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  • Livros: A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar - Dicas de Nelson de Oliveira

    Ontem, li "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar" (Ateliê Editorial), livro de Nelson de Oliveira. Esta obra é direciona aos jovens escritores que vão participar ou já participam de oficinas literárias pelo país. A publicação também é destinada a quem deseja tirar as dúvidas mais básicas de como escrever, o que ler e como proceder para ter suas produções literárias publicadas de maneira atraente e profissional. Ou seja, temos aqui um breve manual voltado à orientação de poetas e prosadores aprendizes, amadores e/ou novatos. Segundo Nelson de Oliveira, doutor em Letras pela USP, autor experiente com mais de vinte livros publicados e professor há quase duas décadas de oficinas de escrita criativa, os escritores de primeira viagem precisam aprender, antes de qualquer coisa, a melhorar sua produção textual. Uma vez compreendida a dinâmica e a estrutura da literatura, eles precisam se inserir adequadamente no mercado editorial. Só assim vão conseguir ingressar na carreira literária e ter seus livros publicados com a qualidade e o destaque que almejam. Para o autor de "A Oficina do Escritor", escrever bem é um dom. A habilidade da escrita literária é um talento inato do artista das letras. Ou você já nasce com essa capacidade ou jamais poderá produzir ficção ou poesia de qualidade. Porém, escrever mal indica falta de preparo ou mesmo falta de interesse do escritor em se desenvolver. Infelizmente, muita gente comete esse equívoco no momento em que está começando no ofício. Assim, para Nelson de Oliveira é possível ensinar alguém a não escrever mal (mas é impossível ensinar alguém a escrever bem). Essa ideia (ensinar a não escrever mal) é a proposta deste livro. Através de algumas técnicas comprovadamente consagradas em oficinas literárias pelo mundo todo e de algumas dicas valiosas do autor, os jovens poetas e os ficcionistas de primeira viagem conseguem desenvolver as habilidades necessárias para dar o pontapé em suas carreiras literárias. Em um trecho da quarta capa, Fernando Seixas, poeta e professor universitário que escreveu o prefácio de "A Oficina do Escritor" (inserida na orelha do livro), diz: "A função maior deste livro é combater o clichê, o estereótipo, o lugar-comum. É ajudar os novos poetas e prosadores de todas as idades, donos de muito material bruto, a não escrever mal. É facilitar a alquimia dessa ampla matéria-prima que almeja ser obra-prima". Publicado em 2008, "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar" reúne onze ensaios de Nelson de Oliveira sobre a criação literária. O livro é curto e possui pouco mais de 150 páginas. Li a obra inteira em aproximadamente três horas e meia na tarde desse sábado. Este é aquele título que dá para ser lido em uma batidinha só ou em uma única parte do dia. Dos onze capítulos do livro, "Compulsão à Criação" é o primeiro ensaio. Ele trata da overdose de publicações de novos autores nos dias de hoje. Assim, a impressão que o mercado tem é que muitas vezes há mais gente lançando novos títulos do que lendo as obras disponíveis. "Sinais do Sinai", o capítulo mais longo do livro, aborda a pedagogia por trás das oficinas literárias. Nessa parte há também a apresentação de vários conceitos básicos tanto da prosa ficcional quanto da poesia. No meio da teoria, o autor aproveita para inserir dicas interessantes para quem está começando a escrever. Em "Tradição e Talento Individual (Ainda Hoje)", Nelson de Oliveira discute a dicotomia entre tradição e inovação nas artes escritas. Até onde os clássicos são relevantes para os autores contemporâneos? "Vidas: Modo de Brincar", quarto ensaio de "A Oficina do Escritor", apresenta algumas características dos jovens escritores do século XX, grupo intitulado por Oliveira de "Geração Zero Zero". Em "Os Dois Lados do Círculo" discute-se a importância do prosador gostar e utilizar a poesia em suas obras e do poeta apreciar e aplicar a prosa em seus trabalhos. "Literatura Feminina ou Poética Feminina" entra na polêmica sobre a relevância da categorização das obras literárias feitas pelas mulheres ou que sejam protagonizadas por personagens femininas. O sétimo ensaio se chama "Fantasmas, Fantoches, Fantasias". Nele, Nelson de Oliveira comenta o trabalho de Tzvetan Todorov, um famoso teórico da literatura, sobre a ficção fantástica. Em "Guerra de Todos Contra Todos" temos uma crônica sobre a polarização entre a alta literatura (livros clássicos e com valores estéticos reconhecidos) e a baixa literatura (obras voltadas apenas para o entretenimento sem grande valor artístico). "Carta ao Autor Inédito e Desconhecido" reúne várias dicas para o escritor novato começar com o pé direito sua nova carreira nas letras. "Decálogo do Resenhista" oferece orientações práticas para quem deseja lançar-se na tarefa de analisar obras literárias produzidas por terceiros. E, por fim, em "Demissão por Justa Causa", o último ensaio do livro, trata-se da crise que passa a crítica literária contemporânea. Para ser sincero, fiquei muito frustrado com a leitura de "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar". O livro não é de todo ruim. Longe disso! Há partes ótimas. Seu conteúdo é interessante e rico. O seu maior problema está no abismo entre o que o autor se propôs a fazer e o que apresentou de fato. Aí a sensação de decepção toma conta dos leitores mais exigentes. Esperava encontrar dicas e orientações sobre como me comportar e como participar de forma proveitosa de oficinas literárias (afinal, li a obra com esse objetivo - vou participar das minhas primeiras oficinas em fevereiro). Porém, o que encontrei na maioria dos ensaios foi outra coisa completamente diferente. Nelson de Oliveira acaba discorrendo mais sobre temas gerais da literatura e menos do fazer ficcional. Temos, por exemplo, várias páginas dedicadas às definições do que é literatura e às diferenças entre conto, crônica, novela e romance. Apresentam-se teses de teóricos da literatura e abordam-se as crises da arte contemporânea (das vanguardas europeias até os dias hoje). Com isso, as partes das oficinas e das dicas aos jovens escritores acabam ficando em segundo plano. A impressão que tive é que o autor reuniu vários ensaios já prontos que ele tinha produzido sobre literatura ao longo da sua carreira e colocou tudo em um livro. Depois da unificação do material, alguém teve a ideia de apresentar a obra como um manual para jovens escritores participantes de oficinas literárias. Se for isso mesmo o que aconteceu, o problema deve ser computado mais na conta do editor e menos na do autor. Não gosto de publicações que prometem um conteúdo e entregam algo completamente diferente. Além disso, admito ter ficado muito incomodado com alguns recursos linguísticos utilizados por Nelson de Oliveira em seu texto. Em uma obra que pretende orientar os jovens escritores, há várias passagens com mais perguntas do que respostas. Para piorar, construções frasais começadas com "que" são muito feias. Por exemplo, "Que é realidade?", "Que sugestões são essas?" e "Que é prosa?" são usadas a torto e direito ao longo dos capítulos. Entendi que a proposta do autor era dar um tom de oralidade ao livro, mas isso não é desculpa para se esquecer do uso dos termos "o que" e "quais" ("O que é realidade?", "Quais sugestões são essas?" e "O que é prosa?"). As melhores partes de "A Oficina do Escritor" são aquelas em que Nelson de Oliveira se propõe a orientar e informar os novatos sobre a dinâmica da produção literária e do funcionamento do mercado editorial. Os ensaios "Carta ao Autor Inédito e Desconhecido", "Vidas: Modo de Brincar" e "Os Dois Lados do Circulo" são excelentes. No dia a dia, vejo muitos artistas iniciantes cometendo os mesmos erros apontados pelo autor em seu livro. Adorei ler as propostas que Oliveira dá para os jovens colegas. Nesse caso, a proposta de unir poesia e prosa é espetacular. Por isso, não deixe de ler "Sinais do Sinai", outro ótimo capítulo. Já as partes da teoria literária e da crítica da arte contemporânea não chamaram tanta a minha atenção. Como já tinha lido muitos dos textos originais comentados pelo autor (que por sinal apresenta uma ótima bibliografia no final do livro), esses capítulos foram extremamente enfadonhos para mim. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FazerLiterário #NelsondeOliveira #ProduçãoLiterária #EscritaCriativa #LiteraturaBrasileira

  • Recomendações: Retrospectiva - Melhores livros do Bonas Histórias em 2017

    Ao longo do ano de 2017, li (e reli) aproximadamente noventa livros. Sinceramente, não acho muita coisa. São quase dois títulos por semana. Para quem gosta de literatura, não me parece algo exorbitante ou uma tarefa das mais complexas. Curiosamente, quem não me conhece direito nem acompanha regularmente o Bonas Histórias pode até duvidar disso. Para calcular minhas leituras basta dar um apanhado geral nos posts antigos aqui do blog. Geralmente, eu publico as análises literárias da maioria das obras que gostei. Confesso que essa quantidade de noventa livros é um pouco superior à minha média anual (que fica normalmente entre sessenta e setenta títulos). O motivo para esse aumento no ano passado é que acumulei alguns trabalhos: os Desafios Literários do Bonas Histórias, a minha Iniciação Científica sobre o escritor Rubem Fonseca, as aulas de Teoria da Literatura do UNIS, o desenvolvimento do livro Talk Show Literário - Clássicos Brasileiros e as análises literárias aqui do blog. Todas essas atividades exigiram muitas leituras e várias releituras. Além disso, li muita coisa só por diversão. Afinal, nada melhor do que a companhia de um bom livro, né? Como consequência dessa overdose de literatura em 2017, descobri muita coisa interessante. Agora vou fazer uma rápida retrospectiva do que li (ou reli) de melhor no ano passado. Quem estiver procurando boas dicas de leitura, pode usar essa lista como guia de compras na próxima vez que visitar uma livraria. Fica a dica! Aí vai o Top 12 dos livros que mais gostei de ter lido em 2017: 12o lugar: "Doce Vingança" (Bertrand) - Nora Roberts (Estados Unidos) - 1988. Infelizmente, a única autora do Desafio Literário de 2017 que não gostei foi Nora Roberts (ela foi analisada no mês de agosto). Achei os livros da escritora norte-americana previsíveis, chatos e sem qualquer criatividade. O único que conseguiu me surpreender (um pouquinho) positivamente foi "Doce Vingança". Por isso, fiz uma forcinha e o coloquei (com muito custo, tá?) no final do Top 12. De nada, Roberts! 11o lugar: "Perdas e Ganhos" (Record) - Lya Luft (Brasil) - 2003. Apesar de ter gostado mais dos romances de Lya Luft (escritora do Desafio Literário de outubro do Bonas Histórias) do que dos seus livros de crônicas (muito rasos e repetitivos em sua maioria), "Perdas e Ganhos" é a melhor publicação da gaúcha. Nessa coletânea de crônicas, a autora consegue retratar brilhantemente os desafios da chegada da velhice e a opressão histórica sofrida pelas mulheres em nossa sociedade. Além disso, ela apresenta os conflitos de relacionamento que norteiam muitos casais. Trata-se de uma obra imperdível! 10o lugar: "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras) - Ondjaki (Angola) - 2001. O jovem escritor angolano (foco do Desafio Literário de novembro) é mestre em retratar a infância com graça, lirismo e muito bom humor. "Bom Dia, Camaradas", seu primeiro romance, certamente foi o livro mais divertido que li em 2017 (e nos últimos três anos também). Confesso ter chorado de rir com as cenas protagonizadas pelo grupo de crianças na Luanda da década de 1980. Ler Ondjaki é conhecer o que de melhor está sendo produzido hoje em dia na literatura de língua portuguesa. "Bom Dia, Camaradas" é daqueles livros que ficam em nossa memória por muito e muito tempo! 9o lugar: "A Bicicleta Azul" (BestBolso) - Régine Deforge (França) - 1981. A literatura da francesa Régine Deforges (analisada no Desafio Literário de junho) é polêmica. Seus livros longos, cheios de personagens históricas, com muita violência e sexo não agradam a todos os gostos, gerando intensos debates. Sua obra-prima é "A Bicicleta Azul". Nessa publicação, conhecemos a corajosa e libidinosa Léa Delmas, uma das grandes personagens da literatura contemporânea europeia. Essa jovem de 17 anos precisou encarar os perigosos da Segunda Guerra Mundial enquanto descobria os segredos do amor e do sexo. Um livro com muita ação e aventura (além de muito erotismo e violência). O único problema de "A Bicicleta Azul" é que ao concluí-lo você vai querer ler os outros nove livros da interminável série de Léa Delmas... 8o lugar: "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras) - José Saramago (Portugal) - 1997. Nessa poética parábola, o Nobel de Literatura de 1998 apresenta os dramas de um marinheiro sem barco que sonha em descobrir uma ilha até então desconhecida pelos homens. Loucura, perseverança, coragem e paixão são os ingredientes dessa trama. "O Conto da Ilha Desconhecida" é um pequeno (tem apenas 60 páginas) grande livro de José Saramago. Leitura fácil e prazerosa para quem gosta de boas e reflexivas parábolas. 7o lugar: "Um Certo Capitão Rodrigo" (Companhia das Letras) - Erico Veríssimo (Brasil) - 1949. "Um Certo Capitão Rodrigo" é, na verdade, o capítulo mais famoso do livro "O Continente" do gaúcho Érico Veríssimo. "O Continente", por sua vez, integra a clássica série literária "O Tempo e o Vento". O ideal é ler a série completa. Porém, quem não tem disposição para encarar as milhares de páginas dos sete livros de "O Tempo e o Vento", um bom aperitivo é se deliciar com "Um Certo Capitão Rodrigo". Esta parte da trama foi transformada em um livro independente (afinal, possui começo, meio e fim). Não há como não se apaixonar pelas aventuras de Rodrigo Cambará e pelos dramas de Bibiana Terra. Sem dúvida, esse é um dos casais mais marcantes de nossa literatura. 6o lugar: "1Q84" (Alfaguara) - Haruki Murakami (Japão) - 2009/2010. O que posso falar dessa cultuada obra de um dos principais escritores da atualidade? Para ser sucinto, digo que li o primeiro livro da série ("1Q84 - Livro 1") prometendo para mim mesmo que não leria o restante da trilogia ("1Q84 - Livro 2" e "1Q84 - Livro 3"). Afinal, não estava com tanto tempo assim. Tinha muitas coisas para ler na sequência. Porém, ao terminar a primeira obra, corri para a livraria mais perto de casa e comprei os outros dois volumes da série. Murakami é um autor que consegue nos hipnotizar. Se você ler os primeiros capítulos do livro 1, tenha certeza que irá até o final dessa incrível trilogia. 5o lugar: "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca) - Markus Zusak (Austrália) - 2005. Markus Zusak (Desafio Literário de setembro) possui um jeito de escrever em que mistura a inocência e a beleza da infância e da juventude com os dramas familiares mais sérios e tensos. Assim, seus enredos são, ao mesmo tempo, graciosos e pesados. Isso tudo aparece com mais força em "A Menina que Roubava Livros", um dos grandes best-sellers da última década. Esse é um livro imperdível para quem gosta de aventura e drama. Impossível não se emocionar quando a própria Morte narra a história de vida de uma menina que a marcou e a desafiou. 4o lugar: "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret) - Machado de Assis (Brasil) - 1881. Dizer que Machado de Assis é espetacular é um tanto óbvio. Recomendar sua leitura fora da sala de aula em pleno século XXI pode parecer fora de moda. OK. Concordo com tudo isso. Mas é inegável que "Memórias Póstumas de Brás Cubas" seja demais! Reli essa obra a pedido do professor Alex (Abraço, professor!) e continuo ficando encantando com essa leitura. Fazer o que se o livro é muito bom?! Sua entrada nessa lista foi inevitável. Juro que me esforcei para não colocá-lo na primeira posição. A quarta posição foi a pior colação que o consegui jogar. 3o lugar: "A Mulher que Escreveu a Bíblia" (PlanetaDeAgostini) - Moacyr Scliar (Brasil) - 1999. O gaúcho Moacyr Scliar tem várias obras de destaque. A minha favorita é o romance "A Mulher que Escreveu a Bíblia", prêmio Jabuti em 2000. Nessa comédia-dramática, Scliar mistura passagens e personagens históricos, elementos da religião judaica, drama feminino e muita ação. A narrativa é saborosíssima, fruto de uma fértil imaginação e de uma habilidade acima da média para se contar uma boa história. Com um texto leve, irônico e bastante ágil, o autor consegue produzir uma trama ao mesmo tempo sedutora e maliciosa, que prende a atenção de quem a lê. Impossível não se emocionar com esse livro. 2o lugar: "Norwegian Wood" (Alfaguara) - Haruki Murakami (Japão) - 1987. Após o Desafio Literário de julho, Haruki Murakami se tornou um dos meus autores favoritos. E dentro dos seus incríveis livros, o meu preferido é "Norwegian Wood". Nesse romance, o escritor japonês consegue tratar com lirismo as angústias da juventude atual. A temática principal é o amor incompleto e fragmentado, típico dos tempos modernos. Em um romance reflexivo, filosófico, autobiográfico e muito erótico, Murakami coloca o dedo na ferida ao desnudar as complicações dos relacionamentos afetivos. Em um ambiente mórbido e com personagens extremamente confusas e perturbadas, a história é o retrato de uma geração ao mesmo tempo deprimida e oprimida. Triste, mas maravilhoso! 1o lugar: "Dom Casmurro" (Ática) - Machado de Assis (Brasil) - 1899. Quando coloquei Machado de Assis para ser analisado no Desafio Literário de maio não esperava que fosse apreciar tanto a releitura de suas obras. "Dom Casmurro" foi o livro que mais gostei desse ano. "Mas você já não o tinha lido antes?", alguém pode me perguntar. "Sim", respondo. E é exatamente por isso que gostei tanto. Toda vez que leio o drama de Bentinho e Capitu, tenho uma interpretação diferente dessa história. Dessa vez, acho que a moça de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" é totalmente inocente da acusação de adultério. Esta é a força de um clássico: ela nos dá diferentes interpretações ao longo do tempo. Agora, vejo esse romance mais como um livro sobre ciúmes e do que, propriamente, sobre traição conjugal. Incrível! Quem gostou da retrospectiva literária de 2017, saiba que ao longo desse mês haverá outras no Blog Bonas Histórias. Nos dias 15, 25 e 31 de janeiro vou comentar, respectivamente, os melhores filmes, as melhores peças teatrais e as melhores exposições vistas no ano passado. Não perca! Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos três anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook. #Retrospectiva #livros

  • Livros: Golpe de Ar - A novela autobiográfica de Fabrício Corsaletti

    No último sábado, li a novela "Golpe de Ar" (Editora 34) de Fabrício Corsaletti. A sugestão de leitura foi do meu amigo Paulo Sousa, um escritor iniciante e de "mão cheia" que fez algumas oficinas literárias com o autor do livro no ano passado. Paulo me emprestou a obra na virada do ano e me disse, na ocasião, que ela era "muito interessante". Por isso, minha curiosidade em conhecê-la. Após algumas semaninhas de adiamentos (É começo de ano, ainda não entrei totalmente no ritmo!), pude, enfim, lê-la com a atenção merecida. O principal mérito de "Golpe de Ar" está em propiciar ao leitor uma viagem rápida por Buenos Aires. A trama se passa inteiramente na capital argentina e a cidade portenha é de certa maneira uma das personagens principais da narrativa. Não é à toa, portanto, a preocupação do autor em descrever rua a rua e lugar a lugar o cenário retratado. O leitor se sente realmente passeando por Buenos Aires. Como morei lá por um tempo há mais de dez anos, pude matar a saudades de "Mi Buenos Aires Querida". Fabrício Corsaletti nasceu no interior de São Paulo em 1978 e vive na capital paulista há mais de trinta anos. Formado em Letras, o escritor é poeta, prosador e letrista musical, além de atuar, desde 2010, como colunista quinzenal da revista São Paulo, encarte dominical do jornal Folha de São Paulo. Publicado em 2009, "Golpe de Ar" é o primeiro trabalho de Fabrício na prosa. Até então, ele só tinha lançado livros de poesia, uma coletânea de contos e uma obra voltada ao público infantil. Os títulos de poesia dessa época são "Movediço" (Labortexto), de 2001, "O Sobrevivente" (Hedra), de 2003, e "Estudos para o Seu Corpo" (Editora 34), de 2007. A coletânea de contos se chama "King Kong e Cervejas" (Companhia das Letras), de 2008, e o livro infanto-juvenil é o "Zoo" (Hedra), de 2005. O enredo de "Golpe de Ar" é um tanto pueril. Um rapaz paulista e solteiro de vinte e cinco anos mora sozinho há quatro meses em Buenos Aires. Ele decidiu viajar para a capital argentina porque tinha se cansado da vida na cidade de São Paulo, onde trabalhava muito durante o dia e passava as noites bebendo. Apaixonado por poesia, seu sonho era se tornar escritor. Na nova morada, ele decide não trabalhar nem estudar. Passa, assim, seus dias na maior vagabundamente. Sua meta é "aproveitar a vida ao máximo" até o dinheiro acabar. Entende-se por aproveitar a vida: abusar da bebida, exagerar na comida e fumar sem parar, além de conhecer o maior número possível de pessoas diferentes. Por essa disposição de desbravar os melhores bares, restaurantes e kioskos da cidade portenha, ele acaba conhecendo como ninguém cada pedacinho daquele lugar. Com orgulho de ser quase um nativo de Buenos Aires, o rapaz apresenta aos leitores as melhores opções à sua disposição. Quem narra a trama em primeira pessoa é o próprio protagonista. Contudo, ele conta a história para o leitor após ter retornado a São Paulo. Ou seja, o relato tem um tom saudosista de quem aproveitou ao extremo cada momento da longa viagem. O narrador opta por relatar apenas um mês da sua estadia por lá, exatamente o período que considera o mais importante da jornada. Nesses trinta dias, ele abrigou em sua casa um grupo de seis jovens universitárias brasileiras que passavam férias escolares em Buenos Aires. O clima de paquera e de tensão sexual coletiva permeia esses dias. A chegada da trupe de moças recém-saídas da adolescência é o toque final que faltava na vida idílica da personagem principal. "Golpe de Ar" possui apenas 96 páginas e é possível lê-lo em uma tacada só. Foi o que fiz na tarde do último sábado. Em aproximadamente duas horas li a obra inteira. O mais interessante do livro é a descrição detalhada de Buenos Aires. Fabrício se preocupa em especificar cada lugar visitado por suas personagens. Esse recurso pode desagradar quem gosta de ação, mas acerta em cheio quem é fã da capital portenha (como é o meu caso). A história da novela é em si muito banal: o protagonista e o grupo de meninas que ele hospeda passam os dias e, principalmente, as noites visitando bares da cidade para beber o máximo que conseguirem. Enquanto isso, todos procuram por companhias agradáveis para tornar as próximas horas mais agradáveis. De vez em quando, para quebrar o tédio, eles visitam alguns museus, parques e restaurantes (isto é, quando conseguem ficar sóbrios). Ou seja, o lema aqui é aproveitar ao máximo a vida (uma filosofia bem adolescente). Entende-se com isso: beber, comer e fumar o que vier pela frente. O grupo só não se esbalda no sexo, talvez por inexperiência ou medo. Essa é inclusive a tensão da história. O leitor fica aguardo o momento em que o protagonista irá realizar suas fantasias sexuais com as ninfetas que o cercam. Será que vai conseguir? Não vou contar o spoiler, fique tranquilo. "Golpe de Ar" é um livro autobiográfico. Fabrício Corsaletti viveu de fato alguns meses na Argentina em sua juventude. O narrador da novela é sem dúvida nenhuma o alter ego do autor. O próprio escritor reconhece que "incrementou a realidade" para construir uma trama mais interessante ao leitor. Neste sentido, ele foi bem-sucedido. Apesar da obra não possuir grande relevância literária, é legal notar a preocupação de Fabrício em construir uma trama com forte tensão psicológica. A aparente banalidade das situações e o vazio sentimental das personagens são aspectos que merecem uma atenção de quem lê a história. De certa maneira, esse narrador-protagonista de Corsaletti é parecido com os primeiros personagens de Haruki Murakami, principalmente em "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara) e "Pinball, 1973" (Alfaguara). Lendo esse livro, também me lembrei de "Comer, Rezar e Amar", best-seller de Elizabeth Gilbert. A diferença é que o narrador de Fabrício é um jovem que viaja para um único lugar à procura de prazeres mundanos, enquanto a narradora da norte-america faz um roteiro mais amplo e diversificado da sua experiência. Assim, a novela do escritor brasileiro poderia muito bem se chamar "Comer, Beber e Fumar"... Após "Golpe de Ar", Fabrício Corsaletti publicou mais cinco livros: "Esquimó" (Companhia das Letras), coletânea de poemas de 2010, "Quadras paulistanas" (Companhia das Letras), outra obra poética de 2013, "Ela me Dá Capim e Eu Zurro" (Editora 34), coletânea de crônicas de 2014, "Zoo Zureta" (Companhia das Letrinhas), uma obra infanto-juvenil de 2010, e "Zoo Zoado" (Companhia das Letrinhas), outro livro infantil de 2014. O mais premiado deles foi "Esquimó", vencedor do Prêmio Bravo!, em 2010, como melhor livro de prosa/poesia publicado no país. Quem estiver interessado em ler algo sobre o vazio existencial da juventude contemporânea com uma pegada turística (viagem rápida por Buenos Aires), "Golpe de Ar" é uma boa indicação de leitura que deixo aqui. Gostei de conhecer o estilo de Fabrício Corsaletti. Estou pensando agora em ler algo poético dele. Esperem novidades nesse sentido para os próximos meses. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FabrícioCorsaletti #Novela #Drama #LiteraturaBrasileira

  • Livros: Gentlemen - O romance noir de Klas Östergren

    No final do ano passado, deparei-me com uma promoção na livraria Leitura do Shopping Tiete Plaza. Vários bons livros estavam sendo vendidos por apenas R$ 10,00. Foi impossível sair de lá sem algumas sacolas pesadas de compras nas mãos. Na leva de títulos adquiridos estava "Gentlemen" (Record), romance noir de Klas Östergren. Aproveitando a calmaria do comecinho de janeiro, li esta obra e vou comentar minhas impressões aqui no Blog Bonas Histórias. Admito ter ficado impressionado positivamente com este livro. Em apenas dois dias devorei suas 560 páginas. "Gentlemen" é o romance mais famoso de Klas Östergren, escritor, roteirista e tradutor sueco. O autor é considerado um dos principais de sua geração e ocupa uma cadeira na Academia Sueca, instituição responsável pela escolha anual do vencedor do Nobel de Literatura. Com vários prêmios no cenário europeu, Östergren é um best-seller em seu país. Apesar de ser uma novidade mais ou menos recente nas livrarias brasileiras, "Gentlemen" é um livro antigo. Ele foi lançado na Suécia, onde se tornou de imediato um campeão de vendas, há quase quarenta anos. Sua primeira publicação é de 1980. Somente nesta década o romance foi traduzido para o português e foi editado aqui no Brasil. São, portanto, três décadas de espera. Essa demora só não foi maior do que aquela que os fãs da obra tiveram que aguardar pelo lançamento da continuação da trama. "Gangsters" (Record), o segundo livro da série, só chegou às livrarias suecas em 2005. Foi uma eternidade para quem ansiava saber os segredos dos irmãos Morgan. No Brasil, "Gangsters" foi publicado em 2011. "Gentlemen" é uma paródia contemporânea de "Salão Vermelho", romance do século XIX do sueco August Strindberg. A obra realista de Strindberg é inclusive mencionada no enredo do livro de Klas Östergren. O narrador, um jovem escritor que também se chama Klas Östergren (em uma clara referência ao próprio autor que empresta, além do seu nome, algumas passagens de sua biografia), se propõe a escrever a versão moderna de "Salão Vermelho". Assim, ele relata as aventuras banais de Henry e Leo Morgan, dois anti-heróis que vivem desiludidos na Estocolmo do final dos anos de 1970. Nesse sentido, os irmãos Morgan são parecidos a Arvid Falck, protagonista do clássico livro de Strindberg. O que chama mais a atenção do leitor em "Gentlemen" é a crítica contundente à juventude da metade do século XX. Em uma Europa ainda abalada pelas consequências da Segunda Guerra Mundial e sofrendo com os efeitos da Guerra Fria, os jovens parecem perdidos e um tanto alienados. As bebidas, as drogas e o sexo descompromissado parecem ser a escapatória ideal para uma geração desiludida com a carreira, com a economia e com a geopolítica internacional. Não é à toa que os protagonistas do romance de Östergren sejam rapazes mentirosos, trambiqueiros, sem propósitos claros de vida, desmotivados e profundamente deprimidos. Outro elemento interessantíssimo da narrativa é o apanhado histórico e cultural feito pelo autor. A trama ficcional possui uma intrínseca relação com os acontecimentos reais da política e do universo artístico das décadas de 1960 e 1970. Fatos marcantes passados no mundo e na Suécia nesse período são retratados em detalhes, o que confere um colorido especial ao romance. Por isso, temos dezenas de referência à música, ao cinema, à literatura e aos conflitos ideológicos que chacoalharam o planeta inteiro naqueles anos. É uma delícia ver nas páginas do livro uma crônica fiel desses turbulentos momentos da nossa história. De maneira geral, "Gentlemen" narra a vida dos irmãos Morgan a partir do ponto de vista de Klas Östergren, o narrador-testemunha da trama. Em setembro de 1978, outono no hemisfério norte, Klas acabou de assinar um contrato para escrever um novo livro. A proposta feita pelo editor é que ele produza uma versão moderna do romance "Salão Vermelho", clássico da literatura sueca que completará no ano seguinte um século de existência. Trata-se de uma grande oportunidade para o jovem escritor de apenas 24 anos. Com esse ambicioso romance, Klas sonha em se tornar um autor conhecido em seu país e um best-seller nas livrarias nacionais. O problema do narrador é que ele teve seu apartamento em Estocolmo assaltado. Os ladrões levaram quase todos os seus pertences, deixando apenas a máquina de escrever e alguns objetos de pouco valor monetário. Enquanto a polícia investiga o incidente, Klas conhece por acaso, em uma academia de boxe da cidade, uma figura excêntrica: Henry Morgan. Henry é um pugilista amador, um ator semiprofissional e um pianista de potencial. Bon vivant e recebendo mensalmente uma pensão deixada pelos avós, o rapaz de 34 anos de idade é filho do "Barão do Jazz", um dos músicos mais famosos da Suécia. Rapidamente, Klas e Henry tornam-se grandes amigos. Ao saber da fatalidade ocorrida na casa do escritor, Henry convida Klas para ir morar em seu gigantesco apartamento no centro de Estocolmo. O imóvel foi recebido pelo pugilista-ator-pianista de herança familiar. Sem ter para onde ir e não tendo um local tranquilo para escrever seu novo livro, o narrador aceita prontamente a oferta do amigo. Assim, Klas passa a morar em dois quartos na residência de Henry. O convívio diário aumenta ainda mais a amizade dos rapazes. A dupla se torna inseparável. Na nova casa, Klas conhece Leo, o irmão caçula de Henry que também mora no apartamento. Leo Morgan é um poeta de aproximadamente 30 anos. Depois de um início promissor na literatura quando era adolescente, ele vive agora uma fase melancólica. Cultivando um estilo de vida rebelde e possuindo um comportamento esquizofrênico, Leo está em constante crise emocional. Seu jeito inconsequente e suas atitudes intempestivas geram sempre muitos problemas para quem está a sua volta. Henry e Klas precisam cuidar do poeta como se ele fosse uma criança indefesa. Klas vive com os irmãos Morgan por quase um ano. Em julho de 1979, verão no hemisfério norte, Henry e Leo desaparecem misteriosamente do apartamento. A dupla some sem dar nenhuma explicação prévia ao colega de casa. Sem entender nada o que aconteceu com os amigos e ainda vivendo no apê dos Morgan (agora sozinho), Klas resolve escrever a biografia da dupla. Assim, ele narra tudo o que sabe sobre os amigos do nascimento deles até os tempos presentes. "Gentlemen" é um livro cativante. Recheado de anti-heróis, o romance encanta o leitor com o relato colorido das banalidades do dia a dia das suas personagens. Em primeiro plano temos o cotidiano aparentemente insosso de rapazes sem um emprego fixo e com relacionamentos amorosos caóticos. Eles almejam mergulhar em carreiras artísticas de sucesso e não ligam de passar por perrengues financeiros constantemente. A escrita de Klas Östergren (neste caso o autor, não o narrador-personagem) é incrível. Ele narra com calma e com riqueza de detalhes as cenas corriqueiras de Klas (agora sim o personagem), de Henry e Leo, transformando-as em acontecimentos significativos e grandiosos. Algo que tem tudo a ver com a personalidade dessas figuras excêntricas. Quem gosta de música, cinema, literatura, história e política irá adorar as descrições de época feitas pelo livro. Os leitores na faixa entre 40 e 60 anos podem reviver lembranças importantes de sua juventude como se elas estivessem acontecendo novamente. As páginas de "Gentlemen", por exemplo, fazem menção direta ao movimento da contracultura, ao festival de Woodstock, ao surgimento dos Beatles, à Guerra Fria, ao assassinato de John Kennedy e à chegada do homem à Lua. São incontáveis os momentos das décadas de 1950, 1960 e 1970 comentados pelo narrador. Assim, ao mesmo tempo em que acompanhamos a aventuras e desventuras das personagens do romance, podemos saber o que está acontecendo na Suécia, na Europa e no Mundo. Apreciei também o fato da trama ser narrada sem uma continuidade temporal (linearidade). Parte do mistério da história está na apresentação caótica e desordenada dos acontecimentos. Por falar em mistério, o livro termina sem explicar grande parte das questões levantas pelo narrador. Por isso, a leitura de "Gangsters", a continuação de "Gentlemen", é obrigatória para quem deseja saber o desfecho dessa história. Minha impressão é que "Gangsters" deve ser um livro até mesmo mais interessante do que "Gentlemen". A trama dos irmãos Morgan parece adquirir, penso eu, um tom de aventura político-policial na próxima parte da saga. Estou extremamente curioso para ler as próximas páginas desta série. Se já estou padecendo dos efeitos da abstinência de leitura (infelizmente, não tenho "Gangsters" em mão - a promoção do final do ano passo na livraria não incluía o segundo livro), fico imaginando o sofrimento dos leitores suecos que precisaram esperar 25 anos pela continuação da obra. Klas Östergren (autor ou narrador, tanto faz) isso não se faz com os fãs, fique sabendo! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #KlasÖstergren #Romance #Drama #LiteraturaSueca

  • Livros: A Navalha na Carne - A principal criação de Plínio Marcos

    Li, na última semana do ano, o livro "A Navalha na Carne" (Senzala), a principal criação de Plínio Marcos. "A Navalha na Carne" foi concebida originalmente como uma peça teatral. Seu sucesso foi quase que imediato. Escrita em 1966, ela chegou aos palcos paulistanos no ano seguinte. A fama viria com a versão carioca, produzida ainda em 1967. O sucesso do espetáculo, porém, chamou a atenção dos censores da ditadura militar. Os milicos não gostaram de ver uma história com muitos palavrões e com elevada violência doméstica ser apresentada nos palcos das duas maiores cidades do país. Além disso, a trama de Plínio Marcos exibia uma realidade crua do Brasil e era protagonizada por personagens marginalizadas pela sociedade da época (um cafetão, uma prostituta e um homossexual). Como consequência, a exibição do espetáculo foi proibida pela censura. Por mais de uma década a peça foi impedida de ser encenada no território nacional. Para a história criada por Plínio Marcos não ser esquecida pelo público ou ficar perdida nas gavetas dos dramaturgos, a alternativa encontrada foi transformá-la em livro. O escritor Pedro Bandeira foi convidado para montar a versão impressa de "A Navalha na Carne" para a editora Senzala. O elenco original da versão paulistana da peça, formado por Paulo Villaça, Ruthinéia de Souza e Edgard Gurgel Aranha, fez um ensaio fotográfico com suas encanações. A proposta da obra era levar a experiência do teatro para as folhas da publicação. O resultado final é um trabalho originalíssimo. O livro é ilustrado com as performances dos atores. Além disso, sua diagramação é pouco convencional, parecendo mais uma história em quadrinhos ou uma revista ilustrada do que uma obra literária convencional. O projeto gráfico também é especular. Ainda hoje, é raro encontrar um acabamento tão impecável como esse. Assim, chegou às livrarias do país, no ano de 1968, o livro "A Navalha na Carne". Curiosamente, a censura imposta à peça não se aplicava ao universo literário. A publicação da editora Senzala estava disponível à venda a todos os brasileiros. O mesmo se aplicou a versão cinematográfica. No ano seguinte, a polêmica história de Plínio Marcos ganhava as telas dos cinemas do país. O filme de 1969 foi dirigido por Braz Chediak. "A Navalha na Carne" ainda teria uma segunda adaptação ao cinema, essa mais contemporânea. O diretor Neville de Almeida regravou a trama na década de 1990. "A Navalha na Carne" se passa inteiramente em um pequeno quarto de hotel/motel de quinta categoria. Muito possivelmente a recriação desse ambiente pouco familiar e religioso em um teatro tenha sido decisivo para a proibição da peça pela censura. No final de um dia de trabalho, Neide Sueli, uma prostituta um tanto velha e nada bonita, volta para sua casa. Aquele quarto decadente e sujo é sua residência. Lá, a protagonista encontra Vado, seu cafetão. Surpreendentemente, ele não tinha ido embora naquele dia, aguardando o retorno de Neide. A mulher fica empolgada com o possível gesto de carinho do seu homem. Afinal, há meses que os dois não faziam sexo. Porém, rapidamente ela percebe que Vado está mal-humorado e violento. Ele a esperou porque está sem dinheiro. A grana que ela prometeu entregar-lhe na véspera tinha desaparecido. O casal começa a discussão sobre onde está o dinheiro dos programas do dia anterior de Neide Sueli. Ela afirma que deixou no criado-mudo para o cafetão pegar quando aparecesse por lá. Ele disse que não encontrou nada ali quando chegou e acusa a prostituta de ser mentirosa. Depois de muito bate-boca, a suspeita do casal, então, recai sobre Veludo. O homossexual que trabalha no hotel/motel como faxineiro poderia ter surrupiado a grana quando entrou no quarto para fazer a arrumação. Veludo é chamado. Ele nega seu envolvimento no sumiço do dinheiro e defende-se como pode. A discussão prossegue agora entre o trio, cada um acusando o outro de estar mentindo. "Navalha na Carne" possui um enredo trágico e enquadra-se no gênero brutalista. Sua linguagem é agressiva e chocante. As frases curtas e diretas, sem abrandamentos, o grande número de palavrões, as conotações sexuais e o uso das palavras como arma de intimidação são marcas do brutalismo. A sociedade excludente e injusta dos grandes centros urbanos é a causadora da excessiva violência que presenciamos nesse tipo de enredo. Nessas tramas, não há mocinhos nem mocinhas, somente vilões. Quem já leu Rubem Fonseca, Sérgio Sant'Anna, João Antônio, Wander Piroli, Patrícia Melo, Marçal Aquino e Marcelino Freire entenderá o que estou me referindo. Assim, esse livro retrata de maneira intensa e passional as mazelas da relação afetiva e social de personagens marginalizadas socialmente. O produto final é a compaixão do público para com a personagem principal, uma prostituta inculta, vulgar, romântica e pobre. Neide Sueli é uma das mais improváveis protagonistas das novelas brasileiras. O enredo de "A Navalha na Carne" trata essencialmente da violência doméstica, uma triste realidade que muitas mulheres sofrem diariamente. Paradoxalmente, a parte mais chocante da rotina de Neusa Sueli não acontece quando ela sai de casa para fazer seus programas, mas sim quando ela retorna para os braços de seu amado. A prostituta sofre intensa violência dentro do seu próprio lar. O homem que ela ama, Vado, se aproveita de Neusa para sugar todo o dinheiro dela, não escondendo o desprezo que sente por ela e pela profissão da parceira. Isso fica evidente quando ele a xinga de velha e feia sem demonstrar qualquer resentimento ou pena. Portanto, o antagonismo da trama recai sobre Vado. Ele é quem cria o conflito ao quebrar a harmonia na residência de Neusa Sueli. Ela retorna para casa feliz e carinhosa, desejando passar boas horas com seu amado. Contudo, ele está mal-humorado e violento, querendo descontar na prostituta a frustração por estar sem dinheiro e por ter tido um dia improdutivo (entenda-se: não ter ido ao bar para beber e jogar bilhar com os amigos). O que mais chamou minha atenção em "A Navalha na Carne" foi o conjunto de contradições das personagens. Esse elemento, em minha visão, chegou até mesmo a sobrepor-se à violência da linguagem, dos atos e do cenário (também muito agressivos). Neusa Sueli faz chacota da vizinha e colega que é desprezada, humilhada e covardemente agredida pelo cafetão. Neusa Sueli afirma em voz alta que jamais permitiria aquilo com ela. Contudo, ela repete imediatamente o que acabara de condenar, sendo totalmente condescendente com Vado. O mesmo se passa com Veludo. Ele grita para Neusa Sueli não aceitar um homem que a despreze e que sugue todo o seu dinheiro, não demonstrando um amor genuíno por ela. Entretanto, ele também faz o mesmo com o rapaz do bar, sendo explorado financeiramente e afetivamente. E, por fim, Vado xinga, bate e humilha Veludo por ele ser homossexual. Porém, na primeira oportunidade, começa a flertar com o rapaz, gostando do joguinho do contato físico com o faxineiro. Em uma analogia semiótica, o cigarro de maconha pode ser entendido como um símbolo fálico e o ato de tragar o baseado como sexo oral. Dessa forma, a criação de Plínio Marcos é uma overdose de incômodas contradições, que chocam leitor do início ao fim. "A Navalha na Carne" é um livro curto, tendo apenas 160 páginas. Como ele possui muitas fotos e uma diagramação generosa (letras grandes), sua leitura é muitíssimo rápida. É possível lê-lo em pouco mais de trinta minutos. Curiosamente, achar o livro "A Navalha na Carne" hoje em dia também é um tanto complicado. Sem uma nova edição há mais de uma década, não é possível comprá-lo nas livrarias. O caminho é o sedo. E mesmo assim, ele é artigo raro. Os melhores exemplares são vendidos por até R$ 100,00. Há várias edições do livro disponíveis. A melhor, em minha opinião, é a original, de 1968, da editora Senzala. O que a torna tão interessante é que o texto vem acompanhado da ilustração das personagens, imitando a encenação do espetáculo cênico. Ou seja, a impressão é que estamos assistindo à peça e não lendo o livro. Muito legal! Além disso, a diagramação da obra, como já falei, é ousada, lembrando um pouco as histórias em quadrinhos ou as revistas ilustradas, muito comuns na década de 1960. Depois de trabalhar como comerciante e se arriscar em várias profissões (inclusive jogador de futebol), Plínio Marcos consolidou-se como um dos principais dramaturgos do país entre a década de 1960 e 1970. Ele produziu várias peças teatrais, além de roteiros televisivos. Conhecer "A Navalha na Carne", sua principal criação, é aprofundar-se por um dos capítulos mais marcantes da literatura e da dramaturgia nacional das últimas décadas. Apesar de possui uma temática pesada e uma linguagem muito agressiva, eu gostei muito dessa obra. Quem tem espírito forte e é corajoso(a) para mergulhar no brutalismo brasileiro aqui vai uma boa sugestão para esse início de 2018. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PlínioMarcos #LiteraturaBrasileira #Dramaturgia #Drama #RomanceNegro #Brutalismo

  • Celebrações: O Bonas Histórias deseja um feliz 2018!

    O Blog Bonas Histórias deseja para você e sua família um feliz 2018! Que o ano que começa agora seja repleto de literatura, cultura, arte, diversão, entretenimento, alegria, conhecimento, estudo, realizações, descobertas, cinema, teatro, exposições, músicas, livros, gastronomia, passeios, celebrações, cursos, turismo e novos aprendizados para todos. Para ajudá-lo(a) nisso, nossa promessa (promessa não apenas de ano novo, mas de todo o ano e de todos os anos!) é continuar produzindo um blog de literatura, cultura e entretenimento cada vez melhor. Um ótimo 2018 para todos nós! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #AnoNovo #celebração

  • Livros: K., Relato de Uma Busca - A estreia de B. Kucinski na ficção

    Reli, neste finalzinho de dezembro, o livro "K - Relato de Uma Busca" (Cosac Naify), a premiada obra de estreia de Bernardo Kucinski na ficção. O experiente jornalista, atualmente com 80 anos, utilizou-se de fatos reais, o desaparecimento, na década de 1970, da irmã Ana Rosa Kucinski, uma militante comunista que trabalhava como professora de Química na USP (Universidade de São Paulo), para compor um aterrorizante panorama da Ditadura Militar brasileira durante os Anos de Chumbo. O romance é realmente espetacular. Ele mistura realidade e ficção de maneira impecável. Nesse sentido, sua frase de abertura é memorável: "Caro leitor: Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu". Nesta trama, Bernardo Kucinski (que se apresenta na literatura como B. Kucinski) reconstrói a angústia do sumiço de Ana Rosa a partir da visão do pai, Majer Kucinski (que na ficção ganha, ao estilo de Franz Kafka, o nome de senhor K.). K. é um imigrante polonês judeu que se estabeleceu em São Paulo na primeira metade da década de 1940. Ele deixou seu país natal após a ascensão do nazismo na Polônia e a perseguição aos judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Uma vez no Brasil, K. achou que as coisas seriam melhores e mais seguras para ele e para sua família. Essa sensação durou algumas décadas, até sua filha caçula, uma jovem de trinta e dois anos, desaparecer em abril de 1974. Nessa época, o país estava sob o regime do AI-5, o Ato Institucional Número 5. Decretado por Costa e Silva em 1969, o AI-5 oficializou a ditadura no Brasil e acelerou o processo de captura e assassinato de opositores pelo governo militar. As poucas informações que K. possui do sumiço da filha é que Ana Rosa e o marido dela, Wilson Silva, um atuante militante de esquerda, foram presos pelos militares certa tarde. O casal foi levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão responsável pelos interrogatórios e pela tortura dos opositores ao regime. Depois disso, não há qualquer dado concreto do paradeiro da dupla. Aí começa o grande drama de K, um homem comum e pacato (ele é comerciante de tecidos e adora literatura iídiche). Assim, o leitor é convidado a embarcar nos horrores de um sistema político opressor e cruel. "K - Relato de Uma Busca" foi lançado inicialmente pela Expressão Popular, uma pequena editora paulistana, em 2011. Por lá, o livro ganhou duas edições, a segunda já em 2012. Em 2014, o romance foi publicado pela Cosac Naify, então uma das editoras mais conceituadas no país. O novo projeto gráfico conferiu mais charme à obra, valorizando seu design e reforçando a proposta tensa da trama. "K - Relato de Uma Busca" foi finalista dos principais prêmios literários do país: Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Juca Pato (concedido pela União Brasileira de Escritores) e Prêmio Portugal Telecom, todos de 2012. Considerado um dos melhores romances sobre a Ditadura Militar brasileira, o livro já foi traduzido para vários idiomas, como o inglês, o espanhol, o alemão, o catalão e o hebraico. Com apenas dois livros ficcionais publicados, - o segundo é a coletânea de contos "Você Ainda Vai Voltar Para Mim" (Cosac Naify), de 2014, obra vencedora do Prêmio Clarice Lispector, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional ao melhor livro de narrativas curtas do ano - B. Kucinski tornou-se rapidamente um dos escritores mais originais da atualidade. Falando sempre dos horrores praticados nos porões da Ditadura brasileira, o paulistano de origem judaica imprime força dramática e um estilo peculiar às suas narrativas. Bernardo Kucinski, para quem não conhece, trabalhou na redação dos principais veículos de comunicação do país (revista Veja e jornal Gazeta Mercantil, por exemplo) e fundou alguns veículos alternativos com uma proposta mais esquerdista (Amanhã, Opinião, Movimento, Em Tempo e Carta Maior). Além disso, foi correspondente no Brasil de alguns jornais ingleses. Sendo considerado um dos mais brilhantes jornalistas de sua geração, Bernardo Kucinski publicou vários livros sobre sua profissão e sobre o período da Ditadura Militar. Entre 2003 e 2006, também atuou como Assessor Especial da Presidência da República. O que mais gostei em "K - Relato de Uma Busca" foi a forma criativa de Kucinski construir seu romance. Metade dos capítulos é narrada em primeira pessoa por diferentes personagens. Temos as vozes de muitas pessoas envolvidas direta ou indiretamente na trama da família K: o torturador, a amante do chefe da repressão, o líder de uma célula terrorista, a faxineira da casa onde os presos políticos eram enviados, uma carta da própria Ana Rosa, o sogro da professora de Química da USP, etc. Os relatos desses vários narradores são sempre intercalados por capítulos escritos em terceira pessoa retratando a história pela perspectiva de K. (narrador muito próximo ao protagonista). Assim, tudo converge para o drama do polonês naturalizado brasileiro. Com esse quadro por vezes fragmentado, o leitor precisa montar as peças soltas do quebra-cabeça. Só assim conseguirá reconstruir o que aconteceu com Ana Rosa e seu marido. O livro exige um leitor ativo e astuto. Nota-se o cuidado e a excelência de B. Kucinski em montar peças narrativas (capítulos) individualmente fortes (confundindo-se, às vezes, com pequenos contos), mas acima de tudo integradas ao enredo maior. Esse é um recurso narrativo original e extremamente difícil de ser feito - produzido aqui com naturalidade e de um jeito magnífico pelo autor. Você até sabe (ou imagina) o que ocorreu com a filha de K. logo nas primeiras páginas do livro (ela é descrita como uma desaparecida política - portanto, não é complicado entender o que pode ter se passado com ela...). Mesmo assim, a história do romance não perde a graça em nenhum momento. O suspense se mantém forte até o final. Esta obra não é para se descobrir o que aconteceu efetivamente com a jovem professora de Química da USP, mas sim para ver como age seu pai frente à dor do desaparecimento da filha caçula. Nesse sentido, a tensão da trama é alta e linear. Trata-se de algo complicadíssimo de ser conseguido em qualquer thriller. Repare que o pai só vai conhecer de fato a filha (a trajetória de vida dela, as preferências, as aspirações, os amigos e o marido dela) depois que ela some. A busca por Ana Rosa é um exercício de K. para descobrir quem ela foi de verdade. Enquanto a moça esteve viva, o polonês dava mais atenção à literatura iídiche e aos amigos literatos do que a família. Esse talvez seja o grande arrependimento do protagonista. Quem tiver conhecimento histórico do período retratado poderá apreciar ainda mais "K - Relato de Uma Busca". Ao longo da narrativa temos citações às várias personalidades reais e a alguns episódios simbólicos da época: o delegado Fleury, chefe do DOPS em São Paulo, o assassinato de Vladimir Herzog, jornalista preso pelos militares, Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a Ditadura, as ações da Arquidiocese comandada por Paulo Evaristo Arns, crítico do que acontecia nos porões do regime, etc. Ler o livro de B. Kucinski é retornar quatro décadas e vivenciar um dos períodos mais turbulentos e sangrentos da história do Brasil. Em um momento em que há pessoas em nosso país que desejam a volta dos militares ao poder e exaltam a vida durante a Ditadura Militar, conhecer de perto o que se passava naqueles dias é muito importante. "K - Relato de Uma Busca" é, ao mesmo tempo, um romance espetacular e uma importante lição de história para as novas gerações. Fiquei fã de B. Kucinski e de sua literatura. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaBrasileira #BKucinski #Romance #Drama #RomanceHistórico

  • Filmes: O Rei do Show - O belíssimo musical sobre os primórdios do circo

    Nesta quarta-feira, fui ao Cinemark do Shopping Tietê Plaza para ver "O Rei do Show" (The Greatest Showman: 2017), musical sobre os primórdios do espetáculo circense. A história do filme é baseada na vida real do empresário norte-americano P. T. Barnum, fundador do Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus. Na segunda metade do século XIX, a companhia de Barnum, a mais antiga do mundo e atualmente com 146 anos de operação ininterrupta, criou o conceito do circo moderno como conhecemos hoje em dia. Achei "O Rei do Show" um longa-metragem maravilhoso. Esta produção, que entrou em cartaz no dia de Natal, é incrível se considerarmos tanto a sua narrativa quanto os seus elementos técnicos. Trama ótima (com ação, drama e reviravoltas na medida certa), atuação do elenco primorosa, fotografia linda e trilha sonora marcante são os principais destaques positivos. Em minha opinião, este é um dos grandes filmes dessa temporada de verão. Das opções em cartaz no circuito brasileiro, inegavelmente este longa-metragem é aquele que mais encanta os olhos da plateia cinéfila. Contudo, essa não foi a opinião geral na sessão em que estive presente na noite de quarta. A maioria do público ficou revoltada com o que viu na tela. Houve até quem vaiasse. Tiveram aqueles que deixaram a sala xingando a produção antes que ela chegasse a sua metade. Sinceramente, não me recordo de ter visto algo do tipo em um cinema. Como é possível alguém reclamar de um filme tão bom?! Passei os dois últimos dias pensando sobre essa questão. Por que as vaias e o abandono dos lugares se o longa-metragem é um dos melhores do ano?! Só tenho uma resposta para isso: a antipatia de muitas pessoas com o gênero musical. Sabe quando você vai ao estádio de futebol e assiste a uma partida histórica? Ou quando comparece ao teatro e vê uma peça memorável? Ou vai a um show dançante e se emociona com os dançarinos no palco? Maravilhado com o espetáculo à sua frente, então, você olha para o lado e vê sua companhia totalmente entediada. Se alguém não gosta de futebol, na certa não irá apreciar um jogo por melhor que ele seja. Se você odeia teatro, dificilmente irá se interessar por uma boa peça. E se não gosta de dança, não ficará feliz por melhor que seja o show no palco. Acho que foi isso o que aconteceu no Cinemark. Muitos desavisados escolheram o filme sem saber que se tratava de um musical. Aí, quando as músicas e as danças começaram... Você já sabe o que deu, né? "O Rei do Show" é o primeiro trabalho de Michael Gracey na direção. O filme é estrelado por Hugh Jackman, de "Os Miseráveis" (Les Misérables: 2012), "O Grande Truque" (The Prestige: 2006) e "Logan" (2017). Completam o elenco de atores principais Zac Efron, Michelle Williams, Rebecca Ferguson e Zendaya. O roteiro é de Bill Condon, de "Chicago" (2002), e Jenny Bicks, de "Rio 2" (2014). A trilha sonora é de John Debney, Benj Pasek e Justin Paul. Vale a pena lembrar que Benj Pasek e Justin Paul foram os compositores de "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016). Neste novo trabalho, a dupla escreveu nada menos do que onze canções. A maioria delas é excelente. O enredo de "O Rei do Show" acompanha a trajetória de P. T. Barnum (interpretado por Hugh Jackman) da sua infância pobre ao apogeu artístico. Quando menino, o protagonista se apaixona por Charity (Michelle Williams), a filha do patrão do pai. Indiferentes a gritante diferença social das duas famílias (a dele é extremamente pobre e a dela é milionária), as crianças prometem se casar quando crescerem. E é exatamente isso que elas fazem, para desespero e decepção dos pais da moça. O casamento de Barnum e Charity é feliz apesar da pobreza em que eles acabam metidos. Os sogros de Barnum não aceitam ajudar o jovem casal pensando que logo mais Charity irá desistir daquela maluquice e voltará para casa. Contudo, ela não retorna para os braços dos pais. Em alguns anos, os Barnum têm duas filhas, o que solidifica ainda mais a união conjugal. P. T. Barnum tem dois sonhos na vida. O primeiro é criar um museu em que pudesse apresentar ao público as mais diversas curiosidades do planeta. O segundo é se tornar muito rico e provar aos sogros o seu valor. Após ser demitido do emprego e contrair empréstimos milionários, o rapaz coloca em prática sua primeira pretensão: fundar o museu. Infelizmente, o empreendimento não é bem-sucedido em um primeiro momento. Para salvar seu negócio, P. T. Barnum começa a fazer radicais mudanças no museu. Entre essas ações está a união com Philip Carlyle (Zac Efron), um artista conceituado e oriundo de uma família burguesa. Assim, pouco a pouco vai surgindo o circo moderno. Curiosamente, após o êxito empresarial e o enriquecimento financeiro, o protagonista se vê às voltas com outro problema: ele é visto como um artista menor em sua cidade. Para reverter essa imagem, ele começa a fazer planos para se tornar um empresário de qualidade do show business e conhecido nacionalmente. Porém, as novas pretensões vão totalmente contra tudo aquilo que Barnum fez até então e que pautou sua fama e riqueza. "O Rei do Show" se baseia em episódios reais, mas também acrescenta elevadas doses de ficção. Não vá, por favor, acreditar em tudo o que você vê na tela. P. T. Barnum foi, na realidade, uma personagem extremamente polêmica. E boa parte das suas picaretagens não é sequer abordada ou esmiuçada no filme. Assim, ficamos com a imagem de um rapaz sonhador e bonzinho. Seu lado negativo desaparece totalmente. Feita essa ressalva, "O Rei do Show" é o longa-metragem para ser visto e ouvido com atenção. Como um bom vinho, saiba apreciá-lo. Por isso, é bom que você tenha a sorte de não estar em uma sessão em que o pessoal revoltado vaie, xingue e reclame em voz alta... Sinceramente, não sei o que mais gostei no filme. A narrativa é ótima: sua história é recheada de dramas (além do conflito principal temos os secundários); há muita ação (para a perspectiva de um musical); e as reviravoltas conseguem segurar a tensão do longa-metragem do início ao final. A fotografia é maravilhosa. A trilha musical é ótima. Repare na força das letras e das melodias. Impossível não sair do cinema sem cantarolá-las. E o que dizer da atuação dos atores principais, hein? Hugh Jackman dá um show de interpretação. Se alguém um dia o criticou por "Os Miseráveis", agora não há o que reclamar. Zac Efron, Michelle Williams, Rebecca Ferguson e Zendaya acompanham muito bem Jackman. Portanto, se você gosta de musicais, na certa irá adorar "O Rei do Show". Contudo, se você não gosta de musicais, por gentileza, me faça um favor: não vá ao cinema. Ou se for, não externe suas indignações. Lembre-se que pode haver alguém ao seu lado apreciando o que se passa na tela e seus comentários em altos decibéis podem atrapalhá-lo. Veja o trailer de "O Rei do Show" (The Greatest Showman: 2017): O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MichaelGracey

  • Livros: O Livreiro de Cabul - A sociedade afegã desnudada por Åsne Seierstad

    Neste final de semana, li "O Livreiro de Cabul" (Record). Esta obra é da jornalista norueguesa Åsne Seierstad de quarenta e seis anos. Especialista na cobertura de guerras em diversas partes do mundo, ela cobriu a invasão russa à Tchetchênia em 1994, a Guerra de Kosovo no final da década de 1990, a invasão norte-americana ao Afeganistão em 2001 e 2002 e a Guerra do Iraque em 2003. A partir das experiências nestes países, Seierstad escreveu um livro sobre cada um destes conflitos: "Crianças de Grozni" (Record) retrata a realidade tchetchena, "De Costas para o Mundo"(Record) aborda o conflito nos Bálcãs, "O Livreiro de Cabul" é sobre a sociedade afegã pré e pós-Talibã e "101 em Bagdá" (Record) fala da guerra norte-americana no Iraque. Em comum, todos esses livros contam histórias reais de pessoas envolvidas com a guerra. O maior sucesso de Åsne Seierstad é "O Livreiro de Cabul". Publicado em 2006, o livro se tornou figura carimbada na lista dos mais vendidos do jornal New York Times por muitos anos. A obra foi traduzida para vários idiomas e alcançou o status de best-seller mundial. A história narrada é do período de 2002, quando a jornalista era correspondente de guerra no Afeganistão. Aproveitando-se da amizade criada com um livreiro rico de Cabul, Seierstad viveu três meses na casa dele. Assim pode conhecer a realidade de todos os integrantes da família e se inteirar dos detalhes da sociedade afegã. O livro nada mais é do que a narração dessas descobertas. Para não expor a família, Åsne Seierstad trocou os nomes de todos os envolvidos. Mesmo assim, após a publicação da obra, o livreiro viajou para a Noruega para processar a autora. Dessa forma, todos passaram a conhecer a verdadeira identidade do personagem principal do livro. Em "O Livreiro de Cabul", conhecemos Sultan Khan (nome fictício do livreiro). O afegão é um próspero comerciante de livros de Cabul. Ele possui algumas livrarias na capital do Afeganistão, mas seu maior sonho é construir uma grande biblioteca que reúna as principais obras da história do seu país. Se Sultan é um homem liberal e empreendedor quando se trata de negócios, ele é um tirano dentro de casa. Ele mora com duas esposas e cinco filhos, além da mãe, de irmãos e de alguns sobrinhos. Todos são obrigados a fazer as vontades do chefe da família, não podendo contestá-lo de forma alguma. Cada um dos dezenove capítulos do livro é dedicado a uma pessoa da família. Temos o relato do filho mais velho de Sultan, Mansur, obrigado pelo pai a trabalhar incansavelmente nas livrarias do pai. Sonya é a jovem de dezesseis anos que é obrigada a se casar com o livreiro cinquentão, se tornando sua segunda esposa; Sharifa, a esposa mais velha, é então colocada em segundo plano e enviada para o exílio no Paquistão para não atrapalhar o novo matrimônio do marido; Leila é a irmã mais nova de Sultan que vive como uma escrava dentro de sua própria residência, trabalhando sem parar e sem ter voz ativa em nada. Estes são alguns dos personagens que conhecemos ao longo das quase 320 páginas da publicação. A realidade de uma sociedade conservadora, patriarcal e extremamente violenta é um choque para o leitor. Por mais que imaginemos como é a vida nos países islâmicos, somente quando nos deparamos com os relatos pessoais e verídicos de personagens comuns é que temos a real noção do nível de maldade e de injustiça praticado naquele ambiente. O mérito de Åsne Seierstad foi ter tido a ousadia de conviver diretamente com a realidade afegã no pós-Talibã. Como mulher ocidental, ela pode transitar tanto entre os homens quanto entre as mulheres. Assim, pode perceber que por mais machista que seja a sociedade islâmica, os dois sexos sofrem no dia a dia. "O Livreiro de Cabul" é um conjunto de crônicas/contos interessantes com ótimas personagens. A linguagem utilizada por Åsne Seierstad é do tipo jornalística. Parece que estamos lendo uma reportagem. Ao mesmo tempo em que possui um texto leve e simples, as tramas possuem elementos dramáticos. A autora se coloca no lugar das personagens, descrevendo seus sentimentos e angústias. Li este livro em duas noites. Ele é super-rápido de ser lido. Apesar de chocante, trata-se de uma ótima história. Nada como a vida real para produzir dramas dignos de filmes hollywoodianos ou das telenovelas mexicanas. Quem quiser ler um bom livro nesta virada de ano, fica aqui a dica: "O Livreiro de Cabul". Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ÅsneSeierstad #Drama #Romance #LiteraturaNorueguesa

  • Celebração: Feliz Natal - Poema de Natal por Vinicius de Moraes

    O Blog Bonas Histórias deseja um feliz Natal para todos os seus leitores e parceiros. Que o espírito natalino contagie a todos neste dia tão especial. Entendo que independentemente da religião de cada um (porque o Natal é uma data, a meu ver, suprarreligiosa), temos a oportunidade de ser mais carinhosos, solidários, esperançosos e benevolentes. O ideal seria que tais gestos e crenças fossem perpetuados ao longo de todo ano, nos 365 dias do calendário. Contudo, ao reconhecermos o quão difícil é isso na prática, ao menos nos contentemos de prolongá-los ao máximo. Que o espírito da noite de 25 de dezembro dure por dias, semanas e meses. Como não sou tão bom com as palavras como gostaria, deixo aqui um poema do incrível Vinicius de Moraes. Poema de Natal - Vinicius de Moraes (1946) Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos - Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será a nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos - Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez, de amor Uma prece por quem se vai - Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte - De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #ViniciusdeMoraes #celebração #Natal #Poesia #Literatura #LiteraturaBrasileira

  • Livros: A Caixa-Preta - Um dos mais recentes best-sellers de Michael Connelly

    Michael Connelly é atualmente um dos escritores norte-americanos mais vendidos nas livrarias dos quatro cantos do planeta. Alguns dos seus best-sellers já foram adaptados para o cinema, transformando-se também em blockbusters. Especializado em produzir séries policiais, esse autor de 61 anos já vendeu mais de 60 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 40 idiomas. Ou seja, conhecer as obras de Connelly é compreender uma faceta bem-sucedida da literatura comercial dos Estados Unidos. A mais famosa e longínqua série de Michael Connelly é protagonizada por Harry Bosch, ex-soldado norte-americano no Vietnã que trabalha como investigador do Departamento de Polícia de Los Angeles (DPLA). Com um jeitão truculento, adepto de uma boa malandragem e pouco afeito aos procedimentos da instituição onde trabalha, Bosch é o tipo de policial que gosta de fazer justiça com as próprias mãos. Até agora foram publicados 20 romances com o detetive de Los Angeles, além de vários contos. A primeira narrativa longa dessa emblemática personagem de Connelly foi "O Eco Negro" (Gótica), de 1992. A obra rendeu ao escritor nascido na Pensilvânia o Mystery Writers of America Edgar Award de 1993 como o melhor romance de estreia do ano anterior. O último livro da coleção foi "Two Kinds of Truth" (Sem tradução para o português), lançado neste ano nos Estados Unidos. Em 2018 há a previsão da publicação na América do Norte de "Dark Sacred Night" (Também sem tradução para o português), o vigésimo primeiro romance da saga. No Brasil, um dos últimos livros da série "Harry Bosch" traduzido para o português e lançado por aqui foi "A Caixa-Preta" (Suma das Letras). Publicado em 2012 nos Estados Unidos, esse romance é o décimo sexto episódio da saga do famoso detetive de Los Angeles. Foi esta obra de Michael Connelly que li neste finalzinho de ano e que gostaria de comentar com vocês agora no Blog Bonas Histórias. Em "A Caixa-Preta", temos um Harry Bosch próximo da aposentadoria (algo que só ocorrerá de fato dois romances para frente, em "The Crossing"), mas ainda muito atuante na Unidade de Abertos/Não Resolvidos, setor da Polícia de Los Angeles responsável pelos casos do Departamento de Crimes e Homicídios ainda não solucionados. Já veterano na profissão e morando com a filha, Maddie, o detetive precisa conciliar as preocupações do trabalho com os cuidados da filha adolescente. Em casa, a vida do protagonista não parece fácil. Maddie, agora uma jovem de dezesseis anos, aspira ser policial como o pai. Essa escolha parece provocar reações diferentes em Harry. Ao mesmo tempo em que sente orgulho da aptidão da filha pela profissão almejada, a atividade policial também causa preocupações sérias para o pai que conhece muito bem os bastidores de um departamento de polícia. Para complicar as coisas, Maddie é alvo de bullying na escola e o detetive não pode fazer nada para resolver essa questão. Para completar, ele deseja costurar a amizade da garota com sua nova namorada, Hannah Stone. No trabalho, o detetive Bosch tem dois desafios. O primeiro é elucidar um enigmático caso aberto desde 1992. Naquele ano, Los Angeles viveu a semana mais violenta da sua história. A onda de protestos e tumultos que se espalhou pelas ruas da cidade foi motivada por uma disputa de origem racial. Os negros ficaram revoltados com a decisão judicial de liberar os policiais brancos que mataram injustamente um homem negro. Esse evento real levou a anarquia para as ruas. Entre as várias vítimas fatais daquela semana há a misteriosa morte de uma fotojornalista dinamarquesa. Anneke Jespersen era uma freelancer de uma revista europeia que cobria conflitos armados pelo mundo. O corpo da moça foi encontrado pela polícia em um beco de um dos bairros mais barra pesados de LA com um tiro na cabeça. Na época, o homicídio foi relacionado às turbulências daquela semana difícil. Em 2012, ou seja, vinte anos depois da morte da jornalista, Harry Bosch resolve investigar com mais afinco o caso de Anneke Jespersen, apelidada por ele de Branca de Neve (a moça era muito branquinha). Estava aberto um baú recheado de vespeiros. A celebração de duas décadas do conflito que marcou a cidade para sempre, contudo, acabou gerando grande comoção pública por tudo o que era relacionado àquela época. A imprensa noticiou os fatos históricos de 1992 com estardalhaço. Exatamente por isso, Cliff O'Toole, o novo chefe da Divisão de Roubos e Homicídios da DPLA, que inclui a Unidade de Abertos/Não Resolvidos, decidiu que o detetive Bosch não deveria se aprofundar nessa investigação. Segundo o sargento, Harry tinha outros casos mais importantes para trabalhar. Por trás da decisão de O'Toole estava uma questão política. Se a polícia elucidasse depois de tanto tempo um homicídio de uma pessoa branca de 1992, aquilo poderia ser interpretado como uma postura racial da instituição. Afinal, muitos crimes cometidos contra negros naquele ano continuavam indefinidos. Se a imprensa explorasse o assunto com força, uma nova onda de protestos e confusões poderia se espalhar pela cidade. Indiferente ao fato e às consequências, Harry Bosch decide prosseguir na investigação. Para ele, há um assassino solto e isso, por si só, já justificativa seu trabalho. Dessa maneira, Cliff O'Toole e Harry Bosch tornam-se inimigos. Justamente quando está trabalhando em um dos casos mais complicados de sua carreira, o detetive Bosch tem o próprio chefe atrapalhando suas atividades. O pior é que o avanço da investigação levará o policial para eventos que envolvem gente poderosa e que remontam à Primeira Guerra do Iraque. Tudo muito sinistro... "A Caixa-Preta" é um bom thriller policial. Harry Bosch é uma ótima personagem que Michael Connelly sabe trabalhar muito bem. Não à toa, o tira foi largamente utilizado em duas dezenas de romances do escritor. O estilo de policial durão das antigas que gosta de música lembra um pouco os protagonistas de Rubem Fonseca (principalmente o comissário Aberto Mattos, de "Agosto"). Contraditório e carismático, Bosch faz seu trabalho bem do seu jeito particular, não sendo possível julgá-lo nem enquadrá-lo nas regras sociais. A dedicação quase que exclusiva do detetive ao seu trabalho também parece cobrar um alto preço. Essa conta começa a ser paga por Harry em sua vida pessoal. A filha fica muitas vezes sozinha em casa. Quando eles decidem partilhar algo, aí as brigas acontecem. A namorada do policial é quase uma estranha para ele. No departamento de polícia, ninguém sabe qual é o dia em que Harry faz aniversário, escancarando a pouca amizade do policial com os colegas. Este é Harry Bosch, pessoal! Contudo, a melhor mistura de "A Caixa-Preta" não se dá entre a vida pessoal complicada do detetive e seu trabalho perigoso. O ponto alto da trama é a relação conflituosa de Harry com seu novo chefe. Cliff O'Toole é talvez o grande vilão da história. O chefe de polícia que se preocupa apenas com a burocracia, com os números brutos do seu departamento, com as regras estipuladas nos manuais, e principalmente, com a política, pode ser o grande inimigo dos policiais que estão na linha de frente das investigações de homicídios. Gostei também da contextualização histórica do romance. Michael Connelly utiliza-se de fatos reais (protestos de maio de 1992 na cidade de Los Angeles e Primeira Guerra do Iraque) para construir uma trama densa e com algumas reviravoltas interessantes. "A Caixa-Preta" tem pouco mais de 300 páginas. Como sua leitura é rápida, é possível ler o livro em duas ou três noites. Foi o que fiz nesta semana. Comecei a obra na segunda-feira à noite e na quarta à noite já tinha concluído (li apenas no período noturno). Com o bom conflito e a linguagem simples do romance, o leitor fica preso nessa história, devorando suas páginas sem qualquer complicação. Como qualquer história feita sob uma moldura narrativa, "A Caixa-Preta" permite aos leitores compreenderem sua trama sem que seja necessária a leitura das partes anteriores da série. Contudo, muitos aspectos do romance não serão usufruídos em sua totalidade por quem estiver lendo esse livro como o primeiro do detetive Bosch. Por exemplo, quem é a mãe de Maddie (Eleanor Wish)? Onde ela está agora (Eleanor foi assassinada em Macau em um dos romances da saga)? Por que filha e pai tem um relacionamento ainda frio (A garota foi morar com Harry há pouco tempo; Ela morava com a mãe no exterior)? Por que Bosch e seu parceiro possuem uma relação ainda tímida (Eles passaram a trabalhar juntos recentemente, conforme mostrado em "A Queda", o romance anterior da coleção)? Note que essas respostas são apresentadas apenas em outros títulos da série de Harry Bosch. De ponto negativo, "A Caixa-Preta" sofre, talvez, do mal que acomete a maioria dos romances policiais: a falta de verossimilhança da história como um todo. A investigação avança quase que exclusivamente por sorte ou por uma série de coincidências que na vida real são difíceis de acreditar. Dúvida? Então o que você me diz de um criminoso que telefona para a delegacia para saber como está o andamento da investigação de homicídio que ele cometeu e ainda não foi citado por nenhum dos envolvidos? Parece verossímil isso para você? Para mim beira o absurdo. E o que você me diz de um caso que fica parado na gaveta da polícia por duas décadas e, de repente, se torna prioridade para um policial da corporação sem qualquer explicação da noite para o dia? Para mim, beira o improvável. Tirando esses detalhes que são típicos da maioria dos romances policiais, o livro é bem interessante. Reparem nas boas cenas de ação das últimas 80 páginas. Quando o bicho pega fogo nas histórias de Michael Connelly é impossível o leitor desgrudar do livro e interromper sua leitura. "A Caixa-Preta" está longe de ser o melhor livro da série de Harry Bosch. Porém, ele também não está na categoria dos piores. É uma boa obra de Michael Connelly e um bom romance policial. Na certa, os fãs do detetive Bosch vão apreciar mais esse título do que aqueles leitores que ainda não conhecem nada desta saga. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MichaelConnelly #LiteraturaNorteAmericana #RomancePolicial #Suspense

  • Desafio Literário: Balanço de 2017

    O final do ano chegou. Ufa! Em dez dias estaremos celebrando o Réveillon. Por isso, o Bonas Histórias já está pensando em 2018. Conforme anunciado no terceiro aniversário do blog, data comemorada no último 1o. de dezembro, várias novidades serão apresentadas aos nossos leitores a partir de janeiro. Contudo, não gostaria, hoje, de falar sobre o próximo ano. A ideia é que este post sirva como uma breve retrospectiva de 2017. Mais especificamente, vamos fazer um balanço do Desafio Literário que terminou no mês passado. Para quem ainda não conhece esta seção do Bonas Histórias, o Desafio Literário chegou, em 2017, a sua terceira edição. O Desafio é a coluna mais popular do blog. De maio a novembro, analisamos mensalmente um escritor renomado. Esse autor pode ser nacional ou estrangeiro, clássico ou contemporâneo, popular ou cult. A seleção dos nomes tenta englobar a maior variedade (temporal, geográfica, de gênero e de estilos) possível. Para conhecermos em profundidade a literatura destes artistas, lemos de cinco a seis livros de cada um deles. Damos preferência aos títulos mais populares e relevantes. Para cada obra lida, uma análise é apresentada aos nossos leitores. E no último dia do mês, fazemos uma análise geral do escritor, a partir do que identificamos ao longo das leituras. Assim, montamos um panorama geral da carreira do literato e apontamos as suas principais características estilísticas. Este é o Desafio Literário! Se em 2015 analisamos Mia Couto (Moçambique), Nick Hornby (Inglaterra), Jorge Amado (Brasil), John Green (Estados Unidos), Ignácio de Loyola Brandão (Brasil), Harlan Coben (Estados Unidos) e Stephen King (Estados Unidos), e em 2016 estudamos Graciliano Ramos (Brasil), Agatha Christie (Inglaterra), Pablo Neruda (Chile), Sidney Sheldon (Estados Unidos), Paulo Coelho (Brasil), Khaled Hosseini (Afeganistão) e Italo Calvino (Itália), agora em 2017 os sete autores contemplados no Desafio Literário foram: Machado de Assis (Maio), Régine Deforges (Junho), Haruki Murakami (Julho), Nora Roberts (Agosto), Markus Zusak (Setembro), Lya Luft (Outubro) e Ondjaki (Novembro). Para quem quiser rever as análises das obras investigadas e a conclusão sobre o perfil dos autores estudados em 2017, segue, abaixo, a listagem completa dos posts do Desafio Literário deste ano. Maio - Machado de Assis - BRASIL 7 de maio - "Crisálidas" (1864) 13 de maio - "A Mão e a Luva" (1874) 17 de maio - "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) 21 de maio - "Várias Histórias" (1896) 25 de maio - "Dom Casmurro" (1899) 29 de maio - Análise Literária de Machado de Assis Junho - Régine Deforges - FRANÇA 6 de junho - "O Diário Roubado" (1978) 10 de junho - "A Revolta das Freiras" (1981) 14 de junho - "A Bicicleta Azul" (1981) 18 de junho - "Vontade de Viver" (1983) 22 de junho - "O Sorriso do Diabo" (1985) 26 de junho - "Sob o Céu de Novgorod" (1989) 30 de junho - Análise Literária de Régine Deforges Julho - Haruki Murakami - JAPÃO 6 de julho - "Ouça a Canção do Vento" (1979) 10 de julho - "Pinball, 1973" (1980) 14 de julho - "Caçando Carneiros" (1982) 18 de julho - "Norwegian Wood" (1987) 22 de julho - "Minha Querida Sputnik" (1999) 26 de julho - "1Q84 - Livros 1, 2 e 3" (2009) 30 de julho - Análise Literária de Haruki Murakami Agosto - Nora Roberts - ESTADOS UNIDOS 5 de agosto - "Pecados Sagrados" (1987) 9 de agosto - "Doce Vingança" (1988) 13 de agosto - "Nudez Mortal" (1995) 17 de agosto - "A Cruz de Morrigan" (2006) 21 de agosto - "Querer e Poder" (2013) 25 de agosto - "Um Novo Amanhã" (2016) 29 de agosto - Análise Literária de Nora Roberts Setembro - Markus Zusak - AUSTRÁLIA 6 de setembro - “O Azarão” (1999) 10 de setembro - “Bom de Briga” (2000) 14 de setembro - “A Garota que Eu Quero” (2001) 18 de setembro - “Eu Sou o Mensageiro” (2002) 22 de setembro - "A Menina que Roubava Livros" (2005) 28 de setembro - Análise Literária de Markus Zusak Outubro - Lya Luft - BRASIL 6 de outubro - "As Parceiras" (1980) 10 de outubro - "O Rio do Meio" (1996) 14 de outubro - "Perdas & Ganhos" (2003) 18 de outubro - "Pensar é transgredir" (2004) 22 de outubro - "Em outras palavras" (2006) 26 de outubro - "O Tigre nas Sombras" (2012) 30 de outubro - Análise Literária de Lya Luft Novembro - Ondjaki - ANGOLA 5 de novembro - "Bom Dia, Camaradas" (2003) 9 de novembro - "E Se Amanhã o Medo" (2005) 13 de novembro - "Os da Minha Rua" (2007) 17 de novembro - "Avó Dezanove e o Segredo do Soviético" (2008) 21 de novembro - "A Bicicleta que Tinha Bigodes" (2011) 25 de novembro - "Os Transparentes" (2012) 29 de novembro - Análise Literária de Ondjaki Assim, analisamos 42 livros entre maio e novembro deste ano, totalizando mais de 10 mil páginas lidas e comentadas. Acredito que a diversidade do perfil dos escritores escolhidos foi a principal marca do Desafio Literária desta temporada. Tivemos, pela primeira vez, autores de todos os cantos do planeta. Foram dois da América do Sul (Brasil), um da América do Norte (Estados Unidos), um da Europa (França), um da África (Angola), um da Ásia (Japão) e um da Oceania (Austrália). Além disso, a composição entre homens e mulheres, em 2017, foi, enfim, mais equilibrada. Foram analisados quatro artistas do sexo masculino e três do sexo feminino. Este quase empate expressa um equilíbrio de gêneros mais compatível com o que é visto no mundo da literatura no século XXI. Infelizmente, em 2015, não tivemos nenhuma mulher estudada e, em 2016, foi analisada apenas uma autora (Agatha Christie). Para finalizarmos este balanço, dos sete autores contemplados no Desafio desta temporada, dois eram falecidos (Machado de Assis e Régine Deforges), enquanto o restante do grupo foi composto por autores vivos. Na listagem dos escritores contemporâneos, tivemos desde o jovem Ondjaki, de apenas 40 anos, até a experiente Lya Luft, de 78 anos. E o portfólio de títulos lidos incluiu uma seleção bem eclética: romances adultos, juvenis e infantis, novelas, contos, sagas literárias, crônicas e poesias. Trata-se de uma coleção capaz de agradar tanto gregos quanto troianos (desde que amantes da boa literatura!). É com prazer que encerro o Desafio Literário de 2017. Espero que quem tenha acompanhado ao longo dos meses nossa seção tenha aprendido bastante e tenha gostado dessas leituras tanto quanto eu. Até 2018 com muito mais literatura! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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