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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Televisão: Meu Querido Zelador – O seriado argentino de Guillermo Francella

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • há 53 minutos
  • 27 min de leitura

Roteirizado e dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat, o drama cômico do zelador Eliseo Basurto, que terá a quarta temporada lançada em julho de 2026 no Disney+, encanta os espectadores pelo enredo inteligente e pela atuação impecável de Francella, um dos principais atores argentinos de sua geração.


O seriado de televisão Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é uma criação da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat que é estrelada por Guillermo Francella, o principal humorista da Argentina

A sugestão que mais recebi, ao longo de onze anos e meio de Bonas Histórias, foi: “faça análises de seriados de televisão”. Realmente, trata-se de uma excelente ideia para este blog, um espaço de investigação artístico-cultural. Valeu, Debinha, Carla, Paulinho e Vanessa pelas excelentes ideias. Afinal, as produções audiovisuais têm grande alcance de público, principalmente após o boom dos streamings da última década. Além disso, não faltam ótimos programas para comentar. A impressão é que todo mês surge uma trama nacional ou internacional que salta aos olhos e mereça ser debatida com profundidade por quem curte os elementos da narrativa ficcional. Para completar o cenário paradisíaco (Renée Mauborgne e W. Chan Kim diriam Oceano Azul), bastaria eu produzir o mesmo tipo de avaliação que já faço na coluna Cinema. Há inclusive uma seção prontinha para isso: TV, Rádio e Internet.


Portanto, não há desculpas para não seguir em frente na sugestão quase unânime, certo?! Então por que não invisto nessa seara, hein? Porque simplesmente não vejo séries, senhoras e senhores. Falo tal particularidade da minha personalidade até com certa vergonha – eu odeio televisão! Talvez seja o item que mais nutra repulsão no âmbito dos eletroeletrônicos. Na minha casa, por exemplo, sequer tenho este tipo de aparelho. E quando aparece um no ambiente doméstico, como no saudoso apartamento em Saavedra, que foi alugado já com uma SmartTV no quarto, ele passa anos e anos desligado. Até fora da tomada o deixo, para não correr o risco de uma linda visitante portenha (no caso, paraguaia, venezuelana ou colombiana, para ser mais preciso com a geografia do meu combalido coraçãozinho) tentar trazê-lo à vida.


Como sou da leitura, prefiro investir minhas horas de lazer e entretenimento conferindo o conteúdo de jornais, revistas e livros – hábito diário. A coluna Livros – Crítica Literária está aí como prova cabal dos meus mergulhos pelas palavras escritas. E quando quero ver bons filmes, simplesmente vou ao cinema mais próximo – hábito semanal. Por isso, nunca vejo seriados de televisão. Nunca?! Tá bom, tá bom, usar a palavra “nunca” neste caso é um exagero que me levaria pela estrada da inverdade. O único seriado que vi completo foi “Lost” (2004-2010), sucesso da década retrasada. Lembro que o conferi em DVD (um dia, prometo explicar à geração Z o que é um DVD). E graças à insistência da gauchinha mais paulistana de todos os tempos. Coisas de quando residi em Porto Alegre. Isso faz tanto tempo que até parece outra vida.


Entretanto, esse meu ódio pela televisão é coisa da fase adulta. Quando era criança e adolescente, por supuesto, via programas televisivos de forma compulsiva. Em uma época em que não havia streaming (nem Internet tínhamos) e a TV a cabo era coisa de gente rica (algo que nunca fui), a saída era encarar as delícias e as bizarrices dos canais abertos. Domingo à tarde, por exemplo, era o suprassumo do atentado ao pudor e ao bom gosto midiático. Não à toa, havia nos anos 1990 um famoso outdoor na Marginal do Tietê, em São Paulo, que estampava a mensagem: “TV é a imagem da besta”. Mesmo não sendo religioso (outra coisa que nunca fui), passei a concordar com aquela afirmação. Daí minha bagagem conceitual (e traumas) deste tema ser todo do universo trash da década de 1980 e 1990. Se sobrevivi ao mundo cultural daqueles anos, sinto-me imunizado a qualquer vírus artístico que assole o planeta.  


Mas por que cargas d´água estou confidenciando esses absurdos no post de hoje do Bonas Histórias?! Porque contradizendo tudo o que escrevi nos quatro parágrafos (desnecessários) acima, assisti recentemente a dois seriados argentinos de TV que me deram uma pequena noção do esplendor que estou perdendo. Juro que até cogitei mudar os hábitos de me manter tão apartado das produções audiovisuais. “Mas série televisiva da Argentina, Ricardinho?!”. Sim, queridos leitores deste blog cada vez mais escondido nos recôncavos das Internet. É aquele velho lance: você deixa Buenos Aires, mas Buenos Aires nunca deixa você. Às vezes, sinto que os textos não ficcionais de “Tempos Portenhos”, conteúdo da coluna Contos & Crônicas, não são suficientes para canalizar minha argentinidade. Ai, ai, ai.


Ambientado num prédio de Belgrano, bairro portenho da Zona Norte, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é o seriado de TV que narra o embate dramático de Eliseo Basurto, um porteiro que luta contra os planos do síndico que quer demiti-lo

De qualquer forma, o mais importante a dizer neste momento é que aproveitei a estada de dois meses, no finalzinho de 2025, no apartamento da minha irmã (beijo, Celinha) em Perdizes, São Paulo, para mudar um pouco minhas velhas manias (ou as minhas mais profundas ojerizas). Como hermanita curte ficar grudada à noite/madrugada na frente da telona da sala e tem acesso a todos os streamings possíveis e imaginários (felizmente, ela é totalmente diferente de mim), vimos juntos “O Faz Nada” (Nada: 2023) e “Meu Querido Zelador” (El Encargado: 2022-2026). Essas produções são criações da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat, diretores e roteiristas argentinos multipremiados que trafegam com brilhantismo entre o cinema e a televisão. Além de Celinha, claro, tive a companhia de Pescuittinho, meu sobrinho peludo de quatro patas, nas sessões televisivas. Quem disse que eu não sou um rapaz família, né?!


Gostei tanto desses programas e da experiência de acompanhar tais produções dramáticas que, enfim, me lancei como deveria ao desenvolvimento da coluna TV, Rádio e Internet. A proposta é comentar, neste post, “Meu Querido Zelador”, tragicomédia protagonizada por Guillermo Francella, meu ator argentino favorito. Vale a pena dizer que sou fã dele desde “Poné a Francella” (2001/2002), programa humorístico que reunia várias enquetes curtas impagáveis (e politicamente incorretas, aos olhos atuais). Quando o assunto é comédia, Francella é referência absoluta na Argentina.  


Numa próxima oportunidade, prometo retornar a esta seção para detalhar “O Faz Nada”, drama cômico interpretado pelo incrível Luis Brandoni, que também faz uma ponta em “Meu Querido Zelador”. Conheci pessoalmente Brandoni quando fui ver, no ano retrasado, a peça “Made in Lanús”, no Teatro Multitabaris COMAFI, um dos palcos emblemáticos da Av. Corrientes, a Broadway portenha. Ele foi o diretor da reedição deste clássico da arte cênica argentina, conforme detalhei certa vez na coluna Teatro.


É bom dizer que a Argentina tem apresentado ótimos seriados de TV nos últimos anos, que se tornaram sucessos nacionais e internacionais. Sei disso pelos comentários empolgados tanto de amigos, colegas e vizinhos em Buenos Aires quanto de familiares e conhecidos no Brasil. Além de “Meu Querido Zelador” (que terá em breve a quarta temporada na Disney+) e “O Faz Nada” (com uma única temporada de apenas cinco capítulos na Disney+, antigamente chamada de Star+), as séries mais charmosas e midiáticas da nova leva são: “O Eternauta” (El Eternauta: 2025), “Divisão Palermo” (División Palermo: 2023/2024), “O Jardim de Bronze” (El Jardín de Bronce: 2017-2023) e “El Marginal – O Cara de Fora” (El Marginal: 2016-2022). Curiosamente, esses quatro títulos obtiveram mais êxito dentro do país do que fora.


“O Eternauta” é a ficção científica (com elementos de distopia política) adaptada dos quadrinhos de Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano López. A série foi protagonizada por Ricardo Darín (o ator argentino mais conhecido pelos brasileiros). Juro que estou louquinho, louquinho para ver este seriado da Netflix, uma das principais produções sul-americanas de TV do ano passado. “Divisão Palermo” é a comédia ácida criada por Santiago Korovsky que retrata o aumento da violência em bairros chiques de Buenos Aires. Ele também é transmitido pela Netflix.


Dirigido e roteirizado por Mariano Cohn e Gastón Duprat e protagonizado por Guillermo Francella, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a série de TV argentina que chega, em julho, na Disney+, à quarta temporada

Por sua vez, “O Jardim de Bronze” é o thriller de Marcos Osório Vidal e Gustavo Malajovich que investiga o desaparecimento de uma garota. Esse suspense está disponível na HBO Max. E, finalmente, “El Marginal – O Cara de Fora” é uma ação policial desenvolvida por Sebastián Ortega que se passa dentro de uma penitenciária. Esse seriado foi transmitido originalmente na TV aberta e depois entrou no portfólio da Netflix.  


O papo está bom, mas chega de encheção de linguiça, senhoras e senhores. Paremos de falar dos aspectos gerais dos meus hábitos artístico-culturais e do portfólio de títulos dos seriados de televisão da Argentina. E foquemos, uma vez por todas, em “Meu Querido Zelador”, o tema central desta publicação do Bonas Histórias. Ou como diriam os portenhos, charlemos ahora de El Encargado.


Como adiantei, esta série televisiva foi criada por Mariano Cohn e Gastón Duprat, dupla de cineastas argentinos responsáveis por filmes de grande êxito desde os anos 1990. De seu premiado portfólio da sétima arte, destaco os títulos mais recentes (justamente aqueles que assisti e adorei): “O Homem ao Lado” (El Hombre de al Lado: 2009), “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018), “Competência Oficial” (Competencia Oficial: 2021) e “Homo Argentum” (2025). Para a televisão, os trabalhos mais destacados de Cohn e Duprat foram, sem dúvida nenhuma, “Meu Querido Zelador” e “O Faz Nada”. As histórias dessa dupla costumam ser tragicomédias. O humor ácido e as fortes críticas sociais dão um tempero de argentinidade aos enredos. Impossível não se divertir nem se emocionar com suas tramas sempre sagazes e espirituosas, que giram o tempo inteiro entre o drama pessoal e a comicidade de uma nação em frangalhos.


Por mais brilhantes que sejam Mariano Cohn e Gastón Duprat (me segurei para não dizer, mas não aguento: eles são meus diretores argentinos favoritos, tá?!), precisamos reconhecer que a grande estrela de “Meu Querido Zelador” é Guillermo Francella. Esse ator argentino sempre foi considerado um dos principais humoristas da televisão do seu país. Isso é, se não for o número um. Vem justamente daí seu carisma e popularidade entre o povo hermano. Desde o final da década de 1980, Francella é protagonista de vários sitcons hilários. Dá para citar, entre os mais antigos, “De Carne Somos” (1988/1989), “La Familia Benvenuto” (1991-1995) e “Naranja y Media” (1997).


O programa dele que eu mais gostava era “Poné a Francella”. No início dos anos 2000, essas enquetes curtas colocavam o ator em conflitos politicamente incorretos aos olhos do público atual, mas que eram engraçadíssimas na época. Guillermo Francella foi Arturo Petrocelli de “La Nena” (se apaixonou pela amiga adolescente da filha), Fernando de “El Masajista” (aproveitava-se do ofício de massagista para cortejar as mulheres mais bonitas do consultório), Rafael Campuzano de “Cuñados” (teve um tórrido caso extraconjugal com a cunhada) e Marcos de “No es Lo que Parece” (se fingia de gay para estar próximo e ficar íntimo da linda vizinha).


Um dos seriados de tevê de maior sucesso produzido na Argentina nesta década, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) foi criado por Mariano Cohn e Gastón Duprat, dupla de renome no cinema sul-americano, e é estrelado por Guillermo Francella, ícone do humor argentino

Vamos combinar que muita coisa mudou nas últimas três décadas quando o assunto é construção de enredos televisivos que cumpram o mínimo de decoro, né? Por mais absurdas e datadas que fossem as histórias de “Poné a Francella”, admito que elas eram divertidíssimas (e funcionariam atualmente, com algumas adaptações do roteiro). Prova disso é que os bordões das personagens de Francella ainda estão nas bocas dos argentinos. Ou vocês não ouvem as pessoas soltando pelas ruas de Buenos Aires as seguintes frases: “No es lo que parece”, “Quiero irme a casa!”, "Un poquito de respeto” e “Si es una nena”? Juro que as escuto e, inclusive, já coloquei em meu vocabulário do castellano rio platense. Também uso frequentemente: “Hermosa mañana, ¿verdad?”, “un pedazo de boludooo”, “A comerrrla” e “Me van a enfermar”. Esses são outros bordões memoráveis do ator.


Por mais que eu seja apaixonado por “Poné a Francella”, reconheço que o maior sucesso de Guillermo Francella na televisão foi “Casados con Hijos” (2005/2006), versão argentina do impagável “Married with Children” (1987-1996). A adaptação sul-americana do famoso seriado norte-americano que se tornou um cult do besteirol foi tão boa, mas tão boa que muita gente considera que ficou melhor do que o original. Aí já acho um pouco de exagero – algo típico dos nossos vizinhos, né? Ainda assim, admito que “Casados con Hijos” é uma excelente produção. Até hoje, Francella é confundido com sua personagem desse seriado, Pepe Argento, um vendedor de calçados desiludido com o trabalho/salário e angustiado com a família desfuncional, mas que vive aparentemente bem. Paradoxalmente, Pepe representa com perfeição os portenhos que, mesmo nas piores situações do lar e da nação, mantêm o humor escrachado e a tranquilidade para seguir com suas rotinas.


É bom dizer que as atuações de Guillermo Francella não se restringiram às comédias televisivas. Ele participou de dezenas de produções cinematográficas e de várias peças de teatro dos mais diferentes gêneros. Contudo, nunca com o mesmo reconhecimento do público e da crítica da Argentina. Talvez o primeiro grande trabalho no cinema que chamou atenção para seu desempenho dramático tenha sido como protagonista de “O Clã” (El Clan: 2015), premiado suspense dirigido por Pablo Trapero. O humorista estava tão diferente nesse filme que admito ter demorado para reconhecê-lo na sessão.


De qualquer maneira, Francella nunca figurou como um dos atores mais conhecidos e celebrados de seu país para as plateias estrangeiras. Digo isso com propriedade: ninguém do meu círculo familiar e de amizade no Brasil o conhecia. Por exemplo, quando fui assistir a “Homo Argentum” com minha irmã em agosto, em sua última visita a Mi Buenos Aires Querido, a convidei empolgado: “vamos conferir o novo longa-metragem do Guillermo Francella no cinema!”. Aí minha hermana me olhou incrédula: “De quem?!”. Por mais que explicasse tudo o que o humorista já tinha realizado, Celinha simplesmente não tinha visto nadinha.


A parte boa dessa história é que tal realidade mudou recentemente. Ao dar vida a Eliseo Basurto, o zelador psicopata da série de televisão que se tornou sucesso internacional, Francella virou um dos principais rostos do audiovisual argentino. O mais legal é que nesse papel, o ator pôde exercitar muito mais o lado dramático e sutil de sua nova personagem. Assim, deixou de lado a veia cômica e extravagante de figuras representadas em “Poné a Francella” e “Casados con Hijos”.   


 Com a quarta temporada prevista para estrear em julho na Disney+, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a produção de Mariano Cohn e Gastón Duprat que traz nomes de peso da televisão argentina como Guillermo Francella e Gabriel Goity

Por falar no seriado, “Meu Querido Zelador” já teve três temporadas na Disney+, serviço de streaming do Grupo Disney. Além de Mariano Cohn e Gastón Duprat, o roteiro contou com as participações de Emanuel Diez, jovem roteirista que vem acompanhando a dupla de diretores mais famosa em suas últimas produções para a TV e para o cinema, e Leonardo Di Cesare, diretor e roteirista com vasta experiência e atuação independente.


A primeira temporada foi filmada entre junho e outubro de 2021 em Buenos Aires e estreou em outubro de 2022. No elenco dos 11 episódios – (1) Un Proyecto Peligroso, (2) Una Acción Solidaria, (3) Una Turista en Buenos Aires, (4) Una Amante Para Zambrano, (5) Visita Sorpresa, (6) Chofer Nocturno, (7) Acompañante Terapéutico, (8) Sabotaje en la Sala de Máquinas, (9) El Ocupante del 5B, (10) La Hora de la Verdad e (11) El Ave Fénix – destaco, além de Guillermo Francella: Gabriel Goity, Pochi Ducasse, Gastón Cocchiarale, Darío Barassi, Manuel Vicente, Magela Zanotta, Mariana “Moro” Anghileri, Micaela Riera, Alejandro Paker, Camilla Pizzo e Martin Stark. Das participações especiais, as mais emblemáticas foram de Luis Brandoni (sempre ele!), Nicolás Vázquez, Mirta Busnelli, Martín Seefeld e Benjamín Rojas.


A segunda temporada estreou em novembro de 2023 e teve mais sete episódios – (1) Una Mujer Solidaria, (2) Una Alianza Inesperada, (3) Un Pequeño Susto, (4) El Último Adiós, (5) Allanamiento Sorpresa, (6) Junta Médica e (7) Aceitunas Para Todos. Basicamente, o elenco principal se manteve intacto. A maior novidade foi a inclusão de María Abadi, a nova vilã. Essa atriz ficou muito conhecida na Argentina pelo seriado “Ciega a Citas” (2009/2010), comédia de Carolina Aguirre, e pelo longa-metragem “Control Zeta” (2023), ficção científica de Axel Gaibisso. Só não sei se essas produções chegaram ao Brasil.


A terceira temporada de “Meu Querido Zelador” foi lançada em julho de 2024 e conta também com sete programas – (1) La Convención, (2) Soluciones Integrales Basurto, (3) Y Buen..., (4) Una Segunda Oportunidad, (5) Piquito, (6) Portericidio e (7) Eliseo versus el Estado Nacional Argentino. As principais novidades desta edição foram: o primeiro episódio gravado no Rio de Janeiro (o que traz um colorido especial à série); e a participação de Claudia Fontán, do seriado “Los Exitosos Pells” (2008/2009) e do filme “Igualzinha a Mim” (Igualita a Mí: 2010). A experiente atriz é Clarita, a misteriosa ex-esposa do protagonista que enfim aparece (uma das maiores surpresas da trama).


A quarta temporada já foi filmada e será exibida a partir de julho de 2026. A promessa é que possua sete novos capítulos, demonstrando um formato bem consistente. Ou seja, cada uma das temporadas complementares teve/terá sete episódios, de aproximadamente 30 minutos cada um. Portanto, dá para maratonar cada edição do programa em um único dia. Confesso que eu e minha irmã preferimos ver um episódio por noite. Assim, levamos duas semanas para concluir a primeira temporada e uma semana para terminar cada uma das demais edições.


Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a série de televisão ambientada em Buenos Aires que retrata as trambicagens de Eliseo Basurto (interpretado por Guillermo Francella), o porteiro/zelador que age como um psicopata contra Matías Zambrano (interpretado por Gabriel Goity), o síndico do edifício

Para quem ainda não assistiu a nenhum episódio de “Meu Querido Zelador”, creio que seja de bom tom comentar o enredo do seriado. Na primeira temporada, acompanhamos o embate de Eliseo Basurto (interpretado por Guillermo Francella), o porteiro/zelador de um refinado prédio residencial de Belgrano, com Matías Zambrano (Gabriel Goity), o síndico do edifício.


Zambrano teve uma ideia aparentemente ótima para os condôminos: mandar embora o zelador, que trabalha naquele local há mais de 30 anos, e contratar uma empresa terceirizada. Além de pagarem menos pelo novo serviço, o que diminuiria o valor do condomínio a médio e longo prazos, os moradores poderiam usar o espaço da casa do zelador, que fica na cobertura do prédio. No lugar do pequeno lar do funcionário, o síndico tem o plano de construir uma piscina. Assim, aumentaria a área de lazer dos moradores no topo da edificação e valorizaria automaticamente todos os apartamentos do prédio.


“Impossível alguém não aprovar essa proposta!”, pensa Matías Zambrano com um entusiasmo um tanto precoce e bastante ingênuo. O que o síndico não imaginava era que Eliseo, o maior prejudicado pela nova engenharia, fosse reagir de maneira tão bélica à iniciativa dos seus empregadores. Sr. Basurto não quer perder o emprego dos sonhos em hipótese nenhuma. Emprego dos sonhos, Ricardo? Sim, senhoras e senhores. Como zelador há três décadas daquele prédio, Eliseo fez de seu cargo uma mina de dinheiro. Os trambiques do protagonista do seriado são, literalmente, incalculáveis.


Por exemplo, Eliseo cobra um percentual de todos os prestadores de serviço do prédio. Se alguém vai pintar um apartamento, fazer manutenção elétrica ou hidráulica, realizar a mudança dos moradores, mexer no elevador do edifício ou instalar qualquer coisa para os condôminos, tem que pagar uma propina para o zelador. Até o lixo é distribuído para quem confere vantagens ao responsável pela administração do prédio. Não por acaso, Sr. Basurto ganha mais dinheiro por meio dessas “comissões” do que de salário propriamente dito.


Se você já sentiu calafrio com o que descrevi no parágrafo anterior, saiba que as maracutaias de Eliseo são muuuito mais extensas, graves e lucrativas. Ele também aloca clandestinamente os apartamentos dos moradores que se ausentam por alguns dias ou fazem longas viagens de férias. Os “inquilinos” do zelador são, por supuesto, turistas estrangeiros, que imaginam estar tratando diretamente com o proprietário dos imóveis alugados.


Sim, é isso o mesmo que vocês leram. Não falei que as práticas de Eliseo eram assustadoras, hein?! O funcionário do edifício tem as chaves de todos os apês e os acessa livremente, valendo-se do direito de usá-los quando precisa ou deseja. Acho que não preciso dizer que a personagem principal de “Meu Querido Zelador” tem várias características de um legítimo e perigosíssimo psicopata. Não por acaso, muitos proprietários não gostam do jeitão dele ou têm um pé atrás quanto a sua forçada cordialidade. Um dos maiores críticos de Eliseo é o próprio Zambrano, um mix de síndico e presidente do conselho de condôminos.


Mesclando humor ácido, críticas sociais e dramas fortes, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a surpreendente série de televisão argentina que se transformou em um dos maiores sucessos internacionais desta década

Para se livrar de uma vez por todas do porteiro/zelador extremamente inconveniente, Matías Zambrano precisa aprovar sua proposta de demissão do funcionário e da construção da piscina na cobertura numa reunião de condomínio. Se a maioria simples dos moradores votar a favor das mudanças sugeridas pelo síndico, Eliseo perderá o emprego. Contudo, se a maioria dos vizinhos for contrária às ideias de Zambrano, o mais antigo funcionário do edifício permanecerá em seu posto de trabalho. É a lei mais simples e lógica da democracia: a eleição direta apontará o futuro do prédio. Dessa maneira, começa a corrida de Eliseo contra o tempo para angariar a votação necessária para seguir como zelador.


E como o protagonista do seriado de Mariano Cohn e Gastón Duprat fará para destruir a ideia aparentemente genial de Matías Zambrano? Aí entra a graça desta história. A mente psicopata de Eliseo Basurto formulará um plano engenhoso e personalizado para convencer um a um os proprietários dos apartamentos de que tanto a piscina na cobertura quanto os serviços terceirizados de portaria serão péssimos. Aquela gente precisa acreditar que não viveriam bem sem um zelador zeloso, prestativo, confiável e competente. Evidentemente que se precisar chantagear alguém, ele chantageará. Se precisar enganar, ameaçar, roubar, mentir e colocar a vidas dos outros em perigo, Eliseo não recuará. Ele fará qualquer coisa para ganhar a votação. O importante é, na sua cabeça doentia, não perder o emprego.


Assim, começa a hilária disputa do protagonista da série com Zambrano. Se no início o embate entre zelador e síndico é sutil e camuflada, pouco a pouco ela vai se tornando mais agressiva e explícita. Por mais que saibamos que Eliseo seja um clássico anti-herói, torcemos por ele. Trata-se de uma das magias da ficção: as personagens imorais, quando charmosas e bem construídas, se tornam queridas pelo público. Chegamos ao ponto, acredite se quiser, de vibrar para que nosso psicopata favorito se dê bem. Mesmo cientes de que estamos na torcida pelo lado errado da narrativa, ainda assim somos do time Eliseo Basurto e não do time Matías Zambrano. Incrível, né?!    


Na segunda temporada de “Meu Querido Zelador”, as falcatruas de Eliseo se transformam. Ou melhor dizendo, elas se intensificam! Agora acompanhamos um novo confronto. Dessa vez, a disputa será contra Lucila Morris (María Abadi), uma nova moradora do edifício de Belgrano, que já chega, aos olhos do principal funcionário do prédio, causando.


A novata é uma famosa ativista social que ajuda a população pobre da Grande Buenos Aires. Obviamente, todos (que não babam o veneno do ódio aos mais necessitados) gostam de seu espírito altruísta e destemido. Por isso mesmo, chama a atenção dos demais moradores as reclamações iniciais de Morris sobre as finanças do prédio. A moça considera o valor do condomínio muito caro, incompatível com os serviços e as opções de lazer ofertados. Assim, ela começa, por iniciativa própria, uma investigação para saber o que há de tão errado na administração do edifício. A sua suposição é que há algum esquema de corrupção ali.


Dirigido e roteirizado por Mariano Cohn e Gastón Duprat e estrelado por Guillermo Francella, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é o drama cômico que se tornou um dos seriados de tevê argentino mais visto no mundo

Não é preciso dizer que essa suposição/investigação de Lucila Morris é uma enorme ameaça para Eliseo e até para Zambrano. Ou alguém achou que o síndico era alguém ético e honesto, hein? Nananinanão. Pelo visto, essa história não tem nenhum santinho. O presidente do conselho do condomínio parece ser tão picareta quanto o zelador.


Em outras palavras, os dois arqui-inimigos da primeira temporada vão se juntar para enfrentar a enxerida que ameaça o status quo dos reis da trambicagem daquele prédio. Como já estamos acostumados, o protagonista da série fará qualquer coisa (eu escrevi “QUALQUER COISA”) para não perder seu posto de trabalho e suas remunerações cada vez mais vultuosas. Pelo seu ponto de vista, a Srta. Morris é uma víbora, que merece o que há de pior nesse mundo. Hilário!


A terceira temporada enfoca os planos megalomaníacos de Eliseo. Ao conseguir o que almejava em seu edifício, ele passa a desejar a expansão do seu raio de atuação para os demais prédios do bairro (e, quiçá, da cidade). A partir da criação de uma empresa própria de prestação de serviços de portaria e zeladoria, a Soluciones Integrales Basurto, o protagonista do seriado almeja ser o chefe de todos os porteiros/zeladores de Buenos Aires. Isso só será possível se convencer os demais síndicos de que vale a pena demitir os atuais profissionais e contratar a equipe da Basurto. Ou seja, pretende fazer exatamente o que Matías Zambrano almejava realizar com ele na primeira temporada. Vamos combinar que é uma contradição deliciosa.


Para ver seu empreendimento comercial prosperar, Eliseo terá que fazer parcerias com velhos rivais e levantará a ira de muitos colegas. Não serão poucos os inconformados com suas práticas predatórias e com sua ambição ilimitada de poder e dinheiro. Desse ponto em diante da narrativa, seu principal adversário será o Sindicato de Porteiros e Zeladores. Os sindicalistas e os porteiros/zeladores elegerão a Soluciones Integrales Basurto como símbolo máximo do capitalismo selvagem e seu presidente como a personificação do empresário que corrói a sociedade e prejudica a classe trabalhadora.   


Outra surpresa desta edição é o aparecimento de Clarita (Claudia Fontán), ex-esposa de Eliseo. Apesar do protagonista da série de TV falar desde a primeira temporada que ela estava morta, constatamos se tratar de mais uma de suas mentiras deslavadas. Ele não é viúvo coisa nenhuma – Clarita está vivinha da Silva. O mais engraçado é que a volta da antiga paixão mexe com os sentimentos de Eliseo, principalmente quando ele descobre o motivo do abandono dela há 30 anos. Porém, não pense que Sr. Basurto vai se apaixonar pela ex. Não! A personagem principal desta história nutre emoções bem particulares. Não nos esqueçamos de que estamos assistindo às ações de um psicopata.   


Será que Eliseo, el encargado más temido de la capital argentina, conseguirá triunfar em seus novos desafios?! É esse o suspense que rege a continuação da saga do mais trambiqueiro e antiético dos zeladores portenhos.


Assistimos em Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) o embate entre Eliseo Basurto (interpretado por Guillermo Francella), o porteiro/zelador que deseja seguir com seu emprego, e Matías Zambrano (interpretado por Gabriel Goity), o síndico que quer construir uma piscina onde é a casa do funcionário do edifício

A quarta temporada de “Meu Querido Zelador” já foi filmada e editada. Portanto, está a ponto de bala para ser lançada. Até agora se sabe pouquíssimo de seu conteúdo, que manterá os principais atores e atrizes das temporadas anteriores. Pelos teasers divulgados pela imprensa argentina, consegui descobrir que a planta carnívora que Eliseo cuidava com tanto carinho morreu, fato que o deixará arrasado. Será que há algum sentimento no coraçãozinho peludo do nosso amado psicopata, hein?!


No plano profissional, Eliseo cresceu ainda mais. A Soluciones Integrales Basurto se expandiu ao ponto de transformar seu proprietário em uma figura influente na política da Argentina. O problema é que este enorme poder irá alimentar o ódio e a vingança de um antigo desafeto: Matías Zambrano. O principal vilão da primeira temporada canalizará sua ira para derrubar a hegemonia do seu maior inimigo. A ideia é destruí-lo no prédio em que Eliseo começou sua ascensão: aquele do bairro de Belgrano em que o protagonista considera a sua casa e foi zelador por tanto tempo.


Quem sairá vencedor desse novo embate entre Basurto e Zambrano?! É esse o provável conflito da nova temporada. Pelo menos foi o que descobri lendo os comentários que Mariano Cohn, Gastón Duprat e Guillermo Francella soltaram despretensiosamente na mídia local. Admito que terei que assistir aos novos episódios para entender melhor a evolução do roteiro de “Meu Querido Zelador 4”. Aposto que tais elementos também atiçam a curiosidade dos demais fãs desta série argentina.


Enquanto a quarta temporada não entra no ar, podemos avaliar de maneira completa as três primeiras temporadas de “Meu Querido Zelador”. Afinal, é para isso que existe a coluna TV, Rádio e Internet, não é mesmo?! A ideia deste post (e do Bonas Histórias como um todo) não é apenas contextualizar e descrever sucintamente as obras artístico-culturais enfocadas (algo que acabamos de fazer). E sim investigar seus pormenores, em uma análise abrangente e profunda (algo que vamos fazer a seguir). Então, apertem os cintos na cadeira que mergulharemos, nos próximos parágrafos, nos detalhes desta produção televisiva. Desejo uma ótima viagem, senhoras e senhores, pelo melhor do que a TV sul-americana tem a nos oferecer.


Dos elementos da narrativa ficcional, o primeiro aspecto que chama nossa atenção é a constituição psicológica do protagonista da série. Como construção de personagem, Eliseo Basurto é um anti-herói impecável. Ele carrega fortes traços de psicopatia, que ora tenta ocultar das demais personagens, ora não consegue esconder dos espectadores. Ao mesmo tempo, há particularidades engraçadas e até charmosas de sua personalidade: cuidado com a planta carnívora, brincadeira de assustar as pessoas que passam pela calçada do prédio, jogar minigolfe e telefonar para si para deixar recados. E há aspectos extremamente assustadores: planos ardilosos para pegar os inimigos, trairagem com o funcionário que é seu assistente no edifício, bisbilhotagem dos moradores e desenvolvimento de esquemas e mais esquemas de corrupção.


Criação de Mariano Cohn e Gastón Duprat, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a série de televisão estrelada por Guillermo Francella, o principal humorista argentino

É válido dizer que, por mais que admiremos, torcemos e rimos de suas tramoias (nem sempre o público fica no lado correto da história, né?), ficamos bastante incomodados com o que Eliseo é capaz de fazer para conseguir seus objetivos. Trata-se, portanto, de um prato cheio para a avaliação de psicólogos e psiquiatras. Ainda assim, o público leigo nesse campo de estudo (como é o meu caso) notará o quão profundo e diabólico é o protagonista da série. Por que será que temos a mania de nos apaixonar por figuras antiéticas e trambiqueiras, hein? Beijo, Bruxinha. Juro que não sei.


Curiosamente, Eliseo é um tipo tão horrendo que despertou muitas críticas do Sindicato dos Porteiros de Buenos Aires. Seus colegas reais ficaram indignados com o retrato negativo da profissão. É claro que à medida que a série evoluiu, a indignação foi diminuindo. Quando se tornou evidente que se tratava de um profissional que desvirtuava o ofício e até ganhava a repulsão dos colegas ficcionais, os sindicalistas portenhos sossegaram nos protestos. De qualquer forma, é interessante notar o alcance da personagem principal de “Meu Querido Zelador” na sociedade argentina. Sr. Basurto conseguiu sair do plano televisivo e incomodar os colegas de carne e osso, em uma excelente contradição da realidade ficcional. Incrível!


Já que adentrei no universo das curiosidades, vale a pena relatar o que aconteceu com o prédio verídico em Belgrano C onde o porteiro mais trambiqueiro de todos os tempos trabalha. A construção virou o mais novo ponto turístico de Buenos Aires. É engraçada essa mania que moradores e visitantes da Capital Federal da Argentina têm de conhecer pessoalmente os cenários retratados em músicas, filmes, peças teatrais e programas de televisão. Já comentei rapidamente sobre essa particularidade local quando analisei a música “En La Ciudad de la Furia”, hit do Soda Stereo da década de 1980. Essa canção tornou o edifício Bencich, na esquina da Avenida Córdoba com a Calle Esmeralda, no Microcentro, popular entre os fãs do Rock Nacional. Agora foi a vez de “Meu Querido Zelador” gerar comoção parecida e entrar no mapa do turismo arquitetônico da cidade.


O edifício de classe média alta na Calle Arribeños, entre Virrey del Pino e José Hernandez (a duas quadras da Plaza Barrancas de Belgrano e a cinco quadras do pórtico de entrada do Barrio Chino), se tornou o queridinho dos fãs do seriado de Mariano Cohn e Gastón Duprat. O público faz questão de visitá-lo, o que provoca algum agito nas calmas e pacatas ruas do tradicional bairro da Zona Norte da cidade. Os visitantes fazem questão de tirar foto e ficar admirando a construção. Quando passei ali pela última vez, no finalzinho do ano passado, sua fachada estava em reformas, o que desagradou um pouco aos turistas mais emocionados. Para aumentar ainda mais a graça dessa história, o prédio já é chamado de “Edificio El Encargado” no Google Maps. Hilário!


Voltando a falar do zelador/porteiro (desculpe-me pela minha ignorância, mas até hoje não sei a diferença entre esses dois termos) que faz a dinâmica do programa girar em alta velocidade, li muitos comentários na imprensa argentina dizendo que Eliseo é uma figura tipicamente portenha. Afinal, só em Buenos Aires, os profissionais responsáveis pela administração dos prédios residenciais têm atuação tão ativa na vida de condôminos e acesso ilimitado aos apartamentos. Na visão local, em nenhuma parte do planeta há esse tipo de relação e interferência como no Distrito Federal argentino. América do Norte, Europa, Ásia e Oceania, por exemplo, tal atuação de um porteiro/zelador é inconcebível como visto em “Meu Querido Zelador”. Contudo, não concordo com tal afirmação.


Tragicomédia roteirizada e dirigida por Mariano Cohn e Gastón Duprat, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) terá a quarta temporada lançada em julho de 2026 no streaming

Em primeiro lugar, morei em muitos prédios de Buenos Aires em várias oportunidades desde 2004 e nunca tive um encargado que ficasse com as chaves do meu apê. Para ser bem sincero com os leitores do Bonas Histórias, em nenhum edifício que habitei na capital da Argentina havia sequer a figura do porteiro. Sempre foram os próprios moradores os responsáveis por descer para pegar suas encomendas e abrir o portão para os visitantes. Dessa maneira, juro que não consigo visualizar o quão comum é a atuação de porteiros e zeladores em Baires. Até pensava que eles fossem raros por estas bandas.  


Exatamente por isso, acho que esses profissionais são mais comuns nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, do que na metrópole portenha. Inclusive, minha irmã morou por vários anos em um prédio na Rua Diana, em Perdizes, São Paulo, em que o zelador era parecidíssimo com Eliseo. Estou me referindo à postura e à mentalidade e não à caracterização física. Ele trabalhava lá há mais de três décadas e fazia questão de ter as chaves dos apartamentos (para horror da minha irmã, que morava sozinha). Para completar, o Eliseo paulistano (o chamemos assim, tá?) adorava indicar “pessoas de sua confiança” para fazer serviços domésticos aos condôminos. Quando vinha alguém que ele não conhecia, o zelador fazia o possível e o impossível para maltratar a pessoa. Será que recebia comissão dos serviços prestados pelos terceiros? Acredito piamente que sim. Ou seja, onde está o caráter local do encargado de “Meu Querido Zelador”?! Juro que não vejo.


Além do mais, vamos combinar que a existência de grandes trambiqueiros não é exclusividade de Buenos Aires e das grandes cidades argentinas, como los hermanos gostam de pensar. Quem mora na capital paulista ou na capital fluminense, por exemplo, tem a certeza de que somos até mais impactados pelas tentativas de golpes dos picaretas profissionais e amadores do que no exterior. Por isso, não me venha dizer que os portenhos são mais malandros do que os cariocas! Assim, talvez Sr. Basurto seja uma figura tipicamente sul-americana e não tanto argentina. Talvez! É só uma suposição minha.


O que dá para garantir com segurança é a presença do colorido da cultura argentina e da atmosfera portenha do seriado. Ainda que “Meu Querido Zelador” não tenha o charme artístico-gastronômico de “O Faz Nada” e a argentinidade mordaz das historietas de “Homo Argentum”, outras criações audiovisuais de Cohn e Duprat que permitem um mergulho profundo no cotidiano local, a trama de Eliseo apresenta um retrato mais ácido, amplo e crítico de Buenos Aires.


Além da acentuada desigualdade social (cada vez mais evidente no país ano a ano), acompanhamos, em “Meu Querido Zelador”, a arrogância da elite econômica, a hipocrisia das famílias, as carências das novas dinâmicas laborais (uberização do trabalho), a corrupção sistêmica da sociedade (não só dos políticos), criação de tênues laços de amizade (problema das metrópoles contemporâneas), a ética precária do capitalismo, a solidão sentimental  dos moradores dos grandes centros urbanos, a vigilância ilimitada dos cidadãos e os ruidosos escândalos de falcatruas governamentais (que abrangem todos os espectros ideológicos indistintamente). Por outro lado, temos a oportunidade de apreciar as belas paisagens locais: parques, ruas e restaurantes. Tenho a impressão de que Buenos Aires fica bem como cenário para qualquer tipo de história ficcional.  


Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a série de televisão ambientada em Buenos Aires que retrata as trambicagens de Eliseo Basurto (interpretado por Guillermo Francella), o porteiro/zelador que age como um psicopata contra Matías Zambrano (interpretado por Gabriel Goity), o síndico do edifício

Sinto que não dá para falar de Eliseo Basurto e ignorar a atuação primorosa de Guillermo Francella. Na minha opinião, o experientíssimo ator cômico argentino chega ao auge artístico em “Meu Querido Zelador”. Por mais que ele já tenha feito papéis marcantes e com profundidade dramática no cinema, na televisão e no teatro (o melhor exemplo é Arquímedes Puccio de “O Clã”), nenhuma personagem ficcional se aproxima do nível de dificuldade do porteiro psicopata de Belgrano. Daí o brilhantismo de sua interpretação, que beira a perfeição.


Repare que Francella consegue ser, dependendo da situação, engraçado, carismático, doentio, ambicioso, insensível, charmoso, malandro, arrogante, inteligente, ganancioso e sovina. E faz isso tudo sem tornar sua personagem contraditória ou inverossímil. Dá para notar a excelência de sua interpretação principalmente nas cenas em que ele não fala nada ou que permanece estático diante das câmeras. Ou quando muda radicalmente de personalidade/humor, uma mania de Eliseo. Aí um simples olhar, uma mexida sutil de olho/sobrancelha, um trejeito com a boca e uma careta dizem mais do que um milhão de palavras. Se isso não for a tradução máxima do talento interpretativo, juro que não sei mais o que esperar de um ator de primeiríssimo nível.  


Não é errado ver “Meu Querido Zelador” como a narrativa centrada em uma única personagem. Falo isso porque a câmera praticamente só acompanha Eliseo Basurto. Para onde ele vai, os olhos do público o seguem hipnotizados. Como consequência, Guillermo Francella está o tempo inteiro em cena. Até quando não aparece em primeiro plano, tenha a certeza de que ele está acompanhando os passos das demais personagens retratadas na tela. Nas três primeiras temporadas, deve ter tido, no máximo, meia dúzia de cenas em que o protagonista não participou diretamente do que estava sendo captado pelas câmeras. Imagine o esforço técnico e o desgaste físico para o ator de 70 anos monopolizar as ações do seriado, hein?


Por mais que Francella concentre naturalmente as atenções do público, é bom salientar a qualidade absurda do elenco de “Meu Querido Zelador”. Figuras do mais alto escalão da TV, do cinema e do teatro argentino foram recrutadas para interagir com Sr. Basurto. E todos vão muitíssimo bem, conferindo ainda mais graça e intensidade dramática ao seriado. A impressão é que o entra-e-sai de rostos conhecidos (são várias personagens ao longo das temporadas) é um desfile de estrelas locais.


Os fãs dos sitcons das décadas passadas vão perceber que vários colegas que se notabilizaram por dividir as cenas com Guillermo Francella voltaram a fazer isso. A diferença é que sai o humor escrachado e entra a tragicomédia inteligente. O mais evidente dos antigos parceiros do ator protagonista de “Meu Querido Zelador” é Gabriel Goity, famoso participante de “Poné a Francella”. Provavelmente, os brasileiros o conheçam pela participação recente em “Família, Pero No Mucho” (2025), comédia nacional de baixíssima qualidade estrelada por Leandro Hassum. Goity interpretou o pai argentino do genro de Hassum.


Ambientado num prédio de Belgrano, bairro portenho da Zona Norte, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é o seriado de TV que narra o embate dramático de Eliseo Basurto, um porteiro que luta contra os planos do síndico que quer demiti-lo

Há vários outros intérpretes que trabalharam por muito tempo com Francella nesta produção. Lembro de Martín Seefeld, Nicolás Vázquez e Manuel Vicente dos programas dos anos 2000, principalmente de “Poné a Francella”. É uma delícia verificar os encontros inusitados dos velhos conhecidos de Guillermo Francella. Confesso que não via alguns dos atores e atrizes desse seriado há muito tempo, o que reforça o tom saudosista de suas aparições na tela.


O roteiro de “Meu Querido Zelador” também merece efusivos elogios. Ele foi muito bem desenvolvido do início ao fim (da terceira temporada, ao menos). Não encontrei peças soltas nem inconsistências narrativas, problemas comuns de seriados de TV que vão se alongando. Exatamente por isso, a sensação é que essa história já fora concebida para ter várias temporadas. Por que digo isso? Porque a trama aproveita muitíssimo bem ganchos, personagens e situações de temporadas anteriores. Como consequência, aspectos que pareciam banais anteriormente ganham mais a frente um significado maior, o que potencializa o conflito dramático. Em outras palavras, a impressão é que a série foi escrita de uma vez só pelos roteiristas e está sendo filmada aos poucos, tamanha é a sua consistência narrativa.


Outro ponto interessantíssimo é a estrutura dos desfechos de cada uma das temporadas. Na minha ótica, os desenlaces são impecáveis e conversam entre si, formando uma unidade estilística ao mesmo tempo cômica e dramática. Além das reviravoltas da trama que fazem Eliseo sair como o maioral e o dono absoluto da situação, o protagonista conversa diretamente com o público em cada fechamento. Ele fala olhando para câmera, em uma interação inusitada e íntima com o espectador. Confesso que ver um psicopata frio e calculista falando e olhando para a gente é angustiante. Juro que fiquei com mais medo dele.   


Por fim, a fotografia desta produção audiovisual é ótima. Além de algumas tomadas de câmera inusitadas, há elementos visuais bem característicos: planta carnívora, janelinha retangular da porta do apartamento da cobertura, olhadelas do protagonista no espelho etc. A série brinca o tempo inteiro com a contradição entre claro e escuro, alto e baixo e interno e externo. Em muitos momentos, o tom predominante é de claustrofobia, voyeurismo e mistério.


Tudo o que falei até aqui foram aspectos positivos de “Meu Querido Zelador”. Porém, não fazemos apontamentos exclusivamente favoráveis das obras investigadas no blog. Todas as análises do Bonas Histórias, independentemente da coluna, possuem um lado elogioso e um lado insatisfatório. É esse o espírito da crítica cultural. Sabendo disso, preciso iniciar os comentários negativos deste seriado.


Com a quarta temporada prevista para estrear em julho na Disney+, Meu Querido Zelador (El Encargado: 2022-2026) é a produção de Mariano Cohn e Gastón Duprat que traz nomes de peso da televisão argentina como Guillermo Francella e Gabriel Goity

O principal ponto depreciativo de “Meu Querido Zelador” é... é... é... Juro que não sei. Não encontrei nada de grave que o desabonasse. Até seu humor ácido (para poucos) e a vilania escancarada do herói, um anti-herói bem moderno (algo que não costuma agradar a todos os públicos), são, aos meus olhos, excelentes.


Talvez o único aspecto negativo seja a demora para o lançamento da quarta temporada. Minha vontade era de assistir aos novos episódios agora mesmo (com ou sem hermanita). E, buscando mais componentes críticos, a indefinição se haverá ou não uma quinta e sexta temporadas me fazem roer as unhas da mão. Ainda assim, minha intuição me diz que assistiremos nos próximos meses ao término do drama de Eliseo Basurto. Infelizmente, esse seriado não deverá prosseguir. Todavia, como disse, essa é a apenas uma suposição minha feita a partir da evolução do enredo. Ou será que os roteiristas terão criatividade para alongar ainda mais essa narrativa, hein?! A conferir.


Brincadeiras à parte, o único componente realmente negativo que identifiquei em “Meu Querido Zelador” foi a celeridade dos desfechos da segunda e da terceira temporadas. Fiquei com a impressão de que seus desenlaces mereciam mais um ou dois capítulos. Assim, os eventos retratados no fim da série foram transmitidos com bastante rapidez, como se faltasse verba para gravar mais do que sete episódios. Será que foi um problema de orçamento ou foi um equívoco dos roteiristas? Não sei. Só sei que achei as partes derradeiras das temporadas complementares muito corridas, destoando do bom ritmo narrativo das demais partes.


Assista, a seguir, aos trailers das três primeiras temporadas de “Meu Querido Zelador” (El Encargado: 2022-2025):





Em relação à quarta temporada, só temos, por enquanto, um teaser à disposição. Adianto que ele é curtíssimo. Confira:



Acho que por hoje é só, senhoras e senhores. Quem estiver ansioso pelos novos episódios dessa incrível série televisiva ou tiver algo de interessante para comentar sobre “Meu Querido Zelador”, por favor, use o espaço de comentários abaixo. Juro que estou curioso para saber o que vocês têm para compartilhar conosco. Às vezes, acho que o final de julho não vai chegar nunca!  


Até a próxima análise!


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