top of page

Sistema de Pesquisa

Resultados encontrados para busca vazia

  • Talk Show Literário: Dirceu de Marília

    Na quinta entrevista de 2022, Darico Nobar conversa com o eu lírico de Marília de Dirceu, livro clássico de Tomás Antônio Gonzaga e do Arcadismo Brasileiro. [Após a vinheta do programa, as câmeras de TV mostram dois homens sentados lado a lado em cadeiras simples. Eles estão em uma construção de estilo colonial com paredes brancas. Ao fundo, é possível ver, através da abertura de uma ampla porta oval, o azul do mar e o forte sol que ilumina a paisagem]. Darico Nobar: Oi, amigos do Brasil!!! [Faz aceno entusiasmado com a mão esquerda]. Antes que alguém estranhe a dinâmica de hoje, preciso dizer que este Talk Show Literário está diferentão. Ao invés de uma entrevista ao vivo, nossa atração está sendo gravada. E ela não ocorre nos estúdios no Rio de Janeiro com a tradicional plateia e com a nossa quase inseparável banda. Eu vim até a belíssima Ilha de Moçambique, ao nordeste de Lourenço Marques, para conversar com Dirceu. Desde que foi exilado, ele vive aqui na África. Como nosso convidado não pode colocar os pés em Vila Rica nem em qualquer povoado do canto português da América e da Europa, viajei para cá para prosearmos tranquilamente. Obrigado por me receber, Dirceu. [Vira-se para o lado com as palmas da mão para o alto]. É muito bom te reencontrar. Dirceu de Marília: Que feliz encontro! Tua companhia me dará mais alegria do que a minha, presumo, a ti. [Depois de falar olhando nos olhos do entrevistador, volta-se diretamente para a câmera secundária que capta a cena]. Grato então por esta união de seres conflagrados pela inocência e pela paixão literária. Oh! Bem-aventurados somos! Ditosa condição, ditosa gente, ditosa trela! Darico Nobar: Vamos começar nosso bate-papo falando de sua condenação em Minas. E de seu exílio em Moçambique, é claro. O que você tem a nos dizer, Dirceu? Dirceu de Marília: Não praguejo, Darico, não praguejo. A justiceira mão dos homens que lança os ferros não traz debalde a vingadora espada. Deve punir os erros. Virtudes de juiz, virtudes de homem. As mãos se deram e em meu peito moram. Manda prender ao réu austera a boca, mas meus olhos choram. Se à inocência denigre a vil calúnia, que culpa aquele tem, que aplica a pena? Não é o julgador, é o processo. E a lei, quem nos condena. Darico Nobar: Você fala de um jeito que, confesso, às vezes eu não entendo... Afinal, você é inocente ou é culpado das acusações recebidas? Dirceu de Marília: Tenho por mim a inocência. Tenho por mim a razão. Darico Nobar: Então você acredita que um dia será perdoado e, quem sabe, poderá voltar à Vila Rica? Dirceu de Marília: Muda-se a sorte dos tempos. Só a minha sorte não. [Após cinco segundos em silêncio, continua]. Não sabemos os fins com que nos move a sábia oculta Mão da Providência. De Jacó ao bom filho, os maus queriam matar. De conselho o muraram. Como escravo o venderam. Quem sabe o destino hoje, ó amigo, me prenda. Só porque nisto de outros mais danos me defende? Pode ainda raiar um claro dia. Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro. E beijo a Santa Mão, que assim me guia. Darico Nobar: Com certeza a Marília está nos assistindo lá no Brasil. O que você gostaria de falar para sua antiga amada? Dirceu de Marília: Eu tinha um coração maior que o mundo! Ela, formosa Marília, bem o sabia. Um coração... e bastava. Onde ela mesmo cabia. Assim vivia... Naquele estado, em que me via, podia cantar à minha pastora. Cumpria o seu desejo. E ao que me restava, supria a paixão e a arte. Hoje em suspiros o canto mudo. Sem o amor de Marília, se acabou tudo. Darico Nobar: Então você não acredita que um dia terá novamente Marília em teus braços? Dirceu de Marília: Não vês que sou um velho respeitável, que à muleta encostada apenas mal se move e mal se arrasta? Oh! quanto estrago não me fez o tempo! O tempo arrebatado que o mesmo bronze gasta. Enrugaram-me as faces e perderam meus olhos a viveza. Voltou-se o meu cabelo em branca neve. Já me treme a cabeça, a mão, o queixo. Não tenho a beleza das belezas que tive. Assim sou hoje, Darico. Que o impiedoso tempo para todos corre. Os dentes caem e os meus cabelos, ah!, sentem os danos. A solução agora só é a morte e a desilusão. Darico Nobar: Como fala bonito este homem, Santo Deus. Até as palavras tristes e amargas se transformam em uma prosa elegante e poética. Você se considera um poeta, Dirceu? Dirceu de Marília: Eu, Darico, não fui nenhum poeta. Sempre fui honrado pastor de aldeia. Vestia finas lãs e tinha sempre a minha choça do preciso cheia. Tiraram-me o casal e o manso gado. Hoje não tenho, a que me encoste, nem um só cajado. De falar, Darico, à formosura, não se podem livrar humanos jeitos. Adornam os heróis, mesmos os mais brutos. Os méritos são de Cupido, sujeito traiçoeiro e vil. Apresenta-nos a beleza sem a luz da razão. E se tem discurso bonito, na certa pisa a lei que nos ditou a natureza. Darico Nobar: Mudemos um pouquinho de assunto, tá? [O convidado balança a cabeça para cima e para baixo]. O que você tem feito de bom aqui na África, meu amigo? Dirceu de Marília: Eu não mais reclamo a falta de liberdade em si. Estando eternamente preso ao mundo dos homens ou às páginas da literatura, sofro só pelas lembranças do passado e pela grade sufocante do presente. Que a mão que me falta do lavrador, ainda padeço a viva dor. Mas quando sobe à minha ideia a memória que ela ficou lá naquela aldeia, de mil cuidados e mágoa cheia, das paixões minhas não sou mais senhor. Eu já não sofro a viva dor de viver de amor. Darico Nobar: Essas são palavras um tanto pessimistas, né?! Dirceu de Marília: Natural quando eu produzo estas ideias, Darico, à penumbra de vis cadeias. Dou um suspiro e corre o meu pranto. E, ainda bebendo as lágrimas tristes, de novo canto – Sou da constância um vivo exemplo. E a vós, ó povo agora distante, honrarei meus dias de amor assassinado pelas ordens dos homens e pelo capricho do tempo. Darico Nobar: Entendo o quão frustrante pode ser a vida no exílio, longe da família, dos amigos e de Marília. Mas conte-nos, por favor, como era sua rotina em Vila Rica antes dos infortúnios da Conjuração. Você era feliz? O que fazia exatamente? Dirceu de Marília: Era bom, caro Darico, era bom ser dono de um rebanho que cobria monte e prado. Eu, amigo, não era vaqueiro que vivia de guardar alheio gado, de tosco trato, de comportamento grosseiro, dos frios gelos e dos sois queimados. Levei-me a sementeira, muito embora o rio sobre os campos levantados acabava, acabava a peste matadora. Sem deixar uma rês, o nédio gado. Já destes bens, amigo, não precisava. Nem me a cega paixão que o mundo arrastava. Para viver feliz, bastava-me Marília que os olhos moviam e me dava um riso. Graças à Marília bela, graças à minha gentil pastora! Darico Nobar: Podemos dizer que foi paixão à primeira vista entre você e Marília? Dirceu de Marília: Minha alma, que tinha liberdade à vontade, depois sentia amor e saudade. [Fala agora olhando para o alto]. Os sítios formosos já não me agradavam mais. Ah, não se mudaram?! Mudaram-me os olhos. De tristes os olhos, de tristes que estou. Eram estes os sítios? Eram estes, mas eu mesmo não era mais. Marília, me chamas? Espera que eu vou! Darico Nobar: Você fala como um homem muuuuito apaixonado! Vou interpretar sua resposta como um sim à minha pergunta. Dirceu de Marília: Infelizmente tudo passa. A sorte deste mundo é mal segura. [Continua a se expressar como se estivesse pensando em voz alta ou em um monólogo]. Se vem depois dos males a ventura, vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos deuses sujeitos ao poder ímpio Fado. Apolo já fugiu do Céu brilhante, já foi pastor de gado. A devorante mão da negra morte acaba de roubar o bem que temos. Até na triste campa não podemos zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulcro, que seus avós erguem descansado? Qual no campo lhe arranca os brancos ossos ferro do torto arado? Ah! Enquanto os destinos impiedosos não voltam contra nós a face irada, façamos, sim façamos, doce amada os nossos breves dias mais ditosos. Um coração que frouxo a grata posse de seu bem diferente. A ela, Marília, a si próprio rouba. E a si próprio fere. Darico Nobar: Acho que entendi. Ou não entendi nada. [Faz uma careta envergonhada e um tanto tímida]. Alterando ligeiramente o tema de nossa conversa, é verdade que você tinha fama de possuir um coração de pedra antes de conhecer Marília? Dirceu de Marília: Oh, cego Cupido, um dia, com seus gênios falava do modo que lhe restava de cativar até mesmo a mim. Depois de larga disputa, um dos gênios mais sagazes, este conselho lhe deu – As setas mais aguçadas, como se em rocha batessem, dão no peito e descem todas quebradas ao chão. Só as graças de Marília podem vencer um tão duro e tão isento coração. Se um dia capturar os sentimentos de Dirceu, na certa a paixão de todos os homens já arrefeceu. Assim, sou fruto e produto das experiências do Cupido. Não tive apelação nem salvo-conduto. Sou a felizarda vítima de suas artimanhas da elucubração. Darico Nobar: E por que publicar uma obra poética com sua história de amor? Dirceu de Marília: Numas noites sossegadas, velhos papéis eu revolvia. E para ver do que se tratavam, um por um a todos lia. Eram cópias emendadas de quantos versos melhores eu compus na tenra idade a meus diversos amores. Neles trazia justas queixas contra as venturas formadas, os cantos de excessos mal aceitos e as doces promessas quebradas. Vendo sem-razões tamanhas, eu exclamava transtornado às finezas tão malfeitas! Por que relíquias não ficam e os intentos pôr no fogo, hein? Então antevi que o Deus cego, com semblante carregado, assim me falava e recriminava o meu intento acertado – Queres queimar esses versos? Essas liras não te foram inspiradas por Cupido? Assim, à queixa respondi – Depois do amor que me deres, a minha Marília bela, devo guardar umas liras que são em honra dela. Darico Nobar: Dirceu, muito obrigado por esse dedo de prosa que você nos concedeu. [Entrevistador e entrevistado se cumprimentam com um forte aperto de mãos]. Acredito que os fãs do Talk Show Literário adoraram este programa especial. Dirceu de Marília: Que diversão que foi, Darico, as horas que passei na discussão sugerida, dessas horas felizes passadas na companhia da gente de minha pátria querida. Darico Nobar: Ficamos por aqui, pessoal. [Olha agora diretamente para a lente da câmera principal]. Agradecemos mais uma vez a audiência e desejamos uma ótima noite a todos. Até semana que vem com mais uma entrevista exclusiva com os memoráveis protagonistas da literatura brasileira. Até lá! [O som ambiente é cortado e entra uma música instrumental. Ao mesmo tempo, a imagem da câmera dá zoom out e vemos os dois homens conversando animadamente na construção à beira-mar. Aí a tela fica escura e entra o top de cinco segundos para o próximo programa]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Contrapartida - O romance de estreia de Uranio Bonoldi

    Publicado em março de 2019, o thriller aterrorizante de Bonoldi apresentou boa vendagem no Brasil e foi traduzido para o inglês e o espanhol. No começo desse mês, fui presenteado com “A Contrapartida” (Valentina), romance de estreia de Uranio Bonoldi. O livro foi enviado por um dos meus melhores amigos, Eduardo Villela. Valeu, Dudu!!! Eduardo é atualmente um dos principais book advisors do país (não sou eu quem diz isso, mas o mercado editorial) e queria que eu conhecesse o trabalho ficcional de Bonoldi, uma das novas revelações da literatura brasileira no gênero do suspense/terror. Se eu não estiver enganado, Eduardo Villela foi o book advisor de Uranio Bonoldi nesse projeto editorial. Por isso, o carinho do meu amigo de infância para com a obra, além da gentileza de ter comprado esse título e me presenteado. Como não consigo resistir a um thriller, ainda mais de um escritor que eu não conhecia, li “A Contrapartida” no último final de semana. E confesso que gostei muito da trama protagonizada por Octávio Albuquerque Júnior, um jovem cirurgião paulistano abalado por segredos e tragédias familiares. Esse livro mistura doses generosas de ação, mistério, romance policial, crítica social, fantasia e drama psicológico. Tudo isso com fortes elementos de brasilidade e com uma narrativa que flerta o tempo inteiro com a dinâmica dos roteiros cinematográficos (cineastas do meu Brasil, olho nesse romance!!!). Gostei tanto dessa obra que resolvi fazer essa análise para a coluna Livros – Crítica Literária. Como é gostoso apresentar aos leitores do Bonas Histórias as boas novidades da literatura ficcional contemporânea do nosso país! Publicado em março de 2019, “A Contrapartida” tem apresentado bom desempenho nas livrarias, algo de certa forma raro para um autor iniciante. Por meses, o título ficcional de Uranio Bonoldi ficou entre os mais vendidos no Brasil em sua categoria, rivalizando com obras de escritores de língua inglesa, que acabam dominando esse gênero. Ou seja, “A Contrapartida” não é apenas um romance de qualidade indiscutível como também conseguiu (o que muitas vezes é a parte mais difícil quando falamos de mercado editorial brasileiro) se conectar com o público leitor. Ponto para Bonoldi. E ponto para Valentina, a editora carioca de aproximadamente uma década e meia que apostou acertadamente nesse romance. Para quem não a conhece, a Editora Valentina é especializada em obras de ficção (distopia, thriller, urban fantasy, romance infantojuvenil, romance feminino e chick-lit) e de não ficção (bem-estar, cultura popular, pet, religiosidade, biografia e steampunk). Sua linha editorial é voltada para o entretenimento do público jovem, grupo chamado atualmente de jovens adultos (obviamente, por motivos mercadológicos), mas que há um tempinho era simplesmente chamado de público infantojuvenil. Do portfólio da editora, destaco a coleção “Para Quem Tem Pressa”. Li “A História do Cinema Para Quem Tem Pressa” (Valentina), de Celso Sabadin, e “A História do Mundo Para Quem Tem Pressa” (Valentina), de Emma Marriott, e os achei excelentes. Voltando a falar de “A Contrapartida”, em 2021, o romance foi lançado em ebook na Loja Kindle nas versões em inglês e em espanhol, o que reforça a aposta da editora e do autor por esse título. Para os próximos meses, há a possibilidade de o livro ser adaptado para o formato de audiobook, o que deverá aumentar ainda mais seu público. Por enquanto, ainda não existe planos para adaptar essa história para o cinema ou para a televisão, apesar do interesse indiscutível de Bonoldi por caminhar nesse sentido. Uranio Bonoldi trabalhou como executivo em grandes empresas nacionais e multinacionais e como professor universitário. Hoje, ele atua como consultor empresarial, palestrante de negócios e coach de empresários, além de ser escritor e possuir um canal no Youtube chamado Influência e Poder. Vivendo na cidade de São Paulo ao lado da esposa e com dois filhos, o autor é fã declarado da literatura de Stephen King (estamos juntos nessa!!!) e da filosofia de James Hollis (não faço a mínima ideia de quem seja!). “A Contrapartida” é seu primeiro romance e nasceu da vontade de Uranio em tratar da questão da tomada de decisão, assunto por ele trabalhado rotineiramente em suas consultorias, palestras e sessões de coaching. Contudo, ao invés de escrever um livro técnico, algo mais teórico, ele optou por romancear a trajetória de vida de uma personagem fictícia que acaba optando por um caminho mais fácil, rápido e polêmico, mas que cobrará mais à frente uma fatura amarga (daí o título da obra). Por essa forte intertextualidade com a questão da tomada de decisão e com o debate sobre como agir dentro da ética no trabalho, na sociedade e nas relações pessoais, “A Contrapartida” flerta o tempo inteiro com os títulos de autoajuda, as obras empresariais e até com a necessidade de transmitir lições de moral ao público leitor. Não à toa, seu subtítulo é: “Um thriller sobre o poder de uma decisão. Qual seria a sua?”. Esse foi justamente um dos pontos que não gostei no livro de Bonoldi. Ou você embarca de cabeça no universo da ficção, independentemente do significado por trás da trama, ou você utiliza a narrativa do romance para apresentar, na própria obra, os detalhes dos conceitos empresariais utilizados – como Roberto Tranjan, por exemplo, sempre fez em seus títulos que mesclam ficção e teoria. Ficar em cima do muro é o que me soa incômodo. Porém, compreendo a escolha do autor. Na certa, Uranio quis atender a dois públicos distintos: quem se interessa por uma boa literatura de entretenimento (o meu caso) e quem procura extrair conceitos empresariais e lições de vida das leituras efetuadas (seus clientes originais). Apesar da minha resistência em relação a essa estratégia, o sucesso comercial do livro indica por si só que as escolhas editoriais foram certeiras. “A Contrapartida” começou a ser escrito em meados de 2016 e levou aproximadamente um ano até ter sua base narrativa concluída. Uranio Bonoldi utilizou suas noites e os finais de semana para produzir os capítulos do romance. Uma vez terminado o texto inicial, o autor precisou de mais dois anos para melhorar a trama, fazer as correções técnicas (algo natural em se tratando do fazer literário) e conseguir uma editora para publicar a obra. O grande esforço e a longa espera parecem ter valido a pena. A receptividade do público tem sido tão positiva em relação à narrativa de “A Contrapartida” que Bonoldi resolveu produzir a continuação dessa história. “A Contrapartida II” será lançado até dezembro de 2021 e dará sequência à trama sinistra de Tavinho, apelido do Doutor Octávio Albuquerque Júnior. Pelo menos é o que o autor promete. Em entrevistas recentes, Uranio Bonoldi garantiu que irá esclarecer, no novo título, alguns pontos que ele deixou propositadamente em aberto no primeiro romance. Sinceramente, não me recordo de um romancista nacional e iniciante que tenha conseguido transformar seu livro de estreia em uma série literária de sucesso. Só por isso, Uranio merece nossos aplausos e nosso reconhecimento. Além disso, é muito legal conferir que o executivo embarcou de cabeça na produção ficcional. Seria Uranio Bonoldi um novo Flavio Cafiero, autor de “O Frio Aqui Fora” (Cosac Naify), no sentido de migrar do universo corporativo para o mundo da literatura?! Torçamos para que sim, apesar de duvidar que Bonoldi abandone inteiramente o dia a dia da vida empresarial como Cafiero fez. Se o escritor de “A Contrapartida” conseguir se dedicar mais tempo aos seus próximos romances (repare que usei as últimas palavras no plural!) e não precisar se limitar às noites e aos finais de semana para produzir seus textos, acho que a literatura brasileira e os fãs do gênero de mistério/terror já ficarão muito agradecidos. O enredo de “A Contrapartida” começa no Outono de 2016. Na região do Parque do Carmo, na cidade de São Paulo, em plena madrugada chuvosa e em meio à mata fechada, Octávio Albuquerque Júnior está em volto a dois cadáveres. Tavinho, como o rapaz de 26 anos é chamado por amigos e familiares, se tornou um dos mais badalados cirurgiões paulistanos apesar da pouca idade. Contudo, nesse momento, ele está desesperado com o que fez. Aquelas mortes parecem brutais. Os corpos estão dilacerados, com cortes no tórax e na cabeça. Com medo de ser pego em flagrante, Doutor Octávio recolhe a caixa metálica que possui algo sinistro e a coloca no interior de sua picape azul-marinho. Seu descontrole emocional é tão grande que ele tem a impressão de estar sendo seguido ou observado no meio da mata. Uma vez no veículo, o protagonista parte em disparada para a casa de Iaúna, no bairro de Santa Cecília. No meio do caminho, aproveita para se livrar das provas que poderiam comprometê-lo à cena do crime. Ao chegar ao destino, o médico retira o conteúdo da caixa e o acondiciona adequadamente em uma ala secreta da residência. Exausto, mas aliviado por ter cumprido sua missão naquela madrugada, Octávio ruma, enfim, para sua cobertura na Alameda Santos. Tudo o que ele quer é descansar e esquecer das últimas horas, muito provavelmente as mais angustiantes de sua vida. Nos capítulos seguintes, a trama do livro regride 12 anos. Na Primavera de 2004, Tavinho é um estudante da 8ª série do ensino fundamental. O garoto é filho único de Cristina Costa Albuquerque, executiva de um banco multinacional europeu, e Octávio Albuquerque, professor de História e Sociologia em importantes escolas privadas e faculdades da cidade de São Paulo. Contudo, o pai de Tavinho faleceu quando o menino tinha apenas 4 anos de idade. Ele foi vítima de um latrocínio no meio do trânsito paulistano. Após ser assaltado, e mesmo não reagindo ao crime, o Professor Octávio recebeu um tiro do ladrão. Assim, desde pequeno, Tavinho foi criado pela mãe e por Iaúna, uma senhora indígena que trabalha como governante na residência dos Costa Albuquerque desde que veio do Amazonas. Aos 13 anos, o drama de Tavinho é ir mal na escola. Apesar de se esforçar bastante, de estudar incansavelmente e de contar com o auxílio de professores particulares, o menino não consegue tirar boas notas. No último ano, por exemplo, ele só passou por intervenção do diretor, que era muito amigo do pai do garoto. Agora, o Professor Firmino, que além de diretor é professor de História, diz que não poderá facilitar a vida de Tavinho. Ou o filho de Cristina melhora ou repetirá de ano. Se as coisas não estavam fáceis para o jovem estudante, elas pioram quando ele passa ridículo em uma chamada oral do Professor Firmino. Os erros de Tavinho são tão bisonhos que ele se torna alvo do bullying dos colegas, que não perdoam suas respostas estúpidas nas aulas. Abalado com o fracasso escolar, Octávio Júnior confessa, certo dia, suas preocupações para Iaúna. A indígena, que é maluca pelo garoto desde que ele nasceu, não se aguenta e o encaminha, em segredo, para um ritual mágico e tradicional dos Moxiruna, sua tribo natal. Nesse ritual, Iaúna faz Tavinho beber um elixir, uma infusão cujo líquido meio gelatinoso desperta a inteligência e o vigor físico de quem o ingere. Já nos dias seguintes, Tavinho comprova os efeitos milagrosos do elixir. Para sua felicidade, ele se torna o aluno número 1 do colégio, sendo admirado pelos professores e pelos colegas. Nunca o menino foi tão feliz como nas semanas seguintes à participação no ritual dos Moxiruna. Mais autoconfiante, ele consegue até namorar Martha Moss, a garota mais bonita do colégio. Com a inteligência aflorada, o protagonista já começa a traçar planos para o futuro: ele quer ser médico e salvar muitas vidas; quer se casar com Martha e ter muitos filhos; e quer dar orgulho para Cristina e para Iaúna, que é uma espécie de segunda mãe dele. Porém, a vida idílica de Tavinho só tem um (ou dois) probleminha(s). O efeito do elixir tem uma duração limitada, entre três e quatro meses. Depois disso, a inteligência e o vigor físico do garoto voltam ao normal, o que o levam ao desespero. Para resolver isso, basta fazer uma nova sessão xamânica. A questão é que Tavinho fica sabendo que os principais ingredientes da infusão são coração e cérebro humanos, que precisam ser extraídos poucas horas antes do ritual. Ou seja, a cada sessão xamânica, Iaúna precisa praticar ao menos um assassinato. Tendo ciência disso, seria ético da parte de Octávio Albuquerque Júnior seguir com aquelas práticas?! As mortes de inocentes justificariam seus êxitos escolares e profissionais advindos da melhora cognitiva?! Esses são os novos conflitos da personagem principal do romance. “A Contrapartida” possui 336 páginas e 57 capítulos. Seu conteúdo está dividido em quatro partes: “Como Tudo Começou”, “Marcas que Ficam”, “Sem Volta” e “A Busca, o Vazio”. Nota-se o cuidado que o autor teve para deixar o romance extremamente simétrico. As seções principais do livro têm mais ou menos o mesmo número de páginas (entre 69 e 99) e de capítulos (entre 13 e 15). Por isso, a divisão das partes me pareceu respeitar muito mais o equilíbrio estético do que acompanhar o enredo da obra. Além do conteúdo central do romance, temos nessa publicação o prefácio de Luciano Milici, autor de “Diário de Um Exorcista” (Generale), orelha escrita pelo cineasta Lion Andreassa e referenciais na quarta capa de Amyr Klink (presente também na cinta de divulgação do livro) e Babi Dewet, autora das séries “Sábado à Noite” (Generale) e “Cidade da Música” (Gutenberg). Como a trama de “A Contrapartida” é bem-amarrada, tem linguagem acessível e não faltam mistérios para serem descobertos pelo leitor, sua leitura é rápida e muito agradável. Levei aproximadamente oito horas e meia para ir da primeira à última página do romance nesse sábado. Para quem não é chegadinho às longas sessões de leitura, acredito que esse livro possa ser degustado tranquilamente em dois ou três dias/noites. Isso é, se você conseguir aguentar a espera. Não deve ser fácil ter que adiar a descoberta dos segredos da narrativa de Tavinho. Como sou dos mais curiosos quando o assunto é ficção, li o livro de Uranio Bonoldi em um dia só. O primeiro elemento que me chamou a atenção em “A Contrapartida” foi seu projeto gráfico. Ele é cuidadoso e instigante. Destaque para a capa desenvolvida por Raul Fernandes. Ela possui uma pegada visceral e dramática. O pulso sangrando da foto emula um coração extirpado, o que dialoga intimamente com o enredo do romance. Para quem gosta de um bom thriller de terror é impossível ver essa imagem na estante da livraria e não ficar interessado em ler o livro. Ainda no quesito aspecto visual, repare que o título da obra aparece cortado na capa – está grafado “Contra-partida”. Dividir o nome da publicação na capa não é um recurso comum no mercado editorial, mas caiu muito bem aqui. Afinal, se o romance aceita despedaçar o seu nome logo de cara, o que não teremos de violência, agressão, mutilação e assassinato ao longo dos capítulos, hein? Outra questão que merece muitos elogios é o primeiro capítulo de “A Contrapartida”. Ele é simplesmente genial. Arrisco a dizer que se o livro inteiro tivesse essa qualidade (infelizmente, não tem), ele seria digno de premiação. Uranio Bonoldi se esmerou em construir um texto convidativo, instigante e com ótimos recursos narrativos. Destaco a maravilhosa ambientação (ao melhor estilo noir), o uso do narrador quase como uma câmera cinematográfica (a impressão é que estamos assistindo a cenas de um filme hollywoodiano), a multiplicação das sensações do protagonista (texto bastante sinestésico) e as várias peças de suspense deixadas propositadamente no meio do caminho (gatilho fundamental dos thrillers). A pergunta que fica na cabeça dos leitores é: Meu Deus, o que está acontecendo?! Esse é o típico livro que se você ler o primeiro capítulo não irá querer interromper a leitura por nada. Desde o começo do romance, nota-se a forte brasilidade de sua trama. Esse é um dos aspectos mais legais de “A Contrapartida”. Bonoldi usa e abusa da realidade e do contexto social do seu país para ancorar a narrativa ficcional. Esse recurso poderia até parecer uma opção óbvia por parte de um autor brasileiro, mas não é. Não faltam romancistas nacionais que tentam imitar as ambientações, as personagens, os cenários e as dinâmicas sociais construídas pelos títulos estrangeiros. Ainda bem, não é o caso aqui. Em “A Contrapartida”, temos a exploração de vários subtemas que são a cara do nosso país. De cabeça, posso citar: a ação criminosa dos garimpeiros na Amazônia; o preconceito ao indígena e à sua integração social; a violência urbana; a degradação das grandes cidades brasileiras (no caso, São Paulo); a violência policial; a incompetência e a inoperância da investigação de crimes; as injustiças praticadas pelos tribunais legais; a cultura do fazer justiça com as próprias mãos; o bullying escolar; o desinvestimento em pesquisa; a sabotagem à saúde pública; o interesse individual ou empresarial se sobrepondo às necessidades coletivas; a gritante desigualdade econômico-social; etc. É ou não é a cara do nosso Brasil varonil, hein?! Como consequência a essa overdose de brasilidade, temos também um texto muito engajado. O narrador – em terceira pessoa e (quase totalmente) onisciente e onipresente – não se furta em dar sua opinião sobre as atitudes das personagens e as consequências das mazelas nacionais. Normalmente, eu não gosto dessa imposição do narrador em relação ao contexto da narrativa e à sucessão dos fatos transcorridos na trama. Acredito que o leitor é quem deva tirar suas próprias conclusões, não precisando receber nada muito mastigado. Entretanto, admito que em “A Contrapartida” esse engajamento do texto combinou com a proposta do livro e, principalmente, com a dinâmica do enredo. O suspense da narrativa é construído essencialmente pelo uso constante do flashback. A trama é apresentada em um ponto temporal avançado (In Media Res), o que causa naturalmente inquietação, dúvida e curiosidade no leitor. Na sequência, o romance volta no tempo para contextualizar aquela cena futura e torná-la compreensível (o que se dá apenas nos capítulos finais). Contudo, Uranio Bonoldi vai além e aproveita esse regresso temporal para reconstruir a história não apenas do protagonista, mas também de outras personagens importantes do romance. Assim, temos uma sucessão quase que interminável de flashbacks. Através desse recurso, acompanhamos atentamente o passado de Iaúna desde a adolescência; as escolhas de Cristina Costa durante o período da faculdade; e o dia a dia do Professor Octávio Albuquerque, o pai de Tavinho, logo após conhecer Cristina. Portanto, “A Contrapartida” é uma narrativa que é apresentada em diferentes estágios de tempo. Tudo depende do capítulo – podemos estar em 2016, 2004, 1995 etc. O mais legal é que o livro não segue a ordem cronológica dos fatos. Em outras palavras, cabe ao leitor situar os acontecimentos. O narrador se desloca para perto das várias personagens capítulo a capítulo. Esse recurso me lembrou muito os romances de Isabel Allende e de Noah Gordon, mestres em caminhar para frente e para trás em suas histórias e em desgrudar livremente dos protagonistas ao seu bel prazer. É verdade que as duas premissas do enredo de “A Contrapartida” (1 - protagonista se vale de subterfúgios fantasiosos e eticamente questionáveis para se tornar superdotado; e 2 - personagem faz justiça com as próprias mãos) não são tão originais assim. Há vários livros e filmes com essas mesmas propostas. No primeiro caso (poderes especiais obtidos de maneira sorrateira), posso citar “Sem Limites” (Limitless: 2011), longa-metragem baseado no romance “The Dark Fields” (sem edição em português) de Alan Glynn, “A Maldição” (Thinner: 1996), filme desenvolvido a partir do romance “A Maldição do Cigano” (Suma das Letras) de Stephen King, e o clássico “O Homem Invisível” (L&PM Pocket), obra de H. G. Wells que vira e mexe ganha uma nova versão cinematográfica (a última foi o excelente longa de Leigh Whannell). Quando a questão é fazer justiça por conta própria (segundo caso), a lista é maior ainda e passa por “O Doutrinador” (2018), HQ de Luciano Cunha que foi parar no cinema recentemente, “A Peste das Batatas” (Pomelo), romance de estreia de Paulo Sousa, “1Q84” (Alfaguara), série literária de Haruki Murakami, e tantos outros títulos. Seria, então, a falta de criatividade um demérito de “A Contrapartida”? Acho que não. O valor dessa obra está na maneira perspicaz com que Uranio Bonoldi conseguiu apresentar a trama. Por exemplo, ao longo do romance, o conflito sofre alterações sutis (um expediente nem sempre fácil de se obter) e ganha novas tonalidades. No começo da obra, a pergunta que o leitor se faz é: o que está acontecendo no primeiro capítulo? Algumas dezenas de páginas depois, já é possível compreender mais ou menos o que se passou no bosque do Parque do Carmo. A nova dúvida que surge é: será que Tavinho continuará com os rituais indígenas propostos por Iaúna?! Outra vez, essa pergunta é respondida em alguns capítulos. Aí temos uma nova interrogação: o que esse estilo de vida trará de consequência para o protagonista? Mais à frente, outras questões serão formuladas. Só não as exponho porque corro o risco de soltar o spoiler. O fato admirável é que, de alguma forma, o conflito vai se transformando, o que alimenta sistematicamente o suspense do livro e renova o interesse dos leitores pela trama. Por falar em spoiler (fique calmo, eu não o exponho!), o desfecho de “A Contrapartida” é sensacional. Mesmo o leitor mais experiente que consiga sacar uma ou outra coisa do desenlace, ainda sim ficará surpreendido com as páginas finais desse romance. Na verdade, temos aqui um livro que traz reviravoltas até o último parágrafo, a última linha, a última palavra. Incrível!!! Realmente, “A Contrapartida” é uma bela narrativa de suspense e de terror. Essa obra possui muito mais méritos do que defeitos, algo raro para um autor iniciante. Mesmo assim, é inegável que haja alguns probleminhas de ordem narrativa que precisam ser abordados nesse post do Bonas Histórias, por mais que o Eduardo e o Uranio possam ficar chateados comigo. A primeira falha desse livro está em algumas passagens inverossímeis. Para ser exato em meu comentário, achei várias cenas, diálogos, situações, personagens e contextualizações que são difíceis de engolir. Vejamos agora algumas dessas passagens. Será que um estudante inseguro e acuado irá questionar as palavras do professor como Tavinho fez em plena chamada oral? Duvido. E é normal uma estudante de Administração de Empresas de uma faculdade de classe média alta de São Paulo fazer estágio em um assentamento indígena em plena Floresta Amazônica? Não. E é crível um aluno vítima de bullying escolar voltar para a casa e contar imediatamente seu drama para a família e para os funcionários domésticos? Também não. Infelizmente, são várias as cenas desse título que atinam contra a lógica: professor convida o estudante que está prestes a repetir de ano para participar de uma gincana intercolegial após algumas respostas acertadas em UMA aula APENAS; policiais contam para uma senhorinha simpática e solícita os segredos da delegacia em troca de alguns quitutes; uma jovem de classe média dá a casa em que seus pais moraram para a empregada doméstica que trabalhou alguns anos na família; e os alunos respondem para o professor em coro: “Sim, mestre”. Confesso que tive dificuldade para acreditar nessas construções ficcionais (não é porque uma história é ficcional que podemos abolir a lógica da realidade). Em função do número de passagens inverossímeis, acabamos nos perguntando: pode isso, Arnaldo?! Quer mais exemplos de possíveis contradições? Então, toma aí. A narrativa diz que o aluno estava no nono ano do ensino fundamental em 2004. Como isso é possível se o nono ano só foi decretado em 2006, hein? Pode-se dizer que havia a Cracolândia em São Paulo em meados da década de 1990? E há temporada de esqui na Nova Zelândia na virada do ano, período de pleno Verão (os países da Oceania estão no hemisfério sul)? Sinceramente, não sei as respostas corretas para essas questões. Ainda nessa linha da inverossimilhança, muitos diálogos parecem artificiais, desnecessários e até mesmo repetitivos. Nota-se a falta de experiência do autor para iniciar a cena no ponto exato (momento mais relevante da trama) e de trocar o discurso direto (muitas vezes arrastado quando já sabemos o que será dito) pelo indireto ou pelo indireto livre (mais sintéticos) em várias passagens. Uranio Bonoldi tem o vício de descrever a cena e de reproduzir as conversas desde o instante em que as personagens surgem no cenário. Muitas vezes, o ideal seria simplesmente cortar para o momento chave, reproduzindo apenas aquilo que é importante para a história. É o famoso erro que chamo “de levar as personagens para o banheiro”. Não é preciso recriar a rotina detalhada de alguém para entendermos o que está acontecendo em sua vida (sabemos que todo mundo come, bebe e dorme, não precisando apresentar em um romance a rotina detalhada do indivíduo). Por falar em personagens, temos em “A Contrapartida” uma enxurrada de figuras caricatas. Essa característica acaba prejudicando a qualidade da história, que é naturalmente muito boa. Quando temos exclusivamente personagens planas, sejam elas boazinhas demais ou mazinhas demais, acabamos caindo na vala comum do maniqueísmo. Até mesmo o herói (com elementos de anti-herói, é verdade) e os vilões (no plural porque são mais do que um ao longo da trama) acabam tendo características que os aproximam mais das personagens planas do que das redondas. A construção de figuras um pouco mais contraditórias (contraditórias realmente, não apenas na aparência) faria bem para o romance. Além disso, não acho que o enredo do livro precise explicitar os gatilhos que levam as contradições das personagens. O ser humano é contraditório por natureza. Portanto, o escritor não precisa dar desculpas para essas inconsistências. O principal problema de “A Contrapartida” está mesmo no foco narrativo. Logo de cara, é estranho um romance contemporâneo de suspense ter um narrador em terceira pessoa onisciente e onipresente. Afinal, se ele está em todos os lugares e sabe de toda a história, como construir o mistério? Aí alguém pode responder: isso é possível sim, basta o narrador ficar colado exclusivamente ao protagonista. Sim, essa definição está perfeita. A questão que me intrigou é que em “A Contrapartida” o narrador tem acesso aos pensamentos, às ações, aos sentimentos e ao passado de várias personagens simultaneamente. Ou seja, ele não fica colado ao Tavinho. Se o narrador sabe de tudo e está presente em todos os lugares, qual a razão da omissão de algumas partes essenciais do enredo?! Sinceramente, não entendi. Como narrativa literária, esse livro ganharia em força e em qualidade com uma escolha mais adequada do tipo e do alcance do narrador. Até porque o uso de flashback foi muito bem-feito e conseguiu potencializar os mistérios. Como já falei, mesmo com um tropeçãozinho aqui e outro acolá, “A Contrapartida” é uma ótima leitura. Vamos torcer para que o próximo volume dessa série venha ainda melhor. Essa história é muito boa e merece uma continuação. Prometo que quando “A Contrapartida II” for publicado, retornarei à coluna Livros – Crítica Literária para comentá-lo com a devida atenção. Aguardemos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: O Velho e o Menino, o Rio - O romance de estreia de José Carlos Martins

    Lançada em setembro de 2022, esta narrativa histórica é ambientada no interior de Minas Gerais e traz a amizade de um velho vendedor de mel com um menino de rua. Acredito que há algo de muito positivo acontecendo na literatura mineira. Minha impressão é decorrência do grande número de livros ficcionais de autores de Minas Gerais que recebi nos quatro últimos meses. Como crítico literário especializado em títulos de ficção, eu ganho normalmente muitas obras para avaliar. Até aí, nada demais. A curiosidade é que, de julho para cá, mais da metade das publicações literárias que me foram enviadas tem a assinatura de escritores mineiros. O que estaria se passando, hein?! Ou a literatura de Minas está bombando ou o Bonas Histórias entrou definitivamente no radar de editoras, assessores de imprensa, artistas e agências de comunicação desse pedacinho querido do Brasil. Estou trazendo esse assunto hoje para a coluna Livros – Crítica Literária porque uma das obras mineiras mais legais que tive a oportunidade de ler neste ano foi “O Velho e o Menino: o Rio” (Cria Editora), romance de estreia de José Carlos Martins. Natural do Sul de Minas, Martins teve uma longa carreira no judiciário federal e na docência universitária. Por grande parte da vida adulta, a literatura ficou em segundo (ou mesmo em terceiro, quarto...) plano na rotina do autor. O fazer literário era exercido meramente como hobby ocasional. Contudo, quando o SITRAEMG (Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal do Estado de Minas Gerais) lhe concedeu o prêmio de melhor conto, em 2008, para “Sorriso de Ditinho”, sua primeira narrativa curta, uma luz acendeu na mente do escritor mineiro. Talvez José Carlos Martins levasse jeito para a produção ficcional e não soubesse de seu real talento, né? Mesmo assim, nos dez anos seguintes, Martins só produziu mais um conto. Com a aposentadoria em 2018, ele resolveu mergulhar com afinco nos prazeres e nos desafios do fazer ficcional. Dessa forma, saiu de cena o professor de Direito da Universidade de Alfenas (UNIFENAS) e o profissional da Vara do Trabalho de Alfenas. E entrou no palco literário nacional o romancista com um texto elegante e uma narrativa saborosíssima. Lançado em setembro de 2022, “O Velho e o Menino: o Rio” nasceu de “O Vendedor de Mel”, justamente aquele segundo conto que José Carlos Martins tinha desenvolvido em 2010. A partir da trama curtinha de um senhor septuagenário que percorria as ruas de uma pequena cidade do interior de Minas ao lado de um menino de rua carente de afeto e de atenção, o escritor construiu uma narrativa mais longa e encorpada. O conto deu lugar, assim, ao romance histórico. E o autor amador deu passagem ao romancista profissional. Com todo o respeito que o judiciário nacional merece (algo esquecido por tanta gente nos últimos anos nesse cantinho azedo do mundo), acho que a literatura brasileira ganhou bastante com a troca de papéis de Martins. “O Velho e o Menino: o Rio” foi publicado pela Cria Editora. Fundada, em 2008, em Alfenas, essa casa editorial se dedica à literatura infantojuvenil. A trama de José Carlos Martins é ambientada na cidade fictícia de Conceição de Itororó e se passa essencialmente no ano de 1970. Contudo, a inspiração do romancista foi sua terra natal, Areado. Nascido e criado no pequeno município do Sul de Minas (só mais tarde ele se mudou para Guaxupé e, depois, para Alfenas, onde reside até hoje), Martins aproveitou o ar bucólico, os causos, os tipos populares, a religiosidade, o conservadorismo e a paisagem de Areado para criar Conceição de Itororó. Obviamente, o colorido da trama é pontuado pelas lembranças da infância do autor em sua cidade de origem. O enredo de “O Velho e o Menino: o Rio” começa em 1970. Manuel Vieira Vasconcelos de Quental é um senhor septuagenário que nasceu em Portugal e foi criado desde pequeno no Brasil. Ele percorre as ruas de Conceição de Itororó, pequena cidade do interior de Minas Gerais, vendendo mel. Manuel tem como companhia Francisco, um menino sem casa e sem família. Enquanto o garoto alegra os clientes cantando e tocando violão, o velho dá conselhos ao pequeno amigo e lhe fornece comida e carinho. A amizade da dupla é sincera e pura. A trama do romance é contada, na maior parte das páginas, pelo vendedor de mel. Ele fala sem parar enquanto caminha pelas ruas mineiras. Encantado com a atenção conferida por Francisco, Manuel relata sua trajetória de vida e o passado de seus familiares, além de apresentar sua visão de mundo, as opiniões, as crenças (ou descrenças, já que ele é um ateu convicto e um anarquista inveterado) e as curiosidades da cidade onde cresceu e sempre viveu. Quando a memória é fustigada, as palavras do narrador retornam para maio de 1897. Essa é a data em que Manuel nasceu. Ele é filho de António José de Quental e Isabel Maria Vieira Vasconcelos. A família vive na aldeia de Cancelos de Baixo, ao norte do Distrito de Guarda, Portugal. O clã Vieira Vasconcelos trabalha produzindo vinho. Porém, com o falecimento de Isabel após o parto de Manuel, António resolve abandonar a propriedade dos sogros e viaja com o filho recém-nascido para o Brasil. Depois de chegar ao Porto de Santos, a dupla ruma para a Vila do Itororó, então povoado da comarca de Rio Pequeno, em Minas Gerais. Ali, António instala-se com o pequeno Manuel na Fazenda da Cachoeira, uma das propriedades da região que se dedica ao cultivo do café. Acostumado a lida no campo, o pai do protagonista rapidamente se ambienta ao novo país e ao novo ofício e se torna funcionário importante na fazenda banhada pelo Rio Itororó. Não demora e António se casa pela segunda vez. O novo matrimônio é com Maria Cândida Bittencourt Antunes, irmã de um advogado importante no povoado e filha do Barão de Itororó. Com Candinha, como a esposa é chamada carinhosamente por todos, António tem mais três filhos: João Antônio, José Antônio e Maria Antonieta. Dessa maneira, Manuel tem uma família de verdade. Candinha é a mãe afetuosa e dedicada que o menino até então não teve. E a chegada de um trio de irmãos mais novos dá vida ao lar dos Antunes de Quental. Com o pai cada vez mais relevante aos olhos dos proprietários da plantação de café, Manuel ganha o direito de estudar. O menino adora ler e se dedica bastante à escola montada na Fazenda da Cachoeira. Contudo, ele só consegue avançar até o quarto ano primário. Nem mesmo a limitação na formação acadêmica limita a sede de conhecimento do garoto. Manuel continua frequentando a escola seja para ler os livros da biblioteca nas horas de lazer, seja para ajudar as crianças menores no processo de alfabetização e letramento. Dessa maneira, o protagonista de “O Velho e o Menino: o Rio” se torna mestre-escola. A paixão por ensinar e por ler só é comparada ao que Manuel, uma vez adulto, sente por Mariana. Um encontro fortuito e um passeio de mãos dadas na praça já são suficientes para o rapaz vislumbrar uma vida inteira ao lado daquela moça bonita e de boa família. Enquanto conta ao pequeno Francisco seu passado e sua trajetória de vida, o narrador-protagonista também relata o crescimento da Vila do Itororó. A localidade emancipa-se da comarca de Rio Pequeno e se torna um município independente. O novo nome da cidade é Conceição de Itororó. Manuel também fala ao amiguinho sobre as curiosidades dos moradores do interior de Minas Gerais. Bom de prosa, a personagem principal do romance não se cansa de relatar as confusões e as particularidades dos moradores mais engraçados de Conceição de Itororó. Aí entra em cena figuras curiosíssimas: Zé Côco, irmãos Maior e Menor, Seu Antenor da Coberta, Joaquim Poeta, Zé d´Aurélio, Pai Preto e tantos outros. Para completar, Manuel não perde a oportunidade de expor o quão contraditório e sem sentido são os dogmas do Cristianismo. O antigo mestre-escola, agora vendedor de mel, argumenta sobre a falta de sentido na crença divina e nos relatos bíblicos. O ateísmo de Manuel leva geralmente o Padre Messias ao desespero. E aproveitando que está criticando as instituições religiosas, por que não mostrar para Francisco as mazelas sociais, políticas e ambientais do Brasil, hein? Assim, o narrador-protagonista faz uma bela contextualização político-histórica (Guerras Mundiais, Crise do Café, Imigração Europeia para a América, Chegada do Homem à Lua, Golpe Militar etc.) e enumera as injustiças e os erros contidos na terra em que vive desde pequeno. Para os olhos de alguém desacostumado com as particularidades do Brasil, nosso país pode parecer mesmo um grande hospício. “O Velho e o Menino: o Rio” possui 240 páginas e está dividido basicamente em três partes. Na primeira (de um único capítulo), assistimos a um flash do menino Francisco ao lado do vendedor de mel em Conceição de Itororó. Na segunda seção do romance (com 103 capítulos), acompanhamos a saga de Manuel de Quental desde o nascimento em Portugal, em 1897, até a sua rotina de vendedor de mel pelas ruas do interior de Minas Gerais em 1970. E a terceira parte da obra (com 6 capítulos) traz o desfecho da trama. Por fim, há ainda uma espécie de posfácio intitulado “Carta à Revisora Lívia Prado”. Nas páginas finais da publicação, o autor comenta brevemente algumas curiosidades e detalhes da produção textual. Levei aproximadamente cinco horas para concluir, no último final de semana, a leitura desta obra ficcional de estreia de José Carlos Martins. Usei praticamente o domingo inteiro para isso. Quem não gosta de longas sessões de leitura como eu, dá para degustar tranquilamente “O Velho e o Menino: o Rio” em dois dias ou mesmo em três noites consecutivas. A primeira questão que nos chama a atenção nesse romance é a sua narrativa gostosa e seu texto extremamente elegante. Ler este livro é mergulhar na história da imigração portuguesa no Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX e na história da formação sociocultural do interior de Minas Gerais. Curiosamente, esses assuntos não são tão explorados na literatura brasileira. Normalmente, acabamos acompanhando nas páginas ficcionais a saga da imigração italiana em São Paulo, a chegada dos alemães no Sul do país e os dramas dos africanos traficados para o Rio de Janeiro ou para o Nordeste no Período Colonial. Por isso, logo de cara gostei de “O Velho e o Menino: o Rio”. De certa maneira, a obra de estreia de José Carlos Martins dialoga com os títulos da literatura portuguesa que abordam a questão da migração lusitana para o Brasil. De cabeça, posso citar os livros de José Vieira, como “Dedicação, Palavra e Honra” (ebook independente), “Adágios” (Chiado Editora) e “Alecrim” (ebook independente), que tratam dessa questão pela perspectiva dos portugueses. Em relação à elegância do texto de Martins, o que posso dizer, hein? A narrativa de “O Velho e o Menino: o Rio” está simplesmente impecável. Ah se todo autor ficcional estreante escrevesse com tamanha precisão e com alto nível de beleza, né? No meu caso, sou honesto em reconhecer que não tenho tal capacidade. Por isso mesmo, costumo ficar maravilhado quando me deparo com profissionais das letras com talento e/ou disposição para nos entregar histórias tão bonitas e tão bem escritas. Você até pode apontar um ou outro ponto negativo neste livro (algo que faremos sim mais à frente neste post da coluna Livros – Crítica Literária – até porque não temos aqui um romance perfeito), mas não poderá reclamar da qualidade textual de José Carlos Martins. Isso não!!! Martins é um belíssimo escritor ficcional que desponta como uma boa promessa da literatura mineira e da literatura nacional contemporânea. Olho nele, senhoras e senhores! Um dos aspectos que mais gostei nesta obra é o seu caráter versátil, multidisciplinar. Digo isso porque “O Velho e o Menino: o Rio” é um romance sem sombra de dúvida. Porém, em alguns momentos, temos a impressão de estar lendo uma coletânea de contos (causos de Conceição de Itororó e de seus habitantes), uma coleção de crônicas (a história do Brasil e de Minas Gerais) e um conjunto de ensaios religiosos (ponto de vista de um ateu para as contradições, para não dizer total falta de lógica, do Cristianismo e das religiões monoteístas). Quem curte literatura pra valer e aprecia as diferenças de gêneros narrativos irá pirar lendo este título. Eu adorei! Em relação à estrutura narrativa, “O Velho e o Menino: o Rio” é um romance muito bem construído. A divisão das partes do livro respeita as particularidades dos diferentes tipos de narrador, que, por sua vez, fazem total sentido do ponto de vista da experiência literária do leitor. Na primeira seção da obra, temos a narração em terceira pessoa com o narrador colado ao menino Francisco. Dessa forma, conseguimos ter uma visão mais geral do que está acontecendo e do ambiente (mesmo em uma única página). Na segunda parte de “O Velho e o Menino: o Rio”, a narração está em primeira pessoa e é realizada pelo vendedor de mel já idoso. Aí temos o mergulho propriamente dito nas memórias, nas falas, nos sentimentos e nas opiniões da personagem principal. E na terceira e última seção, a narração volta a ser em terceira pessoa e o narrador fica colado a diferentes personagens dependendo do capítulo. Como consequência, o leitor consegue acompanhar o desenlace do livro de perspectivas distintas, o que gera certo suspense ao desfecho do romance. Incrível, né? Em um primeiro momento, o enredo de “O Velho e o Menino: o Rio” me lembrou as tramas de “Vendedor de Passado” (Tusquets), romance de José Eduardo Agualusa (busca obstinada pela memória pessoal e familiar), e de “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), clássico de José Carlos Vasconcelos (relação bonita e poética de um comerciante mais velho com um menino esperto e carismático). Contudo, já na metade da leitura, tive a impressão de que o narrador-protagonista de José Carlos Martins tinha algo de Vitorino Carneiro da Cunha, personagem de José Lins do Rego em “Fogo Morto”, e de Florentino Ariza, figura central em “Amor nos Tempos do Cólera” (Record), um dos mais divertidos trabalhos de Gabriel García Márquez (a melancolia, o saudosismo, os fracassos amorosos e a visão um tanto deturpada da realidade podem ser vistas como características do narrador de “O Velho e o Menino: o Rio”). Por falar em referências, achei o título dessa obra uma mistura de “O Velho e o Mar” (Bertrand Brasil), novela de Ernest Hemingway (por motivos óbvios, né?), com “Grande Sertão: Veredas” (Companhia das Letras), romance mais famoso de Guimarães Rosa (pela estrutura da pontuação). Como gosto da intertextualidade literária, confesso que curti o nome desta obra ficcional de estreia de José Carlos Martins. Contudo, as semelhanças entre os títulos podem suscitar certo desconforto em alguns leitores, menos inclinados à intertextualidade e às sutis brincadeiras literárias. Algo que precisa ser muito elogiado neste romance é a excelente ambientação. Fiquei fascinado com a atmosfera de “O Velho e o Menino: o Rio”. A impressão que temos durante a leitura é de estar realmente caminhando pelo interior de Minas Gerais ao longo das primeiras sete décadas do século XX. Vale a pena dizer que criar a ambientação de um romance histórico não é algo simples e fácil. E Martins foi primoroso nesse trabalho. Tudo parece conspirar para a manutenção dessa atmosfera saudosista, particular e verossímil do interior mineiro: personagens curiosas, conservadorismo da população, religiosidade local, inconformismo com o progresso, causos da região, especificidades geográficas... Por ter morado por um ano no interior de Minas Gerais, posso dizer com propriedade: a descrição do ambiente do romance é maravilhosa e fidedigna, algo que somente um escritor local com talento literário poderia fazer com tamanho alcance e propriedade. Os capítulos curtos do livro dão grande dinamismo ao texto. Adorei essa característica de “O Velho e o Menino: o Rio”. Parte do caráter híbrido desta narrativa de José Carlos Martins (mistura de romance, conto, crônica e ensaio) deve-se as constantes mudanças de assuntos de um capítulo para outro. Ora o narrador-protagonista está falando do passado do pai, ora ele trata de um caso envolvendo uma personalidade pitoresca de Conceição de Itororó. Na sequência, ele narra um acontecimento nacional para depois confessar algo de sua biografia. Aí ele emenda uma reflexão filosófico-religiosa, para depois relatar uma preocupação que tem do presente. Note que o autor usa muitíssimo bem tal quebra da sequência narrativa. Portanto, não espere uma trama linear e lógica. A impressão que tive é que o protagonista vai contando sua história e de sua família para o menino Francisco à medida que vai se lembrando, como em uma conversa informal. E no meio do caminho sempre tem uma pedra, que precisa ser contornada. É incrível esse efeito! Outra questão saborosíssima é a sensação de que o livro está sendo montado diante dos nossos olhos. O narrador-protagonista fala com a revisora (não me lembro de ter visto este recurso em outro romance), deixa anotações para serem excluídas da versão final da obra (mas que ficaram!), constrói linha temporal da trajetória familiar (como se usasse suas anotações como cola ou esboço para sua produção textual), não termina alguns capítulos (o que por si só já indica muita coisa!), dá dicas literárias (como se falasse consigo mesmo) e volta em temas delicados que não consegue abordar diretamente (escancarando alguns bloqueios psicológicos). É ou não é maravilhoso acompanhar a construção da narrativa, hein? Curti o aparecimento mais explícito do nome do protagonista apenas na penúltima página da terceira parte do romance. Ou seja, conhecemos efetivamente a graça da personagem principal no apagar das luzes da leitura. Gostei desse efeito. Esse recurso (revelação da identidade do narrador central no final do livro) até pode não ser tão inovador assim na literatura, mas caiu muitíssimo bem nesta obra. Confesso que já tinha desistido de descobrir o nome do antigo mestre-escola de Conceição de Itororó que virou vendedor de mel na velhice. Achei, inclusive, que ficaríamos sem conhecer sua identificação, o que valorizaria ainda mais suas palavras (o importante não é quem ele é e sim o que ele tem para nos contar). Aí, aos 45 minutos do segundo tempo (ou seria na prorrogação?), vem a surpresa saída da boca do menino Francisco. Maravilhoso! É verdade que o nome do protagonista já tinha aparecido indiretamente no meio do livro em algumas passagens. Todavia, nunca de uma maneira explícita (um exemplo disso pode ser visto na página 174). Ou seja, fala-se o nome do protagonista sem indicar que é o narrador. Pelo menos eu não consegui ligar o tal Manuel à personagem central da trama tão rapidamente. Quem sabe um leitor mais atento e perspicaz consiga, né? Repare na existência de quatro níveis narrativos em “O Velho e o Menino: o Rio”, sendo dois macro e dois micro. No macro, temos a história do Brasil (factual) e a história de Conceição de Itororó (ficcional com base evidentemente em elementos reais captados pelo autor de sua cidade natal, Areado). Se a primeira parte (contextualização do passado nacional) me pareceu um tanto banal (afinal, já conhecemos de cor e salteado os acontecimentos tragicômicos do nosso país), a segunda parte é deliciosa (os causos do interior de Minas são incríveis!). Eita lugarzinho especial para ter boas histórias, Santo Deus! No micro, as duas linhas narrativas são a trajetória de vida de António José Vieira Vasconcelos de Quental (pai do narrador) e as memórias pessoais de Manuel (o narrador). Ambas as tramas são muito boas e valem a leitura, mas não ganham em colorido e em riqueza literária do relato macro do interior mineiro (esta parte do romance é uma preciosidade!!!). Há poucos discursos diretos nesse romance, algo que não estamos acostumados a ver com tanta frequência na literatura comercial, geralmente infestada por diálogos e mais diálogos. Afinal, é mais fácil criar uma conversa entre as personagens do que construir uma cena com discurso indireto ou com discurso direto livre, né? Nota-se, portanto, a habilidade de José Carlos Martins na escrita ficcional. Ele desenvolve um texto dinâmico, gostoso e interessante quase sem diálogos. Acredite se quiser: a falta de conversas em “O Velho e o Menino: o Rio” não estraga em nada o bom ritmo narrativo do livro (um perigo para quem não sabe usar bem esse tipo de expediente narrativo). A contradição entre a trajetória pessoal, profissional, social, econômica e sentimental do protagonista (pouco edificante e quase nada emocionante até mesmo para os padrões interioranos) e a evolução da cidade de Conceição de Itororó (mais transformadora do que o dia a dia de seus habitantes) é uma das sacadas criativas mais legais de Martins em “O Velho e o Menino: o Rio”. Normalmente, acontece o contrário na literatura: a rotina dos moradores é movimentada (cheia de bafafás, escândalos e aventuras amorosas) enquanto o povoado cresce e evolui a passos de tartaruga. Basta vermos boa parte da literatura de Jorge Amado para compreendermos esse tipo de efeito. Contudo, neste romance de José Carlos Martins, temos o oposto, em uma interessante quebra de expectativas. A vida da personagem principal é apagada de grandes feitos e o pequeno município progride (rumo à destruição!). Gostei disso. Preciso dizer também que os trabalhos de design e de revisão do livro foram certeiros. O projeto gráfico da obra é impactante. A capa é bonita, temos ilustrações lindíssimas na abertura de cada uma das partes do livro (são quase como pinturas em aquarela emulando telas) e há desenhos escondidos entre as páginas (que fazem referência, obviamente, às cenas e à atmosfera do romance). Por fim, não encontrei nenhum grave problema de ortografia ou de pontuação, algo normal de surgir aqui e ali em uma obra com mais de duas centenas de páginas, que não tivesse justificativa. Por exemplo, a opção pela grafia da palavra Deus em minúscula é um tanto lógica. Basta ler o livro para entendermos o porquê dessa decisão. A única coisa que me incomodou um pouco foi a grafia distinta do nome do pai do narrador. Ora ele é descrito como António (ao estilo do português de Portugal), ora aparece como Antônio (como é mais comum no português do Brasil). Não entendi essa falta de padronização para uma das personagens principais de “O Velho e o Menino: o Rio”. Por tudo isso o que você falou até aqui, Ricardo, quer dizer que este romance de Martins só tem características positivas, certo? Juro que eu ficaria, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias, muitíssimo feliz de responder a tal pergunta com um sonoro e retumbante siiiiiiiiiiim. Todavia, são raras as obras literárias imunes aos defeitos de ordem narrativa. Para ser sincero, desconheço um título que não dê qualquer tipo de margem a questionamentos dos leitores e da crítica literária. Como não seria diferente, “O Velho e o Menino: o Rio” tem também alguns tropecinhos narrativos e estéticos que precisamos apontar nesta análise crítica. Aí vão os mais visíveis! O principal problema deste livro, na minha visão, é a incompatibilidade do texto do romance com o perfil do narrador-protagonista. Sabe quando a narrativa não combina nem um pouco com quem conta a história?! Pois foi exatamente essa a impressão que tive durante a leitura. Lembremos que quem conta a história ficcional para o leitor não é o autor e sim o narrador. Segundo a Teoria Literária, o escritor é uma figura totalmente distinta do narrador. A personagem principal de “O Velho e o Menino: o Rio” é descrita o tempo inteiro como alguém simples, sem grande erudição e sem formação escolar completa. Ele é fruto do seu tempo (primeira metade do século XX) e de seu local de morada (interior do Brasil, apesar de ter nascido em Portugal). É verdade que Manuel Vieira Vasconcelos de Quental lia muitos livros e tinha vários motivos para se indignar com a religião. Contudo, onde ele aprendeu a falar inglês e latim? Quando leu os filósofos e religiosos que tanto cita? Onde tinha acesso às notícias do país (em plena Ditadura Militar) para saber o que acontecia de trágico no país na segunda metade da década de 1960? Como pode discorrer sobre os problemas ambientais (em uma época em que pouquíssimos abordavam tal questão) com tanta propriedade como se fosse um cidadão contemporâneo? Como seu vocabulário é tão rico e ornamental? Juro que não entendi esse gap gigantesco entre as características da personagem e as características de seu relato. Meu palpite é que a narrativa de “O Velho e o Menino: o Rio” combina muito mais com as crenças, as opiniões, a visão de mundo, o repertório linguístico e os conhecimentos idiomáticos de José Carlos Martins (o autor contemporâneo) do que com o perfil de Manuel (o narrador-personagem septuagenário que viveu no interior de Minas e que nos contou sua história em 1970). Infelizmente, esse é um erro crasso que alguns escritores iniciantes cometem. Eles roubam a voz de sua personagem principal e/ou do narrador ao invés de mergulhar no contexto psicossocial da criação ficcional. Aproveitando que estamos falando das incongruências conceituais do romance, preciso destacar que há um grave problema de realidade ficcional nesta obra. Obviamente, as críticas sociais, ambientais, religiosas e políticas feitas pelo narrador-protagonista são pertinentes e justíssimas. Impossível não concordarmos com elas. Porém, elas não combinam com o contexto narrativo do livro. Como já disse anteriormente, um senhor no interior do Brasil em 1970 não teria elementos tão contundentes para criticar um monte de coisa trazida pelo texto (algo mais simples de ser feito por um indivíduo contemporâneo, por exemplo). Apesar de estar certíssimo em tudo o que apresenta e no que critica (não é esse o ponto que me incomodou, tá?), o protagonista soou inverossímil no contexto da realidade ficcional. Por falar nisso, há poucos elementos de oralidade na narrativa de Manuel Vieira Vasconcelos de Quental. Para ser mais preciso em meu comentário, diria que eles são inexistentes ou raros. O natural, em se tratando de uma conversa do vendedor de mel com Francisco, seria encontrarmos fortes indícios de oralidade, né? Mas não é o que acontece. Sinceramente não entendi o motivo disso. A narrativa do romance é, indiscutivelmente, elegante, gostosa e profunda. Mas ela não combina com a conversa informal de duas personagens que caminham pelas ruas, algo que o texto se propõe a emular. É preciso apontar também alguns tropeços de lógica em “O Velho e o Menino: o Rio”. Como os irmãos de Manuel (João Antônio, José Antônio e Maria Antonieta) têm o sobrenome de Isabelita (Vieira Vasconcelos), a falecida esposa de António de Quental, se eles são filhos de outra mulher (Candinha)? Por que o pai do protagonista incorporou o sobrenome da esposa, quando isso não é prática nada comum (é a esposa que incorpora o sobrenome do marido)? Além disso, não entendi o texto da quarta-capa do livro: “(...) Um velho vendedor de mel, sem passado, sem história. O velho anda pela cidade vendendo mel talvez, para completar sua renda ou porque tenha feito isso a vida inteira. Um dia aparece um menino, sem futuro, sem obrigação alguma, que passa a ajudar o velho na sua tarefa”. Reconheço que essa imagem/cena é maravilhosa. Porém, não entendi a menção à falta de passado do velho. Para mim, Manuel tem muuuito passado. Precisamos falar das várias, várias, várias, várias e várias páginas dedicadas à crítica religiosa em “O Velho e o Menino: o Rio”. Admito que adorei o conteúdo dessa parte do romance. Nota-se que José Carlos Martins caprichou em seus argumentos e na explanação. O texto crítico é elegante, inteligente, convidativo e, por vezes, espirituoso. Impossível não concordarmos com as palavras trazidas pelo livro. O problema é que o autor exagerou. Sabe quando a pessoa se empolga e aí dá mais tinta para um determinado assunto do que seria recomendado? Pois foi o que aconteceu nessa parte. A impressão que tive, em alguns momentos, é que o romance ficou em segundo plano e a publicação ganhou tons de panfleto ateísta. Nada contra o ateísmo em si (que abraço desde a infância com muito ardor!), mas não contamine uma boa narrativa ficcional com crenças (ou descrenças) religiosas de qualquer linha. Novamente fiquei com a sensação de que as opiniões, as crenças e os sentimentos do autor sobre esse assunto poluíram a narrativa de Manuel de Quental (que é quem efetivamente nos conta a história). Por fim, preciso debater o conflito do romance de Martins. Se notarmos bem, “O Velho e o Menino: o Rio” não tem um conflito forte e bem definido. Só percebi isso no meio da leitura. Aí fiquei me perguntando: qual o grande obstáculo que impede o protagonista de alcançar seus objetivos? Confesso que não encontrei. Somente no final da terceira parte surgiu a questão da construção da barragem, que iria alagar a Fazenda da Cachoeira. Seria esse, então, o conflito do livro? Talvez. Ou a questão seria o sumiço de Francisco, também nas páginas finais? Pode ser. Ou a engrenagem que faz a roda literária girar seria a esperança de que Manuel conseguisse, enfim, uma mulher? Cogitei isso também. De qualquer maneira, a presença de um conflito mais intenso e claro desde o início ajudaria a potencializar a narrativa. É verdade que o tom de crônica da obra (vale mencionar que a crônica é o único gênero narrativo que não exige a presença de um conflito central) é delicioso e é justamente uma das características mais legais deste texto. Por outro lado, a falta de uma definição explícita do conflito pode incomodar os leitores mais ansiosos. Essas questões atrapalham a experiência literária? Atrapalham sim. Isso quer dizer, então, que o livro de José Carlos Martins é ruim? Não, de forma alguma! “O Velho e o Menino: o Rio” é um romance histórico interessante e saboroso. Seus pontos positivos aparecem em maior número e com mais relevância do que os aspectos negativos (do contrário, não seria comentado aqui na coluna Livros – Crítica Literária, né?). Se ele tivesse recebido um trabalho de edição um pouco mais cuidadoso, seria uma obra sublime. De qualquer maneira, “O Velho e o Menino: o Rio” é um título muito acima da média. Ele tem a capacidade de encantar os leitores que gostam de tramas originais, de narrativas bem escritas, de enredos com um olhar apurado para o passado e de personagens pitorescas. Ah se toda publicação ficcional de estreia tivesse essa qualidade!!! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Músicas: Seleção Brasileira das Canções de Futebol - Escalamos um time campeão

    Aproveitando o clima de Copa do Mundo, convocamos a equipe nacional com as 23 melhores músicas que tratam do esporte mais popular do planeta. O mistério acabou! Na segunda-feira passada, o técnico Tite divulgou a lista dos jogadores brasileiros que irão disputar a próxima Copa do Mundo de Futebol. Mesmo faltando pouco mais de uma semana para a bola começar a rolar no Qatar, o clima da competição esportiva mais aguardada do quadriênio já toma conta do país e do planeta. Aproveitando a febre futebolística que invade nosso cotidiano nesse período, resolvi fazer hoje algo diferente na coluna Músicas. Neste novo post do Bonas Histórias, não vou analisar uma canção específica, não vou detalhar um álbum individual e não vou debater o repertório artístico de um cantor ou compositor. Não! A proposta dessa vez é tratar das músicas que falam de futebol. É isso mesmo o que você leu. Quero trazer para o blog as canções brasileiras mais marcantes do esporte mais querido dos brasileiros. Para tal, vou me transmutar em uma espécie de treinador músico-futebolístico e vou convocar a Seleção Brasileira das músicas que interagem direta ou indiretamente com o futebol. Para montar um time de respeito, capaz de erguer o troféu da Copa do Mundo das Canções da Bola, usei três critérios: (1) não ultrapassar o limite de 23 convocados; (2) só escalar composições históricas e memoráveis do nosso país; e (3) ter o cuidado de colocar cada música em uma determinada posição no campo de jogo. Como sei que todo brasileiro é um técnico de futebol exigente e um apaixonado por música, na certa minha convocação será analisada criteriosamente pelos meus conterrâneos. Quem sabe os programas de televisão e os portais de notícias não debatam acaloradamente os escolhidos. E para não fazer mais mistério, vou entregar de uma vez por todas a minha seleção canarinha. Espero que você curta as composições, as letras e as melodias que imortalizaram o esporte mais popular do mundo em nossa cultura musical. Então aí vai a Seleção do Brasilsilsil: 1 – “Goleiro” (1993) – Jorge Ben Jor Comecemos pelo começo, como diria o outro. Toda escalação de time de futebol que se preze deve iniciar pela escolha do goleiro. Obviamente, essa regra não vale para o futebol amador, tá? Aí o arqueiro é sempre o último que sobra (geralmente é o mais caneludo). Como estamos falando de esporte profissional (tá pensando o quê?!), vamos seguir a cartilha. E para mim, o dono absoluto da camisa 1 da Seleção Brasileira das Músicas de Futebol é “Goleiro”, de Jorge Ben Jor. Não existe canção mais certeira do que essa para a posição mais amarga do esporte bretão. Afinal, goleiro não pode falhar. Não pode ficar com fome na hora de jogar. Não, não. Senão, é um frango aqui, um frango ali, um frango acolá. Acho esses versos de Ben Jor perfeitos para designar os dramas dos goleiros. 2 – “Replay” (1974) – Roberto Côrrea e Joh Lemos O lateral direito entra em campo normalmente com a camisa 2. E quando eu vejo o número 2, eu sempre lembro de “Replay”, clássico de Roberto Côrrea e Joh Lemos. Afinal, replay é ver algo pela segunda vez, né? Talvez de nome você não se recorde dessa canção. Contudo, basta apresentar seu refrão para tudo fazer sentido: “É gol/ que felicidade/ É gol/ o meu time é a alegria da cidade”. Lançada pelo Trio Esperança em 1974, essa música é popular até hoje por causa de sua reprodução em transmissões radiofônicas. Então estamos combinados: “É gol/ que felicidade/ É gol/ o meu time é a alegria da cidade”. 3 – “Zagueiro” (1975) – Jorge Ben Jor No quesito música de futebol, Jorge Ben Jor é nosso Pelé. O cantor e compositor carioca joga em todas as posições do campo com enorme facilidade e elegância. Não por acaso, ele emplacou cinco canções (eu disse CINCO!!!) em nossa seleção. Já falamos de “Goleiro”. Agora vamos tratar de “Zagueiro”, criação de 1975. Para Ben Jor, “ele é um bom zagueiro/ é o anjo da guarda da defesa/ mas para ser um bom zagueiro/ não pode ser muito sentimental/ tem que ser sutil e elegante/ ter sangue frio/ acreditar em si e ser leal”. Se você achou incrível essa letra, ouça então a melodia! 4 – “Aqui é o País do Futebol” (1970) – Milton Nascimento e Fernando Brandt A dupla de zaga da Seleção Brasileira das Músicas de Futebol é completada por “Aqui é o País do Futebol”, criação de Milton Nascimento e Fernando Brandt. Composta em 1970 e imortalizada anos depois na voz de Wilson Simonal, “Aqui é o País do Futebol” é o tipo de jogador clássico, que prioriza os versos bonitos e a beleza do esporte bem jogado. Esqueça os zagueiros-zagueiros, que só sabem dar botinada. Veja a força e a elegância do refrão dessa canção: “Brasil está vazio na tarde de domingo, né?/ Olha o sambão, aqui é o país do futebol/ Brasil está vazio na tarde de domingo, né?/ Olha o sambão, aqui é o país do futebol”. Esses versos desarmam qualquer mal humor e baixo astral!!! 5 – “Transplante de Corinthiano” (1968) – Manuel Ferreira, Ruth Amaral e Gentil Júnior. Quando eu penso em um volante, atleta escalado para proteger a defesa e para destruir as jogadas adversárias, me vem imediatamente à cabeça a imagem de um jogador corintiano suado e sujo em campo. Essa associação é devido à fama de garra e valentia dos jogadores do Timão. E quando penso nos corintianos, logo surge na memória a canção “Transplante de Corinthiano”. Criada por Manuel Ferreira, Ruth Amaral e Gentil Júnior no final dos anos 1960 e rapidamente popularizada na voz de Sílvio Santos, essa marchinha de Carnaval é um clássico nacional, apesar da temática clubística. Caso ainda não tenha ficado claro, doutor, eu não me engano. Meu coração é corintiano! 6 – “Beto Bom de Bola” (1967) – Sérgio Ricardo. Há uma lenda no futebol que o pior jogador do time deve ser colocado na lateral esquerda. Por que há essa crença e quando ela surgiu? Sinceramente, não sei. Como diria Chicó, só sei que foi assim. Pensando na possibilidade de uma possível expulsão, algo que pode acontecer tanto em uma partida de futebol quanto em um festival de música, coloquei “Beto Bom de Bola”, criação memorável de Sérgio Ricardo, na lateral esquerda. Talvez essa seja uma das canções mais injustiçadas da história da MPB. E como injustiça casa bem com a camisa 6, a composição de Sérgio Ricardo, uma espécie de Éric Cantona da música popular brasileira na década de 1960, foi escalada para a Nossa Seleção, apesar das vaias insistentes do público que lotava o estádio. 7 – “Na Cadência do Samba” (1956) – Luiz Bandeira. Deixemos momentaneamente a defesa e comecemos a pensar no ataque. Para a ponta-direita, acredito que o time brasileiro precise de uma canção com uma batucada de bamba e com uma cadência bonita do samba. Além disso, a música precisa inspirar as jogadas mais plásticas, como se fossem transmitidas no cinema. Diante desse cenário, minha primeira escolha para a camisa 7 é “Cadência do Samba”, criação de Luiz Bandeira de 1956. Que é bonito é! E que essa canção merece a nota 100, isso merece! 8 – “Meio de Campo” (1973) – Gilberto Gil. Prezado amigo Afonsinho, que a perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que joga na Seleção. E eu não sou o Pelé nem nada. Se muito for, eu sou o Tostão. Por falar nisso, já imaginou outra vez o meio-de-campo do Brasil com Pelé e Tostão (e quem sabe Afonsinho), hein? Agora sei que é impossível. Só mesmo na memória do torcedor brasileiro e na canção “Meio de Campo” de Gilberto Gil. Por falar nessa música, acho que Gilberto Gil aperfeiçoou o imperfeito, deu um tempo, deu um jeito, desprezou a perfeição. Merecidamente, “Meio de Campo” foi escalado para defender as cores da nossa Seleção e ganhou a camisa 8. Com um meio-campista de tamanha qualidade, o jogo fica mais fácil para a gente, né? 9 – “Fio Maravilha” (1972) – Jorge Bem Jor. Não confundamos a vida pessoal com a trajetória profissional do jogador na hora da escalação, por favor! Caso contrário, muito craque jamais seria convocado e, para completar, ganharia a acunha de filho de alguma coisa... Fio Maravilha pode ter cometido uma das maiores sacanagens da história musical brasileira quando processou Jorge Ben Jor. Ainda assim, “Fio Maravilha”, canção de 1972, fica com a nossa camisa 9. Não por acaso, Ben Jor só não entrou com bola e tudo porque teve humildade no gol. Foi uma composição de classe, onde ele mostrou sua malícia e seu talento. Foi uma música de anjo, uma verdadeira criação de placa. 10 – “Camisa Dez” (1973) – Luís Américo. Para a camisa 10 do Brasil, vou de “Camisa Dez” de Luís Américo. O armador da Seleção Brasileira deve ser o arco e não a flecha. Deve ser o vento que assopra o fogo. Tem que ser a palha de qualidade que alastra o incêndio em campo. É camisa dez da seleção, laia, laia, laia. Dez é a camisa dele, quem é que vai no lugar dele. Desculpe, Seu Adenor. Mexe nesse time que tá muito fraco! 11 – “Ponta de Lança Africano” (1976) – Jorge Ben Jor. Olha o Jorge Ben Jor aí de novo, gente! Não falei que ele parece estar em todas as posições do campo, hein?! Umbabarauma, na ponta-esquerda, precisamos de um legítimo “Ponta de Lança Africano”. Para a camisa 11, quero um homem-gol, que joga bola, joga bola, jogador. Que pula, pula, cai, levanta, sobe, desce, corre, chuta, abre espaço. Corocondô. Vibra e agradece. Joga bola, joga bola, jogador! JUIZ – “Camisa Molhada” (1977) – Carlinhos Vergueiro. Toda partida que se preze precisa de um juiz. Vilão ou salvador indesejável, ele está lá para desespero daqueles que estão dentro e fora do campo. Por isso, há sempre quem diga: fique de olho no apito, que o jogo é na raça. E uma luta se ganha no grito. E se o juiz apelar, não deixe barato. Ele é igual a você e não pode roubar. Por essas e outras, dou o apito para “Camisa Molhada”, canção de Carlinhos Vergueiro. O domingo é de guerra, o campo é de terra e o boteco é do lado. Pronto, falei! NARRAÇÃO – “É Uma Partida de Futebol” (1996) – Nando Reis e Samuel Rosa. Criação dos geniais Nando Reis e Samuel Rosa e famosa desde o lançamento do Skank, “É Uma Partida de Futebol” é uma obra-prima da música futebolística nacional. Bola na trave não altera o placar. Bola na área sem ninguém pra cabecear. Bola na rede pra fazer o gol. Quem não sonhou em ser um jogador de futebol? É até difícil apontar quais os melhores versos dessa canção. Ela é perfeita do começo ao fim. E é também uma verdadeira narração de como o futebol consegue nos encantar e proporcionar instantes inesquecíveis. O meio-campo é o lugar dos craques, que vão levando o time todo pro ataque. O centroavante, o mais importante, que emocionante é uma partida de futebol. O meu goleiro é um homem de elástico. Os dois zagueiros têm a chave do cadeado. Os laterais fecham a defesa. Mas que beleza é uma partida de futebol. TORCIDA – “Eu Quero Ver Gol” (1996) – Falcão e Xandão. Eu quero ver gol. Eu quero ver gol. Não precisa ser de placa, eu quero ver gol. Impossível não concordarmos com os versos mais famosos de “Eu Quero Ver Gol”, composição de Falcão e Xandão de 1996. Por ela expressar o que todo torcedor almeja, a escalei como uma das integrantes da torcida brasileira. E aí, preparado para torcer?! Saiba que o jogo é às cinco. E eu sou mais o meu. Tô com a geral no bolso. Garanti meu lugar. Vou torcer, vou xingar pro meu time ganhar. Eu quero ver gol. Eu quero ver gol. Não precisa ser de placa, eu quero ver gol. TORCIDA – “Coisa de Brasileiro” (1999) – Mr. Gyn. Há muito saudosista que acredita piamente que os jogadores bons de bola e que as músicas de qualidade ficaram no passado. Pior que tal crença não é coisa só de brasileiro! Discordo completamente dessa falácia. Há muito craque de futebol atuando em nossos campos hoje em dia e muitas canções recentes de excelente qualidade tocando por aí. Um bom exemplo disso é “Coisa de Brasileiro”, composição de Mr. Gyn feita em 1999 e que foi escalada agora como um dos hinos de nossa torcida. Essa letra nasceu pronta pra jogar bola. Chuta, dribla e rebola. E faz todo mundo balançar. Quem é torcedor vai. Isso é música de torcedor brasileiro. Isso é música de torcedor brasileiro. Isso é música de torcedor brasileiro. Pra zoar o ano inteiro. E ô. Isso é música de torcedor brasileiro. E ô. Isso é música de torcedor brasileiro. E ô. Isso é música de torcedor brasileiro. TORCIDA – “Cadê o Penalty” (1978) – Jorge Ben Jor. Estava demorando para pintar outra composição de Jorge Ben Jor em nossa lista, né? Pois a quinta integrante do repertório musical do compositor carioca a entrar em nossa seleção é “Cadê o Penalty”. Confesso que só a conheci quando ela foi gravada pelo Skank na década de 1990. Porém, “Cadê o Penalty” é mais antiga e foi composta pelo Pelé da música brasileira de futebol em 1978. Escalei essa canção para ficar no meio da torcida verde-amarela porque ela propaga uma das reclamações mais comuns de quem visita os estádios país à fora. Quem nunca gritou: cadê o pênalti que não deram pra gente no primeiro tempo? Cadê o pênalti que não deram pra gente no primeiro tempo? Mas como não foi possível isso tudo acontecer? A galera magoada, triste, grita e chora. E pergunta pra você: pênalti, pênalti, pênalti, pênalti, pênalti, pênalti, pênalti. Pênalti, pênalti, pênalti, pênalti, pênalti, pênalti, pênalti. Fale a verdade: Jorge Bem Jor é um gênio, não é?!! TORCIDA – “Fazendo Música, Jogando Bola” (1982) – Pepeu Gomes. Como estamos misturando futebol e música, me senti na obrigação de convocar para nossa Seleção das Canções de Futebol “Fazendo Música, Jogando Bola”, composição do espetacular Pepeu Gomes. Afinal, como um bom torcedor que sou, foi vivendo dessa maneira, fazendo música, jogando bola, que aprendi a brincadeira. Como todas as crianças, que nada sabem, que sabem tudo, que aprendi a brincadeira. Fazendo música, jogando bola. Se você precisa de uma boa faixa para embalar as emoções dos amantes do futebol, acredito que essa canção de Pepeu Gomes é atemporal. PLACAR – “Um a Zero” (1919) – Pixinguinha/Nelson Ângelo. Já temos os nossos 11 jogadores em campo. Temos também um juiz para apitar a peleja. E a torcida está nas arquibancadas pronta para vivenciar as emoções da Copa do Mundo. O que mais falta, hein? O placar da partida, é claro! O primeiro marcador que vem à minha mente é “Um a Zero”, chorinho clássico de Pixinguinha e Nelson Ângelo. Agora sim o futebol pode começar pra valer. Pois é, com muita garra e emoção. São onze para cá, onze de lá. E o bate-bola do meu coração. É a bola, é a bola, é a bola. É a bola e o gol! Numa jogada emocionante, o nosso time venceu por um a zero! PLACAR – “Um a Um” (1960) – Jackson do Pandeiro. No esporte, nem sempre dá para ganhar. E na iminência de uma derrota, o “Um a Um”, como a música de Jackson do Pandeiro, muitas vezes cai do céu. Mesmo assim, entendo os torcedores que insistem na conquista dos três pontos. O placar favorável deve sempre ser almejado. Ainda mais se tiver zum-zum-zum em caso de fracasso. Esse jogo não pode ficar um a um quando nosso time é de primeira, nossa linha atacante é artilheira. Confiamos nos craques da pelota. Nosso clube só joga pra vencer. TORNEIO – “A Taça do Mundo é Nossa” (1958) – Wagner Maugéri, Maugéri Sobrinho, Victor Dago e Lauro Miller. Não há canção comemorativa de um torneio futebolístico mais legal do que “A Taça do Mundo é Nossa”. Composta pelo quarteto Wagner Maugéri, Maugéri Sobrinho, Victor Dago e Lauro Miller para celebrar a primeira vitória brasileira em Copa do Mundo, essa música é popular até hoje e mexe na alma do torcedor nacional. Não acredita em mim? Saiba então que a taça do mundo é nossa. Com brasileiro, não há quem possa. Eita esquadrão de ouro. É bom no samba, é bom no couro. TORNEIO – “Povo Feliz” (1982) – Memeco e Nonô Jacarezinho. Voa, canarinho, voa. Mostra pra esse povo que és um rei. Voa, canarinho, voa. Mostra na Espanha o que já sei. Nem sempre dá para voltar de uma Copa do Mundo com o caneco em mãos. Vencer e perder é, ainda bem, as duas faces do esporte. O que não dá para fazer é abrir mão do jogo bonito e da plasticidade do espetáculo. Quando o time brasileiro mostra talento, joga para frente e dá show em campo, a torcida continuará cantando feliz para todo o sempre. Independentemente do resultado. É por isso que eu digo sem medo: “Povo Feliz”, pagodinho memorável de Memeco e Nonô Jacarezinho, é uma canção que deve deixar os torcedores brasileiros orgulhosos. Vergonhoso é perder jogando feio, para trás e/ou com medo dos adversários. Perder jogando bonito é para poucos, senhoras e senhores!!! CAMPO – “O Campeão” (1979) – Neguinho da Beija-flor. Já temos quase tudo para a nossa Seleção Brasileira das Músicas de Futebol entrar em ação. Temos um time competitivo do camisa 1 ao 11. Temos um juiz para apitar o jogo. Temos narração. Temos torcida. Temos placar. Temos um torneio a ser disputado. Só falta mesmo um campo para a partida acontecer. Faltava. Porque no domingo eu vou ao Maracanã. Vou torcer pro time que eu sou fã. Vou levar foguetes e bandeira. Não vai ser brincadeira. Ele vai ser campeão. Não quero cadeira numerada. Vou ficar na arquibancada. Pra sentir mais emoção. Se você ainda não reconheceu esses versos, eles são de “O Campeão”, sambinha de Neguinho da Beija-flor. Essa música é um hino obrigatório de quem pisa no Maraca. E que torcida pisa no Maracanã, hein? O nome dela são vocês que vão dizer. Porque meu time bota pra ferver. E o nome dele são vocês que vão dizer. Oh, oh, oh, oh. Oh, oh, oh, oh. CAMPO – “País do Futebol” (2013) – MC Guimê. Se houvesse só um lugar no mundo para se disputar uma partida de futebol, em qual local você escolheria para jogar, hein? Eu não pensaria duas vezes e iria de olhos fechados para “País do Futebol”, canção de MC Guimê. Por onde a gente passa é show. Fechou. E olha aonde a gente chegou. Eu sou país do futebol, nego. Até gringo sambou. Tocou Neyma é gol. Ó minha pátria amada, idolatrada! Um salve à nossa nação. E através dessa canção, hoje posso fazer minha declaração. Agora tenho certeza de que já entramos no clima de Copa do Mundo. Bons jogos a todos e boa sorte para a nossa Seleção Brasileira em 2022! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Recomendações: Séries da ficção literária internacional que merecem a leitura (Parte III)

    Chegamos agora ao terceiro e último quarteto de coleções de romances estrangeiros que encantam até mesmo os leitores mais exigentes. Hoje chegamos à terceira e última parte dos posts com as 12 Séries Literárias Internacionais que Valem Nossa Leitura. Para quem acabou de aportar no Bonas Histórias, preciso (além de desejar boas-vindas, claro!) contar que estamos listando mensalmente, na coluna Recomendações, quatro coleções de romances estrangeiros que se tornaram best-sellers no Brasil e no mundo e que conseguem cativar até mesmo os leitores mais exigentes. Em outras palavras, o sucesso de cada uma dessas tramas ficcionais é decorrência da enorme qualidade de suas narrativas e, obviamente, do talento descomunal de seus autores. Se você estiver procurando boas leituras e gosta de histórias longas (contadas em mais de três livros), indico de olhos fechados (na verdade, de olhos beeeeem abertos – li cada uma dessas coleções, tá?) as 12 coletâneas de obras apresentadas (e devidamente comentadas) nas três publicações desta série especial do blog. Em agosto, eu trouxe o primeiro quarteto de séries da literatura ficcional ao Bonas Histórias: a Coleção O Talentoso Ripley de Patricia Highsmith, a Trilogia 1Q84 de Haruki Murakami, a Série Millennium de Stieg Larsson e a Coleção Harry Potter de J. K. Rowling. Em setembro, retornei com o segundo conjunto de títulos da nossa saga pelos best-sellers gringos: a Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, a Trilogia O Bom Ditador de Gonçalo J. Nunes Dias, a Série Cinquenta Tons de Cinza de E. L. James e a Trilogia da Fundação de Isaac Asimov. E agora, em outubro, trago a terceira e última parte das coleções de romances que devem ser encaradas com muitíssimo carinho pelos grandes amantes da literatura internacional. Vale a pena esclarecer (mais uma vez) o critério que utilizei para chegar a tal listagem. Em primeiro lugar, só coloquei séries internacionais que eu tenha lido (e adorado). Depois, optei por abranger o maior número possível de gêneros narrativos. Repare que há na minha lista: suspense noir, romance policial, fantasia, aventura, literatura infantojuvenil, drama, saga histórica, distopia, literatura erótica, ficção científica, humor/comédia/paródia e romance histórico. Por fim, quis dar voz a escritores dos quatro cantos do planeta: Estados Unidos, Japão, Suécia, Inglaterra, Itália, Portugal, França e Austrália. Como faltaram autores africanos, centro-americanos e sul-americanos, da próxima vez prometo fazer uma coletânea de sagas narrativas só com artistas desses continentes. Tudo devidamente explicado, vamos então para as quatro novas séries literárias estrangeiras que você precisa conhecer o quanto antes. Aí vão elas, senhores e senhoras: 1) Trilogia A Bicicleta Azul – Régine Deforges (França) – Drama Histórico – “A Bicicleta Azul” (1981), “Vontade de Viver” (1983) e “O Sorriso do Diabo” (1985). A Trilogia A Bicicleta Azul é a obra-prima de Régine Deforges, uma das escritoras francesas mais populares e polêmicas entre o final do século XX e o início do século XXI. A literatura de Deforges sempre se caracterizou pelas tramas históricas e por conter bastante violência (de todos os tipos e graus), sexualidade (homossexualismo, bissexualismo, sexo casual, mulheres emancipadas do ponto de vista sexual), erotismo (o que poderíamos chamar hoje em dia de softcore da literatura), personagens femininas fortes e engajadas (em um período em que as mulheres intensificavam as críticas ao machismo da sociedade ocidental) e componentes políticos. Ou seja, os livros de Régine Deforges eram uma espécie de versão literária e feminista de “Game of Thrones”, em uma época em que George R. R. Martin estava longe, muito longe de se tornar uma figura icônica da cultura popular. Se no começo da carreira a combinação um tanto explosiva de violência, sexualidade/erotismo, feminismo e política causou mais desconforto aos leitores e à crítica literária conservadora do que rendeu elogios, com o tempo a autora francesa provou seu valor e se tornou best-seller mundial. E essa mudança de interpretação do público e do mercado editorial aconteceu justamente com o sucesso de “A Bicicleta Azul” (BestBolso), romance que deu origem a saga homônima. A partir daí, começava uma nova fase na trajetória profissional de Deforges. Curiosamente, os títulos dessa coleção trazem os mesmíssimos elementos narrativos que até então Régine Deforges utilizava e era tão criticada. A diferença é que, dessa vez, temos uma protagonista das mais encantadoras e carismáticas da moderna literatura francesa. Léa Delmas, a personagem ficcional mais famosa de Deforges, é uma jovem francesa que se tornou funcionária da Cruz Vermelha internacional e viajou o mundo para defender causas ideológicas nobres. Vale a pena dizer que a moça esteve, entre outros lugares, na França (colaborou com a Resistência na Segunda Guerra Mundial), na Argentina (à procura de nazistas que fugiram da Europa após o fim do conflito armado), em Cuba (participando da Revolução Comunista), na Argélia (atuando na Guerra de Independência do país africano) e no Vietnã (também na Guerra de Independência da nação asiática). Léa sempre esteve no olho do furacão e participou direta ou indiretamente dos acontecimentos políticos mais sensíveis do século XX. Incrível, hein? Ao todo, Régine Deforges produziu dez romances com Léa Delmas e François Tavernier, o inseparável companheiro de aventura da heroína: “A Bicicleta Azul”, “Vontade de Viver” (BestBolso), “O Sorriso do Diabo” (BestBolso), Tango Negro" (Best Seller), "Rua da Seda" (Best Seller), "A Última Colina" (Best Seller), "Cuba Livre!" (Best Seller), "Argel, Cidade Branca" (Best Seller), "Les Généraux du Crépuscule" (sem edição no Brasil) e "Et Quand Viendra La Fin du Voyage" (também sem tradução para o português). O que chamamos de Trilogia A Bicicleta Azul é na verdade o conjunto dos três primeiros romances dessa coleção de dez obras de Deforges. Com um enredo único, o trio de títulos iniciais da saga mostra a atuação de Léa em seu país natal durante a Segunda Guerra Mundial. Diante de uma França invadida pelos nazistas, coube a moça, que acabara de se tornar maior de idade, zelar pela segurança da família e cuidar dos negócios do pai. Isso tudo enquanto ela descobre os prazeres do sexo e precisa definir em qual lado da guerra vai lutar: dos nazistas ou da Resistência francesa. Para mim, Léa Delmas é a personagem mais incrível da literatura de Régine Deforges e da ficção francesa do século XX. Bonita, inteligente, corajosa, engajada e sexualmente livre, a jovem é a representante máxima do movimento feminista nos anos 1980 e da liberdade sexual das mulheres. Com uma postura à frente de seu tempo, ela encara com determinação todos os desafios que surgem no horizonte. Como consequência, Léa participa ativamente dos fatos políticos mais emblemáticos do século passado. Impossível não nos apaixonarmos por alguém assim, né? Publicado em 1981, o romance "A Bicicleta Azul" se passa entre 1939 e 1942 e mostra os anos iniciais da Segunda Guerra Mundial. Na França, Léa Delmas é ainda uma menina fútil, mimada e inexperiente no sexo. Tudo o que ela quer, independentemente da situação política do país, é viver ao lado de Laurent d'Argilat, o homem que ela ama e que parece não dar a mínima bola para a jovem. À medida que a guerra se intensifica, a protagonista amadurece, começa a colecionar experiências sexuais e se transforma completamente. A partir daí temos o surgimento de uma mulher com M maiúsculo, capaz de cuidar de si e dos familiares e de influenciar nos acontecimentos da nação. “Vontade de Viver”, o segundo título da Trilogia A Bicicleta Azul, foi lançado dois anos mais tarde. Sua trama se passa entre 1942 e 1944. Nessa altura do campeonato, a França está profundamente dividida. Uma parte da sociedade francesa colabora com os nazistas, que tomaram o poder central de Paris, e outra resiste às ordens vindas de Berlim. Cada vez mais envolvida com os meandros políticos, Léa Delmas precisa optar por um lado. Como consequência, ela estará sujeita à violência e à perseguição dos inimigos. Não por acaso, temos aqui um contexto de terror. Em “Vontade de Viver”, a protagonista já amadureceu demais e é uma legítima heroína. Esqueça definitivamente a Léa imatura, mimada e fútil do início de “A Bicicleta Azul”. O amadurecimento precoce da moça impacta diretamente na relação dela com François Tavernier. Se antes François era apenas um amigo e/ou um dos parceiros sexuais eventuais de Léa em Paris (sim, ela tinha alguns affairs), agora ele começa a conquistar mais espaço no coraçãozinho combalido da personagem central da saga de Régine Deforges. O terceiro livro desta coleção é “O Sorriso do Diabo”. Publicado em 1985, o romance prossegue com as aventuras de Léa Delmas na França ocupada. O enredo de “O Sorriso do Diabo” vai de 1944 a mais ou menos 1945. Enquanto a protagonista continua envolvida com a Resistência, agora ela deseja conquistar (ou seria reconquistar?) o coração de François Tavernier. Depois de algumas idas e vindas, o casal parece mais desunido do que nunca. Conseguirá a jovem conciliar questões políticas e familiares delicadas aos desejos egoístas de seu coração?! A Trilogia “A Bicicleta Azul” é uma das minhas séries literárias favoritas. Vale a pena conhecê-la! 2) Série O Guia do Mochileiro das Galáxias – Douglas Adams (Inglaterra) – Ficção Científica e Humor – “O Guia do Mochileiro das Galáxias” (1979), “O Restaurante no Fim do Universo” (1980), “A Vida, o Universo e Tudo Mais” (1982), “Até Mais, e Obrigado pelos Peixes!” (1984) e “Praticamente Inofensiva” (1992). Douglas Adams é um dos meus escritores preferidos. Grande parte da minha admiração pelo autor e comediante inglês deve-se à Série Literária O Guia do Mochileiro das Galáxias. Publicados entre 1979 e 1992, os cinco romances da saga espacial são uma paródia divertidíssima das ficções científicas calcadas nas viagens interplanetárias. Em outras palavras, a coletânea O Guia do Mochileiro das Galáxias pode ser vista como uma espécie de versão escrachada e politicamente incorreta da Trilogia A Fundação, clássico de Isaac Asimov que comentamos na Parte II das Séries Literárias Internacionais que Valem Nossa Leitura. Curiosamente, a trama de O Guia do Mochileiro das Galáxias surgiu a partir de um programa da rádio BBC 4. Douglas Adams e Simon Brett criaram, no final da década de 1970, uma atração cômica que falava das viagens pelo cosmo. Obviamente, a história ficcional tinha muito nonsense e sacadas hilárias (ao melhor estilo do humor inglês!). A ideia para tal enredo surgira de uma viagem que Adams fez sozinho pelo Velho Continente. Certa noite, o escritor inglês estava bêbado no interior da Áustria com o Guia do Mochileiro para a Europa nas mãos. Enquanto contemplava as estrelas, ele pensou: Por que ninguém escreve o Guia do Mochileiro das Galáxias, hein?! Tempos depois, já sóbrio, o autor lançou essa proposta de enredo para a rádio inglesa em que trabalhava. E, acredite, ela foi aceita! Encantado com o sucesso do programa radiofônico e com o potencial daquela trama extremamente original, Douglas Adams resolveu levar a dinâmica da narrativa da BBC 4 para a literatura. Surgia, dessa maneira, uma obra-prima do humor inglês e da comédia literária internacional. Alguém, enfim, escrevia o tão aguardado (pelo menos para as crenças de Adams) O Guia do Mochileiro das Galáxias! Rapidamente o livro se tornou best-seller no Reino Unido e foi traduzido para outros idiomas. Atualmente, essa história já foi levada (porcamente, preciso dizer!) para o cinema, para a televisão e para o teatro. Se você assistiu aos filmes, aos seriados de TV ou as peças de O Guia do Mochileiro das Galáxias, saiba que eles não representam a essência do trabalho de Douglas Adams. Enquanto o livro, um clássico da literatura inglesa, é espetacular, suas adaptações deixaram muuuuuuito a desejar. O romance “O Guia do Mochileiro das Galáxias” (Arqueiro), o primeiro título da saga mais famosa de Douglas Adams, começa com o drama de Arthur Phillip Dent, um terráqueo solitário, fracassado e um tanto estúpido. Se a rotina do rapaz já não é lá grande coisa, ela se torna terrível quando sua casa é destruída para a construção de uma estrada. Desolado, Arthur encontra Ford Perfect, um alienígena que vive disfarçado na Terra há mais de uma década, em um bar. Para não chamar atenção, o E.T. se finge de ator desempregado. Cada um tenta afogar as desilusões enchendo a cara. Perfect veio ao nosso planeta para coletar informações para um tal de Guia do Mochileiro das Galáxias, uma enciclopédia destinada a assessorar os viajantes interplanetários com todo tipo de conhecimento sobre o universo que eles possam precisar. Com uma proposta consultiva e direta, o livrão tem na sua capa o primeiro ensinamento: não entre em pânico! Quando Ford Perfect descobre que a Terra será destruída pelos vogons, uma raça alienígena violenta e sanguinária, o falso ator organiza sua partida do planeta azul e convida Arthur Dent para fugir com ele. Assim, a dupla embarca clandestinamente na nave vogon. A partir daí, começam as aventuras interespaciais de Arthur e Ford. Os dias de monotonia e de tranquilidade das personagens terminam definitivamente quando eles chegam ao espaço. Ainda na nave extraterrestre que os tirou do nosso planeta, Arthur e Ford precisam se esconder dos inimigos. Quando são enfim descobertos, os dois são expulsos sumariamente pelos vogons. Por sorte, a dupla não fica muito tempo à deriva no espaço. Eles são resgatados por uma nave comandada por Zaphod Beeblebrox, importante figurão interplanetário. Ele vive com Trillian, uma terráquea charmosa que tinha fugido da Terra após conhecer Zaphod em uma festa. Ao longo dos outros quatro livros da série, “O Restaurante no Fim do Universo” (Arqueiro), “A Vida, o Universo e Tudo Mais” (Arqueiro), “Até Mais, e Obrigado pelos Peixes!” (Arqueiro) e “Praticamente Inofensiva” (Arqueiro), Arthur Dent e Ford Perfect viajam até os confins do universo aprontando todas. Para se ter uma ideia, Arthur tem uma filha com Trillian (a rotina em uma nave espacial seria pouco casta e monogâmica?), se torna mestre no preparo de sanduíches em um planeta distante (não dá para viver sem um emprego nem mesmo lá nas alturas!!!) e precisa fugir o tempo inteiro dos inimigos (seria ele vítima de xenofobia fora da Terra ou o espaço é mesmo um lugar extremamente violento, hein?!). Para completar, a dupla mais inseparável da literatura inglesa anseia por uma resposta para a Pergunta Fundamental da Vida. Eles fazem tudo isso com o Guia do Mochileiro das Galáxias em mãos. Afinal, a enciclopédia interestelar é o almanaque fundamental para quem viaja de um planeta a outro pelo cosmo. E aí, você já leu a coleção O Guia do Mochileiro das Galáxias? Se ainda não, recomendo encarar o primeiro romance da coletânea de Douglas Adams. Uma vez começada a saga de Arthur Dent e Ford Perfect pelo espaço sideral, na certa você não vai mais querer parar de lê-la. O legal é que os cinco livros desta série são curtinhos. Em conjunto, eles não devem ter mais do que 1.100 páginas – o tamanho aproximado de “A Viajante do Tempo” (Saída de Emergência), o primeiro livro de Outlander, próxima série que vamos discutir neste post. Sim, só um título da coleção Outlander tem a mesma quantidade de páginas de toda a Série O Guia do Mochileiro das Galáxias. Com medinho de encarar longas narrativas literárias, hein? O que posso dizer nessa hora é: inicia a leitura; e não entre em pânico! 3) Coleção Outlander – Diana Gabaldon (Estados Unidos) – Aventura Histórica – “A Viajante do Tempo” (1991), “A Libélula no Âmbar” (1992), “O Resgate no Mar” (1993), ”Os Tambores do Outono” (1996), “A Cruz de Fogo” (2001), “Um Sopro de Neve e Cinzas” (2005), “Ecos do Futuro” (2009), “Escrito com o Sangue do Meu Coração” (2014), ““Diga às Abelhas que Não Estou Mais Aqui” (2021). Se eu não colocasse Outlander, conjunto de nove romances e algumas coletâneas de contos e de ensaios não ficcionais (confesso que já perdi a conta de quantos livros esta saga possui ao todo) da norte-americana Diana Gabaldon, na minha lista de séries literárias favoritas, Débora, uma de minhas amigas mais queridas, iria me matar. Beijo, Debinha! Ela mesma fez essa ameaça (devidamente registrada nas redes sociais do Bonas Histórias) quando publiquei, em agosto, a parte I desta sequência de posts da coluna Recomendações. Como não quero ser morto, ainda mais por mãos amigas, aqui está a apresentação da coleção de títulos de Gabaldon que tanto nos encantou, Srta. Débora Pesso. Logo de cara, preciso alertar que para mergulhar em Outlander, o leitor precisa ter fôlego de maratonista (ou seria disposição de crítico literário?). Afinal, cada obra da saga de Claire Randall, enfermeira inglesa da Segunda Guerra Mundial que acabou viajando no tempo até a Escócia do século XVIII, tem mais de mil páginas. Aí você multiplica: mil páginas por nove romances. Dá, se minha calculadora mental não estiver tão ruim, nove mil páginas. Se contarmos que a série ainda não foi concluída (sim, senhores e senhoras, Gabaldon continua escrevendo, escrevendo, escrevendo...) e possui títulos adicionais (contos e ensaios que giram entorno do enredo dos romances), podemos colocar tranquilamente mais de dez mil páginas no colo dos leitores. Durmamos (ou não durmamos) com esse peso. Diante dessa avalanche literária (quase usei o termo “informação assustadora”), alguém pode alegar: então não vou nem começar a ler Outlander. Se não curto muito literatura, o que dirá ficar preso(a) a uma trama quase infinita, né? Este argumento pode até parecer válido em um primeiro momento. Entretanto, ele não se aplica aos casos reais que conheço. A Débora, por exemplo, não é muito chegadinha em obras da literatura ficcional (segundo palavras dela mesmo, tá?). Como boa atriz que é (agora são minhas palavras), seu lance é mais os textos cênicos e as produções cinematográficas. Aí eu emprestei o livro “A Viajante do Tempo” (Saída de Emergência), o primeiro volume da série de Diana Gabaldon, e minha amiga não conseguiu mais parar de ler. Quando digo que ela não parou mais de ler, não é apenas o livro e sim a coletânea inteira. Inclusive, Debinha atrasou um pouco o acompanhamento da série de televisão Outlander, adaptação dos romances de Gabaldon para as telas (cuja produção, vale a menção, é simplesmente ESPETACULAR!!!), para não ter sua experiência literária comprometida. O que a boa literatura não faz conosco. Segundo sei, Débora já leu “A Libélula no Âmbar” (Arqueiro), “O Resgate no Mar” (Arqueiro), ”Os Tambores do Outono” (Arqueiro), “A Cruz de Fogo” (Arqueiro) e “Um Sopro de Neve e Cinzas” (Arqueiro), respectivamente o segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto volumes da série. Parece que ela está lendo agora “Ecos do Futuro” (Arqueiro), o sétimo livro da coletânea. Aí faltarão apenas “Escrito com o Sangue do Meu Coração” (Arqueiro), obra lançada no final do ano retrasado no Brasil e “Diga às Abelhas que Não Estou Mais Aqui” (Arqueiro), título recém-publicado por aqui. É isso mesmo, Debinha, ou entendi errada as nossas últimas conversas, hein? Para quem ficou curioso(a) pelos detalhes do enredo de Outlander, vamos a eles. A coletânea é protagonizada por Claire Randall, uma jovem enfermeira inglesa que acabou de retornar da Segunda Guerra Mundial. Para se reaproximar do marido, um historiador escocês, Claire viaja em uma segunda Lua de Mel para Inverness, em Highlands, nas Ilhas Britânicas. Em um passeio pelas montanhas da região, a moça acaba tragada por uma fenda temporal até a Escócia de 1743. A nova realidade se mostra muitíssimo violenta. Sozinha em uma sociedade machista e sanguinolenta, Clare precisa usar a coragem e a inteligência para superar os infindáveis desafios que insistem em aparecer no horizonte. Suas principais armas são o seu conhecimento histórico e as habilidades medicinais. Já sabendo o que irá ocorrer na Escócia do século XVIII e conseguindo identificar (e sanar) as doenças medievais, Clare torna-se rapidamente uma figura importante para as autoridades locais. Como consequência, ela também ganha inimigos poderosos, que a veem como bruxa. Em meio a tantos tormentos, a moça se apaixona por Jamie, um jovem guerreiro escocês ingênuo e inexperiente. Não demora para os dois ficarem juntos e se casarem. Do ponto de vista carnal e sentimental, a união com Jamie é até mais forte do que Claire tinha em seu primeiro casamento (aquele do século XX, lembram-se?). Afinal, logo após o matrimônio (ainda estou falando da primeira união!), a enfermeira precisou deixar o marido em casa para socorrer os feridos nos campos da Segunda Guerra Mundial. Quando pouco a pouco a vida da protagonista começa a entrar nos eixos na belicosa Escócia dos anos 1740, um novo passeio despretensioso da moça pelas montanhas de Highlands resulta em mais um incidente temporal. Ai, ai, ai. Pelo visto, essas fendas que nos levam a universos paralelos são mais perigosas do que podemos supor (beijo, Mara!). Se você se interessou por essa trama, só tenho uma coisa para te dizer. Não comece a leitura de “A Viajante do Tempo” se você não tiver tempo e disposição para embarcar para valer na série inteira. Porque a leitura de alguns poucos capítulos do volume inicial da saga já será suficiente para te tragar, como se houvesse uma fenda mágica no meio do livro, para o universo encantador e desafiador de Claire Randall. Saiba que Diana Gabaldon é uma das melhores vozes da literatura norte-americana contemporânea e seu trabalho ficcional é impecável. Por isso, cuidado para não se viciar. Não é verdade, Debinha? 4) Série Senhores de Roma – Colleen McCullough (Austrália) – Saga Histórica – “O Primeiro Homem de Roma” (1990), “A Coroa de Ervas” (1991), “Os Favoritos de Fortuna” (1993), “As Mulheres de César” (1996), “César” (1997), “Cavalo de Outubro” (2002) e “Antônio e Cleópatra” (2007). Sejamos sinceros: o trabalho literário mais famoso de Colleen McCullough, uma das principais escritoras australianas de todos os tempos, é “Pássaros Feridos” (Bertrand Brasil). Esse romance histórico ambientado em Drogheda, um minúsculo povoado do Outback da Austrália, é um clássico da literatura em língua inglesa. Milhões e milhões de leitores do mundo inteiro padeceram com a história do amor proibido da jovem e meiga Meggie Cleary com o belo e ambicioso padre Ralph de Bricassart. Porém, não estamos aqui para falar de “Pássaros Feridos”. E sim da Série Senhores de Roma, a coletânea de romances mais ambiciosa de McCulloug. Se você nunca ouviu falar desta saga, não se martirize, por favor. Dentro do portfólio literário de Colleen McCullough, a Série Senhores de Roma não figura entre os títulos mais populares. Depois de “Pássaros Feridos”, o líder absoluto no ranking de best-sellers da autora australiana, temos “As Moças de Missalonghi” (Círculo do Livro). Acho até que Carmine Delmonico, a coletânea de romances policiais de McCullough, vendeu mais exemplares do que Senhores de Roma. Pensando bem, não é fácil competir com um bom thriller criminal, né? Gastei dois parágrafos só para dizer que mesmo não sendo tão conhecido aqui no Brasil, Senhores de Roma é uma série INCRÍVEL!!! Seus sete romances, “O Primeiro Homem de Roma” (Bertrand Brasil), “A Coroa de Ervas” (Bertrand Brasil), “Os Favoritos de Fortuna” (Bertrand Brasil), “As Mulheres de César” (Bertrand Brasil), “César” (Bertrand Brasil), “Cavalo de Outubro” (Difel) e “Antônio e Cleópatra” (Difel), foram lançados entre 1990 e 2007 e são livros do tipo tijolões. Em média, cada título possui 850 páginas. Portanto, estamos falando, segurem-se na cadeira, meu povo, de uma série literária com aproximadamente 6 mil páginas. Obviamente, Senhores de Roma não supera Outlander em extensão narrativa, mas precisamos reconhecer que ele é bem grandinho. É preciso fôlego, meus caros, para embarcar nos conflitos políticos e sentimentais das principais autoridades do final da República Romana e do início do Império Romano. Por falar nisso, vamos tratar já do enredo desta saga. O que Colleen McCullough fez em Senhores de Roma foi romancear a história real de Roma entre 110 a.C. e 30 a.C. Misturando ficção (na construção das cenas, no estabelecimento dos diálogos, no colorido da ambientação e nos detalhes dos bastidores do poder) com passagens históricas (fruto de muita pesquisa, claro!), a escritora recriou à sua maneira os principais acontecimentos de aproximadamente oito décadas que levaram ao término da República de Roma e a decretação do Império Romano. Se hoje essa combinação de ficção e não ficção pode ser um tanto banal (veja a modinha das séries de televisão atuais que recriam o cotidiano de famosos e poderosos), no início da década de 1990, quando McCullough começou sua saga, esse recurso narrativo era uma grande novidade (e uma sacada genial!). Nesta coletânea de romances, o olhar de Colleen McCullough paira sobre os homens e mulheres que estavam no cerne do poder. Ao mergulharmos na rotina dos poderosos, descobrimos as rivalidades, as intrigas políticas, os motivos reais das guerras, as alianças familiares, os jogos de sedução, os amores e desamores, as traições e as paixões avassaladoras da elite da nação que estava no centro do mundo em sua época. Incrível, hein? Algo que precisa ser dito sobre Senhores de Roma é que não temos um núcleo de protagonistas definidos nesta série. À medida que a trama dos livros avança, novas personagens são inseridas e velhas figuras são escanteadas. O que vale aqui é o olhar atento para quem ocupa os principais postos do poder. Se a política é dinâmica e recheada de altos e baixos, o narrador irá acompanhar quem está ascendendo e quem chegou lá no alto (e, por consequência, abandonar sem pudor quem está em decadência e quem mergulhou no ocaso). O único problema para os leitores brasileiros que forem curtir esta saga de McCullough é que Senhores de Roma não foi publicado integralmente em nosso país. Os dois últimos livros da coletânea, “Cavalo de Outubro” e “Antônio e Cleópatra”, não foram traduzidos nem lançados pela Bertrand Brasil. Quando falei que esta coleção não foi um grande sucesso de vendas por aqui, você entende agora as consequências disso, né? A boa notícia é que podemos recorrer a versão portuguesa desses dois títulos. A Difel, outrora uma editora lusitana e hoje um selo do Grupo Editorial Record, publicou em Portugal “Cavalo de Outubro” e “Antônio e Cleópatra”. Quem gosta de garimpar livros em sebos, não terá muita dificuldade para achar algumas cópias deles no lado de cá do Oceano Atlântico. E aí, você tem coragem de embarcar no mundo violento, intrigante, apaixonante e surpreendente da República Romana? Se sim, boa jornada de seis milhares de páginas pela série literária mais ambiciosa de Colleen McCullough, um dos monstros sagrados da literatura australiana. Com este post de hoje encerro a lista com as 12 Séries Literárias Internacionais que Valem a Leitura. Espero que vocês tenham gostado dessa rápida viagem, em três partes, pelas coleções de romances estrangeiros mais interessantes que temos à disposição nas livrarias brasileiras. Enquanto não volto com mais conteúdo para a coluna Recomendações, continue curtindo os demais posts do Bonas Histórias. Afinal, como eu sempre digo: enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê. Fazer o quê?! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Outubro de 2012

    Os corintianos só pensam no Mundial de Clubes em dezembro. Porém, o Timão precisa alcançar antes uma posição confortável no Campeonato Brasileiro. 1º de outubro de 2012 – segunda-feira Vou aproveitar o comecinho de outubro para olhar para trás. Falarei, hoje, dos profissionais que saíram do Corinthians ao longo da vitoriosa temporada de 2012. Contarei para vocês como eles estão e por onde andam. A maioria saiu pela porta da frente do Parque São Jorge e está muito bem em seus novos clubes. Leandro Castán é titular da zaga da Roma. O brasileiro chegou muito bem na Itália, fez boas partidas e foi convocado recentemente pelo técnico Mano Menezes para os amistosos do Brasil. Outro jogador do clube da capital italiana é Marquinhos. O jovem defensor já treina com os companheiros e tem ficado no banco de reservas, mas ainda não estreou com a camisa grená. É questão de tempo para ele iniciar uma partida e mostrar seu valor. Outro ex-titular da campanha vitoriosa do Timão na Libertadores que foi para o exterior é Alex. O antigo camisa 12 acertou com o Al Gharafa do Qatar e desde a sua transferência não tive mais notícias dele. Afinal, quem acompanha o futebol do Qatar, né? Alex deverá ficar escondido no Oriente até o final do contrato ou quando estiver envolvido em uma nova negociação para o futebol brasileiro. Quem surpreendeu positivamente no novo clube foi Liedson. O Levezinho assinou há quase dois meses com o Flamengo. Ele tem jogado com frequência e tem feito gols com a camisa rubro-negra. O atacante luso-brasileiro parece estar se recuperando dos problemas físicos e tem empolgado os cariocas. Boa sorte, Liedson! Continue botando a bola nas redes, meu rapaz! Por falar em Flamengo, o clube da Gávea assinou um contrato de risco com o Imperador Adriano há cerca de dois meses. O centroavante jogará pelo time do coração e só receberá salário se entrar em campo. Como o atleta (atleta?!) ainda não estreou, não há prejuízo financeiro para o Mengo. Mesmo sem jogar, as confusões causadas pelo problemático jogador têm sido constantes. Nesse final de semana, por exemplo, Adriano faltou pela terceira vez aos treinos e quase teve o contrato suspenso pela diretoria rubro-negra. Nessa segunda-feira, o Imperador até ameaçou encerrar definitivamente a carreira. Porém, voltou atrás algumas horas depois. Como é bom saber que não temos mais problemas desse tipo no CT Joaquim Grava. A maioria dos profissionais que saiu do Timão tem tido passagens satisfatórias pelos novos clubes. Ramon é dono da lateral esquerda do Flamengo. Gilsinho sempre joga no ataque do Náutico, apesar de não ter se firmado na equipe titular. Élton foi para o Vitória da Bahia e é um dos artilheiros da Série B. Bill foi para o Santos e de vez em quando joga, sendo o único que ainda não decolou pra valer na nova casa. Assim como aconteceu com Alex, William foi para o Metalist da Ucrânia e, a partir de então, não tive mais notícias suas. Deve estar tudo bem com ele por lá, é o que eu espero. Desejo muito sucesso e alegrias a todos os profissionais que ajudaram o Timão a viver, em 2012, o ano que esperávamos há anos. 2 de outubro de 2012 - terça-feira Depois da vitória de domingo sobre o Sport Recife, os atletas corintianos ganharam folga na segunda-feira. Devidamente descansados, eles retornaram hoje aos trabalhos no CT Joaquim Grava. Curiosamente, os jogadores do Timão não foram os únicos a começar a semana com treinos no local. De manhã, a Seleção Brasileira, que jogará na quarta-feira na Argentina a segunda partida do Superclássico das Américas, usou os campos do Parque Ecológico do Tietê para a preparação. A comissão técnica da CBF preferiu usar o moderno centro de treinamento corintiano em Guarulhos para os últimos preparativos antes da partida, ao invés de realizar tais atividades no país vizinho. Ralf, Paulinho, Cássio e Fábio Santos treinaram normalmente onde sempre trabalham, só que dessa vez usando o uniforme verde-amarelo. Deve ser uma sensação estranha estar com os companheiros do time nacional onde se costuma ficar com os companheiros de clube. Pelo menos, os quatro atletas do Timão já se sentem em casa no Parque Ecológico, né? Eles conhecem o caminho de ida e volta do CT e sabem onde fica cada setor no complexo. À tarde, quando os atletas da Seleção foram para o hotel se preparar para a viagem para a Argentina, os jogadores corintianos foram a campo. Por causa das várias baixas, Tite tinha apenas 14 jogadores à disposição. Para realizar o coletivo, o gaúcho colocou membros da comissão técnica em um dos times que foi ao gramado. Jorge Henrique era a única peça no departamento médico. Novamente, o camisa 23 sentiu dores musculares. Chicão e Denner, já recuperados, treinaram a parte física com o fisioterapeuta Bruno Mazziotti. Emerson Sheik também se dedicou apenas ao condicionamento físico. Os veteranos Alessandro e Paulo André foram preservados e fizeram apenas atividades leves na academia do clube. A lista de ausentes do treinador corintiano tem ainda Fábio Santos, Cássio, Paulinho e Ralf, que estão na Seleção Brasileira, e Martínez, que está na Argentina. Para completar a coleção de baixas, três garotos promovidos da base ao profissional foram cedidos novamente para a equipe sub-20 do Timão que disputará a Copa do Brasil da categoria. O meia-atacante Giovanni, o zagueiro Antônio Carlos e o goleiro Matheus Caldeira reforçam o Timãozinho na competição de juniores. Dessa maneira, os três também não puderam treinar com os profissionais. Aproveitando que estamos falando da categoria de base, o Corinthians anunciou a contratação de um superintendente técnico para o futebol amador. O cargo é novo e foi entregue a Marcelo Rospide, ex-treinador com passagem pelo Grêmio de Porto Alegre e pelo Grêmio Prudente. A mudança faz parte da reestruturação do departamento iniciada com a saída do técnico Narciso. Zé Augusto, experiente treinador com passagens pelo Timão e tendo disputado algumas edições da Copa São Paulo com a garotada do Parque São Jorge, voltou a dirigir o time de base do Corinthians. Vamos ver se as mudanças deixarão as equipes de jovens mais fortes. 3 de outubro de 2012 - quarta-feira Eu reluto em falar da Seleção Brasileira. Não tenho interesse em ver os jogos do Brasil, principalmente amistosos ou competições sem relevância. Sempre tive uma visão crítica da CBF, mesmo na época das grandes conquistas nacionais. Imagine agora quando nós temos um time modesto, incapaz de vencer as melhores seleções! É óbvia, portanto, a minha falta de disposição para acompanhar os jogos da equipe canarinho. Se até os mais fanáticos torcedores brasileiros estão descrentes e ignoram o time verde-amarelo, imagine então como eu me sinto. Não sei precisar bem a real razão do sentimento negativo em relação ao time nacional. Só sei que é assim. Em minha concepção, meu verdadeiro time é o Corinthians. E só ele! Como sou um rapaz fiel aos desígnios do coração, me sinto um traidor torcendo para uma segunda equipe, mesmo sendo a Seleção. Por isso, o Brasil sempre fica em segundo (talvez, terceiro, quarto, quinto...) plano nas minhas preocupações e sempre perde de goleada nos meus interesses esportivos. Estou fazendo tal confidência para justificar a decisão de assistir pela televisão a partida entre Brasil e Argentina nesta noite. Antes de ser acusado indevidamente de contraditório, bipolar ou mentiroso, deixe-me explicar, por favor! Minha motivação e curiosidade em relação ao jogo da Seleção estava exclusivamente na legião de corintianos que foi a campo na cidade de Resistência, no país vizinho. O confronto era válido pela segunda partida do Superclássico das Américas. É ótimo ver o sucesso dos atletas alvinegros. Tanto Brasil quanto Argentina contavam com corintianos. No lado brasileiro, Fábio Santos, Ralf e Paulinho eram titulares. Cássio novamente começou na reserva. E Martínez foi escalado no ataque do time argentino. Com quatro atletas do Timão em campo e um no banco, era impossível desgrudar os olhos da telinha, né? Eu só não esperava que não teríamos partida. Como assim não teve jogo?! Quando os hinos nacionais eram tocados no estádio da pequena cidade argentina, capital da província de Chaco e distante 1.000 quilômetros de Buenos Aires, a energia elétrica caiu e os refletores desligaram. Após quase uma hora de espera (sim, uma hora de espera!!!), o juiz não pode fazer outra coisa a não ser cancelar o confronto. O estádio argentino não tinha estrutura para abrigar um evento daquele porte e as autoridades locais não sabiam quando a luz voltaria. Ai, ai, ai. Vejam só o absurdo! Os times brasileiros liberam seus jogadores para as seleções para um jogo sem importância. Os atletas ficam dias sem treinar no clube e encaram desgastantes viagens pelo continente. Aí a partida simplesmente não acontece. Inacreditável!!! A desorganização da CBF e da AFA (Associação de Futebol Argentino) é algo muito triste e envergonha os apaixonados pelo esporte. Em questão de minutos, o cancelamento do Superclássico virou notícia no mundo inteiro. A mídia internacional repercutiu negativamente a informação da falta de estrutura e de competência dos dirigentes da América do Sul. E imaginar que a próxima Copa do Mundo será por aqui. Infelizmente, o futebol da nossa região é uma grande várzea, isso sim. 4 de outubro de 2012 - quinta-feira O bom desempenho de um time dentro de campo está intimamente ligado à sua boa organização fora das quatro linhas. O contrário também pode ser dito. A bagunça na partida de ontem (ou seria a "não partida", hein?) do Superclássico não é um fato isolado. Tanto a Confederação Brasileira de Futebol quanto a Associação de Futebol Argentino são antros de esculhambação. Elas se notabilizaram nas últimas décadas pela desorganização, pela corrupção e pelo antiprofissionalismo. A AFA é, acreditem se quiser, ainda pior do que a CBF quando o assunto é seriedade. Não à toa, nossos hermanos estão há 34 anos sem conquistar uma Copa do Mundo. Aproveito esse tipo de analogia para mostrar que o sucesso recente nos gramados do Sport Club Corinthians Paulista é fruto de sua evolução estrutural e administrativa nos últimos anos. Há poucas semanas, um estudo da consultoria Pluri apontou o Timão como a agremiação mais transparente do futebol nacional. Entende-se como transparência a capacidade da instituição em demonstrar à sociedade e aos torcedores as ações tomadas pelos dirigentes do clube. Assim, ganha-se ponto quem disponibiliza os balanços financeiros no site, há quantos anos são transmitidas essas informações, qual a periodicidade dessa divulgação e a existência de dados sobre o estatuto, o organograma, o orçamento, o relatório anual e a política de governança. Talvez o exemplo mais bem-acabado do sucesso administrativo do Corinthians esteja refletido no Programa Fiel Torcedor. O Timão possui aproximadamente 104 mil associados que pagam mensalmente para ter a preferência na compra de ingressos para as partidas em casa. Para se ter uma ideia da representatividade desse número, a agremiação com maior número de sócios no país ainda é o Internacional de Porto Alegre com 106 mil. Ou seja, o Coringão deverá ultrapassar, nos próximos meses, a marca do Inter e se tornará o clube com o maior programa de associados do Brasil. A previsão do gerente de arrecadação do Corinthians, Lúcio Blanco, é que as receitas do Fiel Torcedor aumentem ainda mais nas próximas temporadas. O novo estádio, que está em construção, deverá atrair mais torcedores e patrocinadores. Várias ações de marketing estão sendo planejadas para quem for integrante do programa corintiano. Os principais benefícios em pauta são a possibilidade de votação para a presidência do Timão nas próximas eleições e o uso das instalações do Parque São Jorge como se o associado fosse um integrante do clube. Nada mal, hein?! Nota-se a maior preocupação dos dirigentes alvinegros com o consumidor corintiano. No último final de semana, por exemplo, um turista escocês foi hostilizado no Pacaembu pelos torcedores do Timão. O motivo: ele estava vestindo a camisa do Celtic, formada por faixas horizontais verdes e brancas. Como todo corintiano sabe, não se pode usar nada verde (as cores do rival Palmeiras) em nossas arquibancadas. O gringo não sabia e precisou ser retirado do estádio para não apanhar. Chateados (e envergonhados) com o mal-entendido, os cartolas corintianos descobriram depois quem era o escocês envolvido na confusão e o convidaram a visitar o clube. Aí pediram desculpas. Um gesto simples, mas que mostra a grandiosidade do espírito deste clube. 5 de outubro de 2012 - sexta-feira Excepcionalmente, a próxima rodada do Campeonato Brasileiro será realizada integralmente no sábado. Não haverá jogos no domingo, 7 de outubro, porque essa data foi reservada para o primeiro turno das eleições municipais. Em período de eleições no Brasil, a bola fica em segundo plano. Para não haver conflito de interesse, os torcedores poderão se divertir assistindo aos jogos amanhã e estarão livres para votar a prefeito e a vereador no domingo. Sem concorrência desleal com o futebol ou distrações esportivas, os eleitores não têm desculpas para não ir às urnas. A 28ª rodada do Brasileirão promete ser emocionante. No topo da tabela, três times disputam o título: Fluminense (com 59 pontos), Atlético Mineiro (53) e Grêmio (50). O Flu tem clássico com o Botafogo no Rio de Janeiro. Se o sábado for totalmente positivo, o tricolor carioca poderá encerrar o final de semana com nove pontos de vantagem em relação ao segundo colocado. Aí ficará difícil tirar o título das Laranjeiras, né? Para evitar o fim precoce do campeonato, o Galo pega o vice-lanterna Figueirense em casa. E o Grêmio recebe o Cruzeiro em Porto Alegre. Ambos os postulantes ao título precisam vencer e torcer contra o líder da competição. Para os paulistas, o grande jogo desta rodada é São Paulo e Palmeiras. A equipe do Morumbi precisa vencer para continuar com chances de terminar em quarto lugar e, assim, conseguir vaga para a Copa Libertadores de 2013. A briga pela 4ª posição do Brasileirão está entre Vasco da Gama (4º colocado com 47 pontos), São Paulo (5º com 43), Internacional (6º com 41) e Botafogo (7º lugar com 40 pontos). Do lado do Parque Antártica, a briga é para fugir do rebaixamento. Depois da contratação do novo treinador, Gilson Kleina, o Palmeiras venceu dois jogos consecutivos. A situação na tabela de classificação melhorou um pouco, mas ainda é preciso continuar somando pontos para ficar na Série A em 2013. O clássico paulista deverá ser emocionante. O Coringão enfrentará o Náutico em Recife. A equipe pernambucana está em posição intermediária no Brasileirão (13º lugar) e é um adversário dificílimo quando atua em seu território. Jogando no Estádio dos Aflitos, o Náutico só perdeu duas partidas neste campeonato. A pressão lá é intensa para os visitantes. Querendo somar logo os seis pontos necessários para ficar tranquilo no restante da competição, o técnico Tite irá colocar em campo força máxima na próxima partida. Só não jogarão em Recife Romarinho (três cartões amarelos), Emerson (ainda cumprindo suspensão), Jorge Henrique (contundido) e Chicão (em recuperação física). A equipe corintiana pegará o Náutico com: Cássio; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Douglas e Danilo; Guerrero e Martínez. Os gringos Martínez e Paolo Guerrero serão novamente os atacantes titulares do Timão. A única diferença é que, dessa vez, eles formarão uma dupla e não um trio. Contra o Botafogo, vale a pena lembrarmos, o camisa 7 e o camisa 9 tiveram a companhia de Romarinho no ataque. Será uma boa oportunidade para vermos como eles irão jogar com Douglas e Danilo na armação das jogadas. Vai Curintia! 6 de outubro de 2012 - sábado Antes de Náutico e Corinthians, uma cena inusitada foi captada pelas câmeras de televisão. No alambrado do Estádio dos Aflitos, um senhor gritava insistentemente o nome de Paulinho. Ele parecia chamar o volante. Para surpresa geral, aquele homem era o pai biológico do jogador do Timão. Paulinho não o via há doze anos. Desde a separação dos pais, o filho perdera contato com o progenitor. Demonstrando muito carinho, o corintiano foi até o alambrado. Lá deu um beijo no patriarca e trocou algumas palavras. "Fazia um tempo que não o via. Ano passado meu irmão e meu primo vieram e o viram. Meu irmão fazia uns seis anos que não via ele também. Eu não guardo mágoas dele, cara. Hoje ele tem a vida dele, uma outra esposa... ", disse depois o camisa 8 aos jornalistas que presenciaram o encontro à beira do campo. Foi nesse clima de fortes emoções que a partida iniciou. O Náutico começou melhor. O time da casa fazia todas as jogadas pelo lado esquerdo da defesa corintiana. Fábio Santos não conseguia marcar os adversários. E as bolas eram chutadas ao gol de Cássio com perigo. O arqueiro alvinegro, em ótima forma, fez várias boas defesas. Porém, aos 30 minutos, ele foi batido. O centroavante pernambucano recebeu lançamento, driblou Fábio Santos e chutou forte. Gol dos mandantes. Náutico 1 a 0. Em desvantagem, o Timão resolveu jogar e foi para cima do oponente. Com o maior interesse dos corintianos pela partida, os lances de perigo começaram a surgir no nosso ataque. Após uma pequena pressão, os visitantes empataram. No último minuto da primeira etapa, Paulinho brigou pela bola na entrada da área adversária e ela sobrou para Guerrero. O centroavante peruano chutou de bico. 1 a 1. Peleja empatada em Recife. O segundo tempo foi muito bom. Os dois times foram para o ataque e tiveram chances de marcar. Douglas, Guerrero, Paulinho e Martínez quase fizeram o segundo do Corinthians. Na defesa, Cássio e Ralf evitaram o novo gol adversário. Quando tudo caminhava para o empate, aconteceu a jogada decisiva. Aos 45 minutos da etapa complementar, mais uma vez nas costas de Fábio Santos, o pior em campo, o lateral-direito do Náutico cruzou. Na pequena área, Ralf tentou cabecear para fora e jogou sem querer contra o próprio patrimônio. Gol dos pernambucanos para delírio dos torcedores do Timbu que lotavam o Estádio dos Aflitos. Em um raríssimo gol contra de Ralf, o Náutico fez 2 a 1 e decretou a nova derrota do Timão no Brasileirão. Com o apito final do juiz, Paulinho correu novamente para o alambrado. Agora ele queria se despedir do pai e lhe dar a camisa 8 do Coringão. "Obrigado por ter vindo. De verdade! Fico feliz. Vou demorar a voltar, tenho que fazer o antidoping. Mas obrigado por ter vindo. Eu ligo para o senhor", disse o corintiano. As palavras do filho emocionaram ainda mais o senhor pernambucano. Conferindo os resultados da rodada, os cinco primeiros colocados no campeonato venceram. Destaque para a goleada do São Paulo sobre o Palmeiras: 3 a 0 no Morumbi. Ou seja, lá em cima da tabela, tudo permanece igual. 7 de outubro de 2012 - domingo No domingo de eleições não teve futebol nos estádios do país. O esporte mais popular na terra de Machado de Assis se limitou às urnas. Sim, senhores e senhoras, as eleições e o futebol estão muito mais ligados do que a gente pode supor. Eu votei de manhãzinha, logo na abertura das seções eleitorais. Antes, abri o jornal para ver todos os candidatos ao pleito municipal. E para minha surpresa, havia vários corintianos disputando algum cargo público na cidade de São Paulo. O alvinegro de maior destaque no pleito desse ano era Joaquim Grava, o médico da equipe do Parque São Jorge. O doutor concorria como vice na chapa que tinha Paulinho da Força, do PDT, como candidato a prefeito. O ex-líder sindical chamou o médico corintiano pensando em atrair o voto dos milhões de corintianos na capital paulista. Era uma estratégia inteligente, se formos pensar bem, né? Os demais corintianos no pleito paulistano estavam disputando uma vaga na Câmara Municipal. De ex-jogadores do Timão, Marcelinho Carioca e Dinei foram os principais. Dinei fez uma campanha modesta: não apareceu muito e agiu aparentemente com honestidade. Diferentemente de Marcelinho, envolvido em escândalos e ações eticamente condenáveis. Quem se lembra do comportamento do Pé de Anjo na época de jogador não deve se surpreender com suas atitudes na política. A campanha de Marcelinho Carioca teve mais destaque na mídia porque o técnico Tite e atletas do atual elenco corintiano acusaram o antigo meia-atacante de usar ilegalmente suas imagens na propaganda eleitoral. Segundo as alegações deles, o ex-jogador teria pedido para os profissionais do Timão darem declarações de apoio. Contudo, prometeu usar os vídeos apenas em ações sociais. Diferentemente do que combinara, o Pé de Anjo usou as imagens na campanha política, o que gerou grande repercussão frente ao eleitorado. Jogo sujo e desonesto, né, Marcelinho?!! Outras figuras famosas ligadas ao Corinthians tentaram a sorte nessas eleições. Chico Lang, o jornalista mais corintiano do Brasil, se licenciou do cargo à frente da TV Gazeta para se aventurar pela primeira vez na política. Em sua campanha a vereador, ele lembrava que era alvinegro e pedia os votos do Bando de Loucos. Seu bordão era: "Não seja Zé Mané, coloque um cara de atitude na Câmara". Até uma personagem do Pânico, um programa humorístico de televisão, chamada de Vovó da Fiel concorreu. Ela prometeu defender a nação corintiana se eleita: "Ganhamos a Libertadores e vamos ganhar na Câmara". Sou corintiano, mas não sou besta, tá? Não votei em nenhum desses candidatos que se aproveitaram da imagem do Timão. E fiquei muito feliz que eles não foram eleitos. Paulinho da Força e Joaquim Grava ficaram apenas em 7º lugar para prefeito. Receberam 0,63% dos votos válidos. Para o legislativo municipal, Marcelinho Carioca teve 19.729 votos (80ª posição), Dinei com 9.243 (119ª), Chico Lang com 12.340 (107ª) e a Vovó da Fiel com apenas 3.474 (193ª). Ainda bem! Pelo menos desses aventureiros a Câmara Municipal de São Paulo está livre. 8 de outubro de 2012 - segunda-feira Hoje, falei com o meu amigo Paulo. Para quem não se lembra, Paulo Sousa também é escritor e sempre analisa previamente as obras que produzo. Eu gosto das opiniões dele e de seu senso crítico. Por isso, entreguei em agosto uma cópia dos capítulos iniciais de O Ano que Esperávamos Há Anos para ele ler. Nessa segunda-feira, combinamos de conversar a respeito. A ideia era pegar suas avaliações iniciais. Para mim foi ótimo. Afinal, tratava-se do primeiro feedback recebido destas páginas. De um modo geral, Paulo gostou do livro, da concepção e da estrutura narrativa. Ele considerou a obra interessante e com chances de ser publicada. Adorei ouvir isso! Evidentemente, ser corintiano deve tê-lo ajudado na leitura e na ambientação da história. Tenho sorte que ele é torcedor fanático do Timão. Imagino como deve ser difícil para são-paulinos, palmeirenses e santistas (para os anticorintianos como um todo!!!) acompanharem O Ano que Esperávamos Há Anos. Acredito que eles não conseguirão chegar sequer à metade do primeiro capítulo. Não por acaso, esse é o desafio de meu outro crítico, o palmeirense Roberto S. Inagaki. Apesar de sua boa vontade em ler tudo o que escrevo e de opinar com sinceridade, acho que dessa vez Roberto não vá querer ver meus relatos sobre a temporada futebolística de 2012. Voltando agora para as ideias do Paulo. Ele sentiu falta de imagens em O Ano que Esperávamos Há Anos. Para ele, eu deveria tirar fotos minhas de momentos importantes para ilustrar a publicação. Infelizmente, ele não sabe o quanto eu odeio tirar fotos e, por isso, não fiz nenhum registro deste tipo. Talvez a solução seja ilustrar com imagens gerais, captadas dos jogadores corintianos, dos jogos decisivos, das grandes contratações e dos principais acontecimentos do clube. Pode ficar legal, né? Ele também gostou dos relatos sobre os jogadores. Disse ter curtido conhecer um pouco mais dos atletas corintianos ao longo do ano, com cada um deles sendo citado no momento de maior destaque. Também achou válida a forma com a qual descrevi os jogos. Surpreendentemente, ele não considerou as descrições das partidas tão cansativas como eu temia. Ele deve ser muito fanático por futebol e pelo Timão para ter se empolgado com meu texto, né? As principais críticas negativas foram em cima de algumas histórias pessoais meio sem graça: "Na vida, existem dias maravilhosos. E também há dias enfadonhos, nos quais nada acontece. Nesses casos, você poderia escrever alguma história mais interessante dos jogadores ao invés de insistir nos relatos do seu cotidiano". Boa dica, Paulinho! Meu amigo também considerou meus relatos como sendo na maior parte das vezes bem-humorados. O problema está em algumas piadas que contei. Muito sem graça e batidas na visão dele. "Você poderia explorar mais as tiradas cômicas sobre o futebol, inclusive contra os corintianos. As anedotas que você citou são um pouco batidas, por isso seria uma boa colocar piadas menos conhecidas e mais engraçadas". Infelizmente, eu não sei contar piadas, pessoal. Desculpem-me. Obrigado pelas sugestões e pelo feedback, Paulo! Vou usar seus comentários para melhorar O Ano que Esperávamos Há Anos. Valeu pela contribuição mais uma vez! 9 de outubro de 2012 - terça-feira Amanhã à noite, o Corinthians enfrentará o Flamengo no Pacaembu pela 29ª rodada do Brasileirão. Esse será o terceiro jogo entre as duas equipes em 2012. O primeiro duelo foi um amistoso em janeiro (empate de 2 a 2) e o segundo foi pelo primeiro turno do Campeonato Brasileiro (chocolate corintiano de 3 a 0 no Rio). As equipes de maior torcida do Brasil vivem situações opostas na temporada. O Flamengo tenta fugir do rebaixamento. Está na 12ª colocação e tem 34 pontos (sete a mais do que o Sport Recife, o primeiro time no grupo de descenso). Os cariocas enfrentam crise financeira e o ambiente interno é muito conturbado. Os salários estão atrasados há alguns meses, o Imperador Adriano continua aprontando das suas e os dirigentes brigam entre si constantemente. A Gávea está uma balburdia. Por sua vez, o Timão é um mar de tranquilidade. Depois da conquista mais esperada pela Fiel Torcida, os jogadores do Corinthians entram para os jogos sem a pressão pelo resultado positivo a qualquer custo. A motivação imediata dos atletas corintianos é vencer dois jogos do Brasileirão. Assim, poderão ganhar folga de alguns dias antes do início formal dos preparativos para o torneio mais importante do segundo semestre. "Corinthians e Flamengo têm o maior Ibope da TV. As duas equipes não disputam mais o título, mas nem por isso deixa de ser um duelo atraente. Queremos chegar (logo) aos 45 pontos para pensarmos na preparação para o Mundial de Clubes", disse o zagueiro Paulo André. O Corinthians irá a campo com: Cássio; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Guilherme, Edenílson e Douglas; Romarinho e Emerson Sheik. Emerson Sheik? Como assim?! Ele não tinha mais um jogo de suspensão? Tinha. Mas não tem mais. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva alterou a pena do atacante de seis partidas de gancho para cinco. Como o camisa 11 já cumpriu esse número de partidas, poderá voltar. Essa é uma ótima notícia. Com Emerson Sheik entre os titulares, o ataque do Timão ganha muito mais força e as chances de gol aumentam. A única notícia ruim da terça foi a contusão muscular de Danilo. O meio-campista sentiu fortes dores na coxa durante o treinamento de hoje e saiu carregado do campo. Não enfrentará o Flamengo nem a Portuguesa, no sábado. Pelas primeiras notícias que chegaram do CT, não se trata de uma lesão séria. Danilo sofreu um edema na coxa esquerda e precisará de alguns dias de tratamento para se reestabelecer. Outra atração do jogo de amanhã será a presença de Liedson na equipe titular do Mengo. O Levezinho é a esperança de gols dos cariocas para o Clássico das Multidões. Será bom vê-lo novamente de perto. O problema atual do centroavante, ex-ídolo corintiano, não é mais muscular e sim financeiro. Liedson se disse recuperado dos problemas médicos que o atrapalharam no Timão no primeiro semestre. Suas dificuldades agora são para receber o salário em dia. Algo sempre muito difícil de ser feito no Flamengo há alguns anos. 10 de outubro de 2012 - quarta-feira A noite fria da capital paulista se tornou quente no Pacaembu. A torcida corintiana foi ao delírio quando o sistema de autofalantes do estádio municipal anunciou a presença de Emerson Sheik entre os titulares do Timão. A alegria dos torcedores só não foi maior do que quando se comunicou a presença de Zizao entre os relacionados para o banco de reservas. As arquibancadas vieram à baixo com o anúncio do chinês. Há sete meses no clube, o gringo ainda não estreou e a expectativa da torcida só aumenta. Todos gostam dele e querem vê-lo jogando um pouco. O Clássico das Multidões começou com total domínio corintiano. Bem-organizada, a equipe de Tite conseguia bloquear as ações ofensivas do Flamengo com facilidade e criava boas jogadas no setor ofensivo. Douglas, Paulo André e Guilherme, todos em cabeçadas, quase inauguraram o marcador. Apesar do Timão estar melhor, o primeiro gol do jogo foi do adversário. Em cobrança de falta para a grande área, três jogadores cariocas receberam livres e em impedimento. O juiz não marcou a posição irregular e um deles chutou para o gol. 1 a 0 para o Mengo. Revolta no estádio. Tite foi à loucura com a decisão do árbitro e, principalmente, do bandeirinha. Mesmo em desvantagem no placar, o Corinthians continuou melhor e criava várias chances. Douglas, ainda no primeiro tempo, cobrou falta na trave. Quase!!! Nos primeiros minutos do segundo tempo, Edenílson fez ótima jogada pela direita e foi derrubado na área. Pênalti! Infelizmente o juizão não viu a infração. Ladrão! A angústia corintiana acabou quando Fábio Santos roubou a bola na lateral esquerda e cruzou para a área. Edenílson se atirou em direção à bola e marcou seu primeiro gol com a camisa do Timão. 1 a 1. Com o empate, o massacre corintiano só aumentou. Fábio Santos, um dos melhores em campo ao lado de Edenílson, chutou e a bola lascou a trave. Uhhhhh. Na jogada seguinte, Paulo André cabeceou a cobrança de escanteio de Douglas e virou o placar. 2 a 1. Nos instantes finais do segundo tempo, Edenílson arrancou pela direita e encontrou Emerson na grande área. O atacante só teve o trabalho de colocar para dentro. Goooooool do Timão. 3 a 1. Para a alegria da torcida corintiana ficar completa só faltava a estreia de Zizao. Os torcedores gritaram para Tite colocar o chinês em campo, mas não foram atendidos. Ainda deu tempo de o Flamengo diminuir. Liedson aproveitou cruzamento e fez aos 45 minutos. Placar final: Corinthians (cada vez mais tranquilo e próximo de começar a preparação para o Mundial) 3, Flamengo (cada vez mais em crise e afundado em dívidas e confusões) 2. O Timão só não goleou novamente os cariocas porque, dessa vez, o juiz não deixou. Do contrário, a vitória alvinegra teria sido mais dilatada. Ao final do jogo, os repórteres correram na direção de Zizao. Todos queriam uma palavra do gringo em relação ao pedido da torcida. O chinês foi muito simpático. Ele agradeceu em português o apoio vindo das arquibancadas e prometeu logo mais estar em campo. O cara é muito gente boa e merece sim uma chance. Põe o Zizao, Tite! Só um pouquinho, por favor!!! 11 de outubro de 2012 - quinta-feira No jogo de ontem, Tite alcançou mais um feito histórico no Corinthians. O treinador gaúcho completou 186 partidas na equipe do Parque São Jorge. Chegou, assim, ao posto de quinto técnico que mais dirigiu o Timão. Tal marca pertencia ao atual comandante da Seleção Brasileira, Mano Menezes, com 185 jogos. Mano ficou à frente do alvinegro paulistano entre dezembro de 2007 e julho de 2010. Essa é a segunda passagem de Tite pelo Coringão. A primeira durou 272 dias e aconteceu entre maio de 2004 e fevereiro de 2005. O treinador corintiano foi demitido naquela oportunidade após discutir com o todo poderoso Kia Joorabchian, iraniano que presidia a MSI, grupo investidor que dava as cartas no Corinthians. Após uma derrota para o São Paulo no Morumbi, Kia invadiu os vestiários para questionar o treinador sobre suas decisões em campo. Tite não aceitou a postura do cartola e bateu boca. Obviamente, foi demitido. O tempo mostrou quem estava certo. Atualmente, Kia Joorabchian não pode entrar no Brasil, pois corre o risco de ser preso por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, processos em tramitação no Ministério Público. A nova passagem de Adenor Leonardo Bacchi no Corinthians já dura 722 dias. Ela foi iniciada em 20 de outubro de 2010. Na próxima semana, o gaúcho completará a incrível marca de 1.000 dias no Timão, contando os dois períodos. Seu aproveitamento é de 61,47%. São 97 vitórias, 52 empates e 37 derrotas. Dos quatro treinadores que mais dirigiram o Corinthians, Nelsinho Batista (com 192 partidas no currículo e na quarta colocação) deve ser ultrapassado pelo atual comandante alvinegro até o final deste ano. Nelsinho, para quem não se lembra, foi campeão brasileiro pelo Timão como técnico em 1990, a nossa primeira conquista nacional. Foi ele também o comandante do fatídico rebaixamento para a Série B em 2007. Tite fará mais 11 jogos até o fim da temporada (nove pelo Brasileirão e dois pelo Mundial) e chegará à marca de 197 jogos. No ano que vem, se Tite tiver o contrato renovado, como todos esperam, deverá chegar ao posto de segundo treinador com mais partidas pelo Timão. Ultrapassará Almícar Barbuy (240 partidas em quatro passagens pelo Corinthians, tendo sido campeão paulista de 1916) e José Castelli, o Rato (256 partidas em cinco passagens, tendo conquistado o bicampeonato paulista de 1951 e 1952). Só não conseguirá, por enquanto, chegar perto de Oswaldo Brandão (441 jogos em cinco passagens pelo clube). Brandão é uma lenda no Parque São Jorge. Ele conquistou o Campeonato Paulista de 1954 pelo Corinthians. Depois disso, o treinador saiu para dirigir outras equipes do país e o Timão não ganhou mais nada. Sem o lendário treinador, ficamos 23 anos sem glórias. Foi preciso Oswaldo Brandão retornar ao clube em 1977 para a torcida alvinegra voltar a sentir o gosto de ser campeã paulista. Para superar o recordista, Tite precisará ficar muitos anos no Timão. Pensando bem, até que não é uma má ideia, né? "Por mim, o Tite fica mais uns dez anos aqui no Corinthians", disse em fevereiro Edu Gaspar, gerente corintiano. Concordo com ele! 12 de outubro de 2012 - sexta-feira Amanhã, o Corinthians enfrentará a Portuguesa no Canindé. O objetivo da comissão técnica do Timão é alcançar a pontuação que garanta a tranquilidade para o restante do Brasileirão. Inicialmente, Tite queria conquistar 45 pontos. Com esse patamar atingido, acreditava não correr mais riscos de rebaixamento se focasse nos preparativos para o Mundial Interclubes. Agora a conversa mudou um pouco. O comandante corintiano reviu os cálculos e disse que 43 pontos já são suficientes. Assim, só falta mais um pontinho para chegarmos à chamada zona de segurança. De acordo com esse ideal, um empate no sábado à noite é um bom resultado. Para a próxima partida, Tite continua sem os quatro jogadores selecionáveis. Paulinho está na Seleção Brasileira, Ramirez e Guerreno na Peruana e Martínez na Argentina. Eles não puderam entrar em campo contra o Flamengo na quarta-feira por estarem em excursão no exterior. O quarteto só deverá ficar novamente à disposição do técnico corintiano no outro final de semana. Os três jogadores do Timão vetados para a partida com a Lusa são: Danilo em tratamento na coxa; e Chicão e Jorge Henrique em recuperação física. Dessa maneira, a equipe corintiana que foi escalada para o clássico paulistano é idêntica ao da última rodada: Cássio; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Guilherme, Edenílson e Douglas; Romarinho e Emerson. No banco, Zizao estará presente, assim como Chiquinho, o último contratado alvinegro vindo do Ipatinga-MG. O grande destaque da partida de sábado será Guilherme. Após ter jogado a vida toda na Portuguesa, o volante alvinegro enfrentará pela primeira vez o ex-clube. A torcida da casa deverá recepcioná-lo com muitas vaias e xingamentos. Vamos ver se o jovem talento do Timão terá a cabeça fria para suportar a pressão. Ele tem substituído muito bem Paulinho quando o titular se ausenta. Por falar em vaias e xingamentos, não existe torcida mais revoltada no Brasil do que a do Palmeiras. O Palestra perdeu ontem mais uma vez, agora para o Coritiba em casa por 1 a 0. Os verdinhos estão nove pontos atrás do primeiro time livre da zona de rebaixamento. E faltam nove rodadas para o término do Brasileirão. O gol do Coxa aconteceu aos 44 minutos do segundo tempo. Foi algo lindo!!! Eu ouvi o jogo pelo rádio e, confesso, vibrei bastante com o gol. Para piorar ainda mais as coisas para os lados do Parque Antártica, os próximos dois duelos do Palmeirinha serão fora de casa: em Recife contra o Náutico e em Salvador contra o Bahia. Se eles voltarem sem nenhum ponto para São Paulo, aí já estará na hora de preparar o caixão... O ano que sonhávamos há anos está se materializando. O Timão campeão da Libertadores e do Mundial. O São Paulo mais um ano na fila. E o Palmeiras na Série B. Desculpem-me, mas não sei mais o que poderia pedir para o Papai do Céu. Ele tem sido tão bom e generoso com a Fiel Torcida em 2012. A única coisa a fazer é agradecer eternamente a sua ajuda. Obrigado, Meu Pai!!! 13 de outubro de 2012 - sábado A temperatura se manteve fria na cidade de São Paulo durante toda a semana. Nesse sábado, a média foi de 15ºC durante à tarde, com declínio das temperaturas no cair da noite. Às 21 horas, horário do jogo entre Portuguesa e Corinthians, o Canindé estava gelado. Os fortes ventos davam uma sensação térmica de 8ºC. Todo mundo estava devidamente agasalhado nas arquibancadas. O estádio da região Norte de São Paulo tinha predomínio de corintianos. Mesmo jogando em seus domínios, a Lusa era minoria nas arquibancadas. Coisas de Corinthians. Coisas de Portuguesa! No primeiro lance, logo aos 2 minutos, o zagueiro da Portuguesa entrou mais forte e dividiu a bola com Emerson de maneira viril. O atacante corintiano sentiu o joelho. Sheik até tentou voltar para o jogo, mas não conseguiu. Foi substituído minutos depois por Giovanni. Preocupação geral na República Popular do Corinthians. Aos 12 minutos, a Portuguesa teve uma falta a seu favor no campo de ataque. Após cruzamento para a grande área, a defesa do Timão ficou assistindo ao jogador de vermelho tentar desviar. Ele não conseguiu tocar na bola, mas foi o suficiente para enganar Cássio. A bola entrou direto. Gol da Lusa e 1 a 0 para os mandantes. Enquanto os portugueses comemoravam, Douglas dominou na intermediária ofensiva e disparou a bomba. A bola foi no ângulo da meta adversária. Um golaço para delírio da Fiel. O Maestro mostrava estar em excelente forma. Dida, o camisa 1 da Portuguesa, não deve ter visto o míssil passando. O clássico estava empatado novamente. O restante do primeiro tempo foi de domínio corintiano. Romarinho, o melhor em campo, armava as principais oportunidades. Ele driblava, passava para os companheiros e chutava ao gol. Se futebol fosse um esporte justo, o placar no intervalo teria sido de 3 a 1 ou 4 a 1 para o Corinthians. Como não é, o marcador ficou mesmo no 1 a 1. O segundo tempo foi mais equilibrado. O Timão teve chances com Giovanni e Douglas, mas a Lusa também fez belas jogadas ofensivas. Qualquer uma das equipes poderia ter saído com a vitória. Quem ficou mais perto dos três pontos foi a equipe da casa. O centroavante do time do Canindé aproveitou rebote de Cássio, em noite pouco inspirada, e completou para o fundo das redes. Gol da Portuguesa! Graças ao trio de arbitragem, que viu posição de impedimento do atacante rubro-verde, o lance foi anulado. Jogadores, comissão técnica e torcedores da Lusa reclamaram bastante, com razão. Porém a decisão do juizão já havia sido tomada e não poderia ser revertida. O empate de 1 a 1 persistiu até o final. Se a arbitragem atrapalhou o Coringão na última quarta-feira, pelo menos agora ela foi mais simpática com nossas cores. Ufa! Com o empate sacramentado, o Corinthians atingiu os 43 pontos e manteve a 7ª posição no torneio. Nos vestiários do Canindé, Tite disse aos jogadores que ficou feliz com o ponto conquistado e que a margem de segurança almejada fora conquistada. 14 de outubro de 2012 - domingo Meu domingo começou um tanto estranho. Acordei com o coração muito acelerado, com a pressão baixa e com os pés e pernas bastante inchados. Quando tentava fazer um esforço um pouco maior ou me mexia muito, faltava fôlego e o coração disparava de um jeito esquisito. Definitivamente, não estava bem de saúde! Acho que tive um pequeno infarto, uma insuficiência cardíaca passageira ou um mal súbito. Sei lá! O importante mesmo é que (ainda) estou vivo. Por isso, não fui ao médico. Esperei por conta própria os sintomas estranhos passarem. Eles ainda não foram embora totalmente, mas não corro mais (imagino eu) qualquer risco de morrer. A coisa mais chata dessa história foi perceber que algo poderia me impossibilitar de assistir ao Mundial de Clubes em dezembro. Eu já me conformei de não viajar para o Japão para ver os jogos no estádio, mas não assistir às partidas pela televisão seria demais! Sempre sonhei em presenciar meu time indo para o outro lado do mundo para disputar com as melhores equipes do planeta o título máximo do futebol mundial. E justamente agora quando tenho tal oportunidade, eu corro o risco de morrer. Ai, ai, ai. Como a vida pode ser injusta às vezes... Neste caso, a vida ou a morte, né? Por isso, botei na cabeça uma coisa. Não vou morrer! Não vou mesmo. Pelo menos não agora. Preciso me esforçar para aguentar pelo menos até 17 de dezembro, o dia posterior à final do Mundial. Eu quero dormir com a sensação de ser campeão do mundo e acordar no dia seguinte com um sorriso na boca. Depois disso, a mulher com o capuz preto e o cajado nas mãos pode vir me buscar. Irei alegremente com ela. Pensando melhor, talvez o ideal seja aguardar até o começo de janeiro de 2013. Só assim conseguirei terminar com calma o Ano que Esperávamos Há Anos. O que adianta ver o Timão campeão se eu não concluir o relato dessa linda história, hein? Eu não gosto de deixar nada inacabado, fiquem vocês sabendo. Olhando por esse lado, acho que precisarei, admito, do primeiro mês inteiro do próximo ano para revisar os textos. Se a personagem negra de capuz e foice quiser agendar uma data, marquemos então para o começo de fevereiro. Porém, em fevereiro terá Carnaval! Nosso encontro pode ficar para março? Prometo me comportar muito bem até lá. O ideal mesmo é deixarmos para o meio do ano. Eu precisarei de tempo para arrumar uma editora para publicar minha obra. Até o livro ser produzido, publicado, vendido... Deixemos, então, para dezembro de 2013. Tudo bem? O certo mesmo é que por causa das minhas limitações físicas, passei o dia inteiro de cama, olhando para o teto. Admito ter ficado preocupado com a situação clínica. Porém, quando o relógio do quarto bateu 16 horas, era o momento de ir para frente da televisão. Me arrastei até a sala para ver a transmissão de Náutico e Palmeiras. O time pernambucano venceu por 1 a 0. O Palmeirinha perdeu a terceira partida seguida. A cada dia a certeza do rebaixamento do Palestra é mais concreta. Podem já começar a preparar um caixão para o Verdão! Na dúvida, arranjem dois. Sabe-se lá se não serei rebaixado também para as divisões inferiores dessa vida nos próximos dias, né? 15 de outubro de 2012 - segunda-feira O Timão está fora do Campeonato Brasileiro. Pelo menos psicologicamente. Tite e a comissão técnica corintiana resolveram iniciar a preparação para o Mundial de Clubes da FIFA desde já. Por isso, os próximos dois jogos do Brasileirão, contra Cruzeiro e Bahia, serão sumariamente ignorados pelos profissionais do Parque São Jorge. Os reservas deverão ir a campo nessas oportunidades. Um ou outro titular só será escalado se precisar ganhar ritmo de jogo ou se precisar melhorar fisicamente. Somente a partir de 27 de outubro, na partida contra o Vasco da Gama, o Timão deverá ter o retorno dos principais jogadores. Os duelos finais do Brasileirão serão utilizados como testes para o Campeonato Mundial. Do jogo do Vasco em diante, Tite quer ter todos os craques corintianos à disposição. A ideia é colocá-los em campo com alta intensidade, como se simulassem os confrontos pelo torneio internacional. Nessa semana, a ordem é recuperar os contundidos, dar descanso aos atletas mais exigidos na temporada e treinar bem a equipe reserva. A programação dos próximos dias para as estrelas do Timão é aquela que todo boleiro gosta: água e sombra fresca. Afinal, eles merecem! Depois de tantos jogos, de tantas vitórias e da conquista da Libertadores, eles têm o direito a alguns dias mais calmos de lazer. A folga já começou para os laterais Alessandro e Fábio Santos e para o volante Ralf, os atletas que mais atuaram em 2012. Eles foram dispensados após o jogo da Portuguesa no sábado e só devem voltar aos trabalhos no CT Joaquim Grava no próximo final de semana. Quando eles retornarem aos trabalhos, será a vez dos selecionáveis do grupo ganharem um período de descanso parecido. Paulinho, Ramirez, Paolo Guerrero e Martínez, todos defendendo as equipes nacionais até quinta-feira, receberão essa boa notícia quando chegarem à São Paulo. Outro grupo que aproveitará o período mais tranquilo para se preparar melhor é o dos atletas que estão vindo de contusão. Chicão e Jorge Henrique deverão intensificar os treinos físicos para ganhar condicionamento. Devem retornar ao time titular no jogo contra o Coritiba, em 11 de novembro. Para os reservas corintianos, as próximas semanas devem ser encaradas como oportunidades para jogar. Se forem bem, podem garantir vaga para a viagem ao Japão em dezembro. Na certa, o treinador corintiano estará de olho no desempenho de todos. Vamos ver quem aproveitará a chance. Para não decepcionar o comandante, precisarão treinar forte e entrar com vontade nas partidas. Danilo (com problemas musculares) e Emerson (contundido no último jogo) estão fora de todas as próximas atividades e preocupam a comissão técnica. O meio-campista está sendo avaliado pelos médicos, enquanto o atacante passará por exames para verificar a gravidade da lesão. O ideal é que no período posterior ao descanso dos titulares, não haja mais ninguém no departamento médico. Para isso, vamos torcer para a recuperação do camisa 20 e do camisa 11. E rezar para ninguém se machucar. 16 de outubro de 2012 - terça-feira A contusão de Emerson é séria. O departamento médico corintiano, contudo, descartou a necessidade de cirurgia, algo que alongaria o tempo de recuperação do atleta. Os exames recentes constataram estiramento no ligamento colateral medial do joelho direito de Sheik, fruto do impacto no lance inicial do jogo com a Lusa. O camisa 11 ficará um mês longe dos gramados. Só voltará a trabalhar fisicamente no período final de preparação para o Mundial. Isso é preocupante. Mesmo assim, a comissão técnica demonstrou confiar na recuperação do herói do Timão na Liberta. Vamos torcer para ele chegar bem em dezembro. Precisamos de Emerson inteiro e voando no Japão. Se Sheik ficará parado, Danilo está ótimo. O meia-esquerda se recuperou do edema na coxa e já está treinando normalmente. Inclusive vai para o jogo contra o Cruzeiro, amanhã à noite em Varginha. O curioso é a posição na qual ele foi escalado: centroavante. A decisão de Tite foi tomada pela falta de um jogador nato na posição. O treinador alvinegro não poderá contar com 11 jogadores (Alessandro, Ralf, Fábio Santos, Paulinho, Guerrero, Ramirez, Martínez, Giovanni, Emerson, Chicão e Jorge Henrique) para a próxima partida. É praticamente um time inteiro de desfalques. O Coringão estará bem remendado em Varginha. A grande expectativa da Fiel Torcida está na possível estreia de Zizao. Todo mundo quer ver o camisa 200 em campo. A torcida, os jogadores, a diretoria, a imprensa e até os nossos rivais anseiam por vê-lo atuando. Tite vem sendo cauteloso nesse sentido. Ele teme colocar o jogador antes da hora. O chinês ainda é muito franzino e se machuca muito nos contatos com os outros atletas nos treinamentos. Imagine só como seria nos jogos oficiais, onde o pau come, né? Se Emerson Sheik que é malandro saiu quebrado da última partida, imagine o chinesinho magrinho e ingênuo, hein? “Primeiro ele já tem feito trabalho de ganho muscular. Mas ele é um atleta de complexidade física menor. Não é forte, não é grande" disse o preparador físico Fábio Mahseredjian, explicando o trabalho feito nesses meses para deixar o atacante estrangeiro em boas condições de jogo. Com tantas ausências no grupo corintiano, é bem possível que dessa vez Zizao entre mesmo no segundo tempo. Ele deverá começar o jogo no banco e segundo o técnico Tite poderá ter a oportunidade de jogar alguns minutos no final da partida. A torcida é que Zizao consiga, enfim, estrear com a camisa do Timão. O Corinthians está escalado com: Cássio; Welder, Wallace, Paulo André e Guilherme Andrade; Guilherme, Willian Arão, Edenílson e Douglas; Romarinho e Danilo. É um time formado quase inteiramente por reservas. Teremos dificuldades amanhã! A partida entre Cruzeiro e Timão foi marcada para o interior de Minas Gerais, pois a Raposa foi punida pela CBF por confusões de seus torcedores. Assim, não poderá jogar em Belo Horizonte nas próximas rodadas. Os cruzeirenses vivem má fase no campeonato. Estão apenas na 11ª posição e precisam da vitória para afastar a crise. Será um duelo complicado! 17 de outubro de 2012 - quarta-feira O estádio em Varginha recebeu bom público na noite de quarta-feira. A pequena cidade do Sul de Minas parou para ver Cruzeiro e Corinthians. A torcida corintiana empolgada com a possibilidade de ver Zizao pela primeira vez compareceu em ótimo número. A Fiel dividiu meio a meio as arquibancadas com os torcedores da equipe da casa. Pela televisão era possível notar os vários cartazes no meio do Bando de Loucos. Todos pediam para Tite colocar o chinês. Com essa expectativa, me ajeitei no sofá de casa e assisti à partida com curiosidade. O Corinthians, surpreendentemente, começou melhor o jogo. Nem parecia estar com o time reserva. Romarinho tabelou com Douglas, recebeu de volta e chutou para o gol. Defesa do goleiro celeste. Logo depois foi a vez de Edenílson fazer bela jogada. À medida que o tempo foi passando, o Cruzeiro começou a equilibrar as ações e se tornava mais e mais perigoso. Com um bom toque de bola no meio de campo, as jogadas ofensivas dos mineiros passaram a assustar o goleiro Cássio. Em um dos vários lances pelo lado direito da defesa corintiana, saiu o gol da Raposa. O centroavante celeste aproveitou cruzamento e livre na pequena área só desviou para dentro das traves alvinegras. Gol do Cruzeiro! 1 a 0 em Varginha. O gol não abalou o moral dos jogadores corintianos. O Timão continuou partindo para cima e teve algumas chances para marcar. A melhor oportunidade ocorreu aos 42 minutos. Danilo fez ótima jogada individual pela esquerda e cruzou para Edenílson. O volante, que atuava como meia, desviou de cabeça. A bola passou pertinho do gol. Uhhhhhhhh. O segundo tempo foi caótico para o Corinthians. A equipe voltou do intervalo muito mal e não fez mais nada de relevante. Assim ficou fácil para o Cruzeiro. O time da casa cansou de perder gols. Depois de tanto insistir, o segundo tento aconteceu. A superioridade da Raposa se intensificou depois do 2 a 0. O jogo aparentemente perdeu a graça. Isso até os 34 minutos, quando Tite, enfim, colocou Zizao. O chinês ia para o campo! Delírio dos corintianos no estádio e na frente da televisão. O camisa 200 mostrou muita vontade. Correu, bateu lateral, cobrou escanteio, roubou bola, pediu passe e arriscou jogadas individuais. Sabe que ele não é tão ruim quanto parecia. Gostei de vê-lo jogar. Em seu melhor lance, Zizao roubou a bola do adversário e partiu para cima da defesa cruzeirense. Driblou um marcador e quando só faltava um defensor até o gol, tentou novo drible, uma pedalada. E aí perdeu a bola. Apesar do insucesso, a jogada quase deu certo!!! Se passasse pelo segundo zagueiro, ficaria na frente do goleiro. Imagine se ele marcasse um gol estando apenas alguns minutos em campo, hein?! Infelizmente, ele não conseguiu... A partida terminou 2 a 0 para o Cruzeiro. A Raposa afastou um pouco a crise dos últimos meses. E o Coringão voltou para São Paulo sem nenhum ponto. Pelo menos tivemos a chance de ver o chinês em campo, né? Valeu a pena acompanhar a partida até tão tarde da noite. 18 de outubro de 2012 - quinta-feira Depois de ficar sete meses só treinando, finalmente Zizao estreou com a camisa do Timão. Ontem, ele jogou por aproximadamente 15 minutos contra o Cruzeiro. E saiba que ele foi razoavelmente bem. Não foi um primor, mas também não foi uma negação. Tentou, correu e arriscou jogadas. Ao todo, ele deu dois dribles, fez dois passes e recebeu duas bolas, além de tentar uma finalização ao gol. Para ser sincero, fiquei surpreso positivamente com sua qualidade. Minha expectativa inicial em relação ao camisa 200 era baixíssima. Na minha visão, Zizao era um amador escolhido para figurar em um elenco profissional. Agora tenho outra ideia. Ele parece ser um jogador razoável. Tem capacidade para figurar como um dos vários reservas do grupo campeão continental. Nada mais do que isso, tá? A repercussão do jogo de ontem foi uma só: o chinês jogou!!! Nos jornais, nos programas esportivos e nos portais de Internet, ninguém falava do resultado da partida. Apenas se comentava a entrada do atacante chinês e sua atuação. A maioria dos jornalistas disse que não deu para avaliá-lo bem, pelo pouco tempo em campo. “Hoje me senti bem, rezei por esse jogo, mas não gostei do resultado. Espero que da próxima vez o Corinthians jogue melhor”, disse Zizao, em inglês, na entrevista à TV Globo após a partida. Obviamente, ele queria ter vencido o jogo. A notícia da entrada em campo do jovem chinês rapidamente correu o mundo. Na China, a atuação do jogador foi descrita por alguns periódicos como maravilhosa. O jornal Dayoo escreveu: "Após ficar cinco vezes no banco sem entrar nos jogos, finalmente Zizao alcançou o momento histórico para sua carreira". Já o Sports Hangzhou deu destaque ao apelo da torcida corintiana, que insistentemente pedia a entrada do atleta. O jornal CNR exaltou a tentativa de pedalada do jogador, infelizmente frustrada pelo beque cruzeirense. O sucesso maior de Zizao, no entanto, foi na Internet, mais especificamente nas redes sociais. A coincidência de sua estreia ter ocorrido na cidade de Varginha, conhecida nacionalmente como o local de aparição de extraterrestres, foi prato cheio para as piadas dos internautas. Até o rosto do chinesinho foi comparado ao dos seres de outros planetas. O bom humor dessa gente é algo contagiante. De uma forma geral, parece que todo mundo ficou feliz com a entrada do camisa 200. Zizao ficou radiante com a possibilidade de atuar alguns minutos. Seus conterrâneos, a milhares de quilômetros de distância, ficaram orgulhosos. A torcida corintiana matou a curiosidade. Os jornalistas daqui tiveram mais assunto para comentar. Os demais atletas do Timão pareceram contentes por ver o colega feliz. Tite deve ter ficado aliviado, pois a pressão por colocar o garoto aumentava a cada jogo. E a diretoria do Parque São Jorge também deve ter ficado satisfeita com o sucesso da ação de Marketing e com o carisma do asiático. 19 de outubro de 2012 - sexta-feira Essa sexta-feira foi especial para os brasileiros. Hoje tivemos o último capítulo da novela das nove da Rede Globo. O sucesso de Avenida Brasil foi retumbante. Muito provavelmente, tratou-se da novela de maior audiência da emissora carioca das últimas décadas. Quase todo mundo assistiu à história de Tufão, Carminha e Nina. Por consequência, houve uma gigantesca mobilização para acompanhar o final da trama. As ruas de São Paulo ficaram desertas na hora da novela, cena repetida em outras cidades do país à fora. Durante todo o dia, os comentários que monopolizavam as conversas eram exclusivamente sobre a novela: "quem matou Max?" e "como será o fim da Carminha (a vilã)?". Assim, às 21 horas em ponto, milhões de brasileiros ficaram na frente da televisão para saber como terminaria o folhetim. Grande parte do sucesso da novela se deu pelo enredo diferenciado. A história se passou no subúrbio carioca, no fictício bairro do Divino. O foco da trama era o time de futebol chamado Divino Futebol Clube. O principal personagem, Tufão, era um ex-jogador de futebol famoso e muito rico. Em volta dele e de sua família, havia vários personagens do mundo do futebol: os jogadores em atividade, o presidente do clube, os conselheiros, os torcedores e, como não poderia faltar, as "marias-chuteiras". A mistura de futebol e novela foi acertada. O último capítulo de Avenida Brasil atingiu 51 pontos de audiência, o que representou 72% dos televisores ligados na Grande São Paulo. Esses números bateram a partida decisiva da Copa Libertadores disputada entre Corinthians e Boca Juniors em 4 de julho. O jogão histórico do Timão havia marcado 48 pontos no Ibope. Agora a maior audiência no ano da televisão brasileira passou para as mãos da teledramaturgia. Esperemos que no Mundial Interclubes a corintianada possa dar o troco e voltar à liderança do Ibope. Admito que acompanhei muito pouco a novela global. Por isso, estava um pouco desconfortável em ver o episódio final. Mesmo assim, liguei a TV no horário marcado para assisti-la. Ao mudar de canal para ver o que estava passando nas outras emissoras, descobri um ótimo programa. A Fox Sports iria passar novamente as finais entre Corinthians e Boca Juniors. Após os dois jogos, a emissora ainda exibiria uma entrevista inédita e exclusiva com Emerson Sheik contando os bastidores da inédita conquista alvinegra. Entre ver o capítulo final de uma novela que não havia assistido até então e rever os jogos mais emocionantes por mim presenciados, fiquei com a segunda opção. E não me arrependi. Os jogos foram mesmo incríveis e a entrevista do herói corintiano na decisão foi impagável! Para terminar a noite, assisti aos últimos programas esportivos da TV a cabo já de madrugada. Neles, descobri a escalação do Timão para o jogo desse final de semana contra o Bahia, no Pacaembu. O Corinthians foi escalado com três atacantes, na formação 4-3-3: Cássio; Edenílson, Anderson Polga, Wallace e Denner; Guilherme, Guilherme Andrade e Douglas; Romarinho, Martínez e Paolo Guerrero. Ou seja, teremos mais uma vez um time bem remendado do meio de campo para trás. 20 de outubro de 2012 - sábado Um sentimento um tanto contraditório toma conta dos corintianos. Para a partida desta rodada contra o Bahia, deveríamos torcer, como sempre fizemos, para o Timão ganhar. Ou será que poderíamos abrir uma exceção e almejar o triunfo do adversário, hein? Antes de ser acusado de maluco ou mesmo de bipolar por algum desavisado, sinto-me na obrigação de explicar melhor tal paradoxo. O Bahia é atualmente o principal adversário do Palmeiras na luta contra o rebaixamento. A equipe de Salvador é a primeira fora do grupo dos quatro piores do Campeonato Brasileiro. O tricolor da Boa Terra está seis pontos à frente do alviverde da capital paulista. Como não estamos mais ligados na competição (chegamos à margem de segurança!), não seria nada mal perdermos e atrapalharmos o Palmerinha, né?! Esse é o pensamento de boa parte da torcida corintiana. Para evitar uma polêmica de grandes proporções, já que atuará com os reservas, algo que só fez aumentar as críticas e as reclamações do lado palmeirense, o técnico Tite pediu empenho extra aos seus jogadores. Ele quer a vitória de qualquer jeito para espantar as insinuações maldosas sobre o interesse do clube em prejudicar o principal rival. “O Corinthians vai com a mesma dignidade. Olha a dignidade que o Mário (Gobbi, presidente) tem. O caráter que o Roberto de Andrade (diretor de futebol) tem. O caráter que o Duílio (diretor adjunto) tem. O caráter que o elenco e o técnico têm. São 51 anos (de idade do treinador). Olha lá para trás e veja a dignidade que ele (treinador) tem”, declarou Tite. Obviamente, o comandante usou a terceira pessoa do singular para descartar a ideia de entrar em um jogo pensando em perder. Em alguns Brasileirões recentes, vale a menção, aconteceram casos de times que entraram em campo querendo perder para prejudicar os rivais. Em 2009, o próprio Corinthians não jogou com muita vontade contra o Flamengo, nas últimas rodadas daquela temporada. O Mengo disputava o título com o Palmeiras. No ano seguinte, o Verdão se vingou e atuou sem muita disposição em uma partida contra o Fluminense, que disputava o caneco com o Timão. Nas duas vezes, os cariocas foram campeões. Para a partida de amanhã, Tite usará como base o mesmo time do duelo da última quarta-feira. As novidades são o acréscimo dos gringos, de volta das seleções, e a estreia de Anderson Polga na zaga corintiana. As laterais também ganham o reforço de Edenílson pela direita e do garoto Denner pela esquerda. Danilo torceu o tornozelo no último jogo e está fora mais uma vez. Que fase do camisa 20, hein? O Timão subirá ao campo do Pacaembu com: Cássio; Edenílson, Wallace, Anderson Polga e Denner; Guilherme Andrade, Guilherme e Douglas; Romarinho, Martínez e Guerrero. Dessa vez Zizao não ficará no banco de reservas. Como há o limite máximo de três estrangeiros para serem relacionados, ele acabou preterido. Martínez e Guerrero começam o jogo e Ramirez será o terceiro gringo relacionado, ficando na suplência. 21 de outubro de 2012 - domingo A expectativa no Estádio do Pacaembu, antes da bola rolar para Corinthians e Bahia, era para ver como a torcida da casa se comportaria. A Fiel torceria para o Timão vencer ou os corintianos torceriam para o Bahia ganhar, o que aumentaria o drama palmeirense? Nos momentos antecedentes ao jogo, o apoio ao time do Parque São Jorge pareceu incondicional. Os gritos, as músicas e a animação nas arquibancadas eram iguais aos dos demais jogos. Tudo parecia normal. E foi assim que os torcedores reagiram após o apito inicial do juiz. O apoio e a vibração eram pela vitória do Coringão. Não poderia ser diferente, né? Ainda mais porque o time de Tite começou muito bem, jogando um belo futebol. O primeiro lance de perigo saiu dos pés de Welder, que substituiu o lateral-esquerdo Denner machucado nos minutos iniciais da partida. Welder chutou de fora da área e o goleiro adversário rebateu para longe. Logo depois, Guilherme entrou na área e foi derrubado pelo jogador do Bahia. Pênalti! Na cobrança, Douglas marcou 1 a 0. Festa da Fiel no Paulo Machado de Carvalho. O Timão continuava melhor, criando boas jogadas. Aos 29 minutos, Douglas, o melhor em campo, lançou Guerrero. O peruano cruzou na cabeça de Martínez. O goleirão baiano fez excelente defesa. Quase o segundo! O Bahia só teve uma chance para marcar no primeiro tempo. E, infelizmente, eles marcaram. Após cobrança de falta da intermediária, a bola chegou na cabeça do atacante visitante. Na marca do pênalti, ele foi preciso e botou a redonda nas redes. O jogo estava novamente empatado. 1 a 1. O Corinthians continuou muito melhor no segundo tempo. A pressão foi intensa durante os 45 minutos finais. As chances para o segundo gol do Timão se multiplicavam. Primeiro foi com Martínez. O argentino fez bela jogada na grande área e o goleiro do Bahia salvou. Depois foi a vez de Guilherme arriscar uma bomba de fora da área. No rebote do goleiro, Guerrero completou para o gol. Goool!!! Porém, o bandeirinha viu impedimento. Gol anulado corretamente. Até Anderson Polga, em belíssima atuação, se arriscou ao ataque. O zagueiro mandou uma bomba de fora da área. A bola passou bem perto da meta baiana. Guerrero e Douglas, nos minutos finais, tiveram as oportunidades derradeiras para marcar. Nas duas, o goleiro adversário salvou. Primeiro em um chute do centroavante peruano na pequena área. Depois em uma cobrança de falta do meia alvinegro. Curiosamente, o último lance foi do Bahia. Na única chance tricolor no segundo tempo, em uma despretensiosa cobrança de escanteio, a bola passou raspando a trave de Cássio após cabeçada do jogador baiano. Seria uma grande injustiça se o gol deles saísse. O placar terminou mesmo em 1 a 1. O Corinthians somou mais um ponto e chegou aos 44. O Bahia ganhou mais um pontinho na luta para fugir do rebaixamento e agora está com 36, quatro pontos à frente do Palmeiras, que venceu o Cruzeiro por 2 a 0. 22 de outubro de 2012 - segunda-feira O empate e o bom futebol apresentado no Pacaembu no domingo contra o Bahia calaram aqueles que suspeitavam que o Corinthians poderia perder premeditadamente só para prejudicar o Palmeiras. Não vencemos, é verdade, mas isso é do jogo. O empenho dos jogadores e, principalmente, o comportamento dos torcedores foi exemplar. O técnico Tite foi o primeiro a reconhecer isso na entrevista após a partida: “Quando vi que tomamos o gol e vi o torcedor incentivar até o fim, me senti muito orgulhoso em ser técnico (desta equipe). Grandeza do clube e caráter das pessoas não se negociam”. Se o treinador estava feliz com a postura dos corintianos dentro e fora do gramado, Jorge Henrique demonstrou ainda ter mágoas em relação ao comportamento dos palmeirenses no campeonato nacional de 2010. No final daquela temporada, os verdinhos entregaram um jogo para dificultar o título do Timão. "Com que cara você chega em casa para olhar para os seus filhos se você acaba entregando o jogo?! Em 2010 foi bem claro isso e nesse ano (os palmeirenses) estão pagando o preço de 2010", falou o camisa 23. Pelo visto, os jogadores do Timão também estão felizes com a presença do Palmerinha na zona de rebaixamento. Superada, em parte, a polêmica, o momento agora é pensar no próximo objetivo. E qual seria a nova meta corintiana para este ano, hein? Nessa segunda-feira, Tite apresentou seus planos de maneira clara e sincera no CT Joaquim Grava: "Estava em casa no domingo e caiu a ficha. Tudo agora é Mundial. Se estivéssemos disputando o título brasileiro, seria dividido, o que não é o caso. Vamos valorizar os jogos do Brasileiro, mas não com a busca pelo título, e sim (pela busca) de ritmo (de jogo)”. A proposta do comandante corintiano é usar os últimos seis jogos do Brasileirão (Vasco da Gama, Atlético Goianiense, Coritiba, Internacional, Santos e São Paulo) como pré-temporada, em que ele possa simular os embates do Mundial. Para tal, os principais jogadores deixarão de ser poupados e deverão atuar com vontade redobrada. Já contra o Vasco, os grandes nomes da companhia voltarão. O recado de Tite é claro: “Ah, vai correr risco de machucar? Ffffff... Azar! É o preço que tem de pagar, é o preço do trabalho intenso. Se não preparar bem, não vai bem depois”. Esse é o maior problema. Jogar com intensidade, para usar a palavra predileta do gaúcho, pode aumentar os riscos de lesões. No jogo desse final de semana, em 12 minutos, dois jogadores do Timão saíram machucados. O garoto Denner, lateral-esquerdo, rompeu os ligamentos e ficará seis meses sem atuar. O zagueiro Wallace sentiu fisgada no músculo e teve que ser substituído. Ficará fora por 15 dias. Os jogadores corintianos deverão chegar ao Japão, em dezembro, muito cansados. A temporada do futebol brasileiro é longa e desgastante. Para agravar, a média de idade da equipe do Parque São Jorge é alta. Ainda bem que temos uma equipe de preparação física excelente. Os melhores profissionais do país nessa área trabalham no Sport Club Corinthians Paulista. Essa é a nossa sorte! 23 de outubro de 2012 - terça-feira O clima de Mundial Interclubes vai tomando conta das dependências do Parque São Jorge como nunca se viu. Todos os profissionais do clube passaram a falar abertamente sobre a competição internacional e a focar os esforços nas duas partidas de dezembro. Os médicos trabalham para recuperar rapidamente os jogadores machucados, os preparadores físicos visam o alcance da melhor condição atlética para a metade do próximo mês, o treinador quebra a cabeça para montar a equipe ideal para ser usada contra o Chelsea e os atletas correm no campo de treinamento para garantir uma vaga entre os 11 titulares que estarão no gramado do estádio japonês. Até os profissionais da inteligência do Corinthians estão mais ativos, investigando com mais assiduidade os prováveis adversários no Mundial. Nesse final de semana, por exemplo, Geraldo Delamore, um dos auxiliares de Tite, viajou para a Inglaterra para assistir de perto o Chelsea. O clube londrino jogou no sábado e venceu bem, 4 a 2, o Tottenham. O funcionário corintiano ficará até a próxima semana na capital inglesa e verá mais algumas partidas do nosso principal rival em dezembro. A ideia é montar um dossiê sobre como o time de Roman Abramovich atua, suas variações táticas e as características de cada um dos jogadores dos Blues. A função de análise dos adversários não é exclusiva de Delamore. Existe um departamento dentro do CT Joaquim Grava especializado na coleta dessas informações e na preparação de estudos técnicos e táticos dos oponentes. Mauro Silva, outro integrante da comissão técnica do Timão, também assiste aos jogos dos principais rivais e faz observações detalhadas para Tite. O coordenador do departamento de edição de vídeos do Corinthians é Fernando Lázaro, filho do ex-lateral Zé Maria, ídolo do Timão nos anos de 1970 e 1980. Ele separa trechos de jogos dos futuros adversários do Corinthians e entrega o material para a comissão técnica assistir. Para completar o clima de Mundial, a terça-feira terminou com o envio da lista prévia dos jogadores corintianos que poderão disputar o Mundial. A FIFA exige que cada clube participante comunique previamente os nomes de 35 atletas aptos para atuar em dezembro. Dessa relação, o técnico Tite poderá escolher daqui algumas semanas 23 jogadores que irão de fato viajar para o Japão. Ou seja, da listagem enviada hoje, 12 nomes ainda serão excluídos. Como o elenco corintiano tem aproximadamente 30 jogadores, o treinador convocou todo mundo, além de inserir alguns garotos da base. Apenas Denner, machucado e longe dos gramados até o meio do próximo ano, não foi relacionado. Veja, a seguir, a lista completa do elenco do Timão que tem chance de jogar o Mundial. Goleiros: Cássio, Júlio César, Danilo Fernandes e Matheus Caldeira; Laterais: Fábio Santos, Alessandro, Guilherme Andrade, Welder, Rodinei e Igor; Zagueiros: Chicão, Paulo André, Wallace, Anderson Polga, Antônio Carlos e Felipe; Volantes: Ralf, Paulinho, Guilherme, Edenílson, Willian Arão, Gomes e Anderson; Meias: Douglas, Danilo, Ramirez e Giovanni; Atacantes: Emerson, Jorge Henrique, Romarinho, Guerrero, Martínez, Zizao, Adilson e Chiquinho. 24 de outubro de 2012 - quarta-feira A Fiel Torcida recebeu uma excelente notícia nesta quarta-feira. O técnico Tite renovou o contrato com o Corinthians por mais uma temporada. Uhu!!! Ele ficará no Parque São Jorge pelo menos até o final de 2013. O antigo acordo previa o término das atividades já no final deste ano. Vê se pode?! É um alívio saber que nosso comandante continuará no leme da nau mosqueteira por mais algum tempo. Quando digo que a Fiel Torcida ficou feliz com essa informação, é porque todos os corintianos devem realmente ter vibrado com a notícia. Tite hoje é uma unanimidade no clube. Todo mundo gosta dele e está satisfeitíssimo com seu trabalho. Não me lembro de ter ouvido falar mal do nosso treinador nos últimos dez meses. Também não conheço ninguém (em sã consciência) que seja contra sua presença no banco de reserva corintiano. A renovação do contrato do treinador alvinegro vem no momento de maior visibilidade de seu trabalho. O reconhecimento da competência de Tite agora começa a chamar a atenção do exterior. O gaúcho foi indicado nesta semana ao prêmio de melhor treinador do ano pela revista World Soccer. Ele concorrerá com feras como José Mourinho (Real Madrid), Roberto Di Matteo (Chelsea), Vicente Del Bosque (Seleção da Espanha), Diego Simeone (Atlético de Madri), Marcelo Bielsa (Athletic Bilbao), Rene Girard (Montpellier), Jürgen Klopp (Borussia Dortmund), Herve Renard (Zâmbia) e Luis Tena (Seleção do México). A extensão do novo contrato com o Timão só não foi maior porque Tite não quis. Ele acalenta o sonho de dirigir uma seleção na próxima Copa do Mundo, a ser realizada no Brasil em 2014. Assim, após dezembro de 2013, ele estará livre para negociar com alguma confederação. Nos planos imediatos do técnico, o comando da seleção não precisa ser necessariamente a brasileira. O importante será participar diretamente da principal competição do futebol mundial daqui um ano e meio. Em relação ao valor do salário, ainda não se divulgou a quantia. Roberto de Andrade, diretor de futebol do Timão, deixou claro que houve sim um aumento, mas não apontou o percentual. "Foi uma negociação tranquila. Entramos em acordo nas primeiras conversas. Ele teve uma valorização por tudo o que alcançou com o Corinthians", disse o cartola satisfeito com o desfecho do acordo. Tite recebia R$ 350 mil mensais. Há boatos que o empresário do treinador, Gilmar Veloz, teria pedido o dobro para renovar. Não se sabe se o Corinthians aceitou pagar tanto ou definiu uma quantia intermediária entre esses dois valores. Com a renovação contratual, encerram-se momentaneamente as especulações sobre uma possível ida do treinador corintiano para a Seleção Brasileira. Pelo novo vínculo, o Corinthians não tem a obrigação de liberar automaticamente o técnico em caso de interesse da CBF ou de outro time nacional. Ufa! Estamos seguros agora. Tite ficará mais um ano no Timão e nossas conquistas devem se multiplicar. 25 de outubro de 2012 - quinta-feira Enfim, a FIFA resolveu evoluir um pouco e permitirá pela primeira vez o uso de tecnologia no auxílio à arbitragem. A entidade máxima do futebol irá testar nos jogos do Mundial Interclubes deste ano dois sistemas que identificam eletronicamente se as bolas (com chips) passaram ou não a linha do gol. A medida visa acabar com o erro humano. Nada mais triste para o esporte do que o juiz apontar equivocadamente gol quando a bola não entrou ou de anular um tento legítimo. O futebol ficará mais justo. O caso mais flagrante desse tipo de equívoco aconteceu na última Copa do Mundo. No jogo entre Inglaterra e Alemanha em 2010, Lampard, meio-campista do Chelsea e que jogava pelo time da rainha, fez um gol regular. Porém, a arbitragem não viu. O lance polêmico manchou a competição e atrapalhou a Inglaterra, eliminada mais tarde do torneio. Ao permitir o uso de tecnologia para auxiliar os árbitros, a FIFA tem o poder de promover uma grande inovação no futebol. Em minha opinião, esse é o início de um processo sem volta. Com o tempo, o esporte mais popular do mundo deverá recorrer cada vez mais aos recursos eletrônicos para evitar erros e falhas da juizada. No futuro próximo, creio eu, o esporte bretão será igual ao tênis ou ao vôlei, modalidades que já usam muito bem os aparatos tecnológicos. Essa é também a avaliação do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. "É uma espécie de revolução", declarou o dirigente em Tóquio, após a reunião do Comitê Organizador do Mundial Interclubes. "Se você tem a chance de tocar a perfeição, por que você não vai tentar?", perguntou-se Valcke. "A tecnologia não mudará a velocidade, o valor ou o espírito do jogo. Não há razões para ser contra essa tecnologia", completou o cartola. Se os testes derem certo, as tecnologias deverão ser usadas também na próxima Copa das Confederações e na Copa do Mundo do Brasil. Ou seja, será uma medida padrão das principais competições internacionais a partir de agora. Até aqui, a FIFA já anunciou ter gastado cerca de US$ 2 milhões (R$ 4,2 milhões) com a pesquisa do novo sistema. Para se ter uma ideia, cada bola com chip custa aproximadamente US$ 4 mil. São dois tipos de tecnologia que serão usados no Mundial do Japão: o modelo Hawk-Eye, baseado em câmeras, e o modelo GoalRef, sistema que funciona a partir do campo magnético. No estádio da final, em Yokohama, o padrão será do Hawk-Eye. Através de imagens de câmeras instaladas dentro do gol e avaliadas por alguém externamente, o juiz saberá se a bola entrou ou não. No estádio da semifinal, em Toyota, o sistema será o da Hawk-Eye, um campo magnético acionará luzes dentro do gol quando a bola ultrapassar a linha. Assim, o juiz saberá na hora o que aconteceu. Vamos esperar o Mundial chegar para verificar como serão utilizados esses aparelhos. Boa sorte aos juízes! Vamos torcer para que o melhor time vença merecidamente, sem erros ou falhas da arbitragem. 26 de outubro de 2012 - sexta-feira Amanhã tem Corinthians e Vasco pelo Brasileirão. Esses times decidiram vários campeonatos nos últimos anos e têm sempre feito grandes duelos. Não dá para esquecermos o nacional de 2011, quando ambos brigaram ponto a ponto pelo título até a última rodada. O confronto direto, nas últimas rodadas em São Januário, foi emocionante. Podemos lembrar também do místico jogo das quartas de finais da Copa Libertadores desse ano no Pacaembu, quando o Timão conseguiu avançar com muito custo. Para a partida deste sábado, em São Paulo, o Corinthians chega como franco favorito. Mesmo estando atrás na tabela (é oitavo colocado com 44 pontos, enquanto os cariocas estão na quinta posição com 50), a equipe corintiana vem completinha com os principais jogadores. Além disso, o fator campo é fundamental. Jogando no Pacaembu ao lado da Fiel Torcida, o Timão é quase imbatível! O Vasco da Gama está em crise. Eles perderam as últimas quatro partidas e estão cada vez mais longe do quarto colocado (São Paulo). Vale lembrar que só os quatro primeiros do Brasileirão se classificam para a Libertadores de 2013. Curiosamente, a equipe de São Januário começou o campeonato brigando pelo título. Estava entre os primeiros até a virada do turno. Aí a crise financeira obrigou o presidente cruzmaltino a vender as principais estrelas e o caldo desandou. Agora não ganham de ninguém. Tite quer a vitória por dois motivos. Para começo de conversa, ele considera esse jogo o primeiro dos seis testes que o Timão terá antes do Mundial. Para o técnico gaúcho, o Corinthians só chegará ao Japão em condições de brigar pelo título se terminar muito bem o Campeonato Brasileiro. O discurso é seguido pelos jogadores. "A nossa intenção é deixar o time preparado para o Mundial de Clubes. É a hora de testarmos as jogadas de bola aérea, lances que sofremos três gols nos últimos jogos", declarou o goleirão Cássio durante a semana. Além disso, como o Vasco briga diretamente com o São Paulo por uma vaga na próxima competição continental, o treinador não quer ouvir novamente a história da semana passada de que iria perder para atrapalhar um rival paulistano. O Corinthians não pode entrar nas polêmicas da torcida e o pensamento deve ser sempre a vitória. Os únicos desfalques para a próxima partida do lado paulista são Emerson Sheik, Danilo e Denner, todos machucados. Do lado adversário, a lista é maior, com pelo menos oito atletas fora. A escalação do time corintiano é a seguinte: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fabio Santos; Paulinho, Ralf e Douglas; Martínez, Romarinho e Guerrero. A defesa e o meio campo do Timão não têm novidade. Não deve haver mudança nenhuma no meio para trás até o Mundial. A grande incógnita na equipe corintiana é o ataque. Por enquanto, Martínez, Romarinho e Paolo Guerrero saíram na frente por uma vaga no time titular. Vamos ver se eles aproveitam a chance. 27 de outubro de 2012 - sábado Cerca de 25 mil corintianos pagaram ingresso para ver Corinthians e Vasco da Gama sábado à tarde no Pacaembu. A grande atração da partida era a volta das estrelas do Parque São Jorge. Após algumas rodadas de folga, os titulares estavam outra vez no campo! Pelo visto, a Fiel Torcida estava com saudades de seus craques. O duelo não começou como a maioria dos presentes no estádio esperava. O Timão começou muito mal, sendo dominado pela equipe carioca. Os principais lances dos visitantes vinham em chutes de fora da área. Em uma cobrança de falta, a bola acertou a trave de Cássio. Quase o Vasco saiu na frente. A superioridade vascaína só foi desfeita com meia hora de partida. Foi quando o jogo do Corinthians começou a fluir e as oportunidades de gol começaram a aparecer para os mandantes. Primeiro foi com Guerrero. O centroavante finalizou muito bem e obrigou o goleiro adversário a fazer uma defesa incrível. Não à toa, os dois, o goleiro vascaíno e o camisa 9 corintiano, foram os melhores em campo neste sábado. Na sequência, o peruano foi derrubado na área. O juiz não marcou pênalti, para desespero da torcida. No finalzinho do primeiro tempo, Douglas recebeu livre. Cara a cara com o goleiro, ele desperdiçou a chance de abrir o marcador. O meia-armador chutou displicentemente para revolta da corintianada no estádio. Depois do intervalo, a partida continuou como havia acabado a primeira metade: o Vasco imóvel em campo e o Timão perdendo muitos gols. Aos 2 minutos, Martínez cabeceou bem e o goleiro vascaíno fez novo milagre. Uhhhhh. Por muito pouco o argentino não fez. A sorte do nosso adversário acabou aos 15 minutos. Guerrero aproveitou bate-rebate na área e chutou cruzado para as redes. Goooooooooool do peruano. O primeiro dele no Pacaembu. O placar poderia ter sido ampliado se os atacantes tivessem caprichado um pouco mais nas conclusões. Douglas, Martínez e Guerrero perderam boas chances cada um. O tempo foi passando e os 45 minutos complementares chegaram. O Vasco só assustava um pouquinho nas bolas paradas de Juninho Pernambucano. Antes do apito final, a alegria dos torcedores foi conferir no placar eletrônico do Paulo Machado de Carvalho o resultado das partidas que se desenrolavam simultaneamente. O confronto entre Internacional e Palmeiras terminou 2 a 1 para os gaúchos. A nova derrota complicava ainda mais a situação do Palestra. Aí a Fiel não aguentou. Aos gritos de “Você vai cair, porcô! Você vai cair, porcô!”, o juiz encerrou os trabalhos. A noite caiu no Pacaembu e o Corinthians somou nova vitória. O Vasco, por outro lado, perdeu a quinta seguida. Eu não queria estar no vestiário deles. O clima ali deve estar péssimo. Quem ficou feliz com o resultado foram os são-paulinos. A equipe do Morumbi está cada vez mais isolada na quarta posição na tabela de classificação. 28 de outubro de 2012 - domingo A cidade de São Paulo tem novo prefeito. O escolhido pelas urnas neste domingo foi o petista Fernando Haddad. Ele venceu, no segundo turno, o ex-prefeito e ex-governador José Serra, candidato do PSDB. A maior metrópole do continente volta para as mãos do Partido dos Trabalhadores após 8 anos. Em nota oficial, emitida hoje pelo presidente do clube, Mário Gobbi, o Corinthians parabenizou o político pela vitória eleitoral e expressou seus desejos com a nomeação de Haddad para o cargo máximo do executivo municipal: "O Sport Club Corinthians Paulista parabeniza Fernando Haddad pela vitória na eleição em São Paulo e deseja boa sorte em seu mandato. A cidade estará no foco do mundo nos próximos anos. Para intensificar ainda mais a sua efervescente vida durante as 24 horas de todos os dias, o município, com a Arena Corinthians, será responsável por receber alguns dos principais chefes de estado do planeta, além de milhares de empresários, jornalistas e torcedores para a abertura da Copa do Mundo FIFA de 2014 e outros cinco jogos da competição. A missão de ser uma das cidades protagonistas da Copa do Mundo é honrosa e coube a poucos municípios do mundo até hoje. Com tamanha responsabilidade extra que terá Fernando Haddad, além do tradicional árduo trabalho nos pilares da administração pública, reforço os votos de um mandato de muito sucesso e bons resultados para toda a população da cidade. Mário Gobbi Filho - Presidente do Sport Club Corinthians Paulista". No texto do comunicado fica clara a preocupação da diretoria corintiana em relação à construção do estádio próprio em Itaquera. Se a prefeitura não auxiliar o desenvolvimento da nova arena, o clube terá sérios problemas para seguir com as obras e se manter dentro do cronograma para a inauguração. Felizmente, não deveremos ter nenhum problema neste sentido com o novo prefeito. Durante a campanha, Haddad contou com o apoio dos cartolas corintianos, principalmente de Andrés Sanchez, ex-presidente do clube. O novo prefeito deverá se esforçar para viabilizar a construção do moderno estádio na Zona Leste. Afinal, ele será o palco da abertura da próxima Copa do Mundo, né? Qual político seria louco de passar vergonha diante do resto do mundo, hein? Além disso, daqui quatro anos, Fernando Haddad provavelmente tentará a reeleição. E se ele atrapalhar a construção da arena corintiana, certamente perderá milhões e milhões de votos. Ele não é burro para atirar no próprio pé. Haddad, parabéns pela vitória nas urnas e boa sorte em seu mandato! Olhe com carinho para os interesses e para as propriedades do Timão, por favor!!! 29 de outubro de 2012 - segunda-feira O ano de 2012 tem sido um sucesso retumbante para o clube do Parque São Jorge. O êxito esportivo tem se misturado intimamente às conquistas nos campos financeiro e mercadológico. O Corinthians é a cada dia um dos times mais poderosos e ricos do mundo. A torcida corintiana tem demonstrado peso, tamanho e força, o que potencializa vários negócios da agremiação. Algumas notícias veiculadas na mídia nos últimos dias comprovam tal fato. Segundo pesquisa realizada pela Pluri Consultoria, o Corinthians é um dos 100 times no mundo com mais público em casa em 2012. A equipe do Parque São Jorge ocupa a 65ª posição no ranking internacional com quase 30 mil torcedores de média nos jogos no Pacaembu. É o segundo time brasileiro na classificação. Em âmbito nacional, o Timão só perde para o Santa Cruz, que está na série C e, mesmo assim, tem levado neste ano 37 mil pessoas em média aos jogos (está na 39ª colocação na lista geral). O líder mundial é o Borussia Dortmund, com média de 80,6 mil pessoas por jogo em seu estádio e índice de 100% de ocupação. Incrível! No Facebook, o alvinegro paulista é campeão de audiência. De acordo com o levantamento feito pela SocialBakers, são mais de 3 milhões de fãs corintianos conectados a mais popular das redes sociais. O Timão é o clube brasileiro com mais internautas vinculados no país e o 15º mais popular no mundo. Na América, o clube do Parque São Jorge só perde para o Boca Juniors (3,7 milhões). Os líderes gerais são Barcelona (36 milhões) e Real Madrid (32 milhões). O site do clube também é um dos mais acessados. Esses números devem crescer ainda mais nos próximos meses. Tudo em função do trabalho específico do departamento de Marketing para aumentar a popularidade da marca Corinthians e ganhar novos torcedores no exterior. A ideia é criar uma versão em mandarim do site (já há opção de visualização em inglês e espanhol) para aproveitar o interesse dos chineses em relação ao atacante Zizao. O jogador estreou recentemente com a camisa do time e chamou a atenção de seus conterrâneos. A contratação de Guerrero também fez aumentar o número de visitantes nas páginas do Timão. O centroavante é o principal ídolo esportivo de seu país e, como consequência, o Coringão ganhou novos torcedores por lá. Atualmente, o Peru é o país, depois do Brasil, com mais visitas ao site do clube, seguido por Estados Unidos e Argentina. Esses dados acabam resultando em mais faturamento. Nos oito primeiros meses deste ano, por exemplo, o Corinthians faturou mais com a venda de ingressos do que em toda a temporada de 2011. São R$ 28,1 milhões arrecadados até 31 de agosto, contra R$ 27,1 milhões do ano passado inteiro. O superávit nas contas gerais do clube em 2012 está em R$ 4,8 milhões (em 2011 foi de R$ 5,3 milhões). Com tanto dinheiro entrando, a ausência de um patrocinador principal na camisa corintiana não está sendo sentida. Assim, o departamento de Marketing pode procurar um bom parceiro sem a pressão de fechar desesperadamente um novo contrato. 30 de outubro de 2012 - terça-feira A semana começou com ótimas notícias para alguns jogadores corintianos. O primeiro da lista é Chicão. O camisa 3 está de volta. O experiente zagueiro atuou bem nos 90 minutos contra o Vasco da Gama no último sábado e demonstrou estar recuperado da contusão e da cirurgia sofrida. Chicão não participava de uma partida desde 12 de setembro, quando se lesionou contra a Ponte Preta. Depois disso, o beque passou por uma cirurgia de hérnia e ficou em tratamento no departamento médico. Seu regresso ao time titular dá segurança maior à defesa. Outra novidade no clube tem sido os bons treinos de Zizao. O asiático parece ter ganhado confiança maior após a estreia e tem arrebentado nos treinamentos. Na segunda-feira da semana passada, ele surpreendeu e fez três gols na atividade em campo reduzido. Na quarta-feira seguinte, fez mais um. Agora, mais solto e arriscando jogadas mais difíceis, fez novo gol no coletivo. O ótimo momento do gringo despertou comentários dos companheiros. "No início houve esse pensamento que ele veio por causa do Marketing, mas vimos que ele tem sim valor. Ele tem evoluído bastante e está provando nos treinos", elogiou Fábio Santos. Infelizmente, Zizao não foi mais relacionado para as partidas. A preferência do técnico Tite para completar o limite de três estrangeiros tem recaído ao peruano Ramirez, que é quem tem ficado no banco de reservas corintiano. Martínez e Guerrero são agora titulares. Mesmo assim, o interesse chinês pelo jovem atacante de seu país não diminui. Na semana passada, uma equipe da TV estatal China Central Television esteve em São Paulo para acompanhar os passos de Zizao. Outro que parece muito feliz nas últimas semanas é o meia-armador Douglas. O Maestro corintiano tem jogado muito bem desde a saída de Alex e conseguiu agarrar a oportunidade recebida. É hoje titular absoluto de Tite. A maior alegria nos últimos tempos do camisa 10, entretanto, foi o fim da novela das nove da Rede Globo, Avenida Brasil. “Graças a Deus essa novela acabou”, declarou Douglas na última entrevista coletiva. Seu apelido entre os jogadores do elenco do Timão era Tufão, personagem interpretado por Murilo Benício, um ex-jogador gordo e fora de forma. Ambos eram fisicamente muito parecidos. Com o fim da trama global, o jogador espera pelo fim das brincadeiras dos companheiros. Se antigamente Douglas parecia Tufão, o mesmo não pode ser dito agora. Ele está mais magro, rápido e ágil em campo. Além de armar as jogadas, o camisa 10 também tem marcado e ajudado bastante a defesa. Trata-se de outro Douglas, muito diferente daquele do começo do ano que só andava em campo. “Aqui entre os jogadores tudo bem (me chamarem de Tufão), mas se alguém me chama assim na rua é diferente. O cara nem tem intimidade comigo e vai me chamar assim por quê? Já não via a hora dessa novela acabar. Vamos esquecer esse papo, pelo amor de Deus!”, clamou o camisa 10 corintiano aos jornalistas. Ouviram? Por favor, parem de chamar o Tufão de Douglas. Ele não gosta! 31 de outubro de 2012 - quarta-feira O Ano que Esperávamos Há Anos aborda essencialmente os desafios, as particularidades, os desempenhos, as conquistas e as características dos jogadores corintianos. Afinal, são eles os grandes protagonistas das vitórias do Timão ao longo desta temporada mágica. Nada mais justo do que eu dedicar várias páginas desta obra a eles, né? Porém, não podemos nos esquecer que parte do êxito de uma equipe também é conseguido fora de campo. E quando falamos dos dirigentes do Corinthians, precisamos citar necessariamente Edu Gaspar, o gerente de futebol. Aos 34 anos, Eduardo César Daud Gaspar é natural da cidade de São Paulo. O gerente é o chefe imediato de Tite e dos demais integrantes da comissão técnica (auxiliares técnicos, preparadores físicos, pessoal da base, departamento médico, fisioterapeutas, pessoal da rouparia, massagistas, nutricionistas etc.). Ele é o responsável por administrar o dia a dia do futebol (das contratações ao cronograma de treinos), além de cuidar da logística da equipe (viagens, hospedagens e calendário de jogos) e de intermediar a relação entre os jogadores e os diretores alvinegros. Edu começou a carreira de jogador nas categorias de base do Timão, onde foi capitão e campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1998. Na equipe profissional do Parque São Jorge, o habilidoso volante ficou por três temporadas e meia, de 1998 a 2001. No início, ele era reserva de Vampeta e Rincón, os dois meio-campistas defensivos. Com a saída do colombiano após o Mundial de 2000, o garoto da base assumiu a posição. No Corinthians, Edu foi bicampeão brasileiro (1998 e 1999), campeão paulista (1999) e campeão mundial (2000). Em 2001, o meio-campista foi vendido ao Arsenal por 9 milhões de euros. No time londrino, as conquistas prosseguiram: bicampeonato inglês (2001-2002 e 2003-2004) e tri da FA Cup (2001-2002, 2002-2003 e 2004-2005). O volante foi convocado algumas vezes para a Seleção Brasileira, sendo campeão da Copa América (2004) e da Copa das Confederações (2005). Edu Gaspar permaneceu no futebol europeu por oito anos (ainda jogou pelo Valência da Espanha, ganhando uma Copa do Rey), quando em julho de 2009 acertou o retorno ao Corinthians. A volta ao time em que foi revelado gerou alta expectativa. Edu era um dos grandes nomes da equipe montada para o centenário do Timão, celebrado em 2010. Infelizmente, a segunda passagem no Coringão foi marcada por contusões e poucas atuações. Sem conseguir jogar, o atleta decidiu encerrar a carreira em março de 2011. Foi aí que ele, pela experiência internacional, pelo jeito ponderado e pela competência, foi convidado para continuar trabalhando no clube, agora como gerente de futebol. No cargo de dirigente, Edu Gaspar rapidamente se tornou referência no Corinthians. Nos quase dois anos como funcionário administrativo, ele virou voz ativa no Parque São Jorge e é respeitado tanto pelos jogadores quanto pela diretoria, comissão técnica e torcedores. A calma e a tranquilidade reinante no ambiente do clube são frutos do trabalho honesto, transparente e de qualidade de Edu. ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Junho de 2012

    O maior sonho dos corintianos está próximo de ser concretizado. O Timão está na decisão da Copa Libertadores pela primeira vez. 1° de junho de 2012 - sexta-feira Junho chega trazendo novidades para o plantel do Corinthians. Romarinho, uma das revelações do Campeonato Paulista, foi contratado do Bragantino. O rápido atacante vem para compor elenco e será inscrito na Libertadores na vaga do machucado Edenílson. O recém-chegado é um bom jogador, mas não possui as características de centroavante, posição carente no grupo. Romarinho atua de forma parecida com Emerson, Jorge Henrique e Willian. Com o novo jogador, já são três os reforços do Timão para o Campeonato Brasileiro. Os dois primeiros foram Adilson, atacante vindo do XV de Piracicaba, e o lateral-direito Guilherme, ex-Ponte Preta. A busca por um centroavante legítimo continua. Hoje saiu nos jornais e na Internet o interesse corintiano no argentino Pavone, camisa 9 do Lanús. O atleta de 30 anos já fez 11 gols nessa temporada, sendo 4 na Libertadores e 7 no Clausura (Campeonato Argentino), onde é o vice-artilheiro. Se formos comparar, Pavone fez sozinho mais da metade dos gols de todo o setor ofensivo do Coringão em 2012: Emerson e Willian têm 5 gols cada um, Liedson, Élton e Jorge Henrique têm 3 cada e Gilsinho tem apenas 1, o que totaliza 20 tentos em jogos oficiais. Pavone chamou a atenção pelas boas atuações no torneio continental, principalmente com os gols marcados nas oitavas de finais contra o Vasco da Gama. Algo que pode ajudar na transferência do argentino é a ausência de multa rescisória. Como o contrato com o Lanús termina agora em junho, ele viria de graça. É uma boa opção já que os diretores do Parque São Jorge estão encontrando dificuldades para trazer um jogador experiente da Europa sem precisar gastar uma fortuna. Por falar em centroavante caro, hoje ocorreu a última audiência do processo movido por Adriano contra o Corinthians. No Fórum Trabalhista de São Paulo, os advogados dos dois lados chegaram a um acordo para a indenização ao atleta pelo rompimento do contrato por parte do empregador. Ao invés dos R$ 40 milhões pedidos pelo staff do atleta, o clube pagará R$ 2 milhões para se livrar desse imbróglio jurídico de uma vez por todas. Assim, Adriano poderá seguir a sua vida (com muito álcool, comida, festa e mulherada) e o Corinthians a sua (com muito profissionalismo). Mal acabamos de nos livrar desse mico, já começaram as especulações para uma nova bomba. Com a saída de Ronaldinho do Flamengo, comunicada oficialmente ontem à noite, há algumas pessoas ventilando a possibilidade de o gaúcho pisar no Parque São Jorge. O meia, cansado de não receber salário no Fla, abandonou a Gávea e está livre para acertar com uma nova agremiação. Pelo amor de Deus, não quero ver esse outro ex-atleta em atividade no Timão! É impensável um jogador receber mais de R$ 1 milhão por mês e não querer treinar, jogar nem concentrar. Os cartolas corintianos não são tão burros para cair nessa armadilha outra vez, não é?! Ai, ai, ai. Juro que tenho medo. Às vezes, acho que eles não aprendem nada com os erros anteriores. 2 de junho de 2012 - sábado O final de semana será xoxo para quem gosta de futebol. Não teremos rodada do Brasileirão. Tudo por causa do amistoso da Seleção Brasileira com o México nos Estados Unidos, amanhã, e dos jogos das seleções sul-americanas pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014. Assim, os clubes nacionais estão de folga. O Campeonato Brasileiro só volta mesmo a partir de quarta-feira. Por isso, o Coringão liberou seus jogadores e os integrantes da comissão técnica para descansar durante o final de semana. Os corintianos foram liberados após o treinamento de sexta-feira à tarde e deverão se reapresentar apenas na segunda-feira de manhã. A grande pergunta que intriga a torcida é: o que eles farão no sábado e no domingo de folga, hein? O técnico Tite se programou para visitar a família no Rio Grande do Sul. Ele e a esposa irão para Caxias do Sul para rever os familiares que ainda moram por lá. Provavelmente, o treinador aproveitará para descansar um pouco. Já o zagueiro Chicão irá completar 31 anos no domingo. Para celebrar a data, o camisa 3 dará uma festa para a família e os amigos. O presidente Mário Gobbi visitou hoje à tarde o Santuário Nossa Senhora Mãe de Deus, na zona sul paulistana. Ele foi assistir à missa do padre Marcelo Rossi. Após as orações, o mandatário do Parque São Jorge se encontrou com o religioso e lhe ofereceu uma camisa do Timão. O padre, um fanático corintiano, aproveitou para tirar foto com o manto sagrado. Adivinhe qual deve ter sido o pedido de Gobbi para Deus enquanto rezava? Aposto que foi a conquista da Libertadores. Quem chamou atenção pelos planos do final de semana foi Emerson Sheik. Em entrevista coletiva na sexta-feira, o carioca arrancou risos dos jornalistas pela sinceridade. "Não vou poder falar tudo o que vou fazer (na folga), se não vou ser mandado embora. Mas tenho que ir ver meus filhos, fico morrendo de saudades, já que eles moram no Rio de Janeiro. Hoje (sexta-feira) vou dormir com eles. Amanhã levo o Emerson (filho) para o futebol, será a primeira vez. Depois, entrego (o garoto) de noite para mãe deles e vou para...", afirmou o atacante, se calando no final da frase. Todos na sala de imprensa riram. Obviamente, a palavra faltante era gandaia. Para não ficar chato, Sheik completou: "Tem que ter limites. Todos têm que ter. Quem tem família, curte a família. Eu acho que não pode exagerar. Ver com quem anda e descansar bem para voltar a trabalhar (...). Segunda-feira já tem treino de manhã". Tá bom, Emerson, nós entendemos o que você irá aprontar no Rio! Pensando bem, os jogadores e a comissão técnica merecem descansar, festejar, viajar, rever os familiares e até cair na gandaia. Esse pequeno período longe do ambiente do clube será importante para ajudá-los a esquecer, momentaneamente, da grande responsabilidade que terão nas próximas semanas. É fundamental relaxarem agora para depois voltarem aos treinamentos com todo o empenho possível. Lembrem-se, meus caros: os próximos 30 dias serão os mais importantes da história corintiana. 3 de junho de 2012 - domingo Seguindo os exemplos dos profissionais do Timão, peguei o domingo para passear e me divertir. Esse era o único jeito para eu esquecer um pouco da Libertadores, do Corinthians e dos jogos decisivos contra o Santos. Porém, não sei se consegui desligar totalmente. Admito que não tenho sangue frio para isso. Além do mais, meus programas dominicais foram bastante esportivos, se assim posso dizer. Levantei-me bem cedo e fui ao parque correr. Aproveitei o bonito dia feito em São Paulo e o friozinho ameno para retomar meu condicionamento físico. Afinal, eu o tinha interrompido nas últimas semanas por causa do forte frio. Não tenho coragem de correr quando a temperatura cai muito. Depois de tomar banho e me trocar, resolvi visitar o Museu do Futebol, localizado embaixo das arquibancadas do Estádio do Pacaembu. A última vez que tinha ido lá foi há três anos. O museu está igualzinho à minha visita anterior. A única novidade era a exposição temporária "Vestiário". Ela retratava, por meio de fotos, os bastidores das partidas do Grêmio Esportivo Brasil de Pelotas na segunda divisão do Campeonato Gaúcho. A mostra contava com imagens feitas pelo fotógrafo Gilberto Perin e foi exibida exatamente na sala onde antigamente era um dos vestiários do estádio municipal. Valeu a pena a visita, a exposição estava bem legal. Como o restante do acervo eu já tinha visto, completei a outra parte do percurso rapidamente. Eram quase 11 horas da manhã quando resolvi ir embora. Aí passei por acaso em frente ao auditório do museu. Havia uma movimentação diferente naquele espaço. Ao constatar o que era, acabei ficando. Estava acontecendo ali a terceira edição do Cinefoot, festival de cinema dedicado a filmes cuja temática gire em torno do futebol. O evento desse ano havia começado na semana passada no Rio de Janeiro. Agora, ele chegava a São Paulo, onde iria permanecer por alguns dias. Obviamente, fiquei para ver os títulos em cartaz. Não podia simplesmente ignorar a união de duas de minhas paixões: cinema e futebol. Em duas horas, foram transmitidos cinco filmes (três curtas-metragens e dois médias-metragens). Todos os curtas eram estrangeiros: "Não Culpo o Futebol Arte", produção norte-americana que enfocava a relação polêmica de um atleta profissional com o mercado ilegal de apostas; "Partida Internacional", sobre o fanatismo de um torcedor alemão que ouve a narração radiofônica de uma partida enquanto dirige o carro; e "Dentro, Fora", retrato da rivalidade entre Manchester United e Liverpool na visão de dois moradores das Ilhas Maurício. Os médias-metragens foram: o brasileiro "Um Jogo, Uma Paixão", sobre a rivalidade histórica de Ponte Preta e Guarani; e o argentino "Futebol é Deus", baseado no amor incondicional que três torcedores fanáticos têm com o Boca Juniors. Fui embora refletindo: como há pessoas doentes pelos seus times do coração nesse mundo, né? Apesar de me intitular fanático pelo Timão, sei que perto de muitos, devo ser considerado um corintiano soft ou um torcedor bem moderado... 4 de junho de 2012 - segunda-feira Gostei tanto do Cinefoot que me programei para ver as novas sessões do festival. Nessa semana, os filmes não seriam mais exibidos no Museu do Futebol e sim no Reserva Cultural, cinema localizado na Avenida Paulista. Por isso, rumei para lá no início da noite de segunda-feira para ver mais títulos cinematográficos sobre o esporte mais popular do planeta. Nesse dia, estavam programadas duas sessões em sequência. Como a entrada era gratuita, não pude pegar os ingressos para os dois horários. Segundo a moça da bilheteria: "Apenas meia hora antes da segunda sessão, as entradas estarão disponíveis". Achei que não haveria problema, afinal o público não era tão grande. "Assisto a primeira sessão e depois pego a outra entrada", calculei. Assisti à primeira sessão tranquilamente. Na sala com capacidade para 250 pessoas, não deveria ter mais de 50. Os curtas-metragens ("Zimbú", "O Pequeno Time" e "Tiro Livre Direto") foram mais interessantes do que o longa ("Rock N’Bola"). Destaque para o filme espanhol "O Pequeno Time", que retratava os desafios de uma equipe mirim em um campeonato de futebol disputado contra meninos mais velhos. Terminada a primeira bateria de filmes, saí da sala para pegar o próximo ingresso. E qual a minha surpresa, hein? O Reserva Cultural fora invadido por torcedores do Juventus, o pequeno e simpático time do bairro da Mooca. Os juventinos queriam ver o curta-metragem "Juventus rumo a Tóquio". Por causa desse imprevisto, os ingressos haviam se esgotado. Revoltado com o pessoal da bilheteria que não havia me liberado a entrada com antecedência, reclamei com os organizadores do evento. Lá encontrei mais três pessoas com o mesmo problema. A organização então nos deixou ficar na sala de cinema após a entrada do público com ingresso. Para nossa surpresa, havia aproximadamente 350 pessoas com ingressos na mão. Como a sala não comportava tal multidão, várias pessoas precisaram se sentar no chão e outras ficaram de pé. Nós quatro, os reclamões, ficamos lá no fundo, na frente da porta, na ponta dos pés para ver o principal filme da noite. Juro que me senti na arquibancada da Rua Javari. O mais legal era o clima de estádio dentro do cinema. Os torcedores do Juventus vieram uniformizados, com bandeiras, faixas e arriscavam entoar suas cantorias típicas. Foi bem legal! O filme também é incrível. O documentário retrata a partida realizada em 25 de novembro de 2007. Nessa data, o Juventus disputava a final da Copa Federação Paulista contra o Linense. O campeão ganhava o direito de disputar a Copa do Brasil do ano seguinte, que por sua vez daria direito ao vencedor de disputar a Libertadores. O campeão continental, como todos sabem, disputa o Mundial no Japão. Daí o nome do filme: "Juventus rumo a Tóquio". Para falar a verdade, o filme é bem simples. Foi bem-feito, mas não tem nada demais. O que o deixa interessante é a história da partida e o comportamento dos juventinos acompanhando a chance de serem campeões pela primeira vez em quase 90 anos de história. Se você se interessou, veja o filme (repare que não contei o final). Se não me engano, dá para vê-lo no YouTube (são 15 minutos). Assisti-lo em uma sala de cinema no meio da torcida do Juventus, porém, é um privilégio para poucos sortudos. 5 de junho de 2012 - terça-feira Foi bom ter ido ao cinema e fazer outras atividades não relacionadas ao Corinthians. Acho que consegui, de alguma forma, esquecer um pouco do Timão e de seu importante compromisso pelas semifinais da Libertadores. Agora eu precisava voltar para a realidade. Não daria para viver alienado dos principais acontecimentos ao meu redor por muito tempo. Ciente das minhas responsabilidades, procurei me informar, nessa terça-feira, sobre as últimas novidades do Coringão. No CT do Parque Ecológico do Tietê, os jogadores do Todo Poderoso já estavam trabalhando desde ontem. Não há nenhuma grande mudança na equipe titular. Todos estão bem clinicamente e foram para o gramado participar normalmente das atividades. O atacante Jorge Henrique, após 11 dias afastado dos treinos, voltou a figurar no campo. Ele atuou entre os titulares no coletivo de hoje. Não será problema para o próximo jogo do Campeonato Brasileiro. Por falar no próximo compromisso, o técnico Tite já definiu que vai escalar força máxima para a partida de quinta-feira contra o Figueirense, no Pacaembu. A equipe escalada pelo gaúcho é a seguinte: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Ramon (no lugar do suspenso Fábio Santos); Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Jorge Henrique e Emerson. O treinador também já garantiu o uso da equipe reserva para o jogo contra o Grêmio no domingo. Como a Libertadores volta quarta-feira da semana que vem, não há motivo para arriscar a colocação das principais estrelas corintianas no duelo em Porto Alegre no final de semana. Ou seja, a chance para o Timão ganhar seus primeiros pontos na competição nacional é agora, em casa contra o Figueira. Para animar a torcida a comparecer ao estádio e empurrar o time, a diretoria alvinegra resolveu fazer uma promoção. O valor das entradas terá um desconto de 50% para o jogo do Figueirense. A iniciativa, a primeira nos últimos quatro anos, se deu pela baixa procura de ingressos para esse duelo. O desinteresse dos corintianos tem fundamento. Chove sem parar em São Paulo nos últimos dias. A previsão para a hora do jogo é de mais água, além de frio intenso. O termômetro pode chegar a nove graus na noite de quinta. Eu até aproveitaria a promoção para ir ao estádio se não fosse a chuva. Pensando bem, prefiro ficar em casa bem agasalhado e seco. Por falar em ingresso, os corintianos conseguiram bater mais um recorde hoje. As entradas para o jogo do dia 20 de junho contra o Santos, no Pacaembu, estão quase esgotadas. Em oito minutos, a torcida cadastrada no programa Fiel Torcedor acabou com os ingressos de quatro setores do estádio. Não há mais tickets para os setores mais populares nem para a área VIP. Restaram apenas alguns lugares no setor das Cadeiras Laranjas e das Numeradas. Isso é semifinal de Libertadores, amigo(a)! Diga-me uma coisa: você já viu um time de futebol vender quase 40 mil ingressos em menos de dez minutos? Os fanáticos corintianos devem ter ficado na frente do site esperando a liberação da compra para efetuar a aquisição. Essa é a única explicação para a rapidez com que as vendas foram feitas. E o fanatismo da torcida, é claro! 6 de junho de 2012 - quarta-feira Gostaria de falar de uma pessoa importantíssima para o Corinthians em 2012, que muitas vezes fica renegada ao segundo plano e sofre críticas pesadas da Fiel Torcida. Estou me referindo a Mário Gobbi Filho, o atual presidente do clube. Gobbi iniciou seu mandato na presidência em março desse ano cercado de desconfiança. Os principais atritos com os torcedores deram-se na gestão passada, quando ele ainda atuava como diretor de futebol. Em meados de 2009, o Timão precisou vender alguns dos principais jogadores do elenco recém-campeão da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista. O diretor veio à público informar que aquilo era algo normal no futebol. Por se tratar também de negócios, o time precisava se desfazer de algumas peças para arrecadar dinheiro. A ala mais radical das torcidas organizadas ficou furiosa com a declaração e reagiu agredindo Gobbi. Em um evento na sede do clube, atiraram uma cadeira no dirigente. A partir desse episódio, o cartola passou a ser visto como anticorintiano pela parcela mais reacionária da torcida. Nesse ano, a nova polêmica foi em relação ao preço dos ingressos. As torcidas organizadas reclamam constantemente do alto valor cobrado nos jogos do Timão. O presidente veio à público para explicar que os preços não seriam reduzidos. Afinal, o Corinthians foi o time com maior média de público no Brasileirão de 2011. E é quem mais fatura na Libertadores, com o Pacaembu sempre lotado. É a lei da oferta e da procura. Se fosse alterar o valor, seria para mais e não para menos. Infelizmente, muitos torcedores não conseguem ser racionais nessa hora. A administração de Mário Gobbi Filho tem se caracterizado exatamente por ser extremamente coerente. É mais conservadora do que a anterior. Até agora, o mandatário alvinegro tem procurado cortar gastos, não foi seduzido pelas contratações de impacto e não concede privilégio para ninguém. Essa característica ficou evidente quando se cogitou a contratação de Ronaldinho Gaúcho. Gobbi imediatamente rechaçou qualquer iniciativa nesse sentido. Ele não está disposto a gastar fortunas para trazer nenhum jogador. Sua preferência é por atletas baratos com potencial para despontar no cenário nacional, como Adilson, Guilherme e Romarinho. Ele está certo! O presidente corintiano sabe que as receitas dos principais times brasileiros têm crescido substancialmente nos últimos anos, mas suas despesas têm se elevado ainda mais. Para se ter uma ideia, o Timão gasta anualmente com juros (de empréstimos contraídos no passado) cerca de R$ 36 milhões. É uma fortuna! Não adianta nada ser o clube que mais fatura no país, se a dívida aumentar exponencialmente. Gobbi está certíssimo em fechar a torneira, evitar o desperdício e controlar as despesas. Ao invés de contratar, o melhor a fazer é manter os jogadores atuais do elenco. E mandar os imprestáveis, como o Imperador Adriano, embora. Não vejo razão para a crítica. Pelo contrário, devemos elogiá-lo pela iniciativa pouco populista. Em todos os temas aqui abordados, dou razão para o presidente. Ele tem se mostrado um ótimo comandante nesse clube historicamente mal administrado. 7 de junho de 2012 - quinta-feira O Pacaembu recebeu 25 mil torcedores na noite gelada e úmida dessa quinta-feira. Os mais loucos do Bando de Loucos foram seduzidos pela promoção dos ingressos e não se importaram com a chuva e o frio intensos da capital paulista. A partida contra o Figueirense era válida pela terceira rodada do Brasileirão. O Timão começou o jogo com tudo. No primeiro tempo, só deu Corinthians. O Figueirense não conseguiu passar pela forte marcação da equipe da casa, sendo pressionado o tempo inteiro. As chances corintianas de gol foram várias. A primeira oportunidade surgiu no cruzamento confuso de Alessandro que Emerson chutou torto. Depois foi a vez de Danilo errar. Ele recebeu livre na área e, ao invés de arrematar diretamente para a meta, tentou cruzar. A bola saiu pela linha de fundo. O gol parecia amadurecer. Emerson perdeu mais duas chances claras. Aos 37 minutos, veio, enfim, o gol. Alessandro cruzou da direita, Danilo subiu mais alto do que a defesa catarinense e colocou para dentro. Timão 1 a 0. Até o intervalo, houve mais duas jogadas dos mandantes para ampliar o placar. A falta de pontaria dos atacantes estragou as criações dos meio-campistas corintianos. O segundo tempo começou melhor para os visitantes. Mais ligado e com uma formação mais ofensiva, o Figueirense atacava perigosamente. O cenário parecia ter mudado completamente. O jogo se tornara muito mais difícil para a Fiel. O gol dos visitantes começava a amadurecer. No momento mais crítico, o Corinthians conseguiu puxar um bom contra-ataque. O zagueiro do Figueira parou Emerson com falta feia e foi expulso instantaneamente. Com um homem a mais, o time de Tite voltou a dominar as ações. Danilo e Alex quase fizeram o segundo gol em boas jogadas. Aí, em um lance isolado, o Figueira conseguiu um cruzamento pelo lado esquerdo do ataque. Na pequena área, o centroavante da equipe catarinense só precisou empurrar a bola para dentro. O jogo estava novamente empatado. Precisando vencer, Tite colocou em campo, nos quinze minutos finais, mais um monte de atacante. Seus comandados, porém, não conseguiram marcar um novo tento. O 1 a 1 foi o placar final no Pacaembu. O Corinthians conquistou seu primeiro ponto, mas a torcida saiu chateada do estádio com a perda de mais dois pontos na competição. Assim, o Timão permanece na zona de rebaixamento, na antepenúltima posição. No Brasileirão desse ano, são, até agora, 2 derrotas, 1 empate e nenhuma vitória. Para piorar, o técnico corintiano reafirmou na entrevista coletiva pós-jogo a intenção de escalar a equipe reserva contra o Grêmio. Nova derrota à vista no domingo! Se existe algum consolo nessa hora, podemos dizer que nossos principais rivais do Estado também estão mal no campeonato. Palmeiras e Portuguesa ainda não venceram. Ambos estão conosco na zona de rebaixamento. São Paulo (o único paulista a vencer uma partida até agora), Santos e Ponte Preta estão nas 11ª, 13ª e 14ª colocações, respectivamente. Em 17 partidas, os clubes bandeirantes contabilizam 9 derrotas, 8 empates e apenas 1 vitória. É o pior começo de nacional da história dos pontos corridos dos paulistas. Realmente é para se esquecer! Ninguém pode tirar sarro de ninguém por enquanto. Bola para frente! 8 de junho de 2012 - sexta-feira Eu tinha uma vaga ideia de como os torcedores adversários estavam se opondo à glória corintiana na Libertadores. Mesmo assim, hoje fiquei assustado ao constatar a real dimensão da torcida contrária. Percebi isso assistindo ao programa semanal "Papo com o Benja", no TV Lance! O apresentador corintiano Benjamin Back entrevistou Antonio Tabet, criador do site humorístico Kibe Loco e flamenguista declarado. No final do programa, quando o jornalista pediu para o convidado dar um último recado, Tabet se saiu com essa: – Você sabe que o Corinthians não vai ganhar essa Libertadores, né? – Por quê? – se indignou o apresentador corintiano. – Porque é cósmico. É cósmico! É maior do que vocês. Vocês não vão ganhar a Libertadores. Vocês vão perder. E vai ser com requinte de crueldade. – O Corinthians não é Brasil?! – É claro que não! – sentenciou o flamenguista sem qualquer hesitação. – Corinthians e Santos, você vai torcer para o Santos? – Evidente. Evidente! – Que filho da p... Mas por quê? – Benjamin estava inconformado com o que ouvia. – Por causa da piada. É muito melhor o Corinthians perder a Libertadores do que ganhar. Para mim, para a piada, é evidente! Eu quero que o Corinthians se dane na Libertadores. Mas eu quero muito. Se o Corinthians perder, pode ter certeza de que eu vou estar em casa assim: Hahahahah. Gargalhando com o demônio em cima da mesa. – (Risos nervosos) Puta cara sacana, meu!!! – Mas é verdade. Eu não posso mentir para você. Eu vou torcer contra. Se ganhar eu também vou fazer piada com isto. Vou fazer alguma zuando com os outros times. – A Mãe Dinah falou que o Corinthians vai ser campeão da Libertadores. A Mãe Dinah que merecia um pouco mais de respeito neste país porque tem dons que ninguém tem. Ela não erra! – Benja não segurou a risada com a última afirmação. – É verdade. Ela não erra! Vamos ver a Mãe Dinah. Depois você cobra dela lá. Se até os flamenguistas estão torcendo contra o Timão, podemos dizer que o país inteiro estará contra os jogadores do Parque São Jorge. O Corinthians não jogará a semifinal contra o Santos. Será Corinthians versus Resto do Mundo, isso sim! 9 de junho de 2012 - sábado Nos bastidores, o Corinthians está parecendo um barril de pólvora. Isso ficou evidente nessa semana. Qualquer faísca, por menor que seja, pode desencadear reações explosivas. A tranquilidade pela qual o clube passava desde a eleição em março era apenas aparente. Quem conhece um pouco a história desse clube centenário e a maneira de agir dos cartolas alvinegros, sabe que a paz e a harmonia interna são termos raros e utópicos. Quando o ambiente está calmo, é porque as aparências estão sobrepujando a realidade. A alguns dias da partida mais importante da história, os cartolas do Timão estão em guerra. Quem começou a pisar na bola foi o vice-presidente Luis Paulo Rosenberg. Em uma palestra sobre Gestão Esportiva realizada no início da semana em São Paulo, ele disse que o atual time corintiano era medíocre porque não tinha nenhuma estrela. Além disso, afirmou ter contratado Ronaldo e o chinês Zizao para internacionalizar a marca do Corinthians, já que o clube não tinha títulos internacionais. À princípio ele não falou nenhuma mentira. Quem não concordar com ele deve sim ser tachado de maluco! O elenco atual é sim mediano (medíocre é sinônimo de mediano) e o clube, infelizmente, não possui conquistas no exterior em sua galeria de troféus. Com a passionalidade de sempre, os torcedores apaixonados, os conselheiros da situação e da oposição e os sócios do clube foram unânimes em reclamar da postura do vice-presidente. Rosenberg foi xingado por todos. Vários cartolas que não se entendiam se juntaram para pedir a cabeça de Luis Paulo. O conselheiro e líder da oposição Antonio Roque Citadini, por exemplo, chegou a jantar com o seu antigo desafeto, André Luiz de Oliveira, figura importante do Parque São Jorge e personalidade contrária à atual gestão. Os dois agora se dizem grandes amigos e lideram o grupo opositor. Até conselheiros da situação reclamaram para o presidente Gobbi e exigiram uma atitude drástica. As torcidas organizadas, muito ligadas a vários cartolas, gritaram na última partida: "Ô, Rosenberg, vai se f...! nessa história, o medíocre é você” e “Doutor, eu não me engano, Rosenberg não é corintiano!”. A declaração polêmica de Rosenberg acabou gerando outros problemas. A relação do ex-presidente Andrés Sanchez com o sucessor se estremeceu. O motivo da rusga, segundo os aliados de Sanchez, é que o atual mandatório não estaria fazendo agrados aos conselheiros da situação. Gobbi teria colocado profissionais técnicos nos principais cargos de gestão. Acabou se esquecendo dos antigos parceiros. Além disso, vários privilégios foram cortados. A política atual de contenção de despesas, em todas as frentes, tem sido também alvo da ira dos cartolas, sedentos por mais verbas. A politicagem e as picuinhas internas ainda têm, na cabeça de muitos dirigentes, mais importância do que a profissionalização da administração do clube. Quando a equipe está a apenas quatro jogos da maior conquista esportiva, a preocupação de muitos é com a perda de poder. Infelizmente, essa é a realidade no Corinthians (e em muitas agremiações país afora). Vamos torcer para que a fogueira de vaidades não chegue aos jogadores nem contamine o ambiente saudável dos atletas. 10 de junho de 2012 - domingo Enquanto os conselheiros corintianos tiveram uma semana de protagonismo, com várias notas, declarações e reportagens na mídia, o técnico Tite, aparentemente indiferente à situação política no Parque São Jorge, escalou o Timão para a 4ª rodada do Brasileirão. Contra o Grêmio, em Porto Alegre, os jogadores escolhidos foram: Danilo Fernandes; Welder, Antônio Carlos, Wallace e Fábio Santos; Marquinhos, Willian Arão, Ramon e Douglas; Willian e Élton. Mais uma vez, os reservas iam a campo. Desde a primeira rodada, quando fui ver no Pacaembu a derrota (e a atuação pífia) dos suplentes do Corinthians contra os reservas do Fluminense, prometi para mim mesmo que não perderia mais tempo assistindo aos jogos da equipe B. Para que passar nervoso com jogadores fracos tecnicamente e desentrosados, hein? A conquista de algum ponto estava definitivamente descartada com a escalação dos reservas. Mesmo com a promessa, não consegui ficar longe da televisão. No horário marcado, me sentei no sofá de casa e coloquei na Band para acompanhar a partida. A narração era de Luciano do Valle e os comentários eram do (eterno craque) Neto. Por que fiz isso?! Para ver mais uma derrota, né? O Grêmio não teve nenhuma dificuldade para fazer dois gols em menos de meia hora. O Timão até começou bem, dando esperança para sua torcida. Porém, passados os dez minutos iniciais, os gaúchos dominaram o jogo completamente. O primeiro gol veio de uma falha do goleiro corintiano Danilo Fernandes. Ele não pegou um chute de fora da área. O segundo veio em um cruzamento para a área. O centroavante tricolor não teve trabalho para empurrar a bola para as redes. O restante do primeiro tempo foi do Grêmio pressionando. O pior era ver que os jogadores gaúchos estavam se poupando para o jogo da próxima quarta-feira (o desafio tricolor será pela semifinal da Copa do Brasil). Além disso, a equipe do Corinthians estava perdidinha em campo. Para piorar, Tite colocou vários jogadores fora de posição: o zagueiro Marquinhos atuou como volante e o lateral Ramon como meia. Foi uma grande confusão! A péssima atuação corintiana se repetiu no segundo tempo. Só Fábio Santos conseguia fazer boas jogadas. Não é à toa que era o único da equipe principal no gramado. Por ter sido expulso na partida retrasada, o camisa 6 precisou jogar para readquirir ritmo de jogo. O restante do time foi uma completa negação. Com a derrota de 2 a 0, o Timão passou para a lanterna da competição. Tem apenas 1 ponto ganho em 12 disputados. Ao nosso lado, também com 1 pontinho, está o Palmeiras. Embora dividam a rabeira do Brasileirão conosco, a situação dos nossos rivais é bem pior. Eles estão ali mesmo atuando com a equipe principal nas quatro rodadas. Ou seja, enquanto o Corinthians está na zona de rebaixamento porque está poupando os titulares para a Libertadores, os palestrinos estão lá por incompetência própria. Já imaginou no final do ano o Corinthians viajando para o Mundial de Clubes da FIFA e os palmeirenses se preparando para disputa da 2ª divisão em 2013? Seria maravilhoso! 11 de junho de 2012 - segunda-feira Os dias passam, passam, passam e nada de chegarmos em 13 de junho. Não sei o que está acontecendo!!! Estou para ver o mundo acabar em 2012, mas a tão esperada partida entre Corinthians e Santos pela Libertadores não pintar nunca no calendário. É uma crueldade com os torcedores tal demora. Minha sugestão é a FIFA intervir imediatamente e obrigar cada time filiado a jogar primeiramente as competições mais relevantes. Somente depois de ter definido os títulos mais importantes, a agremiação poderia disputar as demais partidas da temporada. Na minha concepção, essa seria a medida mais benéfica até hoje do futebol para a saúde mental e física dos torcedores. Não podemos sofrer tanto com a espera infinita pelos jogos decisivos. Nesse meio tempo, acabamos deixando outros assuntos essenciais de lado. Vou ser sincero com você: essa ansiedade toda em relação a Libertadores está mexendo demais comigo. Os aspectos sociais, financeiros, familiares, sexuais, profissionais, culturais e religiosos da minha existência estão sofrendo direta ou indiretamente com a indefinição da vaga para a final da competição sul-americana. Aposto que os verdadeiros corintianos também estão passando por isso. Não dá para mantermos a rotina com as seguintes dúvidas martelando em nossas cabeças: "Vamos chegar ou não à final da Liberta?"; e "Será dessa vez o fim do maldito tabu corintiano?". A elevada expectativa poderia ser amenizada pelos vários eventos esportivos que estão acontecendo nesse momento. A Euro Copa, por exemplo, está sendo realizada na Ucrânia e na Polônia. Os melhores jogadores do velho continente estão desfilando seus talentos no torneio que é considerado uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. Por falar na Seleção Brasileira, ela tem feito amistosos preparatórios de bom nível para a Copa de 2014. Os canarinhos jogaram recentemente com Dinamarca, Estados Unidos, México e Argentina. Além disso, as Olimpíadas de Londres estão para começar. Os principais atletas do planeta estão em fase final de preparação para a busca de medalhas. Até a Fórmula 1, esporte caracterizado nas últimas décadas pela monotonia, em 2012 se transformou em uma competição equilibrada. As corridas têm sido eletrizantes, com várias ultrapassagens e brigas pelas posições! No domingo passado, por exemplo, tivemos o sétimo vencedor diferente na sétima corrida da temporada. Um recorde! Infelizmente, não consegui aproveitar nenhum desses eventos. Eu não consigo ver nada relacionado ao esporte. O meu pensamento está exclusivamente em Corinthians e Santos, Santos e Corinthians. Outro assunto esportivo me deixa muito nervoso e apreensivo... Estou até sonhando com a Libertadores. Na última noite, sonhei com o Neymar me visitando em casa. O santista dizia ter recebido um e-mail meu e veio saber o que eu tinha de tão importante para falar com ele. E eu não tinha nada para dizer. O que eu queria era sequestrá-lo para ele não entrar em campo nessa semana. Veja o que é um homem desesperado! Antigamente, eu sonhava com a Isis Valverde, a Patrícia Poeta, a Megan Fox, a Deborah Secco e a Scarlett Johansson. Eu e elas em uma ilha deserta! Agora quem vem me visitar na hora do sono é um rapaz com cabelo de cacatua. O dia 13 precisa chegar urgentemente, pelo amor de Deus!!! 12 de junho de 2012 - terça-feira Hoje é Dia dos Namorados, a data mais romântica do ano, para quem tem namorada, é claro. Definitivamente, não é o meu caso. Para mim, esse 12 de junho é uma terça-feira normal. Para ser sincero, não poderia usar o termo normal. Afinal, estamos na véspera de Corinthians e Santos pela Liberta. Dentro de algumas horas, as equipes vão subir a campo para fazer a primeira partida valendo uma vaga na final do tão almejado torneio continental. Sem sombra de dúvida, esse é o acontecimento mais importante da semana. Mesmo que eu me casasse nos próximos dias, ainda sim continuaria mantendo a frase anterior intacta. Juro que não acredito que em uma semana de semifinal de Libertadores alguém pode pensar em Dia dos Namorados!? Para saber os preparativos do jogão de amanhã, acessei alguns sites esportivos. Soube que o Timão já está na cidade litorânea. Tite fez um treino de reconhecimento do local da partida com seus jogadores. Cada detalhe do gramado é importante nessa hora. A pressão na Vila Belmiro deverá ser insuportável na quarta-feira. No treino noturno de hoje já foi possível constatar a hostilidade dos nossos adversários. A torcida santista recepcionou os atletas corintianos com muitas ofensas e xingamentos. Ovos foram atirados no ônibus mosqueteiro. Durante a atividade com bola no gramado, alguns rojões foram atirados para dentro do estádio, assustando os corintianos. Além disso, algumas torcidas organizadas do Peixe prometem soltar mais rojões durante a madrugada, em frente ao hotel onde o Corinthians está hospedado. A ideia é atrapalhar o sono dos jogadores do Timão. O clima de Libertadores está definitivamente instalado na Baixada. Vale tudo para desestabilizar o oponente. A equipe corintiana escalada pelo treinador gaúcho é a seguinte: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Jorge Henrique e Emerson Sheik. É o mesmo time dos últimos jogos da Liberta. No banco ficarão: Júlio César, Ramon, Wallace, Marquinhos, Douglas, William e Élton. A grande notícia da terça-feira vem do outro lado. O meio-campista Paulo Henrique Ganso se recuperou da operação no joelho e deverá ser relacionado entre os titulares santistas. Após 17 dias da cirurgia, ele treinou normalmente a semana inteira. Não há motivos para o camisa 10 não ser escolhido pelo treinador Muricy Ramalho para começar o jogo. O mesmo acontece com o volante Arouca, outro grande nome da equipe praiana. Recuperado de lesão na coxa, o atleta responsável pela marcação dos atacantes adversários deverá ser escalado. Portanto, o Santos virá com as principais estrelas: Rafael; Henrique, Edu Dracena, Durval e Juan; Adriano, Arouca, Elano e Ganso; Neymar e Alan Kardec. Pensando bem, é até melhor o Santos jogar com a equipe completa. Aí não precisaremos ouvir depois as desculpas de nossos rivais: "Vocês só ganharam porque o Ganso não jogou"; ou "se o Arouca estivesse em campo, a história seria outra". Se o Timão vencer o Santos completo, não haverá qualquer motivo para contestação. Aí eu quero ver a cara de palmeirenses, são-paulinos e santistas... 13 de junho de 2012 - quarta-feira O tão aguardado dia chegou! Corro para tomar banho, me trocar e me instalar no sofá de casa para acompanhar a grande semifinal da Libertadores. Ligo a televisão no exato instante em que a Rede Globo mostrava as primeiras imagens da Vila Belmiro. A câmera do alto revelava um estádio envolto por uma nuvem branca. Os fogos de artifício e os sinalizadores da torcida da casa eram os responsáveis pelos efeitos visuais. O clima de decisão era total. Santistas de branco e corintianos de preto estavam prontos para o embate histórico. O primeiro tempo foi amplamente dominado pelo Timão. Os jogadores mosqueteiros não demonstravam sentir a pressão por jogar no alçapão santista. Eles conseguiam roubar com facilidade a bola dos adversários e trocavam passes envolventes. Neymar e Ganso não fizeram nenhuma boa jogada na primeira etapa. Ambos os craques foram neutralizados pela defesa visitante. Como corriqueiro nos jogos do Corinthians fora de seus domínios em 2012, as chances de gol não apareciam. Isso até os 27 minutos. Paulinho achou Emerson Sheik na ponta esquerda. Livre de marcação, o atacante chutou de fora da grande área. A bola foi no ângulo da meta de Rafael. Golaço!!! Timão 1 a 0 e alegria da nação corintiana. A desvantagem no placar obrigou o Santos a ir para frente. No final do primeiro tempo, surgiu a primeira oportunidade clara de gol para os santistas. Elano chutou livre na pequena área. A bola só não estufou as redes porque bateu antes no pé de Fábio Santos, que estava de costas. A bola saiu. Ufa! No segundo tempo, a pressão dos mandantes foi maior. O Santos teve pelo menos cinco boas chances para marcar. Aí quem apareceu muito bem foi Cássio. O goleirão foi perfeito e fez ótimas defesas. Com o adversário inteiro em seu campo, o Corinthians começou a encontrar facilidade para contra-atacar. Em uma saída rápida, Emerson Sheik ficou cara a cara com o goleiro santista. Ao invés de chutar para o gol e fazer 2 a 0, o atacante preferiu simular pênalti. Óbvio que o juiz não marcou nada. Para piorar, o camisa 11 poderia ter sido expulso pela queda. Já tinha um cartão amarelo. O arbitro preferiu, dessa vez, ser bonzinho conosco e não deu a segunda punição. Entretanto, a expulsão não demorou. Alguns minutos depois, Emerson entrou violentamente nas pernas de Neymar. Recebeu, enfim, o cartão vermelho. O artilheiro da noite conseguia passar de herói a vilão. Como pode ser tão talentoso com a bola nos pés e tão burro quando está sem ela? Eu tenho uma raiva de jogador estúpido! Os minutos finais da partida contaram com todo tipo de pressão por parte dos santistas. Em campo, os jogadores de Muricy Ramalho, em vantagem numérica, continuavam perdendo gols. Nas arquibancadas, a torcida arremessava de tudo no campo para intimidar os corintianos (até o capacete de um policial foi jogado perto do goleiro Cássio). Para completar, a luz do estádio caiu no exato momento em que o Corinthians puxava seu mais perigoso contragolpe da segunda etapa. Apesar das manhas e artimanhas santistas, o jogo acabou 1 a 0 para o Timão. A vitória no primeiro duelo enchia a nação corintiana de esperança de avançar à final inédita. 14 de junho de 2012 - quinta-feira Diz um famoso ditado popular: "Pior do que não ler nenhum jornal ou revista, é ler apenas um". Eu acredito plenamente em tais palavras. Por isso, passei a quinta-feira acompanhando as notícias da partida de ontem pelos mais diferentes veículos de comunicação e pelos mais variados tipos de mídia. Comecei o dia lendo o jornal O Lance! e o caderno de esportes do O Estado de São Paulo. Depois, ao longo da manhã, acessei várias vezes o portal de esportes do UOL para saber as novidades do Corinthians. Antes de desligar o computador, dei uma passadinha no YouTube para rever o gol do Emerson. Na hora do almoço, troquei a refeição pela televisão. Corri para frente da telinha para assisti ao Globo Esporte. Como ainda não havia começado, dei uma passadinha na Band para conferir a Renata Fan anunciar a emocionante vitória do Timão. Após as atrações esportivas da TV, liguei o rádio para ouvir "Esporte em Discussão", o programa diário de debate de Wanderlei Nogueira na Jovem Pan. A opinião dos jornalistas foi unânime: o Corinthians está a um passo da final. Dificilmente perderá a vaga se jogar o próximo jogo como jogou ontem. No restante da tarde, ainda acessei algumas vezes os principais sites de futebol. Não queria perder nada a respeito da partida de ontem. Como é bom o pós-jogo quando ganhamos, né? Eu não me canso de ler a mesma informação sendo transmitida por diferentes jornalistas ou de assistir aos melhores momentos da partida uma centena de vezes. Devo ter visto o gol de Emerson pelo menos umas 50 vezes. Também não me aborreço de ter que falar do mesmo assunto o dia inteiro, com todo mundo. As vitórias épicas devem ser degustadas plenamente... À noite, liguei para a minha prima Tatiana para saber como ela estava. A fanática corintiana disse estar feliz com a vitória. Também estava aliviada pelo jogo não ter sido tão dramático quanto aquele contra o Vasco. O mais curioso, no relato dela, foi a sua confissão sobre não ter deixado seu pai assistir ao jogo do Grêmio. Meu tio é gaúcho e gremista fanático. Ele queria acompanhar a partida de seu time pela Copa do Brasil, que estava sendo transmitida pela Band no mesmo horário do jogo do Timão. Aí a Tati disse ter olhado com uma cara tão feia quando ele cogitou tirar da Globo, que o gremista desistiu na hora e acabou vendo Corinthians e Santos. O Brasil inteiro deve ter assistido ao clássico paulista. Até os palmeirenses, que jogavam contra o Grêmio no mesmo horário, devem ter preferido ver o emocionante confronto da Libertadores do que a decisão da irrelevante Copa do Brasil. A Rede Globo já vinha registrando sucessivos recordes de audiência com o avanço do Corinthians para as fases de mata-mata da competição sul-americana. Ontem, ela comemorou o maior sucesso de público! Segundo o IBOPE, a emissora carioca bateu o recorde de audiência no futebol nos últimos anos na Grande São Paulo ao transmitir o Timão. Ou seja, tem mais gente vendo as partidas da equipe do Parque São Jorge do que os jogos da própria Seleção Brasileira. Durmamos com uma bomba dessa! 15 de junho de 2012 - sexta-feira Não é possível terminar a semana sem falar de Emerson Sheik. O atacante corintiano foi o protagonista da primeira semifinal entre Corinthians e Santos: fez um golaço no primeiro tempo e foi expulso infantilmente na segunda etapa. Agora, ele é desfalque certo da equipe do Parque São Jorge na próxima partida da Libertadores. Emerson chegou ao Corinthians no início do Brasileiro do ano passado. Em pouco tempo, conseguiu alcançar a posição de titular e cair nas graças dos corintianos. O fluminense de 33 anos, natural de Nova Iguaçu, foi peça fundamental na conquista do Brasileirão de 2011. É atualmente um dos líderes do elenco do Timão. Possivelmente, Emerson é o atleta profissional que se envolveu na maior quantidade de escândalos do futebol brasileiro. Ele consegue misturar feitos esportivos memoráveis a episódios pessoais bizarros. É verdade, sua carreira é repleta de títulos, mas também carrega várias manchas e polêmicas. Para começo de conversa, Sheik chegou ao Parque São Jorge depois de ter sido expulso de sua antiga equipe, o Fluminense. O presidente tricolor o mandou embora após o jogador cantar um funk do maior rival, o Flamengo, em pleno ônibus do time das Laranjeiras. O veículo estava a caminho de um jogo da Libertadores, em Buenos Aires. O atacante havia jogado na Gávea e se dizia flamenguista. Dá para acreditar?! Contudo, esse deslize é até suave. Em janeiro de 2006, Emerson Sheik, que atuava na época nos Emirados Árabes, foi preso no aeroporto internacional do Rio de Janeiro por portar documentos falsos. Sua certidão de nascimento fora refeita para ele ficar três anos mais jovem. Seu verdadeiro nome não é Emerson e sim Márcio. Assim, o atleta fluminense pôde atuar, no início de carreira, nas categorias de base, mesmo já tendo ultrapassado a idade, algo que o beneficiou sensivelmente. Mais recentemente, Emerson foi acusado de lavagem de dinheiro e contrabando. Comprou ilegalmente um veículo importado. Se for condenado pelo último crime, pode pegar 14 anos de prisão. Apesar dos problemas fora de campo, Sheik é um colecionador de títulos dentro do gramado. Ele é o único jogador tricampeão brasileiro consecutivo por três equipes diferentes. Os campeonatos foram conquistados entre 2009 e 2011, quando defendeu, respectivamente, Flamengo, Fluminense e Corinthians. Se você quer ser campeão nacional, contrate esse homem. Emerson também atuou com êxito por nove anos no Japão e no Oriente Médio. No Qatar, seu desempenho foi tão incrível que chegou a se naturalizar qatariano e a atuar pelas Eliminatórias da Copa de 2010 pela seleção asiática. Lá foi onde o atacante fez fama, fortuna e ganhou o apelido (Sheik). Esse é o jogador que colocou o Timão a um passo da final da Libertadores. E foi também quem atrapalhou os planos do técnico Tite para a segunda partida. Tecnicamente, Emerson é excelente, um dos melhores boleiros do país. Por outro lado, ele não é muito confiável. A qualquer momento, ele pode aprontar uma e aí o caldo pode desandar. Precisamos torcer para o camisa 11 estar com a cabeça no lugar. 16 de junho de 2012 - sábado Fui visitar, hoje à tarde, a minha prima Tatiana, a mais corintiana das corintianas. Ela estava radiante com o Timão na Libertadores. Depois de trocarmos nossas impressões sobre a equipe de Tite e fazermos previsões para o próximo confronto com o Santos, chegamos a uma conclusão: se a final do torneio continental for entre Corinthians e Boca Juniors, será a final dos sonhos para a Fiel Torcida! O Boca Juniors é o time com maior número de conquistas sul-americanas no século XXI. Dos 6 títulos da Libertadores dos xeneizes, 4 foram nos últimos 12 anos (2000, 2001, 2003 e 2007). Em três dessas oportunidades, os derrotados na final foram clubes brasileiros (Palmeiras em 2000, Santos em 2003 e Grêmio em 2007). Por isso, o Boca é considerado o grande vilão das agremiações nacionais na Liberta. Se o Corinthians vencer a competição em cima da equipe mais temida do continente e considerada por todos como a principal adversária dos brasileiros, será o suprassumo da alegria. Conseguiremos, enfim, a tão aguardada Libertadores e da forma mais difícil de todas: vencendo o temido Boca Juniors na decisão. Realmente é um sonho que está prestes a se tornar realidade. O Boca também venceu seu primeiro jogo da semifinal. Os argentinos fizeram 2 a 0 na partida de ida contra o Universidad de Chile em La Bombonera. Agora podem perder por até um gol de diferença no próximo confronto em Santiago que garantem a passagem para mais uma final. Enquanto debatia essa possibilidade com a Tati, chegamos a mais uma constatação: precisamos estar no Pacaembu para ver ao vivo essa conquista histórica do Timão. Sim, estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para adquirir ingressos para a finalíssima. Com essa ideia em mente, minha prima me emprestou o notebook dela para eu ver como poderia fazer para renovar minha assinatura no Programa Fiel Torcedor. Como eu não havia renovado minha assinatura há um bom tempo, eu não poderia adquirir as entradas sem estar associado. Pelos meus cálculos, o valor da renovação sairia em R$ 720,00 (R$ 600,00 para o titular da conta e R$ 120,00 para um adicional). A partir daí, eu poderia comprar os ingressos (mais R$ 200,00 para cada entrada). Ou seja, a brincadeirinha girava na casa dos três dígitos. Precisaria, é claro, desfalcar minha conta bancária para poder realizar o sonho de ver presencialmente o Corinthians campeão da Libertadores. O que são mil reais para alguém com a possibilidade de ver a maior façanha esportiva de seu clube, hein? Empolgado, combinei com a Tati que no exato momento em que o Timão confirmasse a passagem para a final, entraria no site do Fiel Torcedor e renovaria minha assinatura. Dessa forma, estaria apto a comprar os ingressos. Além disso, precisaria contar com a sorte. Contra o Santos, nas semifinais, os associados tiveram a capacidade de esgotar os ingressos mais populares em apenas oito minutos. Terei que ficar em frente ao site esperando o início da autorização para a compra. Não poderei vacilar nem um segundo sequer. Não quero ficar de fora da final por questão de minutos, né? Tenho certeza de que a Tati também não se importará de ficar na frente do computador aguardando a liberação. Esse será um trabalho em dupla! 17 de junho de 2012 - domingo Já tinha prometido para mim mesmo que não veria mais os jogos da equipe reserva do Corinthians. Estava realmente inclinado a seguir à risca o plano. Tudo estava dando certo até o domingo chegar e o final da tarde cair. Como não tinha nada para fazer em casa no horário da partida, fui até a sala e liguei a televisão. Às 18h30, o Sportv passaria direto de Campinas, Ponte Preta e Corinthians. Respirei fundo. Talvez dessa vez, os jogadores suplentes do Timão resolvessem jogar alguma coisa, né? Que mal faria dar uma olhadinha no duelo?! O Corinthians entrou em campo no Moisés Lucarelli com: Júlio César; Welder, Antônio Carlos, Wallace e Ramon; William Arão, Marquinhos, Ramirez e Douglas; Élton e William. Liedson e Romarinho ficaram no banco. E como foi o jogo, hein? Antes de escrever sobre isso, preciso contar uma história. O narrador Sílvio Luiz, um dos mais engraçados jornalistas esportivos do país, tinha uma tática peculiar para retratar as partidas de baixo nível técnico. Ao invés de falar explicitamente que o jogo estava ruim, algo que poderia afugentar os telespectadores, Sílvio recorria a subterfúgios cômicos. No meio da transmissão, por exemplo, ele passava a receita da coxinha de frango da avó ou pedia encarecidamente para os colegas levarem comida para a cabine. Também conversava sobre previsão do tempo, passeios que fizera com a família e pensamentos aleatórios. Era comum Sílvio soltar no microfone: "Quando é que vai chegar à empadinha?!". Certa vez, em uma transmissão do futebol feminino, o narrador mandou: "Eu queria ver essas três na cozinha!". O ápice foi quando ele atendeu ao celular durante uma transmissão. Era sua mulher no outro lado da linha. Em outra oportunidade, trocou o seguinte diálogo com o comentarista Neto: "Você sabe quem inventou o jogo do bicho, Neto?"; "Seria, Vasco da Gama, Sílvio?"; "Exatamente!". E por que estou falando sobre isso no Ano que Esperávamos Há Anos?! Porque vou comentar a partida de Ponte e Corinthians à la Sílvio Luiz. Aí vai: para preparar a massa de uma coxinha de frango, você deve colocar em uma panela dois litros de água, dois caldos de galinha, uma colher de margarina, uma colher rasa de sal e uma colher de colorífico. Depois, misture no fogo até ferver. Após levantar fervura, junte a farinha peneirada e, com o auxílio de uma colher de pau, vá mexendo sem parar até que a massa desgrude da panela. Em seguida, retire a do fogo e coloque sobre uma superfície lisa e besuntada de margarina. Deixe esfriar, mas vá sovando constantemente para que a massa não crie casca. Depois, recheie a massa com o frango previamente assado, empane o conjunto e coloque para fritar. Fica uma delícia! Quando a coxinha estiver pronta, sirva o Douglas. Gordinhos apreciam muito esse quitute. Porém, não a ofereça para o Júlio César. Goleiro geralmente não gosta de pratos com esse tipo de carne. Voltando um pouco à partida, a Ponte Preta venceu por 1 a 0. O Timão permanece na última posição do campeonato com apenas um ponto. Ninguém do time se safou novamente. Todos os jogadores corintianos em campo foram muito, muito mal. A derrota foi merecida. 18 de junho de 2012 - segunda-feira Nessa segunda-feira, resolvi assistir ao time de futsal do Timão no ginásio do Parque São Jorge. Como o jogo era no início da noite, chamei meu pai para ir comigo. Fomos de metrô, naqueles vagões lotados do final de tarde para a Zona Leste. Meu pai pareceu não ter ficado muito feliz com essa parte do passeio, mas educadamente não reclamou. Era a primeira vez dele naquele ginásio. Segundo suas palavras, ele ia muito ao Estádio do Parque São Jorge, quando pequeno com o meu avô, para ver as partidas do Timão. Porém, no ginásio não havia pisado ainda. O Parque São Jorge está muito bonito e bem cuidado. Não pudemos visitar o museu do clube, pois ele havia fechado algumas horas antes. O Corinthians enfrentava o São Caetano pela Liga Futsal. Vou ser sincero: não sei como está a classificação do campeonato nem a posição do meu time. Também não me interesso. A ideia era assistir aquele jogo apenas. Independentemente do que acontecesse, sairia contente do ginásio. No ano passado, eu conferi a semifinal da Liga Futsal. O Corinthians, naquela noite, perdeu por 6 a 1 do Carlos Barbosa. Acabou depois eliminado no jogo de volta. Qualquer coisa seria melhor do que sofrer uma goleada como aquela em casa, com o ginásio lotado com quase 10 mil corintianos. O jogo de hoje foi disputado. Cerca de mil pessoas compareceram às arquibancadas, conferindo clima de partida de futebol de campo. Integrantes das torcidas uniformizadas da Gaviões da Fiel e da Camisa 12 estavam presentes. Com os gritos, as bandeiras e a animação deles, a partida ganhou um colorido especial. O mais interessante daquela noite foi termos chegado ao clube ao lado do técnico do time de Futsal do Corinthians. A algumas quadras da sede, eu e meu pai vimos um senhor com a camisa vermelha do Timão ao nosso lado. Ele esperava o semáforo dos pedestres abrir para atravessar a rua. Aí, eu falei: "Acho que esse cara é o técnico do Futsal". Meu pai completou: "Deve ser sim. Eu já o vi antes. Ele foi técnico da Seleção (Brasileira)". No ginásio, tivemos a certeza. Era ele mesmo. Era como se chegássemos ao jogo ao lado do técnico Tite. Muito engraçado isso. O jogo terminou empatado. O Timão vencia até os 20 segundos finais. No último ataque, o São Caetano empatou com um golaço. O jogador adversário deu um chapéu no corintiano, antes de chutar para o gol. A bola ainda bateu, antes de entrar nas redes, em um marcador alvinegro, enganando o goleiro. Paciência! Perdemos dois pontos. Valeu pelo menos pelo bom jogo assistido. Tenho certeza de que alguns jogadores da equipe de Futsal poderiam muito bem fazer parte do elenco da equipe de campo. Possivelmente, vários deles eram melhores do que alguns dos nossos reservas. Quanto exagero e pessimismo da minha parte, né?! O único aspecto triste do dia foi constatado na volta para casa. Na televisão do metrô, dentro do vagão, lemos a seguinte notícia: "Chicão sai do treino machucado. Vira dúvida para a partida de quarta-feira". Era o que faltava: perder o zagueiro central para o jogo da Libertadores! 19 de junho de 2012 - terça-feira Na véspera do jogo de volta entre Corinthians e Santos, minha preocupação e ansiedade atingiram níveis alarmantes. Não consegui almoçar, não me concentrei em minhas atividades e estive profundamente irritadiço ao longo do dia. Praticamente abandonei, hoje, os outros livros que estou desenvolvendo. Meu romance ficou praticamente intacto. Não me atrevi a abrir seus arquivos. Deve ter sido porque dormi mal na noite passada. Além disso, estava receoso se conseguiria comprar as entradas para a final, caso o Timão passe para a decisão. Por isso, resolvi não esperar até a quarta-feira para renovar minha assinatura do Fiel Torcedor. Quero estar preparado para comprar os ingressos quando o Corinthians eliminar o Peixe. Entrei de manhã no site do Fiel Torcedor. Depois de quase um ano ausente, imprimi os boletos da minha reativação e do meu dependente (tenho direito a levar alguém comigo aos jogos). Na hora do almoço, fui ao banco para pagá-los. Com o pagamento concretizado, tirava uma preocupação da cabeça. Nem me importei com o valor errado da fatura. Ao invés dos R$ 720,00, tive que arcar com cerca de R$ 820,00. Até agora não sei o motivo do acréscimo, mas não me importei. À tardezinha, entrei novamente no site para ver o meu status como associado. Eu já estava ativo, liberado para adquirir os ingressos do meu interesse. Agora era só esperar a vaguinha na final para garantir minha ida com a Tati ao Pacaembu em 4 de julho. Entretanto, algo chamou minha atenção no site. Uma mensagem me informava sobre o prazo de 23 dias para o meu cadastro expirar. Como assim, se eu acabei de renovar?! A validade deveria ser de um ano, certo?! Ao ler os comunicados, compreendi o que estava acontecendo. O programa entendeu que eu renovei minha assinatura do ano passado. Ou seja, eu tinha menos de um mês para usar os benefícios do Fiel Torcedor. Se quiser usufruir do programa por mais tempo, deverei pagar nova anuidade, agora referente à temporada de 2012/2013. Obviamente fiquei revoltado. Como assim, eu renovo algo para ter um benefício retroativo, que não poderei utilizar mais? E sofro um desfalque na minha conta bancária inutilmente! Pensei em ligar para o call center do Fiel Torcedor para reclamar. Cogitei acionar o Procon. Aí, respirei fundo e refleti: "Não vou me preocupar. Esses 23 dias são suficientes. Eu quero mesmo é estar na final da Libertadores. Depois disso, pouco me importa". Assim, me acalmei e abandonei a possiblidade de reclamação. Agora tenho a certeza de que poderei estar na grande final. Mais animado, resolvi me atualizar com as últimas notícias do Timão. Afinal, faltava eliminar o Santos para chegarmos a tão aguardada decisão... O técnico Tite definiu o substituto de Emerson, suspenso. Será William. Além disso, Chicão se recuperou bem da pancada na perna e está confirmado. O Corinthians titular, nessa quarta-feira, será formado por: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Jorge Henrique e William. Em menos de 24 horas, esses homens poderão entrar para a história do Sport Club Corinthians Paulista, como os responsáveis pelo maior feito esportivo da nação preta e branca do Parque São Jorge. 20 de junho de 2012 - quarta-feira O cenário não poderia ser outro para a grande semifinal da Libertadores de 2012. O Pacaembu estava novamente lotado com cerca de 40 mil corintianos. O sonho de todos era a passagem para a finalíssima. O Timão foi recepcionado por fogos, bandeiras, bandeirões, mosaicos nas arquibancadas e cantoria. Que vontade louca de estar lá. A festa do lado de fora do campo seguiu até o juiz apitar o início do jogo. Com a bola rolando, o que se viu no primeiro tempo foi uma partida muito disputada, com várias faltas e jogo truncado. Precisando vencer, o Santos começou mais ofensivo. Queria chegar logo ao primeiro gol. O Corinthians, ciente da vantagem adquirida na semana passada, mantinha-se recuado e se preocupando apenas em defender. Mesmo com a maior posse de bola, os visitantes pouco produziram. Eles não conseguiam furar a defesa corintiana. Neymar e Ganso novamente estiveram apagados. O Timão arriscava às vezes sair nos contra-ataques, mas seus atacantes eram imprecisos. Emerson estava fazendo falta. Quando os torcedores imaginavam que o placar no intervalo seria de 0 a 0, aconteceu o lance mais polêmico da partida. No meio de campo, um atacante santista pulou junto com Ralf para cabecear a bola. O cotovelo do avante acertou o supercílio do corintiano. Ralf caiu no campo sangrando. O juiz não marcou falta e deu prosseguimento ao lance. Sem o nosso cão de guarda a postos, o Santos foi com tudo para o ataque. Após a bola bater na trave de Cássio, Neymar marcou. Santos 1 a 0. Apesar das reclamações dos mandantes e dos xingamentos da arquibancada, o arbitro validou o gol. Silêncio no estádio por alguns minutos. Precisando empatar, o Timão foi para cima. Ainda no primeiro tempo, uma chance foi desperdiçada por Alessandro. No intervalo, Tite mexeu na equipe. Saiu William e entrou Liedson. A alteração teve efeito instantâneo. Aos três minutos, Liedson sofreu falta na entrada da área. Na cobrança, Alex cruzou na direção de Danilo. O camisa 20 se livrou da marcação, matou a bola no peito e estufou as redes. Gooooooooooool. O jogo voltava a ficar empatado. O Pacaembu veio à baixo de alegria! A partir daí, a partida foi de um time só. O Corinthians passou a dominar as ações e os santistas se limitaram a assistir ao jogo de dentro de campo. Paulinho chutou uma bola na trave. Alex cobrou falta perigosa e exigiu ótima defesa do goleiro adversário. Quando o duelo já caminhava para o final, uma bola foi cruzada na grande área corintiana. Alessandro sozinho, ao invés de tentar dominá-la, resolveu chutar para escanteio, mas pegou mal na bola. Quase colocou para dentro! O lance de maior perigo do Santos no segundo tempo foi protagonizado pelo lateral-direito corintiano. Igualzinho ao confronto do Vasco, nosso capitão quase se tornou o vilão da noite. Os minutos foram se passando e o empate persistia. Assisti à metade final do segundo tempo de pé, em frente à televisão e com o coração na mão. Com o apito definitivo do juiz, recoloquei o coração no lugar e saí gritando: "Estamos na final! Estamos na final!!!". A noite histórica terminou com os meus gritos na rua de casa. 21 de junho de 2012 - quinta-feira A cidade de São Paulo está em festa. Tão logo o jogo de Corinthians e Santos acabou, os fogos de artifício tomaram os céus. A madrugada de quinta-feira parecia Réveillon tamanha era a algazarra nas ruas. Ouviam-se gritos vindos das residências, as buzinas dos carros, estouros dos rojões e tintilar das garrafas nos bares. Ao entrar em casa, corri para o telefone. "Alô, Tati. Vamos ao próximo jogo, não vamos?! Eu já ativei minha conta no Fiel Torcedor". A resposta foi positiva do outro lado. Minha prima me contou que ainda estava muito nervosa. Tremia sem parar. Disse ter passado mal de tanto nervoso no intervalo e chegou a tomar chá de camomila. Com esse breve relato, fiquei preocupado. E se ela tiver um chilique nervoso no Pacaembu durante a final, hein? Já pensou eu precisar socorrê-la. Ninguém merece ter que ir ao hospital no meio do jogo decisivo da Liberta, né? Eu gosto muito dela, mas se isso acontecer, ela terá de esperar o apito final do juiz para ser salva. Após desligar o telefone, voltei para frente da televisão. Coloquei no Fox Sport e acompanhei o pós-jogo. Por duas horas, revi os melhores momentos da partida, vi as entrevistas dos técnicos e jogadores, conferi as análises dos jornalistas e assisti à alegria dos torcedores nos arredores do estádio. Já eram mais de três horas da manhã quando fui dormir. A noite foi leve e tranquila. Diria que tive o sono dos justos. Na manhã seguinte, li a repercussão da partida. A notícia mais chamativa foi sobre a audiência da Rede Globo. Novo recorde! O duelo de ontem alcançou índice de jogo do Brasil em Copa do Mundo. Essa foi a explicação para as ruas da cidade terem ficado vazias durante os 90 minutos de Corinthians e Santos. Eu vi, na hora do almoço, uma reportagem da Band, no programa da Renata Fan, que mostrava São Paulo sem carros e sem pedestres no horário da semifinal da Libertadores. Todos os paulistanos estavam diante da televisão acompanhando cada lance do jogo. Minha alegria hoje é tripla. O primeiro motivo é, obviamente, a classificação para a final. A segunda é a certeza de poder estar no estádio na grande decisão. E a terceira razão é saber que este relato, que você lê nesse exato momento, está se materializando. No começo do ano, escrevia O Ano que Esperávamos Há Anos com dúvidas se o concluiria. Sua finalização dependia muito mais do Corinthians do que de mim. Se o clube fracassasse em algum momento da competição sul-americana, meu trabalho de meses iria para a lata de lixo. Até agora isso não aconteceu. Só faltam 180 minutos para meu sonho ser realizado integralmente: (1) ver o Timão campeão da Libertadores; (2) estar no estádio na final; e (3) concluir meu livro com essa história. Já estou até pensando em como farei para apresentar a obra para as editoras. Qual seria o melhor momento para abordá-las? Deveria mostrar os originais imediatamente após a conquista da Liberta ou deveria esperar alguns anos para minha narrativa ganhar um caráter histórico? Gostaria que o livro fosse lançado em uma data comemorativa: algo como dez anos após o título. Quem sabe O Ano que Esperávamos Há Anos não se torne uma série anual, hein? Meus sonhos não têm mais limites. 22 de junho de 2012 - sexta-feira Danilo foi o herói corintiano do último jogo. Contra o Santos, ele marcou o sétimo gol no ano. Só na Libertadores de 2012, o meio-campista já balançou as redes por quatro vezes (sempre no Pacaembu). O camisa 20 é o artilheiro do Timão na competição sul-americana e na temporada. Se os atacantes não marcam, Danilo não vacila quando fica diante dos goleiros. Além disso, ele tem sido decisivo. Seus gols acontecem geralmente nos momentos mais críticos e nas partidas mais emblemáticas. O que chama mais atenção no estilo do meio-campista é a calma (alguns chamam isso de frieza) para desequilibrar jogos complicados. Danilo parece que nunca fica nervoso. Juro que não consigo imaginá-lo perdendo a cabeça ou fazendo alguma besteira, como a praticada por Emerson no segundo tempo do jogo de ida da semifinal. O meia é um gelo em campo e sabe exatamente o que deve fazer. A história do jogador no Corinthians começou no início de 2010. Danilo foi contratado por indicação do técnico Mano Menezes. Por sua experiência, na época já um trintão, ele seria o cérebro da equipe corintiana na disputa da Libertadores do ano do centenário do clube. Porém, o jogador não conseguiu desempenhar um bom futebol e foi para a reserva. Realmente aquele ano não foi nada bom para o atleta. Danilo era constantemente vaiado pela torcida quando entrava em campo. Muita gente pedia para a diretoria se desfazer do atleta (admito que eu era um desses...). O veterano meia, atualmente com 33 anos, só conseguiu alcançar a titularidade no meio do ano passado, com a venda de Bruno César, o até então titular, para o futebol português. Dessa vez, Danilo entrou no time e não saiu mais. Sob o comando de Tite, Danilo levou o Corinthians ao título do Brasileirão de 2011 e foi considerado por muitos o principal jogador daquele elenco. Mesmo com a contratação de Alex, para a sua vaga no início daquele campeonato, não era mais possível tirar o camisa 20 da equipe corintiana. Alex passou quase toda a última temporada no banco de reservas. Danilo não é um jogador rápido. Pelo contrário, ele é muito lento. Por ser alto e magro, ele corre um tanto estranho. Sua maior habilidade está nos passes certeiros e nas finalizações precisas. Ele também é muito bom no jogo aéreo: fez vários gols de cabeça nesse ano. Para completar, ele ajuda em muito na marcação, repondo rapidamente o setor defensivo quando não está com a bola. Sem sombra de dúvida, é o nosso verdadeiro maestro em campo, ditando o ritmo da partida. Danilo só jogou em quatro equipes: Goiás (1997-2003), São Paulo (2004-2006), Kashima Antlers do Japão (2007-2009) e agora no Timão. Incrível mesmo é a sua galeria de títulos. O jogador tem 18 conquistas em 13 anos de carreira. Só não ganhou troféu nas temporadas de 2004 e de 2010. As principais taças de Danilo foram a Libertadores da América e o Mundial de Clubes, ambas em 2005 e conquistadas com a camisa do São Paulo. Atualmente, o meio-campista é o atleta do elenco corintiano com mais partidas disputadas na competição sul-americana. Não à toa, seu apelido é Mr. Libertadores. Com Danilo em campo, o Timão tem mais chances de ganhar títulos. 23 de junho de 2012 - sábado O final de semana chegou e o Brasileirão volta a ser assunto de Norte a Sul do país. Para corintianos e palmeirenses, essa rodada será especial. No domingo, teremos o tradicional Derby paulistano. As duas torcidas estão satisfeitíssimas com suas equipes. Enquanto o Timão chegou à inédita final da Copa Libertadores, o Palmeiras empatou com o Grêmio na última quarta-feira e se classificou para a final da Copa do Brasil. Os palestrinos vão pegar o Coritiba em duelo que começará em 5 de julho. Se as duas agremiações estão muito bem nas copas, no campeonato nacional ainda não decolaram. O Corinthians é o lanterna com apenas um ponto. O Palmeiras é o antepenúltimo com dois pontinhos. Ambos os times estão na zona de rebaixamento. Se o Timão tem a desculpa de estar na rabeira da classificação por ter escalado a equipe reserva na maioria dos jogos, o Palmeiras não pode utilizar o mesmo argumento. O técnico palmeirense Luiz Felipe Scolari escalou força máxima em todas as rodadas. A equipe do Palmeiras é muito ruim mesmo. Até agora ninguém sabe como eles conseguiram chegar à final da Copa do Brasil. Como as finais da Libertadores acontecem nas próximas duas semanas, o técnico Tite optou por colocar, mais uma vez, os reservas em campo no Derby. Os titulares ficarão descansando para o histórico jogo de quarta-feira. Resta-nos como consolo saber que o Timão virá para o clássico um pouco mais forte do que nas últimas rodadas do Brasileiro. Paulo André retorna ao time depois de cinco meses se recuperando de uma séria contusão. Formará a dupla de zaga com Wallace, outro recém-saído do departamento médico. No ataque, teremos a estreia de Romarinho, revelação do Campeonato Paulista. Ele será titular pela primeira vez no Corinthians. O Timão está escalado para o clássico com: Júlio César; Welder, Paulo André, Wallace e Ramon; Marquinhos, William Arão e Douglas; William, Romarinho e Liedson. Esse time corintiano teria chance de vitória se o Palmeiras também escalasse seus suplentes. Como os palmeirenses ainda terão mais duas semanas até a final da Copa do Brasil, a comissão técnica alviverde optou por ter força máxima no domingo. Dessa maneira, o favoritismo mudou de lado. Em uma partida normal entre os dois clubes disputada no Pacaembu, o favoritismo seria sempre do Corinthians. Com a escalação dos reservas por parte dos alvinegros e a escalação dos titulares pelo lado palmeirense, a chance de vitória torna-se muito maior para o Palestra. Infelizmente, deveremos ver a queda de um tabu. O Timão não perde do Palmeiras há 17 anos no Estádio Paulo Machado de Carvalho. Para piorar as coisas, os três pontos a serem conquistados pela equipe do Parque Antártica irão ajudá-los a sair da zona de rebaixamento, nos mantendo na lanterna da competição. Mesmo chateado com a provável derrota para nosso arqui-inimigo, acho certa a decisão do técnico Tite em preservar suas estrelas. Afinal, a maior tristeza que os palmeirenses poderão ter na vida é ver o Timão conquistar a Copa Libertadores da América, né? O principal jogo contra os verdinhos será na quarta-feira contra o Boca Juniors (o outro classificado para a final) e não no duelo desse domingo. 24 de junho de 2012 - domingo O Estádio do Pacaembu recebeu um público bem abaixo do tradicional para o Derby. Apenas 18 mil torcedores viram das arquibancadas o clássico entre Corinthians e Palmeiras. Muito possivelmente, a Fiel Torcida estava economizando dinheiro para a viagem para Buenos Aires e para a partida de volta do torneio continental. Ou não estava muito confiante na vitória de seus reservas sobre os titulares do rival. Admito que eu estava totalmente descrente no triunfo do Timão nesse jogo. A preocupação se mostrou acertada já no primeiro ataque palmeirense. Em um cruzamento da direita, seguido de bate-bate na área corintiana, o meio-campista alviverde recebeu livre na pequena área e estufou as redes. Gol do Palmeiras. Em três minutos já era possível fazer as piores previsões possíveis para o resultado do Derby. Confiante na vitória e na possível goleada sob os mandantes, o Palmeiras se acomodou no jogo. Vendo o tamanho da facilidade, os palestrinos diminuíram o ritmo após os 15 minutos iniciais. Surpreendentemente, a partir desse momento, o Timão começou a dominar as ações. Os reservas do Corinthians passaram a correr mais e demonstrar muita raça em cada jogada. Liedson deu uma linda bicicleta no meio da área palmeirense. Acertou a trave! O Levezinho quase marcou um golaço. Logo em seguida, Welder chutou de fora da área e obrigou o goleiro verde a fazer boa defesa. O gol alvinegro parecia próximo. E ele veio em linda jogada de Liedson e Romarinho. O centroavante cruzou da direita e o novato, de letra, chutou para dentro da meta palmeirense. Gol de placa de Romarinho!!! O clássico estava empatado. Festa preta e branca no Pacaembu. A igualdade no placar não foi por acaso. O Corinthians era muito superior. Teve inclusive mais algumas chances no primeiro tempo, a principal delas com Douglas. No segundo tempo, a vontade e a garra dos corintianos prevaleciam. Aos dez minutos, Romarinho fez o seu segundo golaço do domingo. O rápido atacante deu uma finta de corpo em três defensores e chutou forte no ângulo. Indefensável!!! Timão 2 a 1. Após o gol, o Corinthians se fechou e deixou o Palmeiras atacar. Com o sistema defensivo corintiano bem postado, os visitantes tiveram poucas oportunidades. Júlio César esteve seguro e fez boas defesas. Final de jogo: Corinthians reserva (surpreendentemente) 2, Palmeiras titular (lastimavelmente) 1. Há algo melhor do que ganhar do Palmeiras? Sim, existe: ganhar deles com nosso time reserva. Há algo melhor do que ganhar do rival usando nossos jogadores suplentes? Sim, é derrotá-los e, ainda por cima, ultrapassá-los na classificação do campeonato. E há algo melhor do que humilharmos o Palestra e os jogarmos para baixo da tabela? Sim!!! Melhor do que isso é vê-los na última posição, amargando a lanterna e a zona de rebaixamento. Espelho, espelho meu, tem coisa melhor do que isso? SIIIIIIIIM! É realizarmos o feito descrito anteriormente e ainda ganharmos a Copa Libertadores de maneira invicta e contra o Boca Juniors na final. Alguém pode me dar um beliscão, por favor. Devo estar sonhando acordado, não é possível! 25 de junho de 2012 - segunda-feira A decisão da Libertadores de 2012 tem para mim um aspecto religioso. Andei pensando sobre tal questão nos últimos dias. O placar do confronto entre Boca Juniors e Corinthians irá apontar, definitivamente, se Deus existe ou não. Afinal, desde pequeno, eu nunca acreditei muito na existência dessa Figura. Amigos e familiares me chamam de agnóstico. A realidade é que sempre tive muitas dúvidas sobre esse assunto, não crendo nem descrendo. Eu jamais colocaria a mão no fogo por nenhum dos dois lados na eterna discussão: existe ou não existe? Isso até agora. A partir de quinta-feira da próxima semana, terei argumentos sólidos para me posicionar. Se o Timão sair campeão, será a maior prova da existência de Deus. Se perder, será a garantia cabal de sua ausência desse plano. Antes de me julgar, confira, por favor, a minha tese sacra. Se Deus existir, com poder para agir sobre todas as coisas do mundo terreno, iria ou não interferir em algo como um jogo de futebol? Possivelmente, Ele não se preocuparia com as partidas sem relevância ou de campeonatos menores. Imagino que teria coisas mais importantes para fazer, né? Por outro lado, estaria sim atento aos acontecimentos da disputa valendo a glória maior de um continente. Para esse tipo de jogo especificamente, Ele deve parar todos os seus afazeres e assistir ao duelo. Diria mais: Ele não se contentaria em apenas ver a atuação dos jogadores em campo. Na certa, iria agir para influenciar o placar. E para qual lado penderia o seu auxílio? Para essa escolha, Ele analisaria as características dos clubes finalistas. Vamos chamá-los de equipe B e equipe C, para não nos influenciarmos pelo fanatismo futebolístico. Certamente, Deus ajudaria o time com menor número de conquistas. A equipe B já ganhou seis vezes o torneio, enquanto a coitadinha da C nunca ganhou. Parece um tanto óbvio que Deus, como um ser misericordioso, ajudaria aqueles sem vitória. Para o time C é mais importante o primeiro troféu do que para o B o sétimo (nem deve haver mais espaço na sala de taças deles para colocar mais um). Ao preferir o clube C, Deus agiria como se auxiliasse na reforma agrária da Libertadores, tirando dos ricos e dando aos pobres. Além disso, o time B possui pouco mais de 10 milhões de torcedores. O time C tem aproximadamente 30 milhões. Não me parece justo alguém com tanto poder provocar a alegria de uma minoria e permitir a tristeza da maioria. Pensando em potencializar a felicidade no continente sul-americano, Sua Divindade agiria em prol dos fãs da equipe C. E, repare bem, os torcedores de B nem ficariam tão tristes assim. Quem já ganhou seis vezes algo, não se importaria com uma derrotinha, né? Para terminar, ao auxiliar na conquista continental do time C, Deus estaria dando a maior alegria para esses torcedores tão sofridos. Não há mais nada nesse mundo que os fanáticos (ou seriam loucos?) pelo C poderiam pedir. É verdade, eles também desejam uma casa para chamar de sua. Mas graças a Deus, para esse outro pedido, os políticos corruptos e os cartolas espertos do plano terreno já estão trabalhando. Só falta mesmo a Libertadores. Se Deus existir, Ele ajudará o time C! Vai Curinthia! 26 de junho de 2012 - terça-feira Montamos uma operação de guerra para comprar os ingressos para a partida final da Libertadores. Ajudados pelas nossas rotinas completamente opostas, eu e a Tatiana nos revezamos 24 horas para monitorar o site do Fiel Torcedor. Enquanto ela ficava encarregada de verificar durante as noites e madrugadas se as vendas começassem, eu tinha essa missão durante as manhãs e tardes. Exatamente às 10 horas de hoje, recebi a informação que o site começaria as vendas ao meio-dia. Já prevendo a grande procura, me coloquei a postos desde as 11 horas. Quando o relógio do computador bateu meio-dia em ponto, o programa liberou as compras. Rapidamente acessei a minha conta e comprei as duas entradas pelas quais tinha direito. Pela lentidão do site, imaginei que ele deveria estar sobrecarregado de acessos. Quando saí, por volta das 12h15, um comunicado na home informava os torcedores: "Ingressos esgotados". Em 15 minutos, a torcida havia acabado com todos os assentos do estádio. Comemorei a compra como um gol, com direito a soco no ar, grito histérico e dancinha à la Neymar. À tarde, com a certeza de que estaria no Pacaembu na próxima semana, busquei informações sobre o meu time. O Corinthians já estava em Buenos Aires. Os jogadores e a comissão técnica chegaram na segunda-feira à noite. Eles foram direto para o hotel descansar e dormir. Hoje, realizaram um treino noturno de reconhecimento do estádio do Boca Juniors. A equipe local liberou o acesso ao campo (algo incomum em se tratando de Boca!), porém os refletores de La Bombonera não foram totalmente acessos. Ou seja, os corintianos treinaram no escuro. Isso é Copa Libertadores, amigo! Essa descortesia não é nada se comparada ao que os brasileiros sofrerão amanhã. La Bombonera é considerado o campo mais difícil do mundo para se jogar. A torcida mandante faz uma pressão psicológica monstruosa (os mais jovens chamariam tal característica de bullying) sobre os visitantes. O fanatismo xeneize, a agressividade dos barra bravas, o barulho das arquibancadas e a arquitetura do estádio são os responsáveis pelo clima permanente de guerra. Já assisti a jogos lá, quando morei na capital argentina, e posso garantir: a ambientação é inacreditável. Só estando presente para entender o quão louco é a pressão vinda das arquibancadas. Ciente das dificuldades, Tite alertou seus comandados para a importância do controle emocional. Apenas Alex já jogou contra o Boca lá. Nossa sorte é que os titulares do Timão são atletas experientes. Eles sabem bem o que fazer. O ideal é não voltarmos da Argentina derrotados. Se conseguirmos empatar naquele inferno amarelo e azul, poderemos decidir a taça no Pacaembu em condições mais favoráveis. Anote aí: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Emerson Sheik e Jorge Henrique. Esse time terá o privilégio e a responsabilidade de jogar a partida mais importante da história do Sport Club Corinthians Paulista. Eles estão representando 30 milhões de torcedores durante os 90 minutos do jogo mais importante de suas vidas. Ou melhor, de nossas vidas! 27 de junho de 2012 - quarta-feira La Bombonera pulsa! É com essa frase que o narrador João Guilherme abriu a transmissão do Fox Sports em Buenos Aires. Pela televisão, era possível captar o clima de festa no estádio, com muitos fogos de artifício, papel picado e cantoria dos quase 50 mil torcedores. Não duvido que as estruturas da arena, e até mesmo o chão, tenham tremido. A previsão era de muitas dificuldades para o Timão. Para mostrar sua força, o Boca Juniors se lançou para o ataque nos primeiros minutos. Apesar da disposição argentina, com o andar do relógio, o Corinthians foi quem se mostrou melhor. Bem postado na defesa, os corintianos passaram a trocar bons passes e avançar para o ataque. Na primeira investida, Paulinho recebeu de Alex e chutou de fora da área. O goleiro adversário fez bela defesa, colocando para escanteio. Depois foi Danilo quem recebeu bom passe de Alex, mas se atrapalhou na hora de chutar. O Boca não fazia nada. Sua única chance na primeira etapa foi com uma meia bicicleta do centroavante. A bola bateu em Alessandro e saiu. Ufa! Com a chegada do intervalo, surgiu uma preocupação: Jorge Henrique saiu machucado. Em seu lugar entrou Liedson. A alteração se mostrou um fiasco. O segundo tempo foi todo do Boca. Os argentinos começaram a pressionar e a perder várias oportunidades. Em um dos muitos escanteios dos mandantes, eles conseguiram marcar. O zagueiro portenho cabeceou o cruzamento e Chicão colocou a mão na bola para evitar o gol. No rebote, outro jogador de azul e amarelo estufou as redes. Boca Juniors 1 a 0. O título começava a escapar de nossas mãos... O Boca continuava melhor. Por isso, Tite resolveu mexer outra vez. No finalzinho do jogo, o técnico tirou Danilo e colocou Romarinho. Aí aconteceu o inimaginável. Eu poderia contar o que se sucedeu, mas prefiro ficar com as palavras do narrador do Fox Sports, João Guilherme. Sua descrição do lance foi assim: "Paulinho, Emerson, boa jogada. Tocou para o Romarinho. Olha o gol do Corinthians. Romarinho... É gol. O Iluminado! Goooooooooooooooooooooool. Romarinho, meu filho, a sua estrela brilha mais do que nunca. Romarinho! Entrou, primeira bola, estreia em Libertadores, contra o Boca em La Bombonera e olha o que ele fez depois da jogadaça do Emerson. Romarinho, você tem tudo para entrar para a história do Corinthians, para ser lembrado para sempre. Romarinho! A festa é da Fiel. Está vibrando o Bando de Loucos em La Bombonera e em todo o Brasil". É o não é de arrepiar, hein? Já nos descontos do tempo regulamentar, os argentinos ainda tiveram uma grande chance de sair com a vitória. O atacante portenho cabeceou livre e mandou a bola para fora. Inacreditável! O Timão estava com sorte de campeão. Com o apito final do juiz e o empate sacramentado, a sensação era um misto de alívio e euforia. A pior parte da decisão havia passado. Estávamos em igualdade de condições para buscar a vitória derradeira no Pacaembu. Isso é Corinthians! O time não jogou bem o segundo tempo, mas a Fiel mantinha a certeza da conquista inédita. Foram os 4 mil corintianos presentes no estádio do Boca que saíram cantando e festejando. O grito mais ouvido no final da partida era: "Timão e oh! Timão e oh! Timão e oh!". 28 de junho de 2012 - quinta-feira A melhor manchete de jornal de hoje não foi feita por um periódico brasileiro e sim por um argentino. O Olé, principal diário esportivo da terra de Eva Perón, estampou como título: "Lastimao". Os argentinos lamentavam o empate com sabor de derrota na partida em casa e aproveitaram para fazer uma alusão ao apelido do time brasileiro. Nas reportagens sobre a partida, os jornalistas portenhos rasgaram elogios à defesa corintiana. Segundo a imprensa de lá, o time do Parque São Jorge foi "de longe o rival mais exigente que o Boca enfrentou nos últimos tempos. Duro, áspero e ordenado". De acordo com o Clarín, principal jornal local, o Timão é uma equipe muito organizada. Nossa invencibilidade no torneio não é por acaso, né? Nos jornais paulistas, o destaque, como não poderia ser diferente, foi para Romarinho, o herói improvável da noite. O jovem recém-chegado de Bragança Paulista teve a vida virada ao avesso de uma hora para outra. Há algumas semanas, o atacante passeava despercebido pela cidade interiorana. Agora, ele era a grande estrela do principal clube do país e requisitado pela imprensa do Brasil e da Argentina. Com os dois gols no clássico de domingo passado contra o Palmeiras e com o gol salvador marcado na final da Libertadores contra o até então imbatível Boca, ele já caiu nas graças da torcida corintiana. Tudo isso em quatro dias! Quatro dias!? Pelas brincadeiras dos torcedores no Twitter, é possível avaliar o sucesso do jogador. Desde ontem à noite, várias mensagens estão sendo disparadas nas diferentes mídias sociais: "Romarinho fez gol em 100% das finais que disputou na vida"; "Em uma semana, ele já fez mais pelo Corinthians do que o Adriano em 11 meses"; "Se a cada 5 minutos Romarinho faz gol na final da Libertadores, o Boca escapou de uma goleada de 18 x 1"; e "O Romarinho é o maior artilheiro do Corinthians em finais de Libertadores". Para mim, ele é o novo Basílio, autor do gol salvador de 1977. Romarinho parece reencarnar a alma de Basílio antes mesmo do ex-jogador ter falecido. Isso sim é incrível! Diante da alegria e da empolgação da torcida corintiana diante do iminente título, uma preocupação aflige a todos. Jorge Henrique terá condições de atuar na próxima partida? O atleta saiu machucado no final do primeiro tempo e é dúvida para o confronto da semana que vem. Apesar de parte dos torcedores pedir a escalação de Romarinho em seu lugar, a verdade é que o time perde muito com a ausência do camisa 23. Jorge é um brigador dentro das quatro linhas. Ele ajuda muito a defesa e o péssimo segundo tempo da equipe de Tite, ontem, foi em parte por causa de sua saída prematura. Vamos torcer pela sua volta em totais condições. Se os jogadores do Timão mantiverem a cabeça no lugar e a equipe puder contar com todos os titulares, acho muito difícil o Boca Juniors sair vitorioso atuando no Pacaembu. No máximo, os argentinos conseguem um empate. Mas tal possibilidade nem deve ser cogitada, porque dessa maneira o jogo irá para a prorrogação e depois para os pênaltis. Aí será muito sofrimento para uma noite só. 29 de junho de 2012 - sexta-feira Onde quer que se esteja, o assunto na cidade de São Paulo é um só: Romarinho. O jovem atacante é o grande destaque das conversas de bar, das brincadeiras dos torcedores, das notícias da mídia esportiva e dos comentários da comissão técnica corintiana. Todos estão empolgados com o desempenho do novato. Há até quem peça a sua convocação para a Seleção Brasileira que disputará no próximo mês as Olimpíadas de Londres. O técnico Tite, preocupado com o possível deslumbramento de Romarinho, pediu à revelação alvinegra para se cuidar e não se expor tanto. O treinador e os dirigentes do Parque São Jorge já montaram uma estrutura em volta do atleta para evitar seu desgaste desnecessário e a perda de foco. Ele foi até proibido de dar novas entrevistas e de aparecer em programas de televisão. Porém, não é fácil se livrar dos jornalistas. A capa do jornal O Lance! de hoje é dedicada exclusivamente ao atleta. Em uma série de reportagens, o diário esportivo destaca a ascensão meteórica de Romarinho, descrevendo as dificuldades vividas nos times pequenos do interior até a glória na partida de quarta-feira em La Bombonera. Romário Ricardo da Silva: 21 anos, 1,74 metro, 72 kg, natural da cidade paulista de Palestina. O jogador já passou por outros três times além do Timão: Rio Branco (2008-2010), onde foi revelado, São Bernardo (2011) e Bragantino (2011-2012). Na curta carreira, o momento mais crítico aconteceu há um ano. Ele se encontrava desempregado e sem clube para atuar. Na passagem apagada pelo São Bernardo (fora pouco aproveitado, mal saindo do banco de reservas), o jogador viu o time do ABC ser rebaixado para a segunda divisão do campeonato estadual. Como consequência, foi dispensado ao final do torneio. Sem propostas de emprego, Romarinho retornou para Palestina e ficou treinando sozinho à espera de alguma oportunidade. Quando já cogitava largar o futebol e procurar outra profissão, o técnico do Bragantino, Marcelo Veiga, que já o conhecia dos tempos de Rio Branco de Americana, o convidou para jogar na equipe de Bragança Paulista. O salário era de R$ 4 mil. Em pouco tempo no novo clube, Romarinho virou titular e foi um dos destaques da Série B do Campeonato Brasileiro de 2011. Em 2012, o jovem ajudou a equipe do interior a chegar até as quartas de finais do Paulistão e foi apontado como a principal revelação do torneio. No final do mês passado, após algumas semanas de negociação com Santos e Corinthians, Romarinho foi, enfim, negociado com a equipe do Parque São Jorge. Seu salário foi aumentado em dez vezes. No Sport Club Corinthians Paulista, o atacante passou, na última semana, de uma simples opção no banco de reservas para o principal candidato a substituir Jorge Henrique na final da Copa Libertadores. Como o futebol é dinâmico, né? Diria mais: ele é uma montanha-russa. A bola tem a capacidade de transformar indivíduos desconhecidos em ídolos instantâneos. O único problema desse sobe-e-desce é que o esporte também tem a mania de arruinar a carreira de jovens promessas de repente. É preciso cuidado, Romarinho! 30 de junho de 2012 - sábado Somente agora pude ter a ideia exata do clima de otimismo da torcida corintiana. A sensação é que dessa vez o título da Libertadores não escapa de nossas mãos. Por onde se anda em São Paulo é possível encontrar alguém vestido com a camisa alvinegra, visualizar uma bandeira exposta na janela e ouvir um "Vai Curinthia!" sendo gritado. A cidade está pintada de preto e branco. Até mesmo a maioria dos palmeirenses, são-paulinos e santistas já está conformada com o fim do tabu do rival. O bom momento do Timão só tem um aspecto negativo: a inflação dos artigos direcionados aos corintianos. Hoje, vi um vendedor ambulante de bandeiras de clubes de futebol na Vila Madalena. Com a vontade de adquirir uma do meu time, abordei o homem. Já imaginando a cobrança de um preço exorbitante pelo simples item, separei uma nota de dez reais no bolso da minha bermuda. Aí perguntei: "Quanto está a bandeira maior do Corinthians?". A resposta foi: "Cinquenta reais". Nossa! Achei um roubo. Agradeci meio que recusando a compra. Já me virava de costas para voltar para meu caminho quando o vendedor insistiu: "Quanto você oferece por ela?". Mesmo esperando por aquela proposta, simulei surpresa. "Tudo o que tiver no meu bolso", disse. Aí coloquei a mão no bolso e achei a nota solitária: "Tenho dez reais". O ambulante não aceitou. Após a negativa dele, perguntei: "Com essa nota, qual dessas bandeiras eu posso levar?". A questão foi dirigida, obviamente, para os artigos de menor tamanho do meu clube, afinal havia várias bandeiras do Timão de diferentes formatos. Com certeza, daria para comprar a menor delas. A resposta foi surpreendente: "Por dez reais, dá para você levar só a do Palmeiras". E ele me ofereceu a bandeira média da equipe do Parque Antártica. Dá para acreditar!? Claro que não comprei. Até parece anedota futebolística, mas isso realmente aconteceu. O pior mesmo foi a campanha orquestrada pelos meus pais para que eu vendesse os ingressos do jogo de quarta-feira. Sabendo que há torcedores comercializando as entradas para a final por preços a partir de R$ 2 mil (há quem peça R$ 20 mil) e cientes da penúria financeira do filho, eles pediram para um monte de gente me convencer a fazer um dinheirinho fácil. Todos com quem falei nesse final de semana (avós, tios, primos, amigos mais próximos e Thalitinha), misteriosamente, insistiram no mesmo ponto: "Você deveria vender os ingressos". Até a Hanna, ex-colega de trabalho, surgiu com um amigo japonês disposto a pagar R$ 1 mil por um dos meus tickets. Porém, eu não estou disposto a ver o jogo pela TV nem deixar de levar a Tatiana comigo ao Pacaembu. Nós estaremos lá queiram ou não, custe o que custar (literalmente). Com essa certeza, terminei a tarde de sábado visitando a Tati para planejarmos a logística de quarta-feira. Com os detalhes para o evento da próxima semana devidamente organizados, voltei tranquilo para casa. Retornei sem bandeira do Timão e com uma nota de dez reais no bolso. Acho que tomei a decisão mais correta possível sobre a ida à final do torneio sul-americano (e sobre a recusa na compra da bandeira verde e branca). Os próximos dias serão inesquecíveis. Estamos pertinho dos momentos mais memoráveis de O Ano que Esperávamos Há Anos. ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Recomendações: Séries da ficção literária internacional que valem a leitura (Parte II)

    Vamos debater mais quatro coleções de romances gringos que conquistaram os leitores no Brasil e nos quatro cantos do mundo. Há algumas semanas, eu trouxe para a coluna Recomendações a ideia de apresentar 12 Séries Literárias Internacionais que Valem a Leitura. Para o texto não ficar gigantesco (como se essa fosse uma preocupação do Bonas Histórias, né?!), optei por dividi-lo em três posts. Desde então, estou listando mensalmente um quarteto de coleções de best-sellers mundiais que encanta pela qualidade e pela originalidade de suas narrativas. Em agosto, exibi a primeira parte das sagas dos romances. Hoje vou analisar o segundo grupo. E em outubro, finalizarei as séries ficcionais que encheram meus olhos nos últimos anos com mais quatro coletâneas de livros imperdíveis. Para quem perdeu a Parte I das Séries Literárias Internacionais que Valem a Leitura, confidencio que debati no mês passado: a Coleção O Talentoso Ripley de Patricia Highsmith – “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), “Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras), “O Jogo de Ripley” (Companhia das Letras), “O Garoto que Seguiu Ripley” (Companhia das Letras) e “Ripley Debaixo D´Água” (Companhia de Bolso); a Trilogia 1Q84 de Haruki Murakami – “1Q84: Livro 1” (Alfaguara), “1Q84: Livro 2” (Alfaguara) e “1Q84: Livro 3” (Alfaguara); a Série Millennium de Stieg Larsson – “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Companhia das Letras), “A Menina que Brincava com Fogo” (Companhia das Letras) e “A Rainha do Castelo de Ar” (Companhia das Letras); e a Coleção Harry Potter de J. K. Rowling – “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Rocco), “Harry Potter e a Câmara Secreta” (Rocco), “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Rocco), “Harry Potter e o Cálice de Fogo” (Rocco), “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (Rocco), “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (Rocco) e “Harry Potter e as Relíquias da Morte” (Rocco). Feita essa rápida introdução, vamos sem delongas para as quatro novas séries literárias que você precisa conhecer. Isso é, se já não as conhece e/ou se não as devorou vorazmente... 1) Tetralogia Napolitana – Elena Ferrante (Itália) – Drama Histórico – “A Amiga Genial” (2011), “História do Novo Sobrenome” (2012), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (2013) e “História da Menina Perdida” (2014). Abrimos a segunda parte das coleções literárias internacionais com a obra-prima de Elena Ferrante. A misteriosa escritora italiana que não tem a identidade revelada até hoje criou uma das sagas dramáticas mais incríveis do século XXI. Sucesso internacional com mais de 16 milhões de exemplares vendidos e adaptada há pouco para a televisão, a Tetralogia Napolitana entra recorrentemente na lista das principais criações da literatura contemporânea e da ficção literária italiana. Digo sem medo de parecer exagerado que conhecer o trabalho de Elena Ferrante permite ao leitor adentrar em um mundo totalmente novo das relações humanas. Jamais as engrenagens familiares, as dinâmicas matrimoniais, a psicologia feminina, os desafios da maternidade e os laços de amizade serão iguais depois dessa leitura por ora chocante, por ora reveladora (mas sempre brilhante!). Distribuída ao longo de quatro romances, “A Amiga Genial” (Companhia das Letras), “História do Novo Sobrenome” (Companhia das Letras), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Companhia das Letras) e “História da Menina Perdida” (Companhia das Letras), e com mais de 1.700 páginas, a Série Napolitana apresenta de maneira original e corajosa uma amizade feminina baseada na inveja e na rivalidade. A trama de Ferrante é contada por Elena Greco, cujos apelidos são Lenuccia e Lenu. Agora idosa e morando em Turim, a narradora-protagonista rememora desde a infância em Nápoles no começo da década de 1950 a contraditória e forte relação de amizade que sempre teve com Rafaella Cerullo, cujos apelidos são Lila e Lina. O que há de tão obscuro e misterioso no relacionamento de Lenu e Lila, hein? Esses são os ingredientes literários que movem a Tetralogia Napolitana. O primeiro livro da coleção, “A Amiga Genial”, começa nos dias de hoje. A idosa Lenu recebe, na casa no Norte da Itália, uma ligação telefônica de Nápoles, sua terra natal, relatando o sumiço de Lila, sua melhor amiga. Em meio ao desespero de todos pelo desaparecimento de Rafaella, Elena acha aquilo tudo natural. Afinal, há mais de 30 anos Lila ameaça fugir de casa e sumir sem avisar ninguém. Esse episódio suscita as lembranças e os sentimentos há muito tempo guardados da narradora-protagonista. Para explicar ao leitor a overdose de emoções que está passando, Lenu conta como foi sua infância e adolescência no Sul da Itália ao lado de Lila. As duas meninas se conheceram quando tinham seis anos. Elas eram coleguinhas de classe na escola e moravam no mesmo edifício, um bairro pobre e violento de Nápoles. Enquanto Lila era esperta, corajosa e impertinente, Lenu sempre foi vista como confiável, batalhadora e medrosa. A amizade delas uniu, então, duas almas bem distintas. Mesmo com as diferenças, Elena e Rafaella enfrentaram juntas os dissabores da infância e da adolescência. A miséria, a violência brutal e o machismo no Sul da Itália nas décadas de 1950 e 1960 geraram uma rotina complicada e angustiante para a dupla de amigas. “História do Novo Sobrenome” e “História de Quem Foge e de Quem Fica”, respectivamente o segundo e o terceiro volumes do mais famoso drama histórico de Elena Ferrante, relatam a juventude de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Além das várias reviravoltas do enredo, as amigas vão brigar pelo coração do mesmo homem e se tornarão em alguns momentos adversárias. A relação delas é cada vez mais contraditória. Onde termina a admiração e o carinho genuínos e onde começa a inveja e o sentimento de vingança? Exatamente por essa camada dúbia, Elena Greco e Rafaella Cerullo são personagens tão complexas e maravilhosas do ponto de vista literário. O último livro da Série Napolitana é “História da Menina Perdida”. Dividido em três partes, esse romance apresenta as fases da maturidade e da velhice das protagonistas, além do Epílogo. Por falar no Epílogo, Elena Ferrante construiu um dos desfechos mais brilhantes da literatura contemporânea. Unindo a primeira cena do primeiro volume da tetralogia à última cena do quarto volume da saga, a escritora italiana permite que Lenu chegue a uma conclusão reveladora no final da vida (e do seu relato) sobre o tipo de amizade que teve com Lila. Incrível esse grand finale!!! A Tetralogia Napolitana é uma das melhores leituras que fiz na vida. O mais legal é notar que Elena Ferrante vai se superando obra a obra. Quando li “A Amiga Genial”, eu pensei ingenuamente: impossível a autora fazer algo melhor do que esse romance! Aí em “História do Novo Sobrenome”, vi que tinha me equivocado e lancei outra vez o mesmo questionamento. Concluídas as páginas de “História de Quem Foge e de Quem Fica”, percebi que a trama da Série Napolitana só melhorava. Por isso, cogitei: na certa, seu desenlace não será tudo isso. E “História da Menina Perdida” me mostrou que Elena Ferrante é uma das mais brilhantes e inovadoras figuras da literatura de todos os tempos. Impossível não nos apaixonarmos por seu trabalho ficcional. 2) Trilogia O Bom Ditador – Gonçalo J. Nunes Dias (Portugal) – Distopia – “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” (2016), “O Bom Ditador II – A Expansão” (2018) e “O Bom Ditador III – A Sucessão” (2020). Da lista de coleções de romances brilhantes que estou trazendo em 2022 para a coluna Recomendações, a Trilogia O Bom Ditador, do português Gonçalo J. Nunes Dias, talvez seja a única desconhecida do grande público. Se essa saga distópica ainda não se tornou um best-seller internacional, saiba que não foi por falta de qualidade de sua narrativa. Não à toa, Nunes Dias é, na minha humilde opinião, uma das principais promessas da literatura portuguesa e da literatura contemporânea em língua portuguesa. Olho nele, pessoal! Apresentado em 2016 na versão em ebook na Loja Kindle, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” (publicação independente) se tornou uma trilogia com os lançamentos de “O Bom Ditador II – A Expansão” (publicação independente), em maio de 2018, e de “O Bom Ditador III – A Sucessão” (publicação independente), em agosto de 2020. O sucesso comercial na plataforma de livros digitais da Amazon fez com que a série literária de Gonçalo J. Nunes Dias, uma mistura de ficção científica e distopia, fosse traduzida para o inglês, espanhol e italiano. Se pensarmos bem, não é pouca coisa para a estreia de um autor ficcional até então amador e independente. O enredo da Trilogia O Bom Ditador se passa essencialmente no interior de Portugal. Em “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”, conhecemos Gustavo, o protagonista. Funcionário público da área de TI de uma pequena cidade da região metropolitana de Lisboa e com uma rotina extremamente melancólica, ele tem a sacada de se preparar para o pior quando um objeto não identificado pousa na Lua. Imaginando que a Terra fosse ser invadida ou destruída por extraterrestres, Gustavo faz um meticuloso planejamento para os novos tempos. Curiosamente, o rapaz foi o único a calcular os riscos e a se organizar para os dias sombrios que estavam a caminho. E o trabalho preventivo de Gustavo se torna fundamental quando o planeta é efetivamente atacado. Escondido em uma região rural e interiorana de Portugal e com todos os recursos necessários para a sobrevivência, o técnico de informática se transforma naturalmente no líder político daqueles que conseguiram superar o extermínio de boa parte da humanidade e do caos gerado no planeta. Nasce, dessa maneira, uma nova civilização em Portugal. E da sede ilimitada de poder de Gustavo, ascende um déspota de enormes contradições. Ao mesmo tempo que é carismático, carinhoso e preocupado com o bem-estar coletivo e da família, o novo ditador também é violento, frio e calculista. Ou seja, temos aqui uma personagem principal de gigantesca complexidade psicológica e com características redondas. Impossível não gostar e, simultaneamente, não odiar Gustavo por seus atos tão conflitantes. Além disso, assistimos nessa narrativa à volta do período de esplendor de Portugal, outra vez na posição de centro geopolítico mundial. Enquanto “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” apresenta a formação da comunidade/nação criada em torno dos ideais políticos e econômicos de Gustavo, “O Bom Ditador II – A Expansão”, o segundo volume da saga, relata as conquistas territoriais e diplomáticas do Novíssimo Império Lusitano. Em uma década e meia, Gustavo vira um líder cada vez mais poderoso e temido. O problema é que seu posto passa a ser cobiçado por um jovem e ambicioso adversário político. Não é preciso dizer que os dois homens se enfrentarão em batalhas ferozes. Em “O Bom Ditador III – A Sucessão”, acompanhamos as tentativas de Gustavo de encontrar um sucessor à sua altura de estadista. Cansado do trabalho de comandar o Império depois de tantos anos, o agora velho governante resolve promover eleições democráticas. Contudo, largar o osso não é uma tarefa nada fácil. Ainda mais para Gustavo, alguém que se acostumou a mandar-e-a-desmandar e que fez muitos inimigos ao longo do tempo. O que faz da Série O Bom Ditador uma leitura tão prazerosa é a combinação de narrativa gostosa e exercício inteligente da idiossincrasia do exercício do poder. Além de muito talentoso para o fazer ficcional, Gonçalo J. Nunes Dias é muito sagaz ao mostrar didaticamente o surgimento de um déspota. Por trás das boas intenções do líder supremo, escondem-se as fraquezas e as vaidades do homem comum. Incrível notar o paralelo da trama romanesca com os episódios reais da nossa história. A trilogia de Nunes Dias é quase um manual de como construir, desenvolver e manter um governo ditatorial. Ainda bem que os nossos políticos com veias mais fascistas não são chegados à literatura de qualidade (há até quem duvide que eles saibam realmente ler e escrever). Ufa! Nossa sorte é que os novos candidatos brasileiros à déspota não possuam a capacidade intelectual, política e emocional de Gustavo. Ainda bem! 3) Série Cinquenta Tons de Cinza – E. L. James (Inglaterra) – Literatura Erótica – “Cinquenta Tons de Cinza” (2011), “Cinquenta Tons Mais Escuros” (2012) e “Cinquenta Tons de Liberdade” (2012). A proposta do trio de posts sobre as 12 Séries Literárias Internacionais que Valem Nossa Leitura é englobar todos ou, no pior dos casos, grande parte dos gêneros ficcionais. Por isso, a inclusão de obras infantojuvenis, dramas históricos, ficções científicas, comédias escrachadas, thrillers noirs, distopias e romances policiais em nossa coletânea de narrativas apresentadas pelo Bonas Histórias. Afinal, um dos valores do blog é a variedade de livros ficcionais analisados. E um gênero que não podia faltar é a literatura erótica. Desde já um clássico contemporâneo do segmento, a Série Cinquenta Tons de Cinza da britânica E. L. James se destaca pelo sucesso comercial e (sim!) pela qualidade literária. Em relação ao êxito editorial, é inegável que a aventura sexual de Anastasia Steele com Christian Grey pelo universo do BDSM tenha se transformado em um best-seller mundial. Até quem critica o trabalho de James e as características desse tipo de literatura precisa se render aos números. Com aproximadamente duas centenas de milhões de exemplares vendidos em uma década, a Trilogia Cinquenta Tons de Cinza é um dos principais cases de sucesso do mercado editorial no século XXI. Até aí não parece haver qualquer contestação, né? A polêmica surge quando discutimos a excelência dos romances mais famosos de E. L. James. Há uma penca de críticos literários e de leitores gabaritados que não se cansam de apontar o dedo para os problemas narrativos da série erótica para desqualificá-la. Por isso, quando li os livros dessa coletânea há alguns anos, fiz com um pé atrás. Porém, já na metade da obra inicial da saga, “Cinquenta Tons de Cinza” (Intrínseca), já fiquei com uma boa impressão. Até porque não podemos nos esquecer da proposta dessa publicação. Parodiando James Carville, é a literatura erótica, estúpido! Ouvi e li muita gente reclamando: tem muitas cenas de sexo nas obras de E. L. James; a autora detalha mais a vida sexual dos protagonistas do que os nuances da vida sentimental das personagens; e a história parece não sair do lugar (ela fica o tempo inteiro na cama). Em se tratando de ficção erótica, essas características me parecem perfeitamente aceitáveis (e esperadas). E digo isso mesmo não sendo fã desse tipo de gênero narrativo. Se esses elementos fossem excluídos ou minimizados da trama, aí teríamos que classificar a Trilogia Cinquenta Tons de Cinza de forma diferente. Quando disse que gostei da qualidade literária da série (não atirem pedras, por favor!!!) estou sendo sincero. Do ponto de vista da narrativa ficcional, o trabalho da escritora inglesa me pareceu bastante satisfatório e (não caiam da cadeira, senhores e senhoras!) até mesmo elogiável. Digo isso porque “Cinquenta Tons de Cinza”, “Cinquenta Tons Mais Escuros” (Intrínseca) e “Cinquenta Tons de Liberdade” (Intrínseca), romances publicados entre 2011 e 2012, trazem: personagens diferenciadas, redondas e carismáticas (gostemos ou não delas, mas elas são capazes de mexer com nossas emoções); uma trama original (que gerou muitas cópias depois de sua publicação); algumas reviravoltas no enredo (fazendo com que permaneçamos lendo as páginas da série); boas e variadas cenas de sexo (afinal é literatura erótica); e, principalmente, temáticas raramente abordadas na literatura comercial (não me lembro de ter lido entre os best-sellers nada sobre a prática do BDSM ou de relacionamentos sexuais tão abusivos). Obviamente, não temos aqui um material digno de Prêmio Nobel de Literatura (vamos com calma, pessoal!), mas ele é sim interessante da perspectiva do mercado editorial. Quando elogio a Série Cinquenta Tons de Cinza, preciso esclarecer que estou me referindo apenas à trilogia original. Nos últimos anos, E. L. James acrescentou à coleção mais um trio de livros (títulos narrados por Christian Grey e não por Anastasia Steele). Essa última parte da saga dos amantes mais heterodoxos da literatura contemporânea, eu não conheço. Como falei, não sou fã desse gênero ao ponto de mergulhar em sua leitura indiscriminadamente. Para quem ficou curioso e não conhece a trama, preciso explicar rapidamente o enredo da Trilogia Cinquenta Tons de Cinza. A série apresenta o relacionamento abusivo de Christian Grey, um empresário jovem, bonito e milionário, com Anastasia Steele. Recém-formada em Literatura Inglesa e com 21 aninhos, a moça é insegura, tímida e um tanto atrapalhada. Após conhecer Christian meio que por acaso, Anastasia se vê seduzida pelo rapaz. O que ela não contava é que o namorico fosse evoluir e, o que é mais chocante, fosse revelar os hábitos sexuais pouco convencionais de Christian Grey. Cada vez mais apaixonada, a heroína é inserida no universo do sadomasoquismo, da dominação-submissão e do bondage. Não é preciso ser um(a) leitor(a) muito esperto(a) para perceber que a jovem enfrentará situações delicadas e pouco cristãs nas mãos do empresário. 4) Trilogia da Fundação – Isaac Asimov (Rússia/Estados Unidos) – Ficção Científica – “Fundação” (1951), “Fundação e Império” (1952) e “Segunda Fundação” (1953). A maior série literária da ficção científica de todos os tempos. É assim que defino a Trilogia da Fundação, obra-prima de Isaac Asimov. Lançados na primeira metade dos anos 1950, os três romances do escritor nascido na Rússia e naturalizado norte-americano encanta até hoje os leitores de todas as idades mundo à fora. Com personagens carismáticas, texto envolvente, trama sagaz, várias reviravoltas e um mistério que segue intacto do início ao fim dos livros, a Série Fundação surgiu de uma coleção de contos de Asimov que fora publicada originalmente em uma revista literária dos Estados Unidos na década de 1940. Em 1951, o escritor reuniu em um livro as primeiras narrativas curtas da série e acrescentou novas partes. Surgiu, assim, “Fundação” (Aleph), o primeiro volume da saga clássica do embate entre o Império Galáctico e a Fundação. Para evitar a decadência da civilização, todo o conhecimento humano foi reunido na Enciclopédia Galáctica. Para um material tão poderoso não cair em mãos erradas, os enciclopedistas (pessoas mais inteligentes da galáxia) foram divididos em duas Fundações. A Primeira Fundação ficou em Trantor e a Segunda Fundação foi enviada para o extremo oposto da Galáxia, em um local não revelado. A partir daí, acompanhamos geração a geração o desenvolvimento da Primeira Fundação, sociedade guiada pelo clamor da ciência e pelos princípios da racionalidade. “Fundação e Império” (Aleph) é o segundo romance da série literária mais famosa de Isaac Asimov. Lançado em 1952, esse livro mostra o embate entre o Império Galáctico e a Primeira Fundação. Incomodado com a rápida evolução tecnológica da Fundação, o Imperador resolve atacar o povo de Trantor, que parece se tornar cada vez mais avançado social e materialmente. Mesmo com a vitória de seu planeta sobre o Império, os profissionais da Biblioteca de Trantor decidem procurar a Segunda Fundação. Somente com a união das duas partes do conhecimento humano, eles poderão se sentir mais seguros e poderosos, sem riscos de sofrerem novos ataques do inimigo maior. A busca pela civilização escondida na galáxia provoca grandes conflitos internos em Trantor. Publicado em 1953, “Segunda Fundação” (Aleph) é a terceira parte da trilogia. Sabendo da relevância e da força da Segunda Fundação, tanto a Primeira Fundação quanto o Império Galáctico utilizarão de todos os meios para descobrir onde está guardada a outra metade do conhecimento da humanidade. O que os inimigos não poderiam supor é que o esforço para encontrar a Segunda Fundação já estava no radar da civilização escondida. A partir daí, a trama apresenta várias e grandes reviravoltas, capazes de mexer com as emoções dos leitores. É interessante notar que essa saga de Isaac Asimov vai além da Trilogia da Fundação. A série ainda possui mais quatro títulos: “Limites da Fundação” (Aleph), “Fundação e Terra” (Aleph), “Prelúdio à Fundação” (Aleph) e “Origens da Fundação” (Aleph). Cada novo livro apresenta mais detalhes do enredo central. Enquanto as duas primeiras obras (“Limites da Fundação” e “Fundação e Terra”) são uma extensão de “Segunda Fundação”, as duas últimas publicações (“Prelúdio à Fundação” e “Origens da Fundação”) explicam melhor os acontecimentos precedentes à “Fundação”, o romance original da saga. Adaptado para o cinema, rádio, televisão e quadrinhos, a Trilogia da Fundação influenciou todas as tramas espaciais dali em diante. Você pode notar que Star Wars e Star Trek, por exemplo, beberam da fonte de Isaac Asimov. Até mesmo a Série O Guia do Mochileiro das Galáxias, obra-prima de Douglas Adams, pode ser vista como uma paródia da saga da Fundação. Essa foi a segunda parte das Séries Literárias Internacionais que Valem a Leitura. Em outubro, retornarei à coluna Recomendações para apresentar o terceiro e último quarteto de coleções de romances que encantam os leitores dos quatro cantos do mundo. Até lá, continue acompanhando os demais posts do Bonas Histórias. Afinal, enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê. Fazer o quê?! Até a próxima. Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Filmes: Sorria - A estreia de Parker Finn na direção dos longas-metragens

    Estrelado por Sosie Bacon, este terror psicológico oferece vários sustos e uma ótima ambientação, mas peca por ter uma trama recheada de clichês. Sorria, meu bem. Sorriiiiiiia. Da infelicidade. Que você procurou. Sorria, meu bem. Sorriiiiiiia. Você hoje chora. Por alguém que nunca lhe amou. Sorria, meu bem. Sorriiiiiiia. Eu sempre lhe dizia. Quem ri por último, ri melhor. Percebemos que o Halloween (e o Día de Los Muertos para quem prefere a influência da cultura mexicana à norte-americana) está chegando pelo aumento considerável do número de filmes de terror em cartaz. Para quem gosta de sentir medo e de levar muitos sustos (beijo, Tati!), não existe melhor época do ano para visitar o cinema. As melhores opções que o público brasileiro tem à disposição nesse momento são “Halloween Ends – O Acerto de Contas Final” (Halloween Ends: 2022), “Órfã 2 – A Origem” (Orphan: First Kill: 2022), “Morte Morte Morte” (Bodies Bodies Bodies: 2022), “Não! Não Olhe!” (Nope: 2022), “Sorria” (Smile: 2022), “Telefone Preto” (The Black Phone: 2021) e “A Última Chamada” (Call: 2020). Obviamente, os dois últimos da lista são blockbusters não tão recentes assim. Eles voltaram agora para as salas de cinema para justamente aproveitar o apelo do Dia das Bruxas (e do Dia dos Mortos). Querendo entrar o quanto antes no clima da(s) data(s) comemorativa(s) mais aterrorizante(s) do calendário, fui ao Cinemark do Shopping Tietê Plaza no último final de semana para assistir a “Sorria” (abraço, Evaldo Braga!!!). Esta produção marca a estreia de Parker Finn, jovem cineasta norte-americano, como diretor e roteirista de longas-metragens. O que me fez optar por este título foi o ótimo trailer que vi na semana retrasada. Confesso que se não fosse por isso, teria escolhido “Órfã 2” (beijo, Mara!). Como sou fã de filmes de terror, algo que os leitores mais assíduos do Bonas Histórias já estão carecas de saber (feliz aniversário, Eduardo!), não poderia perder a oportunidade de conferir nas telonas uma das novidades da atual temporada do cinema de terror. Mesmo não tendo achado o primeiro longa de Parker Finn um filme tão sensacional (o que mais me incomodou foi a enxurrada de clichês, o que certamente irá atrapalhar bastante a experiência dos cinéfilos mais exigentes e experientes), achei válido analisá-lo na coluna Cinema. Apesar de não conter nenhuma grande novidade de ordem narrativa e cinematográfica (não espere, por favor, uma produção memorável nem uma história extremamente original!), “Sorria” consegue sim entreter a maioria do público. Quanto mais jovem for a plateia e quanto menor for a bagagem do espectador dentro do gênero de terror, mais este filme irá agradar. Portanto, se você almeja um título honesto que consiga mexer com suas emoções pra valer no próximo Halloween (ou no Día de Los Muertos), independentemente da profundidade dos recursos utilizados e da sagacidade da trama, vale a pena olhar com atenção para “Sorria”. Em outras palavras, este filme deve ser colocado na prateleira do “entretenimento leve e rasteiro” e não na prateleira das “obras marcantes da sétima arte”. Ciente dessa particularidade, não há o porquê reclamar do trabalho de Parker Finn. Como longa-metragem de estreia, este título do cineasta norte-americano é razoável e obtém nota para passar de ano (do contrário não ganharia um post no Bonas Histórias). Pelo menos na sala de cinema em que estive presente no final de semana, a plateia embarcou de corpo e alma nos dramas apresentados. Não por acaso, “Sorria” oferece sustos e mais sustos ao longo de toda a sessão. O que seria do gênero terror sem os sustos, né? E ele tem também uma ótima ambientação, capaz de hipnotizar os espectadores do início ao fim. Sabe aquele filme em que muitas vezes temos mais sustos dos gritos do pessoal à nossa volta do que propriamente dos acontecimentos na tela? Pois foi o que vivenciei. Admito que se a sala estivesse vazia ou se eu estivesse assistindo ao longa em casa (em streaming, por exemplo), não teria achado tanta graça (no caso, a graça aqui é sentir medo). “Sorria” é uma produção para ser vista prioritariamente nos cinemas! E de preferência com a sala cheia de adolescentes! Lançado no circuito nacional no finalzinho do mês passado, “Sorria” é a principal aposta da Paramount Pictures para o Halloween de 2022. O tradicional estúdio hollywoodiano contratou Parker Finn, que até então só produzira dois filmes independentes e de curta duração, para adaptar “Laura Hasn´t Slept” (2020). “Laura Hasn´t Slept” foi escrito, dirigido e produzido pelo próprio Finn no ano retrasado. Nesse terror psicológico, uma moça recorre à ajuda do terapeuta para se livrar de um pesadelo recorrente. O curta-metragem conquistou prêmios nos Estados Unidos e foi muito bem recebido pela crítica. Encantada com a qualidade narrativa e com os recursos utilizados pelo jovem cineasta em “Laura Hasn´t Slept”, a Paramount deu um orçamento na casa de US$ 17 milhões para Parker Finn produzir uma versão mais longa e mais comercial de seu filme. Surgia, dessa maneira, “Sorria”, o suspense vivido por uma terapeuta que padece de uma maldição sinistra. A doutora é atormentada por um ser maligno que a persegue em todos os lugares. Ela sabe que ele está por perto porque ele entra no corpo das pessoas e sorri. Nunca um sorriso foi tão perturbador e contraditório desde “O Coringa” (Joker: 2019). “Sorria” é estrelado por Sosie Bacon, atriz de 30 anos que é mais conhecida pela participação no seriado “13 Reasons Why” (2017-2020) e por ser filha de Kevin Bacon e Kyra Sedgwick, um dos casais mais carismáticos do cinema norte-americano (abraço, Brad e Angelina!). Os cinéfilos mais veteranos irão se lembrar da menina Emily de “Obsessão” (Loverboy: 2005). No longa-metragem de estreia de Kevin Bacon na direção (ele também atuou ao lado da esposa nessa produção), a pequena Sosie Bacon, então com 13 anos, trabalhou pela primeira vez como atriz. Agora uma trintona, Sosie ganha seu primeiro papel de destaque no cinema comercial. Se a atriz principal não está acostumada aos papéis de protagonista, o elenco de “Sorria” é recheado de figuras experientes. Destaque para Jessie T. Usher, Kyle Gallner, Caitlin Stasey, Kal Penn, Rob Morgan, Judy Reyes, Gillian Zinser e Scot Teller. Curiosamente, Caitlin Stasey foi a protagonista de “Laura Hasn´t Slept”. Se no curta metragem a australiana interpretou a moça atormentada por sonhos recorrentes, no longa de Finn ela vive Laura Weaver, a paciente mais problemática da Dra. Rose Cotter (interpretada por Sosie Bacon) e que passa a maldição para a terapeuta. Outra curiosidade interessante de ser mencionada é que “Sorria” não foi concebido para ser enviado às salas de cinema. Ele foi produzido para ser lançado exclusivamente em streaming. Contudo, durante a fase de testes do filme com o público no meio do ano, a Paramount viu que o longa funcionava muito bem nas sessões em telona (algo que pude constatar na prática agora!). Assim, o planejamento foi alterado e “Sorria” ganhou verba extra de divulgação. E após uma atraente campanha de Marketing (com direito a ações de merchandising em jogos da Liga Norte-americana de Baseball e em programas matinais de grande audiência dos Estados Unidos), a produção de Finn ganhou os cinemas na última semana de setembro. Há três semanas no circuito comercial de cinema da América do Norte (leia-se Estados Unidos e Canadá), “Sorria” teve uma estreia para lá de bem-sucedida. Logo em seu primeiro final de semana em cartaz, o filme atingiu faturamento de aproximadamente US$ 22 milhões (lembremos que seu orçamento foi de meros US$ 17 milhões) e figurou no topo da lista dos lançamentos mais assistidos. Mesmo sendo uma produção com orçamento razoável (para os padrões norte-americanos, né?), “Sorria” conseguiu brigar de igual para igual com os blockbusters. Evidentemente, a proximidade com o Halloween ajudou a todos os títulos de terror. Porém, é inegável que o fato de “Sorria” estar lado a lado nas bilheterias com “Halloween Ends – O Acerto de Contas Final”, uma superprodução com orçamento muito maior (quase o dobro) e pertencente a uma franquia famosa (algo cada vez mais importante para o público), é por si só um feito admirável. Precisamos tirar o chapéu para o trabalho de Parker Finn. Chorar pra quê? Choraaaaaaar! Você deve sorrir. Que outro dia será bem melhor. Querida, o seu erro você vai pagar. Entenda! Que eu não posso mais lhe aconselhar. Confesso que você foi o meu grande amor. Sempre sorria. Sempre sorria, assim como estou. Sempre sorria. Sempre sorria assim, meu amor. O enredo de “Sorria” começa em um hospital psiquiátrico. Rose Cotter (Sosie Bacon) é a terapeuta responsável pelo atendimento dos pacientes com problemas mentais que chegam ao pronto-socorro. Workaholic, a médica engata um turno no outro e raramente sai de férias ou pega uma folga. Em uma de suas longas sessões de trabalho no departamento psiquiátrico do centro hospitalar, Dra. Cotter presencia uma cena perturbadora. Laura Weaver (Caitlin Stasey), jovem paciente sem histórico de problemas mentais, dá entrada no hospital com quadro de alucinação. A moça conta para a terapeuta que está sendo perseguida por uma entidade diabólica. Laura sabe que a maldição está por perto quando as pessoas começam a sorrir de um jeito satânico para ela. Obviamente, Rose Cotter não acredita naquele relato um tanto amalucado. Aí Laura Weaver tem um novo surto, dessa vez na frente da médica e em plena sala de atendimento do hospital. No meio da crise, a paciente simplesmente quebra um vaso de flores. E com os fragmentos pontiagudos do objeto recém-destruído, ela se mata com um corte seco no rosto. Presenciar o suicídio de uma jovem mexe muito com Rose. A terapeuta, que já vivia sob traumas do passado e tinha pouquíssimas relações sociais e familiares, passa a ter espasmos alucinantes em pleno horário de trabalho. Para completar, ela começa a misturar realidade com imaginação, o que coloca seus pacientes em perigo. Preocupado com a saúde mental da médica e com a dinâmica no hospital, Dr. Morgan Desai (Kal Penn), chefe de Rose, concede enfim uma semana de folga remunerada para a sua mais dedicada terapeuta. Na visão do gestor, a doutora estaria sob efeito do estresse pós-traumático e alguns dias de descanso seriam mais do que suficientes para ela se recuperar. Em casa, Rose continua com a sensação de estar sendo perseguida por algo diabólico. Além disso, ela vê aqui e ali os sorrisos sinistros que Laura Weaver lhe confidenciara antes de morrer. O comportamento cada vez mais perturbador da protagonista deixa a todos perplexos. Trevor (Jessie T. Usher), o noivo da terapeuta, acredita que ela está enlouquecendo. Madeline Northcott (Robin Weigert), antiga psicóloga de Rose, acha que a jovem está em um momento delicado e que precisa voltar urgentemente para a terapia. E Holly (Gillian Zinser), a irmã de Rose, tem a certeza de que dessa vez a doutora mergulhou no caos psicológico e que quer boicotar de propósito a já tênue harmonia familiar. O único que parece acreditar na versão um tanto confusa de Rose é Joel (Kyle Gallner), ex-namorado da médica. Ele nota que algo verdadeiramente estranho está acontecendo com a Dra. Cotter e se propõe a ajudá-la. Por ser policial, ele auxilia Rose a investigar o estranho suicídio de Laura Weaver e logo crê na possibilidade da existência de uma maldição que está perseguindo sua ex. Joel e Rose descobrem que há uma certa corrente maligna envolvendo uma série de suicídios. Antes de se matar, a pessoa é atormentada por imagens recorrentes de sorrisos macabros. De tão perturbadoras que são as imagens e de tão angustiante que é a sensação de perseguição, o indivíduo prefere tirar a própria vida. E ele faz isso sempre na frente de uma testemunha, que passa a incorporar a maldição. Uma vez que se entra na espiral satânica, não há jeito de escapar. Ou haveria? É isso o que Rose Cotter e Joel terão que desvendar na marra! O problema é a falta de tempo. Nenhuma (ou quase nenhuma) das vítimas da corrente amaldiçoada durou mais do que uma semana. Pobre, Rose. Sorria, meu bem. Sorriiiiiiia. Da infelicidade. Que você procurou. Sorria, meu bem. Sorriiiiiiia. Você hoje chora. Por alguém que nunca lhe amou. Sorria, meu bem. Sorriiiiiiia. Eu sempre lhe dizia. Quem ri por último, ri melhor. “Sorria” tem 115 minutos de duração e propicia uma boa experiência para quem for à sessão de cinema. Se você gosta de passar medo e curte tomar vários sustos, na certa sairá satisfeito da sala de exibição. O primeiro aspecto que merece ser elogiado neste longa-metragem de estreia de Parker Finn é o seu ritmo narrativo. Da primeira à última cena, temos muita tensão, reviravoltas e sustos em “Sorria”. Quem foi que disse que filme de terror precisa deixar a melhor parte para o desfecho, hein? Apesar do clima de tensão crescente, essa produção já começa na temperatura alta. Impossível piscar os olhos ou dar uma saidinha da sala em qualquer momento. Adoro produções dinâmicas e intensas! Outra questão interessante é a ambientação. Boa parte do clima angustiante que o espectador sente em “Sorria” se deve à confusão mental da personagem principal. Afinal, Rose está sofrendo de alucinações ou está sendo vítima de uma maldição sobrenatural, hein? O que é real e o que é imaginação? Essas dúvidas conferem caráter dúbio à trama e alimentam as reviravoltas do enredo. Querendo ou não, acabamos mergulhando de cabeça nas paranoias e nas dúvidas da protagonista. Não à toa, “Sorria” pode ser classificado como um título de terror psicológico. Repare na qualidade do trabalho de maquiagem e de figurino deste longa-metragem. De maneira muito sutil e eficiente, acompanhamos a transformação de uma terapeuta respeitada, séria, tranquila e competente em uma mulher amalucada, desesperada, passional e perigosa. A mudança psicológica da personagem principal pode ser acompanhada pela sua maquiagem e por sua roupa. Veja como Rose está nas primeiras cenas e confira depois como ela ficou nas últimas cenas. É verdade que essa transmutação se deve em boa parte à excelente atuação de Sosie Bacon. Entretanto, as equipes de maquiagem e de figurino também deram show e merecem sim nossos créditos. Por falar na belíssima atuação da protagonista (se pensarmos que Sosie Bacon não é ainda uma atriz tão experiente, ela até que foi muito bem no papel da Dra. Rose Cotter!), “Sorria” tem um elenco rodado que soube dar conta do recado. Não há neste filme qualquer deslize interpretativo ou mesmo grandes oscilações na atuação dos atores/atrizes (algo comum de ocorrer em uma produção com elenco extenso). Saiba que se você não gostar deste longa-metragem de Parker Finn, a culpa não será dos artistas que aparecem em cena. Agora vamos falar dos pontos negativos. Ai, ai, ai. O maior deles é sem dúvida nenhuma a falta de originalidade do enredo. O que pega é a enxurrada de clichês cinematográficos presente em “Sorria”. Sabe quando assistimos a um filme e temos a forte sensação de déjà vu? Pois foi exatamente essa a minha impressão durante a sessão. Apesar de muito bem construído e de estar redondo, redondinho, o roteiro de Parker Finn é, infelizmente, banal. “Sorria” foi bem filmado e é interessante do ponto de vista narrativo e cinematográfico, mas está longe, muuuuito longe de trazer qualquer novidade para o gênero de terror. Se ele pode agradar aos fãs menos exigentes desse tipo de cinema, na certa irá suscitar a velha reclamação daqueles que não gostam: filme de terror é tudo igual. Nesse caso especificamente, não tenho argumentos para contrapor. Outro elemento que precisa ser abordado nessa análise da coluna Cinema é que a maioria dos sustos que tomei na sessão de “Sorria” foi provocada mais pela gritaria da plateia do que necessariamente por algo substancial que ocorreu nas cenas. Se por um lado esse expediente é divertido no começo e mostra o alto nível de tensão da trama (o toque do telefone e a chegada de uma pessoa no meio da escuridão, por exemplo, são capazes de levar o público ao desespero), por outro lado quando acontece pela terceira ou quarta vez no filme, a gente fica se perguntando: onde está o terror do longa-metragem? De qualquer maneira, susto é susto, né? Não existe uma medição de qualidade. Por fim, precisamos discutir o desfecho de “Sorria”. Antes que alguém se preocupe com um possível spoiler da minha parte, peço calma a todos e um voto de confiança. Não costumamos dar os spoilers nas análises do Bonas Histórias, seja na coluna Livros – Crítica Literária, seja na coluna Cinema. E não vou abrir exceção dessa vez, tá? Dito isso, vamos à minha impressão do final do filme (sem dizer o que aconteceu efetivamente, né?). Achei o desenlace de “Sorria” perfeito. Por mais que uma leva considerável do público na minha sessão não tenha gostado (alguns espectadores mais revoltados chegaram a soltar palavrões impublicáveis quando as luzes da sala foram acesas), ele é sim totalmente condizente com a narrativa e tem bastante força narrativa. O problema é que temos em “Sorria” um desfecho amargo, o que nem sempre é bem-vindo para um título comercial. Há um tipo de plateia que não aceita sabores que não sejam doces ou açucarados para o final de uma obra de arte. Aí quando recebem algo ligeiramente amargo ou mesmo ácido, viram a cara na hora. Confesso que desse mal eu não sofro. Eu adoro finais trágicos e indigestos, quando eles fazem sentido (como o desta produção). Então quer dizer que você está elogiando o desenlace de “Sorria”, Ricardo? Sim e não. Sim porque, como disse, ele é perfeitamente coerente, apesar de extremamente indigesto. E não porque, como o roteiro inteiro, ele é muuuuito previsível. Quem assistiu a “Possuídos” (Fallen: 1998) e “A Profecia” (The Omen: 1977), por exemplo, conseguirá prever sem dificuldades o final do longa de Parker Finn já na metade da sessão. Foi o que aconteceu comigo, um espectador um tanto calejado pelos filmes de terror. Paradoxalmente, as principais reviravoltas do enredo de “Sorria” acontecem na parte final do filme, até o desenlace. Aí quando pensei que seria surpreendido, o rio desembocou no velho oceano de sempre. Ai, ai, ai. Assista, a seguir, o trailer de “Sorria” (Smile: 2022): Chorar pra quê? Choraaaaaaar! Você deve sorrir. Que outro dia será bem melhor. Querida, o seu erro você vai pagar. Entenda! Que eu não posso mais lhe aconselhar. Confesso que você foi o meu grande amor. Sempre sorria. Sempre sorria, assim como estou. Sempre sorria. Sempre sorria assim, meu amor. E você: gostou ou não gostou de “Sorria”?! Enquanto aguardo o seu comentário, aqui vai o meu ótimo Halloween (e um excelente Día de Los Muertos) para todos! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Gastronomia: Shawarma Anwar - A culinária árabe do bairro de Perdizes

    Inaugurada em 2019, essa lanchonete paulistana é especializada na gastronomia árabe, apresenta cardápio variado e oferece bom custo-benefício. Em agosto, eu trouxe para a coluna Gastronomia o debate sobre as diferenças entre o kebab e o shawarma. Aí aproveitei e apresentei os encantos culinários do Kebab Paris, a minha kebaberia preferida na cidade de São Paulo. Agora retorno ao Bonas Histórias para analisar o Shawarma Anwar, a lanchonete vizinha ao Kebab Paris. Quem tem a memória boa (beijo, Marcelinha!) irá se recordar que citei brevemente o Shawarma Anwar quando falei da kebaberia. De certa maneira, o post de hoje é a continuação natural do texto do mês retrasado, né? Afinal, no Fla-Flu gastronômico entre o sanduíche turco do Kebab Paris e o sanduíche árabe do Shawarma Anwar, faltou abordar os detalhes da casa, a variedade do cardápio, a qualidade dos pratos, a eficiência dos serviços e a política de preços do segundo estabelecimento. Aqui vai, portanto, o complemento. Inaugurado em março de 2019, o Shawarma Anwar é voltado para a culinária árabe e está localizado no comecinho da Avenida Professor Alfonso Bovero. É até difícil dizer em qual bairro esse trecho de rua pertence pois ele está bem na divisa do Sumarezinho, Perdizes e Pompéia. Como sou um andarilho mais habitual de Perdizes do que de seus bairros vizinhos, costumo dizer que o Kebab Paris e o Shawarma Anwar são comércios de Perdizes. Porém, não é errado afirmar que eles ficam no Sumarezinho ou mesmo na Pompéia, tá? O que não dá para contestar é que esse pedacinho de São Paulo possui fortíssima influência árabe e turca. Na Avenida Professor Alfonso Bovero e nas ruas adjacentes, moram e trabalham várias famílias advindas do Oriente Médio e da Ásia Menor. Por consequência, os imigrantes e seus descendentes possuem importantes comércios na região e são consumidores ávidos de produtos e serviços relativos às suas culturas. Essa característica sociodemográfica traz uma dinâmica especial e um colorido multiétnico para esse pedacinho de São Paulo. Conheço alguns sírios (abraço, Fadi!), libaneses, turcos e jordanianos que vieram para São Paulo há vinte, trinta anos e se estabeleceram com êxito em Perdizes, Pompéia e Sumarezinho. Não à toa, temos vários restaurantes árabes e turcos de ótima qualidade nesses bairros. Além dos já citados Kebab Paris e Shawarma Anwar, posso mencionar o Dib, o Arabesco, o Khadije e o Saj. Se você for um(a) apreciador(a) de longa data da boa gastronomia paulistana, na certa já deve ter ouvido falar ou mesmo frequentado algumas dessas casas. Elas são excelentes! Como o assunto de hoje da coluna Gastronomia é o Shawarma Anwar, paremos de devaneios e voltemos logo ao tema principal deste post do Bonas Histórias. O Shawarma Anwar é uma lanchonete com cara de barzinho. Com mesas tanto no salão interno quanto na área externa, o clima é informal, jovial e animado seja nos horários do almoço e do jantar, seja no happy hour. Ao invés do kebab e da culinária turca, carro-chefe e especialidade do vizinho Kebab Paris, o Shawarma Anwar tem como prato principal o shawarma e seu cardápio é voltado para os mais famosos quitutes árabes. Outra diferença gritante entre os concorrentes de Perdizes é o tamanho/infraestrutura das casas. Enquanto o Kebab Paris é minúsculo e tem ar intimista (ideal para quando se está em casal ou em grupo reduzidíssimo de amigos), o Shawarma Anwar é muito maior e oferece mais conforto aos clientes (ideal para grupos numerosos e expansivos). Por isso, a clientela do Shawarma Anwar é formada majoritariamente por jovens que buscam algo para comer enquanto apreciam a oferta generosa de bebidas alcoólicas. Já no Kebab Paris, o público é um pouco mais velho e a predileção é mais pelos pratos do que pelas bebidas. Minha mais recente visita ao Shawarma Anwar aconteceu no mês passado. Tive como companhia um divertido trio de amigos: Marcela, Paulo e Enzo. Só faltou a Débora para o Bonas Conexões ficar completo (beijo, Debinha!). Após as aulas de Sábado à tarde na Dança & Expressão, que fica quase em frente à lanchonete, atravessamos a rua e nos instalamos na mesa mais ao fundo do salão interno do Shawarma Anwar. O friozinho do último final de semana do Inverno paulistano estava bravo e não queríamos ficar perto da calçada de jeito nenhum, apesar da presença de charmosos aquecedores no ambiente externo. O menu da lanchonete é variado. A parte da culinária árabe é dividida em seis seções: pratos quentes, pratos frios, shawarmas, esfihas & kibes, porções & outras e doces. Os pratos quentes são: kafta no espeto (R$ 16,00 a unidade), charuto de uva (R$ 23,00 a porção com 7 unidades), charuto de repolho (R$ 23,00 a porção com 7 unidades), mjadra (R$ 24,00 a porção com 250 g) e arroz árabe (R$ 17,00 a porção com 250 g). Os pratos frios são: kibe cru (R$ 40,00), coalha seca (R$ 24,00), hommus (R$ 23,00), babagannu (R$ 24,00), tabule (R$ 17,00), fattoush (R$ 17,00) e trio de pastas – coalhada seca, babagannu e hommus (R$ 32,00). O carro-chefe da casa, como o próprio nome do estabelecimento indica, é o shawarma. Há cinco opções do sanduíche árabe: carne (R$ 30,00 a unidade), frango (R$ 27,00 a unidade), misto – carne e frango (R$ 28,00 a unidade), falafel (R$ 27,00 a unidade) e kafta assada na brasa (R$ 27,00 a unidade). O que me chamou a atenção logo de cara foi o tamanho generoso dos lanches (peça para eles virem cortados ao meio – facilita na hora de comer). Os sanduíches do Shawarma Anwar são aproximadamente 40% maiores do que os kebabs do Kebab Paris. Além disso, os shawarmas têm bastante recheio. Todos os lanches vêm no pão pita (chamado no Brasil também de pão sírio ou de pão árabe) e têm picles, acelga, cebola, tomate e molho de alho. O resultado dessa combinação é normalmente satisfatório. A união de comida saborosa com fartura generosa do sanduíche transforma essa opção de refeição em um bom custo-benefício. O meu shawarma preferido é o de frango. Para o pedido ficar ainda mais vantajoso, escolha os combos dos lanches (de R$ 48,00 a R$ 51,00). Neles, o sanduíche vem, ao melhor estilo fast-food, com porção de batata frita e refrigerante. Para quem não é muito guloso (abraço, Paulinho!), o combo é uma refeição completinha. Não por acaso, o Shawarma Anwar tem bom movimento na hora do almoço e no jantar durante a semana. Nesse período especificamente, os sandubas são a estrela principal da casa. Às sextas-feiras e aos finais de semana, a pegada de happy hour é maior e aí as bebidas alcoólicas e as porções de petisco ganham o protagonismo. Na seção esfihas & kibes do cardápio, o Shawarma Anwar tem esfihas abertas (carne, zátar e muhammara – R$ 10,00 cada; queijo, calabresa e ricota – R$ 11,00 cada; e carne com queijo, zátar com queijo, escarola com queijo, calabresa com catupiry e muhammara com queijo – R$ 13,00 cada), esfihas fechadas (carne e escarola – R$ 10,00 cada; e queijo – R$ 11,00) e kibe frito (R$ 12,00). O destaque aqui é para as esfihas fechadas. Escolha qualquer uma que você não irá se arrepender. A massa delas é espetacular. Você não precisa ser um fã incondicional desse tipo de prato (beijo, Mara!) para se encantar com as esfihas fechadas do Shawarma Anwar. Já na parte do menu intitulada Porções & Outros, temos à disposição: falafel (6 unidades por R$ 30,00), batata frita zátar pequena (R$ 17,00) e batata frita zátar grande (R$ 32,00). Para ser sincero, não achei muita graça na batata frita zátar do Shawarma Anwar (a batata rústica do Kebab Paris é muuuuuuito melhor). Contudo, a porção de falafel é encantadora. Além do visual caprichadíssimo, ela me pareceu mais saborosa do que a oferecida pelo concorrente. Se bem que não sou grande referência quando o assunto é falafel – não acho normalmente muita graça nesse prato. Por fim, os doces ofertados pelo Shawarma Anwar são: doce árabe (R$ 10,00 a unidade), bandeja doce pequena (R$ 18,00) e bandeja doce grande (R$ 30,00). Como não sou lá muito chegado aos doces árabes (beijo, Talitha formiguinha!) desde que provei na infância o halawi (eita, trem ruim!!!), admito que nunca saio da parte dos salgados em um restaurante árabe. Por isso, não tenho o que comentar nesse departamento. Na parte do cardápio voltada para as bebidas, não temos grandes novidades. O Shawarma Anwar oferece as principais marcas de refrigerantes, sucos, cervejas e destilados. Como uma boa casa árabe, também temos chás caseiros gelados. Confesso que raramente resisto a eles. Na minha visão (ou seria no meu paladar?!), não há acompanhamento melhor ao shawarma e ao kebab do que um bom chá gelado. Quando o assunto é bebida, o maior problema deste estabelecimento está na falta pontual de um produto ou outro. Não é raro pedir uma cerveja específica ou um determinado destilado e ouvir do garçom: hoje não temos. Como consequência, o cardápio fica quase sempre desatualizado, o que pode incomodar alguns frequentadores mais apaixonados pelas dosagens alcoólicas (abraço, Enzito!). É uma pena essa falta de cuidado na aquisição dos itens apresentados no menu. Por falar em falta de cuidado, esse talvez seja o principal ponto negativo do Shawarma Anwar no aspecto do atendimento. Não temos aqui um estabelecimento com o serviço voltado para o encantamento do cliente e/ou para a satisfação da experiência dos consumidores. Essa característica acaba, infelizmente, contagiando todos os funcionários da casa. Apesar de educado, o garçom fica sentado no fundo do salão (juro que não me lembro de ter visto um garçom sentado durante o expediente) com a cara amarrada. Quando pega os pedidos, parece desconfiar das solicitações dos clientes. Os lanches podem chegar às mesas um pouco frios. Na certa, para entregar os vários shawarmas ao mesmo tempo para um grupo numeroso de clientes, alguns sanduíches ficaram esperando (e esfriando) na cozinha. No quesito atendimento e simpatia, o placar é de 7 a 1 para o Kebab Paris. Se o serviço prestado deixa um pouco a desejar, a qualidade dos pratos servidos é boa e as porções são geralmente generosas. Confesso que achei quase todos os produtos provados no Shawarma Anwar gostosos e grandes. É verdade que no quesito qualidade gastronômica, o Kebab Paris é superior ao Shawarma Anwar. Se na kebaberia do outro lado da rua você come muito bem, na lanchonete árabe você come muito. Enquanto um preza pela qualidade (Kebab Paris), o outro preza pela quantidade (Shawarma Anwar). Ou seja, as propostas das casas são um tanto diferentes. O Kebab Paris é uma lanchonete turca intimista, tem cara de restaurante, é voltado para a qualidade dos pratos e parece ser direcionado a casais e grupos pequenos de clientes. Por sua vez, o Shawarma Anwar é uma lanchonete árabe de porte mais avantajado, tem jeitão de bar, é voltado para a quantidade dos itens oferecidos e parece focado em atender grupos maiores de clientes. Em outras palavras, a escolha de qual estabelecimento você deve frequentar depende muito mais de sua necessidade específica e de sua vontade pontual do que de um veredito meu de qual deles é melhor ou pior. E aí, você vai hoje de kebab ou shawarma? Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Gastronomia: Kebab Paris - O melhor sanduíche turco de Perdizes

    Fundada em 2013, a kebaberia paulistana possui duas unidades e encanta pelo atendimento amistoso, pela ambientação informal e pelo cardápio caprichado. Você prefere kebab ou shawarma? A dúvida pode parecer sem sentido para muitos brasileiros que não enxergam qualquer diferença entre os dois sanduíches. Há até quem ache que os termos sejam sinônimos na culinária, veja só! Afinal, dá na mesma pedir um hot dog e solicitar um cachorro-quente, não é? O mesmo, então, valeria para x-burguer e cheeseburguer, tortilha espanhola e omelete, croquete de carne e quibe... Por essa perspectiva pouco gastronômica, o kebab seria o jeito turco de se referir ao shawarma e o shawarma seria a maneira árabe de designar o kebab. Contudo, não caia no erro das generalizações tão comum em nosso país. Por aqui, turcos, judeus, árabes, sírios e egípcios, por exemplo, acabam muitas vezes confundidos entre si como se formassem um só povo, constituíssem apenas uma nação e tivessem uma única cultura. Nada mais equivocado, né? O shawarma é um sanduíche árabe feito com pão pita, que no Brasil chamamos popularmente de pão sírio ou de pão árabe. Muito comum nos países mediterrâneos e do Oriente Médio, esse pão é levedado e achatado (costumo brincar que ele é a versão da panificação do chocolate Suflair), feito com farinho de trigo. O recheio tradicional do shawarma é a carne de cordeiro, de vaca e de frango, mas atualmente é possível encontrar várias opções vegetarianas (além de outros tipos de carne, como a de porco – um atentado aos dogmas da religião muçulmana). A principal característica desse sanduíche (que o diferencia do kebab) é a maneira como seu recheio é preparado. A carne do shawarma é marinada em meio ácido (o vinagre é muito usado para isso) e depois colocada em camadas sobrepostas em um espeto. Aí ela é assada verticalmente e de um jeito em que o espeto fique sempre girando. O nome desse tipo de carne é döner, mas no Brasil convencionou-se chamar essa técnica de churrasco grego. Convenhamos: é mais fácil falar churrasquinho grego do que döner, né? Quem vive nas grandes cidades brasileiras já deve ter visto vendedores ambulantes de comida preparando carnes dessa forma. Por isso, o churrasco grego é tão popular no Brasil. O preparo do döner no espeto remete ao passado de árabes e gregos, quando os soldados assavam as carnes no fogo usando as próprias espadas. O animal abatido era fatiado, temperado (minimamente no passado longínquo) e colocado nas lâminas das armas dos guerreiros. Só então as espadas eram colocadas na brasa. Uma vez pronto o assado, a carne era novamente fatiada diretamente da espada (não dava para retirá-la sem que fosse cortada em fatias). Além do pão sírio e do döner, o shawarma é servido comumente com tomate, cebola e molho de alho com iogurte. Porém, os acompanhamentos não são fixos. Cada um acrescenta o que quiser ao sanduíche. Dá para colocar, por exemplo, frutas, legumes, falafel, verduras, queijo etc. Esse é, portanto, o bom e velho shawarma, uma das principais iguarias da culinária árabe. Esse prato se espalhou pelos quatro cantos da Terra e hoje pode ser encontrado nas principais cidades do mundo. Por sua vez, o kebab é um sanduíche turco (a Turquia não é um país árabe!). Apesar de também usar pão pita e de ter em seu recheio carne (tradicionalmente a de cordeiro – etimologicamente, a palavra kebab significa cordeiro grelhado –, mas pode ser de carneiro, cabra, frango ou vaca), ele é diferente do shawarma. Para começo de conversa, a carne do kebab pode ser grelhada, cozida ou mesmo assada (mas sem o espeto giratório). Esqueça, assim, o döner ou o churrasco grego quando falamos de kebab. Na iguaria turca, as carnes vêm normalmente em cubinhos ou em pedaços cortados (e não em fatias como no sanduíche árabe). O recheio do kebab também é normalmente distinto ao do shawarma. No sandubão turco, temos queijos, frutos do mar (algo inconcebível na culinária árabe!), falafel, verduras, legumes, molhos (inclusive o de iogurte), coalhada e até frutas. Estou trazendo essa questão para a coluna Gastronomia porque tem uma rua em São Paulo em que o público literalmente precisa escolher entre o kebab e o shawarma. No caso do comecinho da Av. Professor Alfonso Bovero, via localizada na divisa dos bairros da Pompeia, de Perdizes e do Sumaré, a opção dos fãs de sanduíche é pelo Kebab Paris ou pelo Shawarma Anwar. Os dois restaurantes são quase vizinhos e estampam em suas marcas os nomes dos famosos sanduíches orientais. Aí as perguntas que se ouvem com frequência pelas ladeiras daquela região da cidade são: vamos no Kebab Paris ou vamos no Shawarma Anwar? Hoje a melhor pedida é kebab ou shawarma?! No sábado passado, eu estava na companhia sempre agradabilíssima de Paulinho, Josi e Daniel (um divertido trio de marombeiros) quando tais questionamentos surgiram. Nossa escolha foi pela kebaberia. Ou seja, pelo Kebab Paris. É verdade que nessa casa há tanto o sanduba turco quanto o árabe (nesse último caso, feito à maneira brasileira – eufemismo para dizer que ele não segue a receita original que detalhei com tanta empolgação no início desse post). Se você quiser provar um legítimo shawarma, aí a alternativa mais adequada é o Shawarma Anwar (distante apenas 100 metros). Como estávamos a fim do bom e velho kebab, nossa opção pelo Kebab Paris não poderia ter sido mais satisfatória. Gostei tanto do restaurante turco que resolvi analisá-lo no Bonas Histórias. Além do kebab e do shawarma, o Kebab Paris, uma das boas kebaberias de São Paulo e sem dúvida a melhor da região da Pompéia, Perdizes, Sumaré e Vila Madalena, tem no cardápio porções de falafel, kibes, batatas (fritas ou rústicas, feitas com alecrim e alho frito ou com zattar), arais (pão, kafta e queijo) e pastas (coalhada seca, homus e babaganush, que são servidas com pão sírio – chamado de pão flat por lá). Só não pergunte, por gentileza, se tem esfiha. Olha a gafe!!! A esfiha é um prato árabe e não turco! E as kebaberias, não se esqueça disso, são restaurantes de culinária turca! Apesar da boa variedade de itens, o carro-chefe do Kebab Paris é o tradicionalíssimo kebab de cordeiro (R$ 39,00). Vale a pena destacar que todos os sanduíches turcos de lá são recheados com alface, tomate, cebola roxa, repolho roxo, picles de pepino e coalhada seca e são servidos com molhos tahine, iogurte com hortelã e chimichurri. Eles também acompanham uma porção deliciosa de batatas fritas. Além do cordeiro, as opções de kebab são: kafta (R$ 33,00), carne bovina (R$ 32,00), falafel (R$ 29,00), frango (R$ 31,00), pernil (R$ 32,00), linguiça (R$ 31,00), vegetais (R$ 29,00) e carne de jaca (R$ 32,00). Mesmo sabendo que a preferência quase unânime dos clientes é pelo kebab de cordeiro (que realmente é muito bom!), ainda sim o meu favorito é o de frango. No caso dos shawarmas do Kebab Paris (chamados simplesmente de döner pela kebaberia paulistana – talvez para não lembrar os clientes que o Shawarma Anwar fique no outro lado da rua...), as opções são carne bovina (R$ 23,00), frango (R$ 23,00), pernil (R$ 23,00), linguiça (R$ 23,00) e falafel (R$ 22,00). Os sanduíches árabes são feitos no pão flat/pão sírio e tem como recheio complementar tomate, cebola, picles de pepino e aïoli. Esse prato não acompanha as batatas fritas (para tê-la, é preciso pedir uma porção extra). Gostei muito do Kebab Paris. Além de servir uma comida deliciosa (a combinação de kebab suculento com batatas fritas crocantes e divinamente temperadas é infalível!!!), o atendimento foi informal e extremamente gentil. Minha impressão é que a própria dupla de cozinheiros/chapeiros é quem se reveza no atendimento aos clientes ao longo do dia e da noite. O salão é bem pequeno (deve ter apenas cinco mesas na parte interna e mais três mesas complementares na calçada – abertas quando a friaca paulistana assim permite) e aconchegante. Destaque para a decoração que remete às kebaberias da capital francesa. Não espere, portanto, luxo e muito conforto. A ordem da casa é praticidade, informalidade e boa comida. No verão, escolha as mesas externas. No inverno, a melhor opção (diria que a única boa opção) é ficar no salão interno. Fundado em 2013, o Kebab Paris surgiu da ideia de seu proprietário de trazer para o Brasil o conceito das kebaberias europeias. Em uma visita ao Velho Continente, o empreendedor paulistano reparou que algumas cidades estavam vivenciando uma febre de kebaberias. Por causa da forte imigração do Norte da África e do Oriente Médio nas últimas duas décadas, surgiram vários estabelecimentos de kebab na França, Alemanha, Áustria, Suíça e Finlândia. Em locais com forte presença da comunidade turca, como Paris e Berlim por exemplo, pode ter certeza de que há várias kebaberias à disposição do público. Na Europa, a maioria dos estabelecimentos que vende kebab abre no período da tarde e fica operando até de madrugada – como é que se fala larica em francês, hein? O maior movimento das kebaberias gringas é justamente noite à dentro. Essa era a proposta original do Kebab Paris, inspirado obviamente em seus congêneres parisienses. Contudo, o estabelecimento paulistano abre um pouco mais cedo, ao meio-dia (funciona na hora do almoço), e fecha mais cedo, à meia-noite. Desde a pandemia, ele não funciona de madrugada – algo cada vez mais comum em São Paulo, a cidade que não dormia... Acho que além da queda de demanda nesse horário, a violência urbana (um mal que os brasileiros tão bem conhecem e que não existe com tamanha intensidade em boa parte do continente europeu) não incentiva a permanência do comércio ao longo da madrugada. O Kebab Paris possui duas unidades: na Avenida Professora Alfonso Bovero, 506 – Perdizes fica a matriz (opera diariamente até a meia-noite) e na Rua Schilling, 185 – Vila Leopoldina fica a filial (também trabalha todos os dias, mas de domingo a quarta-feira fecha às 23h30). Os dois estabelecimentos têm salões pequenos e muito parecidos e atendem ao delivery (se bem que nunca usei o serviço de entrega de lá – não posso opinar se é bom ou ruim). Curiosamente, a unidade da Vila Leopoldina é a que fica mais perto da minha casa, mas acabo frequentando mesmo é a unidade de Perdizes (por que será, Marcelinha do meu coração?!!!). O legal de visitar o Kebab Paris da Avenida Professor Alfonso Bovero é notar que você está no meio de uma grande comunidade síria, turca e árabe de São Paulo. Por isso, os bairros da Pompéia, Perdizes, Sumaré e Vila Madalena abrigam vários bares e restaurantes de culinária turca e árabe. Além dos já citados Kebab Paris (turco) e do Shawarma Anwar (árabe que está mais para barzinho do que para restaurante), temos nessa região os tradicionais Dib e o Arabesco (ambos especializados em comida árabe e com uma proposta mais top), o Khadije (culinária do Oriente Médio) e o Saj (árabe de excelente ambientação). E aí, você vai de kebab ou shawarma? Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Setembro de 2012

    Após comemorarem o título da Copa Libertadores, os corintianos agora vibram com o iminente rebaixamento do grande rival para a Série B. 1º de setembro de 2012 – sábado Hoje teve festa no Parque São Jorge. O Timão comemorou o 102º aniversário, talvez o mais alegre de sua história. As celebrações iniciaram-se na noite de ontem com o Coringão Fest, jantar com shows musicais e fogos de artifício para os associados do clube. No sábado de manhã, a festa prosseguiu com desfiles dos esportistas das modalidades terrestres e aquáticas na sede social. Em seguida, uma equipe de corredores do clube, após percorrer a cidade a pé, entregou uma tocha para o presidente corintiano Mário Gobbi. O mandatário alvinegro acendeu a pira instalada ao lado do Parque Aquático. À tarde, as atrações continuaram até culminarem na festa noturna com temática japonesa. As atrações musicais, as opções culinárias e as decorações tiveram inspiração no país sede do Mundial de Clubes da FIFA. "O Corinthians cresce a cada dia, mês e ano. Não dá pra dimensionar a grandeza do clube. Com isso, a diretoria tem que trabalhar para cuidar e aumentar o patrimônio, que é da torcida e dos sócios. Hoje somos os maiores! O Corinthians é a nossa razão de viver", discursou o presidente alvinegro. "Espero uma invasão corintiana no Japão. Não há limites para a Fiel e tenho certeza (de) que teremos um número grandioso de torcedores por lá. O Japão é um antes da nossa chegada e certamente será outro depois que passarmos por lá", acrescentou Gobbi. Se a atmosfera no Parque São Jorge era de comemoração e de muita empolgação, no Centro de Treinamento do Corinthians no Parque Ecológico do Tietê, distante alguns quilômetros da sede social, o clima era outro. A alegria dava lugar à preocupação. Afinal, o Timão não ganha há três partidas e enfrentará amanhã o Atlético Mineiro, líder do Brasileirão. O duelo será no Pacaembu. Para não decepcionar os torcedores, que mais uma vez vão encher o estádio, o técnico Tite anunciou a escalação de força máxima para o confronto entre os alvinegros. Paulo André cumpriu suspensão automática na última rodada e voltará à equipe titular. Já Paolo Guerrero e Jorge Henrique continuam no departamento médico, sendo as únicas baixas da equipe mosqueteira. O argentino Martínez treinou ontem e pode ser relacionado. O camisa 7 deve começar o jogo no banco de reservas. Contra o líder do campeonato, o Corinthians subirá a campo com: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Douglas e Danilo; Emerson e Romarinho. A vitória amanhã é necessária para levantar o moral dos atletas corintianos e para não estragar a festa de aniversário do clube. Do que adiantaria tanto oba-oba pela comemoração de 102 anos do Corinthians se dentro de campo os jogadores do Timão não conseguirem os três pontos, né? Se não dá para recompensar os torcedores pelas derrotas recentes contra Santos e São Paulo, pelo menos um triunfo contra a equipe mais eficiente do campeonato até esse momento ajudará a apagar as feridas abertas nos últimos clássicos estaduais. Além disso, o êxito no domingo evitará a disparada ainda maior do Atlético Mineiro na ponta do Brasileirão. 2 de setembro de 2012 – domingo O Pacaembu estava lotado para ver a melhor partida da 21ª rodada do Brasileirão de 2012: Corinthians e Atlético Mineiro. Diferentemente do habitual, as torcidas dos demais clubes do Brasil estavam hoje torcendo pelo Timão. A ideia era ver o líder da competição perder pela segunda vez no campeonato, algo que deixaria a disputa pelo título um pouco mais empolgante. Para isso ocorrer, os jogadores corintianos teriam que jogar muita bola. O Galo Mineiro vinha fazendo campanha excelente e apresentava um ótimo futebol, com muitos gols e belas jogadas. Sob forte calor em São Paulo, o jogo começou com o Atlético melhor. Mesmo atuando fora de seus domínios, os mineiros pressionavam a equipe de Tite. Ronaldinho Gaúcho comandava as ações ofensivas dos atleticanos e deixava seus companheiros em boas condições para marcar. Na primeira grande oportunidade, o meio-campista deixou o centroavante do Galo na cara do gol. Para sorte dos corintianos, o chute não saiu forte e Cássio defendeu. As melhores chances do Timão no primeiro tempo vieram dos pés de Douglas. Na primeira delas, o Maestro cobrou falta e Paulo André cabeceou para fora. Depois, em chute de longe, o meia mandou por cima da meta atleticana. Na terceira oportunidade, Douglas chutou fraco na pequena área e a bola morreu nas mãos do goleiro adversário. Contudo, a jogada mais perigosa antes do intervalo foi do Galo. Após cruzamento, Cássio se antecipou e abafou a cabeçada do centroavante mineiro. 0 a 0. O segundo tempo foi mais movimentado. O Corinthians voltou melhor e passou a ditar o ritmo da partida. O meio-campo e o ataque corintianos eram rápidos e as chances de gol começaram a se tornar mais perigosas para os mandantes. Romarinho e Emerson desperdiçaram chutes na frente do goleiro visitante. Aos 18 minutos, Douglas cobrou escanteio da direita. Paulo André desviou de cabeça para dentro do gol. Goooooool do Timão. 1 a 0 para os campeões sul-americanos. Explosão de alegria nas arquibancadas do Pacaembu. E alívio para os torcedores de Fluminense, Vasco da Gama, Grêmio, Internacional e São Paulo que acompanhavam o jogo pela televisão. Depois do gol, os principais lances foram polêmicos. O juiz não marcou um pênalti claro em cima de Emerson Sheik. Se o árbitro tivesse apitado corretamente, o Corinthians poderia ter liquidado a fatura ali mesmo. Em seguida, não contente com a lambança inicial, o juizão ainda expulsou Emerson injustamente. O camisa 11 recebeu o primeiro cartão amarelo por reclamação e o segundo por ter colocado sem querer a mão na bola. Desesperado com as marcações do árbitro, Tite chiou bastante na beira do campo e foi também mais cedo para o vestiário. Com um jogador a mais e querendo angariar pontos, o Atlético Mineiro foi para cima nos instantes finais. A defesa corintiana esteve segura e evitou o gol do rival. Resultado no Paulo Machado de Carvalho: Corinthians 1 x 0 Atlético Mineiro. O placar foi bom para o Timão, que voltou a vencer depois de alguns tropeços, e para o campeonato, que se mantém equilibrado e emocionante lá em cima da tabela. 3 de setembro de 2012 – segunda-feira Com a vitória de domingo sobre o Galo, o Corinthians voltou a 9ª posição no Brasileirão (28 pontos). A campanha corintiana nesse campeonato nacional é modesta: 7 vitórias, 7 empates e 7 derrotas; 22 gols a favor e 21 gols contrários (em 21 rodadas disputadas). Se a chance de título é remota para o Timão (está a 16 pontos do líder), a possibilidade de rebaixamento também é mínima (está a 9 pontos do primeiro clube no grupo do descenso). Ou seja, nem Céu nem Inferno para a Fiel em 2012. Com tal cenário, a ordem no Parque São Jorge, a partir de agora, é clara: poupar os jogadores para evitar lesões e desgastes excessivos. O motivo é simples: o Timão não disputará mais nada nessa competição. Repare que essa não é a minha opinião, mas a do técnico Tite. O comandante corintiano declarou após o último triunfo: “A gente não vai brigar pelo título, mas a gente quer consolidar o mais alto (nível) possível na competição". Para os próximos jogos, a ideia é, portanto, mesclar titulares e reservas. "Não dá para jogar sempre com a mesma equipe. Até conversei com a diretoria sobre isso. Você não consegue manter o grau de intensidade. Então vai ter que ser utilizada uma grande quantidade de jogadores”, completou Tite. A utilização dos reservas se faz necessária por outros motivos. A sequência de compromissos da equipe corintiana será muito desgastante em setembro. Serão sete jogos sem intervalo de descanso. O calendário reserva partidas consecutivas aos finais de semana e nos meios de semana. Apesar de não serem longas (Santa Catarina, Rio de Janeiro e Recife), as viagens também atrapalham a recuperação física e emocional dos atletas. Para completar, o elenco corintiano possui muitos jogadores veteranos, mais suscetíveis ao desgaste pelo excesso de partidas. Alessandro, Chicão, Danilo, Douglas, Emerson Sheik e Jorge Henrique já passaram dos 30 anos. Além disso, o excesso de jogos no primeiro semestre começa a ser sentido agora. Vários corintianos têm se machucado e rondam o departamento médico. Para que no final do ano o Timão esteja completo e inteiro no Mundial de Clubes, o rodízio começará. Na quarta-feira, o compromisso será contra o lanterna do Campeonato Brasileiro, o Figueirense, em Santa Catarina. E no sábado, o duelo será com o Grêmio, terceiro colocado, no Pacaembu. Para esses jogos, muitos jogadores até então preteridos pelo técnico Tite ganharão novas oportunidades. Assim, o Corinthians que veremos em campo em breve deverá mesclar titulares e reservas. A decisão do treinador corintiano foi embasada nos planos do fisioterapeuta Bruno Mazzioti. "O planejamento é em função da continuidade no Brasileirão até conseguirmos um número razoável de pontos. E isso está longe ainda. Temos de ganhar o máximo de ritmo, como se houvesse a criação de um novo ciclo, em que o objetivo final fosse a manutenção na Série A, cada vez mais perto dos líderes, e o Mundial. Para isso, estamos elaborando uma estratégia que a carga de treinos e jogos não interfira no planejamento", disse Mazzioti, o responsável pela preparação física dos atletas do Timão. Pelo visto, a preparação para o Mundial já começou extraoficialmente no clube do Parque São Jorge. 4 de setembro de 2012 – terça-feira Agora é oficial. O zagueiro Marquinhos, a grande revelação corintiana nos últimos anos, foi emprestado à Roma. O jovem atleta de 18 anos irá atuar pelo clube italiano até julho de 2013. Ele entende que terá mais oportunidades para entrar em campo lá do que aqui. No elenco do Timão, Marquinhos era o segundo reserva de Tite (Wallace era o primeiro suplente). Na Roma, pela carência de defensores, o novato será o primeiro reserva. Pelo empréstimo, a Roma pagará quase R$ 4 milhões ao clube do Parque São Jorge. Se ao final da temporada europeia os italianos ficarem com o atleta em definitivo, terão que desembolsar mais R$ 7,5 milhões pela aquisição do passe de Marquinhos. Para fechar o acordo, o Timão renovou o vínculo com o zagueiro. Agora o contrato dele com o Timão irá até abril de 2016. O negócio foi bom para as três partes. O Corinthians receberá uma boa grana por um jogador reserva. Os números da transação de Marquinhos, em caso de venda futura, serão próximos aos da transferência de Leandro Castán, antigo titular da zaga corintiana. O jovem jogador, por sua vez, poderá adquirir experiência internacional e ganhar maior rodagem. E a Roma terá um atleta com grande potencial em seu elenco. O ponto negativo dessa história é que perdemos mais um defensor. Castán e Marquinhos foram embora e ninguém foi contratado para substituí-los. Dessa maneira, não podemos ter nenhum zagueiro com problemas até o final do ano. Se Paulo André, Chicão e Wallace se machucarem ou ficarem suspensos, as coisas vão se complicar. Eles precisarão estar inteiros e em forma em dezembro. Para o Mundial Interclubes da FIFA, eu até colocaria cada um dos três em um avião diferente rumo ao Japão. Sabe como é, sempre é bom se precaver, né? Para o jogo de amanhã, em Santa Catarina, contra o Figueirense, o técnico Tite, conforme antecipado na segunda-feira, começará o rodízio de jogadores. Os atletas poupados serão: Danilo, Paulo André e Alessandro. Os demais ausentes são: Cássio e Paulinho na Seleção Brasileira, Guerrero e Ramirez na Seleção Peruana, Emerson Sheik suspenso e Jorge Henrique machucado. Assim, o time corintiano será formado por: Danilo Fernandes; Guilherme Andrade, Chicão, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Guilherme, Edenílson e Douglas; Romarinho e Martínez. A utilização de vários reservas pelo Corinthians nesse jogo provocou muita reclamação dos palmeirenses. Como o Timão enfrentará o Figueirense, uma das equipes que tentam fugir da zona de rebaixamento, Tite foi acusado de atrapalhar propositadamente o Palestra em sua luta para sair das últimas posições do Brasileirão. Se o Figueira vencer o Timão e o Palmeiras perder para o Sport na quinta-feira, os verdinhos vão dormir na penúltima posição do campeonato. Em outras palavras, a Fiel Torcida ficará feliz com qualquer resultado. Se o Corinthians vencer, ótimo. Se os catarinenses saírem vencedores, os palmeirenses se complicarão ainda mais, o que também é excelente. Pelo visto, 2012 é mesmo o ano que esperávamos há anos. 5 de setembro de 2012 – quarta-feira O Orlando Scarpelli, em Florianópolis, estava vazio para Figueirense e Corinthians. A torcida da casa não estava nada satisfeita com seu time e não acreditava em uma vitória nessa noite contra os atuais campeões da Libertadores. Maioria nas arquibancadas do pequeno estádio catarinense, a Fiel fazia muito barulho. Pela televisão, era possível ouvir os gritos empolgados dos corintianos presentes. O jogo começou com um susto para o Timão. No primeiro minuto, a defesa corintiana recuou a bola para Danilo Fernandes. Mostrando pouquíssima intimidade com os pés, o goleiro não dominou bem a bola e quase a colocou para dentro. Ufa! Após a lambança inicial, o Corinthians foi para o ataque. Martínez fez ótima jogada individual e chutou com força no ângulo. A bola só não entrou porque o goleiro catarinense fez belíssima defesa. O gol corintiano parecia questão de tempo para sair. Romarinho e Martínez tiveram boas chances para marcar. O ex-jogador do Bragantino continuava pecando nas finalizações, enquanto o argentino não conseguia superar o bom goleiro adversário. Quando a superioridade do Timão era mais evidente, o Figueira aprontou. No primeiro ataque da equipe da casa, Fábio Santos tirou a bola em cima da linha do gol de Danilo Fernandes. Na continuação da jogada, Guilherme salvou os corintianos ao desviar o chute adversário que tinha destino certo. O lance animou os mandantes que passaram a jogar melhor. O Corinthians não teve mais nenhuma oportunidade para marcar na primeira etapa e se limitou a evitar o gol do oponente. A boa atuação da defesa corintiana durou até os 3 minutos do segundo tempo. Em um cruzamento, o atacante do Figueirense completou para as redes. Gol dos catarinenses. 1 a 0 para eles. O gol obrigou o Timão a sair mais para o jogo. Aí a equipe de Tite voltou a jogar bem. Não é errado afirmar que o segundo tempo foi uma partida de ataque do Corinthians contra a defesa do Figueirense. Douglas e Guilherme, com boas atuações, comandavam o meio de campo corintiano e serviam os atacantes. Quando tinha a chance de chutar ao gol, a dupla de meias também arriscava disparos perigosos. Em uma das melhores jogadas da segunda etapa, Guilherme chutou a bola na trave. No rebote, Edenílson foi abafado pelo goleiro. Alguns minutos mais tarde, Douglas quase empatou em cobrança de escanteio. Por muito pouco, pouco mesmo não saiu gol olímpico. Nos descontos, Romarinho recebeu lançamento na área e chutou forte. O goleiro do Figueira, em noite irretocável, salvou outra vez sua equipe de ser vazada. Resultado em Floripa: Figueirense 1, Corinthians 0. Foi a primeira vitória dos catarinenses em casa em cima do Timão na história do Campeonato Brasileiro. Com esse placar, a pressão sobre os palmeirenses aumentou sensivelmente. Fui dormir feliz. O Figueira ultrapassou o Palmeiras na classificação e a equipe do Parque Antártica começará a quinta-feira na penúltima posição do Brasileirão. Um cheirinho de Série B paira no ar... Como a vida é doce. Até nas derrotas os corintianos saem felizes. 6 de setembro de 2012 – quinta-feira Depois de sucessivos adiamentos, resolvi ir ao Parque São Jorge para ver a taça da Liberta. Visitei hoje o Memorial das Conquistas do Timão e lá estava ela: toda bela, graciosa, imponente e mais ou menos inteira. O troféu da Copa Libertadores da América era o centro das atenções no museu corintiano. Confesso que não me interessei por mais nada no Memorial, apenas pelo símbolo máximo da mais importante conquista da história do Sport Club Corinthians Paulista. Foi um pouco difícil chegar perto da preciosidade. Os visitantes do museu pareciam não querer sair de perto dela. Eles ficavam ao seu redor tirando fotos de todos os ângulos e posições. Algo que deveria durar alguns segundos, demorava quase meia hora. E a fila não caminhava. Evidentemente, ninguém reclamou. À tarde de todos fora reservada apenas para contemplar e reverenciar o troféu da Libertadores. A conversa entre os corintianos no Memorial das Conquistas era uma só: esse ano o Palmeiras cai para a segunda divisão. A certeza do rebaixamento do grande rival estava evidenciada nas piadas, nos depoimentos apaixonados e na torcida da Fiel. Quem melhor relatou como o Brasileirão de 2012 deveria ser encarado foi o rapaz na minha frente na fila. Ele falou para o amigo: "Eu nem sei quem está brigando para ser campeão (do Campeonato Brasileiro). Quando eu olho a classificação, eu só olho lá para baixo. Vejo quantos pontos o Palmeiras tem da última equipe fora da zona do rebaixamento. Para mim, é isso o que tá valendo". Gostei dessa perspectiva. Como o Timão está, extraoficialmente, fora de qualquer disputa nacional nesse ano, minha diversão será torcer contra o alviverde da capital paulista. Com tal pensamento, voltei para casa para acompanhar o jogo entre Palmeiras (19º colocado) e Sport Recife (18º). A partida aconteceu no Pacaembu e quem perdesse ficaria na penúltima posição do Brasileirão. Quem vencesse pularia para a 17ª colocação e ficaria a apenas alguns pontos do 16º (com esperanças de sair na próxima rodada da incômoda posição de degola). No trajeto até minha casa, encontrei vários torcedores do Palestra no ônibus e no metrô. Obviamente, eles iam para o estádio. A fisionomia de todos era de preocupação. Muitos faziam contas e explicavam para os companheiros as possiblidades matemáticas do campeonato. Na hora, me lembrei de que já vivera aquela situação. Em 2007, o ano da triste queda corintiana para a Série B, cansei de fazer contas e de torcer contra os adversários diretos. Tudo em vão! O jogo dessa noite foi bom. Infelizmente, o Palmeiras venceu os pernambucanos por 3 a 1. O Pacaembu estava lotado de palmeirenses que vibraram muito com os três pontos conquistados. Dessa forma, a equipe paulista ultrapassou o Sport e o Figueirense na classificação, apesar de todos continuarem entre as quatro piores equipes da competição. Já imaginou a decepção dos palmeirenses se o seu time realmente cair, hein? Eles irão da empolgação total pela conquista da Copa do Brasil em julho para o desânimo total em dezembro. Maravilhoso! 7 de setembro de 2012 – sexta-feira O feriado da Independência do Brasil foi marcado por algumas novidades no Sport Club Corinthians Paulista. De manhã, a diretoria alvinegra confirmou a contratação do experiente zagueiro Anderson Polga. Ele tem 33 anos e vem do Sporting de Lisboa. O defensor ficou famoso por integrar o elenco da Seleção Brasileira que conquistou a Copa do Mundo de 2002. Polga vem para reforçar o Timão no restante do Brasileiro e, principalmente, no Mundial. As saídas recentes de Leandro Castán e Marquinhos deixaram a Fiel Torcida preocupada. Anderson Polga veio de graça para o Timão, pois seu contrato com a equipe portuguesa havia terminado em maio. O único problema é que ele está sem jogar há bastante tempo. Trata-se de um bom jogador, que possivelmente ficará na reserva de Chicão e Paulo André. O 7 de Setembro de 2012 também foi marcado pelo jogo da Seleção Brasileira em São Paulo. No duelo com a África do Sul, Cássio e Paulinho, os convocados do Timão, começaram a partida na reserva. No segundo tempo, quando o time brasileiro vencia por 1 a 0, o volante corintiano entrou em campo. Porém, não deu para a Fiel Torcida comemorar. Paulinho acabou se machucando. Ainda não chegaram informações sobre a gravidade da contusão. De qualquer forma, a condição clínica do meio-campista já preocupa o departamento médico do Corinthians. Sem os jogadores selecionados para as Seleções Brasileira e Peruana (Ramirez e Paolo Guerrero foram novamente convocados), com Douglas e Chicão suspensos (tomaram o terceiro cartão amarelo contra o Figueirense) e com Emerson e Jorge Henrique lesionados (para variar!), o técnico Tite terá que se virar para escalar uma equipe minimamente competitiva na próxima rodada. O adversário de amanhã do Timão será o Grêmio. Os gaúchos estão na 3ª posição do Brasileirão e entraram de vez na briga pelo título após incrível arrancada. O tricolor de Porto Alegre foi quem mais pontuou nas últimas dez rodadas e é favorito para o duelo com o Corinthians, mesmo com o jogo ocorrendo em São Paulo. As novidades do lado paulista são: Júlio César voltará a ser titular do gol alvinegro; Ralf e Guilherme formarão a dupla de volantes; e Edenílson jogará mais uma vez como meia. Após dar lugar a Danilo Fernandes na última rodada, Júlio retorna à meta corintiana. A ideia do treinador é promover um rodízio entre os goleiros reservas quando Cássio não puder atuar. Justo! Já Guilherme, contratado há poucos dias da Portuguesa, foi muito bem no segundo tempo contra o Figueirense e jogará mais uma vez ao lado de Ralf. Nas últimas partidas, Guilherme, que fora contratado para a reserva do camisa 5, tem desempenhado o papel de Paulinho, mais à frente. Como consequência, Edenílson, que seria encarregado de substituir o camisa 8, passou a se posicionar mais perto do ataque, quase como um meia-atacante. Vamos ver se as várias alterações no meio de campo não vão prejudicar o Timão. Júlio César; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Guilherme, Edenílson e Danilo; Martínez e Romarinho. Esse é o Corinthians escalado para pegar o perigoso time do Grêmio amanhã à noite no Pacaembu. 8 de setembro de 2012 – sábado O sábado à noite não é tradicionalmente reservado para as partidas de futebol no Brasil. Os torcedores não estão acostumados ao horário das 21 horas nesse dia. No ano passado, por exemplo, os jogos agendados para esse período tiveram a menor média de público do Campeonato Brasileiro. Só mesmo a Fiel Torcida para quebrar essa escrita, né? Mais uma vez o Pacaembu recebeu bom público para ver Corinthians e Grêmio. Independentemente do horário e do dia da semana, quase 27 mil pagantes compareceram às arquibancadas para empurrar o Timão. E rapidamente os torcedores corintianos não se arrependeram do programa alternativo do sábado à noite. Assim como havia acontecido no clássico contra o São Paulo, o Coringão começou a partida com tudo. Um verdadeiro bombardeio no gol adversário ocorreu nos 15 minutos iniciais. Aos 5 minutos, Martínez fez jogada pela esquerda e cruzou para a grande área. Guilherme chutou forte, mas o goleiro gaúcho fez ótima defesa. No rebote, Edenílson pegou a sobra e passou para Ralf. O camisa 5 deu um belo corte no marcador e mandou a bola no ângulo. Indefensável. Golaço de Ralf. Timão 1 a 0. Aos 10 minutos, Guilherme tocou para Edenílson na entrada da grande área adversária. O meia-atacante ficou dançando com a bola para chamar a marcação. Com isso, Guilherme entrou livre na área. Edenílson passou a bola para o volante, que bateu com categoria para fazer 2 a 0. Era o segundo gol do Corinthians na noite. E era também o segundo golaço que o Pacaembu conferia na partida. A superioridade corintiana era absurda. Tentando mudar o panorama do jogo, o técnico gremista fez logo de cara algumas substituições. Não deu certo. O Timão continuava melhor. Martínez teve duas ótimas chances para marcar. Na primeira, após receber belo passe de Edenílson, o argentino chutou alto. Fora! Na segunda, o atacante vindo do Vélez passou pela defesa inteira do Grêmio e mandou no ângulo. O goleirão adversário espalmou para escanteio. Uhhhhhhhh! No primeiro lance do segundo tempo, Romarinho jogou a bola na frente e correu para pegá-la. Nisso, o marcador gaúcho deu um carrinho por trás e pegou as pernas do Iluminado. Pênalti claro! O estádio inteiro viu. Apenas uma pessoa não achou o lance ilegal. E o sujeito cego (ou mal-intencionado) foi justamente o juizão. Absurdo! Aos 15 minutos, em lance fortuito, o Grêmio diminuiu para 2 a 1. Alessandro demorou para acompanhar a linha de impedimento e deixou o atacante oponente em condições para cruzar. Aí o centroavante tricolor cabeceou livre e fez o primeiro dos visitantes. Com o placar apertado, o Corinthians se fechou na defesa. Guilherme, Ralf e Edenílson, que até então subiam bastante para o ataque, receberam ordens de Tite para só cuidarem da defesa. Até Martínez ajudou lá atrás. A vitória parecia certa. Aos 45 minutos veio o grand finale. O garoto Giovanni, atacante corintiano oriundo das categorias de base e que entrara no finalzinho, fez um golaço. Ele driblou o marcador com o corpo e chutou por cobertura. Timão 3 a 1. Uma vitória feita só com lindos gols. 9 de setembro de 2012 – domingo É difícil dizer quem foi o melhor em campo ontem. Os três volantes corintianos tiveram desempenhos sensacionais. Além de marcar muito como sempre, Ralf está agora saindo para o jogo e marcando gols. Está virando um volante moderno, como diria Mano Menezes. Espero que o técnico da seleção tenha visto a partida de sábado! Guilherme também mostrou estar à altura dos titulares. O garoto marca forte e tem habilidade para ir à frente. Não foi à toa o seu primeiro gol com a camisa do Timão. Ele já merecia ter marcado contra o Figueirense, na quarta-feira. Em minha opinião, o principal destaque positivo do duelo com o Grêmio foi Edenílson. Diferentemente dos companheiros de posição que marcaram gols na noite passada, o camisa 21 não balançou as redes. Para falar a verdade, nem precisou. Ele participou das jogadas dos dois primeiros gols e foi um leão quando o Corinthians era ameaçado lá atrás. Quando atuou como meia-atacante, foi bem. Quando voltou um pouco mais e precisou atuar como volante, foi perfeito. O que dizer mais, hein?! Edenílson Andrade dos Santos é natural de Porto Alegre e tem 22 anos. Ele foi contratado no ano passado pelo Timão após se destacar com a camisa do Caxias. Justamente no Campeonato Gaúcho de 2011, Edenílson foi eleito o melhor segundo volante da competição. A atuação do conterrâneo chamou a atenção do treinador corintiano, que pediu a sua aquisição. E a diretoria alvinegra prontamente o atendeu. O garoto chegou para ser reserva de Paulinho, o titular absoluto da posição. Aos poucos, Edenílson foi entrando nas partidas e passou a agradar o treinador. Na campanha do título brasileiro do ano passado, o novato atuou várias vezes e em várias posições: primeiro volante, segundo volante, meia e lateral. Aos olhos de Tite, Edenílson era seu curinga pois podia ser utilizado em vários lugares do campo. No começo de 2012, com a contusão de Alessandro, o técnico corintiano não pensou duas vezes: promoveu o camisa 21 à titularidade da lateral direita. Edenílson entrou muitíssimo bem e não saiu mais no time. Mesmo com a recuperação do capitão, Tite preferiu manter o novo titular durante a Libertadores. Infelizmente, no jogo de volta das oitavas de finais da competição sul-americana, Edenílson quebrou um dedo do pé. A fatalidade ocorreu após forte dividida com o jogador do Emelec no final do primeiro tempo. O atleta corintiano precisou passar por cirurgia e foi cortado da lista da Libertadores (um tal Romarinho entrou em seu lugar...). Após meses de recuperação, Edenílson quebrou o nariz quando voltava a se condicionar fisicamente. O novo acidente ocorreu nos treinamentos no Parque Ecológico do Tietê. Aí foram mais algumas semanas no DM. Só agora o versátil jogador está retornando às partidas. Com Paulinho na seleção, Ralf evoluindo tecnicamente, Edenílson esbanjando categoria e Guilherme chegando com tudo, o Coringão não tem o que reclamar dos volantes. Até estou mais tranquilo. Se Ralf e Paulinho forem negociados com o exterior, como a imprensa sempre divulga, já temos os substitutos. Agora só falta o Edenílson desencantar e fazer o primeiro gol com a camisa do Timão. 10 de setembro de 2012 – segunda-feira O grande assunto do futebol nacional na segunda-feira é a situação cada vez mais desesperadora do Palmeiras no Campeonato Brasileiro de 2012. O alviverde da capital paulista perdeu no domingo à noite para o Atlético Mineiro por 3 a 0. Foi um chocolate! Os atleticanos passearam em campo e a goleada poderia ter sido muito maior. Tem sido muito divertido assistir aos jogos dos verdinhos nessa temporada. Para piorar a situação dos palmeirenses, todos os demais times que lutam para fugir do rebaixamento ganharam pontos na última rodada: o Figueirense (19º) empatou com a Ponte Preta em Campinas; o Coritiba (16º) ganhou em casa do Flamengo; o Bahia (15º) goleou o Vasco no Rio; o Santos (14º) empatou o clássico com o São Paulo; o Sport (17º) levou os três pontos contra o Cruzeiro; e o Atlético Goianiense (20º) empatou com a Portuguesa. O Palmeiras está na 18ª posição do Brasileirão com 20 pontos. Está 5 pontos atrás do Coritiba (o 16º colocado e primeiro clube fora da zona do desespero). Mesmo faltando ainda muitos jogos para a competição terminar (temos mais 15 rodadas), a possibilidade de rebaixamento dos verdinhos é grande. O quadro sombrio é explicado por duas variáveis: mau futebol desempenhado nesse campeonato (diria nessa temporada inteira) e a matemática cruel (é preciso vencer 8 das 15 próximas partidas – algo difícil para quem só venceu 5 dos 23 jogos até aqui). Quer ter uma ideia de como o desafio do Palmeiras em se manter na primeira divisão é difícil?! No Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan de hoje, o comentarista Joseval Peixoto brincou com o apresentador do programa. No meio das notícias gerais, ele disse: “Nesta segunda-feira, a grande notícia mesmo é a provável queda do Palmeiras para a Série B no ano que vem. Você sabe qual é a única coisa que pode salvar o Verdão?”. Com a resposta negativa do colega, Joseval prosseguiu: “O martelo!”. “Como assim o martelo???”, indagou-se o narrador. “É o martelo. O palmeirense tem que pegar um martelo, ir à igreja, despregar O HOMEM da cruz e pedir para ele salvar seu time. Só ELE poderá salvar o Palmeiras nesse ano”. A segunda-feira terminou com o amistoso da Seleção Brasileira. O jogo foi contra a China em Recife. Os jogadores comandados pelo técnico Mano Meneses não tiveram nenhuma dificuldade para vencer o fraco adversário por 8 a 0. Paulinho, machucado no último jogo do Brasil, e Cássio, goleiro reserva, não foram a campo. Assim, os jogadores corintianos não puderam demonstrar seu futebol para o restante da nação. Pelo menos eles não se cansaram desnecessariamente. Ambos poderão entrar em campo na próxima rodada do Brasileirão, na quarta-feira. A única dúvida é Paulinho. Se ele não se recuperar da contusão, não será escalado. Para quem gosta da seleção, a expectativa é pela nova convocação do treinador brasileiro. Em setembro, o Brasil enfrentará a Argentina em dois jogos pelo Super Clássico das Américas. Como só podem ser chamados atletas que atuam nos dois países, mais corintianos podem vestir em breve a camisa amarelinha. Vamos conferir! 11 de setembro de 2012 – terça-feira A terça-feira foi marcada pelas comemorações no CT Joaquim Grava. Tudo por causa da nova convocação do Brasil. O Corinthians teve quatro jogadores selecionados pelo técnico Mano Menezes. Os corintianos vão integrar o próximo time nacional que enfrentará a Argentina no Superclássico das Américas. Ao lado do São Paulo, o Timão é a equipe com o maior número de atletas cedidos para a Seleção. Além de Paulinho e Cássio, figuras já pertencentes ao grupo principal do Brasil, agora Ralf e Fábio Santos também vestirão a camisa verde-amarela no duelo sul-americano. A convocação de Ralf é justa. Diria mais: ela é muito justa, justíssima! O camisa 5 já havia sido chamado para a disputa do Superclássico do ano passado. O nosso Pitbull atuou como titular nos dois jogos contra a Argentina em 2011 e cumpriu muito bem seu papel. Afinal, não sofremos gols nos 180 minutos. A expectativa é que Ralf atue novamente como titular ao lado de Paulinho. O talento e o entrosamento da dupla de volantes do Corinthians serão importantíssimos para a Seleção Brasileira. A convocação de Fábio Santos, por sua vez, é um tanto polêmica. Tudo por causa do seguinte paradoxo: Fábio não tem talento para figurar entre os melhores da nação. Trata-se de um jogador mediano. Bom às vezes. Nada mais. Assim, sua convocação é uma escolha discutível. Por outro lado, não há nenhum lateral-esquerdo melhor do que ele atuando no país nesse momento. Fábio tem cumprido bem seu papel no Timão. É seguro e eficiente. E se não há ninguém melhor, nada mais correto do que a presença do camisa 6 corintiano no grupo de Mano Menezes. Esse é o paradoxo! Foi nesse clima de empolgação que os corintianos fizeram o último treino antes do jogo contra a Ponte Preta. O duelo com a Macaca, válido pela 24ª rodada do Brasileirão, será o quarto encontro das duas equipes em 2012 (dois pelo Paulistão e dois pelo Brasileirão). Somente o Santos terá enfrentado mais vezes o Timão nesse ano (cinco partidas entre Paulistão, Brasileiro e Libertadores). Das novidades corintianas, a mais importante é a escalação da jovem dupla de volantes. Como Ralf está suspenso (três cartões amarelos) e Paulinho voltou machucado dos amistosos do Brasil (não é nada muito grave, mas ele não poderá atuar nessa rodada), Guilherme e Edenílson vão jogar juntos no meio de campo. Vamos torcer para eles repetirem o bom futebol exibido contra o Grêmio. Se o miolo do meio de campo do Timão não tem as principais peças, nas demais posições teremos força máxima. O Corinthians irá com o seguinte time para o próximo duelo do Campeonato Brasileiro: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Guilherme, Edenílson, Danilo e Douglas; Romarinho e Emerson Sheik. Se vencer, o Timão pode pela primeira vez no campeonato ultrapassar a 9ª colocação. Toda vez que atingiu essa posição na competição de 2012, a equipe do Parque São Jorge tropeçou e foi ultrapassada por algum adversário. Terminaremos, enfim, a rodada entre os oito melhores do Brasileirão? Essa resposta eu trago amanhã. 12 de setembro de 2012 – quarta-feira A noite de quarta-feira foi fria em São Paulo. Faz quase dois meses que não chove e a qualidade do ar na cidade está péssima. Mesmo com tudo isso, aproximadamente 20 mil corintianos compareceram ao Paulo Machado de Carvalho para ver o confronto entre o Timão e a Ponte Preta. A equipe de Campinas tem sido a pedra no sapato do Corinthians nos últimos jogos. Eles venceram as duas últimas partidas e eliminaram os atuais campeões brasileiros no Paulistão. Não por acaso, a vontade de ganhar era grande por parte da Fiel Torcida. A única coisa que queríamos era: vingança! O primeiro tempo foi ruim. Na verdade, foi muito ruim. Péssimo! As equipes brigaram muito pela posse de bola e as divididas fortes preponderaram. As jogadas ficaram basicamente no meio de campo. Nenhum time conseguia penetrar na defesa adversária. O Corinthians errava muitos passes na frente da área da Ponte e os visitantes não conseguiam explorar a velocidade dos seus atacantes. Só houve uma boa oportunidade antes do intervalo. O centroavante da Ponte recebeu dentro da área corintiana e chutou forte. A bola passou no lado esquerdo de Cássio e saiu. Ufa! O segundo tempo, graças à reza dos torcedores, começou melhor. Fábio Santos fez boa jogada pela esquerda e cruzou. Ninguém aproveitou. A Ponte respondeu. Em dois chutes de fora da área, a Macaca quase abriu o placar. Na primeira, a bola saiu. Na segunda, Cássio fez belíssima defesa. O gol ponte-pretano amadurecia. E ele apareceu em uma cobrança de falta. Depois de viajar pela área corintiana duas vezes, a bola foi cabeceada pelo zagueiro da equipe de Campinas. Gol da Ponte! 1 a 0. Nossos vilões mostravam mais uma vez força. Vencendo no Pacaembu, a Ponte Preta recuou. Tite colocou Giovanni e Adilson. O Timão ficou mais ofensivo. Tínhamos praticamente seis atacantes em campo: Emerson, Danilo, Jorge Henrique, Romarinho, Giovanni e Adilson. O volume de jogo dos mandantes aumentou e as chances começaram a aparecer. Giovanni chutou cruzado e a bola passou raspando a trave. Aos 44 minutos do segundo tempo, em um chute da defesa corintiana para o ataque, Paulo André desviou de cabeça. A bola sobrou na marca do pênalti para Emerson, o mais decisivo dos avantes do Timão nos últimos anos. Aí, meu amigo, não preciso dizer o que aconteceu, né? Sheik chutou e caixa! Goooooooool. O jogo estava empatado. Festa dos corintianos no estádio. E fim de jogo: 1 a 1. A alegria pelo gol de empate no finalzinho foi proporcional à tristeza pela notícia da suspensão de Emerson. O camisa 11 não poderá entrar em campo nos próximos seis jogos. Ele foi condenado pelo tribunal da CBF por causa da expulsão na partida contra o Atlético Mineiro, quando xingou o juiz. Sem Emerson, o Corinthians perderá força no setor ofensivo. O único consolo é saber que a Ponte Preta não será nosso adversário no final do ano no Japão. Eita time mais encardido esse, Santo Deus! 13 de setembro de 2012 – quinta-feira A quinta-feira foi incrível. Tudo por causa da derrota do Palmeiras na noite passada. O Verdão perdeu mais uma, dessa vez para o Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, por 3 a 1. A vitória carioca foi de virada, com requintes de crueldade e com gritos de "olé" vindos das arquibancadas. Se alguém ainda duvidava da possibilidade de rebaixamento do Palestra, agora a certeza predomina na mente de todos. Preocupada com a revolta dos torcedores, a diretoria do Palmeiras preparou um esquema especial de segurança para a chegada do time a São Paulo. Curiosamente, a medida foi desnecessária. Os palmeirenses estão tão frustrados com o time, que ninguém perdeu tempo indo ao aeroporto xingar ou brigar com os jogadores. Para se ter uma ideia do clima de apreensão em São Paulo, os principais jornais paulistas estamparam o drama alviverde logo nas capas. As manchetes nos cadernos de esporte e nas páginas principais dos diários foram monotemáticas. O Estado de São Paulo declarou: "O Palmeiras continua no seu calvário". A Folha de São Paulo foi mais direta: "Ladeira abaixo". O Lance! constatou: "Caindo!". O Jornal da Tarde e o Diário de São Paulo anunciaram, respectivamente: "Está cada vez pior" e "Buraco sem fundo". O mais divertido da última derrota palmeirense foi a forma pitoresca com que pude assisti-la. Passei os dois últimos dias no hospital sendo acompanhante de uma pessoa muito querida que passou por uma cirurgia. Como não tinha nada melhor para fazer por lá, liguei a TV do quarto à noite para ver Vasco e Palmeiras. Quando o Verdão fez o gol, o silêncio no corredor do hospital foi total. Porém, quando o Vasco empatou logo em seguida, ouvi uns gritos vindos dos quartos ao lado: "Goooooooooooool". Achei graça daquela reação dos meus "vizinhos". Ainda no primeiro tempo, um enfermeiro entrou no quarto para saber como a paciente estava. Ela estava bem, mas a maior preocupação do profissional da área médica, como pude perceber, estava na televisão. Ao constatar a fisionomia fechada dele, eu perguntei "Pelo visto você é palmeirense, né?". Ele respondeu: "Não, não. Sou corintiano. Estou triste porque o Palmeiras não está perdendo. Eles precisam cair". Aí, quando eu falei que também torcia para o Timão, ele me questionou: "Por que então você não assiste ao jogo no quarto ao lado?". Ele me contou que havia ali um grupo de corintianos assistindo à partida de maneira animada. Não pensei duas vezes. Conferi a paciente (ela estava dormindo como um anjo) e fui para o quarto vizinho. Apresentei-me como corintiano e fui muito bem recebido pelo grupo. Cerca de três fanáticos alvinegros estavam secando o Palestra (um tinha acabado de ser operado e outros eram visitantes). O enfermeiro aparecia a cada cinco minutos para acompanhar o placar. Na hora do segundo gol do Vasco, a alegria foi geral. No terceiro, o derradeiro da derrota do Verdão, os gritos foram tão altos que a chefe de Enfermagem precisou ir até lá para acabar com a algazarra. Nos minutos finais, cada corintiano teve que assistir à partida no seu quarto. 14 de setembro de 2012 – sexta-feira Há dois anos, o palhaço Tiririca foi eleito deputado federal com o seguinte slogan: "Pior do que está não fica". Infelizmente para os palmeirenses, essa frase não pode ser repetida agora. A tendência é que as coisas só piorem para os lados do Parque Antártica até o final da temporada. O técnico Luiz Felipe Scolari foi mandado embora do Verdão ontem. O comandante, campeão mundial com a Seleção Brasileira em 2002, é considerado o culpado pela péssima campanha do alviverde no Campeonato Brasileiro de 2012. Obviamente, a culpa não é só dele. Mas como não dá para mandar todos os péssimos jogadores embora, a direção palmeirense preferiu mudar o técnico. Adeus Scolari! Para agravar o quadro, o próximo jogo do Palmeiras será contra o... Quem você acha que eles poderiam enfrentar em um momento tão delicado, hein? Qual o pior adversário possível para um time em crise, senhoras e senhores?! Sim, os palmeirenses vão encarar o grande rival! No próximo domingo, Palmeiras e Corinthians se enfrentarão. Uma vitória corintiana poderá afundar ainda mais o adversário e colocá-lo em uma das maiores crises da história palestrina. Que delícia! Para completar o cenário trágico, começam a surgir notícias nebulosas envolvendo a diretoria palmeirense. Sócios do clube, alguns conselheiros e pessoas ligadas à administração contestam várias contratações feitas nos últimos anos. Eles colocam em xeque os estranhos números do balanço financeiro. Também polemizam sobre boa parte dos contratos assinados pelos últimos presidentes palestrinos. Um forte cheiro de escândalo exala nos ares do Parque Antártica. Portanto, o Palmeiras entrará em campo domingo sem treinador, com a torcida revoltada com os jogadores, com a diretoria brigando entre si, com os associados exigindo mudanças no clube e o time não podendo mais perder pontos. Do outro lado, os corintianos chegam muito felizes e sem qualquer responsabilidade. O jogo será no Pacaembu, a casa alvinegra. Mesmo com o mando de campo do Palmeiras, é inegável que os jogadores do Timão se sintam à vontade no estádio municipal. Além disso, os atletas do Parque São Jorge não querem decepcionar outra vez a Fiel Torcida. O Coringão perdeu os dois últimos clássicos estaduais (para Santos e São Paulo) e a vontade de voltar a ganhar de um grande rival no Brasileirão é enorme. E nada melhor do que a vitória ser contra o Palmeiras, nosso maior adversário e que corre sérios riscos de cair para a segunda divisão. Uma derrota para o Timão no domingo não rebaixará matematicamente o Verdão. Contudo, o caminho para a Série B ficará muito bem desenhado. Segundo os matemáticos especializados em futebol, hoje o Palmeiras tem 90% de chance de cair. Como é bom falar isso! O Palmeiras tem 90% de chance de ficar entre os quatro últimos colocados no Campeonato Brasileiro e de ser rebaixado. Repito: 90% de chance de ir para a segundona em 2013. Domingo, a cidade de São Paulo irá parar. Pela primeira vez nos últimos anos, são-paulinos e santistas torcerão pelo Corinthians. Todos juntos contra os palmeirenses! 15 de setembro de 2012 – sábado Tite é, desde ontem, o treinador mais longevo das principais divisões do futebol brasileiro. Com a demissão de Luiz Felipe Scolari do Palmeiras na quinta-feira e a saída de Marcelo Veiga do Bragantino no meio do ano, o comandante corintiano se tornou o profissional com mais tempo no cargo em nosso país. Apesar de estar há menos de dois anos no Parque São Jorge (iniciou o trabalho em 20 de outubro de 2010), ele se valeu da forte cultura ainda presente nos clubes do Brasil de mandar o técnico embora ao primeiro resultado negativo. O treinador ficar uma temporada inteira no mesmo time ainda é um feito raríssimo e notável por aqui. Dois anos é milagre! "Dá muita satisfação, orgulho e gratidão. Tenho de agradecer ao Corinthians por acreditar em mim, por ter me dado tempo. Meus bons trabalhos sempre foram de longevidade. Minha carreira foi construída assim. Fico honrado", declarou Tite na sala de imprensa do Centro de Treinamento corintiano. O vice-presidente do Timão, Luiz Paulo Rosenberg, aproveitou para explicar o que representava para o Corinthians a manutenção por tanto tempo de um profissional como Tite: "Essa é uma das coisas mais diferentes do novo Corinthians para o velho. É essa percepção que o tempo que o técnico fica no clube é patrimônio do clube. Minha confiança no Tite é enorme. Fico triste quando vejo um patrimônio como é o Felipão, deixar de fazer parte da solução. O Palmeiras sabe o que é bom para ele". Para comemorar o feito profissional, o técnico gaúcho irá interromper momentaneamente o rodízio de atletas que vinha fazendo nos últimos jogos. Tite deverá escalar força máxima no domingo. As ausências serão por causa de contusões e suspensões. Guerrero e Ramirez voltaram machucados da Seleção Peruana. Chicão passou por cirurgia nessa semana e ficará um mês fora dos gramados. Alessandro recebeu o terceiro cartão amarelo no último jogo. E Emerson Sheik, punido pelo tribunal da CBF por ter xingado o juiz na partida contra o Atlético Mineiro, também não estará em campo. Assim, o Timão está escalado da seguinte maneira para o Derby: Cássio; Guilherme Andrade, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Douglas; Romarinho e Martínez. A grande novidade do Palmeiras para o clássico estará no banco de reservas. Sem tempo hábil para contratar um novo treinador, a diretoria palestrina promoveu interinamente o técnico da equipe sub-20. E sabe quem era o treinador palmeirense dos juniores? Narciso! O ex-jogador do Santos foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Junior desse ano como técnico do Timãozinho. Há alguns meses, ele tinha, para surpresa de todos, trocado o Parque São Jorge pelo Parque Antártica. Mal teve tempo de fazer o trabalho nas categorias de base do Palmeiras, Narciso terá agora a chance de estrear como comandante do time profissional. Confesso que fiquei surpreso com a decisão dele de mudar de clube. Sua primeira tarefa na equipe de cima do alviverde será dificílima. Se no primeiro turno nós usamos os reservas e vencemos o Palmerinha, imagine só o que acontecerá agora com os titulares do Timão em campo! 16 de setembro de 2012 – domingo A torcida palmeirense fez a parte dela. O Estádio Paulo Machado de Carvalho recebeu bom público se considerarmos a situação calamitosa da equipe mandante. Aproximadamente 23 mil pagantes foram ver o clássico entre Verdão e Corinthians. Do lado preto e branco, eram apenas 2 mil corintianos espremidos no setor dos visitantes. Como é estranho ver a Fiel em minoria no Pacaembu, né? O Derby começou truncado. As disputas se limitavam às ações no meio de campo. Os jogadores entravam forte nas divididas e ninguém queria perder a posse de bola. Não houve qualquer lance de perigo nos 20 minutos iniciais, apenas faltas e muitos cartões amarelos. Os palmeirenses eram os mais nervosos tanto no gramado quanto na arquibancada. O destaque negativo do jogo era Luan, atacante palestrino. Visivelmente transtornado, ele se jogou na área e pediu pênalti aos 17 minutos. Como não foi nada e o jogador reclamou muito, o árbitro o advertiu com cartão amarelo. Aos 21 minutos, a defesa palmeirense falhou na saída de bola. Romarinho roubou a bola dentro da grande área adversária e mandou para as redes. Gol do Timão. 1 a 0 no clássico. Na hora de comemorar, Romarinho saiu, como de costume, para o lado onde normalmente fica a Gaviões da Fiel. Só que dessa vez o espaço estava sendo ocupado pelos torcedores rivais. Luan ficou inconformado com o que entendeu ser uma provocação do corintiano e partiu para cima do camisa 31. Na confusão, Romarinho recebeu cartão amarelo e Luan foi advertido verbalmente pelo juiz. Menos de 5 minutos depois, o atacante palmeirense foi expulso. Após entrada violenta em Guilherme em lance sem bola, Luan ganhou o tão aguardado cartão vermelho. Na frente no placar e com um homem a mais, o Corinthians resolveu se fechar na defesa. O Timão saía apenas nos contra-ataques. O Palmeiras só conseguia chegar ao ataque através das bolas paradas. Em duas cobranças de falta, o Verdão quase empatou. Na primeira, Cássio espalmou para fora da grande área. Na segunda, a bola bateu na trave. Vixe! O Coringão voltou para o segundo tempo com vontade de liquidar logo a fatura. Aos 3 minutos, Romarinho chutou livre na pequena área. Para fora! Quase o segundo gol corintiano no Derby. Aos 8, Douglas recebeu na direita e cruzou para Paulinho cabecear com precisão. Goooooool. 2 a 0 e festa em preto e branco no Pacaembu. Com a vitória assegurada, o Corinthians recuou ainda mais. O Palmeiras teve pelo menos cinco oportunidades para diminuir, mas falhou em todas. O nervosismo era evidente do lado verde. Com tranquilidade e sem muito esforço, a equipe de Tite bateu o adversário e piorou ainda mais a crise do rival. Ao final da partida, os palmeirenses externaram a indignação. Cadeiras, copos de água, tênis e tudo mais foram atirados no gramado. Parte da torcida uniformizada invadiu o setor onde os dirigentes palestrinos estavam para agredi-los. Muita gente que vestia a camisa verde chorava. O rebaixamento está muito, muito próximo! 17 de setembro de 2012 – segunda-feira Com a vitória do Corinthians no clássico, é claro que assisti a todos os programas esportivos. Tanto no domingo à noite quanto na segunda-feira, não desgrudei da televisão. Para o meu espanto, o espaço dedicado ao Timão foi mínimo. O destaque na maioria dos veículos de comunicação foi para a grave situação do Verdão. Vários jornalistas e torcedores, inclusive da própria agremiação alviverde, já consideram a equipe do Parque Antártica como um dos clubes rebaixados nesse ano. Não sei se você se lembra, mas eu estou dizendo isso há algum tempo. O time palmeirense é muito ruim! Eles conquistaram a Copa do Brasil na sorte e pela fraqueza dos adversários. Para termos ideia do quão séria é a questão, duas das três horas do Mesa Redonda, tradicional programa de TV dominical da Rede Gazeta, foram dedicadas ao Palestra. Os jornalistas debateram a péssima partida do time dirigido interinamente por Narciso e, principalmente, os atos de violência da torcida após o Derby. O Pacaembu foi depredado e a conta do conserto será mandada para o presidente palmeirense. Além disso, diretores do clube foram ameaçados de morte. O restaurante de um vice-presidente foi invadido e destruído por vândalos. Nessa segunda-feira, o programa Linha de Passe da ESPN Brasil reservou quase uma hora para a crise do Palmeiras. Os comentaristas discutiram se a iminente queda para a Série B irá levar o clube de origem italiana para a falência. Também debateram se a conquista da Copa do Brasil foi decisiva para o rebaixamento. A mesma discussão rolou no rádio. Era só ligar na Jovem Pan durante a programação esportiva para se ouvir falar de Palmeiras, Palmeiras e Palmeiras. Os corintianos, por sua vez, estão eufóricos. Não há mais nada que nós podemos pedir para Deus. O Timão está a caminho do Japão para o Mundial de Clube e seu rival histórico está seguindo para a Série B. Por falar em viagem para o outro lado do mundo, a FIFA está assustada. Normalmente cerca de 2 mil a 3 mil torcedores dos times sul-americanos e europeus adquirem ingressos para a competição em dezembro. Em menos de 12 horas, os corintianos acabaram com os 10 mil ingressos colocados à venda pela entidade máxima do futebol. E há mais corintianos querendo comprar. Os dirigentes da FIFA ficaram perplexos com o tamanho da torcida alvinegra. Eles já cogitam colocar mais ingressos à disposição da Fiel. O gerente de futebol do Timão, Edu Gaspar, agendou para os próximos dias uma viagem para a Suíça, sede da entidade, para explicar a real dimensão da torcida e a necessidade de mais entradas. Talvez o pessoal da FIFA não tenha visto uma reportagem que saiu na semana passada no jornal portenho Cronista. Segundo a pesquisa realizada pela agência argentina de marketing Gerardo Molina/Euromericas e divulgada na imprensa do país de Diego Armando Maradona, o Corinthians possui 30 milhões de fãs no Brasil. Dessa forma, o Timão ocupa o posto de quarto maior clube do mundo em tamanho da torcida. Só perdemos para Flamengo e para os mexicanos Chivas e América. Por essa perspectiva, qual é a surpresa da invasão corintiana ao Japão em dezembro, hein? 18 de setembro de 2012 – terça-feira Eu poderia falar hoje sobre as músicas que foram cantadas pelos corintianos no final do jogo de domingo. “Arerê, o Palmeiras vai jogar a Série B"; “Ô, você vai cair, Porcô”; e “Sou campeão do mundo e você não conseguiu” eram as melhores. Poderia comentar as sátiras dos sites de humor que zoam com o Palmeirinha. No Anima Tunes, a animação mais acessada nessa terça-feira foi "Verdão na Série B". Nela, Romarinho aparece cantando a seguinte canção, ao ritmo de Balada de Gustavo Lima: "Galera eu já vou avisando/ Aqui quem fala é o bom/ Se o jogo é contra o Palmeiras/ eu já marco gol/ E se a zaga der mole/ eu já faço a festa/ Até dar olá/eu dou para a torcida do Palestra/ Olha que coisa/ não teve arrancada/ Em todo lugar a feijoada esfaqueada/ Ser Bi da B/ Se o Timão ganhar/ Olha que coisa/ que história mais engraçada/ Nós jogando para a japonesada/ E o Palmeiras na B/ E podem nem voltar/ B, B, B, B, B, B, B, B/ De volta para a Séria B/ B, B, B, B, B, B, B, B/ É o Verdão na Série B". As declarações mais polêmicas após o clássico foram dadas pela afiada língua de Luiz Paulo Rosenberg, vice-presidente do Corinthians. Lembram-se dele? Ele foi quem disse, na reta final da Libertadores, que o Corinthians era um time medíocre, sem fama internacional. Agora ele aproveita para ganhar moral com a Fiel: "Campeonato Brasileiro sem o Palmeiras é cortar um pedaço do Corinthians. Nós queremos o Palmeiras disputando a competição. Até porque precisamos dos seis pontos que eles nos dão na tabela". Pensando bem, acho que já falei muito do Palmeiras nos últimos dias. Meu querido e amado O Ano que Esperávamos Há Anos não merece ter tanto espaço sendo ocupado por uma equipe da Série B, né? Por isso, vou evitar falar desse pequeno clube do bairro paulistano de Perdizes. Saiba que vou me esforçar muito para não tratar da crise palestrina por aqui. Afinal, esse é o assunto predileto no momento de dez entre dez corintianos. Mesmo com o meu provável silêncio, por favor, não se esqueçam: a alegria proporcionada pelos tropeções do Palmeirinha aos torcedores rivais, como tudo indica, será crescente até o final de 2012. Agora vamos voltar a falar do Timão, o time que realmente importa. Com a vitória no Derby, o plano do técnico Tite é alcançar o mais rapidamente possível o número de 45 pontos ganhos na classificação. Com esse patamar atingido, o Corinthians afastará definitivamente o risco de rebaixamento e terminará o campeonato em uma posição digna. Só faltam mais 10 pontinhos para serem conquistados (estamos com 35). Quando isso ocorrer, o treinador corintiano poderá desprezar de vez a competição nacional e escalar os reservas nos jogos finais do Brasileirão. Aí a equipe titular focará exclusivamente nos preparativos para o Mundial Interclubes da FIFA. Esse planejamento foi apresentado em uma entrevista coletiva pelo Tite. "Depois que (o Corinthians) chegar a esses pontos (45 conquistados) começa outra etapa, sim”, afirmou o gaúcho sem dar mais detalhes sobre o futuro próximo do Timão. 19 de setembro de 2012 – quarta-feira A quarta-feira não teve jogo do Timão. As atenções dos corintianos mais fanáticos estavam voltadas para as partidas internacionais de hoje. À tarde, o Chelsea entrou em campo pela primeira rodada da Copa dos Campeões da Europa. O futuro adversário do Timão no Japão estreou em casa na fase de grupos da temporada 2012-2013 contra a Juventus. Era uma bela oportunidade para sabermos como nossos futuros adversários estavam. Com esse pensamento, vi o jogo. Os ingleses jogaram muito bem. Destaque para o brasileiro Oscar, em sua primeira partida como titular dos Blues. O meia fez dois golaços e já demonstrou estar à vontade na nova casa. Outro que foi muito bem foi o belga Hazard. Ramires, Lampard e Terry, a base do time londrino no ano passado, estiveram seguros e foram eficientes. A vitória estava praticamente celada para os atuais campeões europeus com os dois gols de Oscar na primeira meia hora. Entretanto, a Juve foi para o ataque e reagiu. Aí no finalzinho da partida, os italianos chegaram ao empate. 2 a 2 foi o placar derradeiro. O balanço dos 90 minutos é o seguinte: o Chelsea tem um ótimo time, mas é possível sim, senhoras e senhores, o Corinthians derrotá-lo em dezembro. À noite, o programa foi assistir a Seleção Brasileira enfrentando a Argentina no Superclássico das Américas no Estádio Serra Dourada. A ideia era ver os atletas do Parque São Jorge em um desafio internacional. No lado brasileiro, Paulinho, Ralf e Fábio Santos começaram como titulares. Cássio ficou no banco. No lado oposto, Martínez era o atacante titular. Como é bom ver nossas estrelas sendo protagonistas de suas seleções, né? Paulinho foi disparado o melhor brasileiro em campo. O camisa 8 do Timão roubava as bolas dos adversários, começava as jogadas e ia para o ataque finalizar. Paulinho é o melhor meio-campista do futebol brasileiro e do continente na atualidade. Foi dele o gol de empate do Brasil no primeiro tempo. De cabeça, o volante mandou para as redes. O Brasil estava perdendo porque Martínez fez o gol da Argentina no começo da partida. O camisa 7 corintiano foi um dos melhores do lado adversário. Seu tento foi um golaço. Ele começou a jogada, passou para o companheiro, correu para a grande área, recebeu a bola matando no peito e disparou uma bomba para o gol. Eu sei que já falei isso por aqui, mas vou repetir: o argentino é craque! Não vai demorar para ele assumir a posição de titular do ataque do Timão ao lado de Emerson. Anote aí essa minha previsão e depois pode me cobrar. Ralf fez boa partida também. Já Fábio Santos foi discreto. Não se destacou nem comprometeu. Ou seja, jogou como sempre. Nota 6 para ele. O único pesar foi a ausência de Cássio no gramado. O gigante da camisa 1 do Coringão ficou os 90 minutos no banco de reservas. Calma, Cássio, sua vez ainda vai chegar! E para quem tem curiosidade de saber quanto terminou o jogo, o placar foi 2 a 1 para o Brasil. No último minuto do segundo tempo, um brasileiro foi derrubado na grande área e o juiz marcou pênalti. Neymar cobrou e garantiu a vitória verde-amarela em Goiânia. A segunda partida do Superclássico será na Argentina daqui a duas semanas. 20 de setembro de 2012 – quinta-feira O Corinthians é o atual campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior, o principal torneio nacional de garotos até 18 anos. Logo seria de se imaginar que o Timão tivesse vários atletas da categoria de base brilhando no time profissional, né? Essa, infelizmente, não é a realidade. Nenhum titular da equipe de Tite foi formado no clube. O último titular absoluto advindo da categoria de base foi o goleiro Júlio César. Da nova geração, os mais promissores são o zagueiro Marquinhos, o lateral-esquerdo Denner, o volante Gomes, o armador Matheuzinho e o atacante Douglas. Você se lembra deles? Eu acompanhei de perto a Copinha e descrevi no O Ano que Esperávamos Há Anos as atuações dos garotos. Em janeiro, eles brilharam com a camisa do Timãozinho e viraram profissionais algumas semanas depois de erguer o troféu da Copa São Paulo. Deles, o único que conseguiu se destacar um pouco mais na equipe do Timão foi Marquinhos. O jovem zagueiro mostrou personalidade e fez boas atuações no Campeonato Paulista. Ele impressionou tanto a comissão técnica que foi até inscrito na Libertadores no lugar do Adriano. Marquinhos chamou a atenção até dos gringos. A Roma o contratou por empréstimo e hoje a promessa corintiana desfila pelos gramados italianos. Dificilmente ele voltará para o Brasil. Seu passe deverá ser comprado pela Roma no final do empréstimo. A maioria dos promovidos no início do ano também foi emprestada para outras equipes para ganhar experiência. Esse foi o destino de Gomes, Matheuzinho e Douglas. Os dois primeiros vestem a camisa do Bragantino, enquanto o último está no Paraná Clube. Todos disputam atualmente a Série B do Brasileiro. Quem ficou no grupo de profissionais do Parque São Jorge foi o lateral Denner. Ele é o reserva imediato de Fábio Santos. Como o camisa 6 corintiano está suspenso na próxima partida, essa seria a grande chance de Denner estrear no profissional. Contudo, o garoto se machucou e não poderá entrar em campo. O técnico Tite terá que improvisar alguém no setor. Outros três meninos da base chegaram sem grandes expectativas e conseguiram aos poucos arranjar um espacinho no grupo dos profissionais. Primeiro foram o zagueiro Antônio Carlos e o volante William Arão. O capitão corintiano na Copa São Paulo atuou várias vezes no primeiro semestre e atualmente é figura constante no banco de reservas. O volante também teve chances de mostrar seu valor, inclusive no segundo semestre. Outro que está mostrando bom futebol é Giovanni. O meia-atacante de 18 anos fez um belo gol na partida contra o Grêmio e tem entrado constantemente no segundo tempo. Ele é atualmente a primeira opção para a reserva de Douglas e Danilo e conquistou o espaço até então ocupado pelo peruano Ramirez. O garoto deverá ganhar mais oportunidades no Campeonato Brasileiro à medida que os principais jogadores do time começarem a ser poupados para o Mundial. Vamos torcer por eles. 21 de setembro de 2012 – sexta-feira Muita gente fala que o atual time do Corinthians não tem nenhum craque. As frases mais comuns são: "A força do Timão não está na individualidade e sim no conjunto"; "A grande estrela corintiana é o esquema tático, não os jogadores"; e "O mérito do Tite foi montar um elenco de atletas esforçados que compensam a falta de talento com a vontade de correr atrás da bola". Vou ser sincero. Também pensava assim sobre o Corinthians no começo da temporada. Para mim, isso tinha ficado mais evidente no ano passado, na conquista do título do Campeonato Brasileiro. Agora tenho outra opinião. Temos sim um legítimo craque em campo e seu nome é José Paulo Bezerra Maciel Júnior. Ele veste a camisa 8 e todos o conhecem por Paulinho. Titular da Seleção Brasileira, o volante corintiano de 24 anos evoluiu demais em 2012 e é nesse momento o grande jogador do futebol brasileiro depois de Neymar. Esse fato ficou nítido na partida de quarta-feira contra a Argentina. Paulinho foi o dono do jogo. Sua atuação com a camisa verde-amarela foi primorosa. Quando volta para marcar, dá segurança para o sistema defensivo. Quando avança, constrói as jogadas para os companheiros. Ele também tem excelente finalização, tanto com os pés quanto com a cabeça. Seu gol no jogo não foi fruto do acaso ou da sorte. Foi talento puro! No Corinthians, Paulinho é o motorzinho da equipe, o pulmão do meio de campo. Ele também é o artilheiro corintiano na temporada. Sim, o jogador que mais fez gols com a camisa alvinegra do Parque São Jorge nesse ano é um homem de contenção e não um atacante. Incrível! Por essas e outras, não entendo o porquê de muita gente ainda insistir que não há um craque no time de Tite. É só abrir os olhos para ver uma estrela com luz própria bem no centro do gramado. Quando o camisa 8 não joga, o Timão cai de rendimento e se torna uma equipe limitada tecnicamente. Quando ele está em campo, o jogo alvinegro flui naturalmente. Paulinho nasceu na cidade de São Paulo e foi revelado nas categorias de base do Pão de Açúcar (hoje Audax). Ao se profissionalizar, atuou por equipes menores do país até ser negociado aos 17 anos com o FC Vilnius da Lituânia. O volante jogou duas temporadas no Leste Europeu, primeiro na Lituânia e depois na Polônia. Lá sofreu com o racismo. Descontente com o comportamento preconceituoso dos torcedores, Paulinho retornou ao Brasil em 2008. Voltou a jogar pelo Pão de Açúcar, na quarta divisão do Campeonato Paulista. O bom futebol apresentado chamou a atenção do Bragantino. Em 2009, Paulinho foi o destaque da equipe de Bragança Paulista no Campeonato Paulista e no Brasileiro da Série B. No ano seguinte, foi contratado pelo Corinthians como uma das boas promessas do nosso futebol. Paulinho chegou em 2010 ao Parque São Jorge para ser o reserva de Elias, o segundo volante corintiano na época. Quando o titular foi vendido para a Europa no meio daquela temporada, o atual camisa 8 assumiu a vaga e não saiu mais do time. Hoje, ele é a grande referência técnica do time de Tite. O volante artilheiro é o grande craque corintiano, o melhor atleta do atual elenco do Timão. Se tudo acontecer dentro do previsto, Paulinho deverá ser um dos titulares do Brasil na Copa de 2014. 22 de setembro de 2012 – sábado Amanhã, o Timão jogará contra o Botafogo no Rio de Janeiro. A partida será transmitida pela televisão aberta e eu vou acompanhá-la de casa. O Bota é um antigo freguês do Corinthians. Apesar de os cariocas terem vencido o confronto do primeiro turno (aquele jogo festivo da entrega das faixas da Libertadores no Pacaembu, quando os jogadores corintianos entraram com a cabeça nas nuvens e tomaram de três), a superioridade dos paulistas nos últimos anos é quase absoluta. Nas partidas realizadas no Rio, o Bota não vence o Timão pela principal competição nacional há sete anos. Mesmo com o bom retrospecto corintiano, o Bota ainda está na nossa frente no atual Campeonato Brasileiro. O Fogão é o 6º colocado (39 pontos). O Corinthians é o 9º (35). Uma vitória da equipe do Parque São Jorge no domingo permitirá que ganhemos algumas posições e que encostemos de vez na equipe da estrela solitária. Para o jogo desse final de semana, Tite colocará força máxima. As ausências corintianas serão Chicão (lesionado), Emerson Sheik (suspenso) e Danilo e Fábio Santos (com três cartões amarelos). Sem essas peças, o treinador gaúcho optou pelo esquema tático com três atacantes. Douglas será o meia-armador e o trio de ataque será formado por Romarinho, Martínez e Guerrero. Edenílson será o lateral-direito e Alessandro será improvisado na lateral esquerda (Denner, o lateral canhoto reserva, está machucado). Será mais uma boa oportunidade para vermos o time com três atacantes. Como já falei inúmeras vezes, essa é a minha formação tática preferida. O Timão fica mais ofensivo. Por consequência, leva muito mais perigo ao gol adversário. É verdade que também fica mais vulnerável na defesa. Mas pelo menos o jogo fica mais bonito, mais aberto, mais agradável de ser visto. Anote aí: Cássio; Edenílson, Paulo André, Wallace e Alessandro; Ralf, Paulinho e Douglas; Romarinho, Martínez e Paolo Guerrero. Esse é o time corintiano escalado para o duelo de domingo no Estádio do Engenhão. Na última entrevista coletiva antes da partida, Tite deixou clara qual era sua intenção para esse duelo: somar pontos! "A prioridade é alcançar a zona de segurança. Acredito que com mais 10 pontos (totalizando 45) estaremos em uma zona segura. Quando chegarmos nessa situação, vamos começar (a pensar) no Mundial". Com essas palavras, o empate não é considerado um mal resultado pelo nosso treinador. Do outro lado, a meta é exclusivamente a vitória. O Botafogo disputa com Vasco da Gama, São Paulo, Internacional e Cruzeiro uma vaga na Libertadores do ano que vem. Somente os quatro primeiros colocados do Brasileirão poderão disputar a competição continental na próxima temporada. As vagas de Atlético Mineiro, Fluminense e Grêmio (os líderes do Brasileirão) já parecem encaminhadas. Assim, os botafoguenses vão partir para cima dos corintianos em busca dos três pontos. Algo me diz que será um jogão. Com as duas equipes querendo jogar para frente, não há como não vermos um bom futebol no domingo à tarde. 23 de setembro de 2012 – domingo Antes da partida entre Botafogo e Corinthians, a repórter de campo da Band foi entrevistar uma personalidade do clube mandante: a gandula Fernanda Maia. Você se lembra dela? A moça dava "assistência" para os jogadores botafoguenses no Campeonato Carioca. Eu já falei dela aqui no O Ano que Esperávamos Há Anos. A gandula continua chamando a atenção nos jogos no Engenhão e até entrevista concede! Têm algumas coisas que só acontecem mesmo no Botafogo. Quando a bola rolou, os olhares dos torcedores voltaram-se para dentro do campo. Em menos de um minuto, Edenílson cruzou e Martínez cabeceou forte. O goleiro adversário defendeu. Na jogada seguinte, o Botafogo avançou e chutou de fora da área, o que exigiu a intervenção de Cássio. O jogo prometia! Aos 5 minutos, a defesa corintiana falhou e o holandês Seedorf, o astro botafoguense, completou cruzamento. Bola na rede. 1 a 0 para o Bota. Nem deu tempo para a Fiel ficar triste. Na jogada seguinte, depois de uma cobrança de falta de Douglas, ocorreu um bate-rebate danado na área do Botafogo. Oportunista, Guerrero mandou para a meta adversária. Gol do Timão! Esse foi o primeiro tento do peruano com a camisa 9 do Corinthians. Placar igualado no Rio de Janeiro. Cinco minutos depois, veio a virada. Após receber excelente passe de Douglas, Romarinho chutou forte. O goleiro defendeu parcialmente e aí os zagueiros do time carioca fizeram duplo pênalti. Tanto Martínez quanto Guerrero foram derrubados quando iam completar para o gol. Na cobrança da penalidade máxima, Douglas estufou mais uma vez as redes. 2 a 1 para o Timão. O domínio corintiano se manteve até o final do primeiro tempo. Douglas era o melhor em campo e desfilava fazendo ótimas jogadas. O Maestro dava passes milimétricos para os companheiros, roubava bolas, driblava e chutava para o gol. Nota 10 para o camisa 10. Na melhor chance de o Corinthians ampliar, Romarinho cabeceou bem, mas não conseguiu superar o arqueiro do Bota. O segundo tempo foi chato. O Corinthians se fechou na defesa e o Botafogo não conseguia superar o paredão adversário. A partida caminhava para a vitória de 2 a 1. Nenhum dos dois lados levava perigo. O ataque corintiano cansou e Martínez, Guerrero e Douglas não repetiram as boas atuações da primeira etapa. Por isso, foram substituídos. Aí faltando 15 minutos para o término da partida, Seedorf chutou forte de fora da área. A bola resvalou em Wallace e matou Cássio. Os cariocas empataram. 2 a 2. Os minutos finais foram de pressão da equipe da estrela solitária. Quase eles saíram com a vitória. Tivemos sorte em não tomar o terceiro gol. Com o empate fora de casa, o Corinthians chegou à sua melhor posição nesse Brasileirão. O Timão é agora o 8º colocado (tem 36 pontos). Só faltam 9 pontinhos na conta de Tite para a equipe corintiana pensar de vez no Mundial. Vamos atrás desses pontos derradeiros, Fiel Torcida! 24 de setembro de 2012 – segunda-feira Saiu a tabela do Mundial de Clubes da FIFA. O sorteio realizado em Zurique, na Suíça, foi amigável para os corintianos. O adversário mais temido nas semifinais, o mexicano Monterrey, acabou caindo no lado do Chelsea. Ufa! Assim, o Timão só pegará um adversário de bom nível na final. A equipe do Parque São Jorge estreará na competição internacional em 12 de dezembro, em Toyota, contra um time japonês, africano ou neozelandês. O nosso primeiro adversário será definido a partir da oitava de final e da quarta de final. Na outra semifinal, o Chelsea enfrentará o vencedor do duelo entre o campeão asiático e o campeão da América Central e do Norte. Para ficar mais claro, segue abaixo o chaveamento completo. Os campeões europeus e sul-americanos já começam nas semifinais. Os vencedores das competições asiática, africana e da América Central e do Norte iniciam nas quartas. E o campeão japonês (país sede) e o ganhador da Oceania precisam disputar um jogo preliminar válido pela oitava de final. A grande decisão, provavelmente entre Timão e Chelsea, será em 16 de dezembro em Yokohama. A torcida corintiana comemorou o cronograma das partidas. Os jogadores, a comissão técnica e os dirigentes do clube paulista preferiram, por sua vez, esconder a empolgação. Edu Gaspar, gerente de futebol, viajou para a Europa para acompanhar o sorteio e declarou após a definição da tabela: "Em se tratando de Mundial, não tem essa de escapou, de ficou melhor ou pior. Ninguém é campeão à toa. Ninguém ganha uma liga à toa. Ninguém vai chegar lá por sorte. É mérito". A verdade, no entanto, é outra. O Monterrey era um adversário temido pelos corintianos e a comissão técnica já acompanhava vários jogos dos mexicanos. Havia até uma viagem prevista para a América do Norte por parte dos olheiros alvinegros. Eles iam acompanhar o campeão da Concacaf in loco. Agora o planejamento será alterado. Para nossa sorte, o caminho até a decisão do mundial ficou mais fácil. E a chance de um possível vexame corintiano na semifinal diminuiu sensivelmente. Ufa! 25 de setembro de 2012 – terça-feira Confesso que comprei O Lance! de hoje por causa da capa. A manchete principal do jornal trazia em letras garrafais: "Bi + Fácil". A imagem atrás do título jornalístico era a do distintivo do Corinthians com o planeta Terra no lugar do círculo tradicional. Bela imagem! A corintianada deve ter, como eu, comprado à rodo o diário para saber os detalhes da competição da FIFA no final do ano. Nas páginas internas, as principais notícias eram em relação ao Mundial de Clubes da FIFA. Os jornalistas de O Lance! não se cansavam de dizer: "com o sorteio realizado no domingo, o caminho do Timão ficou mais fácil até a decisão". Outros alertavam para os perigos da semifinal. A lembrança era do Internacional de Porto Alegre que foi eliminado em 2010 por um time africano, o Mazembe, e nem chegou à final. Só que o Corinthians não é o Inter, diriam os integrantes do Bando de Loucos. O clima de Mundial já é total entre a Fiel Torcida. A FIFA anunciou a venda de 20 mil ingressos para as duas semifinais, sendo a maioria para brasileiros (leia-se corintianos). A invasão preta e branca vai se anunciando. Para a final, todas as entradas comercializadas no primeiro lote também foram adquiridas por torcedores de Brasil e Inglaterra. A pergunta que fica é: se os estádios japoneses possuem capacidade para 50 mil, 80 mil pessoas, por que é vendida apenas uma fração disso para os torcedores, hein? A FIFA, responsável pela organização do torneio, não é uma entidade muito séria e não duvido que haja maracutaias aí. Para evitar a frustração de grande parte dos corintianos que deseja viajar para o outro lado do mundo, o gerente de futebol do Timão, Edu Gaspar, fez uma longa reunião na Suíça com os dirigentes da FIFA para entender o problema e para resolvê-lo. "Coloquei a eles sobre a demanda, sobre a falta de informações, e eles disseram que vão colocar tudo a limpo. Já é um passo bacana eles quererem ajudar. Vamos ver se vão atender nossas necessidades realmente", declarou o cartola alvinegro. Em meio aos preparativos, eu fico imaginando como fica a cabeça dos jogadores. Todo mundo só fala do Mundial, do Chelsea, do título da competição intercontinental e da viagem ao Japão. E eles precisando pensar nos jogos finais do Brasileirão. Convenhamos que as próximas partidas não têm qualquer importância para o Timão. Mesmo sabendo disso, as declarações dos atletas são extremamente diplomáticas. "Sabemos da dificuldade que vai ser (o Mundial), independente do adversário. Mas primeiro é focar no Brasileiro para ficar numa zona de conforto e depois olhar para o Mundial", afirmou Paulinho, o dono da camisa 8 do Coringão. Repare que o discurso é alinhado ao da comissão técnica. Os jogadores foram orientados para não comentar nada sobre a competição internacional antes do término do Campeonato Brasileiro. Se os profissionais não podem falar, eu como torcedor posso. Queremos o Mundial de 2012!!! Vamos tirar o pé das divididas nos duelos do torneio nacional e vamos nos preparar bem para dezembro, que é o que realmente importa no calendário corintiano. Temos que chegar inteiros e voando no Japão, time! 26 de setembro de 2012 – quarta-feira A quarta-feira foi de muito trabalho no CT do Parque Ecológico do Tietê. Sem nenhum compromisso do Brasileirão no meio de semana, o elenco corintiano ficou no QG treinando e se preparando para os próximos jogos. Paolo Guerrero era visivelmente o jogador mais empolgado nas atividades. O peruano fez domingo o primeiro gol com a camisa do Timão e estava radiante. Em seu país natal, o feito do centroavante foi noticiado em manchetes de primeira página nos diários de notícias. Tão importante quanto o gol anotado por Guerrero foi a boa partida feita pelo atacante. Ciente disso, Tite veio à público afirmar que está pensando em manter o camisa 9 como titular nos próximos jogos (contra Sport em São Paulo e contra o Náutico em Recife). O treinador alvinegro gostou da equipe com um homem de referência na área. O Timão ficou mais ofensivo e levou mais perigo ao gol adversário. Na opinião do gaúcho, Guerrero já teria tido uma sequência maior de jogos se não fosse a contusão recente e as constantes convocações para o time nacional. Por falar em convocação, Ramirez e Paolo Guerrero foram novamente chamados para defender a Seleção Peruana. Na equipe de Mano Menezes, o único corintiano selecionado foi Paulinho. Os três desfalcarão o Coringão por duas partidas, a 30ª e 31ª rodadas, quando o Timão enfrentará a Portuguesa e o Cruzeiro fora de casa. Paolo Guerrero já parece adaptado ao Brasil. Ele fala português com os companheiros no dia a dia e essa semana deu entrevista coletiva falando o idioma local com certa desenvoltura. O aprendizado da língua de Camões aconteceu quando o peruano ainda atuava no futebol alemão. Com muitos brasileiros no elenco do Bayern de Munique, entre eles Lúcio e Zé Roberto, jogadores de Seleção Brasileira, Paolo pôde praticar. Perguntado pelos jornalistas como está sendo a experiência de viver em São Paulo e no Brasil, o peruano se saiu com essa: “Escuto um pouco de sertanejo, um pouco de pagode, funk. Tudo um pouco. No Brasil eu gosto de tudo, e fica perto do Peru. Só o trânsito é difícil”. Realmente andar de carro por São Paulo não é fácil. O camisa 9 foi bem discreto nas primeiras atuações com a camisa do Timão. Entrando geralmente no segundo tempo, Guerrero pouco pegava na bola e não chutava ao gol. Das três partidas realizadas como titular até agora, a evolução do gringo é evidente. Contra o Atlético Goianiense, a atuação foi péssima. Contra o Santos, ele fez jogo razoável. E dessa vez contra o Botafogo foi bem. Ao mesmo tempo em que Paolo está se adaptando aos poucos ao futebol brasileiro e ao estilo de jogar de Tite, o time corintiano também está voltando a saber como atuar com um atleta fixo na grande área adversária. É um aprendizado mútuo. Vamos ter paciência. Ainda temos dois meses e meio até o Mundial. Enquanto isso, a ideia é que o Corinthians vá evoluindo e os novos contratados possam se ambientar melhor ao clube paulista, à cidade e a proposta de jogo do nosso treinador. 27 de setembro de 2012 – quinta-feira Os próximos seis adversários do Timão no Campeonato Brasileiro serão: Sport (17º colocado), Náutico (14º), Flamengo (10º), Portuguesa (13º), Cruzeiro (9º) e Bahia (15º). Note que essas equipes estão posicionadas atrás do Corinthians na classificação geral e muitas estão brigando para fugir do rebaixamento. Na teoria, são times mais fracos e que entram como zebras nos duelos com o atual campeão da Libertadores. Na prática, o desespero para fugir da Série B os torna, muitas vezes, oponentes mais duros, principalmente quando atuam em seu território. Surpreendentemente, o Corinthians tem tido mais êxito no 2º turno quando enfrenta as equipes do alto da tabela. Contra equipes mais fortes, os corintianos entram em campo mais ligados e fazem bons jogos. Por consequência, conseguem ótimos resultados. Quando os adversários são de menor qualidade, o empenho parece menor e os placares são menos favoráveis para a gente. Mesmo assim, o desempenho geral no returno do Brasileirão tem sido positivo. O Timão é o 3º colocado quando consideramos as últimas 7 rodadas. São 12 pontos ganhos (3 vitórias, 3 empates e apenas 1 derrota), com 10 gols a favor e 6 contra. Apenas Bahia e Fluminense, ambos com 14 pontos nesse turno (4 vitórias, 2 empates e 1 derrota), estão melhores. Se pensarmos bem, outubro deverá ser interessante para a Fiel Torcida. Se o Corinthians jogar bem e conseguir acumular muitos pontos, poderá se isolar na liderança do returno e conseguir mais algumas posições na classificação geral. Talvez a melhor meta para o Timão seja o título simbólico de campeão do 2º turno do Brasileirão. Essa é única conquista possível de ser obtida nesse campeonato. Se, por outro lado, os triunfos não acontecerem e a equipe comandada por Tite perder alguns dos próximos jogos, também não será nada mal. Com as vitórias dos nossos adversários, iremos ajudá-los a escapar do descenso. E ao ajudá-los, estamos indiretamente atrapalhando um certo clube da cidade de São Paulo de origem italiana da cor verde (que prometi não citar tão cedo nas páginas de O Ano que Esperávamos Há Anos) a permanecer no próximo ano na Série A. Aconteça o que acontecer, os corintianos estarão felizes. Isso sim é o mais importante! A cada dia tenho mais certeza do quão memorável tem sido a temporada de 2012. Não há a menor dúvida de que esse é o período mais importante da história do Sport Club Corinthians Paulista, o ano tão aguardado pelo Bando de Loucos. É emocionante imaginar que na segunda metade da década de 1950, durante todos os anos 1960 e em boa parte da década de 1970, os corintianos almejavam um único título para aplacar a longa espera iniciada em 1954. Também é inacreditável a demora de 80 anos até chegarmos ao primeiro título nacional. O primeiro grande troféu internacional, o Mundial da FIFA de 2000, só chegou após 90 anos. Adeus tempos de tristeza! Adeus tempos de sofrimento e de gozação dos rivais! Entramos agora em uma nova era, um período em que o Timão, enfim, brilhará entre os clubes mais importantes e poderosos do futebol mundial. 28 de setembro de 2012 – sexta-feira A torcida corintiana pode estar empolgada com o time, mas Tite tem problemas para resolver no dia a dia. Emerson, suspenso por seis jogos, completará nesse final de semana a quarta partida de ausência. A diretoria alvinegra até cogitou pedir o efeito suspensivo ou recorrer da decisão do tribunal. Porém, ela preferiu deixar a penalidade como está. É melhor não mexer nesse assunto, pois ao invés de ajudar, a nova decisão dos juízes esportivos pode ser ainda pior para o camisa 11. Outro que deverá voltar aos gramados no próximo mês é Chicão. Na véspera do clássico contra o Palmeiras, o camisa 3 passou por cirurgia de hérnia. Essa intervenção é igual à realizada pelo técnico no começo do ano. A operação foi um sucesso e o zagueiro já está clinicamente bem. Agora começará os exercícios físicos para retomar a forma aeróbica. Em 20 dias, deverá ser escalado novamente. Enquanto Chicão espera para voltar, sua vaga está sendo ocupada por Wallace. O baiano foi bem na maioria dos jogos. A única exceção foi na partida contra o Botafogo, no último final de semana. Wallace falhou no primeiro gol dos cariocas e no segundo a bola desviou nele antes de entrar. Para o próximo duelo do Corinthians, havia a expectativa que Wallace fosse suspenso pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Afinal, ele deu um pisão no adversário no último Derby. O julgamento, marcado inicialmente para hoje, foi adiado. Se o zagueiro baiano não pudesse jogar, a zaga alvinegra seria completada por Anderson Polga. O recém-contratado treinou a semana inteira entre os titulares e esperava estrear com a camisa do Timão. Não será dessa vez. Wallace está garantido entre os 11 corintianos que começarão o jogo. Outro atleta que foi destaque nos últimos dias na mídia esportiva foi o goleiro Júlio César. Mesmo tendo perdido a vaga de titular para Cássio no final do Campeonato Paulista, o camisa 1 do Timão segue trabalhando muito, esbanjando profissionalismo e em nenhum momento reclamou da reserva. Pelo contrário. Ele apoiou a decisão de Tite e elogia publicamente o novo titular do gol corintiano. Nessa semana, Júlio revelou como foram os dias seguintes às falhas do jogo contra a Ponte Preta no Campeonato Paulista: “Poucas pessoas sabem, mas tive gente na porta do meu condomínio esperando meu carro chegar para me ofender e até me agredir”. O goleiro ainda desabafou: “Foi difícil. Já ganhei muitos títulos, mas já perdi muitos outros. Não é um erro que joga tudo por água abaixo. O mundo do futebol gira e ter a família ao seu lado faz toda a diferença". Se profissionalmente as coisas não estão acontecendo como o goleiro gostaria, sua vida pessoal também está um pouco confusa. A esposa de Júlio, grávida de gêmeos, está internada no hospital. A gestação está com alguns problemas. Assim, o camisa 1 tem passado as noites no hospital preocupado com a família. Eu gosto desse cara. Ele é o mais corintiano dos jogadores do atual elenco do Timão. Infelizmente, ele falhou quando não podia. Agora precisará esperar para mostrar novamente seu valor. Boa sorte Júlio! O tempo será seu melhor amigo. 29 de setembro de 2012 – sábado O meu sábado foi um tanto diferente. Fui ao Pacaembu no começo da tarde para comprar ingresso para a partida de amanhã entre Corinthians e Sport Recife. Como não havia ido em setembro ao estádio, estava sentindo falta desse tipo de programa. No caminho do ônibus até o Paulo Machado de Carvalho, fui lendo o jornal O Lance! Queria me atualizar com as novidades do Coringão e da nova rodada do Brasileirão. O Timão foi escalado pelo técnico Tite com: Cássio; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Douglas e Danilo; Romarinho e Paolo Guerrero. Enquanto os corintianos vão tranquilos para a partida (precisam de apenas 9 pontos nos próximos 12 compromissos para atingir a meta almejada pela comissão técnica), o Sport está na zona de rebaixamento (precisa vencer de qualquer jeito para sair das últimas posições). Será, portanto, uma partida de opostos. Antes de comprar a entrada para a partida de domingo, almocei um pastel na banca da feira da Praça Charles Miller. Devidamente alimentado, fui para a bilheteria. Lá percebi que o jogo mais procurado pelos torcedores não era o do Timão. O público presente estava adquirindo ingressos para o duelo de sábado à noite entre Palmeiras e Ponte Preta. A briga para fugir do rebaixamento estava mobilizando os mais fanáticos. Vendo a cena dos palestrinos interessados em ver o jogo de hoje, revi minha decisão. Pensando bem, a grande partida na cidade de São Paulo nesse final de semana seria mesmo a do nosso rival. Se eles perdessem, a situação iria piorar substancialmente. Enquanto isso, a partida do Timão não modificará em nada o campeonato. Quando chegou a minha vez na fila para comprar o ingresso, pedi uma entrada para o jogo do Verdão. Ao invés de assistir ao meu time no domingo, resolvi acompanhar o Palestra no sábado. Comprei um ingresso para o Tobogã e fui embora. Ficaria no meio dos palmeirenses, mas torcendo, como sempre, contra o alviverde. Quando o céu escureceu, voltei ao estádio e fui surpreendido pelo bom público. O Pacaembu estava quase lotado. Cerca de 30 mil pessoas compareceram às arquibancadas para apoiar o Verdão. De técnico novo, Gilson Kleina, contratado da própria Ponte Preta, o Palmeiras estava animado. Na última rodada, eles tinham vencido o Figueirense em Santa Catarina. Mesmo ainda na zona do rebaixamento, a contratação do novo técnico e a vitória recente encheram nossos rivais de ânimo. Para a alegria de quase todos os presentes, o Palmeiras massacrou a Macaca. A Ponte não viu a cor da bola e a goleada palmeirense foi justa. O argentino Barcos fez dois e Marcos Assumpção fez um. A vitória de 3 a 0 foi até pouca. Em 15 minutos já estava 2 a 0. Nem deu para torcer direito contra. Fui embora do estádio arrependido da escolha feita. Deveria ter comprado o ingresso para o jogo do Timão. Se soubesse que o Palmeiras iria vencer tão facilmente, não teria sequer cogitado vê-los. Fazer o quê? Agora é torcer para os adversários diretos do Verdão vencerem e a distância de 5 pontos do Verdão para o primeiro time fora do rebaixamento permanecer intacta. 30 de setembro de 2012 – domingo O final de semana foi de bom público no Paulo Machado de Carvalho. Se mais de 30 mil palmeirenses (e algum corintiano camuflado torcendo contra o Verdão) tinham comparecido ao estádio municipal no sábado à noite, no domingo à tarde foi a vez dos corintianos encherem as arquibancadas. Quase 29 mil torcedores compraram ingresso para ver Timão e Sport no Pacaembu. Ontem os torcedores foram embora felizes com o placar de 3 a 0 para os mandantes. Hoje, tal episódio se repetiu. Curiosamente, o placar foi exatamente igual. A diferença é que o massacre agora foi corintiano e não palmeirense. O Sport não viu a cor da bola e o resultado poderia ter sido mais dilatado. Apesar do domínio do Timão desde os primeiros minutos, a rede não balançou na primeira etapa. Diversas jogadas foram criadas, mas o gol simplesmente teimava em não sair. O primeiro lance de perigo foi criado por Guerrero. O peruano puxou rápido contra-ataque. Após tabela com Douglas, a bola sobrou para Romarinho. O camisa 31 chutou rasteiro para fora. Uhhhhh. O Corinthians fazia tudo certo. Marcava forte, saía tocando com velocidade e na hora de concluir ao gol quase todos os jogadores se apresentavam para chutar, inclusive os laterais e os volantes. Não é à toa que esse é o melhor time do continente. Com um pouco mais de sorte, a goleada teria se desenhado mais cedo. O goleiro do Sport fez boas defesas nos chutes de Romarinho, Guerrero e Paulinho. Do outro lado, Cássio só assistia ao jogo de braços cruzados. O segundo tempo começou com a mesma dedicação dos donos da casa. E a bola continuava não querendo entrar. Guerrero perdeu três boas chances na frente do goleiro. O drama acabou com Paulinho. O camisa 8 recebeu a bola de Alessandro, após envolvente troca de passes com Danilo, e fuzilou. Gooooool do Timão. 1 a 0. A vantagem no placar deu mais tranquilidade aos jogadores comandados por Tite e as oportunidades foram se multiplicando. Em uma delas, Ralf roubou a bola no meio de campo e lançou para Romarinho. O rápido atacante penetrou na área e disparou. Goooooooool. Era o segundo do Timão na tarde de domingo. Aos 38 minutos, Alessandro (um dos melhores em campo ao lado de Romarinho e Paulinho) fez nova jogada pela lateral direita e cruzou para Guerrero. O peruano perdeu outro gol incrível. No rebote, Romarinho colocou a bola novamente nas redes. 3 a 0 e festa completa no Pacaembu. Em ritmo de treino, o Timão massacrou os pernambucanos. Com a nova vitória, a equipe do Parque São Jorge alcançou os 39 pontos, mas continua na 8ª posição. Agora faltam apenas 6 pontos para pensarmos só no Mundial. A nota triste da tarde foi que indiretamente ajudamos o Palmeiras. O Sport perdeu e segue nas últimas posições da classificação. Ai, ai, ai. ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento

bottom of page