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- Livros: Febeapá 1 - A obra-prima de Stanislaw Ponte Preta
Publicada em 1966, a coletânea de contos e crônicas de Sérgio Porto com o 1º Festival de Besteira que Assola o País é um clássico da literatura brasileira. A coluna Livros – Crítica Literária dá uma passadinha, hoje, na estante dos clássicos da literatura brasileira. No último final de semana, li a obra mais famosa de Sérgio Porto, jornalista, crítico cultural e escritor carioca que se imortalizou com o heterônimo (ou pseudônimo, como preferir) de Stanislaw Ponte Preta. A leitura que estou me referindo é “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País” (Civilização Brasileira). Comprei essa coletânea de contos e crônicas há alguns anos em uma visita despretensiosa a um grande sebo no centro de São Paulo. Contudo, só agora consegui apreciá-la com a devida atenção. Afinal, em época de eleição presidencial, período em que a polarização ideológica atinge decibéis insuportáveis, é bom procurar entender a realidade nacional sob o ponto de vista de uma das mentes mais privilegiadas da crônica brasileira. Por isso, a ideia da confecção deste novo post do Bonas Histórias. Para quem não aguenta mais as discussões políticas, fique tranquilo(a): o debate aqui será exclusivamente literário –conforme reza a cartilha de um blog voltado para o universo artístico-cultural. Ao concluir a leitura de “Febeapá”, entendi o porquê dessa publicação ser tão cultuada e estar entre os cânones literários do nosso país. Quase seis décadas depois de seu lançamento, o livro de Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta continua atual, engraçado, revelador e, de certa maneira, tragicômico. Infelizmente, o Brasil de hoje (e seus incontáveis problemas sociais, econômicos, políticos e ambientais) é muitíssimo parecido àquele de meados da década de 1960. A sensação é que não evoluímos como nação em (quase) nada. Se eu já suspeitava disso antes de mergulhar nas páginas de “Febeapá”, agora tive a certeza. Essa é justamente a parte mais delicada da obra: a constatação amarga que fracassamos como sociedade. Durmamos com tal dor de cabeça, meus amigos! Criado em 1953, quando Sérgio Porto tinha apenas 20 anos e estava iniciando no jornalismo profissional, Stanislaw Ponte Preta era o fictício colunista social que debatia de maneira debochada os problemas típicos do Brasil nos anos 1950 e 1960. Sua especialidade era revelar o falso moralismo da alta sociedade carioca, as burrices dos brasileiros, as incongruências do dia a dia nacional (que, convenhamos, não são poucas!), a corrupção e a intolerância dos fardados (que insistiam em se meter na política), as maracutaias e as gafes das figuras públicas (um capítulo à parte em nossa História), os casos de polícia que chamavam mais a atenção da mídia, as mazelas do rincão da nação e os escândalos de infidelidade conjugal mais ruidosos da época. O resultado é um texto delicioso, marcante, original e revelador. A estreia de Stanislaw Ponte Preta na imprensa carioca aconteceu em novembro de 1955 no jornal Última Hora. O texto daquele colunista linguarudo, debochado, petulante, provocador e namorador (estou falando agora de Ponte Preta, não de Sérgio Porto) chamou a atenção do público. Rapidamente, ele virou uma grande referência para os leitores do periódico, que adoravam os bordões (alguns usados até hoje em nossas ruas), as gírias (uma novidade para o jornalismo da época), os neologismos (divertidíssimos!) e o humor (ora fino e elegante, ora escrachado e agressivo). Surgia, assim, uma das figuras mais ousadas, engraçadas e inusitadas do jornalismo nacional e da crônica brasileira. Para embasar o que falava/escrevia em sua coluna, Stanislaw recorria invariavelmente às informações coletadas pela Pretapress – sua própria agência de notícias –, às opiniões de familiares – como as da zelosa mãe (D. Dulce), da sagaz tia (Zulmira), do primo namorador (Altamirando) e do parente patriota (Bonifácio Ponte Preta) –, aos fatos conferidos nas ruas do Rio de Janeiro (hábito cotidiano de todo bom cronista) e às notícias obtidas da leitura de jornais e revistas (algo que as pessoas faziam antes da invenção das mídias sociais). Repare que a matéria-prima do colunista era uma mistura de elementos ficcionais (a agência de notícias e os familiares eram obviamente invenções de Sérgio Porto) com componentes verídicos (a realidade do Rio de Janeiro e as maluquices do Brasil eram captadas pessoalmente pelo autor ou indiretamente pela mídia). Se avaliarmos o trabalho de Ponte Preta (ou seria o trabalho de Sérgio Porto, hein?) com os olhos atuais, podemos dizer que Stanislaw é a versão original de alguns dos principais humoristas contemporâneos que retratam de maneira impagável a nossa sociedade. Nesse caso, Stanislaw Ponte Preta seria o pai intelectual de José Simão, colunista hilário da Folha de São Paulo, da dupla Vesgo & Sílvio, os repórteres sem noção do extinto Programa Pânico na TV, de Gil Gomes, falecido repórter policial de televisão que se tornou famosíssimo na segunda metade do século XX, de Márcia Goldschmidt, apresentadora televisiva chegadinha em um bom barraco ao vivo, dos integrantes do CQC – Custe O Que Custar, atração de TV importada da Argentina que fustigava os políticos em Brasília, e de Ratinho, jornalista/apresentador célebre por revelar as baixarias (e os segredos mais absurdos) das famílias em horário nobre. Parece exagerada essa minha comparação?! Então saiba que O Pasquim, jornal humorístico criado em junho de 1969 no Rio de Janeiro por Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral e Tarso de Castro, que foi o símbolo máximo da contracultura nacional e que atuou como fortíssimo opositor ao Regime Militar nas décadas de 1970 e 1980, se inspirou diretamente em “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País”. Não por acaso, o humor do periódico carioca era extremamente parecido à comicidade dos textos de Stanislaw Ponte Preta. Inclusive, os fundadores de O Pasquim homenagearam Sérgio Porto, falecido poucos meses antes da criação do jornal, na primeira edição da publicação. É legal notar que, de tão interessantes que eram seus textos e sua figura, Ponte Preta deixou o papel de mero personagem de Porto e ganhou a aura de autor independente (e quase real). Assim, saía de cena Sérgio (que aceitou desde cedo o maior destaque dado/recebido por seu heterônimo) e entrava no palco da literatura nacional Stanislaw. Essa construção foi tão bem-feita que o colunista social ganhou uma série de parentes (Tia Zulmira, Primo Altamirando, D. Dulce e Bonifácio Ponte Preta), uma biografia paralela e características distintas do seu autor. Em outras palavras, para o imaginário popular e artístico, Sérgio Porto era uma pessoa e Stanislaw Ponte Preta era outra. Acho incrível essa brincadeira de embaralhar os universos reais e ficcionais em um mesmo plano literário/jornalístico. Publicado originalmente em 1966, “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País” foi o quinto livro a estampar o nome de Ponte Preta na capa. Antes, Sérgio Porto tinha lançado com seu heterônimo “Tia Zulmira e Eu” (Civilização Brasileira), em 1961, “Primo Altamirando e Elas” (Civilização Brasileira), em 1962, “Rosamundo e Os Outros” (Do Autor), e “Garoto Linha Dura” (Civilização Brasileira), em 1964. Com o nome verídico, Porto possuía, nessa época, outras três obras nas livrarias: “Pequena História do Jazz” (Os Cadernos da Cultura), de 1953, “O Homem ao Lado” (José Olympio), de 1958, e “A Casa Demolida” (Do Autor), de 1963. Hoje em dia é normal encontrarmos “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País” com título e subtítulo um pouco diferentes aos originais. A nova nomeação é: “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País”. Essa mudança foi necessária porque a obra deu origem a uma série que totaliza três livros. “Febeapá 2 – 2º Festival de Besteira que Assola o País” (Civilização Brasileira) e “Febeapá 3 – 3º Festival de Besteira que Assola o País” (Civilização Brasileira) foram lançados, respectivamente, em 1967 e 1968, e completam a célebre trilogia de Stanislaw Ponte Preta. Não é preciso dizer que essas publicações se tornaram enormes sucessos na época de seus lançamentos. “Febeapá” virou até mesmo uma das peças artístico-culturais mais críticas à Ditadura Militar brasileira, que havia sido imposta em 1964. Sérgio Porto só não sofreu maiores represálias por parte dos fardados que se apoderaram do poder político em Brasília porque o escritor faleceu em setembro de 1968, vítima de infarto fulminante aos 45 anos. O Ato Institucional Número Cinco (o famigerado AI-5), vale a pena a menção, seria decretado quinze meses mais tarde, em dezembro de 1969, o que lançou o Brasil em uma censura mais severa e intensificou a perseguição aos opositores do regime. Se não tivesse morrido tão precocemente, Sérgio Porto teria fugido, na certa, do país para não ser preso pelos milicos no início dos anos 1970. E com certeza, o jornalista teria muito mais material para seguir produzindo no exílio os novos volumes da série de contos e crônicas. Quem sabe não teríamos hoje nas estantes de nossas livrarias “Febeapá 4”, “Febeapá 5”, “Febeapá 6”, “Febeapá 7”... Em relação à matéria-prima tragicômica que o Brasil e os brasileiros fornecem diariamente para os humoristas nacionais, dava muito bem para Stanislaw Ponte Preta continuar, se vivo obviamente, lançando sequências da coletânea todos os anos. Fico imaginando o que ele não diria dos nossos governantes e do nosso povo atualmente, né? Já que estamos falando nessa trilogia, preciso destacar que há publicações mais contemporâneas que já trazem em um único volume a coleção completa do “Festival de Besteira que Assola o País”. Ou seja, “Febeapá 1”, “Febeapá 2” e “Febeapá 3” vem juntos em um título integrado chamado simplesmente de “Febeapá”. Em 2015, a Companhia das Letras apresentou uma edição impecável com os três volumes da série. Vale a pena conferi-la. E no ano passado, ainda na pegada da revalorização da literatura de Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto, a principal editora brasileira lançou “A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta” (Companhia das Letras), uma antologia com os melhores textos do autor/heterônimo. As narrativas dessa obra foram extraídas de “Tia Zulmira e Eu”, “Primo Altamirando e Elas”, “Rosamundo e Outros”, “Garoto Linha Dura”, “Febeapá” e “Bola na Rede” (Civilização Brasileira). “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País” nasceu (assim como a própria figura de Stanislaw Ponte Preta) das crônicas que Sérgio Porto produzia para os jornais do Rio de Janeiro. Ele manteve uma badalada coluna no Última Hora por dois períodos: de 1955 a 1960 e de 1963 a 1968. De 1960 a 1963, Porto deixou o Última Hora e trabalhou para o concorrente Diário da Noite. O retorno ao Última Hora se deu após o jornalista receber uma proposta financeira irrecusável da antiga empregadora. O jornal queria a volta de um dos principais colunistas do país. No início da década de 1960, é importante destacar, Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta era aquele tipo de figura da imprensa capaz de fazer os leitores mudarem de periódico só para continuar acompanhando seus textos. E aquele período representou também a Era de Ouro da crônica brasileira. O livro “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País” possui 168 páginas. A coletânea de contos e crônicas está dividida em duas partes. Na primeira seção, com cerca de 50 páginas e 11 capítulos, temos as crônicas propriamente ditas. Esses textos foram produzidos especialmente para a publicação literária e seus conteúdos (tiradas cômicas, notícias do Brasil e causos do dia a dia nacional) foram extraídos/inspirados da coluna que Stanislaw Ponte Preta mantinha no Última Hora. Ou seja, essa é uma parte readaptada (requentada). Antes que você pense que essa característica é um demérito do livro, ela não é não. Esse é justamente o pedaço mais interessante desse título. Suas narrativas são deliciosas! Na segunda seção de “Febeapá 1”, temos os contos. As narrativas ficcionais são 40 e ocupam aproximadamente 110 páginas. Esse trecho é quase que um recorte exato das colunas jornalísticas de Ponte Preta, em que ele relatava as confusões cotidianas de seus conterrâneos. Não houve aqui, portanto, a preocupação de adaptar o material extraído do jornal e exportado para o livro, como vimos na primeira parte. Isso é perceptível pelo tamanho reduzido dos textos. Apesar de boas, as histórias ficcionais de Sergio Porto/Stanislaw Ponte Preta são, na minha opinião, um tantinho inferiores às crônicas. Levei pouco mais de quatro horas para concluir essa leitura no último final de semana. Mesmo sendo possível ler “Febeapá 1” tranquilamente em um dia (ou mesmo em um período só do dia, se você tiver mais fôlego literário), utilizei duas tardes consecutivas para tal. Praticamente percorri a primeira metade das páginas da obra mais famosa de Stanislaw Ponte Preta no sábado à tarde e finalizei a outra metade no domingo. O que torna a leitura de “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País” tão rápida e cativante é o texto divertido (marca do autor) e a estrutura de pequenos capítulos (afinal, estamos falando de uma coletânea de narrativas curtas, né?). Em média, essas histórias de Ponte Preta têm em torno de três páginas. Quando você pisca o olho, já devorou um conto/crônica. Piscou duas vezes, terminou a seção da publicação. E em três piscadas, lá se foi a obra inteira! A primeira crônica (da parte I) de “Febeapá” se chama “O Festival de Besteira”. Aqui, o autor apresenta a proposta do livro. Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto explica como surgiu o Febeapá e detalha a dinâmica de trabalho da Pretapress, a fictícia agência de notícias utilizada por ele para mapear o que acontece no país. Em seguida, o cronista já começa a listar a série de bizarrices ocorridas no Brasil de Norte a Sul entre 1965 e 1966. Esse é um dos textos mais hilariantes (e famosos) da publicação. Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência, tá? “O Puxa-saquismo Desvairado”, a segunda crônica, mostra como os brasileiros das mais diferentes regiões tentam agradar a autoridade máxima da nação. Em “O Informe Secreto”, o chefe do Serviço de Inteligência faz uma descoberta bombástica capaz de abalar os alicerces de Brasília. “Meio a Meio” e “Nas Tuberosidades Isquiáticas” relata, respetivamente, o que se passa quando alguém é acusado de ser comunista no Brasil da Ditadura Militar e as consequências da assinatura da portaria do Ministério do Trabalho que obriga os comerciários a atuarem sentados. “A Conspiração”, por sua vez, escancara a denúncia de que estaria havendo uma conspiração na casa do Coronel. Em “Desrespeito à Região Glútea”, a sétima crônica da parte I de “Febeapá 1”, os agentes do Dops no Aeroporto do Galeão protagonizam uma série de mancadas. “Garotinho Corrupto” e “Por Trás do Bimbo” detalham, respectivamente, o fechamento de uma escola infantil porque ela tinha um nome subversivo e a aglomeração do povo em volta de um corpo estatelado no meio da rua. “Depósito Bancário” narra a entrada de um cidadão em um banco chiquérrimo e a utilização alternativa do tapete principal da instituição. E em “O General Taí”, o décimo primeiro texto e a última crônica dessa seção, Genésio conseguiu certo prestígio no Ministério ao ser um dos mais ativos dedos-duros do governo. A parte II de “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País” é, como já falei, dedicada aos contos. “O Antológico Lalau”, primeiro texto dessa seção, mostra o encontro fortuito de Stanislaw Ponte Preta com um patrício. Por essa conversa aparentemente banal, o colunista social descobre que um de seus textos integrará uma antologia literária. Em “O Paquera”, conhecemos Batalha. À medida em que foi crescendo, ele foi ficando cada vez mais feio. Por isso, já adulto (e com aparência horripilante), Batalha só espiava as moças de longe. “Eram Parecidíssimas” relata o encontro de dois amigos no bar. Leleco conta para Peixoto que está saindo com uma socialite paulista chamada Laís. A questão é que Laís é muito parecida com Alice, a esposa de Peixoto. No “O Sabiá do Almirante”, um oficial das Forças Armadas pega, no instante em que estava saindo para ir ao cinema, um ladrão de passarinho no quintal de casa. Em “Os Tímidos o que é dos Tímidos”, o quinto conto de “Febeapá 1”, Leovigildo conseguiu uma namorada, mesmo sendo o mais tímido dos rapazes. O problema é que um sujeito metido a fortão começa a cortejar sua pequena. “O Filho do Camelô” narra o trabalho de um vendedor ambulante. Assim que percebe que não há nenhuma autoridade por perto, ele arma a barraquinha na rua e começa o discurso para atrair os clientes. Nessa hora, vale tudo para amaciar os coraçõezinhos da freguesia. “O Diário de Muzema” se passa no pequeno e pacato bairro perto da Barra da Tijuca. Ali, a população se revolta com um sujeito que tem a mania de anotar em um caderno tudo aquilo que vê pelas ruas. Em “Um Cara Legal”, Carlão prepara uma festa de arromba para comemorar seu aniversário. Os convidados são a fina flor da sociedade (só que não). Talvez o barulho e a confusão incomodem um pouco a vizinhança do apartamento de Carlão. E em “Desastre de Automóvel”, assistimos às crises de ciúme da esposa de Cravinho. Por ser uma mulher extremamente violenta, a moça costuma espancar o marido toda vez que se sente ameaçada por outra mulher. O curioso é que o rapaz parece não ligar tanto assim pelo mulheril que está ao seu redor. A grande paixão de Cravinho está nos carros esportivos. O décimo conto de “Febeapá 1” se chama “Barba, Cabelo e Bigode”. Nessa trama, Luís, o dono da principal barbearia da pequena cidade do interior, tenta desvendar o comportamento inusitado de Armandinho, o rapaz vida mansa que vai frequentemente ao salão. Depois de conferir o tamanho da fila, o preguiçoso sempre vai embora sem que o serviço possa ser realizado. Os três contos seguintes são: “Liberdade! Liberdade!”, “O Padre e o Busto” e “Diálogo de Réveillon”. No primeiro, vemos a alegria de um rapaz recém-separado que curte a solidão em seu apartamento. Depois de aguentar seis anos de casamento, enfim ele está livre, livre! Na narrativa seguinte, uma linda moça vestindo um biquíni minúsculo caminha pela calçada. Ela está retornando da praia. A cena é um colírio para os olhos masculinos. O único homem que não gosta do que está vendo é o padre velho e gorducho, que resolve recriminar os trajes da gatinha. E encerrando essa sequência, temos a conversa de uma senhora com um homem bêbado na virada do ano de 1965 para o de 1966. “Um Predestinado” é a décima quarta história da parte II de “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País”. Aqui, assistimos ao drama de dois amigos que passam a tarde paquerando vulgarmente as mulheres que trafegam em uma esquina de Copacabana. Como são pobres, a dupla não consegue ser bem-sucedida no flerte. Em “Mitu no Menu”, os brasileiros viajam para a Inglaterra para acompanhar in loco a Copa do Mundo de 1966. Muitos embarcaram para acompanhar os jogos da seleção canarinha sem ter dinheiro suficiente no bolso e sem falar uma só palavra de inglês, o que causa, evidentemente, muitos dissabores. “Não Sou Uma Qualquer” e “O Analfabeto e a Professora” são contos que demonstram as preocupações de duas moças muito bonitas. No primeiro relato, a protagonista fica brava com os comentários maldosos que está sendo vítima da alta sociedade carioca. E no segundo, a professora de um curso de alfabetização de adultos tem o desafio de ensinar o aluno mais burro que já passou pela instituição. Em “Adúlteros em Cana”, uma multidão se forma na frente de um prédio na Rua Barata Ribeiro. Todos querem saber se o marido conseguirá pegar a mulher em flagrante de adultério. Enquanto “Urubus e Outros Bichos” mostra a alegria dos brasileiros mais patriotas com a notícia de que o país começou a exportar urubus para a Europa, “Futebol com Maconha” descreve, por sua vez, o curioso embate futebolístico entre o time de maconheiros do Puxa Firme, do Morro do Queimado, e a equipe do santo padre local. “Vacina Controladora”, o vigésimo primeiro conto desse livro de Stanislaw Ponte Preta, é sobre a última invenção dos cientistas norte-americanos – uma vacina que controlará a taxa de natalidade. Em “Adesão”, o camarada tem a infelicidade de viajar em um vagão de trem juntamente com um animado time de futebol que retorna de uma partida de futebol. Em “O Cafezinho do Canibal”, uma loira estonteante é a única sobrevivente de um acidente aéreo. Para a infelicidade da moça, a aeronave caiu perto de uma tribo de canibais e ela foi aprisionada. “Arinete – A Mulata” e “Deu Mãozinha no Milagre” tratam, respectivamente, da paixão platônica do soldado da PM por uma jovem que carrega um .45 na bolsa e das artimanhas de um padre de Goiânia que falsifica milagres, para desespero dos superiores eclesiásticos. “A Bolsa ou o Elefante” é o vigésimo sexto conto. Aqui, o elefante come a bolsa de uma visitante do zoológico, o que traz sérias complicações para ambos. Em “Suplício Chinês”, o único hóspede de um hotel de uma pequena cidade do interior é desalojado de seu quarto. Tudo para abrigar a lua de mel da filha do coronel, um importante político local. “O Homem das Nádegas Frias” mostra um ônibus lotado. Desacostumado com o cavalheirismo nos tempos presentes, uma senhora recusa o gesto de um senhor que cede seu assento para ela. Em “O Passeio do Pastor”, assistimos às saidinhas noturnas e pouco cristãs de um pastor. “O Correr dos Anos” e “O Homem que Mastigou a Sogra” narram, respectivamente, a alegria de Bonifácio Ponte Preta com a inauguração de uma adutora que iria resolver os problemas de desabastecimento de água no Rio de Janeiro e as agruras do noivado de Gilson Calado e Délia com a marcação cerrada da mãe da moça. “As Retretes do Senhor Engenheiro” cita trecho de um livro em que construtores de banheiros públicos expõem as estratégias para trabalhadores e estudantes não perderem tempo no banheiro. Em “Dois Amigos e Um Chato”, Flaudemíglio deixa a carteira cair na rua ao embarcar em um ônibus lotado. Por sorte, o amigo Zé estava por perto e ligado. “Mirinho e o Disco” mostra a preocupação do Primo Altamirando com as notícias do aparecimento de um OVNI. “A Governanta”, o trigésimo quinto conto da parte II de “Febeapá 1”, é sobre a contratação de uma nova funcionária para a casa de Miriam e Alcindo. A jovem foi indicada por Iolanda, a amiga classuda de Miriam. Em “O Alegre Folião”, João é um mendigo muito digno que tem ponto fixo na escadaria da igreja. Ele só sai de lá algumas vezes por ano quando é “convidado” pela polícia para um passeio pela viatura policial. Por sua vez, “Movido pelo Ciúmes” é o descritivo de uma notícia jornalística. Luís Caldas assassinou a noiva Rosa Maria dos Santos por não suportar ouvir como foi animado o Carnaval dela. As três últimas narrativas de “Febeapá” são “Patrimônio”, “A Nós o Coração Suplementar” e “Transporta o Céu para o Chão”. Em “Patrimônio”, Benedito vai ao cartório para registrar o nascimento do novo (e quarto) filho que teve com Isaura. Aí o homem pobre tem uma ideia genial. Na certa, a sacada criativa proporcionará um futuro melhor para a criança. Em “A Nós o Coração Suplementar”, cientista cria o mecanismo de um coração artificial. A dúvida agora é saber se o aparelho irá cuidar também das questões sentimentais do transplantado. E “Transporta o Céu para o Chão”, o conto derradeiro da coletânea, acompanhamos um mendigo metido a seresteiro. Ele sai pelas ruas cantando bêbado e feliz. Gostei muito de “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País”. O livro de Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta é engraçado e espirituoso, além de ser bastante revelador. Ele mostra com propriedade a realidade nacional nos anos 1960, um período marcado por graves problemas sociais, econômicos e políticos. Como toda coleção de narrativas curtas, “Febeapá 1” possui alguns capítulos melhores do que outros. Em outras palavras, temos ótimos contos e crônicas ao lado de relatos não tão inspirados assim. Os meus textos favoritos são: “O Festival de Besteira”, “O Informe Secreto”, “A Conspiração”, “Eram Parecidíssimas”, “O Sabiá do Almirante”, “Desastre de Automóvel”, “Barba, Cabelo e Bigode”, “Não Sou Uma Qualquer” e “O Analfabeto e a Professora”. O que me chamou mais atenção em “Febeapá” foi o estilo narrativo de Ponte Preta. Seu jeitão de escrever é único e, por que não, pitoresco, o que torna a leitura muito agradável. Ele usa e abusa da oralidade. Como consequência, acabamos ficando próximos tanto do autor/narrador quanto de seus contos e crônicas. A graça está na utilização de gírias, neologismos e ditados populares, que ficam saborosíssimos no contexto da coletânea narrativa e da coluna que ele produzia nos jornais da época. Os termos mais comuns do livro são: “cocoroca” (pessoa conservadora), “Redentora” (Ditadura Militar), “embasbacado”, “bacanérrimo”, “barbada”, “mancada” e “chave de cadeia”. Repare que algumas dessas palavras não saíram totalmente do uso cotidiano. Algumas expressões de Stanislaw Ponte Preta que valem por si só a leitura são: “segundo Tia Zulmira” (parente que é “batata”, ou seja, alguém confiável), “time dos descontentes de Sousa”, “não é para me gambá”, “nossa imperturbável e deficiente polícia”, “ficou mais branco que bunda de escandinavo”, “fez-se sério como ministro de Estado”, “olhar de peru encachaçado”, “havia cabrito em sua horta” e “estava praguejando mais que trocador de ônibus”. Para completar, o autor cita parentes e conhecidos o tempo inteiro, escreve em tom de diálogo com o leitor (marca das crônicas) e relata o que aparentemente viu e ouviu por aí (nos periódicos, nas ruas, nas conversas em casa, nas festas da alta socialite, nos botecos da periferia etc.). Temos em “Febeapá 1” um genuíno retrato do Brasil pós-golpe de 1964 e pré-AI 5. Nas crônicas de Ponte Preta, conseguimos enxergar com clareza a corrupção, a violência, a injustiça social, o puxa-saquismo, o conservadorismo, o autoritarismo, as leis esdrúxulas, a intervenção político-social dos militares, as carências materiais da maioria da população, a péssima oferta de serviços públicos e os preconceitos dos brasileiros de Norte a Sul. Por sua vez, os contos escancaram as desavenças conjugais, o machismo (com direito a feminicídio), o conservadorismo religioso, o racismo, o preconceito de classe social, os encontros e desencontros amorosos, as traições matrimoniais (praticamente um esporte nacional tão popular quanto o futebol), o vidão da classe política e dos militares, a violência nas ruas (e nas casas), a futilidade da alta sociedade carioca e os perrengues que os mais pobres eram/são obrigados a enfrentar diariamente. Tudo isso vem embalado com ótimas cenas do cotidiano, o que confere um ar de contemporaneidade às tramas. Daí a sensação que não evoluímos (quase) nada em termos econômicos, sociais, religiosos, políticos, educacionais, civilizatórios, científicos e comportamentais. O Brasil descrito com sinceridade por Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta é o mesmo que temos hoje, em 2022. Tente ler “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País” como se ele tivesse sido escrito no século XXI. Na certa, você irá se assustar com as semelhanças entre a realidade brasileira nos anos 1960 e a realidade atual. Curiosamente, gostei mais das crônicas do que dos contos de “Febeapá 1”. Usei o termo “curiosamente” na frase anterior porque é mais comum a crônica, um gênero por si só efêmero, ficar datada e envelhecer mais rapidamente (o que prejudica sua leitura após algumas décadas) do que o conto, gênero mais duradouro (e, por isso mesmo, com uma leitura normalmente mais fácil após décadas e décadas de sua criação). E nessa coletânea de Stanislaw Ponte Preta, acredite se quiser, nenhuma das duas partes (lembre-se: a parte I é das crônicas e a parte II é dos contos) envelheceu mal. Troque os nomes dos políticos, das personalidades da alta sociedade, dos tipos populares e dos militares corruptos e violentos de ontem pelos de hoje e teremos um texto atualíssimo. Chegam a ser assustadoras as semelhanças! Outro fator que pode ter ajudado na minha preferência pelas crônicas foi o trabalho distinto que essas narrativas receberam do autor. Nota-se que Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta retrabalhou os textos da Parte I de “Febeapá 1”. Ele basicamente pegou vários trechos de suas colunas e os adaptou especialmente para o livro. Assim, temos tramas mais impactantes e ágeis na primeira seção. No caso dos contos, eles estão ipsis litteris (sempre sonhei em usar esse termo em um post do Bonas Histórias!!!). Ou seja, apareceram na parte II como foram publicadas nas páginas jornalísticas. Se essas histórias ficcionais tinham maior graça e relevância quando eram apresentadas com grande intervalo nos periódicos (semanalmente, na maioria dos casos), quando colocadas em sequência em uma obra literária (para leitura conjunta e sequencial), elas se tornam um pouco repetitivas. Chega uma hora em que elas falam praticamente a mesma coisa, tornando a leitura um pouco enfadonha (algo que não aconteceu, por exemplo, nas crônicas). Por fim, precisamos falar do humor de “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País”. Esta coletânea de contos e crônicas é uma obra engraçada? Sim, ela é. O humor de Stanislaw Ponte Preta é empolgante? Na maior parte do tempo é! Deu para dar algumas boas gargalhadas durante a leitura do livro? Deu sim para me divertir em várias narrativas da publicação. E há histórias surpreendentes aqui? Com certeza temos várias reviravoltas ao longo das tramas. Então, Ricardo, Ricardinho do meu coração, qual o problema do humor deste título, hein?! É difícil explicar... Contudo, em algumas histórias de “Febeapá 1”, achei o tom escrachado demais. Sabe quando a graça é construída em cima de escatologias, preconceitos (machismo) e brincadeiras pueris? Pois alguns contos têm essa característica meio infantojuvenil, meio bobinha. Confesso que prefiro quando Porto/Ponte Preta é mais irônico, sutil e enigmático no humor (algo que ele também é). Talvez o que tenha me incomodado um pouco seja essa diferença tão gritante de comicidade: a inteligente e bem-trabalhada versus a mais popular e apelativa. É raro (e um pouco difícil de engolir) assistirmos a uma obra que traga essas duas vertentes do humor lado a lado como temos nesta coletânea. Normalmente, os autores acabam enveredando por apenas um dos caminhos (e não pelos dois ao mesmo tempo). Apesar de um probleminha aqui e outro acolá, naturais em uma obra com mais de meio século de vida, “Febeapá 1 – 1º Festival de Besteira que Assola o País” é um livrão. Se por um lado ficamos tristes ao constatar os fracassos do Brasil como nação e desesperados ao verificar a decadência dos brasileiros como povo minimamente civilizado, por outro lado ficamos encantados com o talento literário de Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta. O cronista é sagaz e cirúrgico ao colocar os dedos em nossas maiores feridas. Ele também é brilhante ao retratar um país acossado pela burrice endêmica, pela corrupção, pelo falso moralismo, pela violência e pela injustiça social. Será que daqui a cinquenta anos as coisas no Brasil permanecerão como são hoje (e como eram na década de 1960)? Infelizmente, a resposta positiva (que de positiva não tem nada!) teima em martelar nos meus pensamentos. Seria eu um pessimista?! Talvez. Ou seria simplesmente um realista? Ai, ai, ai. Como é difícil ser brasileiro... De qualquer maneira, vamos nos preparar para as próximas eleições em outubro. Cheguemos às urnas com a consciência limpa e o compromisso nobre para votar no buraco mais raso e menos sujo que temos à disposição. Bons votos a todos! E ótimas leituras. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: O Teu Cabelo Não Nega - A polêmica marchinha dos Irmãos Valença e de Lamartine Babo
Criada no Recife em 1929 e lançada nacionalmente no Rio em 1931, essa canção foi excluída do repertório de muitos bloquinhos nos últimos anos. Afinal, ela é racista? No mês passado, eu trouxe para a coluna Músicas a análise de “É Hoje”, o samba-enredo memorável de Didi e Mestrinho. Naquela oportunidade, lembrei de outras canções carnavalescas que entraram para a história pela excelência ou pela polêmica. Uma faixa clássica que não citei propositadamente (porque queria discuti-la com mais profundidade nesse novo post do Bonas Histórias) é “O Teu Cabelo Não Nega”, criação de João Valença, Raul Valença (mais conhecidos como Irmãos Valença) e Lamartine Babo. Essa música se tornou alvo do cancelamento de vários bloquinhos de Carnaval nos últimos anos. Acusado de possuir letra racista, “O Teu Cabelo Não Nega” foi riscado do repertório dos artistas mais engajados de Norte a Sul do Brasil. Sabendo disso, resolvi comentar hoje essa composição com o devido cuidado. Afinal, ela tem ou não tem conteúdo preconceituoso, hein? É correto ou é equivocado cancelar essa música nos festejos populares do país?! Sei que tratar de temas complexos, ainda mais na Internet, é estar suscetível à enxurrada de comentários de todos os tipos. Infelizmente, as redes sociais e as seções de comentários dos portais de notícias e dos blogs são utilizadas mais como válvula de escape para a proliferação do discurso de ódio e menos como local de diálogo sadio e enriquecedor. Apesar de estar escaldado com tal realidade e de ter ciência que muitas vezes o mais fácil é não mexer em vespeiros, não costumo recusar um bom debate. Por isso, a ideia desse post da coluna Músicas. A proposta aqui é discutir em alto nível um tema tão delicado e cheio de nuances. Se você não tem estrutura para algo do tipo, sugiro parar a leitura agora mesmo (e sem a necessidade de fazer qualquer comentário raivoso contra mim, contra o mundo e contra espécie humana, por favor!). Antes de detalhar o conteúdo de “O Teu Cabelo Não Nega”, preciso dizer que essa canção é envolta em polêmicas desde o comecinho da década de 1930. E naquela época, o que rendia discussões acaloradas não era o teor da letra e sim a autoria de sua criação. Desenvolvida em 1929 pelos Irmãos Valença (Raul e João), dupla de compositores de Recife, essa marchinha nasceu com o título de “Mulata”. Empolgados com a repercussão extremamente positiva da música em Pernambuco no ano seguinte, João e Raul Valença enviaram a faixa para a famosa gravadora Victor avaliar. Eles imaginavam que a companhia sediada no Rio de Janeiro fosse lançá-los nacionalmente (o Rio era a então Capital Federal do Brasil). Os produtores da Victor adoraram a canção. Porém... Aí vem a primeira discussão! Ao invés de chamar Raul e João Valença para gravar “Mulata”, os executivos da gravadora optaram por mandar a composição para Lamartine Babo mexer. Eles pediram para o intérprete e compositor carioca, já famoso em todo o país, adaptar a canção nordestina para o estilo das marchinhas cariocas. Encantado com a canção, Lamartine não pensou duas vezes e mergulhou no trabalho. É verdade que ele mexeu muito pouco na criação dos Irmãos Valença. A maior contribuição de Lamartine Babo foi tirar da letra algumas gírias pernambucanas (desconhecidas do público nacional) e trocar elementos da realidade recifense por aspectos comuns dos ouvintes do Sul e do Sudeste (tornando a faixa mais comercial). Para completar, o músico carioca trocou o nome da canção. Saiu “Mulata” e entrou “O Teu Cabelo Não Nega”, justamente a parte principal do primeiro verso. Além de ter feito as alterações sem consultar João e Raul Valença, a Victor lançou “O Teu Cabelo Não Nega” no Carnaval de 1931 ocultando os nomes dos compositores recifenses. Para o grande público, a nova canção era de autoria apenas de Lamartine Babo, o cantor encarregado de divulgá-la nacionalmente. Inconformados com a traição e a picaretagem da gravadora, os irmãos pernambucanos entraram na Justiça. Não é preciso dizer que eles ganharam a causa e tiveram seus nomes incluídos como coautores da marchinha, já um grande sucesso no país inteiro. Curiosamente, há quem se esqueça até hoje de apontar os Irmãos Valença como os compositores da música. E há até quem diga que ela foi criada em 1931 ou até em 1932 no Rio (e não em 1929 em Pernambuco). Passado esse bafafá, “O Teu Cabelo Não Nega” reinou impassível como uma das grandes criações do Carnaval brasileiro. Não é errado dizer que a década de 1930 foi um período prolífico em marchinhas clássicas. Não acredita em mim? Veja, então, alguns dos grandes sucessos do Carnaval dos anos 1930 que se mantêm vivos em nossas memórias: “Para Você Gostar de Mim”, “Linda Morena”, “Linda Lourinha”, “Cidade Maravilhosa”, “Pierrô Apaixonado”, “Mamãe Eu Quero”, “Batucada”, “As Pastorinhas”, “Há Uma Forte Corrente Contra Você” e “A Jardineira”. Aposto que a maioria dessas canções você conhece. Elas são patrimônios culturais do Brasil há quase um século. Obviamente, “O Teu Cabelo Não Nega” está nessa lista. O problema da canção que estamos analisando hoje é que ela envelheceu mal, muito mal! Ou, no melhor dos casos, ela ganhou uma interpretação diferente aos ouvidos do público contemporâneo. E note que essa criação dos Irmãos Valença e de Lamartine Babo não faz parte da fase das marchinhas carnavalescas criadas exatamente para polemizar – uma categoria musical que se popularizou após a década de 1950 e que tem faixas politicamente incorretas (desde sempre) como “Maria Sapatão”, “Cabeleira do Zezé”, “Coração de Jacaré”, “Andorinha” e “Dá Nela”. Antes de nos aprofundarmos nos detalhes de “O Teu Cabelo Não Nega”, veja a letra dessa canção e ouça uma das interpretações mais célebres de Lamartine Babo. O Teu Cabelo Não Nega (1929/1931): João Valença, Raul Valença e Lamartine Babo O teu cabelo não nega, mulata Porque és mulata na cor Mas como a cor não pega, mulata Mulata, eu quero o teu amor Tens o sabor, tens o prazer Tens a alma cor de anil Mulata, mulatinha, meu amor Fui nomeado teu tenente interventor O teu cabelo não nega, mulata Porque és mulata na cor Mas como a cor não pega, mulata Mulata, eu quero o teu amor Quem te inventou, meu pancadão Teve uma consagração A lua te invejando fez careta Porque, mulata, tu não és deste planeta O teu cabelo não nega, mulata Porque és mulata na cor Mas como a cor não pega, mulata Mulata, eu quero o teu amor Quando, meu bem, vieste à Terra Portugal declarou guerra A concorrência, então, foi colossal Vasco da Gama contra o batalhão naval O teu cabelo não nega, mulata Porque és mulata na cor Mas como a cor não pega, mulata Mulata, eu quero o teu amor Concentremos a análise de “O Teu Cabelo Não Nega” em sua letra. Impossível ficarmos indiferentes aos versos iniciais da canção, que depois se transformam em refrão. Pelo ponto de vista da maioria do público atual, o quarteto “O teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu amor” é um dos mais infelizes da música popular brasileira. Repare que fui até bonzinho em usar apenas o termo “infeliz” para descrever esse trecho. Poderia não ter recorrido ao eufemismo, né? É difícil não enxergar logo de cara uma forte conotação racista nesse trecho. O principal problema dessa música está na impressão inicial que se tem de que a cor da pele mais escura é uma doença. Afinal, o verso “Mas como a cor não pega, mulata” dá a sensação de que o eu lírico tem certo pé atrás em se contaminar com a cor da amada. Se a cor não pega, ele então pode querer o amor da mulata. As perguntas que fazemos intuitivamente são: e se a cor pegasse? Ele continuaria amando uma mulher mestiça ou negra?! Conhecendo a mentalidade racista de nossa sociedade, a resposta pode ganhar contornos soturnos. Infelizmente é essa a interpretação que temos, principalmente quando ouvimos a canção pela primeira vez. Para piorar, esse trecho da letra vem logo depois do verso: “O teu cabelo não nega, mulata”. Por muito tempo, o cabelo dos negros foi alvo de preconceitos. Se nos dias de hoje ele serve de instrumento de afirmação da negritude, há algumas décadas não era assim. Desde sempre muito eurocêntrica, a sociedade brasileira nutria (ou seria nutre?) certa reticência para a estética e para o padrão de beleza que fugisse (fuja!) do ideal do Velho Continente. Basta vermos os modelos que o cinema, a literatura e a música nacionais insistem em louvar. Aí quando o eu lírico (um homem branco) já começa a música apontando o dedo para o cabelo da moça negra, sentimos naturalmente um arrepio na alma. Outra questão delicada do refrão/versos iniciais da marchinha é o uso do termo mulata, visto nos últimos anos como extremamente preconceituoso. Segundo alguns estudiosos da etimologia da língua portuguesa (eu disse alguns porque isso não é consenso, tá?), a expressão mulata/mulato deriva da palavra mulo/mula. Ou seja, a união de pessoas brancas com pessoas negras seria um processo parecido ao do cruzamento dos cavalos/éguas com os jumentos/jumentas. Enquanto os frutos das relações humanas seriam os mulatos, o cruzamento das duas espécies equinas daria a mula. Forte isso, né? Chega a ser assustador (e hediondo) esse tipo de comparação. É verdade que os compositores de “O Teu Cabelo Não Nega”, muito provavelmente, não soubessem dessa conotação do termo “mulata” (ainda hoje muita gente não sabe!). Acredito que eles usaram “mulata” para fugir da expressão “morena”, sempre dúbia (morena seria a mulher branca de cabelo negro ou seria a mulher negra?). O embaraço é que a palavra “mulata” (com a conotação aterrorizante que vimos no parágrafo anterior) aparece repetidas vezes na canção (praticamente uma vez em cada verso do refrão). Ou seja, os problemas da marchinha vão se acumulando, se acumulando, se acumulando... E ainda não saímos sequer do quarteto inicial. O último verso desse trecho inaugural ainda traz uma nova complicação (sim, os problemas da letra não cessam!). Isoladamente, “Mulata, eu quero o teu amor” não ganharia contornos negativos. O fato do eu lírico (um homem branco) desejar o amor da mulher negra não é errado. O que incomoda é que, logo mais à frente na canção, surgem os versos: “Mulata, mulatinha, meu amor/ Fui nomeado teu tenente interventor”. Ou seja, o amor do eu lírico é do tipo impositivo, mandatório, autoritário. Impossível não nos recordarmos da exploração sexual das mulheres negras pelos senhores de engenho no Período Colonial Brasileiro. Vistas como mercadorias pelos patrões, as escravas eram obrigadas a se deitar com os homens brancos. Nesse sentido, não ajuda em nada o fato de os primeiros elogios à mulata serem “Tens o sabor, tens o prazer”. Unindo o verso “Mulata, eu quero o teu amor” (destaque para a palavra QUERO – sinônimo de exijo) com o verso “Fui nomeado teu tenente interventor” (ênfase para a expressão TENENTE INTERVENTOR – sinônimo de alguém que manda e que não quer ser contrariado), temos em “O Teu Cabelo Não Nega” um novo tipo de violência: o machismo. Por essa perspectiva, o eu lírico não quer conquistar o coração da amada. Ele quer simplesmente se apossar dele. Do ponto de vista da sociedade patriarcal brasileira, quem manda é o homem; e a mulher (até para as coisas do coração) deve ser submissa. Assustador, né?! Se você analisar meticulosamente os dois primeiros quartetos da marchinha dos Irmãos Valença e de Lamartine Babo, na certa nunca mais irá querer ouvir essa canção nem irá querer tocá-la – se você for músico(a) e/ou carnavalesco(a). Por essa linha, os bloquinhos contemporâneos estão certíssimos em cancelar “O Teu Cabelo Não Nega”. O Carnaval brasileiro (e nossa sociedade como um todo) não precisa de composições racistas, machistas e que enalteçam a violência sexual. Entretanto, a discussão não termina aqui. Seria muito fácil atirar a letra dessa música para o submundo da cultura nacional e ignorá-la para sempre a partir da análise de seu trecho inicial. À medida que nos debruçamos no restante da canção, surge, acredite se quiser, uma outra interpretação. Aí o conteúdo da marchinha passa longe da acusação de racismo e/ou de machismo e se torna quase que uma homenagem à mestiçagem brasileira. Exatamente por isso, muita gente não vê qualquer tipo de preconceito e de violência sexual nos versos, o que torna o debate envolvendo “O Teu Cabelo Não Nega” ainda mais rico e plural. Para entendermos o contraponto dessa história tão paradoxal, precisamos mergulhar nos versos finais da canção. Aí enxergamos em “O Teu Cabelo Não Nega” uma exaltação à morenice, algo muito comum nas composições desenvolvidas entre as décadas de 1930 e 1950, quando o Brasil dava os primeiros passos em busca de sua identidade nacional e na valorização de suas raízes culturais. Lembremos que o início dos anos 1930 é o começo da Era Vargas. E de acordo com a Política Cultural do Governo de Getúlio Vargas, as manifestações artísticas deviam enaltecer tudo aquilo que era genuinamente nosso. Daí a importância crescente do samba, das marchinhas e do Carnaval. E da mestiçagem, uma das características mais marcantes da nossa população. Repare nos versos: “Quem te inventou, meu pancadão/ Teve uma consagração/ A lua te invejando fez careta/ Porque, mulata, tu não és deste planeta”. Agora eu pergunto: onde está o racismo, o machismo e a violência sexual dessa música, hein?! É complicado apontar algo de errado quando conhecemos o restante da letra. A impressão negativa inicial desaparece quando o eu lírico começa a valorizar a mulata que tanto ama. Esse trecho dialoga intimamente com o verso “Tens a alma cor de anil”. O homem branco aparentemente machista e racista vai dando lugar ao sujeito perdidamente apaixonado, que só vê aspectos positivos na amada (como qualquer pessoa enfeitiçada pelas imposições do coração). Se os compositores eram preconceituosos, por que eles passaram a enaltecer a mulher de pele escura? A partir daqui, tive a sensação de que a primeira metade da canção possa ter sido uma sucessão de expressões mal colocadas (e que aos olhos e ouvidos contemporâneos pareça tão incômoda). Mais do que maldosa, a letra dessa música me soa simplesmente infeliz quando investigada fora de contexto (entenderam agora o porquê usei o termo infeliz no início desse post?!). O quarteto final da canção reforça ainda mais essa interpretação positiva. Note que “Quando, meu bem, vieste à Terra/ Portugal declarou guerra/ A concorrência, então, foi colossal/ Vasco da Gama contra o batalhão naval” confere uma nova e alternativa tese para a colonização portuguesa no Brasil. Nos séculos passados, segundo a música, os lusitanos não estavam atrás dos recursos naturais e econômicos quando se lançaram ao Além-mar. Eles estavam, na verdade, encantados é com a beleza do povo brasileiro (no caso das mulheres) e queriam fazer parte dessa união internacional/interracial. Pode parecer absurda essa análise de culto à miscigenação já que o Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas ela não é tão incongruente assim. Uma das propostas culturais da Era Vargas era justamente valorizar tudo aquilo que fosse tipicamente brasileiro e que enaltecesse a nossa cultura. Não à toa, o Carnaval viveu um período dourado entre as décadas de 1930 e 1950, com o governo promovendo as festas populares e os bloquinhos de rua, ao invés de tentar proibi-los e de persegui-los, como fora comum até então. Seguindo essa linha ideológica, surge, então, a teoria que a força do brasileiro estaria na miscigenação dos povos que por aqui se encontraram (em oposição à eugenia, que condenava os indígenas e os negros a uma categoria social inferior). O principal nome da teoria chamada de Democracia Racial foi Gilberto Freyre – sua obra-prima “Casa Grande & Senzala” (Global Editora) é, por exemplo, de 1933. Duas décadas e meia depois, Nelson Rodrigues não se cansava de afirmar nas páginas da crônica esportiva que o domínio do futebol brasileiro era fruto das características peculiares dos nossos jogadores, os únicos nascidos da união bem-azeitada de brancos, negros, índios e asiáticos. Leia “Pátria de Chuteiras” (Nova Fronteira), coletânea de artigos futebolístico de Nelsão, e veja isso na prática. Como pode, então, uma marchinha ser tão contraditória, né? Vai entender! Quanto mais ouço “O Teu Cabelo Não Nega” mais dúvidas tenho em qual lado do debate eu devo ficar. Seria essa uma canção preconceituosa ou uma música de louvor à miscigenação brasileira? Sinceramente não sei. Minha primeira intepretação pende para a primeira hipótese. Aí na segunda e na terceira audição, fico com a sensação de que a segunda opção é a correta. O que posso garantir é que não encontrei outros termos racistas, trechos machistas e/ou conteúdo que enaltecesse a violência sexual no portfólio musical dos Irmãos Valença e na coleção artística de Lamartine Babo. Ouvi várias criações deles nos últimos dias e fiquei com uma impressão bastante positiva. Eles parecem enaltecer a morenice e a negritude brasileira em canções românticas. Vale lembrar que João e Raul Valença são autores de preciosidades como “Dama de Ouro”, “A Lua Veio Ver”, “Boneca Sem Coração” e “Mandinga”. No caso de Lamartine Babo, ele é autor de “Linda Morena”, uma das marchinhas mais famosas de todos os tempos (“Linda morena, morena/ Morena que me faz penar/ A lua cheia que tanto brilha/ Não brilha quanto o teu olhar”). Feita essa longa explanação, a conclusão que chego é dúbia. Acredito que quem veja/ouça racismo em “O Teu Cabelo Não Nega” deva sim evitar a execução da canção. Afinal, uma sociedade minimamente civilizada deve abolir qualquer tipo de preconceito em suas manifestações artístico-culturais. Ao mesmo tempo, não podemos execrar quem goste e coloque para tocar a composição dos Irmãos Valença e de Lamartine Babo. Na certa, tal grupo de ouvintes não veja problema na letra e não encare esse conteúdo musical de forma pejorativa. Até porque, como acabamos de atestar aqui, não é totalmente infundável a interpretação positiva da marchinha (ela enaltece a mestiçagem). Independentemente da opinião que cada um tenha sobre essa questão, uma coisa parece ficar clara: essa faixa é uma das mais polêmicas da música popular brasileira. Você pode gostar ou não dela. Você pode vê-la com bons ou maus olhos. Contudo, não dá para ficar indiferente ao seu conteúdo tão polissêmico e tão contraditório. Durmamos com um barulho desses, meus amigos. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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- Livros: A Amiga Genial - O primeiro romance da série Napolitana de Elena Ferrante
Lançada em 2011, essa publicação se tornou o maior sucesso editorial da autora italiana e virou um best-seller mundial. No último final de semana, li “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), o livro mais famoso de Elena Ferrante, uma das principais escritoras europeias da atualidade. Essa publicação ficcional é considerada a obra-prima da romancista e um dos títulos mais bem-sucedidos não só da literatura italiana moderna como também da literatura contemporânea. Best-seller mundial com mais de 16 milhões de exemplares vendidos, o quarto romance de Ferrante foi traduzido para dezenas de idiomas e deu início à tetralogia nomeada de série Napolitana. Os demais títulos dessa coletânea são: “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul). Quem está acompanhando o Desafio Literário já deve saber: “A Amiga Genial” é o quarto dos oito livros de Elena Ferrante que estão programados para serem analisados no Bonas Histórias em julho e agosto de 2021. As três primeiras obras comentadas até aqui no blog foram: “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), romance de 1992, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), romance de 2002, e “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), coletânea não ficcional de 2003. Nosso estudo enfocando a principal escritora italiana viva será complementado nas próximas quatro semanas com posts críticos aos outros três volumes da série Napolitana e ao romance “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Intrínseca), o título mais recente de Ferrante. Publicado na Itália em outubro de 2011, “A Amiga Genial” apresenta as mesmas características dos três romances anteriores de Ferrante: drama psicológico denso, relações familiares conturbadas, suspense eletrizante desde as primeiras linhas, narradora-protagonista com forte pegada de anti-heroína (poderia dizer que ela possui fortes impulsos de psicopatia), romance de formação e trama desenvolvida na caótica, violenta, pobre e mística Nápoles. As novidades aqui são o acréscimo de alguns novos elementos narrativos: romance histórico (o enredo vai do início da década de 1950 até os dias de hoje e apresenta os problemas sócio-políticos da Itália na segunda metade do século XX), trama com maior fôlego (narrativa parruda em contraste aos textos anteriores que tinham mais aspecto de novela do que de romance) e overdose de personagens (ao melhor estilo dos romances históricos russos). Então, “A Amiga Genial” seria apenas uma continuação natural de “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” (Intrínseca)? Nananinanão!!! O que temos aqui é uma autora com um estilo já consolidado que atinge um patamar ainda mais elevado de excelência narrativa, beirando a perfeição (isso é, se não a atingiu). Se você já tinha gostado dos três primeiros romances de Elena Ferrante, saiba que “A Amiga Genial” é ainda melhor (sim, isso é possível!). Não à toa, essa foi a melhor obra ficcional que li nesse ano até o momento e um dos romances mais interessantes que pude ler na minha vida. Conforme Elena Ferrante afirmou em “Frantumaglia – Os Caminhos de Uma Escritora”, livro que reúne cartas, entrevistas, crônicas e ensaios produzidos pela escritora italiana nas últimas três décadas, a história da série Napolitana nasceu de passagens autobiográficas e foi concebida para ser apenas um único romance. Contudo, à medida que começou a produzir o texto e os capítulos de “A Amiga Genial”, Elena Ferrante viu as páginas se proliferarem incessantemente em cima de sua mesa de trabalho. Naquele momento, ela compreendeu que seria inviável entregar o material em apenas um livro. Daí surgiu a ideia de dividir a trama em alguns volumes. Com mais de 1.700 páginas, o drama de Elena Greco (apelidada de Lenuccia e de Lenu) e de sua melhor amiga, Rafaella Cerullo (cujos apelidos eram Lila e Lina), se transformou em uma tetralogia (com as obras tendo em média pouco mais de 400 páginas). Nascia, assim, um dos maiores sucessos editoriais do século XXI e uma das sagas mais criativas e contundentes sobre a relação de amizade feminina baseada na inveja e na admiração mútuas. Tão logo foi lançado na Itália, onde se tornou um sucesso instantâneo, “A Amiga Genial” ganhou traduções para os principais idiomas do mundo e foi publicado rapidamente na Europa e na América do Norte com bastante êxito. Vale destacar que, no início da década passada, Elena Ferrante já era uma autora renomada nacional e internacionalmente. “Um Amor Incômodo” se tornara um grande sucesso nas livrarias italianas e “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” apresentaram sólida trajetória internacional. Esses três romances, chamados mais tarde de “Trilogia do Desamor” (nome que Ferrante nunca aprovou), conquistaram também importantes prêmios literários na Itália e no exterior. Entretanto, foi somente com a série Napolitana que Elena Ferrante alcançou o status de um dos maiores nomes da literatura contemporânea mundial e sua ficção se transformou referência cultural nos quatro cantos do planeta. Finalista do Prêmio Literário Internacional IMPAC Dublin, um dos principais em língua inglesa, na categoria obra traduzida, o livro “A Amiga Genial” foi apontado como o 11º melhor romance da primeira década do século XXI pelo jornal britânico The Guardian. Já a série Napolitana foi descrita como um dos 12 clássicos contemporâneos do século XXI pela revista multicultural Vulture dos Estados Unidos. O sucesso da história conturbada das duas amigas napolitanas que cresceram juntas e depois se separaram foi adaptado para a televisão e há quem diga que brevemente poderá ganhar uma versão cinematográfica. Lançada em 2018 e já com duas temporadas no ar, a série de TV “A Amiga Genial” foi dirigida por Saverio Costanzo e produzida pela HBO em parceria com a RAI e TIMvision. A continuação do seriado é aguardada avidamente tanto pela emissora (que comprou os direitos de adaptação dos outros livros da Tetralogia Napolitana) quanto pelo público. Em meio ao êxito editorial e televisivo da série narrativa de Elena Ferrante, novos boatos sobre a migração da trama literária para as telonas não param. Porém, não há nada confirmado até agora sobre as vendas dos direitos de adaptação dos romances para Hollywood. O que ocorreu nos últimos meses foi a assinatura dos contratos de venda de outros livros da italiana para o cinema, mas nada envolvendo “A Amiga Genial” e suas sequências. No Brasil, o livro mais famoso de Elena Ferrante foi publicado em 2015 pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo. A empresa carioca escalou Maurício Santana Dias, tradutor baiano e um dos maiores especialistas na língua e na literatura italianas de nosso país, para fazer a adaptação do texto de Ferrante para o português brasileiro. Dias não apenas traduziu “A Amiga Genial” como também traduziu os demais títulos da série Napolitana. Inegavelmente, ele é, ao lado de Marcello Lino, o principal tradutor da literatura de Elena Ferrante para nosso idioma. O enredo de “A Amiga Genial” começa em Turim nos dias de hoje. A trama é narrada em primeira pessoa por Elena Greco, uma escritora famosa. Já idosa e morando longe de sua cidade natal, Nápoles, há algum tempo, ela recebe a ligação telefônica de Rino, o filho irresponsável de Rafaella Cerullo. No início, Elena pensa que o rapaz irá pedir dinheiro. Porém, ele a surpreende ao perguntar se a mãe está visitando a melhor amiga no Norte da Itália. Incrédula com tal questionamento, Elena nega ter se encontrado com Lila. Lila é o apelido que somente Elena usa para se referir à amiga. As demais pessoas chamam Rafaella carinhosamente de Lina. Há muitos anos elas não se falam nem se veem. Desolado, Rino conta para Elena que a mãe fugiu de casa e está desaparecida faz duas semanas. Ninguém sabe o seu paradeiro. Aquela situação inusitada deixa o rapaz sem rumo. Apesar de ser um homem grandão e ter mais de quarenta anos, Rino age quase como uma criança indolente e imatura. Ele não faz ideia de como agir e se comportar sem a presença de Rafaella por perto. Curiosamente, há pelo menos trinta anos, Lila dizia para sua melhor amiga que sumiria sem deixar rastros. Enfim, parece que ela cumpriu a velha promessa. Interessada em contar sua história e a relação um tanto tóxica que sempre teve com Rafaella Cerullo, Elena Greco senta-se no computador da casa em Turim e começa a escrever um romance que rememora a trajetória que teve ao lado da amiga napolitana. Assim, as páginas do livro vão para Nápoles. É o comecinho da década de 1950. Aos seis anos, a pequena Elena conhece Rafaella. As duas são coleguinhas de escola e moram no mesmo edifício, um bairro pobre e violento longe do litoral. Mesmo se vendo diariamente na classe e no conjunto habitacional, as meninas demoram aproximadamente um ano até se falarem e começarem efetivamente a amizade. Enquanto Elena se esforça para ser a melhor aluna da classe, dedicação essa que conquista a admiração de colegas, professores e familiares, Rafaella ocupa o posto de estudante número um do colégio sem qualquer esforço e com uma postura hostil. Extremamente inteligente e desbocada, Lila assusta a todos à sua volta com o comportamento agressivo, astuto e, por vezes, arrogante. Não é preciso dizer que ela é odiada por colegas e professores. A única que parece aceitá-la é Elena, uma menina compreensiva e boazinha que não dá bola para as excentricidades da amiga superdotada. Apesar das enormes diferenças de comportamento entre as duas garotas (Elena é a certinha: afável, bondosa, carinhosa, tímida, covarde, inofensiva, responsável com as obrigações diárias, dedicada ao estudo, obediente e extremamente comportada dentro e fora de casa; e Rafaella é a erradinha: arredia, malvada, nervosa, extrovertida, corajosa, violenta, irresponsável, relapsa na escola, desobediente e profundamente arruaceira dentro e fora de casa), elas se aproximam e viram as melhores amigas. Com o tempo, a dupla se torna inseparável. Onde uma está, tenha a certeza, a outra também estará junto. A única semelhança entre Elena Greco e Rafaella Cerullo é a realidade atroz em que vivem. Ambas as meninas são pobres (o pai de Elena é contínuo na prefeitura e o pai de Rafaella é sapateiro no bairro), possuem relações conturbadas com suas famílias e assistem diariamente à violência, ao machismo, às injustiças sociais e aos desmandos da Camorra, mazelas essas que a população do subúrbio napolitano precisa encarar diariamente no pós-Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que nasce uma forte amizade entre Elena e Lila, surge também uma relação baseada na inveja e na competição. Desde muito cedo, Elena Greco não se conforma com o fato de a amiga ser a melhor aluna do colégio, status que ela tanto almeja. Além disso, a narradora-protagonista admira a coragem, a postura altiva, o jeitão desbocado e a liberdade que Rafaella tem, coisas totalmente distantes da personalidade e da realidade de Elena. Por outro lado, Elena acredita que a amiga tenha inveja de sua beleza. Enquanto Lila é magra, baixinha e não possui nenhum atrativo estético, Elena é alta, tem um corpo bem definido desde pequena e tem sua beleza admirada pelos garotos. Não é errado ver essa dupla de meninas como a união de figuras totalmente diferentes. Ao concluírem o ensino fundamental e entrarem na adolescência, Elena Greco e Rafaella Cerullo invertem completamente os papéis. Na nova fase de vida, Elena engorda e fica feia e Lila cresce, encorpa e começa a ser cortejada por todos os rapazes do bairro. Por outro lado, Elena passa no exame de admissão do ensino médio e continua os estudos agora em um colégio bacana fora do bairro, em um evidente progresso que pouquíssimos de seus colegas tiveram a oportunidade de usufruir. Apesar de ser uma menina superdotada, Rafaella abandona definitivamente a escola com o término do ensino fundamental e vai trabalhar na sapataria do pai. Paradoxalmente, a nova situação provoca novas angústias na narradora do romance. Elena agora sente inveja da beleza de Lila e não acha mais graça em ser a melhor aluna do colégio. O que ela quer é ser admirada pelos rapazes mais velhos, algo que a amiga consegue fazer sem qualquer esforço. Dessa maneira, Elena pautará seus relacionamentos e sua rotina de acordo com o que acredita que Lila esteja fazendo. A estudante certinha e aplicada não irá mais agir pelo que sente e pelo que deseja, mas será motivada acima de tudo para não ficar muito atrás daquilo que a amiga de infância tem conseguido e esteja vivenciando. “A Amiga Genial” possui 336 páginas e foi o maior romance em extensão de Elena Ferrante até então (“Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”, os títulos ficcionais anteriores da italiana, têm entre 176 e 184 páginas). Porém, se for comparado ao restante da série Napolitana, essa obra é a mais enxuta (“História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida” possuem entre 416 e 480 páginas). O conteúdo de “A Amiga Genial” está dividido em três partes: “Prólogo – Apagar os Vestígios” tem 3 capítulos e mostra a preocupação de Elena e Rino com o desaparecimento de Rafaella (a trama se passa nos dias de hoje); “Infância – História de Dom Achille” possui 18 capítulos e apresenta a meninice da dupla de amiga dos 6, 7 anos até os 10, 11 anos (a narrativa acontece durante a primeira metade dos anos 1950); e “Adolescência – História dos Sapatos” tem 62 capítulos e desenrola-se quando as protagonistas têm em torno de 16 anos (início dos anos 1960). Além dessas seções, que são o cerne da narrativa, o romance ainda traz uma epígrafe (citação a J.W. Goethe) e a lista de personagens (se você não a usar agora, tenha a certeza de que essa listagem será muito útil nos romances seguintes da tetralogia – impossível nos lembrarmos de tantos nomes!). Levei ao todo entre 9 e 10 horas para concluir essa leitura no final de semana passado. Usei para tal boa parte das horas das manhãs e das tardes do sábado e do domingo. Por mais fôlego de leitura que se tenha, acho difícil concluir esse livro em menos do que dois dias. O centro do romance em “A Amiga Genial” é a inveja. Centro do romance, vale a pena a menção, é um conceito da teoria literária apresentado por Orhan Pamuk, escritor turco que foi analisado no Desafio Literário do bimestre passado, e descrito em detalhes em “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (Companhia das Letras), seu principal ensaio literário. Não dá para entender esse livro de Elena Ferrante sem ponderar o sentimento negativo que Elena Greco sempre sentiu por Rafaella Cerullo e o espírito de competição que as duas meninas alimentaram desde a mais tenra infância. Por essa linha de avaliação, o que as une não é o sentimento de amor fraternal nem a intenção de cooperação sincera (o que seria normalmente esperado em uma amizade genuína), mas sim um relacionamento tóxico pautado pelo egoísmo e pela busca pela primazia frente à infelicidade da outra. É ou não é um forte soco no estômago do leitor, hein? Como deu para perceber no parágrafo anterior, “A Amiga Genial” não é uma obra rasa (longe, muito longe disso!!!) nem um romance água com açúcar (está mais para uma narrativa do tipo limonada ácida e amarga). Tratar da inveja com tanta força e propriedade em uma obra ficcional é algo que raramente vi na literatura clássica e na literatura contemporânea. Parece-me que esse tema é de certa maneira um tabu entre os escritores. Nem no cinema esse assunto é muito debatido. Mesmo assim, há mais filmes do que livros ficcionais utilizando-se dessa temática. De cabeça posso citar alguns longas-metragens: “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard: 1950), “O Anjo Malvado” (The Good Son: 1993), “Inveja Assassina” (Best Friends: 2005), “Branca como a Neve” (Blanche Comme Neige: 2019) e “Respire” (2014). No caso da literatura, confesso que não me recordo de muitos títulos (além de alguns contos de fadas clássicos). Por isso mesmo, acho que Elena Ferrante foi muito feliz na escolha temática e foi ainda mais competente ao retratar os dramas psicológicos de Elena Greco, sua personagem quase homônima. O elemento narrativo que faz “A Amiga Genial” ser um romance tão espetacular é o tipo de narrador escolhido por Ferrante. Temos novamente nessa obra outro relato pouquíssimo confiável apresentado por uma mulher napolitana com sérios problemas psicológicos e emocionais. É verdade que essa característica é uma constante na literatura da romancista italiana. Lembremos, afinal, da frieza emocional de Delia em “Um Amor Incômodo”, do surto psicótico de Olga, a esposa traída de “Dias de Abandono”, e das maldades perpetradas por Leda em “A Filha Perdida”. Porém, agora a narradora não tem seu papel de anti-heroína tão explícito como ocorreu nos títulos anteriores. Aí está justamente a competência de Elena Ferrante como escritora. Ela potencializou até as últimas consequências um recurso narrativo que já vinha utilizando. É incrível notar esse tipo de construção ficcional. Elena Greco é, à princípio, uma boa pessoa, vítima das maldades e das irresponsabilidades de Rafaella Cerullo, essa sim uma pessoa de caráter para lá de duvidoso. Como disse, essa é a impressão inicial que o leitor tem ao se deparar com os primeiros capítulos dessa história. Contudo, é preciso entrar nas entrelinhas do texto de Ferrante. É fundamental considerar que esse relato é feito exclusivamente do ponto de vista de Elena Greco. E, acredite, ela não é uma narradora nem um pouco confiável. O que move a narradora-protagonista é um sentimento de enorme inveja pela melhor amiga. Desde pequenininha, Elena nutre um sentimento extremamente ruim por Lila, por mais que não queira demonstrar isso (a inveja é velada em muitos momentos e mais explícita em outros). Se você notar bem, Rafaella não é uma pessoa tão ruim como ela é pintada nos relatos de Elena Greco. Pelo contrário! Se repararmos bem aos fatos narrados, Rafaella Cerullo não comete nenhum deslize que a desabone. É verdade que ter tacado a boneca da coleguinha no porão do prédio não é algo para lá de simpático, mas isso ocorreu aos 6 anos de idade. Fora essa passagem antiga, não encontrei nada muito grave que mereça uma crucificação da reputação de Rafaella. Pelo menos não nesse primeiro volume da série Napolitana (pode ser que lá para frente venha aparecer algo grave, mas por ora isso não ocorreu). O problema está mais na cabeça de Elena Greco do que nas atitudes e na índole de sua amiga. A narradora-protagonista não enxerga as ações altruístas e bondosas da companheira de infância, que não são poucas nesse romance. Curiosamente, Lila se parece com algumas personagens clássicas da literatura. Na infância, ela é como José de Vasconcelos, protagonista de “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), obra mais famosa de José Mauro de Vasconcelos (sim, a personagem mirim e brasileira é também quase homônima ao autor carioca). Assim como o garotinho nascido e criado em Bangu, Rafaella é superdotada e está sempre se metendo em confusão (mais por traquinagem do que por maldade). Na adolescência, Lila me lembrou muito Lea Delmas, protagonista da série “A Bicicleta Azul” (Best Bolso), a coletânea de romances mais famosa de Régine Deforges. A maior diferença entre as duas jovens é que a pseudo-vilã de Ferrante não tem (ao menos por enquanto) a sexualidade tão aflorada como a da heroína da romancista francesa. Se você achou Rafaella Cerullo uma figura marcante da literatura contemporânea (e ela é mesmo!), é porque você não se atentou para a personalidade contraditória e bélica (tudo para não dizer novamente invejosa) de Elena Greco, essas sim uma das personalidades mais preciosas da ficção moderna. Você até pode achar graça da minha comparação, mas realmente achei a narradora de “A Amiga Genial” parecidíssima com (aí vai, se prepare!) com Antonio Salieri, o músico rival de Wolfgang Amadeus Mozart no filme “Amadeus” (1984). Nesse caso, Lila seria a versão feminina e italiana de Mozart e Elena seria a versão feminina e literária do pobre coitado do Salieri, que viveu inconformado com a genialidade do rival que o desbancou facilmente (olha aí mais um filme que trata da inveja!). Outra questão que precisa ser elogiada em “A Amiga Genial” é a ambientação do livro. Temos aqui uma Nápoles violenta, pobre, suja, barulhenta, machista, injusta e calamitosa. Não há lugar seguro para nenhum dos seus moradores, nem mesmo dentro de casa (o lar, dependendo da família, pode ser o pior local possível para se estar). A sensação é que não há ninguém realmente confiável, nem dentro da família ou no grupo de amigos mais antigos, e o perigo está a espreita das personagens. O clima é de um verdadeiro romance noir. Dos títulos de Elena Ferrante, esse é aquele que consegue transmitir a maior sensação de desconforto e insalubridade. Por isso, é preciso cuidado ao avançar pelas páginas da obra. Você não sabe o que poderá encontrar logo ali na esquina. Cuidado! Outra questão deliciosa em “A Amiga Genial” é a imersão na realidade e na cultura italiana de meados do século XX. Se você for de família que veio da Itália entenderá o que estou me referindo. Há desde comemorações típicas daquele país (o dia da Befana, algo que meu avô sempre celebrou com os netos, o dia onomástico e mais uma infinidade de datas religiosas) até hábitos alimentares, culturais, religiosos e de vestimenta. Para completar, temos um retrato maravilhoso do sul da Itália com suas belezas naturais e, ao mesmo tempo, com sua situação socioeconômica e caos criminal (leia-se máfia) tão particulares. Algo que me chamou a atenção nesse primeiro volume da tetralogia Napolitana foi que as relações conturbadas da família da narradora-protagonista ficaram em segundo plano (uma novidade em se tratando da literatura de Ferrante). Quase não assistimos às brigas e aos problemas domésticos do clã Greco (até há, mas eles são leves e pouco explorados). Isso quer dizer que não temos confusões familiares intensas nesse romance, certo? Errado! O foco dramático em “A Amiga Genial” está muitas vezes nas intrigas desenvolvidas no âmago da família Cerullo e de alguns vizinhos (como os Carracci, os Cappuccio, os Sarratore e os Solara). Nesse sentido, em alguns momentos do livro, temos a impressão de que a personagem principal da obra é Rafaella (e os Cerullo) e não Elena (e os Greco). Considerando seus títulos ficcionais anteriores, é curiosa essa escolha narrativa por parte da romancista italiana. Nota-se também que a trama de “A Amiga Genial” é muito bem amarrada. As escolhas dos temas de cada seção (história de Dom Achille na parte I e história dos Sapatos na parte II) entrelaçam os capítulos de um jeito primoroso. O melhor exemplo disso é o desfecho do romance. Ele poderia ser banal se não estivesse tão bem amarrado com o drama das protagonistas (lembre-se, por exemplo, da importância para Lila dos sapatos construídos por ela e pelo irmão). Exatamente por isso, o desenlace do livro é sublime. Ele diz muita coisa de maneira indireta, valorizando a inteligência do leitor e suscitando interpretações polissêmicas. Por falar em desfecho, é preciso comentar o quanto o começo de “A Amiga Genial” é brilhante. Outra vez, temos a construção de um início de livro impecável por parte de Elena Ferrante (algo já constatado em “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida”). A diferença é que aqui temos mais elementos de suspense e pitadas de romance policial – afinal de contas, o que teria acontecido com Rafaella Cerullo para ela ter sumido sem avisar ninguém agora que está velha? Algo me diz que só teremos uma resposta para tal questão no final do quarto livro da série. Ou seja, os três capítulos iniciais de “A Amiga Genial” não só alimentam o suspense do romance como de toda a tetralogia. O único problema, na minha opinião, da versão brasileira desse livro de Elena Ferrante está na tradução dos níveis escolares. Segundo o texto adaptado para o português por Maurício Santana Dias, os estudantes italianos cursam o ensino fundamental (até aí beleza), depois ingressam no ensino médio (OK também) e em seguida vão para o ginásio. Como assim depois do ensino médio vem o ginásio?! Não está correta essa divisão. O ginásio é na verdade uma das fases do ensino médio. Para evitar esse tropeço, seria melhor dividir o ensino médio em ginásio e colegial. Admito que esse foi o único probleminha que encontrei na tradução. Do restante, o trabalho de Dias está impecável. Sem medo de parecer exagerado, afirmo categoricamente que “A Amiga Genial” é uma obra-prima da literatura italiana e da ficção contemporânea. Esse é realmente o melhor livro de Elena Ferrante que analisamos até aqui no Bonas Histórias. Se “Um Amor Incômodo”, “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” são romances excelentes, a quarta publicação ficcional da escritora italiana conseguiu alcançar degraus ainda mais elevados de primor narrativo. É evidente que estamos diante de uma autora madura e totalmente à vontade no uso das técnicas literárias mais sofisticadas. Se eu já estava encantado com os textos de Ferrante, reconheço que agora virei fã incondicional da romancista napolitana. E “A Amiga Genial” é, a partir do último final de semana, um dos meus livros favoritos. Sem dúvida, esse título estará presente na minha lista de melhores obras lidas em 2021, ranking a ser divulgado no final do ano na coluna Recomendações. Aproveitando a minha empolgação com a série Napolitana, a quinta obra do Desafio Literário de Elena Ferrante que vamos analisar nesse bimestre é “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul). Publicado em 2012, um ano depois de “A Amiga Genial”, o segundo volume da tetralogia continua narrando os dramas de Elena Greco e Rafaella Cerullo. Dessa vez, a trama enfoca a juventude das protagonistas. Vou ler “História do Novo Sobrenome” no próximo final de semana e prometo publicar o post com minhas avaliações sobre essa obra na quarta-feira da semana que vem, dia 4 de agosto. Não perca a sequência do Desafio Literário e as novas fases do estudo da literatura de Elena Ferrante. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as análises estilísticas do blog, clique em Desafio Literário. Para acessar as análises literárias individuais, clique na coluna Livros – Crítica Literária. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Recomendações: Livros - Leituras do 1º semestre de 2022
Confira o ranking do Blog Bonas Histórias com os 42 livros de ficção e de não ficção que foram analisados entre janeiro e junho. Quem trabalha com literatura e com crítica literária está sempre lendo. Comigo não é diferente. Mensalmente leio (e releio) entre 4 e 16 livros. Pelo menos esse tem sido meu índice nos últimos sete anos. Minha média de leitura do primeiro semestre de 2022, contudo, foi baixa: apenas 7 obras mensais. É pouco se comparado ao patamar dos dois últimos anos: em 2021 mergulhei no conteúdo de 8 títulos por mês e em 2020 devorei 13 publicações por mês. Se esses números parecem elevados para os leitores comuns (ou recreativos), lembre-se que o dia a dia de um editor, de um crítico literário e de um produtor de conteúdo, minhas ocupações, exige maior nível de dedicação, frequência e pluralidade naquilo que é lido e analisado. No meu caso, as leituras têm as mais variadas finalidades: feedback para os autores que estão desenvolvendo novas narrativas ficcionais; produção de prefácios para os livros que serão publicados em breve; análise de romances para o Bonas Histórias; avaliação para as editoras dos textos de escritores estreantes; estudo para o desenvolvimento de pesquisa acadêmica; e, claro, por pura diversão. Afinal, a leitura de bons livros é uma das atividades intelectuais mais gostosas que temos. Para mim, um final de semana perfeito não pode faltar um bom livro, um bom filme, uma boa pizza e uma boa caminhada/corrida no parque. O resto é resto! Sabendo do meu hábito de leitura, amigos, familiares e colegas vivem me perguntando: e aí, o que você está lendo? O que você nos indica? E o que tem de interessante e de novidade na literatura contemporânea, hein? Para responder a tais questionamentos, decidi hoje fazer um post diferentão para a coluna Recomendações. Vou detalhar tudo aquilo que li (e reli) nos últimos seis meses. A ideia aqui é apresentar não apenas os títulos consumidos, mas dar uma nota para cada um deles (por mais que a avaliação seja algo pessoal e subjetivo). Assim, acredito aplacar um pouco a curiosidade de boa parte daqueles que me cercam – a maioria, tenho certeza, acha que passo os dias da semana sem fazer nada, fechado em um quarto em casa e sentado inerte na poltrona por horas, horas e horas... No critério de avaliação que estabeleci há alguns anos, dou nota de 1 a 5 para todos os livros que analiso. Segundo essa minha convenção, a nota 5 é para as obras memoráveis que estão na categoria das melhores que li na vida. A nota 4 é para os títulos marcantes e que podem ser classificados como os melhores do ano. A nota 3 vai para as publicações medianas, aquelas que não me empolgaram, mas também não me decepcionaram. A nota 2 dou geralmente para os textos mais fracos, que não me agradaram ou que contêm alguns equívocos sérios (inverosimilhança, tropeços nos elementos da narrativa, pouca relevância de conteúdo e tramas pouco originais). Os livros com nota 1 são os trágicos, leituras enfadonhas e/ou com muitíssimos problemas em suas engrenagens textuais que atrapalham substancialmente a experiência literária. Feita essa rápida introdução (e explicação), vamos para a minha lista de 2022 até agora. Segue abaixo a relação com os 42 livros de ficção e de não ficção que li do início de janeiro até o fim de junho. Além das informações básicas sobre cada obra avaliada (autor, editora, categoria, ano de publicação, nacionalidade do autor e número de páginas), informo também a nota que dei para elas. Repare que nessa listagem há um pouco de tudo: romance, novela, coletânea de contos, coletânea de crônicas, coleção de ensaios, biografia, literatura infantojuvenil, poesia, autoajuda, título didático, publicação técnicas etc. A própria apresentação das leituras está na ordem decrescente de preferência. Então aí vai o meu ranking de leitura do primeiro semestre de 2022: NOTA 5 -------- NOTA 4 1º) “Os Incansáveis” (2020) – Sérgio Xavier Filho (Brasil) – Contexto – Biografia – 96 páginas. 2º) “Sete Pecados da Língua” (2017) – Dad Squarisi (Brasil) – Contexto – Ensino da Língua – 112 páginas. 3º) “Febeapá 1: 1º Festival de Besteira que Assola o País” (1966) – Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto (Brasil) – Civilização Brasileira – Coletânea de Contos e Crônicas – 168 páginas. 4º) “A Hora da Estrela” (1977) – Clarice Lispector (Brasil) – Rocco – Novela – 88 páginas. 5º) “O Livro dos Baltimore” (2015) – Joël Dicker (Suíça) – Intrínseca – Romance – 416 páginas. 6º) “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” (2021) – Rosa Symanski (Brasil) – Poligrafia – Romance – 258 páginas. 7º) “Meninos Sem Pátria” (1981) – Luiz Puntel (Brasil) – Ática – Novela – 128 páginas. 8º) “No Meio da Multidão – Como Encontrar Seu Poema” (2016) – Heloisa Prieto e Victor Scatolin (Brasil) – Edelbra – Infantojuvenil – 80 páginas. 9º) “A Arte de Entrevistar Bem” (2008) – Thaís Oyama (Brasil) – Contexto – Ensino de Jornalismo – 112 páginas. 10º) “Cordialmente Cruel” (2018) – Maureen Johnson (Estados Unidos) – HarperCollins – Romance – 320 páginas. 11º) “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” (1719) – Daniel Defoe (Inglaterra) – Principis – Romance – 320 páginas. 12º) “A Verdade e a Vertigem” (2022) – José Vieira (Portugal) – Emporium – Coletânea de Contos – 48 páginas. 13º) “O Contra-ataque – Livro 2 de A Contrapartida” (2021) – Uranio Bonoldi (Brasil) – Valentina – Romance – 400 páginas. 14º) “Refém da Memória” (2021) – Hélio Martins Jr (Brasil) – Publicação independente – Novela – 144 páginas. 15º) “A Contrapartida” (2018) – Uranio Bonoldi (Brasil) – Valentina – Romance – 336 páginas. 16º) “Pátio dos Milagres” (2021) – Carol Camargo (Brasil) – Increasy – Novela – 64 páginas. NOTA 3 17º) “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear sua História” (2020) – Heloisa Prieto e Victor Scatolin (Brasil) – Edelbra – Infantojuvenil – 88 páginas. 18º) “Não É Um Rio” (2020) – Selva Almada (Argentina) – Todavia – Novela – 96 páginas. 19º) “Cenas Londrinas” (1932) – Virginia Woolf (Inglaterra) – José Olympio – Coletânea de Crônicas – 96 páginas. 20º) “Roleta-Russa Com 6 Balas” (2020) – Diego Mendonça e Fábio Aresi (Brasil) – Publicação independente – Coletânea de Contos – 80 páginas. 21º) “Armadilha do Tempo” (2016) – Francisco Scattolin (Brasil) – Publicação independente – Romance – 160 páginas. 22º) “O Conflitos da Tabarana” (Ainda não publicado) – Luís Fernando de Campos (Brasil) – Romance – 256 páginas. 23º) “A Menina que Viu a Lua” (2021) – Janeth Vieira da Silva (Brasil) – Adonis – Infantojuvenil – 48 páginas. 24º) “Todo Mundo Foi Convidado, Menos Eu” (2011) – Mindy Kaling (Estados Unidos) – Citadel – Coletânea de Crônicas – 240 páginas. 25º) “Uma Troca Conveniente” (2021) – Karla S. Gonçalves (Brasil) – Publicação Independente – Novela – 64 páginas. 26º) “Descubra o Craque que Há em Você” (2020) – César Sousa e Maurício Barros (Brasil) – Buzz – Autoajuda – 172 páginas. 27º) “Modelo de (Im)Perfeição” (2021) – Thaís Louzana (Brasil) – Increasy – Novela – 64 páginas. 28º) “Segredos de Irmãs” (2020) – Thálita Medjeks (Brasil) – Publicação Independente – Romance – 192 páginas. 29º) “20 Contos de Terror” (2020) – Walter Rosa (Brasil) – Publicação Independente – Coletânea de Contos – 80 páginas. 30º) “Economia no Cotidiano” (2020) – Alexandre Schwartsman (Brasil) – Contexto – Ensino de Economia – 128 páginas. 31º) “Presente” (2022) – Lúcia Leal Ferreira (Brasil) – Publicação Independente – Prosa Poética – 16 páginas. 32º) “De Volta à Terra de Sempre” (2021) – Carol Camargo (Brasil) – Increasy – Novela – 64 páginas. NOTA 2 33º) “Discurso do Prêmio Nobel 2020” (2020) – Louise Glück (Estados Unidos) – Companhia das Letras – Ensaio – 24 páginas. 34º) “Um Passo de Cada Vez” (2020) – Vitor P. Marra (Brasil) – Publicação Independente – Novela – 104 páginas. 35º) “Riscos e Oportunidades do Novo Milênio” (2020) – Boris Tabacof (Brasil) – Contexto – Ensaio – 96 páginas. 36º) “O que Realmente Importa” (2017) – Anderson Cavalcante (Brasil) – Buzz – Autoajuda – 160 páginas. 37º) “Jogo de Cena” (2019) – Andrea Nunes (Brasil) – CEPE Editora – Romance – 328 páginas. 38º) “Os Sete Sabotadores da Produtividade” (2020) – André Côrtes (Brasil) – Publicação Independente – Autoajuda – 40 páginas. 39º) “Tempo Perdido” (Ainda não publicado) – Antonio Duarte Ferreira Jr (Brasil) –Romance – 560 páginas. 40º) “Viúva Cansada Procura” (2021) – Aimee Oliveira (Brasil) – Increasy – Novela – 64 páginas. 41º) “A Saga do Chanceler Rolin e Seus Descendentes” (2020) – Sérgio Rolin Mendonça (Brasil) – Labrador – Biografia – 144 páginas. NOTA 1 42º) “Maior Abandonado” (2021) – Juliana Apetitto (Brasil) – Labrador – Romance – 184 páginas. Note que muitos dos livros listados nas primeiras posições do ranking foram analisados em profundidade no Bonas Histórias. Usamos esses textos principalmente na coluna Crítica Literária: “O Livro dos Baltimore” (Intrínseca), romance policial de Joël Dicker, “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” (Poligrafia), romance histórico de Rosa Symanski, “Meninos Sem Pátria” (Ática), novela infantojuvenil de Luiz Puntel que integrou a Série Vaga-lume, “Cordialmente Cruel” (HarperCollins), primeiro volume da coleção literária homônima de Maureen Johnson, “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” (Principis), aventura clássica de Daniel Defoe, “A Verdade e a Vertigem” (Emporium), coletânea de contos de José Vieira, “A Contrapartida” (Valentina) e “O Contra-ataque” (Valentina), as duas primeiras partes da saga de terror de Uranio Bonoldi, “Refém da Memória” (Publicação independente), thriller psicológico de Hélio Martins Jr, “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” (Edelbra), título infantojuvenil de Heloisa Prieto e Victor Scatolin, “Não É Um Rio” (Todavia), a mais recente novela de Selva Almada, e “Cenas Londrinas” (José Olympio), coletânea de crônicas de Virginia Woolf. Minhas leituras do último semestre serviram também como matérias-primas para a coluna Talk Show Literário: “Febeapá 1: 1º Festival de Besteira que Assola o País” (Civilização Brasileira), a coletânea clássica de contos e crônicas de Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto, “A Hora da Estrela” (Rocco), novela famosa de Clarice Lispector, e “Meninos Sem Pátria” (Ática), um dos títulos infantojuvenis mais vendidos de Luiz Puntel e de toda coleção Vaga-lume. A partir da investigação desses três livros, Darico Nobar conseguiu entrevistar Macabéa, Stanislaw Ponte Preta e José Maria. Esse trio integra a lista de convidados da sexta temporada do Talk Show Literário. Paradoxalmente, os dois primeiros colocados no ranking de melhores leituras do primeiro semestre de 2022 são livros que não comentei com os leitores do blog. Por quê? Sinceramente não sei. Acho que comi bola. Certamente “Os Incansáveis” (Contexto), biografia feita por Sérgio Xavier Filho enfocando as trajetórias de superação do trio de judocas que fundou o ICI (Instituto Camaradas Incansáveis), e “Sete Pecados da Língua” (Contexto), obra didática divertidíssima de Dad Squarisi que dá dicas de português, mereciam posts na coluna Crítica Literária, né? Porém, ainda dá tempo. Acredito que até o fim do ano eu consiga fazer análises pormenorizadas desses dois títulos brilhantes. Que venha, então, o segundo semestre de 2022 com mais obras interessantes e surpreendentes para lermos, relermos, avaliarmos e, por que não, comentarmos nesse maltrapido blog. Por hoje é aqui que coloco o ponto final. Enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê, fazer o quê?! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. 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- Filmes: A Teoria dos Vidros Quebrados - O mais recente thriller cômico do Uruguai
Representante uruguaio no último Oscar, o segundo longa-metragem de Diego Fernández brinca com a mistura de gêneros cinematográficos. O que fazer em um final de semana de Inverno polar em São Paulo? Minha resposta é simples e direta: cinema! Pelo menos dentro da sala não passamos tanto frio, né? Com esse pensamento positivo, encarei a friaca paulistana (e põe friaca nisso!!!) até chegar ao Espaço Itaú de Cinemas do Shopping Frei Caneca. Fui até lá no último sábado à noite para assistir a “A Teoria dos Vidros Quebrados” (La Teoria de Los Vidrios Rotos: 2021), um dos lançamentos estrangeiros que acabaram de aportar por nossas terras. Esse thriller cômico (ou seria uma comédia com suspense?) é o trabalho mais recente do cineasta uruguaio Diego Fernández Pujol, mais conhecido como Diego “Parker” Fernández (mas vamos chamá-lo aqui simplesmente de Diego Fernández). Acho que fazia um tempinho que eu não produzia posts para a coluna Cinema. Para aqueles que estavam me cobrando novidades da sétima arte no Bonas Histórias, aí está! A partir de agora, quero apresentar ao menos um lançamento cinematográfico por mês no blog. Justo, muito justo, justíssimo! Coprodução de Uruguai, Argentina e Brasil, “A Teoria dos Vidros Quebrados” foi exibido nos países vizinhos em agosto de 2021 e só agora, um ano mais tarde, chega ao circuito comercial brasileiro. Sinceramente não sei o motivo do atraso em nossos cinemas (ele estreou por aqui apenas na quinta-feira passada, 18 de agosto). Porém, suspeito que o motivo do intervalo de doze meses entre o lançamento no Uruguai e na Argentina e o lançamento no Brasil esteja relacionado mais à incompetência dos órgãos públicos que deveriam promover o audiovisual em nosso país (e que estão fazendo justamente o contrário) do que aos fatores mercadológicos e comerciais. E pensar que os tempos sombrios que atravessamos não estão envoltos apenas do cinema e sim de quase todos os movimentos artísticos e culturais brasileiros. Com um elenco recheado de estrelas dos três países envolvidos (o argentino Martín Slipak; os uruguaios César Troncoso, Verónica Perrota, Lucio Hernández, Jenny Galvan, Jorge Temponi, Carlos Frasco e Roberto Moré; e os brasileiros Roberto Birindelli e Lourdes Kauffmann), “A Teoria dos Vidros Quebrados” foi o representante do Uruguai no último Oscar. O longa-metragem foi inscrito na categoria Melhor Filme Internacional, mas não chegou às fases finais da premiação norte-americana. Ainda bem. Porque se tivesse sido finalista, teríamos algo de muito errado com o cinema contemporâneo. Explico mais à frente o que quero dizer com isso. Prometo! Escrito e dirigido por Diego Fernández (Rodolfo Santullo também participou da produção do roteiro), o thriller cômico foi rodado entre novembro e dezembro de 2020. As locações foram em Montevideo e Aiguá, cidade do departamento de Maldonado, no Norte do Uruguai, e as filmagens duraram seis semanas. Desenvolvido em parceria pelas produtoras uruguaias Parking Films e Condon Films, pela argentina Tarea Fina e pela brasileira Okna Produções e com orçamento na casa dos US$ 800 mil, “A Teoria dos Vidros Quebrados” foi inspirado em episódios reais. Vale a pena contar rapidamente os fatos verídicos por trás dessa produção. Em 2010, a cidade de Melo, capital do departamento de Cerro Largo, no Nordeste do Uruguai e na fronteira com o Brasil, foi alvo de uma série de incêndios criminosos. Em algumas semanas, mais de duas dezenas de carros foram incendiados na então pacata cidade de ares rurais, o que causou comoção na população, nas autoridades locais, na imprensa nacional e nas empresas de seguro. O bafafá estava montado. Afinal, o que estava por trás da destruição dos veículos no interior uruguaio?! A partir dos relatos extraídos das páginas jornalísticas, Diego Fernández e Rodolfo Santullo construíram a trama ficcional de “A Teoria dos Vidros Quebrados”. O protagonista do filme é um jovem e promissor perito de uma companhia de seguros de Montevideo. Enviado para a região fronteiriça, o rapaz tem a missão de desvendar o mistério por trás da série de incêndios de carros que tira o sono da população local. Se por um lado a personagem principal sofre a pressão dos habitantes e das autoridades da cidade interiorana para pagar rapidamente as apólices de seguro, por outro ele não pode decepcionar os chefes na capital. Uma provável promoção ao cargo de gerente depende de como ele vai resolver aquele caso estranho. A principal característica de “A Teoria dos Vidros Quebrados” é a mistura de gêneros cinematográficos. Podemos dizer que esse longa-metragem é ao mesmo tempo uma comédia, um suspense, uma investigação policial, um drama com tintas de crítica social, uma paródia dos faroestes norte-americanos (ou das imitações italianas dos Westerns?!) e um musical. Sim, podemos vê-lo em alguns momentos até como um musical (só que com pegada de Filme Trash). Na minha visão, esse pot-pourri estilístico é o elemento mais legal do novo título uruguaio. Se o filme fica a desejar no que se refere ao humor, ao nível de mistério, à qualidade das filmagens e à estrutura narrativa, não podemos criticar suas ousadias formais. “A Teoria dos Vidros Quebrados” é o segundo longa-metragem de Diego Fernández. Sua estreia na direção ocorreu com a comédia dramática “Rincón de Darwin” (2013), produção luso-uruguaia que ainda não está disponível para o público brasileiro – pelo menos eu não a encontrei com legendas no português brasileiro. Se agora o cineasta utiliza o conceito social dos “Vidros Quebrados” para embasar a nova trama ficcional, em “Rincón de Darwin” ele trabalhou com os conceitos darwinistas da evolução das espécies. Outra semelhança entre os dois títulos de Fernández é que ambos se passam no interior do país – o protagonista é obrigado a viajar para um lugar rural daqueles onde Judas perdeu as botas; e lá encara conflitos até então inimagináveis para um cidadão urbano e cosmopolita. Utilizado como título do novo longa-metragem, o conceito das “Janelas Quebradas” (“Broken Windows” em inglês) foi criado por James Q. Wilson e George Kelling, professores de Sociologia da Universidade de Chicago, na década de 1980. Segundo os sociólogos norte-americanos, se a janela danificada de um edifício não for consertada rapidamente, vândalos irão quebrar mais janelas. Se muitas janelas estiverem quebradas e a construção tiver aparência de abandono, a chance de ela ser invadida e ocupada por criminosos é grande. Ou seja, a rapidez com que a população percebe o zelo (ou a falta dele) das autoridades impacta os índices de criminalidade de uma região. A partir das teses acadêmicas das “Janelas Quebradas”, Diego Fernández e Rodolfo Santullo construíram o enredo do filme em tom de galhofa. Esqueça, portanto, as definições conceituais e as explanações professorais. No longa uruguaio, assistimos à prática bem-humorada de uma situação que foge do controle social por causa justamente da leniência das autoridades. À medida que ninguém traz explicações convincentes para os incêndios de veículos no Norte do Uruguai, mais e mais carros aparecem queimados na localidade. Feita essa rápida menção ao nome do longa-metragem e à sua estrutura narrativa, vamos à trama propriamente dita de “A Teoria dos Vidros Quebrados”. Claudio Tapia (interpretado por Martín Slipak) é um jovem talento da Santa Marta Seguros, companhia sediada em Montevideo e com negócios no país inteiro. Os bons trabalhos recentes de Tapia na descoberta de fraudes elevaram a cotação do rapaz junto à direção da seguradora. Por isso, assim que o cargo de gerente da regional 15, uma localidade ao Norte do Uruguai e na divisa com o Brasil, fica vago, o protagonista do filme é convidado para ser o perito do escritório no interior. Se ele se sair bem, na certa será promovido à gerente. O novo cargo parece tranquilo para o destemido Claudio Tapia. Por ficar em uma região pacata e rural, a tal regional 15 não parece exigir tanto trabalho para o recém-promovido perito. A ideia de Tapia e de seus chefes é que o jovem viaje pontualmente para o interior uma ou duas vezes por mês. Na certa, bastariam um ou dois dias no escritório em cada viagem para dar cabo à burocracia da companhia na sucursal. Aí, Claudio Tapia poderia retornar para a capital, onde permaneceria vivendo ao lado da esposa. O drama do protagonista de “A Teoria dos Vidros Quebrados” começa em sua primeira viagem ao interior. Tão logo coloca os pés na cidade fronteiriça, as coisas saem do controle. Na primeira noite de Tapia por lá, quatro carros são queimados (dois da Santa Marta Seguros e dois da concorrência). Esse é o estopim para uma série de incêndios criminosos que pipocam na região. Como o delegado e as autoridades locais não parecem se preocupar com aqueles atos violentos, mais e mais veículos aparecem destruídos nas noites seguintes. Aí caberá a Claudio Tapia, visto pela população como o jovem forasteiro que chega querendo mostrar que manda ali, a tarefa de elucidar os crimes. A maior dificuldade de Tapia está em realizar seu trabalho diante de pressões antagônicas. De um lado temos os habitantes e as autoridades locais. Do outro os chefes da seguradora em Montevideo. Obviamente, a população da cidade exige o pagamento das apólices. Ela não quer saber os motivos dos incêndios, ela quer o dinheiro na conta daqueles que perderam os veículos. Por outro lado, os executivos da Santa Marta não querem efetuar o pagamento pois sabem que há caroço nesse angu. Não é possível fazer a transferência de dinheiro aos clientes com a forte suspeita de crime. No meio desse conflito está Claudio Tapia. Preso àquela zona fronteiriça, ele sofre ameaças de todos os lados. Os comerciantes mais abastados e os políticos mais importantes da região o ameaçam se não receberem o seguro. Os chefes na capital exigem uma excelente investigação que coloque um ponto final naquela história. Alguns colegas na seguradora ainda querem puxar o tapete do rapaz para ficar com o cargo de gerente. Para completar a agonia, a esposa de Claudio exige que ele volte imediatamente para casa. Ela não entende que a situação está crítica no interior e que o marido precisou estender a viagem. Em questão de dias, o trabalho dos sonhos do jovem funcionário da Santa Marta Seguros se transforma no pior pesadelo que ele poderia ter. “A Teoria dos Vidros Quebrados” tem 82 minutos de duração e não empolga o espectador mais exigente. Confesso que saí da sessão bem decepcionado. E não vá dizer que foi o frio de São Paulo que afetou meu julgamento, tá? O novo longa-metragem de Diego Fernández peca tanto em qualidade cinematográfica quanto em qualidade narrativa. Se comparado aos principais títulos recentes do cinema uruguaio, ele não consegue chegar perto de "Sr. Kaplan" (Mr. Kaplan: 2012), "O Banheiro do Papa" (El Baño del Papa: 2007) e “Whisky” (2004), três comédias dramáticas de grande excelência que conquistaram elogios dentro e fora das fronteiras do Uruguai no século XXI. Quando comparado aos melhores filmes dos países vizinhos, aí a coisa complica ainda mais para “A Teoria dos Vidros Quebrados”. O thriller cômico de Fernández não possui o humor afiado de produções como “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018) e "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016) nem o suspense de "Neve Negra" (Nieve Negra: 2016), “Bacurau” (2019), “O Clã” (El Clan: 2015) e “Morto Não Fala” (2019). Repare que para a minha comparação não ficar muito desleal, só listei longas produzidos pelas nações do Mercosul nos últimos sete anos. Por esse rápido recorte, dá para perceber que o cinema brasileiro e, principalmente, o cinema argentino estão pelo menos um degrau acima daquele realizado no Uruguai. Espero que nossos vizinhos ao Norte do Rio da Prata não se ofendam com minha constatação, por favor! Afinal, eles ainda continuam tendo o melhor churrasco e o melhor doce de leite do nosso continente. Saiba que os argentinos e os gaúchos não fazem frente à gastronomía uruguaya! Mesmo não sendo um filmão (daqueles memoráveis que vamos nos lembrar daqui a alguns anos), “A Teoria dos Vidros Quebrados” tem seus méritos. O primeiro deles é a mistura de gêneros cinematográficos. Além de mesclar suspense (a pegada é similar às narrativas policiais) com comédia, temos doses generosas de musical (sim, musical!), faroeste (ao melhor estilo Western Spaghetti), crítica social (acredite se quiser: os uruguaios conseguem reclamar de seu país!) e elementos oníricos. Para completar o inusitado mix estilístico, o longa-metragem de Diego Fernández ainda flerta com a dinâmica das produções B e do gênero brega. É incrível e corajoso esse tipo de miscelânia em uma produção cinematográfica contemporânea. Confesso que essa característica foi a que mais gostei. Quando digo que há várias cenas que se assemelham aos musicais, não estou exagerando (apesar de não podermos chamar “A Teoria dos Vidros Quebrados” de musical). A história do longa-metragem simplesmente para e aí assistimos a uma espécie de coletânea de videoclipes com os dramas do protagonista. Essas passagens são muitas vezes as mais cômicas do filme (se bem que não rendem ruidosas nem longas risadas). O mais interessante é verificar o gênero musical escolhido para representar a agonia de Claudio Tapia. As canções lembram muito o Brega Romântico e o Vanerão (que no Uruguai deve ter outro nome). Se esses estilos soam estranhos em um primeiro momento, eles se casam perfeitamente com a proposta estilística da produção de Fernández. O humor exalado pelas cenas musicais compensa a interrupção do ritmo narrativo da trama (esses trechos são quase como respiros dramáticos do enredo). Não por acaso, a trilha sonora (repleta de paródias musicais) do uruguaio Gonzalo Deniz e as cenas musicais (com um jeitão de produção trash) são realmente um capítulo à parte em “A Teoria dos Vidros Quebrados”. Esse é justamente um dos componentes mais originais do longa-metragem. O único problema desse recurso é que a ideia foi infinitamente superior à execução. A sensação que tive durante a sessão é que algo não saiu tão impecável quanto Diego Fernández planejou. Como o conflito de “A Teoria dos Vidros Quebrados” se passa essencialmente no rincão uruguaio, mais especificamente na fronteira com o Brasil, há a sensação de que o cenário retratado é uma espécie de terra sem lei – região onde as autoridades nacionais não chegam e a violência é o principal recurso de quem precisa sobreviver. Não por acaso, temos uma forte estética dos Faroestes. O tom de Western aparece nas tomadas de câmera (zoom, congelamento dramático das cenas e tomadas gerais da paisagem interiorana), na ambientação (com muita poeira, cidades pequenas, desabitadas e perigosas, vegetação quase desértica e clima hostil) e nos tipos mais comuns da sociedade do Velho Oeste norte-americano (o delegado/xerife, o deputado/prefeito, os pequenos comerciantes, o jornalista, a dama liberal, o forasteiro cosmopolita e os jovens arruaceiros). Por falar nas personagens, elas são normalmente caricatas. Se do ponto de vista da narrativa esse é um aspecto negativo do enredo (além de não trazer tanto humor ao filme como imaginei), pela perspectiva da estética cinematográfica ele faz todo o sentido. Afinal, estamos em uma paródia musical do faroeste, né? As figuras retratadas de maneira plana em “A Teoria dos Vidros Quebrados” são típicas do gênero emulado, mas inseridas no contexto do interior uruguaio (a graça está justamente aí). Por isso, o humor que elas representam é extremamente sutil (diria que sutil demais para os espectadores médios...). Se você não achar as cenas e a história do longa-metragem tão engraçadas assim, não se culpe, por favor. O problema não é do público e sim do nível cômico (diria que mais introspectivo do que aquele normalmente encontrado no cinema comercial). Um dos pontos altos do enredo foi a escolha do protagonista. Nosso herói é um perito de seguros. Adorei essa opção narrativa! Note que normalmente as tramas policiais são capitaneadas por um detetive particular, um policial, um jornalista ou um curioso qualquer. Aqui não. O trabalho de um profissional da área de seguros, atividade normalmente pouco interessante aos olhos da sociedade, ganha contornos emocionantes e perigosos. Adoro encontrar elementos inovadores na estrutura ficcional. Confesso que não me recordo de ter visto uma personagem principal com a mesma profissão de Claudio Tapia na literatura, no cinema ou no teatro. Legal isso, né? Jamais veremos o trabalho de um perito de seguros com os mesmos olhos depois desse longa-metragem. Além da falta de um humor mais acentuado (eufemismo para dizer que não é uma comédia das mais engraçadas), senti falta de um desfecho realmente interessante. A construção do mistério é boa. Do ponto de vista do suspense, a primeira metade do filme é até satisfatória. O problema é o desenlace pueril e um tanto óbvio de “A Teoria dos Vidros Quebrados”. Não temos grandes surpresas nem muitas reviravoltas na segunda metade da produção, ingredientes fundamentais dos melhores thrillers cinematográficos. Veja o trailer de “A Teoria dos Vidros Quebrados” (La Teoria de Los Vidrios Rotos: 2021): Em suma, “A Teoria dos Vidros Quebrados” é uma produção que se destaca pela proposta estética. Convenhamos: não é todo o dia que assistimos a uma versão contemporânea e cômica de um Western Spaghetti uruguaio com elementos oníricos, musicais e de suspense policial. Entretanto, não podemos dizer que o novo filme de Diego Fernández possua qualidades cinematográficas que o permitam disputar em reais condições a estatueta do Oscar na categoria Melhor Filme Internacional. Aí já é acreditar em milagre (algo difícil de acontecer no Uruguai, país com a população com maior índice de ateísmo da América Latina). Na minha opinião, “A Teoria dos Vidros Quebrados” não é nem mesmo superior a títulos como "Sr. Kaplan", "O Banheiro do Papa", “Whisky” e “Uma Noite de 12 Anos” (La Noche de 12 Años: 2018), produções uruguaias que conquistaram as plateias internacionais nos últimos anos, mas que ficaram longe, muito longe de chegar às finais do Oscar. Se o frio de sua cidade não for tão desencorajador (parece que a massa de ar polar está indo embora do Sudeste do Brasil), até vale a pena conferir esse novo longa-metragem nos cinemas. Agora, se a friaca for daquelas que provocam calafrios na alma, talvez haja programas cinematográficos ou culturais mais interessantes à vista. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Agosto de 2012
Depois da tempestade de emoções, chegamos à bonança. Conquistado o título da Libertadores, o Timão volta-se para a disputa do Brasileirão. 1° de agosto de 2012 – quarta-feira Vou contar uma coisa, mas não quero ver ninguém rindo, tá? Estamos combinados?! Algo assim pode acontecer em qualquer lugar, até nas melhores famílias. Todos nós estamos sujeitos a pequenos acidentes domésticos. Normal, né? Contudo, como aconteceu com o Corinthians, aí você já viu! As brincadeirinhas e as gozações dos torcedores rivais não param. Está bem, vou falar de uma vez por todas. Vou direto ao assunto para não criar suspense: a taça da Copa Libertadores da América quebrou. Sim, o troféu aos cuidados do Timão sofreu um acidente e teve uma parte danificada. Pronto, falei! Depois de anos e anos de sofrimento para conquistá-la, em menos de um mês em nossas mãos algo de ruim aconteceu com a preciosidade. Até parece piada, mas é verdade! Deve ser olho gordo de palmeirenses e de são-paulinos. O troféu entregue ao Corinthians no dia (ou seria na noite?) 4 de julho é feito em bronze e banhado com prata. A base é constituída de madeira. Ele tem 76 cm de altura e seu custo aproximado é de R$ 15 mil. Segundo as primeiras informações passadas pela Conmebol, a taça avariada era a original, a que fica com a entidade que organiza o futebol no continente. Após algumas semanas em posse do atual campeão da Libertadores (o Corinthians, no caso), ela teria que ser devolvida à Confederação Sul-Americana. Em troca, o Timão receberia (em definitivo) uma réplica. Para ver pessoalmente a versão legítima do troféu, mais de 17 mil corintianos já visitaram o Memorial das Conquistas no Parque São Jorge. Eu mesmo havia me programado para ir lá na próxima semana. A parte danificada é mínima. O bonequinho de um jogador chutando a bola que fica em cima do globo, na parte superior do prêmio, se desprendeu do restante da peça. O restauro já foi providenciado. O mini jogador será soldado à parte principal da taça. O acidente, segundo a diretoria alvinegra, aconteceu durante o transporte entre o museu do clube e um evento externo. Qual evento? Não foi especificado. Afinal, a agenda do troféu, nessas três semanas em posse do Corinthians, estava mais concorrida do que agenda de político em época de eleição. A taça da Liberta já havia sido levada à casa do ex-presidente Lula (fanático corintiano), passeado pela sede da Gaviões da Fiel, participado de jantares comemorativos e sabe-se mais por onde ela esteve. Todo mundo queria chegar perto e tocá-la. Até o Seu Barriga (Edgar Vivar, ator mexicano intérprete do famoso personagem do programa Chaves) veio da Cidade do México para São Paulo para erguer o símbolo máximo da conquista corintiana (ele tirou fotos segurando o troféu). Agora imagine por quantas mãos essa peça havia passado antes de quebrar, hein? Se pensarmos bem, demorou até para acontecer o pior... À noite, li uma notícia na Internet que dizia que esse troféu não é o original. Em nota, a Conmebol informou que desde 2004, quando o Once Caldas destruiu totalmente a verdadeira taça durante as comemorações, a entidade envia apenas a réplica para o campeão. A original, construída novamente em 2005, fica guardada na sede da Confederação em Assumpção, no Paraguai. Assim, após Alessandro erguer o troféu verdadeiro no Pacaembu, a peça foi levada em segurança de volta para casa. 2 de agosto de 2012 - quinta-feira Tenho um tio muito querido que é assinante da Folha de São Paulo. Grande Tio Luiz! São-paulino fanático, ele adora ler de manhã a coluna "Buemba! Buemba!" de José Simão (outro são-paulino). Simão é um dos mais divertidos jornalistas do nosso país e comenta de maneira debochada os principais assuntos do dia em sua coluna. Como Tio Luiz é também anticorintiano, ele só se lembra de me contar as piadas envolvendo o Corinthians. Devo admitir, elas são hilárias. Por que estou falando sobre isso hoje? Nessa manhã, vi um vídeo do José Simão no UOL. O nome do programa é "Monkey News". Nele, o humorista retrata os acontecimentos cotidianos de forma zombeteira. É mais ou menos o que ele já faz há anos no jornal impresso (só que dessa vez pelo formato audiovisual). Como o título do vídeo da quinta-feira era "Buemba! Bonequinho da Libertadores se matou!", resolvi assistir. Depois de tirar um sarro da má fase do Flamengo e falar sobre as Olimpíadas de Londres, Simão entrou no tema principal do programa: "Tudo bem, a Olimpíada está rolando, não sei o que lá lalalala. Mas o grande assunto (do dia) é a taça da Libertadores. Porque (a) quebraram no Corinthians (risos). Porque tudo acontece no Corinthians (mais risos). É o time mais sensacional que existe porque essa taça já andou na mão de todo mundo. Aí foi para o Corinthians e quebrou. Deve ser a pouca prática (em manuseá-la). É a pouca prática! Está aqui, tem a foto dela. A prova, olha lá a prova (mostra-se duas fotos no vídeo). Primeiro com o bonequinho e depois sem o bonequinho. Cadê o bonequinho? Sumiu o bonequinho! Sumiu não, menino. Ele foi recolhido para a Fundação Casa (novo nome da FEBEM). Em cinco semanas recolheram ele para a Fundação Casa (e mais risos!). Existem várias versões. Porque têm teorias para explicar isso. Como é que some assim? Aí eu entrei no site futirinhas.com. Tem (lá) uma coisa que eu já falei e eles foram ali mostrar. Revelaram onde foi parar o tal do bonequinho. Vamos ver (mostra-se a imagem de um carro velho com o bonequinho da Libertadores pregado no capô com o seguinte título: virou enfeite de algum Chevette na Zona Leste de São Paulo). Pode ser. É o Chevettão do corintiano. Segunda possibilidade (mostra-se a foto de um homem sendo preso. Ele usa a camisa do Corinthians e tem uma corrente com o tal bonequinho. O título é: virou pingente de algum mano). Encontraram o bonequinho pendurado na corrente do mano, que dá um belo pingente mesmo. Tipo daqueles rappers americanos. Eu acho essa (possibilidade) a mais provável. Pode ser! E tem uma terceira opção. Porque aí é o destino, não tem jeito. Vamos ver (mostra uma ilustração com o bonequinho enforcado e o título: se matou de desgosto). Eu acho essa opção mais viável, a do bonequinho que se matou. Ele se suicidou, né? Mas a grande piada pronta, foi a (notícia) que eu li hoje de manhã aqui na home do UOL. Está ali: Conmebol diz que essa Taça Libertadores da América (em posse do Corinthians) é réplica. Até aí tudo bem. A original está no Paraguai! Ah não (risos). No momento em que uma coisa original está no Paraguai, para o mundo que eu quero descer. A original está no Paraguai, eu não acredito". 3 de agosto de 2012 - sexta-feira José Simão citou o futirinhas.com no programa "Monkey News" de ontem, né? Interessado em saber mais sobre o tal site cômico, resolvi acessá-lo hoje. E gostei bastante. Ele é muito engraçado! O Futirinhas se dedica a contar piadas exclusivamente sobre futebol. O texto mais interessante é de Maju Uchôa. Em sua coluna, a humorista comenta como está o Brasileirão de 2012 até esse momento. Ela ainda aproveita para fazer previsões para os principais clubes brasileiros. Confira: "O Campeonato Brasileiro ainda está no comecinho, mas como já tem torcedor fazendo faixa de campeão, acho que já posso dar minha humilde opinião do que vai acontecer até o fim do campeonato. Atlético Mineiro: é líder do Brasileirão, tem o melhor ataque, jogadores excelentes e que vem se destacando na competição, mas como o GaLOL é o GaLOL, é só esperar o momento em que vai começar a cair na tabela (provavelmente na 19ª rodada, quando enfrentar o Cruzeiro); Vasco: vem muito bem no Brasileirão, perdeu jogadores importantes, mas continua na vice-liderança e deve brigar pra se manter lá até o final. RUMO AO VICE; Fluminense: É forte candidato ao título, possui um excelente elenco e é considerado por muitos o melhor time do Brasil. Tanto que ganhou a Libertadores e… OH WAIT!; Grêmio: está no G4, tem um bom time, organizado e tá conseguindo vitórias importantes. Dos times estrangeiros é um dos candidatos mais forte ao título; Palmeiras: começou mal, mas usava a desculpa de que estava focado na Copa do Brasil. Ganhou a mesma, mas continua palmeirando e vai brigar por uma vaga na Série B de 2013; Santos: PELO AMOR DE DEUS VOLTA LOGO, NEYMAR!; Corinthians: o melhor time do Brasil atualmente deve ficar em uma boa colocação, mas não vai assustar muito, pois deve focar no Mundial. (E passar mais 100 anos em lua de mel com esse título da Libertadores); São Paulo: tá querendo bater o recorde sem títulos do Palmeiras e deve ficar no meio da tabela; Flamengo: a situação do Flamengo tá mais feia que encoxar a mãe achando que é a empregada. E como em 2012 tudo pode acontecer. Acredito que dessa vez o urubu não escapa do rebaixamento; Botafogo: é igual ao Gasparzinho. Pode até assustar um pouco, mas não faz mal a ninguém. Vai ficar sonhando com uma vaguinha na Libertadores, mas vai ter que se contentar com a Copa do Brasil. No ano em que o Corinthians ganhou a Libertadores e o Palmeiras conseguiu quebrar o jejum de títulos, eu ainda acredito seriamente que o GaLOL pode sim, ganhar o Brasileirão". Eu completo com mais um prognóstico: se 2012 é o ano das zebras no futebol, por que o Brasil não pode ganhar, enfim, a medalha de ouro nas Olimpíadas, hein? 4 de agosto de 2012 - sábado Nesse sábado, assisti à vitória da Seleção Brasileira de futebol masculino nos Jogos Olímpicos de Londres. O Brasil derrotou com certa dificuldade (e muito ajudado pela arbitragem!) a fraca equipe de Honduras por 3 a 2. Passou agora para a semifinal do torneio. Se vencer o próximo compromisso, a Coréia do Sul na terça-feira, chegará à final. A partida de hoje foi tão fraca tecnicamente que dormi durante boa parte do segundo tempo. O time comandado por Mano Menezes vem ganhando sem convencer – passou apertado por Egito, Bielorrússia e Nova Zelândia na primeira fase. É muito pouco para quem se prepara para a Copa do Mundo de 2014 almejando o título. Porém, o grande assunto de hoje é outro, pelo menos para corintianos e vascaínos. As duas torcidas se preparam para o jogão de amanhã pelo Campeonato Brasileiro. O Timão voltará a enfrentar o Vasco da Gama no Rio de Janeiro. As equipes disputaram o título nacional da última temporada e se enfrentaram nas quartas de finais da Libertadores desse ano. Para muitos, o confronto com os vascaínos foi o mais difícil (e dramático) do Corinthians na competição continental de 2012. A intensa disputa entre as agremiações aumentou consideravelmente a rivalidade, o que coloca um tempero especial para o novo duelo. O Vasco é atualmente o vice-líder do Brasileirão. E arrancar três pontos deles será importante para o Coringão. No CT Joaquim Grava, o técnico Tite não fez mistério sobre sua escalação. O Corinthians irá a campo em São Januário com os mesmos 11 titulares que atuaram no final de semana passado em Salvador. Chicão e Emerson continuam sendo os desfalques. Enquanto o zagueiro já está recuperado da contusão e tem a volta prevista para a próxima rodada, o atacante ficará mais duas semanas no departamento médico. Assim, os representantes da Fiel no gramado serão: Cássio; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Douglas; Romarinho e Jorge Henrique. Paolo Guerrero mais uma vez é opção no banco. Do lado vascaíno, a grande ausência será o zagueiro Dedé. Mais uma vez o craque cruzmaltino não enfrentará o Timão. Se no torneio sul-americano ele estava machucado, dessa vez ele está suspenso pelo terceiro cartão amarelo. Diego Souza, aquele mesmo do gol perdido na frente do Cássio na partida de volta da Liberta, também não estará em campo. Ele foi vendido para o futebol do Oriente Médio há duas semanas. Os corintianos (principalmente o goleiro Cássio) vão sentir muito sua falta. Enquanto se preparam para assistir à 14ª rodada do Campeonato Brasileiro, os torcedores corintianos puderam comemorar uma data muito especial. Há exatamente um mês, em 4 de julho de 2012, o Timão vencia o Boca Juniors no Pacaembu com dois gols de Emerson Sheik e erguia o troféu mais esperado de sua história. Como se esquecer desse dia, né?! Se a torcida pôde celebrar a efeméride, os jogadores não conseguiram nem pensar no assunto. "O título modifica o reconhecimento que todos nós temos na rua. É invejável por muitos. Isso nos orgulha muito. Mas só vamos curtir realmente o título quando entrarmos de férias, inclusive o técnico”, disse Tite, encerrando o assunto. O pensamento agora é o Brasileirão! 5 de agosto de 2012 - domingo O clássico entre Corinthians e Vasco da Gama, duas das melhores equipes do país na atualidade, começou alguns minutos antes das 16 horas. Por causa da inexplicável antecipação, a transmissão da Rede Globo quase perdeu o apito do juiz. Assim, a emissora carioca não apresentou as escalações nem permitiu que os repórteres de campo passassem as últimas informações sobre o jogo. Incomodado com a postura da líder de audiência em começar suas coberturas esportivas tão em cima da hora, mudei imediatamente para a Bandeirantes. Ali, Téo José narrava e Neto comentava. A primeira chance de gol foi do Vasco. Juninho Pernambucano bateu falta na ponta esquerda e a bola passou por cima dos atacantes. Como ninguém tocou nela, ela saiu mansinha pela linha de fundo. No lance seguinte, o Timão respondeu. Jorge Henrique chutou de fora da área e o goleiro vascaíno teve que espalmar para aliviar o perigo. Cinco minutos depois, Douglas bateu falta para o Corinthians. O goleiro do time da casa não segurou e a bola sobrou para Romarinho dentro da área. O atacante chutou, mas a bola foi desviada pelo zagueiro adversário para escanteio. Uhhhhh. Os bons momentos iniciais deram a falsa impressão de que a partida seria boa. Infelizmente, o restante do primeiro tempo foi monótono. O Vasco não conseguia passar pela forte defesa dos visitantes e o Corinthians criava jogadas sem conseguir finalizar ao gol. A ausência de um centroavante matador continuava prejudicando o esquema tático corintiano. Os atacantes do Parque São Jorge estavam bem: tabelavam e chegavam até a área adversária. Contudo, ninguém chutava com perigo. Douglas era novamente o melhor em campo. Foi dele a oportunidade mais insinuante do primeiro tempo. O meia recebeu sem marcação um ótimo lançamento de Jorge Henrique. A cabeçada do Maestro bateu no chão e subiu. Fora! Como já é tradição no Timão, a equipe corintiana voltou muito melhor no segundo tempo. Não sei o que o Tite fala ou faz nos vestiários durante os intervalos. Só sei que funciona. A pressão dos campeões da América foi intensa. Jorge Henrique perdeu dois gols na frente do goleiro. INACREDITÁVEL! A coleção de defesas do arqueiro cruzmaltino foi se ampliando: chute de Romarinho, arremate de Douglas e finalização fraca de Paulinho. Enquanto isso, Cássio assistia à partida tranquilamente em seu canto. Precisando vencer, os dois técnicos resolveram mudar. Tite colocou Guerrero no lugar de Jorge Henrique e Ramirez substituiu Romarinho. O Vasco também alterou seus atacantes. Nos quinze minutos finais, a equipe de São Januário teve algumas chances. Em todas, Cássio saiu bem do gol e interceptou as jogadas dos adversários. Placar final no Rio de Janeiro: Vasco da Gama 0, Corinthians 0. Se a defesa do Timão está em ótima forma (não é vazada há três partidas), o ataque chega ao segundo jogo inoperante. É algo que deve estar preocupando o treinador. Com o empate, tanto Vasco quanto Corinthians permanecem nas mesmas posições que começaram a rodada (os cariocas na vice-liderança e os paulistas no meio da tabela). 6 de agosto de 2012 - segunda-feira O título da Libertadores mudou a vida dos corintianos. Isso é inegável. Na minha vidinha em especial, a principal transformação foi que agora divulgo sem hesitação que estou escrevendo O Ano que Esperávamos Há Anos. Aquele receio inicial de parecer louco desapareceu. Quase todos que convivem comigo já estão sabendo (e curiosamente não me censuram mais). Hoje, recebi um e-mail da minha amiga Hanna: "Ricardinho, saudades enormes de vc! Tudo bem comigo e com vc? Tenho certeza de que você irá publicar o livro. Ele deve estar demais!!! Mas vi no site do Estadão que lançaram um livro do Timão na Libertadores. Dá uma procurada. Bjs". Uma obra parecida com a minha?! Ai meu Deus! Eu me esforçando para escrevê-la e um maledetto tem a mesma ideia. E, o que é pior, lança antes! Ainda atordoado com tal informação, coloquei uma roupa apropriada para o frio paulistano e fui até minha livraria favorita. Precisava ver a publicação citada pela Hanna o mais rápido possível. Queria vê-la pessoalmente. Na loja, uma atendente me trouxe o título. Tratava-se do livro "Corinthians: Todo-Poderoso Campeão da Libertadores 2012", da editora Panda Books. Diferentemente da minha expectativa, a obra era essencialmente um registro fotográfico da campanha corintiana no torneio sul-americano. O fotógrafo Daniel Augusto Jr. captou pelas lentes de sua câmera todos os jogos do Timão. As imagens são belíssimas. Há também a ficha técnica de todas as partidas do clube, as escalações dos times, os autores dos gols e as informações básicas dos confrontos. Um CD acompanha o material impresso e contém a narração radiofônica da final contra o Boca e de todos os gols do Corinthians na competição. Adorei o livro e em alguns segundos estava na fila do caixa para adquiri-lo. No caminho de volta para casa, um pensamento me passou. O livro recém-comprado era completamente diferente daquele que estava escrevendo. O Ano que Esperávamos Há Anos é o relato sincero de um torcedor comum dos 366 dias mais emocionantes vividos pelos corintianos. Mais do que uma obra sobre a Libertadores e sobre o Timão, O Ano é um documento sobre minhas emoções ao longo de 2012. Minha narrativa trata sim da campanha vitoriosa dos jogadores alvinegros no torneio sul-americano, mas traz muito mais: fala dos outros campeonatos, descreve a montagem do elenco pelo técnico Tite, relata o trabalho da diretoria no Parque São Jorge, comenta cada partida sob olhar da torcida e analisa o cotidiano do time e dos torcedores. E, principalmente, aborda os medos, as preocupações, os sofrimentos e a alegria da nação mais preta e branca do mundo. Mesmo tendo adorado o livro do Daniel Augusto Jr., sei o quanto o meu também pode ser interessante, valioso e único. Já em casa, escolhi um belo canto na minha estante para o "Corinthians: Todo-Poderoso Campeão da Libertadores 2012". Depois, coloquei o CD no aparelho de som e o ouvi inteirinho. Enquanto meus ouvidos captavam a emocionante narração, respondi ao e-mail da minha amiga: "Obrigado, Hanninha. Acabei de comprar o livro. Ele é muito bom! Contudo, o meu é bem diferente. Prometo te presentear com um exemplar quando ele for publicado". 7 de agosto de 2012 - terça-feira O próximo desafio do Timão no Campeonato Brasileiro é amanhã à noite no Pacaembu. O adversário é o Atlético Goianiense. Os goianos estão na penúltima colocação com apenas nove pontos (a lanterna é do Figueirense com oito pontos) e vêm jogando muito mal. Ou seja, essa é uma ótima chance para o Corinthians vencer bem, fazer muitos gols e acabar com a sequência incômoda de empates em 0 a 0. Além da possibilidade de obtenção dos três pontos, outra questão chama a atenção para o jogo de quarta-feira. O técnico Tite deverá voltar a escalar a equipe com um meia-armador e três atacantes (esquema tático 4-3-3) depois de muito tempo sem usá-lo. Tudo por causa das dores na panturrilha de Danilo. O veterano meio-campista não tem condições para ir a campo e o treinador corintiano optou pela colocação do centroavante Guerrero em seu lugar. O camisa 9 ficará centralizado lá na frente e Romarinho e Jorge Henrique ficarão abertos pelas pontas. A armação do time ficará à cargo de Douglas, o único meia entre os titulares. Vale lembrar que o esquema tático 4-3-3 foi o mais usado no ano passado e era a primeira opção do técnico gaúcho para a temporada de 2012. Como Liedson teve uma grande queda de rendimento, Alex entrou em seu lugar e não saiu mais. Aí foi preciso adaptar a formação para o 4-4-2. Com a escalação mais tradicional com dois armadores, o Timão conseguiu conquistar a Copa Libertadores e ter uma defesa quase intransponível. O problema, entretanto, ficou com o ataque. O setor ofensivo se tornou menos poderoso e os gols se tornaram artigo escasso no Parque São Jorge. Para a Libertadores, essa característica não foi um grande problema, pois a defesa compensava a pouca produtividade do ataque não sofrendo quase nenhum gol. A luz amarela foi acesa quando o Corinthians voltou as atenções para o Brasileirão, campeonato de pontos corridos no qual os gols são mais necessários. Com dois homens de frente sem muito faro de artilheiro (Jorge Henrique e Romarinho), o placar teima em não sair do zero. Quando um gol é feito pelo Timão, pode reparar, geralmente não é um atacante quem balança as redes. Curioso isso, né? Nas últimas sete partidas, o Corinthians fez apenas nove gols. Deles, o meio campo foi responsável por sete (Danilo e Douglas fizeram três cada um e Paulinho um) e a defesa por dois (Chicão fez ambos de pênalti). Os atacantes não fizeram nenhum! Para piorar, Emerson, nosso melhor avante, está machucado. Com uma equipe mais ofensiva, é bem possível que o ataque do Timão volte a marcar. Por isso, gosto da opção tática com três atacantes. Não é possível termos de contar sempre com os gols de defensores e dos meio-campistas para balançarmos as redes, né? O ataque precisa voltar a funcionar urgentemente! As esperanças passam pelos pés de Guerrero e de Martínez. O peruano estreará como titular enquanto o argentino ficará pela primeira vez no banco de reservas. A expectativa é que ele entre no segundo tempo. Com Chicão recuperado de contusão, o Corinthians escalado para a próxima rodada é o seguinte: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Douglas; Jorge Henrique, Romarinho e Paolo Guerrero. 8 de agosto de 2012 - quarta-feira A noite agradável de quarta levou 24 mil torcedores ao Pacaembu. A grande diferença de pontos na classificação e a disparidade de qualidade entre os jogadores do Timão e do Atlético Goianiense davam a certeza de vitória aos torcedores corintianos. Os mais otimistas esperavam uma goleada. O jogo começou aos gritos de "Vamos, vamos Corinthians! Esta noite, teremos que ganhar" vindos da arquibancada. Os quinze primeiros minutos foram condizentes com as expectativas da Fiel Torcida. Os donos da casa pressionaram muito e estavam na iminência de inaugurar o placar. Douglas deu ótimo passe para Romarinho na entrada da área. O atacante pegou mal na bola e a jogou longe. Minutos depois, o camisa 10 corintiano cobrou falta e exigiu bela defesa do goleiro adversário. O melhor momento dos alvinegros na primeira etapa aconteceu aos 14 minutos. Paulinho cruzou da direita e Jorge Henrique cabeceou muito próximo à trave. Uhhhhh. Quase o primeiro tento da noite. À medida que a primeira etapa corria, o Atlético-GO começava a sair mais nos contra-ataques. Na primeira oportunidade dos visitantes, o lateral-esquerdo do time goiano chutou cruzado rente à trave de Cássio. Quase! O Corinthians tinha mais chances, mas os lances mais perigosos eram dos visitantes. Nos 20 minutos antes do intervalo, o jogo ficou completamente aberto. O lá e cá indicava que o gol poderia sair a qualquer instante de algum dos lados. No fim, o 0 a 0 prevaleceu. O segundo tempo foi mais emocionante. Logo de cara, o Atlético aproveitou uma falta cruzada na grande área corintiana para marcar. Gol dos visitantes! O centroavante goiano aproveitou vacilo de Cássio e cabeceou para o fundo das redes. 1 a 0. O Corinthians então se lançou desesperadamente para o ataque. Jorge Henrique empatou de cabeça, mas o juiz marcou falta do camisa 23. Um absurdo! O gol foi legal, Jorge nem tocou no adversário na hora do cabeceio. Precisando reagir, Tite resolveu tornar sua equipe mais ofensiva. O gaúcho tirou Alessandro e colocou Martínez (Jorge Henrique virou lateral-direito) e substituiu Douglas por Ramirez. As chances dos mandantes se multiplicavam. Ralf e Paulinho perderam gols feitos dentro da pequena área. Depois de tanta pressão, Romarinho fez jogada pela direita e cruzou rasteiro. Paulinho chutou forte de primeira. Gol! Jogo empatado. O Timão teve outras boas oportunidades até o final, mas o segundo gol não quis sair. A partida terminou mesmo 1 a 1. Pela terceira vez seguida no Brasileirão, o Corinthians ficava na igualdade. Dessa vez, a sensação era de derrota. Afinal, o adversário era o saco de pancada do campeonato e o duelo fora no Pacaembu. A formação com três atacantes também não funcionou. Douglas sozinho na armação das jogadas foi o pior em campo. Foi substituído sob vaias. Paolo Guerrero não conseguiu chutar nenhuma vez ao gol. Muito pouco para um centroavante com seu gabarito. Os atacantes passaram mais uma partida sem marcar. Agora são oito partidas em jejum. A torcida deixou o estádio municipal decepcionada com o resultado e com a atuação da equipe. 9 de agosto de 2012 - quinta-feira O empate com o Atlético-GO em casa surpreendeu a todos. Chicão foi o primeiro a se dizer espantado com o placar da partida. “É um resultado que a gente não esperava, com todo respeito. Eles defenderam o tempo todo, jogaram uma bola e conseguiram o gol”, lamentou o camisa 3. O técnico Tite reconheceu o mau futebol da equipe, mas preferiu sair em defesa dos jogadores. Para o treinador, o baixo desempenho em campo na quarta-feira era explicado pela ausência de vários atletas titulares do primeiro semestre. Sem eles, o entrosamento do time naturalmente diminui. “É um reajuste natural que temos que passar por isso. Estamos sem quatro ou cinco (jogadores) que terminaram a Libertadores. Você não consegue fazer isso sem aquela fluência”, declarou Tite, lembrando que Danilo e Emerson Sheik, lesionados, não enfrentaram o Atlético-GO e Leandro Castán e Alex não compõem mais o grupo corintiano. Outra questão debatida pelo técnico foi o esquema tático. A utilização do 4-3-3 não foi tão positiva. Os jogadores do Timão não se acharam em campo. Ao invés de proporcionar mais ofensividade, a nova engrenagem gerou confusão e enfraqueceu a defesa alvinegra. O Atlético chutou dez bolas ao gol de Cássio, a maioria com muito perigo. Se os visitantes tivessem caprichado um pouco mais nas finalizações, poderiam ter saído com uma bela vitória do Pacaembu. “Quando se mexe num jogador (tirando um meia e colocando mais um atacante), o time passa por processo de adaptação. Eu não quero e não aceito quando perde em organização. Mas o time fez (uma partida) abaixo do que é normal”, acrescentou o gaúcho. Pelo visto, Tite só voltará a escalar a equipe com três homens de frente depois de treinar muito o esquema tático. A única boa notícia do duelo da quarta-feira foi a estreia do argentino Martínez. Ele entrou no segundo tempo e atuou por meia hora. O novo camisa 7 foi bem: acertou a maioria dos lances e mostrou muita vontade. Martínez promete dar trabalho aos adversários quando estiver em forma. É um belo reforço que conseguimos. Quem ainda não demonstrou bom futebol com a camisa corintiana foi o centroavante Paolo Guerrero. Em quatro jogos pelo Timão, o peruano ainda não conseguiu chutar ao gol adversário. Ontem, no primeiro jogo como titular, ele perdeu nove bolas para os adversários. Guerrero trombou com os zagueiros, demonstrou vontade, mas foi pouco efetivo. Ainda falta ritmo de jogo para ele. O Corinthians segue com a série invicta, agora de sete partidas. Se não perde há mais de um mês, podemos também dizer que não vence há três rodadas. Com a sequência de empates nas últimas partidas, o Timão não sabe qual é o sabor de ganhar os três pontos há 15 dias. Dessa maneira, a pretensão de galgar posições na tabela de classificação do Brasileirão foi interrompida. Cada vez mais, a conquista do título nacional da temporada de 2012 fica mais difícil e distante do Parque São Jorge. 10 de agosto de 2012 - sexta-feira Minha sexta-feira foi inteiramente dedicada à Bienal do Livro de São Paulo. No principal evento editorial do país, as maiores editoras, livrarias e distribuidoras brasileiras se reúnem para apresentar as novidades ao mercado. Nessa que é a 22ª edição da Bienal, a expectativa dos organizadores é que aproximadamente 800 mil pessoas visitem o Centro de Convenções do Anhembi nas duas semanas do evento. Diferentemente da maioria dos visitantes que percorre os estandes com o intuito de comprar obras com desconto, de adquirir em primeira mão os lançamentos mais aguardados ou de simplesmente passear pelo local, minha intenção era pesquisar quais editoras poderiam se interessar pelo O Ano que Esperávamos Há Anos. Para descobrir, precisei analisar atentamente o perfil editorial de cada empresa. Conversei também com os representantes das principais companhias. Percorri os 60 mil metros quadrados da feira em um dia inteiro. Saí da Bienal morto de cansado, mas bastante feliz. A esperança de ver essa obra publicada foi renovada. Acredito que encontrei algumas editoras que podem publicar a saga desse corintiano maloqueiro e sofredor. Não sei se comentei, mas nas últimas seis semanas revisei completamente as páginas do meu livro. Retomei os acontecimentos desde o primeiro dia de 2012 e analisei os textos página a página. Basicamente, corrigi os erros de português e fiz alterações para tornar a leitura mais agradável. Não mexi na essência dos relatos, apenas tentei melhorá-los. Espero ter deixado a obra mais interessante. Pensando em ter uma opinião prévia de como O Ano que Esperávamos Há Anos está ficando, combinei com meu amigo Paulo para ele fazer uma análise crítica da obra. Enviei o material feito até aqui e ele avaliará nas próximas semanas. Paulo Sousa é sempre o primeiro a ler meus livros (juntamente com o Roberto S. Inagaki). Foi assim com o Explosão da Inovação (2010), cuja temática envolvia o mundo empresarial. E será dessa maneira com as três obras que estou escrevendo em 2012: O Ano que Esperávamos Há Anos, O Ghost Writer (sobre Estratégia Empresarial que estou fazendo com o Sr. Inagaki) e o romance (que ainda não tem nome) sobre a História do Brasil. Assim que receber os comentários do Paulo e fizer as mudanças necessárias, estarei pronto para começar o envio dos originais para os editores. Gostaria que O Ano que Esperávamos Há Anos fosse lançado ainda em 2013. Acredito que os corintianos ainda estarão eufóricos com a conquista do Mundial Interclubes em dezembro (tenho certeza de que iremos obter mais um troféu reluzente) e vão querer adquirir minha obra. Só não sei se será viável publicar o livro em um prazo tão curto. Acho quase impossível terminar o texto, revisar o material, encontrar uma boa editora e publicar O Ano nos próximos dois anos. Se não der para lançá-lo em 2013, irei guardar a obra para apresentá-la em 2017 ou em 2022. Já pensou O Ano que Esperávamos Há Anos chegando aos leitores durante as comemorações dos cinco ou dos dez anos da conquista da nossa primeira Liberta, hein? Vai ser muito legal se utilizarmos a efeméride para a divulgação! 11 de agosto de 2012 - sábado Até agora a Seleção Brasileira só havia conseguido chegar a duas finais olímpicas no futebol masculino. Em 1984 e 1988, os brasileiros ficaram com a medalha de prata. Como eu era muito pequeno naquela época, obviamente não me lembro de nada. Hoje, os jogadores da equipe canarinho disputaram a terceira final da competição, dessa vez no emblemático Estádio de Wembley. A partida foi contra o México e valia a medalha de ouro em Londres. Por se tratar de um jogo histórico, eu me preparei para acompanhar o confronto pela televisão. Na terça-feira passada, nas semifinais, o Brasil havia passado pelos sul-coreanos por 3 a 0 e os mexicanos derrotaram os japoneses na prorrogação por 2 a 0 (no tempo normal foi 2 a 2). Os brasileiros entraram em campo nesse sábado de manhã como favoritos ao ouro, pois tinham Neymar, Oscar, Alexandre Pato e Thiago Silva, estrelas de primeira grandeza do futebol mundial. O adversário era formado por desconhecidos e inexperientes jogadores. Para piorar a situação dos mexicanos, Giovanni dos Santos, sua única estrela, ficou no banco de reservas por ter se machucado na última partida. A zebra apareceu aos 30 segundos de jogo. Logo na saída de bola, o México marcou o gol em uma falha do lateral-direito brasileiro. Com a inferioridade no placar, os jogadores comandados pelo técnico Mano Menezes se perderam em campo e não conseguiram jogar bem. Mesmo com a melhora no segundo tempo, ainda sim foi pouco para quem almejava o título. No final da partida, os mexicanos ampliaram o marcador. O resultado só ficou em 2 a 1 porque, no último lance, o Brasil conseguiu descontar. Festa mexicana em Londres. Pela terceira vez, a seleção verde-amarela volta com a medalha de prata no peito. Uma grande decepção para quem esperava o 1º lugar. A desilusão é ainda maior porque os jogadores que disputaram as Olimpíadas formam a base do nosso time que atuará na próxima Copa do Mundo. Tempos difíceis esses para o Brasil! Para me animar um pouco, depois de tanto desapontamento, comprei o jornal O Lance! à tarde para ler sobre o time que realmente me dá alegrias. As notícias do Timão para domingo eram boas. O técnico Tite poderá escalar força máxima contra o Coritiba no duelo de amanhã na capital paranaense. Com a recuperação de Danilo, o Corinthians voltará ao esquema tático 4-4-2, com o camisa 20 formando dupla na armação de jogadas com Douglas. Paolo Guerrero volta para o banco de reservas. O time corintiano irá assim para o próximo desafio: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Douglas e Danilo; Romarinho e Jorge Henrique. O jogo de amanhã é considerado o confronto entre o pior ataque da competição (infelizmente o Timão tem esse nada honroso desempenho) e a pior defesa do nacional (essa marca é do Coxa). Se o ataque do Corinthians não balançar as redes dessa vez, acho que nunca mais conseguirá. Torcemos para que tudo dê certo e que as vitórias voltem para o lado do Parque São Jorge o mais rapidamente possível. 12 de agosto de 2012 - domingo Coritiba e Corinthians foram a campo no estádio Couto Pereira precisando vencer. Os paranaenses, vice-campeões da Copa do Brasil, vinham de duas derrotas consecutivas e flertavam com a zona de rebaixamento. Uma nova derrota ou mesmo um empate em casa complicaria ainda mais a vida do Coxa Branca. O alvinegro paulista estava invicto a sete partidas. Os três pontos se faziam necessários porque o Timão apenas empatara nas três últimas apresentações. Perdeu, assim, algumas posições na classificação e teve interrompida a ascensão ao topo da tabela. O jogo começou muito parecido aos dois últimos confrontos do Corinthians fora de casa (contra Bahia e Vasco da Gama). A equipe de Tite dominava as ações ao permanecer com a posse da bola e não dava espaços para o adversário atacar. O maior volume dos visitantes, todavia, não se transformava em jogadas de perigo lá na frente. O time tocava a bola para lá e para cá. Porém, nada de um chute a gol. Essa foi a tônica do primeiro tempo. O único lance de perigo dos campeões sul-americanos aconteceu em um arremate de fora da área de Romarinho. O goleiro paranaense pegou com facilidade. Quando todos se preparavam para voltar para o vestiário com o empate de 0 a 0, o Coritiba arranjou um bom ataque aos 45 minutos. Em uma troca de passes envolvente, o atacante do Coxa ficou na frente de Cássio e fuzilou. Gol do Coritiba. No primeiro e único ataque dos mandantes, eles abriram o placar. Injustiça! No segundo tempo, Tite mexeu. O gaúcho colocou Paolo Guerrero e Martínez e sacou Douglas e Fábio Santos. A ordem era atacar. A nova formação com mais atacantes logo se mostrou exitosa. As chances de gol do Timão brotavam de todos os lados. Em menos de cinco minutos, os alvinegros já haviam chutado mais ao gol do que na primeira etapa inteira. O efeito colateral da postura mais ofensiva estava nos maiores espaços deixados lá atrás. Se aproveitando disso, o Coritiba também teve suas chances. Cássio evitou a ampliação do resultado negativo. O jogo ficou lá e cá, muito bom de se assistir. Aos 24 minutos, Jorge Henrique, transformado em lateral-esquerdo com a saída de Fábio Santos, cruzou. Paulinho cabeceou para marcar seu 24º gol com a camisa mosqueteira. Partida empatada! O gol mexeu com a estabilidade emocional dos jogadores mandantes. Eles se perderam completamente. Os corintianos, por sua vez, cresceram. Martínez era o melhor jogador em campo. O novo dono da camisa 7 do Coringão armava jogadas, cabeceava, chutava para o gol e fazia lançamentos primorosos. Em uma das jogadas iniciadas pelo argentino, aos 45 minutos, Paulinho cruzou. E Romarinho de letra colocou para dentro. Golaço de Romarinho!!! Virada do Timão em Curitiba. Enquanto os corintianos comemoravam mais um belo gol do camisa 31, o juiz terminou a partida. A vitória permitiu ao Corinthians voltar para a 10ª colocação do Brasileirão (são 21 pontos ganhos). A série invicta passou para oito partidas. O mais importante foi ter visto o ataque voltar a jogar bem e a marcar. Romarinho acabou com o jejum de gols e Martínez mostrou-se um craque. A alma da Fiel Torcida ficou mais leve nessa noite. 13 de agosto de 2012 - segunda-feira Futebolisticamente falando, o final de semana foi farto em polêmicas. A maioria ainda repercute. A derrota brasileira na final das Olimpíadas e as péssimas apresentações da equipe de Mano Menezes foram mal-recebidas pela torcida e pelos cartolas da confederação. A demissão do treinador é quase um consenso de Norte a Sul. Antes mesmo do presidente da CBF tomar a decisão, os jornalistas esportivos já começam a ventilar os nomes dos prováveis postulantes ao cargo. Os favoritos são Luiz Felipe Scolari do Palmeiras, Muricy Ramalho do Santos e Tite do Corinthians. Tite do Corinthians?! Nem brinquem com isso! É verdade, nosso técnico é atualmente o melhor do país, mas tirá-lo agora do Timão, no meio da preparação para o Mundial, nem pensar. Vamos deixar o Tite pelo menos até o final do ano no Parque São Jorge (por que os dirigentes corintianos não fazem um contrato de quatro ou cinco anos com o gaúcho?) e vamos colocar outro nome na equipe nacional. Estamos combinados? Outro tema polêmico dos últimos dias foi a venda milionária do atacante Lucas do São Paulo para o Paris Saint-Germain por R$ 108 milhões (cerca de 43 milhões de euros). Trata-se da maior transação da história do futebol brasileiro. Os são-paulinos estão empolgados com a bolada que vão receber. Eles já fazem planos de investimento. O mais curioso é como os torcedores do tricolor aproveitaram o episódio para provocar um pouco os rivais corintianos. Veja o diálogo travado entre meu tio e meu pai no último domingo, em pleno Dia dos Pais. "O Lucas sozinho vale mais do que aquele timinho inteiro de vocês que teve a sorte de vencer a Libertadores", disse meu tio são-paulino. "É, tem time que ainda precisa vender jogador para faturar. O Corinthians recebeu quase esse montante da Globo (R$ 60 milhões) pela audiência da Libertadores e não precisou vender ninguém. Pelo contrário, tem contratado", rebateu meu pai para delírio dos alvinegros presentes na reunião familiar. Outro tema de destaque na mídia é a excelente campanha do Atlético Mineiro. O Galo venceu mais uma partida no último domingo. Chegou a 38 pontos ganhos e está três a frente do Fluminense, o vice-líder. Vale lembrar que o Atlético tem uma partida a menos, pois o confronto com o Flamengo foi adiado para setembro. Dessa maneira, os atleticanos têm um incrível aproveitamento de 84% (12 vitórias, 2 empates e 1 derrota). Faltando quatro jogos para o término do turno, o Galo pode superar a campanha do Grêmio de 2008 (41 pontos ganhos naquele 1º turno), o melhor da história. Mesmo com a liderança folgada, o clima começa a desandar por lá. No final de semana, Ronaldinho Gaúcho brigou com o presidente atleticano por esticar as baladas e se atrasar para comparecer à concentração do time. Quase foi expulso do clube (na verdade, ele foi expulso, mas os demais jogadores pediram para o comandante máximo rever a decisão, o que foi feito em seguida). Será o prenúncio de uma futura queda do líder do Brasileirão nas próximas rodadas? Tomara! Para encerrar, a arbitragem do Brasileirão tem sido protagonista em vários jogos, com erros absurdos e interferência indevida nos placares. A maioria dos times tem reclamado da atuação dos juízes. Ainda bem, o Timão não tem sido muito (eu disse muito!) afetado, apesar de toda partida ter um pênalti a seu favor não marcado... 14 de agosto de 2012 - terça-feira A vitória de virada sobre o Coritiba trouxe de volta a tranquilidade e a alegria aos jogadores corintianos. No CT Joaquim Grava, o mais empolgado era Romarinho. O jovem atacante havia feito três gols nos dois primeiros jogos com a camisa do Timão (Palmeiras e Boca Juniors). Depois disso, ficou várias partidas sem balançar as redes. Mesmo com as boas atuações, a pressão para o avante voltar a marcar era grande, principalmente porque os atacantes não faziam gol há mais de um mês. E quem marcou naquela oportunidade foi Liedson, agora fora do clube. Com o golaço feito aos 45 minutos do segundo tempo, Romarinho pode respirar aliviado. “Com certeza eu estava precisando deste gol. O Tite me deu confiança e liberdade. Felizmente deu tudo certo. Foi uma jogada feliz e um gol bonito. Mas o importante é o resultado”, disse a revelação alvinegra para a rádio Estadão/ESPN após a partida. Curioso que o camisa 31 não sabe fazer gol feio. Todos os seus quatro tentos pelo Timão foram espetaculares. Agora alguém precisa ensinar o garoto a marcar alguns gols feinhos também, porque eles valem tanto quanto os bonitos. Quem também surpreendeu positivamente no domingo foi Martínez. O novato é realmente um grande jogador! Pela atuação no segundo tempo em Curitiba, deu para perceber como o argentino é diferenciado: sabe chutar bem, é habilidoso, toca a bola com competência e é inteligente. Quando ele entrar em forma, será titular do ataque corintiano em um piscar de olhos. Uma dupla com ele e Emerson lá na frente é certeza de muitos gols. E por falar do camisa 11, Sheik já está treinando. Ele está recuperado da lesão no tornozelo esquerdo e pela primeira vez em duas semanas foi ao gramado nessa terça-feira. Ele apenas correu em volta do campo, mas tudo indica que seu retorno ao time está cada vez mais próximo. Possivelmente ele estará entre os titulares no clássico do próximo domingo contra o Santos na Vila Belmiro. Aqui vão outras notas sobre o elenco alvinegro. O Corinthians emprestou Élton para o Vitória até o final do ano. O centroavante, que não conseguiu demonstrar bom futebol e estava encostado, jogará pela equipe baiana na Série B. Se uns vão, outros chegam. Depois de meses e meses de negociação, o volante Guilherme da Portuguesa foi anunciado como o novo reforço do Timão. A jovem promessa assinou contrato de cinco anos com a equipe do Parque São Jorge. Deve ser o reserva imediato de Ralf. Para contar com o volante de 21 anos, o Corinthians pagou R$ 7 milhões por 70% do passe do atleta (o restante continua nas mãos de empresários e do jogador). Guilherme vem para suprir a carência de primeiro volante do elenco corintiano. É um excelente reforço para o Brasileirão e para o Mundial de Clubes da FIFA. Nem tudo são flores para a comissão técnica nessa semana. A próxima partida é na quinta-feira contra o Internacional, um dos favoritos ao título. Tite não poderá contar com seis jogadores: Romarinho (suspenso), Paulinho, Paolo Guerrero e Ramirez (nas respectivas seleções), Edenílson (machucado) e Emerson (retomando o preparo físico). Ou seja, o treinador deverá quebrar a cabeça para escalar a equipe. 15 de agosto de 2012 - quarta-feira Corinthians e Internacional. Esse jogo tem história! A rivalidade entre paulistas e gaúchos cresceu substancialmente nos últimos anos. Os colorados são os maiores vencedores do país no século XXI com 14 conquistas importantes (8 Gauchões, 2 Libertadores, 1 Mundial, 1 Copa Sul-Americana e 2 Recopas Sul-americanas). O Timão vem logo atrás com 9 troféus relevantes (3 Paulistões, 1 Rio-São Paulo, 2 Campeonatos Brasileiros, 2 Copas do Brasil e 1 Libertadores). Repare que a maioria dos títulos do Internacional aconteceu no cenário continental, enquanto os troféus corintianos se concretizaram quase que exclusivamente no âmbito nacional. É justamente essa a diferença que acirra a rivalidade entre as agremiações. Os colorados não vencem o Campeonato Brasileiro desde 1979 e a Copa do Brasil desde 1992. Nos últimos anos, quando esteve mais perto de ganhá-los (Copa do Brasil de 2009 e Campeonato Brasileiro de 2005), o Inter perdeu para a equipe do Parque São Jorge. Já os corintianos olham com inveja a galeria de conquistas internacionais do adversário, almejando incorporá-las também ao seu currículo. Com tal ingrediente, as duas equipes irão ao gramado do Pacaembu amanhã para o confronto direto. Os gaúchos estão na sexta posição do Brasileirão e querem o título. Os paulistas estão no meio da tabela e precisam subir mais. O único ponto negativo do duelo é a série de desfalques que os dois times têm. A ausência de vários jogadores importantes no Timão fez o técnico Tite optar pela seguinte escalação: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Willian Arão, Douglas e Danilo; Martínez e Adílson. As grandes surpresas do time corintiano estarão na reserva. Com a falta de jogadores para compor o grupo, o treinador relacionou vários jovens (Denner, Marquinhos, Giovanni) e o chinês Zizao para o banco. Lembram-se do chinês? Ele continua no clube e voltará a acompanhar uma partida oficial da suplência. A última vez que Zizao foi relacionado tem exatamente quatro meses. Ele era um dos corintianos à disposição do técnico no jogo contra a Ponte Preta na última rodada da primeira fase do Campeonato Paulista. Tite já afirmou que não o colocará em campo dessa vez, pois ele ainda não fez treinamentos suficientes para ir ao gramado. Se do lado alvinegro os desfalques são numerosos, no Internacional podemos dizer que as ausências formam um time inteiro. Com jogadores convocados pelas seleções brasileira, argentina e uruguaia, com as suspensões, os contundidos e os atletas recém-contratados em fase de recondicionamento físico, o treinador colorado deverá colocar em campo uma equipe quase inteira de reserva. Se no papel o Inter possui um dos elencos mais fortes do Brasil, na prática seus torcedores são obrigados a assistir aos jogos com os jogadores coadjuvantes. Tudo por culpa do calendário do futebol brasileiro que atrapalha as equipes mais talentosas. Não é errado afirmarmos que estarão em campo no Pacaembu amanhã o Corinthians B enfrentando o Internacional C. É uma pena para o espetáculo. 16 de agosto de 2012 - quinta-feira Como vem ocorrendo nas partidas em casa do Timão após a conquista da Copa Libertadores, a torcida corintiana não decepcionou. Ela compareceu em bom número ao Paulo Machado de Carvalho na noite dessa quinta-feira. Aproximadamente 28 mil corintianos foram ao estádio para ver Timão e Internacional de Porto Alegre pelo Campeonato Brasileiro. Mesmo com os vários desfalques dos dois lados, o jogo valia pela rivalidade crescente entre as agremiações. E o duelo começou com tudo! Aos 40 segundos, o centroavante colorado cabeceou a bola para as redes de Cássio. Enquanto a torcida vermelha e branca comemorava, o juiz marcava impedimento. Realmente ele estava adiantado: posição ilegal! No lance seguinte, o Timão foi para o ataque. Adilson fez boa jogada pela esquerda. No meio de três marcadores, o atacante conseguiu chutar para o gol. O goleiro gaúcho bateu roupa e a bola se insinuou para Danilo. Infelizmente, o zagueiro visitante tirou a redonda da área antes que o meio-campista corintiano pudesse arrematar. Quase! Depois disso, a partida ficou sonolenta e sem grandes atrativos. As duas equipes erravam muitos passes e não conseguiam chegar ao gol adversário. Não ocorreu mais nenhuma jogada perigosa até o intervalo. O Corinthians estava bem na defesa, mas o meio campo não criava boas jogadas para os atacantes. Adilson e Martínez precisavam recuar para receber a bola. Assim, o placar de 0 a 0 me pareceu justo, muito justo, justíssimo. O segundo tempo manteve a tônica da primeira etapa. As equipes marcavam bem e os ataques estavam pouco inspirados. Como solução para chegar ao gol, os times procuravam os cruzamentos aéreos na grande área. Primeiro, o Corinthians cobrou com Douglas uma falta no meio campo. O goleiro do Inter pegou fácil no alto. Na sequência do lance, o arqueiro deixou a bola escorregar na frente de Adilson. O atacante quase aproveitou. Uhhh! O goleirão estava louquinho para nos entregar um gol. O Internacional também tentou alguns cruzamentos para seu centroavante. Quando a bola não ia para fora, Cássio estava lá para defender. Aos 23 minutos, Fábio Santos sofreu falta na lateral esquerda. Douglas cobrou em direção à área. Aproveitando-se da altura e da boa impulsão, Paulo André cabeceou no ângulo. Indefensável! Gol do Corinthians!!! 1 a 0 no Pacaembu. Com a vantagem, a equipe da casa teve a calma e a paciência necessárias para tocar a bola e administrar o resultado até o final. Os corintianos comemoraram mais uma vitória na competição. Mesmo com o fraco desempenho, eles foram embora felizes com os três pontos computados. O Timão chegou agora à 9ª colocação no campeonato. São 24 pontos ganhos. A diferença para o primeiro colocado caiu para 15 pontos. E estamos a apenas seis pontos do Internacional, o 5º na classificação. Estamos chegando! Invicto a nove partidas (cinco vitórias e quatro empates), o Corinthians vai com moral para os clássicos estaduais. Nas duas últimas rodadas do primeiro turno, enfrentaremos Santos e São Paulo. 17 de agosto de 2012 - sexta-feira Já se passaram mais de 200 dias de 2012 e eu ainda não tive a oportunidade de falar de Fábio Santos no O Ano que Esperávamos Há Anos. Acho que o lateral-esquerdo é o único titular de Tite que ainda não mereceu uma descrição ou um comentário mais extenso da minha parte. Esse fato é justificado pelas características do jogador dentro e fora das quatro linhas. Fábio Santos é muito reservado e um pouco tímido. Seu futebol é extremamente regular. Dificilmente ele se destaca em campo, seja positiva ou negativamente. O camisa 6 é um jogador nota 6. Se não é excelente em nenhum fundamento, por outro lado não tem deficiências gritantes. Fábio chegou ao Timão no começo da temporada passada vindo do Grêmio. A ideia da diretoria e da comissão técnica corintiana era ter um lateral-esquerdo para a reserva de Roberto Carlos, até então titular absoluto. Porém, logo no comecinho de 2011, aconteceu a fatídica partida contra o Tolima. Após viajar para a Colômbia, Roberto Carlos amarelou: não quis entrar em campo. Reclamou de incômodo muscular alguns instantes antes do apito inicial. Aí coube ao recém-contratado a tarefa de cuidar do lado esquerdo do Coringão. Fábio Santos não comprometeu, apesar da derrota e da eliminação traumática. Depois desse jogo, Roberto Carlos foi embora e a camisa 6 caiu no colo de Fábio. Com atuações regulares, o novo lateral demorou a provar seu valor. Os elogios só vieram após oito meses da estreia. O divisor de águas na carreira de Fábio Santos no Parque São Jorge foi o clássico contra o São Paulo no segundo turno do Brasileirão de 2011. Se o Timão perdesse a partida, o título nacional estaria quase perdido. E possivelmente o treinador corintiano seria mandado embora. Vale lembrar que o Timão vinha de uma sequência de derrotas e os protestos da torcida se intensificaram. Naquela oportunidade, Fábio Santos estava há várias semanas machucado e não tinha condições de jogo. Entretanto, como vários jogadores da defesa também estavam machucados, suspensos ou afastados, Tite teve que colocar Fábio no banco de reservas para completar o grupo. Ainda no primeiro tempo, para piorar as coisas, Leandro Castán se machucou. Sem outro defensor na suplência, coube ao ainda "baleado" camisa 6 entrar. E Fábio entrou. Sem estar totalmente curado da contusão e sem o preparo físico adequado, o lateral foi um leão no gramado e foi eleito um dos melhores em campo. O placar de 0 a 0 deixou o Corinthians ainda vivo na briga pelo título, mais tarde conquistado. E provou à torcida e à diretoria o valor do nosso lateral. Fábio Santos nasceu na cidade de São Paulo e tem 26 anos. Mesmo jovem, é considerado um atleta veterano. Isso porque se tornou profissional com apenas 18 anos no São Paulo. Com 19, já era o titular da lateral-esquerda do Morumbi. Após altos e baixos na carreira, Fábio jogou no Cruzeiro antes de ir para a Europa. No Velho Continente, atuou pelo Mônaco. De volta ao Brasil, vestiu as camisas de Santos e Grêmio. Quando o Timão o contratou em janeiro do ano passado, a Lazio estava querendo contratar o atleta. O lateral-esquerdo do Timão é assim: discreto, simples e eficiente. Ele joga para o time e não para torcida. 18 de agosto de 2012 - sábado Amanhã, teremos Santos e Corinthians na Vila Belmiro. Os rivais vivem momentos distintos no Campeonato Brasileiro. O Timão está na 9ª posição com 24 pontos e vem de uma boa série invicta. Os campeões da Libertadores chegam motivados e confiantes para o clássico. A ideia é subir ainda mais na classificação. Já o Santos ocupa apenas a 14ª posição com 20 pontos. A meta dos santistas é vencer a partida para apagar o mau desempenho do primeiro turno e se afastar de uma vez por todas da zona de rebaixamento. Se o campeonato de 2012 já parece perdido para a equipe da Baixada, o consolo será vencer o grande rival em casa. Essa é a maneira mais rápida de levar um pouco de alegria aos torcedores. No futuro, alguém poderá ler O Ano que Esperávamos Há Anos e se perguntar: "Afinal, como o Santos de Neymar e Ganso, campeão da Libertadores da América de 2011, semifinalista da competição continental em 2012 e tricampeão Paulista entre 2010 e 2012, conseguiu fazer uma campanha tão ruim nesse Campeonato Brasileiro? Como chegou ao final da primeira metade do torneio próximo aos últimos colocados?". A questão é válida e a explicação é simples. O Santos atuou com a equipe reserva em quase todas as partidas do campeonato nacional. No começo era para poupar os titulares para os desafios da Libertadores (algo feito também pelo Corinthians!). Com a eliminação na semifinal, os principais jogadores santistas foram convocados pela Seleção Brasileira. Depois de excursionar pela Europa e Estados Unidos, eles foram para as Olimpíadas de Londres. Dessa maneira, o técnico Muricy Ramalho perdeu suas grandes estrelas no primeiro turno inteiro. Somente agora Neymar, Ganso e o goleiro Rafael estão de volta à equipe da Baixada. Sem eles, os torcedores santistas tiveram que se acostumar com as derrotas e se contentar com as vitórias esporádicas. Para o clássico com o Timão, o Santos estará completíssimo. Todas as estrelas já regressaram. O Peixe quer dar à sua torcida o gosto saboroso da vitória sobre o principal adversário. Se vencer a partida de domingo, os santistas se esquecerão da péssima campanha nos demais jogos do campeonato. No lado corintiano, alguns desfalques são certos. Na lateral direita, Alessandro (suspenso) e Welder (machucado) não podem atuar. Com isso, o Timão terá a estreia do lateral Guilherme, vindo da Ponte Preta no final do Paulistão. Como agora há outro jogador com mesmo nome, recém-chegado da Portuguesa, o lateral será chamado de Guilherme Andrade e o volante ex-Lusa de Guilherme. Dá um pouco de medo de ver um jogador estreante e desconhecido incumbido de marcar Neymar no clássico? Dá! Porém, vamos torcer para Guilherme Andrade começar com o pé direito, né? Na zaga, Chicão (suspenso) dá lugar a Wallace. No ataque, Jorge Henrique (continua no departamento médico) e Emerson (readquirindo forma física) seguem fora. O Corinthians escalado por Tite é o seguinte: Cássio; Guilherme Andrade, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Douglas e Danilo; Romarinho e Paolo Guerrero. 19 de agosto de 2012 - domingo A Vila Belmiro estava lotada para ver o clássico paulista mais antigo. Pela terceira vez no ano, Corinthians e Santos se enfrentavam no litoral. Se pelo campeonato regional o time da casa tinha vencido por 1 a 0, no jogo da competição continental foram os visitantes quem saíram com o triunfo mínimo. Impossível não nos lembrarmos do golaço de Emerson naquela oportunidade! A partida começou e a primeira jogada de perigo foi do Santos. Após cruzamento da esquerda, a bola tocou no centroavante santista. Cássio foi obrigado a se esticar todo para defender. Depois do susto inicial, o Corinthians passou a dominar as ações. Primeiro foi Romarinho quem arriscou. O rápido atacante driblou o marcador e finalizou no cantinho. O arqueiro adversário fez ótima defesa. Depois foi Ralf quem mandou uma bomba de fora da área. Novamente o goleiro santista espalmou para escanteio. Romarinho e Guerrero tiveram outras oportunidades para abrir o marcador, mas falharam na hora da finalização. O gol corintiano só veio aos 30 minutos. Após cobrança de falta de Douglas no meio de campo, Danilo subiu mais alto do que a defesa anfitriã e mandou para o fundo das redes. Timão 1 a 0. O primeiro tempo caminhava para a vitória tranquila dos visitantes quando na única boa jogada dos santistas, Neymar conseguiu passar por três defensores e cruzou. O centroavante do Santos só precisou encostar o pé na bola para mandar para o fundo das metas de Cássio. Jogo empatado: 1 a 1. O segundo tempo começou com tudo para os campeões paulistas. Aos 3 minutos, o centroavante santista completou outro cruzamento e fez o segundo tento dele na tarde. Santos 2 a 1. No replay, foi possível ver o quanto o jogador estava em impedimento. Erro vergonhoso do bandeirinha. Timão prejudicado. Em desvantagem e nervosos pelo erro do juiz, os corintianos se perderam em campo. O Santos passou a dominar a segunda etapa e vários gols foram perdidos. Cássio fechou o gol e evitou o que poderia ser uma goleada. O Timão só melhorou um pouco após a entrada de Martínez no lugar de Danilo. Em jogada individual do argentino, o Corinthians conseguiu empatar. O camisa 7 se livrou da marcação e mandou no cantinho. Gooool. Partida novamente empatada. Enquanto os corintianos ainda comemoravam, o Santos conseguiu um escanteio. Na cobrança para a grande área, um defensor santista cabeceou livre. Gol do Santos. 3 a 2 para o Peixe. Aí não teve mais tempo para uma nova reação corintiana. Vitória dos campeões paulistas sobre os campeões da América. Se o resultado não agradou a Fiel Torcida, pelo menos o jogo foi agradável de se ver, com boas jogadas das duas equipes. Enquanto o Corinthians foi bem melhor no primeiro tempo, o Santos foi superior no segundo. A única nota lamentável do clássico foi o erro do juiz. O segundo gol santista foi validado erroneamente. Fazer o quê? Desse mal, o futebol ainda não tem uma solução definitiva. 20 de agosto de 2012 - segunda-feira "Errar é humano. Persistir no erro é burrice". Esse é um famoso ditado popular. Há também uma variação do mesmo provérbio que eu gosto muito: "Errar uma vez é humano. Duas é até compreensível. Mas errar três é burrice!". Aposto que você já viu um bandeirinha validar um gol em impedido, né? É normal, infelizmente, acontecer algo desse tipo. Trata-se de um erro humano. Você já viu, no mesmo lance, acontecer dois impedimentos em sequência e mesmo assim o juizão legitimar tudo? Repare que não estou dizendo que havia dois jogadores impedidos na mesma jogada. Estou dizendo: um jogador recebeu em posição irregular e depois passou a bola para outro também em condição ilegal. Ok, mesmo assim poderíamos dizer que o engano do assistente é compreensível. E se nesse lance acontecerem três impedimentos seguidos, hein?!!! Um atleta passou para outro em posição irregular, que passou para um terceiro, também em impedimento, que por sua vez lançou para um quarto jogador, também adiantado. Você já viu uma bizarrice desse nível?! Pois bem, o bandeirinha Emerson de Carvalho validou o segundo gol do Santos no clássico de domingo após três impedimentos do ataque santista em sequência. Eu confesso jamais ter visto um gol tão irregular como esse em toda a minha vida. Se não fosse trágica, a marcação do juiz poderia até ser encarada como engraçada. A jogada, pela falha clamorosa da arbitragem, ganhou repercussão mundial. O lance foi repetido várias vezes nas televisões do planeta inteiro para a indignação dos esportistas. Por causa do erro e da dimensão do caso, Emerson de Carvalho acabou afastado pela Comissão Nacional de Arbitragem por um mês. O ponto principal a ser debatido agora é por que não se insere de uma vez por todas o recurso eletrônico como ferramenta de auxílio ao juiz? Para quem estava em casa vendo o clássico pela televisão, deu para perceber na hora o impedimento – ou seriam os impedimentos?! Aí surge sempre alguém se opondo à modernização do esporte: "A graça do futebol é a polêmica, o gol marcado irregularmente ou o lance legal anulado erroneamente". Eu discordo dessa opinião. Tanto os corintianos estão chateados com a derrota injusta de ontem quanto muitos santistas devem estar envergonhados pela vitória irregular. O futebol já possui muitas polêmicas, muito mais interessantes para serem debatidas do que aquelas relativas à arbitragem. Para mim, quem defende os erros dos juízes está parado no tempo e preso ao passado medieval. As partidas e os campeonatos não podem continuar sendo decididos pelas falhas dos juízes! Isso não faz o menor sentido. É claro, como corintiano, fiquei revoltado com a derrota de ontem. Porém, fiquei mais chateado pela forma como ela aconteceu. Se o Santos tivesse ganhado na bola, com um gol legítimo, tudo bem. É do jogo. Mas não foi isso o que aconteceu. Assim como não quero ver meu time prejudicado, também não quero ver minha equipe beneficiada pela arbitragem. Se o árbitro consultasse as imagens da TV, como já acontece em várias modalidades esportivas, os erros seriam menores. Espero estar vivo para ver isso acontecer um dia no futebol. 21 de agosto de 2012 - terça-feira Enfim, estamos chegando à metade do Campeonato Brasileiro. No próximo final de semana, teremos a 19ª rodada, a última do 1º turno. Como já está virando tradição, esse é o final de semana dos grandes clássicos do futebol brasileiro. A CBF tem deixado para as últimas rodadas do 1º e do 2º turno do Brasileirão as partidas entre os rivais estaduais. Essa medida dá um tempero especial aos duelos derradeiros de cada turno. Mesmo que na última rodada os times não briguem por nada no torneio, a vontade de vencer o arqui-inimigo motiva os jogadores e mobiliza as torcidas. Além disso, evita-se que haja entrega de resultados para prejudicar o grande rival. Em duelos diretos, se alguém quiser atrapalhar os planos adversários precisa ganhar o jogo no campo. A tabela para o próximo sábado e domingo está recheada de disputas emocionantes. No Rio de Janeiro, teremos Vasco da Gama contra Fluminense e Botafogo versus Flamengo. Belo Horizonte verá Cruzeiro e Atlético Mineiro. Em Porto Alegre, o duelo ficará à cargo de Internacional e Grêmio. Sport e Náutico movimentam a capital pernambucana. A cidade de São Paulo verá Palmeiras versus Santos e o grande jogo do final de semana, Corinthians e São Paulo. Para permitir aos clubes se prepararem melhor para esses confrontos, não teremos jogos no meio de semana. Para os corintianos, está cada vez mais difícil conquistar o sexto campeonato nacional. A campanha espetacular do Atlético Mineiro em 2012 e o fraco desempenho dos jogadores do Parque São Jorge no início da competição, quando priorizaram a Libertadores, tornaram a primeira posição um sonho quase impossível para a Fiel Torcida. A diferença do líder Atlético para o décimo colocado Corinthians é de 18 pontos (e os mineiros ainda têm um jogo a menos). Assim, a pretensão corintiana para os próximos três meses está em preparar o time para o Mundial de Clubes. Enquanto as partidas no Japão não chegam, nossa maior preocupação será ganhar os clássicos estaduais, os jogos que realmente valem a pena no Brasileirão. E dos duelos regionais, não há nenhum mais saboroso e esperado do que contra o São Paulo Futebol Clube. Se o tricolor paulista detinha a hegemonia do futebol nacional entre os anos de 2005 e 2008 (quando foi campeão três vezes do Brasileirão e ganhou uma Libertadores e um Mundial), o Timão passou a dominar o cenário futebolístico após 2009 (sendo campeão do Paulistão, da Copa do Brasil, do Campeonato Brasileiro e da Libertadores da América). Esse contraste acirrou a rivalidade entre as agremiações nos últimos anos e alçou o Majestoso ao principal duelo do futebol paulista na atualidade. Esse é um jogo imperdível para corintianos e são-paulinos. Como a partida desse turno será no Pacaembu, mando do Corinthians, resolvi assisti-la no estádio. No instante em que as bilheterias forem abertas para os torcedores não associados ao Programa Fiel Torcedor (meu plano já expirou!), irei lá comprar minha entrada. Não perderei esse jogo por nada nesse mundo. 22 de agosto de 2012 - quarta-feira Cássio agora é goleiro de seleção! O arqueiro corintiano foi convocado hoje pelo técnico Mano Meneses para integrar a Seleção Brasileira que disputará dois amistosos em setembro. Os adversários serão África do Sul e China. Paulinho foi mantido no grupo e, dessa maneira, o Timão terá dois jogadores entre os melhores da nação. O titular da meta alvinegra completa uma incrível reviravolta na carreira em menos de um ano. Nesse período, o jogador saiu do ostracismo vivido na Holanda, onde era um desconhecido reserva do PSV, para se tornar goleiro da Seleção Brasileira. Nesse meio tempo, foi para o Corinthians no início de 2012 e permaneceu alguns meses como a terceira opção do treinador. Após as falhas do titular, Cássio virou o dono da posição na Libertadores, sendo campeão com ótimas e decisivas atuações. Cássio já virou ídolo corintiano. Entrou para a história do clube com a conquista do torneio continental. Ele vem até sendo muito comparado ao goleiro Dida, ídolo corintiano no início da década passada e último goleiro do Timão a vestir a camisa verde e amarela. Assim como o veterano arqueiro, hoje na Portuguesa, Cássio é alto (ambos têm 1,95 metro) e é extremamente calmo embaixo da meta. Sua frieza e controle emocionais são acima da média. Essa é a segunda vez em que Cássio é convocado. A primeira aconteceu em 2007, quando ainda estava no Grêmio. Na época, tinha apenas 19 anos. A jovem promessa ficou no banco de reservas, após o corte do goleiro Hélton, nos amistosos contra Chile e Gana. Naquela oportunidade, Cássio não tinha qualquer chance de conseguir a vaga de titular da seleção. Dessa vez é diferente. O corintiano chega como favorito para assumir a camisa 1 da nação pentacampeã do mundo e acabar com a indefinição no gol brasileiro. O Brasil não tem um arqueiro unânime para a próxima Copa do Mundo. Mano Meneses já chamou 12 goleiros nos dois anos em que está no cargo. Parece não ter confiança em nenhum deles. Pelo visto, o enredo na seleção será idêntico ao que assistimos no Timão. Depois das falhas de Júlio César no estadual, o gol corintiano ficou vago no momento mais crítico da temporada: o início da fase de mata-mata da competição sul-americana. Cássio foi escolhido pela comissão técnica. Entrou tranquilo e seguro. Ele atuou em todas as partidas eliminatórias da Libertadores e sofreu apenas dois gols em oito partidas. O ótimo desempenho e o título renderam o reconhecimento da Fiel Torcida e, agora, a lembrança de Mano. Há menos de dois anos para a Copa do Mundo no Brasil, Cássio terá a grande chance de mostrar que também tem condições de ser o titular da camisa canarinho. Condições para isso ele tem de sobra. Se Cássio aguentou a pressão de ser o arqueiro do Timão em uma Libertadores, porque não pode aguentar a pressão de ser o camisa 1 do Brasil na Copa disputada em casa, hein? Se ele começar jogando alguma partida pela seleção, tenho certeza de que não sairá nunca mais do time nacional. Boa sorte, Cássio! Seu destino é mesmo vestir a camisa 1 da nação brasileira! 23 de agosto de 2012 - quinta-feira Hoje, fui comprar o ingresso para o jogo de Corinthians e São Paulo. Antes de sair de casa, acessei a Internet para ver as notícias. Foi possível verificar que mais de 27 mil lugares já haviam sido vendidos para o Majestoso. Essas entradas foram comercializadas pelo Fiel Torcedor. A partir dessa quinta-feira, começava a operação na bilheteria física. Para não correr riscos de ficar sem ingresso ou de sofrer com as filas, resolvi chegar ao estádio no primeiro horário, logo no início das vendas. Antes de me deslocar para lá, pensei no quanto seria interessante levar alguém comigo para ver essa partida. Quem poderia ser? Aí lembrei-me de algo que só descobri há algumas semanas. Nos jogos no Estádio do Pacaembu, um local público, aposentados e pessoas acima de 60 anos não pagam para entrar. É uma lei municipal. Dessa maneira, poderia levar meu Tio Luiz só pagando a minha entrada. Além de ser uma ótima companhia e não prejudicar meu orçamento (ele tem 65 anos), seria interessante assistir ao Majestoso ao lado de um são-paulino fanático. Obviamente, ele estaria camuflado no meio dos corintianos. Pelo menos essa era a minha ideia... O problema do meu tio é que ele não é uma pessoa discreta. Lembrei-me automaticamente do Corinthians e São Paulo em que assistimos juntos em 1994. Como o mando de campo era do Timão, meu tio decidiu ficar no meio dos corintianos para não ficar no tobogã (local destinado aos visitantes). Eu, ainda garoto, adorei por não precisar estar entre os tricolores. Naquele dia, o São Paulo ganhou de 4 a 3. Meu tio comemorou todos os gols como se estivesse no meio dos são-paulinos. Juro que não sei como saímos vivos (e ilesos!) do estádio naquele dia/noite. Apesar desse ponto de preocupação, liguei para o Tio Luiz para saber se ele aceitava o meu convite. Prontamente, ele concordou. Então, combinamos de nos encontrar na casa dele para irmos juntos naquela manhã até a bilheteria. Chegamos às 10 horas na Praça Charles Miller. Pegamos uma fila razoável para comprar as entradas. Às 11 horas, estávamos com a primeira missão cumprida. Agora bastava aguardar a chegada do domingo à tarde para conferir o clássico pessoalmente. No caminho de volta, meu tio disse: "Precisamos parar aqui. Tem uma lotérica naquela rua. Preciso fazer um joguinho (da Mega-Sena)". O curioso é que a lotérica escolhida por ele ficava na Avenida Turiassu, em frente ao Palmeiras. Na hora de fazer a aposta, o sistema do estabelecimento caiu. Meu tio quis ir embora e eu não deixei. Evidentemente, havia algo de errado. O sistema caiu justamente quando um são-paulino fazia aposta no estabelecimento palmeirense, após adquirir a entrada para ver um jogo no meio da torcida do Corinthians! Com a sequência de fatos improváveis, estava claro: ele ganharia no sorteio, se jogasse naquele instante. Aguardamos pacientemente. Depois de quase uma hora, o sistema voltou e tivemos a certeza de termos feito a coisa certa. Meu tio ficou otimista: dessa vez iria ganhar na loteria. E eu fiquei contente: teria uma companhia divertida no próximo domingo à tarde. No meu caso, a loteria já fora conquistada em 4 de julho. 24 de agosto de 2012 - sexta-feira É incrível como as notícias do futebol envolvendo as negociações de atletas podem enganar (e assustar) a gente, né? De manhã, li uma matéria publicada no UOL Esporte com o seguinte título: "Paulinho chega à Inter de Milão em janeiro de 2013, diz jornal". Desanimado com a informação, li atentamente a reportagem: "De acordo com o jornal Gazzeta dello Sport, a Inter de Milão acertou um acordo com o volante corintiano Paulinho, convocado nesta quinta-feira para defender mais uma vez a Seleção Brasileira de Mano Menezes. Segundo a publicação, os últimos detalhes foram acertados entre os representantes do jogador e o clube. Paulinho se apresentaria em janeiro de 2013". Era um balde de água fria para quem sonhava com um Timão forte e competitivo na disputa pelo bicampeonato da Libertadores no ano que vem. Paulinho é um dos pilares da atual equipe corintiana, ao lado de Ralf, Danilo e Emerson Sheik. Sem ele para 2013, a tendência é do Corinthians se enfraquecer. À noite, li um post do jornalista Vitor Birner. Em seu blog, ele comunica exatamente o contrário da matéria da manhã. Segundo o texto, o Corinthians adquiriu metade do passe do volante da Seleção Brasileira para evitar a saída prematura do jogador no próximo ano. Veja o conteúdo completo do post: "Corinthians comprou os 50% dos direitos econômicos de Paulinho, que pertenciam ao BMG. Vai pagar quase R$ 15 milhões ao longo de um ano, em parcelas. A negociação desagradou a direção do Audax (clube do Grupo Pão de Açúcar), dono da outra parte. Ela queria negociar o volante. Paulinho recebeu proposta de um clube russo, mas não quis atuar no futebol daquele país. Só pretende deixar o Parque São Jorge se aparecer alguma oferta muito boa tanto na parte financeira quanto na esportiva. O atleta tem contrato até junho de 2014 e pode prorrogá-lo até o mesmo mês de 2015". A verdade é uma só. Não podemos nos preocupar antes da hora. Com a compra de metade do passe do Paulinho, ou o Corinthians irá continuar se esforçando para mantê-lo no clube ou irá vendê-lo e obter um bom lucro em cima da negociação. As duas possibilidades são interessantes, apesar de eu preferir a primeira. O que não poderia acontecer era o jogador ir embora e o Timão não receber nada pela transação. O dia terminou com mais uma contratação. Quem se apresentou no Parque São Jorge foi o lateral-esquerdo Chiquinho, contratado do Ipatinga. O jogador de 23 anos tem características ofensivas e chega para o lugar do lateral Ramon, emprestado ao Flamengo. Chiquinho também pode atuar como meia e como atacante. O jogador chegou por empréstimo e assinou contrato por um ano e meio. Se apresentar bom desempenho, poderá ter o passe comprado em definitivo no final do período. Trata-se de mais uma aposta da diretoria e da comissão técnica. É o bom e barato! 25 de agosto de 2012 - sábado Em véspera do Majestoso, sempre dá um friozinho na barriga do torcedor. Mesmo sabendo da superioridade corintiana, ainda assim há a preocupação de algo dar errado nos 90 minutos. O juiz pode errar em um lance decisivo ou a sorte pode soprar para o adversário na hora do jogo. Tenho certeza de que, se tudo ocorrer dentro da normalidade, o Timão sairá vencedor domingo e os corintianos vão gritar com força: "O freguês voltooooou. O freguês voltooooou". Na atividade de hoje de manhã no CT Joaquim Grava, Tite definiu a equipe alvinegra que enfrentará o tricolor paulista. A principal novidade está no ataque. Emerson Sheik, após um mês no departamento médico, volta a ser relacionado. Será titular. Nesse período sem o mais perigoso dos nossos avantes, o ataque corintiano só marcou dois gols (Romarinho contra o Coritiba e Martínez contra o Santos). A volta do camisa 11 traz a esperança de mais gols à equipe mosqueteira. Sheik treinou leve durante a semana, visando a retomada do preparo físico. Infelizmente, a tendência é que o herói corintiano na final da Libertadores não tenha condições para atuar os 90 minutos. Muito provavelmente, será substituído no segundo tempo por Martínez. Ao lado de Emerson, o ataque será completado por Romarinho. Danilo e Douglas terão a incumbência de armar as jogadas. Guerrero e Jorge Henrique, machucados, não estarão no banco de reservas. São as baixas para o clássico. O peruano apresenta um problema no tornozelo direito e Jorge ainda sente dores. Ambos devem ficar de fora de mais rodadas do Brasileirão. Nas outras posições, nenhuma novidade. Chicão e Alessandro voltarão após o cumprimento da suspensão automática. A defesa corintiana terá força máxima. Os 11 atletas escolhidos por Tite são: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Douglas e Danilo; Emerson Sheik e Romarinho. As novidades do adversário me foram passadas por um são-paulino. À noite, Tio Luiz me ligou todo empolgado: "O Luís Fabiano vai jogar domingo. Ele vai jogar! Está confirmado. Depois de mais de um mês machucado, o técnico do São Paulo confirmou o Fabuloso na equipe titular". Achei graça da empolgação dele com a escalação do camisa 9 são-paulino. Realmente, Fabiano é um grande centroavante e sabe fazer gols. Porém, o veterano não está vivendo boa fase. É alvo de xingamentos e críticas de sua própria torcida. "Tio, se vocês forem depender do Fabiano para fazer gols, vocês estão fritos. Ele não faz gol há um tempão. E não vai ser nesse domingo que ele desencantará! A defesa do Timão é a melhor do país", respondi. O São Paulo vem completinho para o clássico. Lucas voltou da Seleção Brasileira e formará dupla de ataque com o Fabuloso. O jovem craque são-paulino foi negociado recentemente com o PSG e ficará no clube paulista até o final do Campeonato Brasileiro. Trata-se da última chance de Lucas vencer o principal rival fora de casa. Se não ganhar domingo, irá embora com a fama de amarelão em clássicos. 26 de agosto de 2012 - domingo Eu e Tio Luiz chegamos ao Pacaembu faltando vinte minutos para o início do clássico entre Corinthians e São Paulo. Como o estádio estava cheio, com 37 mil pessoas, tivemos certa dificuldade para entrar e arranjar bons lugares. Acabamos ficando perto das escadas e, com isso, nossa visão era em parte bloqueada pelos torcedores que ficaram em pé nos degraus. Eu precisei ver o jogo de pé e meu tio preferiu ficar sentado e sofrer com as cabeças à sua frente. O Majestoso começou alucinante para os corintianos. Aos 6 minutos, Paulinho roubou a bola do adversário na entrada da área são-paulina. Passou por dois marcadores e tocou para Emerson, livre na grande área. Um chute forte e no alto. Indefensável. Gooooooooooool de Sheik. 1 a 0 para o Timão. A pressão dos mandantes só estava começando. Nos 15 minutos seguintes, só dava o time da casa. Foram os melhores 20 minutos da equipe de Tite nesse ano. A defesa e o meio de campo conseguiam bloquear o avanço do rival e lançavam para os atacantes mosqueteiros. Paulinho, Douglas e Romarinho tiveram chutes defendidos pelo goleiro adversário. Emerson, após lance pela esquerda de Danilo, chutou forte e rasteiro. A bola estava entrando quando bateu na cabeça de um defensor do São Paulo, que estava caído em cima da linha, e saiu. Uhhhhhhh. Quase o segundo. "Tio, está muito fácil! Hoje vai ser de goleada", preconizei. A Fiel Torcida fazia festa nas arquibancadas aos gritos de: "O freguês voltooooooooooou. O freguês voltooooooooou". Aí na metade do primeiro tempo, o São Paulo foi pela primeira vez ao ataque. A bola caiu nos pés de Luís Fabiano. O centroavante tricolor chutou cruzado no cantinho. Partida empatada. 1 a 1. Meu tio comemorou com as mãos. Para nossa sorte, ninguém viu seus gestos. Pelo menos ele não gritou. O placar era completamente injusto. Era para o Corinthians estar goleando. "Não estou vendo nada de injustiça. Para mim, o que vale é bola na rede", disse o são-paulino ao meu lado. Com o gol de empate dos visitantes, a partida mudou de cenário. Quem foi melhor na segunda metade da primeira etapa foram os são-paulinos. Cássio salvou algumas bolas. A defesa alvinegra desviou outras. No intervalo, Tite tirou Douglas e colocou Martínez. A ideia era atacar mais. Entretanto, o São Paulo continuava melhor e saía nos contra-ataques. Em um contragolpe, logo no início do segundo tempo, Luís Fabiano recebeu outro passe, driblou Cássio e mandou para o fundo das redes. São Paulo 2 a 1. Dessa vez não vi se meu tio comemorou. Como fiquei revoltado com o vacilo da defesa do meu time, me esqueci de olhar para o torcedor ao meu lado. O restante do segundo tempo foi do Corinthians pressionando e o goleiro adversário defendendo. As duas melhores chances foram de Romarinho. O camisa 31 finalizou fraco e o goleiro defendeu. Com o apito final do juiz, a pequena torcida dos visitantes começou a gritar: "O tabu acabooooou. O tabu acabooooou". O São Paulo não vencia o Timão no Pacaembu havia sete anos (foram seis derrotas em seis jogos). Oh céus, oh dia, oh azar. 27 de agosto de 2012 - segunda-feira O 1º turno do Brasileirão terminou com o Atlético Mineiro na liderança, com 43 pontos (e um jogo a menos). O craque da competição, até o momento, tem sido Ronaldinho Gaúcho. Eleito o melhor do mundo em 2004 e 2005, o experiente meia-atacante comandou o Galo mineiro com grandes atuações e gols decisivos. Quem pode tirar o título dos atleticanos é o Fluminense. O tricolor carioca está na vice-liderança com 42 pontos e tem mostrado futebol bem competitivo. Logo atrás na classificação e com atuações irregulares estão Grêmio (37) e Vasco da Gama (35). Dificilmente os dois conseguirão brigar pelo primeiro lugar. Veja a classificação do turno: Interessante notar que Corinthians, Santos e Internacional, as melhores equipes do país tecnicamente falando, estão em posições intermediárias na tabela. Isso é reflexo da priorização da Libertadores (Santos e Corinthians) e da ausência dos jogadores convocados pela Seleção Brasileira na maioria dos jogos (Inter e Santos). Se não fossem esses problemas, os três clubes estariam lá em cima brigando pelo caneco com Atlético e Fluminense. Com a vitória no domingo, o São Paulo se consolidou como o melhor paulista no campeonato. Agora o tricolor do Morumbi ocupa a 5ª posição, a quatro pontos do Vasco, última equipe na zona de classificação para a Libertadores do próximo ano. O pior paulista é o Palmeiras, com apenas 16 pontos e ocupando a 17ª posição. O Verdão está dentro da zona de rebaixamento. Se os jogadores do Palestra Itália não abrirem os olhos irão disputar a Série B em 2013. 28 de agosto de 2012 - terça-feira Pela primeira vez no ano, o Timão perdeu duas partidas seguidas. Para a tristeza dos corintianos, as derrotas aconteceram justamente em dois clássicos estaduais. O moral dos campeões sul-americanos ficou abalado. Essa é uma situação inédita desde a conquista da Copa Libertadores. Nos dois últimos jogos, a equipe corintiana começou muito bem e abriu o marcador. Poderia ter definido a situação já no primeiro tempo, quando teve várias chances para ampliar o marcador. Porém, os atacantes não conseguiram aproveitar as oportunidades criadas e o time acabou sofrendo as viradas. No último clássico, por exemplo, o Corinthians finalizou 16 vezes ao gol são-paulino e apenas uma bola entrou. Ai, ai, ai. Em outras palavras, perdemos jogando melhor. A explicação do técnico Tite para o baixo aproveitamento do setor ofensivo é a falta de entrosamento. Em entrevista coletiva, ele disse: "Pego essa segunda parte (da partida contra o São Paulo) e coloco dentro desse processo de entrosamento, principalmente na frente. Vai acontecer naturalmente. Isso é apenas uma compreensão, não uma justificativa. Vai ainda precisar de um tempo (até engrenar)”. Pelo menos não houve erro de arbitragem dessa vez. A vitória são-paulina foi limpa. Ciente disso, o treinador corintiano estava mais sereno e isentou o juiz: “Não tenho nada a falar (de errado sobre a arbitragem). Um lance ou outro é passível de interpretação. Torço para que eles (juízes) tenham uma capacidade boa nos jogos”. Com as últimas derrotas, o Corinthians caiu para o 12º lugar com 24 pontos. A disputa pelo título é agora algo improvável. Há quem diga que a equipe do Parque São Jorge deva se preocupar é com o rebaixamento. Afinal, em 2007, na fatídica temporada da queda para a Série B, o Timão terminou aquele 1º turno com 26 pontos, um desempenho ligeiramente melhor do que nesse ano. Para não ficar se preocupando com as contas e para esquecer definitivamente as derrotas recentes, o melhor a ser feito é vencer os próximos compromissos. Os próximos jogos do Corinthians serão contra os dois líderes da competição. Na quarta-feira, o Timão enfrentará o Fluminense no Rio de Janeiro e no próximo final de semana pegará o Atlético Mineiro em São Paulo. Para o jogo contra os cariocas, Tite escalou como titulares: Cássio; Alessandro, Chicão, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Douglas; Emerson e Romarinho. Os desfalques são: Paulo André (suspenso pelo terceiro cartão amarelo), Paolo Guerrero, Martínez e Jorge Henrique (machucados). A partida contra o Fluminense será muito difícil. Se os corintianos não entrarem em campo com o espírito dos jogos da Libertadores e os atacantes não estiverem com o pé bem calibrado, dificilmente a Fiel Torcida verá a conquista de mais três pontos. 29 de agosto de 2012 - quarta-feira O Estádio do Engenhão no Rio de Janeiro apareceu surpreendentemente vazio no início da transmissão da Rede Globo. Esperava uma casa cheia para ver o Fluminense, vice-líder do Brasileirão, enfrentando o temido e sempre competitivo Corinthians. Na noite dessa quarta-feira, menos de 5 mil pessoas foram até a arena carioca para assistir ao clássico entre os dois últimos campeões nacionais. Mais estranho do que isso foi a camisa dos jogadores da equipe visitante. A direção do clube paulista promoveu o lançamento do terceiro uniforme corintiano, na cor cinza. Achei horrível! Com certeza jamais vou comprá-lo ou usá-lo. Parece camisa de treino. Com essas surpresas, o jogo começou. Diferentemente das últimas partidas do Timão, quando a equipe corintiana jogou e deixou os oponentes jogarem, proporcionando bons espetáculos ao público, dessa vez o técnico Tite preferiu o tradicional esquema de não deixar o adversário pegar na bola. Com isso, a partida ficou extremamente chata. As disputas se limitaram ao meio de campo, com fortes divididas. Às vezes, parecia até sair faísca. O Fluminense não conseguia passar pela defesa alvinegra e os atacantes do Parque São Jorge não conseguiam avançar com perigo até a meta do goleiro tricolor. O Fluminense só conseguiu chegar uma vez com perigo ao gol de Cássio. Nesse lance, o goleiro da seleção fez boa defesa. No mais, o time da casa precisou arriscar de fora da área, não ameaçando muito os visitantes. Quando o primeiro tempo caminhava para o empate sem gols, Ralf roubou a bola no meio de campo. Avançou com rapidez para a grande área adversária e tocou para Emerson. O camisa 11 acertou um belo chute de primeira. Goooooool do Timão. 1 a 0 para os visitantes. No intervalo, os atletas do Flu souberam que o Atlético Mineiro havia empatado em casa com a Ponte Preta. Uma vitória sobre o Corinthians daria a liderança do campeonato ao elenco tricolor. Com o pensamento de virar a partida, o Fluminense voltou para o segundo tempo mais ofensivo. A pressão foi grande sobre a defesa corintiana. Apesar da bola ter ficado rondando a área de Cássio várias vezes, o Timão se segurava bem e não corria tantos riscos. Infelizmente, os comandados de Tite se esqueceram de contra-atacar e matar a partida. Na metade do segundo tempo, Emerson cansou. Como não havia nenhum atacante de ofício no banco de reservas para substituí-lo, Edenílson entrou no lugar do camisa 11. Sem o melhor avante, o Corinthians recuou ainda mais, chamando o adversário para o seu campo. O Fluminense, assim, aumentou a pressão. No final da partida, uma bola cruzada na área corintiana encontrou o centroavante tricolor sozinho. Sem dó, ele mandou para as redes. Gol do Flu. 1 a 1 no Engenhão. O empate não foi bom para nenhum dos lados. Se o Fluminense perdeu a chance de assumir a liderança isolada, o Timão deixou outra vitória escapar no finalzinho. A maré não tem sido de sorte para os corintianos nos últimos jogos. 30 de agosto de 2012 - quinta-feira Estou com a sensação de que a lua de mel da torcida corintiana com o time está no fim. Não estou dizendo isso por causa dos últimos tropeços e pelas derrotas nos clássicos. Também não estou querendo dizer que os torcedores não estejam felizes com os jogadores e que tenham desanimado do sonho de ver o Timão campeão do mundo em dezembro. Para mim, apenas a empolgação e a euforia diminuíram sensivelmente. O mesmo ocorre com os jovens casais após algum tempo de casamento. Passada a fase das festas, das viagens pós-matrimônio e dos primeiros dias morando junto, quando tudo é belo, alegre e perfeito, a vida volta ao normal. A rotina é a responsável pela normalização dos ânimos de todos. Vamos aos fatos. Na terça-feira da próxima semana completam-se dois meses da conquista máxima dos corintianos. Esses 60 dias foram suficientes para a celebração e para a gozação em cima dos torcedores rivais. Milhares de Fiéis Torcedores já foram visitar a taça no Memorial da Conquista no Parque São Jorge. Outras dezenas de milhares foram ver seus heróis pessoalmente no Pacaembu em algum jogo do Campeonato Brasileiro. Atletas importantes, como Leandro Castán e Alex, deixaram o clube. Outros jogadores foram contratados com elevada expectativa das arquibancadas. Após algumas rodadas, foi possível perceber que não eram tudo aquilo que pensávamos ser. A crença de que tínhamos uma superequipe invencível se desfez com as derrotas. A equipe alvinegra é boa, talentosa e bem-organizada taticamente, mas não é imbatível. Podemos perder, assim como podemos vencer as partidas. Não possuímos nenhum jogador excepcional e, por isso, não veremos jogadas brilhantes dentro do campo o tempo todo. O Timão continua sendo um time razoável tecnicamente, mas com bastante aplicação tática e vontade de vencer. Tenho a impressão de que os próximos 18 jogos do segundo turno desse Brasileirão serão profundamente entediantes para os corintianos. Salvo um ou outro clássico regional (sempre emocionantes para os torcedores), as demais partidas não representarão nada para o clube. O Timão estava acostumado, nos últimos três anos, a brigar na parte de cima da tabela de classificação. Como não deverá ser campeão nessa temporada e não será rebaixado, qual a motivação para se assistir aos próximos duelos, hein? Pude perceber essa falta de ambição no jogo contra o Fluminense. Nosso adversário corria pelo gramado em busca da vitória e da liderança do torneio, enquanto os jogadores alvinegros cumpriam a obrigação profissional de jogar bola. Temo que os corintianos estão começando a cair na rotina com seu time, assim como os jovens cônjuges após alguns meses de união. Nada é mais novidade, os defeitos do parceiro começam a ficar mais evidentes, alguns deles começam até a incomodar bastante, e os dias não diferem muito uns dos outros. As companhias dos amigos e dos demais familiares voltam a ser requisitadas. A vida real mostra os sinais de não ser perfeita, apesar de agradável. Não vejo a hora de dezembro chegar para disputarmos o Mundial. Aí sim o bicho vai voltar a pegar para a Fiel Torcida. 31 de agosto de 2012 - sexta-feira A última sexta-feira de agosto teve sabor de prévia do Mundial de Clubes para os corintianos. O Chelsea, provável adversário do Timão na final em dezembro no Japão, foi a campo pela decisão da Supercopa Europeia. O adversário era o Atlético de Madrid. Essa disputa é realizada no início da temporada do Velho Continente entre o campeão da última Copa dos Campeões e o atual vencedor da Liga Europa (antiga Copa da Uefa). A taça em si não vale muita coisa, mas foi uma excelente oportunidade para ver como nossos adversários estão após as férias de Verão. Vale ressaltar que o Chelsea manteve os principais jogadores (a única grande perda foi o centroavante Didier Drogba, que foi atuar no futebol chinês) e ainda gastou alguns milhões de euros para se reforçar. As grandes contratações dessa temporada para os Blues londrinos foram o meia brasileiro Oscar (ex-jogador do Internacional e titular da Seleção Brasileira) e o jovem atacante belga Eden Hazard (vindo da França). A tarde de sexta-feira foi incrível para a Fiel Torcida. O Atlético de Madrid humilhou os ingleses com uma goleada de 4 a 1. O Chelsea não viu a cor da bola e os espanhóis passearam em campo. O destaque da partida foi o colombiano Falcão Garcia com três gols. Do lado inglês, ninguém atuou bem. O time londrino esteve apático e parecia estar desentrosado. Os jogadores de azul erraram a maioria das jogadas. Com inesperada derrota do futuro rival, os corintianos se encheram de esperanças para o Mundial. Na Internet, os vários membros do Bando de Loucos puderam se manifestar: "Valeu Atlético de Madrid por mostrar ao Chelsea como vai ser em dezembro quando pegarem o Corinthians!!!"; "Então o Atlético atropelou o Chelsea...!!! ... É Corinthians, não é impossível!"; "Corinthians vai ter o Mundial mais fácil da história para ganhar"; e "Chelsea perdeu para o Atlético de Madrid que é o campeão da Sul-Americana da Europa. Imagine para o Corinthians que é o Campeão da Liberta!". Até os anticorintianos já estão se conformando com o título intercontinental do Timão. Veja algumas mensagens de palmeirenses e são-paulinos na rede mundial de computadores: "Esse time do Chelsea é tão ruim, que infelizmente o Corinthians vai ser campeão do mundial de clubes"; e "Tomara que o Chelsea não faça contra o Corinthians o que fez hoje contra o Atlético de Madrid". O único que não pareceu muito animado com o resultado da partida e com as previsões dos torcedores foi o técnico Tite. Na entrevista à noite, o gaúcho declarou: "Só para a torcida é dessa forma, não para nós profissionais. Tem muito tempo até o final do ano. Não muda em nada (o pensamento sobre o Chelsea). Serve para o torcedor fazer esse acompanhamento, que é normal". Ainda bem que nosso comandante não se deslumbra com a possibilidade de vitória antes da hora. O importante, nos próximos três meses, é torcermos para o Chelsea não melhorar nada. Se eles jogarem em dezembro como atuaram hoje, dificilmente conseguirão tirar o título das mãos alvinegras. Estou sentindo que o Japão será nosso!!! ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. 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- Livros: A Busca das Esferas - O romance de estreia de Mariana Baroni
Lançado em abril de 2022, esse título da autora paulista marca também a primeira publicação fantástica do selo Auroras. Na semana passada, li “A Busca das Esferas” (Auroras/Penalux), o romance de estreia de Mariana Baroni. Confesso que tradicionalmente não sou muito fã da literatura fantástica. Pode ser preconceito da minha parte? Pode. Deve ser algum pé atrás em relação às obras com apelo evidentemente infantojuvenil que o mercado editorial insiste em direcionar também para o público adulto (chamado nos últimos anos de leitor young adult)? Deve. Porém, admito que precisei engolir meus prejulgamentos e preferências após a leitura de “A Busca das Esferas”. Adorei esse livro ao ponto de rever alguns dos meus conceitos literários até então inabaláveis. Mariana dá um verdadeiro show ao apresentar uma trama gostosa com um texto inteligente e uma narrativa extremamente veloz. Como é bom descobrir um jovem talento literário brotando nas páginas de um título tão saboroso e surpreendente. Se eu que não sou fã do gênero fantástico adorei a publicação, juro que fiquei imaginando a receptividade do público que curte romances nessa linha! Recebi “A Busca das Esferas” há mais ou menos três meses. No final de maio, Maiara Tissi, da Revoada Assessoria, entrou em contato comigo perguntando se eu não queria conhecer o trabalho recém-lançado de Mariana Baroni. Pelo que entendi, Maiara e sua empresa de assessoria de imprensa são encarregadas de promover o livro de Mariana. Como faço sempre nessas circunstâncias, respondi que sim. E acrescentei que se gostasse da obra, eu faria um post na coluna Livros – Crítica Literária sobre “A Busca das Esferas”. Sempre faço esse alerta porque não gosto de fazer avaliações prioritariamente negativas no Bonas Histórias. Afinal, os brasileiros já leem comumente tão pouco. E seria um pecado se eu desestimulasse, de alguma forma, novas leituras dos meus compatriotas, né? No caso de publicações que considero abaixo da média, simplesmente não as menciono no blog (aí não desagrado ninguém nem desencorajo novas leituras). Tão logo estabelecido o acordo com Maiara Tissi, recebi um exemplar do romance da Mariana Baroni na primeira semana de junho. Contudo, só consegui lê-lo no comecinho de agosto. E digo, com a boca cheia, que “A Busca das Esferas” é um livrão! Adorei essa história e, principalmente, a maneira como a autora construiu a narrativa ficcional. A trama de Nara, uma jovem estudante que é perseguida após encontrar uma esfera mágica no campus universitário, é dinâmica, convidativa e reserva ótimas e incontáveis reviravoltas. Como adorei a leitura e fui verdadeiramente impactado por essa experiência literária, aqui está o cumprimento da minha promessa – o post com a análise completa de “A Busca das Esferas” na coluna Livros – Crítica Literária. Natural de Campinas, Mariana Baroni Fontana tem 36 anos e mora em Yokohama, no Japão. Formada em Letras e pós-graduada em Tradução (Inglês-Espanhol), ela trabalha como tradutora e revisora há mais de dez anos. Seus trabalhos nos campos da tradução e da revisão são voltados tanto para os materiais técnicos quanto para os textos literários. No papel de autora ficcional, Mariana começou produzindo contos e poesias que foram publicados em antologias e receberam premiações literárias. Destaques para: “O Desandar do Amor”, conto presente em “Brainstorm” (Andross), “Passageiro”, narrativa curta lançada em “São Paulo: Palavras e Progresso” (Litteris), “Tempo Fanfarrão”, poesia que faz parte da antologia “Diversos” (Andross), e “A Argola Curiosa” e “Divagações Boêmias com Bandeira”, poesias publicadas em “Corrente de Poesia” (Komedi). A ideia de escrever um romance surgiu no final de 2013. Mariana Baroni decidiu participar da campanha coletiva NaNoWriMo – National Novel Writing Month. Em uma tradução livre, diria que a NaNoWriMo é o “Mês Nacional da Escrita de Romance”. A partir dessa iniciativa de abrangência internacional, os autores inscritos precisam escrever (e divulgar para os colegas) diariamente sua produção narrativa. A meta é canalizar para o papel (ou tela do computador) as ideias sem pensar muito em correções e/ou revisões. A proposta é que após um mês de trabalhos intensivos, os artistas amadores e profissionais dos mais diferentes países tenham a primeira edição de uma novela ou romance (obra ficcional com o mínimo de 50 mil palavras, o que dá aproximadamente 130 páginas – em letra Arial e tamanho de fonte 12). Com o material inicial pronto (muitas vezes, essa é justamente a parte mais difícil do fazer literário!), os escritores podem partir, então, para as melhorias, alterações, revisões e edições de ordem narrativa, textual e idiomática. Com esse desafio literário em mente, Mariana desenvolveu o texto de “A Busca das Esferas” em novembro de 2013. Uma vez concluída a proposta da NaNoWriMo dentro do prazo, a escritora aproveitou o ano de 2014 para aprimorar a narrativa. A materialização do texto ficcional em livro, entretanto, demorou ainda alguns anos. Somente em 2021, a Penalux, editora localizada em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, e com forte tradição na publicação de autores novatos, aprovou o romance de Mariana Baroni. O lançamento da narrativa fantástica aconteceu em abril desse ano. “A Busca das Esferas” marca, além do título de estreia da escritora paulista, a primeira publicação fantástica do selo Auroras. Para quem ainda não conhece, a Auroras é o selo da Editora Penalux criado em março de 2020 para a promoção da literatura produzida pelas mulheres. A trama de “A Busca das Esferas” é protagonizada por Nara, uma universitária natural de Nogueiras, pequena cidade do interior. Criada pelos avós paternos após a morte dos pais em um acidente até hoje mal explicado, Nara está fazendo faculdade há um ano em Horto Fiordi, uma grande cidade. Extremamente introspectiva e sem amigos, ela divide um apartamento com uma colega que raramente vê. A rotina da personagem principal do romance se resume a assistir às aulas na universidade, estudar para as provas e voltar para o lar no fim do dia. Sempre que pode, a moça visita nas férias os avós em Nogueiras. O cotidiano pacato, solitário e um tanto melancólico de Nara é quebrado em certa tarde ensolarada. Aproveitando-se dos lindos e enormes jardins do campus universitário, a jovem se atira no gramado para ler e estudar. Entre a consulta de cadernos e a leitura de livros, ela acha, meio que sem querer, uma esfera branca do tamanho de uma bola de vôlei na grama. O objeto emite uma forte luz e emana uma energia especial. Encantada com aquela maravilha, Nara não pensa duas vezes: coloca a recente descoberta na mochila e deixa a universidade. A partir daí, ela tem a sensação de que está sendo observada e, logo em seguida, perseguida pelas ruas de Horto Fiordi. Começa, então, a agonia da moça. No meio do trajeto da faculdade para casa, Nara é interceptada por um rapaz que tenta pegar sua mochila. Obviamente, ele quer se apoderar da esfera que ela achou. Graças a um instante de vacilo dele em meio à abordagem impositiva, a universitária consegue se desvencilhar do oponente misterioso e fugir. Ao chegar no lar, a protagonista nota que nem mesmo ali terá um segundo de paz. Homens vestidos de preto, ao melhor estilo ninja, ensaiam a invasão ao apartamento da jovem. Eles também parecem estar atrás da esfera, que aparentemente tem uma importância imensurável (do contrário, não seria alvo da investida de tanta gente). Assustada, Nara sai correndo do apê em direção à rua. No momento em que os homens de roupa preta vão, enfim, pegá-la em uma viela no centro de Horto Fiordi, o primeiro rapaz que tentou interceptar Nara aparece para salvá-la. Aparentemente ele não integra o bando de criminosos nem quer fazer mal para a jovem. Sentindo-se segura na companhia do misterioso amigo, quase que um anjo da guarda, Nara se esconde junto com ele em um imóvel abandonado. A dupla passa a noite ali e Maylor (esse é o nome do rapaz!) explica mais ou menos o que está acontecendo. Segundo o relato de Maylor, ele faz parte de uma comunidade chamada Guilda. O pessoal da Guilda vive escondido em uma floresta isolada e trabalha para encontrar e proteger o maior número possível de esferas mágicas. Eles tentam evitar, a todo custo, que as esferas caiam nas mãos do Pessoal da Horda, uma comunidade inimiga que também tem conhecimento dos poderes daqueles objetos. Como os integrantes da Horda são cruéis e sanguinolentos, Maylor não gosta nem de imaginar o que poderia acontecer se o grupo adversário conseguisse colocar as mãos no maior número de esferas. Pela quantidade de queimaduras e cortes que o rapaz possui no corpo, Nara logo vê que ele está falando sério. Ao entender parcialmente o que está acontecendo, Nara aceita acompanhar Maylor até a sede da Guilda e se integrar àquela comunidade. Dessa maneira, eles partem para a floresta e lá, após ultrapassarem uma espécie de passagem secreta em uma gruta/caverna, chegam ao palácio da Guilda. No QG da comunidade boazinha, Nara conhece seus novos colegas/amigos: Henrique, Lila, Igor, Aya, Bárbara e Lúcio. Por estar de posse de uma esfera, Nara é vista como uma pessoa especial e, por isso, é aceita instantaneamente por todos. Pela primeira vez na vida, a moça tem amigos e faz parte de uma coletividade unida e harmônica. Agora ela tem um convívio social e pode compartilhar algo grandioso com as pessoas ao seu redor. Em poucos dias no palácio da Guilda, Nara descobre que terá grandes responsabilidades ali. A jovem é convidada para se tornar uma caçadora. Ou seja, ela terá a mesma função que Maylor: localizar esferas e proteger quem as descobre. Para tal, Nara precisará passar por um intenso programa de treinamento, que inclui o aprendizado de artes marciais, linguagem e estratégia. Sem perceber, ela caminha a passos largos para vivenciar aventuras de tirar o fôlego. A disputa entre o Pessoal da Horda e o Pessoal da Guilda irá se intensificar e qualquer vacilo pode ser fatal. “A Busca das Esferas” possui 192 páginas e está dividido em 13 capítulos. Levei entre quatro horas e meia e cinco horas para concluir integralmente essa leitura na semana passada. Precisei de apenas duas noites para isso: li os 6 capítulos iniciais na quarta-feira (primeira metade do romance) e os 7 capítulos restantes na quinta-feira (segunda metade). Se você gosta de longas sessões de leitura, até dá para devorar esse título em um único dia. Porém, é preciso iniciá-lo de manhã ou no começo da tarde (e não à noite como eu fiz!). O que torna a leitura de “A Busca das Esferas” tão interessante é a combinação bem azeitada de narrativa gostosa com trama convidativa. Além disso, o texto do romance é ao mesmo tempo elegante e dinâmico (dois componentes que, infelizmente, não andam comumente abraçados na literatura comercial). Nota-se a habilidade da autora em tecer um enredo infantojuvenil com pegada fantástica sem abrir mão da qualidade ficcional. Por falar nisso, é inegável a maturidade de Mariana Baroni quando o assunto é o fazer literário. Se pensarmos que esse é o seu romance de estreia, o resultado é para lá de satisfatório. Se eu fosse você ficava de olhos vivos nessa escritora de enorme potencial. Não é fácil produzir uma obra ficcional convidativa e tão direta. E Mariana parece que fez isso de maneira muito natural e simples. Se temos tal excelência em uma obra de debute, juro que fiquei imaginando o que não teremos mais pela frente: no segundo, terceiro, quarto, décimo título ficcional de Mariana! O principal ponto positivo de “A Busca das Esferas” está em seu dinamismo. Não à toa, o que mais gostei nesse livro foi justamente da altíssima velocidade da trama e do ritmo narrativo vertiginoso. Temos aqui um romance enxuto e direto que prioriza a experiência literária até mesmo dos leitores mais ansiosos. A autora não enrola em nenhum momento (um pecado que alguns escritores cometem) nem se esquece de nada (algo que poderia muito bem acontecer em uma narrativa acelerada). Tudo está no devido lugar, no tom certo e, principalmente, na extensão adequada. Em relação à construção das cenas e à dinâmica da narrativa, “A Busca das Esferas” é uma obra perfeita. Entendeu agora por que disse que Mariana Baroni é uma autora com enorme maturidade ficcional? Vá você tentar fazer isso em outra narrativa (balancear velocidade com trama completa e gostosa de ler) para, então, ver o quão difícil é chegar no ponto certo!!! Uma consequência imediata do estilo narrativo de Mariana Baroni é que o texto desse romance tem uma forte pegada cinematográfica – cineastas do meu Brasil, saibam que está fácil, fácil adaptar esse livro para um roteiro de cinema! Confesso que gosto muito dessa característica. É como se conseguíssemos ver as cenas na nossa mente enquanto lemos o livro. Exatamente por isso, “A Busca das Esferas” me lembrou, na perspectiva da velocidade narrativa e da construção quase que cinematográfica das cenas, “Refém da Memória” (Produção independente), novela de Helio Martins Jr, e “A Contrapartida” (Valentina), romance de Uranio Bonoldi. Ainda ressaltando os aspectos positivos de “A Busca das Esferas”, preciso dizer que o primeiro capítulo está impecável. As apresentações da personagem principal e do cenário estão excelentes. Gostei que chegamos ao conflito rapidamente (seis páginas apenas). Em se tratando de um thriller, essa abordagem quase que instantânea atiça a curiosidade dos leitores (e me fez lembrar os melhores romances policiais de Harlan Coben, mestre em já começar suas tramas pelo mistério central). Ainda no primeiro capítulo, temos muitas ações, mistérios, sustos e reviravoltas. Encontramos nas primeiras páginas quase que um microcosmo do romance como um todo. Gosto disso! Você inicia a leitura e não quer mais parar. Outra questão que merece elogio é a ambientação de “A Busca das Esferas”. Nas primeiras páginas, por exemplo, temos uma protagonista mergulhada em uma grande solidão. E como sentimos esse drama, hein? Com a ausência de discurso direto. Achei espetacular esse efeito. Incrível mesmo! A ausência de diálogo direto torna o clima do romance meio árido, angustiante e melancólico. Os elementos oníricos permeiam a narrativa inteira e são componentes importantes da trama. Porém, ao final da obra, senti falta de encontrar uma relação mais objetiva e direta entre os sonhos da protagonista (e de seu par romântico) com fatos do enredo. Imaginei que houvesse uma simbiose entre as duas partes: sonho e realidade. Todavia, não é isso o que acontece no desfecho – para minha surpresa. Acredito (é só suposição mesmo, tá?!) que a ausência de uma ligação desse tipo possa indicar uma possível continuação desse romance. Será? Tananananã!!! Como trama fantástica, com pegada de distopia infantojuvenil e doses generosas de suspense de aventura, “A Busca das Esferas” está primoroso. Esse título me lembrou as melhores obras fantásticas internacionais (pelos mais diferentes motivos) como as séries “Jogos Vorazes” (Rocco), de Suzanne Collins, “As Crônicas de Nárnia” (WMF Martins Fontes), de C. S. Lewis, e “Percy Jackson & Os Olimpianos” (Intrínseca), de Rick Riordan. Por falar nisso, Mariana tem a faca e o queijo na mão se quiser lançar uma série literária a partir dessa publicação. Esse livro dá ainda muito pano para manga. Isso não quer dizer que o romance esteja incompleto ou que tenha deixado pontos soltos. Não! Ele está completinho. O que quero dizer é que o enredo é tão rico e as personagens são tão carismáticas que é possível estender sua narrativa sem problema nenhum. Mesmo com tantos méritos, “A Busca das Esferas” tem lá alguns probleminhas de natureza narrativa. O principal deles está no foco narrativo. A obra começa com um narrador em terceira pessoa colado à protagonista. Por isso, ele tem acesso ilimitado aos pensamentos, aos sentimentos, à memória e às ações de Nara. Até aí beleza! Entretanto, à medida que o romance se desenrola, o narrador (inexplicavelmente) vai se distanciando da personagem principal. Ele se mantém ativo quando Nara desmaia, segue os passos de Maylor, ouve a conversa de Olga e Bruno e acompanha Lila e Igor... Para piorar, ele tem acesso aos pensamentos e às ações de alguns indivíduos pontualmente (se transforma quase que em um narrador onipresente e onisciente). Admito que não gostei dessa mudança de posicionamento. Se isso não for um erro de foco narrativo (pelo que conheço dos conceitos da Teoria Literária, é sim um equívoco), no mínimo é uma alteração equivocada no estilo do narrador. É verdade que esse aspecto deve passar despercebido pela quase totalidade dos leitores recreativos. Afinal, quem é o chato (além do Ricardo) que fica se atentando para as características do narrador em uma obra ficcional, hein?! Mesmo sabendo disso, ainda sim fiquei bastante incomodado com tal aspecto da narrativa. Outro ponto que precisa ser avaliado é o efeito das esferas mágicas. O enredo do livro diz o tempo inteiro que as esferas são poderosas e que tê-las traz um diferencial enorme para as comunidades que as possuem. Porém, não vemos isso na prática (com exceção de uma ação pontual no desfecho). Senti falta de visualizar esse poder das esferas. Mesmo tendo a posse de objetos tão poderosos, minha impressão é que o Pessoal da Guilda e o Pessoal da Horda vivem de maneira bastante precária (muito pior do que, por exemplo, grupos de pessoas normais que não têm nenhum desses artigos). Além disso, acredito que dar um sentido mais filosófico e/ou existencialista para as esferas cairia bem à trama. Na certa, o romance ganharia em profundidade. Também não gostei do clímax. A invasão à mansão da Horda e a batalha entre o Pessoal da Guilda e o Pessoal da Horda me pareceram extremamente inverossímeis. É verdade que temos nos capítulos finais muita ação, reviravolta e emoção. Nesse sentido, o desfecho está excelente, não dá para questionar. O problema é que há algumas passagens difíceis de engolir. Como uma avó tortura o neto favorito, hein? Não faz sentido. A série de coincidências que ocorre com Nara nas páginas finais exige certa condescendência por parte do leitor (só não detalho algumas para não dar spoilers). E o que dizer, então, da facilidade da dupla Nara e Maylor para invadir a mansão inimiga no maior conflito até ali entre as duas comunidades, hein?! Para mim não colou. Não é porque a trama é fantástica que ela pode ser inverossímil, né? Quando comparado à abertura da trama (que está espetacular – alia ação, surpresas e mistérios com cenas plausíveis), o desenlace deixou um pouco a desejar (no quesito credibilidade narrativa). Mesmo com um pequeno tropeço aqui e outro acolá, algo perfeitamente normal em um título ficcional de estreia, preciso me render à qualidade literária de “A Busca das Esferas”. Esse romance de Mariana Baroni é excelente. Do contrário, não faria uma análise tão detalhada na coluna Livros – Crítica Literária. Como é bom conhecer escritores que, mesmo jovens, têm total domínio das técnicas narrativas e conseguem nos impactar positivamente. Agora só nos resta torcer para Mariana não parar seu trabalho literário nessa obra. Saibam que se ela der continuidade a essa trama, transformando-a em uma série literária, o Bonas Histórias com certeza irá acompanhar as novas aventuras de Nara, Maylor e o Pessoal da Guilda. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Recomendações: Séries da ficção literária internacional que valem nossa leitura (Parte I)
Veja as quatro primeiras coleções de romances estrangeiros que na certa vão agradar aos leitores mais exigentes. Faz um tempinho que não produzo um post para a coluna Recomendações com sugestões de livros memoráveis. Acho que a última lista de boas leituras que deixei no Bonas Histórias foi no começo da pandemia da Covid-19, em abril de 2020. Ou seja, lá se vão quase dois anos e meio. Naquele momento, enumerei 15 livros tijolões para serem lidos na quarentena. Agora quero debater com vocês 12 séries literárias da ficção internacional que gostei muito de ter conhecido nos últimos anos. Afinal, não é porque o mundo está começando a voltar ao normal (está mesmo?!) que iremos parar com as leituras, né? No meu caso, o normal (se bem que nunca ouvi esse termo saindo da boca daqueles que me conhecem, pelo menos não para descrever minha rotina...) é exatamente mergulhar nos bons e variados títulos da ficção literária. Para esse post não ficar tão grande (repare no uso da palavra tão!), resolvi dividi-lo em três partes. Em agosto, vou apresentar as quatro primeiras séries narrativas da ficção internacional que me lembro de ter curtido bastante e que valeram a leitura. Em setembro, volto com outras quatro coleções literárias. Por fim, em outubro, encerro a listagem com mais quatro sagas. A ideia é apresentar obras de autores de vários cantos do planeta (Estados Unidos, Japão, Suécia, Inglaterra, Portugal, França, Itália e Austrália) e dos mais diferentes gêneros (suspense noir, fantasia, thriller policial, literatura infantojuvenil, distopia, aventura histórica, humor, drama, ficção científica e literatura erótica). Importante dizer que a ordem da exibição das coleções de romances não respeita quaisquer critérios qualitativos (excelência literária), quantitativos (extensão de páginas) nem comerciais (número de exemplares vendidos). Simplesmente vou listar as séries literárias de acordo com o que minha memória ditar. O que posso afirmar é que todas são espetaculares e mexeram muito comigo. Adorei lê-las e seus livros estão em um canto especial na estante da minha biblioteca. Se você se amarra em tramas longas que percorrem várias páginas e se estendem por alguns volumes, não perca o conteúdo desse e dos próximos dois posts da coluna Recomendações. Confira, a seguir, a primeira das três partes com as 12 séries literárias da ficção internacional que valem nossa leitura: 1) Coleção O Talentoso Ripley – Patricia Highsmith (Estados Unidos) – Suspense noir – “O Talentoso Ripley” (1955), “Ripley Subterrâneo” (1970), “O Jogo de Ripley” (1974), “O Garoto que Seguiu Ripley” (1980) e “Ripley Debaixo D´Água” (1991). Começamos nossa jornada pelas coleções literárias internacionais pelas obras mais famosas de Patricia Highsmith. A Série O Talentoso Ripley (também chamada pelos fãs de “The Ripliad”) é um clássico da literatura policial norte-americana e da ficção noir. Seu grande charme está no protagonista da saga, Tom Ripley. Ele é um trambiqueiro extremamente inteligente e talentoso. Se por um lado Ripley é frio e calculista, por outro é charmoso, culto e encantador. O tempo inteiro ele está praticando seus crimes e fugindo da polícia. Nunca torcer pelo criminoso foi tão empolgante quanto nas páginas de Patricia Highsmith. Ou seja, temos aqui um dos mais incríveis anti-heróis da literatura do século XX. Dos cinco livros da coleção, o melhor é disparadamente o primeiro: “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), romance de 1955. Essa publicação ganhou vários prêmios literários nos Estados Unidos e na Europa, se tornou best-seller mundial e foi adaptado para o cinema já em 1960. Nesse título, Tom viaja para a Europa para convencer o filho de um ricaço norte-americano a voltar para a América. Contudo, uma vez desfrutando da boa vida no Velho Continente (as custas, obviamente, dos novos amigos), o protagonista fará de tudo (tudo mesmo!!!) para continuar com a rotina farta e abundante. Esse é um livrão, um dos melhores romances policiais noirs que já li. Para ser sincero, não gostei muito dos demais volumes da série. É verdade que eles não são obras ruins (longe disso, tá?). O que acontece é que as continuações não são tão incríveis quanto “O Talentoso Ripley”, o primeiro título da saga de Tom. Em “Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras), o segundo livro de “The Ripliad” que foi lançado em 1970, assistimos ao protagonista já casado com a filha de um milionário francês. Apesar de possuir uma fortuna, Tom Ripley continua praticando seus crimes. Afinal, uma vez trambiqueiro... O problema é que para encobertar suas tramoias, ele acaba cometendo um (novo) assassinato. Aí será difícil escapar da polícia, que já estava na sua cola. Será que Ripley verá, enfim, a cor das grades?! Se ele não fosse tão esperto (e larápio!!!), já estaria preso há um tempão. “Ripley Subterrâneo” reserva muitas surpresas, boas cenas de ação e muito suspense. O problema é que parte das características mais interessantes de Tom Ripley foram perdidas (como sua sexualidade indefinida e o complexo de inferioridade). Aqui ele não é um sujeito tão misterioso nem tão complexo quanto no primeiro romance. Em outras palavras, Tom deixa de ser uma figura redonda e passa a ser uma figura plana. Uma possível explicação para essa queda narrativa da coleção é a perda de timing de Patricia Highsmith para produzi-la. Ela demorou décadas para dar sequência ao seu maior sucesso. Vale lembrar que o primeiro livro de “The Ripliad” é da década de 1950 (auge criativo da escritora) e os demais títulos são dos anos 1970, 1980 e 1990 (quando o apogeu literário da norte-americana já tinha ficado para trás). Mesmo assim, vale a pena conhecer as peripécias de Tom Ripley para fugir da polícia e manter seu estilo de vida extravagante e luxuoso. 2) Trilogia 1Q84 – Haruki Murakami (Japão) – Fantasia – “1Q84: Livro 1” (2009), “1Q84: Livro 2” (2009) e “1Q84: Livro 3” (2010). A Série 1Q84 é o projeto editorial mais ambicioso de Haruki Murakami, o mais carismático escritor japonês da atualidade (que Kazuo Ishiguro e Kenzaburo Oe não me ouçam/leiam!). Murakami tem livros melhores que essa coleção? Tem. “Norwegian Wood” (Alfaguara) é, por exemplo, o meu favorito. Murakami tem obras mais divertidas? Tem. Aí o campeão, pelo menos para mim, é “Caçando Carneiros” (Alfaguara). Contudo, o que faz a Trilogia 1Q84 ser tão especial é o caráter único de sua trama quando olhamos a literatura de Haruki Murakami. Essa é a primeira série romanesca do autor japonês, ideia que o público comprou quase que instantaneamente. Além disso, ela mistura vários gêneros literários: fantasia, trama policial, drama psicológico, suspense, distopia, romantismo... Não por acaso, essa saga ficcional vendeu como água nas livrarias dos quatro cantos do mundo nos últimos 13 anos. Obviamente inspirada em “1984” (Companhia das Letras), distopia clássica de George Orwell, a Série 1Q84 é uma aventura fantástica que se passa (o mais adequado seria dizer que ela começa) no ano de 1984. A letra Q na data/título se deve a uma particularidade inusitada do enredo: a existência de um mundo paralelo. Por falar nisso, abração para Uranio Bonoldi e Eduardo Villela! De certa forma, esse universo alternativo leva a dupla de protagonista para uma realidade inusitada e perigosa. Aoname é uma jovem assassina profissional que trabalha como instrutora de artes marciais em uma academia de Tóquio. Tengo Kawana é um professor de matemática da capital japonesa que sonha em ser romancista. Ambos são solitários e profundamente melancólicos (características marcantes das personagens da literatura de Murakami). Em “1Q84 – Livro 1” (Alfaguara), assistimos aos dramas pessoais e profissionais de Aoname e Tengo de maneira individualizada. As histórias da dupla acontecem paralelamente (cada uma é descrita em um capítulo). Apenas no final do romance temos a intersecção das duas linhas narrativas (e também dos dois mundos alternativos). Em “1Q84 – Livro 2” (Alfaguara), Aoname e Tengo viram alvo de uma misteriosa, poderosa e cruel seita religiosa. Enquanto fogem dos inimigos em comum, eles acabam se esbarrando e algo especial nasce desse relacionamento. Mais do que escapar, o casal de protagonista quer agora ficar junto. Em “1Q84 – Livro 3” (Alfaguara), a seita religiosa contrata Ushikawa, o mais talentoso detetive particular do Japão (ou deveria dizer assassino profissional?), para caçar Aoname e Tengo custe o que custar. Será que os protagonistas conseguirão fugir das garras (e da inteligência apuradíssima) de Ushikawa, hein? Essa série literária de Haruki Murakami possui 1.280 páginas e encanta pelas inúmeras e inusitadas surpresas que o texto nos reserva. E olha que eu não sou tradicionalmente muito fã de tramas fantásticas! Não faltam aqui mistérios, cenas de ação, humor, maluquices que só os mundos paralelos são capazes de proporcionar e romantismo. O mais legal é notar que mesmo com a fragmentação da narrativa em dois polos distintos, os leitores não ficam confusos (um risco que corríamos). Além do mais, não há parte chata ou monótona ao longo dos três livros. Incrível! Confesso que adorei a Trilogia 1Q84. Ouço com frequência algumas pessoas falarem: “Haruki Murakami não é tudo isso! Ele é mais um autor comercial do que um escritor cult”. Respeito essa opinião. Porém, para mim, quando pego um livro e, principalmente, uma série ficcional para ler, não estou lá muito preocupado se o autor é mais comercial ou cult. O que quero é ser impactado pela experiência literária e degustar uma excelente história do começo ao fim. E Murakami entrega sim uma belíssima coletânea literária com muitos elementos charmosos e convidativos. Se eu já era fã de sua literatura, depois da Série 1Q84 fiquei mais ainda. 3) Série Millennium – Stieg Larsson (Suécia) – Thriller policial – “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2005), “A Menina que Brincava com Fogo” (2006) e “A Rainha do Castelo de Ar” (2007). Não se engane com a aparente tranquilidade e harmonia dos países nórdicos. Eles escondem uma literatura policial das mais vibrantes, viscerais e, por que não, interessantes. Prova disso é a Série Millennium, do sueco Stieg Larsson. Publicada postumamente (o autor faleceu em 2004) entre 2005 e 2007, essa trilogia se tornou best-seller mundial e foi levada para o cinema tanto por produções locais quanto por produções hollywoodianas. Nas páginas da mais celebrada coletânea ficcional de Larsson, mergulhamos no lado obscuro da Suécia – um lugar onde corrupção, assassinatos, estupros, torturas, chantagens, interesses político-econômicos, intimidações aos jornalistas, crimes cibernéticos, violação da intimidade pessoal e injustiças dão o tom. O resultado é espetacular para quem tem estômago forte para encarar cenas de grande violência e maldade. O primeiro romance de “Millennium” é “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Companhia das Letras). No volume inicial, acompanhamos os dissabores do jornalista Mikael Blomkvist com a Justiça. Sem trabalho e sem dinheiro por causa dos processos que está respondendo nos tribunais, ele aceita investigar o desaparecimento da neta de um milionário local. A garota sumiu misteriosamente há quase quarenta anos e a polícia até hoje não faz ideia do que aconteceu. Disposto a entender os segredos familiares que levaram a perda da netinha, o rico empresário não economizará no salário do jornalista. Quem irá ajudar Blomkvist nessa empreitada é Lisbeth Salander. A moça é uma das melhores investigadoras de uma conceituada empresa privada de segurança. Se ela é fenomenal no trabalho (dona de uma inteligência ímpar e de uma habilidade descomunal com os computadores), por outro lado Lisbeth tem sérios problemas de sociabilidade, que a fazem parecer incapaz psicologicamente. Exatamente por isso, ela precisa ter um tutor, alguém que se responsabilize e a oriente da melhor maneira possível. No papel, isso é bonito. Na prática, ela se torna vítima de abusos sexuais do homem que devia protegê-la. Mesmo com os sérios problemas pessoais que cada um tem, que os atormenta o tempo inteiro, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander vão se unir para descobrir o que aconteceu há quarenta anos. Inicia-se aí um thriller capaz de mexer com as emoções até mesmo dos leitores mais insensíveis. Stieg Larsson é um escritor de mão cheia e essa série literária é incrível! Em “A Menina que Brincava com Fogo” (Companhia das Letras), o segundo título da Série Millennium, é a vez de Mikael Blomkvist ajudar Lisbeth Salander. A jovem investigadora é acusada de praticar um triplo assassinato. Suas digitais foram encontradas nas cenas do crime. Para a polícia não há dúvida: a Srta. Salander é uma serial killer. Do dia para a noite, ela se torna a pessoa mais procurada da Suécia. Sabendo que a amiga é inocente, Blomkvist fará de tudo para localizá-la (antes dos policiais) e, fundamentalmente, para tirá-la dessa enrascada. O problema é que Lisbeth não quer ser encontrada por ninguém. Pelo menos não antes de fazer justiça com as próprias mãos. Acredite se quiser: “A Menina que Brincava com Fogo” consegue ser mais dinâmico, surpreendente, violento e forte do que “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Sim, isso é possível! E o que falar, então, de seu desfecho, hein? Ele é espetacular. O problema é que temos aqui um desenlace inconclusivo. Ou seja, a história não termina efetivamente. Isso seria um problema se a trama não prosseguisse no terceiro livro da Série Millennium. Aí entra “A Rainha do Castelo de Ar” (Companhia das Letras). Essa obra é a extensão natural do enredo de “A Menina que Brincava com Fogo”. Aqui temos, enfim, a conclusão dos problemas de Lisbeth Salander (uma das personagens mais incríveis da literatura contemporânea) com a Justiça da Suécia. Ao falar da Série Millennium, é preciso dizer que a partir de 2015 a trilogia de Stieg Larsson se transformou em uma série literária com mais volumes. Até agora, ela tem ao todo seis livros. Como foi possível inserir outras publicações à coletânea se o autor morreu em 2004?! A resposta é simples: os três novos títulos da saga de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander foram produzidos por outro escritor, o também sueco David Lagercrantz. Pode isso, Arnaldo?! Sinceramente não sei. Essa alternativa me pareceu mais uma gambiarra editorial para vender mais livros do que uma escolha lógica e sensata. De qualquer maneira, admito que não tive interesse de conhecer as três novas aventuras dos protagonistas mais famosos de Larson (ou seriam agora de Lagercrantz?!). Na minha visão, a Série Millennium original (estou me referindo, obviamente, a trilogia inicial de Stieg Larsson) é tão boa que não precisa de continuação. 4) Coleção Harry Potter - J. K. Rowling (Inglaterra) – Fantasia Infantojuvenil – “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (1997), “Harry Potter e a Câmara Secreta” (1998), “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (1999), “Harry Potter e o Cálice de Fogo” (2000), “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (2003), “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (2005) e “Harry Potter e as Relíquias da Morte” (2007). O maior sucesso da literatura infantojuvenil contemporânea tem nome e sobrenome. E ele atende por Harry Potter. A saga do carismático bruxinho vendeu mais de meio bilhão de livros e se transformou na série de maior êxito comercial da história do mercado editorial. Não por acaso, sua autora, a inglesa J. K. Rowling, se tornou bilionária e foi alçada ao posto de um dos grandes nomes da literatura mundial. Com o interesse enlouquecido do público pela trama de Harry Potter, os sete romances de Rowling foram adaptados para o cinema e viraram uma das franquias mais rentáveis da sétima arte. O mais legal é notar que a autora inglesa construiu uma aventura fantástica de altíssimo nível. Diria mais: a Série Harry Potter tem uma qualidade literária raramente vista. Escolha qualquer um dos elementos da narrativa ficcional da saga do bruxinho e o avalie com olhares críticos (tanto pela perspectiva da Crítica Literária quanto pelos parâmetros da Teoria Literária). Na certa, você chegará à conclusão de que J. K. Rowling é uma escritora de enorme talento. Ela explorou a imaginação e a inteligência de crianças e adolescentes, o público-alvo prioritário da saga (se bem que tem muitos adultos que também acompanham avidamente as peripécias do bruxinho), e desenvolveu um universo ficcional riquíssimo ao redor do protagonista. Os sete romances da Série Harry Potter são “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Rocco), “Harry Potter e a Câmara Secreta” (Rocco), “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Rocco), “Harry Potter e o Cálice de Fogo” (Rocco), “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (Rocco), “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (Rocco) e “Harry Potter e as Relíquias da Morte” (Rocco). Eles foram basicamente lançados em dois momentos. Os quatro primeiros títulos chegaram às livrarias britânicas entre 1997 e 2000. E os três últimos livros da coletânea foram publicados entre 2003 e 2007. Para quem gosta de efemérides (abração, Paulo Sousa!), em 2022 comemoram-se 25 anos da chegada de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro volume da saga, ao mercado (e aos corações dos leitores). Se eu tivesse que descrever o enredo dessa série de um jeitão sucinto, diria que Harry Potter é um menino que foi criado normalmente pelos pais adotivos até os 11 anos. Aí ele descobriu ser descendente de bruxo e foi convidado a ingressar na escola de magia e feitiçaria de Hogwarts. Como seus pais de criação não estavam acostumados com o universo mágico, a revelação de que o garoto possuía poderes especiais se tornou um tanto traumática e confusa para ele (pelo menos no início). Chegando à nova escola, Harry passou pelo tradicional ritual de iniciação dos bruxos e descobriu qual das quatro casas de Hogwarts ele deveria pertencer. A partir daí, ele passa por inúmeros desafios, descobertas e provações. Cada livro abrange praticamente um ano da vida do bruxinho na escola. Como falei, essa série literária é espetacular. Cuidado apenas para não se viciar. E como sabemos se o sujeito ficou viciado em Harry Potter, hein? Se a pessoa ler os sete volumes em apenas um mês e/ou assistir compulsivamente aos filmes da saga em um único final de semana, saiba que ela está no caminho da perdição. Porém, se a criatura marcar uma viagem para Portugal porque quer conhecer as roupas dos alunos da Universidade de Coimbra ou a arquitetura da Livraria Lello em Porto, então aí sim ela chegou aos níveis mais sérios de vício literário. Se você gostou desse post do Bonas Histórias, saiba que ele é apenas o primeiro de uma sequência de três. Afinal, como toda boa série literária teremos mais volumes pela frente. Em setembro, retornarei à coluna Recomendações com mais uma leva de quatro coleções da ficção internacional que valem nossa leitura. E em outubro encerrarei essa saga com mais um quarteto de séries estrangeiras que conquistaram os leitores mundão a fora. E como eu sempre digo: enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê, fazer o quê?! Até a próxima. Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. 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- Mercado Editorial: Os livros infantojuvenis mais vendidos em 2021
Confira os dezesseis títulos da literatura infantojuvenil mais comercializados no Brasil no ano passado. O ano de 2022 já caminha para a segunda metade e eu ainda apresentando no Bonas Histórias o ranking dos livros mais vendidos em 2021. Fazer o quê? Como prometi detalhar os best-sellers do ano passado na coluna Mercado Editorial, agora (parodiando o verso de uma canção antiga de Chico Buarque, famosa na voz de Ney Matogrosso) vou até o fim. Vou até o fim! Depois de apresentar as listas com os livros mais vendidos no Brasil em 2021 (post de janeiro), as obras ficcionais mais adquiridas pelos brasileiros no ano passado (post de março) e os títulos ficcionais brasileiros mais comprados na última temporada (post de maio), trago dessa vez as publicações da literatura infantojuvenil mais comercializadas nas livrarias nacionais em 2021. Adentremos, portanto, no mundo mágico e sempre contagiante dos livros para crianças e adolescentes! Em todos esses levantamentos, utilizei como base os dados do PublishNews, a principal e a mais confiável fonte do mercado editorial brasileiro na atualidade. A pesquisa amostral dos livros mais vendidos do PublishNews é feita a partir dos números coletados pelas maiores redes de livrarias do país. Ou seja, temos aqui a vendagem realizada tanto pelas operações online quanto pelas operações físicas dos mais importantes varejistas do setor livreiro. Se esses não são os números consolidados das vendas das publicações em solo brasileiro (afinal, trata-se de um levantamento amostral, né?), ao menos podemos considerá-los como informações fidedignas e criteriosas – sendo um excelente ponto de partida para nossas análises mercadológicas. Como vem ocorrendo nos últimos anos tanto na lista das obras mais vendidas no Brasil quanto na lista dos títulos ficcionais de maior sucesso por aqui, o ranking das publicações infantojuvenis mais procuradas nas livrarias nacionais é constituído quase que essencialmente por produções estrangeiras – no caso, pela literatura norte-americana e pela literatura inglesa. Infelizmente, a literatura brasileira tem uma atuação de mera coadjuvante entre os leitores compatriotas. Dos 16 maiores best-sellers infantojuvenis de 2021, 11 livros são originários dos Estados Unidos, três da Inglaterra e apenas dois do Brasil. Nas três primeiras posições, temos três títulos norte-americanos. Na primeira colocação dos best-sellers, encontramos “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (Seguinte), grande sucesso de Casey McQuiston. Lançado em 2019, esse romance gira em torno da relação polêmica entre o filho do presidente dos Estados Unidos e o príncipe do Reino Unido. Unir relacionamento homoafetivo, política, estilo de vida extravagante da família real e diferenças culturais nunca se mostrou tão acertado como aqui – foram mais de 56 mil unidades vendidas no Brasil e centenas de milhares de unidades vendidas mundão à fora. No segundo lugar, temos o já conhecido “A Garota do Lago” (Faro Editorial), thriller policial de Charlie Donlea. Digo que esse livro é um velho conhecido nosso pois tem figurado na lista dos mais vendidos no Brasil há alguns anos. Ele encabeçou, por exemplo, a listagem das ficções mais vendidas por aqui em 2019 e ficou em segundo lugar na categoria ficcional em 2020. Seu enredo enfoca o assassinato de uma universitária e a investigação realizada por uma destemida repórter. Publicado em 2016 e com pouco mais de 56 mil exemplares vendidos em nossas livrarias em 2021, “A Garota do Lago” teve desempenho comercial muito próximo a “Vermelho, Branco e Sangue Azul” – perdeu o primeiro lugar em nosso país por pouco (muito pouco mesmo!). Apesar de muita gente não classificar a literatura de Donlea como sendo infantojuvenil, eu a vejo dessa maneira – por isso a inclusão dessa obra na lista da literatura infantojuvenil – chamada também de Literatura Jovem Adulto (e Young Adult) pelo mercado editorial. A terceira posição é de “Mentirosos” (Seguinte), suspense psicológico de E. Lockhart, com 50 mil unidades vendidas nas livrarias brasileiras. Lançado em 2014, esse romance só se tornou efetivamente um best-seller depois que viralizou no TikTok no ano retrasado, o que fez despertar a atenção dos jovens leitores nos Estados Unidos, e na sequência, nos demais países. “Mentirosos” narra a rotina dos Sinclair, família tradicional e endinheirada. Nem mesmo o conforto material e a abundância financeira conseguem livrar Cadence, a protagonista do romance, de problemas cada vez mais sérios e angustiantes. Quem conseguiu quebrar um pouco a hegemonia norte-americana na literatura infantojuvenil em 2021 foi, claro, ela: J. K. Rowling. A autora inglesa mais vendida no último quarto de século continua sendo um enorme sucesso entre as crianças e os adolescentes brasileiros. Além de emplacar a venda de 40 mil unidades do “Box Harry Potter” (Rocco), o que coloca essa coleção como o quarto título mais comercializado em nosso país em 2021, J. K. Rowling viu “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Rocco), romance de 1997, atingir 17 mil unidades vendidas (12ª posição entre os best-sellers no Brasil no ano passado). Ou seja, a saga fantástica do bruxinho mais carismático da literatura contemporânea continua arrebatando mais e mais leitores. Os únicos autores brasileiros na listagem dos best-sellers infantojuvenis em 2021 são Gabriel Dearo e Manu Digilio. A dupla é responsável pela bem-sucedida série “As Aventuras de Mike”. Enquanto “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (Outro Planeta), publicado em2020, alcançou vendagem de 18 mil unidades (11ª colocação), “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta), obra que iniciou a saga em 2019, teve 11 mil exemplares comercializados (16ª posição). A seguir, apresento o ranking consolidado do PublishNews com os 16 livros infantojuvenis de maior sucesso nas livrarias nacionais em 2021: 1º “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 56 mil unidades. 2º “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Faro Editorial – 56 mil unidades. 3º “Mentirosos” (2014) – E. Lockhart (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 50 mil unidades. 4º “Box Harry Potter” (1997 - 2007) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Rocco – 40 mil unidades. 5º “Corte de Espinhos e Rosas” (2015) – Sarah J. Maas (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 40 mil unidades. 6º “A Rainha Vermelha” (2015) – Victoria Aveyard (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 37 mil unidades. 7º “A Seleção” (2012) – Kiera Cass (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 32 mil unidades. 8º “Um de Nós Está Mentindo” (2017) – Karen McManus (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 27 mil unidades. 9º “Coraline” (2002) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 22 mil unidades. 10º “O Príncipe Cruel” (2018) – Holly Black (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 22 mil unidades. 11º “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (2020) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantojuvenil Nacional – Outro Planeta – 18 mil unidades. 12º “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (1997) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Rocco – 17 mil unidades. 13º “O Diário Perdido de Gravity Falls” (2016) – Alex Hirsch (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Universo dos Livros – 16 mil unidades. 14º “A Elite” (2013) – Kiera Cass (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 12 mil unidades. 15º “Corte de Chamas Prateadas” (2021) – Sarah J. Maas (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 11 mil unidades. 16º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantojuvenil Nacional – Outro Planeta – 11 mil unidades. E por hoje é só, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros infantojuvenis mais vendidos em 2020
Confira os dez títulos para crianças e adolescentes que tiveram mais êxito comercial nas livrarias brasileiras no ano passado. Em 2021, a coluna Mercado Editorial já apresentou os títulos mais vendidos no Brasil em 2020, as obras ficcionais mais comercializadas em nosso país no ano passado e os best-sellers da categoria ficção nacional no último ano. Agora chegou a vez de tratarmos no Bonas Histórias da literatura infantojuvenil, importante setor que movimenta milhares de exemplares anualmente nas livrarias brasileiras. Afinal de contas, quais foram os livros direcionados às crianças e aos adolescentes mais vendidos no Brasil em 2020, hein? Para responder a essa pergunta, utilizei os dados disponibilizados pelo PublishNews, a fonte mais confiável atualmente do mercado editorial brasileiro. Vale mencionar que o PublishNews faz a medição do setor usando essencialmente as informações coletadas nas principais redes de livrarias do país. Dominando o ranking das obras infantojuvenis mais comercializadas no ano passado em nosso país, temos os clássicos internacionais, os best-sellers contemporâneos e as séries narrativas de sucesso recente. A liderança da lista é ocupada pela saga do bruxinho carismático de J. K. Rowling. “Box Harry Potter” (Rocco) traz os sete romances da inglesa e vendeu mais de 55 mil exemplares no Brasil em 2020. Na terceira posição, ainda temos “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Rocco), livro de 1997 que deu origem à série. Essa obra sozinha foi comprada por pouco mais de 29 mil leitores nacionais. Na segunda posição, vemos “Sol da Meia-noite” (Intrínseca), a mais nova obra de Stephenie Meyer da saga “Crepúsculo”. Curiosamente, a escritora norte-americana apresenta a mesma história que a consagrou, mas dessa vez apresenta a trama do ponto de vista de Edward. O novo livro da coletânea vampiresca vendeu aproximadamente 44 mil unidades por aqui. E esse número só não foi maior porque a obra foi lançada no segundo semestre do ano passado. Se fosse publicado no começo de 2020, “Sol da Meia-noite” teria sido na certa o líder do segmento. Outros destaques entre os mais vendidos nas prateleiras dos títulos infantojuvenis são os clássicos internacionais. “O Pequeno Príncipe” (HarperCollins), fábula memorável de Antoine Saint-Exupéry, e a “Coleção Especial Anne de Green Gables” (Ciranda Cultural), coleção com os seis primeiros livros da famosa série canadense de Lucy Maud Montgomery, venderam cada um mais de 15 mil unidades. Enquanto “O Pequeno Príncipe” ficou na oitava posição entre os mais vendidos, “Coleção Especial Anne de Green Gables” ficou na décima colocação. O público mirim e adolescente parece gostar bastante das séries literárias. “O Diário Perdido de Gravity Falls” (Universo dos Livros), de Alex Hirsch e Rob Renzetti, “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta), de Gabriel Dearo e Manu Digilio, “Diário de Um Banana – Quebra Tudo” (VR Editora), de Jeff Kinney, e “Luccas Neto em Os Aventureiros” (Pixel), de Luccas Neto, venderam mais do que os clássicos no ano passado e alcançaram, respectivamente, a quarta (27 mil unidades comercializadas), a quinta (26 mil), a sexta (19 mil) e a sétima (19 mil) posições no ranking infantojuvenil. Talvez a grande novidade de 2020 tenha sido “A Cinco Passos de Você” (Globo Alt), romance adolescente dos norte-americanos Rachel Lippincott, Mikki Daughtry e Tobias Laconis. Essa obra ocupou há alguns anos a lista dos mais vendidos do The New York Times e foi adaptada recentemente para o cinema. Apesar de possuir uma história sensível e comovente, esse livro me lembrou muito “A Culpa é das Estrelas” (Intrínseca), drama do também norte-americano John Green. “A Cinco Passos de Você” vendeu 16 mil exemplares nas livrarias brasileiras no ano passado e alcançou o nono lugar entre os títulos infantojuvenis mais comercializados por aqui. Veja, a seguir, o ranking dos dez livros infantojuvenis mais vendidos em 2020 no Brasil: 1) “Box Harry Potter” (1997 – 2007) – J. K. Rowling – Literatura Inglesa – Rocco – 55 mil unidades. 2) “Sol da Meia-noite” (2020) – Stephenie Meyer (Estados Unidos) – Literatura Norte-americana – Intrínseca – 44 mil unidades. 3) “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (1997) – J. K. Rowling – Literatura Inglesa – Rocco – 29 mil unidades. 4) “O Diário Perdido de Gravity Falls” (2016) – Alex Hirsch e Rob Renzetti – Literatura Norte-americana – Universo dos Livros – 27 mil unidades. 5) “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Brasileira – Outro Planeta – 26 mil unidades. 6) “Diário de Um Banana – Quebra Tudo” (2019) – Jeff Kinney – Literatura Norte-americana – VR Editora – 19 mil unidades. 7) “Luccas Neto em Os Aventureiros” (2019) – Luccas Neto – Literatura Brasileira – Pixel – 19 mil unidades. 8) “O Pequeno Príncipe” (1943) – Antoine Saint-Exupéry – Literatura Francesa – HarperCollins – 16 mil unidades. 9) “A Cinco Passos de Você” (2018) – Rachel Lippincott, Mikki Daughtry e Tobias Laconis – Literatura Norte-americana – Globo Alt – 16 mil unidades. 10) “Coleção Especial Anne de Green Gables” (1908 – 1939) – Lucy Maud Montgomery – Literatura Canadense – Ciranda Cultural – 15 mil unidades. 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- Livros: A Menina que Viu a Lua - A estreia de Janeth Vieira da Silva na literatura infantil
Publicado em março de 2021, o primeiro título da escritora e ilustradora mineira traz uma narrativa sensível, autobiográfica e de cunho religioso. No finalzinho de maio, recebi “A Menina que Viu a Lua” (Adonis), o primeiro livro infantil de Janeth Vieira da Silva. Juntamente com a obra veio uma carta muito bonita da escritora e ilustradora me convidando para conhecer sua estreia na literatura comercial. Janeth acabara de participar da Bienal Mineira do Livro e estava empolgada com a repercussão de seu trabalho em Belo Horizonte. Contudo, confesso envergonhado (Raul Seixas cantaria para mim: “Mas confesso abestalhado/que eu estou decepcionado”) que não consegui mergulhar na leitura de “A Menina que Viu a Lua” naquele instante. Muitas vezes, minha lista de títulos para ler é maior do que a minha capacidade para degustá-los. Como faço com todos os materiais que recebo e que me atiçam a curiosidade, coloquei o livro de Janeth Vieira da Silva na minha estante de “próximas leituras”. E no último final de semana consegui, enfim, dar a atenção que ele merecia. Posso até demorar um pouco para ler o que me chega, mas eu sempre leio! E qual foi minha surpresa ao constatar que temos em “A Menina que Viu a Lua” uma bela trama infantojuvenil capaz de agradar aos paladares mais apurados. Digo que fiquei surpreso porque não conhecia a literatura dessa autora nem sua habilidade no fazer ficcional. Com fortes tintas autobiográficas, um texto sensível, ótimas ilustrações e intensa pegada religiosa, essa obra é voltada tanto para crianças quanto para adultos. Na verdade, a proposta de Janeth é que esse título seja justamente lido em conjunto por pequenos e grandinhos: pais com filhos, avós com netos, tios com sobrinhos e professores com alunos. Além de ter produzido a narrativa de “A Menina que Viu a Lua”, a escritora também desenvolveu as ilustrações que colorem as páginas da publicação. Em um primeiro momento é até difícil apontar o que chama mais atenção aqui: se o texto impecável e em prosa poética ou as imagens impactantes e de traços originais. Lançado em março de 2021, “A Menina que Viu a Lua” foi publicado pela Editora Adonis, casa editorial localizada em Americana, interior de São Paulo, e especializada na literatura infantojuvenil. Com títulos voltados para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e a Formação Docente, a Adonis possui quase duas centenas de obras, mais de uma centena de autores e dezenas de ilustradores em seu portfólio. Quem curte boas tramas ficcionais direcionadas para a criançada e para os professores na certa ficará encantado(a) com a variedade e a qualidade do catálogo da editora americanense. Bacharel em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), especialista em Plantas Ornamentais e Paisagismo pela UFLA (Universidade Federal de Lavras) e mestre em Engenharia do Ambiente, Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro em Portugal), Janeth Vieira da Silva é arquiteta e professora universitária. Mineira de Belo Horizonte, a autora de “A Menina que Viu a Lua” cresceu e morou na maior parte do tempo na capital mineira. Ela ainda vive na belíssima e sempre agradável BH – por falar nisso, beijão Josi Ane! Janeth sempre foi apaixonada pela literatura e pela ilustração. Contudo, com o trabalho na arquitetura por três décadas e na docência nos últimos sete anos, a paixão pela produção literária e o dom para os desenhos ficaram por muitos anos de lado. Em 2018, todavia, bateu forte a vontade de adentrar para valer no universo ficcional e, principalmente, nas engrenagens da literatura infantojuvenil. A ideia da belo-horizontina era atuar ao mesmo tempo como autora e como ilustradora. O resultado prático dessa iniciativa se chama ”A Menina que Viu a Lua”. O livro levou aproximadamente dois anos para ser desenvolvido. Janeth Vieira da Silva fez primeiramente a trama textual da garotinha Ray e só depois partiu para o desenvolvimento das ilustrações. Os desenhos da obra foram confeccionados no Carnaval de 2021. Por falar na protagonista dessa publicação, vale a pena dizer que Ray é evidentemente o alter ego da escritora e ilustradora quando pequena. A rotina da garotinha sonhadora, aventureira, tímida, religiosa e que tinha uma conexão especial com a luz de “A Menina que Viu a Lua” foi baseada nas lembranças infantis de Janeth. Por isso temos o termo “baseado em uma história real” estampado na quarta capa. O cenário das aventuras de Ray foi inspirado na casa de Venda Nova, uma das regiões mais antigas de Belo Horizonte, e local onde a autora cresceu e que ainda hoje suscita saudades e lembranças positivas. O lar de Janeth ficava em um terreno com mais de mil m² e era habitada por incontáveis árvores frutíferas e bichinhos. Esse cenário paradisíaco aos olhos de uma criança foi decisivo para o crescimento e para a formação da artista. Cartão de visita de Janeth Vieira da Silva, “A Menina que Viu a Lua” serviu também de motivação para a escritora abandonar a arquitetura e investir no ofício de ilustradora. Com a proposta de ilustrar os mais diferentes projetos editoriais voltados para crianças e idosos, Janeth criou o Estoriando. Por sua empresa própria, ela faz as ilustrações de livros para outros escritores e elabora retratos, desenhos e estampas a partir de fotografias. Seus clientes são normalmente famílias, casais, eventos e editoras. O enredo de “A Menina que Viu a Lua” começa com o nascimento de Ray, uma garotinha esperta, sonhadora e disposta a se aventurar pelo mundo. Ela vive em uma casa com um enorme quintal cheio de árvores e bichinhos. A paisagem da residência e as histórias contadas pela avó-madrinha alimentam a já fértil imaginação de Ray. A infância idílica da menina ganha com o tempo a companhia de duas irmãzinhas: Alva e Lily. Mesmo sob o carinho do seio familiar, a segurança do ambiente doméstico e a harmonia da rotina infantil, ainda assim alguns perigos rondam a vida da protagonista. Por isso, ela ganha a proteção de um anjo da guarda de cabelos cor de sol. É ele quem ajudará a pequena amiguinha a fugir de algumas enrascadas pelo quintal de casa. O que o anjo da guarda não poderá evitar é o surgimento das primeiras frustrações em Ray. Ao crescer e sair do ambiente doméstico e familiar, a garota acaba conhecendo novas pessoas e fazendo novos amiguinhos. Seja na escola, seja na vizinhança, Ray nota o quanto os indivíduos podem ser diferentes um dos outros e ter ações e pensamentos distintos aos seus. À medida que fica exposta às novas interações sociais, ela evidencia comportamentos erráticos e questionáveis, o que a faz refletir sobre a essência da alma humana e as injustiças do mundo. Definitivamente, a vida fora de casa não é tão tranquila e harmônica quanto aquela que ela tinha em seu lar. Apesar das adversidades e das primeiras frustrações, algo que não muda na menina é a vontade de conhecer o mundão e de se aventurar por novos lugares. Diante desse anseio desbravador, Ray recebe, certa noite, a visita em seu quarto de uma amiga muito especial. Lunita é uma entidade mágica que faz revelações sobre os detalhes da alma humana, o que conforta a menina de certa forma. Além disso, Lunita possibilita que Ray viaje pelas mais diferentes paisagens do planeta em sonhos sinestésicos e extremamente coloridos. Assim, a garota pode conhecer lugares distantes sem correr os perigos do contato com indivíduos indelicados. Inicia-se, a partir daí, as aventuras oníricas e mágicas da personagem principal do livro por cenários grandiosos e exuberantes. Em cada passeio, as duas amigas vão refletir sobre a beleza do universo, as particularidades das emoções das pessoas e a força divina. Com a tutela de Lunita, Ray poderá entender e sentir o mundo de um jeito que os adultos não conseguem. “A Menina que Viu a Lua” possui 48 páginas e vem em edição bilíngue (texto em português e inglês). Exatamente por isso, o correto teria sido eu chamar desde o início desse post da coluna Livros – Crítica Literária a obra de Janeth Vieira da Silva pelo seu nome completo: “A Menina que Viu a Lua/ The Girl Who Saw The Moon”. Contudo, para fins de simplificação, optei por me referir apenas ao título em nosso idioma. Espero que a autora me perdoe. E já que estamos falando do texto em inglês, a profissional responsável pela versão da narrativa foi Tereza Cristina Brandão Godói Godinho. Por falar em Tereza Cristina, foi a tradutora que convenceu Janeth a batizar a protagonista do livro de Ray. Ou seja, a interação entre escritora e tradutora foi além da mera adaptação textual. Muito legal isso, né? Levei cerca de trinta minutos para percorrer o conteúdo de “A Menina que Viu a Lua”. Basicamente, li o livro de uma tacada só na tarde do último sábado. Obviamente, as crianças, o público-alvo principal da publicação, devem investir mais tempo nessa leitura – imagino que entre uma e duas horas dependendo do estágio delas no processo de letramento. No caso de uma leitura conjunta de pais e filhos (ou adultos e crianças), a interação entre os leitores, o diálogo que a história suscita e a apreciação das ilustrações de “A Menina que Viu a Lua” irão também contribuir para uma evolução mais cadenciada. O primeiro aspecto que gostaria de comentar sobre esse título de estreia de Janeth Vieira da Silva é em relação ao seu conteúdo. A trama permite que a molecadinha reflita sobre questões delicadas da primeira infância que todos nós passamos (com maior ou menor intensidade): o ingresso na escola, as primeiras amizades e, principalmente, as difíceis interações com indivíduos tão diferentes da gente. Afinal, não é fácil deixar a segurança do ambiente doméstico e se distanciar do olhar protetor da família. Ao se aventurar por ambientes desconhecidos e interagir com novas pessoas, a meninada vivencia experiências por vezes complicadas e angustiantes. Porém, mais interessante do que a temática em si de “A Menina que Viu a Lua” é a maneira inteligente, sensível e não maniqueísta que a autora e ilustradora mineira propõe o debate sobre as diferenças individuais e familiares. Não à toa, essa particularidade da narrativa é, na minha humilde opinião, a maior riqueza do livro. Mais legal ainda é que “A Menina que Viu a Lua” não é apenas um livro interessante. Ele também é lindo! As ilustrações de Janeth Vieira da Silva têm traços originais e marcantes. As imagens dialogam intimamente com o universo infantil, onírico e religioso. Na maioria das vezes, a escritora e ilustradora utilizou cores primárias e traços bem definidos. Gostei bastante dos desenhos dela. As ilustrações foram desenvolvidas à mão e à lápis de cor aquarelado sobre o papel Canson. A ideia de Janeth era justamente transmitir a emoção de sua narrativa para os leitores de um jeito menos padronizado e menos digital. Não por acaso, a sensação é que as imagens foram feitas e pintadas à mão e na hora em que folheamos a obra. O efeito disso torna a publicação realmente bonita e singular tanto aos olhos infantis quanto aos olhos dos adultos. Impossível não nos emocionarmos com o casamento bem azeitado de conteúdo textual e composição visual. Outro elogio que precisa ser feito é para a diagramação do livro. Muitas vezes quando a obra é bilíngue, temos uma poluição visual com os textos dos diferentes idiomas brigando entre si e com as ilustrações ao longo das páginas. Isso não aconteceu em “A Menina que Viu a Lua”. As escolhas visuais e a diagramação dos textos estão primorosas. Nesse ponto, os méritos da belíssima estética do livro devem ser compartilhados com a Editora Adonis e com Paula Leite, a designer gráfica encarregada desse projeto editorial. Voltando ao conteúdo propriamente dito de “A Menina que Viu a Lua”, gostei também do narrador em terceira pessoa colado à protagonista. Ele tem uma postura crítica aos acontecimentos relatados e um comportamento bastante efusivo. Invariavelmente, o narrador age de maneira calorosa, reagindo e se emocionando com a história de Ray. Ele conversa com os leitores, o que confere certo ar de diálogo ao texto e de transmissão de lições de moral. O uso do tempo verbal no passado (adequadíssimo por sinal) proporciona uma sensação de saudosismo à trama. É como se um adulto contasse suas próprias experiências infantis para a gente. A união dessas características dá maior força narrativa ao livro. Afinal, quem não gosta de confidências pessoais, de um narrador passional e de um texto com pegada dialógica, né? Eu, por exemplo, adoro essa combinação na literatura. Em “A Menina que Viu a Lua”, temos referências aos elementos celestiais da primeira à última página. Repare na citação recorrente à Lua, ao Sol, às nuvens, aos astronautas, ao anjo da guarda, aos pássaros e a Deus. A impressão é de estarmos o tempo inteiro olhando para cima. O próprio nome da protagonista, se traduzido ao pé da letra para o nosso idioma, remete aos aspectos do céu e da natureza. Até mesmo quando os componentes mais mundanos entram em cena (árvores e montanhas, por exemplo), temos uma perspectiva de grandiosidade e de altura excessiva. Adorei isso! É como se tudo fosse gigantesco para as crianças. Se pensarmos bem, essa é a perspectiva de mundo que elas devem ter na infância. Ou seja, a narrativa abraça para valer o ponto de vista dos pequenos. O desfecho do livro de Janeth Vieira da Silva está simplesmente espetacular. De um jeito meigo, humilde e poético, a autora convida os pais e as crianças para que eles continuem experimentando novas histórias. Há inclusive um espaço na última página de “A Menina que Viu a Lua” para que os leitores coloquem imagens das próximas aventuras literárias que eles vão participar. Por essa linha de pensamento, o mundo maravilhoso da ficção e a descoberta do mundo pelas crianças não terminam com o fechamento dessa obra, né? O texto de “A Menina que Viu a Lua” está impecável tanto na parte em português quanto na parte em inglês. Para ser sincero, só achei alguns probleminhas pontuais na diagramação (uma ou outra linha que não foram puladas no meio do discurso), mas nada que prejudique a experiência de leitura. Se você for ler essa obra na versão digital, para o Kindle, na certa não encontrará esses tropeços, pois eles foram corrigidos (algo impossível de ser feito na primeira edição dos exemplares impressos). Por falar em equívocos, fiquei um pouco incomodado com o fato de a trama ser dirigida ao mesmo tempo para as crianças (filhos) e para os adultos (pais). Normalmente, a falta de uma definição clara do público acaba prejudicando a narrativa. Afinal, quem fala para muita gente acaba não falando para ninguém. E, infelizmente, foi o que aconteceu em “A Menina que Viu a Lua”. As partes que são dirigidas aos adultos me pareceram meio pueris e simplórias, em oposição à profundidade reflexiva e filosófica das partes voltadas para a criançada. Nesse caso, falar para um adulto que ele precisa estar atento às ações das crianças e que deve participar da rotina delas é um tanto óbvio. Por outro lado, procurar mostrar para à meninada o motivo do comportamento errático daquele coleguinha mais impertinente é uma belíssima sacada. Gostei mais da primeira metade do livro (agruras da construção dos relacionamentos humanos fora de casa e na escola) do que da segunda metade (maravilhas do mundo mágico apresentado a Ray por Lunita). Achei que a obra iria mergulhar com mais intensidade nos dramas de relacionamento de Ray e as descobertas sociais da protagonista na primeira infância. Não é que a segunda parte de “A Menina que Viu a Lua” (viagem mágica da garotinha ao lado da grande amiga) seja ruim, mas ela não é tão rica e profunda quanto à do começo da publicação. É tudo uma questão de expectativa. Como minha expectativa era outra, ficou uma pontinha de decepção. Quem for realizar a leitura do livro de Janeth Vieira da Silva com a mente totalmente aberta (sem tentar adivinhar o caminho narrativo como eu fiz) não deverá cair no meu erro (nem se frustrar). Outra questão que não gostei foi da forte religiosidade da trama (algo que apareceu com mais força na segunda metade do livro). Ao invés de abordar aspectos práticos de uma determinada religião (ir à missa, adorar Jesus Cristo, rezar à noite...), o texto poderia abrir-se mais para a espiritualidade do que para a religiosidade em si. Afinal, nem todos os leitores comungam das mesmas visões religiosas. Por outro lado, a maioria deles acredita em muitos aspectos convergentes (apesar de cada religião dar um nome diferente para as mesmas coisas). Se pensarmos bem, até os ateus e os agnósticos têm certa espiritualidade. Abordar a religião e não a espiritualidade acabou fechando algumas portas. É uma pena pois o conteúdo de “A Menina que Viu a Lua” merece ser lido por todo mundo independentemente da religião (ou da ausência de religião) dos leitores. Como já disse, gostei muito desse livro. Ele surpreendeu tanto a criança que tenho internamente dentro de mim quanto o adulto que muitas vezes insiste em monopolizar as ações do meu cotidiano. Acredito que “A Menina que Viu a Lua” é um bom título infantojuvenil para adultos e crianças lerem juntos nessas férias escolares de Inverno. Por falar nisso, é importante salientar que a parada na escola no meio do ano não é motivo para ninguém desgarrar da literatura e dos livros ficcionais, não é mesmo?! Boas férias escolares e muita literatura para os pequenos leitores! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Julho de 2012
O que parecia impossível aconteceu: a Copa Libertadores da América enfim se rendeu aos encantos (e à raça) dos corintianos. 1° de julho de 2012 - domingo A rodada desse final de semana do Campeonato Brasileiro não teve o Timão em campo. Por causa da decisão de quarta-feira da Libertadores, a diretoria corintiana pediu para a CBF o adiamento do jogo contra o Botafogo que aconteceria hoje. A confederação aceitou a solicitação para não prejudicar o representante nacional no torneio sul-americano. Assim, os atletas do Parque São Jorge podem se preparar melhor para a grande partida contra o Boca Juniors no meio de semana. É um alívio saber que não veremos os limitados jogadores reservas do Corinthians em campo perdendo mais alguns pontos no Brasileirão. As boas notícias do domingo não se limitaram à ausência do Timão nos gramados. No Centro de Treinamento Joaquim Grava veio a informação sobre a provável escalação de Jorge Henrique para o segundo jogo da final da Liberta. O atacante fez ultrassom na sexta-feira e o resultado do exame não indicou nenhuma lesão mais grave. “Ele apresenta um edema no local. Vamos ver a evolução com o tratamento. A chance é grande de ele jogar na quarta. Foi só um pequeno desarranjo na coxa. Não houve lesão”, disse o médico Júlio Stancati ao portal de esportes do UOL. Outra boa nova é o trabalho intenso do técnico Tite para evitar que o clima de "já ganhou" dos torcedores influencie negativamente os atletas do Timão. O gaúcho tem sido enfático em treinar todas as variantes táticas e em preparar seus jogadores psicologicamente para o próximo desafio. Além disso, todos do elenco corintiano têm treinado pênaltis nos últimos dias. O único empolgado com a possibilidade da partida ser desempatada pelos tiros livres parece ser o goleiro Cássio: "Já peguei jogando pela base no Grêmio. Fui muito feliz, ganhei mais do que perdi. Sempre peguei um ou dois pênaltis. O mais recente foi na Holanda pelo time B. Na final da Copa, eu peguei dois e chutaram dois para fora”. É bom saber da capacidade do nosso arqueiro nesse tipo de disputa. Porém, é muito melhor a gente nem tocar no assunto de pênaltis para não chamar coisas ruins. Além da possibilidade de ter todos os titulares em campo no próximo jogo, as notícias vindas da Argentina também são bem positivas para a Fiel Torcida. Três jogadores da equipe de La Bombonera tiveram os contratos vencidos depois da primeira partida da final e podem ficar de fora do segundo jogo. A diretoria do Boca tenta renovar com os titulares Schiavi e Roncaglia e com o reserva Cvitanich. Se não tiverem os vínculos estendidos, eles não poderão entrar em campo. Os problemas mais graves têm sido criados por Riquelme. O craque do Boca tem discutido com o técnico pela imprensa. Um acusa o outro de não fazer um bom trabalho. O ambiente no vestiário xeneize não deve estar nada amigável. Esses são os ingredientes da decisão da Libertadores de 2012. Calma e paz no lado do Parque São Jorge. Confusão e brigas no lado de La Boca. Não há como não ficar otimista. O título está muito próximo! Só espero acordar na quinta-feira e ver que o maior sonho corintiano se concretizou. Nem passa pela minha cabeça despertar com mais um pesadelo à vista. 2 de julho de 2012 - segunda-feira Um clima extraordinário toma conta da cidade de São Paulo. Somente quem está por aqui consegue medir o grau de fanatismo dos torcedores do Timão. Os corintianos estão empolgadíssimos com a próxima partida. A final de quarta-feira é assunto obrigatório e preponderante em qualquer ambiente da metrópole: no elevador do prédio comercial, dentro do carro aguardando o semáforo abrir, durante a reunião de negócios, na refeição com a família, na caminhada matinal, nas intimidades do casal na cama, ou nos programas televisivos. Em todos os momentos da rotina paulistana há sempre alguém para lembrar do jogo contra o Boca e soltar um "Vai Corinthians!". É impossível não se envolver com o clima de decisão. A impressão é de estarmos próximos de vivenciar um momento histórico comparado à chegada do homem à Lua, à descoberta da América por Cristóvão Colombo, à mobilização pelas Diretas Já ou à chegada ao Parque São Jorge de Ronaldo Fenômeno. Com a consciência de fazerem parte de uma importante página da História Contemporânea, os torcedores desfilam com as camisas alvinegras pelas ruas. As bandeiras do Timão estão hasteadas nas janelas das residências. Os ingressos para o confronto no Pacaembu são mostrados aos amigos com veneração. Crianças jogam bola nos parques simulando os lances da partida. Promessas são anunciadas pelos corintianos como compensação (ou esperança) pela possível alegria do título. Esse tema, por sinal, é o mais engraçado de todos. Nunca entendi direito a necessidade das pessoas em fazer promessas. Muita gente me pergunta qual é a minha em caso de vitória na quarta-feira. Juro que ainda não pensei nisso. Às vezes me sinto como o único corintiano sem uma ação premeditada em caso de conquista. O ex-jogador Neto, atualmente comentarista esportivo, prometeu ficar careca se a Libertadores for conquistada pelo Corinthians. Biro-Biro, lateral esquerdo corintiano na década de 1980 e conhecido desde sempre pelos cachos loiros, fez a mesma aposta/promessa. Renata Fan, apresentadora da Band, assegurou que ficará de biquíni diante das câmeras se o Timão for campeão. Já o jornalista Chico Lang, da TV Gazeta, garantiu que irá comemorar pelado na Avenida Paulista. Essas são as promessas de alguns famosos. Os torcedores comuns também fazem as suas. Conheço um rapaz que marcou com a namorada, dez anos atrás, para eles se casarem no dia seguinte à conquista da América pelo Corinthians. Na cabeça dele, tal evento jamais aconteceria. Agora ele está muitíssimo preocupado. A moça (convertida em corintiana das mais fanáticas) já está procurando até salão para a festa. Uma amiga anunciou, há muito tempo, que faria uma tatuagem nas costas com a foto do elenco campeão. Nos últimos dias, ninguém consegue contactá-la. Um tio foi além e garantiu que iria a pé até a cidade de Aparecida para agradecer à Nossa Senhora. Chegando lá, prometeu percorrer a cidade de joelhos até a igreja. Ainda não cogitei nada para mim. Devo pensar em algo quando estiver a caminho do estádio na quarta-feira. Espero não prometer algo difícil de ser realizado. Afinal, promessa é promessa e tem que ser cumprida depois. 3 de julho de 2012 - terça-feira A movimentação no Centro de Treinamento corintiano na véspera da grande final foi atípica. Normalmente o local onde o Timão treina não recebe muitos curiosos nem muitas visitas. A principal razão dessa espécie de isolamento (ou bolha de paz e tranquilidade) é a grande distância do Parque Ecológico do Tietê para o centro de São Paulo. Entretanto, a algumas horas da disputa do título da Libertadores, esse parece não ser um grande problema para torcedores e jornalistas. Centenas de pessoas foram até o CT para saber as últimas novidades do Timão. Enquanto os torcedores ficaram no lado de fora gritando e incentivando os jogadores, os repórteres esportivos se aglomeraram na sala de imprensa e na beira do gramado do campo principal. A imprensa de vários lugares do mundo se juntou aos jornalistas brasileiros para retratar as últimas sessões de treinamento dos jogadores do Corinthians. Havia repórteres do Japão, Coréia do Sul, do Oriente Médio, da Argentina, de outros países sul-americanos e da Europa. O principal momento da cobertura dos meios de comunicação foi a entrevista coletiva do técnico Tite. O treinador se mostrou sereno e confiante. Com a recuperação de Jorge Henrique, a equipe que ele escalou é a mesma do último jogo: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Jorge Henrique e Emerson Sheik. O Boca Júnior chegou a São Paulo no início da tarde de hoje. No começo da noite, treinou no gramado do Estádio do Pacaembu. Os argentinos acusam alguns problemas. Battaglia, volante experiente com quatro títulos da Libertadores pela equipe de La Bombonera, está machucado e segue fora. O lateral-direito Roncaglia, autor do gol na partida de ida, também não entrará em campo. O jogador teve o contrato encerrado há alguns dias e se negou a assinar um seguro que garantiria sua participação na final. É mais um desfalque. Schiavi e Cvitanich, que estavam na mesma situação, prorrogaram em alguns dias os vínculos com o clube e vão jogar. Riquelme, o craque xeneize, também está confirmado e é a nossa maior preocupação. O meio-campista joga muito e mesmo com a idade avançada tem o poder de decidir uma partida a seu favor. Precisamos ficar de olho nele. Faltando menos de 24 horas para o apito inicial do juiz, é impossível esconder a ansiedade e o nervosismo. Pela primeira vez no ano, tive dificuldade para escrever as linhas dessa página. Não conseguia me expressar racionalmente nem me concentrar no conteúdo. Algo que levo normalmente de trinta a quarenta minutos para fazer, demorei três horas e meia. Não sei explicar esse sentimento. É um misto de empolgação e receio. O entusiasmo é, obviamente, pela proximidade da conquista. O medo é de ver o sonho desmantelado na última hora. Em minha opinião, o Corinthians é o melhor time da Libertadores desse ano. Considero até uma injustiça o Boca Juniors ter chegado à final tamanha é a sua limitação técnica. E é exatamente esse o maior dos problemas. O Boca é especialista em acabar com o favoritismo alheio, principalmente no campo adversário. Nunca repeti com tanta ênfase a famosa frase: "Que vença o melhor!". Será mesmo muito difícil dormir nessa noite... 4 de julho de 2012 - quarta-feira No começo da tarde, fui até a casa da minha prima Tatiana para buscá-la. Depois de algumas paradas, chegamos ao portão do Pacaembu. Faltavam ainda três horas para o início do jogo e a movimentação ali já era grande. Surpreendidos pelo número de torcedores na entrada do estádio, cancelamos a passada na padaria da Praça Vilaboim e entramos a procura de bons lugares. Essa foi nossa sorte. Se esperássemos mais meia hora, provavelmente não teríamos achado assento. A festa da torcida corintiana no estádio foi algo indescritível. Nunca vi os corintianos tão animados. Os 40 mil presentes cantavam em estado de êxtase. Estar ali era um sonho para todos. Os únicos momentos de maior preocupação vivenciados pela Fiel naquela noite foram nos 15 minutos iniciais do jogo. O Boca começou melhor e dominou as ações. Mesmo assim, os argentinos não conseguiram finalizar ao gol de Cássio. Com o passar do tempo, os jogadores corintianos foram se encontrando em campo e passaram a ditar o ritmo da partida. Os lances de maior perigo do primeiro tempo foram protagonizados pelos atacantes alvinegros. Em um deles, o goleiro argentino se machucou. O reserva entrou e a esperança do Bando de Loucos era por uma falha sua. Infelizmente, ele foi pouco exigido e a etapa inicial terminou em 0 a 0. No intervalo, cogitei a possibilidade de a disputa ir para a prorrogação e para os pênaltis. Fui censurado por todos ao meu redor. Aí me lembrei da promessa. Não havia feito nenhuma! Seria essa a razão do empate? Perguntei para a Tati e ela também não havia feito. Questionei o pessoal sentado ao nosso lado. Ninguém havia se comprometido com nada. Somente uma moça disse ter prometido ficar três meses sem comer chocolate. Quando discutíamos qual deveria ser a promessa de cada um ali, os jogadores voltaram ao gramado para o segundo tempo. Logo de início, Emerson Sheik aproveitou passe de calcanhar de Danilo, após uma cobrança de falta de Alex, e chutou para dentro das metas adversárias. Gol do Timão!!! Catarse coletiva nas arquibancadas. O sonho era possível! O Corinthians voltou do vestiário muito melhor. A pressão alvinegra continuou mesmo após inaugurar o placar. O segundo gol veio logo. Emerson roubou a bola no meio de campo e foi avançando com rapidez até a pequena área. Ao ver o goleiro, o camisa 11 escolheu um canto e saiu para comemorar. 2 a 0. Agora o sonho se tornava realidade. Os anos de amargura, humilhação e desespero ficavam para trás. Um filme com essa história passava na mente de cada um dos torcedores. Ainda comemoramos o que achamos ter sido o terceiro gol. A bola bateu na rede pelo lado de fora. Estranhamente o segundo tempo foi tão fácil que o jogo caminhou rapidamente para o final. Tati não acreditava: "Nem sofri tanto hoje. Contra o Vasco e contra o Santos foi bem pior". Quando o juiz encerrou a partida, os torcedores choravam e se abraçavam. O Corinthians, enfim, era Campeão da Copa Libertadores da América. De maneira invicta. E diante de sua apaixonada torcida. Um capítulo lindo da história desse clube era escrito por Ele. Sim, Ele! Deus provava, pelo menos para mim, que existia. Ele não só existe como, aparentemente, é corintiano! Obrigado, Pai!!! 5 de julho de 2012 - quinta-feira A quinta-feira começou com os corintianos em festa. As ruas da cidade de São Paulo foram tomadas por milhares de torcedores comemorando a façanha dos jogadores do Parque São Jorge. No estádio, ninguém dava indícios de que sairia tão cedo dali. As arquibancadas permaneciam lotadas para ver o capitão Alessandro erguer o tão cobiçado troféu. Após a premiação, houve a volta olímpica com a taça sendo apresentada à Fiel Torcida. As cenas mais comuns dentro do Pacaembu, após a vitória, eram de pessoas chorando copiosamente, registrando os momentos finais daquela noite pelos celulares ou se abraçando e gritando enlouquecidamente. Mais de uma hora após o apito final do juiz, eu e a Tati fomos uns dos primeiros a deixar o estádio. Surpreendentemente encontramos a Praça Charles Miller abarrotada de torcedores comemorando. Como era possível aquela aglomeração se a torcida ainda estava nas arquibancadas, hein? Entendemos naquele instante que milhares de torcedores, sem ingresso e sem condições para adentrar ao estádio, ficaram torcendo no lado de fora do portão. Isso sim era paixão pelo time! Também vimos alguns torcedores machucados e sangrando. A relação dos corintianos sem ingresso não deve ter sido nada amigável com os policiais. Nas ruas, a comemoração foi intensa. Os carros passavam buzinando com as pessoas do lado de fora das janelas empunhando bandeiras do Timão. Fogos de artifício e rojões coloriam o céu e tornavam a madrugada mais barulhenta. Nas calçadas, os torcedores pulavam, gritavam e continuavam cantando as músicas. O barulho era intenso e mal dava para conversar com minha prima. Como a comemoração havia se estendido demais, às duas horas da manhã já não havia mais transporte público para voltarmos para casa. A estação de metrô estava fechada e no ponto de ônibus os últimos coletivos ignoravam os torcedores. O único que parou foi um ônibus com destino ao Terminal da Lapa. O motorista, anunciando ser corintiano, abriu a porta de trás para a torcida entrar sem pagar. Em questão de segundos, o veículo ficou lotado. Muitos devem ter entrado sem saber para onde estavam indo. Para comemorar, o motorista dirigia balançando o ônibus para a direita e para a esquerda. Tudo era motivo para delírio dos passageiros alvinegros. "É campeão! É campeão!" era o grito que ecoava no interior do veículo. Até chegar em casa, ainda demorou um pouco. Para quem precisou esperar tanto tempo para ser campeão da América, o que são algumas horas vagando pela cidade, né? Quando cheguei, tomei um litro de água e me sentei no sofá da sala. Liguei a TV no Fox Sport. Descobri que a reprise do jogo estava para começar. Vi novamente os 90 minutos da partida. Realmente a atuação de Emerson Sheik foi espetacular! O dia já havia amanhecido e ainda era possível ouvir as buzinas e os rojões. Deve ter sido uma longa madrugada para palmeirenses, são-paulinos e santistas. Para os corintianos, a chegada do novo dia significava a hora de dormir. Pela primeira vez em nossas vidas, o sonho chegara antes do sono. 6 de julho de 2012 - sexta-feira Não é preciso dizer que dormi praticamente o dia inteiro na quinta-feira. Acordei apenas para almoçar e para escrever essa página de O Ano que Esperávamos Há Anos. Depois de ter abastecido o estômago e cumprido a obrigação diária de fazer meus relatos futebolísticos, voltei para a cama para prosseguir no sono dos justos. A sexta-feira acabou representando para mim o verdadeiro dia seguinte à partida final. Perdi um dia inteiro da minha vida por causa da conquista corintiana e das comemorações madrugada à dentro. Pensando bem, a contrapartida foi razoável. Não devo reclamar. O primeiro ponto negativo foi não ter acompanhado a cobertura da histórica vitória do Timão. Como eu queria ter visto os jornalistas exaltando os feitos alvinegros e as imagens da Fiel Torcida nas ruas da cidade e nas arquibancadas do Pacaembu. Tudo bem. Não é possível ter tudo nessa vida, né? O principal problema da sexta-feira foi outro. Eu não consegui falar com nenhum dos meus amigos palmeirenses, são-paulinos e santistas. Misteriosamente, eles desapareceram. Ninguém respondeu aos e-mails, entrou nos programas de conversa instantânea nem atendeu às minhas ligações telefônicas. Senti como se tivesse ganhado na loteria e não pudesse gastar o dinheiro obtido. Ou se saísse com a mulher mais estonteante do planeta (beijo, Thalita!) e ninguém me visse com ela. Foi muito frustrante! Só consegui falar com os corintianos. Muitos faltaram ao serviço ontem e se diziam empenhados em mostrar para os chefes alguma dedicação e empenho no trabalho de hoje. Para não dar bandeira sobre o motivo da falta da véspera, a maioria sequer falou de futebol nessa sexta-feira. Quando verifiquei minha correspondência eletrônica, dois e-mails me chamaram a atenção. O primeiro foi da Tatiana e o segundo da Keli. "Oi, Riiiii, tó mandando algumas fotinhos pra vc guardar tb!!! Fui dormir "ontem" as quatro da manhã, acredita??? Aqui ainda tinham alguns fogos... Minha cabeça ainda ouvia a torcida cantando e gritando... Uma noite realmente inesquecível pra todo corintiano.... e pra quem estava no estádio como a gente, mais ainda né?! Como vc disse, Deus existe e finalmente resolveu atender ao pedido de tantas pessoas!!! Quero agradecer por tudo... Obrigada mesmo!!! A gente é pé-quente, hein!!! A GENTE VIU DE PERTINHO O CORINTHIANS CAMPEÃO DA LIBERTADORES!!!! VALEU... Bjaooo!!!" escreveu minha prima. Fofinha ela!!! Já a Keli me mandou a mensagem ao final da partida: "Oi, amigo. Vc ainda está no Pacaembu e eu em casa chorando como uma louca. Minha filha na minha barriga saltando de alegria junto com a mãe dela. Depois do primeiro gol, eu disse 'Vai Curinthians! Quero ver o Bona ficar famoso com o livro sobre a Libertadores. Agora vai lá e ganha essa!'. Tô mega hiper master Felizzzzzzzzzzzzzzzzz. É CAMPEÃO, É CAMPEÃO, É CAMPEÃO! UHUUUUUUUUUUUUUUH! Bjão". Cada corintiano, ao seu modo, tinha uma história para contar da quarta/quinta-feira da inesquecível conquista. 7 de julho de 2012 - sábado A cobertura da imprensa esportiva me pareceu menos passional e exagerada nesse sábado. A poeira levantada pelo título inédito do Timão começava a se assentar. Os jornalistas conseguiam trazer novidades mais objetivas relacionadas ao elenco corintiano e aos bastidores do clube do Parque São Jorge. O principal destaque nas páginas de esporte dos jornais paulistanos era para a possibilidade de desmanche do time campeão da América. O zagueiro Leandro Castán foi anunciado como o primeiro a sair. O defensor foi vendido por 5 milhões de euros para a Roma. O segundo deverá ser William. O camisa 7 está próximo de se transferir para o futebol ucraniano. Mais jogadores também têm as saídas engatilhadas. Nossa sorte é que a maioria é de reservas sem espaço no elenco ou de atletas que não agradaram ao técnico. São os casos de Gilsinho, Ramon, Ramirez e Felipe. Liedson deverá também deixar o Timão após o encerramento do contrato. O Levezinho não tem mais condições físicas para atuar e deverá procurar outro time para jogar. Dos titulares, Chicão e Emerson Sheik receberam propostas de equipes chinesas. Enquanto o primeiro ainda analisa as ofertas, o segundo já recusou as investidas gringas. Nosso herói na final da Libertadores garantiu que permanecerá no Coringão. Paulinho e Alex são outros candidatos a sair. Enquanto o volante é pretendido pela Internazionale de Milão, o meio-campista é desejado pelo futebol do Oriente Médio. Se alguns atletas devem sair, outros devem ser contratados. Os cartolas do Timão continuam em busca de um centroavante. O velho discurso de procurar algo "bom e barato" prossegue. Essa novela está parecendo aquela do início do ano com o meia Montillo do Cruzeiro. Espero que dessa vez o final da história seja mais feliz para os corintianos. Nesse cenário de especulações e negociações, o Corinthians começa a ser montado para o restante do Brasileirão e, principalmente, para a disputa do Mundial Interclubes do Japão no final do ano. As datas e os locais do torneio internacional já foram confirmados pela FIFA. O Timão estreará no dia 12 de dezembro em Toyota. Se vencer, jogará a final em Yokohama em 16 de dezembro. O provável confronto da decisão deverá ser contra os ingleses do Chelsea, atuais campeões europeus. Enquanto dezembro não chega, os torcedores devem se preocupar é com o campeonato nacional. Amanhã à tarde, o Timão já volta a campo para enfrentar o Sport, em Recife. O time do técnico Tite precisa vencer para sair da zona de rebaixamento. A equipe escalada é totalmente formada por reservas. Até mesmo o técnico não será o titular. Tite recebeu folga dos dirigentes e não ficará no banco. Cleber Xavier, assistente do gaúcho, comandará a equipe. Assim, o Timão irá para o gramado da Ilha do Retiro com: Júlio César; Welder, Paulo André, Wallace e Ramon; Marquinhos, William Arão, Ramirez e Douglas; Romarinho e Liedson. 8 de julho de 2012 - domingo A família Bonacorci se reuniu, na noite desse domingo, em volta da televisão. A ideia era acompanhar a partida entre Sport do Recife e Corinthians. Não me lembro da última vez em que assisti a um jogo do Timão ao lado dos meus pais. Esse fato normalmente acontece apenas nos duelos do Brasil pela Copa do Mundo. Raramente a família se reúne para ver partidas de clubes. Não preciso dizer que estávamos empolgados com a conquista da Libertadores e dispostos a acompanhar os próximos passos do campeão sul-americano. O estádio da Ilha do Retiro não estava lotado, mas tinha bom público. Muitos corintianos compareceram para saldar de perto o time. O jogo começou com o Sport no ataque. As chances de gol se multiplicavam para os mandantes. A equipe pernambucana chegava através de cobranças de falta de média distância, em escanteios alçados na área, em lançamentos em profundidade, em tabelas rápidas e em chutes de longe... Júlio César teve muito trabalho. O primeiro tempo foi praticamente jogado por um time só. Os jogadores de linha do Timão pareciam assistir à atuação de seu goleiro e dos atletas adversários. Não houve nenhuma boa chance de gol para os atacantes corintianos nos 45 minutos iniciais. Os lances de maior perigo do Sport aconteceram em uma cobrança de falta (a bola bateu na trave), em um chute certeiro para o gol (interceptado antes pelo defensor corintiano) e em uma defesa espetacular de Júlio César no último minuto da primeira etapa (o atacante do Leão tinha ficado cara a cara para marcar). O segundo tempo começou completamente diferente. Quem foi para cima do oponente foram os corintianos. A equipe do Parque São Jorge passou a dominar as ações e as oportunidades de gol surgiram. Em uma delas, aos 29 minutos, Douglas deu um passe de letra para Marquinhos. O jovem zagueiro, improvisado de volante, driblou o marcador na grande área e cruzou para Liedson. Livre de marcação, o centroavante chutou para as redes. Gooooooool. Corinthians 1 a 0. Na saída de bola, os jogadores do Sport reclamaram com o juiz. Não vi motivo para tanta chiadeira: o gol foi legal. No entrevero, um jogador da casa foi expulso. Com um homem a mais, os visitantes passaram a tocar a bola e esperar o término da partida. Sem força para atacar, os pernambucanos pareciam resignados com a derrota. Quando eu já calculava mentalmente os três pontos, um atacante do Sport chutou da intermediária. O relógio marcava 44 minutos do segundo tempo. A bola foi no meio do gol. Surpreendentemente, Júlio César a deixou passar por entre as pernas. O Sport empatava no finalzinho com um frango do nosso goleiro. Inacreditável! Placar final na Ilha do Retiro: 1 a 1. Mais triste do que deixar escapar dois pontos nos últimos minutos é ver a sina de Júlio César. O arqueiro foi o melhor em campo até instantes finais do jogo. Ele salvou o Timão de sofrer uma goleada histórica no primeiro tempo. Aí nosso camisa 1 deixa escapar uma bola fácil no apagar das luzes e se transforma em vilão da partida. Não é fácil a vida de goleiro! 9 de julho de 2012 - segunda-feira A semana começou com o Timão na zona de rebaixamento. No Campeonato Brasileiro, o Corinthians ocupa a 19ª (e penúltima) posição. São apenas 5 pontos conquistados até agora. Logo a frente está o Palmeiras (mesmo número de pontos, mas com saldo de gols melhor do que o nosso). A lanterna é do Atlético Goianiense com apenas 2 pontos. O Bahia completa o grupo dos quatro últimos com 7 pontos. Vale ressaltar que a equipe do Parque São Jorge tem um jogo a menos. O Coringão irá a campo nessa quarta-feira para enfrentar o Botafogo, no Pacaembu, em partida adiada da sétima rodada. Se vencer, Tite e seus comandados saltam para a 13ª colocação e saem da zona de descenso. Brigar pelo título está complicado. O líder é o Atlético Mineiro, com 19 pontos. O Fluminense vem logo atrás com 18. Para voltar a brigar pelo caneco do Brasileirão, como em 2011, o Timão precisará de uma arrancada histórica. As chances de tal fato acontecer são maiores agora que os titulares voltarão a ser escalados para os jogos nacionais. Contra o Botafogo, a promessa é de força máxima em campo. Há alguns corintianos preocupados com o possível rebaixamento da equipe. Acho esse medo precipitado. O Corinthians tem um time muito forte e não ficará por muito tempo na rabeira da classificação. Em minha opinião, são maiores as chances de título do Timão do que as de rebaixamento. Já nesse meio de semana sairemos da posição incômoda com os três pontos a serem conquistados diante do Fogão. Anote aí o que estou dizendo e pode me cobrar depois. Para falar a verdade, o Campeonato Brasileiro ainda não começou de fato para os corintianos. Creio que a competição se iniciará mesmo nessa quarta-feira. A sensação por parte do Bando de Loucos é ainda de ressaca pela conquista do título da Libertadores. Tudo é motivo para brincadeiras e celebrações. Não sei se foi possível, através das páginas do O Ano que Esperávamos Há Anos, explicar a intensidade da festa corintiana nos últimos dias. Se durante a partida contra o Boca as ruas ficaram vazias, com o apito final do juiz uma multidão invadiu as vias paulistanas. Sem sombra de dúvida, foi o maior festejo que São Paulo assistiu nesse século. O buzinaço dos carros durou a madrugada inteira, assim como os rojões. Deve ter sido impossível dormir naquela noite (se bem que não sei por que alguém ia querer fazer algo assim, né?). O dia já havia amanhecido e muitas pessoas se dirigiam para o trabalho, enquanto milhares de corintianos ainda permaneciam nas ruas vibrando. Churrascos coletivos e cervejadas eram oferecidos para quem estivesse usando a camisa do Timão. Vários pontos da cidade serviram para grandes aglomerações de torcedores. Para se ter uma ideia do clima, eu que não sou muito devoto de badalação caí na festa. Fui dormir de manhãzinha, esgotado e sem voz. Foi a noite mais feliz que os corintianos tiveram desde a virada de 13 para 14 de outubro de 1977. Era natural, portanto, o desprezo até aqui pelo Campeonato Brasileiro por parte de jogadores, comissão técnica, dirigente e torcedores. Com a volta à normalidade, poderemos agora pensar outra vez nessa competição e, quem sabe, viajarmos para o Japão com a sexta taça do Brasileirão em nossa sala de troféus. Tomara! 10 de julho de 2012 - terça-feira Os bastidores do Parque São Jorge estão fervendo. Tudo por causa da concretização de algumas transações de jogadores. Dos atletas já negociados, apenas Leandro Castán era titular. Os demais eram opções no banco. William foi mesmo para o futebol do leste europeu, Gilsinho acertou a ida para o Sport Recife e Ramon foi emprestado ao Flamengo. Mais suplentes deverão sair nos próximos dias. Com medo de ver sua equipe enfraquecida e a estrutura tática desmantelada, o técnico Tite fez um apelo público aos dirigentes corintianos durante o programa "Bem Amigos" do Sportv. Ele pediu, ontem, à cúpula alvinegra para ela fazer um grande esforço na manutenção dos principais jogadores. O treinador teme pela perda de conjunto e de entrosamento com a saída de outros titulares. Dessa forma, ele quer a manutenção de Paulinho e Alex, os mais assediados. Além disso, Tite pede a reposição das peças perdidas. Ele lembrou da saída do centroavante Adriano no início de maio. Ou seja, a contratação de um atacante de área é algo para ontem! Pelo discurso da diretoria do Timão, contratações serão feitas. Segundo Edu Gaspar, gerente de futebol, novidades serão anunciadas até 20 de julho. Em entrevista ao jornal O Lance!, ele comentou: "É importante deixar bem claro que nós, da diretoria, não estamos preocupados com desmanche, mas sim com chegada de reforços. Estamos atentos ao mercado. Fiquem tranquilos. A nossa preocupação é manter e reforçar. O número 9, que tivemos problemas na temporada, também vamos atrás. E pode chegar atletas de outras posições. Vamos ver as necessidades de elenco, o que o Tite vai me passar. Vamos estar muito fortes para esse Brasileiro". É um discurso otimista e animador para a Fiel. Ainda bem! O nome mais famoso que está sendo especulado é o de Alexandre Pato, atacante do Milan. Trata-se de um negócio difícil, mas Pato assistiu à final da Libertadores na tribuna do Pacaembu. Pode ser um indício... No setor ofensivo, há interesse também no argentino Juan Manuel Martínez do Vélez Sarsfield e no peruano Paolo Guerrero, centroavante do Hamburgo e artilheiro da última Copa América. Para a defesa, o substituto de Castán deverá ser arranjado dentro do próprio elenco. Paulo André e Wallace, reservas imediatos do jogador vendido, são os favoritos à titularidade. Acredito na contratação de bons jogadores na janela de transferência do meio de ano. O Timão está com muito mais dinheiro agora do que no começo de 2012. Por causa da verba de patrocínio dos jogos finais da Libertadores, pela premiação da Conmebol pelo título continental e pela bonificação da Rede Globo pelos recordes de audiência, os cofres do Parque São Jorge foram reforçados. Só a emissora de TV carioca depositou R$ 60 milhões na conta corintiana nos últimos dias. Com essa quantia em caixa é possível manter os jogadores atuais e buscar bons reforços no mercado brasileiro e estrangeiro. Vamos esperar novidades nos próximos dias, Fiel Torcida! O desejo é ver o Corinthians mais forte no restante da temporada e, principalmente, competitivo no Mundial de Clubes em dezembro. Saravá!!! 11 de julho de 2012 - quarta-feira A corintianada assistiu, hoje, à "estreia" do Timão no Campeonato Brasileiro. Pela primeira vez na competição, a equipe titular subiu a campo sem estar com a cabeça em outro lugar (pelo menos era o que eu esperava...). O objetivo da noite era vencer o Botafogo, em jogo atrasado da 7ª rodada, e sair de uma vez por todas da zona de rebaixamento do Brasileirão. O time corintiano foi escalado com: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Élton e Romarinho. Na defesa, Paulo André acabou herdando a vaga do negociado Leandro Castán. No ataque, Élton e Romarinho substituíram os machucados Emerson e Jorge Henrique. Antes do apito inicial, os 27 mil torcedores presentes no Pacaembu festejaram a entrega das faixas pela conquista da Libertadores da América. Os veteranos campeões paulistas de 1977 foram encarregados de premiar os atuais jogadores. Foi uma bela homenagem aos heróis do passado e do presente do Timão. Aos gritos de "é campeão" ecoados das arquibancadas, o jogo começou na fria noite paulistana. Para surpresa geral, o Corinthians começou mal. Muito mal! Aparentemente a equipe paulista estava desligada e pouco interessada em vencer. Aproveitando-se das sucessivas falhas defensivas dos mandantes, o Botafogo chegava na frente de Cássio com muita facilidade. De tanto chutar ao gol, os cariocas conseguiram abrir o marcador. Aos 27 minutos, o atacante botafoguense cruzou para a área em jogada aparentemente inofensiva. O zagueiro Paulo André bobeou e mandou contra a própria meta. Gol do Bota. Paulo André fez contra. Precisando virar, o Timão partiu, enfim, para cima do adversário. Conseguiu, é verdade, criar algumas boas jogadas. Romarinho é quem levou mais perigo ao gol dos rivais. No melhor momento do primeiro tempo, Paulinho chutou a bola na trave. Uhhh. No segundo tempo, a estratégia do Botafogo era ficar na defesa e se aproveitar dos contra-ataques para matar o jogo. E foi exatamente o que aconteceu. O segundo gol carioca veio em falha conjunta de Cássio e Chicão aos 11 minutos. O atacante adversário recebeu livre entre os dois defensores e chutou. Gol do Bota! Logo depois, em novo contragolpe rápido, o centroavante botafoguense recebeu livre na grande área. Ele não teve dificuldades para virar e chutar para o gol. Botafogo 3 a 0. Nos momentos finais da partida, o árbitro ficou com pena dos corintianos e marcou pênalti inexistente em cima de Fábio Santos. Chicão cobrou e diminuiu. O placar final ficou em 3 a 1 para os cariocas. O Timão segue na incômoda 19ª posição do campeonato e amarga a zona da degola. A única explicação para a péssima atuação do Corinthians nessa noite foi a falta de concentração da equipe. Alguns corintianos, como Alex, Chicão e Paulinho, estão analisando propostas de outros times e devem estar com a cabeça longe, muito longe do Parque São Jorge. Aí fica difícil o time jogar bem e vencer, né? 12 de julho de 2012 - quinta-feira A quinta-feira começou com um gosto amargo para os corintianos. Além da derrota para o Botafogo, o Palmeiras ganhou a Copa do Brasil ontem à noite. É a segunda vez que esse troféu vai para a galeria de conquistas do Palestra Itália. O alviverde paulistano empatou em Curitiba por 1 a 1 na quarta-feira e se sagrou campeão nacional. Na primeira partida realizada em Barueri na semana passada, o Verdão venceu o Coritiba por 2 a 0 e ficou em vantagem para o jogo de volta. Trata-se do primeiro título importante do Palmeiras nesse século. A última grande conquista havia sido em 1999, quando venceu a Libertadores da América. De lá para cá, o jejum foi grande: 13 anos. Nesse meio tempo, os palestrinos venceram apenas um Campeonato Paulista, em 2007. Pouco, muito pouco para um clube com tantas tradições e que se acostumou a ser protagonista. Exatamente pela carência de troféus nos últimos anos, a festa verde e branca foi grande ontem à noite na cidade de São Paulo. Foi possível ouvir rojões, buzinaço e gritos empolgados depois da partida. Entretanto, nada se comparado à comemoração corintiana da semana passada, né? Os motivos para isso eu explico a seguir. Em primeiro lugar, a torcida palmeirense é minúscula se comparada à nação alvinegra. O Corinthians possui quase três vezes mais fãs do que o rival. Segundo aspecto: a Copa do Brasil é como se fosse a segunda divisão da Libertadores. Afinal, o vencedor do torneio nacional passa a disputar no ano seguinte a competição sul-americana. É ou não é, portanto, um acesso, hein? Nenhum torcedor muito inteligente comemora para valer um título de menor expressão quando seu maior adversário conquistou, dias antes, o campeonato mais importante do continente! Para terminar, os palmeirenses devem saber que a próxima grande conquista deverá demorar pelo menos 18 anos para acontecer. Veja bem, isso não é uma previsão de um corintiano, mas uma mera estatística. Os verdinhos ganharam títulos no final da década de 1970. Depois amargaram 16 anos sem qualquer conquista. Após passarem os anos 1980 chupando o dedo, voltaram a ser campeões de alguma coisa na década de 1990. Agora o novo jejum foi de 13 anos. Passaram, assim, a primeira década do novo século a ver navios. Segundo tal histórico de ganhar algo em uma década sim e outra não, o próximo troféu virá apenas nos anos de 2030. Se os corintianos não ficaram felizes com a conquista palmeirense, imagine só como estão se sentindo os são-paulinos! Os torcedores do Morumbi viram seus três rivais conquistarem algo nos últimos meses, enquanto eles estão no jejum há quatro anos. O Santos conquistou o Campeonato Paulista em maio, o Corinthians a Libertadores no início de julho e o Palmeiras a Copa do Brasil ontem. E os são-paulinos nada! A diversão predileta da maioria dos moradores da capital paulista nos últimos dias tem sido cornetar os tricolores. Várias piadinhas estão sendo criadas e contadas a respeito do fracasso do São Paulo Futebol Clube. E imaginar que há alguns anos eram eles quem dominavam o cenário do futebol nacional e sul-americano. 13 de julho de 2012 - sexta-feira Temos ótimas notícias nessa sexta-feira 13 – essa frase não combina, mas tudo bem! O Timão acertou a contratação de dois bons atacantes estrangeiros. Paolo Guerrero, peruano artilheiro do Hamburgo, e Juan Martínez, argentino destaque do Vélez Sarsfield, foram oficializados como os mais novos jogadores do Sport Club Corinthians Paulista. Ambos os atletas chegam para reforçar o setor mais criticado da equipe paulista nesse ano. Paolo Guerrero teve o direito econômico (passe) comprado por cerca de 3 milhões de euros (R$ 7,5 milhões). O peruano de 28 anos foi o artilheiro da Copa América de 2011 com 5 gols. Pelos vídeos divulgados recentemente do jogador, trata-se de um centroavante rápido e de boa finalização. Guerrero não é aquele camisa 9 trombador, ruim de bola e que só sabe chutar a gol. Ele consegue jogar mais atrás e possui boa técnica. Também é excelente no jogo aéreo. Seu estilo de jogo é parecido ao do Liedson. A renovação de contrato do luso-brasileiro não aconteceu porque a diretoria corintiana não achou certo manter o pagamento de R$ 350 mil por mês para um jogador com sérios problemas físicos e de idade avançada. O único grande defeito de Guerrero parece ser o temperamento esquentado. Ele é muito nervozinho e às vezes chega a ficar incontrolável. O ex-jogador do Hamburgo já foi expulso de campo por fazer jogadas muito violentas e brigou diversas vezes com torcedores alemães. Se ele reagiu agressivamente aos protestos dos fãs germânicos, tradicionalmente frios e educados, imagine só como se comportará em caso de protesto da Fiel, conhecida pelo estilo passional e, por vezes, hostil. Juan Manuel Martínez, também conhecido como Burrito Martínez, tem um perfil diferente ao do peruano. O argentino é bom moço e não arruma confusão por onde passa. Seu estilo de jogo também é distinto. Ele é um atacante veloz que atua pelas beiradas do campo, como um ponta antigo. Assim, Martínez chega para repor a saída de William. O argentino de 26 anos deverá brigar com Jorge Henrique, Emerson e Romarinho por um lugar no ataque do Timão. À princípio, ele não competirá diretamente com o centroavante recém-contratado por uma vaga de titular. Martínez chamou a atenção dos olheiros do Corinthians na Copa Libertadores da América desse ano. O jogador do Vélez Sarsfield foi o grande destaque da equipe de Buenos Aires e quase foi contratado pelo Santos. O time da Baixada não chegou a um acerto salarial, coisa que o Corinthians conseguiu. O Timão comprou 75% dos direitos do atacante, pagando US$ 3 milhões ao clube argentino por 50% dos direitos do atleta e mais uma cifra não divulgada por metade dos 50% do pai (e empresário) do jogador. Agora o ataque do Coringão está novamente repleto de bons atletas. São sete jogadores no elenco para a posição: Jorge Henrique, Emerson Sheik, Romarinho, Guerrero, Martínez, Élton e Adilson. O balanço entre chegadas e saídas de atacantes foi bem positivo para o clube até aqui. Não por acaso, aumentou consideravelmente a esperança dos corintianos em ver mais gols no segundo semestre. Tomara! 14 de julho de 2012 - sábado Uma notícia me animou nessa manhã a ponto de mudar completamente a programação do meu sábado. Após consultar o saldo bancário, descobri que houve um depósito de um trabalho antigo que fiz no ano passado. Ou seja, minha conta havia sido reforçada. Com um pouco mais de dinheiro disponível, não pensei duas vezes: fui ao cinema no início da tarde com a Thalita. Vimos "Para Roma com Amor", novo filme de Woody Allen. Sou grande fã do cineasta nova-iorquino e acompanho seus lançamentos sistematicamente, além de ver os filmes antigos. Até hoje não me frustrei com nenhum. São todos excelentes, inclusive esse último. Depois de deixar Thalita em casa, rumei para o Pacaembu no início da noite. O Timão jogou com o Náutico pela 9ª rodada do Brasileirão. Comprei ingresso para o Tobogã e lá encarei o frio do inverno paulistano. Apenas Alessandro (poupado) e Jorge Henrique (machucado) não foram a campo. O time escalado por Tite foi: Cássio; Welder, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Paulinho, Ralf, Alex e Danilo; Romarinho e Emerson. O começo da partida teve, acredite, domínio maior do Náutico. Os visitantes atacavam com perigo e conseguiram uma sequência de escanteios. Paulo André e Chicão batiam cabeça na zaga alvinegra. Quando o Corinthians começou a equilibrar o jogo, com boas jogadas de Danilo e Emerson, acabou tomando o gol. Aos 20 minutos, em boa troca de passes no meio da defesa corintiana, um atacante do time de Recife chutou de fora da área e Cássio não pôde fazer nada. Náutico 1 a 0. Nem deu para ficar triste. No lance seguinte, Danilo recebeu passe de Paulinho e chutou de cobertura. O Timão empatava. O restante do primeiro tempo foi de muito equilíbrio. Na segunda etapa, o Corinthians voltou mais determinado. Logo aos 4 minutos, Emerson cruzou para a área e o zagueiro do Sport, tentando tirar a bola, chutou contra sua trave. No rebote, Paulinho driblou dois marcadores e novamente mandou no travessão. Na nova rebatida, Danilo com a calma habitual acertou, enfim, as redes. Gol do Timão! 2 a 1. Com a vitória nas mãos, os jogadores alvinegros ficaram com o domínio da bola e não deixaram que o Náutico criasse jogadas de perigo. Emerson e Romarinho tiveram chances de fazer o terceiro, mas desperdiçaram os contra-ataques. Aos 45 minutos, aconteceu o lance que explica bem a diferença entre os goleiros do Timão. Se no domingo passado Júlio César tomou um frango no último minuto (a bola passou embaixo de suas pernas), dessa vez Cássio fez uma defesa espetacular no apagar das luzes. O arqueiro espalmou um chute certeiro do adversário. A bola ainda bateu na trave antes de sair para a linha de fundo. Alívio no estádio! O Timão venceu a segunda partida no campeonato e alcançou 8 pontos. Saímos momentaneamente da zona de rebaixamento. Porém, temos que esperar os jogos de domingo para respirar mais aliviados. Por falar em alívio, voltei para casa feliz. Mais importante do que a vitória do Coringão e o excelente filme do Woody Allen foi ter pagado as contas atrasadas e ter um pouco de dinheiro na conta. Nem acredito! 15 de julho de 2012 - domingo A maré de boas novas parece não ter fim no Timão. A última novidade é que Ralf e Paulinho não serão mais negociados com o exterior. Após forte investida italiana nas últimas semanas, a diretoria corintiana acertou a permanência dos volantes no Parque São Jorge até 2015. Para tal, os contratos da dupla foram novamente reajustados. Eles deverão receber o teto salarial do clube, cerca de R$ 350 mil. Justo! Muito justo!! Justíssimo!!! Essa é uma excelente notícia. Afinal, não adianta nada contratar vários bons jogadores para compor o elenco corintiano se as principais estrelas da atualidade não forem mantidas. Os dois meio-campistas (principalmente Paulinho) eram as perdas mais prováveis nesse meio de ano. Com eles em campo, o Coringão será ainda mais forte. Agora a única (e última) ameaça de perda é de Alex. O meia recebeu proposta milionária do futebol do Qatar para deixar o Parque São Jorge. Tanto ele quanto a diretoria corintiana estão propensos a aceitar a oferta. O Al Gharafa ofereceu R$ 16 milhões pelo jogador. Se lembrarmos que o Timão pagou há exatamente um ano R$ 14 milhões para trazê-lo da Rússia, trata-se de um bom negócio para o clube. Além do mais, Alex nunca demonstrou bom futebol vestindo a camisa preta e branca ao ponto de compensar o alto investimento. Não consigo me lembrar de uma grande partida dele no Corinthians. Ele fez um gol importante de falta no finalzinho da partida contra o Internacional na reta final do Brasileiro de 2011. E o que mais? Não recordo. Na minha memória estão os vários passes errados e as jogadas desperdiçadas. Se o presidente Mário Gobbi optar pela negociação, sairemos no lucro, pois reforçaremos o caixa. Se ele, por outro lado, escolher pela manutenção do atleta, também sairemos ganhando. Afinal, Tite terá um jogador de sua confiança à disposição e perfeitamente entrosado com os companheiros. Dessa maneira, é só esperarmos o desenrolar dos fatos para celebrar. Vamos falar agora de Brasileirão. Com os jogos do domingo, o Atlético Mineiro se manteve na liderança com 22 pontos. O Galo venceu o Figueirense, em Santa Catarina, por 4 a 3 e segue em ótima forma rumo ao título nacional. Logo atrás, vêm três cariocas: Vasco (com 20), Fluminense (com 19) e Botafogo (com 16 pontos). O Coringão saiu mesmo da zona de rebaixamento. A equipe do Parque São Jorge terminou a rodada na 14ª colocação com 8 pontos. Atrás da gente vem Portuguesa e Figueirense (ambos com 8 pontos, mas piores nos demais critérios de desempate) e o grupo dos quatro últimos (Coritiba, Bahia, Palmeiras e Atlético Goianiense). Analisando a tabela de jogos, é possível o Corinthians conseguir uma sequência de vitórias para embalar. Na quarta-feira, o Timão pega o Flamengo no Rio. Depois são dois jogos em casa: Portuguesa e Cruzeiro. A quarta partida da série será contra o Bahia, em Salvador. A meta é conquistar 12 pontos e subir na classificação. 16 de julho de 2012 - segunda-feira O clima de lua de mel da torcida com o time continua. Nem a má colocação no campeonato nacional esfria a empolgação dos corintianos. Isso ficou claro para mim no sábado, quando fui assistir à partida do Timão. O público surpreendeu. Mais de 25 mil pessoas encararam o frio do início de noite para acompanhar de perto a equipe de Tite. Para se ter uma ideia, eu cheguei com uma hora e meia de antecedência e uma fila gigantesca já havia se formado na frente das bilheterias do Pacaembu. Ainda bem que o serviço de vendagem em dias de jogos do Corinthians melhorou muito. Em menos de uma hora todos ali já haviam sido atendidos e puderam entrar no estádio. Outro indicador da alegria coletiva foi a festa proporcionada pelos alvinegros na Praça Charles Miller, em frente ao Paulo Machado de Carvalho, antes do jogo. Milhares de corintianos comemoraram a conquista da Libertadores como se ela tivesse acontecido há poucas horas. Muitas pessoas compraram faixas de campeão do torneio continental que eram vendidas por ambulantes. Alguns aproveitaram para pagar promessas. Vi pelo menos três homens em evidente cumprimento das obrigações propostas. Também notei muitos turistas e corintianos de fora da cidade nas arquibancadas. No meu lado no Tobogã, por exemplo, tinha um morador do Paraná e outro (com a filha) de Campinas. Enquanto o paranaense aproveitava a estadia em São Paulo para ver o jogo de seu time do coração, o pai campineiro foi forçado pela filha de nove anos a levá-la pela primeira vez ao palco do título máximo do Timão. O aspecto mais curioso foi a quantidade de torcedores interessados em ir ao Japão para acompanhar os jogos do Mundial de Clubes da FIFA. Várias pessoas ao meu lado discutiam sobre os melhores voos e o tempo de duração de cada um deles. Falavam sobre a necessidade de obtenção de visto, sobre os preços oferecidos pelas agências de viagem e sobre as alternativas para a obtenção de ingressos. E olha que eu estava no Tobogã, o setor mais popular do estádio. Se ali o planejamento para a viagem para o outro lado do mundo era grande, fiquei imaginando qual seria a conversa nas demais áreas do Pacaembu. Provavelmente, seria a mesma. Não duvido que uma peregrinação com 10 a 20 mil corintianos parta para a Ásia em dezembro. Se em 1976 a Fiel invadiu o Maracanã durante a semifinal do Campeonato Brasileiro e dividiu o estádio em meio a meio com os tricolores cariocas, dessa vez a invasão será no exterior. O Japão ficará pequeno para a nação corintiana. Aproveitando o clima de total empolgação, pesquisei para ver em quanto ficaria uma viagem ao Mundial. O valor médio do pacote (transporte e estadia) é de R$ 15 mil. Não tenho condições para arcar com tal quantia. Para mim, foi loucura gastar mais de R$ 1 mil para ir à final contra o Boca. Mesmo se eu vendesse os direitos autorais de todos os meus livros (que nem sequer escrevi), ainda assim seria impossível viajar. Fui dormir com esse sonho em mente. Quem sabe um milagre aconteça, né? Afinal, agora acredito em Deus. Aproveitando-me dessa inspiradora lembrança, na escuridão do quarto, deitado embaixo das cobertas da cama à noite, fiz um tímido pedido para Ele. Posso dizer que hoje, pela primeira vez na vida, rezei. Será que Ele me ouviu? 17 de julho de 2012 - terça-feira O segundo titular do Corinthians na campanha da Libertadores se despediu hoje dos companheiros. Alex foi mesmo vendido para o Al Gharafa, do Qatar. O clube asiático aumentou a oferta inicial e, aí, não foi possível fazer nada. O jogador e o time do Parque São Jorge concordaram com o negócio. Alex inclusive já viajou para o Qatar para acertar os detalhes do novo contrato e para se apresentar ao novo treinador. Boa viagem e sucesso na nova empreitada, Alex! Com a saída do meio-campista bicampeão da Libertadores, o técnico Tite já anunciou a escalação de Douglas para o próximo jogo. O Timão encara, amanhã, o Flamengo no Rio. Essa é justamente a má notícia. Douglas está fora de forma e não apresenta bom futebol há muito tempo. Além da má fase, o atleta vem sendo alvo de piadas dos torcedores. Tanto na Internet quanto nas arquibancadas, o armador tem colecionado apelidos. Seu Boneco (personagem da Escolinha do Professor Raimundo), Pança, Gordo e Tufão (protagonista da novela da Globo) são os mais populares. A comissão técnica corintiana parece confiar no jogador. Douglas foi imediatamente alçado ao time principal por Tite. Recebeu, inclusive, vários elogios do gaúcho. O treinador negou o excesso de peso do funcionário e realçou as diferenças de característica entre o novo e o antigo titular: "O Alex é mais infiltrador, invade mais. O Douglas é mais armador, mais passador, sabe a hora de distribuir o jogo”. De qualquer forma, a diretoria trabalha para contratar um reforço para o setor. O alvo é o meia Nenê, artilheiro do Campeonato Francês. O jogador, há dez anos na Europa, negocia a liberação do PSG, seu clube atual. Se conseguir, deverá acertar a vinda para o campeão da América. Trata-se de um ótimo jogador. O problema é o clube parisiense aceitar a saída gratuita do artilheiro. Acho dificílimo. Outro agravante é o término da janela de transferência. Em dois dias não será mais possível contratar novos jogadores de fora do país. É preciso correr contra o tempo. Com Guerrero e Martínez com contratos assinados e já treinando no CT corintiano e com Nenê sendo sondado, o diretor Roberto de Andrade admitiu a procura por um zagueiro para fechar o pacote de contratações do meio do ano. O nome mais forte é de Gil, defensor que jogou no Cruzeiro no começo da carreira e que atualmente defende o Valenciennes da França. A contratação também parece pouco provável, pois os franceses estão exigindo um elevado valor pela venda do atleta de 24 anos. Nesse cenário de incertezas quanto à montagem do novo elenco, Tite escalou os 11 titulares para o jogo contra o Flamengo no Engenhão. Alessandro de volta à lateral direita é a principal novidade. Jorge Henrique, já recuperado de contusão, começa a partida no banco de reservas. No ataque, Romarinho foi mantido na equipe principal. O Timão vai a campo no Rio de Janeiro com: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Douglas; Emerson Sheik e Romarinho. O Corinthians precisa vencer, mesmo jogando fora de casa, para subir na tabela de classificação. Vai Curinthia! 18 de julho de 2012 - quarta-feira O inverno tem mostrado força nos últimos dias em São Paulo. A temperatura na cidade tem chegado a 8 e 9ºC nas noites e madrugadas. É impossível transitar pelas ruas, em qualquer horário, sem um prévio reforço na vestimenta. Percebi a intensidade da friaca de hoje quando me coloquei no sofá da sala para ver o Clássico das Multidões. Só me senti realmente preparado para acompanhar a partida entre o Timão e o Flamengo quando coloquei algumas cobertas em cima de mim. Com o frio controlado, pude me atentar aos lances pela televisão. O Corinthians entrou quente em campo. O time tocava a bola e envolvia o adversário. Por várias vezes os atacantes alvinegros ficaram cara a cara com o goleiro flamenguista. Os cariocas também tentavam atacar. A partida estava muito agradável de ser vista. Enquanto o Timão atacava com mais perigo, os flamenguistas não tinham sucesso em passar pela defesa corintiana nem pela muralha chamada Cássio. O primeiro tempo foi inteiramente do Timão. Após troca de passes entre Alessandro e Romarinho, Paulinho ficou na frente do gol. Chutou para a defesa do goleiro flamenguista. Depois foi Romarinho quem finalizou três vezes a gol, em jogadas de Danilo, Emerson e Fábio Santos. Em todas, o arqueiro carioca foi muito bem e evitou a abertura do placar. O gol só veio aos 27 minutos. Douglas (sim, ele mesmo) roubou a bola do oponente na entrada da área do Fla (você leu bem, Douglas roubou a bola!), correu com velocidade em direção ao goleiro (repito: correu com velocidade) e chutou colocado para fazer 1 a 0. Aí o Flamengo foi para cima e teve até algumas chances, todas em chutes de longa distância. Nenhuma levou muito perigo a Cássio. No final do primeiro tempo, os flamenguistas erraram novamente na entrada de sua área. A bola caiu nos pés de Douglas (ele de novo!). O corintiano nem precisou dominá-la: chutou de primeira com força. Golaço! Douglas 2 a 0. Era incrível o que testemunhávamos. Nessa noite, Douglas estava mais para Maestro artilheiro do que para Seu Boneco. O camisa 10 foi disparado o melhor da etapa inicial. Ele correu, chutou a gol, fez ótimos passes e ajudou na marcação. Já teríamos no elenco corintiano o substituto de Alex, hein?! No intervalo, o técnico Joel Santana do Fla deu entrevista para a Rede Globo dizendo: "Vamos para cima deles. Ou a gente empata esse jogo ou vamos tomar de 4". Consequência das mudanças flamenguistas: o Mengo esteve mais perdido ainda e o Corinthians dominou os 45 minutos finais. Depois de trocas de passes entre Douglas e Romarinho, Danilo chutou de fora da área com violência. 3 a 0. Logo depois, Fábio Santos foi derrubado na área. O juiz marcou pênalti. O quarto gol não veio porque Emerson desperdiçou a cobrança. O segundo tempo foi de extrema facilidade para os corintianos. Quase que o treinador adversário acertou na previsão do placar. O Corinthians apresentou nessa noite seu melhor desempenho no Campeonato Brasileiro de 2012. A vitória de 3 a 0 foi convincente. A torcida, ciente disso, cantou nas arquibancadas: "O Todo Poderoso voltoooou. O Todo Poderoso voltoooou". 19 de julho de 2012 - quinta-feira O Brasileirão de 2012 promete ser o campeonato mais emocionante dos últimos anos. Várias estrelas do futebol internacional resolveram aportar por aqui. Muitos times se reforçaram com jogadores de nível mundial. O Botafogo contratou o holandês Clarence Seedorf, do Milan. O Internacional repatriou o zagueiro Juan, da Roma, e surpreendeu ao trazer o uruguaio Diego Forlán, eleito o melhor jogador da última Copa do Mundo. O Corinthians trouxe Guerrero e Martínez. Até a Portuguesa, equipe com orçamento menor, deu a sua contribuição ao trazer o veterano goleiro Dida, titular da Seleção Brasileira na Copa de 2006. Além dos que chegaram, as grandes atrações da atualidade foram mantidas. O Santos permanece com Neymar e Ganso. O Flu tem à disposição Deco e Fred. O tricolor paulista tem o talento de Lucas e Luís Fabiano. O Atlético Mineiro conta com Ronaldinho Gaúcho e o rival Cruzeiro tem Montillo. O Internacional ainda tem Oscar e Leandro Damião. A proliferação de estrelas futebolísticas em terras nacionais tem duas causas principais. A primeira é a recessão econômica da qual a Europa, o grande centro do futebol mundial, vive nos últimos anos. A crise afeta financeiramente os clubes do Velho Continente e impossibilita a aquisição de jogadores por elevadas quantias e dificulta a renovação salarial das maiores estrelas. Os jogadores, assim, procuram outros locais com mais dinheiro. O Brasil entra nesse circuito. Esse é justamente o segundo motivo. Com o bom desempenho da economia brasileira e o maior destaque do esporte no país (fruto da realização da Copa de 2014 no Brasil e das Olimpíadas de 2016 no Rio), os times nacionais viram as cotas de patrocínio e os direitos de transmissão da TV aumentarem consideravelmente. Os bolsos das agremiações estão cheios para serem gastos em contratações e na manutenção de bons atletas. O Campeonato Brasileiro, como consequência, ganha em termos técnicos. Os jogos serão de melhor qualidade e atrairão maior público tanto para os estádios quanto para as partidas transmitidas pela televisão. Pelas últimas contratações, os favoritos para o título nessa temporada são o Atlético Mineiro (equipe recheada de bons jogadores em todas as posições), o Fluminense (com um elenco milionário comandado pelo competente Abel Braga), o Internacional (quem mais gastou na janela de transferência do meio do ano) e o Corinthians (que manteve a base da equipe campeã da Libertadores e se reforçou no ataque). Correndo por fora estão Vasco da Gama, Cruzeiro, Botafogo e Grêmio. Não acredito nas chances do São Paulo, Flamengo, Santos e Palmeiras. Esse é o meu prognóstico para a competição nacional em 2012. As próximas rodadas prometem ser emocionantes. O bicho vai começar a pegar. Com o fim da Libertadores da América e da Copa do Brasil, todos os times estão interessados em ganhar pontos no Campeonato Brasileiro. A partir de agora, haverá dois jogos por semana pelos próximos dois meses. As partidas serão às quartas/quintas-feiras e aos sábados/domingos. O único ponto desagradável é a saída de alguns jogadores para a disputa das Olimpíadas em Londres. O Brasil vai em busca da primeira medalha olímpica no futebol e desfalcará principalmente Santos e Internacional por mais de um mês. Então, prepare-se: o Brasileirão começou! 20 de julho de 2012 - sexta-feira O Timão entrou para valer no Campeonato Brasileiro com as duas vitórias nos últimos seis dias. Agora com 11 pontos (3 vitórias, 2 empates e 5 derrotas), o Corinthians está na 13ª posição. Estamos 3 pontos à frente do 17º (o primeiro na zona de descenso). Na minha visão, nos livramos definitivamente da ameaça de rebaixamento. O problema é que a distância para o primeiro colocado não diminuiu nada. O Atlético Mineiro, primeiro colocado, também venceu os dois últimos compromissos. O Galo possui 25 pontos (8 vitórias, 1 empate e 1 derrota). Estamos a 14 pontos do líder (são quase 5 vitórias para serem tiradas). Está muito difícil chegar à liderança, mas ainda há muito campeonato pela frente (faltam 28 rodadas). Por falar em Atlético e Corinthians, amanhã os dois vão a campo. Enquanto os mineiros visitam o Sport Recife às 18 horas, o Timão recebe a Portuguesa no Pacaembu às 21 horas. Os jogos de sábado da 11ª rodada serão completados com Vasco da Gama (vice-líder com 23 pontos) e Santos no Rio de Janeiro. Amanhã, portanto, é dia de secar o Galo e o Vasco e torcer pelo Timão. Dependendo de uma boa combinação de resultados, a diferença pode cair para 11 pontos entre a equipe do Parque São Jorge e o líder do nacional. No Corinthians, a sexta-feira foi calma. Nenhum novo nome foi anunciado no último dia da janela de transferências internacionais para o futebol brasileiro. Todas as negociações em andamento naufragaram. Assim, o elenco corintiano está fechado até o final do ano. Se não foi possível trazer mais ninguém, pelo menos temos a certeza de que ninguém mais sairá do time para o exterior. O técnico Tite já escalou sua equipe para o clássico contra a Lusa. Apenas Danilo e Alessandro serão poupados por causa do desgaste excessivo dos últimos dias. Welder entra na lateral direita e Edenílson, depois de um longo período de recuperação no departamento médico, volta ao meio de campo. Os titulares do Timão serão: Cássio; Welder, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Edenílson e Douglas; Emerson e Romarinho. Na Portuguesa, o principal destaque é o goleiro Dida, ídolo corintiano no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Com quase 40 anos, o arqueiro voltou aos gramados nessa temporada depois de ficar dois anos parado. Vamos ver como ele está física e tecnicamente. Enquanto os jogadores já estão totalmente entretidos com o campeonato nacional, a torcida ainda desfruta do sabor da conquista da América. A movimentação tem sido muito grande desde sexta-feira passada no Memorial de Conquistas do Corinthians (museu do clube) no Parque São Jorge. A taça da Copa Libertadores da América foi levada pelo presidente Mário Gobbi e pelo capitão Alessandro ao local. Centenas de torcedores têm ido visitar o museu corintiano diariamente para ver de perto o troféu, que ganhou um espaço exclusivo na galeria. Eu mesmo estou louco para visitar novamente o Memorial e ver de perto a nova preciosidade. Devo fazer isso no início do próximo mês quando as coisas ficarem mais tranquilas para mim. Aí aproveito o passeio ao clube e assisto a mais um jogo de Futsal da equipe corintiana. 21 de julho de 2012 - sábado Mesmo com a campanha irregular no Campeonato Brasileiro, o Corinthians é quem possui a melhor média de público da competição. O Pacaembu recebe por volta de 20 mil pessoas por jogo do Timão. Contra a Portuguesa, eu não imaginava muitos torcedores no estádio. Afinal, o horário era atípico: sábado, 21 horas. Além disso, o frio era intenso em São Paulo. Contra todos os prognósticos, 33 mil pessoas foram até o estádio, o que gerou faturamento de aproximadamente R$ 1 milhão aos cofres do clube. Foi o melhor público do Timão nesse Brasileirão e o segundo do campeonato. Os corintianos viram, antes da partida, a homenagem feita pelo seu time ao goleiro Dida, hoje na Portuguesa. O arqueiro atuou por quatro temporadas pelo Corinthians (de 1999 a 2002) e foi possivelmente o melhor de todos os tempos no gol do alvinegro. A passagem de Dida pelo Timão coincide com o período de ouro da nossa história. Com ele embaixo das metas, conquistamos o Campeonato Brasileiro de 1999, o Mundial de Clubes de 2000, a Taça Rio-São Paulo e a Copa do Brasil de 2002. Aos gritos de “Olê, olê o lá, Dida, Dida” vindo das arquibancadas, o juiz deu início ao jogo. A Portuguesa resolveu dar trabalho aos jogadores corintianos. Vindo de três derrotas seguidas e estando na zona do rebaixamento, a Lusa marcou a saída de bola da equipe de Tite muito bem. Não à toa, as melhores jogadas foram dos visitantes. Cássio precisou suar para evitar o gol adversário. Ele foi bem-sucedido até os 29 minutos. Aí um atacante da equipe do Canindé recebeu livre na grande área e chutou com força no alto. Gol da Portuguesa. O Corinthians praticamente não atacava e se segurava na defesa para não tomar mais nenhum. No intervalo, Tite mexeu na equipe. Nosso comandante tirou o meio-campista Edenílson e colocou o atacante Jorge Henrique. A alteração funcionou rapidamente. Aos 4 minutos, Douglas cobrou falta em direção à grande área. Jorge Henrique fingiu cabecear e enganou Dida. A bola entrou direto. Gol de Douglas e empate do Timão. Querendo a terceira vitória seguida na competição, o Corinthians foi para cima. Douglas foi o melhor em campo. O Maestro corintiano deu passes precisos para os companheiros, deixando-os na cara do gol. Emerson, Romarinho e Paulinho perderam mais de uma oportunidade cada um. O segundo gol do Timão estava para sair a qualquer momento. Diferentemente da primeira etapa, o Corinthians resolveu jogar e massacrava a Lusa. De tanto dar passes para os companheiros desperdiçarem, Douglas resolveu decidir a parada ele mesmo. Após arrancada do meio de campo, o camisa 10 chutou forte na entrada da área. A bola passou por Dida, mas acertou o travessão. Uhhhhhhh. O jogo terminou empatado em 1 a 1. Com esse tropeço e as novas vitórias de Vasco (2 a 0 no Santos) e Atlético Mineiro (4 a 1 no Sport), as chances de título diminuíram ainda mais para os corintianos. Agora estamos a 16 pontos do líder. Tirar essa diferença é algo, infelizmente, quase impossível. Agora só nos resta melhorar na tabela e se preparar para o Mundial de Clubes da FIFA em dezembro. 22 de julho de 2012 - domingo O frio em São Paulo não me incentivou a colocar os pés fora de casa. Por isso, preferi ficar nesse domingo lendo um bom livro embaixo das cobertas. A minha escolha de leitura recaiu sobre uma obra chamada "La Doce - A Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo", do jornalista argentino Gustavo Grabia. A publicação descreve em detalhes como funciona por dentro a principal barra do Boca Juniors, a La Doce (em português, A Doze). Típicas da América Latina, as barras são organizações de torcedores de futebol que incentivam as equipes com cantos, bandeiras, fogos de artifício e papel picado. O espetáculo proporcionado por elas nos estádios é incrível. A tradição mostra que os membros das barras cantam o tempo todo, inclusive quando o time está perdendo ou quando sofre gol. Esse mesmo grupo é também famoso por atos de extrema violência e outros crimes, como tráfico de drogas, roubos, contravenção etc. O livro relata a história da La Doce, a mais famosa e violenta barra argentina (e possivelmente do mundo). Esses torcedores conseguiram, ao longo do tempo, se associar à direção do clube do coração, o Boca Junior, ao ponto de exigirem uma série de regalias. Em troca do apoio das arquibancadas, a diretoria boquense é, por exemplo, obrigada a liberar gratuitamente centenas de ingressos para as partidas em La Bombonera. Além disso, nas viagens do time pela Argentina e pela América do Sul, quem arca com as despesas da torcida é o clube. Para completar, os jogadores e a comissão técnica xeneises são obrigados a destinar parte dos salários para a barra. Assim, não sofrem com os atos de violência nem com os xingamentos durante os jogos. Isso acontece desde a década de 1970. Vale lembrar que esses torcedores têm acesso ilimitado ao campo de treinamento, às dependências do clube e ao hotel onde os jogadores se concentram. Não foram poucas às vezes em que os membros da barra, quando contrariados, invadiram locais privativos de jogadores e do treinador para fazer ameaças com armas de fogo em punho. A La Doce conseguiu também criar um lucrativo negócio a sua volta. A barra do Boca administra, através da violência, o dinheiro proveniente dos furtos e dos assaltos na região do clube, do comércio de revenda de ingressos cedidos pelos cartolas e da gestão dos estacionamentos nas ruas perto de La Bombonera. Ela também exige o pagamento de uma "comissão" das barracas de alimentos e bebidas no estádio, gerencia o "merchandising" do clube (produtos pirateados com o símbolo do Boca Juniors, como camisa, bolas e faixas) e promove a extorsão de políticos, empresários e desportistas. A “engrenagem empresarial” funciona enquanto a La Doce se envolve em brigas e confusões com as torcidas de times rivais pelos estádios da Argentina. Alguém pode perguntar: a polícia não faz nada para contê-los? Os políticos argentinos não intervêm para acabar de uma vez com a violência das torcidas? Os crimes não são julgados e os condenados não são presos? Para responder a tais questões só lendo o livro de Gustavo Grabia. A relação e o poder das barras bravas (torcidas violentas) são mais influentes e mais abrangentes do que podemos supor. 23 de julho de 2012 - segunda-feira Você acredita em coincidências?! Às vezes, elas acontecem surpreendentemente diante de nós. Mal acabei de fechar o livro "La Doce", comecei a pensar no quanto o Corinthians não seria também refém dos torcedores organizados. Assim como a barra do Boca Juniors, a Gaviões da Fiel, por exemplo, já recebeu por muitos anos ingressos de graça, teve suas viagens bancadas pelo clube e ganhava elevada quantia de dinheiro para promover o Carnaval. Quando descontentes, esses torcedores já invadiram a concentração e o local de treinamento para ameaçar e bater nos jogadores corintianos. Há inclusive um episódio marcante, não sei dizer em qual ano, em que a organizada fez uma emboscada contra o ônibus dos jogadores na volta de uma partida em Santos. Também não é preciso lembrar os atos de selvageria e violência praticados pela facção de torcedores nos estádios e pelas ruas em dias de jogos. Por que estou falando sobre isso? Hoje à noite acessei o site do Lancenet! e vi o seguinte título de uma notícia: "Gaviões faz homenagem e pede 'Tite eterno' no Timão". Ao clicar na reportagem, me deparei com o vídeo do presidente da Gaviões da Fiel, Antônio Alan Souza Silva, conhecido como Donizete, e mais oito comparsas. O grupo estava dentro do CT Joaquim Grava fazendo um pronunciamento. A reunião era com todos os jogadores corintianos, com boa parte da diretoria do clube e com o técnico Tite. Após o discurso de quase 15 minutos dos torcedores, no qual o trabalho de todos no Corinthians foi muito elogiado, os membros da organizada entregaram três placas em homenagem à conquista da Libertadores: uma para Tite, outra para o capitão Alessandro (representando todos os jogadores) e uma terceira para o diretor Roberto de Andrade (representando a cartolagem). O encontro pareceu muito amigável. Os integrantes da Gaviões admitiram o erro de pedir a saída do treinador no ano passado (após a eliminação contra o Tolima) e agora convidam o gaúcho a ficar eternamente no clube. Mesmo assim, não gostei das imagens. Muitos jogadores estavam visivelmente constrangidos. E se esse tipo de torcedor pode entrar no CT nos momentos positivos, provavelmente vai querer entrar quando as coisas não estiverem tão boas, né? A diretoria vai permitir novos encontros com os atletas? Por que esses torcedores podem falar com os jogadores e os outros não? Segundo Donizete, em seu discurso, ele como presidente da Gaviões é o representante máximo dos corintianos. Pera aí, quem falou isso para ele? Ele pode ser o principal representante da maior torcida organizada do Corinthians, mas não é o líder dos corintianos. Ele não pode se colocar como porta-voz de 30 milhões de torcedores. Um sujeito como esse não me representa de jeito nenhum! Após ver o vídeo, fiquei profundamente decepcionado. Será que a relação entre Gaviões da Fiel e Sport Club Corinthians Paulista não é igual ou parecida com o relacionamento entre La Doce e Club Atlético Boca Juniors, hein? Se a concepção original do CT de evitar a entrada da torcida está sendo desrespeitada, será que a distribuição de ingressos, o patrocínio das viagens e a contribuição ao Carnaval não continuam também? Eu imaginava que a atual diretoria corintiana fosse mais séria e competente. Será esse outro engano da minha parte?! 24 de julho de 2012 - terça-feira Pela primeira vez, os corintianos poderão ver mais de perto o novo camisa 9 na partida de amanhã contra o Cruzeiro, no Pacaembu. Paolo Guerrero foi inscrito no BID (Boletim Informativo Diário) da CBF e está autorizado a estrear pelo Timão. Como o preparador físico Fábio Mahseredjian já liberou o centroavante para iniciar o jogo no banco de reservas, Tite poderá levá-lo ao estádio. O peruano só está treinando há dez dias, depois de retornar de férias, e precisa de mais algumas semanas para entrar em forma. Somente ontem ele participou do primeiro coletivo com os colegas. Não vamos, portanto, esperar grandes atuações de Guerrero logo de cara, por favor! Já Burrito Martínez precisará de mais uma semana antes de ser liberado pelo preparador físico. A única ausência para o jogo de quarta é Douglas, suspenso pelo terceiro cartão amarelo. Depois de duas belas atuações contra Flamengo e Portuguesa, o Maestro dará lugar a Jorge Henrique, de volta à equipe titular. Tite armará o time corintiano com um meia-armador (Danilo volta após descanso) e três atacantes (Emerson, Romarinho e Jorge Henrique). Alessandro também foi confirmado após a folga da última rodada. O Corinthians de Tite irá para o próximo desafio contra a Raposa com: Cássio; Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Emerson Sheik, Romarinho e Jorge Henrique. Mesmo com as boas atuações de Douglas, ainda sim o deixaria no banco de reservas (quando ele voltar de suspensão, claro). Prefiro a equipe com três homens de frente. O time dos meus sonhos tem Danilo como o único meia, Emerson e Jorge Henrique (ou Romarinho, qual deles estiver melhor no momento) abertos pelas pontas e Guerrero como referência na área (quando ele estiver 100% fisicamente). Para mim, o novo setor ofensivo do Timão é mais forte do que aquele que tínhamos na Libertadores. No lado do Cruzeiro, a grande atração será o meio-campista argentino Montillo. Depois de ver fracassada a negociação com o Corinthians no início do ano, o jogador acabou permanecendo em Belo Horizonte. Deverá vir motivado para mostrar aos corintianos o quanto eles perderam por não terem coberto a pedida da diretoria da Raposa. O Cruzeiro está bem no campeonato e ocupa a 5ª colocação (20 pontos ganhos). Os jogadores mineiros também estão motivados para alcançar o principal rival, Atlético, no topo da classificação. Não será um jogo nada fácil. Para piorar ainda mais o prognóstico para os corintianos, li uma notícia dizendo que jamais uma equipe campeã da Libertadores conseguiu ganhar no mesmo ano o Campeonato Brasileiro. Quem chegou mais perto foi o Internacional em 2006, quando conquistou a América e ficou em segundo no nacional. O Santos também conseguiu um feito similar em 1962 e 1963, quando foi campeão do torneio continental e da Taça Brasil. Entretanto, a Taça Brasil naquela época era mais parecida com a Copa do Brasil de hoje do que com o Campeonato Brasileiro (apesar de ser atualmente considerada como Brasileirão para feitos estatísticos). O segundo semestre de 2012 não deverá ser nada fácil para o Corinthians. 25 de julho de 2012 - quarta-feira Os corintianos demonstraram ser os mais fiéis torcedores dessa edição do Campeonato Brasileiro. Quase 30 mil pessoas compareceram novamente ao Pacaembu para ver o Timão jogar contra o Cruzeiro. Dessa maneira, a liderança na média de público da competição se ampliou. Agora o Corinthians tem 23 mil pagantes por jogo como mandante (Grêmio e Sport vêm atrás com 18 mil cada um). A presença da massa no estádio fez bem ao time. Ouvindo os gritos e os cânticos sendo ecoados pelas arquibancadas, os jogadores do Timão começaram a partida ao melhor estilo da Libertadores: muita marcação, pressionando o adversário e explorando a velocidade dos atacantes. Ralf e Paulinho dominaram o meio de campo. A primeira boa chance surgiu com Danilo aos 17 minutos. O meia chutou de fora da área e o goleiro cruzeirense conseguiu espalmar. Os visitantes responderam no lance seguinte. Após cobrança de escanteio, um cruzeirense desperdiçou oportunidade cara a cara com Cássio. Ufa! Dois minutos depois, Jorge Henrique roubou a bola do adversário e foi derrubado na grande área. Pênalti! Na cobrança, Chicão pôs para dentro. Gol do Corinthians! 1 a 0 no placar. Em desvantagem, o Cruzeiro precisou atacar mais. E aí deixou os contragolpes para os corintianos, do jeito que eles tanto gostam. Romarinho fez a festa. O jovem atacante infernizou a defesa visitante. O Iluminado só não marcou porque o goleiro da Raposa foi perfeito (e o xodó da Fiel estava com a pontaria descalibrada). O segundo tempo chegou e o panorama se manteve igual. O Corinthians fechado e saindo em perigosos contra-ataques. As chances de gol perdidas se multiplicavam. Logo de início, Emerson perdeu embaixo do travessão sem goleiro. INACREDITÁVEL! Depois Romarinho e novamente Sheik finalizaram mal. A Raposa só chegava através das bolas paradas. Montillo esteve apagado, longe das melhores atuações. No final da partida, Tite tirou Emerson e colocou Paolo Guerrero. Delírio nas arquibancadas com a estreia do novo 9 do Timão. A alegria ficou completa no último minuto. Paulinho dominou na intermediária, arrancou até a entrada da grande área e mandou um chutaço no ângulo. Indefensável. Golaço do Corinthians!!! Vitória sacramentada. Na comemoração, a torcida cantou "Parabéns para Você" para Paulinho, o aniversariante da noite. O volante completou 24 anos dando de presente para os torcedores um belíssimo tento. A vitória de 2 a 0 colocou o Corinthians na 10ª posição na tabela de classificação com 15 pontos. O problema é que o Vasco também venceu e pulou para o primeiro lugar com 29. E a diferença de 14 pontos pode ser ampliada amanhã. O Galo mineiro joga contra o Santos em Belo Horizonte. A sensação que tenho é: se os ponteiros vacilarem um pouco nessa competição, o Timão vai chegar. E se ele chegar, aí ficará difícil segurar os comandados de Tite. Abram os olhos, Vasco e Atlético Mineiro! Vocês não podem perder nenhum ponto a partir de agora. 26 de julho de 2012 - quinta-feira Mesmo tendo jogado menos de 10 minutos contra o Cruzeiro na quarta-feira, o destaque para a imprensa foi Paolo Guerrero. No Brasil, os jornalistas repercutiram os comentários do jogador sobre a torcida corintiana. "A torcida é incrível porque apoiou os 90 minutos. É isso o que necessitamos. É incrível o grito do torcedor, e o mais importante é que ganhamos", disse o centroavante na saída de campo. No Peru, os principais jornais deram amplo destaque para o início do capitão de sua seleção no novo clube. Os periódicos "Líbero" e "Depor" chegaram a noticiar a estreia de Paolo como manchete. Além disso, o peruano participou hoje de um treinamento com os jogadores reservas no CT Joaquim Grava e fez um belo gol. O gringo chegou com moral e já vai dando o que falar. Quem demonstrou também muita alegria com a atual fase foi o treinador corintiano. Tite se disse aliviado pelas vitórias recentes e pelo distanciamento da zona de rebaixamento. Surpreendentemente, o técnico confessou já ter sofrido muito na carreira por dirigir equipes que rondavam a parte de baixo da tabela. Por isso, ele valoriza muito o bom momento do Timão e a saída da situação incômoda. "É muito cedo falar onde podemos chegar (nesse campeonato). Mas nós estamos nos distanciando da zona do inferno. Essa é a verdade. Zona de baixo é a zona do inferno. Eu já passei muito tempo sem dormir, sei valorizar", disse o gaúcho no pós-jogo. Para ver o Corinthians se aproximar um pouco mais dos líderes, ontem à noite assisti pela TV ao duelo entre Atlético Mineiro e Santos. Obviamente torci para equipe paulista. Queria que o Peixe roubasse alguns pontinhos dos quase imbatíveis mineiros. Esse é o espírito do campeonato de pontos corridos: você torce pelo seu time e depois seca os rivais diretos. Quem quer levantar o troféu no início de dezembro precisará seguir tal receituário. Minha torcida, infelizmente, não funcionou. O Atlético venceu mais uma (décima vitória em doze jogos) e pulou para os 31 pontos. O Galo voltou à liderança isolada da competição. O novo triunfo foi por 2 a 0. O único consolo da quinta-feira foi saber de mais uma derrota do Palmeiras, dessa vez em casa para o até então lanterna Bahia. O time do Parque Antártica permanece nas últimas posições da classificação, tendo agora a companhia do Santos na zona de rebaixamento. Outro paulista que faz parte desse grupo indesejável é a Portuguesa. Outra notícia agradável é sobre a grave crise no Morumbi. Mesmo estando mais para cima na tabela (em sétimo lugar com 19 pontos, sendo o melhor paulista na competição nacional desse ano), o São Paulo é quem mais sofre com a pressão dos torcedores. Depois de ver os três grandes rivais conquistarem títulos no primeiro semestre e não sentir esse sabor há quatro anos, os são-paulinos têm protestado com frequência. Até o novo técnico da equipe, Ney Franco (no comando do tricolor há apenas quatro jogos – uma vitória e três derrotas), já começa a ser contestado. Os muros do CT são-paulino apareceram pichados nessa manhã. O mais criticado é o presidente Juvenal Juvêncio, considerado o principal culpado pela situação. Como é bom ver os rivais sofrendo e o Timão coberto de glórias. 27 de julho de 2012 - sexta-feira A melhor explicação para o bom futebol do Corinthians nos dois últimos anos se deve a forma como a equipe marca os rivais. Ver a vontade de todos os jogadores em correr atrás do adversário para recuperar a posse de bola e para evitar o gol é de encher os olhos da torcida. No Timão, todo mundo marca forte e tem a obrigação de defender, não importa se atua como atacante, meio-campista ou beque. Essa dedicação tática tem despertado a admiração até de quem não é corintiano. O clube é atualmente referência para as demais equipes do futebol brasileiro e sul-americano. Diego Armando Maradona, torcedor do Boca Juniors, fez o seguinte comentário sobre o Corinthians após a final da Libertadores: "Parece time italiano. É arrumado e preenche os espaços vazios. Enfiar bola pelo meio não dá". O técnico cruzeirense Celso Roth, derrotado nesse meio de semana pelo Timão, declarou em entrevista coletiva após a partida: "Esse Corinthians adquiriu uma maneira interessante de jogar. Tem gente que tem a opinião que o futebol tem de ser ofensivo, que tem de botar jogadores com características ofensivas... Vemos o campeão da Libertadores marcando atrás da linha da bola. Jorge Henrique marca. Danilo marca. Romarinho entrou agora e marca. Sheik marca. Todos marcam. E marcam até onde têm de marcar, até o fim". A coleção de elogios é variada. "Os títulos brasileiro e da Libertadores foram por envolvimento tático. É referência de marcação", apontou Ney Franco, comandante do São Paulo. "Meu time está com uma marcação tão boa como tem o Corinthians. Estou feliz da vida por isso", disse há alguns dias Abel Braga, técnico do Fluminense. "Essa história de que estão me parando veio depois do Corinthians. Mas o Boca também não jogou (bem na final)", reclamou Neymar, atacante santista, incomodado com as críticas por não estar jogando bem ultimamente. O mais interessante dessa forma de jogar, que transformou o Corinthians no time menos vazado das últimas três competições disputadas (Brasileirão de 2011, Paulistão de 2012 e Libertadores de 2012), é perceber como os novos jogadores aprendem rapidamente essa consciência tática. Romarinho chegou há menos de dois meses e já atua como Jorge Henrique, marcando o campo inteiro. Guerrero estreou na quarta-feira e a primeira medida foi voltar para pressionar o adversário. Até Douglas, acostumado a ficar parado em campo esperando a bola cair em seus pés, tem corrido como um maratonista. E tem feito gols depois de roubar a bola no ataque. Os méritos dessa façanha futebolística (fazer os brasileiros marcarem nunca foi algo simples!) são do Tite. Ele tem convencido os atletas através de vídeos, números e explanações táticas. No CT corintiano, o trabalho é feito dentro e fora de campo. Os repórteres Renato Rodrigues e Rodrigo Vessoni, responsáveis por cobrir o Corinthians, escreveram certa vez: "Com Tite, quem não sabe marcar, aprende. Quem não fazia antes, passa a fazer. Quem não gosta, passa a gostar. Não tem outro jeito...". Com essa filosofia, o Timão segue vencendo partidas, ganhando títulos e conquistando a admiração de torcedores e adversários. Incrível, não?! 28 de julho de 2012 - sábado Após o treinamento, o Corinthians viajou para Salvador. Amanhã, o Timão enfrentará o Bahia no Estádio de Pituaçu. O time paulista tem alguns problemas na defesa e no ataque, além de uma baixa já confirmada no meio de campo. Chicão está com um edema na coxa. Ficou em São Paulo para tratamento. Segundo o médico do clube, Júlio Stancatti, a contusão do zagueiro não é tão grave. Ele poderá atuar na próxima rodada. "Não houve contratura. Ele acusou dores no músculo após a partida contra o Cruzeiro. É um edema, sem gravidade. Acreditamos que ele deva se recuperar em uma semana", disse o doutor. No lugar de Chicão, entrará Wallace, que voltará a formar dupla com Paulo André. O reserva atuou pela última vez no início desse mês, no empate com o Sport. Por falar nisso, Wallace foi muito bem naquela oportunidade. No meio de campo, a baixa é o volante Edenílson. Ele não poderá ser opção no banco. O reserva de Paulinho e de Alessandro fraturou o nariz no treinamento de quinta-feira e precisou até ser levado ao hospital. A avaliação médica indica que o jogador deverá ficar 15 dias ausentes do gramado se recuperando. Que zica! No ataque, o desfalque é Emerson Sheik. O herói da final da Libertadores está com problema no tornozelo e foi vetado para o jogo de domingo. Jorge Henrique está sentindo dores musculares, mas vai para a partida como titular. A dupla de frente será formada por Romarinho, muito bem nas últimas partidas apesar de não ter feito gol (o último foi em La Bombonera...), e Jorge Henrique. Paolo Guerrero novamente começa como opção no banco de reservas. O peruano deverá jogar mais do que os sete minutos de quarta-feira. Pelo menos esse é o plano esboçado pelo Tite, interessado em dar pouco a pouco ritmo ao centroavante. A boa notícia é a volta do Maestro. Douglas cumpriu suspensão automática contra o Cruzeiro e está liberado para retornar ao meio campo. A criação das jogadas será sua responsabilidade e de Danilo. Douglas foi tão bem nos dois jogos como titular (contra Flamengo e Portuguesa) que muitos corintianos sentiram sua falta na última rodada. Trata-se de uma grande reviravolta no status do meia perante os torcedores. Se antes ouviam-se críticas, piadas e apelidos maldosos por causa de sua condição física, agora predominam-se elogios. O armador está apresentando um belo futebol ultimamente. O Corinthians pegará o Bahia com: Cássio; Alessandro, Paulo André, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Douglas; Romarinho e Jorge Henrique. Do lado do Bahia, os problemas são mais graves. A equipe de Salvador acabou de sair da zona de rebaixamento. A vitória de quinta-feira sobre o Palmeiras deu um fôlego aos baianos. Porém, o tricolor poderá enfrentar os campeões sul-americanos com até sete desfalques (entre jogadores machucados, suspensos e impossibilitados de jogar por serem atletas emprestados pelo Corinthians). Se tudo ocorrer como previsto, o Timão somará mais 3 pontos amanhã à tarde, mesmo jogando fora de casa. É o que eu e a Fiel Torcida esperamos. 29 de julho de 2012 - domingo Sintonizei na Rede Globo, às 16 horas, para ver Bahia e Corinthians. O Estádio de Pituaçu estava lotado. Aproximadamente 30 mil pessoas aproveitaram a tarde de calor e sol em Salvador para assistir à partida da 13ª rodada do Brasileirão de 2012. Mesmo sendo minoria, os corintianos encheram uma parte considerável das arquibancadas. O jogo iniciou com o Bahia ligeiramente melhor. Precisando vencer para sair de perto da zona de rebaixamento, a estratégia dos donos da casa era pressionar a saída de bola do Timão. Sem conseguir trocar passes entre a defesa e o meio de campo, os corintianos entregavam a bola facilmente para os adversários. Nos primeiros 15 minutos, só deu Bahia. Contudo, o melhor volume de jogo dos baianos não resultou em nenhuma grande oportunidade de gol. Na jogada mais perigosa do tricolor, o zagueiro Wallace bloqueou o chute do centroavante adversário e evitou a chegada da bola à meta de Cássio. Quando o Corinthians conseguiu, enfim, trocar passes sem errar, a partida mudou de cenário. Aí quem passou a dominar as ações e a pressionar foram os visitantes. Romarinho teve as duas primeiras oportunidades. Na primeira, ele se livrou da marcação, mas chutou fraco. Na segunda, recebeu passe de Alessandro pela direita e finalizou em cima do goleiro. Aos 26 minutos, aconteceu a grande chance do primeiro tempo. Romarinho, o melhor em campo, tocou na esquerda para Douglas, que entrava na grande área. O Maestro viu Danilo penetrando pelo outro lado da defesa e lançou de primeira. O camisa 20 chutou e o goleiro do Bahia fez ótima defesa. Uhhhhhhhh. Romarinho continuou se movimentando bem e tendo chances, mas pecava na hora de chutar para o gol. Em uma dessas oportunidades, o jovem atacante foi derrubado na grande área pelo defensor adversário. Pênalti! Infelizmente o árbitro não achou e ainda marcou falta do corintiano. Eita juizinho ruim da peste! O segundo tempo, o panorama se manteve. O Corinthians chegava até a grande área rival, mas não conseguia chutar ao gol com perigo. Querendo levar os três pontos para São Paulo, Tite mandou seus jogadores avançarem mais. Com isso, o Bahia começou a contra-atacar. Paulo André e Wallace estiveram perfeitos e não permitiram a conclusão dos baianos quando estes desciam para o ataque. Na metade do segundo tempo, o técnico do Timão mexeu na equipe. Tite colocou os dois peruanos. Guerrero entrou no lugar de Romarinho e Ramirez substituiu Douglas. O Corinthians passou a ficar mais tempo no campo adversário. Várias bolas foram cruzadas para Guerrero na grande área sem sucesso. Na melhor chance da segunda etapa, Alessandro pegou rebote do goleiro, mas chutou para fora. Final de jogo em Salvador: 0 a 0. O resultado colocou novamente o Bahia entre os quatro piores da competição. O Timão subiu mais uma posição na tabela e alcançou a 9ª colocação com 16 pontos. Com o empate de Atlético Mineiro e Fluminense no Rio, a diferença do Corinthians para o líder se mantém em 16 pontos. 30 de julho de 2012 - segunda-feira Uma dúvida martela na cabeça dos torcedores brasileiros desde o ano passado: por que o Corinthians, campeão brasileiro, não possui nenhum jogador na Seleção Brasileira? Essa questão se intensificou nos últimos meses após a campanha brilhante do clube paulista na Copa Libertadores de 2012. Qual o motivo para a não convocação dos atletas do Timão se a equipe de Tite é atualmente a melhor do continente, hein?! Eu sinceramente não tenho uma resposta pronta. A pessoa mais indicada para responder é o técnico Mano Menezes, o responsável por tal paradoxo. Na minha visão, a explicação passa pelo fato de o Corinthians não possuir grandes destaques individuais. O conjunto do time é melhor do que as peças isoladamente. Veja bem, não estou reclamando pela não convocação dos corintianos. Até gosto dessa situação. Quanto menos jogadores selecionados, menores serão as baixas no Timão. Por mim, o Mano pode ficar sem convocar nenhum atleta nosso até a Copa. É um favor que ele faz para a nação alvinegra do Parque São Jorge. Esse, inclusive, tem sido um dos pontos pelos quais nossos rivais se apegam para chiar. Para são-paulinos, palmeirenses, santistas e demais torcedores, o técnico da seleção não convoca nenhum corintiano para favorecer o antigo clube. Quem bateu muito nessa tecla foi o presidente Luiz Álvaro, do Santos, quando seu time foi eliminado pelo Corinthians nas semifinais da Libertadores. Enquanto Tite tinha todos os jogadores à sua disposição para treinar, o técnico santista só recebeu suas principais estrelas alguns dias antes do confronto – o Brasil estava em excursão pelos Estados Unidos. Eu acho essa teoria um absurdo. O Mano Menezes é um cara profissional, honesto e competente. Jamais iria beneficiar o ex-clube para prejudicar a seleção (e o seu próprio trabalho). Ele não convoca ninguém porque há jogadores melhores fora do Parque São Jorge. Entretanto, a mordomia dos corintianos está com os dias contados. Hoje foi divulgada a convocação da Seleção Peruana para os próximos amistosos. Paolo Guerrero e Ramirez foram chamados pelo técnico de lá. Paulinho também foi selecionado para o amistoso que o Brasil fará em agosto. Trata-se de uma grande notícia para o volante. Ele realmente vive uma fase incrível e é ao lado de Ramirez, do Chelsea, um dos melhores da posição. Assim, o Timão passa a ter três jogadores em seleções nacionais. Por hora, as teorias conspiratórias dos adversários devem diminuir de intensidade. O único ponto ainda incompreensível por mim é a não convocação de Ralf. Como alguém, em sã consciência, não chama o nosso Pit Bull, hein?! Além de Ralf ser o melhor marcador do futebol nacional, ele possui grande entrosamento com Paulinho, seu companheiro de setor. Com os dois juntos no meio campo do Brasil, a equipe canarinho ganharia muita força. Mano Menezes não compartilha dessa opinião. Quando questionado sobre a ausência do camisa 5 do Timão na lista de jogadores brasileiros, o treinador se saiu com essa: "Ralf é talvez o maior marcador do Brasil, mas quero volantes que marquem e tenham características de sair para o jogo. E tenho buscado esse jogador um pouco mais completo". Como diria Tio Luiz, é melhor ouvir besteira do que ser surdo. Ralf para mim é seleção! 31 de julho de 2012 - terça-feira O último dia do mês marcou a despedida efetiva de Liedson do Corinthians. O contrato do centroavante se encerrou hoje e não será renovado. A partir de amanhã, o luso-brasileiro não precisará mais ir ao Centro de Treinamento Joaquim Grava para trabalhar. Está livre para acertar com outra agremiação. Essa foi a segunda passagem de Liedson pelo Timão. A primeira, em 2003, foi mais curta. Após atuar por equipes pequenas do futebol brasileiro, Liedson fez um ótimo Campeonato Brasileiro de 2002 jogando pelo Flamengo (fez 15 gols em 29 partidas). Assim, o Corinthians o contratou. Em um semestre no Parque São Jorge, o baiano natural de Cairude foi campeão paulista e artilheiro do time (22 gols em 33 jogos). O sucesso chamou a atenção do Sporting de Lisboa. Com uma boa proposta recebida, o Corinthians aceitou vendê-lo. E por lá ficou o Levezinho, apelido adquirido na terra de Camões. Em Portugal, o centroavante se tornou ídolo do Sporting e um dos jogadores mais importantes da história do clube lisboeta. Com a aposentadoria de Ronaldo Fenômeno em fevereiro de 2011, a diretoria corintiana resolveu que era hora de repatriar o centroavante (então naturalizado português e titular da última Copa do Mundo). O Sporting aceitou negociá-lo. Desde o ano passado, Liedson tem sido o dono da camisa 9 e o artilheiro do time do professor Tite. Infelizmente, os problemas físicos do jogador se agravaram nessa temporada e ele perdeu a condição de titular. Como seu salário era alto, a diretoria do clube e a comissão técnica corintiana entenderam que não valia mais a pena tê-lo no elenco. Assim, no dia 8 de julho, na Ilha do Retiro, Liedson atuou pela última vez com a camisa do Corinthians. O jogo terminou empatado, 1 a 1, com um gol dele. Desde então, o luso-brasileiro vinha treinando separadamente. Sua rotina era correr sozinho em volta do gramado e fazer sessões de academia, onde às vezes encontrava os companheiros de time. Acredito que não demorará muito tempo para Liedson voltar a ficar empregado. Pelas últimas notícias, Flamengo e Santos estariam disputando o atleta. Ambas as equipes estão mal no Brasileirão e procuram desesperadamente se reforçar para o restante da temporada. A ideia do jogador é atuar mais um ou dois anos. Na nota de despedida, Liedson declarou: "Tenho um carinho muito grande pelo clube, mas o ciclo se deu por encerrado e agora é seguir em frente. Fui muito feliz nessa minha segunda passagem, ganhei títulos, entramos para a história com a conquista da Libertadores, fiz muitos gols e conquistei grandes amigos. Saio com a cabeça erguida e satisfeito pelo que fiz. Agradeço ao Corinthians, sua diretoria, os companheiros, os funcionários do clube e, principalmente, a torcida". Para homenageá-lo, os jogadores do Timão prepararam uma festa no CT corintiano nessa terça-feira à tarde, quando o centroavante foi buscar seus pertences e dizer tchau aos funcionários do clube. Uma despedida simples e justa para um dos grandes heróis do Corinthians no ano mais maravilhoso de nossa história. Obrigado, Liedson! ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















