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- Livros: Já Disse que Te Amo? - O primeiro romance da série de Estelle Maskame
Publicada em 2015, essa obra infantojuvenil se tornou um best-seller no Reino Unido e foi transformada em série literária. Nesse final de semana, li “Já Disse que Te Amo?” (Arqueiro), o romance best-seller de Estelle Maskame. Esse é o último título que vamos analisar na coluna Livros – Crítica Literária em 2021. Para quem tem curiosidade sobre o Bonas Histórias, informo que foram comentadas 53 obras ficcionais e poéticas no último ano. A média do blog é de pouco mais de quatro avaliações por mês. E para encerrarmos os trabalhos literários dessa temporada, optei por debater hoje um livro voltado para o público adolescente. Quem disse que o Bonas Histórias e a coluna Livros – Crítica Literária não variam o cardápio, hein? Para quem pensa que só discutimos títulos clássicos ou de autores contemporâneos já consolidados, saiba que abrimos espaço sim para as revelações literárias e para as jovens promessas da escrita ficcional do nosso país e do exterior. Esse post é um bom exemplo disso! Com apenas 24 anos, Estelle Maskame é atualmente um dos bons nomes da literatura infantojuvenil em língua inglesa. Nascida no interior da Escócia, ela começou a produzir ficção com (pasmem!) 13 anos. “Já Disse que Te Amo?” foi escrito quando a autora tinha entre 13 e 16 anos. O lançamento desse livro ocorreu quando Maskame tinha acabado de completar 18 anos. Tanta precocidade poderia indicar um texto vacilante, uma narrativa capenga ou mesmo uma história simplória. Porém, não é isso o que encontramos aqui. Esse romance apresenta um ótimo retrato da adolescência contemporânea e, principalmente, o trabalho de uma escritora realmente talentosa, com total domínio das técnicas ficcionais. Juro que fiquei imaginando: se Estelle Maskame escreveu dessa maneira quando era menor de idade, aonde ela chegará quando virar uma artista mais rodada e experiente, hein?! Sem dúvida nenhuma, estamos diante de uma das belas revelações da literatura internacional. “Já Disse que Te Amo?” se tornou um grande sucesso no Reino Unido ao ponto de ter dado origem a uma badalada série literária. Com uma legião de fãs na plataforma Wattpad, onde possui milhões e milhões de acessos, Estelle Maskame é uma escritora extremamente popular entre os jovens leitores britânicos. Não por acaso, ela recebeu o convite de editoras tradicionais para levar seus textos das versões online para as versões físicas. A primeira a apostar em seu talento foi a escocesa Black & White Publishing Company. Nos últimos anos, os títulos de Maskame foram lançados em mais de 20 países com bastante êxito. Na França, por exemplo, suas vendas já chegaram à casa dos seis dígitos. Nos Estados Unidos, a jovem escocesa também tem angariado um público cada vez mais numeroso e fiel. Publicado originalmente em abril de 2015, “Já Disse que Te Amo?” integra a trilogia “D.I.M.I.L.Y” (iniciais do título original do livro – “Did I Mention I Love You?”). Por aqui, a coleção é chamada simplesmente de “Já Disse que Te Amo?” (afinal, ficaria estranho nomeá-la como “J.D.Q.T.A”, né?). Os volumes 2 e 3 da série “Já Disse que Te Amo?” são, respectivamente, “Já Disse que Preciso de Você?” (Arqueiro), de 2016, “Já Te Disse que Me Fazes Falta?” (Editorial Presença), de 2017. Como é possível notar pelos nomes das editoras responsáveis por cada publicação, a Arqueiro só lançou no Brasil, por enquanto, os dois primeiros volumes da coleção. Para os leitores mais ansiosos que desejam ler a terceira parte da saga “D.I.M.I.L.Y”/“Já Disse que Te Amo?” em nosso idioma, a alternativa é importar a versão lusitana (algo que não sai barato!). A Editorial Presença é uma tradicional editora portuguesa e, nesse caso, se mostrou mais rápida no gatilho do que a nossa Arqueiro. Além do sucesso comercial precoce, Estelle Maskame já ostenta algumas importantes premiações literárias no currículo. Ela conquistou, em 2016, o Young Scot of the Year Award (Escócia) justamente pelo romance “Já Disse que Te Amo?”. E foi indicada em duas categorias pela Romantic Novelist´Association (Reino Unido). Com pouco mais de duas décadas de vida, Maskame tem em seu portfólio nove romances – cinco da série “D.I.M.I.L.Y”, duas tramas independentes e dois títulos da série “Mila”. Desde 2015, ela publica um título por ano. Trata-se de uma marca invejável até mesmo para os escritores mais experientes (o que dirá para uma jovem no ofício, né?). Antes que alguém me acuse de inconsistência por chamar às vezes a série “D.I.M.I.L.Y”/“Já Disse que Te Amo?” de trilogia (o que não é correto) e às vezes dizer que ela tem cinco livros (isso sim está certo!), preciso explicar o que aconteceu. Em 2018, Estelle Maskame lançou “Não Fales Nisso” (Editorial Presença), a quarta parte da saga da jovem Eden Munro e de Tyler Bruce, dois irmãos postiços (se tornaram irmãos com o casamento posterior dos pais) abalados pelas fortes e contraditórias emoções da adolescência. Quando esse livro foi lançado, portanto, a trilogia se transformou em tetralogia. A novidade é que esse novo romance da saga é narrado por Tyler e não por Eden. O problemático rapaz conta sua história quando era um garotinho de 12 anos e ainda vivia com o pai biológico (daí a origem de seus comportamentos pouco ortodoxos). Em 2019, a jovem escritora escocesa publicou a quinta parte de “D.I.M.I.L.Y” (então estaríamos diante de uma pentalogia e não de uma tetralogia, certo?!). “Did I Mention It´s 10 Years Later?” (sem edição em português) continua com o relato de Tyler, só que agora de volta à adolescência rebelde (não tão rebelde assim!). Portanto, quando dizemos que “D.I.M.I.L.Y” é uma trilogia, consideramos apenas as três primeiras obras da coletânea – aquelas narrativas feitas por Eden Munro. Quando falamos que a série literária é uma pentalogia, estamos incluindo os dois últimos romances de Estelle Maskame – aqueles narrados por Tyler. No Brasil, o romance “Já Disse que Te Amo?” foi publicado em maio de 2019. A tradução para nosso idioma foi realizada por Alves Calado, escritor infantojuvenil e tradutor fluminense com grande experiência no universo editorial. Em Portugal, o primeiro livro de Maskame foi lançado em janeiro de 2018 com o título “Já Te Disse que Te Amo?” (Editorial Presença) e foi traduzido por Maria Eduarda Colares. Colares traduziu também os demais livros da série “D.I.M.I.L.Y”, além de “O Lado Perverso de Kai” (Editorial Presença), romance independente de Maskame que foi publicado em Portugal no ano passado. O enredo de “Já Disse que Te Amo?” se passa em Los Angeles, no Verão. Eden Munro é uma adolescente de 16 anos que mora com a mãe em Portland. Após a separação dos pais há três anos, a garota nunca mais falou nem viu o pai, que simplesmente sumiu de Oregon. Dave, o pai da protagonista, foi viver com uma nova família na Califórnia. Após esse longo período de ausência, Dave convida a filha para passar as férias de Verão com ele e com seus novos familiares. Mais surpreendente do que a proposta paterna foi Eden ter aceitado fazer a viagem. A jovem já estava um tanto cansada da rotina em Portland e passar oito semanas na mítica Los Angeles a fez encarar o desafio de rever o pai. À princípio, o único problema dela seria ficar um tempo longe da mãe e da melhor amiga, Amelia. Em Los Angeles, Eden encontra Dave morando com a segunda esposa, Ella. Ella também era separada e possui três filhos: Tyler Bruce, um adolescente problemático de 17 anos, Jamie Bruce, um garoto simpático de 14, e Chase Bruce, um menino tímido de 11 anos. A visitante ganha um quarto só para si e mergulha na rotina doméstica dos Bruce-Munro. Em um piscar de olhos, a personagem principal do romance ganha uma madrasta e três irmãos, o que não lhe agrada nem um pouco. Rapidamente, Eden faz amizade com Rachael, uma adolescente um ano mais velha que mora na casa da frente. Rachael insere a nova vizinha em seu círculo de amizade. Assim, a filha de Dave conhece Meghan, a melhor amiga de Rachael, e Tiffani, a namorada estonteante de Tyler. A turista também é apresentada a Dean, o melhor amigo de Tyler, e Jake, um rapaz extremamente charmoso. O sexteto (Rachael, Meghan, Tiffani, Tyler, Dean e Jake) é o típico grupinho de adolescentes endinheirados que só quer saber de farrear. As férias de Verão dos californianos são recheadas de festas, bebidas, passeios perigosos, compras, namoros, fugas de casa, problemas com a polícia e azaração. Assim, Eden vive uma nova realidade com os amigos mais velhos, algo totalmente distinto do que ela estava acostumada a vivenciar em Portland. A única coisa que parece não ter mudado é a antipatia da moça por Dave. A adolescente continua vendo o pai como um monstro, alguém que destruiu a vida da mãe dela e que até hoje não sabe desempenhar o papel paterno como deveria. O que chama mais a atenção de Eden Munro em Los Angeles é seu irmão postiço mais velho (irmão postiço é um termo usado no livro, tá?). Tyler Bruce é o típico adolescente revoltado que está sempre aprontando algo para desespero dos familiares e dos amigos mais próximos. Ele é egoísta, mal-educado, mal-humorado, briguento, mentiroso e extremamente indelicado, além de viver bêbado, se drogando e transando por todos os cantos. Para completar, o rapaz tem amizades barras-pesadas. Em outras palavras, Tyler é o parente que Eden jamais desejou ter. Não à toa, ela logo passa a odiá-lo. A jovem só aceita conviver com ele por necessidade doméstica (dividem a mesma casa) e obrigação social (ambos os adolescentes têm amigos em comum). Entretanto, à medida que a convivência regular com o irmão mais velho aumenta e se intensifica, Eden consegue enxergar uma pessoa diferente por trás da cara carrancuda e do jeitão bad boy do rapaz. Pouco a pouco, aquela imagem inicial negativa começa a ficar para trás. Tyler só age como age porque possui problemas emocionais delicados. No fundo, ela não o vê como uma má pessoa. Segundo a filha de Dave, o irmão postiço é apenas alguém desorientado e que não sabe encarar as adversidades de sua rotina. Quanto mais se conhecem, mais Eden e Tyler começam a gostar um do outro, o que trará evidentemente novos problemas para os dois. “Já Disse que Te Amo?” possui 336 páginas e seu conteúdo está dividido em 31 capítulos (30 capítulos mais o Epílogo). Levei pouco mais de oito horas para percorrer integralmente suas páginas no último final de semana. Praticamente li metade do romance no sábado à tarde e a outra metade no domingo de manhã. Se tivesse começado a leitura dessa obra em uma manhãzinha, na certa teria concluído sua trama em um único dia. Narrado em primeira pessoa por uma adolescente, “Já Disse que Te Amo?” apresenta um mergulho fidedigno no universo juvenil norte-americano. Apesar de ser escocesa, Estelle Maskame calcou a trama de sua série literária na realidade dos estudantes do ensino médio dos Estados Unidos. Essa particularidade confere um ar universal à narrativa – algo que ficaria complicado de ser feito se a história fosse construída no interior da Escócia. Assim, acompanhamos os dramas de jovens que odeiam os pais, reclamam de tudo e de todos, acreditam que são injustiçados, só pensam em festa, bebida, namoro, sexo e droga, são propensos aos exageros e padecem por qualquer coisinha aparentemente insignificante. Para os leitores mais vividos (que já deixaram à adolescência há um bom tempo), é preciso entrar no clima juvenil para curtir a história desse romance de Maskame. Do contrário, a sensação de futilidade pode predominar, principalmente na primeira metade de “Já Disse que Te Amo?”. Algo que achei impecável nesse livro foi a ambientação. A sensação que temos é de estar visitando Los Angeles ao lado de Eden Munro. De maneira muito inteligente, Estelle Maskame nos leva para os principais pontos turísticos da maior cidade da Califórnia. As cenas do romance percorrem, por exemplo, a Third Street Promenade, o Santa Monica Pier, o letreiro de Hollywood, o Beverly Hills, o Pacific Park, as praias de Malibu, o Santa Monica Boulevard, o Ocean Avenue, a Pacific Palisades, a Venice Beach, o Santa Monica Place etc. É ou não é um passeio para ninguém botar defeito, né? Por causa do universo adolescente e da ambientação em Los Angeles, quem tiver mais de 40 anos poderá se lembrar de “Barrados no Baile” (Beverly Hills 90210: 1990), famoso seriado televisivo de trinta anos atrás. De certa forma, “Já Disse que Te Amo?” é uma versão literária e contemporânea de “Barrados no Baile”. Para a galera mais novinha, o verdadeiro público-alvo do romance de Maskame, a comparação que podemos fazer é com os livros de John Green. Nesse caso, “Já Disse que Te Amo?” é a versão feminina de “Quem é Você, Alasca?” (Intrínseca) e de “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Intrínseca). Em alguns momentos, lembrei também de “Los Angeles” (Bertrand Brasil), romance de Marian Keyes publicado em 2002. O que mais gostei em “Já Disse que Te Amo?” foi da construção das cenas e das personagens. Nesse momento, notamos que Estelle Maskame é realmente uma ótima autora ficcional. E imaginar que ela escreveu esse livro quando ainda era menor de idade... Maskame mostrou muita maturidade literária para escolher as passagens da trama que poderiam ser transformadas em cenas e as passagens da narrativa que deveriam ser simplesmente sumarizadas. Incrível! Para completar, quase todas as suas personagens são do tipo redondo – algo que só os bons escritores fazem. Descortinar as várias camadas psicológicas dos protagonistas de “Já Disse que Te Amo?” é um dos bons desafios que os leitores têm à disposição nas páginas desse livro. O ritmo narrativo também é adequado, assim como as surpresas que surgem na metade final do livro merecem nossos elogios. Confesso que fui surpreendido com alguns caminhos que o enredo pegou. Como já falei: não subestime a capacidade narrativa e a habilidade criativa de Estelle Maskame! Mesmo adolescente, ela já escrevia melhor do que muito escritor mais experiente. O único problema mais sério que encontrei em “Já Disse que Te Amo?” foi o sentimentalismo exacerbado, algo típico do gênero romântico (e não um aspecto específico desse livro) e um elemento possivelmente relacionado à fase da vida adolescente. Em uma semana, os jovens conseguem se apaixonar loucamente para todo o sempre. Admito que tenho dificuldade para engolir uma coisa assim (não preciso dizer que sou um antirromântico, né?). Em alguns dias, os protagonistas, que até então não se conheciam, vão do ódio total ao amor para a vida inteira... Ai, ai, ai. Se você comprar essas imperfeições do coração, não terá dificuldade para seguir em frente na leitura. Para amenizar um pouco o estranhamento desse romantismo vapt-vupt, Estelle Maskame dividiu muito bem seu livro de estreia. A primeira metade da obra (cerca de 165 páginas) é dedicada à descrição das duas primeiras semanas das férias de Eden Munro na casa do pai. Ou seja, temos a sensação de que muita coisa acontece ali (mesmo sendo efetivamente um espaço temporal curtinho). A segunda metade da publicação (demais 165 páginas) é voltada para as outras seis semanas da protagonista em Los Angeles. Aí a impressão é que as coisas demoram um pouco mais para acontecer (mesmo sendo um período maior). Essa divisão do romance (maior ênfase para as duas primeiras semanas das férias de Eden) contribuiu para justificar a overdose de emoções que a protagonista vivenciou. É legal notar que não há muitos (nem sérios) equívocos narrativos nesse livro (algo comum de ser encontrado em títulos de estreia). Só encontrei um ou outro de menor intensidade. Por exemplo, dizer que o 4 de julho é o principal feriado dos Estados Unidos (não é!) e achar que uma pessoa com forte ressaca consegue correr tranquilamente por vários quilômetros na manhã seguinte após a bebedeira homérica (não, não dá!) me parecem pequenos escorregões (nada que afete a leitura). Estelle Maskame começou a carreira como escritora de ficção em alto nível. Minha torcida é que ela consiga evoluir mais e mais daqui para frente. Também gostaria de vê-la se aventurando por outros gêneros literários além da literatura infantojuvenil e dos romances românticos açucarados. Vamos torcer para que sua produção literária continue aumentando ano a ano e, quem sabe, se diversificando. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Rodolfo Queiroz
O nono e último entrevistado da quinta temporada do TSL é uma das personagens mais atormentadas dos contos de João do Rio. Darico Nobar: Boa noite, galerinha do Talk Show Literário. Plateia: Boooooa noooooite. Darico Nobar: Isso sim é que é um auditório animado, hein? [Sentado à mesa e no centro do palco, olha para o público presente no estúdio. A imagem é captada pela câmera 1]. Hoje, nosso programa chega à última entrevista da quinta temporada. Plateia: Aaaaaaaaaaah. Darico Nobar: Mas não fiquem chateados. No ano que vem, voltaremos com novas conversas com as personagens clássicas de nosso país. Plateia: Eeeeeeeeeeeh. Darico Nobar: E para encerrarmos o ano em grande estilo, convidei para esse bate-papo um amigo que eu não via há um tempinho. Segundo as más línguas, ele estava desaparecido. Com vocês, agora no palco do Talk Show Literário, o protagonista de um dos contos mais perturbadores da literatura brasileira – Rodolfo Queiroz! [O público no auditório aplaude a entrada de um rapaz magro e abatido. Com roupas amassadas e transpirando bastante, o convidado sobe ao palco demonstrando timidez. Entrevistador e entrevistado se cumprimentam com doses generosas de cumplicidade]. Darico Nobar: Então, meu amigo, o que aconteceu? Por que fugiste? Rodolfo Queiroz: Não fugi; rolei, perdi-me. Coisas que acontecem. Nada mais resta do antigo Rodolfo que tu conheceste, Darico. Sou outro homem agora, tenho outra alma, outra voz, outras ideias. Assisto-me endoidecer. Perder a Clotilde foi para mim soçobramento total. Darico Nobar: Oh, Rodolfo, todos estavam aflitos com teu desaparecimento. O Prates, aquele velhaco, foi à loucura atrás de ti. Se não fosse o Justino nos acalmar, dizendo que o encontrou por acaso no trem, não sei se não teriam colocado a polícia na tua procura! Rodolfo Queiroz: Então causou sensação? Danico Nobar: Não era para menos, né? Vejamos: tu amavas a Clotilde, não? (Entrevistado balança a cabeça para cima e para baixo). Ela, coitadinha, parecia louca por ti. (O convidado continua mexendo a cabeça). Os pais dela estavam radiantes de alegria. Os teus, pelo que sei, também estavam de acordo com o casamento. Aí, de repente, mais do que de repente... Rodolfo Queiroz: Deu-se a súbita transformação! Danico Nobar: Tu desapareceste, Rodolfo! A família dela fechou os salões como se estivesse de luto pesado ou se fosse vítima de uma peste. Rodolfo Queiroz: Foi quase isso [fala sussurrando]. Danico Nobar: A Clotilde chora, pelo que sei, até hoje. Evidentemente há um mistério aí. É natural que a sociedade carioca e os colunistas sociais façam conjecturas, teçam hipóteses, criem versões. Quase sempre, arquitetam dramas horrendos. Rodolfo Queiroz: Contra mim? Darico Nobar: Já ouvi cada coisa a teu respeito, meu amigo. Coisas de arrepiar até os espíritos mais pacíficos. Minha impressão é que o juízo geral está contra ti. Rodolfo Queiroz: Tenho o ar desvairado? Darico Nobar: Absolutamente desvairado. Rodolfo Queiroz: Vê-se? Darico Nobar: É claro, pobre amigo! Nota-se que sofreste muito. Estás pálido, suando apesar do ar gelado do estúdio da TV, e tens um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Rodolfo Queiroz: Oh, meu caro Darico. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado! Todos têm razão: sou um perdido. Darico Nobar: Mas o que é isto, Rodolfo?! Conte-nos o que se passou! Tire de dentro de ti essa angústia que parece afogar-te! [O entrevistado tenta falar, mas a voz não sai. Ele tenta mais uma vez se pronunciar e novamente fica em silêncio absoluto. O descontrole emocional parece suplantar o esforço e a vontade genuína de se comunicar abertamente]. Darico Nobar: Mas como tremes, criatura de Deus!!! Estás doente?! Rodolfo Queiroz: Não. Estou nervoso. Estou com a maldita crise. Darico Nobar: Se for algo grave, temos uma equipe médica à disposição. Rodolfo Queiroz: Eles não podem me ajudar. Ninguém pode. É o fim, meu bom amigo, é o meu fim. Darico Nobar: Vires essa boca pra lá, Rodolfo. Rodolfo Queiroz: É o vício, meu bom Darico. Sou vítima desse vício cruel e impiedoso. Darico Nobar: Conte lá. [O silêncio do convidado permanece]. Nunca pensei que iria encontrar Rodolfo Queiroz, um dos mais elegantes personagens da ficção de João do Rio, desabafando em meu programa. Qual é esse vício tão danoso? Rodolfo Queiroz: Não sei como dizer... Não há quem não tenha um vício, uma tara, uma brecha. Sei disso. O meu vício é positivamente a loucura, a loucura por uma mulher, pelas mulheres. Luto, resisto, grito, debato-me. Às vezes, não quero, não quero mesmo. Mas a vontade vem vindo, ri de mim, toma-me a mão e faz-me inconsciente. Apodera-se de mim, Darico. Darico Nobar: Compreendo. Rodolfo Queiroz: Estou com a crise. Lembras-te do Bento Santiago quando se picava com ciúmes? Lembras-te da Aurélia Camargo quando se dedicava à vingança? Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir aos vícios torpes. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido. Darico Nobar: O caso parece mais sério do que imaginei. Tu sofres de ciúmes ou desejas se vingar de alguém, Rodolfo? Rodolfo Queiroz: Nem um, nem outro. Meu vício é o alfinete. Darico Nobar: Alfinete?! Rodolfo Queiroz: Meter o alfinete. Darico Nobar: Meter o alfinete? Quanto mais falas, menos eu te entendo. Rodolfo Queiroz: Foi de repente, Darico. [O olhar desvairado percorre o auditório em busca de compreensão]. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Darico Nobar: Sim, sempre foste um amigo leal, um noivo correto... Rodolfo Queiroz: Ia me casar com a Clotilde, ser bondoso que eu amava perdidamente. Aí, na noite em que estávamos no baile das Praxedes, meu mundo caiu. Darico Nobar: Oh, Rodolfo. Eu estava lá. Foi um bate-chinela maravilhoso. Rodolfo Queiroz: Para mim foi terrível. Terrível!!! Darico Nobar: Meu Deus, o que aconteceu de tão grave naquele baile? Rodolfo Queiroz: A Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. [A cara do apresentador era de uma interrogação gigantesca]. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher. Ai, Darico, ela tinha a beleza dos braços das Oréadas pintadas por Botticeli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento. Darico Nobar: Ciúmes? Rodolfo Queiroz: Não. Era um estado que nunca se apossara de mim – a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer. Darico Nobar: Sofrer? Mas você não amava Clotilde? Rodolfo Queiroz: Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los... Darico Nobar: Por quê? Rodolfo Queiroz: Não sei, nem eu mesmo sei. Uma nevrose, talvez. Aquela noite passei numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer. Darico Nobar: Ainda não estou entendendo. O que querias fazer exatamente? Rodolfo Queiroz: Fui ao encontro da minha noiva fazendo um enorme esforço para conter meu desejo. Ele, porém, ficou, cresceu, brotou, enraigou-se na minha pobre alma. [Faz um breve silêncio]. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cozê-los devagarinho, a picadas. Darico Nobar: Você teria coragem de fazer isso com a pobrezinha da Clotilde?! Rodolfo Queiroz: Jamais vou me esquecer daqueles braços nus, sua forma frágil e suave, da pele fina e macia. De súbito, fui invadido por uma vontade de realizar a estremação. Só de pensar, Darico, em picar-lhe a carne virginal nos braços, vem-me grandes pavores... Darico, que tristeza! Darico Nobar: Só um momento, por favor, Rodolfo. Minha diretora está falando aqui no ponto. [Mostra um pequeno aparelho colocado no ouvido]. Sim. Sim. Está bem. Vou falar. [Vira-se para a câmera 2]. Pessoal, a entrevista de hoje termina aqui. A direção está preocupada com os caminhos que essa conversa está tomando. Plateia: Aaaaaaaaaaah. Rodolfo Queiroz: Não falei que estava enlouquecendo?! Darico Nobar: Não é isso, meu amigo. O problema é o tempo. [Bate com o dedo no relógio de pulso]. A próxima atração está para começar. Além disso, talvez seja melhor teres essa prosa com um psicanalista e não comigo diante das câmeras de televisão. [Convidado balança a cabeça concordando]. Muito obrigado por nos visitar, Rodolfo. [Os dois trocam cumprimentos com as mãos]. Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. Ano que vem, voltaremos com mais entrevistas. Não percam. Até lá! [As letras dos créditos do programa sobem na tela. Ainda dá para ver os homens no centro do palco conversando. Um chora copiosamente. Nem mesmo as mãos colocadas na frente do rosto escondem seu desespero. O outro tenta consolá-lo como pode, mas parece não ser bem-sucedido]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Janelas Visitadas - A primeira coletânea de contos de Roberto Marcio
Publicada em julho de 2021, essa obra do escritor mineiro apresenta a realidade contemporânea por meio da releitura de clássicos literários. Nesse final de semana, reli “Janelas Visitadas” (Sete Autores), a primeira coletânea de contos de Roberto Marcio, escritor e tradutor mineiro que vem exibindo bons trabalhos literários nos últimos doze meses. No finalzinho de 2020, Roberto lançou o ótimo “Andante das Gerais” (Páginas Editora), coletânea de crônicas que marcou sua estreia na literatura comercial no papel de autor. Nesse título, ele abordou a paixão por viajar e relatou os ensinamentos obtidos por conhecer pessoas, culturas, idiomas e locais diferentes. Quem acompanha com frequência o Bonas Histórias deverá se lembrar que já comentamos por aqui essa obra. O post de “Andante das Gerais” saiu em junho na coluna Livros – Crítica Literária. Em 2021, dessa vez no papel de tradutor, Roberto Marcio publicou uma nova versão para o português de “A Revolução dos Bichos” (Dialética), fábula clássica de George Orwell. Ou seja, o período pandêmico tem sido de intensos lançamentos para Roberto – dois livros autorais e uma tradução em doze meses é uma excelente média, né? Ah se todos os artistas aproveitassem a fase de quarentena dessa forma!!! Li pela primeira vez “Janelas Visitadas” há cerca de oito meses, quando o livro estava ainda em fase final de preparação (ele encontrava-se na iminência de ser enviado para a gráfica). De maneira muito gentil, Roberto Marcio pediu que eu fizesse o prefácio da coletânea, sua primeira publicação autoral no campo da ficção (afinal, “Andante das Gerais” deve ser visto como um título não ficcional). Quem me conhece sabe que não consigo resistir a esse tipo de convite, principalmente quando gosto do texto e da linha editorial do escritor. Passados alguns meses dessa leitura inicial e do envio do prefácio (que me encheu de orgulho), pude rever “Janelas Visitadas” agora com um olhar mais frio, mais técnico. E, mesmo assim, confesso que continuei apreciando a qualidade das narrativas curtas de Roberto Marcio. De um jeito muito habilidoso, ele conseguiu relacionar, nessa publicação, o retrato fidedigno de nossa sociedade atual (ora ácido, violento, contraditório e aterrorizante, ora engraçado, bonito, altruísta e apaixonante) com a reconstrução de histórias clássicas da literatura e do cinema. Impossível não apreciar uma proposta ousada, divertida e inteligente como essa! Roberto Marcio é natural de Nova Lima, cidade localizada na região metropolitana de Belo Horizonte, e mora há algumas décadas na capital mineira. Formado em Letras e com mestrado em Educação Tecnológica, ele é, além de escritor e tradutor, professor de idiomas, revisor e redator. A ideia de escrever “Janelas Visitadas” surgiu logo depois do lançamento de “Andante das Gerais”. Ainda no final de 2020, Roberto sentiu a vontade de embarcar com tudo na produção ficcional. Aí ele começou a escrever uma série de contos, aproveitando-se que a quarentena da Covid-19 ainda persistia e da lenta volta às aulas. Em pouco mais de quatro meses, ele já tinha um bom número de histórias. Elas foram inspiradas por ideias extraídas de suas andanças por esse mundão (Minas Gerais, Brasil e exterior), pelas suas memórias (principalmente da infância e da juventude), por situações vividas profissionalmente (como professor e tradutor) e pela sensibilidade de detectar as angústias sociais dos dias atuais. Obviamente, o escritor temperou com muita ficção cada flash e insight criativo (essa é uma coleção ficcional e não uma obra de memórias). Depois disso, seu trabalho consistiu em escolher as melhores tramas, lapidá-las um pouco mais e integrá-las em uma só linha editorial (condição sine qua non para qualquer coletânea textual de boa qualidade). Surgia, assim, a coleção de contos que temos hoje em mãos. As 23 narrativas de “Janelas Visitadas” são: (1) “Um Flautista para Luna”, (2) “Fantasias na Terra do Ouro”, (3) “Reviravolta”, (4) “Protagonista Precavida”, (5) “Enigma na Chapada”, (6) “O Cruzeiro dos Mascarados”, (7) “Sessão de Terapia”, (8) “Residentes Cabulosos”, (9) “Alícia em Milho Verde”, (10) “Romântico Roteiro”, (11) “Big Mother”, (12) “Fobia”, (13) “Rick & Rex”, (14) “O Grito Recorrente”, (15) “A Outra Face”, (16) “Pedro e o Lobo”, (17) “Ariadne”, (18) “Um Corpo que Cai”, (19) “O Farol na Costa do Sol”, (20) “Voo Noturno”, (21) “O Tradutor”, (22) “O Inferno na Torre” e (23) “Reencontro”. “Um Flautista para Luna”, o conto inicial do livro de Roberto Marcio, mostra o drama de Luna, uma das poucas estudantes negras de um colégio particular de elite. Alvo de bullying dos colegas racistas, a adolescente pensa em largar os estudos. Contudo, um acontecimento inesperado mudará a vida de Luna e a dinâmica escolar. Em “Fantasias na Terra do Ouro”, Edgar, nascido em Nova Lima, relembra saudosamente os Carnavais na cidade natal na época de sua infância e juventude. Honório, o protagonista de “Reviravolta”, é um rico empresário dono de uma rede de cinemas. Preconceituoso, ele odeia os moradores de rua, que em sua visão devem ser exterminados sumariamente. “Protagonista Precavida”, a quarta história de “Janelas Visitadas”, revela a visão de mundo de Clara, uma menina de oito anos que adora ouvir histórias antes de dormir. Em “Enigma na Chapada”, Joaquim, mineiro de Contagem que adora passeios de ecoturismo, narra para um amigo a experiência insólita que teve na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. “O Cruzeiro dos Mascarados”, por sua vez, é a alegoria política ambientada em um reino comandado por um tirano insensível e amalucado. Quando um vírus mortal abala o país (e o mundo), o monarca embarca em um cruzeiro privativo e luxuoso ao lado de integrantes da elite local. Sétima narrativa do livro, “Sessão de Terapia” mostra os traumas escolares que ainda hoje atormentam Otto. O rapaz fala para o psicanalista sobre os assédios morais praticados por uma professora quando ele ainda era estudante. Em “Residentes Cabulosos”, Everton viaja para o sítio de um casal de amigos em um final de semana. Alojado em um quarto distante da casa principal, o hóspede vivencia uma noite aterrorizante. “Alícia em Milho Verde” descreve a migração de Alícia para o Brasil. Natural de Macondo, capital de um reino onde a censura e a perseguição política dão à tônica, a moça vai morar em Milho Verde, pequena cidade no interior de Minas Gerais. “Romântico Roteiro” narra a viagem de férias de dois casais que são muito amigos desde os tempos da universidade. Eles vão para Poços de Caldas e querem curtir momentos de romantismo e de amizade na cidade turística. “Big Mother”, o décimo primeiro conto dessa obra de Roberto Marcio, mostra o drama de Henrique, um adolescente tímido e pacato. Sua rotina é abalada após ele aceitar o convite para participar de um projeto psicológico-científico. Em “Fobia”, Kadu, jovem de 25 anos, tem pavor de pombos, o que o coloca às vezes em situações embaraçosas. “Rick & Rex” relembra a relação afetuosa que Ricardo tinha na infância com seu cachorrinho de estimação. Adulto, ele continua adorando os animais e fica indignado quando vê uma notícia sobre violência contra os bichos. “O Grito Recorrente” se passa no novo apartamento que Marlon alugou após a separação. Morando sozinho, o rapaz pode aproveitar a tranquilidade e a liberdade da vida de solteiro. Isso até gritos infantis começarem a perturbar sua rotina. Tereza, a protagonista de “A Outra Face”, é uma senhora mineira que vive a aposentadoria no Rio de Janeiro. Muito altruísta e sociável, ela ajuda viajantes estrangeiros em passagem pelo Brasil. Todavia, o dia a dia tranquilo e alegre de Tereza esconde segredos sinistros. “Pedro e o Lobo”, o décimo sexto conto de “Janelas Visitadas”, revela os traumas infantis de Pedro, atualmente um rapagão de 30 anos. Desde os oito anos, quando viajou com os pais e um tio para o Parque do Caraça, em Minas Gerais, ele tem pesadelos com um lobo-guará que invade seu quarto no meio da noite para devorá-lo. Em “Ariadne”, conhecemos o amor platônico que Arnaldo, atualmente um professor de Língua Portuguesa, tinha na época de estudante do ensino fundamental. Sua amada naqueles tempos era Ariadne, a jovem, bonita e moderna professora de Biologia. “Um Corpo que Cai” retrata a aglomeração formada no meio da rua após um corpo cair do alto de um prédio. Os curiosos discutem o que teria acontecido para alguém ter voado pela janela. “O Farol na Costa do Sol”, a décima nona narrativa da coletânea, é protagonizada por Jean, um francês apaixonado pelo Brasil, pela nossa cultura e pela nossa música. Porém, ele nunca visitou o país sul-americano que tanto admira. Para encerrar essa mácula em sua biografia, Jean programa uma viagem turística para o Rio de Janeiro. “Voo Noturno” mostra um grupo heterogêneo de passageiros que embarca em um voo internacional. O avião tem como destino outro continente e voará por muitas horas. “O Tradutor” é a antepenúltima trama do livro. Osmar foi contratado para ser o intérprete do Sr. Larry, um empresário norte-americano que veio ao Brasil à negócios. Quando o gringo começa a flertar com uma brasileira que não fala uma palavra sequer de inglês, Osmar precisará intermediar a comunicação entre o casal. Em “O Inferno na Torre”, Daniel Lucas relata o dia que ficará para sempre marcado em sua memória. Natural de Minas Gerais, o rapaz morou muitos anos nos Estados Unidos. Por fim, o relato de “Reencontro” mistura sonhos, lembranças, saudades, promessas e esperanças de um filho que teve uma relação conturbada com o pai. “Janelas Visitadas” possui 148 páginas. Além dos 23 contos de Roberto Marcio, essa obra traz: um ótimo prefácio (brincadeirinha!), introdução e posfácio produzidos pelo próprio autor (na qual detalha a proposta do livro), notas explicativas (com comentários de Roberto sobre cada uma das histórias de sua coletânea) e, por fim, fotografias de viagens (cenários, locais e paisagens que inspiraram o escritor mineiro a produzir as narrativas que pudemos acompanhar). “Janelas Visitadas” tem um texto fluído e tramas convidativas. Por isso mesmo, sua leitura é muito dinâmica/rápida. Precisei de cerca de duas horas e meia, no último domingo à tarde, para percorrer integralmente seu conteúdo. Dá para ler esse livro tranquilamente em uma única tarde/noite. Quem tiver mais fôlego, conseguirá lê-lo em uma sentada só. Do contrário, duas ou três aberturas de livro serão suficientes para o(a) leitor(a) ir da primeira à última página. O meu conto favorito de “Janelas Visitadas” é “Alícia em Milho Verde”. Essa história brinca com a realidade política atual através da reconstrução de uma narrativa clássica – “Alice no País das Maravilhas” (Cosac Naify), o livro mais famoso de Lewis Carroll. Quanto mais bagagem literária e quanto mais bom senso político os leitores de “Janelas Visitadas” tiverem, mais interessante “Alícia em Milho Verde” se tornará aos seus olhos. A impressão que tive é que esse conto faz referências literárias e políticas a cada linha. Incrível isso! O mais maravilhoso foi ver que essa característica não é exclusiva dessa história, mas de muitas narrativas curtas de Roberto Marcio. Também gostei muito de “Um Flautista para Luna”, “O Cruzeiro dos Mascarados”, “Romântico Roteiro” e “Um Corpo que Cai”. Talvez o mais interessante dessa coletânea seja o fato de que não há uma trama ruim em suas páginas (algo que seria normal em se tratando de mais de duas dezenas de histórias). O único conto que me pareceu um pouco inverossímil é “O Inferno na Torre”. Apesar disso, ele não é ruim – é apenas difícil de acreditar que da escada de incêndio interna do prédio, as pessoas pudessem ver/saber o que estava acontecendo do lado de fora. Uma das principais características que chama a atenção em “Janelas Visitadas” é a variedade de gêneros literários utilizados por Roberto Marcio para construir sua coletânea de contos. Temos nesse livro retratos do cotidiano, releituras de clássicos literários, narrativas sobrenaturais, histórias fantásticas, suspense, terror, enredos românticos, aventura, crítica social, alegoria política, tragicomédias, ficção científica e passagens que flertam com as crônicas. Essa multiplicidade narrativa é um dos grandes charmes de “Janelas Visitadas”. A gente embarca nas histórias sem saber para onde elas vão caminhar. Não à toa, acabamos invariavelmente surpreendidos com os desfechos. Diante de tramas tão diferentes entre si, Roberto Marcio precisou reforçar os componentes que dão unidade à sua coleção textual. Dessa maneira, logo no começo de cada conto, surgem as janelas (elemento que serve como uma abertura da alma das personagens e um espelho do mundo – real e/ou ficcional). É interessante notar como as janelas se relacionam com todas as histórias do livro. A única coisa que não concordei/gostei foi com a repetição da citação das janelas sempre no início dos enredos. Acho que seria interessante variar a posição delas – no meio ou mesmo no final. Assim, os leitores teriam que procurá-las no texto, o que exigiria uma leitura mais atenta e profunda. Outros aspectos integradores da coletânea são: (1) o uso recorrente de flashbacks; (2) o narrador engajado (extremamente crítico com nossa realidade); (3) a atmosfera de viagem (o que transforma “Janelas Visitadas” em uma continuação informal de “Andante das Gerais”); (4) o ambiente escolar (personagens são professores ou alunos); (5) protagonistas tímidos, introspectivos e com uma infância conturbada (lembrando um pouco a biografia do autor exposta na parte 1 de “Andante das Gerais”); (6) e a fortíssima intertextualidade – literária (“Um Flautista para Luna”, “Protagonista Precavida”, “O Cruzeiro dos Mascarados”, “Residentes Cabulosos” e “Alícia em Milho Verde”), cinematográfica (“Fobia”, “Um Corpo que Cai” e “O Inferno na Torre”), musical (“Ariadne” e “O Farol na Costa do Sol”) e televisiva (“Um Flautista para Luna” e “Big Mother”). Por falar em intertextualidade, esse foi um dos aspectos que mais gostei do novo livro de Roberto Marcio. O autor usa sua erudição e sua vasta cultura de maneira muito natural, não complicando a leitura nem tornando suas histórias indecifráveis (erro muito comum no trabalho de pessoas cultas). Roberto brinca de reconstruir várias narrativas clássicas da literatura (títulos de Edgar Allan Poe, Lewis Carroll, Gabriel García Márquez, Irmão Grimm e Charles Perrault) e do cinema/televisão (filme de Alfred Hitchcock e novela de Cassiano Gabus Mendes) sem complicar a experiência de quem não conhece os originais (que imagino ser a maioria do público leitor em nosso país). Por outro lado, essa sutileza confere um ar de segredo oculto às tramas. É como se as pessoas com maior repertório tivessem que caçar os tesouros escondidos em cada página, em cada conto de “Janelas Visitadas”. Adorei esse caráter lúdico e rico do texto. Outros elementos que merecem elogios são: a manutenção da mineiridade (conceito trazido em “Andante das Gerais” e que permanece forte nessa coletânea de contos); a linguagem moderna, descolada, jovial e dinâmica que confere uma pegada dialógica ao livro (recurso nem sempre fácil de se obter); as citações iniciais dos contos continuam ótimas (digo continuam porque esse expediente já tinha sido usado em “Andante das Gerais”); as críticas sociais são trazidas tanto pelos narradores quanto pelas personagens principais (normalmente não gosto de narradores muito didáticos nem de protagonistas planos, mas nessa obra essas características caíram bem); a ambientação de terror em algumas tramas (como fã desse gênero, sou suspeito para falar, mas adorei o tom macabro de várias histórias); e a boa construção de cenários (parece que estamos viajando com o autor e com suas personagens). Também preciso destacar a estrutura convencional das narrativas curtas de Roberto Marcio. Depois de sofrer pra caramba, nos últimos dois meses, com as invencionices (muitas vezes maluquices de gosto duvidoso) das coletâneas de contos e dos romances de Julio Cortázar (terceiro autor analisado no Desafio Literário desse ano), foi um alívio ler algo mais formal, mais certinho. O foco de “Janelas Visitadas” está na qualidade das histórias em si e não tanto em sua estrutura narrativa. Achei acertada essa opção de Roberto Marcio. Na maioria das vezes, o que queremos como leitores é assistir a boas tramas ficcionais sem precisar reconstruir em nossa mente o texto recebido. Por falar na literatura de Cortázar, algo que me fez lembrar muito os textos do escritor argentino foi a mistura de realidade e ficção em “Janelas Visitadas”. A sensação que temos nesse livro é de estarmos acompanhando uma intrincada fusão de fatos extraídos do nosso dia a dia com elementos criados pela imaginação do autor mineiro. Quase sempre é difícil apontar onde começa e termina a ficção e onde começa e termina a realidade (está aí justamente a riqueza de uma boa obra literária, né?). O que potencializa essa impressão é o caráter quase de crônica dos textos de “Janelas Visitadas”. Gostei muito disso. Até para tirar essa falsa impressão de estarmos diante de crônicas e não de contos, Roberto Marcio apresentou, no final do título, uma explicação breve sobre cada uma das histórias da coleção. Nesse momento, notamos o caráter essencialmente ficcional do livro (com doses autobiográficas). Outro acerto de Roberto Marcio foi a escolha das temáticas de suas histórias. Temos, em “Janelas Visitadas”, um panorama fiel dos desafios enfrentados pela nossa sociedade nesse início da terceira década do século XXI: racismo, homofobia, desigualdade social, bullying escolar, violência psicológica, disseminação de fake news, destruição dos sistemas democráticos, retorno de governos fascistas, assédio moral, golpes virtuais, corrupção, organizações criminosas com atuação internacional/global, estupro, feminicídio, suicídio, patologias sexuais, busca desmedida pela fama, praga dos programas de reality show, papel contraditório das redes sociais, tráfico de órgãos, violência contra os animais... É inegável o caráter atual desses assuntos – e eles foram muito bem explorados nos contos. De pontos negativos de “Janelas Visitadas”, posso citar algumas passagens muito sumarizadas (ao invés de transformar momentos importantes do conto em cenas, o autor opta pelo sumário), o forte maniqueísmo das personagens e das narrativas (o certo e o errado são expostos incondicionalmente, não existindo gradações e/ou nuances – tudo é 8 ou 80) e a mania dos narradores de explicar as coisas pela perspectiva moral – lição de moral (gosto quando os leitores chegam às conclusões por conta própria e não quando são levados forçadamente a determinados lugares/opiniões). Porém, esses aspectos não atrapalham em nada a experiência de leitura, que é muito positiva no geral. Depois de “Janelas Visitadas” e “Andante das Gerais”, reconheço que estou aguardando ansioso o próximo trabalho autoral de Roberto Marcio. O que será que virá pela frente, hein? Uma novela? Um romance? Uma nova coletânea de contos ou de crônicas? Aguardemos as novidades desse bom nome da literatura mineira contemporânea. Se ele continuar com a intensidade dos últimos meses, não será surpresa nenhuma se nos depararmos com um novo título em nossa próxima visita às livrarias. Será? Tomara! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Quinta Temporada - Apresentação
Confira o calendário das novas entrevistas do programa de TV de maior audiência da ficção brasileira. Vou jogar limpo com vocês. Eu não acreditava que o Talk Show Literário – Clássicos Brasileiros teria uma quinta temporada. Quando me reuni com Darico Nobar, no finalzinho de 2020, para discutirmos a nova série do programa de televisão de maior audiência do Bonas Histórias, iria propor algo de diferente para 2021: um talk show com as personagens da literatura brasileira contemporânea, um conjunto de episódios com os clássicos da ficção portuguesa ou mesmo uma coletânea de bate-papos com os protagonistas da literatura infantil. Na minha concepção, teríamos muito mais conteúdo para trabalhar ao ampliar o leque de entrevistados do que simplesmente permanecer debatendo os cânones nacionais. Para minha perplexidade, Nobar nem deu bola para a minha explanação. Depois de ignorar tudo o que falei por quase quinze minutos de reunião, ele apresentou, em um papel de pão escrito à caneta (provavelmente Bic), a lista com os novos entrevistados para a temporada de 2021 do Talk Show Literário. Vendo minha cara de incredulidade, o apresentador do programa achou melhor se explicar. “Fique tranquilo, chefe. Já conversei com todos os convidados e eles já confirmaram as presenças. As entrevistas começarão no mês que vem. Vamos falar com cada nomão da literatura clássica nacional de cair o queixo. Você vai gostar! Dessa vez, vamos entrevistar figuras como Peri e Cecília Mariz, de “O Guarani”, Castelo, de “O Homem que Sabia Javanês”, Mãe Susana, de “Úrsula”, Marília, de “Marília de Dirceu”, Marcelo, de “Marcelo, Marmelo, Martelo”, Sepé Tiaraju, de “O Uraguai”, entre outros. Não tem como nosso público não gostar dos novos programas. Anote aí: bateremos mais uma vez o recorde de audiência”. O que eu podia dizer para ele, hein? O cara já tinha se programado para a nova temporada. Além do mais, ele parecia ter razão: o novo Talk Show Literário parecia realmente apetitoso. Até eu, que estava bravo por não ter sido envolvido na tomada de decisão para a nova série, estava com vontade de assistir às entrevistas mencionadas. Diante de tal cenário, fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: concordei com Darico Nobar. Satisfeito com o que ouviu de mim, o apresentador se levantou, pegou suas coisas na mesa e caminhou para a porta. Pelo visto, ele tinha decretado o fim da reunião. Antes de sair, porém, voltou-se mais uma vez para mim e disse: “Acho que para 2022 teremos que pensar em um novo ciclo de entrevistas. Não sei se o público irá gostar de ver pela sexta vez seguida as principais personagens da literatura brasileira clássica”. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele completou: “Mas isso fica para a nossa próxima reunião. Andei pensando em tratarmos da literatura portuguesa, da literatura infantil ou mesmo da literatura brasileira contemporânea... Mas, como falei, isso fica para depois. Abraço”. Meus caros amigos, esse é o âncora do programa de televisão de maior audiência do Bonas Histórias. Durmamos com essa. Segue, abaixo, a programação completa das entrevistas do Talk Show Literário de 2021: – 18 de abril de 2021 – Entrevista 1: Mãe Susana – "Úrsula" (1859/1860) – Maria Firmina dos Reis. – 18 de maio de 2021 – Entrevista 2: Castelo – “O Homem que Sabia Javanês” (1911) – Lima Barreto. – 17 de junho de 2021 – Entrevista 3: Hermes – “Morangos Mofados” (1982) – Caio Fernando Abreu. – 17 de julho de 2021 – Entrevista 4: Camila Teodoro – “A Falência” (1901) – Júlia Lopes de Almeida. – 19 de agosto de 2021 – Entrevista 5: Marcelo – “Marcelo, Marmelo, Martelo” (1976) – Ruth Rocha. – 18 de setembro de 2021 – Entrevista 6: Alberto – “O Escaravelho do Diabo” (1953) – Lúcia Machado de Almeida. – 18 de outubro de 2021 – Entrevista 7: Lia de Melo Schultz – “As Meninas” (1973) – Lygia Fagundes Telles. – 17 de novembro de 2021 – Entrevista 8: Severino – “Morte e Vida Severina” (1955) – João Cabral de Melo Neto. – 20 de dezembro de 2021 – Entrevista 9: Rodolfo Queiroz – “Dentro da Noite” (1910) – João do Rio. Não dá para perder o Talk Show Literário de 2021, né? Desejo ótimas entrevistas e excelentes leituras para todos. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Sob o Sol da Toscana - O best-seller de Frances Mayes
Publicada em 1996, a narrativa de memórias da escritora norte-americana renovou a literatura de viagens, culinária e estilo de vida. Quem nunca pensou em morar no exterior, hein? De preferência em uma cidadezinha tranquila e charmosa da Europa, né? Quem não cogitou ter um estilo de vida mais tranquilo em que as pequenas sutilezas do cotidiano fossem resgatadas? Quem não gosta de se lançar em viagens rumo a cenários que exalam cultura, arte e história? Quem nunca quis aprender um novo idioma só pelo prazer de interagir com as pessoas dos lugares que mais admira? Quem não aprecia uma boa experiência gastronômico ou uma bela degustação de vinhos? Quem nunca sonhou em comprar uma casa em uma região rural e transformá-la em um santuário integrado à natureza? Quem não deseja envelhecer com paz de espírito, saúde e um dia a dia harmonioso? Não se assuste se você tiver ticado sim em todas as questões do parágrafo anterior. Prova maior que esses temas estão em nossas mentes (quase disse que eles estão na moda – e quando não estiveram?!) é a profusão de lançamentos de livros, filmes, documentários, reportagens de revistas e jornais, programas de televisão, blogs, vlogs e canais no Youtube. Nos últimos anos, ficou evidente o grande interesse do público por temas como viagem, mudança de estilo de vida, migração para o exterior, aprendizado de culinária, vinho, decoração e jardinagem, dicas para reformar a casa, incentivo à prática do faça-você-mesmo(a), importância de ter novos hobbies, benefício de se manter em contato permanente com o meio ambiente e preocupação com a saúde física e mental. Invariavelmente, quando uma produção artístico-cultural aborda um desses assuntos, ela se torna um grande sucesso. São tantas obras inspiradoras ou títulos best-sellers nessas linhas editoriais que é até difícil de listar apenas algumas. De cabeça, lembro de “Comer, Rezar e Amar” (Objetiva), grande sucesso de Elisabeth Gilbert, “Por Uma Vida Mais Simples” (Cultrix), ensaio de André Cauduro D´Angelo, “Minha Mãe Fazia” (Biblioteca Amarela), coletânea com as experiências culinárias de Ana Holanda, e “Andante das Gerais” (Páginas Editora), coleção com as crônicas de viagens de Roberto Marcio. Isso para não falar de clássicos como “On The Road – Pé na Estrada” (L&PM Pocket), obra máxima de Jack Kerouac, “Na Pior em Paris e Londres” (Companhia das Letras), relato não ficcional de George Orwell e “Diário de Um Mago” (Rocco), maluquices espirituais de Paulo Coelho pelo Caminho de Santiago de Compostela. Repare que a lista acima foi construída apenas com livros. Se fosse avançar para outras manifestações artísticas, acho que passaria um dia inteiro citando exemplos. Só no cinema, temos uma avalanche deles: “Meu Verão na Provença” (Avis de Mistral: 2014), “Julie & Julia” (2012), “O Ciclo da Vida” (Fei Yue Lao Ren Yuan: 2012), “Antes do Amanhecer” (Before Sunrise: 1995) e “Um Banho de Vida” (Le Grand Bain: 2018). Se eu fosse falar de blogs, vlogs e canais no Youtube com essas temáticas, aí então acho que nunca mais pararia com as citações. Antes que alguém grite comigo sobre meus longos devaneios que não chegam a lugar nenhum, preciso explicar a relação disso tudo com a obra que vou comentar no post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária. Calma: há sim uma lógica entre meu texto introdutório e o título a ser analisado. Acredite em mim! “Sob o Sol da Toscana” (L&PM Editores), a publicação mais famosa da escritora e poetisa norte-americana Frances Mayes, é aquele tipo de sucesso editorial que, há exatos 25 anos, ajudou a catapultar o tipo de literatura que descrevemos há pouco – uma mistura bem azeitada de viagens, culinária, estilo de vida, mudança para o exterior, reforma da casa e busca por uma rotina mais alegre, holística e saudável. Se você preferir, pode colocar também uma pitadinha de autoajuda no receituário. Best-seller mundial na segunda metade da década de 1990, “Sob o Sol da Toscana” é a narrativa não ficcional de Mayes que mostrou o potencial de uma história real como mola inspiradora para os leitores. A obra trata da radical mudança da autora dos Estados Unidos para a Europa. Buscando um estilo de vida mais tranquilo (de preferência em uma cidadezinha pacata e bonita perto do Mediterrâneo), o prazer da vida simples (em meio à natureza) e o mergulho em experiências gastronômicas, culturais e turísticas (vita la dolce vita!), Frances Mayes comprou uma propriedade na Toscana para passar os meses de Verão (daí o nome de sua publicação). Se pensarmos bem, esse livro de memórias continua sendo um título extremamente atual, apesar de suas duas décadas e meia de vida. Além disso, ele teve o poder de influenciar direta ou indiretamente os escritores, os artistas e os produtores de conteúdo contemporâneos que embarcaram por essa linha editorial. Lançado em setembro de 1996, “Sob o Sol da Toscana” narra a jornada real de Frances Mayes pela Toscana, uma das regiões mais charmosas da Itália e de todo o Mediterrâneo. Professora universitária em São Francisco, Frances, então com 50 anos, decidiu comprar uma velha propriedade rural em Cortona, pequena cidade da província de Arezzo, região central da Itália. Ainda abalada com a separação do primeiro casamento e com a filha já crescida, a escritora queria mudar radicalmente de vida. Ao lado do novo parceiro, também professor universitário, Frances Mayes adquiriu uma casa italiana (quase um sítio) que estava desabitada há trinta anos. E durante os Verões e as festas de final de ano (períodos em que estava de férias na universidade), ela reformou o novo lar e tratou de dar vida à terra – plantou oliveiras, parreiras e batatas. Para completar, mergulhou na cultura, no idioma, na culinária e nos hábitos locais. Frances Mayes registrou essa sua experiência multicultural em texto. “Sob o Sol da Toscana” descreve justamente os desafios de se comprar uma casa no exterior, a reforma da propriedade, a busca por novos ingredientes culinários, a descoberta de receitas italianas, a beleza natural das cidadezinhas da Toscana, os novos amigos feitos na Itália, os encontros familiares no novo lar, os passeios realizados pela região e as alegrias e os dissabores do novo estilo de vida. O relato se estende do Verão de 1990, quando Bramasole (esse é o nome da propriedade!) foi adquirida, até o Verão de 1995, quando Bramasole já havia se tornado o lar que sua dona tanto ansiava em ter. O sucesso de “Sob o Sol da Toscana” foi tamanho que ele permaneceu por mais de dois anos e meio na lista dos livros mais vendidos do New York Times. Em 1997, ele foi eleito a obra não ficcional do ano pelo jornal nova-iorquino. Quem tem mais de 40 anos na certa já ouviu falar desse título. O relato de Frances Mayes foi traduzido para mais de 50 idiomas e rendeu milhões de unidades nos quatro cantos do planeta. Empolgado com o sucesso editorial de Mayes, o diretor Audrey Wells levou para as telonas essa história. Entre 2003 e 2004, estreava nos cinemas internacionais a versão cinematográfica de “Sob o Sol da Toscana” (Under The Tuscan Sun: 2003). O longa-metragem foi protagonizado por Kate Walsh, Lindsay Duncan e Raoul Bova. É importante dizer que o filme é diferente do livro. Por exemplo: enquanto na versão literária Frances Mayes já viajou casada para a Itália (não oficialmente, mas morava junto com o novo companheiro – para mim isso é estar casada), na versão audiovisual ela conhece em terras italianas seu novo amor. Coisas de Hollywood, né? A partir da excelente recepção do público, “Sob o Sol da Toscana” ganhou, nos anos seguintes, derivações em que a autora continuou detalhando suas experiências em terras europeias. Mayes lançou “Quatro Mulheres Sob o Sol da Toscana” (Rocco), “Bella Toscana – A Doce Vida na Itália” (L&PM Pocket), “Todos os Dias na Toscana – As Quatro Estações de uma Vida Italiana” (Rocco), “Bringing Tuscany Home: Sensuous Style from the Heart of Italy (sem tradução para o português) e “The Tuscan Sun Cookbook: Recipes from My Italian Kitchen” (também sem lançamento no Brasil). Coisas do mercado editorial, né? Nascida no estado norte-americano da Geórgia, em 1940, Frances Mayes se mudou já adulta para São Francisco, onde fez mestrado em Escrita Criativa. Na mesma universidade californiana em que se formou, trabalhou por muitos anos como professora. Ela foi também coordenadora do curso de Redação Criativa e diretora do Centro de Poesia nessa instituição. Antes do sucesso de “Sob o Sol da Toscana”, Frances publicou vários livros de poesia entre 1977 e 1995, mas nenhum obteve grande repercussão de público ou de crítica. Depois da separação do primeiro casamento no final dos anos 1980 e com uma filha já crescida (Ashley, que morava em Nova York), a escritora se casou pela segunda vez. O novo marido era Edward Kleinschmidt Mayes, também poeta e professor da Universidade de São Francisco. Após uma viagem de férias pela Europa em 1989, o casal decidiu viver parte do ano na Itália. Afinal, eles tinham três meses de férias na universidade. Para isso, rasparam as economias da vida inteira e compraram Bramasole, a tal propriedade conforme narrado em “Sob o Sol da Toscana”. Atualmente, Frances Mayes tem 81 anos e já deixou as aulas na Universidade de São Francisco há um bom tempinho. Ela se dedica agora apenas à literatura. Sua última publicação saiu no ano passado nos Estados Unidos. Trata-se de “Always Italy” (ainda sem edição em português), obra escrita em conjunto com Ondine Cohane. Para quem tem curiosidade, Frances continua vivendo na famosa casa na Itália (que a consagrou como escritora) ao lado de Ed (como Edward ficou mais conhecido pelos leitores da esposa). O casal continua passando parte do ano na Carolina do Norte e parte na Toscana. Nada mal, hein? “Sob o Sol da Toscana” possui 304 páginas. O livro tem uma introdução e 18 capítulos. Levei cerca de dez horas, nesse meio de semana, para percorrer seu conteúdo integralmente. Precisei de duas noites para isso – terça e quarta-feira. Praticamente li metade em um dia/noite e a outra metade no(a) dia/noite seguinte. A obra que tenho em mãos é a de agosto de 2008. Acho que essa é a edição mais recente que foi lançada no Brasil. Ela ganhou as livrarias nacionais pelo selo da L&PM Editores, marca da Editora Rocco. Há uma outra edição, mais antiga, de abril de 1999. Nesse caso, a publicação foi a primeira em português, saiu pela própria Rocco e tem 324 páginas (o conteúdo é o mesmo; essa versão tem um pouco mais de páginas por causa do projeto gráfico). Nas duas edições brasileiras, a tradutora foi a mesma: Waldéa Barcellos. Na introdução de “Sob o Sol da Toscana”, Frances Mayes explica o caráter de memória do seu texto. Ela também detalha como surgiu a ideia de comprar Bramasole e o que a levou a tomar a decisão de viver uma parte do ano nos Estados Unidos e outra parte na Europa. Nos 18 capítulos seguintes, a autora relata passo a passo os desafios encontrados em terras italianas. Informalmente, a obra está dividida em nove partes: (1) escolha da casa e negociação; (2) reforma/revitalização do jardim e da terra ao redor da residência – plantação de flores, batatas, parreiras e oliveiras; (3) interesse pelos ingredientes e pela culinária local; (4) formação de novas amizades e integração à sociedade cortonense; (5) reforma/revitalizações da casa em si; (6) descrição de receitas de pratos tipicamente italianos; (7) panorama da cidade de Cortona e da região da Toscana; (8) colheita das azeitonas e produção do azeite próprio; e (9) recordação da infância e da juventude da autora nos Estados Unidos. Usei o termo “informalmente” no começo da frase anterior porque essa divisão é mais conceitual do que prática (os temas se embaralham ao longo dos capítulos). Admito que gostei muito da leitura de “Sob o Sol da Toscana”. A primeira questão que chamou minha atenção foi a fluidez do texto de Frances Mayes. Ela escreve maravilhosamente bem. Se pensarmos bem, não é fácil produzir uma narrativa sem um conflito aparente (algo que pode acontecer nas tramas não ficcionais) e que trata de questões aparentemente banais (a aquisição do imóvel, a reforma da casa, o dia a dia doméstico, os perrengues com os pedreiros, a produção de receitas caseiras, os passeios turísticos, os encontros familiares etc.). E Frances Mayes faz isso muitíssimo bem (pelo menos na maior parte do tempo). Nota-se que a norte-americana tem total domínio da técnica da escrita e que escreve com genuína paixão. Sua empolgação pelas descobertas, desafios e prazeres da nova rotina na Itália é contagiante. A união de técnica refinada com passionalidade na descrição é o que dá um colorido especial a “Sob o Sol da Toscana”. Seu texto é muito atrativo e gostoso, principalmente na primeira metade, o que torna a leitura do livro rápida e prazerosa. Essa obra é daquele tipo que você começa a ler e em um piscar de olhos já terminou (parece que tem bem menos do que 300 páginas). É interessante notar as diferenças culturais (Estados Unidos versus Europa) e geracionais (realidade nos anos 1990 versus realidade atual) presentes no conteúdo dessa publicação. Os choques culturais e temporais em “Sob o Sol da Toscana” são incontáveis e praticamente surgem página a página. Chega a ser engraçado (tragicómico) ver o desespero da norte-americana com o jeito displicente dos pedreiros, com a burocracia, com a dinâmica nas feiras de rua, com a maluquice do trânsito e com a quantidade de feriados católicos na Itália (algo que não é muito diferente no Brasil). Ao mesmo tempo, chega a ser kafkiana a experiência de negociar, comprar e empreender no exterior em plena década de 1990. Vale lembrar que não havia comunicação, sistema bancário nem meio de informação tão desenvolvidos como temos atualmente. Uma simples ligação telefônica para o outro lado do Oceano Atlântico, uma transação bancária internacional ou a solicitação de uma folha de cheque (cheque!) em um banco italiano eram atividades que demandavam paciência, força de vontade, dinheiro e sorte. Ainda pela perspectiva cultural, fiquei intrigado com a citação do problema da imigração na Europa e com a dificuldade da aceitação dos estrangeiros pelos habitantes do Velho Continente. Esse tema é extremamente contemporâneo, mas surge também em um texto não ficcional do início dos anos 1990. Ou seja, essa polêmica que parece tão atual é algo que vem se arrastando há algumas décadas. “Em Sob o Sol da Toscana”, Frances Mayes mostra o quanto os italianos estavam, há trinta anos, incomodados com os poloneses e os demais cidadãos do Leste europeu que se mudavam para as terras mediterrâneas. Ainda falando em citações, a intertextualidade literária é outra questão que precisa ser elogiada no texto de Mayes. Como professora de literatura, escritora, poeta e leitora inveterada, ela faz referência em seu texto a vários autores e obras, principalmente os clássicos. Percebe-se que esse expediente é algo profundamente natural – faz parte do pensamento e do cotidiano de Frances Mayes. Quem gosta de literatura, na certa se identificará com as comparações e as analogias feitas pela norte-americana em seu relato. A única questão negativa de “Sob o Sol da Toscana” é que na segunda metade do livro (nove capítulos finais) a narrativa perde força. Uma vez passado os maiores desafios para a compra e a reforma da casa italiana, o texto de Mayes se torna meio repetitivo e um tanto chatinho. Prova disso é que ao invés de falar da propriedade em si e das melhorias promovidas na residência (o conflito que deu origem ao relato não ficcional!), a escritora passa a descrever os encontros familiares, as viagens pela Itália e as lembranças da infância e juventude nos Estados Unidos. Curiosamente, mesmo com a perda de força, a narrativa ainda assim continua charmosa e convidativa. O que ajuda em muito nisso é a excelente ambientação. A Toscana é realmente um cenário perfeito para um livro. Outra questão que precisa ser debatida é o quão datado é esse título. Aos olhos dos leitores contemporâneos pode parecer estranho a descrição da rotina doméstica, dos cenários, das situações familiares, das viagens, da culinária, dos perrengues com os pedreiros e do mergulho na cultura italiana. Contudo, é preciso lembrar que “Sob o Sol da Toscana” é uma obra produzida entre 1990 e 1995 e lançada em 1996. Naquela época, não existia Internet (não com a pegada comercial que temos atualmente) e a televisão a cabo não era tão desenvolvida em boa parte do mundo (no Brasil, por exemplo, era artigo raro). Ou seja, era mais difícil para as pessoas conhecerem a realidade dos lugares no outro lado do mundo. Por isso, o caráter tão descritivo do livro de Frances Meyes (e seu poder de encantar os leitores daquele período). Nos dias de hoje, na certa Frances não teria escrito uma obra como essa. Provavelmente, ela teria, se tivesse comprado agora uma casa na Itália, criado um canal no Youtube descrevendo os passos da reforma na residência, as receitas culinárias e as dicas de viagem. Compreendido esse aspecto temporal, considerei “Sob o Sol da Toscana” uma obra exemplar. É verdade que ele não foi o primeiro do gênero. “Um Ano na Provence” (Sextante), best-seller de Peter Mayle, foi lançado em 1989 e tem a mesma proposta do livro de Frances Mayes (narra a mudança do autor britânico para a França). Se recuarmos um pouco mais no tempo, iremos nos lembrar de M. F. K. Fischer e seu emblemático “Um Alfabeto para Gourmets” (Companhia das Letras), relato não ficcional da escritora norte-americana apaixonada pela culinária. Portanto, não é errado enxergarmos “Sob o Sol da Toscana” como uma junção de “Um Ano na Provence” e “Um Alfabeto para Gourmets”. Ao mesmo tempo, podemos encarar o recente “Comer, Rezar e Amar”, da excelente Elisabeth Gilbert, como um filhote direto de “Sob o Sol da Toscana”. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: dezembro/2021
Na última coluna desse ano, as efemérides miliádicas de Paulo Sousa contemplam apenas os autores best-sellers e os escritores clássicos. Confira! Queridos leitores do Blog Bonas Histórias! Em nossa coluna Miliádios Literários de dezembro, apresentaremos apenas as efemérides dos escritores best-sellers e dos autores consagrados. Teremos por aqui somente pessoas que encantam as massas com suas palavras. Parabéns à Paula Hawkins, que faz 18 miliversários no dia 7. Ela é uma das principais escritoras do Zimbábue, e lançou-se ao mundo com o best-seller “A Garota no Trem” (Record). Curiosamente, em Portugal, o livro se chama “A Rapariga no Comboio” (TopSeller). Hawkins também é autora de “Em Águas Sombrias” (Record). Quem não conhece os versos “Marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo...”? Logo vem à mente o “Sítio do Pica-pau Amarelo”, coleção do grande Monteiro Lobato. Fazem parte dessa coleção inúmeros sucessos, como “Fábulas”, “Reinações de Narizinho”, “Memórias da Emília”, “O Pica-pau Amarelo” (Ciranda Cultural). Lobato nasceu há 51 miliádios completados no dia 5. Sucesso é o que tem Ray Bradbury, que faria 37 miliversários no dia 10. Ray é autor de “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), um dos livros mais atuais que existe. A distopia foi lançada originalmente em 1953, e teve capítulos publicados até na revista Playboy. Ray Bradbury também é autor de “Algo Sinistro Vem por Aí” (Difel). Com a molecada, João Carlos Marinho faz muito sucesso. Famoso por ser autor de best-sellers infantojuvenis, como “Sangue Fresco”, “O Gênio do Crime” e “Detetive Berenice” (Global), João chegou a ganhar o Prêmio Jabuti e o Prêmio APCA. Seu falecimento aconteceu há apenas um miliádio, completado no dia 11. Um autor que entrou para a história da literatura e dos vestibulares é Raul Pompeia. O autor de “O Ateneu” e “Canções sem Metro” (Penguin) estudou direito e logo despontou como um romancista influente. Acabou cometendo suicídio pouco antes dos 12 miliádios, data que completa 46 miliádios no dia 4. Uma escritora que está nadando em dinheiro, sucesso e prêmios é Nora Roberts. Ganhadora de inúmeras premiações, todas muito intelectualizadas, ela vendeu mais de 400 milhões de livros como “Refúgio”, “Uma Sombra do Passado”, a série “Mortal”, “Pecados Sagrados” e “A Cruz de Morrigan” (Bertrand Brasil). Roberts nasceu há 26 miliádios completados no dia 16. Apesar de citarmos muitos autores de sucesso, deixamos o Rei dos Best-sellers para o final. Estou falando de Dan Brown. Presença garantida na lista dos mais vendidos, Brown teve suas obras traduzidas para mais de 50 línguas. Ele já foi considerado pela Revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Seus sucessos foram adaptados para o cinema e venderam mais de 200 milhões de cópias. Dan Brown é autor do onipresente “O Código da Vinci” (Arqueiro), bem como “Origem”, “Inferno”, “O Símbolo Perdido”, “Anjos e Demônios”, “Ponto de Impacto” e “Fortaleza Digital” (Arqueiro). Recentemente, ele lançou “Sinfonia dos Animais” (Arqueiro), o primeiro livro com trilha sonora original, uma inovação na relação entre livros e mídias digitais. Um gênio que, no dia 20, comemora com muita elegância 21 miliversários. E mais uma coluna Miliádios Literários termina, sempre com muito sucesso embutido. Não é um fim qualquer, pois acaba também o ano de 2021, deixando a dureza e a desesperança que brotaram em 2020. Este fim de coluna não é apenas mais um, mas o definitivo. Aqui se encerra a segunda e última temporada dos Miliádios Literários, tendo tentado trazer um pouco de leveza e humor aos nossos maravilhosos e incontáveis leitores. Mas vamos nos lembrar: vão-se as colunas, ficam os miliádios! Continue acompanhando no Blog Bonas Histórias as novidades da literatura mundial que, a cada ano, nos presenteia com novas histórias e novos autores que, um dia, terão os miliádios celebrados. Sucesso a todos! Parabéns pelo Miliversário... ... Bernardo Kucinski, autor de "K - Relato de Uma Busca" (Cosac Naify), “Você Vai Voltar Pra Mim e Outros Contos” (Cosac Naify), Pretérito Imperfeito (Companhia das Letras) e “Júlia” (Alameda Editorial), que comemora 31 miliversários no dia 13. Em memória de... ... Vitorino Nemésio, autor português de “Mau Tempo no Canal” (Leya), que faleceu há 16 miliádios completados no dia 11. ... Joaquim Manuel de Macedo, autor de “A Moreninha” (Ática) e “A Luneta Mágica” (Martin Claret), cujo falecimento aconteceu há 51 miliádios, completados no dia 28. ... José Régio, autor de “Fado” (A Bela e o Monstro), “Poemas de Deus e do Diabo” (Opera Omnia) e “Velha Casa” (Portugaia), cujo falecimento completa 19 miliádios no dia 29. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), da novela “Histórias de Macambúzios” e da coletânea poética “Acinte 2020”. Em seus textos, Paulo apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Forró - As origens, a história e as características do ritmo pernambucano
Essa é a homenagem da coluna Dança ao Dia Nacional do Forró, comemorado em 13 de dezembro. Hoje é dia de comemoração! Em 13 de dezembro, celebra-se o Dia Nacional do Forró. E a coluna Dança não poderia deixar essa data passar em branco. Por isso, vamos antecipar as homenagens a esse ritmo genuinamente brasileiro. A ideia é contar, nesse novo post do Bonas Histórias, as origens, a história, a evolução, as características, as curiosidades e as variações do Forró. É mais ou menos o que já fizemos com o Frevo, a Dança Solta, a Dança de Salão, o Ballet Clássico e a Dança Moderna e Contemporânea. E para quem pensa que o Forró se limita à dança e à música, já adianto que esse gênero é uma manifestação artístico-cultural muito mais ampla. Ele designa um tipo de festa muito popular no Nordeste brasileiro. O ritmo contagiante e animado desse evento acabou conquistando o país de Norte a Sul ao ponto de podermos dizer atualmente que ele tem uma abrangência nacional (quiçá internacional). A origem do Forró se deu, em Pernambuco, nos anos 1930. Porém, foi só vinte anos mais tarde, na década de 1950, que ele se popularizou realmente. O responsável por isso foi o compositor e cantor Luiz Gonzaga (1912–1989). Ele gravou, em 1949, a música “Forró de Mané Vito” que fez grande sucesso no Nordeste inteiro. Foi Luiz Gonzaga quem caracterizou o estilo musical formado pelo trio de instrumentos sanfona, zabumba e triângulo. Nascia, ali, o Forró como conhecemos hoje. O “Rei do Baião”, como Gonzaga era chamado popularmente, foi tão importante para a história desse ritmo que a escolha para a data do Dia Nacional do Forró, instituído em 2005, foi feita para homenageá-lo. Afinal, 13 de dezembro é nada mais, nada menos do que o dia de nascimento do músico. O reconhecimento desse gênero pelo restante do Brasil, no entanto, viria só nas décadas de 1960 e 1970. Com a migração nordestina para várias regiões do país, o Forró foi sendo disseminado e ganhando mais popularidade nos demais territórios da nação. Dessa maneira, esse estilo passou a integrar a programação das rádios e a atrair o interesse comercial das gravadoras nos principais centros urbanos brasileiros. A história do Forró é marcada, obviamente, muito pela cultura nordestina, seja na origem do nome, nas letras das canções e até na forma de se dançar. As composições eram inicialmente inspiradas no modo de vida do povo dessa região do país. As letras das músicas retratavam os hábitos, as alegrias, o cotidiano, os amores e as lembranças da terra natal dos nordestinos. A origem do nome Forró tem duas versões, mas nenhuma delas tem comprovação assegurada. A versão mais aceita pelos historiadores é aquela que diz que o termo Forró é uma derivação da palavra africana “forrobodó”, que significa festa, farra, confusão. No final do século XIX, com a influência dos negros vindos da África, as festas populares no Nordeste eram chamadas de “forrobodó”, “forrobodança” e “forrobodão”. A outra versão, mais popular, é que o nome Forró teria se originado a partir de uma expressão inglesa. No início do século XX, engenheiros britânicos foram para Pernambuco para construir a ferrovia Great Western. Eles promoviam festas que muitas vezes eram abertas para a população local. E para anunciar que o evento era para todos, os ingleses colocavam placas na entrada escritas “for all”. A pronúncia arrastada em português desse termo teria levado ao Forró. A Enciclopédia da Música Brasileira afirma, no entanto, que essa palavra já era utilizada no final do século XIX, fortalecendo, assim, a primeira teoria – Forró teria surgido de “forrobodó” e não de “for all”. Os bailes de Forró dessa época eram realizados em espaços com o chão batido, sem revestimento. Para diminuir a poeira levantada enquanto se dançava, o chão era molhado antes do baile começar e os dançarinos arrastavam os pés. Com isso, a dança do Forró também passou a ser chamada de Rastapé ou Arrasta-pé. O Forró tradicional, também conhecido como Forró-pé-de-serra, reúne gêneros como Baião, Xote e Xaxado. O Baião teve origem no Lundu Africano e nas danças indígenas. Era cantado por violeiros e por bandas do interior nordestino. O Xote, por sua vez, teve influência europeia. Ele é uma dança parecida à Polca, mas de ritmo mais lento. Já o Xaxado teria se originado no Cangaço. Como não havia mulheres junto aos cangaceiros, ele era uma dança estritamente masculina e realizada com coreografias em linha, sem par. É importante dizer que todos esses gêneros têm em comum a base instrumental do Forró – a utilização da sanfona, do triângulo e da zabumba. Os maiores representantes do Forró-pé-de-serra são: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro (1919–1982), Dominguinhos (1941–2013), Sivuca (1930–2006) e Marinês (1935–2007). O Forró sofreu modificações ao longo de sua história. Podemos dizer que o Forró tradicional, aquele lá dos anos 1930, representou a primeira fase do gênero. Ele acabou perdendo força e apelo popular com a chegada da Bossa Nova e das músicas internacionais. Foi em 1975 que esse ritmo ganhou um novo significado, o que lhe fez ganhar ainda mais notoriedade. Nessa época, começou um processo de revalorização da música brasileira. O Forró adquiriu uma nova roupagem com a introdução de instrumentos eletrônicos como a guitarra, o baixo, o teclado e a bateria. Esses novos instrumentos passaram a conviver com a zabumba, a sanfona e o triângulo. Assim, o Pop e o Rock foram incorporados ao Forró tradicional. Começava, então, a segunda fase do Forró, conhecida como Forró Universitário. O nome se deu porque os primeiros grandes consumidores dessa nova versão eram os estudantes das universidades. Por falar nisso, os jovens foram os grandes responsáveis por trazer uma temática mais urbana ao Forró. Nessa nova fase, destacam-se cantores e bandas como Alceu Valença (1945), Trio Nordestino, Zé Ramalho (1949) e Elba Ramalho (1951). No final da década de 1990, surgiram bandas que ajudaram a divulgar e a promover o gênero nas grandes metrópoles. Dessa geração, destacam-se grupos como Falamansa, Forroçacana, Rastapé, Trio Forrozão, Raiz do Sana e Bicho de Pé. Duvido que alguém com o mínimo de intimidade com a música nacional não conheça pelo menos uma dessas bandas. Ainda nos anos 1990, teve início a terceira fase do Forró. Conhecida como Forró Eletrônico, essa variação usa mais intensamente os instrumentos eletrônicos, que ganharam mais destaque em detrimento à zabumba, que perdeu sua utilização e acabou retirada das músicas. As bandas que representam essa nova fase são: Mastruz com Leite, Magníficos, Calcinha Preta e Aviões do Forró. O Forró é um dos ritmos da Dança de Salão, modalidade praticada essencialmente em casal. Desde os anos 1990, ele ganhou muito destaque e passou a ser uma das danças preferidas do público. Por ser um ritmo muito animado e contagiante, o Forró ganha muitos adeptos e é o queridinho dos brasileiros até hoje. Essa dança é caracterizada por movimentos simples, em que o casal dança próximo e abraçado, e por giros e desenhos de braço, quando o par está um pouco afastado. Para quem quer iniciar na Dança de Salão e não sabe por qual ritmo começar, o Forró é uma excelente opção. Seus movimentos são mais fáceis, ele é um ritmo alegre e é muito fácil encontrar lugares para sair para dançar esse estilo em todas as regiões do país. Aqui o básico dois para lá, dois para cá faz todo o sentido. Com esse movimento já dá para começar a dançar e a se divertir ao som contagiante do Forró. No vídeo, a seguir, eu ensino um passo inicial de Forró. Confira: Para terminar o post de hoje da coluna Dança, deixo aqui uma fala de Tato Cruz (1978), vocalista e compositor do Falamansa. Suas palavras resumem bem a história e a importância do Forró: “A influência de Luiz Gonzaga que era regional, hoje é nacional. Até a MPB se inspira um pouco no Forró”. Comemoremos o dia 13 de dezembro com um bom Forrobodó. E até o mês que vem com muito mais dança! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Úrsula - O romance pioneiro de Maria Firmina dos Reis
Lançada em 1859 e revalorizada nos últimos anos, essa obra romântica é a primeira publicação produzida por uma escritora negra no Brasil. No final de semana passado, li “Úrsula” (Penguin & Companhia das Letras), o romance clássico de Maria Firmina dos Reis. Esse livro é importante para a literatura brasileira porque representou a primeira obra produzida por uma escritora negra. Além disso, “Úrsula” é considerado o primeiro título abolicionista de nosso país (ele precede, por exemplo, os textos engajados de Castro Alves). Com um enredo romântico protagonizado por um jovem casal branco, a narrativa de Maria Firmina traz uma forte crítica à escravidão, ao tráfico negreiro, ao racismo, à violência, ao patriarcalismo, ao machismo e às injustiças sociais do Brasil no Período Imperial. A grande inovação desse título está em ter dado vozes às personagens negras. Elas apresentam seus pontos de vista e expõem as condições desumanas em que viviam nas fazendas brasileiras. Nascida em São Luís do Maranhão, em 1822 (só foi registrada em 1825), Maria Firmina dos Reis é filha de uma mulher branca e de um homem negro, provavelmente escravo. Como sua mãe era muito pobre, a menina foi entregue para uma tia mais abastada criar. Esse tipo de rearranjo familiar (vamos chamar essa prática dessa maneira, tá?) sempre foi muito comum no Brasil. Lembremos que o mesmo fato aconteceu com outro escritor famoso, José Mauro de Vasconcelos, autor do incrível “Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos) – nascido em uma família pobre do Rio de Janeiro, ele foi criado por familiares mais ricos no Nordeste. Por isso, Maria Firmina foi viver na Vila de São José de Guimarães (cidade atualmente chamada apenas de Guimarães), no interior maranhense, onde a tal tia morava. E foi ali que a futura escritora passou o restante da vida. Alfabetizada e letrada, Maria Firmina dos Reis se formou professora e lecionou em escolas primárias de Guimarães por mais de três décadas. Na biblioteca da casa da tia, a jovem adquiriu o gosto pela literatura, paixão que cultivou a partir de então. Além de ler muito, Maria Firmina gostava de escrever. O portfólio literário da autora maranhense contempla “Úrsula”, seu romance de estreia, “Cantos à Beira-mar”, coletânea poética de 1871, e “A Escrava”, conto abolicionista publicado em 1887. Ela também compôs músicas e produziu artigos e crônicas para os jornais locais. Publicado em São Luís, em 1859, “Úrsula” recebeu comentários tímidos da crítica literária maranhense. Naquela época, as poucas matérias jornalísticas sobre o livro variaram entre a indiferença e os elogios contidos. Por não pertencer ao círculo literário da capital de seu estado (então província do Maranhão), Maria Firmina dos Reis não conseguiu promover seu trabalho ficcional com a intensidade desejada/necessária. É verdade também que o fato de ela ser uma escritora mulher e negra não ajudou em nada. É desnecessário dizer que a sociedade brasileira e nordestina naquele período (naquele período?!) era machista e racista. Como consequência, em pouco tempo, “Úrsula” acabou esquecido pelo público e seus exemplares desapareceram da vista de todos. Foi necessário mais de um século para que o nome e as obras de Maria Firmina dos Reis fossem revalorizados. Em 1975, o Governo do Maranhão lançou uma edição especial de “Úrsula” em comemoração aos 150 anos do nascimento da escritora (celebra-se o aniversário dela de acordo com a data de seus registros). Assim, o romance icônico voltou a circular e ganhou outra vez o público maranhense. Entretanto, a obra só teve uma edição nacional no final da década seguinte. Em 1988, a Montecristo Editora, companhia do Rio de Janeiro voltada à publicação de clássicos literários, lançou “Úrsula” na “Coleção Resgate”. Dessa maneira, o título de Maria Firmina não apenas chegou aos leitores das principais cidades do Centro-Sul do país como foi colocado, pela primeira vez, ao lado dos principais exemplares da literatura clássica brasileira. A partir de então, surgia um novo cânone do Romantismo nacional. Mesmo com os destaques recebidos nas décadas de 1970 (local/estadual) e 1980 (nacional), “Úrsula” só ganhou novas e recorrentes edições no século XXI. Com uma visão mais diversificada e plural, o mercado editorial brasileiro soube reconhecer os méritos de escritores (e escritoras!) talentosos que estavam esquecidos. Nos últimos anos, assistimos à revitalização de muitos artistas das letras (Maria Firmina dos Reis é uma delas). Desde 2009, é possível achar com facilidade “Úrsula” nas livrarias brasileiras, algo que sempre fora dificílimo. Várias editoras (de todos os portes e de muitas regiões do país) publicaram novas edições desse romance nos últimos cinco anos, o que contribuiu para sua popularização. É verdade que, na ânsia de querer reparar as injustiças do passado (esquecimentos e preconceitos, por exemplo), alguns exageros e inverdades foram cometidos. Um deles é dizer que “Úrsula” é o primeiro livro escrito e publicado por uma mulher no Brasil. Não, não é correto afirmar isso! A primeira obra lançada no país por uma autora feminina foi “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens”, de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo da potiguar Dionísia Gonçalves Pinto. Polêmicas à parte sobre sua originalidade (há quem acuse Nísia Floresta de ter traduzido um título francês para o português sem o devido crédito), “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens” é reconhecido por grande parte da crítica literária como o primeiro livro escrito por uma mulher da literatura brasileira. Mesmo com essa ressalva (ela é importante porque muita gente esqueceu-se de Nísia Floresta), “Úrsula” continua sendo uma obra de grande valor literário e histórico (tem até mais predicados literários do que, por exemplo, as publicações de Nísia Floresta). O romance de Maria Firmina dos Reis continua sendo o primeiro livro escrito por uma mulher negra no Brasil (o que não é pouca coisa!). Além disso, “Úrsula” é a obra inaugural do abolicionismo em nosso país e um precursor da literatura afro-brasileira em língua portuguesa. Portanto, méritos não faltam para Maria Firmina ser alçada ao posto das principais figuras do Romantismo Brasileiro e da Cultura Negra de nosso país no século XIX. O enredo de “Úrsula” começa em uma risonha manhã de agosto. Tancredo de ***, o jovem filho de um rico fazendeiro local, cavalga pelos campos com o coração partido. Ele foi traído pela noiva, Adelaide. A moça o trocou por ninguém menos do que o pai dele. Desconsolado com a recente descoberta da dupla punhalada no peito (praticada tanto pelo próprio pai quanto pela amada), Tancredo trota com seu cavalo à esmo pelos campos. Atormentado pelos pensamentos inquietantes da traição, o rapaz não percebe a fadiga do animal que o carrega. Assim, depois de uma andança aleatória e interminável, o cavalo desaba fatigado no chão. Como consequência ao acidente, Tancredo também cai e bate a cabeça no solo. Ele fica desacordado por algum tempo. Por sorte, o jovem cavaleiro é socorrido por Túlio, um dos escravos da fazenda de Luiza B., uma viúva que está há doze anos prostrada em uma cama (ela é paralítica). O negro estava passando por ali e encontrou o rapaz desfalecido. Tancredo é levado, então, por Túlio à sede da propriedade. Lá, ele é atendido por Úrsula B., a filha única da dona da fazenda. Enquanto se recupera do acidente, o viajante tem alucinações que revelam as angústias do passado e as tormentas do coração. Tanto padecimento acaba cativando os sentimentos de Úrsula. A moça se apaixona pelo rapaz que está sob seus cuidados. Para alegria de muitos, a paixão de Úrsula é correspondida. Tancredo também se encanta com a meiguice e a beleza do anjo que vive à beira de sua cama. Antes de se prometerem um para o outro, o casal de protagonista decide contar as agruras pelas quais padeceram nos últimos anos. Tancredo de *** relata para a nova amada a paixão frustrada por Adelaide. Interessada na fortuna do pai, a moça o largou para se casar com o velho fazendeiro tão logo a mãe de Tancredo morreu. Por sua vez, Úrsula precisa cuidar sozinha da mãe. No passado, Luiza B. brigou com o irmão, o comendador Fernando P., quando decidiu se casar com Paulo B., um homem de poucas posses. O ódio de Fernando pela nova família da irmã desencadeou uma série de vinganças que comprometeram o destino dos pais de Úrsula. As brigas resultaram no assassinato de Paulo B. e na prostração de Luiza na cama. Sem pai e com a mãe inativa, Úrsula B. cresceu em uma fazenda que foi mantida graças ao trabalho de Túlio e de Mãe Ursula, a dupla de escravos do lugar. A ciência do passado difícil e trágico dos parceiros potencializa o amor de Tancredo e Úrsula. Eles decidem se casar. Antes, porém, Tancredo de *** precisa fazer uma última viagem para a fazenda da família. Ele quer acertar as contas com o pai e com a antiga noiva. Só depois de falar o que pensa diretamente à dupla de traidores, o rapaz estará pronto para subir ao altar com a nova amada. Para essa viagem, Tancredo convida Túlio para acompanhá-lo. Agradecido pelo socorro que o negro lhe prestou, o rapaz deu a Túlio todo o dinheiro que carrega consigo. Dessa maneira, o escravo consegue comprar sua carta de alforria. Sendo agora um homem livre, Túlio aceita o convite do amigo para acompanhá-lo na viagem. Esperançosa por dias melhores, Úrsula B. aguarda a volta do noivo para se casar e ser, enfim, feliz. O que a moça não imagina é que enquanto espera o retorno de Tancredo, ela irá se tornar alvo do coração do pior inimigo de sua família. Sem Tancredo de *** e Túlio por perto, as mulheres da fazenda de Luiza B. se tornarão vítimas fáceis da maldade do homem mais rico da região. Por essa nova perspectiva, o drama de Úrsula B. acaba ficando até mais intenso e angustiante. “Úrsula” é um romance de 224 páginas. Ele está dividido em um prefácio de Maria Firmina dos Reis, 20 capítulos e um epílogo. Na edição da Penguin/Companhia das Letras, há também uma longa introdução de Maria Helena Pereira Toledo Machado, na qual conhecemos a importância e o pioneirismo de “Úrsula” e de Maria Firmina dos Reis para literatura brasileira, e uma cronologia de Flávio dos Santos Gomes, em que somos apresentados aos principais fatos relativos à época de publicação desta obra. Levei entre sete e oito horas para percorrer as páginas de “Úrsula” no domingo da semana passada. Comecei a leitura de manhãzinha e só terminei à noite. Narrado em terceira pessoa por um narrador que não fica colado a nenhuma personagem especificamente (ele/ela acompanha ora Tancredo de ***, ora Úrsula B., Túlio, Mãe Susana, Luiza B. e Fernando P.), “Úrsula” tem como principal característica a multiplicidade de linhas narrativas. É possível notar essa qualidade do romance desde os primeiros capítulos. Maria Firmina dos Reis construiu sua história ancorando-se em algumas vertentes antagônicas: passado (tragédias sentimentais de Luiza e de Tancredo) versus presente (amor de Úrsula e Tancredo); os dramas dos escravos negros (em busca de liberdade e de uma vida digna) versus as paixões e desavenças dos fazendeiros brancos (normalmente indiferentes ao que se passa em suas senzalas); e as brigas de cada família separadamente (da família *** e da família P/B) versus as intrigas entre as duas famílias (paixão de Tancredo e Úrsula). Grande parte da riqueza literária deste enredo se dá por essa multiplicidade de perspectivas narrativas. Outra questão essencial de “Úrsula” é a contundente crítica ao racismo e à escravidão contida em suas páginas. O tom abolicionista aparece tanto no discurso das personagens do romance quanto nas palavras engajadas do narrador. E é justamente este aspecto o que torna este livro uma peça tão singular na literatura brasileira. Mais ou menos três décadas antes da decretação da Lei Áurea, Maria Firmina dos Reis já escancarava na ficção o drama dos negros aprisionados injustamente nas senzalas brasileiras. Sob esse ponto de vista, o capítulo 9 é simplesmente espetacular. Nele, Túlio e Mãe Susana conversam abertamente sobre os horrores da falta de liberdade. A velha escrava conta para o rapaz que tem como filho como era sua vida na África, antes de ser aprisionada e levada à força para o outro lado do Oceano Atlântico. Esta parte é realmente emocionante. Além do racismo e da escravidão, a escritora maranhense também escancara em “Úrsula” o machismo, o patriarcalismo, a violência doméstica, as traições familiares, as práticas incestuosas, a ambição pelo status e a ganância pelo dinheiro na sociedade rural brasileira na metade do século XIX. Em termos de crítica social e de representação da vida brasileira no período imperial, essa obra é impecável. Assistimos ao panorama político-social e aos dramas dos habitantes daquela época sem subterfúgios ou firulas. A realidade é atroz, injusta e violenta principalmente para as mulheres, para os negros e para a população pobre. Contudo, nem mesmo os homens brancos escapam, às vezes, das mazelas provocadas pelas engrenagens sociais que eles próprios comandam. Se por um lado a literatura de Maria Firmina dos Reis pode ser descrita como pioneira, disruptiva e corajosa, por outro lado ela peca ao impor às personagens negras os papéis de meros coadjuvantes da trama. Admito que, antes da leitura de “Úrsula”, imaginava que Túlio e Mãe Susana, por exemplo, fossem os protagonistas do livro. Contudo, para minha surpresa, coube a Tancredo de ***, Úrsula de B. e Fernando P. os papéis de personagens principais dessa história. O trio é formado por figuras brancas advindas de famílias ricas. Confesso que isso me decepcionou um pouco (tinha outra expectativa). Ou seja, por mais inovador que tenha sido esse romance de Maria Firmina dos Reis, ainda foram necessárias mais algumas décadas (ou século) para os negros serem alçados ao posto de protagonistas da literatura brasileira. Paradoxalmente, “Úrsula”, a obra inaugural da literatura afro-brasileira, é caracterizado por ter suas personagens negras no papel de coadjuvantes da narrativa. Se Túlio e Mãe Susana fossem os verdadeiros protagonistas desta obra, aí sim teríamos algo ainda mais revolucionário. Isso quer dizer, então, que “Úrsula” é um livro decepcionante? Não, é claro que não! Ele possui vários elementos narrativos que merecem nossos elogios. Por exemplo, gostei muito do clima de suspense que permeia quase todo o relato. O suspense surge já nas primeiras páginas, ao esconder do leitor o nome do rapaz que cai do cavalo. Curiosamente, descobrimos o nome de Tancredo apenas no quarto capítulo. Até ali, ele não teve sua identidade revelada, o que potencializa a curiosidade de quem lê o romance. Apesar de hoje ser um expediente narrativo até banal a ocultação da designação do protagonista, quando “Úrsula” foi publicado isso não era tão comum. Adorei esse tom de mistério. Outro ponto espetacular é o desfecho da trama. Sem dúvida nenhuma, o desenlace de “Úrsula” é um dos mais tristes, amargos e trágicos da literatura brasileira e da ficção em língua portuguesa. Para quem gosta de finais surpreendentes e ácidos, temos aqui um prato cheio. De maneira geral, os pontos negativos de “Úrsula” são todos relativos ao tipo de literatura praticada na época de Maria Firmina dos Reis, o Romantismo, e não às características pessoais da produção ficcional da autora maranhense. Assim, a descrição detalhada dos cenários e da natureza, a linguagem profundamente formal, a construção de personagens planas e o amor exacerbado dos protagonistas, questões que aos olhos modernos comprometem à qualidade da narrativa (vamos discutir cada um desses pontos nos próximos parágrafos), eram aspectos inerentes ao estilo da literatura romântica. Vale a pena ressaltar que a palavra “romântica”, no final da frase anterior, refere-se ao Romantismo, a escola literária que vigorou no Brasil durante boa parte da segunda metade do século XIX. Maria Firmina dos Reis foi uma escritora romântica. A descrição detalhada dos cenários e da natureza salta aos olhos logo no início da obra. As primeiras páginas de “Úrsula” são puramente relatos do lugar onde a trama acontece. Esse é um recurso tipicamente romântico. Lembremos dos romances de José de Alencar, por exemplo, com páginas e páginas exclusivamente descritivas. Pela perspectiva dos leitores contemporâneos (público extremamente ansioso e refém de textos com muita ação), esse expediente narrativo atrapalha um pouco a fluidez da história. Talvez essa característica possa ser apontada como o principal problema de “Úrsula” (e de quase todos os títulos românticos). O linguajar é profundamente rebuscado, inclusive nos diálogos. O formalismo excessivo confere um caráter um tanto inverossímil ao discurso do romance. Entretanto, (repito!) isso não é uma falha de Maria Firmina dos Reis e sim dos textos românticos de maneira geral. Recordemos como Peri e Ceci, os protagonistas de “O Guarani” (Paulus), livro clássico de José de Alencar, falavam... Se aquilo lá não era um texto inverossímil, sinceramente não sei mais o que significa verossimilhança em uma narrativa literária. As personagens de “Úrsula” são sempre figuras planas. Em outras palavras, ou elas são totalmente boazinhas (heróis e heroínas sem qualquer defeito de caráter) ou são totalmente más (vilões sem quaisquer características nobres). Não há, portanto, gradações. Querendo ou não, esse maniqueísmo tão acentuado acaba tirando alguns pontos da qualidade desse romance. Outra questão que acho divertidíssima nos romances românticos é o amor instantâneo e exacerbado das personagens. Você já reparou como as pessoas se apaixonam perdidamente em um piscar de olhos nesses livros?! O cara viu a moça, a moça olhou para o rapaz e pronto! Booom!!! Eles estão perdidamente apaixonados. Um simples olharzinho, às vezes de canto de olho, já é suficiente para eles ficarem presos um ao outro para todo o sempre. A partir daí, ninguém consegue ser feliz se não estiver ao lado do amado ou da amada. Se isso acontecesse uma ou outra vez nessas obras, tudo bem, até aceitaria. O problema é que todos os amores para os autores românticos são imediatos e possuem a força de uma bomba atômica. Confesso que nunca consegui digerir essa parte da trama. Para encerrar a análise de “Úrsula”, preciso comentar a introdução de Maria Helena Pereira de Toledo Machado. Obviamente, esse texto está disponível na edição do livro da Penguin/Companhia das Letras, a versão do romance de Maria Firmina dos Reis que li na semana passada. Especialista em história social da escravidão, abolição e pós-emancipação, Maria Helena é uma respeitada acadêmica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Na introdução à obra, a pesquisadora apresentou um impecável ensaio sobre a importância desse livro e do papel de Maria Firmina dos Reis para a literatura brasileira. Além disso, Maria Helena Pereira de Toledo Machado teceu um panorama riquíssimo sobre a realidade social no Nordeste brasileira no século XIX. Se você já leu “Úrsula” em outra edição, vale a pena ler essa só para conhecer o belíssimo texto introdutório. Realmente, ele é completo, profundo e belíssimo. Seu único tropeção foi ter contado a história inteira do livro, inclusive o desfecho, para os leitores antes que eles pudessem ter lido o romance. Sim, é isso mesmo o que você leu: ficamos sabendo o enredo e o desenlace da narrativa de Maria Firmina dos Reis já na introdução de Maria Helena. Ai, ai, ai. Isso não se faz! Repare que nem nos posts do Bonas Histórias nós apresentamos os finais das histórias comentadas. Como já tinha apontado em março desse ano na análise de “A Falência” (Penguin & Companhia das Letras), clássico de Júlia Lopes de Almeida que também tem esse equívoco, não se deve antecipar NUNCA o desfecho do romance em sua introdução. Se o autor convidado para discorrer sobre a obra insistir, coloca-se, então, esse texto como posfácio. Pronto: aí o problema fica resolvido. O que não se deve fazer JAMAIS é estragar a experiência do leitor – algo que vem sendo feito sistematicamente nessa coleção de títulos clássicos da Penguin & Companhia das Letras. É uma pena essa falta de sensibilidade dos editores. Mesmo com o estraga-prazer da revelação do que irá acontecer na trama (minha dica: leia o texto de Maria Helena Pereira de Toledo Machado só depois da leitura da história ficcional de Maria Firmina dos Reis), “Úrsula” se mostra um romance incrível. Ele se torna mais interessante todas as vezes que se debruça sobre as questões escravocratas e menos quando se volta para o amor incondicional do jovem casal branco. Vale a pena conhecer esse título icônico da literatura afro-brasileira. Maria Firmina dos Reis foi uma excelente escritora. Ela merece nossos aplausos e elogios, além de ser justa a revalorização de seu trabalho depois de ter ficado por tanto tempo esquecido. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Análise Literária: Elena Ferrante
O Desafio Literário apresenta o estudo dos livros, do estilo narrativo e dos mistérios de Elena Ferrante, a principal romancista italiana da atualidade. Nos últimos dois meses, o Bonas Histórias investigou o trabalho ficcional de Elena Ferrante, a principal representante da moderna literatura italiana e autora best-seller mundial. Ferrante é a segunda figura analisada, em 2021, no Desafio Literário, coluna do blog dedicada ao estudo estilístico dos mais renomados escritores nacionais e internacionais de ontem e de hoje. Quem acompanha com frequência nossos estudos se lembrará que, em abril e maio desse ano, comentamos em detalhes a literatura de Orhan Pamuk, o mais notável autor turco da atualidade e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006. E essa sétima temporada do Desafio Literário ainda reserva para outubro e novembro um mergulho nas obras de Julio Cortázar, um dos principais representantes da ficção argentina de todos os tempos, da literatura em língua espanhola no século XX e do gênero das narrativas curtas em nível global. Elena Ferrante se tornou mundialmente conhecida com a Série Napolitana, saga literária que narra os dramas de duas amigas nascidas e criadas em Nápoles. A trama vai da infância à velhice das protagonistas. Ao longo dos quatro romances da coleção de Ferrante, os leitores acompanham a relação antagônica da dupla de personagens: ao mesmo tempo em que se admiram, se gostam e se ajudam mutuamente, as amigas napolitanas não escondem a forte inveja que possuem uma da outra. Nasceu, assim, uma das maiores rivalidades femininas da literatura contemporânea. Um dos maiores sucessos recentes do mercado editorial internacional, os livros da Tetralogia Napolitana venderam mais de 16 milhões de exemplares nos quatro cantos do planeta. Não à toa, sua autora se transformou em uma espécie de pop star das letras, por mais que refute (e fuja desesperadamente) (d)esse status. Curiosamente, não sabemos ao certo a identidade verdadeira da romancista italiana. Elena Ferrante é um pseudônimo. Em meio às incertezas sobre quem estaria por trás do nome mais badalado da literatura mundial da atualidade, multiplicam-se apostas e hipóteses. Mais à frente vamos tratar dessa questão com mais profundidade – confesso adorar o mistério que envolve a real personalidade de Ferrante, assunto que nos últimos anos ganhou pitadas de romance policial e thriller investigativo. Por ora, é preciso dizer que a decisão de se manter sob total anonimato surgiu há quase trinta anos, quando a escritora lançou seu primeiro livro. Vale a pena dizer que ela jamais apareceu em público e só concede entrevistas por escrito. Isso é, quando aceita interagir com o público, com a imprensa e com os profissionais do setor editorial, o que é algo bem raro. Portanto, se você achava que J. D. Salinger, autor de “O Apanhador no Campo de Centeio” (Editora do Autor), e Rubem Fonseca, autor de “Lúcia McCartney” (Agir), “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira) e “Agosto” (Companhia das Letras), eram figuras reclusas, Ferrante criou uma modalidade ainda mais elevada de sumiço da cena pública. Como é possível uma artista de fama internacional ficar oculta por tanto tempo? No início da carreira, Elena Ferrante usava cartas para se comunicar. Agora ela utiliza o e-mail. Quem intermedeia a interação de Ferrante com jornalistas, cineastas e críticos literários é Sandra Ozzola e Sandro Ferri, a dupla de editores da Edizioni e/o, editora italiana que publica os livros da misteriosa escritora. Sandra, Sandro e Eva, a filha do casal (Sandra e Sandro são casados), são os únicos que sabem a verdadeira identidade da romancista napolitana. E até agora, o trio tem mantido a promessa de não revelar o que sabem. É inegável que a incógnita sobre quem seria Elena Ferrante (seria uma mulher, um homem, um casal de escritores ou um time entrosado de autores?!) tem ajudado a movimentar o interesse do público e da imprensa. Páginas e páginas têm sido escritas em jornais, revistas, blogs e portais de notícias debatendo o tema. Ao justificar suas decisões, Ferrante alega que ao não aparecer em eventos, ela consegue focar no trabalho que mais gosta: a produção literária. Além disso, ela afirma que o anonimato permite escrever com mais liberdade, se apropriando de passagens autobiográficas, de cenários familiares e de pessoas de seu entorno. O que a escritora não devia ter imaginado é que sua reclusão/sumiço alimentasse tanto a curiosidade dos leitores e da mídia e potencializasse o apelo por sua literatura. Querendo ou não, o mistério é uma ferramenta de Marketing, uma espécie de Marketing às avessas ou anti-marketing – não querer aparecer gera tanto burburinho quanto aparições ocasionais. A excelência da prosa de Elena Ferrante não fica restrita aos títulos da Série Napolitana e muito menos ao segredo sobre sua real identidade. A escritora italiana tem um portfólio literário extremamente original e contundente, de enorme qualidade narrativa. Seus romances (ao todo, ela já publicou 11 livros: oito narrativas longas, uma obra infantojuvenil e duas coletâneas não ficcionais) possuem marcas estilísticas e temáticas bem acentuadas, o que confere charme e beleza aos seus textos ficcionais. Não é errado enxergarmos Ferrante como uma das melhores e mais criativas romancistas da atualidade. A maior evidência da força dramática das histórias de Elena Ferrante está no recente interesse de cineastas e de produtores televisivos. Eles querem adaptar as páginas dos livros da italiana para as telas. Ferrante se tornou, nos últimos anos, a autora queridinha da HBO e da Netflix. Os dois gigantes do streaming compraram os direitos para transformar os principais títulos da romancista em séries de televisão. “My Brilliant Friend”, a série da HBO baseada nos livros da Tetralogia Napolitana, já é um sucesso mundial e está em sua terceira temporada. E rotineiramente ouvem-se boatos envolvendo o interesse dos estúdios hollywoodianos em levar as narrativas napolitanas para o cinema. Não será surpresa nenhuma se logo mais tivermos um longa-metragem norte-americano encenando as tramas da autora best-seller. Provando viver uma ótima fase na carreira, Elena Ferrante é apontada frequentemente como uma das artistas mais destacadas do planeta. Em 2016, a revista Time a classificou como uma das cem personalidades mais influentes do mundo. Logo depois, a revista Foreign Policy, também dos Estados Unidos, foi pelo mesmo caminho em sua tradicional lista dos influenciadores internacionais. Para os italianos, Ferrante é a melhor autora nacional de sua geração. Para os estrangeiros, ela é a escritora de língua italiana que mais se destacou desde Umberto Eco e Italo Calvino. Para construir o panorama completo da literatura de Elena Ferrante (nosso objetivo do post de hoje do Bonas Histórias e a grande meta do Desafio Literário nesse bimestre), analisamos prévia e individualmente, ao longo de julho e agosto, oito livros da romancista : “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), publicação de estreia de 1992, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), romance de 2002, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), coletânea de entrevistas, cartas, depoimentos e ensaios lançada originalmente em 2003, “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), obra de 2011 que inaugurou a Série Napolitana, “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), romance de 2012 que dá sequência a famosa saga literária da autora italiana, “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul), publicação de 2013 e terceiro volume da Tetralogia Napolitana, “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), narrativa longa de 2014 que fecha a Série Napolitana, e (ufa!) “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), o mais recente romance de Ferrante que foi publicado em 2019. Vale a pena salientar que em agosto do ano passado já havíamos comentado, na coluna Livros – Crítica Literária, “A Filha Perdida” (Intrínseca), a terceira ficção de Elena Ferrante. Essa obra foi lançada em 2006. Ou seja, em nosso estudo sobre a best-seller italiana, contemplamos nove dos dez livros de Ferrante que foram publicados em português no Brasil. A única obra que ficou de fora do nosso radar analítico foi “Uma Noite na Praia” (Intrínseca), primeira publicação infantojuvenil de Ferrante. Esse título foi lançado em 2007. Para quem ficou incomodado(a) com essa exclusão, prometemos analisar essa obra nos próximos meses no Bonas Histórias. Só não incluímos “Uma Noite na Praia” no Desafio Literário de Elena Ferrante por uma questão meramente formal – nossa análise permite apenas oito livros de cada autor(a) estudado(a), além dos que já tinham sido comentados anteriormente. Apesar de não sabermos a verdadeira identidade da romancista analisada, é possível afirmar algumas coisas a respeito de sua biografia. As fontes para essas afirmações são as entrevistas que ela concedeu nas últimas três décadas e o conteúdo de suas obras não ficcionais, raros momentos em que a escritora comenta episódios pessoais. Elena Ferrante nasceu em Nápoles, onde passou a infância, a adolescência e parte da juventude. Já adulta e casada, deixou as terras napolitanas e foi viver no exterior. Morou também em cidades do Norte da Itália. Atualmente, ela só retorna para Nápoles de férias ou quando busca inspiração para novas tramas, sempre ambientadas ali. Filha mais velha de uma costureira, Ferrante tem duas irmãs. Ela começou a escrever na adolescência e se graduou em Letras Clássicas. Além de romancista, Elena trabalha/trabalhou como tradutora, professora e pesquisadora acadêmica. Segundo suas afirmações, ela escreve muito mais do que publica – só aceita lançar um livro quando tem certeza da relevância e da qualidade do texto produzido. Não sabemos se a autora é ainda casada, mas ela diz ter sido mãe. Em relação à data de nascimento de Elena Ferrante, não há um consenso. Dependendo da crença sobre quem seria realmente a autora, afirma-se algo diferente – pega-se o ano de nascimento do(a) possível escritor(a) por trás do pseudônimo e atribuísse à Ferrante. A única certeza é que ela é de Nápoles ou de um pequeno povoado muito próximo. Quem acredita que Ferrante seja Anita Raja, tradutora que trabalha para a Edizioni e/o, diz que a best-seller nasceu em 1953. Já os adeptos da teoria de que Elena Ferrante seja Domenico Starnone, um romancista conceituado na Itália (e marido de Anita Raja), dizem que a autora da Série Napolitana é de 1943. Por sua vez, os adeptos da suposição de que a personalidade concreta por trás da famosa escritora seja Goffredo Fofi, um importante crítico literário italiano, apontam 1937 como a data de nascimento de Ferrante. Diante de tantas incertezas, o que podemos garantir efetivamente é que estamos falando de um(a) autor(a) que tem atualmente entre 68 e 84 anos. Já que entramos na especulação sobre a verdadeira identidade de Elena Ferrante (impossível não tratar desse tema quando falamos de sua literatura), façamos de uma vez por todas uma breve retrospectiva da polêmica questão. Afinal, quem seria Ferrante?! Na primeira metade da década de 2000, período em que os livros iniciais da autora napolitana despontavam principalmente na Itália e em alguns países europeus, acreditava-se que Elena Ferrante fosse Goffredo Fofi ou Fabrizia Ramondino. No caso das suspeitas envolvendo Fofi, conceituado crítico literário umbro, o que despertava as desconfianças do público era que ele conseguia fazer várias entrevistas com a best-seller. Lembremos que Ferrante raramente dava abertura para jornalistas, críticos, acadêmicos e leitores. Ou seja, havia algo de muito estranho na intensa comunicação dos dois. Porém, Goffredo Fofi sempre negou ser a romancista. Em suas alegações, ele diz que a abertura que a escritora lhe dava devia-se única e exclusivamente ao destacado papel que ele tinha como acadêmico e estudioso da literatura. Acredito em Fofi. Para mim, a chance de ele ser Elena Ferrante é zero. Já as desconfianças envolvendo Ramondino, uma das principais escritoras italianas de sua geração, estavam relacionadas ao fato de ela ser natural de Nápoles e ter trilhado uma bem-sucedida trajetória na literatura comercial, com trabalhos de destaque em vários gêneros textuais. Assim, seria natural que por trás da qualidade absurda da escrita ficcional de Elena Ferrante estivesse a mais gabaritada escritora napolitana conhecida do grande público. Contudo, essa suspeita terminou com a morte, em 2008, de Fabrizia Ramondino. Ela não pode ser Ferrante ou possui habilidades de comunicação entre os planos espirituais. Para esclarecer de uma vez por todas o mistério que crescia à medida que os romances de Elena Ferrante eram publicados e faziam sucesso na Itália, utilizou-se até um software de identificação de estilo narrativo. A ferramenta computacional já tinha sido usada na Holanda com êxito – ela revelou, a partir de comparações textuais, que o misterioso Marek van der Jagt era na verdade o pseudônimo do escritor Arnon Grunberg. Com base no sucesso recente do software, os italianos realizaram em 2005 o mesmo expediente investigativo. E o resultado apontou que Ferrante seria Domenico Starnone, escritor, jornalista e roteirista nascido em Saviano, um pequeno povoado perto de Nápoles. Como Starnone não admitiu nem negou as suspeitas de que seria ele o autor por trás do famoso pseudônimo feminino, vigorou por uma década a impressão de que seria ele o responsável pela produção literária de Elena Ferrante. A partir daí, a maior novidade envolvendo a busca pela identidade de Ferrante aconteceu em outubro de 2016. Em um artigo bombástico escrito na New York Review of Books e reproduzido em seguida na imprensa europeia, o jornalista italiano Claudio Gatti afirmou ter descoberto o maior segredo da literatura italiana do século XXI. Inconformado que ninguém sabia quem era Elena Ferrante, naquele momento um sucesso mundial com a publicação da Série Napolitana, Gatti fez uma investigação particular digna dos melhores romances policiais ou dos mais eletrizantes filmes de detetive de Hollywood. O resultado de seu trabalho indicou que a best-seller italiana era (rufam os tambores!!!) Anita Raja, uma tradutora napolitana de 63 anos. Filha de um napolitano e de uma alemã, Anita morou até a juventude em sua cidade natal e depois deixou Nápoles definitivamente. Para corroborar com a tese de Gatti, o sobrenome Raja tem origem grega. E, voilà, a narradora-protagonista da Série Napolitana se chamava Elena Greco. Bingo! O mais incrível dessa história é que a tradutora é esposa de Domenico Starnone (sim, aquele mesmo escritor que o software que brinca de detetive literário indicou ser Ferrante em 2005). Eita mundo pequeno esse, meu Deus! Como Claudio Gatti chegou a essa conclusão? Ele pegou (não pergunte como, por favor!) os balanços financeiros da Edizioni e/o, a editora italiana que publica as obras de Elena Ferrante, e analisou os pagamentos que ela estava fazendo. Vale a menção que Edizioni e/o não é uma grande editora italiana. Seus maiores sucessos (e talvez seus únicos best-sellers em 2016) eram os romances de Ferrante. E para a surpresa do jornalista, as informações financeiras da companhia indicavam que as maiores movimentações bancárias na época, exatamente o período em que a Itália vivia a febre da Tetralogia Napolitana, eram direcionadas para a conta de Anita Raja. Até então, Raja era vista como uma simples tradutora da editora. Porém, o que ela estava recebendo (uma pequena fortuna) não era compatível com a remuneração de alguém que fazia apenas serviços de tradução. Aquele ordenado era compatível mais ao pagamento dos direitos autorais de Elena Ferrante (bingo!) do que ao pagamento de uma simples funcionária administrativa. A notícia se espalhou rapidamente pelos Estados Unidos e pela Itália e rodou o mundo. Paradoxalmente, ao invés do público e da imprensa elogiarem a atuação investigativa de Gatti, o jornalista, que mora em Nova York onde é correspondente da Il Sole 24 Ore e escreve para o The New York Times, foi alvo de intensas críticas. Afinal, quem ele pensa que é para pegar e divulgar na mídia dados financeiros de empresas privadas e de pessoas comuns. De certa forma, Ferrante e a Edizioni e/o foram tratados como se fossem criminosos ou estivessem realizando atividades ilícitas? Além disso, se Elena Ferrante queria se manter em total anonimato, com qual direito Claudio Gatti, como jornalista, podia expô-la sem piedade como fez, hein? Por mais precisos que tenham sido os apontamentos de Gatti, seu artigo na New York Review of Books não decretou, acredite se quiser, a solução definitiva para a questão que ronda a imaginação do público leitor. Afinal, Anita Raja não negou nem confirmou a teoria do correspondente italiano nos Estados Unidos. Ela simplesmente continuou levando sua vida normalmente, sem nenhuma exposição e sem alterar sua rotina, que é para lá de convencional. Para completar, a reportagem de Claudio Gatti acabou confirmando a impressão daqueles que apontavam Domenico Starnone como sendo o verdadeiro escritor por trás da literatura de Elena Ferrante. Segundo os que acreditam nessa versão, a editora efetuava o pagamento na conta de Raja visando a remuneração do marido dela. Então, quem seria Ferrante: Anita Raja ou Domenico Starnone?! Nos últimos anos, cresceu a hipótese de que a best-seller napolitana seria na verdade o pseudônimo do casal. Nessa nova frente de especulação, Raja e Starnone trabalhariam juntos e estampariam na capa de seus livros o nome Elena Ferrante. Para temperar ainda mais o clima de mistério e de mistura entre realidade e ficção, o casal de literatos forneceria informações sobre Ferrante como se a escritora fosse uma personagem ficcional deles. Incrível essa nova versão. Minha sensação é que quanto mais se investiga, menos respostas temos para o que é hoje considerado o santo graal da literatura contemporânea – o enigma envolvendo a identidade de Elena Ferrante. O fato é que, por mais que se especule, ainda não sabemos efetivamente quem é o(a) responsável pelos textos de Ferrante. Cada leitor parece ter sua própria opinião. Eu mesmo achava, no comecinho do mistério, que Ferrante fosse (não ria, por favor) Sandra Ozzola, a editora da Edizioni e/o. Depois, acreditei nos indicativos que apontavam para Anita Raja. Atualmente, eu cogito a participação de Domenico Starnone nos textos da esposa. Como falei, são todas suposições. Enquanto o(a/os) autor(a/es) verdadeiro(a/s) não vier(em) à público e decretar(em) que é(são) ele(a/s) o(a/s) autor(a/es) do pseudônimo de Elena Ferrante, não teremos certeza nenhuma. Esclarecido (ou não!) o mistério sobre a identidade da principal escritora italiana da atualidade, entremos no que verdadeiramente interessa para um blog literário: a produção ficcional de Ferrante propriamente dita. Em suma, esse post se prontificou a fazer uma análise estilística do trabalho da autora e até agora só ficou debatendo as fofocas dos bastidores do mercado editorial. Prometo elevar o nível desse texto daqui para frente. A obra de estreia de Elena Ferrante é “Um Amor Incômodo” (Intrínseca). Nesse thriller psicológico com ambientação noir, acompanhamos o relato perturbador de uma jovem napolitana. Delia, a narradora da trama, vive sozinha em Roma e trabalha como ilustradora de histórias em quadrinhos. Ela possui graves problemas de relacionamento com a família. Para se ter uma ideia do que isso representa, a personagem principal odeia a mãe e o pai e quer distância total das irmãs. Em poucas linhas de leitura é possível sacar que a moça tem sérios distúrbios emocionais. Como consequência, Delia precisou abandonar a terra natal e cortar relações com a maioria dos parentes. Só assim ela consegue viver minimamente tranquila na capital italiana. O passado complicado de Delia retorna como uma assombração quando Amalia, sua mãe de 63 anos, morre afogada em uma praia de Spaccavento. A notícia da tragédia é recebida pela filha com uma mistura de alívio e de indiferença. Precisando cuidar do velório, do enterro e dos tramites burocráticos da herança, a narradora-protagonista retorna por alguns dias a Nápoles. Aí Delia terá que encarar os pesadelos da infância e da juventude que tanto a atormentam até hoje. Nessa viagem, ela mergulhará em segredos íntimos e nas desavenças da família. De certa forma, Delia desnuda o passado misterioso de Amalia e o seu próprio. Publicado na Itália em 1992, “Um Amor Incômodo” agradou ao público e à crítica e teve uma boa trajetória comercial nas livrarias do país, principalmente se considerarmos que sua autora era uma debutante e uma figura até então desconhecida. O romance conquistou o Prêmio Procida-Isola di Arturo-Elsa Morante e o Prêmio Oplonti d'Argento e foi finalista do Prêmio Strega e do Prêmio Artemisia. Em 1995, essa primeira obra ficcional de Ferrante foi adaptada para as telonas pelo diretor Mario Martone. A produção cinematográfica de “Um Amor Incômodo” (L´amore Molesto: 1995) foi estrelada por Anna Bonaiuto, Angela Luce, Gianni Cajafa, Peppe Lanzetta e Giovanni Viglietti e exibida no circuito comercial italiano e em festivais de cinema da Europa. O longa-metragem ajudou a popularizar o livro e o nome de Elena Ferrante na Itália. É interessante notar que desde a primeira publicação, Ferrante já demonstrava um estilo marcante e apresentava as características narrativas e temáticas que a consagrariam mais tarde com a Série Napolitana. Afinal, temos em “Um Amor Incômodo”: suspense psicológico envolvendo dramas familiares; narradora feminina pouco confiável; protagonista exercendo o papel de anti-heroína; trama encenada em Nápoles (a cidade é quase uma personagem da narrativa); ambientação noir; cenário marcado por muita violência, pobreza, escuridão, barulho, perigo, calor, superlotação, mentiras e mal cheiro; a violência, no caso, é de todo tipo: psicológica, sexual, sexista, física, moral e social; famílias desestruturadas; personagem principal com péssimo relacionamento com os parentes (principalmente com pais e irmãos); sexo como uma obrigação feminina e uma concessão da mulher ao homem; romance com excelentes páginas iniciais e um desfecho espetacular; figuras do tipo redonda e que geram uma sensação de desconforto e incômodo nos leitores mais sensíveis; e acúmulo de pessoas que flertam com a vilania. “Um Amor Incômodo” é um livro curtinho. Ele tem apenas 176 páginas. No início de carreira, Elena Ferrante desenvolvia romances com jeitão de novelas – tramas com uma única linha narrativa, poucas personagens em cena, conflitos simples e obras com pouco mais de uma centena de páginas. Essas características são encontradas em seus três primeiros romances (“Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”) e em seu título infantojuvenil (“Uma Noite na Praia”). Em termos práticos, podemos ver essa fase como a primeira da literatura de Ferrante. Esse período abrange 15 anos e vai de 1992 a 2007. Nesse estágio, a escritora napolitana produziu quatro livros ficcionais. O que torna a leitura de “Um Amor Incômodo” tão interessante é a pegada sombria dos relatos de Delia. O universo psicológico perturbador, o passado nebuloso, as relações familiares deterioradas e aridez sentimental da narradora são elementos espinhosos e profundamente chocantes. Delia é a versão italiana, contemporânea e feminina dos protagonistas de "Memórias do Subsolo" (Editora 34), novela de Fiódor Dostoiévski que inaugurou o Existencialismo na literatura russa, e de "Primeiro Amor" (Nova Fronteira), livro de Samuel Beckett que sintetiza o espírito atormentado e pessimista do autor irlandês. Definitivamente, ler Elena Ferrante não é para os leitores mais sensíveis. É legal notar que a decisão de Ferrante em se manter anônima foi tomada quando “Um Amor Incômodo” conquistou o Prêmio Procida-Isola di Arturo-Elsa Morante de 1992 como melhor romance de estreia. Ao ser convidada para a cerimônia de premiação, a escritora napolitana não quis comparecer ao evento. Ela enviou uma carta para Edizioni e/o reafirmando sua posição de não revelar sua identidade. Sandra Ozzola e Sandro Ferri concordaram. E, assim, ao invés dos organizadores do Prêmio Procida-Isola di Arturo-Elsa Morante ouvirem o discurso da romancista vencedora, eles precisaram ler a carta de agradecimento que Ferrante lhes enviou. Iniciava-se, assim, a tradição de comunicação por escrito da misteriosa autora italiana com o mercado editorial. O segundo romance de Elena Ferrante só foi publicado dez anos depois de “Um Amor Incômodo”. “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), drama psicológico sobre uma napolitana que surta ao ver o marido sair de casa depois de 15 anos de um casamento harmônico, chegou às livrarias italianas em 2002. A obra encerrou o jejum de uma década sem novidades da escritora. Ferrante se justificou dizendo que durante esse período sem lançamentos havia escrito bastante, mas nada que merecesse ser publicado. Isso até “Dias de Abandono”, claro. Se pensarmos que ele/ela pode ser um(a) autor(a) que também publica com o nome verdadeiro, o mais factual é que tenha deixado os trabalhos de seu pseudônimo de lado ao longo desses anos. O que sabemos é que “Dias de Abandono” agradou em cheio aos leitores e à crítica literária. Mais uma vez, o trabalho ficcional de Elena Ferrante mostrava grande consistência e enorme qualidade narrativa. A nova obra foi finalista do Prêmio Viareggio, um dos mais tradicionais da Itália, e ganhou edições no exterior, mais precisamente na Europa e nos Estados Unidos. Nesse momento da carreira, a escritora napolitana alcançava o público internacional pela primeira vez. É verdade que Ferrante não era ainda uma artista best-seller, mas já apresentava boas vendas fora do seu país. Até o lançamento de “A Amiga Genial”, esse sim um fenômeno editorial mundial, “Dias de Abandono” foi o título de maior vendagem de Ferrante no exterior. Assim como aconteceu com “Um Amor Incômodo”, o segundo romance da autora foi adaptado para o cinema três anos depois de seu lançamento nas livrarias. Dessa vez, o diretor do longa-metragem foi Roberto Faenza. Estrelaram a produção cinematográfica de “Dias de Abandono” (Giorni Dell’abbandono: 2005) Margherita Buy, Luca Zingaretti, Goran Bregovic, Alessia Goria, Gea Lionello e Gaia Bermani Amaral. O filme foi exibido no circuito comercial italiano e teve apresentações pontuais em festivais de cinema na Europa. O enredo da versão literária de “Dias de Abandono” se passa em Turim e é narrado por Olga, uma pacata dona-de-casa napolitana de classe média. Ela está casada há 15 anos com Mario, um bem-sucedido engenheiro, e tem dois filhos pequenos, Gianni e Ilaria. A família é complementada por Otto, um simpático pastor alemão. Ou seja, temos, à princípio, um cenário que lembra muito uma propaganda de margarina – todo mundo feliz, rotinas tranquilas e relacionamentos harmônicos. A felicidade de Olga e a paz doméstica terminam subitamente em uma tarde de abril, quando Mario, sem jamais ter demonstrado qualquer insatisfação com o matrimônio, comunica que irá abandonar a casa. Ele quer a separação. No início, a notícia não é levada à sério pela esposa. Ela acha que Mario voltará logo. Entretanto, ao notar que aquela é a posição definitiva dele, Olga surta. A loucura dela irá colocar todos à sua volta em risco. Começa, assim, a fase mais aterrorizante das vidas de Gianni, Ilaria e Otto. O trio precisará conviver com uma mulher fora de controle. Olga se torna refém de seu ciúme e da sede doentia de vingança. Com 184 páginas, “Dias de Abandono” é um livro fininho. O que ele tem em concisão, ele possui em profundidade. Trata-se de um drama genuíno e emocionante, com forte pegada catártica. Acompanhar o surto psicológico-emocional de Olga é uma experiência rica e reveladora. Não à toa, essa história é uma das minhas preferidas de Elena Ferrante. É verdade que esse romance não é tão original nem tão instigante quanto “Um Amor Incômodo”, apesar de Ferrante ter se utilizado de boa parte do receituário narrativo da obra anterior. Mesmo gostando mais de “Dias de Abandono”, sei reconhecer que o título de estreia de Ferrante tinha elementos ficcionais mais impactantes. Cito, desde já, dois desses aspectos: a narradora-protagonista é mais polêmica (uma legítima anti-heroína) e a ambientação é mais soturna (digna de um romance policial noir) em “Um Amor Incômodo”. Se Olga é uma mulher normal que acaba enlouquecendo após um trauma conjugal, algo que pode acontecer com qualquer um de nós, Delia é uma psicopata da pior espécie – ela mente, é egoísta e parece não ter sentimentos positivos por nada nem ninguém. É impossível se solidarizar com ela. Por isso mesmo, é uma personagem mais forte e contundente. O que seria da literatura sem os grandes anti-heróis, hein?! Além disso, Nápoles de “Um Amor Incômodo” é um lugar insano e profundamente perigoso, o que combina com o caráter pouco confiável da personagem principal do romance. Já em “Dias de Abandono”, Nápoles aparece pontualmente, apenas nas lembranças de Olga. Ou seja, a cidade do Sul da Itália não é agora um elemento tão importante para o enredo. O que me fez gostar mais de “Dias de Abandono” foi o fato dessa narrativa ter uma trama mais linear (Olga está à procura de um novo chão para sua vida depois da rejeição de Mario), personagens mais verossímeis (esposa vingativa, marido infiel e filhos perdidos em meio à separação dos pais), um conflito mais carismático (impossível não se indignar com o que acontece na casa da família de protagonistas), uma forte sensação de história de terror (o que se vive naquela residência de Turim causa medo em qualquer um) e uma trama recheada de reviravoltas (e põe reviravoltas nisso!). Esse segundo romance consolidou o trabalho ficcional de Elena Ferrante. Com o sucesso alcançado tanto na Itália quanto no exterior, a escritora viu que estava no caminho certo. Desde então, ela tem produzido novas narrativas com essa pegada sombria envolvendo personagens femininas polêmicas e com jeitão de anti-heroínas. Repare que nunca mais a autora ficou tanto tempo sem publicar algo novo. Podemos dizer que “Dias de Abandono” serviu como um marco para Ferrante. Foi nesse momento em que ela viu a força de suas tramas e compreendeu que o pseudônimo criado dez anos atrás teria sim uma promissora trajetória literária. Não por acaso, a terceira publicação de Elena Ferrante foi lançada já no ano seguinte. Em junho de 2003, o público italiano recebia a primeira edição de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca). Esta obra é uma coletânea não ficcional de cartas, e-mails, entrevistas e ensaios de Ferrante. A proposta do livro era permitir que a romancista, que nunca apareceu pessoalmente em público e já começava a despertar grande atenção de leitores e da mídia italiana, pudesse se expor fora dos textos ficcionais. A ideia de publicar esse título partiu de Sandra Ozzola e Sandro Ferri, os editores da Edizioni e/o. Elena aceitou numa boa. Assim, acompanhamos, em “Frantumaglia”, a correspondência de Ferrante com os editores italianos, a comunicação por escrito com os cineastas que adaptaram seus livros, as discussões literárias envolvendo suas obras, os comentários sobre os títulos e os autores que a influenciaram, as conversas de Elena com jornalistas e críticos literários e a repercussão dos sucessos de seus romances. Há também a apresentação do ponto de vista da napolitana sobre os mais diversos temas: política italiana, feminismo, papel das mulheres na literatura, especificidade da produção ficcional e problemas urbanos de Nápoles. Para completar, a autora ainda deixa escapar alguns fatos de sua biografia, para deleite dos leitores mais curiosos. Realmente, trata-se de uma coleção textual bastante reveladora. Porém, minha impressão é que boa parte do conteúdo desse livro tem algo de fake. Não sei explicar exatamente minha sensação. Sabe quando há coisas que não se encaixam direito nas engrenagens da história contada? Pois foi esse o meu feeling. Por exemplo, a correspondência de cartas e de e-mails de Elena Ferrante com Sandra Ozzola e Sandro Ferri me soou meio falsa, um tanto inverossímil. E o que dizer, então, do material trocado entre a escritora e os cineastas, hein? Sinceramente, a divulgação desses textos não colou para mim. Mais tarde, “Frantumaglia” ganhou mais duas edições, a primeira em 2007 e a segunda em 2016. A cada nova publicação, Sandra Ozzola e Sandro Ferri atualizavam o conteúdo do livro com materiais mais recentes de Ferrante – correspondências, entrevistas e ensaios da autora. Dessa forma, a versão mais atual da obra percorre a trajetória literária de Ferrante de 1991, quando “Um Amor Incômodo” estava sendo esboçado, até 2016, quando a Tetralogia Napolitana já havia se tornado um best-seller mundial. Como resultado prático desse constante acréscimo de conteúdo, “Frantumaglia”, que em 2003 era um título de apenas 100 páginas e com 17 capítulos, tem agora 416 páginas e 43 capítulos. A nova versão do livro está dividida em três blocos: “Parte I: Papéis”, “Parte II: Tésseras” e “Parte III: Cartas”. Enquanto a parte I é relativa ao material original da coletânea não ficcional (textos de 1991 a 2003), a parte II (textos de 2003 a 2007) e a parte III (de 2011 a 2016) abrangem, respectivamente, o conteúdo da segunda e da terceira edições da obra. Vale a pena salientar que “Frantumaglia” só foi publicado no exterior após o sucesso da Série Napolitana. Ou seja, os leitores de fora da Itália (os brasileiros estão nesse grupo) já receberam a tradução da última versão do livro, aquele que saiu em italiano em 2016. O mais legal de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” é poder assistir às opiniões, compreender as visões de mundo e, principalmente, conhecer a trajetória pessoal e literária de Elena Ferrante, algo muitas vezes impossível diante da postura comedida da autora. Além disso, acompanhamos uma autoanálise de altíssimo nível sobre as características das personagens, as dinâmicas das tramas e o estilo narrativo de Ferrante. A romancista napolitana ainda comenta abertamente suas referências literárias e discute os aspectos práticos do fazer literário. Como era esperado, a escritora justifica a decisão de não querer aparecer em público. Como falei, o principal problema dessa obra é a sensação de falsidade na correspondência de Elena Ferrante. Outra questão negativa é que “Frantumaglia” se torna repetitivo à medida que avançamos às partes II e III. A série de entrevistas concedidas por Ferrante aos jornalistas italianos e estrangeiros acaba girando sempre em torno das mesmas perguntas. E quando os questionamentos são parecidos, as respostas naturalmente tornam-se semelhantes. Em alguns momentos do livro, já sabemos o que a escritora dirá para os seus entrevistadores. Mesmo com esses escorregões, o resultado geral da coletânea ficcional é amplamente positivo. “Frantumaglia” não é o único livro não ficcional de Ferrante. Em 2019, a romancista publicou em italiano e em inglês “A Invenção Ocasional” (Relógio D´Água), sua primeira coletânea de crônicas. Os textos desse livro foram extraídos da coluna semanal que Ferrante manteve no jornal inglês The Guardian por mais de um ano. “A Invenção Ocasional” possui pouco mais de cinco dezenas de crônicas. Nesses textos, Elena trata de vários temas contemporâneos com o olhar acurado de uma comentarista político-social. Portanto, temos aqui uma Elena Ferrante que assume mais o papel de jornalista do que de autora ficcional. Se você nunca ouviu falar dessa obra, não se martirize, por favor. Há uma explicação lógica para os leitores brasileiros a desconhecerem. “A Invenção Ocasional” foi lançado apenas em Portugal pela editora lisboeta Relógio D´Água. No Brasil, esse título se mantém inédito. Exatamente por isso, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” é a única publicação que o público brasileiro tem para conhecer os detalhes da vida e das obras de Elena Ferrante. O terceiro romance de Ferrante (e seu quarto livro) é “A Filha Perdida” (Intrínseca). Publicado em 2006, esse thriller psicológico narra as férias de Verão de uma solitária professora de meia-idade. O período tranquilo e isolado no litoral italiano é interrompido pela chegada de uma família napolitana. Barulhentos, vulgares e um tanto esquisitos, os membros do clã sulino causam sensações contraditórias na narradora-protagonista. Ao mesmo tempo que parece odiá-los, a personagem principal se sente atraída por eles de alguma forma. Inicia-se, assim, uma conflituosa e paradoxal relação entre os turistas. “A Filha Perdida” é apontado por muitos críticos literários como o melhor trabalho de Elena Ferrante até ali. Admito que compartilho dessa opinião. Com o sucesso desse livro, a escritora napolitana se tornou uma das melhores romancistas europeias da atualidade. Afinal, não é possível que um raio caia três vezes no mesmo lugar, né? A qualidade de “Um Amor Incômodo” até poderia ser acidental (já ouviu falar de sorte de principiante?!). A excelência de “Dias de Abandono”, dez anos mais tarde, poderia indicar, por sua vez, uma feliz coincidência (um caso notável de uma autora de sorte!). Agora, quando pela terceira vez Ferrante apresenta um romance notável, isso quer dizer que temos diante da gente uma artista verdadeiramente talentosa e ciente das técnicas literárias empregadas para emocionar os leitores. O enredo de “A Filha Perdida” se passa durante as primeiras férias de Leda, uma professora universitária de 47 anos que mora em Florença, depois de muito tempo sem descanso. Narrada em primeira pessoa pela própria protagonista, essa trama tem como cenário uma praia turística no Sul da Itália. Leda alugou um apartamento à beira-mar e quer passar o período de férias sozinha. Depois de muitos anos precisando se preocupar diariamente com o marido e as filhas, ela já não tem mais esse tipo de problema. Após o divórcio, a professora viu as filhas já crescidas se mudarem para os Estados Unidos para viver com o pai delas. Sem ninguém por perto para aborrecê-la, Leda quer relaxar e montar o programa de aulas de seu curso na faculdade para o próximo ano letivo. Entretanto, seus planos sofrem uma considerável mudança de rumo. A chegada de uma família napolitana à praia quebra a calma do lugar. Barulhentos, vulgares, espaçosos, feios e caóticos, os novos visitantes abalam a tranquilidade da professora e dos demais banhistas. Diante da balburdia que a praia se transformou, Leda fixa sua atenção em Nina, uma jovem bonita e elegante daquela família. Ela é a única que não é feia e tem alguma classe. Nina tem uma filha pequena, Elena. Pela beleza e refinamento da moça, nota-se que ela é alguém de fora de Nápoles e que acabou de um jeito ou de outro presa àquela gente vulgar. Curiosa para saber mais sobre aquela mulher ao mesmo tempo charmosa e misteriosa e sobre sua filhinha, a protagonista inicia uma aproximação aos napolitanos. O que ninguém poderia prever é que aquela amizade fosse precipitar em revelações surpreendentes e inesperadas de lado a lado. “A Filha Perdida” tem 176 páginas, a mesma extensão de “Um Amor Incômodo” e um pouquinho menos do que “Dias de Abandono”. O que mais gostei nesse romance é que Leda, a narradora-protagonista, é mais parecida a Delia, a personagem central de “Um Amor Incômodo”, do que a Olga, a personagem principal de “Dias de Abandono”. Estamos falando aqui, portanto, de uma anti-heroína clássica que causa repulsão nos leitores. Leda é uma pessoa com sérios distúrbios psicológicos, apresenta condutas questionáveis e possui frieza emocional. É ou não é uma descrição quase que idêntica ao perfil de Delia, hein? Desde as primeiras páginas de “A Filha Perdida” é possível notar que estamos diante de uma narradora pouco confiável. Seus problemas psicológicos e comportamentais ora são mais sutis ora são mais explícitos. O que não é possível imaginar é que eles sejam tão profundos. Por mais que Leda tente nos convencer do contrário, é inegável que ela seja uma psicopata. Prova maior disso é que a professora de Florença tenta nos convencer do contrário com uma sólida argumentação e, sempre que pode, posando de vítima da situação. Como personagem literária, Leda é incrível, uma das mais polêmicas criações da moderna literatura italiana e, quiçá, da literatura contemporânea. “A Filha Perdida” tem ainda clima aterrorizante (é praticamente um thriller de terror psicológico), figuras contraditórias, relato passional e profundo em meio a banalidade do cotidiano, várias surpresas na segunda metade do romance, mergulho na mente atormentada da narradora, personagens napolitanas, dramas familiares intensos, texto elegante, sólida construção narrativa e mulheres de grande profundidade dramática. Não é possível um livro ter mais características estilísticas de Elena Ferrante do que esse, né? Exatamente pelas semelhanças de estilo dessa obra com os dois romances anteriores de Ferrante, a crítica literária italiana começou a dizer que “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” constituíam uma trilogia. Até um nome foi dado à coletânea: Trilogia do Desamor. Em “Frantumaglia”, Elena Ferrante garantiu que não gostava dessa nomenclatura. Em sua visão, Delia, Olga e Leda não são mulheres sem amor. De qualquer maneira, o título Trilogia do Desamor acabou não pegando no exterior. Internacionalmente, os três primeiros livros de Ferrante são vistos pelo público, pelos editores e pelos críticos como narrativas totalmente independentes uma das outras, apesar das inegáveis afinidades estilísticas. Um ano depois da publicação de “A Filha Perdida”, Elena Ferrante lançou uma espécie de continuação da trama de Leda, Nina e Elena durante as férias de Verão no litoral italiano. A obra em questão é “Uma Noite na Praia” (Intrínseca). Para ser mais preciso em meu comentário, preciso fazer uma correção aqui. Está errado dizer que esse livro é uma continuação de “A Filha Perdida”. “Uma Noite na Praia” é, na verdade, a mesma trama do romance anterior (ou uma narrativa que se utiliza das mesmas personagens) só que apresentada por um novo ponto de vista (novo foco narrativo). A mudança de narrador faz praticamente surgir um novo drama. Ao invés de Leda, quem conta a história agora é, acredite, Celina. Não sabe quem é Celina? Ela é a boneca de Elena, a filha de Nina. Realmente, esse ponto de vista é mesmo inusitado e extremamente criativo. Ou você já tinha lido uma história contada por uma boneca, hein? Nessa prosa poética com um texto extremamente elegante, Celina relata a angústia de ter sido abandonada por Elena, até então sua melhor e inseparável amiga. A filha de Nina esqueceu a boneca na areia da praia no dia em que ganhou um cachorrinho de presente. Diante dos atrativos de um bichinho de verdade, a boneca se tornou de repente sem graça para a menina. E a pobre Celina precisa passar a pior noite da sua vida na escuridão fantasmagórica da praia. É ou não é um enredo original? Além do foco narrativo distinto, a outra diferença marcante em “Uma Noite na Praia” é que ele é um título infantojuvenil. Sim, você leu direito – eu disse infantojuvenil. Trata-se do primeiro e até aqui único livro de Elena Ferrante direcionado às crianças. Você consegue imaginar Ferrante escrevendo dramas familiares aterrorizantes, narrando thrillers psicológicos densos e descrevendo personagens abomináveis para a molecadinha?! Confesso que eu não consigo. Contudo, foi exatamente isso o que ela fez em 2007 com “Uma Noite na Praia”. Incrível essa iniciativa. Se muitos adultos não têm a estrutura emocional nem a maturidade literária para encarar os intrincados suspenses da italiana, será que eles dariam esse tipo de obra para seus filhos lerem? Tenho essa dúvida – apesar de achar que pais que têm crianças que leem Elena Ferrante são muito sortudos! A primeira década do século XXI terminou com a escritora em alta. Se em 2002 ela ainda precisava provar que tinha fôlego para construir um portfólio literário abrangente e de respeito na Itália, a partir de 2007 Ferrante angariava um público leitor fiel no exterior e a admiração dos críticos literários internacionais. É bem verdade que ela estava ainda longe de ser uma autora best-seller mundial, mas já era uma ficcionista de renome e com um estilo narrativo marcante, além de ter livros premiados e publicados em vários países. A subida para o degrau mais alto da carreira de romancista, aquele ocupado exclusivamente por escritores que arrastam multidões para as livrarias do mundo todo, só aconteceria na primeira metade dos anos 2010. E o responsável pela febre da literatura de Elena Ferrante atende pelo nome de Série Napolitana, também chamado de Tetralogia Napolitana. Os quatro romances da saga são “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida”. Eles venderam mais de 16 milhões de exemplares nos cinco continentes. A história de Lenu e Lila, as duas amigas nascidas e criadas em Nápoles que se adoram e se invejam na mesma proporção, gerou a maior rivalidade feminina da literatura contemporânea. Os títulos da Série Napolitana foram traduzidos para dezenas de idiomas e ganharam uma bem-sucedida adaptação para a TV. “A Amiga Genial” (My Brilliant Friend), a série televisiva da HBO baseada na narrativa mais famosa de Ferrante, conquistou uma multidão de fãs na Itália e no exterior. O programa tornou a ficção da escritora napolitana ainda mais popular. Por falar em “My Brilliant Friend”, a produção audiovisual que está atualmente na terceira temporada (a previsão é que tenha quatro) teve a direção de Saverio Costanzo (em 2018 e 2019, nas duas primeiras temporadas) e agora conta com o trabalho do diretor Daniele Luchetti (em 2021 e 2022, nas duas temporadas finais da série). A atração é estrelada por Margherita Mazzucco e Gaia Girace e está sendo filmada na Itália. Para quem possa ter estranhado a interrupção das gravações do seriado em 2020, justamente durante a fase de maior audiência, vale a pena lembrar que no meio do caminho tivemos uma pandemia, tivemos uma pandemia no meio do caminho. Publicado em outubro de 2011, “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul) – voltamos a falar do livro e não do seriado de TV – se tornou uma febre instantânea entre os leitores italianos. O apelo de público chamou a atenção das editoras internacionais e rapidamente o romance ganhou traduções para os principais idiomas. O lançamento de “A Amiga Genial” na Europa e na América do Norte repetiu o êxito tanto nas livrarias quanto entre os críticos literários. Essa obra foi finalista do Prêmio Literário Internacional IMPAC Dublin, um dos mais tradicionais da língua inglesa. Ela também foi indicada pelo jornal britânico The Guardian como o 11º melhor romance da primeira década do século XX. Por sua vez, a Série Napolitana foi apontada pela revista multicultural Vulture dos Estados Unidos como um dos clássicos contemporâneos do século XX. Quando começou a escrever “A Amiga Genial”, Elena Ferrante imaginou que conseguiria contar a história de Elena Greco (a Lenu) e Rafaella Cerullo (a Lila) em apenas um livro. Essa obra seria volumosa, mas ainda sim seria uma única publicação, pensou a autora. Contudo, as páginas da trama foram se multiplicando, se multiplicando, se multiplicando... E o resultado foi o surgimento não de um romance, mas de uma saga com mais de 1.700 páginas. Diante da nova realidade, coube a Ferrante e a Edizioni e/o a opção de publicar aquela narrativa em quatro títulos. Cada volume da Série Napolitana abrange uma fase da vida de Lenu e Lila. “A Amiga Genial”, o primeiro livro da Tetralogia Napolitana, apresenta a infância e a adolescência de Elena Greco e Rafaella Cerullo, duas napolitanas nascidas no fim da Segunda Guerra Mundial e que cresceram em meio ao caos político-social da Itália do Pós-Guerra. Essa obra possui também o prólogo da saga. O romance inicia-se justamente nessa parte introdutória. Na Turim dos dias de hoje, Elena Greco, a narradora da saga, fica sabendo por telefone que sua melhor amiga, Rafaella Cerullo, fugiu de Nápoles sem avisar ninguém. Por mais que Lila sempre ameaçasse desaparecer de casa, Lenu nunca acreditou que a amiga de infância um dia colocasse tal plano em prática. Ainda mais agora, quando ela era uma senhora de idade. Porém, pelas evidências relatadas por Rino, o filho de Rafaella, ela fugiu mesmo. Para tentar explicar o que aquele gesto representava e qual era sua relação com a idosa fujona, Elena Greco se senta na frente do computador e começa a escrever a história de sua vida: da sua vida e da vida de Lila, pois ambas as existências estão umbilicalmente entrelaçadas. O período da infância de Elena e Rafaella percorre os anos 1950 e se passa no subúrbio napolitano em que as meninas nasceram e cresceram. Nessa fase, as amigas disputam o posto de aluna mais brilhante da escola. Para revolta de Lenu, que se esforça bastante nos estudos, as melhores notas do colégio vão sempre para Lila, que parece não fazer qualquer esforço para se destacar. O empenho de Elena, além de sua bondade e meiguice, faz com que ela seja admirada por colegas, professores, familiares e amigos. Por outro lado, Rafaella é odiada por todo mundo. Apesar de seu brilhantismo, ela é desbocada, arrogante e agressiva, o que gera infinitas confusões por onde passa. Curiosamente, as incontáveis diferenças entre as duas meninas irão aproximá-las. Se Elena Greco é afável, bondosa, carinhosa, tímida, covarde, inofensiva, responsável, dedicada, obediente, comportada e bonita, Rafaella é arredia, malvada, nervosa, extrovertida, corajosa, violenta, irresponsável, relapsa, desobediente, arruaceira e feia. Lenu e Lila se tornam uma dupla inseparável e sinérgica desde os 6 anos. Mesmo com toda a admiração mútua que sentem uma pela outra, as amigas também alimentam uma forte inveja e uma acirrada competição entre si. É a rivalidade desmedida entre as duas protagonistas o segredo do sucesso da Série Napolitana. Temos aqui um dos mais criativos, polêmicos e fortes relacionamentos femininos da literatura contemporânea. As únicas semelhanças entre as duas personagens centrais de “A Amiga Genial” são a realidade atroz em que estão inseridas e a pobreza de suas famílias. O bairro no subúrbio de Nápoles em que elas vivem é violento, sujo, feio, barulhento, superpopuloso, machista, injusto, pobre e corrupto. A rotina dos moradores daquela localidade é pautada pelos mandos e desmandos da Camorra, a máfia napolitana que tem mais força e poder do que o governo local. Ao mesmo tempo em que nasce uma forte amizade entre Lenu e Lila, surge também uma relação baseada na inveja e na competição. Desde muito cedo, Elena Greco não se conforma com o fato de a amiga ser a melhor aluna do colégio, status que ela tanto almeja. Além disso, a narradora-protagonista admira a coragem, a postura altiva, o jeitão desbocado e a liberdade que Rafaella tem, coisas totalmente distantes da personalidade e da realidade de Lenu. Por outro lado, Elena acredita que a amiga tenha inveja de sua beleza. Enquanto Lila é magra, baixinha e não possui nenhum atrativo estético, Lenu é alta, tem um corpo bem definido desde pequena e tem sua beleza admirada pelos garotos. Não é errado ver essa dupla de meninas como a união de figuras totalmente distintas. A parte do livro relativa à adolescência de Lenu e Lila começa com a conclusão do ensino fundamental. Nessa nova fase das jovens, as protagonistas invertem os papéis completamente. Agora, Elena é quem é a aluna mais destacada de um colégio bacana fora do bairro, mas se torna gorda e feia, para seu desespero. Lila, por sua vez, começa a atrair as atenções masculinas. Após abandonar os estudos, ela passa a trabalhar na sapataria do pai, onde sonha em produzir seus próprios modelos de calçado. A nova condição provoca outras angústias na narradora do romance. Dessa vez, a inveja de Elena vai para a beleza de Lila e seu brilhantismo no trabalho junto ao pai. A sensação é que qualquer coisa que Rafaella Cerullo faça, Lenu irá cobiçar. É interessante notar que “A Amiga Genial” possui boa parte das características estilísticas de “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”, as três obras iniciais de Elena Ferrante. Afinal, temos aqui: romance de formação envolvendo uma mulher com problemas de relacionamento; narração em primeira pessoa; thriller psicológico intenso; dramas familiares fortes; narradora-protagonista com tons de anti-heroína e com comportamentos próximos a uma psicopata; personagens redondas; suspense intrigante desde as primeiras páginas; narrativa muito bem amarrada; e ambientação noir em Nápoles, uma cidade caótica, violenta e pobre. As novidades narrativas de “A Amiga Genial” são: romance histórico (primeira narrativa histórica da autora); trama com maior fôlego (os livros anteriores se pareciam mais com novelas do que com romances); excesso de personagens (por isso, cada volume da série tem no início uma lista de personagens para ajudar o leitor); e ambientação atrelada aos problemas sócio-políticos da Itália da segunda metade do século XX (anteriormente, os dramas das obras de Ferrante eram exclusivamente de ordem pessoal). Como consequência da união dessas características, Elena Ferrante conseguiu potencializar seu texto ficcional e atingir um patamar ainda mais elevado de excelência literária. Sem dúvida nenhuma, temos em “A Amiga Genial” (e com a Série Napolitana como um todo) uma das narrativas mais impactantes do século XXI. Se eu já era fã de Ferrante, a partir desse romance/saga admito que fiquei maluco maluquinho pelo trabalho da italiana, agora uma das minhas escritoras favoritas. “A Amiga Genial” possui 336 páginas. Ao mesmo tempo em que é o livro mais extenso de Elena Ferrante até então (tem o dobro do tamanho de “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”), ele também é a obra com menos páginas da Tetralogia Napolitana (“História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida” tem, cada um, mais de 400 páginas). Em 2012, a Tetralogia Napolitana ganhou seu segundo título, “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul). Nessa obra, Ferrante apresenta a juventude da sua dupla de protagonistas. A trama do novo romance vai de 1960, quando Elena Greco e Rafaella Cerullo têm 16 anos, até o final daquela década, quando as amigas possuem aproximadamente 25 anos e acabam trilhando caminhos totalmente distintos. O que marca a entrada na fase adulta de Lenu e Lila é, respectivamente, os estudos de Elena fora de Nápoles e o casamento de Rafaella com Stefano Carracci, filho de Dom Achille Carracci, o falecido agiota do bairro. Como Lenu foi morar em Pisa e Lila fica vivendo em Nápoles com o marido, as moças acabam separadas pela primeira vez. Mesmo com a distância geográfica e a falta de uma comunicação frequente, Elena Greco não consegue tirar a amiga de infância da cabeça. A impressão é que a narradora não vê graça em sua vida: as ótimas notas, a admiração dos professores, as novas amizades e os primeiros namorados (Franco Mari e, depois, Pietro Airota) são coisas insignificantes perto do que Rafaella usufrui no bairro suburbano. Não por acaso, essa é a parte da saga em que os relatos se concentram mais na rotina de Lila do que na de Lenu. Por mais paradoxal que pareça, Elena Greco continua invejando a vida e as conquistas de Rafaella Cerullo. Isso quer dizer, então, que Lila tem um vidão em Nápoles, certo? Não! O casamento de Rafaella desmorona já na Lua de Mel. Ela vive em eterno conflito conjugal com Stefano, o que levará a jovem esposa a ter um relacionamento amoroso fora do casamento. Simultaneamente, a moça sofre os efeitos do machismo napolitano, a pressão da família na hora de comandar os negócios e o assédio dos irmãos Solara, uma espécie de mafiosos locais. Saiba que a rotina de Lila não é nem um pouco maravilhosa em sua cidade natal. Se Elena inveja tanto a amiga, mesmo com tantas dificuldades que Rafaella passa, isso quer dizer que a vida de Lenu em Pisa não deve ser lá grande coisa, né? Também não! Nessa altura do campeonato, o dia a dia de Elena Greco causa admiração nos amigos e familiares. Ela é invejada por todos pela independência, pela capacidade intelectual, pelo avanço nos estudos e pela liberdade que possui. Se tudo ocorre bem para Lenu e se as coisas vão de mal a pior para Lila, como Elena ainda sente inveja da melhor amiga, hein?! É meu(minha) amigo(a), a vida não é fácil para ninguém. “História do Novo Sobrenome” possui 472 páginas. Essa obra é a segunda mais volumosa da Série Napolitana e da literatura de Elena Ferrante como um todo. A primeira posição entre os títulos mais extensos da romancista italiana é ocupada por “História da Menina Perdida”, o quarto e último título da saga, que tem 480 páginas. Como uma boa continuação, “História do Novo Sobrenome” mantém as principais características narrativas de “A Amiga Genial”. Portanto, esse romance permanece com uma narradora pouquíssimo confiável; o centro da história é a inveja doentia que Elena Greco sente por Rafaella Cerullo; a ambientação é ao melhor estilo noir; a violência é intensa e variada; o sexo é retratado como uma prática nada romântica, incômoda para as mulheres e símbolo máximo da imposição masculina; os relacionamentos são normalmente tóxicos; as personagens são extremamente contraditórias (quase sempre figuras redondas); e assistimos ao mergulho nos dramas sócio-políticos da Itália e de Nápoles. A grande novidade de “História do Novo Sobrenome” está em seu conteúdo. Nesse livro, a narradora-protagonista da saga foca quase que exclusivamente nos dramas da amiga. Assim, Elena Greco acaba quase que se anulando – Rafaella Cerullo se torna a grande protagonista dessa história. Além disso, aumenta a sensação de que Lenu é uma anti-heroína da série e não uma heroína literária clássica. Eu já tive essa impressão em “A Amiga Genial” e agora a ratifiquei. Em outras palavras, enquanto odeio Elena Greco (mesmo ela tentando posar de boazinha – não, ela não é boazinha coisa nenhuma!), sou apaixonado por Rafaella Cerullo (por mais que ela seja pintada como a vilã – não, ela não é má nem aqui nem na China!). Esse debate sobre quem é a boazinha e quem é a mazinha da história é o elemento mais rico da Tetralogia Napolitana. A opinião do(a) leitor(a) irá variar dependendo do quanto a narrativa de Elena Greco consegui influenciá-lo(a). Como já disse, Lenu é uma narradora pouco confiável. Como uma boa psicopata, ela tentará posar de vítima da situação e irá manipular a opinião do leitor. Se você cair na armadilha dela, na certa verá Lila como uma pessoa repugnante, vulgar, maliciosa, invejosa e inconstante. Como não caí no joguinho cênico de Elena Greco, acabei enxergando Rafaella Cerullo como uma mulher extraordinária e altruísta, digna de admiração e de muitos elogios. É verdade que Lila não é perfeita. Perfeitas mesmo só a Scarlett Johansson, a Isis Valverde, a Margot Robbie e Paola de Oliveira (brincadeirinha!). Como todo mundo (ou quase todo mundo se pensarmos em Scarlettizinha, na Isis, na Margot e na Paola), Rafaella Cerullo tem suas qualidades e seus defeitos. Porém, uma coisa está muito evidente para mim: ela não pode ser vista pelos leitores como a vilã dessa trama. No caso de Elena Greco, minha opinião é totalmente oposta. Na minha visão, ela é uma víbora. Embaixo da carapuça de santa (santinha do pau oco!), esconde-se uma mocreia, capaz de destruir a vida de quem está ao seu redor e, principalmente, de prejudicar a melhor amiga, se assim ela tiver a oportunidade. O que alimenta a narradora-protagonista é o sentimento de inveja e a vontade de vingança. Pobre de Lila. Ela não merecia uma amiga como Lenu. Analisando a literatura de Elena Ferrante, Elena Greco é muito parecida, como personagem e narradora, a Delia, a protagonista de “Um Amor Incômodo”, e de Leda, a protagonista de “A Filha Perdida”. Só não a achei semelhante a Olga, de “Dias de Abandono”. Considero Olga mais uma mulher que enlouqueceu momentaneamente (vítima de um trauma emocional) do que uma má pessoa. Gosto da narradora-protagonista de “Dias de Abandono”, um sentimento que não consigo nutrir por Delia, Leda e (muito menos!) Lenu. “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) é o terceiro romance da Série Napolitana. Publicado na Itália em 2013, esse novo título de Elena Ferrante retrata a fase adulta de Elena Greco e Rafaella Cerullo – período chamado no livro de intermédio (o que seria um intermédio, Santo Deus?!). Quem imaginou que as confusões e a relação conflituosa entre as amigas diminuiriam com o passar do tempo, preciso informar que “História de Quem Foge e de Quem Fica” reserva novas e variadas intrigas de tirar o fôlego. Para completar, temos interessantes reviravoltas ao longo da obra. Por falar nisso, em relação à tensão dramática, à ambientação aterrorizante e às surpresas do enredo, esse volume da tetralogia consegue ser ainda melhor do que os antecedentes. Assim como “A Amiga Genial”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” começa no presente. Em Turim, Elena Greco comenta um pouco mais a questão do sumiço de Rafaella Cerullo e debate as últimas vezes em que viu e conversou com a amiga de infância. Logo em seguida, o romance retorna para o ponto em que “História do Novo Sobrenome” terminou: o encontro de Lenu e Nino Sarratore, em Milão, durante o lançamento de um livro dela. O surgimento repentino de Nino, depois de tantos anos ausente, mexe com Elena Greco. A narradora-protagonista da saga era apaixonada pelo rapaz na infância e na adolescência. Entretanto, ela sempre conseguiu esconder muito bem os sentimentos que nutria pelo filho de Donato Sarratore, o maior mulherengo de Nápoles. Dessa vez, Lenu já não tem certeza se continuará tendo êxito em guardar para si as imposições do coração. Nino se tornou um aclamado acadêmico e, para deleite da velha amiga, mostra-se muito interessado no trabalho literário de Elena e em suas qualidades intelectuais. Para aplacar um pouco as aflições amorosas, Lenu aceita se casar com Pietro Airota, um jovem professor universitário advindo de uma família importante de Milão. Mesmo não amando o noivo, Elena Greco acha que essa união é o melhor para ela. Tão logo se casam, Elena e Pietro vão viver em Florença, onde ele arranja um bom emprego. A trajetória profissional da narradora segue ascendente após o matrimônio. Lenu se transformou não apenas em uma escritora ficcional famosa no país como seus textos não ficcionais são publicados nos principais jornais da Itália. Nesse momento, ela é uma importante personalidade aos olhos de seus conterrâneos de Nápoles, que acompanham atentamente os seus passos na literatura e no jornalismo. Paradoxalmente, enquanto Lenu vive uma ótima fase (casamento tranquilo, independência financeira, constituição de um lar próprio e carreira promissora), Rafaella passa por maus bocados em Nápoles. Após se separar de Stefano Carracci, Lenu vai morar em San Giovanni a Teduccio com o amigo Enzo e com o filho Rino. Lá, ela sofre horrores como funcionária de uma fábrica de embutidos. Humilhada sistematicamente e alvo do assédio moral e sexual dos colegas e do patrão, Rafaella Cerullo se alinha aos comunistas que organizam o sindicato local de trabalhadores. Inicia-se, dessa forma, uma violenta disputa entre fascistas e esquerdistas. Quando Elena Greco descobre que a amiga está passando por sérias dificuldades, ela decide interceder. Com a ajuda dos contatos da família Airota, a jovem escritora não mede esforços para tirar Lila da fábrica e da confusão envolvendo os sindicalistas napolitanos. Por ora, a rivalidade das duas amigas é deixada de lado e Lenu se mostra verdadeiramente interessada em ajudar Rafaella Cerullo. O que a narradora não poderia imaginar é que os ventos fossem mudar tão rapidamente. A saída de Lila do fundo do poço coincide com a derrocada pessoal e profissional de Lenu. “História de Quem Foge e de Quem Fica” tem 416 páginas. Do ponto de vista da extensão do conteúdo, esse livro é o segundo mais enxuto da Tetralogia Napolitana (“A Amiga Genial” é o menor em tamanho). Além disso, essa terceira parte da saga é a que abrange o menor período temporal da série. Enquanto “A Amiga Genial” e “História do Novo Sobrenome” se passam basicamente ao longo de uma década cada um (o primeiro romance relata os acontecimentos dos anos 1950 e o segundo dos anos 1960), “História de Quem Foge e de Quem Fica” se estende por apenas sete anos (de 1969 a 1976). Caso você tenha ficado curioso(a), adianto que “História da Menina Perdida”, o quarto e último volume da coleção, se passa entre 1976 e 2010 (é o maior espaço temporal da tetralogia ao englobar 35 anos de narrativa). A grande surpresa de “História de Quem Foge e de Quem Fica” é o predomínio da narrativa enfocando a parte de Elena Greco. Se em “A Amiga Genial” tivemos um equilíbrio no relato envolvendo as duas protagonistas e em “História do Novo Sobrenome” o pêndulo da trama voltou-se para Rafaella Cerullo, agora, pela primeira vez na série, Lenu torna-se verdadeiramente a protagonista. Por vários capítulos desse terceiro título da saga, Rafaella chega a desaparecer dos relatos da amiga. Para um leitor atento, essa mudança é significativa e mostra o quanto Lenu começa a olhar para a própria vida, deixando por ora a fixação em Lila em segundo plano. Outras características de “História de Quem Foge e de Quem Fica” são: a interposição temporal (presente e passado misturados); o aumento da tensão político-social da Itália na virada dos anos 1960 para os anos 1970; a ambientação ainda mais violenta e degradada de Nápoles; o florescimento do Feminismo; a consolidação da vilania de Nino Sarratore e dos irmãos Solara; e o desfecho espetacular do romance (talvez a parte mais emblemática de toda a Série Napolitana). Lançado em 2014, “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul), é o quarto e último romance da saga de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Se você estava gostando da trama até aqui, preciso alertá-lo(a) que Elena Ferrante reservou a melhor parte para o encerramento da Série Napolitana. Para mim, esse é o melhor volume da coletânea. Esse livro chega a ser mais surpreendente, dramático, violento e angustiante do que “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome” e “História de Quem Foge e de Quem Fica”. Achei até que isso não fosse possível, mas Ferrante se superou mais uma vez – não há atualmente ninguém na literatura mundial como a escritora italiana na arte de produzir thrillers psicológicos envolvendo narradoras femininas complexadas e psicóticas. O que me deixou de queixo caído em “História da Menina Perdida” foi a maneira sublime como Elena Ferrante conseguiu amarrar toda a narrativa (algo nada fácil em se tratando de um enredo com mais de 1.700 páginas). Essa obra ficcional é uma das mais incríveis que li em minha vida e a melhor que li nesse ano. Prova maior da qualidade literária desse livro é que “História da Menina Perdida” foi indicado ao Prêmio Strega, o mais tradicional e prestigiado da literatura italiana. “História da Menina Perdida” está dividido em três partes: Maturidade, Velhice e Epílogo. Enquanto a primeira seção vai de 1976 a 1985, a segunda abrange o período de 1985 a 2010. Na parte final do romance, assistimos, enfim, ao relato de Elena Greco sobre o enigmático desaparecimento de Rafaella Cerullo (mistério apresentado nos capítulos iniciais de “A Amiga Genial”). Como falei anteriormente, esse título é o que percorre o maior espaço temporal (35 anos de história) e, como consequência, é também o mais volumoso da tetralogia (são 480 páginas). O enredo de “História da Menina Perdida” inicia-se no exato ponto em que “História de Quem Foge e de Quem Fica” terminou. A cena de transição entre os livros ocorre em 1976 e narra a decisão de Elena Greco em abandonar o marido, Pietro Airota, e as filhas pequenas, Dede e Elsa. Ela sai de casa para viajar para a França com o amante, Nino Sarratore. Esse é, indiscutivelmente, um dos momentos mais fortes e delicados da Série Napolitana. Chega a ser impossível fechar o volume 3 da série e não abrir o volume 4 em seguida. Um leitor minimamente inteligente ou experiente irá colocar a mão na cabeça e pensar: Meu Deus, Lenu enlouqueceu! Ela não sabe a burrice que está fazendo. Admito que dá para ficar com o coração na mão ao longo dessas páginas. Não é preciso ser um gênio para descobrir que a escapada de Elena com Nino, uma espécie de Lua de Mel antecipada dos pombinhos, decretou o fim do casamento dela com Pietro. Ao regressar de viagem, Lenu abandona definitivamente o lar em Florença e volta a viver em Nápoles. Em sua cidade natal, Elena Greco passa a morar com as filhas e com Nino, que também se separou da mulher. Essa é a fase mais feliz da narradora-protagonista. Pela primeira vez na vida, ela está com o homem que sempre amou. Aos seus olhos, Nino Sarratore é o companheiro perfeito – inteligente, amoroso, bonito e compreensivo. Apesar da felicidade conjugal, as escolhas de Lenu não foram bem recebidas por familiares e amigos. A primeira a se opor àquela união com Nino foi Rafaella Cerullo, agora uma bem-sucedida empresária do ramo da computação (como esse mundo dá voltas, hein?!). Lila acha um disparate Elena largar um marido bom e confiável como Pietro para ficar com alguém tão inconsequente e falso como Nino Sarratore. A família inteira de Elena Greco compartilha da opinião de Rafaella. Indiferente à opinião dos outros, Lenu mergulha de cabeça no novo relacionamento. Apesar de não serem casados no papel, Elena e Nino vivem juntos em Nápoles como se fossem marido e mulher. Dessa união, nasce Immacolata, a terceira menina de Elena Greco (a primeira com o novo companheiro). Poucas semanas mais tarde, Rafaella tem o segundo filho (a primeira menina), Tina. A criança é fruto do relacionamento de Lila com Enzo Scanno. Novamente mães e enfrentando sérios problemas com a família Solara, Elena Greco e Rafaella Cerullo voltam a se unir como nos velhos tempos. As duas moram no mesmo edifício e compartilham a criação das filhas. A ascensão da empresa de computação de Lila mexe com a dinâmica de poder no bairro. Os irmãos Marcello e Michele Solara, tradicional família camorrista, não aceita o progresso da adversária e fará qualquer coisa para prejudicar Rafaella. A única chance de Lila para evitar os ataques dos irmãos mafiosos é o apoio incondicional de Lenu, uma figura pública de renome nacional. O que as amigas não poderiam imaginar é que ambas seriam vítimas, cada qual de uma forma, das fatalidades do destino. O que chama a atenção na narrativa de “História da Menina Perdida” é a questão do ciúme de Elena Greco. Se até então ela era apenas invejosa, agora a personagem principal do romance se torna também uma mulher profundamente ciumenta (ciúmes de Nino). De certa maneira, a eclosão desse sentimento é até natural. Afinal, pela primeira vez Lenu está com alguém que ama. A consequência disso é que Elena abandona a racionalidade e a polidez e se transforma em alguém passional e desequilibrada. Trata-se de uma mudança considerável. Mesmo ficando mais franca, emotiva e frágil (ou seja, mais humana), Lenu não se redime aos olhos dos leitores. Para mim, ela continua sendo a anti-heroína de sempre: egoísta, insensível, invejosa e, agora, ciumenta! Outra mudança é que depois de muito tempo, Elena Greco e Rafaella Cerullo ficam profundamente próximas na fase de maturidade. A última vez que isso tinha acontecido fora na adolescência delas. Outra questão marcante de “História da Menina Perdida” é a potencialização do drama psicológico e da ambientação violenta. Acho que esse volume é o mais tenso e angustiante da saga. Há muitas cenas de crimes (típico das narrativas mafiosas) e passagens de cortar o coração (coitada de Lila!). A violência nesse livro é de todo tipo (assassinatos, espancamentos, corrupção, sequestros, chantagem, manipulação, mentiras...) e de alta voltagem, capaz de afetar a todos indistintamente (inclusive as protagonistas e seus familiares e amigos mais próximos). É como se até essa obra a violência e os crimes da Série Napolitana ficassem ao redor de Lenu e Lila. E agora ela atingisse em cheio as duas personagens. Dessa forma, “História da Menina Perdida” ganha tons de trama de terror e de romance policial noir. A parte mais espetacular dessa obra é o desfecho. De um jeito astuto e criativo, Elena Ferrante amarra a última cena do livro à primeira cena do primeiro volume da tetralogia. Incrível! Depois de mais de 1.700 páginas, a autora napolitana costura impecavelmente a narrativa dos quatro livros e das seis décadas de trama. Não se surpreenda se você ficar embasbacado(a) com as conclusões que Lenu chegar ao final da vida. Adorei “História da Menina Perdida” e a Série Napolitana como um todo. Sem qualquer malícia da minha parte (sabe de nada, inocente!), achei que Elena Ferrante tivesse colocado a melhor parte da saga nos livros iniciais. Ledo engano! A romancista italiana reservou o melhor para o desenlace da série, em um grand finale espetacular. É maravilhoso quando somos surpreendidos positivamente por uma escritora que parece se superar a cada obra publicada. Como romance individual, “História da Menina Perdida” é até melhor do que “A Amiga Genial” e “História de Quem Foge e de Quem Fica”, até então as minhas partes favoritas da tetralogia. Em 2019, cinco anos após a chegada às livrarias do último título da Série Napolitana, Ferrante publicou “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), seu oitavo romance. Essa é a mais recente obra ficcional da autora italiana, a primeira desvinculada da coletânea de best-sellers que narra os dramas de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Na época do seu lançamento, “A Vida Mentirosa dos Adultos” gerou uma enorme expectativa entre o público, a crítica literária e a imprensa. As grandes questões que rondavam a cabeça de todo mundo eram: o que Elena Ferrante traria de novo sem descaracterizar seu estilo literário?; e ela conseguiria continuar surpreendendo os leitores com o mesmo receituário narrativo que a consagrou? Os questionamentos eram válidos. Afinal, o grande desafio do(a) escritor(a) famoso(a) é, após a consagração, desenvolver o portfólio balanceando novidades e consistência temático-estilística. Há quem fique eternamente preso(a) ao modelo de sucesso que o(a) consagrou. E tem quem procure desesperadamente trilhas ficcionais alternativas para provar que ainda é criativo(a) e inusitado(a). No caso de Ferrante, achei que ela foi perfeita em conciliar os dois elementos – a manutenção de suas características mais marcantes e a inserção de novos componentes narrativos. Em relação ao primeiro aspecto, “A Vida Mentirosa dos Adultos” é o típico romance ferrantiano: thriller psicológico envolvendo um narrador-protagonista feminino; drama ancorado em famílias desajustadas e com relacionamentos caóticos; trama passada em Nápoles; ambientação noir que explora a violência, as mentiras, a pobreza, a opressão feminina e a infidelidade conjugal; narrativa histórica (romance histórico); presença de inúmeras personagens redondas, normalmente com forte pegada de vilania; sexo como prática pouco romântica e algo visto como feio, sujo, errado e incômodo pelas mulheres, principalmente quando feito com os homens; e capítulos iniciais e finais impecáveis (eles são capazes de tirar o fôlego dos leitores). Por sua vez, “A Vida Mentirosa dos Adultos” tem como principais novidades: uma protagonista que não tem nada de anti-heroína (esqueça, portanto, as psicopatias de Delia, Leda e Lenu!); Giovanna Trada, a narradora do novo livro, não sabe em quem confiar e o que fazer da vida (nesse sentido, ela é uma pessoa confusa e desnorteada, sendo mais parecida com Olga, a personagem principal de “Dias de Abandono”, do que com as demais protagonistas da literatura de Ferrante); eclosão da homossexualidade feminina para o centro do romance (algo que ficara até então submerso na ficção da autora napolitana); trama ainda mais enigmática, o que potencializa o suspense psicológico da obra. O mais interessante de “A Vida Mentirosa dos Adultos” é que Elena Ferrante subverte a lógica maniqueísta da estrutura romanesca clássica. Ao acompanharmos os relatos de Giovanna, simplesmente não conseguimos saber em qual personagem acreditar e em qual versão da história confiar (mesmo drama vivenciado pela narradora-protagonista). A impressão que temos é que todo mundo tem algo a esconder e procura varrer a sujeira para debaixo do tapete. O resultado é uma grande tensão dramática. Afinal, quem seriam as pessoas boazinhas e quem seriam as pessoas mazinhas dessa trama?! Simplesmente não sabemos – cada leitor precisa tirar suas próprias conclusões. O enredo de “A Vida Mentirosa dos Adultos” se passa no início da década de 1990. O livro é narrado por Giovanna Trada, uma adolescente napolitana devastada pela separação dos pais e pela influência contraditória de uma tia barraqueira que ela só viera a conhecer aos 12 anos de idade. Até sua realidade desmoronar por completo, a menina tinha uma rotina normal e tranquila. Giovanna era uma boa aluna, excelente filha e uma garota do “tipo certinha”. Ela vivia sossegadamente na bolha da classe média de Nápoles que exalava erudição e harmonia. Entretanto, um dia, ao ir mal na escola pela primeira vez, a menina ouve o pai comentando com a mãe que ela estava ficando feia e má como a Tia Vittoria. O desespero da jovem narradora é imediato: ela estaria mesmo ficando feia e má como pai afirmara?! Quem seria essa tia que ela jamais ouvira qualquer menção em casa?! Inicia-se, assim, a fixação de Giovanna Trada pela imagem da Tia Vittoria, a irmã do seu pai. Segundo os pais da garota, Vittoria é uma pessoa invejosa, fofoqueira e indolente que sempre quis prejudicar o irmão. Ela vive no subúrbio de Nápoles e é muito pobre, não merecendo receber a atenção da garota. Mesmo com tantos comentários negativos, Giovanna bate o pé e quer conhecer a tia. Depois de visitá-la em um domingo, Giovanna se torna muito próxima de Vittoria Trada, para desespero dos pais da adolescente. Se por um lado Tia Vittoria é mesmo vulgar, grosseira, simplória, mandona e escandalosa, por outro lado ela é calorosa, passional, amorosa, solidária e sincera. O curioso é que a tia começa a contar sua versão da desavença familiar. E de uma hora para outra Giovanna Trada começa a suspeitar que seus pais não são pessoas tão legais e corretas como sempre imaginou. Estaria ela vivendo em uma família falsa na qual a mentira é a base do relacionamento de todos?! À medida que começa a investigar os passos do pai e da mãe em casa, Giovanna caminha em direção ao precipício. Em pouco tempo, o lar feliz, harmônico e bem estruturado desaparece completamente. Juntamente com o colapso familiar, assistimos à desintegração da velha Giovanna. Aquela menina certinha, calma e segura dá lugar a uma garota que a cada dia se torna mais parecida ao perfil da tia e menos às características dos pais. Com 432 páginas, “A Vida Mentirosa dos Adultos” não é, definitivamente, o melhor romance de Elena Ferrante. Na minha visão, a Série Napolitana e “A Filha Perdida” são superiores. Mesmo assim, essa obra reserva ótimas surpresas e oferece uma literatura da melhor qualidade. Para mim, esse novo título da escritora italiana não está atrás de “Um Amor Incômodo” e “Dias de Abandono”, por exemplo, em relação à excelência da narrativa. Em outras palavras, “A Vida Mentirosa dos Adultos” é um livro primoroso de Ferrante. Se não é o melhor da autora, ele também não pode ser visto como o pior. A trama do oitavo romance de Elena Ferrante é magnífica e marcante e faz jus ao nível do trabalho ficcional da autora. Prova maior da qualidade desse romance é que “A Vida Mentirosa dos Adultos” já teve os direitos de adaptação para a televisão comprados pela Netflix. Mal o livro tinha chegado às livrarias italianas, a companhia norte-americana de streaming adquiriu a propriedade audiovisual dessa narrativa por alguns milhões de dólares. É aquela famosa história: um livro mais ou menos de Elena Ferrante é ainda sim muito, mas muito superior à maioria dos títulos lançados pelos demais autores contemporâneos. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Vida Mentirosa dos Adultos - O mais recente romance de Elena Ferrante
Publicada em 2019, esta obra é o oitavo romance de Ferrante, a principal escritora italiana da atualidade. Na semana passada, li “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), o mais recente romance de Elena Ferrante. Esse livro representou o primeiro lançamento da escritora italiana após o sucesso estrondoso da Série Napolitana, coletânea literária formada por “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul), e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul). Se você não chegou agora ao planeta Terra e tem alguma familiaridade com os best-sellers da literatura contemporânea, na certa já ouviu falar dessa saga narrativa ambientada na cidade de Nápoles e protagonizada por duas amigas que se amam e se odeiam na mesma proporção. Aos fãs de Ferrante, destaco que já analisamos no Bonas Histórias oito obras da autora. Além de todos os exemplares da Tetralogia Napolitana, temos posts comentando “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), romance de 1992, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), título ficcional de 2002, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), obra não ficcional originalmente de 2003 com cartas, crônicas, ensaios e entrevistas da romancista napolitana, e “A Filha Perdida” (Intrínseca), narrativa longa de 2006. A discussão sobre “A Vida Mentirosa dos Adultos”, conteúdo do post de hoje do blog, encerra a avaliação individual dos livros do Desafio Literário de Elena Ferrante. Publicado em 2019, “A Vida Mentirosa dos Adultos” é o oitavo romance de Ferrante. Mais uma vez, temos um drama psicológico enfocando uma família napolitana desajustada e extremamente caótica. Se você ficou assustado com as confusões dos Greco e dos Cerullo, clãs protagonistas da Série Napolitana, você precisa conhecer os Trada. Com fortes elementos de suspense, romance histórico e drama sentimental, “A Vida Mentirosa dos Adultos” subverte a lógica maniqueísta ao esconder por boa parte da obra (ou seria pela narrativa inteira?!) o real caráter de suas personagens. Afinal de contas, quem são as pessoas boazinhas e quais são os indivíduos realmente maus nessa trama?! Esse é o principal questionamento de Giovanna Trada, a narradora-protagonista do romance, uma adolescente devastada pela separação dos pais e pela influência contraditória de uma tia passional e barraqueira (ao melhor estilo napolitano). Confesso que estava curioso para conhecer esse novo romance de Elena Ferrante. Minha dúvida (e, acredito, de boa parte dos leitores e dos críticos literários mundo à fora) era: o que será que Ferrante tem de novidade para nos apresentar depois da Tetralogia Napolitana, uma obra-prima da literatura italiana e da literatura contemporânea?! A curiosidade reside na eterna dicotomia que os romancistas de sucesso vivenciam em algum momento da carreira – o que manter em seu estilo narrativo (algo difícil de mudar a partir da aclamação já obtida) e o que entregar de novo ao público (uma necessidade inata para continuar cativando os leitores obra após obra)? Admito que não tinha receio nenhum sobre a qualidade literária de “A Vida Mentirosa dos Adultos”. Afinal, todos os livros anteriores de Elena Ferrante são formidáveis. A autora italiana parece incapaz de produzir (ou pelo menos de lançar) um título ficcional de baixo nível ou mesmo de um patamar intermediário (até aqui isso não aconteceu!). A questão que me intrigava tanto era saber o quão original a nova obra seria. Na minha mente de escritor fracassado e de recursos limitados, eu não enxergava para onde ela poderia correr após a narrativa da Série Napolitana. Para minha surpresa e alegria, Ferrante conseguiu mais uma vez se superar. Com uma trama mais enigmática e com um thriller psicológico ainda mais potente (simplesmente não sabemos em quem confiar e em qual discurso acreditar), assistimos a um excelente enredo dramático. “A Vida Mentirosa dos Adultos” até pode não ser melhor do que a coletânea formada por “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida”, mas não fica muito atrás dos quatro romances antecedentes no quesito da qualidade ficcional. Ou seja, se não é uma obra excelente (até acho que é), o mais recente título de Elena Ferrante não está muito longe de ser uma narrativa magnífica e marcante. No Brasil, “A Vida Mentirosa dos Adultos” foi publicado em setembro de 2020 pela Editora Intrínseca. A adaptação do texto para o português brasileiro foi realizada por Marcello Lino, tradutor e intérprete especializado no idioma italiano. Lino é, ao lado de Maurício Santana Dias, o principal tradutor da literatura de Ferrante em nosso país. Além dessa obra, Marcello Lino também traduziu outros quatro títulos da autora napolitana: “Um Amor Incômodo”, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”, “A Filha Perdida” e “Uma Noite na Praia” (Intrínseca), o primeiro livro infantojuvenil de Elena Ferrante. Em Portugal, esse título foi lançado em setembro de 2020 pela Editora Relógio D´Água e foi traduzido por Margarida Periquito. Mal chegou às livrarias internacionais, “A Vida Mentirosa dos Adultos” já teve os direitos de adaptação para a televisão comprados pela Netflix. Em maio de 2020, em pleno fuzuê causado pelo início da pandemia do novo coronavírus, a companhia norte-americana de streaming adquiriu a propriedade audiovisual dessa história de Ferrante por alguns milhões de dólares e sinalizou a intenção de produzir nos próximos meses uma série televisiva sobre a conturbada família Trada. Vale a pena destacar que nos últimos anos vários livros de Elena Ferrante tiveram seus direitos vendidos para o cinema e para a televisão. Assim, além de terem se tornado best-sellers internacionais, os romances da italiana também viraram (ou irão se transformar em) blockbusters mundiais. Narrado em primeira pessoa por Giovanna Trada, uma adolescente napolitana de 12 anos, o enredo de “A Vida Mentirosa dos Adultos” começa em 1992. Até essa data, a vida da protagonista seguia uma ordem natural e tranquila ao lado dos pais e dos amigos. Os Trada faziam o gênero da família de classe média feliz, perfeita e admirável. Filha única de um casal de professores do ensino médio de Nápoles, Giovanna vivia em San Giacomo dei Capri, um ótimo bairro, e era uma excelente estudante. Muito amada pelo pai, Andrea, e pela mãe, Nella, a garota tinha duas grandes amigas, as irmãs Angela (da idade de Giovanna) e Ida (dois anos mais nova). Elas eram filhas de Mariano e Constanza, os melhores amigos de Andrea e Nella Trada. As duas famílias eram inseparáveis e transmitiam a imagem de grande segurança e de incontestável harmonia. Quem conhece o portfólio ficcional de Elena Ferrante pode imaginar o quão estranho é o início desse livro. A romancista napolitana não é adepta de narrativas com clãs felizes, ajustados e harmônicos. Afinal, qual é a graça literária da felicidade alheia, né? Dessa maneira, não é surpresa que o mundo idílico em que Giovanna esteja inserida no começo da trama desmorone de uma hora para outra. E isso ocorre após ela ir mal na escola pela primeira vez. Apesar de estudar, a menina não consegue mais tirar boas notas. Abalado com o desempenho escolar abaixo da média, algo inadmissível para um professor, Andrea comenta com Nella quando estão à noite na intimidade do quarto do casal: a filha estaria ficando feia e má como a irmã dele, Vittoria. Para desespero de Giovanna, ela ouve a conversa dos pais atrás da porta. Então, ela estava ficando feia?!!! Ela seria uma menina má?!!! E teria a personalidade da tia desconhecida?!!! Até então, a narradora-protagonista jamais ouvira os pais comentarem sobre a tal mulher. Andrea nunca tivera nenhum contato com sua família e isso não despertou curiosidade na menina. A partir daí, a adolescente fica obcecada pela figura de Vittoria Trada, a misteriosa irmã do pai. Desejando conhecê-la a qualquer custo, Giovanna procura primeiramente uma imagem da tia nos álbuns de fotografia da família. Depois, ela tenta telefonar para a parente. Nas duas tentativas, não há qualquer êxito. Resta a opção de procurar pessoalmente aquela mulher pela cidade de Nápoles. Vendo a fixação da garota pela figura da tia e preocupados com a reação da filha se não conseguir aplacar a curiosidade que a norteia, Andrea e Nilla Trada acabam cedendo. Se no início eles não queriam assistir àquela aproximação de Giovanna com Vittoria, no fim permitem que a menina possa visitar a tia. Antes, porém, o pai explica o porquê não gosta da irmã. Segundo Andrea, Vittoria é uma pessoa extremamente invejosa e sempre agiu para prejudicá-lo. Por isso, ele precisou cortar relações com ela há muitos anos. Desde o nascimento de Giovanna, Andrea não via nem conversava com seus familiares, uma gente pobre, rude, ignorante e mesquinha. Mesmo com o cenário catastrófico pintado pelo pai, a adolescente ainda sim quer conhecer Tia Vittoria, que trabalhava como empregada doméstica e vivia em um dos bairros mais pobres e perigosos de Nápoles. E assim, em um domingo, Giovanna visita sozinha a irmã do pai. Andrea a levou de carro até o subúrbio napolitano, mas não quis sair do veículo. Ele ficou esperando no lado de fora da casa o retorno da filha. Se por um lado Tia Vittoria é mesmo vulgar, grosseira, simplória, mandona e escandalosa (exatamente como o Andrea havia informado à filha), por outro lado ela é calorosa, passional, amorosa, solidária e sincera. Ao ouvir as histórias antigas da tia, Giovanna descobre outra versão para a desavença familiar. Segundo o ponto de vista de Vittoria, Andrea é mesquinho, arrogante e cruel. Não apenas ela deixou de falar com ele, mas os outros três irmãos deles também cortaram definitivamente relações com o professor. Na visão dos irmãos de Andrea, ele é uma pessoa pouco confiável, ingrata e avarenta. Seus principais defeitos são a obsessão pelo dinheiro e o egoísmo ilimitado. Com a intenção de alertar a sobrinha para o caráter pouco digno do pai, Tia Vittoria pediu para Giovanna ficar atenta. A garota deveria reparar bem no que acontecia em casa. Na certa, tanto o pai quanto a mãe da protagonista estavam aprontando alguma coisa obscura e a menina não enxergava os podres dos pais por amá-los. Ao voltar para ao lar naquele domingo, Giovanna muda de comportamento em relação aos progenitores. Ela fica mais atenta e, como consequência, se depara com uma faceta de Andrea e Nilla que jamais tinha imaginado. É o início da ruína dos Trada. Em pouco tempo, a imagem da família feliz, harmônica e bem estruturada desaparece. Enquanto se desilude cada vez mais com as descobertas das personalidades dos pais, Giovanna vê com bons olhos o jeitão sincero, espalhafatoso, exagerado e humano da tia. O distanciamento da garota em relação a Andrea e Nilla, aos antigos amigos (Angela e Ida) e aos colegas de escola coincide com a aproximação da narradora-protagonista com Vittoria, com a família paterna (tios, tias, sobrinhos...) e com os novos amigos do subúrbio de Nápoles. Não é errado afirmar que nasce, a partir daí, uma nova Giovanna Trada. A nova figura, chamada carinhosamente por Giannina pela tia e pelos primos, é, como disse o pai lá trás, cada vez mais parecida à Vittoria, para desespero da própria Giovanna (que se recusa a se ver na nova condição) e daqueles que estão ao seu redor (impacientes com os novos comportamentos da menina). E é com essa personalidade que ela deve encarar os desafios da adolescência, uma fase por si só recheada de contradições, questionamentos, inseguranças e transformações físicas, psíquicas, emocionais e amorosas. “A Vida Mentirosa dos Adultos” possui 432 páginas. O conteúdo desse romance está dividido em 7 partes, o que totaliza 89 capítulos. Levei aproximadamente 9 horas para concluir sua leitura. Precisei de dois dias para tal empreitada – foram pouco mais de 4 horas de leitura na quinta-feira e cerca de outras 5 horas na sexta. Entre as obras ficcionais de Elena Ferrante, “A Vida Mentirosa dos Adultos” só perde em extensão para “História da Menina Perdida” (480 páginas) e “História do Novo Sobrenome” (472 páginas), respectivamente os volumes 4 e 2 da Série Napolitana. Em outras palavras, esse oitavo título da autora italiana é seu terceiro trabalho mais volumoso. A primeira característica de “A Vida Mentirosa dos Adultos” que gostaria de destacar é a alta tensão dramática da narrativa. Temos aqui um thriller psicológico intenso. O que potencializa o suspense é a incerteza de quem está falando a verdade e de quem está mentindo para Giovanna Trada. A adolescente não sabe em quem acreditar. Suas dúvidas são compartilhadas com os leitores, que tentam desvendar os segredos da família da protagonista. A sensação é que assistimos a uma trama recheada de personagens contraditórias, pouco confiáveis e donas de caracteres extremamente questionáveis. Por falar na constituição moral das personagens, esse romance é constituído essencialmente de figuras redondas. Esse recurso não é apenas encontrado em “A Vida Mentirosa dos Adultos”, mas é uma das marcas mais fortes da literatura de Ferrante – ele está presente em todos os seus títulos ficcionais. Assim, sempre ficamos em dúvida em quem acreditar e em quem confiar. Os pais, os amigos e os parentes mais próximos de Giovanna possuem várias características negativas que se contrapõem aos aspectos positivos de suas personalidades. Nessa obra (e no portfólio romanesco de Elena Ferrante como um todo), ninguém é 100% bonzinho e ninguém é 100% mauzinho (diria que cada pessoa tem 95% de aspectos negativos e apenas 5% de elementos positivos). Entender as nuances de cada figura retratada nas páginas dessa narrativa é o grande desafio da narradora-protagonista e dos leitores. A pessoa que melhor escancara essas contradições é Vittoria Trada, sem dúvida nenhuma a personagem mais incrível de “A Vida Mentirosa dos Adultos”. A tia de Giovanna possui inúmeras características negativas: é amarga, mal-educada, estúpida, passional, encrenqueira, metida, grosseirona e lasciva. Por outro lado, ela é religiosa, carinhosa, emotiva, altruísta, sensível, fiel e superprotetora. Enxergá-la como a vilã do enredo ou como o anjo protetor da protagonista irá depender mais da interpretação do leitor do que das definições objetivas apresentadas no texto de Elena Ferrante. Gostei tanto da Tia Vittoria (como personagem literária) que senti falta de sua presença na segunda metade de “A Vida Mentirosa dos Adultos”. Inexplicavelmente, ela some das cenas a partir da parte IV do livro, quando Giovanna passa a cuidar mais de sua própria vida e adquire uma fixação pelos “primos”, os filhos de Enzo e Margherita. Admito que esse sumiço da barraqueira napolitana que causa amor e ódio por onde passa acabou me desapontando um pouco. Na minha visão, desvendar a complexidade da personalidade de Vittoria Trada era mais interessante do que acompanhar o florescimento sexual de Giovanna. Olhando para Giovanna Trada, note que a adolescente é uma narradora-protagonista bem diferente das demais de Elena Ferrante. Afinal, Delia (de “Um Amor Incômodo”), Olga (de “Dias de Abandono”), Leda (de “A Filha Perdida”) e Elena Greco (de “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida”) eram narradoras pouco confiáveis. Lembremos: Delia era uma psicopata imprevisível; Olga surtou após o pedido de separação do marido; Leda escondia sentimentos soturnos em uma rotina aparentemente tranquila e banal; e Lenu Greco movia-se pela inveja da melhor amiga, além de ser extremamente egoísta. Por sua vez, o relato de Giovanna não adquire o caráter pouco confiável das tramas anteriores de Ferrante. Sua narrativa me pareceu bastante sincera e fiel. Na verdade, o drama da sobrinha de Vittoria está mais na incerteza do caráter de todas as pessoas que a rodeiam do que em problemas efetivos da sua personalidade. Por esse prisma, uma ou outra dúvida que Giovanna possa ter (a sexualidade, as aspirações, os hábitos e os gostos pessoais, por exemplo) e algumas rebeldias latentes (comuns da maioria das garotas e garotos dessa idade) são mais frutos da fase de vida em que ela está passando (ah, a adolescência!) do que falta de caráter (ela é uma boa menina no final das contas). Curiosamente, enquanto os relatos em primeira pessoa de Delia, Olga, Leda e Elena Greco queriam nos provar, através da estratégia da vitimização, que elas eram boas pessoas (não eram não – nem aqui nem na Lua!), Giovanna Trada faz o contrário: tenta a todo momento se passar por uma má pessoa (mas ela não é!). Gostei muito desse expediente narrativo. Por ingenuidade, imaturidade e/ou revolta, a adolescente napolitana confunde seus sentimentos e suas vontades mais íntimas com aspectos de vilania. Não dá para falar de “A Vida Mentirosa dos Adultos” sem tratar da sexualidade de suas personagens. Para começo de conversa, o homossexualismo e a bissexualidade são mais explícitos nesse romance do que nos anteriores de Elena Ferrante (recordemos a cena de Elena Greco dando banho em Rafaella Cerullo antes do casamento de Lila com Stefano). Aqui temos pegação lésbica totalmente transparente envolvendo várias personagens (Angela e Ida, por exemplo) e a própria protagonista da trama (Giovanna). Se antes as narradoras de Ferrante flertavam rapidamente com o lesbianismo (em passagens pontuais) e os gays eram personagens secundárias do enredo (isso é, quando apareciam – lembro de Afonso Carracci na Série Napolitana), em “A Vida Mentirosa dos Adultos” não há qualquer receio de se mergulhar nessa questão. Exatamente por isso, em muitos capítulos desse livro me lembrei de “Carol” (L&PM Pocket), romance homoafetivo marcante de Patricia Highsmith, e, principalmente, de “O Diário Roubado” (Klick), a primeira novela de Régine Deforges. O que não mudou em “A Vida Mentirosa dos Adultos” é a conotação negativa do ato sexual quando praticado entre homens e mulheres. Para as personagens femininas de Ferrante, o sexo com os homens é algo repugnante, grosseiro, sujo, ilegal e feito exclusivamente para aliviar as vontades masculinas. Essa prática também está totalmente desassociada do amor romântico (exceção é a relação de Vittoria e Enzo, apesar de ser um relacionamento extraconjugal) e é uma obrigação social das mulheres (a partir de determinada idade). Se nos livros anteriores da romancista napolitana essa característica soava mais como um tom conservador da sociedade italiana, aqui temos uma explicação mais condizente – o lesbianismo como escapatória para a libido feminina. Analisar a literatura de Elena Ferrante é estudar narrativas com começos e desfechos espetaculares. “A Vida Mentirosa dos Adultos” não fica atrás nesses quesitos. O início dessa trama é brilhante. Em apenas um parágrafo (ou seria na primeira frase, hein?!), somos atirados de cabeça ao conflito da obra. Incrível! O desenlace do romance também é contundente, emblemático e simboliza as escolhas da narradora-protagonista - à la Thelma & Louise (1991). Mais uma vez, Ferrante utiliza Nápoles como cenário narrativo e aborda as variantes linguísticas do italiano como elementos de divisão social. A cidade do Sul da Itália é apresentada em suas diferentes facetas: a área rica e bonita (onde Giovanna Trada nasceu e mora) e a região pobre, feia, suja e violenta (onde Tia Vittoria vive). Para completar, a elite econômica e intelectual de Nápoles usa apenas o idioma italiano no dia a dia. Por sua vez, o povo mais simples e pobre do município ancora sua rotina no idioma napolitano, um dialeto local. Essas contradições geográficas e linguísticas servem de mote para “A Vida Mentirosa dos Adultos” escancarar os descompassos dramáticos de Giovanna – a vida tranquila, harmônica, abastada e feliz da protagonista até os 12 anos quando ela usava exclusivamente o italiano na parte nobre da cidade; e o mergulho no caos sentimental, existencial e psicológico da adolescente ao descobrir a existência da tia suburbana e rude que se expressa quase que exclusivamente pelo dialeto napolitano. Por fim, gostei muito da tradução dos níveis escolares feitas por Marcello Lino (um grave defeito do texto em português da Série Napolitana) e adorei o título desse romance. Aos olhos de uma adolescente complexada, a rotina dos adultos é mesmo cercada de mentiras que precisam ser ocultadas (para o bem das famílias e da sociedade hipócrita e conservadora). Em suma, se você (assim como eu) pensou que Elena Ferrante tinha gastado todo o seu talento literário na Tetralogia Napolitana, saiba que a escritora italiana conseguiu se superar outra vez ao trazer novidades narrativas para um enredo de tirar o chapéu. Se a “A Vida Mentirosa dos Adultos” não for o melhor romance da autora, ele está entre os melhores de Ferrante e da literatura contemporânea como um todo. É muito legal acompanharmos a inesgotável capacidade criativa de uma escritora que nos entretém com tramas inquietantes, inteligentes, polêmicas e recheadas de personagens contraditórias. Para encerrar o Desafio Literário desse bimestre, anuncio que no próximo sábado, dia 28, retornaremos ao Bonas Histórias para tecer a análise completa da literatura de Elena Ferrante. Afinal, depois de comentarmos individualmente oito livros da principal autora italiana da atualidade, já estamos mais do que aptos para discorrer sobre seu estilo narrativo, as características de suas obras e suas escolhas artísticas, além de debater, claro, mais uma vez a questão de sua verdadeira identidade (um mistério guardado a sete chaves por seus editores). Não perca o post com o panorama aprofundado do portfólio da romancista napolitana, a última peça do Desafio Literário de Ferrante. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Desafio Literário: julho e agosto/2021 - Elena Ferrante
A escritora italiana mais vendida da atualidade e que mantém oculta sua verdadeira identidade será analisada pelo Bonas Histórias nesse bimestre. Chegamos à análise do segundo autor do Desafio Literário de 2021. Depois de estudarmos, em abril e maio, as obras do turco Orhan Pamuk, vamos a partir de hoje conhecer o trabalho ficcional da italiana Elena Ferrante, um dos principais nomes da literatura contemporânea. Seus romances, a maioria deles best-sellers mundiais, estarão no foco do Bonas Histórias ao longo de julho e agosto. Vale lembrar que a sétima temporada do Desafio Literário, coluna do blog dedicada à investigação do estilo narrativo dos grandes escritores nacionais e internacionais de ontem e de hoje, será completada no bimestre outubro/novembro com a análise crítica dos títulos do argentino Julio Cortázar. Ou seja, nesse ano, serão apenas três os autores investigados em profundidade pelo Bonas Histórias. Para conhecermos mais e melhor o estilo ficcional de Elena Ferrante, vamos comentar, nas próximas oito semanas, oito de seus principais livros: “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), romance de 1992, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), romance de 2002, “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), coletânea de 2003 com entrevistas, cartas, depoimentos e memórias da autora, “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), romance de 2011 que inaugurou a série napolitana, “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), romance de 2012 que dá sequência à série mais famosa de Ferrante, “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul), romance de 2013 e terceiro volume da série napolitana, “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul) , romance de 2014 que fecha a tetralogia napolitana, e “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), o mais recente romance da autora que foi publicado em 2019. Os leitores mais antigos do Bonas Histórias devem se lembrar que já comentamos um livro de Ferrante aqui no blog. Foi em agosto do ano passado, na coluna Livros – Crítica Literária. A obra em questão foi “A Filha Perdida” (Intrínseca), o terceiro romance da autora. Esse título foi publicado originalmente em 2006. Como já tinha analisado “A Filha Perdida”, optei por excluí-lo da lista do Desafio Literário desse bimestre. Se não fosse por isso, na certa teria incluído esse romance na coletânea de livros de Elena Ferrante que serão estudados agora. A partir da análise individual de obra a obra, estaremos aptos para, no finalzinho do próximo mês, construir um panorama completo da carreira, do estilo literário e das marcas da ficção de Elena Ferrante. Esse é o grande objetivo do Desafio Literário de julho e agosto. Afinal, quais são os segredos do texto de uma das escritoras mais vendidas da atualidade? O que tem de tão especial em suas narrativas (geralmente thrillers dramáticos envolvendo personagens femininas fortes e polêmicas) que colocaram a literatura italiana no topo dos best-sellers internacionais? Espero conseguir as respostas para essas questões (para, então, poder compartilhar com vocês). Atualmente, Elena Ferrante é uma das autoras mais lidas no mundo. Somente os romances da Série Napolitana, seu maior sucesso editorial, venderam mais de 16 milhões de unidades nos quatro cantos do planeta. Não por acaso, a italiana se tornou a escritora queridinha da HBO e da Netflix, que compraram os direitos de adaptação de seus principais títulos. Em 2016, Ferrante foi mencionada pela revista norte-americana Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo. Desde Umberto Eco e Italo Calvino, a literatura de língua italiana não atingia os primeiros lugares no ranking internacional dos títulos ficcionais mais comercializados. Nascida em 1953, em Nápoles, Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora que mantém oculta sua verdadeira identidade até hoje. Mesmo diante da fama internacional, ela preferiu preservar-se e, assim, permanece longe (muito longe!) dos holofotes da mídia. Essa característica inusitada de sua personalidade só foi possível porque Elena jamais apareceu em público. Suas entrevistas são realizadas sempre por escrito e intermediadas pela editora italiana (que deve conhecer sua identidade, mas a mantém em segredo absoluto). Isso é, quando a romancista permite esse tipo de interação com os jornalistas, algo bastante raro. Ela normalmente prefere ficar na dela e não falar com ninguém (é uma versão feminina, italiana e mais radical de Rubem Fonseca). Como reflexo da crescente curiosidade dos leitores e da imprensa, várias pessoas já foram apontadas, nos últimos anos, como sendo a autora napolitana. Há quem diga que Ferrante seja uma tradutora. Outros afirmam se tratar de uma jornalista. Tem também aqueles que dizem que a escritora é na verdade um homem (algo que duvido!). Contudo, nenhum desses indivíduos mencionados confirmou os boatos de serem Elena Ferrante (na verdade, todos desmentiram categoricamente essa hipótese). Dessa maneira, perpetua-se até hoje o mistério envolvendo a identidade verídica da maior best-seller italiana da atualidade. Sem dúvida nenhuma, esse é um dos maiores segredos da literatura contemporânea. As únicas informações concretas que temos sobre a vida pessoal da romancista estão disponíveis no livro “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”. Publicada em 2003, essa obra reúne as memórias de Elena Ferrante e sua justificativa por não revelar sua identidade. Na época do lançamento de “Frantumaglia”, Ferrante ainda não era um dos principais nomes da literatura mundial. Sua fama ainda estava restrita à Itália, que recebeu muito bem os dois romances iniciais da napolitana. No cenário europeu, ela começava a despontar. A primeira publicação de Elena Ferrante é “Um Amor Incômodo”, romance lançado em 1992. Sucesso de crítica e de público na Itália, essa obra de estreia conquistou vários prêmios em âmbito nacional (Prêmio Procida-Isola di Arturo-Elsa Morante e Prêmio Oplonti d'Argento) e alçou o nome da escritora entre seus conterrâneos. Essa história foi adaptada para o cinema por Mario Martone em 1995. O segundo romance de Elena Ferrante demorou dez anos para chegar às livrarias. E a longa espera valeu a pena. Lançado em 2002, “Dias de Abandono” se tornou um best-seller mundial. Com esse título, a autora italiana se tornou conhecida internacionalmente. “Dias de Abandono” foi finalista do Prêmio Viareggio e foi levado às telonas. O filme homônimo teve direção de Roberto Faenza e chegou aos cinemas italianos em 2005. Há poucas semanas, saiu a notícia que esse livro ganhará uma nova adaptação cinematográfica, dessa vez feita por uma superprodução de Hollywood. Ainda nos anos 2000, Ferrante publicou outros dois livros ficcionais: o romance “A Filha Perdida”, em 2006, e o título infantojuvenil “Uma Noite na Praia” (Intrínseca), em 2007. Essas duas obras contam basicamente a mesma história. A diferença é o foco. Se em “A Filha Perdida” assistimos ao thriller dramático do ponto de vista de Leda, em “Uma Noite na Praia a trama é narrada pela boneca perdida/roubada da menina Elena. Esse terceiro romance de Elena Ferrante representou a consolidação da autora no hall das principais figuras da literatura italiana contemporânea. Mais uma vez, “A Filha Perdida” foi sucesso de público e de crítica. O ápice da carreira literária de Ferrante seria estabelecido entre 2011 e 2014. Nesse período, ela lançou seus títulos mais famosos até aqui: os quatro romances da Série Napolitana. A coleção é formada por “A Amiga Genial”, de 2011, “História do Novo Sobrenome”, de 2012, “História de Quem Foge e de Quem Fica”, de 2013, e “História da Menina Perdida”, 2014. A tetralogia de Elena Ferrante se transformou em um dos maiores sucessos editoriais da década passada. Best-seller internacional, os livros da série napolitana foram adaptados recentemente para a televisão tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. A partir daí, Elena Ferrante entrou definitivamente para a cultura popular mundial. Em 2019, chegou ao mercado “A Vida Mentirosa dos Adultos”, o oitavo e, até o momento, último romance de Ferrante. Para boa parte da crítica literária, esse é o melhor livro da autora italiana. Em maio do ano passado, em pleno olho do furacão chamado pandemia do novo coronavírus, a Netflix comunicou que comprou os direitos televisivos dessa história e que lançará uma série televisiva baseada na trama de “A Vida Mentirosa dos Adultos”. Ainda em 2019, Elena publicou “A Invenção Ocasional” (Relógio D´Água), coletânea de 51 crônicas multitemáticas. Esses textos foram escritos no ano anterior para a coluna semanal da autora no jornal inglês The Guardian. Esse livro é o único de Ferrante que ainda não foi lançado no Brasil (a Relógio D´Água é uma editora portuguesa). Com a intenção de conhecer as particularidades da literatura de Elena Ferrante, o Bonas Histórias mergulhará ao longo dos próximos dois meses nas principais obras da escritora italiana. Confira, a seguir, o cronograma completo do Desafio Literário nesse período: - 8 de julho de 2021 – Análise de “Um Amor Incômodo” (1992) – romance. - 14 de julho de 2021 – Análise de “Dias de Abandono” (2002) – romance. - 20 de julho de 2021 – Análise de “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (2003) – memória. - 26 de julho de 2021 – Análise de “A Amiga Genial” (2011) – romance (livro 1 da série napolitana). - 4 de agosto de 2021 – Análise de “História do Novo Sobrenome” (2012) – romance (livro 2 da série napolitana). - 10 de agosto de 2021 – Análise de “História de Quem Foge e de Quem Fica” (2013) – romance (livro 3 da série napolitana). - 16 de agosto de 2021 – Análise de “História da Menina Perdida” (2014) – romance (livro 4 da série napolitana). - 22 de agosto de 2021 – Análise de “A Vida Mentirosa dos Adultos” (2019) – romance. - 28 de agosto de 2021 - Análise Literária de Elena Ferrante. Nosso estudo da produção ficcional de Elena Ferrante começará efetivamente na próxima semana. A primeira obra da escritora italiana que será comentada aqui no Bonas Histórias é o seu romance de estreia. O post sobre “Um Amor Incômodo” (Intrínseca) será publicado na próxima quinta-feira, dia 8. Não perca o Desafio Literário de julho e agosto. E uma ótima leitura e uma excelente análise para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedI
- Análise Literária: Orhan Pamuk
Estudo apresenta a trajetória pessoal, os feitos profissionais, os detalhes dos livros e as características do estilo narrativo de Pamuk, o principal escritor turco da atualidade. Em abril e maio, o Desafio Literário dedicou-se ao estudo da literatura de Orhan Pamuk, o principal escritor turco da atualidade e um dos mais importantes autores do romance contemporâneo. Para provar que não estou exagerando nas palavras iniciais do post de hoje, basta dizer que Pamuk conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 2006. E ele foi o segundo mais jovem a receber a maior honraria literária – foi premiado aos 54 anos; só não foi mais precoce do que o britânico Ruyard Kipling, coroado em 1907, aos 41 anos. Sem dúvida, a cerimônia na Academia Sueca de Letras representou o auge da carreira de Orhan Pamuk. Porém, esse não foi o único de seus feitos na literatura ficcional. Ele encarna o tipo de artista que une o reconhecimento entre os críticos literários e o sucesso comercial junto ao público leitor. Seus livros foram traduzidos para mais de seis dezenas de idiomas e são extremamente populares na Turquia. Em sua terra natal, Pamuk é o autor mais vendido da história. Nas livrarias internacionais, ele é um nome que não pode faltar na seção dos best-sellers. Contudo, antes de entrarmos efetivamente nessa análise, preciso fazer uma rápida explicação técnica. Quem acompanha há mais tempo o Bonas Histórias deve ter percebido que o Desafio Literário de Orhan Pamuk foi o primeiro a ser realizado bimestralmente. Até então, investigávamos mensalmente os principais autores da literatura brasileira e mundial na coluna Desafio Literário. Isso ocorreu de 2015 a 2020. A partir de 2021, alteramos essa dinâmica (essa mudança será permanente!). Com mais tempo disponível (dois meses ao invés de apenas um), podemos avaliar mais obras de cada escritor selecionado. Se antes estudávamos no máximo seis títulos, agora podemos analisar no mínimo oito livros de cada autor. Essa foi a grande vantagem da modificação promovida no blog nesse ano. O Desafio Literário fica, assim, mais completo, abrangente e aprofundado. E quem ganha com isso é, obviamente, o leitor do Bonas Histórias. Esses benefícios já são perceptíveis nesse estudo sobre Pamuk. Nas últimas sete semanas, comentamos no Bonas Histórias oito obras do romancista turco: “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), romance de 1983, “O Castelo Branco” (Companhia das Letras), romance de 1985, “A Vida Nova” (Editorial Presença), romance de 1994, “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), romance de 1998, “Neve” (Companhia das Letras), romance de 2002, “Istambul - Memória e Cidade” (Companhia das Letras), título autobiográfico de 2003, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), ensaio literário de 2010, e “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras), romance de 2014. É ou não é um portfólio literário de respeito, hein?! A partir dessas avaliações individuais (título a título), conseguimos agora apresentar um panorama completo da literatura pamukiana. Além de comentarmos as trajetórias pessoal e profissional do autor, vamos discutir hoje as características de seus principais livros e esmiuçar seu estilo narrativo. Afinal de contas, o que marca o trabalho ficcional de Orhan Pamuk para ele ter se tornado um dos principais escritores de sua geração? A resposta dessa questão é o norte desse post do Desafio Literário. Para começo de conversa, o portfólio literário de Pamuk tem vinte livros. Desses títulos, dez são romances: “Cevdet Bey ve Oğullar” (sem tradução para o português), “A Casa do Silêncio”, “O Castelo Branco”, “O Livro Negro” (Companhia das Letras) – em Portugal, esse título foi lançado com o nome de “Os Jardins da Memória” (Editorial Presença) –, “A Vida Nova”, “Meu Nome é Vermelho”, “Neve”, “O Museu da Inocência” (Companhia das Letras), “Uma Sensação Estranha” e “Kırmızı Saçlı Kadın” (ainda não publicado em português). Na Turquia, seu maior sucesso editorial foi “A Vida Nova”, que se tornou a ficção de venda mais rápida da história. No cenário internacional, o principal destaque vai para “Meu Nome é Vermelho”, considerado um clássico da literatura contemporânea e um best-seller nos quatro cantos do planeta. Por sua vez, as obras não ficcionais de Orhan Pamuk contemplam dez títulos: “Outras Cores” (Companhia das Letras), coletânea de crônicas, entrevistas e discursos (além do acréscimo de um conto), “Istambul – Memória e Cidade”, “A Maleta do Meu Pai” (Companhia das Letras), discursos do autor em cerimônias de premiação, “Manzaradan Parçalar: Hayat, Sokaklar, Edebiyat” (não traduzido para o nosso idioma), coletânea de crônicas sobre Istambul, passagens autobiográficas do escritor e ensaios sobre a literatura, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”, “Şeylerin Masumiyeti” (ainda sem edição em português), coletânea de crônicas, ensaios fotográficos e catálogo dos objetos colecionados pelo autor, “Resimli İstanbul” (não publicado em nosso idioma), livro de memórias, “Hatıraların Masumiyeti” (sem tradução para o português), rascunho e ensaios literários, “Balkon” (não publicado por aqui), ensaio fotográfico, e “Orange” (sem tradução para o português), outro ensaio fotográfico. De modo geral, até a conquista do Prêmio Nobel, Orhan Pamuk priorizava a produção ficcional (sete romances contra apenas duas obras não ficcionais). Após 2006, tivemos uma inversão no tipo de lançamento promovido pelo autor turco. Com o crescimento do interesse do público pela vida e pela carreira de Pamuk, por sua visão sobre a literatura, por sua relação com a cidade natal, Istambul, e pelas particularidades da história e da identidade cultural da Turquia, as publicações não ficcionais prosperaram (oito livros de memórias, crônicas e ensaios versus três romances). Além da produção literária, é legal contar que Pamuk escreveu algumas peças teatrais, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, e roteiros cinematográficos, principalmente nos anos 1990. Orhan Pamuk nasceu na noite de 7 de junho de 1952 em um pequeno hospital particular de Moda, bairro no lado asiático de Istambul. Os pais do futuro escritor eram Gündüz Pamuk e Seküre Pamuk, jovem casal integrante de uma das famílias mais ricas da Turquia. Os Pamuk não eram religiosos e possuíam hábitos ocidentalizados. Quando Orhan veio ao mundo, seus pais já tinham um menino, Sevket. A parte inicial da infância de Orhan Pamuk foi passada no Edifício Pamuk, palacete de cinco andares na Av. Tesvikiye, no bairro de Nişantaşı, em Istambul. Ali morava toda a família do garoto: os pais, o irmão, a avó, os tios e os primos. Ao melhor estilo otomano, cada andar do prédio era a residência de um ramo do clã. Na cobertura, por exemplo, vivia a avó paterna de Orhan, a matriarca dos Pamuk (a mãe de Gündüz). O quarto andar era a morada de Gündüz, Seküre e seus dois filhos. No terceiro andar, residiam o irmão de Gündüz (tio de Orhan), sua esposa e seus filhos. Nos andares abaixo, viviam os demais tios, primos e sobrinhos de Gündüz Pamuk. A riqueza dos Pamuk foi construída nas décadas de 1920 e 1930, nos primeiros anos da República da Turquia (antes de 1923, o país euroasiático era um sultanato). Advindo do interior, o avô paterno de Orhan Pamuk foi morar em Istambul ao lado da jovem esposa e se lançou em vários empreendimentos industriais na maior cidade da nação (que deixara de ser a capital turca, posto conferido à Ancara após a Proclamação da República). Com excelente tino comercial, ele conseguiu conquistar uma fortuna incalculável que se propagava por várias grandes empresas e por dezenas e dezenas de imóveis em Istambul. A trajetória de sucesso da família sofreu um sério abalo quando o avô de Orhan morreu precocemente aos cinquenta anos. Sua herança foi repartida com a viúva e com os dois filhos. Se o comando familiar e doméstico do clã ficou nas mãos da avó de Orhan (que liderava a dinâmica no Edifício Pamuk como se fosse uma rainha), a administração dos negócios ficou sob a supervisão do pai e do tio de Orhan, então jovens mauricinhos. A partir daí, começou a derrotada financeira dos Pamuk (alguém aí pensou na expressão “pai rico, filho pobre”?!). Gündüz Pamuk e seu irmão provaram-se péssimos empresários. Acho que o uso da palavra péssimo (e empresários), nesse caso, seria um elogio para a atuação da dupla. Eles conseguiram torrar quase toda a fortuna deixada pelo pai em menos de vinte anos. Cada iniciativa dos irmãos tinha como resultado um prejuízo enorme. Assim, quando Orhan Pamuk nasceu, sua família ainda tinha um elevado padrão de vida (o avô do futuro romancista tinha morrido há pouco tempo). Se o clã não estava mais entre os mais ricos da Turquia (Gündüz e seu irmão foram mesmo rápidos em dilapidar o patrimônio paterno), pelo menos seus integrantes tinham dinheiro e propriedades para esbanjar. Porém, quando o menino chegou aos dez anos de idade, os Pamuk já podiam ser vistos como pertencentes à classe média de Istambul. E ao chegar à maioridade, Orhan viu seus pais passarem por graves necessidades financeiras. Os problemas financeiros não foram as únicas complicações que Orhan Pamuk vivenciou dentro de casa. O casamento de Gündüz e Seküre nunca foi harmonioso. Além de gastar irresponsavelmente a herança paterna, Gündüz Pamuk era um pai extremamente ausente e um marido pouco confiável. Charmoso e bon vivant, ele sumia de casa por vários meses, vivia na balada e sempre estava acompanhado por uma amante diferente à tira colo. Não por acaso, Seküre vivia em pé de guerra com o esposo. No meio do conflito conjugal dos pais, Orhan e Sevket tentavam sobreviver como podiam. Ao invés de unir os dois irmãos, o clima bélico em casa os tornou rivais. Eles disputavam o amor materno e a atenção do pai (quando esse, obviamente, lembrava de retornar para o lar). A segunda parte da infância de Orhan Pamuk (após os nove anos) e sua juventude foi marcada por várias mudanças de residência. Expulsos do Edifício Pamuk pela avó que já não aguentava as irresponsabilidades do filho, Gündüz, Seküre e os meninos tiveram que achar outro lugar para viver. Depois de alguma perambulação por Cihangir, eles fixaram residência em Besiktas (Cihangir e Besiktas são bairros populares de Istambul). Para Orhan, esse período foi traumático porque ele chegou a viver por alguns meses na casa dos tios, em Cihangir. O garoto nunca entendeu o motivo de ter vivido longe dos pais e do irmão. Em sua visão, ele fora inexplicavelmente expulso de casa e renegado pelos pais. Desde os sete anos, Orhan Pamuk mostrou-se apaixonado pelos desenhos e pela pintura. O passatempo preferido do menino tímido e introspectivo era desenhar e colorir. Ele fazia retratos de pessoas conhecidas e reconstruía os cenários de sua cidade natal nas telas. Esse amor pela arte pictórica foi crescendo, crescendo e crescendo ao ponto de todos os familiares e amigos acreditarem que Orhan seria um pintor profissional quando se torna-se adulto. Na adolescência e juventude, ele usou por vários anos um imóvel abandonado em Cihangir como seu ateliê. Entretanto, aos 22 anos, Orhan Pamuk surpreendeu a todos ao decidir mudar radicalmente de vida. Em 1974, ele abandonou a faculdade de Arquitetura, que já estava quase concluindo, e largou definitivamente os trabalhos no ateliê. Uma frustração amorosa foi a responsável por levar o jovem a questionar sua rotina e suas pretensões profissionais. A partir dali ele não queria mais ser pintor e optou inexplicavelmente por ser escritor. Até então, o rapaz jamais escrevera algo mais sério e estava muito longe de ser um leitor assíduo (daí a surpresa dos amigos e familiares mais próximos com sua decisão). Para recuperar o tempo perdido, Orhan passou a ler vorazmente os principais títulos da literatura turca e da literatura do ocidente. Para melhorar suas habilidades na escrita, também ingressou no curso de Jornalismo. Para desespero da mãe que queria ver o filho empregado e ajudando nas despesas da casa, Orhan Pamuk passava os dias lendo e escrevendo sem qualquer preocupação financeira. Arranjar trabalho não fazia parte de seus planos. O mergulho nos livros (leitura e produção) foi sua rotina dos 22 aos 28 anos. Mesmo depois de formado em Jornalismo pela Universidade Técnica de Istambul, ele nunca trabalhou na área. Na verdade, Orhan Pamuk nunca teve outro emprego a não ser escritor. O primeiro romance do autor, “Cevdet Bey ve Oğullar”, foi produzido nessa época, entre 1974 e 1980. A narrativa histórica tinha uma pegada naturalista e flertava com algumas passagens biográficas da família Pamuk. Uma vez finalizada sua obra de estreia, Orhan começou a procurar uma editora para publicá-la. Sem confiar no material do jovem escritor, as editoras recusaram insistentemente os originais do livro por dois anos. Apenas em 1982, quando Orhan Pamuk já era um trintão e estava casado com Aylin Turegen, “Cevdet Bey ve Oğullar” chegou às livrarias turcas. A repercussão da crítica foi excelente, apesar das vendas nas livrarias terem sido tímidas. A obra conquistou o Prêmio de Romance Orhan Kemal de 1983, um dos mais tradicionais da literatura turca. “Cevdet Bey ve Oğullar” é um romance histórico ambientado na transição do fim do Império Turco-otomano e o início da República da Turquia (não por acaso, a época de progresso do avô paterno do escritor). O enredo do livro começa nas primeiras décadas do século XX e tem como foco uma rica família de Nişantaşı, bairro de Istambul. Através dos dramas das três gerações dos Cevdet, os leitores acompanham as transformações sociais, econômicas e políticas da maior cidade turca e do país de modo geral. Fica evidente os elementos biográficos (ou seriam autobiográficos?!) dessa história – a família Cevdet tem muito dos Pamuk. Empolgado com a repercussão crítica do livro inicial, Orhan Pamuk continuou desenvolvendo tramas ficcionais nos anos seguintes. Dominando um pouco mais o ofício da escrita criativa e conhecendo melhor a dinâmica do mercado editorial, o escritor conseguiu lançar o segundo romance já no ano seguinte. Escrito entre 1980 e 1983, “A Casa do Silêncio” é um romance histórico narrado por cinco personagens. Essa obra possui uma ambientação noir e uma pegada alegórica, ainda com fortes influências naturalistas. Diferentemente do título anterior, “A Casa do Silêncio”, além de rapidamente ganhar os elogios da crítica turca, caiu no gosto dos leitores locais. Esse livro mostra os dramas de três gerações dos Darvinoglu, uma família turca que precisa se equilibrar entre as tradições de seu povo e a modernidade trazida pela internacionalização do país (hábitos, valores e religião tradicional, islã, versus hábitos, valores e secularismo, estilo de vida ocidental). Enquanto narra os problemas familiares, os dissabores financeiros, as agonias amorosas e os sonhos pessoais de suas personagens, Orhan Pamuk apresenta simultaneamente em “A Casa do Silêncio” o cenário político-social de seu país (as brigas políticas, os golpes militares, as guerras internas e externas e as perseguições político-ideológicas). No cerne do conflito está a promulgação de um regime de governo laico (algo que a população islamita não aceita tranquilamente). Vale a pena lembrar que a Turquia é uma exceção entre as nações mulçumanas. Ao invés de ser um estado religioso, o país é uma democracia secular (a única entre os países majoritariamente muçulmanos). Essa característica expõe uma fratura da sociedade local: há quem defenda os hábitos, a cultura, o estilo de vida e as leis islâmicas (conforme as tradições do Império Otomano) e há quem opte pelos hábitos, a cultura, o estilo de vida e os valores ocidentais (conforme pregado pela República Turca e inspirado pelos países do Ocidente). Não por acaso, essa contradição insolúvel é o que causa as brigas e as confusões entre os Darvinoglu. As principais características de “A Casa do Silêncio” são: a polifonia de vozes narrativas (são cinco narradores distintos); a falta de um conflito único e mais evidente (cada protagonista está mergulhado em problemas particulares); a forte crítica social (a Turquia é um país degenerado); a preocupação do autor em reconstruir a trajetória histórica, política, social e religiosa de sua nação (os elementos da trama macro afetam diretamente os elementos do enredo micro); a forte intertextualidade cultural (literária, cinematográfica, musical, filosófica e científica); o intenso diálogo com a metalinguagem literária (as questões da produção textual estão inseridas no interior dessa narrativa ficcional); a ambientação sombria e pesada de influência naturalista (a violência latente, os preconceitos de vários tipos, as desigualdades sociais, as intrigas políticas, a iminência de golpes militares, as questões religiosas mal resolvidas e os conflitos familiares); e o confronto entre a visão de mundo moderna (sociedade secular e ocidentalizada) e a visão de mundo tradicional (sociedade religiosa/islamita e asiática). “A Casa do Silêncio” conquistou alguns prêmios em âmbito nacional. O principal deles foi o Prêmio Madarali de Romance de 1984. Na década de 1990, quando foi traduzido para outros idiomas, essa segunda publicação de Pamuk também angariou prêmios na Europa. Se “Cevdet Bey ve Oğullar” mostrou aos turcos que Orhan Pamuk era um bom escritor, “A Casa do Silêncio” indicou que ele também conseguiria agradar aos leitores e obter boas vendagens nas livrarias. “O Castelo Branco”, seu terceiro romance (outra narrativa histórica!), foi o responsável por iniciar a carreira internacional de Pamuk. Publicada em 1985, essa obra se tornou um grande sucesso no exterior à medida que foi sendo traduzida para outros idiomas. A versão francesa é, por exemplo, do final dos anos 1980 e a inglesa é do início dos anos 1990. Com “O Castelo Branco”, Orhan Pamuk ganhou seus primeiros prêmios internacionais. O principal deles foi o Prêmio Independent de Ficção Estrangeira de 1990, conquistado na Inglaterra. De certa maneira, esse título abriu as portas do mercado editorial mundial para a literatura de Pamuk. O que ajudou a “O Castelo Branco” angariar muitos elogios das críticas europeia e norte-americana foi a mudança de estilo narrativo do autor. Em contraponto à pegada naturalista de “Cevdet Bey ve Oğullar” e “A Casa do Silêncio”, Orhan Pamuk trouxe uma proposta mais moderna a “O Castelo Branco”. Se o conteúdo continuava flertando diretamente com a história da Turquia e os dramas religiosos da nação euroasiática, o estilo da narrativa do terceiro romance pamukiano estava mais próximo daquele praticado no exterior. A partir desse novo receituário (conteúdo local em formato universal), Pamuk construiu o caminho de uma trajetória ficcional sólida e bem-sucedida que traria maiores frutos nas décadas seguintes. “O Castelo Branco” é narrado por duas personagens: Faruk Darvinoglu, um dos protagonistas do título anterior de Orhan Pamuk, é o responsável pelo relato da introdução da obra; e o navegante veneziano que foi preso pela esquadra turca e enviado como escravo para Istambul (ele não tem seu nome revelado em nenhum momento do livro) é quem narra os onze capítulos desse romance. A maior parte da trama se passa no século XVII e apresenta os dramas do tal veneziano, um homem erudito com grande conhecimento científico e astrológico. Por causa de suas competências intelectuais, ele se torna um escravo de luxo na capital do Império Turco-otomano, alvo da ambição de cientistas, paxás e até do sultão local. As principais características de “O Castelo Branco” são: o mergulho mais intenso na intertextualidade e na metalinguagem literária (além da introdução ser assinada por uma personagem ficcional, a dedicatória do livro é feita para Nilgün Darvinoglu, uma das protagonistas do romance anterior de Pamuk); a narrativa tem muito humor (primeiro livro de Pamuk com esse componente); a estrutura narrativa é mais simples, com menos personagens, ambientes e situações (essa obra parece mais uma novela do que um romance); o uso de muitas passagens extraídas de outras obras literárias (intertextualidade que gerou as primeiras críticas ao trabalho de Pamuk – ele foi acusado de plagiar o texto de outros autores); o aparecimento de um grande conjunto de elementos inverossímeis nessa trama (que um leitor mais experiente dificilmente engole); um ritmo narrativo ainda muito lento (capaz de tirar a paciência dos leitores mais ansiosos); e a existência de vários trechos muito sumarizados (que poderiam ter sido transformados em cenas). Ou seja, temos aqui um livro realmente mais interessante do ponto de vista formal. Porém, é possível notar, em “O Castelo Branco”, alguns problemas de natureza narrativa. Se por um lado Orhan Pamuk evoluiu muito como escritor desde o título de estreia, essa obra mostrava o quanto ele ainda precisava melhorar para chegar ao patamar dos melhores romancistas internacionais. O escritor turco sabia disso e os anos seguintes foram fundamentais para o seu desenvolvimento artístico e o alcance da maturidade profissional. O que contribuiu diretamente para o enriquecimento da literatura de Pamuk foram os anos vividos no exterior. Em 1985, o escritor turco se mudou para Nova York para acompanhar a esposa. Aylin Turegen cursou a Universidade de Columbia até 1988. Nesse período, o casal morou nos Estados Unidos e Orhan Pamuk aproveitou para estudar a literatura norte-americana. Enquanto lia as principais obras da América do Norte, ele também escreveu seu quarto romance, “O Livro Negro”. Em Portugal, vale a menção, o título desse romance é outro: “Os Jardins da Memória” (Editorial Presença). Publicado em 1990, quando o autor já havia retornado com a esposa para Istambul, “O Livro Negro” inaugurou a fase dourada da carreira de Pamuk. Essa obra é ambientada na Istambul do presente e se utiliza de episódios autobiográficos. O enredo de “O Livro Negro” aborda os dramas de Galip, um advogado que é abandonado subitamente pela mulher. Para descobrir para onde ela foi, o protagonista do romance embarca em um estudo sobre o crescimento e o progresso de sua cidade e em uma análise histórica sobre seu país. Em uma trama com reviravoltas narrativas e com mais inovações estéticas, “O Livro Negro” iniciou a etapa pós-moderna da ficção pamukiana: além de questionar aspectos da identidade turca (entre eles a dicotomia entre os valores religiosos e o estilo de vida laico), Orhan Pamuk apresentou inflexões existencialistas (aí sim uma novidade em relação ao que vinha sendo praticado nos outros romances do autor). O sucesso desse título foi estrondoso. Na Turquia, esse best-seller transformou Pamuk em um escritor conhecido nacionalmente. Juntamente com a fama, vieram novas polêmicas. As interpretações históricas de Orhan Pamuk começaram a gerar alguns descontentamentos entre os conterrâneos mais radicais do romancista. É bom lembrar que na Turquia, falar do genocídio dos armênios na época da Primeira Guerra Mundial e da perseguição aos curdos ao longo do século XX são assuntos explosivos. Em meio ao sucesso de “O Livro Negro”, nasceu, em 1991, Rüya Pamuk, a única filha do casal Orhan Pamuk e Aylin Turegen. Pelo visto, a chegada da filha trouxe muita sorte para o escritor. Seu romance seguinte, “A Vida Nova”, é considerado o livro com a comercialização mais rápida da história do mercado editorial turco. Publicado em 1994, esse título bateu todos os recordes de vendas e se tornou uma febre nas livrarias da Turquia. Paradoxalmente, o quinto romance de Pamuk foi execrado pela crítica literária em seu país (seria reflexo das polêmicas de “O Livro Negro”, hein?!). Se os leitores adoraram o thriller existencialistas de Orhan Pamuk, os críticos turcos o definiram como uma trama incompreensível. Para eles, este romance não possuía uma narrativa lógica nem palatável. Com o êxito comercial de “A Vida Nova”, que é até hoje um dos títulos ficcionais mais comercializados na história da Turquia, Pamuk ganhou o status de personalidade pop e midiática em sua terra natal. Se antes ele era apenas um escritor popular (o que não era pouca coisa!), depois de “A Vida Nova” ele virou uma referência cultural em seu país, o tipo de personalidade conhecida nas ruas até mesmo pelas pessoas que não leram suas obras. No aspecto financeiro, essa publicação também mudou o patamar de vida do autor – em outras palavras, ele encheu o bolso de grana. Esse romance é narrado por Osman, um jovem universitário de 22 anos. Após ler um livro com poderes mágicos (obra também chamada de “A Vida Nova” – olha a metalinguagem literária aí gente!), ele inicia uma longa e aleatória viagem pelas estradas da Turquia em busca de um sentido racional para sua vida. Nessa longa peregrinação, ele também procura por Janan, a moça por quem está apaixonado. Em um enredo com forte pegada filosófica e com ares de aventura policial, Osman mergulha em múltiplos planos existencialistas (pouca doideira é bobagem em se tratando dessa trama!). Realmente, “A Vida Nova” não é das leituras mais fáceis. Porém, as inovações estéticas e as maluquices narrativas trazidas por Orhan Pamuk são capazes de empolgar os leitores mais exigentes e que não têm medo de enredos desafiantes e com múltiplas interpretações. Confesso que gostei muito desse livro (antes, aperte bem o cinto, tome uma dose de coragem e boa sorte na viagem!). As principais características de “A Vida Nova” são: a trama dialoga com vários gêneros narrativos (romance policial, thriller fantástico, drama sentimental, aventura política e road story existencialista); a narrativa tem múltiplas interpretações (cada leitor poderá ter uma leitura distinta dessa publicação); o enredo caminha por vários planos diferentes (realidade versus ficção, plano concreto versus plano espiritual, cotidiano sob o islã versus dia a dia mais ocidental, capitalismo versus sistema econômico tradicional da Turquia/Império Otomano, existência atual versus múltiplas realidades possíveis e nova geração versus velha geração); há forte pegada filosófica nesse texto (debate existencialista sobre partida, missão de vida, paz, amor, morte, nascimento, tempo, peso na consciência etc.); intensa metalinguagem literária (livro dentro do livro); o ritmo narrativo varia bastante (a primeira metade do livro é mais lenta, descritiva enquanto a segunda metade é mais veloz, voltada para a ação); temos um mergulho profundo no fluxo de consciência do narrador (flerte inclusive com os sonhos do protagonista); a ambientação oscila entre a fantasia onírica e a brutalidade da vida nua e crua; o humor é do tipo negro; e há forte intertextualidade literária e cinematográfica. Quatro anos depois de “A Vida Nova”, Orhan Pamuk publicou sua obra-prima, “Meu Nome é Vermelho”. Traduzido para mais de 60 idiomas, o sexto romance de Pamuk mistura narrativa histórica, aventura policial, thriller filosófico, drama sentimental e suspense fantástico. Lançado na Turquia em 1998, “Meu Nome é Vermelho” ganhou vários prêmios internacionais. As principais honrarias foram o Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro de 2002 (de melhor romance traduzido para o francês), o Prêmio Grinzane Cavour de 2002 (melhor romance adaptado para o italiano) e o Prêmio Literário Internacional de Dublin de 2003 (melhor romance traduzido para o inglês). O prestígio de Orhan Pamuk cresceu consideravelmente após o sucesso de crítica e de público de “Meu Nome é Vermelho”. Antes dessa publicação, Pamuk já era visto no exterior como um dos principais nomes da literatura turca contemporânea. Depois desse livro ter se tornado um best-seller mundial, ele se consolidou como uma das estrelas de primeira grandeza da literatura mundial. Não é errado pensar que esse romance foi decisivo para Pamuk ganhar, em 2006, o Prêmio Nobel de Literatura. Ele até poderia ter conquistado a principal honraria da literatura mundial sem “Meu Nome é Vermelho”, mas com certeza o prêmio teria demorado mais alguns anos para ser dado. Ambientado na Istambul do Império Turco-otomano no final do século XVI, o enredo de “Meu Nome é Vermelho” gira em torno do assassinato de Elegante, um dos miniaturistas do ateliê do Tio Efêndi. Os principais suspeitos de ter praticado o crime são os três colegas do artista: Cegonha, Oliva e Borboleta. Sem saber a quem recorrer, Tio Efêndi escreve para Negro, o sobrinho que há doze anos não aparecia na capital do sultanato. Ele quer que o jovem descubra a identidade do assassino de seu funcionário. Atendendo ao pedido do Tio Efêndi, Negro retorna para Istambul e promove uma investigação. O problema do rapaz é que ele é apaixonado pela prima Shekure, a filha do Tio Efêndi. Enquanto precisa lidar com os perigos do trabalho investigativo (afinal, quem teria matado Elegante?), Negro se vê angustiado pelos velhos dilemas do coração. “Meu Nome é Vermelho” é um romance histórico delicioso. Chamam nossa atenção nessa obra as seguintes questões: os múltiplos narradores da trama (são doze narradores diferentes que se revezam nesse relato – eu disse DOZE!!!); o alto grau de suspense (como romance policial, essa história é impecável); a presença de alguns componentes fantásticos (se até então a fantasia dos livros de Pamuk estavam mais na natureza onírica e existencialista, aqui temos um diálogo mais direto entre os dois planos espirituais: vida e morte); a mistura de gêneros narrativos distintos (mescla de romance policial, narrativa histórica, drama sentimental, coletânea de contos clássicos, thriller político, suspense noir e aventura fantástica); romance com duplo conflito (o assassinato de Elegante e a intriga amorosa de Negro e Shekure); a interligação da história principal às questões religiosas mal resolvidas; a forte intertextualidade literária e pictórica; a presença de metalinguagem artístico-literária (livro dentro do livro); a pegada filosófica está voltada mais para as questões de natureza artístico-cultural do que para as reflexões existencialistas; a inserção de várias pequenas histórias (contos) dentro da história maior (romance); o excelente contexto histórico, cultural e político da Turquia do século XVI; o ritmo narrativo é muito mais veloz (se comparado ao das obras anteriores de Pamuk); a ambientação tem o estilo noir; e o humor é leve e inteligente, mas com pitadas generosas de humor negro. Sem dúvida nenhuma, “Meu Nome é Vermelho” é uma obra-prima da literatura turca e da literatura contemporânea. Esse título merece estar nas listas das melhores ficções do século XX. Ainda no final da década de 1990, Orhan Pamuk lançou seu primeiro título não ficcional: “Outras Cores”. Nessa coletânea de crônicas, ensaios, entrevistas e discursos publicada em 1999, o autor turco fala de seus métodos de trabalho, de sua visão sobre a literatura e de alguns aspectos de sua trajetória de vida. Em 2001, Orhan Pamuk se separou de Aylin Turegen. Era o fim do matrimônio de duas décadas. No ano seguinte, o escritor turco lançou seu sétimo romance, “Neve”. Esta narrativa é apontada pelo próprio autor como seu título mais político (e, consequentemente, mais polêmico também). No cerne da trama temos um retrato alegórico da instabilidade política e social da Turquia ao longo da segunda metade do século XX. Usando a interminável discussão sobre a adoção ou não do Islamismo como código de ética pela população turca, os militares realizaram vários golpes de estado. Assim, ao tomarem o poder, as Forças Armadas da Turquia evitaram a atuação mais forte dos fundamentalistas islâmicos. Esse é o pano de fundo do romance. “Neve” escancara as divisões políticas e religiosas da Turquia. Orhan Pamuk aproveita e coloca o dedo nas feridas nacionais de um jeito que ainda não tinha realizado até então em suas tramas ficcionais. O resultado é um texto profundamente controverso. O livro apresenta episódios sensíveis da história turca, como o genocídio armênio e a perseguição aos curdos. Não à toa, o romancista foi novamente hostilizado em seu país. Escrito entre abril de 1999 e dezembro de 2001, esse livro ganhou vários prêmios internacionais. Os principais foram os franceses Prix Medicis de Literatura Estrangeira de 2005 e Prix Méditeranée de Literatura Estrangeira de 2006. Ambientado em Kars, povoado montanhoso da Anatólia Oriental, em um rigoroso inverno, o enredo de “Neve” apresenta os dramas de Kerim Alakusoglu, um poeta turco de 42 anos que estava exilado na Alemanha. Depois de viver no exterior por doze anos, Ka, como o artista é mais conhecido, retornou para sua terra natal e foi enviado para Kars. A justificativa oficial é que ele viajou para Anatólia Oriental como jornalista. Por essa perspectiva, seu trabalho consiste em cobrir a eleição municipal e investigar uma série de suicídios femininos para um jornal de Istambul. Porém, o poeta foi para Kars por outro motivo: conquistar o coração de Ipek Hanim, uma ex-colega de faculdade. Na Alemanha, Ka descobriu que Ipek tinha se separado do marido e, portanto, estava solteira. Na visão dele, aquela é a sua chance de engatar um relacionamento com a moça. O problema do protagonista é que a viagem coincide com um dos momentos mais conturbados de Kars. A cidade pobre e interiorana é um caldeirão multifacetado que está prestes a explodir. Ali convivem, de maneira nem um pouco harmônica, os fundamentalistas islâmicos, os nacionalistas curdos, os guerrilheiros comunistas, os militares de extrema-direita, os capitalistas com visão democrata e os indivíduos que querem governos seculares e um estilo de vida mais ocidental. Para cada uma dessas diferentes ramificações sociais, a presença de um artista de fama nacional é uma poderosa arma ideológica. Assim, sem querer, Ka acaba atirado ao cerne da instabilidade política da pequena localidade. As principais características de “Neve” são: o narrador do livro é um romancista chamado Orhan, o que confere certa mistura entre realidade e ficção; a narrativa se parece a um documentário jornalístico pois mistura muitas passagens reais e personagens históricas da Turquia; a presença de um livro dentro de outro livro (metalinguagem literária); a mescla de vários gêneros narrativos (aventura policial, thriller político, saga histórica, drama sentimental, biografia artística, enredo com engajamento social, suspense de espionagem, ficção existencialista e narrativa fantástica); a presença de pequenas narrativas (contos) dentro do enredo principal (romance); a trama possui conotação de alegoria política (cada personagem representa algum estrato social da Turquia); o protagonista é um homem melancólico, solitário, confuso e com o coração partido; alguns elementos narrativos têm forte simbologia filosófico-existencialista; a ambientação é pesada, com muita violência e perigo iminente; e a história da Turquia não apenas serve de pano de fundo para a trama ficcional como é quase um protagonista do romance. Como narrativa histórico-alegórica, “Neve” é uma obra impecável. Não é surpresa nenhuma encontrarmos leitores que prefiram esse romance aos anteriores de Orhan Pamuk. Se “A Vida Nova” e “Meu Nome é Vermelho” possuem enredos mais saborosos e personagens mais carismáticas, “Neve” consegue conversar mais intimamente com os desafios da identidade dos cidadãos turcos da atualidade. A força desse livro reside justamente desse elemento. Um ano depois do lançamento de “Neve”, Orhan Pamuk publicou sua principal obra de memórias. “Istambul – Memória e Cidade” é na verdade mais do que uma simples autobiografia. Esse título, o segundo não ficcional do autor, reúne uma coletânea de memórias, crônicas, ensaios e fotografias de Pamuk sobre sua trajetória de vida (do nascimento ao momento em que decidiu se tornar escritor), sua relação com Istambul, a história de seu país e passagens biográficas de escritores, pintores e jornalistas que o influenciaram e/ou que ajudaram a construir a visão atual de sua cidade natal. Dessa forma, temos praticamente dois personagens principais nesse livro: o jovem Orhan Pamuk (até os 22 anos) e a mítica cidade de Istambul (pelo olhar de quem nasceu, cresceu e vive ali). Percorrer as páginas de “Istambul – Memória e Cidade” é desvendar as relações pessoais e familiares do escritor turco e, simultaneamente, percorrer com atenção as ruas e a história de seu município natal. Assim, Pamuk e sua literatura são frutos das características e da identidade cultural da metrópole euroasiática. E Istambul, por sua vez, representa as mais relevantes contradições, angústias e decadência da República da Turquia. Curiosamente, “Istambul – Memória e Cidade” foi a última publicação de Orhan Pamuk antes da conquista do Prêmio Nobel de Literatura. Antes de viver a maior alegria de sua carreira, o escritor turco estava à beira da depressão. É importante destacar que, nos primeiros anos do século XXI, Pamuk ainda estava abalado com o divórcio, com a morte recente do pai (Gündüz Pamuk faleceu em 2002) e com a intensificação da pressão pública por sua visão política (como já foi dito, “Neve” rendeu uma nova onda de críticas ao autor). Nesse cenário, não é surpresa nenhuma notar que “Istambul – Memória e Cidade”, livro lançado em 2003, tenha o predomínio de relatos melancólicos e uma visão profundamente negativa dos familiares e da cidade natal do escritor. O texto dessa obra é reflexo direto do estado de espírito de Orhan Pamuk naquele momento. Não por acaso, o autor disse que produzir essa obra foi uma experiência catártica – rememorar sua trajetória e narrar o passado de sua cidade o ajudaram a superar a fase difícil que vivia. “Istambul – Memória e Cidade” possui uma narrativa híbrida. Por suas páginas, conseguimos assistir, ao mesmo tempo, a quatro temas: a biografia de Orhan Pamuk; as características de Istambul e a atmosfera cultural de seus habitantes; a história turca e os reflexos da ocidentalização da nação islâmica; e os principais aspectos da produção ficcional pamukiana. Após a conquista do Nobel de Literatura, Orhan Pamuk mudou um pouco sua linha de trabalho. Depois de 2006, ele lançou mais títulos não ficcionais do que romances. Essa alteração é até natural se pensarmos que o interesse do público internacional se voltou agora para as opiniões, as visões de mundo, o passado e a linha literária do escritor renomado. Nessa nova fase da carreira de Pamuk, suas principais obras não ficcionais são: “A Maleta do Meu Pai”, coletânea publicada em 2007 com os discursos mais célebres do autor nas cerimônias de premiação literária, e “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”, ensaio literário lançado em 2010 em que o escritor turco apresenta sua concepção sobre a arte do romance (produção e consumo) e os aspectos mais relevantes de seu estilo narrativo. Principal ensaio literário de Orhan Pamuk, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” reúne os textos das seis palestras ministradas pelo autor na Universidade de Harvard em 2009. Aos 57 anos, Pamuk foi o destaque daquela edição da Conferência Charles Eliot Norton, evento anual da prestigiosa instituição de ensino norte-americano que convida uma grande personalidade mundial para discorrer sobre um tema determinado. O turco ficou encarregado de comentar em suas palestras questões como o trabalho de autor ficcional, o papel do romance como gênero narrativo predominante no Ocidente e os desafios de um artista de um país periférico em conquistar o reconhecimento mundial. Para construir sua explanação teórica, Orhan Pamuk utilizou-se dos ensaios clássicos de Friedrich Schiller (“Sobre a Poesia Ingênua e Sentimental” de 1795/1796), de E. M. Forster (“Aspectos do Romance” de 1927) e de György Lukács (“A Teoria do Romance” de 1914/1915). No momento de recorrer aos elementos práticos, o escritor turco citou algumas de suas obras ficcionais e vários títulos de outros autores: Liev Tolstói, Franz Kafka, Stendhal, Dante Alighieri, Thomas Mann, Goethe, Honoré de Balzac, Samuel Beckett, Miguel de Cervantes, Gustave Flaubert, Daniel Defoe, Herman Melville, Marcel Proust, Umberto Eco, Michel Foucault, Jean-Jacques Rousseau, Jorge Luis Borges, Jane Austen, Homero, William Shakespeare, Fiódor Dostoiévski, Charles Dickens, Jean-Paul Sartre, Vladimir Nabokov, Aristóteles, James Joyce, Horácio, Virginia Woolf, Émile Zola, Henry James, Victor Hugo, Gabriel García Márquez, Milan Kundera, J. M. Coetzee, Peter Handke, Italo Calvino, Philip K. Dick, Patricia Highsmith, John Le Carré, Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa e mais um montão de renomados escritores. De maneira sucinta, “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” apresenta as diferenças do escritor mais espontâneo (ingênuo) – produz seus textos de forma intuitiva, quase sem pensar a respeito, usa as inspirações e as percepções da realidade e tem uma visão mais romântica da literatura – e o escritor mais reflexivo (sentimental) – desenvolve seus textos avaliando os efeitos dos métodos narrativos empregados, age de um jeito analítico, escreve preocupando-se mais com a recepção dos leitores e possuiu visão mais moderna da literatura. Ao longo desse livro, Pamuk lista as nove operações que a mente executa durante a leitura dos romances e classifica os tipos de leitores (em ingênuos e sentimentais). Ele também aborda: a relação entre realidade e ficção (linha muitas vezes tênue); os três principais elementos da narrativa romanesca (personagens, trama e tempo narrativo); as particularidades de sua produção ficcional (pintura através de palavras); e o conceito do centro do romance (tema que o escritor aprofunda em seu texto e que os leitores precisam descobrir pois ele está oculto no meio da trama). “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” é um ensaio espetacular e uma leitura obrigatória para quem trabalha em qualquer ramo da literatura, principalmente com o fazer literário, a teoria literária e a crítica literária. De 2006 para cá, Orhan Pamuk publicou três romances: “O Museu da Inocência”, título de 2008, “Uma Sensação Estranha”, obra de 2014, e “Kırmızı Saçlı Kadın”, narrativa longa de 2016. Nota-se que esses livros são projetos editoriais mais ambiciosos (demandaram mais tempo de desenvolvimento) e parrudos (maior número de páginas). A primeira questão fica evidente em “O Museu da Inocência”, texto que levou dez anos de planejamento e outros quatro de execução. No caso de “Uma Sensação Estranha”, ele possui quase 600 páginas (é o título ficcional mais extenso de Pamuk). Em “O Museu da Inocência”, assistimos aos dramas sentimentais de Kemal. Na Istambul da década de 1970, ele tem uma rotina aparentemente perfeita: integra uma das famílias mais ricas do país, está prestes a se casar com uma noiva tida como maravilhosa pela alta sociedade local e possui uma tranquila situação financeira. O que mais ele quer da vida, hein?! Os problemas de Kemal começam quando ele se envolve sexualmente com uma prima mais jovem. Apaixonado pela bela moça, o protagonista não quer mais largá-la. Ao mesmo tempo, ele não quer desistir do casamento. A partir das desilusões e dos traumas amorosos de Kemal, Pamuk apresenta os embates da Turquia moderna (vida tradicional e valores islamitas versus rotina moderna e valores ocidentais) e a tumultuada história de seu país. Para muitos críticos literários, esse seria o melhor livro de Orhan Pamuk. Para mim, sua melhor obra é “Uma Sensação Estranha”. O nono romance pamukiano foi escrito entre 2008 e 2014 e é efetivamente o primeiro trabalho ficcional produzido inteiramente depois da conquista do Nobel. O que notamos nessa narrativa é que Pamuk não mudou muita coisa em seu estilo nem em suas temáticas. Entretanto, ao invés de cair na mesmice (um risco que um autor que se repete sistematicamente corre!), o escritor turco potencializou ainda mais suas tramas. Com maiores reviravoltas no enredo, ritmos narrativos mais céleres, personagens mais complexas e histórias ainda mais ricas e impactantes, temos aqui uma literatura muito mais saborosa. Se você leu “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”, irá entender a minha associação. Nos últimos anos, Orhan Pamuk se tornou um escritor mais ingênuo (aquele que usa as técnicas intuitivamente e canaliza suas inspirações livremente) e menos sentimental (aquele que se preocupa com os métodos empregados e vive atento a como seus leitores irão receber suas obras). A beleza dessa segunda fase de sua literatura reside justamente desse despertar: temos aqui um artista mais livre, leve e solto, totalmente ciente da força de suas narrativas. Romance de formação (e, simultaneamente, romance histórico), “Uma Sensação Estranha” expõe os dramas sentimentais, familiares, financeiros e profissionais de Mevlut Karatas, um pobre vendedor de boza – um tipo de bebida alcóolica tradicional da Turquia que remonta a época do Império Otomano. Acompanhamos a vida do protagonista dos 12 anos (quando ele se muda do pequeno povoado natal da Anatólia Oriental para Istambul) até os 55 anos (fase de maturidade, quando enfim compreende alguns episódios fatídicos de sua jornada). Ou seja, o enredo dessa obra vai de setembro de 1968 até outubro de 2012. O evento que marcou a trajetória de Mevlut foi uma confusão ocorrida em junho de 1982. Aos 25 anos de idade, o herói da narrativa organizou o rapto da moça pela qual estava apaixonado. Contudo, no meio da escuridão da noite, ele cometeu um “pequeno” deslize: retirou da casa do sogro a mulher errada. Ao invés de fugir ao lado da irmã mais jovem e bonita, ele apanhou a irmã mais velha e feia. Esse equívoco nada sutil afetou sua vida dali para frente. Enquanto acompanhamos as aventuras (ou seriam desventuras?!) de Mevlut Karatas, também podemos verificar, ao longo das páginas de “Uma Sensação Estranha”, as transformações urbanas de Istambul e o desenrolar de eventos históricos nacionais e internacionais ao longo do século XX e durante a primeira década do século XXI. No cerne do conflito, temos a disputa entre a população mais moderna, europeia e secular e a população tradicional, asiática e islâmica da Turquia. As características de “Uma Sensação Estranha” são: o caráter duplo da trama – particular (os dramas de Mevlut, um pobre coitado que só se dá mal!) e coletivo (a trajetória dos principais familiares de Mevlut, o crescimento de Istambul e os acontecimentos históricos da Turquia); a presença de elementos com forte carga simbólica (a boza, o gecekondu, a Escola Secundária Masculina de Atatürk e os cães, por exemplo); as múltiplas vozes narrativas (são 16 narradores diferentes); o começo espetacular (os dois primeiros capítulos/partes desse livro são simplesmente esplendidos!); a ambientação é extremamente sombria (pobreza, violência, injustiças, golpes, avareza, brigas, opressão, instabilidade política, intolerância religiosa, extermínio étnico e preconceitos); o ritmo narrativo é muito veloz (se comparado ao histórico dos romances de Pamuk); a trama é recheada de reviravoltas; e o desfecho é maravilhoso (um dos melhores que já li). É muito legal notar que Orhan Pamuk não se acomodou após a consagração advinda do recebimento do Nobel. Pelo contrário: seus romances parecem ainda melhores. E não custa nada lembrar que o escritor turco tem apenas 68 anos (idade baixa para um autor com tal envergadura). Ou seja, ele tem, na teoria, no mínimo mais 15 anos de muita literatura pela frente. Confesso que estou ansioso para conhecer seus novos trabalhos ficcionais. Além dos prêmios literários, Pamuk conquistou o reconhecimento do público e da mídia. Em 2005, ele foi considerado um dos cem intelectuais mais relevantes do mundo pela revista Prospect. Em 2006, foi eleito pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo. Atualmente, Orhan Pamuk é integrante honorário da Academia Americana de Artes e Letras e da Academia Chiese de Ciências Sociais. Nada mal para alguém que nunca trabalhou em outra profissão que não fosse a de escritor e que até os 32 anos não tinha publicado nenhum título. 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