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- Músicas: Construção - O cinquentenário do álbum icônico de Chico Buarque
Lançado em 1971, o oitavo disco de Chico vendeu mais de 140 mil cópias em uma semana e gerou alguns clássicos da música brasileira. Mal tinha saído da adolescência, Chico Buarque já aparecia como uma das grandes figuras da música brasileira. São notórias suas participações tanto como cantor (com menor destaque) quanto como compositor (aí sim demonstrando toda a sua genialidade) nos mais importantes festivais musicais nacionais na segunda metade da década de 1960. Com pouco mais de vinte anos, o rapaz tímido de olhos azuis e cabelos encaracolados, filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, já tinha lançado seus primeiros discos e conquistado o reconhecimento do público e da crítica. Algumas de suas canções, como “A Banda”, de 1966 (primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira), “Roda Viva”, de 1967 (terceiro lugar no III Festival de Música Popular Brasileira), e “Benvinda”, de 1968 (primeiro lugar na categoria júri popular no IV Festival de Música Popular Brasileira), já circulavam na boca do povo. Contudo, Chico Buarque era, até o início dos anos 1970, um artista com um repertório muito mais vistoso do que de grande apelo comercial dentro da MPB - Música Popular Brasileira. Apesar do grande destaque obtido nos festivais e das polêmicas geradas pelas canções críticas à ditadura militar, seus primeiros discos (quatro lançados no Brasil e três na Itália) venderam entre 20 mil e 30 mil exemplares. Evidentemente, esse era um patamar até razoável para a época, mas, convenhamos, muito abaixo da excelência do portfólio que o músico carioca apresentou desde o começo da carreira (até hoje não sei quem foi o mais brilhante músico popular nacional, se Chico ou se Tom Jobim). Essa situação de muito barulho para pouca venda mudou definitivamente em 1971. Com o lançamento de “Construção”, seu oitavo álbum (quinto no Brasil), o jovem artista alcançou, enfim, o primeiro lugar nas paradas de sucesso. O mais legal é que, aos 27 anos, Chico atingia a maturidade artística e se conectava intensamente com o mercado fonográfico nacional de uma maneira pouco vista até então. Não é errado afirmar que os brasileiros correram às lojas, ao longo de 1971 e no comecinho de 1972, para adquirir aquele álbum que entraria para a história como um dos mais vistosos. Das dez canções de “Construção”, cinco eram composições solos de Chico Buarque (“Deus Lhe Pague”, “Cotidiano”, “Construção”, “Cordão” e “Acalanto”), quatro foram parcerias com Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Toquinho (“Desalento”, “Olha Maria”, “Samba de Orly” e “Valsinha”) e uma era a adaptação ao português de “Gesubambino”, uma famosa canção italiana de Lucio Dalla e Paola Pallotino (“Minha História”). Com produção de Roberto Menescal e direção musical de Antônio José Waghai Filho, fundador do MPB-4, o LP recebeu elevado investimento da Philips, que chegou a contratar uma orquestra com mais ou menos 60 integrantes para executar as faixas dentro do estúdio. Como já disse, “Construção” gerou um nível de interesse do público impressionante. Em uma semana, o disco teve 140 mil cópias vendidas. Em alguns meses, ele chegou ao patamar próximo de meio milhão de unidades comercializadas no país. Além do êxito comercial espantoso, o álbum de Chico Buarque foi saudado como uma das grandes criações da história da música popular nacional. Em sua edição de outubro de 2007, a revista Rolling Stone Brasil elegeu “Construção” como o terceiro melhor disco brasileiro de todos os tempos, atrás apenas de “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos, e de “Tropicalia ou Panis et Circencis”, o LP de estreia dos tropicalistas (que tinha entre suas músicas principais “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil). Olhando exclusivamente para a discografia de Chico, “Construção” rivaliza com “Meus Caros Amigos”, álbum de 1976 (eleito pela Rolling Stone Brasil como o 41º melhor LP brasileiro da história e com canções memoráveis do naipe de “O que Será” e “Olhos nos Olhos”), como os grandes trabalhos musicais de seu autor. Curiosamente, “Construção” é o primeiro disco de Chico Buarque desenvolvido após o exílio na Itália. Em 1969, o ano da decretação do famigerado AI-5, o músico pegou sua família (esposa e filha) e foi viver no exterior. Chico buscava um pouco de paz e o mínimo de segurança. Afinal, nessa época, houve um aumento considerável de perseguições políticas no país provocadas pelos milicos no poder (historicamente intransigentes com as classes artística e cultural e chegadinhos em atacar covardemente os civis). Ao retornar ao Brasil, um ano mais tarde, Chico Buarque começou a preparar o álbum que o levaria ao primeiro lugar. Na verdade, a maioria das canções desse LP foi trazida por Chico mais ou menos pronta da Europa (principalmente as faixas desenvolvidas em parceria com Tom, Vinicius e Toquinho). Em território nacional, ele apenas lapidou essas criações e compôs algumas novas. Por exemplo, a canção “Construção”, uma obra-prima da música brasileira que emprestou seu título ao nome do disco (foi eleita pela revista Bravo, em 2008, a nona principal canção brasileira de todos os tempos), faz parte da segunda categoria. Ela foi criada a partir de uma cena vista no centro do Rio. Ao observar o canteiro de obras de um edifício que estava sendo erguido ao lado da gravadora Philips em meados de 1970, Chico musicou a tragédia urbana com uma felicidade absurda. Essa faixa apresenta versos em proparoxítonas, possui uma letra gigantesca que brinca com a ordem (ou desordem!) das palavras, tem forte tom de denúncia social (enfoca o descaso da população e dos governantes às necessidades dos trabalhadores mais humildes) e é executada com uma melodia de apenas dois acordes (gerando um forte contraste musical – letra elaboradíssima e melodia simplória). Essa música foi a cereja do bolo (e que cereja!) de um LP desenvolvido com muito esmero do começo ao fim. Por falar na canção “Construção”, a dificuldade foi conseguir emplacá-la nas rádios do Brasil à fora. Os quase sete minutos de duração provocaram uma revolução do ponto de vista formal pois eram vistos como inviáveis comercialmente. Vale a pena dizer que as emissoras de rádio estavam acostumadas com canções de até três minutos. E Chico quebrou esse padrão quatro anos antes do Queen aparecer com “Bohemian Rhapsody” e uma década e meia antes do Legião Urbana criar suas sagas musicais intermináveis como “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”. Uma vez superada a resistência inicial das rádios, a música “Construção” foi parar no primeiro lugar (e no coração de todos os brasileiros de bom gosto). Ouça, a seguir, a execução da canção “Construção”, em uma interpretação mais recente do próprio Chico Buarque: O mais interessante é que o álbum “Construção” não é um disco de uma música só. O que o faz ser brilhante é a quantidade absurda de ótimas criações. Logo de cara, temos “Deus Lhe Pague”, a canção mais crítica do disco (além da letra, a própria melodia é angustiante). Em seguida surge “Cotidiano”, até hoje uma das faixas mais conhecidas de Chico. Aqui assistimos aos dramas de um casal engolido pelas banalidades do dia a dia. Repare que os pontos de vista dessas duas canções são parecidos ao da música “Construção”. Afinal, todas retratam as rotinas de trabalhadores pobres de um grande centro urbano brasileiro. As letras de protesto prosseguem em “Samba de Orly”, que é quase um hino dos repatriados. Ouça “Deus Lhe Pague” (em interpretação dos Paralamas do Sucesso), “Cotidiano” (em show do Chico de alguns anos atrás) e, logo em seguida, “Samba de Orly” (em dueto marcante de Toquinho e Vinicius de Moraes ocorrido na década de 1980): Como um bom álbum de Chico Buarque, há também músicas de amor no LP “Construção”. Algumas são literais, ou seja, mais voltadas para as alegrias e angústias das relações a dois. São exemplos disso “Desalento” e “Valsinha”. Outras canções amorosas possuem um subtexto com forte ar de protesto político e social, uma das especialidades de Chico. Podemos citar “Cordão”, “Olha Maria” e “Acalanto” como exemplares desse tipo de música que chamo de crítica velada. Já “Minha História/Gesubambino” é uma das raras canções interpretadas por Chico Buarque (lembremos que ela foi adaptada para o português) com uma pegada sacra. Ela chega a lembrar muito as canções cristãs de Roberto Carlos (que nunca teve pudor de apresentar criações desse gênero). Ouça, a seguir, “Valsinha” (interpretação de Mônica Salmaso) e “Olha Maria” (em dueto de Milton Nascimento e Tom Jobim): Não à toa, esse LP influenciou uma geração inteira e deu início à segunda fase da carreira musical de Chico Buarque, agora um artista mais maduro, crítico e com elevado apuro melódico. A intensificação das letras de protesto coincide com o apogeu da violência dos anos de chumbo da ditadura militar. Assim, Chico tornou-se a voz da parcela esclarecida, culta e engajada da sociedade brasileira. Como consequência, os órgãos de censura passaram, após “Construção”, a olhar com mais cuidado para as criações do músico. Resolvi comentar hoje, na coluna Músicas, a história e as particularidades do álbum “Construção” porque ele completa, em 2021, 50 anos de vida. A única nota triste desse post do Bonas Histórias é perceber que o Brasil atual é cada vez mais parecido àquele do início da década de 1970. Com isso, as letras de protesto de Chico Buarque adquirem, infelizmente, maior apelo dramático. Quem manda vivermos em um país que ao invés de olhar para frente e construir seu futuro de forma saudável acaba caminhando a passos largos para trás, né? Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. 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- Mercado Editorial: Evolução do setor no Brasil em 2020
Segundo pesquisa da Nielsen, o mercado editorial brasileiro apresentou queda de 8,8% no faturamento do ano passado e, assim, interrompeu o crescimento obtido em 2019. Não trago boas novas sobre o mercado editorial brasileiro. Segundo a mais recente pesquisa realizada pela Nielsen Book em parceria com a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o faturamento do setor no Brasil caiu 8,8% em 2020 quando comparado ao ano anterior. A receita total do segmento no país ficou em R$ 5,2 bilhões no ano passado. Em 2019, vale a pena lembrar, o montante faturado foi de R$ 5,7 bilhões. Obviamente, a grande culpada pela queda nas vendas de livros foi a pandemia do novo coronavírus. A restrição na circulação de pessoas (é sempre bom dizer: medidas essas necessárias para evitar a maior disseminação da Covid-19) levaram ao fechamento das livrarias físicas por vários meses (principalmente entre março e julho), à mudança de hábitos dos consumidores, ao menor apetite do governo por obras paradidáticas (queda de 15% em 2020 em relação ao ano anterior) e à diminuição acentuada na publicação de novos títulos por parte das editoras (17,4% menos se comparado ao período anterior). Assim, o resultado foi uma retração da indústria editorial que beirou os dois dígitos. Quem acompanha regularmente a coluna Mercado Editorial deve se lembrar que no final do ano passado e no comecinho desse havia até certo otimismo entre os profissionais do setor. Comentei sobre isso no Bonas Histórias quando apresentei, em janeiro de 2021, a lista dos livros mais vendidos no Brasil em 2020. O crescimento acentuado de faturamento no segundo semestre do ano passado permitiu que muita gente sonhasse com números mais favoráveis para o consolidado de 2020. Contudo, a realidade foi impiedosa para o mercado editorial, o que deixou um gosto amargo na boca de todo mundo. É verdade que para um segmento da economia que tinha a previsão de cair até 70% (acredite: esse era o cenário apresentado pelos mais pessimistas em abril de 2020, conforme noticiamos no post Crise Sem Fim nas Livrarias), a meta de muitas empresas (leia-se: editoras, livrarias, distribuidores e gráficas) era fechar próximo do zero. Por essa outra perspectiva, a nova pesquisa da Nielsen trouxe uma sensação de alívio – o baque foi grande, mas ainda assim foi menor do que a tragédia esperada há um ano. O maior problema do mercado editorial brasileiro não é tanto a queda específica de faturamento em 2020, algo que era mais ou menos esperado. O problemão mesmo é que esse setor apresenta uma tendência de encolhimento há quase uma década. De 2013 para cá, a receita da indústria editorial despencou entre 30% e 40%. Esse sim é um dado alarmante. Assistimos ao setor caminhar para trás ano após ano sem que se possa decretar que o fundo do poço foi atingido. Como consequência, muitas livrarias fecharam (e outras tantas estão passando por situações financeiras calamitosas) e várias editoras encerraram suas operações (e muitas das que ainda operam estão lutando pela sobrevivência). Nos últimos oito anos, a única temporada em que tivemos um crescimento do mercado editorial foi em 2019, quando o faturamento do setor foi 6,1% maior do que em relação a 2018. Convenhamos, é muito pouco. Ainda mais quando já no ano seguinte, damos dois passos para trás. À título de comparação, a receita do setor editorial em 2018 foi de R$ 5,3 bilhões (contra os R$ 5,2 bilhões de agora). Assim, o placar está desfavorável para o mercado nacional em um simbólico 7 a 1 (sete anos de queda para apenas um de crescimento). No meio de tantas notícias negativas, destaco alguns dados positivos na pesquisa divulgada pela Nielsen em maio. Sim, há números interessantes que nos fazem acreditar em uma luz no fim do túnel. Em primeiro lugar, é preciso dizer que o brasileiro comprou mais livros de ficção e poesia em 2020 (na pesquisa, esses títulos aparecem dentro da categoria chamada de obras gerais). Curiosamente, esse foi o único segmento que cresceu no ano passado (faturamento de R$ 1,3 bilhão e expansão de 3,8%). É um alento saber que meus conterrâneos abriram mão de, por exemplo, obras religiosas (maior queda, com vendas 14,2% menores) para se entregar ao universo da boa literatura (quase digo da verdadeira ficção). Por falar nisso, abração, J. P. Cuenca! Outro destaque foi o crescimento absurdo das vendas em modalidades digitais. Enquanto as compras em estabelecimentos físicos caíram 32% em relação a 2019, as compras em livrarias exclusivamente digitais expandiram 84% quando olhamos a participação do faturamento das editoras. Dessa forma, o comércio eletrônico movimentou quase R$ 1 bilhão em receitas em 2020. É a supremacia dos canais digitais em relação ao comércio tradicional. O Brasil produziu de janeiro a dezembro de 2020 314 milhões de livros, uma redução de 20% na tiragem. Dos exemplares publicados, 82% é de reimpressões (obras antigas) e apenas 18% é de novos títulos (lançamentos). Dos R$ 5,2 bilhões faturados, R$ 3,7 bilhões são relativos ao mercado consumidor e R$ 1,4 bilhão são das compras governamentais. Em suma, ainda que a queda do setor editorial esteja persistindo por tanto tempo, não podemos desanimar. Um país que lê mais e melhor (afinal, não basta ler um monte de bobageira – SAIA DAS REDES SOCIAIS, PELO AMOR DE DEUS!) é abrigo natural de um povo mais inteligente, consciente, engajado e que sabe votar DIREITO. Nas próximas semanas, trarei mais novidades para a coluna Mercado Editorial. Minha ideia é apresentar no Bonas Histórias os livros infantojuvenis mais vendidos em 2020 e os principais lançamentos da ficção e da poesia no quarto bimestre deste ano aqui no Brasil. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Podcast: Toma Aí Um Poema - As declamações poéticas de Jéssica Iancoski
Criado em abril de 2020, o programa de áudio se tornou referência na divulgação da poesia em língua portuguesa. Quem curte poesia precisa conhecer (isso é, se já não conhece) esta iniciativa de Jéssica Iancoski, jovem poetisa, escritora, editora, produtora de conteúdo, ilustradora e empreendedora curitibana. Em abril de 2020, ela criou o “Toma Aí Um Poema”, programa de áudio (podcast) voltado para a declamação de poemas em língua portuguesa. Disponível desde então em várias plataformas (Spotify, Youtube, RadioPublic, Google Podcast, Anchor e Pocket Cast), o “Toma Aí Um Poema” apresenta, em episódios de aproximadamente um minuto de duração, os versos de poetas brasileiros e estrangeiros de ontem e de hoje. Quem narra os textos é a própria Jéssica. O resultado é um recital poético variado e impactante, capaz de agradar aos paladares mais sensíveis e refinados. Conheci o trabalho de Jéssica Iancoski e o conteúdo de seu podcast recentemente. E confesso que fiquei encantado com a qualidade e o alcance de seu projeto de divulgação da poesia. Não à toa, achei válido escrever esse post sobre o “Toma Aí Um Poema” na coluna TV, Rádio e Internet. Apesar de não ser um grande entendido em poemas (me considero um especialista na prosa ficcional), gosto muito de ler esse tipo de literatura. Sou, portanto, mais um admirador do que um perito nos textos em versos. E é exatamente como alguém que encontrou no podcast de Jéssica um caminho para aprimorar os conhecimentos sobre a poesia que escrevo hoje no Bonas Histórias. Tão legal quanto a proposta em si de “Toma Aí Um Poema” (quem não gosta de ouvir a declamação de uma boa poesia, hein?!) é a multiplicidade de artistas contemplados (cerca de 500 até aqui; e eles foram selecionados de todas as partes do mundo), a assiduidade com que os programas são postados (diariamente!!!) e a qualidade dos episódios (gravados com profissionalismo e cuidado). Esses são os principais méritos do podcast. Nota-se uma grande dedicação por parte de Jéssica Iancoski (vai você produzir conteúdo diariamente sobre qualquer tema para entender o nível de exigência que tal projeto exige) e um apreço aos detalhes (muitas vezes, qualidade e quantidade não caminham de mãos dadas). É ou não é um prato cheio para quem é aficionado por poesia e para quem deseja mergulhar no universo dos versos?! Preciso destacar também que o “Toma Aí Um Poema” cresceu rapidamente em conteúdo e em popularidade. Em pouco mais de um ano, ele já reúne um acervo de respeito (média impressionante de um artista e de dois poemas recitados por dia!) e uma ótima audiência (cerca de 500 mil visualizações totais). Esses são números realmente empolgantes para um podcast de nicho. Lembremos que estamos falando de um programa de áudio voltado para a poesia e para os brasileiros. Infelizmente, meus compatriotas não são um povo reconhecido nacional e internacionalmente pelos hábitos literários e culturais. Por essa perspectiva, os indicadores do primeiro ano do podcast são espetaculares. Para você ter uma ideia do quão representativas são essas marcas do “Toma Aí Um Poema”, o Bonas Histórias, atualmente um dos principais blogs de literatura, cultura e entretenimento do Brasil, só atingiu o patamar de 1.000 posts depois de cinco anos e meio de vida. Por sua vez, Jéssica Iancoski conseguiu alcançar os quatro dígitos de programas em apenas 15 meses! Além disso, o blog, que aborda todas as áreas da literatura e outros campos artísticos (é, portanto, muito mais abrangente), tem 20 mil visitantes únicos mensais. Esse é o número que o podcast, que é voltado para a poesia, possui somente de seguidores no Spotify (e são 40 mil ouvintes únicos apenas nessa plataforma). É ou não é para tirar o chapéu para o trabalho de Jéssica e para o sucesso de “Toma Aí Um Poema”, hein?! Admito que fiquei fã dessa moça. Eu poderia ficar aqui anunciando os ótimos indicadores do podcast, mas o que me chamou mais atenção foi mesmo o seu conteúdo. Entretanto, antes de falar mais sobre o “Toma Aí Um Poema”, preciso apresentar sua criadora. Afinal de contas, ele não teria nascido e crescido sem uma mente sagaz que o concebeu e o alimentou incansavelmente desde então. Jéssica Iancoski Guimarães Ramos tem 25 anos e mora em Curitiba. Graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ela desde cedo abraçou a literatura. Apaixonada pela ficção infantil e pela poesia, Jéssica Iancoski produz suas próprias tramas e versos desde os sete anos. Na adolescência, ela já recebia homenagens por suas criações poéticas. Autora de cinco títulos para crianças, “Um Lugar Maravilhoso” (Editora EU-i), “Por Onde Vai o Barco” (Editora EU-i), “Por Onde Vai a Ilha” (Editora EU-i), “1910: A História que o Mundo Conta” (Editora EU-i) e “Histórias para Dormir” (Editora EU-i), e de uma coletânea poética, “Poilhias” (Editora EU-i), a jovem escritora paranaense é quem ilustra suas publicações. Na verdade, Jéssica faz tudo: desenvolve a capa, cria o projeto gráfico, revisa o texto e faz a editoração eletrônica das obras. Por enquanto, seus livros estão disponíveis apenas em e-book e são produções independentes – a Editora EU-i é uma iniciativa particular da autora. Alguns poemas de Jéssica foram publicados em revistas literárias, como Kurama´Tá, Ruído Manifesto, Berro, Revista Carlos Zemek e Mulherio das Letras, portais de comunicação, como Bonde, e antologias poéticas, como “Antologia Seguir o Sol” (Psiu Editora), de 2021, “Antologia Patuscada” (Patuá), de 2021, “Mulheres Poetizam” (e-book), de 2020, “Os Melhores Poemas 2020 – Antologia” (e-book), entre outros. Defensora das causas LGBTQIA+ e da valorização das vozes femininas na literatura e na sociedade, apaixonada pelas narrativas infantis e dona de um olhar acurado para a realidade, a poetisa e empreendedora curitibana mantém, além do “Toma Aí Um Poema”, outros três podcasts: “Histórias para Dormir”, com narrativas infantis criadas pela própria autora ou que contenham fábulas e lendas para a criançada; “Jejéqui Lê”, com histórias e poesias voltadas para o público infantil e que foram desenvolvidas por autores renomados; e “Isto Não São Só Poesias”, declamações poéticas de textos da própria Jéssica. Além dos podcasts, vale a pena dizer que Jéssica Iancoski criou recentemente a Revista Toma Aí um Poema, cuja primeira edição saiu nesse mês (e que vou comentar aqui no blog em julho). Ou seja, estamos falando de uma artista extremamente versátil: ela escreve em prosa e em poesia, fala com crianças e adultos, faz ilustrações, interpreta (Jéssica não apenas lê os poemas, eles são interpretados em seus podcasts), edita em e-book fábulas e histórias do folclore infantil, comanda uma revista de poesia... Agora você entendeu o porquê virei fã da Jéssica? Admiro pessoas que navegam bem por diferentes facetas da arte e da cultura (ao ponto de parecer, aos olhos leigos, se tratar de atividades simples de serem realizadas) e que fazem trabalhos com grande qualidade. Curiosamente, ao compararmos o lado poético e o lado de prosadora infantil de Jéssica Iancoski, encontramos uma escritora com características bem distintas. Dá para enxergarmos até a existência de duas artistas convivendo simultaneamente no mesmo corpo e na mesma mente. Em seus poemas, ela se mostra aguerrida, contundente, crítica, ácida, irônica e desbocada. Com um texto profundamente engajado e panfletário, Jéssica grita ao mundo os preconceitos e as violências que muitas pessoas (vulgarmente chamadas de minoria) sofrem diariamente. Aqui, a escritora não apenas cresceu (virou adulta) como amadureceu rapidamente e tem muita coisa interessante para externar ao público mais velho. Por outro lado, na ficção infantil, encontramos uma autora mais romântica, sonhadora, idealista e meiga. Em sua prosa para as crianças, Jéssica Iancoski aborda questões existencialistas com uma pegada inteligente, divertida, leve e profunda (sim, é possível ser leve e ao mesmo tempo profunda). Segundo seus relatos, ao mergulhar nesse tipo de narrativa, ela se sente como se não tivesse crescido (mantém intacto o espírito puro, idílico e onírico da infância). É muito legal acompanhar essas diferentes manifestações literárias: uma coisa é a poesia adulta de Jéssica e outra coisa completamente diferente é sua ficção infantil. Feita a apresentação da autora/criadora/mantenedora de “Toma Aí Um Poema”, vamos agora para a análise mais aprofundada do podcast, o objetivo principal desse post. Como já mencionei, um dos pontos mais marcantes do programa é a extensa variedade de artistas selecionados. Em suas locuções, “Toma Aí Um Poema” traz poetas de todos os gêneros poéticos, estágios de carreira, épocas e regiões do Brasil e do planeta. Um dia você ouve Daniele Almeida Soares, poetisa e estudante baiana de 21 anos que está dando os primeiros passos na literatura. Em outro, você conhece os versos de Heliodoro Baptista, jornalista e poeta moçambicano de 77 anos. Mais adiante, encontramos as palavras de Sophia de Mello Breyner, uma das mais importantes escritoras portuguesas do século XX, os textos de Ocean Vuong, poeta e romancista vietnamita contemporâneo, e os poemas clássicos de Mário Quintana, um dos principais nomes da literatura brasileira do século XX. Essa mistura frenética é maravilhosa. Temos lado a lado a chilena Gabriela Mistral, o português José Saramago, a francesa Johanna Schemann, o bissau-guineense José Carlos Schawarz, os norte-americanos Louise Glück e David Bowie, a brasileira Pagu e o lusitaníssimo Fernando Pessoa. Dos clássicos internacionais, destaque para Pablo Neruda e William Shakespeare. Se você curte poesia em língua portuguesa de origem africana, não faltam poetas moçambicanos (Hirondina Joshua, Malangatana, Noémia de Souza), angolanos (Amélia Dalomba, Ana Paula Tavares, João Maimona) e cabo-verdenses (Corsino Fortes, Jorge Barbosa). Não é preciso dizer que há muitos nomes de Portugal (Matilde Campino, Luís de Camões, Florberla Espanca). Olhando especificamente para o Brasil, assistimos ao despontar do manauara de origem indígena Kiko Souza, da baiana Lorena Grisi e do cearense Tito Leite. Se você for mais chegado aos clássicos nacionais, então vá de Paulo Leminski, Chico Buarque, Adélia Prado, Cora Coralina, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade. No caso dos contemporâneos, temos Angélica Freitas, Bráulio Bessa e Bruna Beber. Quer conhecer nomes importantes que não aparecem com tanta frequência na mídia? Então, ouça Josafá de Orós, artista plástico paraibano, e Ana Miranda, romancista e atriz cearense. Se você for mais chegadinho à música popular, saiba que você encontrará versos dos Barões da Pisadinha, Queen, Luiz Gonzaga, Kid Abelha e Cazuza. De lambuja, Jéssica Iancoski ainda nos brinda de vez em quando com seus próprios versos. É verdade que senti falta de alguns nomes importantes da poesia contemporânea tanto do Brasil (Fabrício Corsaletti, Alice Sant’Anna e Fabiano Calixto) quanto do exterior (Wole Soyinka, Wisława Szymborska e Olga Tokarczuk). Dos clássicos, confesso que todos os autores que conheço estão no podcast. Porém, não vejo a ausência de um ou outro nome da poesia contemporânea como um problema ou um descuido do “Toma Aí Um Poema”. Pelo contrário! Trata-se apenas de um indicativo que ainda que seja riquíssimo, o programa tem um monte de material bacana e interessante para ser contemplado daqui para frente. Por falar em conteúdo, repare que o podcast possui uma programação fixa. Às segundas-feiras, são declamados os poetas da África lusófona. Nas terças, é a vez dos artistas contemporâneos ganharem voz. As quartas-feiras são reservadas para temáticas especiais (todo mês, o “Toma Aí Um Poema” apresenta um assunto distinto). Às quintas-feiras, temos poesia brasileira e portuguesa. A sexta é a oportunidade de ouvirmos os poemas enviados pelos novos artistas a Jéssica Iancoski. Sábado e domingo são, respectivamente, os dias das traduções e das declamações de letras musicais. Outra questão que gostei muito foi a interpretação de Jéssica. Como falei, ela não lê simplesmente os poemas, mas os interpreta. Com um vozeirão grave e imponente (que a mim lembrou a cantora Ana Carolina), ela dá vida aos versos narrados explorando as emoções, a ironia e as nuances contidas nos textos. Para entender a atuação da narradora, basta acompanhar o outro podcast de Jéssica, “Histórias para Dormir”. Apesar da locutora ser a mesma nos dois programas, é evidente a diferença de estilo. Se ela não é atriz ou não fez curso de artes cênicas, ela leva todo o jeito para a coisa. Os episódios de “Toma Aí Um Poema” estão disponíveis em várias plataformas. Essa multiplicidade de canais permite agradar ao maior número de ouvintes. Eu, por exemplo, não sou muito fã do Spotify (não atirem pedras, por favor!). Assim, posso acompanhar o conteúdo de “Toma Aí Um Poema” no Youtube. Achei legal seguir os programas pelo canal de vídeos porque além do áudio temos acesso à versão escrita do poema (Jéssica Iancoski não apenas replica o conteúdo do programa para as diferentes plataformas, mas também o desenvolve acrescentando mais elementos) e à narração de um pequeno descritivo do poeta contemplado (que nas plataformas de podcast ficam apenas na legenda do programa). Apesar de ser uma pessoa extremamente auditiva (consigo acompanhar facilmente a declamação de poemas ou a narração de histórias), admito que fui impactado mais pela experiência de ouvir e ler simultaneamente os versos. Não sei se todo mundo é assim, mas para mim funcionou melhor a dinâmica no canal do Youtube. Apesar disso, é evidente que o público predominante de “Toma Aí Um Poema” esteja no Spotify. Se por um lado Jéssica manda muito bem na locução, achei que apenas uma narradora para todos os poemas deixa o lance meio cansativo, principalmente quando, empolgado com “Toma Aí Um Poema”, você acaba maratonando os áudios (isso aconteceu comigo). Acredito que seria mais interessante se os próprios poetas (no caso de artistas contemporâneos, claro) pudessem recitar seus versos. Já pensou o quão interessante seria acompanharmos a interpretação dos próprios escritores e conseguirmos ouvir os diferentes sotaques lusófonos?! Acho que o podcast ganharia em riqueza. Outra questão que poderia deixar os áudios mais interessantes é a inserção de mais elementos sonoros (música de fundo, sonoplastia). Impossível? Acho que não. Curiosamente, Jéssica já fez isso em alguns programas em que narra seus poemas. Veja/ouça, por exemplo, “Ninguém Sabe”, episódio de 11 de junho no qual ela recita uma poesia de uma viagem ao Rio de Janeiro. A música ao fundo muda completamente a experiência do ouvinte, o que potencializa a força dos versos. Fiquei com vontade de ver mais vezes esses elementos no “Toma Aí Um Poema”, algo feito nos primeiros episódios do podcast “Não São Só Poesias” – confira “Toda Saudade em Um Único Big Bang”, de fevereiro de 2020, para entender o que estou me referindo. Gosto do fato de termos sempre uma dobradinha de poemas de cada autor contemplado. Impossível ouvir um e não ouvir o outro. Se você gosta do primeiro poema, você pensa intuitivamente: quero ouvir outro – adorei esse artista! Se você não gosta tanto do poema inicial, o pensamento é outro: ok, vou dar mais uma chance para esse artista – quem sabe a próxima poesia não seja melhor, né? Assim, você acaba sempre ouvindo invariavelmente os dois programas em seguida. O principal mérito de “Toma Aí Um Poema” está em permitir aos ouvintes o contato direto com a poesia praticada pelos diferentes artistas de nosso país e do exterior. Em outras palavras, o podcast é um estímulo diário para que coloquemos a poesia em nossa rotina e que, uma vez impactados com os versos de um artista, corramos atrás para conhecer mais o seu trabalho. Jéssica Iancoski não julga os poemas e os poetas interpretados. Simplesmente, ela apresenta a maior quantidade de texto possível para que nós possamos avaliar, cada um por conta própria, o que gostamos e o que queremos conhecer mais. Isso é brilhante. Além disso, o programa permite que jovens poetas enviem seus textos para serem declamados. Além de curadora do conteúdo do “Toma Aí Um Poema”, Jéssica se transforma naturalmente em uma grande incentivadora da poesia contemporânea. Esse seu lado de promotora dos artistas em início de carreira também pode ser visto com mais profundidade na Revista Toma Aí Um Poema. Impossível não gostar de uma iniciativa desse naipe. Confira, a seguir, alguns episódios do podcast “Toma Aí Um Poema”: Aos interessados, todo o trabalho de Jéssica Iancoski, inclusive o “Toma Aí Um Poema”, está disponível no site www.jessicaiancoski.com. Vou encerrar esse post do Bonas Histórias de uma vez para que sobre um tempinho e possamos curtir agora mesmo o podcast. Acesse e conheça “Toma Aí Um Poema”. Nossa rotina merece sim uma (ou duas, três, quatro...) gota(s) de poesia. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em TV, Rádio e Internet. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Camila Teodoro
A nova entrevistada é uma das personagens mais polêmicas de A Falência, o romance de Júlia Lopes de Almeida publicado em 1901. [O sexteto musical toca a melodia de Camila Camila. O público no auditório acompanha a banda batendo palmas. O editor de vídeo aperta um botão e as imagens captadas pela câmera 2 tomam conta da tela. O apresentador do Talk Show Literário surge atrás da mesa, no centro do palco. Ao seu primeiro sinal, a música para]. Darico Nobar: Boa noite, Brasil! A canção do Nenhum de Nós dá a pista de quem será a nossa convidada de hoje. Ela é uma das mulheres mais bonitas e carismáticas da burguesia carioca da República Velha. E é uma das personagens mais polêmicas do Realismo Brasileiro. Com vocês, Camila Teodoro! [Uma mulher com vestido de linho azul sobe ao palco com ares de majestade. Alta, com grandes olhos aveludados, cabelo ondeado preto, dentes perfeitos, muito brancos e brilhantes, e pele macia, ela tenta não escancarar o sorriso que insiste em lhe escapar]. Boa noite, Dona Mila. [Entrevistador e entrevistada cumprimentam-se com um leve tocar de mãos]. Camila Teodoro: Boa noite, Seu Darico. Boa noite, auditório! [Volta-se rapidamente para a plateia e faz um aceno leve com a cabeça]. Darico Nobar: Se me permite um gracejo inicial, a senhora está linda! E jovem também. Parece aquela Camila dos tempos da Lapa, que eu conheci ainda meninota. Diga-nos: qual o segredo de sua beleza e juventude? Camila Teodoro: O senhor é sempre muito galante. Agradeço a predileção. O que eu sempre digo para as minhas filhas é que a aparência de uma mulher é reflexo do estado emocional de seu coração. Graças a Deus sou uma mulher apaixonada. Acredito que todos deveriam sentir as delícias provocadas pelo frêmito de uma grande paixão. Darico Nobar: E posso saber por quem esse coraçãozinho bate tão escandalosamente? Camila Teodoro: Não tenho segredos. Morro de amores pelo meu bom esposo. Ele é um homem maravilhoso, melhor não há. E sou apaixonada também pelos meus lindos filhos. Amo-os tanto que as vezes parece que vou explodir por dentro. Darico Nobar: Falar de amor é sempre bonito. Mas, esse sentimento convive muitas vezes lado a lado com o ódio. Dona Mila, teria a senhora antipatia por alguém? Camila Teodoro: A única pessoa que me faz fraquejar é minha nora. Ela mudou o caráter do meu filho. Depois que se casou com Paquita, Mário é outro homem agora – frio, calculista e injusto. Ele virou uma marionete nas mãos dela. Nas raras vezes em que vai até nossa casa no Botafogo, Mário chega com uma espada cortando todos os nós que ainda nos ligam. Prevalece-se de sua autoridade de homem. Darico Nobar: E o Sr. Francisco não fala nada? Camila Teodoro: E ele falaria o quê? Para meu esposo, se o filho não estiver torrando dinheiro com as francesas de pouca fama do Rio, está tudo bem. Darico Nobar: Por falar em seu marido, como Francisco Teodoro está? Por que ele não a acompanhou ao programa? Esperava vê-lo por aqui nesta noite. Camila Teodoro: Ele não pôde vir. Para variar, está no armazém. Aquele homem não para nunca. Trabalha como nenhum outro. Ele até queria vir, sabe, mas parece que surgiu um probleminha financeiro de última hora lá na Casa Teodoro e ele achou melhor dar um pulo na Rua São Bento para resolver. Darico Nobar: Seria algo grave, Dona Mila? Camila Teodoro: Imagine! Nem que quisesse perder tudo, meu esposo não conseguiria essa façanha. Ele nasceu para prosperar. Sua fortuna é gigantesca. Agora então que começou a aplicar na Bolsa de Valores, ele não descansa um segundo sequer. Darico Nobar: E quem é o homem que vi chegar com a senhora? [Encara o auditório à procura de alguém. Rapidamente seus olhos encontram um senhor vestindo cartola brilhante, luvas brancas, paletó com bolsos de veston e gravata clara. O sujeito sentado na primeira fileira ostenta um imponente rubi como colar]. Ele é da família? Camila Teodoro: Oh, Seu Darico, estás se referindo ao Dr. Gervásio. [Fica ligeiramente enrubescida ao notar onde os olhos do apresentador pousaram]. Ele é nosso médico e... e é o melhor amigo da família. Darico Nobar: Muito prazer. Se és amigo dos Teodoro, saiba que a partir de agora serás meu amigo também. [Tenta escutar o que o homem fala, mas não consegue]. Carlinhos, por gentileza, entregue um microfone para este senhor elegante. Camila Teodoro: O senhor não conhecia o Dr. Gervásio?! [O âncora da atração televisiva balança negativamente a cabeça]. Isso quer dizer que há muito tempo não frequentas as salas do Palacete Teodoro. Porque o Dr. Gervásio não sai de minha casa. Tem dias que ele passa mais tempo lá do que o meu esposo. [O assistente de palco corre para entregar o microfone para o sujeito de rosto pálido e corpo esguio. Apesar da tentativa de não ser captado pelas câmeras de televisão, a imagem pega a manobra do rapaz. Antes de apanhar o microfone, Dr. Gervásio encosta a bengala no assento e ajeita os óculos de lentes grossas]. Darico Nobar: Olá, Dr. Gervásio! Tudo bem com o senhor? Dr. Gervásio Gomes: Tudo ótimo, Sr. Nobar. É um prazer conhecê-lo. Sou um espectador assíduo do Talk Show Literário. Darico Nobar: É muito bom ouvir isso. Gosta de literatura, meu caro? Dr. Gervásio Gomes: Se gosto?! Virgílio, Homero, Dante, Camões, Gonçalves Dias e Shakespeare são Deuses para mim. Meus versos favoritos são de Corneille: L´amour n´est qu´un plaisir, I´honneur est un devoir. Darico Nobar: Olhe só, estamos diante de um homem culto. Camila Teodoro: Dr. Gervásio é nossa fonte de erudição e sofisticação. Não sei o que seria da minha pobre vida sem ele. Dr. Gervásio Gomes: Ontem à noite, quando a Mila me confidenciou que viria aqui, fiz questão de acompanhá-la. Sabe como é, não podemos deixar uma mulher tão formosa andando sozinha. Vai que ela encontra no meio do caminho um jovem capitão da Marinha Mercante, bem apessoado, alto, ombros largos, mãos grandes, olhos de azul de faiança, bigode sedoso e pele queimada pelos ventos do mar, né? Darico Nobar: O senhor não gosta de ver as mulheres andando sozinhas? Dr. Gervásio Gomes: Não é natural. As damas da sociedade devem ser submissas às arbitrariedades do gênio dos homens, esses sim em uma posição mais privilegiada do ponto de vista social, econômico, político e intelectual. Afinal, quem pode confiar na lealdade de uma mulher hoje em dia? Plateia: Uhhhhh. [Vaias e reclamações se propagam pelo ambiente]. Alguém no fundo do auditório: Machista de merda! Darico Nobar: Ah! [Uma careta de desaprovação surge em seu rosto. Ignorando o médico, o apresentador volta-se nova e definitivamente para a convidada]. Por falar nisso, Dona Mila, o Francisco Teodoro nunca teve ciúmes da senhora? Camila Teodoro: Ciúmes de mim? Não! O único ciúme que o senhor meu esposo tem é pelo seu nome de negociante. Sua fama lhe enche os olhos. Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, é toda a sua ambição. Além do mais, ele confia em mim, sabe que sou uma dama fiel e honrada. Darico Nobar: Talvez esse seja o principal defeito dele, né? Camila Teodoro: Confiar em mim? Darico Nobar: Oh, minha senhora, não! Pensar só nos negócios. Camila Teodoro: Não digo defeito. Prefiro pensar em mania. Ser o primeiro negociante, o mais hábil, o mais forte foi sempre o seu sonho. Ele não pôde ser menino, não soube ser moço, deu-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para ele, o Brasil é um armazém atulhado, onde cada esforço tem seu prêmio. Fora do comércio não há nada que lhe mereça o desvio do olhar. Darico Nobar: Isso sim é um homem trabalhador. Camila Teodoro: Trabalhar! Trabalhar é bom para os homens de pele endurecida e a alma feita de coragem. Esse sempre foi o seu estribilho. Não à toa, construiu uma das casas mais graúdas do comércio de café do Rio de Janeiro. Darico Nobar: O povo diz que o dinheiro aprendeu sozinho o caminho dos cofres do Francisco Teodoro, correndo para eles sem interrupção. Camila Teodoro: Só diz tal sandice quem não o conhece. Meu esposo nasceu caixeiro, chegou ao Brasil quase analfabeto, com cabeça raspada, jaqueta ruça e os sapatos barulhentos. Sua fortuna não foi conquistada de relance. Ele precisou suar muito para chegar aonde chegou. Até hoje seu dia a dia é de lufa-lufa. Darico Nobar: É importante a senhora relatar a trajetória de Francisco porque muita gente não a conhece. A maioria já o conheceu podre de rico. Camila Teodoro: Meu esposo tem por hábito remexer com a mão o dinheiro e as chaves guardados no bolso. O tilintar do metal é uma forma, acredito, de se lembrar do passado difícil e do presente de abonança. Darico Nobar: E esse barulho não a incomoda? Camila Teodoro: No começo. Depois me acostumei. [Após pensar um pouco, complementa]. Em parte, é até bom. Sempre sei quando ele está se aproximando. Darico Nobar: Se a senhora pudesse aconselhar os jovens que estão assistindo ao Talk Show Literário, principalmente os novos empreendedores, o que lhes diria? Camila Teodoro: Vou usar as palavras do meu esposo. Desconfiem daqueles que falam que o empresário moderno age mais com o espírito do que com os braços. O profissional bem-sucedido não alarga os horizontes pelas perspectivas do pensamento e do cálculo. Ele o faz é pelo suor da labuta diária. Darico Nobar: Sábio conselho! Camila Teodoro: E não tenham o ensejo de triplicar de um dia para outro o patrimônio. Uma fortuna se conquista dia a dia, pouco a pouco, tijolo por tijolo. Darico Nobar: Estou adorando essas dicas! Mais algum ensinamento? Camila Teodoro: Ah, quase ia me esquecendo. E valorizem a família. As relações familiares saudáveis são os esteios de tudo o que somos e temos. Darico Nobar: Lindas palavras, Dona Mila. Vou aproveitar o clímax para encerrar essa entrevista no mais alto nível. Obrigado por conversar conosco. Camila Teodoro: Sou eu quem devo agradecer o convite. Foi muito bom falar com vocês. [Olha para o público que retribui a gentileza aplaudindo-a]. Darico Nobar: Galera, vou ficando por aqui. Na semana que vem temos mais um programa ao vivo e exclusivo. Valeu pela audiência e até o próximo Talk Show Literário. [Camila deixa o palco enquanto a banda toca os acordes mais estridentes da mesma música que abriu o programa. A entrevistada se dirige até Dr. Gervásio, que a espera de pé nas escadas que separam o auditório do palco. A dupla sai de mãos dadas do teatro]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Casa do Silêncio - O segundo romance de Orhan Pamuk
Publicado em 1983, esta obra faz uma analogia com a história da Turquia e, não por acaso, representou o primeiro sucesso do autor em âmbito doméstico. No último final de semana, li “A Casa do Silêncio” (Companhia das Letras), o segundo romance de Orhan Pamuk. Quem ainda não está totalmente inteirado(a) com as novidades do Desafio Literário deste bimestre, eu aviso: entre abril e maio vamos analisar oito livros do principal escritor turco da atualidade. “A Casa do Silêncio” é, assim, a primeira obra a ser comentada desta lista (e o objetivo central do post de hoje). Em outras palavras, o foco do Bonas Histórias nos próximos dois meses está na literatura de Pamuk, o escritor vencedor do Prêmio Nobel em 2006. Quem gosta do melhor da ficção contemporânea não pode perder o conteúdo dos próximos dois meses do blog. “A Casa do Silêncio” é um romance histórico que apresenta os dramas de três gerações de uma família turca. Ao mesmo tempo em que relata os problemas, os dissabores, as agonias íntimas e os sonhos de suas personagens ficcionais, Orhan Pamuk tece um panorama amplo e verídico da situação político-social de seu país. Dessa maneira, assistimos a um desfile de figuras e acontecimentos reais do século XX que impactaram intimamente a Turquia: a independência após a Primeira Guerra Mundial, a decretação da República em 1923 (colocando fim ao sultanato que vigorava há séculos e estabelecendo um regime laico, uma exceção dentro das nações mulçumanas), os vários golpes militares que insistiam em abalar os pilares da jovem democracia, a perseguição política (que em alguns momentos quase levou à guerra civil) e a constante inquietação sobre o papel da religião no dia a dia do povão e do Estado nacional. Escrito entre 1980 e 1983, “A Casa do Silêncio” foi publicado na Turquia em 1983. Quando este livro chegou às livrarias, Pamuk tinha trinta e um anos e era ainda um escritor iniciante. Vale lembrar que seu primeiro romance, “O Senhor Cevdet e Seus Filhos” (em uma tradução livre pois essa obra, “Cevdet Bey ve Oğulları”, ainda não foi editada em português), foi muito bem recebido pela crítica, mas não conseguiu cativar os leitores turcos (eufemismo para dizer que as vendas não foram nada boas). Depois de ter demorado vários anos para concluir seu romance de estreia (quase oito anos) e de ter penado para achar quem o publicasse (nenhuma editora queria lançá-lo), a trajetória do novo livro foi mais tranquila e satisfatória. Além de ter encontrado uma editora rapidamente, “A Casa do Silêncio” recebeu muitos elogios da crítica turca logo de cara e, aí sim, caiu nas graças do público leitor. Com esse romance, Orhan Pamuk se estabeleceu como escritor de primeiro nível em seu país natal. O sucesso no exterior demoraria mais um pouco para chegar e só viria com seu livro seguinte, “O Castelo Branco” (Companhia das Letras). Por isso, “A Casa do Silêncio” demorou décadas para ser traduzido para outros idiomas. Somente após a consolidação da carreira internacional de Pamuk na década de 1990 e, principalmente, nos anos 2000, as editoras da Europa e dos Estados Unidos começaram a se interessar pelos primeiros trabalhos do autor. Para se ter uma ideia, a primeira versão de “A Casa do Silêncio” em inglês só surgiu em 2012 e em espanhol em 2001. Em português, a primeira edição do romance é de 2008 e da editora lisboeta Editorial Presença. A versão brasileira é de 2013 da Companhia das Letras. Por falar nisso, a tradução da edição nacional de “A Casa do Silêncio” foi feita por Eduardo Brandão, carioca especializado na tradução de obras literárias, filosóficas e históricas de origem francesa e espanhola. Infelizmente, nosso exemplar não foi desenvolvido diretamente da versão original em turco (“Sessiz Ev”) e sim de uma tradução francesa (“La Maison du Silence”). Por melhor que seja o trabalho de Brandão, esse tipo de tradução (indireta) não é o mais indicado de ser feito (espera-se sempre a tradução direta). O enredo de “A Casa do Silêncio” se passa em uma semana de julho de 1980. Em Forte Paraíso, uma pequena cidade turca à beira-mar, há uma grande propriedade com uma casa velha e muito deteriorada. Ali vivem Fatma Darvinoglu, uma senhora de 90 anos amargurada e com dificuldade de locomoção, e Recep, um anão de 55 anos que trabalha ali como empregado. A rotina da dupla é pautada pela solidão, pela melancolia, pela desconfiança e pelo rancor mútuo. Fatma vive angustiada com as lembranças do passado. Ela deixou Istambul há cerca de 70 anos para morar naquela residência com o marido, o médico Selâhattin Darvinoglu. O doutor Darvinoglu foi praticamente expulso da maior cidade turca no início do século XX por suas posições políticas. Uma vez instalado no povoado litorâneo e longe dos olhos das autoridades de Istambul, ele passou a viver da venda das joias da esposa. Seu dia a dia estava organizado na defesa cega da ciência e do conhecimento científico em oposição à religiosidade e às tradições dos seus conterrâneos. Não demorou para Fatma, extremamente religiosa e de opiniões conservadoras, brigar com o marido. Como consequência, ele passou a se relacionar sexualmente com a empregada da casa, com quem teve dois filhos bastardos: Recep (sim, o empregado anão é filho do patrão) e Ismail. Com Fatma, Selâhattin teve apenas um filho: Dogan. O rapaz chegou a ser subprefeito de Gebze, um povoado maior e próximo a Forte Paraíso. Após a morte de Selâhattin e Dogan, Fatma passou a viver sozinha no casarão tendo como única companhia o anãozinho. Por sua vez, Recep vive na casa de seu pai como um autêntico empregado. Ele é quem cuida de toda a dinâmica doméstica do lugar. Mesmo assim, o pequeno senhor é alvo do ódio da patroa, que não esquece a traição do marido. Fatma não o suporta. Para completar sua agonia, Recep passa os dias sozinho sem ninguém para conversar. Ao sair de casa, o homem de meia idade é alvo dos olhares zombeteiros dos moradores de Forte Paraíso. Sua estatura diminuta resulta em bullying e na aversão das pessoas. Tudo o que ele quer, na maioria dos dias, é poder conversar com alguém. A tristeza e a melancolia na casa dos Darvinoglu são interrompidas com a chegada do Verão. Os três netos de Fatma, Faruk (um professor de História gordo e bebum que acabou de se divorciar), Nilgün (uma aluna do primeiro ano da faculdade de Sociologia que nutre simpatia pelo comunismo) e Metin (um estudante do colegial que sonha em imigrar para os Estados Unidos), todos filhos do falecido Dogan, chegam de Istambul para passar algumas semanas com a avó materna. A rotina da residência muda completamente com o surgimento dos jovens. O silêncio e a calma subitamente são interrompidos. Os três irmãos trazem alguma leveza e uma nova dinâmica à casa de Forte Paraíso. Enquanto Faruk vai diariamente ao arquivo da subprefeitura de Gebze para fazer pesquisas históricas para seu novo livro, Metin aproveita os dias de folga para vadiar com os amigos riquinhos da região. Já Nilgün aproveita a calmaria no litoral para pegar praia e ler. O trio de jovens acaba se deparando com Hasan Karatas, sobrinho de Recep e filho de Ismail (o outro filho bastardo de Selâhattin Darvinoglu). Hasan é um aluno displicente que raramente estuda. Ele é membro da Associação do Ideal, grupo nacionalista e fascista que combate os comunistas. Enquanto vandaliza a cidade e chantageia os comerciantes locais, o rapaz precisa conquistar o coração de Nilgün, por quem se vê apaixonado. “A Casa do Silêncio” possui 320 páginas e está dividido em 32 capítulos. Levei em torno de 12 horas para concluir sua leitura no último final de semana. Precisei do sábado e do domingo (seis horas em cada dia) para percorrer todo o conteúdo deste romance de Orhan Pamuk. A primeira coisa que chama a nossa atenção neste livro é a multiplicidade de narradores. São cinco as personagens que se revezam no relato da história: Recep, Fatma, Hasan, Faruk e Metin. Cada capítulo é dedicado a um ponto de vista – narração em primeira pessoa do quinteto de protagonistas. Como consequência à polifonia de vozes narrativas, não temos nesta obra um conflito único e evidente. Essa característica pode incomodar os leitores mais ansiosos – a trama se desenrola em uma velocidade baixa. Por isso mesmo, “A Casa do Silêncio” parece, em muitas oportunidades, mais uma crônica de costumes do que um romance dramático. A narração é calcada essencialmente na rotina das personagens e em seu fluxo de consciência. Outro ponto sensível desse segundo romance de Orhan Pamuk é a forte crítica social. O autor não é nada condescendente com seus conterrâneos. Para Pamuk, a ignorância e a pobreza de grande parte do povo turco estão atreladas a sua religiosidade efervescente (troque a palavra Alá por Deus ou Jesus e essa crítica valerá também para o Brasil). Além disso, o romancista retrata a elite econômica de seu país como uma gente que emula as culturas norte-americana e europeia e vive uma rotina fútil, vazia e abitolada. Ou seja, sobram críticas tanto para os ricos quanto para os pobres. Algo interessante para ser notado em “A Casa do Silêncio” é que a diferença de narradores é o que estabelece as distinções dos relatos. Como estamos falando de três gerações da família Darvinoglu, cada personagem possui preocupações próprias e cada um deles indica, por consequência, o perfil de sua época. Fatma, a anciã de quase um século de vida, olha mais para o passado do que para o presente. Seus pensamentos estão quase sempre voltados para a época em que ela era casada com Selâhattin. Enquanto o marido defendia a ciência e o Estado laico, ela era religiosa e queria o respeito às tradições islâmicas. Recep, de uma geração mais jovem (ele tem 55 anos), equilibra-se melhor no presente. Com uma rotina profundamente enfadonha, ele anseia por interações humanas sadias, produtivas e calorosas. Em muitas ocasiões, tudo o que o anão quer é aproveitar o tempo presente com um bom dedo de prosa. Já as três personagens da geração mais nova, Hasan Karatas, Faruk e Metin, oscilam entre o presente, o passado e o futuro. Se Faruk Darvinoglu só olha para trás (ele é historiador e se recente da separação com a esposa), Hasan encara os desafios do presente (amigos fascistas e a paixão avassaladora por Nilgün) e Metin Darvinoglu vislumbra o tempo inteiro o futuro que terá no exterior (vida abastada que pretende levar nos Estados Unidos). O leitor mais atento notará que essas preocupações individuais representam na verdade as inquietações de toda uma geração. Por exemplo, os contemporâneos de Selâhattin e Fatma precisaram encarar a implementação do Estado laico e, assim, tirar a religião do centro de suas rotinas. Vale lembrar que a Turquia é o único país mulçumano laico. Já os contemporâneos de Recep precisaram enfrentar tempos difíceis e intensos conflitos bélicos. Não à toa, o anão possui um enorme vazio sentimental. E por fim, temos a nova geração. Ela se divide entre os que clamam pela força do antigo Império Otomano (representados na figura de Faruk), por quem se inclina a soluções autoritárias e fascistas (ilustrados pelo idealismo de Hasan Karatas) e pelos que aspiram a cultura ocidental (encarnados nas aspirações de Metin). Quanto à parte do povo com tendências socialistas/comunistas, basta ver o desfecho de Nilgün nesta trama para saber o que aconteceu com essa parcela da população na Turquia. Repare que “A Casa do Silêncio” é um romance extremamente alegórico. Cada personagem simboliza um tipo de turco de uma época distinta. Aqui reside justamente a força e a potência da literatura de Orhan Pamuk. Seu texto vai muito além da história ficcional apresentada – a maior riqueza deste drama está nas entrelinhas ou na camada secundária da narrativa. Quem consegue fazer esse paralelo com a cultura e a história da Turquia tem uma experiência de leitura mais intensa. Essa relação entre os aspectos ficcionais do romance e a história real do país fica mais evidente quando analisamos as intrigas matrimoniais de Selâhattin e Fatma Darvinoglu. Não por acaso, esse conflito conjugal é, para mim, o ponto alto deste romance de Pamuk. Morando fora de Istambul, o casal Darvinoglu vive uma crise insolúvel. Médico e escritor, Selâhattin representa a visão científica (Darwin é seu ídolo máximo), aspira um Estado laico e aprecia a cultura ocidental. Para ele, o progresso e a felicidade dos turcos passam necessariamente pelo desapego à religião e pelo abandono aos hábitos tradicionais. Por outro lado, Fatma encarna o espírito conservador da Velha Turquia. Ela é religiosa (segue os preceitos do Alcorão), presa pelos valores islâmicos e abomina os hábitos ocidentais. Não por acaso, ao final da vida, ela possui grande letargia e nutre elevado rancor por tudo e todos que representam a modernidade. Se no passado (na geração de Selâhattin e Fatma Darvinoglu – primeira metade do século XX) o debate era religioso (Estado islâmico versus Estado laico), no presente (na geração dos netos de Selâhattin e Fatma – segunda metade do século XX) o debate é ideológico (Comunismo versus Capitalismo). Essa última parte, obviamente, é resultado da Guerra Fria, que se propagou pelo planeta logo depois da Segunda Guerra Mundial. A Turquia atual (estamos falando de um livro do comecinho da década de 1980!) é o reflexo direto desses dois confrontos (religioso e político-ideológico). Além disso, note o quão cíclico é o destino dos homens do clã Darvinoglu. De certa maneira, as angústias de Selâhattin, Dogan e Faruk (o primogênito da nova geração) são idênticas. Ao mesmo tempo em que assistimos nas páginas de “A Casa do Silêncio” ao desenrolar histórico e político da Turquia moderna (a própria residência de Fatma é um símbolo alegórico do país de Pamuk), também podemos acompanhar as intrigas e os segredos da família Darvinoglu (o nome do clã é um excelente indicativo para qual caminhos os turcos seguiram). Por essa perspectiva, temos lado a lado aspectos macroambientais/não ficcionais e aspectos microambientais/ficcionais. Enquanto o primeiro grupo remete aos fatos e às personalidades que fizeram a história verídica da Turquia, o segundo está relacionado a traições, brigas, filhos bastardos e derrapadas éticas dos protagonistas do romance. Não é preciso dizer que há uma grande intertextualidade política e histórica neste livro de Orhan Pamuk. Para completar as conexões, temos aqui uma forte intertextualidade literária, cinematográfica, musical, filosófica e científica. Da vertente mais artística, o destaque vai para as referências literárias. Além de citar obras e autores da literatura clássica turco-otomana, Pamuk faz brincadeiras metalinguísticas interessantes. Por exemplo, ele menciona, em “A Casa do Silêncio”, Cevdet, um personagem de “O Senhor Cevdet e Seus Filhos/Cevdet Bey ve Oğulları”, seu livro anterior. E ainda faz referência a si mesmo – ou alguém acha que o Orhan que é descrito escrevendo um romance seria outro autor, hein? Ainda falando de intertextualidade literária, note os títulos dos capítulos deste livro de Pamuk. Eles são constituídos por frases simples e autoexplicativas: “Recep Vai ao Cinema”, “Vovó Espera na Cama”, “Hasan e Seus Amigos Arrecadam Contribuições”, “Faruk ao Volante”, “Metin não Perde Tempo” etc. Esse expediente narrativo lembra muito as nomeações dos capítulos das obras clássicas dos séculos passados – quando os autores explicavam para os leitores o que iria acontecer nas páginas seguintes. Evidentemente, Orhan Pamuk está dialogando aqui com um tipo de fazer literário de outros tempos. Uma das partes mais legais da leitura de “A Casa do Silêncio” é poder acompanhar a cultura, os hábitos, as crenças, a gastronomia, as danças, as roupas, a arquitetura, as tradições e as inquietações típicas dos turcos. Não é errado enxergar esse romance como uma grande imersão na cultura da Turquia. O tempo inteiro nos deparamos com as dualidades entre passado e presente, tradição e modernidade e religião e ciência. Quem já visitou o país sabe que esses são os aspectos que até hoje chamam a atenção dessa nação. Por falar nisso, a ambientação do romance dialoga intimamente com o clima histórico sombrio do país. Predominam em “A Casa do Silêncio” a violência latente, os preconceitos de vários tipos (entre eles o machismo da sociedade turca tradicional), as desigualdades sociais, as intrigas políticas, a iminência de golpes militares, as questões religiosas mal resolvidas e os conflitos familiares. A sensação que o leitor tem é que independentemente do ponto de vista do narrador, temos uma trama pesada e incômoda, reflexo de uma nação que padece por definições. Curiosamente, a personagem mais marcante de “A Casa do Silêncio” não atua como narrador e já faleceu há mais de três décadas. Estou me referindo ao Doutor Selâhattin Darvinoglu. Ele rouba para si o protagonismo nos relatos de Fatma, em mais uma prova de sua imposição como marido e homem (durante todo o século passado, a sociedade turca foi patriarcal). Ao mesmo tempo em que Selâhattin simboliza um lado luminoso da humanidade (a ciência, o Estado laico, a modernidade e os valores ocidentais), ele também é símbolo máximo de um lado obtuso do homem (é um péssimo marido, um pai ausente, um patrão indecoroso, um médico encrenqueiro e um escritor que não conclui sua grande obra). Para completar, ele não consegue ganhar dinheiro com nada e possui um jeitão que assusta as pessoas. Não por acaso, os netos têm pavor de sua imagem estampada em um quadro no quarto da avó. Quem conhece a literatura turca não irá se admirar tanto com o desfecho de “A Casa do Silêncio”. Temos neste romance um desenlace surpreendente e trágico. Para ser sincero, intui o que aconteceria com Nilgün (cuidado as próximas linhas podem conter parte do spoiler!) quando Orhan Pamuk a excluiu do grupo de narradores. Sendo ela uma personagem central do livro, essa opção poderia indicar algo sobre seu final. E não é que estava certo! Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente e triste o encerramento da narrativa. Considerando os aspectos metalinguísticos, a forte intertextualidade literária, a polifonia narrativa e, principalmente, as analogias com a história turca, “A Casa do Silêncio” é um romance que vale a pena a leitura. É verdade que ainda não temos aqui um autor digno de um Prêmio Nobel, mas já é possível reparar na excelência e na profundidade do texto de Pamuk. Por se tratar do segundo romance do autor, “A Casa do Silêncio” possui marcas estilísticas originais e ousadas, apesar de ter uma trama um tanto arrastada e lenta. Em outras palavras, esse é um trabalho de um escritor em formação que conseguiu encantar seus compatriotas. Para continuarmos a investigação da literatura de Orhan Pamuk, na próxima quinta-feira, 15 de abril, retornarei ao Desafio Literário para analisar o terceiro romance publicado pelo autor turco (e o segundo da nossa lista). A obra a ser comentada será “O Castelo Branco” (Companhia das Letras). Publicado em 1985, esse livro foi o primeiro sucesso internacional de Pamuk e é protagonizado por uma personagem chave de “A Casa do Silêncio”, o historiador glutão e beberrão Faruk Darvinoglu. Não deixe de acompanhar a análise de “O Castelo Branco” no Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. 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- Miliádios Literários: julho/2021
No mês dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Paulo Sousa sua a caneta e entrega uma coluna medalha de ouro na categoria efemérides literárias. Atletas do mundo inteiro, uni-vos para o maior espetáculo literário da Terra: as Olimpíadas Miliádicas do Bonas Histórias! Já estamos acostumados a frequentar academias para a mente; nesse mês, em especial, vamos malhar o corpo também, numa homenagem aos Jogos Olímpicos de Tóquio. Vamos começar esses Miliádios Literários lembrando de William Shakespeare, cuja morte aconteceu há 148 mil dias, completos no dia 9. Shakespeare revolucionou o teatro com peças como “O Rei Lear”, “Hamlet” e “Romeu e Julieta” (Penguin). Uma menção tão clássica nos remete a um dos esportes mais antigos, a corrida, que deriva do ímpeto natural do “quem chegar primeiro ganha”. Chimamanda Ngozi Adichie, autora de “No Seu Pescoço”, “Hibisco Roxo” e “Americanah” (Companhia das Letras), deu um salto na literatura africana, levando-a para o mundo inteiro ao escrever em inglês. Seu movimento lembra Chioma Ajunwa, primeira campeã olímpica nigeriana no salto em distância (um pleonasmo, pois todo salto é em distância. Caso contrário, seria um simples pulo). A chinesa Xinran, como não poderia deixar de ser, faz um delicado e assertivo ping-pong entre Oriente e Ocidente. Seus livros são escritos, na maioria, em mandarim, mas são traduzidos pelo mundo inteiro, incluindo o Brasil, como “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso) e “Compre-me o Céu” (Companhia das Letras). Nas Olimpíadas, o ping-pong ganha o dessalinizado nome de tênis de mesa, o que não tira o mérito de Xinran, que faz 23 miliversários no dia 8. Essa coluna miliádica, sempre tão patriota, torce incessantemente para atletas e autores brasileiros, e foca agora na literatura nacional citando seu maior expoente (pelo menos para os presidentes dos Estados Unidos): Paulo Coelho, que nasceu há 27 miliádios completados no dia 26. Paulo é um visionário, foi um bruxo antes de virar moda teen, inspirou e emocionou antes do boom da autoajuda, foi best-seller quando ainda se vendia livros no país. O autor de “O Alquimista” (Planeta), “O Diário de um Mago” (Rocco) e “Veronika Decide Morrer” (Objetiva) tem o refinado hábito de praticar tiro com arco, demonstrando que a filosofia zen e a concentração sempre fizeram parte de sua vida. Nessas Olimpíadas, o Brasil será representado no tiro com arco pela atleta Ane Marcelle. É impossível falar de Olimpíadas sem falar de vôlei, cuja primeira medalha de ouro foi em 1992. Éramos seis guerreiros em quadra na cidade de Barcelona. Vôlei que é muito praticado nas aulas de educação física, o que nos remete à escola, o que nos remete às leituras infantojuvenis, o que nos remete a Maria José Dupré, que completaria 45 miliádios no dia 15. Ela é autora de clássicos das primeiras décadas de nossas vidas, como “A Ilha Perdida”, “O Cachorrinho Samba” e “A Mina de Ouro” (Ática). Além de tantas histórias que encantaram crianças e adolescentes, Maria José também emocionou adultos com... “Éramos Seis” (Ática), fazendo assim um retorno ao vôlei e fechando seu parágrafo com poesia e graça. No hipismo, o Brasil ganhou uma medalha de ouro com Rodrigo Pessoa e seu cavalo Baloubet du Rouet, em Atenas, em 2004. Talvez esse seja o esporte mais parnasiano que existe, o que combina com Guilherme de Almeida. Romancista vencedor do Prêmio Jabuti, intelectual que escrevia em várias línguas e um dos maiores haicaístas do Brasil, Guilherme é autor de “A Dança das Horas” (Companhia Nacional), “Messidor” (Círculo do Livro) e “Melhores Poemas” (Global). Seu falecimento completa 19 miliádios no dia 18. Finalizamos a coluna miliádica com Mário Quintana, cujos poemas são um dos mais leves, graciosos e delicados da língua portuguesa. Ele escrevia como uma ginasta rítmica a fazer malabarismos com a fita, mesmerizando a todos. Mário, cujo nascimento aconteceu há 42 miliádios completados no dia 26, é autor de “Esconderijos do Tempo” (Alfaguara), “Eu Passarinho” (Ática) e “O Batalhão das Letras” (Companhia das Letrinhas). E pasmem, ele é medalhista! Em 1976, ganhou a Medalha Negrinho do Pastoreio, condecoração do Rio Grande do Sul. E que venham os Jogos Olímpicos! Que venham mais Miliádios Literários! Até mês que vem! Parabéns pelo Miliversário... ... Edney Silvestre, autor de “Se Eu Fechar os Olhos Agora” (Record) e “Vidas Provisórias” (Intrínseca), cujo nascimento ocorreu há 26 miliádios, completados no dia 3. ... Luisa Geisler, autora de “Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente” e “De Espaços Abandonados” (Alfaguara), cujo nascimento faz 11 miliádios no dia 29. ... Botho Strauss, autor da “Trilogia do Reencontro” (Temporal), que faz 28 miliversários no dia 31. Em memória de... ... Alexandre Dumas Filho, autor de “A Dama das Camélias” (Martin Claret), cujo falecimento faz 13 miliádios no dia 1º. ... Graciliano Ramos, autor de “Vidas Secas” e “São Bernardo” (Record), que faria 47 miliversários no dia 3. ... Soeiro Pereira Gomes, autor de “Esteiros” (Europa América), que faria 41 miliádios no dia 15. ... João Melquíades Ferreira da Silva, o cantor de “Borborema”, autor de inúmeros cordéis, cujo falecimento completa 32 miliádios no dia 21. ... Aluísio Azevedo, autor de “Casa de Pensão” (Martin Claret) e “O Cortiço” (Principis), cujo nascimento completa 60 miliádios no dia 23. ... José Cardoso Pires, autor de “Jogos de Azar” e “Balada da Praia dos Cães” (Bertrand Brasil), que faria 35 miliádios no dia 30. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Homem que Sabia Javanês - O conto mais famoso de Lima Barreto
Publicada no jornal Gazeta da Tarde em 1911, esta narrativa clássica da literatura nacional faz uma crítica ácida ao Brasil e aos brasileiros. Lima Barreto foi um dos grandes escritores brasileiros do século XX. Seu trabalho literário mais conhecido é “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Paulus), romance satírico lançado em folhetins em 1911 e em livro em 1915. Nesse clássico da literatura nacional, o autor carioca zomba da classe política, dos funcionários públicos federais, da sociedade burguesa, do espírito patriota dos brasileiros e da ignorância cultural do nosso povo. Ler essa obra em pleno século XXI é notar que, infelizmente, o Brasil não mudou quase nada nos últimos cem anos. Afinal, continuamos (des)governados por militares boçais para alegria de uma parcela da população que não tem vergonha nenhuma de escancarar suas parvoíces e seus preconceitos. Contudo, a proposta deste post da coluna Livros – Crítica Literária não é falar de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (muito menos dos insistentes equívocos político-intelectuais dos meus compatriotas). Até porque já analisamos esse romance no Bonas Histórias há cerca de quatro anos e meio (e este é um blog de literatura, cultura e entretenimento e não de política, certo?). A ideia agora é comentarmos outra narrativa satírica de Lima Barreto que apresenta as mesmas características de seu título mais celebrado. Estou me referindo a “O Homem que Sabia Javanês” (Editora Itapuca), um dos contos clássicos da literatura brasileira. Nesta trama satírica, o escritor pré-modernista/modernista apresenta um trambiqueiro ao melhor estilo malandro carioca. O protagonista de “O Homem que Sabia Javanês” consegue ascender social e profissionalmente na recém-proclamada República ao mentir dizendo que dominava uma língua estrangeira. Diante da ignorância de seus compatriotas, que ao menos sabiam valorizar alguém com capacidade intelectual para aprender mais de um idioma, a personagem principal do conto torna-se do dia para a noite um figurão da sociedade burguesa do Rio de Janeiro e do corpo diplomático brasileiro. Sua fama se espalha rapidamente de boca em boca. Todos admiram o rapaz que sabe falar a tal língua javanesa. Reli esta obra nesta semana e fiquei boquiaberto com o talento e a versatilidade de seu autor. Se você pensa que Lima Barreto foi apenas um exímio romancista, saiba que ele também se destacou nos contos, nas crônicas e nos artigos jornalísticos. Esse material textual foi publicado nos principais periódicos do Rio de Janeiro nas duas primeiras décadas do século XX. Lima Barreto foi colaborador das revistas Fon-Fon, Floreal e ABC e dos jornais Gazeta da Tarde e Jornal do Commercio. Curiosamente, “O Homem que Sabia Javanês” foi publicado no mesmo ano que “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Não conheço outro escritor brasileiro que tenha apresentado ao público dois clássicos literários em um intervalo de poucos meses! Enquanto o conto foi lançado em abril de 1911 na Gazeta da Tarde, o romance ganhou as páginas do Jornal do Commercio entre agosto e outubro de 1911. Somente após a morte de Lima Barreto, quando se passou a valorizar sua literatura (algo que não tinha acontecido enquanto ele estava vivo), “O Homem que Sabia Javanês” foi publicado em uma coletânea de contos. Chamado de “O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos”, este livro traz outras dezesseis pequenas narrativas de Lima Barreto: “Três Gênios de Secretaria”; “O Único Assassinato de Cazuza”; “O Número da Sepultura”; “Manuel Capineiro”; “Milagre do Natal”; “Quase Ela Deu o Sim, Mas...”, “Foi Buscar lã...”; “O Falso Dom Henrique V”; “Eficiência Militar”; “O Pecado”; “Um que Vendeu Sua Alma”; “Carta de Um Defunto Rico”; “Um Especialista”; “O Filho da Gabriela”; “A Mulher do Anacleto”; e “O Caçador Doméstico”. Vale a pena dizer que a Principis, selo da Editora Ciranda Cultural, lançou no ano passado “O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos” em uma edição com um belíssimo projeto gráfico. Sou suspeito para falar, mas adoro a linha editorial da Principis. Entretanto, desta vez, preferi ler apenas a narrativa de “O Homem que Sabia Javanês” (o conto e não a sua coletânea). Por isso, optei pela versão digital deste título que foi lançada em julho de 2020 pela Editora Itapuca (em ebook Kindle). “O Homem que Sabia Javanês” foi adaptado várias vezes para a televisão, o cinema e o teatro durante a segunda metade do século XX. De suas versões audiovisuais mais famosas, temos um episódio da Terça Nobre, programa da Rede Globo, de 1994, e um curta-metragem de 1988. Produzido por Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão, o programa global foi apenas inspirado no conto de Lima Barreto (possuía várias diferenças em relação à trama original). Já a versão cinematográfica dirigida e roteirizada por Maurício Buffa é um pouco mais fiel ao texto de Lima Barreto. Narrado em primeira pessoa por seu protagonista, “O Homem que Sabia Javanês” é uma conversa de bar (na verdade, a história se passa em uma confeitaria) entre dois amigos. Entre uma cervejinha e outra, Castelo, um vigarista de mão-cheia, conta para Castro, um velho conhecido, as maracutaias que o fizeram progredir na vida. Em uma época em que não tinha um tostão furado no bolso e já estava devendo o aluguel do quarto de pensão, o narrador do conto viu um anúncio no jornal em que se contratava um professor de javanês. Sem ter qualquer conhecimento do idioma requerido, Castelo apresentou-se na Rua Conde do Bonfim para a vaga. O contratante era Manuel Feliciano Soares Albernaz, o Barão de Jacuecanga. Já idoso, o português queria aprender a língua javanesa para ler um livro deixado por seu avô, o Conselheiro Albernaz. Segundo a crença da família, aquela obra trazia sorte para seus proprietários. Por isso, o interesse de conhecer o conteúdo daquela publicação. Aproveitando-se que o prefácio do livro estava em inglês, Castelo, com toda a cara de pau que Deus lhe deu, diz ao Barão de Jacuecanga que aquela história fora escrita pelo Príncipe Kulanga, um escritor javanês de muitos méritos. Encantado com os conhecimentos idiomáticos do jovem professor, o Barão de Jacuecanga o contrata imediatamente. Para surpresa de Castelo, ele se torna, de uma hora para outra, bem-quisto pela sociedade carioca. Todos na Capital Federal ficam encantados com o rapaz que sabe falar javanês. Um dos mais entusiasmados com as habilidades do professor é o genro do Barão de Jacuecanga, um importante desembargador. Foi ele quem indicou o nome de Castelo para o corpo diplomático brasileiro. Inicia-se, assim, a trajetória ascendente do jovem professor no funcionalismo público nacional e nas palestras internacionais de linguística. “O Homem que Sabia Javanês” tem apenas 24 páginas. É possível ler esta história em pouco mais de meia hora. Foi o que fiz na última quinta-feira à noite. A edição da Itapuca ainda traz, no início do livro, uma pequena apresentação sobre Lima Barreto e seu trabalho literário. O ponto alto deste conto está na divertida sátira social que o autor carioca faz de seu país e de seus conterrâneos. Logo de cara, nota-se em “O Homem que Sabia Javanês” uma forte crítica à burocracia do Estado tupiniquim, à falta de inteligência do brasileiro médio, ao pseudopatriotismo nacional e à mentira como estilo de vida. Castro diz logo nas primeiras linhas: “O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui nesse Brasil imbecil e burocrático”. Aí Castelo responde: “Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!”. Em outras palavras, o que o narrador-protagonista quis dizer é: “Nesse nosso país, é possível se sair muito bem se você não fizer as coisas certas. Eu nunca fiz e cheguei aonde cheguei”. Lima Barreto é famoso pelos seus textos críticos. Ele debochava principalmente da corrupção dos governantes, da forte presença dos militares na cúpula do Estado nacional, da burocracia do serviço público, dos modelos econômicos esdrúxulos aplicados por aqui, da ignorância, da falta de cultura e da incivilidade da maioria dos brasileiros, do papel pouco plural da imprensa e da crítica literária e do racismo em nossa sociedade. Se em “Triste Fim de Policarpo Quaresma” Lima Barreto escancarou as mazelas políticas do Brasil da República Velha (corrupção, militarismo, burocracia, perseguição política e modelos econômicos anacrônicos), em “O Homem que Sabia Javanês” ele preferiu focar nas críticas sociais (falta de cultura do povo, uso de manhas e artimanhas para subir na vida e importância maior da imagem do que do conteúdo). De certa forma, os dois livros (romance e conto) se complementam. Castelo é uma ótima personagem. Trambiqueiro de marca maior, ele não se envergonha de mentir e de trapacear para subir na vida. O narrador-protagonista conta sua trajetória em tom de deboche na mesa da confeitaria. Na certa, a ingestão de uma cervejinha aqui e outra ali ajudaram-no a soltar a língua. O ouvinte é seu amigo Castro, que parece não se surpreender com o que lhe chega aos ouvidos. A impressão que temos é que o Rio de Janeiro é um antro de picaretagem e que nenhuma maracutaia é capaz de assustar seus habitantes. No caso de Castelo, ele é uma das primeiras personagens literárias a falsificar seu currículo (uma prática que, infelizmente, não é tão rara assim em nosso país hoje em dia – até os candidatos a Ministro da Educação se valem desse artifício). Repare no texto elegante e dinâmico de “O Homem que Sabia Javanês”. Gostei de todas as estratégias narrativas utilizadas por Lima Barreto neste conto: história ancorada em cima de um diálogo; flashbacks do narrador; ritmo impecável do início ao fim do livro; retrato ácido e verdadeiro da sociedade brasileira; e uso do humor ao mesmo tempo escrachado e inteligente. De maneira geral, “O Homem que Sabia Javanês” chega a ser uma história mais forte, melhor desenvolvida e mais engraçada do que “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Enquanto o romance tem vários altos e baixos, o conto permanece em alto nível o tempo inteiro. A única coisa que destoa um pouco em “O Homem que Sabia Javanês”, ao menos do ponto de vista do leitor contemporâneo, é a construção de algumas frases. As opções por algumas vírgulas me pareceram muito estranhas. Confesso que fiquei irritado com o excesso delas (e em locais em que são totalmente desnecessárias). Mas quem sou eu para questionar o texto de Lima Barreto, hein? O que os grandes nomes da literatura fizeram lá atrás (isso se aplica também a João Guimarães Rosa) precisa ser contextualizado (a forma de escrever há cem anos era outra). Não posso deixar de comentar a lindíssima capa desta versão do livro da Editora Itapuca. A ilustração é digna de prêmio na área do design gráfico. Ela é simples e encantadora, além de dialogar intimamente com o conteúdo do conto. Vale a pena ressaltar que a capa foi uma criação de Juliana Possas. A única nota realmente ruim deste livro de Lima Barreto é que ele continua extremamente atual. Se pensarmos bem, toda a literatura de Barreto – “O Homem que Sabia Javanês”, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, “Eficiência Militar” (narrativa curta de “O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos”, “Clara dos Anjos” (Penguin e Companhia das Letras), “Os Bruzundangas” (Ática) e “Numa e a Ninfa” (Penguin e Companhia das Letras) – retrata uma nação que ainda hoje conhecemos bem. O Brasil dos primeiros anos do século XX é parecidíssimo com o Brasil dos primeiros anos do século XXI. Está duvidando de mim? Então leia Lima Barreto como se você estivesse acompanhando um autor contemporâneo. É assustador. Infelizmente, é muitíssimo assustador! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em maio e junho de 2021
Confira as 60 principais obras ficcionais e poéticas que chegaram às livrarias brasileiras no terceiro bimestre desse ano. Trago boas novas nessa edição da coluna Mercado Editorial. Depois de o segundo bimestre de 2021 apresentar pouquíssimos lançamentos de livros de ficção nacional, conforme vimos no post do mês retrasado, em maio e junho tivemos uma inversão de prioridade nas principais editoras brasileiras. Elas acabaram publicando mais títulos de autores do nosso país do que de escritores de fora. Ou seja, o problema que chamou nossa atenção no bimestre anterior (excesso de obras gringas e escassez de publicações brasileiras) pareceu ser meramente pontual ou sazonal. Sim, a literatura brasileira ainda pulsa! E não apenas a quantidade de livros de nosso país foi satisfatória como também a qualidade delas merece nossos elogios. Por isso, temos algumas novidades interessantíssimas para comentar no post de hoje do Bonas Histórias. Quem gosta de romance precisa dar uma olhada com atenção a três lançamentos: “O Último Gozo do Mundo – Uma Fábula” (Companhia das Letras), de Bernardo Carvalho, “Mobiliário Para Uma Fuga em Março” (Dublinense), de Marana Borges, e “O Riso dos Ratos” (Todavia), de Joca Reiners Terron. “O Último Gozo do Mundo – Uma Fábula” é a 12ª narrativa longa de Bernardo Carvalho, autor de “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras). Nessa nova trama, um homem adquire poderes premonitórios após se curar de uma perigosa infecção viral. “Mobiliário Para Uma Fuga em Março” é o primeiro romance de Marana Borges. Até então, a escritora paulista que coleciona alguns importantes prêmios literários só havia lançado coletâneas de contos. Essa sua nova publicação, uma espécie de prosa poética, conquistou o Prêmio Minas Gerais de Literatura como melhor romance. E “O Riso dos Ratos”, o novo livro de Joca Reiners Terron (seu oitavo romance), é um thriller policial com pegada de narrativa de terror. O protagonista dessa obra quer vingança. Ele quer pegar o sujeito que fez uma barbaridade com sua filha. O problema é que o pai zeloso tem uma doença fatal, além de não saber do paradeiro nem da filha nem do criminoso. Ainda dentro da literatura brasileira, mas agora na categoria coletânea de contos e crônicas, temos outras três novidades: “Doramar ou a Odisseia – Histórias” (Todavia), de Itamar Vieira Junior, “A Cicatriz e Outras Histórias” (Alameda), de Bernardo Kucinski, e “A Lua na Caixa D´Água” (Malê), de Marcelo Moutinho. Depois do sucesso estonteante de “Torto Arado” (Todavia), romance vencedor do Prêmio Jabuti de 2020 e livro de ficção mais vendido no Brasil em 2021, é natural o maior interesse do público e do mercado editorial por novas obras de Itamar Vieira Junior. Nesse sentido, “Doramar ou a Odisseia – Histórias”, uma coletânea de contos, vem atender a esse desejo dos leitores. Misturando tramas inéditas e pequenas histórias lançadas anteriormente, Vieira Junior mostra o porquê é um dos principais autores da literatura brasileira contemporânea. Por sua vez, “A Cicatriz e Outras Histórias” é a reunião de todos os contos de Bernardo Kucinski, uma das vozes mais originais e contundentes da nossa literatura. Como sou fã das narrativas de Kucinski, autor de “K - Relato de Uma Busca” (Cosac Naify), serei obrigado a adquirir esse título. E “A Lua na Caixa D´Água” é a nova coletânea de crônicas de Marcelo Moutinho, autor de “Ferrugem” (Record). Nessa sua nova obra, o autor carioca narra sua infância no subúrbio carioca e faz uma homenagem à cultura brasileira, principalmente ao samba e à literatura. Para os amantes da Teoria Literária e da poesia, temos duas publicações de autores nacionais com o poder de encantar os leitores mais exigentes: “Romance – História de uma Ideia” (Companhia das Letras), ensaios literários de Julián Fuks, e “Acinte 2020” (Pomelo), antologia poética de Paulo Sousa. Em “Romance – História de uma Ideia”, Fuks, um dos principais estudiosos brasileiros da literatura e um importante escritor da atualidade, analisa criticamente a trajetória da arte do romance ao longo dos últimos quatro séculos. Usando exemplos clássicos da ficção internacional, ele comenta as características, a evolução e os desafios desse gênero narrativo. Já “Acinte 2020” é a coletânea de haicais de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e colunista do Bonas Histórias (ele escreve os Miliádios Literários). Nessa primeira obra poética, o escritor paulista versa de maneira inteligente e divertida sobre os acontecimentos do famigerado (e desde já histórico) ano de 2020. “Acinte 2020” foi lançado no começo desse mês em versão eletrônica (já está disponível na Loja Kindle) e terá a edição impressa nos próximos meses. Para não dizer que não falei dos autores estrangeiros, esse bimestre reserva duas publicações imperdíveis: “A Metade Perdida” (Intrínseca), romance da norte-americana Brit Bennett, e “A Nossa Alegria Chegou” (Companhia das Letras), romance da portuguesa Alexandra Lucas Coelho. “A Metade Perdida” é o novo livro da best-seller Brit Bennett. Nessa obra, assistimos ao drama de duas irmãs gêmeas do sul dos Estados Unidos que são separadas na adolescência. Além de carregar traumas familiares, elas precisam encarar o racismo e os preconceitos de seus conterrâneos. Em “A Nossa Alegria Chegou”, a quarta narrativa longa de Alexandra Lucas Coelho, acompanhamos um thriller político ambientado em Alendabar, uma nação tropical fictícia. Nessa distopia, um grupo de jovens idealistas tenta derrubar do poder o ditador sanguinário. Para quem possa achar que se trata de uma reconstrução da realidade brasileira (seria o Brasil de hoje a Alendabar da autora portuguesa?!), vale a pena dizer que esse romance foi lançado em Portugal em 2018. Portanto, ele foi escrito antes de Bolsonaro se tornar uma ameaça por aqui (alguém aí gritou genocida?). Os mais relevantes lançamentos do mercado editorial brasileiro nesse terceiro bimestre de 2021 estão listados abaixo. Nesse levantamento, o Bonas Histórias se concentrou nos títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e nas coletâneas poéticas. Confira a lista com os 60 principais livros publicados em maio e junho nas livrarias de nosso país: FICÇÃO BRASILEIRA: “O Último Gozo do Mundo – Uma Fábula” (Companhia das Letras) – Bernardo Carvalho – Romance – 144 páginas. “Mobiliário Para Uma Fuga em Março” (Dublinense) – Marana Borges – Romance – 502 páginas. “O Riso dos Ratos” (Todavia) – Joca Reiners Terron – Romance – 210 páginas. “Nada Vai Acontecer com Você” (Companhia das Letras) – Simone Campos – Romance – 192 páginas. “Elas Marchavam Sob o Sol” (Dublinense) – Cristina Judar – Romance – 160 páginas. “Pequena Coreografia do Adeus” (Companhia das Letras) – Aline Bei – Romance – 288 páginas. “Escobar” (Moinhos) – Márwio Câmara – Romance – 128 páginas. “As Mulheres de Tijucopapo” (Ubu) – Marilene Felinto – Romance – 240 páginas. “A Horta” (Incompleta) – Henrique Barreto – Romance – 144 páginas. “Nebulosa” (Patuá) – André Cáceres – Romance – 334 páginas. “O Silêncio que a Chuva Traz” (Malê) – Marlon Souza – Romance – 188 páginas. “Doramar ou a Odisseia – Histórias” (Todavia) – Itamar Vieira Junior – Coletânea de Contos – 160 páginas. “A Cicatriz e Outras Histórias” (Alameda) – Bernardo Kucinski – Coletânea de Contos – 452 páginas. “Dedos Impermitidos” (Iluminuras) – Luci Collin – Coletânea de Contos – 120 páginas. “Tramas de Meninos” (Alfaguara) – João Anzanello Carrascoza – Coletânea de Contos – 120 páginas. “Pequena Enciclopédia de Seres Comuns” (Todavia) – Maria Esther Maciel – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Descanso” (Penalux) – Rafaela Riera – Coletânea de Contos – 180 páginas. “Você Não Vai Dizer Nada” (Nós) – Julia Codo – Coletânea de Contos – 160 páginas. “A Lua na Caixa D´Água” (Malê) – Marcelo Moutinho – Coletânea de Crônicas – 160 páginas. “Na Barriga do Lobo” (Arquipélago) – Luís Henrique Pellanda – Coletânea de Crônicas – 240 páginas. “O Espalhador de Passarinhos” (Arquipélago) – Humberto Werneck – Coletânea de Crônicas – 176 páginas. “O Conto Não Existe” (Cepe) – Sérgio Sant´Anna – Coletânea de Contos, Crônicas e Ensaios – 226 páginas. “Romance – História de uma Ideia” (Companhia das Letras) – Julián Fuks – Ensaios Literários – 216 páginas. “Edith e a Velha Sentada” (Pallas) – Lázaro Ramos – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “A Mancha” (FTD) – Guilherme Gontijo Flores & Daniel Kondo – Literatura Infantojuvenil – 56 páginas. “Menino Menina” (Pequena Zahar) – Joana Estrela – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Gaspar e o Rio” (Aletria) – Flávia Azevedo – Literatura Infantojuvenil – 44 páginas. “Homem-bicho, Bicho-homem” (Caixote) – Itamar Assumpção – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “De Passinho em Passinho” (Companhia das Letrinhas) – Otávio Júnior – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Altos e Baixos” (Leiturinha) – Giovana Madalosso & Ionit Zilberman – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “A Metade Perdida” (Intrínseca) – Brit Bennett (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Nossa Alegria Chegou” (Companhia das Letras) – Alexandra Lucas Coelho (Portugal) – Romance – 176 páginas. “Tungstênio” (Iluminuras) – César Vallejo (Peru) – Romance – 168 páginas. “Nascimento e Morte da Dona de Casa” (Instante) – Paola Masino (Itália) – Romance – 256 páginas. “O Silêncio” (Companhia das Letras) – Don DeLillo (Estados Unidos) – Romance – 112 páginas. “A Liberdade Total” (DBA) – Pablo Katchadjian (Argentina) – Romance – 160 páginas. “Atos Humanos” (Todavia) – Han Kang (Coreia do Sul) – Romance – 192 páginas. “A Boneca de Kokoschka” (Dublinense) – Afonso Cruz (Portugal) – Romance – 288 páginas. “Anna Kariênina” (Editora 34) – Liev Tolstói (Rússia) – Romance – 864 páginas. “Sonatas – Memórias do Marquês de Brandomín” (7Letras) – Ramón María Del Valle-Inclán (Espanha) – Romance – 356 páginas. “Crianças da Guerra – A História Sobre o Trem Italiano da Felicidade” (Faro) – Viola Ardone (Itália) –Romance – 240 páginas. “O Ano do Pensamento Mágico” (HarperCollins) – Joan Didion (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “Butcher Boy – Infância Sangrenta” (Darkside) – Patrick McCabe (Irlanda) – Romance – 208 páginas. “A História do Senhor Sommer” (Editora 34) – Patrick Süskind (Alemanha) – Novela – 96 páginas. “Os da Minha Rua” (Pallas) – Ondjaki (Angola) – Coletânea de Contos – 128 páginas. “A Estrada Enluarada e Outras Histórias” (Arquipélago) – Ambrose Bierce (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 224 páginas. “Rinha de Galos” (Moinhos) – María Fernanda Ampuero (Equador) – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Diários: 1909-1923” (Todavia) – Franz Kafka (República Tcheca) – Diários – 576 páginas. “Marie Curie – No País da Ciência” (SM) – Irène Cohen-Janca (Tunísia) & Claudia Palmarucci (Itália) – Literatura Infantojuvenil – 96 páginas. “Excursão para a Lua” (Raposa Vermelha) – John Hare (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Acinte 2020” (Pomelo) – Paulo Sousa – 192 páginas. “Alguém que Dorme na Plateia Vazia” (7Letras) – Annita Costa Malufe – 152 páginas. “Impressão Sua” (Companhia das Letras) – André Dahmer – 120 páginas. “Mainha” (Patuá) – Tiago D. Oliveira – 124 páginas. “Da Língua e dos Dentes” (Urutau) – Edith Derdyk – 64 páginas. “Malangue Malanga” (Iluminuras) – Wilson Alves-Bezerra – 72 páginas. “Aquela que Não é Mãe” (Buzz) – Jaqueline Vargas – 112 páginas. “Me Faz Um Corre Aí” (7Letras) – Piero Eyben – 180 páginas. “A Cadeia Quântica dos Nefelibatas em Contraponto ao Labirinto Semântico dos Lotófagos do Sul” (Urutau) – Márcio Aquiles – 72 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “A Rosa de Ninguém” (Editora 34) – Paul Celan (Romênia) – 192 páginas. Em agosto, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar os lançamentos do quarto bimestre de 2021. Até lá, siga acompanhando as novidades dos setores livreiro e editorial no Bonas Histórias. E boa leitura a todos! 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- Livros: Livro - O experimento metalinguístico de Lúcia Leal Ferreira
Publicada 34 anos depois de sua concepção, a obra da escritora paulistana dialoga com a metalinguagem literária e o caos narrativo. Nesse final de semana, li uma obra extremamente diferente e instigante. “Livro” (Feminas) é a prosa poética de Lúcia Leal Ferreira, tradutora e escritora paulistana nascida em 1961 e que só recentemente teve sua produção ficcional (re)valorizada. “Livro” (sim, o nome do livro é “Livro” mesmo!) brinca o tempo inteiro com a metalinguagem literária (daí seu título) e o caos narrativo (o que inclui um projeto gráfico disruptivo, a ponto de não termos, por exemplo, o nome da autora na capa). O resultado é uma experiência de leitura rica e desafiadora, digna das pequenas preciosidades que só descobrimos no trabalho de garimpo das pequenas e zelosas editoras nacionais. É preciso dizer também que essa publicação possui uma proposta editorial contemporânea e muito original, que flerta com o nonsense e o surrealismo. Ganhei de aniversário “Livro” no comecinho do mês passado. O presente me foi dado por Paulo Sousa (valeu, Paulinho!), autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da coluna Miliádios Literários. Nas palavras de Paulo, eu precisava conhecer um título inusitado e interessante de sua tia. Lúcia, como soube naquele momento, é casada há dez anos com o tio do colunista do Bonas Histórias. Para ser sincero, achei inicialmente que os elogios fossem coisa de sobrinho carinhoso e dedicado e que visava a divulgação do trabalho de um ente da família. Contudo, bastou abrir o livro para entender que Paulo Sousa tinha razão. Essa obra de Lúcia Leal Ferreira é encantadora e possui características de dar água na boca nos leitores com um paladar literário mais requintado. Publicado em março desse ano, “Livro” foi desenvolvido em 1987, quando Lúcia, aos 25 anos, cursava faculdade de Letras na Universidade de São Paulo (USP). Naquela época, a obra ganhou algumas edições caseiras feitas pela própria autora e foi distribuída aos amigos e familiares que ficaram maravilhados com a iniciativa da jovem autora e com a proposta do livro. Somente agora, 34 anos mais tarde, uma editora comercial resolveu lançá-lo. A (re)descoberta (e consequente publicação) do “Livro” é uma iniciativa de Sandra Regina de Souza, editora e proprietária da Editora Feminas, empresa de autopublicação voltada para a promoção dos trabalhos de artistas do sexo feminino. Foi com Celinas, o selo direcionado às autoras estreantes em carreira solo, que a Feminas lançou esse título. “Livro” é o primeiro livro de Lúcia Leal Ferreira, mas não é o único. Há cerca de 17 anos, a escritora paulistana também lançou “Presente”, uma narrativa infantil. Assim como está acontecendo com sua obra de estreia, Lúcia terá “Presente” (re)publicado comercialmente no ano que vem. Dessa maneira, podemos dizer que somente agora o público brasileiro está tendo a oportunidade de conhecer os textos dessa autora. Seu portfólio literário, por enquanto, é original das décadas de 1980 e 1990. Porém, não duvido que, com a repercussão positiva desses (re)lançamentos, Lúcia Leal Ferreira resolva produzir textos novos ou decida republicar aquilo que tem guardado há tanto tempo em suas gavetas. Para quem ficou curioso para saber como “Livro”, uma narrativa deliciosa e desafiadora, ficou tanto tempo esquecido, Lúcia atribuiu o seu distanciamento do mercado editorial a certo trauma adquirido no processo de publicação desta obra quando era estudante da USP. Além disso, ela afirma nunca ter se sentido à vontade no meio literário, principalmente no passado (leia-se, anos 1980 e anos 1990). Apenas recentemente, mais madura e confiante no papel de autora, Lúcia conseguiu encarar outra vez e numa boa os contatos com as editoras e os processos de editoração. Ainda bem! Curiosamente, a nova versão de “Livro” não é exatamente idêntica àquela de 1987. A parte textual é até muito parecida (somente um ou outro texto foram alterados). A grande mudança está na parte estética, que, queiramos ou não, influencia decisivamente na experiência de leitura. O projeto gráfico e a capa foram desenvolvidos por Guilherme Wanke, designer natural de Jundiaí e que mora há anos na cidade de São Paulo. Apesar do acabamento mais simples, “Livro” tem um visual caótico e original. Antes que você se assuste, saiba que o projeto gráfico acompanha a pegada anárquica e metalinguística do texto de Lúcia. Nesse sentido, ele é perfeito e contribui consideravelmente para a experiência de leitura e a intertextualidade literária atingir níveis elevados. “Livro” possui 80 páginas e reúne 13 textos: (1) “Orelha de Pessoas”, (2) “Contra a Capa”, (3) “Páginas e Páginas de Rosto”, (4) “30 Maneiras de Enfrentar um Dia de Cão”, (5) “Folha do Guarda”, (6) “Capítulo Anterior”, (7) “Capítulo Seguinte”, (8) “Próximo Capítulo”, (9) “Capítulo-Quarto”, (10) “G no Ar”, (11) “Era Uma Vez um Pássaro Ferido...”, (12) “Essa é a Minha Metafísica” e (13) “Melhor Esperar Um Pouco”. Esse último texto é uma espécie de prefácio epistolar (intitulado no “Livro” de carta de referência) elaborado pela escritora Penélope Martins e guardado encantadoramente em um bolso na terceira capa. Dá para ler esta obra em menos de uma hora (e em uma única sentada). Esse foi mais ou menos o tempo que levei para percorrer integralmente seu conteúdo no último sábado. Comecei a leitura às 15 horas e antes das 16 horas já tinha encerrado. Entretanto, confesso que não fiquei em uma só leitura. Terminada a publicação, senti a necessidade de relê-la. E fiz isso imediatamente. O elemento que salta aos olhos logo de cara em “Livro” é a metalinguagem. Não faltam aspectos metalinguísticos nesta obra de Lúcia Leal Ferreira. Já na capa temos um título inusitado – um suprassumo desse recurso dialógico. O próprio projeto gráfico dela, totalmente clean e minimalista, potencializa esse efeito. Contudo, a metalinguagem não para por aí e se estende por todas as partes da publicação. Veja o início do texto da quarta-capa, uma das melhores e mais poéticas apresentações que já li: “Este Livro não foi bem escrito por mim. Não sou mais a moça de 25 anos que o concebeu, em 1987. Se calhar, sou a mãe dela. De lá para cá, nós três (somos próximos) vagamos de cá pra lá, mudamos de lá, voltamos pra cá, um mandando o outro calar a boca, um outro passando a mão na cabeça do um, um mesmo pondo a mãe no meio (...)”. Incrível, né?! Ainda mais se compreendermos a história por trás do lançamento do “Livro”. E as brincadeiras metalinguísticas prosseguem. A orelha dessa obra é um poema intitulado “Orelha de Pessoas”. O que seria a contracapa é um texto chamado “Contra a Capa”. Os capítulos centrais da narrativa de Lúcia são, nessa ordem, “Capítulo Anterior”, “Capítulo Seguinte”, “Próximo Capítulo” e “Capítulo-Quarto”. E seguindo essa paródia, a folha de rosto é “Páginas e Páginas de Rosto” e a folha de guarda é “Folha do Guarda”. Note que dentro do “Livro” temos um outro livro, também chamado “Livro”, com direito a capa, título, subtítulo, capítulos e encerramento próprios. De maneira perspicaz, o projeto gráfico da publicação valoriza essa segregação entre as duas partes (“Livro” versus “Livro do livro”). Como isso é possível?! O designer encarregado dessa obra de Lúcia não inseriu nenhum elemento visual (ilustrações) dentro do “Livro do livro” (as ilustrações são exclusividades do “Livro”) e empregou tipologia, diagramação e espaçamento distintos para cada parte (o que dá uma sensação de anarquia visual em um primeiro momento, principalmente se você não compreender que são dois livros - “Livro” e “Livro do livro”). Papo meio louco, né?! Só por essas maluquices, “Livro” já valeria a leitura. Entretanto, esta obra vai além da simples metalinguagem ficcional. Lúcia Leal Ferreira acrescenta doses generosas de intertextualidade literária à sua narrativa. A principal delas é a citação indireta (ou seria direta mesmo?!) a “Alice no País das Maravilhas” (Cosac Naify), o título mais famoso de Lewis Carroll. A autora paulistana faz isso ao usar e abusar das ilustrações originais do clássico inglês. Confesso que em um primeiro momento não gostei dessa apropriação dos desenhos de “Alice no País das Maravilhas”. Somente quando cheguei ao final de “Livro”, entendi (e adorei) a referência. Realmente, nos sentimos durante esta leitura como Alice de Carroll, uma criança perdida em um mundo mágico, a procura de um caminho racional e ansiando por uma lógica/sentido para o que vivencia. Certamente, Lúcia Leal Ferreira não conseguiria provocar esse tipo de efeito nos leitores se usasse outra espécie de ilustração (por mais original e exclusiva que fosse). Repare também que “Livro” dialoga tanto com a década de 1980, época de sua concepção, quanto com nossos dias atuais. De certa forma, essa constatação não seria uma mera coincidência – a cada semana, tenho certeza de que o nosso país hoje é um espelho mais brutal e injusto daquele que tínhamos há quatro décadas. “Livro” apenas escancara essa aproximação de realidades. Note, por exemplo, nas inúmeras semelhanças dessa publicação de Lúcia Leal Ferreira com algumas obras do final dos anos 1970, como “Zero” (Global), o romance mais radical e caótico de Ignácio de Loyola Brandão, “Se Um Viajante Numa Noite de Inverno" (Planeta DeAgostini), o livro mais metalinguístico e amalucado de Italo Calvino, e “Instrução Para Subir Uma Escada”, o conto clássico de Julio Cortázar presente em “Histórias de Cronópios e Famas” (BestBolso). Então, “Livro” seria um título datado, certo? Nananinanão! Ele também se parece com publicações contemporâneas como “Outros Jeitos de Usar a Boca” (Planeta), a prosa poética de Rupi Kaur, “A Vida Nova” (Editorial Presença), romance de Orhan Pamuk, e “Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio), a coletânea poética de Carolina Zuppo Abed. Esse talvez seja o principal mérito de Lúcia. Seu texto consegue brincar com a metalinguagem do fazer literário de uma maneira que não soa antigo e que, ainda por cima, remete à anarquia típica da linguagem da Internet e das redes sociais. Outro aspecto muito legal de “Livro” é o bom humor. Ele é leve, inteligente e sutil. Curiosamente, o humor de Lúcia Leal Ferreira é muito parecido ao do sobrinho, Paulo Sousa. Os dois escritores conseguem extrair graça de pequenas coisas do cotidiano de um jeito espontâneo, sagaz e poético. Ninguém tira da minha cabeça que essa é uma habilidade inata da família, algo que passa de geração para geração! Outro elemento elogiável é a pluralidade textual de “Livro”. É até difícil de classificá-lo. Afinal, esse título seria, o que exatamente?! Ele é um romance fragmentado, uma coletânea de crônicas e contos metalinguísticos, uma prosa poética sobre o fazer literário, uma mistura de narrativas e poemas envolvendo a literatura, uma obra ilustrada de universos paralelos ou um pot-pourri multiautoral? Admito que não sei definir precisamente – talvez seja tudo isso junto. O que pode ser afirmado de concreto sobre “Livro” é que ele possui uma grande fragmentação textual. Essa obra tem vários tipos de narrativa em prosa (crônica extraída de uma revista feminina da década de 1980, tradução de um pedaço do romance de Dashiell Hammett e contos de Lúcia Leal Ferreira), alguns poemas ou micropoemas (da própria escritora paulistana) e ilustrações de John Trenniel. É uma mistureba danada, hein? Se você gosta de livros desconcertantes, “Livro” é uma ótima pedida. O que mais gostei dessa obra é que, acredite se quiser, ao final da leitura seu texto faz todo o sentido. Sim! “Livro” possui uma lógica interna que chega para os leitores apenas em seu desfecho. É como se ao chegarmos à sua última página, o livro provocasse um clique em nossas cabeças. E, paradoxalmente, a parte que liga todas as demais é um texto aparentemente banal e de outro autor – o trecho de “O Falcão Maltês” (L&PM Editores), de Dashiell Hammett, traduzido aqui pela própria Lúcia do original em inglês. Fiquei estarrecido (no bom sentido, tá?) quando o clique se deu na minha mente. Aí você terá vontade de recomeçar a leitura, agora com outros olhos. Foi o que fiz. Sempre que fico atraído para ler mais de uma vez um livro, é porque ele é ótimo e polissêmico, além de ter propiciado uma experiência literária muito agradável. Adoro ser confrontado e questionado diretamente por um texto desafiador e que valoriza minha inteligência. Se você aprecia propostas ousadas e diferenciadas, vai por mim, você gostará de “Livro”. Lúcia Leal Ferreira é uma escritora de muito potencial e com uma narrativa riquíssima. É incrível saber que esse título ficou mais de três décadas esquecido aguardando uma (re)publicação. Quantos livros assim devem existir por aí, nas casas de artistas renegados ou nas gavetas de editores pouco atentos, hein?! Pensar nisso é de assustar! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Deus das Pequenas Coisas - O premiado romance de Arundhati Roy
Publicada em 1997, a obra de estreia da escritora indiana conquistou o Booker Prize e se tornou rapidamente um best-seller mundial. Na semana passada, li um livro incrível. “O Deus Das Pequenas Coisas” (Companhia de Bolso) é o romance de estreia da indiana Arundhati Roy, mais conhecida em seu país pelos trabalhos no cinema e no ativismo político-social. E que debute na literatura foi esse, hein?! A obra conquistou o Booker Prize, um dos principais prêmios literários do Reino Unido, como a melhor ficção em língua inglesa. Além disso, a narrativa de Roy se tornou rapidamente best-seller na Índia, na Europa (principalmente na Inglaterra e Noruega), na América do Norte (leia-se Estados Unidos) e na Oceania (sobretudo na Austrália). “O Deus das Pequenas Coisas” chegou a ocupar a quarta posição na categoria Ficção Independente da tradicional lista dos mais vendidos do The New York Times. Em outras palavras, esse livro se transformou em sucesso de crítica e de público e se consolidou como um dos exemplares mais bem-sucedidos da literatura indiana contemporânea. Conheci “O Deus das Pequenas Coisas” quando cursei a Pós-graduação em Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Em uma oficina de Escrita Criativa, a professora Isabela Noronha, autora de “Resta Um” (Companhia das Letras), trouxe o romance de Arundhati Roy para analisarmos em sala. O foco daquela aula era as primeiras páginas do livro da escritora indiana. De maneira poética e usando a sinestesia, Roy apresentou o cenário e as principais personagens de sua obra com grande beleza e sensibilidade nos parágrafos iniciais. Realmente, o começo dessa narrativa é mesmo maravilhoso, digno de ser estudado pelos alunos de Escrita Criativa mundo à fora. Na época do curso não consegui ler esse livro integralmente, mas fiquei com muita vontade de percorrer seus demais capítulos. Algo que só consegui concretizar agora. E gostei tanto desse título que decidi produzir esse post para a coluna Livros – Crítica Literária do Bonas Histórias. Publicado originalmente em 1997, “O Deus das Pequenas Coisas” foi escrito ao longo de quatro anos. De 1992 a 1996, Arundhati Roy construiu uma trama com forte carga autobiográfica e com uma prosa extremamente poética. O romance aborda o drama de uma família de Ayemenem, pequeno povoado próximo à Kottayam, no estado de Kerala, no sudoeste da Índia. Ao retratar uma tragédia ocorrida há mais de duas décadas e que teve o poder de mudar para sempre o destino de quase todos os integrantes do clã de protagonistas, a escritora apresenta simultaneamente a cultura, a história, as particularidades, a geografia, as crenças e, principalmente, as injustiças da sociedade indiana, rigidamente estratificada por castas. Lançado na Índia em maio, esse romance histórico precisou de apenas dois meses para chegar às livrarias de outros 18 países com enorme êxito. Atualmente, ele já foi lançado em mais de meia centena de países. O retrato ácido da realidade local em seu livro de estreia trouxe alguns problemas políticos e judiciais para Roy. Além de ser alvo das críticas negativas dos conterrâneos que não aprovaram o relato pejorativo de sua nação, “O Deus das Pequenas Coisas” incomodou alguns poderosos políticos indianos. Eles acusaram Arundhati Roy de difamação e de obscenidade e levaram tais queixas para os tribunais. Apesar do incomodo gerado pelo debate legal de seu texto ficcional, não demorou para a autora provar aos juízes que um romance é apenas um romance, por pior que seja a descrição dos hábitos da população, da cultura tradicional, da atuação das autoridades policiais e do comportamento dos políticos em suas páginas. Nascida em 1961, em Shillong, a capital do estado de Megalaia, no nordeste da Índia, Arundhati Roy completa em 2021 60 anos de idade. Morando atualmente em Nova Dehli, a escritora estudou arquitetura na capital do país e trabalhou por muitos anos no cinema e na televisão da Índia como atriz, designer de produção e, finalmente, como roteirista. Foi como roteirista de produções de Bollywood que Roy conquistou seus principais prêmios cinematográficos. Seus mais famosos filmes foram “In Which Annie Gives It Those Ones” (1989), eleito o melhor roteiro pelo National Film Awards daquele ano, e “Electric Moon” (1992). Apesar de estar no meio cinematográfico e televisivo há algumas décadas, Arundhati Roy só conseguiu ganhar realmente muito dinheiro (acredite!) quando entrou na literatura. E esse feito foi conseguido apenas com um best-seller, justamente com seu romance de estreia. Os direitos autorais de “O Deus das Pequenas Coisas” renderam uma bolada milionária para a indiana. Apenas de adiantamento editorial (uma prática comum nas editoras do exterior, mas raríssima no Brasil), ela recebeu 1 milhão de dólares. O fato de faturar em dólar e em euro (moedas fortíssimas) e de gastar em rupia indiana (moeda quase 14 vezes mais fraca do que, por exemplo, o real, uma das divisas mais desvalorizadas dos últimos anos – abração Paulo Guedes!) deixou tudo ainda mais azul na conta bancária da escritora. Com a independência financeira, Roy pôde escolher no que trabalhar nos anos seguintes. Aí ela se voltou com mais afinco para o ativismo político-social. De 1997 para cá, ela é porta-voz do movimento antiglobalização e é ferrenha opositora do imperialismo norte-americano, da proliferação das armas nucleares, da industrialização desenfreada, do capitalismo selvagem e de algumas construções em seu país. Ou seja, Arundhati Roy é uma versão moderna (?!) e feminina de Mahatma Gandhi (por mais pitoresco que isso possa parecer no século XXI). Não à toa, quase todas as publicações da indiana desde então são ensaios, coletâneas ou manifestos políticos, culturais e sociais sobre a Índia contemporânea e os efeitos nefastos do capitalismo global. Muitas vezes, a escritora indiana recebe fortes críticas por suas posições ideológicas. Admito que algumas são difíceis de engolir, enquanto outras parecem um tanto óbvias (ou você conhece alguém que apoia a proliferação das armas nucleares?!). Para atender aos fãs da ficção literária, Roy só publicou seu segundo romance recentemente. “O Mistério da Felicidade Absoluta” (Companhia das Letras) foi lançado em junho de 2017, exatamente vinte anos depois de “O Deus das Pequenas Coisas”. O novo título de Arundhati Roy foi finalista de importantes prêmios literários como o Man Booker Prize, o National Book Critics Circle Award e o Prêmio Literário Hindu. Ele foi publicado em mais de quatro dezenas de países. Voltando a “O Deus das Pequenas Coisas”, essa obra teve sua primeira edição lançada em português no Brasil em 1998 pela Companhia das Letras. O selo escolhido para tal foi a Companhia de Bolso, que é voltada para as publicações em formato pocket. A segunda edição da versão nacional desse livro é de novembro de 2008. A adaptação do texto do romance de Roy para o português brasileiro ficou à cargo de José Rubens Siqueira, tradutor com mais de 40 anos de experiência e com aproximadamente 200 livros traduzidos do inglês, espanhol, francês e italiano. Considerando que a prosa da autora indiana é profundamente poética e que sua narrativa brinca o tempo inteiro com termos, palavras, referências intertextuais e sonoridades da língua inglesa, é preciso ressaltar que a tarefa de Siqueira não foi nada fácil. E, por isso mesmo, ele se saiu muitíssimo bem – conseguiu reproduzir a experiência literária da versão original e, ainda por cima, permitiu ao leitor poliglota o contato com partes importantes do texto diretamente em inglês. O enredo de “O Deus das Pequenas Coisas” se passa essencialmente em Ayemenem. A trama é narrada em terceira pessoa por um narrador onipresente e onisciente. Apesar da história navegar livremente por diferentes épocas, ela se concentra principalmente em duas datas: dezembro de 1969 (quando ocorreu um episódio trágico que mudou para sempre o destino dos protagonistas) e junho de 1993 (quando assistimos aos efeitos práticos da tragédia de 24 anos antes). O final do ano de 1969 foi marcado pela chegada de Sophie Mol, uma menina de nove anos, e sua mãe Margaret Kochamma à Índia. As duas eram inglesas e visitavam a Ásia pela primeira vez. Margaret era ex-esposa de Chacko e Sophie era a única filha do casal. Chacko é indiano e conheceu Margaret quando estudava em Oxford. Os dois se casaram meio que no impulso e foram viver em Londres. Contudo, assim que Margaret Kochamma conheceu Joe, um inglês sério e responsável, ela largou o primeiro marido e foi viver com a filha ao lado do conterrâneo. Desiludido pela perda de seu grande amor, o indiano regressou para a terra natal e voltou a viver na propriedade da mãe, Mammachi, uma viúva cega que comandava a fábrica Paraíso, Picles & Polpas e uma fazenda em Ayemenem, povoado interiorano do estado de Kerala. Além de Mammachi e Chacko, a propriedade da família abrigava Baby Kochamma, a irmã de Mammachi/tia de Chacko, a cozinheira anã Kochu Maria, Ammu, filha divorciada de Mammachi/irmã única de Chacko, e os dois filhos de Ammu, Rahel e Esthappen Yako. Rahel e Estha (como o menino sempre foi chamado) são irmãos bivitelinos e têm sete anos. O pai deles foi morar em Nova Delhi depois que Ammu o dispensou. Cansada das bebedeiras e da violência doméstica do marido, ela preferiu viver sozinha e cuidar dos filhos longe do pai. Por isso, a dupla de crianças cresceu sem uma figura paterna, algo que sempre incomodou Ammu. O trio (Ammu, Rahel e Estha) sempre foi malquisto pelos familiares em Ayemenem. Afinal, uma mulher cuidar de um casal de filhos gêmeos em uma empreitada solo não era algo que a sociedade machista do interior da Índia podia aceitar tranquilamente. A rotina na propriedade da família sofreu uma mudança retumbante com a chegada de Sophie Mol e Margaret Kochamma para as festas de Natal de 1969. Com o recente falecimento de Joe, o segundo marido de Margaret, Chacko achou interessante convidar a ex-esposa e a filha para passar uma temporada em Kerala. Assim, elas podiam lidar melhor com a perda do esposo/novo pai. Contudo, para os moradores de Ayemenem, a chegada das duas inglesas provocou uma grande euforia. Afinal, o que as duas europeias poderiam achar do interior da Índia, uma região formada por gente simples e com uma cultura particular, hein? Segundo as ordens de Mammachi e de Chacko, nada poderia sair errado durante a estada de Sophie Mol e Margaret Kochamma. As estrangeiras precisavam ter uma ótima impressão da família do ex-marido e do interior da Índia. O problema é que as coisas saíram erradas. E muito erradas, por sinal. Em um acidente mal explicado à beira do rio que cortava a propriedade da família de Chacko, Sophie Mol morreu afogada. Não é preciso dizer que a fatalidade trouxe desespero a todos os integrantes do clã. Entre as sequelas deixadas, a morte da prima mexeu para sempre com a vida de Rahel e Estha, os protagonistas dessa história. Os gêmeos foram separados pela mãe – Ammu enviou Estha para morar com o pai em Nova Delhi, enquanto permaneceu na companhia apenas da filha. Em um corte temporal brusco, a narrativa segue para junho de 1993. Depois de 24 anos do acidente fatal da menina inglesa, reencontramos Rahel e Estha, agora com 31 anos, em Ayemenem. A dupla de protagonistas não é mais as crianças sonhadoras, divertidas e carinhosas de outrora. Eles transformaram-se em adultos solitários, traumatizados e melancólicos. Depois de uma temporada vivida nos Estados Unidos, Rahel retornou para a fazenda da família na Índia. A avó cega e a mãe já tinham morrido. O tio Chacko também não vivia mais por ali. Ele partira há alguns anos para o Canadá, onde tentou reconstruir a vida depois da perda da filha e do retorno da ex-mulher à Inglaterra. Assim, a propriedade em Ayemenem era comandada pela tia Baby Kochamma, uma mulher obesa e má que nunca gostou de Ammu e dos filhos da sobrinha. Por isso, Rahel é recebida com tanta indiferença. Até mesmo o irmão dela, Estha, que fora de-devolvido (expressão do livro) há pouco tempo pelo pai quando este se mudou para a Austrália, está muito mudado e frio. O rapaz não fala (ele deixou de se comunicar verbalmente depois que foi mandado para Nova Delhi) e se comporta de um jeito muito estranho desde que voltou a morar junto com os parentes maternos. A antiga união e a natural camaradagem dos gêmeos não existem mais depois de duas décadas de distanciamento. Entretanto, os mistérios que permeiam essa trama persistem nas mentes dos leitores. Afinal, o que efetivamente ocorreu no dia da morte de Sophie Mol que afetou tão diretamente todos os integrantes da família (algo que os primeiros capítulos não detalham); e quais as consequências práticas do acidente da menina inglesa para cada um dos gêmeos nos anos seguintes (os traumas atuais da dupla de protagonistas não estão tão claros assim). “O Deus das Pequenas Coisas” possui 360 páginas. O romance está dividido em 21 capítulos. A edição brasileira ainda inclui um glossário com os principais termos em hindi, malayalam, tâmil, urdu e turco utilizados por Arundhati Roy (saiba que você irá utilizá-lo algumas vezes). Devo ter levado cerca de onze ou doze horas para concluir essa leitura na semana passada. Precisei de dois dias para ir da primeira à última página dessa obra – as manhãs e as tardes de quinta e sexta-feira foram dedicadas quase integralmente a esse trabalho. O primeiro elemento da narrativa que chama nossa atenção nessa publicação de Roy é o suspense. Com uma trama muito bem construída, a autora indiana já apresenta nos primeiros capítulos o drama dos irmãos gêmeos. Assim, sabemos logo de cara não apenas os acontecimentos tristes do Natal de 1969 (o falecimento de Sophie Mol) como as consequências futuras dessa fatalidade (a depressão e a morte precoce de Ammu, a separação de Rahel e Esthappen por muitas décadas, o exílio de Chacko no Canadá, a falência da fábrica Paraíso, Picles & Polpas) e alguns fatos contemporâneos (a morte de Mammachi e o comando da propriedade da família por Baby Kochamma). Aí um leitor mais ansioso pode perguntar: qual a graça de já relatar nas primeiras páginas tudo o que vai acontecer dali em diante?! A brincadeira está justamente aí. Arundhati Roy inverte a ordem natural das narrativas ao apresentar 99% da sua história logo no início. O que ela oculta (o tal 1% restante) é suficiente para prender a atenção dos leitores nas três centenas de páginas seguintes. A romancista indiana consegue essa façanha ao começar seu livro sumarizando a narrativa para depois encená-la. Acompanhar esse efeito (quase como ir puxando fio a fio um novelo de lã totalmente embolado) é incrível. Saiba que não faltam surpresas e reviravoltas nos capítulos finais do romance (ao melhor estilo dos thrillers dramáticos ou dos romances policiais). “O Deus das Pequenas Coisas” é uma prosa com fortes componentes poéticos. Caminhar por suas páginas é mergulhar em uma experiência literária que potencializa principalmente a sinestesia, o poder conotativo/interpretativo e a imaginação. Além disso, acabamos inseridos na realidade e no universo infantil dos protagonistas. As briguinhas, as brincadeiras, os ciúmes, a união incondicional, as diferenças, as picuinhas e as sensibilidades afloradas dos irmãos gêmeos estão presentes em cada linha do livro, principalmente nas cenas ocorridas em 1969 (quando Rahel e Estha têm apenas sete anos). É como se o narrador do romance comprasse a psique da dupla de protagonistas e reproduzisse página a página o universo infantil dos gêmeos. Isso fica evidente no uso dos apelidos pejorativos (algo tipicamente de irmãos), na imaginação fértil, no universo muitas vezes onírico da meninice e no retrato particular da realidade das crianças. Portanto, quanto mais você gostar de poesia e de tramas com elementos simbólicos, maiores serão as chances de você curtir esse romance. E essas características já começam pelo título. “O Deus das Pequenas Coisas” é um nome simplesmente espetacular. Ele junta a grandeza e a força divina (Deus é uma figura que é aparentemente maior do que tudo e todos em boa parte das culturas) às coisas banais do dia a dia (pequenezas que estão presentes na rotina de todos os mortais). Para completar, esse termo ainda faz menção a uma característica fundamental do Hinduísmo – ela é uma religião politeísta. Durante essa leitura, você descobrirá novos significados para “O Deus das Pequenas Coisas”. As explicações começam na página 27 e avançam até o final, com destaque especial para o capítulo 11. Simultaneamente, acompanhamos nessa obra uma intrincada experimentação linguística. É verdade que esse recurso só é possível pela leitura do texto original de “O Deus das Pequenas Coisas” que mistura inglês a outros idiomas locais (hindi, malayalam, tâmil, urdu e turco). Por mais que o tradutor brasileiro se esmere em reproduzir essa avalanche linguística para seus conterrâneos (e José Rubens Siqueira foi espetacular nesse sentido!), ainda sim se perde naturalmente com a tradução para o nosso idioma. O legal foi notar a preocupação do tradutor em permitir parte dessa experiência aos leitores poliglotas – daí os termos em inglês dividirem espaço com a tradução ao português e a importância do glossário no final da obra. Em “O Deus das Pequenas Coisas”, temos o humor leve e inteligente sendo mesclado o tempo inteiro com a ambientação de extrema violência. O efeito contraditório da beleza do universo alegre e infantil versus a brutalidade da vida concreta dos adultos é uma das marcas dessa narrativa. A Índia retratada por Arundhati Roy é um lugar muitíssimo perigoso (a violência acontece dentro de casa, no trabalho, na rua, na delegacia, na cidade, no campo...), de grande instabilidade política (a Guerra Fria só potencializou as já gritantes diferenças ideológicas dos indianos), injusto socialmente (a estratificação por castas inibe a mobilidade social e escancara os preconceitos), bastante pobre (o que evidencia a gritante desigualdade social) e com uma cultura por vezes retrógrada (principalmente no interior, onde o machismo, o feminicídio, o patriarcalismo, a violência policial, a corrupção e a opressão dão o tom). Há também alguns elementos fantásticos nessa história de Roy. Eles surgem logo nas primeiras páginas de “O Deus das Pequenas Coisas”. São exemplos da fantasia desse romance os movimentos sobrenaturais de Sophie Mol em seu enterro (apenas Rahel vê o comportamento do espírito da prima recém-falecida) e as sensações premonitórias e/ou intuitivas dos irmãos gêmeos (eles vivenciam o que o outro passou mesmo não estando presente em cena). O componente fantástico é, portanto, sutil e complementar à trama, não sendo a parte essencial do conflito do romance. Como um bom exemplar da literatura contemporânea, “O Deus das Pequenas Coisas” possui forte intertextualidade literária, cinematográfica e televisiva. No caso dos dois primeiros tipos de referência intertextual, o livro de Roy faz menção principalmente à cultura norte-americana e inglesa. Já quando o assunto é televisão, o diálogo intertextual é com produções locais (algo que o leitor estrangeiro não tem tanta bagagem para entender as citações). Outro aspecto brilhante desse trabalho ficcional de Arundhati Roy está no retrato da realidade indiana. A romancista coloca o dedo em muitas feridas sociais, culturais, políticas e econômicas de sua nação. Não à toa, ela foi fortemente criticada por políticos, jornalistas e artistas locais. Em “O Deus das Pequenas Coisas”, acompanhamos a exuberante paisagem da Índia, as particularidades do clima de Monções (metade do ano com chuva e a outra metade do ano sem chuva nenhuma), a crueldade do sistema de castas (tocáveis e intocáveis), o machismo da sociedade tradicional indiana, a importância da economia do campo, os choques religiosos (hindus versus cristãos sírios), a atuação dos movimentos marxistas no final da década de 1960, os governos corruptos do país (nas esferas federal, estadual e municipal), a violência policial, a importância social e religiosa dos rios, os espetáculos cênico-dançantes (como o Kuthambalam), a gastronomia local e a valorização de tudo aquilo que vem do exterior, principalmente dos Estados Unidos e da Europa (visão e comportamento tipicamente colonialista dos indianos). O narrador em terceira pessoa é do tipo onipresente e onisciente. Ele parece, no início, próximo/colado aos irmãos gêmeos. Porém, à medida que os capítulos vão evoluindo, ele não se furta em largá-los para acompanhar as outras personagens da trama (em outros lugares e em outras épocas). Sinceramente, fiquei um pouco incomodado com isso. Esse possível problema de foco narrativo (uso a palavra possível porque não sei o quanto ele é realmente um erro ou se trata de uma invencionice da autora) foi o único aspecto mais controverso de “O Deus das Pequenas Coisas” do ponto de vista narrativo. Em suma, temos aqui uma obra-prima da literatura indiana e da literatura contemporânea em língua inglesa. Fiquei tão encantado com o texto ficcional de Arundhati Roy que já coloquei “O Mistério da Felicidade Absoluta” na minha lista de leitura dos próximos meses. Vamos ver se consigo analisar o segundo romance da autora indiana até o começo do ano que vem aqui na coluna Livros – Crítica Literária. Acho que os leitores do Bonas Histórias merecem saber se a nova narrativa longa de Roy é tão boa quanto a primeira. Não sei o porquê, mas tenho a intuição de que “O Mistério da Felicidade Absoluta” seja tão encantador quanto “O Deus das Pequenas Coisas”. Afinal, estamos falando de uma autora talentosa e que não tem pressa de apresentar suas criações ficcionais. Alguém que fica vinte anos para lançar seu segundo romance (imagine, nesse meio tempo, a pressão das editoras mundo à fora para o lançamento de um novo título de Arundhati Roy!) deve ter reservado uma nova experiência literária gratificante e surpreendente para seus leitores. Quando eu ler “O Mistério da Felicidade Absoluta”, prometo contar minhas impressões no blog. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Cinco é o Número Perfeito - O thriller noir de Igort
Escrito e dirigido por Igor Tuveri e estrelado por Toni Servillo, o longa-metragem traz para o cinema uma história em quadrinhos de grande sucesso na Itália. Na última quinta-feira, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano de 2021 entrou no ar. Pela segunda vez consecutiva, o festival cinematográfico que traz os principais filmes da Itália é realizado de forma online. De 17 a 27 de junho, 14 produções (11 longas-metragens inéditos no Brasil e 3 títulos antigos da diretora Alice Rohrwacher, a homenageada desse ano) serão exibidas gratuitamente no Looke, uma das plataformas de streaming que todo bom cinéfilo nacional precisa conhecer/ter. Em outras palavras, temos muitas novidades na nova edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano que poderiam render vários posts aqui na coluna Cinema. Contudo, vou tentar sintetizar as boas novas em uma publicação só. Vamos ver se vou conseguir. Quem frequenta há mais tempo as páginas do Bonas Histórias já sabe que, ao lado do Festival Varilux de Cinema Francês (saudades de ti, Lou de Laâge!), esse é um dos eventos cinematográficos que mais gosto de acompanhar. Em 2020, aprovei a maior parte do cardápio do festival italiano. “Nápoles Velada” (Napoli Velata: 2017), “Desafio de um Campeão” (Il Campione: 2019), “O Rei de Roma” (Io Sono Tempesta: 2018) e “Testemunha Invisível” (Il Testimone Invisibile: 2018), por exemplo, eram ótimos filmes. É verdade que tiveram algumas barcas furadas no meio do caminho, principalmente comédias de gosto duvidoso como “Bendita Loucura” (Benedetta Follia: 2018) e “E Agora? A Mamãe Saiu de Férias!” (10 Giorni Senza Mamma: 2019). Ou seja, por melhor que seja, não existe festival cinematográfico perfeito (ainda mais quando se insere comédias italianas contemporâneas). Falando novamente da edição de 2021, achei válida a proposta de manter a Festa do Cinema Italiano desse ano longe dos cinemas. Afinal, a pandemia ainda não foi totalmente superada para quem vive abaixo da Linha do Equador (apesar da insistência dos terraplanistas de plantão de tentarem nos convencer que 1 + 1 não é igual a 2). E para completar o quadro desolador (pobre Brasil!), o público ainda não voltou a frequentar as telonas como (d)antes. Digo por mim mesmo – esse ano ainda não pisei em uma sala de cinema (algo que não tenho o menor orgulho de afirmar). Minha última sessão presencial foi em dezembro, quando conferi “Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” (2019). Os participantes da edição de 2020 já estão familiarizados com a dinâmica do festival. A única alteração mais substancial do 8 ½ Festa do Cinema Italiano de 2021 é que a maioria dos longas-metragens não está disponível para o público assistir quando quiser (uma das grandes vantagens da última edição; e uma inovação trazida pelo Festival Varilux em Casa). Agora, as sessões são diárias. Elas começam às 18 horas e têm duração de 24 horas. Nesse período, dois filmes inéditos são apresentados de cada vez. Cada título é reprisado, mais tarde, em uma única oportunidade. Confesso que preferia a dinâmica anterior, mas entendo a mudança. Ela força o público a acompanhar com mais assiduidade o catálogo de filmes. Quem é mais procrastinador chegava ao último dia do evento sem ter visto nada ou quase nada. Nessa nova edição, as únicas produções disponíveis o tempo inteiro são as da seleção de Alice Rohrwacher: “Corpo Celeste” (2011), “As Maravilhas” (Le Meraviglie: 2014) e “Una Canzone – 9x10 Novanta” (2014). Vale a pena dizer que “Omelia Contadina” (2020), o mais recente longa-metragem da diretora, não está disponível full time. Ele foi classificado como uma obra inédita. Portanto, fique de olho nas sessões diárias para não perder nada. No primeiro dia da Festa do Cinema Italiano de 2021, assisti logo de cara aos dois filmes disponíveis: “Cinco é o Número Perfeito” (5 è il Numero Perfetto: 2019), suspense policial de Igor Tuveri e “As Irmãs Macaluso” (Le Sorelle Macaluso), drama familiar de Emma Dante. Apesar de ter gostado mais do segundo título, que me lembrou muito os romances de Elena Ferrante, a autora que vamos analisar no próximo bimestre no Desafio Literário, optei por analisar o primeiro longa-metragem no post de hoje. Afinal, o enredo dessa produção foi extraído de um graphic novel de Tuveri que se tornou um grande sucesso na Itália. Como estava curioso para conhecer essa história, resolvei assistir ao filme. Minha ideia é comentar depois e com mais profundidade tanto “Irmãs Macaluso” quanto “A Vida Solitária de Antônio Ligabue” (Volevo Nascondermi: 2020), premiado drama de Giorgio Diritti que será exibido na próxima terça (22) e na sexta-feira (26). Vamos ver se consigo fazer essas análises na coluna Cinema nos próximos dias. De qualquer forma, anote aí para você conferir esses três filmes. Na minha opinião, eles são os melhores dessa edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. “Cinco é o Número Perfeito” marcou a estreia de Igor Tuveri, mais conhecido pelo apelido de Igort e por seus trabalhos como ilustrador, na direção cinematográfica. A história desse filme foi publicada originalmente, em 2002, em quadrinhos na Itália. Desenvolvido ao longo de dez anos, o HQ homônimo de Igort se tornou um grande sucesso. As ilustrações impecáveis (ao estilo noir) e a trama original (retrato dos bastidores da máfia napolitana durante a década de 1970) foram as responsáveis por esse êxito. Ou seja, se temos aqui uma história muito batida (quem aguenta assistir ou ler a mais uma narrativa mafiosa, hein?!), ao menos o graphic novel de Igort foi desenvolvido com elementos diferenciados tanto na estética quanto em seu conteúdo. Prova maior da qualidade da versão em HQ de “Cinco é o Número Perfeito” foi a série de prêmios que o livro conquistou. O principal deles foi o Prêmio Livro do Ano da Feira do Livro de Frankfurt. Para quem não conhece, a Feira do Livro de Frankfurt é simplesmente o maior evento editorial do planeta! Por falar nisso, abração, Eduardo! Ao lado do sucesso da crítica, Igort também foi agraciado pelo reconhecimento do público leitor. Lançado em vários países, esse graphic novel se tornou um best-seller na Itália e na Europa. Orçada em aproximadamente 4 milhões de euros, a versão cinematográfica de “Cinco é o Número Perfeito” tem em seu elenco muitas figuras veteranas do cinema italiano. Destaque para o trio de protagonistas: Toni Servillo, Valeria Golino e Carlo Buccirosso. Da nova geração, a ênfase vai para Lorenzo Lancellotti, Emanuele Valenti e Vincenzo Nemolato. Além de dirigir “Cinco é o Número Perfeito”, Igort foi o responsável por adaptar seu HQ para o longa-metragem. Esse filme foi exibido pela primeira vez no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2019. Lançado no circuito comercial italiano pouco depois, ele chegou aos cinemas da Itália em agosto do ano retrasado. Ou seja, ele passou inóculo ao caos sanitário que o país mediterrâneo vivenciou no início do ano passado. Quando a pandemia do novo coronavírus chegou às terras italianas (lembremos o que isso representou para essa nação em 2020), o longa-metragem já estava saindo de cartaz. O que a quarentena de combate à Covid-19 atrapalhou foi o lançamento internacional de “Cinco é o Número Perfeito”. Com algumas exceções, por exemplo a França, vários cinemas europeus não puderam ainda colocar a produção de Igort em cartaz. No Brasil, isso também aconteceu. O filme ainda não ganhou as salas nacionais. E, infelizmente, não há previsão para quando ele irá para o circuito comercial brasileiro – quem sabe no final de 2021 ou em meados de 2022. O enredo de “Cinco é o Número Perfeito” se passa em Nápoles, em setembro de 1972. Peppino Lo Cicero (interpretado por Toni Servillo), chamado carinhosamente pelos amigos de Peppi, vive uma tranquila aposentadoria em sua cidade natal. Depois de ter trabalhado por décadas como assassino profissional de um clã mafioso, Peppino agora passa os dias longe dos crimes em uma rotina sossegada. Viúvo, Peppi alegra-se de ver o único filho, Nino (Lorenzo Lancellotti), seguir seus passos na nobre profissão que ele tão bem desempenhou por anos a fio. O jovem trabalha como matador para a mesma família napolitana que empregou o pai. Por isso, o orgulho do velho Peppino Lo Cicero, um mito entre os criminosos de sua geração. Porém, em uma noite aparentemente normal de trabalho, Nino é surpreendido por Ciro (Vincenzo Nemolato), sua vítima-alvo naquela oportunidade. Ao invés de cair no papo do jovem matador de aluguel que viera visitá-lo, Ciro toma a iniciativa e mata o homem que iria assassiná-lo. Quando Peppi descobre o que aconteceu com o filho, ele enlouquece. Inconformado com o destino de seu herdeiro, o velho assassino profissional jura vingança. Sem pensar nas consequências dos seus atos, Peppino Lo Cicero mata o chefão da máfia que o empregou por tanto tempo e que era o responsável pelo trabalho do filho. Em sua visão, o capo foi um dos culpados pela morte de Nino (afinal, não o protegera das ações adversárias). Em seguida, Peppi começa a procurar Ciro. Sua intenção é, obviamente, executá-lo. Como o rapaz é funcionário de outra família mafiosa de Nápoles, o experiente assassino não pensa duas vezes e decreta guerra contra o clã que protege seu maior inimigo. Ou seja, em pouco tempo, Peppino se torna inimigo de boa parte dos clãs napolitanos que constituem a Máfia local. Sozinho contra inimigos tão poderosos (e numerosos), Peppi recorre aos seus velhos amigos, Rita (Valeria Golino) e Totò o´Macellaio (Carlo Buccirosso). O trio de veteranos precisará enfrentar um exército de mafiosos para, em primeiro lugar, sobreviver, e, depois, achar o assassino de Nino. Na cabeça de Peppino, qualquer coisa que o faça colocar as mãos em Ciro vale a pena. Esse é o seu plano nem que para isso ele se torne alvo da ira da Máfia napolitana inteira. Dessa maneira, começa a maior guerra entre os criminosos do Sul da Itália que se tem notícia. “Cinco é o Número Perfeito” tem uma hora e quarenta minutos de duração. O filme pode ser classificado como um thriller dramático, um drama mafioso, um suspense de ação, um bang-bang napolitano, uma aventura vintage ou uma trama de super-herói às avessas. Para os fãs da história em quadrinhos de Igort, talvez esse longa-metragem possa ser encarado como simplesmente a versão cinematográfica da principal criação do ilustrador e escritor italiano. O primeiro aspecto que chama a atenção em “Cinco é o Número Perfeito” é a sua ambientação. Apesar do filme se passar em Nápoles, assistimos a uma cidade totalmente diferente do que estamos habituados a ver no cinema, na literatura e, por que não, no dia a dia (realidade). Esqueça, portanto, o sol, o calor, a aglomeração de pessoas, a gritaria, a pobreza, a simpatia e o colorido das paisagens napolitanas. Em “Cinco é o Número Perfeito”, temos o lado soturno da localidade mais icônica do sul da Itália. A maioria das cenas se passa à noite. Em meio à escuridão, à insistente chuva, ao silêncio da cidade dormindo, ao perigo das ruas desabitadas e à presença apenas da parcela marginal da sociedade napolitana, Peppino Lo Cicero precisa sobreviver como pode enquanto tenta vingar a morte do filho. O clima dessa trama possui o estilo noir. Por isso, há o predomínio de imagens em preto e branco e o acentuado contraste entre claro e escuro. Além disso, quase não temos figuras corretas ou boazinhas no enredo do filme. Todo mundo em “Cinco é o Número Perfeito” é, de certa forma, vilão. O conflito se dá justamente entre os anti-heróis (ex-mafiosos que não se arrependeram do passado com muito sangue nas mãos e que desejam voltar à ativa) e os vilões tradicionais (os mafiosos típicos de Nápoles que ainda estão na ativa e que estão dispostos a matar quem aparecer pela frente). Obviamente, a escolha por parte do espectador para quem torcer é direcionada pelo roteirista, por mais ilógica (ou seria insensata?) que seja a atitude de Peppi e de sua trupe de colegas. Não é possível comentar “Cinco é o Número Perfeito” sem falar de sua exuberante fotografia. Explorando todas as nuances da atmosfera noir e dialogando o tempo inteiro com o universo dos HQs, o filme de Igort tem na sua estética o ponto alto. Não é errado dizer que este é um longa-metragem que salta aos olhos. Em vários momentos, não é preciso nem som para curtir o que se passa na tela. Temos aqui também um humor forte e irônico (uma das marcas da cultura italiana). As passagens mais engraçadas são relativas à inversão dos papéis de bandidos e mocinhos. Na visão da família Lo Cicero, os mafiosos são heróis que devem ser exaltados e admirados. E os policiais, os governantes e a sociedade civil são os adversários a ser combatidos. Achei excelente essa mudança de perspectiva (ao menos é divertida e original). Além disso, o humor está presente na crítica aos HQs norte-americanos e à cultura da América do Norte. Nesse sentido, é um paradoxo o fato de “Cinco é o Número Perfeito” se parecer esteticamente tanto com “Sin City – A Cidade do Pecado” (Sin City: 2005), filme norte-americano baseado também em um graphic novel. Por falar em história em quadrinhos, repare que a intertextualidade do enredo do filme com esse gênero narrativo vai além de sua estética. “Cinco é o Número Perfeito” possui em sua trama várias citações diretas a HQs, principalmente de origem italiana. Confesso que alguns títulos, personagens e heróis mencionados no longa-metragem eu não conheço. Talvez os fãs dessa arte possam conhecer. Já que mencionei a intertextualidade, há também várias referências à literatura e ao cinema nesse filme. Nesse último caso, é evidente a analogia aos antigos Western. Como estamos tratando de uma produção italiana, o correto seria citar o Spaghetti Western. Isso fica evidente nas músicas (várias delas possuem o estilo do velho bang-bang), nas tomadas de câmera (principalmente nas cenas de duelo) e na ambientação (o cenário é moderno e urbano, mas o clima de tensão e perigo é 100% dos faroestes clássicos). O desfecho de “Cinco é o Número Perfeito” é surpreendente. Apesar de inverossímeis, as cenas finais conseguem trazer uma grande reviravolta ao enredo do filme. Gosto disso! Por mais que o desenlace pareça caminhar para um lado aparentemente óbvio, no fim das contas ele vai para outro totalmente distinto (quase um drible do roteirista nos espectadores). Esse é um filme de pancadaria pura (ou melhor, de tiros, muitos tiros). Esse expediente pode agradar aos fãs do gênero ação, mas é inegável que esse recurso esconda a falta de um enredo mais elaborado. Sabe quando você tem diante de si um longa ao melhor estilo de Terence Hill e Bud Spencer?! Pois foi essa a minha impressão. A diferença é que nenhuma personagem e nenhum ator de “Cinco é o Número Perfeito” têm a graça e o carisma da dupla de “Trinity é o Meu Nome” (Lo Chiamavano Trinità: 1970). O principal ponto fraco do longa-metragem de Igort está em várias cenas malfeitas. Onde já se viu o cara não ficar nem um pouco molhado depois de pegar chuva, hein?! Isso acontece várias vezes. A questão da chuva é um problema recorrente do início ao final da produção. Em uma das cenas finais, a chuva é vista do lado de dentro do carro, mas quando a imagem é geral (externa), o tempo está, surpreendentemente, claro. E o que dizer, então, de revólveres da década de 1970 que não precisam ser recarregados NUNCA. Peppi e Totó atiram sem parar sem nunca precisarem colocar novos cartuchos de munição em suas armas. E o que você acha do homem que vai se barbear mesmo estando com a barba totalmente feita, hein? Ou seja, os principais equívocos de “Cinco é o Número Perfeito” estão em tropeços de continuidade, nos detalhes das filmagens e na falta de verossimilhança, algo que deixa o espectador mais exigente muito decepcionado. Outra questão que me incomodou foi o número excessivo de personagens caricatas. O exagero cênico (que lembra muito as novelas mexicanas) e os clichês de composição dos tipos retratados (que remetem aos filmes B) dão uma impressão de que não há nenhuma novidade em cena. Essa sensação se intensifica por causa do uso das várias referências culturais: HQ, Western, universo mafioso e romance/filme noir. Não se surpreenda se, ao final da sessão de “Cinco é o Número Perfeito”, você sentir um vazio existencial-artístico, como se as quase duas horas de filme não tivessem contribuído em nada para sua experiência cinematográfica. Além disso, as cenas de ação, evidentemente bem-produzidas, não trazem nada de novo. É só tiro para todo o lado. E, curiosamente, o protagonista e seus amigos saem quase sempre ilesos da matança generalizada. Eles atingem dezenas de adversários (ou seria centenas?) e raramente um tiro dos adversários chegam perto deles. É algo difícil de engolir (em um longa-metragem mais sério!). A atuação do elenco não ajudou, mas também não atrapalhou. Os problemas principais do filme passam longe do trabalho dos atores e atrizes envolvidos nesse projeto. De modo geral, não gostei dessa estreia de Igort na direção. “Cinco é o Número Perfeito” é um filme plasticamente bonito (sua fotografia é inegavelmente estupenda), mas faltou cuidados com o roteiro e com a execução de várias cenas. Minha impressão é que Igor Tuveri se preocupou mais em ser um impecável ilustrador (como se ainda estivesse produzindo um HQ) do que um diretor de cinema (seu novo posto aqui que exigia um rigor nos detalhes e nos diferentes aspectos da produção audiovisual). Assista, a seguir, ao trailer de “Cinco é o Número Perfeito”: O filme de Igort será reprisado na sessão da próxima terça-feira, dia 22, que começa às 18h. Quem se interessou, saiba que “Cinco é o Número Perfeito” ficará disponível até quarta-feira, 23, às 17h59, no Looke. Nesse dia, irei assistir a “A Vida Solitária de Antônio Ligabue”. Até agora, já conferi cinco títulos da edição de 2021 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Além de “Cinco é o Número Perfeito” e “As Irmãs Macaluso”, vi a comédia-romântica “Bangla” (2019), o thriller de terror “Fábulas Sombrias” (Favolacce: 2020) e a comédia pastelão “Troca Tudo!” (Cambio Tutto!: 2020). Admito que nenhum deles me empolgou. Mas ainda há muito festival nos próximos dias, né? Hoje vou ver o épico “Rômulo & Remo – O Primeiro Rei” (Il Primo Re: 2019) e o drama “Irmãos à Italiana” (Padrenostro: 2020). Bons filmes e um ótimo festival a todos! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Hermes
Em nova entrevista de 2021, Darico Nobar conversa com Hermes, personagem de Morangos Mofados, coletânea de contos de Caio Fernando Abreu. Vocalista: Amor, meu grande amor/Não chegue na hora marcada/Assim como as canções/Como as paixões e as palavras/Me veja nos seus olhos/Na minha cara lavada/Me venha sem saber/Se sou fogo ou se sou água. [Tão logo o apresentador gira o punho e fecha os dedos da mão, em um gesto totalmente cênico, a banda e o cantor interrompem a música. A plateia aplaude a coreografia executada no palco]. Darico Nobar: Se não me engano, essa canção foi imortalizada na voz de Angela Ro Ro. [Fala baixinho como se conversasse consigo]. Boa noite, plateia querida do Talk Show Literário! [Dessa vez, solta o vozeirão que se propaga pelo auditório]. Plateia: Boooooooooooa, noooooooooooite! Darico Nobar: No programa de hoje, meu convidado é um jovem protagonista dos contos de Caio Fernando Abreu. Agora, no palco do nosso talk show, Hermes! [As câmeras da atração televisiva procuram em vão o entrevistado pelos quatro cantos. Ninguém surge aos olhos do público presente tanto no auditório quanto em casa]. Darico Nobar: Hermes. Eu chamei Hermes! [Repete mais alto, quase gritando]. [Na escuridão funda do auditório, surge um jovem magricelo de blusa verde-oliva. Com a fisionomia um tanto assustada e com fundas olheiras, como se fugisse de uma caverna secreta e perigosa, ele corre em direção às luzes do palco em passos trôpegos]. Hermes: Sou eu. Eu sou o Hermes. [Joga-se no sofá ao lado do apresentador]. Darico Nobar: Então você é que é o tal do Hermes? Hermes: Sim, senhor. [Olha para trás como se estivesse sendo seguido ou como se acabara de perder algo]. Darico Nobar: Muito prazer. O que aconteceu?! Você parece assustado, meu rapaz. Por que não subiu ao palco quando eu anunciei seu nome pela primeira vez? Hermes: Não ouvi. Me desculpe, meu senhor. Estava com os pensamentos longe. [Uma mosca esvoaça perto de seu nariz. Ele tenta sem sucesso matá-la. O jeito atabalhoado do convidado provoca um coro de risadas na plateia]. Darico Nobar: Sem problema. [Olha atentamente para o entrevistado, que insiste em ficar espiando para trás]. Está com medo do programa? Sente medo de mim, Hermes? Hermes: Não sei... Bom, agora no comecinho, talvez esteja um pouco, meu senhor. Darico Nobar: Não precisa me chamar de senhor. [Passa os dedos em sua volumosa barba branca]. E não fique preocupado, meu jovem. Só vamos conversar um pouco. Até onde sei, bater um papo com alguém não arranca pedaço de ninguém. Hermes: Nunca fiz isso. Darico Nobar: O que você nunca fez: bater um papo ou arrancar um pedaço? Hermes: Os dois. No fundo é tudo a mesma coisa. Darico Nobar: Sério? Não acredito. Um rapagão do seu tamanho já era para estar habituado, Hermes: É verdade. Darico Nobar: Não se preocupe. Estou aqui para ensiná-lo como se faz. Quer? [Parece que ia pegar os papéis na mesa, mas os dedos que acariciavam a própria face desviam-se para pousar no joelho do entrevistado]. Hermes: Quero. [Novas risadinhas são ouvidas na plateia]. Darico Nobar: Quantos anos você tem, Hermes? Hermes: Dezessete, meu senhor. Quase dezoito. Darico Nobar: Me chame de Darico, está bem? Não precisamos de tantas formalidades. [O convidado assente com a cabeça). Já trabalha? Hermes: Num escritório. Sou arrimo de família. [Pisca os olhos excessivamente]. Darico Nobar: E vai prestar vestibular, imagino? [O convidado balança outra vez a cabeça afirmativamente]. E vai fazer o quê? Engenharia, direito, medicina? Hermes: Não. Darico Nobar: Odontologia? Agronomia? Veterinária? Hermes: Filosofia, meu senhor. Darico Nobar: Olha que interessante! Então quer dizer que você vai ser filósofo, hein? Então me conta, por qual tipo de filosofia você se sente mais atraído? Hermes: Não sei exatamente. Outro dia andei lendo um cara aí. Leibniz, aquele das mônadas, conhece? [O apresentador balança a cabeça para os lados]. As mônadas. É um cara aí, ele dizia que tudo no universo é, assim que nem janelas fechadas, como caixas. Mônadas, entende? Separadas umas das outras. Darico Nobar: Tudo? Hermes: É, tudo, eu acho. As casas, as pessoas, cada uma delas. Os animais, as plantas, tudo. Cada um, uma mônada. Fechada. Darico Nobar: É isso o que você quer estudar na faculdade? Hermes: Sim, meu sargento. Darico Nobar: Sargento?! Hermes: Perdão, meu senhor. Força do hábito. Darico Nobar: Hermes, você fala como se estivesse nas Forças Armadas. Você já se alistou? Hermes: Sim, meu senhor. Darico Nobar: Exército, suponho. [Entrevistado faz não com a cabeça]. Aeronáutica, então? [Outro não]. Portanto, foi na Marinha. [Novamente vem a negativa]. Pera aí! Não entendi. Se você não se alistou no Exército, na Aeronáutica e na Marinha, a quem você serviu? Hermes: Ao Sargento Garcia. Darico Nobar: Sargento Garcia?! [Em contraste com o público na plateia que se diverte com as respostas do convidado, o entrevistador permanece sério, tentando entender as palavras vindas da figura sentada ao seu lado]. O Sargento Garcia é aquele do Zorro? Hermes: Senhor, não. Garcia é como a bagualada toda o chama no quartel. Luiz Garcia de Souza, o Sargento Garcia, é oficial do 3º Regimento de Cavalaria de Guarda de Ozório, em Porto Alegre. Darico Nobar: Não conheço. Hermes: Ele tem um bigode grosso como um mandruvá cabeludo rastejando em volta da boca. O olho verde frio de cobra quase oculto sob as sobrancelhas unidas em ângulo agudo sobre o nariz. Braços e peito peludos, cabelos quase raspados, duros de brilhantina, e um cheiro de bosta quente de cavalo, corpos sujos de machos e cigarros. Darico Nobar: Não conheço mesmo. Hermes: Ele tem uma verruga preta na virilha e uma bunda muito branca, feito leite pasteurizado que azedou, sabe? E tem um dos sacos muito murcho. Tá sempre gritando com a tropa, não tem muita paciência com a gente. Só não tem pressa quando faz o exame médico dos recrutas ou quando leva alguém para os quartinhos fedorentos da Casa da Isadora. Darico Nobar: Eu já disse que não conheço o Luizão!!! [Seu grito escancara a perda súbita de paciência]. Quero dizer, não conheço o Sargento Garcia. [Tentando retomar a calma, volta a falar com uma voz melosa]. Desculpe-me, Hermes. Acho que me excedi. Diga-me, meu rapaz, o que tem de tão especial nesse Sargento Garcia? Hermes: Ele disse... ele logo viu que eu era diferente do resto. Darico Nobar: Diferente como? Hermes: Como? Como um guri fino, delicado, bonito, de família certinha, educado em bom colégio. Ele tá mais acostumado com perobão mais grosso que dedo destroncado. Darico Nobar: Nesse sentido, ele tem toda a razão. É raríssimo encontrarmos um rapagão de boa aparência e que ainda seja inteligente a ponto de debater questões existencialistas. Não é? [O rapaz não responde]. Você tem algum preconceito contra os homossexuais? Hermes: Não, meu senhor. Darico Nobar: Tem certeza? Hermes: Eles são apenas corpos que por acaso são de homens gostando de outros corpos, que por acaso são de homens também. Ou são apenas corpos que por acaso são de mulheres curtindo outros corpos, que por acaso são de mulheres também. Darico Nobar: Tá aí uma perspectiva sábia. Hermes: É assim que as coisas são, meu senhor. Que se há de fazer, que se há de fazer? O senhor tem um cigarro aí? Darico Nobar: Você fuma? Hermes: Comecei ontem. Darico Nobar: Eu não tenho um aqui agora... [Fica alguns segundos em silêncio. Parece pensar antes de prosseguir]. Mas tenho um maço no meu camarim. Se você quiser dar uma passadinha lá depois do programa, podemos conversar com mais calma. Lá ninguém vai saber que dei um cigarro para um menor de idade [Suas mãos avançam para a coxa do rapaz]. Isso é proibido. Não quero que ninguém saiba. [Fala quase sussurrando]. Hermes: Tá. Não falo nada. Mas não posso demorar. Se eu chegar em casa muito tarde minha mãe fica uma fúria. Darico Nobar: Não vamos demorar, eu acho. E o meu camarim, você vai ver, é um lugar fino, bacanudo demais. Lá a gente pode ficar realmente à vontade, sabe como é. Ninguém incomoda. [Sua mão sobe um pouco mais]. E ainda servem comida fresquinha. Tem frutas de todos os gostos. Os morangos são ótimos! E carne novinha, de primeira. Hermes: Tá bem. Darico Nobar: Pessoal, essa foi a entrevista de hoje. [Olha para a câmera 3, posicionada ao lado de sua mesa]. Obrigado por vir ao Talk Show Literário, Hermes, e por conversar tão francamente com a gente. [Na imagem geral, é possível ver o rapaz acenar levemente com a cabeça]. Na próxima semana, voltaremos com mais um programa ao vivo e exclusivo para vocês. Até a próxima, galera! [A câmera 1, em uma tomada ampla, mostra o auditório aplaudindo o apresentador e o convidado, que saem apressados para o interior do teatro. Sem a dupla principal, a imagem caminha, então, em direção à banda. No canto esquerdo do palco, os músicos tocam uma nova canção enquanto os créditos da atração televisiva sobem na tela]. Vocalista: Que queres tu de mim/Que fazes junto a mim/Se tudo está perdido, amor/Que mais me podes dar/Se nada tens a dar/Que a marca de uma nova dor/Loucura reviver/Inútil se querer/O amor que não se tem. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. 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