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  • Livros: Nweti e o Mar - A literatura infantil de José Eduardo Agualusa

    Na sexta-feira passada, li mais um livro de José Eduardo Agualusa, o escritor angolano que estamos analisando no Desafio Literário deste mês. Depois de conferir quatro romances adultos, “A Conjura” (Gryphus Editora), “Nação Crioula” (Gryphus Editora), “O Vendedor de Passados” (Tusquets) e “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), senti a necessidade de conhecer um pouco de sua literatura infantil e literatura infantojuvenil. Assim, minha escolha desta vez recaiu sobre “Nweti e o Mar” (Gryphus Editora), uma das últimas obras de Agualusa destinada ao público infantil. Vale a pena ressaltar também que o livro possui um dos projetos gráficos mais impactantes em que me deparei neste ano (seu visual é capaz de encantar até mesmo os leitores mais crescidinhos e exigentes). Publicado em maio de 2011, “Nweti e o Mar” é o quinto título infantil/infantojuvenil de José Eduardo Agualusa. Os primeiros foram: “Estranhões e Bizarrocos” (Dom Quixote), de 2000, “A Girafa que Comia Estrelas” (Dom Quixote), de 2005, “Na Rota das Especiarias” (Dom Quixote), de 2008, e “Um Pai em Nascimento” (Alfaguara Portugal), de 2010. Em 2012, José Eduardo publicou mais um livro nessa linha, “A Rainha dos Estapafúrdios” (Moinho de Vento). A partir daí, ele não lançou mais nada para o público mirim. Como é possível notar pelos nomes das editoras citadas no parágrafo anterior, a maioria dessas obras foi lançada apenas em Portugal. Os leitores brasileiros, infelizmente, ainda não têm acesso direto à grande parte do portfólio infantil e infantojuvenil do autor. Para nossa sorte, “Nweti e o Mar” não sofre desse mal - ele foi publicado em nosso país tanto em versão impressa quanto em versão eletrônica. Exatamente por isso, escolhi analisá-lo no post de hoje do Bonas Histórias. Diferentemente das outras publicações infantis e infantojuvenis de José Eduardo Agualusa, “Nweti e o Mar” não apresenta ilustrações e sim fotografias. As imagens foram tiradas pelo próprio autor durante uma viagem de férias com a família. Ele fotografou a filha Vera Regina, então com seis anos, e a alçou ao papel de protagonista desta trama que mistura realidade com ficção e realismo fantástico com universo onírico. O resultado é uma bonita história sobre a infância, a relação entre pais e filhos e a beleza misteriosa do mar. Para quem estranhou o fato de Agualusa produzir livros também para os pequenos, é preciso salientar o caráter eclético de sua literatura. O escritor angolano não fica restrito ao desenvolvimento de romances adultos. Ele produz também obras poéticas, coletâneas de contos e crônicas, novelas, peças teatrais e, por que não, títulos infantis e infantojuvenis. Curiosamente, essa característica (a versatilidade narrativa) é algo típico dos principais autores africanos contemporâneos de língua portuguesa (algo que sinceramente não vejo tanto nos escritores brasileiros de destaque – que são geralmente mais especializados em um único ou em poucos gêneros narrativos). Quando analisamos, nas temporadas anteriores do Desafio Literário, os trabalhos ficcionais de Mia Couto e Ondjaki, por exemplo, notamos que eles também navegam com excelência pelos diferentes tipos textuais. E entre essas publicações tão distintas, temos também ótimos exemplares da literatura infantil e da literatura infantojuvenil. No caso do moçambicano, fiquei positivamente impressionado com “O Gato e o Escuro” (Companhia das Letrinhas). Em relação a Ondjaki, compatriota de Agualusa, lembro que gostei bastante de “A Bicicleta que Tinha Bigodes” (Pallas). No enredo de “Nweti e o Mar”, conhecemos Nweti, uma menina que acabou de completar seis anos de idade. Ao dormir, ela sonha frequentemente que é uma sereia. Em seus passeios pelos mares, ela faz amizade com Eustáquio, um caranguejo que vive dentro de conchas. Os dois são os melhores amigos um do outro e trocam impressões sobre a vida. Eustáquio não acredita que Nweti está sonhando sempre que o vê. Ele também duvida que ela é uma menina ao acordar (pensa que ela é sempre uma sereia). Por sua vez, Nweti não acredita que o caranguejo exista fora dos seus sonhos. Por mais que a garota conte para seus pais as aventuras noturnas que protagoniza, ninguém a leva a sério. Eles acham que Nweti possui uma imaginação muito forte e que não sabe distinguir a realidade e os sonhos. Nem mesmo quando seu travesseiro amanhece com cheiro de mar, os pais acreditam na menina. Essa situação perdura até a próxima viagem de férias da família. Nweti vai ao lado do pai e da mãe para uma praia remota. Lá, ela poderá, enfim, conhecer seu amigo (até então) onírico e vivenciar a experiência de estar verdadeiramente ao lado do mar e junto aos seres marinhos. Como é característico dos livros infantis, “Nweti e o Mar” é uma obra curtinha – possui apenas 44 páginas. Seu conteúdo é dividido, quase que meio a meio, entre parte textual e parte visual (as fotografias). Levei menos de quinze minutos para percorrer todas as páginas desta publicação. Essa celeridade tem uma explicação: sou adulto e estava desacompanhado de uma criança. O recomendado é ler esta obra ao lado da garotada (a partir dos cinco anos) ou deixar os jovens leitores (de nove a onze anos) degustarem sozinhos a experiência literária. Na certa, nesses dois casos, o tempo de leitura será mais demorado. A primeira questão que chama a nossa atenção em “Nweti e o Mar” é o caráter pessoal desta narrativa. As fotos que estampam a capa e as páginas internas da obra foram tiradas pelo próprio José Eduardo Agualusa em suas férias com a família. O destaque das imagens é, claro, a filha caçula do escritor, Vera Regina. Ela aparece no avião, na areia da praia, dentro da água e brincando com os animais marinhos. Ao redor da menina, é possível notar o ambiente familiar (o carro e a casinha em que os Agualusa ficaram hospedados), a praia, os meninos da localidade jogando bola, os barcos dos pescadores e as residências da pequena vila litorânea. O livro é quase um retrato de viagem. Na última foto, vemos até mesmo o autor no mar com a filha, o que dá um toque ainda mais pessoal e intimista para esta publicação. Na época em que “Nweti e o Mar” foi produzido, José Eduardo tinha dois filhos: Carlos, então com treze anos, e Vera Regina, de seis. Enquanto o primogênito é fruto de seu casamento anterior, a caçula é fruto de seu casamento atual (com Yara Costa, cineasta e jornalista moçambicana). Ambas as crianças nasceram em Angola e são citadas na dedicatória do livro. Além de protagonizar esta obra (ao menos na parte fotográfica, já que na parte textual a personagem principal leva o nome de Nweti), Vera Regina também aparece na dedicatória de “A Vida no Céu” (Melhoramentos), romance de Agualusa de 2013. Para quem possa se interessar pela vida pessoal do autor, ele e Yara Costa ainda tiveram mais um filho recentemente, em 2018. Não é preciso dizer que Nweti é o alter ego de Vera Regina. A relação entre a parte textual do livro (trama ficcional da menina sonhadora) e a parte visual (imagens verídicas de uma garota em uma viagem pelo litoral) permite ao leitor fazer a associação: Nweti é a Vera Regina. Em “Nweti e o Mar”, a mistura entre realidade e ficção não se dá apenas na história contada (até onde os sonhos da pequena protagonista são produtos de sua imaginação ou são episódios factuais?), mas também se dá na própria estrutura formal do livro (união intrínseca dos aspectos textuais e dos visuais). Se você já tinha ficado confuso em “As Mulheres do Meu Pai” sobre o que era relato real e o que era relato fictício, saiba que neste livro essa inquietação será potencializada. Outra questão forte desta obra (e dos trabalhos ficcionais de Agualusa de uma maneira geral) é a inserção de elementos de realismo fantástico à trama. Não ache que isso se deu neste título porque o público-alvo de “Nweti e o Mar” é constituído por leitores mirins. Não! Esta é uma característica genuína do autor angolano, que se propaga pelos seus romances, pelas novelas, pelas coletâneas de contos e, como não seria diferente, pela sua literatura infantil e infantojuvenil. Parte da beleza e da força dos textos de José Eduardo Agualusa passa necessariamente pelo mundo mágico que ele cria. A dúvida que o leitor tem em “Nweti e o Mar” é sobre quem está certo no final das contas: os pais da menina (racionais e pouco propensos, como todos os adultos, a acreditar no universo fantástico da filha) ou a menina sonhadora (que embarca de corpo e alma, como toda criança, em sua imaginação)? A temática de “Nweti e o Mar” gira em torno da beleza da infância, uma época de sonhos, de liberdades imaginativas e de constituição das primeiras amizades. A descoberta do mundo pela criança se dá geralmente de forma poética e emotiva. É o que o livro mostra. Portanto, esqueça o ambiente de violência, as injustiças sociais, o tom de denúncia e os dramas étnicos-raciais que tanto caracterizaram os romances de Agualusa. Aqui a pegada é mais leve e colorida. Admito que o conteúdo deste livro é bonito e tocante. Contudo, a beleza maior, ao menos para mim, ainda sim se dá pelo seu aspecto gráfico e visual. Eita publicação mais caprichada essa! Se por um lado “Nweti e o Mar” caminha por elementos óbvios (como a preponderância da cor azul, que faz referência ao mar, e o formato quadrado, que dialoga mais com os títulos infantis), por outro lado ele consegue nos surpreender (as fotografias dão um ar de realidade e de seriedade à história, quando a escolha mais fácil seria pelas ilustrações, que reforçariam mais o lado infantil e imaginativo da trama). Gostei de “Nweti e o Mar”. Ao final de sua leitura, confesso ter ficado com vontade de conhecer mais a literatura infantil de Agualusa. Porém, isso não se dará tão cedo. O Desafio Literário de novembro continuará na próxima quinta-feira, dia 26, com um romance adulto. O sexto e último livro deste autor que será analisado no Bonas Histórias neste mês é “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets). Publicada em 2017, esta obra é uma das mais premiadas e aclamadas do escritor angolano. Não perca o debate sobre “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” e a sequência do estudo sobre a literatura de José Eduardo Agualusa. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: As Mulheres do Meu Pai - O romance mais extenso de José Eduardo Agualusa

    As narrativas de José Eduardo Agualusa não são tradicionalmente volumosas. Suas tramas ficcionais têm geralmente entre 160 e 240 páginas, um tamanho razoável e dentro do padrão atual do mercado editorial. Por isso, a surpresa quando “As Mulheres de Meu Pai” (Língua Geral), seu sétimo romance, chegou às livrarias portuguesas e brasileiras. Com 356 páginas, esta obra é, até hoje, a mais extensa do portfólio do autor angolano. Para se ter uma ideia da dimensão deste livro, ele tem quase a mesma quantidade de páginas do que “O Vendedor de Passados” (Tusquets) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), os dois romances mais famosos de Agualusa, juntos. Ou seja, o escritor tinha muita coisa para contar neste drama que mistura realidade e ficção e que retrata a busca de Laurentina Reis, uma jovem cineasta criada em Portugal, por suas raízes africanas. Analisando bem, “As Mulheres do Meu Pai” possui uma temática muito forte, bastante atual e extremamente íntima a José Eduardo Agualusa. Assim como a personagem principal do romance, o autor saiu muito cedo de Angola e foi viver por décadas na Europa. No exterior (morou também no Brasil e em Timor Leste), ele construiu sua vida, constituiu família e desabrochou na carreira jornalística e literária. A partir de determinado momento desta trajetória, Agualusa deve ter se questionado sobre sua verdadeira identidade cultural. A dúvida que provavelmente o atormentava era: sou europeu/português ou sou africano/angolano?! A resposta é dada pelas inquietações das personagens, pelo desenrolar do enredo e pelo desfecho surpreendente deste livro. De certa forma, podemos encarar “As Mulheres do Meu Pai” como a obra mais pessoal e autobiográfica de José Eduardo Agualusa. Há quem veja na protagonista deste título o alter ego (feminino) do escritor. Confesso que tive uma impressão muito próxima a esta. Para mim, Agualusa aparece ora diretamente no texto (passagens nas quais um autor desenvolve a trama ficcional – há, portanto, uma pegada metalinguística aqui), ora indiretamente na narrativa (na pele de Laurentina com certeza, mas também na de outras personagens). Teria Madume, o namorado de Laurentina, por exemplo, alguma característica do escritor angolano?! Ou Bartolomeu, sobrinho da cineasta que protagoniza esta história, possuiria alguns traços da personalidade de algum conhecido do autor? Ou mesmo Faustino Manso, o pai biológico de Laurentina, teria alguma relação com uma figura real? A mistura entre realidade e ficção me faz supor que sim. Publicado em 2007, “As Mulheres do Meu Pai” foi lançado no Brasil dentro da coleção Série Geral, coletânea de títulos da Editora Língua Geral destinada a promover os autores de língua portuguesa em nosso país a preços populares. Apesar de não estar entre as obras mais famosas de José Eduardo Agualusa, este livro apresenta uma narrativa impecável. Nota-se que seu autor já havia atingido a maturidade artística quando começou a produzir este texto. Prova maior disso é que, em “As Mulheres do Meu Pai”, o escritor angolano utiliza-se de uma gama variada de elementos literários impactantes para surpreender o leitor. E ele consegue atingir seu propósito com êxito. Em termos de complexidade e de riqueza ficcional, este livro é superior a, por exemplo, “O Vendedor de Passados”. Mesmo tendo “O Vendedor de Passados” como meu livro favorito de Agualusa, sei reconhecer que, em termos narrativos e literários, “As Mulheres do Meu Pai” possui uma trama e uma estrutura textual muito mais sofisticadas. O enredo de “As Mulheres do Meu Pai” começa em Oncócua, sul de Angola, em 6 de novembro de 2005. No quarto de um hotel, o escritor acorda após sonhar com a protagonista de seu novo romance, Laurentina. No sonho, a moça procura seu pai biológico, Faustino Manso, um luandense que viveu da música e que tinha várias famílias espalhadas pela África. Em seguida, a trama segue diretamente para o quarto de Doroteia, em Lisboa. Instantes antes de morrer, Doroteia, uma moçambicana que se mudou há vários anos para Portugal, terra natal do marido, Dário Reis, entrega um envelope lacrado à filha. Ao ler a mensagem materna, Laurentina, uma jovem cineasta portuguesa, descobre que Doroteia e Dário não são seus pais biológicos. Ela foi adotada assim que nasceu, em Moçambique, e, depois, levada ainda pequenina para Portugal, onde foi criada pela família Reis. A revelação de Doroteia vai além: ela informa que a mãe verdadeira da moça se chama Alima; e o pai legítimo de Laurentina é Faustino Manso, um famoso cantor e compositor angolano que fez muito sucesso na África Austral nas décadas de 1960 e 1970. Ao pesquisar rapidamente sobre ele na Internet, a moça descobre que Faustino faleceu, no dia anterior, aos 81 anos, de câncer nos pulmões (ele fumou a vida inteira). A notícia saiu naquele dia mesmo no Jornal de Angola. Interessada em reconstruir sua própria trajetória (encontrar suas raízes culturais legítimas) e desvendar o passado do pai biológico, Laurentina viaja imediatamente para a África. Ela quer filmar um documentário sobre Faustino Manso. Junto com ela nesta viagem, segue Mariano Maciel. Filho de angolanos, o rapaz, cujo apelido é Madume, nasceu em Portugal e se vê como um autêntico português (não gosta que insinuem que ele é africano). Madume é câmera e fotógrafo, além de ser o namorado de Laurentina. No enterro do pai, em Luanda, a capital de Angola, Laurentina conhece Bartolomeu Falcato, um de seus sobrinhos africanos (ele é neto de Faustino). O jovem, que tem mais ou menos a idade da tia vinda de Portugal, também é cineasta e escritor. Ao saber da proposta de trabalho de Laurentina (reconstruir o passado do pai visitando os locais em que ele viveu), Bartolomeu fica empolgado com o projeto do documentário e embarca na empreitada cinematográfica da portuguesa sem pestanejar. Assim, Laurentina, Madume e Bartolomeu partem para uma grande viagem pela África (Angola, Moçambique e África do Sul). O trio tem a companhia do motorista Albino Amador. Apelidado de Pouca-Sorte (devido aos insucessos recorrentes com as mulheres), Albino leva a equipe de cineastas em um carango caindo aos pedaços pelas estradas africanas. Quando jovem, Faustino perambulou pelo sul do continente ao longo de vinte e dois anos de carreira musical. Em cada lugar que parava (Benguela, Mossâmedes, Cidade do Cabo/Cape Town, Maputo/Lourenço Marques, Quelimane e Ilha de Moçambique), ele fazia uma nova família – esposa e filhos. Isso é, além da família que ele deixou em Luanda. Sabendo disso, o grupo de cineastas quer entrevistar as sete mulheres de Faustino Manso (Dona Anacleta, Mana Falita, Leopoldina, Seretha du Toit, Elisa Mucavele, Ana de Lacerda e Alima), alguns dos seus filhos (são 18 na conta oficial) e os incontáveis amigos, colegas e conhecidos do cantor. Desta maneira, Laurentina, que é a caçula de Faustino, acredita que conseguirá traçar um retrato fidedigno do pai – uma figura, até então, totalmente desconhecida para ela. A viagem pelas cidades onde Faustino Manso morou irá revelar grandes segredos de ontem e de hoje. Sem saber, Laurentina, Madume, Bartolomeu e Pouca-Sorte serão desafiados a encarar seus próprios medos e suas inquietações mais íntimas. Novas intrigas, paixões inusitadas e reviravoltas inimagináveis aguardam os protagonistas (e os leitores) deste romance singular. A narrativa avança até março de 2007, quando as filmagens do documentário terminam, assim como a produção do romance do autor ficcional (lembremos do primeiro trecho do primeiro capítulo). Em quase um ano e meio entre o começo e o fim desta história, muita coisa muda (alterações que afetam, curiosamente, o presente, o passado e, por que não, o futuro de cada uma das personagens desta obra). As páginas de “As Mulheres do Meu Pai” estão distribuídas em quatro partes (chamadas no livro de “andamentos”) e em 91 capítulos. Li esta publicação em um único dia – no sábado passado. Comecei sua leitura de manhãzinha e a concluí à noite (com várias paradas no meio do caminho). Devo ter investido ao todo cinco horas, cinco horas e meia nesta leitura. A primeira questão que chama a atenção em “As Mulheres do Meu Pai” é a multiplicidade de narradores. Esta trama possui uma narrativa extremamente multifacetada – cada trecho é contado por uma personagem diferente. O livro começa (e termina) com o relato de um autor (seria ele Agualusa?!). Duas páginas à frente, Laurentina assume o comando das palavras. Enquanto assistimos ao texto em primeira pessoa da narradora-protagonista, também nos deparamos com o ponto de vista de Mariano Maciel/Madume, Bartolomeu Falcato e Albino Amador/Pouca-Sorte. O trio masculino se reveza no meio da narrativa da cineasta portuguesa. Além disso, podemos acompanhar o discurso dos participantes do documentário sobre Faustino Manso. Sempre que alguém se senta à frente das câmeras do filme de Laurentina e fala sobre o cantor e compositor angolano, temos suas palavras em primeira pessoa. O resultado desta variedade de vozes é um romance sofisticado, plural e riquíssimo. O tempo inteiro ficamos tentando identificar quem está falando/escrevendo. Às vezes, conseguimos descobrir rapidamente o narrador daquele trecho textual. Em outras oportunidades, é preciso muita atenção e astúcia para desvendar o autor daquelas palavras. Ou seja, a vida do leitor não é tão tranquila quanto nos livros anteriores de José Eduardo Agualusa. Por isso mesmo, “As Mulheres do Meu Pai” é um romance tão interessante. A multiplicidade de narradores não é um mero recurso estilístico do autor desta obra. A visão multifacetada da trama permite uma narrativa mais completa e versátil. Parte do ritmo ágil e intenso de “As Mulheres do Meu Pai” deve-se a sua estrutura textual. O ritmo narrativo deste livro de Agualusa é excelente e não esmorece em nenhum momento (nem mesmo no último quarto do livro, quando o leitor acredita já ter descoberto os grandes segredos do enredo). Saiba que você será surpreendido com reviravoltas desta trama até as últimas páginas. Outra questão marcante de “As Mulheres do Meu Pai” é sua pegada de road story. Se você achou que “A Conjura” (Gryphus Editora) e “Nação Crioula” (Gryphus Editora) eram tramas ancoradas em viagens intermináveis, você precisa ler este sétimo romance de José Eduardo Agualusa. Neste livro, a África é quase uma personagem de destaque do livro. Durante as passagens pelas cidades de Angola, Moçambique e África do Sul, os narradores expõem suas visões (ora líricas/saudosas, ora pragmáticas/críticas) de cada localidade retratada. Essa jornada pelo interior da África faz parte da busca pela identidade cultural. Esse é o grande mote do romance e o que movimenta as diferentes personagens desta história – africanos nascidos no continente, mas criados na Europa (o que gera dúvidas sobre as verdadeiras raízes nacionais); africanos nascidos na Europa e sem contato direto com a terra natal de seus pais (ao ponto de renegarem suas origens); e africanos nascidos e criados na África, sem muito contato com o exterior (o que deveria reforçar a sensação de africanidade). Laurentina Reis, Mariano Maciel/Madume e Bartolomeu Falcato representam, respectivamente, esses três papéis. Apesar do documentário ser sobre Faustino Manso, as identidades reveladas pelas páginas de “As Mulheres do Meu Pai” são dos profissionais encarregados de produzir o filme. É legal reparar nesse aspecto contraditório. Por mergulhar na identidade cultural dos africanos (nativos, expatriados e em deslocamento intenso), lembrei muito, durante a leitura desta obra de José Eduardo Agualusa, de “Americanah” (Companhia das Letras), o romance mais famoso de Chimamanda Ngozi Adichie. De certa maneira, Laurentina é parecida a Ifemelu, Madume lembra Blaine e Bartolomeu é similar a Obinze. Até mesmo os triângulos românticos dos livros seguem um padrão próximo. Contudo, antes que alguém ache que Agualusa tenha se inspirado em “Americanah”, vou logo avisando: o livro do angolano foi publicado seis anos antes do título da nigeriana. Outra questão que aproxima muito “As Mulheres do Meu Pai” e “Americanah” é a denúncia ao racismo (na África e no exterior), à xenofobia (na Europa e nos Estados Unidos) e à violência endêmica (principalmente nos países do sul do continente africano). Não é errado enxergarmos José Eduardo Agualusa e Chimamanda Ngozi Adichie como os autores africanos que mais colocam os dedos nas feridas sociais de suas regiões e que discutem intensamente as questões de identidade cultural dos africanos e a importância da valorização da negritude. Se em “A Conjura” e “Nação Crioula” Agualusa criticou fortemente as ações estrangeiras durante o período colonial, em “As Mulheres do Meu Pai” ele critica mais os erros atuais e as omissões contemporâneas dos seus conterrâneos. Interessante notar que as críticas do autor são feitas de um jeito variado – em algumas partes do livro elas são mais diretas e em outras são mais sutis. Gosto disso. A sátira (inteligente) de Agualusa atinge, aqui, seu ponto alto. O angolano mantém sua pegada de engajamento social sem descambar para o tom de denuncismo fácil e barato. Só os grandes escritores conseguem embutir no meio de uma trama ficcional seus pontos de vista e suas críticas de uma maneira natural e que não monopolizem as atenções dos leitores (afinal, o mais importante, na perspectiva de quem está lendo, é o conflito principal do romance, né?). Outro acerto da edição da Língua Geral foi a manutenção da integralidade do texto original de José Eduardo Agualusa. Dependendo da personagem que assume a narração do livro, temos o português de Portugal (no caso de Laurentina e Madume) e o português mais africano (no caso de Bartolomeu e Pouca-Sorte). Se a editora brasileira tivesse adaptado o texto para o português de nosso país, teríamos na certa uma grande perda no que se refere à experiência estética de leitura. Ainda bem que a Língua Geral não cometeu esse equívoco/crime literário. Para concluir esta análise, preciso destacar mais quatro pontos de “As Mulheres do Meu Pai”: suas notas de rodapé, o tom cíclico da trama, a mistura de realidade e ficção com pitadas de Realismo Fantástico e a forte intertextualidade cultural. As notas de rodapé conferem uma sensação de biografia real e de romance antigo ao livro. Agualusa sabe pintar seu texto como se ele fosse uma trama histórica ou um relato verídico. O escritor angolano consegue tal efeito ao acrescentar alguns detalhes formais à narrativa (já tínhamos visto isso na prática em “Nação Crioula”, por exemplo). As notas de rodapé, neste caso específico, têm a função dupla de descolorir a narrativa (ela dá um ar de preto e branco/aparência antiga) e de realidade (sensação de que relato aconteceu efetivamente). O tom cíclico da trama fica mais evidente quando concluímos a leitura de “As Mulheres do Meu Pai”. Os filhos, querendo ou não, acabam repetindo os erros e os acertos de seus pais e avós. De uma perspectiva macroambiental, esse efeito pode ser visto pelas mazelas sociais do continente africano (equívocos mantidos de geração a geração). Como é típico da literatura de José Eduardo Agualusa, temos aqui um romance que mistura realidade e ficção (em um nível até mais intenso do que nas obras anteriores) e com doses generosas de Realismo Fantástico (o que conferem um charme todo especial às narrativas do autor). E, por fim, a intertextualidade cultural é do tipo literária (citação a Ruy Duarte de Carvalho, Gabriel García Márquez, Luandino Vieira, Camilo Castelo Branco, José Arrimar, Pedro Rosa Mendes, Ryszard Kapuscinski, Fernando Pessoa, Nelson Rodrigues, Rui Knopfli, Ana Paula Tavares, Luís Vaz de Camões, James Joyce, Breyten Breytenbach, Juan Rulfo, Jorge de Sena, Frederick Guy Butler, Mia Couto, Edgar Allan Poe, Tomás António Gonzaga, Alberto de Lacerda, Glória de Sant´Anna, Jall Sinth Hussein e Luís Carlos Patraquim), cinematográfica (referência a Sérgio Rezende, Karen Boswall, James Dean, Joaquim Phoenix, Robert Redford, Humphrey Bogart, Clark Gable, Fred Astaire, Woody Allen, Sean Connery e Orlando Sérgio), fotográfica (menção a Sebastião Salgado, Joan Fontcuberta, Eugen Baucar, Ricardo Rangel, Sérgio Santimano, Kok Nam e Fátima Saide), pictórica e, principalmente, musical (diálogo íntimo com Timbila Muzimba, Carlinhos Brown, Timbalada, Hugh Mase Kela, Fela Kuti, Manu Dibango, Dog Murras, N´Gola Ritmos, Duo Ouro Negro, Liceu Vieira Dias, Bob Marley, Jacques Brel, Leonard Cohen, Freshlyground, Nina Simone, Roberto Carlos, Julio Iglesias, Cauby Peixoto e Gilberto Gil). “As Mulheres do Meu Pai” é praticamente um romance musical. O Desafio Literário de novembro retornará no próximo domingo, dia 22, com a análise de mais um livro de José Eduardo Agualusa. A quinta obra deste mês que será debatida no Bonas Histórias é "Nweti e o Mar” (Gryphus Editora). Publicado em 2011, esse título é um exemplar da literatura infantil praticada pelo autor angolano. Não perca esta nova análise. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: O Vendedor de Passados - A obra-prima de José Eduardo Agualusa

    Em 1999, José Eduardo Agualusa, jornalista e escritor angolano com trabalhos de destaque tanto em sua terra natal quanto em Portugal e no Brasil, morava em Berlim. Em uma das noites frias da capital alemã, ele sonhou que frequentava um bar com muitos brasileiros. Ao som de samba e de chorinho, um homem sentou-se à sua mesa e se apresentou: “O meu nome é Félix Ventura, sou angolano e vendo passados aos novos ricos do meu país”. Ao despertar na manhã seguinte, o autor não perdeu tempo e escreveu um conto protagonizado pelo conterrâneo que viera lhe visitar em sonho. Apesar de ter colocado aquela história no papel, Agualusa não tirou mais da cabeça a figura de Félix Ventura, uma das personagens mais incríveis da literatura angolana e da literatura contemporânea em língua portuguesa. Uma narrativa curta parecia pouco para abranger uma trama com tantos nuances dramáticos. Assim, após concluir o romance “O Ano em que Zumbi Tomou o Rio” (Gryphus Editora), o escritor angolano lançou-se ao desafio de produzir um enredo mais completo para aquele conto berlinense. Nascia, assim, “O Vendedor de Passados” (Tusquets), o sexto romance de José Eduardo Agualusa. Esta obra faz uma sátira inteligente e bem-humorada aos dramas angolanos do Pós-Guerra Civil. Com doses de Realismo Fantástico, com muitas passagens oníricas e um ambiente extremamente violento, Agualusa tece um retrato magnífico da realidade atroz do seu país e das neuroses de seus conterrâneos. Não à toa, para muitos críticos literários, esta é a sua principal obra. Confesso que faço parte deste grupo. Há quem prefira, contudo, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), outro título memorável do portfólio artístico de José Eduardo Agualusa. Independentemente das preferências pessoais, uma coisa não se questiona: a excelência narrativa desses dois livros. De certa maneira, eles representam o auge literário de um dos principais autores vivos de nossa língua e da recente literatura africana. Escrito entre 2003 e 2004, quando Agualusa já tinha voltado a morar em Lisboa, “O Vendedor de Passados” foi publicado em 2004, em Portugal, e logo depois em Angola e no Brasil. Sucesso instantâneo de público e de crítica, este livro foi traduzido para vários idiomas. Em 2007, ao ganhar uma versão em inglês, cujo título foi “The Book of Chameleons”, “O Vendedor de Passados” conquistou o Prêmio Independent, honraria concedida pelo jornal britânico homônimo, na categoria Ficção Estrangeira. Foi a primeira vez que um africano recebeu este prêmio. Em 2015, esta história de José Eduardo Agualusa foi adaptada para os cinemas. A produção brasileira foi dirigida por Lula Buarque de Hollanda, roteirizada por Isabel Muniz e teve o protagonismo de Lázaro Ramos, Alinne Moraes e Odilon Wagner. Apesar de ter tido uma bilheteria tímida nas salas de cinema de nosso país, o longa-metragem foi assistido, anos mais tarde, por mais de oito milhões de espectadores quando exibido pela Rede Globo na televisão aberta. Provavelmente, quem gostou do livro do angolano irá se frustrar com o filme brasileiro. Afinal, a produção cinematográfica usa a trama de Agualusa apenas como base narrativa e cria uma (nova) história totalmente desvinculada da original. A versão audiovisual, inclusive, dispensa boa parte dos elementos mais charmosos do romance: o enredo não se passa em Angola (e sim no Brasil) e, portanto, não usa o passado violento do país africano como origem dos traumas das personagens; o protagonista não é albino (nem possui um passado obscuro/contraditório); o narrador não é uma osga/lagartixa (uma das gratas surpresas do livro); e não há uma forte crítica social à nova burguesia luandense (ávida por ter ancestrais famosos e/ou com histórias importantes). O longa-metragem de Lula Buarque de Hollanda é meramente um thriller policial com uma pegada contemporânea. Ou seja, ele não poderia ser mais distinto do que o livro de José Eduardo Agualusa! A versão literária de “O Vendedor de Passados” tem como cenário a capital angolana, Luanda, no fim da Guerra Civil (1975-2002). Félix Ventura é um senhor albino com hábitos reclusos e com uma biblioteca imensa em sua casa. Aproveitando-se da sua erudição e dos documentos e materiais históricos que possui, ele trafica memórias. Em outras palavras, Félix vende passados melhores para quem deseja apagar a trajetória complicada e perturbada que teve. A partir destes serviços, os clientes (grupo formado majoritariamente por novos ricos, figuras públicas, empresários, políticos e artistas angolanos) adquirem uma nova biografia, mais charmosa e mais condizente com os novos tempos. Certo dia, surge na casa de Félix um sujeitinho singular. Dizendo ser fotógrafo de guerras e tendo um forte sotaque brasileiro, o rapaz, que prefere não revelar o verdadeiro nome, quer um novo passado. Para isso, ele paga adiantado US$ 5 mil ao vendedor e promete outros US$ 5 mil para quando o serviço for concluído (sua exigência inclui os recebimentos de novos documentos e passaporte). Diante de uma proposta considerada irrecusável, Félix Ventura cria uma identidade novinha em folha para seu cliente: José Buchmann é filho de Matheus Buchmann e de Eva Miller, tem 52 anos e é natural de Chibia, um povoado colonizado por madeirenses. O novo José Buchmann fica tão empolgado com sua recém-obtida biografia que ele começa a realizar uma profunda pesquisa a respeito do seu “novo” passado. Apesar das advertências de Félix para não se expor tanto, o cliente inicia viagens para Chibia em busca de informações sobre seu pai e sobre sua mãe. Reconstruir sua trajetória (mesmo que criada de forma fictícia) se transforma em uma obsessão para Buchmann. De tão apegado à nova identidade, o fotógrafo passa por uma grande transmutação física e comportamental: ele se torna mais eloquente, passa a usar roupas coloridas, a risada vem fácil e até seu rosto fica mais parecido ao dos africanos. Nos meses seguintes, Félix Ventura e José Buchmann viram grandes amigos. Ambos os homens compartilham as descobertas relativas à família Buchmann. Nesses encontros, sempre na casa de Félix, o albino apresenta, ao amigo, Ângela Lúcia, uma jovem fotógrafa por quem está apaixonado. E José apresenta, ao anfitrião, Edmundo Barata dos Reis, um mendigo das ruas de Luanda que diz ter sido um oficial do governo angolano no período da Guerra Civil. Quem narra esta história é Eulálio, um dos moradores da residência de Félix Ventura. Eulálio é uma osga-tigre (espécie de lagartixa malhada) de quinze anos que tem a capacidade de dar gargalhadas como os seres humanos. Essa habilidade do animal chamou a atenção do morador da casa a ponto de Félix passar a conversar com o bichinho (conversa em tom de monólogo, obviamente, já que a osga não fala, né?). Foi o albino quem deu o nome de Eulálio ao pequeno réptil. O corpo da lagartixa é, na verdade, habitado pela alma de um (antigo) homem que, na vida passada, cometeu suicídio. Como carma, ele reencarnou agora em um ser aparentemente menos evoluído. Enquanto tenta recordar os dramas de sua encarnação anterior e tenta fugir dos seus predadores atuais (Eulálio tem tanto medo de ser comido por um animal maior que quase não sai da casa de Félix), a osga acompanha a saga do amigo-anfitrião e dos seus visitantes: José Buchmann, Ângela Lúcia e Edmundo Barata dos Reis. “O Vendedor de Passados” possui 208 páginas. Seu conteúdo está dividido em 32 capítulos (são capítulos curtinhos). Demorei cerca de quatro horas, na tarde e na noite da última quarta-feira, para concluir integralmente esta obra. Dos livros de José Eduardo Agualusa que li até aqui no Desafio Literário de novembro, este é indiscutivelmente o melhor. Se “A Conjura” (Gryphus Editora) e “Nação Crioula” (Gryphus Editora) são bons romances históricos (nada mais do que bons títulos...), “O Vendedor de Passados”, por sua vez, está alguns degraus acima em nível de excelência narrativa. Em suma, trata-se de uma obra espetacular! Não é errado dizer que esta é uma publicação para guardarmos na memória por vários e vários anos (patamar que, infelizmente, os livros anteriores do angolano não tinham conseguido atingir). Curiosamente, “O Vendedor de Passados” utiliza-se de boa parte dos ingredientes literários dos livros anteriores de Agualusa: realismo fantástico, ambiente de extrema violência e racismo, forte intertextualidade literária, personagens afetadas diretamente pelos acontecimentos políticos e sociais de Angola e tramas multifacetadas dentro de uma história maior. Entretanto, o resultado desse caldo narrativo é bem diferente de outrora. Apesar de usar as mesmas matérias-primas ficcionais, José Eduardo Agualusa conseguiu, enfim, construir uma história saborosíssima e marcante. O Realismo Fantástico está presente, em “O Vendedor de Passados”, já no foco narrativo. Ter como narrador uma osga é uma ideia genial. E Eulálio não se limita a descrever o que presencia na casa de Félix Ventura. Ele vai além: sonha, relembra suas vidas passadas, sente medo e questiona o que as personagens humanas estão fazendo. Parte da graça deste romance de José Eduardo Agualusa está na surpresa que o leitor tem quando se depara com este tipo de narrador e na riqueza que é ter uma osga como uma personagem ficcional (confesso que não sei qual figura deste livro é a mais interessante – se Eulálio ou Félix Ventura?!). Se por um lado colocar Eulálio como narrador da trama foi uma decisão corajosa e acertada, por outro lado esse expediente literário não é algo tão original assim em se tratando da moderna ficção africana em língua portuguesa. “O Vendedor de Passados” me fez lembrar de “A Varanda do Frangipani” (Companhia das Letras), romance de Mia Couto publicado pela primeira vez em 1996. A trama do moçambicano também era narrada por um espírito de um homem encarnado, tinha um animal com poderes especiais (no caso um pangolim, uma espécie de tamanduá africano com a capacidade de frequentar tanto o mundo dos vivos quanto o mundo dos mortos) e possuía como contexto os traumas da guerra (no caso, o longo conflito de independência de Moçambique). São inegáveis, do ponto de vista do foco narrativo e da ambientação, as várias semelhanças entre as obras de Agualusa e Couto. Duvido que o autor angolano não conhecesse “A Varanda do Frangipani” quando começou a produzir seu romance. Por falar em ambientação, “O Vendedor de Passados” é uma trama permeada de violência. As minas terrestres espalhadas pelo território angolano expõem o quão perigoso é o cenário do livro. Segundo o narrador, há mais bombas terrestres ativas do que habitantes em Angola (um exagero, obviamente) e a profissão de sapador, o trabalhador que desativa esses artefatos, é uma das mais prósperas deste país (outro exagero, é claro). Além disso, assistimos aos efeitos deletérios da Guerra da Independência e da Guerra Civil, que se propagaram por quase três décadas e que deixaram feridas pessoais e sociais ainda não totalmente cicatrizadas. Junto com a violência, o racismo estrutural afeta diretamente toda a sociedade angolana. Por mais paradoxal que seja, em um país em que a população é prioritariamente negra, ainda sim o racismo pode vigorar intensamente. Como um bom romance de Agualusa, “O Vendedor de Passados” é um texto com intensa intertextualidade literária e alguma intertextualidade musical. Ao longo desta narrativa, são citados uma infinidade de autores (Mikhail Bakunin, Eça de Queirós, William Shakespeare, Gabriel García Márquez, Paulo Coelho, Camilo Castelo Branco, J. M. Coetzee, Fernando Pessoa, Jorge Amado, Aldous Huxley e Michel de Montaigne) e algumas modalidades musicais (cuduro, quizomba, samba, chorinho, fado e tango, por exemplo). A trama principal desta obra também apresenta forte metalinguagem literária: o trabalho de Félix Ventura conversa com os clássicos da ficção (o protagonista é especialista na literatura de Eça de Queirós) e, ao final do livro, ele se lança ao trabalho de escritor. Se há muitas semelhanças entre este título e os anteriores de José Eduardo Agualusa, há também algumas diferenças consideráveis. A primeira é a pouca quantidade de personagens desta vez. Se “A Conjura” e “Nação Crioula” tem quase um novo personagem por página, “O Vendedor de Passados” tem sua trama concentrada em cinco figuras: Félix Ventura, Eulálio, José Buchmann/Pedro Gouveia, Ângela Lúcia e Edmundo Barata dos Reis. Quando muito, esta narrativa cita uma ou outra personagem secundária – Esperança Job Sapalalo (a empregada doméstica de Félix), Eva Miller (a mãe de José/Pedro), o ministro, o presidente... Do ponto de vista da complexidade da trama, é possível enxergar “O Vendedor de Passados” como uma novela e não como um romance. Gostei disso! Confesso que fiquei várias vezes confuso durante a leitura de “Nação Crioula” e, principalmente, de “A Conjura”. O excesso de personagens, naquelas obras, não agregava (pelo contrário - desagregava). Outra questão interessante de “O Vendedor de Passados” é a multiplicidade de sua narrativa. A partir de uma linha central, a história de Agualusa se bifurca em vários pontos. Assim, temos: a vida presente e real das personagens (de Félix Ventura e de Eulálio, por exemplo); as vidas passadas do narrador (quando Eulálio era ainda um homem e não uma osga); as vidas inventadas por Félix Ventura, o vendedor de passados; o universo onírico do narrador (que se embaralha com os sonhos das demais personagens); o passado de Félix Ventura (que não sabemos se é real ou fictício – ele teria feito um “novo” passado para si mesmo?!); e o emaranhado biográfico entre José Buchmann/Pedro Gouveia, Edmundo Barata dos Reis e Ângela Lúcia (que propicia a última surpresa do livro). Por fim, a ambientação deste romance e sua estrutura narrativa estão calcadas em cima de um contexto político bem específico (Guerras em Angola da segunda metade do século XX). É impossível compreender o que se passa nesta trama sem entender o que aconteceu com este país nas últimas décadas. “E qual a novidade nisso?”, alguém pode me perguntar. A diferença está no fato do aspecto político ficar, desta vez, apenas ao redor do conflito principal. Vale lembrar que em “A Conjura” e em “Nação Crioula”, este elemento fazia parte da essência dos romances (a política estava no centro da narrativa). Também gostei dessa alteração. A parte ficcional ganhou força frente aos elementos históricos e sociais. O principal mérito de Agualusa, em “O Vendedor de Passados”, foi ter abordado vários temas delicados de seu país sem ser literal em seus apontamentos/críticas. A sutileza foi a arma do jogo. A sátira foi usada pelo autor angolano como ferramenta de crítica social e o humor teve a função estratégica de apontar os absurdos da sociedade. Em resumo, “O Vendedor de Passados” é um romance memorável. Admito que fiquei encantado com sua narrativa (e com o talento ficcional de Agualusa). Não se surpreenda, portanto, se você vir esta obra na lista das melhores leituras de 2020, post do final do ano da coluna Recomendações. O próximo livro de José Eduardo Agualusa que vamos analisar no Desafio Literário de novembro será "As Mulheres do Meu Pai" (Língua Geral). Publicado em 2007, este romance, o sétimo do autor angolano, aborda a busca de uma cineasta portuguesa por suas origens africanas. Quando sua mãe morreu, ela descobriu ser filha de Faustino Manso, um popular compositor angolano nas décadas de 1960 e 1970. O post com os comentários de "As Mulheres do Meu Pai" estará disponível, no Bonas Histórias, na próxima quarta-feira, dia 18. Boa leitura! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Nação Crioula - O terceiro romance de José Eduardo Agualusa

    Li, no último final de semana, “Nação Crioula” (Gryphus Editora), o terceiro romance de José Eduardo Agualusa, o escritor que está sendo analisado neste mês no Desafio Literário. Vale lembrar que, na sexta-feira passada, dia 6, comentamos no Bonas Histórias “A Conjura” (Gryphus Editora), a obra de estreia do autor angolano. De certa forma, “Nação Crioula”, que será discutido no post de hoje, dialoga intimamente com “A Conjura”. Afinal, ambos os livros denunciam o racismo e a exploração dos negros durante o período colonial português. Esses temas não compuseram o plano principal de, por exemplo, “Estação das Chuvas” (Quetzal), o segundo romance de Agualusa. A narrativa de “Estação das Chuvas” abordou a biografia da historiadora angolana Lídia do Carmo Ferreira, desaparecida durante a Guerra Civil de seu país na década de 1990. “Nação Crioula” é uma trama histórica desenvolvida por meio de uma narrativa epistolar. Ambientado na segunda metade do século XIX, este livro apresenta tanto a luta abolicionista em Angola quanto a violência praticada pelos portugueses na África durante o período colonial. Na construção deste enredo, José Eduardo Agualusa mistura realidade e ficção e faz uma interessante intertextualidade literária (ele pega emprestado uma personagem de Eça de Queiroz para protagonizar seu romance e utiliza o próprio escritor português como uma de suas personagens). O resultado é um dos trabalhos literários mais engajados de Agualusa e um dos títulos ficcionais mais elogiados da atual literatura angolana. Publicado em 1997 em Portugal e Angola e no ano seguinte no Brasil, “Nação Crioula” possui o subtítulo “A Correspondência Secreta de Fradique Mendes”. A obra conquistou, em Portugal, o Grande Prémio Literário RTP de 1998 como o melhor romance em língua portuguesa daquela temporada. Parte da aclamação da crítica literária se justifica pelo fato de José Eduardo Agualusa ter reconstruído a história colonial portuguesa a partir do ponto de vista do povo negro escravizado (uma inovação e tanto). Apesar do protagonista do romance ser um fidalgo lusitano, a personagem mais emblemática deste título é Ana Olímpia, uma mulher negra que foi escravizada duas vezes, uma delas depois de ter se tornado uma pessoa livre. Além disso, a narrativa percorre três continentes (Europa, América e África) e, assim, relaciona intimamente as histórias de Portugal, Brasil e Angola em uma saga única e indivisível. O enredo de “Nação Crioula” inicia-se em maio de 1868 em Luanda, a capital angolana. Carlos Fradique Mendes, um aventureiro português do tipo bon vivant, desembarca na África ao lado de Smith, seu bom e leal assistente escocês. A ideia de Fradique é conhecer a realidade da colônia portuguesa e desbravar o interior da África, uma terra cercada de mistérios, misticismos e enigmas. Como é um fidalgo rico e de reputação ilibada na Europa, Fradique é recebido com pompas por Arcénio de Carpo, um comerciante local muito rico e que fez fortuna com o tráfico de escravos negros. É na casa de Arcénio que o português fica hospedado durante sua estadia em Angola. Um mês após sua chegada à colônia, Fradique é convidado para ir ao Baile do Governador, festa que reúne a nata da elite angolana. Lá, ele conhece Ana Olímpia, uma moça linda e com uma história de vida surpreendente. Filha de um rei congolês, ela se tornou escrava em Angola ainda pequena, quando seu pai foi capturado e preso. Seu dono era Victorino Vaz de Caminha, um próspero comerciante de escravos de Luanda. Quando Ana Olímpia se tornou adolescente, Victorino, encantado com sua beleza, decidiu se casar com a jovem. Assim, do dia para a noite, a até então escrava se transformou em uma das damas mais ricas de Angola. Apesar de ter ficado apaixonado à primeira vista por Ana Olímpia, Fradique não conseguiu ser, à princípio, nada mais do que um bom amigo desta dama. Afinal, ela era uma mulher casada e não pensava em trair o marido. Contudo, alguns anos mais tarde, quando Victorino Vaz de Caminha já havia falecido, a situação mudou totalmente. Viúva (e única herdeira do marido), Ana Olímpia não impôs obstáculos ao português e os dois começaram a namorar. Em uma de suas viagens para a Europa, Fradique fica sabendo que sua amada está correndo perigo em Angola. Com a chegada de Jesuíno Vaz de Caminha, o maldoso irmão de Victorino, à Luanda, Ana Olímpia foi feita novamente escrava. Como Victorino tinha se esquecido de dar a carta de alforria à esposa quando se casou com ela, Jesuíno se aproveitou desse detalhe burocrático para inverter o jogo. Além de se apoderar da fortuna deixada pelo irmão (aos olhos da lei, Jesuíno era agora o único herdeiro de Victorino), ele fez a jovem viúva voltar a condição de escrava (sem carta de alforria, ela não era uma mulher livre). Quando Fradique retornou à Angola para auxiliar a namorada naquele imbróglio, ele descobriu que seu amigo Arcénio de Carpo estava indignado com a situação de Ana Olímpia. Por isso, já tinha tomado à frente para resolver aquela tramoia de Jesuíno. Depois de tentar todas as formas legais para devolver a liberdade à moça, Arcénio decidiu matar o irmão de Victorino. Só assim, acreditava, poderia fazer justiça. Não é preciso dizer que rapidamente o conflito entre Arcénio de Carpo/Fradique Mendes e Jesuíno Vaz de Caminha adquiriu tons beligerantes, em que qualquer passo em falso de um dos lados poderia representar a morte. Inicia-se, assim, a longa batalha de Fradique para tornar Ana Olímpia novamente uma mulher livre e feliz. Nação Crioula é o nome do navio negreiro que o casal de namorados foi obrigado a pegar, como passageiros clandestinos, para fugir para o Brasil. O leitor fica sabendo desses episódios (e do restante da trama, que vai até agosto de 1900) à medida que lê a correspondência do protagonista. Todo o texto de “Nação Crioula” (na verdade, quase todo: há uma quebra dessa lógica nos dois últimos capítulos do livro) é baseado nas cartas que Carlos Fradique Mendes enviou à sua madrinha, Madame de Jouarre (que vive provavelmente em Paris), à Ana Olímpia, sua amada, e ao Eça de Queiros, seu amigo de longa data (que vivia nesta época em Newcastle, Inglaterra). É através do seu texto epistolar que Fradique se torna o narrador do romance. A explicação de como essas cartas foram reunidas (afinal elas foram enviadas pelo português e não recebidas por ele) surge nos últimos dois capítulos da obra (um trecho de um livro de Eça de Queiroz e uma carta de Ana Olímpia). “Nação Crioula” é um livro curtinho. Ele tem apenas 160 páginas, que estão divididas em 26 capítulos. Cada capítulo é uma carta do narrador-protagonista. Precisei de apenas quatro horas, no último domingo, para concluir integralmente esta leitura. De tão breve que é esta narrativa, não estranharia se alguém a classificasse como uma novela ao invés de um romance. Esta obra de José Eduardo Agualusa pode ser vista como uma mistura de “Escrava Isaura” (Autêntica), clássico do brasileiro Bernardo Guimarães, com “A Morte de Matias Pascoal” (Nova Alexandria), romance do italiano Luigi Pirandello, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Abril), drama do alemão Johann Wolfgang von Goethe, e “Doze Anos de Escravidão” (Seoman), autobiografia do norte-americano Solomon Northup. Da trama brasileira, a semelhança está no desespero de uma mulher que ganhara a liberdade e se viu obrigada a voltar à condição de escrava. Do clássico italiano, temos um narrador-protagonista que se finge de morto para evitar problemas e perseguições. A história alemã, por sua vez, é lembrada pela narrativa epistolar recheada de ações e reviravoltas. E a biografia do norte-americano fica em nossa mente pois “Nação Crioula” tem um pé na realidade (personagens, situações e episódios verídicos surgem no meio da ficção). Como fruto dessa combinação, assistimos a uma contundente crítica à escravidão e ao racismo. Será que Agualusa tinha essas referências em mente quando começou a produzir este romance? Não tenho a resposta exata para essa pergunta, mas fico inclinado a dizer que sim. “Nação Crioula” é um livro que possui fortíssima intertextualidade literária. Além do narrador ser uma figura fictícia pega emprestada da literatura de Eça de Queiroz e um dos personagens do romance angolano ser o próprio autor português, José Eduardo Agualusa cita em sua trama vários outros nomes de destaque da literatura em língua portuguesa e da literatura internacional. Há, por exemplo, referências a Gregório de Mattos, Victor Hugo, Charles Baudelaire, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, Théophile Gautier, Alphonse Lamartine, Homero, Dante Alighieri, Castro Alves, Mikhail Bakunin, Voltaire e Gonçalves Dias. Ou seja, é difícil crer que o angolano não conhecesse os trabalhos de Bernardo Guimarães, Luigi Pirandello, Goethe e Solomon Northup. Um dos aspectos mais interessantes de “Nação Crioula” está nas contradições de suas personagens. Agualusa construiu, na maior parte das vezes, personagens redondas. É legal notar que as figuras boazinhas não são tão boazinhas assim (ou pelo menos têm comportamentos questionáveis no meio do caminho). Carlos Fradique Mendes, o narrador-protagonista, é alguém que mergulha de cabeça na causa abolicionista. Contudo, ele sempre foi um aventureiro irresponsável e pouco preocupado com as questões sociais. Suas preocupações, antes de conhecer Ana Olímpia, eram usufruir a sua fortuna e viajar a lazer pelo mundo. Em outras palavras, nosso herói era fútil e egoísta. A própria Ana Olímpia é uma personagem riquíssima do ponto de vista ético. Após se tornar uma mulher livre e muito rica, ela não deu alforria aos seus escravos. Dizia ter se afeiçoado demais aquelas pessoas para deixá-las partir. É ou não é uma contradição absurda?! Outra personagem maravilhosa é o velho Arcénio de Carpo. Ele é o amigo mais leal de Fradique, de Victorino Vaz de Caminha e de Ana Olímpia. Beleza até aí. Porém, ele havia enriquecido como traficante de escravos negros. Paradoxalmente, ele defendia a liberdade de Ana Olímpia, mas tinha escravizado centenas ou milhares de negros ao longo das últimas décadas. Outra questão que precisa ser elogiada é o ritmo ágil da narrativa de “Nação Crioula”. Se você tem a impressão de que um romance epistolar é algo arrastado, enfadonho e com poucas emoções, saiba que você será surpreendido com esta obra de José Eduardo Agualusa. Este livro é um autêntico road story que transita maravilhosamente bem pela história de Portugal, do Brasil e de Angola. Essa junção do passado dos três continentes encaixa muitas peças que tradicionalmente ficam soltas na cabeça dos leitores. Além disso, não faltam cenas de ação e reviravoltas nesta narrativa. Assim, sua leitura se torna agradável e muito veloz. À título de comparação, fui da primeira à sua última página em apenas duas sentadas. Para ajudar ainda mais na construção histórica de “Nação Crioula”, Agualusa utilizou-se de dois ótimos expedientes narrativos: (1) o uso de figuras verídicas no meio da trama ficcional; e (2) o uso predominantemente do tom romântico (o termo romântico refere-se aqui ao período do Romantismo, corrente literária em voga na época em que esta história está ambientada, o século XIX). A mistura de figuras reais com personagens fictícios torna “Nação Crioula” uma narrativa extremamente fidedigna. A impressão que temos é de estar acompanhando uma biografia verídica. Para o leitor brasileiro, essa experiência é até mais intensa porque desfilam pelas páginas desta obra muitos compatriotas históricos e reais, boa parte deles relacionados aos ideais abolicionistas. São os casos de José do Patrocínio, Luís Gama, Joaquim Nabuco e André Rebouças. A pegada romântica de “Nação Crioula” aparece desde o tipo de narrativa utilizada (o romance epistolar era muito comum no Romantismo) e o subtítulo gigantesco (uma prática mais comum no século XIX) até o tom passional e ideológico do texto (típicos da segunda e da terceira fase romântica, respectivamente) e o comportamento impulsivo e radical das personagens (ao melhor estilo Eça de Queiroz). Curiosamente, “Nação Crioula” possui muitas semelhanças e várias diferenças em relação a “A Conjura”. Por exemplo, os dois livros de Agualusa tratam do racismo e da crueldade da colonização europeia na África e na América Latina. Entretanto, “A Conjura” foca mais no processo de independência de Angola e do Brasil e no combate ao racismo dos colonizadores (e deixa em segundo plano a questão da abolição da escravatura). Em “Nação Crioula” temos o inverso. A questão da abolição salta para o primeiro plano (enquanto a independência das colônias e o combate ao racismo vão para o segundo plano). Os dois livros têm forte componente político em sua ambientação e abordam sociedades secretas (aqui o enfoque é na Sociedade do Cupim, uma organização antiescravista). Além disso, eles exploram o Realismo Fantástico de maneira inteligente e saborosa. Ambas as narrativas também possuem no meio do seu texto pequenas histórias (quase contos) que ajudam a ilustrar a realidade retratada. Porém, em “Nação Crioula”, essas tramas independentes estão atreladas ao conflito principal, algo que não acontecia em “A Conjura”. No primeiro romance de Agualusa, por exemplo, as pequenas tramas independentes tinham mais vida do que o conflito principal (algo que confundia a cabeça do leitor). Apesar de representarem uma ruptura estética com o que estava sendo praticado até ali (mudança de narrador e uso de trecho intertextual), os dois últimos capítulos de “Nação Crioula” são importantes para juntar as peças soltas do quebra-cabeça narrativo. Assim, o desfecho justifica a existência desta história e responde à questão: como as cartas escritas por Fradique foram coletadas? Sem uma resposta plausível para essa pergunta delicada, teríamos um erro crasso de foco narrativo. Por falar em estética literária, não temos em “Nação Crioula” uma experiência linguística tão rica quanto a encontrada em “A Conjura”. Vale lembrar que no primeiro romance de Agualusa tínhamos o português africano como um dos elementos mais charmosos da estrutura textual. A explicação para essa ausência agora está devidamente justificada na própria construção narrativa. Como o narrador de “Nação Crioula” é um português, não fazia sentido ele falar como um africano. Assim, não temos a riqueza e o colorido da versão africana do idioma de Camões. O único ponto negativo de “Nação Crioula” é o seu projeto gráfico. Ao menos a edição brasileira (da Editora Gryphus) tem um visual horrível. A sensação que tive é que fizeram o livro sem muito cuidado (na quarta-capa, o texto está na vertical!) e com a preocupação de diminuir ao máximo o número de páginas (assim, o prefácio de Hermano Vianna está em uma letra minúscula). Um romance desta qualidade merecia um acabamento estético/visual melhor por parte dos seus editores. O próximo livro que será analisado no Desafio Literário é “O Vendedor de Passados” (Tusquets), a obra-prima de José Eduardo Agualusa. Publicado em 2004, este romance conquistou o Prêmio Independent de 2007 na Categoria Ficção Estrangeira. Os comentários sobre “O Vendedor de Passados” estarão disponíveis no Bonas Histórias no próximo sábado, dia 14. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Conjura - O romance de estreia de José Eduardo Agualusa

    Em novembro, o Desafio Literário irá se dedicar à análise da produção ficcional de José Eduardo Agualusa, um dos principais nomes da literatura angolana e da literatura contemporânea em língua portuguesa. E esse estudo tem início, hoje, com a avaliação crítica do romance de estreia de Agualusa: “A Conjura” (Gryphus Editora). Para aqueles que aportaram só agora no Bonas Histórias, aviso que este é o primeiro dos seis títulos do angolano que serão investigados nas próximas quatro semanas. As outras obras são: “Nação Crioula” (Gryphus Editora), “O Vendedor de Passados” (Tusquets), “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), "Nweti e o Mar" (Gryphus Editora) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Sou um tanto suspeito para falar, mas a programação deste mês me parece imperdível para quem curte o melhor da moderna ficção lusófona. Publicado em 1989, “A Conjura” foi escrito ao longo de 1987 e concluído, em Lisboa, em janeiro de 1988. Neste romance histórico ambientado entre o final do século XIX e o início do século XX, José Eduardo Agualusa apresenta o drama dos integrantes de um dos primeiros movimentos de independência de Angola, então colônia de exploração de Portugal. Naquela época, o governo português via suas terras na África (não apenas Angola, mas também Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau) invariavelmente como seu quintal. Era para lá que eram enviados os criminosos degredados, a população pobre que alimentava o sonho de empreender e os comerciantes mais ambiciosos da Península Ibérica. “A Conjura” descreve a insatisfação latente dos angolanos em relação ao comportamento predatório e às ideologias racistas dos colonizadores. Enquanto narra a realidade (os amores/desamores, as intrigas cotidianas, os sonhos/desilusões, a cultura, os hábitos e as crenças religiosas) dos moradores de Luanda, a capital angolana, José Eduardo Agualusa denuncia, em “A Conjura”, o racismo, a violência, a escravidão e a exploração que seus conterrâneos, principalmente os negros e os mulatos, eram vítimas em sua própria terra. Os vilões da trama são, obviamente, os europeus (portugueses, ingleses, franceses, belgas e holandeses), uma gente interessada apenas em se apropriar dos recursos naturais, humanos e financeiros da nação africana. Daí o desejo de um grupo de nativos em pegar em armas e promover a independência de Angola. Em uma comparação informal que os brasileiros vão entender perfeitamente, “A Conjura” relata uma espécie de inconfidência luandense. O movimento conspiratório foi promovido, assim como a Inconfidência Mineira no século XVIII, por um grupo secreto constituído por intelectuais e prósperos comerciantes da região mais rica da colônia. Os revoltosos estavam insatisfeitos com o status político, social e econômico que sua nação recebia do então Reino português. Justamente aí reside uma das belezas da narrativa de Agualusa. Enquanto trata da política (temas do macroambiente), o romance também aborda o dia a dia na colônia, com suas tragicomédias de âmbito pessoal (assuntos do microambiente). Vale a pena ressaltar que “A Conjura” é um dos primeiros livros da literatura africana em língua portuguesa a promover a negritude/empoderamento negro. Os protagonistas desta obra são, na maioria das vezes, homens e mulheres negros ou mulatos, cultos, ativos politicamente, empreendedores, bem-sucedidos economicamente e/ou com uma posição de destaque na sociedade local. Além disso, este título é pioneiro ao denunciar o racismo estrutural da sociedade angolana no período colonial. Misturando episódios e figuras reais a acontecimentos e indivíduos fictícios, Agualusa mergulha nos dramas da população negra e aponta as atrocidades cometidas pelos europeus brancos no processo de exploração do continente africano. Lembremos que o escritor angolano fez isso no final da década de 1980, uma época da nossa história em que a campanha Black Lives Matter - Vidas Negras Importam ainda estava muito longe de eclodir e de despertar a atenção da mídia dos países desenvolvidos. Quando foi lançado em Portugal e em Angola, “A Conjura” recebeu excelentes avaliações da imprensa especializada e ganhou rasgados elogios da crítica literária. Em seu país natal, José Eduardo Agualusa conquistou o Prêmio Sinangol de Literatura, um dos principais de Angola, na categoria Autor Revelação. Em Portugal, não foram poucos os profissionais do mercado editorial que anunciaram o surgimento de um autor de língua portuguesa com grande potencial criativo e narrativo. Hoje, sabemos que essas previsões não eram exageradas e estavam certas. O enredo de “A Conjura” inicia-se em 1880. Após aprender o ofício de barbeiro em Bengala, sua terra natal, com o português Acácio Pestana, Jerónimo Caninguili chega à Luanda para montar o próprio negócio. Seu estabelecimento tem um nome peculiar: Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade. O termo fraternidade é uma óbvia referência a um dos ideais da Revolução Francesa. Não demora para a barbearia de Caninguili cair no gosto da elite luandense. Enquanto cuidam da estética facial, os homens aproveitam para debater muita política. Assim, o negócio do benguelense vira o centro de calorosos debates que vão de discussões políticas e comerciais até artes e literatura, passando obviamente pelas fofocas de Luanda. Ao longo das três décadas seguintes, os fregueses da Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade vão protagonizar várias histórias tragicômicas na capital angolana. Manaus, o papagaio do Velho Gama, estava acostumado a imitar as palavras do dono. Por isso, a ave falante provocou um grande rebuliço no enterro do Gama. Alice, a filha do falecido, ficou incumbida de cuidar de Manaus após a morte do pai e se tornou presença constante na barbearia de Caninguili. Diferentemente dos clientes do estabelecimento, ela ia até lá para conversar com o dono do lugar e para compartilhar seu gosto pela literatura. Inocêncio Mattoso da Câmara se candidatou à presidência do Município de Luanda em uma eleição marcada por muita corrupção e confusão. Arantes Braga, apaixonado por Josephine, morreu, segundo dizem, literal e figurativamente do coração. Rocha Camuquembi era um polêmico mercador de corpos que se transformou em um improvável herói nacional. Judite, filha de Hipólito Viera Dias, queria se casar com Severino de Sousa, mas seu pai queria uni-la ao velho Carmo Ferreira, um próspero comerciante da capital angolana. César Augusto do Carmo Ferreira, filho do velho Carmo Ferreira, tinha o sonho de ser militar e de desbravar o interior do país combatendo os revoltosos do Reino português. Adolfo Vieira Dias, irmão de Judite, se envolveu em um ruidoso escândalo ao namorar uma mulher casada, Ana Maria Barata. Ela era a esposa lisboeta do comissário português Dantas Barata, importante figura política da metrópole que estava à serviço na colônia. Maria da Enunciação, a filha de Severino e Judite, apresenta desde pequena os dons mediúnicos de Vavó Uála das Ingombotas, uma falecida vidente de Luanda. Enquanto acompanhamos a vida sentimental e profissional das personagens de “A Conjura”, também assistimos ao enrubescimento da situação política em Angola. Após o surgimento de alguns jornais e de movimentos de oposição ao governo português, um grupo de influentes clientes da barbearia de Jerónimo Caninguili forma a Sociedade, o grupo político secreto que tem como objetivo a luta pela independência do país. A ação mais ambiciosa da Sociedade está marcada para 16 de junho de 1911. Nesta data, os revoltosos planejam tomar à força o controle da capital da nação. O romance de José Eduardo Agualusa vai exatamente até este dia e apresenta o desfecho da ação dos conjurados. “A Conjura” possui 192 páginas. O livro está dividido em seis capítulos. Levei aproximadamente cinco horas para concluir esta leitura no último domingo. Comecei a obra no meio da manhã e no fim da tarde já havia chegado à sua última página. Ou seja, é possível ler este título em um único dia (em duas ou três sentadas) ou em duas noites. Para começo de conversa, vamos falar do nome desta obra de Agualusa. Em uma perspectiva denotativa, conjura significa conspiração, intriga e rebelião. Do ponto de vista conotativo, podemos ver este termo como sinônimo de fracasso, invocação aos espíritos e exorcismo às más influências. Citei as múltiplas designações do título deste romance de estreia de José Eduardo Agualusa para demonstrar o quão completa é a sua significação. Em outras palavras, acredito que não haveria melhor título do que este. O que mais gostei em “A Conjura” foi do retrato da língua, da cultura, da geografia, da população e da realidade angolana. O cotidiano sociocultural deste país salta das páginas com um brilho intenso e com muita força. Agualusa tece uma crônica sobre a vida, os hábitos, as crenças e a estrutura social de sua terra natal durante o período colonial. E esse panorama não é apenas belo como é também extremamente verossímil. De forma inteligente, o autor mistura o português típico de Angola (ngueta, bofeta, xuaxualhar, makas, muximado, matuba, quindumba, sunguilar, cazuela, mata-bicho etc.) a termos, palavras e expressões do quimbundu, uma das línguas nativas daquela região. Esse recurso linguístico faz com que o leitor seja atirado diretamente à realidade local, sem escalas ou intermediários. É interessante acompanhar também os detalhes da cultura (bebidas, instrumentos musicais, alimentos, crenças, superstições) e das diferenças regionais de Angola. Aproveitando-se do misticismo da cultura africana, “A Conjura” explora de maneira inteligente o lado sobrenatural, mágico e espiritual dos angolanos. Assim, este romance adquire várias características do Realismo Fantástico. As personagens de Agualusa falam com espíritos, clamam pelas divindades, conseguem prever o futuro, têm premonições e usam (e abusam) das superstições para evitar tragédias e para conquistar o que tanto desejam. Parte da graça deste livro está na liberdade narrativa das pessoas em se comunicar e de interagir com outros planos espirituais. Para intensificar o tom de romance histórico de sua publicação, José Eduardo Agualusa abre cada capítulo de “A Conjura” com um pequeno resumo do que virá a seguir. Esse expediente textual era típico dos livros da época em que a trama está ambientada (século XIX). Apesar de ultrapassado e sem sentido aos olhos dos leitores contemporâneos, o resumo na abertura do capítulo confere um tom antigo ao enredo (como o preto e branco dos filmes atuais remetem à nostalgia dos longas-metragens da primeira metade do século XX). Para intensificar ainda mais o caráter histórico, o autor angolano ainda apresenta na abertura de cada capítulo um fragmento textual da época retratada (poesia, notícia de jornal, panfleto político etc.). Assim, temos uma mistura intensa de realidade e ficção. Juntamente com a pegada de crônicas de costumes, “A Conjura” exalta uma contundente crítica político-social. A necessidade de independência da colônia e a urgência da promoção do abolicionismo que os angolanos sentiam eram legítimas e fruto do racismo, da exploração e do egoísmo dos invasores europeus. Por falar nisso, é importante destacar que a escravidão também existia no continente africano (muitas pessoas no Brasil pensam que essa prática foi imposta exclusivamente aos negros nas colônias americanas). Ou seja, até mesmo em sua própria terra, os negros eram aprisionados, transformados em mercadoria e explorados como força motriz da economia dos brancos. As partes mais fortes deste romance de Agualusa são justamente aquelas em que se apontam os preconceitos raciais, sexistas, econômicos e religiosos da Angola colonial. Por pior que possa parecer, alguns nativos apoiavam as atitudes, as crenças e a ideologia dos dominadores, em uma insensatez interminável. Veja um trecho que escancara o racismo de uma parcela dos portugueses na África: “(...) um artigo inserto no número quatro d´A Gazeta de Loanda, único periódico que, ao mesmo tempo, se publicava na capital da colônia. O dito artigo multiplicava-se em insultos soezes contra a raça negra, não sendo daí, porém, que vinha a maior novidade; de novo havia que, tomando por base tais dantas-baratismos, o audaz croniqueiro se atrevia a construir teorias e a avançar com propostas que até então ninguém havia ousado publicamente apadrinhar. Por exemplo, propunha que se substituíssem as penas de prisão por castigos corporais, pois “meter em ferros d´El Rei um preto que delinquiu assassinando, roubando, ferindo, ofendendo a moral por ações ou palavras, não é aplicar um castigo, é antes incitá-lo ao crime, é lisonjear-lhe o instinto, é dar-lhe o prêmio. Pois qual é o ideal do preto senão comer sem trabalhar? Qual é a sua lei, a sua norma de vida, o seu superior anseio? Não somos apologistas dos castigos corporais. Achamo-los uma barbaridade, pelo mesmo motivo que achamos a pena de morte um crime oficial. Mas umas palmatoadas nos mesmos termos, protestando ainda contra a condenação de europeus que ofendessem indígenas, já que “antes de tudo, o castigo severo do branco por motivo de simples ofensa ao preto, sendo deprimente do homem e consequentemente exauturador da raça” (AGUALUSA: 1989). Ao mesmo tempo em que expõe a violência ideológica e física dos colonizadores, José Eduardo Agualusa narra em tom tragicômico o dia a dia da Luanda colonial. O humor leve dos encontros e desencontros amorosos dos africanos quebra um pouco o ar pesado da narrativa política de “A Conjura”. A ambientação leve do texto ficcional deve-se sobremaneira às cenas engraçadas e à comicidade dos causos relatados. O único ponto negativo deste romance de Agualusa é que seu ritmo narrativo demora um pouco para embalar. Como há muitas personagens sendo retratadas simultaneamente (cada indivíduo surge do nada no texto e permanece poucas páginas em ação, dando espaço para as outras figuras despontarem, que, por sua vez, ficam também pouco tempo em destaque), o leitor pode ficar um pouco confuso. Isso se dá principalmente na primeira metade do livro. A sensação que tive nos três capítulos iniciais da obra era de estar lendo uma coletânea de contos e não um romance. Fiquei com dúvida sobre qual seria o conflito principal de “A Conjura”. Apenas na segunda metade da narrativa (três capítulos finais), quando conhecemos todos os protagonistas e compreendemos o conflito da trama (de teor político), a narrativa se torna fluída e extremamente interessante. Por isso, é preciso dar paciência ao texto de José Eduardo Agualusa. Não desista dele no primeiro impacto, por favor. Na certa, você se arrependerá de não chegar ao desfecho (de teor um pouco aberto e extremamente sutil, mas brilhante!). Na terça-feira da semana que vem, dia 10, voltarei ao Desafio Literário para analisar o segundo livro deste mês. A obra que será comentada no Bonas Histórias é “Nação Crioula” (Gryphus Editora), um dos grandes sucessos de Agualusa. Esse romance foi publicado em 1997 e segue, em uma nova narrativa histórica que mistura realidade e ficção, relatando as atrocidades da escravidão e a busca pela abolição na Angola colonial. Não perca a continuação do estudo sobre a literatura de José Eduardo Agualusa. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Desafio Literário de novembro/2020: José Eduardo Agualusa

    A chegada da folha de novembro no calendário indica que 2020 entra na reta final. Isto é, se este ano teve alguma reta, né? Minha impressão é que tivemos curvas e mais curvas (e mais curvas) desde março. E com o fim do ano se aproximando sorrateiramente, também estamos próximos das páginas derradeiras (ou seriam posts finais?!) do Desafio Literário. Antes que os mais apressadinhos queiram encerrar prematuramente os trabalhos desta sexta temporada dos estudos estilísticos do Bonas Histórias, já vou logo avisando: ainda temos mais um autor para analisar neste mês. Depois de investigarmos os estilos narrativos de Jack Kerouac (Estados Unidos) em abril, Maria José Dupré (Brasil) em maio, Kenzaburo Oe (Japão) em junho, Virginia Woolf (Inglaterra) em julho, Rubem Fonseca (Brasil) em setembro e Isabel Allende (Chile) em outubro, vamos analisar, em novembro, a literatura de José Eduardo Agualusa. Ou seja, chegamos agora ao sétimo e último escritor do Desafio Literário de 2020. Se este ano foi recheado de percalços e de obstáculos aparentemente intransponíveis, ao menos no Bonas Histórias conseguimos seguir nossa programação de análises literárias sem grandes dificuldades. José Eduardo Agualusa é um dos principais escritores angolanos da atualidade. Aos 59 anos e com mais de três dezenas de títulos publicados, ele navega com excelência pela prosa ficcional (romance, novela, conto, crônica e literatura infantil), pela poesia e pela dramaturgia. Curiosamente, esta habilidade para a produção de vários gêneros textuais é uma marca de muitos autores africanos de língua portuguesa. De cabeça, posso citar o moçambicano Mia Couto e o angolano Ondjak como artistas que não ficam limitados a um ou a poucos gêneros. Eles praticamente escrevem de tudo (e com qualidade). No Brasil, normalmente os escritores acabam se especializando: há os romancistas, há os contistas, há os poetas, há os cronistas... São poucos os que abraçam a literatura de uma maneira mais ampla. Vivendo entre Lisboa e a Ilha de Moçambique, Agualusa foi traduzido para mais de vinte idiomas e recebeu importantes prêmios literários internacionais. Além de escritor, o angolano também é editor (é um dos fundadores da Língua Geral, editora brasileira especializada na literatura lusófona), e jornalista (tem colunas na revista dominical do jornal português Público, na revista lusitana Ler e no jornal brasileiro O Globo). Nos últimos anos, ele passou a produzir peças teatrais – seus espetáculos foram produzidos em Portugal e no Brasil. Antes de enveredar pela literatura, José Eduardo Agualusa estudou agricultura e silvicultura em Lisboa, entre o final da década de 1970 e o começo da década de 1980. Quem é fã de Mia Couto, autor de “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras”), “O Fio das Missangas” (Companhia das Letras) e “E Se Obama Fosse Africano” (Companhia das Letras), irá notar uma grande semelhança entre Agualusa e o Prêmio Camões de 2013: ambos os autores são da área da Biologia (Couto é biólogo). Interessante essa nota biográfica. Não sei se é só coincidência ou o fato de eles analisarem a natureza e as paisagens de seus países contribuiu de alguma forma para suas construções narrativas. Mia Couto afirmou várias vezes que sim, há uma relação nisso. Ele diz ter aprendido a contar histórias ao visitar seu país como biólogo e ao conversar com seus conterrâneos. A estreia de José Eduardo Agualusa na ficção aconteceu em 1989 com o romance “A Conjura” (Gryphus Editora). A obra conquistou o Prêmio Sonangol de Revelação Literária daquele ano em Angola. Na primeira metade dos anos 1990, Agualusa publicou três livros - uma coletânea de contos, uma coleção poética e uma novela. Na segunda metade daquela década, ele lançou dois romances que catapultaram sua carreira: “Estação das Chuvas” (Língua Geral), em 1996, e “Nação Crioula” (Gryphus Editora), em 1997. A partir daí, Agualusa entrou para a prateleira dos grandes autores da literatura angolana (e de lá nunca mais saiu). A partir dos anos 2000, ele aumentou a intensidade de suas produções ficcionais. Praticamente todo ano teve um lançamento – sua média é superior a uma obra por ano. Foram 24 livros publicados neste período, metade deles é de narrativas longas. Os destaques desta fase são: “O Vendedor de Passados” (Tusquets), romance de 2004, “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), romance de 2007, "Nweti e o Mar" (Gryphus Editora), obra infantil de 2011, e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), romance de 2017. Esta é uma pequena introdução sobre Agualusa, o autor que vamos investigar mais a fundo ao longo deste mês no Bonas Histórias. A ideia é fazermos inicialmente as análises individuais de seis livros do angolano – cinco romances e um título infantil. Concluída esta parte, será possível, em 30 de novembro, encerrarmos o Desafio Literário deste mês (e do ano) com a análise da literatura de José Eduardo Agualusa. Confira, a seguir, o cronograma de análises literárias para as próximas quatro semanas: - 6 de novembro de 2020 - "A Conjura" (1989) – romance. - 10 de novembro de 2020 - "Nação Crioula" (1997) – romance. - 14 de novembro de 2020 - "O Vendedor de Passados" (2004) – romance. - 18 de novembro de 2020 - "As Mulheres do Meu Pai" (2007) – romance. - 22 de novembro de 2020 - "Nweti e o Mar" (2011) – infantil. - 26 de novembro de 2020 - "A Sociedade dos Sonhadores Involuntários" (2017) – romance. - 30 de novembro de 2020 - Análise Literária de José Eduardo Agualusa. Vale destacar que Agualusa é o segundo escritor angolano que será analisado no Desafio Literário. O primeiro foi Ondjaki, autor de “Bom Dia, Camaradas” (Companhia das Letras), “E Se Amanhã o Medo” (Língua Geral), “Os da Minha Rua” (Língua Geral), "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" (Companhia das Letras), "A Bicicleta que Tinha Bigodes" (Pallas) e "Os Transparentes" (Companhia das Letras). A literatura de Ondjaki foi estudada em novembro de 2017 no Bonas Histórias. E para começarmos a investigação do trabalho ficcional de José Eduardo Agualusa, a primeira obra que será estudada é justamente seu romance de estreia, “A Conjura” (Gryphus Editora). O post sobre este livro estará disponível no blog na próxima sexta-feira, dia 6. Boa leitura para todos nós em novembro! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Análise Literária: Isabel Allende

    Depois de quatro semanas fazendo avaliações individuais dos principais livros de Isabel Allende, "A Casa dos Espíritos" (Bertrand Brasil), "Eva Luna" (Bertrand Brasil), "Paula" (Bertrand Brasil), "Meu País Inventado" (Bertrand Brasil), "Zorro – Começa a Lenda" (Bertrand Brasil) e “O Jogo de Ripper" (Bertrand Brasil), podemos agora analisar de maneira mais completa e aprofundada sua literatura. Assim, chegamos hoje à última etapa do Desafio Literário de outubro de 2020, a do detalhamento das características estilísticas de Allende. Para completar este post do Bonas Histórias, ainda apresentaremos uma pequena biografia da escritora e daremos uma visão geral sobre suas obras mais destacadas. Com isso, concluiremos o estudo sobre a produção narrativa de Isabel Allende, o segundo nome da literatura chilena contemplado no Desafio Literário – o primeiro foi Pablo Neruda, poeta vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1971, analisado no blog em julho de 2016. Para começo de conversa, Isabel Allende é a escritora viva de língua espanhola mais lida no mundo. Seus títulos somam mais de 70 milhões de unidades vendidas e já foram traduzidos para mais de quatro dezenas de idiomas. Além de best-seller, Allende coleciona prêmios literários, como Prêmio Nacional de Literatura (Chile) de 2010 e a Medalha Presidencial da Liberdade (Estados Unidos) de 2014. Desde 2004, ela integra a American Academy of Arts and Letters, uma espécie de hall da fama da cultura norte-americana (que inclui figuras de destaque tanto da literatura quanto da música e das artes). Ou seja, além de ser uma das escritoras de maior sucesso comercial da literatura contemporânea, Allende angariou ao longo dos anos o respeito da crítica literária, que a classifica normalmente como uma autora da nova fase do Realismo Fantástico Sul-americano. Filha do diplomata chileno Tomás Allende, Isabel nasceu em agosto de 1942 em Lima, quando seu pai trabalhava na embaixada do Chile no Peru. Por isso, ela tem a nacionalidade chilena (e não peruana). Em Lima, Isabel viveu até os três anos. Ela só foi morar em Santiago após a separação dos pais, em 1945. Tomás era bissexual e se envolveu em escândalos homossexuais que repercutiram na capital peruana. Envergonhado, ele abandonou a família e fugiu sem revelar seu paradeiro. Sem o marido, a mãe de Isabel voltou a viver na casa dos seus pais, Agustin e Isabel Barros. Dos três aos onze anos, Isabel Allende viveu com a mãe e os irmãos na residência dos avós maternos. Quando a mãe de Isabel se casou novamente, agora com Ramón, outro diplomata chileno, as viagens da família recomeçaram. Depois de um ano morando em La Paz, Ramón, a esposa e os enteados foram viver por três anos em Beirute. Aos quinze anos, Isabel Allende retornou ao Chile, outra vez para viver na casa do avô Agustin. Nesse novo período em Santiago, a futura escritora terminou seus estudos e logo começou a trabalhar. Aproveitando-se da experiência internacional e do domínio de línguas estrangeiras, seu primeiro emprego foi como secretária da filial das Nações Unidas na capital chilena. Depois, ela passou a realizar traduções de romances água com açúcar do inglês para o espanhol. Com dezessete anos, Isabel ingressou no jornalismo, carreira que abraçaria nas duas décadas seguintes. Aos 19 anos, Isabel Allende casou-se com o engenheiro Miguel Frías. O casal teve dois filhos: Paula, nascida em 1963, e Nicolás, nascido em 1967. Na segunda metade da década de 1960 e na primeira metade dos anos 1970, Allende se consolidou como uma importante jornalista no Chile. Ela tinha uma coluna de humor em um periódico semanal, foi editora de uma revista feminina e de uma publicação infantil e fez reportagens para a televisão local. Assim, tornou-se uma figura conhecida e querida do público chileno. No início da década de 1970, Isabel Allende publicou seus primeiros livros. Sem ainda encarar a literatura como profissão, ela lançou obras infantis e uma coletânea de crônicas (com textos de suas colunas nas revistas). Além disso, começou a produzir peças teatrais, que foram encenadas por companhias amadoras em Santiago. A grande reviravolta na trajetória pessoal e profissional de Isabel (e de seus familiares) aconteceu em setembro de 1973. Um golpe militar tirou do poder Salvador Allende (tio de Isabel, irmão de Tomás), o presidente chileno de viés socialista que fora eleito em 1970. Augusto Pinochet assumiu o governo e começou a perseguir os opositores. Por ser sobrinha de Salvador Allende e jornalista, Isabel foi várias vezes ameaçada de morte. Com medo de perder a vida ou de ser presa pela força policial de Pinochet, ela fugiu do país em 1975. Seu exílio foi em Caracas. Na capital venezuelana, Isabel, Miguel, Paula e Nicolás Frías viveram até 1988. No exterior, Allende até tentou continuar trabalhando como jornalista. Contudo, ela não encontrou trabalhos fixos (apenas serviços de freelancer) nem boa remuneração (quando contratada, os valores recebidos eram ínfimos). Por isso, ela começou a trabalhar em uma escola particular de Caracas, o que a deixava muito frustrada. A escrita retornou à sua rotina quando, em 1981, a autora foi informada que seu avô Agustin, na iminência de completar um século de vida, estava muito mal, a beira da morte. Sem poder regressar ao Chile para vê-lo (a ditadura militar de Pinochet estava mais violenta do que nunca), Isabel resolveu escrever da Venezuela uma carta para Agustin. No texto, ela poderia homenageá-lo e, ao mesmo tempo, fazer uma retrospectiva da vida do avô. Pouco a pouco, a narrativa foi aumentando de tamanho e mudando de característica - deixava de ser um relato biográfico e se tornava cada vez mais uma trama ficcional (ou semiautobiográfica). De dia, a escritora trabalhava na escola e à noite produzia aquele texto. No final de 1981, Isabel anunciou para a família (e para si mesma) que havia desenvolvido um romance. Publicado em 1982, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) é a obra de estreia de Allende na ficção. Com algumas passagens biográficas de seus familiares e com elementos de Realismo Fantástico, o livro retrata a saga de uma família chilena (os Del Valle/Trueba) por quatro gerações. Por fazer duras críticas às ditaduras militares sul-americanas, “A Casa dos Espíritos” foi à princípio recusado por várias editoras do continente. Isso até uma pequena editora argentina aceitar lançá-lo. Rapidamente, o romance histórico de Isabel Allende se tornou um sucesso de crítica e de público na Argentina. Nos anos seguintes, o livro foi publicado na Espanha e em vários países latino-americanos, além de ser traduzido para outros idiomas. Do dia para noite, a escritora chilena que apenas debutava na literatura comercial se tornava uma best-seller internacional. Junto com os elogios dos leitores na América do Norte e na Europa, “A Casa dos Espíritos” também colecionou prêmios literários pelos quatro cantos do planeta. Os troféus recebidos vieram da Alemanha, França, Estados Unidos, México, Bélgica etc. Até no Chile, para desespero dos militares no poder, o livro foi lançado e aclamado. “A Casa dos Espíritos” foi eleito o melhor romance chileno de 1982 e Isabel Allende recebeu em seu país o Prêmio Panorama Literário de 1983. O enredo desta obra se passa no Chile entre o final do século XIX e a metade dos anos 1970. A trama começa apresentando Severo Del Valle, um advogado com pretensões políticas, e Nívea Del Valle, uma atuante defensora das causas feministas. O casal está junto há anos e possui vários filhos. Clara é a caçula dos Dell Valle (e a personagem mais incrível da literatura de Allende!) A menina de 10 anos possui mediunidade: ela vê espíritos, tem presságios, movimenta objetos com a mente e se comunica telepaticamente. Para não assustar ninguém, a família esconde os poderes paranormais de Clara por muitos anos. Porém, quando ela, aos 19 anos, decide se casar com Esteban Trueba, um ambicioso fazendeiro, o casal Del Vale é obrigado a revelar ao pretendente as habilidades incomuns da filha. Uma vez apaixonado, Esteban não se importa com o que chama de características peculiares da noiva. Esteban e Clara se casam e têm três filhos: Blanca, Jaime e Nicolau. Para desespero de Esteban Trueba, Blanca se apaixona por um jovem trabalhador com ideias comunistas. Começam, dessa maneira, as brigas dentro de casa. À medida que envelhece, o fazendeiro se torna cada vez mais rabugento, solitário, violento e intolerante. A única que parece sentir algum carinho pelo velho Trueba é Alba, a sua neta. A moça é filha de Blanca. E assim como a mãe, ela se apaixonará por um revolucionário marxista. Essa união clandestina trará sérios problemas para ela e para a família quando os militares decretarem um golpe e assumirem o poder. “A Casa dos Espíritos”, o maior sucesso até hoje da escritora chilena, inaugura o que podemos chamar da primeira fase da literatura de Isabel Allende. Nesse período inicial de sua carreira, que abrangeu todo os anos 1980, Allende produziu obras esteticamente muito parecidas ao seu livro de estreia: tramas históricas, personagens femininas marcantes, denúncia do machismo, enaltecimento do feminismo, romances de formação, elementos de realismo fantástico, contextos políticos marcados pela violência e por injustiças sociais, ambientação sombria, pesada e com muitas tragédias e enredos passados essencialmente na América do Sul. Além de “A Casa dos Espíritos”, fazem parte da primeira fase da literatura de Isabel Allende os romances “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil), de 1984, uma trama com teor político ainda mais acentuado do que a obra anterior, e “Eva Luna”, de 1987, um drama histórico delicioso, e a coletânea de narrativas curtas “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil), de 1989. “De Amor e de Sombra”, o segundo romance de Isabel Allende, tem como pano de fundo o golpe militar chileno de 1973. Irene, jovem jornalista advinda de uma família aristocrata e conservadora, e Francisco, fotógrafo oriundo de uma família humilde e anarquista, se apaixonam. Em um país que caminha para o caos político-social, eles precisam colocar à prova seus sentimentos em meio a tantas adversidades e provações. O jovem casal vai encarar seus dramas pessoais justamente em um dos períodos mais tumultuados e violentos da história do Chile. O sucesso literário de “A Casa dos Espíritos” e “De Amor e de Sombra” atraíram o interesse de cineastas hollywoodianos. Eles queriam adaptar essas histórias para as telonas. Enquanto o romance de estreia de Allende virou filme em 1993 pelas mãos do diretor Bille August, o segundo romance da chilena migrou para o cinema em 1994 graças à Betty Kaplan. Terceira narrativa longa de Allende, “Eva Luna” (Bertrand Brasil) é o romance histórico ambientado em um país indeterminado da América do Sul. Essa nação apresenta algumas características do Chile e outras da Venezuela. Com doses de realismo fantástico, sátiras políticas e humor inteligente, esta obra consolidou o estilo da autora chilena e apresentou sua personagem mais carismática. Eva Luna, a protagonista deste livro, precisou superar a infância de carências e de abandonos, a sociedade machista e injusta e o mundo violento e em ebulição política para se consolidar como uma contadora de histórias admirada nacionalmente. Ou seja, temos aqui uma narrativa metalinguística com forte intertextualidade literária. “Eva Luna” possui uma narrativa dupla – de sua heroína, uma órfã que encara desde cedo as maldades da sociedade, e de Rolf Carlé, um alemão que emigrou para a América do Sul logo após a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que narra suas memórias desde o nascimento da mãe, Eva apresenta o drama do alemão desde a infância dele na Europa. As duas histórias caminham paralelamente até se unirem em um desfecho integrado. Em meio às injustiças, às pobrezas, às violências e às instabilidades familiares e políticas, o amor pode brotar e até mesmo prosperar. A personagem principal de “Eva Luna” fez tanto sucesso que extrapolou a dimensão do seu próprio romance. Dois anos mais tarde, Eva se tornou a narradora de uma coletânea de narrativas curtas, “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil). Para este novo livro, Allende aproveitou-se dos cenários, das pessoas e da ambientação criados originalmente em “Eva Luna”. “Contos de Eva Luna” é, até hoje, o principal título de Isabel Allende no gênero das narrativas curtas (é também o meu favorito nesta seara!). Com o sucesso literário, Allende largou o trabalho na escola em Caracas e passou a se dedicar exclusivamente à produção ficcional. Em 1988, após 25 anos de casamento com Miguel Frías, ela se separou do primeiro marido. Meses depois, Isabel conheceu o advogado norte-americano William C. Gordon (mais tarde, ele se tornaria escritor de romances policiais) e se apaixonou. Para viver ao lado de Gordon, a escritora se mudou da Venezuela para os Estados Unidos. Desde o começo do relacionamento, o novo casal dividiu uma casa em São Francisco. Começava, assim, o segundo matrimônio da chilena e, como consequência, uma nova vida na América do Norte. A nova rotina na Califórnia influenciou sua produção literária. Dessa maneira, iniciava-se o que podemos chamar de segunda fase da literatura de Isabel Allende. Esta nova etapa foi inaugurada com a publicação, em 1991, de “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), a quarta narrativa longa da chilena. Nesta obra, assistimos ao romance de formação de Gregory Reeves, um advogado norte-americano branco criado em um bairro latino de Los Angeles. O protagonista do livro precisa superar os dramas político-bélicos do seu país (Guerra do Vietnã), a discriminação racial em sua cidade (os latinos não o veem com bons olhos) e os dramas familiares (doença do pai e escolhas polêmicas da filha) até se consolidar tanto afetiva quanto profissionalmente. “O Plano Infinito” foi inspirado na trajetória de William C. Gordon, o marido norte-americano de Isabel. A segunda fase da literatura de Allende se estendeu até a metade dos anos 2000. O que caracterizou esse período foi a mudança de cenário narrativo de seus romances. Após “O Plano Infinito”, Isabel ambientou suas tramas longas prioritariamente nos Estados Unidos - mais precisamente na Califórnia. Entretanto, a escritora não abandonou completamente as suas personagens latino-americanas. Livros como “O Plano Infinito”, “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil) e “A Cidade das Feras” (Bertrand Brasil), exemplares típicos desta nova etapa literária, tiveram como protagonistas ou figuras centrais de suas tramas os imigrantes da América Latina que tentaram a sorte na costa Oeste norte-americana. Ao mesmo tempo em que mudou o cenário narrativo, Isabel Allende manteve quase todos os demais elementos narrativos da primeira fase: os romances de formação, as tramas históricas, as personagens femininas fortes, as mulheres que direta ou indiretamente promoviam os valores feministas, o engajamento social, a ambientação com violência e muitas injustiças e os cenários macroambientais instáveis e com radicalização política. Outras duas questões interessantes dessa segunda fase da literatura de Isabel Allende são: (1) ela voltou a lançar histórias infantojuvenis (lembremos que ela já havia iniciado nesse gênero quando trabalhava como jornalista no Chile, na década de 1970); e (2) sentiu a necessidade de produzir seus primeiros livros de memórias. Em relação aos títulos infantojuvenis, o destaque vai para a série “As Aventuras da Águia e do Jaguar” – trilogia formada por “As Cidade das Feras” (Bertrand Brasil), de 2002, “O Reino do Dragão de Ouro” (Bertrand Brasil), de 2003, e “A Floresta dos Pigmeus” (Bertrand Brasil), de 2004. Quanto às memórias, as obras de maior importância são “Paula”, publicado em 1995, e “Meu País Inventado”, de 2003. “Paula” (Bertand Brasil) foi escrito em um dos períodos mais delicados da vida de Isabel Allende. Em dezembro de 1991, ela recebeu uma notícia trágica: sua filha Paula, então com 28 anos e morando em Madrid, sofreu uma crise neurológica rara e ficou em coma na U.T.I. Sem titubear, a escritora interrompeu os eventos de divulgação do lançamento de “O Plano Infinito” e viajou para a Espanha. Como o quadro clínico de Paula não mudou ao longo dos meses, coube a Isabel ficar ao lado da filha, torcendo por sua melhora. Para aplacar sua angústia e a inércia involuntária, Allende resolveu escrever para a filha inconsciente (para que a moça pudesse ler quando se reestabelecesse). Neste texto autobiográfico e em tom de confidência, a escritora chilena narrou sua trajetória pessoal e profissional. Antes, ela recapitulou a saga de sua família desde a chegada do primeiro antepassado ao Chile, no início do século XIX. E, por fim, Isabel relata a biografia da filha e o drama da recuperação hospitalar. “Paula” (obviamente o título da obra é uma homenagem ao nome da filha adoentada) é o primeiro livro de memórias de Isabel Allende (e o mais emocionante!). Quase uma década depois, Allende publicou uma obra complementar: “Meu País Inventado” (Bertrand Brasil). Nesta segunda obra de memórias, a escritora explicou sua condição de imigrante na América do Norte e o que significou para ela ter nascido no Chile. Ou seja, muito mais do que uma biografia, “Meu País Inventado” adquire certo tom de crônicas nacionais. Flertando com o ensaio, essa narrativa possui três linhas de debate: (1) quais as características típicas do povo chileno?; (2) quais as consequências de viver tantos anos distante da terra natal?; (3) e quais as diferenças culturais, sociais, políticas e geográficas do Chile para as demais nações sul-americanas e para os Estados Unidos? Isabel Allende faz um mergulho em sua trajetória de vida e, abusando do humor politicamente incorreto, relata confidências bem-humoradas dos seus conterrâneos. Se “Paula” era uma biografia mais formal e convencional, “Meu País Inventado” pode ser visto como uma coletânea de crônicas sobre o que significa ser chileno(a). A terceira e última fase da literatura de Isabel Allende começou na metade dos anos 2000. Nessa nova etapa de sua produção ficcional, a escritora não apenas variou mais uma vez seus cenários narrativos (suas tramas deixaram a Califórnia e o Chile e passaram a incluir a Europa, principalmente a Espanha, e a América Central) como também (o que é até mais interessante!) começou a explorar novos gêneros narrativos (os romances históricos deram lugar aos romances policiais, às tramas de super-heróis e aos thrillers). Nota-se, portanto, uma tentativa de Allende em buscar novas possibilidades e novos materiais de trabalho ficcional. Ao sair de sua zona de conforto, ela se arrisca por caminhos inéditos (para ela) e até então inexplorados dentro da sua literatura. As obras que melhor caracterizam esta nova fase de Isabel Allende são os romances “Zorro – Começa a Lenda”, uma aventura protagonizada pelo herói mascarado criado, em 1919, por Johnston McCulley, e “O Jogo de Ripper”, um thriller policial com uma pegada infantojuvenil. Enquanto “Zorro – Começa a Lenda” marca a transição da segunda para a terceira fase da literatura de Allende, “O Jogo de Ripper” é um título totalmente ancorado na terceira fase. Publicado em 2005, “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil) apresenta a interpretação de Isabel Allende para a formação da personalidade e do caráter de Zorro. Apaixonada pela figura do justiceiro californiano desde pequena, a escritora se propôs a narrar a infância, a adolescência e o início da fase adulta de Diego de la Vega. Em outras palavras, este livro é o romance de formação do icônico herói de descendência espanhola. Curiosamente, esta é a parte da vida de Zorro menos explorada por McCulley e pelos autores e roteiristas que vieram depois. Mesmo usando boa parte dos elementos narrativos explorados pelos enredos literários e cinematográficos anteriores de Zorro, Isabel Allende não se furtou em trazer novidades radicais à história clássica. Essa mistura de tradição com inovação da trama veio acompanhada de uma multiplicidade de gêneros narrativos. “Zorro – Começa a Lenda” tem trechos típicos dos romances históricos, dos faroestes, das tramas de realismo fantástico, das crônicas náuticas, dos thrillers políticos, dos dramas de guerrilha urbana, das aventuras de sociedade secreta, dos dramas românticos, dos road stories e das aventuras de pirata. “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil) representou a primeira (e até agora única) incursão de Isabel Allende pelos romances policiais. A chilena, como muitos escritores renomados de outros gêneros, foi picada pela vontade de produzir uma trama criminal, um tipo de literatura popular e desafiante. Publicado em 2014, “O Jogo de Ripper” tem como protagonistas um grupo de adolescentes acostumados a jogar RPG pelo Skype. Depois de desvendarem vários crimes fictícios, eles se propõem a solucionar uma série de assassinatos reais praticada em São Francisco. A partir de determinado momento da trama, a investigação particular promovida pela garotada avança mais do que a investigação formal realizada pela polícia. Apesar de ser um dos títulos de Isabel Allende mais comercializados na última década, “O Jogo de Ripper” possui graves problemas estilísticos e narrativos, o que comprometem seriamente sua qualidade textual. Dos livros que li da autora chilena, este foi o único que deixou a desejar. Allende é uma escritora espetacular, mas não domina os segredos dos romances policiais ao ponto de conseguir desenvolver uma trama interessante deste gênero. Contudo, é inegável a sua coragem para se lançar em direção ao novo. Isabel Allende é normalmente classificada pela crítica literária internacional como uma autora pertencente ao novo Realismo Fantástico Sul-americano. Entretanto, prefiro vê-la mais como uma escritora de romances históricos. De qualquer maneira, é inegável que ela esteja entre os grandes nomes da literatura contemporânea. Seu último romance até aqui foi “Longa Pétala do Mar” (Bertrand Brasil), drama histórico ambientado na Guerra Civil Espanhola. Esta obra foi publicada no ano passado. Até o final de 2020, está programado a edição no Brasil de “Mujeres del Alma Mía” (Bertrand Brasil), título não ficcional sobre feminismo que foi lançado em espanhol no início deste ano (não sei qual será seu nome na versão brasileira). Para terminar esta análise literária, reservei a última parte deste post para esmiuçar as 10 características estilísticas das narrativas de Isabel Allende. Seguem, abaixo, os aspectos que mais chamaram minha atenção no trabalho artístico da escritora chilena:[if !supportLists] 1) O Realismo Fantástico aparece em todos os livros de Allende que foram analisados neste Desafio Literário, até mesmo em suas tramas não ficcionais (o que chega a ser surpreendente!). As passagens, as cenas e as personagens mágicas dão um colorido especial às obras, sem jamais monopolizar os enredos. Os leitores com maior sensibilidade para assuntos espíritas e para o universo paranormal acreditarão em todos ou na maioria dos episódios fantásticos encenados nas páginas de Isabel Allende. Ou seja, temos aqui um diálogo íntimo com a verossimilhança. Essa questão fica mais evidente em “A Casa dos Espíritos” e em “Paula”, livros com forte pegada espiritual. [if !supportLists] 2) Por mais variada que seja a literatura de Allende, há o predomínio de romances históricos entre suas publicações e entre suas obras de maior sucesso. É nesse gênero narrativo em que a autora chilena mostra toda a sua qualidade como contadora de história. Ao produzir este tipo de trama, ela constrói títulos memoráveis. Não é errado enxergá-la como uma especialista neste tipo de texto – Isabel Allende é uma das melhores autoras contemporâneas. “Zorro – Começa a Lenda” é um bom exemplo de romance histórico (ele é ambientado entre o final do século XVIII e a metade do século XIX). [if !supportLists] 3) As construções dos protagonistas, dos cenários e dos enredos ficcionais dialogam intimamente com pessoas, fatos e lugares reais. Isabel Allende ancora-se na realidade como ponto de partida de sua criação ficcional. Basta conhecer um pouco da biografia da escritora chilena para compreender o quanto de sua inspiração/criatividade vem do aproveitamento de episódios extraídos da vida concreta (fora da literatura). Os melhores exemplos disso são as personagens centrais de “A Casa dos Espíritos” (desenvolvidas a partir de figuras da própria família da autora) e a criação de Rolf Carlé, uma das personagens centrais de “Eva Luna” (criado a partir do relato verídico que autora ouviu em uma viagem pela Alemanha, conforme relatado em “Meu País Inventado”). [if !supportLists] 4) As narrativas longas de Allende fazem parte do que se convencionou chamar de romances de formação. Nesse tipo de trama, apresenta-se a vida de cada personagem principal desde o nascimento ou adolescência até a maturidade ou velhice. O propósito fundamental desse tipo de obra é a exposição do desenvolvimento psíquico, social, físico, profissional, afetivo e/ou moral do protagonista. Podemos dizer, sem receio de cometer generalizações equivocadas, que boa parte da literatura de Allende é baseada no desenvolvimento de romances de formação. “Zorro – Começa a Lenda” é um exemplo evidente dessa prática. [if !supportLists] 5) Já que estamos falando de romances de formação, uma característica peculiar dos livros ficcionais e não ficcionais de Isabel Allende é a apresentação dos protagonistas a partir das histórias de vida de seus pais e/ou avós. A escritora tem essa mania de começar uma trama bem antes do nascimento da personagem principal. Ela vai buscar na ancestralidade (ora nos familiares mais distantes, ora nos parentes mais próximos) parte da compreensão dos indivíduos retratados. A título de exemplificação, posso citar “Eva Luna”. Esse romance começa relatando a infância de Consuelo, a mãe da protagonista. [if !supportLists] 6) Na produção literária de Allende, as personagens de maior destaque são geralmente mulheres aguerridas, de personalidade forte e vítimas de injustiças sociais ou familiares. Sem abaixar a cabeça para o cenário externo que se descortina opressor, elas encaram de frente as adversidades que vem pelo caminho, por maiores que sejam. Até mesmo quando os protagonistas das histórias são homens, é possível encontrar uma figura feminina forte, destemida e carismática (que invariavelmente rouba a cena). O melhor exemplo disso ocorre com Isabel de Romeu em “Zorro – Começa a Lenda” e com Amanda Jackson Martín em “O Jogo de Ripper”. [if !supportLists] 7) As narrativas de Isabel Allende possuem tradicionalmente uma ambientação impregnada de violência, injustiças sociais, tensões políticas e opressões. Independentemente da época retratada (século XVII, século XVIII, século XIX, século XX ou século XXI) e do espaço narrativo escolhido (Chile, Venezuela, México, Califórnia, Espanha, Alemanha...), o clima noir impera na maior parte das vezes. Um bom exemplo do quão pesado é a ambientação dos romances da chilena pode ser visto em “A Casa dos Espíritos”. O clima sombrio, pesado e angustiante da obra de estreia de Allende aparece tanto na casa dos Trueba (quase como uma locação de um filme de terror) quanto no caos político do Chile (o país andino parece viver em permanente estado de ebulição social).[if !supportLists] 8) Por falar em ambientação, é preciso citar a importância do cenário político para os enredos dos livros de Isabel Allende. Suas tramas são normalmente influenciadas diretamente pelos acontecimentos políticos do país onde os protagonistas nasceram ou vivem. A impressão que temos é que o macroambiente interfere o tempo inteiro nas ações do microambiente. Os indivíduos precisam escapar dos desmandos impostos pelos governantes e das brigas políticas que se perpetuam ao longo dos séculos. Essa tendência surge até nos títulos não ficcionais da autora – “Paula” e “Meu País Inventado”. Nessas leituras, compreendemos que a vida e a carreira de Allende foram influenciadas fortemente pelos acontecimentos políticos de seu país. [if !supportLists] 9) Normalmente, as narrativas de Isabel Allende possuem uma pegada de engajamento social e um tom de denúncia social. Ao fazer constantemente a associação do que acontece no macroambiente (eventos nacionais e coletivos) com as consequências desses fatos no microambiente (episódios individuais e familiares), a autora se posiciona criticamente. Assim, ela aponta o quanto as pessoas mais simples e humildes sofrem diante das injustiças praticadas pelos poderosos, pelas elites político-econômicas e pelos religiosos. Em “Zorro – Começa a Lenda” e em “Eva Luna”, esse denuncismo aparece do começo ao fim das obras. [if !supportLists] 10) Ao apresentar o machismo das sociedades tradicionais da América Latina e, ao mesmo tempo, descortinar o empoderamento de figuras femininas fortes, corajosas e obstinadas, Isabel Allende promove, ora mais explicitamente, ora mais sutilmente, os valores feministas. Ler suas narrativas é mergulhar em um mundo em que as mulheres não se curvam aos preconceitos sexistas de seus parceiros, de suas famílias, de seus conterrâneos e de seus contemporâneos. Não à toa, a primeira personagem feminina que desponta no romance de estreia da autora, “A Casa dos Espíritos”, é Nívea Del Valle. No final do século XIX, em um Chile com ares ainda coloniais, ela era citada como a primeira feminista do país. Este foi o Desafio Literário de outubro. O próximo artista das letras que será analisado no Bonas Histórias é José Eduardo Agualusa, escritor moçambicano de 59 anos e autor de mais de 30 publicações entre romances, novelas, coletâneas de contos, coleção de crônicas, obras infantis e títulos poéticos. Entre seus títulos mais importantes podemos destacar “A Conjura” (Gryphus Editora), “Estação das Chuvas” (Língua Geral), “Nação Crioula” (Tusquets), “O Vendedor de Passados” (Tusquets), “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), "Nweti e o Mar" (Gryphus Editora) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Acompanhe as análises literárias de novembro do blog. E ótima literatura para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Filmes: Belle Époque - A premiada comédia de Nicolas Bedos

    Na quinta-feira, dia 19, começou o Festival Varilux de Cinema Francês de 2020. Depois de um atraso de seis meses por causa da pandemia do novo coronavírus (espera devidamente compensada com o Festival Varilux Em Casa, versão extra e online que foi exibida entre maio e agosto e reuniu títulos das últimas edições do festival), enfim temos o retorno às salas de cinema de um dos mais tradicionais e aguardados eventos cinematográficos do país. Com curadoria de Emmanuelle e Christian Boudier, a 11ª edição do Festival Varilux leva 18 filmes franceses a 44 cidades das cinco regiões do Brasil. Do novo catálogo de títulos do evento, 17 são produções recentes que obtiveram sucesso de público e/ou de crítica na Europa e há um clássico da sétima arte. O clássico é “Acossado” (À Bout de Souffle: 1960). Ele foi escolhido em homenagem aos 60 anos da Nouvelle Vague. Na lista de títulos atuais, temos: “A Boa Esposa” (La Bonne Épouse: 2019), comédia com Juliette Binoche; “DNA” (ADN: 2020), participante da Seleção Oficial do Festival de Cannes deste ano; “Apagar o Histórico” (Effacer L´Historique: 2020), comédia que conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim e teve mais de 500 mil ingressos vendidos na França; “Mais que Especiais” (Hors Normes: 2019), drama que recebeu sete indicações ao Prêmio César (o Oscar francês) deste ano; “Donas da Bola” (Une Belle Equipe: 2020), comédia que levou mais de 300 mil pessoas aos cinemas franceses; “Verão de 85” (Ete 85: 2020), novo filme de François Ozon; “A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília” (La Fameuse Invasion des Ours em Sicile: 2019), animação baseada na novela de Dino Buzzati; e “O Capital no Século XXI” (Le Capital Au XXI e Siécle: 2019), documentário adaptado do livro homônimo de Thomas Piketty. Interessado em acompanhar de perto o evento (e precisando produzir algumas novas análises para a coluna Cinema do Bonas Histórias), fui neste final de semana ao Espaço Itaú de Cinema da Augusta para ver “Belle Époque” (La Belle Époque: 2019). Esta comédia dramática foi escrita e dirigida por Nicolas Bedos, ator, roteirista e dramaturgo francês de 41 anos. Ele estreara na direção cinematográfica com o ótimo “Monsieur & Madame Adelman” (Monsieur et Madame Adelman: 2016). “Belle Époque”, seu segundo trabalho como diretor de um longa-metragem, conquistou, em fevereiro, três estatuetas do César: melhor roteiro original, melhor atriz coadjuvante e melhor design de produção. O prêmio principal (de melhor filme) deste ano, vale a pena lembrar, ficou com “Os Miseráveis” (Les Misérables: 2019), produção de Ladj Ly. Além das estatuetas conquistadas, “Belle Époque” concorreu em outras oito categorias no Prêmio César de 2020 (inclusive na de melhor filme). Não por acaso, podemos dizer que esta comédia inteligente e sensível de Bados ajudou a consolidar o nome do diretor como um dos cineastas franceses de maior potencial da atualidade. Nicolas Bedos é um excelente humorista e possui total domínio do texto cômico seja no teatro, na televisão ou no cinema. Além do roteiro de “Monsieur & Madame Adelman” e de “Belle Époque”, ele escreveu “Amor e Turbulência” (Amour & Turbulences: 2013) e “Os Infiéis” (Les Infidèles: 2012). O êxito de “Belle Époque” não se restringiu aos elogios da crítica especializada e aos prêmios da Académie des Arts et Techniques du Cinéma. Seu sucesso se estendeu também para o público cinematográfico francês. Em seu país natal, onde foi lançado em novembro do ano passado, esta produção alcançou uma bilheteria superior a US$ 14 milhões. Foram mais de 1,2 milhão de ingressos vendidos no último verão europeu (2019/2020). Merecidamente, “Belle Époque” é agora, no Brasil, um dos destaques da nova edição do Festival Varilux. Para o elenco principal deste longa-metragem, Nicolas Bedos escalou uma seleção de primeiro nível do cinema francês: Daniel Auteuil, de “Caché” (2015) e “O Oitavo Dia” (Le Huitième Jour: 1996), Guillaume Canet, de “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017) e “Um Banho de Vida” (Le Grand Bain: 2018), Doria Tillier, de “Monsieur & Madame Adelman” e “Tudo Sobre Yves” (Yves: 2019), e Fanny Pierre, de “Os Belos Dias” (Les Beaux Jours: 2013) e “A Mulher do Lado” (La Femme d'à Côté: 1981). Completam o time de atores e atrizes de “Belle Époque” Pierre Arditi, de “Smoking/No Smoking” (1993), Deni Podalydès, de "O Melhor Professor da Minha Vida" (Les Grands Esprits: 2017), Michaël Cohen e Jeanne Arènes. O enredo de “Belle Époque” se passa em Paris nos dias de hoje. Casado há quatro décadas com Marianne (interpretada por Fanny Pierre), Victor (Daniel Auteuil) vive uma profunda crise pessoal, profissional e familiar. Desenhista de quadrinhos sexagenário, ele não se interessa por nada que seja moderno. Há muito tempo sem trabalhar (não aceita as novas técnicas de sua profissão nem a entrada da computação gráfica no trabalho dos ilustradores), o protagonista do filme se transformou em um velho chato, passivo e deprimido. Não à toa, sua esposa, uma mulher moderna que gosta de viver intensamente e abraça o mundo contemporâneo com uma alegria juvenil, se cansa dele. Certa noite, Marianne põe Victor para fora de casa sem qualquer compaixão. Sem saber o que fazer agora que perdeu a mulher, Victor recebe um presente inusitado do filho, Maxime (Michaël Cohen). O presente é o convite para ele passar um dia nos Viajantes do Tempo, um parque de diversão gigantesco que recria fielmente cenas históricas segundo os pedidos dos clientes. O local é muito parecido a um estúdio de cinema. O empreendimento foi concebido por Antoine (Guillaume Canet), que dirige com mãos de ferro as encenações. O jeito ríspido e autoritário do proprietário, além do ciúme doentio que nutre por sua amada, o faz brigar rotineiramente com sua namorada, a bela Margot (Doria Tillier). Uma vez no parque/estúdio de Antoine, Victor pede a encenação do dia em que conheceu sua esposa. Em 16 de maio de 1974, Marianne entrou em um restaurante-café de Lyon onde seu futuro marido estava jantando. Após brigar com o carinha com quem estava saindo, um cantor mulherengo e mentiroso, a moça o expulsou do estabelecimento a pontapés. Após ver a jovem triste e solitária na mesa ao lado, Victor puxou papo com ela. Era o início de um relacionamento que se estenderia pelos próximos quarenta anos. Para interpretar o papel de Marianne na encenação dos Viajantes do Tempo, Antoine escalou Margot. A reconstituição daquele encontro deixou Victor de queixo caído. Os cenários, a ambientação, os figurinos, os diálogos, as músicas, a iluminação e todos os detalhes de cada cena foram montados com grande fidedignidade pela empresa contratada. A impressão era realmente que o tempo havia regredido e que o cliente estivesse vivenciando novamente aquele momento do passado. Empolgado e rejuvenescido com a experiência nos Viajantes do Tempo, Victor vende um apartamento para passar mais tempo com a versão fictícia de Marianne/Margot nos estúdios de Antoine. De repente, o senhor de sessenta e poucos anos se vê perdidamente apaixonado pela atriz que tem a idade para ser sua filha. Ao ver um homem gentil, carinhoso e de bom coração encantado por ela, Margot parece dar trela para o cliente do marido. Ao notar isso, Antoine explode em uma crise intempestiva de ciúmes, o que irá abalar ainda mais a sua já tumultuada relação com a namorada. A proximidade de Victor e Margot irá suscitar reviravoltas nas relações afetivas dos dois. Transformados pela experiência nos Viajantes do Tempo, tanto ela (cada vez mais bonita e segura de si) quanto ele (mais jovem e propenso a encarar a modernidade e a vida com a mesma intensidade do passado) irão despertar os velhos amores de seus antigos parceiros. Este é o início de uma divertida confusão que mexerá com as relações do espaço temporal (passado, presente e futuro irão se misturar) e da realidade (verdade e ficção irão se embaralhar). “Belle Époque” tem quase duas horas de duração e é realmente uma comédia dramática das mais interessantes. Confesso que cheguei à sessão pensando que iria ver uma versão moderna e afrancesada de “O Show de Truman” (The Truman Show: 1998). Contudo, não é correto fazermos essa associação. “Belle Époque” está mais para um pot-pourri de “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2018), "Nerve - Um Jogo Sem Regras" (Nerve: 2016), "Homens, Mulheres e Filhos" (Men, Women & Children: 2014) e de “ED TV” (1999). Apesar das lembranças aqui e acolá de outras produções do cinema contemporâneo, é preciso elogiar a criatividade da narrativa deste novo filme de Nicolas Bedos. Sua trama é ótima e, ainda por cima, reserva ótimas surpresas durante a sessão. Não por acaso, temos aqui o primeiro elemento a ser enaltecido em “Belle Époque”: seu roteiro é uma peça cinematográfica irretocável. O que torna essa história mais rica e divertida é o desenvolvimento de uma dupla narrativa: (1) os perrengues amorosos de Victor/Marianne e (2) os encontros e desencontros de Antoine/Margot. As brigas matrimoniais, os contratempos sentimentais e as tentativas de superação das desavenças de dois casais tão distintos só provam o quanto os conflitos amorosos surgem independentemente da idade e do tempo de união. Outro aspecto que adorei em “Belle Époque” foi a predominância de personagens redondas. Nesta trama, os quatro protagonistas (Victor, Antoine, Marianne e Margot) são figuras contraditórias, com (muitos) defeitos e (algumas) qualidades. Nenhum deles pode ser descrito como o herói/a heroína infalível ou como um vilão/uma vilã desprezível. Esse tom de cinza (nem preto, nem branco) deixa a história do longa-metragem mais forte e com um humor extremamente sutil. É preciso encarar os nuances das diferentes situações para compreender a totalidade do(s) conflito(s) apresentado(s). “Belle Époque” é um filme bastante engraçado e comovente. Sua graça está tanto na trama principal (tragicomédias dos casais de protagonistas) quanto nas subtramas que aparecem aos poucos durante a história (tragicomédias dos profissionais da empresa Viajantes do Tempo). Essas enquetes rápidas e cômicas que rodeiam os conflitos principais são ótimas e estão ancoradas nas hilárias personagens periféricas do longa. Os retratos dos diferentes funcionários de Antoine dão um ritmo ágil à narrativa e um colorido especial ao enredo. Adorei a utilização desse recurso narrativo! Outro ponto que precisa ser destacado positivamente em “Belle Époque” é a sua trilha sonora. Curiosamente, o longa-metragem reúne clássicos consagrados da música internacional (como “Rescue Me”, “Por Uma Cabeza” e “Bésame Mucho”), canções comerciais não tão conhecidas assim do público brasileiro (“Yes Sir, I Can Boogie”, “The Man I Love”, “Honey” e “J´ai Dix Ans”) e algumas faixas instrumentais (“Ballade de Marianne”, “Soirée Hemingway” e “Margot Théâtre”, por exemplo). Independentemente do tipo, essas faixas são de excelente qualidade e dão uma contribuição considerável na criação do tom nostálgico e na pegada de romantismo desta produção. Se as músicas instrumentais foram compostas pela talentosa Anne Sophie Versnaeyen, as músicas comerciais foram definidas pelo próprio roteirista e diretor do filme. Nicolas Bedos provou ter um ótimo gosto musical e bastante competência para a escolha das faixas certas para cada situação específica de sua história (há cineastas que terceirizam essa função em seus longas-metragens). Em “Belle Époque”, assistimos a uma atuação de gala do quarteto de atores protagonistas – Daniel Auteuil, Guillaume Canet, Doria Tillier e Fanny Pierre. Juro que não sei quem se saiu melhor. Minha sensação é que todos estiveram perfeitos em seus papéis. Fanny Pierre até pode ter conquistado merecidamente o César de melhor atriz coadjuvante de 2020, mas não seria exagero conceder estatuetas também para seus colegas de cena. Fazia muito tempo em que não via um filme com tantos atores brilhando simultaneamente. A comédia dramática de Nicolas Bedos brinca o tempo todo com a mistura entre realidade e ficção. Em alguns momentos, até mesmo a gente na plateia se pergunta: pera aí, isso é verdade ou é apenas uma encenação. Por exemplo, até agora não sei se a personagem de Pierre Arditi é um funcionário dos Viajantes do Tempo ou se ele é um cliente (a cada momento, eu pensava uma coisa diferente). Quando somos pegos nestes contrapés, a narrativa se torna ainda mais hilária e rica. Adorei “Belle Époque”! Agora entendi o porquê este filme foi uma das maiores bilheterias francesas e conquistou tantos prêmios. Posso dizer que, ao menos para mim, o Festival Varilux de Cinema Francês de 2020 começou em altíssimo nível. Assista, a seguir, ao trailer de “Belle Époque”: A programação desta edição do Festival Varilux de Cinema Francês irá até 3 de dezembro. O valor do ingresso varia de cinema para cinema. Em algumas redes, há descontos nas exibições dos filmes do evento. Isso ocorre, por exemplo, no Espaço Itaú de Cinema, onde o ingresso é fixo em R$ 20,00. Porém, esse desconto já não ocorre no Cine Belas Artes. Lá, os valores das entradas do festival acompanham a tabela das produções normais. Sinceramente, não sei qual é a política de preços do evento fora da cidade de São Paulo. Espero comentar, nos próximos dias, mais alguns títulos do Festival Varilux na coluna Cinema. Vale a pena recordar que analisamos, há pouco, no Bonas Histórias, quatro longas-metragens do Festival Varilux em Casa – “A Excêntrica Família de Gaspard” (Gaspard Va Au Mariage: 2017), “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017), “O Mistério de Henri Pick” (Le Mystère Henri Pick: 2019) e “Branca como a Neve” (Blanche Comme Neige: 2019) – e um filme do 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online – “Nápoles Velada” (Napoli Velata: 2017). Bom festival a todos! PS: Vanessa, a nota triste do final de semana foi a descoberta do fechamento do O Pedaço da Pizza da Rua Augusta. Vamos ter que achar outro lugar na região da Paulista para comer da próxima vez. Uma pena! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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  • Miliádios Literários: maio/2020

    Salve, salve, disruptivos! Essa sessão pós-moderna apresenta a vocês os miliádios literários do mês que vão mudar sua percepção da vida. Você ainda não sabe o que é miliádio? Em que mundo você vive? Partamos, pois! No dia 15, Francis Fitzgerald, do fundo de sua cova em Old Saint Mary's Catholic Church Cemetery, completa 29 mil dias de falecimento. Sua lápide é considerada um dos maiores spoilers da literatura mundial. Convenhamos, 29 miliádios é muito tempo, o suficiente pra uma grande guerra e outras tantas menores. Só o jazz não teve tempo de voltar à sua grande era. O autor de “O Grande Gatsby” (Penguin), “Suave é a Noite” (BestBolso) e “O Último Magnata” (Penguin) viveu sob excessos do álcool e nos deixou uma visão etílica da elite. Tudo isso em 44 anos, pouco mais de 16 mil dias. Então seguimos em frente, barcos contra a corrente, recuando incessantemente no passado. Sempre em intervalos de mil dias! No dia 18, Honoré de Balzac completa 62 mil dias de morte. Quando jovem, Honorezinho teve uma árdua educação, amiúde expulso das aulas do Colégio Vendôme. Seu castigo era uma espécie de solitária, destinada aos alunos mais insubordinados. Paradoxalmente, o local continha uma vasta gama de livros. Foi assim, então, que autor de “A Comédia Humana” (Biblioteca Azul), conjunto de 95 romances e contos, aprendeu a enxergar o núcleo familiar francês e burguês pós-Napoleão. Fazem parte da obra “A Prima Bette” (Ediouro), “O Pai Goriot” (Penguin), “O Primo Pons” (Ediouro) e, claro, “A Mulher de Trinta Anos” (Penguin). Aliás, você sabia que uma balzaquiana tem entre 10.957 dias e 14.609 dias? Mas falemos de vida! Tiago Novaes, grande escritor contemporâneo, completa 15 miliádios de vida no dia 05. Parabéns, Tiago! Que sua obra distancie a literatura do estado vegetativo, sobressaia-se nesta aldeia global dominada por algoritmos, e que tudo acabe numa grande tertúlia, a ser lembrada daqui muitos e muitos miliádios. Mês que vem esta supina coluna miliádica literária voltará com mais efemérides. Até! Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Miliádios Literários: junho/2020

    Brasileiros e brasileiras, esta coluna miliádica chega no mês de junho só com autores nacionais, pintada com as cores de nossa bandeira! Verde da nota de um real (menos de vinte cents), amarelo do sorriso, azul do oceano que nada e branco das folhas virgens a serem preenchidas. Da bandeira brasileira ao Bandeira brasileiro, nosso Manuel completaria 49 miliádios de vida no dia 15. Autor de “Libertinagem” (Global Editora), “Estrela da Manhã” (Global Editora), “Estrela da Tarde” (Global Editora) e “Estrela da Vida Inteira” (Nova Fronteira), o poeta foi uma das grandes estrelas da Semana de Arte Moderna de 1922. Farto do lirismo comedido, quantas onomatopeias e aliterações esse homem nos deixou! Teria sido o maior poeta brasileiro? Foi? Não foi? Duvidar da genialidade de Manuel Bandeira é engolir sapo. Que saudades desse gênio, relê-lo é um alento nesta quarentena! Abaixo a cloroquina, viva o pneumotórax e, por que não, salve o tango argentino. Mas falávamos em cores, o que remete a dois grandes cartunistas. Ziraldo completa 32 miliádios de nascimento no dia 4, um marco. Sua magnum opus é a série “O Menino Maluquinho” (Melhoramentos), mas o cartunista tem uma vasta obra de livros infantis que tratam a criança com inteligência. É normal um adulto gostar de ler Ziraldo? Sim, é. Outro cartunista a ser lembrado é Millôr Fernandes. Dia 13 completa-se 3 mil dias de sua morte, perda inestimável. Ele teve uma grande carreira como escritor, dramaturgo, tradutor e, claro, ilustrador. De criatividade transbordante, seus livros têm títulos que valem por enciclopédias, como “Eros uma Vez” (Nórdica), “Humor nos Tempos de Collor” (L&PM Editores), “A Vaca foi pro Brejo” (Companhia das Letras) e “Que país é este?” (Desiderata), fazendo dele o precursor do refrão. Como nota de rodapé (fora do rodapé), Millôr foi o inventor do frescobol. No mesmo dia 13, outra pessoa a ser rememorada é Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira, com 11 miliádios de morte. Data triste num momento triste. Tão injustiçado hoje em dia, Paulo Freire desbravou a pedagogia, tendo escrito inúmeros e influentes livros como “A Pedagogia do Oprimido” (Paz & Terra), “A Pedagogia da Esperança” (Paz & Terra) e “A Pedagogia da Autonomia” (Paz & Terra). A atriz Fernanda Torres, que completa 20 miliádios de nascimento dia 18, também é escritora. Ela é autora de “Sete Anos” (Companhia das Letras), “A Glória e seu Cortejo de Horrores” (Companhia das Letras) e “Fim” (Companhia das Letras), pelo qual foi indicada ao Prêmio Jabuti de melhor romance. No teatro, seu habitat natural, Fernanda interpretou inúmeros personagens, sendo um dos destaques a libertina sexagenária de “A Casa dos Budas Ditosos” (Objetiva), peça que vira e mexe entra em cartaz. Falando nisso, João Ubaldo Ribeiro faria 29 miliádios de vida no dia 17, e escreveu o livro homônimo que deu origem à peça dentro da série “Plenos Pecados” (Objetiva). E viva o povo brasileiro, gente! Finalmente, pra botar uma pedra no final desta coluna tão fatigada, lembramos outro poeta modernista. A morte de Carlos Drummond de Andrade faz 12 miliádios no dia 24. Ele é autor de vários livros e, ainda que mal resuma, destacamos “Sentimento do Mundo” (Companhia das Letras), “Farewell” (Companhia das Letras), “A Rosa do Povo” (Companhia das Letras) e “Versiprosa” (Companhia das Letras), que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 1968. E agora, leitor? Por hoje é só, mês que vem tem mais. E vai ser gauche na vida! Parabéns pelos miliádios de nascimento a... ... Gillian Flynn, de “Garota Exemplar” (Intrínseca), e seus 18 miliádios no dia 6. ... Christian Mckay Heidicker, de “Bem-vindo à Vida Real” (Intrínseca), com 14 miliádios no dia 12. ... Diana Gabaldon, da série “Outlander” (Arqueiro), com 25 miliádios no dia 22. ... Hal Elrod, de “O Milagre do Amanhã” (Best Seller), que completa 15 miliádios dia 23. Em memória de... ... Herman Melville, de “Moby Dick” (Landmark) e “Bartleby, O Escriturário" (Rocco), e seus 47 miliádios de morte no dia 03. ... Régine Deforges, de “A Bicicleta Azul” (BestBolso), que completaria 31 miliádios de vida no dia 29. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Miliádios Literários: julho/2020

    🎼Quem foi que inventou o Brasil? Foi seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia 22 de abril, dois meses depois do Carnaval! 🎼Somente uma marcha de Lamartine Babo pra demonstrar a alegria patriota da coluna deste mês. Nosso Brasil comemora 190 miliádios de nascimento, ou de descobrimento, ou de redescobrimento, no dia 4. A coluna Miliádios Literários é um tubo de ensaio com águas cristalinas de oceano azul. Ela presenteia seus leitores incautos com as principais efemérides do mundo da literatura. E começa neste mês em alto nível, com um prêmio Nobel! Kazuo Ishiguro completa 24 miliádios de nascimento no dia 24. O autor de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), “O Gigante Enterrado” (Companhia das Letras) e “Um Artista do Mundo Flutuante” (Companhia das Letras) foi laureado em 2017 e teve vários de seus livros transformados em filmes hollywoodianos. Outro escritor cuja obra deu origem a vários filmes é H. G. Wells. Sua morte faz 27 miliádios no dia 15. Ele escreveu várias ficções científicas, como “A Máquina do Tempo” (Suma), “A Ilha do Sr. Moreau” (Via Leitura), “O Homem Invisível” (L&PM Pocket) e “A Guerra dos Mundos” (Suma). O grande poeta Oswald de Andrade, um dos líderes do modernismo brasileiro, mostrou-nos que só a antropofagia nos une – além da inexorável finitude. Tanto que seu falecimento completa 24 miliádios no dia 7. Oswald é autor de “Memórias Sentimentais de João Miramar” (Companhia das Letras), “O Rei da Vela” (Companhia das Letras) e “Serafim Ponte Grande” (Biblioteca Azul). Hilda Hilst foi uma escritora multifacetada. Escreveu poesias, peças de teatro, traduções, crônicas e romances, dos quais destacamos “Rútilo Nada” (Pontes), “A Obscena Senhora D” (Companhia das Letras) e “Pornô Chic” (Biblioteca Azul). Ela nos deixou há 6 miliádios completados no dia 9. Assim como Hilda Hilst, Ariano Suassuna também nos deixou. Entretanto, por ser Imortal da Academia Brasileira de Letras, completa 34 mil dias de vida no dia 17. Ele escreveu “O Sedutor do Sertão” (Nova Fronteira), “O Santo e a Porca” (Nova Fronteira) e o unânime “O Auto da Compadecida” (Nova Fronteira). Suassuna foi criador do Movimento Armorial, que propunha uma unidade estética aliada a vários formatos de arte popular, como romances de cordel, música de pífano e rabeca, xilogravura, dança, mamulengos etc. Dos cordéis nordestinos à boemia carioca em apenas uma frase, vamos à Vinicius de Moraes. Ele completaria 39 miliádios no dia 29. De tudo a sua obra seremos atentos – ou tentaremos –, pois são inúmeras compilações. Citamos “Todo Amor” (Companhia das Letras), “Poemas Esparsos” (Companhia das Letras), “Livro de Sonetos” (Companhia de Bolso) e “O Poeta Não Tem Fim” (V&R). O poetinha também escreveu músicas, peças de teatro e até um livro de crônicas, “Para uma Menina com uma Flor” (Companhia das Letras), mostrando que suas criações não têm fim – felicidade sim. Mês que vem tem mais Miliádios Literários. Que esta coluna seja infinita enquanto dure! Parabéns pelo nascimento de... ... Michael Byrne, de “O Garoto da Loteria” (Rocco), que completa 28 miliádios de vida no dia 5. ... Leandro Karnal, de “O Dilema do Porco-Espinho” (Planeta), atingindo 21 miliádios no dia 31. Em memória de... ... Raul Brandão, de “Húmus” (Carambaia), que faria 56 miliádios de nascimento no dia 7. … Benjamin Whorf, autor de “Language, Thought, and Reality: Selected Writings of Benjamin Lee Whorf” (The MIT Press), faria 45 miliversários no dia 8. … Raymond Carver, autor de “Iniciantes (Companhia das Letras). Ele faria o belo marco de 30 mil dias de vida no dia 13. ... Thomas Mann, de “A Montanha Mágica” (Companhia das Letras) e “Doutor Fausto” (Companhia das Letras), que completaria 53 miliádios no dia 15. ... Colleen McCullough, de “Pássaros Feridos” (Bertrand Brasil), com 2 miliádios de falecimento no dia 21. ... Manuel da Fonseca, de “Tempo de Solidão” (Caminho) e “Aldeia Nova” (Caminho), pelos 10 mil dias de falecimento no dia 27. ... Júlio Dinis, de “As Pupilas do Senhor Reitor” (Lafonte), que completaria 66 miliádios de vida no dia 27. ... Truman Capote, autor de "A Sangue Frio" (Companhia das Letras), que faria 35 miliádios no dia 28. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Miliádios Literários: agosto/2020

    Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá. As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Apenas as redondilhas maiores de Gonçalves Dias pra nos trazer algo bom da terra brasilis. O poeta e romancista é autor de “Primeiros Cantos” (Editora Itatiaia) e “Os Timbiras” (Companhia Editora Nacional). Dias completaria 72.000 homônimos no dia 6. Seu contemporâneo Álvares de Azevedo faria 69 miliádios apenas cinco dias depois. O que isso significa? Nada. Mas é sempre bom lembrarmos do poeta e advogado, autor de “Noite na Taverna” (Martin Claret) e “Lira dos Vinte Anos” (Martin Claret), chamada pela coluna Miliádios Literários de Lira dos 7.305 dias. Que momentos difíceis do Brasil, não? Tão complicados quanto em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), cujo autor Ray Bradbury nos deixou há 3 miliádios, completados no dia 22. Aficionado pelo futuro, o norte-americano escreveu “Algo Sinistro Vem por Aí” (Difel), mostrando sua inexorável intuição premonitória. Também é autor de “As Crônicas Marcianas” (Biblioteca Azul). Durma com um barulho desse. É melhor colocar as barbas de molho, mesmo se ensopadas de sangue, tal qual Daniel Galera. O paulistano autor de “Barba Ensopada de Sangue” (Companhia das Letras) e “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras), completa 15 miliádios no dia 15. O que pode ter causado tão hirsuta hemorragia? Lágrimas de sangue? Uma cara quebrada? Ou foi navalha na carne? Plínio Marcos completaria 31 miliádios no dia 13. O dramaturgo da última questão escreveu os romances “Histórias das Quebradas do Mundaréu” (De Cultura) e “Uma Reportagem Maldita – Querô” (Publisher Brasil). Fato é que o Brasil, do alto de 190 miliádios, mais um chorinho, chora em depressão. Não podemos minimizar o caso, de depressão morreu Virginia Woolf, autora de “Mrs. Dalloway” (Penguin), “Orlando: Uma Biografia” (Penguin) e “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), cujo suicídio completa 29 miliádios no dia 20. Sinal dos nossos tempos: “A Peste” (Record), de Albert Camus, voltou à lista dos best-sellers em vários países do mundo. Premiado com o Nobel de 1957, completaria 39 miliádios no dia 17. Camus também é autor de “O Estrangeiro” (Record) e “O Homem Revoltado” (Record). Mês que vem esta coluna miliádica volta com as melhores efemérides do mercado e um tiquinho de abacaxi. Até! Parabéns pelo nascimento de... ... Sandra Newman, de “História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas” (Cultrix)! Felicidades em seus 20 miliádios de vida. Em memória de... ... João Carlos Marinho Silva, premiado com um Jabuti em 1982, autor de “O Gênio do Crime” (Global Editora), que completaria 31 miliádios no dia 9. ... John Hersey, de "Hiroshima" (Vintage), cujo falecimento completa 10 miliádios no dia 9. ... R. L. Stevenson, autor de “A Ilha do Tesouro” (Autêntica), com seus 62 miliádios de nascimento no dia 13. ... Maria Velho da Costa, autora de “Maina Mendes” (Editora Moraes) e “O Amante do Crato” (Assírio & Alvim), que completaria 30 miliversários no dia 14. A autora morreu subitamente há 73 dias da publicação desta coluna miliádica. ... Frances Hodgson Burnett, de “O Jardim Secreto” (Martin Claret), cuja morte faz 35 miliádios no dia 26. ... Camilo Castelo Branco, de “Amor de Perdição” (Ática), que faria 86 miliversários no dia 31. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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