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- Livros: A Arte do Romance - O ensaio literário de Milan Kundera
Milan Kundera faz parte do grupo de artistas que não gosta da imprensa. Ele faz qualquer coisa para não precisar falar sobre seu trabalho de escritor. Essa postura introspectiva e avessa aos holofotes prosseguiu até mesmo durante as décadas de 1980 e 1990, quando o romancista tcheco se tornou um best-seller mundial. Ao longo da carreira, Kundera concedeu raras entrevistas e publicou pouquíssimos artigos literários. Certa vez, ele chegou a escrever: “Maldito seja o escritor que permitiu pela primeira vez que um jornalista reproduzisse livremente suas opiniões. Ele começou o processo que só poderá levar o escritor ao desaparecimento: aquele que é responsável por cada uma de suas palavras. No entanto, gosto muito do diálogo (forma literária maior) e fiquei feliz com muitos colóquios refletidos, compostos, redigidos em concordância comigo. Ora, a entrevista tal como é praticada em geral não tem nada a ver com um diálogo (...). Em junho de 1985, decidi firmemente: entrevistas nunca mais”. Infelizmente, quem mais perde com a ausência de comunicação de Kundera é o público que o admira. Por isso, os fãs do autor de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras) ficaram extremamente empolgados quando, em 1986, foi publicado “A Arte do Romance” (Companhia das Letras). Neste ensaio literário, o escritor tcheco reúne sete textos independentes em que o assunto principal é o desenvolvimento da literatura europeia e os aspectos de sua própria criação ficcional. Aproveitando-se de entrevistas, artigos, palestras e discursos realizados no passado, Milan Kundera produziu uma reflexão profunda, abrangente e extremamente atual sobre vários aspectos da produção romanesca: por que um romancista escreve?; qual o papel do romance?; quais os perigos da tradução?; como é a estrutura e a estética (estilo literário) de sua literatura?; quem foram os autores que o influenciaram?; e quais as mensagens fundamentais de suas obras? São temas que muito possivelmente os leitores mais apaixonados de Kundera iriam questionar o autor em algum momento. O resultado de “A Arte do Romance” é incrível, além de ser um texto muito original! Eu já havia lido esta obra há dois anos, quando a encontrei na estante da Livraria Cultura da Avenida Paulista. Agora, reli este ensaio com mais atenção e minha percepção sobre sua excelência foi mantida integralmente. O leitor acompanha estupefato as análises profundas e inteligentes de um escritor maduro e senhor de seu ofício. Milan Kundera prova que por trás de um escritor genial, há uma mente que não apenas conhece cada aspecto da história da literatura e dos clássicos que o influenciaram como refletiu bastante sobre cada detalhe de seu estilo narrativo. É uma delícia percorrer as páginas de “A Arte do Romance” e descobrir os porquês das características dos protagonistas de Kundera, de suas tramas e dos assuntos abordados em seus romances. Quando este livro foi publicado, Milan Kundera já era um best-seller mundial e havia conquistado os principais prêmios literários de sua carreira. Ele ganhou, por exemplo, o Commonwealth Award de Literatura de 1981 e o Prêmio Jerusalém de 1985, ambos pelo conjunto da obra. Seu principal sucesso também já havia sido lançado. “A Insustentável Leveza do Ser”, romance icônico de sua década, é de 1983. Por isso, o autor tinha muita coisa para falar e já havia angariado uma plateia ávida por suas palavras. Evidentemente, o público-alvo deste ensaio é constituído por quem se interessa pelos aspectos conceituais, estruturais e práticos da produção da literatura (estudantes de Letras, jovens escritores, críticos literários...) e não pelos simples leitores recreativos das histórias ficcionais. “A Arte do Romance” possui 168 páginas. Seus sete ensaios (chamados de partes pelo autor) receberam os seguintes títulos: “A Herança Depreciada de Cervantes”, “Diálogo sobre a Arte do Romance”, “Anotações Inspiradas por Os Sonâmbulos”, “Diálogo sobre a Arte da Composição”, “Em Algum Lugar do Passado”, “Sessenta e Três Palavras” e “Discurso de Jerusalém: o Romance e a Europa”. Na primeira parte/ensaio, “A Herança Depreciada de Cervantes”, Kundera exalta o pioneirismo de “Don Quixote”, considerado por muitos como o primeiro romance. O tcheco faz uma retrospectiva da história da literatura europeia, de Miguel de Cervantes até a atualidade, período intitulado de “crise da humanidade europeia” e que levaria ao fim dos romances. Em “Diálogo sobre a Arte do Romance”, acompanhamos a entrevista concedida por Kundera a Christian Salmon, então crítico da Paris Review. A dupla debate de maneira profunda as particularidades da literatura de Milan Kundera (obras, personagens, estrutura e estilo) e a essência das tramas ficcionais europeias. O terceiro ensaio do livro, “Anotações Inspiradas por Os Sonâmbulos”, apresenta uma análise profunda do autor sobre a trilogia de Hermann Broch, escritor alemão do início do século XX. Nessas páginas, Kundera comenta os aspectos formais das personagens e das ações da série “Os Sonâmbulos”, comparando-os às obras de outros escritores clássicos. Em “Diálogo sobre a Arte da Composição”, voltamos a acompanhar a segunda parte da entrevista concedida a Christian Salmon. Agora, o escritor tcheco volta seu olhar para os detalhes da composição de seus livros. “Em Algum Lugar do Passado”, o quinto ensaio da obra, é a análise sobre o legado das obras de Franz Kafka, o mais famoso autor tcheco da história. “Sessenta e Três Palavras”, por sua vez, começa com Kundera relatando suas frustrações com os trabalhos de vários dos tradutores de suas obras. Assim, ele decidiu produzir um pequeno dicionário pessoal com alguns termos. Com isso, o autor acredita conseguir externar parte da sua concepção de mundo e de literatura para os leitores que não conhecem a língua tcheca. E o último ensaio, “Discurso de Jerusalém: o Romance e a Europa”, é a transcrição do discurso do autor durante a entrega do Prêmio Jerusalém. Naquela oportunidade, Milan Kundera falou sobre a trajetória histórica do romance e o seu papel para a formação da identidade cultural europeia. Além de muito agradável, “A Arte do Romance” é uma leitura extremamente rápida. Não devo ter demorado mais do que três horas para percorrer este livro de ponta a aponta na última segunda-feira à noite. Quem gosta de Teoria Literária, quem aprecia a análise dos clássicos literários e quem se amarra na compreensão dos estilos narrativos, não pode deixar de conhecer “A Arte do Romance”. Se Milan Kundera é normalmente tímido e retraído no contato pessoal, quando ele escreve acaba se agigantando. Além de ter muita coisa interessante para externar, ele também possui grande ciência da sua arte e das suas escolhas literárias. Nota-se que nada foi por acaso na estruturação de seus romances e na construção de suas personagens. Chega a ser admirável a explanação racional e objetiva sobre sua literatura. Ele explica os motivos, por exemplo, das personagens de “A Brincadeira” (Companhia de Bolso), “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso) e de “A Insustentável Leveza do Ser”, obras analisadas neste mês no Desafio Literário, terem poucas descrições físicas e bibliográficas. Há também a explicação sobre a opção do autor em dividir seus trabalhos em sete partes (no início foi coincidência, para depois se transformar em uma busca obstinada por um padrão estético) e na aproximação da literatura com aspectos musicais e matemáticos. É simplesmente incrível! Outra parte impressionante de “A Arte do Romance” é quando Milan Kundera discorre sobre a história da literatura europeia, sobre o papel dos autores clássicos no desenvolvimento da cultura e da ficção em seu continente, sobre os caminhos do romance e sobre a mistura da filosofia com a narrativa em prosa. Nesta parte do livro, ele mostra toda a sua erudição e seu conhecimento analítico. Antes de ser um grande escritor, o tcheco demonstra ser um grande especialista em literatura e em filosofia (bagagem esta que o levou a ser bem-sucedido em seu ofício). “A Arte do Romance” é leitura obrigatória para quem deseja conhecer os detalhes da literatura de Milan Kundera e para quem é fã do estudo da produção ficcional (portanto, da Teoria Literária, da Crítica Literária, da Historiografia Literária e da análise dos romances clássicos). Contudo, o leitor precisa realizar um trabalho prévio. Se você não tiver lido nenhum livro do autor nem for íntimo dos clássicos da ficção europeia, na certa não vai achar muita graça nas explanações apresentadas por Kundera. Aí a chance de você ficar boiando é grande. Não cometa esse equívoco, por favor! No próximo domingo, dia 22, daremos sequência às análises dos livros de Milan Kundera com um novo post no Bonas Histórias. Será a vez de falarmos de “A Imortalidade” (Companhia das Letras), a quinta obra do escritor tcheco que estamos estudando no Desafio Literário de setembro. Publicado em 1990, “A Imortalidade” é o romance que inaugura uma nova fase da literatura de Kundera. Vale a pena conhecer este livro. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Brincadeira - O primeiro romance de Milan Kundera
No último final de semana, li “A Brincadeira” (Companhia das Letras), o romance de estreia de Milan Kundera. O escritor tcheco que completou recentemente 90 anos foi muito popular nas décadas de 1980 e 1990, mas atualmente anda meio esquecido do grande público. Exatamente por isso, a ideia de tê-lo como foco do Desafio Literário de setembro. Assim, ao longo deste mês, serão analisados no Bonas Histórias os seis principais livros de Kundera (quatro romances, uma coletânea de contos e um ensaio). E nada mais natural do que começarmos essa investigação literária pelo primeiro sucesso do autor. O texto de “A Brincadeira” foi concluído em 5 de dezembro de 1965. Contudo, a obra só foi publicada apenas em 1967, em Praga. Até então, Milan Kundera só havia lançado três coletâneas de poemas na década de 1950 (títulos que não foram traduzidos para o português). Esses livros poéticos tiveram forte orientação socialista e eram inspirados no trabalho de Konstantin Biebl, um dos maiores poetas e cineastas surrealistas da Tchecoslováquia. Os poemas de Kundera tiveram uma tímida recepção tanto da crítica quanto do público em seu país natal. Por isso, quando “A Brincadeira” chegou às livrarias tchecas, seu autor era uma figura totalmente desconhecida dos leitores. Apesar disso, o sucesso do primeiro romance de Milan Kundera foi quase que instantâneo. Em poucos meses, “A Brincadeira” já tinha vendido mais de 120 mil exemplares. Em 1968, a obra ganhou um prêmio literário da União de Escritores Tchecos e foi adaptado para o cinema pelo diretor Jaromír Jireš. Do dia para noite, Milan Kundera se tornou um best-seller na Tchecoslováquia. Curiosamente, o romance de Kundera criticava abertamente o Partido Comunista tcheco. Nesta obra, uma personagem masculina era injustamente acusada de inimiga pelas autoridades socialistas. Lembremos que o país do leste europeu havia instalado um Estado socialista após a Segunda Guerra Mundial e que o escritor era um ferrenho defensor dos ideais marxistas até a década de 1950. Evidentemente, Milan Kundera mudou de opinião na primeira metade dos anos 1960. Por seu texto subversivo, “A Brincadeira” (tanto na versão literária quanto na versão cinematográfica) foi censurado logo depois da União Soviética invadir a Tchecoslováquia em agosto de 1968. Quando este livro foi publicado alguns meses depois no Ocidente, ele adquiriu uma conotação política, algo que Milan Kundera sempre refutou. Para o autor tcheco, seu romance de estreia era antes de tudo uma história de amor. Segundo Kundera, somente agora o público e a crítica voltaram a ver esta obra da maneira correta: “Hoje, os exploradores da atualidade esqueceram há muito a Primavera de Praga, bem como a invasão russa, e graças a esse esquecimento, paradoxalmente, ‘A Brincadeira’ poderá voltar enfim a ser o que sempre quis ser – apenas um romance, e nada mais do que um romance". De certa forma, o escritor tcheco utilizou-se de elementos autobiográficos para construir esta narrativa. Assim como o protagonista de “A Brincadeira”, Milan Kundera precisou interromper seus estudos acadêmicos na década de 1950 por causa de acusações de práticas antissocialistas. Como consequência, ele foi expulso da universidade e, a partir de então, passou a ser malvisto pelas autoridades da Tchecoslováquia e, mais tarde, da União Soviética. A publicação deste romance só aumentou o mal-estar entre o artista e os governantes. Em virtude desse clima de grande animosidade, o escritor precisou emigrar para a França na década de 1970. Ele fugiu da censura e da perseguição política em seu país natal. O enredo de “A Brincadeira” inicia-se quando Jahn Ludvick, um rapaz de 37 anos, retorna depois de quinze anos para a sua cidade natal na Morávia. A volta dele não tem um caráter nem um pouco nobre. Ele só está ali para se encontrar com Helena Zemanek, uma jornalista de Praga que viajou até a Morávia para cobrir a Cavalgada dos Reis, um evento folclórico local. Ludvick conheceu Helena há poucos dias em Praga, onde ambos moravam. No início, ele não gostou da moça, mas quando soube que ela era esposa de Pavel Zemanek, um antigo amigo seu dos tempos de faculdade, as coisas mudaram de figura. Para se vingar de Pavel, Ludvick começou a dar em cima de Helena. A viagem da moça é a oportunidade ideal para o protagonista do romance levá-la para a cama e, assim, colocar um par de cifres no antigo amigo. A rixa com Pavel vem dos tempos de faculdade. Ludvick credita parte da sua expulsão da universidade à postura do antigo amigo, que não se esforçou em defendê-lo na época da acusação de ser um trotskista. O ocaso de Jahn Ludvick se deu após o envio de uma carta a uma namorada. Nessa mensagem, ele brincava (daí o título da obra) com a amada: “O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio fede a imbecilidade. Viva Trotski! Ludvick”. O conteúdo epistolar foi sabiamente apresentado na capa da nova edição do livro publicado pela Companhia das Letras. Achei acertadíssima essa escolha. Voltando para o conteúdo da obra, o problema é que a carta de Ludvick foi parar nas mãos do comitê comunista da universidade. Aos olhos dos intransigentes stalinistas da academia, Jahn não passava de um traidor da pátria. Por isso, ele foi expulso da instituição e enviado para trabalhos forçados nas minas de Ostrava. A condenação colocava fim às esperanças do rapaz de ter dias melhores e o atirava a uma existência marcada pelo sofrimento e pela melancolia. Depois de uma década e meia de sofrimentos, Ludvick vê a chance de se vingar de Pavel Zemanek. Colocar uma mácula no casamento até então irretocável do antigo amigo é um prazer mínimo que Jahn Ludvick acredita merecer depois de tantos anos de amargura. Mesmo não sentindo nenhuma excitação ou simpatia por Helena, ele a levará para a cama. Para criar um clima romântico, o morávio pede emprestado, assim que chega à sua cidade natal, o apartamento de um antigo amigo, Kostka. Kostka não nega a solicitação de Ludvick. Os dias que Jahn Ludvick passará em sua terra farão o seu passado voltar à tona. Essas lembranças permitirão que a personagem reflita sobre sua existência e faça uma retrospectiva de sua vida sentimental. “A Brincadeira” possui 352 páginas. Este romance de Milan Kundera está dividido em sete partes e têm 72 capítulos. Cada parte é narrada em primeira pessoa por uma personagem. Ludvick, Helena, Jaroslav (outro antigo amigo do protagonista) e Kostka se revezam nesse papel. O predomínio da narração é de Ludvick, que apresenta seu ponto de vista e suas lembranças em uma parte sim e outra não. Apenas na sétima e última seção do livro temos um pot-pourri de narrativas (cada capítulo é narrado ora por Jahn Ludvick, ora por Helena Zemanek e por Jaroslav). Demorei dois dias para concluir essa leitura. Iniciei a “A Brincadeira” no sábado de manhã e no domingo a tarde já tinha chegado à sua última página. Confesso que gostei muito do seu conteúdo e de sua estética narrativa. O primeiro elemento que chamou minha atenção neste romance foi o teor filosófico de seu texto. Milan Kundera aborda questões existencialistas com uma pegada niilista. Ele faz isso em meio à narrativa ficcional. As personagens de “A Brincadeira” discorrem sobre liberdade, otimismo, revolta, máscaras sociais, vingança e cinismo, por exemplo. Falam de várias dicotomias: velhice/juventude, tradição/modernidade, democracia/ditadura e razão/fé. E analisam a essência humana e os aspectos da identidade pessoal de cada indivíduo (quem somos?). Por esse forte teor filosófico do texto de Kundera, lembrei bastante, durante esta leitura, das obras e da literatura de Albert Camus. Outro ponto interessante da literatura do escritor tcheco é a valorização do discurso direto. Sempre que um diálogo é apresentado diretamente aos leitores, ele possui uma forte carga conceitual (tanto de ordem filosófica quanto narrativa). As conversas menores (menos importantes) são feitas quase sempre em discurso indireto. Assim, ficamos com a impressão de uma força grande dos diálogos apresentados. Incrível (e ousado) esse recurso! Muitas vezes, o texto de “A Brincadeira” é caracterizado por longas frases. Essa escolha estética de Kundera dá a impressão de estarmos acompanhando o fluxo de consciência das suas personagens. Acredito que era essa a ideia do autor. Gostei disso. Essa característica fica mais evidente exatamente quando os narradores rememoram passagens marcantes e decisivas do passado. Repare nisso. Nesses momentos, as frases do romance podem adquirir o tamanho de parágrafos. Concordo com o autor quando ele fala que a parte principal do enredo de “A Brincadeira” está na retrospectiva sentimental de seu protagonista. Através das lembranças e das ações de Jahn Ludvick ao longo dos capítulos, acompanhamos seus relacionamentos com Marketa, Lucie e Helena (para não citar as prostitutas de Ostrava). Com cada uma dessas mulheres, a personagem principal age de uma maneira distinta. Aí nos perguntamos: o que Ludvick sentiu por elas pode ser definido como amor?! Esta é a grande questão por trás desta trama de Kundera. Exatamente por isso, o final do romance foi para mim surpreendente. Se por um lado o desfecho pode ser classificado como aberto em relação ao destino do protagonista, por outro lado ele é categórico em responder à questão chave que intriga o leitor. Além do amor, um ponto central de “A Brincadeira” é a forma como suas personagens encaram o sexo. As relações sexuais têm funções variadas e distintas para o protagonista do livro. A prática sexual pode ser sinônimo de violência, de aceitação, de amor, de comércio, de piedade, de obrigação e de ódio/vingança dependendo da situação e dos parceiros. Não por acaso, Jahn Ludvick desempenha o papel de anti-herói do romance. Ele é odiado por quase todas as personagens da trama e vive em uma rotina solitária, melancólica e vazia. É difícil gostar realmente dele. Acredito que até mesmo os leitores ficam com um pé atrás. Apesar de compreender o ponto de vista do escritor tcheco quando ele apresenta seu romance como um drama amoroso, concordo também com os leitores e com os críticos de Kundera que viram em “A Brincadeira” uma obra literária com grande viés político. É profundamente instrutivo assistir às angústias de pessoas comuns engolidas pelos sistemas autoritários e pouco justos da União Soviética e dos países da Cortina de Ferro durante boa parte da segunda metade do século XX. Nesse cenário que hoje parece extraído de uma ficção científica distópica, temos a oposição à Igreja, o medo das denúncias anônimas, a mão forte do governo, um sistema judicial parcial, uma sociedade corrupta e o clima de censura e medo. Quem mais tarde abordaria essas questões com brilhantismo em sua literatura foi a romeno-alemã Herta Müller. Não dá, portanto, para desassociar este livro do contexto histórico e ideológico. A realidade de um país comunista é extremamente chocante e injusta para os leitores de ontem e de hoje. Por fim, não dá para analisar “A Brincadeira” sem mencionar a intertextualidade musical, literária, cinematográfica, religiosa e matemática. Esses elementos enriquecem a história e compõem o universo central das personagens retratadas. O Desafio Literário de setembro começou de uma maneira incrível, né? “A Brincadeira” é um romance intenso e delicioso. Ou seja, não poderíamos ter uma obra melhor para iniciar esta análise literária de Milan Kundera. O próximo livro do escritor tcheco que será comentado no Bonas Histórias será “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), a coletânea de contos publicada em 1969, dois anos depois de “A Brincadeira”. O post de “Risíveis Amores” estará disponível no blog na próxima terça-feira, dia 10. Não perca a continuação da investigação da literatura de um dos principais escritores europeus do final do século XX. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Desafio Literário de setembro/2019: Milan Kundera
O Desafio Literário de setembro volta a analisar um escritor europeu. Depois de uma passada pela África em maio (Chimamanda Ngozi Adichie), pela América do Norte em junho (Noah Gordon) e pela América do Sul em agosto (Rachel de Queiroz), retornamos ao continente que nossa viagem começou em abril (José Saramago). O autor que vamos estudar neste mês no Bonas Histórias é Milan Kundera. Famoso principalmente nas décadas de 1980 e 1990, Kundera se notabilizou pelos romances filosófico-existencialistas. Sua obra mais conhecida é “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Em seu portfólio, ainda temos coletâneas de contos, ensaios, antologias poéticas e peças teatrais. Nascido em Brno, na Tchecoslováquia, em 1929, Milan Kundera foi morar em Praga, a capital do país, quando se tornou adulto. Lá, foi perseguido implacavelmente pelo Partido Comunista, que passou a governar quase todas as nações da Europa Oriental depois da Segunda Guerra Mundial. A situação foi ficando cada vez mais insuportável até que o escritor resolveu emigrar. A partir de 1975, Kundera passou a viver na França. Em 1980, tornou-se cidadão francês. Até hoje, ele mora em Paris. Os primeiros trabalhos literários de Milan Kundera foram na poesia. De 1953 a 1957, ele publicou três coletâneas de poemas. Nenhuma delas, porém, teve grande repercussão nem de crítica nem de público. A situação mudou completamente quando ele lançou seu primeiro romance, em 1967. “A Brincadeira” (Companhia de Bolso) se tornou um ícone cultural na Tchecoslováquia. Aos olhos dos leitores e da crítica literária da época, a obra continha uma forte crítica política contra o socialismo. Ao mesmo tempo que se tornou amado pelo povo, Kundera passou a ser malvisto pelos governantes de seu país. Se ele já tinha problemas com o Partido Comunista, a partir de “A Brincadeira” sua situação se tornou ainda pior. Mesmo com a perseguição política na Tchecoslováquia, Milan Kundera escreveu, nos anos seguintes, mais três romances e uma coletânea de contos. Destaque para “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), coleção de narrativas curtas de 1969, e “A Valsa dos Adeuses” (Companhia das Letras), romance de 1976. Na década de 1980, quando já morava na França e era relativamente famoso no cenário europeu, Kundera publicou “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Esse é o seu maior sucesso até hoje. Presença obrigatória em qualquer boa biblioteca, “A Insustentável Leveza do Ser” se transformou em um best-seller internacional e foi adaptado para o cinema pouco tempo depois. A partir daí, o escritor tcheco se tornou conhecido mundialmente. Prova dessa sua popularidade foi a publicação de “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), em 1986. Nesse ensaio, o autor explica a literatura que vinha praticando. Em 1990, Milan Kundera lançou “A Imortalidade” (Companhia das Letras). Esse romance inaugurou uma nova fase em sua carreira. A partir dessa obra, o autor abandonou os dramas políticos de seu país natal e passou a abordar os dramas existenciais de personagens mais cosmopolitas e universais. Após “A Imortalidade”, Kundera publicou outros quatro romances. O mais recente é “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras), livro de 2014. É este o escritor que vamos analisar no Desafio Literário de setembro. Segue, a seguir, a programação completa de posts do Bonas Histórias: - 6 de setembro - Análise de “A Brincadeira” (Companhia de Bolso). - 10 de setembro - Análise de “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso). - 14 de setembro - Análise de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). - 18 de setembro - Análise de “A Arte do Romance” (Companhia das Letras). - 22 de setembro - Análise de “A Imortalidade” (Companhia das Letras). - 26 de setembro - Análise de “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras). - 30 de setembro – Análise da Literatura de Milan Kundera. E aí, com vontade para conhecer mais sobre esse importante escritor europeu da segunda metade do século XX? Admito que estou louquinho, louquinho para iniciar agora mesmo essas leituras. E para abrirmos os trabalhos do Desafio Literário deste mês, lerei nesta semana “A Brincadeira” (Companhia de Bolso), o primeiro sucesso literário de Milan Kundera. O post desse romance será publicado no Bonas Histórias na próxima sexta-feira, dia 6. Se você quiser me acompanhar na análise, saiba que você está desde já convidado(a) para esta leitura. E aí, vamos nessa?! Boa leitura a todos. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 7, Entre Mortos e Feridos
Esvaziei o copo em um só gole. Com os pulsos, limpei os resquícios de água que ficaram ao redor da boca. Mal tinha concluído a ação, notei que estava agindo com deselegância. Ter tal comportamento no lado de fora da residência, quando passava as horas sentado na calçada, era até aceitável. Agir dessa maneira em plena sala da mansão era algo totalmente diferente. Na hora, me arrependi dos meus hábitos cavernosos, ainda mais porque três pares de olhos me encaravam com curiosidade. Minha sorte era que a Dora não estava ali para ver seu maridinho dar mais uma de suas incontáveis gafes. Seria por isso que ela sempre evitou me apresentar para seus amigos mais sofisticados?! Não quero pensar nisso agora. Devolvi o copo e agradeci mais uma vez a cortesia dos proprietários da casa. Amparado pela Patrícia, retornei minha cabeça para a posição anterior: inclinada para cima e encostada no suporte de nuca do sofá. Sob meu nariz, coloquei novamente a bolsa de gelo. Ainda não tinha visto como meu rosto ficara, mas pela dor e pela quantidade de sangue deixada na rua, eu conseguia imaginar o estrago feito pelos policiais. Para esquecer a cena, fechei os olhos. Não funcionou. O silêncio na sala era constrangedor. Se os anfitriões não ousavam falar e mantinham caras de réu, não seria eu, ligeiramente arrebentado e com a fisionomia de vítima indefesa, que iria quebrar o clima de velório. Eu voltava para aquele local depois de aproximadamente quarenta e oito horas. Se pensasse bem, meus planos estavam começando a dar certo. Entre mortos e feridos, a primeira batalha da guerra tinha sido conquistada pelo obstinado ghost writer. Se o objetivo era retornar ao ponto inicial de meu primeiro dia em São José dos Campos, ali estava eu. Uhu! – Isso precisa terminar de uma vez por todas! Olha no que essa briguinha infantil de vocês dois está dando. Patrícia olhou para mim e para o Roberto em um claro sinal de desaprovação. Ela permanecia com os braços cruzados e balançava as pernas. Espiando a cena por uma fresta da bolsa de gelo, notei a cara de assustado do consultor. Se a esposa estava brava, ele parecia acuado e sem saber como agir. O casal alegre e divertido da festinha da última quinta-feira dera lugar a uma dupla aterrorizada e em conflito. E imaginar que a única coisa que eu fizera para incomodá-los tinha sido ficar de pé na frente da porta da casa. Como a vida pode ser irônica, né? Por mais esdrúxula que pudesse parecer, minha estratégia à la Mahatma Gandhi caminhava para um desfecho satisfatório. Satisfatório para mim, é preciso salientar, mas não tanto para o matrimônio que eu colocava em xeque. – Não fomos nós que chamamos a polícia... – A voz de Roberto saiu abafada, quase como um murmuro tímido – Queria que você soubesse. – E quem foi que disse que fomos nós?! – Só depois de soltar o questionamento, Patrícia entendeu a preocupação principal do marido. Para ele, eu poderia estar pensando que a intervenção policial tinha sido orquestrada por sua família. Em pânico, a mulher sentou-se ao meu lado no sofá e tratou de se defender – Meu Deus, é verdade. Não fomos nós, tá? Não vá pensar que chamamos a polícia. Tirei totalmente a bolsa do rosto, que já não fazia o efeito esperado há algum tempo, e balancei a cabeça em sinal de anuência. Para ser sincero, a ideia de enxergá-los como possíveis culpados pela violência policial não tinha passado pela minha mente. Mesmo assim, gostei de ver a inquietação da família. Na certa, eu poderia usar aquela suspeita no futuro. Era mais uma carta valiosa que eu apanhava. Nunca se sabe quando precisaremos usar os curingas para fazer novos jogos ou construir canastras. – O que podemos fazer por você? Minha resposta à pergunta de Patrícia bem que poderia ter sido um simples e objetivo “mande seu marido escrever o livro comigo que tudo se resolverá em um estalar de dedos”. Contudo, por incrível que pareça, minha preocupação naquele momento era outra. Uma vez que a mochila tinha sido recuperada, minhas inquietações mais íntimas se voltaram para outro item indispensável da minha vidinha. – Acabou a bateria do meu celular... – tirei o aparelho do bolso da calça com um pouco de dificuldade. Admito que estava adorando interpretar o papel do rapaz bonzinho que tinha sido injustamente espancado por vilões sanguinários – Será que vocês não teriam um carregador para me emprestar? Quem tomou a dianteira dessa vez foi Robertinho. O garoto, que até então apenas observava calado os acontecimentos, deu alguns passos em minha direção e apanhou o aparelho telefônico. Sem dizer uma só palavra, ele analisou o objeto como se fosse um especialista em tecnologia. Em seguida, deu meia volta e sumiu da sala. Será que aquele ato representaria um “sim, vou carregá-lo para você” ou seria mais um “perdeu, playboy, agora esse celular é meu!”. Antes que pudesse fazer julgamentos sobre as prováveis intenções do menino, meus pensamentos foram interrompidos. – Roberto, precisamos levá-lo ao hospital – Patrícia avaliava de perto o meu estado. Sua atenção concentrava-se no meu nariz e no meu supercílio. Ela parecia ter medo de tocá-los e piorar ainda mais o quadro – Olhe como ele está! O marido se aproximou com certo embaraço. Mantendo uma distância segura, ele fez também uma avaliação superficial da minha condição clínica. Era evidente que as coisas tinham saído do controle e Roberto não sabia o que fazer. Vai ver estava com saudades dos outros ghost writers que o Paulo enviara e que desistiram facilmente após ouvir as primeiras recusas. Por que eu não tinha voltado para casa ao receber sua resposta negativa? Por que eu insistia com aquela sandice ao ponto de colocar minha vida em risco?! Mesmo sob o silêncio, eu podia ouvir tais questionamentos salpicando de sua mente. – Agradeço a preocupação de vocês, mas não vou a nenhum hospital. Preciso voltar para a calçada – Se eu não sabia mentir para a Dora, por outro lado era ótimo em blefar quando jogava cartas – Aquele é o meu lugar. Me desculpem por entrar assim na casa de vocês. Acho que já estou um pouco melhor. – Não! – Mal esbocei me levantar, Patrícia me segurou. Ela não me deixaria sair facilmente do sofá – Você não pode ir embora nessas condições. Vamos levá-lo sim ao pronto-socorro. Roberto, pegue as chaves do carro. Até aquele momento, achava que só na minha casa a dinâmica familiar fosse regida por uma déspota feminina, que ditava as regras ao seu bel-prazer. Pelo visto, em outros lares desse mundão, a democracia e o consenso eram artigos em falta. Só que dessa vez, não me importei com o desequilíbrio de forças no processo decisório do casal. Diferentemente de Dora, Patrícia parecia estar ao meu lado. Por não estar acostumado com essa posição privilegiada, me sentia mais forte e confiante em seguir com meus planos. – Patrícia, muito obrigado pela sua preocupação. Porém, preciso mesmo voltar para a calçada. Sei que seu marido não quer escrever o livro, além de não me ver com bons olhos. E como fui contratado para isso, meu dever é esperar do lado de fora até que ele se convença que vamos trabalhar juntos. Não quero forçar nada, não. Vou dar o tempo que ele precisa. Só não posso voltar para São Paulo sem um bom texto. Se você ficou assustada com a reação dos policiais, não queira imaginar a postura da editora e da minha esposa se eu confessar que falhei na minha missão aqui. Minha cara de cachorro abandonado deve ter sido bem convincente. Patrícia se levantou do sofá e encarou o marido com um ar dramático que me assustou. Não sei o que ela disse ao passar por ele. O que sei é que Roberto a acompanhou pianinho até a cozinha. Fora do meu campo de visão, o casal ficou conversando por pelo menos quinze minutos. Na maior parte do tempo, o tom de voz era baixo, o que impedia que as palavras chegassem até a sala. As únicas partes do diálogo que pude ouvir foram algumas frases ditas por Patrícia que destoaram em passionalidade e em decibéis. Os trechos mais representativos da discussão que consegui captar foram: “você não entendeu que ele não vai desistir!”; “que mal há em escrever um livro?”; “seja sensato, Roberto”; “você não quer que ele monte um acampamento na frente da nossa casa, que transforme nosso bairro em um novo Pinheirinho”; “e se a polícia voltar, hein? E se outro vizinho chamar a polícia? O que faremos?”; e “dá de ele morrer na nossa calçada. O que você dirá para a vizinhança, para o delegado, para a família dele?”. Viu, Roberto! Escreva o livro comigo. O que custa dividir seu conhecimento com o mundo? Juro que pensei em me levantar, entrar na cozinha de supetão e completar o discurso engajado da Patrícia. Porém, preferi que minha aliada fizesse o serviço sujo sozinha. Afinal, ela estava se saindo muitíssimo bem como advogada de defesa. Se você não tem forças para encarar um adversário mais poderoso, faça alianças estratégicas. Acho que Sun Tzu já disse isso, mas em outras palavras. Se não disse, ele deve ter pensado a respeito. É mais ou menos como os três mosqueteiros (que eram quatro) falavam: “um por todos, todos por um”. Sei que sozinho jamais teria dobrado o consultor e futuro autor, mas com meus aliados de última hora, Roberto já parecia uma preza fácil. – Ele vai escrever o livro. Quase pulei do sofá ao ouvir o que Patrícia disse ao voltar para a sala. Será que eu ouvira corretamente? Ou tais palavras eram fruto da minha imaginação? Vai ver as pancadas que recebera no cocuruto tinham danificado minha percepção da realidade. Ou talvez fosse a voz de Deus, que enfim resolvera interceder ao meu favor. Para me certificar se tinha ouvido corretamente a tão esperada frase, pensei em pedir para Patrícia repeti-la, mas não foi necessário. Atrás dela, vinha um homem com a cabeça baixa, o que colaborava com o conteúdo da mensagem captada pelo meu sistema auditivo. Além disso, prontamente ela prosseguiu em seu discurso que emulava um pacto de paz: – Vou deixá-los à vontade para se acertarem. Sei que vocês precisam conversar bastante. Se precisarem de mim, é só chamar, estarei lá em cima. Bom trabalho, rapazes! Antes de subir as escadas, Patrícia deixou uma nova bolsa térmica que trouxera da cozinha. Nela, havia gelos recém-retirados do freezer. Ao ver a esposa se afastando, Roberto acomodou-se na poltrona à minha frente. Ele não estava com uma boa fisionomia. Porém, quem era eu para falar que alguém não estava com uma boa cara, não é? Assim que ficamos sozinhos, atirei a nova bolsa de gelo na mesa de centro e peguei rapidamente minha mochila. Ansiava por aquele momento e não queria perder mais tempo. Era preciso começar os trabalhos. Tínhamos tanta coisa para discutir. Como seria estruturado o livro? O que iríamos englobar na publicação? O que o autor tinha de novidade sobre o tema para apresentar aos leitores? Como faríamos para eu captar o conteúdo que ele tinha para passar? Eram tantos os pontos para serem definidos logo de partida que eu suspeitava que uma reunião apenas não iria dar conta. Muito provavelmente, teríamos que prosseguir com aquela conversa no dia seguinte. Afinal, já era tarde da noite. Indiferente ao horário, abri o notebook e o apoiei no colo. Aproveitei para pegar meu caderno e uma caneta. Sabe como é, cacoete de quem participa de reuniões há certo tempo. Ao mesmo tempo que queria começar logo as atividades, intuitivamente desejava mostrar meu profissionalismo. Apesar da resistência inicial do autor, pretendia que ele compreendesse que estava em boas mãos. Sabia que eu não era o melhor ghost writer do mundo, mas entendia que tinha lá meu valor e que podia fazer sim um bom trabalho. Era só me deixar trabalhar que tudo daria certo. Ao pensar na frase “tudo daria certo”, lembrei-me do Paulo. O que o dono da Pomelo iria falar quando descobrisse que eu havia convencido o Roberto a produzir o livro, hein? Na certa, ele não iria acreditar. Não via a hora de ligar para ele e contar a novidade. Será que ele soltaria fogos? Ou daria uma festa lá em São Paulo para celebrar o livro mais aguardado dos últimos anos? Confesso que minha excitação tinha passado dos limites. Sabe quando você coloca uma criança no playground e ela não consegue esconder a alegria, já sai correndo em direção aos brinquedos? Ou quando um adolescente fica diante do videogame e já vai pegando o joystick, ligando o aparelho? Era mais ou menos como eu estava me comportando. Entretanto, minha empolgação contrastava com o desânimo do meu parceiro de empreitada literária. Talvez os movimentos ágeis que efetuei tenham sido incompatíveis com a aparente fragilidade física que demonstrara até aquele instante. Notei o espanto nos olhos do Roberto, que me encarava de cima à baixo. Se ele já não gostava de mim, supôs que a partir dali iria me detestar para sempre. Para disfarçar meus modos um tanto contraditórios, abri um sorriso. Sabia que a falta dos dois dentes frontais indicaria que, apesar da minha surpreendente agilidade, o que vivenciara no lado de fora da casa tinha sido cruel e deixara marcas inegáveis em meu corpo. Aparentemente fui bem-sucedido na tática de criar empatia. Não há quem resista à alegria genuína de um sorriso periclitante. Talvez essa mesma tática não funcionasse mais tarde com a Dora, mas isso era um outro assunto, que eu me preocuparia depois. Enfim, Roberto abandonou a carranca e se pronunciou: – O que seu livro abordará? – Meu livro?! Não, Roberto, o livro será seu. Eu só vou escrevê-lo. O nome que virá na capa será o seu. Eu não posso aparecer para o público. – E o que você ganhará com isso? – sua cara de espanto era legítima. Pelo visto, ele não estava por dentro das dinâmicas básicas do processo da produção editorial. – Estou sendo pago pela editora. Meu trabalho é pegar o conteúdo que você tem e produzir o texto. – E sobre o que será o meu livro? – Planejamento Estratégico. O tema não pareceu animá-lo nem um pouco. Por que ele não se comovia com nada? Será que o único dia em que ele se mostrava descontraído e alegre era em seu aniversário? Eu teria a paciência para esperar um ano inteiro para vê-lo, enfim, empolgado? Para ser sincero, contanto que eu pudesse escrever o livro sem maiores problemas, não me importava com o mau-humor de ninguém. – Então, vamos lá, Roberto! – Esperava que meu entusiasmo fosse contagiá-lo a qualquer momento – O que você acha que podemos tratar nesta obra? – Como assim? – O livro será de Planejamento Estratégico, né? Então, sobre o que exatamente falaremos sobre esse tema? – Eu não sei nada de Planejamento Estratégico... Ai, ai, ai. Ele não parecia querer colaborar. De alguma forma, eu já esperava por isso. O importante era não desanimar. – O Paulo me falou... O Paulo da editora Pomelo... Acho que você o conhece, né? – Como não obtive resposta, continuei – Ele falou que você tem uma técnica interessante de relacionar o planejamento ao lance da guerra e da paz. Não entendi direito quando ele me explicou lá em São Paulo, mas achei que poderíamos ir por esse caminho. Que tal? – Hum. Não entendi se aquele murmúrio foi um sim ou se foi um não. Para me motivar, assimilei como uma resposta positiva. – Antes de começarmos a escrever o texto, é importante listarmos os principais tópicos que serão contemplados na publicação. A partir do esboço do sumário, conseguiremos... – Podemos fazer isso amanhã? Já é tarde e o dia foi longo para todos nós. – Sim, claro. Desculpe-me pela empolgação. Esqueci completamente do tempo. – E se você não se importar, podemos ter essa reunião no meu escritório. Acho que é um local mais adequado. – Concordo. Qual o melhor horário para você? – Chegue às onze e trinta – Ele me entregou o cartão de visita com o endereço – Almoçamos juntos e à tarde faremos nossa reunião. Está bem assim? – Está ótimo! – Não estava acreditando no que estava ouvindo. Iríamos almoçar e depois discutir o livro! Apesar de suas palavras terem saídos com uma frieza de tom glacial, aos meus ouvidos elas chegavam com uma tonalidade de camaradagem que eu não esperava tão cedo – Até amanhã, então. Dessa vez, fui escoltado até a porta de saída com certa civilidade. Era uma evolução considerável que constatava naquela casa. Mesmo assim, as lembranças de quando fui enxotado grosseiramente dali vieram à minha mente. Antes de ver a porta sendo fechada atrás de mim de uma maneira cortês, ouvi uma voz adolescente me chamando. – Moço, o seu celular! – Robertinho veio correndo até a porta e me devolveu o aparelho – Deixei carregando um pouco no meu quarto e acho que já dá para usar. – Muito obrigado. Eu termino de carregar no hotel. Tchau! Hotel! Eu disse hotel?! Sim! Eu iria mesmo voltar para lá!!! Aquela previsão era a melhor notícia do dia. Melhor até mesmo do que a ressuscitação do meu telefone e da viabilidade da produção do livro. Se aquele dia tinha pintado como trágico, ele até que terminava bem. Quando já tinha descido metade dos lances de escada até a rua, ouvi novamente um chamado. Agora era o Roberto-pai que me trazia algo. – Ei, espere. Apanhei isso para você – Ele me entregou algo bem pequeno que quase sumia de sua mão –Acho que você vai precisar deles. Eram os dois dentes que eu havia perdido. Ele deve ter recolhido da rua após o entrevero policial. Por uma perspectiva animadora, voltei para o hotel com todos os meus dentes. Por uma perspectiva negativa, dois deles eram levados no bolso da calça. Fique à vontade para enxergar o volume do copo como você preferir. Para mim, ele estava meio cheio naquela noite. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Festa da Insignificância - O mais recente romance de Milan Kundera
Estamos no finalzinho do Desafio Literário deste mês. E para encerrarmos as análises da coletânea de livros de Milan Kundera, escolhi como leitura deste final de semana “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras). Este é o décimo romance do mais famoso escritor tcheco da atualidade. Trata-se também da sexta obra de Kundera que comentaremos em setembro no Bonas Histórias. A importância de “A Festa da Insignificância” está no fato desta publicação ser a mais recente do autor. Lançado em 2013 na França, quando Milan Kundera tinha 85 anos, este livro encerrou um jejum de treze anos sem novas publicações ficcionais do criador de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Seu último romance tinha sido “A Ignorância” (Companhia das Letras), em 2000. A explicação para o longo hiato sem novos títulos, o maior da carreira de Kundera, passa inevitavelmente pela idade avançada do artista. À medida que as décadas de vida se acumulam, é natural a diminuição do ritmo de trabalho do escritor. Infelizmente, “A Festa da Insignificância” não foi bem recebido pela crítica norte-americana. Milan Kundera recebeu uma enxurrada de críticas negativas advindas dos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos. Sinceramente, não entendi o motivo para tanta gritaria. Achei “A Festa da Insignificância” um livro belíssimo. Se não é a melhor obra de Kundera, na certa é uma das mais interessantes. Assim, fico mais propenso a concordar com a opinião da crítica europeia, que aclamou o último romance do autor tcheco. Na França e na Itália, esta publicação atingiu rapidamente o topo da lista dos best-sellers. No Brasil, a recepção foi mais moderada. Por aqui, não vi exageros nem exacerbações para nenhum dos lados (nem para o positivo nem para o negativo). Ao mesmo tempo em que mantém boa parte das características estilísticas de Milan Kundera (debate filosófico, personagens masculinas extremamente solitárias, melancólicas e com obsessões curiosas, abordagem crítica sobre o amor e o sexo, diálogos fortes e texto saboroso), “A Festa da Insignificância” apresenta algumas inovações narrativas excelentes. Kundera, por exemplo, mistura de maneira magnífica realidade e ficção, faz interpolações de planos narrativos em uma mesma cena e apresenta um tipo de narrador incomum em seu portfólio. Para mim, este é o trabalho de um autor que atingiu a plenitude artística e pessoal. Por isso, a ousadia e o arrojo em sua construção. Se o escritor tcheco vem encantando os leitores desde a década de 1960 com suas histórias insólitas, amargas, sensuais e existencialistas, temos aqui um Milan Kundera maduro, criativo e, por que não, divertido. “A Festa da Insignificância” se passa em Paris. Em vários ambientes da capital francesa, quatro amigos, Alain, Ramon, Charles e Calibã, passam os dias conversando sobre questões que variam entre a banalidade da rotina contemporânea e suas dúvidas existencialistas. Cada um deles tem uma obsessão. Alain trabalha organizando coquetéis particulares e é traumatizado pelo abandono da mãe ainda na infância. O rapaz foi criado apenas pelo pai. Ramon é mais velho do grupo. Ele possui algumas décadas a mais do que os amigos. Mesmo idoso, Ramon insiste na tentativa de seduzir as mulheres ao seu redor. Charles é obcecado por uma anedota envolvendo Stálin. Ele sonha em transformar essa história em uma peça para marionetes. E Calibã é um ator fracassado que se diverte trabalhando como garçom. Para aplacar a desilusão profissional, ele interpreta, no dia a dia, o papel de um garçom paquistanês que não sabe falar francês. Hilário! Enquanto acompanhamos a rotina banal desse quarteto de figuras frustradas, resignadas e profundamente solitárias (eles passeiam pelos parques parisienses, vão a festas melancólicas, conversam em cafés e frequentam museus), temos acesso a uma infinidade de tramas aparentemente paralelas. Como leitores, assistimos a cenas em que Stálin ridiculariza seus colaboradores mais próximos e se solidariza com a doença de alguém próximo. Vemos o caso da moça bonita que tenta se suicidar jogando-se da ponte. E acompanhamos a mãe que retorna depois de muito tempo para conversar com o filho outrora abandonado. É interessante o leitor notar que essas pequenas tramas não andam totalmente desconectadas do enredo principal de “A Festa da Insignificância”. Esse aspecto é justamente uma das principais surpresas do romance. Nesta criação de Kundera, a realidade se mistura à imaginação, aos sonhos, às leituras, às esperanças e às criações artísticas de suas personagens. O resultado é incrível. “A Festa da Insignificância” possui sete partes e 136 páginas. É possível ler esta obra em menos de três horas. Foi o que fiz no último sábado de manhã. Em pouco mais de duas horas, já tinha concluído integralmente minha leitura. Por isso, fiquei com dúvidas se estava mesmo diante de um romance ou de uma novela. Ciente desse tipo de questionamento, Milan Kundera foi enfático em classificar seu mais recente trabalho ficcional como sendo uma narrativa longa (romance) e não uma narrativa média (novela). Como não posso discordar do autor da obra (o livro é dele e, assim, será o que ele disser que é), digo então que estamos diante de um romance enxuto. Dos títulos de Kundera que analisamos no Desafio Literário de setembro, “A Festa da Insignificância” é o menor em quantidade de páginas. Até mesmo “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), um ensaio literário, e “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), uma coletânea de contos, são mais volumosos do que essa novela... quero dizer, desse romance. O primeiro ponto de destaque de “A Festa da Insignificância” é o seu narrador. Ele é de um tipo diferente do que estamos acostumados a encontrar nos livros de Milan Kundera. A sensação é que esta história é contada em terceira pessoa. Contudo, o narrador em primeira pessoa surge sutilmente no texto (nas entrelinhas). Quem conta a história é na verdade o professor de Charles que lhe emprestou o livro de memórias de Nikita Khrushchóv. Ele não participa efetivamente da trama, preferindo observar seu aluno e os três amigos de Charles. Além disso, o narrador conversa em muitos momentos com o leitor. O tom de confidencia e de diálogo entre narrador e leitor percorre boa parte da trama. Outro elemento surpreendente, que já citei neste post, é a mistura de ficção e realidade em meio à trama. Durante a leitura de “A Festa da Insignificância” lembrei bastante de Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio que gostava de utilizar esse recurso narrativo. Nesse sentido, “A Festa da Insignificância” pode ser comparada a “A Vida Breve” (Planeta do Brasil). Milan Kundera interpõe vários planos narrativos em uma mesma cena, instigando o leitor a imaginar em qual esfera cada parte da história se passa. É muito legal ver esta forma de criação literária (principalmente quando compreendemos esse lance e entendemos as partes de sua composição). No mais, “A Festa da Insignificância” é um típico romance existencialista de Kundera. O autor debate abertamente vários temas pela perspectiva filosófica. Ele aborda, por exemplo, os sentidos da mentira, do suicídio, dos sonhos, do bom humor e da banalidade da rotina das pessoas comuns, os poderes da amizade, da compaixão e da sedução e as consequências por trás do envelhecimento e da morte. A pegada é quase sempre niilista. Contudo, o tema principal deste romance (como informa seu título) é o valor da insignificância. Há uma passagem, já no capítulo final, sublime que expressa o ponto de vista de Kundera para o assunto principal do livro. Nesse trecho, Ramon conversa com D´Ardelo, um antigo colega, em um parque de Paris. Confira: “(...) Há muito tempo, D´Ardelo, eu queria lhe falar de uma coisa. Do valor da insignificância (...). Agora, a insignificância me parece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda a sua evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita... e completamente inútil, as crianças rindo... sem saber por quê, não é lindo? Respire, D´Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor...”. Em “A Festa da Insignificância”, temos também homens atordoados pela incompreensão do amor e aprisionados pela necessidade eterna de sexo. Nesse universo em que eles não entendem as mulheres e não são entendidos por elas, o que resta é o valor da amizade masculina. Como consequências, solidão, melancolia e frustração são as marcas das personagens de Milan Kundera. Gostei muito de “A Festa da Insignificância”. Este é um livro curtinho, de leitura rápida e muito agradável (para quem curte textos filosóficos). Tão interessante quanto sua história é a estética literária diferenciada proposta por seu autor. Para quem não tem medo de narrativas inusitadas, o último romance de Kundera é uma ótima opção de leitura. Com a conclusão das análises individuais dos seis livros de Milan Kundera, chegamos à fase de montagem do perfil estilístico do escritor tcheco. Na próxima segunda-feira, dia 30, retorno ao Bonas Histórias para divulgar o último post deste Desafio Literário. Nele, apontarei as principais características da literatura de Kundera e os pontos centrais de sua trajetória pessoal e artística. Não deixe de conferir o resultado deste estudo! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? 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- Contos: Diálogos Urbanos - Tia Jô
Maria, o que você tá fazendo? Grossa! Eu só perguntei por educação. Vocês comeram os docinhos que mandamos? Não acredito! Era tudo coxinha?! Então veio errado. Veio errado de lá da festinha. Nós nem olhamos dentro. Eles falaram que era docinho e nós acreditamos. É, falaram. Vocês que comam os salgadinhos então. Esquenta no micro no café da tarde. Sabe que é até melhor assim. Ah, você sabe que não é para colocar mais adoçante no café, né? Adoçante, eu ouvi um médico falar, é um veneno. E tem gente que põe mais adoçante quase do que café na xícara. Um horror! Sabe quem está tomando café sem adoçar agora? O Ernesto. Só não sei se vai ajudar muito... Ele tá tão gordo, Maria. Só de olhar, eu fiquei mal. Eu vi na festinha da Conceição. Ele foi. E ele não ia? Ele sempre vai, né? Ficou o tempo todo comendo e bebendo. Como aquele homem bebe, é desesperador. Ah, falando em desespero, tem mosquito aí? Aqui em casa tem tanto mosquito. Tá um inferno. Ninguém dorme. Quando não são as preocupações, as contas, são os mosquitos que não deixam a gente dormir. Sabe que ninguém mais dorme, né? Era tão bom antigamente quando o povo conseguia colocar a cabeça no travesseiro e dormir. Por isso as pessoas andam tão estressadas, nervosas, um matando o outro na rua por nada. Eu vejo pela Linda. Ela tá uma arara. Por quê? E você ainda pergunta. Claro que tá errado. Para quem gasta cento e vinte, cento e trinta, no máximo cento e cinquenta, vir quinhentos reais, tem alguma coisa muito errada... É. Não foi quinhentos redondinho. Foi, vai, quatrocentos e oitenta e sete reais e noventa centavos. De qualquer forma é muito. Nós não consumimos isso tudo. Tá errado. A segunda conta veio duzentos e setenta e oito reais... Mas o cara foi lá e disse: “Esse relógio está descontrolado”. Entendeu? Ele falou lá o nome que eu não lembro agora. Aí ele falou: “Tem que trocar esse relógio”. Mas como é que fica? “Não, eles vão vir trocar. Eu tô fazendo aqui um chamado”. Aí, Maria, outro dia ela teve que ligar para lá e falaram: “Não, não. Tem que fazer o pedido lá. Pessoalmente”. Ela não dorme há dias não por acaso. Hoje saiu uma reportagem na televisão que diz que trinta e cinco minutos no chuveiro é cinquenta reais que você paga de água, de luz, de luz. Sei lá, de água ou de luz. Acho que falaram de luz. De qualquer jeito é um assalto. É sim. É cinquenta reais para cada banho de trinta e cinco minutos. Deu na televisão, ora. A televisão não ia mentir para a gente. Pior é que antes a gente tomava banho lá na academia. Você sabe, né? Mas como subiu muito a mensalidade, a Linda achou melhor parar de ir. Você fica quanto tempo no chuveiro? Todo dia? Imagine. Eu só fico, sei lá, se muito dois ou três minutinhos. E a maior parte do tempo é de torneira fechada. Onde já se viu deixar a torneira aberta nesses tempos em que tudo está o olho da cara. Eu faço assim, Maria: abro a torneira, me molho um pouquinho e já desligo. Aí eu me esfrego bem, com calma. Esfrego mesmo. Antes coloco shampoo, né? Esfrego. Só abro a torneira de novo para repassar. E tudo muito rapidinho. Aí desligo. Se ficou um pouco de sabão, não tem problema, dá para tirar depois com a toalha. Só o cabelo eu enxaguo bem. Porque cabelo com shampoo não dá, né? Isso é quando eu lavo a cabeça, que não é coisa que se pode fazer todo dia. Quando não lavo, só dou uma passada embaixo da água. Do jeito que tá, ninguém mais pode ficar embaixo do chuveiro o tempo todo. Só quem é milionário, quem tá com a vida ganha, tipo esses artistas da televisão, que podem pagar qualquer conta. Ou se a pessoa é uma demente completa, que não tem amor ao dinheiro. Não vai me dizer que o Rafael toma banho de torneira aberta? Meu Deus! E você deixa?! Ele não é mais criança para fazer isso. Fale com ele, explica que não pode. Quanto você paga de água aí? E de luz? Mesmo ele ficando com a torneira aberta no banho? Nossa! Você tem é que agradecer, então. Nós aqui não fazemos nada disso e a conta veio quinhentos reais. Por isso, eu digo: tem alguma coisa muito errada. Deve ser o relógio. Só pode. Ele não está marcando direito. A gente economizando e o relógio registrando errado. A Linda nem dormiu na semana passada. A gente segurando nas contas e vem um valor desse. Aí não dá. Deus me livre se isso acontece com uma família com menos dinheiro. Como eles vão pagar? Se para a gente já ficou pesado, imagine só para uma família pobre. Se veio errado aqui, deve ir errado para um monte de gente. Coisa de relógio descontrolado. Ah, e tem outra: não dá para tomar banho à noite, no fim de tarde. Você sabia disso? É o horário, ele influencia sim senhora. Você paga mais caro no horário de pico. Eu já falei para a Linda: banho em casa é só de manhã. E sabe, não é porque você fica uma hora no banho que você ficará mais limpa. Eu só não tomo banho de mangueira porque a água é muito fria. Você já tentou? Uma vez eu tentei, mas não dá. Pelo amor de Deus, Maria! Vocês estão loucos de tomar à noite. Onde a gente vai parar? Fala para o Horácio tomar de manhã, antes de ir trabalhar. Ele não sai cedinho? Então é baratinho. Se ele morasse aqui, jamais iria tomar banho à noite. Tá todo mundo reclamando. Tá tudo subindo. O dinheiro não dá para mais nada. O governo parece que não vê isso, não liga. Na feira, eu nem te conto como está... Fui com a Linda na feira na semana passada e o homem da fruta disse para a gente: “Eu tô com vergonha de dizer o preço das coisas para os fregueses. Eles vão achar que eu estou roubando. Mas eu preciso repassar o aumento. Eu também estou pagando muito mais caro”. Coitadinho. Ele está preocupado com o que a gente vai pensar. Nós sabemos que a culpa do preço não é dele. Ele também é uma vítima. No final das contas, vai ver que não sobra nada para ele também... Não é barulho, é a televisão. Não vou desligar a televisão só porque estou no telefone... Maria, você não vai fazer bolinho de chuva hoje? Sei. Ah, você não está sabendo da Melaine?! Elas estão com desgosto de novo agora. O filho da Melaine voltou com aquela moça que ele arrumou sei lá onde. Querem vir para cá os dois. Elas estão assim desesperadas. Porque lá em Curitiba o negócio não foi fácil, né? Elas não querem, mas ele quer vir... Não! Quem falou em morar junto? Ele quer sair por uns dez dias. Mas é um problema sério mesmo assim, porque a moça vem junto. Se fosse só ele, não teria problema. Você sabe o que é colocar uma estranha dentro de casa? Deus me livre. Você não tem noção do que essa mulher aprontou lá, na época em que eles estavam juntos. Eu acho o cúmulo ficar na casa da mãe, da avó, com uma moça que você sabe que ninguém gosta dela. Sabe quem está muito doente? A Benê. Não vai mais. Ô, a Benê, eu acho que é depressão o que ela tem. Ela não come e só quer dormir. Sabe o que aconteceu lá? O Diogo se separou. Pelo visto, a Benê e a Ana Rita fizeram uma mansão lá para eles, né? Eu fiquei com dó. E a Benê... Sabe tia boba? Eu não sei o que é isso, porque eu não sou. Eu sei que vocês me tapeiam, vocês são tão idiotas. Falando nisso, a Linda também não acreditou que a médica da Marcela disse que está tudo bem. É claro que não está! Com aquela cara de doente dela... Onde já se viu estar tudo bem? Você tem que falar para ela procurar outra médica. Os médicos também erram, sabia? Não dá para ir nas conversinhas desses médicos que dizem que está tudo bem. Aí, deixa eu continuar, elas iam para Campinas. Elas não, a Nati, né? Ela ia. Mas a moça quase não come, só dorme, não quer nada com nada. Levaram ela no médico e não tem nada. Eu acho que é depressão profunda. Eu tô dizendo. E os médicos lá falam alguma coisa?! Eles veem os exames, não tem nada, e falam que a pessoa tá boa. Mas a gente vê que não está bem. Por isso, eu digo: é depressão o que ela tem. É como diz a Nati: “Só vão para médico, para cá e para lá, o que eu vou fazer lá?” Tá certa ela de ficar aqui. Até aí, né? A moça vive em médico, tá uma confusão danada em Campinas. O melhor é ficar quietinha em casa mesmo. De confusões, já bastam as nossas, né? E as meninas lá, como estão? Não me diga. A vizinha lá que é inquilina da Joana tem um gato. É um ou são dois, não sei. O filha da puta já foi lá no nosso quintal aprontar. Outro dia a porta da sala estava aberta, a de vidro, no corredor, Maria. Aí vi que ele estava olhando louco para entrar. Só que... Ela foi para a praia, porque eles têm casa na praia. Os pais dela tem casa, eles moram lá. Não é que tem casa na praia, eles moram em Santos. E eles foram num sábado para lá e ela foi ontem. Mas o gato ficou aqui. Como vai viajar e não leva o gato? Aí eu pergunto: quem dá comida e água para o gato nesses dias todos? O bicho não é bobo e pulou o muro. Vai ver que está passando fome. O quê? Dar comida para os bichos dos outros? Tá louca? O máximo que dei foi água. Não, não. Eu não dei água. Eu joguei água nele. O bichinho, mais do que depressa, voltou correndo para a casa dele. Quero ver ele voltar para o meu lado. Ele que fique lá esperando a dona dele voltar. Eu não gosto de gato. Odeio, para falar a verdade. Você sabe que gato é muito pior do que cachorro? É. O cachorro ainda gosta dos donos. Os gatos nem isso. Eles são interesseiros. Eles gostam só da casa. Aquele gato tá bonitão, gordo que só ele, você precisa ver. Aí ela falou assim... A Nati. Tó falando agora da Nati. Ela não quer comer! Ela já era magra. Porque a Benê sempre foi muito magra. Diz que ela tá tão magra agora. Eu não sei onde ela foi perder mais quilos. A Doutora Ana falou exatamente o que da Marcela? Mentira! Se ela não abrir o olho, você vai ver para onde ela vai. O nosso colesterol subiu também. Eu acho que é de nervoso, da conta de luz. Ah, a academia fechou. Fechou mesmo. A Linda passou lá na frente e viu a placa de aluga-se. Ela falou? Eles estão arrasados. Hoje a Linda falou com a Carol, que era a professora que trabalhava lá. Aí ela falou que eles estão arrasados porque não tem tanto serviço... esse serviço dela, da Lourdes, não tem em todo lugar. Você reparou que está tudo fechando? Um horror! Maria, depois a gente fala mais. Vai começar a novela. Que novela? A turca, né? Tá tão boa. Você assiste? Muito melhor do que as mexicanas e as portuguesas. Outra que está muito boa é a portuguesa. Eu assisto no canal português à noite. Você não assiste? As notícias de lá também são muito boas. Melhores do que as daqui. A Cleide? Ela está bem. Falamos com ela no fim de semana. É. Mandou um beijo pra você. Está daquele jeitinho dela que você conhece bem: reclamando de tudo e chorando por qualquer continha. A mulher tá bem de vida e fica reclamando de dinheiro o tempo todo. Quero morrer com isso. Mão de vaca! Tá começando. O quê? A novela turca, né? Eu te ligo quando terminar. Tá. Depois você me fala se os bolinhos de chuva ficaram bons. Tchau. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa #conto
- Livros: Algum Lugar - O primeiro romance de Paloma Vidal
Aproveitei os primeiros dias do ano para ler “Algum Lugar” (7Letras), o romance de estreia de Paloma Vidal. Esta obra não é a primeira da escritora nascida em Buenos Aires, em 1975, e criada desde os dois anos no Brasil. Quando lançou “Algum Lugar” em 2009, Vidal já tinha publicado duas coletâneas de contos: “A Duas Mãos” (7Letras), em 2003, e “Mais ao Sul” (Língua Geral), em 2008. De qualquer forma, quando este romance chegou às livrarias, a autora ainda estava no começo de sua carreira. Hoje, ela possui vários livros editados tanto no Brasil quanto no exterior (Argentina, França e Estados Unidos) e se tornou uma das vozes mais valorizadas da literatura brasileira contemporânea. Logo de cara, o que mais chama a atenção no portfólio de Paloma Vidal é a pluralidade de gêneros. A escritora navega com desenvoltura pelo conto, pelo romance, pelo ensaio, pela poesia, pelo teatro, pela crônica e pela literatura infantil. Professora universitária de Teoria Literária, tradutora e crítica literária, Vidal mora atualmente na cidade de São Paulo. Sua mais recente publicação é “Pré-história” (7Letras), romance lançado no ano passado. Já sua obra mais famosa é “Mar Azul” (Rocco), romance traduzido para o francês e o espanhol. “Algum Lugar” é fruto de uma bolsa do Programa Petrobrás Cultural. Em 2007, Paloma Vidal foi contemplada pelo projeto de incentivo à criação literária da estatal brasileira e pôde, assim, desenvolver seu romance. Dois anos depois, o livro estava pronto e era apresentado ao público. O lançamento de “Algum Lugar” aconteceu em dezembro de 2009. Esta publicação possui muitos elementos autobiográficos e contém uma narrativa com altas doses de inovação estética. Por exemplo, esta obra mistura diferentes planos narrativos (realidade, sonhos e lembranças caminham lado a lado) e exibi narração simultânea de vários tipos (os relatos em primeira, segunda e terceira pessoas aparecem misturados no texto). Quem gosta de ler propostas literárias diferenciadas e ousadas, temos aqui um prato cheio! “Algum Lugar” é um drama psicológico que aborda a perda de identidade de uma mulher que viaja pelo mundo. Sem conseguir construir vínculos com as cidades por onde viveu (Buenos Aires, Rio de Janeiro, Los Angeles...), ela sofre com a falta de relações afetivas mais sólidas. Como consequência, a personagem principal da trama se sente à deriva no mundo. Curiosamente, essa mesma temática seria mais tarde abordada em outras obras por Paloma Vidal. O enredo de “Algum Lugar” começa com a mudança de um jovem casal do Rio de Janeiro para Los Angeles. A esposa é a protagonista desta história. Ela tem 28 anos, é professora universitária e ganhou uma bolsa de estudo para realizar seu doutorado em literatura no exterior. Sem ter o nome revelado em nenhum momento do romance, a moça nasceu na Argentina e vive desde pequena no Brasil (sendo fluente em português, espanhol e inglês). O marido, chamado simplesmente de M., aceitou acompanhá-la na mudança para o exterior. Uma vez na nova cidade, o casal sofre com a arquitetura e a dinâmica urbana de Los Angeles. Projetada para deslocamentos de carro (as personagens principais não possuíam um veículo próprio) e segmentada por bolsões sociais (a dupla vinda do Brasil não se encaixava em nenhum grupo), L.A. mostra-se pouco amigável aos novatos. Assim, o casal acaba ficando refém de sua casa (raramente eles põem os pés na rua) e da companhia um do outro (em uma overdose de intimidade à dois). Contudo, ao invés de uni-los, a nova ordem doméstico-matrimonial acentua as diferenças da dupla. Ela quer desbravar o novo território e se integrar à vida social dos Estados Unidos. Ele, por sua vez, aceita o isolamento e cria uma rotina mais introspectiva, solitária e caseira. As únicas amigas da protagonista em Los Angeles (que não podemos chamar exatamente de amigas) são uma vizinha colombiana que raramente aparece e uma colega coreana chamada Luci. Luci também atua na universidade e fala espanhol muito bem. A falta de relacionamentos sólidos e sadios angustiam a doutorando argentino-brasileira. Para aplacar um pouco a melancolia e o tédio de sua rotina no exterior, a personagem principal da obra começa a dar aulas de espanhol na universidade para os graduandos. “Algum Lugar” possui 176 páginas e está dividido em três partes: Los Angeles, Rio de Janeiro e Los Angeles. É possível ler este livro em uma única tarde ou em duas noites consecutivas. Não devo ter levado mais do que seis horas para concluir sua leitura no último final de semana. O mais interessante deste romance é a forma como sua narrativa foi contada (e não tanto pela a história em si). Nota-se que Paloma Vidal tem total domínio das técnicas literárias e usa e abusa de inovações para construir um romance psicológico extremamente inusitado do ponto de vista estético. Essas características são evidenciadas desde as primeiras páginas da publicação. Para começo de conversa, não é todo dia em que lemos um livro que mistura o tempo inteiro narração em primeira pessoa (geralmente feita pela perspectiva da protagonista), segunda pessoa (uma raridade na literatura!) e terceira pessoa do singular (narrador colado à personagem principal). A mudança de narração se faz entre os trechos dos capítulos do romance. Incrível! Apesar de inusitado (e muitíssimo arriscado), esse expediente torna a leitura mais dinâmica (em contraste com uma trama com poucas ações e ancorada na rotina entediante da protagonista). Além disso, Paloma Vidal mistura a todo momento no texto de “Algum Lugar” três planos narrativos distintos: a realidade, os sonhos e as lembranças de sua personagem principal. De certa forma, temos aqui o que Nelson Rodrigues fez na peça “Vestido de Noiva”, de 1943. A diferença é que essa técnica está registrada agora em um romance e não em uma produção cênica. Assim, acabamos mergulhando verdadeiramente no universo psíquico de uma jovem mulher angustiada e perdida. Muitas vezes, para entendermos sua vivência é necessário juntar sua rotina factual, suas divagações oníricas e sua retrospectiva afetivo-familiar. Somente a partir da união desses três vértices é que poderemos começar a fazer ideia dos dramas mais íntimos da protagonista. Outra peculiaridade de “Algum Lugar” é a junção do discurso (diálogos) à narração. Não há qualquer separação (sinalização específica) que aponte quando uma personagem fala e quando o(a) narrador(a) se manifesta. Esses dois elementos (discurso e narração) estão integrados umbilicalmente no texto. Se em algumas histórias esse expediente pode ser um problema para a leitura – jamais vou me esquecer do sofrimento que foi ler “O Amante do Vulcão” (Companhia das Letras), livro de Susan Sontag –, neste romance de Paloma Vidal não há qualquer problema desta ordem. Os diálogos são tão marcantes que é possível notá-los mesmo sem o uso de travessões ou aspas. A chave para entender “Algum Lugar” está em notar o quanto a protagonista padece pela falta de uma identidade própria (não à toa, ela não tem o nome revelado). Seria ela uma brasileira nascida na Argentina ou uma argentina que foi criada no Brasil? Quando ela passa a morar nos Estados Unidos, essa angústia se multiplica. Uma vez morando em Los Angeles, seria ela agora uma imigrante sul-americana ao invés de uma brasileira ou de uma argentina?! Esses choques culturais e a perda de identidade são pontuados no próprio texto do romance. Repare que a obra foi escrita em três idiomas: português, espanhol e inglês. A mistura idiomática configura em parte os dramas que se passam no interior da personagem principal. Obviamente, a preponderância é da língua portuguesa. E sim, é necessário o mínimo de entendimento dos outros dois idiomas para compreender os diálogos. O drama de “Algum Lugar” me parece bastante legítimo, principalmente em uma época em que as migrações internacionais são tão frequentes. Recordo, por exemplo, que Fernando Meligeni, tenista brasileiro que nasceu na Argentina e foi criado no Brasil, padeceu desse mesmo problema em sua infância e adolescência, conforme relatado em seus dois primeiros livros, “Aqui Tem” (Ediouro), de 2008, e “6/0 Dicas do Fino” (Generale), de 2016. Essa angústia existencial da personagem de Paloma Vidal continua até o final do romance. Apesar de mudarem cenários, pessoas e dinâmicas familiares, a questão mal resolvida permanece intacta ou até mesmo se intensifica. Nesse sentido, o desfecho da narrativa é brilhante. Seria a perda/falta de identidade uma característica transmitida geneticamente?! Ou uma criança já poderia sentir algo desse tipo logo após deixar o ventre materno? Essas são as perguntas que me fiz ao chegar à última página desta leitura. Como é possível reparar, temos em “Algum Lugar” uma trama extremamente introspectiva (seu conflito é de natureza psicológica). Esse tipo de história pode não agradar a todos os tipos de leitores. Certamente, aqueles mais ansiosos por ações vertiginosas e pouco inclinados aos nuances da psique humana vão torcer o nariz para o ritmo narrativo desta obra de Paloma Vidal. É uma pena, porque se trata de um romance excelente que guarda muitas surpresas aos leitores mais perspicazes. Por exemplo, quem seria o vilão dessa história? Para mim, é Los Angeles (colocar um lugar como antagonista é uma sacada genial!). A mais populosa cidade da Califórnia é a responsável por desumanizar as relações humanas, aprisionar seus moradores e segregar seus habitantes. Paradoxalmente, essa mesma localidade é a capital mundial do cinema (Hollywood vende sonhos e ilusões). No caso do casal de protagonistas do livro, pouco a pouco o sonho americano foi se despedaçando com a rotina entediante e solitária em L.A. O lazer deles era assistir filmes em casa, ler livros e ver imagens da Guerra do Iraque na TV. Assim, o relato da cidade norte-americana tem menos o glamour de uma viagem turística e mais o drama de imigrantes apartados social e economicamente. Já que citei Nelson Rodrigues e Fernando Meligeni, confesso que “Algum Lugar” me lembrou um pouco (eu usei o termo “um pouco”!) “Golpe de Ar” (Editora 34), a novela semi-biográfica de Fabrício Corsaletti, e “Cidades Invisíveis” (Companhia das Letras), clássico de Italo Calvino. Se Paloma Vidal usou parte de sua realidade para construir um romance denso e vertiginoso, Corsaletti também baseou sua estada real em Buenos Aires para compor sua trama ficcional (mais leve e juvenil). A comparação com a obra do italiano deve-se ao fato de que tanto Italo Calvino quanto Paloma Vidal relacionaram os cenários/cidades como metáforas da angústia das pessoas/personagens. Gostei muitíssimo de “Algum Lugar”. Pode parecer um clichê (e é!), mas acho que comecei as leituras deste ano do Bonas Histórias com o pé direito. Se nesse romance de estreia Paloma Vidal já mostrava tanta maturidade literária e tantas ousadias estéticas, fiquei imaginando o que ela não apresentou nos seus romances seguintes: "Ensaio de Voo" (Quelônio), de 2017, e "Mar Azul" (Rocco), de 2012. Como não sou de ficar na curiosidade, não se surpreenda se nos próximos meses eu postar novas análises desta autora aqui no blog. De qualquer maneira, só por essa pequena amostra de seu trabalho ficcional, Paloma Vidal merece nossos elogios e nossa admiração. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Exposições: Farsa - Língua, Fratura, Ficção - Brasil-Portugal
No final do ano passado, fui ao Sesc Pompeia para conferir duas exposições. Em dezembro, comentei na coluna Exposições a mostra “Irreparáveis Reparos”, a primeira individual de Kader Attia apresentada na América Latina. Hoje, vou debater no Bonas Histórias “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal”, a outra mostra que está em cartaz no centro cultural da zona Oeste da cidade de São Paulo. Com curadoria geral de Marta Mestre e curadoria adjunta de Pollyana Quintella, “Farsa” se propõe a investigar os caminhos tortuosos da língua e da linguagem. Nessa trajetória pela comunicação escrita, falada e não-verbal, mais de setenta artistas do Brasil e de Portugal apresentam obras que debatem o poder do discurso, as estratégias para a construção e para a desconstrução da linguagem, a força das variantes linguísticas, o questionamento sobre o mito da lusofonia, os mecanismos corporais da comunicação e o universo da linguagem simbólica. O resultado é uma mostra eloquente, grandiosa, colorida e intensa que enche a área de Convivência do Sesc Pompeia. Exibido anteriormente em Lisboa, onde ficou em cartaz no ano retrasado, “Farsa” foi montado no começo de 2020 em São Paulo e seria apresentado aos paulistanos durante o primeiro semestre do ano passado (mais precisamente de abril a julho). Com o fechamento dos espaços culturais por causa da pandemia do novo coronavírus, os planos foram alterados radicalmente. A mostra foi aberta somente no finalzinho de outubro e se estenderá até 30 de janeiro. Ou seja, os interessados em conferi-la têm apenas mais duas semanas. Integram “Farsa” os seguintes artistas e movimentos culturais: Agrippina R. Manhattan, Alberto Álvares, Alexandre Estrela, Aline Motta, Álvaro de Sá, Ana Hatherly, Ana Nossa, Ana Pi, Ana Vieira, Andrea Tonacci, Anitta Boa Vida, Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Carla Filipe, Carmela Gross, Caroline Valansi, Clara Menéres, Clarissa Tossin, Dayana Lucas, Denise Alves-Rodrigues, DJ Pelé, Elvio Becheroni, E. M. de Melo e Castro, Ernesto de Sousa, Eva Rapdiva, Flávio Diniz, Francisca Carvalho, Gal Costa, Gê Viana, Grada Kilomba, Gretta Sarfaty, Helana Almeida, Helena Ignez, João Vieira, Jota Mombaça, Katú Mirim, Linn da Quebrada, Lúcia Prancha, Lygia Pape, Márcia de Aquino, Mariana de Matos, Mariana Portela Echeverri, Mariana Dalgalarrondo, Mira Schendel, Movimento Feminino pela Anistia no Brasil, Mumtazz, Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, Neide Sá, Nelly Gutmacher, Noite & Dia, Olga Futemma, Paula Rego, Paulo Bruscky, Pêdra Costa, Pietrina Checcacci, Pola Ribeiro, Rafael Galente, Regina Silveira, Regina Vater, Renata Lucas, Rita Natálio, Salette Tavares, Sara Nunes Fernandes, Thereza Simões, Titica, Túlia Saldanha, Vera Mantero, Victor Calhau, Unhandeijara Lisboa e Yuli Yamagata. As obras desta mostra abrangem fotografias, esculturas, músicas, vídeos, arquivos digitais, performances, instalações em tecido, xilogravuras, poesia, pinturas, filmes, depoimentos, entrevistas e manuscritos. Essas criações foram realizadas entre a década de 1960 e os últimos anos de 2010. Portanto, elas englobam as seis últimas décadas de arte no Brasil e em Portugal. Estruturalmente, “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” está dividido em três partes: “Língua”, “Planetas” e “Política”. Pelo menos foi dessa maneira como os guias do Sesc Pompeia informaram o público no dia da minha visita ao espaço. Curiosamente, essa divisão faz todo o sentido para o visitante, mas não está categorizada dessa forma nos materiais da exposição. Em “Língua”, a primeira seção da mostra, assistimos aos mecanismos da linguagem e aos detalhes dos instrumentos corporais da comunicação. O enfoque aqui está essencialmente no corpo humano. O passeio é por cada um dos componentes corporais que, individualmente ou conjuntamente, produzirão os atos da fala, da escrita e/ou da comunicação gestual. A segunda parte da mostra, “Planetas”, apresenta imagens fotográficas feitas por satélites e que retratam a geografia de vários planetas do sistema solar. O registro, portanto, sai do ser humano e avança para o espaço. De um jeito sutil, o visitante deixa de olhar, literalmente, para o próprio umbigo e projeta seu campo de visão para um lugar bem, bem distante. A intensidade da quebra de perspectiva é o que chama mais a atenção dos participantes de “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” nesse momento específico da visitação da exposição. “Política”, a terceira e última seção de “Farsa”, mostra o uso ideológico e político da linguagem. A partir de imagens, discursos, músicas, expressões linguísticas e símbolos, a comunicação se torna uma arma poderosa para mobilizar multidões. Querendo ou não, somos alvos deste tipo de manipulação em nosso dia a dia, sem que notemos. Muitas vezes, é analisando o que ocorre em outros países que compreendemos o real alcance da língua no contexto político-ideológico. O principal aspecto positivo de “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” está em sua grande dimensão. Trata-se de uma exposição de tamanho considerável, com muitas criações artísticas. Não é errado dizer que o Sesc Pompeia expõe centenas de obras de figuras de várias vertentes da arte brasileira e portuguesa. Em meio à essa quantidade absurda de materiais, é normal haver itens mais e itens menos interessantes. Não espere, assim, encontrar uma mostra homogênea, como é, por exemplo, “Irreparáveis Reparos”. Há em “Farsa” muitos altos e baixos. Gostei também do intercâmbio cultural proposto por Marta Mestre e Pollyana Quintella. Os diálogos feitos pelos artistas brasileiros e portugueses, curiosamente, se estendem para além das fronteiras desses países. Notamos uma abordagem sensível e sem preconceitos da multiplicidade cultural das nações lusófonas, inclusive na África lusitana. Outro elemento incrível é o material impresso da exposição. Ele não é distribuído a todos os visitantes de “Farsa”, mas se você pedir, a equipe do Sesc Pompeia entrega numa boa. O livro da mostra (chamo de livro porque a obra está muito mais para um livro do que para um simples catálogo) é uma publicação completa (são mais de cem páginas), bonita (visual impecável) e cativante (conteúdo excelente). Esse material apresenta detalhadamente os principais aspectos conceituais do evento e as particularidades das principais criações artísticas disponíveis na exposição. Vale a pena lê-lo com atenção. Um leitor mais atento do Bonas Histórias já deve ter notado o quanto as três partes de “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” são desconexas. Esse ponto é justamente o principal problema da mostra – a falta de coerência em relação à proposta original do evento e em relação à apresentação das seções da exposição. Confesso que fiquei encantado com a maioria das obras expostas em “Farsa”. Porém, qual a relação delas com o conceito da farsa, hein?! Juro que não entendi. Além disso, as três partes da exposição não conversam harmonicamente entre si. Por exemplo, qual a relação dos registros fotográficos dos planetas (conteúdo da segunda seção) com a representatividade e pluralidade da língua portuguesa?! Não há qualquer conexão aparente. A sensação que tive é que a ideia de “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” é excelente. Contudo, sua execução acabou desandando em algum momento. Ao contemplar dezenas e dezenas de obras, em algum momento a ideia original da exposição foi seriamente deturpada. Se ela fosse fragmentada em duas ou três mostras distintas, o público ganharia em concisão e consistência. “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” é uma exposição com entrada gratuita. Por causa dos protocolos de segurança para evitar aglomerações, o Sesc institui um sistema eletrônico para a distribuição dos ingressos. Os interessados devem acessar o site do Sesc e fazer a inscrição online, escolhendo o dia e o horário da visitação. O procedimento é simples e não consome mais do que alguns minutinhos. Por falar em tempo, reserve entre uma hora e uma hora e meia para a visitação completa à “Farsa”. Eu levei aproximadamente uma hora e quinze minutos para percorrer as três partes da exposição. Ela ocupa quase toda a área de Convivência do Sesc Pompeia. Como já tinha acontecido com “Irreparáveis Reparos”, a instalação com obras de Kader Attia que estão expostas no Galpão desse centro cultural, a quantidade de visitantes no local é ínfima. Infelizmente, o público paulistano abandonou totalmente os espaços culturais da cidade. Para você ter uma ideia da intensidade desse abandono, no dia em que fui conferir “Farsa”, no final de dezembro, não tinha ninguém no local, além de mim. Eu disse NINGUÉM! Incrível, né? Aí você vai me dizer que o povo está se precavendo, evitando aglomerações para não disseminar o coronavírus. Uma olhada para as praias brasileiras nesse Verão derruba essa tese. O pior (do ponto de vista de quem irá perder um programão desse) é que tanto “Irreparáveis Reparos” quanto “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal” são exposições dignas de uma visita. É uma pena que elas vão acabar e muita gente não poderá vê-las. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Máquina Parou - A novela premonitória de E. M. Forster
Não é preciso dizer que 2020 acelerou algumas tendências que os especialistas em futurologia projetavam somente para daqui a algumas décadas. Home office, telemedicina, comércio digital, e-learning, comunicação virtual (teleconferências, chamadas por vídeo e lives) e automação residencial, para ficarmos em algumas citações mais concretas, tornaram-se atividades corriqueiras já no ano passado. Outros comportamentos até então inimagináveis viraram usuais: a reclusão social, o medo do contato físico e o esvaziamento das ruas das grandes metrópoles. O que parecia ser exclusivo das páginas da literatura ou das cenas do cinema acabou incorporado ao dia a dia de bilhões de pessoas. Até o finalzinho de 2019, se alguém dissesse que a vida contemporânea teria todos esses componentes simultaneamente, suspeitaríamos que esse indivíduo seria um profeta do apocalipse, teria enlouquecido ou estaria lendo muita ficção científica. Ou as três coisas ao mesmo tempo, né? Estou trazendo esse tema para o Bonas Histórias porque li, nesta semana, “A Máquina Parou” (Iluminuras), uma das mais famosas novelas de E. M. Forster. Por mais incrível que pareça, o escritor inglês conseguiu retratar nesta narrativa ficcional nossa vida atual com surpreendente fidedignidade. E sabe quando ele escreveu essa trama?! Você não vai acreditar. Em 1909! Ou seja, há mais de um século, quando quase todas as tecnologias citadas na história nem sequer tinham sido inventadas, Forster criou um drama que emula a dinâmica social desse comecinho de anos 2020. Incrível, né? É como se um autor atual escrevesse sobre uma sociedade em 2130 e acertasse em cheio. Por isso, “A Máquina Parou” é uma leitura tão impactante e merecedora de nossa atenção. Curiosamente, E. M. Forster não se destacou como um autor de ficção científica, como ocorreu, por exemplo, com Júlio Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick e H. G. Wells. Nascido em 1879, em Londres, Edward Morgan Forster produziu romances, contos, novelas e ensaios cujos enredos giravam essencialmente em torno de dramas sexuais, mais especificamente de conflitos homoafetivos (o escritor era gay), de lutas de classes e do empoderamento feminino. Suas obras mais famosas foram “Passagem para a Índia” (Nova Fronteira), de 1924, “Um Quarto com Vista” (Globo), de 1908, e “A Mansão” (Círculo de Leitores), de 1910. Recentemente, alguns de seus títulos foram adaptados para o cinema, o que fez aumentar o interesse pela sua obra. O maior legado que o autor britânico deixou foi para a Teoria Literária e para a Crítica Literária. Estudioso das engrenagens da literatura, E. M. Forster deixou alguns ensaios memoráveis sobre o fazer ficcional. É de sua autoria, por exemplo, a distinção conceitual entre personagens planas e personagens redondas, que apresentamos há alguns anos na coluna Teoria Literária. Pertencente ao Grupo de Bloomsbury, círculo de literatos ingleses do início do século XX com grande poder de mobilização (Virginia Woolf foi sua principal integrante), Forster teve por duas décadas um programa na Rádio BBC sobre a crítica literária. Publicado em novembro de 1909 na Oxford and Cambridge Review, “A Máquina Parou” é uma das raras incursões de E. M. Forster na ficção científica. Reeditada no Brasil, em 2018, pela Iluminuras, esta obra faz parte da “Trilogia eCultura” da Coleção Livros do Observatório. Essa coletânea é organizada pelo Itaú Cultural e traz reflexões sobre tecnologia, cultura e sociedade a partir de vários pontos de vista e de diversos cenários possíveis. Além de “A Máquina Parou”, integram a “Trilogia eCultura” os seguintes títulos: “A Singularidade Está Próxima: Quando os Humanos Transcendem a Biologia” (Iluminuras), distopia de Ray Kurzweil; e “eCultura, a Utopia Final – Inteligência Artificial e Humanidades” (Iluminuras), ensaio de Teixeira Coelho. O enredo de “A Máquina Parou” se passa em um futuro indeterminado. Nesse mundo dominado totalmente pelas máquinas, os seres humanos abdicaram da vida tradicional em sociedade e vivem reclusos cada um em sua casa. Usando os aparatos tecnológicos disponíveis, as pessoas conseguem conversar com os familiares e com os amigos em chamadas de vídeo, estudar, trabalhar, ser atendido pelos médicos, receber produtos... Graças aos modernos computadores, os cidadãos não precisam colocar os pés na rua para nada. Para se proteger do Sol, há muito tempo homens e mulheres passaram a viver em cidades subterrâneas. A tecnologia se tornou um componente tão importante, mas tão importante na rotina dessa avançada civilização que as pessoas entregaram a gestão da sociedade à inteligência artificial. Assim, um computador central, chamado simplesmente de Máquina, adquire poderes supremos – alguém aí se lembrou de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey: 1968)? Na trama de E. M. Forster, ora a Máquina age como um Deus (tecnologia como religião), ora ela atua como um déspota (tecnologia como governante máximo). A partir dos desígnios do grande computador e de seu livro (uma espécie de manual de instruções que as pessoas devem seguir), os indivíduos dos quatro cantos do planeta moldam suas vidas e seus afazeres diários embaixo da terra. Nesse ambiente distópico, assistimos aos dramas de Vashti e Kuno. Vashti é uma mulher que vive no hemisfério Sul. Com uma rotina tranquila e sem qualquer preocupação, ela passa o dia totalmente fechada em sua casa subterrânea. Na pequena habitação, a protagonista conversa com os amigos em videochamadas, assiste a uma série de palestras, ministra conferências, ouve música e tenta ter uma ideia nova (uma espécie de trabalho da maioria das pessoas nesse novo mundo). Tudo parece estar caminhando bem até Vashti conversar à distância com Kuno, seu filho, que vive no Hemisfério Norte. O jovem parece estar se rebelando contra o status quo daquela sociedade. Ele anuncia que tem algo muito sério para revelar à mãe, mas que não dirá nada através dos meios eletrônicos. Kuno quer que Vashti o visite em sua casa no outro lado do planeta. Ele quer realizar um diálogo pessoalmente, como os seres humanos faziam antigamente. Perplexa com a necessidade de ter que viajar para o outro lado do mundo para um simples bate-papo, Vashti se questiona se deve atender à extravagância do filho, em um dos raros pedidos dele, ou se deve permanecer no conforto e na segurança de seu lar. A decisão que ela precisará tomar não é fácil. O que pesará mais: o lado racional e lógico de uma mulher moderna ou o velho instinto materno? A edição de “A Máquina Parou” da Iluminuras/Itaú Cultural tem 104 páginas. A novela de E. M. Forster está dividida em três partes: “A Nave Aérea”, “O Dispositivo Reparador” e “Os Desabrigados”. Esse é o conteúdo principal do livro, que ocupa aproximadamente 50 páginas. Além da narrativa ficcional do escritor britânico, a obra traz um prefácio e um posfácio produzidos por Teixeira Coelho, que ficou responsável também pela tradução. No prefácio, Coelho apresenta ao leitor a biografia de Forster e a importância de seus títulos. E no longo posfácio (maior até mesmo que a novela), Teixeira Coelho tece uma análise detalhada e impecável do texto de E. M. Forster. Essa última seção da publicação está dividida em nove temas: “A Tecnologia Antecipada”, “A Derrota do Sol”, “O Fim do Corpo”, “Viver Sozinho”, “O Humanismo de Forster”, “Fim da Experiência Direta, Começo da Transcendência”, “A Morte Ainda Vencida, Talvez Não Mais”, “A Humanidade Sobreviverá à Civilização” e “A Cultura da Catástrofe Existencial”. Levei cerca de duas horas para completar a leitura integral deste livro na noite da última terça-feira. O que chama mais a atenção do leitor em “A Máquina Parou” é a contemporaneidade do seu texto. Não dá para acreditar que E. M. Forster tenha produzido essa narrativa há 112 anos. A quantidade de acertos do autor é admirável. O inglês apresenta vários elementos que se efetivaram: a destruição ambiental, o mergulho dos indivíduos no universo digital, o controle absoluto da rotina através de dispositivos eletrônicos, a onipresença da tecnologia na vida humana, os lares com apenas um indivíduo, o sedentarismo como consequência à automação, a padronização de produtos, do estilo de vida e da arquitetura das cidades, o deslocamento aéreo para grandes distâncias, a invenção de produtos e serviços que hoje são corriqueiros (tablets, chamadas de vídeo, telemedicina, avião) e a crença cega na inteligência artificial. Se olharmos a vida contemporânea durante a quarentena provocada pelo novo coronavírus, esse nível de acerto de Forster é até mesmo mais impactante: a reclusão social (à ponto de a Síndrome da Cabana ter se tornado uma doença comum), o medo do contato físico com outros seres humanos e o declínio das viagens aéreas e da circulação das pessoas pelas cidades. Outro ponto que merece nossos elogios é a tradução precisa de Teixeira Coelho. O tradutor brasileiro optou por termos genéricos, como no original, para designar produtos (tablets, aviões, computadores) e serviços (Skype, Zoom, redes sociais, telemedicina, Internet, inteligência artificial) que não existiam na época em que E. M. Forster escreveu sua história. A opção pelas palavras abrangentes dá mais concretude e força à narrativa. Assim, aeromoça é chamada simplesmente de atendente, o avião é nave aérea, computador é máquina, tablet é “placa redonda com luz azulada” e assim por diante. O conflito de “A Máquina Parou” está nas crenças distintas de mãe e filho. Enquanto Vashti aceita a realidade em voga e a versão transmitida pela tecnologia/computador central, Kuno, como um típico jovem, é crítico do status quo e do estilo de vida dos seus contemporâneos. Em outras palavras, se ela é descrente e acomodada, ele é sonhador e contestador. A mãe vê o filho como um louco inconsequente e o filho enxerga a mãe como uma conservadora passiva. O antagonismo de crenças e de visão de mundo dos dois únicos personagens da novela é o que move a trama, que reservas boas surpresas até o desfecho. Outra questão a ser analisada é o quanto o apreço pela tecnologia pode se tornar uma atitude que se assemelha à fé religiosa. São incontáveis as associações entre a crença cega na modernidade, no progresso da civilização e nos maquinários do homem do futuro e a crença passional na figura divina. Não à toa, o livro que a Máquina tem, uma espécie de manual de instruções com regras que devem ser seguidas pelas pessoas (um paradoxo em relação ao manual de instruções tradicional, que explica como a máquina deve ser operada), é uma espécie de Bíblia/Alcorão/Torá para aquela sociedade. A fé cega nas palavras de uma obra produzida pela máquina é um dos contrapontos tragicômicos dessa história. A narração de “A Máquina Parou” está em terceira pessoa, algo corriqueiro na ficção científica. Esse recurso permite a descrição pormenorizada dos cenários (o que ficaria inverossímil em um texto na primeira pessoa) e a possibilidade de exploração da ação de mais de uma personagem (nesse caso, apresenta-se simultaneamente o que aconteceu com Vashti e com Kuno). Algo que pode incomodar um pouco o leitor que não está familiarizado com a dinâmica da ficção científica é o excesso de descrições. E. M. Forster utiliza boa parte do texto da novela para detalhar os cenários, as ações das personagens e o contexto social daquela sociedade futurista. Se por um lado esse recurso trava um pouco a ação da narrativa, por outro lado esse expediente sustenta a ambientação da história. Não dá para pensar em ficção científica sem que o autor reserve uma parte substancial de sua trama às descrições. Ainda mais para uma narrativa tão disruptiva. O que pode explicar um pouco as possíveis reclamações dos leitores nesse sentido é o grau de acerto de Forster. Não duvido que muita gente leia esse livro acreditando que ele foi escrito no ano passado ou há uma ou duas décadas. Não dá para falar desse livro e não dizer que o posfácio de Teixeira Coelho é excelente. Em uma primeira impressão, confesso que me assustei com o seu tamanho. Sempre fico com um pé atrás com análises que se tornam mais extensas do que as obras enfocadas. Contudo, à medida que fui lendo, entendi o objetivo do crítico literário e tradutor. Teixeira Coelho não apenas esmiuçou a narrativa de Forster (destacando os acertos premonitórios do inglês) como construiu um retrato interessante sobre a sociedade contemporânea. Não cometa o erro de não ler essa parte final da publicação. Ela reserva interessantes argumentações. “A Máquina Parou” é uma leitura instigante, surpreendente e gostosa para se fazer nesse começo de 2021. Quem gosta de tramas rápidas, algo intrínseco à natureza das novelas, que podem ser feitas em uma única tarde/noite ou em poucas horas, essa narrativa de E. M. Forster é ideal. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Mulher Sobressalente - Os contos de Dany Wambire
Quando se fala em literatura moçambicana, o primeiro nome que vem à mente da maioria dos leitores brasileiros é Mia Couto. O autor de “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras) é atualmente um dos escritores mais famosos e premiados da língua portuguesa (ele conquistou o Prêmio Camões de 2013). Seu portfólio artístico é de fato excelente. Agora, quando perguntamos sobre os autores conterrâneos de Couto, muita gente não sabe apontar outro nome. Infelizmente, confesso fazer parte desse grupo. Por isso, fiquei interessado em conhecer, no último final de semana, o livro “A Mulher Sobressalente” (Malê). Esta coletânea de contos tem como autor Dany Wambire, professor, jornalista e escritor moçambicano de apenas 31 anos. “Estaria diante de um novo Mia Couto?” cogitei empolgado. Com essa expectativa, li a obra no domingo à tarde. Nascido em 1989, na província de Manica, região central de Moçambique, Wambire coordena a Associação Literária Kulemba e dirige a revista Soletras. Como escritor, ele produziu a coletânea de contos “A Adubada Fecundidade e Outros Contos” (Malê), a coleção de crônicas “O Curandeiro Contratado pelo Meu Edil” (Oleba Editores) e o título infantojuvenil “Quem Manda Na Selva” (Fundza Editores), além de ter participado de várias antologias em Portugal, Brasil e Moçambique. Dany Wambire tem dois livros lançados no Brasil, ambos pela Editora Malê, especializada em literatura afro-brasileira. Em 2017, chegou às livrarias nacionais “A Adubada Fecundidade e Outros Contos”, obra de 2013 que representou a estreia do autor na ficção e que conquistou a menção honrosa no Prêmio Internacional José Luís Peixoto de 2013. Já “A Mulher Sobressalente” foi publicado por aqui na metade de 2018, antes mesmo da edição em seu país natal. Com prefácio de Martins Mapera, poeta e ensaísta moçambicano, e posfácio de Aparecida Maria Nunes, professora e pesquisadora brasileira, “A Mulher Sobressalente” possui dez contos. São eles: “O Linchamento dos Dólares”, “O Bêbado Corrigível”, “O Filho de Camponês”, “A Mulher Sobressalente”, “Melissa”, “O Habitante de Ruínas”, “O Analista Drogado”, “Conselho da Enfermeira”, “Casal de Brincadeira” e “A Bolsa Diz Tudo”. Ao todo a obra tem 96 páginas. Ou seja, trata-se de uma leitura rápida. Dá para ler o livro em uma única tarde ou mesmo em uma noite só. Não devo ter levado mais do que três horas para percorrer todas as suas páginas. Em “O Linchamento dos Dólares”, o conto que abre a coletânea, Valdemar recebe uma indenização polpuda pela morte do filho. O rapaz faleceu de maneira trágica enquanto trabalhava. Ao invés de ficar triste com o destino do filho, o pai está radiante com o dinheiro que deverá tirar sua família da pobreza extrema. “O Bêbado Corrigível” apresenta o drama de João Esponja, um alcoólatra aparentemente incorrigível. Criminosos o prendem em cima de um coqueiro no meio da floresta. Sozinho, o bêbado reflete sobre os males da bebida. Se não aparecer ninguém para socorrê-lo, ele morrerá. A narrativa de “O Filho de Camponês” começa em uma escola. Um professor preconceituoso fala para Maveze, um dos alunos da turma, que ser agricultor não é uma profissão digna. O problema é que o pai do garoto, Fernando Campos, é um dos principais ruralistas da região. Assim, Maveze cresce e estuda para se afastar da rotina paterna tão vinculada à agricultura. “A Mulher Sobressalente”, o quarto conto do livro e que empresta seu título ao nome de toda a coletânea, mostra o drama de Quinita, uma adolescente do interior. Depois de ter fugido de casa para viver na cidade, ela precisou retornar para o seio familiar. Com isso, é alvo da violenta, da machista e da tradicional sociedade rural moçambicana. Em “Melissa”, uma jovem mãe de oito filhos (cada um de um pai diferente, mas todos já falecidos) sofre com a pobreza extrema. Porém, ela não gosta de trabalhar. Sua esperança é receber os préstimos de uma igreja evangélica, que parece não olhar com bons olhos para aquela mulher. Mário Cemprucento, protagonista de “O Habitante de Ruínas”, é um rico dirigente público. Certo dia, ele volta para a casa se sentindo humilhado e confidencia sua angústia para a esposa. O sétimo conto se chama “O Analista Drogado”. Nele, Rodaviva chora a morte do marido Marcelino, um crítico político conceituado no país, mas que no ambiente privado costumava se drogar. Em “Conselho de Enfermeira”, os médicos não conseguem identificar a doença que aflige Tião. Alice, a enfermeira, quer levar um curandeiro ao hospital. Entretanto, quem aparece por lá é um pastor da Igreja Milagres em Tempo Real. “Casal de Brincadeira”, a penúltima história do livro de Wambire, apresenta a relação tumultuada de Dinhito e Tina. Quando criança, ele com seis anos e ela com quatro, a dupla brincava de marido e mulher. A diversão de Dinhito era bater em Tina, que precisava fazer os serviços domésticos no lar imaginário. O tempo passou, os dois cresceram e viraram adultos. E, por se amarem muito, acabaram se casando de verdade. E, aí, as brincadeiras do passado voltaram a atormentar Tina. Por fim, “A Bolsa Diz Tudo” trata da notícia espetacular recebida por Ginho. O rapaz ganhou uma bolsa para estudar no exterior. Seu pai, contudo, só aceita deixá-lo partir se antes ele se casar com uma menina de sua terra. As narrativas de Dany Wambire têm um tom de denúncia social. Suas histórias retratam a violência, o machismo, o misticismo e a pobreza da população moçambicana. Os dramas dos seus conterrâneos são variados e atingem a todos: homens, mulheres, idosos e crianças de todas as classes sociais. Ninguém escapa do sofrimento, mesmo quando a sorte parece bater eventualmente à porta. A impressão é de estarmos presenciando a rotina de uma sociedade medieval, onde preconceitos e crenças milenares ainda se sobrepõem ao bom senso e aos comportamentos modernos. A violência exposta em “A Mulher Sobressalente” é bem variada. Ela acontece tanto na “cidade pacificada” quanto nos rincões do país afetado pela Guerra Civil. Ela também pode surgir dentro de casa, na escola, no trabalho ou na igreja. Nem a mais tenra infância é poupada. A violência é física, psicológica, ideológica, cultural. Muitas vezes, os piores agressores são os que estão mais próximos das vítimas. São eles integrantes da família (um pai, um irmão, um marido...), os amigos, os vizinhos e os colegas de escola ou de trabalho. Contudo, governantes, grandes empresas, a polícia e juízes também podem ser extremamente impiedosos, principalmente com a camada mais pobre da população. É inegável que as mulheres são aquelas que mais sofrem, vítimas de todo o tipo de abuso por parte dos homens. O machismo em Moçambique torna a vida das mulheres quase que insuportável. O sexo neste livro tem pouca relação com o amor e a união harmônica entre os casais. A prática sexual adquire, no final das contas, um caráter de dominação e de violência, mesmo quando consentido e realizado entre marido e esposa. Curiosamente, os homens também padecem com as tradições e os preconceitos em Moçambique. Eles são vítimas de familiares e da sociedade como um todo. Prova maior disso está nos contos “O Filho de Camponês”, “O Habitante de Ruínas”, “O Analista Drogado” e “A Bolsa Diz Tudo”. As personagens masculinas dessas tramas não conseguem ser plenamente realizadas nem mesmo felizes. Acabam padecendo com as mentiras, as armações e as ciladas impostas por outros homens em posição de maior poder e de maior influência social. Não é de se admirar que normalmente as tramas de “Mulher Sobressalente” possuem finais trágicos. E não são apenas os desfechos das histórias de Wambire que são trágicos: os inícios e os meios delas também são. É como se o leitor fosse jogado de fato na realidade dura do país africano. Nesse sentido, os contos do livro se parecem muito com as crônicas de uma Moçambique sem esperança e devastada pela fome, pela pobreza e pela violência endêmicas. Gostei muito do tipo de linguagem utilizada por Dany Wambire. Além de usar gírias e expressões típicas de seu país (é uma delícia conhecer o jeito moçambicano de falar!), o autor também se utiliza prioritariamente de palavras simples em seus textos. As narrativas dos contos são muito diretas. Como consequência, a leitura fica fácil e agradável. Quem gosta de conhecer a cultura linguística de outros países lusófonos e curte as variantes da língua portuguesa, na certa vai gostar desta experiência de leitura. Infelizmente, “A Mulher Sobressalente” também possui alguns probleminhas. Achei a edição da Editora Malê muito ruim. Se a proposta editorial da empresa é maravilhosa, o mesmo não pode ser dito da diagramação e do projeto gráfico de vários de seus títulos. O livro de Dany Wambire tem um aspecto visual que beira o amadorismo. É uma pena porque o conteúdo é bom. Quanto às narrativas do moçambicano, elas são bem curtinhas (tudo é resolvido, na maioria das vezes, em três ou quatro laudas). Se por um lado o texto simples e a pegada objetiva das histórias deixam a leitura agradável, por outro lado a sensação é que estamos diante de dramas simplórios. Talvez se o escritor tivesse investido mais na construção de cenários, nas personagens e nas tramas (tornando suas histórias mais complexas e com algumas reviravoltas), essa impressão pudesse ser desfeita. O que ajuda a comprovar essa teoria é justamente o conto “A Mulher Sobressalente”. Ele é o único da coletânea que é maior em tamanho e que teve um cuidado especial na composição dos elementos de sua narrativa. Não por acaso, o drama de Quinita é disparado a melhor história da obra (que merecidamente leva seu nome). Apesar de Dany Wambire estar (ainda) muito (muito mesmo) longe de ser um novo Mia Couto (ele está mais para uma versão moçambicana de Ondjaki), gostei de “Mulher Sobressalente”. O livro é simples e eficiente em sua proposta. Em muitos casos, determinadas obras se tornam relevantes quando se apresentam mais como uma ferramenta de denúncia social do que como elaboradas expressões estilístico-literárias. É o caso aqui. Wambire mostra-se um porta voz dos moçambicanos para reclamar da difícil realidade que vivenciam ainda hoje. Assim, seus piores inimigos estão escondidos por trás de pensamentos, ideologias e comportamentos antigos, que puxam a sociedade para trás ou para baixo. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Livros: O Poeta Não Tem Fim - Os poemas mais famosos de Vinicius de Moraes
Na última sexta-feira, visitei minha irmã e saí da casa dela com um livro em mãos. Ela me emprestou "O Poeta Não tem Fim" (V&R), uma coletânea com algumas das melhores poesias de Vinicius de Moraes. A seleção de textos do Poetinha foi feita por Adriana Toledo de Almeida, escritora, pesquisadora acadêmica, professora de Literatura e tradutora. Como sou fã de Vinicius e um leitor esporádico de poesia, confesso que estava ansioso para conhecer os detalhes desta obra. Por isso, li o livro inteiro na tarde deste sábado. "O Poeta Não tem Fim" faz parte da coleção "O Melhor dos Melhores", lançada pela V&R no início da década passada. Além de Vinicius de Moraes, integram a série nomes como Richard Bach, Pablo Neruda, Paulo Coelho e Thiago de Melo. "O Melhor dos Melhores" compõe um projeto editorial chamado de "Livro-Presente". O objetivo de suas publicações é essencialmente ofertar conteúdo popular em um layout encantador. O público-alvo são pessoas que visitam as livrarias do país em busca de um bom presente para um amigo ou um familiar. Curiosamente, minha irmã tinha ganhado a obra de presente do nosso pai há alguns anos. Ou seja, a proposta do livro funciona realmente bem. Vinicius de Moraes é um dos poetas mais conhecidos e queridos do Brasil. Muitas de suas poesias se transformaram em músicas. Não é à toa que o nome do escritor seja muito associado até hoje à Bossa Nova. A maioria dos seus trabalhos é composta de poemas amorosos, muitos deles sonetos. Casado por nove vezes, Vinicius se apresentava como um viciado em três coisas: mulher, mulher e mulher. Quando tinha que responder sobre seu estado civil, dizia sem hesitar: "Fui, sou e serei casado". Esse amor incondicional às mulheres rendeu os melhores poemas passionais da língua portuguesa. Publicado em 2002, "O Poeta Não tem Fim" tem 102 páginas e reúne 33 textos de Vinicius. Os poemas do livro foram extraídos de seis obras anteriores do autor: "Poesia Completa e Prosa" (Nova Aguilar), de 1976, "Livro de Letras" (Companhia das Letras), de 1991, "Para Viver Um Grande Amor" (Companhia das Letras), de 1991, "Livro de Sonetos" (Companhia das Letras), de 1991, "Antologia Poética" (Companhia das Letras), de 1992 e "Para Uma Menina Com Uma Flor" (Companhia das Letras), de 1999. "O Poeta Não tem Fim" é dividido em cinco partes: "O Poeta" (2 poemas), "Entre o Amor e a Solidão" (18 poemas), "Do Amor de Deus" (3 poemas), "Outros Amores" (6 poemas) e "Palavras Finais" (4 poemas). Cada seção trata de um tema específico. São eles, respectivamente, a biografia de Vinicius, as alegrias e tristezas do amor, a religiosidade, a paixão pelo Samba, pelo Rio e pelo Brasil e, por fim, os horrores da Guerra. Sem sombra de dúvida, este é um dos livros mais bonitos que li neste ano. Seu acabamento e seu visual são impecáveis. O conteúdo também é riquíssimo. Assim, a beleza do texto de Vinicius é acompanhada por uma coletânea de fotografias e imagens que saltam aos olhos do leitor. É difícil saber o que é melhor aqui (a estética ou o conteúdo). Acredito que a combinação das duas partes é o que torna a experiência de leitura tão intensa. A seleção de poemas de Vinicius feita por Adriana Toledo de Almeida priorizou os textos mais populares do artista carioca. Por isso, a maioria desses trabalhos tornou-se, ao longo do tempo, músicas populares. Tom Jobim foi o principal intérprete do amigo. "Eu Sei Que Vou Te Amar", "A Felicidade", "Minha Namorada", "Chega de Saudade", "Garota de Ipanema", "A Rosa de Hiroshima", "Se Todos Fossem Iguais a Você", "Tomara" e "Samba da Benção" (a minha favorita) são bons exemplos dessa tendência. Saiba que é impossível ler esses poemas sem cantarolá-los. "O Poeta Não tem Fim" também apresenta sonetos maravilhosos. A melhor parte desses é aquela dedicada às aclamações do amor carnal entre homem e mulher. "Soneto do Amor Total", "Soneto do Maior Amor", "Soneto de Separação" e "Soneto da Fidelidade" (o meu favorito) são inesquecíveis. No vídeo a seguir, Vinicius de Moraes recita os versos de "Soneto da Fidelidade" (com Tom Jobim ao piano) antes de começar a cantar "Eu Sei Que Vou Te Amar". Veja: Se rememorar os trabalhos mais famosos do Poetinha é algo prazeroso ao leitor, por outro lado acaba-se não descobrindo quase nada novo do trabalho deste artista. Ou seja, o principal ponto positivo de "O Poeta Não tem Fim" é, ao mesmo tempo, seu principal defeito. Ao apresentar aquilo que o leitor já conhece, o livro acaba não enriquecendo o estudo das obras de Vinicius de Moraes. Foi mais ou menos essa sensação que tive ao chegar à última página do livro. Na hora pensei: "Maravilhoso este livro!". Um segundo depois, completei meu pensamento: "Entretanto, não vi nenhum poema que desconhecia ou algo novo que despertasse minha atenção". E olha que não sou um conhecer tão profundo do trabalho de Vinicius (sou mais um admirador distante). "O Poeta Não tem Fim" é um livro encantador. É possível lê-lo em menos de uma hora. Contudo, duvido que você consiga. Palavras, versos, fotografias ou lembranças de músicas irão fazê-lo(a) se estender muito mais pelas páginas. Tudo aqui é motivo para uma divagação ou uma leitura mais alongada. Parafraseando (em parte) Dorival Caymmi, quem não gosta de Vinicius de Moraes bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do coração... Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ViniciusdeMoraes #Poesia #LiteraturaBrasileira
- Recomendações: Retrospectiva - Melhores livros de 2020
Hoje, vamos começar a Retrospectiva de 2020 do Bonas Histórias, um quadro anual da coluna Recomendações. A ideia é apresentar, neste post, os melhores livros analisados pelo blog no ano passado. Nesse ranking literário, selecionei as dezesseis obras mais interessantes que discutimos em 2020. E, daqui a dez dias, listaremos os melhores filmes conferidos na última temporada. No ranking cinematográfico, a seleção contemplará os dez longas-metragens mais impactantes que foram analisados no ano passado. Portanto, boa retrospectiva para todos! Antes de listar os dezesseis melhores livros de 2020, preciso explicar como cheguei a essa seleta coletânea. Em 2020, li 155 livros, o que dá uma média aproximada de 13 livros por mês. Não se assuste com essa quantidade – faz parte do trabalho de qualquer crítico literário ler diariamente. A minha lista de leituras do ano passado incluiu obras nacionais e internacionais, publicações ficcionais, não ficcionais e poéticas, títulos clássicos e contemporâneos, livros comerciais e cults, textos adultos, jovens e infantis e uma multiplicidade significativa de gêneros narrativos (romances, novelas, coletâneas de contos, coletâneas de crônicas, ensaios, biografias) e estilos (romances históricos, ficção científica, dramas, romances policiais, suspenses, romances eróticos, aventuras românticas). A palavra de ordem no Bonas Histórias sempre foi pluralidade. O nosso lema é: literatura sem frescura e sem preconceito! A maioria dos livros lidos no ano passado foi analisada criticamente e virou um post do blog. Foram ao todo 78 obras discutidas na seção Livros – Crítica Literária. As demais publicações abasteceram as outras colunas do Bonas Histórias, principalmente Talk Show Literário, Teoria Literária, Mercado Editorial e Desafio Literário. De maneira geral, os títulos que não apresentaram grande qualidade foram descartados (não analisamos os livros que ficaram aquém do padrão de qualidade exigido pelos leitores do blog). Feita essa introdução, vamos ao que interessa: aos dezesseis melhores livros de 2020 do Bonas Histórias. Na lista, a seguir, há títulos de Kazuo Ishiguro (Japão), Isabel Allende (Chile), José Eduardo Agualusa (Angola), Kenzaburo Oe (Japão), Virginia Woolf (Inglaterra), Marçal Aquino (Brasil), Maria José Dupré (Brasil), Jack Kerouac (Estados Unidos), Rubem Fonseca (Brasil), Fernanda Torres (Brasil), Sérgio Rodrigues (Brasil), Elena Ferrante (Itália), Paulo Sousa (Brasil) e Carolina Zuppo Abed (Brasil). É ou não é um grupo seleto de autores, hein?! Confira, abaixo, a lista completa das melhores obras analisadas no ano passado: 16º lugar: "Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio) – Carolina Zuppo Abed (Brasil) – 2020. Lançado no final do ano passado, “Passatempoemas” é a terceira publicação de Carolina Zuppo Abed, jovem escritora paulistana. Nessa nova coletânea poética, Carolina une a dinâmica dos jogos de passatempo à beleza polissêmica da poesia (daí o título da obra). Esse livro é uma experiência literária lúdica, instigante e extremamente inusitada. “Passatempoemas” é a obra mais original que analisamos em 2020 no Bonas Histórias. 15º lugar: "A Peste das Batatas" (Pomelo) – Paulo Sousa (Brasil) – 2019. Romance de estreia de Paulo Sousa, “A Peste das Batatas” foi lançado entre o final de 2019 e o começo de 2020. Em uma sátira político-social impecável, o livro de Sousa apresenta os dramas dos agricultores do fictício Vale das Batatas. Os trabalhadores rurais são vítimas de duas pestes: uma misteriosa e de natureza biológica e outra mais evidente e de caráter social. Além de ser uma obra inteligente e divertidíssima, “A Peste das Batatas” possui um timing surpreendente (fala em uma praga que se espalhou pelo Brasil). 14º lugar: “A Filha Perdida” (Intrínseca) – Elena Ferrante (Itália) – 2006. Elena Ferrante é a escritora italiana contemporânea mais vendida no mundo. “A Filha Perdida” é o seu terceiro romance. Publicada em 2006, esta obra apresenta o drama psicológico de uma napolitana de meia-idade atormentada pelas relações nem um pouco saudáveis com sua família, principalmente com a mãe e com as filhas. Em um texto tortuoso e intenso, mergulhamos na mente de uma das mais polêmicas protagonistas da literatura europeia do século XXI. 13º lugar: "O Drible" (Companhia das Letras) – Sérgio Rodrigues (Brasil) – 2013. Enfim, um escritor brasileiro conseguiu produzir um grande romance ambientado no universo futebolístico. A proeza coube a Sérgio Rodrigues, desde já uma espécie de Eduardo Galeano nacional. Em “O Drible”, título publicado em 2013, Rodrigues expõe o drama familiar de Murilo Filho e Murilo Neto, respectivamente pai e filho. As desavenças dos protagonistas são embaladas pelas saborosas histórias do futebol brasileiro, que influencia os acontecimentos e os segredos do romance. 12º lugar: "Fim" (Companhia das Letras) – Fernanda Torres (Brasil) – 2013. Primeiro romance de Fernanda Torres, “Fim” mostrou que sua autora poderia ser tão talentosa na literatura quanto era/é como atriz. Lançado no finalzinho de 2013, esse livro se tornou rapidamente um grande sucesso comercial e de crítica. O enredo de “Fim” se passa no Rio de Janeiro e apresenta, em tom de tragicomédia, o balanço existencial da vida de cinco amigos. Ao mesmo tempo em que acompanhamos o último dia de cada um deles, assistimos em retrospectiva às suas desilusões amorosas e às constantes brigas. 11º lugar: “A Grande Arte” (Agir) – Rubem Fonseca (Brasil) – 1983. Confesso que não sei qual é o meu romance favorito de Rubem Fonseca: se é “A Grande Arte” ou se é “O Caso Morel”. Para mim, os dois estão empatados entre os grandes títulos do romance policial brasileiro. Lançado em 1983, “A Grande Arte” conquistou o Prêmio Jabuti do ano seguinte e foi, mais tarde, levado para os cinemas. Além de conter uma overdose de cenas de violência e de sexo, esse livro trouxe para as narrativas longas uma das personagens mais emblemáticas da literatura de Rubem Fonseca, o detetive Mandrake. 10º lugar: "O Caso Morel" (Biblioteca Folha) – Rubem Fonseca (Brasil) – 1973. Publicado em 1973, em uma época em que Rubem Fonseca dava preferência para as coletâneas de contos, “O Caso Morel” foi o primeiro romance do autor mineiro. Nesta obra, assistimos a transferência da ambientação noir dos contos de Fonseca para as narrativas longas. O resultado é uma obra-prima do romance policial nacional. Até hoje fico me perguntando se Paul Morel/Paulo Morais, fotógrafo e pintor obcecado por mulheres e viciado em sexo, é inocente ou culpado. 9º lugar: “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket) – Jack Kerouac (Estados Unidos) – 1958. Sei que o livro mais famoso e celebrado de Jack Kerouac é “On The Road – Pé na Estrada”. Contudo, admito um tanto envergonhado que não gostei desse clássico beat. Para mim, a melhor obra de Kerouac é “Os Vagabundos Iluminados”. Lançado em 1958, um ano depois de “On The Road”, “Os Vagabundos Iluminados” apresenta dramas psicológicos mais cativantes, um texto ficcional com mais qualidade e personagens muito melhores do ponto de vista literário. Vale a pena conhecer as aventuras de Raymond Smith pelas montanhas de Sierra Nevada e pela iniciação no budismo. 8º lugar: “Éramos Seis” (Ática) – Maria José Dupré (Brasil) – 1943. Clássico da literatura nacional que foi adaptado incontáveis vezes para as telenovelas, “Éramos Seis” é o principal trabalho ficcional de Maria José Dupré. A escritora paulista construiu um drama histórico comovente neste que é o seu segundo romance. Lançado em 1943, “Éramos Seis” é narrado por Eleonora de Lemos. Mais conhecida como Dona Lola, a protagonista relata a trajetória difícil de sua família ao longo de três décadas. Para quem gosta de um dramalhão, este livro é imperdível. 7º lugar: "A Turma da Rua Quinze" (Ática) – Marçal Aquino (Brasil) – 1989. “A Turma da Rua Quinze” é um clássico da literatura infantojuvenil brasileira que foi produzido por Marçal Aquino. Publicado em 1989, este romance policial mirim é um dos maiores sucessos da série Vaga-Lume. Em “A Turma da Rua Quinze”, acompanhamos o misterioso sumiço de Marcão, o irmão mais velho de Serginho. Enquanto os adultos estão com os olhos grudados na televisão (afinal, é julho de 1969 e os astronautas norte-americanos estão viajando para a Lua), a garotada inicia uma investigação para descobrir onde o menino desaparecido está. 6º lugar: "Orlando" (Penguin) – Virginia Woolf (Inglaterra) – 1928. Exemplar máximo da genialidade literária de Virginia Woolf, “Orlando” é o romance satírico que revolucionou a literatura inglesa no início do século XX. Clássico do Modernismo, esta obra apresenta muita ação, tem um conflito rapidamente identificável (um homem que aos trinta anos sofre uma transmutação sexual e vira biologicamente uma mulher) e deixa os fluxos de consciência em segundo plano. Ou seja, “Orlando” não é daqueles livros herméticos que caracterizaram a maioria das narrativas de Woolf. Pelo contrário: ele é um texto atual e instigante. Incrível! 5º lugar: "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira) – Rubem Fonseca (Brasil) – 1975. Se os romances policiais de Rubem Fonseca já são de tirar o fôlego, imagine só como são suas coletâneas de contos, gênero narrativo em que o escritor mineiro se especializou. Publicado em 1975, “Feliz Ano Novo” é a prova derradeira de que Fonseca é o maior contista nacional do século XX (e talvez de toda a história da literatura brasileira). Nesse livro que foi censurado pela Ditadura Militar, há alguns dos melhores contos do autor, como "Passeio Noturno (Parte I)" e “Feliz Ano Novo”. Ninguém retratou a violência urbana brasileira com tanta intensidade e propriedade como Rubem Fonseca. 4º lugar: "Uma Questão Pessoal" (Companhia das Letras) – Kenzaburo Oe (Japão) – 1964 Lançado em 1964, “Uma Questão Pessoal” é o romance mais famoso de Kenzaburo Oe. A narrativa naturalista foi inspirada em um episódio real ocorrido um ano antes: o nascimento do filho do escritor japonês. A criança veio ao mundo com graves problemas cerebrais e estava fadada a uma vida vegetativa. A partir daí, Kenzaburo Oe criou uma história semi-autobiográfica em que o protagonista, um professor de inglês, se questiona sobre o que realmente deseja para o filho recém-nascido. Em um relato aterrorizante, acompanhamos um dos dramas psicológicos mais sombrios da literatura contemporânea. 3º lugar: “O Vendedor de Passados” (Tusquets) – José Eduardo Agualusa (Angola) – 2004. “O Vendedor de Passados” é o maior sucesso de José Eduardo Agualusa, o principal escritor angolano da atualidade e um dos grandes nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa. Publicado em 2004, este livro se tornou um sucesso imediato de público e de crítica. “O Vendedor de Passados” é uma sátira sagaz e com elementos de realismo fantástico. Seu enredo é ambientado em Luanda, capital angolana, logo depois do fim da Guerra Civil. A partir dos dramas de Félix Ventura, José Buchmann e Eulálio, José Eduardo Agualusa constrói um retrato arrebatador da realidade atroz de seu país e das neuroses de seus conterrâneos. 2º lugar: "A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – 1982. “A Casa dos Espíritos” é o romance de estreia de Isabel Allende. Lançado em 1982, este livro é o maior sucesso da escritora chilena até hoje. Mesclando pitadas de realismo fantástico, passagens biográficas e dramas familiares, este romance histórico tece um retrato contundente da história recente do Chile. Ao mesmo tempo em que acompanhamos as tragédias sócio-políticas da nação andina, assistimos à saga da família Del Valle Trueba por quatro gerações. Com personagens cativantes, cenas inesquecíveis e uma trama de tirar o fôlego, “A Casa dos Espíritos” é um dos melhores livros que li não apenas no ano passado, mas em toda a minha vida. 1º lugar: "Os Vestígios do Dia" (Companhia das Letras) – Kazuo Ishiguro (Japão) – 1989. Kazuo Ishiguro ganhou Prêmio Nobel de Literatura de 2017. Boa parte dessa conquista pode ser creditada à repercussão positiva de “Os Vestígios do Dia”, seu romance mais celebrado. Publicado em 1989, este drama histórico apresenta com delicadeza e precisão a narrativa de um velho mordomo inglês. Obcecado por seu trabalho e fanático pela perfeição profissional, o narrador-protagonista coloca tudo o que não é relativo ao seu ofício de mordomo em segundo plano. O resultado é um dos títulos mais sublimes da literatura contemporânea. Impossível não se emocionar com esse texto de Ishiguro. Se você gostou da lista dos melhores livros de 2020, não deixe de conferir os filmes mais interessantes que foram analisados pelo Bonas Histórias no ano passado. A lista dos melhores títulos cinematográficos de 2020 estará disponível no blog no dia 19. Não perca a segunda parte da nossa retrospectiva! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. 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