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  • Mercado Editorial: Ficções Mais Vendidas no Brasil em 2018

    Em março, divulguei, no Bonas Histórias, os livros mais vendidos nas livrarias brasileiras em 2018. Na lista dos dez best-sellers do ano passado, tivemos o predomínio quase absoluto de publicações de autoajuda, obras de youtubers, diários adolescentes e títulos religiosos (haja estômago!). Com raras exceções, os gostos literários dos meus conterrâneos me assustam. “Sapiens” (L&PM), estudo acadêmico-científico do historiador israelense Yuval Noah Harari, é o único do top 10 que merece elogios (fica até difícil entender como ele foi parar no alto do ranking...). Prova da baixa qualidade da lista dos mais vendidos no Brasil é a ausência total de romances. Sim, você leu corretamente: não há nenhuma ficção entre os dez livros mais vendidos em nosso país. Em uma nação séria e minimamente letrada, isso é quase impossível de acontecer. Juro que fiquei bastante decepcionado com a ausência completa de meu gênero favorito entre os principais sucessos nacionais. Por isso, em tom de revolta, decidi fazer um novo post para a coluna Mercado Editorial. Hoje é a vez de falarmos exclusivamente das ficções mais comercializadas no Brasil no ano passado. Para tal, usarei como fonte os dados do PublishNews, o principal portal nacional de notícias do mercado livreiro e editorial. E como vem acontecendo nas últimas duas décadas, o ranking das ficções mais compradas por aqui é dominado pela literatura de língua inglesa. Dos doze livros mais vendidos em 2018 nesta categoria, simplesmente oito são obras de autores ingleses, norte-americanos, canadenses e indianos (no caso, uma indiana naturalizada norte-americana). Apenas quatro títulos são de autores nacionais. Ou seja, mais do que uma tendência passageira, a preferência pelas publicações de língua inglesa atesta um padrão corriqueiro do nosso mercado e, por que não, um hábito/gosto dos leitores brasileiros. Apesar da avalanche de obras estrangeiras no alto do ranking, o livro ficcional mais vendido no ano passado em nosso país foi uma obra brasileira. “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt) é a coletânea de contos e microcontos organizada por Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira. Sucesso nas redes sociais, os textos curtos deste coletivo de autores ganharam uma versão impressa e com belas ilustrações de Analia Moraes. O trabalho ficou tão bom que se tornou um best-seller, com mais de 110 mil unidades vendidas. Na sequência da lista das ficções mais vendidas, vem quatro livros estrangeiros: “Ainda Sou Eu” (Intrínseca), romance da inglesa Jojo Moyes (aproximadamente 105 mil unidades vendidas), “Origem” (Arqueiro), romance do norte-americano Dan Brown (cerca de 101 mil), “Outros Jeitos de Usar a Boca” (Planeta), mistura de crônicas com poemas da indiana Rupi Kaur (76 mil) e “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Intrínseca), último romance do norte-americano John Green (68 mil). Logo depois na lista das doze ficções mais comercializadas em 2018, temos dois autores nacionais e quatro gringos. Augusto Cury chega neste ano com dois livros entre os mais vendidos: “O Homem Mais Feliz da História” (Sextante) e “O Homem Mais Inteligente da História” (Sextante), com 67 mil e 65 mil unidades comercializadas respectivamente. Já Bráulio Bessa consolida-se como uma das vozes mais fortes da nossa poesia. “Poesia que Transforma” (Sextante), sua obra que mistura passagens autobiográficas com muito lirismo, vendeu 67 mil exemplares. Dos escritores estrangeiros, temos mais um livro de Rupi Kaur, “O que o Sol Faz com as Flores” (Planeta), com 66 mil unidades comercializadas, e “Mais Escuro” (Intrínseca), um dos romances da série “Cinquenta Tons de Cinza”, best-seller da inglesa E. L. James (64 mil vendidos). Na décima primeira e na décima segunda posições temos, respectivamente, duas distopias históricas: “O Conto da Aia” (Rocco), da canadense Margaret Atwood (60 mil) e “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), do inglês George Orwell (41 mil). Esse é o ranking de 2018. Veja, a seguir, a lista completa das doze ficções mais vendidas no Brasil no ano passado, segundo o PublishNews: 1º) “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt) - Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira (Brasil) - 110 mil. 2º) “Ainda Sou Eu” (Intrínseca) - Jojo Moyes (Inglaterra) - 106 mil 3º) “Origem” (Arqueiro) - Dan Brown (Estados Unidos) - 101 mil 4º) “Outros Jeitos de Usar a Boca” (Planeta) - Rupi Kaur (Índia) - 76 mil 5º) “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Intrínseca) - John Green (Estados Unidos) - 68 mil 6º) “O Homem Mais Feliz da História” (Sextante) - Augusto Cury (Brasil) - 67 mil 7º) “Poesia que Transforma” (Sextante) - Bráulio Bessa (Brasil) – 67 mil 8º) “O que o Sol Faz com as Flores” (Planeta) - Rupi Kaur (Índia) - 66 mil 9º) “O Homem Mais Inteligente da História” (Sextante) - Augusto Cury (Brasil) - 65 mil 10º) “Mais Escuro” (Intrínseca) - E. L. James (Inglaterra) - 64 mil 11º) “O Conto da Aia” (Rocco) - Margaret Atwood (Canadá) - 60 mil 12º) “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras) – George Orwell (Inglaterra) - 41 mil Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MaisVendidos #MercadoEditorial #Livros #Ficção

  • Filmes: O Sol Também é Uma Estrela – A adaptação do best-seller de Nicola Yoon

    Na semana retrasada, estreou nos cinemas brasileiros “O Sol Também é Uma Estrela” (The Sun Is Also A Star: 2019). O drama romântico de pegada adolescente teve um orçamento na casa de US$ 9 milhões. De certa forma, ele antecipa o clima do Dia dos Namorados em nosso país. Dirigida por Ry Russo-Young, jovem cineasta norte-americana responsável pelo ótimo “Antes Que Eu Vá” (Before I Fall: 2016), a recém-lançada produção foi roteirizada por Tracy Oliver. O protagonismo ficou a cargo de Yara Shahidi e Charles Melton, dois jovens atores que começaram suas carreiras como modelos e atualmente são mais conhecidos por seus trabalhos em séries de TV (ela por “Black-ish” e ele por “Riverdale”). Assisti a “O Sol Também é Uma Estrela” na última quarta-feira no Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompeia. Apesar de trazer alguns recursos narrativos simples e alguns expedientes cinematográficos bem manjados, o novo longa-metragem de Russo-Young possui seus encantos. Ele sabe sim cativar a plateia mais emotiva e entrega o que promete. No final das contas, seu resultado é amplamente positivo. Não é porque uma receita é utilizada recorrentemente por produções similares que necessariamente ela seja decepcionante. Um prato pode ser bem-feito mesmo utilizando ingredientes, fórmulas e mecanismos corriqueiros (leia-se: conservadores). O filme é baseado no best-seller homônimo de Nicola Yoon, autora jamaicana que mora desde a adolescência nos Estados Unidos e que escreve tramas sobre a diversidade inter-racial. O livro “O Sol Também é Uma Estrela” (Arqueiro), o segundo romance de Yoon, foi lançado em novembro de 2016 nos Estados Unidos e já no ano seguinte alcançou o incrível posto de mais vendido na lista do New York Times. O sucesso nas livrarias norte-americanas foi seguido pelos elogios da crítica literária daquele país. O romance foi finalista do Prêmio National Book de 2016 e do Prêmio Amelia Elizabeth Walden de 2017. Interessada em levar esta história para o cinema, a Warner Brothers e a MGM compraram, em dezembro de 2016, os direitos de adaptação do livro de Nicola Yoon. As filmagens começaram em 2017. Curiosamente, a história de “O Sol Também é Uma Estrela” foi baseada em alguns elementos autobiográficos. Muitas das características do casal de protagonistas foram extraídas do relacionamento real e multicultural da escritora com seu marido, um designer de ascendência sul-coreana. Enquanto Nicola Yoon é negra, se formou em Engenharia e trabalhou por duas décadas como programadora de uma empresa de investimentos norte-americana, seu marido é um artista de origem asiática que mora desde a infância em Nova York. No universo ficcional do romance, a autora apresenta o drama de um jovem casal de imigrantes de culturas tão diferentes: ela jamaicana e ele coreano. Apesar das diferenças étnicas, o pior pesadelo dos apaixonados é o departamento de Imigração dos Estados Unidos. Para ficarem juntos em um país em que o aperto aos imigrantes ilegais se intensificou nos últimos anos, eles precisarão se desdobrar. Ou seja, qualquer semelhança entre ficção e realidade neste caso não é mera coincidência... O longa-metragem se passa nos dias de hoje em Nova York (para sermos mais precisos, a história acontece há cinco anos). Natasha Kingsley (interpretada por Yara Shahidi) é uma jovem que vive um drama pessoal. Depois de anos morando na América (veio da Jamaica ainda criança), ela e sua família serão deportadas para o país caribenho já no dia seguinte. A Imigração pegou seu pai, que nunca formalizou sua estada nos Estados Unidos. O problema de Natasha é que sua vida está toda baseada no novo país e, principalmente, em Nova York. Ela se enxerga muito mais como uma norte-americana do que como uma jamaicana. Desesperada para mudar a decisão do departamento de Imigração, ela quer usar as últimas 24 horas para arranjar um bom advogado que consiga reverter sua deportação. Justamente nesse dia decisivo, Natasha conhece por acaso Daniel Bae (Charles Melton). Ele é um descendente de sul-coreanos que sonha em ser escritor, mas que está na iminência de entrar para a faculdade de Medicina. O rapaz salva a moça de ser atropelada. Encantado com a beleza da jovem e empolgado com as coincidências que os aproximou (diz que o encontro de ambos é obra do destino), Daniel desafia Natasha a passar um dia inteiro com ele. O rapaz tem certeza que fará a moça se apaixonar por ele nessas 24 horas. Entretanto, Natasha não possui tanto tempo assim para dispor. Além disso, ela, diferentemente dele, não é nada romântica. A jamaicana não crê em destino nem em amor à primeira vista. Para ela, o mundo é regido unicamente por fatos comprovados cientificamente. Sentimentos, feeling, sexto sentido, impressões subjetivas e intuições não passam de bobagens que as pessoas fracas de espírito acreditam. Para Daniel, o mundo não é tão frio como sua nova amiga acredita ser. Ele crê no poder do amor, na força do invisível, na atração entre as pessoas e no poder do destino. Exatamente por isso, insiste no encontro com Natasha. Na visão de Daniel, o período de 24 horas será suficiente para a moça ficar apaixonada por ele e compreender o quanto os dois estão fadados a ficarem juntos para sempre. Depois da insistência de Daniel, Natasha aceita conferir ao rapaz ao menos uma hora de seu dia. É tudo o que ela tem para dispor. Ele aceita empolgado. Esta será a chance dele de provar que os dois foram feitos um para o outro e que o destino está agindo para colocá-los juntos. O grande problema de Daniel é o dia em que ele conhece Natasha. A moça está estressada e extremamente preocupada com a questão da Imigração. Conseguirá o descendente de sul-coreanos atrair a atenção da jovem jamaicana a ponto dela se apaixonar?! Esse é o conflito principal do filme que faz o espectador grudar na tela. “O Sol Também é Uma Estrela” tem pouco mais de uma hora e meia de duração. Como um romance leve e descontraído, o filme é honesto. Trata-se de um longa-metragem recreativo que consegue cativar a plateia, mas que está longe (muuuito longe) de ser uma produção memorável. Se comparado até mesmo a “Antes Que Eu Vá”, para restringirmos a análise aos filmes dirigidos por Ry Russo-Young, “O Sol Também é Uma Estrela” perde de goleada. Os pontos fortes desta produção estão em um roteiro bem amarradinho (simples, mas correto), no carisma contagiante do casal formado por Yara Shahidi e Charles Melton, na boa trilha sonora e na belíssima fotografia do filme. O roteiro de Tracy Oliver foi, obviamente, ajudado pela boa história construída por Nicola Yoon em seu romance. “O Sol Também é Uma Estrela” faz parte daquele tipo de narrativa romântica de um dia, quando um pequeno período (neste caso, 24 horas) marca consideravelmente a vida do casal apaixonado para sempre. Mesmo não sendo lá muito original, esta história guarda detalhes peculiares que dão charme e emoção à sua trama. A diversidade ético-cultural das personagens, o olhar sobre os imigrantes, a disputa com a Imigração e as diferenças ideológicas dos protagonistas são os elementos mais interessantes do filme. É verdade que o conflito do jovem casal tem alguns exageros... É difícil acreditar que em pleno século XXI, duas pessoas se procurem, mas não se achem. Onde estão as redes sociais? Onde está o alcance internacional dos celulares?! Em certo sentido, tal narrativa seria mais apropriada para a década de 1990 e não para os anos de 2000. Em relação às coincidências intermináveis que os protagonistas são submetidos do início ao final do longa-metragem, sinceramente isso não me incomodou. Só achei a cena final um tanto forçada. Sabe quando o copo está cheinho e aí uma gotinha transborda tudo? Foi mais ou menos essa sensação que tive no desfecho. Apesar de romântico, o final é piegas e exagerado. De certa forma, ele estraga a verossimilhança da trama. É preciso destacar a atuação de Yara Shahidi e Charles Melton, novatos nos papéis de protagonistas no cinema. A dupla dá um show de carisma e de simpatia. Se falta um pouco de química ao casal, não falta, por outro lado, sensibilidade para a construção de suas personagens. Não é errado atribuir boa parte do êxito do filme ao desempenho surpreendente dos jovens atores. A escolha de Shahidi foi uma opção pessoal de Russo-Young. A atriz que fez a protagonista do filme foi a primeira a ser selecionada pela diretora. Já a definição de Melton demorou um pouco mais, sendo preciso alguns meses para se chegar ao seu nome. Repare também na trilha sonora e na fotografia de “O Sol Também é Uma Estrela”. As músicas que embalam a paixão de Natasha Kingsley e Daniel Bae são uma mistura de sucessos antigos com criações novas. Do primeiro grupo, destaco “Crimson And Clover” de Joan Jett. Na certa, você sairá da sessão com essa canção na cabeça. Do segundo grupo, “Paradise”, composta por Bazzi, é o principal exemplar. Curiosamente, além de ouvi-las durante o filme, algumas canções e alguns álbuns conhecidos do grande público (“No Woman, No Cry” de Bob Marley, “Nevermind” do Nirvana, “Hunger Strike” de Chris Cornell e “Feel on Black Days” de Soundgarden) são citados pelas personagens ou aparecem em segundo plano durante a narrativa cinematográfica. Ou seja, há uma forte intertextualidade musical nesta produção. Os gostos e os hábitos musicais das personagens principais são um importante elemento desta história e aparecem com força o tempo inteiro durante o longa-metragem. A fotografia de “O Sol Também é Uma Estrela” permite que o espectador faça um passeio virtual por Nova York. A cidade da costa leste dos Estados Unidos é uma personagem do filme e aparece exuberante na telona. O par romântico está o tempo inteiro se deslocando pelas ruas da cidade e parece priorizar os pontos turísticos do município. Os locais mais famosos de Nova York são usados como cenário, algo à princípio incoerente se estamos falando de moradores da localidade e não de turistas. Contudo, como estamos tratando de um casal apaixonado, tudo é permitido, até mesmo visitar os pontos turísticos da cidade em que eles moram desde crianças em um dia aparentemente normal. Os pontos fracos de “O Sol Também é Uma Estrela” aparecem em alguns exageros do seu enredo e de alguns tropeços narrativos. É verdade que a maioria do público, encantada com a história de amor dos jovens, talvez nem perceba a maioria das falhas da trama. Por isso, achei o filme tão bom. Se ele não é lá tão criativo em seu conflito e em seu desenvolvimento, ao menos teve o mérito de ocultar suas falhas com um produto final redondinho. Para quem é romântico e procura uma opção no cinema para assistir com uma boa companhia ao lado, “O Sol Também é Uma Estrela” irá cair como uma luva. Veja o trailer de “O Sol Também é Uma Estrela” (The Sun Is Also A Star: 2019): O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinemanorteamericano #filmes #Drama #RyRussoYoung #TracyOliver #YaraShahidi #CharlesMelton #NicolaYoon

  • Livros: Para Educar Crianças Feministas - Carta de Chimamanda Ngozi Adichie

    Esse finalzinho de Desafio Literário tem sido muito frustrante. Depois de ficar extremamente empolgado com a qualidade excepcional dos romances “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras) e “Americanah” (Companhia das Letras) e da coletânea de contos “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), acabei me decepcionando bastante com os ensaios feministas de Chimamanda Ngozi Adichie. Na terça-feira passada, comentamos, no Bonas Histórias, “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras), ensaio de 2013 da escritora nigeriana. Agora, é a vez de discutirmos “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras), a última publicação de Adichie. Li esta obra na quinta-feira passada e fiquei assustado com a precariedade do seu conteúdo. “Para Educar Crianças Feministas” consegue ser ainda pior do que “Sejamos Todos Feministas” (sim, isso é possível!). Vale a pena salientar que estou aqui analisando o conteúdo do livro (a verdadeira proposta do Desafio Literário) e não o feminismo como proposta ideológica (a matéria-prima do livro). Falo isso porque tenho certeza que minhas críticas irão incomodar muita gente defensora do feminismo como se eu estivesse criticando-o. Não! Estou falando mal de “Para Educar Crianças Feministas” e não do feminismo. Como material ensaístico, esta obra possui um texto fraco, preconceituoso, datado e restrito a uma realidade felizmente cada vez mais provinciana e arcaica. Curiosamente, “Para Educar Crianças Feministas” e sua antecessora “Sejamos Todos Feministas” são as publicações mais populares de Chimamanda Ngozi Adichie. Muita gente nem sabe que ela é uma escritora ficcional de enorme talento e sucesso. Para o grande público, a autora é antes de tudo uma famosa feminista engajada na promoção dos seus ideais. Como essa inversão de valores foi possível?! Sinceramente não sei. É triste ver uma autora tão engenhosa e original reduzida a um estereótipo. Para piorar, sua abordagem como feminista é muito rasa, não fazendo justiça à sua inteligência e à sua sagacidade como romancista. Adichie até fala de um assunto atual e necessário em seus ensaios: o feminismo. É difícil alguém não concordar com a relevância da equiparação entre os gêneros e a necessidade urgente da abolição do machismo em todas as sociedades. Contudo, a escritora debate essas questões de um ponto de vista já ultrapassado. Ela fala olhando para uma sociedade profundamente machista como a nigeriana e, mais especificamente, a igbo (etnia da qual a escritora faz parte). Aí, temos uma derrapada feia. A realidade apresentada por Chimamanda Ngozi Adichie não existe mais nas sociedades mais arejadas, como por exemplo a norte-americana. Fica difícil concordar com ela e com os exemplos oferecidos nas páginas dos seus livros não ficcionais. É a mesma coisa de uma mulher discutir o feminismo do ponto de vista da sociedade iraniana. Aí, alguém iria reclamar: e desde quando a nossa sociedade pode ser comparada a dos aiatolás persas?! Não dá. Publicado em 2017, “Para Educar Crianças Feministas” nasceu de uma carta que Adichie escreveu para uma amiga na Nigéria. A amiga da escritora deu à luz a uma menina e pediu conselhos de como deveria criar a criança recém-nascida. Feminista convicta, Chimamanda Ngozi Adichie escreveu em sua correspondência 15 dicas para a nova mãe. O livro é uma adaptação desta carta. Assim como o ensaio anterior de Adichie, este livro é extremamente curtinho. Ele possui apenas 96 páginas. É possível lê-lo em menos de uma hora. Antes das dicas, “Para Educar Crianças Feministas” apresenta duas premissas feministas de Chimamanda Ngozi Adichie. A primeira é “toda mulher tem valor”. A segunda é “devemos analisar o comportamento da pessoa independentemente do sexo”. Já as dicas para a amiga são as seguintes: 1 – Não se restrinja ao papel de mãe; 2 – Pai e mãe devem cuidar da criança juntos; 3 – Não existe “papéis de gênero”; 4 – Cuidado com o Feminismo Leve (que coloca a igualdade feminina na condicional); 5 – Ensine sua menina a ler e a gostar dos livros; 6 – Ensine sua filha a questionar a linguagem; 7 – Casamento não é realização para a mulher; 8 – A mulher não deve se preocupar em agradar os outros; 9 – Dê a menina um senso de identidade; 10 – Esteja atenta às atividades e à aparência dela; 11 – Não usar a biologia para perpetrar os privilégios masculinos; 12 – Converse sobre sexo com sua filha desde cedo; 13 – Romances irão acontecer; 14 – Os oprimidos não são santos; e 15 – Ensine a menina o valor das diferenças. Basta a leitura do parágrafo anterior para se notar o quanto “Para Educar Crianças Feministas” é uma obra que oscila entre a futilidade e o vazio conceitual. Vejamos o primeiro pressuposto da autora: toda mulher tem valor. Meu Deus, será que alguém não concorda com isso!? De tão óbvio que é esse conceito que me parece assustador ter que argumentar ou justificá-lo. Só mesmo as sociedades mais primitivas e as mentes mais atrasadas não irão concordar com essa frase em pleno século XXI. Quanto ao segundo pressuposto (devemos analisar o comportamento da pessoa independentemente do sexo), as escorregadas estão nos exemplos dados pela autora. Ela analisa o comportamento de uma mulher traída pelo marido para justificar seu ponto de vista. Pera aí! A postura da esposa ao descobrir a infidelidade do parceiro é muito mais uma decisão individual do que de gênero em qualquer país minimamente civilizado. Usar esse exemplo é regredir algumas décadas no debate de gênero. Não ficou convencido com as minhas críticas sobre este livro. Então aí vão mais alguns exemplos. Hoje em dia, uma mulher que deixa de trabalhar para cuidar sozinha do filho é malvista pela sociedade. O mesmo ocorre com a mulher que vê o casamento como um prêmio. Também não assistimos a uma pressão para a esposa adotar o sobrenome do marido ou para se casar virgem. E o que dizer então da “obrigação” da mulher em cozinhar para o maridinho. Será que as moças desacompanhadas não conseguem entrar nas baladas nas cidades mais cosmopolitas do mundo? E o que dizer dos garçons dos restaurantes finos que não cumprimentam as damas somente os cavalheiros?! Basta ver os relacionamentos das novas gerações e os hábitos das cidades mais modernas do planeta para compreender que essas preocupações da autora ficaram lá atrás. Eles são comportamentos típicos das gerações anteriores (não das atuais) e de locais atrasados culturalmente. Isso quer dizer que a sociedade atual não é mais machista. Não! É claro que não. Ela continua sendo muito machista. Porém, Chimamanda Ngozi Adichie não aborda nenhum ponto desse desequilíbrio sexista do ponto de vista moderno. De cabeça posso listar alguns exemplos: a dificuldade das mulheres de assumir a diretoria nas empresas, o assédio masculino na rua, o casamento com homens mais jovens e a explosão de feminicídios. Existem muitos outros. Ao invés de tratar o assunto de maneira mais atual, a escritora fala de como é a vida na Nigéria na perspectiva da sociedade igbo. Lá, muitas mulheres não vão para a escola (daí a dica número cinco) e pensam unicamente no casamento (dica sete). Uma vez casadas, elas precisam ficar em casa cozinhando e limpando (dica um) e cuidando das crianças (novamente dica dois). Ah, é importante a mulher nigeriana se manter casta até a hora do casamento (dicas doze e treze). Ao mesmo tempo em que derrapa feio ao olhar o mundo de uma maneira muito conservadora, Adichie erra ao radicalizar o seu discurso. Será mesmo que uma mulher não deve nunca agradar os outros (dica oito)? E o que dizer da frase: o machismo é pior do que o racismo?! Para mim, é a mesma coisa de dizer “estupra, mas não mata” (frase de Paulo Maluf). Racismo e machismo são dois cânceres sociais e, portanto, não existe um melhor ou pior. Ambos são profundamente maléficos. E o que dizer, então, de frases como “mulher que não é feminista incentiva diretamente o machismo”. Para qualquer leitor ou leitora minimamente esclarecido, é difícil de engolir essa interminável coletânea de bobagens. A sequência final das dicas é de um pieguismo sem tamanho. Dê a menina um senso de identidade (e para os meninos isso não seria importante?). Esteja atenta às atividades e à aparência dela (e alguém imaginaria que uma mãe não ficaria atenta seja para com o filho ou para com a filha). Os oprimidos não são santos (será mesmo?) Ensine a menina o valor das diferenças (não seria uma contradição a tudo o que foi dito antes?!). Livros como “Para Educar Crianças Feministas” e “Sejamos Todos Feministas” fazem um desserviço para o feminismo contemporâneo. Os feministas e as feministas merecem um livro mais profundo e inteligente para discorrer sobre seus ideais. Infelizmente, não é o caso das obras ensaísticas de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela bem que poderia analisar o machismo da sociedade moderna na perspectiva da cultura norte-americana, local onde ela vive há décadas. Porém, ela passa longe dessa análise. É uma pena. As únicas coisas boas de “Para Educar Crianças Feministas” são seu tamanho enxuto e seu preço irrisório. Você não perderá mais do que quarenta e cinco minutos nesta leitura (ufa!). E nem precisará pagar mais do que R$ 10,00 para levar esse mico para casa. Agora que terminei a leitura dos seis livros de Chimamanda Ngozi Adichie, posso enfim fazer a análise literária da autora. Portanto, na quarta-feira da semana que vem, dia 29, retorno ao Desafio Literário para apresentar um panorama estilístico de uma das mais importantes escritoras africanas da atualidade. Não perca a última etapa do estudo da literatura de Adichie no Bonas Histórias. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaNigeriana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaAfricana #ChimamandaNgoziAdichie #Drama #Livros #Ensaios #Crônica #Feminismo

  • Livros: Sejamos Todos Feministas – O ensaio de Chimamanda Ngozi Adichie

    Li, neste final de semana, “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras), o primeiro ensaio feminista de Chimamanda Ngozi Adichie. A autora nigeriana publicou, anos mais tarde, um segundo livro nesta linha: “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras). Com essas duas obras, Adichie se tornou uma das mais importantes porta-vozes do movimento feminista tanto na África quanto nos Estados Unidos. Por isso, muitos leitores conhecem a escritora mais como uma engajada militante do que como uma romancista de talento. Esse tipo de visão está totalmente equivocado! Como vimos até aqui no Desafio Literário, o trabalho ficcional de Chimamanda Ngozi Adichie é espetacular. “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras) e “Americanah” (Companhia das Letras), obras analisadas neste mês no Bonas Histórias, são impecáveis e merecem ficar em primeiro plano em qualquer debate. Para mim, Chimamanda Ngozi Adichie está mais para Virginia Woolf do que para Simone de Beauvoir. Conhecendo o talento literário de Adichie, iniciei a leitura de “Sejamos Todos Feministas” com uma elevada expectativa. Best-seller internacional, este livro é apontado por muita gente como um dos principais títulos do feminismo moderno. Admirador da causa, não resisti à tentação de conhecer seu conteúdo. Acreditei que encontraria um ponto de vista original, sensível e sagaz sobre esse tema. E qual foi minha surpresa ao ficar profundamente decepcionado com o que encontrei. “Sejamos Todos Feministas” é uma das publicações mais fraquinhas que li nos últimos anos. Chega a ser assustador saber que há uma multidão que admire este livro e que o coloque como leitura de cabeceira. Meu Deus, pare o mundo que eu quero descer! O principal problema de “Sejamos Todos Feministas” está na maneira rasa, preconceituosa e restrita como o assunto é conduzido pela autora. Acreditei que Chimamanda Ngozi Adichie fosse falar mais de feminismo do que de machismo (esses temas estão intimamente correlacionados, mas ainda sim são totalmente diferentes). E achei também que, uma vez abordando o machismo, a autora fosse questioná-lo do ponto de vista moderno, do século XXI. Porém, ela fala olhando para sociedades onde a mulher não tem qualquer representatividade social. A impressão é que discutimos esse problema sob a ótica medieval. Ou seja, não poderia haver um discurso mais retrógado e incompatível com a realidade das cidades mais cosmopolitas do planeta. É uma pena! Juro que esperava muito mais de uma escritora tão lúcida, bem articulada e profundamente inteligente. Publicado em 2014, “Sejamos Todos Feministas” é uma adaptação de uma palestra homônima que Adichie ministrou na Nigéria em dezembro de 2012. Filmado, o discurso da autora viralizou na Internet poucas semanas depois. O vídeo já tem mais de 2 milhões de acessos. Beyoncé ficou tão encantada com as palavras de Chimamanda Ngozi Adichie que resolveu musicá-la. O resultado é a canção “Flawless”. Barack Obama, na época presidente dos Estados Unidos, convidou a escritora para um bate-papo sobre racismo e empoderamento feminino. Agora, você entendeu o porquê da minha alta expectativa, né? Este livro se tornou um ícone pop, admirado por estrelas de primeira grandeza da política e do show business norte-americano. Com apenas 64 páginas, “Sejamos Todos Feministas” é um livretinho. Seu tamanho reduzido foi o primeiro choque negativo que tive. “Como um assunto tão importante pode se limitar a tão poucas páginas?”, pensei com meus botões. É possível ler esta obra em menos de 40 minutos (levei meia hora para concluí-la e li tudo em uma batida só). Na introdução, Adichie explica o convite feito pelo irmão e pelo melhor amigo para realizar a palestra (que ela não pôde recusar). Depois, ela fala com orgulho da sua condição de feminista inveterada. Na sequência, a autora aponta os vários episódios de machismo que viu ou vivenciou desde que era pequena. E, por fim, ela exalta a importância do empoderamento feminino. Diante desse enredo, fica até difícil criticar uma publicação tão politicamente correta como esta, né? Contudo, apesar de saber que serei duramente (e talvez até eternamente) criticado pelas feministas mais reacionárias, não posso omitir minha insatisfação. Eu li este livro com a promessa de ver “um ensaio preciso e revelador” que trata do “significado de ser feminista no século XXI” e que justifica o porquê “o feminismo é essencial para libertar mulheres e homens” (trechos entre aspas foram extraídos da orelha da obra). E não foi isso que encontrei. Pelo contrário. O feminismo de Chimamanda Ngozi Adichie é mais século XIX do que anos 2000. Ao invés de falar do machismo que vivenciou nos Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo e que exporta seu estilo de vida para o restante do planeta, ou que presenciou na Europa durante suas viagens, a escritora se limita a colocar o dedo nas feridas da sociedade nigeriana, uma das mais retrógradas do planeta. É como se uma iraniana reclamasse da situação feminina no mundo usando como referência o que acontece no país dos Aiatolás. “Como assim?!”, nos perguntaríamos indignados. A vida de uma mulher no Irã é, ainda bem, muitíssimo diferente da de uma mulher nos Estados Unidos, no México, no Brasil, na Noruega ou no Japão. O machismo de lá é diferente do de cá. Infelizmente, a Nigéria é uma nação, do ponto de vista das mulheres, mais próxima às ditaduras e às monarquias muçulmanas do que ao mundo ocidental. Vejamos, então, se o país africano não está mais próximo das sociedades medievais do que do mundo moderno. Segundo Adichie, o acontecimento mais importante da vida de suas conterrâneas ainda é o casamento. Uma vez casadas, elas devem cuidar da casa e dos filhos. Trabalhar fora nem pensar. Sexo antes do matrimônio é pecado. Mulher desacompanhada não entra em restaurantes, bares, hotéis e casas noturnas. Em muitas regiões, nem estudar elas podem. Sejamos honestos: você imagina esta rotina hoje em dia para uma jovem de 20 ou 30 anos em qualquer país ocidental? Difícil, né? Os casos trazidos em “Sejamos Todos Feministas” são de um machismo extremo. Por isso, o feminismo que a autora prega me parece ultrapassado. A maioria dos episódios que ela relata não acontecem com tanta frequência nas sociedades mais arejadas: guardador de carro não agradece a gorjeta dada pela mulher porque aquele dinheiro não teria sido ganho por ela; professora não convoca meninas para serem monitoras de classes; garçons não saúdam as mulheres, só os homens nos restaurantes; segurança de hotel acha que todas as mulheres desacompanhadas são prostitutas; mulher não pode ter uma carreira porque acaba competindo com o marido; etc. Isso tudo soa tão século XIX, tão primeira metade do século XX. Nem por isso, o machismo desapareceu no ocidente. Ele está lá sim, senhor. Isso é evidenciado, por exemplo, nos menores salários recebidos pelas mulheres, no baixo índice de mulheres nos cargos de direção, na maior quantidade de horas que elas passam realizando trabalhos domésticos e na epidemia de feminicídios que alguns países estão vivenciando (o Brasil é um deles). Adichie fala sobre isso? Não! Quando muito, ela tangencia o assunto. Ela prefere discorrer sobre o tabu da virgindade para as mulheres solteiras, falar da importância de não se almejar apenas um bom matrimônio, aconselhar sobre a necessidade de se completar os estudos e apontar para a necessidade de se ter um trabalho remunerado fora de casa. Coisas tão óbvias, mas tão óbvias que me parece surpreendente o livro despertar a atenção nos leitores ocidentais. Se realizar essas coisas banais da vida moderna é ser feminista, felizmente já vivemos um feminismo pleno em grande número de cidades da Europa e nos Estados Unidos. Contaminada com essa visão antiga e extremamente preconceituosa da sociedade nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie comete grandes derrapadas. Em determinada passagem do ensaio, ela fala: na adolescência, os garotos nigerianos roubam dinheiro dos pais porque tem que pagar sozinhos a conta do restaurante quando saem com as garotas (?!?!?!). Então, se a conta fosse dividida esse problema não aconteceria?! Logo no início do livro, a escritora se diz uma “feminista feliz e africana que não odeia homens e que gosta de usar batons e salto alto para si mesma e não para os homens” (?!?!?!). Então quer dizer que a maioria das feministas são infelizes, brancas, odeiam os homens, não se arrumam e não tem autoestima?! Para completar a coletânea de maluquices, na parte final da obra, há a insinuação de que as mulheres gastam mais tempo se arrumando por causa do machismo (?!?!?!). Precisa ter estômago para ouvir tanta besteira. Por outro lado, Adichie acerta em cheio ao comentar que os homens normalmente não veem o machismo da sua sociedade e de seus próprios comportamentos. Também acerta ao apontar os medos e as inseguranças deles para com o feminismo. E lista alguns pontos preocupantes na criação de meninos e de meninas que só agravam a cultura da desigualdade de gêneros. É uma pena que esses elementos mais sagazes fiquem restritos a um pedaço pequeno do texto e que não sejam tão bem explorados. “Sejamos Todos Feministas” é um ótimo livro para quem vive em sociedades de machismo 1.0 (Irã e países muçulmanos que emulam os hábitos medievais) e de machismo 2.0 (Nigéria e muitas nações africanas que ainda são fortemente patriarcais). Agora, dizer que este título é leitura fundamental para quem vive em sociedades de machismo 3.0 (países latino-americanos) e de machismo 4.0 (Estados Unidos e Europa) me parece um absurdo (note, que, infelizmente, não há sociedade isenta de machismo). Adichie fala única e exclusivamente para suas conterrâneas. O texto deste ensaio não tem a força que imaginei para representar o drama vivenciado atualmente por milhões de mulheres nos centros mais cosmopolitas do planeta. Minha grande frustração em relação a “Sejamos Todos Feministas” não diminui meu apreço pela literatura de Chimamnda Ngozi Adichie. A nigeriana continua sendo uma das grandes autoras da ficção contemporânea. Curiosamente, ela fala mais e melhor sobre alguns problemas sociais em seus romances e em seus contos do que em seus ensaios. É algo parecido ao que constatei no portfólio de Lya Luft, para ficarmos com um exemplo brasileiro, e de Xinran, um exemplo internacional. No próximo sábado, dia 25, retornarei ao Desafio Literário para comentar “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras), o segundo ensaio feminista da escritora nigeriana. Minha curiosidade é saber se Adichie irá cometer os mesmos equívocos de “Sejamos Todos Feministas” ou se trará uma visão mais moderna e plural do feminismo e do machismo. Essa resposta estará aqui no Bonas Histórias em quatro dias. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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  • Livros: Americanah - O maior sucesso de Chimamanda Ngozi Adichie

    O quarto livro deste Desafio Literário é “Americanah” (Companhia das Letras), o maior sucesso comercial de Chimamanda Ngozi Adichie. É verdade que antes da publicação desta obra a escritora nigeriana já havia conseguido encantar a crítica literária. Suas três narrativas anteriores, “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras) e “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), receberam vários prêmios internacionais e colocaram o nome da autora como um dos principais de sua geração. Contudo, Adichie ainda não era uma artista best-seller capaz de vender milhões de exemplares nas livrarias. Este patamar ela só alcançou com “Americanah”. O romance sobre o drama amoroso de uma imigrante nigeriana tornou-se um grande sucesso de vendas nos Estados Unidos e, depois, na Europa. Várias personalidades famosas como Beyoncé e o ex-presidente Barack Obama não se cansaram de expressar sua admiração por “Americanah” e pelo trabalho de Chimamanda. Era o início da fase dourada da carreira de Adichie. Além do êxito junto aos leitores, “Americanah” também recebeu elogios e prêmios da crítica literária. O romance foi considerado pelo jornal New York Times como uma das dez melhores publicações daquele ano. O livro também conquistou o National Book Critics Award na categoria Melhor Ficção. Esta é a principal honraria literária conquistada por Chimamanda Ngozi Adichie até agora. Para completar, recentemente os direitos de adaptação desta obra para o cinema e para a televisão foram vendidos para Lupita Nyong’o, atriz vencedora do Oscar em 2014. As gravações da versão cinematográfica da história de Adichie já estão rolando e a previsão de lançamento do filme é para o ano que vem. Publicado em maio de 2013, “Americanah” não apenas alcançou o reconhecimento do público e da crítica como também se tornou um ícone cultural contemporâneo. Chimamanda Ngozi Adichie aborda sabiamente em sua narrativa muitas questões relevantes dos tempos atuais: migração interplanetária, racismo, empoderamento feminino, desigualdade social, diferenças étnico-religiosas, choque cultural, corrupção nos países subdesenvolvidos e busca pela identidade perdida diante de tantas mudanças recentes. A força dramática desta história e de seus protagonistas é tanta que muito possivelmente estamos diante de um futuro clássico literário. Não me surpreenderia se daqui a dez, vinte ou cinquenta anos as pessoas ainda estiverem comprando esta obra nas livrarias. O enredo de “Americanah” começa com a ida de Ifemelu ao cabelereiro. A protagonista é uma nigeriana da etnia igbo que vive há treze anos nos Estados Unidos. Ela foi bolsista da Universidade de Princeton e atualmente trabalha como blogueira. “Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Chamados de Crioulos) Feitos por Uma Negra Não Americana” é o famoso blog de Ifemelu que trata do comportamento da sociedade norte-americana em relação às pessoas negras. Sim, esse título gigantesco é o nome do blog! Ifemelu mora há três anos com Blaine, um professor universitário de Yale. O casal mora em New Haven. Contudo, a moça é apaixonada por Obinze, seu primeiro namorado. Obinze é um rico empresário de Lagos. Ele é casado com Kosi e tem uma filha pequena. Ifemelu e Obinze não se veem desde que ela deixou a Nigéria e foi morar nos Estados Unidos. Ele permaneceu em seu país natal. A distância afastou os antigos namorados. As recordações e os sentimentos sobre o antigo namorado vêm com força agora que Ifemelu está de passagem comprada para a Nigéria. Ela decidiu abandonar a vida na América e regressar em definitivo para Lagos. Por isso, ela vai ao cabelereiro. Ela quer estar linda quando chegar à sua terra natal. Será que ela reencontrará Obinze? Como ele irá se comportar com a sua volta? O relacionamento deles será igual ao que foi quando ela partiu? Será que Blaine abandonará também o sonho norte-americano e irá morar com ela na Nigéria? Se isso acontecer, como ela fará em relação ao que sente por Obinze? Essas dúvidas percorrem a mente de Ifemelu enquanto a cabelereira trabalha por horas em seu cabelo. Ao invés de avançar na trama, “Americanah” retorna ao passado. As partes II, III e IV do romance explicam detalhadamente os desencontros amorosos de Ifemelu e Obinze. Assim, o leitor fica sabendo da vida do casal de protagonistas desde a época em que eles eram adolescentes. Em seguida, a história percorre os tempos em que eles foram para a universidade em Lagos e quando Ifemelu decidiu imigrar para o exterior. Depois são narradas a trajetória de Ifemelu em seus treze anos de Estados Unidos e a vida de Obinze depois que sua namorada partiu. Somente na parte V da obra voltamos ao presente e acompanhamos o desencadeamento do retorno de Ifemelu à Nigéria. “Americanah” é um romance parrudo. Ele possui 520 páginas, que estão divididas em sete partes. São ao todo 55 capítulos. Trata-se da obra mais extensa de Chimamanda Ngozi Adichie. Eu demorei quatro dias para concluir esta leitura. Ao chegar à última página do livro, confesso ter ficado com uma ótima impressão de sua narrativa. Realmente, este romance merece todos os prêmios, os elogios e a aclamação do público. Só não sei se essa é a minha obra favorita da autora. Ainda continuo preferindo “Hibisco Roxo”, um livro mais sensível e com um drama mais intenso. Contudo, isso é meramente a minha opinião/preferência pessoal. Narrado em terceira pessoa, “Americanah” acompanha simultaneamente o casal de protagonistas. O narrador é do tipo observador, com capacidade para ler os pensamentos e as emoções de todas as pessoas em cena. Na primeira e na última parte do romance, o narrador fica colado ora em Ifemelu ora em Obinze. O revezamento é constante, capítulo a capítulo. Porém nas demais partes (II a VI), o narrador opta por ficar junto a uma dessas personagens ao longo de todos os capítulos da seção. Nas partes pares, acompanhamos a mocinha do livro, enquanto nas ímpares vemos as ações do mocinho. Em relação à sua temática, “Americanah” é muito parecido às obras anteriores de Adichie. O conflito principal do romance está ancorado no choque cultural vivenciado por uma mulher negra que imigra da Nigéria para os Estados Unidos. As diferenças entre a América e a África são gritantes, apesar dos dois lugares falarem o mesmo idioma (o inglês). As roupas, a culinária, o sotaque, as palavras, o comportamento, os preconceitos, as crenças, a religião, as famílias e os relacionamentos são totalmente distintos de um local para outro. Para se adaptar à vida nos Estados Unidos, Ifemelu precisa incorporar a nova cultura. Apesar de seu esforço, ela é vista quase sempre como uma estrangeira. Ao retornar para Lagos, curiosamente, a protagonista passa a ser considerada por seus compatriotas uma norte-americana (no caso, uma americanah, termo dado pelos nigerianos a alguém que é mais parecido com um gringo do que com um nativo). Assim, temos uma crise grave de identidade. Afinal, quem é Ifemelu?! Juntamente com o choque cultural e a crise de identidade da personagem principal, o romance de Chimamanda Ngozi Adichie aborda outros temas recorrentes da literatura da nigeriana: racismo, desigualdade econômica, corrupção, conflitos familiares, infidelidade conjugal, violência, imigração, preconceitos étnico-religiosos, efeitos da colonização europeia na África e cultura ancestral africana. A diferença aqui é que esses elementos típicos da realidade nigeriana e dos imigrantes africanos são inseridos em uma trama com forte intertextualidade pop. Temos muitas citações e passagens com grande riqueza musical, literária, televisiva, esportiva e política do ocidente. Esse recurso deixa o livro extremamente próximo aos leitores da cultura americano-europeia. Essa aproximação entre duas culturas (a ocidental e a africana) tão distintas dá um charme irresistível à narrativa. Por falar em racismo, este é o romance mais contundente que já li sobre este assunto. A forma como Adichie aborda este tema e o insere naturalmente em sua trama é incrível. A sagacidade e a riqueza conceitual da autora são dignas de intermináveis elogios. A nigeriana é tão espetacular na apresentação do cenário do preconceito racial pelo mundo que ela consegue tecer uma visão abrangente até mesmo com o que ocorre no Brasil. Note o quão profunda e sábia é a análise da autora com o que vivenciamos em nosso país: “(...) Então comecei a pensar em outras partes do mundo e em como seria viajar para lá quando se é negro. Tenho a pele bastante escura (...). Eu tinha lido que o Brasil é a meca das raças, mas, quando fui ao Rio, ninguém que estava nos restaurantes e hotéis caros se parecia comigo. As pessoas reagem de forma estranha quando eu vou para a fila da primeira classe no aeroporto. É uma reação de simpatia, como quem diz você está cometendo um erro, não pode ter essa aparência e viajar de primeira classe”. Os quatro elementos mais positivos de “Americanah” são a verossimilhança da sua trama, a excelente construção das personagens principais, a mistura encantadora de crônicas à narrativa romanesca e o protagonismo de uma mulher negra e imigrante. Sobre a verossimilhança da história, temos um enredo tão real, mas tão real que a impressão que o leitor tem é de que o livro é em parte autobiográfico. Seria Ifemelu o alter ego de Chimamanda Ngozi Adichie? Essa é a pergunta que fazemos durante a leitura da obra. As semelhanças entre a trajetória da personagem ficcional e sua autora é notória, mas não podemos fazer essa relação diretamente. O que podemos assegurar de fato é que a trama é tão boa que parece ser verídica. Essa constatação só evidencia os méritos do trabalho literário de Adichie. Nesse sentido, até mesmo a citação às marcas durante a narrativa, obviamente um expediente arriscado e nem sempre agradável aos olhos dos editores e dos leitores, dá grande concretude à história. Quanto às personagens, temos quase sempre figuras esféricas. Esse ponto fica evidente quando analisamos as características do casal de protagonistas. Tanto Ifemelu quanto Obinze são pessoas falíveis. Eles cometem vários equívocos e possuem defeitos visíveis. Ela, por exemplo, trai seus namorados, recorre à prostituição em determinado momento e aceita a posição de amante de um homem casado. Ele, por sua vez, sobe na vida ao se envolver em negócios obscuros, é deportado da Inglaterra no instante em que ia se casar de forma arranjada e não pensa duas vezes ao iniciar um relacionamento extraconjugal. São atitudes que normalmente não esperamos da heroína e do herói de um romance tradicional. Mesmo assim, continuamos torcendo e admirando este casal. Isso é maravilhoso! Os defeitos e as falhas das personagens acabam tornando-as até mesmo mais carismáticas. Afinal, os leitores sabem que não existe pessoas perfeitas e imunes aos erros. Há também a sacada genial de colocar Ifemelu, uma mulher negra e imigrante, como protagonista do livro. Mesmo sendo esse o expediente corriqueiro da literatura de Chimamanda, essa prática infelizmente não é habitual na ficção comercial praticada nos Estados Unidos e na Europa. Por isso mesmo, a relevância dessa opção narrativa. Ela precisa ser elogiada e valorizada. Apesar da narrativa ser em terceira pessoa, temos acesso privilegiado ao ponto de vista da imigrante negra que precisa encarar o racismo e o machismo para subir na vida. Incrível! Outra coisa que achei excelente foi a inserção de trechos dos posts do blog de Ifemelu no meio da narrativa. Assim, acompanhamos o conteúdo das crônicas de “Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Chamados de Crioulos) Feitos por Uma Negra Não Americana”. Essa mistura de ficção e realidade só intensifica ainda mais a concretude da narrativa e a impressão de verossimilhança da trama. Além disso, acabamos nos envolvendo ainda mais com o romance quando lemos as impressões de Ifemelu sobre a sociedade norte-americana. Gostei também do jogo temporal utilizado pela autora: presente-retorno ao passado-volta ao presente. Com isso, mostra-se logo de cara o conflito principal: medo da protagonista em regressar para seu país de origem. Na sequência, através de longos flashbacks, revela-se como a personagem principal chegou àquela condição. E, por fim, temos o desfecho. Essa divisão acentua o mistério e a dramatização da história. Apesar de ser um excelente romance, “Americanah” tem lá seus problemas. O primeiro deles está em seu desfecho extremamente óbvio. O desenlace da trama é exatamente aquele que o leitor esperava ao final do segundo capítulo do livro. Uma história tão forte e emocionante quanto esta merecia sim um encerramento mais criativo e menos evidente. O principal defeito da obra, contudo, está em seu tamanho. O romance é mais extenso do que o necessário. Ele poderia muito bem ser reduzido em 1/4 ou mesmo em 1/3 sem que isso implicasse em perda de ordem narrativa. Talvez esse número excessivo de páginas tenha a função de potencializar o encontro dos protagonistas depois de tantos anos separados. Para o leitor, essa grande distância temporal é representada nas centenas de páginas lidas. Mesmo assim, um trabalho de edição (leia-se: enxugamento) não cairia mal a “Americanah”. Terminado o debate dos três romances de Chimamanda Ngozi Adichie (“Hibisco Roxo”, “Meio Sol Amarelo” e “Americanah”) e de sua coletânea de contos (“No Seu Pescoço”), vamos agora analisar os dois ensaios da autora nigeriana. Assim, o Desafio Literário parte para a investigação de “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras) e de “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras), as publicações mais recentes de Adichie. O primeiro post estará disponível no Bonas Histórias na próxima terça-feira, dia 21, e o segundo no sábado, dia 25. Não perca a continuação da análise da literatura de Chimamanda Ngozi Adichie, uma das autoras mais originais da atualidade. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaNigeriana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaAfricana #ChimamandaNgoziAdichie #Drama #Livros #Romance

  • Livros: No Seu Pescoço - A coletânea de contos de Chimamanda Ngozi Adichie

    Minha leitura deste final de semana foi “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), a coletânea de contos de Chimamanda Ngozi Adichie. Adichie, nunca é demais lembrar, é a autora que está sendo analisada neste mês no Desafio Literário. Este livro, o terceiro da escritora nigeriana que comentamos no Bonas Histórias, aborda essencialmente os dramas dos imigrantes nos Estados Unidos, o choque cultural entre o estilo de vida ocidental e o nativo da África e os conflitos familiares provocados pela violência, pelo racismo, pelo machismo e pelas diferenças étnico-religiosas. Ou seja, temos aqui um coquetel bombástico com histórias de brutalidades, traições, injustiças, separações e desigualdades sociais. Quem gosta de drama, saiba que este livro é um prato cheio! Chimamanda Ngozi Adichie não tem medo de colocar o dedo nas feridas e apresentar a realidade nua e crua dos seus conterrâneos. Apesar do conteúdo forte e do texto revelador, “No Seu Pescoço” é capaz de encantar seus leitores principalmente por suas ousadias estética e temática. Além disso, o livro apresenta uma faceta ainda hoje pouco explorada na literatura comercial: o ponto de vista do africano negro (ou melhor, da africana negra) que precisa imigrar para o “Primeiro Mundo” ou que sofre em seu próprio país as injustiças e os preconceitos impostos pelo Colonialismo europeu (e pelo machismo das sociedades de ontem e hoje). Vale a pena dizer que esta é a única coleção de narrativas curtas da escritora nigeriana até agora. Os outros livros de Adichie são romances e ensaios/crônicas. Publicado em abril de 2009 nos Estados Unidos e na Inglaterra, “No Seu Pescoço” é o terceiro livro de Chimamanda Ngozi Adichie. Esta obra veio na sequência de “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), de 2003, e “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), de 2006. Contudo, a maioria dos contos desta coletânea é anterior a esses romances. As histórias de “No Seu Pescoço” foram produzidas ao longo da segunda metade da década de 1990 e durante os anos de 2000, época em que Adichie era ainda uma escritora desconhecida e que se dedicava mais às narrativas curtas. Por isso, quase todas as tramas de “No Seu Pescoço” já haviam sido publicadas em revistas literárias dos Estados Unidos (The New Yorker, Other Voices, Virginia Quarterly Review, Zoetrope e The Iowa Review), da Inglaterra (Granta e Prospect) e do Canadá (Prism International). O único conto realmente inédito é “A Embaixada Americana”, a oitava narrativa desta publicação. Chimamanda usou boa parte de sua experiência de vida para construir as narrativas com personagens e famílias fragmentadas pelo processo de imigração e impactadas pelo choque cultural entre a vida na Nigéria e nos Estados Unidos. A escritora deixou a Nigéria em 1996, quando tinha apenas dezenove anos de idade, e desde então mora nos Estados Unidos. Foi no novo país que ela se formou, iniciou a carreira de escritora e se casou. Em parte, “No Seu Pescoço” apresenta os dramas de pessoas comuns que precisaram deixar sua antiga vida para trás e se lançaram para uma aventura rumo ao desconhecido bem longe de casa. Mesmo sendo o livro mais desconhecido da carreira de Chimamanda Ngozi Adichie, autora best-seller por causa de seus romances dramáticos e seus ensaios/crônicas feministas, “No Seu Pescoço” foi indicado a vários prêmios internacionais. Os mais relevantes foram o Prêmio Frank O´Connor International de Contos, o Prêmio John Llewellyn Rhys, o Commonwealth Writers' Prize na categoria Melhor Livro Africano e o Prêmio Dayton Literary Peace. É inegável a qualidade de “No Seu Pescoço”. Quem gosta de coletâneas de contos na certa irá ficar positivamente impressionado com esta obra. Na minha opinião, esta publicação só é a menos conhecida do portfólio de Adichie por causa do seu gênero literário. Afinal, não é todo mundo que gosta de narrativas curtas, né? “No Seu Pescoço” possui doze contos. Mais da metade deles (sete contos) são histórias narradas em terceira pessoa. As outras foram produzidas em terceira pessoa (três contos) e em segunda pessoa (dois contos). As histórias desta obra são: “A Cela Um”, “Réplica”, “Uma Experiência Privada”, “Fantasma”, “Na Segunda-feira da Semana Passada”, “Jumping Monkey Hill”, “No Seu Pescoço”, “A Embaixada Americana”, “O Tremor”, “Os Casamenteiros”, “Amanhã é Tarde de Mais” e “A Historiadora Obstinada”. A primeira trama, “A Cela Um”, se passa em Nsukka. Ali, as casas dos professores da universidade local, todas famílias de classe média, estão sofrendo uma onda de assaltos. Paradoxalmente, os responsáveis pelos crimes são os próprios filhos dos docentes que invadem as residências dos vizinhos. Nnamabia, um rapaz de 17 anos muito medroso e mimado, prefere roubar as joias da própria mãe a adentrar as casas alheias. Três anos mais tarde, ele é preso acusado de integrar uma gangue juvenil. O segundo conto é “Réplica”. Nkem possui uma vida confortável nos Estados Unidos, onde imigrou com o marido, Obiora, há alguns anos. O casal deixou a Nigéria definitivamente para trás e passou a criar os filhos na América como uma típica família norte-americana. Certo dia, Nkem recebe uma ligação telefônica de uma amiga. Ela revela que Obiora tem uma amante. Em “Uma Experiência Privada”, Chika está de passagem por Kano com sua irmã. Justamente nesse instante, explode uma onda de violência dos hausas contra os igbo. Na confusão, Chika é salva por uma muçulmana que se solidariza com sua situação e a ajuda a se esconder em uma pequena loja. Porém, a irmã de Chika, Nnedi, acaba desaparecendo sem deixar rastros. A quarta história se chama “Fantasma”. James Nwoye é um professor de matemática de Nsukka de 71 anos que está próximo de se aposentar. Certo dia, ele reencontra um colega que não via há 37 anos e que todos supunham ter morrido durante a Guerra Civil Nigeriana. “Na Segunda-feira da Semana Passada” é ambientado nos Estados Unidos. Kamara é uma jovem nigeriana que aguarda o recebimento do Green Card trabalhando como babá. Os clientes são uma família formada por um advogado branco e judeu e uma artista plástica negra. O filho deles é um menino que se chama Josh. O curioso desta narrativa é que depois de três meses de serviço, Kamara ainda não conhece a mãe de Josh. Ela passa os dias fechada no porão de casa trabalhando. Em “Jumping Monkey Hill”, o sexto conto, conhecemos Ujunwa Ogundu, uma jovem nigeriana. Ela viaja de Lagos para um resort nos arredores da Cidade do Cabo para participar de um Workshop para Escritores Africanos. Durante as duas semanas do evento, Ujunwa precisa apresentar um conto. Ela usará alguns episódios autobiográficos para construir sua narrativa. “No Seu Pescoço”, a história que empresta seu nome ao título da coletânea, está em segunda pessoa. Você é Akunna, uma jovem nigeriana de 22 anos, da etnia igbo e que imigra para os Estados Unidos. Lá, você vai morar em um primeiro momento com um tio. Depois que ele tenta estuprar você, sua decisão é ir morar sozinha. “A Embaixada Americana” apresenta o drama da esposa de um jornalista perseguido pelo governo central da Nigéria. Depois de vê-lo fugir e de assistir ao assassinato do próprio filho, ela pede asilo político na embaixada dos Estados Unidos. “O Tremor”, a nona história de “No Seu Pescoço”, inicia-se no dia em que a primeira dama nigeriana morreu na Espanha e um avião comercial caiu na Nigéria. Esses eventos trágicos precipitam a visita inusitada de Chinedu ao apartamento de Ukamaka na Universidade de Princeton. Ambos são estudantes nigerianos que moram nos Estados Unidos, mas nunca haviam se falado no campus. Chinedu e Ukamaka espantam a timidez e rezam juntos pelos compatriotas mortos. É o início de uma amizade forte entre eles. Em “Os Casamenteiros”, Chinaza se muda de Lagos para Nova York para viver ao lado do novo marido, Ofodile. Ele é médico e mora há muitos anos nos Estados Unidos. O casamento foi arranjado pela família de ambos. Portanto, Chinaza e Ofodile nunca haviam se visto ou conversado antes de dividirem o mesmo teto. Curiosamente, o maior desafio do novo casal não é se conhecer e sim equalizar as diferenças culturais. “Amanhã é Tarde de Mais” é o outro conto em segunda pessoa deste livro. Dezoito anos depois, você volta para a Nigéria e visita a casa de sua avó recém-falecida. Ao pisar naquela residência, as lembranças da sua infância voltam com tudo. Você se recorda da morte trágica de seu irmão, Nonso, naquele quintal, da paixonite de menina pelo primo mais velho, da separação dos pais e de um segredo macabro daquela época. O último conto desta coletânea é “A Historiadora Obstinada”. Quando, enfim, Nwamgba consegue engravidar de seu marido, Obierika, ela se torna viúva. Obierika morre misteriosamente. Os primos gananciosos dele passam a cobiçar o patrimônio do falecido, para desespero de Nwamgba. Para se proteger, a viúva envia seu filho para ser criado por religiosos brancos. A boa instrução do garoto, segundo crê sua mãe, é a única arma para salvá-los das maldades dos primos de Obierika. Este livro possui 256 páginas. Precisei de apenas dois dias para concluir sua leitura. Iniciei a coletânea de contos no sábado depois do almoço e no domingo à noite já tinha chegado ao seu final. Como nos dois romances anteriores de Chimamanda Ngozi Adichie, “Hibisco Roxo” e “Meio Sol Amarelo”, “No Seu Pescoço” tem um texto forte, sensível e dramático. Suas tramas percorrem a infância, a juventude, a maturidade e a velhice das diferentes personagens retratadas. Com isso, temos um relato abrangente da vida dos nigerianos que precisam imigrar para a América ou que permanecem morando em um país extremamente dividido e hostil como a Nigéria. Os termos dividido e hostil da frase anterior não foram colocados por acaso. “No Seu Pescoço” mostra principalmente o quanto a Nigéria é um país violento, perigoso, desigual e injusto (daí a escolha pela palavra “hostil”). Ele também apresenta os dramas dos nigerianos que foram obrigados a imigrar. Assim, eles se tornaram pessoas fragmentadas entre o novo e o antigo, entre a cultura anglo-saxã e a nativa da África, entre a pátria natal e o país atual e entre os valores dos colonizados e dos colonizadores (daí o termo “dividido)”. Qualquer que seja o caminho escolhido, os protagonistas das narrativas sofrem com os vários choques culturais Quanto às temáticas de cada conto: “A Cela Um” aborda a violência, a corrupção e as injustiças do sistema policial-penal nigeriano; “Réplica” trata da traição conjugal e do choque cultural; “Uma Experiência Privada” apresenta as diferenças étnico-religiosas da Nigéria e a violência do país africano; em “Fantasma”, assistimos ao choque cultural, aos horrores da Guerra Civil Nigeriana, à corrupção, à pobreza, ao caos econômico e à espiritualidade deste país africano; “Na Segunda-feira da Semana Passada” trata da imigração e do choque cultural; “Jumping Monkey Hill” fala de assédio, racismo, choque cultural e literatura; “No Seu Pescoço” temos como panorama a violência, o assédio, o racismo, a imigração e o choque cultural; “A Embaixada Americana” aborda a violência da Nigéria e o sonho da imigração para os Estados Unidos; “O Tremor” trata de religião, imigração e homossexualismo; em “Os Casamenteiros” temos o choque cultural e mais uma vez a questão da imigração; Em “Amanhã é Tarde de Mais” temos machismo e a violência; e em “A Historiadora Obstinada” temos poligamia, violência, colonialismo, escravidão, diferenças religiosas e choque cultural. Repare especialmente nos dois contos do livro narrados em segunda pessoa: “No Seu Pescoço” e “Amanhã é Tarde de Mais” (este último é a minha história favorita da coletânea). Por ser raro este tipo de narração, fica nítida a ousadia da proposta estética de Chimamanda Ngozi Adichie. Tão interessante quanto a proposta foi a sua execução. Incrível! Os dois contos estão fantásticos. O principal mérito do livro “No Seu Pescoço” é apresentar para o leitor a realidade do imigrante africano que vai morar sozinho ou com a família nos Estados Unidos. Os choques culturais que eles passam são assustadores. O mundo da sociedade contemporânea ocidental é completamente diferente da sociedade nativa africana. Crenças religiosas, moda, culinária, cultura, idioma, comportamento, família e relacionamentos conjugais são tão distintos de um lugar para outro que acabam tornando a vida do imigrante um inferno. A única coisa que parece não mudar é o machismo. Assim, as mulheres acabam sofrendo, independentemente de onde estejam. O Desafio Literário deste mês retorna na próxima sexta-feira, dia 17, com mais uma análise de um livro de Adichie. A obra que iremos comentar será “Americanah” (Companhia das Letras), o maior sucesso da escritora nigeriana. Esta obra foi publicada em 2013 e se tornou um best-seller mundial, além de ter conquistado o Prêmio National Book Critics Circle de Ficção. Continue acompanhando, nas próximas semanas, o estudo sobre a literatura de Chimamanda Ngozi Adichie. Esta é uma exclusividade do Bonas Histórias. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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  • Livros: Meio Sol Amarelo – O segundo romance de Chimamanda Ngozi Adichie

    Nesta semana, li “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), o segundo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. No último domingo, vale a pena lembrar, analisamos, no Bonas Histórias, “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), a narrativa longa de estreia da escritora nigeriana. Adichie é a autora que estamos estudando no Desafio Literário deste mês. “Meio Sol Amarelo” é uma das obras mais premiadas de Chimamanda. Ele conquistou vários prêmios internacionais, além de ter sido indicado a tantos outros. Este livro conquistou, por exemplo, o Orange Prize de Ficção de 2007, um dos prêmios literários de maior prestígio do Reino Unido, e o Prêmio Anisfield-Wolf Book, honraria norte-americana concedida a trabalhos que combatem o racismo e valorizam a diversidade étnico-cultural. “Meio Sol Amarelo” também foi finalista do British Book Awards e do James Tait Black Memorial Prize, ambos na categoria melhor romance do ano. Sucesso entre a crítica europeia e norte-americana, esta obra foi adaptada mais tarde para o cinema. Produzido em 2013 e lançado em 2014, o longa-metragem foi dirigido por Biyi Bandele e teve Chiwetel Ejiofor e Thandie Newton como protagonistas. A história do livro “Meio Sol Amarelo” foi baseada na Guerra Nigéria-Biafra, também chamada de Guerra Civil Nigeriana. Ocorrido entre 1967 e 1970, este conflito sangrento colocou as províncias do Sudeste do país contra o governo central de Lagos. Os revoltosos da etnia igbo, associada historicamente à elite econômica, política e cultural do país, queriam a sua independência da Nigéria. A nova nação receberia o nome de República do Biafra e teria sua bandeira com as cores vermelha, preta e verde, além de um meio sol amarelo no centro (daí o título do livro de Chimamanda Ngozi Adichie). Contudo, os hauçás, mulçumanos originários do Norte, não aceitaram a fragmentação da nação recém independente (a Nigéria deixou de ser colônia britânica em 1960) e passaram a promover um massacre cruel de igbos, então liderados por Odumegwu Ojukwu. Por três anos, os biafrenses sofreram derrotas sucessivas que exterminaram o sonho de independência da sua região. Estima-se que mais de um milhão de soldados e civis tenham morrido nesta guerra, uma das mais horripilantes da segunda metade do século XX. As mortes foram causadas muitas vezes pela fome e por doenças provocadas pela situação caótica. Muitos brasileiros ouviram falar do conflito Nigéria-Biafra por causa de uma famosa partida amistosa realizada pelo Santos de Pelé no final da década de 1960. Ávidos por assistir ao maior jogador da história do futebol, nigerianos e biafrenses aceitaram interromper os combates por alguns dias. Assim, os dois lados puderam ver o jogo do time paulista contra um combinado local. Depois que Pelé e seus companheiros deixaram o país, seguindo sua excursão internacional, a guerra foi retomada na Nigéria. Daí vem a lenda de que Pelé fez até guerra ser interrompida na África. De origem igbo, Chimamanda Ngozi Adichie teve muitos familiares que foram vitimados pelo conflito Nigéria-Biafra (avôs) e outros que pegaram em armas (tios e primos) em prol do sonho da implementação da República biafrense. Apesar de ainda não ter nascido quando esta guerra se sucedeu (ela é de 1977, sete anos após o fim dos combates), a escritora coletou vários depoimentos de parentes (pais, tias e tios) e amigos que vivenciaram de perto os horrores daquele período. Sua pesquisa sobre o assunto foi complementada com registros bibliográficos: “Sunset at Dawn”, de Chukwuemeka Ike, “Never Again”, de Flora Nwapa, “Labyrinths”, de Christopher Okigbo, “The Nigerian Revolution and the Biafran War”, de Alexander Madiebo. Publicado pela primeira vez em 2006, “Meio Sol Amarelo” pode ser classificado como uma junção entre ficção e realidade. Se a ambientação do livro segue o mais próximo possível a história verídica, a trama do romance nasceu da imaginação e do talento literário de Adichie. Ela mesmo diz isso em uma nota da edição brasileira: “Este livro se baseou na guerra Nigéria-Biafra de 1967-70, porém algumas liberdades foram tomadas, em nome da ficção; minha intenção é retratar minhas próprias verdades imaginadas e não os fatos da guerra. Ainda que alguns personagens tenham como base uma pessoa real, seus retratos são fictícios, assim como os eventos dos quais fazem parte”. Narrado em terceira pessoa, “Meio Sol Amarelo” possui um narrador observador colado a três personagens muito distintas: Ugwuanyi, um adolescente igbo pobre e analfabeto vindo de Opi; Olanna Ozobia, a filha rica de um empresário igbo de Lagos; e Richard Churchill, um expatriado britânico apaixonado pela cultura igbo-ukwu. Cada capítulo é dedicado a um destes protagonistas. Assim, o narrador reveza seu olhar pelo trio central do romance, acompanhando os dramas de cada um deles durante a fatídica década de 1960. Não é errado afirmar que a Guerra Civil Nigeriana irá transformar significativamente a vida de Ugwuanyi, Olanna e Richard. No início da década de 1960, Ugwu, como Ugwuanyi é mais conhecido, é o jovem empregado doméstico de Odenigbo, um professor acadêmico da Universidade de Nsukka. O rapaz foi trazido por uma tia de um povoado pobre e interiorano para morar e trabalhar na casa de Odenigbo, um homem culto e engajado socialmente. Apaixonado por uma conterrânea sua, Nnesinachi, Ugwu rapidamente aprende as maravilhas da cidade grande e volta a estudar. Sua rotina em Nsukka é aparentemente maravilhosa. Olanna Ozobia é a esposa informal de Odenigbo. A moça de uma beleza cativante abriu mão da riqueza da família, seu pai é um empresário corrupto e bem-sucedido, e do conforto da vida em Lagos para morar de maneira mais simples (Odenigbo é o que podemos chamar de um integrante da classe média) com o homem que ama em Nsukka. Moderna e feminista, Olanna tem uma visão diferente daquela tida pela sociedade patriarcal local. Ela é extremamente moderna e cosmopolita quando o assunto é filhos e casamento. A felicidade dela não passa necessariamente por esses dois elementos. E Richard Churchill é um escritor e jornalista inglês que veio morar na Nigéria. Namorado de Kainene Ozobia, irmã de Olanna, Richard se mudou para Nsukka para estudar a arte igbo-ukwu, sua grande paixão. O expatriado diz trabalhar em um romance sobre a cultura local, mas dificilmente consegue escrever algo. Apesar da sua ansiedade, seu livro parece nunca sair. Quando a Guerra Nigéria-Biafra estoura, Ugwu, Olanna e Richard acham que não serão tão afetados pelos conflitos armados. Eles esperam que rapidamente os igbos derrotem os inimigos e estabeleçam na região uma nova democracia. Contudo, à medida que os meses vão passando, a Nigéria torna-se implacável com os biafrenses. O caos político, econômico e social passa a imperar em Biafra. Com medo, o trio de protagonistas precisa fugir de suas casas, tornando-se refugiados. É uma grande tormenta que abalará a todos por um período interminável. “Meio Sol Amarelo” possui 504 páginas. O romance está distribuído em quatro partes e em 37 capítulos. As seções da obra oscilam entre acontecimentos do início da década de 1960 (antes, portanto, da guerra) e do final da década de 1960 (auge do conflito armado). Ou seja, a história tanto avança (partes 2 e 4) quanto regride (parte 3) no tempo. Essa quebra temporal confere alguns mistérios e surpresas à trama. Precisei de três dias para concluir este livro. Comecei a leitura de “Meio Sol Amarelo” no domingo e o concluí na terça-feira. Este é o livro mais robusto de Chimamanda Ngozi Adichie. Se em “Hibisco Roxo” temos um drama familiar sensível e muito bonito, em “Meio Sol Amarelo” temos um romance histórico forte e impactante. A beleza da vida cotidiana desaparece completamente quando os ventos da guerra assolam esta região da África. Assistimos estupefatos à corrupção governamental, ao machismo e ao racismo da sociedade nigeriana Pós-Colonialismo, aos conflitos éticos da Nigéria e às instabilidades políticas. Também conferimos a força da cultura nativa: com suas crenças particulares, seus dialetos, suas músicas, suas vestimentas, sua gastronomia. Se a realidade nua e crua de um país assolado pela guerra civil assusta em um primeiro momento, por outro lado, a riqueza do panorama histórico-cultural da Nigéria maravilha o leitor. A partir do ponto de vista de três indivíduos bem diferentes de Biafra, um igbo pobre, uma igbo rica e um expatriado britânico, vemos o quanto a Guerra impactou a todos e o quanto ela pode ser cruel. “Meio Sol Amarelo“ é um romance revelador por apontar os horrores sofridos (e também praticados) pelos igbos durante a Guerra Civil Nigeriana (em um conflito como este, os excessos e as maldades são perpetrados pelos dois lados). De alguma forma, lembrei um pouco, durante esta leitura, de “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras), romance do moçambicano Mia Couto. As semelhanças entre as duas obras estão mais ligadas à temática bélica, ao drama provocado pela guerra civil na África e à metalinguagem literária. Infelizmente, o texto de “Meio Sol Amarelo” não é tão poético quanto o de “Terra Sonâmbula”. Neste quesito, talvez, “Hibisco Roxo” se aproxime mais do principal romance de Couto. Gostei muito da maneira como foi estabelecido o foco narrativo de “Meio Sol Amarelo“. A escolha por um narrador em terceira pessoa que acompanha mais de uma personagem é um prato certeiro para a derrapada do autor. Porém, Chimamanda Ngozi Adichie construiu uma narrativa impecável. Além de não possuir erros aparentes, este expediente narrativo contribuiu sensivelmente para a potencialização dos dramas dos protagonistas e da criação do suspense. Também achei válidas as rupturas temporais. A quebrada na cronologia da história tira o leitor do conforto natural da narração linear e levanta interessantes dúvidas na cabeça de quem está lendo. Prova maior disso está no motivo da briga homérica entre Olanna Ozobia e Odenigbo. O que teria acontecido de tão grave para abalar o relacionamento do casal? O ponto alto de “Meio Sol Amarelo”, em minha opinião, é o seu desfecho surpreendente. Aproveitando-se das doses metalinguísticas inseridas pouco a pouco durante os capítulos, Adichie dá uma bela invertida na narrativa, derrubando o leitor na última linha. Incrível! Adoro quando isso acontece. Além do mais, a escritora nigeriana soube deixar o final do seu romance aberto. Apesar de desejarmos, como leitores, saber sempre as respostas para todas as questões levantadas durante a trama, precisamos entender que nem sempre será possível encontrá-las. Ainda mais em um período de exceção como o vivido pelas personagens da obra. Para mim, a falta de solução para algumas questões (como o paradeiro de Kainene Ozobia e o futuro dos protagonistas) só tornou esta obra ainda mais verossímil. Se tem uma coisa que Chimamanda Ngozi Adichie faz com excelência e que eu adoro é a construção de personagens redondas. Essa característica já tinha aparecido em “Hibisco Roxo” e novamente se manifesta com destaque em “Meio Sol Amarelo”. A grande maioria dos indivíduos das narrativas da autora são figuras complexas. Em muitos momentos, é difícil defini-las claramente. Elas possuem qualidades positivas e negativas em boa proporção. A antipatia ou a empatia com essas personagens fica ao nosso critério. É muito legal ver isso em um romance. Apesar de ter achado “Meio Sol Amarelo” um romance mais difícil de ser produzido, com uma trama mais rica, com uma diversidade maior de personagens e com um ambiente mais complexo do que “Hibisco Roxo”, ainda sim minha preferência pessoal recaí mais para o romance de estreia de Adichie. Enquanto, para mim, “Meio Sol Amarelo” é muito bom, “Hibisco Roxo” é excelente. Darei sequência ao Desafio Literário de maio na próxima segunda-feira, dia 13. Nesse dia, voltarei ao Bonas Histórias para analisar “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), a coletânea de contos de Chimamanda Ngozi Adichie. Esta obra foi publicada em 2009, três anos depois de “Meio Sol Amarelo”. Continue conosco acompanhando o estudo da literatura de uma das principais escritoras da atualidade. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? 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  • Livros: Hibisco Roxo – O romance de estreia de Chimamanda Ngozi Adichie

    O Desafio Literário de maio começa suas análises por “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), o primeiro romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Considerada uma das escritoras mais influentes da atualidade, a nigeriana nasceu, em 1977, em Enugu, capital do estado homônimo que fica ao sul do país africano. A infância de Adichie foi passada em Nsukka, cidade universitária de Enugu. Porém, sua família é original da vila de Abba, no estado vizinho de Anambra. Curiosamente, esses três locais foram usados como cenários do livro de estreia da autora. E essa não é a única “coincidência” entre ficção e realidade. Muitas passagens de “Hibisco Roxo” se aproximam de fatos vivenciados por Chimamanda e por seus familiares na época em que moravam na Nigéria. Contudo, antes que alguém me acuse de inferências indevidas ou caluniosas, alerto que a maior parte do enredo desta obra é proveniente do talento da autora em produzir ficção. A escritora usou os lugares, os ambientes e as situações políticas da Nigéria de sua infância e juventude, além de alguns acontecimentos pessoais, para criar uma história forte, bonita, emocionante e FICCIONAL. O resultado é um romance de grande qualidade dramática e narrativa. Filha de um casal de professores da Universidade da Nigéria, Chimamanda Ngozi Adichie teve cinco irmãos e vivenciou de perto os horrores da instabilidade política de seu país durante as décadas de 1980 e 1990. A ditadura militar e os golpes à democracia eram constantes no período Pós-Independência. Como consequência, surgiram conflitos armados internos que trouxeram mortes para a família da escritora e arruinaram as finanças e o patrimônio dos Adichie. Não vendo perspectiva em sua terra natal, Chimamanda e seus parentes decidiram imigrar para os Estados Unidos. Pouco a pouco, eles foram deixando a Nigéria, cada vez mais mergulhada em um caos social e econômico. Desde 1996, a autora mora na América do Norte com alguns de seus familiares. Ali, ela se formou em Comunicação e Ciências Políticas e iniciou sua carreira de escritora. “Hibisco Roxo” é resultado do curso de mestrado em Escrita Criativa realizado na Universidade Johns Hopkins de Baltimore. Atualmente, Chimamanda Ngozi Adichie é casada com Ivara Esege, um médico nigeriano, e possui uma filha pequena deste relacionamento. Publicado em outubro de 2003, “Hibisco Roxo” inaugura a fase mais importante da carreira literária de Chimamanda Ngozi Adichie: a de romancista. Antes do lançamento desta obra, a nigeriana já havia produzido contos, poesias e peças teatrais. Alguns desses trabalhos até foram premiados na Nigéria, na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas não trouxeram reconhecimento e fama à sua autora. Isso só viria acontecer de fato com “Hibisco Roxo”. O romance histórico foi muito bem-recebido pela crítica literária internacional. Prova maior desse feito está nos vários prêmios que o livro abocanhou no exterior, além de ter sido indicado às mais importantes premiações da língua inglesa. Este romance de Adichie conquistou, por exemplo, o Prêmio Hurston-Wright Legacy de 2004 na categoria melhor livro ficcional de estreia e o Prêmio dos Escritores da Commonwealth de 2005 de melhor obra de autor estreante. No Orange Prize e no Booker Prize de Ficção, ambos de 2004, “Hibisco Roxo” foi indicado. Com esta publicação, Chimamanda Ngozi Adichie iniciava com pé direito sua trajetória como uma das principais romancistas contemporâneas do continente africano e da língua inglesa. “Hibisco Roxo” se passa na Nigéria no período Pós-Colonial. O país africano está sofrendo com uma grave crise político-econômica. As Forças Armadas derrubaram o governo civil eleito democraticamente e iniciaram uma ditadura militar que já demonstrava que iria durar muitos anos. Revoltada, a população se manifestou contrária aos caminhos que o país seguia. Com isso, a repressão se intensificou. Os militares passaram a perseguir seus opositores. Com a censura e o estado de exceção constitucional, os casos de corrupção foram potencializados e a desigualdade social aumentou ainda mais. Nesse cenário caótico, assistimos ao drama familiar de Kambili, uma adolescente tímida e solitária de 15 anos. Filha de Eugene Achike, um empresário milionário da cidade de Enugu, Kambili tem sua rotina pautada pela mão opressora do pai. É a jovem quem narra em primeira pessoa a sua história e a de seus parentes mais próximos. Se você acha que o ambiente político da Nigéria está feio é porque não sabe o que está acontecendo no interior da mansão dos Achike. Ali, o bicho pega para valer! Eugene é um católico fervoroso que sempre exigiu de toda a família obediência incondicional aos preceitos mais conservadores de sua religião. Ele também tem vergonha dos idiomas, das crenças e dos hábitos nativos da Nigéria. Em sua cabeça, a cultura inglesa-cristã é superior à dos povos primitivos da África e deve ser seguida pelos nigerianos. Ele acredita também que seu país evoluirá como nação quando a maioria do povo viver sob a influência do Catolicismo e da cultura ocidental. Buscando tornar esse sonho realidade, Eugene Achike se transforma em um fanático religioso. Beatrice, sua esposa, Jaja, o filho mais velho, e Kambili, a caçula do clã, são obrigados a respeitar as rígidas ordens do patriarca e a moral bíblica. Caso contrário, são alvos da ira e da violência descomunal do empresário. Dessa maneira, o cotidiano da narradora do romance e de seu irmão mais velho é caracterizado por grande melancolia e aridez emocional. Kambili e Jaja passam os dias estudando e rezando. O pai estipula a rotina diária dos filhos, não dando margem a qualquer diversão ou confraternização social. Os adolescentes acabam vítimas de uma bolha de superproteção. Apesar da riqueza material da família, eles não podem usufruir das alegrias e do conforto do dinheiro do pai. Como uma boa filha, Kambili procura ser obediente a Eugene, mesmo que isso implique em anular suas vontades e seus desejos mais íntimos. Se dentro de casa Eugene Achike é um déspota cruel e um fanático religioso violento, fora dos muros da residência ele é visto como uma figura pública amada pelos nigerianos. Dono do jornal Standard, um dos poucos veículos de comunicação que fazem oposição ao governo militar, o pai de Kambili age como um democrata e um defensor da liberdade de expressão. Ele também é um dos principais filantropos do país. O empresário não poupa os recursos obtidos em suas várias fábricas quando o propósito é ajudar o próximo. Ele investe nos parentes mais necessitados, nos moradores pobres de Abba, povoado natal de sua família, nos funcionários de seus negócios e na Igreja Católica local. Sob a perspectiva da opinião pública, não há homem mais honrado e bondoso em Enugu. A harmonia da família Achike e o poder ilimitado de Eugene em seu lar são quebrados em um Domingo de Ramos. Jaja, com 17 anos, enfim se rebela contra as imposições paternas e provoca uma séria briga doméstica. Eugene não aceita a nova postura do filho e promete puni-lo exemplarmente. Para entender como sua família chegou a este ponto, Kambili faz uma retrospectiva dos meses anteriores ao Domingo de Ramos. Nesse flashback, o leitor poderá compreender o que precipitou o comportamento de Jaja e a explosão de violência de Eugene. Após entendido o passado recente da família, a narradora avança três anos em sua história. Aos 18 anos, Kambili não é mais alguém tão frágil e tímida. Mesmo assim, ela ainda vive sob as sombras do passado trágico. “Hibisco Roxo” é um romance de 328 páginas. Esta narrativa está dividida em quatro partes: I) Quebrando Deuses – Domingo de Ramos, II) Falando com Nossos Espíritos – Antes do Domingo de Ramos, III) Os Pedaços de Deuses – Após o Domingo de Ramos e IV) Um Silêncio Diferente – O Presente. A primeira parte tem um capítulo só (vai da página 7 a 22). A segunda é a maior do livro. Ela tem 12 capítulos (página 23 à página 268). A terceira e a quarta partes têm, respectivamente, três capítulos (página 269 a 306) e um capítulo (307 a 321). Li esta obra em dois dias neste final de semana. Comecei sua leitura na sexta-feira à tarde e a concluí no sábado à noite. Confesso que fiquei encantado com a literatura praticada por Chimamanda Ngozi Adichie. Esta sua publicação de estreia é um drama sensível e contundente. Apesar de novata no ofício, a escritora nigeriana já demonstrava grande maturidade literária. Admito que fiquei com o queixo caído. Achei este livro simplesmente espetacular! Um dos aspectos mais legais desta obra está na possibilidade de o leitor acompanhar a cultura, a sociedade e a história nigeriana. Ao longo da narrativa de Kambili, vemos a culinária, as religiões, as vestimentas, as crenças, as lendas, as músicas e as festas típicas deste país africano. Também podemos ver na prática um pouco do dialeto igbo (tanto a família Achike quanto os familiares de Chimamanda são descendentes deste povo). A história recente da Nigéria está intimamente relacionada à trama ficcional do livro. Assim, ficamos sabendo, em meio às páginas do romance, da instabilidade política do período Pós-Colonial, com seus golpes de estado e guerras civis. A sociedade nigeriana que surge em “Hibisco Roxo” é corrupta, desigual, violenta, injusta, racista e machista. Sem uma democracia mais pujante, os civis se tornam vítimas dos desmandos dos militares. De alguma forma, infelizmente, essa realidade lembra um pouco as características da sociedade brasileira. Contudo, o que está no cerne desta obra literária é o choque cultural entre a antiga Nigéria e a nova Nigéria (tema central de todas as publicações da primeira fase da literatura de Adichie). As crenças, a cultura e os hábitos dos povos ancestrais africanos são uma forte oposição ao modelo de vida trazido pelos colonizadores europeus no século XX. Eugene Achike é quem catalisa essa discussão ao máximo, representando o homem negro que se curva incondicionalmente à cultura inglesa e à fé católica. O ódio que o rico empresário sente por tudo o que está relacionado ao modelo de vida nativo (inclusive seu pai, Papa-Nnukwu, descrito como um pagão tradicionalista) indica o quanto ele incorporou a visão de mundo racista dos colonizadores. Não à toa, Eugene é a personagem mais rica em termos literários de “Hibisco Roxo”, roubando em muitos momentos o papel de protagonismo da narradora. Mesmo quando não está fisicamente em cena, ele ainda sim está presente na mente de Kambili e de seus familiares, impondo a todos uma violência psicológica sem limites. O que torna o Sr. Achike tão complexo é a dualidade de sua personalidade. Ele pode agir como uma pessoa deplorável em determinada situação assim como pode se comportar como um homem adorável logo em seguida. A contradição entre o indivíduo autoritário, violento, fanático e desumano e a personalidade altruísta, socialmente engajada e bondosa oferece várias camadas dramáticas ao romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Impossível alguém ficar indiferente a esse conflito. Por falar em Eugene Achike, repare nas semelhanças existentes entre o macroambiente e o microambiente de “Hibisco Roxo”. Se o pai de Kambili age para restituir a democracia e a pluralidade de vozes e visões em seu país, ele é, ao mesmo tempo, o déspota violento e antiquado dentro de casa. Aí, quem irá agir para a derrubada da ditadura de Eugene no seio familiar será Jaja. É muito legal notar essa contradição na história de Adichie. Dependendo da perspectiva (macro ou microambiental), Eugene Achike pode ser o herói ou pode ser o vilão da trama. Incrível esse recurso narrativo! Outra personagem riquíssima (em termos literários) de “Hibisco Roxo” é a Tia Ifeoma, irmã de Eugene. A garra e a coragem da professora universitária servem como oposição ao universo machista da Nigéria antiga e contemporânea (afinal, a única semelhança entre as culturas do passado e do presente é o desprezo pelas mulheres). Ifeoma serve como semente para a construção do feminismo que embasaria boa parte da literatura de Chimamanda Ngozi Adichie dali em diante (mais sutil nos romances e mais escancarada nas coletâneas de crônicas). A rotina banal na casa da tia é um mundo surpreendente e encantador aos olhos de Kambili e de seu irmão. Após viverem alguns dias ao lado de Ifeoma e dos três filhos dela em Nsukha, Jaja e a irmã se transformam completamente. De volta ao lar paterno, Kambili e Jaja não aceitarão mais a rotina imposta por Eugene. É o início das contestações de Jaja e da explosão de violência do Sr. Achike. Apesar de ser uma das obras menos conhecidas de Chimamanda, “Hibisco Roxo” é um romance espetacular que deveria ser mais valorizado pelo grande público. Darei sequência ao Desafio Literário de maio com um pensamento claro: se os cinco livros seguintes de Adichie tiverem a mesma qualidade de “Hibisco Roxo”, estaremos diante de uma das mais talentosas escritoras da atualidade. Para descobrir se isso é verdadeiro ou não, analisarei na próxima quinta-feira, dia 9, “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), o segundo romance da autora. Continue acompanhando no Bonas Histórias o estudo sobre a literatura de Chimamanda Ngozi Adichie. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaNigeriana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaAfricana #ChimamandaNgoziAdichie #Romance #RomanceHistórico #Drama #DramaPsicológico #Livros

  • Filmes: Border – O terror agridoce vindo da Suécia

    “Border” (Gräns: 2018) é um filme incômodo, forte e, ao mesmo tempo, surpreendente. Minha sensação ao assisti-lo foi de ter sido esbofeteado na cara por um brutamonte (quando passeava por um parquinho infantil) ou de ter sido atropelado por um caminhão-cegonha (ao atravessar uma rua calma em um bairro deserto). Talvez a melhor analogia seja com uma bebida extremamente forte, que ao ser ingerida provoque um grande arrepio no corpo inteiro. E, apesar dos efeitos colaterais que um longa-metragem como este possa causar no espectador, confesso ter saído de sua sessão com um tímido e, por que não, sarcástico sorrisinho no canto da boca. Vai entender as idiossincrasias dos seres humanos, hein?! Em cartaz nos cinemas brasileiros desde a metade do mês passado, esta produção sueca foi dirigida por Ali Abbasi, um cineasta iraniano naturalizado sueco que está em seu segundo longa-metragem como diretor. Seu trabalho anterior foi “Shelley” (2016), um filme de terror produzido na Dinamarca (e que ainda não chegou ao Brasil). “Border” foi protagonizado por Eva Melander, atriz sueca de “Flocking” (Flocken: 2015), e por Eero Milonoff, ator finlandês do excelente “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” (Hymyilevä Mies: 2016). A dupla de atores dá um show de interpretação e potencializa o drama de uma história por si só insólita. Muito possivelmente este novo filme de Abbasi seja uma das produções europeias mais originais e ousadas das últimas duas décadas. “Border” conquistou a mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes do ano passado e concorreu ao Óscar de 2018 na categoria de Melhor Maquiagem - prêmio dado a “Vice” (2018). O longa-metragem também foi indicado pela Suécia para ser o seu representante na disputa ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas ele não chegou a ser finalista da cerimônia em Los Angeles. No âmbito doméstico, “Border” ganhou o Prêmio Guldbagge de 2019, o principal do cinema sueco, nas categorias melhor filme do ano passado, a melhor edição de som, a melhor maquiagem e o melhor efeito visual. Esta trama foi inspirada em um conto homônimo de John Ajvide Lindqvist, escritor sueco de 50 anos especialista em narrativas fantásticas e de terror. O próprio Lindqvist participou como corroteirista do filme ao lado de Ali Abbasi e de Isabella Eklöf, que integrou o projeto de roteirização apenas na fase final. Somente o casting de “Border” (não confundir com uma produção indiana de mesmo nome que foi rodada em 1997 e que tem como temática uma guerra entre Índia e Paquistão) demorou 18 meses para ser concluído. Sua bilheteria até o ano passado (temporada europeia) arrematou aproximadamente US$ 1 bilhão. Essa quantia deve aumentar bastante em 2019 com a chegada do longa-metragem no circuito comercial dos Estados Unidos e dos demais países fora da Europa. Assisti estarrecido na última quarta-feira à noite a este filme no Itaú Cinema do Shopping Bourbon Pompéia. Apesar de possuir uma narrativa extremamente incômoda e mostrar cenas escatológicas e violentas, o resultado derradeiro é bastante positivo. Na certa, a melhor comparação seja com uma torta de maracujá (ou de limão), que apesar de muito amarga em um primeiro momento ainda sim deixa um gostinho doce na boca depois de um tempo... Como é típico do cinema e da literatura nórdica (lembro-me, por exemplo, das criações de Ingmar Bergman e de Stieg Larsson), temos aqui um suspense angustiante e muitíssimo reflexivo. Em meio ao debate ao que é a essência do ser humano, assistimos a uma trama que mistura vários gêneros: história de amor do tipo conto de fada (às avessas), investigação policial, fábula nórdica, comédia, terror sobrenatural, drama pessoal, ficção científica e thriller de espionagem. Esplendorosa essa variedade! Em certo momento, o espectador fica sem saber ao certo que tipo de filme está assistindo (algo raro de se encontrar, convenhamos, no circuito comercial). Você pode gostar ou não gostar de “Border” (acredito até que a maioria do público acabe torcendo o nariz para ele - o paladar agridoce não é para todos...), mas certamente você não sairá indiferente de sua sessão. Na sala de cinema em que estive presente, o público quase surtou. Algumas pessoas demonstraram ter adorado o filme. Porém, a grande parte dos presentes não cansou de manifestar em voz alta seu descontentamento, muitas vezes antes mesmo do encerramento do longa-metragem (Santo Deus!). “Border” aborda a vida solitária e melancólica de Tina (interpretada por Eva Melander), uma policial que trabalha na alfandega de um aeroporto sueco. A moça de uma feiura que beira a monstruosidade possui poderes paranormais. Ela tem um olfato extremamente apurado. Através da captação dos odores das pessoas, a policial é capaz de identificar o sentimento dos passageiros (culpa, medo, raiva), além de constatar a presença de álcool e de drogas nas bagagens. Essa sua característica é fruto de um acidente ocorrido em sua infância. Um raio a atingiu quando Tina era pequena. A menina precisou passar por graves cirurgias, o que deixou seu corpo com algumas deformidades. Esse dom psíquico-olfativo da protagonista do filme é excelente para seu trabalho na alfandega aeroportuária. Ela consegue identificar rapidamente os criminosos que tentam entrar ou sair do país. Tina jamais errou uma previsão sob um suspeito, o que a torna uma profissional incontestável dentro das Forças de Segurança Pública da Suécia. Seu talento é tão grande para descobrir criminosos que ela é convocada a participar de outras investigações da polícia. A moça terá papel decisivo na caça a uma quadrilha de pedófilos. Se em sua profissão Tina é bem-sucedida, quando analisamos sua vida pessoal vemos uma mulher amargurada. Casada com um homem que a atrai abertamente e se aproveita de sua confortável condição econômica, a policial tem uma rotina enfadonha e casta. A estabilidade emocional da personagem é quebrada quando Tina, enfim, comete um erro em seu trabalho. Ela suspeita de Vore (Eero Milonoff), um homem esquisito que apresenta características físicas e comportamentais parecidas as da policial que o parou indevidamente no aeroporto. Vore não tem nada de errado nem sua bagagem possui material suspeito, o que causa certo mal-estar dentro da polícia sueca. Obcecada por saber o que há de tão especial com aquele passageiro misterioso, Tina começa um relacionamento cada vez mais forte com o rapaz. Inicia-se, assim, a enxurrada de surpresas que o filme de Ali Abbasi reserva ao espectador. “Border” tem aproximadamente 1 hora e 20 minutos de duração. Os momentos de calmaria do seu enredo (maiores do que estamos acostumados a encontrar em filmes de terror) são interrompidos constantemente com novas reviravoltas da trama, o que dá uma sensação de agilidade à narrativa maior do que há de fato. A variedade temática da história também contribui para que o espectador fique preso ao filme. Não se assuste se mesmo com as cenas fortes da tela você não conseguir desgrudar os olhos do longa-metragem. A primeira questão que chama a atenção em “Border” é o seu tom provocador. O público é o tempo inteiro desafiado a olhar para detalhes das vidas e dos corpos de Tina e Vore que poderiam muito bem ficar subentendidos. Nesse sentido, as câmeras de Ali Abbasi são muitíssimo indiscretas (e corajosas!). Elas acompanham em zoom cada detalhezinho do relacionamento e das particularidades da dupla de protagonistas. Destaque para as constrangedoras cenas de nudismo e de sexo explícito (só quem assistir ao filme entenderá o porquê de elas serem tão constrangedoras). Outro aspecto interessantíssimo do filme é o debate aberto sobre qual é a essência humana e o que nos faz diferentes dos demais animais (isso é, se formos realmente distintos em algo). Para jogar luz a esta reflexão, “Border” lança mão de uma espécie chamada Trolls, que é perseguida pelos humanos e, por isso, é obrigada a viver escondida nos confins do nosso planeta. Somente quando somos comparados a uma raça parecida com a nossa, conseguimos analisar filosoficamente nossa essência com mais propriedade. Se bem que ao mesmo tempo que são parecidos com os humanos, os Trolls também possuem aspectos que os aproxima de seres monstruosos... Incrível essa criação! Não é possível falar de “Border” sem rasgar elogios a sua dupla de protagonistas. Eva Melander e Eero Milonoff estão sublimes nas interpretações de Tina e Vore. Ambos conquistaram o Prêmio Guldbagge de 2019 como melhor atriz e melhor ator por seus papéis nesta produção. A direção ousada e impecável de Ali Abbasi também precisa ser destacada. O diretor foi finalista do Guldbagge, mas não conquistou o prêmio de melhor diretor. Gostei também dos efeitos visuais deste filme. A sua fotografia e sua maquiagem estão à altura de sua narrativa. “Border” é um projeto cinematográfico que encanta pelo seu atrevimento e pela sua execução impecável. Os fãs de thrillers de terror vão ficar surpresos com uma produção eclética e com um enredo muitíssimo diferente do apresentado normalmente pelos exemplares de seu gênero. Por outro lado, para quem não gosta de tramas pesadas, aterrorizantes, escatológicas e reflexivas, é melhor ficar longe deste novo filme de Abbasi. Não nos esquecemos que Tina é especialista (e implacável) em desvendar os sentimentos das pessoas. Vá que ela cheire sua repulsa na sessão de cinema e parta para cima de você, hein? Veja o trailer de “Border”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Desafio Literário de maio/2019: Chimamanda Ngozi Adichie

    No mês passado, analisamos no Desafio Literário a carreira, as obras e o estilo marcante de José Saramago, um dos principais romancistas da língua portuguesa. Agora, vamos investigar, no Bonas Histórias, a literatura de Chimamanda Ngozi Adichie, uma das escritoras mais famosas da atualidade. A nigeriana de 41 anos se tornou mundialmente conhecida na última década por sua militância em prol do feminismo. Algumas de suas publicações viraram best-sellers internacionais. Passagens de seu texto foram incorporadas ao repertório musical de Beyoncé, o que catapultou o nome da escritora para o universo dos ícones pop. Recebida na Casa Branca por Barack Obama, que não se cansava de elogiá-la, Adichie se transformou em uma das faces mais populares da moderna literatura africana. Nascida em Enugu, no sul da Nigéria, Chimamanda Ngozi Adichie foi criada em Nsukka, cidade universitária onde seus pais trabalhavam. Na adolescência, se mudou para os Estados Unidos para cursar faculdade. Após se formar em Comunicação e Ciências Políticas, concluiu seu mestrado em Escrita Criativa. Com os diplomas em mão, deu início a carreira de romancista profissional. Até então, ela só havia publicado timidamente uma coletânea de poemas e uma peça teatral. Há alguns anos, Adichie voltou a morar na Nigéria. Casada com um médico nigeriano e tendo uma filha pequena, a escritora se divide entre passagens em seu país natal, onde leciona em oficinas de escrita literária e onde atua na administração de universidades locais, e os Estados Unidos. A primeira fase da carreira literária profissional de Chimamanda Ngozi Adichie foi alicerçada nos romances. Entre 2003 e 2013, ela publicou quatro livros. Três eram romances, “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), de 2003, “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), de 2006, e “Americanah” (Companhia das Letras), de 2013, e um era uma coletânea de contos, “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), de 2009. Essas obras renderam vários prêmios literários internacionais para a autora. O reconhecimento da crítica e do público para seu trabalho foi quase que imediato. “Americanah”, seu maior sucesso até hoje, ficou várias semanas entre os romances mais vendidos nas livrarias norte-americanas e entrou na lista do New York Times das melhores obras de 2013. Em 2012, Adichie fez uma palestra no TED chamada de “Sejamos Todos Feministas”. O vídeo viralizou nos Estados Unidos e na Nigéria. De repente, a autora conseguiu falar com um público maior e diferente do que estava acostumada em seus livros. Empolgada com a repercussão positiva da palestra, a escritora lançou, em 2014, um livreto com o mesmo nome. Era o início da segunda fase de sua carreira, a dos ensaios com pegada feminista. Depois de “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras), Chimamanda Ngozi Adichie lançou, em 2017, “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras). Por serem livrinhos pequenos e com uma temática popular, logo se tornaram sucesso nas livrarias dos quatro cantos do mundo. E, assim, autora passou a ser uma das principais vozes do feminismo. Este é um pequeno resumo da biografia, da carreira e das obras de Chimamanda Ngozi Adichie. Para ser sincero, não conheço muito mais do que isso sobre ela para escrever no post de hoje do Bonas Histórias. Porém, a ideia é que essa ignorância da minha parte seja desfeita em menos de trinta dias. A proposta do Desafio Literário de maio é descortinar todos os aspectos da literatura da principal escritora nigeriana da atualidade. Para tal, vou ler, nas próximas quatro semanas, os seis livros de Adichie. E aí, no antepenúltimo dia do mês, poderei regressar ao blog para apresentar uma visão completa e profunda do estilo literário desta autora. Que tal a proposta de maio do Desafio Literário, hein? Confesso que estou empolgado para começar a ler agora mesmo as publicações de Chimamanda Ngozi Adichie. Se você quiser me acompanhar nessa aventura, saiba que você está desde já convidado(a). Para ajudar na programação das leituras dos fãs do blog, segue o calendário deste mês de publicação dos posts. Programação de maio/2019 - Desafio Literário do Blog Bonas Histórias: - 5 de maio - Análise de “Hibisco Roxo”. - 9 de maio - Análise de “Meio Sol Amarelo”. - 13 de maio - Análise de “No Seu Pescoço”. - 17 de maio - Análise de “Americanah”. - 21 de maio - Análise de “Sejamos Todos Feministas”. - 25 de maio - Análise de “Para Educar Crianças Feministas”. - 29 de maio - Análise Literária de Chimamanda Ngozi Adichie. Boa leitura e bom Desafio Literário de maio para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaContemporânea #LiteraturaNigeriana #ChimamandaNgoziAdichie #LiteraturaAfricana

  • Filmes: José e Pilar – O documentário sobre José Saramago

    Abril é o mês de José Saramago no Bonas Histórias. Nossos leitores habituais já notaram que a literatura do Nobel de 1998 está sendo analisada no Desafio Literário há quatro semanas. Até agora, já foram comentados no blog seis livros do português: “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), “Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), “Ensaio sobre a Cegueira” (Companhia das Letras) e “Caim” (Companhia das Letras). Na próxima segunda-feira, dia 29, esse estudo será finalizado com o debate sobre a carreira e o estilo literário do autor. Nesse ambiente saramaguiano, nada mais natural do que o Bonas Histórias analisar o filme “José e Pilar” (José y Pilar: 2010), o documentário mais ambicioso sobre o escritor português. Assisti a este DVD no último final de semana e fiquei encantado com o que vi. “José e Pilar” foi dirigido pelo português Miguel Gonçalves Mendes. O cineasta teve o mérito de convencer, após meses e meses de insistência, José Saramago e sua esposa, Pilar del Río, a darem acesso à rotina do casal às câmeras do longa-metragem. O argumento decisivo do diretor foi que o filme poderia servir de divulgação para o novo livro que o autor iria começar a escrever. Os espanhóis Pedro Almodóvar e Augustín Almodóvar e o brasileiro Fernando Meirelles integraram-se à produção na parte final do projeto. O trio foi coprodutor do filme. Em “José e Pilar”, a equipe do documentário luso-espanhol-brasileiro acompanha os passos do casal Saramago seja na casa deles em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, ou nas viagens ao redor do mundo, onde o escritor era homenageado e requisitado. Além disso, é possível ver no filme o processo de criação da “A Viagem do Elefante” (Companhia das Letras), o décimo quinto romance do português. Vamos concordar que não é sempre que um autor vencedor do Prêmio Nobel aceita abrir mão de sua intimidade doméstica e dos bastidores do seu processo criativo para as câmeras de uma produção cinematográfica. Lançado em novembro de 2010, apenas cinco meses após o falecimento de Saramago, “José e Pilar” se transformou em uma saga para seus cineastas. As filmagens começaram em 2005 e se estenderam até 2009. Ou seja, foram quatro anos de coleta de materiais brutos. No meio do caminho, surgiram vários problemas de diferentes naturezas. Já muito idoso, José Saramago ficou seriamente doente e precisou ser internado em um hospital. Após três anos de filmagens, a produtora responsável pelo projeto inicial do filme acabou sem dinheiro para dar sequência ao documentário. Por sorte, a O2 Filmes aceitou entrar na empreitada e finalizar os trabalhos. Para completar a epopeia cinematográfica, uma vez encerradas as filmagens, começou um novo drama: como reunir aquela quantidade absurda de material coletado em um filme comercial com começo, meio e fim? Foi necessário mais um ano de trabalho de edição e algumas versões do documentário (a primeira, por exemplo, tinha inviáveis seis horas de duração) para “José e Pilar”, enfim, ficar pronto. Saramago pôde assistir a uma delas antes de falecer em junho de 2010. Infelizmente, ele não viu a versão final do filme, que tem pouco mais de duas horas de duração e que abrange uma narrativa entre fevereiro de 2006 e dezembro de 2008. “José e Pilar” apresenta a relação polêmica de José Saramago com sua segunda esposa, a tradutora e jornalista espanhola Pilar Del Río. Os dois se conheceram em 1986 por iniciativa dela, uma grande fã da literatura do português. Nesta época, ambos já eram divorciados de seus primeiros matrimônios. O namoro quase que imediato se transformou em casamento em 1988. Primeiramente, José e Pilar foram morar em Lisboa e, em 1993, se mudaram para Lanzarote, a ilha mais inabitada das Canárias. Os dois permaneceram juntos até o falecimento de Saramago em 2010. O que torna esse relacionamento tão controverso não é a diferença de idade de quase três décadas entre o casal e sim o comportamento impositivo da espanhola, que se apropriou da agenda do escritor e da administração da Fundação José Saramago. Além disso, Pilar é acusada pelos seus críticos portugueses de gostar muito dos holofotes, como se ela fosse a grande estrela da companhia (e não seu marido). Esse problema de personalidade já foi chamado por muitos anos de “Complexo de Mãe de Miss”, mas hoje é mais conhecido, pelo menos no Brasil, de “Complexo do Pai do Neymar”. No caso de Pilar, isso fica claríssimo ao longo do filme (um documentário que, para começo de conversa, é sobre ela e Saramago e não apenas sobre ele). Enquanto José deseja uma rotina mais calma para escrever seus livros, ela quer viajar pelo mundo em busca das câmeras de televisão e das homenagens do universo literário. Em muitos momentos, ela rouba o protagonismo do marido, sendo ela a homenageada e a entrevistada. Assistir a “José e Pilar” é interessante para ver esse lado pouco elogioso do comportamento da segunda esposa de Saramago. Confesso que desde o começo do filme não me simpatizei por sua figura. Na minha visão, dou razão às críticas ácidas dos opositores da tradutora e jornalista espanhola. Pilar del Río é, segundo a narrativa proposta pelo documentário, a grande vilã da história. Ela é quem leva seu marido aos limites de suas forças e parece ansiar por todas as atenções e homenagens do público, além de tentar em todos os momentos roubar o protagonismo do filme. Se o marido é indiscutivelmente apaixonado por ela, o contrário é um enigma bem guardado até para os espectadores do longa-metragem. Nesse sentido, há um trecho excelente do filme. José Saramago discute com sua esposa, em um jantar entre amigos, sobre a personalidade de Hillary Clinton, então postulante à presidência dos Estados Unidos. Enquanto Pilar é a favor da mulher de Bill Clinton, José é contrário. Para o escritor, Hillary é ambiciosa, aproveitadora, manipuladora, falsa, arrogante e tem uma sede desmedida pelo poder. Para Pilar, a candidata é corajosa, visionária, inteligente, destemida, empoderada e ciente de sua capacidade. Para o público mais atento, de certa maneira, o casal Saramago incorpora os mesmos argumentos (a favor e contra) dos críticos sobre Pilar del Río. Hillary Clinton seria a versão política e norte-americana da esposa do romancista português. Curiosamente, José consegue enxergar os aspectos negativos do comportamento da esposa de Bill Clinton, mas não consegue ver algo parecido nas atitudes de sua própria mulher. Apesar da revelação da personalidade questionável de Pilar del Río, o aspecto mais legal de “José e Pilar” ainda sim é ver o lado humano de José Saramago. Por mais que sua esposa queira monopolizar as ações, é ele quem prende a atenção do espectador com seus comentários sagazes e sua rotina de popstar. E aí, temos o aparecimento do lado mais íntimo do escritor. José mostra-se um homem extremamente bem-humorado, muitíssimo inteligente e bastante corajoso por emitir suas opiniões sem medo das consequências (principalmente em relação ao Catolicismo, à existência de Deus e à política portuguesa). Outro aspecto que salta aos olhos é sua grande vitalidade (para alguém da sua idade). Por outro lado, também vemos uma pessoa muito introspectiva, melancólica e pessimista sobre o destino da humanidade. Nem mesmo os comentários pejorativos do escritor sobre os jornalistas e sobre os fãs nas sessões de autógrafos prejudicam sua imagem. O que vemos na tela é um homem sincero sobre o que gosta e o que não gosta, independentemente da opinião dos outros. Se eu já era um grande admirador da literatura de Saramago, depois do filme virei um fã do escritor como pessoa. “José e Pilar” é um ótimo documentário. Achei no começo que ele seria extenso e um pouco cansativo, mas depois de assisti-lo mudei de opinião. Ele tem um ritmo interessante e alguns bons conflitos que prendem a atenção do espectador na maior parte do tempo. Até mesmo a internação de José Saramago que atrapalhou as filmagens foi transformada em um dos momentos mais tensos do filme. Quando vemos o escritor recuperado e ativo novamente, levamos um susto. Se a impressão era vermos o ocaso do autor, o que temos é sua volta por cima com grande estilo. É realmente muito emocionante essa sua retomada ao trabalho e à vida. Paradoxalmente, Saramago dedicou sua sobrevida à amada esposa, que em sua opinião salvou sua vida (será mesmo?!). Gostei bastante da inserção dos principais trechos da literatura saramaguiana no meio das cenas do filme. Foi legal ver/rever essas frases colocadas em contextos específicos da narrativa cinematográfica, como as célebres passagens do “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” para mostrar o nível de ateísmo do autor ou as colocações de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” para demonstrar o pensamento do autor sobre a morte. Por fim, o que podemos dizer de acompanhar um dos principais escritores de sua geração na produção de um romance? Espetacular! Sim, porque é isso o que “José e Pilar” (também) mostra. Acompanhamos Saramago no desenvolvimento de “A Viagem do Elefante” da primeira à última linha do livro. Enquanto ele escreve, vemos a construção da história se materializar, saindo de sua cabeça e chegando ao papel. Ele comenta pouco a pouco suas decisões narrativas. Além disso, podemos acompanhar o texto do romance, que é narrado em off durante o filme. Apesar de ter ficado mais impressionado com o tipo de relacionamento estabelecido pelo escritor com sua segunda esposa, adorei ver a construção deste livro. Em suma, “José e Pilar” é um documentário maravilhoso. Quem gosta de Saramago e de sua literatura, saiba que este filme é imperdível. Ele contém cenas reveladoras e polêmicas da personalidade e da rotina do escritor português. Miguel Gonçalves Mendes não esconde nada do público que assiste à sua produção. Temos ali, por exemplo, Pilar del Río rasgando as cartas que seu marido recebeu dos fãs antes que ele pudesse ler; José Saramago sendo, às vezes, muito grosseiro com o público que visita suas sessões de autógrafo; os jornalistas de televisão atuando de maneira pouco educada na frente do casal Saramago; as pesadas críticas que o autor sempre recebeu em seu país natal; e até mesmo os leitores mais abusados que fazem qualquer coisa para atrair a atenção do escritor famoso. Temos no filme, portanto, um retrato fiel da realidade e da rotina de José Saramago e Pilar del Río, sem qualquer manipulação enviesada. Isso é o mais legal deste documentário. Sinceramente, não imaginava que um escritor do porte de Saramago aceitaria ser filmado com tanta proximidade pelas câmeras. Como ele aceitou essa loucura (ainda acredito que foi Pilar quem o convenceu, em mais um dos seus anseios por holofotes e atenção), temos a oportunidade de ver o lado pessoal e íntimo de um dos grandes artistas do nosso tempo. “José e Pilar” foi eleito o melhor documentário do Festival Cineport de 2011 e ganhou os prêmios de melhor documentário, melhor montagem e melhor trilha sonora original da Academia Brasileira de Cinema. Além disso, a produção de Miguel Gonçalves Mendes conquistou os prêmios de melhor documentário segundo o público na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e na 2ª Mostra de Cinema Visões do Sul. Este filme também foi indicado ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro por Portugal, mas não chegou a ficar entre os finalistas da principal premiação do cinema mundial. Quanto ao público nas salas de cinema, ele alcançou pouco mais de 60 mil espectadores no Brasil e em Portugal entre 2010 e 2011. Veja o trailer de “José e Pilar: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoséSaramago #PilardelRío #MiguelGonçalvesMendes #PedroAlmodóvar #AugustínAlmodóvar #FernandoMeirelles #CinemaBrasileiro #CinemaPortuguês #CinemaEspanhol #Documentário

  • Gastronomia: Brassi Pizzaria - O pizza-bar da Vila Romana

    Quem é de família italiana ou é um paulistano da gema sabe: final de semana só é final de semana de verdade se tiver pizza à mesa! Há quem estabeleça a sexta-feira à noite como o momento sagrado da redonda (estou nesse grupo!). Há quem a prefira aos sábados (minha família inteira). E há o grupo que não abra mão de degustá-la aos domingos (muitos dos meus amigos). Independentemente da opção do caboclo, uma coisa é certa. Pizza, pizza, pizza! Ela sempre cai bem e vem para alegrar a noite dos gulosos de plantão. Sou do tipo que não teme as variações na rotina dos meus conhecidos. Ninguém é gordinho à toa, né? Encaro numa boa o cardápio ítalo-paulistano no final de semana inteiro. Prova disso é que fui a três pizzarias nos últimos dias. E o estabelecimento que chamou mais minha atenção foi o visitado no último sábado à noite. Nessa data, estive na Brassi Pizzaria, uma tradicional casa da Vila Romana. A Brassi Pizzaria enquadra-se no gênero pizza-bar. Ao invés do estilo despojado e informal da maioria dos estabelecimentos desse tipo, o que temos ali é uma pegada mais classuda e chique. Ou seja, a Brassi está muito mais para um Primo Basílico do que para uma Pizza Hut. Com um ambiente que alia a decoração rústica (mesas e cadeiras de madeira e paredes sem acabamento aparente) ao clima refinado (decoração moderna e itens de primeira qualidade), a pizzaria da Vila Romana atrai um público selecionado da zona oeste da cidade de São Paulo. A pizza, o motivo principal da peregrinação dos consumidores, é de massa fina, tem pouco recheio e apresenta algumas combinações interessantes. Admito que gostei muito do que vi e, principalmente, do que provei por lá. A primeira coisa que chama a atenção na Brassi Pizzaria é a distinção de seus ambientes. O salão é dividido em duas partes: o interno e o externo. O interno é recomendado para famílias, grupos de amigos e casais que querem um pouco mais de privacidade, silêncio e tranquilidade para degustar suas refeições. Não por acaso, este é o espaço mais sóbrio, elegante e refinado da casa. Já a parte externa, chamada de Boteco Brassi, é para quem deseja conversar animadamente, paquerar e se divertir. Esta ala é indicada para amigos e familiares que estão ali para risadas ruidosas e bate papos calorosos enquanto provam petiscos e drinks. Por consequência, este é o espaço mais informal e descolado da casa. Mesmo assim, sua decoração mantém parte do requinte e da sofisticação do ambiente ao lado (não se iluda com o nome Boteco Brassi). Com televisores acoplados à parede, é possível também acompanhar as partidas de futebol. Escolhido o espaço mais adequado para seu gosto e necessidade, você será atendido por uma equipe simpática e solícita, mas um tanto lenta. Se os garçons e funcionários da Brassi pecam pela falta de agilidade (sim, esse é o maior problema da pizzaria – qualquer pedido, até o mais simples e corriqueiro, demora muuuuuuito, mesmo quando não há grande movimento), por outro lado eles contornam as saias-justas com bom humor e muita simpatia. Eu pessoalmente gosto de um atendimento mais próximo e leve como este. E isso é uma marca da casa e não apenas da área externa. Pelo que pude entender, observando a dinâmica de trabalho do lugar, o problema da lentidão está na equipe de produção (tanto nas bebidas quanto na preparação das pizzas e dos petiscos). Com o atraso ali, os garçons não podem fazer nada além de se virarem com sorrisos e pedidos sinceros de desculpas. Quem prefere massas finas e pizzas leves, sem o excesso de recheio, na certa irá gostar do cardápio da Brassi. As redondas da pizzaria não pesam no estômago e são ideais para quem não gosta de se sentir estufado à noite (um mal das massas grossas e/ou com excesso de recheio). O mais interessante, na minha opinião, é a seleção de combinações pouco usuais e extremamente de bom gosto das pizzas. A Brassi tem sim em seu cardápio as pizzas clássicas: Muçarela, Calabresa, Atum, etc. Porém, ela apresenta também combinações exclusivas. Minhas prediletas são a Grega (Calabresa moída com muçarela, Catupiry, gorgonzola e manjericão), a Portuguesa Light (Muçarela de búfala, peito de peru, ovos, cebola e azeitonas pretas), a Vegetariana (Palmito, brócolis, cebola, ervilhas e muçarela de búfala salpicada) e a Siciliana (Muçarela, champignon ao molho Brassi, bacon e manjericão). Quem gosta de calzones encontrará algumas opções nesse sentido. Nenhuma pizza (aberta ou fechada) sai por menos do que R$ 60,00 (um preço um tanto salgadinho, admito). Confesso que não sou muito fã de pizza doce. Entretanto, gostei muito da massa deste tipo de pizza da Brassi. As massas das doces são diferentes das massas das pizzas salgadas (algo que parece lógico, mas que raramente encontramos por aí). As massas das versões doces são feitas com cevada, o que dá uma crocancia maior às redondas. Quando elas não vêm queimadas (um erro comum em uma massa de preparo mais rápido), as pizzas doces são sensacionais! Vale a pena prová-las. Minha favorita é a Prestígio (Chocolate, coco ralado e cereja), a menos enjoativa para o meu paladar. Da parte do cardápio voltada mais para o bar do que para a pizzaria, temos também bruschettas, cornicciones, pão recheado com linguiça, calabresa ao forno servida com pão caseiro e antepastos. De aperitivos, as opções são: porções de coxinhas, pastéis, bolinhos de carne, batatas fritas, polentas fritas, provolones à milanesa e frangos fritos. A seção de bebidas não costuma decepcionar. Talvez os amantes inveterados dos vinhos possam reclamar um pouco da carta limitada desse item para uma pizzaria com uma proposta tão refinada. Contudo, isso é facilmente contornado com uma boa variedade de outros drinks que a casa oferece. Afinal, não podemos nos esquecer que estamos em uma pizza-bar. Fundada em 2009, a Brassi Pizzaria está completando 10 anos de vida. Localizada na Rua Espártaco, na Lapa/Vila Romana, ela abre de terça a domingo à noite. Curiosamente, o estabelecimento também opera de segunda a domingo na hora do almoço (a partir do meio dia). Confesso que nunca fui lá com o sol à pino para saber o que é servido (Comida? Aperitivos? Buffet?). Para mim, a Brassi é só pizzaria (ok, pizza-bar!) e nisso eu posso garantir que ela não decepciona. E aí, o que você vai fazer no próximo final de semana, hein?! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #restaurante #Pizzaria #Pizzabar #Pizza #Bar #SãoPaulo #Gastronomia

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