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  • Livros: Várias Histórias - Os melhores contos de Machado

    Vamos dar uma interrompida breve na leitura dos romances de Machado de Assis. A ideia agora é analisar uma obra de contos do escritor carioca. Desta maneira, o Desafio Literário ficará mais completo. "Várias Histórias" (Martin Claret) é a publicação mais famosa de Machado neste gênero literário. Lançado em 1896, o livro reúne pequenas histórias publicadas no jornal "Gazeta de Notícias", entre 1884 e 1891. Estão ali alguns dos principais contos da carreira de Machado de Assis. Com pouco mais de 150 páginas, "Várias Histórias" possui 16 contos. São eles: "A Cartomante" (1884), "Entre Santos" (1886), "Uns Braços" (1885), "Um Homem Célebre" (1888), "A Desejada das Gentes" (1886), "A Causa Secreta" (1885), "Trio em Lá Menor" (1886), "Adão e Eva" (1885), "O Enfermeiro" (1884), "O Diplomático" (1884), "Mariana" (1891), "Um Apólogo" (1885), "D. Paula" (1884), "Viver" (1886) e "O Cônego ou Metafísica do Estilo" (1885). Em "A Cartomante", o primeiro conto do livro, um triângulo amoroso é regido pelos conselhos de uma vidente. A mulher adúltera se consulta com uma cartomante para saber se o amante, o melhor amigo do seu marido, realmente a ama. "Entre Santos" é o conto em que um padre, certa noite, encontra alguns santos conversando em sua igreja. As estátuas do altar se materializaram e passaram a discutir casos dos fiéis daquela paróquia. O caso mais curioso é do homem avarento que pede pela cura da esposa, mas não consegue oferecer dinheiro em troca da salvação dela. A terceira história se chama "Uns Braços". Nela, um escravo de quinze anos se apaixona pela mulher do patrão. O que o garoto mais gosta na patroa é de seu par de braços. "Um Homem Célebre" narra o drama de um músico do final do século XIX que sonha em compor uma ópera clássica, porém só encontra sucesso nas polcas, gênero popular da época. Em "A Desejada das Gentes", conhecemos a trajetória da moça mais bonita do Rio de Janeiro. Apesar de possuir vários pretendentes, ela teima em não se casar com ninguém. O sexto conto é "Causa Secreta". Nele, dois homens se tornam amigos. Enquanto um gosta de salvar a vida das pessoas, o outro parece obter prazer em provocar a dor em animais indefesos. Curiosamente, o primeiro acabará se apaixonando pela esposa do segundo. Em "Trio em Lá Menor", uma jovem séria e respeitada fica indecisa entre dois pretendentes a marido. Um é jovem, bondoso e entediante. O outro é mais velho, sagas e ligeiramente arrogante. Contudo, ela não consegue se decidir. Quando está com um, logo pensa no outro. E "Adão e Eva" é o conto em que, em um almoço entre amigos, um dos convidados se propõe a contar a verdadeira história da expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A segunda metade dos contos de "Várias Histórias" começa com "O Enfermeiro". Aqui, um rapaz passa a trabalhar como enfermeiro de um velho coronel. O patrão é sádico e mal-humorado, levando o jovem a reagir contra as maldades sofridas. Em "O Diplomático", um senhor solteiro sonha em se declarar para a filha de um amigo. Quando, enfim, escreve uma carta para a moça, é impedido pelo aparecimento de um rival. "Mariana" é a história de amor interrompida pela passagem dos anos e pela distância física dos apaixonados. "Conto de Escola" é bem atual. Um século antes da operação "Lava-Jato", o narrador, uma criança, aprende o sentido das palavras corrupção e delação. Em "Um Apólogo", presenciamos o diálogo curioso entre uma agulha e um novelo de lã. Os dois debatem de quem é a principal autoria de uma costura feita na roupa de uma baronesa. "D. Paula" mostra o desafio de uma senhora em "salvar" o casamento de sua jovem sobrinha. A moça está apaixonada por um rapaz que acabou de chegar do exterior e está na iminência de praticar o adultério. Em "Viver", presenciamos os devaneios do último homem no planeta Terra. O idoso começa a conversar com Prometeu, um dos deuses gregos do Olimpo. E, por fim, temos o último conto, "O Cônego ou Metafísica do Estilo". Aqui, acompanhamos o processo criativo de construção de um sermão. O Cônego Matias é contratado para produzir um texto eclesiástico para uma data especial. Enquanto prepara o sermão, o narrador mergulha no subconsciente do religioso. O que faz o livro "Várias Histórias" tão importante é que dele saíram alguns dos mais famosos contos de Machado de Assis. "A Cartomante", "A Causa Secreta", "Uns Abraços", "Um Apólogo", "D. Paula", "Trio em Lá Menor", "O Enfermeiro" e "Um Homem Célebre" são clássicos da literatura brasileira. Quem gosta de boas tramas, precisa conhecê-los. Ao ler esta obra, verificamos que Machado de Assis não é apenas um excelente romancista, mas também um ótimo contista. Ele consegue hipnotizar o leitor em poucas palavras. Depois de algumas linhas lidas, já estamos envolvidos com as tramas narradas de uma maneira que não podemos mais largá-las. A maioria das histórias gira em torno do adultério feminino, um tema recorrente nas obras de Machado. Ele aborda os triângulos amorosos de todas as formas e perspectivas, conferindo desfechos variados e inusitados. Em "Várias Histórias", é possível notar que Machado de Assis mantém-se fiel ao seu estilo literário mesmo quando escreve contos. Na narrativa destas histórias, o autor segue com a pegada pessimista, sua ironia velada, o diálogo aberto com o leitor, a crítica à sociedade burguesa e o descrédito em relação ao casamento. O niilismo e a polifonia também estão presentes na maioria dos contos. É Machado com a cara do melhor Machado de Assis. Ou seja, é impossível não reconhecer sua autoria nesta coleção de textos primorosos. A impressão que tive ao terminar "Várias Histórias" é que muitas destas tramas poderiam ter sido transformadas em novelas ou romances. Afinal, elas possuem uma densidade dramática muito forte e personagens com elevado grau de complexidade e de contradições. D. Paula é um ótimo exemplo. Sua descrição e suas inquietações são dignas da construção de um romance próprio. Além de "Várias Histórias", Machado de Assis publicou outros seis livros de contos: "Contos Fluminense" (1870), "Histórias de Meia-Noite" (1873), "Papéis Avulsos" (1882), "Historias Sem Data" (1884), "Páginas Recolhidas" (1899) e "Relíquias da Casa Velha" (1906). Depois de sua morte, as editoras passaram a publicar obras com a coletânea completa com estas histórias. Se você não se convenceu da grandiosidade de Machado com as leituras de seus romances (algo que eu duvido), você precisa ver seus contos. "Várias Histórias" é uma ótima opção neste sentido. Afinal, ela reúne as melhores narrativas curtas de um dos melhores contistas de nossa história. Não é pouco coisa, né? Acredito que até mesmo quem não goste deste gênero literário, irá apreciar as histórias criadas por Machado. Mesmo correndo o risco de cair em um velho clichê, asseguro: estas são gigantescas pequenas histórias que todo mundo deveria conhecer. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MachadodeAssis #ColetâneadeContos #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica

  • Livros: Memórias Póstumas de Brás Cubas - O início do Realismo

    "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret) é a principal obra de Machado de Assis. Publicado inicialmente em folhetins pelos jornais em 1880, o romance se transformou em um livro já no ano seguinte. Sua importância histórica está no fato de ter representado a introdução do Realismo no Brasil. O valor literário, por sua vez, está nas várias inovações formais, estilísticas e temáticas promovidas por Machado. O jornal Folha de São Paulo classificou "Memórias Póstumas de Brás Cubas" como sendo o terceiro principal romance brasileiro da nossa história. A maioria dos acadêmicos e dos críticos literários, contudo, o coloca na primeira posição. A revista Bravo, em 2008, apontou o romance machadiano de 1881 como pertencente à lista das 100 obras essenciais da literatura mundial, posicionando-o na quinquagésima nona posição entre os clássicos (é o único livro brasileiro neste grupo). A história de "Memórias Póstumas" é sobre Brás Cubas, um burguês do século XIX que passou a vida inteira sem realizar qualquer grande feito que merecesse um elogio. Ele jamais trabalhou, consumindo a herança paterna em uma vida fútil, não se casou e não teve filhos. Estes pontos, por sinal, são citados com orgulho pela personagem principal. Brás Cubas conta, em primeira pessoa, sua trajetória depois de morto. Por isso, trata-se de um livro de memórias. O romance inicia-se com o protagonista descrevendo seu enterro e comentando sobre as poucos pessoas que foram se despedir dele. Em seguida, a história volta para quando a personagem era uma criança. A partir daí, ele narra sua vida em ordem cronológica, em tom de retrospectiva. Brás conta as travessuras de sua infância mimada, o primeiro amor, a viagem para Portugal para fazer faculdade e sua volta ao Rio de Janeiro depois de formado. Outra vez no Brasil, vê o falecimento da mãe, tenta um noivado de conveniência com Virgínia (filha de um figurão do Segundo Reinado), ambiciona se tornar político e vê seus sonhos se frustrarem com o casamento de Virgínia com Lobo Neves, que ficou também com sua vaga na política. Com a morte do pai, têm início as brigas com a irmã Sabrina pela fortuna da família, o caso extraconjugal com Virgínia e as conversar filosóficas com o amigo Quincas Borbas. A chegada da velhice motiva Brás a uma nova tentativa de casamento com a jovem Elália, impedida pela morte precoce da moça por febre amarela. Antes de sua morte, o protagonista ainda tenta inventar, sem sucesso, um emplastro que curaria todas as doenças do mundo. Ironicamente, ele morre antes de conseguir tal feito. "Memórias Póstumas" marca uma significativa mudança estilística de Machado de Assis. Ele abandona definitivamente a narração linear e objetiva e a visão de mundo romântica que marcaram seus primeiros romances. O escritor carioca passa a produzir uma narrativa entrecortada e subjetiva, com forte cunho psicológico, típicas do movimento realista. Sua visão de mundo é mais pragmática, abordando a sociedade da época e suas personagens com pessimismo e indiferença. Como elemento extra, há altas doses de ironia. Machado de Assis mostra todo o seu talento literário ao destilar um doce veneno em suas palavras. A ironia está presente do início ao fim do romance. A abertura de "Memórias Póstumas" é brilhante. Brás Cubas dedicou sua obra "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver". Ainda na parte inicial, declarou sobre uma das pessoas que foram ao seu enterro: "Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei". Quando precisa explicar o quanto sua primeira namorada o amou, o narrador foi taxativo: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis". O que dizer, então, da última frase do livro, que conclui o pensamento do protagonista: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Além da visão negativa da vida, como a última frase do romance explicita bem, "Memórias Póstumas" traz como protagonista o primeiro anti-herói brasileiro. Brás Cubas é o típico burguês fútil, interesseiro e nada bondoso. Ele cria lanços pessoais unicamente por interesses financeiros e sociais. Até mesmo a paixão por Virgínia não é algo que vem do seu coração. Trata-se de uma aventura extraconjugal que o diverte e o entretém, fazendo o tempo passar de maneira mais agradável. Curiosamente, Brás Cubas não é exceção na sociedade fluminense da segunda metade do século XIX. A sociedade como um todo está corrompida e vive de aparências. Esta é a conclusão que chegamos ao ler o romance realista de Machado. Dois personagens mostram isso de maneira bem nítida. A primeira é Dona Plácida, uma senhora religiosa que tinha grande consideração por Virgínia. Ela fazia tudo que julgava certo, seguindo os preceitos da sua religião e da ética burguesa. Por isso, foi inicialmente contra a traição de Virgínia com Brás Cubas. Aquilo não estava certo, pensava a senhora. Porém, quando os amantes passaram a dar dinheiro e uma casa confortável para Dona Plácida em troca do seu silêncio, ela aceitou naturamente o romance dos dois. Ou seja, o dinheiro é capaz de comprar até a ética das pessoas. O segundo personagem é Prudêncio, o filho de um escravo da família Cubas. O rapaz sofreu todo tipo de violência e humilhação na infância. Brás usava o moleque como seu brinquedo pessoal, tratando-o como um mero objeto. Quando adulto, Prudêncio conseguiu sua alforria. O que ele fez, então? Comprou um escravo e se tornou ainda mais tirano e violento do que Brás foi com ele. Em praça pública, Prudêncio batia e humilhava seu escravo. Outro aspecto que precisa ser destacado nesta obra e que marca o novo estilo concebido por Machado de Assis é a conversa aberta entre narrador e leitor. O tempo inteiro, o protagonista (que narra sua vida em primeira pessoa) dirige-se diretamente a pessoa que lê o romance como se ambos estivessem conversando. Este recurso permite uma maior intimidade entre os dois lados, além de representar a possibilidade de mais divagações e reflexões por parte de Brás Cubas. Assim, a narrativa torna-se entrecortada, misturando fatos narrados e a exposição de pensamentos da personagem principal. Estas conversas insistentes entre narrador e leitor também têm o efeito de transformar a narrativa em um texto metalinguístico. Ironicamente, Machado de Assis passa a comentar e criticar a postura de quem escreve e de quem lê o romance. Não são raras às vezes em que autor e leitor são elogiados ou criticados por suas posturas no processo de produção-leitura da obra. A influência de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" se estende até os dias atuais. Não é errado afirmar que autores contemporâneos utilizam até hoje os recursos literários e estilísticos desenvolvidos por Machado de Assis no século XIX. Os escritores modernistas e do Realismo Fantástico sul-americano, de certa maneira, também se valeram das ousadias narrativas e da complexidade psicológica das tramas machadianas. Vale lembrar que quem conta a história é um personagem que já morreu. Além disso, no meio da trama há cenas como o sonho em que Brás Cubas, montado em um hipopótamo, se encontra com Pandora, a representante da natureza. A história de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" foi, ao longo dos anos, encenada nos palcos de teatros do Brasil e, em 2001, virou filme. Dirigido por André Klotzel (dos premiados "Reflexões de um Liquidificador" de 2010 e "A Marvada Carne" de 1985) e com Reginaldo Faria como Brás Cubas, o longa-metragem recebeu cinco Kikitos de Ouro no Festival de Gramado em 2002, sendo eleito pelo júri como o melhor filme daquele ano. . Este é realmente um livro espetacular. Além de sentirmos prazer pela leitura em si, acabamos sendo tragados pela magia desta história que combina ironia ácida com um pessimismo assustador. E olha que quem está dizendo isso é um leitor que leu esta obra por onze vezes em sua vida e, mesmo assim, poderia recomeçá-la outra vez agora mesmo. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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  • Internet: Exigências da Vida Moderna - Crônica de Luis Fernando Veríssimo em vídeo

    Luis Fernando Veríssimo é um dos meus autores preferidos. O escritor gaúcho é mestre em retratar a vida cotidiana e os relacionamentos humanos com bom humor e inteligência. Não é à toa que seus melhores textos, em minha opinião, são as crônicas. Por muitos anos, eu só comprava o jornal O Estado de São Paulo aos domingos para ler sua coluna. Contudo, entendo quem prefira o lado contista de Veríssimo. Afinal, são inúmeras personagens marcantes desse gênero: Velhinha de Taubaté, Analista de Bagé, Ed Mort... E o que dizer, então, de suas tirinhas, hein? As Cobras e Família Brasil eram hilárias. Por que estou falando sobre isso hoje? Porque achei um vídeo na Internet com a adaptação de "Exigências da Vida Moderna", uma das crônicas mais conhecidas de Luis Fernando Veríssimo. "Exigências da Vida Moderna" apresenta tudo o que uma pessoa comum deve fazer em um dia normal para ter uma ótima saúde e uma excelente qualidade de vida. A união de todas as recomendações médicas é muito divertida. O vídeo é um trabalho dos estudantes do Centro Universitário Belas Artes. Desenvolvido por Gabriela Silvestrini, Juliana Platero, Lilian Materaggia, Maria Paula Ribeiro e Natasha Marques e encenado por Lilian Materaggia, a produção teve a orientação de João Carlos Rocha, meu ex-professor de Cinema da ESPM (Abraço, João Carlos!). Veja como o texto de "Exigências da Vida Moderna" foi magnificamente utilizado pelos estudantes nesta adaptação. Depois de assistir ao vídeo, acabei gostando ainda mais da crônica e do talento literário de Veríssimo. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em TV, Rádio e Internet. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #LuisFernandoVeríssimo #internet #Crônica #Vídeo

  • Livros: A Mão e a Luva - O xeque-mate no romantismo

    Na semana passada, começamos o Desafio Literário de 2017 (leitura das obras de Machado de Assis) por um livro de poesias. "Crisálidas" (Martin Claret) é uma coletânea de poemas românticos de 1864. Atualmente, o lado poeta de Machado é uma das faces menos estudadas do trabalho do principal escritor brasileiro. Afinal, o que o tornou famoso não foi a poesia e sim a prosa. Foi através dos romances que ele se tornou um mestre na arte de contar histórias. É por isso que vamos agora entrar na análise deste gênero narrativo. Machado de Assis é considerado o principal romancista do Realismo Brasileiro (e um dos principais da América do Sul e da língua portuguesa como um todo). Alguns críticos literários chegam a colocar o escritor carioca como um dos principais autores mundiais desta escola literária. Contudo, Machado não "nasceu" realista. Antes de publicar, em 1889, "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret), obra precursora do Realismo no Brasil (e que será analisada na semana que vem), ele lançou quatro romances românticos: "Ressurreição" (Ática), em 1872, "A Mão e a Luva" (Globo), em 1874, "Helena" (Ática), em 1876, e "Iaiá Garcia" (Globo), em 1878. Ou seja, esta é a fase romântica do romancista. Desta fase da carreira de Machado, selecionei para nossa leitura e para nossa análise o livro "A Mão e a Luva". Para mim, esta obra é importantíssima, pois indica uma primeira tentativa de mudança no estilo do autor. Apesar dos especialistas o classificar como sendo romântico, este romance já possui muitas características do Realismo. De certa forma, ele pode ser visto como um livro de transição. Já em seu segundo romance, Machado de Assis já mostrava sinais acintosos de que era muito mais um autor que se interessava pelos meandros psicológicos das suas personagens e pelas necessidades sociais delas. A passionalidade mórbida e o amor platônico, itens estes tão valorizados pelos autores ultrarromânticos, acabavam ficando em segundo plano. Em "A Mão e a Luva", conhecemos o drama de Estevão, um carioca criado no bairro de Botafogo. O estudante de direito, vindo de uma família simples, era apaixonado desde a adolescência pela bela e tímida Guiomar. A menina era órfã e estudava em um colégio interno. Entretanto, a jovem nunca quis saber do rapaz, recusando todas as suas investidas para um namoro sério. Estevão, desesperado pelo amor não correspondido, pensa em se matar. Ele é, então, consolado por Luís Alves, seu colega de faculdade. Os conselhos do amigo fazem com que Estevão consiga esquecer Guiomar por alguns anos. Algo que ajudou neste sentido foi a distância da moça (Estevão fazia faculdade em São Paulo, enquanto a menina permaneceu no Rio) e a dedicação do rapaz aos estudos. A combinação destes fatores ajudou-o a curar provisoriamente as dores do coração. Depois de formado, Estevão volta a morar no Rio de Janeiro, onde passa a atuar como advogado ao lado de Luís Alves. Em uma visita à casa do amigo, ele reencontra Guiomar. A moça é vizinha de Luís Alves. O inesperado encontro dos dois faz florescer os antigos sentimentos do rapaz. Depois de uma conversa com a jovem, Estevão está novamente apaixonado por ela. Desta vez, contudo, a jovem não está mais tão desamparada e pobre como no passado. Ela havia sido "adotada" por uma baronesa rica e viúva. A moça levava agora uma vida de luxo no casarão da madrinha (como era chamada a mãe adotiva). A simpatia demonstrada por Guiomar naquele reencontro fez com que o jovem advogado imagine que ela possa estar apaixonada por ele. "Quem sabe ela não foi sempre apaixonada por mim?", cogita de forma um tanto platônica. Com a ajuda de Luís Alves, Estevão se torna o advogado da baronesa, frequentando a casa dela. Assim, ele passa a conviver com Guiomar no dia a dia, ratificando todo o amor que tem pela moça. Após se declarar outra vez para ela, Estevão ouve uma segunda recusa dela. Ela afirma não o amar. "Por que será que ela age assim?", pensa ele. Alguns dias depois do novo fora recebido por Estevão, um sobrinho da baronesa, Jorge, descrito como frio e arrogante, apresenta a intenção de se casar com Guiomar. Ela também não ama o rapaz, mas pode se inclinar a aceitar o casamento para deixar sua madrinha feliz. Segundo Mrs. Oswald, a governanta inglesa da baronesa, o sonho da patroa é ver a afilhada casada com seu sobrinho. Nesta disputa pelo coração de Guiomar, surge ainda um terceiro e surpreendente pretendente. Luís Alves coloca de lado a amizade com Estevão e também passa a cortejar a vizinha. No momento de escolher quem será seu futuro marido, Guiomar evidencia a força de sua personalidade. Ela analisa os candidatos muito mais pela razão do que pela emoção. Assim, irá calcular as vantagens e as desvantagens sociais que cada um deles pode proporcionar a ela. Esqueça, portanto, a menina doce, apaixonada e sonhadora. O que temos aqui é uma mulher fria, interesseira e muito esperta. Sua decisão sobre o matrimônio é baseada única e exclusivamente no que o futuro parceiro tem a oferecer em relação às conquistas financeiras e sociais. Posição na sociedade, status, dinheiro, prestígio, nome, luxo, riqueza e poder são os atributos principais do marido certo. É possível dizer que a primeira metade desse livro se caracterize como sendo uma típica história romântica. O enredo, os cenários, os personagens, as situações e os conflitos indicam que a trama irá se desencadear como os demais livros deste gênero artístico. Porém, a segunda metade de "A Mão e a Luva" inverte totalmente esta lógica, transformando-se em uma obra puramente realista. Prova maior deste fato é que o personagem mais passional e emotivo da história praticamente some no terço final da narrativa. Estevão sai do papel de protagonista e torna-se um mero figurante. É como se Machado de Assis cansasse dos personagens românticos e concentrasse suas atenções nas personagens com características mais realistas (e interessantes do ponto de vista narrativo). Com isso, a impressão que se tem (principalmente para quem está acostumado exclusivamente às tramas românticas) é que a história de "A Mão e a Luva" só tem vilões. O único mocinho é colocado para escanteio. Esta é a primeira grande surpresa deste livro. Na é a toa que o público da época não gostou deste romance. "A Mão e a Luva", ainda com o nome "Um Perfil de Mulher", foi publicado em 20 folhetins no jornal "O Globo" entre setembro e novembro de 1874. A reação dos leitores foi a pior possível. Eles não entenderam como era possível o autor criar um desfecho pouco romântico para uma história de amor que parecia tão bonita. Mal sabiam eles que Machado de Assis iria se consolidar como um dos mais antirromânticos autores nacionais. Outro elemento interessante que precisa ser destacado em "A Mão e a Luva" é o estilo da narrativa de Machado de Assis. Ele já apresentava, em menor escala, algumas das características que seriam apontadas mais tarde, na "Fase Realista", como sendo suas marcas. Estão presentes aí: "o diálogo com o leitor", "o aprofundamento psicológico das personagens", "os jogos de interesses e vaidades" e "as imposições sociais que a vida burguesa exigia". Juro que consigo ver, durante a leitura de "A Mão e a Luva", "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro" (Ática) sendo construídos. Para completar, temos uma crítica contundente ao estilo e aos ideais românticos. Estevão é retratado como um bobo por seu sentimentalismo piegas e exacerbado. Sua ingenuidade chega a provocar pena no leitor mais crítico. Em vários momentos, é até cômico acompanhar suas dores de coração. Elas são completamente improdutivas quando comparadas a frieza sentimental e a praticidade dos demais personagens (que não possuem qualquer envolvimento emocional). Estevão acaba visivelmente deslocado da trama principal como se fosse alguém "perdido em outra época". O verdadeiro mundo burguês do século XIX não é para os fracos nem para os sonhadores. Nisso, Machado de Assis acerta em cheio. Legal também notar a constituição da personagem principal. Guiomar é uma das personalidades mais fortes e contundentes de nossa literatura. Ela navega tenuemente entre o protagonismo e o antagonismo. Ela é tão decidida quanto foi Aurélia Camargo, de "A Senhora", mas não possui o mesmo carisma da personagem de José de Alencar. Se ao final do seu romance, Aurélia consegue se redimir aos olhos dos leitores românticos, o mesmo não pode ser dito de Guiomar. A personagem machadiana é fiel ao seu espírito prático e mundano até o final, não descambando para o Romantismo em nenhum momento. Neste aspecto, o desfecho de a "Mão e a Luva" é esplendido. Com poucas e exatas palavras, Machado de Assis consegue resumir o retrato dos protagonistas e de suas decisões. A cena do casal entrelaçando as mãos é o retrato magnífico dos jogos de interesses por trás do casamento burguês. Respeito quem considere este um romance romântico. Para mim, "A Mão e a Luva" é mais uma novela (tem pouco mais de 100 páginas e apenas seis personagens relevantes) realista ou (vá lá) pré-realista. Justamente aí, está a importância desta obra. Ela é muito mais uma experimentação de Machado de Assis para o que viria uma década e meia depois. Não consigo enxergar este livro como sendo um fracasso editorial. Vejo muito mais méritos nesta narrativa intrigante e inovadora do que falhas. Se o público do século XIX não gostou de "A Mão e a Luva" é porque não soube entendê-la como a precursora de um novo estilo literário que estava por eclodir. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MachadodeAssis #LiteraturaBrasileira #Romance #LiteraturaClássica #Drama

  • Filmes: Clash - Fragmento da história recente do Egito

    Semana passada, fui à estreia de "Clash" (Eshtebak: 2016) no circuito nacional. Esse filme foi o representante egípcio no Oscar de 2017. Dirigido e roteirizado por Mohamed Diad, de "Decor" (Decor: 2014) e "Cairo 678" (678: 2011), o longa-metragem acabou preterido pela academia de cinema de Los Angeles, não chegando a ficar entre os finalistas da categoria de melhor produção estrangeira. Isso não impediu que o filme de Diad recebesse muitos elogios em vários países onde foi exibido. O roteiro de "Clash" aborda o período tumultuado que o Egito passou em 2013. Para entender o longa-metragem, é preciso saber o que se passava no cenário político e social do país africano naquele ano. Para quem não lembra ou não soube o que se passou ali, o longa-metragem faz uma rápida contextualização. No início do filme, apresenta-se, através de legendas, o panorama do Egito entre os anos de 2011 e 2013. Assim, o expectador rapidamente entra no clima da produção. Em 2011, uma revolta popular, inspirada na Primavera Árabe que tomou conta de vários países islâmicos naquele ano, levou a deposição do ditador egípcio. Hosni Mubarak estava no poder havia três décadas e tinha o apoio das Forças Armadas. O resultado mais prático do fim do regime político foi o estabelecimento de eleições gerais para a presidência, que ocorreram no ano seguinte. A expectativa da nação inteira era que ela se tornasse, enfim, uma democracia sólida e inclusiva e não um país ditatorial e militarizado como nas últimas décadas. O presidente eleito, em 2012, foi Mohamed Morsi. O problema do novo mandatário é que ele era ligado à Irmandade Muçulmana, partido político de ideias radicais que pretendia transformar o Egito em um país islâmico. Ou seja, os novos líderes políticos eram, paradoxalmente, contra a vontade de grande parte da população. A Irmandade Muçulmana não queria saber dos princípios democráticos e laicos. Ela queria implementar uma teocracia no país. No início de 2013, medidas mais contundentes e radicais de Morsi visando à instauração de um governo religioso foram aprovadas pelo parlamento egípcio. Neste momento, parte da população egípcia voltou às ruas para protestar e pedir a renúncia do presidente. Muitos clamavam pela volta das Forças Armadas ao comando da nação. No meio do caos social que o país se encontrava, os militares agiram rapidamente. Eles destituíram Mohamed Morsi e colocaram uma junta militar no poder. Aí, as ruas do Cairo se transformaram em campo de batalha. O país praticamente entrou em guerra civil. O grupo pró-Irmandade Muçulmana enfrentava o grupo Pró-Militares em sangrentos conflitos pela cidade. No meio de tudo, a polícia tentava, sem sucesso, apaziguar os ânimos dos revoltados. É esse o cenário de "Clash". O filme se passa exatamente no período mais tenso de 2013, durante a onda de protestos populares do Egito. Dois jornalistas da Associated Press que cobriam uma passeata pacífica foram presos pelos policiais, que acreditavam que eles eram espiões internacionais. O que chamou a atenção dos agentes de segurança foram as câmeras que a dupla carregava. Colocados em um camburão, os jornalistas alegam inocência e pedem ajuda à população que passava pelo local. Os manifestantes que apoiavam os militares, acreditando que os jornalistas eram da Irmandade Muçulmana, começam a atirar pedras na direção do caminhão da polícia. Os policiais entendem que estão sendo atacados e prendem vários manifestantes do grupo Pró-Militares, jogando-os no camburão junto com os jornalistas. Os novos presos são pessoas comuns: famílias inteiras e grupos de amigos. Por isso, há crianças, mulheres e idosos entre os confinados. Logo depois, estoura um violento conflito entre os policiais e os apoiadores da Irmandade Muçulmana, que também passavam pelo local. Novamente, algumas pessoas são presas e atiradas no camburão. Assim, o interior do caminhão da polícia se torna um local cheio de pessoas que se odeiam. Apoiadores dos militares, partidários dos muçulmanos e jornalistas (vistos como espiões estrangeiros por todos) estão em lados opostos. O clima no interior do veículo, entre os presos, é muito tenso. Enquanto eles brigam entre si, também são alvos da ira dos policiais, que exigem obediência absoluta. Isso tudo ocorre enquanto as ruas do Cairo passam por violentas brigas, presenciadas por todos. "Clash" se passa inteiramente dentro do camburão. A imagem é sempre da perspectiva interna do veículo, do local onde os presos estão confinados. O filme começa e termina com esta tomada, sem mudar em nenhum momento. Até mesmo quando se mostra cenas da cidade e dos policiais, a câmera fica dentro do caminhão da polícia. Essa é a primeira decisão ariscada e bem-sucedida do diretor-roteirista. Ao restringir o cenário da produção para o interior do veículo, Mohamed Diad corria o risco de tornar seu filme chato e parado. Não é o que acontece na prática. As quase duas horas de longa-metragem são intensas e viscerais. A câmera agitada, a falta de enquadramento e os sucessivos acontecimentos, que mudavam a dinâmica do enredo o tempo inteiro, transformam esta produção em um drama tenso e muito movimentado. A plateia praticamente não pode piscar os olhos com risco de perder alguma coisa. O recurso cinematográfico de filmar segundo a perspectiva dos prisioneiros faz com que o expectador tenha a sensação de estar participando do filme. É como se fossemos um dos prisioneiros, o que aumenta nossa angústia e nossa apreensão. Por isso, não se surpreenda se você, durante a sessão, tiver emoções parecidas às das personagens: claustrofobia, sede, fome, frio, medo, raiva, etc. Outros dois elementos que ajudam a aumentar a sensação de pânico da plateia é a ausência de música em boa parte do longa-metragem e a escuridão, típica do camburão. Por falar nisso, repare na fotografia do filme. As cenas noturnas são magníficas. O jogo de luzes contrastando claro e escuro dão um aspecto, ao mesmo tempo, nostálgico e de suspense à trama. O roteiro é espetacular. Ele parece que foi produzido depois de muito estudo e análise. Além da história geral (do conflito entre os dois lados políticos), o filme mostra os dramas e as angústias pessoais de cada personagem. São aproximadamente 15 pessoas presas no camburão. Há o pai idoso que tenta proteger a filha adolescente; uma dupla de amigos que se torna inimiga quando um descobre que o outro está namorando sua irmã; a família inteira que é presa; o morador de rua que é detido por engano; um ator frustrado que sonha com uma teocracia islâmica; e o jornalista egípcio que cresceu nos Estados Unidos e viajou para seu país natal para fazer a cobertura dos conflitos políticos. A cada dez ou quinze minutos, os acontecimentos no interior do camburão mudam, jogando os personagens de um lado para outro da história. Ora eles se unem, ora brigam, em um vaivém interminável. É tanta confusão que, no início, cheguei a rir do que estava ocorrendo ali. Trata-se, obviamente, de um humor negro. O fato dos presos não saberem identificar, na maioria das vezes, de quais lados estavam os protestantes nas ruas indica o quanto era despropositada a briga entre eles. Nem mesmo Franz Kafka conseguiria produzir uma trama tão absurda. Absurda, mas ao mesmo tempo muito verossímil. Afinal, quem disse que no meio de uma guerra civil existe lógica?! Em um determinado instante do filme, até mesmo policiais foram jogados no camburão junto com os presos, potencializando a confusão. Hilário! De certa maneira, o que estava acontecendo no interior do caminhão da polícia era um microcosmo do que estava se passando no Egito como um todo. Compreender as reações dos prisioneiros (e dos policiais) é entender o que ocorria com a população daquele país durante o momento histórico mais turbulento das últimas três décadas. A sequência de absurdos progride até culminar em um final na qual o grupo de presos não tem saída. Parece que eles se tornaram inimigos de todo o país: tanto da polícia quanto dos dois grupos de protestantes, que acham sempre que eles são do grupo oposto. O desfecho, como não poderia ser diferente em se tratando de um conflito civil violento e irracional, é trágico. Apesar da fatalidade do destino das personagens, o final possui também elementos poéticos. O que dá um lirismo às cenas finais é a forma como o diretor filmou os acontecimentos derradeiros. Aqui chegamos ao auge da fotografia e dos inusitados enquadramentos de câmera. "Clash" é um filme espetacular. Forte, brutal, visceral, movimentado, dramático e violento. Isso tudo com algumas doses de humor. Este é daquele tipo de produção marcante. Além de ser uma aula de História, o longa-metragem consegue mexer com a plateia de maneira pouco usual. Agora entendo o inconformismo dos egípcios quando este filme acabou ficando fora dos finalistas do Oscar. Realmente, "Clash" merecia melhor sorte na escolha da academia norte-americana. Em minha opinião, o longa-metragem de Mohamed Diad é superior, por exemplo, ao "Apartamento" (Forushande: 2016), produção do iraniano Asghar Farhadi que venceu o Oscar. Veja o trailer de "Clash": Se você gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias, deixe um comentário aqui. Se você é fã de filmes novos e antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Crisálidas - A primeira obra poética de Machado de Assis

    Comecei a análise das obras de Machado de Assis por um livro de poemas. "Crisálidas" (Martin Claret) foi publicado em 1864 e faz parte da fase romântica do autor. Curiosamente, muitos leitores e fãs de Machado não sabem que ele também se dedicou à poesia. "Crisálidas" tem um grande valor histórico porque foi o primeiro livro efetivamente publicado de Machado de Assis. Antes de esta publicação chegar às livrarias, o escritor carioca só tinha produzido peças teatrais e pequenas narrativas (contos e crônicas) nos jornais da época. "Crisálidas" tem 29 poemas. Eles foram escritos entre 1858 e 1864, período em que Machado de Assis tinha entre 19 e 25 anos. Ou seja, esta é uma fase da vida da qual o autor ainda era imaturo e estava fazendo experimentações estéticas em sua literatura. Por isso, não espere encontrar, aqui, um poeta calejado e consolidado como artista. Depois de "Crisálidas", Machado lançaria mais três outros livros de poesia: "Falenas" (1870), "Americanas" (1875) e "Ocidentais" (1880). Contudo, o trio fora ofuscado pela prosa realista do autor, que foi recebida com entusiasmo pela crítica e pelo público no final do século XIX. Em 1901, o escritor publicou "Poesias Completa", coletânea com seus principais trabalhos neste gênero literário. Doze poemas de "Crisálidas" foram publicados novamente, com algumas alterações, em "Poesias Completa". Os poemas originais de "Crisálidas" são: "Musa Consolatrix" (1864), "Stella" (1862), "Lúcia" (1860), "O Dilúvio" (1863), "Visio" (1864), "Fé" (1863), "A Caridade" (1861), "A Jovem Cativa" (1861), "No Limiar" (1863), "Quinze Anos" (1860), "Sinhá" (1862), "Erro" (sem data), "Elegia" (sem data), "Aspiração" (sem data), "Embirração" (sem data), "Cleópatra - Canto de um Escravo" (sem data), "Os Arlequins" (1864), "Epitáfio do México" (1862), "Polônia" (1982), "As Ondinas" (sem data), "Maria Duplessis" (1859), "Horas Vivas" (1864), "As Rosas" (sem data), "Os Dois Horizontes" (1863), "Monte Alverne" (1858), "As Ventoinhas" (1863), "Alpujarra" (1862) e "Versos a Corina" (1864). O prefácio foi escrito em prosa lírica pelo poeta Caetano Filgueiras, amigo do jovem Machado. Nesta parte do livro, Filgueiras explica sua relação com o autor da obra e rasga elogios a ele. O encerramento do livro é feito por um conjunto de poesias de Machado que são numeradas por capítulos. Ler a poesia de Machado de Assis é como ver uma partida de futebol em que Pelé esteja em campo, mas atue como goleiro ou zagueiro. "Qual a graça nisso?", podem se perguntar as pessoas. Respondo sem hesitação: nenhuma! Por mais que Pelé e Machado se esforcem para agradar o público, fora de suas melhores posições eles se tornam convencionais e sem brilho. Em minha opinião, Joaquim Maria Machado de Assis não deveria sair da prosa, assim como Edson Arantes do Nascimento jamais poderia atuar longe do ataque. Juro que não consegui achar beleza ou graça em nenhuma das poesias de "Crisálidas". Elas são típicas criações da segunda-fase do Romantismo. Estão ali os cantos aos primeiros amores do poeta, a idealização da mulher amada, o louvor à natureza, o saudosismo de um passado idílico, citações patriotas de momentos históricos (do exterior), referências à morte e exaltação do tédio e da introversão do poeta. Ou seja, o que temos neste livro é um conjunto amplo de temas abordados pelo autor. Essa característica torna a obra mais plural, porém contribui para não deixá-la impactante nem marcante. Machado de Assis, como a maioria dos poetas românticos, abre mão da forma para ressaltar o conteúdo de seus poemas. O próprio Caetano Filgueiras cita esta característica no prefácio da obra: "Qual o sistema métrico que adotou? Nenhum. (...) A escola de Machado de Assis é o sentimento; Seu sistema de inspiração: sua musa liberdade. Tríplice liberdade: liberdade na concepção; liberdade na forma; e liberdade na roupagem. Tríplice vantagem - originalidade, naturalidade e variedade". A poesia mais famosa deste livro é "Versos a Corina", na qual o jovem Machado se declara apaixonadamente para uma dama da corte carioca. Os biógrafos do escritor não conseguiram identificar quem era esta mulher. Assim, preferiram apontá-la como sendo uma idealização do poeta e não uma pessoa real, de carne e osso. Machado fez, ao longo das décadas seguintes, outros poemas a tal "Corina", que se tornou sua musa inspiradora. A seguir, vai a versão original e integral da primeira poesia à Corina, conforme publicada em 1864. "Versos a Corina" (Machado de Assis) Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo Numa hora de amor, de ternura e desejo, Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; Depois, depois vestindo a forma peregrina, Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corina! De um júbilo divino os cantos entoava A natureza mãe, e tudo palpitava, A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude, De uma vida melhor e nova juventude. Minha alma adivinhou a origem do teu ser: Quis cantar e sentir; quis amar e viver; A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, Palpitou, reviveu a pobre criatura; Do amor grande, elevado, abriam-se-lhe as fontes; Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes; Surgiu, abrindo em flor, uma nova região; Era o dia marcado à minha redenção. Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim: Corpo de fascinar, alma de querubim; Era assim: fronte altiva e gesto soberano, Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano, Em olhos senhoris uma luz tão serena, E grave como Juno, e bela como Helena! Era assim, a mulher que extasia e domina, A mulher que reúne a terra e o céu: Corina! Neste fundo sentir, nesta fascinação, Que pede do poeta o amante coração? Viver como nasceste, ó beleza, ó primor, De uma fusão do ser, de uma efusão do amor. Viver, — fundir a existência Em um ósculo de amor, Fazer de ambas – uma essência, Apagar outras lembranças, Perder outras ilusões, E ter por sonho melhor O sonho das esperanças De que a única ventura Não reside em outra vida, Não vem de outra criatura; Confundir olhos nos olhos, Unir um seio a outro seio, Derramar as mesmas lágrimas E tremer do mesmo enleio, Ter o mesmo coração, Viver um do outro viver... Tal era a minha ambição. Donde viria a ventura Desta vida? Em que jardim Colheria esta flor pura? Em que solitária fonte Esta água iria beber? Em que encendido horizonte Podiam meus olhos ver Tão meiga, tão viva estrela, Abrir-se e resplandecer? Só em ti: — em ti que és bela, Em ti que a paixão respiras, Em ti cujo olhar se embebe Na ilusão de que deliras, Em ti, que um ósculo de Hebe Teve a singular virtude De encher, de animar teus dias, De vida e de juventude... Amemos! diz a flor à brisa peregrina, Amemos! diz a brisa, arfando em torno à flor; Cantemos esta lei e vivamos, Corina, De uma fusão do ser, de uma efusão do amor. A poesia que mais gostei foi "Embirração". Nela, de forma bem-humorada, Machado declara repúdio aos versos alexandrinos, ao mesmo tempo em que os usa para compor sua obra. Hilário! Repare que mesmo criticando o formalismo poético, o autor soube construir o poema com uma estrutura rígida (tanto em relação às sílabas métricas quanto às rimas). Este é o verdadeiro Machado de Assis: irônico e crítico, até mesmo fazendo poesia. "Embirração" (Machado de Assis) A balda alexandrina é poço imenso e fundo Onde poetas mil, flagelo deste mundo, Patinham sem parar, chamando lá por mim. Não morrerão, se um verso, estiradinho assim, Da beira for do poço, extenso como ele é, Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé Que volte um afogado, à luz da mocidade, A ver no mundo seco a seca realidade. Por eles, e por mim, receio, caro amigo; Permite o desabafo aqui, a sós contigo, Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal; Nem vence o positivo o frívolo ideal; Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã, E até da vã loucura a moda é prima-irmã: Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus, Do verso alexandrino há de livrar-nos Deus. Deus quando abre ao poeta as portas desta vida, Não lhe depara o gozo e a glória apetecida; E o triste, se morreu, deixando mal escritas Em verso alexandrino histórias infinitas, Vai ter lá noutra vida insípido desterro, Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro; Fechado em quarto escuro, à noite não tem luz, E se é cá do meu gosto o guarda que o conduz, Debalde, imerso em pranto, implora o livramento; Não torna a ser, aqui, das Musas o tormento; Castigo alexandrino, eterna solidão, Terá lá no desterro, em prêmio da ilusão; Verá queimar, à noite, as rosas esfolhadas, Que a moda lhe ofertara, e trouxe tão cuidadas, E ao pé do fogo intenso, ardendo em cruas dores, Verá que versos tais são galhos, não dão flores; Que, lendo-os a pedido, a criatura santa, A paciência lhe foge, a fé se lhe quebranta, Se vai dum verso ao fim; depois... treme... vacila... Dormindo, cai no chão; mais tarde, já tranqüila, Sonha com verso-verso, e as ilusões floridas, Risonhas, vem mostrar-lhe as largas avenidas Que o longo verso-prosa oculta, do porvir! Sonhando, ao menos, pode amar, gozar, sentir, Que um sono alexandrino a deixa ali em paz, Dormir... dormir... dormir... erguer-se, enfim, vivaz, Bradando: “Clorofórmio! O gênio que te pôs, A palma cede ao metro esguio, teu algoz!” E aspiras, vate, assim, da glória ao ideal? Triste e funesto afã!... tentativa fatal! Nesta sede de luz, nesta fome de amor, O poeta corre a estrela, à brisa, ao mar, à flor; Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina, Quer-lhe o aroma sentir na rosa da campina, Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar; Ó inútil esforço! Ó é ímprobo luta! Em vez da luz, do aroma, ou do alento, ou da voz, O verso alexandrino, o impassível algoz!... Não cantas a tristeza, e menos a ventura; Que em vez do sabiá gemendo na espessura, Imitarás, no canto, o grilo atrás do lar; Mas desse estreito asilo, escuro e recatado, Alegre hás de fugir, que erguendo altivo brado, A lírica harmonia há de ir-te despertar! Verás de novo aberta a copiosa fonte! Da poesia verás tão lúcido o horizonte, Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar, Que nas asas do gênio, a voar pelo espaço, Da perna sacudindo o alexandrino laço, Hás de a mão bendizer que o soube desatar. Do precipício foge, e segue a luz secreta, Essa estrela polar dos sonhos do poeta; Mas, noutro verso, amigo, onde ao mago ideal A música se ligue, o senso e a verdade; — Num destes vai-se, a ler, da vida a imensidade, Da sílaba primeira à sílaba final! Meu Deus! Esta existência é transitória e passa; Se fraco fui aqui, pecando por desgraça; Se já não tenho jus ao vosso puro amor; Se nem da salvação nutrir posso a esperança, Quero em chamas arder, sofrer toda a provança — Ler verso alexandrino... Oh! isso não, Senhor! Resumindo: a poesia de Machado de Assis é boa? Não. É ruim, então? Também não! Portanto, o que ela é? Ela é apenas convencional. Se é para ler um poeta romântico, prefiro as obras de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e de Casemiro de Abreu. Se é para lermos Machado, vamos direto à prosa. Neste outro gênero literário, Machado é sublime. E por falar nisso, o próximo livro que iremos analisar deste autor é "A Mão e a Luva", um romance romântico. Ou seja, ainda permanecemos na fase romântica, mas agora vamos para a narrativa em prosa. Ufa! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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  • Desafio Literário de maio/2017: Machado de Assis

    Vamos começar o Desafio Literário de 2017 simplesmente com o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Neste mês de maio, irei ler e analisar Machado de Assis. Como já li suas principais obras em algum momento da minha vida, para mim será um tanto fácil. Bastarei reler os livros que já tenho aqui em casa. O bom da releitura é que poderei analisar melhor muitos pontos do estilo literário deste mestre. Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 1839. Mulato e vindo de uma família pobre (seu pai era pintor de paredes e sua mãe lavadeira), o futuro escritor pouco frequentou a escola na infância. Assim, acabou alfabetizado tardiamente por um padre, com quem nutria grande amizade. Nestas aulas particulares, aprendeu também latim e francês. Sem jamais ir à faculdade, Machado trabalhou em diversos cargos públicos do governo federal. Apesar da pouca instrução formal, o rapaz passou a estudar por conta própria e se tornou um voraz leitor. Ainda adolescente, já possuía grande erudição e domínio completo da escrita. Com apenas dezesseis anos, o jovem Machado passou a escrever poesias e crônicas para os jornais da época. Também se tornou um importante dramaturgo, produzindo várias peças teatrais na década de 1860. Suas primeiras publicações editoriais foram obras de poesias e de contos. "Crisálidas" de 1864, "Falenas" de 1870 (ambas poéticas) e "Contos Fluminenses" de 1870, foram seus primeiros livros lançados. Em 1869, Machado casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã de um amigo do escritor e cinco anos mais velha do que o marido. O casamento durou por 35 anos. Muitos biógrafos dizem que o casal tivera uma vida conjugal perfeita. Sem filhos, Carolina faleceu em 1904, com 70 anos. O primeiro romance publicado pelo autor foi "Ressurreição", em 1872, uma obra romântica. Nesta época, Machado tinha 32 anos e estava há três anos casado. Esta é a história da paixão proibida entre o Doutor Félix e a viúva Lívia, mãe de um menino de cinco anos. A trama psicológica mostra os medos e as desconfianças do casal de protagonistas. A crítica da época viu o potencial naquele jovem autor, mas a obra não teve grande sucesso. Machado de Assis lançou outros três livros românticos naquela década: "A Mão e a Luva" em 1874, "Helena" em 1876 e "Iaiá Garcia" em 1878. Como romancista romântico, o escritor não se destacou muito. Sua passagem para o panteão dos mestres literários viria com o lançamento de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", em 1889. Esse livro representou a introdução do Realismo no Brasil. Após escrever "Casa Velha", em 1885, o escritor carioca lançou outras duas obras-primas do Realismo brasileiro: "Quincas Borba" em 1891 e "Dom Casmurro" em 1899. Esses dois últimos livros fazem parte, juntamente com "Memórias Póstumas de Brás Cubas", do que os críticos literários chamam de "Trilogia Realista", obra maior de Machado. Segundo a Universidade de Coimbra, "Dom Casmurro" está entre os dez melhores romances escritos em Língua Portuguesa. Os três integrantes da "Trilogia Realista" aparecem na lista do Jornal Folha de São Paulo dos dez melhores romances brasileiros. E "Memórias Póstumas de Brás Cubas" ainda é apontado como um dos grandes exemplares da literatura mundial de todos os tempos. A Revista Bravo o colocou na lista dos 100 clássicos de todos os tempos, sendo o único livro brasileiro neste grupo. Machado de Assis é o tipo de escritor completo, tendo trafegado com desenvoltura por vários gêneros literários. Ele atuou como poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e (ufa!) crítico literário. Sua obra reúne nove romances, dez peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e mais de seiscentas crônicas. Se dá um trabalhão ler tudo isso, imagina o que representou escrevê-lo! A quantidade e a qualidade deste trabalho literário trouxeram fama e prestígio ainda em vida para o escritor. Machado de Assis foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL). A fama internacional viria somente depois da sua morte. Com o falecimento da esposa Carolina, Machado entrou em depressão e passou a viver recluso. Ainda lançou seus últimos romances ("Esaú e Jacó", em 1904, e "Memorial de Aires", em 1908) e seu último livro de contos ("Relíquias da Casa Velha" em 1906). Sua morte ocorreu no Rio de Janeiro em setembro de 1908. Para este Desafio Literário, pensei em escolher cinco obras que abrangessem boa parte dos gêneros literários desenvolvidos por Machado, além de englobar os dois movimentos artísticos explorados por ele. Assim, começarei a leitura por "Crisálidas", coletânea de poemas românticos de 1864. Depois, irei para os romances. Analisarei o livro romântico "A Mão e a Luva", de 1874, e o livro realista "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de 1881. Na sequência, darei uma passadinha em sua principal obra de contos, "Várias Histórias", de 1896. Para encerrar, mais um romance realista, "Dom Casmurro" de 1899. Que tal a programação de maio, hein? Quem quiser ler (ou reler) comigo os livros do principal escritor brasileiro neste mês está convidado(a). Vamos embarcar nesta aventura pelos romances românticos e realistas, pelos contos e pelas poesias de Machado de Assis. Boa leitura para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MachadodeAssis

  • Filmes: Vida - A versão genérica de Alien

    Neste final de semana, fui ao cinema para ver "Vida" (Life: 2017), ficção-científica do diretor sueco Daniel Espinosa, de "Crimes Ocultos" (Child 44: 2015) e "Protegendo o Inimigo" (Safe House: 2012). No elenco desta produção, que chegou ao circuito comercial brasileiro na semana passada, estão Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Ariyon Bakare, Hiroyuki Sanada e Olga Dihovichnaya. Ou seja, é um time de respeito por trás do lançamento. O filme de uma hora e quarenta e cinco minutos de duração é recheado com cenas de ação e de suspense. A plateia fica tensa em boa parte da sessão, querendo saber o que vai acontecer e torcendo pelos protagonistas contra o impiedoso inimigo. Contudo, a frustração do expectador é o resultado final deste longa-metragem. Tudo por causa da ausência de criatividade do enredo. Afinal, quem mandou copiar o roteiro de um clássico da ficção científica?! Em "Vida", seis astronautas da agência espacial internacional recebem uma missão. Eles devem conduzir uma experiência científica no espaço com um tipo de vida extraterrena. O alienígena é ainda um ser unicelular. Ele foi coletado do solo de Marte em missões passadas. A descoberta encheu a equipe de alegria, afinal trata-se do primeiro ser vivo descoberto fora da Terra. Apesar de simples, o organismo marciano, chamado de Calvin, vai aos poucos crescendo e se desenvolvendo. A princípio, ele se parece mais com uma planta. Entretanto, um acidente ocorrido, certa noite, no laboratório da agência especial faz com que Calvin deixe de evoluir e passe a hibernar. Para estimular novamente o pequeno ser vivo, o cientista Hugh Derry (Ariyon Bakare) começa a aplicar ondas de eletrochoque nele. Calvin se revolta contra aquela ação, que julga ser uma agressão contra si, e passa a atacar os astronautas da equipe. A partir deste momento, o pequeno marciano mostra ser um organismo complexo, muito inteligente e de rápido crescimento. Assim, os seis astronautas precisam impedir que o monstro alienígena destrua a agência espacial e extermine todos por lá. Também é preciso tomar cuidado para que o extraterrestre não consiga escapar e, de alguma forma, embarcar em direção a Terra. Uma vez em nosso planeta, o poder de destruição do marciano é incalculável. Quando lemos/vemos o enredo desse filme, a sensação que temos é de déjà vu. Infelizmente, o roteiro de "Vida" não é nada original! Ele é uma cópia escancarada de "Alien, O Oitavo Passageiro" (Alien: 1979). Por sinal, o clássico de Ridley Scott ganhará uma nova sequência nos próximos dias. O próprio diretor esteve à frente de "Alien - Covenant" (2017), que será lançado nos cinemas na segunda semana de maio. Ou seja, teremos uma overdose de novas versões de "Alien" nas telonas, algumas piratas e outras verdadeiras. "Vida", no caso, é uma cópia genérica. O longa-metragem de Daniel Espinosa não é de todo ruim. Depois que Calvin passa a atacar os astronautas (o que acontece depois de meia hora do início da sessão), o filme ganha um ritmo alucinante. As cenas de perseguição, explosão e matança no interior da agência espacial não param mais de se suceder. A plateia precisa se prender na poltrona. É realmente muita ação e adrenalina até o final. Há também algumas reviravoltas na trama que surpreendem o público, principalmente no desfecho. A trilha sonora é contagiante, os efeitos visuais são aceitáveis e as interpretações do experiente elenco estão no nível esperado. Qual o problema, então, deste filme?! Ele seria bom se não fosse tão banal. Para quem não viu "Alien, o Oitavo Passageiro", "Vida" pode até parecer uma boa opção em cartaz nos cinemas. Para isso, basta ignorar os vários erros de continuidade e os furos do roteiro. Aí sim, será possível se divertir na sessão. Já para aqueles que conhecem a versão original desta ideia, tudo parecerá repetitivo e frustrante. Para piorar, não há nenhuma cena marcante na nova produção, como em 1979, por exemplo, a de Sigourney Weaver desfilando de calcinha minúscula pela aeronave. Até mesmo a fisionomia de Calvin é muito similar a do Alien de Ridley Scott. Vai faltar imaginação assim em outro lugar! Só não saí do cinema revoltado porque já imagina que "Vida" seria uma versão genérica de "Alien". Isso ficou evidente para mim desde o trailer que assisti na semana retrasada. Por isso, não posso reclamar. Comprei gato por lebre já sentindo, na bilheteria, o cheiro do animal errado. Veja o trailer de "Vida": Agora, compare-o com o trailer do clássico de Ridley Scott e tire suas próprias conclusões: Se você gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias, deixe um comentário aqui. Se você é fã de filmes novos e antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Um Certo Capitão Rodrigo - O melhor de Erico Veríssimo

    Nesta semana, reli um livro espetacular de Erico Veríssimo: "Um Certo Capitão Rodrigo" (Companhia das Letras). Esta história integra a série "O Tempo e o Vento", obra-prima do autor gaúcho e, de maneira mais geral, do Modernismo brasileiro. Erico (pai de Luis Fernando Veríssimo, excelente cronista, contista e comediante contemporâneo) lançou, entre 1949 e 1961, sete livros que narram a saga do povo do Rio Grande do Sul. "O Continente - volume 1", "O Continente - volume 2", "O Retrato - volume 1", "O Retrato - volume 2", "O Arquipélago - volume 1", "O Arquipélago - volume 2" e "O Arquipélago - volume 3" formam a série completa. Apesar de estar fragmentado em vários livros, "O Tempo e o Vento" é considerado uma trilogia por ser constituído de três partes distintas: "O Continente", "O Retrato" e "O Arquipélago". Estes livros retratam a ocupação e as disputas pela terra na região Sul do país durante os séculos XVIII, XIX e XX. O foco narrativo é a vida dos integrantes de diferentes gerações de duas famílias, os Terra e os Cambará. Como cenário, temos os acontecimentos políticos, as guerras e os dramas sociais dos gaúchos entre o período mais conturbado da colonização portuguesa e espanhola e o final do Estado Novo. A trama de "Um Certo Capitão Rodrigo" foi extraída de um dos sete capítulos do "O Continente", a primeira parte da saga. Este é o trecho mais famoso e importante de "O Tempo e o Vento". Como os capítulos de "O Continente" (assim como ocorre com as duas outras partes da trilogia de Veríssimo) podem ser lidos separadamente, as editoras brasileiras resolveram transformar "Um Certo Capitão Rodrigo" em um livro independente. A decisão foi acertada. Afinal, depois de degustar as 184 páginas desta publicação, o leitor fica com vontade de ler a série completa. Foi o que aconteceu comigo há cerca de seis anos. "Um Certo Capitão Rodrigo" é, portanto, a isca perfeita para mergulharmos na grande obra de Veríssimo. Este livro/capítulo começa com a chegada do Capitão Rodrigo Cambará ao fictício povoado de Santa Fé, no interior gaúcho. É o ano de 1828. O combatente, depois de mais de uma década de ininterruptas guerras contra os espanhóis pelas fronteiras do país, resolve se fixar naquela pacata localidade. Ele rapidamente gosta do lugar e manifesta sua intenção de morar ali para sempre. Contudo, os moradores de Santa Fé não gostam nada daquela decisão de Rodrigo. O forasteiro é visto como um vadio, boêmio, encrenqueiro, mulherengo e uma pessoa que não se importa em passar o dia todo jogando cartas e bebendo. Para os habitantes do povoado, aquele é um lugar de gente de família e trabalhadora. A crença geral é que a presença do capitão só trará aborrecimentos e problemas a todos. Apesar dos protestos e das ameaças, Rodrigo Cambará aluga um quarto e fica morando em Santa Fé. Logo de cara, ele se apaixona por uma moça de uma família simples do povoado, Bibiana Terra. Pela primeira vez na vida, o capitão pensa em casamento. Além da oposição dos pais da jovem, Rodrigo precisará encarar a fúria do Coronel Ricardo Amaral Neto, rico proprietário da região. O mandachuva do lugar tem um filho, Bento, que também é apaixonado por Bibiana. O interesse do forasteiro pela moça desperta o ódio em Bento. A disputa pela mão de Bibiana levará seus pretendentes a um duelo armado. O combinado é que o vencedor da disputa, feita exclusivamente com armas brancas, poderá se casar com Bibiana Terra. O destino do perdedor, por outro lado, deverá ser uma estadia eterna a sete metros embaixo do solo. O que torna "Um Certo Capitão Rodrigo" tão cativante é a combinação de personagens carismáticos e contraditórios, cenas memoráveis, uma excelente ambientação do período histórico e uma trama recheada de momentos distintos e impactantes. Neste livro/capítulo, não é apenas o Capitão Cambará que possui uma personalidade forte e controversa. Todos os principais envolvidos nesta história são retratados de maneira intensa e polêmica. Se Rodrigo possui vários defeitos aos olhos dos moradores de Santa Fé, ele também possui muitas qualidades, ganhando a confiança e o respeito de todos (inclusive do padre). O mesmo ocorre com Bibiana Terra. A moça é, ao mesmo tempo, convicta de suas decisões e de seu papel como mulher, mas também é conformada com seu destino e com a situação da sua vida e do seu casamento. De certa forma, ela não faz nada para mudar sua realidade. Todos os personagens são, assim, contraditórios. O pai de Bibiana, Pedro Terra, é um homem honesto, sério e trabalhador, porém triste, introspectivo e resoluto (é o oposto de Rodrigo). O Coronel Ricardo Amaral Neto é desonesto, violento e ambicioso, porém é cumpridor da sua palavra. A cena inicial de "Um Certo Capitão Rodrigo" é maravilhosa (e por que não perfeita!). O encontro entre o recém-chegado capitão e Juvenal Terra, irmão de Bibiana, no bar em Santa Fé é um daqueles momentos sublimes da literatura. Em poucas palavras, Erico Veríssimo consegue construir um retrato dos personagens e do cenário no qual sua trama será ambientada. Os diálogos também são incríveis. É impossível parar a leitura no meio desta cena. Outro instante marcante do livro/capítulo é o duelo entre o forasteiro e Bento Amaral pelo coração (ou seria pela mão?) de Bibiana Terra. Ali estão todos os elementos de uma narrativa memorável: humor, emoção, surpresa, reviravolta, ação e drama. Não estranhe se você, leitor, perder o fôlego durante a leitura desta parte. Outra cena sublime (e emocionante) é quando Rodrigo, consumido pelo vício da bebida e do jogo, tarda em visitar a filha doente em casa. A ambientação do período histórico (estamos na primeira metade do século XIX, quando o Brasil acabou de passar pelo processo de independência de Portugal) se dá pelos contos de guerra que Rodrigo Cambará narra aos seus amigos e pelas agitações políticas que a cidade de Santa Fé passa. Ler qualquer parte de "O Tempo e O Vento" é mergulhar na história do Brasil e, principalmente, do Rio Grande do Sul. Quem gosta de conhecer os grandes acontecimentos do passado ficará hipnotizado com os detalhes históricos transmitidos aqui por Erico Veríssimo. O tempo inteiro, ele altera o foco da trama entre o microcosmo (vida particular dos personagens) e o macrocosmo (situação geral do país, da província e do povoado que afeta a todos). O mesmo expediente, por exemplo, foi utilizado, depois, por Jorge Amado em "Gabriela, Cravo e Canela" (Companhia das Letras). A diferença é que o panorama político-social da obra do baiano era a região sul do seu estado natal. Outro componente importante de "Um Certo Capitão Rodrigo" é a coleção de situações diferentes vividas pelo protagonista durante a narrativa. Apesar de esta história ser curta (é possível lê-la em um dia), ela possui momentos dramáticos bem distintos. A trama pode ser dividida em quatro partes. A primeira é constituída pela chegada de Rodrigo a Santa Fé. Neste instante, ele se apaixona por Bibiana Terra e enfrenta Bento Amaral em uma sangrenta disputa pelo privilégio de se casar com a moça. A segunda parte é a mais breve de todas: o casamento de Rodrigo e Bibiana e a lua de mel da dupla. As poucas páginas dedicadas a esta seção têm uma explicação lógica. Qual é a graça da felicidade das personagens principais, hein? Neste sentido, Veríssimo se assemelha a Tolstói. No terceiro momento, vemos a tristeza e a depressão do Capitão Cambará com a vida monótona em Santa Fé. E para terminar, na quarta e última parte, temos o renascimento do velho Rodrigo, quando ele parte animado para uma nova guerra que estourou na província. Estas mudanças de situação tornam a narrativa mais intensa, divertida e com um ritmo muito acelerado. "Um Certo Capitão Rodrigo" é daquele tipo de livro que é difícil encontrar um defeito ou algo para se criticar. Juro que não encontrei nenhum elemento que não fosse sublime. Nem podemos reclamar do fato de querermos mais quando chegamos à última página. Afinal, esta é apenas uma parte de uma longa série. Há muito mais história sobre os Terra e os Cambará para lermos. Erico Veríssimo é um dos grandes escritores do modernismo brasileiro. "O Tempo e o Vento" é um dos melhores exemplares do que o Regionalismo nacional produziu nas primeiras décadas do século XX. Veríssimo está para a literatura gaúcha assim como João Guimarães Rosa está para a mineira, Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz estão para a nordestina e Monteiro Lobato está para a do interior de São Paulo. Conhecer estes autores é se aprofundar na investigação sobre nossa própria identidade. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Filmes: O Homem que Matou o Facínora - Wayne e Stewart juntos

    "O Homem que Matou o Facínora" (The Man Who Shot Liberty Valance: 1962) é um Western clássico dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne e James Stewart. Aí alguém pode se perguntar: E daí? O que isso tem de mais?! Afinal, John Ford e John Wayne trabalharam juntos de 1928 a 1976, totalizando mais de vinte produções do gênero. Para entender a relevância de "O Homem que Matou o Facínora", precisamos analisar alguns aspectos. Esse foi o primeiro longa-metragem protagonizado conjuntamente por John Wayne e James Stewart, duas estrelas de primeira grandeza do cinema norte-americano entre as décadas de 1940 e 1960. James Stewart era o galã premiado com o Oscar de 1941 pela atuação em "Núpcias de Escândalo" (The Philadelphia Story: 1940). Ele foi indicado outras quatro vezes ao prêmio máximo da academia. Seu papel de maior destaque, em minha opinião, foi em "A Felicidade Não Se Compra" (It's a Wonderful Life), obra-prima de Frank Capra. John Wayne, por sua vez, era reconhecido pelo seu carisma. Se ele tinha sua qualidade cênica contestada pelos críticos, era um dos atores mais populares da época. Era inadmissível produzir um bom Western sem Wayne no elenco principal. Seus papéis de destaque foram em "No Tempo das Diligências" (Stagecoach: 1939), "Rio Bravo" (Rio Bravo: 1959) e "Bravura Indômita" (True Grit: 1969). Curiosamente, cada um destes três filmes foi produzido por um grande diretor: John Ford, Howard Hawks e Henry Hathaway, respectivamente. O diretor que mais utilizou os trabalhos de John Wayne foi John Ford. Assim, em 1962, Ford resolveu unir em um mesmo filme as duas estrelas da época: James Stewart e John Wayne. É verdade que os dois já estavam velhos para interpretar os papéis de dois jovens, mas isso ficou em segundo plano. "O Homem que Matou o Facínora" ainda contou com a participação de Lee Marvin, Vera Miles e Jason Tully. Muitos dos atores coadjuvantes utilizados nesse filme eram provenientes da época do cinema mudo. O roteiro foi adaptado de um conto escrito por Dorothy M. Johnson. "O Homem que Matou o Facínora" inicia-se com um casal rico chegando à pequena cidade de Shinbone, no Velho Oeste norte-americano. Ransom Stoddard (interpretado por James Stewart) é um famoso senador da República e sua esposa Hallie Stoddard (Vera Miles) é natural daquele município. A chegada dessas personalidades da Capital Federal provoca um alvoroço nos repórteres do jornal local. Eles querem saber o que o ilustre casal está fazendo na cidade. Ao segui-los, descobrem que eles foram até lá para participar do funeral de Tom Doniphon (John Wayne), um morador local desconhecido por todos. Aí a pergunta muda: quem seria Doniphon? Depois da insistência dos repórteres, Ransom Stoddard decide contar a história que se passou décadas atrás, quando ele chegou naquele povoado e conheceu Doniphon, a quem sempre será grato. Recém-formado como advogado nas grandes cidades do Leste, Ransom estava de passagem por Shinbone quando foi atacado pelo bando do mais temível criminoso da época, Liberty Valance (Lee Marvin). Inconformado com os crimes praticados pelo terrível assassino, Ransom decide enfrentar Valance. Contrário à luta armada, o jovem advogado quer prender o bandido pelos meios legais. O problema é que o delegado da cidade é um covarde e ninguém tem coragem de enfrentar diretamente o criminoso. Os únicos que o apoiam são o proprietário do jornal da cidade e um cowboy valente chamado Tom Doniphon. Enquanto Stoddard e Doniphon lutam juntos contra o maior criminoso de Shinbone, eles precisam disputar o amor da mesma mulher. Os dois estão apaixonados por Hallie, a jovem que trabalha em um restaurante local e que cuidou dos ferimentos Ransom após o assalto de Valance. Esta produção tem todos os ingredientes de um grande filme: a história é boa, as interpretações são excelentes, a fotografia é ótima, há mistério e suspense nas doses certas e os personagens possuem valores dignos dos melhores heróis de Hollywood. Apesar do grande mistério da trama ser muito previsível (é óbvio quem é o homem que matou o criminoso, como aponta o título da obra), há boas pitadas de suspense e de ação que prendem a atenção do espectador. John Ford filmou "O Homem que Matou o Facínora" em preto e branco, quando este recurso já havia deixado de ser utilizado. Com isso, temos um ambiente mais misterioso e clássico. A fotografia é incrível. O filme foi indicado ao Oscar do ano seguinte para o prêmio de melhor figurino. A união de John Ford, John Wayne e James Stewart aconteceria outras vezes. Curiosamente, este foi o trio que fez "O Último Pistoleiro" (The Shootis: 1976), último filme realizado por John Wayne, que faleceria três anos mais tarde. O resultado de "O Homem que Matou o Facínora" é um longa-metragem gostoso de ser visto e que compõe um dos filmes clássicos do cinema. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Demian - A primeira grande obra de Hermann Hesse

    Hermann Hesse é o escritor alemão naturalizado suíço que conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 1946. As obras de Hesse marcaram sua geração. O principal livro de sua autoria foi "O Lobo da Estepe" (Best Seller), publicado em 1927 e considerado até hoje como um dos principais representantes da literatura alemã de todos os tempos. "Sidarta" (Best Seller), de 1922, "Narciso e Goldmund" (Best Seller), de 1930, e "O Jogo das Contas de Vidro" (Best Seller), de 1943, também são considerados obras-primas do germano-suíço. No caminho até a sua maturidade artística, Hermann Hesse publicou, em 1919, "Demian" (Record). Este livro foi um divisor de águas na carreira do autor. A marcante obra é considerada o primeiro clássico de Hesse. O principal mérito de "Demian" está em quebrar o padrão da estrutura narrativa até então utilizado pelo escritor em suas novelas e em seus romances. Neste livro, temos um mergulho profundo no interior da mente do protagonista, a exposição aberta das emoções e dúvidas do narrador, um debate franco sobre religião e misticismo e a incorporação de elementos autobiográficos à trama. Estas inovações fizeram de Hermann Hesse o grande autor alemão da primeira metade do século XX. "Demian" tem 196 páginas e é dividido em 8 capítulos. Neste romance, conhecemos o relato em primeira pessoa do jovem Emil Sinclair, o protagonista da história. Criado em um lar abastado, o garoto é cercado de amor, carinho e mimos pelos pais e pelas irmãs. A família também respeita os valores da religião católica, sendo referência moral na sua cidade. Apesar da vida aparentemente perfeita, Sinclair vive uma grande inquietação interna. Ele se identifica mais com os aspectos sombrios e repugnantes da vida humana do que com os elementos belos e morais propagados pelos pais. Esta propensão ao errado o angustia de tal maneira que ele se considera uma pessoa deslocada da sociedade. Este inconformismo surge na infância e se acentua na adolescência, períodos abrangidos pelo livro. Para a personagem principal, o mundo é dividido em duas partes distintas: um é formado pela luz, pela claridade, pela limpeza, pelo amor e pela moralidade (sua casa é o principal exemplo desta imagem); o outro é constituído pela escuridão, pelo obscuro, pela sujeira, pela selvageria e pela amoralidade (as ruas da cidade no período da noite representam com propriedade este aspecto). De alguma forma, é o segundo mundo que o atraia de maneira sedutora. Sinclair só conseguirá compreender os motivos dos seus sentimentos quando conhece Max Demian, um colega mais velho de escola. Diferente dos demais alunos do colégio, Demian mostra-se muito maduro e conhecedor dos segredos do mundo imaterial. Após salvar Sinclair das ameaças de um garoto mais velho, Max Demian se torna referência para o protagonista. É ele quem irá apresentar a Sinclair uma nova filosofia de vida e novos componentes religiosos. Segundo esta concepção, as duas principais mensagens que norteiam a vida humana no planeta são: (1) Quem quiser nascer tem que destruir o mundo ao seu redor; e (2) O verdadeiro Deus une, ao mesmo tempo, o bom e o ruim, o amor e o pecado e a alegria e a tristeza em um único corpo. Esta entidade superior é, na realidade, a união do Deus católico com o demônio cristão. A filosofia do amigo faz sentido para Demian que passa a segui-la intuitivamente. Em plena adolescência, o protagonista percorre um caminho perigoso em busca da sua real identidade. Sem perceber, ele é atraído por um grupo religioso secreto que possui uma visão alternativa de mundo, da humanidade e de Deus. Gostei muito de "Demian". É possível lê-lo em duas ou três noites. Foi o que fiz neste final de semana. Este livro é uma viagem em direção aos mais íntimos lugares da mente do personagem-narrador. Emil Sinclair escancara para o leitor suas dúvidas, suas angústias, seus medos e seus desejos mais pessoais, sem receio de parecer errado ou ridículo. Impossível não se simpatizar com ele, apesar dos tons sombrios que se passam em sua psique. Esta obra reflete também a tendência de introduzir na ficção elementos da doutrina freudiana. Heisse sempre demonstrou sua admiração pelas ideias do psicanalista alemão que foi seu contemporâneo. Não é coincidência, portanto, o grande número de sonhos e o predomínio de um ambiente onírico durante toda a trama. Também não é por acaso a vontade do narrador em fazer sexo com a mãe do grande amigo (deixando claro, de algum modo, uma variação do Complexo de Édipo). Um aspecto fundamental para se compreender este romance está no conhecimento da vida de Hermann Hesse. Este é talvez o livro mais autobiográfico do autor. Não é errado afirmarmos que Emil Sinclair representa o escritor na época da sua infância e juventude (assim como Harry Haller, de "O Lobo da Estepe", é ele na maturidade). As semelhanças entre autor e personagem são incontestáveis: os pais religiosos, a vida que seguia para a carreira no monastério e se desvirtuou completamente, a fixação pela imagem da mãe, o interesse genuíno pelo misticismo e pela espiritualidade, a aversão à guerra e o inconformismo pela uniformização da vida na sociedade católica. "Demian" é uma mistura de Charles Dickens (no sentido de se aprofundar no universo infanto-juvenil), Paulo Coelho (na busca pela compreensão da religiosidade e do misticismo), Dan Browm (em retratar os mistérios de uma seita religiosa pouco conhecida) e Machado de Assis (debate aberto das neuras do narrador-personagem). Os únicos pontos que podem incomodar um pouco os leitores mais novos (e mais ansiosos) são o ritmo cadenciado da narrativa e a preferência pela reflexão à narração dos fatos. O charme e o ambiente misterioso da trama, em minha opinião, se fazem exatamente por estes dois elementos. Contudo, admito, eles deixam o romance com um ritmo mais lento e introspectivo, algo que sei que desagrada boa parte dos leitores desejosos por ação, ação e ação o tempo inteiro. Os leitores do Blog Bonas Histórias que são cinéfilos podem, ao ver o nome deste livro, lembrar-se da personagem principal do longa-metragem "A Profecia" (The Omen: 1976). Demian era o nome do filho do diabo, criado por Robert Thorn (interpretado por Gregory Peck) e pela esposa, Katherine Thorn (Lee Remick) como seu legítimo filho. Sim, a lembrança é válida. O menino Demian na produção cinematográfica foi assim chamado por causa do personagem homônimo do romance de Hermann Hesse. Trata-se, portanto, de uma referência direta à obra do germano-suíço. Se você quiser se aprofundar nas obras de Hermann Hesse, este gênio do século XX, aconselho a leitura de "O Lobo da Estepe" na sequência de "Demian". De certa forma, estas histórias se complementam. Gosto de pensar que Harry Haller é Emil Sinclair em uma etapa de vida mais madura. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HermannHesse #LiteraturaAlemã #LiteraturaSuíça #LiteraturaClássica #Romance #DramaPsicológico #Drama

  • Filmes: Vigilante do Amanhã - Pot-pourri de ficções-científicas

    Neste feriado de Sexta-feira Santa, fui ao cinema para ver Scarlett Johansson. Até onde eu saiba, é proibido comer carne vermelha nesta data. Nunca ninguém alertou os cristãos sobre o pecado de assistir a um blockbuster por causa da (maravilhosa) atriz principal. Por isso, aproveitei e conferi "Vigilante do Amanhã - Ghost In The Shell" (Ghost In The Shell: 2017) sem qualquer receio de ordem religiosa. Para quem ainda não sabe, sou apaixonado por Johansson desde "Ponto Final - Match Point" (Match Point: 2005). Foi amor à primeira vista. Desde então, tento não perder suas estreias cinematográficas. O problema é que cada vez mais a atriz tem sido chamada para fazer papéis de super-heroínas. Ao fazer escolhas profissionais deste tipo, ela abre mão do seu talento artístico (além de linda, ela é também uma boa atriz) para engordar sua conta bancária. Não há paixão que resista a "Capitão América - Guerra Civil" (Captain America: Civil War: 2016), "Vingadores - Era de Ultron" (The Avengers: Age of Ultron: 2015) e "Homem de Ferro 2" (Iron Man 2: 2010). Afinal, sou apaixonado por Scarlett Johansson não apenas pelos seus atributos físicos (admito que os uniformes das suas recentes personagens caem muitíssimo bem em seu corpo escultural e alimentam um milhão de fantasias masculinas). Apesar dos meus protestos quanto às histórias de super-heróis (elas estão longe de figurarem entre as minhas favoritas), estava eu novamente no cinema, na semana passada, vendo um destes longas-metragens. Fazer o quê? São sacrifícios que passamos por quem amamos. Não é, Scarlettizinha? Lançada no começo de abril, "Vigilante do Amanhã" é uma ficção-científica originada de um mangá de Masamune Shirow. A direção ficou a cargo de Rupert Sanders, de "A Branca de Neve e o Caçador" (Snow White and the Huntsman: 2012). Além de Scarlett Johansson, participam desta produção Pilou Asbaek, Takeshi Kitano e Michael Pitt. Destaque para a presença da icônica atriz francesa Juliette Binoche, do premiado "Paciente Inglês" (The English Patient: 1995) e da cultuada "Trilogia das Cores" do polonês Krzysztof Kieslowski. "Vigilante do Amanhã - Ghost In The Shell" se passa no Japão em um futuro distante. Nessa época, os avanços tecnológicos já terão transformado completamente a realidade dos seres humanos. A principal característica desta nova era será a incorporação de robôs ao dia a dia das pessoas. Além disso, homens e mulheres usarão cada vez mais recursos robóticos em partes dos seus corpos. Será um tanto difícil, no futuro, distinguir os seres humanos das máquinas (androides). Vendo esta tendência da sociedade, a Hanka Corporation, uma empresa vanguardista de tecnologia, investiu uma fortuna para desenvolver um projeto de um novo tipo de ser. Ele terá o corpo de um robô, mas guardará o cérebro e a alma de uma pessoa. Trata-se, portanto, da união das duas "espécies". A versão mais atualizada desta tecnologia é Major Mira Killian (interpretada por Scarlett Johansson). A moça foi arrancada do seu corpo natural e transplantada em um exoesqueleto inteiramente artificial. Para evitar qualquer tipo de problema, a memória da vida regressa da jovem foi apagada da sua mente. Ela se lembra de poucas coisas do seu passado. O experimento, realizado pela Doutora Ouelet (Juliette Binoche), foi tão bem-sucedido que Major Mira Killian foi "alugada" para o departamento de polícia. Seu trabalho agora é combater o crime. Comandada pelo chefe de polícia, Aramaki (Takeshi Kitano), e tendo como parceiro Batou (Pilou Asbaek), o cotidiano da moça-robô é pegar os bandidos mais temidos da cidade, gerando altos dividendos para a sua fabricante. Em uma missão aparentemente corriqueira, Major Mira Killian frustra a tentativa de criminosos de roubar os segredos industriais da Hanka Corporation. Contudo, essa ação criminosa acaba expondo o sistema de informações da companhia. De repente, alguns dados do principal produto da empresa são revelados. Assim, Major Mira Killian descobre alguns segredos do seu passado que sua fabricante sempre tentou esconder. Afinal, qual é o passado da moça antes dela ser transformada em uma máquina? Por que ela virou o que é? O que há de tão misterioso que todos tentam ocultar? Essas dúvidas farão a protagonista tentar descobrir a verdade da sua vida, iniciando uma investigação própria a este respeito. "Vigilante do Amanhã - Ghost In The Shell" é, na verdade, um pot-pourri de várias outras histórias de ficção-científica. Este é o seu principal defeito. A trama é uma mistura de "RoboCop" (1987), "Blade Runner - O Caçador de Androides" (Blade Runner: 1982), "Eu, Robô" (I, Robot: 2004) e "Identidade Bourne" (The Bourne Identity: 2002). Misture estas quatro produções em um liquidificador e o resultado será um Frankenstein que atende pelo nome de "A Vigilante do Amanhã". Major Mira Killian é a versão feminina e repaginada de RoboCop. Seus dramas e suas angústias são parecidíssimos com os do policial-robô da década de 1980. O cenário onde "A Vigilante do Amanhã" se passa guarda incontáveis semelhanças ao ambiente do filme de Ridley Scott. Até a chuva inicial e a constituição da cidade futurista são similares a de "Blade Runner". O fato de a protagonista tentar descobrir seu passado, que foi apagado da sua memória (além de ter incríveis habilidades para perseguir inimigos e fugir da polícia), a torna uma "nova Jason Bourne". Para completar, em "Eu, Robô", criação de Isaac Asimov, o personagem principal também era uma máquina em busca de emoções e sentimentos humanos. Ou seja, não espere receber um enredo novo e surpreendente ao entrar na sala de cinema para ver este lançamento. Outra questão que incomoda é a falta de unidade da trama em relação ao contexto geográfico. A história se passa claramente no Japão. Até aí, tudo bem. A pergunta que fica é: Por que os personagens principais não são japoneses? Por que a protagonista é Scarlett Johansson, uma norte-americana, e não uma mulher com traços orientais? Não é à toa que a escolha da atriz gerou tantas críticas dos fãs do mangá de Masamune Shirow. Todos são japoneses nesta trama, menos a heroína e o vilão Kuze (Michael Pitt). Muito estranho isso, né? "Vigilante do Amanhã" começa com um ritmo lento e vai aos poucos engrenando. Se no começo você dorme, no final já está ligadíssimo acompanhando as cenas de luta e de perseguição. Este é o tipo de filme para quem gosta de pancadaria, ação, destruição, explosão e, óbvio, de Scarlett Johansson. As cenas de luta o deixarão hipnotizado. Os méritos não são tanto do combate travado, mas do corpo escultural da atriz principal. Juro que gostaria de saber quem teve a ideia (apelativa) de criar uma heroína que tira a roupa para lutar. A única explicação é tirar a atenção dos adversários. Não dá para entender! Se você não assistiu a nenhum filme de ficção científica nos últimos trinta e cinco anos e não é muito exigente em relação à lógica narrativa, acredito que irá gostar de "A Vigilante do Amanhã". Caso contrário, sua única diversão será acompanhar por quase duas horas a atriz mais bonita da atualidade em trajes mínimos. E por falar nisso, Scarlett, por favor, volte a fazer filmes com Woody Allen! E, depois, me ligue porque preciso pedir você em casamento, tá? Veja o trailer de "A Vigilante do Amanhã - Ghost In The Shell": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ScarlettJohansson #RupertSanders

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