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- Miliádios Literários: setembro/2020
Quer um bom neologismo? Miliádio. Significa “intervalo de mil dias”. Não se engane, por trás da aparência simples, há uma essência disruptiva. Entremos no quiproquó: o vocábulo maravilhoso muda totalmente a forma como entendemos o tempo, um case de sucesso pra Benjamin Whorf. O maior neologista do Brasil e, quiçá, do mundo, é João Guimarães Rosa, que completaria 41 miliádios no dia 27. Três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras, o Imortal morreu pra provar que viveu. Ele é autor de “Grande Sertão: Veredas” (José Olympio), “Sagarana” (Global Editora), “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira), “O Burrinho Pedrês” (Saraiva de Bolso) e muitos outros livros, todos grandes em modernismo, neologismos e mazelas brasileiras. Mas não dá pra falar das mazelas do Brasil sem citar aquele militar carioca e miliciano. Estou falando de Leonardo, de “Memórias de um Sargento de Milícias” (Moderna), claro. Pensou que fosse outra pessoa? Manuel Antônio de Almeida, autor one hit only, retratou a vida no Rio de Janeiro recém-promovido a Capital com todas as suas agruras. Sua morte faz 58 miliádios no dia 15. Quem não teve uma boa experiência com militares foi Fiódor Dostoiévski, cujo falecimento completa 28 miliádios no dia 28. Acusado de conspiração contra o czar Nicolau I, seu castigo foi o fuzilamento. Sorte que o monarca diminuiu sua pena pra 2.922 dias de trabalhos forçados na Sibéria mais serviço militar por tempo indeterminado. Com todas as pedras que a vida lhe trouxe, mais umas doses de vodca, Dostoiévski construiu seu kremlin literário. Suas obras mais conhecidas são “Crime e Castigo” (Martin Claret), “O Jogador” (Martin Claret), “O Idiota” (Martin Claret), “Os Irmãos Karamazov” (Editora 34) e “Memórias do Subsolo” (Editora 34). Direto da Rússia, esta coluna miliádica dá um nó tático na língua portuguesa e retorna ao estado do Rio de Janeiro sem pisar em terras ou gramados fluminenses. Isso porque José Lins do Rego, que completa 23 miliádios de morte no dia 1º, foi secretário-geral do Flamengo. O escritor regionalista de “Menino de Engenho” (José Olympio), “Doidinho” (José Olympio) e “Fogo Morto” (José Olympio) também foi cronista esportivo no Jornal dos Sports. Os frutos de seu amor incondicional foram colhidos e compilados postumamente em “Flamengo é Puro Amor: 111 Crônicas Esportivas” (José Olympio). Outro escritor que tem no futebol uma paixão é José Trajano, que faz 27 miliversários no dia 22. O jornalista é fanático torcedor do América-RJ, e incorpora seu saudosismo carioca nos livros “Os Beneditinos” (Alfaguara), “Procurando Mônica” (Paralela) e “Tijucamérica” (Paralela). Ainda no campo das preferências nacionais, inescrupulosa estratégia desta coluna pra garantir audiência, vamos falar sobre sexo. E. L. James, autora da trilogia “50 Tons de Cinza” (Intrínseca), comemora 21 miliversários no dia 3. Na coleção, o livro supracitado, “50 Tons mais Escuros” (Intrínseca) e “50 Tons de Liberdade” (Intrínseca) trazem erotismo, sedução, sadomasoquismo e um tiquinho de sacanagem. Temas recorrentes para E. L. James que, com certeza, terá uma festa muito animada. E nesse clima de luxúria termina estes maravilhosos Miliádios Literários de setembro, uma exclusividade do Bonas Histórias. Mês da primavera, da fecundação do novo e do desabrochar de estames e estigmas. Polenizemos, pois! Em memória de... ... Herbert Helder, de “Os Passos em Volta” (Tinta da China), cujo falecimento completa 2 miliádios no dia 09. ... Voltaire, pensador iluminista e autor de “Cândido” (L&PM Pocket), que faria 119 miliádios no dia 13. ... José Cardoso Pires, autor de “Jogos de Azar” (Bertrand Brasil), que faz 8 miliádios de falecimento no dia 20. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: outubro/2020
Ó mar salgado. Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal... O mar inspira a humanidade há séculos! Ele desafia e acalanta, une terras distantes e pode ser benção ou maldição ao sabor de seu humor. Seu trabalho incansável sob a batuta da lua é música pros ouvidos. Um dos grandes amantes do mar foi Jorge Amado. O baiano, autor de “Mar Morto”, “Capitães de Areia”, “A Estrada do Mar”, “Gabriela, Cravo e Canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, todos pela Companhia das Letras, aventurou-se pelo romance, pela poesia, pelo teatro e, claro, pelo mar. Quando tinha, aproximadamente, 14 miliádios de vida, escreveu “O Mundo da Paz” (Vitoria), livro no qual relata sua viagem por vários países da União Soviética. Aos 30 mil dias de vida, ganhou o Prêmio Camões. Seu falecimento completa 7 miliádios no dia 5. Quem também ganhou o Prêmio Camões foi Raduan Nassar. Ele conseguiu tal proeza com apenas 3 livros lançados: “Lavoura Arcaica”, “Um Copo de Cólera” e “Menina a Caminho”, todos pela Companhia das Letras. Um verdadeiro show de eficiência! Isso sem contar 2 Jabutis e 1 APCA, com a invejável média de 1,33 prêmio para cada livro publicado. Ele completa 31 miliádios no dia 11. Raduan é vencedor! Raduan é guardador de prêmios. Assim como nós. Esta coluna do Bonas Histórias é uma guardadora de miliádios. Os miliádios são os meus guias. Afinal, o caminho da disrupção é incerto, não está escrito nas estrelas. O que nos lembra de Sidney Sheldon, cuja morte completa 5 miliádios no dia 8. O autor de “O Outro Lado da Meia-Noite”, “A Outra Face”, “Escrito nas Estrelas”, “Manhã, Tarde & Noite” e “Se Houver Amanhã”, todos pela Record, foi traduzido para 51 idiomas, o que lhe rendeu entrar no Guiness Book, e vendeu 300 milhões de exemplares. Exemplar mesmo foi a educação de Philip Roth. Criado com muita disciplina pela presente mãe, acabou usando seus primeiros miliádios de vida como inspiração para sua obra, que retrata bem o universo judaico-norte-americano. O autor de “O Complexo de Portnoy”, “Pastoral Americana” e “Complô contra a América”, todos pela Companhia das Letras, ganhou o Prêmio Pulitzer aos 23 mil dias de vida e completaria 32 no dia 28. Ao falecer, Roth era um dos mais cotados para o Nobel de Literatura. Azar do Prêmio. A vida pode ser injusta e irônica. Mas o que é a vida? A pergunta eternizada por Antônio Abujamra, cujo falecimento faz 2 miliádios no dia 18, merece uma resposta àltura. Respondemos, então, que a vida é breve. Breve o dia, breve o miliádio, breve tudo. Quanto sentimentalismo nesta coluna miliádica! O que nos remete a Nicholas Sparks. O autor de “Diário de uma Paixão”, “Uma carta de Amor”, “Querido John” e “Um Amor para Recordar”, todos pela Editora Arqueiro, faz 20 miliádios no dia 3. Que efeméride mais bela! Sparks não ganhou nenhum prêmio de alto reconhecimento literário, mas tem uma fortuna estimada em 30 milhões de dólares. Quem fugiu à vida indexada ao vil metal foi Jack Kerouac, que faria 36 miliádios no dia 3. O autor de “On the Road: Pé na Estrada”, “Os Subterrâneos”, “Os Vagabundos Iluminados” e “Big Sur”, todos pela L&PM Editores, fez parte da Geração Beat, famosa pela vida nômade, drogas lisérgicas e crítica ao materialismo burguês. Eles almejavam a elevação da consciência e o contato com o metafísico. Já para esta coluna, não há mais metafísica no mundo senão miliádios. Se o leitor astuto for, deve ter sacado o homenageado que agora terá vez, o último do mês. Fizemos quatro referências a ele! Se preferir, volte pro início e leia novamente. Se não, seguimos. O autor homenageado é o maior poeta da língua portuguesa! Fernando Pessoa e seus heterônimos Alberto Caiero, Álvaro de Campos e Ricardo Reis escreveram, respectivamente, “Livro do Desassossego” (Mimética), “O Guardador de Rebanhos” (Centaur), “Tabacaria” (Língua Geral) e “Poemas Completos de Ricardo Reis” (Nostrum Editora). Outra obra sua inesquecível é “Mensagem” (L&PM Pocket). A morte de Pessoa, de tantos livros e heterônimos, completa 31 miliádios no dia 14. E ficamos por aqui, nesta que foi uma coluna Miliádios Literários muito acima da média, cheia de prêmios, livros vendidos e Fernando Pessoa. Mês que vem tem mais no Bonas Histórias. Até! Parabéns pelo miliversário... ... Academia Brasileira de Letras, que completa 45 miliádios no dia 3. ... Sophie Hannah, de “A Outra Casa” (Rocco Digital), cujo nascimento faz 18 miliádios no dia 8. ... Julian Fellowes, autor de “Belgravia” (Intrínseca), que completa 26 miliádios no dia 23. Em memória de... ... Günter Grass, autor de “O Tambor” (Nova Fronteira), cuja morte completa 2 miliádios no dia 3. ... Aleksandr Kuprin, de “O Inquérito” (Editora 34) e “O Elefante” (Kalinka), cuja morte faz 30 miliádios no dia 13. ... Manuel Bandeira, autor de “Libertinagem” (Global), cuja data de morte faz 19 miliádios no dia 20. ... Vergílio Ferreira, autor de “Aparição” (Bertrand Brasil), cujo falecimento faz 9 miliádios no dia 21. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Caixa de Pássaros - O terror de estreia de Josh Malerman
No final de semana passado, li "Caixa de Pássaros" (Intrínseca), o primeiro livro do roqueiro (e agora escritor) Josh Malerman. Vocalista e compositor da banda norte-americana High Strung, Malerman produziu uma obra aterrorizante em um futuro apocalíptico. Este romance é um thriller de terror com uma pegada de distopia. Em "Caixa de Pássaros", temos uma sociedade que vive com medo. Com temor do que há no céu e do que acontece fora das casas, os poucos sobreviventes do planeta permanecem isolados e reclusos em suas escuras residências. Por isso, as portas ficam sempre trancadas e as janelas são cobertas, impossibilitando a visão do lado de fora. Quem se arriscou a andar pelas ruas e a olhar para o ambiente externo acabou enlouquecendo e cometendo, em seguida, suicídio. O que há no lado de fora é desconhecido daqueles que permanecem vivos e que mantêm a sanidade mental. Este é o mistério que ronda o livro. O que está acontecendo com o planeta?! O que está levando à loucura e à morte das pessoas? Neste cenário apocalíptico, temos Malorie, uma mulher que cuida de duas crianças de quatro anos. Depois de muito tempo isolados, eles precisam fazer uma viagem de barco pelo rio que passa perto de sua residência. A vantagem da moça é que ela treinou muito bem suas crianças, chamadas simplesmente de Garoto e de Menina, durante toda a vida delas. Ou seja, aquela empreitada fora de casa é aguardada há muito tempo pela personagem principal. Durante a jornada pelo ambiente externo, o grupo precisará andar com os olhos vendados. Enquanto Malorie não possui muita prática em se guiar pelos ouvidos, as crianças são mestres nesta técnica/habilidade. Enquanto acompanhamos os preparativos e a viagem pelo rio, também somos arrastados aos acontecimentos de quatro anos atrás que levaram Malorie, até então grávida, a ficar sozinha naquela casa. No começo do livro, ela chega a uma residência comandada por um homem chamado Tom. Lá moram algumas pessoas que dividem as tarefas domésticas e se consolam pelo trágico destino de todos. O que aconteceu com todos os moradores para Malorie, o Garoto e a Menina terem ficado sozinhos? Este é outro grande mistério desta história. O romance de Josh Malerman é uma mistura de "A Dança da Morte" (Suma de Letras) de Stephen King e "Ensaio sobre a Cegueira" (Companhia das Letras) de José Saramago. O lado King de "Caixa de Pássaros" está no clima sombrio de toda a trama. O leitor não sabe o que provoca a loucura das pessoas e o que as leva ao suicídio. Um monstro, um ser extraterrestre, um fantasma, uma maldição ou uma doença são os responsáveis, hein? A princípio não se sabe o que provoca o caos, o que aumenta a tensão das personagens e a curiosidade dos leitores. O aspecto saramaguiano está em descrever uma sociedade na qual a visão se torna um perigo. Apesar da falta de originalidade da história, o livro de Malerman possui uma boa narrativa. A trama é contada simultaneamente em dois momentos do tempo. Em um capítulo estamos com Malorie e suas duas crianças quatro anos depois do colapso da sociedade. No capítulo seguinte, voltamos aos momentos que antecederam a crise. O livro vai evoluindo a partir destes dois pontos distintos do enredo. O legal disso é que nos dois últimos capítulos temos um duplo clímax. Só aí sabemos o que aconteceu na casa durante o parto de Malorie e, em seguida, acabamos descobrindo o objetivo da viagem de barco ao longo do rio. "Caixa de Pássaros" é um bom romance, mas está longe da força das obras de Stephen King e da profundidade dos títulos de José Saramago. A história de Malerman chega a contagiar e suas personagens são interessantes. O livro do músico norte-americano prende a atenção do leitor ao ponto de lermos suas páginas rapidamente. Eu, por exemplo, devorei esta obra em apenas dois dias (é verdade que as viagens de trem de ida e volta para o Grajaú ajudaram bastante, não é Fabrícia?). O principal ponto negativo de "Caixa de Pássaros" é o seu desfecho. Ele é conclusivo, porém pouco explicativo. Acabamos não sabendo exatamente o que levou a precipitação dos fatos e o que levou as pessoas ao estado de loucura quando olham para o céu. Esta talvez seja a grande frustração do leitor. Depois de levar a tensão até o final, o autor termina sem explicar o grande mistério que baseou toda a sua obra. Sabemos o destino de Malorie e de suas crianças, mas não compreendemos em sua totalidade o enredo da história. Afinal, o que é que destruiu a sociedade? O responsável foi um monstro, um ser extraterrestre, um fantasma, uma maldição ou uma doença? Fechamos a última página do livro sem esta resposta. Apesar do final frustrante, "Caixa de Pássaros" é um livro de leitura gostosa. Ele não deixa ninguém arrepiado de medo nem possui cenas tão aterrorizantes assim, mas ele consegue prender a atenção de quem o lê pelo mistério criado e pela tensão dos conflitos entre as personagens. Em suma, gostei. Como obra de entretenimento, vale a pena. Só não espere grandes revelações no encerramento do romance, uma história com profundidade filosófica ou uma trama extremamente original. Na certa, este livro de Josh Malerman não estará entre as dez melhores publicações que vou ler em 2015 – devidamente registradas na coluna Recomendações. Ao menos é essa a minha esperança! Bom ano e boas leituras para todos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn. #JoshMalerman #Romance #LiteraturaContemporânea #LiteraturaNorteAmericana #Suspense #Terror
- Músicas: Amália Rodrigues - O centenário de nascimento da fadista portuguesa
De manhã, que medo, que me achasses cafona. Acordei, tremendo, deitado na lona. Mas logo os meus ouvidos disseram que não. E o som penetrou no meu coração. A voz forte e saudosa de Amália Rodrigues ecoou na minha recordação. E não se engane, caro leitor do Bonas Histórias, com certas aparências italianas. Entre o primeiro nome e o último sobrenome, tenho marcas lusitanas. Amália sempre foi presença constante em minha tenra infância. De festança aqui e de festança acolá, ela nunca abandonou as famílias portuguesas. As canções da Rainha do Fado embalaram os momentos alegres e as grandes celebrações dos Teixeira do lado de cá. Podes sorrir, podes mentir, podes chorar também. De quem eu ouvia na meninice, até as paredes confesso: Amália Rodrigues, Amália Rodrigues e Amália Rodrigues. Lisboa, sei que não és francesa, mas é sim um pouco brasileira. Com toda a certeza vai ser feliz ao abraçar seus parentes do além-mar. Lisboa, não sejas francesa. Tu és portuguesa, tu és brasileira. Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa. E se à patuscada alegremente um parente chega, ouve-se a música da senhora Rodrigues. Fica bem essa cantoria, fica até bem tarde. Que o povo nunca a esqueça, principalmente agora em que se completa cem anos de seu nascimento. Comadre, ai minha comadre, eu gosto mesmo é dessa cantora. Comadre, ai minha comadre, eu gosto mesmo é dessa cantora. É talentosa, apresenta-se bem e parece que tem a voz perfeita. É talentosa, apresenta-se bem e parece que tem a voz perfeita. Nem quando ela denunciava que a Rosa arredondava a saia... quando revelava que se juntavam os dois na esquina a tocar a concertina, a dançar o solidó... quando informava que Lisboa cheirava a rosa de florir na tapada... quando tinha medo de que eu a achasse tão feia de manhã... quando fofocava que a cigana mais linda da caravana não tinha coração... ou quando contava a todos o que encontrava na casa da Mariquinha... nem assim deixei de admirá-la. Que Deus me perdoe, se é crime ou pecado, mas meu coração é assim, de Amália Rodrigues. E fugindo ao fado, fugiria de mim, das minhas raízes. Cantando dou brado e nada me dói. Se é, pois, pecado ter amor ao fado e obsessão à maior fadista, que Deus me perdoe. Se tem o som de Amália Rodrigues, é porque é uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa. Hoje, para aplacar um pouco das saudades dos velhos tempos de festanças animadas e dançantes (quando reunir a parentada não era um ato contra a civilidade e um perigo iminente à saúde pública), carrego em minha playlist alguns dos principais sucessos da querida fadista portuguesa. Enquanto ouço a versão moderna da vitrola chorar, tenho a companhia de uma francesinha, de umas fatias do bolo do caco e de apetitosos pastéis de nata. E, claro, de uma taça do velho Porto à mão. Para quem me pergunta quais são as minhas dez músicas preferidas de Amália Rodrigues, minha resposta está na ponta da língua. A minha lista respeita a seguinte ordem: “Tiro Liro Liro”, “Ó Rosa Arredonda a Saia”, “Lisboa Não Sejas Francesa”, “Uma Casa Portuguesa”, “Cheira a Lisboa”, “Barco Negro”, “Nem As Paredes Confesso”, “Lisboa Antiga”, “Casa da Mariquinhas” e “Que Deus Me Perdoe”. Confira, a seguir, algumas dessas canções inesquecíveis. Falecida em outubro de 1999, em Lisboa, sua cidade natal, Amália Rodrigues completaria em 2020 seu (primeiro) centenário. Este post da coluna Músicas é uma singela homenagem a cantora que se tornou ícone nacional e que tem sua voz ouvida até hoje em cada cantinho lusófono do planeta. Ao menos nos lares da minha família, principalmente nas festas, a principal fadista portuguesa de todos os tempos não se calou. Há até quem duvide que ela tenha morrido. Amália Rodrigues morreu?! Impossível!!! Isso é uma daquelas lendas musicais que costumam ser contadas por aí (e que o povão ingênuo acredita). Ela deve estar vivinha da Silva, cantando ao lado do Elvis Presley e do Raul Seixas em algum grande show. Cheia de encanto e beleza, sempre a sorrir tão formosa. E no cantar sempre redentora, o veludo da voz da saudade cobre o meu ouvido, magnânima cantora. A música portuguesa agradece. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: Drama de Angélica – O sucesso tétrico de Alvarenga e M. G. Barreto
Responda rapidamente: qual é a música brasileira que termina todos os seus versos em proparoxítona? E qual compositor ficou famoso por inserir o humor escrachado e a linguagem coloquial em suas canções? Se suas respostas foram, respectivamente, “Construção”, célebre criação de Chico Buarque, e Adoniran Barbosa, imortalizado na voz dos Demônios da Garoa, saiba que você foi pelo caminho mais fácil ou pecou pelo esquecimento. A primeira hipótese é até aceitável, mas a segunda não. Se há algo imperdoável, ao menos aqui no Bonas Histórias, é a falta de memória cultural. Há exatos 70 anos, Alvarenga & Ranchinho, uma popular dupla sertaneja criada em 1929, lançava “Drama de Angélica”. Aposto que você não se lembrou desta importante canção na hora de responder a minha pergunta, né? Considerada por muitos especialistas e críticos musicais como uma das mais notáveis criações da nossa história, esta composição é fruto de uma parceria entre Murilo Alvarenga e G. M. Barreto. “Drama de Angélica” inovou ao inserir alguns elementos até então pouco usuais nas canções populares. Por isso, ela é vista até hoje como uma das mais engenhosas e criativas criações sertanejas de todos os tempos. Alvarenga & Ranchinho é a dupla sertaneja formada por Murilo Alvarenga, mineiro nascido em maio de 1911, e Diésis dos Anjos Gaia, paulista nascido um ano mais tarde. Os dois permaneceram juntos até 1965, quando Diésis abandonou a parceria. Ele estava incomodado com o acentuado declínio na carreira da dupla. Naquele momento, eles não conseguiam mais emplacar grandes sucessos nem eram tocados nas principais rádios do país. Suas apresentações aconteciam exclusivamente em pequenas cidades do interior. A partir da saída de Diésis, Alvarenga & Ranchinho continuou existindo. Outros músicos (primeiro com Delamare de Abreu, irmão de Alvarenga, e depois com Homero de Souza Campos) passaram a exercer o papel de Ranchinho. Somente com a morte de Alvarenga em 1978, a dupla se encerrou definitivamente. A popularidade de Alvarenga & Ranchinho vinha desde a década de 1930. A dupla interpretava caipiras matreiros do interior e narravam, em suas canções, a realidade e o universo do Brasil rural com muito bom humor. As especialidades deles eram as modas de viola, os desafios e as sátiras. O divertimento da plateia era garantido. Esse estilo permaneceria intacto até a década de 1970, apesar do declínio na popularidade e nos shows. Alvarenga e Ranchinho são também pioneiros por serem a primeira dupla sertaneja do país e por serem os primeiros músicos a estrelarem um filme no cinema. Nada mal, hein?! Em 1949, Murilo Alvarenga compôs ao lado de M.G. Barreto “Drama de Angélica”, o que seria um dos maiores sucessos de Alvarenga & Ranchinho. A música está dividida em três atos. No primeiro, o narrador/eu-lírico explica o tipo de composição que fará e apresenta Angélica, a amada protagonista que sofre de anemia. No segundo ato, Angélica fica doente e, assim, é levada primeiramente ao médico e, na sequência, ao farmacêutico. A última visita se torna desastrosa por causa das trapalhadas do farmacêutico. Por fim, no terceiro ato, assistimos à dolorida morte da protagonista e suas consequências mais imediatas para aqueles que permaneceram vivos. Veja, a seguir, a letra completa desta canção: Drama de Angélica (1949) - Murilo Alvarenga e M.G. Barreto Ouve meu cântico quase sem ritmo Que a voz de um tísico magro esquelético Poesia épica em forma esdrúxula Feita sem métrica com rima rápida Amei Angélica mulher anêmica De cores pálidas e gestos tímidos Era maligna e tinha ímpetos De fazer cócegas no meu esôfago Em noite frígida fomos ao Lírico Ouvir o músico pianista célebre Soprava o zéfiro ventinho úmido Então Angélica ficou asmática Fomos ao médico de muita clínica Com muita prática e preço módico Depois do inquérito descobre o clínico O mal atávico mal sifilítico Mandou-me célere comprar noz vômica E ácido cítrico para o seu fígado O farmacêutico mocinho estúpido Errou na fórmula fez despropósito Não tendo escrúpulo deu-me sem rótulo Ácido fênico e ácido prússico Corri mui lépido mais de um quilômetro Num bonde elétrico de força múltipla O dia cálido deixou-me tépido Achei Angélica já toda trêmula A terapêutica dose alopática Lhe dei em xícara de ferro ágate Tomou num folego triste e bucólica Esta estrambólica droga fatídica Caiu no esôfago deixou-a lívida Dando-lhe cólica e morte trágica O pai de Angélica chefe do tráfego Homem carnívoro ficou perplexo Por ser estrábico usava óculos Um vidro côncavo o outro convexo Morreu Angélica de um modo lúgubre Moléstia crônica levou-a ao túmulo Foi feita a autópsia todos os médicos Foram unânimes no diagnóstico Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico Todo de mármore da cor do ébano E sobre o túmulo uma estatística Coisa metódica como Os Lusíadas E numa lápide paralelepípedo Pus esse dístico terno e simbólico "Cá jaz Angélica Moça hiperbólica Beleza Helênica Morreu de cólica!" Ouça, a seguir, uma interpretação histórica de “Drama de Angélica” na voz de Alvarenga & Ranchinho. Esse vídeo é de um programa especial de televisão de 1973 sobre a carreira da dupla: Repare que todos os versos do “Drama de Angélica”, canção composta 20 anos antes de “Construção”, terminam em proparoxítona. Curiosamente, uma ou outra palavra (maligna, perplexo e ritmo) nem são proparoxítonas de fato, mas na dinâmica da oralidade do matuto da zona rural elas viram. Algo que não acontece na composição de Chico Buarque, em que todas as proparoxítonas têm de fato a antepenúltima sílaba tônica. Outro aspecto que chama a atenção em “Drama de Angélica” é a harmonia na sua estrutura poética. São 12 conjuntos de textos e cada um deles tem oito versos. Além disso, a maneira descritiva da apresentação da narrativa é sublime. A história vai se desdobrando com tanta naturalidade que até parece fácil compor uma música. Entretanto, não acredite nessa facilidade toda. O que temos aqui é um magnífico drama com tons épicos que deve ter dado um trabalho danado para ser produzido. “Drama de Angélica” é uma das músicas mais tristes da nossa cultura popular. Talvez ela rivalize com “Iracema”, canção de Adoniran Barbosa composta sete anos mais tarde, no posto de ícone tétrico. Curiosamente, tanto a criação de Murilo Alvarenga e M. B. Barreto quanto a de Adoniran Barbosa possuem alguns elementos engraçadinhos (de evidente humor negro). Se a imperícia ao atravessar a rua levou a morte da protagonista da canção dos Demônios da Garoa, um erro farmacêutico foi o responsável por decretar o falecimento da protagonista da música de Alvarenga & Ranchinho. Triste, muito triste! Outra canção super popular criada por Alvarenga & Ranchinho é “Êh São Paulo”. Sim, aquela dos versos pegajosos de “Êh, êh, êh São Paulo/Êh São Paulo/São Paulo da garoa/São Paulo que terra boa”. Porém, isso é uma história para outro post da coluna Músicas do Bonas Histórias. 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- Músicas: All I Want For Christmas Is You – A canção natalina de Mariah Carey
Esta história até parece um conto de Natal. Porém, ela aconteceu de verdade nas últimas semanas. Uma música lançada há 25 anos por uma cantora que já viveu seus dias de glória alcançou o posto de número 1 das mais tocadas, em dezembro, nos Estados Unidos. Tal proeza foi conquistada por “All I Want for Christmas Is You”, single natalino de Mariah Carey. Achei tão interessante esta história que optei por relatá-la exatamente hoje, no dia de Natal, na coluna Músicas. Este post do Bonas Histórias é, assim sendo, uma mensagem de Feliz Natal que o blog deseja para seus leitores. Quem acompanhou a cena musical pop na década de 1990 se lembrará, na certa, de Mariah Carey. “Without You” (minha favorita!), “I'll Be There”, “Heartbreaker”, “Against All Odds”, “Fantasy”, “Always Be My Baby”, “Vision Of Love” e “Love Takes Time” embalaram muitos romances da época. Cantora mundialmente conhecida por suas baladas românticas, Mariah Carey beirou o ostracismo com a chegada dos anos 2000. Grande parte de sua queda profissional foi motivada por escolhas empresariais e artísticas erradas e, principalmente, por muitas confusões em sua vida pessoal. É verdade que ela tentou várias vezes retomar o esplendor de sua carreira, mas jamais conseguiu voltar ao primeiro plano das divas da música pop norte-americana. Curiosamente, agora Carey alcançou novamente o topo da parada musical. E isso aconteceu, acredite se quiser, com uma canção antiga. Lançado em 1º de novembro de 1994, “All I Want for Christmas Is You” integrou o álbum “Merry Christmas”, disco de Mariah Carey apenas com músicas natalinas. O sucesso foi retumbante. O LP vendeu mais de 15 milhões de cópias no mundo inteiro. “All I Want for Christmas Is You” era a principal faixa do disco e é considerado, desde então, um clássico contemporâneo das canções natalinas. Contudo, somente agora a música chegou ao primeiro lugar das paradas, desbancando singles e cantores atuais, como “Circles”, de Post Malone, “Someone You Loved”, de Lewis Capaldi, “Good As Hell”, de Lizzo e “Memories”, de Maroon 5. Veja, a seguir, a letra de “All I Want for Christmas Is You”. All I Want for Christmas Is You (1994): Mariah Carey e Walter N. Afanasieff I don't want a lot for Christmas There is just one thing I need I don't care about the presents Underneath the Christmas tree I just want you for my own More than you could ever know Make my wish come true oh All I want for Christmas is you I don't want a lot for Christmas There is just one thing I need, and I Don't care about the presents Underneath the Christmas tree I don't need to hang my stocking There upon the fireplace Santa Claus won't make me happy With a toy on Christmas day I just want you for my own More than you could ever know Make my wish come true All I want for Christmas is you I won't ask for much this Christmas I won't even wish for snow, and I I just wanna keep on waiting Underneath the mistletoe I won't make a list and send it To the North Pole for Saint Nick I won't even stay awake To hear those magic reindeer click 'Cause I just want you here tonight Holding on to me so tight What more can I do Oh, Baby all I want for Christmas is you All the lights are shining So brightly everywhere And the sound of children's Laughter fills the air And everyone is singing I hear those sleigh bells ringing Santa won't you bring me The one I really need Won't you please bring my baby to me quickly I don't want a lot for Christmas This is all I'm asking for I just wanna see my baby Standing right outside my door I just want you for my own More than you could ever know Make my wish come true Baby all I want for Christmas is you All I want for Christmas is you, baby Assista, abaixo, ao seu videoclipe original desta música de Mariah Carey: Com a chegada de “All I Want for Christmas Is You” ao primeiro lugar das paradas norte-americanas, Mariah Carey alcança a formidável marca de 19 singles no topo da lista da Billboard Hot 100. Trata-se de um recorde para um(a) cantor(a) solo. Agora, Carey está a uma música de igualar o recorde absoluto dos Beatles, que possuem 20 músicas na liderança do ranking. Incrível! Terá Mariah Carey fôlego e competência para atingir essa marca?! A resposta para tal questionamento só virá com o tempo. Aguardemos, então. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Música #MúsicaNatalina #MúsicaInternacional #MariahCarey
- Músicas: Clara Crocodilo - 40 anos da criação de Arrigo Barnabé
Em 1980, Arrigo Barnabé lançava o álbum “Clara Crocodilo”. Produzido de forma independente, seu disco de estreia alcançou sucesso instantâneo entre a crítica musical. O músico e compositor nascido em Londrina, no Paraná, despontou, assim, como uma das figuras mais criativas da Música Popular Brasileira. Além de misturarem elementos de vários gêneros e estilos diferentes, entre eles aspectos da música clássica e das canções populares, as criações de Barnabé incluíam doses de poesia concreta, narrações dramáticas, linguagem das histórias em quadrinhos, muitas onomatopeias e locuções radiofónicas e cinematográficas. Essa mistureba ousada conferia um ar extremamente distópico a suas canções. Para muitos, Barnabé trouxe as maiores inovações do cenário fonográfico brasileiro desde a Tropicália. De tão original, o trabalho de Arrigo Barnabé é até mesmo difícil de ser classificado. Há quem o insira no movimento da Vanguarda Paulista, que vigorou com mais intensidade entre o finalzinho da década de 1970 e a primeira metade dos anos 1980 e que teve nomes como Itamar Assumpção, Ná Ozetti, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Tetê Espíndola e o grupo Língua de Trapo. Há quem prefira comparar Barnabé ao Dodecafonismo, estilo criado há um século pelo austríaco Arnold Schoenberg e que teve maior repercussão em nosso país dentro da música clássica (Arrigo seria uma exceção ao usá-lo na música popular). Diante de tantas possibilidades conceituais, o músico paranaense sempre recusou qualquer tipo de rótulo. Com uma proposta tão diferenciada, não é surpresa nenhuma que Barnabé nunca tenha alcançado grande sucesso comercial entre o público ouvinte. Ao invés de chegar às massas, seus trabalhos sempre ocuparam um nicho de mercado formado por uma galerinha cult localizada principalmente na cidade de São Paulo. Em quarenta anos de carreira profissional, Arrigo Barnabé lançou uma dezena de álbuns. Os seus discos mais influentes foram justamente os dois primeiros: “Clara Crocodilo” e “Tubarões Voadores”, de 1984. O álbum de estreia foi eleito pela Revista Rolling Stones, em 2007, como o 51º mais importante da música brasileira. A principal faixa de “Clara Crocodilo” é a sétima, justamente a música que dá nome ao álbum. A canção “Clara Crocodilo” é, até hoje, a mais famosa criação de Arrigo. Ela foi composta em parceria com Mário Lúcio Côrtes, músico que foi amigo de infância de Barnabé. Enquanto Arrigo ficou responsável pela letra, a melodia foi produzida em conjunto pelos dois compositores. Com mais de sete minutos de duração, a música é ousada até em sua extensão. No início da década de 1980, as canções raramente ultrapassavam os três minutos de duração. “Clara Crocodilo” foi eleita pela Revista Bravo, em 2006, como uma das 100 canções mais relevantes da história musical brasileira. Veja, a seguir, a letra de “Clara Crocodilo” e, logo depois, ouça sua execução original. Clara Crocodilo (1980) - Arrigo Barnabé e Mário Lúcio Côrtes: São Paulo, 31 de dezembro de 1999 Falta pouco, pouco, muito pouco mesmo para o ano 2000 E você, ouvinte incauto, que no aconchego de seu lar, Rodeado de seus familiares, Desafortunadamente colocou este disco na vitrola, Você que, agora, Aguarda ansiosamente o espocar da champanha e o retinir das taças, Você, inimigo mortal da angústia e do desespero, Esteja preparado... O pesadelo começou! Sim, eu sei, Você vai dizer que é sua imaginação, Que você andou lendo muito gibi ultimamente, Mas então por que suas mãos tremeram, Tremeram, tremeram tanto, Quando você acendeu aquele cigarro... E por que você ficou tão pálido de repente? Será tudo isto fruto da sua imaginação? Não, meu amigo, Vá ao banheiro agora, Antes que seja tarde demais, Porque neste mero disco que você comprou num sebo, Esteve aprisionado por mais de 20 anos, O perigoso marginal, O delinqüente, O facínora, O inimigo público número 1, Clara Crocodilo... Quem cala consente, Eu não calo Não vou morrer nas mãos do tira Quem cala consente, Eu desacato Não vou morrer nas mãos do rato Nanananão, Não vou morrer, Nanananão Você tem que falar disso para mim Eu morrer não. Não vou ficar mais neste inferno Nem vou parar num cemitério Metralhadora não me atinge Não vou ficar mais neste ringue Ei, você que está me ouvindo, Você acha que vai conseguir me agarrar? Pois então, tome... Já vi que você é perseverante. Vamos ver Se você segura esta... Meninas, Vocês acham que eles querem mais? Querem sim! Você, que então é tão espertinho, Vamos ver se você consegue me seguir neste labirinto. Clara Crocodilo fugiu Clara Crocodilo escapuliu Vê se tem vergonha na cara E ajuda Clara, Seu canalha Olha o holofote no olho, Sorte, Você não passa de um repolho Onde andará Clara Crocodilo? Onde andará? Será que ela está Roubando algum supermercado? Será que ela está Assaltando algum banco? Será que ela está Atrás da porta de seu quarto, Aguardando o momento oportuno Para assassiná-lo com os seus entes queridos? Ou será que ela está Adormecida em sua mente esperando A ocasião propícia para despertar e descer Até seu coração... Ouvinte meu, meu Irmão? Se hoje “Clara Crocodilo” já é uma canção ousada, imagine, então, há quarenta anos a repercussão da sua cacofonia e de seus versos aparentemente caóticos. Incrível! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. 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- Músicas - Psiu, Psiu - O sucesso da Companhia do Pagode
Acho curiosas as críticas quanto à qualidade da música brasileira atual. Os mais exigentes afirmam que agora chegamos, enfim, ao fundo do poço. Outros dizem que o mercado fonográfico nacional dissemina apenas canções populares e de baixíssimo nível intelectual e artístico. Há quem condene os hits da moda, o sertanejo universitário e o funk, como se eles fossem os maiores vilões de nossa cambaleante nação. Será que é para tanto?! Olhando em retrospectiva, o Brasil sempre teve músicas populares no topo do ranking das mais tocadas (do contrário, não seriam músicas populares, certo?). Qual a surpresa dessa constatação, então? Acho esse fato perfeitamente normal quando olhamos a estrutura de nossa sociedade, formada majoritariamente por gente simples e de pouca instrução. Ou alguém, diante do nosso cenário histórico-social, imagine a Música Clássica, o Jazz e a Bossa Nova, por exemplo, sendo cantadas pelo povão nas ruas e/ou tocadas à exaustão pelas rádios comerciais do Oiapoque ao Chuí?! Difícil crer em algo assim, né? Depois do Rock ter liderado as paradas de sucesso na década de 1980, o que veio depois? Pagode, Axé Music, Lambada, Sertanejo, Sertanejo Universitário, Funk... E não há nada de errado nisso, Santo Deus! Ao invés de ficar reclamando, por que não cair de cara em um ritmo alegre e contagiante que consegue mobilizar multidões, hein? Sou da visão que a cultura genuinamente popular é uma das maiores riquezas brasileiras. Ela é comumente original, criativa, plural, espontânea, impactante e fruto de nossas raízes culturais. Em alguns casos, enquanto muitos compatriotas torcem os narizes, músicos brasileiros de gêneros populares (lembro de Michel Teló, Anitta, Terra Samba...) são aplaudidos no exterior como artistas de primeiro nível. Coisas de Brasilsilsil! Estou falando desse preconceito musical no post de hoje da coluna Músicas, do Bonas Histórias, porque há 23 anos o sucesso que contagiava nosso país era “Psiu, Psiu”, um dos inúmeros sucessos da Companhia do Pagode. Quem tem hoje mais de 30 anos na certa cantou e dançou muito os hits do grupo baiano, um dos pioneiros do Axé Music. Só para citar uma música clássica da banda, relembro “Na Boquinha da Garrafa”, número 1 da parada musical na primeira metade da década de 1990. A Companhia do Pagode foi fundada, em 1992, em Salvador, por Edney, Kiko, Zé Luis, Ely, Lobo Mau, Negão e Sérgio Rocha. O sucesso, contudo, demorou mais três anos e aconteceu após a chegada, em 1995, de Diumbanda, apelido de Zacarias Higino Jesus Filho, que saíra (de maneira um tanto tumultuada) do Gera Samba (que alguns anos mais tarde passaria a se chamar É o Tchan). Foi justamente quando integrava o Gera Samba que Diumbanda compôs seu maior sucesso, “Na Boquinha da Garrafa”. Curiosamente, o músico baiano era policial militar em Salvador antes da fama e voltou à sua antiga profissão nos anos 2000, quando o sucesso esmoreceu. Há inclusive uma reportagem incrível do Jornal Nacional, de setembro de 2009, que o (re)descobriu, sem querer, policiando as ruas da capital baiana na véspera de um jogo entre Brasil e Chile pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010. Como toda banda de Axé que se preze, a Companhia do Pagode tinha dançarinos que sempre acompanhavam os intérpretes e os músicos. A formação clássica do grupo tinha a presença dançante de Sara Verônica e Tom. Vale a pena dizer que a adoção de um casal de dançarinos foi uma inovação que a banda trouxe. Até então, apenas mulheres integravam essa parte da equipe. “Psiu, Psiu” integrou o álbum de 1997, o terceiro do grupo, sendo sua faixa principal. Chamado de “Companhia do Pagode Ao Vivo”, o LP foi um dos maiores sucessos daquele ano ao mesclar canções inéditas (“A Bicicletinha”, “Melô do Ti Ca Tás”, “A Dança do Cachorrinho”, “Tremelica”, “Thui-Thui”, “Cocorocó” e “Requebra”) com pot-pourri de sucessos antigos (“A Dança do Robô”, “Na Boquinha da Garrafa”, “Terra Samba Faz Bem”, “Sanduíche”, “Na Dança do Strip-Tease”, “Ondinha”, “Quando Eu Vou Pro Samba”, entre outras). Poucos meses antes do lançamento de “Companhia do Pagode Ao Vivo”, houve uma grande mudança nos músicos da banda. Como acontece atualmente com os times de futebol, os grupos de Axé apresentavam na década de 1990 grande rotatividade de cantores e dançarinos de um ano para outro. O entra e sai foi uma constância da Companhia até 2003, quando o grupo terminou definitivamente. Para se ter uma ideia, uma das últimas cantoras da banda foi Cláudia Leite, no comecinho de carreira. Em 1997, chegou Negão Jamaica, irmão de Beto Jamaica. O novato assumiu o vocal ao lado de Sérgio Rocha. A dupla de dançarinos se manteve. “Psiu, Psiu” foi composta por Edybinho e Tonho Matéria e segue o padrão clássicos das músicas de Axé: batida forte de tambor, ritmo dançante, letra simples, versos repetidos até a exaustão (para a memorização instantânea), temática de flerte/assédio masculino a uma mulher bonita (muitas vezes, de forma agressiva e até machista) e bastante sensualidade (com letra de duplo sentido ou mesmo de sentido sexual direto). Veja, a seguir, a letra de “Psiu, Psiu”: Psiu, Psiu (1997) - Edybinho e Tonho Matéria Psiu, psiu Coisinha linda do bumbum empinadinho Psiu, psiu Coisinha linda do bumbum empinadinho Psiu, psiu Coisinha linda do bumbum empinadinho Psiu, psiu Coisinha linda do bumbum empinadinho Diga pra mim qual seu nome Eu quero ser, quero ser seu homem Diga pra mim qual seu nome Eu quero ser, quero ser seu homem Sua saia rodada, sua blusa azul, sua pele morena, bronzeada do sol Traduzem a sensualidade reluz em meu ser Você cheira a pecado e desta fruta, quero comer Psiu, psiu, psiu, psiu, psiu! Em 1999, a Companhia do Pagode aproveitou-se de seu último grande sucesso, justamente “Psiu, Psiu”, para relançar este hit. A música emprestou seu nome para o título do álbum daquele ano, o quinto da banda. Se a formação dos músicos se manteve, com Sérgio Rocha e Negão Jamaica à frente da trupe, a dupla anterior de dançarinos foi substituída por um trio exclusivamente feminino: Paulinha, ex-dançarina do Grupo Cafuné, e Leila e Danielle, reveladas no concurso “A Nova Loira do Tchan” (que alçou a vencedora, Sheilla Melo, ao estrelato no É o Tchan/Gera Samba). Assista, a seguir, a uma das interpretações de “Psiu, Psiu”: Analisando criteriosamente, é óbvio que “Psiu, Psiu”, como a maioria das músicas de Axé da década de 1990, não apresentava uma qualidade admirável, digna de elogios ou de inveja. Mas quem está preocupado com isso, cara-pálida? O negócio é cair na empolgação e se divertir (a música é, afinal de contas, diversão!). Não é errado dizer que temos aqui um clássico de seu gênero. E a Companhia do Pagode é um grupo de Axé icônico de nosso país. Viva a sua memória! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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- Filmes: Tenet - A estreia mais esperada do cinema em 2020
Na quarta-feira da semana passada, fui ao cinema para conferir “Tenet” (2020), o filme mais aguardado deste ano. Depois de sucessivos adiamentos por causa da pandemia do novo coronavírus, o mais recente longa-metragem de Christopher Nolan, um dos cineastas mais respeitados da atualidade, finalmente chegou às salas do Brasil e do mundo. Sua estreia aconteceu, em nosso país, no finalzinho de outubro. “Tenet” é, sem dúvida nenhuma, a produção cinematográfica mais badalada de 2020. Com poucos lançamentos capazes de atrair um grande fluxo de espectadores aos cinemas (vários títulos serão exibidos apenas em 2021 e outros tantos optaram por ir diretamente ao streaming), o novo trabalho de Nolan é visto como uma espécie de salvador da lavoura. Em tempos de medo da plateia em frequentar lugares fechados, uma trama que alia qualidade técnica, inovações de ordem cinematográfica e uma narrativa recheada de surpresas pode ajudar a quebrar a resistência do público no retorno às sessões presenciais. Décimo primeiro filme de Christopher Nolan na direção, “Tenet” é a sua produção mais ambiciosa (e cara). Se “Interestelar” (Interstellar: 2014), que liderava até então o ranking de orçamentos do diretor, custou US$ 165 milhões, “Tenet” ultrapassou a casa dos US$ 200 milhões. Em seu novo longa-metragem, Nolan continua abordando um tema central de sua cinegrafia: a relatividade do tempo. Há quase vinte anos, esse foi o mote de “Amnésia” (Memento: 2001), o segundo trabalho do inglês na direção. Aquele filme caminhava de trás para frente, invertendo, assim, a lógica narrativa (e da natureza). Dez anos mais tarde, “A Origem” (Inception: 2010) juntou a questão temporal com as confusões entre a realidade e os sonhos do protagonista. Agora, Christopher Nolan trata, em “Tenet”, da inversão do fluxo temporal – volta ao passado para influenciar o presente e, por consequência, o futuro. Não à toa, o título do longa-metragem é um palíndromo: Tenet pode ser lido igualmente tanto na sequência normal das letras quanto de trás para frente. “Tenet” é estrelado por John David Washington, de “Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman: 2018) e um dos atores mais promissores de Hollywood (ninguém mais se lembra que ele é filho de Denzel Washington), e por Robert Pattinson, alçado ao estrelato na saga “O Crepúsculo” (Twilight: 2008) e cada vez mais requisitado para trabalhos de destaque em Hollywood (ele será o próximo Batman). Completam o elenco deste filme Kenneth Branagh, Elizabeth Debicki, Clémence Poésy, Aaron Taylor-Johnson, Michael Caine e Dimple Kapadia. A produção de “Tenet” teve início em maio de 2019 e terminou em novembro do ano passado. As cenas foram rodadas na Noruega, Dinamarca, Itália, Reino Unido, Estados Unidos, Estônia e Índia. Sua estreia mundial estava prevista para julho deste ano, mas com a pandemia e o fechamento das salas de cinema seu lançamento foi adiado para o final de 2020. Apesar de ter sido cogitada a ideia de não lançar o filme nos cinemas, Christopher Nolan foi terminantemente contra essa proposta. Para ele, seu novo longa-metragem era uma experiência cinematográfica que deveria ser apreciada nas telonas. Interessada em recuperar a fortuna investida no filme, a Warner Bros., o estúdio por trás desta produção, atacou a ordem do diretor sem pestanejar. O enredo de “Tenet” inicia-se em Kiev, a capital da Ucrânia. Um agente secreto da CIA que não tem seu nome revelado em nenhum momento do filme (ele é interpretado por John David Washington) participa de uma ação de contraterrorismo. Após a invasão do teatro ucraniano por criminosos fortemente armados, a equipe da CIA precisa salvar um figurão de seu país que está localizado em um dos camarotes. A operação quase dá certo. O problema é que o agente secreto que protagoniza esta história é capturado pelos inimigos. Para não revelar nenhum segredo de sua corporação aos terroristas, ele toma, antes que comece a sessão de torturas físicas, uma pílula suicida. Uma vez morto, não há como o rapaz abrir a boca. Contudo, ao invés de morrer, o agente acorda em uma cama de hospital. Ele foi salvo por uma organização secreta chamada Tenet. Nem bem abre os olhos, o agora ex-funcionário da CIA recebe uma missão de seus novos amigos/empregadores – ele precisa salvar o mundo da Terceira Guerra Mundial. Para tal, o norte-americano precisa capturar um artefato precioso antes que ele caia nas mãos de Andrei Sator (Kenneth Branagh), um poderoso e cruel empresário russo especializado em tráfico de armas. Nessa missão, o novo agente de Tenet terá a companhia de Neil (Robert Pattinson), um experiente integrante da corporação secreta. Para surpresa do protagonista, a disputa com Sator não se dá pela obtenção de materiais nucleares e sim pela tecnologia que permite a inversão do fluxo temporal. Utilizando-se de segredos obtidos do futuro em relação a entropia (uma propriedade física), Andrei Sator consegue voltar no tempo para reconstruir o presente ao seu bel prazer. É contra um adversário com habilidades inimagináveis que a personagem principal do longa-metragem de Nolan precisará enfrentar. Não é necessário dizer que as descobertas do agente secreto colocarão em xeque a sua compreensão sobre a realidade e sobre as propriedades do universo físico. O único jeito para derrotar o inimigo é embarcar na aventura pela inversão do fluxo temporal e conseguir aliados dentro da família do empresário russo. Com duas horas e meia de duração, “Tenet” é daquele tipo de filme que passa em um piscar de olhos. Como há ação do começo ao fim, o espectador tem a sensação de que o tempo voa durante a sessão (seria esse mais um efeito da inversão no fluxo temporal?). É até difícil de acreditar que ficamos tanto tempo dentro da sala de cinema. Não por acaso, esse é o primeiro ponto positivo do longa-metragem de Nolan: “Tenet” é uma aventura eletrizante que bebe das fontes da ficção científica, das tramas dos agentes secretos e das histórias dos super-heróis. Em outras palavras, esta produção é uma mistura bem-azeitada de “Matrix” (1999), “Missão Impossível” (Mission - Impossible: 1996), “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future: 1985) e “O Exterminador do Futuro” (The Terminator: 1984). Se você preferir, pode incluir a série “007” nesse caldo cinematográfico. E, para completar, essa junção ainda ganha a contribuição de elementos da física moderna. É preciso reconhecer: trata-se de uma receita de primeira! Christopher Nolan é conhecido por abrir mão dos efeitos especiais em seus filmes. Ele prefere a gravação real a inserção de recursos da computação gráfica. Em alguns aspectos, essa sua mania gerou bons frutos em “Tenet” – como as cenas espetaculares da explosão real do Boeing 747. Em outros momentos, o resultado chega a ser bisonho – fazer os atores se movimentarem e falarem de trás para frente, ao invés de usar o recurso de inversão de vídeo, ficou muito estranho! Eu achei um pouco forçado (nota-se a artificialidade dos gestos). É importante dizer que do ponto de vista teórico, não temos em “Tenet” uma viagem no tempo e sim uma inversão no fluxo temporal. Por isso, a necessidade de se explicar o que é esse conceito e o que ele representa de fato para a história do filme e para as personagens da trama. Achei o tom didático de “Tenet” muito adequado. Há a preocupação de detalhar o que representa em termos práticos e teóricos a entropia, por exemplo, mas não se perde muito tempo com os seus pormenores. O importante é ação resultante dessa questão. Se por um lado o filme pode deixar o público um pouco confuso sobre o que está acontecendo em cena, por outro lado o importante aqui não é a compreensão completa dos temas teóricos (entropia, física quântica e efeitos da inversão temporal) e sim as ações do filme. Gostei disso. Mais importante do que entender os conceitos físicos é aproveitar o suspense e as aventuras que esses assuntos nos trazem. A cena inicial de “Tenet” é, desde já, antológica. O espectador é atirado ao centro de um confronto armado sem entender bem o que está acontecendo. Ou seja, o filme já começa tirando o fôlego da plateia. Confesso que me recordei do ótimo início de “Tropa de Elite” (2007), quando vemos uma ação policial, mas não sabemos o que está acontecendo exatamente ali. Ao invés de a ação ser em uma favela carioca como em “Tropa de Elite”, no filme de Nolan, o cenário inicial é um teatro luxuoso de Kiev. Por sua vez, as cenas finais deixam um pouco a desejar. A ideia de colocar o mesmo exército lutando em duas frentes (na ordem lógica do tempo e na ordem inversa) é excelente e conseguiu render ótimas tomadas. Porém, senti falta dos inimigos. A impressão que tive é que os soldados da equipe do protagonista estavam combatendo sozinhos no deserto, sem um inimigo aparente. Repare bem nessa parte final do filme. Pode ter sido uma falha de interpretação minha (o que não é difícil de ocorrer), mas quase não vi nenhum oponente (soldados adversários) em cena. O resultado é um combate ridículo, em que se luta e briga contra ninguém. Gostei tanto do aspecto da ficção científica quanto da aventura policial. Se não consegui entender todos os efeitos físicos por trás da entropia e da inversão do fluxo temporal, ao menos isso não atrapalhou em nada a minha compreensão do enredo do longa-metragem. Esse é o principal elemento de “Tenet”. A partir de uma base conceitual simples, conseguimos acompanhar o desenrolar desta produção de Christopher Nolan sem sobressaltos. Contudo, confesso que fiquei com vontade de assistir mais uma vez ao filme. Sabe quando você quer ter uma segunda chance para juntar as pontas soltas que ficaram aqui e acolá? Essa foi a minha sensação ao término da sessão. Algo que precisa ser destacado é a atuação impecável da dupla John David Washington e Robert Pattinson. Os dois atores mostram porque figuram atualmente no primeiro escalão dos atores de Hollywood quando o assunto é ação. Se pensarmos que Christopher Nolan usou poucos recursos de computação gráfica e efeitos especiais, imagine a dificuldade das cenas protagonizadas por John David Washington! Sim, ele precisou caminhar e falar de trás para frente (dá para entender o quão complexo é isso na prática?!). Outro aspecto negativo de “Tenet” é o velho maniqueísmo advindo da Guerra Fria – os norte-americanos são os heróis (querem salvar o planeta da iminente destruição) e os russos/soviéticos são os vilões (querem matar todos e explodir tudo). Em pleno século XXI, acompanhar uma disputa desse tipo soa extremamente antiquada e despropositada. Em certo ponto, o diretor inglês lembrou os discursos ultrapassados do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que insiste, entre outras paranoias, em propagar o temor de uma invasão comunista em nosso país. É difícil de engolir, hoje em dia, algumas teorias típicas da metade do século passado. Nolan é um cineasta de puro talento, com muito mais acertos do que erros. Ele consegue inovar em produções mais comerciais (não é errado dizer que ele revolucionou os filmes de super-heróis – lembremos da trilogia “Cavaleiro das Trevas”) e em títulos mais cults (“A Origem” é o melhor exemplo disso, mas não podemos nos esquecer da beleza poética e visual de “Interestelar”). Entretanto, não acho “Tenet” seu melhor trabalho. Meus favoritos continuam sendo “A Origem” e “Interestelar”, narrativas mais interessantes e impactantes do ponto de vista cinematográfico. Isso não quer dizer que “Tenet” não mereça ser visto. Trata-se de um longa-metragem excelente, ideal para uma visita aos cinemas. Apesar da minha torcida, não acho que ele conseguirá ser bem-sucedido na missão árdua de levar novamente as plateias para o cinema. Na sessão que assisti no Espaço Itaú de Cinema do Bourbon Shopping Pompéia, para você ter uma ideia, não havia ninguém. Quando digo ninguém, não estou querendo dizer que havia poucas pessoas na sala... Não havia uma viva alma além de mim tanto na minha sala quanto nas demais do complexo (que tem cerca de 18 salas). O cinema parecia estar abandonado. É uma pena! Essa foi a segunda vez em que estive em uma sessão completamente sozinho. A primeira foi há pouco mais de cinco anos, o que gerou até uma crônica, “Eu e o Mundo - Sozinho no Cinema”. Se naquela época me diverti com o acontecimento (ocorrido em uma pequena sala de cinema de uma cidade do interior de Minas Gerais), agora não achei a menor graça. Torçamos para que esse cenário não demore muito a mudar. A indústria cinematográfica precisa do retorno do seu velho público. Assista, a seguir, ao trailer de “Tenet”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Recomendações: Retrospectiva - Melhores filmes do Bonas Histórias em 2017
Na semana passada, começamos a Retrospectiva de 2017 do Bonas Histórias. Naquela oportunidade, apresentamos a lista dos melhores livros que foram analisados aqui no blog no ano passado. Agora é a vez de repetirmos a dose, mas com os longas-metragens. Afinal, quais foram os filmes mais interessantes lançados em 2017? Essa é a pergunta que nos fizemos nesse início de janeiro e que precisa ser respondida neste post. Ao longo de 2017, a coluna Cinema analisou criticamente 35 filmes. Desses, a maioria (75%) era formada por produções recentes, que estiveram em cartaz nos cinemas nacionais. A outra parte (25%) foi composta por filmes clássicos, disponíveis em DVD. A lista dos melhores reúne apenas o primeiro grupo - os títulos lançados nos cinemas na última temporada. Aí vai o Top 10 dos filmes que mais gostei em 2017: 10º lugar: O Rei do Show (The Greatest Showman: 2017) O “Rei do Show” é o musical que representou a estreia de Michael Gracey na direção cinematográfica. Estrelado por Hugh Jackman, o filme é a cinebiografia do empresário norte-americano P. T. Barnum, fundador do Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus, o primeiro circo moderno. O longa-metragem mostra os altos e os baixos da carreira e da vida do homem que revolucionou a arte circense. 9º lugar: A Love You (2015) "A Love You" (é assim mesmo que se escreve o título do filme!) é a comédia romântica francesa que passou rapidamente pelos cinemas brasileiros no ano passado. Na estreia de Paul Lefèvre na direção e no roteiro, assistimos a uma interessante e divertida trama de dois amigos (interpretados por Antoine Gouy e pelo próprio Paul Lefèvre) em busca do grande amor de suas vidas. 8º lugar: Fragmentado (Split: 2017) Em “Fragmentado”, o novo filme de Manoj Night Shyamalan, diretor especialista em produções de terror e suspense, acompanhamos um protagonista que sofre de múltiplas personalidades (Transtorno Dissociativo de Identidade, no jargão da psiquiatria). Interpretado por James McAvoy, o anti-herói aprisiona três adolescentes em sua casa. A partir daí, inicia-se uma narrativa tensa e dramática. 7º lugar: Corra! (Get Out: 2017) “Corra!” é um dos filmes mais surpreendentes da última temporada. Orçado em apenas US$ 4,5 milhões (uma miséria para os padrões de Hollywood), este thriller psicológico de Jordan Peele é original e sagaz. Nele, um jovem negro (Daniel Kaluuya) precisa conhecer a família de sua namorada branca (Allison Williams). O que era para ser um final de semana agradável se transforma em um pesadelo inimaginável para o rapaz. 6º lugar: Clash (Eshtebak: 2016) “Clash” é o filme egípcio do diretor Mohamed Diad que representou seu país no Oscar do ano passado. Sua trama aborda o período tumultuado que o Egito passou em 2013, quando as ruas do Cairo foram invadidas por uma multidão revoltada com o governo. No meio da confusão, dois jornalistas da Associated Press cobrem os acontecimentos enquanto precisam sobreviver à radicalização política. 5º lugar: Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures: 2016) Baseado em fatos reais, “Estrelas Além do Tempo” é o drama do diretor Theodore Melfi que concorreu ao Oscar do ano passado na categoria melhor filme. O longa-metragem mostra os preconceitos racial e sexista dentro da NASA na década de 1960. Em meio à disputa com os soviéticos pela dianteira na corrida espacial, a agência norte-americana segregava as mulheres negras, mesmo quando elas realizavam serviços essenciais. 4º lugar: Em Ritmo de Fuga (Baby Driver: 2017) Outra grata surpresa de 2017 foi “Em Ritmo de Fuga”. Neste thriller de Edgar Wright, diretor especializado em mesclar o gênero policial/ação com comédia, assistimos ao casamento perfeito entre música e cinema. O protagonista da trama é um rapaz com problemas mentais (interpretado por Alsel Elgort) que leva a vida como motorista de uma gangue perigosa. Isso até ele se apaixonar pela primeira vez. 3º lugar: Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre: 2016) O melhor longa-metragem sul-americano do ano passado foi “Cidadão Ilustre”, comédia dos diretores portenhos Mariano Cohn e Gáston Duprat. Nessa produção, um premiado escritor argentino vencedor do Nobel de Literatura (interpretado por Oscar Martinez) volta depois de muitos anos para sua cidade natal, no interior do país. O regresso da ilustre figura provoca muitas confusões no pequeno povoado argentino. 2º lugar: Mãe! (Mother!: 2017) O novo filme do diretor Darren Aronofsky é uma obra-prima do surrealismo. Protagonizado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem, “Mãe!” enfoca o drama de um casal que mora em uma residência isolada e que vive uma crise conjugal. As coisas só pioram quando, no meio da madrugada, um visitante bate à porta precisando de abrigo. A visita misteriosa irá precipitar acontecimentos inimagináveis naquela casa. 1º lugar: La La Land (2016) Mesmo não ganhando o Oscar do ano passado, o melhor filme de 2017 para mim é o musical “La La Land”. Dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Emma Stone e Ryan Gosling, esse drama mostra os descaminhos de um casal apaixonado. Com referências à história do cinema e com excelentes cenas dançantes, a narrativa apresenta o quanto a realidade pode ser dura para os sonhadores. No mês que vem, continuaremos a Retrospectiva de 2017 com mais dois posts: um com a lista das melhores exposições visitadas no ano passado e outro com as melhores peças teatrais assistidas na última temporada. Não perca as novidades da coluna Recomendações nas próximas semanas! Gostou deste post do Bonas Histórias? 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- Recomendações: Retrospectiva - Melhores peças teatrais do Bonas Histórias em 2017
A Retrospectiva de 2017 do Bonas Histórias chega agora à sua quarta e última parte. Depois de apresentarmos os melhores livros, os melhores filmes e as melhores exposições do ano passado, vamos tratar no post de hoje das melhores peças teatrais da última temporada. Confesso que não foi nada fácil definir o ranking dos espetáculos cênicos mais interessantes que assistimos e que comentamos no blog no ano passado. Teve muita coisa boa e escolher os melhores exigiu certa dose de subjetividade. Feita essa ressalva, aí vai a lista das cinco melhores peças de 2017: 5º lugar: Marte, Você Está Aí? – Auditório do MASP Escrita por Silvia Gomes e dirigida por Gabriel Fontes Paiva, “Marte, Você Está Aí?” é a peça que expõem de maneira crítica e enigmática as intransigências políticas do Brasil contemporâneo. Em seu elenco, temos Selma Egrei, Michelle Ferreira e Jorge Emil. Com uma narrativa entrecortada, um texto afiado e cenas melodramáticas, o espetáculo leva a plateia a reflexão sobre os caminhos sociopolíticos atuais da nossa nação. 4º lugar: 60! Década de Arromba doc.Musical – Teatro NET Em “60! Década de Arromba doc.Musical”, assistimos a uma mistura de musical e documentário. Em pauta, a retrospectiva histórica sobre a década de 1960 no Brasil e no mundo. Roteirizado por Marcos Nauer e dirigido por Frederico Reder, o espetáculo narra o que rolou na cena política, social, musical e cultural nos anos de ouro da Jovem Guarda. Como grande atração, “60! Década de Arromba doc.Musical” traz Wanderléa, uma das principais cantoras daquela época. 3º lugar: Ato Falho – Espaço Cia do Pássaro A grande surpresa de 2017 foi a peça independente “Ato Falho”. Nessa tragicomédia da vida contemporânea, Bruna Anauate e Tati Lenna, atrizes e produtoras do espetáculo, apresentam um retrato impecável das neuroses e paranoias do mundo moderno. Com ótimas interpretações e um excelente texto, a peça foi viabilizada após uma exitosa campanha de crowdfunding. Com graça e simplicidade, “Ato Falho” supera muitas superproduções renomadas por aí. 2º lugar: Pagliacci – Teatro do SESI do Centro Cultural da FIESP Nessa comédia circense clássica da Companhia LaMínima, novamente encenada em virtude da comemoração das duas décadas de fundação do grupo, assistimos a saga tragicômica de uma trupe de palhaços. Concebida por Domingos Montagner e Fernando Sampaio, produzida por Luís Alberto de Abreu e dirigida por Chico Pelúcio, “Pagliacci” tem em seu elenco Alexandre Roit, Carla Candiotto, Fernando Paz, Filipe Bregantim e Keila Bueno, além do próprio Fernando Sampaio. 1º lugar: Ovono – Centro Cultural do Banco do Brasil O melhor espetáculo cênico de 2017 foi “Ovono”. Roteirizada e dirigida por Ricardo Karman, a peça é uma narrativa futurista e apocalíptica sobre a dicotomia entre a evolução tecnológica e o primitivismo religioso do ser humano. O mais interessante é que essa produção mistura recursos audiovisuais de alto nível com a encenação tradicional no palco. Os atores de "Ovono" são: Gustavo Vaz, Paula Arruda, Paula Spinelli, Fábio Herford, Bruno Ribeiro e Cesar Brasil. Incrível! Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos três anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Recomendações: Quinze livros tijolões para serem lidos na quarentena
Em algumas cidades brasileiras, a quarentena do coronavírus já acabou ou foi abrandada. Em outras, a rotina da maioria das pessoas ainda é dentro de suas casas. De qualquer forma, algo parece ser consensual de norte a sul do país: o medo de muita gente de sair às ruas. Por mais ansiosos que estejamos para a volta total da antiga rotina, perambular no meio da multidão ainda é visto como uma atividade perigosa para a saúde individual e coletiva. Assim, milhões de brasileiros ainda precisam passar boa parte do tempo em suas residências. Aí surge a questão: o que fazer com tantas horas livres? A minha resposta é simples e direta. Ler! E para não haver problema de falta de leitura, nada melhor do que ter em mãos nestas ocasiões obras do tipo tijolão, aquelas com centenas, centenas, centenas e centenas de páginas. Para muitos leitores, essa é a chance única para mergulharem em títulos que, do contrário, poderiam continuar sendo postergados infinitamente. Afinal, querendo ou não, a maioria das pessoas tem certa antipatia por publicações com muitas páginas. Isso, definitivamente, não acontece comigo. Acredito não haver melhor jeito de passar as horas em casa do que tendo como companhia um bom e grande livro. No meu caso, li em abril dois tijolões (além de alguns livros menores). Na semana retrasada, por exemplo, meu entretenimento ficou a cargo de “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Editores), romance caudaloso de Jack Kerouac sobre suas viagens de mochilão pelos Estados Unidos durante a década de 1950. Esse foi o segundo livro do escritor norte-americano que analisei no Desafio Literário desse mês (há inclusive um post sobre ele aqui no blog). Na semana passada, minha leitura volumosa foi de “O Professor” (Pandorga), romance erótico da baiana Tatiana Amaral. Viu como é possível encontrar os mais diferentes tipos de ficção de categoria tijolão! É só saber escolher bem e se aventurar por centenas e centenas de páginas. Com vontade de indicar bons tijolões (juro que não tenho denominação melhor para os livros com mais de 500 páginas), resolvi utilizar o post de hoje do Bonas Histórias para preparar uma lista exclusiva com obras volumosas. Admito que é preciso coragem e muita força de vontade para chegar ao final desses títulos. Porém, ao concluir suas páginas, raramente nos arrependemos desta empreitada. Da lista que apresento a seguir, li todas as obras (e não precisei ficar de quarentena em casa!) e já fiz posts sobre a maioria delas (disponíveis aos leitores do blog). Desta relação de sugestões de leituras, optei por mesclar livros de autores nacionais e estrangeiros. A maioria são clássicos literários. Para quem não gosta das obras referenciais, há também best-sellers contemporâneos. E aí, pronto(a) para escolher um e iniciar agora mesmo sua leitura? Veja meus comentários, decida-se por qual título você prefere e mãos à obra. 1) “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha” (Editora 34) – 1605/1615 – Miguel de Cervantes (Espanha) – 1.466 páginas (Dois volumes). Só quem ainda não leu este clássico da literatura espanhola e mundial poderá duvidar das minhas palavras. Saiba que “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha”, romance do genial Miguel de Cervantes, é sim muitíssimo engraçado! As aventuras do pseudo-cavaleiro Alonso Quijano e de seu funcionário Sancho Pança pela península ibérica são divertidíssimas. Não à toa, esta obra é uma paródia das novelas de cavalaria da Idade Média. Não se surpreenda, portanto, se em três ou quatro dias você devorar os dois volumes desta história. Para um maior envolvimento com a leitura, prefira as edições com boas traduções e sem adaptações. Infelizmente, a maioria dos títulos disponíveis no mercado nacional não respeitam essas duas regrinhas. 2) “Outlander – A Viajante do Tempo” (Saída de Emergência/Arqueiro) – 1991 – Diana Gabaldon (Estados Unidos) – 864 páginas. Para não dizerem que só cito clássicos, trago para nossa lista de tijolões “Outlander – A Viajante do Tempo”, romance histórico da norte-americana Diana Gabaldon. Best-seller internacional, a trama de Gabaldon é espetacular. Nela, a enfermeira Claire Randall é tragada por uma fenda temporal quando visitava com o marido as ruínas em Inverness, em Highlands, na Escócia. Assim, ela acaba voltando quase duzentos anos no tempo. Sozinha e indefesa na violenta e caótica Escócia de 1743, Claire precisa sobreviver às ameaças que insistem em aparecer em seu caminho. Gostei tanto deste título que o li em apenas um final de semana. O grande risco que o leitor corre é se viciar nessa história e ter que ler todos os volumes desta série literária (que conta com quase dez livros, todos com mais ou menos mil páginas). 3) “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira) – 1956 - João Guimarães Rosa (Brasil) – 608 páginas. Li “Grande Sertão: Veredas”, obra-prima de João Guimarães Rosa, há alguns anos em uma viagem ao interior de Minas Gerais (não podia ter cenário mais perfeito do que este para essa experiência literária). Confesso que não foi nada fácil acompanhar a história do jagunço Riobaldo, um cabra-macho que se apaixonou por seu colega Diadorim. O texto de Guimarães Rosa é sublime, mas é difícil paca para qualquer leitor. Mesmo com toda a dificuldade da narrativa (pensei várias vezes em desistir da leitura no meio, tamanha foi a raiva que senti), quando chegamos ao final do romance, todos os obstáculos de compreensão parecem ter valido a pena. Se você não sabe o desfecho dessa história (tem sempre alguém louco para contar seu spoiler), com certeza você será surpreendido com o desenlace mais incrível da literatura nacional. É imperdível! 4) “Crime e Castigo” (Editora 34) – 1866 – Fiódor Dostoiévski (Rússia) – 592 páginas. Por falar em leituras difíceis, “Crime e Castigo”, clássico de Fiódor Dostoiévski, exige muitíssimo do leitor. Li esta obra referencial da literatura russa há mais de dez anos e confesso que sofri bastante. Dostoiévski construiu um romance existencialista denso e um tanto parado. Mesmo assim, quem tem a coragem de se aventurar pelos conflitos dramáticos de Raskólnikov, um ex-estudante de direito atormentado por um crime bárbaro, não se arrepende da empreitada. Em meio a um enredo ficcional aparentemente banal, assistimos a um ensaio filosófico de primeira grandeza de um dos maiores escritores de todos os tempos. As reflexões do protagonista-narrador de Dostoiévski são a principal parte deste livro. Quem tiver paciência e coragem, boa sorte! Com certeza, você guardará essa experiência literária para o resto da vida. 5) “A Dança da Morte” (Suma das Letras) – 1978/1990 – Stephen King (Estados Unidos) – 1.248 páginas. Em 1978, Stephen King lançou seu romance mais ambicioso até então: “A Dança da Morte”. A versão original desta história pós-apocalíptica tinha mais de 1.200 páginas. A editora do escritor norte-americano até aceitou lançar a saga dos sobreviventes à epidemia de gripe que dizimou 99,9% da população do planeta. Contudo, ela obrigou King a cortar quase metade do livro. Foi assim que o público recebeu a primeira versão desta obra (com mais ou menos 800 páginas). Apenas em 1990, quando Stephen King já tinha adquirido a reputação de um dos principais autores de sua geração, ele conseguiu publicar a versão estendida (aquela original com mais de mil páginas). “A Dança da Morte” não é o melhor trabalho de King, mas é um dos mais legais. Opte pela leitura da versão de 1990 (a completa e gigantesca). 6) “Em Busca do Tempo Perdido” (Nova Fronteira) – 1913-1927 – Marcel Proust (França) – 2.472 páginas (Três volumes). É um tanto óbvio dizer que é preciso fôlego para chegar ao fim de “Em Busca do Tempo Perdido”, obra-prima de Marcel Proust. Afinal, são quase 2.500 páginas. Na edição brasileira da Nova Fronteira, os sete volumes originais da saga de Proust (“No Caminho de Swann”, “À Sombra das Moças em Flor”, “O Caminho de Guermantes”, “Sodoma e Gomorra”, “A Prisioneira”, “A Fugitiva” e “O Tempo Recuperado”) foram transformados em apenas três volumes. Nestas tramas, acompanhamos as memórias do narrador-protagonista, Marcel (portanto, a personagem é homônima ao seu autor), em cada fase da vida. Ele nos relata as transformações que vivenciou da infância a velhice e seus conflitos mais íntimos. Além de ser uma obra inovadora para a época (mergulho psicológico em primeira pessoa), trata-se de uma ótima leitura para quem tem paciência de encarar longas jornadas. 7) “2666” (Companhia das Letras) – 2004 – Roberto Bolaño (Chile) – 856 páginas. Lançado postumamente, “2666” é a obra mais grandiosa de Roberto Bolaño. Produzida na fase final da vida do escritor chileno, quando ele já estava bastante debilitado por uma doença hepática, “2666” é na verdade a integração de cinco romances que dialogam de alguma maneira entre si. Os pontos convergentes entre essas histórias são a violência (típica do mundo cão que ronda, ao mesmo tempo, a maioria das grandes cidades latino-americanas e os ambientes dos livros de Bolaño) e a produção literária de um autor misterioso (o alemão Benno von Archimboldi). A ficção de Roberto Bolaño, um dos principais autores sul-americanos de sua geração, é normalmente densa, pessimista, fria e ácida. Por outro lado, o suspense desta trama prende o leitor que não tem dificuldades para avançar pelas diferentes seções do livro. 8) “A Bicicleta Azul” (Best Bolso) – 1981 – Régine Deforges (França) – 1.288 páginas (Três volumes). Maior sucesso da francesa Régine Deforges, “A Bicicleta Azul” é o romance histórico ambientado na Segunda Guerra Mundial. Ele apresenta ao público uma das personagens femininas mais incríveis da literatura contemporânea: a jovem e bela Lea Delmas. Ela precisa encarar todas as dificuldades de um dos períodos mais complicados da França no século XX para amadurecer e provar seus valores. Sua transformação ao longo desta saga é simplesmente espetacular! Publicado em 1981, a história deste livro é complementada por “Vontade de Viver” (Best Bolso), romance de 1983, e “O Sorriso do Diabo” (Best Bolso), obra de 1985. A trilogia “A Bicicleta Azul” (os três livros da série contam uma única história) possui mais de 1.200 páginas. Não se surpreenda se você concluir essa leitura em menos de uma semana. 9) “Canto Geral” (Bertrand Brasil) – 1950 – Pablo Neruda (Chile) – 602 páginas. Pablo Neruda, poeta chileno vencedor do Prêmio Nobel de 1971, tem livros mais famosos do que “Canto Geral”. “Cem Sonetos de Amor” (L&PM Pocket) e “Confesso que Vivi” (Difel), por exemplo, são obras populares em todo o mundo. Porém, o meu título preferido de Neruda é “Canto Geral”, muitas vezes esquecido dentro do portfólio do artista. Nesse trabalho, o chileno conta a história do continente americano por meio de poemas. Assim, assistimos aos dramas, às injustiças e à formação dos países da América Latina ao longo dos séculos. O resultado é espetacular! “Canto Geral” é dividido em 15 partes, tem 231 poemas e possui mais de 15.000 mil versos. Quem gosta de história e de poesia não pode perder essa obra. De certa maneira, podemos enxergá-la como uma epopeia contemporânea. 10) “Guerra e Paz” (Companhia das Letras) – 1865-1869 – Liev Tolstói (Rússia) – 1.544 páginas (Dois volumes). Ao lado de “Anna Karênina” (Companhia das Letras), “Guerra e Paz” é o livro mais importante de Leiv Tolstói. Clássico da literatura russa e universal, esta obra narra o drama de cinco famílias russas durante as duas primeiras décadas do século XIX. Nesse período, o país foi invadido pelas tropas napoleônicas, o que gerou uma séria e prolongada crise econômico-social. “Guerra e Paz” é um misto de reconstrução histórica, crônica de costumes e narrativa ficcional. Se por um lado temos um romance inegavelmente portentoso, por outro a história de Tolstói padece do excesso de personagens e de acontecimentos. Confesso que meus neurônios quase fundiram durante esta leitura. 11) “Graça Infinita” (Companhia das Letras) – 1996 – David Foster Wallace (Estados Unidos) – 1.144 páginas. David Foster Wallece sempre foi visto como um escritor maldito. Sua literatura mergulhou de cabeça no lado sombrio dos seres humanos. Para aplacar suas tramas densas, críticas e cruéis, o norte-americano usou e abusou da ironia e do humor negro. Prova maior disso é “Graça Infinita”. Publicado em 1996, este romance caudaloso é uma distopia nonsense que ridiculariza o capitalismo, a política contemporânea, a alienação das pessoas, a divisão de classes e o consumismo. Trata-se de um uma obra-prima do final do século XX. Com este livro em mãos, os fãs de David Foster Wallece acharão facilzinho, facilzinho ler mais de mil páginas. 12) “O Físico” (Rocco) – 1986 – Noah Gordon (Estados Unidos) – 592 páginas. Maior sucesso do norte-americano Noah Gordon, "O Físico" é o romance histórico sobre Robert Jeremy Cole. Em plena Idade Média, o jovem inglês, que era pobre e órfão, sonhava em se tornar médico. Para adentrar nessa profissão, ele viajou à Pérsia para ingressar na melhor escola de medicina do mundo, a Academia de Medicina de Ispahan. Contudo, a religião, a política, a geografia e a condição social conspiraram contra os planos do nosso herói. Incrível! O sucesso dessa saga foi tão grande que Gordon transformou-a em uma série literária. Chamada de “Trilogia da Família Cole”, essa coleção (que soma ao todo mais de 1.500 páginas) tem “Xamã” (Rocco), a segunda parte publicada em 1992, e “A Escolha da Dra. Cole”, terceira parte lançada em 1995. “O Físico” é um best-seller mundial. 13) “1Q84” (Alfaguara) – 2009/2010 – Haruki Murakami (Japão) – 1.280 páginas (Três volumes). Haruki Murakami tem trabalhos melhores do que “1Q84”. Meus preferidos são “Norwegian Wood” (Alfaguara), romance dramático impecável, e “Caçando Carneiros” (Alfaguara), trama engraçadíssima. Porem, é inegável a força da saga de Aomame e Tengo, personagens solitários e melancólicos que vivem histórias paralelas em mundos paralelos. Se até então Murakami só havia produzido novelas e romances curtos, com "1Q84" o escritor japonês provou ser capaz de construir uma trama mais complexa e que exige fôlego do leitor. Com personagens inusitadas, acontecimentos fantásticos e ações típicas dos mais movimentados romances policiais modernos, “1Q84” é uma ótima opção para quem deseja se lançar por tijolões com uma pegada menos cult. 14) “Moby Dick” (Landmark) - 1851 - Herman Melville (Estados Unidos) – 528 páginas. Admito que me frustrei bastante com a leitura de “Moby Dick”, clássico da literatura norte-americana e principal trabalho ficcional de Herman Melville. O romance tem até um ótimo início e um belíssimo desfecho. Seu problema está no meio da história. Por centenas e centenas de páginas, Melville deixa de lado os dramas do jovem marinheiro Ismael e de seu capitão Ahab (parte mais interessante do livro!) e foca na descrição dos tipos de baleias, na constituição física desses animais, em seus hábitos, na estrutura da indústria baleeira, nos diferentes utensílios usados pelos marinheiros e no dia a dia no mar (parte profundamente entediante!). Aí ninguém merece, né? Se o leitor estiver armado durante a leitura, há um sério risco de ele cometer um suicídio ou de assassinar quem estiver por perto. Um perigo! 15) “Os Sertões” (L&PM Pocket) – 1902 – Euclides da Cunha (Brasil) – 648 páginas. Euclides da Cunha era jornalista do O Estado de São Paulo quando, entre 1896 e 1897, foi encarregado de cobrir a Guerra de Canudos, no interior da Bahia. De sua cobertura jornalística nasceu “Os Sertões”, romance sobre a ação do exército republicano contra a comunidade pobre de Antônio Conselheiro. Não há quem duvide que a ideia do jornalista-escritor foi espetacular. O problema foi a forma encontrada por Euclides da Cunha para narrar sua trama. Na primeira parte da obra, assistimos à descrição de aspectos sociológicos, ambientais e climáticos do Sertão. Trata-se de uma das leituras mais chatas de toda a literatura brasileira. Só depois de dezenas e dezenas de páginas de pura descrição, Cunha entrou na trama propriamente dita (a Guerra de Canudos). Aí ele preferiu construir seu texto com uma pegada jornalística (uma decisão que questiono). Apesar de ser mais agradável, ainda sim esta parte é uma leitura um tanto truncada. Juro que gostaria de ter incluído nessa coletânea de tijolões outros três livros: “Ulysses” (Penguin), clássico de James Joyce, “Um Defeito de Cor” (Record), romance premiado de Ana Maria Gonçalves, e “Viva o Povo Brasileiro” (Alfaguara), clássico nacional de João Ubaldo Ribeiro. O problema é que não os li ainda para comentá-los com propriedade. E aí, que tal você ler um dos livros da minha lista nos próximos dias enquanto eu tento ler os títulos que me ficaram faltando?! Repare que não estou propondo que a listagem inteira seja lida agora. Não! Basta um título para sua quarentena já se tornar mais interessante e produtiva. Preparado(a)? Basta escolher a obra que mais chamou sua atenção e iniciar a leitura o quanto antes. Acho que vou começar a minha parte por “Um Defeito de Cor”. Boa literatura para todos! Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos quatro anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook.
















