Pega-se, então, a Rodovia Índio Tibiriçá (SP-31) até a alça do km 45,5. Nesse momento, o viajante motorizado entra na tão esperada SP-122, a Rodovia Antonio Adib Chammas. Aí é só seguir em frente que se chega em Paranapiacaba. Falando assim, pode parecer complicado, mas não é não. Acredite em mim, é mais fácil do que encarar a buraqueira da Estrada de Paranapiacaba. Anda-se um pouco mais e demora-se um pouco mais para chegar, é verdade, mas vale a pena. Outro inconveniente é o tempo de deslocamento. É bom você saber que o distrito de Santo André não é tão perto quanto aparenta da cidade de São Paulo. Da minha casa (eu moro no Parque São Domingos, Zona Oeste da capital paulista), a viagem de carro pelos 60 quilômetros dá por volta de duas horas, duas horas e dez minutos. Isso em um domingo de manhã, quando não há trânsito nenhum pela cidade. Durante a semana, não quero nem imaginar quanto tempo demora... Só à título de comparação, Campos do Jordão, outra belíssima pedida para a Temporada de Inverno, fica a cerca de duas horas e meia de casa em uma viagem domingueira, mesmo estando a 200 quilômetros de distância de Sampa – é, acredite, três vezes mais longe do que Paranapiacaba e se chega mais ou menos no mesmo tempo. E as estradas para o Centro de Capivari (a nossa vila suíça) estão impecáveis, mesmo quando o Waze se prova sacana... Uma vez com os pés bem fincados em Paranapiacaba, você encontrará um distrito que pode ser dividido basicamente em duas partes (Parte Alta e Parte Baixa) ou em três partes (a Parte Baixa, nesse caso, se subdivide em Vila Nova e Vila Velha). A Parte Baixa (Vila Nova e a Vila Velha) são os pedaços mais turísticos e históricos da localidade, que merecem uma visita mais atenta e demorada. É esse trecho que era chamado no século XIX de Vila Martin Smith pelos ferroviários britânicos. A diferença entre as vilas é que a Vila Velha foi construída entre 1860 e 1870 e a Vila Nova foi erguida entre 1890 e 1900. Ou seja, a nova da nomenclatura não é tão nova assim... A segunda etapa da construção da Vila Martin Smith/Paranapiacaba ocorreu quando os ingleses construíram a segunda via férrea da São Paulo Railway em 1895. Com o aumento substancial da produção do café e a necessidade de se elevar a oferta de transporte dos cafezais do interior paulista ao Porto de Santos, uma outra estrada de ferro foi erguida ao lado da antiga. E, para comportar mais funcionários e mais famílias europeias que chegaram ao Brasil, foi preciso erguer uma segunda vila. Ela foi chamada de Vila Nova, enquanto o pedaço original ganhou a alcunha de Vila Velha. Já a Parte Alta é o trecho de Paranapiacaba que reúne as construções mais recentes. É ali que ficam as casas e os comércios do século XX e XXI. E é nessa seção do bairro inglês de Santo André que reside grande parte de seus habitantes e onde estão os estabelecimentos comerciais menos turísticos e mais convencionais. Para ser sincero, não há nada demais nessa ala do distrito, que se parece com qualquer típico bairro suburbano de uma grande cidade brasileira. Ou, se você se encantar por suas ladeiras de paralelepípedo e suas ruelas estreitas, a referência mais adequada seria compará-la (com um pouco de boa vontade, claro) às cidades coloniais mineiras. Mas como falei, é preciso um certo esforço imaginativo por parte do turista mais empolgado, algo que confesso que não sou. Com exceção da imponente Igreja Bom Jesus de Paranapiacaba que pode ser vista de qualquer ponto do vilarejo, nada mais chama a atenção ali. Há um cemitério, que não tem nada de diferente de qualquer cemitério (assim como a igreja não tem nada de especial tanto do lado de fora quanto do lado de dentro). Tem também um estacionamento gratuito e amplo para os felizardos que chegam pela Rodovia Antonio Adib Chammas (SP-122). Como não sou fã de prédios religiosos (até procuro manter uma distância protocolar deles, independentemente da religião professada) e nunca achei graça em caminhar por tumbas (nem o passeio mórbido pelo Cemitério da Recoleta me agradou), então posso dizer que não há muitos atrativos na Parte Alta, além das vagas para os veículos. Falei isso para alertar aqueles que têm pouco tempo de visitação por Paranapiacaba. Não desperdice as preciosas horas em uma localidade tão interessante onde não há atrativos. Insisto: foque seu passeio na Parte Baixa! É lá que está a diversão. Uma opção legal é deixar o carro no estacionamento da Parte Alta e ir caminhando para a Vila Nova e a Vila Velha, sem paradas longas e sem a investigação desnecessária pelo trecho contemporâneo do distrito. Só no trajeto a pé do estacionamento principal até a Parte Baixa já dá para conhecer rápida e suficientemente o pedaço mais modernoso (e sem graça) de Paranapiacaba. Por falar nisso, é possível percorrer tranquilamente a Parte Alta, a Vila Velha e a Vila Nova a pé. A ordem desse passeio é explorar o lugar caminhando. Quem for de carro ou moto pela Estrada de Paranapiacaba (provando que tem espírito aventureiro e/ou que possui veículo off road para aguentar os trancos), estacione nas ruazinhas da Vila Nova (local de sua chegada) e explore a Parte Baixa sem precisar entrar na Parte Alta. Garanto que você não perderá nadinha por não visitar o morrão. O legal dessa alternativa é que, poupando-se do sobe e desce da Parte Alta, você terá mais energia para bater perna pela Vila Nova e Vila Velha, onde as ladeiras são menos íngremes. É importante dizer que a Parte Alta e a Parte Baixa são ligadas por uma extensa passarela para pedestres que passa por cima dos incontáveis ramos dos trilhos de trem. A Passarela Metálica sobre a Ferrovia foi construída originalmente em 1899 e dá acesso ao Relógio da Estação, construção de 1890 que lembra o Big Ben, ao Museu Funicular, que abriga a história, os objetos e as máquinas da linha férrea da São Paulo Railway, e à Estação de Trem de Paranapiacaba, de onde chega e de onde parte o Trem Turístico da CPTM. Não é preciso falar que percorrer a passarela é um dos passeios imperdíveis para os visitantes (quem for de trem, passará obrigatoriamente por ela). Se você tiver oportunidade, suba até lá no finalzinho da tarde para conferir a ação sorrateira e implacável da névoa, que vem pelas montanhas entre 16h30 e 17h00 e toma conta das ruas. Há quem diga que até o flog londrino foi trazido pelos engenheiros ingleses no século XIX. Brincadeirinha! Dá para fazer fotos bem legais lá de cima. E não deixe de conhecer o Relógio da Estação e o Museu Funicular, por favor! Se você for de trem, é fácil identificar a Parte Alta da Parte Baixa. Ao chegar na estação, você terá que subir a passarela metálica sobre os trilhos. Aí é só ver onde está o morro (Parte Alta, à direita da subida da passarela) e onde está o Vale (Parte Baixa, à esquerda da subida da passarela). Não tem erro! Como disse, se você for de carro pela Estrada de Paranapiacaba, você entrará automaticamente no distrito pela Parte Baixa (mais especificamente pela Vila Nova). Quem utilizar a Rodovia Antonio Adib Chammas ou os ônibus intermunicipais vindos de Rio Grande da Serra, aí a chegada será pela Parte Alta. Para você não se perder (algo que duvido que aconteça!), é bom pegar o mapinha de Paranapiacaba que é oferecido em vários lugares da vila. O material foi produzido pela Prefeitura de Santo André e é distribuído gratuitamente aos visitantes. Além da planta do povoado, o folheto do tamanho de uma folha A4 e com duas dobras contém o guia das atrações mais recomendadas e as informações de onde estão os serviços essenciais (bases policiais, postos médicos, agrupamentos do corpo de bombeiro, sanitários públicos, pontos de WiFi e centros de atendimento aos turistas). Com o mapa em mãos, você conseguirá certamente otimizar seu passeio e planejar melhor a incursão em cada uma das vilas. Agora que já conhecemos a história e a geografia local, podemos falar, enfim, dos principais atrativos turísticos de Paranapiacaba. Comecemos pela Vila Nova, minha área favorita da Parte Baixa. Ali encontramos o Mercado Antigo de Secos e Molhados, o Museu Castelo, a Feira de Artesanato, a Casa Fox, o Complexo Cine Lyra da Serra, a Casa de Maquetes e o Clube União Lira Serrano. No Mercado, ocorre regularmente a Feira do Cambuci, a fruta típica da região. A maioria dos itens oferecidos no antigo prédio de Secos e Molhados possui esse ingrediente. Sorvetes, compotas, geleias, sorvetes, bolos, doces, cerveja e mais uma infinidade de artigos culinários vem com o famoso cambuci. Visitar Paranapiacaba e não provar uma iguaria com sua fruta tradicional é um sacrilégio. É como ir à Salvador e não conhecer o acarajé, viajar à Teresina e não experimentar a cajuína, dar um pulo em Recife e não comer o bolo de rolo, passar por Belo Horizonte e ficar sem o pão de queijo local, ir à Vitória e não conferir a moqueca capixaba ou vir à São Paulo e não se aventurar pelo pastel de feira. Acho que você já entendeu o que quero dizer, né? O único problema técnico é que o cambuci é bem amargo (ao seu lado, o limão e o maracujá se tornam docinhos...), o que estraga a maioria das receitas feitas com ele. Por isso, prove o que é ofertado antes de comprar. As barraquinhas de venda dos produtos oferecem amostras gratuitas aos visitantes, prática que, no final das contas, acho que mais atrapalha os negócios do que ajuda. E, por favor, não faça caretas na frente dos produtores, por mais amargos que sejam os produtos experimentados ali (abraço, Caio!). Quase em frente ao Mercado, só que na parte bem mais alta da topografia, temos o Museu Castelo. Erguida em 1898 para ser a residência do engenheiro-chefe da ferrovia, a bela casa de pedra abriga uma exposição permanente com mobiliário e peças típicas da virada do século XIX para o século XX. Percorrer as dependências da construção é vivenciar um pouco dos hábitos e da cultura dos ingleses daquela época. Além da exposição que leva o turista a conhecer cada cômodo da casa do chefão da São Paulo Railway, o Museu Castelo tem um excelente café/confeitaria e uma vista espetacular de Paranapiacaba. De sua residência, o engenheiro-chefe conseguia saber tudo o que acontecia na vila e nos trilhos da ferrovia. E dá para tirar ótimas fotos dali de cima, uma dica fundamental em tempos instagramáveis. Em um mesmo quarteirão, quase na entrada do povoado para quem vem da Estrada de Paranapiacaba, a Vila Nova oferece três atrações: a Feira de Artesanato, a Casa Fox e o Complexo Cine Lyra da Serra. A feirinha que vende artesanatos, artes e antiguidades acontece nos segundos domingos de cada mês desde 2015. Como fui no terceiro domingo, não vi movimentação nenhuma no local. Logo ao lado, está a Casa Fox, uma espécie de residência histórica que retrata como era a vida dos moradores comuns da vila inglesa na primeira metade do século XX. No outro lado da rua está o Complexo Cine Lyra da Serra. Infelizmente, ele está fechado no momento. De acordo com as últimas notícias passadas pela Prefeitura de Santo André, o prédio passará por reformas e sua reabertura está prevista para o meio de 2024. A conferir! Ainda na pegada de visitação aos centros culturais, de lazer e de história do distrito, temos a Casa de Maquetes e o Clube União Lira Serrano. A Casa das Maquetes, também chamada de Centro de Documentos em Arquitetura e Urbanismo, apresenta a formação urbana e arquitetônica da antiga Vila Martin Smith. Quem gosta de mapas e maquetes irá adorar a visita por lá. O Clube União Lira Serrano foi erguido em 1930 (não confundir com o Serrano Atletic Club, time fundado em 1903) para servir de espaço de lazer e entretenimento para os trabalhadores da ferrovia. Hoje, é um importante centro de eventos da localidade. Na Vila Nova, é ainda programa mandatório para o turista percorrer as ruas e ver a arquitetura local. As construções são normalmente de madeira, estão bem conservadas e possuem o banheiro no lado de fora. É muito legal ver os detalhes das edificações de um século e pouco atrás. Uma coisa positiva dos banheiros serem fora das casas é que vários deles se tornaram públicos. Nunca estive em uma localidade com tanta oferta de sanitários para os visitantes. Quando você está com um grupo que adora se aliviar (nunca vou me esquecer as epopeias vividas com os meus amiguinhos no último Carnaval!), esse é um atrativo indispensável. Ao atravessar a Rua da Estação, que liga os dois pedaços da Parte Baixa, o turista chega à Vila Velha. Nessa parte, a recomendação é fazer visitas ao Largo dos Padeiros, às Ruínas do Serrano Athletic Club, ao Campo de Futebol do Clube União Lira Serrano, às Casas Históricas da Rua Nova, aos Galpões Ferroviários e ao Centro de Visitantes do Parque Nascentes de Paranapiacaba. O Largo dos Padeiros é onde era o antigo Centro Comercial da Vila Martin Smith, parada obrigatória dos mascates no final do século XIX e início do século XX. O local passou por reformas de restauração há cerca de quinze anos e está agora em boas condições para receber os visitantes. Logo ao lado, subindo a Rua Direita, temos a famosa Casa dos Solteiros, construção de madeira que suscitava polêmicas antigamente porque abrigava os funcionários solteiros da ferrovia (algo malvisto pelas tradicionais famílias britânicas). Atualmente, o prédio é uma pousada com diárias entre R$ 300,00 e R$ 400,00. Pelas instalações simplórias (querendo ou não, é uma construção centenária!), você logo perceberá que, pelo valor cobrado, não vale a pena ficar hospedado ali. Por valores similares, você consegue ficar em hotéis de ótimo nível em outras cidades turísticas. Quem gosta de futebol, Paranapiacaba reserva ótimas surpresas. Fundado pelos ingleses da São Paulo Railway, o Serrano Athletic Club foi um dos primeiros times de futebol do Brasil. O distrito preserva as Ruínas da antiga sede da equipe. Seguindo a Rua Vereador João Dias Carrasqueira, o turista encontra o Campo de Futebol do Serrano que foi criado em 1903. Ele ainda mantém as medidas originais (do início do século XX) e, segundo dizem os historiadores locais, foi usado por Charles Miller nas primeiras partidas disputadas em nosso país. O pequeno estádio passou por uma recente reforma que o deixou charmosíssimo. A previsão é que sua reinauguração seja feita em julho, em pleno Festival de Inverno de Paranapiacaba. Disputar uma pelada ali deve ser uma delícia. Ao lado do campo, no outro lado da Rua Nova (sim, a Rua Nova fica na Vila Velha!), pertinho do início da Estrada do Taquaruçú, temos as Casas Históricas de Paranapiacaba. Era ali que moravam as primeiras famílias dos funcionários da ferrovia. Só mais tarde, no final do século XIX, os principais engenheiros ingleses e os chefões da São Paulo Railway se mudaram para os casarões da Vila Nova. Até a expansão da Vila Martin Smith, era ali que todos viviam. As residências históricas da Vila Velha foram restauradas há alguns anos pela Prefeitura de Santo André e, em seguida, alugadas para interessados em viver em Paranapiacaba. Assim, as casas estão todas ocupadas atualmente por famílias. Os moradores são proibidos de fazer qualquer tipo de intervenção arquitetônica nas propriedades ou de promover reformas que possam descaracterizá-las. É muito legal assistir às construções antigas sendo habitadas normalmente até hoje. A Vila Velha também abriga os Galpões Ferroviários. Esse conjunto de construções fica perto da Rua Direita e do Largo dos Padeiros e está paralelamente ao Pátio Ferroviário, na Rua da Estação. Era ali que os funcionários da São Paulo Railway faziam a manutenção e o conserto de máquinas e equipamentos. As oficinas também serviam para a produção de ferramentas e itens para a construção da vila. Por fim, bem no meio da Rua Direita, a principal via da Vila Velha, temos o Centro de Visitantes do Parque Nascentes de Paranapiacaba. É nesse ponto em que é possível conhecer as opções de trilhas para se fazer no meio do mato e onde se contrata os guias para os passeios. Infelizmente, não dá para fazer nenhuma trilha sem o acompanhamento de um profissional local. Desde 2002, é obrigatória a contratação de um guia local. Por mais que eles digam que tal medida tem o caráter de proteção ambiental e de segurança aos turistas, nota-se que é na verdade uma maneira de angariar mais recursos dos visitantes. Paciência! Na hora de contratar o guia, é importante você ficar atento. Há guias chatérrimos (que não param de falar um segundo sequer e que, em cinco minutos, já deixam o grupo com dor de cabeça com o papinho besta) e com jeitão de malandros (a sensação é que eles querem extorquir os visitantes). Por outro lado, há profissionais muito gente boa, que são agradáveis no trato, tem um papo gostoso e respeitam a dinâmica do grupo de turistas. No passeio do domingo retrasado, acabamos vivenciando as duas experiências. Mal chegamos ao Centro de Visitantes do Parque Nascentes de Paranapiacaba, fomos abordados ainda na rua por um tal de Ed. O cara disse que mostraria as trilhas, mas que não era guia. Uma vez dentro do Centro de Visitantes, ele quis explicar a história inteira do parque para nosso desespero. Quando viu que não estávamos nem um pouco interessados naquele papinho e que íamos embora, ele falou que era guia local e poderia nos conduzir pela trilha. Como assim, se há pouco disse que não era guia?! Aí cobrou um valor que viemos saber depois que estava um pouco inflacionado (R$ 50,00 por pessoa para fazer a Trilha da Pontinha). É claro que não aceitamos e saímos correndo dali. No prédio ao lado, o da AMA – Associação dos Monitores Ambientais de Paranapiacaba – fomos atendidos de um jeito muito melhor e mais profissional. O guia Clayson explicou de maneira sucinta e clara as trilhas disponíveis e nos cobrou R$ 30,00 por pessoa para fazer a Trilha da Pontinha (R$ 150,00 para o grupo de cinco pessoas). É claro que fechamos na hora! E essa foi a melhor coisa que nos poderia ter acontecido. O Clayson se mostrou um guia espetacular. O cara deu ótimas informações e se mostrou agradabilíssimo. A sensação geral foi de alívio. Juro que fiquei imaginando o tormento que teria sido se tivéssemos de conviver por uma hora e meia com o tal de Ed. Não! Ninguém merece. Por isso, tome cuidado na hora de contratar o guia local. Uma escolha errada pode arruinar seu passeio. Por outro lado, a escolha correta pode tornar Paranapiacaba mais interessante e potencializar a diversão pela mata. Fica a dica: fuja dos Eds da vida e procure pelos Claysons de plantão. Por falar em trilha, é legal dizer que existem trilhas oficiais e trilhas informais em Paranapiacaba. As trilhas oficiais são feitas com guias credenciados, estão normalmente dentro do Parque Nascentes de Paranapiacaba e são homologadas pelas autoridades municipais. Além de orientarem os turistas pelo caminho correto, os profissionais contam detalhes da história do lugar e fornecem informações ambientais. Confesso que fiquei contente com a experiência. As entradas e as saídas das trilhas são monitoradas por uma espécie de guarda florestal. O local possui um portão trancado com correntes e cadeados e só é aberto para grupos de visitantes que estejam com os guias certificados. Ou seja, não adianta nem tentar fazer passeios sem a contratação de profissionais (os guardas-florestais não vão abrir os portões dos parques só porque você é simpático). Como disse, fizemos a Trilha da Pontinha. A caminhada durou em torno de uma hora e quinze minutos (com direito a piquenique no meio da mata) e foi tranquila (se a Mara não reclamou é porque o nível de dificuldade foi fácil). Dentro do parque, a extensão do caminho é de aproximadamente 1,5 km. Porém, para se chegar até o portão de entrada (na Estrada do Taquaruçú) e regressar depois ao Centro Histórico do distrito (pela Estrada de Paranapiacaba) deve dar no total algo em torno de 2 km, 2,5 km de bate-pé. No meio da mata, passamos por várias pontes (daí o nome da trilha), riachos (de águas calmas e límpidas), lagos (no Verão até dá para cair na água) e as barragens feitas pelos ingleses (a mais impactante é a Barragem da Pontinha). E, claro, pudemos conferir as particularidades da fauna e da flora da Serra do Mar. Contudo, a parte mais legal, na minha opinião, foi verificar o sistema de abastecimento de água construído no meio da floresta pela São Paulo Railway em 1900 para abastecer a vila. Os dutos de ferro são usados ainda hoje e estão em ótimo estado. Incrível! A Trilha da Pontinha é apenas uma das opções de trilha oficial em Paranapiacaba. Outra que me pareceu bem interessante é a Trilha do Mirante. Nesse passeio clássico de Paranapiacaba, o visitante vai do centrinho histórico até a torre da extinta TV Tupi, um dos locais mais altos do distrito e com uma vista espetacular da Serra do Mar. Em dias que não há névoa nem o céu está nublado, dizem que dá para ver o litoral. O nível de dificuldade dela é mediano (há mais subidas do que a Trilha da Pontinha). Sua extensão é de 2,5 km e dura aproximadamente 2 horas. Confesso que, se eu estivesse sozinho e não em grupo, teria escolhido a Trilha do Mirante e não a Trilha da Pontinha. Porém, fui voto vencido. Meus amigos preferem as caminhadas mais rápidas e simples. Veja algumas alternativas de trilha: Trilha Olho D´Água (nível fácil, com 1 km de extensão e tempo de duração de 1 hora), Trilha do Poço Formoso (nível médio, com 4 km de extensão e tempo de duração de 4 horas), Trilha da Cachoeira Escondida (nível médio, com 5 km de extensão e tempo de duração de 5 horas), Trilha da Prainha do Mogi (nível difícil, com 7 km de extensão e tempo de duração de 7 horas) e Trilha da Raiz da Serra (nível difícil, com 13 km de extensão e tempo de duração de 9 horas). Essa última me deu vontade de fazer. O visitante caminha até Santos descendo no meio da Serra do Mar. Chegando lá, ele volta de ônibus para Paranapiacaba. Deve ser um passeio fantástico. Aqui vale um comentário (ou seria uma reflexão?!) sagaz. Por mais que você queira fazer trilhas maiores e mais desafiantes, é importante colocar na balança o que você prefere: passeios no meio do mato ou passeios pelo Centro Histórico de Paranapiacaba? Como normalmente as pessoas visitam o distrito inglês de Santo André em apenas um dia (o famoso bate-e-volta), quanto mais tempo você ficar enfurnado no meio da floresta, menos tempo terá para explorar as charmosas ruas e para conferir as construções da Vila Nova e da Vila Velha, que na minha opinião é a parte mais legal da viagem. Por isso, acho que fizemos o certo ao escolher uma das trilhas mais rápidas (mesmo assim, ainda acredito que poderíamos ter optado pela Trilha do Mirante, que só dura meia hora a mais do que a Trilha da Pontinha) pela manhã. Aí deu tempo para retornarmos no início da tarde para “a cidade” e passear pela Parte Baixa. Pense nessas variáveis quando você for escolher a trilha. Se você estiver com o Trem Turístico da CPTM, é importante calcular a chegada ao Centrinho Histórico com pelo menos uma hora de antecedência da viagem de retorno para São Paulo. Sabe-se lá o que pode acontecer de contratempo no meio da caminhada pela mata, né? E o trem não espera os atrasadinhos. Ele é guiado pela pontualidade britânica. Em relação às trilhas informais (pode chamá-las de ilegais também!), Paranapiacaba também é farta em aventuras. Alguns desses caminhos são proibidos pelas autoridades, o que aumenta a graça dos turistas com espírito mais desbravador. E, acredite, mesmo nas trilhas informais/ilegais é possível contratar guias. Há profissionais que aceitam caminhar fora dos trajetos programados pelo Parque Nascentes de Paranapiacaba e outros que se recusam. É só conversar com eles para descobrir a disponibilidade de cada um. O motivo da proibição desses trajetos é que eles são perigosos e têm históricos de acidentes fatais, inclusive com a morte de guias. Se até os profissionais que conhecem em detalhes os caminhos acabam sucumbindo aos seus riscos, imagine o que não podem passar os andarilhos de primeira viagem, né? O mais famoso desses caminhos proibidos é o da Trilha do Funicular. A caminhada de 12 quilômetros de Paranapiacaba até Cubatão é feita em cima dos trilhos desativados da ferrovia. O perigo (e está justamente aí a razão de sua proibição) é que em algumas partes do trajeto os trilheiros precisam se equilibrar sobre os trilhos que estão a centenas de metros de altura (há várias pontes e viadutos pelo caminho). Adivinha só o que acontece com quem se desequilibra e despenca do alto da ferrovia?! Com tanta trilha legal homologada, não entendo o motivo para se correr riscos desnecessários. Porém, cada um faz o que quiser com a sua vida, né? Se eu tivesse que dar uma dica de programa completo por Paranapiacaba ao leitor do Bonas Histórias, diria: viaje pelo Trem Turístico; assim que chegar ao distrito, vá diretamente à Associação dos Monitores Ambientais de Paranapiacaba (e não ao Centro de Visitantes do Parque Nascentes de Paranapiacaba) e escolha uma trilha de até duas horas de duração; faça a caminhada ainda de manhã e retorne imediatamente ao Centrinho de Paranapiacaba; aí aproveite para explorar as ruas da Vila Velha e da Vila Nova; almoce na Parte Baixa; à tarde, visite alguns lugares emblemáticos do distrito, como o Mercado com Feira do Cambuci, o Museu Castelo, o Relógio da Estação, a Casa Fox, o Museu Funicular, o Campo de Futebol do Serrano e as Casas Históricas da Rua Nova; por fim, espere a chegada na névoa no alto da Passarela Metálica até o horário do embarque do trem de volta para São Paulo. Acho que essa seria a minha agenda ideal de um dia por Paranapiacaba. Falando em plano perfeito de viagem, fica a questão: qual é a melhor época para se conhecer Paranapiacaba, hein? Indo contra a minha alma taurina, minha resposta vem ao melhor estilo libriano: depende! Eu gostei muito de visitá-la no Inverno. Conhecer uma vila histórica inglesa no frio tem lá seu charme. Além disso, como tradicionalmente essa é a época com menos chuvas, dá para fazer trilhas sem medo de imprevistos meteorológicos. Para completar, o distrito promove vários eventos na Temporada de Inverno. Aos finais de semana de julho, por exemplo, há festivais gastronômicos, encontros culturais, sessões musicais e até convenções de bruxas. Acho que não contei, mas Paranapiacaba tem uma atmosfera meio sobrenatural. Basta caminhar pelas ruas no entardecer para você se sentir em um filme de terror. Por tal perspectiva, a visitação das bruxas faz todo o sentido e confere uma ambientação diferenciada à vila. Por outro lado, no Verão, é possível aproveitar as trilhas para entrar nas cachoeiras e lagos de águas cristalinas da região. Um bom trilheiro que se preze dá valor aos banhos nos riachos – beijo, Menina Mara! Mesmo nos dias mais quentes, a temperatura sempre fica em um patamar agradável. Raramente se passa dos 25º C em Paranapiacaba, mesmo no auge do Verão paulista. Assim, não há chance de você sucumbir ao calorão de dezembro ou janeiro no alto da Serra do Mar. Quem não gosta de extremos de temperatura, acho que vai preferir o “calorzinho” de Paranapiacaba à sua friaca de meio de ano. Se você sentiu falta de dicas gastronômicas sobre Paranapiacaba nesse meu post da coluna Passeios, acho que vou ficar devendo mais informações sobre esse assunto. Como fiquei apenas um dia no distrito (no caso, foi só metade de um dia percorrendo a Vila Velha e a Vila Nova), não posso indicar os bons e os maus estabelecimentos para se comer e beber. Sinto muito! Embarcar no conteúdo da coluna Gastronomia em tão pouco tempo explorando o vilarejo inglês de Santo André seria uma temeridade e, por que não, uma injustiça da minha parte, equívocos que não quero cometer de maneira nenhuma com os leitores do Bonas Histórias. O que posso falar com alguma propriedade é da minha impressão inicial. Como os restaurantes, bares, cafés e lanchonetes da Parte Baixa ficam em casinhas simples e antiguíssimas, é difícil dizer se o lugar é bom ou ruim só pela aparência – julgar o livro pela capa é um hábito que tenho e que imagino que as torcidas do Corinthians e do Flamengo também tenham. Afinal, tudo parece simplório demais em Paranapiacaba (que os historiadores não me leiam...). O único lugar gastronômico mais bonitão que vi, com uma arquitetura contemporânea que foge bastante do padrão de Paranapiacaba (pela perspectiva histórica, ele é um atentado urbanístico), é o Bar da Zilda. Ele fica no comecinho da Rua Direita e no final da Rua da Estação, bem no Largo dos Padeiros. Apesar de possuir preços mais altos do que o praticado nas redondezas, o Bar da Zilda me pareceu o estabelecimento mais apetitoso para uma refeição parruda ou para um tira-gosto entre amigos. E, o que é importante para quem passou tanto tempo caminhando, ele oferece um conforto que os turistas mais exigentes querem receber e não encontro na maioria dos restaurantes e bares. Quem não quer arriscar o certo pelo duvidoso, a opção mais segura é, disparadamente, o Bar da Zilda. O restante dos estabelecimentos culinários tem, como disse, aspecto antigo e não oferecem tanto conforto, o que pode espantar as almas mais melindrosas. O ideal seria explorar com mais atenção o lugar para separar o joio do trigo, mas normalmente os turistas (estou nessa categoria) não possuem tanto tempo. De maneira aleatória, visitei com meus amigos apenas dois pontos gastronômicos em Paranapiacaba: a Casa de Chá Raízes da Serra e o Tô na Pista II. A Casa de Chá Raízes da Serra é um café muito simpático na Avenida Fox. Fomos ainda de manhãzinha lá e tomamos um chocolate branco quente simplesmente maravilhoso. Confesso que nunca tinha provado chocolate branco quente e aprovei a experiência (ele é feito na hora e leva barras efetivas de chocolate). O problema foi o preço: R$ 18,00 o copinho de mais ou menos 250 ml. Achei caro até mesmo para o padrão de uma região turística. Mas a qualidade era absurdamente boa (diria muuuuuito boa) e ele veio fervendo (nem mesmo a caminhada pelas ruas frias da Vila Nova o esfriou). Assim, o custo-benefício valeu o investimento. No cair da noite, resolvemos jantar em uma lanchonete/hamburgueria na esquina da Avenida Fox com a Rua Rymkiwicz (não sei se é mais difícil escrever ou falar o nome dessa via!). Acho que o nome do lugar era Tô na Pista II. Bem próximo à Casa de Chá Raízes da Serra, a lanchonete/hamburgueria tinha uma estrutura tão espartana que não possuía seu nome estampado em muitos lugares no lado de fora nem no lado de dentro. A sensação era que ele era novinho/recém-inaugurado, por isso a falta de cuidado na divulgação da marca. Seus preços eram mais adequados: hamburguers de R$ 17,00 a R$ 20,00, pratões de sopa de R$ 20,00 a R$ 25,00 e porções gigantescas de batata frita para quatro ou cinco pessoas por R$ 30,00. Aí o problema foi a qualidade baixa. Sabe quando o barato sai caro? Foi o que aconteceu. Ou a comida servida no Tô na Pista II ficava muito a desejar ou os sanduíches mexicanos que provamos no meio da trilha estavam deliciosos e exterminaram a concorrência (abraço, Chef Alan). Tive a sensação de que se come bem e se paga caro ou se come mal e se gasta pouco em Paranapiacaba. Mas como disse anteriormente, essa foi só uma impressão inicial que tive. Se você tiver outras experiências gastronômicas pelo distrito inglês de Santo André, por gentileza, compartilhe conosco no campo de comentários. Em minha próxima visita, quero me dedicar mais a culinária local, algo que senti que faltou em minha estreia do domingo retrasado. Em suma, gostei muito de Paranapiacaba. Fui por causa da trilha e o que mais gostei foi de ter conhecido as histórias riquíssimas da Vila Martin Smith e da São Paulo Railway. O passeio vale sim muito a pena. Quero voltar mais algumas vezes lá para explorar as novas trilhas (ainda farei a Trilha do Mirante e, quem sabe, a Trilha Raiz da Serra) e me enveredar por sua gastronomia (que deve esconder atrativos que não pude desvendar em tão pouco tempo). O único ponto negativo da visitação foi constatar que o Turismo é ainda uma área amadora no Brasil e em São Paulo. Um distrito com tanta riqueza histórica e arquitetônica e com tanto potencial turístico é ainda explorado de um jeito tacanho pelas esferas públicas. Com um pouco mais de zelo, investimento e profissionalismo, Paranapiacaba poderia ser uma atração ainda mais divertida, impactante e memorável para um número maior de visitantes. Algo que, infelizmente, ainda estamos muito, mas muito longe de ver em nosso país e em nosso Estado. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















