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- Músicas: Você Não Soube Me Amar - 40 anos do rock performático da Blitz
Gravada em julho de 1982, a canção com refrão grudento tornou-se rapidamente onipresente no país e consagrou a banda carioca como fenômeno das massas. Vamos falar hoje, na coluna Músicas, de um grande sucesso do início da década de 1980. Quem tem mais de trinta e cinco anos e viveu no Brasil na primeira metade dos anos 1980 na certa conhece “Você Não Soube Me Amar”, o principal hit da Blitz. Não é errado dizer que essa canção se tornou onipresente nas rádios do país há quarenta anos. A banda de rock formada por Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Márcia Bulcão, Ricardo Barreto, Lobão, Antônio Pedro Fortuna e Billy Forghieri explodiu nacionalmente e se tornou um fenômeno musical brasileiro. O grupo foi um dos pioneiros do rock nacional, gênero que viveria nesse período sua era dourada. Curiosamente, o sucesso da Blitz começou justamente com “Você Não Soube Me Amar”, a música de trabalho do primeiro álbum da banda carioca. Graças a febre do público pelo novo ritmo, as vidas dos integrantes da Blitz mudaram da água para o vinho do dia para a noite. Essa transformação veio nos embalos dos versos grudentos de “Você não soube me amar/ Você não soube me amar/ Você não soube me amar/ Você não soube me amar”. Para entendermos a real dimensão de “Você Não Soube Me Amar” e o que essa canção representou para o cenário musical brasileiro da época, é preciso antes explicar como surgiu a Blitz. O grupo nasceu dentro da companhia teatral “Asdrúbal Trouxe o Trombone”. Fundada em 1974 no Rio de Janeiro e especializada em comédia teatral, o “Asdrúbal Trouxe o Trombone” revelou vários artistas brasileiros tanto no universo cênico quanto no universo musical. Para termos uma ideia da força da companhia, Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Patrícia Pillar, Patrícya Travassos e Nina de Pádua são alguns dos atores consagrados formados ali. No lado musical, Cazuza e Evandro Mesquita começaram a carreira artística nos palcos do grupo cênico e depois migraram para os palcos mais cantantes. Outros grupos de teatro também surgiram a partir do “Asdrúbal Trouxe o Trombone”. Podemos citar, entre eles, os “Banduendes Por Acaso Estrelados”, a “Companhia Tragicômica Jaz-o-coração”, “Diz-Ritmia” e “Beijo na Boca”. Evandro Mesquita integrava a equipe do “Asdrúbal Trouxe o Trombone” desde o finalzinho dos anos 1970. Em 1981, ele decidiu montar uma banda de rock performático, um gênero até então novo no Brasil. A ideia era cantar nos barzinhos da capital fluminense as composições próprias do jovem cantor-ator. Muitos dos músicos convidados por Evandro para integrar a nova banda estavam envolvidos de alguma forma com o “Asdrúbal Trouxe o Trombone”. O vocal principal do grupo recém-criado ficou, obviamente, com Evandro Mesquita. No vocal de apoio (que de apoio não tinha nada, pois participava ativamente das canções), foram escaladas Fernanda Abreu, que mais tarde teria uma exitosa carreira solo, e Márcia Bulcão. Na banda que acompanhava o trio de cantores, a Blitz tinha Ricardo Barreto na guitarra, Lobão na bateria (sim, ele mesmo – Lobão!), Antônio Pedro Fortuna no baixo e Billy Forghieri nos teclados. Apesar de alguns dos integrantes do grupo serem atualmente nomes consagradíssimos da música nacional, naquele momento todos eram novatos no show business. Para quem tem curiosidade em saber como surgiu o nome da banda, a ideia partiu de Lobão, grande amigo de Evandro Mesquita que ficou pouquíssimo tempo no grupo musical (ele não concordava com a linha artística da Blitz; Lobão sempre foi mais do rock tradicional do que do rock performático). Vendo que Evandro era parado e multado constantemente pela polícia carioca pelo excesso de velocidade do fusquinha que o vocalista dirigia, nada melhor do que nomear a banda de Blitz. A proposta de Lobão foi aceita por unanimidade e instantaneamente pelos colegas. A primeira apresentação com a nova denominação aconteceu quase um ano depois da união dos músicos. Em janeiro de 1982, a Blitz se apresentou no Circo Voador, a principal casa de espetáculos do Rio de Janeiro de então. O desempenho no palco foi decisivo para a assinatura do primeiro contrato com uma gravadora renomada, a EMI. Para o lançamento do compacto de estreia da Blitz, em julho de 1982, foi escolhida a canção “Você Não Soube Me Amar”. A música fora composta por Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Guto Barros e Zeca Mendigo para a peça teatral “A Incrível História de Nemias Demutcha”. O espetáculo com essa faixa musical foi apresentado pela companhia “Banduendes Por Acaso Estrelados” no início da década de 1980. O disco com apenas a música “Você Não Soube Me Amar” (compacto era um disquinho de vinil que trazia apenas uma ou duas faixas) vendeu impressionantes 100 mil cópias em poucas semanas, o que rendeu ao grupo o disco de ouro (premiação do mercado fonográfico para quem superava a marca de 100 mil unidades vendidas). Vendo o sucesso daquele hit e o apelo absurdo da jovem banda entre a juventude da época, a EMI decidiu gravar um álbum da Blitz dessa vez no formato tradicional (aquele com tamanho padrão e contendo pouco mais de uma dezena de faixas). Assim, em setembro de 1982, chegava às lojas brasileiras “As Aventuras da Blitz”, o primeiro disco da banda carioca. Além da onipresente “Você Não Soube Me Amar”, o álbum trazia outras 12 canções: “Blitz Cabeluda”, “Vai, Vai, Love”, “De Manhã (Aventuras Submarinas)”, “Vítima do Amor”, “O Romance da Universidade Otária”, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Totalmente em Prantos”, “Eu Só Ando a Mil”, “Mais Uma de Amor (Geme Geme)”, "Volta ao Mundo", “Ela Quer Morar Comigo na Lua” e “Cruel, Cruel Esquizofrenético Blues”. As músicas do disco foram compostas, na maioria das vezes, por Evandro Mesquita, ora sozinho ora com algum parceiro musical (Ricardo Barreto e Antônio Pedro Fortuna eram os parceiros habituais). O sucesso do discão da Blitz foi ainda maior do que aquele alcançado pelo compacto. “Você Não Soube Me Amar” integrou a trilha sonora da novela “Sol de Verão”, que foi ao ar pela Rede Globo entre outubro de 1982 e março de 1983. Essa aparição televisiva ajudou a manter a música em destaque por mais tempo. A canção da Blitz não estava na abertura do programa, mas era o tema geral da novela. O álbum de estreia do grupo carioca vendeu mais de 700 mil unidades e conquistou o disco de platina (para venda superior a 250 mil cópias segundo os patamares da época). Por isso, “As Aventuras da Blitz”, também chamado de “As Aventuras da Blitz 1” (repare que na capa do álbum há o número 1 depois do título, apesar de jamais ter havido um disco com o nome de “As Aventuras da Blitz 2”), é considerado um dos álbuns brasileiros mais bem-sucedidos do século XX. Daí sua relevância (gostemos ou não gostemos de suas músicas). O interessante é que a excelente receptividade de “Você Não Soube Me Amar” logo de cara pelo público pautou a linha musical da Blitz dali em diante. Repare que a proposta do rock performático, quase como apresentações cênicas nos palcos e nos videoclipes, com canções carregadas de bom humor, diálogos inusitados entre os cantores e letras de duplo sentido (invariavelmente fazendo referência ao sexo, o que rendeu uma série de censuras ao grupo – sim, havia censura no Brasil no início dos anos 1980!), marcou as principais faixas tanto desse álbum inicial quanto dos demais trabalhos da banda. No aspecto estético, é preciso dizer que a Blitz foi um grupo musical com forte identidade autoral, o que a diferenciava das demais bandas de rock dos anos 1980. Se analisarmos atentamente, “Mais Uma de Amor (Geme Geme)”, "O Beijo da Mulher Aranha", "Volta ao Mundo" e “Cruel, Cruel Esquizofrenético Blues”, outros sucessos desse primeiro disco da Blitz, seguem exatamente a concepção musical de “Você Não Soube Me Amar”. O mesmo ocorre com “A Dois Passos do Paraíso”, “Betty Frígida”, “Weekend”, “Radioatividade” (todas essas canções são do segundo álbum, “Radioatividade”, de 1983), “Egotrip”, “Eugênio” e “Louca Paixão” (essas últimas faixas são do terceiro disco, “Blitz 3”, de 1985). Por isso, ouso dizer que “Você Não Soube Me Amar” originou não apenas um tipo de música para a banda, mas também uma nova e frutífera vertente do rock nacional. A Blitz e seu maior sucesso, portanto, deram origem a uma linha artística que foi seguida, mais tarde, pelos “Mamonas Assassinas”, “Ultrage a Rigor”, “Virgulóides”, “Raimundos”, “Massacration”, “Pedra Letícia”, “Herva Doce” e tantas outras bandas de rock bem-humoradas (e muitas vezes politicamente incorretas). Antes de discutirmos “Você Não Soube Me Amar” com mais detalhes (afinal, essa é a ideia central do post de hoje do Bonas Histórias, né?), confira, a seguir, a letra da famosa música e uma das interpretações originais da Blitz na época do lançamento de “As Aventuras da Blitz”: “Você Não Soube Me Amar” (1982) - Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Guto Barros e Zeca Mendigo Sabe essas noites em que você sai caminhando sozinho De madrugada com a mão no bolso (na rua) E você fica pensando naquela menina Você fica torcendo e querendo que ela estivesse (na sua) Aí finalmente você encontra o broto Que felicidade (que felicidade), Que felicidade (que felicidade) Você convida ela pra sentar (Muito obrigada) Garçom uma cerveja (Só tem chope) Desce dois, desce mais (Amor, pede uma porção de batata frita) Okay, você venceu Batata frita Aí blá blá blá blá blá blá blá blá blá (Ti ti ti ti ti ti ti ti ti) Você diz pra ela Tá tudo muito bom (bom) Tá tudo muito bem (bem) Mas realmente, mas realmente Eu preferia que você estivesse (nua) Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar Todo mundo dizia Que a gente se parecia Cheio de tal coisa E coisa e tal E realmente a gente era A gente era um casal Um casal sensacional Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar No começo tudo era lindo Era tudo divino, era maravilhoso Até debaixo d'água nosso amor era mais gostoso Mas de repente A gente enlouqueceu Aí eu dizia que era ela E ela dizia que era eu Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar (Amor, que qui cê tem? Cê tá tão nervoso) Nada nada nada nada nada nada (Foi besteira usar essa tática, Dessa maneira assim dramática) Eu tava nervoso (o nosso amor era uma orquestra sinfônica) Eu sei (e o nosso beijo uma bomba atômica) Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar Você não soube me amar (é, foi isso que eu disse a ela) Você não soube me amar Você não soube me amar (é, foi isso que ela me disse) Você não soube me amar Você não soube me amar (Oh baby não!) O primeiro aspecto que chama a atenção em “Você Não Soube Me Amar” é o tom de diálogo da canção, algo totalmente inusitado no cenário do Rock and Roll. Repare que Fernanda Abreu e Márcia Bulcão não são uma simples dupla de backing vocal. Elas interagem ativamente com Evandro Mesquita, o cantor principal, como se todos fossem verdadeiramente personagens da música (no caso, um casal enamorado). O mais correto seria dizer que a letra de “Você Não Soube Me Amar” emula uma cena de um encontro (e depois desencontro) amoroso. O cenário, obviamente, é o Rio de Janeiro contemporâneo (ou melhor, a capital fluminense dos anos 1980). Esse enredo oferece um componente cênico à faixa musical. Não à toa, essa canção da Blitz foi produzida originalmente para uma peça teatral (e não para ser gravada em um disco ou executada nas rádios, nos palcos e em videoclipes). Ainda falando sobre os diálogos trazidos pela música, eles são de vários tipos. A conversa prioritária é entre o jovem casal que começa a sair e, depois de engatar um relacionamento, a brigar: “Você convida ela pra sentar/ Muito obrigada”; “Amor, pede uma porção de batata frita/ Okay, você venceu/ Batata frita”; “Aí blá blá blá blá blá blá blá blá blá/ Ti ti ti ti ti ti ti ti ti”; e “Amor, que qui cê tem?/ Cê tá tão nervoso/ Nada nada nada nada nada nada”. Há também uma rápida conversa da personagem principal com o garçom do bar/lanchonete: “Garçom uma cerveja/ Só tem chope”. Se analisarmos bem, é possível identificarmos ainda um diálogo do protagonista com sua própria consciência, como se ele falasse consigo ou se pensasse alto: “Tá tudo muito bom/ Bom/ Tá tudo muito bem/ Bem/ Mas realmente, mas realmente/ Eu preferia que você estivesse/ Nua”; “Sabe essas noites em que você sai caminhando sozinho/ De madrugada com a mão no bolso/ Na rua/ E você fica pensando naquela menina/ Você fica torcendo e querendo que ela estivesse/ Na sua”. É interessante notar que tanto Evandro Mesquita quanto Fernanda Abreu e Márcia Bulcão utilizam-se de suas habilidades cênicas na interpretação da música. Afinal, a trupe é originária do “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, né? E o trio de cantores tem obviamente um pé no teatro – além de músicos, são atores e atrizes (inclusive, Evandro Mesquita, nas décadas seguintes, ficou mais conhecido do grande público pelos papéis interpretados na televisão do que como cantor). Parte do charme da interpretação (ou seria atuação?!) dos vocalistas da Blitz está justamente na veia cômica e cênica que eles colocam na execução das canções. Afinal, o que seria do rock performático sem o empenho e as habilidades dos artistas no palco, hein?! Outra questão que não pode ser relevada em “Você Não Soube Me Amar” é o humor de sua letra. Como sempre foi típico do portfólio da Blitz, essa música exala comicidade em cada verso. Temos aqui um humor ingênuo, puro e natural. É verdade que essa não é a faixa mais engraçada da banda, mas não dá para renegar seu bom humor. As passagens de destaque da canção são: “Aí blá blá blá blá blá blá blá blá blá/ Ti ti ti ti ti ti ti ti ti”; “Tá tudo muito bom/ Bom/ Tá tudo muito bem/ Bem/ Mas realmente, mas realmente/ Eu preferia que você estivesse/ Nua”; “No começo tudo era lindo/ Era tudo divino, era maravilhoso/ Até debaixo d'água nosso amor era mais gostoso/ Mas de repente/ A gente enlouqueceu/ Aí eu dizia que era ela/ E ela dizia que era eu”; e “Foi besteira usar essa tática/ Dessa maneira assim dramática/ Eu tava nervoso/ O nosso amor era uma orquestra sinfônica/ Eu sei/ E o nosso beijo uma bomba atômica”. Note que o enredo da música por si só já é divertido – um casal que vai do primeiro encontro empolgado e da paixão fulminante à decepção sentimental e as constantes brigas. Atire a primeira pedra quem nunca passou por algo assim ou não viu isso acontecer com alguém próximo. Outras marcas de “Você Não Soube Me Amar” (e da Blitz de maneira geral) são a linguagem coloquial e a oralidade. Boa parte dos termos usados na letra da música foi extraída do cotidiano. Daí a overdose de gírias, interjeições e informalidade verbal. Muitas das expressões trazidas na canção eram típicas dos anos 1980 e do Rio de Janeiro. Dá para citar, sem pensar muito: “broto”, “okay”, “blá blá blá blá blá blá blá blá blá/ ti ti ti ti ti ti ti ti ti”, “cheio de tal coisa/ e coisa e tal”, “amor, que qui cê tem?/ cê tá tão nervoso” e “eu tava nervoso”. Incrível essa mistura bem azeitada de oralidade e coloquialismo. Por essa perspectiva linguística, não é surpresa nenhuma que a música tenha caído no gosto do público e na boca do povo, que passou a repetir incessantemente alguns dos versos de “Você Não Soube Me Amar” no dia a dia. Em se tratando da criação de bordões, não lembro de outra faixa da MPB mais exitosa. Algumas frases dessa canção da Blitz podem ser ouvidas até hoje em nosso cotidiano: “Que felicidade/ Que felicidade/ Que felicidade/ Que felicidade”; “Aí blá blá blá blá blá blá blá blá blá/ Ti ti ti ti ti ti ti ti ti”; “Tá tudo muito bom/ Bom/ Tá tudo muito bem/ Bem”; “No começo tudo era lindo/ Era tudo divino, era maravilhoso”; “Amor, que qui cê tem?/ Cê tá tão nervoso”. Há algum erotismo ou sensualidade (escolha o conceito que preferir) em “Você Não Soube Me Amar”?! Se você considerar o verso “Eu preferia que você estivesse/ Nua” como algo demasiado caliente, a resposta é positiva. Porém, se você considerar o repertório musical da Blitz – ouça, por exemplo, “Mais Uma de Amor (Geme Geme)”, “A Dois Passos do Paraíso”, “Betty Frígida” e “Weekend” –, a resposta só pode ser negativa. Comparada com as canções coirmãs da banda carioca, “Você Não Soube Me Amar” é extremamente casta. Algo que pouca gente comenta e que me chamou bastante atenção nessa canção da Blitz é a impressão que não há melodia em boa parte de “Você Não Soube Me Amar”. Nas primeiras vezes que ouvi essa música, podia jurar que Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão cantavam sem o acompanhamento da banda na maioria dos versos. Para mim, a melodia só entrava para valer no refrão: “Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar”. Não há nada mais equivocado do que tal impressão. A melodia é ótima e acompanha a letra do início ao fim. O que pode ter causado em mim essa falsa sensação de ausência melódica é que a força do diálogo e a pegada de conversa dos versos iniciais de “Você Não Soube Me Amar” tenham colocado os acordes em segundo plano. Como prestamos muita atenção no diálogo cênico e nas interpretações dos vocalistas que fogem da cantoria tradicional, esquecemos da música ao fundo. Pelo menos isso aconteceu comigo. Não sei se mais pessoas passaram pela mesma experiência musical que eu. Por fim, não dá para falar em “Você Não Soube Me Amar” e não comentar seu refrão um tanto apelativo. Na certa, esse é o trecho mais pegajoso da história da Música Popular Brasileira (“Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar”). Confesso que torço normalmente o nariz para canções que usam refrões pobres, simplórios e diminutos. O que dizer, então, de uma faixa musical que traz como refrão uma frase só, hein? (“Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar”). É complicado apontar a composição de Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Guto Barros e Zeca Mendigo como um primor estético quando analisamos exclusivamente seu verso principal. Se por um lado não temos grande qualidade musical nesse trecho, por outro lado é inegável o quão carismático e impactante é seu refrão ao ouvido popular (“Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar/ Você Não Soube Me Amar”). Ouça essa faixa uma vez e você ficará com essa frase na cabeça por dias, semanas, meses e, quiçá anos. Há quem diga que na porta do inferno, a música ambiente é justamente essa da Blitz (mas não temos evidências científicas dessa informação). O que dá para dizer com propriedade é que “Você Não Soube Me Amar” está no hall dos clássicos do rock nacional e da música brasileira, gostemos ou não de seu refrão. A revista Bravo elegeu, em 2006, o maior sucesso da Blitz como uma das cem canções essenciais do nosso país. A posição exata da música é a 94ª colocação, uma posição atrás de “Brasileirinho”, sucesso de Waldir Azevedo e Pereira da Costa, e um posto à frente de “Disparada”, hit de Geraldo Vandré e Theo de Barros. Já na lista da revista Rolling Stones com as músicas brasileiras mais importantes de todos os tempos que foi divulgada em 2009, “Você Não Soube Me Amar” figura na honrada 97ª posição, justamente entre “Disritmia” de Martinho da Vila e “A Noite do Meu Bem” de Dolores Duran. Apesar da inegável relevância histórica dessa canção, nenhum artista da primeira divisão da música nacional ousou regravar “Você Não Soube Me Amar” nas últimas quatro décadas. Pelo menos eu não tenho conhecimento de uma nova versão dessa faixa. Acredito que a ausência de novas gravações seja em função da forte identidade criada pela Blitz com sua principal criação. Impossível não ouvirmos “Você Não Soube Me Amar” e não lembrarmos imediatamente da banda carioca. Por isso, creio que ninguém aceitou cantá-la. Para terminar esse post da coluna Músicas, preciso dizer que o auge da Blitz aconteceu entre julho de 1982 (estouro do hit “Você Não Soube Me Amar”) e dezembro de 1985 (últimos shows do terceiro álbum da banda, “Blitz 3”). Nesse intervalo de três anos e meio, o grupo de rock se transformou no grupo musical de maior sucesso do Brasil. Seus shows arrastavam multidões, os convites para aparições nos programas de televisão se multiplicavam e seus lançamentos (três discos no total) vendiam milhares de cópias. Contudo, a exposição excessiva e a vontade de seus integrantes por novos projetos artísticos decretaram o fim da banda em março de 1986. Depois disso, a Blitz até voltou algumas vezes (entre 1994 e1997 e em 2006), mas jamais retornou ao patamar de arrasa quarteirão da primeira metade da década de 1980. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. 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- Talk Show Literário: Macabéa
No primeiro programa de 2022, Darico Nobar entrevista a protagonista de A Hora da Estrela, novela clássica de Clarice Lispector que foi publicada em 1977. Darico Nobar: Boa noite, Brasil. Plateia: Boooooooa, noooooooite! Darico Nobar: Eu preciso avisar que o Talk Show Literário de hoje está diferentão. Ao invés de conversarmos com uma personagem clássica da literatura brasileira, iremos papear com um autor. Sim, um autor! Recebam com aplausos o escritor de A Hora da Estrela, Rodrigo S. M. [Apesar dos aplausos e da animação do público, ninguém aparece no palco]. Com vocês, Rodrigo S. M.! [Dessa vez, fala um pouco mais alto, mas o convidado não dá sinal de vida]. Talvez nosso entrevistado não tenha ouvido. [Respira fundo e solta um grito puro e sem esmola]. Rodrigo S. M.!!! [Uma moça esvoaçando magreza aparece. Vestindo saia velha e blusa rasgada, ela vem com os ombros curvos como os de uma cerzideira. Nos lábios, usa batom cor de rosa, único sinal de ter alguma vaidade. Ao chegar perto da mesa do apresentador, para e olha para os lados a procura de algo ou alguém]. Macabéa: Me desculpe o aborrecimento. [A fisionomia é de fome, medo e confusão]. O moço saberia me informar onde é a casa da madama Carlota? Darico Nobar: Não... [O apresentador também indica perplexidade com o surgimento de uma figura tão peculiar]. A senhorita pode não saber, mas estamos em um programa. Inclusive, estamos ao vivo para todo o país nesse exato momento. Macabéa: Um programa, é? Igualzinho ao da Rádio Relógio?! Darico Nobar: Mais ou menos. A diferença é que esse aqui é na televisão. [Indica impaciente as câmeras que filmam a cena]. Macabéa: Você sabia que na Rádio Relógio disseram que um homem escreveu um livro chamado A Hora da Estrela e virou um “besta-celar”? O que é que quer dizer “besta-celar”? Darico Nobar: Pera aí. [Pela primeira vez, o entrevistador mostra interesse pela mulher em pé à sua frente]. Você conhece esse sujeito? Macabéa: O homem da voz da Rádio Relógio? Darico Nobar: Não, não o cara da rádio. Estou falando do escritor. Estamos justamente aguardando a chegada dele, o que pode acontecer a qualquer momento. [Com o pescoço espichado, procura pelo convidado]. Macabéa: Não sei. [Assoa o nariz na barra da saia]. Os homens que conheço são o seu Raimundo e o Olímpico. E aquele moço que vive me seguindo na rua. Darico Nobar: Tem alguém que segue a senhorita?! Não seria o Rodrigo, né? Macabéa: E eu sei? Sei não. Acho que tem sempre alguém atrás de mim me espiando, mas não tenho certeza. Ou é uma sensação que peguei no ar de relance, coisa de moça nordestina desconfiada, ou é assombração mesmo. Até rezo de noite para a salvação do fantasma, para ele ir embora e largar do meu pé. Darico Nobar: Entendi. [Fica alguns segundos em silêncio]. Posso, então, convidar você para se sentar? [Indica o sofá ao lado da mesa]. Macabéa: Sim. [Larga-se atabalhoadamente na poltrona com a pressa de que aquele senhor não cancelasse o convite]. Madama Carlota que me espere... Darico Nobar: E, se me permite, qual é a sua graça? Macabéa: Macabéa. Darico Nobar: Maca, o quê? Macabéa: Béa. Darico Nobar: Mas que nome mais estranho, Macabéa! Macabéa: Eu também acho esquisito, mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se vingasse, até um ano de idade eu não era chamada, não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem, mas parece que deu certo. [Parou um instante retomando o fôlego perdido]. Pois como o senhor vê eu vinguei... Darico Nobar: Você disse que é nordestina. De onde? Macabéa: Nasci no Sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdeu as botas. Com dois anos, meus pais se foram de febres ruins. Depois fui morar em Maceió com a titia, única parenta que me sobrou. Não sei o porquê vim para o Rio. Vim antes de titia bater as botas. Arranjei emprego e moro em um quarto com quatro balconistas das Lojas Americanas. Darico Nobar: Então, você é vendedora? Macabéa: Não, sou datilógrafa, trabalho em firma de representante de roldanas. Darico Nobar: Uma datilógrafa, hein?! Fale mais sobre você, por favor. Macabéa: Sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola. Darico Nobar: Virgem com essa idade!? Por quê?! Macabéa: Essa pergunta, moço, é indecência. Sou solteira e titia me ensinou a ser moça correta, evitar pegar doença ruim lá embaixo. E meu namoro com Olímpico foi no maior respeito, coisa linda de se ver. Darico Nobar: Você pensa em se casar? Macabéa: Nunca se sabe. Quem espera sempre alcança. Darico Nobar: A senhorita não se ofende com as minhas perguntas, né? Macabéa: Eu? [Pensa por alguns segundos antes de completar]. Não me ofendo, não. As coisas são assim mesmo. Não dá para lutar contra nosso destino. Mas se pudesse escolher, eu me casava é com um soldado. Darico Nobar: Vejam só, pessoal. [Olha rapidamente para a plateia]. Uma revelação surpreendente da nossa convidada, que não foi tão convidada assim. Quer dizer que a senhorita gosta de um homem com farda, é isso? Macabéa: De preferência bem armado. Plateia: Uhuh! [Gritos de satisfação e aplausos vem do auditório]. Darico Nobar: Para uma dama, você anda muito assanhadinha, Dona Macabéa. Macabéa: Não ando não, juro pela minha alma pura. [Pisca os olhos várias vezes enquanto observa as risadas da plateia]. E não entendi a animação de vocês, até parece que foi servida goiabada com queijo. Darico Nobar: Pois é. Macabéa: Pois é o quê? Darico Nobar: Eu só disse pois é! Macabéa: Mas pois é o quê? Darico Nobar: Melhor mudar de conversa porque você não está me entendendo. Macabéa: Entender o quê? Darico Nobar: Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já! Você até parece fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Macabéa: Falar então de quê? Darico Nobar: Por exemplo, de você. Macabéa: Eu?! Darico Nobar: Por que esse espanto, mulher? Estamos em um programa de entrevista e você está sentada no lugar dos convidados. E você não é gente? Gente fala de gente. Macabéa: Desculpe, mas não acho que sou muito gente. Darico Nobar: Mas todo mundo é gente, meu Deus! Macabéa: É que não me habituei. Darico Nobar: Se habituou com quê? Macabéa: Ah, não sei explicar. Darico Nobar: E então? Macabéa: Então o quê? Darico Nobar: Então me responda, por favor, o que você deseja para o futuro? Macabéa: Ter futuro é luxo, moço. Não é para mim. Darico Nobar: Você é feliz? Macabéa: Tenho tendência até porque tristeza é coisa de rico, é para quem pode, para quem não tem o que fazer. Tristeza também é luxo. Darico Nobar: Mas se você é mesmo feliz, por que a cara triste? Macabéa: Não sei como se faz outra cara. Mas é só na cara que sou triste porque por dentro eu sou até alegre. É tão bom viver, não é? Darico Nobar: Sim! Sabia que vejo muita profundidade em suas palavras. Macabéa: Profundidade, tipo um buraco? Você sabe se a gente pode comprar um buraco? Darico Nobar: Você pode não ter reparado até agora, mas desconfio que tudo o que você me pergunta não tem resposta. [A entrevistada fica em silêncio]. Diga-me, Macabéa, quem você é? Macabéa: Quem eu sou? Darico Nobar: Sim, pode parecer uma pergunta tola, mas gostaria de ouvir a resposta de sua boca. Quem é você, afinal? Macabéa: Quem sou eu? Afinal, quem eu sou? [A expressão facial é de dúvida e desespero]. Eu? Acho que eu... [De repente, não mais do que de repente, ela cai estatelada em cheio no chão]. Quem sou eu?!!! [Murmura enquanto o corpo treme descontroladamente]. Darico Nobar: Produção, chame o médico, chame o médico!!! Rápido! [Corre em direção à entrevistada]. Precisamos de ajuda aqui, acho que ela está tendo um piripaque. Vejam, está vomitando, está tendo convulsão. [Várias pessoas entram no palco: assistentes de produção, bombeiros, câmeras e alguém com roupa de médico. Todos tentam acudir a moça desfalecida. As imagens e os sons do Talk Show Literário são cortados pelo diretor de TV e a tela fica na escuridão absoluta]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Abril de 2012
As primeiras fases do Paulistão e da Libertadores estão nas retas finais e os corintianos já se preparam para os jogos de mata-mata do futebol em 2012. 1° de abril de 2012 – domingo Aconteceu algo muito desagradável nesse domingo. Fui à padaria comprar pão logo cedo e vi um grupo de corintianos, de doze a quatorze anos, fazendo baderna em frente ao estabelecimento. Os garotos estavam vestidos com camisas do Coringão. Durante a arruaça, o bando chegou a quebrar a porta da panificadora e a agredir alguns clientes. Os meninos provocaram também estragos nos carros parados no estacionamento, além de furtarem alguns itens. Aquela cena mexeu tanto comigo que me perguntei se estava torcendo para o time certo. Após uma mea-culpa, cheguei à conclusão que não poderia mais ser corintiano. Torcer para o Timão era ser conivente com aquele tipo de violência. Na volta para casa, decidi mudar de time para todo o sempre. A partir daquele instante seria torcedor do São Caetano. Pronto: a decisão estava tomada. Ao entrar na residência, encontrei meu pai na cozinha (esperando o pão). Comuniquei-lhe a resolução. Ele não se mostrou muito feliz com o que ouvira, mas também não lamentou. Parecia conformado com o destino do filho. Aí desejei: "Feliz 1º de abril!". No dia da mentira, nada como uma leve brincadeirinha, né? Obviamente que um legítimo corintiano jamais alteraria sua preferência clubística. E a história da molecadinha na padaria, confesso agora, também era brincadeirinha! Esse é um ponto interessante para ser debatido no O Ano que Esperávamos Há Anos. O cara pode trocar de esposa mil vezes (está em busca da felicidade), pode alterar sua profissão algumas vezes (está atrás da vocação) ou se mudar de cidade, de casa ou de país incontáveis vezes (está à procura de novos horizontes). Pode até modificar de sexo (cada um sabe de sua vida), de religião (deve ser vontade divina) e até de cor de pele (abraço, Michael Jackson!). Não há problema nenhum nisso tudo. Contudo, se o sujeito admitir ter mudado de time uma única vez durante a vida adulta, imediatamente ele passa a ser malvisto pela sociedade. Como assim mudou de time?! Somente um mau caráter, alguém desprovido de bom senso e de valores morais sólidos poderia se sujeitar a essa grande metamorfose. Se um amigo confessar que trocou de clube, deixo de estimá-lo imediatamente. A tarde teve Corinthians e Oeste, jogo em Presidente Prudente transmitido pela televisão. O placar final foi o mais elástico do ano: 3 a 0 para o Timão. Liedson fez dois e deu uma assistência. O centroavante voltou a marcar depois de 13 jogos em jejum. Apesar de o time todo ter jogado muito bem, principalmente no segundo tempo, não podemos nos iludir. O adversário era muito fraco e jogou desde a metade do primeiro tempo com um homem a menos. A expulsão foi, vale a pena destacar, justa. Apesar da boa atuação de Liedson, ele continua claramente sofrendo de problemas físicos. Tal fato ficou evidente no segundo gol, quando ele deu uma arrancada do meio de campo. O luso-brasileiro correu meio torto, como se estivesse com algum problema no joelho que impedisse sua movimentação. Se ele estiver bem, teremos um ótimo centroavante. Se não, poderemos ficar mais 13 jogos sem vê-lo comemorar um novo tento. Por outro lado, é um prazer ver as atuações de Emerson Sheik. Ele é disparado o melhor jogador da equipe. Está voando em campo e merece ser titular. 2 de abril de 2012 – segunda-feira Descubro pelos jornais que o São Paulo continua dividindo a liderança do Campeonato Paulista com o Timão. Cada equipe soma 40 pontos. O tricolor paulistano venceu ontem o Ituano, fora de casa, de virada por 4 a 2, depois de terminar o primeiro tempo perdendo de 2 a 0. Pô, pessoal de Itu, nem para dar uma forcinha, hein?! Fizeram o mais difícil no primeiro tempo, que era abrir vantagem. Na hora de se segurarem, a vaca foi pro brejo. A competição estadual já tem todos os oito classificados para a próxima fase confirmados, apesar de ainda faltarem duas rodadas para o término do turno. São Paulo, Corinthians, Santos, Palmeiras, Mogi Mirim, Guarani, Bragantino e Ponte Preta estão garantidos nas quartas de finais. Os próximos jogos vão decidir os confrontos. Pelos mesmos jornais, pude acompanhar a notícia de que o estádio do Corinthians chegou a 30% de sua conclusão. Em uma foto, já é possível ver até um lance de arquibancada concretizado. O sonho da casa própria vai tomando forma. Logo mais será possível assistir aos jogos do Coringão em Itaquera. É esperar para conferir! As demais notícias relacionadas ao clube do Parque São Jorge são sobre o fim do jejum de gols de Liedson. O atacante tão criticado nos últimos jogos é agora reverenciado pela mídia. Segundo alguns jornalistas, a renovação contratual do atleta estaria até adiantada. A diretoria agora não quer perdê-lo no meio do ano. Como a vida de jogador de futebol é uma gangorra, né? Uma hora o cara está por baixo. De repente, volta com tudo para o topo. Engraçado isso! Como já escrevi aqui algumas vezes, não confio nas condições físicas de Liedson. Renovar por mais de seis meses com ele é uma temeridade. Não ter um centroavante no banco de reservas à sua altura também é uma grande fonte de preocupação. Com a saída de Adriano, o substituto imediato de Liedson é o Élton. O jogador, trazido do Vasco da Gama no início do ano, pode até ser esforçado e estar bem fisicamente, mas é muito limitado. Ele dificilmente consegue trocar passes com os companheiros e não possui boa finalização. Se dependermos de uma boa atuação dele na Libertadores, nossos rivais vão continuar com as eternas gozações em relação ao fracasso corintiano na competição mais importante das Américas. Com essas apreensões em mente, meu dia não foi muito produtivo. Isso é, profissionalmente falando. Não consegui avançar quase nada no meu romance. Consegui escrever apenas duas páginas o dia inteiro (até então minha média era de dez folhas). Fiquei me sentindo mal pelo baixo desempenho literário. Fazia tempo que não tinha um bloqueio para escrever. Não tenho certeza sobre o real motivo desse problema: se são as preocupações com o alvinegro do Parque São Jorge ou com a minha nova situação financeira (cada vez mais calamitosa). De qualquer forma, desisti de continuar escrevendo por hoje. Saí de casa no meio da tarde para dar uma volta pela cidade, em busca de inspiração. Mesmo assim, as preocupações me acompanharam. O Corinthians conquistará a Libertadores nesse ano?! 3 de abril de 2012 – terça-feira Hoje, o programa noturno foi um pouco diferente. Fui ao cinema assistir "O Corintiano", filme estrelado por Mazzaropi. A Cinemateca Brasileira está reapresentando, nesse mês, vários clássicos do ator. É uma homenagem ao centenário de seu nascimento. E logo no primeiro dia da mostra, tivemos o longa-metragem de Milton Amaral. O personagem principal dessa produção de 1966 é um fanático torcedor do Sport Club Corinthians Paulista. Eu já havia visto uma ou outra cena desse filme, mas confesso que nunca o tinha visto integralmente. Também não conhecia o enredo. "O Corintiano" é um excelente título para uma obra cinematográfica. Para chegar às 20h30 na Cinemateca, na Vila Mariana, tive que sair às 16h de casa. Fiz o percurso de ida totalmente a pé (na volta, não aguentei e peguei metrô e ônibus!). Estou ou não estou bem fisicamente, hein? Aguentei uma caminhada por várias horas (com algumas paradas no caminho, admito) pelas ruas de São Paulo. Por causa da caminhada vespertina, não pude assistir à partida entre Barcelona e Milan. As equipes disputaram o jogo de volta das quartas de finais da Copa dos Campeões da Europa. Eu sei que agora a competição tem outro nome (mais bonito e marqueteiro), mas eu continuo a chamá-la da mesma forma como fazia quando garoto. Desculpe-me os mais modernos, mas pra mim é Copa dos Campeões e pronto. Quando retornei para casa, soube que o Barça despachou os milaneses com um show de bola. O placar final de 3 a 1 para os espanhóis não refletiu a grande superioridade catalã. Era para ter sido 5 a 0 ou mais. Já estou imaginando o Timão enfrentando em dezembro o Barcelona. Que jogão seria, né?! Danilo, Jorge Henrique, Paulinho, Ralf e Júlio César de um lado. Messi, Xavi, Iniesta, Piqué e Valdés do outro. Será preciso o Timão jogar muita bola para voltar do Japão com o título mundial. Como seria legal um confronto assim na decisão do Mundial Interclubes. Perder o jogão da tarde só valeu a pena porque o filme da noite foi bom. Não havia quase ninguém na sala acompanhando "O Corintiano". Éramos apenas cinco pessoas. Creio que todos eram corintianos pelas suas reações. O filme não era tão engraçado como eu imaginei. Às vezes, ele ficava muito parado. As cenas das partidas de futebol foram as melhores. O longa-metragem mostra dois clássicos entre Corinthians e Palmeiras da metade da década de 60. As cenas eram reais de jogos no Pacaembu. O estádio era igualzinho ao atual. As únicas diferenças, de lá para cá, foram a construção do Tobogã no lugar da Concha Acústica e a colocação das cadeiras em alguns setores. No restante, a casa corintiana era exatamente idêntica a atual. Nas imagens de “O Corintiano”, o estádio estava completamente lotado. O público deveria ser de 50 mil pessoas. O único jogador que reconheci no gramado foi o palestrino Ademir da Guia. Afinal, ele era magro, alto e loiro, se destacando dos demais. Nos jogos fictícios do filme, o Palmeiras venceu o primeiro por 3 a 1. O Timão ganhou o segundo por 2 a 1. Para alegria dos espectadores, o longa terminou com o Corinthians na liderança do Campeonato Paulista. É a ficção imitando a realidade! 4 de abril de 2012 – quarta-feira A quarta-feira foi atípica: não tivemos partida do Corinthians nesse meio de semana. Desde o início da temporada, o time mais popular de São Paulo estava entrando em campo duas vezes por semana. Os compromissos do Paulistão e da Libertadores obrigaram a equipe a jogar sem folga. Por consequência, o técnico Tite revezava titulares e reservas. Enfim, tivemos a primeira data livre no calendário! A primeira e única do semestre, espero eu. Afinal, se o clube chegar às finais dos torneios estadual e sul-americano, não haverá mais paradas daqui para frente. Que São Jorge esteja conosco e não dê novos descanso aos jogadores do Timão! O técnico Tite aproveitou a brecha no calendário para treinar o time. Ele prometeu escalar força máxima na partida de domingo, no Pacaembu, contra o Paulista de Jundiaí. Pensando bem, esse é um bom jogo para eu acompanhar no estádio. Se o dia estiver bom e eu acordar animado, vou lá assistir. Será minha primeira partida no Pacaembu em 2012 em um confronto dos profissionais. Nem pareço o fiel torcedor do ano passado, quando acompanhei in loco a maioria dos jogos em casa do meu time. O que faz a falta de grana no bolso de uma pessoa, Santo Deus! Pela internet, pude ver que o Cruz Azul roubou provisoriamente a liderança do Timão no grupo 6 da Libertadores. O empate de 1 a 1 na Venezuela contra o Deportivo Táchira reconduziu a equipe mexicana ao topo da tabela. O gol de empate dos visitantes veio no finalzinho. Agora, tanto Corinthians quanto Cruz Azul estão com os mesmos 8 pontos. Nossos adversários levam vantagem no saldo de gols, mas a equipe brasileira tem um jogo a menos. A partida faltante é pela quinta rodada e será disputada na semana que vem no Paraguai. Por falar em Libertadores, à noite assisti ao jogão entre Internacional de Porto Alegre e Santos válido pelo grupo 1. Quem vencesse garantiria a classificação antecipada para as oitavas de finais. Quem perdesse, teria sua vida complicada na primeira fase. Como o duelo terminou empatado (1 a 1), os dois continuam vivos na competição. Neymar não marcou, mas jogou muito bem. Se ele mantiver essa evolução técnica nos próximos anos, deverá ser um dos grandes nomes da Copa do Mundo de 2014. Com a igualdade no placar, a classificação de Inter e Santos ficou para a última rodada. Se vencerem seus próximos compromissos, os dois times brasileiros passam para a próxima fase. Quem se complicou no torneio continental foi o Flamengo. O time carioca visitou a fraca equipe equatoriana do Emelec e conseguiu perder de virada por 3 a 2. Está, assim, quase eliminado. Para passar para a segunda fase, o Mengo precisará de um milagre: vencer o Lanús na última rodada e torcer pelo empate entre Olímpia do Paraguai e Emelec. Ou seja, o rubro-negro deve ser o único brasileiro que não conseguirá passar para as oitavas de finais. Sinceramente, não fiquei nem um pouco triste com a notícia. Ainda tenho na memória a derrota para eles nas oitavas de finais da Libertadores de 2010. Adiós, Mengo. Hasta la próxima Libertadores. 5 de abril de 2012 – quinta-feira Fora das quatro linhas, o jogador mais discreto do elenco corintiano é o volante Ralf. O camisa 5 do Timão é extremamente pacato e tímido. Ele não gosta de dar entrevistas, raramente é visto em baladas ou em eventos públicos e prefere o anonimato quando vai a algum lugar com muitas pessoas. Dentro de campo, Ralf também não faz questão nenhuma de aparecer para os torcedores e para os jornalistas esportivos. Sua missão é proteger a defesa, roubando a bola do adversário e evitando o gol do oponente. E isso, ele faz com excelência. O volante é um monstro no meio de campo. Ele protege a retaguarda corintiana com simplicidade e eficiência, sem precisar apelar para as faltas ou para a violência. Seu apelido é Pit Bull pela voracidade e precisão na "mordida" (no bote ao adversário). Ralf é paulistano, tem 27 anos e joga no Corinthians desde o início da temporada de 2010. Ele veio do Grêmio Barueri, onde se destacou no Campeonato Brasileiro de 2009. Antes disso, o jogador havia passado por equipes menores do futebol brasileiro. Após o início nas categorias de base do Clube Atlético Taboão da Serra, ele se profissionalizou no Imperatriz do Maranhão. Lá foi campeão estadual. Depois, atuou com as camisas do XV de Jaú, Gama e Noroeste. A contratação do atleta pelo Corinthians foi para compor o elenco. O titular na época era o experiente Marcelo Mattos. Com seu futebol preciso e limpo, Ralf precisou de algumas semanas para se tornar titular em pleno ano do centenário do clube. Nunca mais saiu do time. Hoje é peça imprescindível no esquema do técnico Tite. Após se fixar no time titular corintiano na temporada de 2010, o ano de 2011 foi especial para Ralf. Ele foi eleito o melhor volante do Campeonato Paulista e do Campeonato Brasileiro. Também chegou pela primeira vez à Seleção Brasileira. O técnico Mano Menezes o convocou para dois jogos do Super Clássico das Américas. Contra a Argentina, nosso Pit Bull jogou como titular os dois confrontos e foi muito elogiado. Por ficar na proteção da defesa, Ralf não é de se aventurar ao ataque. Assim, raramente faz gol. Na carreira profissional, são apenas 12, sendo cinco com a camisa alvinegra do Parque São Jorge. Curiosamente, um dos gols mais importantes desse ano do Corinthians foi feito pelo volante. Sua cabeçada certeira, no último lance contra o Deportivo Táchira, decretou o empate na partida de estreia da Libertadores. Aquele ponto conquistado foi fundamental para dar tranquilidade ao Timão. Uma derrota logo no início complicaria muito o clima e o ânimo corintiano para o restante da temporada. Esse é o nosso camisa 5, o primeiro volante do Timão. Desejado por várias equipes do mundo todo desde o ano passado, Ralf renovou recentemente seu contrato por mais algumas temporadas. Deverá ficar alguns anos mais no Corinthians. Ter o Pit Bull supervisionando a defesa é uma segurança maior para o goleiro, para os zagueiros e para os laterais mosqueteiros. Com Ralf em campo, a Fiel Torcida fica mais tranquila nas arquibancadas. 6 de abril de 2012 – sexta-feira É Sexta-Feira Santa, feriado nacional. Como sei que em todas as casas de minha família o almoço é bacalhau, resolvo não almoçar. Faço sempre isso nessa data. O único tipo de comida no qual tenho grande ojeriza (para não dizer nojo, asco, raiva, repulsa, indisposição...) é carne de peixe. Não consigo comer nada vindo do mar ou da água doce. É uma coisa minha, tá?! Por isso, hoje acordei cedo e fui visitar logo de manhãzinha minhas avós. Para cada uma delas disse que já havia combinado de almoçar na casa da outra. Elas entenderam e não se incomodaram por me ver partir sem provar as refeições por elas preparadas com tanto carinho. Como ainda era cedo, resolvi ir ao Pacaembu. Queria comprar meu ingresso do jogo de domingo. Estava decidido a assistir Corinthians e Paulista de Jundiaí no Paulo Machado de Carvalho. Como fazia sempre antes de me colocar a caminho do estádio, comprei o jornal O Lance! Precisava me informar sobre a vendagem de ingressos. Várias vezes já fora informado previamente pelas páginas do periódico esportivo sobre alguma particularidade das bilheterias: "os ingressos estão esgotados", "hoje não há venda de bilhetes" ou "no Pacaembu não está sendo feita a venda para o jogo do Corinthians, apenas para a partida do Palmeiras". Se fosse o caso, evitaria um deslocamento desnecessário. E novamente fui salvo pelo jornal! No setor dedicado ao meu time, havia uma nota informativa dizendo que na sexta-feira não haveria venda de ingresso no estádio por ser feriado. As vendas seriam retomadas no sábado. Ufa! Ainda bem que vi isso. Não fiz uma viagem à toa para lá. Lendo as demais seções do jornal, pude analisar a tabela da Libertadores. O Corinthians tem tudo para avançar em primeiro lugar do grupo. O próximo jogo, na semana que vem, será fora de casa contra o Nacional do Paraguai. Entretanto, como o Nacional é um time pequeno em seu país e não conta com muitos torcedores, a diretoria resolveu mandar o jogo para uma cidade próxima à fronteira com o Brasil. Os cartolas adversários querem angariar maior público e renda. Como na divisa com o Paraná tem muitos corintianos, haverá grande número de torcedores do time brasileiro. A expectativa é que a maioria do estádio seja ocupada por alvinegros. Em outras palavras, o Timão jogará praticamente em casa o próximo duelo contra o fraco time do Nacional. Assim, três pontos estão a caminho. No último confronto da primeira fase da Liberta, o jogo será contra o Deportivo Táchira no Pacaembu. Aí serão mais três pontos à vista, senhores e senhoras! E a primeira posição no grupo garantida. Com as duas vitórias, o Timão ficará junto com o Fluminense e o Vélez da Argentina como as equipes com as melhores campanhas da primeira fase. Dificilmente o Corinthians conseguirá roubar o título simbólico de melhor time da competição do Flu, já que a equipe carioca tem quatro vitórias em quatro jogos. Com um provável tropeço da equipe argentina em um dos seus jogos, os guerreiros do Parque São Jorge terminarão como o segundo melhor time. Assim, enfrentarão, teoricamente, um adversário mais fraco nas oitavas de finais. Essa colocação também permitirá ao clube paulista decidir o segundo jogo de todos os confrontos do mata-mata no Pacaembu (exceto se pegar o tricolor carioca na final). É esperar as próximas semanas para ver! 7 de abril de 2012 – sábado É véspera de jogo. É dia de se organizar para a partida e de comprar o ingresso. Fui ao Pacaembu no início da tarde para adquirir minha entrada. Direcionei-me à bilheteria principal do estádio, na Praça Charles Miller. Não havia ninguém por lá. O movimento de pessoas era todo para o Museu do Futebol, localizado no mesmo endereço. Subi até a bilheteria do lado ímpar do Tobogã, onde normalmente são feitas as vendas. Também estava fechada. Será que não estavam vendendo ingressos naquele dia? Decepcionado, já caminhava em sentido contrário para ir embora quando, voltando à entrada principal, vi um pequeno cartaz pregado em um dos portões: "Caro torcedor, ingressos estão sendo vendidos na bilheteria par do Tobogã. Grato". Por que todo jogo eles resolvem vender os bilhetes em um local diferente do estádio, hein? Será uma brincadeira com o torcedor: "vamos ver se você consegue achar onde vamos estar hoje!". Precisei caminhar um bom pedaço para chegar ao novo local das vendas. Durante o trajeto, pensei em Flávio Prado, jornalista da Rádio Jovem Pan e da TV Gazeta. Ele está certo em suas duras críticas a forma como os torcedores são tratados nos estádios brasileiros. 1 a 0 para você, Flávio! Felizmente não havia fila. Apenas duas pessoas estavam na minha frente. Antes de comprar o ticket, analisei os valores de cada setor. Arquibancada: R$ 30,00. Cadeira Especial Laranja: R$ 70,00. Numerada Descoberta: R$ 100,00. E VIP: R$ 180,00. Deixem-me explicar um detalhe. Normalmente fico na Cadeira Laranja. Gosto de assistir aos jogos ali por dois motivos. Primeiro é um dos setores ao lado do campo. Gosto de ver o jogo de lado, como na TV (a numerada e o setor VIP também tem essa posição, mas os preços lá são proibitivos, pelo menos para mim). Depois, é um local onde as torcidas organizadas não ficam. Com todo o respeito a esse tipo de torcedor, gosto de ver o jogo sem ser atrapalhado por bandeiras tapando minha visão e sem pessoas gritando o tempo todo. O meu plano do Fiel Torcedor era do setor Laranja. Por que estou falando isso? Porque pagar R$ 70,00 para assistir a um joguinho do Campeonato Paulista contra o Paulista de Jundiaí, um time que nem está na quarta divisão do Campeonato Brasileiro, é demais. Sinceramente não acho justo. Pagar esse valor para acompanhar as partidas da primeira divisão do Brasileirão, vá lá. Aí aceito. Porém, arcar com o mesmo valor para uma competição insignificante como o torneio regional, contra um adversário semiamador... Desculpem-me: não pago não! Dessa maneira, pedi um ingresso para a arquibancada (setor amarelo). O valor de R$ 30,00 era mais adequado para a importância do jogo e do adversário. Os torcedores do Paulista de Jundiaí que me perdoem: minha intenção não é ofender nenhuma competição e nenhuma agremiação. Estou apenas analisando, como consumidor, o valor do espetáculo no qual me inclinei a ir e, por consequência, a pagar. É uma análise mercadológica do negócio futebol. Sou o cliente aqui. Será a primeira vez, nos últimos dez anos, que ficarei na arquibancada. Será a primeira partida no Pacaembu em 2012 com a equipe principal do Timão – fui à final da Copa São Paulo de Juniores. Não vejo a hora de entrar no estádio amanhã! 8 de abril de 2012 – domingo Domingão era dia de jogo entre Corinthians e Paulista de Jundiaí. Para comemorar a Páscoa, minha família inteira se reuniu novamente para um grande almoço de confraternização. Como eu não sou muito chegado nesse tipo de evento (e de todos os outros eventos sociais), fugi do local da reunião e fui mais cedo ao estádio. Cheguei ao Pacaembu às 15 horas. O público ainda era pequeno e composto majoritariamente por famílias. Como o pontapé inicial seria dado às 16 horas, tive tempo para almoçar um hot dog e tomar um sorvete para amenizar o calor. À medida que os minutos para o início da partida foram se aproximando, a torcida foi chegando em maior número. Curiosamente, quase todos os corintianos no estádio pensaram como eu. A arquibancada ficou lotada, enquanto o setor laranja apresentou um pequeno número de pessoas. O setor das numeradas estava vazio. Os quase 15 mil espectadores ficaram confinados na arquibancada atrás de um dos gols, na entrada principal do estádio, e no Tobogã, no lado aposto. Gostei de ficar na arquibancada. O clima ali era mais animado e vibrante. Além disso, fiquei bem ao lado das numeradas, onde uma sombra cobria boa parte do setor. É claro que preferi ficar no lado oposto ao reservado às torcidas organizadas. Falando nisso, os integrantes da Gaviões da Fiel foram ao Pacaembu sem faixas, bandeiras e camisas da instituição. Eles ainda estão oficialmente proibidos de entrar nos estádios paulistas depois das confusões protagonizadas no clássico contra o Palmeiras. Era evidente que eles estavam lá, só estavam sem identificação. O jogo foi no padrão Corinthians de Tite. Um primeiro tempo sem graça, com pouca inspiração do time mandante. Na metade da primeira etapa, quem acabou jogando mais foi o Paulista. A equipe do interior teve três claras chances para abrir o marcador, mas pecou na finalização. O melhor do primeiro tempo, para se ter uma ideia, foi o jovem zagueiro corintiano Marquinhos. O prata-da-casa mostrou talento. Ele tem todas as condições para ser titular do time nos próximos anos. No segundo tempo, o Timão voltou com mais vontade. William armava jogadas pela ponta esquerda e levava perigo ao gol do Paulista. Os únicos lances relevantes da equipe alvinegra eram produzidos pelos pés do camisa 7. Quando todo mundo achava que o jogo não sairia do 0 a 0, aos 34 minutos, o lateral Fábio Santos fez uma boa jogada pela lateral esquerda. Cruzou na área e encontrou William. O melhor jogador do dia se antecipou à defesa e cabeceou. Bola no contrapé do goleiro. Gooool!!! Timão 1 a 0. Para aumentar a felicidade geral da nação alvinegra, o telão do estádio anunciou a vitória do Guarani sobre o Palmeiras, em Campinas. No finalzinho do jogo, veio a chuva. Para espantar o friozinho do começo de noite e para amenizar o molhado, a torcida começou a pular e cantar com intensidade. Ainda foi possível ver o Paulista perder um gol cara a cara. Júlio César fez grande defesa. Com esse resultado, seguimos empatados com o São Paulo na liderança. A decisão da primeira fase ficou para a próxima rodada, a última. 9 de abril de 2012 – segunda-feira O balanço da rodada foi positivo para o Timão. Com 43 pontos no Campeonato Paulista, a equipe do Parque São Jorge deverá ficar em segundo lugar ao final da primeira fase. O São Paulo (tem o mesmo número de pontos e leva vantagem no saldo de gols) enfrentará o fraco time do Linense na última rodada. Dificilmente perderá o jogo e a primeira posição. O Corinthians, por sua vez, enfrentará o bom time da Ponte Preta em Campinas. De qualquer maneira, ficando em primeiro ou em segundo, o adversário nas quartas de finais será ou a Ponte Preta ou o Bragantino. Um dos dois ficará em sétimo e o outro em oitavo lugar. Ou seja, trata-se de uma barbada para a classificação para a semifinal. Além disso, o duelo será travado no Pacaembu. Em situação mais complicada estão Palmeiras e Santos. Os torcedores do antigo Palestra Itália puderam acompanhar mais uma derrota do seu time no domingo. O Palmeiras caiu diante do Guarani por 3 a 1 no Brinco de Ouro da Princesa. Com a nova derrota (a terceira nos últimos quatro jogos), o time verde da capital do Estado caiu para o quinto lugar, sendo ultrapassado pelo próprio Guarani. Estou falando desde o começo do ano: o time do Palmeiras é muito ruim! Eles não têm bons jogadores e o técnico, coitado, é muito limitado, além de ser retranqueiro. Viveram, no princípio do campeonato, uma maré de sorte e ficaram invictos por uma longa série de jogos. Agora as coisas estão voltando à normalidade. Para a alegria dos adversários, os palmeirenses vão ainda sofrer muito ao longo do ano. Lembre-se das minhas palavras. O Santos (terceiro colocado) também perdeu em São Caetano de virada por 2 a 1 para o time local. Nessa posição, a equipe do litoral vai enfrentar nas semifinais (caso passe das quartas de finais), o segundo colocado da classificação geral (provavelmente o Corinthians). Diferentemente do Palmeiras, o Santos tem um excelente plantel, provavelmente o melhor da América. É dirigido pelo competentíssimo Muricy Ramalho e conta com o supercraque Neymar, em minha opinião o segundo melhor jogador do mundo (só perde para o argentino Messi). Ou seja, os confrontos mais prováveis para as quartas de finais são: São Paulo x Bragantino; Corinthians x Ponte Preta; Santos x Mogi Mirim; e Guarani x Palmeiras (com mando do primeiro time citado). Se não houver zebras, os duelos das semifinais serão: São Paulo e Palmeiras no Morumbi e Corinthians e Santos no Pacaembu. Aí sim o bicho vai pegar, com jogos realmente interessantes. No lado oposto da tabela de classificação, o final de semana definiu três dos quatro times que irão disputar no ano que vem a série A-2 do Paulista (a segunda divisão). Comercial, Catanduvense e Guaratinguetá são as equipes já rebaixadas. Na última rodada, brigarão para não completar esse grupo Botafogo de Ribeirão Preto, XV de Piracicaba e Portuguesa. Um dos três cairá. Todos os jogos do próximo final de semana acontecerão simultaneamente às 16 horas de domingo. Eu que não sairei da frente da televisão por nada nesse mundo. Ouviu, Talita?! 10 de abril de 2012 – terça-feira Estamos na véspera do jogo do Timão pela Libertadores. Segundo as notícias dos principais sites esportivos, o grupo corintiano já chegou à Foz do Iguaçu. A cidade fica próxima à fronteira paraguaia. O time paulista ficará no lado brasileiro até algumas horas antes da partida. Só então se deslocará para o lado paraguaio. Pelas imagens dos programas noturnos de televisão, foi possível ver a festa na cidade de Foz com a chegada dos campeões brasileiros. Uma grande recepção foi montada já no aeroporto. A torcida corintiana lotou o local para ver seus ídolos de perto. Os atletas tiveram que distribuir autógrafos e conceder fotos para os fãs ainda na pista das aeronaves. No saguão de desembarque, o êxtase do público foi completo. A cidade paranaense demonstrou muito carinho pelos nossos jogadores. A previsão para amanhã é que o estádio esteja lotado. A expectativa dos organizadores é de maioria alvinegra, com o Bando de Loucos ocupando entre 90% e 95% dos espaços das arquibancadas. É a invasão corintiana ao Paraguai devidamente preparada! Outro ponto favorável foi o discurso do técnico e de alguns jogadores. Todos entenderam que a partida de amanhã, mesmo sendo em terras estrangeiras, deverá ser como se ocorresse no Brasil. Tite disse que vai jogar para cima do adversário e tentar pressionar a equipe paraguaia como se estivesse no Pacaembu. Trata-se de uma postura muito diferente da imposta nos dois primeiros jogos fora de casa. Naquelas oportunidades, os atletas corintianos se limitaram a defender e saíram felizes com a igualdade no placar. A mesma opinião foi dada pelo goleiro Júlio César. Em suas declarações à imprensa, o arqueiro pregava respeito ao adversário, mas alertava os companheiros para a necessidade da busca pela vitória desde o primeiro minuto. Os três pontos conferem ao clube a classificação antecipada para a próxima fase. Ou seja, será a primeira meta do ano cumprida. Aí alguém pode dizer: "Passar da primeira fase é moleza. É obrigação para todos os clubes grandes!". Meu amigo, minha amiga, nada é fácil para o Corinthians na Libertadores. Lembremo-nos da eliminação do ano passado na fase anterior a essa. Querendo evitar novos pesadelos e fantasmas, vamos classificar o mais rápido possível para as oitavas. Esse é o primeiro passo. Em relação à escalação para amanhã, Jorge Henrique e Emerson Sheik devem voltar à equipe titular. Eles ficaram fora do jogo do final de semana. Para variar, Jorge estava levemente contundido. Emerson foi poupado, pois jogara vários jogos consecutivos. E por falar no Sheik, ele foi preso antes da viagem ao Paraná. Uma blitz policial no Rio de Janeiro o parou durante sua folga de segunda-feira. Como o atleta se recusou a fazer o teste de bafômetro, recebeu multa e teve a carteira de motorista retida. Meu Deus! Esse é o nosso principal atacante no ano! Outra notícia: Alex e Alessandro devem continuar fora do time titular. Eles não se recuperaram das contusões. Para a sorte da torcida corintiana, o time melhorou com a entrada de Edenílson e Emerson. O provável Corinthians para quarta-feira contra o Nacional é: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Jorge Henrique, Emerson e Liedson. Vai para cima deles Timão! Rumo à próxima fase! 11 de abril de 2012 – quarta-feira A quarta-feira foi marcada por fortes chuvas que caíram em São Paulo no período da tarde. A tempestade provocou uma série de inconvenientes: alagamentos em vários pontos, árvores foram derrubadas pelos ventos, a energia elétrica foi cortada em alguns bairros e um grande congestionamento se formou pelas vias. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), responsável pelo monitoramento e pela administração do trânsito, registrou recorde de congestionamento na cidade nesse ano. Em meio ao caos paulistano, estava eu em uma empresa na Avenida Nove de Julho. Fui para uma entrevista de emprego. Minha vida de escritor está sendo interessante, mas sinto que não conseguirei ficar sem um emprego formal por muito tempo. Sinto falta principalmente de um salário no final do mês. Por isso, a minha disposição de voltar a trabalhar com publicidade. Após a entrevista, o problema mais imediato era como conseguiria retornar para casa com a cidade desabando. Saí da empresa às 15h30 e cheguei, acredite se quiser, às 21h. Meu regresso foi uma maratona que não ousarei contar. Para meu alívio, a energia elétrica já havia sido restabelecida em casa. Era possível, então, acompanhar o Coringão pela televisão. De banho tomado, de roupa trocada e com algumas esfihas no meu estômago, pude ver, atirado ao sofá, o início do jogo no Estádio 3 de Febrero, em Ciudad Del Este, no Paraguai. Com a necessidade de vencer, os paraguaios do Nacional se lançaram com tudo para o ataque e deixaram os contra-ataques para a equipe brasileira. Assim, o Corinthians pôde jogar como gostava: se defendendo e partindo com a bola dominada para cima do desarrumado adversário. Após alguns lances de pouco perigo dos visitantes, Jorge Henrique arriscou um chute despretensioso na ponta esquerda. A jogada surpreendeu o goleiro adversário. A bola entrou. Timão 1 a 0. Frango! Depois disso, os contragolpes dos paulistas tornaram-se cada vez mais perigosos. O Corinthians dava sinal que aumentaria o placar. O segundo gol veio no começo da segunda etapa. Em bela jogada individual de Edenílson pelo meio, Emerson Sheik complementou com categoria. 2 a 0. Aí os paraguaios decidiram atacar ainda mais. Após uma série de boas defesas de Júlio César, o Corinthians sofreu o primeiro gol no jogo e o segundo na competição. Não deu tempo para o Nacional comemorar. Em seguida, Élton, que acabara de entrar no lugar do apagado Liedson, recebeu livre na grande área. Sem goleiro, ele só precisou empurrar a bola para as redes. Foi seu primeiro gol na competição. Com o placar em 3 a 1, a maioria dos torcedores no estádio, composta por corintianos, pôde comemorar a classificação antecipada. Com vários sinalizadores acesos, bandeiras desfraldadas e cantorias típicas, a nação alvinegra suspirou aliviada a passagem à próxima fase. A noite pode até ter começado complicada aqui em São Paulo, mas terminou da maneira mais agradável possível em Ciudad Del Este. O Corinthians está no mata-mata da competição mais importante das Américas. Isso é o mais importante agora. 12 de abril de 2012 – quinta-feira Ao ler o caderno de esportes do Jornal da Tarde no dia seguinte ao quinto jogo do Timão na Libertadores, pude constatar alguns fatos. Primeiro: Jorge Henrique fora eleito o melhor em campo. Ele foi um leão! Armou jogadas, deu bons passes para os companheiros, fez gol e, como sempre, ajudou muito na marcação. Outro que teve desempenho destacado foi Emerson Sheik. Nessa parte, discordei um pouco dos jornalistas esportivos. Só porque o camisa 11 fez gol não podemos dizer que ele foi bem ontem. Emerson, dessa vez, errou quase todos os lances disputados. Ele foi péssimo! Alguns profissionais da imprensa decidem esquecer 99% dos lances quando o jogador marca um gol. Não concordo com isso. Júlio César também foi bem e mereceu menção honrosa. O gol sofrido aconteceu em um chute indefensável. Com a vitória, o Corinthians chegou à liderança do grupo 6 com 11 pontos. Deixou, assim, o Cruz Azul em segundo lugar com 8. Para terminar definitivamente na primeira posição em seu grupo na fase inicial, o time brasileiro precisa apenas empatar o último duelo, na próxima semana, contra o Deportivo Táchira. Para ficar com a melhor campanha da competição, precisa vencer os venezuelanos e torcer por tropeços de Fluminense, Vélez e Atlético Nacional. Ainda é possível ser o melhor time do torneio! Na noite de ontem, o Fluminense perdeu em casa por 2 a 0 para o Boca Juniors. Já o Vélez venceu o Chivas, no México, pelo mesmo placar. Na terça feira, os colombianos do Atlético Nacional venceram em seus domínios o Peñarol. Dos três concorrentes diretos pela melhor campanha no geral, só não acredito no tropeço do Vélez na última rodada. Os argentinos jogarão em casa contra os uruguaios do Defensor. Devem vencer. Já o Flu e o Atlético Nacional pegam pedreiras fora de casa. Os cariocas enfrentam o Arsenal na Argentina e os colombianos vão até Santiago pegar o Universidad do Chile. Se tudo transcorrer como se prenuncia, o Corinthians terminará como primeiro do grupo e com a segunda melhor campanha da competição. O único problema é que nem sempre o futebol é regido pelas previsões, né? A única coisa garantida é que o time do Parque São Jorge está assegurado na fase eliminatória da competição sul-americana. Se por um lado tal informação é motivo de felicidade e orgulho para os corintianos, sabemos que ela traz também doses generosas de preocupação. Quem resumiu bem esse temor foi o jornalista Felipe Bolguese do Jornal O Lance! Veja a manchete e o subtítulo de sua reportagem de hoje: "Classificado para as oitavas, Timão encara 'fase do terror' na Copa Libertadores - Três das últimas quatro eliminações no torneio foram nas oitavas. Última vitória em mata-mata aconteceu somente em 2000". Na reportagem, o repórter relembra as eliminações recentes do Timão em 2010 para o Flamengo, em 2006 para o River Plate e em 2003 novamente para os argentinos de Nuñes. Curiosamente, em todas essas derrotas, o clube paulista tinha um elenco mais forte do que os adversários. Há algumas coisas no futebol que sinceramente não consigo entender. Uma delas é como um time bem entrosado e jogando bem pode ser eliminado por um adversário mais fraco e jogando mal? A única justificativa plausível é a existência de um grande e cruel fantasma pairando sobre o Corinthians durante os jogos dessa competição. 13 de abril de 2012 – sexta-feira A noite de ontem foi recheada de partidas emocionantes pela Copa Libertadores. Comecei acompanhando a epopeia do Flamengo em busca da classificação. Precisando vencer, o time carioca foi para cima do Lanús (já classificado). Com muita facilidade, o rubro-negro fez 3 a 0 já no início do segundo tempo. Para passar para as oitavas, o clube da Gávea precisava que Olímpia e Emelec empatassem a partida que acontecia simultaneamente em Assunção. Se algum dos dois vencesse o confronto direto, o Mengo ficaria fora e o vencedor desse jogo se classificaria. O segundo tempo do duelo no Paraguai começou com o time da casa vencendo por 1 a 0. Na metade da etapa final, o time equatoriano empatou para delírio dos torcedores no Engenhão. O jogo no Rio de Janeiro se aproximava do final, quando o Emelec virou a partida na capital paraguaia. 2 a 1 e tristeza rubro-negra. Com o término do jogo na cidade Maravilhosa, jogadores e torcedores passaram a acompanhar os minutos finais da partida em Assunção. De dentro do campo, os atletas do Flamengo comemoraram o improvável empate do Olímpia no último minuto do jogo. 2 a 2 e festa carioca. Porém, em um final de jogo eletrizante, o Emelec fez o terceiro gol já nos descontos e conseguiu a classificação. Em um minuto, a alegria flamenguista se transformou em decepção. Os atletas saíram do gramado chorando. A verdade é que o Flamengo não mereceu se classificar. O time deu muita bobeira e a eliminação é mais culpa sua do que méritos dos adversários. Em seguida, acompanhei o bom jogo entre Vasco da Gama e Nacional do Uruguai. O duelo foi realizado em Montevidéu e valia pelo grupo 5. Mesmo sem as três principais estrelas (Juninho, Felipe e Dedé) poupadas, os cruzmaltinos conseguiram vencer fora de casa por 1 a 0. Diego Souza fez uma boa partida e foi o autor do único gol da noite no estádio uruguaio. Apesar dos três pontos, os cariocas acabaram em segundo no grupo. A primeira posição ficou com os paraguaios do Libertad, que venceram por 2 a 1 os peruanos do Alianza Lima em seu último compromisso nessa fase. O Vasco não vem mostrando o bom desempenho da temporada passada, quando foi considerado a equipe brasileira com o futebol mais bonito do segundo semestre de 2011. Mesmo assim, é ainda um time perigoso e deverá dar trabalho no torneio sul-americano. É preciso ficar de olhos abertos neles. A sexta-feira 13 foi até tranquila pelos lados do Parque São Jorge. Não tivemos nenhuma notícia desagradável, como poderia se esperar em uma data tão aterrorizante. Tite realizou treinamentos visando o jogo de domingo pelo Campeonato Paulista. A Ponte Preta é o adversário. O técnico corintiano não confirmou a escalação dos titulares. Com a classificação já assegurada para as quartas de finais do torneio regional, o treinador deve colocar onze suplentes para a partida do final de semana. Os titulares serão resguardados para o último confronto da primeira fase da Libertadores na quarta-feira que vem. Pelas informações vindas de Campinas, a Ponte também deve jogar sem alguns de seus principais atletas. Esse é o Campeonato Paulista! Os jogos não valem nada e ainda são disputados pelos reservas. Ai, ai, ai. 14 de abril de 2012 – sábado 14 de abril de 2012 foi a data de comemoração do centenário do Santos Futebol Clube. Há exatamente 100 anos, três jogadores - Márcio Ferraz, Argemiro de Souza e Raymundo Marques - fundaram no centro da cidade praiana o time mais vitorioso do futebol brasileiro. Com dois mundiais interclubes, três Libertadores da América, oito títulos Brasileiros, uma Copa do Brasil e dezenove Campeonatos Paulistas, o Santos teve como principal feito ter sido a casa do maior de todos. De 1956 a 1974, Pelé desfilou seu talento pelo gramado da Vila Belmiro. Lá encantou a todos com os seus 1.091 gols pelo clube. É uma marca também incrível. A linda história do Santos está sendo (re)contada nessa semana em vários lugares. Um filme sobre o centenário do clube foi lançado nos cinemas da cidade nos últimos dias. Muitos programas de televisão têm mostrado os vários eventos comemorativos. Incontáveis revistas esportivas e quase todos os periódicos semanais de notícia deram destaque à data. Livros foram publicados sobre o tema e algumas empresas aproveitaram para fazer propaganda atrelando suas marcas ao símbolo da equipe. O evento comemorativo dos 100 anos do Santos que mais chamou minha atenção foi o jogo festivo ocorrido no gramado do Estádio da Vila Belmiro nesse sábado. A preliminar foi realizada por jogadores veteranos do clube. Depois, no jogo de fundo, o elenco principal do Peixe jogou contra 100 garotos selecionados das escolinhas do Santos. Foi uma festa! Ver os profissionais tendo que enfrentar o exército de formiguinhas no gramado foi muito divertido. Fiquei imaginando a emoção dos garotos e das garotas que estavam em campo atuando contra os ídolos Neymar, Paulo Henrique Ganso e Cia. Era impossível para os atletas adultos conseguirem trocar passes ou arrancar com a bola dominada. A centena de pequenos jogadores adversários se amontoava em volta da bola, roubando-a e avançando em bloco para o ataque. Era tanta criança junta que elas mesmas atrapalhavam umas as outras. Não conseguiam chutar a bola contra o gol defendido por Rafael. Achei a ação do Santos simples e poética. Um jogo contra a molecadinha (cem deles, na verdade). Perfeito! Mesmo sendo corintiano, deixo-me fascinar pela história, pelas conquistas e pelos jogadores do Peixe. Talvez por não ter vivido o incrível jejum de vitórias de meu time sobre esse adversário lá nos anos 1960 e 1970, eu não sinta remorso por gostar e, algumas vezes, torcer pelos jogadores de branco. Naquela época, a equipe de Pelé não perdia nenhum dos confrontos para o Corinthians. Devia ser difícil ser corintiano e gostar do Santos. Sou de um tempo em que o time praiano é muito mais freguês do Timão do que o contrário. Além disso, é tão difícil encontrar um santista da minha idade para poder brincar e tirar sarro. Os santistas são geralmente pessoas mais velhas, o que gera certa empatia nos demais torcedores. Por tudo isso, vou torcer para o Santos nesse ano... Parabéns Santos pelo seu centenário! Espero que essa data seja marcada por tantas conquistas como foram os centenários do Coringão, do Flamengo, do Atlético Mineiro, do Coritiba e tantos outros clubes brasileiros afetados pela maldição dos 100 anos. Boa sorte! 15 de abril de 2012 – domingo A última rodada da primeira fase do Campeonato Paulista de 2012 teve todas as partidas iniciadas às 16h. Em uma competição de fraco nível técnico, muito alongada, com mais equipes do que o ideal e com uma fórmula de disputa equivocada, as emoções do final de semana foram escassas. A disputa pelo título simbólico de campeão da etapa inicial, a definição dos confrontos da próxima fase e a decisão do último time rebaixado para a segunda divisão eram as únicas pendências do domingo. Na ponta de cima, Corinthians e São Paulo duelavam pela conquista da melhor campanha. O tricolor só precisava de uma vitória simples contra o já eliminado time do Linense, em Lins. Como o técnico Emerson Leão colocou força máxima nesse jogo, a probabilidade de vitória são-paulina era grande. Os jogadores do Morumbi vinham de 11 vitórias consecutivas na competição. Com um novo triunfo, bateriam um recorde histórico (maior número de sucessos seguidos no Paulistão). Porém, o futebol não é tão afeito assim a probabilidades, né? O Linense com a força de sua torcida mostrou bom futebol e conseguiu vencer o time de Leão por 2 a 1. Adeus recorde! Dessa maneira, bastava o Corinthians empatar em Campinas contra a Ponte Preta para ficar com o primeiro lugar. O problema para os atuais campeões brasileiros era que, para poupar os principais jogadores para o duelo da Libertadores no meio de semana, o técnico Tite colocou apenas os reservas em campo. E os pontepretanos vinham com força máxima. Ou seja, a probabilidade maior era de uma vitória do time da casa. Nova surpresa! Depois de um primeiro tempo equilibrado e de baixo nível, o Corinthians voltou melhor. Como já acontecera no clássico contra o Palmeiras, em seis minutos o Timão fez dois gols. O primeiro aconteceu aos 3 minutos. Chicão bateu bem o pênalti e fez 1 a 0. Aos 6 minutos, em bela jogada de Élton e Vitor Júnior pela direita, Welder colocou para dentro. Nos minutos finais, a Ponte Preta conseguiu descontar. Final do jogo: 2 a 1 para o Timão e conquista da primeira fase do Paulista! O Santos goleou o Catanduvense por 5 a 0. O Palmeiras decepcionou novamente. Empatou no Pacaembu com o lanterna do campeonato, o Comercial. O time de Ribeirão jogou boa parte do segundo tempo com dois (dois!) homens a menos. Assim, os confrontos das quartas de finais ficaram: Corinthians e Ponte Preta; São Paulo e Bragantino; Santos e Mogi Mirim; e Guarani e Palmeiras. Para o Timão, a boa notícia é que depois que derrotar a Ponte mais uma vez, ele enfrentará o vencedor do jogo entre Guarani e Palmeiras. Para nossa sorte, São Paulo e Santos, os adversários mais difíceis, só serão enfrentados pelo Coringão em uma possível final. Ufa! Para terminar o dia, a grande surpresa do campeonato foi a Portuguesa. A Lusa conseguiu perder por 4 a 2 do Mirassol e foi rebaixada. Depois de fazer uma grande Série B do Brasileiro em 2011, os jogadores do Canindé decepcionaram a torcida. Perderam muitos jogos fáceis nesse ano e caíram. A descida para a segunda divisão do torneio regional em 2013 foi consequência do péssimo futebol apresentado. E imaginar que no começo do ano, várias pessoas colocavam a Lusa como uma das favoritas ao título. Há quem a tenha chamado de Barcelusa (mistura de Barcelona e Lusa). 16 de abril de 2012 – segunda-feira Li, hoje à tarde, o livro "O Jogo da Minha Vida". A obra é de Paulo André, zagueiro do Timão. No mês passado, na época de seu lançamento, falei sobre essa obra aqui no O Ano que Esperávamos Há Anos. Contudo, somente agora tive a oportunidade de lê-la. Apesar de ter pouco mais de 300 páginas, a publicação é muito rápida de ser lida. Levei cerca de três horas para concluir seu conteúdo integralmente. A leitura é muito agradável e divertida. Quem me recomendou o livro foi o meu amigo Paulo, o corintiano fanático e muito intelectualizado que já passou algumas vezes por essas páginas. Há cerca de quinze dias, ele me ligou para contar a novidade: "Sabe que livro comprei ontem e li todo nessa noite? O livro do Paulo André. Saiba que a obra é muito boa. Foi uma grata surpresa!". Desde então, fiquei curioso e só agora pude ler a publicação que repousava na minha estante há algumas semanas. No livro, o defensor do Corinthians conta sua história desde os tempos de garoto. Retrata as dificuldades para entrar nas categorias de base dos clubes de futebol e os martírios para se manter lá. Fala dos medos, dos receios e das condições encontradas para mostrar seu potencial para os treinadores do infantil, do juvenil e dos juniores. Paulo André conta como fez para chegar até o time de base do São Paulo e explica como mudou de posição. Até os juniores do tricolor, ele sempre fora meia-direita. Aí, certo dia, a diretoria do Morumbi decidiu reduzir o elenco do time sub 20 de 60 para apenas 30 meninos. Paulo André inteligentemente calculou que dificilmente seria mantido se continuasse na posição original. Afinal, eram muitos os concorrentes e todos de excelente condição técnica. Por isso, falou para o novo técnico que ele era zagueiro. Conseguiu, assim, se manter no time. Depois, o atleta narra as suas aventuras como profissional. Passou por times do interior como o Guarani e por um time da sexta divisão do Campeonato Paulista, até chegar ao Atlético Paranaense. De lá, ele foi jogar no Le Mans da França, antes de vir atuar no Corinthians, time do coração de sua família. Nesse meio tempo, Paulo André passou por algumas contusões, brigas e problemas com seus empresários. O livro retrata a rotina de um jogador profissional dentro e fora dos gramados. No Timão, o escritor conta as curiosidades sobre seus companheiros durante a conquista do título brasileiro de 2011 e as dificuldades para chegar à posição de titular no time de Tite. Por causa de uma contusão, Paulo André começou sua passagem pelo Coringão na reserva. Ao longo do tempo, foi alçado à condição de titular, tendo sido considerado o melhor zagueiro do país no último ano. A parte final da obra é reservada às reflexões. Paulo André opina sobre a estrutura dos clubes brasileiros, a forma como os dirigentes encaram as categorias de base e os problemas do calendário do futebol nacional. Ele também oferece algumas dicas aos pais e aos meninos interessados em ingressar no futebol. É ou não é uma leitura agradabilíssima, hein? O livro mostra a realidade, os bastidores do futebol e a vida real dos artistas da bola. Vale a pena lê-lo. 17 de abril de 2012 – terça-feira Cheguei a duas conclusões nessa terça-feira: Jorge Henrique é melhor do que Cristiano Ronaldo e Tite é o melhor técnico do mundo. Sim, tais constatações foram tiradas após assistir ao jogo de ida das semifinais da Copa dos Campeões da Europa entre Bayer de Munique e Real Madrid. A partida realizada no Allianz Arena, em Berlim, atraiu a atenção dos apaixonados pelo futebol no mundo todo. O milionário time do Real Madrid, recheado de estrelas, começou melhor e pressionava os mandantes. Na primeira oportunidade concreta do Bayer, o time alemão fez 1 a 0. Em desvantagem no placar, o time merengue se perdeu completamente em campo. Deixou de exercer o ótimo futebol até então imposto. O Bayer pressionou e podia ter ampliado ainda na etapa inicial. Na volta do intervalo, em uma rara falha defensiva alemã, o Real empatou. O gol sofrido desestabilizou os jogadores da casa. Nesse momento, o Real voltou a jogar melhor. Cristiano Ronaldo esteve péssimo e não conseguiu contribuir com os companheiros. Aí surgiu o técnico José Mourinho, do Real, considerado por muitos o melhor do mundo. Ele fez três alterações equivocadas e piorou o time. Aí o Bayer se aproveitou e venceu a partida por 2 a 1. Quais as conclusões que podemos tirar desse confronto entre dois titãs do futebol europeu? A primeira: prefiro ter no meu elenco um jogador como Jorge Henrique a ter Cristiano Ronaldo. O português, considerado por muita gente o jogador mais completo do futebol mundial na atualidade, some em todos os jogos decisivos. Ele geralmente vai muito bem nas partidas de pouca importância, geralmente contra fracos adversários do Campeonato Espanhol. Em clássicos, em finais ou em jogos pela seleção portuguesa, Cristiano nunca joga nada. Pera aí! O que adianta ter um jogador desse nível se na hora do "vamos ver" ele não rende? Prefiro o Jorge Henrique. O camisa 23 do Timão é o contrário. Em jogos de pouca importância, ele desaparece. Por outro lado, nos clássicos, nas finais ou em partidas importantes, o atacante de 29 anos cresce e se transforma em um monstro. Normalmente é o melhor em campo, fazendo gols, ajudando a defesa e desestabilizando os adversários com seus dribles e jogadas de efeito. Por tudo isso, Jorge é melhor do que Cristiano Ronaldo. Anote aí! A segunda conclusão é sobre a competência do Tite. Ele é hoje o melhor técnico do mundo. Vendo a atuação desastrosa do lusitano José Mourinho, fica evidente a qualidade do gaúcho. Não me lembro da última vez em que o treinador corintiano escalou mal sua equipe ou mexeu equivocadamente durante a partida. Pelo contrário. Ele muda o time sem precisar fazer nenhuma alteração. Só modificando o posicionamento dos atletas, ele transforma o jogo. Quando faz substituições, quase sempre o Corinthians melhora e consegue sair de situações difíceis. Eu poderia listar inúmeros exemplos de quando o treinador alvinegro foi decisivo. Para completar, Tite e Jorge Henrique ainda são humildes. Eles não dão declarações dizendo serem perfeitos, infalíveis e se colocando no posto de melhores do mundo em suas funções, como os colegas portugueses. Cristiano Ronaldo e José Mourinho são tão arrogantes e presunçosos que não consigo torcer por eles. Vou torcer pelo Bayer. Quero ver os alemães chegarem à final do torneio europeu. 18 de abril de 2012 – quarta-feira Último jogo da primeira fase da Liberta. O Corinthians entrou em campo às 22 horas no Pacaembu para delírio de seus torcedores. Interessada na audiência, a Rede Globo transmitiu ao vivo a partida. E não podia ser diferente. Com 30 milhões de corintianos espalhados pelo país sonhando obsessivamente com a conquista da América, onde o Timão jogasse, atrairia os olhares de uma multidão. Assim, a emissora carioca esteve lá, cobrindo cada detalhe da saga alvinegra e colhendo mais pontos de audiência. Todos os seis jogos do Todo Poderoso na primeira fase tiveram cobertura da Toda Poderosa. Os jogadores do Parque São Jorge que pisaram no gramado do Paulo Machado de Carvalho nessa noite foram: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Jorge Henrique, Emerson e Liedson. Era a mesma equipe da última partida da Liberta contra o Nacional do Paraguai. Animado com o apoio da torcida e querendo terminar com a melhor campanha da competição, o Timão atacou o adversário desde o primeiro minuto. O Deportivo Táchira só se defendia. A meta era evitar os gols adversários. Na primeira chance real, os brasileiros abriram o placar. Aos 17 minutos, Emerson cobrou falta na lateral esquerda. Danilo (sempre ele!) cabeceou para dentro. Timão 1 a 0. Aos 26, Paulinho e Liedson trocaram passes sucessivos do meio campo até a pequena área. Embaixo da trave, o volante mandou a bola novamente para as redes. 2 a 0. A alegria da Fiel aumentou quando um jogador venezuelano foi expulso ainda no primeiro tempo. Ele fez falta feia em cima do Danilo. O meio-campista corintiano teve até que ser substituído depois por Douglas. Chicão, para ser poupado, também saiu no intervalo. Com os dois gols de vantagem, o Coringão começou a administrar a partida. A tônica do jogo corintiano era as trocas de passes no meio de campo. Se quisesse, poderia golear facilmente. Essa era a impressão. Porém, outra questão me intrigava: o time queria mesmo fazer mais gols? Quando começava a duvidar disso, veio uma enxurrada deles. Aos 17 minutos do segundo tempo, Jorge Henrique recebeu livre pela ponta direita e chutou forte e cruzado. Gol! Sete minutos mais tarde, Emerson recebeu cruzamento e arrematou de primeira. Golaço. 4 a 0. O Timão goleava pela primeira vez na competição. Enfim, tínhamos o resultado mais elástico do ano até aqui. E o show alvinegro não tinha acabado. Na jogada seguinte, Emerson foi derrubado na área. Pênalti. O estádio inteiro gritou: "Liedson! Liedson! Liedson!". Todos queriam ver o centroavante marcar na Libertadores. Ele cobrou mal, mas marcou o gol no rebote do goleiro. No final, Douglas, que entrou bem no lugar de Danilo, ainda fez mais um em novo pênalti cometido dessa vez em cima de Liedson. A goleada de 6 a 0 confirmou o Corinthians no primeiro lugar do grupo. Aposto que todos os torcedores do Timão foram dormir tranquilos com o desempenho do time nessa noite. Agora é só esperar a definição dos confrontos da próxima fase. Amanhã saberemos quem será o nosso adversário. Aí sim o bicho irá pegar pra valer! 19 de abril de 2012 – quinta-feira O dia seguinte à classificação do meu time na Libertadores foi marcado por expectativas quanto aos enfrentamentos da próxima fase. Hoje era o momento de fazermos contas e de analisarmos quais eram as equipes teoricamente mais fáceis para serem enfrentadas nas oitavas. Assim, precisei acompanhar os jogos faltantes. Torci por alguns times e sequei outros nesses últimos duelos da fase de grupos. O Vélez surpreendeu a todos. Perdeu seu jogo em casa para o eliminado Defensor do Uruguai. A derrota por 3 a 1 jogou no lixo a chance de os argentinos ficarem com o primeiro lugar na classificação geral. Depois foi a vez do Atlético Nacional, outro time com tal pretensão, perder seu último compromisso. Os colombianos caíram diante do Universidad de Chile, em Santiago, por 2 a 1. Além de não conseguir a melhor campanha entre os participantes, o Atlético terminou em segundo lugar no seu grupo. Na sequência, era hora de torcer para que o Santos e o Internacional vencessem seus últimos jogos. Dessa forma, evitaríamos o confronto prematuro de ambos com o Corinthians nas próximas fases. O time da Vila Belmiro conseguiu passar pelo The Strongest da Bolívia por 2 a 0. O Internacional, porém, perdeu para os peruanos do Juan Aurich por 1 a 0. O Inter terminou com a pior campanha entre os segundos colocados e enfrentaria o melhor time da primeira fase. Problemas à vista! Agora só faltava o Fluminense tropeçar contra o Arsenal de Sarandi para o Timão ficar com o primeiro lugar no geral. A questão era: seria interessante alcançar esse posto e enfrentar o forte time do Internacional já na segunda fase?! O medo de uma eliminação precoce estava rondando minha mente enquanto assistia pela televisão ao jogo na Argentina. Em uma partida emocionante, o Flu conseguiu a vitória no último minuto, com um gol de cabeça do centroavante Rafael Moura, ex-jogador do Parque São Jorge. Por isso, o Flu terminou em primeiro no geral e o Timão em segundo. Quem pegaria o Inter seria o Fluminense. Ufa! Escapamos dessa. Além disso, se a equipe carioca passar para as quartas de finais, deverá pegar o sempre perigoso Boca Juniors. Meu Deus, eles caíram em uma chave bem mais complicada do que a gente. O Corinthians, com a segunda melhor campanha, enfrentará o Emelec do Equador, um time sem tanta tradição e limitado tecnicamente. Se passar para as quartas de finais, o Timão pegará o vencedor de Vasco da Gama e Lanús. Apesar de ser um confronto Brasil-Argentina, algo sempre difícil, essas equipes são as mais fracas de seus países nesse estágio do torneio. Ou seja, ficamos em uma boa chave para avançar até as semifinais. Vale lembrar que os atletas do Parque São Jorge farão sempre o segundo jogo de seus confrontos em casa até o final da Libertadores. Somente a decisão, se for contra o tricolor carioca, não seguirá tal regra. O único confronto mais difícil no caminho do Timão será contra o Santos, em uma possível semifinal. Já imaginou Santos e Corinthians brigando diretamente para chegar à decisão da Libertadores? Será emocionante! As próximas semanas prometem. 20 de abril de 2012 – sexta-feira As chaves das próximas fases do torneio sul-americano ficaram assim: É possível ver que a parte de cima do chaveamento tem times mais difíceis: Fluminense, Internacional, Boca Juniors, Universidad de Chile e Libertad. A parte de baixo, o lado corintiano, só tem o Santos e o Vélez Sarsfield como equipes mais complicadas. E ambos os times só serão enfrentados pelo Timão, possivelmente, nas semifinais. Ou seja, o Timão tem uma oitava-de-final fácil contra o Emelec e uma quarta-de-final de nível mediano contra Vasco da Gama ou Lanús. Com a tabela já definida, agora é hora de nos prepararmos bem para os confrontos. Nisso, eu confio no profissionalismo, na capacidade de liderança e na visão técnica e tática do treinador Tite. Será que dessa vez a Liberta será nossa?! 21 de abril de 2012 – sábado O final de semana chegou trazendo de volta as emoções do Campeonato Paulista. Agora é fase decisiva, amigo(a)! Nesse sábado, tivemos apenas um jogo do torneio: São Paulo e Bragantino no Morumbi. Os demais confrontos (Corinthians e Ponte, Guarani e Palmeiras e Santos e Mogi Mirim) serão disputados no domingo. No Centro de Treinamento Joaquim Grava, a animação de todos era evidente. Empolgados com a goleada de 6 a 0 contra o Deportivo Táchira, os jogadores do Timão exalavam confiança em nova vitória. Nesse cenário, Tite definiu o Corinthians para a partida contra a Ponte Preta. Danilo se recuperou bem da contusão sofrida na quarta-feira e é certeza de estar em campo. Já Chicão não foi liberado pelo departamento médico. O camisa 3 não poderá jogar domingo. Marquinhos, o garoto da base corintiana, foi escalado em seu lugar. Dessa maneira, o Timão pisará no Pacaembu com: Júlio César; Edenílson, Leandro Castán, Marquinhos e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Jorge Henrique, Emerson Sheik e Liedson. É força máxima! A Ponte tem problemas em sua defesa. Quase todos os zagueiros estão suspensos, machucados ou impedidos de jogar por algum motivo. Por isso, o técnico da Macaca irá improvisar atletas de outros setores lá atrás. Eu acho a Ponte um bom time, mas tenho certeza de que ela não conseguirá segurar o Timão jogando completo no Pacaembu. Na semana passada, os pontepretanos perderam do time reserva do Tite em jogo em Campinas. Imagine, então, o que acontecerá no jogo em São Paulo contra os titulares do Parque São Jorge, hein?! Para mim, será nova goleada e passagem garantida para as semifinais do torneio regional. A vitória também será boa para o Corinthians começar com o pé direito suas disputas de mata-mata tanto no Campeonato Paulista quanto na Libertadores. À noite, assisti ao jogo do São Paulo no Sportv. O tricolor do Morumbi dominou todo o primeiro tempo e fez um gol. O placar de apenas 1 a 0 no intervalo não refletiu o amplo domínio do time da casa. O Bragantino apenas ficava na defesa evitando tomar mais gols. No segundo tempo, o técnico do time do interior trocou alguns jogadores para dar mais força ofensiva. O Braga perdeu três chances claras para empatar. E sabe como é: quem não faz, toma. O São Paulo aproveitou o contra-ataque para fazer 2 a 0. Podia ter feito mais se não tivesse perdido um pênalti. A equipe visitante chegou a diminuir, mas a noite era mesmo são-paulina. Os comandados de Emerson Leão fizeram o terceiro e o quarto tentos. Estava fechada a goleada em 4 a 1 e o primeiro semifinalista do Paulistão estava definido. Com facilidade, o São Paulo despachou o Bragantino e se colocou entre os quatro melhores da competição. Agora a responsabilidade está com corintianos, santistas e palmeirenses. Para confirmarem o favoritismo, eles precisam passar por seus adversários e avançar para as semifinais. Definitivamente, o Campeonato Paulista está começando de fato agora. Ninguém mais pode perder um jogo. Como os confrontos são em jogo único, perdeu uma partida, adeus competição. Se houver empate, disputa por pênaltis. Ai meu Deus! 22 de abril de 2012 – domingo O domingo começou com chuva e muito frio na cidade de São Paulo. O clima era de Inverno, apesar de estarmos ainda no Outono. Uma gripe me pegou de jeito e me deixou de cama o dia inteiro. Fiquei muito mal! Se fosse contar, acho que meu nariz espirrou mais vezes do que o número de batidas do meu coração ou de piscadas dos meus olhos. Por sorte, não havia comprado antecipadamente ingresso para o jogo do Pacaembu. Com certeza, não estaria em condições para ir ao estádio e tomar chuva. Por isso, só saí do quarto duas vezes ao longo de todo o dia: para tomar café da manhã e, à tarde, para ver a partida das 16 horas pela televisão da sala. O duelo entre Corinthians e Ponte Preta começou com o time visitante no campo de defesa, bloqueando os ataques do Timão. Os pontepretanos ainda tinham habilidade para armar contra-ataques e levar perigo à meta corintiana. Aos 12 minutos, uma falta foi marcada para a equipe do interior em sua intermediária ofensiva. A cobrança foi rasteira e sem força. Com o gramado molhado, Júlio César deixou a bola escorregar por entre suas mãos. Ponte 1 a 0. Frango do nosso goleirão! Com a vantagem, os campineiros ganharam confiança. Eles não perdiam nenhuma jogada. O Coringão até tentava atacar, mas era sempre bloqueado. Não me lembro de ter visto um bom chute ao gol do meu time na primeira etapa. Do outro lado, os avanços da Ponte eram sempre perigosos. Antes do intervalo, os visitantes chegaram ao segundo gol. Dessa vez Júlio César não teve culpa. Ponte 2 a 0. No segundo tempo, Tite mexeu na equipe. Alex e Douglas substituíram Danilo e Jorge Henrique. Mesmo com as alterações, o Corinthians continuava mal, muito mal. Não conseguia furar o bloqueio pontepretano e dava espaço lá atrás para o adversário. O time do Parque São Jorge só melhorou pra valer com a entrada de William. O atacante substituiu o zagueiro Marquinhos e colocou fogo no jogo. Após várias oportunidades criadas pela direita, William fez o seu: 2 a 1. Pressão total do Timão! Quando o empate parecia iminente, Júlio César falhou novamente ao chutar um tiro de meta no pé do rival. Era o terceiro gol da Ponte. Na saída de bola, Alex diminuiu novamente: 3 a 2. Os cinco minutos finais foram eletrizantes. Paulinho, Emerson e William perderam um gol feito cada um. A Ponte segurou bravamente a vitória. Final de jogo no Pacaembu: o Corinthians perdeu e foi desclassificado. A tristeza dos corintianos pela eliminação precoce no estadual só não era menor, ao final da partida, do que as preocupações decorrentes da derrota. Será que o time vai se abalar com essa desclassificação? Entrará tenso no próximo jogo da Libertadores? Júlio César é realmente um goleiro à altura da grandeza do clube? Nosso camisa 1 suportará a pressão de evitar os gols adversários no torneio sul-americano? O Timão está verdadeiramente preparado para disputar o mata-mata continental? Com esses pensamentos, voltei para o quarto para espirrar mais uma centena de vezes. Não sei se a derrota ou a gripe me deixaram com uma forte dor de cabeça. 23 de abril de 2012 – segunda-feira É segunda-feira de ressaca para os corintianos. Como se estivessem de luto, os torcedores do Timão passaram o dia de cabeça baixa ouvindo as gozações de são-paulinos e santistas. O único consolo, nessa hora difícil, foi que os palmeirenses não puderam abrir a boca para falar de futebol. Seu time também tinha sido eliminado do torneio estadual por um clube de Campinas. O Palestra perdeu para o Guarani por 3 a 2 e deu adeus ao sonho de sair do jejum de títulos. O Santos foi o único grande a vencer no domingo. O Peixe derrotou o Mogi Mirim por 2 a 0 na Vila Belmiro. As semifinais do Paulistão de 2012 terão São Paulo versus Santos e Guarani versus Ponte Preta. Os dois jogos serão no próximo final de semana. A desclassificação do Campeonato Paulista em si não representa grandes perdas esportivas para o Timão. Afinal, a equipe do Parque São Jorge é a maior vencedora da história do torneio estadual. De todas as competições do ano (incluindo Libertadores e Campeonato Brasileiro), essa é a de menor importância. O problema é o impacto da derrota no ambiente dos jogadores. Para ficar claro o que estou dizendo, a melhor comparação possível a ser feita é imaginar o Parque São Jorge como um grande barril de pólvora. Cada derrota é uma fagulha e as grandes perdas (desclassificações) são como se fossem grandes labaredas de fogo. Junte uma coisa à outra e você tem a probabilidade de algo explosivo acontecer. Júlio César saiu chorando do campo pelos dois frangos sofridos. O goleiro foi muito criticado hoje em todos os jornais pela atuação bizarra contra a Ponte Preta. Suas falhas em partidas decisivas foram lembradas: no último jogo do Campeonato Brasileiro de 2010 contra o Goiás, que representou a perda do título nacional daquele ano; na final do Campeonato Paulista de 2011, com um peru contra o Santos nos últimos minutos do jogo; e agora. No Mesa Redonda da TV Gazeta de ontem (sim, assisti ao programa mesmo com a derrota do meu time), o jornalista mais corintiano do mundo, Chico Lang, evidentemente transtornado pela derrota, foi muito ácido com o camisa 1 alvinegro. Ele disse que Júlio não tinha nenhuma condição de ser o arqueiro do time. E esperava a sua retirada imediata da equipe titular pelo treinador corintiano. Outro ponto citado pelos jornais esportivos foram as sucessivas derrotas do técnico Tite em fases eliminatórias: Libertadores do ano passado na fase de pré-grupo, campeonato paulista do ano passado e novamente agora no torneio estadual. A única conquista do gaúcho pelo Timão fora em uma competição de pontos corridos. Se for seguida essa tendência, o Corinthians dificilmente conquistará a Libertadores, um torneio no estilo mata-mata. O próximo compromisso do Todo Poderoso será daqui a dez dias. Será justamente contra o Emelec pela Libertadores. Até lá, Tite terá um bom tempo para remontar o time e motivar seu goleiro destroçado pelas falhas e pelas críticas. Ah, por falar em se restabelecer, eu melhorei sim da gripe. Estou 100% outra vez. Obrigado por se preocupar e me perguntar como eu estou. 24 de abril de 2012 – terça-feira Após dias complicados, com ausência de boas notícias e perspectivas positivas, os torcedores do Corinthians tiveram, enfim, algo para comemorar hoje. O Barcelona foi eliminado na semifinal da Copa dos Campeões da Europa. O dream team catalão não será, portanto, adversário do campeão da Libertadores no final do ano, no Mundial de Clubes. O melhor time do mundo foi desclassificado em casa pelo Chelsea. Após vencerem em Londres na semana passada pelo placar mínimo, os ingleses arrancaram um empate na segunda partida na Espanha. Os Blues vão disputar a decisão do torneio europeu pela primeira vez na história. E que jogo semifinal foi esse, hein? O time espanhol começou jogando muito bem. Fez 2 a 0 com extrema facilidade. Para piorar as coisas para os visitantes, um zagueiro da equipe inglesa saiu machucado e outro foi expulso antes do intervalo. A defesa do Chelsea precisou ser remendada para não sofrer mais gols. No finalzinho da primeira etapa, quando todos esperavam mais gols do Barcelona, quem marcou foi o Chelsea. Em um contra-ataque velocíssimo, o brasileiro Ramirez fez um golaço de cobertura, diminuindo a vantagem do adversário. Curiosamente, era a primeira vez que o time inglês chutava a gol na partida. O segundo tempo foi de muita pressão do Barcelona e de muita dedicação defensiva do Chelsea. Os espanhóis atacavam, atacavam e atacavam. E os ingleses se defendiam, se defendiam e se defendiam. Era jogo de ataque contra defesa. De tanto insistir, o Barça conseguiu um pênalti a seu favor. Messi cobrou. A bola acertou a trave e saiu. O melhor jogador do mundo perdia a oportunidade de matar a partida. A pressão catalã permaneceu até o fim. Aí aconteceu o que parecia impossível. Nos minutos finais, os ingleses conseguiram empatar em um contragolpe sensacional. Era o segundo chute a gol deles no jogo. O 2 a 2 no Camp Nou representou a eliminação dos atuais campeões espanhóis, europeus e mundiais. Por consequência, sentenciou a passagem do Chelsea para a final do torneio, a ser disputado no dia 19 de maio. Aí alguém pode me perguntar: "Por que você está tão interessado nos assuntos relacionados à Copa dos Campeões da Europa?". A resposta é simples. Porque o vencedor desse campeonato será o adversário do Timão no Mundial de Clubes em dezembro. Não quero que o Coringão sofra o que o Santos vivenciou no ano passado. Para quem não se lembra, o Peixe foi campeão da Libertadores jogando um futebol maravilhoso, de encher os olhos dos torcedores. Quando chegou ao Japão para o duelo com o Barça, a equipe de Muricy Ramalho era considerada por muitos brasileiros como o único time capaz de parar a mágica equipe espanhola. O resultado? O Barcelona goleou por 4 a 0. Os santistas não viram a cor da bola e voltaram envergonhados para casa, humilhados com a surra sofrida. Para o ano de 2012 ser perfeito, precisamos vencer a Libertadores e o Mundial depois. A saída do clube catalão da competição do final do ano é um ótimo sinal para o Timão e para todas as equipes sul-americanas. Agora só falta mesmo o Corinthians vencer a Libertadores... Às vezes, acho que essa é a parte mais difícil da tarefa. 25 de abril de 2012 – quarta-feira Hoje começou a segunda fase da Copa Libertadores. Tivemos duas partidas envolvendo três brasileiros. Os demais jogos de ida do torneio serão realizados na próxima semana. Os duelos de volta serão na semana posterior. Em aproximadamente 15 dias, teremos a lista das oito melhores equipes sul-americanas da temporada. O Santos viajou para a altitude de La Paz, na Bolívia, e perdeu para o Bolivar por 2 a 1. O jogo foi muito fraco tecnicamente. Os três gols surgiram em cobranças de falta. Neymar foi caçado em campo. O craque sofreu com a violência do adversário. As cenas vistas pela televisão foram típicas do torneio: torcida atirando objetos no gramado, os policiais e seus escudos protegendo os atletas visitantes, o juiz sendo pressionado por todos no estádio e os brasileiros apanhando em campo. O placar final não foi encarado pelos santistas como algo tão ruim. Uma vitória de 1 a 0 no jogo de volta, na Vila Belmiro, classificará os brasileiros. O Santos continua bem na competição e deve passar para a próxima fase. Para mim, o Peixe segue sendo o grande favorito a erguer a taça da Liberta pela quarta vez na história (a segunda consecutiva). Em Porto Alegre, Internacional e Fluminense se enfrentaram no duelo 100% brasileiro das oitavas de finais. O jogo foi equilibrado com as equipes se preocupando mais em não sofrer gol do que em marcar. Se no primeiro tempo os cariocas dominaram as ações, na segunda etapa foram os gaúchos os protagonistas em campo. Entre as várias chances desperdiçadas pelos colorados, destaque para um pênalti defendido pelo goleiro do Fluminense e uma bola que explodiu na trave tricolor. O empate sem gols foi consequência da boa atuação dos dois arqueiros e deixa o confronto em aberto para a próxima partida no Rio de Janeiro. A quarta-feira foi recheada de futebol. Além dos duelos pelo torneio sul-americano, jogaram, na Europa, Real Madrid e Bayer de Munique pelo segundo jogo da semifinal da Copa dos Campeões. Quem passasse faria a final com o Chelsea, classificado ontem. Depois de perder o primeiro jogo na Alemanha por 2 a 1, o Real devolveu o mesmo placar em Madrid, o que levou a partida para a prorrogação. Com a nova igualdade no marcador, a peleja foi para os pênaltis. Na disputa de desempate, os jogadores do Real perderam três pênaltis (um dos amarelões, obviamente, foi Cristiano Ronaldo) e os atletas do Bayer apenas dois. Assim, os alemães se classificaram. As estrelas do Santiago Bernabéu decepcionaram mais uma vez. Para terminar o dia, acompanhei a repercussão da entrevista que Adriano concedeu no domingo ao Fantástico. O ex-jogador corintiano disse à reportagem que realmente faltara várias vezes aos treinos e às sessões de fisioterapia. Reconhecia que sua recuperação da cirurgia no Tendão de Aquiles não fora bem-sucedida por seu descuido. Ele não respeitou as orientações médicas. E ainda admitiu beber constantemente e não conseguir parar na primeira latinha de cerveja. Em outras palavras, o cara queimou o próprio filme. A diretoria corintiana comemorou a entrevista. Os advogados do Timão poderão usar mais essa prova contra o atleta em uma possível audiência na Justiça do Trabalho. Como Adriano é burro, meu Deus!!! 26 de abril de 2012 – quinta-feira 26 de abril é o Dia Nacional dos Goleiros. Parabéns aos encarregados por defender com as mãos seus times. Essa é uma das profissões mais ingratas que existe. Lembro-me imediatamente dos versos da música de Jorge Ben Jor: Eu vou lhe avisar Goleiro não pode falhar Não pode ficar com fome Na hora de jogar Senão, um frango aqui, Um frango ali, Um frango acolá Curiosamente, essa é a pior semana para os arqueiros titulares dos principais clubes da cidade de São Paulo. Todos passam por momentos delicadíssimos. Enquanto o corintiano e o palmeirense sofrem com as críticas, o são-paulino padece com contusões. Deola, o goleiro do Palmeiras, falhou em três lances na derrota para o Guarani. Ele assumiu a camisa 1 do alviverde no começo desse ano com a aposentadoria de Marcos. E já voltou para a reserva no jogo dessa quarta-feira pela Copa do Brasil. Por sua vez, o são-paulino Rogério Ceni sofre com dores e limitações desde a operação no ombro. Nessa semana, os rumores pelos lados do Morumbi indicavam a possibilidade de aposentadoria de Rogério dos gramados. Vamos esperar para ver se o goleiro artilheiro pendurará as luvas e as chuteiras de vez. Após os frangos de domingo, Júlio César retornou, na terça-feira, aos trabalhos no CT corintiano. Mesmo sendo muito criticado pela imprensa e pelos torcedores, o goleiro recebeu o apoio do técnico e do presidente do clube. Ambos os profissionais vieram a público, nessa semana, prestigiar o arqueiro. Afirmaram possuir total confiança em Júlio. Tite, porém, não assegurou a sua manutenção entre os titulares. O treinador disse que o trio de goleiros do elenco alvinegro tem condição para ser titular. Mostrando muita personalidade, Júlio César concedeu entrevista coletiva ontem. Aos jornalistas, o camisa 1 afirmou estar ciente de suas falhas na última partida. Garantiu estar bem emocionalmente e manter a confiança em ser mantido no time principal. Destacou seu bom desempenho na atual temporada e no último ano, quando fora um dos principais responsáveis pelo título brasileiro. Concordo com ele. Júlio César tem tido um bom desempenho nos últimos anos e deve ser mantido como titular. As pessoas se esquecem que no ano passado o Timão teve a melhor defesa do Brasileirão. E quem era o goleiro do time, hein? O único momento em que o Corinthians fraquejou naquele torneio, sofrendo derrotas sucessivas, foi justamente quando Júlio César se machucou e não pôde defender a meta corintiana. Além do mais, qual goleiro não falha, né? Até hoje não conheci nenhum. Talvez, no final do ano, nós devemos agradecer ao nosso camisa 1 por ele ter falhado no campeonato estadual e não na Copa Libertadores. Júlio como titular! Essa é a minha opinião. 27 de abril de 2012 – sexta-feira Hoje, o Pacaembu fez aniversário. Ele completou 72 anos. Parabéns! O estádio municipal leva o nome de Paulo Machado de Carvalho em homenagem ao empresário dos meios de comunicação que foi o chefe da vitoriosa delegação brasileira nas Copas do Mundo de 1958 e 1962. Em sua inauguração, em 27 de abril de 1940, o estádio tinha a capacidade para 70.000 pessoas. Era considerado o maior e mais moderno da América do Sul. O Pacaembu foi a sede paulista da Copa do Mundo de 1950 e o principal palco dos jogos Pan-Americanos de 1963. Por muitos anos, o campo foi a sede dos principais times de São Paulo e o palco das grandes decisões e dos clássicos estaduais. Com a construção do Morumbi e a reforma do Parque Antártica na década de 1960, São Paulo e Palmeiras começaram a mandar seus jogos em suas respectivas casas. A partir daí, o Pacaembu virou definitivamente o estádio do Timão. Não por acaso, é no Paulo Machado de Carvalho em que a nação corintiana se sente mais à vontade. Foi nesse campo onde a Fiel assistiu às conquistas dos títulos do Paulistão de 1951, 1954 e 2009, do torneio Rio-São Paulo de 1950, 1954 e 1966 e do Brasileirão de 2011. O estádio municipal também foi o local das primeiras partidas das finais da Copa do Brasil de 1995 e 2009, importantes conquistas alvinegras. O que eu mais gosto no Pacaembu é seu fácil acesso e o clima aconchegante das arquibancadas. Localizado na Praça Charles Miller, o estádio está na região central da cidade. É muito tranquilo para chegar e sair. Além disso, ele consegue ser ao mesmo tempo grande e intimista. O Morumbi, por ser maior, deixa os torcedores bem longe do campo e não oferece boa visão do espetáculo. O Parque Antártica, o Canindé e o Parque São Jorge proporcionam um bom panorama do gramado, mas são estádios acanhados. O único que consegue aliar tamanho adequado (hoje com 40 mil lugares disponíveis) e boa proximidade do campo é o Pacaembu. A visão em todos os setores é excelente. Apesar de ter estádio particular, o corintiano que é corintiano não abre mão de ver os jogos do Timão no Paulo Machado de Carvalho. Diferentemente do que dizem nossos rivais, o Corinthians tem casa própria sim. O Parque São Jorge, também conhecido como Fazendinha, é o estádio corintiano desde 1928. Ele até tem uma boa capacidade, cerca de 16 mil lugares. O problema é o tamanho da torcida corintiana. Os quase 30 milhões de loucos amantes do clube tornam inviável o uso frequente do estádio do Tatuapé. Por isso, a Fazendinha foi usada na maior parte da história como campo de treino e não de jogo. Desde o ano passado, com a inauguração do Centro de Treinamento em Guarulhos, ele deixou de abrigar os treinos da equipe profissional de futebol. É atualmente usado apenas para as partidas do time de futebol americano. A partir de dezembro de 2013, com a inauguração da nova arena própria em Itaquera, para 70 mil torcedores, os corintianos serão a única torcida do mundo com três estádios: Pacaembu, Parque São Jorge e Itaquerão. Infelizmente, depois de 2014 não teremos mais o bom e velho Pacaembu como palco de nossas principais partidas. Sentiremos saudades desse antigo companheiro de vitórias! 28 de abril de 2012 – sábado Meu dinheiro está diminuindo assustadoramente. Dois meses sem trabalho formal provocaram estragos em minhas finanças. Estou economizando ao máximo e precisarei me empenhar ainda mais para conseguir pagar as contas nos próximos meses. Sem verba, não pude sair no sábado à noite nem convidar a Thalita para dar umas voltas pela cidade. Resolvi, então, fazer um programa barato e solitário. A Caixa Cultural, localizada no centrão de São Paulo, estava com uma programação gratuita de filmes iugoslavos. Sim, existem cinema e cineastas na Iugoslávia! Sim, algum louco resolveu reuni-los em um festival. E havia outros malucos que se propuseram a assisti-lo. O longa-metragem que me chamou mais atenção foi o documentário "Maradona", do cineasta sérvio Emir Kusturica. O filme pretendia mostrar o verdadeiro homem por trás da imagem do campeão do mundo de 1986. Minha expectativa não era, confesso, muito alta. Eu havia visto alguns anos atrás a ficção "A Mão de Deus", filme ítalo-espanhol baseado na biografia de Diego Armando. Portanto, já conhecia a história do craque argentino repleta de lances geniais dentro de campo e de tristes atitudes fora dele (brigas familiares, dependência da cocaína, detenções policiais e internações em clínicas de reabilitação). Mesmo assim, o documentário iugoslavo me surpreendeu positivamente. Ele é sensacional! Diferentemente do senso comum, Kusturica não quis recontar a história do atleta. Ele se preocupou mais em apresentar a verdadeira figura por trás do mito. O público teve a oportunidade de ouvir Diego falando de vários temas e de acompanhá-lo em sua rotina (na casa em Buenos Aires e em viagens a Cuba, Nápoles e Iugoslávia). Também há lances bem-humorados como as cenas da Igreja Maradoniana e seus fiéis. Ao assistir aos depoimentos de Diego, a minha sensação é que Maradona é uma pessoa, infelizmente, de cabeça muito fraca. Dois pontos me chamaram mais a atenção. Primeiramente, ele se alinha incondicionalmente ao pensamento da esquerda latino-americana. Aprova a Revolução Cubana, admira Hugo Chaves e Ivo Morales e é a favor de medidas populistas na Argentina. Considera os Estados Unidos e a Inglaterra como os responsáveis por todas as desgraças em seu país. Também tem grande antipatia por todas as instituições de poder, sejam elas políticas ou futebolísticas. A segunda questão é que ele não admite ser responsável por nenhum de seus fracassos esportivos e pessoais. Perdeu a Copa de 1990 porque foi roubado, foi banido do futebol no início da década de 1990 por doping porque a federação italiana queria se vingar dele (Diego desclassificou a seleção local na Copa da Itália) e foi pego no antidoping na Copa de 1994 porque a FIFA queria dar o título ao Brasil. Sua decadência foi culpa das drogas e não dele, o usuário. Já no final do documentário, Maradona desabafa: "Que jogador nós perdemos (por causa da cocaína)! O que me amarga a boca é que eu poderia ter sido mais do que sou (fui). Te garanto". Ou seja, se a cabecinha de vento do Diego tivesse ajudado, talvez teríamos um argentino como o melhor jogador de futebol da história. Como ele não soube lidar com a realidade nua e crua, Pelé continua reinando como o maior de todos. Pronto: falei e disse. 29 de abril de 2012 – domingo Esse final de semana foi o mais triste do ano até agora. Com pouco dinheiro, permaneci em casa o domingo inteiro. O frio intenso e a chuva insistente completaram o panorama sombrio. Para que colocar os pés na rua, né? Além disso, esse era o primeiro dos três finais de semana sem jogos do Timão. Com a eliminação precoce do Campeonato Paulista, o Corinthians não tem compromissos agendados aos domingos. A nação alvinegra acompanharia aos duelos de seus rivais pela televisão. Os primeiros a entrar em campo foram as equipes de São Paulo e Santos. Mesmo o jogo sendo realizado no Morumbi, com aproximadamente 45 mil são-paulinos, o favoritismo estava no lado santista. Além de ter um time melhor, o clube praiano contava com Neymar. O garoto foi o nome da semifinal. Ele fez os três gols de sua equipe na vitória de 3 a 1. Ele ainda chutou uma bola na trave e distribuiu dribles desconcertantes por todos os lados do campo. O Santos conquistou a vaga à final com propriedade, apresentando um ótimo futebol. Os são-paulinos não jogaram mal. Até tiveram boas chances, mas não foram páreos para os atuais bicampeões estaduais. Na final, em dois jogos, o Santos pegará o Guarani. Os bugrinos venceram seus rivais históricos no Derby de Campinas. A vitória de 3 a 1 em cima da Ponte Preta, no estádio Brinco de Ouro da Princesa, credenciou o Guarani para disputar sua primeira final de torneio estadual em 24 anos. E como o time verde jogou! Depois de sair perdendo no primeiro tempo, o Guarani voltou para a segunda etapa melhor. Só não fez uma goleada histórica porque o goleiro pontepretano estava em ótima forma e os atacantes alviverdes estavam com péssima pontaria. Os três gols nos 45 minutos complementares pareceram pouco. Festa da torcida verde de Campinas! Se a chegada à final do Santos era mais ou menos previsível no início do ano, a passagem do Guarani para a decisão foi surpreendente. Até o final do ano passado, o time campineiro estava ameaçado de cair para a Série C do Campeonato Brasileiro. Sem conseguir pagar os salários de seus atletas por meses, o tradicional clube do interior estava ameaçado de fechar as portas por falência. Via, assim, os principais atletas abandonarem o time. Os que permaneceram ameaçavam fazer greve e não entrar em campo. Com muita dificuldade, o Guarani conseguiu se manter na Série B no final de 2011. Essa temporada começou da pior maneira possível. Sem dinheiro, o clube teve sérias dificuldades para montar um elenco satisfatório justamente no ano de seu centenário. As perspectivas eram ameaçadoras. A única boa notícia era a manutenção do experiente técnico Vadão, responsável por arrumar jogadores baratos para jogar pela camisa verde e branca. Aí, quatro meses depois, o Guarani fez a quarta melhor campanha da primeira fase do Paulistão e se classificou para as quartas de finais. Após eliminar Palmeiras e Ponte, chegou à final por méritos. Enquanto os bugrinos sonham com seu primeiro título estadual, os santistas tentarão faturar o primeiro tricampeonato em 42 anos. O último tri do clube foi conquistado pela equipe comandada por Pelé (entre 1967 e 1969). Querendo ou não, essa será uma decisão histórica de Campeonato Paulista. 30 de abril de 2012 – segunda-feira Nessa segunda-feira, fui à banca de jornal. Atualizei-me com as notícias do Timão. A principal novidade pelos lados do Parque São Jorge foi a retirada do goleiro Júlio César da equipe titular. O camisa 1 passou a treinar separadamente do grupo. Sua vaga será ocupada por Cássio. A decisão do técnico Tite foi baseada na maior altura e experiência do camisa 24. Cássio é 6 centímetros mais alto do que Danilo Fernandes, o outro goleiro postulante à posição. O novo titular tem 25 anos contra 24 de Danilo. Nas reportagens, os jornalistas asseguram que Cássio tem se destacado positivamente nos treinos. Está em excelente forma! O problema é que ele jogou apenas uma vez desde a sua chegada ao clube. Enquanto Danilo Fernandes já jogou 10 vezes (foi muito bem em todas as oportunidades), Cássio foi à campo apenas contra o XV de Piracicaba. Foi bem, é verdade. O risco de colocar um goleiro desconhecido embaixo das traves corintianas em plena Libertadores é enorme. Além disso, em sua passagem pela Europa nos últimos anos, o goleiro foi pouco aproveitado pelos clubes onde passou. Estaria o nosso camisa 24 com bom ritmo de jogo, hein?! O problema no gol corintiano preocupa a torcida. Todos os amigos e conhecidos com quem falo sobre o tema demonstram muita apreensão. Não é possível imaginar um clube ganhando a principal competição da América sem um grande goleiro embaixo das metas. Infelizmente, o Timão não possui um atleta unânime e 100% seguro para a posição. Há alguns boatos dizendo que a diretoria está tentando a contratação de um nome de alto nível e experiente para o restante do torneio. Contudo, não há boas opções no mercado. O time também tem outras carências: um centroavante titular (já está claro que Liedson não tem condições para se manter no time principal) e de um primeiro volante para a reserva de Ralf. Essas fraquezas do elenco são as mais nítidas. Parece que os cartolas corintianos procuram por reforços para esses setores, mas não há nada aparentemente certo com ninguém. Nos treinamentos dos últimos dias, o técnico alvinegro resolveu fazer outras mudanças além da já comentada alteração no gol. No ataque, William entrou no lugar de Liedson em alguns coletivos e pode ser a novidade para o jogo contra o Emelec. Dificilmente William fará o papel de centroavante da equipe. Com sua entrada, Emerson Sheik passaria para o lugar do luso-brasileiro e William assumiria a posição de Emerson na beirada do campo. Satisfeito com Edenílson na lateral direita titular e com Welder na reserva, Tite passou a treinar Alessandro como volante na equipe reserva. Assim, o gaúcho ganha a opção de ter alguém experiente para substituir Ralf se assim for necessário. Gostei das duas novidades: tanto da entrada de alguém no lugar de Liedson quanto da proposta de ter Alessandro como um meio-campista marcador (reserva) ao invés de lateral (titular). Sobre a mudança de goleiro, sinceramente não sei se foi acertada. Manter Júlio César no gol era arriscado, assim como colocar algum de seus reservas em seu lugar também é. Qualquer decisão a esse respeito implica grandes riscos. O melhor mesmo seria colocar a mão no bolso e trazer um bom nome para ocupar a camisa 1 do Timão. Aí sim estaria realmente tranquilo para acompanhar os jogos. ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. 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- Livros: Meninos Sem Pátria - O romance infantojuvenil mais famoso de Luiz Puntel
Publicada em 1981, essa obra da Coleção Vaga-lume apresenta os dramas das crianças exiladas pela Ditadura Militar brasileira durante a década de 1970. Nessa semana, (re)li “Meninos Sem Pátria” (Ática), o romance infantojuvenil mais famoso de Luiz Puntel. Achei o livro na estante da casa dos meus pais no começo do ano e o coloquei prontamente na minha lista de leitura de 2022. Essa obra estava na prateleira ao lado de vários títulos da Coleção Vaga-lume, a célebre coletânea da Editora Ática voltada aos leitores mirins (crianças e adolescentes) que fez (e ainda deve fazer!) enorme sucesso nas décadas de 1980 e 1990. Não é errado dizer que minha formação literária e meu desenvolvimento como leitor de ficção estão intimamente ligados às publicações da série Vaga-Lume. Por não me lembrar de absolutamente nada dessa história de Puntel (que eu deveria ter lido na época do colégio – do contrário não estaria na biblioteca particular da família), achei válido (re)ver “Meninos Sem Pátria” agora por uma perspectiva mais adulta, profissional e técnica. Afinal, quem manda ter um blog de literatura e ser viciado na análise das estruturas das narrativas ficcionais, né? Então, segue mais um post para a coluna Livros – Crítica Literária. Se eu não estiver enganado, esse é o quarto título infantojuvenil que detalhamos no Bonas Histórias só nesse ano. Publicado em 1981, “Meninos Sem Pátria” apresenta um tema, por que não, delicadíssimo: a violência, a censura e a perseguição política perpetradas pela Ditadura Militar brasileira entre o final dos anos 1960 e o comecinho dos anos 1980. A proposta editorial de Luiz Puntel foi abordar esse terrível período da nossa história pelo ponto de vista das crianças e adolescentes, os filhos daqueles que precisaram fugir do país. Se tivessem ficado no Brasil quando o AI-5 foi decretado, na certa esses homens e mulheres (em sua maioria jornalistas, artistas, políticos da oposição, sindicalistas, religiosos, filantropos) teriam sido presos, torturados e/ou assassinados. Ou seja, assistimos em “Meninos Sem Pátria” aos acontecimentos históricos pelo olhar dos filhos dos exilados políticos, o lado mais fraco do lado mais fraco do embate ideológico que moldou boa parte da segunda metade do século XX. Não à toa, os protagonistas do livro são membros de uma família que fugiu do Brasil e foi morar no Chile e, mais tarde, na França. O narrador do romance é um menino de dez anos (que no final da trama já é um rapaz de 19 anos). A pretensão dessa obra de Puntel é justamente mostrar a infância, a formação, o amadurecimento, o crescimento e a adolescência de uma geração de jovens brasileiros que foi obrigada a viver por vários anos fora do país. A partir de uma rotina longe da terra natal, qual a identidade cultural que eles adquiriram, hein?! E o que fazer quando a Lei da Anistia foi assinada, permitindo o retorno dos opositores do Regime Militar ao Brasil? Essa volta deveria ser comemorada ou lamentada?! Nascido em Guaxupé, pequena cidade de Minas Gerais, em abril de 1949, Luiz Puntel cresceu no interior de São Paulo. A infância do escritor foi passada em São José do Rio Pardo e a adolescência em Ribeirão Preto. Depois de desistir do seminário, sua primeira opção de carreira, Luiz atuou como office boy, escriturário, auxiliar de assistente social e bancário. Após se formar em Letras, ele se tornou professor de Português e Redação e trabalhou em escolas, cursos preparatórios do vestibular, faculdades e universidades. Próximo de completar 73 anos e ainda muito ativo, Luiz Puntel tem atualmente uma empresa de cursos de Redação, Oratória, Língua Portuguesa e Produção Literária em Ribeirão Preto, cidade em que vive desde a primeira metade da década de 1960. O contato extremamente próximo com os estudantes o ajudou no direcionamento de sua trajetória como autor ficcional. Puntel se especializou na literatura infantojuvenil e se transformou em um dos principais escritores brasileiros nesse gênero. Ele produziu vários romances (que podem ser chamados também de novelas sem que ninguém fique bravo com isso, tá?) voltados para crianças e adolescentes. Seus títulos mais marcantes são “Açúcar Amargo” (Ática) e “Meninos Sem Pátria”, best-sellers nacionais com dezenas e dezenas de edições. Não por acaso, “Açúcar Amargo” e “Meninos Sem Pátria” são legítimos clássicos da literatura brasileira. Outras obras relevantes do escritor mineiro são “Deus Me Livre!” (Ática), “O Grito do Hip-Hop” (Ática), “Tráfico de Anjos” (Ática), “Um Leão em Família” (Ática) e “Missão no Oriente” (Ática), todos lançados pela Série Vaga-lume. Por falar nisso, Luiz Puntel está entre os autores com mais obras publicadas pela famosa coleção infantojuvenil da Editora Ática, ao lado de Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Ofélia & Narbal Fontes, Maria José Dupré e Marçal Aquino. A ideia de escrever uma obra que tratasse dos dramas das crianças exiladas surgiu no finalzinho da década de 1970, quando a Lei da Anistia foi promulgada pelo Governo Federal. Dessa forma, a partir de agosto de 1979, os brasileiros que haviam fugido do país com medo de serem presos ou mortos pelos milicos poderiam, enfim, retornar sem riscos de sofrer represarias. Pela televisão, Luiz Puntel assistiu à chegada de várias famílias nos aeroportos nacionais. A imprensa cobriu in loco as emocionantes cenas de reencontros e regressos de gente que estava vivendo há anos no exterior. Algumas semanas mais tarde, o escritor pôde conhecer pessoalmente alguns desses estudantes que voltavam ou pisavam no Brasil pela primeira vez. Como professor de uma escola em Ribeirão Preto, Puntel presenciou o processo de readaptação dos jovens alunos à nova realidade e soube das particularidades de várias famílias cruelmente perseguidas pela Ditadura Militar. Antevendo uma excelente matéria prima para um romance infantojuvenil, o escritor começou os trabalhos de confecção de seu livro mais polêmico. “Meninos Sem Pátria” foi livremente inspirado no drama vivido por José Maria Rabelo, jornalista mineiro falecido no finalzinho do ano passado em Belo Horizonte aos 93 anos. Em 1952, Rabelo fundou o jornal O Binômio, que circulava na região metropolitana de BH e em Juiz de Fora. Com o Golpe Militar de 1964, o periódico que tinha uma atuação independente e crítica aos militares foi fechado. Contudo, o trabalho jornalístico de José Maria Rabelo de apontar os desmandos, as violências, os assassinatos e a corrupção do novo regime só estava começando. Não é preciso dizer que ele virou rapidamente alvo dos poderosos de Brasília. Para não ser preso ou morto, o jornalista teve que fugir do Brasil com a família (esposa e sete filhos). No exterior, José Maria Rebelo morou na Bolívia, no Chile e na França e trabalhou para alguns veículos internacionais de imprensa. Seu retorno ao país aconteceu no segundo semestre de 1979, justamente após a decretação da Lei da Anistia. Novamente em terras brasileiras, Rabelo dirigiu o semanário O Pasquim e a revista Cadernos do Terceiro Mundo. Apesar de ter sido publicado originalmente em 1981, “Meninos Sem Pátria” só integrou a Série Vaga-lume em 1988. Foi a partir daí que o livro se tornou um best-seller e ganhou espaço nas estantes dos jovens estudantes brasileiros e nas bibliotecas da maioria das escolas nacionais. É legal dizer também que Luiz Puntel praticamente lançou um livro a cada dois anos pela tradicional coleção infantojuvenil entre 1984 e 1992. Afinal, “Deus Me Livre” é de 1984, “Açúcar Amargo” é de 1986, “Meninos Sem Pátria” é de 1988, “Um Leão em Família” é de 1990 e “Tráfico dos Anjos” é de 1992. Depois disso, o autor ainda publicou com a chancela da Vaga-lume “Missão no Oriente” em 1997 e “O Grito do Hip-Hop” em 2005. Por mais paradoxal que possa parecer, há cerca de quatro anos “Meninos Sem Pátria” voltou a virar notícia na imprensa. A obra de Puntel foi, acredite se quiser, censurada em um colégio particular do Leblon, bairro elitista da zona Sul do Rio de Janeiro, em 2018. A acusação era que o livro infantojuvenil fizesse apologia ao comunismo. Segundo a instituição escolar, a pressão pela proibição do clássico de Luiz Puntel partiu de vários pais dos alunos. Aparentemente, eles estavam indignados com o conteúdo possivelmente subversivo de “Meninos Sem Pátria”. A polêmica foi estendida para as redes sociais, onde grupos de internautas favoráveis e contrários à medida da escola puderam opinar de um jeito bem estridente. Esse Fla-Flu literário-pedagógico (ou seria político-ideológico, hein?) só escancara o nível de polarização que nosso país atingiu de um tempo para cá. Do contrário, uma obra infantojuvenil não seria alvo da ojeriza do público mais reacionário, né? Infelizmente, essa notícia indica também o quanto a ala mais conservadora (e retrógrada) da sociedade brasileira se assanhou nos últimos anos. Novamente no poder depois de quatro décadas e meia longe das cadeiras principais de Brasília, as viúvas da Ditadura Militar, um dos períodos mais trágicos do Brasil, querem esconder de qualquer maneira o passado pouco nobre do regime de exceção (violências, assassinatos, torturas, sequestros, corrupção etc.). E como o livro de Puntel mostra exatamente o quão nocivo foi aquele período, chamado de Anos de Chumbo, nada melhor do que proibir a publicação ou a leitura dele. A impressão que tenho é que nosso país ao invés de caminhar para frente só regride – ao ponto de a censura e a perseguição voltarem a fazer parte de nossa rotina. O enredo de “Meninos Sem Pátria” se passa no intervalo de uma década. Para ser mais específico em meu relato, a história vai de 1969 a 1979. A trama começa em Canaviápolis, a pequena cidade (fictícia) do interior paulista que fica próxima a Ribeirão Preto, e enfoca o drama da família de José Maria e Terezinha. O romance é narrado por Marcão, o filho mais velho do casal. O menino de dez anos é chamado assim por todos pelo jeitão meio desengonçado de andar. No início do livro, Marcão tem uma infância aparentemente normal: adora fazer campeonatos de futebol de botão com o irmão mais novo Ricardo, joga peladas na rua com os vizinhos de prédio, tem bons amigos na escola Santos Dumont e é apaixonado por Ana Rosa, sua namoradinha. Para completar o cenário idílico, José Maria e Terezinha, que está grávida do terceiro filho, são pais amorosos, participativos e compreensivos. Assim, o que mais o garoto poderia querer na vida, hein?! Talvez seu grande sonho, nesse momento, seja assistir pela televisão aos craques da Seleção Brasileira levantando a Jules Rimet na Copa do Mundo no México. Os problemas da família do protagonista começam quando José Maria, fundador e diretor do jornal independente O Binóculo, se torna alvo de ameaças e da perseguição explícita dos militares que tomaram o Governo Federal em 1964. Com a decretação do AI-5 em dezembro de 1968, o regime fardado ficou mais violento e a censura se transformou em norma no país inteiro. Por causa de artigos que denunciavam a tortura e o desaparecimento de religiosos e civis, José Maria rapidamente foi alçado à condição de subversivo. Para as autoridades da nação, o jornalista crítico e atuante precisava ser calado de qualquer maneira. Para tal, valia todo tipo de pressão psicológica possível: importunar a família com ligações telefônicas ofensivas, seguir os passos dos filhos pelas ruas de Canaviápolis, destruir a redação do jornal, intimidar a esposa grávida, apavorar as crianças na portaria do prédio e chantagear os patrocinadores de O Binóculo. Percebendo que a coisa chegou a um ponto insustentável, o pai de Marcão foge justamente no momento que seu apartamento é invadido pela polícia comandada pela Ditadura Militar. Inicia-se, dessa maneira, a saga dos integrantes da família como exilados políticos. Sem ter informações sobre José Maria, Terezinha foge com Marcão e Ricardo para um convento em Canaviápolis. Com a ajuda da comunidade católica local, eles viajam clandestinamente para Campo Grande, Corumbá e, depois, para Puerto Suárez, na Bolívia. Após atravessar a fronteira do Brasil, o trio reencontra José Maria. Novamente juntos e felizes, os membros do clã seguem para Santiago do Chile, onde viverão por alguns anos. A adaptação de Marcão e Ricardo ao novo país é rápida e tranquila. Apesar do frio excessivo da capital chilena, as crianças aprendem quase que instantaneamente o espanhol, fazem novas amizades na escola e ganham uma nova rotina. No Chile, Terezinha dá à luz a Pablo, o terceiro filho do casal. Agora a família é constituída por cinco pessoas. Com o aumento do número de filhos, José Maria precisa continuar trabalhando. Ele segue atuando como jornalista independente e crítico, só que agora para veículos de comunicação chilenos. Os problemas políticos das personagens de “Meninos Sem Pátria” voltam no final de 1973. Quando Salvador Allende é destituído do poder pelas tropas de Augusto Pinochet, José Maria vê renascer as ameaças e os perigos aos brasileiros exilados. Com o governo chileno nas mãos dos militares de extrema-direita, a família do jornalista não é mais bem-quista por ali. Novamente, eles precisarão fugir. Agora o destino será a Europa. Conseguirão Marcão e seus parentes chegar à França, um país aberto aos refugiados políticos da América do Sul? Uma vez no Velho Continente, o narrador-protagonista conseguirá aprender o novo idioma, se socializar e adquirir uma nova e satisfatória vida? E atuando em uma nação democrática, José Maria conseguirá desempenhar o trabalho de jornalista sem grandes complicações?! Essas são as questões que embalam a vida dos brasileiros no outro lado do Oceano Atlântico. Já adianto aos novos leitores desse romance de Luiz Puntel (sem risco de entregar o spoiler, tá?) que o dia a dia em Sceaux, cidade da região metropolitana de Paris, esconde alguns desafios delicados. A rotina de estudante exilado oculta alguns problemas para o agora adolescente brasileiro, que se vê cada vez mais como alguém sem uma pátria definida. No caso do pai de Marcão, os inimigos que vestem fardas continuam implacáveis com aqueles que revelam os bastidores sujos do poder de Brasília. Mesmo no exterior, o jornalista permanece sendo uma pedra no sapato dos governos brasileiros, o que trará consequências tanto para ele quanto para sua família. Ou seja, o clima de terror e suspense prossegue mesmo no exterior. Segure-se na cadeira, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias, porque as páginas do livro de Puntel reservam várias surpresas e incontáveis inquietações até o desfecho. A primeira questão que chamou minha atenção em “Meninos Sem Pátria” foi a coragem de Luiz Puntel em abordar de maneira objetiva e direta os podres da Ditadura Militar brasileira em uma trama ficcional. Vale a pena dizer que o autor fez isso no comecinho dos anos 1980, quando os brucutus que se apossaram do poder em 1964 e que decretaram o AI-5 em 1968 não tinham saído definitivamente do Governo Federal. Para ser exato na contextualização histórica, eles estavam, nesse momento, se preparando para largar o osso. É verdade que a fase mais repressora e dura do regime já tinha ficado para trás (ao ponto de os exilados estarem voltando ao país), mas o perigo que houvesse algum tipo de retaliação não podia ser inteiramente desprezado. Prova disso é que o atentado no Riocentro realizado pelos militares aconteceu em abril de 1981, mais ou menos na época da publicação do romance infantojuvenil por Puntel. Em suma, a Ditadura se parecia com um tigre desdentado e manco na virada da década de 1970 para a de 1980, mesmo assim ainda era um tigre, né? Por esse prisma, precisamos elogiar a coragem do escritor em produzir uma obra com temática tão espinhosa. Se ainda hoje um título com tal conteúdo causa alguma controvérsia (vide escola do Leblon), imagine há quarenta anos. O segundo aspecto a ser notado em “Meninos Sem Pátria” é a série de semelhanças entre o enredo do romance de Luiz Puntel e a biografia de José Maria Rebelo, o jornalista mineiro que foi usado como referência para essa trama ficcional (ou seria mais correto classificar a obra como semibiográfica, hein?). O pai de Marcão também se chamava José Maria, o que indicava que o autor não queria esconder os vínculos diretos com a realidade. Ao invés do jornal que ele fundara ser O Binômio (como de fato), o periódico no livro tinha o nome de O Binóculo. Impossível não ver as semelhanças gráficas e fonéticas, certo?! Além disso, a família numerosa (Rebelo teve sete filhos), a trajetória do clã no exterior (Bolívia, Chile e França) e a perseguição fora das fronteiras nacionais (às vezes nada sutil) dos protagonistas de “Meninos Sem Pátria” são compatíveis aos acontecimentos vivenciados pelas figuras reais. A partir dessas várias associações com a realidade, Puntel criou livremente sua história do ponto de vista do primogênito do jornalista perseguido (daí ser complicado dizer que o livro é biográfico). Como é típico da literatura de Luiz Puntel, esse romance aborda um tema sensível e delicado (opressão, violência, censura, injustiça, perseguição, assassinatos e autoritarismo da Ditadura Militar), algo pouco comum em se tratando de literatura infantojuvenil. Essa característica narrativa é justamente a minha favorita desse autor. Invariavelmente, Puntel trata de assuntos seriíssimos com a criançada e com os adolescentes em suas obras. Portanto, ele não subestima a inteligência dos leitores mirins nem tenta mascarar a realidade. O que o escritor faz é adaptar os assuntos abordados para os olhares ainda em formação dos pequenos. É espetacular essa sua preocupação. Se “Meninos Sem Pátria” trata da Ditadura Militar e dos traumas nos filhos dos exilados políticos, “Açúcar Amargo”, “Deus Me Livre!”, “Tráfico de Anjos” e “Missão no Oriente”, outros títulos infantojuvenis famosos do autor, trazem, respectivamente, questões como: a exploração da mão-de-obra dos boias-frias; a especulação imobiliária que afeta os moradores mais pobres; o roubo e o comércio de recém-nascidos; e os perrengues vividos pelos imigrantes brasileiros que tentam a sorte no Japão. Não é preciso dizer que Luiz Puntel é um escritor com um olhar extremamente engajado. Sua preocupação é mostrar para os leitores as injustiças brasileiras, a atroz realidade nacional e a visão dos integrantes das classes menos favorecidas. Outro elemento narrativo que adorei em “Meninos Sem Pátria” foi a sua excelente contextualização histórica. E aqui não estou falando apenas do ambiente político e social da época retratada. O enredo do livro de Luiz Puntel permite que assistamos também ao dia a dia das crianças e adolescentes nos anos 1970. Assim, temos o jogo de futebol de botão (um dos passatempos mais legais que a molecadinha tinha), as narrações radiofônicas (o rádio era mais popular do que a televisão), a empolgação com a Copa do Mundo no México (quando o Brasil conquistou o tricampeonato), as brincadeiras da gurizada nas ruas (algo cada vez mais difícil de ser visto nas grandes cidades brasileiras, principalmente entre a classe média), os namoros adolescentes pelos telefones fixos (com a família inteira como plateia!!!), os festivais de músicas (e as canções de protesto) e a leitura de gibis e das histórias em quadrinhos (hábito extremamente comum naqueles anos entre a moçadinha). O que intensifica ainda mais a ótima ambientação do romance é a utilização da linguagem típica da época. Puntel usa e abusa das gírias dos anos 1970, principalmente no discurso. É uma delícia acompanhar a narrativa e os diálogos com vários termos que caíram um pouco em desuso nos últimos anos. Dá para citar cacholeta (palmadas), rachas (partidas de futebol de rua), pisar no tomate (dar mancada), chato de galochas (não preciso explicar, né?), sebo nas canelas (fugir correndo), bater perna (caminhar), mina (menina), jururu (chateado) e batata (firmeza). “Meninos Sem Pátria” possui dois conflitos de naturezas distintas. Em primeiro plano, obviamente, temos o drama político que afeta a família inteira de José Maria. O jornalista precisa fugir do Brasil com a esposa e os filhos, o que causa sérios transtornos para todos. Além disso, ninguém está imune aos riscos da violência praticada pela polícia e pelos militares brasileiros. No fim das contas, quando o assunto é ameaça, tortura, assassinato e maldade, os inimigos da democracia não perdoam bebês, crianças, adolescentes, mulheres, religiosos, idosos, ninguém! O segundo conflito, que só surge na metade do livro, é a da falta de identidade cultural de meninos e meninas exilados. Por terem sido criados em outros países, usarem outras línguas no dia a dia, terem essencialmente amigos e colegas internacionais e não estarem por dentro do que acontece efetivamente no Brasil, os filhos dos brasileiros que vivem no exterior se tornam quase como pessoas sem uma pátria definida (daí o brilhante título da obra!). Quanto mais tempo eles passam fora e menos lembranças têm do país natal, mais forte é esse sentimento de desprendimento pátrio e de despertencimento geográfico. Prova concreta dessa realidade amarga é a reação distinta que Marcão e Pablo têm quando são informados da promulgação da Lei da Anistia e da iminente volta da família para o Brasil. Essa é uma das cenas mais fortes e emocionantes de “Meninos Sem Pátria”. Por falar nisso, são várias as cenas marcantes desse título de Luiz Puntel. Além daquela descrita no final do parágrafo anterior, posso exemplificar outras: José Maria contando para a esposa Terezinha sobre a invasão e destruição da redação do jornal O Binóculo enquanto os filhos disputam a final do campeonato de futebol de botão no meio da sala; a fuga cinematográfica de José Maria do edifício onde morava em Canaviápolis, depois do alerta do porteiro; a tensa entrada de Marcão e Ricardo na embaixada francesa em Santiago; a escala no Rio de Janeiro do avião dos exilados brasileiros que saía do Chile e ia para a Europa; e as suspeitas de Marcão de estar sendo observado por um sujeito com um cachorro em Paris. A grande quantidade de passagens memoráveis desse livro mostra a qualidade excepcional de Puntel como escritor ficcional e a maturidade de seu texto literário. Outro acerto incontestável de “Meninos Sem Pátria” foi a escolha de Marcão como narrador. Retratar o drama de José Maria e de seus familiares pelo ponto de vista de uma criança/adolescente é espetacular! Na certa, essa trama não seria tão emocionante e sensível se o narrador fosse um adulto. Pela perspectiva infantojuvenil, podemos acompanhar as saudades pelos parentes deixados no Brasil, a perda da primeira namoradinha, a fuga sem despedida dos coleguinhas da escola e dos amiguinhos da vizinhança, o esquecimento de aspectos da cultura brasileira, a xenofobia por estar em uma nação diferente, o desafio de fazer novas amizades sendo o diferentão no colégio gringo, os traumas provocados pela tensão de ser alvo de inimigos ocultos etc. Por tudo isso que falei nesse post da coluna Livros – Crítica Literária, “Meninos Sem Pátria” é sem dúvida nenhuma um livrão, do tipo que nos toca de várias maneiras e que se mantém atemporal até hoje (não por acaso é um clássico literário). Mesmo assim, é preciso dizer que ele tem alguns escorregões narrativos. Para ser exato em minha avaliação, encontrei dois problemas mais sérios, um de Foco Narrativo e outro de falta de verossimilhança. O primeiro tropeço de Luiz Puntel está no final da cena em que José Maria foge do prédio em que morava no interior de São Paulo. Como a narração é feita por Marcão, que não sabe do paradeiro do pai, não seria possível acompanharmos (como leitores) os passos do jornalista perseguido fora do ambiente residencial. Afinal, o narrador não podia ver o que se passava, por exemplo, na rua. Assim, quando vemos o que José Maria faz no caminhão de gás ou quando presenciamos a reação da polícia na delegacia (espaços em que o narrador não estava), estamos diante de um grave erro de Foco Narrativo. O segundo aspecto é a falta de verossimilhança da família chamar uma criança de dez anos de Marcão. Juro que não conheço ninguém, ainda mais no Brasil, que chame o filho menor de idade pelo aumentativo. O mais comum é a utilização de diminutivos. Nesse caso, Marquinhos seria mais fidedigno na minha opinião. Apesar de uma ou duas derrapadinhas (naturais e até aceitáveis, já que os acertos vêm em quantidade muito superior), “Meninos Sem Pátria” é uma obra monumental. Não é coincidência, portanto, que esse título cause ainda hoje algum desconforto nas almas mais reacionárias. Aos pais contemporâneos que não querem que os filhos conheçam os horrores da época da Ditadura Militar, sugiro que não tentem censurar o trabalho literário de Luiz Puntel. Mais eficaz seria pedir para as escolas particulares não ensinarem a criançada a ler e a escrever (algo que já vem sendo feito com muita competência por muitos colégios públicos). Uma vez iletrada e jogada à escuridão intelectual, a meninada do século XXI não correrá o risco de conhecer a realidade do Regime Militar nem o passado sanguinolento da Ditadura implantada no Golpe de 1964. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Dança: K-Pop - O estilo e as características da música e da dança Pop da Coreia do Sul
Conheça a história e os detalhes da febre músico-dançante chamada K-Pop, gênero sul-coreano que arrebatou a juventude nos quatro cantos do planeta. Se você está conectado às redes sociais e adora ver videoclipes ou vídeos de coreografias certamente já conhece o K-Pop. O estilo musical e dançante da Coreia do Sul vem dominando o mundo nos últimos anos e virou febre principalmente entre o público mais novo. Hoje, a coluna Dança fará uma viagem especial até as terras orientais para conhecer um pouco mais da modalidade tipicamente coreana de música e dança. A ideia é falarmos da origem, das características e de algumas curiosidades do onipresente e do moderníssimo K-Pop. Vamos juntos nessa jornada? Se esse ritmo ainda não tiver conquistado seu coraçãozinho (seus ouvidos e suas perninhas), quem sabe até o final desse post do Bonas Histórias você não terá se tornado mais um(a) K-Popper, hein? Esse é o termo utilizado para se referir aos fãs do gênero, que crescem a cada dia em velocidade absurda. O K-Pop é a sigla de Korean Pop, estilo pop da Coreia. Esse ritmo musical-dançante surgiu na Coreia do Sul na década de 1990. Naquela época, o continente asiático atravessava grave crise financeira e o governo de Seul resolveu investir pesado na sua indústria cultural. A proposta era impulsionar o turismo e, principalmente, aquecer a produção artístico-cultural do país. A meta era tornar a cultura sul-coreana um novo item de exportação. Seguindo a linha do soft power, o mundo precisava conhecer e admirar a cultura coreana. Pelo menos esse era o pensamento das autoridades políticas da Coreia do Sul. Esse movimento ficou conhecido como Hallyu, a Onda Coreana, e envolveu várias áreas culturais e artísticas da nação como música, cinema, gastronomia, televisão, literatura, língua e moda. É interessante notar que há países por aí que investem sem medo na indústria cultural e colhem os frutos do trabalho bem-feito. Enquanto outros.... O investimento da Coreia do Sul no setor artístico foi grande nas últimas três décadas, mas o resultado colhido nos últimos anos foi muuuuito maior. Houve um aumento considerável de turistas no país, por exemplo. As novelas coreanas, chamadas de K-Dramas, Korean Dramas ou doramas, se popularizaram, receberam investimentos altíssimos da Netflix e são sucessos de audiência nos quatro cantos da Terra. Em fevereiro de 2020, “Parasita” (Gisaengchung: 2019), filme de Bong Joon Ho, conquistou quatro estatuetas do Oscar. Além de vencer nas categorias de melhor filme internacional, melhor roteiro original e melhor direção, o longa-metragem sul-coreano surpreendeu ao papar o prêmio principal da indústria norte-americana de cinema como melhor filme daquela temporada. Foi a primeira vez na história que uma produção de fora dos Estados Unidos superou os títulos hollywoodianos. Em agosto de 2020, a banda BTS bateu um recorde musical de longa data. Em um mercado fonográfico dominado por artistas de língua inglesa, os meninos sul-coreanos se tornaram o primeiro grupo musical desde os Beatles a ter três álbuns no topo da Billboard em menos de um ano. Portanto, não é errado pensarmos que, nesse momento, o planeta está vendo, ouvindo e dançando ao ritmo coreano. O primeiro grupo a se destacar no K-Pop foi o Seo Taiji and Boys. Em 1992, o trio de adolescentes formado por Seo Taiji, Yang Hyun-suk e Lee Juno fez uma memorável apresentação na televisão local. O sucesso da jovem banda foi imediato. A partir daí, eles ganharam mais e mais popularidade e, como consequência, influenciaram o surgimento de grupos semelhantes que estavam ávidos para surfar naquela promissora onda. Estava plantada a semente do K-Pop que germinaria rapidamente na Coreia no final do século XX, mas que demoraria ainda alguns anos para ultrapassar as fronteiras da península. O primeiro mercado externo que foi conquistado pelo som do K-Pop foi, obviamente, o asiático nos primeiros anos do século XXI. Só na década passada o restante do mundo passou a olhar e a curti-lo com mais força. Atualmente, esse gênero musical tão marcante movimenta muito dinheiro, sendo uma relevante fonte de renda da Coreia do Sul. Agora vamos conhecer melhor quais são as características do K-Pop e, quem sabe assim, entender por que ele faz tanto sucesso. A melhor definição que penso para esse ritmo seria de um gênero que mistura vários estilos musicais. Se fosse Oswald de Andrade que estivesse escrevendo esse post da coluna Dança, na certa ele diria que o K-Pop é um movimento antropofágico da música sul-coreana moderna. Se fosse um(a) astrônomo(a) que produzisse esse texto para o Bonas Histórias, na certa ele(ela) diria que essa modalidade é como um buraco negro, que absorve todas as referências culturais que estão ao seu redor. Contudo, como sou eu mesma quem está tecendo essas linhas, digo que o K-Pop apropria-se de grande parte dos elementos audiovisuais da cultura Pop. Ele usa a linguagem dos videoclipes, os efeitos luminosos das placas publicitárias, os sons caóticos das grandes cidades, os figurinos extravagantes dos estilistas mais descolados e as coreografias ousadas dos dançarinos contemporâneos. Não à toa, esse conjunto estético e estilístico prende a atenção de quem ouve e de quem assiste às bandas do K-Pop. É importante também dizer que esse estilo inovou na forma de se fazer música. A partir da mescla de ritmos como Pop, Hip Hop, Jazz, Rock e Música Eletrônica, o K-Pop deu origem a um tipo de som diferenciado e, ao mesmo tempo, cativante. A dança também tem um papel importante no contexto geral das apresentações das bandas sul-coreanas. Afinal, ninguém consegue cantar ou ouvir esse gênero parado. Os cantores (e a plateia) costumam entoar as canções dançando de maneira sincronizada. Por isso, é muito difícil pensar no K-Pop sem concebê-lo como sendo a união natural e harmônica de música e dança. Assim como nas composições musicais, a dança do K-Pop também mistura passos e expressões corporais de outras modalidades. Ao batermos os olhos em suas coreografias, reconhecemos imediatamente a influência do Hip Hop e do Jazz, por exemplo. Porém, o que chama mais a atenção é a energia contagiante e a animação dessa modalidade. As coreografias do K-Pop são marcantes, sincronizadas e universais. Cada música tem uma coreografia própria que é repetida fielmente mundo à fora conforme foi apresentada pela banda que a executa. Mas, então, por que será que essa mistura de estilos dançantes deu tão certo e prende tanto a atenção de quem assiste?! As coreografias são elaboradas visando a apresentação em shows. E não é só isso. Todos os dançarinos têm que ter o mesmo destaque. No K-Pop, não há enfoque em ninguém nem destaque individuais para um ou outro artista (algo bem típico da cultura oriental). Para que isso ocorra na prática, a sequência de passos é pensada para ser o mais dinâmica possível, com todos os integrantes da banda se movimentando constante e freneticamente no palco. Se você tentar acompanhar apenas um dançarino, seu olhar não vai conseguir ficar parado. As movimentadas coreografias trabalham toda a possibilidade de dimensão que o corpo pode ocupar no espaço. E sem perceber, quem estiver assistindo à apresentação acaba dançando junto com o olhar, que vai se mexendo por todo o palco junto com os músicos/dançarinos. A dança do K-Pop, como já adiantei, foi fortemente influenciada por outras modalidades. Ela apresenta movimentos conhecidos do Street Dance, Pop, Stiletto, Eletrônico e Hip Hop, mas traz uma abordagem estilística e sequências de passos diferentes. Dessa combinação de estilos, com sequências dinâmicas e inovadoras, surgiu a dança do K-Pop. Sua característica mais marcante, você vai perceber logo de cara, é a divisão de movimentos dos membros inferiores e superiores. Os passos exigem muita coordenação motora. Os movimentos de tronco, braços e pernas são bem dissociados. E, dessa maneira, nenhuma parte do corpo do dançarino consegue ficar parada (o que caracteriza também um excelente exercício aeróbico). O K-Pop exige movimentos bem precisos, pois há vários detalhes que precisam ser considerados pelos dançarinos. Muitas vezes, um único movimento, por exemplo o mexer de um dedo da mão, já faz toda a diferença para a coreografia e para o efeito que se deseja dar. E claro, toda essa complexidade é pensada para acompanhar as batidas e o conteúdo das letras das músicas. Então deve ser muito difícil dançar o K-Pop, você deve estar pensando. Aí está a sacada genial que transformou esse ritmo em febre mundial entre a juventude contemporânea. Invariavelmente, as coreografias dessa modalidade trazem trechos mais simples e com passos mais fáceis para serem executados pelo público amador ou pelos iniciantes no K-Pop. A ideia é que cada música possa ser praticada por dançarinos de diferentes níveis. Se você é um(a) novato(a), conseguirá dançar uma parte da canção. Se já tiver um pouco mais de experiência, na certa poderá fazer mais passos. E se for um veterano(a), conseguirá dançar a música inteira. Confesso que não conheço outra modalidade de dança que tenha essa característica tão disseminada. Na certa, tal particularidade do K-Pop foi uma manobra acertada de Marketing que permite aos K-Poppers repetirem as coreografias independentemente do nível que eles têm na dança. Inicialmente, a dança do K-Pop atraiu mais os adolescentes, ávidos por repetir os movimentos de suas bandas favoritas. Hoje, podemos dizer que essa modalidade já alcança várias gerações e as mais diferentes faixas etárias. É incrível notar o quanto esse ritmo vem conquistando homens e mulheres de todas as idades e das várias partes do mundo. Não por acaso, esse público mais velho parece ter descoberto, nos últimos anos, o charme e a energia contagiante das músicas sul-coreanas. Entretanto, ainda temos o predomínio de gente jovem entre os praticantes da modalidade. Digo isso a partir do perfil de alunos que tenho nas aulas de K-Pop na Dança & Expressão, a minha escola de dança em São Paulo. Por falar nisso, acho legal comentar o quanto a moçadinha se desenvolve nessas aulas de dança. O K-Pop é excelente para tirar os jovens do sedentarismo, para mostrar a importância do exercício aeróbico, para melhorar a coordenação motora e, principalmente, para que eles se sociabilizem. Como as coreografias são em grupo, os dançarinos precisam fazer amizade com os colegas. Assim, eles interagem uns com os outros tanto na hora da dança quanto depois das aulas. Por isso, a dança do K-Pop é uma excelente prática para os mais tímidos se soltarem. A frase que mais ouço dos pais dos alunos na Dança & Expressão é: “Depois que meu(minha) filho(a) começou a fazer K-Pop, acho que ele(a) se desinibiu, está mais sociável, fala mais e interage mais com os outros fora de casa”. Falando agora das músicas do K-Pop, elas misturam trechos na língua coreana e trechos na língua inglesa. Dessa maneira, as canções conseguem agradar aos dois tipos de público da modalidade: os jovens sul-coreanos e os jovens ocidentais. Os grupos do K-Pop têm uma característica bem peculiar que os difere muito dos grupos musicais dos outros países. Normalmente, as bandas coreanas não têm um líder entre seus integrantes, aquela pessoa que se destaca nos shows e monopoliza às atenções dos fãs e às menções da imprensa. Os grupos do K-Pop possuem vários artistas em seu elenco e todos possuem papel e participação similares. Ao assistir aos videoclipes ou aos shows dessa modalidade, você irá perceber rapidamente que os artistas cantam e dançam de forma idêntica. Essa homogeneidade coreográfica ajuda o público a memorizar e a repetir os passos vistos nas telas e nos palcos. O K-Pop abrange, à princípio, boa parte dos gêneros da música popular sul-coreana. Mais recentemente, esse estilo abraçou as formas mais modernas da música Pop da Coreia do Sul e do Ocidente. Dessa maneira, o ritmo continua preservando as tradições musicais do país e, ao mesmo tempo, abre-se cada vez mais para as novidades contemporâneas e universais. O K-Pop tem sua origem na música tradicional sul-coreana, o Gayo, ou Pop Gayo. Nos últimos anos, ele incorporou elementos do Pop Norte-americano, das Músicas Latino-americanas e das Melodias Japonesas. Sem dúvida, essa grande mistura estilística tornou o K-Pop um estilo mais marcante, global, midiático (feito para transmissões na TV e na Internet e para apresentações em grandes shows) e, acima de tudo, comercial. Anualmente, são lançados mais de 100 novos artistas do K-Pop, os idols como eles são normalmente chamados. Para fazer parte desse mercado tão competitivo e de identidade sonora e visual tão marcantes, há um longo processo de treinamento. A preparação dos músicos pode levar anos (lembre-se que eles precisam cantar e dançar com grande competência, o que não é fácil de ser alcançado). Há empresas que trabalham exclusivamente na formação dos artistas do K-Pop. Os idols passam por horas e horas, dias e dias, semanas e semanas, meses e meses de ensaios de canto e de dança. É preciso chegar ao nível de excelência que estamos acostumados a ver nas apresentações. Além disso, eles aprendem a como atuar no palco e a como se comportar diante das câmeras. Há várias regras de comportamento e de discurso, que precisam ser respeitadas por TODOS. Os idols fazem dietas rigorosas, tem o uso do celular limitado e são proibidos até mesmo de namorar durante o período de preparação ou de lançamento dos álbuns. Esse processo que antecede ao lançamento comercial de uma banda é chamado de pré-debut. Concluída a fase de treinamento e de pré-lançamento das canções, os jovens cantores que conseguem alcançar destaque podem, enfim, debutar na fama musical. Entretanto, quanto maior o sucesso alcançado, maiores são os esforços adicionais de capacitação e de dedicação. Os idols precisam continuar investindo em suas habilidades musicais e dançantes e em novas ações de Marketing. Só assim vão conseguir se destacar das bandas rivais e alcançar milhões de fãs na Coreia do Sul e nos demais países. A Internet e, principalmente, as redes sociais foram/são as grandes disseminadoras do K-Pop em âmbito local e internacional. As bandas sul-coreanas passaram a dominar as plataformas de streaming e suas músicas são consumidas avidamente no mundo inteiro. Se você está curioso(a) para ouvir um pouco dessa música, fiz uma seleção das principais bandas do K-Pop que estão bombando. Com essa seleção de artistas, você iniciará nesse universo com o pé direito e poderá se tornar um(a) legítimo(a) K-Popper. A seguir, vão dez bandas de destaque. Confira: 1 – BTS Já citamos essa banda hoje. Ela tem sete integrantes (Suga, J-Hope, V, Jin, Jimin, RM e Jungkook), foi lançada em 2013 e lidera atualmente o K-Pop no quesito audiência, visibilidade, vendas e premiações. Não por acaso, o BTS é um dos grupos mais famosos desse estilo e se tornou mundialmente conhecido. Nos últimos anos, eles ganharam os seguintes prêmios e menções honrosas: 1º lugar na lista da Forbes Korea Power Celebrity em 2018; 1º lugar na Parada de Álbuns Mundiais da Billboard por várias semanas, como já falado nesse post; 1ª posição no iTunes com o álbum “Wings” em 26 países; certificado de ouro pela Recording Industry Association of America; e Prêmio de Artistas do Ano no Korean Music Awards (espécie de Grammy sul-coreano). Diferentemente de outras bandas do K-Pop, o BTS tem uma postura mais ousada em relação às rígidas normas de conduta do governo local. O grupo aborda temas polêmicos em suas letras e em suas entrevistas, como direitos LGBTQ+, bullying e saúde mental (assuntos delicadíssimos em uma sociedade tão conservadora quanto a dos países orientais). Por isso, os integrantes do BTS são também conhecidos como representantes da “Consciência Social do K-Pop”. 2 – Blackpink Formada por quatro mulheres (Jisoo, Jennie, Rosé e Lisa), o Blackpink é o principal grupo feminino do K-Pop da atualidade com milhões de seguidores na plataforma Spotify e com milhões de visualizações no YouTube. Essa banda já ganhou importantes prêmios e conquistou recordes relevantes. Por exemplo, ela está no livro Guinnes World Records com o videoclipe mais visto nas primeiras 24 horas de lançamento. 3 – Twice Esse grupo, também feminino, foi formado em 2015 (por Nayeon, Momo, Jeongyeon, Sana, Mina, Jihyo, Chaeyoung, Dahyun e Tzuyu) no reality show “Sixteen”. O primeiro grande sucesso foi a música “Cheer Up”, reconhecida como a Canção do Ano nos prêmios Melon Music Awards e Mnet Asian Music Awards. O Twice fez grande sucesso no Japão e conquistou, em 2017, o terceiro lugar como Melhor Artista na Billboard japonesa. 4 – EXO Banda lançada, em 2012, inicialmente com 12 integrantes e hoje com nove músicos (Suho, Chen, Baekhyun, Chanyeol, Lay, Kai, Sehun, Xiumin e D.O.). Suas canções misturam coreano e mandarim. O primeiro álbum, “XOXO”, teve grande sucesso e ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas, feito até então nunca atingido por uma banda de K-Pop. Os outros três álbuns do EXO, lançados nos três anos seguintes, conquistaram o mesmo êxito. Dessa forma, os integrantes do grupo foram os únicos artistas sul-coreanos a conquistar o título de “quadruple million seller”. Como curiosidade, os ingressos para a primeira turnê da banda se esgotaram em 1,47 segundo e para a terceira turnê levaram 0,2 segundo para terminar. 5 – Seventeen Essa banda se formou ao longo de algumas temporadas do reality show 17TV. Nesse programa, os fãs acompanharam a escolha dos integrantes do Seventeen. São ao todo treze integrantes (Woozi, Jeonghan, DK, Joshua, Seungkwan, S.Coups, Mingyu, Wonwoo, Vernon, Hoshi, The8, Jun e Dino). O álbum de estreia do Seventeen, “17 Carat”, alcançou a 9ª posição na lista do Billboard’s World Album já na primeira semana de lançamento. Em 2019, o terceiro álbum da banda, “Na Ode”, se consagrou como o melhor álbum de K-Pop segundo a Billboard. 6 – NCT NCT é a abreviação para Neo Culture Technology. O número de integrantes da banda é ilimitado. A ideia do grupo é ter subunidades em diferentes cidades do mundo. No momento, há três versões na Coreia do Sul e uma na China. 7 – Red Velvet Outra banda totalmente feminina (e constituída por Seulgi, Irene, Wendy, Joy e Yeri), o Red Velvet foi lançado em 2014 e alcançou sucesso mundial. O grupo foi eleito a banda de K-Pop mais popular do mundo por publicações como a revista Time e a Billboard. O Red Velvet tem uma base de fãs majoritariamente feminina e conseguiu influenciar positivamente o público adolescente. As cantoras do grupo são responsáveis por transformar a imagem passiva das mulheres sul-coreanas (o país oriental é um dos mais machistas do mundo). 8 – SHINee Grupo formado atualmente por quatro integrantes (Minho, Taemin, Onew e Key – Jonghyun faleceu em dezembro de 2017), o SHINee tinha como objetivo ser referência na moda, na dança e em outras áreas culturais. E ele conseguiu! Já no primeiro ano de lançamento, a banda criou o que a imprensa local chamou de “Shinee Trend”, um estilo visual e de vestuário que é seguido avidamente pelos jovens sul-coreanos até hoje. 9 – Mamamoo Banda formada por quatro integrantes femininas (Solar, Whee In, Moon Byul e Hwa Sa), o Mamamoo surgiu em 2014. O grupo se destacou desde o início pela mistura original de Jazz e Música Retro e pelos seus incríveis vocais. Todas as integrantes do Mamamoo possuem carreiras solo bem-sucedidas. Esse foi o segundo grupo musical sul-coreano a fazer parte da lista Billboard’s World Digital Song Sales. 10 – ATEEZ Lançada em 2018, essa banda tem atualmente oito integrantes (Seonghwa, Yunho, Hongjoong, Yeosang, Mingi, San, Wooyoung e Jongho). Curiosamente, o ATEEZ estourou primeiramente fora da Coreia do Sul e só depois se tornou conhecido nacionalmente. Com apenas quatro meses de estreia, o grupo fez uma concorrida turnê internacional. Foram 17 shows com ingressos esgotados em todos os países visitados. A turnê passou por Austrália, Estados Unidos e dez países europeus. Deu para ficar com um pouquinho de vontade de ouvir e de dançar o K-Pop, não é?! Você agora é praticamente um K-Popper e pode começar a treinar para debutar como se fosse um dos novos idols. Então, aumente o som e bora dançar!!! No mês que vem, voltarei com mais uma matéria exclusiva da coluna Dança, meu espaço (e de todos os dançarinos) no Bonas Histórias. Até a próxima! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Cenas Londrinas - A coletânea de crônicas de Virginia Woolf
Publicado entre 1931 e 1932, esse conjunto de textos não ficcionais da escritora inglesa apresenta um panorama de Londres antes da Segunda Grande Guerra. Nos primeiros dias de 2022, li “Cenas Londrinas” (José Olympio), a coletânea de crônicas de Virginia Woolf sobre a capital inglesa. Reconheço que esse livro não está entre os trabalhos mais famosos da escritora britânica. Ele não se situa nem mesmo entre os títulos não ficcionais mais destacados do portfólio woolfiano – postos atualmente ocupados pelos ensaios “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas) e “O Leitor Comum” (Graphia). Portanto, não se martirize se você nunca ouviu falar dessa coleção textual. Até pouco tempo, eu também a desconhecia. Por tudo isso, eu excluí “Cenas Londrinas” da lista de publicações analisadas no Desafio Literário de Virginia Woolf. Para quem não acompanha o Bonas Histórias com regularidade, preciso contar que, em julho de 2020, comentamos detalhadamente, na coluna Desafio Literário, seis das principais obras de Woolf. Naquela oportunidade, os livros selecionados para debate foram: “A Viagem” (Novo Século), romance de 1915, “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), obra ficcional de 1925, “O Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), marco do Modernismo inglês de 1927, “Orlando” (Penguin), outro grande sucesso da autora de 1928, “Um Teto Todo Seu”, ensaio famosíssimo de 1929, e “Flush – Memórias de Um Cão” (L&PM Pocket), charmoso romance de 1933. Mas confesso (abestalhado/que eu estou decepcionado/porque foi tão fácil conseguir/e agora eu me pergunto/e daí?) que fiquei, desde aquela época, com muita vontade de conhecer “Cenas Londrinas”. Minha curiosidade recaía principalmente na narrativa de “Retrato de Uma Londrina”, o único conto entre as cinco crônicas da publicação. A protagonista dessa narrativa, Mrs. Crowe, é uma das grandes criações literárias de Virginia Woolf. A autora cita essa personagem especificamente e o título da obra no geral algumas vezes em sua autobiografia. Assim, se não deu para incluir essa coletânea nas análises da coluna Desafio Literário do ano retrasado, consegui pelo menos colocá-la agora em um post da coluna Livros – Crítica Literária. “Cenas Londrinas” foi publicado pela primeira vez na Good Housekeeping, tradicional revista feminina norte-americana fundada em 1885. Escritas entre 1931 e 1932, as cinco crônicas originais do livro foram veiculadas bimestralmente nas páginas da Good Housekeeping entre dezembro de 1931 e agosto de 1932. Em livro, esses textos de Virginia Woolf só foram reunidos e lançados em 1975 nos Estados Unidos e em 1982 na Inglaterra. No Brasil, a primeira tradução dessa obra é de 2006. Curiosamente, em nosso país, “Cenas Londrinas” ganhou um acréscimo – o conto “Retrato de Uma Londrina”. Ou seja, além das cinco narrativas não ficcionais originais, por aqui a publicação ganhou um texto ficcional. É legal mencionar que “Retrato de Uma Londrina” tinha sido descoberto, em 2005, na Biblioteca da Universidade de Sussex. Aí a Editora José Olympio, dona dos direitos autorais de “Cenas Londrinas” em território brasileiro, aproveitou-se do clamor pela recém-descoberta para incluí-la em sua nova publicação. A estratégia, obviamente, era promover comercial e mercadologicamente o título que seria lançado. Pode parecer, em um primeiro momento, estranha (e até mesmo apelativa) a incorporação de um conto a uma coletânea de crônicas. Porém, não é que a nova versão de “Cenas Londrinas” ficou muito boa. A impressão que temos durante a leitura do livro é que “Retrato de Uma Londrina” é na verdade uma crônica (mas não é – não sejamos enganados pelas aparências). Além disso, essa narrativa caiu como uma luva, integrando-se perfeitamente à coleção textual de Virginia Woolf. É até difícil, hoje em dia, pensarmos em “Cenas Londrinas” sem “Retrato de Uma Londrina”. Não por acaso, essa é a melhor parte da publicação. No meu caso, vale lembrar, só li essa obra por causa da presença do conto. Sem ele, não sei se minha curiosidade seria suficiente para adquirir e depois ler o título. As seis narrativas de “Cenas Londrinas” são: (1) “As Docas de Londres”; (2) “Maré da Oxford Street”; (3) “Casas de Grandes Homens”; (4) “Abadias e Catedrais”; (5) “Esta é a Câmara dos Comuns”; e (6) “Retrato de Uma Londrina”. Nesses textos, acompanhamos a paixão de Virginia Woolf por sua cidade natal. As páginas do livro descrevem o dia a dia da capital inglesa e a dinâmica nas ruas mais movimentadas, nas construções mais simbólicas, nas instituições mais importantes, nos bairros mais marcantes e nas residências de figurões locais. Ler “Cenas Londrinas” é fazer uma visita à metrópole britânica dos anos 1930 ao lado de uma das principais intelectuais da primeira metade do século XX. Londres, naquela época, ainda figurava na posição de centro político-comercial do planeta, algo que mudaria após a Segunda Grande Guerra. Em uma comparação mais contemporânea e cinematográfica, é como se visitássemos Nova York antes de 11 de setembro de 2001 ao lado de Woody Allen. Interessante notar que “Cenas Londrinas” não é apenas uma fotografia da capital inglesa antes da mudança definitiva do eixo geopolítico mundial para o outro lado do Oceano Atlântico – do Reino Unido/Europa para os Estados Unidos/América do Norte. Como não poderia ser diferente em se tratando de textos de Virginia Woolf, a escritora britânica utiliza-se de cenários e de personalidades que tão bem conhece para promover reflexões sobre as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e culturais da Inglaterra do seu tempo. Dessa forma, ao mesmo tempo em que apresenta, como uma ótima anfitriã, a paisagem londrina para os turistas (ou melhor, para os leitores), ela discorre sobre a arquitetura, a história, o comércio, a desigualdade social, os hábitos culturais, o poder local, a supremacia naval, a religiosidade, os hábitos sociais, as particularidades da Inglaterra e o estilo de vida dos ingleses no período do Entre Guerras. “As Docas de Londres”, a primeira crônica do livro, apresenta a paisagem e a rotina na região portuária da capital inglesa. Segundo Virginia Woolf, dificilmente havia um navio nos mares do planeta que não aportaria alguma vez na cidade. As docas londrinas eram a base do comércio mundial. Se por um lado as embarcações trazem riqueza, progresso e muitas mercadorias ao Reino Unido no início do século XX, por outro lado elas tornam a região do porto feia, suja e decrépita. Em “Maré da Oxford Street”, o olhar da escritora inglesa volta-se agora para o popular centro de compras de Londres. Apesar de não reunir os estabelecimentos comerciais mais refinados da cidade, Oxford Street é lindíssimo perto das docas. O fascínio que esse lugar desperta na autora é produzido pelo colorido e pelo barulho de uma multidão de vendedores e de compradores que se encontram diariamente. “Casas de Grandes Homens”, o terceiro capítulo de “Cenas Londrinas”, mostra os casarões bem conservados e imponentes das famílias mais renomadas da cidade. As residências de escritores como Charles Dickens, Samuel Johnson, Thomas Carlyle e John Keats exemplificam muito bem esse tipo de construção que foi erguido ao longo das últimas décadas pela elite local. Os contrastes com o cenário portuário e do comércio de rua se intensificam. Porém, por trás da fachada glamurosa e tranquila dessas casas, ocultam-se rotinas domésticas por vezes cruéis, injustas e estafantes. “Abadias e Catedrais” apresenta aos leitores as diferenças e as semelhanças entre os principais estabelecimentos religiosos de Londres. Enquanto a Catedral de St. Paul é magnânima, imponente e silenciosa, a Abadia de Westminster é pequena, apertada e barulhenta. Por sua vez, a igreja de St. Clement Danes é o local dos principais casamentos londrinos. Em comum, as três construções religiosas guardam objetos, estátuas e esculturas que contam a História da Inglaterra. Em “Esta é a Câmara dos Comuns”, Virginia Woolf percorre as galerias do parlamento britânico e mostra a arquitetura, a dinâmica, os rituais e as personalidades que frequentam a sede do poder legislativo. Ela discute desde as estátuas do prédio até a aparência dos parlamentares. “Retrato de Uma Londrina” é o último texto da coletânea. Nesse conto, conhecemos Mrs. Crowe, uma senhorinha tipicamente londrina. Por seis décadas, ela recebe diariamente na sala de sua casa os visitantes. Eles chegam para tomar uma xícara de chá e, principalmente, para fofocar. Não há acontecimento relevante em Londres que passe imune aos ouvidos e às bocas de Mrs. Crowe e de suas visitas. Pelo nível de mexerico na sala daquela residência, a capital inglesa se parece muitas vezes com os pequenos povoados interioranos, onde todos bisbilhotam a vida alheia. “Cenas Londrinas” é uma obra curtinha. Ela tem apenas 96 páginas. Precisei de aproximadamente uma hora para concluir sua leitura no primeiro final de semana do ano. Além das cinco crônicas e do único conto (os seis capítulos centrais da publicação), o livro traz três partes complementares: “Prefácio de Ivo Barroso”, “História sobre esse Livro” e “Índice de Pessoas e Lugares”. Se o prefácio e a contextualização a respeito do título estão impecáveis, o índice de citações me pareceu completamente desnecessário (até porque ele não explica nada, apenas mostra as pessoas e os lugares que Virginia Woolf mencionou). A edição que li foi a terceira da José Olympio, publicada em abril de 2017. A tradutora encarregada de adaptar o texto do inglês para o português foi Myriam Campello, carioca que também é romancista – “Cerimônia da Noite” (José Olympio) e “Como Esquecer” (Escrituras) – e contista – “Sons e Outros Frutos” (Record) e “Palavras são para Comer” (Oito e Meio). Além de Virginia Woolf, Campelo já traduziu obras de Stephen King, John Steinbeck, Alexandre Dumas e Georges Simenon, entre outros figurões da literatura universal. A característica mais marcante de “Cenas Londrinas” é o caráter descritivo de seus textos. Essa questão pode incomodar os leitores mais ansiosos. Virginia Woolf relata, nas páginas dessa obra, o trabalho na região portuária, o comércio popular nas ruas, a intimidade nas mansões das famílias abastadas, as diferenças da arquitetura nas igrejas, os pormenores da rotina no parlamento e a rede de fofocas das socialites na cidade. Por isso, o livro é quase uma fotografia urbana de uma das principais metrópoles do início do século XX. Algo que pode potencializar a sensação de chatice do texto é que as crônicas falam de uma paisagem que já não existe mais. Afinal, a Londres da década de 1930 é um cenário de quase um século e que foi destruído pela Segunda Guerra. Não sei se a maioria dos leitores brasileiros irá se interessar por essa pegada histórica de uma localidade que foge tanto de nossa realidade. Ao mesmo tempo em que apresenta a descrição dos diferentes cenários londrinos, Virginia Woolf aproveita para fazer reflexões sobre o dia a dia e as particularidades de sua terra natal. Aí o livro ganha em qualidade e relevância. É muito interessante acompanharmos o olhar da escritora inglesa sobre temas como: a engrenagem da economia mundial, a importância do transporte naval, a posição de soberania do Império britânico, a vitalidade do comércio de rua em uma metrópole, a beleza da arquitetura urbana, a tecnologia residencial, a destruição do meio ambiente, o contato cada vez menor com a natureza nos grandes centros, a força democrática advinda das eleições, o uso desmedido dos trabalhadores mais humildes pelas famílias endinheiradas etc. Os leitores mais desatentos podem não reparar na qualidade das discussões promovidas pela autora. Afinal, as reflexões de Woolf são expostas bem sutilmente. Elas estão quase que escondidas no meio do texto descritivo. É preciso, portanto, atenção e certo esforço por parte dos leitores para se degustar a parte reflexiva das narrativas. Quem tiver esse cuidado, na certa ficará maravilhado com o conteúdo deixado por uma das mais brilhantes escritoras da língua inglesa e uma das intelectuais mais sagazes de seu tempo. Em certo sentido, “Cenas Londrinas” me lembrou muito “Brás, Bexiga e Barra Funda” (Melhoramentos), coletânea de contos mais famosa de Antônio de Alcântara Machado. A diferença é que Woolf mostra, em sua publicação, a Londres da década de 1930 enquanto o escritor brasileiro apresenta a São Paulo dos primeiros anos do século XX. Outra distinção é que a inglesa optou pelas crônicas descritivas e Alcântara Machado escolheu a construção ficcional. Por falar em comparações literárias, não temos nessa coletânea de crônicas de Virginia Woolf o tom dialógico, como encontrado, por exemplo, em “Um Teto Todo Seu”. Também não temos a exposição de passagens autobiográficas, expediente narrativo usado brilhantemente por Orhan Pamuk em “Istambul – Memória e Cidade” (Companhia das Letras). Não por acaso, preferi a leitura de “Brás, Bexiga e Barra Funda”, “Um Teto Todo Seu” e “Istambul – Memória e Cidade” a “Cenas Londrinas”. Pelo menos os textos daqueles três livros se mostraram menos perecíveis – um problema habitual do gênero crônica. Talvez o grande mérito de “Cenas Londrinas” tenha sido mostrar o último suspiro do predomínio político-econômico inglês. Queiramos ou não, há quase um século Londres não é mais a capital cultural do mundo. Boa parte do texto de Woolf mostra o orgulho, a soberba e o esnobismo britânico, elementos típicos de quem era o grande império comercial e geopolítico daqueles tempos. Hoje, sabemos que a Segunda Guerra Mundial veio para destruir essa posição – o Pós-Guerra representou a tomada de poder pelos Estados Unidos. Desde então, o Reino Unido tem perdido década a década relevância – ao ponto de nem mais estar na União Europeia. Outra questão que notei é que “Retrato de Uma Londrina” não estragou o conteúdo de “Cenas Londrinas”, algo que imaginei que pudesse acontecer. Afinal, estamos falando de um conto que foi injetado artificialmente pela editora brasileira em uma coletânea de crônicas. Curiosamente, a nova narrativa não apenas não atrapalhou a leitura como elevou a sua qualidade textual – ponto para os editores responsáveis por esse projeto editorial! Não por acaso, esse é disparado o melhor trecho/capítulo/narrativa do livro. Além disso, é até difícil de acreditar que “Retrato de Uma Londrina” não tenha sido concebido por sua autora para integrar “Cenas Londrinas”, tamanha é a compatibilidade estética, literária e conceitual entre as partes. É incrível isso, né? Esse casamento perfeito chega até a confundir o leitor. Se eu não soubesse previamente que “Retrato de Uma Londrina” é um conto, diria tranquilamente após a leitura de “Cenas Londrinas” que ele é uma crônica, assim como “As Docas de Londres”, “Maré da Oxford Street”, “Casas de Grandes Homens”, “Abadias e Catedrais” e “Esta é a Câmara dos Comuns”. Se a inserção de um conto brilhante e compatível com a linha editorial do livro foi um gol de placa da Editora José Olympio, por outro lado não gostei da capa nacional de “Cenas Londrinas”. A imagem mostra uma fotografia evidentemente antiga, provavelmente do início do século XX ou mesmo dos anos 1930. Até aí beleza. Contudo, ela não dialoga nem um pouco com o conteúdo das crônicas/contos da publicação. Pelo que me lembre, não há menção de nenhum banho de sol entre os textos de Virginia Woolf. A impressão que tive é que quem desenvolveu (e quem aprovou) essa arte não leu a obra. Não gosto dessa incompatibilidade entre o projeto visual e o conteúdo textual. Nesse sentido, as capas das versões norte-americana e inglesa de “Cenas Londrinas” são muito mais pertinentes (trazem fotos antigas do centro da cidade em branco e preto). Agora que concluí as leituras dos títulos de Virginia Woolf que tenho na biblioteca de casa, começo a refletir se não seria o momento de adquirir outras publicações da inglesa. “As Ondas” (Autêntica), romance de 1931, “O Quarto de Jacob” (Autêntica), romance de 1922”, e “O Leitor Comum” (Graphia), ensaio de 1925, são ótimas pedidas para quem deseja se aprofundar ainda mais na literatura da autora. Dessa forma, não estranhe se em breve eu produzir novos posts sobre as obras de Woolf aqui na coluna Livros – Crítica Literária. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Minha Carta ao Mundo - A nova parceria de Heloisa Prieto e Victor Scatolin
Publicada em outubro de 2021, essa novela infantojuvenil é o segundo volume da série de Caíque, um menino que sonha em se tornar poeta. Na semana passada, li “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” (Edelbra), a novela infantojuvenil de Heloisa Prieto e Victor Scatolin que foi lançada no finalzinho de 2021. E confesso que fiquei encantado com o conteúdo, com a proposta pedagógica e com a linha editorial dessa publicação. Como é legal conhecer títulos saborosos e instigantes que valorizam a literatura e, principalmente, que tratam as crianças e os adolescentes com inteligência. “Minha Carta ao Mundo” é o típico livro capaz de despertar a atenção não apenas dos leitores mirins, mas de muitos adultos também. Acredito que essa bela história sobre um menino que sonha em se tornar poeta possa contagiar toda a família – receituário que a Disney, melhor do que ninguém, consolidou ao longo do tempo: fale com a família inteira e, assim, você chegará com mais intensidade aos jovens de todas as gerações. Recebi o exemplar de “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” no comecinho de dezembro. Muito gentilmente, Heloisa Prieto enviou-me sua mais recente obra para que eu a conhecesse. Apesar de ter achado o material lindo assim que o peguei (além do ótimo conteúdo, essa novela tem um projeto gráfico de encher os olhos), só agora consegui lê-lo com a devida atenção. Coisas de final de ano, né? E gostei tanto desse título que me vi obrigado a fazer uma análise completa sobre ele na coluna Livros – Crítica Literária. Na certa, quem acompanha o Bonas Histórias e curte o melhor da literatura brasileira contemporânea e as novidades da literatura infantojuvenil irá adorar o post de hoje. Publicado em outubro de 2021, “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” é o segundo volume da série de Caíque. Criada por Heloisa Prieto e Victor Scatolin, essa coletânea retrata de maneira lúdica e intertextual os desafios de Caíque, um menino de 13 anos que almeja virar poeta. O projeto gráfico e a editoração de “Minha Carta ao Mundo” foram realizados por Luciana Facchini. A obra saiu pela Edelbra, editora gaúcha com mais de 40 anos de experiência e especializada em literatura infantil e infantojuvenil. Vale ressaltar que os títulos da Editora Edelbra são voltados essencialmente para educadores e educandos. O primeiro livro da saga infantojuvenil de Caíque se chama “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema” (Edelbra). Essa novela foi lançada em janeiro de 2016 e ganhou as ilustrações de Luciana Facchini. “No Meio da Multidão” conquistou algumas distinções literárias de peso. Ele foi, por exemplo, selecionado pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) para integrar o catálogo da Feira de Bolonha de 2017 e entrou no acervo básico da FNLIJ naquele mesmo ano. Em 2018, o primeiro volume da série de Caíquetambém integrou o Projeto de Leitura Itaú e foi admitido na lista de obras do PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático). Na semana retrasada, ele voltou a ser selecionado pelo PNLD Literário. Ou seja, estamos falando de uma coleção narrativa de grande êxito. Curiosamente, essa série ficcional nasceu da vivência dos autores na prática do ensino da Escrita Criativa. Em uma oficina literária realizada no Parque da Juventude há alguns anos, Heloisa Prieto e Victor Scatolin conheceram um garoto muito criativo, comunicativo e divertido. O jovem estudante cativou a todos com o jeito expansivo e a paixão pela literatura. Seu nome não poderia ser outro: Caíque. Surgia, assim, a inspiração para a construção do protagonista de “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema”. “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” é a continuação da saga desse menino que pulou das aulas da oficina (realidade) para dentro dos livros (ficção). De maneira bastante perspicaz, os autores usaram figuras reais e a intertextualidade literária para nomear as várias personagens das duas obras da série de Caíque. Segundo as palavras da própria Heloisa Prieto, a escolha do nome Ângelo para uma das personagens centrais da coleção é uma homenagem a outro aluno daquela oficina no Parque da Juventude, Ângelo Lattari. Por sua vez, Irina é uma referência à memória da poetisa Tatiana Belinky (a quem “No Meio da Multidão” e “Minha Carta ao Mundo” foram dedicados) e Jerusha faz referência à memória de Jerusa Pires Correa, escritora e acadêmica (homenageada logo na abertura de “Minha Carta ao Mundo”). Não é preciso dizer que a intertextualidade literária (e musical) dá a tônica por aqui. Porém, sobre isso, nós falaremos mais à frente. Por ora, gostaria de comentar a questão de chamar “No Meio da Multidão” e “Minha Carta ao Mundo” de série literária. Eu considero sim esses títulos uma coletânea narrativa, apesar de seus autores não enxergarem essa classificação tão formalmente. O que parece ter levado Heloisa e Victor a continuar a história de Caíque foi a oportunidade de ampliar o universo ficcional do menino apaixonado pelos versos e pelas rimas. Afinal, “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema” tem um enredo tão gostoso e possui personagens tão ricas. Seria um pecado não prosseguir com sua trama, ainda mais no caso de escritores tão talentosos, né? Dessa maneira, não houve a preocupação da editora e dos autores de se estabelecer previamente uma série. Nascida na capital de São Paulo, Heloisa Prieto é doutora em Teoria Literária e em Língua e Literatura Francesa, mestre em Comunicação e Semiótica e formada em Letras. Ela atua como tradutora, pesquisadora, professora de oficinas de Criação Literária e escritora infantojuvenil. Seu portfólio autoral abrange quase uma centena de obras. O mais legal é que além da quantidade invejável de publicações, a autora paulistana tem uma infinidade de títulos best-sellers e de trabalhos premiados. Meus destaques vão para: “Mano” (Ática), série de nove livros escrita em parceria com Gilberto Dimenstein que vendeu mais de 600 mil exemplares e inspirou o filme “As Melhores Coisas do Mundo” (2010); “Lá Vem História” (Companhia das Letrinhas), obra ilustrada por Daniel Kondo que teve mais de 400 mil unidades comercializadas e foi adaptada para a televisão pela TV Cultura; e “Quase Tudo o que Você Queria Saber” (Companhia das Letrinhas), coleção de quatro títulos que vendeu quase 150 mil livros. Como foi possível notar por essa rápida descrição, vários trabalhos literários de Heloisa foram adaptados com êxito para o teatro, para o cinema e para a televisão. Indiscutivelmente, estamos falando de uma das autoras contemporâneas mais importantes da literatura infantojuvenil do Brasil. Victor Scatolin, por sua vez, é mestre em Artes Visuais e graduado em Letras – Tradução Inglês e Português. Ele atua como professor de oficinas de Escrita Criativa e de Práticas Poéticas, pesquisador, escritor, poeta, tradutor e performer. Muitas vezes se apresentando com o pseudônimo de Walter Vector, Victor é figura proeminente na cena poética e no universo das artes visuais da cidade de São Paulo. Sua atuação artística possui forte ligação com a música, com o design e com o cinema. No campo acadêmico, seus interesses trafegam pelas Línguas Modernas, Tradução Intersemiótica, Semiótica, Filosofia da Linguagem, Linguística/Formalismo Russo e História da Arte. Assim como Heloisa, Victor tem várias publicações autorais, além de incontáveis traduções. Textos de escritores renomados como James Joyce, Ezra Pound, Júlio Verne, Walter Scott, Velimir Khlebnikov e Friedrich Hölderlin foram adaptados pelo tradutor. Heloisa Prieto e Victor Scatolin trabalham juntos há aproximadamente dez anos. Eles fazem traduções a quatro mãos e realizam cursos de Escrita Criativa tanto presencial quanto eletronicamente, além de, obviamente, criarem enredos ficcionais para a molecadinha. Essa parceria já rendeu alguns prêmios literários na área da tradução e na área autoral. É válido notar que além do ótimo entrosamento, a dupla tem características complementares: Heloisa se interessa mais pela prosa, pela mitologia, pelas tradições orais e pela literatura clássica; e Victor é voltado mais para a poesia, para o experimentalismo visual, para as performances artísticas, para a música e para a literatura contemporânea. Impossível uma união como essa não gerar ótimos frutos! O enredo de “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” se passa mais ou menos um ano depois da trama de “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema”. Como cenário da nova novela, temos o mesmo quarteirão da pequena cidade litorânea que conhecemos na obra anterior. Ali estão a escola de Caíque, a praça onde Ângelo toca seus sambas e a residência em que a falecida Irina morou. Mais uma vez a história gira em torno desses ambientes que exalam poesia e musicalidade. A diferença é que Caíque não é mais o aluno novato. No colégio, o menino já fez várias amizades. Para completar, graças ao amor pelos poemas, ele conseguiu se aproximar de Jéssica. Lembremos que esse era seu grande objetivo em “No Meio da Multidão”. Não por acaso, Jéssica era uma jovem (e linda poeta de destaque no círculo escolar. Por isso, o garoto quis aprender a rimar. Caíque e Jéssica integram um grupo de estudantes que adora ouvir e contar histórias. Ao lado da dupla de protagonistas, temos Yuri e Murilo. O quarteto forma um grupinho de amigos inseparáveis – aonde um vai, os outros vão atrás. Yuri, menino falante e prosador nato, é bisneto de Irina. Murilo, apaixonado por surf e histórias em quadrinhos, não gosta muito de ler livros. As crianças frequentam assiduamente a biblioteca do colégio, para deleite da bibliotecária Dora, os salões do Espaço Cultural Irina Yurievna, para encanto da administradora Jerusha, e a praça em frente à escola, onde Ângelo apresenta diariamente suas composições musicais e os clássicos do samba. Nessa atmosfera que exala literatura e música, Caíque aprenderá mais sobre a poesia. Um bom poema não é feito apenas de rima e de musicalidade (conforme ele descobriu em “No Meio da Multidão”). A poesia também conta histórias. Elas podem ser individuais ou coletivas. É no conteúdo textual (explícito ou no subtexto, dependendo da situação) que os versos ganham mais vida e colorido. As histórias que permeiam os poemas não nascem espontaneamente na mente dos artistas das letras, mas surgem da vida, das experiências pessoais, dos acontecimentos gerais, do olhar aguçado para a realidade, dos dramas sociais e da contemplação da natureza. Desvendar as belezas escondidas nas cenas e nas emoções do dia a dia é a matéria-prima dos grandes poetas. Como é típico das novelas literárias, “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” é um livro curtinho. Ele tem 88 páginas e seu conteúdo está dividido em dez capítulos. Precisei de pouco mais de uma hora para concluir integralmente essa leitura na última segunda-feira. O público adulto consegue ler essa obra em um fôlego só. Foi o que aconteceu comigo. A moçadinha (o verdadeiro público-alvo da publicação) precisará certamente de duas ou três sessões de leitura para percorrer todas as páginas. Se você não conhece o enredo de “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema”, saiba que é possível ler “Minha Carta ao Mundo” sem qualquer problema. Os livros são independentes, apesar de apresentarem tramas que se unem. Todavia, acho legal ler previamente a obra anterior. Digo isso não pelo entendimento do enredo do segundo volume da série de Caíque, mas sim pela qualidade absurda de “No Meio da Multidão”. O primeiro título dessa coleção de Heloisa Prieto e Victor Scatolin é uma das obras infantojuvenis mais incríveis que li nos últimos anos. Além disso, a leitura de “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” fica muito mais gostosa quando você sabe os detalhes da publicação precedente. Gostei muito de “Minha Carta ao Mundo”. Trata-se indubitavelmente de um título interessantíssimo. É verdade que ele não tem a mesma qualidade de “No Meio da Multidão”, esse sim uma pequena obra-prima da literatura infantojuvenil contemporânea. O grande mérito do segundo volume da série de Caíque está mais na expansão da narrativa do menino carismático do que necessariamente em seu enredo individual. Por isso, temos aqui mais um motivo para você ler a coleção integralmente e não os livros isoladamente. O primeiro aspecto que chamou minha atenção em “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” foi a manutenção da intertextualidade literária e musical, justamente a característica mais marcante de “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema”. Esses livros de Heloisa e Victor abordam de maneira muito perspicaz o repertório cultural de nosso país e da Rússia. De forma natural, Caíque e seus amiguinhos são iniciados à riqueza da literatura e da música. É muito legal acompanharmos esse aprendizado da criançada. Como não conheço muito de poesia (me considero mais um especialista na prosa ficcional), admito que me senti na pele do garoto (mesmo estando muuuuuuito longe de ser um menino) que queria conhecer mais dos segredos dos versos. O mote dessa novela (e da série de Caíque como um todo) é a sede de aprender das crianças e a satisfação dos adultos em ensiná-las. Essa conexão é feita em vários locais: na praça da cidadezinha, no imóvel abandonado que está à venda, na conversa despretensiosa em casa e nas letras das músicas tocadas aos quatro ventos. Contudo, o universo mágico do conhecimento reside com mais intensidade nos livros. Daí a importância da biblioteca como templo sagrado da educação. É incrível perceber como as bibliotecas e os livros adquirem papel central na trama de “Minha Carta ao Mundo”. E é ainda mais extraordinário visualizar a força que essa dupla de elementos tem quando é acessada por meninos e meninas apaixonados pelas letras e pelo processo de obtenção de conhecimento. Só por isso, esse livro já valeria a leitura. Para quem pensa que “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” é uma mera extensão de “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema”, preciso avisar que o volume dois da série de Caíque traz algumas novidades de ordem narrativa. Em primeiro lugar, a nova novela exibe mais personagens, muitas delas inexistentes no livro anterior. A inserção de novas figuras potencializa o universo da trama e, o que é mais legal, dá um caráter de “Turminha do Caíque” à coletânea. Assim, conhecemos os coleguinhas do protagonista (Yuri e Murilo principalmente), acompanhamos mais detalhes da vida de Jéssica (que acabou meio que preterida no primeiro volume) e somos apresentados a novos integrantes da família de Irina (essencialmente Jerusha). Por falar em personagens, achei incrível a variedade dos tipos de pessoas que foram retratados nessa obra. Heloisa Prieto e Victor Scatolin constroem um enredo ancorado em figuras de várias faixas etárias, classes sociais e perfis psicológicos. A ordem aqui é a pluralidade. Por se tratar de um título infantojuvenil, achei excelente essa iniciativa dos autores. Eles não têm medo de apresentar para a garotada o universo, por exemplo, dos indivíduos mais velhos e de mostrar os dramas (envelhecimento, perda amorosa, saudades...) dos adultos. Quem disse que a meninada só gosta de tramas ingênuas e leves, hein? Como diria o outro: sabe de nada, inocente!!! Outra diferença que gostei muito foi que “Minha Carta ao Mundo” não apenas recapitula o que aconteceu em “No Meio da Multidão”. A nova obra traz mais detalhes da história que fora exibida anteriormente. Assim, ao invés de termos um simples resumo do primeiro volume da série de Caíque, recebemos outras informações dos fatos narrados no primeiro livro. Por consequência, tanto os leitores que já conhecem a coletânea quanto aqueles que chegaram agora são igualmente agraciados pela narrativa. É ou não é um excelente expediente ficcional, né? Outra questão que merece comentário elogioso é a estrutura dos capítulos de “Minha Carta ao Mundo”. Ela emula a dinâmica das coletâneas de contos. Repare nisso. A novela aborda simultaneamente diferentes personagens, espaços narrativos e conflitos dramáticos. Evidentemente, o narrador em terceira pessoa não fica colado ao protagonista (algo que já é possível notarmos em “No Meio da Multidão”). Dessa forma, temos a sensação de estar acompanhando várias tramas ou subtramas paralelamente. Adorei isso! O jeitão de coleção de narrativas curtas confere grande agilidade e pluralidade à obra. Contudo, não se confunda: esse livro é uma novela e não uma coletânea de contos (não se apegue às aparências, por favor). Apesar da qualidade incontestável, “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” possui alguns probleminhas (e qual título literário não os tem?!). Em relação à narrativa em si, fiquei incomodado com o excesso de coincidências envolvendo as personagens e com certas incongruências profissionais de Dora. Calma, já explico, nos dois próximos parágrafos, o que quero dizer com esses pontos. No primeiro caso, a impressão que temos é que todo mundo no livro se conhece e/ou é parente um do outro. Sei que estamos falando de uma cidade pequena, mesmo assim me soou excessivo esse expediente. A sensação de coincidência em cima de coincidência já tinha aparecido em “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema”. Naquele título, me pareceu forçado Sylvia, esposa de Ivan e nora de Irina, conhecer Caíque de vista e fotografá-lo. Isso para não mencionar a relação de Ângelo com Irina e o grau de parentesco de Ângelo com Dora. Porém, nesses dois últimos casos até entendi a opção narrativa (sem isso o enredo não girava). Agora, temos Yuri, coleguinha de classe de Caíque, como bisneto de Irina. E Kiko, o tio aventureiro de Jéssica, possui uma certa paixonite por Dora. Ai, ai, ai. Achei desnecessárias tantas vinculações entre as personagens de “Minha Carta ao Mundo. No que tais aproximações agregam à história? Nada. Também fiquei confuso em relação à formação profissional de Dora, a bibliotecária da escola dos meninos. Ela é descrita ora como professora (no título anterior, isso acontece com mais frequência) ora como bibliotecária. Confesso que fiquei por vezes perdido com essa questão. Dora é apaixonada por livros (daí a função na biblioteca do colégio) e pela educação das crianças (tem uma sede inesgotável de ensinar a garotada). Pela minha experiência escolar, acho difícil uma professora com essas características migrar para a função de bibliotecária (com todo respeito a essa profissão) ou uma bibliotecária ser vista como professora pela gurizada. Mesmo com o esforço em explicar essa situação em “Minha Carta ao Mundo”, essa parte do enredo me pareceu extremamente ambígua. Por fim, encontrei pequenos errinhos de pontuação nessa obra, algo inexistente em “No Meio da Multidão”. Há a falta do fechamento das aspas aqui e um travessão mal-usado acolá. São coisas normais que podem acontecer com qualquer livro. O estranho é achá-los em um título desenvolvido com tanto cuidado e, ainda mais, no início da trama (na sexta linha da primeira página da trama, há a falta do fechamento das aspas). Apesar dessas escorregadinhas de natureza narrativa e de revisão textual, achei “Minha Carta ao Mundo” um livrão. Adoro quando os autores infantojuvenis valorizam a inteligência e a curiosidade da criançada com histórias verdadeiramente ricas e profundas. A série de Caíque é aquele tipo de coleção que fala muitas coisas simultaneamente: amor, morte, saudade, missão de vida, altruísmo, dom, paixão pela literatura e pela música, migração, diferenças culturais, envelhecimento, raízes familiares, importância da promoção da educação e da leitura na formação das novas gerações etc. É até difícil descrever todas as temáticas abordadas com lirismo e beleza em “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema” e “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História”. O que sei é que essa coletânea narrativa não pode faltar na biblioteca de quem é apaixonado por literatura e de quem deseja promover o amor dos livros nos jovens leitores. Por falar nisso, quem quiser ir ao evento de lançamento de “Minha Carta ao Mundo”, saiba que ele ocorrerá no dia 9 de fevereiro em São Paulo. Às 19 horas, Heloisa Prieto e Victor Scatolin estarão no SESC 24 de Maio para apresentar formalmente a nova obra e para autografar os exemplares ali adquiridos. Isso se a programação não for alterada diante do agravamento do quadro pandêmico. Se você não quer esperar até lá para conhecer as novas aventuras de Caíque e de seus amigos, a boa notícia é que “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” já está disponível nas livrarias desde o finalzinho de 2021. Portanto, não há desculpa para não ter essa obra. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Cordialmente Cruel - O primeiro título da série homônima de Maureen Johnson
Lançado em 2018, esse romance policial inaugurou a coletânea infantojuvenil que se tornou um dos best-sellers da autora norte-americana. No final de semana passado, li “Cordialmente Cruel” (HarperCollins), um dos romances infantojuvenis da norte-americana Maureen Johnson. A obra inaugurou a série literária homônima que já possui quatro títulos e está em franca expansão. Essa coleção narrativa de Johnson mostra as trajetórias pessoal e acadêmica de Stephanie Bell, uma adolescente fanática por romances policiais e pelo ofício dos investigadores criminais. Depois de ingressar no prestigioso Instituto Ellingham, escola voltada para alunos superdotados, a jovem protagonista aperfeiçoou as habilidades dedutivas e as técnicas investigativas e, enfim, lançou-se em efetivas aventuras policiais. Seria Stephanie Bell uma versão feminina, norte-americana, contemporânea e juvenil de Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot? Acho que sim! Publicado originalmente em janeiro de 2018, “Cordialmente Cruel” é o mais ambicioso romance policial de Maureen Johnson. Natural da Filadélfia e morando há alguns anos em Nova York, a escritora ficou famosa nos Estados Unidos pela criação de séries literárias infantojuvenis. Até “Cordialmente Cruel”, os principais sucessos comerciais de Johnson eram as coletâneas “Shades of London” (sem publicação em português), “Suite Scarllet” (também sem edição em nosso idioma) e “13 Pequenos Envelopes Azuis” (Underworld). Seu maior best-seller continua sendo “Deixe a Neve Cair” (Rocco), romance produzido em parceria com John Green e Lauren Myracle e que foi transformado recentemente em série televisiva pela Netflix. Esse título figurou por vários meses no topo da lista das obras mais vendidas do New York Times no finalzinho da década retrasada. Há cinco anos, Maureen Johnson resolveu mudar um pouco sua linha editorial. Ela queria produzir algo que envolvesse suas duas paixões: a literatura infantojuvenil e a literatura policial. Com essa proposta em mente, a autora trouxe para o universo adolescente os mistérios, os suspenses, as investigações, os enigmas e os perigos do mundo criminal. Obviamente, suas inspirações quando o quesito é romance policial não poderiam ter sido outras: as produções clássicas de Arthur Conan Doyle e de Agatha Christie. Isso sem abandonar o romantismo e os encontros-e-desencontros sentimentais. Afinal, estamos falando da adolescência, um período em que os hormônios estão em ebulição e uma fase tradicionalmente de descobertas e afirmações. Não é preciso dizer que a molecadinha, que alguns preferem chamar de young adult (que para mim está, em muitos casos, mais para old child), adorou. Surgia, assim, uma nova coleção literária de sucesso dessa que é atualmente um dos principais nomes da ficção jovem norte-americana. Por isso mesmo, a ideia de debater essa obra de Maureen Johnson no post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária. Não sei se você notou, mas esse é o segundo título infantojuvenil que analisamos no Bonas Histórias em apenas 22 dias de 2022 – o primeiro foi o ótimo “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” (Edelbra), a novela de Heloisa Prieto e Victor Scatolin. E se prepare porque virão mais títulos nessa linha nas próximas semanas e meses. Pelo menos essa é a programação do blog. Além do romance homônimo, a Série Cordialmente Cruel tem “A Escada Furtiva” (HarperCollins), título de 2019, “The Hand On The Wall” (ainda sem tradução para o português), obra de 2020, e “The Box in The Woods” (também sem versão em nosso idioma), publicação de 2021. O quinto livro sobre Stephanie Bell foi prometido por Maureen Johnson para chegar às livrarias dos Estados Unidos em 2022. Dessa coletânea, vale a pena explicar que os três primeiros romances formam uma trilogia – chamada simplesmente de Trilogia Cordialmente Cruel. O trio de publicações apresenta a mesma história – não espere, portanto, que os principais mistérios sejam solucionados ao final do primeiro volume da coleção. A partir de “The Box in The Woods”, a ideia de Johnson é lançar frequentemente tramas independentes (com começo, meio e fim em um mesmo título). O romance “Cordialmente Cruel” conquistou algumas façanhas editoriais em seu país natal. Ele entrou nas listas dos best-sellers do New York Times e do USA Today. Também foi eleito um dos melhores livros de ficção infantojuvenil de 2018 pela Publishers Weekly e pela Biblioteca Pública de Chicago. Quando o assunto é premiação literária, “Cordialmente Cruel” foi indicado ao Goodreads Choice Award de 2018 e ao YALSA Best Fiction for Young Adults de 2019. Para completar, essa obra conquistou o Nerdy Book Club Young Adult de 2018. Por essas e outras, Maureen Johnson, que de boba não tem nada, resolveu investir nos últimos anos na expansão dessa série narrativa. No Brasil, a HarperCollins, uma das maiores editoras do mundo e que por aqui se especializou em traduzir para o português os principais sucessos da literatura em língua inglesa (leia-se ficção norte-americana eficção britânica), já lançou os dois primeiros livros da coleção policial de Maureen Johnson. “Cordialmente Cruel” foi publicado em julho de 2019 enquanto “A Escada Furtiva” chegou ao público nacional em janeiro do ano passado. A tradutora responsável por ambos os títulos foi Paula Di Carvalho (não confundir, pelo amor de Deus, com suas duas quase homônimas: a apresentadora e herdeira da Rádio Jovem Pan e com a editora da Revista Quatro Cinco Um). Pelo andar da carruagem, não deve demorar muito para a HarperCollins publicar a versão brasileira de “The Hand On The Wall”, o que concluiria a Trilogia Cordialmente Cruel. O enredo de “Cordialmente Cruel” começa em abril de 1936. Dolores Epstein, uma adolescente superdotada de Nova York, é convidada para integrar a primeira turma do Instituto Ellingham. A escola foi fundada por Albert Ellingham, um dos empresários mais ricos dos Estados Unidos, para oferecer uma educação de ponta e gratuita para os estudantes com maior potencial cognitivo do país. Por isso, Albert Ellingham construiu um campus escolar impecável nas montanhas de Vermont, bem ao lado de sua residência de luxo. Contudo, o primeiro ano de operação do Instituto Ellingham foi marcado por uma dupla tragédia. Iris e Alice Ellingham, respectivamente esposa e filha do empresário, foram sequestradas quando passeavam de carro pela região montanhosa onde está a propriedade da família. Após pagar sucessivos resgates aos criminosos, Albert continuou sem ter notícias de Iris e Alice, o que o desesperou por muito tempo. Para tornar a situação ainda mais complicada, a jovem Dolores Epstein foi encontrada morta justamente na época do sequestro da mulher e da filhinha de Albert Ellingham. A estudante entrou em uma sala oculta no subsolo do Instituto para ler um livro de Sherlock Holmes. E ela foi assassinada por alguém que não queria que a menina revelasse aquela passagem escondida embaixo da terra. Não é preciso dizer que a morte trágica de uma aluna não era o tipo de publicidade que um colégio recém-aberto precisava ter. A partir daí, a história do livro de Maureen Johnson avança para 2016. Depois de 80 anos do trágico abril de 1936, acompanhamos o ingresso de Stephanie Bell no Instituto Ellingham. Stevie, como a jovem prefere ser chamada, é uma adolescente de Pittsburgh fanática por romances policiais e por tudo o que envolva investigação criminal. Seu sonho é, obviamente, se tornar detetive. Pela paixão da estudante do segundo ano do ensino médio pelo mundo policial e por suas habilidades precoces nessa seara (incomuns para alguém de sua idade), Stevie Bell foi convidada para integrar o instituto educacional fundado pelo agora falecido Albert Ellingham. Na conceituada escola localizada nas montanhas de Vermont, a protagonista do romance irá aprofundar as habilidades e os conhecimentos investigativos. Como trabalho de conclusão de curso, Stephanie/Stevie tem uma meta para lá de ambiciosa: desvendar o mistério do sequestro da esposa e da filha de Albert, caso até hoje não solucionado, e o enigma da morte de Dolores, também sem respostas depois de quase um século. Para ajudar no trabalho da aluna novata, o diretor do colégio, Charles Scott, irá supervisioná-la diretamente. Os demais funcionários do Instituto Ellingham também parecem motivados para contribuir com adolescente nos estudos e nas pesquisas. Se a tarefa de Stevie Bell não parecia fácil à primeira vista, ela se torna mais complicada quando uma nova fatalidade ocorre nas dependências do campus, o que afeta significativamente a rotina do lugar. Hayes Major, estudante do terceiro ano do ensino médio e colega de dormitório de Stevie, aparece morto em antigos túneis do complexo escolar. Mais uma morte é sinônimo de nova publicidade negativa para o Instituto Ellingham. As investigações preliminares realizadas pelos seguranças do colégio e pela polícia de Burlinghton, a cidade mais próxima da escola, indicaram que Major foi vítima de um acidente. Ele morreu ao inalar substância tóxica produzida por gelo seco. O gelo seco tinha sido colocado no túnel pelo próprio estudante morto, que filmava uma cena para seu popular canal no Youtube. A justificativa para a nova morte na escola parece agradar a todos: docentes, discentes, famílias dos alunos, profissionais do instituto, imprensa e moradores de Burlinghton. Todavia, essa teoria não convence uma pessoa: Stevie Bell. A jovem encontra várias contradições na linha investigativa da polícia. E, por isso, ela resolve iniciar por conta própria uma investigação paralela. A adolescente não sossegará enquanto não solucionar os enigmas do passado (quem sequestrou Iris e Alice Ellingham? e quem matou Dolores Epstein?) e do presente (quem matou Hayes Major?). Sem perceber, a protagonista debuta como detetive. “Cordialmente Cruel” possui 320 páginas e seu conteúdo está dividido em 40 capítulos. Dessas seções, 30 capítulos são ambientados no presente (trama de 2016 – Stevie Bell ingressando no novo colégio) e 10 capítulos envolvem acontecimentos do passado (histórias de 1936 – sequestro de Iris e Alice Ellingham e assassinato de Dolores Epstein). Levei aproximadamente nove horas para ir da primeira à última página dessa obra no sábado passado. Não preciso dizer que, fã que sou de longas sessões de leitura, passei quase o dia inteiro debruçado nesse livro (com algumas paradinhas no meio do caminho). Acho que li cerca de três horas de manhã, quatro horas à tarde e duas horas à noite. O primeiro aspecto que chama a atenção em “Cordialmente Cruel” é o texto gostoso e a narrativa fluída de Maureen Johnson. O enredo é também convidativo e o conflito está bem amarrado. Quem gosta de romances policiais e de títulos infantojuvenis na certa irá apreciar essa obra. Narrado em terceira pessoa e com um narrador próximo à protagonista na maior parte do tempo (são raros os deslocamentos equivocados do narrador), assistimos a um thriller de excelente qualidade. Admito que adorei a divisão da trama em dois espaços temporais distintos: presente (ano de 2016) e passado (ano de 1936). Essa estratégia textual foi fundamental para a criação do suspense já nas primeiras páginas, sem destruir a proposta original da narrativa que era acompanhar o dia a dia da protagonista (algo que demora naturalmente para pegar). Pode parecer óbvia a necessidade de desenvolver rapidamente um clima de mistério logo de cara em um romance policial, mas muitas vezes o(a) escritor(a) não consegue esse efeito tão imediatamente. O problema é que Maureen Johnson precisava, antes de apresentar os crimes que Stevie Bell iria investigar, detalhar o enredo da jovem detetive. Afinal, estamos falando de um livro que, desde o início, foi concebido para se tornar uma série literária. O que a autora fez para superar essa possível dificuldade? Ela construiu duas linhas narrativas. Excelente opção! Assim, ao mesmo tempo que somos impactados velozmente pelos mistérios do passado (mais intensos nas páginas iniciais), conseguimos acompanhar calmamente o desenrolar da chegada de Stevie na escola em Vermont (episódio não tão interessante no começo). Como consequência, nos capítulos finais temos uma inversão na intensidade dramática. A história de 1936 perde força enquanto a trama de 2016 se torna eletrizante. A brincadeira da dupla linha narrativa deixa o romance de Johnson imperdível o tempo inteiro (no começo, no meio e no final). Curiosamente, ao mesmo tempo em que temos um texto eletrizante, também temos em “Cordialmente Cruel” uma história que preza pela verossimilhança (algo nem sempre presente nos romances policiais e nas aventuras infantojuvenis). Não espere, portanto, que Stevie Bell seja alçada rapidamente ao papel de grande detetive. Não! A adolescente está ainda aprendendo as técnicas criminais (se já soubesse não estaria na escola, né?). E os leitores conseguem acompanhar a evolução gradativa dos conhecimentos da protagonista. Nesse sentido, é muito legal vermos o choque de realidade quando a menina encara pela primeira vez os crimes bárbaros que até então só tinha acessado na literatura, na televisão e nos podcasts. Uma coisa é a ficção, outra coisa é a verdade factual. Outros elementos que merecem elogios em “Cordialmente Cruel” são a reconstituição histórica (muito boa!), a composição do colégio como cenário narrativo (a escola no alto das montanhas se transforma, querendo ou não, quase que em um dos protagonistas do romance/série) e a construção das personagens (impecável). Nota-se a excelência na recriação do ambiente de 1936 pelos vários detalhes históricos contidos no enredo: os anarquistas como principais inimigos do Estado norte-americano (papel esse que seria assumido pelos comunistas a partir da Segunda Guerra Mundial); a criação do FBI (e o papel central de J. Edgar Hoover nas primeiras décadas da instituição); e as consequências da Lei Seca (surgimento das máfias de bebidas alcóolicas e necessidade de contrabando para alimentar a sede dos consumidores). Quando a trama avança para o presente, temos o uso de novas tecnologias pelos jovens (hábito de ouvir podcast, febre do Youtube, a relevância dos influenciadores digitais) e a ascensão constrangedora do conservadorismo de extrema direita norte-americana (representada por Edward King e pela adoração dos pais de Stephanie por essa figura tão polêmica, uma espécie de versão ficcional de Donald Trump). Parte da graça do livro de Maurren Johnson está na mistura de personagens reais com personagens ficcionais e, no meio do caminho, personagens evidentemente inspirados em pessoas verídicas. No caso específico da atmosfera do Instituto Ellingham, todo o esforço da autora em compô-lo valeu a pena. O excesso de descrição do colégio em que Stevie se matriculou e em que Dolores estudou tem uma explicação plausível. O mistério e o suspense do enredo de “Cordialmente Cruel” foram potencializados pelo tipo de ambientação criado. Por isso, tenha paciência se as linhas dedicadas à estrutura, à geografia, à história, à dinâmica e aos funcionários da escola parecerem excessivas. Tudo aqui tem uma finalidade. Acredite na capacidade de Maurren Johnson de desenvolver sua escrita criativa. Ela sabe muito bem o que está fazendo. Quando o assunto é a construção das personagens, notei que ela foi bem-feita por causa de um detalhe: em nenhum momento fiquei confuso sobre quem era quem nessa leitura (algo que geralmente acontece comigo em histórias longas e recheadas de personagens). E olha que temos muitas (e põe muitas nisso) pessoas nessa trama de Maureen Johnson. E por que será que eu não me confundi, hein? Em parte, porque li “Cordialmente Cruel” em um único dia. Talvez se tivesse navegado por suas páginas por dois ou três dias, poderia sim ter embaralhado os nomes. Contudo, devo essa falta de confusão à boa caracterização das personagens. Cada figura retratada no livro foi muito bem constituída (o que me faz pensar que serão utilizadas por toda a série literária). Além disso, a maioria dos indivíduos retratados nesse título é de personagens redondas (um bom indicativo da excelência da narrativa). Entre os aspectos que mais gostei nesse livro está a forte intertextualidade literária com os romances policiais. “Cordialmente Cruel” debate o ofício da escrita das tramas criminais, comenta as características dos clássicos do gênero e faz reflexões sobre o trabalho investigativo real. De certa maneira, essa obra de Johnson é uma grande homenagem aos autores de língua inglesa que ajudaram a tornar os romances policiais um sucesso editorial até hoje. Não por acaso, temos várias citações a Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, os maiores mestres desse tipo de história ficcional. Por outro lado, “Cordialmente Cruel” possui alguns pontos negativos. Os leitores mais exigentes dirão que não são apenas alguns e sim vários. Para começo de conversa, achei a apresentação das personagens muito formal. Entendo que esse expediente narrativo seja necessário pois muitas figuras ficcionais (colegas de Stevie, professores, funcionários da escola, policiais de Burlington, funcionários da casa de Albert Ellingham, famílias e amigos do magnata etc.) serão usadas várias vezes ao longo da coleção literária. Não podemos nos esquecer que estamos falando de uma história que se alongará por alguns livros. Contudo, é inegável o tom meio pomposo em que as personagens são introduzidas na trama. O jeito meio forçado em que elas são descritas de início me incomodou bastante. A impressão é de profunda artificialidade. Acredito que com alguma criatividade e com mais habilidade, Maurren Johnson teria superado essa problemática. Outro elemento inquietante, esse sim uma deficiência narrativa muito mais grave, foi a sensação de déjà vu que o romance me trouxe. Sabe aquela história que você lê e pensa: mas eu já não vi isso antes, Santo Deus?! Pois foi exatamente essa a percepção que tive durante a leitura de “Cordialmente Cruel”. De certa forma, essa trama é um pot-pourri de várias obras literárias de grande sucesso. A construção do ambiente escolar remete muito a saga de Harry Potter. Já a postura de Stevie Bell em se lançar em desafios aparentemente inviáveis para sua idade lembra bastante Percy Jackson, personagem da série homônima. Na perspectiva da morte de um adolescente em um colégio interno, a recordação que me veio foi de “Quem é Você, Alasca?” (Intrínseca), romance infantojuvenil de John Green. Quando olhamos para as brincadeiras e as charadas deixadas pelos criminosos, uma espécie de escape game, aí o livro de Green que me veio à mente foi “Cidades de Papel” (Intrínseca). Se você comparar os desafios de um jovem na profissão de detetive, aí as semelhanças são direcionadas para “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil), livro de Isabel Allende, e “Refúgio” (Arqueiro), primeiro título de Harlan Coben da série de Mickey Bolitar. Os fãs de Stieg Larsson, por sua vez, lembrarão da coleção “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Companhia das Letras) por causa dos mistérios (e dos desdobramentos) do passado de difícil resolução. Portanto, por qualquer perspectiva que tomemos, não podemos dizer, infelizmente, que o enredo de “Cordialmente Cruel” seja lá muito criativo e original. Por fim, para os leitores mais ansiosos, o fato de a trama desse livro não ter um desfecho pode incomodar um pouco – o romance termina bem no meio de uma cena. Quem curtiu as aventuras de Stevie Bell pelo Instituto Ellingham precisará adquirir o volume 2 da coleção, no caso “A Escada Furtiva”, para seguir acompanhando os mistérios apresentados em “Cordialmente Cruel”. Até aí beleza. E, na sequência, precisará aguardar o lançamento da versão nacional de “The Hand On The Wall”, essa sim a última parte da trilogia, para conhecer o desenlace da série literária. Como falei, as almas mais ansiosas podem sofrer um pouco com esse longo período de espera. Ainda mais porque o primeiro livro da saga termina justamente no ápice narrativo, no clímax. Se Maureen Johnson queria nos deixar com um gostinho de quero mais, ela conseguiu. No balanço geral, “Cordialmente Cruel” é um bom título infantojuvenil. Seus principais méritos estão na construção de uma série narrativa bem amarrada, no texto gostoso e fluído do início ao fim, na presença de ótimas personagens e, principalmente, no acúmulo de mistérios contagiantes. Para os jovens fãs dos romances policiais, ainda há como bônus a forte intertextualidade literária com os clássicos do gênero. Confesso que se estivesse com “A Escada Furtiva” em mãos no final de semana passado, teria começado imediatamente sua leitura após o término de “Cordialmente Cruel”. Tem prova maior da qualidade de um texto ficcional do que uma confidência como essa, hein? Como não sei o desfecho dessa história, posso compartilhar com você minhas apostas. Considerando que Maureen Johnson não desenvolveu um enredo tão original assim, acredito que Iris e Alice Ellingham não foram sequestradas. Para mim, elas fugiram de Albert Ellingham. E a morte de Dolores Epstein foi reflexo dessa escapulida desesperada da esposa e da filha do fundador do colégio. Teria sido Iris Ellingham a assassina da garota? Acredito que sim. Finalmente, acho que um dos culpados do assassinato de Hayes Major, o colega de Stevie Bell, seja (tantantantaaaaaam) David. Como falei, essas são minhas apostas. A conferir! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Maria Quitéria, A Soldada que Conquistou o Império - O romance histórico de Rosa Symanski
Publicada em 2021, a narrativa sobre a primeira mulher a ingressar no Exército brasileiro representou a estreia da jornalista gaúcha na ficção literária. No final de semana passado, li um livro encantador. “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” (Poligrafia) é o romance histórico de Rosa Symanski que apresenta os dramas sentimentais, familiares e sociais de uma jovem muuuuuuuito à frente de seu tempo. O mais legal é que essa trama foi desenvolvida a partir de personagens e episódios reais de dois séculos atrás. Ou seja, temos aqui uma mistura bem azeitada de elementos verídicos com aspectos ficcionais. Nascida na Bahia em 1792, Maria Quitéria de Jesus Medeiros, a protagonista da obra, foi a primeira mulher a ingressar no Exército brasileiro e lutou nas Guerras de Independência de nosso país. Não à toa, foi condecorada por D. Pedro I e se tornou uma das primeiras heroínas nacionais. Quem gosta de História (ainda mais em ano de celebração do bicentenário da Independência do Brasil, né?) e aprecia a boa Literatura (acho que a maioria do público do Bonas Histórias) entenderá, na certa, meu fascínio por esse título. Gostei tanto dele que sentia a necessidade de produzir esse post para a coluna Livros – Crítica Literária. Lançado em março de 2021, “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” é o romance de estreia da jornalista Rosa Symanski. A ideia para a criação dessa publicação nasceu tão logo Rosa iniciou as pesquisas sobre a vida de Maria Quitéria de Jesus Medeiros. Ao descortinar uma figura ímpar do século XIX e um possível estandarte para os movimentos feministas da atualidade, a autora vislumbrou a transposição da trajetória pessoal de Maria Quitéria para as páginas dos livros. Curiosamente, ao invés de partir para a confecção de uma biografia (caminho que a maioria dos jornalistas trilharia), Rosa optou por percorrer as delicadas curvas do universo literário. Essa decisão se mostrou acertadíssima. Mesmo com um material bibliográfico rico e extenso em mãos, fruto de anos e anos de pesquisa, Rosa não titubeou em mergulhar, quando necessário, na ficção. O resultado é simplesmente sensacional! Com quase três décadas de atuação profissional no Jornalismo, Rosa Symanski tem passagens por importantes veículos de comunicação: Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Agência Estado, Agência Reuters, entre outros. Nascida no Rio Grande do Sul, a escritora está radicada há anos na cidade de São Paulo. Ela é especialista nas editorias de Economia e Finanças e se aperfeiçoou na pesquisa de grandes personagens da nossa cultura. O romance “Maria Quitéria” levou aproximadamente dois anos e meio para ganhar a forma que conhecemos agora. Esse período contempla tanto a pesquisa quanto a produção textual realizadas pela autora. Se Rosa não tinha experiência propriamente dita na Escrita Criativa, não lhe faltaram bagagem cultural, repertório literário, habilidade ficcional nem dedicação para aperfeiçoar a história da heroína baiana. Apaixonada por literatura e cinema desde criança (ou desde piá, como dizem lá nos Pampas), a escritora gaúcha conseguiu desenvolver, nesse livro, um texto gostoso, uma narrativa cativante e uma trama envolvente. Duvido que alguém que leia esse título e que não conheça Rosa diga que ele é fruto do trabalho de uma romancista novata. Novata sim, mas extremamente talentosa e com uma linha editorial muito madura. “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” saiu pela Poligrafia, uma jovem e pequena editora localizada na Grande São Paulo. Fundada em 2005 para produzir publicações de Negócios e Finanças, a Poligrafia Editora ampliou o leque de atuação, a partir de 2014, e passou a desenvolver livros ficcionais e não ficcionais. Sua linha editorial é atualmente bem variada. Indiscutivelmente, esse romance histórico de Rosa Symanski foi um dos belos acertos de 2021 da companhia. Conheci “Maria Quitéria” (estou falando aqui da obra e não da figura histórica, tá?) no finalzinho do ano passado. De maneira muito cortês, Rosa me enviou, nos últimos dias de dezembro, um exemplar de seu livro. Acabei recebendo-o no comecinho de janeiro e o coloquei na lista de próximas leituras. Porém, só consegui lê-lo com a atenção merecida no último domingo. Confesso que já sabia algumas particularidades da biografia da protagonista do romance. Em janeiro ou fevereiro de 2021, se eu não estiver enganado, a revista Aventuras na História, um dos títulos que leio regularmente, trouxe uma matéria de capa intitulada “Mulheres na Independência”. A reportagem apresentava algumas personalidades femininas de destaque no processo de Independência do Brasil, mas que acabavam invariavelmente aparecendo apenas nos rodapés dos livros de História. Além de Joana Angélica (citada no enredo de “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império”), Maria Felipa e Maria Leopoldina (outra figura que aparece na obra ficcional de Rosa), o periódico descreveu os principais feitos de Maria Quitéria. Foi aí que a conheci. Talvez por certo pé atrás que sempre tive com os militares verde-amarelos, não dei muita bola, naquele momento, para a Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sim, esse é o título que Maria Quitéria conquistou postumamente. O termo pé atrás, usado na primeira frase desse parágrafo, é obviamente um eufemismo, se é que você me entende?! Admito agora, um tanto envergonhado, que estava redondamente enganado em pré-julgar Maria Quitéria pela sua relação com os milicos. Se estivesse na minha pele, Raul Seixas cantaria: “Mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado”. Porque Maria Quitéria é uma personagem única e merece sim nossa admiração. Depois da leitura do romance de Rosa Symanski, acabei valorizando mais a postura, as condutas, o estilo de vida e a visão de mundo dessa baiana arretada da peste do que propriamente seus feitos nas Forças Armadas. É verdade que o alistamento como homem, a responsabilidade por treinar um grupo de soldados novatos e a liderança do primeiro agrupamento feminino da corporação são episódios marcantes de sua biografia. Todavia, eles não conseguem dimensionar tudo o que Maria Quitéria foi e fez e não fazem justiça à representatividade que ela alcançou nos dias de hoje. O enredo de “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” começa em meados de 1820. Nesse período, vale a pena lembrar, Brasil e Portugal passavam por intensos conflitos diplomáticos. Os lusitanos exigiam, após o fim da invasão napoleônica ao seu território, o retorno da família real para a Europa. Para quem se esqueceu dessa passagem histórica, D. João e a corte lisboeta tinham fugido, em 1808, para o Rio de Janeiro quando Napoleão invadiu Portugal. Já os brasileiros não queriam mais voltar para a condição de simples colônia do Reino português após a derrotada definitiva de Bonaparte. Um cheirinho de guerra e/ou de cisão pairava na parte lusófona do Oceano Atlântico. Em meio à instabilidade política no finalzinho da segunda década do século XIX, Maria Quitéria de Jesus Medeiros vivia tranquilamente na Fazenda da Serra Agulha, no Recôncavo Baiano. O dia a dia da jovem morena de 19 anos era muito prazeroso. A moça de traços indígenas marcantes e bonitos podia cavalgar livremente pela propriedade do pai, Gonçalo Alves de Almeida. Ela caçava, tomava banho de cachoeira, visitava a melhor amiga, Maria de Lourdes, sempre que quisesse, dançava com os escravos na senzala, bebericava leite diretamente do curral. Sua rotina era livre e mais parecida com a de um rapaz do que de uma dama burguesa do Período Colonial. Contudo, a paz de espírito de Maria Quitéria sofreu o primeiro abalo com a chegada de Maria Rosa à Fazenda da Serra Agulha. Maria Rosa se casou com Gonçalo Alves de Almeida após a segunda viuvez do pai de Maria Quitéria. Diferente da mãe da moça e da segunda esposa de Gonçalo, a nova madrasta da protagonista do romance era maldosa, vingativa e invejosa. Indignada com o estilo de vida da enteada, Maria Rosa fazia de tudo para tornar o dia a dia da bela Maria Quitéria um horror. Mesmo assim, a jovem sempre conseguia escapar ilesa das artimanhas da vilã. O que Maria Quitéria não conseguiu foi fugir da paixão fulminante por Antônio Gomes. Ela conheceu o estudante de Direito em um de seus passeios pelas cachoeiras do Sertão. A relação dos dois avançou rapidamente e em questão de dias o casal vivia um tórrido namoro. Os três meses de férias de Antônio Gomes no Recôncavo Baiano foram passados quase que integralmente nos braços da morena. Se Luan Santana tivesse conhecido essa história e se colocado no papel de Antônio, na certa teria cantado: “Se eu não conseguir dormir/Não é cafeína/ É culpa da morena/ Do beijo da morena”. O espírito livre, progressivo, carinhoso, caridoso e sem preconceitos de Maria Quitéria permitiu que ela desfrutasse intensamente todos os prazeres da paixão com o jovem soteropolitano. Os tempos de alegria de Maria Quitéria e Antônio terminaram com o fim das férias do rapaz. Ele precisou regressar para Coimbra para concluir o último ano do curso de Direito. Contudo, Antônio prometeu que, ao se formar, voltaria para buscar a amada. Ele queria se casar com Maria Quitéria e, quem sabe, levá-la para viver em Salvador. O problema é que ao retornar para a capital baiana, Antônio foi desautorizado pelo pai a prosseguir com aquele relacionamento amoroso. O patriarca dos Gomes não aceitava o namoro do filho com a sertaneja e queria que Antônio se casasse com Camila Araújo, filha de um rico figurão de Salvador. Inclusive, o matrimônio de Antônio e Camila já havia sido previamente acertado há anos pelos seus familiares, quando eles eram adolescentes. A união dos Gomes com os Araújo seria um negócio vantajoso para os dois clãs. O que Antônio deveria fazer nessa situação, hein? Ele poderia brigar com o pai para se casar com Maria Quitéria? Ou precisaria aceitar os desígnios familiares e se unir com Camila?! O que Maria Quitéria, com uma postura sempre altiva, amorosa e independente, faria se ouvisse uma recusa do homem que tanto ama? Esses são os mistérios que essa obra nos reserva. “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” é um romance de tamanho mediano. Ele possui 258 páginas. Seu conteúdo está dividido em 15 capítulos (14 numerados e o epílogo). Há ainda o prefácio produzido por Gabriella Esmeralda Aquino Silva, descendente de Maria Quitéria (não se menciona qual seria o grau exato de parentesco entre elas), e um anexo com as referências bibliográficas. Li o livro de Rosa Symanski em um único dia. Levei pouco mais de seis horas para ir da primeira à última página de “Maria Quitéria” no domingo. Quem não é chegadinho a longas sessões de leitura como eu, saiba que dá para ler tranquilamente esse livro em dois dias ou mesmo em três noites consecutivas. No que se refere à análise literária em si, o que mais gostei nessa obra foi o estilo narrativo utilizado por Rosa. “Maria Quitéria” emula as principais características dos romances românticos, o tipo de literatura praticada na época em que essa trama se passa. Como consequência, temos a potencialização da contextualização histórica do livro. Afinal, nada melhor do que um texto com cara de século XIX para um enredo ambientado no século XIX, né? Adorei isso! E o que seria exatamente esses elementos trazidos do Romantismo, Ricardo? Boa pergunta, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias. Temos, por exemplo, muitas personagens planas (principalmente a heroína e a vilã), narrador onipresente e onisciente que não fica limitado às ações da protagonista (não tínhamos Teoria Literária nem estudo do Foco Narrativo no século XIX), forte drama sentimental, desfecho trágico, forte maniqueísmo e discurso com pouquíssima oralidade (apesar de uma ou outra tentativa nesse sentido, como o uso do vocábulo “vosmicê” e da expressão “contrair matrimônio” em “Maria Quitéria”). A sensação é de estarmos mesmo lendo uma narrativa oitocentista (só que com um linguajar contemporâneo). Normalmente algumas características românticas (o termo romântico aqui é usado para designar a literatura do Romancismo, tá?) são vistas negativamente pelos leitores e pelos críticos literários de hoje. Queiramos ou não, personagens redondas são mais interessantes do que personagens planas; narrador onipresente e onisciente não é usado há muito tempo pela alta literatura; discurso com pouca oralidade é visto como artificial; e maniqueísmo acentuado atrapalha a construção de tramas mais plurais e polissêmicas. Entretanto, em “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império”, esse pacote narrativo é uma delícia, principalmente para quem gosta da história da literatura e para quem entende que o objetivo era recriar o tipo de texto ficcional que tínhamos há 200 anos. O interessante é que Rosa Symanski conseguiu, em muitos momentos, resolver alguns dos sérios problemas das tramas do século XIX. Uma das coisas que eu odeio nos romances de José de Alencar, Maria Firmina dos Reis, Joaquim Manuel de Azevedo, Júlia Lopes de Almeida e Camilo Castelo Branco é que as personagens se apaixonam em um estalar de dedos. Você já reparou nisso? Basta um segundo, uma olhadela, um gesto, uma aparição, uma fala e boom: os pombinhos já se amam para todo o sempre (mesmo não se conhecendo). Aos olhos dos leitores contemporâneos, o amor do Romantismo parece artificial, forçado e até mesmo infantil. E em “Maria Quitéria”, não temos essa falha narrativa. A autora conseguiu, com muita habilidade e maturidade artística, mostrar a intensidade do amor de Maria Quitéria e Antônio Gomes de um jeito convincente. Em nenhum momento do livro, temos a impressão de exagero ou de artificialidade na relação do casal de protagonistas. Pelo contrário, a sensação é de um amor profundo, genuíno, natural e, principalmente, verossímil. Gostei também do ritmo da narrativa e da fluidez do texto de “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império”. Temos aqui uma trama realmente deliciosa, que chega a empolgar em vários momentos. Outro aspecto positivo foi a inserção de Maria Rosa como a grande vilã da trama. Sem esse antagonismo, talvez a narrativa não tivesse ficado tão saborosa. A terceira esposa de Gonçalo Alves de Almeida oferece um conflito até mesmo mais intenso ao estilo de vida da enteada do que (cuidado, aí vai um pequeno spoiler!) o casamento de Antônio Gomes com Camila Araújo. De certa maneira, Maria Rosa é mais do que a mulher invejosa, maldosa, manipuladora e instável emocionalmente. Ela simboliza a maioria dos preconceitos da sociedade colonial luso-brasileira. Por isso, não gostei da tentativa de minimizar sua vilania na segunda metade do livro, quando se joga a culpa de seus atos no colo dos homens – sempre eles! – e da sociedade machista da época. O mais surpreendente foi descobrir, conversando com a autora da publicação, que Maria Rosa existiu realmente e aporrinhou a vida da nossa heroína até não poder mais. É impossível falar desse romance histórico sem nos debruçarmos sobre a figura contagiante de Maria Quitéria. A jovem que adorava cavalgar e caçar pelos campos sertanejos é uma heroína contemporânea que viveu no século XIX. Ela representa a liberdade e o poder feminino. Mesmo se não tivesse ido para o Exército e lutado na Guerra de Independência do Brasil, Maria Quitéria de Jesus Medeiros já mereceria, por si só, nossa admiração. Insisto nessa tese. Suas atitudes, valores e postura na fazenda da Serra da Agulha são de uma pessoa muito à frente de seu tempo. Ah se todo militar brasileiro de ontem e de hoje fosse como essa mulher, Santo Deus!? Em uma brincadeira intertextual, diria que Maria Quitéria é a junção de várias personalidades reais e literárias. Pela postura guerreira e destemida, ela tem um quê de Joana D´Arc, a heroína francesa, e de Diadorim, figura emblemática de “Grande Sertão: Veredas” (Companhia das Letras), clássico de João Guimarães Rosa. Pela sexualidade livre e moderna, a protagonista do romance de Rosa Symanski é um pouco Gabriela, de “Gabriela, Cravo e Canela” (Companhia das Letras), um dos romances mais famosos de Jorge Amado. Pela origem indígena e a integração harmônica com a natureza, Maria Quitéria se parece muitas vezes com Iracema, de “Iracema” (Melhoramentos), obra de José de Alencar, e com Chefe Lobo Cinzento/Toypurnia, de “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil), narrativa histórica de Isabel Allende. Porém, a comparação mais forte que posso fazer da heroína de Rosa Symanski é com a personagem principal de “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira), romance de Régine Deforge construído também a partir de episódios reais. Seria Maria Quitéria uma espécie de versão brasileira de Ana, a filha do Grão-Príncipe de Kiev que se tornou esposa do rei francês Henrique I? Marisa Monte responderia a essa questão cantarolando: “Sim, são três letrinhas/ Todas bonitinhas/ Fáceis de dizer/ Ditas por você/ Nesse seu sim, assim”. Algo que me surpreendeu positivamente em “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” foi o enfoque maior dado à juventude da protagonista e ao seu primeiro amor do que às suas proezas militares. Assim, a parte mais conhecida da vida dessa figura histórica (entrada no Exército e participação nas lutas de Independência do Brasil) se tornou quase que um complemento aos dramas sentimentais por ela vivenciados/recriados nessa ficção. Adorei essa escolha narrativa. A autora conseguiu humanizar a personagem e jogar luzes sobre os aspectos não tão conhecidos da trajetória da nossa heroína. Por isso mesmo, a proposta de romancear essa parte da trama me pareceu tão acertada. Admito que quando abri o livro para lê-lo, imaginei que fosse ver com mais ênfase a segunda parte (a atuação de Maria Quitéria no Exército). Gostei muitíssimo dessa surpresa. Também é preciso elogiar as cenas de sexo. Elas estão excelentes. Não é normalmente fácil escrever esse tipo de cena e Rosa fez isso muito bem, com naturalidade, versatilidade e beleza. Parte do charme da narrativa de “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” está justamente em seu teor picante. Sempre tive dificuldade de pensar o Período Colonial Brasileiro como uma época casta e monótona (conforme retratado nos romances românticos). O retrato feito nesse livro pareceu-me muito mais condizente com a realidade daquela época. Não à toa, esse jeito Grabriela de Maria Quitéria ajuda a combater o machismo do século XIX (só do século XIX?!) quando o assunto é a sexualidade feminina. Outro aspecto que adorei foi a forte intertextualidade literária. Durante a leitura das páginas de “Maria Quitéria”, acompanhamos a citação direta e indireta a várias personagens e enredos romanescos. Temos aqui referências a: “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Penquin Companhia), narrativa epistolar de Johann Wolfgang von Goethe; “Romeu e Julieta” (Penquin Companhia), tragédia clássica de William Shakespeare; “Paulo e Virgínia” (Rocco), obra mais famosa de Bernardin de Saint-Pierre; o mito do “Bom Selvagem”, de Jean-Jacques Rousseau; e “Madame Bovary” (Penquin Companhia), título que consagrou eternamente Gustave Flaubert. Isso é o que ficou mais evidente. Conhecendo um pouco a erudição e a vasta bagagem cultural de Rosa Symanski, tenho certeza de que as pinceladas de Mitologia grega e de Literatura Clássica (nacional e internacional) não foram por acaso. No caso, nada em “Maria Quitéria” parece ter sido feito por acaso. E as contextualizações históricas, sociais, culturais e políticas desse livro, hein?! Nem preciso dizer que elas estão impecáveis! Temos uma verdadeira aula de História. Nota-se o cuidado em cada detalhe da parte real da trama. Assistimos, nesse romance, ao machismo, ao racismo, ao extermínio indígena, à escravidão, à violência, às injustiças sociais, ao patriarcalismo (que machuca e prejudica até mesmo os homens) e ao cenário político das primeiras décadas do século XIX. Além disso, acompanhamos a religiosidade, as danças e os hábitos culturais tanto dos africanos quanto dos indígenas, algo que, infelizmente, sempre fica em segundo plano na literatura ficcional brasileira. Quando Rosa insere em seu texto aspectos das crenças, da magia e da medicina afro-indígena (amuletos, fechar o corpo, presságios, poder das ervas medicinais etc.), a impressão é de estarmos lendo os melhores trabalhos de Mia Couto e de José Eduardo Agualusa, autores contemporâneos de língua portuguesa que possuem a preocupação em valorizar suas culturas populares e ancestrais. Então, quer dizer que “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” é um romance perfeito? Não. Ele também tem alguns probleminhas. O principal deles está nos vários errinhos de sequência narrativa. Pelo menos foi essa a minha impressão durante a leitura. No começo da história, por exemplo, entendi que Maria Quitéria tinha dois irmãos: Josefa e Luís. E a protagonista seria a primogênita. Beleza até aí. Entretanto, mais à frente, nossa heroína aparece com três irmãos da mesma mãe e pai: Francisca, Teresa e Bernarda. E, nesse momento, acredite, Maria Quitéria parece ser a mais nova da turma. Ai, ai, ai. Pode isso, Arnaldo?! Quer mais exemplos? Achei que, em algumas passagens específicas, as personagens simplesmente não envelheceram, apesar do avançar irredutível do tempo. Antônio Gomes tinha 22 anos quando conheceu Maria Quitéria, que por sua vez tinha 20 anos. Aí o rapaz precisou passar uma temporada na Europa para concluir o curso de Direito na Universidade de Coimbra. No retorno ao Brasil, doze meses mais tarde, acredite se quiser, Antônio continuou tendo os mesmíssimos 22 aninhos e sua namorada sertaneja prosseguiu com as inabaláveis 20 primaveras. Achei estranha, muito estranha essa aritmética temporal do livro. Essa contradição pode ser culpa de minha leitura pouco atenta? Pode, sim senhores. Porém, não posso esconder esse desconforto que senti. Por fim, a cena em que Maria Quitéria fala sobre política durante a visita do oficial do Exército à fazenda da Serra da Agulha me pareceu extremamente inverossímil. Afinal, a moça, em nenhum momento até ali, havia demonstrado qualquer interesse político ou meios de acessar as informações faladas à mesa. Se a protagonista passava os dias no campo caçando e cavalgando, como poderia saber os detalhes da política brasileira e portuguesa, hein? Não sei. Se fosse Camila Araújo quem tivesse exposto o panorama político-social dos anos 1820 dessa mesma forma, eu até entenderia. Contudo, Maria Quitéria não me convenceu – seria necessário contextualizar melhor nos capítulos anteriores essa sua inclinação política e explicitar a forma como ela obteve as informações. Achei desnecessárias as notas de rodapé em “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império”. É verdade que elas ajudam a mostrar a riqueza da pesquisa bibliográfica feita pela autora. Rosa Symanski passou alguns anos debruçada sobre esse tema. Porém, estamos falando de um romance e não de uma biografia, né? Nas tramas ficcionais, a pesquisa normalmente não é apresentada ao leitor (nem deve). Mesmo assim, respeito a opção pela apresentação das informações bibliográficas. Até porque elas ajudam os leitores que ficaram interessados na história de Maria Quitéria a se aprofundar no assunto. O único capítulo que eu realmente não gostei em “Maria Quitéria” foi o XI. Ele fugiu totalmente do padrão (linha narrativa) usado no restante do romance. Além da sumarização do texto (quando o ideal seria a encenação), essa seção coloca Maria Quitéria como uma personagem secundária na maior parte do tempo. E quem se transformou em protagonista nessas páginas? Vários indivíduos que até então não tinham sido inseridos na trama. Sinceramente, acredito que esse capítulo não faz jus à qualidade do livro e ao talento literário de Rosa. Como leitor, estava ávido para ver Maria Quitéria no combate. E ver cenas de batalhas onde a personagem principal não estava nem presente não me sensibilizou nem um pouco. Mesmo com um tropecinho aqui e outro acolá, algo perfeitamente normal em se tratando de uma obra de uma autora estreante, é inegável a qualidade narrativa de “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império”. E falo isso não apenas pelo caráter da efeméride do bicentenário da Independência do Brasil, um dos principais eventos nacionais de 2022. Esse romance de Rosa Symanski é um título atemporal capaz de encantar quem gosta de História (com h maiúsculo) e quem aprecia o melhor da Literatura (a história com h minúsculo). Minha curiosidade é saber quais serão os próximos passos de Rosa na produção ficcional. Talento para o trem (como diriam os mineiros), ela tem. Fôlego para o desenvolvimento de narrativas longas, ela também provou possuir. Se já no primeiro romance, a jornalista e (agora) escritora gaúcha conseguiu encantar e surpreender os leitores com um texto de altíssimo nível, o que virá pela frente, hein? Sinceramente não sei. Minha torcida é que ela possa ampliar seu portfólio artístico-literário com o mesmo cuidado, a mesma dedicação e a mesma habilidade demonstradas em “Maria Quitéria”. Estaríamos vendo nascer uma romancista especializada em enredos históricos? Torçamos que sim! A literatura brasileira contemporânea agradece a chegada de mais uma boa integrante para suas fileiras. 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- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Janeiro de 2012
O primeiro mês do ano é marcado pela retomada do futebol no Brasil. E é também o início do relato do torcedor corintiano que sonha com a conquista da Copa Libertadores pela primeira vez. 1° de janeiro de 2012 – domingo Estamos no primeiro dia de um novo ano. Esse período do calendário é marcado por festas, simpatias e planos para os próximos 366 dias (é ano bissexto!). Comigo não é diferente. Planejei basicamente três coisas para 2012: (1) ver o Sport Club Corinthians Paulista conquistar a Copa Libertadores pela primeira vez; (2) me tornar escritor; e (3) emagrecer 12 quilos. Pensando bem, são metas perfeitamente realizáveis, apesar de cada uma exigir certos sacrifícios. Estou disposto a realizá-las e vou me empenhar ao máximo para no próximo 31 de dezembro olhar para trás e falar: "Consegui! Viram como valeu a pena tanto empenho!". Aí alguém pode me questionar: "Ver o seu time campeão não depende de você, um simples torcedor. Depende dos jogadores, do treinador, da comissão técnica e dos dirigentes do clube". Quem faz tal observação está, à princípio, correto na análise. Porém, essa pessoa não está considerando algo fundamental: minha situação econômica. Sou um milionário em potencial. E estou disposto a investir parte da minha fortuna no Coringão, assim como os mafiosos russos fazem com os times ingleses. Deixe-me explicar o termo “milionário em potencial”. Há dez dias, fiz um jogo na Mega Sena da Virada. Um só porque não estava com o bolso cheio. E essa aposta foi feita em conjunto (ou seria sociedade?!) com Angela, minha amiga da adolescência. Sabe como é: estava sem grana para fazer um jogo inteiro e ela aceitou contribuir com a metade do valor que faltava. O importante é dizer que o prêmio total da loteria gira em torno de R$ 180 milhões. Nada mal, hein? Sabendo da necessidade do Timão em fazer contratações, passei o Natal esclarecendo para a minha família o destino que irei dar ao dinheiro depois de acertar os números do sorteio. Vou usar o prêmio para comprar o passe do Montillo, jogador argentino do Cruzeiro. E o cederei gratuitamente ao Corinthians. Como a equipe mineira está pedindo R$ 20 milhões pelo meio-campista, a minha parte na bolada será suficiente. Afinal, a Angela é são-paulina e anticorintiana, não sendo possível contar com sua boa vontade nessa empreitada. Meus parentes não acreditaram em como vou usar a fortuna que ganharei. Contudo, falei a verdade. Eles não têm ideia do que um corintiano fanático é capaz de fazer para ver seu time conquistar a América! Dessa maneira, minha maior preocupação no primeiro dia do ano foi conferir o resultado da Mega Sena. Às cinco horas da manhã, pulei da cama e corri para o computador. E as manchetes dos portais de notícias eram exatamente sobre o sorteio da noite anterior. Cinco apostadores acertaram os seis números e embolsaram, cada um, R$ 35.523.497,52. Infelizmente, eu não estava nesse grupinho. Liguei imediatamente para a Angela para avisar sobre nossa falta de sorte. Não sei se ela ficou brava por eu tê-la acordado tão cedo no domingo ou se ficou realmente frustrada com a perda do prêmio. O que sei é que ela me atendeu muito mal-humorada. Paciência! Sem minha fortuna, não poderei mais ajudar meu time como gostaria. O Timão terá que arranjar outra maneira para contratar o craque argentino. 2 de janeiro de 2012 - segunda-feira As férias de Verão dos jogadores de futebol estão terminando no Brasil. Alguns clubes já começam a receber seus atletas para o período de pré-temporada e outros estão próximos de retomar os trabalhos. No Corinthians, a apresentação do elenco para os treinamentos será nessa quarta-feira. O Campeonato Paulista irá começar no dia 21. Antes disso, haverá alguns amistosos preparatórios. Por enquanto, essa é a melhor notícia do ano. Não aguento mais ficar sem partidas de futebol. Um mês e meio de recesso é muita coisa. Sinto estar sofrendo de abstinência pela falta desse tipo de diversão. A virada do ano é possivelmente o período mais crítico para os brasileiros apaixonados pelo esporte mais popular do mundo. Chega um momento entre dezembro e janeiro que dá uma vontade danada de acompanhar o time do coração em novos duelos, mas não há jogos programados. Felizmente, esse problema está para acabar. Em algumas semanas, a bola rolará pelos campos do país novamente, para a alegria dos fanáticos torcedores. Como consolo, no primeiro mês do ano temos a Copa São Paulo de Juniores. O campeonato é amador e é disputado por jogadores de até 18 anos dos principais times nacionais. Talvez esse seja o grande segredo da Copinha. Os torcedores estão tão sedentos por novos jogos que assistem aos duelos entre as jovens promessas do nosso futebol com o mesmo entusiasmo dos torneios disputados pelos profissionais. O único aspecto positivo da ausência de jogos é a movimentação dos dirigentes atrás de reforços. Praticamente todo dia há uma notícia envolvendo uma contratação bombástica, a sondagem por algum craque que atua no exterior ou o interesse por alguma revelação do clube rival. Entretanto, muitas notícias são meramente boatos, principalmente aquelas envolvendo a chegada de grandes nomes para os maiores times brasileiros. Flamengo, Corinthians e Atlético Mineiro são campeões nacionais em especulação. Até hoje, há quem diga que Maradona, Pelé e Garrincha serão contratados nas próximas semanas por essas agremiações. Mesmo sabendo da grande quantidade de besteira divulgada, adoro comprar os jornais só para ler tais notícias. Dessa vez, as especulações começaram mais cedo no Parque São Jorge. Logo depois do término do Brasileirão, no início de dezembro, o presidente corintiano Andrés Sanchez mostrou novo interesse em contratar o atacante Carlitos Tevez. A intenção é trazê-lo por empréstimo. No meio do ano passado, o dirigente havia oferecido cerca de US$ 40 milhões para o Manchester City pelo passe do argentino, oferta recusada pelos ingleses. Outros craques cortejados recentemente pelo Coringão foram Montillo do Cruzeiro, Wagner Love do CSKA, Douglas do Grêmio, Guilherme da Portuguesa e William, ex-jogador corintiano que atua agora na Ucrânia. Mesmo sabendo da inviabilidade da maioria desses negócios, gosto de acreditar nas possibilidades. Só a esperança de ter esses jogadores em meu time já me deixa feliz. 3 de janeiro de 2012 - terça-feira O principal assunto de dezembro no Parque São Jorge, depois da conquista do Campeonato Brasileiro de 2011 pelo Timão, foi a possibilidade da contratação de Montillo. O argentino do Cruzeiro foi considerado o melhor meio-campista nos dois últimos torneios nacionais e é um craque. Se ele vier para o Corinthians, cairá como uma luva no time armado por Tite. O jogador argentino deverá pegar tranquilamente a vaga de titular de Danilo ou de Alex, pois o cruzeirense é muito melhor em quase todos os fundamentos. Com certeza, o Timão se tornará uma equipe muito mais forte para a disputa da Copa Libertadores de 2012 se fechar esse negócio. O único problema na negociação é a intransigência do Cruzeiro em ceder o atleta. Após exigir € 8 milhões no início do mês passado, o clube mineiro aumentou a pedida para € 10 milhões na metade de dezembro. Agora já se fala em € 15 milhões. A posição da diretoria corintiana tem sido negociar com o empresário do jogador ao invés de tratar diretamente com os cruzeirenses. Parece que Montillo ficou empolgado com a possibilidade de atuar com a camisa do Timão e está fascinado com a proposta salarial recebida. Ele tem feito de tudo para ser vendido, porém os cartolas do time mineiro seguem recusando a liberação de seu principal atleta. As notícias sobre esse assunto já começam a encher a paciência. Estamos há um mês no vai, não vai. Ora o Cruzeiro parece concordar, ora volta atrás e mela o negócio. Já estou ficando irritado! Apesar do mal-estar, ainda prefiro a contratação de Montillo à volta de Tevez. O cruzeirense é mais profissional, confiável e talentoso, além de ser mais barato também. Vale a pena o esforço financeiro para trazê-lo. Estou torcendo para a diretoria corintiana fazer esse golaço fora dos gramados. Enquanto a grande contratação de 2012 não chega, alguns reforços de menor expressão são anunciados no Parque São Jorge. Eles vêm para compor elenco. Cinco nomes já estão confirmados. O melhor é Vitor Júnior, destaque do Atlético Goianiense, que chega para a reserva de Danilo e Alex na armação das jogadas. Outra boa aquisição foi a do centroavante Élton, vindo do Vasco da Gama. Como Liedson demonstrou alguns problemas físicos no final da última temporada e Adriano ainda não entrou em forma, os cartolas corintianos acharam melhor ter uma terceira opção para o setor. Os outros reforços são desconhecidos: o goleiro Cássio, vindo do futebol holandês; Felipe, zagueiro revelado pelo Bragantino; e Gilsinho, atacante oriundo do futebol japonês. O trio deve brigar para, no máximo, figurar no banco de reservas. Outro com chances de pintar por esses lados é o chinês Chen Zhi Zhao. O atacante é a arma do departamento de Marketing para promover o clube alvinegro no país mais populoso do mundo. Segundo Edu Gaspar, gerente de futebol, Chen Zhi Zhao é rápido e talentoso: “Eu o vi jogar. É um jogador velocista que atua pelas bandas, estilo Jorge Henrique ou Willian, com mais habilidade do que a média chinesa”. Viu como funciona o futebol? Começam falando em Tevez, Wagner Love e William, para terminar contratando alguém "com mais habilidade do que a média chinesa". Ai ai ai! 4 de janeiro de 2012 - quarta-feira Os jogadores do Timão regressaram aos treinamentos nessa quarta-feira à tarde. Depois de um mês de férias, eles se apresentaram no Centro de Treinamento (CT) Joaquim Grava, no Parque Ecológico do Tietê. Logo de cara, realizaram uma bateria de exames médicos e físicos. Ao todo, o elenco corintiano conta com 32 atletas, sendo 27 remanescentes do ano passado e os cinco reforços para a temporada de 2012. Apesar das contratações terem ficado abaixo da expectativa da torcida, o grande mérito da diretoria do Corinthians foi ter mantido integralmente o grupo campeão brasileiro de 2011. Nenhum jogador saiu do time, nem titulares nem os principais reservas. Ou seja, o Timão começa a nova temporada com uma base sólida e entrosada. Essa parece ser a grande notícia até aqui. Eu nunca tinha visto algo parecido acontecer no Parque São Jorge. Normalmente, há sempre uma grande reformulação do elenco entre dezembro e janeiro, quando não mudam também o treinador e a comissão técnica inteira. Quando o time vencia, aproveitava-se para vender os atletas mais valorizados. Quando o time perdia, a opção era por descartar os jogadores. Aparentemente, os cartolas alvinegros parecem ter aprendido com os erros do passado e estão empenhados em fazer tudo certo agora. A maior atração do primeiro dia de atividades, para variar, foi Adriano, Imperador. O atacante carioca foi o mais assediado pelos fotógrafos e pelos repórteres que acompanhavam a reapresentação dos atletas. O interesse pelo jogador se devia às suas tumultuadas férias no Rio de Janeiro. Na véspera de Natal, uma mulher foi baleada dentro de seu carro. A moça acusou o centroavante de estar portando a arma na hora do disparo. O caso virou questão de polícia e novamente colocou Adriano nas manchetes dos jornais. Para sorte dele, a investigação provou que a mulher ferida era quem portava o revólver. Além desse problema, o Imperador foi flagrado bebendo, fumando e comendo excessivamente na praia, com uma barriga bem protuberante. As fotos do jogador sem camisa na areia correram o mundo e assustaram os torcedores. Assim, todos queriam registrar a silhueta do atleta em sua volta ao trabalho. Obviamente, as imagens da região abdominal do atacante eram de assombrar. Enquanto Liedson e o zagueiro Wallace foram os melhores nos testes de resistência, Adriano foi o pior, mostrando muita distração e sendo o primeiro a desistir das atividades. Ou seja, o ano começou sem mudanças para o camisa 10: com muita confusão, pouca dedicação e muita preguiça. Não sei por que ainda não mandaram esse cara embora! Ele é uma laranja podre no meio de um laranjal excelente. Outra novidade na volta às atividades será a utilização do CT corintiano como local da pré-temporada. Com a inauguração, em dezembro, de um hotel dentro do Centro de Treinamento, os jogadores poderão ficar alojados ali durante toda a fase de preparação. Assim, o clube economizará com viagem, estadia e locação de campos, além de proporcionar mais conforto aos atletas. Dizem que o Centro de Treinamento Joaquim Grava, em Guarulhos, é atualmente um dos mais modernos do mundo, sendo referência para equipes nacionais e internacionais. Pelo visto, falta de estrutura não é mais justificativa para possíveis fracassos da nossa equipe. 5 de janeiro de 2012 - quinta-feira Hoje, eu fiquei o dia todo em treinamento. Normalmente, a primeira semana do ano é dedicada a esse tipo de atividade na empresa onde trabalho. O curso foi ministrado para alguns funcionários e foi bem descontraído. Durante o almoço e os intervalos, o assunto discutido com meus colegas foi um só: futebol! Afinal, a temporada está começando e as movimentações de compra e venda de atletas atingem seu auge. A expectativa pelo início das competições também era alta. Os mais animados no debate eram Daniel, um flamenguista fanático, e Marcelo, um santista divertidíssimo. Daniel estava otimista com o rubro-negro e com a possível repatriação de Wagner Love. Segundo o carioca, esse ano o Mengão vencerá todos os campeonatos. Achei um exagero, mas preferi não discordar. Já Marcelo estava um tanto cabisbaixo. A derrota no final de 2011 para o Barcelona no Mundial de Clubes da FIFA não estava nos planos. O que parece ter incomodado mais os santistas foi a maneira como foram derrotados – tomaram um chocolate dos catalães. Neymar, Ganso e Cia não viram a cor da bola no vergonhoso 4 a 0. Como corintiano, só tenho um desejo para essa temporada: ver meu time ganhar a Copa Libertadores pela primeira vez. Tenho tanta confiança na concretização desse sonho que até comecei a escrever uma coletânea de crônicas sobre essa conquista. Bastou eu expressar meu otimismo nesse sentido (claro que omiti o início da produção dos textos) para virar alvo das ironias e das brincadeiras da dupla de colegas. Por um longo tempo, eles caçoaram dos fracassos do Coringão nas competições internacionais. Fiquei um tanto envergonhado, mas achei engraçada a reação deles. Se quiser ver um torcedor adversário se animar, basta falar que você, um corintiano otimista, tem certeza de que, dessa vez, seu time conquistará a América. Nesse momento, o repertório de gozações dos rivais é extenso. A cada hora se inventam novas piadinhas (que não tem a menor graça). As novidades do dia foram: "Perder uma Libertadores é humano, perder todas é corintiano"; e "Por que corintiano não se forma no ensino fundamental? Porque sempre roda nas oitavas". Eu não desanimei. Eu tenho confiança no meu time e creio na possibilidade da conquista inédita. A esperança aumentou quando, após o término do curso e antes de ir embora para casa, voltei ao meu computador e acessei as notícias do dia. Em uma reportagem do UOL, um jornalista comentava as previsões que um tarólogo fez no programa Gazeta Esportiva de ontem. Segundo a matéria, o vidente David Lenk fez a seguinte previsão para o técnico Tite: “Eu só vejo cartas positivas para ele, então a probabilidade de ele, digamos, conquistar esse sonho (a Libertadores) é de 90%”. Segundo o tarólogo, o treinador irá sofrer com a pressão da torcida, da imprensa, de alguns jogadores e dos cartolas alvinegros, mas será bem-sucedido na empreitada. Obviamente, chamei Marcelo e Daniel, que se preparavam também para ir embora, para verem a notícia bombástica. Esperava aplacar um pouco de suas ironias. As palavras do vidente não tinham como falhar. Comecei a acreditar nesse tipo de revelação naquele instante mesmo. Para mim, as indicações do Tarot já não eram mais simples projeções, mas sim fatos a serem consumados em poucos meses. Infelizmente, não fui vitorioso em convencer meus colegas da sabedoria do oráculo encontrado pela reportagem. Tive que sair do trabalho ouvindo mais gracinhas e novas piadas. Inferno! 6 de janeiro de 2012 - sexta-feira A obsessão dos torcedores do Corinthians pela conquista da Copa Libertadores da América parece ter contaminado os jornalistas esportivos e os jogadores do Timão já nos primeiros dias de 2012. A Fiel Torcida ficou muito feliz com o título do Brasileirão do ano passado. Agora, ela só pensa em uma coisa: vencer o torneio sul-americano pela primeira vez. Não há nada mais desejado do que esse título. Para os corintianos não adianta nada vencer o campeonato nacional e depois perder a Libertadores do ano seguinte, como vem acontecendo sucessivamente desde a nossa fundação. E pelo clima na sala de imprensa do CT corintiano, os repórteres e os atletas estão perfeitamente alinhados com a pretensão vinda das arquibancadas. Logo na primeira entrevista coletiva da temporada, na primeira pergunta feita, a questão que atormenta a todos veio logo à tona: "O grande objetivo do ano é a Libertadores?". Leandro Castán era o jogador encarregado de solucionar a dúvida. "O pensamento realmente é esse. Sabemos da importância dessa competição para o clube e estamos muito confiantes, porque estamos vindo de um Brasileiro muito difícil que conseguimos vencer. A ansiedade pela Libertadores é muito grande pela possibilidade de fazer história no Corinthians”, disse o camisa 4 alvinegro. À medida que outros jogadores iam surgindo na sala de imprensa, ao longo da semana, a pergunta era repetida insistentemente. Ou seja, a pressão pela conquista inédita já pairava no ar. O problema da obsessão chamada Libertadores é que ela normalmente atrapalha o Coringão na hora do vamos ver, nas decisões. Há muitos anos, disputar o torneio sul-americano virou o grande fantasma na vida dos corintianos. Em 2011, por exemplo, a equipe alvinegra foi humilhada ainda na fase preliminar da competição, sendo eliminada pelo (até então) desconhecido Tolima da Colômbia. Uma vergonha! Outro atleta questionado sobre as chances de o Timão acabar com o maior de seus traumas foi Alex. Os jornalistas queriam saber se era possível ganhar a competição com um elenco limitado como esse do Corinthians, sem nenhuma estrela e sem nenhum destaque individual. Alex se saiu bem na resposta: “Sim, é possível. Times como o Once Caldas, que venceu também (em 2004), que teve méritos, mas que não era o melhor da competição”. O meio-campista ainda completou: “(Esse elenco) não tem só jogadores bons. Se tivesse, teríamos ganho (o Brasileiro de 2011) com 20 pontos na frente. O elenco esteve consciente (de suas limitações) e isso ajudou. Sabíamos que não éramos tão melhores que os outros. A gente sempre soube que teríamos de brigar muito para ganhar”. Alex e Danilo são os únicos jogadores do time corintiano de 2012 já campeões da Copa Libertadores. Enquanto Alex venceu em 2006 com o Internacional de Porto Alegre, Danilo conquistou a taça um ano antes com o São Paulo. Vamos precisar muito da experiência dos dois meio-campistas para levar o troféu desse ano para o Parque São Jorge. Nossos adversários da primeira fase são: Deportivo Táchira da Venezuela, Cruz Azul do México e Nacional do Paraguai. Não são adversários difíceis, mas isso não quer dizer nada. Afinal, o Tolima também não era uma ameaça tão feia... 7 de janeiro de 2012 - sábado Hoje, enfim, tive o prazer de ver novamente uma partida de futebol do meu time do coração. Se bem que não era exatamente a equipe profissional do Corinthians que estava em campo e sim a garotada dos juniores. Não me importei com esse detalhe. Afinal, já fazia mais de um mês desde o último jogo que tinha assistido – o 0 a 0 contra o Palmeiras, no Pacaembu, na última rodada do Brasileirão de 2011. Aquele empate teve sabor de vitória para os corintianos. O ponto conquistado em cima dos rivais garantiu a taça do campeonato. A equipe sub-18 do Timão fez seu segundo jogo na Copa São Paulo nessa tarde. Na estreia, os jogadores do Corinthians golearam o Santos da Paraíba por 9 a 0 na cidade de Jaguariúna, a sede do grupo M. Como a partida inicial do torneio foi realizada às 15 horas da última quarta-feira, não pude vê-la, pois estava trabalhando. Hoje, um sabadão, as coisas foram diferentes. Pude acompanhar o jogo da garotada pela TV. Trabalhei até às 14 horas (sim, trabalho na maioria dos sábados!) e voltei para casa correndo para, às 16 horas, sintonizar no Sportv. Nada como um sábado à tarde para acompanhar um joguinho de futebol, né? A partida era contra a Desportiva do Espírito Santo. Minha ideia era descobrir se a equipe jovem do Timão era boa mesmo ou se a goleada na estreia era fruto da fragilidade do adversário. A dúvida era válida, pois é comum termos placares elásticos na primeira fase da Copinha. Como a competição tem muitos times (sendo vários deles muito fracos), equipes sem muito talento conseguem grandes vitórias. Para se ter uma ideia, na primeira rodada, o Mirassol ganhou de 6 a 0 do América-SP, o Grêmio enfiou 5 no Oratório e o São Paulo aplicou uma goleada espetacular de 10 a 0 no Palmas. O jogo dessa tarde começou com tudo. O Corinthians dominou as ações iniciais e teve várias chances para marcar. O primeiro gol veio logo aos 7 minutos. O lateral-esquerdo Denner, o grande destaque dessa equipe, cruzou e o meio-campista Jean Teodoro completou para as redes. Aí não sei o que aconteceu com os corintianos. Eles simplesmente pararam de correr. A facilidade da partida talvez tenha feito os jogadores do Timãozinho se pouparem. Mesmo com um ritmo mais lento, o segundo gol veio aos 37 minutos com o atacante Leandro. A Desportiva se mostrava um time muito limitado e não assustava nossos garotos. O segundo tempo foi muito chato. Os meninos do Parque São Jorge diminuíram ainda mais o ritmo e se limitaram a tocar a bola de um lado para outro. As chances de gol foram raras. O meio-campista Matheuzinho, a grata surpresa alvinegra na primeira rodada, teve atuação apagada dessa vez. Apesar da vitória de 2 a 0, o Corinthians caiu para o segundo lugar no grupo e precisará vencer o terceiro jogo para se classificar para a segunda fase da Copinha. Isso porque o Juventus aplicou sua segunda goleada no torneio. Depois de ter vencido a Desportiva por 6 a 0 na primeira rodada, o Moleque Travesso superou, nesse sábado à tarde, o Santos da Paraíba por 6 a 1. Assim, só os três pontos interessam ao Timãozinho contra o rival da Mooca na próxima terça-feira. Infelizmente, o jogo decisivo do grupo M acontecerá à tarde em um dia de semana. E nesse horário, para variar, estarei trabalhando e não poderei assistir ao duelo paulistano. Paciência! 8 de janeiro de 2012 - domingo Hoje, uma notícia preocupante abalou a torcida corintiana. O técnico Tite foi submetido a uma cirurgia no sábado à noite e ficará em recuperação por 10 dias. Assim, ele não estará no banco de reservas no primeiro jogo amistoso do ano, contra o Flamengo na próxima semana. O treinador precisou operar a hérnia e, por isso, teve de mudar os planos da comissão técnica para o final de semana. A programação inicial do gaúcho era assistir ao jogo de ontem do Corinthians pela Copa São Paulo e no domingo ao duelo do Flamengo de Guarulhos, também válido pela competição juvenil. Entretanto, todos os compromissos foram cancelados e o técnico foi levado ao Hospital São Luís depois do treinamento de ontem de manhã. "Provavelmente, ele terá alta amanhã (hoje - domingo) à tarde, e a partir de segunda já poderá ir ao CT. Ele permanecerá andando devagar, temos carrinho lá para auxiliá-lo no primeiro momento. Mas trabalho de esforço, ele terá só daqui a uns 10 dias", falou o Doutor Joaquim Grava, responsável pelo departamento médico corintiano ao jornal O Estado de São Paulo. Na internet, li o boletim médico. De acordo com a nota, o treinador passa bem e já se encontra no quarto. A cirurgia de hérnia foi considerada um sucesso. A opção pela intervenção cirúrgica se deu pelas desgastantes viagens que o time e o comandante corintiano farão nos próximos meses pela Libertadores, com deslocamentos para o México e para a Venezuela. Com o problema de hérnia, as horas passadas dentro do avião seriam um martírio para o treinador. Vamos torcer para Tite se recuperar bem da cirurgia e para voltar o mais rápido possível ao trabalho. Se com ele o sonho da conquista da América já é difícil, sem o gaúcho o título se torna impossível. Atualmente, Tite é alma do Corinthians. Seu trabalho sério, competente e justo é a base dessa equipe. Se há alguém responsável diretamente pelo título brasileiro do ano passado e pelo sucesso recente do clube, essa pessoa, sem sombra de dúvida, é o Adenor Leonardo Bacchi, o Tite. O treinador chegou ao Parque São Jorge no final do ano de 2010 para trabalhar nas últimas rodadas daquele Brasileirão. O Timão terminou em quarto lugar. No ano seguinte, dois fracassos no primeiro semestre quase custaram a cabeça do técnico. A eliminação para o Tolima em janeiro e a perda da final do Campeonato Paulista em maio fizeram a torcida e os conselheiros do clube pedirem a demissão do comandante. O presidente Andrés Sanchez não cedeu à pressão e o manteve no cargo. Tendo mais tempo para armar sua equipe e implementar seu esquema tático, Tite conseguiu transformar um elenco mediano em campeão nacional. A defesa foi a menos vazada do torneio em 2011 e é considerada intransponível. O esquema tático é seguido religiosamente pelos jogadores e por essa razão é difícil vencer o Corinthians em qualquer campo. A recuperação do treinador deverá ser realizada no próprio Centro de Treinamento corintiano. Além de ficar próximo dos médicos, o técnico poderá dar uma espiada naquilo que acontecer no gramado. De certa forma, não ficará tão afastado dos acontecimentos do clube e do desempenho dos atletas, né? Boa recuperação, comandante! 9 de janeiro de 2012 - segunda-feira Aproveitando o calor do Verão paulistano, fui ontem de manhã ao Parque Villa-Lobos para correr. E após ter me exercitado, comecei a procurar um lugar para comprar água. Enquanto caminhava, descobri que aconteceria ali a final do Aberto de São Paulo de Tênis. A partida começaria às 11 horas em uma arena montada especificamente para a competição. A disputa era entre o brasileiro Thiago Alves e o português Gastão Elias. Eu nunca tinha ouvido falar neles, mas decidi ficar para ver o jogo. Jamais assistira a uma partida desse esporte ao vivo e fiquei interessado em vê-la. Depois de comprar duas garrafinhas de água, fui para a arquibancada. Aí surgiu a primeira curiosidade. Diferentemente de um estádio de futebol, o melhor lugar para se assistir à partida de tênis é atrás da quadra. Assim, a pessoa não precisa ficar virando para lá e para cá seu pescoço o tempo todo. Falando assim, parece um tanto óbvio, mas quando eu percebi isso, a arquibancada já estava lotada e eu não podia mais mudar de lugar. Eu havia sentado bem no meio da quadra! A segunda particularidade é: nos jogos de tênis, o público não pode conversar. Não sei o motivo exato da proibição. Parece que os jogadores se desconcentram. Quanta frescura! O difícil foi explicar para Thalita, minha amiga que me acompanhou ao passeio no parque, aquela regrinha. Ela ficou um tanto chocada quando a alertei sobre os olhares raivosos que vinham em nossa direção. Infelizmente, os demais torcedores não estavam aprovando o alto tom de voz dela nem a iniciativa da moça de conversar comigo. Com alguma diplomacia, pedi para ela não falar mais (pedir algo assim para uma mulher é correr risco de morte!). A terceira diferença é que o público não pode sair do lugar durante a disputa das jogadas. É preciso esperar o término dos games ou do set para se entrar ou sair da arena. As portas ficam literalmente trancadas. Eu descobri essa particularidade dos jogos de tênis da pior maneira possível. Depois de ter tomado quase um litro de água, minha bexiga estava quase transbordando quando os jogadores resolveram disputar um equilibradíssimo game. Enquanto o público delirava, eu me contorcia na arquibancada para segurar os líquidos dentro de mim. A Thalita disse que a disputa demorou quinze minutos. Para mim, pareceu ter demorado muito, muito mais! E para terminar, a quarta curiosidade: uma partida de tênis não tem hora para terminar. Ela pode durar uma hora ou cinco horas, depende do desenrolar dos acontecimentos em quadra. E quando a disputa é realizada sob o sol do meio-dia, em um dia de Verão de uma cidade tropical, é bom a plateia ter passado protetor solar e estar usando boné. Infelizmente, nem eu nem a Thalita havíamos pensado em tais medidas. Até tiramos um sarro de uma garota na nossa frente que estava de boné, de camisa de manga comprida e de calça esportiva. Comentamos no quanto ela deveria ser louca por estar vestida assim. Só quando fomos embora, completamente torrados, entendemos o motivo de tanta proteção. Para resumir, nunca mais quero pisar outra vez em uma quadra de tênis. Gustavo Kuerten e Fernando Meligeni que me desculpem, mas esse esporte é horrível! Quero mesmo é frequentar os estádios de futebol e vibrar com um jogo realmente emocionante. Tênis só é bom quando calçado nos pés, essa é a verdade. 10 de janeiro de 2012 - terça-feira Os treinos do Timão seguem a todo vapor no Parque Ecológico do Tietê, em Guarulhos. Foram várias as novidades do sétimo dia de atividades no CT Joaquim Grava. O técnico Tite, devidamente alojado em uma cadeira de rodas ao lado do campo, promoveu o primeiro exercício tático do ano. O comandante alvinegro manteve exatamente a equipe campeã brasileira de 2011 no grupo titular. Os jogadores de linha da equipe principal foram: Alessandro, Paulo André, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Alex; Willian (Danilo), Liedson e Emerson Sheik. O grupo de suplentes foi formado por: Welder, Wallace, André Vinicius e Ramon; Edenílson, Ramirez e Danilo (William); Jorge Henrique, Adriano e Gilsinho. Danilo e William se revezaram entre os dois times. Os goleiros fizeram trabalhos à parte em um campo lateral. Para Tite, o entrosamento dos titulares será fundamental para o bom início da temporada. O gaúcho pretende colocar aos poucos os recém-chegados: “A ideia é ter um grupo em torno de 30 atletas. Teremos jogos a cada três dias e existe esta necessidade. Tenho certeza (de) que vamos usar uma série de jogadores em pouco tempo. Eu sempre falo para que fiquem preparados. Depois, não vem dizer para mim que não se preparou. Eu avisei. Não tem desculpa”, observou o treinador em entrevista. Agora as más notícias. Adriano segue muito mal tanto no aspecto físico quanto no técnico. Ele voltou mais gordo das férias e tem problemas para acompanhar os colegas nos exercícios. Mesmo recebendo um tratamento especial da comissão técnica, o Imperador foi o primeiro a sair do treino tático. Deixou a equipe reserva e deu lugar ao Élton. O recém-contratado, vindo do Vasco da Gama, entrou bem. Ele deu um belo passe de calcanhar para o gol de Jorge Henrique. Assim, Adriano deverá demorar mais algum tempo até conseguir entrar em forma. Por ora, não deverá ficar nem mesmo no time suplente. Em poucos dias, a reserva de Liedson foi conquistada por Élton. Outra péssima informação foi o acidente com o lateral Welder ocorrido no coletivo de hoje. O jogador quebrou o nariz em um choque casual com o atacante Emerson Sheik. Assim, ele é o primeiro atleta a visitar o departamento médico em 2012. Fará companhia ao treinador. A recuperação do lateral reserva deverá demorar alguns dias e Welder ficará fora das próximas atividades com bola. As contratações seguem complicadas. As negociações com o volante Guilherme, da Portuguesa, foram interrompidas. Os diretores da Lusa exigem muito dinheiro para a liberação do atleta e o negócio tende a não dar certo. O mesmo ocorre com o cruzeirense Montillo. A diretoria do clube mineiro parece não se entender com os cartolas corintianos e o impasse continua. Para Tite, a necessidade de um volante para compor o grupo é maior do que a vinda de um armador. Ralf, o titular do setor, não possui um bom reserva imediato. Segundo nosso comandante, o desejo é pelo ex-corintiano Cristian, hoje no Fenerbahçe da Turquia. As conversas com os turcos ainda não foram iniciadas, mas a confiança do treinador pela chegada de Cristian é grande. 11 de janeiro de 2012 - quarta-feira Ao ler o jornal esportivo O Lance!, soube da vitória de ontem da equipe sub-18 do Corinthians. O resultado classificou os garotos do Parque São Jorge para a próxima fase da Copa São Paulo. O Timãozinho derrotou o Juventus por 3 a 0 em Jaguariúna. Os gols foram de Denner, Anderson e Douglas. A vitória alvinegra foi muito fácil, com o placar sendo construído nos 15 primeiros minutos. O adversário na segunda fase será o Goiás, primeiro colocado do grupo N. O confronto será no sábado, às 16 horas, em Jaguariúna. Com certeza, estarei na frente da TV para conferir os lances da partida. Ainda falando em Copinha, as surpresas ficaram com as eliminações precoces de São Paulo e Flamengo, equipes tradicionais e com categorias de base fortíssimas. O tricolor, campeão em três oportunidades e sempre favorito ao título, não conseguiu passar da primeira fase. Depois de estrear com uma goleada espetacular de 10 a 0 sobre o Palmas-TO, os garotos do Morumbi empataram com o Sergipe e perderam para o Barueri. O Flamengo também decepcionou. Os cariocas chegaram como os grandes favoritos. Atual campeão do torneio, o rubro-negro tinha vários jogadores já aproveitados pelo técnico da equipe profissional. Praticamente era um Dream Team. Foram embora sem conseguir uma vitória sequer, tendo empatado os três jogos. Os demais favoritos se classificaram. Além do Timão, as equipes com mais chances de levantar o caneco, pelo futebol desempenhado na primeira fase, são Santos, Palmeiras, Atlético Paranaense, Cruzeiro, Fluminense e Grêmio. Ao olharmos o histórico de títulos da Copa São Paulo, vemos o Corinthians como o grande campeão, com sete conquistas. Logo atrás, vêm o Fluminense com cinco e o Internacional com quatro. Com três troféus, aparecem São Paulo e Atlético Mineiro. Vale lembrar que mais importante do que vencer a competição é revelar bons atletas. Entre erguer a taça e descobrir um jovem craque, fico sempre com a segunda opção. Vários grandes jogadores brasileiros participaram da Copinha. Para provar tal afirmação, selecionei exemplos das últimas décadas. O atacante Lucas, melhor atleta do São Paulo atualmente e possível convocado para a próxima Copa do Mundo, jogou pelo juvenil do tricolor em 2010. Eleito pela FIFA o melhor do mundo em 1999 e campeão da Copa do Mundo de 2002, Rivaldo destacou-se na Copa São Paulo de 1992 pelo Santa Cruz. O lateral-direito Cafu, o único a ter jogado três finais consecutivas de Copa do Mundo, disputou a Copinha em 1988. Walter Casagrande Júnior despontou no Corinthians no torneio juvenil de 1980. E Paulo Roberto Falcão, eterno craque da Seleção Brasileira, foi eleito o melhor jogador da Copa São Paulo de 1971. Por essas e outras, eu assisto aos jogos desse torneio procurando os craques do amanhã. 12 de janeiro de 2012 - quinta-feira Andrés Sanchez assumiu, nessa semana, o cargo de diretor de Seleções da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O cartola corintiano será o responsável pela administração do time principal, da equipe olímpica e das categorias de base do Brasil. O diretor de Seleções deverá montar o cronograma de convocações, estipular as datas para os treinos, fazer a programação de amistosos e selecionar os técnicos. Sua missão será levar equipes fortes para as próximas Olimpíadas e Copa do Mundo. Para assumir o novo posto na CBF, Andrés teve que se licenciar do cargo de presidente do Corinthians. Desde o final do ano passado, a presidência do clube vem sendo ocupada pelo vice, Roberto de Andrade. Ele ficará no comando até o mês que vem, quando novas eleições indicarão a nova autoridade máxima do Parque São Jorge. Em minha opinião, Andrés Sanchez rivaliza com o folclórico Vicente Matheus como os melhores presidentes da história corintiana. A vantagem do velho Vicente era a sua paixão cega pelo Curinthia. Reza a lenda, ele tirava dinheiro do próprio bolso para fazer contratações e administrava o clube melhor do que suas empresas. Infelizmente, seu trabalho ao longo de oito mandatos resultou em poucos títulos. Já Andrés foi o responsável por modernizar o Corinthians e colocá-lo em outro patamar dentro do futebol brasileiro. A estrutura administrativa e os títulos deixados o credenciam para superar Matheus no posto de melhor mandatário alvinegro de todos os tempos. Sanchez ganhou as eleições de 2007, pouco antes do trágico rebaixamento para a Série B do Nacional. Com Andrés na presidência, o clube se profissionalizou dentro e fora das quatro linhas e passou a ter renomados profissionais nos principais postos da administração. Com Mano Menezes como técnico, o Timão foi campeão da Série B de 2008 e voltou no ano seguinte para a divisão de elite. No final de 2008, o departamento de Marketing contratou Ronaldo Fenômeno. O sucesso foi retumbante. Em campo, o Timão foi campeão paulista e da Copa do Brasil de 2009. Fora dele, o Corinthians aumentou substancialmente as receitas advindas dos patrocínios e da bilheteria. Não à toa, tem atualmente o maior faturamento do futebol sul-americano. Outros importantes feitos do agora ex-presidente foram a entrega do Centro de Treinamento, a construção do estádio próprio e a aprovação do novo estatuto do clube. Andrés ergueu em Guarulhos um CT extremamente moderno. Agora jogadores e comissão técnica podem trabalhar com mais conforto e segurança. Ele é também o principal responsável pela viabilização do estádio próprio em Itaquera, antigo sonho da nação corintiana. As obras já começaram e devem ser concluídas em dezembro de 2013. Antes de deixar o clube, Sanchez ainda fez um estatuto proibindo a reeleição do presidente. Dessa maneira, evita-se a perpetuação no poder. Para fechar com chave de ouro, o Corinthians ainda conquistou o Campeonato Brasileiro do ano passado. Foi ou não foi um excelente trabalho para um mandato de quatro anos, hein?! 13 de janeiro de 2012 - sexta-feira O técnico Tite já fez quatro treinos táticos nessa pré-temporada. A partir daí, já temos indícios mais ou menos claros da equipe titular de 2012. Júlio César é o dono absoluto da camisa 1. O reserva imediato é o jovem Danilo Fernandes, vindo das categorias de base do Timão. Cássio, o desconhecido novato, é apenas uma opção para compor o grupo de atletas e dificilmente terá chances de jogar. Na defesa, Chicão deve começar o Campeonato Paulista na reserva, exatamente como terminou 2011. Os titulares do setor são Paulo André e Leandro Castán. O treinador corintiano falou sobre a situação do camisa 3, antigo capitão do Timão: "(Chicão) terminou o ano passado assim (na reserva). Ele e o Wallace vão continuar botando pressão no Paulo André e no Castán. Mas são todos atletas de qualidade”. A questão é ver como Chicão se comportará sentado no banco. Wallace permanece como o segundo suplente da zaga. Na lateral, nenhuma novidade. Alessandro e Fábio Santos são os donos absolutos na direita e na esquerda, respectivamente. Os reservas, Welder e Ramon, são bons jogadores, mas ainda não têm tanta experiência para ganhar o posto principal. A dupla de volantes continua sendo Ralf e Paulinho. Os dois começaram o ano com o reconhecimento da mídia e dos torcedores. Eles são atualmente os principais meio-campistas do Brasil. Depois da intensa especulação no final de 2011 sobre a saída de ambos para a Europa, Ralf e Paulinho vão ficar no Parque São Jorge. O único problema desse setor é a falta de um reserva para o primeiro volante. Edenílson é o bom suplente de Paulinho e o peruano Ramirez pode exercer razoavelmente bem o papel de segundo volante, além de atuar como meia-armador. Já Ralf não tem um substituto imediato. A principal surpresa do início de ano foi a manutenção de Alex na armação das jogadas. Reforço mais caro de 2011, ele não demonstrou grande futebol na temporada passada. Sofreu com problemas musculares e não se adaptou ao esquema tático. Mesmo com o rendimento sofrível, Tite o deixou no time principal. Assim, Danilo foi para a reserva e às vezes entra na equipe titular mais a frente, como um ponta-esquerda, posição de William. Há ainda Vitor Júnior como opção na criação. A briga maior por uma vaga entre os titulares está no ataque. O trio ofensivo escolhido por Tite é Emerson Sheik, William e Liedson. Jorge Henrique parece ter perdido a posição, ficando como opção no banco. Élton e Adriano disputam a preferência do treinador para ser o suplente imediato de Liedson. Gilsinho, vindo do futebol japonês, normalmente compõe o trio de ataque reserva nos coletivos. Esse é o resumo, por ora, dos primeiros treinos com bola no Centro de Treinamento alvinegro. Aos poucos, a equipe vai sendo moldada para a estreia do Paulistão. Antes disso, haverá dois amistosos: um contra o Flamengo, nesse final de semana, e outro contra a Portuguesa, na próxima quarta-feira. 14 de janeiro de 2012 - sábado Sábado foi o dia mais tranquilo no Centro de Treinamento do Parque Ecológico do Tietê desde o início da pré-temporada. O motivo? A maioria dos jogadores e da comissão técnica corintiana não estiveram presentes no local. Depois de um confinamento de dez dias, quase todos viajaram para Londrina. Será na cidade paranaense que o Corinthians disputará seu primeiro amistoso do ano. A partida contra o Flamengo está sendo organizada pela Rede Globo, interessada em transmitir o duelo entre as agremiações mais populares do país. As duas únicas baixas no lado alvinegro são Welder, lateral-direito suplente machucado, e o treinador Tite, em fase de recuperação de cirurgia. Por isso, quem comandará a equipe no Paraná será o auxiliar-técnico Cleber Xavier. Também não viajaram os atletas recém-contratados: Cássio, Felipe, Vitor Júnior, Élton e Gilsinho. Eles ficaram treinando para ganhar condicionamento físico. A curiosidade do amistoso de amanhã está na maneira encontrada pelos clubes para não desgastar muito seus jogadores, ainda em busca da melhor forma física após as férias. A ideia é que cada agremiação utilize duas equipes diferentes, uma para o primeiro tempo e outra para o segundo. Assim, na primeira etapa, os titulares de Flamengo e Corinthians se enfrentarão. Depois do intervalo, serão os reservas de ambos que irão a campo. A escalação do time principal do Parque São Jorge é a seguinte: Júlio César; Alessandro, Paulo André, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Emerson Sheik e Liedson. O segundo time está definido com: Danilo Fernandes; Nenê Bonilha, Chicão, Wallace e Ramon; Willian Arão, Edenílson, Ramirez e Jorge Henrique; Willian e Adriano. Enquanto a nação corintiana aguarda a estreia dos profissionais, o restante do sábado foi usado para acompanhar os passos da nova geração. Os jovens atletas do Corinthians enfrentaram o Goiás pela segunda fase da Copa São Paulo. E o Timãozinho venceu outra e manteve o aproveitamento de 100%. A vitória dessa vez foi pelo placar mínimo. O gol foi feito pelo meia-armador Matheuzinho aos 31 minutos da segunda etapa. A partida foi totalmente dominada pelos garotos do Parque São Jorge. Enquanto os goianos se limitavam a defender, os alvinegros partiram para cima em busca do gol. Várias chances foram criadas e o principal destaque foi o goleiro esmeraldino Leanderson (sim, esse é o nome do arqueiro adversário), autor de grandes defesas. No lado corintiano, o melhor foi o meio-campista Giovanni. Com a vitória, o Timãozinho avançou para as oitavas de finais do torneio. O próximo adversário será o Primeira Camisa, equipe do interior de São Paulo. Com quatro vitórias consecutivas, os garotos corintianos têm feito bom papel nessa temporada. Nosso treinador é Narciso, ex-jogador do Santos e técnico vice-campeão da edição de 2010 com a equipe do litoral paulista. 15 de janeiro de 2012 - domingo Seis semanas após o último jogo oficial, os atletas profissionais do Sport Club Corinthians Paulista entravam em campo para disputar uma partida. Esse foi o pontapé inicial da temporada futebolística de 2012. Nosso adversário foi o Flamengo, do técnico Vanderlei Luxemburgo e do craque Ronaldinho Gaúcho. O local do amistoso era a cidade de Londrina, no norte do Paraná. Às quatro horas da tarde, me ajeitei no sofá da sala para acompanhar o Clássico das Multidões. Liguei a TV e coloquei na Rede Globo. Milton Leite era o narrador e começou informando sobre o forte calor que fazia no Estádio do Café. A temperatura superava os 30ºC. O início da partida foi movimentado. As duas equipes partiram para cima do adversário sem medo. Ora um atacava, ora era a outra equipe quem reagia. A primeira grande chance foi flamenguista. Aos 2 minutos, Júlio César fez boa defesa em chute de fora da área. Em seguida, Emerson puxou um contragolpe e mandou a bola por cima da trave rubro-negra. O melhor momento do primeiro tempo para o lado dos cariocas aconteceu aos 12 minutos. Em cruzamento vindo da direita, o centroavante flamenguista, livre e na pequena área, cabeceou torto. Fora! Ufa. À medida que o primeiro tempo avançava, a melhor qualidade do time corintiano começava a prevalecer. Emerson mostrava sua categoria e infernizava os defensores adversários. O Mengo se segurou até os 25 minutos. Aí, Liedson roubou a bola dos beques e tocou para Alex na entrada da área. O meia mandou uma paulada. Bola no ângulo. Golaço! Timão 1 a 0. Depois da abertura do placar, o Corinthians continuou apertando. O goleiro flamenguista salvou bons chutes de Emerson e Danilo. Aos 45 minutos, aconteceu o segundo gol corintiano. Fábio Santos cruzou da esquerda. Liedson dominou no peito, driblou o marcador e colocou no cantinho. Gooooool! 2 a 0 e primeiro tempo liquidado. Numerosa no Norte do Paraná, a Fiel Torcida aplaudiu seus jogadores na saída de campo. A felicidade pela vitória parcial era evidente entre os alvinegros. Após o intervalo, conforme previsto, as duas equipes voltaram com os reservas. E aí o cenário mudou completamente. Quem passou a jogar melhor foi o Flamengo. Com um time quase todo formado por jovens atletas oriundos da base, os cariocas dominaram o segundo tempo e tiveram uma infinidade de chances para marcar. Era praticamente ataque contra defesa. E nessas condições, não foi surpresa nenhuma o empate rubro-negro. Aos 22 minutos, o meia-armador do Fla diminuiu, após ótima tabela feita com um companheiro. O empate veio aos 36, em chute cruzado do volante carioca, após receber um cruzamento da esquerda. O destaque negativo do segundo tempo foi a atuação de Adriano, disparado o pior em campo. Bem acima do peso e sem conseguir correr, o atacante não viu a cor da bola. O Corinthians praticamente jogou com um homem a menos na etapa complementar. Não à toa, fomos tão mal depois do intervalo. O empate de 2 a 2 em Londrina mostrou duas coisas: os titulares tiveram ótimo desempenho e começaram o ano com tudo; os reservas do Timão decepcionaram e precisam mostrar mais futebol. 16 de janeiro de 2012 - segunda-feira O empate na primeira partida rendeu elogios da imprensa e da comissão técnica aos titulares do Corinthians. Ao mesmo tempo, a preocupação pelo baixo desempenho dos reservas era evidente. O alvo das principais críticas dos jornalistas, como sempre, foi Adriano. Para minimizar as queixas sobre a atuação do centroavante, o médico Joaquim Grava concedeu entrevista para a Rádio Jovem Pan. Ele elogiou o comportamento do atleta e a dedicação aos treinamentos. Por outro lado, o doutor reconheceu que o Imperador precisa perder peso. Segundo Grava, o Imperador deve estar com 104 kg. "Ele é muito forte fisicamente, mas gordo não está, não”, declarou. Não, quem está gordo é o Papai Noel! O bom velhinho existe e é muito indisciplinado. A grande surpresa do treinamento dessa tarde foi a forma inusitada encontrada por Emerson Sheik para chegar ao Parque Ecológico. O atacante passou o domingo à noite e a segunda-feira de manhã no Rio de Janeiro, sua cidade natal. Para não faltar ao trabalho, viajou para São Paulo de helicóptero. Não querendo se atrasar, o jogador preferiu seguir direto para o CT em Guarulhos com a aeronave. Após ligar para os diretores corintianos e explicar a situação, ele recebeu a autorização para pousar no gramado. Assim, enquanto os demais jogadores faziam o aquecimento, o helicóptero pousou em um outro campo do complexo. A chegada cinematográfica não evitou o atraso de 30 minutos e aplicação de uma multa ao atleta. Porém, a maneira pitoresca de Emerson ir ao trabalho rendeu muitas piadas dos colegas e dos repórteres. Os programas esportivos da noite não se cansaram de mostrar as imagens da chegada do atacante ao treino. Não é todo dia em que se vê uma aeronave descendo em um campo de futebol, né? Se a animação no campo foi grande, nos bastidores a coisa foi diferente. A contratação de Montillo segue enrolada. O Cruzeiro declarou agora que não tem mais interesse em vender sua principal estrela. Inclusive cogita-se, na Toca da Raposa, a ideia de se conceder aumento salarial ao argentino. Gilvan de Pinho Tavares, presidente cruzeirense, admitiu fazer qualquer sacrifício para manter o meio-campista em Belo Horizonte: "O Montillo nos procurou e quer salário próximo daquilo que lhe foi oferecido (pelo Corinthians). Dessa forma, vamos conseguir verbas semelhantes às que foram oferecidas ao Montillo". A proposta da Raposa é incluir nos vencimentos do atleta parte das receitas projetadas por meio de campanhas publicitárias e de Marketing. Algumas informações vindas da capital mineira indicam exatamente o oposto. Segundo essas fontes alternativas, a pretensão de parte da cúpula do Cruzeiro é de vender sim o jogador. E a negociação com o Corinthians só estaria se arrastando como uma estratégia dos cruzeirenses para conseguir mais dinheiro. Não sei mais em quem acreditar nessa história. Vamos ver por mais quanto tempo a novela Montillo vai durar. Nesse sentido, o craque argentino e o Corinthians fazem o papel do casal apaixonado e o Cruzeiro atua como o grande vilão da trama. Esperamos pelo final feliz! 17 de janeiro de 2012 - terça-feira O Sport Club Corinthians Paulista teve, hoje, o dia mais tumultuado do ano. Tudo por causa do Adriano. O Imperador faltou ao trabalho. Ele preferiu permanecer no Rio de Janeiro. Sabe qual foi o motivo da indisciplina? Era aniversário da mamãe dele. Acredite se quiser. A assessoria de imprensa do Timão, para amenizar, informou que Adriano viajou na segunda-feira à noite para a capital fluminense. Depois de comemorar a data com a mãe, ele não conseguiu retornar para São Paulo na terça. Repare bem a diferença de postura entre um jogador comprometido e profissional e outro completamente desinteressado e pouco preocupado com as obrigações. Emerson Sheik teve o mesmo problema ontem. Para não perder as atividades no clube, ele arrumou um helicóptero (sabe-se lá onde e pagando quanto) e voou até o local de trabalho, pousando ali mesmo. Chegou alguns minutos atrasado, é verdade, mas não faltou. Nessa terça-feira, Adriano vivenciou algo parecido. E qual foi a solução? Ficar em casa, provavelmente dormindo, comendo muito e bebendo até cair. Para agravar a situação, não é a primeira ausência do centroavante no Corinthians. Em menos de um ano como funcionário do clube, Adriano já perdeu uma série de compromissos, de sessões de fisioterapia a treinamentos. O caso de maior repercussão até então havia sido seu desaparecimento às vésperas da última rodada do Brasileirão do ano passado, quando disputávamos ponto a ponto o título com o Vasco. O novo ato de indisciplina do camisa 10 provocou grande irritação na comissão técnica e na diretoria, além de representar uma multa para o jogador. O presidente interino, Roberto de Andrade, não poupou críticas ao centroavante por mais uma pisada na bola, cogitando até não renovar seu contrato na metade do ano. Tite também foi categórico em exigir maior dedicação do jogador. “O Adriano é um caso importante e estamos fazendo todo o possível para que ele possa se recuperar. O Corinthians está fazendo, eu estou fazendo, a comissão técnica está. Mas não adianta. Só uma vontade natural dele (ajudará). Tem que ser um pouco maior, ser grande”, disse o treinador na entrevista coletiva do final da tarde. O Imperador também foi cortado do grupo que fará amanhã o amistoso com a Portuguesa. Não sei como ninguém ainda não mandou esse cara embora! Ele não ajuda em nada o time e só causa problemas com escândalos e antiprofissionalismo. Ai, ai, ai. A única boa notícia do dia foi a classificação do Timãozinho para as quartas de finais da Copa São Paulo. A garotada alvinegra goleou o Primeira Camisa por 5 a 1. Quem abriu o marcador foi o volante Gomes, em chute de fora da área. Na sequência, os atacantes Leonardo e Douglas marcaram dois gols cada um. No final da partida, o Primeira Camisa fez o de honra. Foi o primeiro gol sofrido pelo Timãozinho na competição, o que demonstra a força de seu setor defensivo. Agora os jogadores comandados por Narciso enfrentarão na quinta-feira o América Mineiro, que venceu o Red Bull Brasil por 3 a 1. Quem passar para a semifinal, enfrentará o vencedor de Palmeiras e Atlético Paranaense. É a Copinha chegando à sua reta final. 18 de janeiro de 2012 - quarta-feira Corinthians e Portuguesa entraram no campo do Estádio do Pacaembu para o jogo da entrega das faixas: o Timão como atual campeão brasileiro da Série A e a Lusa como última campeã da Série B. Quem vencesse a partida ficaria com o Troféu Sócrates, homenagem ao antigo ídolo corintiano falecido em 4 de dezembro de 2011. Infelizmente, o forte temporal que caiu na cidade de São Paulo na tarde e na noite dessa quarta-feira afugentou o público da festa dos campeões. Nas arquibancadas, a presença de torcedores era quase nula. Como ocorreu no amistoso de domingo, cada tempo da partida teve um elenco diferente. Na primeira etapa, os treinadores mandaram seus titulares ao gramado, deixando o segundo tempo para os reservas. No lado alvinegro, as novidades foram a estreia de Élton e o uso do esquema tático 4-3-3 pela primeira vez no ano. Dessa maneira, Alex saiu e deu lugar ao atacante William. O time titular do Corinthians, portanto, teve: Júlio César; Alessandro, Paulo André, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Emerson Sheik, William e Élton. O primeiro tempo teve domínio da Portuguesa. Após boas trocas de passes, os atacantes da Lusa ficaram cara a cara com Júlio César. Nas duas chances mais claras de gol para os adversários, nosso goleiro defendeu as perigosas finalizações. Se não fosse o arqueiro corintiano, os campeões da Série B teriam aberto o placar. No ataque, Emerson tentava alguma coisa, sem sucesso. William e Élton estavam pouco inspirados e em nada contribuíram para assustar os rivais. Fim da primeira etapa e 0 a 0 no placar. Se antes do intervalo o Timão esteve irreconhecível, no segundo tempo as coisas pioraram consideravelmente. O Corinthians voltou a campo com: Danilo Fernandes; Welder, Chicão, Wallace e Ramon; Edenílson, Ramirez e Vitor Júnior; Gilsinho, Bill e Jorge Henrique. Com os reservas no gramado, a supremacia do adversário aumentou. Os suplentes da Portuguesa continuaram perdendo gols. A sorte corintiana acabou aos 30 minutos. O atacante rubro-verde aproveitou uma sobra na pequena área e com facilidade completou para dentro da meta de Danilo Fernandes. Gol da Lusa. Em desvantagem, o Timão enfim resolveu atacar. E quem apareceu muito bem no setor ofensivo foi o meia-armador Vitor Júnior. O estreante fez bons passes para os companheiros e chutava com muito perigo ao gol adversário. Nos dois principais lances, o meia acertou a trave em tentativas de fora da área. Por muito pouco, ele não empatou a partida com um golaço. No final do jogo, os poucos torcedores alvinegros presentes no estádio gritaram “Fora, Adriano”. Na entrevista coletiva, o técnico Tite preferiu contemporizar e dar moral ao camisa 10. Ele disse contar com a recuperação do Imperador. Em resumo, o Timão perdeu a primeira no ano, apesar do time titular continuar invicto e sem sofrer gol. Quem está atrapalhando são os reservas. E quem está tumultuando o bom ambiente corintiano é o sempre problemático Adriano. 19 de janeiro de 2012 - quinta-feira Minha quinta-feira foi pautada para que eu conseguisse sair do trabalho no início da tarde. Meu objetivo era acompanhar, em casa, o jogo do Corinthians pela Copa São Paulo. O adversário era o América Mineiro. E para minha sorte, tudo saiu como eu havia planejado. Cheguei bem cedo ao escritório, fiz uma reunião de manhã e consegui entregar todas as minhas pendências no início da tarde. Às 14 horas, já estava livre para ir embora. Uhu! Em casa, almocei um lanche rápido e, às 16 horas em ponto, liguei a televisão no Sportv. A escalação da equipe comandada por Narciso era anunciada. Tudo estava pronto para o início do confronto. Diferentemente de São Paulo, onde o tempo fechado e chuvoso prevalecia, em Jaguariúna, local do jogo, o tempo era bom e o céu estava azul. Com esse cenário, o juiz deu início à partida das quartas de finais da Copinha. O Timãozinho mostrou sua força já no início. Em menos de um minuto, o forte centroavante Douglas marcou o seu. Infelizmente, o bandeirinha sinalizou impedimento. Aos três minutos, uma bola chutada pelo meia corintiano Giovanni passou muito próximo da meta adversária. E aos quatro minutos, o gol aconteceu. Aproveitando-se do belo cruzamento da esquerda e da furada de Douglas na grande área, o meia Matheuzinho mandou para dentro. 1 a 0 para o Corinthians. A pressão da equipe do Parque São Jorge continuou. O lateral Denner e o zagueiro Marquinhos chegavam bem ao ataque, levando perigo ao gol mineiro. O América se limitava a assistir ao passeio corintiano. Matheus Caldeira, o arqueiro alvinegro, só precisou trabalhar no final do primeiro tempo, em dois bons chutes contra a sua meta. No segundo tempo, o bom futebol corintiano continuou. Douglas e Marquinhos levaram perigo em cabeçadas. Os contra-ataques dos garotos do Parque São Jorge também preocupavam o adversário. E em um deles, aos 32 minutos, Matheuzinho deu um lindo passe para Leandro, que acabara de entrar. O centroavante apenas tirou do goleiro para marcar o segundo gol do jogo. Corinthians 2 a 0. E a vitória estava sacramentada. O desânimo dos jogadores do América era evidente. Sem forças para reagir, os mineiros aceitaram a derrota. O Corinthians está nas semifinais da Copinha! Para saber quem seria o adversário na semifinal, combinei com meu pai de vermos juntos Palmeiras e Atlético Paranaense à noite pela televisão. Excepcionalmente, torcemos pelo time do Parque Antártica. Afinal, desejávamos ver Corinthians e Palmeiras. E saiba que não é nada fácil torcer para time com cor de planta. Em um jogo eletrizante, o Atlético venceu por 4 a 3. A partida foi recheada de belos gols, pênaltis, expulsões de ambos os lados e emoção. Apesar de ter jogado um pouco melhor, o Palmeiras caiu e foi eliminado. Assim, as semifinais da Copa São Paulo serão entre Corinthians e Atlético Paranaense no sábado e entre Fluminense e Coritiba no domingo. Os vencedores se enfrentarão na quarta-feira, dia 25, na finalíssima da edição de 2012, no Estádio do Pacaembu. 20 de janeiro de 2012 - sexta-feira Como tem jogo do Corinthians em janeiro! Após a inatividade de dezembro, as partidas da Copa São Paulo, os amistosos da equipe profissional e os compromissos pelo Campeonato Paulista se sucedem ininterruptamente. Ainda bem que a vida do torcedor corintiano está bem movimentada agora. Praticamente todo dia tem algo para se ver do campeão brasileiro. Para quem gosta de futebol, não há nada melhor. E o ápice da overdose de Corinthians acontecerá amanhã, com dois jogos quase simultaneamente. Às 16 horas, a garotada decidirá uma vaga para a final da Copinha. O jogo é contra o Atlético Paranaense em Jaguariúna. Uma hora mais tarde, o Timão estreia no campeonato regional contra o Mirassol no Pacaembu, às 17 horas. A pergunta é: qual jogo assistir? Eu optarei por ver a partida dos meninos, mesmo sabendo que a Copa São Paulo é um torneio amador e de menor expressão se comparado ao Paulistão. Minha justificativa é que o jogo vale uma vaga na final, diferentemente da partida dos marmanjos, válida pela primeira rodada das 19 da primeira fase do regional. Ou seja, tem muita coisa ainda para acontecer no Campeonato Paulista e perder um jogo não é nada demais. Pensando diferentemente de mim e querendo os três pontos no sábado, o técnico Tite já definiu a equipe que irá a campo na estreia. Mantendo o esquema 4-3-3 usado contra a Portuguesa, o treinador fez apenas duas mudanças em relação ao último amistoso. Alex vai começar a partida como titular e Danilo ficará no banco. No ataque, Liedson volta e Élton segue para a reserva. Adriano não foi selecionado mais uma vez e deverá seguir em treinamento físico no CT. O Timão irá começar assim o jogo contra o Mirassol: Júlio César; Alessandro, Paulo André, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Alex; Willian, Liedson e Emerson Sheik. O Corinthians entra como favorito na primeira rodada. A equipe do Mirassol foi montada neste ano para a disputa do Paulista e é completamente desconhecida, tanto da imprensa quanto dos torcedores da própria cidade. Assim, não será surpresa se ocorrer uma goleada no Pacaembu amanhã. Já o cenário da Copa São Paulo é mais indefinido. O Timãozinho também é favorito, mas o Atlético tem se mostrado um adversário perigoso. Eles venceram inclusive um dos candidatos ao título, o Palmeiras. O problema dos paranaenses para o duelo de amanhã é a série de desfalques que seu treinador possui. Vários jogadores não poderão jogar por suspensão e contusão. A defesa será praticamente a reserva. Diferentemente do rival, o Timãozinho terá força máxima. A equipe será a mesma que vem sendo usada na competição: Matheus Caldeira; Cristiano, Antônio Carlos, Marquinhos e Denner; Anderson, Gomes, Giovanni e Matheuzinho; Leonardo e Douglas. Os destaques do elenco corintiano são o zagueiro Marquinhos, o lateral-esquerdo Denner e o meia Matheuzinho. O centroavante Douglas também impressionou no jogo das oitavas de finais pela força física e pelo porte avantajado. Eles poderão, no futuro próximo, se tornar profissionais e vestir a camisa do Todo Poderoso. É esperar para ver se um novo craque surgirá dessa geração. 21 de janeiro de 2012 - sábado O supersábado corintiano começou com a semifinal da Copa São Paulo. Em Jaguariúna, o Timãozinho entrou em campo para pegar o Atlético Paranaense às 16 horas. O vencedor fará a final do torneio, como reza a tradição, no Estádio do Pacaembu no dia 25 de janeiro, feriado em São Paulo pelo aniversário da cidade. O jogo equilibrado e difícil que todos imaginavam não aconteceu. Os desfalques do adversário do Corinthians realmente comprometeram a qualidade da equipe de Curitiba. Isto foi percebido já nos primeiros lances. Aos 3 minutos, Giovanne abriu o placar em um chute de fora da área. Aos 10, Douglas ampliou após boa tabela com Leonardo. Aos 21, Matheuzinho entrou na área adversária driblando os zagueiros e fez 3 a 0. Com meia hora de jogo, Douglas já tinha feito o quarto, após pegar a rebatida na trave. O primeiro tempo terminou com outro gol do centroavante Douglas, dessa vez com um chute forte de fora da área. Com 5 a 0 no placar no intervalo, a fatura da Copinha já estava sacramentada. Aí foi fácil trocar de canal. Ao invés de ver o segundo tempo em Jaguariúna, decidi acompanhar, às 17 horas, o jogo do Corinthians pelo Paulistão. Quem esperava um novo passeio da equipe preta e branca se enganou redondamente. O Mirassol dominou a primeira etapa e levou perigo por diversas vezes ao gol de Júlio César. O Timão teve algumas chances de abrir o marcador com William e Emerson, mas foram os visitantes que fizeram merecidamente 1 a 0. O centroavante da equipe do interior cabeceou na pequena área um cruzamento vindo da esquerda e não deu chances ao goleiro corintiano. Gol do Mirassol. O primeiro tempo terminou com o Corinthians jogando muito mal e em desvantagem no placar. Definitivamente, a equipe de Tite estava longe de apresentar em 2012 o futebol do final do ano passado. No segundo tempo, o Timão resolveu pressionar o adversário. Depois de parar os atacantes do time da casa com muitas faltas, o Mirassol teve um jogador expulso. Com um a mais em campo, Tite tirou o lateral Alessandro, muito mal tecnicamente e vaiado pela torcida, e colocou Danilo. Depois, trocou o defensor Paulo André por mais um centroavante: Élton. E foi o novo atacante do Timão quem empatou com um gol de fora da área. A igualdade colocou fogo no jogo e a pressão alvinegra aumentou. No último minuto da partida, o zagueiro do Mirassol, em uma infelicidade, ao tentar tirar a bola dos pés de Élton, acabou jogando para dentro do seu próprio gol. Gooooooooool!!! O Corinthians virava no finalzinho para delírio da massa. A vitória e os três pontos foram um alento para a torcida que enfrentou muita chuva no estádio e viu um futebol muito abaixo do esperado para uma equipe campeã brasileira. Outro aspecto positivo foi a boa atuação de Élton no ataque. Ah, e para quem ficou curioso, o Timãozinho ainda fez mais um gol no segundo tempo em Jaguariúna, com Giovanni. A goleada da meninada terminou em 6 a 0. O sábado terminou perfeito para a Fiel. Que venham a final da Copinha e o restante do Paulistão! 22 de janeiro de 2012 - domingo A expectativa da torcida corintiana pelo início da Copa Libertadores da América é tanta que mais de 60 mil ingressos já foram comercializados para os três duelos em casa da primeira fase da competição. Por enquanto, a preferência pela compra é dada aos sócios do programa Fiel Torcedor. Para quem não conhece, o Fiel Torcedor é o programa criado para atender com mais conforto os corintianos que gostam de assistir às partidas no estádio. Por meio de uma assinatura anual que varia de R$ 100,00 à R$ 1.200,00, dependendo do plano escolhido, o torcedor ganha um cartão (com formato similar a um cartão de crédito) que lhe dá acesso ao estádio. Para garantir a entrada nos jogos, basta acessar o site do programa e comprar as partidas de seu interesse. Assim, não é necessário ir até a bilheteria nem pegar fila para adquirir os ingressos. Além disso, o associado tem a preferência na aquisição, antes dos torcedores comuns. É comum em grandes clássicos e em finais de campeonato, os ingressos ficarem exclusivamente nas mãos dos associados. Para completar, o Fiel Torcedor também oferece descontos na compra das entradas. No dia do jogo, basta levar o cartão e passá-lo na catraca do estádio para ter o acesso liberado. Tudo muito fácil e rápido. Criado há quase quatro anos, o programa corintiano possui atualmente cerca de 70 mil associados. Eu obviamente sou um deles. Ou melhor, era. Minha anuidade venceu na metade do ano passado e eu preferi não renovar. Por que agi assim? Estou pensando, há algum tempo, em mudar de profissão e me tornar escritor. Por isso, estou economizando o máximo possível para os tempos de vacas magras que me esperam. Com meu plano do Fiel Torcedor vencido, precisei voltar às bilheterias e pegar as filas durante as partidas do Brasileirão de 2011. O pior mesmo foi perder o desconto e não conseguir comprar as entradas para os jogos decisivos do campeonato. Como vem sendo praxe nos últimos anos, os valores dos ingressos para as partidas da Libertadores variam de R$ 50,00 a R$ 500,00. O setor onde eu normalmente fico, a cadeira laranja, o custo é de R$ 200,00. Sem o desconto do Fiel Torcedor, eu já tirei da minha mente a possibilidade de acompanhar os confrontos da competição sul-americana no estádio. Ficarei confortavelmente sentado no sofá de casa em frente a televisão vendo as transmissões pela Rede Globo ou pela Fox Sport. E por falar em transmissão, a Fox Sport, a detentora dos direitos para a TV a cabo dos jogos das competições promovidas pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), decidiu pela primeira vez não os repassar para o Sportv, o canal de esporte por assinatura mais popular do país. A Fox trará ao Brasil seu próprio canal esportivo e deverá lançá-lo nos próximos dias. A Libertadores é o principal chamariz para a conquista dos primeiros assinantes. À princípio, os corintianos (e flamenguistas) não devem se preocupar, pois deverão ter todos os duelos da sua equipe transmitidos pela TV aberta. Santistas, colorados, tricolores das Laranjeiras e vascaínos, por outro lado, poderão ter partidas transmitidas com exclusividade pela nova emissora. Se não assinarem a Fox Sport, ficarão sem ver alguns jogos pela televisão. 23 de janeiro de 2012 - segunda-feira O Paulistão de 2012 começou com vitórias do Trio de Ferro. Além dos três pontos do Coringão, São Paulo e Palmeiras também foram bem-sucedidos na primeira jornada. O tricolor paulistano goleou, no domingo, o Botafogo de Ribeirão Preto por 4 a 0 no Morumbi com muita facilidade. Apesar da torcida são-paulina ter se empolgado com a boa estreia, o resultado da partida foi mais em função da extrema fragilidade do adversário do que da grande força da equipe da casa. O Palmeiras sofreu para superar o bom time do Bragantino, em Bragança Paulista. A vitória verde foi conquistada graças às jogadas de bola parada de Marcos Assunção. Ou seja, o Palmeiras começou a nova temporada exatamente como terminou a anterior: dependendo das cobranças de falta e de escanteio do veterano volante. Se analisarmos o desempenho técnico, a pior performance das grandes equipes da capital foi a do Timão. Não é errado afirmar que o Corinthians só ganhou do Mirassol no sábado porque a equipe do interior se desesperou. Os jogadores do Parque São Jorge não jogaram o suficiente para sair do gramado com os três pontos. A expulsão do atleta do interior e o gol contra do Mirassol, no finalzinho, foram decisivos para decretar a vitória corintiana no primeiro jogo do estadual. O técnico Tite, ainda no Pacaembu, preferiu minimizar a atuação de seus comandados, dizendo ser necessário pelo menos cinco jogos para a equipe apresentar o seu melhor futebol. Além disso, o gaúcho defendeu o capitão Alessandro das vaias da torcida. O lateral foi péssimo, tanto defensiva quanto ofensivamente. “O Alessandro está readquirindo o ritmo, tal qual a equipe. Alguns jogadores são mais leves e não sentem tanto pelo biorritmo. Outros, dentro deles o Alessandro, demoram um pouco mais para ter o ritmo normal de competição”, comentou Tite na entrevista coletiva. O Santos, por sua vez, começou o campeonato com um empate em Piracicaba contra o XV. O resultado foi positivo, afinal os santistas colocaram o time reserva em campo. E assim será nas próximas rodadas. Os titulares ainda estão de férias, pois disputaram o Mundial de Clubes da FIFA em dezembro. Até eles voltarem a treinar e ficarem bem fisicamente, demorará cerca de duas ou três semanas. A decepção da primeira rodada foi a Portuguesa. Depois da brilhante campanha na série B do Brasileiro do ano passado, a Lusa começou 2012 sendo apontada por muitos como uma das favoritas ao título estadual. Contudo, a equipe do Canindé perdeu em casa por 2 a 0 para o Paulista de Jundiaí na estreia. Agora, pode-se dizer que a temporada do futebol brasileiro está oficialmente aberta. O Corinthians, para se ter uma ideia, jogará ininterruptamente por 3 meses, com partidas no meio de semana e aos finais de semana. A primeira folga na tabela só acontecerá em abril. Até lá, o Campeonato Paulista já estará em suas fases decisivas e a Copa Libertadores estará na reta final da primeira fase. Quem estava com saudades de futebol, pode ficar tranquilo. Os jogos voltaram e não irão parar por um bom tempo. Será emoção atrás de emoção. Bom 2012 para todos nós, corintianos. 24 de janeiro de 2012 - terça-feira Empolgado com a campanha do time sub-18 do Corinthians, decidi assistir à partida final da Copa São Paulo no Pacaembu. Aproveitando que não trabalhei nessa terça, fui durante a hora do almoço ao estádio para comprar meu ingresso. E como eu, milhares de pessoas tiveram a mesma ideia. Resultado: fiquei em uma fila gigantesca por mais de três horas até conseguir ser atendido na bilheteria. Saí de lá com algumas constatações. Primeiro: o Paulo Machado de Carvalho estará lotado amanhã. Segundo: precisarei levar um boné, pois meu rosto não aguentará tomar tanto sol como hoje. Estou completamente queimado. E terceiro: o pastel da feirinha da Praça Charles Miller é realmente incrível. Na certa, é o melhor pastel de São Paulo! No trajeto de volta para casa, fui lendo o jornal O Lance! O adversário do Timãozinho será o Fluminense. Em outras palavras, os dois maiores campeões da história da competição vão se enfrentar. O tricolor carioca possui um ótimo time e conta com Marcos Júnior, o melhor jogador dessa edição da Copinha. O meia-atacante de apenas 1,67 metro foi autor de dois dos quatro gols da equipe das Laranjeiras na semifinal contra o Coritiba. Ele é o maior perigo do lado adversário. Segundo a crítica esportiva, o Flu tem um time melhor do que o Corinthians, mas não é possível apontá-lo como favorito, pois os paulistas jogam em casa e contam com o apoio da Fiel. Pelo lado do Timão, a novidade de hoje foi a realização de um treino duplo no CT Joaquim Grava. A diretoria alvinegra convidou o treinador da base, Narciso, e seus comandados para usar o Centro de Treinamentos, no Parque Ecológico, e fazer ali os últimos preparativos antes da partida contra o Flu. Assim, o elenco da base pôde treinar ao lado do elenco profissional. Será a primeira vez no ano em que a garotada corintiana jogará na capital do estado. Todos os jogos anteriores do Corinthians na Copinha foram realizados no interior. A equipe escalada por Narciso para a finalíssima, amanhã, não terá nenhuma surpresa. O time será o mesmo dos últimos jogos: Matheus Caldeira; Cristiano, Antônio Carlos, Marquinhos e Denner; Anderson, Gomes, Giovanni e Matheuzinho; Leonardo e Douglas. Desses jogadores, alguns já poderão fazer parte do elenco do técnico Tite nos próximos dias. Como está difícil a contratação de um volante para a reserva de Ralf, Gomes e Anderson podem ser integrados ao time de cima. O mesmo pode acontecer com Marquinhos e Denner. Falando um pouco dos profissionais, Tite também já armou sua equipe para a segunda rodada do Paulista, amanhã à noite em Guaratinguetá contra a equipe local. A novidade é a substituição de Paulo André na zaga por Chicão. O beque titular precisa melhorar o condicionamento físico e foi vetado pela comissão técnica. Danilo também voltará à equipe e William ficará no banco, em um revezamento corriqueiro feito pelo treinador desde o início dos treinos com bola. Assim, o Timão irá à campo no feriado com: Júlio César; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Emerson e Liedson. O esquema tático volta ao 4-4-2. 25 de janeiro de 2012 - quarta-feira O feriado de 25 de janeiro teve um dia lindo, com muito calor e sol na cidade de São Paulo. A maior metrópole do continente completou 458 anos. Não havia melhor lugar para se estar naquela manhã do que no Estádio do Pacaembu. Cerca de 38 mil pessoas compareceram às arquibancadas para ver quem seria o primeiro campeão de 2012 no futebol brasileiro: Corinthians ou Fluminense? Às 10 horas, o juiz deu início à partida final da Copa São Paulo. O primeiro tempo foi bem movimentado, à altura da grande decisão. Os dois times ignoraram o calor, jogaram com velocidade e tiveram boas oportunidades. O Flu esteve mais bem organizado em campo e, por isso, foi mais perigoso. Marcos Júnior mostrava seu talento com a camisa tricolor e era disparado o melhor em campo. O 0 a 0 da primeira etapa não representou o futebol desempenhado pela garotada. No segundo tempo, logo no início, Marcos Júnior cruzou da direita e o goleiro corintiano Matheus Caldeira vacilou. A bola escorregou até os pés de um dos atacantes do time carioca. Aí o jogador do Flu não teve dificuldade para mandar para as redes. Fluminense 1 a 0. Os minutos seguintes foram de desespero para os corintianos. O tricolor das Laranjeiras pressionou e quase ampliou o placar em várias oportunidades. O goleiro do Corinthians compensou a falha no gol com três defesas incríveis. De tanto pular, acabou se machucando e foi substituído. Na metade da segunda etapa, quando sinceramente não via como o resultado poderia ser alterado, aconteceu o improvável. Em cobrança de escanteio, o capitão corintiano Antônio Carlos subiu e cabeceou para empatar. Gol do Corinthians e alegria nas arquibancadas. Após sofrer o empate, o Fluminense continuou atacando e perdendo gols. E nos instantes finais da partida, após nova cobrança de escanteio, o zagueiro Antônio Carlos cabeceou outra vez para o fundo das redes. Gol do Timãozinho e virada no Pacaembu. Delírio dos alvinegros presentes no estádio. O Corinthians conquistava seu primeiro título da temporada. Os garotos conseguiram com muita raça e dedicação superar o talentoso time do Fluminense. Nada mais justo do que Antônio Carlos erguer o oitavo troféu corintiano da Copinha. A alegria foi completada à noite. Vi pela televisão os profissionais do Timão enfrentando o Guaratinguetá. Confesso que foi difícil ficar acordado até às 22 horas. Eu tinha levantado bem cedo naquele dia para chegar ao Pacaembu antes das 9 horas da manhã. A luta contra o sono valeu a pena. O Corinthians venceu fácil o Guará por 2 a 0. Os autores dos gols foram Chicão e Alessandro, curiosamente os dois jogadores que eram alvos da desconfiança da torcida. O zagueiro pelo episódio no ano passado, quando se recusou a ficar no banco de reservas contra o São Paulo, após ser barrado do time titular pelo Tite. E o lateral-direito pela péssima atuação na última partida. A verdade é que não sei se o Corinthians venceu porque voltou a jogar bem ou se o adversário era muito ruim. Ou se foram as duas coisas. De qualquer forma, o importante são os 3 pontos e a segunda vitória no Paulistão. Eita feriado perfeito! 26 de janeiro de 2012 - quinta-feira O dia seguinte à conquista da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2012 pelo Corinthians poderia ter vários personagens como destaque. Poderíamos falar, por exemplo, da competência do técnico Narciso em montar um belo time e vencer na final a talentosíssima equipe do Fluminense. O treinador chegou ao clube no final do ano passado e rapidamente conseguiu revolucionar o sub-18 corintiano. Vale lembrar que nos últimos anos, as categorias de base do Corinthians ficaram abandonadas. Os garotos não tinham sequer lugar próprio para treinar. A conquista de ontem foi mérito exclusivamente do técnico e dos jogadores. Infelizmente, a diretoria corintiana não ajudou em nada o departamento amador nessa empreitada. Também poderíamos contar a história do herói do título corintiano, o zagueiro Antônio Carlos. O garoto de 18 anos começou a jogar futebol justamente no Fluminense, onde foi dispensado no ano passado. Sem espaço nas categorias de base das Laranjeiras, o defensor veio tentar a sorte no Corinthians. E pelo novo clube fez os dois gols na final contra a equipe que o dispensou. Incrível! Outros personagens interessantes do 25 de janeiro foram Alessandro e Chicão. Os dois experientes atletas profissionais foram decisivos na vitória contra o Guaratinguetá pela segunda rodada, cada um com um gol. Ambos jogaram bem e mereceram os elogios dos torcedores e da crítica esportiva ao final do jogo. Entretanto, quem roubou (literalmente) a cena do feriado foi José Maria Marin. Quem? José Maria Marin! Ele é vice-presidente da CBF e foi flagrado pelas câmeras de televisão furtando uma medalha dos jogadores corintianos durante a premiação. Marin era o encarregado de colocar no pescoço dos jogadores vencedores as medalhas pela conquista. Em determinado momento, não se lembrando de que a cena estava sendo transmitida para o país inteiro pelas emissoras de televisão, o cartola colocou "disfarçadamente" uma das medalhas no bolso. Nem o fato de o goleiro Matheus ter ficado sem a premiação ao final da cerimônia fez Marin voltar atrás em seu ato ilícito. Ele simplesmente roubou a medalha do garoto. O mais assustador de tudo foi saber que Marin já foi governador do Estado de São Paulo durante a Ditadura Militar. Se ele é capaz de roubar algo sem valor monetário na frente de um país inteiro em um estádio de futebol lotado, imagine só o que ele não fazia trancado no gabinete do Palácio dos Bandeirantes, hein?! Quem melhor explicitou o sentimento de revolta pela conduta do dirigente da Confederação Brasileira de Futebol foi o ex-jogador Neto. “Ainda bem que o troféu é grande e não cabe no bolso”, disse o comentarista da TV Bandeirantes, hoje, no programa esportivo Jogo Aberto. Para minimizar o episódio vexatório, a Federação Paulista declarou ter ocorrido erro na contagem das medalhas enviadas para a premiação e prometeu providenciar uma nova para o goleiro corintiano. Erro na contagem? Para mim, isso tem outro nome. O futebol brasileiro está ou não está bem servido de dirigentes?! 27 de janeiro de 2012 - sexta-feira Alessandro Mori Nunes, 33 anos, é natural de Assis Chateaubriand, pequena cidade do oeste do Paraná. Essa é a descrição sucinta do lateral-direito do Timão há quatro temporadas. O camisa 2 iniciou, em 2012, o quinto ano como titular absoluto do lado direito da equipe do Parque São Jorge. Para se ter uma ideia do feito, o último jogador a conseguir começar cinco temporadas com a camisa titular do Corinthians foi o atacante Gil, entre 2001 e 2005. Antes, o goleiro Ronaldo também alcançou tal façanha entre 1989 e 1998. Alessandro não é um grande jogador se o analisarmos apenas tecnicamente. Ele não é rápido, até porque já passou dos trinta anos. Não faz bons cruzamentos. Defensivamente, deixa a desejar e ofensivamente é razoável. Também faz algumas bobagens de vez em quando, como a expulsão tola contra o Internacional nas últimas rodadas do Brasileirão do ano passado. Então, o que o faz ser titular da equipe mais importante do país por tanto tempo?! A resposta é o espírito de liderança. O jogador possui uma grande ascendência sobre os demais jogadores e consegue orientar seus companheiros dentro e fora do campo. Não é à toa que ele seja o capitão do time desde a metade do ano passado, quando Chicão foi para a reserva. Quando Alessandro está em campo, ele consegue passar tranquilidade para os demais atletas, além de organizá-los segundo as instruções passadas pelo treinador. O lateral-direito é o técnico do time dentro das quatro linhas. Além disso, o camisa 2 é um profissional sério e dedicado, exigindo de todos no clube o comportamento mais correto possível em cada situação. Do atual elenco corintiano, os mais veteranos são Alessandro e Chicão. Os dois chegaram ao clube no início da temporada de 2008, quando o Timão havia acabado de cair para a Série B. Aqueles eram tempos difíceis! Os dirigentes do Parque São Jorge eram acusados de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Os cofres do clube estavam vazios. A equipe não tinha local para treinar e a torcida estava revoltada com a humilhação sofrida no final da temporada anterior. Jogar no Corinthians era um inferno naquele período. Com uma boa equipe montada por Mano Menezes, o Timão conseguiu conquistar a série B e voltar, no final de 2008, para a divisão de elite do nacional. No ano seguinte, já com Ronaldo, a equipe foi campeã da Copa do Brasil e do Paulistão. Dois anos depois veio o título do Campeonato Brasileiro. Alessandro e Chicão ergueram conjuntamente o troféu mais importante de suas carreiras em dezembro passado. O contrato de Alessandro se encerra no final de 2013. O atleta vê o término de sua carreira chegando e já admite essa possibilidade abertamente. As constantes contusões que o jogador vem sofrendo nos últimos anos são consequências da passagem do tempo. Em 169 partidas pelo Coringão, o lateral fez 4 gols. Às vezes, eu fico um tanto nervoso com as lambanças feitas pelo nosso capitão em campo, mas é preciso admitir sua importância para o time e para o treinador. 28 de janeiro de 2012 - sábado No domingo, o Corinthians enfrentará o Linense, no Pacaembu, pela terceira rodada do Paulistão. A equipe do interior estreou em 2011 na elite do estadual, após passar mais de 80 anos nas divisões de acesso. Nesse ano, o time de Lins faz boa campanha: vitória contra o Comercial e empate com o São Caetano. Buscando manter o 100% de aproveitamento no campeonato, Tite fez no sábado de manhã o último treino antes da partida. No coletivo, o gaúcho manteve os titulares da vitória contra o Guaratinguetá. Assim, o Corinthians será escalado com dois meias-armadores e dois atacantes, no esquema 4-4-2. A dúvida sobre a melhor formação tática perdura na cabeça do treinador desde o início do mês. Na primeira rodada do Paulistão, a opção foi por um meia e três atacantes. Como o time não foi bem, na segunda partida escolheu-se a formação com dois meias e dois atacantes. Com o melhor rendimento, o técnico corintiano preferiu manter essa forma de jogo. Alex e Danilo jogarão juntos no meio de campo e William volta para o banco. Assim, o Timão vai de: Júlio César; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Emerson e Liedson. A grande novidade no Corinthians foi a promoção de sete juniores ao elenco profissional. O zagueiro Marquinhos, inclusive, já treinou com o time principal e será relacionado para o jogo de domingo. O garoto ficará no banco de reservas, pois Paulo André continua se condicionando fisicamente e Wallace se machucou, devendo voltar nos próximos dias. O volante Gomes e o lateral-esquerdo Denner começarão os trabalhos com Tite na próxima segunda-feira. Segundo Edu Gaspar, gerente de Futebol, os próximos a ser integrados ao profissional serão os meias Giovanni e Matheuzinho, o goleiro Matheus Caldeira e o atacante Paulinho. Paradoxalmente, o herói corintiano na final da Copinha, Antônio Carlos, não está na lista de promovidos. Mesmo com o reforço dos jovens campeões da base, as conversas sobre novas contratações persistem no Parque São Jorge. Ainda surgem notícias quase que diariamente sobre Montillo. Pelas últimas informações, o Cruzeiro está com dificuldade para pagar o salário dos seus jogadores. E a grave crise financeira na Raposa pode influenciar na venda do meio-campista argentino aos corintianos. O diretor de Futebol do Timão, Duílio Monteiro Alves, negou essa possibilidade. “Não existe nada. A posição do Corinthians é a colocada pelo nosso presidente, de que retiramos a proposta (anteriormente feita). Depois disso, não aconteceu mais nada. Hoje surgiram especulações de que aumentaríamos a proposta, mas não é verdade”, disse o cartola. Nessa hora, lembrei-me das palavras da minha avozinha: "Onde há fumaça, sempre há fogo!". Se a novela Montillo continua, a de Carlitos Tevez está oficialmente encerrada. O empresário do jogador revelou, nessa semana, que o atacante ficará mais uma temporada na Europa. Ele ainda não sabe exatamente em qual clube seu atleta jogará, mas tem certeza de que será no Velho Continente. 29 de janeiro de 2012 - domingo Os torcedores que foram ao Estádio do Pacaembu puderam ver o confronto entre o quarto e o quinto colocados do Paulistão. O Corinthians, com seis pontos, precisava vencer para se juntar ao São Paulo com nove. O tricolor venceu, ontem, o São Caetano e permanece com 100% de aproveitamento. O Linense, com quatro pontos, queria manter a invencibilidade. Com essa pretensão, o técnico do interior escalou uma equipe bem recuada, com três defensores. O objetivo era, evidentemente, não perder. A partida começou como os corintianos gostam, com o Timão indo para o ataque. Nos quinze primeiros minutos, o Corinthians já havia chutado diversas vezes ao gol adversário. A primeira grande oportunidade foi de Alex. O meia avançou até a grande área e, antes de chutar, foi travado pelo zagueiro do Linense. No rebote, Liedson mandou para fora. Depois, Alex cobrou falta e exigiu boa defesa do goleiro de Lins. Alex era o melhor em campo e deu ótimo passe para Emerson. O atacante ficou cara a cara com o goleiro e chutou para a defesa do arqueiro. Com o passar do tempo, os jogadores corintianos perderam o ímpeto de atacar e a defesa do Linense passou a ter menos trabalho. Com mais tranquilidade no setor defensivo, os jogadores do interior partiram para frente. Aos 38 minutos, em cobrança de escanteio, o zagueirão do Linense, com mais de dois metros de altura, subiu e cabeceou. A bola bateu na trave e nas costas de Júlio César e entrou no gol. O susto só não foi maior porque o juiz anulou o lance. Ele alegou falta do zagueiro de Lins. Empolgado com a chance de vencer o Corinthians no Pacaembu, o Linense voltou para o segundo tempo mais ofensivo. Aos 10 minutos, Júlio César salvou um forte chute do lateral-direito adversário. Precisando dos três pontos, o Timão resolveu atacar também. Liedson, Emerson e Alex desperdiçaram boas chances cada um. Douglas, goleiro do Linense, estava em uma tarde perfeita. Ele defendia até pensamento. Depois de tanta insistência, o gol finalmente saiu. A 10 minutos do encerramento da partida, Emerson aproveitou a sobra no lado direito da área e mandou de primeira, de três dedos. Um golaço de Sheik! Aliviado com o gol, o atacante nem comemorou. Os companheiros seguiram seu comportamento. A alegria maior foi demonstrada nas arquibancadas com a festa dos torcedores com a nova vitória. O Timão chegou aos nove pontos e subiu para a vice-liderança do Paulista. O São Paulo é o líder, pois tem melhor saldo de gols (seis contra quatro). Na volta ao vestiário, após o término do jogo, o técnico Tite reclamou muito da falta de emoção do seu time durante a partida. “Foi essa a cobrança. Tem que saber vibrar, ser intenso, ter a gana de vencer. Faltou isso à nossa equipe (hoje), essa vibração, vibrar pelo gol que fez. Fui incendiar o vestiário porque precisa ter esse sabor de vencer, valorizar a conquista. Só se chega às grandes conquistas quando se valoriza as pequenas”, disse o treinador na entrevista coletiva. Justo, muito justo, justíssimo! 30 de janeiro de 2012 - segunda-feira A marca do Corinthians no início dessa temporada são as vitórias magras e no sufoco. Os três pontos vieram assim em duas oportunidades: contra o Mirassol na primeira rodada, com um gol no último minuto, e ontem contra o Linense, com o gol chorado de Emerson na parte final da partida. Apenas no jogo com o Guaratinguetá a vitória veio tranquilamente e com dois gols de diferença. Se pensarmos bem, essa característica não é tão nova. Ela foi a tônica durante todo o Campeonato Brasileiro do ano passado. Dos 21 triunfos corintianos naquela competição, o Timão ganhou 17 vezes pela diferença mínima. Eu me recordo de várias partidas vencidas com alta dose de dramaticidade, tanto no Pacaembu quanto fora de casa. Impossível me esquecer da vitória de virada sobre o Atlético Mineiro por 2 a 1, com o gol salvador de Adriano no fim. Outra virada marcante, também em São Paulo, foi contra o Avaí, com gol de Emerson no final. E olha que o Timão jogou com um a menos durante todo o segundo tempo. Fora de casa, nas últimas rodadas, o sofrimento foi sentido nas vitórias contra Ceará e Figueirense no finalzinho do segundo tempo, ambas por magros 1 a 0, gols de Ramirez e Liedson, respectivamente. Não sei o porquê de tanta angústia. Alguns torcedores alegam que dessa maneira é mais gostoso. Além disso, essa marca está em nossa essência. Historicamente, o Timão só vence com muito sacrifício e drama. Não me lembro, por exemplo, de nenhuma grande conquista sem altas doses de sofrimento. Tal panorama vem desde a década de 1950, se não for mais antiga. Tudo para esse clube parece ser mais difícil e complicado. Vencer é possível, desde que tenha requintes de crueldade para o coração dos corintianos. Sinceramente, gostaria de ver meu time vencendo com mais tranquilidade. Deve ser bom conseguir aplicar algumas goleadas de vez em quando e terminar os jogos com placares mais elásticos. Por outro lado, é melhor passar sufoco durante os jogos, mas sair deles com a vitória. Pior seria se os triunfos não acontecessem, né? Esse tem sido o consolo da nação alvinegra do Parque São Jorge nos últimos anos. A equipe profissional não perde uma partida oficial há oito jogos. A última foi no início de novembro, na 33ª rodada do Brasileirão, para o América Mineiro em Uberlândia. De lá para cá, foram sete vitórias e apenas um empate. Até os garotos dos juniores terminaram invictos a participação na Copinha, com oito vitórias consecutivas. De qualquer maneira, fica aqui minha recomendação aos corintianos: procurem bons cardiologistas e façam exames para verificar como estão os corações o mais rápido possível. Vale a pena medir e controlar a pressão também. O ano promete desde já fortes emoções e nós precisamos estar em ótimas condições para aguentá-las. O Paulistão logo mais vai chegar às fases finais e a Libertadores não tardará em começar. E o sofrimento corintiano só tende a aumentar em escala exponencial nas próximas semanas e meses com a chegada dos jogos decisivos. Consulte, amigo sofredor, o cardiologista mais perto de casa ou o profissional de sua confiança. Bons jogos e saúde para todos! 31 de janeiro de 2012 - terça-feira A terça-feira foi recheada de más notícias no Sport Clube Corinthians Paulista. Para começar, vários atacantes do elenco estão com problemas físicos e deverão desfalcar a equipe na próxima partida contra o Ituano. Emerson e Liedson, os dois titulares, estão sentindo dores musculares e foram descartados pelo treinador. O reserva Jorge Henrique também está sofrendo com um incomodo muscular e também foi vetado pelo departamento médico. William, outra opção para o setor, segue tratando o músculo adutor da coxa e ficará mais uma semana longe dos gramados. Adriano poderia ser escalado, mas segue apenas treinando, tentando readquirir a melhor forma física. É notório que o camisa 10 precisa emagrecer e não consegue aguentar os 90 minutos de uma partida. A pergunta é: quando será que ele estará em plenas condições para atuar? Há dez meses no Corinthians, Adriano colecionou alguns escândalos, vários atos de indisciplina e só jogou 75 minutos ao todo. Fez apenas um gol. É pouco para alguém que é considerado por muitos como um dos melhores centroavantes do planeta e para quem recebe o maior salário do elenco corintiano. Se em quase um ano ele ainda não está pronto, quando estará? Fábio Mahseredjian, um dos mais competentes preparadores físicos do país, já desistiu de dar um prazo para a volta aos gramados de seu jogador mais problemático. Após vários anúncios equivocados nesse sentido, o homem responsável pelo físico dos atletas do Corinthians não dá mais nenhuma data e parece um tanto decepcionado com o Imperador. Além disso, Adriano precisa ganhar novamente a confiança do treinador. Tite tem dado várias entrevistas afirmando que não colocará ninguém na lista dos 25 jogadores que poderão atuar na Libertadores apenas pelo nome. O atleta precisa merecer sua inscrição. O recado é claro e dirigido ao gordinho preguiçoso da equipe. Assim, as opções restantes para o ataque são Élton, Gilsinho e Bill. Os dois primeiros foram confirmados como titulares. Enquanto Élton já jogou alguns minutos contra o Mirassol na primeira rodada, tendo feito inclusive um gol, Gilsinho estreará com a camisa do Timão amanhã. Bill, jogador que retornou de empréstimo do Coritiba, ficará no banco a espera de uma chance no segundo tempo. Outra nota desagradável foi o comunicado sobre a necessidade de cirurgia no zagueiro Paulo André. O titular da defesa do Timão fará amanhã uma artroscopia no joelho direito e ficará entre 30 e 40 dias afastado. Assim, Chicão deverá continuar como dupla de zaga de Leandro Castán. Com o longo tempo de recuperação, Paulo estará fora da estreia do Corinthians na Copa Libertadores, no dia 15 de fevereiro, contra o Deportivo Táchira. Ele também desfalcará, provavelmente, o time nos outros dois jogos da primeira fase da competição sul-americana. Por tudo isso, Tite escalou a seguinte formação para a partida da quarta rodada do Paulistão: Júlio César; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Gilsinho e Élton. ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Livro dos Baltimore - O terceiro romance de Joël Dicker
Publicada em 2015, essa obra expande o universo ficcional apresentado em A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, o principal best-seller do autor suíço. Joël Dicker é um dos escritores europeus mais badalados da atualidade. Especialista em thrillers dramáticos, romances históricos e intrigas policiais, o suíço se tornou best-seller mundial e coleciona importantes prêmios literários. Confesso que minha intenção inicial era fazer um estudo das narrativas de Dicker na coluna Desafio Literário. O problema é que o autor só lançou, até agora, seis títulos (cinco romances e uma novela), o que inviabiliza minha ideia. Para quem não está familiarizado com o Bonas Histórias, preciso explicar: no Desafio Literário, analisamos o estilo dos grandes nomes da literatura clássica e contemporânea. E para tal, investigamos uma lista de pelo menos oito publicações dos artistas selecionados. Se não deu para incluir, por enquanto, Joël Dicker em um lugar, deu para colocá-lo em outro. Por isso, aí vai a discussão de “O Livro dos Baltimore” (Intrínseca), seu terceiro romance, na coluna Livros – Crítica Literária, o espaço do blog dedicado à análise individual das obras. Publicado em setembro de 2015, “O Livro dos Baltimore” é um thriller ambientado nos Estados Unidos e que descreve os dramas dos Goldman, uma família que esconde vários segredos e possui incontáveis rivalidades entre seus membros. A trama é narrada por Marcus, um renomado romancista. O protagonista, vale a pena dizer, já aparecera em “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” (Intrínseca), o livro anterior de Dicker e, não por acaso, seu maior sucesso até aqui. Agora com 32 anos, Marcus Goldman está obcecado por compreender o passado dos familiares. Ele tenta encaixar as peças deixadas soltas pelos pais, pelos tios, pelos avós, pelos primos e pela namorada da adolescência. O rapaz quer entender o que aconteceu efetivamente para sua vida ter se transformado em um caos sentimental. A (re)construção desse quebra-cabeça narrativo reserva muitas surpresas e incontáveis reviravoltas. Admito que em vários momentos, a obra é capaz de tirar nosso fôlego. Só por essa trama, já é possível percebermos o motivo do entusiasmo do público e da crítica pela produção ficcional de Joël Dicker, um dos bons nomes da literatura contemporânea em língua francesa. “O Livro dos Baltimore” é efetivamente um romance de mistério de alto nível, capaz de encantar os leitores mais exigentes desse gênero. Nascido em 1985, em Genebra, Joël Dicker cresceu na segunda maior cidade suíça. Aos 19 anos, ele se mudou para Paris e frequentou por um ano a badalada Cours Florent, a principal escola francesa de teatro. Nessa época, o jovem Dicker escreveu seu primeiro livro, “O Tigre” (Alfaguara Portugal). A novela histórica se passa em um povoado longínquo da Sibéria, no início do século passado. O enredo apresenta o confronto, com tintas existencialistas, entre o inexperiente caçador Iván Levovitch e o feroz tigre que aterroriza os habitantes da localidade siberiana. Empolgado com a qualidade do texto, Dicker inscreveu “O Tigre” em um concurso literário, mas a obra foi desclassificada logo de cara. Em 2010, o desfecho foi mais favorável para “Os Últimos Dias dos Nossos Pais” (Intrínseca), a segunda narrativa e o primeiro romance do autor suíço, que nesse momento já voltara a viver na cidade natal. Ele inscreveu a nova trama, que era ambientada na Segunda Guerra Mundial, no Prix des Ecrivains Genevois, importante premiação de Genebra para escritores novatos e para obras ainda não publicadas. E, dessa vez, Joël Dicker saiu vencedor. Após chamar a atenção de editores parisienses, o livro foi publicado, dois anos mais tarde, na França. Ainda em 2012, a editora que apostara em “Os Últimos Dias dos Nossos Pais” lançou “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, o segundo romance de Dicker. O intervalo entre as duas publicações foi de apenas oito meses. O motivo para tamanha rapidez é facilmente visível pelos números. “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” se transformou em um sucesso imediato e estrondoso na França. A obra foi rapidamente traduzida para dezenas de idiomas e alcançou a marca de cinco milhões de cópias vendidas. O romance policial conquistou o Grand Prix du Roman de l’Académie Française e o Prix Goncourt des Iycéens. Ou seja, o livro se tornou bem-sucedido tanto da perspectiva comercial (do público leitor) quanto da perspectiva literária (da crítica). Curiosamente, “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” é ambientado nos Estados Unidos (uma novidade até então na literatura de Joël Dicker, que nunca morou no outro lado do Atlântico) e apresenta pela primeira vez sua personagem mais celebrada, o escritor Marcus Goldman. Após um bloqueio criativo, o narrador-protagonista passa a investigar por conta própria um crime antigo e que ainda não foi solucionado pela polícia norte-americana. A ideia é, ao mesmo tempo, adquirir material para um novo livro e, por que não, solucionar o intrigante desaparecimento de uma jovem de 15 anos ocorrido em 1975. Lançado três anos mais tarde, “O Livro dos Baltimore” aproveita-se da figura central de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e expande o universo ficcional criado no best-seller suíço. O terceiro romance de Joël Dicker se passa alguns anos à frente do título anterior. Nesse momento da trama, Marcus está solteiro (ele namorava uma atriz famosa em “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”) e sente saudades da namorada de infância/adolescência, Alexandra Neville. Alexandra é atualmente uma das cantoras mais populares do país. Porém, o antigo casal não se vê há oito anos. A nova narrativa mergulha no passado da dupla e nas intrigas familiares dos Goldman e dos Neville. No Brasil, “O Livro dos Baltimore” foi publicado pela Intrínseca, uma das maiores editoras de nosso país e dona dos direitos autorais dos títulos de Dicker por aqui. A adaptação desse romance do francês para o português brasileiro foi realizada por André Telles, tradutor carioca falecido em 2018 e vencedor do Prêmio Jabuti pelas traduções de obras de Alexandre Dumas. Telles também traduziu “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e “Os Últimos Dias dos Nossos Pais”. Os dois últimos romances de Dicker são “O Desaparecimento de Stephanie Mailer” (Intrínseca), lançado em 2018, e “O Enigma do Quarto 622” (Intrínseca), publicado em 2020. Ambos os livros são típicos romances policiais e estão totalmente desassociados do núcleo ficcional de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”/“O Livro dos Baltimore”. Na penúltima obra do escritor suíço, a jornalista Stephanie Mailer investiga um crime ocorrido há duas décadas na pequena cidade de Orphea, nos Hamptons. Ela afirma que a polícia cometeu um sério erro na investigação daquele caso. No mais recente título de Dicker, o escritor Joël (esse é o nome da personagem, tá?) tenta elucidar um crime ocorrido há alguns anos. O local da tragédia é a suíte 622 do sofisticado hotel Palace de Verbier, nos Alpes Suíços. Para trabalhar com mais acuracidade, o protagonista se hospeda no fatídico quarto e mergulha em uma investigação particular sobre o enigmático assassinato ocorrido naquele hotel. Confesso que poderia passar horas falando dos outros romances de Joël Dicker, mas a proposta desse post do Bonas Histórias é debater exclusivamente “O Livro dos Baltimore”. Foco, Ricardinho, foco! Não se esqueça que estamos na coluna Livros – Crítica Literária e não na coluna Desafio Literário. OK. Entendi o recado. Antes que mais alguém reclame comigo (além da minha própria consciência), segue, nos próximos parágrafos, a parte da apresentação do enredo da obra de hoje. Logo na sequência, trago minha análise pormenorizada do título em questão. A narrativa de “O Livro dos Baltimore” começa basicamente em fevereiro de 2012. Marcus Goldman continua sendo um dos mais admirados escritores norte-americanos da atualidade. Seus romances venderam como água e ele está milionário. Entretanto, o rapaz passa por dificuldades para produzir o novo livro (algo que já tínhamos visto ocorrer em “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”). Ao invés de se lançar em uma investigação criminal, como na publicação anterior de Joël Dicker, Marcus prefere dessa vez mergulhar nos dramas e nas desavenças de sua família. A ideia do autor é contar a história dos Goldman. Para isso, ele compra uma casa em Boca Raton, na Flórida. Ao deixar o apartamento em Nova York, o protagonista acredita que encontrará a inspiração que deseja para descrever a trajetória conturbada dos parentes. Em Boca Raton, Marcus faz amizade com Leonard Horowitz, o vizinho septuagenário que tem curiosidade para saber como o renomado romancista trabalha. Para decepção de Leo, como ele é chamado carinhosamente, o escritor passa os dias passeando pela cidade, pensando por horas no quintal de casa e rememorando álbuns de fotografias antigas dos familiares. Sentar e escrever que é bom nada! A rotina aparentemente pouco produtiva de Marcus Goldman só piora quando surge um cachorrinho perdido em sua residência. Depois de se afeiçoar ao pet por alguns dias, o escritor descobre, enfim, onde o bichano mora. Ao levar Duke (esse é o nome do cão) para seus verdadeiros donos, o escritor se encontra com Alexandra, sua antiga namorada e estrela de primeira grandeza da música norte-americana. A moça está passando férias na casa ao lado da de Marcus. Ela é a dona de Duke. E está namorando com Kevin Legendre, um jogador canadense de hóquei. O encontro mexe com os antigos pombinhos, que não se viam há oito anos. O término do relacionamento de Marcus e Alexandra não foi bem digerido por ambos, que parecem ainda nutrir um forte sentimento um pelo outro. Querendo rever a antiga namorada, Marcus furta Duke da casa de Kevin. Após passar o dia com o cachorro, ele o devolve para Alexandra à noite, dizendo que o encontrou novamente no quintal de casa. O cãozinho gosta tanto de ficar com o romancista que não demora para ele mesmo começar a visitar o amigo humano todas as manhãs. Assim, Markus não precisa mais prosseguir com os furtos caninos (ou seria sequestro canino, hein?). E, para a alegria do rapaz, ele retorna todas as noites para a casa de Kevin para devolver Duke para Alexandra. Os rápidos momentos de conversa com a moça são os melhores instantes do dia do escritor. Não demora para os encontros fortuitos do antigo casal resvalar em um assunto delicado: o término do namoro. Alexandra gostaria de entender o motivo de Marcus tê-la abandonado. Ele diz que não poderia ficar com ela depois do fatídico novembro de 2004. Na véspera do Dia de Ação de Graça daquele ano, uma grande tragédia abalou para sempre os Goldman (e os Neville por consequência). E até hoje Marcus culpa Alexandra pelo que aconteceu há quase uma década. A partir daí, a trama de “O Livro dos Baltimore” caminha simultaneamente em dois períodos: presente e passado. Nos dias atuais, assistimos às angústias sentimentais de Marcus Goldman e Alexandra Neville. Apesar de rica, famosa e bem-sucedida na carreira artística (ele na literatura, ela na música), a dupla sofre por não estar junta e por remoer antigas feridas aparentemente não cicatrizadas. Quando a narrativa retrocede no tempo, mais precisamente para o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, acompanhamos a infância conturbada de Marcus. Desde criança, ele padeceu pela rivalidade e pela inveja do eixo mais rico da família, chamado de Goldman-de-Baltimore. Para seu azar, ele era do lado pobre, nomeado de Goldman-de-Montclair. Os Goldman-de-Baltimore eram constituídos pelo casal Saul e Anita (tios de Marcus) e pelo filho deles, Hillel (que tinha a mesma idade de Marcus). Tio Saul era um dos mais importantes advogados de Maryland e, quiçá, da Costa Leste dos Estados Unidos. Por sua vez, Tia Anita era médica na cidade e tinha uma beleza estonteante. O primo Hillel era um menino extremamente esperto e espirituoso. Na visão de Marcus, os Goldman que viviam em Baltimore eram o núcleo perfeito do clã: ricos, bonitos, amorosos, altruístas, divertidos, elegantes e inteligentes. Marcus sempre gostou de visitá-los nas férias e nos feriados. Além de admirar os tios, o narrador-protagonista sempre nutriu um carinho especial pelo primo, desde muito cedo seu melhor amigo. O clima de harmonia entre os Goldman-de-Baltimore se intensificou quando eles adotaram Woodrow Finn, um adolescente da idade de Hillel que fora abandonado pelo pai biológico após a morte da mãe. Woody, como o jovem era chamado carinhosamente, apresentava problemas comportamentais nos vários orfanatos em que viveu. Uma vez na casa dos Goldman, contudo, ele recebeu o amor que tanto ansiava e se tornou o melhor amigo de Hillel. Woody e Hillel viviam como irmãos inseparáveis. Quando Marcus visitava os primos, eles formavam o que chamavam de Gangue dos Goldman. Como bons adolescentes que eram, a trupe gostava de se divertir, jogar bola, passear, paquerar. O importante era que permanecessem juntos. E, para conseguir alguns trocados, eles trabalhavam como jardineiros no condomínio onde os Goldman-de-Baltimore viviam. Como é possível perceber desde já, o termo gangue que os garotos se deram é apenas uma brincadeira juvenil. A Gangue dos Goldman não fazia nada de errado (pelo contrário, eles eram muito bem-quistos pelos vizinhos). Para desespero de Marcus, os dias em que ele passava em Maryland ao lado dos tios e dos primos ricos eram exceção em sua rotina. Ele vivia em Montclair, subúrbio de Nova Jersey. Seu pai era engenheiro e sua mãe era vendedora de roupa. Eles tinham uma casa simples e viviam como classe média. A aparência comum dos pais e o estilo de vida simplório dos Goldman-de-Montclair envergonhavam Marcus, principalmente quando a família inteira se reunia. Diferentemente dos tios e dos primos elegantes, bonitos e ricos, ele fazia parte do lado rude, feio e pobre do clã. Impossível não sentir inveja dos parentes mais afortunados. Apesar da inveja que sentia pelos Goldman-de-Baltimore, Marcus adorava as estadas na mansão dos tios. Lá, ele podia fazer o que mais gostava: admirar a imponência natural de Saul, suspirar pela beleza de Anita e, principalmente, integrar a Gangue dos Goldman. A rotina ao lado dos primos só melhorou, em meados da década de 1990, quando eles fizeram amizade com Scott Neville. O menino tinha fibrose cística e vivia em uma cadeira de rodas. As limitações físicas do novo amigo não o impediram de ser aceito na Gangue dos Goldman. O mais incrível da história é que Scott tinha uma irmã dois anos mais velha: Alexandra. Ao conhecê-la, os jovens Goldman se apaixonaram. Tanto Marcus quanto Woody e Hillel morriam de amores pela irmã de Scott e não escondiam um do outro esse sentimento. Não por acaso, ela foi aceita de forma unanime na Gangue dos Goldman. Porém, o grande enigma que intriga o leitor de “O Livro dos Baltimore” é: o que aconteceu na véspera do Dia de Ação de Graça de 2004? As únicas coisas que sabemos são que o Drama, como Marcus Goldman intitulou o trágico episódio de sua juventude, ocorreu na mansão dos Goldman-de-Baltimore e foi capaz de separar o jovem casal de namorados (sim, Marcus e Alexandra engataram um namoro escondido dos primos dele) por tanto tempo. O que Alexandra fez de tão grave para o escritor virar as costas para ela e não querer nunca mais vê-la? Como diria o bordão de Dona Milu, personagem célebre da telenovela “Tieta”: “Misteeeeeeeeeério”. “O Livro dos Baltimore” possui 416 páginas. Apesar de ser um romance caudaloso, ele é o segundo menor de Joël Dicker em extensão de páginas. Somente “Os Últimos Dias dos Nossos Pais”, a narrativa longa de estreia do suíço, é mais enxuto – tem 304 páginas. Os demais romances do autor têm mais de 500 páginas cada um. “O Livro dos Baltimore” está dividido em cinco partes (“Livro da Juventude Perdida”, “Livro da Fraternidade Perdida”, “Livro dos Goldman”, “Livro do Drama” e “Livro da Redenção”), além de trazer o Prólogo e o Epílogo. Levei aproximadamente nove horas para percorrer seu conteúdo na semana passada. Precisei de duas tardes/noites para isso. Praticamente li metade da obra na quarta-feira e a outra metade na quinta-feira. O primeiro aspecto que preciso citar sobre “O Livro dos Baltimore” é que ele tem um enredo totalmente independente de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”. Apesar de ser um prolongamento do universo ficcional do romance anterior de Dicker, essa obra não exige a leitura prévia do título precedente. Portanto, se você ainda não leu nada de Joël Dicker, não se preocupe. Esse livro pode ser muito bem degustado isoladamente. Outra questão importante para salientar logo de cara, principalmente para os fãs de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, é que “O Livro dos Baltimore” não é propriamente um romance policial. Na minha visão, essa obra está mais para um thriller dramático, um mistério com doses generosas de intriga familiar e/ou um suspense psicológico. Talvez isso possa incomodar um pouquinho os devotos mais fervorosos das intrigas criminais convencionais, mesmo não faltando por aqui lances com muita ação, reviravoltas, segredos, suspense, e por que não, mortes e assassinatos. O fato nu e cru é que, queiramos ou não, “O Livro dos Baltimore” não é propriamente um romance policial (pelo menos não na maneira como a Teoria Literária o classifica). Algo que precisa ser elogiado nesse romance é a sua riqueza narrativa. Não por acaso, essa é uma das marcas autorais mais significativas de Dicker. Vemos tal característica também em “Os Últimos Dias dos Nossos Pais”, “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, “O Desaparecimento de Stephanie Mailer” e “O Enigma do Quarto 622”. E o que exatamente eu quero dizer com riqueza narrativa? Quero falar que acontecem muitas coisas nas tramas do autor. Em “O Livro dos Baltimore”, essa característica fica evidente logo nos primeiros capítulos. A sensação que temos é de assistir a mais de uma história simultaneamente. Nesse terceiro romance do autor, há muitas personagens, vários conflitos, diferentes espaços narrativos e distintos espaços temporais. E, de maneira sublime, todas as searas narrativas são bem amarradas em uma trama única. Impossível não ficar embasbacado com o talento do suíço em conseguir tecer tantas linhas para cada subtrama e, ao mesmo tempo, em amarrá-las. A impressão lendo “O Livro dos Baltimore” é que produzir literatura ficcional é uma tarefa fácil, natural e corriqueira (pelo menos para Joël Dicker). Parte do segredo da construção de um título com tanto conteúdo está na fragmentação (ou seria extensão!) temporal do(s) conflito(s). Apesar de recebermos as várias partes da narrativa em um texto único, a trama se passa em várias épocas. Em alguns capítulos, temos acontecimentos simultâneos de até três ou quatro períodos temporais diferentes. Basicamente, o romance caminha mais para trás (de 2012 para 1960) do que para frente (de outubro de 2012 a novembro de 2012). Aí vem a pergunta: a leitura de “O Livro dos Baltimore” é difícil, embolada ou hermética? Que nada! O texto é fluído e gostoso do começo ao fim. É até difícil largarmos suas páginas. Outra parte fundamental da excelência narrativa desse livro está na ótima construção das personagens. Como sabemos se as figuras ficcionais criadas por Dicker são interessantes ou não?! Eu costumo usar alguns critérios: (1) ver se elas são tipos redondos; (2) procurar elementos únicos em suas constituições físicas, comportamentais e/ou psicológicas; (3) notar se eu não confundo, no meio da leitura, as diferentes pessoas citadas; e (4) perceber o quanto cada indivíduo contribuiu para o desenvolvimento da trama. Por qualquer critério que você utilize, me parece sensato afirmar que as personagens de “O Livro dos Baltimore” são construções ficcionais excepcionais. Quase todas são do tipo redondo, possuem componentes marcantes, não permitem confusão por parte do leitor durante a leitura e marcam o enredo do romance de maneira significativa (ninguém é colocado no meio da história sem um propósito forte). Independentemente da época retratada e das personagens enfocadas, uma coisa permanece imutável ao longo dos capítulos, a temática da obra. O centro do romance – termo popularizado por Orhan Pamuk em “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras) – é a inveja e a rivalidade alimentadas pelos vários integrantes dos Goldman. Nesse sentido, “O Livro dos Baltimore” é uma espécie de versão masculina e norte-americana da Série Napolitana, tetralogia de Elena Ferrante. A relação contraditória de Elena Greco e Rafaella Cerullo (leia-se amor e ódio) pode ser vista nas relações gangorras (sobe-e-desce) de Marcus com Hillel/Woody, de Marcus com Kevin Legendre, Woody com Hillel, Nathan com Saul, Saul com Patrick Neville (o pai de Alexandra e Scott) e Woody com Luke (o marido de Collen). Por extensão, é legal reparar na dicotomia geográfica do “O Livro dos Baltimore”. A lista é vasta: Baltimore versus Montclair/Nova Jersey; Madison versus Massachusetts, Los Angeles versus Miami, Miami versus Nova York, Nova York versus Nova Jersey, Estados Unidos versus Inglaterra. A impressão é que as personagens estão sempre angustiadas por estar no lugar errado. Em outras palavras, a rivalidade das personagens é quase que uma incongruência espacial. Interessante olhar a narrativa por essa outra perspectiva. Como thriller dramático, “O Livro dos Baltimore” está impecável. Não preciso dizer que Joël Dicker consegue sustentar o clima de mistério do início ao fim. O interessante é notar como ele mantém o ar de suspense da obra. Diferentemente do convencional, o autor suíço não expõe claramente o conflito logo de cara (uma técnica recorrente desse tipo de romance). Não! O narrador-protagonista diz apenas que o Drama, episódio ocorrido na véspera do Dia de Ação de Graça de 2004, representou uma ruptura emblemática em sua vida. O que seria esse Drama? Não sabemos. Só entendemos o que Marcus Goldman está se referindo nas últimas 40 páginas do livro. Enquanto isso, somos envolvidos por uma trama que possui várias surpresas bombásticas. A primeira surge no meio do romance. A segunda aparece no segundo terço da narrativa. Daí para o final é uma bomba dramática por seção. Incrível! Como estratégia para a quebra pontual da tensão dramática, Dicker recorre ao humor. Há cenas realmente divertidas em “O Livro dos Baltimore”. De maneira sutil, espirituosa e inteligente, o texto nos faz sorrir (e em alguns momentos até a rir). As passagens mais hilárias estão concentradas nas tentativas de Marcus em reconquistar o coraçãozinho de Alexandra, na relação de amizade inusitada do autor com o vizinho meio enxerido da Flórida e nas epopeias tragicômicas de Hillel pelas várias escolas da região de Baltimore. Ainda nessa seara mais cômica, achei brilhante a brincadeira proposta pelo romance em expor as contradições e as particularidades do ofício da Escrita Criativa. Desde os primeiros parágrafos de “O Livro dos Baltimore”, já assistimos aos diálogos metalinguísticos do fazer literário. Não à toa, o protagonista desse título é um escritor. E para produzir sua narrativa, Marcus Goldman prefere correr atrás da história ao invés de ficar “brigando com o texto” dentro de casa (o inverso do método de trabalho de Leonard Horowitz, que também tentava produzir um romance). É ou não é uma dica preciosa para quem deseja lançar-se nessa carreira, hein? Por esse caráter metalinguístico, tive uma leitura diferente das partes derradeiras do romance – fique calmo(a), não vou dar o spoiler! No final do livro, o leitor pode ter a sensação de que o texto de Dicker possui uma pontinha de elementos sobrenaturais ou que coloca um pezinho no universo fantástico. Admito que não vi dessa maneira. Na minha ótica, a aparição de personagens que já morreram completa a discussão sobre o fazer literário (exposta no parágrafo anterior). Os familiares de Marcus Dicker saíram do mundo real e ingressaram no mundo ficcional. Daí suas aparições, conversas e interações com o autor. De negativo, posso apontar uma série de passagens inverossímeis do enredo de “O Livro dos Baltimore”. Muitas vezes, é difícil de engolir as cenas desenvolvidas por Joël Dicker. Não me parece crível, por exemplo, uma criança ser espancada diariamente por um colega dentro dos muros de um colégio, ainda mais em uma escola particular e grã-fina. Nenhum funcionário vê nada, nenhum professor sabe o que Hillel Goldman passa nas mãos de Vicent/Porco, hein? Impossível! A mesma lógica se aplica à entrega do texto do espetáculo cênico para o aluno faltoso. Não é muita coincidência que o principal inimigo de Vicent/Porco leve o material da atividade escolar na sua casa? E, para piorar, o garoto não tem condições intelectuais de compreender que as páginas recebidas possuem um conteúdo pejorativo? Minha impressão é que faltou tato, em alguns momentos, para Dicker no desenvolvimento de certas cenas. Ele parece acreditar que vamos aceitar qualquer coisa que ele nos diga. Também achei estranha a fragmentação do romance em cinco partes. Tive a impressão de que as diferentes seções dessa trama possuem mais unidade entre si do que fragmentação. Ou seja, as divisões não respeitam a delimitação temporal proposta pelo próprio autor. Nesse caso, seria mais coerente apresentar “O Livro dos Baltimore” em capítulos simples do que em capítulos seccionados em partes. A única explicação que encontrei para a divisão formal do romance foi indicar claramente para o leitor a apresentação das cenas bombásticas. Repare que cada parte do livro contém um episódio singular, de altíssima tensão dramática e com propriedade para alterar os acontecimentos da narrativa. Temos, portanto, pelo menos cinco clímaces. Quem gosta de uma boa reviravolta, na certa se fartará com essa leitura. Em suma, “O Livro dos Baltimore” é um livrão. Gostei muito de sua história e, principalmente, do estilo da literatura de Joël Dicker. Temos aqui um autor que sabe o que está fazendo e faz seu trabalho com enorme qualidade. Talvez, o principal efeito colateral dessa leitura seja a vontade de conhecer os demais títulos do suíço. Se você não tiver lido “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, na certa correrá até uma livraria assim que terminar “O Livro dos Baltimore”. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé – O romance clássico de Daniel Defoe
Publicado em 1719, o drama do náufrago solitário marcou a literatura ocidental por gerações e é hoje um título infantojuvenil imperdível. Na fase mais crítica da pandemia do novo coronavírus, não faltaram citações às obras literárias que dialogavam de alguma maneira com o que a humanidade estava vivenciando naquele momento tão conturbado. Por exemplo, para compreendermos a propagação acelerada do vírus da gripe, bastava ler “A Dança da Morte” (Suma das Letras), de Stephen King, “O Amor nos Tempos do Cólera” (Record), de Gabriel García Márquez, ou “A Morte em Veneza” (Companhia das Letras), de Thomas Mann. Para entendermos o caos social decorrente de períodos de incerteza e de desespero, as leituras sugeridas eram “A Peste” (Record), de Albert Camus, “O Ensaio sobre a Cegueira” (Companhia das Letras), de José Saramago, e “Caixa de Pássaros” (Intrínseca), de Josh Malerman. Por uma perspectiva mais nacional, o drama que estávamos passando no primeiro semestre de 2020 poderia ser comparado aos vivenciados ficcionalmente pelas personagens de “A Peste das Batatas” (Pomelo), de Paulo Sousa, “Não Verás País Nenhum” (Global), de Ignácio de Loyola Brandão, e “A Realidade de Madhu” (Novo Século), de Melissa Tobias. Se você quisesse olhar a situação de uma forma mais política e catastrófica, as pedidas eram “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” (e-book independente), do português Gonçalo J. Nunes Dias, e “Sob a Redoma” (Suma das Letras), do norte-americano Stephen King. Eram/são tantas as opções de comparação entre a realidade pandêmica e a ficção literária que fiz, no ano retrasado, uma lista com os 12 livros que deveriam ser lidos em tempos de Coronavírus. Esse texto está disponível para consulta dos leitores do Bonas Histórias na coluna Recomendações. E por que, então, estou falando sobre essa questão no post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária, hein? Porque um dos romances mais lembrados na hora de retratar a agonia das pessoas confinadas dentro das residências durante a quarentena da Covid-19 foi “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” (Principis), a aventura clássica de Daniel Defoe que é justamente o tema da nossa análise dessa semana. Para ser sincero, desde o começo da pandemia achei um exagero tremendo comparar a realidade de quem ficou fechado em casa no meio de uma metrópole em pleno século XXI ao drama da personagem que viveu por anos e anos sozinha em uma ilha isolada da América Central no século XVIII. Contudo, respeito quem fez essa associação. Agora que as coisas parecem mais calmas quando o assunto é pandemia do novo coronavírus (ao menos a perspectiva é de melhora; e a parte mais inteligente da população já está vacinada ou a caminho da imunização completa), resolvi ler outra vez a obra mais famosa de Daniel Defoe. Como minha última (e primeira) leitura desse título tinha sido na adolescência (coisa de duas décadas e meia atrás), achei interessante rever esse livro tão citado nos últimos anos por uma nova perspectiva. Daí a ideia de comentá-lo no Bonas Histórias. Minha meta dessa vez é entender se a rotina do náufrago solitário poderia mesmo ser transportada para a realidade que vivenciamos recentemente. Será? Publicado originalmente em folhetim, a partir de abril de 1719, no The Daily Post, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” se tornou um sucesso imediato na Inglaterra. A curiosidade do público do jornal se devia fundamentalmente à abertura da história. Logo nas primeiras linhas do fascículo inicial, Daniel Defoe afirmava que aquela era uma narrativa verídica e que estava sendo contada por um náufrago de carne e osso. Inclusive, o escritor inglês não assinou a obra. Ele preferiu colocar o próprio Robinson Crusoé como sendo o autor do romance. Não demorou muito tempo para os britânicos descobrirem a picardia. Curiosamente, essa foi apenas uma das várias polêmicas que Defoe se envolveu ao longo da carreira. Como já deve ter ficado mais ou menos claro até aqui, estamos falando de uma das figuras mais inusitadas e controversas da literatura inglesa da primeira metade do século XVIII. Quando a verdade sobre o teor ficcional do livro foi estabelecida, os leitores já estavam tão encantados com o enredo do rapaz que ficou perdido por duas décadas em uma ilha tropical que ninguém mais ligou para o engodo perpetrado por Daniel Defoe. Surgia, assim, uma das tramas mais marcantes da cultura ocidental e uma das histórias mais conhecidas da humanidade. Acredito piamente que seja impossível alguém minimamente letrado não ter sequer ouvido falar nesse romance. Você até pode não o ter lido, mas na certa já ouviu algo a respeito. Por isso mesmo, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” continua, aos olhos contemporâneos, sendo um dos dramas mais importantes da literatura universal. Por várias gerações, esse clássico de Daniel Defoe influenciou escritores e maravilhou leitores dos quatro cantos do planeta. Há quem diga que essa obra é uma das mais traduzidas e republicadas no mundo. Não duvido disso. “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” é também considerado o primeiro romance inglês, um marco das narrativas de aventura, a obra pioneira na ficção realista e uma referência incontestável nas tramas marítimas. Por falar em histórias de alto-mar tão típicas do século XIX, que incluíam disputas entre piratas, caça a animais gigantescos e busca por tesouros escondidos, o trabalho de Daniel Defoe serviu de base para uma série de publicações. Posso citar “Tales of Fancy: The Shipwreck” (sem edição no Brasil), livro de Sarah H. Burney de 1816, “O Pirata” (Ebal), obra de Sir Walter Scott” de 1822, “The Pilot: A Tale of the Sea” (sem publicação em português), título de James Fenimore Cooper de 1823, “A Ilha do Tesouro” (Principis), romance de R. L. Stevenson de 1881, e “Moby Dick” (Editora 34), clássico de Herman Melville. Repare que quase todas essas tramas são pelo menos um século mais novas do que “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”. Se pegarmos as ficções literárias de aventura mais recentes, encontraremos o DNA da literatura de Defoe em alguns sucessos. Ninguém me tira da cabeça, por exemplo, que “Perdido em Marte” (Arqueiro), best-seller de Andy Weir, é uma releitura contemporânea e espacial da saga de Crusoé. Como sabemos atualmente, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” não é um texto autobiográfico, mas sim uma trama ficcional. Porém, Daniel Defoe teria se inspirado em relatos verídicos do escocês Alexander Selkirk, um corsário e, mais tarde, oficial da Marinha Britânica que vivenciou o drama de ficar sozinho em uma ilha. No início do século XVIII, ele passou quatro anos em um território desabitado no Oceano Pacífico, região hoje pertencente ao Chile. Diferentemente de Crusoé, Alexander Selkirk foi deixado na ilha por vontade própria. O rapaz estava receoso de continuar a viagem em um navio pirata tão precário. Temendo uma tragédia em alto-mar, ele pediu para não seguir viagem após a embarcação capitaneada por Thomas Stradling reabastecer em um arquipélago desabitado da América do Sul. Sua solicitação foi prontamente atendida pelo capitão. E a escolha de Selkirk se mostrou acertadíssima. A embarcação de Thomas Stradling afundou pouco depois de retomar a viagem. Uma tempestade na costa colombiana foi a responsável pela tragédia. Depois de quatro anos e quatro meses vivendo sem nenhum contato humano, Alexander Selkirk foi resgatado da ilha por um navio comercial inglês comandado por Woodes Rogers. Ao regressar para o Reino Unido, em 1709, Selkirk concedeu entrevistas para os jornais na qual relatou sua experiência de sobrevivência. Rapidamente, ele se tornou uma figura popular na capital do reino. Mais tarde, em 1712, Woodes Rogers publicou “A Cruising Voyage Round The World” (sem edição em português). Nesse livro, o capitão contou suas histórias marítimas e dedicou uma parte para a aventura do rapaz resgatado no arquipélago da América do Sul. Não é preciso dizer que Daniel Defoe leu as entrevistas de Alexander Selkirk nos jornais e a obra de Rogers. Se o navegante escocês era muito famoso em sua época, hoje ele é mais conhecido por causa de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”. A história de Alexander Selkirk está tão atrelada ao livro de Defoe que, em 1966, a ilha em que o corsário escocês viveu no arquipélago de Juan Fernández foi rebatizada pelo governo chileno de Ilha Robinson Crusoe – não confundir, por favor, com uma ilha homônima localizada em Fuji. Anteriormente, a ilha, a maior do arquipélago e até hoje deserta, se chamou Santa Cecilia (na época de sua descoberta, em 1574) e Más a Tierra (depois do século XVII). Ou seja, se a ficção foi influenciada de certa maneira pela realidade, a realidade também acabou fortemente inspirada pela literatura ficcional. Incrível!!! “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” é disparado o livro mais famoso de Daniel Defoe. Já no final de 1719, o romance já tinha ganhado quatro edições no Reino Unido (além daquela publicada em folhetim no The Daily Post). Sua versão original contava com duas partes: “The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe of York, Mariner” e “The Farther Adventures of Robinson Crusoe”. Invariavelmente, as editoras contemporâneas preferem lançar apenas a primeira seção da trama (o trecho mais interessante e rico da narrativa). Não por acaso, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” é justamente a parte inicial da obra. Com a repercussão extremamente positiva desse título, o escritor inglês continuou a saga de seu mais conhecido protagonista. Já em 1720, Daniel Defoe lançou “Serious Reflections During the Life and Surprising Adventures of Robinson Crusoe” (sem edição no Brasil). A nova publicação trazia mais ações da personagem que mexe até hoje com o imaginário popular. Entretanto, esse novo livro não repetiu o sucesso do primeiro volume da série nem ganhou tantas traduções mundo à fora. Do ponto de vista comercial, podemos dizer que “Serious Reflections During the Life and Surprising Adventures of Robinson Crusoe” é um título pouquíssimo conhecido do portfólio literário de Defoe. Arrisco a dizer que “Um Diário do Ano da Peste” (Artes e Ofícios), “Os Segredos de Lady Roxana” (Ediouro), “A Vida Amorosa de Moll Flanders” (Clássica Editora) e “Capitão Singleton” (Global) são obras mais conhecidas do público nacional do que a segunda e última parte das aventuras de Robinson Crusoé. Daniel Defoe nasceu em Londres, em 1660. Depois de iniciar a carreira como comerciante, passou a produzir textos literários e jornalísticos. Até o sucesso da narrativa de Robinson Crusoé, Defoe era mais conhecido entre seus compatriotas pelos panfletos políticos e pelos ensaios moralistas. Exatamente pelo teor controverso de suas palavras, ele envolveu-se em algumas polêmicas ao longo dos anos. Daniel Defoe também é lembrado por ter fundado o jornal The Review. O que chama mais atenção em “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” é a pegada moderna de sua narrativa. Escrito em primeira pessoa em tom confessional (quando o normal da época era o texto em terceira pessoa), o livro é quase um romance epistolar, possui lição de moral explícita, exibe um intrincado conflito psicológico e apresenta partes que emulam os diários. Além disso, há muita ação, mesmo com apenas uma personagem em boa parte das cenas. Pela perspectiva contemporânea da crítica literária, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” é um típico romance de formação (termo inexistente na época, mas que cai como uma luva para que os leitores modernos compreendam o conteúdo dessa obra de Defoe). Em outras palavras, estamos diante de um título que pode ser visto até hoje, três séculos depois de sua publicação, como uma narrativa bastante atual. É verdade que, nos últimos cinquenta anos, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” passou por um processo comum a boa parte das obras clássicas – ele se tornou um texto mais dirigido para o público jovem do que para o público adulto. Sinceramente, não sei explicar o motivo de tantos livros canônicos adquirirem esse verniz infantojuvenil (quando foram lançados, eles eram evidentemente direcionados aos leitores mais velhos e não aos leitores mais jovens). O que sei dizer é que vários exemplares da literatura brasileira e da literatura internacional passaram/passam por esse fenômeno. Nesse caso, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” está lado a lado com “Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), obra-prima do brasileiro José Mauro de Vasconcelos, “Anne de Green Gables” (Lafonte), romance da canadense Lucy Maud Montgomery que deu origem a uma longa série literária, “A Ilha do Tesouro” (Principis), clássico de aventura do escocês R. L. Stevenson, todos os contos dos (alemães) irmãos Grimm, “O Pequeno Príncipe” (Agir), fábula do francês Antoine de Saint-Exupéry, “As Aventuras de Tom Sawyer” (Ática), clássico do norte-americano Mark Twain, e “Mogli – O Menino Lobo” (WMF Martins Fontes), um dos textos mais conhecidos do indo-britânico Rudyard Kipling. Repare que tive o cuidado de trazer exemplares de vários países – o que mostra o quão universal é essa dinâmica de muitos clássicos se tornarem, após algum tempo, obras infantojuvenis. Curiosamente, no Brasil, a principal obra de Daniel Defoe ganhou vários nomes e subtítulos, além de incontáveis adaptações. Podemos encontrar esse livro como “Robinson Crusoé” (Penguin Companhia), “As Aventuras de Robinson Crusoé” (Paulus), “Robinson Crusoé” (Ebu), “Robinson Crusoé – Edição Comentada e Ilustrada” (Clássicos Zahar), “Robinson Crusoé” (Autêntica) etc. Opções não faltam. Em versão ilustrada (mais amigável para os públicos infantil e infantojuvenil), temos uma variedade ainda maior de publicações: “Robinson Crusoé – A Aventura de Um Náufrago numa Ilha Deserta” (Companhia das Letrinhas) com ilustração de Julek Heller; “Robinson Crusoé” (Salamandra) com ilustração de Christopher Gaultier; e “Robinson Crusoé – A Conquista do Mundo numa Ilha” (Scipione) com ilustração de Werner Zotz. Isso sem contar as obras independentes de outros autores que foram inspiradas diretamente em “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”. De cabeça, posso citar “Robinson” (Companhia das Letrinhas), de Peter Sís, e “Robinson Crusoé e Seus Amigos” (Editora 34), a recente coleção poética de Leonardo Gandolfi. Para essa releitura do clássico de Defoe, escolhi a edição da Principis, selo da Editora Ciranda Cultural. Minha decisão por essa publicação se baseou em três fatores: (1) tipo de tradução, (2) projeto gráfico e (3) proposta editorial. A versão para o português de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” foi feita por Silvio Antunha, um dos mais experientes profissionais do mercado editorial brasileiro. Fazendo traduções do inglês, espanhol, francês e italiano há mais de 25 anos, Antunha já participou de mais de três centenas de lançamentos. E como sei da excelência de seu trabalho nesse livro?! Ora, ele foi um dos poucos tradutores que teve a preocupação de se aproximar do nome original do romance: “The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe of York, Mariner”. Deixar apenas “Robinson Crusoé” no título, como feito por muitos tradutores e editoras ao longo do tempo, me parece errado quando o enfoque é a parte inicial da trama e não o conjunto das duas partes iniciais da obra (“The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe of York, Mariner” e “The Farther Adventures of Robinson Crusoe”). Muitos livros chamados de “Robinson Crusoé” correspondem apenas a seção de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”. Além da ótima tradução de Silvio Antunha, temos aqui um projeto gráfico honesto (capa bonita e miolo interessante – pequenos elementos gráficos na abertura dos capítulos e, em alguns momentos, transformação do texto em brincadeiras narrativas) e uma proposta editorial que valoriza o bolso dos leitores. Para quem não sabe, a Principis pratica uma política de preço popular, algo raro no mercado editorial brasileiro. Se eu não estiver enganado, acho que paguei exatamente R$ 10,00 nesse livro em janeiro de 2020. Adquire “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” em uma rede de livrarias de desconto, dessas que encontramos em vários shoppings da cidade de São Paulo. Sim, comprei o romance de Daniel Defoe pouco antes da pandemia. Será que estava imaginando o que vivenciaríamos logo depois?! Que medo de pensar nisso, meu Deus!!! O enredo de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” começa com o narrador-protagonista se apresentando ao leitor. Filho de um comerciante estrangeiro que enriqueceu no Reino Unido e de uma inglesa de boa família, Robinson Kreutznaer nasceu em York, em 1632. Por causa do sobrenome gringo de difícil pronúncia, seus parentes sempre se apresentaram como Crusoé, adaptação mais fácil de dizer do sobrenome. Caçula de três irmãos, Robinson Crusoé teve excelente educação. O pai desejava que ele se tornasse advogado e assumisse o controle dos negócios do clã, já que os irmãos não aceitaram tal incumbência. Todavia, o rapaz, aos 18 anos, queria uma vida mais aventureira. Seu sonho era viajar pelos mares do planeta e conhecer terras distantes. Esse choque de visões provocou algumas discussões em casa. O pai não queria que o filho se lançasse por esse mundão, alertando-o dos perigos e das desgraças que os viajantes estavam suscetíveis. Por sua vez, o filho não queria a rotina imposta pelo pai, de um trabalho burocrático apesar de rentável. Aos 19 anos, Robinson fugiu de casa. Em setembro de 1651, ele embarcou em um navio de Hull para Londres. Na capital inglesa, ele iria ver para onde iria. Desde o começo da aventura, o jovem ficou com a sensação de estar desagradando a Deus e ao pai. Afinal, sua escapada do lar era uma punhalada na família que não se cansara de alertá-lo para os riscos da vida inconsequente que ele tanto ansiava. Essa impressão de que Robinson Crusoé estaria pecando aumentou na primeira noite de viagem. Uma forte tempestade quase derrubou a embarcação. Alguns dias depois, a desgraça se concretizou. Em uma tempestade ainda maior, o navio naufragou em Yarmouth Roads. O mal só não foi maior porque o itinerário era perto da costa e os tripulantes se salvaram com a ajuda dos moradores locais. Já em terra, o protagonista contou sua história para o capitão da embarcação que acabara de afundar. Ao ouvir sobre as brigas de pai e filho e as ameaças feitas pelo Sr. Crusoé, o comandante foi categórico: Robinson deveria retornar imediatamente para sua casa em York e nunca mais colocar os pés em um navio. Se ele naufragara na primeira viagem, não havia melhor indicativo de que seu destino não estava no mar, conforme alertado várias vezes pelo zeloso pai. Sem dar ouvidos ao que o experiente capitão dizia, Robinson Crusoé seguiu para Londres por via terrestre e lá se alistou em um navio que iria para Guiné. Na nova jornada, maior e mais perigosa, não ocorreram acidentes. Acredite se quiser – a embarcação foi à África e retornou para Londres sem nenhum problema. Empolgado com o fim da maldição que parecia persegui-lo, Robinson Crusoé decidiu repetir a viagem para Guiné. Contudo, nessa segunda jornada do jovem aventureiro as coisas não saíram conforme o planejado. Ainda nas Canárias, o navio foi atacado por corsários turcos. Capturado pelos piratas, que mataram quase toda a tripulação, Robinson virou escravo do capitão inimigo. Assim, ele viveu por dois anos em Sallé, a localidade no litoral marroquino habitada pelos corsários. A escravidão só terminou quando o protagonista conseguiu roubar um barco e fugir para o alto-mar. À deriva no oceano, o rapaz foi resgatado por um capitão português que rumava para o Brasil. Ao chegar à colônia portuguesa na América do Sul, Robinson Crusoé fixou residência ali. Na Bahia, ele comprou terras e passou a plantar cana de açúcar e tabaco. A vida como fazendeiro durou aproximadamente quatro anos. Nesse período, ele conseguiu prosperar e se integrar razoavelmente bem à sociedade colonial brasileira. Entretanto, a vontade de vivenciar novas aventuras marítimas não cessava dentro dele. Aproveitando-se que os latifundiários locais precisavam de grande quantidade de escravos, Robinson aceitou embarcar mais uma vez rumo a Guiné. A nova viagem buscaria negros para serem usados como mão de obra nas fazendas brasileiras. Exatamente oito anos depois da saída de York, em setembro de 1959, Robinson Crusoé, agora com 27 anos, ganhava mais uma vez os mares. Após algumas semanas no Oceano Atlântico, a embarcação proveniente do Brasil sofreu, adivinhe, com fortes intempéries climáticas. Ao invés de levar o navio em direção à África, os fortes ventos jogaram a embarcação para a costa caribenha. A situação se agravou ainda mais em uma noite calamitosa. Uma tempestade raramente vista se formou na América Central. Vendo que o navio estava prestes a se desintegrar e afundar, a tripulação atirou-se desesperadamente ao mar. Resumo da ópera: Robinson Crusoé conseguiu nadar até uma ilha e foi o único sobrevivente do naufrágio. Todos os seus colegas morreram afogados. Se por um lado a personagem central do romance estava feliz de estar viva, por outro lado o rapaz estava angustiado por se ver sozinho em uma localidade tropical e desabitada do Caribe. O que fazer nessa situação, hein?! Sem tempo para lamentações, Robinson começou a construir uma casa assim que o clima melhorou – depois da tempestade, você sabe o que vem, né? Para tal, o jovem inglês usou os destroços e os materiais (alimentos, ferramentas, roupas, armas, pólvora, sementes, animais, mobílias e bagagens dos demais tripulantes) retirados mais tarde do navio, que acabara não afundando de imediato e ficara mais ou menos próximo do litoral. Dessa maneira, ele tinha uma farta quantidade e uma boa variedade de recursos para as primeiras semanas na ilha. Iniciava, assim, a jornada emocionante de vários e vários e vários e vários e vários e vários e vários e vários e vários anos do mais famoso náufrago da literatura universal. Sozinho em um pedaço de terra esquecido por Deus e não frequentado pelos demais homens, o bravo Robinson transformou aquela ilha em seu reino, com certo conforto, muita fartura e bastante segurança. O que mais poderíamos desejar nessa situação, né? Com 320 páginas, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” é um romance de tamanho mediano. Ele possui vinte capítulos e demanda entre dez e onze horas de leitura. Pelo menos foi esse o tempo que a obra de Defoe me consumiu no final de semana passado. Naturalmente, os leitores infantojuvenis podem precisar de mais tempo. Para quem tem grande fôlego literário, é possível percorrer integralmente o conteúdo dessa publicação em um único dia. Porém, acredito que seja mais indicado fracionar a leitura em dois ou três dias. No meu caso, usei as tardes e as noites do último sábado e domingo para isso. Praticamente li metade do livro em um dia e a outra metade no outro dia. Os dois aspectos que mais chamaram minha atenção nessa releitura do clássico de Daniel Defoe foram o ritmo narrativo impecável do romance e o conflito de natureza psicológica que tanto atormentou o protagonista. Em relação ao primeiro elemento narrativo, admito que fiquei encantado com o dinamismo da história de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”. Da primeira à última página, temos muita ação. Nem mesmo quando o náufrago fica sozinho na ilha perdida do Oceano Atlântico, temos cenas banais ou relatos monótonos. Assistir às peripécias do jovem aventureiro para sobreviver na ilha e, principalmente, para estabelecer ali uma vida mais ou menos parecida a que ele tinha na Inglaterra é saborosíssima. Diferentemente do que o leitor mais pragmático poderia pensar, tudo acontece de maneira ágil e emocionante nessa obra-prima da literatura inglesa. Parte do segredo dessa agilidade narrativa está na sucessão de conflitos propostos por Defoe. Os obstáculos que Robinson Crusoé enfrenta são variados e parecem mudar de um capítulo para outro: oposição da família, maldição que ele acredita ter origem divina, tempestades em alto-mar, violência dos piratas, escravidão ao ser capturado por corsários turcos, semanas à deriva no oceano, perigo de sofrer ataques de criaturas selvagens e desconhecidas, riscos de empreender na colônia, terremotos na ilha deserta, doenças tropicais (malária, por exemplo), desafio de construir uma civilização sozinho e sem tantos recursos etc. Se você é escritor(a) e quer ter uma excelente aula de como desenvolver um texto ficcional ágil, dinâmico e sedutor, leia esse livro. Dificilmente você encontrará uma aula melhor do que a ministrada pelas páginas de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” na maioria das prateleiras das bibliotecas e livrarias. Quando o assunto é conflito psicológico, confesso que não tinha me atentado para esse aspecto na minha primeira leitura (pelo menos eu não me lembrava dessa particularidade). Robinson Crusoé é uma pessoa atormentada, muuuuito atormentada. Ele decide se lançar aos mares em oposição aos pedidos insistentes do pai que o quer por perto e trabalhando nos negócios da família. Por isso mesmo, o mais célebre protagonista da literatura de Daniel Defoe carrega uma forte culpa dentro de si. Essa sensação de estar apunhalando o pai e os parentes cresce quando Robinson nota a quantidade absurda de eventos trágicos que vivencia. Por que ele estaria passando por tanto sofrimento?! Logo a explicação aparece em sua mente: Deus está punindo-o por seus pecados. Segundo suas palavras, o Todo Poderoso estaria penalizando-o por “desafiar a Providência”. Lembro que a primeira vez que li “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” não gostei desse teor religioso das confidências do narrador-personagem. Como um bom ateu que sempre fui, me pareceu bem piegas essa menção insistente aos desígnios divinos. Entretanto, após essa releitura da obra de Daniel Defoe, entendi perfeitamente a opção do escritor inglês por insistir na tensão psicológica de Robinson Crusoé com o Todo Poderoso. Parte do charme da trama está na dicotomia Deus ajuda versus Deus atrapalha. Repare nisso. Há passagens em que o protagonista acredita estar sendo punido pelos Céus. Em outras, ele acha que está sendo agraciado pelas Forças Superiores. Curiosamente, um mesmo episódio pode ser encarado das duas formas. Deus enviou uma tempestade que afundou o navio. Deus salvou-o da tempestade que destruiu a embarcação e matou os demais tripulantes. Deus o isolou em uma ilha deserta. E Deus o ajudou a construir uma vida digna, próspera e satisfatória longe da civilização. Se pensarmos bem, esse é o velho jogo retórico que todas as religiões monoteístas aplicam para convencer seus fiéis da clemência divina. De qualquer maneira, achei interessante esse conflito psicológico. A relação contraditória com Deus é um dos charmes dessa narrativa. À medida que as coisas parecem piorar para Robinson Crusoé, ele se apega mais e mais à religião. Não demora para o rapaz começar a ler a Bíblia e agradecer aos Céus a cada Providência. Sua devoção religiosa fica explícita na citação a passagens bíblicas: Jonas e o navio de Társis; Salomão e o Templo de Jerusalém; Elias e os corvos etc. Vale a pena dizer que quando “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” foi publicado, não tínhamos dramas psicológicos tão intensos e frequentes na literatura ficcional nem a menção tão explícita aos desígnios cristãos. Essas são justamente duas das novidades trazidas por Defoe. Além do debate religioso (Deus atrapalha ou ajuda?!), esse romance reserva boas reflexões existencialistas. Uso esse termo mesmo sabendo que quando Daniel Defoe escreveu a história de Robinson Crusoé não tínhamos tal corrente filosófica. Os melhores questionamentos propostos nesse livro são: o quão entediante pode ser o dia a dia de quem está na “posição de vida intermediária”?; vale a pena largar a segurança da rotina burguesa para se lançar em aventuras imprevisíveis?; o que faz efetivamente uma pessoa ser considerada rica e poderosa?; é possível ser feliz longe do progresso e da civilização?; e o que move as pessoas independentemente do cenário externo e da influência social? Além de algumas divagações existencialistas de bom nível, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” tem forte conteúdo moral. Confesso que não costumo gostar desse tipo de abordagem, mas aqui essa característica até que caiu bem. Pelo menos ela é pertinente ao contexto geral da narrativa e ao drama psicológico do protagonista. Por ter desagradado ao pai assim que entrou na maioridade, Robinson Crusoé vive com dor na consciência. Não à toa, o rapaz vê cada fato trágico de sua trajetória como uma consequência das decisões erradas que tomou lá atrás. Por uma perspectiva social, Robinson seria a versão inglesa e do século XVIII dos protagonistas de Jack Kerouac. A vontade que a personagem de Daniel Defoe tem de desagradar a família e ganhar a estrada (no caso, adentrar o mar!) é muito similar à disposição que Sal Paradise, de “On The Road” (L&PM Editores), Leo Percepied, de “Os Subterrâneos” (L&PM Editores), Ray Smith, de “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Editores), e Jack Duluoz, de "Big Sur" (L&PM Editores) tinham de polemizar. Em termos práticos, Robinson Crusoé pode ser visto como um simples arruaceiro, por mais que suas condutas posteriores provem que ele conseguiu “se regenerar” (algo que nenhuma personagem central de Jack Kerouac sequer almejou). Uma vez na ilha deserta, Robinson Crusoé pode ser visto, por uma perspectiva literário-filosófica, como o homem civilizado que precisou regredir ao patamar do mito do bom selvagem, conceito criado mais tarde por Jean-Jacques Rousseau. A narração de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” foi construída em primeira pessoa e foi estabelecida em um período posterior aos acontecimentos relatados. Ou seja, temos aqui certo tom de memória. A impressão é de estarmos assistindo às confidências do protagonista. Se hoje em dia esse expediente é o padrão literário em voga, quando Defoe usou essa técnica ela não era tão usada, apesar de já ter sido aplicada na Antiguidade Clássica – lembremos das epopeias gregas. Essa característica dá um jeitão de texto moderno ao livro do romancista inglês. Outra questão que adorei foi a forte verossimilhança da narrativa. Não há passagem do romance em que o leitor mais exigente pense: opa, isso é impossível, o autor viajou na maionese nessa parte. Não! O relato do náufrago é bem pertinente. Até mesmo quando Robinson Crusoé constrói (cuidado, aí vai um pequeno spoiler!) sozinho uma pequena cidade na ilha deserta, as explicações são plausíveis. Nota-se o cuidado de Daniel Defoe em pontuar a evolução da vida da personagem na América Central. Ao invés de ser monótono ou enfadonho, esses trechos de como o rapaz solitário se vira na ilha são muito interessantes. É verdade que em alguns momentos o náufrago dá uma de MacGyver – com uma lasca de madeira e um fiapo de tecido, ele cria uma nave espacial e sobrevoa metade do espaço sideral. Mesmo assim, não podemos dizer que há erros narrativos. Um exagero aqui e outro acolá são aceitáveis. O que seria da ficção literária sem um ou outro exagerinho, né? Para os leitores brasileiros, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” tem outro grande atrativo. Podemos acompanhar parte dessa trama clássica de Daniel Defoe se desenrolando em nosso país. E nota-se que o escritor inglês foi bem realista ao descrever o Brasil Colonial. Além disso, a passagem pelas terras baianas foi fundamental para a consistência narrativa do romance. Os dois anos em que Robinson Crusoé viveu como fazendeiro de cana de açúcar e tabaco ajudaram-no a amadurecer. Sem a rotina de mão na terra no Brasil, talvez ele não teria tanta desenvoltura quando precisasse se virar sozinho na ilha caribenha. Os únicos aspectos negativos desse livro são a visão colonial europeia (algo comum entre os séculos XIV e XIX) e os vários preconceitos contidos nas entrelinhas da trama (outra coisa típica do período da produção dessa história). Para os olhos dos leitores contemporâneos, causa certo arrepio (para não dizer perplexidade!) a postura predatória e arrogante do europeu que viaja o mundo se apropriando de tudo e de todos. Aonde Robinson Crusoé chega, ele se coloca na posição de dono das riquezas materiais e humanas do lugar. Não por acaso, ele se intitula o rei da ilha descoberta. Pelo seu ponto de vista, as pessoas que não são brancas e europeias são selvagens. Por isso, é aceitável escravizá-las. Todas as sociedades e culturas fora do Velho Continente são primitivas e precisam ser domesticadas a qualquer custo. Os preconceitos não param por aí. Os negros são vistos como mera mão de obra para as fazendas brasileiras (o protagonista de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” chegou a se integrar ao tráfico negreiro que operou no Oceano Atlântico no período colonial brasileiro). Por sua vez, os indígenas sul-americanos e as tribos africanas são descritos como canibais e figuras pouco confiáveis. Não é preciso dizer com todas as letras que nosso personagem principal é racista, né? Por falar em preconceitos, causa certo desconforto a ausência de personagens femininas nessa narrativa. A única que aparece (e bem pontualmente) é a mãe de Robinson Crusoé (no comecinho do livro, ela surge para apoiar sem pestanejar as decisões do marido). Onde estão as mulheres, Santo Deus?! Saiba que será difícil achá-las nessa trama, meu(minha) caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias. Antes que alguém queira queimar o clássico de Daniel Defoe em praça pública ou pense em bloqueá-lo para todo o sempre, peço calma. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Isso, isso mesmo. Muito bem! Continue respirando pausadamente. Lembre-se que esse é um texto de pouco mais de 300 anos. Acho perfeitamente normal ele conter a ideologia e as crenças da sociedade europeia daquela época. Estranho seria se alguém, hoje em dia, continuasse pensando dessa maneira, né? Essa visão colonial, predatória, racista e machista é totalmente condizente com o período de produção de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”. Não é possível apagarmos a história. E, nesse sentido, é legal assistirmos ao tipo de mentalidade que a sociedade que se dizia o farol da humanidade tinha lá atrás. Parte do processo evolutivo passa pela compreensão dos acertos e, também, dos erros ao longo do tempo. Por tudo isso, gostei muito dessa leitura. Acho que a aproveitei mais agora do que da primeira vez. E quanto a questão que norteou essa minha nova experiência de leitura de “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé”, hein? Afinal, é possível compararmos a rotina do náufrago solitário na ilha tropical com a realidade vivenciada na quarentena da Covid-19?! De tão despropositada que é essa pergunta, me recuso a respondê-la de forma objetiva. Leia você mesmo(a) o livro de Daniel Defoe e associe o que Robinson Crusoé passou e fez nas duas décadas na ilha caribenha com o que você passou e fez na reclusão da pandemia. Acho que não há comparação. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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