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- Livros: Até o Fim - O trigésimo romance de Harlan Coben
Os jornalistas esportivos de antigamente gostavam de dizer que Garrincha era o jogador que só tinha um tipo de drible: ele parava na frente do adversário, gingava para lá e para cá sem tocar na bola e, então, arrancava pelo lado direito do oponente (para delírio dos torcedores nas arquibancadas). A questão que intriga até hoje os apaixonados pelo esporte bretão é que, apesar de todos saberem o que o camisa 7 iria fazer em campo, ninguém conseguia pará-lo. Garrincha se tornou um dos maiores dribladores do futebol nacional e mundial nas décadas de 1950 e 1960. Foram poucos os defensores que pararam o Mané sem cometer faltas e sem recorrer a subterfúgios que atiravam por terra os princípios do fair play e das regras do jogo. Com seus “movimentos previsíveis”, Garrincha conquistou, entre outros títulos, a Copa do Mundo de 1958 e a Copa do Mundo de 1962 com a camisa da Seleção Brasileira. Antes que alguém estranhe o começo atípico deste post da coluna Livros – Crítica Literária, vou logo dando as letras – relembrei o mítico atacante de pernas tortas porque há escritores que também surpreendem o público apesar de aplicarem o mesmo receituário narrativo em todos os seus livros. Em outras palavras, existem autores que já sabemos o que vão entregar (para qual lado vão driblar). Ainda assim, não conseguimos parar de lê-los (eles passam tranquilamente pelas marcações que fazemos). Quem se enquadra perfeitamente nessa definição é o norte-americano Harlan Coben, um dos principais best-sellers contemporâneos quando o assunto é tramas de mistério e literatura de suspense. Com mais de 30 romances publicados ao longo de três décadas de carreira e traduzido para mais de 40 idiomas, Coben raramente sai da receita literária que o levou ao topo da lista dos escritores mais lidos no mundo (com vendas que já superaram a marca dos 70 milhões de exemplares). Os leitores do Bonas Histórias já foram agraciados com um estudo aprofundado da literatura de Harlan Coben. Em setembro de 2015, analisamos na coluna Desafio Literário os principais títulos do norte-americano. Naquela oportunidade, comentamos cinco romances: “Quebra de Confiança” (Arqueiro), de 1995, “Não Conte a Ninguém” (Arqueiro), de 2001, “Confie em Mim” (Arqueiro), de 2008, “Refúgio” (Arqueiro), de 2011, e “Seis Anos Depois” (Arqueiro), de 2013. A ideia agora é falarmos dos mais recentes lançamentos de Coben, que continua produzindo anualmente novos títulos. O questionamento que me fiz foi: teria este autor alterado algo em sua literatura nas últimas publicações ou ele continua usando os mesmos expedientes narrativos do início de carreira? Para responder a tal inquietação, li “Até o Fim” (Arqueiro) neste final de semana. Este romance de Harlan Coben foi publicado nos Estados Unidos em 2018 e no Brasil no ano seguinte. Trata-se, portanto, de uma das mais recentes obras do escritor. Para ser mais preciso em minha descrição, esse é o seu antepenúltimo livro, o trigésimo de sua carreira. “Até o Fim” foi sucedido por “Custe o que Custar” (Arqueiro), de 2019, e “The Boy From The Woods” (ainda não traduzido para o Português), de 2020. No próximo mês, é esperado o lançamento em inglês de “Win” (não há ideia de como será o nome deste livro em português), o mais novo romance de Coben a chegar às livrarias mundiais. É importante frisar que nenhuma dessas obras integra a série “Myron Bolitar”, o maior sucesso do norte-americano até aqui. A última publicação protagonizada por Bolitar foi “Volta para Casa” (Arqueiro), no já distante 2016. “Até o Fim” é um romance policial construído a partir de episódios verídicos ocorridos em Nova Jersey durante a juventude de Harlan Coben. Quando garoto em Livingston na década de 1970, o futuro escritor ouvia corriqueiramente dois boatos sobre sua cidade natal, Newark. Na boca dos moradores de Livingston, um poderoso chefão da máfia local morava em uma mansão de Newark. Protegida por guardas fortemente armados, a propriedade possuía um crematório, usado para incinerar os desafetos do mafioso. O segundo boato era que, perto da residência do criminoso e ao lado de uma escola, ficava uma base de mísseis antiaéreos das Forças Armadas dos Estados Unidos. Apesar de placas informarem se tratar apenas de um terreno particular, os vizinhos jamais acreditaram na versão oficial das autoridades, que nunca admitiram a existência de instalações secretas em Nova Jersey. Segundo o diz-que-me-diz da época, aquele local era usado para guardar armas nucleares e para a realização de pesquisas sigilosas dos militares, além de abrigar mísseis de defesa. A partir dessas lembranças de sua mocidade, Harlan Coben criou um thriller que mistura dramas pessoais e intrigas políticas. O enredo de “Até o Fim” se passa em Westbridge, uma cidadezinha suburbana (e fictícia) do Estado de Nova Jersey, e é protagonizado por Napoleon Dumas, um detetive local. Aos trinta e três anos de idade, o policial é um cara solitário e muito amargurado. Nap (como é chamado carinhosamente por todos) perdeu o irmão gêmeo, Leo, há quinze anos. O garoto foi atropelado por um trem poucos meses antes de concluir o ensino médio. Nesse episódio que permanece mal explicado até hoje, Leo teria consumido muitas drogas e bebidas alcoólicas na fatídica noite do acidente e não percebeu que estava ao lado dos trilhos do trem. Ele morreu ao lado da namorada Diana Styles. Ao menos foi essa a versão dada pelos policiais que investigaram o caso na época. Dias depois da morte do irmão, Nap viu Maura Wells, seu grande amor na adolescência, fugir misteriosamente de Westbridge. A moça não se despediu do namorado, para desespero dele, e nunca mais deu sinal de vida. Ela simplesmente desapareceu da face da Terra. Para completar o quadro desolador do protagonista, alguns anos depois de entrar na polícia, o detetive Dumas assistiu à morte do pai (a mãe já tinha abandonado a família quando os filhos eram pequenos). Melancólico e com pouquíssimos amigos (as exceções são Ellie, uma ex-colega dos tempos de escola, e Augie Styles, um experiente policial que era pai da falecida Diana), Nap passa os dias remoendo as saudades de Leo e de Maura. Apesar de não ver a antiga namorada há uma década e meia, ele não consegue esquecê-la. Ela é o grande amor de sua vida. A rotina entediante e banal de Napoleon Dumas em Nova Jersey só é quebrada quando ele se lança em ataques impiedosos contra homens acusados de violência doméstica e de comportamento abusivo. Querendo fazer justiça com as próprias mãos, o detetive espanca, na surdina, pedófilos, maridos violentos, pais assediadores e estupradores. O dia a dia do protagonista muda sensivelmente quando um crime é praticado na Pensilvânia. Rex Canton, o antigo amigo de Leo Dumas que trabalhava como policial local, é assassinado em uma blitz rodoviária. Ao colaborar com a investigação das autoridades da Pensilvânia, Nap descobre que Maura Wells (sim, ela mesma!) estava na cena do crime (mas sumiu logo em seguida). Atordoado com o aparecimento da ex-namorada depois de tanto tempo, o detetive Dumas vê seus pesadelos de quinze anos atrás (morte do irmão, fuga de Maura...) ressurgirem com força. Não demora para ele descobrir que há algo muito estranho ocorrendo! Os antigos amigos de Leo Dumas começam a morrer ou a desaparecer inexplicavelmente. Haveria uma relação entre o sumiço atual dos antigos amigos do irmão falecido e o acidente trágico que vitimou Leo há uma década e meia? A investigação particular iniciada por Nap irá suscitar fatos que muita gente poderosa não quer ver reativados. Por outro lado, essa é a única maneira da personagem principal esclarecer de uma vez por todas a morte esquisita do irmão e o inexplicável sumiço de Maura, que tanto o machucou lá atrás e que ainda machuca muito até hoje. “Até o Fim” possui um tamanho parecido aos demais romances de Harlan Coben, que têm em média entre 200 e 300 páginas. Este livro tem 272 páginas e está dividido em 34 capítulos. Há também um preâmbulo (uma espécie de capítulo zero) e um pequeno prefácio do autor (no qual ele explica sua ideia para a produção dessa história). Precisei de apenas um dia para concluir essa leitura. Comecei a obra na manhãzinha de sábado e no começo da noite já a tinha terminado. Devo ter levado pouco mais de seis horas de leitura ao todo. Comecemos a análise de “Até o Fim” respondendo à questão que deu origem a este post do Bonas Histórias: teria Harlan Coben alterado algo em sua literatura nas últimas publicações ou ele continua usando os mesmos expedientes narrativos do início da carreira? A partir da avaliação de “Até o Fim”, a resposta é um acachapante “O AUTOR NÃO MUDOU NADINHA DE NADA!”. Sinceramente, não sei se isso é um indicativo decepcionante (admiro escritores que evoluem e procuram constantemente novos caminhos artísticos) ou se é admirável (Coben continua produzindo bons romance com os velhos ingredientes). Admito um misto dos dois sentimentos – desapontamento por um lado (esperava novidades) e empolgação do outro (“Até o Fim” é sim um ótimo romance policial). Das principais características da ficção de Coben, este livro apresenta os seguintes pontos: o narrador-protagonista lança-se em uma jornada para descobrir os segredos do passado que o atormentam até hoje; os acontecimentos trágicos e mal explicados de vários anos atrás fizeram a personagem principal perder o amor de sua vida e o deixaram em estado de prostração; o enredo se passa em uma cidade de Nova Jersey; o clima de mistério e de suspense permeia a narrativa inteira; os enigmas da trama são elaborados e intrigantes; o ritmo da narrativa é veloz (ação o tempo todo); os primeiros capítulos são tão instigantes que é quase impossível interromper a leitura; o protagonista é um homem melancólico, desiludido, solitário, saudosista, traumatizado e ainda apaixonado pelo seu antigo amor de adolescência; o quebra-cabeça narrativo é de tirar o fôlego; e a investigação realizada vai contra interesses escusos de autoridades poderosas (mesmo assim, o herói não desiste em obter respostas às suas perguntas). O único aspecto original de “Até o Fim” é a inserção de elementos políticos/geopolíticos na trama (algo que não me lembro de ter encontrado com tanta ênfase nos outros títulos de Harlan Coben). Admito ter gostado dessa novidade. O livro adquire um quê de Frederick Forsyth e John Le Carré. A narração do romance é prioritariamente em primeira pessoa (feita por Nap Dumas). Apenas em dois momentos, no preâmbulo (capítulo zero) e no capítulo 22, o texto está em terceira pessoa (feita por um narrador observador colado à Maura Wells). Os estudiosos da Teoria Literária e do Foco Narrativo podem até torcer o nariz por essas trocas de narrador (principalmente em relação ao capítulo 22, que quebra a estética da história), mas que elas funcionam, isso sim funcionam! As duas seções em terceira pessoa conferem mais dramaticidade à trama e potencializam o suspense. Em uma obra de entretenimento sem grandes preocupações estilísticas, não vejo problema no uso desse expediente. Gostei também da intertextualidade literária proposta em “Até o Fim”. Além de fazer referências a outros livros, Harlan Coben insere sua personagem mais famosa no meio da narrativa. Assim, os fãs de Myron Bolitar têm a oportunidade de matar as saudades do ex-jogador de basquete que se tornou investigador particular (mesmo que por uma cena rápida). Algo que não me canso de elogiar nos livros de Harlan Coben é dos seus inícios arrasadores. “Até o Fim” não foge a essa tradição. Suas primeiras páginas são impecáveis quando olhamos para o que deve conter um thriller voltado para o grande público. O autor norte-americano dá uma verdadeira aula prática para os jovens escritores que desejam se lançar pelo suspense comercial e, assim, querem encantar os leitores que procuram leituras agradáveis e impactantes. Confesso ser fã do estilo de Coben. Admiro também a maneira como o autor faz o desenrolar de suas tramas. O ótimo mosaico narrativo de “Até o Fim” vai sendo (re)construído pouco a pouco e de um jeito lógico e fidedigno pelo narrador-protagonista. A montagem do quebra-cabeça é capaz de empolgar os leitores que curtem os melhores romances policiais e a boa literatura de suspense. Há várias revelações bombásticas ao longo das páginas de “Até o Fim” e não faltam grandes reviravoltas no enredo. O único ponto negativo de “Até o Fim” é que o leitor que já conhece a dinâmica dos livros anteriores de Harlan Coben (como é o meu caso) conseguirá sacar facilmente para onde a história desembocará. Por exemplo, desde o começo do romance (mais ou menos na página 70, 75), eu já tinha descoberto quem era o grande vilão da obra. Seria eu um Sherlock Homes? Não. O que eu fiz foi deduzir, a partir dos antigos romances do autor, quem poderia ser o antagonista. E não é que acertei na mosca! Por isso, não fiquei surpreso com o desfecho. “Até o Fim” é um ótimo livro. Fiquei com a impressão de que Harlan Coben continua em ótima forma (literária) e segue produzindo novas tramas com a mesma qualidade das primeiras décadas de carreira. Fiquei feliz de saber que é possível ler seus novos romances e extrair uma boa experiência de leitura. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Análise Literária: Harlan Coben
O Desafio Literário já analisou, em 2015, cinco autores de quatro continentes. Em abril, iniciamos a investigação do que há de melhor na literatura mundial com Mia Couto, o principal autor moçambicano da atualidade. Em maio, foi a vez de estudarmos as obras e o estilo narrativo do inglês Nick Hornby. No mês seguinte, deixamos a Europa e retornamos para a América do Sul, mais especificamente para a Bahia. Naquele momento, pudemos conhecer em detalhes a carreira e as criações de Jorge Amado. Em julho, voltamos a viajar para o exterior. O destino foi a América do Norte. Naquele mês, nos aprofundamos nos livros e na ficção do romancista mais vendido da atualidade, o norte-americano John Green. No mês passado, as análises focaram na literatura de Ignácio de Loyola Brandão, um dos autores brasileiros mais importantes das últimas décadas. Se pensarmos bem, já vimos bastante coisa, né? Contudo, o Desafio Literário deste ano ainda está longe do fim. Estamos no último dia de setembro e é chegada a hora de analisarmos o estilo literário de mais um escritor. O investigado desta vez, no Blog Bonas Histórias, é Harlan Coben, romancista norte-americano especializado em produzir livros de suspense e mistério. Para compormos o panorama completo deste autor, lemos e comentamos ao longo das últimas quatro semanas cinco livros de Coben: "Seis Anos Depois" (Arqueiro), "Quebra de Confiança" (Arqueiro), "Não Conte a Ninguém" (Arqueiro), "Refúgio" (Arqueiro) e "Confie em Mim" (Arqueiro). Assim, agora me sinto pronto para debater as características da literatura deste escritor best-seller. Então, vamos à análise! Natural de Newark, Nova Jersey, nos Estados Unidos, Harlan Coben tem 53 anos e é formado em Ciências Políticas. Depois de trabalhar alguns anos no setor de turismo, Harlan enveredou para o mundo das letras, se tornando escritor, um sonho acalentado desde a adolescência. Atualmente, mora em Ridgewood, Nova Jersey, é casado e tem quatro filhos. Coben já publicou 26 livros, tendo uma média de um lançamento por ano. Suas duas primeiras obras editadas nos Estados Unidos foram "Play Dead" e "Miracle Cure", ambas no início dos anos de 1990. Nenhuma delas foi lançada até hoje no Brasil. O primeiro sucesso comercial do autor só apareceu na metade de década de 1990 com a série de livros com o personagem Myron Bolitar. Nesta coletânea, um ex-jogador de basquete que virou agente esportivo investiga assassinatos. Ao todo foram dez títulos publicados: "Quebra de Confiança", "Jogada Mortal", "Sem Deixar Rastros", "O Preço da Vitória", "Um Passo em Falso", "The Final Detail", "Darkest Fear", "A Promessa", "Quando Ela se Foi" e "Alta Tensão". Houve também uma extensão desta série, com três livros protagonizados por Mickey Bolitar, sobrinho de Myron. "Refúgio", "Uma Questão de Segundos" e "A Toda Prova" são os títulos desta extensão. A partir de 2001, Harlan Coben passou a escrever romances independentes, desvinculados das séries de Myron Bolitar e de Mickey Bolitar. Aí, o sucesso se multiplicou. Até agora foram 11 títulos lançados desta forma: "Não Conte a Ninguém", "Desaparecido para Sempre", "Não Há Segunda Chance", "Just One Look", "O Inocente", "Silêncio na Floresta", "Confie em Mim", "Cilada", "Fique Comigo", "Seis Anos Depois" e "Que Falta Você me Faz". "Não Conte a Ninguém" é o seu maior sucesso editorial até hoje. No geral, Harlan Coben já vendeu mais de 60 milhões de livros no mundo todo. Presença constante no topo da lista das obras mais vendidas do New York Times, The London Times e Le Monde, o escritor norte-americano teve seus livros traduzidos para mais de 40 idiomas, sendo best-seller em muitos países. Agraciado com os prêmios Edgar Allan Poe, Shamus e Anthony, Coben foi o primeiro escritor a receber o que a crítica chama de trinca de ases da literatura policial norte-americana. Chamado de "o mestre das noites em claro", Coben é definido da seguinte maneira por Dan Brown, autor de "O Código Da Vinci" (Sextante): "Harlan Coben é mestre em prender a atenção do leitor e criar histórias surpreendentes. Ele vai seduzir você na primeira página apenas para chocá-lo na última". Achei perfeita essa definição! A principal característica das histórias de Harlan Coben é o clima de mistério e de suspense que margeia toda a narrativa. Os enigmas do enredo são elaborados e intrigantes. Normalmente, já na primeira página ou no início do livro somos apresentados a um problema da personagem principal que só irá se resolver no final. Enquanto isso, ficamos curiosos para saber o que aconteceu. E neste meio tempo, ficamos presos à história sem poder nos desvincular dela. Se você ler as primeiras páginas de qualquer publicação de Coben, você será automaticamente obrigado a ler todo o restante da história. Ela prende a sua atenção de uma forma que é impossível desgrudar do livro. Normalmente, as tramas envolvem casos mal resolvidos do passado, homicídios e acidentes. As narrativas geralmente sofrem grandes reviravoltas, deixando o leitor sem saber em quem acreditar e em quem confiar. Você acha que vai acontecer uma coisa, depois acaba acontecendo outra e no final não é nada daquilo que você imaginava nas duas primeiras vezes. Quem é bonzinho pode ser o vilão e o vilão pode se transformar em aliado. Além disso, as escolhas das personagens não são tão óbvias quanto possamos imaginar a princípio. Quem gosta deste expediente (muitas reviravoltas), como eu, irá adorar os livros de Coben sem dúvida nenhuma. As narrativas também têm boas e muitas cenas de ação, com brigas, tiros e perseguições, no melhor estilo trama-policial que Coben conhece bem. Por isso, o ritmo dos livros é alucinante. Sempre está acontecendo alguma coisa para prender a atenção do leitor. Não há qualquer momento de tédio ou de marasmo. Algumas dessas cenas não conseguem fugir do clichê das tramas e dos filmes policiais, porém isso não atrapalha em nada as histórias. O rápido ritmo das narrativas não permite muitos instantes de reflexão e o aparecimento de comentários analíticos. Harlan Coben é extremamente econômico em suas análises. O escritor sempre prioriza as cenas de ações em detrimento às reflexões. Apesar deste expediente deixar seus livros dinâmicos e ágeis, ele também os torna um pouco rasos conceitualmente. Talvez este seja o principal ponto negativo do autor. Se ele acrescentasse um pouquinho de elementos reflexivos, provavelmente o ritmo das obras não seria tão impactado e o leitor ganharia em embasamento teórico. O único dos cinco livros lidos neste mês do autor que tem um pouquinho dessa sugestão é "Confie em Mim". Não à toa, este foi o livro que mais gostei, ao lado de "Seis Anos Depois". Outro ponto negativo das obras de Coben é o excesso de romantismo. O amor das personagens (geralmente a personagem principal é masculina) beira a obsessão e parece meio piegas. Afinal, não parece muito lógico alguém ficar preso a um amor platônico por tanto tempo (anos, décadas), se sujeitando a uma procura perigosa e desenfreada sem ter a certeza dos desejos da outra pessoa (muitas vezes, não se sabe nem se a amada está mesmo viva). Os personagens de Coben normalmente são românticos à moda antiga, disposto a lutar e a morrer pela sua amada, custe o que custar. As personagens, de um modo geral, são apresentadas aos poucos, durante todo o livro. Os vários quebra-cabeças soltos são aos poucos encaixados, à medida que vamos conhecendo melhor as personagens. O interessante é que as peças do quebra-cabeça se encaixam perfeitamente, por mais difíceis que tenham sido para achá-las e para juntá-las. Isso prova o quanto o Coben é um escritor criativo e preciso. A linguagem é simples e objetiva. Às vezes, dependendo do contexto, ela consegue ser até mesmo de baixo calão, como as da série protagonizadas por Myron Bolitar e Mickey Bolitar. Isso é explicado, pois as duas coletâneas de livros são voltadas para um público mais popular. As histórias de Coben não fogem muito da receita de bolo desenvolvida pelo autor: trama na qual um homem apaixonado fica correndo atrás da mulher da sua vida que sumiu misteriosamente. Se pudesse reformular a última frase e incluir os principais elementos do estilo literário de Harlan Coben, eu diria: as obras dele são compostas por uma mulher desaparecida e ninguém sabe o que aconteceu com ela; há vários assassinatos e a polícia não consegue relacioná-los; cabe a uma das personagens investigar por conta própria os mistérios; há também muito romance; e não faltam cenas de ação e de brigas". A melhor definição de Harlan Coben, para mim, é esta. Para narrar o que aconteceu, ele se usa de muito suspense e de muita ação o tempo inteiro. Geralmente, o enigma é apresentado logo de cara, nas primeiras páginas da obra, exatamente para prender a atenção do leitor. E as explicações dos acontecimentos são apresentadas aos poucos, a conta gotas, porém o tempo inteiro tem-se novidades. O grande enigma só será esclarecido nas páginas finais da obra. Em alguns casos, a explicação está na última linha da publicação. Considerei "Seis Anos Depois" e "Confie em Mim" como os melhores romances do autor. Estes dois são excelentes livros. "Não Conte a Ninguém" também é um ótimo livro e merece a posição de principal obra do escritor até hoje, apesar de eu ter preferido as duas primeiras aqui citadas. "Quebra de Confiança" e "Refúgio", respectivamente das séries sobre Myron Bolitar e Mickey Bolitar, são de uma qualidade inferior. No caso, estes dois livros são apenas regulares. "Refúgio" é ainda mais pobre, podendo ser definido por um leitor mais exigente como sendo uma obra fraca e limitada. Assim, os livros independentes de Harlan Coben são infinitamente melhores do que os das séries policiais populares. Gostei muito de ter conhecido a literatura deste grande escritor contemporâneo. E por falar em best-seller norte-americano da atualidade, o Desafio Literário de outubro continuará nos Estados Unidos investigando outro arrasa-quarteirão. O autor que será estudado no Blog Bonas Histórias no próximo mês será ninguém mais, ninguém menos do que Stephen King, o mais popular escritor vivo da América do Norte. O Desafio Literário de outubro está imperdível, não é mesmo?! Continue acompanhando as análises literárias dessa primeira temporada do Desafio Literário. Não faltarão bons livros e artistas para comentarmos em nossos posts. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Miliádios Literários: fevereiro/2021
Senhoras e senhores! Apresentaremos hoje os galardões miliádicos de fevereiro deste 2021! Somente os melhores autores, de qualidade renomada. A começar pelo campeão dos vestibulares e maior observador de cortinas da história, Eça de Queiroz! O romancista português, autor de “Os Maias”, “A Cidade e as Serras” e “O Primo Basílio” (Clube de Autores), tem a morte completando 44 milliádios no dia 2. Outra menção maravilhosa é Audálio Dantas, o maior jornalista do século XX! Precursor mundial do New Journalism, um “jornalismo bem feito com grife”. O autor escreveu “As Duas Guerras de Vlado Herzog” (Civilização Brasileira) e “Tempos de Reportagem” (Leya), leituras obrigatórias nos melhores cursos de jornalismo. O falecimento de Audálio faz mil dias no dia 23. Seguimos com um dos maiores compositores do Brasil, Chico Buarque! O autor de “Budapeste”, “Essa Gente”, “Leite Derramado” e “Estorvo” (todos pela Companhia das Letras) completa 28 miliádios no dia 15. Chico consegue falar com os mais populares brasileiros, mesmo passando longe das câmeras da Vênus Platinada. E falando na Globo, temos o dever de citar o maior poeta do Brasil na atualidade: Bráulio Bessa! Isso mesmo, o poeta da Fátima Bernardes completa joviais 13 miliversários no dia 24. O cordelista é autor de “Poesia que Transforma”, “Um Carinho na Alma” e “Recomece” (Sextante) e, para desespero dos puristas, o único poeta a atingir o topo dos mais vendidos da Amazon. Neil Gaiman, cuja literatura mágica e sombria nos eleva aos topos do cérebro, completa 22 miliádios no dia 03. O autor das dark fantasies “Deuses Americanos”, “O Livro do Cemitério” e “Coraline” (Rocco) também é roteirista e quadrinista. Uma realidade sombria é o que Friedrich Nietzsche comia no café da manhã! O autor de “Crepúsculo dos Ídolos” e “Assim Falou Zaratustra” (Companhia de Bolso) tem a morte completando 44 mil dias no dia 11. Ele é o filósofo que mais influenciou o pensamento do século XX. Que honra! E que bigode! Citamos agora Honoré de Balzac, que completaria 81 miliversários no dia 25. O novelista português, autor de “A Mulher de Trinta Anos” e “Ilusões Perdidas”, é considerado o fundador do realismo lusófono. Que honra! E que bigode! Mas voltemos às mulheres de trinta anos: você já curtiu a Andréa Bistafa? Ela é booktuber e gamer na Twitch, maior plataforma do métier. Ela completa 12 mil diazinhos de vida no dia 18. Pra seguir e compartilhar! Parabéns pelo miliversário... ... Khaled Hosseini, autor de “O Caçador de Pipas” (Globo Livros), que faz 24 miliversários dia 17. Em memória de... ... Jonathan Swift, escritor irlandês de “As Viagens de Gulliver” (Penguin) que, se a vida fosse infinita, faria 129 miliversários no dia 7. ... Doris Lessing, ganhadora do Nobel de Literatura de 2007, autora de “A Erva Canta” (Publicações Europa-América), que completaria 37 miliversários no dia 8. ... Soeiro Pereira Gomes, autor de “Esteiros” (Sirius), cuja morte completa 26 miliádios no dia 10. ... Jorge de Sena, poeta e romancista de “Sinais de Fogo” (Livros do Brasil), que faria 37 miliádios no dia 19. ... Bernardo Guimarães, autor de “A Escrava Isaura” (Nostrum Editora), cuja morte completa 50 mil dias no dia 31. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Dias Vazios - O premiado romance de Barbara Nonato
Neste final de semana, li “Dias Vazios” (Nova Fronteira), o mais recente romance de Barbara Nonato. Este livro conquistou, em fevereiro de 2020, o IV Prêmio Kindle de Literatura. Ao superar quase dois mil títulos concorrentes no concurso promovido pela Amazon, Barbara levou para casa o prêmio de R$ 30 mil e um contrato com a Nova Fronteira para a edição impressa de sua premiada obra. Por causa da pandemia do novo coronavírus, a versão física de “Dias Vazios” só chegou às livrarias brasileiras no finalzinho do ano passado (quando o normal seria tê-lo nas prateleiras das lojas no começo do segundo semestre de 2020). Curioso para conhecer “Dias Vazios!”, comprei-o em janeiro. Apesar de ainda ser desconhecida do grande público, Barbara Nonato é uma autora com um portfólio literário respeitável. Essa foi a terceira vez que ela chegou às fases finais do Prêmio Kindle. Em 2016, “O Lado Oculto do Medo” (Ebook), romance policial protagonizado por uma jovem jornalista em uma pequena vila do interior, ficou entre os dez melhores livros da primeira edição do concurso da Amazon. No ano seguinte, “Pelos Caminhos do Tempo” (Ebook), um thriller dramático ambientado no Mato Grosso do Sul, foi mais longe e alcançou a final (terminou entre os cinco melhores títulos). Depois de bater na trave duas vezes, em 2020 Barbara pôde, enfim, comemorar o lugar mais alto da premiação com “Dias Vazios”. Nascida na cidade do Rio de Janeiro e formada em Psicologia, Barbara Nonato começou a produzir ficção em 2016. A partir daí, ela não parou mais de escrever. Fã de cinema e leitora assídua de tramas policiais e de histórias de mistério, a escritora carioca é especializada em narrativas (romances e contos) de suspense. Sem dúvida nenhuma, “Dias Vazios” coroa esse trabalho que, ainda incipiente (são apenas quatro anos e pouco de ofício!), já demonstra sua excelência (chegar a três finais de um dos mais famosos concursos literários do país não é para qualquer um, né?). Por isso, não é errado enxergarmos Barbara como uma das promessas da literatura brasileira contemporânea. Os leitores antigos do Bonas Histórias conhecem o Prêmio Kindle de Literatura. Vire e mexe, eu posto análises das obras finalistas ou que foram campeãs do concurso na coluna Livros – Crítica Literária. Normalmente, essas leituras não decepcionam os amantes da boa literatura. Lembro que fiquei positivamente impressionado com “Machamba” (Nova Fronteira), o romance de Gisele Mirabai que venceu o I Prêmio Kindle de Literatura. Também gostei muito de “O Memorial do Desterro” (Nova Fronteira), a trama de Mauro Maciel que foi campeã da segunda edição, de “Entre Pontos” (Ebook), título de J. L. Amaral que foi finalista em 2017, de “Dama de Paus” (Nova Fronteira), o romance de Eliana Cardoso que se sagrou vencedor em 2018, e de “A Peste das Batatas” (Pomelo), a espetacular sátira político-social de Paulo Sousa que participou da quarta edição do prêmio. É verdade que o Prêmio Kindle ainda não tem a qualidade do Prêmio Sesc de Literatura, do Prêmio São Paulo de Literatura ou do Prêmio Oceanos (repare que não o estou comparando, por exemplo, ao Prêmio Jabuti, ao Prêmio Machado de Assis ou ao Prêmio Camões, que estão em outro patamar). Apesar dos finalistas do Prêmio Kindle de Literatura terem um nível interessante, é inegável que a grande maioria das obras publicadas no Kindle (e que participam do concurso) ainda apresente níveis sofríveis. Lê-los pode ser uma tortura, principalmente se você tiver a infelicidade de pegar uma obra que não tenha chegado entre os finalistas. Há muitas narrativas inverossímeis, textos mal escritos, materiais com erros crassos de português e histórias pouco originais. Por outro lado, o concurso da Amazon serve para revelar os bons autores em início de carreira. Aqueles que se destacam, como Barbara Nonato, são alçados a um patamar de profissionalização ou de semiprofissionalização. Os vencedores têm a chance de publicar seus títulos em versões impressas por uma editora conceituada e passam a ser vistos com outros olhos pelos leitores e pelo mercado editorial. Como busca de revelações, o Prêmio Kindle de Literatura é excelente (ele é quase um campeonato de jogadores de times de base ou mesmo uma disputa de atletas amadores). Nesse momento, os cinco finalistas da quinta edição aguardam a revelação do vencedor (que deve sair nas próximas semanas). O enredo de “Dias Vazios” começa em um quarto de hospital no Rio de Janeiro. Rebeca Simas acorda de uma noite com muitos sonhos e com cenas desconexas. Acreditando ter ainda dezesseis anos de idade e estar vivendo em dezembro de 2006, a (pseudo)adolescente está ansiosa para viajar para Petrópolis, uma das mais famosas cidades turísticas da Serra Fluminense. A viagem de final de ano é a chance de a jovem mostrar que está amadurecendo e de passar alguns dias animados ao lado dos amigos de sua idade. Após concluir o ensino médio, Rebeca prestou vestibular para Engenharia e aguarda os resultados das provas. Ao abrir os olhos naquela manhã no hospital, a jovem estranha a aparência envelhecida e o corte de cabelo da mãe, Dona Amélia, que está ao lado da cama. O que dizer, então, quando seu amigo Dan, que estava cursando o primeiro semestre de medicina e iria viajar com ela, surge vestido de médico e com o corpo de um homem de trinta anos?! Não demora muito para Rebeca Simas descobrir parte do que está acontecendo. Ela é agora uma mulher de 28 anos e está vivendo em dezembro de 2018. Sua estada no centro médico é fruto de um acidente ocorrido em Petrópolis, naquela viagem que ela tanto queria fazer. Por causa de algo que ninguém tem coragem de revelar para ela, Rebeca ficou em coma por 12 anos. Seu despertar, portanto, é um acontecimento quase improvável e comemorado pela família e pela equipe médica. Vendo que a paciente não possui nenhum problema físico (ela apenas perdeu a memória do que lhe aconteceu nos últimos dias antes do acidente), Dr. Daniel (Dan agora é chamado de doutor e é o responsável pelo atendimento clínico da amiga) dá alta para Rebeca. De volta à casa da mãe, a moça inicia por conta própria a investigação do que se passou na Serra Fluminense no fim de 2006. Algo muito sério deve ter ocorrido para ela ter ficado desacordada por mais de uma década. Ao constatar que o Dr. Daniel pediu para ninguém comentar a fatalidade do passado na frente da moça (ele acredita que a paciente deve recuperar a memória sozinha e naturalmente), Rebeca fica alguns dias na agonia de não ter qualquer indício sobre seu passado. Nessa condição de total desinformação, ela tem uma ideia aparentemente simples e com potencial de mexer com sua memória: reunir os velhos amigos em uma nova viagem de final de ano para Petrópolis. Ao revisitar o local do trágico Réveillon de 2006, Rebeca acredita que poderá se lembrar de tudo o que aconteceu ali. Além disso, ela poderá forçar os amigos a falar o que viram naquele dia. Cada um tem uma visão fragmentada dos fatos ocorridos com a filha de Dona Amélia, mas insistem em guardar seus segredos a sete chaves. Assim, Rebeca parte para Petrópolis ao lado de oito amigos da época de sua adolescência: Daniel (o médico e dono da casa), Jamile (a melhor amiga de Rebeca era gorda na adolescência, mas agora é uma modelo de corpo escultural), Fernanda (uma moça fofoqueira e fútil que vive da fortuna do pai), Luciana (uma das melhores amigas de Rebeca no passado, é atualmente casada com Nilo, um policial corrupto, e vive um relacionamento abusivo e sob a violência doméstica), Afonso (apaixonado na adolescência por Rebeca, é um advogado bem-sucedido e está casado com Ana Paula), Ana Paula (invejosa e ciumenta, a professora de idiomas sempre odiou Rebeca pelo amor que seu marido sempre nutriu pela amiga), Lionel (fanfarrão e desbocado, é agora um roqueiro famoso) e Raimundo (sem estudos, ele é pobre e sobrevive vendendo pipocas perto da Igreja da Penha). Se no passado esse grupo de jovens era unido, a situação agora é totalmente oposta. O acidente com Rebeca e o longo tempo de distanciamento (eles pouco se falaram desde então) fizeram com que os amigos se tornassem quase inimigos. Cada um procura se esquivar de sua culpa pela fatalidade de doze anos atrás e, como consequência, tende a ver nos outros os responsáveis pelo crime. Nesse ambiente de intensa rivalidade, amarguras e suspeitas mútuas, será que Rebeca conseguirá reconstruir seu passado como deseja? Os dois grandes mistérios do romance de Barbara Nonato são: o que aconteceu exatamente com Rebeca nas férias de 2006?; e quem é o responsável pelo atentado à vida da moça? “Dias Vazios” possui 304 páginas e está dividido em 35 capítulos. Levei entre 7 a 8 horas para percorrer todo o seu conteúdo. Iniciei a leitura no sábado de manhã e a concluí no domingo no comecinho da tarde. Os dois elementos que mais gostei deste livro foram: sua narrativa ágil e o clima de mistério que permanece intenso do início ao fim da trama. Não é errado dizer que Barbara Nonato construiu uma boa obra de suspense. Só não li o romance inteiro em um único dia porque quis assistir à final da Libertadores da América no sábado à tarde. Se não tivesse um jogo tão importante na televisão, na certa não teria desgrudado das páginas desta história até conhecer seu desfecho. É inegável que “Dias Vazios” foi muito bem escrito. Mesmo não sendo uma narrativa tão original assim – de cabeça, posso compará-lo ao enredo de “Se Eu Ficar” (Novo Conceito), o best-seller de Gayle Forman, “Uma Curva no Tempo” (Arqueiro), o romance de Dani Atkins, de “O Lado Bom da Vida” (Intrínseca), o maior sucesso de Matthew Quick, e “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books), o thriller psicológico de José Vieira –, a trama de Barbara Nonato consegue prender a atenção do leitor (primeiro componente de um bom thriller), entrega uma história muito bem executada (o segundo elemento de um livro de suspense de respeito) e apresenta surpresas e reviravoltas (a cereja do bolo deste tipo de gênero). Como leitura de entretenimento, trata-se de uma ótima pedida. Quem curte as obras de Harlan Coben e Raphael Montes, por exemplo, na certa irá apreciar “Dias Vazios”. Apesar de estar longe (muito longe!) de ser um livro impecável (infelizmente, ele possui uma série de derrapadas que compromete sua qualidade final), a narrativa de Barbara possui mais aspectos elogiosos do que elementos negativos. Tenho sérias dúvidas se a conquista do Prêmio Kindle de Literatura de 2020 foi merecida (acho que não), mas é inegável o resultado satisfatório desta construção ficcional. O primeiro ponto a ser enaltecido em “Dias Vazios” é a mistura de relatos do presente em terceira pessoa com passagens do passado e lembranças e pensamentos das personagens em primeira pessoa. Essa segunda parte da narrativa vem escrita em itálico, o que indica ao leitor a diferença temporal, de contexto narrativo e de tipo de narrador. As contradições entre presente e passado potencializam o drama e intensificam o suspense do livro. A chave para a compreensão do mistério da trama passa pela intersecção das duas linhas da narrativa. O texto de Barbara Nonato está majoritariamente na terceira pessoa (as passagens em itálico são pontuais e aparecem no início ou no final de alguns capítulos). O narrador é do tipo observador (não participa dos acontecimentos) e tem onisciência e onipresença do que se passa em cena. Como não fica colado a nenhuma personagem, ele pode trafegar livremente pelos cenários e junto aos protagonistas. Assim, o narrador diz o que cada pessoa está fazendo, pensando e sentindo. Apesar desse expediente narrativo ser um tanto arcaico, Barbara Nonato soube usá-lo muito bem. Grande parte do clima de tensão e mistério da história se dá justamente por esse trafegar livre do narrador por locais e pela mente das personagens. A apresentação pormenorizada das personagens é outro acerto de “Dias Vazios”. A autora carioca não tem pressa em expor as contradições, os detalhes, as particularidades, as rotinas, os sentimentos, os pensamentos e os dramas íntimos de cada um dos oito amigos de Rebeca Simas. Ao mesmo tempo em que entendemos que eles são suspeitos de um crime, acabamos nos aproximando de todos. Curiosamente, essa apresentação das figuras retratadas no livro é tão bem-feita que não temos a sensação de que há muitas personagens. O ritmo narrativo do romance é excelente. São poucas as vezes em que a trama tem uma queda de tensão e de agilidade (algo salutar em se tratando de um romance de mais de três centenas de páginas). Na maior parte do tempo, nossos olhos ficam grudados no conteúdo da obra e nossa mente viaja pelos acontecimentos relatados tentando montar as peças soltas desse quebra-cabeça narrativo. Gostei também da intertextualidade literária e musical da trama. Esse recurso confere uma pegada mais pop à história de Nonato. Nota-se o gosto da autora pela música popular brasileira e pela ficção contemporânea. Acompanhar as citações culturais no meio do livro é algo que cativa o leitor que compartilha dos mesmos gostos da escritora carioca. Outro acerto de Barbara Nonato está nos temas abordados por sua história. Os assuntos suscitados em “Dias Vazios” são atuais e de grande relevância. O romance cita a violência doméstica, o feminicídio, os relacionamentos abusivos, o bullying, a corrupção e a violência policial, o egoísmo e o individualismo excessivos da sociedade atual, os preconceitos sociais de vários tipos, a violência urbana, os efeitos deletérios das redes sociais etc. Por outro lado, não gostei nem um pouco da postura inquisitiva do narrador do livro. Ele é extremamente crítico às ações das personagens e às características da sociedade contemporânea. Por mais corretas que sejam suas análises e reflexões (e elas são mesmo!), um bom livro ficcional não deve deixar as avaliações e os julgamentos do(a) narrador(a)/escritor(a) tão mastigados para os leitores. A consequência disso é a transformação do texto em um discurso panfletário. Abomino esse expediente porque ao pegar para ler um livro de ficção, estou interessado na trama principal e não em conferir a visão de mundo do seu/sua autor(a). O narrador de “Dias Vazios” me pareceu politicamente correto demais. Para piorar, o posfácio detalha ainda mais os pontos já expostos de forma tão didática no cerne do romance. As notas de rodapé do livro me pareceram desnecessárias e acentuaram a impressão de que há explicações excessivas ao longo das páginas. O pior defeito de “Dias Vazios” está na inverossimilhança da trama. Há uma lista extensa de situações, cenas e acontecimentos que um leitor mais exigente não engole facilmente. Reinaldo, um policial idoso, escreve mensagens no celular como se fosse um jovem. Hilda, a enfermeira de confiança do Dr. Daniel, é enviada para a casa de Rebeca para cuidar da paciente. Até aí, tudo bem. Porém, quando a moça viaja para Petrópolis, a enfermeira continua inexplicavelmente morando na casa da mãe de Rebeca. Não faz sentido algum a presença da profissional de saúde ali! Por falar em falta de sentido, o próprio destaque dado à personagem de Hilda não tem o menor cabimento (sua presença nessa narrativa é forçada demais). A coleção de ações inverossímeis se acentua nas últimas 60 páginas. De uma hora para outra, todas (ou quase todas) as personagens do romance se tornam boazinhas. Milagre!!! Inexplicavelmente, elas fazem autoavaliações de seus erros, se arrependem e mudam de atitude em um piscar de olhos. Como é fácil largar vícios e hábitos nocivos, né? Como é banal compreender as próprias falhas e entender o que pode ser feito para se evoluir como ser humano? Para completar, empresas recém-inauguradas se tornam um sucesso de vendas em poucos meses. E o que dizer, então, de uma história em que os desfechos envolvem sempre as personagens já conhecidas?! É muita coincidência para o meu gosto. “Dias Vazios” é quase um teatrinho de cartas marcadas que gira em torno das mesmas pessoas apresentadas previamente aos leitores, mesmo que isso vá contra a lógica. Outro erro gravíssimo deste livro está na construção de personagens tão estereotipadas. A sensação é que todas as figuras retratadas no romance são planas e que giram exclusivamente em torno de suas características mais marcantes. Por mais que o narrador peça para evitarmos os preconceitos em nosso dia a dia, parece que a escritora não consegue fazer isso na prática. Temos, assim, o grupo dos mocinhos e temos o grupo dos vilões. Há um maniqueísmo acentuado durante toda a trama. Falta nuance às personagens e às ações. Na vida real, ninguém é totalmente vilão e ninguém é inteiramente bonzinho. Talvez Barbara Nonato não saiba disso (nem que bons romances se fazem com personagens redondas). Algo curioso em “Dias Vazios” está em sua classificação literária. Fiquei receoso se podia chamá-lo de romance policial. Afinal, não houve um assassinato (algo que movimenta esse tipo de narrativa) e sim uma tentativa de homicídio. Na dúvida, repare que chamei a obra o tempo inteiro de thriller/suspense e de uma história de mistério. Independentemente do que os conceitos da Teoria Literária dizem, podemos ver este livro como um romance policial. “Dias Vazios” é um bom livro de mistério e suspense. Contudo, fiquei em dúvida se sua premiação se deu mais pelas temáticas abordadas do que pela qualidade do seu texto ficcional. Com tantos tropeções de ordem narrativa, me pareceu estranho esta obra de Barbara Nonato ter conquistado o Prêmio Kindle de Literatura. Em tempos de discurso politicamente correto e de exaltação a ideologias da moda (vulgo postura lacradora), muitos concursos literários enaltecem títulos mais pelo que eles querem dizer/transmitir do que necessariamente pela excelência de suas construções narrativas. É uma pena que isso aconteça com tanta frequência. Como fã da boa literatura, acabo sempre torcendo pelas melhores tramas e pelos livros que apresentam propostas estéticas mais impactantes. Na certa, esse seria um ponto que o narrador de “Dias Vazios” iria pontuar se estivesse acompanhando os resultados da premiação que o consagrou. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Valsa dos Adeuses - O terceiro romance de Milan Kundera
Neste final de semana, li “A Valsa dos Adeuses” (Companhia de Bolso), o terceiro romance de Milan Kundera. Achei este livro na biblioteca do meu pai alguns dias atrás e não resisti – peguei emprestado e o devorei. Quem acompanha o Bonas Histórias há algum tempo sabe o quanto adoro a literatura de Kundera. O autor tcheco se tornou best-seller mundial nas décadas de 1980 e 1990. Sua obra mais famosa é “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), romance obrigatório em qualquer biblioteca contemporânea de bom gosto. As tramas de Milan Kundera misturam a filosofia existencialista com conflitos amorosos com uma pegada ácida, melancólica, soturna e pessimista. Normalmente, os leitores com paladares mais refinados, os apreciadores de leituras com sabores agridoces (ou seriam sabores cítricos?!) e os corajosos que se arriscam por narrativas com fortes componentes filosóficos são os que mais curtem os títulos deste escritor. Contudo, nos últimos anos, Kundera deixou de frequentar a lista dos romancistas mais vendidos da atualidade. Aos 91 anos, ele publicou sua última ficção, “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras), em 2014. É uma pena esse esquecimento porque o tcheco merece ser lembrado e citado sempre como um dos grandes nomes da literatura da segunda metade do século XX. O trabalho artístico de Milan Kundera já foi analisado em detalhes aqui no blog. No Desafio Literário de setembro de 2019, comentamos seis de suas principais obras: “A Brincadeira” (Companhia de Bolso), “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), “A Insustentável Leveza do Ser”, “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), “A Imortalidade” (Companhia das Letras), e “A Festa da Insignificância”. Infelizmente, “A Valsa dos Adeuses” não foi incluída no estudo naquela oportunidade. Agora, resolvi consertar esse possível tropeço da minha parte. Lançado em 1976, “A Valsa dos Adeuses” foi o primeiro livro de Milan Kundera publicado depois que ele se mudou de Praga para Paris. A chegada do autor à capital francesa aconteceu em 1975. Alvo da perseguição dos comunistas soviéticos que interviram militarmente na Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, Kundera foi censurado em seu país natal no final da década de 1960. Calado e ameaçado pelas autoridades, o romancista achou melhor ir para um lugar livre e mais seguro. Entretanto, mesmo vivendo na Europa Ocidental, sua literatura continuou abordando a opressão dos sistemas políticos socialistas. Nesse sentido, “A Valsa dos Adeuses” segue a linha iniciada em “A Brincadeira” e estendida para “Risíveis Amores”, “A Vida Está em Outro Lugar” (Companhia de Bolso), “O Livro do Riso e do Esquecimento” (Companhia de Bolso) e “A Insustentável Leveza do Ser”. Esse padrão estético-narrativo só mudaria a partir de “A Imortalidade”, primeiro romance ambientado em Paris e com uma trama mais universal (sem tantos componentes políticos). Como aconteceu com todos os livros depois de “A Brincadeira” (o escritor lançou antes três coletâneas poéticas, mas esses títulos não tiveram grande repercussão de público nem de crítica), “A Valsa dos Adeuses” foi publicado primeiramente na França e só depois chegou à Tchecoslováquia. Lembremos que Milan Kundera era um artista censurado em seu país e que teve a cidadania tcheca cancelada pelas autoridades soviéticas. E assim ele ficou por muitos e muitos anos nessa condição (em 1980, adquiriu a cidadania francesa). Para se ter uma ideia do quão absurda era essa situação, basta dizermos que “A Insustentável Leveza do Ser”, o título mais famoso de Kundera, só foi lançado em tcheco em 2006; e que o autor só teve de volta a cidadania tcheca no ano retrasado. Mesmo tendo sido publicado antes na França (e, obviamente, em francês), “A Valsa dos Adeuses” foi escrito na Tchecoslováquia (alguns anos antes da mudança do escritor para Paris) e na língua materna de Milan Kundera. Só depois o texto original foi traduzido para o francês e, a partir daí, para os demais idiomas. O primeiro título de Kundera escrito diretamente em francês foi “A Imortalidade”, obra que representou o início de uma nova fase na literatura de Kundera. Algo que marcou “A Valsa dos Adeuses” foi o emprego acentuado da ironia. Com um humor sutil e extremamente inteligente, Milan Kundera expõe os absurdos tragicômicos das relações amorosas a partir de reflexões existencialistas e da crítica aos sistemas ditatoriais dos países socialistas. O enredo de “A Valsa dos Adeuses” se passa em uma pequena estação de águas em um povoado turístico no alto das montanhas da Tchecoslováquia. O local é muito procurado por mulheres com dificuldades para engravidar. Ali, elas fazem tratamento médico na clínica do Doutor Skreta, um respeitado ginecologista. Ele é especializado em fecundidade e consegue resultados espantosos com suas pacientes. A trama se passa em cinco dias de Outono. Ruzena, uma jovem enfermeira da equipe do Dr. Skreta, telefona para Klima, um famoso trompetista que mora em Praga. Na ligação feita ao teatro da capital tcheca onde o músico ensaia com sua orquestra, a moça comunica que está grávida dele. Os dois tiveram uma relação sexual ocasional na noite em que Klima fez uma apresentação musical na estação de águas há dois meses. Evidentemente, a notícia assusta o trompetista. Klima é casado com Kamila, uma ex-cantora que é muito ciumenta. Ele ama a esposa e não quer se separar dela. Ao mesmo tempo, ele não pode ter o filho com a amante de uma única noite. Por outro lado, Klima sabe que não deve abandonar Ruzena, uma jovem solteira que passa por um momento extremamente delicado. O que fazer?! Querendo resolver a situação de maneira satisfatória para si, Klima viaja no dia seguinte para a estação turística. Nessa viagem, ele tentará convencer a amante a abortar. Para tal, ele irá fazer falsas promessas de amor à moça. Em seu discurso, devidamente ensaiado, o trompetista dirá que deseja há muito tempo largar a esposa e viver com quem realmente ama. Nesse caso, sua verdadeira paixão é a enfermeira. Na empreitada de convencer a pobre Ruzena a não ter o bebê (o nascimento da criança iria atrapalhar o início do relacionamento do novo casal), o músico da capital irá contar com a ajuda do Dr. Skreta, que além de médico é um baterista amador, e de Bertlef, um excêntrico milionário norte-americano. O trio tentará enganar a mulher para ela aceitar a realização do aborto. O problema é que Ruzena, apesar de inocente, contará com o apoio das colegas enfermeiras para não cair na armação dos homens inescrupulosos. Além disso, ela tem um namorado ciumento, Frantisek. Ele não deseja abandonar a amada em hipótese nenhuma. O rapaz, mais jovem do que a enfermeira, é desprezado por Ruzena por ter uma origem humilde e uma profissão simples (ele é mecânico). Enquanto acompanhamos o duplo triângulo amoroso dos protagonistas (Ruzena–Klima–Kamila e Klima–Ruzena–Frantisek), assistimos também aos dramas sentimentais de Olga, uma paciente de Ruzena/Dr. Skreta, com Jakub, um psicólogo que está prestes a deixar a Tchecoslováquia para sempre. Olga é apaixonada pelo amigo mais velho, que de certa maneira a adotou quando ela perdeu os pais ainda pequena. Porém, Jakub vê a moça apenas como uma filha adotiva e não como uma parceira sexual ou uma mulher para amar como esposa. Ele viajou para a estação de águas para se despedir de Olga e do Dr. Skreta, seu amigo de longa data. Sua mudança para o exterior está programada para dali a poucos dias. O último encontro com o psicólogo será a chance de Olga mostrar que é apaixonada por ele. “A Valsa dos Adeuses” possui 248 páginas e está dividido em 5 partes (“Primeiro Dia”, “Segundo Dia”, “Terceiro Dia”, “Quarto Dia” e “Quinto Dia”). Em se tratando da literatura de Milan Kundera, essa divisão é algo inusual (ele é conhecido por fracionar suas tramas em sete partes). O romance tem 85 capítulos e sua leitura é super rápida. Li esta obra em um único dia. Levei pouco mais de 5 horas para concluí-la. Comecei a ler “A Valsa dos Adeuses” na manhã do último sábado e no final da tarde, comecinho da noite já o tinha terminado. Quem leu “A Insustentável Leveza do Ser” irá notar muitas semelhanças entre os dois romances: triângulos amorosos como base da narrativa, conflito duplo (são dois os casais de protagonistas), personagens melancólicos, infiéis e atormentados, forte intertextualidade musical e literária, sexo e paternidade/maternidade desassociados do amor romântico e doses generosas de reflexões filosóficas. Não é errado enxergar “A Valsa dos Adeuses”, publicado sete anos antes de “A Insustentável Leveza do Ser”, como uma prévia do best-seller de Milan Kundera. Talvez a grande diferença entre esses títulos seja o tipo de narrador utilizado. Enquanto “A Valsa dos Adeuses” é narrado em terceira pessoa por um narrador observador onisciente e onipresente (com acesso ilimitado aos pensamentos e sentimentos das personagens), “A Insustentável Leveza do Ser” é narrado em primeira pessoa por alguém misterioso e que não participa efetivamente da trama (mesmo assim, tem acesso ilimitado aos pensamentos e sentimentos das personagens a partir da observação dos acontecimentos). Apesar das incontáveis semelhanças, acho equivocado olharmos para “A Valsa dos Adeuses” como uma simples prévia (ou esboço) de “A Insustentável Leveza do Ser”. Este livro de Kundera que estamos analisando hoje possui seus próprios méritos e tem um texto com uma qualidade indiscutível. Algo que mais me chamou a atenção nesta leitura foi o humor de Milan Kundera. Achei esse romance o mais irônico do autor. É verdade que este não é um título que provoca gargalhadas no leitor (humor e ironia não são sinônimos de risada!). O humor irônico de Milan Kundera é inteligente e bastante sutil. Note a série de paradoxos de “A Valsa dos Adeuses”: a enfermeira de uma clínica de fertilidade cogita o aborto (em um caminho oposto ao desejado pelas suas pacientes); o médico especialista em fecundidade (e com vários filhos espalhados pelo país) sonha em ser adotado depois de adulto; o embate quase bélico entre os homens e as mulheres em relação à gravidez (em contraste com a paixão carnal dos dois lados na hora da procriação); e o sentimento de tranquilidade de Jakub ao se imaginar como responsável por um assassinato arbitrário (e ele é justamente o crítico mais ferrenho do governo de seu país, que provoca prisões, maldades e crimes sistemáticos e injustos). A cena mais cômica é a de Jakub (lembremos: um psicólogo) acompanhando o Dr. Skreta em suas consultas ginecológicas (para desespero de um leitor mais pudico e para desespero de alguém minimamente ético!). As reflexões de Milan Kundera dialogam intimamente com os conceitos filosóficos de Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Jean-Paul Sartre e com as narrativas existencialistas de Albert Camus, Fiódor Dostoiévski, Sófocles, Robert Musil e Henry Fielding. Minha impressão é que Kundera constrói suas tramas ficcionais apenas para debater com maior profundidade os temas niilistas que tanto aprecia. Por isso, não espere enredos tão elaborados nos livros do tcheco (se bem que “A Valsa dos Adeuses” tem até um conflito interessante, alguma ação e várias reviravoltas que contagiam os leitores). O foco de seu texto está principalmente na discussão filosófica (a história ficcional é mero pretexto para suscitar os debates existencialistas). Portanto, se você não gosta desse tipo de reflexão, talvez não curta muito as obras de Milan Kundera. Os temas abordados em “A Valsa dos Adeuses” são: amor, inclinações sexuais, felicidade e infelicidade conjugais, paternidade/maternidade, orfandade, suicídio, morte, assassinato, esperança, liberdade, prisão, patriotismo, individualidade, desejo de ordem social, sacrifício, opressão, misoginia, preconceito estético, beleza versus feiura, coragem, realidade, imaginação, ciência versus arte, leitura da história, prática política, religião/fé/Deus, desejo de admiração, ilusão e aspiração de justiça. Deu para ver que são assuntos pesados. Em meio a tantos temas debatidos, o principal mote deste romance é mesmo a paternidade. Milan Kundera apresenta um panorama variado e profundo sobre a representatividade paternal e a prática da criação dos filhos. Na maior parte do tempo, o enfoque da trama é feito a partir da visão masculina. Por isso, não se espante se o conteúdo textual trouxer algum machismo intrínseco (algo corriqueiro em se tratando de personagens masculinas da década de 1970). A maternidade/paternidade, o casamento, a monogamia, o sexo e o amor são descritos prioritariamente como algo negativo. Kundera expõe o lado sombrio do ser humano e de suas relações sentimentais. Não se assuste, portanto, se homens e mulheres forem retratados como adversários ferrenhos e não como cumplicies em parcerias conjugais (leia-se matrimônios) sólidas e duradoras. Por uma perspectiva mais moderna, Milan Kundera pode ter apresentado um mundo em que o sexo, o casamento e a maternidade/paternidade são elementos totalmente desvinculados um do outro. Quanto às intertextualidades literária e musical presentes nesta obra, “A Valsa dos Adeuses” é um típico romance de Kundera. O universo musical e o panorama literário são citados o tempo inteiro pelo narrador e pelas personagens, o que dá um colorido especial ao texto. Para quem não sabe, o escritor tcheco foi filho de pianista e tocou Jazz na noite de Praga por muitos anos (antes de se enveredar pela ficção). Outro ponto bastante positivo deste livro é o ótimo conjunto de diálogos. Os discursos (conversas das personagens) de “A Valsa dos Adeuses” são geralmente reveladores e fazem a narrativa girar (assim como os pensamentos e os sentimentos das figuras retratadas nas páginas do romance). Milan Kundera é um autor que produz diálogos profundos e impactantes. Muitas vezes, eles são até mais importantes do que a própria sucessão de ações dos protagonistas. Incrível reparar nesse aspecto da construção narrativa. Também gosto muito do ambiente construído por Kundera em “A Valsa dos Adeuses”. Nesta obra, como ocorre em “A Brincadeira”, em “Risíveis Amores” e em “A Insustentável Leveza do Ser”, a ambientação é de grande opressão. A culpa é obviamente da ditadura comunista, que está presente o tempo inteiro na história, atormentando a consciência das pessoas e pautando suas ações. As personagens, já melancólicas, egoístas, hedonistas e complexadas por natureza, vivem diante de uma sociedade autoritária, violenta e intransigente. O resultado é o medo constante de ser a próxima vítima do sistema político que mói pessoas. “A Valsa dos Adeuses” é um dos livros de Milan Kundera que mais gostei. Seria ele, então, um dos melhores trabalhos do autor?! À princípio, fiquei inclinado a responder de forma positiva a essa questão. Porém, após uma reflexão rápida, mudei totalmente de opinião. Acho que apreciei mais esta obra porque agora entendi a dimensão literária e a estética narrativa propostas por Kundera (e não tanto por sua qualidade ser tão superior aos demais títulos). Pensando assim, me senti mais motivado para ler os livros do tcheco que ainda não conheço. Não se surpreenda se nos próximos meses eu comentar na coluna Livros – Crítica Literária novos títulos de Milan Kundera. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Livros: Zorro, Começa a Lenda - O herói mascarado por Isabel Allende
A literatura de Isabel Allende possui três fases distintas. Na primeira delas, que se estendeu por toda a década de 1980, a escritora chilena produziu romances históricos ambientados na América do Sul. Seus primeiros livros ficcionais, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil) e “Eva Luna” (Bertrand Brasil), por exemplo, foram protagonizados invariavelmente por figuras femininas de personalidade forte, possuíam elementos de realismo fantástico e seus enredos eram afetados substancialmente pelas influências do cenário externo (a camada mais frágil da população estava suscetível a perseguições, violências, injustiças sociais e desmandos políticos de militares e/ou de caudilhos que se perpetuavam no poder). Na segunda etapa de sua produção ficcional, iniciada com a chegada dos anos 1990, Allende passou a ambientar seus romances nos Estados Unidos, país onde foi morar em 1988. Para ser mais exato em minha análise, a chilena escolheu como novo cenário/espaço narrativo de suas obras a Califórnia. Contudo, Isabel Allende não abandonou completamente a América Latina. Livros como “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil) e “A Cidade das Feras” (Bertrand Brasil), exemplares dessa fase, tiveram como protagonistas imigrantes latino-americanos que tentavam a sorte na costa Oeste norte-americana. Além disso, Isabel Allende manteve boa parte dos demais elementos estilísticos do período anterior: tramas históricas, romances de formação, personagens femininas fortes, engajamento social, promoção do feminismo e tramas fortemente influenciadas por acontecimentos macroambientais (principalmente de natureza política). E a terceira e última fase da literatura de Isabel Allende é aquela em que, a partir da metade dos anos 2000, a autora passou a variar seus cenários narrativos (suas tramas incluíram a Europa, principalmente a Espanha, e a América Central) e começou a explorar novos gêneros narrativos (romances policiais, aventuras de capa e espada e thrillers). Abriu-se, portanto, um novo mundo de possibilidades ficcionais. Os melhores exemplos de títulos deste novo ciclo literário de Allende são “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil) e “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil). Fiz essa longa introdução para explicar que, como já falamos bastante da primeira fase da literatura de Isabel Allende nas primeiras semanas do Desafio Literário de outubro, a proposta agora é nos atentarmos exclusivamente à terceira fase do trabalho ficcional da chilena. A ideia é comentarmos, no post de hoje do Bonas Histórias, o romance “Zorro – Começa a Lenda”. Este livro marca de certa forma a transição da segunda para a terceira fase da produção literária de Allende. E na próxima semana, vamos comentar “O Jogo de Ripper”, uma obra totalmente da terceira fase. Publicado em 2005, “Zorro – Começa a Lenda” é o romance de Isabel Allende em que ela faz a sua interpretação para a formação da personalidade e do caráter da famosa personagem criada há pouco mais de um século por Johnston McCulley. Zorro, vale a pena lembrarmos, é a versão hispano-americana de Robin Hood. A estreia literária do herói mascarado aconteceu em 1919 com a publicação da aventura “A Marca do Zorro” na revista ilustrada All-Story Weekly. Como era típico daquela época, a história foi lançada em capítulos (cinco partes) pelo periódico. O sucesso foi imediato. Já no ano seguinte, um romance com esta trama foi lançado nas livrarias norte-americanas e um filme chegou ao cinema. Empolgado com o interesse crescente do público por Zorro, McCulley passou a produzir, ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940, novas aventuras com esta personagem. Era o início da trajetória de um dos heróis mais carismáticos de todos os tempos. Apaixonada desde pequena pelas narrativas do justiceiro californiano, Isabel Allende apresenta, em “Zorro – Começa a Lenda”, a infância, a adolescência e o início da fase adulta da principal criação ficcional de Johnston McCulley. Curiosamente, esta é uma parte da vida de Diego de la Vega até então pouco explorada até mesmo pelo seu autor original. Não à toa, a escolha do tempo narrativo é justamente o maior acerto deste livro de Allende. Ao invés de contar novas aventuras de Zorro, algo que a literatura, o cinema, a televisão, os quadrinhos, o teatro e as rádios já fizeram à exaustão, Allende optou por narrar as primeiras aventuras do filho único de Don Alejandro de la Vega. Assim, ela seguiu sua tradição de construir romances de formação e de mergulhar em tramas históricas. Há alguns anos, o livro “Zorro – Começa a Lenda” foi adaptado para um musical. A peça se tornou um grande sucesso no West End Londrino (a Broadway inglesa) e, na sequência, foi exportada para outros países. A versão musical de “Zorro – Começa a Lenda” foi trazida para o Brasil no ano passado, em comemoração ao centenário da criação de seu protagonista. Apresentado no Teatro Santander, o espetáculo nacional teve direção (cênica) de Ulysses Cruz e (musical) Carlos Bauzys e contou com um elenco estelar: Bruno Fagundes (interpretou o Zorro), Marcos Mion (foi o vilão), Leticia Spiller (representou a cigana) e Nicole Rosemberg (foi o par romântico do herói da trama). Para fazer a sua (re)construção ficcional da lenda do Zorro, Isabel Allende usou boa parte dos elementos explorados pelos enredos literários e cinematográficos anteriores. Ou seja, os fãs mais fervorosos de Zorro não só encontram os tradicionais personagens desta aventura clássica (Bernardo, Sargento Garcia, Alejandro de la Vega e Tornado) como o protagonista também possui quase todas as suas características originais ou que ficaram conhecidas pelo grande público ao longo do tempo (afinal, não foi possível a manutenção de todas as ideias de Johnston McCulley – ao longo dos anos, várias alterações no enredo foram promovidas principalmente nos filmes e nas séries televisivas). Se por um lado Isabel Allende optou por respeitar as bases históricas da lenda do justiceiro mascarado, é importante salientar que ela também se permitiu algumas liberdades narrativas (que devem ter feito McCulley se revirar no caixão). Assim, Zorro ganhou uma mãe indígena (e traços mestiços) e adquiriu poderes telepáticos para conversar com Bernardo. Por falar no inseparável amigo do protagonista, Bernardo ganhou uma nova biografia (que explica, de um jeito alternativo, a sua mudez e a sua fidelidade a Diego). Essas são algumas das novidades trazidas por Allende. Suas alterações nas bases estruturais da trama podem incomodar os leitores mais conservadores, mas é inegável que elas deixaram o romance com a cara de sua escritora (conhecida pelo engajamento social, pelo feminismo e pelo realismo fantástico) e com um ar mais contemporâneo (lufada que a história centenária precisava ganhar!). Em suma, por mais que tenha mantido a maioria dos elementos principais da lenda do Zorro, Isabel Allende não se furtou de fazer mexidas sensíveis ao enredo sempre que achou necessário promovê-las. O resultado é um romance divertido, dinâmico, interessante e criativo. Confesso que gostei bastante desta leitura. Prova maior disso é que li as 420 páginas desta publicação em apenas dois dias (no último sábado e domingo). “Zorro – Começa a Lenda” está dividido em seis partes (não há capítulos), sendo que a última seção da obra é o seu epílogo (que avança um quarto de século para mostrar o que aconteceu com as personagens retratadas). O foco desta história está nos primeiros 20 anos de vida de Diego de la Vega, quando ele se transformou no Zorro. Assim, acompanhamos: seu nascimento (e, um pouco antes, a relação dos pais do protagonista) e sua infância (Parte I – Califórnia, 1790 – 1810); sua adolescência e a formação educacional na Espanha (Parte II – Barcelona, 1810 – 1812 e Parte III – Barcelona, 1812 – 1814); seu regresso tumultuado à terra natal (Parte IV – Espanha, Fim de 1814 - início de 1815); e os graves problemas que se deparou ao chegar ao continente americano (Parte V – Alta Califórnia, 1815). A sexta e última parte (Breve Epílogo e Ponto Final – Alta Califórnia – 1840) mostra rapidamente o herói com 45 anos (a figura que todos nós conhecemos). Este livro começa na última década do século XVIII, na Califórnia (então província da Alta Califórnia). O que é hoje o território norte-americano e a cidade de Los Angeles, naquela época era La Reina de Los Ángeles, um povoado simples do México, uma das colônias do Reino da Espanha na América do Norte. Na Alta Califórnia, conviviam os índios e os colonizadores espanhóis, além de religiosos católicos (enviados para catequizar os primeiros) e soldados espanhóis (para proteger os segundos e garantir a coleta dos impostos destinados ao Rei madrilenho). Não é preciso dizer que o convívio entre as partes (indígenas, colonizadores, soldados e religiosos) não era nada harmônico. Certo dia de 1790, o padre Mendoza, responsável pela administração da Missão San Gabriel, que ficava próxima à La Reina de Los Ángeles, pediu ajuda para Alejandro de la Vega. Vivendo há anos na colônia americana, o fidalgo espanhol tinha 30 anos e era um sujeito muito honrado e corajoso. A missão de Mendoza seria atacada por tribos indígenas lideradas pelo temido Chefe Lobo Cinzento, que usava uma máscara de lobo na cabeça (daí seu nome). Por isso, o padre franciscano precisava urgentemente de proteção armada. Mesmo sem contar com o apoio dos soldados reais, que ignoraram o alerta do religioso, Don Alejandro seguiu para o local com apenas dois colegas. Ao ver o limitado contingente trazido pelo amigo, Padre Mendonza imaginou o pior: seria morto pelos nativos e San Gabriel seria dizimada e destruída pelos inimigos. Contra todas as previsões iniciais, Alejandro de la Vega conseguiu vencer a batalha contra as tribos indígenas e salvar a missão. No combate, o espanhol feriu Chefe Lobo Cinzento. Terminado o confronto, Don Alejandro tirou a máscara do inimigo combalido e, para sua surpresa, descobriu que o chefe indígena era uma mulher. Tratava-se de Toypurnia, uma bela moça de 20 anos. Filha de Coruja Branca, uma respeitada curandeira local, e de um marinheiro espanhol, que fora viver com os nativos e que ensinara sua língua à filha, Toypurnia unira várias tribos em prol da defesa coletiva de suas terras. Encantado com a beleza da indígena, Alejandro de la Vega ajudou-a na recuperação dos ferimentos e, depois, a levou para viver com o governador da província, em Monterrey. Assim, ela não correria o risco de ser presa (aos olhos dos colonizadores, a jovem havia liderado ações bélicas contra propriedades espanholas). Três anos mais tarde, Alejandro, que neste momento já começava a prosperar nos negócios (era fazendeiro) e conseguira chegar ao posto de prefeito de La Reina de Los Ángeles, reencontrou Toypurnia (agora com o nome espanhol de Regina) em uma festa. Ao vê-la vestida como uma dama ocidental, ele ficou ainda mais apaixonado pela moça. Sem pestanejar, Don Alejandro pediu Regina em casamento. A união dos dois foi concretizada e deu fruto dois anos após o matrimônio. Em 1795, Diego veio ao mundo. No mesmo instante em que o filho único de Alejandro e Regina de La Vega nasceu, Ana, uma índia convertida ao catolicismo que era a melhor amiga de Regina, também pariu uma criança, Bernardo. A proximidade desde o nascimento transformou Diego e Bernardo em amigos inseparáveis (eles eram quase irmãos). Nem mesmo quando uma grave fatalidade na infância tirou a voz de Bernardo, a dupla se separou ou se desuniu. Diego de la Vega foi criado quase que exclusivamente pela mãe, já que seu pai vivia em longas e rotineiras viagens pela Califórnia. Por isso, o menino passava muito tempo na tribo da avó, Coruja Branca. Ali, aprendeu a língua, a cultura e os hábitos dos nativos do continente americano. Na presença do pai, Diego agia como um verdadeiro cavalheiro europeu. Quando o patriarca virava as costas, o garoto lançava-se pelos descampados californianos como um legítimo indígena. Em 1810, quando completou 15 anos, Diego foi enviado para a Espanha para concluir seus estudos. Não é preciso dizer que o inseparável Bernardo foi junto, para auxiliar o irmão-amigo. Em Barcelona, a dupla ficou hospedada na residência de Tomás de Romeu, amigo de longa data de Alejandro de la Vega. Viúvo, Tomás tinha duas filhas: Juliana, a mais velha e a mais bonita, por quem Diego se apaixonou perdidamente, e Isabel, a caçula destrambelhada, que logo se encantou pelo visitante ilustre. Nos quatro anos em que ficou no Velho Continente, Diego teve uma rotina agitada. De manhã, ele fazia aulas de esgrima, sua grande paixão, com Manuel Escalente, um mestre de fama internacional. À tarde, o rapaz ia para a escola, onde pôde aperfeiçoar os estudos formais. À noite e aos finais de semana, o filho de Alejandro integrava um grupo circense comandado por ciganos. Nos espetáculos do circo, Diego, que tinha a companhia de Bernardo, atuava como ilusionista e acrobata. Essas habilidades foram adquiridas na infância e desenvolvidas com mais intensidade na viagem oceânica (que durara semanas). No início dos anos 1810, a Espanha era governada pelo irmão de Napoleão Bonaparte. O imperador francês havia invadido e conquistado a Península Ibérica, assim como boa parte da Europa. Indignados com a dominação francesa, os espanhóis, que clamavam pelo retorno de seu rei, criaram vários movimentos de resistência, devidamente reprimidos pelo governo estrangeiro. A violência e as injustiças cometidas contra os espanhóis mexeram com Diego de La Vega. Inconformado com a postura das autoridades francesas, o jovem californiano entrou em uma sociedade secreta, a Justiça. A ideia era combater a tirania invasora na Espanha. Assim, nasceu a figura de Zorro. Para não ter sua identidade revelada ao público, Diego se vestia com roupas pretas, colocava uma capa e usava uma máscara sempre que atuava em ações clandestinas. Devidamente trajado, ele ficava à vontade para agir contra as autoridades públicas. Sua missão era combater todas as formas de injustiça e violência cometidas contra o povo. O disfarce foi tão bem planejado que até o seu comportamento o rapaz mudou. Quando estava à paisana, Diego de la Vega portava-se com elegância e melindre. Exagerando na afetação, passava a imagem de um covarde hipocondríaco. Quando assumia a figura de Zorro, aí ele se tornava audacioso, atrevido, corajoso e brincalhão. Na sua visão, ninguém poderia descobrir seu segredo, que apenas Bernardo tinha ciência. Para infelicidade da família de Romeu, os ventos políticos da Espanha mudaram. No fim de 1814, os espanhóis conseguiram expulsar os franceses de seu território. A partir daí, todos aqueles que uma vez apoiaram os invasores passaram a ser perseguidos pelo rei, que retornou ao seu país com mãos de ferro, e por seus correligionários. E como Tomás de Romeu sempre foi um partidário pró-França, ele caiu em desgraça. Antes de ser preso, Tomás pediu para Diego de la Vega cuidar de suas duas filhas. E com a promessa dada ao amigo, o filho de Don Alejandro e Regina tornou-se o protetor de Juliana e Isabel. O problema é que o grande vilão do romance, Rafael Moncada, está obcecado pela bela Juliana. Ele não sossegará enquanto não se casar com a filha de Tomás. Moncada fará de tudo para convencer a moça a subir ao altar ao seu lado. Para evitar tal fatalidade, Diego de la Vega promoverá a fuga das meninas de Romeu da Espanha. Sempre ao lado de Juliana e Isabel, ele viajará a pé até o noroeste do país e de lá embarcará para a Califórnia. Sem imaginar o que pode acontecer com eles, o grupo iniciará uma aventura de tirar o fôlego pela Europa, pelo Oceano Atlântico e, depois, pelas colônias americanas. A história de “Zorro – Começa a Lenda” é contada por um narrador misterioso. Sua identidade é revelada apenas nas últimas páginas do livro. Quem já está habituado à literatura de Isabel Allende, não terá dificuldade nenhuma para descobrir esse segredo. Se eu, que sou péssimo para fazer esse tipo de descoberta, saquei no primeiro terço da obra quem era o narrador, imagine, então, a facilidade de quem é mais espertinho(a) para solucionar os enigmas literários. Somente um leitor menos atento (e muito mais ingênuo) possa ser surpreendido. O primeiro aspecto que chama a atenção em “Zorro – Começa a Lenda” é o caráter variado de sua narrativa. Allende desenvolveu um livro com características de gêneros distintos. À medida que a trama evolui, a sensação é que a história muda de perfil. Começamos com um romance histórico com cara de faroeste. Depois, entramos em uma pegada de realismo fantástico e, logo à frente, em crônicas náuticas. Na sequência, a obra adquire tintas de thriller político e de guerrilha urbana, chegando a desembocar em uma aventura de sociedade secreta (ao estilo de Dan Brown). Até o final, a publicação muda umas tantas vezes de tom: drama romântico, road story e aventura de pirata. Uma coisa é preciso se dizer sobre “Zorro – Começa a Lenda”: de tédio o leitor não sofre durante esta leitura. Sempre está acontecendo algo de emocionante no livro. Portanto, não se surpreenda se você devorar as quatro centenas de páginas em poucos dias. Quem gosta de uma trama de aventura e muita ação irá gostar deste título. Outro elemento que chama a atenção neste romance é a transformação da história da infância e da adolescência de Diego de la Vega em uma narrativa com a cara dos livros de Isabel Allende. Assim, “Zorro – Começa a Lenda” possui doses generosas de realismo fantástico, ambientação com muita violência e injustiças sociais, personagens femininas fortes, cenário social com muitos preconceitos, racismo e machismo, apresentação do protagonista a partir do relato da vida dos pais, casamentos abreviados ou infelizes e figuras que padecem da orfandade. Não há nada mais Allende do que isso, não é mesmo? Como já falei, a escritora chilena usa, nesta construção narrativa, a linha mestre da história original do Zorro e, ao mesmo tempo, se dá liberdade criativa para efetuar mudanças sensíveis na trama. Confesso que gostei bastante desse expediente. O resultado foi tão positivo que a partir de agora, para mim, essa será a versão oficial da vida de Diego de la Vega. Esse mesmo efeito já tinha acontecido comigo quando li os romances de Saramago – a partir daquele momento, o Velho e o Novo Testamento são como estão relatados, respectivamente, em “Caim” (Companhia das Letras) e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), e não como está escrito na Bíblia (prezo sempre pela verossimilhança das tramas). O único ponto negativo de “Zorro – Começa a Lenda” é o predomínio de personagens planas. Esqueça a riqueza literária dos trabalhos anteriores de Isabel Allende, com figuras redondas e contraditórias. Neste romance, não há quaisquer nuances. Ou a pessoa é boazinha ou ela é ruim. Não há meio termo. Essa característica maniqueísta estraga um pouco da qualidade da narrativa. Diego de la Vega/Zorro é o exemplo mais bem acabado desse fato. Ele é perfeito: bonito, divertido, talentoso, justiceiro, inteligente, criativo, culto... Ou seja, não possui nenhum defeito aparente. Ninguém faz algo melhor do que ele – Diego é quem mais lê, melhor cavalga, melhor se sai na esgrima, é o melhor trapezista, o mágico mais talentoso, o melhor na briga um a um, o mais criativo para bolar planos mirabolantes... Fica difícil acreditar em alguém assim (até os heróis da Marvel e da DC possuem algum defeito). A única personagem redonda do livro é Jean Laffite. Em alto-mar, ele é um pirata frio e sanguinário, em terra é um cavalheiro requintado e democrático). Não à toa, Laffite é a figura mais interessante do romance (exatamente pelas contradições apresentadas). O Desafio Literário de outubro continuará no próximo domingo, dia 25. O sexto e último livro de Isabel Allende que será analisado no Bonas Histórias neste mês é “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil). Publicada em 2014, esta obra é o primeiro romance policial da escritora chilena. Não perca o debate sobre “O Jogo de Ripper” e a sequência do estudo sobre a literatura de Isabel Allende. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 6, Sem Saída
– Oi. Moço! Acorda. Ei. Acorda logo, vai! Abri os olhos em meio ao sobressalto provocado por um cutucão nas pernas. Demoraram alguns segundos até eu me situar. Onde estava? Quem eu era? O que estaria fazendo dormindo na sarjeta? Por que estava tremendo de frio? Quem era o guri na minha frente com uma bandeja nas mãos? Não havia um jeito melhor de ele me acordar sem precisar me chutar? Quando a primeira resposta bateu em minha mente, as demais foram solucionadas como uma fileira de peças de dominó que caem em sucessão. Após a bola de neve de elucidações, tudo fez sentido. Ou melhor, a falta de sentido das últimas horas se descortinou para mim. Havia dormido na calçada em frente à casa do Roberto. Depois de ficar a madrugada toda de pé espantando a friagem e as incertezas do destino, no comecinho da manhã não resisti: me agachei, encostei em um muro da residência com a mochila no colo e caí no sono. – Minha mãe mandou pra você – Robertinho segurava uma bandeja com café, água, pães e fatias de bolo. O cheiro emanado era apetitoso. Mesmo não estando com muita fome, senti minha salivação despertar. O menino que estava diante de mim parecia vestir uniforme escolar. De onde eu estava, atirado ao chão naquela rua diabólica do Jardim Aquarius, o filho do Roberto aparentava ser maior e estar mais asseado do que na véspera. Com alguma dificuldade para enxergar, só o reconheci pela voz. O sol, talvez querendo mostrar serviço logo cedo, dava as caras com força total naquela manhã. Por mim, ele seria eleito fácil o funcionário do mês do Sistema Solar. Pensando bem, como o sistema era solar, ele devia ser o chefe e não um mero funcionário da organização cósmica. Isso explicava o porquê de começar seu expediente com tanta disposição. – Obrigado – Falei assim que peguei a bandeja. Porém, minha voz saiu tão falha que precisei repetir o agradecimento. Pelo visto, não eram apenas meus olhos que começavam o dia em ritmo lento – Obrigado! Agradeça sua mãe por mim. O garoto pareceu balançar a cabeça, não sei se em sinal de aprovação ou de desaprovação, deu meia-volta e retornou para dentro de casa. Sei que ele entrou porque consegui ouvir o barulho da batida da porta. Novamente só, ajeitei o corpo de uma maneira em que me livrasse da mochila, que até aquele instante permanecia grudada em mim, sem derrubar nada da bandeja. Aproveitei o malabarismo corporal para ficar sentado. Só então me pus a executar a tarefa de tomar o café da manhã. Já estava tão à vontade naquela calçada que não me importei com a curiosidade alheia. Alguns carros passavam na rua devagarinho. Na certa, me olhavam curiosos e se perguntavam: o que fazia um mendigo tomando a primeira refeição do dia com xícaras de porcelana, copo de vidro, garfo, faca e pratos em uma bandeja? Se a moda pega, hein?! Naquele horário, o fluxo na rua era essencialmente de veículos. Só duas pessoas passaram caminhando enquanto eu tomava o café atirado ao chão. Obviamente, elas tiveram que desviar o caminho, indo para a rua quando chegaram perto de mim. Ambas eram jovens: uma moça bonitona de no máximo vinte anos e um rapaz com cara de nerd que aparentava ter catorze, quinze anos. Nenhum dos dois retribuiu o meu bom dia nem aceitou minha oferta para se sentar e degustar o banquete matinal. Vai ver que estavam com pressa, né? Ou já tinham desjejuado. Ou eram mal-educados mesmo. Quem disse que o pessoal do interior é mais afável e simpático do que na capital?! Terminada a refeição, subi as escadas da casa e coloquei a bandeja na frente da porta de entrada principal. O que não comi, coloquei na mochila velha de guerra. Nunca se sabe quando precisaremos de alimentos novamente? Assim, na bandeja ficaram apenas os itens da casa: xícara, copo, talheres, pratos, açucareiro e a pequena garrafa térmica do café. O fato de já estar pensando como um verdadeiro mendigo não me abalou. Eu sabia que a vida de escritor não seria nada fácil desde o começo. De volta à calçada, vesti a mochila nas costas e saí à procura de um lugar mais reservado. A grande quantidade de áreas verdes do bairro me favoreceu consideravelmente. Em menos de quinhentos metros, achei uma área isolada em meio a um conjunto de árvores de todos os tamanhos. Ali pude fazer minha higiene matinal com discrição e certo conforto. Não gostaria de entrar em detalhes sobre essas atividades, tá? Só digo, à título de curiosidade, que só abri a garrafinha de água comprada na Rodoviária do Tietê naquele momento. O líquido serviu para lavar meu rosto e para fazer a escovação dos dentes. Infelizmente, não tinha água disponível para tomar um pequeno banho. Se tivesse comprado uma garrafa de 5 litros ao invés de uma de meio litro, não titubearia em me banhar ali mesmo. Por mais incrível que possa parecer, estava mais desconfortável com a falta de uma boa ducha do que de saudades da época em que o meu celular funcionava. De telefone eu consigo viver sem (apesar de estar preocupado com o que Dora pensaria se me ligasse e eu não pudesse atendê-la), mas de banho não. Revigorado com o pit-stop improvisado nas moitas compreensíveis de São José, voltei para a frente da casa do Roberto. E ali permaneci de pé, de braços cruzados e olhando fixamente para a residência por horas a fio. No longo período de observação, notei que uma perua escolar veio buscar o Robertinho. O menino até acenou para mim em tom de despedida. Depois foi a vez de um Honda Civic prateado deixar a garagem. Como o carro tinha película fumê nos vidros, não pude identificar na hora quem havia deixado a residência. Somente quando o portão automático da garagem se abriu mais tarde e um Nissan Kicks avermelhado deixou o local com a Patrícia ao volante, pude deduzir quem era o motorista do outro veículo. A casa permaneceu, acredito eu, vazia até a metade da manhã. Foi quando chegou uma moça de roupas simples e a pé. Com um molho de chaves na mão, ela entrou por uma entrada lateral, que eu ainda não tinha notado. Antes, ficou me olhando com cara assustada, como se temesse qualquer ação agressiva de minha parte. Vai ver ela suspeitava que eu fosse um bandido à espreita. Eita pessoal mais ressabiado esse, meu Deus! A ausência do celular, morto ou desmaiado na noite anterior, dificultava a medição do tempo. Há anos não usava relógio de pulso. Assim, não fazia ideia de que horas eram. Se tivesse que arriscar um palpite, diria que a mulher chegou por volta das dez, dez e meia da manhã. E, para ficar ainda na casa das adivinhações, diria que ela era a empregada doméstica da família. No que imaginei ser a hora do almoço, a perua escolar retornou trazendo o filho menor dos proprietários da casa. Robertinho entrou dessa vez sem acenar. Simplesmente passou por mim sem levantar os olhos. Na metade da tarde, foi a vez do Nissan Kicks chegar. Patrícia me cumprimentou com uma leve buzinada, antes de desaparecer pela garagem adentro. Poucos minutos depois, no sentido contrário, a mulher que imaginava ser a empregada saiu em passos acelerados e foi se embora. Roberto só chegou no início da noite. Já estava escuro quando seu veículo passou indiferente por mim. Permaneci no mesmo lugar e na mesma posição sem qualquer receio de ser visto. Eu até queria que todos notassem minha presença. Era a minha forma de gritar ao mundo: “Não saio daqui enquanto não escrever o livro pelo qual fui contratado! Ouviram? Não vou sair daqui!!!”. Curiosamente, no fim do dia, eu era alvo da curiosidade mais dos demais moradores do bairro do que da própria casa em que me postara na frente. Não foram poucos os carros que passaram me encarando ou as janelas da vizinhança que me observavam em busca de respostas lógicas para as minhas atitudes das últimas vinte e quatro horas. Apesar de ter a sensação de estar conseguindo despertar a atenção dos moradores da rua (e, como consequência, promover o desconforto dos familiares do Roberto), a chegada da noite acentuou meu cansaço. Ficar de pé, embaixo do solão o dia inteiro (ainda bem que estávamos no Inverno, já pensou ficar ali no Verão?), sem comer e sem beber quase nada por horas, exterminou qualquer resquício de otimismo que eu ainda podia nutrir. Minha vontade era acabar logo com aquela ceninha patética. Quando já cogitava desistir e retornar definitivamente para o hotel (e seu chuveiro quentinho e sua cama grande e macia...), a porta principal da casa se abriu. Patrícia desceu apressada as escadas e veio em minha direção. – O que você está fazendo aqui?! – Seu tom de voz continha uma dose considerável de irritação. – Vim para escrever o livro do Roberto. – Ele não vai escrever livro nenhum. – Eu sei. – Então por que continua aqui? – Sou eu quem vou escrever o livro para ele – Nessa hora, não cogitei manter o segredo de minha profissão. Precisava colocar todas as cartas na mesa e aquele me pareceu o momento mais adequado para isso. Minhas frases saíram com um misto de tranquilidade e convicção. Se a Dora estivesse me ouvindo, ela ficaria orgulhosa de mim. Aposto! – Meu Deus, outro cabeça dura! – Patrícia parecia não acreditar no que ouvia. Após alguns segundos de um silêncio constrangedor, ela prosseguiu – Você comeu alguma coisa hoje? Digo, depois do café da manhã... – Não, senhora – Menti. Eu havia, na hora do almoço, comido o que havia guardado na mochila: metade de um pão francês com manteiga e uma fatia farta de bolo de laranja. Não era muita coisa, admito, mas dera para enganar o estômago. A mulher fez uma careta. Pela sua fisionomia, ficar sem comer era muito pior do que passar o dia de pé na frente da casa de desconhecidos. Ou será que ela percebera minha mentira? Patrícia não falou mais nada. Apenas voltou a passos apertados para o interior da construção. Alguns minutos depois, Robertinho saiu com uma bandeja. Assim que o vi, compreendi o que aconteceria. Sentei-me na calçada com os pés cruzados e com um sorriso vitorioso no rosto. Se não tinha vencido a guerra, ao menos uma batalha importante fora conquistada. – Obrigado. E agradeça a sua mãe por mim. Junto com o pratão de arroz, feijão, bife e batata, veio uma garrafa de um litro e meio de água gelada. Morrendo de sede, virei na hora boa parte do conteúdo do recipiente assim que peguei a bandeja. Uma vez hidratado, comecei a comer. Confesso que meus modos não deviam deixar minha mãe orgulhosa. Ou a comida estava maravilhosa ou eu estava com muita fome. – Você não vai sair daqui nunca mais? Para minha surpresa, era o Robertinho que me perguntava. Ávido por ingerir os itens que me foram trazidos, eu esquecera que o garoto permanecia ao meu lado, de pé. Ao apontar os olhos para cima, notei que ele me observava com atenção. Para ele, eu deveria ser tão exótico quanto um animal de circo ou do zoológico que surpreendentemente passara a viver na frente de sua casa. – Vou permanecer aqui até seu pai me deixar escrever o livro – Dei mais uma garfada e completei com a boca cheia de comida – Acho que depende dele mais do que de mim o fim dessa situação, né? Indiferente a reação do meu amiguinho, continuei comendo. Eu já falei que o rango estava uma delícia?! Se me enviassem toda noite um prato como aquele, talvez eu não quisesse sair dali nunca mais. Quando terminei a refeição, cuidei da garrafa de água. Agora com um pouco mais de moderação, tomei o restante do líquido. Dessa vez, não havia sobrado nada na bandeja que eu pudesse guardar para outra ocasião. Finalizada a ceia, procurei Robertinho, mas ele não estava mais ao meu lado. Devia ter voltado para a casa depois de nossa conversa. Subi as escadas e coloquei a bandeja no mesmo lugar que a havia deixado de manhã. Retornei satisfeito para minha posição habitual. Novamente de pé e com os braços cruzados, fiquei olhando na direção da casa do Roberto. A refeição farta e, principalmente, a água ingerida foram as responsáveis pelo retorno da minha energia e do meu otimismo. Minha impressão é que estava participando de uma prova de resistência do Big Brother Brasil. Até a sensação de estar sendo observado por todos no bairro coincidia com a dinâmica do reality show. Eu podia estar vivendo como um mendigo, mas era agora uma personalidade famosa. Ao menos naquela rua do Jardim Aquarius, eu era a grande novidade do final de semana. A sexta-feira estava prestes a terminar e não demoraria para o sábado começar. A animação da segunda noite era evidentemente maior do que a da primeira. Isso é: para os moradores daquele bairro. Da minha posição de vigília, era possível ouvir as vozes das famílias e a música alta. Alguém estava dando uma festa ali perto. Vários motoqueiros, provavelmente levando pizzas, zanzavam freneticamente pelas ruas. O clima era de descontração. A impressão é que ninguém iria dormir cedo. A exceção era justamente a família da casa à minha frente. Todas as luzes da residência se apagaram tão logo eu coloquei a bandeja no devido lugar. Ou aquela gente dormia cedo até aos finais de semana ou não tinha nada o que comemorar. Acreditei que talvez a segunda opção fosse a mais adequada quando notei silhuetas na janela do quarto que dava para a rua. Ora era uma pessoa que me observava, ora eram duas. Em algumas oportunidades, deu para notar que elas discutiam. Algo me dizia que eu sabia o motivo e o teor da briga conjugal. A única coisa que não mudou foi o frio. À medida que a noite dava lugar à madrugada, a temperatura caía mais e mais. Como São José é uma cidade gelada, meu Deus! Como os moradores de rua fazem para viver ali, hein? Para espantar a tremedeira, me encolhia em meu casaco. Ao menos dessa vez não chuviscava. Ficar seco já era um sinal positivo. Perto da noite anterior, a umidade do sereno não era um obstáculo intransponível. Acredito que tenha dormido mais cedo do que na véspera. Agora que eu tinha um cantinho para puxar o sono, não foi difícil adormecer. Na manhã de sábado, não fui acordado por ninguém. Entretanto, ao me levantar da calçada, reparei que a bandeja jazia perto de mim. Novamente eu era agraciado com um banquete de café da manhã. Minha estada no interior paulista começava a entrar na rotina. Havia escolhido um caminho e agora estava preso a ele. Meu plano seguia barranco abaixo. Sem saída, eu só podia dar sequência ao teatro montado. O sábado foi igualzinho à sexta-feira. Pelo menos para mim, que continuava impassível na mesma posição e no mesmo lugar do dia anterior. Os dois únicos momentos em que saí do meu posto foram para fazer minhas higienes pessoais no cantinho que agora encarava como meu banheiro particular. Quanto aos moradores da casa, não notei grandes movimentações. O Honda Civic saiu da garagem na metade da manhã e retornou depois do horário do almoço. Tirando esse ato, não foi possível estabelecer qualquer aspecto da rotina familiar. No final da tarde, uma bandeja com comida me foi entregue. Dessa vez, foi a Patrícia que me levou o rango. – Bom apetite! – Foi a única coisa que ela falou. Depois de ouvir meus agradecimentos, a esposa do Roberto retornou para a casa. Novamente, a comida estava boa. Se bem que dessa vez... Sei que não é elegante ficar reclamando, mas preciso admitir: achei que salgaram demais o arroz. A carne me pareceu um pouco fria. E o feijão tinha mais caldo do que grãos. A batata foi o único item do cardápio que não sofrera grandes alterações. Podia apostar que foram pessoas diferentes que fizeram as duas refeições quentes que comera até aquele instante. Na noite de sábado, um carro de polícia parou perto de onde eu estava. Como permanecia de costas para rua, não vi sua chegada e muito menos a saída de dois oficiais do veículo de patrulha. – Boa noite – Ao ouvir a saudação, voltei-me na direção da rua e avistei os visitantes e sua carruagem que iluminava o lugar com luzes vermelhas e azuis. – Boa noite – Respondi com a impressão que minha aventura por São José terminaria de uma maneira pouco digna. Os policiais se aproximaram de mim com certo asco. Sei que minha aparência não era das melhores, poxa, mas eles não tinham motivos para sentir qualquer tipo de ojeriza. Afinal, o que estava fazendo de errado, hein? A calçada era pública e, até onde sabia, eu podia permanecer ali se não importunasse ninguém. Se bem que seria mais adequado consultar a Dora, que era quem entendia realmente das leis, sobre essa possível linha de defesa. Mesmo não estando com minha advogada pessoal por perto, comecei a imaginar um discurso matador. Sou bom de lábia e não seria complicado ganhar aqueles policiais na conversa. O que aconteceu em seguida me surpreendeu. Não tive chance nenhuma de conversar. Quando dei por mim, a dupla de “homens da lei” estava... estava... como posso dizer? Ao invés de narrar o que efetivamente se passou, prefiro usar os versos de uma música do Raul Seixas. Você já ouviu Metrô Linha 743? Pois a canção diz (em uma sequência que adaptei para ficar mais condizentes aos fatos que vivenciei) algo mais ou menos assim: “Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando/Dois outros chegaram com pistolas na mão/Um gritou/Mão na cabeça malandro/Se não quiser levar chumbo quente nos cornos/Eu disse/Claro, pois não/Mas o que é que eu fiz/Se é documento eu tenho aqui/ Trabalho em cartório, mas sou escritor/Perdi minha pena/ nem sei qual foi o mês/Metrô linha 743/Outro disse/Não interessa, pouco importa, fique aí/Eu quero saber o que você estava pensando/Eu avalio o preço me baseando no nível mental/Que você anda por aí usando/E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando/Minha cabeça caída, solta no chão/Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez/Metrô linha 743”. Se você não curte um clássico do rock'n'roll nacional, pode substituir a trilha musical dessa cena por algo mais popular e contemporâneo. Você conhece Foi Daquele Jeito, música da dupla sertaneja Thaeme & Thiago? Apesar da versão original ter um outro sentido (completamente diferente do embate no Jardim Aquarius), seus primeiros versos podem ser aproveitados aqui: “Vixe, bem-feito/Foi tapa na bunda, na cara/Puxão de cabelo/Na cama, no chão e no banheiro/Foi daquele jeito”. Talvez eu tenha mesmo que recorrer aos grandes Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em Haiti, eles cantam: “Quando você for convidado/Pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/De ladrões mulatos/E outros quase brancos/Tratados como pretos/Só pra mostrar aos outros quase pretos/E são quase todos pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados/E não importa se olhos do mundo inteiro possam/Estar por um momento voltados para o largo/Onde os escravos eram castigados/E hoje um batuque, um batuque/Com a pureza de meninos uniformizados/De escola secundária em dia de parada/E a grandeza épica de um povo em formação/Nos atrai, nos deslumbra e estimula/Não importa nada/Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico”. Após um nariz destruído, ao menos dois dentes quebrados, um braço com provável luxação, uma costela possivelmente trincada e o rosto banhado de um líquido avermelhado e viscoso, fui atirado para dentro do veículo. Minhas mãos estavam devidamente algemadas. O que me deixava mais desolado era o fato de não ter dado nenhum sopapo nos policiais. Há algumas brigas que saímos derrotados, mas temos a chance de dar alguns socos em nossos adversários. Não foi o caso ali. Se minha derrota fosse de 7 a 1, pelo menos eu teria tido a oportunidade de uma celebração (os comentaristas de futebol chamam isso de gol de honra). Não! Perdi sem marcar nenhum gol. Fui derrotado sem qualquer honra. A humilhação foi completa. No banco de trás da viatura, um pensamento me fustigou: “Cadê minha mochila?!”. Nela, tinha os principais materiais do meu trabalho. Não podia abandoná-la sozinha na calçada. Na certa, os policiais não teriam o trabalho de recolhê-la. Esquecida na rua, a mochila seria pega pelo primeiro que passasse e nunca mais seria devolvida. Aí adeus notebook, gravador de som e tudo mais... Não sei se é um tanto mesquinho pensar nos bens materiais naquela situação delicada, mais do que nas minhas feridas expostas, mas foi o que minha mente arquitetou. Tentei falar algo, avisar os policiais dos meus pertences largados a deus-dará, mas não consegui emitir som. Só a tentativa de mexer meu maxilar resultou na queda de mais um dente. Vixe! Será que a Dora iria se importar de beijar um banguela quando eu voltasse para casa? Será que eu conseguiria sair logo da cadeia? – Pera aí! O que vocês pensam que estão fazendo?! – Ouvi uma voz feminina conhecida quando os policiais, devidamente sentados nos bancos da frente, já iam dar a partida na viatura. Com o que restava da minha visão (não é fácil enxergar quando seu nariz está espalhando gosma por toda a cara), notei a presença de Patrícia no lado de fora da casa. Ela caminhava em direção ao carro de polícia. Santo Deus, ela segurava minha mochila. Alguém se lembrou dos meus pertences! Como eu gostava dessa mulher. Ela era uma mistura de Joana D´Arc e Madre Teresa de Calcutá. – Não acredito... – o policial que estava no banco de passageiros não demonstrava nenhum constrangimento. Sua fala saía um tanto forçada, como se estivesse fingindo preocupação – Esquecemos de apanhar o material do meliante. Obrigado, senhora – Ele esticou o braço para pegar minha mochila. Contudo, Patrícia, nesse instante bem próxima à janela do carro, não entregou o que tinha em mãos. Ela parecia olhar para a figura ensanguentada no banco de trás. Pela sua reação, ela não estava nem um pouco feliz com o que estava vendo. – O que vocês fizeram?! – Recolhendo o meliante, madame. Recebemos uma denúncia que ele estava barbarizando nos últimos dias. – Meliante? Barbarizando? Não pode ser... Ele é nosso hóspede. Se a reação dela me surpreendeu, imagine só as caras dos policiais. Era uma pena não poder vê-las. Sabe aquele jogo que estava 7 a 0?! Acho que ele foi impugnado. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: janeiro/2021
Nova década, novas estratégias pós-modernas! Finalmente nos rendemos ao vil metal e ao entretenimento de fácil digestão e teremos como tema da coluna Miliádios Literários 9 verdades e 1 mentira, brincadeira viral das redes sociais. Atendendo à milhares de pedidos, principalmente em nosso Tik Tok. Se você não sabe o que é Tik Tok, você não passa de um velho, cujos 7.305 dias pesam nas costas. Comecemos com Inglês de Sousa, autor de “O Missionário” (Escala) e “O Coronel Sangrando” (Agência Fapesp), título este considerado o introdutor do naturalismo na literatura tupiniquim. Por sua importância, Sousa foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Ele completaria 61 miliádios no primeiro dia do ano. Além do miliversário, 1º de janeiro é o Dia da Confraternização Universal, o que inspira esta coluna do Bonas Histórias a partir do Inglês e ir até o norueguês. Jostein Gaarder completa 25 miliádios no dia 18. Ele escreveu “Através do Espelho” (Companhia das Letras), “O Dia do Coringa” (Companhia de Bolso) e “O Mundo de Sofia” (Seguinte), sua opus magnum que encantou jovens do mundo inteiro. Quem também encantou os jovens foi Marçal Aquino, autor dos clássicos infantojuvenis “O Invasor” (Ática), “O Mistério da Cidade-Fantasma” (Ática) e “A Turma da Rua Quinze” (Ática). O autor, que completa 23 miliádios no dia 17, também escreveu os adultos “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos” (Geração), “Famílias Terrivelmente Felizes” (Cosac & Naify), “Cabeça a Prêmio” (Cosac & Naify) e “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras). De prêmios entendia Ferreira Gullar. O poeta teve que neoconcretar na parede uma estante pra comportar Camões, Machado de Assis, APCA, Jabuti e o áureo espadim da Academia Brasileira de Letras. Ele é autor de “Poema Sujo” (Companhia das Letras), “A Luta Corporal” (Companhia das Letras) e “Em Alguma Parte Alguma” (José Olympio), e completaria 33 miliádios no dia 15. Milton Hatoum escreveu poucos romances e tem em sua prateleira muitos prêmios literários (entre eles, três Jabuti e um Portugal Telecom). Eficiente, é autor de “Relato de um Certo Oriente”, “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado”, todos pela Companhia das Letras. O manauara descendente de libaneses completa 25 mil dias de vida no dia 29. Mantendo o alto nível literário desta coluna, vamos à Itália florentina falar de Dante Alighieri. O autor de “A Divina Comédia” (Nova Fronteira) completaria 276 miliádios de nascimento no dia 22. O maior poeta italiano, na verdade, se chamava Durante Alighieri, e escreveu também “Convívio” (Penguin), “Da Monarquia” (Martin Claret) e “Vida Nova” (Martin Claret). Comemoremos, pois, tantos miliádios maravilhosos, com direito a chá de entrada, bacalhau no prato principal e açaí de sobremesa. Para tira-gosto, vinho italiano e queijo. Aliás... Quem Mexeu no Meu Queijo? Deve ter sido Spencer Johnson, autor do best-seller da Record e que faria 30 miliversários no dia 12. Até o próximo mês! E compre nossos produtos licenciados! Parabéns pelo miliversário... ... R. J. Palacio, autora de “Extraordinário” (Intrínseca), pelos 21 miliádios no dia 9. ... William P. Young, autor de “A Cabana” (Sextante), pelos 24 miliádios no dia 24. Em memória de... ... Bernardo Guimarães, autor de “A Escrava Isaura” (Nostrum Editora), cuja morte completa 50 mil dias no dia 31. ... Alexandre Herculano, autor de “Eurico, o Presbítero” (Centaur), que faria 77 miliádios no dia 20. ... Rainer Maria Rilke, autor de “Elegias de Duíno” (Biblioteca azul), que faria 53 miliádios no dia 12. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Teoria Literária - MAER - Etapa 6 - Conclusões do Estudo
Enfim, chegamos ao final dessa terceira temporada da coluna Teoria Literária. No post de hoje do Bonas Histórias, vamos apresentar a última parte do Modelo de Análise Estilística de Romances (MAER). Essa é uma ferramenta de pesquisa que permite aos analistas literários a realização de estudos estruturados sobre os estilos dos romancistas. Desde junho estamos conceituando os elementos e as fases do MAER: em junho, apresentamos a Matriz Completa; em julho, os Onze Elementos Constituintes; em agosto, a Etapa I - Identificação do Tipo de Estudo; em setembro, a Etapa II - Definições Estatísticas da Pesquisa; em outubro, a Etapa III - Análise Horizontal; em novembro, a Etapa IV - Análise Vertical; e, em dezembro, a Etapa V - Análise Transversal. Agora, será a vez de comentarmos a Etapa V - Conclusões do Estudo. A reunião dos elementos narrativos que se repetem invariavelmente no trabalho de um determinado autor ficcional constitui o que se convencionou chamar de estilo literário. Cada escritor possui um estilo textual próprio, o que diferencia sua produção dos colegas e marca seus livros aos olhos dos leitores. Concluída a Análise Transversal, o analista literário precisa reunir todos os aspectos semelhantes descobertos nos textos do autor investigado. Para tal, ele deve montar um quadro conclusivo com essas características. Nesse painel informativo, deve-se apontar, além dos elementos identificados como padrões narrativos, as obras onde elas são encontradas, os exemplos dessas evidências (evidências objetivas de seus aparecimentos) e os percentuais de incidência (se aparecem em 100% das obras da amostra ou em 90%, 80%, 70% delas, por exemplo). Se o analista literário quiser, também pode ser aberto um campo para ele descrever melhor os aspectos da descoberta estilística feita. Esse recurso ajuda na compreensão do que está sendo tratado, principalmente quando o leitor da pesquisa ainda não teve acesso diretamente ao texto original dos romances A apresentação das características do estilo literário do autor investigado feita pelo Quadro Conclusivo do MAER deve respeitar a ordem decrescente do índice de incidência. Ou seja, o analista literário deve pontuar primeiro os elementos que aparecem em maiores percentuais (100%, 95%). Os elementos que apresentam menores percentuais (80%, 70%) devem aparecer depois. Vale ressaltar que indicadores com índices menores a 50% devem ser descartados pelo pesquisador, pois não representam características predominantes no estilo literário daquele escritor. E aí, gostou do Modelo de Análise Estilística de Romances? Para acessar aos demais posts dessa temporada da coluna Teoria Literária, clique em Apresentação do MAER. Espero que todos tenham gostado! Que tal este post? Gostou do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre esse tema, clique em Teoria Literária. E não se esqueça de acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Imortalidade - A segunda fase dos romances de Milan Kundera
No início dos anos 1990, Milan Kundera já era um dos autores europeus mais famosos de sua geração. Seu último romance, “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), de 1983, tinha se tornado um best-seller internacional. A obra foi inclusive adaptada para o cinema em 1988. O filme recebeu duas indicações ao Oscar. O interesse pela literatura do tcheco era tanto que ele publicou, em 1986, “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), um ensaio sobre sua produção ficcional. Não por acaso, esses livros foram analisados no Bonas Histórias nas duas últimas semanas. Esses títulos integram os posts do Desafio Literário de setembro, que ainda têm “A Brincadeira” (Companhia de Bolso), de 1967, e “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), de 1969. Paradoxalmente, apesar de morar em Paris desde 1975, Milan Kundera continuava ambientando suas narrativas na Tchecoslováquia comunista das décadas passadas. Assim, inevitavelmente, suas tramas adquiriam um tom de forte crítica político-ideológica, por mais que o escritor tentasse destacar o lado filosófico de suas histórias. Esse quadro mudou de uma vez por todas com o lançamento de “A Imortalidade” (Companhia das Letras), seu sexto romance. Esta publicação inaugura a nova fase da literatura de Kundera. Nesse segundo estágio da carreira, o escritor tcheco abre mão dos conflitos históricos de seu país natal e passa a construir narrativas contemporâneas ambientadas na Europa Ocidental, principalmente na França. Dessa forma, as reflexões existencialistas intensificam-se ainda mais nas páginas de seus novos livros. Além disso, Milan Kundera acrescenta em seus dramas uma pegada mais cosmopolita e uma intrincada mistura de realidade e ficção. Esse é o receituário narrativo de todos os seus romances a partir daí. Publicado em 1990, “A Imortalidade” foi sucedido por “A Lentidão” (Companhia das Letras), de 1995, “A Identidade” (Companhia das Letras), de 1997, “A Ignorância” (Companhia das Letras), de 2000, e “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras), de 2014. Li “A Imortalidade” neste final de semana. Comecei a leitura na sexta-feira à tarde e a concluí no sábado à noite. Nesta obra, um escritor nascido na Tchecoslováquia e que escreveu um livro chamado “A Insustentável Leveza do Ser” (sim, Milan Kundera torna-se uma personagem ficcional de si mesmo) é o narrador desta trama (o texto está na primeira pessoa). Ele observa do alto de um prédio uma mulher de 60 ou 65 anos na piscina do clube ao lado. Enquanto espera Avenarius, um amigo de longa data, para um encontro informal em Paris, o romancista acompanha com os olhos o comportamento da senhora em uma aula de hidroginástica. O que mais chama sua atenção naquela cena é o gesto de despedida da mulher para o professor, um rapaz bem mais jovem. Indiferente à discrepância etária, a aluna faz um aceno jovial e sexy para o professor no final da sessão. A imagem na piscina entra no imaginário do tarimbado escritor que passa a idealizar aquela figura feminina. Agnes, como a senhora é batizada pelo narrador, é formada em matemática, mas optou por um emprego burocrático em um escritório qualquer. Ela é casada há muitos anos com Paulo, um advogado. Eles têm uma filha adulta, Brigite, que mora com os pais em um pequeno apartamento na capital francesa. A rotina entediante de Agnes é quebrada quando um sujeito misterioso aparece em sua casa. Dizendo ser de outro planeta/plano espiritual, o visitante quer saber de Agnes e de Paulo o que eles desejam para uma próxima vida: continuar vivendo juntos ou não se conhecerem? A questão suscita uma reflexão profunda no casal, principalmente em Agnes, a responsável pela tomada de decisão. Enquanto assiste à trama ficcional construída na França contemporânea, o leitor de “A Imortalidade” é levado a acompanhar em paralelo uma história real do século XIX: a relação tumultuada de Goethe, um dos autores mais famosos da Alemanha, com Betina von Arnim, uma amiga muitas décadas mais jovem. Apesar de Goethe estar casado com Cristiana Vulpius e já ser um sessentão, Betina, que também era casada com o escritor Achim von Arnim, insistia em sua paixão platônica pelo artista mais célebre. Ela enviou centenas de cartas apaixonadas para Goethe e chegou a morar, antes de se casar, um período na casa do poeta, em Weimar. Betina só saiu de lá após uma briga marcante com Cristiana, que não aguentou de ciúmes e expulsou a visitante impertinente. A partir daí, a postura de Goethe em relação à mulher de Achim von Arnim variou entre a amizade amistosa e o estabelecimento de uma distância protocolar. Se em um primeiro momento a história do início do século XIX não tem aparentemente qualquer relação com a trama do final do século XX, o narrador do romance estabelece as semelhanças e as diferenças entre o matrimônio de Agnes e Paulo e o relacionamento de Betina e Goethe. Para tal, o escritor tcheco (nesse caso, o narrador-personagem de “A Imortalidade”) mergulhará na psicologia e no comportamento de suas personagens, figuras, vale a pena salientar, ora reais ora imaginárias. Assim, o autor constrói uma teia narrativa que ligará os dramas separados em mais de 150 anos. “A Imortalidade” é um romance parrudo. Ele possui 408 páginas e está dividido em 7 partes e em 114 capítulos. Os capítulos são normalmente curtos. Eles têm em média entre 3 e 4 páginas. Quanto à sua temática, esta publicação aborda assuntos corriqueiros da literatura de Milan Kundera: envelhecimento, individualismo/particularidade, Deus, fé, privacidade, solidariedade, morte, suicídio, eutanásia, solidão, liberdade, beleza versus feiura, amor, paixão, ódio, ideologias, razão versus emoção, sexo, loucura e infidelidade conjugal. Nesse sentido, não temos muitas novidades em relação aos livros anteriores do escritor tcheco. Esses temas são tratados de maneira filosófico-existencialista em todas as histórias de Kundera. Contudo, o objeto principal de análise do autor dessa vez, como o próprio título da obra expressa, é a questão da imortalidade. Não por acaso, os melhores debates deste livro são referentes justamente a esse assunto. De novidade do ponto de vista temático (ao menos na literatura de Milan Kundera), temos uma interessante discussão sobre o papel do jornalismo (que atua como um quarto poder e, em muitas oportunidades, descamba para o sensacionalismo barato) e sobre os malefícios do consumismo (proliferação de marcas nos países capitalistas e acúmulo desnecessário de bugigangas por seus habitantes). O que mais gostei em “A Imortalidade” foi da mistura bem azeitada entre ficção e realidade. Página a página, somos surpreendidos com a junção dos dois planos aparentemente tão diferentes. Onde começa (e termina) o real e onde começa (e termina) a invenção literária, hein? É preciso fazer uma leitura atenta e interpretativa para construirmos os muros entre as duas perspectivas. Esta é justamente uma das novidades da segunda fase da literatura de Milan Kundera. Em alguns momentos, a trama de “A Imortalidade” me lembrou muito a pegada dos livros do uruguaio Juan Carlos Onetti, que embaralhava os planos da realidade e da ficção de maneira sublime. As outras novidades trazidas em “A Imortalidade” são: a trama se passa em Paris (França do final do século XX) e em Weimar (Alemanha da primeira metade do século XIX), cenários mais cosmopolitas do que a Tchecoslováquia comunista das obras anteriores; e o conflito desvinculado dos contextos político-ideológicos da Guerra Fria (que, quando muito, são citados rapidamente pelo autor em suas reflexões filosóficas), uma marca dos primeiros títulos de Kundera. Também gostei bastante da maneira como o autor construiu as personagens e desenvolveu as cenas deste livro. Muitos episódios e várias figuras retratadas têm, em um primeiro momento, a aparência de banalidade (pouca importância). Entretanto, alguns capítulos à frente, esses mesmos elementos (cenas, situações e indivíduos) adquirem papel central na trama. Nada em “A Imortalidade” é por acaso. O leitor só entende uma determinada passagem da história ou um comportamento específico de uma personagem se fizer a relação com algo que o narrador contou despretensiosamente lá atrás ou que citará corriqueiramente lá na frente. É incrível perceber essas conexões acontecendo no meio do livro. De resto, “A Imortalidade” segue o padrão dos romances anteriores de Milan Kundera: as personagens são normalmente figuras melancólicas, solitárias, infiéis e com vazio existencial; é difícil encontrar alguém feliz e plenamente realizado com sua vida e seus relacionamentos; o casamento continua sendo um fardo pesado demais para ser carregado e as traições conjugais se proliferam; os dramas dos protagonistas são essencialmente de natureza existencialista; há muitas cenas eróticas; o livro é dividido em sete partes; analisa-se uma mesma cena várias vezes por perspectivas distintas (e complementares); há o detalhamento da banalidade das vidas dos protagonistas; e a narrativa central é envolta com muitas e longas divagações filosóficas. Se as três últimas características citadas no parágrafo acima dão profundidade e riqueza ao romance, por outro lado, elas quebram o ritmo da história. Os leitores mais ansiosos na certa vão chiar. Sabendo disso, Milan Kundera brincou com essa característica de “A Imortalidade” (e de todos os seus livros) no próprio texto. Esta é uma das partes mais engraçadas da obra - o autor transmutado em seu narrador-personagem justifica aos leitores o seu estilo. É espetacular! Nota-se, em “A Imortalidade”, uma forte intertextualidade literária, musical, política e pictórica. Nas páginas deste livro, são citados inúmeros autores (Hemingway, Goethe, Shakespeare, Robert Musil, Voltaire, Achim von Arnim, George Orwell, Agatha Christie, Miguel de Cervantes, Fiódor Dostoievski, Alexandre Dumas, Rodin, Arthur Schnitzler, Salinger, Franz Kafka, André Breton), músicos (Wagner, Bach, Beethoven, Chopin), políticos (François Mitterrand, Adolf Hitler, Valéry Giscard d´Estaing, Jimmy Carter, Napoleão, Nixon, Stalin, Robespierre, Lênin, Kennedy, Fidel Castro) e pintores (Salvador Dalí, Pablo Picasso, Rembrandt, Delacroix, Manet, Monet, Bonnard, Matisse, Cézanne, Braque, Miró, Ernest). Por falar em intertextualidade, Milan Kundera cita direta ou indiretamente muitas de suas obras no meio da narrativa de “A Imortalidade”. Na maioria dos casos, ele não expressa nominalmente seus títulos anteriores, mas os deixa no ar. Ele faz isso usando palavras chaves: brincadeira refere-se a “A Brincadeira”, risíveis a “Risíveis Amores”, valsa a “A Valsa dos Adeuses” (Companhia das Letras), riso e esquecimento a “O Livro do Riso e do Esquecimento” (Companhia das Letras). Somente “A Insustentável Leveza do Ser” é citado explicitamente. Veja, a seguir, um trecho do livro em que isso acontece: “Avenarius guardou um silêncio embaraçado, depois perguntou gentilmente: - E qual será o título do seu romance? - A Insustentável Leveza do Ser. - Mas esse título já está tomado. - Sim. Por mim! Mas na época me enganei de título. Ele deveria pertencer ao romance que estou escrevendo agora. Continuamos em silêncio, atentos somente ao gosto do vinho e do pato”. Milan Kundera é o tipo de autor que pega cenas corriqueiras do cotidiano (gesto de despedida de uma mulher mais velha para o professor de hidroginástica ou a correspondência insistente de uma amiga para o escritor famoso) e constrói romances filosóficos a partir da interpretação dos comportamentos das pessoas comuns. Para gostar da literatura do tcheco, é preciso compreender essa pegada analítica de suas narrativas. Mais importante do que a história em si, é o jeito como o escritor olha para os dramas de suas personagens. Nessa perspectiva, os romances de Milan Kundera se tornam sensacionais. Com sensibilidade, acuracidade e extrema profundidade, ele descortina as angústias existencialistas de homens e mulheres do século XX. Sob essa ótica, gostei muito de “A Imortalidade”. Darei continuidade ao Desafio Literário de setembro com a análise do último romance de Milan Kundera, “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras). Lançado em 2014, esse é o livro mais recente do autor. O post de “A Festa da Insignificância” estará disponível no Bonas Histórias na próxima quinta-feira, dia 26. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Risíveis Amores - A coletânea de contos de Milan Kundera
Neste final de semana, li “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), a coletânea de contos de Milan Kundera. Nesta obra, o autor retrata de maneira magistral os relacionamentos amorosos tragicômicos na Tchecoslováquia comunista das décadas de 1950 e 1960. Este é o segundo livro do Desafio Literário de setembro. Na semana passada, analisamos “A Brincadeira” (Companhia de Bolso), o romance de estreia de Kundera. E ainda nesta semana, discutiremos, no Bonas Histórias, “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), a publicação mais famosa do escritor tcheco. “Risíveis Amores” é a única coleção de narrativas curtas do portfólio literário de Milan Kundera. Ele sempre foi mais conhecido do grande público pelas suas narrativas longas. Juntamente com os dez romances publicados, Kundera desenvolveu antologias poéticas (três coletâneas de poemas no comecinho da carreira), peça teatral (uma na década de 1980) e ensaios (quatro entre 1986 e 2009), além, obviamente, dos contos de “Risíveis Amores”. Publicado em 1969, “Risíveis Amores” chegou às livrarias europeias em um momento delicado da vida de Milan Kundera. No ano anterior, o escritor tinha participado ativamente da “Primavera de Praga”, movimento político que exigia mais liberdades na Tchecoslováquia. Vale lembrar que o país do leste europeu era dominado desde o fim da Segunda Guerra Mundial pela União Soviética. Como represália ao levante, Moscou invadiu militarmente a Tchecoslováquia no segundo semestre de 1968 e passou a governá-la diretamente, sem qualquer representação local. Era o início do período mais sombrio desta nação eslava. Assim, Milan Kundera foi definitivamente expulso do Partido Comunista tcheco (ele já havia sido banido uma vez na década de 1950, mas foi reincorporado depois) e teve suas obras censuradas (inclusive um filme recém-produzido que fora baseado no romance “A Brincadeira”, obra que também foi proibida de ser veiculada). Para os olhos dos estadistas soviéticos, o artista era um subversivo que se opunha aos ideais stalinistas. Exatamente por isso, “Risíveis Amores” foi publicado primeiramente na Europa Ocidental, uma prática que seria a partir de então comum na carreira do escritor tcheco. “Risíveis Amores” possui sete contos: “O Pomo de Ouro do Eterno Desejo”, “Ninguém Vai Rir”, “O Jogo da Carona”, “O Simpósio”, “Que Os Velhos Mortos Cedam Lugar para os Novos Mortos”, “O Dr. Havel Dez Anos Depois” e “Eduardo e Deus”. O livro possui 264 páginas. É possível ler esta obra em um único dia. Foi o que fiz no último sábado. Os dois primeiros contos da obra são narrados em primeira pessoa, enquanto os demais estão na terceira pessoa. Cada história tem entre 25 e 40 páginas. Portanto, não são tramas curtas demais nem tão longas. Diria até que sua extensão é perfeita para nos encantarmos com suas tramas e nos conectarmos com suas personagens. Em “O Pomo de Ouro do Eterno Desejo”, Martin é um homem de meia-idade totalmente apaixonado pela esposa, Georgina. Para ele, não há mulher mais bonita e interessante do que a sua. Contudo, Martin não largou um vício dos tempos de solteirice: dar em cima de todas as mulheres bonitas que cruzam com ele. “Ninguém Vai Rir” narra o drama de um professor de História da Arte. Ele recebe insistentes pedidos de um acadêmico limitado para dar um parecer crítico favorável a seu trabalho científico. Ciente do quão absurdo seria elogiar um texto tão sofrível, o protagonista do conto não quer fazer isso. Ao invés de dizer que não dará o parecer, o professor prefere fugir do insistente colega. Sem saída, ele acaba acusando o acadêmico de assediar sua esposa. “O Jogo da Carona”, o terceiro conto da coletânea, é uma história sobre um casal de jovens namorados que ainda não praticou sexo. Apesar das insistências do parceiro, a namorada é muito tímida e recatada. Eles saem de férias juntos e viajam de carro pelo país. Essa é a chance de eles se conhecerem melhor. Logo no início da jornada, o casal para em um posto de gasolina para abastecer o veículo. Nesse momento, brincam que não se conhecem. Ele passa a desempenhar o papel do motorista solitário que flerta com uma desconhecida. E ela age como a moça bonita que pede carona sem medo das consequências dos seus atos. O jogo cênico no início os excita, mas também gera grande ciúmes na dupla. “O Simpósio” se passa em um hospital durante uma pausa no meio do expediente noturno. Cinco profissionais do estabelecimento, um chefe, um médico, uma médica, uma enfermeira e um estagiário, realizam uma divertida reunião regada com bebidas alcóolicas. Na sala da parte interna do centro hospitalar, os médicos passam a brincar com os sentimentos da enfermeira carente e do estagiário ingênuo. É o princípio de uma tragédia surpreendente. Em “Que Os Velhos Mortos Cedam Lugar para os Novos Mortos”, dois amantes da época da juventude se reencontram depois de quinze anos. Agora, ela está viúva e ele separado. Ambos já entraram na meia-idade, mas ainda nutrem algo um pelo outro. Apesar da evidente atração física, os dois acham que a chegada da velhice irá decepcionar o parceiro. Por isso, eles refletem bastante sobre a possibilidade de praticarem sexo novamente. A sexta história de “Risíveis Amores” é “O Dr. Havel Dez Anos Depois”. Dr. Havel viaja sem a esposa para uma estação de águas no interior do país. Ele precisa fazer um tratamento na vesícula biliar. A saída de casa é um alívio para ele. Apesar de sua mulher ser linda e muito mais jovem, ela é extremamente ciumenta. O comportamento dela não é por acaso. O médico, agora envelhecido e doente, sempre se orgulhou da fama de colecionador de mulheres. As semanas em que ele passará sozinho no interior será a grande chance de dar em cima de novas presas. A idade avançada e seu corpo precário serão seus grandes inimigos nessa empreitada. Por fim, temos “Eduardo e Deus”. Nessa trama, Eduardo, um professor de uma escola de ensino básico, é levado pela namorada, Alice, à Igreja. Ele não acredita em Deus, mas precisa passar uma imagem diferente para sua amada. Se Alice descobrir que Eduardo é ateu, na certa não irá querer fazer sexo com ele. Por isso, o rapaz passa a frequentar todos os domingos a Igreja ao lado dela. O problema é que na Tchecoslováquia comunista, ter uma religião é um crime grave. O Estado socialista prega o ateísmo. Quando Eduardo é visto visitando um templo religioso pela diretora da escola, seus problemas no emprego começam. Como ele irá explicar suas idas à Igreja ao comitê escolar que investiga o caso? O que é mais importante para ele: a possibilidade de fazer sexo com Alice e correr o risco de expulsão no emprego ou perder Alice para sempre e se manter na escola? O rapaz está em uma sinuca de bico. A primeira coisa que chama a atenção em “Risíveis Amores” é a originalidade de suas tramas. Uma é melhor do que a outra! Não sei apontar qual das histórias é a minha favorita. Adorei todas! Incrível como Milan Kundera constrói seus contos e suas personagens. Esse é, sem dúvida nenhuma, um dos melhores trabalhos do escritor tcheco e uma das melhores coletâneas de contos que li em minha vida. Sinceramente, não entendi o porquê de Kundera não ter escrito mais narrativas curtas. Ele se mostrou, neste livro, ser um talentosíssimo contista. É uma pena ele não ter produzido mais exemplares desse gênero narrativo! O segundo aspecto marcante de “Risíveis Amores” é o tom tragicômico dos seus enredos. Apesar dos dramas dos casais serem dignos de pena (eles quase sempre mantêm relacionamentos pobres de sentimentos, com pouca comunicação e tendo o sexo como simples muleta), acabamos também achando graça nos surpreendentes “acasos do destino”. A marca principal dessas histórias está nos desencontros afetivos de homens e mulheres extremamente melancólicos e solitários. Esses tropeções amorosos são provocados ora por brincadeiras que adquirem uma dimensão muito maior - nesse sentido, alguns contos lembram muito a “A Brincadeira” – ora são resultados dos desgastes naturais de relações pouco sólidas. A união entre homens e mulheres é explicada muito mais pelos prazeres carnais provenientes das práticas sexuais do que pelas afinidades sentimentais, de crenças e de valores. O sexo para as personagens de Kundera está ligado à diversão, à clandestinidade, à banalidade, à agressão moral, à violência física, à fantasia, à traição, ao complexo de Don Juan, ao escapismo, ao pecado, ao poder e ao interesse comercial-ideológico. E o amor, onde entra nesse receituário narrativo, hein? O amor é um artigo inalcançável para as personagens cínicas, egoístas, hedonistas, melancólicas, solitárias, mulherengas e infiéis que inundam os enredos do autor tcheco. As histórias de amor contadas em “Risíveis Amores” são na verdade um soco no fígado do leitor. Essas tramas passam longe, muitíssimo longe de afagar o coração do público romântico. É preciso coragem para adentrar no mundo de aridez sentimental de Kundera. Quem aprecia narrativas amargas, secas e desprovidas de sentimentalismo barato irá curtir esses contos. Já quem se identifica mais com as histórias água com açúcar de amor romântico sairá, na certa, decepcionado dessa experiência literária. Uma curiosidade sobre esta obra é que seus contos são divididos em partes, algo inusual na literatura. Normalmente, os contistas apresentam as narrativas curtas de maneira integral, sem separação textual. Por isso, chama a atenção que cada história de “Risíveis Amores” possua capítulos (ou seriam minicapítulos?). Há tramas, como “O Simpósio”, que chegam até a ser divididas em partes/atos e cada parte/ato possui sua coleção de capítulos. A impressão que temos é de estarmos lendo pequenos romances ou novelas e não contos. Gostei disso. Como não poderia ser diferente em se tratando de um livro de Milan Kundera, temos um forte debate filosófico no meio das tramas de “Risíveis Amores”. A pegada existencialista do debate proposto pelo autor aborda, além da questão da busca pelo amor pleno e dos absurdos do sexo (o tema principal das sete narrativas), o valor da mentira/verdade, a crueldade do envelhecimento, o sonho da beleza eterna, a força da juventude, o valor da amizade, a gratidão, a sinceridade, a loucura, as diferenças entre público e privado etc. Esses temas são discutidos muitas vezes nos próprios diálogos das personagens, o que confere grande força ao discurso. Admito que fiquei encantado com “Risíveis Amores”. Este é um dos melhores livros que li neste ano. Se Milan Kundera só tivesse produzido esta obra, eu já o definiria como um grande autor. Ele é capaz de entrar na aridez humana e produzir um texto bonito, impactante e reflexivo. Incrível ver isso na prática. O Desafio Literário prossegue nesta semana com a análise do livro mais famoso de Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Esse romance best-seller foi publicado em 1983 quando o autor tcheco já morava na França. Nessa obra, Kundera trata mais uma vez dos desencontros amorosos de indivíduos melancólicos, solitários e vazios. O post sobre “A Insustentável Leveza do Ser” estará disponível no Bonas Histórias no próximo sábado, dia 14. Não perca a continuação do Desafio Literário de setembro! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Insustentável Leveza do Ser - O best-seller de Milan Kundera
O trabalho mais conhecido de Milan Kundera, escritor tcheco analisado no Desafio Literário deste mês, é “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Este romance foi a segunda obra que o autor produziu após se exilar na França. Em 1975, Kundera deixou a Tchecoslováquia, onde sofria a perseguição do governo comunista da União Soviética, e se mudou definitivamente para Paris. A primeira publicação desta nova fase foi o “Livro do Riso e do Esquecimento” (Companhia das Letras), uma mistura ousada de romance, contos, crônicas e ensaios. Esse título foi lançado em 1978. “A Insustentável Leveza do Ser” veio na sequência. Mais uma vez abordando a desilusão amorosa e o cenário opressor da ditadura socialista (os principais temas de sua literatura), Milan Kundera apresenta em “A Insustentável Leveza do Ser” um tratado filosófico sobre a fragilidade e a perenidade da vida humana. O resultado é primoroso. O romance tornou-se um best-seller mundial durante as décadas de 1980 e 1990. Até hoje, o nome de Kundera é associado automaticamente ao seu título mais famoso. Escrito na língua tcheca durante o ano de 1982, “A Insustentável Leveza do Ser” só chegou às livrarias dois anos mais tarde, quando foi traduzido para o francês. Entre o final da década de 1960 e o final da década de 1980, vale a pena lembrar, Milan Kundera era um autor proibido em seu país natal. Por ter participado da Primavera de Praga, a União Soviética não permitia que os livros do autor anticomunista fossem publicados em seus domínios territoriais. Por isso, muitas das obras de Kundera foram primeiramente lançadas na França e só depois na Tchecoslováquia. “A Insustentável Leveza do Ser” faz parte desta lista de títulos “expatriados”. Uma versão cinematográfica deste romance foi lançada em 1988 pelo diretor norte-americano Philip Kaufman. O filme recebeu muitos elogios da crítica e do público. Com duas indicações ao Oscar no ano seguinte, o longa-metragem tornou a história do autor tcheco ainda mais conhecida. Contudo, Milan Kundera parece não ter gostado da adaptação de “A Insustentável Leveza do Ser”. Logo depois do lançamento do filme, ele proibiu a venda dos direitos comerciais de seus outros livros para os cineastas. Assim, nunca mais uma obra deste escritor chegou às telonas. O enredo de “A Insustentável Leveza do Ser” aborda diretamente a união de Tomas e Tereza e indiretamente o relacionamento de Franz e Sabina. Temos, portanto, dois casais em foco. Enquanto o primeiro permaneceu unido a vida inteira, o segundo ficou junto apenas alguns meses. Apesar das diferenças temporais, há várias semelhanças entre esses relacionamentos e entre essas personagens. Tomas, um cirurgião talentoso de Praga, conheceu Tereza, uma garçonete de uma cidade pequena da Boêmia, em uma viagem pelo interior do país no início dos anos 1960. Após um flerte rápido, o médico retornou para a capital da Tchecoslováquia. Algumas semanas mais tarde, Tereza apareceu na porta de sua casa. O reencontro despertou uma paixão avassaladora entre os dois. O casal fez sexo assim que se viu e passou a morar junto a partir de então. Até aquele momento, Tomas não queria ter um relacionamento sério com nenhuma mulher. Mulherengo, ele mantinha várias amantes. A mais regular delas era Sabina, uma pintora. A paixão pela garçonete fez o doutor mudar em parte seus planos e aceitar o casamento. A alegria pelo matrimônio e o amor por Tereza não foram capazes de mudar a rotina de conquistador serial de Tomas. Ele permaneceu com seus casos extraconjugais, apesar de voltar todas as noites para a cama da esposa. Para aplacar um pouco os ciúmes de Tereza, o cirurgião lhe deu de presente uma cachorrinha, Karenin. Na ausência dele, a mulher podia ter a companhia do fiel bichinho de estimação. Apesar das traições constantes, Tomas não conseguia viver sem Tereza. Na cabeça dele, uma coisa era o amor conjugal e outra completamente diferente era a prática sexual. Sob essa crença, os dois viveram juntos e sofreram unidos os dissabores provocados pela perseguição imposta a Tomas pelo novo governo soviético que tomou o país a partir de agosto de 1968. Por sua vez, Franz era um acadêmico bem-sucedido que morava em Genebra. Casado e com uma filha adolescente, ele se apaixonou por Sabina quando a pintora deixou Praga e se mudou para a Suíça. O exílio foi causado pela invasão soviética após a Primavera de Praga. Inconformada com os desdobramentos políticos em seu país, Sabina preferiu fugir da opressão comunista. O relacionamento com Franz era apenas mais um de Sabina. Ela tinha alguns amantes, entre casos fixos e eventuais. Porém, o acadêmico ficou realmente apaixonado pela artista tcheca, sua amante. Após oito meses de encontros às escondidas, Franz decidiu abrir o jogo para a esposa. A revelação da traição fez, obviamente, o casamento terminar. Empolgado com a possibilidade de viver com Sabina para sempre, ele revela a sua separação para a amante. Assustada, a pintora foge dele, se mudando ocultamente para Paris. Assim, do dia para a noite, Franz fica sem a esposa e sem a amante. Apesar de seguir sua vida, o acadêmico nunca mais se esqueceu da moça com quem manteve um breve relacionamento e que foi o grande amor de sua vida. “A Insustentável Leveza do Ser” é um romance de 344 páginas. Seus 142 capítulos estão divididos em sete partes: “A Leveza e o Peso”, “A Alma e Corpo”, “As Palavras Incompreendidas”, “A Alma e o Corpo”, “A Leveza e o Corpo”, “A Grande Marcha” e “O Sorriso de Karenin” (sim, algumas partes são homônimas!). Precisei de três noites para concluir esta obra. Inicie a leitura na terça-feira desta semana e a encerrei na última quinta-feira. A temática principal de “A Insustentável Leveza do Ser” está na representação ácida dos relacionamentos conjugais. Milan Kundera mergulha nas mentes e nos corações de suas personagens para construir um raio-X poético dos medos, das alegrias, das incongruências, das privações e dos prazeres sentimentais dos casais modernos. Dessa forma, assistimos a várias dicotomias: prisão versus liberdade, dependência versus independência, individualidade versus coletivismo, monogamia versus poligamia, amor versus paixão e prazeres afetivos versus prazeres carnais. Esqueça a visão romântica dos matrimônios e dos namoros. O autor tcheco prefere a abordagem realista e nem um pouco politicamente correta para desenvolver suas tramas sentimentais. Curiosamente, “A Insustentável Leveza do Ser” é narrado em primeira pessoa (uma escolha acertada, mas que não deixou de ser arriscada). O narrador é alguém misterioso, que não é identificado claramente nas páginas do livro e que apenas observa as ações, os pensamentos e as emoções dos protagonistas do romance. Em muitos momentos, temos a impressão de que o narrador seria o próprio autor e que as pessoas retratadas seriam suas personagens literárias. Ou seja, há um forte componente metalinguístico nesta narrativa. Esse detalhe confere ainda mais graça e beleza à obra. Por falar em narração, esta história avança e retrocede constantemente no tempo. É um interminável ir-e-vir. Muitas vezes, há a repetição de cenas e de relatos. Ao invés desse recurso tornar o texto repetitivo e cansativo, ele o deixa ainda mais rico e polissêmico. Afinal, sempre há a retomada da trama com um enfoque de outra personagem. Assim, apesar de já sabermos o que vai acontecer, acabamos mergulhando nos dramas interiores dos casais de protagonistas. Ao mesmo tempo em que assistimos à ebulição interior destas personagens, também vemos o rebuliço macropolítico da sociedade tcheca entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. O comunismo imposto ao país do leste europeu após a Segunda Guerra Mundial e, principalmente, a invasão russa depois da Primavera de Praga tornaram a Tchecoslováquia uma ditadura repressiva e violenta. Após a queda de Dubcek, o ambiente no país se tornou extremamente opressor e perigoso para os cidadãos. Nesse sentido, o caos de “A Insustentável Leveza do Ser” não é apenas sentimental e interno dos protagonistas. Ele é geral, coletivo, da nação inteira. Essa junção entre caos interno e externo transforma o ambiente do romance de Kundera em um elemento potente e importantíssimo da obra. É impossível falar de “A Insustentável Leveza do Ser” sem citar sua pegada filosófica. As narrativas de Milan Kundera possuem invariavelmente um tom existencialista do tipo niilista. Este romance não foge à regra. O autor cita diretamente Nietsche, Heráclito, Sócrates, Platão, Descartes, Kant, Parmênides e Freud. Nesta narrativa, temos o debate analítico e, por que não, prático de alguns conceitos: a ideia do eterno retorno, o mundo da contradição, a proposta do amor nascido como metáfora, o desafio da monogamia, a dualidade entre compaixão e liberdade, a conceitualização da revolta, a força da insignificância, o papel do acaso na vida das pessoas, as particularidades do amor e do sexo, o sentimento de culpa, a importância da beleza (e a tristeza do envelhecimento), a busca pela eterna juventude, a psicanálise dos sonhos, o suicídio como escapismo, a violência individual e coletiva, a diferença entre os otimistas (os bem-humorados) e os pessimistas (os mal-humorados), as consequências do kitsch etc. Juntamente com o texto filosófico, as páginas de “A Insustentável Leveza do Ser” possuem uma grande intertextualidade musical e literária. Desfilam pela história de Kundera os quartetos e sonatas de Beethoven, os pianos e as percussões de Bartok, as canções dos Beatles e as criações de Mozart e de Bach. Também temos a menção às personagens e às obras de Dostoievski, Swift, Stendhal, Kafka, Prochazka, Sófocles, Verne etc. As personagens deste romance são muito parecidas às das demais obras de Milan Kundera. O que vemos em “A Insustentável Leveza do Ser” é uma coletânea de figuras melancólicas, tristes, desorientadas, egoístas, narcisistas, hedonistas e incompletas. De certa maneira, o autor tcheco exemplifica na ficção o que mais tarde Zygmunt Bauman iria discorrer sobre o homem pós-moderno. Enfim, adorei “A Insustentável Leveza do Ser”. Eu já o tinha lido na minha adolescência e, naquela época, admito não ter gostado nem um pouco dessa narrativa. Achei o livro lento e entediante. Acredito que eu não estava maduro o suficiente para aproveitar a riqueza e a complexidade da literatura de Kundera. Agora a coisa foi totalmente diferente. O romance mais famoso do tcheco me encantou da primeira à última página. Incrível! Esta obra vale a pena ser lida (ou relida) por quem aprecia trabalhos ficcionais de qualidade e de profundidade. O Desafio Literário de setembro terá sequência na próxima quarta-feira, dia 18, com a análise de “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), publicação de 1986. Este será o quarto livro de Milan Kundera que comentaremos neste mês no Bonas Histórias. Diferentemente de “A Brincadeira” (Companhia de Bolso) e de “A Insustentável Leveza do Ser”, ambos romances, e de “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), uma coletânea de contos, “A Arte do Romance” é um ensaio literário. Nesse título, Kundera aborda as particularidades do ofício de escritor e apresenta detalhes de seu estilo narrativo. Trata-se de um texto imperdível para quem está curtindo o estudo sobre o autor tcheco mais famoso da literatura contemporânea. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















