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- Filmes: Minha Obra-Prima – A nova comédia dos irmãos Duprat
No finalzinho do mês passado, estreou nos cinemas brasileiros a comédia argentina “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018), o mais recente trabalho dos irmãos Duprat. O longa-metragem entrou em cartaz em seu país natal em agosto de 2018 com o status de blockbuster nacional. A dimensão do lançamento fazia todo sentido. Andrés Duprat, diretor do Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires e roteirista, e Gastón Duprat, diretor cinematográfico e sócio da produtora Televisión Abierta, são responsáveis por algumas das principais criações do cinema argentino nos últimos anos. Basta lembrarmos do divertidíssimo “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), indicado ao Oscar de 2017 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e do instigante “O Homem ao Lado” (El Hombre de Al Lado: 2009), eleito como a melhor fotografia na categoria World Cinema no Festival de Cinema de Sundance de 2010 e como a melhor direção no Festival de Cinema Latino-Americano de Lleida de 2010. Por esse histórico recente dos irmãos Duprat, idolatrados pelos cinéfilos argentinos e pelos fãs do cinema portenho (me incluo nessa última lista), sua nova película foi exibida no ano passado em mais de 300 salas de cinema na Argentina. Só no primeiro final de semana em cartaz, a comédia alcançou um público próximo de 190 mil espectadores. Trata-se de uma marca expressiva para o padrão local. A bilheteria de “Minha Obra-Prima” já entrou na casa dos oito dígitos de faturamento (em reais) e deve aumentar agora que o filme está sendo distribuído no exterior (tanto no Brasil quanto em alguns países da Europa). Interessado em conhecer “Minha Obra-Prima”, corri para a sala de cinema na semana retrasada. Para minha sorte, o filme estava sendo exibido em uma boa quantidade de cinemas na cidade de São Paulo. Reserva Cultural, Itaú Cinemas e Caixa Belas Artes eram alguns desses lugares, com várias sessões ao longo do dia. Depois de visto, infelizmente, não consegui produzir um post com a análise crítica do longa-metragem no Bonas Histórias. Só agora, enfim, estou escrevendo-a. Para os interessados, acredito que a comédia argentina ainda esteja em cartaz. Quem quiser vê-la, ainda dá tempo. Ela deve permanecer no circuito brasileiro ao menos até o final deste mês. Roteirizado por Andrés Duprat e dirigido por Gastón Duprat (que dessa vez não contou com a parceria habitual de Mariano Cohn na direção – este ficou apenas na produção), “Minha Obra-Prima” tem os experientes Guilhermo Francella, de “O Clã” (El Clan: 2015) e de “Os Segredos dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009), e Luís Brandoni, de “Só Se Vive uma Vez” (Sólo se Vive Una Vez: 2017) e de “A Trégua” (La Trégua: 1974), como protagonistas. O elenco principal é completado por Raúl Arévalo, Andrea Frigerio e Mária Soldi. O enredo de “Minha Obra-Prima” se passa em Buenos Aires e apresenta a relação conflituosa entre Arturo Silva (interpretado por Guillermo Francella), proprietário de uma galeria de arte independente, e Renzo Nervi (Luís Brandoni), um decadente e temperamental pintor. Os dois são amigos há algumas décadas e sempre trabalharam juntos: Nervi produzindo as telas e Silva vendendo-as. Contudo, nos últimos anos, a relação dos dois se deteriorou bastante. Os quadros do artista passaram a ser malvistos pelo mercado e não encontraram mais saída. O galerista até tenta convencer o amigo a mudar seu estilo, agora visto como ultrapassado, mas não consegue. Renzo Nervi é arrogante e cabeça-dura. Ele não ouve as dicas e os conselhos que lhe são dados. Prefere, assim, ficar na miséria a ter que mudar o tipo de arte que faz. Para piorar, o pintor passa a atrapalhar propositadamente o trabalho de Arturo, como forma de vingança às intromissões do galerista, que só tentava ajudar o amigo. Dessa maneira, o rompimento da longa amizade é eminente. Sem contar com o apoio de mais ninguém, Renzo Nervi entra em uma fase calamitosa. Sua vida pessoal e sua carreira estão à beira do colapso completo. Nada parece dar certo para ele e a impressão que se tem é que não haverá pior situação do que aquela que está vivenciando agora. Porém, o fundo do poço ainda não havia chegado. Um acidente trágico transforma ainda mais a vida de Renzo Nervi (para pior, é claro). Na nova condição, o artista vê sua vida como um fardo difícil para ser carregado. Em meio ao drama pessoal do amigo, Arturo Silva identifica uma excelente oportunidade de mercado. Por mais paradoxal que seja, a tragédia de Nervi pode ser lucrativa para os negócios. Essa é a grande chance de o artista decadente voltar a ficar em evidência e ter seus quadros mais uma vez requisitados pelos compradores. Para tal, o galerista precisará agir de maneira antiética. Um golpe arquitetado pela dupla poderá reacender a carreira de Nervi e tornar os amigos milionários. “Minha Obra-Prima” tem pouco mais de uma hora e meia de duração e é sim uma boa comédia. O filme é leve, descontraído e apresenta uma trama interessante. Seu humor é do tipo humor negro (bem peculiar aos argentinos e à filmografia dos Duprat). O drama dos protagonistas é utilizado para a construção de cenas e situações cômicas. A graça também surge no debate implícito do que é uma produção artística boa e o que é uma ruim no cenário da cultura contemporânea. Apesar de ser um tema já batido, ele ainda rende algumas boas risadas quando bem explorado por roteiristas inteligentes. A trilha sonora também é boa e a fotografia do filme é maravilhosa. Além disso, as atuações de Guilhermo Francella e Luís Brandoni estão excelentes. Os dois atores dão um show de interpretação e representam o ponto alto do longa-metragem. Tanto Francella quanto Brandoni foram capazes de transformar completamente a maneira como vemos suas personagens. De figuras execráveis do ponto de vista moral e frias emocionalmente, elas se tornaram pessoas carismáticas e, por que não, doces sob o comando da experiente dupla. Ou seja, eu deveria ter saído feliz da sala de cinema, certo? Entretanto, deixei a sessão mais decepcionado do que empolgado com o que assisti. Qual o motivo para essa frustração?! A expectativa que tinha pelo novo trabalho dos irmãos Duprat era altíssima e, desta vez, ela não foi atendida. Se pensarmos no longa-metragem de maneira individual, “Minha Obra-Prima” tem mais acertos do que erros. É sim, um bom filme, portanto. Por outro lado, se pensarmos no portfólio de Andrés e Gastón Duprat, há uma sensação de decepção no ar. Sem dúvida nenhuma, este foi o pior filme da dupla nos últimos cinco anos. Ou seja, para quem conhece o trabalho excepcional dos cineastas argentinos na última meia década, ficará com a sensação de que algo saiu errado dessa vez. Não sei se a palavra correta seria “errado”. Talvez o alto nível dos longas-metragens anteriores não tenha sido alcançado em sua plenitude nesta nova comédia. O principal problema de “Minha Obra-Prima” está na falta de surpresas na segunda metade da produção. De certa forma, é possível prever tudo o que acontecerá na metade final da película (com exceção da última cena, que é ótima!). Como isso é possível? O roteiro do filme infelizmente acabou saindo muito previsível. Um minuto antes de algo ocorrer na tela, o público já saca para onde a trama está indo. Isso é muito chato quando acontece de maneira sucessiva. O roteiro até possui algumas pistas falsas para a plateia caminhar para o lado errado, mas muitas delas não surtem o efeito esperado (principalmente para quem já conhece a dinâmica das tramas dos cineastas). Outro problema grave é a sensação de déjà vu que permeia quase toda a narrativa. Sabe quando você assiste a algo e tem a impressão de já ter visto aquilo em outros lugares? Pois foi exatamente assim que me senti durante a sessão de “Minha Obra-Prima”. Sua execução é benfeita (tanto do ponto de vista técnico quanto da construção da história), isso é inegável, mas falta uma certa dose de originalidade ao enredo. Provavelmente, eu tenha exagerado em minha expectativa e não tenha assistido ao filme com a leveza que ele merecia. O problema pode estar comigo, reconheço. Por outro lado, é indiscutível que “Minha Obra-Prima” seja um longa-metragem inferior a, por exemplo, “O Cidadão Ilustre” e “O Homem ao Lado”, minhas referências quando penso no cinema dos Duprat. Não dá para fugirmos dessa constatação elementar. Mesmo assim, este filme está muito longe de ser ruim. Ele é bem engraçado (diria trágico-cômico) e dinâmico. É possível dar boas risadas durante sua sessão. Até mesmo quando decepciona, o cinema argentino consegue agradar aos espectadores mais exigentes. Queiramos admitir ou não, o padrão dos filmes dos nossos vizinhos ainda está em um nível superior ao do cinema brasileiro. Veja o trailer de “Minha Obra-Prima”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CinemaArgentino #Comédia #AndrésDuprat #GastónDuprat #MarianoCohn #GuilhermoFrancella #LuísBrandoni
- Músicas: Brasileirinho - 70 anos do choro mais famoso de Waldir Azevedo
Os acordes iniciais de “Brasileirinho”, o choro de Waldir Azevedo que foi gravado pela primeira vez em 1949, estão entre os trechos mais conhecidos da nossa música. Não à toa, a canção foi usada em incontáveis ocasiões especiais, como a festa de abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e a apresentação da equipe de ginástica artística brasileira nos Jogos Olímpicos de 2004. “Brasileirinho” também se transformou em tema de peça teatral, compôs a trilha de telenovelas e filmes e embalou propagandas de produtos e campanhas eleitorais. Acredito que seja impossível alguém morar no Brasil sem conhecer esse chorinho. É a mesma coisa que um argentino nunca ter ouvido o tango “Mi Buenos Aires Querido” ou um português que desconheça o fado “Povo que Lavas no Rio”. Criado em 1947, “Brasileirinho” demorou dois anos até ser lançado. Waldir Azevedo, mestre do cavaquinho e um dos maiores nomes do chorinho nacional, teve a ousadia de, pela primeira vez na história, colocar seu instrumento favorito em primeiro plano em uma música. Até então, o cavaquinho, quando muito, era usado meramente como instrumento de apoio às canções. E essa invenção surgiu por acaso. Certa vez, o músico, nascido em 1923 na cidade do Rio de Janeiro, precisou distrair uma criança em sua casa. O problema é que ele só tinha um cavaquinho quebrado em mãos. Podendo usar apenas a corda mais aguda, o compositor improvisou. O resultado é o trecho inicial de “Brasileirinho”. Incrível! Tocando em conjuntos regionais, Waldir Azevedo só chegou a uma grande gravadora em 1949. Maravilhado com o trabalho do músico carioca, Braguinha indicou-o para substituir Jacob do Bandolim na gravadora Continental, uma das principais do país. Do dia para noite, o primeiro álbum de Azevedo, que tinha em um lado “Brasileirinho” e no outro “Carioquinha”, virou um sucesso retumbante. As vendas espetaculares deste disco colocaram a música instrumental em um novo patamar. E Waldir Azevedo, aos 26 anos, se tornou o grande astro do choro brasileiro. Até o final da carreira, o compositor lançaria outros 52 álbuns. Anos mais tarde, “Brasileirinho” ganhou letra. Ruy Pereira da Costa, pernambucano criado desde menino no Rio de Janeiro, desenvolveu os versos que embalaram a partir daí a canção de Waldir Azevedo. A nova versão foi gravada por grandes nomes da música brasileira como Ademilde Fonseca (em um ritmo aceleradíssimo, quase incompreensível) e Baby Consuelo (num ritmo mais cadenciado). Veja a letra de Pereira da Costa: Brasileirinho - Waldir Azevedo/ Ruy Pereira da Costa O brasileiro quando é do choro É entusiasmado quando cai no samba, Não fica abafado e é um desacato Quando chega no salão. Não há quem possa resistir Quando o chorinho brasileiro faz sentir, Ainda mais de cavaquinho, Com um pandeiro e um violão Na marcação. Brasileirinho chegou e a todos encantou, Fez todo mundo dançar A noite inteira no terreiro Até o sol raiar. E quando o baile terminou A turma não se conformou: Brasileirinho abafou! Até o velho que já estava encostado Neste dia se acabou! Para falar a verdade, estava conversando Com alguém de respeito E ao ouvir o grande choro Eu dei logo um jeito e deixei o camarada Falando sozinho. Gostei, pulei, Dancei, pisei até me acabei E nunca mais esquecerei o tal chorinho Brasileirinho! Assista, a seguir, à apresentação histórica, em 2010, de Ademilde Fonseca aos 89 anos (ela faleceu em 2012) cantando “Brasileirinho” ao lado de Eymar Fonseca, sua filha com o violonista Naldimar Delfino. É nítida a falta de voz da lenda do chorinho (lembremos que ela estava com quase 90 anos!), mesmo assim sua interpretação é exemplar. A voz rouca de Ademilde (muito parecida a de Elza Soares) continuou sendo sua marca registrada até o final da carreira. Até hoje, “Brasileirinho” é o choro mais famoso do nosso país. A Revista Bravo, em 2008, elegeu-o como uma das 100 canções mais importante da história nacional. Presença ainda onipresente na cultura musical popular, essa criação de Waldir Azevedo e Pereira da Costa continua encantando as novas gerações de brasileiros. E isso 70 anos depois de sua composição. Maravilhoso! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Música #Choro #WaldirAzevedo #RuyPereiradaCosta #MúsicaInstrumental #MúsicaBrasileira #MúsicaPopularBrasileira
- Desafio Literário de abril/2019: José Saramago
O Desafio Literário de 2019 começa em grande estilo. O primeiro escritor que vamos analisar no Bonas Histórias, neste ano, é José Saramago, um dos principais nomes da história da literatura em língua portuguesa. Ao longo de abril, iremos comentar seis das mais importantes obras de Saramago. Os títulos escolhidos são: "Memorial do Convento" (Companhia das Letras), romance de 1982, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (Companhia das Letras), publicação de 1984, “A Jangada de Pedra" (Companhia de Bolso), livro de 1986, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (Companhia das Letras), obra polêmica de 1991, "Ensaio sobre a Cegueira" (Companhia das Letras), narrativa alegórica de 1995, e "Caim" (Companhia das Letras), trama religiosa de 2009. Cada uma dessas obras ganhará um post específico e todos estarão disponíveis no blog entre os dias 5 e 25. A partir das impressões coletadas nessas leituras, será desenvolvido um raio X do estilo literário do autor. O post com as principais características da literatura e da carreira de José Saramago será publicado no final do mês, mais precisamente no dia 29. Não é preciso dizer que o primeiro capítulo do Desafio Literário de 2019 (ainda estudaremos mais sete autores de todos os cantos do mundo até o final do ano - Chimamanda Ngozi Adichie em maio, Noah Gordon em junho, Orhan Pamuk em julho, Rachel de Queiroz em agosto, Milan Kundera em setembro, Gabriel García Márquez em outubro e Colleen McCullough em novembro) está imperdível, né? Esta é a quinta temporada do Desafio Literário do Bonas Histórias. José de Sousa Saramago nasceu, em 1922, na vila de Golegã, pertencente à província do Ribatejo, região central de Portugal. Vindo de uma família de camponeses, José se mudou ainda pequeno para Lisboa, cidade onde viveu a maior parte da vida. Lá, trabalhou em várias profissões antes de embarcar definitivamente para o universo da literatura. Ele atuou como serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Seu primeiro romance foi “Terra do Pecado” (Caminho), publicado em 1947, quando Saramago tinha apenas 25 anos. A obra não foi bem recebida pelo público nem pela crítica. Como consequência, as editoras portuguesas se recusaram, nos anos seguintes, a lançar os novos originais do jovem romancista. Desanimado, José Saramago ficou quase duas décadas sem publicar nenhum romance. Apenas nos anos de 1960, o escritor produziu, ainda que timidamente, trabalhos em outros gêneros: poesia, coletâneas de contos e crônicas e peças teatrais. A volta aos romances aconteceu apenas em 1977 com a publicação do ousado “Manual de Pintura e Caligrafia” (Companhia das Letras). Entretanto, o sucesso em nível nacional ocorreu com sua terceira narrativa longa, “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), de 1980. Quando o livro chegou às livrarias portuguesas, José Saramago já era um homem de quase sessenta anos e, enfim, ganhava o reconhecimento da crítica e dos leitores pelo seu trabalho na literatura. Nesse livro, o autor apresenta ao público um estilo de prosa único, que marcaria mais tarde sua carreira. “Levantado do Chão” conquistou naquele mesmo ano o Prêmio Cidade de Lisboa como o melhor romance português da temporada. O livro seguinte, “Memorial do Convento”, de 1982, alçou o nome de Saramago para fora das fronteiras portuguesas. Era o início da trajetória internacional do escritor. Somente a partir desse momento, ele pôde se dedicar exclusivamente à produção literária, algo até então inviável. Por isso, as décadas de 1980 e de 1990 foram as mais produtivas para José Saramago. Nesse período, ele lançou suas obras mais famosas: "O Ano da Morte de Ricardo Reis", “A Jangada de Pedra", “História do Cerco de Lisboa” (Companhia das Letras), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Ensaio sobre a Cegueira". Entre 1980 e 1998, o português lançou dez livros, sendo oito romances. O resultado mais objetivo desse trabalho apareceu nas premiações recebidas. Em 1995, José Saramago conquistou o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Três anos mais tarde, chegaria à consagração definitiva: o Nobel de Literatura. Pela primeira vez na história, a Academia Sueca de Letras entregava a honraria máxima da arte literária a um escritor de língua portuguesa. Assim, José Saramago deixava de ser apenas um grande autor português para se transformar em um dos mais importantes nomes da prosa ficcional do século XX. Em 2010, o escritor faleceu aos 87 anos nas Ilhas Canárias, onde foi morar na década de 1990 com sua segunda esposa, a jornalista e tradutora Mária del Pilar del Río Sánchez. Pilar ficaria mais conhecida do grande público após o documentário “José e Pilar” (José y Pilar: 2010). Afinal, ela acabou em muitos momentos atraindo para si mais a atenção das câmeras do que o próprio marido, a razão principal daquela filmagem. É este o escritor que vamos analisar em abril no Desafio Literário. A primeira obra de José Saramago que será comentada no Bonas Histórias é “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), o primeiro grande sucesso internacional do escritor. Esse post estará disponível no blog no dia 5, próxima sexta-feira. Não perca. E boa leitura para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2018
Não deve ser novidade para ninguém o fato de o mercado editorial brasileiro estar passando por uma crise extremamente grave. Os últimos anos não têm sido nada fáceis para ninguém. Basta olhar um pouco para os lados para ver os efeitos práticos da recessão que afeta todo o setor. Nos últimos meses, as lojas da FNAC em nosso país foram fechadas e o Grupo Abril precisou ser vendido por um preço simbólico para se livrar de suas dívidas milionárias. Além disso, a Livraria Saraiva entrou em recuperação judicial, várias editoras fecharam ou diminuíram consideravelmente de tamanho e a Livraria Cultura pediu recuperação judicial. Para onde se olha, nota-se a sangria. Segundo alguns especialistas, o mercado editorial brasileiro encolheu, nos últimos seis anos, entre 30% e 40%. Desconheço um segmento da economia que tenha sido tão afetado assim neste mesmo período. Diante desse cenário desolador, resolvi analisar os livros mais vendidos em nosso país no ano passado. E, curiosamente, minha desolação só aumentou quando vi a lista dos best-sellers das livrarias nacionais. Além de estar comprando menos livros, os brasileiros e as brasileiras (se é para falar de crise e ficar deprimido, então vamos parafrasear José Sarney) continuam com seu gosto literário um tanto peculiar. Eles adoram livros de autoajuda, obras religiosas e publicações escritas por youtubers famosos. Em 2018, essas três categorias monopolizaram as primeiras posições do ranking dos mais vendidos. Em contrapartida, os leitores brasileiros parecem não ter muito interesse pelas narrativas ficcionais. Os romances nacionais são artigos raros nas compras feitas em nossas livrarias. Curiosamente, tivemos uma única ficção (ficção de verdade!) entre as 12 obras mais comercializadas no país em 2018. Não me lembro se alguma vez havia acontecido isso antes. E esse livro, acredite se quiser, não é um romance e sim uma coletânea de contos. Ou seja, quem antes se preocupava com o domínio dos romances de língua inglesa em nossas livrarias, saiba que agora nem isso os brasileiros estão lendo mais. Será que a tão anunciada morte dos romances está, enfim, mostrando sua face? Entre os best-sellers das livrarias brasileiras, temos seis obras de autoajuda. “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (Intrínseca), do norte-americano Mark Manson, ficou em primeiro lugar, com quase meio milhão de unidades vendidas de janeiro a dezembro. O livro explica para o leitor como este deve fazer para ter uma vida melhor (ah, tá!). Logo em seguida, ainda entre as autoajudas, vieram “O Milagre da Manhã” (BestSeller), de Hal Elrod (terceira posição no geral), “Seja Foda!” (Buzz), de Caio Carneiro (quarto lugar), “O Poder da Ação” (Gente), de Paulo Vieira (sexto no geral), “O Poder do Hábito” (Objetiva), de Charles Duhigg (nono lugar) e “O Poder da Autorresponsabilidade” (Gente), de Paulo Viera (décima posição). Eles falam, respectivamente, da importância de se acordar cedo (hum!), de como você pode conquistar tudo o que deseja (sério?), da receita prática para a realização profissional (oh!), da força dos hábitos na vida de pessoas bem-sucedidas (interessante!) e de como se faz para assumir as rédeas da própria vida (ah!). Ou seja, metade da lista dos 12 mais vendidos é formada por obras de autoajuda. Pelo visto, 2018 foi um ano péssimo não apenas para as editoras e livrarias, mas para os leitores também. Do contrário, por que eles estariam tão ávidos por textos que os ajudassem a ser mais felizes, importantes e bem-sucedidos? Em seguida, temos as publicações desenvolvidas por youtubers. E ninguém vendeu mais em 2018, nesta categoria, do que Luccas Neto e Felipe Neto (não, eles não são parentes!). O primeiro estreou na literatura com “As Aventuras na Netoland com Luccas Neto” (Pixel), um livro infanto-juvenil. Este título terminou o ano na segunda posição entre os mais comercializados. Foram quase 400 mil exemplares vendidos. E Felipe Neto, um já habitual frequentador dos best-sellers, publicou “Felipe Neto - A Vida por Trás das Câmeras” (Pixel), uma espécie de autobiografia. O livro ficou no oitavo lugar no geral. Os livros religiosos vêm na sequência. Destaques para “Combate Espiritual” (Petra), do padre Reginaldo Manzotti (quinta posição) e “Propósito” (Sextante), de Sri Prem Baba (décimo segundo lugar). E o que sobra da lista dos best-sellers se excluirmos autoajuda, youtuberbooks e religiosos? Restam apenas dois títulos das outras categorias. “Sapiens” (L&PM), de Yuval Noah Harari, é um interessante trabalho científico sobre a evolução da espécie humana. Em 2017, este livro ficou na segunda posição no geral. No ano passado, terminou na ótima sexta posição. É incrível perceber que um estudo acadêmico-científico tenha ficado dois anos entre os mais vendidos no Brasil. E a outra obra é “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt), coletânea de contos e crônicas de Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira. A proposta da publicação nasceu de um coletivo literário da Internet que unia prosa, poesia e ilustração. Esta é a única ficção adulta na lista. Veja, a seguir, o ranking dos 12 livros mais vendidos em 2018 aqui no Brasil. Os dados são do PublishNews, a fonte mais confiável atualmente do mercado editorial nacional. O PublishNews faz seu levantamento nas principais redes de livrarias do país. Confira: 1) A Sutil Arte de Ligar o Foda-se - Mark Manson (Estados Unidos) - Intrínseca - 439 mil unidades. 2) As Aventuras na Netoland com Luccas Neto - Luccas Neto (Brasil) - Pixel - 377 mil unidades. 3) O Milagre da Manhã - Hal Elrod (Estados Unidos) - BestSeller - 189 mil unidades. 4) Seja Foda! - Caio Carneiro (Brasil) - Buzz - 165 mil unidades. 5) Combate Espiritual - Padre Reginaldo Manzotti (Brasil) - Petra - 148 mil unidades. 6) Sapiens - Yuval Noah Harari (Israel) - L&PM - 141 mil unidades. 7) O Poder da Ação - Paulo Vieira (Brasil) - Gente - 141 mil unidades. 8) O Poder do Hábito - Charles Duhigg (Estados Unidos) - Objetiva - 125 mil unidades. 9) Felipe Neto: A Vida por Trás das Câmeras - Felipe Neto (Brasil) - Pixel - 125 mil unidades. 10) O Poder da Autorresponsabilidade - Paulo Vieira (Brasil) - Gente - 119 mil unidades. 11) Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente - Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira (Brasil) – Globo Alt - 110 mil unidades. 12) Propósito - Sri Prem Baba (Brasil) - Sextante - 108 mil unidades. Realmente, estamos vivendo uma séria crise no mercado editorial brasileiro. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MaisVendidos #MercadoEditorial #Livros
- Livros: A Revolução dos Bichos – A incrível fábula de George Orwell
Quando falamos em George Orwell, automaticamente nos lembramos de “1984” (Companhia das Letras). Nesse romance distópico, o autor inglês apresenta para o mundo a figura tirânica e mítica do Big Brother (o Grande Irmão), líder onipresente e onisciente de um partido totalitário. A associação entre Orwell e “1984” é realmente pertinente. O livro é uma crítica muitíssimo bem-feita aos regimes ditatoriais e configura-se, ainda hoje, em uma das obras-primas da literatura do século XX. O valor da publicação pode ser medido no quanto seus conceitos acabaram incorporados à cultura popular. Se você nunca ouviu falar de “1984” ou do Big Brother, algo de muito errado está acontecendo com você e com sua vida. Entretanto, para mim, a magnum opus de George Orwell é uma outra publicação, as vezes esquecida ou mesmo colocada, injustamente, em segundo plano (quando comparada a “1984”). Trata-se de “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), novela em tom de fábula que questiona de maneira ácida a experiência de formação dos Estados Socialistas. Ao invés de promoverem a igualdade social, eles acabaram, no final das contas, criando uma nova classe de privilegiados em meio à pobreza coletiva. Se “1984” é excelente, “A Revolução dos Bichos” é espetacular! Reli pela quarta vez esta obra no último domingo e, mais uma vez, fiquei muitíssimo impressionado com sua qualidade. Minha empolgação foi tanta que não resisti: corri para o Blog Bonas Histórias para postar uma análise deste livro para você. Em um texto leve, rápido, divertido, e, acima de tudo, extremamente inteligente, Orwell critica, em “A Revolução dos Bichos”: a ganância/ambição desmedida do ser humano; a inviabilidade de governos comunistas (como o da União Soviética, por exemplo) de promover a igualdade social; o uso da religião como manobra para acalmar/reconfortar as pessoas mais ingênuas; a criação de Estados totalitários e bélicos a partir de propostas pacifistas e democráticas; a manipulação ideológica e doutrinária da massa populacional; a invenção de inimigos imaginários para afastar o foco de atenção que seria direcionado aos problemas reais; a leitura enviesada do passado histórico; e o surgimento de uma elite de privilegiados no seio da sociedade pretensamente igualitária. E George Orwell faz tudo isso em uma fábula que se passa em uma pequena fazenda de uma região rural da Inglaterra. É ou não é um livro incrível?! Publicado em agosto de 1945, quatro anos antes de “1984” e no exato instante do armistício da Segunda Guerra Mundial, “A Revolução dos Bichos” é ainda hoje uma obra atual. Além de ter sido um grande sucesso de público, a novela é exaltada pela crítica literária desde o seu lançamento. Este livro de Orwell foi eleito pela Revista Times, em 2005, como uma das cem melhores ficções de língua inglesa publicadas a partir de 1923 (o ano de fundação da revista nos Estados Unidos). Em 2008, foi a vez da Modern Library, famosa editora norte-americana, colocar “A Revolução dos Bichos” na trigésima primeira posição do ranking das melhores narrativas literárias do século XX. Nada mal, hein? “A Revolução dos Bichos” se passa na Granja do Solar, fazenda de propriedade do Sr. Jones, um decadente ruralista inglês. Certa noite, depois que o Sr. Jones foi se deitar bêbado em seu quarto, os animais da fazenda se reúnem no celeiro. Todos comparecem ao encontro secreto para ouvir o discurso do Major, um velho porco que em seu passado glorioso havia sido um campeão em concursos de beleza. Agora um respeitado ancião, o Major narra um sonho aparentemente utópico que teve recentemente. Ele diz que, em um futuro não muito distante, os animais daquela fazenda irão se unir para acabar com a tirania dos seres humanos. Após expulsarem os homens da Granja do Solar, os animais serão os responsáveis por administrar sozinhos aquele lugar. Assim, poderão levar uma vida melhor e mais justa, onde todos serão iguais e viverão sem a violência repressora dos humanos. Para completar, o Major ensina aos colegas uma canção chamada de Bichos da Inglaterra. Nela, ele sintetiza os valores do Animalismo, sua filosofia de vida. Os animais cantam emocionados várias vezes a música, que fala de união, de companheirismo, de pacifismo e de igualdade entre os bichos. Três dias após a reunião noturna no celeiro, o Major morre. Mesmo assim, seus ideais permanecem no imaginário coletivo dos animais da Granja do Solar. Alguns meses mais tarde, a revolução que ele tanto ansiava acontece de fato. Quando o Sr. Jones se esquece de dar comida para os animais da fazenda (o dono da propriedade rural estava outra vez bêbado), os bichos se rebelam com violência. Na visão da bicharada, aquela atitude egoísta do Sr. Jones tinha sido a gota d´água do descaso em que eles eram tratados. Unidos, os animais expulsam o proprietário, a esposa dele e todos os funcionários do local, assumindo, desta maneira, o comando da granja. Liderados pelos porcos, os animais mais inteligentes da fazenda, o grupo faz um pacto, em uma espécie de refundação do lugar. A Granja do Solar passa a se chamar Granja dos Bichos. Bichos da Inglaterra torna-se oficialmente o hino dos habitantes da localidade. E uma constituição, chamada de Sete Mandamentos, é decretada. Nela, os animais devem viver em paz, em igualdade e em harmonia entre si, tendo como único inimigo os homens. Rapidamente, a Granja dos Bichos se torna uma fazenda próspera e feliz. Sem ninguém para explorá-los, os animais podem trabalhar livres e ter uma alimentação mais farta. Além disso, ganham horas de lazer, algo inimaginável na época dos homens, podem se aposentar quando ficarem velhos, outra coisa impensável antes, e, acredite, começam a apreender a ler e a escrever. Ou seja, o progresso chega a níveis jamais cogitados pelos revoltosos. À medida que os meses vão passando, os porcos começam cada vez mais a assumir o controle administrativo (e político) da fazenda. Bola-de-Neve e Napoleão, os dois porcos mais influentes e ambiciosos da Granja dos Bichos, passam a brigar pelo controle do governo local. Depois de várias discussões acaloradas com Bola-de-Neve, Napoleão recruta uma matilha formada por filhotes bravos e dá um golpe de Estado, expulsando o colega desarmado. Uma vez no poder, Napoleão inicia uma administração que tem por base a perseguição aos oponentes internos, o ódio aos inimigos externos, o culto à sua personalidade, a criação de projetos megalomaníacos, a violência policial e, pouco a pouco, o término dos ideais igualitários que marcaram a Revolução dos Bichos. Quando Napoleão vira o ditador da Granja dos Bichos, a qualidade de vida da maioria dos animais cai sensivelmente. A fome, o medo, as injustiças e as jornadas excessivas de trabalho passam a ser a tônica na rotina da fazenda. Enquanto isso, os porcos se tornam uma classe de privilegiados. Eles passam a morar na casa onde antes o Sr. Jones vivia e começam a estabelecer relações com os demais fazendeiros da região, algo impensável até então. “Revolução dos Bichos” é um livro curtinho (algo típico das novelas). Ele tem pouco mais de 150 páginas (normalmente é publicado em versões pockets/edições de bolso). É possível ler a obra inteira em uma única tarde. Foi o que fiz neste domingo. Acho que não levei mais de três horas para concluí-la de cabo a rabo. Li tudo em um fôlego só sem qualquer dificuldade. O aspecto mais relevante desta publicação, que gostaria de salientar neste post, é a qualidade do seu duplo texto. Por qualquer perspectiva que você leia a obra, você ficará impressionado positivamente. “A Revolução dos Bichos” pode ser lido exclusivamente pelo ponto de vista de sua história literal – a trama que aparece em primeiro plano (disputa entre animais e homens e, depois, oposição entre porcos e demais bichos). Ela é muito interessante do ponto de vista narrativo. Seu conflito, suas personagens, suas reviravoltas e todos os demais elementos ficcionais são impecáveis. George Orwell foi um escritor espetacular, com uma noção impecável do trabalho ficcional. Contudo, o conteúdo do livro ganha em dimensão quando analisamos seu subtexto (a segunda camada textual do material). O que está por trás da história literal é o que torna “A Revolução dos Bichos” uma obra-prima da literatura universal. De maneira primorosa, a novela é uma crônica da formação e do desenvolvimento do mais famoso Estado Socialista. Nessa outra perspectiva, a Granja do Solar seria a Rússia czarista e a Granja dos Bichos seria a União Soviética. O que “A Revolução dos Bichos” narra em suas páginas, apesar de conter alguns elementos da Revolução Francesa, nada mais é do que uma sátira à Revolução Russa. Estão ali todas as fases da transformação do Império Russo em União Soviética: Revolução de Fevereiro (motivada pela fome e que resultou na expulsão do czar e de sua família do país), Revolução Bolchevique (tomada de poder pelos socialistas e implementação do Partido Comunista) e Guerra Civil (comunistas versus opositores internos e externos). É quando fazemos essa associação entre ficção e realidade histórica é que entendemos a grandiosidade do texto de George Orwell. A disputa travada entre Bola-de-Neve e Napoleão não seria nada mais do que a disputa entre Leon Trótski e Josef Stalin pelo poder do governo comunista soviético. Sob esse prisma, Major seria Lenin. Com isso, na visão do escritor inglês, os porcos seriam os comunistas, enquanto os homens seriam os capitalistas. No fim das contas, o povo (representado pelos demais animais da granja) acaba sendo explorado indistintamente como mão-de-obra barata e descartável pelos dois grupos (porcos e seres humanos são iguais em seus comportamentos e crenças). É espetacular essa conclusão que o escritor propõe, assim como é incrível o desfecho da novela. Além do inegável caráter político da trama (contido no subtexto do livro), precisamos reparar também na maneira impecável como foram construídas as demais figuras que compõem esta história. Temos o corvo como o religioso tradicional que promete uma vida melhor no céu após a morte (seria ele a Igreja Católica ou o Papa?), os cavalos como os trabalhadores braçais (ingênuos e de bom coração que acabam explorados por todo mundo), os pombos fazendo o papel dos meios de comunicação, os cachorros representando a força policial e os exércitos e o porco Garganta como a figura pública responsável por seduzir a massa populacional para os ideais da elite governante (além de reescrever a história sempre que necessário). Quando o leitor faz essa relação, o texto, que já era muito bom, se torna excelente. “A Revolução dos Bichos” é o tipo de livro que se torna melhor toda vez que você o relê. Nesta minha quarta releitura, confesso que o achei melhor do que as vezes anteriores. Dessa maneira, terminamos com chave-de-ouro as análises dos livros independentes deste início de ano. A partir de abril, o Bonas Histórias apresentará a quinta temporada do Desafio Literário. Assim, todo mês um escritor renomado terá suas obras estudadas aqui no blog. As análises do Desafio vão de abril a novembro. Em dezembro, retomamos às críticas das obras selecionadas de forma pontual. Bom Desafio Literário de 2019 para todos nós. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GeorgeOrwell #LiteraturaInglesa #Novela #Fábula
- Filmes: Um Banho de Vida – A comédia dramática de Gilles Lellouche
Semana passada, estreou no circuito nacional de cinema “Um Banho de Vida” (Le Grand Bain: 2018), uma comédia dramática francesa com um enredo bem curioso. O filme foi dirigido e roteirizado por Gilles Lellouche, mais conhecido do grande público pelos seus trabalhos como ator. “Um Banho de Vida” é a terceira e, até aqui, melhor experiência de Lellouche atrás das câmeras. Se “Os Infiéis” (Les Infidèles: 2012) e “Problemas de Um Dorminhoco” (Narco: 2003) apresentaram resultados aceitáveis, apesar de algumas polêmicas desnecessárias, em “Um Banho de Vida” o diretor francês parece ter acertado à mão. Com um orçamento de aproximadamente US$ 22 milhões e com uma bilheteria superior a US$ 36 milhões, o filme teve boa aceitação nas salas de cinema em seu país natal no ano passado. Para completar, ele integrou a mostra Não Competitiva do Festival de Cannes de 2018. Curioso para conferir de perto esta produção, fui ao Reserva Cultural, na Avenida Paulista, na última quinta-feira, para conferi-la em primeira mão. E admito que saí do cinema feliz com o que presenciei. Esta é a comédia mais criativa e inusitada que entrou em cartaz no Brasil nesta temporada. Com Mathieu Amalric, do recente “No Portal da Eternidade” (At Eternity's Gate: 2018), Jean-Hugues Anglades, de “Grandes Amigos” (Amitiés Sincères: 2012), Guillaume Canet, de “Os Infiéis” e “Problemas de Um Dorminhoco”, Félix Moati, Philippe Katerine, Virginie Efira, de “Um Amor à Altura” (Un Homme à la Hauteur: 2016), e Leila Bekhti no elenco, este longa-metragem se destaca por reunir importantes nomes do cinema francês contemporâneo. Ao lado dessa constelação, ainda temos o belga Benoît Poelvoorde, um dos principais humoristas europeus da atualidade e protagonista do excelente “O Novíssimo Testamento” (Le Tout Nouveau Testament: 2014). Para os cinéfilos de plantão, um dos maiores atrativos deste filme está justamente em conferir a reunião de atores e atrizes de primeiríssimo nível do Velho Continente. Eles desfilam com brilhantismo nas cenas do longa-metragem, conferindo ainda mais graça à sua história. A proposta de “Um Banho de Vida” é mostrar o drama de um grupo de homens de meia-idade que descobre o prazer de praticar um esporte pouco convencional e visto com preconceitos pela sociedade. Fora de forma e frustrados com suas vidas nos âmbitos pessoal, amoroso, financeiro e profissional, essas personagens encontram no nado sincronizado masculino (sim, existe essa versão da modalidade!) a última gota de alegria em uma rotina entediante e amarga. A trupe pratica o esporte duas vezes por semana em um clube de natação de bairro. Seus resultados estão muito distantes do aceitável. No português correto, suas apresentações são tão horríveis que provocam vergonha em quem as assiste. A equipe do nado sincronizado é composta por Bertrand (interpretado por Mathieu Amalric), um desempregado que padece há anos de depressão severa, Marcus (Benoît Poelvoorde), um empresário trambiqueiro à beira da falência, Laurent (Guillaume Canet), o executivo arrogante que tem sérios problemas familiares, Simon (Jean-Hugues Anglades), um cozinheiro ingênuo e boa praça que ainda sonha em ser um músico famoso, e John (Félix Moati), um enfermeiro que odeia sua profissão e o cheiro dos pacientes idosos. Além desse quinteto pouco talentoso, ainda temos outras figuras melancólicas, solitárias e problemáticas que integram o grupo. O time é treinado pela meiga e compreensiva Delphine (Virginie Efira), uma ex-praticante de nado sincronizado que tem um passado de depressão e de alcoolismo. Sóbria há alguns anos, ela gosta de ler obras clássicas enquanto os rapazes treinam livremente na piscina. A treinadora também prioriza a harmonia e o bem-estar do grupo à competitividade interna ou externa da equipe. Por isso, ela é amada por todos os nadadores. Eles adoram seus treinos e seu jeito descontraído e leve de conduzir os trabalhos. Delphine parece conformada em ser a técnica de um grupo de marmanjos velhos, gordos, desajeitados e fracassados. Apesar de sofrerem de fortes preconceitos em casa, no trabalho e no próprio clube por praticarem um esporte visto como essencialmente feminino, os integrantes da equipe de Delphine se tornam muito unidos. Para eles, os treinos na piscina servem para relaxar e para socializar um pouco, espantando, assim, a solidão e a melancolia de uma existência com pouco sentido e com grandes decepções. O esporte mostra-se um remédio para seus corpos, suas mentes e suas almas doentes. As coisas começam a sair do controle quando o grupo descobre que haverá um campeonato mundial de nado sincronizado masculino na Noruega em alguns meses. Equipes do mundo inteiro se inscreverem para a competição. Ao notarem que não havia ninguém representando a França, os amigos se inscreveram por impulso. O sonho de poder participar de um torneio internacional é o grande motivador dessas personagens machucadas pela vida e pelo destino. Justamente no momento em que mais precisam treinar, os franceses perdem sua treinadora. Delphine sofre uma crise nervosa e volta às bebedeiras. Em seu lugar, é escalada Amanda (Leila Bekhti), uma cadeirante brava e exigente. Diferentemente da antiga treinadora, a nova é durona e altera radicalmente os treinos. Para Amanda não basta competir, seu time precisa ter a ambição de conquistar os primeiros lugares nos campeonatos. Dessa maneira, do dia para a noite, a vida tranquila dos rapazes dentro da piscina se torna um inferno. A nova treinadora não irá descansar enquanto seus atletas não se tornarem uma equipe de alto rendimento. “Um Banho de Vida” é um belo filme. Com pouco mais de duas horas de duração, ele consegue emocionar seus espectadores tanto nas cenas dramáticas (presentes mais na primeira metade do longa-metragem) quanto nas cenas cômicas (mais intensas na segunda metade da produção). O equilíbrio, nesse sentido, é perfeito. Primeiramente, conhecemos o drama de cada uma dessas personagens para, só depois, nos divertirmos com suas tentativas de redenção. O roteiro foi muito bem escrito e contribuiu para acentuar o choque entre as partes antagônicas do longa-metragem (um dos pilares do humor deste enredo). E por falar no humor, ele se faz presente principalmente quando Amanda assume o treinamento da equipe que era de Delphine. Aí as risadas se propagam com força pela sala de cinema. A parte do campeonato mundial também produz ótimas e divertidas cenas, mas para mim os momentos mais hilários ainda sim são dos treinamentos conduzidos pela brava e disciplinada treinadora. Impossível não rir das situações trágico-cômicas que o grupo de homens que queria apenas se divertir na piscina precisa passar. Também gostei muito da trilha sonora e da maneira como as filmagens foram feitas. As músicas do filme são um charme à parte e foram responsabilidade do norte-americano Jon Brion, músico especializado em trabalhar em produções cinematográficas. A filmagem de “Um Banho de Vida” é produzida por câmeras ágeis, com enquadramentos pouco convencionais e com um bom jogo de luzes (contraste entre claro e escuro). Repare na bela fotografia do longa-metragem francês. O resultado final é uma estética que enaltece o caráter dramático da trama e a interpretação cênica do elenco. As cenas na água tanto na competição internacional quanto nos treinamentos da equipe na academia são bem filmadas e proporcionam leveza e graça à história. De certa maneira, procura-se enaltecer a beleza e a dificuldade do esporte praticado pelas personagens. Outro elogio que precisa ser feito é para o elenco de “Um Banho de Vida”. Todos os atores e atrizes estão magníficos em seus papéis. As atuações deles saltam aos olhos do espectador sendo difícil apontar quem está melhor. Para mim, todos foram brilhantes, dando um colorido ainda mais especial à sua boa narrativa. Por falar em história, os dois únicos pontos negativos de “Um Banho de Vida” estão justamente em seu enredo. O início é um tanto pesado e, às vezes, confuso para o espectador que acabou de sentar em sua poltrona na sala de cinema. Na primeira meia hora do longa-metragem, Gilles Lellouche quer retratar os dramas de quatro ou cinco personagens simultaneamente. Não é preciso dizer que o excesso aqui volta-se contra a clareza da trama. Apesar de não ter gostado dessa sobreposição narrativa no início do filme, entendi a escolha do roteirista-diretor. Sem essa contextualização, os três quartos finais do filme não teriam tanta força dramática. Outra questão sujeita às críticas é o desfecho pouco crível (que obviamente não vou contar aqui qual é, mas vou comentar seu efeito). Para mim, o desenlace pouco verossímil acabou jogando contra toda a proposta realista e ácida do enredo. O exagero do final em nada contribuiu para tornar mais interessante esta história. Basta lembrar que “Jamaica Abaixo de Zero” (Cool Runnings: 1993), um filme com uma pegada muito parecida, conseguiu emocionar a plateia sem cair em armadilhas narrativas hiperbólicas e demagógicas. Por mais que o enredo tente vender a ideia da possibilidade do desfecho escolhido, ainda sim é duro de engoli-lo. Apesar de um ou dois probleminhas em seu enredo, “Um Banho de Vida” ainda sim é um filmão. Engraçado, emocionante e reflexivo, ele entrega bem o que promete. Com um enredo criativo e cativante, é possível se divertir em sua sessão. Para tal, é preciso gostar do humor francês, que é mais ácido, inteligente e politicamente incorreto do que o norte-americano, por exemplo. Como eu gosto dessa pegada, adorei “Um Banho de Vida”. Esta produção de Gilles Lellouche inverte a lógica dos preconceitos sociais e coloca homens maduros e heterossexuais na linha de frente dos questionamentos da França conservadora dos dias de hoje. Maravilhoso! Veja o trailer de “Um Banho de Vida”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CinemaFrancês #GillesLellouche #MathieuAmalric #JeanHuguesAnglades #GuillaumeCanet #VirginieEfira #LeilaBekhti #BenoîtPoelvoorde #Comédia #Drama
- Livros: Trânsito – A versão brasileira do Ready-Made de Kenneth Goldsmith
Neste sábado de manhã, li um livro instigante. Sim, instigante! Acho que essa palavra expressa bem minha sensação ao concluir esta experiência de leitura. “Trânsito” (LunaPARQUE) é a versão brasileira e adaptada de “Traffic” (a edição original ainda não foi publicada no Brasil), obra do norte-americano Kenneth Goldsmith. Precursor da Escrita Não Criativa (uma espécie de Ready-Made literário), Goldsmith é um autor extremamente polêmico e ousado (esses dois termos geralmente caminham de mãos dadas no universo cultural). Basicamente, o escritor norte-americano integra o grupo dos artistas do tipo “ame-o ou deixe-o”. “Traffic” é um dos seus trabalhos mais famosos (e contestados também). Como eu já conhecia o original, fiquei curioso para saber como era esta adaptação (chamada pela editora, paradoxalmente ou ironicamente, de dublagem). Para ser sincero, antes de adquirir este livro, eu tinha sérias dúvidas quanto à sua qualidade e pertinência. Eu só encarei esta leitura porque no mês passado havia lido e adorado uma publicação nacional que interagia diretamente com as propostas artísticas de Goldsmith. “Sessão” (LunaPARQUE), a obra de estreia de Roy David Frankel, que foi comentada aqui no Blog Bonas Histórias em fevereiro, acabou me surpreendendo positivamente. Gostei tanto do livro que cheguei ao ponto de procurar, nas semanas seguintes, outros títulos do gênero. Foi aí que me deparei com “Trânsito”. Assim, mesmo não tendo gostado nem um pouco de “Traffic” (o livro original), acabei dando um voto de confiança para sua adaptação. Quem sabe ela não poderia ser melhor do que a antecessora, né? Admito, agora, que minha intuição estava certa. Certíssima! Em “Trânsito”, Leonardo Gandolfi, poeta e crítico literário nascido no Rio de Janeiro, e Marília Garcia, escritora e editora carioca, gravaram a transmissão da Rádio SulAmérica Seguros Trânsito entre o meio da tarde e o início da noite de uma sexta-feira, véspera de feriado. Para quem não conhece a Rádio SulAmérica, ela é uma emissora que opera, desde fevereiro de 2007, no 92,1 MHz da FM na região metropolitana de São Paulo. Sua especialidade é a cobertura do trânsito na capital paulista. Essa é sua programação por 24 horas. Recentemente, a emissora mudou de nome, mas manteve intacta sua proposta jornalística. Depois da gravação, Leonardo Gandolfi e Marília Garcia transcreveram a programação da rádio e publicaram em seu livro alguns trechos do que a emissora colocou no ar naquele dia. Ou seja, “Trânsito” nada mais é do que o registro textual da cobertura radiofônica em uma véspera de feriado em São Paulo, quando os engarrafamentos bateram recordes nas ruas e estradas do município. E qual é a graça de se ler um livro que transcreve a cobertura de uma rádio que só fala de trânsito?! Juro que comecei a leitura com esse questionamento, acreditando que não encontraria nada de interessante nesta publicação (foi o que aconteceu comigo em “Traffic”). Porém, surpreendentemente, não é que “Trânsito” é uma obra simpática. Completaria sua descrição, afirmando que ela é simples, leve e muito divertida. Mais relevante do que seu conteúdo é a experiência de leitura. Em poucas páginas, somos levados para dentro dos carros e passamos a acompanhar de fato o desafio dos paulistanos em chegar ao seu destino no final daquele dia. Enquanto acompanhamos o trabalho dos jornalistas, somos agraciados com as brincadeiras entre os colegas da emissora, os comentários espirituosos dos ouvintes, as inserções publicitárias, as trocas de turnos da rádio e as reclamações dos cidadãos nas ruas. Diria que dá para quase que ouvir o barulho do helicóptero da rádio que sobrevoa os céus da cidade e as buzinas dos veículos lá embaixo. A recriação da atmosfera estressante do trânsito paulistano é o que esta obra tem de melhor. Publicado em 2016, “Trânsito” é um livro minúsculo. Acho que esse é o menor livro que li nos últimos anos – ele chega a ser menor até que “Bonsai” (Cosac Naify), a novela de Alejandro Zambra que me pareceu um conto por seu tamanho tão reduzido. É possível ler “Trânsito” em meia hora. Esta obra tem 20 capítulos. Cada capítulo possui apenas duas páginas e marca uma variação de tempo de aproximadamente 10 minutos da programação da rádio. Dessa maneira, a transmissão começa às 16h05 (esse é o primeiro capítulo). O segundo e o terceiro capítulos, por sua vez, se passam, respectivamente, às 16h15 e 16h25. O quarto ocorre às 16h35. E assim vai. O último capítulo, por sua vez, acontece às 19h12. A dimensão desta publicação é o primeiro aspecto que gostaria de elogiar. Esse tipo de livro só é interessante quando não deixa seu leitor entediado, um risco calculado que a obra corre. Se “Trânsito” tivesse o dobro do número de páginas que tem, por exemplo, talvez eu não tivesse gostado tanto de sua leitura. Maior, ele correria o risco de se tornar repetitivo e bastante chato. Afinal, precisamos concordar que acompanhar por muito tempo uma programação de rádio de trânsito sem precisar desse tipo de informação é algo que pode desestimular qualquer leitura. Com apenas 48 páginas, entendemos a rotina da programação e a suas repetições sem que isso atrapalhe a experiência de leitura. Outra coisa que gostei muito foi da multiplicidade de vozes que o livro conseguiu abordar em seu texto. A Rádio SulAmérica Trânsito tem um apresentador, mas o tempo inteiro ele está interagindo com os repórteres que estão nas ruas e com os ouvintes que escrevem por e-mail ou por WhatsApp. Além disso, em alguns momentos, há convidados que visitam os estúdios da rádio e conversam com o apresentador principal. Boa parte da graça da obra está na dinâmica de comunicação desses grupos de pessoas. Essa questão das múltiplas vozes é o que, talvez, torne “Trânsito” um livro muito mais legal do que “Traffic”. Na obra norte-americana de Kenneth Goldsmith, a gravação foi feita em uma rádio de trânsito de Nova York. E lá só havia um apresentador que falava o tempo inteiro. Não havia qualquer interação com os ouvintes nem com os repórteres. Como consequência, achei “Traffic” um pé no saco. Eita, publicação mais monótona e sem qualquer clímax! “Trânsito”, por outro lado, é extremamente dinâmica e engraçada. E por falar em graça, os melhores momentos do livro estão justamente em suas partes cômicas, provocadas pelas conversas informais do apresentador com sua equipe de repórteres. Impagáveis as discussões sobre a frequência de consumo do Yakult e sobre a polivalência do sorvete de flocos. Em meio a seriedade da transmissão das notícias do tráfego, os jornalistas encontram brechas para conversar animadamente sobre temas fortuitos, deixando escapar seu bom humor. Ao final da leitura, algo chamou minha atenção. Por que será que a LunaPARQUE creditou a autoria desta obra para Kenneth Goldsmith e não para Leonardo Gandolfi e Marília Garcia? Sei que “Trânsito” foi inspirado em “Traffic”, porém não colocar os nomes dos escritores cariocas na capa me pareceu um cuidado excessivo. Se era para mostrar a autoria de Goldsmith, então poderia se colocar o nome dos três juntos na capa. A citação de Gandolfi e Garcia na folha de rosto me pareceu muito pouco. Além disso, os dois foram nomeados como “dubladores” da obra e não como coautores. Isso também soou um pouco estranho. “Traffic”, a versão original, foi publicado em 2007 e integra, junto com “The Weather” (sem edição em português), de 2005, e “Sports” (também sem edição no Brasil), de 2008, a trilogia ready-made de Kenneth Goldsmith. Nesses trabalhos, o norte-americano passa para a literatura aspectos banais do cotidiano. Assim como “Traffic” é o registro do trânsito de Nova York, em “The Weather” temos uma série de boletins meteorológicos e em “Sports” temos a transcrição de uma cobertura de um jogo de basebol. É ou não é uma maluquice o que Goldsmith se propõe a fazer? Podemos gostar ou não do tipo de trabalho artístico que Kenneth Goldsmith faz, mas é inegável sua ousadia. Ao usar e abusar do Ready-Made (em português, esse tipo de literatura é mais conhecido como Escrita Não Criativa), ele gera debates acalorados do que é literatura e o que não é. De certa forma, Goldsmith e sua trilogia são as versões contemporâneas e literárias do que Marcel Duchamp e sua “A Fonte” foram para as artes plásticas no início do século XX. Admito ter adorado “Trânsito”. O que mais gostei da obra brasileira foi a união de uma proposta ousada e arriscada com uma boa execução textual. Este pode ser um dos raros casos em que a versão genérica ficou melhor do que a edição original. Coisas de Ready-Made! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #KennethGoldsmith #EscritaNãoCriativa #ReadyMade #LeonardoGandolfi #MaríliaGarcia #LiteraturaBrasileira #LiteraturaNorteAmericana
- Gastronomia: Café Terraço Sesc Paulista – A vista privilegiada de São Paulo
Com a inauguração do Sesc Avenida Paulista, em abril de 2018, São Paulo ganhou mais um estabelecimento com vista panorâmica da cidade. No finalzinho do ano passado, fui conferir o Café Terraço Sesc Paulista, o charmoso empreendimento localizado no último andar da nova unidade do Sesc. E, admito, que saí do lugar impressionado positivamente com o que encontrei. Além de uma vista deslumbrante da avenida mais famosa de São Paulo, temos um cardápio com preços justos, os serviços são eficientes e o ambiente é informal e descontraído. O que mais você pode desejar de um café, hein? O principal diferencial do Café Terraço Sesc Paulista é sua vista. Acho difícil alguém discordar desse apontamento. No topo do prédio de 17 andares, há um mirante que permite ver quase toda a extensão da Avenida Paulista e uma boa parte daquela região. O olhar dos frequentadores avança até alguns prédios do Centrão e chega às montanhas que circundam a cidade. O visual é de tirar o fôlego até mesmo para quem está habituado com a verticalidade da capital paulista. O que pensarão, então, os turistas, hein? Pela reação deles, ao menos no que pude notar de longe, todos pareceram ficar encantados com o local. O que torna a vista do Café Terraço Sesc Paulista tão especial é, além da altura, a posição privilegiada do prédio do Sesc. No seu entorno, não há nenhuma construção obstruindo a visão. Além disso, a arquitetura do estabelecimento foi pensada em aproveitar ao máximo seu diferencial competitivo. O melhor local do Café Terraço Sesc Paulista para se apreciar a cidade não possui mesas nem cadeiras. Esse espaço é um terraço (daí o nome do estabelecimento) onde o frequentador pode apreciar de pé a paisagem. É verdade que de dentro do café é possível ver o cenário externo (as paredes são de vidro), mas é no lado de fora que ficamos sem fôlego com o que nossos olhos nos mostram. Acima do terraço, ainda há um mirante, que permite uma vista ainda melhor. O interessante é que se você quiser só ver a paisagem e não consumir nada é possível (algo impensável, por exemplo, no Terraço Itália). Porém, duvido que uma vez ali, você não se sinta tentado(a) a provar nada do café. Além do clima extremamente agradável do estabelecimento, o cardápio possui preços justos (você não paga a mais pela vista deslumbrante). Quase todos os itens estão na faixa de preço na casa de um dígito ou bem próximo a isso (algo cada vez mais raro de se encontrar na cidade de São Paulo). O cardápio é enxuto, mas com boas opções. Não espere encontrar itens para uma refeição elaborada (lembre-se, estamos em um café e não em um restaurante!). Destaque para a tostada, servida em uma fatia de pão italiano e feita com pesto, tomate, muçarela de búfala, alho e manjericão. Uma delícia (o difícil é se contentar com uma só). Para quem deseja algo leve e vegetariano, há saladas. De sobremesa, o destaque é o sagu de hibisco com creme de tapioca. Além dessas opções mais requintadas, o cardápio também possui salgados, sanduíches e lanches tradicionais. Para beber, além dos cafés e chocolates quentes, há vinhos nacionais que são servidos em taça. Outro charme do Café Terraço Sesc Paulista é sua decoração. Os clientes podem se sentar às mesas, mas há também sofás, puffs e balcões à disposição. Essa dinâmica permite um clima mais informal ao salão. Adorei a descontração e a animação do lugar. A experiência de conversar em um sofá tomando um café é espetacular! Os pedidos são feitos no caixa e retirados pelos próprios clientes em um grande balcão. Os serviços são rápidos e eficientes. O único ponto negativo do local é o grande volume de frequentadores. Sempre há muita gente visitando o terraço e o mirante do café (para ver a vista, obviamente) e procurando mesas (na parte interna do salão). Pela quantidade de clientes, a impressão é que o lugar é minúsculo. Por isso, não tenha pressa quando for lá. Obter uma mesa ou um cantinho no sofá é algo que pode exigir paciência e estratégias inusitadas (não há fila de espera nem garçons organizando o fluxo de frequentadores no café. E por falar nos visitantes, fiquei com a impressão que uma considerável parcela da clientela do café é formada por turistas. Uma boa parte é de brasileiros que visitam a capital paulista, mas há também muitos gringos. Todas as vezes em que estive por lá pude ouvir conversas em outros idiomas (inglês, alemão e espanhol). Quem gosta de bater papo com os amigos, paquerar ou mesmo conhecer pessoas novas, esse é o lugar certo. Desde o ano passado, o Café Terraço Sesc Paulista é um dos meus locais favoritos para comer e beber na Avenida Paulista. Sempre que estou na região, tento dar uma subidinha lá. O café só não abre às segundas-feiras. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Café #lanchonete #Bar #restaurante #SãoPaulo #Gastronomia
- Livros: O Casamento – O único romance de Nelson Rodrigues
Para muitos, Nelson Rodrigues foi o maior dramaturgo brasileiro. Confesso que integro essa lista de apreciadores do trabalho do polêmico pernambucano que viveu desde os quatro anos de idade na cidade do Rio de Janeiro. Sua principal peça é “Vestido de Noiva”, de dezembro de 1943, um intrincado thriller psicológico protagonizado por duas irmãs que se odiavam. Considerado um marco do teatro realista nacional, “Vestido de Noiva” revolucionou seu gênero ao inserir várias inovações estéticas e narrativas. Contudo, Nelson Rodrigues não ficou conhecido apenas pela sua produção cênica. Cronista, comentarista esportivo, contista, jornalista e romancista, ele se conectou, como poucos artistas na metade do século XX, ao dia a dia da massa da população fluminense e brasileira. Dialogando diretamente com temas comuns das ruas das grandes cidades, o escritor se tornou uma figura extremamente popular. Amado por uns e odiado por outros, Rodrigues era uma das personalidades de maior destaque no jornalismo entre as décadas de 1950 e 1970. Ele opinava sobre vários assuntos (política, futebol, sociedade, religião, moda, violência, família, comportamento, etc.) e suas palavras tinham influência nacional. Quando suas obras passaram a ser adaptadas para a televisão e para o cinema, essa conexão com as massas aumentou ainda mais. Moralista inveterado, Nelson Rodrigues gostava de criticar a sociedade carioca, principalmente a classe média, o comportamento sexual dos seus conterrâneos e algumas instituições tradicionais, como o casamento e a família. Sua estratégia para mostrar o quão degradante era a moral das pessoas estava em apresentar, através da ficção, os tipos e os casos mais esdrúxulos. Seus textos, assim, ganhavam uma função catártica. Na concepção do artista e jornalista, ao ver/ler sobre uma situação considerada degradante moralmente, o indivíduo não teria mais a necessidade de realizar aquilo em sua vida normal. Ou seja, a imoralidade ficaria apenas no plano ficcional do leitor/espectador, sem ultrapassar a fronteira do real. Não sei se isso funcionava dessa maneira na prática. O que sei, efetivamente, é que o trabalho de Rodrigues adquiriu contornos muito eróticos, escatológicos e, por que não, preconceituosos. Depois de já ter se tornado um dramaturgo e jornalista muito famoso, Nelson Rodrigues decidiu escrever um romance. É verdade que vários livros dele já tinham sido lançados. Todos, entretanto, eram adaptações de peças teatrais e de textos publicados em jornais. Nenhum tinha sido concebido originalmente como uma narrativa literária. Esse fato persistiu até o surgimento de “O Casamento” (Nova Fronteira), o primeiro e único romance de Nelson Rodrigues lançado diretamente em brochura. Esta foi minha leitura deste final de semana. Publicada em setembro de 1966, esta obra foi encomendada por Carlos Lacerda. O jornalista e político fluminense queria um título de destaque para sua recém-lançada editora, a Nova Fronteira. Assim, nada melhor do que um inédito de Nelson Rodrigues para dar visibilidade à nova empresa e arrematar os primeiros leitores. “O Casamento” foi escrito em apenas dois meses. A história do livro já estava na cabeça de Rodrigues há alguns anos, assim como a vontade de produzir literatura. Curiosamente, ao ler os originais do romance, Lacerda ficou chocado com seu conteúdo. A obra continha boa parte das características do estilo artístico de seu autor: muito sexo, patologias psicológicas, escatologias, intrigas familiares, bizarrices de todas as formas, preconceitos (machismo e homofobia, por exemplo), violência, desigualdade social, adultérios, chantagens, etc. Envergonhado com as indecências da história, Carlos Lacerda optou por não publicar o material. Para não ficar mal com o escritor, o proprietário da Nova Fronteira indicou “O Casamento” para um amigo editor. Foi pelo selo deste amigo tanto de Lacerda quanto de Rodrigues, a Guanabara, que o livro foi publicado pela primeira vez. Por essas reviravoltas do destino, hoje, em 2019, quem edita a nova versão deste romance de Nelson Rodrigues é a própria Nova Fronteira. O resultado mais imediato dessa proposta editorial polêmica foi o rápido sucesso nas livrarias do país. Em poucos dias, “O Casamento” se tornou um best-seller, chegando ao topo dos mais vendidos no Brasil. Em duas semanas, a obra vendeu aproximadamente 8 mil exemplares, equiparando-se a outro sucesso da época, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (Companhia das Letras), de Jorge Amado. A estreia de Nelson Rodrigues na literatura se mostrava extremamente bem-sucedida. A maré positiva do escritor durou pouco. Alguns dias depois do lançamento de “O Casamento”, morreu o irmão mais velho de Nelson Rodrigues, o jornalista esportivo Mário Filho. Mário Filho, aquele mesmo que emprestou seu nome ao Maracanã e que criou o termo Fla-Flu para as partidas entre Flamengo e Fluminense, tinha 58 anos e teve um ataque cardíaco mortal em 17 de setembro de 1966. Por causa da fatalidade, todos os eventos de lançamento do livro de Rodrigues foram cancelados. Outro problema que “O Casamento” enfrentou foi o da censura governamental. Em outubro daquele ano, cerca de um mês da publicação do livro, a obra foi proibida de ser vendida nas livrarias do país. O ministro da Justiça do governo Castello Branco considerou o romance subversivo e indecoroso, classificando-o como um atentado à organização da família brasileira. Como o AI-5 (Ato Institucional de Número 5) ainda não tinha sido promulgado no país, a obra literária voltou a ser comercializada em abril de 1967, após decisão do Tribunal Federal de Recursos favorável ao escritor. Diante de tantos obstáculos e complicações, não é surpresa nenhuma que Nelson Rodrigues não tenha escrito mais nenhum romance ao longo de sua carreira. Na certa, ele deve ter chegado à conclusão que escrever peças teatrais e textos jornalísticos eram tarefas menos complicadas, pelo menos em termos burocráticos. Apesar de ser o único exemplar romanesco de Rodrigues, “O Casamento” é visto atualmente como um importante título da nossa literatura, classificado por muitos críticos como um clássico nacional. “O Casamento” foi adaptado para o cinema por Arnaldo Jabor oito anos após sua publicação em livro. O filme homônimo chegou às salas de cinema em 1974 e conquistou dois Kikitos no Festival de Cinema de Gramado: o de melhor atriz coadjuvante (para Camila Amado no papel de Noêmia) e o Prêmio Especial do Júri (como melhor produção). O enredo do romance “O Casamento” se passa no Rio de Janeiro no ano de 1966. Sabino Uchoa Maranhão, um bem-sucedido empresário carioca, está às vésperas de casar sua quarta filha, Glorinha. A moça é a caçula de Sabino e Eudóxia e sempre foi a filha favorita do milionário. Por isso, o pai não poupou esforços nem dinheiro para preparar o melhor casamento possível para a filhinha querida. Um dia antes do casório, porém, Doutor Camarinha, o ginecologista de Glorinha e amigo da família Maranhão há muitos anos, aparece no escritório de Sabino. Ele está ali para revelar algo bombástico. Na hora, o pai de Glorinha imagina o pior: a filha não seria mais virgem e, ainda por cima, estaria grávida. De quem seria o filho, do noivo ou de outro homem? Os pensamentos de Sabino viajam loucamente. Para surpresa do empresário, a notícia não estava diretamente relacionada à sexualidade da noiva e sim ao do noivo. O Doutor Camarinha diz ter pegado Teófilo, o futuro marido de Glorinha, beijando a boca de José Honório, seu enfermeiro, em uma sala de seu consultório. Indignado com o comportamento dos rapazes, o médico se sentiu na obrigação de relatar o episódio para seu amigo. Começa, assim, o drama de Sabino Uchoa Maranhão. O que ele deve fazer: avisar a filha sobre a homossexualidade de Teófilo e cancelar o casamento, provocando um grande escândalo na cidade, ou não avisar Glorinha e deixar o casamento ser efetuado, algo que pode ameaçar a felicidade futura de sua caçulinha? Indeciso, Sabino vai procurar Monsenhor, o padre responsável por realizar a cerimônia religiosa no dia seguinte. Monsenhor também é um velho conhecido da família Maranhão. Diante do padre, Sabino não consegue revelar o que o angustia. Para piorar a situação, as horas precedentes ao casamento de Glorinha e Teófilo são marcadas por novas confusões. As outras três filhas de Sabino vão se lançar contra o pai, inconformadas com o tratamento privilegiado oferecido à irmã caçula. Glorinha vai revelar eventos constrangedores do seu passado, cometidos ao lado de Antônio Carlos, o filho falecido de Doutor Camarinha. E Sabino, angustiado com a indefinição do que fazer, vai convidar Noêmia, sua secretária, para uma tarde de sexo. Dessa maneira, o dia de todas as personagens do romance fica de pernas para o ar, em uma grande maluquice trágico-cômica. Ou seja, a história é digna dos melhores dramas produzidos por Nelson Rodrigues. “O Casamento” tem pouco mais de 270 páginas e está dividido em 28 capítulos. Gostei tanto de sua história que comecei a leitura no sábado à tarde e a concluí no início da madrugada de domingo. Acabei lendo, portanto, o romance quase que de cabo a rabo em um único dia. O primeiro aspecto que chama a atenção desta narrativa é o teor moralista do seu texto. As personagens são normalmente caricatas, o que torna a história engraçada. O bom humor está no paradoxo entre os valores sociais conservadores dos cariocas em público e o comportamento liberal das pessoas no âmbito privado. Se o homossexualismo, a infidelidade conjugal, o sexo antes do casamento, o ódio a integrantes da família e a violência, por exemplo, são encarados como imoralidades no discurso, na prática eles estão disseminados em quase todas as residências. E quando alguém não fez algo assim, na certa tem vontade de fazer. Por isso, temos estupros, chantagens, ménage à trois, orgias, incestos e sexo por interesse em doses cavalares. Ao ler Nelson Rodrigues esteja preparado para mergulhar no amplo universo do erotismo e da pornografia. Se a narrativa possui muitas críticas moralizantes, ela também expõe, indiretamente, as paranoias de uma sociedade extremamente preconceituosa. O machismo, a homofobia, a xenofobia e o preconceito social são os mais evidentes. Outro elemento muito forte no texto de “O Casamento” é a dicotomia entre a linguagem popular e a extravagante. Ora temos palavras coloquiais (por exemplo, “pau d´água” para designar um bêbado), ora temos termos mais elaborados (por exemplo, “pederasta” para se referir a um homossexual). Essa mistura, uma marca de Nelson Rodrigues, traz graça e leveza à narrativa, apesar do teor dramático presente nos relatos. Nunca o texto do autor parece pedante ou configura-se uma linguagem neutra. Tudo tem um sentido e um significado de ser. Mesmo falando sobre as infinitas indecências dos seus conterrâneos, curiosamente, o autor quase nunca escreve palavrões. Gostei também da construção dos diálogos. Eles são vivos e carregam na oralidade, o que os deixa muito reais. Não à toa, o escritor tenha vindo do teatro. Por falar em humor, a graça feita por Nelson Rodrigues é normalmente do tipo humor negro. Ele valoriza os momentos mais sórdidos/macabros de suas personagens. O leitor fica envergonhado por rir de situações tão delicadas. O riso é uma mistura de nervosismo e de incompreensão (Como alguém pôde pensar em algo tão bizarro?). Por exemplo, um rapaz gay cresceu revoltado com os espancamentos frequentes recebidos, desde a infância, do pai homofóbico. Depois que o pai sofreu um acidente e ficou paralítico em uma cadeira de rodas, o moço decide se vingar. Assim, chama um negão para transar com ele em sua casa. A dupla faz isso na frente do pai paralisado. Há também o caso da mocinha que perde a virgindade em uma orgia. Durante o ato sexual, o parceiro da jovem fica discutindo com os outros integrantes da casa se já é hora de ir embora ou se ele pode ficar mais um pouquinho. São tantas as maluquices do enredo que é preciso o leitor comprar a ideia do escritor. Se ele não fizer isso, o romance corre o risco de parecer inverossímil e profundamente chato. Por fim, temos em “O Casamento” uma magistral mistura entre passado e presente. A narrativa é inteiramente construída pela união entre acontecimentos atuais e antigos. Os dois caminham lado a lado o tempo inteiro. Em meio a uma cena do presente, o narrador do tipo onisciente mergulha na mente das personagens e consegue, através dos pensamentos e das lembranças delas, voltar às situações de anos atrás. Esse recurso propicia mais ação e dramaticidade à história. Se esse recurso não chega a ser uma novidade da literatura, ao menos Nelson Rodrigues utiliza essa aglutinação temporal de maneira sublime, como poucos escritores na ficção. Adorei este livro. Achei sua história inteligente, divertida e muito bem amarrada. O estilo de escrita de Nelson Rodrigues contribui para a riqueza da narrativa e para a potencialização do drama. A exposição de um pensamento profundamente conservador e preconceituoso também é, de certa forma, salutar. Apesar de não concordar com a visão machista, homofóbica, racista e elitista das personagens do livro (o Doutor Camarinha é talvez o melhor retrato disso), acho interessante termos o registro dessas crenças pouco politicamente corretas em nossa literatura. Afinal de contas, um dos papéis da literatura é de espelhar os pensamentos e as ideologias de uma época. E nesse sentido, os anos de 1960 foram um dos momentos de maior intransigência político-social da história do nosso país. Não à toa, essa foi a década do Golpe de 1964. E imaginar que há quem sinta saudades desse tempo e queira reviver a vida daqueles anos... Para quem vibra com o retorno do conservadorismo na sociedade brasileira nos últimos anos, ler Nelson Rodrigues poderá ajudar a compreender os efeitos nefastos dessa tendência e dos preconceitos por ela trazidos. Nesse caso, “O Casamento” pode ser visto como uma obra cada vez mais atual, o retrato de um Brasil retrógrado, pseudo moralista e muito reprimido sexualmente. Se a ministra Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, ler este livro, na certa irá querer proibi-lo no dia seguinte. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NelsonRodrigues #LiteraturaBrasileira #Romance #Drama
- Livros: O Efeito Urano – O quinto romance de Fernanda Young
Admito que antes de ler “O Efeito Urano” (Rocco), não conhecia nada da literatura de Fernanda Young. A imagem que tinha da escritora fluminense estava mais associada à figura polêmica da apresentadora do programa “Saia Justa”, do canal a cabo GNT, e ao trabalho dela como roteirista de programas de TV, como os seriados “Os Normais e “Minha Nada Mole Vida”. Com o lançamento, no ano passado, de “Pos-F” (LeYa), o décimo quarto livro (e a primeira não ficção) de Young, achei que já havia passado da hora de conhecer seu trabalho literário. Este post que faço no Blog Bonas Histórias hoje é uma mea-culpa pela minha ignorância e uma retratação pública pela minha demora em ler uma das vozes mais controversas da atual literatura nacional. Minha escolha por “O Efeito Urano” se deu porque esta obra integrou uma interessante coleção chamada de “Cinco Dedos de Prosa”, publicada pela Editora Objetiva na primeira metade dos anos de 2000. A proposta da série literária era lançar cinco livros de cinco escritores diferentes. Cada um deles ficaria responsável por escrever uma narrativa que falasse de um dedo da mão humana (daí os “Cinco Dedos de Prosa”!). Assim, Carlos Heitor Cony produziu “O Indigitado” (Objetiva), história de um homem que nasceu sem o dedo indicador. Mário Prata, por sua vez, escreveu “Buscando o Seu Mindinho” (Objetiva), uma coletânea de contos sobre o dedo mínimo. Luís Fernando Veríssimo publicou “O Opositor” sobre o polegar. Manuel Carlos deveria escrever um romance sobre o dedo anular (algo que a editora está aguardando até hoje...). E coube a Fernanda Young, a única mulher do grupo, a tarefa de escrever uma trama sobre o dedo médio. O resultado é “O Efeito Urano”, o quinto romance da carreira da escritora fluminense. Foi Fernanda quem escolheu o dedo que abordaria em sua história. A ideia de falar do dedo médio veio por causa da conotação sexual que ele expressa em várias culturas. O livro foi publicado inicialmente, em 2001, pela Objetiva. Nesta época, Fernanda Young tinha 31 anos. “O Efeito Urano” foi um grande sucesso comercial. Em menos de três dias, a primeira edição da obra se esgotou nas livrarias. Enfim, a autora vivia uma fase de best-seller, sendo reconhecida e valorizada não apenas como roteirista de TV, mas também como escritora. Apesar de seus livros receberem boas críticas, eles jamais tinham conseguido chegar perto da lista dos mais vendidos. Com “O Efeito Urano”, essa lógica se inverteu. O elogio da crítica e a aclamação de um público maior e mais diversificado passaram a caminhar juntos. Em 2010, ou seja, nove anos depois do lançamento deste título pela coleção “Cinco Dedos de Prosa”, a editora Rocco resolveu publicar uma nova edição do quinto romance de Young. Assim, “O Efeito Urano” voltou as prateleiras das livrarias nacionais. A história de “O Efeito Urano” se passa em São Paulo. A trama é narrada ora em primeira pessoa (pela protagonista) ora em terceira pessoa (por um narrador misterioso que será revelado somente no final do livro). As duas narrações caminham entrelaçadas, descrevendo as mesmas situações, porém com pontos de vistas distintos (ou melhor, complementares). A obra aborda o drama de Cristiana, uma jornalista freelancer que está próxima de virar uma trintona. Casada com Guido, um psicanalista bem-sucedido, Cristiana tem uma vida confortável e feliz. Magra, bonita, elegante, divertida e inteligente, ela é uma esposa fiel que ama o marido. A vida de Cristiana sofre uma grande guinada quando um curioso e malsucedido evento cósmico ocorre entre os planetas de Urano e Saturno (daí o nome do livro). Os acontecimentos no confim do sistema solar acabam influenciando diretamente o comportamento da moça. Dessa maneira, ela é levada a cometer loucuras que fogem da lógica que sua rotina pragmática seguia até então. Neste período tumultuado do seu horóscopo, Cristiana conhece Helena, uma dondoca gorda, feia, sem estilo e um tanto chata. Separada de um rico industrial e sem filhos, Helena passa o dia sem nada o que fazer. Assim, aproveita para viajar para o exterior várias vezes ao ano, gastando um pouco a fortuna recebida do ex-marido. Ela também mergulha no alcoolismo e engata um relacionamento amoroso atrás do outro. Todos os parceiros sexuais de Helena, após o casamento, são integrantes do sexo feminino. Ela não esconde de ninguém o fato de ser lésbica e de gostar de variar constantemente de parceira. Mesmo enxergando as várias diferenças de personalidade entre elas, Cristiana faz amizade com Helena. Pouco tempo depois, a jornalista, surpreendentemente, acaba se apaixonando pela socialite. Assim, as duas mulheres começam um tórrido romance. Esta é a primeira experiência homossexual de Cristiana. Até então, ela nunca tinha sentido desejo nenhum por outra mulher, fato que a pega de surpresa. De tão apaixonada que fica por Helena, Cristiana se atira no romance de cabeça, esquecendo-se do seu trabalho, do marido e dos amigos. Não existe, a partir daí, mais nada no mundo para ela a não ser a majestosa amante. As duas caem nas noitadas juntas, compartilhando os intermináveis copos de bebidas alcoólicas e a cama. Não será novidade para ninguém a constatação de que, à medida que as páginas do livro evoluem, o casamento de Cristiana e Guido irá balançar. O curioso é que Helena parece não gostar tanto assim da sua nova parceira, desprezando e ignorando a bela jornalista. Angustiada com as brigas com o marido, que ainda a ama e que ela também ama, e com o comportamento frio da amante, Cristiana se lança em uma amalucada crise de identidade. O que fazer? Com quem ficar? Como agir em uma situação tão contraditória? Qual o problema de amar uma mulher tão apaixonadamente? “O Efeito Urano” é um ótimo livro. Ele possui 174 páginas e não tem a divisão tradicional de capítulos. A proposta de Fernanda Young é narrar os dramas de sua protagonista em um texto corrido, como se a obra fosse um desabafo longo e ininterrupto dessa personagem. A única quebra que o texto tem é a inserção de uma narração em terceira pessoa (que, mais tarde, descobriremos ser um texto em primeira pessoa de um narrador inusitado e onisciente). Esse recurso (narração dupla e entrecortada) é espetacular e torna o livro ainda mais interessante. De certa maneira, o estilo de “O Efeito Urano” se assemelha ao dos romances “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), de Clarice Lispector, e “Os Cus de Judas” (Alfaguara), do português António Lobo Antunes. Ou seja, para apreciar este livro de Fernanda Young, é necessário o leitor estar minimamente habituado ao mergulho nos devaneios da protagonista-narradora, que conta destrambelhadamente seus dramas sem uma ordem temporal e linear (algo valorizado pela literatura Pós-Moderna). A construção da história é um processo que o leitor irá montar pouco a pouco e por conta própria, enquanto avança nas páginas aparentemente sem sentido da obra. Eu adorei tanto a proposta de Fernanda Young quanto de sua execução. Contudo, sei que essa escolha narrativa poderá desagradar os leitores mais tradicionais, ansiosos por encontrar, em “O Efeito Urano”, uma estrutura mais didática e quadrada. O texto e a trama misturam a dureza do relato de Cristiana, uma mulher à beira da loucura, com o jeito escrachado de Young. A escritora não tem receio de colocar a mão nas feridas e falar o que pensa, independentemente do que os outros vão achar dela. De certa forma, a autora transfere essa sua característica (evidente nas entrevistas concedidas e nos programas que fazia no GNT) para sua protagonista-narradora. Assim, mergulhamos nas experiências sexuais de Cristiana, o que confere muito erotismo ao romance, e nas suas angustias mais íntimas, fato que torna a obra um thriller psicológico. O livro também tem boas doses de humor (evidentemente, humor do tipo sarcástico, humor negro) e apresenta muita intertextualidade cultural e literária. Essas são marcas da ficção de Joung. Em meio à história trágica que a narradora relata aos leitores, vemos pitadas e sacadas bem-humoradas. A relação dos acontecimentos nos planetas distantes com a ruína da vida da personagem principal na Terra e a revelação do narrador misterioso são as provas mais concretas disso. Impossível não rir do que o texto deste romance nos apresenta. Além disso, como uma mulher culta e antenada, Cristiana está o tempo todo fazendo referências a elementos da cultura pop, que permeiam o seu dia a dia. Em uma passagem curiosa, por exemplo, ela chega a citar de forma negativa a própria escritora que a concebeu. Hilário! Fernanda Young, para a protagonista de “O Efeito Urano”, é uma escritora feia. Incrível essa brincadeira narrativo-intertextual. O melhor do livro está na sua parte final. Isso não quer dizer que as partes anteriores não sejam boas. Elas são. O que quero salientar aqui é que o desenlace é espetacular. As revelações deixadas para o desfecho são realmente surpreendentes. Em uma tacada genial, Fernanda Young insere um novo personagem na trama (o tal narrador secreto), que acaba interferindo diretamente nos acontecimentos. A história que já era boa ficou maravilhosa com esse complemento. Não sei se o conjunto de obras literárias de Fernanda Young é tão bom quanto “O Efeito Urano”. Descobrir isso é a minha lição de casa para os próximos meses. Porém, pela amostra que tive com este romance, tudo indica que temos aqui uma escritora de mão cheia, capaz de oferecer uma ficção corajosa, inteligente e recheadas de surpresas para os leitores que procuram novidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Músicas: O Que é Que a Baiana Tem? – O primeiro sucesso de Dorival Caymmi
Dorival Caymmi foi um dos maiores compositores da história da música popular brasileira. “João Valentão”, “Marina” e “Samba da Minha Terra” (esta última é uma das minhas músicas favoritas!) são obras-primas criadas pelo músico baiano. Caymmi, quase sempre, buscava inspiração entre os seus conterrâneos e em aspectos culturais de sua terra natal. Ninguém cantou mais e melhor a Bahia do que Dorival. Mesmo morando, a partir de abril de 1938, no Rio de Janeiro, ele nunca se esqueceu de suas origens e de suas raízes. Esses elementos foram a matéria-prima para suas criações musicais até o fim de sua vida. Muito possivelmente, “Marina” e “João Valentão” sejam as melhores canções, tecnicamente falando, de Dorival Caymmi. Elas foram criadas, respectivamente, na segunda metade da década de 1940 e na segunda metade da década de 1950. Esse foi o período de maturidade artística do músico, o que explica o desenvolvimento de seus melhores trabalhos. Contudo, a canção de Caymmi mais lembrada, até hoje, pela maioria dos brasileiros é uma música do comecinho de sua carreira. Aposto que você a conhece. Ou você vai me dizer que nunca ouviu “O Que é Que a Baiana Tem?”, hein? “O Que é Que a Baiana Tem?” foi escrita e musicalizada em 1938. Nesta época, Dorival Caymmi estava morando há pouco no Rio de Janeiro. Com 23 anos, ele deixara Salvador, onde já trabalhava como músico, e chegava ao então Distrito Federal para alavancar sua carreira em cenário nacional. No Rio, conseguiu se apresentar na Rádio Tupi. Lá, cantou a recém-composta “O Que é Que a Baiana Tem?”. A apresentação despretensiosa foi ouvida por Braguinha e por Henrique Foréis Domingues, mais conhecido como Almirante. A dupla, que procurava uma canção para Carmen Miranda gravar no Carnaval do ano seguinte, adorou na hora a criação de Caymmi. Dessa maneira, Braguinha e Almirante fizeram a aproximação do jovem baiano com a famosa cantora. Esta música de Caymmi integrou a trilha sonora do filme “Banana da Terra” (1939), protagonizado por Carmen Miranda. Lançado em fevereiro de 1939, o filme rapidamente se tornou um grande sucesso no país. Na virada da década de 1930 para os anos de 1940, o cinema musical vivia seu auge no Brasil e no mundo todo. Afinal de contas, a única oportunidade que o grande público tinha para assistir às interpretações de seus cantores favoritos das rádios era nas telonas (não havia TV nesta época). Ainda em dezembro daquele ano, Carmen Miranda gravou, nos Estados Unidos, “O Que é Que a Baiana Tem?” em disco. Era o início da trajetória da Pequena Notável em terras norte-americanas. A parceria entre Dorival Caymmi e Carmen Miranda mudaria a vida de ambos. Ele, um novato, seria considerado pela crítica um dos compositores brasileiros de maior potencial criativo. O primeiro disco de Caymmi não demorou para sair. Aproveitando-se do sucesso da gravação de “O Que é Que a Baiana Tem?” por Carmen Miranda, ele lançou seu disco de estreia já em 1939. A própria cantora prestigiou o músico baiano neste disco. Ela fez um dueto com ele exatamente na música mais conhecida de ambos. Por sua vez, Carmen Miranda, até então uma artista de nível nacional, levantaria voos mais altos, indo para os Estados Unidos. Não por acaso, a música que Carmen Miranda se apresentou para os norte-americanos foi “O Que é Que a Baiana Tem?”. Veja a letra desta canção: “O Que é Que a Baiana Tem?” (1939) - Dorival Caymmi O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Tem torso de seda tem Tem! Tem brinco de ouro tem Tem! Corrente de ouro tem Tem! Tem pano da Costa tem Tem! Tem bata rendada tem Tem! Pulseira de ouro tem Tem! E tem saia engomada tem Tem! Tem sandália enfeitada tem Tem! E tem graça como ninguém! O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Como ela requebra bem! O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Quando você se requebrar Caia por cima de mim Caia por cima de mim Caia por cima de mim O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Mas o que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Tem torso de seda tem Tem? Tem brinco de ouro tem Ah! Corrente de ouro tem Que bom! Tem pano da Costa tem Tem? Tem bata rendada tem E que mais? Pulseira de ouro tem Tem? Tem saia engomada tem Tem? Sandália enfeitada tem Só vai no Bonfim quem tem... O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Só vai no Bonfim quem tem... O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Um rosário de ouro, uma bolota assim Ai, quem não tem balangandãs Não vai no Bonfim Ôi, quem não tem balangandãs Não vai no Bonfim Ôi, não vai no Bonfim E, agora, ouça e veja a interpretação de Carmen Miranda. Esta cena foi extraída do filme “Banana da Terra”. A qualidade ruim do vídeo deve-se ao fato de ele ser original: A letra de “O Que é Que a Baiana Tem” é uma descrição objetiva da vestimenta de uma baiana tradicional. O compositor parece, através da sua música, querer explicar para um ouvinte leigo como as baianas se vestem nas ocasiões especiais. A letra da música adquire também um tom de conversa. Com perguntas e respostas do começo ao fim, a canção ganha uma informalidade interessante. É legal notar na roupa e nos acessórios usados por Carmen Miranda durante as interpretações desta música. Ela se vestia de baiana, conforme a letra de Caymmi dizia. A cantora dançava e cantava fazendo menções aos seus apetrechos (turbante, xale, balangandãs, etc.). Assim, estava sendo criada despretensiosamente uma das marcas de Carmen Miranda: suas roupas espalhafatosas e seus acessórios mirabolantes. Alguns anos mais tarde, essa seria a imagem da cantora não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos. Já a melodia de “O Que é Que a Baiana Tem” é muito simples. O ritmo e a harmonia da canção de Caymmi têm como inspiração os sambas de roda. Por isso, o uso de apenas dois acordes. Não à toa, esta música é daquele tipo que fica na cabeça do ouvinte por um bom tempo. “O Que é Que a Baiana Tem” está completando, em 2019, 80 anos de seu lançamento. Muito legal conhecer a história desta grande composição brasileira. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #DorivalCaymmi #CarmenMiranda
- Livros: Ratos e Homens – A novela engajada de John Steinbeck
Em 1962, seis anos antes de falecer, John Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Era o coroamento definitivo de uma carreira bem-sucedida como escritor, iniciada no finalzinho da década de 1920. O autor norte-americano e sua ficção foram profundamente influenciados pela Grande Depressão, também conhecida como Crise de 1929, que abalou os alicerces da economia dos Estados Unidos e levou milhões de pessoas à pobreza. Elogiado pela crítica e adorado pelo público leitor, John Steinbeck produziu uma literatura engajada socialmente, com um olhar realista voltado para as camadas mais desfavorecidas da população. Apesar de mudar algumas vezes de estilo ao longo da carreira, em nenhum momento o escritor, nascido na Califórnia, em 1902, deixou de retratar os trabalhadores pobres, os miseráveis e as pessoas que foram jogadas no limbo social. As duas obras-primas de John Steinbeck são “As Vinhas da Ira” (Record), de 1939, sobre os agricultores de Oklahoma explorados pelos patrões (o romance ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura), e “A Leste do Éden” (Record), de 1952, drama de duas famílias pobres do Vale do Salinas, na Califórnia. As histórias dos dois livros foram adaptadas, depois, para o cinema e são consideradas atualmente clássicos da literatura norte-americana. Contudo, Steinbeck possui outras duas publicações muito conhecidas e reverenciadas pela crítica e pelo público. São elas: “A Rua das Ilusões Perdidas” (BestBolso) e ”Ratos e Homens” (L&PM Pocket). A primeira novela, de 1945, nós já comentamos aqui no Blog Bonas Histórias em janeiro de 2016. Agora, chegou a vez de analisarmos a segunda. Publicado em 1937, “Ratos e Homens” representou a consolidação da carreira literária de John Steinbeck. Depois do lançamento de quatro romances que não tiveram grande repercussão, o norte-americano fez grande sucesso com “Boêmios Errantes” (Record), em 1935. A segurança financeira e os elogios do mercado editorial frutos desse romance encheram o autor de confiança. Assim, “Ratos e Homens” veio, dois anos depois, para reafirmar o caminho trilhado e mostrar que “Boêmios Errantes” não fora sorte de principiante. O êxito de “Ratos e Homens” foi maior ainda e conferiu uma visibilidade à literatura de Steinbeck até então inédita. Com “As Vinhas da Ira”, dois anos depois, o autor californiano atingiu, no final da década de 1930, o status de um dos principais escritores de ficção dos Estados Unidos de sua geração, posto que ele nunca mais deixaria de ocupar. A história de “Ratos e Homens” foi depois levada inúmeras vezes para o cinema, para a televisão e para o teatro. Na época do seu lançamento, a novela teve uma receptividade contraditória. Por um lado, recebeu muitos elogios da crítica, o que catapultou a carreira de Steinbeck para níveis até então não atingidos. A obra foi citada de maneira muito elogiosa pelos grandes veículos de comunicação do país. Por outro lado, várias cidades mais conservadoras dos Estados Unidos acabaram banindo o livro de suas bibliotecas públicas por considerá-lo ofensivo aos bons costumes. Afinal de contas, pensavam, onde já se viu fazer apologia à violência e ao assassinato? Para agravar o quadro, muita gente considerava que a narrativa usava palavras vulgares, era contrária ao espírito capitalista (algo que está no cerne da cultura norte-americana) e continha insultos racistas. Dessa maneira, além da lista dos mais vendidos do país, a obra também passou a ocupar a lista das obras censuradas pelos órgãos públicos. A trama de “Ratos e Homens” é ambientada em uma região rural próxima à cidade californiana de Soledad. A história se passa durante a Grande Depressão, época onde os empregos e a circulação de dinheiro eram artigos raros. Dois homens pobres, George Milton e Lennie Small, se apresentam para trabalhar em uma fazenda local. Os dois são amigos inseparáveis há longa data. Lennie é um rapaz alto, gordo e extremamente forte. Contudo, ele tem problemas mentais, o que o faz se comportar de maneira infantil. Psicologicamente, ele não passa de uma criança de oito anos de idade (é ingênuo e não tem qualquer malícia, por exemplo), apesar do porte de homenzarrão. Essas características o fazem arranjar involuntariamente várias confusões por onde passa. George, por sua vez, é magro, falante e bastante inteligente. Ele acaba agindo como um irmão mais velho de Lennie, tirando o grandão dos inúmeros problemas em que se mete. Além da amizade, o que une os dois homens é um sonho em comum. Ambos desejam viver em uma terra própria, onde poderão plantar e criar animais, sem precisar contar com a boa vontade dos patrões. Para conseguir dinheiro para comprar seu sítio, George e Lennie comprometem-se a economizar toda grana possível. Só assim, acreditam, poderão adquirir sua propriedade. Porém, a dupla ainda não possui nenhuma moeda no bolso. Indiferentes a inviabilidade do plano, eles permanecem sonhando todas as noites com o dia em que terão sua própria terra. Quando a novela começa, os dois protagonistas estão fugindo da última confusão armada por Lennie. Na fazenda em que a dupla tinha trabalhado anteriormente, Lennie fora acusado injustamente de estupro por uma moça. Ela achou que o rapaz alto e forte estava tentando arrancar seu vestido, enquanto Lennie só queria mexer no tecido de alta qualidade da roupa da moça. Diante do salseiro provocado na fazenda, não restou outra solução para George do que fugir com o amigo. Para sorte deles, conseguiram um novo emprego sem muito esforço longe dali. Assim, começa “Ratos e Homens”, com George Milton e Lennie Small se apresentando para trabalhar em uma fazenda próxima à Soledad. O plano da dupla é se manter longe das confusões, enquanto realiza seu trabalho honesto nas plantações. Para isso, George Milton pede para Lennie não abrir a boca e não conversar com ninguém. Só assim, poderão ficar alguns meses naquele trabalho e conseguir o dinheiro necessário para a compra do seu terreno particular, o sonho secreto que alimentam há tanto tempo. Entretanto, os planos da dupla não saem como o esperado. Além de Lennie se meter em novas (e maiores) confusões, ele acaba revelando sem querer para os demais trabalhadores da fazenda o desejo de ter uma propriedade. Como consequência, outros homens pobres que não têm onde cair mortos acabam se convidando para ir com a dupla de amigos para o lugar idealizado. A proposta que antes era apenas de George e Lennie torna-se, de repente, um empreendimento coletivo. O sonho começa a ganhar concretude, apesar das inúmeras dificuldades para ser viabilizado. “Ratos e Homens” é um livro curtinho. Ele possui menos de 150 páginas e está dividido em seis capítulos. É possível lê-lo inteiro em aproximadamente duas horas. Foi o que fiz no último domingo à tarde. A primeira característica da obra que chama a atenção do leitor é a oralidade dos diálogos. John Steinbeck escreve como as pessoas pobres da Califórnia efetivamente falavam no dia a dia. Ele segue, portanto, a lógica da realidade e não da gramática normativa no momento de fazer o registro das conversas. Se no início esse recurso parece meio depreciativo (mostrando o quão incultas são as personagens), depois acabamos seduzidos pela maneira realista de como o texto foi produzido. Há uma enorme diferença quando o narrador escreve seu relato (temos aqui um narrador em terceira pessoa do tipo onisciente, que prefere se manter oculto) e quando as pessoas da história falam. No primeiro caso, há o respeito às regras normativas da língua (o narrador evidentemente é alguém letrado). No segundo não. Esse acentuado contraste do texto (narração versus diálogos) dá concretude à trama e aproxima o leitor das personagens (uma das características da literatura de Steinbeck). Outro ponto elogiável de “Ratos e Homens” é a construção de personagens carismáticas. Isso ocorre em poucas linhas com os protagonistas. Rapidamente, o leitor acompanha com entusiasmo as aventuras de George Milton e Lennie Small em seus novos trabalhos. Os dois homens têm bons corações e propostos nobres. Porém, diante do cenário adverso em que estão inseridos, eles se tornam vítimas das engrenagens sociais, que moem sonhos grandiosos e anseios genuínos de homens e mulheres de bem. Nesse sentido, podemos fazer uma analogia com o título da obra. George e Lennie seriam efetivamente homens com a capacidade de construir o mundo que ansiavam ou seriam como ratos em uma caixa, sofrendo os desmandos de um dono poderoso? Não por acaso, a palavra dos animais vem primeiro no nome do livro do que o termo que designa os seres humanos. A construção das personagens secundárias também foi muito bem-feita, o que alimenta a qualidade e a quantidade de conflitos da narrativa. A novela não tem muitos coadjuvantes (são cerca de dez), mas cada um deles tem uma função essencial no enredo e características marcantes. O leitor consegue visualizar muito bem cada uma das personagens retratadas. No subtexto deste livro, podemos encontrar: a descrição do racismo nos Estados Unidos da década de 1930, um problema grave que teria consequências político-sociais dali algum tempo em escala nacional; a pobreza generalizada, o que levava as pessoas para uma degradação físico e moral; os preconceitos sociais, expondo as divisões rígidas da sociedade norte-americana daquela época entre ricos e pobres; e a miséria do país, em uma de suas maiores crises econômicas. Ou seja, como um retrato histórico, “Ratos e Homens” é uma novela espetacular, levando o leitor para um período de tempo conturbado da vida norte-americana. Ninguém foi melhor do que John Steinbeck para fazer críticas sociais e para apresentar a realidade da camada pobre do seu país no período da Grande Depressão. “Ratos e Homens” é um exemplo concreto dessa literatura reveladora e engajada. E George Milton e Lennie Small talvez sejam as personagens mais carismáticas de Steinbeck. A maneira como a dupla está presa ao seu drama, por mais que tente fugir da realidade difícil e por mais que sonhe com alternativas e dias melhores, emociona os leitores. Outro aspecto da narrativa que chamou minha atenção foi a maneira como o autor começa cada um dos seus capítulos. Steinbeck optou por descrever o cenário como estratégia de iniciar/retomar sua história (ao invés de jogar a ação das personagens diretamente). Sinceramente, achei essa descrição de cenários um recurso um tanto antiquado (até mesmo para um escritor da década de 1930). Esse é o único ponto destoante da novela, que possui uma excelente fluidez narrativa. Sorte que o autor deixou essas descrições para os primeiros parágrafos dos capítulos, não aparecendo com tanta intensidade depois. “Ratos e Homens” é um livro memorável, com um drama sensível e forte, protagonistas riquíssimos e uma mensagem extremamente inteligente. Em comparação à trama de “A Rua das Ilusões Perdidas”, gostei mais de “Ratos e Homens”. A história, os conflitos e as personagens desta novela são mais comoventes. Se “A Rua das Ilusões Perdidas” é uma boa obra literária, “Ratos e Homens”, por sua vez, é uma publicação excelente, uma verdadeira obra-prima. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnSteinbeck #Novela #LiteraturaNorteAmericana
















