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  • Músicas: Todo Carnaval Tem Seu Fim - As sábias palavras de Marcelo Camelo

    Sempre que chega a Quarta-feira de Cinzas, recordo-me da letra de uma música antiga dos Los Hermanos. Ela se chama “Todo Carnaval Tem Seu Fim” e foi composta por Marcelo Camelo, o vocalista e líder do grupo. Curiosamente, esta canção integra o segundo álbum dos Los Hermanos, "Bloco do Eu Sozinho", aquele que é considerado por muitos especialistas do mercado fonográfico como o melhor da banda carioca. Eu concordo plenamente com essa opinião. Passei o dia de ontem inteiro cantarolando “Todo Carnaval Tem Seu Fim”. A seguir, veja a letra desta música e assista ao seu vídeo clipe. É ou não é uma canção perfeita para uma quinta-feira melancólica pós-feriado, hein? "Todo Carnaval Tem Seu Fim" - Marcelo Camelo. Todo dia um ninguém José acorda já deitado Todo dia ainda de pé o Zé dorme acordado Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado De que o dia insiste em nascer Mas o dia insiste em nascer Pra ver deitar o novo Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada Toda Bossa é nova e você não liga se é usada Todo o carnaval tem seu fim Todo o carnaval tem seu fim E é o fim, e é o fim Deixa eu brincar de ser feliz Deixa eu pintar o meu nariz Deixa eu brincar de ser feliz Deixa eu quebrar o meu nariz Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco Toda escolha é feita por quem acorda já deitado Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado E pinta o estandarte de azul E põe suas estrelas no azul Pra que mudar? Deixa eu brincar de ser feliz Deixa eu pintar o meu nariz Deixa eu brincar de ser feliz Deixa eu pintar o meu nariz Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LosHermanos #MarceloCamelo

  • Dança: Dança dos Noivos - A coreografia marcante para o momento inesquecível

    Conheça as dicas preciosas de Marcela Bonacorci para os recém-casados terem sua Dança dos Noivos sem susto e com alegria na festa de casamento. Alguns momentos de nossas vidas merecem uma atenção mais do que especial. De tão marcantes, esses instantes nos tiram muitas vezes da zona de conforto e nos obrigam a inovar. Esse é justamente o caso da emocionante e memorável Dança dos Noivos. É sobre a coreografia que os recém-casados executam na festa de casamento que vamos tratar hoje na coluna Dança. A ideia é trazer, nesse post do Bonas Histórias, algumas dicas práticas de como os casais podem arrasar na hora do baile nupcial. E engana-se quem pensa que vamos falar apenas de Valsa e de Dança de Salão. A Dança dos Noivos está cada vez mais versátil, criativa e com o estilo de seus dançarinos. Para começo de conversa, preciso ressaltar que a Dança dos Noivos é uma das cenas mais importantes da Cerimônia de Casamento. O bailado na festa representa o momento em que os recém-casados são apresentados unidos, aos amigos e familiares, pela primeira vez após a formalização do matrimônio. Por isso, essa parte do evento é tão aguardada por todos. Segundo a tradição, os noivos dançam primeiramente juntos. Depois, eles dançam com os pais e, em seguida, os padrinhos entram na pista. Porém, a tradição do ritual dançante pode parar por aí! O casal não precisa se limitar à Valsa na escolha da música. Os recém-casados podem (e devem!) escolher uma música que os represente e que tenha a ver com sua história, gosto, crenças e estilo de vida. Por que não trazer mais personalidade à cerimônia e surpreender os convidados da festa? Pense nisso. Se a ideia é dançar juntinho, abraçado, de forma mais romântica, a melhor escolha é a Dança de Salão. Inclusive, há um post aqui na coluna Dança em que trato exclusivamente das características dessa modalidade e de seus vários gêneros. Como já falei hoje, ao optar pela Dança de Salão, o casal não precisa ir necessariamente para a Valsa. Atualmente, as danças mais pedidas pelos noivos com quem ensaio são Bolero, Tango, Samba, Forró, Sertanejo e Rock. Repito: o importante é que a música e a dança tenham grande afinidade com o jeitão do casal de dançarinos. Se os ritmos da Dança de Salão não fazem parte do repertório dos noivos, então vamos inovar ainda mais! Os casais podem também dançar Hip Hop, Funk, Axé... Nesses casos, não temos o romantismo da dança abraçada, mas com certeza temos muita diversão, ousadia e originalidade. E vou além: por que não misturar um pouco de uma dança com outra?! Uma tendência que aprecio é a mixagem de duas ou mais músicas. É muito legal assistir à mudança de ritmo durante a Dança dos Noivos. Além de surpreender os convidados, essa opção torna a experiência dançante mais dinâmica e chamativa. Um equívoco muito comum é pensar que, para realizar a Dança dos Noivos, o casal precisa ser formado por dançarinos experientes ou possuir alguma bagagem nessa área. Se você acredita nisso, saiba que está redondamente enganado(a). A maioria dos noivos que coreografo nunca dançou antes. Quando iniciam as aulas preparatórias, eles chegam, muitas vezes, sem saber nem o dois para lá, dois para cá. É interessante notar que vários casais, após essa primeira experiência na dança, se apaixonam tanto pela atividade que não querem mais parar de dançar. É muito comum eles ingressarem em turmas de Dança de Salão e outros ritmos nos primeiros meses de casados. Por isso, digo e repito: para realizar a Dança dos Noivos não é necessário ter conhecimentos prévios em dança, mas, aí sim, é preciso ter dedicação e boa vontade para aprender. Seguindo algumas recomendações básicas, a Dança dos Noivos será um sucesso para todos e um dos momentos mais lembrados da Cerimônia Matrimonial. Uma dica que dou para meus alunos é que eles não devem se preocupar com os convidados na hora da Dança dos Noivos. É verdade que todos os olhares da festa estarão voltados para os passos realizados na pista. Porém, esse é um momento íntimo do casal. Eles devem dançar um para o outro e para mais ninguém. E devem aproveitar o clima, normalmente carregado de fortes emoções, para se divertir ao máximo. É fundamental que os noivos consigam ensaiar bastante, seja nas aulas com o(a) professor(a), seja fora da escola/academia de dança. Para se executar bem uma coreografia, a repetição é essencial. Quanto mais praticamos os passos e as sequências programadas, mais a dança se torna natural e fica gravada em nossa memória. Chega um momento em que os noivos conseguem dançar espontaneamente, como se já fizessem aquelas coreografias há anos. Essa é a importância da prática e da repetição. Se você vai se casar e quer ter uma dança bem coreografada, recomendo começar as aulas com pelo menos dois meses de antecedência. Agora falemos da música. A canção é parte vital da experiência dançante. De certa forma, pensar no som é algo que antecede à prática dos passos. A música da Dança dos Noivos deve, além de refletir a personalidade do casal, agradar ao gosto de ambos os parceiros. Lembre-se que, ao treinar incansavelmente os passos coreografados, os dançarinos terão que ouvir muitas vezes a mesma canção. Para não se enjoar do som antes da apresentação final, é importante nutrir uma relação positiva com a música escolhida. Em hipótese nenhuma, opte por algo que um dos noivos não goste. A palavra que mais repito nessa hora é CONSENSO. O tempo de duração da trilha musical também deve ser considerado. Preste atenção nisso. O ideal é que ela tenha até três minutos e meio de extensão. Uma dança com um período maior do que esse pode se tornar cansativa para quem assiste à cerimônia e de difícil execução para os noivos. Afinal, quanto mais tempo tiver a música, mais passos da coreografia precisarão ser aprendidos, memorizados e praticados. Portanto, nem pense em querer dançar “Eduardo e Mônica”, mesmo em um casamento de um Eduardo e de uma Mônica. Como em toda apresentação dançante, o figurino dos dançarinos precisa ser considerado e planejado. Pode até parecer óbvio falar nisso, mas saiba que esse aspecto pode muitas vezes arruinar a dança. E, no caso das festas de casamento, essa particularidade se torna ainda mais válida. O vestido da noiva é um elemento a mais na dança, que não pode ser esquecido. É fundamental que a mulher execute os movimentos da coreografia quando for fazer as provas do vestido. Lembrar-se dessa minha dica ajuda a garantir que os passos da dança possam ser realizados integralmente e, além do mais, auxilia na integridade da vestimenta. Ninguém quer ter um rasgo quando todos os olhos da festa estão atentos aos mínimos movimentos dos dançarinos. Se for necessário, peça ao(à) professor(a) que faça alguma alteração na coreografia para evitar acidentes com o vestido. O que falei do vestido de noiva até aqui se aplica ipsis litteris à roupa do noivo. O terno, a camisa e a calça dele precisam ser testados e considerados para o instante da dança. Não é surpresa constatar que é o homem, com uma vestimenta aparentemente mais fácil para a realização da dança, quem, na maioria das vezes, se esquece das medidas preventivas. E, não por acaso, são eles que acabam tendo muitos problemas na hora de dançar no dia do casamento. Por falar em figurino, é aconselhável que o casal treine com os sapatos que vão usar na festa. Se isso não é possível no início das aulas, pelo menos deve ser algo a ser considerado nas aulas finais (quando já sabem quais os calçados serão utilizados). Assim, os noivos já vão se acostumando com os sapatos, além de “amaciá-los” (sapatos novinhos e/ou sem uso prévio podem ser bastante desconfortáveis). É preciso ver se eles deslizam muito ou se prendem demais no chão, o que afeta o equilíbrio e o deslocamento dos dançarinos no palco. Se possível, analise também o piso do salão de festas. Se der, pratique lá antes do dia do casamento (de preferência, com os sapatos selecionados para a ocasião). Muitas vezes, essas pequenas ações ajudam a acalmar o casal para o momento derradeiro da Dança dos Noivos. Por falar em nervos, na hora da apresentação para valer, tente manter a calma, relaxar e aproveitar ao máximo essa dança tão especial. Sei que essas minhas palavras não são, em muitas ocasiões, tão simples assim de serem colocadas em prática. O que normalmente ajuda os noivos é a cumplicidade. Lembre-se que vocês estão juntos nessa! E perto dos desafios que o matrimônio terá dali para frente, não me parece tão assustador realizar, na frente de amigos e familiares, uma dança há tanto tempo praticada. Na minha visão, a Dança dos Noivos é a única parte do matrimônio (e da Cerimônia de Casamento) em que o casal pôde se preparar previamente. Por que, então, ficar nervoso justamente nesse momento? Durante a dança em si, ajuda bastante quando os dois dançarinos mantêm o olhar exclusivamente um no outro. Isso é legal porque, antes de qualquer coisa, temos aqui uma atividade só deles. Nada mais natural do que o contato visual se estender do primeiro ao último passo. Além disso, a troca de olhares potencializa o romantismo, aspecto inerente de uma boa Dança dos Noivos. Por fim, essa atitude ajuda na manutenção da concentração do casal. Quando os olhares dos dançarinos estão voltados para o salão e para os convidados, a chance de a coreografia desandar, por mais que tenha sido exaustivamente ensaiada, é enorme. Há quem diga que essa mesma dica vale para o casamento como um todo... Se você vai se casar e já tem a data da festa programada, que tal agendar suas aulas de Dança dos Noivos? Marque sempre uma conversa antes com o(a) professor(a) de dança. Assim, vocês podem se conhecer melhor e já definir os primeiros aspectos da coreografia. A partir do que os noivos dirão nesse primeiro encontro/reunião, o(a) professor(a) montará uma dança personalizada para o casal. E se a dúvida é qual música escolher, trouxe algumas opções para os noivos. Essa lista tem as 25 canções que meus alunos mais pedem para eu coreografar em seus casamentos. Confira a lista de canções ideais para a Dança dos Noivos: “Eu Sei que Vou Te Amar”, de Antônio Carlos Jobim. “The Time of My Life”, de Bill Medley e Jennifer Warnes. “Só Você e Eu”, de Vanessa da Mata. “Perfect”, de Ed Sheeran. “Loucuras de uma Paixão”, de Jorge Aragão. “A Thousand Years”, de Christina Perri. “Ainda Bem” de Marisa Monte. “Lover”, de Taylor Swift e Shawn Mendes. “Que Sorte a Nossa”, de Matheus & Kauan. “Can’t Help Falling In Love”, de Elvis Presley. “Desejo Me Chama”, de Diogo Nogueira. “Everything”, de Michael Bublé. “Coisa Linda”, de Thiago Iorc. “You’ll Never Find Another Love Like Mine”, de Michael Bublé e Laura Pausini. “Pra Sonhar”, de Marcelo Jeneci e Laura Lavieri. “Wave”, de Antônio Carlos Jobim e Toquinho. “De Janeiro a Janeiro”, de Roberta Campos e Nando Reis. “Thinking Out Loud”, de Ed Sheeran. “Preciso do Seu Sorriso”, de Trio Virgulino. “Killing Me Softly With His Song”, de Roberta Flack. “Xote da Alegria”, de Falamansa. “Photograph”, de Ed Sheeran. “Pra Você Guardei o Amor”, de Nando Reis e Ana Cañas. “You’ll Be In My Heart”, de Phil Collins. “Só Tinha de Ser com Você”, de Antônio Carlos Jobim e Elis Regina. E aí, qual a música que você quer dançar em seu casamento? Espero ter dado um empurrãozinho para aqueles que ainda estão com medo de se apresentar ou não sabem o que dançar. Se algum desses for o seu caso, agora você não tem mais desculpas. E para incentivar ainda mais os pombinhos, deixo aqui uma frase do poeta Augusto Branco: “Não é o ritmo nem os passos que fazem a dança. Mas a paixão que vai na alma de quem dançar”. Ótima Dança dos Noivos para você! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Fevereiro de 2012

    Para angústia dos corintianos, a Copa Libertadores começou. No segundo mês da temporada, já era possível verificar que conquistá-la pela primeira vez não seria tarefa fácil para a equipe alvinegra. 1° de fevereiro de 2012 - quarta-feira O Estádio Novelli Junior, em Itu, estava lotado para a partida entre a equipe da casa e os campeões nacionais. Aproximadamente 15 mil pessoas testemunharam, na noite quente do Verão paulista, o duelo entre Ituano e Corinthians. Os alvinegros eram maioria nas arquibancadas e a animação do Bando de Loucos ofuscava os torcedores do time local. Como vem acontecendo nas partidas fora de casa, o Corinthians começou melhor, atacando o adversário e criando boas jogadas. Infelizmente, os atacantes Gilsinho e Élton não demonstravam muita inspiração na hora de finalizar. Por isso, a primeira grande chance foi do Ituano. Aos 16 minutos, o meio-campista da equipe do interior ficou cara a cara com Júlio César e chutou forte no centro do gol. O goleiro espalmou a bola para cima salvando sua meta. Com o susto, os corintianos resolveram acordar. Aos 21 minutos, Élton aproveitou cruzamento de Fábio Santos e quase fez. O gol chegou aos 32. Gilsinho cruzou da direita e Paulinho com muita categoria deu um belo voleio. A bola estofou as redes do goleiro do Ituano. Corinthians 1 a 0. Comemoração de 90% do estádio. Com a vantagem no placar, o Timão diminuiu o ritmo no segundo tempo. Não sei se o sono começou a me dominar ou se foi o jogo que ficou chato. Com um olho aberto e outro fechado, vi Gilsinho e Élton continuarem desperdiçando as poucas oportunidades criadas. O lance de maior perigo foi do adversário. Na metade da etapa complementar, o Ituano cobrou falta e cinco jogadores do interior ficaram cara a cara com Júlio César. O goleirão conseguiu segurar a cabeçada do rival sem dar rebote. Outra vez, nosso camisa 1 salvou a Pátria do Parque São Jorge. Ao lado de Paulinho, Júlio foi o melhor atleta em campo nessa noite. Sua atuação foi segura e decisiva. Com o apito final, o Corinthians garantiu a quarta vitória consecutiva no Campeonato Paulista. A liderança isolada agora depende do tropeço do São Paulo, amanhã, no jogo contra o Guarani. De qualquer maneira, o bom início é importante. Logo mais o Timão irá direcionar seus esforços para a Libertadores e terá que deixar o Paulistão em segundo plano. E aí, os pontos conquistados agora serão fundamentais para manter o Timão entre os ponteiros do estadual. Além disso, as primeiras partidas de 2012 têm sido bons treinos preparatórios para a competição sul-americana. Mesmo os adversários sendo bem fracos, ao ponto de os jogadores corintianos diminuírem sensivelmente o ritmo em vários momentos, as vitórias enchem o elenco de moral. Para completar, o preparo físico vai sendo melhorado a cada semana, os atletas conseguem ensaiar novas jogadas e o treinador vai arrumando o posicionamento tático. Se os confrontos do início de ano não estão empolgando os torcedores, pelo menos eles têm cumprido o papel de preparar os jogadores para os desafios maiores da temporada que não tardarão em chegar. 2 de fevereiro de 2012 - quinta-feira O Corinthians tem um novo jogador! O meio-campista Douglas, de 29 anos, foi contratado do Grêmio por R$ 3 milhões. O meia-armador já teve passagem pelo Timão entre 2008 e 2009, quando foi campeão paulista e da Copa do Brasil. Apesar dos títulos, o jogador nunca conseguiu ser unanimidade no clube. A primeira passagem de Douglas foi marcada por partidas apagadas e jogadas geniais. Ou seja, ele é 8 ou 80. Os corintianos mais exigentes nunca gostaram dele. As alegações mais comuns dos críticos são que Douglas não corre em campo e que ele joga com muita displicência. Não por acaso, esses foram os motivos de sua saída do Grêmio. Os tricolores dos Pampas também o acusavam de estar fora de forma, gordo e sem pique para atuar em alto rendimento. Alguns torcedores corintianos, por outro lado, o tinham como ídolo. Eles ficavam maravilhados com os passes certeiros que o meia distribuía para os atacantes. Outro aspecto positivo do Maestro, como Douglas ficou conhecido nos tempos de Timão, é que o jogador nunca escondeu o desejo de retornar para o Parque São Jorge. Mesmo quando atuava no Grêmio, Douglas se dizia corintiano, para desespero dos gremistas. Dessa maneira, sua volta dividiu as opiniões. Eu sinceramente não gostei. Douglas é um meia canhoto e o Timão já possui três jogadores com essas características: Danilo, Alex e Vitor Júnior. Na certa, teria sido melhor trazer um meia destro para qualificar o grupo. E esse jogador seria Montillo... E por falar no argentino, as conversas intermináveis sobre sua contratação continuam. A novidade é o interesse do Banco BMG em emprestar dinheiro para o Corinthians comprar o cruzeirense. Curiosamente, a instituição financeira é a patrocinadora do clube mineiro. Vai entender! Vamos mudar de assunto porque não há nada mais chato do que falar da novela “Contratação de Montillo”. Se Douglas chega, Paulo André ficará mesmo fora dos gramados por um bom tempo. O zagueiro foi operado, ontem, do joelho e já deixou o hospital. Agora inicia a primeira fase de recuperação. E por falar em recuperação, o time formado pelos reservas corintianos foi à campo, hoje, em um amistoso contra o Flamengo de Guarulhos. A vitória foi magra, 1 a 0 para o Timão. O gol foi marcado por Vitor Júnior. A decepção do jogo ficou novamente à cargo de Adriano. O centroavante não demonstrou muita vontade para correr sob o forte sol paulistano. Restam apenas 11 dias para a comissão técnica corintiana escolher os nomes dos inscritos para o torneio continental. E pelo andar da carruagem, Adriano não estará na lista. Ou ele recupera o futebol de antigamente ou jogará no máximo o Paulista. Às vezes, acho mais fácil os torcedores entrarem em campo durante a competição sul-americana do que o camisa 10 atuar na Libertadores. Você sabia que isso é possível? Pela terceira vez, o Corinthians promoverá o projeto "Timão é a Sua Cara", no qual os torcedores poderão ter suas fotos estampadas nos números das camisas dos jogadores nas partidas internacionais. Por R$ 1 mil, qualquer corintiano poderá comprar o espaço no uniforme. Além da honra de ter a imagem impressa no manto sagrado, cada cotista ganhará uma camisa oficial personalizada com o seu rosto. Para quem tem essa quantia disponível, aí vai uma ideia diferente. Gostei! 3 de fevereiro de 2012 - sexta-feira Está chegando a hora! A Copa Libertadores da América de 2012 começará de fato na semana que vem. Na próxima terça-feira, o Fluminense receberá os argentinos do Arsenal de Sarandí e os uruguaios do Defensor Sporting pegarão os portenhos do Vélez Sarsfield. No dia seguinte, teremos Unión Española e Junior de Barranquilla, Vasco da Gama e Nacional do Uruguai, Nacional do Paraguai e Cruz Azul, Chivas e Deportivo Quito. Na quinta-feira, as partidas serão entre Libertad e Alianza Lima e Universidad Católica e Bolivar. Na semana seguinte, mais equipes estrearão no torneio. Em janeiro, tivemos a fase chamada de Pré-Libertadores. Nela, algumas equipes disputam, em jogos eliminatórios, o direito de entrar na primeira fase da competição mais importante do continente. Não tivemos grandes surpresas nesse ano. Os representantes de Brasil (Internacional e Flamengo), Argentina (Arsenal de Sarandí), Uruguai (Peñarol), Paraguai (Libertad) e Chile (Unión Española) se classificaram. Eles se juntam aos outros 26 times previamente classificados. A Copa Libertadores desta temporada mantém as mesmas características dos torneios dos últimos anos. Os 32 times de 11 países (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Chile, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela e México) estão divididos em 8 grupos, com 4 equipes cada. As agremiações disputam dentro do próprio grupo partidas de ida e volta. Os dois melhores classificados avançam para as oitavas de finais. Aí os jogos passam a ser eliminatórios, em ida e volta, até a decisão. As finais estão marcadas para os dias 27 de junho e 4 de julho. O Corinthians só estreará no torneio daqui duas semanas. O Timão está no grupo 6, ao lado de Cruz Azul (México), Nacional (Paraguai) e Deportivo Táchira (Venezuela). Os adversários do Timão, na primeira fase, não são os mais difíceis, mas também estão longe de ser os mais fáceis. O Fluminense, por exemplo, enfrentará algumas pedreiras. Logo de cara, o tricolor carioca pegará dois argentinos, o Boca Junior e o Arsenal, e o colombiano Zamora. O Flamengo está em situação parecida, pois terá pela frente Olímpia do Paraguai, Emelec do Equador e Lanús da Argentina, equipes tradicionais no cenário sul-americano. Facilidade terão o Santos e o Internacional. Ambos pegarão os bolivianos do The Strongest e os peruanos do Juan Aurich. O Vasco da Gama caiu em um grupo mediano e jogará contra Libertad do Paraguai, Nacional do Uruguai e Alianza Lima do Peru. No grupo corintiano, o único time considerado tecnicamente bom é o Cruz Azul. Os mexicanos devem brigar pelo primeiro lugar com o Timão. O Nacional é uma incógnita e a seu favor tem o fato de os paraguaios serem sempre adversários complicados quando atuam em seu território. O único time mais tranquilo parece ser o Táchira. Talvez os mais temidos adversários da primeira fase para o clube do Parque São Jorge sejam as longas viagens. Para enfrentar Cruz Azul e Deportivo Táchira, nossos jogadores terão de ir até o México e a Venezuela, em deslocamentos com milhares de quilômetros. Com um calendário abarrotado de jogos como é o brasileiro, será um desgaste e tanto para os atletas alvinegros. 4 de fevereiro de 2012 - sábado O início do Campeonato Paulista tem sido o melhor dos últimos 12 anos para o Corinthians. O desempenho de quatro vitórias nas quatro primeiras partidas foi alcançado pela última vez em 2000. Além da boa arrancada, o Timão conseguiu, na conclusão da última rodada, chegar à liderança isolada da competição com 12 pontos. O São Paulo apenas empatou com o Guarani, na quinta-feira, no Morumbi, e caiu para o segundo lugar com 10 pontos. Na sequência vêm Paulista de Jundiaí (também com 10), Ponte Preta (com 9) e Palmeiras (com 8 pontos ganhos). O Timão também tem a melhor defesa com apenas um gol sofrido. A liderança na tabela de classificação deu uma tranquilidade maior ao técnico Tite para poupar alguns titulares na rodada de final de semana. O treinador já declarou que dará descanso amanhã para Fábio Santos, Danilo e Alex, desgastados pelos primeiros jogos. Assim, o peruano Ramírez e o lateral Ramon deverão estrear na temporada em partidas oficiais. Jorge Henrique também volta após um período machucado. Outra novidade é o retorno de Liedson ao time titular. Por consequência, Élton volta para o banco. Apesar das boas-novas, algumas baixas ainda são sentidas. Os atacantes William e Emerson Sheik continuam em tratamento médico e estão vetados. Adriano, por sua vez, continua sem previsão para voltar ao campo. Novamente, o Imperador não foi relacionado pelo técnico e não ficará nem mesmo no banco de reservas. Com isso, Gilsinho mantém a posição entre os titulares. A equipe escolhida por Tite para começar a partida contra o Bragantino, no Pacaembu, é a seguinte: Júlio César; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Ramon; Ralf, Paulinho e Ramírez; Gilsinho, Jorge Henrique e Liedson. O Bragantino ocupa apenas a 13ª colocação do Paulista com 4 pontos (1 vitória, 1 empate e 2 derrotas). Apesar do mau começo, o time comandado por Marcelo Veiga é possivelmente a melhor equipe do interior, ao lado da Ponte Preta. A Massa Bruta é uma forte candidata para passar para a próxima fase e, quem sabe, incomodar os grandes no mata-a-mata. Tecnicamente, esse será o jogo mais difícil do Timão até agora. Mesmo atuando em casa, não será fácil passar pelo bom time de Bragança Paulista. A boa surpresa do início de campeonato é o Paulista. A equipe de Jundiaí ganhou nesse sábado mais uma e agora pulou, provisoriamente, para o primeiro lugar com 13 pontos. O Paulista venceu em casa o lanterna Catanduvense por 3 a 1 e já coleciona seu quarto triunfo na competição. O Galo de Jundiaí também chegou à marca de 11 gols feitos em 4 jogos, o mais positivo do estadual até agora. Além do jogo do Timão, a 5ª rodada reserva outras boas partidas. O Santos jogará com o Palmeiras em Presidente Prudente e pela primeira vez no ano mandará suas principais estrelas à campo. O São Paulo também tem um jogo difícil contra a Ponte em Campinas. Não será surpresa se o tricolor perder a primeira no ano. 5 de fevereiro de 2012 - domingo O Estádio do Pacaembu recebeu pouco mais de 16 mil torcedores. O público de Corinthians e Bragantino aproveitou o sol forte e o céu limpo da cidade de São Paulo para ir às arquibancadas. Depois de alguns dias de muita chuva, enfim, São Pedro dava um descanso para os paulistanos aproveitarem o final de semana. O jogo começou com um susto para os corintianos. No primeiro lance, o Braga cobrou falta do meio do campo. A bola foi lançada para a pequena área. Júlio César não conseguiu pegar e rebateu para o meio da área. Os defensores do Timão não cortaram bem e o atacante do time do interior recebeu livre para chutar para o gol. Não foi necessária muita força para a bola entrar. Gol do Bragantino em menos de 2 minutos. Os corintianos reclamaram muito alegando impedimento do adversário. O juiz ignorou a controvérsia e validou o lance. Perdendo, o Timão teve que ir para cima e conseguiu armar boas jogadas. As melhores oportunidades de gol vieram de chutes de longa distância. Primeiro foi Leandro Castán quem abandonou a defesa, avançou pela retaguarda adversária e chutou forte, exigindo uma bela defesa do goleiro do Bragantino. Depois foi Jorge Henrique quem arriscou um tiro violento. O atacante se livrou do marcador e chutou sem sucesso no canto do goleiro. Paulinho e Chicão também tentaram e nada. No desespero de parar os corintianos, um zagueiro do Bragantino acabou recebendo o segundo cartão amarelo. A expulsão ocorreu no último minuto antes do intervalo. Mesmo com um jogador a mais e com o bom volume de jogo, o Corinthians desceu derrotado para os vestiários. Na volta do segundo tempo, o empate não tardou. Aos 6 minutos, Ramirez fez ótima jogada pela direita, avançou fugindo da marcação e mandou uma bomba. A bola foi no ângulo. Indefensável. Gol do Timão! E partida empatada no Pacaembu. Pensando na virada, Tite resolveu arriscar. Ele tirou o lateral-esquerdo Ramon e colocou o meia-armador Vitor Júnior. O Corinthians ficou mais ofensivo e a pressão aumentou consideravelmente. Jorge Henrique perdeu gol feito na frente do goleiro. Inacreditável! Paulinho e Liedson também tiveram chances. Até um pênalti a seu favor o Timão teve, mas o juizão não marcou. Se fosse para relatar todas as chances de gol dos mandantes, eu usaria umas três páginas. O fato é que o gol não saiu. E Vitor Júnior conseguiu ser expulso em apenas 7 minutos em campo. Ele recebeu dois cartões amarelos e foi mais cedo para o chuveiro. Com 10 jogadores para cada lado, o equilíbrio voltou. As defesas foram melhores do que os ataques no restante do segundo tempo e a peleja terminou mesmo empatada: 1 a 1. O Corinthians perdeu os primeiros pontos, mas manteve a invencibilidade na competição. O Bragantino conseguiu somar mais um ponto e subiu um pouco mais na classificação. Já os torcedores deixaram o estádio com a sensação de que a vitória poderia ter acontecido se as finalizações fossem melhores. 6 de fevereiro de 2012 - segunda-feira O clima esquentou entre os corintianos com o empate em casa no último domingo. Júlio César reclamou muito da violência do Bragantino. Para o goleiro, os jogadores do interior foram desleais e agressivos em vários lances: “Pô, eles bateram muito. O árbitro ficou o jogo inteiro falando: é a última, não aviso mais, em cada falta deles. Mas deveria expulsar, porque eles vieram aqui para bater mesmo”. Em seguida, o camisa 1 completou já pensando na estreia do torneio continental: “É porrada para todo lado. Na Libertadores é pior ainda. É bom para a gente se acostumar”. O técnico Tite ficou muito bravo com a expulsão de Vitor Júnior. O meia entrou e em menos de dez minutos conseguiu receber dois cartões amarelos. O treinador não quis saber de colocar panos quentes no assunto e cobrou muito o jogador no vestiário, conforme divulgado na entrevista coletiva. “É questão de maturidade. Quando se veste a camisa de um grande clube, a responsabilidade aumenta. Quando vem a oportunidade, às vezes quer fazer coisas prematuras. Mas isso acontece, e a gente não passa a mão na cabeça”, disse o comandante. Vitor Júnior entendeu o recado e saiu desolado do Pacaembu. Dizendo estar com vergonha e aproveitando para pedir desculpas, o meia desabafou no Twitter mais tarde: “Hoje (domingo) foi o pior dia da minha vida. Boa noite! Tô muito triste mesmo e peço desculpas a todos... torcida, jogadores, comissão técnica, etc... Só eu sei o quanto tá sendo ruim! Serve de aprendizado”. Com a vitória do tricolor paulistano, em Campinas, por 3 a 1 contra a Ponte Preta, três equipes estão empatadas na primeira posição do estadual com 13 pontos: São Paulo, Paulista de Jundiaí e Corinthians. Pelos critérios de desempate, o time do Morumbi está na frente e o do Parque São Jorge caiu para a 3ª posição. O 4º colocado é o Palmeiras. O Palestra foi para 11 pontos após vencer o Santos. Provavelmente, o clássico do próximo domingo entre Corinthians e São Paulo valerá a liderança do Paulistão. Eu disse provavelmente porque ainda tem uma rodada antes no meio da semana. O Timão enfrenta o Mogi Mirim no interior, enquanto o tricolor pega o Comercial no Morumbi. Se ninguém tropeçar, o jogo entre os dois valerá, além de toda a rivalidade histórica, a ponta na tabela. A expectativa pelo Majestoso é tanta que os corintianos já compraram antecipadamente 14 mil ingressos. O Estádio do Pacaembu estará lotado para o principal clássico paulista da atualidade. A única dúvida é se o Corinthians pegará o rival com o time titular ou com o reserva. A decisão caberá ao Tite. Na quarta-feira da semana que vem, o Timão estreará na Libertadores, em jogo na Venezuela. Valerá a pena atuar com os principais jogadores no clássico paulista, correr o risco de desgastar os atletas e de ter alguma baixa importante para a competição continental, hein? Por outro lado, a escalação de nossos suplentes facilitará as coisas para os são-paulinos, levando-os a vitória no Majestoso, o que poderá provocar uma crise no Parque São Jorge. O que fazer? Esses serão os questionamentos na cabeça do Tite nos próximos dias. 7 de fevereiro de 2012 - terça-feira Admito: estou acompanhando muito futebol em 2012. Esse tema está virando uma obsessão. Todo dia vejo pelo menos uma partida. Repare na palavra "pelo menos" na frase anterior. Já cheguei a ver três jogos em menos de 24 horas. Sempre gostei de futebol, sempre o acompanhei com entusiasmo, mas nunca em tal escala. Para escrever O Ano que Esperávamos Há Anos, eu acesso diariamente as páginas esportivas do UOL e compro o jornal O Lance! pelo menos três vezes por semana. Também leio o caderno de esporte do O Estado de São Paulo todas as manhãs e, sempre que estou em casa, acompanho os programas esportivos da TV e do rádio. Sabendo que precisava me "desintoxicar", resolvi fazer algo diferente hoje. Depois de trabalhar de manhã no escritório, voltei para casa, almocei, tomei banho e troquei de roupa. Acredite: em nenhum instante do dia, vi, li ou ouvi algo sobre o Timão, o Campeonato Paulista e a Libertadores. Realmente, eu estava me sentindo mais leve. Nada de futebol por 24 horas! Essa era a minha meta da terça-feira e já havia passado metade do dia com grande êxito. À tarde, me encontrei com o Paulo, meu amigo de longa data, em um barzinho na Avenida Paulista. O Paulo é escritor e escreveu recentemente Histórias de Macambúzios. É sempre bom conversar com ele sobre literatura e novos projetos editoriais. Aproveitei a oportunidade e contei a ideia de O Ano que Esperávamos Há Anos. Aparentemente, ele gostou, mas fez a temida pergunta: "E se o Corinthians não ganhar a Libertadores?". Obviamente, tive que desconversar para o assunto não entrar no futebol. Apenas me limitei a dizer: "Aí paro de escrever e deleto tudo". Ele achou graça. Possivelmente, não acreditou que eu estivesse escrevendo tal relato. No começo da noite, me despedi do Paulo e fui ao teatro. Fui assistir "Cada um com seus Probrema". A peça é divertidíssima! No palco, só há um ator (Marcelo Médice) interpretando nove personagens politicamente incorretos (obviamente um de cada vez). E no meio da peça, não é que surgiu um tipo com jaquetão da Gaviões da Fiel e um gorro do Corinthians na cabeça. Ele começou assim o monólogo: "Eu não queria tomar muito o tempo de vocês. Rapidamente, eu queria, primeiramente, me apresentar e dizer que o meu nome é Sanderson. É nóis! E segundamente, eu queria falar que não vou aceitar nenhum tipo de piadinha com esse bagulho, assim de dizer, que nóis tudo assim é... corintiano é ladrão, tá ligado? Porque eu queria dizer que eu podia estar roubando, matando ou dormindo com a sua mina, mas não, eu tô aqui pedindo. Verdade! Minha situação está meio embaçada, da forma que, infelizmente, eu andei meio desandado e acabei privado da minha própria liberdade. Isto quer dizer preso, né? Mas firmeza. Acontece que para sair do bagulho, mano, os caras diz que a gente tem que arranjar um serviço voluntário. Voluntário o escambal porque os cara obriga a gente a fazer o trampo". O personagem de Marcelo Médice contou várias piadas do meu time e dos corintianos. Nem indo ao teatro eu consegui fugir do assunto Corinthians, Santo Deus! 8 de fevereiro de 2012 - quarta-feira Hoje, cheguei em casa por volta das 21 horas. Passei o dia inteiro em um cliente em Louveira, no interior de São Paulo. Como viajei cedinho para lá, além de ter ido dormir tarde ontem por causa do teatro, às 22 horas eu estava acabado no sofá da sala e querendo dormir. Entretanto, precisava antes assistir ao jogo do Timão contra o Mogi Mirim. O sono poderia esperar. A partida seria televisionada. Depois de muitas horas sem futebol, eu precisava retomar à rotina de corintiano fanático. Coloquei na Band e vi a escalação do Corinthians: Júlio César; Welder, Wallace, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Emerson e Liedson. Chicão e Alessandro foram poupados e não viajaram para o interior. O jogo começou com o Timão sufocando o Mogi. O gol só demorou 15 minutos para sair. Em lance de Paulinho pela direita, Liedson recebeu na grande área e chutou para o gol. A bola passou pelo goleiro. Ela ia entrando quando o lateral-direito adversário cortou a jogada com a mão em cima da linha. O juizão marcou pênalti e ainda expulsou o jogador do Mogi. Na cobrança, Emerson anotou: 1 a 0! No lance seguinte, Welder cruzou da direita e Liedson cabeceou. Ótima defesa do goleiro. A impressão era que o Timão iria golear. Com um homem a mais e jogando bem contra um adversário fraco, os gols viriam em enxurrada. Infelizmente, a equipe alvinegra diminuiu o ritmo e passou a ficar só na defesa. Como o Mogi não tinha forças para atacar, o jogo ficou chatíssimo. Eu fiquei me segurando no sofá para não dormir. Praticamente vi o final do primeiro tempo com um olho aberto, pois o outro insistia em ficar fechado. No segundo tempo, a monotonia continuou. Nada acontecia em nenhum dos lados do campo. Na metade da etapa final, Tite resolveu mexer. Colocou Élton e Edenílson no time. A dupla fez boa jogada, com participação também de Fábio Santos, e quase ampliou o placar. O goleiro da casa defendeu o bom chute de Élton. A retranca corintiana foi punida no final da partida. Quando os meus dois olhos já estavam fechados há algum tempo, eu ouvi o grito de gol do narrador. O Mogi empatava. No replay, vi o atacante do interior chutar de fora da área. Júlio César rebateu a bola para frente. Ela foi exatamente na direção do centroavante adversário. Gol de empate do Mogi Mirim. Fui dormir revoltado. Como uma equipe da dimensão do Corinthians pôde abdicar do ataque e desperdiçar uma vitória tão fácil?! Foi decepcionante! Além disso, alguns torcedores tiveram a cara de pau de culpar Júlio César pelo gol sofrido. Se o time tivesse feito três ou quatro gols lá na frente, um chute no finalzinho da partida não teria importância. Para amenizar um pouco o gosto amargo do segundo empate seguido (ambos com um homem a mais em boa parte da disputa), o São Paulo e o Paulista de Jundiaí também tropeçaram. O tricolor do Morumbi ficou no 1 a 1 com o Comercial e o Paulista perdeu para o São Caetano. Com a vitória do Palmeiras em cima do XV de Piracicaba, o Trio de Ferro divide a liderança (14 pontos para cada um). 9 de fevereiro de 2012 - quinta-feira Os próximos sete dias serão agitadíssimos no Parque São Jorge. Hoje, o meia Douglas foi anunciado oficialmente como reforço do Timão. Ele já treinou pela primeira vez com bola com os companheiros. O Maestro, em atitude sensata e educada, abriu mão de atuar com a camisa 10, atualmente com Adriano. No sábado, acontecerá a eleição para definir o novo presidente corintiano. O vencedor deverá ficar no posto durante o próximo triênio (2012/2013/2014). Os candidatos são Mário Gobbi e Paulo Garcia. O primeiro é o nome da situação, tendo sido diretor de Futebol até dezembro de 2010. O segundo é da oposição. Durante a campanha eleitoral houve muitas acusações, baixarias e promessas dos dois lados da disputa. O clima no Parque São Jorge nos últimos dias está supernervoso e deverá piorar à medida que a eleição se aproxima. Como os associados do clube estão satisfeitos com o mandato de Andrés Sanchez, padrinho político de Mário Gobbi, o candidato da situação deverá ser eleito. No domingo, um dia após a definição do novo mandatário do clube, o Corinthians irá à campo para enfrentar o São Paulo. Quem vencer ficará com a liderança do Campeonato Paulista. O Majestoso é atualmente o clássico de maior rivalidade no Estado. Não é possível nos esquecermos das partidas eletrizantes do ano passado. No primeiro semestre, o tricolor venceu por 2 a 1 quando Rogério Ceni fez de falta seu centésimo gol. No semestre seguinte, o Corinthians venceu por 5 a 0. Aquela goleada foi histórica e eu posso dizer que estava no estádio naquele dia vendo tudo de perto. Na segunda-feira, Tite deverá entregar à Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) a lista com os nomes dos 25 atletas corintianos que poderão disputar a Copa Libertadores da América. Como o elenco do Timão está recheado de jogadores (são mais de 30), alguns ficarão de fora da competição mais importante do ano. Cientes da concorrência, os jogadores têm se esforçado para demonstrar ao treinador suas competências. Até Adriano pareceu mais disposto a treinar. O Imperador pediu para ficar concentrado no CT corintiano durante toda a semana. A ideia é intensificar os exercícios e perder peso. Com uma alimentação balanceada, o centroavante espera estar em condições ideais até domingo. Obviamente, os diretores e a comissão técnica atenderam ao pedido do atleta. Particularmente, duvido que essa iniciativa tenha partido do Adriano. Deve ter sido uma ordem vinda de cima. E na quarta-feira, como diria Galvão Bueno, haja coração! O Timão estreia no torneio continental contra o Deportivo Táchira na cidade venezuelana de San Cristóbal, distante 650 quilômetros da capital Caracas. O adversário não tem muita tradição, mas não existe jogo fácil na Libertadores. Os estádios são acanhados, a torcida é extremamente hostil, o jogo é violento, o juiz é tradicionalmente caseiro e o cenário é mais parecido com uma guerra. Além disso, como sabemos muito bem, o Corinthians tem a sua própria maldição a persegui-lo em todos os lugares do continente. Boa sorte para todos os corintianos nos próximos sete dias! 10 de fevereiro de 2012 - sexta-feira Após o treinamento da manhã, o técnico Tite anunciou que irá colocar força máxima no Majestoso. Segundo o treinador, ele não pode pensar no jogo da próxima quarta-feira antes da partida desse domingo. A Fiel Torcida, portanto, pode dormir sossegada nas próximas duas noites. Não vamos passar vexame no Pacaembu contra o São Paulo. Mesmo assim, alguns torcedores mais críticos não conseguirão pregar os olhos tranquilamente. Eles entendem que é mais importante poupar os titulares no Campeonato Paulista e não correr riscos na Libertadores. Eu confio no Tite e deixo a decisão com ele. Tenho certeza de que o gaúcho escolherá a melhor opção. O Coringão entrará em campo domingo com: Júlio César; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Willian, Jorge Henrique e Élton. As únicas ausências são Liedson, Alex e Emerson, todos vetados pelos departamentos físico e médico. No entendimento da comissão técnica, apenas os três merecem um cuidado extra e serão preservados para a Liberta. Dessa forma, William e Jorge Henrique, recuperados de contusão, retornam à formação inicial e constituem o trio ofensivo com Élton. Douglas teve a documentação regularizada na CBF e será opção no banco de reservas. Se entrar em campo, será apenas no segundo tempo. A única certeza é da ausência de Adriano no clássico. Muito provavelmente ele também não viajará com a delegação para a Venezuela na próxima semana. A decisão é do preparador físico corintiano Fábio Mahseredjian. Em entrevista, Mahseredjian declarou: “Para domingo, (Adriano) não (joga). Para quarta é muito improvável. Para sábado (dia 18), não sei”. Segundo o preparador físico, o atleta não tem condições de atuar nem 45 minutos. Quem também opinou sobre o camisa 10 foi o médico Joaquim Grava: “Ele (Adriano) já perdeu dois quilos, mas ainda falta perder três. O Adriano está trabalhando, mas precisa melhorar. E muito!”, disse o doutor responsável pelo departamento médico corintiano. Todos parecem estar de olhos vivos no Imperador. A esperança é que após ficar trancado no CT por alguns dias, o centroavante mostre melhoras no corpo e na mente. Tite já conseguiu ver uma evolução em seu comandado e o elogiou publicamente depois de muito tempo. Pode ser um sinal de que Adriano estará na tão aguardada lista de jogadores a ser enviada para a Conmebol. Outra novidade do Timão está na camisa. Após mais de dois anos tendo como principal patrocinador a Neo Química, o Corinthians estampará no clássico a marca de preservativos Jontex. Ambas são da mesma empresa, a Hypermarcas. A mudança foi uma solicitação do patrocinador. A divulgação da Jontex seguirá até maio, quando termina o contrato da Hypermarcas com o Coringão. A camisa do Timão também recebe a divulgação da Bozzano (estampado nas mangas), da Avanço (nas axilas), da Fisk (na parte inferior da camisa) e da TIM (nos números do uniforme). Nossa camisa parece um macacão de Fórmula 1. Se a estética não é das melhores, pelo menos o clube pode se gabar de receber o maior valor de patrocínio do Brasil. 11 de fevereiro de 2012 - sábado A fumaça branca foi expelida aos céus no Parque São Jorge. A nação corintiana tem um novo comandante para administrar a República de 30 milhões de pessoas. O novo presidente do Timão se chama Mário Gobbi Filho. Ele é natural de Jaú, interior do Estado, formou-se em direito pelo Mackenzie, é delegado de polícia, tem 51 anos e é conselheiro do Corinthians desde 2002. Durante a campanha, Gobbi adotou o discurso de continuidade à gestão de Andrés Sanchez. Valorizou os feitos da atual administração, como a construção do estádio próprio e do Centro de Treinamento, a multiplicação das receitas e a formação de equipes competitivas. Já o opositor Paulo Garcia, empresário de 57 anos, dono da rede de papelarias Kallunga, criticou o abandono das categorias de base e da sede social. Também bateu pesado contra a elevação da dívida do clube que saltou de R$ 101 milhões no começo da gestão Sanchez para R$ 178 milhões no fim. A vitória do grupo político de Gobbi aconteceu por 640 votos. Enquanto o novo presidente recebeu 1.920 votos (60% dos 3.200 sócios), a oposição teve apenas 1.280 favoráveis. A eleição, de um modo geral, transcorreu sem grandes confusões no Parque São Jorge. De atípico, apenas o protesto de uma torcida organizada que criticou os dois candidatos por não a apoiarem. A mobilização da organizada durou apenas trinta minutos e se dissipou espontaneamente. O resultado da vitória de Gobbi e de sua chapa foi divulgado no começo da noite. Imediatamente após a divulgação dos números, Paulo Garcia reconheceu a vitória do adversário: "Reconheço a derrota. Se eles jogaram sujo ou não, eu não sei dizer, mas agora todos somos Corinthians". Ao mesmo tempo, Mário concedia uma entrevista coletiva. "Agradeço o voto do associado e me comprometo a não decepcioná-lo, honrando os compromissos que firmamos. Eu serei um instrumento para a manutenção e o aprimoramento de tudo isso que tem sido feito nos últimos quatro anos", disse o novo presidente em tom solene. Aproveitando para agradecer ao padrinho político, Gobbi rasgou elogios ao antecessor. "Ele (Andrés Sanchez) está saindo com aprovação de 92% dos sócios do Corinthians. Ele começou o estádio, vai nos ajudar muito a conduzir o processo. Quem pisará primeiro no estádio inaugurado será o presidente Andrés, e todos nós depois. É uma questão de justiça pelo que ele fez”. A missão de Mário Gobbi à frente do Timão já começa com tudo nos próximos dias. Amanhã o Corinthians enfrentará o São Paulo e na quarta-feira tem a estreia na Libertadores. Sobre o desafio no torneio sul-americano, o presidente preferiu despistar: "A Libertadores é muito pequena perto do Corinthians, que é infinitamente maior. Isso não quer dizer que não queremos (ganhá-la), mas essa não é a razão da vida do clube. O Corinthians é maior (do) que a Libertadores". Para mim, o presidente quis tirar um pouco da responsabilidade sobre os jogadores, pois qualquer corintiano sabe que a Libertadores é o nosso maior sonho de consumo. Nós precisamos desse título como precisamos de ar para respirar e de alimento para nos sustentar. 12 de fevereiro de 2012 - domingo Nesse domingo, os corintianos tiveram o primeiro grande desafio do ano: o clássico contra o São Paulo. Eu vi o jogo em casa pela televisão, pois não consegui comprar a entrada. Como não houve venda de ingressos no sábado (o Palmeiras jogou ontem no Pacaembu) e não há comercialização em dias de clássico (acho que é uma norma estadual), eu não achei uma bilheteria disponível. Assim como eu, muitos devem ter tido o mesmo problema. Afinal, nas primeiras imagens da TV, o setor central do estádio estava vazio. Talvez eu tenha tido sorte. Na hora da partida, caiu uma senhora chuva e com certeza eu estaria completamente ensopado se tivesse ido ao Pacaembu. Mesmo com o técnico Tite garantindo ter colocado em campo o melhor Corinthians, todos estavam cientes de que o time sem Alex, Emerson Sheik e Liedson era apenas um misto de titulares e reservas. O ataque foi composto quase que inteiramente por reservas, sendo Danilo o único titular. A defesa pelo menos estava intacta. O Majestoso começou com o São Paulo nervoso, fazendo várias faltas e dando chutões para frente. Mesmo assim, a primeira chance foi dos visitantes. O lateral-esquerdo do tricolor chutou e Júlio César rebateu para o lado. Pelo visto, ele aprendeu a não rebater para frente, como no último jogo. Aos poucos, o Corinthians foi conseguindo acertar as jogadas. As oportunidades ofensivas começaram a surgir. Fábio Santos cruzou e Danilo chutou forte, exigindo ótima defesa do goleiro são-paulino. Aos 22 minutos, a pressão alvinegra deu resultado. Jorge Henrique cruzou e Danilo cabeceou com força. Gol do Timão! Corinthians 1 a 0. Com o placar a seu favor, os corintianos continuaram melhor e quase ampliaram com Fábio Santos e Élton. O lateral chutou, o goleiro tricolor não defendeu totalmente. A bola ficou em cima da linha. Élton não chegou a tempo para chutar, sendo interceptado pelo zagueiro adversário. No último minuto antes do intervalo, Ralf salvou uma bola em cima da linha. Enquanto a Fiel comemorava a jogada do volante, Alessandro fez um pênalti tolo na sequência do lance. Na cobrança, o são-paulino chutou para longe, desperdiçando a chance de empatar. Ufa! Alessandro se salvou dessa! E o Corinthians desceu para os vestiários com a vantagem mínima. O segundo tempo foi inteiramente de Jorge Henrique. O pequeno atacante roubou a cena. Além de comandar as jogadas ofensivas do Timão, o camisa 23 também deixava os adversários nervosos com dribles e jogadas de efeito. Exatamente um minuto depois de o técnico Leão ter feito, de uma só vez, as três substituições permitidas, colocando mais atacantes, um zagueiro são-paulino perdeu a paciência com Jorge e deu-lhe um pontapé. O juiz expulsou o beque na hora. Sem poder repor a defesa e com um jogador a menos, o São Paulo ficou sem ação. O Corinthians não sofreu qualquer perigo e ainda desperdiçou várias chances para ampliar o placar. Infelizmente, a bola não entrou mais. O Majestoso terminou com a vitória corintiana por 1 a 0. O Timão venceu todos os últimos seis jogos contra o São Paulo no Pacaembu. Que bela marca! 13 de fevereiro de 2012 - segunda-feira Mesmo tendo como principal assunto do dia a convocação dos jogadores alvinegros para a Copa Libertadores, a segunda-feira começou com as piadinhas de sempre. Os corintianos tinham que tirar sarro dos são-paulinos. As brincadeiras não ficaram limitadas aos torcedores. Como já está virando tradição nas vitórias em Majestosos, o próprio clube do Parque São Jorge colocou a seguinte mensagem em sua página na internet: "Obrigado e volte sempre". Já para os torcedores, a gozação era feita com frases como: "CPF na nota?" e "Deixa os são-paulinos falarem, porque os fregueses têm sempre a razão". As melhores piadas podiam ser vistas nas redes sociais. Outro destaque da segunda-feira foi a atuação de gala da dupla Danilo e Jorge Henrique no domingo (até parece nome de grupo sertanejo). Ambos os atletas foram exaltados pelos jornalistas esportivos. O primeiro por ser um jogador decisivo, artilheiro de jogos importantes. O segundo por conseguir desestabilizar emocionalmente o adversário com suas jogadas. Para o técnico Tite, o atacante foi muito inteligente e dedicado no clássico: "O Jorge fez um grande jogo. Não provocou ninguém, apenas jogou. Ele fez lances pessoais, como ir para a lateral e segurar a bola. Não chutou o vento, por exemplo, como ele costuma fazer. Ele jogou muito bem no ataque, marcou muito bem, fez um belo jogo”. A verdade é que em todo clássico, os rivais acabam perdendo a cabeça com ele. Se tem alguém que nasceu para disputar jogos importantes, esse alguém é Jorge Henrique. Brincadeiras e polêmicas à parte, vamos ao que interessa. A lista feita por Tite e enviada à Conmebol acabou incluindo Adriano. O recém-contratado Douglas também foi inserido. No mais, nenhuma grande novidade. Os goleiros inscritos são Júlio César, Danilo Fernandes e Cássio. Os laterais direitos são Alessandro e Welder e os laterais na esquerda são Fábio Santos e Ramon. A zaga é composta por Chicão, Leandro Castán, Paulo André e Wallace. Os volantes selecionados são Ralf, Paulinho, Ramirez e Edenílson. Os meias são Danilo, Alex e Douglas. E os atacantes (acredite!) são sete: Liedson, Emerson Sheik, Jorge Henrique, William, Adriano, Élton e Gilsinho. Quem ficou de fora da lista foram: o meia-armador Vitor Júnior, os jovens zagueiros Marquinhos e Felipe, o volante Gomes e o atacante Bill. Desses, o único com maiores esperanças de entrar na relação era Vitor Júnior. Após algumas boas atuações do ex-jogador do Atlético Goianiense, a expulsão tola na partida da semana passada contra o Bragantino deve ter decretado sua exclusão do grupo. Pela bronca do Tite no vestiário, o treinador não confiava totalmente no meia. Com a definição dos jogadores convocados, uma parte do grupo seguiu viagem para a cidade de San Cristobal na Venezuela e a outra parte do elenco ficou treinando em São Paulo. Adriano, mesmo estando na relação de atletas que jogarão a Libertadores, ficou na capital paulista para aprimorar o físico. Os dias de concentração prolongada no CT já terminaram, mas os trabalhos continuam para ele. A expectativa é que, se estiver melhor, o Imperador jogue no sábado de Carnaval pelo Campeonato Paulista. Se isso realmente acontecer, será a sua estreia oficial na temporada de 2012. 14 de fevereiro de 2012 - terça-feira Viajar de Caracas, a capital venezuelana, para San Cristobal, o local do primeiro jogo do Timão na Libertadores, não é fácil. Imagine então o desgaste para quem sai de São Paulo, como foi o caso do elenco corintiano, em direção à cidade do interior da Venezuela! San Cristobal é a capital da província de Táchira, no extremo oeste do país. A viagem dos corintianos começou na segunda-feira. Após voo de oito horas em um avião fretado, eles chegaram à cidade de Maracaibo, no noroeste do país de Hugo Chaves. Depois seguiram em outro voo, dessa vez de uma hora, para a cidade de Santo Domingo. Na sequência, os jogadores e a comissão técnica entraram em um ônibus e seguiram por terra até San Cristobal. Após quase doze horas viajando, a comitiva, enfim, chegou ao local da partida nessa terça-feira. Ufa! Após descansarem durante todo o dia, Tite levou, à noite, seus comandados para o Estádio Pueblo Nuevo para o reconhecimento do campo do Deportivo Táchira. Na atividade com bola, o gaúcho esboçou a equipe que começará o jogo de amanhã contra os campeões venezuelanos. A principal novidade foi a escalação de Jorge Henrique no lugar de Alex. O camisa 23 ganhou a posição no time titular após a belíssima exibição no clássico contra o tricolor. Emerson Sheik e Liedson, poupados da última partida, voltam para a equipe principal. Dessa forma, o Timão debutará com a seguinte formação: Júlio César; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Emerson Sheik, Liedson e Jorge Henrique. Apesar dos jogadores corintianos tentarem explicar a grande diferença entre as duas situações, os jornalistas brasileiros encarregados de cobrir o time só perguntavam sobre as semelhanças entre a partida de amanhã e a derrota do ano passado para o fraquíssimo Tolima, na fase da Pré-Libertadores. “Contra o Tolima não teve nada disso de confiança demais, nada de desrespeito. O nosso erro foi no final do Brasileiro (ter empatado o último jogo e ter caído para a 4ª colocação). Não podíamos iniciar o ano (de 2011) tendo um jogo tão importante pela frente com uma preparação pequena”, descreveu o capitão Alessandro. “Perdemos do Tolima, foi ruim vivenciar aquele momento. Agora a situação é diferente. Mesmo não tendo acompanhado nenhum jogo deles (do Táchira), a gente está em um momento importante”, completou o lateral. A vantagem do atual elenco corintiano é a elevada experiência. Quase todos já disputaram pelo menos uma Libertadores. Dos 25 inscritos, apenas Cássio, Gilsinho, Ramon, Edenílson, Welder e Élton serão estreantes no torneio. Repare que todos são reservas. Os titulares já disputaram pelo menos uma edição. Quem mais jogou foi Danilo com 5 participações, seguido por Fábio Santos com 4 e Alessandro com 3. Do lado adversário, a expectativa pelo início da competição continental não é elevada. Como o futebol não é o esporte mais popular na Venezuela, a mídia local dá pouca atenção para a partida. Segundo o jornal Diario La Nacion, o Corinthians é um dos favoritos ao título e deve vencer amanhã. Até os jogadores do Deportivo Táchira estão cientes das dificuldades. Eles declararam que ficarão felizes com um empate. 15 de fevereiro de 2012 - quarta-feira Às 21 horas, eu já estava na frente da televisão. Sentado no sofá de casa, esperava o começo do jogo das 22 horas entre Corinthians e Deportivo Táchira. Minha ansiedade para o pontapé inicial era tanta que não me importei de ver o capítulo da novela Fina Estampa. Após Tereza Cristina, a vilã da trama global, aprontar mais algumas estripulias, Cléber Machado abriu a transmissão: "Para você ligado na Globo, a Libertadores está de volta. O mais importante torneio sul-americano, aquele que provoca um frisson em todas as torcidas". Após o foguetório e a festa do ótimo público presente no Estádio Pueblo Nuevo, o juiz apitou o começo da partida. Com a bola rolando, aconteceu o que nenhum corintiano imaginava. No primeiro ataque do Táchira, surgiu o gol. Após cobrança de lateral dos venezuelanos para a grande área do Timão, Chicão deu um chute para tirar o perigo. A bola, contudo, acertou o queixo do atacante adversário. Com o desvio involuntário, ela mudou de trajetória e seguiu para as redes de Júlio César. 1 a 0 para os adversários. O demônio corintiano da Libertadores já mostrava logo de cara sua face mais terrível. O gol do rival pareceu não ter abalado os jogadores do Corinthians. Eles mantiveram a forma tradicional de jogar, com trocas de passes no meio de campo. As oportunidades de gol começaram a surgir. Danilo acertou a trave em uma boa cabeçada aos 25 minutos. Três minutos depois, Emerson recebeu cruzamento de Alessandro e obrigou o goleiro venezuelano a fazer bela defesa. No finalzinho da primeira etapa, Jorge Henrique arriscou de fora da área e mandou pela linha de fundo. O segundo tempo começou com o Timão pressionando ainda mais o Táchira. Fábio Santos pegou um rebote e mandou um chutaço. A bola passou raspando a trave. Aos 11 minutos, Tite resolveu mexer e tornar a equipe mais equilibrada no meio de campo. O treinador colocou Alex e Élton e tirou Emerson e Liedson. A ordem era atacar! Aproveitando-se dos contra-ataques, a equipe da casa assustava. Aos 18 minutos, o atacante do Táchira recebeu na grande área e mandou a bola para o fundo das redes. Festa da torcida pelo segundo gol da noite. Felizmente, o juiz marcou impedimento. No replay, o lance se mostrou muito difícil. O restante do jogo foi de muito equilíbrio. Ora o Corinthians levava perigo, ora era o Táchira. Enquanto Castán, Paulinho e Alex tiveram chances desperdiçadas, Júlio César salvava lá atrás. A derrota corintiana caminhava para a concretização quando, aos 48 minutos, o Timão teve uma falta a seu favor na intermediária. Era a última jogada. Alex cobrou e Ralf cabeceou. Goooooooooool! O empate saiu. Inacreditável! Os jogadores alvinegros correram para o banco de reservas para comemorar. É difícil imaginar a alegria por um empate contra um adversário venezuelano. Da forma como a igualdade no placar foi conquistada, ela representou uma vitória para os corintianos. O ponto obtido na Venezuela lavou a alma de todos. Realmente, a Libertadores se mostrava uma pedra no nosso sapato. Sai zica! 16 de fevereiro de 2012 - quinta-feira O sentimento da torcida corintiana após o dramático empate contra o Táchira é de alívio. Alívio pelo ponto conquistado fora de casa em situação completamente adversa. A igualdade no placar veio quando até os mais otimistas já contabilizavam a derrota como certa. Admito também, de certa forma, uma dose de empolgação com o resultado. Minha vibração ontem foi parecida ao dos jogadores em campo, com saltos no ar e gritos a plenos pulmões. Até barulhos de rojões foram ouvidos no começo da madrugada de quinta-feira na cidade de São Paulo. Confesso que devo ter acordado alguns vizinhos com a celebração pelo gol de Ralf. Se formos analisar o desempenho dos brasileiros na primeira rodada, o Timão não foi tão mal assim jogando fora de casa. O Santos, por exemplo, perdeu para os bolivianos do The Strongest por 2 a 1 em La Paz. Pode-se até alegar que os atuais campeões continentais jogaram na altitude de 3.600 metros, mas não deixa de ser uma derrota, né? O Vasco da Gama fez pior. Perdeu para o Nacional do Uruguai no Rio de Janeiro. O Flamengo ficou no 1 a 1 na Argentina contra o Lanús. Apenas Fluminense e Internacional ganharam suas partidas, pois tiveram a seu favor o mando de campo. Há quem diga que a receita para se vencer a Libertadores é empatar fora e ganhar em casa. Assim, o Corinthians começou fazendo bem a primeira parte da lição. Outra emoção que me acompanha hoje é a angústia. Angústia por prever, a partir do primeiro jogo, o quanto a Fiel Torcida irá sofrer nesse ano. Se em uma partidinha contra um adversário fraquíssimo do interior remoto da Venezuela, nós penamos para empatar, imagine só quando a competição avançar para os confrontos mais difíceis, para as fases de mata a mata. É desesperador fazer essa projeção! Para os jogadores corintianos, o empate em San Cristobal foi um resultado positivo. Ralf, o herói da noite, declarou à TV Globo: "Foi o meu primeiro gol de cabeça pelo Corinthians e espero que seja o primeiro de muitos. O time (adversário) era inferior tecnicamente, mas na vontade eles fazem de tudo. A gente sabia que ia ser difícil ganhar aqui e acho que o empate está de bom tamanho". Alessandro, nosso capitão, foi pelo mesmo lado: “Estrear fora de casa e empatar não é ruim. Agora vamos pegar como exemplo esse jogo de como será difícil jogar fora de casa”. Para a mídia venezuelana, o vilão da partida foi o juiz colombiano. O árbitro invalidou um gol dos donos da casa quando eles venciam por 1 a 0. Depois, segundo a imprensa local, o juizão achou uma falta inexistente, no último minuto, para o Corinthians. Os três minutos de acréscimos também geraram críticas, considerados exagerados pelos venezuelanos. Na minha visão, a única reclamação válida é sobre o impedimento marcado. A falta em Fábio Santos existiu e o tempo acrescido foi justo. O Liderendeportes, site esportivo do país das Misses Universo, tem outra opinião: “Em uma jogada polêmica (falta marcada para o Timão no final da partida), foram roubados (do Táchira) - literalmente - dois pontos dentro de casa”. E completou: “O árbitro estava decidido a parar o jogo (e marcar falta) a cada toque nos jogadores brasileiros”. Um pouco exagerada a reclamação deles, não? 17 de fevereiro de 2012 - sexta-feira A marcação de impedimento na última partida do Corinthians repercute aqui no Brasil até agora. Para alguns jornalistas esportivos, o árbitro acertou. Quem primeiro defendeu essa tese foi o comentarista de arbitragem da Rede Globo, Arnaldo César Coelho, durante o jogo. Depois ele foi acompanhado por André Rizek, do canal Sportv: "Não foi só o Arnaldo que disse que estava impedido. Tem um monte de gente trabalhando para fazer o tira-teima, determinando as linhas. E todos eles viram que estava impedido. Mesmo assim, os jornais venezuelanos falam que houve um roubo, que o Táchira foi prejudicado". Carlos Cereto, colega de Rizek, disse o seguinte no programa Redação Sportv: "Estava impedido sim e o bandeira foi muito corajoso ao marcar esse impedimento". Na Band, até o palmeirense Mauro Beting teve que admitir o acerto do juiz. "Interessante marcar um impedimento desses contra o time da casa. Mas estava impedido. Pouca coisa, mas estava", falou no programa Jogo Aberto. Mauro Cezar Pereira e Paulo Vinícius Coelho, ambos da ESPN Brasil, também foram nessa linha. "Achei que estava impedido já no primeiro lance. Na hora do gol, estava impedido também", disse PVC. Mauro Cezar completou: "O impedimento foi bem-marcado, achei que o Choulo (do Táchira) estava um pouco à frente da linha da bola". Indiferentes às opiniões dos especialistas, os torcedores rivais do Timão não perderam a oportunidade de sacanear. No perfil intitulado "Apito Amigo", no Facebook, uma foto mostrando o "Tira-Teima" da televisão tinha como descrição a seguinte mensagem: "Você que está cansado de ver o Corinthians sendo favorecido pelo Apito Amigo… Curta nossa página. Chega… Queremos punição para esses árbitros safados… corruptos”. No Twitter, os anticorintianos também estavam raivosos. Os tags mais engraçados (para os não corintianos, obviamente) foram: "Esse é o grande Timão? (risos)", "Corinthians, a Libertadores não é para você, não se esqueça", "Nem vou comentar o apito amigo que está rolando desde 1910, né?" e "Corinthians na Libertadores é que nem o (programa do) Chaves, todo mundo sabe o final mas assiste pra dar risada!". Esse é o clima na véspera de Carnaval. Indiferente ao feriado que se aproxima e aos comentários dos torcedores rivais, o técnico Tite definiu a equipe para a partida de sábado contra o São Caetano, no ABC paulista. Devido à desgastante viagem do meio de semana, o gaúcho optou pela utilização dos reservas. Adriano vai para a partida. Segundo o preparador físico corintiano, Adriano atingiu seu menor peso desde a chegada ao Timão no ano passado. Trata-se de uma boa notícia ou de um milagre. Quem deve jogar também é o meia-armador Douglas, outro com problemas com a balança. Para alguns, essa partida será a dos gordinhos. Do lado dos magrinhos do Timão, os destaques vão para as estreias entre os profissionais dos jovens Marquinhos e Gomes. A dupla foi campeã da Copa São Paulo e é apontada como as grandes revelações corintianas da última safra. Anote aí o Corinthians que foi escalado: Danilo Fernandes; Welder, Wallace, Marquinhos e Ramon; Gomes, Edenílson, Ramirez e Douglas; William e Adriano. 18 de fevereiro de 2012 - sábado É Carnaval! Admito o estranhamento por acompanhar futebol nessa época. Afinal, todos estão preocupados com as festas, os blocos de rua, os desfiles das escolas de samba e as viagens do feriado. Ninguém, em sã consciência, deve se interessar realmente pelas partidas do Campeonato Paulista. Se até alguns jogadores demonstram estar com a cabeça em outros lugares, por que os torcedores deveriam estar concentrados nos jogos, hein? Se não fosse pelo O Ano que Esperávamos Há Anos, eu não teria assistido a Corinthians e São Caetano. Porém, trabalho é trabalho! Liguei na Band e as imagens mostraram o que eu já sabia: aquela tarde na Grande São Paulo era quente e ensolarada. O maior atrativo para os corintianos presentes no Estádio Anacleto Campanella era Adriano. Como o Imperador jogaria? O jogo começou disputado. Nenhuma das duas equipes conseguia chegar com contundência ao ataque. O primeiro lance de perigo foi protagonizado pelos visitantes aos 16 minutos. Ramirez cabeceou para fora uma bola cruzada por Ramon. Dois minutos mais tarde, Adriano recebeu passe de Edenílson e chutou muitíssimo mal, para longe. O Imperador estava mais magro, mas o pé estava descalibrado. O primeiro tempo acabou sem nenhuma nova emoção. A partida estava sonolenta. Feliz daquele torcedor que havia se esquecido de assisti-la. O segundo tempo começou mais agitado. O São Caetano, com uma camisa muito parecida com a do Boca Juniors, chegava através de chutes de longe. Danilo Fernandes estava seguro no gol alvinegro e fazia as defesas com tranquilidade. Após tentar sem sucesso também de longe, com Ramirez e William, o Corinthians enfim resolveu penetrar na área adversária. Aos 18 minutos da etapa complementar, Douglas, que até então passeava no gramado e aproveitava para tomar um solzinho, recebeu passe de Ramirez na intermediária. Com categoria, o Maestro fez um belo lançamento para William. O dono da camisa 7, dentro da grande área e de frente para o goleiro do São Caetano, chutou de primeira. Gol do Timão. Gol de William! O placar favorável encheu os jogadores corintianos de confiança. As jogadas começaram a funcionar. Adriano tentou uma arrancada do meio de campo, se cansou quando chegou na intermediária e chutou de lá mesmo. Para fora. Depois, Ramirez, o melhor em campo, tabelou com o Imperador, recebeu de volta e chutou para o gol. Uhhhhhhhhh. A bola passou raspando a trave. Com as entradas de Vitor Júnior no lugar de Douglas e de Élton no lugar de Adriano, o Timão ganhou mais agilidade e novas oportunidades foram criadas. E foram desperdiçadas na mesma proporção. O apito final do juiz aos 49 minutos decretou a nova vitória do Corinthians no Paulistão de 2012. A equipe do Parque São Jorge manteve-se na liderança da competição ao lado do Palmeiras. Os dois times têm agora 20 pontos (o time verde e branco leva vantagem no saldo de gols). Com os três pontos conquistados em São Caetano, os jogadores do Coringão podem sair para pular a folia sem problemas. Alegre-se, meu povo: é Carnaval!!! 19 de fevereiro de 2012 - domingo Eu poderia interromper meu Carnaval para discutir a atuação de Adriano e Douglas na partida contra o São Caetano, mas não vou. O que dizer, então, dos torcedores que ficaram satisfeitos com os desempenhos dos gordinhos no sábado? Pior mesmo só os comentaristas esportivos que durante a transmissão rasgaram elogios à dupla. Decidi não me aborrecer com esse assunto hoje. O feriado de Carnaval é o momento em que podemos nos divertir, ficar alegres e extravasar. Se fosse comentar a atuação do Imperador e do Maestro, o meu dia e o seu dia seriam inundados por uma série de lamentações e cobranças aos atletas mais bem-pagos do elenco corintiano. Por exemplo, Adriano emagreceu? Sim, ele está visivelmente mais magro. Isso é ótimo! Eu também emagreci oito quilos desde o início do ano. Estou me sentindo mais leve, mais ágil e confiante. Entretanto, o peso menor não me faz ser um jogador de futebol melhor. Continuo sendo tão ruim como sempre fui. Estar magro na verdade é apenas uma obrigação de um esportista profissional (com exceção dos lutadores de sumô). Então parem de elogiá-lo por estar mais fino. Vamos nos ater ao mais importante: o Imperador continua se arrastando pelo gramado. Como consequência, não acertou nenhum chute a gol. De produtivo, fez apenas uma tabela com Ramirez no segundo tempo. Nos 75 minutos em que esteve em campo no Estádio Anacleto Campanella, o centroavante mais badalado do país conseguiu fazer apenas uma troca de passes. Para mim, essa estatística é pobre. Muito pobre. Pobríssima! Não é porque o time ganhou que devemos elogiar os jogadores e distribuir sorrisos para todos. E o Douglas, hein? Andou pelo campo sem muito interesse. Alguns ainda falam: "Estava quente, o sol estava muito forte". A temperatura era alta para todos, não apenas para o meia. Se os demais jogadores (salvo Adriano) correram bastante e se esforçaram, Douglas não poderia ter feito o mesmo? Aí na metade do segundo tempo, ele pega uma bola no meio de campo e dá um belíssimo passe para o companheiro marcar o gol da vitória. Sai, então, do gramado como o herói da partida. Pera aí! Não vamos analisar o restante do jogo e verificar o quanto ele contribuiu (ou atrapalhou) nos demais lances? O fato de ele ter uma habilidade fora do normal para dar passes milimétricos aos atacantes só deveria aumentar nossa cobrança pelo seu bom futebol na maior parte do jogo, ao invés de nos contentarmos com jogadas isoladas. Ainda bem que prometi para mim mesmo não transpor para as folhas de O Ano que Esperávamos Há Anos essas reclamações. Já basta eu tê-las discutido, ao longo de toda à tarde de hoje, com meus amigos. Tenho noção de como tais análises poderiam abalar o espírito carnavalesco de toda a nação corintiana. Além disso, você poderia questionar a minha acidez imaginando, equivocadamente, que eu não estivesse desfrutando os dias de recesso como deveria. Assim, não vou falar nada a respeito de futebol nem do Todo Poderoso Timão hoje. Desculpe-me quem estiver lendo essa publicação para conhecer ou relembrar os fatos desse período de 2012. No Carnaval, o país para e não acontece nada de importante para ser lembrado publicamente depois. As lembranças têm um caráter mais pessoal e estritamente individual. 20 de fevereiro de 2012 - segunda-feira Novamente, preciso me desculpar. Pelo segundo dia consecutivo, não trarei novidades sobre o Coringão nem sobre o esporte preferido de Charles Miller. Minha justificativa é aparentemente plausível: estamos no Carnaval. Por isso, não houve partidas de futebol no país das escolas de samba. Para ser sincero, não tenho certeza se alguma coisa esteja funcionando no Brasil (isso é, se já funcionou alguma vez). Duvido até mesmo que haja circulação de jornais por esses dias. Nos portais de notícias da Internet, só temos reportagens tratando da folia dos blocos de rua pelo Nordeste adentro, das músicas cantadas nos trios elétricos em Salvador e dos desfiles dos passistas no Anhembi e na Marquês de Sapucaí. E, claro, não faltam fotos de mulheres em trajes ínfimos. Diante de tantos estímulos visuais, admito ter me esquecido de procurar notícias sobre o meu time. Ah, se você não ficou chateado(a) com meu lapso, agradeço encarecidamente a compreensão, caro(a) leitor(a) amigo(a) de O Ano que Esperávamos Há Anos. Saiba que os escritores também são gente. Não dá para passar o Carnaval trabalhando e se apegando a temas agora irrelevantes. Garanto que até mesmo o mais fanático corintiano deve ter se esquecido, nos últimos dias, de seu clube do coração e do desejo de ganhar a Libertadores. Os integrantes da Gaviões da Fiel, por exemplo, estão, por ora, muito mais preocupados com o desfile de sua escola de samba do que com o futuro do Timão nos gramados. Aposto que eles não estão chateados com a ausência de treinos no CT corintiano nem estão interessados em monitorar o comportamento dos atletas alvinegros durante o feriadão. Vamos pensar nos campeonatos, nas partidas e nas novas contratações somente a partir da quarta-feira à tarde. Tudo bem se fizermos dessa maneira? Até lá, vamos relaxar e aproveitar. Contudo, acredito que tenhamos também alguns leitores não tão amigos assim dos escritores. Na certa, esse grupinho deve ter ficado bravo comigo pela ausência de relatos futebolísticos no domingo. Já estou até ouvindo a chiadeira: onde já se viu prometer para a gente que iria falar sobre o Corinthians no ano inteiro e, na hora do vamos ver, não produzir uma linha sequer no Carnaval?! É falta de profissionalismo parar no feriado!!! Escritores não têm folga, precisam trabalhar todos os dias. Se você integra a lista de reclamantes, então dobre a sua indignação porque hoje eu não escreverei nada de produtivo outra vez. Só voltarei ao normal após o fim do recesso. Repito em alto e bom som: não acontece nada de importante nesse país entre o Sábado de Carnaval e a Quarta-feira de Cinzas. Não há nem mesmo futebol nesses dias. Ou você se lembra de algum título conquistado pelo seu time nesse período do ano? Se recorda de alguma contratação feita em pleno Carnaval? Ou já ouviu falar de algum esquema tático inovador criado no meio do feriado? Acho improvável. Então, pare de se preocupar e vá viver a vida. Ou aproveite os dias do Carnaval para descansar um pouco. Eu estou tentando fazer isso. Não estou pensando em futebol, Libertadores, traumas de competições internacionais, Adriano, gozações dos adversários... Não à toa, meu Carnaval tem sido ótimo. Então, até quarta-feira! 21 de fevereiro de 2012 - terça-feira À princípio, eu não tinha nada para escrever sobre o Corinthians nem sobre o futebol na Terça-feira de Carnaval. Não ia sequer abrir o notebook para não correr o risco de trabalhar involuntariamente. Isso até alguns integrantes da Gaviões da Fiel, a principal torcida organizada do Timão e uma das mais tradicionais escolas de samba de São Paulo, virarem notícia no país inteiro. Obrigado, rapaziada, por me municiar com fatos para O Ano que Esperávamos Há Anos. Agora preciso interromper minhas pequenas férias pois tenho matéria-prima quentinha para relatar a vocês. Tudo aconteceu hoje à tarde. Após ter dormido o dia inteiro, despertei por volta das 17 horas. Ainda sonolento e sem nada para fazer, liguei o rádio e soube da apuração das notas das escolas de samba de São Paulo. Sem nada melhor para fazer, desliguei o rádio e fui até a cozinha pegar um copo de suco. Aí me dirigi à TV para tomar minha bebida vendo a apuração que acontecia no sambódromo. Não há nada mais deprimente do que ver o anúncio das notas sem ter visto os desfiles nem ter participado deles. Esse era o meu caso! Quando começava a refletir no quão patética era a cena que protagonizava, aconteceu algo extremamente inusitado na televisão. Um rapaz vestindo a camisa da escola Império da Casa Verde pulou no palco onde o anúncio era feito e roubou das mãos do narrador os envelopes com as notas faltantes. Ele saiu correndo e rasgou os papéis. Alguns integrantes da Gaviões da Fiel, revoltados com as notas baixas e com a má colocação de sua escola, aproveitaram o tumulto e invadiram o local da apuração. Eles barbarizaram. Grades de proteção foram derrubadas, cadeiras foram arremessadas e outros documentos foram rasgados e atirados ao chão. Até o troféu foi danificado. Em alguns segundos, a polícia entrou em ação e o espírito carnavalesco deu lugar a uma grande confusão, com cenas de violência e vandalismo. Sem saber exatamente o que estava acontecendo, os repórteres tentavam informar o público. Com a impossibilidade do prosseguimento da apuração e aproveitando-se que faltavam poucos quesitos para o término, os organizadores deram por encerrada a sessão. A Mocidade Alegre foi declarada vencedora do Carnaval paulistano. Nada mais justo, pois liderava com folga a somatória das notas. Na saída dos torcedores do sambódromo, mais atos de vandalismo. Vários integrantes da Gaviões da Fiel quebraram tudo o que viam pela frente, dentro do Anhembi e nas imediações da Marginal do Tietê. Eles chegaram a colocar fogo em um dos carros alegóricos da escola Pérola Negra que encontraram no meio do caminho. Como a alegoria era feita de palha, o fogo se alastrou rapidamente e foi preciso a atuação dos bombeiros. A polícia entrou em confronto com os torcedores mais exaltados e alguns foram presos. Esse foi o triste fim do Carnaval de São Paulo de 2012. O pior foi constatar o quanto o final trágico era previsível. Pela primeira vez, três escolas de samba vinculadas às torcidas organizadas de times de futebol (Corinthians, Palmeiras e São Paulo) desfilaram na divisão especial. A organização do evento temia atos de violência e selvageria protagonizados por essas agremiações. Aconteceu o que se esperava! 22 de fevereiro de 2012 - quarta-feira Os jogadores corintianos voltaram do Carnaval tendo um compromisso importante à noite: enfrentar a Portuguesa pelo Paulistão. Mesmo com o mando de campo a favor, a Lusa preferiu atuar no Pacaembu. A diretoria rubro-verde pensava, obviamente, em obter uma renda mais polpuda. Porém, apenas seis mil pessoas, a maioria esmagadora de corintianos, compareceram ao estádio municipal. Pelo visto, muitos torcedores quiseram emendar o feriado ou ainda estavam no clima de Carnaval. É amigo(a), a Quarta-feira de Cinzas não combina mesmo com futebol. Tite teve vários desfalques para esse jogo. Alessandro, Jorge Henrique (ambos com dores musculares), Douglas, Adriano (os dois em regime especial de treinamento) e Emerson Sheik (com pubalgia) foram vetados. Assim, Welder ganhou a vaga na lateral direita, Alex retornou ao meio de campo e o ataque foi composto por William e Liedson. Os titulares do Timão contra a Lusa foram: Júlio César; Weldinho, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Danilo; Willian e Liedson. Apesar do lance inicial ter sido da Portuguesa, um chute de fora da área que passou muito perto do gol de Júlio César, o primeiro tempo foi dominado pelos jogadores de preto e branco. Aos 18 minutos, Danilo passou para Liedson. O centroavante driblou com o corpo os marcadores e chutou forte. Grande defesa do goleiro adversário. Logo depois, foi a vez de Alex levar perigo. O meia aproveitou o rebote da defesa lusa e bateu de primeira, o que exigiu nova intervenção do arqueiro. A insistência do Timão deu resultado aos 29 minutos. Fábio Santos cruzou da esquerda, Danilo ajeitou de cabeça, Liedson protegeu e William chutou forte na pequena área. Gol do Corinthians! William marcava o seu segundo gol nos últimos dois jogos. Os alvinegros continuaram no ataque até o final da primeira etapa. Não é errado dizer que, até ali, era jogo de ataque contra defesa. Após o intervalo, a Portuguesa voltou um pouco melhor. Sua melhor chance foi fruto de uma falha de Júlio César. Em uma bola que se dirigia para a linha de fundo, nosso goleiro mergulhou para evitar o escanteio. Traiçoeira, a bola escapou e foi parar no pé do centroavante rubro-verde. Para sorte dos corintianos (e do goleiro vacilão), Leandro Castán salvou o chute do adversário em cima da linha. Logo depois, o camisa 1 do Timão se redimiu. Júlio pulou bem e espalmou para longe uma cobrança de falta na entrada da área. O Corinthians respondeu aos 32 minutos. William mandou uma bomba e acertou a trave da Lusa. Aos 34 minutos, Ramirez, que entrara no lugar de Alex, puxou um rápido contragolpe e passou para William. O camisa 7 cruzou para Liedson, que chutou em cima do goleiro. No rebote, Ramirez mandou para as redes. Gol! O Timão selava a vitória: 2 a 0. Os três pontos mantiveram a equipe do Parque São Jorge no topo da classificação do campeonato. Se o Palmeiras tropeçar amanhã contra o Oeste, jogo a ser disputado também no Pacaembu, o Coringão se tornará líder isolado da competição. Torçamos para isso acontecer. 23 de fevereiro de 2012 - quinta-feira O grande nome do jogo de quarta foi "Cachito" Ramirez. O meio-campista peruano, que atua como armador e volante, vem apresentando boas atuações em 2012. Entrou no segundo tempo e fez outro gol pelo Timão, o segundo nessa temporada. Ramirez já passou por maus momentos vestindo a camisa do Corinthians e conseguiu dar a volta por cima. Ele foi considerado, em janeiro do ano passado, o grande vilão pela eliminação do Timão na Pré-Libertadores. Na fatídica partida contra o Tolima, entrou no segundo tempo e logo foi expulso. "Se eu fosse filho da p***, o Ramirez não estaria mais aqui, porque foi expulso naquele jogo contra o Tolima", desabafou Tite após o confronto de ontem. A omissão do palavrão partiu do próprio treinador. "Mas futebol não é assim. É tempo de adaptação, confiança, cobrança e treinamento para que (se) possa mostrar dentro de campo”, completou o gaúcho, dando a entender que não é de mandar ninguém embora por causa de um único erro. Mesmo ficando no banco de reserva no restante daquele ano e entrando poucas vezes nos jogos, o peruano foi alçado à condição de herói alvinegro na reta final do Campeonato Brasileiro. O gol salvador contra o Ceará foi decisivo para o título nacional de 2011. O meio-campista entrou no finalzinho da partida em Fortaleza e anotou o único tento daquela noite. Os três pontos mantiveram o Corinthians na briga pela taça. Contratado no início de 2011, o camisa 14 já possui cinco gols pelo Timão. Presença constante na seleção de seu país, Ramirez tem 27 anos e parece já ter se familiarizado com a vida em São Paulo e com a responsabilidade de jogar pelo Corinthians. Tímido e com dificuldades para falar português em público, apesar de entender tudo o que é lhe dito, o meio-campista havia dado apenas uma entrevista coletiva no Brasil. Isso ocorreu em janeiro do ano passado, quando marcou um golaço em sua estreia. Convencido pela assessoria de imprensa do Coringão, "Cachito" encarou novamente os microfones e falou com os jornalistas nessa quinta-feira: “Foi um momento difícil quando cheguei ao Corinthians. Aconteceu aquilo contra o Tolima. Falo com a minha família que acho engraçado como as pessoas lembram muito daquele jogo. Já fiz coisas boas para esquecerem esse tema, mas o que vou fazer? É seguir trabalhando para ter mais confiança do treinador”, comentou o peruano após as atividades da manhã no CT Joaquim Grava. Com as boas atuações de Ramirez e com o talento de Douglas, quem perdeu espaço no grupo corintiano foi Vitor Júnior. Para nosso treinador, "Cachito" e Maestro são, no momento, os reservas imediatos de Alex e Danilo. Vitor é agora apenas a quinta opção na armação. Ressentido pela não convocação para a Libertadores e se sentindo desprestigiado, o meio-campista recém-contratado já está querendo sair. Houve uma proposta da Portuguesa para o empréstimo do atleta, mas Tite recusou. Ele entende que ainda não deu todas as oportunidades para o novo comandado mostrar seu valor. Se tiver juízo e trabalhar bastante, Vitor Júnior poderá apagar a má primeira impressão. Ramirez é prova-viva que é possível conquistar o coração da Fiel. 24 de fevereiro de 2012 - sexta-feira Nos bastidores do Corinthians, o presidente recém-empossado já começa a dar as cartas. Mário Gobbi anunciou a composição da nova diretoria para os próximos três anos. Não houve muitas novidades. A preferência foi pela manutenção dos principais profissionais administrativos e do Futebol. Luís Paulo Rosenberg deixou a diretoria de Marketing e foi promovido à vice-presidência, ao lado de Elie Werdo. A diretoria do Futebol Profissional ficou com Roberto de Andrade, que antes do pleito acumulava interinamente o cargo de presidente. Duílio Monteiro Alves é o novo diretor adjunto e Edu Gaspar mantém-se no cargo de gerente técnico. Obviamente, os treinadores foram mantidos, com Tite na equipe profissional e Narciso com os garotos da base. A melhor notícia da sexta-feira, contudo, foi o empate de ontem do Palmeiras com o Oeste de Itápolis no Pacaembu. Com o placar de 1 a 1, o Timão ficou com a liderança isolada do Paulistão com 23 pontos. O Guarani é agora o vice-líder com 22. A equipe do Palestra Itália caiu para o terceiro lugar com 21 pontos. O tricolor paulistano aparece em quarto com 18. Como os dois próximos compromissos do Corinthians serão em casa, contra Botafogo e Catanduvense (duas equipes que estão na zona de rebaixamento), o otimismo da torcida corintiana é grande. Se o favoritismo for mantido, os jogadores do Parque São Jorge deverão ficar mais algumas rodadas na ponta do Paulistão, dando tranquilidade para a recuperação na Copa Libertadores. Já pensando no próximo jogo, amanhã à noite contra o Botafogo, o técnico Tite fez um treinamento coletivo nessa sexta-feira no CT Joaquim Grava. A grande surpresa foi a escalação de Adriano entre os titulares, após uma semana de treinamentos específicos para melhorar a condição física. Assim, Liedson ganha folga e nem ficará no banco. Apesar do jejum de gol, o Levezinho tem sido elogiado por atuações solidárias. Nas últimas partidas, vários gols do Corinthians saíram em jogadas e passes seus. William, em ótima fase, completará o setor ofensivo, pois Emerson continua em tratamento médico e Jorge Henrique está vetado. No meio de campo, Alex segue na equipe principal e Ramirez foi confirmado na vaga de Danilo, poupado pelo treinador. Douglas será a opção no banco de reservas para o segundo tempo. A dupla de volantes não sofre qualquer alteração: Paulinho e Ralf vão para o jogo mais uma vez. Quem também não estará em campo no sábado é Leandro Castán. O zagueiro da camisa 4 sofreu uma pancada na panturrilha e será submetido a exames. Por isso, nosso treinador escalou Wallace para formar dupla de área com Chicão. Welder segue no time. Alessandro é mais uma vez desfalque na lateral direita. Por essas e outras, o Timão está escalado. Enfrentaremos o Botafogo, amanhã às 18h30, no Estádio Paulo Machado de Carvalho, com o seguinte plantel: Júlio César; Welder, Chicão, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex e Ramirez; William e Adriano. Vai Corinthians!!! 25 de fevereiro de 2012 - sábado O céu da cidade de São Paulo ainda estava claro quando o jogo entre Corinthians e Botafogo começou no final da tarde. Enquanto os mandantes almejavam os três pontos para se manter no topo da classificação, os visitantes queriam colecionar ao menos um pontinho na luta contra o rebaixamento. Antes do pontapé inicial, ficavam nítidas as diferenças de qualidade técnica das equipes. O plantel do interior havia sido montado no começo do ano com jogadores jovens e baratos. Preocupada com a sequência de derrotas, a diretoria do Botinha já tinha trocado o treinador. Do outro lado do campo, o melhor time do país em 2011 mantinha o ritmo que o consagrara. Um forte cheiro de goleada era exalado no Estádio do Pacaembu antes da bola rolar. Essa impressão ficou mais evidente aos 3 minutos. Em jogada pela esquerda de Ramirez, Alex chutou mal. A bola sobrou livre na pequena área para o Imperador. Aí ficou fácil, ele apenas completou para dentro. Gol do Corinthians! Gol de Adriano. Muita vibração do centroavante e de seus companheiros dentro e fora do campo. Será que eu morderia a língua? Será que o camisa 10 renascia para o futebol e seria nosso principal jogador na temporada?! A vantagem no placar não fez bem para o Timão. O Botafogo passou a atacar com mais perigo. Por pouco, não empatou. Primeiro foi Fábio Santos quem salvou o Coringão ao desviar um cruzamento. Depois foi Júlio César o responsável por uma ótima defesa quando o atacante adversário entrou sozinho na área. Na metade do primeiro tempo, Alex perdeu uma bola na intermediária defensiva e permitiu um chute de longe do rival. Júlio estava lá para defender. Antes da saída para o intervalo, Júlio saiu mal do gol e quase o Botafogo fez. No último lance, Adriano recebeu um cruzamento de Paulinho. Livre na marca de pênalti, o Imperador cabeceou. Uhhhhh. A bola saiu raspando a trave. O camisa 10 se lamentou dando socos na própria cabeça. No segundo tempo, o Corinthians criou vergonha na cara e resolveu jogar. Tite colocou Gilsinho, Douglas e Edenílson e tirou William, Ramirez e Paulinho. Em jogada pela direita, Gilsinho passou pela marcação e cruzou para Adriano. O Imperador dominou muito bem e chutou com força. O goleiro adversário fez grande defesa. Minutos depois, o lance foi pela esquerda. Alex passou pelos defensores e cruzou para Chicão. O defensor cabeceou muito bem e o arqueiro do Bota espalmou com as pontas dos dedos. Nos instantes finais, Paulinho penetrou pelo meio e passou para Adriano livre na grande área. O centroavante dominou e chutou. Para fora! A goleada esperada não aconteceu, mas a vitória de 1 a 0 rendeu os mesmíssimos três pontos na classificação. A surpresa maior foi a boa atuação de Adriano. Dessa vez, o Imperador participou mais do jogo e até conseguiu balançar as redes. Diferentemente do que havia ocorrido no amistoso contra o Flamengo em janeiro, dessa vez o camisa 10 saiu aplaudido. A Fiel soube reconhecer seu empenho e o bom futebol apresentado. A nota negativa da partida foi a péssima atuação da equipe de Tite no primeiro tempo. Evidentemente, os jogadores aproveitaram a fragilidade do adversário para não imprimir um ritmo mais forte, se poupando em pleno gramado. 26 de fevereiro de 2012 - domingo O principal assunto do domingo na cidade de São Paulo foi a volta do bom futebol de Adriano. Depois de um começo de ano péssimo e atuação extremamente apagada no Sábado de Carnaval, enfim, o camisa 10 provou o seu status de grande jogador. Fez uma bela partida contra o Botafogo, participando o tempo inteiro do jogo. Na saída do gramado, o Imperador reconheceu que precisa melhorar ainda mais. “Ainda tem que fortalecer mais o meu tendão, falta uns 30%, um pouco mais de preparação de força com os fisioterapeutas e médicos. Estou satisfeito, treinando. É só esperar”, disse o centroavante para os repórteres ainda dentro do gramado do Estádio do Pacaembu. Em quase 11 meses de Corinthians, essa foi a primeira partida na qual o jogador ficou os 90 minutos em campo. E fez agora o segundo gol com a camisa do Timão. Mesmo sabendo da necessidade do centroavante em emagrecer ainda mais, a comissão técnica ficou satisfeita com a evolução das condições físicas e técnicas nas últimas semanas. “Ele é um rapaz excelente. Todo mundo no grupo gosta dele. Mas precisa entender o que é a verdade, e entendeu isso. Está melhorando semana a semana a sua performance. Quando no começo do ano eu disse que podia demorar três meses (para ele estar 100%), não estava maluco. Ele teve um período longo de inatividade e uma lesão séria”, declarou o preparador físico Fábio Mahseredjian, relembrando o prognóstico do início da temporada. Trata-se de uma mudança de 180 graus de opinião, já que o preparador físico estava evidentemente incomodado há algumas semanas com o comportamento pouco exemplar do jogador. Para Tite, o estilo de jogo da sua equipe com dois homens abertos pelas pontas e um homem enfiado na grande área vem ao encontro das características de Adriano. Mesmo satisfeito com o rendimento do Imperador na partida de sábado, quando foi considerado pela imprensa o melhor em campo, o gaúcho foi categórico em afirmar que ainda é cedo para colocar o camisa 10 como titular. “A titularidade é dentro de campo. O Liedson está jogando muito”, decretou o treinador na entrevista coletiva após a vitória. Muito provavelmente, Tite prefira esperar um pouco mais para ter certeza se o Adriano realmente decidiu voltar a jogar como nos bons tempos ou se essa partida foi apenas um lampejo. O mais feliz no vestiário do Pacaembu era, obviamente, o próprio Adriano. Ciente da boa atuação, o Imperador pregava um discurso ao mesmo tempo humilde e otimista: “Estou voltando agora. É difícil falar onde errei e onde acertei, mas o importante é jogar o jogo todo. Todo mundo sabe do meu potencial e que falta muita coisa”. Pelas palavras do centroavante, ele está ciente da necessidade de continuar treinando e melhorando. Confesso que fico aliviado de ouvir tais palavras. Segundo as estatísticas do Datafolha, a evolução de Adriano foi espantosa. No jogo de ontem, ele recebeu 18 bolas, deu seis passes certos e um errado, fez quatro dribles (todos bem-sucedidos) e finalizou três vezes (sendo um gol, uma cabeçada para fora e um chute defendido pelo goleiro). Contra o São Caetano, há uma semana, ele quase não pegou na bola e errou os poucos lances que arriscou. 27 de fevereiro de 2012 - segunda-feira Há algumas datas marcantes na vida das pessoas. Algumas consideram o dia do aniversário como uma data extremamente especial, chegando a faltar no trabalho e nos estudos para aproveitar ao máximo a efeméride. Há quem comemore com zelo o dia do casamento ou o início do namoro. Existem infinitas possibilidades de festejo. Um amigo, por exemplo, celebra todos os anos, com um churrasco com os amigos e familiares, o dia em que comprou a casa própria. Para mim, o 27 de fevereiro de 2012 será uma dessas datas especiais. Hoje, pedi demissão. A partir de agora, o intuito é me dedicar exclusivamente aos livros. Assim, virei definitivamente um escritor. Deixei de ser publicitário durante o horário comercial e passarei a escrever minhas obras em período integral. Não precisarei mais pesquisar os assuntos de meu interesse de madrugada nem produzir os textos aos finais de semana. Já até consigo imaginar como irei comemorar os gols nas peladas de domingo. Vou erguer a camisa do uniforme e mostrar a inscrição que estará impressa na camiseta por baixo: "100% Escritor!". Admito que a intenção era fazer tal mudança somente no final do ano ou quem sabe em meados do próximo. Entretanto, alguns fatos precipitaram minha decisão. Ainda bem! Temia jamais ter a coragem para efetuar a migração de carreira. Não é fácil largar uma profissão depois de 12 anos, trocando-a por outra na qual você não tem experiência nem certeza de êxito. Além disso, é preciso começar tudo do zero novamente. Para completar, eu já estava há quase cinco anos no mesmo emprego. Possuía certa estabilidade e, bem ou mal, recebia uma remuneração fixa pelas atividades desempenhadas, algo que provavelmente demorarei muito tempo para ter como escritor. Esse talvez seja o aspecto mais sensível da minha nova rotina. Como viver sem ganhar dinheiro por alguns meses, hein? Terei que cortar todas as despesas não essenciais. Já projetando tal mudança, estou economizando há algum tempo. Segundo meus cálculos, conseguirei viver razoavelmente bem até o início do próximo ano. Se for bom nessa brincadeira de economizar, posso chegar até a metade de 2013 com algumas notas no bolso. A única preocupação, nesse sentido, vem dos meus pais. Eles estão desempregados há três meses e talvez eu precise ajudá-los. Aí não sei por quanto tempo minhas economias vão durar... Por outro lado, sei que, como escritor, farei algo que realmente gosto e me sinto realizado. Ainda não sei se meus livros serão aceitos ou se vão ganhar um público fiel. Também não sei se sou bom nisso. Porém, quero arriscar! E tem outra coisa: se não der certo, volto atrás e retomo minha antiga profissão. A partir de amanhã, minha rotina será diferente. Durante o dia escreverei meus romances e à noite continuo me dedicando a O Ano que Esperávamos Há Anos. Minha primeira obra ficcional já tem nome e sua história está quase toda na minha cabeça. Só preciso começar a colocá-la no papel. Desejem-me boa sorte! Vou precisar! 28 de fevereiro de 2012 - terça-feira O técnico Tite resolveu colocar força máxima na partida de amanhã contra o Catanduvense. Dessa maneira, vários jogadores vão retornar ao time corintiano. A primeira volta garantida é de Liedson. O Levezinho estará no comando do ataque do Timão depois do descanso do final de semana. Como consequência, Adriano não será escalado dessa vez. A previsão é pela utilização do Imperador no clássico contra o Santos no próximo domingo, na Vila Belmiro. Danilo também será titular agora. Ele será o encarregado da criação das jogadas ao lado de Alex. William segue no time principal, pois Jorge Henrique ainda não se recuperou totalmente das dores. A grande preocupação do setor ofensivo passou a ser Emerson Sheik. O camisa 11 sofre de pubalgia crônica e uma cirurgia está sendo cogitada. O departamento médico acredita que dessa forma poderá resolver definitivamente o mal. Porém, se o jogador de 33 anos for para a sala de operações, ele desfalcará o Timão de 40 a 60 dias. Para Sheik não ficar fora dos jogos da Copa Libertadores, outra opção está sendo considerada: o tratamento convencional. Nesse caso, o atleta poderá ir à campo, mas corre o risco de as dores persistirem e o problema se agravar. Na defesa, Alessandro melhorou dos incômodos musculares e estará em campo na lateral direita. O capitão perdeu as últimas três partidas do Campeonato Paulista por causa da contusão. Assim, Welder, que o substituiu adequadamente, volta para o banco. Wallace segue entre os titulares e forma dupla de área com Chicão. Leandro Castán ainda não se recuperou totalmente da lesão na panturrilha. A previsão de retorno do camisa 4 é para o clássico do próximo domingo. Se o treinador gaúcho preferiu colocar as melhores peças disponíveis em campo, um jogador essencial será poupado pela primeira vez na temporada. Ralf, depois de ter atuado em todas as partidas do ano, ganhará um descanso. O volante é um dos principais responsáveis pela ótima fase da defesa corintiana. Na atual edição do Paulistão, o Timão é o clube menos vazado dos últimos 22 anos. O Corinthians só tomou três gols até agora em 10 jogos da competição (e não foi vazado nos últimos quatro duelos). A preocupação é ver como a equipe reagirá sem o Pit Bull. A tarefa de substituí-lo amanhã à noite ficará à cargo de Edenílson. Tite explicou o motivo da troca: “(Ralf) É um jogador que vem jogando jogos importantes seguidos. Tenho de ver o Edenílson como primeiro volante, se não tenho o Ralf”. A ideia é testar Edenílson na posição, já que não possuímos um jogador com as mesmas características de Ralf. O Corinthians está escalado: Júlio César; Alessandro, Chicão, Wallace e Fábio Santos; Edenílson, Paulinho, Danilo e Alex; William e Liedson. Empolgado com a fase do meu time, decidi assistir ao jogo de amanhã no estádio. Combinei com uma amiga são-paulina, a Thalita, para irmos juntos ao Pacaembu. Ela, como nunca foi a um campo de futebol (coisas de são-paulino!), topou a proposta de bate-pronto. Apenas omiti a informação que o jogo seria do Corinthians e não do São Paulo. Será que conseguirei enganá-la durante toda à noite? Será que ela torcerá pelo meu time pensando ser o dela? Só amanhã terei a resposta para essas hilariantes questões. 29 de fevereiro de 2012 - quarta-feira Não consegui ir ao jogo entre Corinthians e Catanduvense. Acabei me atrasando para buscar a Thalita no trabalho dela. Além do mais, ela descobriu que o São Paulo só jogará amanhã no Morumbi e não hoje no Pacaembu. Fingindo surpresa, falei: "Ainda bem que você descobriu. Já pensou se a gente assiste à partida errada?". Ao invés de irmos ao estádio, fomos a um barzinho na Vila Madalena. Depois de eu suplicar muito, ela concordou em visitarmos um estabelecimento onde o confronto do Paulistão fosse transmitido. Afinal, eu não havia perdido nenhum jogo da equipe profissional do Timão nesse ano e queria manter a escrita. No bar, pude ver a partida. Infelizmente, não pude assistir com a atenção que desejava, mas deu para conferir os principais lances. O Coringão começou muito bem. Alessandro tabelou com William, recebeu de volta e finalizou para longe. Minutos depois, a jogada foi pelo outro lado. Fábio Santos trocou passes com Liedson, recebeu na grande área e chutou para fora. O gol dos mandantes parecia questão de tempo. E aconteceu com William, após receber passe de Liedson. Infelizmente, o bandeirinha marcou impedimento. Aos 27 minutos, o zagueiro do Catanduvense colocou a mão na bola na grande área. O árbitro marcou pênalti. Alex bateu e converteu. O juizão, querendo aparecer, mandou voltar a cobrança. Na segunda tentativa, Alex acertou a trave. O 0 a 0 persistia. Depois disso, o Corinthians caiu de rendimento e viu os visitantes perderem um gol incrível. No segundo tempo, o Catanduvense voltou melhor. Em 10 minutos, a equipe do interior fez uma série de boas jogadas. Quase abriu o placar. Após tanto insistir, o gol dos visitantes aconteceu. Alessandro tentou roubar a bola do adversário na sua grande área e sem querer acabou jogando contra as próprias redes. Gol do Catanduvense. Vendo a minha indignação, Thalita tentou me consolar: "Não fique assim. Ainda está 2 a 1 para o Corinthians". Aí percebi que ela não entendia nada de futebol (coisa de são-paulino). Ela pensou que os gols anulados no primeiro tempo tinham sido validados. Querendo a virada, o Timão partiu para o ataque. A pressão foi intensa no restante do segundo tempo. Primeiro foi Paulinho quem acertou a trave. Depois Chicão cobrou falta no poste. Uhhhhh. A bola não queria entrar. Aos 35 minutos, após cobrança de escanteio, Liedson novamente acertou a trave. No rebote, houve uma grande confusão na área. Paulinho completou para dentro. Gol do Corinthians! O jogo estava empatado. As chances continuaram aparecendo e sendo desperdiçadas pelos alvinegros. No último minuto, Danilo aproveitou cruzamento e fez o segundo. Gol do Corinthians! Virada espetacular no Pacaembu. O Timão conseguiu arrancar a vitória no final, na partida mais emocionante do ano até aqui. Com os três pontos, a liderança do Paulistão estava garantida. A única pessoa no mundo que não achou nenhuma graça no confronto daquela noite foi minha companheira de mesa. Para Thalita, meu time havia goleado por 4 a 1. Não tive paciência para esclarecer os fatos, apesar de meu ótimo humor após o apito final. Garçom, mais uma cerveja para a gente, por favor. ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. 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  • Recomendações: Doze livros para serem lidos em época de Coronavírus

    As últimas semanas foram monopolizadas por um único assunto: a pandemia do novo coronavírus (chamado de Covid-19). As conversas entre amigos, as discussões familiares e as pautas jornalísticas parecem girar exclusivamente em torno do recente surto que parou o planeta. A obsessão das pessoas não é por acaso. Diante do medo pela propagação da doença, as rotinas nas grandes cidades do mundo foram completamente alteradas. Há quem tenha optado por ficar em quarentena em casa. Muitos não deixaram de colocar os pés na rua, mas tomaram medidas de prevenção para não serem as próximas vítimas. Estabelecimentos comerciais e públicos foram fechados por tempo indeterminado. O ambiente é, querendo ou não, de medo acentuado e de muita apreensão. Isso ocorre tanto no Brasil quanto em quase todos os países. Como esses assuntos são de conhecimento público e já estão bastante batidos, fiquei receoso de abordá-los diretamente no Bonas Histórias. Acredito que uma das formas para seguirmos a vida normalmente, sem pânico, é manter boa parte da nossa rotina inalterada. Por isso, o blog segue com a publicação de seu conteúdo literário e cultural mais ou menos intacta (só não consigo falar de cinema, de espetáculos e de exposições artísticas pois eles foram interrompidos). Além disso, com muita gente em casa, a necessidade por dicas do que ler, assistir ou conhecer no âmbito cultural aumentou. Aí surgiu a ideia de propor obras literárias que, de certa forma, emulassem o clima de paranoia que estamos vivendo nos dias de hoje. Afinal, um dos papéis da literatura é usar a realidade como uma forma de reflexão e de crítica social. Curiosamente, alguns autores conseguiram recriar na ficção parte dos receios e das angústias que estamos vivendo nas últimas semanas. Ou seja, nada melhor do que usar o ambiente pesado da atualidade para mergulhar em ótimas histórias. Apresentamos, a seguir, uma lista com doze livros ficcionais que abordam o pânico provocado por surtos epidêmicos, grandes tragédias ou caos generalizado na sociedade. Esses enredos simulam o clima apocalíptico provocado pelo medo das pessoas e pela mudança súbita nas engrenagens sociais. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência! 1) “A Peste” (Record) – Albert Camus (Argélia/França): Uma das obras mais cultuadas de Albert Camus, escritor franco-argelino vencedor do Nobel de Literatura de 1957, “A Peste” é um romance existencialista publicado em 1947. Nele, Oran, cidade na Argélia colonizada pelos franceses, padece de uma grave moléstia que mata muitos dos seus habitantes. Quando as mortes se tornam incontroláveis, as autoridades francesas decretam medidas drásticas: Oran é isolada do mundo (ninguém pode entrar nem sair do município e a circulação de alimentos, objetos e mercadorias fica interrompida com exterior) e há a decretação do toque de recolher (as pessoas presas ali não podem andar pela cidade). Com isso, o caos se instala. “A Peste” é uma alegoria que utiliza os conceitos da Revolta, princípio filosófico trabalhado por muitos anos por Camus, para escancarar os comportamentos contraditórios das pessoas em meio às graves crises sociais. 2) “Ensaio Sobre a Cegueira” (Companhia das Letras) – José Saramago (Portugal): Um dos livros mais populares de José Saramago, autor português agraciado com o Nobel de Literatura de 1998, “Ensaio Sobre a Cegueira” foi publicado em 1995. Este romance inaugura uma nova fase na literatura saramaguiana: a dos enredos atemporais desenvolvidos em locais indeterminados que debatem filosoficamente questões da sociedade capitalista e da essência humana. Nesta trama, os habitantes de uma cidade padecem de uma epidemia de cegueira branca. Para evitar o contágio, as pessoas que ficaram cegas são isoladas em um prédio que outrora foi um hospício. Com uma forte pegada existencialista, “Ensaio Sobre a Cegueira” é uma parábola ácida e extremamente pessimista sobre a essência humana. O livro mostra como as pessoas (individualmente) e a sociedade (coletivamente) agem em meio ao caos e ao medo. 3) “A Morte em Veneza” (Companhia das Letras) - Thomas Mann (Alemanha): Publicado em 1912, “A Morte em Veneza” é a novela clássica do alemão Thomas Mann, vencedor do Nobel de Literatura de 1929. Por trás de uma trama homoafetiva, de um enredo com pouca ação e de um texto profundamente polissêmico, descortinam-se temas extremamente atuais. Os sinais de uma epidemia de cólera são imediatamente ocultados pelas autoridades de Veneza para não prejudicar o turismo e a economia (políticos esses que são as versões antigas de Donald Trump e Jair Bolsonaro!). Não é preciso dizer que tal comportamento dos governantes italianos irá provocar tragédias (continuo me referindo ao enredo ficcional!). Nesse cenário, um viajante alemão que está em Veneza se vê apaixonado pela beleza da sua existência e por um homem misterioso. O que fazer nessa situação: lançar-se aos prazeres cotidianos sem pensar no amanhã ou temer a morte que se espreita logo à frente? 4) “A Peste das Batatas” (Pomelo) – Paulo Sousa (Brasil): Em um dos principais lançamentos editoriais do ano passado no Brasil, “A Peste das Batatas” é o romance de estreia de Paulo Sousa, jovem escritor paulistano especializado em sátiras político-sociais. Utilizando-se do humor refinado e do olhar acurado sobre a realidade tragicômica do nosso país, este livro apresenta os dramas dos agricultores do Vale das Batatas, região rural fictícia. A partir de uma peste inexplicável, todas as batatas do país se transformam em sal. O caos se instala tanto no campo, onde famílias de bataticultores perdem seu sustento, quanto nas cidades, onde famílias não podem consumir seu tão amado tubérculo. Para piorar ainda mais o quadro, é época de eleições presidenciais e os políticos em Brasília ficam apavorados que a epidemia vá respingar nas urnas. Com inteligência e graça, “A Peste das Batatas” mostra como as epidemias são encaradas pelos brasileiros. 5) “A Dança da Morte” (Suma das Letras) – Stephen King (Estados Unidos): Quando entrevistado, Stephen King, best-seller norte-americano, confessou muitas vezes que seu romance favorito, entre as dezenas e dezenas de obras que produziu, é “A Dança da Morte”. Publicado originalmente em 1978 (com 700 páginas) e relançada em 1990 em uma versão ampliada (com 1.200 páginas), “A Dança da Morte” é a saga kinguiana que retrata os dias pós-apocalípticos vividos pela humanidade depois de uma epidemia de gripe exterminar 99,9% da população da Terra. Dividida em três partes, “O Capitão Viajante”, “Na Fronteira” e “O Confronto”, este romance descreve a batalha pela sobrevivência do grupo de pessoas que, por alguma razão, não foram infectadas pelo vírus mortal que causou a quase extinção dos seres humanos. Como é típico da primeira fase da literatura de Stephen King, este livro possui forte maniqueísmo e um desfecho explosivo (dramático-apoteótico). 6) “O Bom Ditador I – O Nascimento de um Império” (Publicação exclusiva em e-book - Kindle) – Gonçalo J. Nunes Dias (Portugal): Ainda não publicado em versão impressa, “O Bom Ditador I – O Nascimento de um Império” é o ótimo romance de estreia do português Gonçalo J. Nunes Dias. Lançado em 2016, esta obra integra a trilogia “O Bom Ditador” e já contabiliza mais de 10 mil exemplares comercializados em vários países (uma proeza e tanto para um título independente). Nesta trama, o planeta é invadido por seres extraterrestes que exterminam a população das grandes e médias cidades. Assim, só sobra um punhado de pessoas nos pequenos povoados do interior. A partir desta tragédia apocalíptica, os sobreviventes portugueses da aldeia de Castelo Branco iniciam o processo de reconstrução social. Como a justificativa de criar um governo mais democrático e justo, um antigo funcionário público é alçado ao comando de Portugal e passa a agir de maneira déspota. Este é um dos melhores romances que li nos últimos anos. 7) “Não Verás País Nenhum” (Global) – Ignácio de Loyola Brandão (Brasil): Este é o meu livro favorito de Ignácio de Loyola Brandão, escritor brasileiro vencedor do Prêmio Machado de Assis de 2016. Publicado em 1981, “Não Verás País Nenhum” é uma distopia terceiro mundista que mistura questões ecológicas, injustiça social e ditadura militar. Tudo isso com toques de brasilidade. O romance futurista se passa em São Paulo no ano de 2003 (quando isso era um futuro e não um passado!). Após uma tragédia ambiental provocada pelo desmatamento da Floresta Amazônica, o Brasil foi dividido em vários Estados independentes. A cidade mais rica do país foi fracionada em distritos (guetos) que limitam a circulação das pessoas. Com um governo ditatorial e opressor, os paulistanos precisam conviver com a pobreza acentuada, a seca permanente e os desmandos de uma elite dirigente míope e tacanha fortalecida pelo quadro apocalíptico. Trata-se de uma obra incrível! 8) “O Amor nos Tempos do Cólera” (Record) – Gabriel García Márquez (Colômbia): Depois do incomparável “Cem Anos de Solidão” (Record), “Amor nos Tempos do Cólera” é o romance mais conhecido de Gabriel García Márquez, escritor colombiano agraciado com o Nobel de Literatura de 1982. É verdade que dos livros dessa lista sobre epidemias e caos social, “O Amor nos Tempos do Cólera”, publicado em 1985, é o que mais sutilmente aborda a questão enfocada aqui. O surto de cólera que atingiu Cartagena das Índias, local onde a narrativa se passa, no final do século XIX compõe meramente o contexto do drama amoroso de Florentino Ariza e Fermina Daza. Assim, as personagens do romance não são afetadas diretamente pela doença contagiosa. Porém, o casal de protagonistas se utiliza do pânico dos seus conterrâneos para traçar um dos desfechos mais surpreendentes da literatura sul-americana. Esta é a obra mais engraçada (leia-se: tragicômica) de García Márquez. 9) “Caixa de Pássaros” (Intrínseca) – Josh Malerman (Estados Unidos): Lançado em 2014, “Caixa de Pássaros" foi o romance de estreia do roqueiro e agora escritor norte-americano Josh Malerman. Vocalista e compositor da banda High Strung, Malerman produziu uma obra aterrorizante em um futuro apocalíptico. O resultado mais concreto desta publicação é que ela se tornou um best-seller internacional e foi adaptada mais tarde para o cinema. Nesta história, assistimos ao drama de uma sociedade assolada pelo medo. Com o temor do que há no céu, algo que cega e mata inexplicavelmente a maioria dos cidadãos do planeta que olham para cima, os poucos sobreviventes vivem isolados e totalmente reclusos em suas residências. Sem poder enxergar (as janelas são lacradas e qualquer saída à rua é feita com os olhos vendados), cada família se vira como pode. As principais estruturas sociais foram arruinadas e o quadro é de loucura e de caos pelas cidades. 10) “Decameron” (L&PM Editores) – Giovanni Boccaccio (Itália): Giovanni Boccaccio construiu o enredo de “Decameron”, clássico da literatura italiana, a partir do surto da peste negra que assolou a Europa no meio do século XIV. Para não pegar a doença, um grupo de dez jovens (sete moças e três moços) resolveu se isolar por dez dias em uma casa de uma vila rural de Florença. Para passar o tempo da quarentena, eles combinaram que, em todas as noites, cada um dos presentes iria contar uma história ao grupo. Assim, nascem os 100 contos do livro. Quase todas as tramas são de amor. Contudo, uma são mais eróticas, outras são trágicas (com requintes de crueldades e de violências), há as cômicas e tem aquelas com fundo moral (lições de moral). Apesar de revolucionário para sua época (sua publicação é de 1353), este livro visto hoje perde um pouco de sua força/graça. Quando o li há alguns anos, achei sua leitura um pouco pesada e com algumas histórias desinteressantes. 11) “Um Diário do Ano da Peste” (Artes e Ofícios) – Daniel Defoe (Inglaterra): Mais conhecido pelo clássico infantojuvenil “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” (Principius), Daniel Defoe lançou, em 1722, um romance singular. Trata-se de “Um Diário do Ano da Peste”. Nele, o autor britânico apresenta os detalhes da epidemia de peste bubônica que abalou Londres na metade do século XVII. Se por um lado temos o registro histórico riquíssimo do que se passou na capital inglesa durante a epidemia que dizimou mais de 70 mil vidas, por outro lado também temos um texto literário envolvente e extremamente agradável (algo, por exemplo, que ficou faltando em “Decameron” de Giovanni Boccaccio e em “A Peste” de Albert Camus). O principal mérito de Defoe, portanto, foi recriar com verossimilhança uma passagem histórica sem que, com isso, precisasse abrir mão do enredo ficcional. Em muitos momentos, há a sensação de estarmos acompanhando um texto jornalístico. 12) “Sob a Redoma” (Suma das Letras) – Stephen King (Estados Unidos): Quando falamos de isolamento e de cidades sitiadas, o livro que imediatamente vem à minha mente é “Sob a Redoma”, sucesso recente de Stephen King. Publicado em 2009, “Sob a Redoma” é uma ficção científica calcada em um drama ecológico. Anos depois do seu lançamento nas livrarias, essa história foi adaptada para a televisão, se transformando em uma série. Na versão literária, a pequena cidade de Chester, no estado norte-americano do Maine, sofre um acidente inexplicável e fica isolada do restante do país (e do mundo). Uma gigantesca redoma transparente se forma no céu impossibilitando a entrada e a saída das pessoas. Dessa forma, surgem dois grupos antagônicos em Chester: um é liderado por um político ambicioso e corrupto e o outro é formado por uma jornalista engajada e por um ex-militar misterioso. Diante do caos e das incertezas, os habitantes da cidadezinha interiorana são levados a situações extremas. Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos quatro anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Refém da Memória - A novela de estreia de Helio Martins Jr

    Publicado no finalzinho de 2021, o thriller psicológico marca a entrada, com o pé direito, do cineasta paulistano na literatura ficcional. Em setembro do ano passado, fui convidado por Eduardo Villela, book advisor com grande experiência no mercado editorial brasileiro, para escrever o prefácio de uma obra ficcional que estava em processo de finalização. Gostei tanto daquela narrativa que prometi para mim mesmo que faria uma análise completa sobre tal título na coluna Livros – Crítica Literária. Obviamente, precisei esperar seu lançamento comercial para compartilhar com os leitores do Bonas Histórias minhas impressões. Agora que a publicação chegou ao público tanto na versão digital quanto na versão impressa, me sinto mais confortável para apresentar o post com minha autopromessa. “Refém da Memória” (produção independente) é a novela de estreia de Helio Martins Jr, cineasta paulistano de 43 anos que decidiu embarcar também no universo literário. Esse livro nasceu de um antigo roteiro cinematográfico do diretor. Ou seja, temos aqui o caminho oposto ao que normalmente presenciamos. Ao invés de uma obra literária ser ajustada para ganhar as telonas, um roteiro de cinema foi adaptado para se tornar uma ficção impressa. Por si só, uma iniciativa como essa já mereceria nossa atenção. Porém, o que me deixou mais fascinado em “Refém da Memória” foi a qualidade da narrativa de Helio. Sem dúvida nenhuma, temos aqui um dos mais interessantes lançamentos do mercado editorial nacional na virada de 2021 para 2022. Thriller psicológico encantador e surpreendente, “Refém da Memória” traz uma trama recheada de mistérios, adrenalina e, por que não, reflexões existencialistas. Em suas páginas, acompanhamos o dia angustiante de Lucas, um rapaz que acorda desmemoriado no vagão do metrô. Sem saber quem é, o que fazer e para onde ir, o protagonista embarca em uma alucinante aventura policial pelas ruas de uma grande cidade brasileira. A partir daí, a novela apresenta reviravoltas a cada capítulo. Não se surpreenda se você ficar grudado à obra de Helio Martins Jr até a conclusão da leitura. Foi o que aconteceu comigo. Simplesmente devorei a história de “Refém da Memória” em uma tacada só. Tem prova maior da qualidade de um suspense do que verificar que o leitor não consegue largar do livro, hein? Confesso que fico empolgado quando conheço bons exemplares da literatura brasileira contemporânea. Nesse caso, “Refém da Memória” é da mesmíssima safra de “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” (Poligrafia), romance histórico de Rosa Symanski, “Minha Carta ao Mundo – Como Rastrear Sua História” (Edelbra), novela infantojuvenil de Heloisa Prieto e Victor Scatolin, “Janelas Visitadas” (Sete Autores), coletânea de contos de Roberto Marcio, e “A Contrapartida” (Valentina), romance de suspense/terror de Uranio Bonoldi. Repare que todos esses são títulos nacionais que foram comentados recentemente no Bonas Histórias. Especialista em suspense cinematográfico, Helio Martins Jr. é um dos bons nomes do circuito brasileiro de cinema independente. Até o momento, seu portfólio tem três curtas-metragens – “Obsessão” (2007), drama sentimental de um casal recém-separado; “Fantasma” (2009), aventura de um sujeito que é ignorado pelos transeuntes do centro de São Paulo; e “Um Sonho Real” (2011), drama onírico de um homem que sofre de insônia e se apaixonou por uma mulher que aparecia em seus sonhos – e dois longas-metragens – “Invasão” (2014), mistura de ficção científica e terror; e “Trabalho Sujo” (2018), thriller policial ambientado no caótico universo da política nacional. No caso dos longas, os filmes foram roteirizados e dirigidos por Helio e foram viabilizados por meio de campanhas de crowdfunding e do patrocínio de pequenas empresas. Em outras palavras, o cineasta nunca se valeu de recursos públicos de fomento à indústria cultural, uma raridade no setor audiovisual das últimas duas décadas. Apaixonado desde a infância pelo cinema, Helio Martins Jr é formado em Propaganda e pós-graduado em Design de Multimídia. Por muitos anos, ele trabalhou exclusivamente em agências de publicidade nas áreas de criação e design. Depois de fazer uma série de cursos cinematográficos nos anos 2000, alguns deles nos Estados Unidos, Helio entrou para valer no cinema independente brasileiro. “Invasão” foi realizado com baixíssimo orçamento (R$ 30 mil) e “Trabalho Sujo” já teve uma estrutura ligeiramente maior (R$ 60 mil). Essas produções estão disponíveis atualmente nas plataformas de streaming e em canais de televisão por assinatura. Aproveitando-se de sua experiência na Comunicação Corporativa, Helio trabalha também na produção audiovisual para grandes empresas. Entre o desenvolvimento de filmes institucionais e publicitários, Helio produz suas obras autorais, invariavelmente precisando colocar a mão no bolso para fechar os orçamentos. Contudo, no meio do caminho tinha uma pandemia, tinha uma pandemia no meio do caminho. Acho que seria assim que Carlos Drummond de Andrade comporia os famosos versos se estivesse vivo e criando poesia nos últimos meses. Sem poder captar verba para as novas produções cinematográficas e sem conseguir avançar nos projetos em andamento, mas com a cabeça fervilhando de novas histórias, Helio Martins Jr teve uma ideia no começo da quarentena da Covid-19: por que não escrever um livro ao invés de tentar viabilizar um roteiro?! Surgia, assim, a proposta por trás de “Refém da Memória” (inicialmente chamado de “Vazio da Memória”). Pela primeira vez, o cineasta criava uma narrativa que ganharia vida própria fora das telas. Em sua visão, produzir ficção literária em tempos pandêmicos era a oportunidade ideal para manter seu trabalho criativo sem depender de eventos externos (leia-se: captação de recursos financeiros, filmar as cenas projetadas, contratar equipe técnica e de apoio, supervisionar o trabalho dos atores e tudo o mais que um filme exige). Em meio à quarentena, escrever um livro era algo teoricamente mais simples. Daí a iniciativa de adaptar um roteiro de um thriller noir para uma novela de suspense psicológico. Vale a pena dizer que não é fácil fazer essa transição do cinema para a literatura. Apesar de as duas concepções artísticas envolverem a contação de histórias, as formas de materializá-las são totalmente distintas. Diria que a linguagem é bem diferente. É como se alguém estivesse acostumado a falar português, espanhol ou inglês e, de uma hora para outra, precisasse falar mandarim ou japonês. O mais incrível é que, aparentemente, Helio Martins Jr ignorou as várias barreiras existentes entre cinema e literatura e debutou em grande estilo como escritor ficcional. “Refém da Memória” é um ótimo livro de estreia. Nota-se que o autor tem o dom de narrar boas tramas independentemente do formato. E mesmo sendo novato na literatura comercial, ele já possui um repertório técnico digno dos nomes mais experientes. Se eu já o admirava como cineasta, agora fiquei fã de sua atuação literária. “Refém da Memória” foi publicado inicialmente em novembro de 2021 na versão digital. Desde então, ele está disponível em ebook na Loja Kindle. Em janeiro de 2022, a versão impressa foi apresentada ao público. Atualmente, o livro está disponível para compra diretamente no site pessoal do autor. Essa primeira tiragem será direcionada essencialmente para o evento de lançamento da novela. Na próxima quinta-feira, 17 de fevereiro, às 18h30, Helio estará no recém-inaugurado Cine Marquise para autografar os exemplares adquiridos pelos leitores. Quem quiser conferir a noite de autógrafos no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, essa é a grande oportunidade. Nas próximas semanas, a obra estará disponível também nas principais lojas virtuais para aquisição sob demanda. Desenvolvido com a consultoria editorial de Eduardo Villela, “Refém da Memória” foi produzido de maneira independente por Helio Martins Jr, que não quis ficar preso aos trâmites burocráticos das editoras tradicionais. O projeto do livro levou aproximadamente 18 meses para ser concluído. Basicamente, o autor precisou de quatro meses para montar o texto base da narrativa (de maio de 2020 a setembro de 2020) e, a partir daí, trabalhou na melhoria do texto e da história, nas revisões, na supervisão das artes e no fechamento do material (de setembro de 2020 a novembro de 2021). Curiosamente, a escolha de qual roteiro cinematográfico adaptar para a literatura passou pela questão da dificuldade que Helio teria para produzir o filme. Cineasta independente no Brasil, o escritor sabe que suas produções são tradicionalmente de baixíssimo orçamento. Assim, quanto mais complexo for o roteiro, mais difícil é para viabilizá-lo. Como “Refém da Memória” é uma história que envolve muitas personagens (na perspectiva do cinema) e com várias cenas de ação em diferentes locais (algo complicado para ser filmado), seria difícil tirá-lo do papel. Ciente de tal inviabilidade, Helio Martins Jr não teve dúvida: seria essa a trama de seu primeiro livro ficcional. “Refém da Memória” inicia-se com Lucas acordando assustado no vagão do metrô. Ele acabou de sonhar que estava sendo baleado em um assalto à banco. A sensação de incômodo com a lembrança do pesadelo rapidamente se esvai quando o rapaz nota algo muito mais assustador: ele não se lembra de nada de sua vida recente. Quem ele é? No que trabalha? Onde mora? O que está fazendo ali no transporte público? Para onde estava indo? As únicas coisas que ele se recorda vagamente é que tem 46 anos e que sua mãe faleceu há pouco tempo. Angustiado para encontrar respostas para suas inquietações, Lucas começa a vasculhar nos bolsos da calça e da camisa algum paradeiro sobre sua identidade. Na certa, haverá ali indícios que mostrarão quem ele é e o que estava fazendo na linha de trem subterrâneo. Primeiramente, ele encontra um celular. Depois, acha um documento. Nesse papel, o protagonista descobre que foi convocado para ser testemunha em uma ação judicial. Ao comparar o horário e a data da audiência com as informações contidas no visor do celular, ele já tem o primeiro norte: deverá comparecer às 17h30 no Fórum. São quase 14h30 e, para não se atrasar ao compromisso, Lucas precisa ir até a estação São Gabriel. Depois de desembarcar, poderá seguir a pé até o prédio do Fórum que fica no centrão da cidade. Segundo ele acredita, lá poderá descobrir mais elementos sobre sua pessoa. Contudo, a viagem até o Fórum não será nada tranquila. Logo de cara, Lucas é assaltado por um bando de adolescentes. O grupo rouba o celular. Na sequência, ele encontra Emily. Ao notar que Lucas não a reconhece, a moça informa ser sua esposa. Então, Emily esclarece muitas coisas ao marido desmemoriado: Lucas sofre constantemente de crises de perda de memória. A doença é fruto de um tiro que ele tomou na cabeça. A bala ainda está alojada no crânio, entre o ouvido e o cérebro. Os médicos ainda estão estudando a melhor maneira de retirar o projétil sem trazer sequelas graves ao paciente. Por isso, as frequentes dores de cabeça que ele sente e a perda momentânea de memória. Lucas foi baleado em um assalto ao banco em que trabalhava. Sua presença no tribunal naquela tarde é justamente para reconhecer um dos assaltantes da quadrilha que entrou na agência bancária. Agora ciente dos acontecimentos recentes e não querendo se atrasar ao compromisso com o juiz, Lucas acompanha Emily. O casal embarca em um carro de aplicativo para chegar a tempo ao tribunal. Entretanto, a vida do protagonista da novela não será tão tranquila como ele imagina. O rapaz será alvo de uma série de emboscadas no meio do caminho. Como diria Drummond (lembram?): no meio do caminho tinha uma emboscada, tinha uma emboscada no meio do caminho. Pelo visto, a quadrilha de assaltantes é mais perigosa do que poderíamos supor e eles querem calar Lucas, uma das testemunhas-chaves para o caso do roubo ao banco. A partir daí, as surpresas do livro não vão mais parar de se suceder. A cada capítulo, assistimos a novidades que trazem reviravoltas e mais reviravoltas à trama. No meio de uma saga surrealista, Lucas não saberá em quem confiar e no que acreditar. Nem mesmo em si mesmo e em sua memória, o protagonista poderá se valer. O que, afinal de contas, está acontecendo? Há uma explicação lógica para a coleção interminável de eventos estranhos que ele presencia? Quem são seus inimigos? E em quem ele pode efetivamente se apoiar? Essas dúvidas só serão elucidadas nas páginas finais da obra. “Refém da Memória” possui 144 páginas. Seu conteúdo está dividido em dez capítulos. Há também uma Introdução (feita pelo próprio Helio Martins Jr) e um Prefácio (tecida por esse crítico que escreve agora para você). Como é típico das novelas, a leitura de “Refém da Memória” é extremamente rápida. Devo ter levado em torno de duas horas para ir da capa à quarta-capa. Como o clima de mistério e suspense é permanente do início ao fim, minha leitura foi feita em um fôlego só. Saiba que será difícil desgrudar das páginas desse título de Helio Martins Jr depois que você iniciou a leitura. Talvez esse seja o melhor elogio e a definição mais precisa para o livro – sua história é eletrizante. Como thriller psicológico, ele está incrível! Antes de entrar na análise da publicação propriamente dita, preciso esclarecer duas questões. Em primeiro lugar, minha avaliação da obra foi feita a partir do material que recebi do book advisor em setembro. Ou seja, li os originais de “Refém da Memória” e não o material final que chegou ao público na virada de 2021 para 2022. Acredito que não houve mudanças significativas entre as versões, além da alteração do nome e da chamada da capa. Além disso, imagino que o livro tenha passado por novas revisões tanto em ordem gramatical quanto narrativa para solucionar um ou outro errinho. Mesmo assim, achei válido salientar para vocês esses possíveis gaps da minha crítica. Outra questão introdutória relevante é que, na minha visão, “Refém da Memória” é uma novela e não um romance. Se chamei, no Prefácio do livro, essa história de romance é porque me foi solicitado seguir tal designação (e quem sou eu para desobedecer aos autores e editores, né?). Porém, nesse post analítico do Bonas Histórias, posso me manter agarrado às minhas definições de literatura. “Refém da Memória” é maior do que um conto e menor do que um romance. Portanto, é uma novela! Para completar minha justificativa, essa narrativa tem um único conflito (Lucas quer descobrir quem é e o que está fazendo?) possui poucas personagens (se na visão de um cineasta independente esse enredo tem várias pessoas envolvidas, na literatura a quantidade é baixa) e permite uma leitura integral (algo que demanda entre uma e três horas). Todas elas são características das novelas literárias. Para virar um romance, precisaríamos de uma trama maior e com uma narrativa um pouco mais complexa (as diferenças entre conto, novela e romance se dão também pelo nível de complexidade das histórias e não apenas pela quantidade de páginas). Feitas essas duas observações preliminares, entremos para valer na análise da obra de Helio. O que mais chamou minha atenção em “Refém da Memória” foi a manutenção do clima de tensão do início ao fim. Esse é justamente o grande acerto do autor – e algo dificílimo de ser obtido. Nesse sentido, entendi a lógica da produção de uma novela e não de um romance. Com uma história um pouco menor, priorizou-se o suspense e a tensão dramática. Na certa, se Helio tivesse tentado aumentar o tamanho dos capítulos e/ou a quantidade de páginas, perderia muito da intensidade da narrativa. Não por acaso, temos aqui uma lição que os escritores de longa data deveriam extrair do trabalho dos cineastas. Não é porque o papel aceita tudo que devemos priorizar a quantidade em detrimento à qualidade. Como diriam os designers, muitas vezes menos é mais! O que ajudou na perpetuação do suspense e da força narrativa foi a sequência interminável de reviravoltas. A impressão é que cada capítulo termina com uma grande mudança no enredo e com um gatilho para o desenrolar da trama. Sem dúvida, esse recurso foi emprestado das séries televisivas. Adorei seu uso e a maneira como ele potencializou o mistério da saga dramática de Lucas. Outro aspecto que está brilhante é a ambientação da novela. O clima noir é quase uma personagem central de “Refém da Memória”. Além da chuva, da escuridão do cair da noite, da névoa que insiste em permanecer no ar e da sujeira inerente às ruas deterioradas do centro decadente da cidade, assistimos a passagens em que a violência, o medo e a incerteza moldam as reações do protagonista. Nota-se o cuidado que Helio Martins Jr teve na construção da fotografia de cada cena. Ele jamais se esquece de pontuar a atmosfera em que a ação se realiza. Apesar de ser algo que deveria ser trivial na literatura ficcional, confesso que não são todos os autores que utilizam com maestria esse expediente narrativo. Por isso, não é errado enxergar essa obra como um texto profundamente visual e até mesmo sinestésico. Outro elogio que preciso fazer é para o primeiro capítulo. Achei a abertura da novela impecável. Em poucas linhas, somos atirados no meio do drama do protagonista. As dúvidas, as inquietações e os medos de Lucas são os mesmos que nós, leitores, sentimos naquela situação. A procura de respostas por parte da personagem principal é o que nos levará a percorrer as páginas do livro. Se você gosta dos detalhes do fazer literário, releia as primeiras páginas de “Refém da Memória”. Temos aqui uma pequena aula de como apresentar um thriller psicológico. Adorei as reflexões existencialistas propostas pela trama. É verdade que Helio Martins Jr não é um Albert Camus, um Jean-Paul Sartre, uma Virginia Woolf, um Fiódor Dostoiévski ou um Friedrich Nietzsche. Nem ele quer, acredito eu, seguir os passos desses escritores. O fato é que “Refém da Memória” une sim entretenimento (de alto nível) com doses generosas de debates filosóficos (no ponto certo para não ficar enfadonho). Durante a leitura da novela, conjecturamos sobre os conflitos do protagonista. Impossível não pensarmos sobre a força da mente humana, a fuga da realidade, a rotina banal, os trabalhos sem sentido e os sonhos extirpados pelo dia a dia e pela dinâmica capitalista. Quantos indivíduos não existem por esse mundão que vivem perturbados pelo choque entre a realidade nua e crua e os desejos latentes da imaginação fértil, hein? Afinal, por qual caminho seguir? Quem está certo: Lucas (e seu pai) ou Emily? As respostas não são nem um pouco fáceis. Em relação à estética, nota-se um caráter meio híbrido de “Refém da Memória”. Essa trama pode ser vista como um thriller existencialista, um drama psicológico, uma aventura onírica, um romance policial noir, um suspense surrealista, um terror com ação eletrizante ou uma ficção sobre realidades paralelas. A escolha é sua. Qualquer opção que você propuser, a resposta estará certa. Particularmente, gosto de ver essa publicação como um thriller psicológico. Sobre a linguagem empregada, gostei muito do texto. O linguajar utilizado por Helio Martins Jr é acessível sem ser piegas. A leitura de “Refém da Memória” é gostosa porque a trama é ótima e porque as palavras e as estruturas frasais foram muito bem escolhidas. Há oralidade na narração e, principalmente, no discurso. Por falar nisso, os diálogos são totalmente verossímeis e impactantes. O único aspecto que me incomodou um pouco durante a leitura foi o excesso de vírgulas, o que dá uma certa travada no texto. Acredito que muitas frases poderiam ser (re)construídas de um jeito mais direto, sem tanta pontuação. Na certa, teríamos um ganho considerável de ritmo textual/leitura se fossem cortadas várias vírgulas. Até acho que isso deva ter acontecido na versão final do livro. Tomara! Gostaria de destacar mais quatro elementos narrativos desse livro: a falta de definição do espaço narrativo; os nomes bíblicos de personagens e de localidades chaves do enredo; a narração em terceira pessoa com o narrador colado ao protagonista em quase a totalidade da trama; e o universo onírico da novela que dialoga com roteiros de cinema e com o portfólio audiovisual de Helio Martins Jr. Apesar de não termos a menção efetiva da cidade onde “Refém da Memória” se passa, tive a impressão de que a história acontece em São Paulo. Como falei, isso foi minha sensação. Gostei dessa perspectiva mais genérica do espaço narrativo. Na certa, cada leitor irá interpretar de sua maneira o município descrito no livro. A condição sine qua non é que essa localidade tenha metrô (pode ser de superfície), um centro deteriorado e uma chuva/garoa insistente. Repare também que as localidades (Fórum, Banco, Café, Hospital...) foram grafados com letra maiúscula. Essa sinalização confere um ar meio simbólico e representativo para esses lugares. Por falar nisso, impossível não notar que as principais personagens masculinas e algumas localizações (como estação de metrô) possuem nomes bíblicos: Lucas, David, Gabriel. Curiosamente, o peso dessas escolhas se torna mais acentuada pela falta de sobrenome das personagens (ninguém tem sobrenome em “Refém da Memória”, apenas o chefe dos assaltantes do banco) e a ausência de nomes para as localidades descritas (apenas a estação São Gabriel é pontuada). Esse caráter genérico de aspectos centrais da trama confere um ar maior de mistério e de suspense para a história. Gostei disso! Em relação à narração, ela é em terceira pessoa. O narrador fica colado ao protagonista em quase a totalidade da história. A exceção é a passagem em que a detetive Sayuri relata passo a passo sua investigação criminal (início do capítulo V). Aí o narrador abandona Lucas e acompanha empolgado o relato da investigadora. Pensando nas diretrizes do foco narrativo, achei aceitável esse recurso textual. O único expediente diferente que faria seria colocar esse trecho em uma seção à parte (novo capítulo). Quanto ao universo onírico, parte do charme dessa narrativa está no trafegar labiríntico dos diferentes planos mentais de Lucas. É interessante falar um pouco sobre essa questão dos universos paralelos. Essa temática é mais comumente encontrada no cinema do que na literatura. Seu uso até pode não ser uma novidade tão grande (de cabeça, me recordo dos romances de Juan Carlos Onetti e dos contos de Julio Cortázar), mesmo assim é ótimo constatar sua exploração na ficção literária contemporânea. Ponto positivo para a criatividade e a ousadia de Helio Martins Jr! Paradoxalmente, a sensação de déjà vu que senti lendo “Refém da Memória” não se deu pela comparação direta com outras obras literárias e sim pela analogia com o portfólio cinematográfico de Helio. Se você tiver assistido aos cinco filmes do cineasta paulistano (entre curtas e longas-metragens) entenderá o que estou dizendo. Sua novela literária de estreia tem um pouco de cada uma de suas produções cinematográficas: a relação de Lucas e Emily me lembrou a dos protagonistas de “Obsessão”; as cenas iniciais de Lucas desmemoriado vagando pela cidade tem um quê de “Fantasma”; as conversas de Lucas com David dialogam com o drama onírico da personagem principal de “Um Sonho Real”; a ambientação de “Refém da Memória” é muito parecida a de “Trabalho Sujo”; e o clima de suspense e terror emula um pouco o de “Invasão”. “Refém da Memória” é um livrão, mas ele não está imune a alguns tropeços. Em relação aos elementos negativos dessa novela, começo abordando a questão das diferenças entre literatura e cinema apresentadas na Introdução. Os conceitos propostos por Helio Martins Jr no começo do livro me pareceram rasteiros e, em muitos pontos, equivocados. Por exemplo, será que podemos dizer que a literatura é uma arte universal, conforme dito nos parágrafos introdutórios da obra? Juro que fiquei pensando nisso. E não concordo com essa perspectiva mais abrangente e democrática da literatura em relação ao cinema. Para acompanhar uma novela ou um romance, o leitor precisa saber ler e, principalmente, dominar minimamente as técnicas de interpretação textual (algo que muitos chamam de letramento). Infelizmente, em um país como o nosso, onde a maioria das pessoas não tem acesso à educação formal e estímulos à leitura, algo que deveria ser trivial é exceção e não regra. Por esse ponto de vista, o filme me parece ser uma arte um pouco mais acessível (quando transmitida na televisão aberta, obviamente). Afinal, o cinema/televisão permite, por exemplo, que um analfabeto acompanhe uma história com mais facilidade do que se ela estivesse em um livro. É algo para pensar! De qualquer forma, me pareceu excessivo o uso do termo “universal” para designar o alcance da ficção literária. E mesmo pela perspectiva do autor/escritor (aquele que produz um romance, uma novela), não é tão fácil como parece lançar uma nova publicação nos dias de hoje. Há vários obstáculos que precisam ser superados para a história ganhar as livrarias. Talvez seja mais fácil lançar um livro ficcional do que um filme (é mais barato pelo menos). Mesmo assim, não é algo para todos (universal). Se você tem dinheiro no bolso, muito dinheiro quero dizer, até ir para fora do planeta pode ser descrito como uma atividade viável. Contudo, não é possível afirmar que viagens espaciais sejam atualmente um tipo de turismo popular ou massificado. Outro aspecto que me causou certa inquietação nessa parte introdutória foi quando li as diferenças entre a literatura e o cinema. Não concordo com as definições trazidas por Helio. A materialização de uma história na telona e o desenvolvimento de uma história nas páginas do livro são realmente diferentes pois usam técnicas narrativas distintas. Entretanto, atirar totalmente no colo do leitor a obrigação de construir a trama literária me parece algo errado, assim como a visão de que o espectador do cinema recebe o filme de maneira passiva. Há sim diferenças entre o cinema e a literatura que são mais importantes do que o papel do público. Quais seriam essas distinções, hein? Fiquei me questionando a respeito. Além de soar inadequados, os aspectos apontados por Helio Martins Jr na Introdução transpareceram certa falta de conhecimento teórico sobre o fazer literário. Paradoxalmente, ele foi fantástico em materializar a história em si no papel. Porém, no momento de explanar conceitualmente sobre a atividade da literatura ficcional, ele foi um tanto blasé e impreciso. Reforço que essa foi a minha impressão de suas palavras iniciais. Talvez, essa percepção negativa passe desapercebida pelos demais leitores. De problema mais sério, posso apontar alguns errinhos de foco narrativo. Erros de foco narrativo, Ricardo?! Sim. Há algumas derrapadas nesse sentido ao longo de “Refém da Memória”. Como o narrador em terceira pessoa está colado ao protagonista (Lucas), compreendo que ele tenha acesso aos pensamentos, aos sentimentos e às preocupações da personagem principal. Beleza até aí. Todavia, quando o narrador acessa os pensamentos de Emily, de Sayuri ou do irmão de Rogério Souza mesmo que rapidamente, temos um tropeço narrativo. Pela perspectiva da Teoria Literária, isso não é possível. O narrador, uma vez próximo ao Lucas, pode descrever o que as demais personagens fazem e falam, mas jamais entrar dentro de suas mentes. Para completar, não pode a personagem foco sair de cena e o narrador descrever o que se passa no interior da sala (isso ocorre no capítulo V). Acredito também que o capítulo final poderia ter sido trabalhado de outra maneira. Sei que Helio mudou algumas vezes essa parte e admito que ficou bom. Mesmo assim, não acho que o desfecho está à altura das demais seções da novela (principalmente do início e de algumas cenas no meio da trama que estão impecáveis). Sabe quando o desenlace está bom, bonzinho, mas tinha a capacidade de ser espetacular? Pois foi essa a sensação que tive no final da leitura de “Refém da Memória”. O que mais me incomodou nessa parte foi descobrir a escolha de Lucas – fique tranquilo(a), não costumo dar o spoiler dos livros analisados – já nos primeiros parágrafos. Aí o restante do capítulo ficou um pouco arrastado. Se tivéssemos uma surpresa guardada para as últimas linhas e se tivéssemos um desfecho ligeiramente aberto, acredito que a experiência literária como um todo teria sido mais completa e intensa. Para encerrar esse post da coluna Livros – Crítica Literária, gostaria de reproduzir aqui as palavras que coloquei lá no Prefácio de “Refém da Memória”. Como aquelas linhas foram profundamente sinceras da minha parte, as reafirmo em alto e bom som para todos ouvirem/lerem também no Bonas Histórias: Esse primeiro romance (novela) de Helio Martins Jr. é tão saboroso que ficarei torcendo para o cineasta-escritor não priorizar apenas o cinema daqui para frente. Sei que sua grande paixão é a sétima arte, o que o faz pensar, respirar e esboçar rotineiramente novos roteiros. Porém, a literatura brasileira também precisa de autores talentosos e que saibam cativar os leitores. A vontade que tenho é que Helio mescle, a partir de agora, a produção de novos longas-metragens ao desenvolvimento de mais romances (novelas). É um exagero da minha parte um pedido como esse?! Ao ler “Refém da Memória”, você entenderá minha empolgação e, na certa, se juntará à minha torcida por novos títulos literários de Helio Martins Jr. Boa aventura! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Músicas: Samba do Avião - Seis décadas da memorável criação de Tom Jobim

    Gravada em 1962, a canção trata da paixão do compositor pelo Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, resvala em seu medo de andar de avião. Não deve ser novidade para ninguém que Tom Jobim criou uma infinidade de obras-primas da música brasileira. A carreira do compositor carioca foi tão prolífica que ele é considerado pela Revista Rolling Stone como o maior músico brasileiro de todos os tempos. Do ponto de vista da maioria dos críticos musicais, Jobim divide esse posto com Chico Buarque. Tão difícil quanto sacramentar quem foi o maioral da cena musical brasileira (em um Fla-Flu que poderia se chamar Tom-Chico ou Francisco-João) é apontar qual é o melhor trabalho de Tom Jobim. Posso citar, logo de cara, “Águas de Março”, “Chega de Saudade”, “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Eu Te Amo”, “Retrato em Branco e Preto”, “Eu Sei que Vou Te Amar”, “Luiza” e “Insensatez”. Ele compôs essas canções ora sozinho, ora com parceiros. Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Newton Mendonça foram os companheiros de criação mais comuns. Já comentei algumas dessas canções memoráveis aqui na coluna Músicas. No post de hoje do Bonas Histórias, quero trazer a análise de “Samba do Avião”, uma das principais obras de Antônio Carlos Jobim. Por mais que Tom tenha músicas mais famosas, como “Garota de Ipanema”, “Águas de Março” e “Chega de Saudade”, sua genialidade fica mais evidente nessa letra. “Samba do Avião” descreve a visão de um eu-lírico que retorna de viagem ao Rio de Janeiro. No sobrevoo à capital fluminense, ele versa sobre as belezas que os olhos testemunham e exalta a emoção por voltar à cidade amada. Além da qualidade indiscutível, uma homenagem sincera e emocionante ao Rio, “Samba do Avião”, que completará em 2022 seis décadas de vida, tem alguns bastidores interessantes. Vale a pena rememorarmos as curiosidades desse hit da Bossa Nova na coluna Músicas. Há basicamente duas versões para a criação dessa canção de Jobim. Uma é mais factual e menos charmosa. A outra é menos crível, mas extremamente deliciosa. Escolha qual das opções você prefere. Eu, que nessa seara sou um romântico inveterado, já tenho a minha preferida. Entre a verdade e a beleza de uma história, fico sempre com a segunda alternativa. De qualquer maneira, para entendermos cada uma das versões, precisamos antes contextualizar o período em que “Samba do Avião” foi desenvolvido. Em 1962, Tom Jobim, então com 36 anos, se tornou um dos músicos mais requisitados do país. Curiosamente, isso aconteceu antes que ele pudesse lançar seu primeiro álbum. O sucesso foi fruto de suas composições, gravadas por outros artistas ou exibidas no teatro e no cinema. Em 1959, João Gilberto explodiu com o disco “Chega de Saudade”. As principais faixas do LP eram justamente as músicas de Tom: “Chega de Saudade” (feita em parceria com Vinicius de Moraes), “Desafinado” e “Samba de Uma Nota Só” (ambas criadas ao lado de Newton Mendonça). Assim, surgia a Bossa Nova e Jobim se tornava instantaneamente um de seus estandartes. Ainda naquele ano, “Orfeu Negro” (1959), filme baseado na peça teatral “Orfeu da Conceição”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, conquistou a Palma de Ouro em Cannes. A partir daí, choveram convites para que os integrantes da recém-criada Bossa Nova se apresentassem tanto nacional quanto internacionalmente. Na maioria das vezes, Tom, Vinicius e João Gilberto recusaram as solicitações, principalmente quando houvesse a necessidade de longas viagens. O motivo das negativas era, acredite se quiser, o receio do grupo em andar de avião. O mais medroso era justamente Tom Jobim. Na verdade, ele não tinha simplesmente medo em embarcar na aeronave – Tom tinha pavor! Contudo, em 1962, a pressão pelas apresentações dos músicos da Bossa Nova no exterior aumentou consideravelmente. Eles foram convidados para fazer um show no Carnegie Hall, o tempo da música norte-americana. Não querendo entrar no avião de jeito nenhum, Tom recusou-se a ir para Nova York. Foram necessárias muitas insistências dos amigos, dos familiares e dos colegas para convencê-lo a mudar de ideia e entrar em um avião pela primeira vez. E, assim, Tom foi para Nova York em novembro de 1962 e se apresentou no Festival de Bossa Nova no Carnegie Hall. O sucesso do espetáculo abriu definitivamente as portas do mercado fonográfico internacional para os músicos brasileiros. Não à toa, no ano seguinte, Jobim já gravava um disco com o saxofonista Stan Getz e, em 1967, cantava ao lado de ninguém mais, ninguém menos do que Frank Sinatra. Concluída a apresentação em Nova York, o novo problema de Tom era pegar mais uma vez o avião. Como consolo, o destino agora era a volta para a casa. Desejando colocar os pés no Rio de Janeiro, cidade em que o músico nascera e sempre fora apaixonado, ele encarou o medo e embarcou. Diz a lenda que “Samba do Avião” foi composta ainda no interior da aeronave. Há versões que dizem que ela começou a ser criada nos céus e foi concluída mais tarde em terra firme. Essa é justamente a opção menos crível e mais bonita sobre o desenvolvimento da música. Não me parece verossímil que alguém que esteja apavorado em um avião consiga compor. Porém, que é incrível vislumbrarmos Tom Jobim angustiado em sua poltrona, olhando para o Rio lá embaixo e criando os versos da canção é maravilhoso. Para corroborar com essa tese, “Samba do Avião” descreve as saudades que o compositor sentiu do Rio e dos cariocas durante a curta temporada no exterior. Os versos que melhor exemplificam tal sentimento são: “Este samba é só porque/ Rio eu gosto de você/ A morena vai sambar/ Seu corpo todo balançar/ Rio de sol, de céu, de mar”. Em alguns momentos, tenho a impressão de que prevalece o medo do compositor pela viagem feita nas alturas. Logo no início da música, temos: “Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro/ Estou morrendo de saudade”. Juro que, quando ouço esses versos, sempre imagino outras palavras: “Minha alma chora/ Vejo o Rio de Janeiro de cima/ Estou morrendo de medo”. E o que dizer, então, da parte que fala: “Aperte o cinto, vamos chegar/ Água brilhando, olha a pista chegando/ E vamos nós aterrar”? Parece-me que o passageiro está realmente angustiado. Afinal, o avião não aterra, ele pousa. Para completar, é possível entender alguns versos da música como frases ditas por tripulantes ou por outros passageiros do voo. “Dentro de mais uns minutos/ Estaremos no Galeão” é, para mim, algo que o piloto diria no alto falante da aeronave. “Aperte o cinto, vamos chegar” teria sido dito pela aeromoça aos passageiros desatentos. Infelizmente, a história de que “Samba do Avião” foi criada, no final de 1962, na volta de Tom Jobim de sua primeira viagem internacional é pouco crível. A maior inimiga dessa versão é a incompatibilidade de datas. O retorno do músico de Nova York se deu entre novembro e dezembro. E, acredite, a música foi cantada pela primeira vez em agosto de 1962, no restaurante Au Bom Gourmet, no Rio de Janeiro. Ela foi interpretada pelo grupo Os Cariocas e tocada por Jobim. Como isso foi possível?! Voltemos para o começo de 1962 e analisemos a opção mais factual (e menos emocionante) da criação dessa canção. Com o sucesso da trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, Jobim recebeu, ainda em 1961, o convite para musicar o longa-metragem italiano “Copacabana Palace” (1962), que foi gravado na Cidade Maravilhosa. Dirigido por Steno, roteirizado por Luciano Vincenzoni e estrelado por Walter Chiari, Myléne Demongeot e Franco Fabrizi, a comédia trazia canções interpretadas por João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas. “Samba do Avião” foi uma das músicas exibidas na produção cinematográfica. E como, então, o compositor carioca fez para emular uma viagem de avião se até então não havia entrado em um? Simples: ele imaginou. Aproveitando-se dos passeios a pé que sempre fizera do bairro de Ipanema até o Aeroporto Santos Dumont, no Centro do Rio, Tom contemplava a beleza paradisíaca de uma das regiões mais famosas do país. Encantado com o cenário proporcionado pela Baía da Guanabara, pela praia de Copacabana, pelo Morro da Urca, pelo Pão de Açúcar e pela Marina da Glória, o músico colocou em versos o que estava visualizando. Paradoxalmente, o aeroporto carioca que entra na letra da música foi o Galeão e não o Santos Dumont. O motivo para essa alteração é que Jobim imaginava o avião chegando do exterior e não de uma viagem nacional. Daí a saudade maior que o eu-lírico sentia e a necessidade do pouso no aeroporto internacional da cidade. Nota-se, nos versos de “Samba do Avião”, uma homenagem explícita às belezas da capital fluminense: a flora, as paisagens naturais, as construções e as mulheres. Não à toa, essa música é um dos mais bonitos tributos que a cidade do Rio de Janeiro já recebeu na música popular brasileira. E olha que não foram poucas as citações que ele recebeu. Confira, abaixo, a letra de “Samba do Avião”: “Samba do Avião” (1962) - Antônio Carlos Jobim Minha alma canta Vejo o Rio de Janeiro Estou morrendo de saudade Rio, teu mar, praias sem fim Rio, você foi feito pra mim Cristo Redentor, Braços abertos sobre a Guanabara Esse samba é só porque Rio, eu gosto de você A morena vai sambar Seu corpo todo balançar Rio de sol, de céu, de mar Dentro de mais uns minutos Estaremos no Galeão Esse samba é só porque Rio, eu gosto de você A morena vai sambar Seu corpo todo balançar Aperte o cinto, vamos chegar Água brilhando, olha a pista chegando E vamos nós, aterrar “Samba do Avião” foi gravado, pela primeira vez, em outubro de 1962 por Elza Laranjeiras. Porém, a canção só se tornaria um grande sucesso nacional no ano seguinte quando Os Cariocas a lançaram. O grupo já estava cantando músicas de Tom Jobim há alguns anos e embarcava de cabeça na Bossa Nova. Ainda em 1963, o próprio compositor passou a cantar os versos de “Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro/ Estou morrendo de saudade”. Mesmo assim, “Samba do Avião” não foi incluído no primeiro álbum de Tom, “The Composer of Desafinado Plays”, de 1963. Lançado pela gravadora Verve e voltado para o público norte-americano, o LP de estreia de Jobim tinha pouco mais de meia hora de duração e trazia 12 canções: (1) “Girl From Ipanema”, (2) “Amor em Paz/Once I Loved”, (3) “Água de Beber”, (4) “Vivo Sonhando/Dreamer”, (5) "O Morro Não Tem Vez/Favela", (6) “Insensatez/How Insensitive”, (7) "Corcovado”, (8) "Samba de Uma Nota Só/One Note Samba", (9) “Meditation”, (10) "Só Danço Samba/Jazz Samba", (11) “Chega de Saudade” e (12) “Desafinado”. Algumas dessas faixas seriam, mais tarde, consideradas como clássicas da música brasileira e da Bossa Nova. “Samba do Avião” só entraria em um álbum de Tom Jobim em 1995. Um ano após a morte do compositor carioca, a gravadora Warner lançou a coletânea “Antonio Carlos Jobim – Composer” e colocou essa faixa no álbum póstumo. A interpretação mais famosa de “Samba do Avião” é a que Tom Jobim fez em um show em Montreal, em 1986. Nesse evento, ele estava acompanhado de Danilo Caymmi, filho de Dorival Caymmi, e da Banda Nova. Outra versão memorável é a do espetáculo em Milão de 1978. Nessa outra apresentação, Tom teve a companhia de Toquinho (violão) e de Miúcha (voz). Assista, a seguir, à ambas as interpretações: Outras figuras famosas cantaram “Samba do Avião”. As intepretações que mais gosto são, em ordem decrescente, de Leila Pinheiro, João Gilberto, Gal Costa, Ivan Lins, Elis Regina e Milton Nascimento. Em 2007, essa música de Tom Jobim foi inserida na trilha sonora da novela “Paraíso Tropical”. Apesar de adorar a versão de Leila Pinheiro, para mim uma das melhores cantoras das últimas três décadas, ouvir “Samba do Avião” na voz de Jobim é outra coisa. Para encerrar esse post da coluna Músicas, não posso me esquecer de comentar a dimensão que “Samba do Avião” tomou. De tão marcante, essa canção foi decisiva para a maior homenagem que Antônio Carlos Jobim recebeu até hoje. Após cantar a beleza de sua terra natal por tantos anos, o compositor foi honrado postumamente pela cidade do Rio com o nome do aeroporto que está localizado na Ilha do Governador, o segundo mais movimentado do Brasil. Chamado antigamente de Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e popularmente conhecido como Aeroporto do Galeão, o local ganhou o nome oficial de Aeroporto Internacional Tom Jobim em julho de 1999, quatro anos e meio após a morte do músico. Nada mal para quem tinha medo de viajar de avião e que protelou por tanto tempo a primeira viagem pelos ares. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. 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  • Músicas: No Rancho Fundo - 90 anos da parceria de Ary Barroso e Lamartine Babo

    O ano de 1930 foi extremamente farto para a música popular brasileira. Três obras-primas nacionais nasceram coincidentemente nesse período: “Com Que Roupa?”, a criação mais popular de Noel Rosa, “O Samba da Minha Terra”, um dos tantos clássicos de Dorival Caymmi, e “No Rancho Fundo”, o primeiro fruto da parceria genial entre Ary Barroso e Lamartine Babo. A ideia do post de hoje da coluna Músicas é tratar exclusivamente de “No Rancho Fundo”, que, ao lado de suas contemporâneas, comemora, em 2020, seu aniversário de nove décadas. Prometo voltar ao Bonas Histórias ainda neste ano para falar de “Com Que Roupa?” e de “O Samba da Minha Terra”. A história da criação de “No Rancho Fundo” é, no mínimo, curiosa. No início dos anos 1930, Ary Barroso, um mineiro de 26 anos que morava no Rio de Janeiro há quase uma década e que tinha se formado recentemente em Direito, queria trabalhar com a música. Assim, nos últimos dois anos, ele vendia suas composições principalmente para os espetáculos de revista da então Capital Federal. Já conhecido nesse meio, o jovem compositor conseguiu, em 1930, um contrato fixo com o Teatro Recreio. Nesse mesmo ano, Barroso também emplacou seu primeiro sucesso nas rádios, “Vamos Deixar de Intimidades”, música gravada por Mário Reis em 1929. Responsável por compor a melodia de “É do Balacobaco”, espetáculo comandado por José Carlos de Brito Cunha, o J. Carlos, Ary Barroso apresentou uma belíssima trilha sonora para o show no Teatro Recreio. Para completar a música, o próprio J. Carlos criou uma letra que intitulou de “Esse Mulato Ainda Vai Ser Meu – Na Grota Funda”. Dessa forma, estreava, em junho de 1930, o espetáculo “É do Balacobaco” no Rio de Janeiro. Sua principal trilha sonora era “Esse Mulato Ainda Vai Ser Meu – Na Grota Funda” da dupla Ary Barroso e J. Carlos. Presente nas primeiras sessões do show, o jovem compositor carioca Lamartine Babo, apenas dois meses mais novo do que Ary Barroso, ficou encantado com a música que ouvira no teatro. Porém, ficou também bastante decepcionado com a letra, que julgou grosseira. Assim, ao sair do espetáculo, Lamartine voltou para a casa e passou a noite escrevendo o que julgava ser uma letra compatível à beleza incomum da melodia de Barroso. Com uma pegada melancólica, os versos do carioca narravam a solidão e a tristeza de um velho camponês que morava afastado da civilização, no alto de uma montanha. No dia seguinte, aproveitando-se que tinha uma apresentação no programa da Rádio Educadora, Lamartine Babo cantou a nova versão da canção que criara algumas horas antes. Como companhia, ele teve o Bando de Tangarás, conjunto musical que tinha nada mais nada menos do que Noel Rosa e Braguinha em sua formação. Dá para acreditar nessa união! Vale a pena ressaltar que Lamartine não pediu autorização para Ary Barroso nem para J. Carlos para executar a canção ou mesmo para alterar sua letra. Imediatamente, a nova música foi aprovada com louvor por todos na rádio. Assim, nascia “No Rancho Fundo”, o novo nome da composição, em substituição aos versos de “Esse Mulato Ainda Vai Ser Meu – Na Grota Funda”. Ao saber do ocorrido, J. Carlos ficou enfurecido. Magoado, ele chegou ao ponto de cortar relações para sempre com Ary Barroso, como se o mineiro tivesse culpa. Se Barroso perdia um parceiro, ganhava outro. No “Rancho Fundo” representou o início de uma frutífera parceria entre Lamartine e Ary. A dupla fez várias músicas, entre elas “Palmeira Triste”, “Na Virada da Montanha” e “Grau Dez”. Nenhuma, contudo, fez tanto sucesso quanto a criação de estreia deles. “No Rancho Fundo” foi gravado, pela primeira vez, em 1931, por Elisinha Coelho. A cantora gaúcha, que se tornou a principal intérprete das criações de Ary Barroso, atingiu o ápice da carreira justamente cantando essa música. Entretanto, Elisinha não foi a única artista a se enveredar pelo “No Rancho Fundo”. Ao longo dos últimos noventa anos, dezenas e dezenas de músicos de todos os calibres regravaram essa canção. Sílvio Caldas, Isaurinha Garcia, Nelson Gonçalves, Emílio Santiago, Ná Ozetti, César Camargo Mariano, Gal Costa, Renato Teixeira e Ney Matogrosso são os principais intérpretes. Mais recentemente, ela foi regravada por Paula Fernandes, César Menotti & Fabiano, Fábio Jr. e pelos portugueses António Zambujo e Miguel Araújo. A versão mais popular de “No Rancho Fundo” é a gravação de Chitãozinho & Chororó de 1989. Impossível que você não a conheça! Com a popularidade recente da canção de Ary Barroso e Lamartine Babo nas vozes de Chitãozinho & Chororó, nos últimos trinta anos, “No Rancho Fundo” adquiriu o status de clássico sertanejo (algo inimaginável pelos seus compositores). Veja, a seguir, a letra dessa obra-prima da música brasileira: No Rancho Fundo (1930) - Ary Barroso e Lamartine Babo No rancho fundo Bem pra lá do fim do mundo Onde a dor e a saudade Contam coisas da cidade No rancho fundo De olhar triste e profundo Um moreno canta as mágoas Tendo os olhos rasos d'água Pobre moreno Que de noite no sereno Espera a lua no terreiro Tendo um cigarro Por companheiro Sem um aceno Ele pega na viola E a lua por esmola Vem pro quintal Desse moreno No rancho fundo Bem pra lá do fim do mundo Nunca mais houve alegria Nem de noite, nem de dia Os arvoredos Já não contam Mais segredos E a última palmeira Já morreu na cordilheira Os passarinhos Hibernaram-se nos ninhos De tão triste esta tristeza Enche de trevas a natureza Tudo por que Só por causa do moreno Que era grande, hoje é pequeno Pra uma casa de sapê Se Deus soubesse Da tristeza lá na serra Mandaria lá pra cima Todo o amor que há na terra Porque o moreno Vive louco de saudade Só por causa do veneno Das mulheres da cidade Ele que era O cantor da Primavera E que fez do rancho fundo O céu melhor Que tem no mundo Se uma flor desabrocha E o sol queima A montanha vai gelando Lembra o cheiro Da morena Assista, no vídeo abaixo, a uma interpretação de “No Rancho Fundo” por Chitãozinho & Chororó: Nem parece que essa criação de Ary Barroso e Lamartine Babo possui nove décadas de vida. Incrível! Além disso, alguém aí notou que sua letra fala de um homem que se isolou da civilização e da cidade grande? Nada mais pós-coronavírus do que isso, hein? Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Prefácio

    Desenvolvido em 31 de dezembro de 2011, esse texto detalha a linha editorial e a proposta de trabalho da nova coletânea de crônicas do Bonas Histórias. Amanhã à noite, começarei a trabalhar efetivamente nos textos de O Ano que Esperávamos Há Anos. Se pensarmos bem, não posso chamá-lo ainda de livro nem de série narrativa, por mais que deseje ver suas páginas materializadas. Afinal, essa coletânea de crônicas não passa por enquanto de uma simples ideia que tive há alguns dias. Além disso, há grandes chances desse material ser interrompido a qualquer momento por falta de matéria-prima para os meus relatos. Em outras palavras, tudo é muito nebuloso! Eu só tenho dois aspectos para me apegar por ora: uma forte intuição e uma proposta de trabalho bem definida. Deixe-me começar a explicação pela intuição. No primeiro domingo desse mês de dezembro, quando o Corinthians foi campeão brasileiro pela quinta vez, eu estava nas ruas de São Paulo comemorando como um louco o título. Naquele dia, tive um pressentimento: "Ano que vem o Timão vai faturar a Libertadores. Dessa vez não passa!!!". Talvez muitos corintianos já devam ter pensado, em algum instante de suas vidas, algo semelhante. Entretanto, para mim não foi apenas um pensamento vago ou um sonho distante. Na minha visão, trata-se de algo com grandes possibilidades de ser alcançado. A conquista do Brasileirão de 2011 mostra o quanto o Corinthians está forte e tem uma equipe competitiva para brigar pelo tão sonhado troféu continental. Com essa torcida e essa esperança dentro de mim, passamos para a proposta de trabalho. Com a possibilidade de testemunhar o maior feito da história do meu time do coração, botei na cabeça que irei escrever diariamente um relato sobre os acontecimentos envolvendo o Timão, sua torcida, seus jogadores, seus adversários e os campeonatos disputados durante a temporada de 2012. Tudo para captar, passo a passo, cada detalhe da tão almejada conquista da Copa Libertadores da América. Se o meu time for o campeão sul-americano do próximo ano, terei colhido o testemunho sincero e emocionante de um torcedor comum. Assim, meu plano é dedicar uma lauda/página para cada dia do novo ano. Vou escrevê-las todas as noites antes de dormir, como um diário ou um blog. A minha matéria-prima será o Corinthians. Confesso, um tanto envergonhado, que eu ainda não contei para ninguém a ideia desta obra. Talvez demore um pouco para falar a alguém. Temo ser desencorajado a começar a escrever algo que não dependa exclusivamente de mim. A pergunta mais angustiante é: qual o destino dos meus relatos se o Corinthians não for campeão da Libertadores em 2012, hein?! Obviamente, terei desperdiçado várias horas dos meus dias (e noites) para encher a lixeira do notebook com vários arquivos inúteis. Por outro lado, e se o meu time conseguir superar seus traumas e, enfim, faturar essa competição, né? Com essa esperança, vou simplesmente começar a escrever e deixar o destino se encarregar do restante. E saiba desde já: se você estiver, nesse exato momento, lendo as palavras desse Prefácio é porque 2012 foi o ANO! O ano que nós corintianos esperávamos há anos; e os 366 dias mais mágicos e incríveis de nossas vidas. Feliz 2012 para todos nós, alvinegros do Parque São Jorge!!! Ricardo Bonacorci 31 de dezembro de 2011 ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Recomendações: Retrospectiva - Melhores livros analisados em 2021

    Confira a lista com as 15 melhores obras literárias que foram comentadas no Bonas Histórias no ano passado. “Gosto não se discute” já dizia o velho ditado popular. Contudo, estamos em um blog literário, né? E aqui avaliamos regularmente, sim senhor(a), as principais obras nacionais e internacionais de ontem e de hoje. Ou seja, gosto se discute sim! Do contrário, não haveria razão para a existência de colunas como Livros – Crítica Literária e Desafio Literário. Com essa crença inabalável (Samuel Rosa diria que o que é inabalável é a balada do amor), foram analisados ao longo de 2021 mais de 50 títulos. Para ser mais preciso com os números, na minha conta foram 53 publicações comentadas nos posts do Bonas Histórias entre janeiro e dezembro do ano passado. Para chegarmos a essa quantia (o que dá uma média superior a 4 obras por mês), obviamente, várias outras leituras foram realizadas (nem todas viram posts). Pode apostar que estudamos, nos últimos doze meses, mais de uma centena de livros. Se essa marca parece absurda para os leitores comuns, lembre-se que estamos falando do trabalho de um crítico literário (nosso dia a dia é pautado por leituras e mais leituras). Nada mais lógico, portanto, do que acumularmos uma boa rodagem literária. O mais legal de conhecer várias obras literárias é poder fazer, em determinado momento, o ranking com os melhores títulos analisados. Outra vez, precisaremos navegar contra outro provérbio: “Não julgueis para não ser julgado”. Nesse blog, nós julgamos e explicamos detalhadamente o que gostamos e o que não gostamos em cada publicação avalizada. E nada melhor do que aproveitarmos janeiro para apresentar todos os nossos pecados... Quero dizer... Essa época é ideal para apresentarmos a Retrospectiva de 2021 do Bonas Histórias. A ideia do post de hoje da coluna Recomendações é listar os livros mais interessantes que foram discutidos pelo blog no ano passado. Para tal, selecionei 15 publicações literárias que tenho certeza de que nossos leitores vão curtir. Nesse seleto grupo só há livrão. Nesse recorte das análises do Bonas Histórias em 2021, temos uma variedade considerável: títulos nacionais e internacionais; obras ficcionais e não ficcionais; exemplares cults e comerciais; textos clássicos e contemporâneos; romances, novelas, coleções de contos, coletâneas de crônicas e memórias; literatura adulta e literatura infantojuvenil; e dramas, narrativas históricas, aventuras, ficções científicas, romances policiais, thrillers psicológicos, enredos satíricos etc. Se formos analisar nominalmente os autores contemplados na retrospectiva literária de 2021, estamos falando dos trabalhos de Julio Cortázar (Argentina), Elena Ferrante (Itália), Orhan Pamuk (Turquia), José Mauro de Vasconcelos (Brasil), Arundhati Roy (Índia), Michael Byrne (Inglaterra), Lourenço Mutarelli (Brasil), E. M. Forster (Inglaterra), Sophie Hannah (Inglaterra), Lima Barreto (Brasil), Frances Mayes (Estados Unidos) e Caio Fernando Abreu (Brasil). É ou não é uma seleção de respeito da ficção mundial, hein?! Colocado à mesa um cardápio tão plural, agora cabe a você escolher o que degustar em 2022. Para ajudar nessa escolha, segue logo abaixo um resumo dos 15 melhores livros discutidos no ano passado. Para saber mais detalhes sobre cada um deles, basta clicar nos links correspondentes. Aí você será direcionado(a) aos posts com as análises completas dessas publicações. Boa viagem pelo melhor da literatura do Bonas Histórias: 15º lugar: "Morangos Mofados” (Companhia das Letras) – Caio Fernando Abreu (Brasil) – 1982. Clássico da ficção brasileira, “Morangos Mofados” é o livro mais famoso de Caio Fernando Abreu. Quarta coletânea de contos do autor gaúcho, essa obra é um marco da Literatura Marginal e da Contracultura nacional. Suas 18 narrativas curtas trazem questionamentos existencialistas, crítica político-social e acentuado erotismo homossexual. Em 2022, esse título completa 40 anos. 14º lugar: "Sob o Sol da Toscana" (L&PM Editores) – Frances Mayes (Estados Unidos) – 1996. “Sob o Sol da Toscana”, narrativa de memórias de Frances Mayes, renovou a literatura de viagens, culinária e estilo de vida na década de 1990. Com um texto charmoso e apaixonante, a escritora norte-americana relata como foi largar a vida estável e confortável nos Estados Unidos e se mudar na cara e na coragem para um pequeno povoado na Itália. 13º lugar: "Os Prêmios" (Civilização Brasileira) – Julio Cortázar (Argentina) – 1960. Sei que “Os Prêmios”, romance surrealista que tece fortes críticas político-sociais sobre o início da Ditadura Militar argentina, não está entre os trabalhos mais famosos e aclamados de Julio Cortázar. Porém, ele é o meu livro favorito do autor. Com uma história alegórica e debates existencialistas de alto nível, essa narrativa longa encanta pela profundidade de seu subtexto. 12º lugar: “O Homem que Sabia Javanês” (Itapuca) – Lima Barreto (Brasil) – 1911. Uma das histórias mais famosas de Lima Barreto, “O Homem que Sabia Javanês” surpreende os leitores atuais por sua sagacidade narrativa e, principalmente, pela sua contemporaneidade. Mais de um século depois da publicação, esse conto satírico consegue retratar com humor e acidez algumas das características mais incômodas do Brasil e dos brasileiros. 11º lugar: "A Outra Casa" (Rocco) – Sophie Hannah (Inglaterra) – 2011. Sexto título da série “Waterhouse e Zailer”, maior sucesso comercial de Sophie Hannah, "A Outra Casa" é o romance policial que apresenta um insólito episódio: a mulher que, em uma visita online a um imóvel à venda, encontrou um corpo jazendo na sala. Para desvendar o mistério, Simon Waterhouse e Charlie Zailer interrompem a lua de mel e retornam para a Inglaterra. 10º lugar: “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras) – Orhan Pamuk (Turquia) – 1998. Livro mais celebrado de Orhan Pamuk, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2006, “Meu Nome é Vermelho” pode ser classificado como um clássico contemporâneo. Nesse romance, acompanhamos o assassinato que abala o Império Turco-otomano no final do século XVI. Essa publicação mistura narrativa histórica, aventura policial, thriller filosófico, drama sentimental e suspense fantástico. 9º lugar: "A Máquina Parou" (Iluminuras) – E. M. Forster (Inglaterra) – 1909. Esta novela de E. M. Forster integra aquele tipo de obra ficcional que chamo de premonitória. Publicada no início do século XX, "A Máquina Parou" apresenta uma história em que home office, telemedicina, comércio digital, e-learning, comunicação virtual, automação residencial, reclusão social e esvaziamento das ruas são uma realidade. É incrível essa ficção científica (com cara de anos 2020). 8º lugar: “Nada Me Faltará” (Companhia das Letras) – Lourenço Mutarelli (Brasil) – 2010. Você já leu uma trama literária construída 100% em cima de diálogos, hein? Eu já. “Nada Me Faltará” é a novela experimental de Lourenço Mutarelli que conseguiu essa proeza. O autor paulistano traz um suspense ágil capaz de empolgar os leitores mais exigentes. É legal falar também que, ao lado das várias inovações estéticas propostas pelo escritor, temos um enredo muito interessante. 7º lugar: “O Garoto da Loteria” (Rocco) – Michael Byrne (Inglaterra) – 2015. Este romance pode não ser o melhor livro analisado em 2021, mas é sem dúvida nenhuma o que mais mexeu comigo. Publicação de estreia de Michael Byrne, “O Garoto da Loteria” traz um suspense dramático realmente angustiante. Fiquei com o coração na mão ao assistir às aventuras de um menino de 12 anos e seu corajoso cachorrinho que enfrentam todo tipo de perigo nas ruas de Londres. 6º lugar: "O Deus das Pequenas Coisas" (Companhia de Bolso) – Arundhati Roy (Índia) – 1997. "O Deus das Pequenas Coisas" é uma pequena obra-prima da literatura contemporânea. Publicado há 25 anos, esse romance histórico de Arundhati Roy conquistou o Booker Prize, foi traduzido para vários idiomas e se tornou best-seller mundial. Impossível não nos emocionarmos com as histórias e as tragédias dos Ayemenem, uma família de um povoado no interior da Índia. 5º lugar: "Dias de Abandono" (Biblioteca Azul) – Elena Ferrante (Itália) – 2002. Entramos no Top 5 com um dos meus livros preferidos de Elena Ferrante. "Dias de Abandono" é o segundo romance da best-seller italiana. Nesse thriller psicológico, assistimos ao surto emocional de uma mulher abandonada pelo marido depois de 15 anos de um casamento aparentemente feliz. Prepare-se para embarcar em uma narrativa tensa, angustiante e contraditória. 4º lugar: "O Meu Pé de Laranja Lima" (Melhoramentos) – José Mauro de Vasconcelos (Brasil) – 1968. Clássico infantojuvenil brasileiro, "O Meu Pé de Laranja Lima" é o livro mais famoso de José Mauro de Vasconcelos. Com fortes tintas autobiográficas, o romance do escritor carioca apresenta os dramas de Zezé, um menino inteligente e levado. A obra traz as bonitas amizades do pequeno protagonista com uma árvore do quintal de casa, um cantor-vendedor e um português rico e solitário. 3º lugar: “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras) – Orhan Pamuk (Turquia) – 2014. Tenho a impressão de que a literatura de Orhan Pamuk melhora a cada ano. Prova maior disso é “Uma Sensação Estranha”, uma das últimas publicações do escritor turco que foram traduzidas para o português. Com várias reviravoltas, narrativa veloz, personagens complexas e enredo que enfoca as contradições religiosas da Turquia contemporânea, esse romance de formação é impecável. 2º lugar: "Todos os Fogos o Fogo” (BestBolso) – Julio Cortázar (Argentina) – 1966. Os fãs de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras) que me desculpem, mas para mim o grande trabalho ficcional de Julio Cortázar é “Todos os Fogos o Fogo”. Desenvolvida na fase de maturidade artística do argentino, essa coletânea de contos explora de maneira perfeita as várias nuances do Realismo Fantástico. Ao ler esse livro, entendemos o porquê de Cortázar ser um dos grandes escritores do século XX. 1º lugar: Série Napolitana – “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul) de 2011, “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul) de 2012, “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) de 2013 e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul) de 2014 – Elena Ferrante (Itália). Como os quatro romances da Série Napolitana integram uma história só, classifiquei, para esse ranking da coluna Recomendações, a mais famosa coleção narrativa de Elena Ferrante como sendo uma única obra. A tetralogia da escritora italiana, constituída por “A Amiga Genial”, “História do Novo Sobrenome”, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida”, não foi apenas a minha melhor leitura de 2021 como é um dos mais incríveis textos literários que li na vida. A saga das amigas Elena Greco e Rafaella Cerullo mistura drama psicológico, suspense, narrativa histórica, aventura policial, intriga política e romance de formação. A relação das protagonistas dessa série é baseada no amor, na admiração e, principalmente, na inveja mútua. Prepare-se para se surpreender com as mais de 1.700 páginas que narram da infância à velhice de Lenu/Lenuccia (Elena Greco) e Lina/Lila (Rafaella Cerullo), as duas mais sensacionais personagens femininas da literatura italiana e da ficção contemporânea. Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império - A estreia de Gonçalo J. Nunes Dias

    Publicada em 2016, essa obra do autor português inaugura a trilogia de ficção científica que encanta pela originalidade e pela sagacidade narrativa. No finalzinho de 2021, reli “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” (ebook independente), o primeiro romance do português Gonçalo J. Nunes Dias. Eu já tinha lido essa obra há cerca de três anos e confesso que tinha ficado extremamente encantado com sua narrativa. Gostei tanto do texto de Gonçalo que agora quis revê-lo com mais atenção para produzir esse post na coluna Livros – Crítica Literária (o primeiro de 2022!). E novamente fiquei maravilhado com o enredo distópico ambientado em um mundo devastado por um implacável ataque extraterrestre. Sabe aquele título que você lê e pensa: “eu gostaria de ter escrito algo parecido!”. Pois foi exatamente o que se passou em minha mente durante a leitura dessa publicação. Infelizmente, não tenho competência para tal – o que me faz admirar ainda mais os bons escritores que sabem produzir uma boa e criativa história ficcional. Outro pensamento que tive ao reler “O Bom Ditador” na semana passada foi: “por que não analisei esse romance antes, meu Deus?!”. Pela qualidade do livro de Gonçalo J. Nunes Dias, ele merecia sim ter ganhado um post no Bonas Histórias na época do lançamento. Realmente, foi um vacilo gigantesco da minha parte que espero que o autor português e os leitores do blog me perdoem. Prova maior da dor de consciência que senti ao longo do tempo é que acabei citando esse título algumas vezes no Bonas Histórias. Quem acompanha minhas análises há mais tempo se recordará que comentei rapidamente a excelência narrativa de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” quando discuti “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books), novela do também português José Vieira (pseudônimo da excelente Teresa Vieira Lobo), e quando apresentei o post sobre os “Doze Livros para Serem Lidos em Época de Coronavírus”. Agora tiro esse peso das minhas costas e apresento um post completo sobre a ficção científica com pegada de crítica política e de denúncia socioambiental. Publicado em fevereiro de 2016 em e-book na Loja Kindle, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” é o primeiro volume da trilogia homônima. Nessa saga de Gonçalo J. Nunes Dias, acompanhamos a formação, a ascensão e a consolidação de um Estado totalitário português após uma tragédia planetária que dizimou 85% dos seres humanos. A série “O Bom Ditador” é constituída também por “O Bom Ditador II – A Expansão” (e-book independente), romance de 2018, e “O Bom Ditador III – A Sucessão” (e-book independente), romance de 2020. “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”, que pode ser chamado de “O Bom Ditador I”, representou a estreia de Gonçalo na literatura comercial. Esse livro ganhou uma segunda edição (texto revisado) em junho de 2018, época em que “O Bom Ditador II – A Expansão” foi lançado. Acabei lendo tanto agora quanto há alguns anos a primeira versão do romance, aquela publicada em 2016. O sucesso dessa distopia de Gonçalo J. Nunes Dias na Loja Kindle foi expressivo, principalmente se entendermos que se trata do trabalho inaugural de um autor independente. “O Bom Ditador I” foi traduzido para o inglês, para o espanhol e para o italiano, o que comprova o potencial literário e a universalidade de sua narrativa. Apesar de ter caído no gosto dos leitores do Kindle em Portugal e no Brasil, Gonçalo ainda não recebeu a devida atenção das editoras de seu país natal. O portfólio do escritor português possui atualmente oito títulos e está disponível essencialmente no formato eletrônico. Se por um lado a ausência de suas obras nas estantes das livrarias atrapalha quem prefira as versões impressas, por outro lado a disponibilidade nas plataformas digitais permite aos leitores lusófonos o acesso rápido e barato à produção dessa promessa da literatura contemporânea em língua portuguesa. Gonçalo J. Nunes Dias nasceu em Lisboa, em 1977, e atualmente vive no País Basco (Espanha). Formado em Engenharia do Ambiente e Recursos Naturais, ele se lançou efetivamente no papel autoral com quase quarenta anos. De suas publicações, seis são romances – os três da série “O Bom Ditador”, “Manual de Um Homicídio” (e-book independente), suspense policial de 2017, “Amor e Medo no Caminho Santiago” (e-book independente), thriller psicológico de 2019, e “O Paradoxo da Vida” (e-book independente), drama sentimental de 2021 – e dois são narrativas autobiográficas – “Memórias de Um Maconheiro” (e-book independente), de 2020, e “Memórias de Um Adolescente Suburbano” (e-book independente), de 2021. Legal reparar que o escritor lisboeta tem, desde 2016, média superior a uma publicação por ano. Afinal, nos últimos seis anos, ele lançou oito livros. Aviso desde já a quem for procurar mais informações sobre Gonçalo na Internet e nos veículos de comunicação literários que você não obterá muita coisa. Nota-se que ele é aquele tipo de autor-raiz: gosta de escrever e não se preocupa nem um pouco com a divulgação de seu trabalho fora da plataforma Kindle. Por exemplo, Gonçalo J. Nunes Dias não possui um site próprio (pelo menos eu não achei!), não dá entrevistas (também não achei) e tem atuação tímida nas redes sociais. Em alguns casos, é possível encontrar descritivos bem-humorados (mas totalmente falsos) sobre sua biografia na loja de e-books da Amazon. Minha impressão é que o escritor tem uma carreira de engenheiro ambiental bem consolidada na Península Ibérica e a literatura ficcional é apenas um hobby, uma diversão. Daí seu estilo low profile. Ou é isso ou Gonçalo ainda não foi descoberto pelos críticos literários, não recebendo a devida atenção de quem gosta de boas narrativas (colegas, por favor, abram os olhos para o trabalho desse rapaz!!!). O enredo de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” se passa em Portugal e começa no feriado de Páscoa de um ano indeterminado. Gustavo, o protagonista do romance, é técnico de informática na Câmara de Vila Franca de Xira, cidade da Região Metropolitana de Lisboa. Aos 37 anos, o funcionário público tem uma rotina para lá de entediante. No mesmo trabalho há uma década, Gustavo se limita a fazer o mínimo necessário. Isso é, ele faz alguma coisa apenas em meio período. No restante do expediente, aproveita para enrolar o quanto der, algo que parece normal entre os funcionários municipais daquela localidade. Fora do serviço, a vida de Gustavo não é muito melhor. Casado há 13 anos com Marta, engenheira da qualidade de uma indústria de iogurte, ele quase não conversa com a esposa (eles não têm qualquer afinidade nem assunto em comum) e raramente faz sexo com ela. O casal tem dois filhos, Diogo, de 6 anos, e Alice, de 4 anos. A rotina enfadonha de Gustavo se limita aos passeios de bicicleta no final de tarde (para manter a forma), ao cuidado da residência e dos filhos (já que Marta chega geralmente tarde em casa), à leitura de bons livros e a se masturbar à noite. Esse dia a dia melancólico da personagem principal é interrompido por um acontecimento histórico e inusitado. Um objeto não identificado aparece de repente na Lua, o que causa comoção na Terra. Nenhum governo sabe o que está se passando no satélite natural do nosso planeta e nenhum país se apresenta como responsável pelo pouso daquele OVNI. Por isso, começam a surgir muitos boatos para explicar tal episódio, um prato cheio para os veículos de comunicação no mundo inteiro. Há quem diga se tratar de uma nave extraterrestre em visita ao nosso planeta. Seria, portanto, o primeiro contato de uma civilização inteligente de fora da Terra com os terráqueos. Quem não acredita em E.T. cogita ser alguma manobra militar norte-americana para reafirmar seu poderio tecnológico. E há quem suponha ser algo mais banal, como a simples publicidade de um novo filme hollywoodiano. Curiosamente, o surgimento de um objeto não identificado na Lua não muda a rotina na Terra. A maioria dos cidadãos continua com suas tarefas cotidianas tranquilamente. Entretanto, Gustavo tem a certeza de que algo de muito grave ocorrerá nos próximos dias, capaz de mudar para sempre a vida de todos no planeta. Para se preparar para os tempos calamitosos que virão, o rapaz bola um plano com Norton e Zeca, dois amigos de Lentiscais, pequena aldeia no interior do país onde o pai de Gustavo nasceu e onde a família mantém um sítio. O grupo começa, então, a adquirir itens de primeira necessidade a partir de um manual de sobrevivência criado por Norton: abrigo longe da cidade, água potável, alimentos, remédios, sementes, animais (galinhas, cabras), armas de fogo, materiais para geração de energia (pilhas, painéis de energia solar), manuais informativos (com orientações sobre como fazer as principais atividades da nossa sociedade) etc. O plano dos amigos é transformar as casas de Norton e Zeca e o sítio do pai de Gustavo em Lentiscais em uma espécie de território autossuficiente para quando o planeta colapsar. Obviamente, a iniciativa de Gustavo é vista com desdém pelos familiares. Os pais de Marta não se cansam de tirar sarro do genro. Mesmo quando o mistério sobre a origem do objeto não identificado na Lua é solucionado, o que poderia corroborar com as ideias e a proposta preventiva de Gustavo, ele ainda é alvo de chacota dos parentes. Contudo, os tempos difíceis que o protagonista vislumbrava realmente chegam. Por causa de seu planejamento minucioso, Gustavo está em posição extremamente favorável para encarar os novos dias. Com uma ambição até então oculta, o técnico de informática se transforma no líder da comunidade de Lentiscais após os acontecimentos apocalípticos que dizimam grande parte do planeta. Pouco a pouco, Gustavo torna-se não apenas o comandante municipal como vira o homem mais poderoso do distrito de Castelo Branco. Nessa nova posição, ele encara o desafio de ser o político que reintegrará Portugal. Afinal, com a destruição das principais cidades do país e do mundo, os governos e as instituições públicas simplesmente desapareceram. Seria esse o surgimento de um novo Império português, capaz de colocar novamente o povo lusitano no centro do mapa político internacional? “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” possui 288 páginas e está dividido em 13 capítulos. Precisei de aproximadamente seis horas e meia para concluir a leitura integral (no caso, releitura) desse livro na última quinta-feira, o penúltimo dia de 2021. Sim, li essa obra de Gonçalo em um único dia (e olha que comecei a lê-la depois do almoço!). O que permite as longas sessões de leitura é a excelência da narrativa de “O Bom Ditador I”. Confesso que não desgrudei de suas páginas depois que comecei a história – foram três sessões de leitura de pouco mais de duas horas cada. Eita, romance bom esse! Alguns fatores fazem de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” uma trama tão encantadora. Em primeiro lugar, temos um protagonista com características de personagem redonda. Gustavo é o típico cara comum com muitos defeitos e muitas qualidades. É, portanto, alguém como a gente. O que o faz especial é ter sido alçado ao poder (por méritos próprios, é verdade) de um jovem e ambicioso Estado pós-apocalipse. Se um dia ele é um simples e preguiçoso técnico de informática, no outro o rapaz se torna o líder visionário e carismático de uma sociedade reformulada. Em sua nova rotina, Gustavo tem intenções aparentemente nobres, mas muitas vezes suas atitudes são controversas. Quanto mais poder ele tiver, mais questionáveis serão seus métodos de governo. Por incrível que pareça, a transmutação do protagonista em uma figura banal em uma espécie de anti-herói não muda nossa consideração por ele. Até o final, o leitor continua torcendo por Gustavo, independentemente dos caminhos que ele percorra. É legal reparar nesse efeito contraditório: torcemos pelo anti-herói. Por falar nisso, não é todo o dia que podemos acompanhar a intimidade de um líder político tão poderoso. Nesse caso, “O Bom Ditador I” se parece um pouco (repare que usei o termo “um pouco”) com o seriado de televisão “House of Cards” (2013 – 2018) e com o filme “Um Conto quase de Fadas” (The Beautician and the Beast: 1997). Se no âmbito profissional Gustavo é alguém que parece não ter escrúpulos para alcançar o que deseja, no âmbito pessoal e familiar ele se mostra uma pessoa carinhosa, altruísta, afável e caridosa. Como isso é possível, Santo Deus?! Essa dualidade faz os leitores refletirem sobre o quão corrosivo é o poder e sobre a capacidade de transformação que a política exerce nas pessoas. Incrível!!! E saiba que não é apenas o protagonista que foi bem construído nesse livro. As demais personagens dessa obra também são excelentes constituições ficcionais. Até mesmo os coadjuvantes receberam um cuidado especial por parte de Gonçalo, o que as torna tão especiais e valoriza ainda mais o enredo do romance. Assim, acabamos não percebendo que há muitas personagens em “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” nem nos confundimos sobre quem é quem no meio da história (algo que acontece quando temos muitos indivíduos sendo retratados e/ou quando eles não são bem constituídos). Para completar, nota-se que várias personagens são figuras alegóricas. Temos, nesse caso, o padre, o militar, o banqueiro, o comerciante, o político tradicional, o guerrilheiro, o esquerdista, o burocrata... Parte do charme dessa obra está justamente no caráter alegórico de sua narrativa, algo que o leitor mais atento notará principalmente na segunda metade do livro. Outra característica interessante do estilo literário de Gonçalo J. Nunes Dias é a mistura de sumários e cenários em um mesmo plano narrativo. Apesar dessa técnica não ser uma novidade na ficção comercial, é legal notar quando um jovem autor a usa com tanta competência. Isso acontece ao longo de todo o romance. A partir da apresentação de uma cena determinada, o autor português discorre sobre o passado das personagens e contextualiza aquele episódio (sumário). Além disso, é possível constatar a boa velocidade da narrativa. No capítulo 1, por exemplo, já conhecemos à fundo o protagonista e seu drama. No capítulo 2, o objeto estranho já pousou na Lua e desperta alguma curiosidade entre os terráqueos. No capítulo 3, já acompanhamos os preparativos de Gustavo e de seus amigos para o “fim do mundo”, o que soa naquele momento quase como uma paranoia. Ou seja, tudo acontece muito rápido, potencializando o suspense e o mistério do enredo. “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” é uma narrativa que mistura vários assuntos simultaneamente: crítica política ao estilo de “1984” (Companhia das Letras) e de “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), ambos livros de George Orwell; denuncia ambiental à la “Sob a Redoma” (Suma das Letras), romance de Stephen King; alegoria social que lembra as melhores peças de Ariano Suassuna e de Gil Vicente; crítica à ambição humana ao estilo dos textos de William Shakespeare; reflexão sobre à pseudo evolução da nossa sociedade que nos faz lembrar de “O Conto da Aia” (Rocco), best-seller de Margaret Atwood; e retrato do mundo pós-apocalipse com jeitão de “A Dança da Morte” (Suma das Letras), saga de Stephen King. Por tudo isso, repare nos detalhes saborosos do enredo desse romance de estreia de Gonçalo. Assistimos ao poderio/decadência da Igreja Católica, à ambição política tomando conta até mesmo das almas aparentemente mais altruístas, à eterna oposição entre esquerda e direita, à manipulação das massas, à criação de líderes populistas, à força dos militares em sociedades pouco evoluídas e à perpetuação do mal em nome do bem coletivo. A segunda metade de “O Bom Ditador I” é quase um manual didático de como construir um governo ditatorial do zero: (1) abasteça o povo com água e comida; (2) forneça energia elétrica para todos; (3) apodere-se dos meios de comunicação; (4) constitua as bases de um Estado centralizador; (5) receba o apoio da Igreja; (6) construa fortes e sólidas relações com os vizinhos; (7) crie uma força policial forte, inteligente e atuante; (8) colete impostos; (9) institua uma moeda local; (10) crie um banco estatal para fomentar a economia; (11) promova a educação e a saúde; (12) crie e combata um inimigo externo; (13) fortaleça o poder estatal (governo central); (14) persiga e extermine a oposição interna; e (15) promova o culto à personalidade do líder carismático. Tomara que nossos (des)governantes não leiam esse livro! Sorte nossa é que os atuais políticos brasileiros (e seu bando de seguidores cegos) não são chegadinhos nas leituras ficcionais... Outro aspecto muito interessante da série “O Bom Ditador” é a intertextualidade com a História de Portugal. Se no passado o pequeno país ibérico foi protagonista mundial e teve um Estado poderoso, rico e com atuação global, assistimos nas páginas da trilogia de Gonçalo J. Nunes Dias à volta dos tempos de supremacia portuguesa. E essa relação entre o passado (real) de sucesso de Portugal e o futuro (ficcional) da nova sociedade portuguesa (conduzida com mãos de ferro por Gustavo) não é por acaso. Ao longo dos três livros dessa saga, o escritor faz várias citações a personagens históricas e a grandes realizações de seus conterrâneos durante os séculos dourados do Reino de Portugal. Nesse sentido, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” é quase que a narração da constituição do condado Portucalense e a formação de Portugal como nação. E, seguindo com a mesma analogia, “O Bom Ditador II – A Expansão” e “O Bom Ditador III – A Sucessão” mostraria como o povo lusitano dominou o mundo na época das Grandes Navegações. Obviamente, a diferença é que o trio de romances de Gonçalo é a versão ficcional e contemporânea dessa bonita história, criada a partir da ascensão da região Serrana (parte central do país) e não mais do condado Portucalense (no Norte). Até mesmo a presença e a atuação dos ciganos nos livros do “O Bom Ditador” lembram o papel dos mouros (o conflito da Reconquista). Não é preciso dizer que quem gosta de História irá fazer várias associações! Por falar em Portugal, é uma delícia para os leitores brasileiros poder acompanhar o texto do romance em português de Portugal. Confesso que já estou habituado às peculiaridades da versão europeia do nosso idioma e que não tive qualquer dificuldade de compreensão (quem manda ficar lendo os originais de José Saramago, José Eduardo Agualusa, José Vieira/Teresa Vieira Lobo, António Lobo Antunes, Ana Teresa Pereira...). Acho que meus conterrâneos também não terão problemas nesse sentido (mesmo quem não estiver habituado à leitura dos textos portugueses). O que garanto é que é sempre prazeroso a degustação das variantes linguísticas do nosso idioma (sejam elas da Europa ou da África). O mais legal é reparar que a narrativa de Gonçalo estar no português de Portugal só reforça ainda mais a intertextualidade histórica da formação do Estado lusitano (nesse caso, a reformação). Apesar de ser um excelente romance, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” não está imune a tropeços de ordem narrativa e textual. O principal deles é em relação ao tipo de narrador escolhido. A trama é relatada em terceira pessoa por um narrador colado ao protagonista. Ele tem acesso ilimitado aos pensamentos, aos sentimentos e as ações de Gustavo. Até aí, beleza! O problema, na minha opinião, ocorre quando o narrador acaba acompanhando cenas em que a personagem principal não está presente ou quando o narrador acessa os pensamentos e os sentimentos de outras personagens. Segundo a Teoria do Foco Narrativo, essa é uma contradição imperdoável da produção ficcional: ou o narrador se torna onipresente e onisciente (se desgrudando do protagonista) ou ele permanece fiel à sua posição inicial (exclusivamente ao lado de Gustavo). Também temos nesse livro alguns errinhos (poucos!) de digitação e pontuação, que em nada atrapalham a experiência de leitura. Além disso, há uma ou outra inconsistência narrativa (por exemplo, Alice, a filha de Gustavo, ora tem quatro anos, ora tem três anos). Acredito que esses probleminhas são normais em se tratando de um título independente e que tenham sido corrigidos na segunda edição de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”. Como li apenas a primeira versão da obra, acabei encontrando-os. Outro aspecto que fiquei um pouco incomodado e que preciso citar aqui é a falta de unidade visual nas capas da coleção “O Bom Ditador”. Em “O Bom Ditador I”, temos uma ilustração maravilhosa que estampa a arte feita por Suhar Izagirre. Aí quando vamos conferir as capas de “O Bom Ditador II” e de “O Bom Ditador III”, temos projetos gráficos totalmente distintos e que não conversam com o do primeiro volume da trilogia. Sai a ilustração cuidadosa e inteligente e entram as fotos genéricas extraídas provavelmente de algum banco de imagens. Admito que fiquei bastante decepcionado com a falta de cuidado com o visual das capas dos demais títulos dessa série literária. Só com essa leitura de Gonçalo J. Nunes Dias já fiquei fã do autor português. Por isso, não estranhe se eu continuar analisando os trabalhos dele aqui no Bonas Histórias nos próximos meses. Além de prosseguir na saga de Gustavo e da nação Serrana, estou com vontade de conhecer o romance policial “Manual de Um Homicídio”, o thriller “Amor e Medo no Caminho Santiago” e o drama “O Paradoxo da Vida”. Se esses títulos de Gonçalo tiverem 50% da força narrativa e da excelência ficcional de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”, eles serão ótimas obras literárias. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Celebrações: Receita de Ano Novo - Poema de Carlos Drummond de Andrade

    Os votos de Feliz 2022 do Blog Bonas Histórias vêm pelos versos de um dos principais poetas brasileiros. Confira a poesia de Drummond publicada em 1977. Desejamos um Feliz Ano Novo para os leitores, colunistas e parceiros do Bonas Histórias. Esperamos que 2022 seja um período de grandes conquistas e alegrias para todos. E para materializar nossos votos de felicidade, apresentamos um dos belos poemas de Carlos Drummond de Andrade. “Receita de Ano Novo” é o conjunto de versos que foi publicado, em 1977, no livro “Discursos de Primavera e Algumas Sombras” (Companhia das Letras). Desde então, essa poesia do escritor mineiro se mantém atemporal e se tornou quase um clichê de Réveillon. O fato é que “Receita de Ano Novo” representa muito bem o que desejamos para os 365 dias que virão (daí a ideia de colocá-lo nesse post da coluna Premiações e Celebrações). Feliz 2022 com muita literatura, cultura e entretenimento!!! Receita de Ano Novo (1977) – Carlos Drummond de Andrade Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Dança: Dançarinas Históricas - Márcia Haydée

    Uma das mais importantes bailarinas e coreógrafas brasileiras, Márcia Haydée tem uma carreira de destaque no exterior. Em 2021, apresentamos na coluna Dança a série Dançarinas Históricas. Até aqui falamos da trajetória artística de três estrangeiras – Isadora Duncan, uma das pioneiras da Dança Moderna, Anna Pavlova, o nome mais importante do Ballet Clássico russo, e Martha Graham, a protagonista da Dança Moderna norte-americana. Não podíamos terminar esse ano sem tratar, no Bonas Histórias, de uma dançarina brasileira, né? E nada melhor do que trazer para esse post uma das mais importantes bailarinas e coreógrafas da história do nosso país. Estou falando de Márcia Haydée. Seu prestígio não ficou restrito ao Brasil. Haydée é uma das maiores referências internacionais da dança do século XX. Não à toa, seu nome já desfilou no Bonas Histórias quando apresentei a história, as curiosidades e as características do Ballet Clássico. Márcia Haydée Salaverry Pereira da Silva nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1937. Desde muito pequena, ela teve como sua grande paixão o Ballet. A menina adorava assistir aos espetáculos de dança. Aos três anos de idade, Márcia já experimentava os primeiros passinhos no Ballet. A garota passou a maior parte da infância sob os cuidados dos avós. Afinal, sua mãe era muito nova, tinha 19 anos quando ela nasceu. Em 1943, Márcia Haydée, então com seis anos, começou a ter aulas de Ballet com Yuco Lindberg, Vaslav Veltchek e Tatiana Leskova, professores estrangeiros que viviam no Rio de Janeiro. E foi justamente nesse ano em que a pequena bailarina, acredite se quiser, ganhou seu primeiro contrato como dançarina, devidamente assinado pelo avô. Com esse registro, a menina se apresentou pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A obra apresentada ali era a comédia “Era o Cavaleiro da Rosa”, de Richard Strauss. A aparição da pequena Márcia se deu apenas na primeira e na última cena do espetáculo. E mesmo sem entender nenhuma palavra de alemão, seu dom musical e seu talento precoce para a dança a ajudaram a se sair muito bem no palco. Em Londres, para onde se mudou em 1954, a adolescente Márcia Haydée foi estudar na The Royal Ballet School. E durante os quase três anos que permaneceu na capital inglesa, ela teve aulas com Winifred Edwards, ex-bailarina da companhia de Anna Pavlova, e com Harold Turner. Nesse período, a brasileira conheceu o coreógrafo sul-africano John Cranko, diretor do Stuttgart Ballet, companhia de dança alemã. Márcia se tornou a principal discípula de Cranko. Depois de se mudar para Paris, em 1957, ela teve aulas com Lubov Egorova e Olga Preobrajenska. Nesse ano, participou também do Grand Ballet du Marquis de Cuevas. A carreira profissional de Márcia Haydée na dança começou para valer em 1961 quando ela entrou para o Ballet de Stuttgart. Um ano após seu ingresso na companhia alemã, a brasileira se tornou a primeira bailarina do grupo de John Cranko. Trabalhando ao lado do sul-africano durante doze anos, Haydée fez apresentações em diversos países e se tornou uma estrela internacional do Ballet. Cranko, inspirado na dança de Márcia Haydée, coreografou diversas obras para ela, como “Romeu e Julieta” (1962), “Onegin” (1965), “Présence” (1968), “A Megera Domada” (1969), “Carmen” (1971) e “Spuren” (1973). A dançarina brasileira assumiu a direção do Ballet de Stuttgart em 1976, dois anos após a morte de John Cranko. Ela ocupou esse cargo até 1996. Márcia trabalhou ainda com coreógrafos renomados como Kenneth MacMillan, Glen Tetley, John Neumeier e Maurice Béjart. Assim como John Cranko havia feito anteriormente, todos esses artistas fizeram peças inspiradas na dança de Haydée. As mais importantes foram: “Las Hermanas” (1963), “Lied von der Erde” (1965), “Fräulien Julie” (1970) e “Requiem” (1977), de Kenneth MacMillan; “Voluntaires” (1973), de Glen Tetley; “Hamlet Connotations” (1976), “Die Kameliendame” (1978) e “Endstation Sehnsucht” (1983) de John Neumeier; “Leda y el Cisne” (1980), “Divine” (1981), “Nur du Allein” (1982), “Die Stühle” (1984) e “Madre Teresa et les Enfants du Monde” (2002), de Maurice Béjart. Márcia Haydée foi considerada pela crítica internacional como a Maria Callas da dança por sua força interpretativa e por sua capacidade de atuar em todos os papéis (ela interpretava comédia e tragédia com a mesma excelência). A brasileira teve como partenaires importantes bailarinos internacionais como Mikhail Baryshnikov, Rudolf Nureyev, Paolo Bertoluzzi, Anthony Dowel, Jorge Donn e Richard Cragum. Inclusive, Richard Cragum foi marido de Márcia por 16 anos. Ainda como diretora do Ballet de Stuttgar, Márcia Haydée foi convidada pelo Ballet Nacional do Chile, em 1992, para montar “Pássaro de Fogo”, uma das peças criadas para ela por John Cranko. No ano seguinte, Márcia assumiu a direção do Ballet de Santiago. E ainda em 1993, ela se apresentou no Rio de Janeiro com coreografia de Roberto de Oliveira. Haydée recebeu o título honorífico de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro. De volta aos palcos alemães, Márcia Haydée dançou “Tristão e Isolda” com o também bailarino brasileiro Ismael Ivo. Em 2001, participou do Festival de Artes, em Hong Kong. Em 2004, voltou a dirigir o Ballet de Santiago. Na Alemanha, em 2009, recebeu a Cruz Federal de Mérito, prêmio concedido às personalidades que contribuíram significativamente para a política, a economia e a cultura. E no ano passado, Márcia deixou a direção do Ballet de Santiago. Aos 84 anos, ela não pensa em parar de trabalhar com a dança. Márcia irá atuar como assessora internacional do Ballet assim que a pandemia do novo coronavírus terminar definitivamente. Márcia Haydée é casada atualmente com Günther Schöber, professor de Yoga vinte anos mais novo do que ela. Por ter se dedicado quase que exclusivamente à sua arte, a bailarina brasileira preferiu não ter filhos. Em sua mais recente entrevista, concedida ao The Clinic em janeiro deste ano, Márcia se diz perdida por não poder pisar em um teatro. A pandemia está fazendo com que ela aprenda a conviver mais com ela mesma. Em 2021, Haydée voltou a residir na Alemanha, onde deseja aprender a cozinhar. Certa vez ela disse: “Não existe idade. A gente é que cria (a noção do tempo). Se você não acredita na idade, não envelhece até o dia da morte”. Pelo visto, ela está levando essas palavras bem à sério. Sorte nossa e dos admiradores do Ballet. Há ainda muitas mulheres que fizeram (e fazem) parte da história da dança. Esse nosso recorte é apenas uma pequena amostra de bailarinas e dançarinas talentosas que nos brindaram com sua arte e seu talento nos palcos (e, agora, nos posts da coluna Dança). Ainda falaremos, no Bonas Histórias, de outras mulheres importantes para a dança. Espero que vocês tenham gostado da apresentação de Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée. Ótimas festas e excelente 2022 para todos!!! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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