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- Filmes: O Paraíso Deve Ser Aqui - A comédia original de Elia Suleiman
No finalzinho do ano passado, fui ao Espaço Itaú de Cinema da Augusta para conferir “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019), o novo filme de Elia Suleiman. Esta comédia dramática é o quarto longa-metragem do diretor palestino mais original, engajado e premiado da atualidade. Esta produção foi indicada pela Palestina para disputar o prêmio de Melhor Filme Internacional do Oscar 2020 (esta é a nova nomenclatura da categoria que era chamada até o ano passado de Melhor Filme Estrangeiro). Contudo, “O Paraíso Deve Ser Aqui” não avançou à final do mais importante evento do cinema mundial. Para mim, tal estatueta deverá ficar entre o sul-coreano “Parasita” (Gisaengchung: 2019) e o espanhol “Dor e Glória” (Dolor y Gloria: 2019). Mesmo sem ir para a final do Oscar, o novo filme de Suleiman já levou para casa um importante prêmio internacional. No ano passado, o longa-metragem foi a grata surpresa do Festival de Cannes, quando concorreu à Palma de Ouro e conquistou a Menção Especial do Júri. Nada mal, hein? O que mais chamou minha atenção em “O Paraíso Deve Ser Aqui” foi o seu caráter singular. Sua narrativa é extremamente criativa, o que torna seu enredo uma peça peculiar, difícil até mesmo de explicar. Você pode gostar ou não deste filme, mas na certa não encontrará muitos exemplares parecidos com ele por aí (ainda mais em cartaz neste momento). E é exatamente esta a maior riqueza do trabalho de Suleiman. Seu cinema é incomparável e inclassificável. Suas tramas são uma ode à inteligência e ao bom gosto. Com coragem, o cineasta palestino quebra regras, derruba barreiras e apresenta seu ponto de vista sobre assuntos polêmicos da atualidade. No cerne de seus títulos, a crítica social sempre se destaca. Lançado em 19 de dezembro nos cinemas brasileiros, este é, sem dúvida nenhuma, o melhor trabalho até aqui de Elia Suleiman. O diretor parece ter atingido sua maturidade artística, além de ter consolidado um jeito próprio de fazer cinema. Se você ficou encantado(a) com “Intervenção Divina” (Yadon Ilaheyya: 2002), vencedor do European Film Awards como Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2003, e com “O Que Resta do Tempo” (The Time That Remains: 2009), ganhador do Festival de Cinema de Mar del Plata de 2010 nas categorias Melhor Diretor e Prêmio do Júri, saiba que “O Paraíso Deve Ser Aqui” é ainda melhor (sim, isso é possível!). De certa maneira, o novo título de Suleiman se utiliza de boa parte dos recursos estéticos e do estilo narrativo dos filmes anteriores do cineasta. Essa relação é ainda mais forte quando comparada a “Intervenção Divina”. A falta de um enredo claro, longas sequências sem diálogos, forte crítica social e política, subjetividade interpretativa, abuso de cenas banais e um tanto paradas e mistura de realidade e ficção (com passagens autobiográficas) são marcas mais do diretor do que deste filme isoladamente. No enredo de “O Paraíso Deve Ser Aqui”, Elia Suleiman interpreta ele mesmo, um diretor de cinema palestino. Vivendo uma rotina bucólica e solitária em sua terra natal, Suleiman passa o dia calado, observando seus conterrâneos e o dia a dia ao seu redor. A Palestina, aos olhos da personagem, é um lugar onde se predomina o abuso policial, o racismo, a censura, o rígido controle de imigração, a intolerância étnico-religiosa, a violência e a corrupção/roubo. Inconformado com o que vê, o diretor resolve viajar pelo mundo. Na certa haverá locais melhores para se viver, pensa ele ingenuamente. Com essa ideia na cabeça, ele parte para o exterior. Primeiramente, ele vai a Paris e, na sequência, visita Nova York. Paradoxalmente, Elia Suleiman, sempre calado, observa os mesmos problemas para onde vai. Os Estados Unidos e a França, considerados países mais desenvolvidos e berços da civilização moderna, são lugares tão complicados para se viver quanto a Palestina. Em muitos quesitos, essas nações ocidentais chegam a ser até mesmo mais assustadoras e violentas para se morar do que os territórios árabes que o diretor conhece. Ou seja, os problemas sociais são uma marca do nosso planeta e não apenas de algumas regiões pontuais. Ao mesmo tempo em que se afasta fisicamente da Palestina nesta viagem, curiosamente, o diretor encontra sempre um pouquinho do seu povo e de sua cultura em cada lugarzinho do mundo. Em cada cantinho da Terra visitado, seja um lugarejo no interior, na praia deserta ou na cidade cosmopolita, Elia Suleiman pode sentir a força e a magia da sua terra natal. Por mais que ele pense em se afastar da Palestina, algo parece o forçar a voltar para junto dos seus. Com pouco mais de 90 minutos, “O Paraíso Deve Ser Aqui” é o típico filme que não tem um roteiro explícito. Caberá ao espectador o trabalho de interpretar o que está acontecendo na tela e criar por conta própria a linha narrativa desta trama. Obviamente, esse poder interpretativo e essa postura ativa exigem uma plateia atenta, curiosa e participativa. Infelizmente, essas características não são para todos. Na sessão em que estive presente, deu para notar que parte do público adorou o longa-metragem, mas outra parcela significativa o achou entediante. Deu para perceber que muita gente dormiu durante sua exibição. E eles fizeram isso em menos de meia hora de sessão. Uma pena! Não sabem o que perderam! Paradoxalmente, o que torna “O Paraíso Deve Ser Aqui” uma produção tão interessante é a fuga das convenções cinematográficas modernas (exatamente o que mais desagrada a maioria do público ávido por mais do mesmo!). Por exemplo, grande parte do charme deste longa-metragem é a ausência quase completa de diálogos (algo inimaginável em um título comercial). O protagonista só diz duas frases em uma hora e meia. As demais personagens só abrem a boca para comunicar o essencial. Por isso, quando surge alguém eloquente (um vizinho idoso que gosta de caçar e de contar causos), estranhamos o excesso de falatório (chegamos a nos incomodar com o sujeito falastrão). O silêncio só é quebrado porque sempre há uma boa trilha sonora guiando nossa atenção. De certa forma, “O Paraíso Deve Ser Aqui” lembra muito os filmes mudos. Seria Elia Suleiman uma espécie de Charlie Chaplin com uma pegada mais social? Há também muitas cenas banais, principalmente relacionadas à rotina pouco interessante do protagonista. Isso é proposital e possui um ar extremamente cômico, principalmente no início do filme. Repare que o diretor passa seus dias sem fazer nada de interessante nem de especial. Ele simplesmente vive bebendo, fumando e observando as pessoas ao seu redor. Pensando bem, muita gente vive assim nos dias de hoje... Hilário! Quando alguém tenta interagir com Suleiman, o máximo que consegue extrair do protagonista é um olhar ora melancólico ora zombeiro/debochado. Para aproveitar mais “O Paraíso Deve Ser Aqui”, é preciso decodificar as mensagens cifradas deixadas pelo diretor ao longo desta produção. Por trás de cenas aparentemente subjetivas e desconectas, há um conteúdo rico e lógico. A crítica é sempre de cunho social. Por exemplo, na passagem em que um simpático passarinho é expulso do quarto de hotel pelo protagonista, temos uma clara paródia às leis de imigração dos países europeus. Quando vemos uma funcionária negra limpando o escritório em que modelos brancas desfilam em uma projeção eletrônica, há a citação explícita ao racismo. São várias cenas desse tipo: a população norte-americana fortemente armada nas ruas de Nova York (culto à violência e incentivo à indústria da guerra), o desfile das Forças Armadas francesas em Paris (contraste com o cenário bucólico e pacífico ao redor), polícia que persegue no Central Park uma moça com a bandeira da Palestina pintada no corpo (intolerância à implantação da Palestina como nação) e a recusa de um estúdio norte-americano em rodar o filme do diretor (obviamente um fato extraído do universo real). O humor deste filme é na maioria das vezes sutil e inteligente. Há passagens também de graça mais direta e ao melhor estilo pastelão. Contudo, a força principal desta trama está nos detalhes, na astúcia interpretativa de sua mensagem agridoce. Ao invés de olhar a nova produção de Elia Suleiman como um longa-metragem convencional (o que efetivamente ele não é), precisamos encará-lo como uma mistura de gêneros narrativos (dessa forma é mais fácil admirá-lo). “O Paraíso Deve Ser Aqui” é um mix de ficção e documentário, de uma coletânea de contos com uma narrativa longa e de uma trama autobiográfica com um manifesto político-social. Dos atores que atuam ao lado de Elia Suleiman neste longa-metragem, o nome mais conhecido do grande público é o de Gael García Bernal, que interpreta brevemente ele mesmo em uma cena sensacional. Grégoire Colin, Ali Suliman, Tarik Kopty, Kareem Ghneim, Vincent Maraval e Stephen McHattie completam o elenco principal. Entretanto, é impossível alguém chamar mais a atenção do que Suleiman neste filme. E olha que ele faz isso com um silêncio quase constante e um mutismo desesperador. Se você quiser começar 2020 com o pé direito, vale a pena conferir este filme. O trabalho cinematográfico de Suleiman merece sim ser conhecido e parece cada vez melhor. “O Paraíso Deve Ser Aqui” pode não ser o melhor longa-metragem nem o mais engraçado desse começo de temporada, mas é certamente o mais interessante e o mais criativo dos últimos anos. Como experiência audiovisual, é um material riquíssimo. Assista, a seguir, ao trailer de “O Paraíso Deve Ser Aqui” e tire suas próprias conclusões: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinema #Filme #CinemaPalestino #Comédia #Drama #Tragicomédia #EliaSuleiman #GaelGarcíaBernal #GrégoireColin #AliSuliman #TarikKopty #KareemGhneim #VincentMaraval #StephenMcHattie #CinemaAsiático
- Livros: O Drible – O espetacular romance futebolístico de Sérgio Rodrigues
Qual é o grande livro de ficção sobre futebol da literatura brasileira ou da literatura internacional?! Me fiz essa pergunta quando estava com “O Drible” (Companhia das Letras), romance de Sérgio Rodrigues, em minhas mãos no meio da Livraria Cultura da Avenida Paulista, em São Paulo. Sinceramente, não me recordo de uma obra ficcional marcante que tenha falado do esporte mais popular do mundo ou que fosse ambientada em seu universo. Sempre me lembro de “Febre de Bola” (Companhia das Letras), livro autobiográfico do inglês Nick Hornby, um dos meus favoritos neste gênero. “O Negro no Futebol Brasileiro” (Mauad), clássico nacional de Mário Filho, é muito mais um trabalho jornalístico e biográfico do que uma obra ficcional. O mesmo se passa com “Jogador Secreto” (Panda Books), de um autor anônimo, “Estrela Solitária” (Companhia das Letras), de Ruy Castro, e “Jogo Sujo” (Panda Books), de Andrew Jennings. Todas essas publicações ficam na estante das não ficções, passando longe, muito longe da parte reservada aos romances nas livrarias. Talvez o escritor que tenha explorado com mais frequência essa temática em seus romances tenha sido Eduardo Galeano, que na infância sonhava em ser jogador de futebol. Mesmo assim, “O Futebol ao Sol e à Sombra” (L&PM Pocket), livro do autor uruguaio que é considerado um símbolo da sua literatura futebolística, também faz um panorama histórico e apaixonante desta modalidade ao invés de adentrar exclusivamente em uma trama ficcional. Depois de tanta reflexão, minha pergunta permanece não respondida. E na ficção, quem trata o futebol como matéria-prima literária, hein? Obviamente, estou excluindo dessa investigação as narrativas curtas. Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo e José Roberto Torero, por exemplo, têm ótimos contos sobre esse tema. Na crônica, são vários os autores que exploraram esse assunto (e olha que não estou me referindo apenas aos cronistas esportivos). Minha questão é com os romances. Qual romancista trabalhou o futebol em suas tramas? Para não dizer que desconheço trabalhos nessa linha, recentemente li “Segundo Tempo” (Companhia das Letras), romance de Michel Laub publicado em 2006. O escritor gaúcho insere uma partida do Gre-Nal de 1989 no centro de um drama familiar. O livro é espetacular! Mesmo assim, convenhamos: é muito pouco para um assunto como o futebol, presente no cotidiano de tantas pessoas, passar despercebido pelos escritores da prosa ficcional. Por isso, fiquei empolgado em ler “O Drible”. Será que, enfim, teríamos uma obra para servir de referência e/ou que estimulasse novos escritores a abordar esse assunto em seus romances? A resposta agora é sim. Sérgio Rodrigues criou uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Autor de uma dezena de livros, entre romances, novelas e coletâneas de contos e de crônicas, “O Drible” é o trabalho mais famoso e premiado de Rodrigues. Não à toa, este título aparece em qualquer lista bem-feita como um dos grandes romances escritos no século XXI em nosso país. E não é preciso dizer que, muito possivelmente, se trata do melhor livro ficcional já escrito sobre futebol em língua portuguesa. Falo isso porque desconheço um bom concorrente ao posto. Se vocês conhecerem outro romance futebolístico com tamanha qualidade, por gentileza, me informem porque terei muito prazer em lê-lo também. Publicado em 2013, “O Drible” é o terceiro romance de Sérgio Rodrigues. As obras precedentes deste gênero foram “As Sementes de Flowerville” (Objetiva), de 2006, e “Elza, a Garota” (Companhia das Letras), de 2009. “O Drible” foi traduzido para vários idiomas e lançado com sucesso no exterior. No Brasil, a obra conquistou, em 2014, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, um dos mais importantes do país, nas categorias Melhor Romance e Grande Prêmio. Nesse mesmo ano, o livro foi finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura, ambos na categoria Melhor Romance do Ano. As críticas nacional e internacional foram unânimes em apontar as qualidades excepcionais desta narrativa. “O Drible” se passa no Rio de Janeiro nos dias de hoje. Entretanto, seu enredo invariavelmente retrocede, através das lembranças, dos relatos orais, dos registros textuais e dos arquivos audiovisuais dos protagonistas, em seis décadas. A trama do romance gira em torno do conflito familiar de Murilo Neto e Murilo Filho, respectivamente filho e pai. As duas personagens principais desta narrativa se odeiam profundamente. Seus dramas são embalados pela saborosa história do futebol brasileiro, que direta e indiretamente influencia os acontecimentos desta família abalada por segredos do passado muito bem guardados. Murilo Neto é um carioca de 47 anos que trabalha como revisor de livros de autoajuda. Pouco talentoso para o ofício literário, obcecado pela cultura Pop dos anos de 1970 e frustrado com a interrupção precoce de sua carreira de músico, ele vive solitário e atormentado desde a infância pelo desprezo do pai. Sua única alegria está em seduzir moças muito mais jovens e pobres para relacionamentos sexuais breves e intensos. Neto está há 26 anos sem ver e sem falar com Murilo Filho, atualmente beirando os 80 anos de idade. Murilo Filho foi um dos grandes cronistas esportivos do país entre as décadas de 1960 e 1980. Ao lado de Mário Filho, Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira, ele se tornou um nome conhecido da imprensa esportiva nacional. Não houve fatos e personalidades de destaque do futebol brasileiro que não tenham sido comentados a exaustão nas páginas das colunas e dos livros do Leão da Crônica Esportiva, como Murilo Filho foi apelidado. Também chamado de Dickens de Campos Sales por seu estilo de escrita e pela torcida pelo time do América, ele era reverenciado em público, mas era odiado em casa. Sua esposa, Elvira Lobo, e o filho do casal nunca gostaram do jeito mulherengo, egoísta e autoritário de Murilo Filho. O pai sempre ignorou as vontades do filho único e o desprezou sem piedade. As desavenças dos dois começaram na infância e foram se prolongando até a idade adulta, quando, enfim, ambos cortaram relações. Por isso, Murilo Neto se surpreende quando Murilo Filho lhe telefona depois de quase três décadas de ausência. O pai, já muito idoso e extremamente doente, deseja voltar a ver o filho. Intrigado com aquela mudança repentina de comportamento, Neto passa a visitar Filho todos os domingos em um sítio na região serrana do estado do Rio de Janeiro. Nesses encontros semanais na residência de Murilo Filho, a dupla pesca e assiste a vídeos antigos de futebol gravados em fitas VHS. O ex-cronista também aproveita para discorrer sobre os grandes futebolistas do passado, seu assunto favorito. Esse parece ser o único tema que ele sabe e gosta de falar. Sem se importar com as opiniões e com os sentimentos do filho, Murilo Filho passa horas rememorando o passado de glórias do esporte nacional. Aproveitando-se do restabelecimento do contato com Murilo Neto, Murilo Filho lhe informa que está escrevendo um livro sobre Peralvo, um jogador de futebol nascido na década de 1940, em Merequendu, cidade natal do cronista. Segundo Murilo Filho, Peralvo era para ter sido melhor do que Pelé. Afinal, o atacante merequenduano tinha as mesmas habilidades do que o rapaz de Três Corações dentro das quatro linhas. O que o diferenciava era o poder sobrenatural de antever em alguns segundos o que iria acontecer tanto dentro de campo quanto fora dele. É essa história esquecida do futebol brasileiro que Murilo Filho deseja contar para o grande público. O pai dá os originais de sua nova obra para o filho revisar e comentar. Dessa maneira, Murilo Neto tomará conhecimento de uma faceta desconhecida e trágica do esporte nacional que seu pai pôde testemunhar pessoalmente. “O Drible” possui 224 páginas divididas em cinco capítulos. Os narradores mudam de capítulo a capítulo. Em determinadas partes, temos Murilo Neto contando sua versão da história. Em outras, temos os registros em primeira pessoa de Murilo Filho, contando a biografia de Peralvo sob seu ponto de vista. Li a obra inteira em duas noites, tamanha foi minha empolgação. Curiosamente, “O Drible” não é apenas um ótimo livro para quem gosta de futebol, mas é também uma publicação capaz de encantar todos aqueles que apreciam uma boa prosa ficcional. Afinal de contas, o terceiro romance de Sérgio Rodrigues possui uma trama intrincada, cheia de surpresas e reviravoltas, uma história forte, um drama sensível e uma narrativa repleta de inovações ousadas. O resultado é uma obra primorosa. E tudo isso com uma ambientação de tirar o fôlego: a era dourada do futebol brasileiro e da crônica esportiva nacional. Para quem espera achar apenas referências futebolísticas neste romance, aqui vai a primeira grande surpresa de “O Drible”. A história de Rodrigues também faz um mergulho no universo da música e da cultura Pop. Nas páginas desta publicação, podemos rememorar grande parte dos acontecimentos culturais e televisivos do país durante a segunda metade do século XX. Ou seja, temos aqui uma forte intertextualidade com desenhos animados, cinema, programas de televisão, política e até mesmo filosofia. Isso é muito legal. Murilo Neto, grande fã da cultura Pop e do Rock and Roll, traz muitas dessas referências para seu relato, conferindo maior autenticidade à narrativa. Poucas vezes vi um efeito tão positivo trazido por esse conjunto amplo de elementos intertextuais. Paradoxalmente, Murilo Neto é fanático por música enquanto Murilo Filho é viciado em futebol. Os dois são pessoas quase monotemáticas. Cada um deles bate o tempo inteiro na mesma tecla, o que é muito engraçado (e um pouco triste). Atire a primeira pedra quem não conhece ninguém com essas características. Os dois protagonistas de “O Drible” só mudam de assunto quando precisam falar de seus dramas familiares. E ainda assim, a música e o futebol continuam cruzando suas vidas de maneira tortuosa. Por falar em Murilo Filho e Murilo Neto (um bom nome para uma dupla sertaneja), repare na construção primorosa dessas personagens. Ao mesmo tempo em que essas figuras ficcionais são muito diferentes uma da outra (diria que são pessoas de personalidade e gostos opostos), elas também são bastante parecidas em sua essência. Como isso é possível?! Pergunte ao Sérgio Rodrigues, o responsável por criar algo tão sui generis. Para completar a semelhança/oposição entre as duas personagens, o mesmo nome só intensifica a confusão. O Murilo pai se chama Murilo Filho e o Murilo filho se chama Murilo Neto. Até parece conversa de louco, né? Impossível não achar graça nessa brincadeirinha proposta pelo escritor mineiro. Outro aspecto positivo deste livro é a mistura constante de elementos ficcionais com elementos reais. Ao lado de personagens e fatos inventados por Rodrigues, o leitor se depara com pessoas e acontecimentos que ocorreram de verdade. Essa aproximação entre a história (realidade) e a estória (ficção) nos faz supor que algumas passagens e personagens criadas pelo autor possam ser verídicas. Teria existido realmente um cronista esportivo nascido em Merequendu com o nome de Murilo Filho e que fosse conterrâneo de Nelson Rodrigues, João Saldanha e Mário Filho? Teria havido um jogador chamado Peralvo que fosse melhor do que Pelé, Garrincha e Didi? E alguém já ouviu falar da banda Kopo Deleche & Kopo Derrum, contemporânea da Legião Urbana? Há perguntas que só romances extremamente realistas podem suscitar na mente dos seus leitores. Qual o melhor momento deste livro? Difícil precisar. A primeira cena de Murilo Filho e Murilo Neto assistindo à jogada de Pelé na Copa de 1970 em uma fita VHS é espetacular. O lance protagonizado nas semifinais contra o Uruguai, drible da vaca no goleiro Mazurkiewicz, é descrito em tom épico pelo narrador. E, nessa hora, você pensa: isso não pode ficar melhor. Aí vem o capítulo final, recheado de surpresas e reviravoltas, e você entende que estava equivocado. O livro poderia sim ficar ainda melhor... Ele adquire, em seu desfecho, um tom de romance policial, meio que um thriller de ação. Esplendido! A única coisa que me pareceu estranha foi a multiplicidade de focos narrativos. Aproveitando-se que há um livro dentro de outro livro, acabamos nos deparando com narrações em primeira pessoa feitas tanto por Murilo Filho quanto por Murilo Neto. Até aí, beleza. Mas qual a razão de termos alguns capítulos escritos em segunda e terceira pessoas? Sinceramente não entendi essa opção de Sérgio Rodrigues. Pareceu aos meus olhos mais uma invencionice do autor do que uma necessidade pedida pela narrativa. Se estava faltando um grande romance nacional que falasse de futebol com beleza e sensibilidade literária, agora não falta mais. “O Drible” é uma obra fantástica e merecedora de todos os prêmios recebidos (e até mesmo dos não recebidos). Se alguém me disser que esse é o melhor livro ficcional sobre futebol já produzido em língua portuguesa, ei de concordar de imediato. E se me falarem que “O Drible” é, na verdade, o melhor livro já escrito sobre esse tema independentemente do idioma, também vou acreditar. Acreditarei nessa afirmação e, ainda por cima, não levantarei nenhuma dúvida sequer. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #SérgioRodrigues #Futebol
- Celebrações: Feliz 2020! - As metas do Bonas Histórias para o ano novo
Feliz Ano Novo! Este é o desejo do Bonas Histórias para seus leitores, parceiros, colegas e amigos. Nossos votos são que 2020 seja um período maravilhoso para todos, com muita alegria, saúde e prosperidade. E, como não poderia faltar, com muita literatura, cultura e entretenimento também. Para isso, o blog continuará trabalhando diariamente para trazer as principais novidades do universo dos livros, da teoria literária, da ficção nacional, do mercado editorial, do cinema, da música, do teatro, das exposições, da gastronomia e da dança. Não por acaso, essa é a missão do Bonas Histórias há cinco anos. Além disso, aproveitamos o início de um novo ciclo, época propícia para a formulação de grandes planos pessoais e coletivos, para apresentar as 10 metas do blog para os próximos 365 dias. Confira o que pretendemos desenvolver ao longo de 2020 e nos cobre daqui doze meses: 1) Analisar 80 obras literárias e apresentá-las em posts na coluna Livros - Crítica Literária. 2) Estudar a literatura de 8 autores dos mais variados perfis e regiões geográficas. E discorrer sobre as características de cada um deles na sexta temporada do Desafio Literário. 3) Desenvolver 12 entrevistas da quarta temporada do Talk Show Literário, mais uma vez dedicada aos clássicos da literatura brasileira. 4) Apresentar 6 posts da terceira temporada da Teoria Literária, agora com conteúdo sobre os romances policiais. 5) Trazer a sexta temporada de Contos & Crônicas. Esta coluna terá 6 textos exclusivos e de qualidade reconhecida. 6) Analisar no mínimo 24 filmes recém-lançados no circuito comercial brasileiro e disponibilizar esses posts na coluna Cinema. 7) Comentar ao menos 8 canções clássicas da cultura popular brasileira na coluna Músicas. 8) Apresentar as 10 Melhores Músicas Ruins de 2020 na sexta edição do prêmio menos glamouroso do mercado fonográfico nacional. 9) Trazer as principais novidades do Mercado Editorial do nosso país. 10) Inaugurar com pelo menos 6 posts a coluna Historiografia Literária, a grande novidade do blog para o próximo ano. Esses são os 10 motivos para você acompanhar o Bonas Histórias em 2020. Com um cardápio variado e rico como este, será impossível não termos um ano novo excelente. Felicidade a todos! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do Blog Bonas Histórias no Facebook. #celebração #BonasHistórias #AnoNovo
- Filmes: Entre Facas e Segredos - O bom suspense de Rian Johnson
Na tarde de 24 de dezembro, véspera de Natal, fui ao cinema para assistir “Entre Facas e Segredos” (Knives Out: 2019), suspense policial estrelado por Daniel Craig. E qual foi minha surpresa (sim, fiquei realmente surpreso!) ao não ver ninguém nas salas do Cinemark do Shopping Tietê Plaza. Não apenas não havia ninguém comigo na minha sessão como também não tinha ninguém nas demais salas do cinema. Só então compreendi que todo mundo estava mais interessado em visitar as lojas do shopping do que conferir um filmezinho. Esse é o verdadeiro espírito natalino, meu/minha caro(a). Lançado no circuito comercial brasileiro em 12 de dezembro, “Entre Facas e Segredos” foi dirigido por Rian Johnson, de “Star Wars - Os Últimos Jedi” (Star Wars: The Last Jedi: 2017), “Vigaristas” (The Brothers Bloom: 2008) e da série “Breaking Bad”. Orçado em US$ 40 milhões, o filme tem um elenco de primeira. Além de Craig, o eterno 007 loiro, integram o time de atores e atrizes desta produção Ana de Armas, Christopher Plummer, Chris Evans, Jaime Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeinth Stanfield, Katjerine Langford e Jaeden Martell. “Entre Facas e Segredos” é o típico longa-metragem de investigação policial. Sua história lembra muito as tramas de Agatha Christie, na qual um detetive particular é contratado para resolver um assassinato misterioso. Rian Johnson não escondeu do público essa forte ligação com as narrativas da escritora inglesa. Em entrevistas, o diretor norte-americano disse que seu novo filme foi inspirado em “O Assassinato no Expresso Oriente” (L&MP Pocket), um dos livros mais famosos de Christie (esta foi a obra mais vendida da autora – 3 milhões de unidades comercializadas em todo mundo). Para quem acha que Johnson se limitou a fazer uma mera cópia dos clássicos do gênero investigativo, aí reside a primeira grande surpresa do seu novo longa-metragem. “Entre Facas e Segredos” traz interessantes inovações narrativas que o aproximam mais de Alfred Hitchcock do que de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. O suspense do filme se faz não para descobrir o que aconteceu (a plateia fica sabendo rapidamente quem é o(a) responsável pelo assassinato), mas para saber o que irá ocorrer dali em diante. É justamente aí que está localizado o grande mistério desta produção, o que torna seu conflito bastante emocionante e, acima de tudo, eletrizante. Além disso, a trama do filme não é do tipo impossível de ser desvendada. Basta um(a) espectador(a) atento(a) e conhecedor(a) das dinâmicas desse tipo de história para solucionar sem grandes problemas o mistério armado. Se por um lado as “surpresas” finais não são tão surpresas assim, por outro lado é legal solucionar um crime (algo que jamais eu tinha conseguido fazer com as histórias de Agatha Christie e de Arthur Conan, por exemplo). Se falta astúcia ou sutileza para ludibriar a plateia em “Entre Facas e Segredos”, não falta lógica e verossimilhança ao seu desfecho (uma das minhas principais reclamações quanto aos desenlaces das histórias de detetive). O filme começa no dia seguinte à festa de aniversário de 85 anos de Harlan Thrombey (interpretado por Christopher Plummer), um renomado escritor norte-americano de romances policiais. Para pânico (ou seria alegria?) da família, ele aparece morto em seu escritório particular. Seu pescoço foi cortado. Para os parentes mais próximos, não há dúvida: o proprietário da mansão se suicidou. Contudo, esse não é o veredito do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), conhecido nos Estados Unidos por desvendar casos até então insolúveis. Blanc é um importante detetive particular que foi contratado misteriosamente para solucionar as dúvidas a cerca da morte de Thrombey. Curiosamente, nem ele sabe quem o pagou para estar ali. Não demora muito para o responsável pela investigação notar uma série de problemas que desmontam a versão do suicídio. Aos olhos de Blanc, não apenas o escritor foi assassinado como não faltam pessoas interessadas na morte do milionário. Filhos, filhas, genro, nora e netos são suspeitos pelo crime. Muitos deles tiveram discussões acaloradas com Harlan Thrombey na festa de aniversário. Para descobrir o que aconteceu, Benoit Blanc solicita que todos façam uma descrição detalhada dos eventos da noite anterior. Um grande trunfo do detetive particular é a presença de Martha Cabrera (Ana de Armas), enfermeira do Sr. Thrombey, na casa. Diferentemente dos familiares do escritor, a funcionária parece ser a única pessoa realmente abalada pela morte do proprietário do lugar. Afinal, mais do que uma funcionária, Martha era uma boa amiga do velho. Além disso, ela se mostra honesta e nem um pouco interessada pela fortuna deixada pelo patrão (agora ex-patrão). Para completar, Martha possui um problema físico/biológico que a impede de mentir. Sempre que a moça tropeça na verdade, ela vomita. Assim, é fácil saber se ela está mentindo ou não. Enquanto todos na casa tentam ludibriar Benoit Blanc (e não faltam mentiras por parte dos familiares), a jovem enfermeira se esforça para relatar o que efetivamente ocorreu ali. Não à toa, ela passa a acompanhar o detetive no trabalho dele. Martha Cabrera se torna o braço direito do Sr. Blanc nesta investigação. Com 130 minutos de duração, “Entre Facas e Segredos” é o típico filme que passa voando. Você nem percebe que ficou mais de duas horas sentado na sala de cinema assistindo-o. Sua qualidade pode ser traduzida pelos números de faturamento. Em uma época em que os cinemas não estão tão lotados (digo isso por experiência própria!), a produção de Rian Johnson já embolsou mais de US$ 200 milhões em bilheteria pelos quatro cantos do planeta. Uma explicação para esse belo resultado é a baixa concorrência. Infelizmente, o final de ano não é um período pródigo de bons lançamentos cinematográficos (e aí as boas opções acabam surfando numa boa). O primeiro aspecto que chama a atenção é o ótimo roteiro de “Entre Facas e Segredos”. A trama escrita pelo próprio Rian Johnson é tão bem amarrada que mesmo a revelação do culpado pela morte do Harlan Thrombey logo na primeira metade do longa-metragem não estraga o clima de suspense. Pelo contrário: a tensão dramática só vai aumentando até o final (o mistério é mais para saber o que vai acontecer do que para entender o que aconteceu). Incrível perceber como a história é bem construída e, acima de tudo, impecavelmente narrada. Aí sobra para a plateia, que acaba ficando com o coração na boca na maior parte do tempo. Parte dos méritos do roteiro foi ter transformado a mansão dos Thrombey (onde quase todas as cenas se passam) em uma personagem do filme (diria até em um protagonista desta produção). O jeitão de casa de terror dá um colorido especial à trama. Repare na decoração que compõe o cenário da residência. Tudo ali parece ter sido muito bem pensado pela equipe de direção de arte. Cada objeto e cada mobília possuem uma finalidade para estar onde estão. Prova disso é que detalhes da decoração são parte fundamental do enredo, como fica evidenciado na última cena do filme. Incrível! Além disso, o roteiro de “Entre Facas e Segredos” também explora magnificamente o perfil psicológico das várias personagens retratadas. Assim, mesmo com o excesso de personagens/suspeitos pelo crime, conseguimos identificar as particularidades de todas elas (algo que nem sempre é rápido e fácil de ser feito em um longa-metragem). O mesmo processo ocorre com os policiais encarregados da investigação (o detetive particular tem a companhia de uma dupla de tiras). Gostei também das doses de humor do filme, que dão um pouco de leveza ao conflito tão pesado. Não é errado, portanto, ver este título como uma comédia (no caso, como uma comédia-dramática). As cenas mais engraçadas são protagonizadas pela personagem de Ana de Armas. A enfermeira que ela interpreta é hilária. Seu hábito de vomitar sempre que fala uma mentira rende boas sequências. Além disso, seu jeito meio amalucado, meio atrapalhado e meio brejeiro contrasta com o jeitão sério e sisudo da personagem de Daniel Craig. Se fiquei feliz em ter descoberto o desfecho de “Entre Facas e Segredos” (na metade do filme já é possível sacar o que está acontecendo/aconteceu na noite do aniversário do escritor falecido), por consequência achei o desfecho do longa MUITO previsível. As surpresas que o cineasta reserva para as últimas cenas já são esperadas pelo espectador mais atento. Aí não há suspense que resista à avalanche de obviedades. Entretanto, se por um lado isso é extremamente frustrante, por outro lado mostra o quanto o roteiro é totalmente coerente (a ponto de permitir à parte da plateia desvendar o crime por conta própria). Gostei disso. Geralmente saio decepcionado quando o desfecho se torna esdrúxulo só para enganar o público (como ocorreu no próprio “O Assassinato no Expresso Oriente”, romance no qual este filme se inspirou). Outro elemento que merece nossos elogios é a atuação soberba do elenco. Daniel Craig mostra que há vida depois de interpretar o 007 e continua escolhendo bons papéis. Seu principal desafio na pele de Benoit Blanc foi conferir um sotaque de caipira norte-americano ao seu personagem. Convenhamos que isso não é muito fácil para um ator inglês. Mesmo assim, Craig se saiu surpreendentemente bem nesse quesito (apesar do resultado ainda sim ter sido curioso). A boa atuação em “Entre Facas e Segredos” não ficou reservada ao detetive. O elenco experiente deu conta do recado de maneira sublime. Por conta do excesso de personagens, muitos atores apareceram pontualmente (mesmo assim puderam deixar boas marcas). Entre os destaques positivos estão Ana de Armas. Com seu jeitinho doce, ingênuo e espontâneo, ela consegue cativar a plateia para que torça por ela (algo fundamental para conferir a tensão dramática que o filme requer). Dos filmes lançados em dezembro nos cinemas brasileiros, “Entre Facas e Segredos” é possivelmente um dos mais interessantes, ainda mais para quem gosta de uma boa trama de suspense e mistério. Vale a pena conferi-lo (ainda mais agora com o término do Natal, não é?). Assista, a seguir, ao trailer de “Entre Facas e Segredos”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinema #Filme #Cinemanorteamericano #Thriller #Suspense #Drama #Comédia #Tragicomédia #RianJohnson #DanielCraig #AnadeArmas #ChristopherPlummer #ChrisEvans #JaimeLeeCurtis #MichaelShannon #DonJohnson #ToniCollette #LakeinthStanfield #KatjerineLangford #JaedenMartell
- Livros: Suicidas – O aclamado romance policial de Raphael Montes
É muito legal conhecer os trabalhos artísticos dos jovens talentos da literatura nacional. Há uma nova geração de escritores brasileiros que já desponta com enorme sucesso junto ao público leitor e à crítica especializada. Quem acompanha atentamente o Bonas Histórias já deve ter percebido que abrimos espaço para os livros dos jovens autores do nosso país. Na semana retrasada, por exemplo, comentamos “Capão Pecado” (Tusquets), o mais famoso romance de Ferréz. Pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, Ferréz é um autor nascido e criado no Capão Redondo, bairro periférico de São Paulo. “Capão Pecado” inaugurou uma nova fase da Literatura Marginal. No post de hoje, vamos deixar a periferia da cidade de São Paulo e vamos viajar até a zona sul do município do Rio de Janeiro. A ideia é falarmos da literatura policial e de terror de Raphael Montes, um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira atualmente. O carioca de apenas 29 anos foi apelidado de “Prodígio do Crime”. Ele se aproxima de atingir a respeitável marca de seis dígitos em livros vendidos. E olha que Montes tem apenas sete anos de carreira profissional. Nesse período, publicou três romances e uma coletânea de contos, além de ter participado de algumas antologias de contos e da produção de alguns roteiros televisivos e cinematográficos. Ao longo dessa semana, minha leitura de Raphael Montes foi “Suicidas” (Benvirá), seu romance de estreia. Nesta trama policial ao melhor estilo noir, o jovem escritor carioca utilizou-se de um intricado jogo narrativo para contar a história de um grupo de nove jovens que praticou roleta-russa no porão de uma mansão. “Suicidas” foi escrito quando Montes tinha entre 16 e 19 anos. Ou seja, o livro começou a ser produzido quando o autor estava no ensino médio e foi concluído nos anos iniciais do curso de bacharelado em Direito. Depois da obra finalizada, Raphael Montes enviou os originais para várias editoras. Porém, todas recusaram-se a publicar a história. Apenas quando o romance foi finalista do Prêmio Benvirá de 2010, a chance de vê-lo impresso apareceu. A Benvirá, editora do grupo Saraiva, decidiu lançar “Suicidas”. O romance foi publicado em 2012 e rapidamente se tornou finalista de importantes prêmios nacionais: Prêmio Machado de Assis de 2012 e Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 na categoria autor estreante. Em 2015, o romance foi adaptado para o teatro. Depois do sucesso de “Suicidas”, Raphael Montes lançou “Dias Perfeitos” (Companhia das Letras), thriller de 2014, “O Vilarejo” (Suma das Letras), coletânea de contos de terror de 2015, e “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), romance policial de 2016. Essas obras foram traduzidas para vários idiomas e foram lançadas nos Estados Unidos e na Europa. Como roteirista, o carioca participou do seriado “Supermax” e da telenovela “A Regra do Jogo”, ambos da Rede Globo. No cinema, colaborou com o roteiro de “Praça Paris” (2016), filme dirigido por Lucia Murat. O enredo de “Suicidas” se passa na cidade do Rio de Janeiro entre junho de 2008 e outubro de 2009. A parte principal da trama ocorre em setembro de 2008 no porão da Cyrille’s House, a casa de campo da família Vasconcellos. É ali que nove jovens na faixa de dezoito a vinte e um anos e vindos de lares da classe alta e média do Rio se reúnem em uma madrugada. Eles querem brincar de roleta-russa, enquanto se embebedam e se drogam. Para quem não sabe o que é uma roleta-russa, trata-se da prática de colocar uma bala no tambor de um revólver, girá-lo, apontar a arma para si próprio e apertar o gatilho. A sorte (ou o azar) indicará quem se safará do disparo (ou quem será a vítima do tiro). A brincadeira do grupo de amigos tem uma finalidade mórbida. Todos querem se suicidar. Na proposta deles, somente o último que sobrar vivo poderá escolher entre permanecer com vida ou dar o disparo fatal de misericórdia. Os demais não terão escolha: irão morrer naquela madrugada. A roleta-russa foi uma ideia de Zak Vasconcellos, o anfitrião. Depois que seus pais milionários morreram em um acidente de carro, o rapaz, um universitário do curso de Direito metido a playboy, decidiu tirar sua vida. Para o suicídio ganhar ares megalomaníacos, ele convidou alguns dos seus conhecidos mais deprimidos para participar. Assim, juntaram-se à comitiva Alessandro, o amigo de infância de Zak, Otto, o amante secreto do playboy, Waléria, a moça que havia engravidado de Zak, e Danilo, um vizinho com Síndrome de Down. Vieram também Ritinha, Noel e Lucas, três colegas da faculdade de Direito. Maria João, a irmã de Lucas, completou o bando. O suicídio coletivo foi narrado em tempo integral e em primeira pessoa por Alessandro Parentoni de Carvalho, um jovem introspectivo que sonhava em ser escritor. Depois de ouvir inúmeras recusas das editoras que não queriam publicar seus romances, ele decidiu, em uma atitude desesperada, narrar a roleta-russa em que participaria com Zak. Em sua mente, o relato cruel e real iria despertar a curiosidade das editoras. Além disso, o apelo de ser um autor póstumo iria ser um fato decisivo para sua entrada no mundo editorial. Alessandro queria virar um romancista, nem que para isso precisasse morrer com uma bala na cabeça. Enquanto acompanha o relato de Alessandro no porão da Cyrille’s House, os leitores podem ver as anotações do rapaz nos meses que antecederam a tragédia. Assim, conseguimos compreender as motivações que levaram o grupo de jovens a praticar algo tão radical. Além disso, os leitores também verificam a investigação da delegada Diana Custódio Guimarães para essa tragédia. Um ano depois do suicídio coletivo dos jovens, Diana marcou um encontro com as mães dos envolvidos para tentar solucionar o caso, até então inconcluso. A policial quer ver se elas podem fornecer mais informações. A reunião é gravada e a transcrição do áudio do encontro é apresentada nas páginas do livro. Essas três partes do romance (o relato de Alessandro no porão da casa dos Vasconcellos, as anotações precedentes ao fatídico dia e o áudio da conversa da delegada com as mães) estão interpostas durante todo o livro. Cada capítulo da obra é uma dessas partes. O trio se reveza o tempo inteiro na exposição dos mistérios da trama. A construção final do quebra-cabeça é feita com o vai-e-volta do tempo narrativo. O leitor volta ao “passado” e avança ao “futuro” para descobrir o que ocorreu na fatídica madrugada da roleta-russa juvenil. “Suicidas” é aquele tipo de livro em que sabemos como ele vai acabar logo nas primeiras páginas (diria que o título já conta como a trama termina). Mesmo assim, isso não estraga em nada a graça da obra. O interessante desta história está em descobrir como os jovens irão se matar no porão da Cyrille’s House e, principalmente, quais são os motivos para cada um dos suicídios. O suspense aumenta quando descobrimos que os pais de Zak Vasconcellos não morreram vítimas de um acidente corriqueiro de automóvel. Eles foram assassinados. À medida que os capítulos avançam, o drama se torna cada vez mais surpreendente. Raphael Montes se mostra mestre em trazer reviravoltas para seu romance e alimentar o leitor com várias novidades durante a trama. O livro de estreia do autor carioca tem quase 500 páginas. É, portanto, um romance parrudo, um tijolão. É muito legal ver um escritor até então iniciante com uma proposta tão ousada e substancial, sem medo de arriscar. Apesar de volumosa, “Suicidas” é uma obra de leitura rápida. Concluí a publicação inteira em duas noites. Se você for como eu e gostar de ler à noite, saiba que provavelmente sua leitura se estenderá pela madrugada a dentro. Será difícil desgrudar das páginas desta obra. Falo isso com propriedade de causa. “Suicidas” é um romance policial original e muito bem desenvolvido. O que mais chama a atenção do leitor é o estilo próprio de Raphael Montes. Com apenas 19 anos de idade (idade em que o autor produziu a obra), ele já mostrava maturidade e ciência de todas as etapas do processo narrativo em seu livro de estreia. Sem dúvida nenhuma, trata-se de um talento natural do ofício da escrita ficcional. As grandes inovações desta publicação estão na escolha dos focos narrativos e na apresentação fragmentada da trama em diferentes tempos narrativos. Os relatos de Alessandro Parentoni de Carvalho são apresentados ao público depois dos acontecimentos trágicos. Ou seja, já sabemos (mais ou menos) o desfecho (ou achamos que sabemos). Mesmo assim, acompanhamos a narração dele feita no presente, como se vivenciássemos aquilo em tempo real. É muito legal esse recurso. O tripé (antes, durante e depois da roleta-russa) é intensificado pela transcrição do áudio da delegada Diana. Aqui a história passa a ser escrita em terceira pessoa, sem um narrador efetivo. Portanto, além dos diferentes tempos narrativos, temos dois tipos de narradores (em primeira e em terceira pessoa). Raphael Montes apresenta aos seus leitores um complexo quadro narrativo, que a cada página se torna mais sedutor. Sensacional, não?! O estilo noir é intensificado pela ambientação sombria da realidade dos jovens da classe média e alta do Rio de Janeiro. O drama de cada personagem é difícil de ser desmascarado em um primeiro momento. É preciso mergulhar em suas rotinas e nos seus dilemas mais íntimos para entender suas decisões de se suicidar. Adorei a construção das personagens do romance. A maioria delas é do tipo redondo, o que aumenta a complexidade da narrativa. Repare como Raphael Montes cria uma história com dezenas de personagens e, mesmo assim, o leitor não fica confuso. Cada figura é tão autêntica, forte e relevante para a trama que rapidamente acabamos entendendo o quadro geral e o papel de cada uma delas na história. Também fiquei encantado com o desfecho de “Suicidas”. Depois de alimentar o suspense com várias peças aparentemente soltas, o autor consegue encaixá-las com excelência no final, apresentando um desenlace surpreendente. É verdade que o(s) culpado(s) é(são) um tanto óbvio(s) para quem já é conhecedor dos romances policiais. Saquei o que estava acontecendo antes da metade do livro. Mesmo assim, o último capítulo é incrível, capaz de derrubar o leitor da cadeira (ou do sofá ou de onde ele estiver lendo). A brincadeira de misturar realidade ficcional e realidade não ficcional presente na última linha da página final só torna a proposta do autor ainda mais rica. Impossível não gostar disso e não ficar com o queixo caído. Esse final híbrido que mescla realidade ficcional e realidade não ficcional só valoriza ainda mais as partes do livro que exploram os desafios de Alessandro, uma das personagens principais, em ingressar no mundo da literatura comercial. É muito legal ver que cada pecinha do quebra-cabeça narrativo tem uma função pré-determinada e exerce um poder de influência no leitor. O principal ponto negativo, a meu ver, neste livro de Raphael Montes é a inverossimilhança do registro escrito na madrugada derradeira no Cyrille’s House. Não é preciso ser escritor para saber que ninguém consegue registrar simultaneamente os acontecimentos reais em uma folha de papel com tamanha riqueza de detalhes. Curiosamente, o desfecho da trama ainda deu margem para Montes explicar essa incompatibilidade entre realidade e ficção, porém o autor não fez nenhuma correção. Achei esse um erro sério de natureza narrativa. Outra questão que me pareceu pouco verossímil é o fato de alguém deprimido conseguir levar oito amigos para uma noitada suicida. Será mesmo que Alessandro, Otto, Waléria, Danilo, Ritinha, Noel, Lucas e Maria João aceitariam o convite de Zak para uma roleta-russa com o desfecho marcado? Alguns casos parecem um tanto forçados. Se Waléria não queria praticar o aborto, por que então aceitaria se matar? Se Maria João abominava o suicídio, por que iria praticá-lo? E se Otto estava radiante com a possibilidade de viver com o amor de sua vida, por que iria para uma roleta-russa? Muitas das justificativas apresentadas não me convenceram. Tirando um ou outro tropeço, naturais em qualquer romance de estreia, “Suicidas” é uma excelente narrativa policial. Gostei de sua proposta e, ainda mais, de sua execução. Raphael Montes soube construir um drama denso, sombrio e fortíssimo com muitos mistérios e surpresas. Se você gosta de thrillers com reviravoltas, este livro é um prato cheio. Conhecer a literatura de Montes é se inteirar do que há de melhor em nosso país na área do suspense e do terror. Em suma, é um autor imperdível para quem gosta de bons livros nacionais. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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- Livros: Leve-me com Você – A literatura de Catherine Ryan Hyde
Aproveitei esse finalzinho de ano para conhecer um pouco da literatura de Catherine Ryan Hyde, romancista norte-americana best-seller nos Estados Unidos e na Inglaterra e contista premiada internacionalmente. Seu maior sucesso até hoje é “Tributo ao Amor” (BestSeller), livro lançado em 1999 e adaptado para o cinema já no ano seguinte. Por aqui, o longa-metragem ganhou o nome de “A Corrente do Bem” (Pay it Forward: 2000). Apesar da carreira bem-sucedida em seu país natal, Hyde tem, inexplicavelmente, poucos títulos traduzidos para o português. É uma pena! Se eu não estiver enganado, além de “Tributo ao Amor”, são apenas dois os romances desta autora que foram lançados para o público brasileiro: “Coração Púrpura” (BestSeller), obra de 2002, e “Leve-me com Você” (Darkside), de 2014. Vale a pena citar que a escritora tem mais de 30 publicações em seu portfólio. Portanto, no Brasil, conhecemos apenas 10% de seu trabalho literário. Das opções de Catherine Ryan Hyde presentes no mercado nacional, acabei escolhendo “Leve-me com Você” para ser a minha leitura deste final de semana. Tomei essa decisão porque esta obra é a mais recente do grupo de romances disponíveis da autora. Além disso, este título tem uma edição novinha em folha. Ela foi publicada pela Darkside no ano passado. Pelo que entendi, a editora usará esse romance para testar o gosto dos leitores brasileiros. Se o livro vender bem, a Darkside se arriscará a lançar outras obras de Catherine Ryan Hyde. Pela qualidade desta publicação, na certa novas histórias da norte-americana deverão pintar por aí nos próximos meses. Publicado em junho de 2014, “Leve-me com Você” é o vigésimo quarto livro de Hyde. Este romance ficou algumas semanas na lista dos mais vendidos do New York Times na época do seu lançamento e é considerado uma das histórias mais marcantes de sua escritora. Ele possui boa parte das características estilísticas da norte-americana: dramas familiares, personagens com problemas emocionais ou envolvidas com traumas do passado, narrativas que exploram viagens pelos Estados Unidos e a prática de esportes, abordagem positiva da vida, protagonistas que são pessoas comuns e conflitos de natureza sentimental. De certa maneira, podemos dizer que “Leve-me com Você” é um ótimo exemplar da literatura de Hyde. Afinal, ele incorpora todos esses elementos que definem o estilo de sua autora. Como livro para testar o gosto do mercado nacional, acredito que não haja opção melhor. A história de “Leve-me com Você” inicia-se no princípio de junho. August Schroeder, um professor de ciências de San Diego, está em uma oficina mecânica de beira de estrada. Seu trailer quebrou em um lugar meio desértico da Califórnia e ele precisa aguardar o conserto do veículo para seguir viagem até o Parque Nacional de Yellowstone. Todo ano, o professor passa o verão inteiro percorrendo as estradas dos Estados Unidos para conhecer as belezas naturais do seu país. Contudo, esse ano há algo de especial na jornada. August perdeu recentemente o filho único de dezenove anos, Phillip. O rapaz morreu vítima de um acidente automobilístico. O falecimento trágico do garoto provocou uma séria crise conjugal que culminou na separação de August. Agora, o triste e solitário homem quer chegar até Yellowstone para poder jogar parte das cinzas do filho no parque. Em sua concepção, essa será a maneira dos dois se despedirem. O único companheiro de viagem de August é seu cachorro, o sempre alegre Woody. O problema é que o trailer do Sr. Schroeder quebrou e seu conserto exige alguns dias de trabalho do mecânico. Wes Reedy é o dono da oficina e é quem ficou responsável pelo reparo do veículo. Apesar dos preços justos praticados por Wes, a conta será elevada. Com a despesa inesperada, August não sabe se terá dinheiro suficiente para chegar até Yellowstone. Sua grana estava contadinha e seria investida na gasolina necessária para percorrer as centenas de quilômetros até o parque nacional. Enquanto se lamenta pela falta de sorte, August recebe uma proposta inusitada de Wes. O mecânico cogita não cobrar pelo serviço feito nem pelas peças substituídas. Em contrapartida, o dono do trailer terá que levar os dois filhos de Wes em sua viagem. Os garotos de doze e sete anos, Seth e Henry, respectivamente, não terão com quem ficar durante o verão. Wes precisará comparecer à penitenciária local para cumprir uma pena de prisão de três meses por dirigir embriagado. Sem mãe e sem família por perto, as crianças de Wes deverão ficar em um reformatório público enquanto aguardam o retorno do pai. Isso já aconteceu uma vez e Seth e Henry sofreram de mais ao ficarem aos cuidados da instituição pública. Os meninos não querem mais passar por essa experiência e o pai não sabe mais o que fazer para evitar isso. A reação inicial de August Schroeder é de perplexidade. Como assim delegar os cuidados dos filhos por três meses a um desconhecido?! Porém, aos poucos, o professor percebe que Wes não tem muitas alternativas. De qualquer forma, os filhos do mecânico serão enviados para a tutela de pessoas que o pai deles não conhece. E entre as crianças ficarem fechadas em um reformatório e elas poderem viajar em um trailer pelo país, a segunda opção parece bem mais interessante tanto para Wes quanto para os meninos. Pelas estradas norte-americanas, Seth e Henry terão a oportunidade de conhecer novos lugares e de viver experiências únicas para dois garotos pobres do interior da Califórnia. Depois de muito relutar, August aceita a proposta de Wes. Assim, Seth e Henry embarcam no trailer com August e Woody. O grupo seguirá em viagem pelo verão inteiro enquanto o dono da oficina cumpre prisão. Os três meses que ficarão juntos transformará a vida de todos os integrantes da jornada. A amizade do quarteto pouco a pouco se torna cada vez mais sólida. O dono do trailer volta a ter a companhia animada de crianças, o que injeta uma lufada de alegria em seu coração cambaleante. Por sua vez, Seth e Henry terão a chance de, pela primeira vez na vida, viver em um lar onde a confiança e a harmonia impera. E até mesmo Woody se sentirá realizado com as novas e fiéis amizades. As semanas passadas na estrada têm tudo para tornar a viagem perfeita. O único problema é que Wes é um homem mentiroso e alcoólatra. Muitas das coisas que ele diz são mentiras, o que decepciona sua família e o novo amigo. Quando as férias do professor de San Diego se aproximam do final, o protagonista do romance fica em dúvida no que fazer: deverá pegar os dois meninos para cuidar ou deverá devolvê-los para um pai legítimo, mas pouquíssimo confiável? Sua decisão não será nada fácil e envolverá os destinos de muitas pessoas. “Leve-me com Você” é um livro espetacular. Ele tem 336 páginas e está dividido em três partes. As duas primeiras se passam na tal viagem de August com Seth e Henry no verão em que se conheceram. E a terceira e última parte mostra o desfecho da história, quando a trama dá um salto de oito anos para frente. Gostei tanto deste livro que acabei devorando-o. Iniciei sua leitura de forma tímida na sexta-feira à noite. Aí no sábado, passei o dia inteiro com a obra de Hyde em minhas mãos. Achei difícil largá-la. No final daquela tarde, já tinha concluído suas páginas. Acho que não há prova mais concreta da qualidade de um romance de mais de 300 páginas do que lê-lo em menos de 24 horas. São vários os pontos elogiosos que gostaria de comentar sobre “Leve-me com Você”. Em primeiro lugar, adorei a maneira sensível e emocionante como sua narrativa foi construída. Catherine Ryan Hyde é o tipo de escritora que possui grande domínio técnico e sabe como tocar nos sentimentos dos seus leitores. Por isso, prepare-se para ter suas emoções afloradas com essa história. É impossível não derramar algumas lágrimas ao longo da leitura, principalmente na parte final. Outra questão interessante está na construção das personagens. As poucas figuras presentes na trama são tão complexas e contraditórias que conseguem deixar a história de “Leve-me com Você” envolvente por mais de três centenas de páginas. E olhe que o grupo de viajantes passa o maior tempo dentro do trailer. Seria impossível conseguir isso sem protagonistas tão fortes e marcantes. E repare também que a escritora norte-americana trabalha, neste livro, essencialmente com personagens masculinas. Praticamente não há figuras femininas relevantes na trama. Como comentei na semana passada no post sobre “O Homem de Giz” (Intrínseca), é muito difícil para o autor ficcional criar tantas personagens do sexo oposto com verossimilhança e com ótima qualidade narrativa. E diferentemente de C. J. Tudor, Catherine Ryan Hyde faz isso naturalmente e com grande excelência. Adorei também os diálogos construídos por Hyde. Se precisasse apontar algo que mais me agradou no romance, com certeza eu citaria os discursos de suas personagens. As conversas possuem um teor reflexivo que beira a filosofia típica da autoajuda. Mesmo não gostando normalmente desse conteúdo meloso e muitas vezes piegas, nas bocas dos protagonistas do livro esses conceitos se tornaram ricos e contundentes. Em uma história aparentemente banal, são abordadas várias questões profundas e presentes no nosso dia a dia. Envelhecimento, alcoolismo, luto, perdão, culpa, superação, ousadia e gratidão são só alguns dos temas que Catherine Ryan Hyde utiliza. Há vários outros: assumir riscos, lealdade, admiração, medo da morte, arrependimento, generosidade, etc. “Leve-me com Você” é um típico romance de viagem. Pelas páginas do livro, o leitor põe o pé na estrada ao lado das personagens retratadas. Hyde não economiza na descrição dos lugares nem na jornada feita pelos protagonistas. Curiosamente, esse expediente não tornou a história chata ou monótona. Pelo contrário: a trama se transformou em algo mais interessante e rico. É possível conhecer em detalhes os hábitos dos usuários de trailers (algo ainda pouco difundido em nosso país) e dos montanhistas. Além disso, é legal percorrer no livro pontos turísticos dos Estados Unidos como as Cataratas do Niágara, o Grand Canyon, o Parque de Yellowstone e as montanhas mais elevadas da Califórnia. Outro ponto que merece muitos elogios é o acabamento gráfico da edição brasileira. A Darkside não poupou esforços para produzir um livro belíssimo. “Leve-me com Você” é muito provavelmente a publicação mais bonita que passou em minhas mãos neste ano. Tudo nela é incrível: sua capa, seu projeto gráfico e seu interior. Repare no lindo mapa que detalha parte da viagem narrada no romance. Impossível não ficar encantado com a beleza deste produto. Apesar de ter adorado este livro, sei que “Leve-me com Você” não está imune às críticas negativas. Há alguns elementos que prejudicam sua narrativa e sua estética literária. O principal deles é o pouco cuidado com a linguagem. Hyde é o tipo de autora que produz suas obras com grande velocidade e, por isso, não possui muito cuidado com as palavras e as construções frasais empregadas. Ao menos nos seus romances é assim. Nos contos a história é outra! Um bom exemplo do que estou dizendo está no vício de começar os capítulos e os subcapítulos com “August acordou...” ou com alguma derivação disso (“August abriu os olhos...”, “August despertou...”, etc.). Chega uma hora que você tem vontade de gritar: “Não dava para começar a cena de outro jeito?!”. Há também alguns equívocos de ordem narrativa e descritiva. O cume de Pikes Peak não pode estar a 430.728 metros de altura do nível do mar como mostrado no romance. Só para lembrar, o Monte Everest no Himalaia, um dos pontos mais altos do planeta, está a 8.840 metros de altitude. Além disso, me pareceu muito inverossímil que, na época em que a história se passa, entre o final da década de 1990 e o início dos anos de 2000, fosse possível falar tanto no celular em regiões tão remotas dos Estados Unidos. O hábito do uso do telefone móvel e, principalmente, sua maior cobertura não eram tão disseminados naquele instante. E o que falar, então, do uso do Skype pelos garotos pobres se o software só foi lançado em 2003 e demorou algum tempo até se popularizar? Achou poucas as escorregadas da narrativa? Aí vão mais algumas indagações que me fiz: É verossímil um pai querer transferir os cuidados de seus filhos para um homem que acabou de conhecer? E o que podemos dizer do preso que passa várias semanas solto antes de aparecer por livre e espontânea vontade na prisão para cumprir pena? Para curtir “Leve-me com Você” é preciso passar por cima de um ou outro vacilo da autora. Porém, eles não chegam a atrapalhar a leitura nem a construção da história. A trama é tão bem estruturada que rapidamente nos esquecermos dessas incongruências. “Leve-me com Você” é uma leitura adequada para esta época do ano, quando o espírito natalino das pessoas está aflorado e muita gente já começa a traçar novos planos para o ano que está por vir. Ler Catherine Ryan Hyde é uma injeção de ânimo e um debate saudável sobre os problemas que nos perturbam no dia a dia. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CatherineRyanHyde #Drama #LiteraturaNorteAmericana
- Livros: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – O terceiro romance de Marçal Aquino
Marçal Aquino, escritor e roteirista cinematográfico nascido no interior de São Paulo em 1958, possui alguns trabalhos memoráveis. Na literatura, podemos destacar “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos” (Geração Editorial), coletânea de contos de 1999. Essa obra conquistou o Prêmio Jabuti no ano seguinte. “A Turma da Rua Quinze” (Ática), “O Mistério da Cidade Fantasma” (Ática), “O Primeiro Amor e Outros Perigos” (Ática) e “O Jogo do Camaleão” (Ática) são obras infantojuvenis lançadas entre 1989 e 1997. Esses livros integraram a famosa Série Vaga-Lume, leitura obrigatória da criançada nas últimas três décadas. “Cabeça a Prêmio” (Cosac Naify) e “Famílias Terrivelmente Felizes” (Cosac Naify), ambos destinados ao público adulto e publicados em 2003, também se destacaram pela ousadia narrativa. No cinema, “O Invasor” (2002), produzido ao mesmo tempo que o livro homônimo de Aquino, ganhou o Troféu APCA de 2003. “O Cheiro do Ralo” (2007) foi roteirizado pelo escritor paulista a partir do romance de Lourenço Mutarelli e é o meu filme favorito daqueles adaptados por Marçal Aquino. Contudo, a obra mais marcante do escritor paulista na literatura, em minha humilde opinião, é “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras). O romance, o terceiro do autor, foi lançado em 2005. Sete anos mais tarde, essa história foi roteirizada pelo próprio Aquino e se transformou em filme. O longa-metragem foi dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca e teve a atuação de Camila Pitanga e Gustavo Machado, o casal de protagonistas. Curiosamente, eu assisti ao filme na época do seu lançamento nos cinemas, mas confesso envergonhado que hoje não me recordo de quase nada de sua trama. As únicas coisas que me lembro são as várias cenas de nudez de Camila Pitanga e das várias sequências de sexo explícito realizado pelas personagens principais. Não é preciso dizer que achei o filme fraquíssimo. Do contrário algo de sua narrativa teria ficado em minha memória, né? Se eu não fosse um rapaz muito elegante, diria que até mesmo a nudez de Pitanga foi decepcionante. Interessado em conhecer este livro, comprei no último final de semana o romance. E mais uma vez fiquei impressionado positivamente com o talento de Marçal Aquino. Li a obra em duas noites. Comecei na segunda-feira e a concluí já na terça-feira seguinte. “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” é, desculpe-me pelo clichê, mil vezes melhor como livro do que como filme. Aposto que daqui alguns anos não correrei o risco de esquecer de sua narrativa literária como ocorreu com seu roteiro cinematográfico. Mais incrível do que a história em si é o jeito de Aquino contar a trama. Ele mistura presente e passado e interpõe dois conflitos de amor ao mesmo tempo, intensificando o drama psicológico do protagonista. Sem esse recurso, o romance teria perdido grande parte de sua graça (está explicado, portanto, o que faltou no filme!). “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” se passa no início do século XXI em uma cidade interiorana do Pará. A localidade sofre com o conflito entre garimpeiros e empresas mineradoras. Os dois lados disputam violentamente a riqueza natural da região, o que faz disparar a taxa de homicídios e de crimes. Nesse ambiente de grande hostilidade, vive Cauby (sim, igual ao cantor!), um fotógrafo paulista de quarenta e três anos interessado em retratar as pessoas daquele canto remoto (e muitas vezes esquecido) do Brasil. O alvo prioritário de seus cliques é as mulheres que se prostituem. Por isso, ele realiza visitas constantes à zona de meretrício da cidade. Para realizar esse trabalho, Cauby recebeu um financiamento de uma instituição francesa de fotografia. A ideia é que as fotos do brasileiro sejam transformadas mais tarde em um livro. A vida tranquila de Cauby na cidade paraense sofre uma transformação quando ele conhece Lavínia em uma loja de produtos e de serviços fotográficos. A moça de vinte e quatro anos é natural do Espírito Santo, tem uma beleza estonteante e dedica-se nas horas vagas à fotografia. Após aceitar o convite do paulista para participar de uma sessão fotográfica no estúdio particular dele, Lavínia começa um tórrido relacionamento com Cauby. Os dois passam a se encontrar regularmente e não conseguem mais se desgrudar. A paixão da dupla é do tipo avassaladora, assim como as práticas sexuais. O que era para ser uma alegria para Cauby se torna uma dor de cabeça para ele por causa de duas características peculiares da parceira. Lavínia sofre de dupla personalidade e, ainda por cima, é uma mulher casada. A dupla personalidade da moça é manifestada de maneira antagônica. Ora ela é uma pessoa calma, centrada e racional, ora é nervosa, impulsiva e passional. Cada uma dessas mulheres possui suas vantagens e desvantagens. Administrar a complexidade emocional da moça é o maior desafio de Cauby. Além disso, Lavínia é casada com Ernani, um respeitado pastor evangélico. À medida que o tempo passa, a relação extraconjugal de Cauby e Lavínia começa a se tornar cada vez mais pública, transformando-se em um perigo para todos os envolvidos. A história de amor dos protagonistas do romance é lembrada por Cauby quando ele já terminou seu relacionamento com Lavínia. Morando em uma pensão na mesma cidade paraense, o fotógrafo recorda-se dos momentos ao lado de sua amada enquanto ouve um outro hóspede, Altino, narrar sua história de amor platônico por Marinês. Careca e com sequelas de um derrame, Altino detalhe a paixão quase impossível por uma moça comprometida que conheceu no banco em que trabalhava. Mesmo não sendo amado pela colega, ele se dedicou a vida inteira àquele amor impossível. O leitor acompanha a dupla narrativa: a trama de Cauby e Lavínia saem da mente do narrador-protagonista, enquanto a de Altino e Marinês é relatada ao personagem principal na mesa do restaurante da pensão. Assim, passado e presente se misturam o tempo inteiro, assim como os dois conflitos românticos se bifurcam. O texto fica ainda mais rico pois as duas histórias (de Cauby e de Altino) são apresentadas juntamente com a teoria pouco ortodoxa do psicanalista Benjamim Schianberg, um professor universitário especialista no comportamento amoroso dos seres humanos. Cauby é obcecado pelos livros e pela teoria de Schianberg. Curiosamente, Marçal Aquino aproveitaria, quatro anos mais tarde, esta personagem ficcional do seu terceiro romance para criar uma minissérie televisiva chamada “O Amor Segundo Benjamim Schianberg”. Nela, o conceituado psicanalista observava os casais para validar suas teses. “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” possui 232 páginas e está dividido em quatro partes: “O Amor é Sexualmente Transmissível”, “Carne-viva”, “Postais de Sodoma à Luz do Primeiro Fogo” e “Poemas Escritos com Bile”. Nas duas primeiras partes, conhecemos, respectivamente, o início da paixão de Cauby por Lavínia e de Altino por Marinês. Na terceira, acompanhamos o clímax dessas histórias. E, por fim, na última parte, vemos o desfecho surpreendente das duas narrativas. Ao final da leitura, compreendemos o quanto os dramas dos dois homens são parecidos. Ambos são figuras desesperadas. Apaixonados, eles anseiam pela reciprocidade de seus amores, algo que, infelizmente, jamais acontecerá. O primeiro elemento que chama a atenção do leitor neste livro é o da complexidade da mistura narrativa. Os tempos (passado e presente) estão embaralhados nesta história. O narrador vai e volta aos fatos de ontem e de hoje dependendo do seu fluxo de consciência, que viaja livremente. Esse recurso não é nenhuma novidade nos romances, mas Marçal Aquino o utiliza com primor, tornando sua narrativa deliciosa. A mudança temporal pode acontecer em uma frase, o que é rapidamente perceptível ao leitor. O mesmo se aplica a interpolação das tramas. As histórias de Cauby e de Altino estão embaralhadas ao ponto de elas surgirem e desaparecerem de repente no meio do parágrafo. Personagens, situações e cenários diferentes estão o tempo inteiro grudados como em um livro velho em que as páginas estão grudadas umas nas outras. Ler “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” é mergulhar em uma avalanche narrativa. Também gostei do tipo de fluxo de consciência utilizado pelo autor. Esqueça as tramas incompreensíveis em que o narrador fica divagando sobre seus dramas do passado e sobre seus traumas do presente. Aqui não temos o caos narrativo de, por exemplo, “Os Cus de Judas” (Alfaguara), de António Lobo Antunes, de “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), de Clarice Lispector, ou de “A Obscena Senhora D” (Globo), de Hilda Hilst. Apesar de estarem misturados com a realidade e com a imaginação, os pensamentos do narrador-protagonista de “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” ficam claros para o leitor desde a primeira página. Gosto desse tom mais didático e claro. Cauby é o tipo de narrador lógico e que permanece com os dois pés no presente, apesar de gostar de voltar ao passado. Ele não parece nem um pouco amalucado como os narradores citados de Lobo Antunes, Lispector e Hilst. Outra questão interessante para ser notada aqui é a falta de marcação de diálogos, uma característica típica da literatura de Marçal. O discurso direto das personagens do romance entra sem a sinalização gráfica (travessão ou aspas), misturando-se, assim, com a narração. Curiosamente, o leitor não fica confuso com esse expediente. Como os diálogos são fortes e marcantes, fica evidente para quem está lendo a obra que essas frases são manifestações das personagens e não do narrador. E por falar nisso, achei os diálogos produzidos por Marçal Aquino simplesmente maravilhosos. O escritor paulista tem o dom de tornar as conversas de suas personagens verossímeis e saborosas. Adorei também a maneira como as cenas e as personagens se materializam no texto. Fazia um bom tempo que não lia algo que mexesse tanto com a minha imaginação. A descrição de Aquino é tão bem-feita, que acabamos imaginando visualmente o que ele escreveu. Isso fica mais claro no primeiro capítulo, uma pequena obra-prima da literatura nacional. Note como o romancista insere cada um dos elementos da sua trama com riqueza de detalhes que atiçam a curiosidade e a sensibilidade do leitor, construindo visualmente o panorama descrito. Além disso, a ambientação se integra ao estado de espírito das personagens. A violência da cidade, por exemplo, é propagada para os relacionamentos caóticos, infelizes e conturbados das personagens principais (a dupla de casais). O conflito entre garimpeiros e mineradores (na ordem macroambiental) pode ser relacionado aos conflitos conjugais e até mesmo individuais de cada personagem (ordem microambiental). Por isso o tom pesado e um tanto sombrio do livro. Mesmo narrando duas histórias de amor, o que o romancista paulista entrega junto é uma trama de constante desconforto e agonia. A intersecção das histórias de Cauby e Altino também pode ser analisada conjuntamente. O leitor mais atento, na certa, irá compará-las. E ele perceberá, em muitas passagens, as várias semelhanças que elas possuem. Simultaneamente, notará, em outros momentos, o quanto elas são antagônicas. Cauby e Altino são ao mesmo tempo personagens parecidas e completamente diferentes. O resultado final de suas histórias, contudo, é idêntico: homens desiludidos e amargurados, presos ao passado que jamais será reconstituído. As inserções à narrativa da teoria do professor Benjamim Schianberg, uma personagem riquíssima apesar de ser apenas citada, enriquecem ainda mais o texto já primoroso. É muito engraçado a busca por uma explicação lógica e acadêmica para os dramas amorosos. O humor aqui é do tipo sutil e extremamente inteligente. A única escorregada que encontrei na narrativa é quanto às debilidades físicas do protagonista, que surgem de maneira bem clara no final do livro. Porém, elas não aparecem nem direta nem indiretamente no início, algo que era para ser esperado por alguém que já possuía tais problemas. Por exemplo, Cauby tem uma péssima audição. Seria, portanto, de se esperar que ele ouvisse mal os diálogos das pessoas a sua volta. Entretanto, isso não é citado nem fica subentendido. Ele ouve tudo e todos maravilhosamente bem (prova disso é a cena no restaurante da pensão que abre o romance). Somente no final do livro, quando essa deficiência é apresentada, a dificuldade de audição aparece. Com exceção desse detalhezinho, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” é um romance impecável. Seu drama é forte e contundente. Sua história é boa. Ela é até mesmo potencializada pelo tipo de literatura produzida por Marçal Aquino. Fiquei fã do seu texto límpido, instigante, profundo e bastante visual. É muito legal encontrarmos autores talentosos que transformam boas tramas em narrativas excepcionais. E isso é resultado da infinidade de recursos literários usados com primor pelo escritor: diálogos maravilhosos, mistura de diferentes tempos narrativos, personagens ricas, ambientação contundente, surpresas e reviravoltas na trama, humor inteligente e texto visual. Agora entendi o por que não gostei do filme. Como história em si, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” fica um pouco acima da média. Seu valor está efetivamente no tipo de narrativa apresentado ao leitor. E isso o longa-metragem não conseguiu recriar, algo que está intrínseco no romance. Como narrativa literária, este livro de Marçal Aquino é maravilhoso! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Drama #MarçalAquino #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #RomanceNegro
- Livros: O Homem de Giz – O romance de estreia de C. J. Tudor
Li, neste final de semana, “O Homem de Giz” (Intrínseca), título que está na lista das ficções mais vendidas das livrarias brasileiras há mais de um ano. A obra é o romance de estreia de C. J. Tudor, uma jornalista britânica fã de thrillers de terror. Suas principais inspirações vieram das literaturas de Stephen King, Michael Marshall, Harlan Coben e James Herbert e dos roteiros televisivos dos irmãos Duffer. Como sou um fã inveterado deste gênero, não foi nada difícil mergulhar na leitura de “O Homem de Giz”. Confesso que até fiquei surpreso por ter esperado tanto tempo para conhecer este livro. Se soubesse que ele era tão bom, teria produzido este post do Bonas Histórias há muito tempo. Contudo, inexplicavelmente, acabei postergando por meses a aquisição do romance. Na hora H, sempre tinha outro título que me agradava mais no instante de passar pelo caixa da livraria. Publicado em janeiro de 2018 na Inglaterra, “O Homem de Giz” se tornou rapidamente um grande sucesso no Reino Unido. Do dia para noite, a até então desconhecida C. J. Tudor passou a ser vista como a escritora do momento por seus conterrâneos. Em poucos meses, sua primeira obra ganhou traduções para vários idiomas e foi lançada em outros países. A carreira literária de Tudor, portanto, adquiriu dimensão internacional de maneira meteórica. No meio do ano passado, a versão em português do livro chegou às livrarias brasileiras. E como estava acontecendo em várias partes do planeta, “O Homem de Giz” teve uma ótima receptividade por parte do público leitor do nosso país. Desde então, o romance não saiu mais do top 20 dos títulos ficcionais mais vendidos no Brasil. Atualmente, C. J. Tudor se dedica integralmente à literatura. Morando em Nottingham, no norte da Inglaterra, ao lado do marido e da filha pequena, ela já lançou novas obras. Aos poucos, esses livros vão sendo traduzidos e lançados no exterior. Acredito que não demorará muito tempo para as versões em português chegarem às livrarias brasileiras. “The Hiding Place”, “The Taking of Annie Thorne” e “The Other People” são os títulos originais dos novos romances da autora. Por enquanto, os leitores mais ansiosos só conseguem encontrá-los nas versões digitais em inglês. Curiosamente, quando escreveu “O Homem de Giz”, a autora inglesa trabalhava como passeadora de cães. Sua rotina, naquela época, era dividida em caminhadas com mais de vinte cães, nos cuidados com a filha recém-nascida e na produção, nas horas vagas, do seu romance. Apaixonada pela escrita desde pequena, Tudor abandonou a escola aos dezesseis anos de idade. Depois de passar sem brilho por vários empregos no jornalismo (repórter, radialista, roteirista de programas de rádio e de TV, apresentadora e entrevistadora) e em outras áreas (assistente de loja e redatora publicitária), ela inclinou-se pouco a pouco à produção literária. O que parecia mais uma de tantas atividades feitas por C. J. Tudor se transformou em sua principal fonte de renda e ocupação. Enfim, ela encontrava sua vocação como romancista. Nascia, assim, uma nova best-seller. A ideia para escrever “O Homem de Giz” surgiu após Tudor ganhar de presente de um amigo uma banheira. A estreia simbólica do objeto foi feita com animados rabiscos coloridos de giz que simulavam pessoas (homens-palitos). À noite, ao entrar no banheiro no escuro, a escritora se assustou com os aspectos macabros dos desenhos. Aí ela começou a cogitar como poderia utilizar esses elementos em uma história ficcional de terror. Era o pontapé inicial do seu romance. O enredo de “O Homem de Giz” se passa em Anderbury, um pequeno povoado litorâneo na costa leste da Inglaterra. A trama é narrada em primeira pessoa por Eddie Adams, o protagonista do thriller, em dois momentos distintos: em 1986, quando ele tinha doze anos de idade e era apenas um estudante do ensino fundamental, e em 2016, quando, aos quarenta e dois anos, ele trabalha como professor de inglês. Os acontecimentos dos dois períodos são intercalados quase que o tempo inteiro. Um capítulo se passa no presente (em 2016) e outro no passado (1986). Essa alternância permite ao leitor conhecer ao mesmo tempo as causas dos dramas pessoais de Eddie e suas consequências. A infância de Eddie Adams foi abalada por um assassinato e por várias mortes trágicas ocorridas em sucessão. O ponto culminante dessa fase macabra de Anderbury se deu quando Elisa Rendell, uma menina de dezesseis anos que a personagem principal tinha conhecido há alguns meses, apareceu esquartejada em um bosque da cidade. Quem descobriu o corpo dela na mata foi Eddie e seu grupo de amigos (Gav, Nicky, Mickey e Hoppo). O quinteto, nesta época, era inseparável. A única parte do corpo da garota que não foi encontrado foi sua cabeça, misteriosamente retirado da cena do crime. A polícia e os moradores do município foram unânimes em acusar o Sr. Halloran de ser o responsável pelo homicídio. O principal suspeito era professor da escola de Eddie, tinha trinta e um anos e namorava escondido a menina brutalmente assassinada. Contudo, Halloran e Eddie eram grandes amigos e o garoto não acreditava na culpa do professor. Foi o Sr. Halloran que ensinou o narrador do romance a se comunicar com seus coleguinhas através de desenhos feitos a giz pela cidade. A brincadeira da criançada se transformou mais tarde em uma peça para solucionar o crime de Elisa e as outras mortes que aconteceram no mesmo período. Afinal de contas, sempre que alguém morria, surgiam desenhos de giz branco. Foram essas imagens que levaram, por exemplo, Eddie e sua turma a encontrar a menina morta no bosque. O homem do giz seria o responsável pelos homicídios? Qual seria a identidade da pessoa que fazia esses desenhos?! Essas dúvidas perseguem Eddie Adams até a fase adulta. Solitário e melancólico, o professor de inglês continua obcecado por descobrir o que aconteceu no passado. As lembranças daquela época vêm à tona com mais força quando Mickey Cooper (um dos integrantes da antiga trupe de crianças) volta à Anderbury depois de décadas. Agora um publicitário bem-sucedido, ele retorna à cidade natal com o objetivo de escrever um livro sobre o assassinato de Elisa Rendell e os eventos de 1986. A ideia de remexer com o passado é vista como algo delicado e muito perigoso pelas pessoas diretamente envolvidas com os antigos acontecimentos. A volta de Mickey provoca grande mal-estar entre a turma de Eddie. Eles não são mais grandes amigos como no passado. O relacionamento deles esfriou ao ponto de alguns integrantes se odiarem. Caminhar pelos capítulos de “O Homem de Giz” é descobrir o que causou tantas desavenças entre os moradores da pequena cidade do interior inglês. Os segredos daquela época não envolvem apenas as crianças, mas principalmente os adultos. O romance de estreia de Tudor tem 272 páginas. De tão empolgado que fiquei com o livro, acabei devorando-o integralmente em menos de 24 horas. Iniciei a leitura na sexta-feira à tardezinha e concluí a obra no início da tarde de sábado. Acho que levei entre seis e sete horas para percorrer todos os seus capítulos. Este é aquele tipo de publicação que dá para ser lido em uma tarde ou em duas noites consecutivas. A principal característica deste romance é o suspense eletrizante que domina toda a trama. À medida que o leitor vai avançando nas páginas, a intriga vai se intensificando ao ponto de ser impossível interromper a leitura ao meio. As surpresas que aparecem a todo instante na narrativa são o segundo aspecto marcante de “O Homem de Giz”. C. J. Tudor se mostra mestre em inserir novos elementos em sua história que são capazes de inverter e embaralhar a perspectiva do leitor. As surpresas são constantes e chegam ao seu ápice nas páginas finais. Sem dúvida, este é um dos thrillers mais interessantes que li nos últimos anos. Gostei muito como esta história foi contada. O narrador é uma personagem pouco confiável e que suscita dúvidas no leitor desde o início. Por isso, não será surpresa nenhuma descobrir os segredos terríveis que ele guarda com tanto cuidado. Mesmo escrevendo muitíssimo bem, C. J. Tudor não possui a sutileza fina necessária para transformar Eddie Adams em um novo James Sheppard, protagonista histórico de “O Assassinato de Roger Ackroyd” (Globo), clássico de Agatha Christie. Apesar desse tropeço, o narrador de “O Homem de Giz” tem seu valor ao apresentar características típicas das personagens redondas. Ora o leitor se solidariza com ele, ora acaba se questionando sobre sua personalidade contraditória. A escolha por desenvolver a narrativa em dois momentos distintos foi acertadíssima. Apesar de não ser uma grande novidade (muitos best-sellers recentes do gênero investigativo acabaram utilizando esse expediente tanto no Brasil quanto lá fora), esse recurso é difícil de ser feito e demonstra o talento de sua escritora. Ao retratar simultaneamente a história em passado e presente, Tudor potencializa o suspense. A dupla narrativa torna o conflito principal mais dramático e oferece mais ação à trama. Outro ponto que merece elogio é a ousadia da construção das personagens masculinas por C. J. Tudor. A maioria das figuras retratadas no romance é de pessoas do sexo masculino. Elas são de várias idades: de crianças a idosos. Nunca é fácil um escritor escrever com profundidade uma trama com tantas pessoas do sexo oposto. Isso acontece tanto com os autores que criam personagens femininas quanto com as escritoras que precisam produzir personagens masculinas. Tudor parece não se preocupar com isso e, principalmente, não se intimida com essa limitação natural do fazer literário. É verdade que muitas de suas personagens masculinas são estereotipadas. Esse fato incomoda um pouco o leitor mais exigente. Contudo, isso não parece ser um problema apenas das figuras masculinas. Infelizmente, as personagens femininas (as poucas que aparecem no romance) também são planas e recheadas de clichês. A proposta da escritora inglesa parece ser: “vou deixar bem claro para meus leitores o maniqueísmo desta história”. Se por um lado a trama fica mais didática, por outro ela se torna profundamente previsível. Não há muitos nuances aqui: quem é bonzinho é bonzinho, quem é mau é mau e ponto final. Apesar de uma ou outra revelação ser mais ou menos esperada, a maioria delas são surpreendentes. E aí que “O Homem de Giz” se torna um belo romance. Em toda reviravolta que sua história dá, o livro se torna mais rico e complexo. Seu conflito é intrincado e sua resolução exige a descoberta de várias peças soltas do quebra-cabeça narrativo. Portanto, espere de tudo desta leitura. Nesse sentido, seu desfecho é espetacular. Além de apresentar revelações imprevisíveis, o desenlace da obra desemboca em cenas de ação que empolgam e elevam a dramaticidade da história. Achei o estilo de C. J. Tudor uma mistura de Stephen King com Harlan Coben. Do primeiro, temos um enredo feito sob o ponto de vista das crianças aterrorizadas por eventos macabros e inexplicáveis (marca da primeira fase da literatura de King). Do segundo, temos um protagonista devastado por segredos do passado que o atormentam no presente (praticamente todos os livros de Coben giram em torno desse tipo de trama). Essas semelhanças não são uma crítica negativa ao livro de Tudor, mas uma constatação sobre seu estilo literário. Como sou fã dos livros de King e Coben, esse comentário é na verdade um elogio à jovem escritora inglesa. Para finalizar este post, preciso comentar o trabalho gráfico feito pela Intrínseca. “O Homem de Giz” possui um acabamento gráfico maravilhoso. Nota-se o cuidado que a editora teve em produzir o livro tanto na parte do projeto visual quanto nas escolhas dos materiais de impressão. Ao pegar a obra e folheá-la já é possível notar sua beleza estética. Ah se todo livro tivesse essa qualidade de impressão por parte da editora! Estou curioso para conhecer os novos trabalhos de C. J. Tudor. À medida que seus livros forem sendo publicados em nosso país, tentarei lê-los e comentá-los no Bonas Histórias. Vamos ver se consigo cumprir minha promessa. Afinal, ler a jovem escritora inglesa parece ser uma boa ideia. Ao menos foi essa a impressão deixada em sua obra de estreia. Torcemos para não ter sido sorte de principiante. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Filmes: As Golpistas - Um show de Jeniffer Lopez
Há atrizes que ficam rotuladas pelos filmes que fazem e, por isso, demoram para ganhar o reconhecimento da crítica cinematográfica (apesar de possuírem a simpatia das plateias). Lembro-me do caso de Sandra Bullock, protagonista de várias comédias românticas água com açúcar. Ela só foi reconhecida como uma grande atriz recentemente, depois de “Um Sonho Possível” (The Blind Side: 2009). E olha que Bullock não era a primeira opção do diretor John Lee Hancock para o papel principal deste filme. Por esta interpretação, ela conquistou o Oscar de Melhor Atriz de 2010. A mesma sina se repete com alguns atores. Brad Pitt, por exemplo, sempre foi um dos queridinhos de Hollywood, mas nunca foi visto como um intérprete de primeira linha do cinema norte-americano. Contudo, neste ano, ele deu show de atuação em “Era Uma Vez Em...Hollywood” (Once Upon A Time In...Hollywood: 2019) e em “Ad Astra - Rumo às Estrelas” (Ad Astra: 2019). Nesses casos, os intérpretes precisam derrubar os estereótipos criados no começo de carreira ou até mesmo superar as primeiras atuações fracas (no que chamo de Complexo de Cigano Igor). Estou falando sobre isso hoje, no Bonas Histórias, porque muito provavelmente uma nova atriz conseguirá, enfim, ganhar o reconhecimento definitivo da crítica cinematográfica e quebrará a barreira da desconfiança. Estou me referindo a Jennifer Lopez, vista até agora mais como um rostinho bonito (ou seria um corpão escultural?) e uma cantora de apelo popular do que como uma atriz de performances excelentes. Não à toa, ela sempre integrou filmes comerciais de baixa qualidade. Isso até agora. Em “As Golpistas” (Hustlers: 2019), filme que estreou nos cinemas brasileiros na semana passada, J.Lo, como Jennifer Lopez é conhecida pelos fãs, deu um show de interpretação. Não sei se ela ganhará algum prêmio importante do cinema no ano que vem, mas uma coisa ela já conseguiu: mostrar ser uma atriz de enorme talento. Em um papel dificilíssimo (não recrimino as atrizes que o recusaram), ainda mais para uma cinquentona (sim, J.Lo já tem mais de cinquenta anos!), Lopez faz tudo parecer fácil e natural. É verdade que a chegada ao ápice da carreira por Jennifer Lopez não ocorreu através de um salto gigantesco e sim por meio de uma evolução gradual. Seus últimos trabalhos no cinema já mostraram ótimos desempenhos. A virada aconteceu há quatro anos com “O Garoto da Casa ao Lado” (The Boy Next Door: 2015), filme orçado em apenas US$ 4 milhões e que arrecadou nas bilheterias um valor doze vezes superior ao seu custo. Mesmo em um papel em que usava e abusava de sua sensualidade (há inclusive cenas de sexo), J.Lo já indicava ser capaz de pegar papéis de grande carga dramática (perto de “O Garoto da Casa ao Lado”, o papel de Lopez em “As Golpistas” foi fichinha). Foi o que ela fez na sequência, com bons resultados. Em “Lila & Eve – Unidas pela Vingança” (Lila & Eve: 2015) e em “Uma Nova Chance” (Second Act: 2018), a atriz demonstrou estar preparada para saltos maiores. Só restava conseguir a confiança dos diretores para um papel realmente desafiador. E parece que ela conseguiu isso agora. Assisti “As Golpistas” em sua pré-estreia no finalzinho do mês passado e, admito, fiquei impressionado positivamente com a atuação de Jennifer Lopez. Ela rouba para si as cenas durante o longa-metragem inteiro e seu trabalho, no final das contas, é superior até mesmo à produção como um todo. Dirigido por Lorene Scafaria, jovem cineasta em seu terceiro filme como diretora – ela foi produtora executiva do bom "Ricki and The Flash - De Volta Pra Casa" (Ricki and The Flash: 2015) -, “As Golpistas” teve um orçamento na casa de US$ 20 milhões. Em um elenco predominantemente feminino, Lopez teve a companhia de Constance Wu, Julia Stiles (o rosto mais conhecido do grande público depois de J.Lo), Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo, Cardi B e Mercedes Ruehl. A história deste filme se baseia em um fato verídico noticiado pela New York Magazine, em 2015. Na época, a jornalista Jessica Pressler entrevistou uma integrante de uma gangue nova-iorquina de strippers que aplicava o golpe do Boa Noite Cinderela em executivos do mercado financeiro. No artigo “The Hustlers at Scores: The Ex-Strippers Who Stole From (Mostly) Rich Men and Gave to, Well, Themselves”, a jovem criminosa detalhava para a jornalista como ela e suas parceiras faziam para roubar os ricos sujeitos de Wall Street. Uma vez comprado os direitos de adaptação desta história para o cinema, “As Golpistas” foi filmado entre março e maio de 2019. Seu lançamento nos Estados Unidos aconteceu em setembro e na Europa em outubro. Por lá, ele já arrecadou mais de US$ 150 milhões. Agora, o longa-metragem está sendo lançado nos países sul-americanos. Em “As Golpistas”, Destiny (interpretada por Constance Wu) é uma moça de origem coreana que está tendo problemas para conseguir dinheiro. Vendo a avó, com quem mora em Nova York, se endividando para pagar as contas do lar, a jovem resolve tentar a sorte como stripper. Em seus primeiros dias de trabalho em uma boate de strip de luxo, Destiny conhece Ramona (Jennifer Lopez), a principal stripper da casa e uma lenda para os clientes do lugar. Ramona é rica, linda, bem-sucedida, articulada, elegante, inteligente e perfeita em cima do palco (suas performances no pole dance costumam levar os homens à loucura). Maravilhada com o jeito da stripper mais experiente, Destiny se aproxima dela. As duas logo fazem amizade e se tornam companheiras inseparáveis. Paparicando os ricos figurões do mercado financeiro norte-americano, as dançarinas da boate conseguem ganhar muito dinheiro. Aprendendo tudo o que pode com Ramona, Destiny consegue, enfim, ajudar a avó a sair do aperto financeiro e, ainda por cima, adquire um padrão de vida elevado. Usar roupas caras, visitar os mais badalados estabelecimentos de Nova York e morar em um confortável apartamento fazem parte de sua nova rotina. A fase dourada de Destiny e de suas colegas só termina com o estouro da Crise Financeira, em setembro de 2008. Como os primeiros afetados da grave crise econômica que se espalhou pelo planeta foram os profissionais de Wall Street, do dia para a noite a boate ficou vazia. E sem clientes, acaba também o dinheiro das strippers. Destiny conta sua história para Elizabeth (Julia Stiles), uma jornalista da New York Magazine interessada em saber os detalhes da gangue que aplicava golpes nos homens do mercado financeiro. A entrevista é realizada na casa de Destiny. O que parece atiçar a curiosidade de Elizabeth é o perfil de Ramona, a líder das garotas trambiqueiras. Sem preocupações, Destiny narra sua entrada no mundo das strippers e a decadência provocada pela crise de 2008. Contudo, a parte da história que interessa mais à jornalista é a que vem depois disso. Sem clientes na boate, Ramona junta algumas colegas, entre elas Destiny, e organiza um golpe rentável e aparentemente perfeito para conquistar uma pequena fortuna. As lindas mulheres conhecem homens ricos em restaurantes sofisticados da cidade e começam a flertar com eles. Entre um drink e outro, as moças colocam drogas nas bebidas deles, dopando-os. Sem consciência do que estão fazendo, eles entregam seus cartões de crédito sem qualquer cerimônia. Uma vez com os cartões dos ricaços, as strippers realizam grandes desfalques nas contas de suas vítimas. Esse tipo de crime é chamado no Brasil de Boa Noite Cinderela. Ramona considerava esse tipo de golpe perfeito porque normalmente os homens tinham vergonha de procurar a polícia para comunicar os roubos femininos. E os poucos que se dirigiam às delegacias, eram ridicularizados pelos policiais, que não acreditavam nas versões das vítimas (os tiras achavam que eles tinham torrado mesmo a grana na boate). É dessa forma que Destiny e suas colegas acumulam uma fortuna incalculável. “As Golpistas” tem quase duas horas de duração e possui uma câmera extremamente indiscreta e corajosa. A realidade das strippers é apresentada de maneira nua e crua por Lorene Scafaria. O universo das bebidas, das drogas, da nudez, da prostituição e da criminalidade é desnudado sem preocupações quanto aos julgamentos morais. Esqueça o maniqueísmo entre o que é certo e o que é errado. A maioria das personagens deste filme faz o que é preciso para sobreviver e, principalmente, para subir na vida. Muito possivelmente, esta pegada amoral de “As Golpistas” é o seu principal mérito. O longa-metragem mostra a rotina de mulheres que normalmente ficam escondidas da sociedade ou que são glamourizadas pelo cinema (outra forma de mascarar a realidade). Para amenizar um pouco este mundo cão, esta produção de Scafaria tem um tom bem-humorado. Há várias cenas engraçadas, que ajudam a amenizar o tom dramático do enredo. O humor é predominantemente do tipo tragicômico, mas há também algumas passagens de humor pastelão. O fato é que ele funciona muitíssimo bem. Na sessão em que estive presente, o pessoal morreu de rir em várias oportunidades. Junto com o humor, outro ponto que merece ser destacado é a fotografia de “As Golpistas”. As cenas acontecem quase sempre em ambientes fechados. Aí há uma grande distinção entre os momentos vividos por Destiny, Ramona e suas colegas. Quando elas estão atuando no palco ou na boate como strippers, a iluminação é de um tipo (multicolorida, artificial). Quando elas se tornam criminosas, a iluminação é outra (a escuridão e os tons de dourado tomam conta dos cenários). No ambiente residencial ou na hora de lazer/compras das garotas, a luz branca parece preponderar (como se ali morasse a verdadeira faceta dessas mulheres puras e ilibadas). É legal notar essa diferença de perspectiva da fotografia do longa-metragem. Nesse sentido, a trilha sonora acompanha o estado de espírito das personagens (ora elas estão em êxtase, ora a melancolia predomina). Gostei também do ritmo de “As Golpistas”. Na primeira metade da produção, acompanhamos a apresentação do ambiente, do contexto narrativo e das figuras retratadas. Pouco a pouco as coisas vão acontecendo. Na segunda metade do longa-metragem, temos o aparecimento do conflito principal (o crime compensa?!). Aí a história ganha em velocidade e reviravoltas, elementos que não podem faltar em um bom thriller policial. O desfecho reserva algumas surpresas interessantes, capazes de angustiar a plateia. As alternativas de caminho que Destiny precisa escolher não são nada fáceis. Mais uma vez o público recebe uma bofetada na cara do quão complicada pode ser a vida real (não sendo possível julgar o comportamento de ninguém). Algo que pode incomodar os espectadores mais conservadores (além da trama protagonizada por anti-heroínas) é o excesso de nudez do filme (prioritariamente feminino, mas com algumas cenas rápidas de nu frontal masculino). Na saída da sessão, ouvi comentários negativos a esse respeito. Para mim, isso não atrapalhou em nada a experiência cinematográfica. Pelo contrário: a banalidade da nudez até ajudou a nos sentirmos mais próximos das personagens femininas. A câmera indiscreta agiu para intensificar a relação da plateia com as mulheres em cena, como se não houvesse segredos entre a gente. Sob essa perspectiva, esse recurso fez todo o sentido. Só não reparei na indicação etária do filme. De qualquer forma, pelo amor de Deus, não leve crianças para vê-lo. Por falar em nudez, Jennifer Lopez é uma das poucas atrizes que não fica totalmente sem roupa durante o longa-metragem. E mesmo assim, ela é disparada a mulher que mais atrai os olhares curiosos da plateia. A forma física desta mulher é invejável. Se você acha que ela estava linda (para não dizer deliciosa, que é extremamente vulgar...) em “O Garoto da Casa ao Lado”, você precisa assistir “As Golpistas”. Aqui sim vemos uma J.Lo no esplendor de sua beleza, erotismo e forma física. As cenas dela no pole dance (ensaiando ou se apresentando aos clientes da boate) paralisam completamente a boquiaberta plateia do cinema. Não se ouve a respiração de ninguém da sessão tamanha é a concentração do público para o que acontece na telona. Incrível! Se o público fica maravilhado com o corpão de Lopez (e é para ficar mesmo!), é a atuação da atriz que mais encanta a todos. Em uma interpretação digna de Oscar (na categoria Atriz Coadjuvante, que fique bem claro – o papel principal deste filme está com Constance Wu), Jennifer Lopez rouba a cena do começo ao fim. Não fico com receio de dizer que este é o título que mudará a visão que a crítica cinematográfica tem dela. “As Golpistas” é para J.Lo o que “Um Sonho Possível” foi para Sandra Bullock e “Ad Astra - Rumo às Estrelas” (Ad Astra: 2019) foi para Brad Pitt. Fico feliz que mais uma atriz tenha conseguido superar o Complexo de Cigano Igor. Assista, a seguir, ao trailer de “As Golpistas”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Livros: Capão Pecado – A literatura marginal de Ferréz
Hoje, vamos falar no Bonas Histórias de “Capão Pecado” (Tusquets), a principal obra literária de Ferréz. O livro ambientado no Capão Redondo, bairro suburbano de São Paulo onde o escritor cresceu e viveu, é considerado o precursor da nova fase da Literatura Marginal brasileira. Este tipo de literatura, agora chamado também de periférica, nasceu no final da década de 1960 e se desenvolveu nos anos de 1970. João Antônio e Plínio Marcos foram os principais adeptos desse estilo no período inicial. Entre as décadas de 1980 e 1990, Sérgio Vaz passou a produzir livros nessa linha, transformando-se em outro grande nome dessa corrente literária. A proposta desse grupo de artistas era retratar a vida difícil da camada mais simples da população. Esses textos conferiam um olhar humano e extremamente realista para os problemas das pessoas marginalizadas socialmente. Enfim, os esquecidos pelos órgãos públicos e, por que não, pelo mercado editorial ganhavam representatividade e voz na literatura. Tanto a prosa quanto a poesia, além das artes cênicas e cinematográficas, embarcaram nessa linha estético-conceitual. Depois de alguns anos de esquecimento, principalmente na segunda metade dos anos de 1990, a Literatura Marginal foi retomada com força no século XXI. E muito dessa revitalização é creditada a “Capão Pecado”. Com o lançamento e o sucesso do romance de Ferréz, muitos autores vindos de regiões afastadas dos grandes centros urbanos passaram a se autointitular escritores da periferia. Depois da iniciativa bem-sucedida de Ferréz, que conseguiu adentrar no mercado editorial e angariar um público leitor de tamanho respeitado, surgiram vários artistas interessados em seguir os passos do rapaz do Capão Redondo. Assim, os dramas das pessoas dos bairros mais pobres das grandes cidades brasileiras passaram a ser narrados por quem efetivamente vivia e entendia aquela situação. Além disso, algumas editoras começaram a olhar com mais atenção para este tipo de literatura, selecionando as melhores obras e os escritores mais talentosos para seus catálogos. Despontaram nos últimos anos, Allan da Rosa, Sacolinha, Dinha e tantos outros artistas genuinamente da periferia. Estava inaugurada uma nova fase da Literatura Marginal no Brasil. Diferentemente do que muitas pessoas pensam, “Capão Pecado” não foi o primeiro livro publicado por Ferréz. O paulistano que atualmente tem quarenta e quatro anos de idade já havia publicado antes uma coletânea de poemas. Em 1997, ele lançou “Fortaleza da Desilusão”. Porém, a obra não teve grande receptividade da crítica nem do público. O resultado foi completamente diferente com o segundo livro, sua estreia na prosa. Publicado em 2000, “Capão Pecado” se tornou rapidamente um grande sucesso. O romance já vendeu mais de 100 mil unidades e é até hoje lembrado como principal trabalho do escritor. Para alguns críticos menos ortodoxos, trata-se de um clássico contemporâneo da nossa literatura popular. Curiosamente, Ferréz já produziu sete livros depois de “Capão Pecado”, muitos deles até mesmo melhores do que seu romance de estreia. “Manual Prático do Ódio” (Objetiva), de 2003, “Deus Foi Almoçar” (Planeta), de 2011, e “Os Ricos Também Morrem” (Planeta), de 2015, por exemplo, possuem narrativas muito mais encorpadas, intrincadas e intrigantes (algo natural para um escritor que está em constante evolução). Contudo, é impossível falar em Ferréz e não se recordar de seu “Capão Pecado”. Se este título não é sua melhor produção, ao menos se tornou seu best-seller. Além de romancista, Ferréz é cronista, contista, poeta, blogueiro, rapper e editor. Filho de um motorista e de uma empregada doméstica, o rapaz trabalhou desde cedo em uma padaria, foi vendedor ambulante e por anos atuou como funcionário de uma metalúrgica. Nascido e criado no Capão Redondo, seu gosto pela literatura veio da infância, quando pegava emprestado livros nas bibliotecas públicas ou quando podia comprar os títulos mais baratos nos sebos da cidade. A literatura sempre foi para Ferréz uma válvula de escape para a realidade violenta, injusta e amarga em que estava rodeado. Por possuir muitos elementos autobiográficos, “Capão Pecado” mostra parte dos dramas vividos pelo escritor em seu bairro natal durante sua juventude. Protagonizado por Rael, uma espécie de alter ego do autor, o romance retrata de forma nua e crua o dia a dia no Capão Redondo. Rael é um rapaz gordinho, de cabelos enrolados, de óculos com armação grande e que não se desgruda do boné. Impossível não se lembrar de Ferréz, ainda hoje com essas características. O protagonista do livro mora com a mãe, uma empregada doméstica, e com o pai, um alcoólatra imprestável, em uma pequena casa no Capão. O lar é extremamente humilde. Não há cobertor para todos nos dias mais frios e o conforto passa longe dali. O rapaz adora literatura, está sempre com um livro no bolso, comprado de sebos. Ele trabalha em uma padaria como entregador de pães. Calmo, amoroso e um tanto tímido, ele entendeu desde cedo que precisava levar dinheiro para casa. Dona Maria, sua mãe, tem uma saúde frágil e passa a maior parte do dia trabalhando como um burro de carga nas casas das patroas. Já Zé Pedro, o pai, é uma inutilidade. Ele está sempre caído no chão bêbedo ou sofrendo as consequências das ressacas. Rael tem muitos amigos no Capão Redondo. Como qualquer jovem da sua idade, ele gosta de sair com seus trutas, seja para curtir a noite ou para ficar apenas conversando sobre a vida nas ruelas do bairro. Outro passatempo muito apreciado é tomar algo em algum bar próximo ou curtir um baile funk na localidade. O problema é que a violência extrema do Capão acaba transformando aquele lugar simples e amigável em um inferno. O tráfico de drogas, as ações truculentas da polícia, o banditismo e os crimes passionais consomem pouco a pouco a vida dos amigos mais próximos de Rael. A personagem principal se acostuma a encontrar vizinhos e conhecidos jazendo sem vida no chão. A novidade é saber quem (e por quê) será a próxima vítima. Burgos, o vilão da trama, é o assassino de aluguel que mora no Capão. Ele é contratado para fazer serviços fora e dentro do bairro. Quando as encomendas não são fartas, ele também encara um roubo a banco aqui, um assalto a um posto de gasolina acolá. Todos têm medo da fúria e da frieza de Burgos. O assassino não escolhe sua vítima. Se tiver que matar seu irmão para ganhar uns trocados, ele agirá normalmente, sem qualquer dor na consciência e mantendo a excelência de um profissional de primeira categoria. Outra figura relevante nesta história é Matcherros, o melhor amigo de Rael. Diferentemente do protagonista do romance, Matcherros é um jovem fútil e pouco trabalhador. Ele gosta de passar as noites e as madrugadas jogando videogame em casa. Por isso, raramente acorda de manhã ou procura um emprego. Ele também gosta de sair aos finais de semana para pegar a mulherada. Mesmo se comportando como um homem solteiro, Matcherros tem uma namorada, a bela e inteligente Paula. Apaixonada pelo rapaz, a moça não sabe o quanto ele é infiel. A rotina de Rael muda completamente quando ele deixa o trabalho na padaria e arranja um emprego em uma metalúrgica. A mudança é aparentemente para melhor: salário maior e jornada apenas de segunda a sexta-feira (na padaria ele precisava trabalhar aos finais de semana). Além disso, Rael começa a ter um relacionamento amoroso com Paula, a namorada do seu melhor amigo. Ele se culpa pela traição, mas não consegue deixar de se encontrar as escondidas com Paula. A beleza da moça é demais para ele, atraindo-o sem que seja possível pensar nas consequências daquela união. Não é difícil imaginar os problemas que esse relacionamento irá trazer para o filho de Dona Maria e Zé Pedro. Segundo o código de ética do Capão, não existe pior crime do que mexer com a mulher do próximo. “Capão Pecado” é um romance curtinho. Ele tem apenas 176 páginas. Mesmo assim, sua narrativa está dividida em cinco partes. Trata-se de uma leitura que dá para ser feita em uma única tarde ou em duas noites seguidas. Eu, por exemplo, o li entre segunda e terça-feira à noite. Não devo ter levado mais de quatro horas ao todo para percorrer todas as páginas da obra. Cheguei até a cogitar se “Capão Pecado” não seria na verdade uma novela, porém no final da leitura acabei concordando com a classificação de romance dada pelo autor e pela sua editora. Logo de cara, três elementos chamam a atenção do leitor: a ambientação violenta de “Capão Pecado”, a oralidade do texto de Ferréz e a emulação da realidade da trama. Em relação ao primeiro aspecto, tudo parece conspirar contra os moradores do bairro: a prefeitura que quer desapropriar algumas casas, os policiais que olham para os moradores como se todos fossem bandidos, a Justiça que não se preocupa com nada e com ninguém que venha da periferia (Raulito fica preso injustamente por uma semana só para as autoridades averiguarem sua ficha) e as classes média e alta que ignoram a pobreza e aproveitam-se para explorar os mais necessitados. Até mesmo os religiosos (mais explicitamente os pastores das igrejas evangélicas) estão ali para faturar em cima daquele povo pobre. Porém, a violência não é gerada apenas pelos de fora do Capão Redondo. A brutalidade e os abusos estão em todos os lugares, até mesmo dentro do bairro: na vizinhança (Will, Dida e até mesmo Dona Maria Bolonhesa são executados friamente pelos antigos conhecidos), nos amigos (Rael trai sem pudor o amigo de infância) e até mesmo no seio familiar (pais que abusam sexualmente dos filhos). O ambiente feroz e brutal do Capão torna até mesmo a vida dos animais que moram ali um inferno. Repare nas passagens em que gatos e cachorros sofrem direta ou indiretamente com a violência dos humanos. Até o ato sexual entre os casais não passa imune à violência opressora do ambiente do romance. As cenas de sexo protagonizadas por Rael e Paula são similares às cenas dos filmes pornográficos. E, dependendo do ponto de vista, elas chegam até a parecer uma imposição forçada do homem contra a mulher, o que pode levantar uma discussão saudável sobre o tema. Veja, por exemplo, a violência contida nessa pequena passagem: “(...) Rael não conseguiu rezar, pois no bairro a lei da sobrevivência é regida pelo pecado; o prazer dos pivetes em efetuar um disparo, a palavra revolução, a necessidade de ação, mais de 200 mil revoltados que não estão enganados. Rael percebeu que aquele mesmo menino que pedira tantas vezes uma colher em sua porta pra queimar um bagulho, agora rezava para alguém a colocar debaixo de sua língua para que ele pudesse sobreviver. Rael tentou se concentrar em Deus, mas pensou no que seria o céu ... teria periferia lá? E Deus? Seria da mansão dos patrões ou viveria na senzala? Ele entendeu que tá tudo errado, a porra toda tá errada, o céu que mostram é elitizado, o Deus onipotente e cruel que eles escondem matou milhões; tá na Bíblia, tá lá, pensava Rael, mas apresentam Jesus como sendo um cara loiro. Que porra é essa, que padrão é esse? Rael chegou à conclusão mais óbvia: aqui é o inferno, onde pagamos e estamos pagando, aqui é o inferno de algum outro lugar e desde o quilombo a gente paga, nada mudou. Ele se levantou e resolveu não mais respeitar aquela porra, ele sempre desconfiou que os crentes são cheios de querer, que eles te olham como se você estivesse queimando. Eles tão tudo salvo, mas a gente não. Vagou pela rua e lhe vieram várias lembranças, lembranças daquele pastor que esfaqueou um homem morro acima: o homem gritava e se retorcia, os golpes eram fortes e seguidos, o pastor fazia força e o homem ia recuando, subindo o morro, a faca perfurava órgãos internos, o homem era um boneco, caiu no chão frio. A dor do pastor? Uma paixão, o amor de sua filha. Rael sabia da história, a filha pura do homem de Deus e o escravo do crack juntos, unidos, nus no ato de amor divino. Rael tentou parar de raciocinar, tentou parar de pensar, tava tudo errado, a porra toda tava errada. Tudo. Resolveu pegar um ônibus para voltar, ficou esperando no ponto, que estava cheio como sempre. Encontrou Capachão, começaram a conversar e o amigo lhe disse que logo seria chamado para entrar na academia do Barro Branco, onde seria treinado para, se Deus quisesse, em breve tornar-se policial (...)”. Enquanto vemos essa realidade triste e chocante, também nos deparamos com um texto seco e extremamente veloz. Sua principal característica, contudo, está na oralidade. Ferréz escreve como os habitantes do Capão falam. Isso fica mais evidente nos diálogos (uma das partes mais incríveis do livro), mas também na narrativa em terceira pessoa. Veja, a seguir, a beleza desse diálogo. Impossível alguém dizer que ele não é verossímil! "- E aí, truta! Firmeza? - Só, eu tô na boa, choque, e você? - Na moral, tô lá trampando com o Matcherros na firminha dele. - Ah! Tô ligado, o Amaral me contou que ele tá indo pela órdi lá com o esquema. - É, o bagulho virou bem, se pá nóis vamo. Contratá até o Panetone, isso é, se o bagulho dele com o futebol num virá. - Firmeza, o esquema é esse; afinal, como diz o crente, "Se Deus é por nóis, quem será contra nóis". - Choque, a parada sempre foi nesse naipe, e a parada cada vez vai ser pior, as correrias estão ficando mais forte e a parada vai ficar cada vez mais louca, firma! - Fora os malucos que tão só no trampo, que nem o Tiozinho lá da rua de cima, o seu Damião, que sai todo dia na correria, pega buzão lotado e nunca vi ele reclamando. - Só! Mas o que leva esses tiozinhos e alguns malucos mais novo a suar pra caralho num trabalho? Se pá é a vontade de ver o filho no final da noite, tá ligado? E nas correria louca, nem sempre se vê o pivete, e nem sempre se volta pra casa, tá ligado? -Só, choque! Eu também tô nesse sossego, mas é o seguinte, eu sempre procuro o bem, tá ligado? Mas se o mal vier, choque, que o Senhor tenha misericórdia”. Ler “Capão Pecado” é adentrar na realidade dos moradores do bairro da zona sul de São Paulo. Além das particularidades e dos hábitos do lugar (baile da New Black Chic, escola José Olímpio, bar dos Policiais, passeios na Esfiha Chic, músicas dos Racionais MCs, etc.), vivenciamos o jeito próprio de falar do pessoal do Capão. Isso é muito legal. Impossível alguém percorrer as páginas do romance e não se sentir efetivamente no bairro. Note isso tudo neste pequeno trecho: “Chegou à casa do Panetone alguns minutos depois e bateu palmas freneticamente. O amigo logo saiu e o convidou para entrar, Rael deu negativa e perguntou dos dois irmãos, Panetone respondeu que eles tinham acabado de ir. Rael, mesmo com a insistência de Panetone, não contou nada, se retirou e foi para a casa do Matcherros, mesmo sabendo que este estava dormindo. Falou com Cebola o que estava acontecendo e os dois saíram a procurar Will e Dida. Quando estavam descendo o São Bento velho, cruzaram com Burgos, que estava com uma blusa imensa, sinal de que estava armado. Burgos deu sinal para pararem e perguntou se haviam visto Will por lá. Rael estranhou e disse que não sabia que ele havia voltado, Burgos nem agradeceu, virou as costas e saiu apressadamente. Cebola o avisou que o palco já estava armado e que Burgos nunca saía na correria à toa, alguma coisa tava pegando pro lado do Will, e que desconfiava que haviam sido os manos da Paraisópolis que tinham contratado o Burgos pra fazer o serviço; afinal as bocas não podem se dar ao luxo de ficar com prejuízo, porque senão os negócios despencam: é só um nóia saber que tal mano comprou na boca, não pagou, e nada aconteceu, que tá feito o boato que os chefes da boca não tão com nada. O respeito tem que prevalecer. Rael concordou com a tese do amigo e ficou mais preocupado, ainda mais porque sabia que Burgos era sangue no olho e que se ele tava na treta, nada mais poderia ser feito pelo Wil (...)”. A recriação da realidade foi um processo tão bem-feito por Ferréz que merece nossos elogios. O escritor utilizou-se da mistura de eventos e personagens fictícios com pessoas e episódios verídicos. É difícil saber onde começa um e onde termina o outro. É possível enxergar vários trechos autobiográficos na trama, ao mesmo tempo em que outras passagens são completamente inventadas. Essa miscelânea entre verdade e ficção dá um charme especial à narrativa, tornando-a mais sensível e carismática. Não à toa, o livro tenha encantado tanta gente nas últimas duas décadas. Mesmo proporcionando uma experiência literária bastante rica e inusitada, “Capão Pecado” possui vários problemas de ordem narrativa e ideológica. Em relação à narrativa, o principal deles é quanto ao foco narrativo. Nota-se que Ferréz, neste momento, não se preocupava com a definição de um narrador que enriquecesse sua trama. Infelizmente, temos aqui um narrador em terceira pessoa onipresente e onisciente que percorre o bairro inteiro (e até mesmo regiões fora do Capão) sem qualquer lógica. Em determinada cena, ele está próximo do protagonista tendo acesso ilimitado aos seus pensamentos e sentimentos. Até aí beleza. Porém, no parágrafo seguinte, em outra cena, o narrador cola em outra personagem, sem qualquer sentido ou lógica que justifique essa mudança. Se por um lado esse recurso é interessante para ambientar a história de maneira macroambiental, por outro torna a narrativa extremamente caótica e sem sentido em vários instantes. Também não gostei de alguns trechos em que as explicações do narrador são repetitivas (por exemplo, nas apresentações redundantes das personagens secundárias). Outra questão que merece alguma reflexão, agora na seara da ideologia, é a visão maniqueísta entre periferia (pobres são do bem) e centro (ricos são do mal). Será mesmo que todos que possuem dinheiro e moram em bairros bons da cidade são capitalistas desalmados, exploradores desumanos da mão de obra da camada mais simples da população? Segundo o ponto de vista do narrador e do protagonista desta obra, a resposta é um sonoro (e polêmico) sim. Sempre fico com um pé atrás quando vejo generalizações deste tipo. Apesar de uma escorregadinha aqui e outra li, naturais de um escritor que estava iniciando na produção da prosa, “Capão Pecado” não deixa de ser uma obra excelente. Adorei, por exemplo, as intervenções ecléticas no início de cada parte do livro. Alguns capítulos do romance são precedidos por letras de rap, discursos e crônicas de grande profundidade. Esses textos ajudam o leitor a se ambientar ainda mais no lugar onde o conflito do livro é apresentado. E o que dizer, então, da construção das personagens, hein? Mesmo com um texto rápido e sem muitos ornamentos, Ferréz cria figuras marcantes que chegam com força aos olhos e às mentes dos leitores. Mesmo sendo na maioria personagens planas (apenas Rael e, com algum esforço, Paula são redondas), essas criações apresentam inegavelmente uma grande riqueza literária. Achei “Capão Pecado” muito parecido, quanto à ambientação e à estética, aos romances naturalistas do final do século XIX. Assim, esse livro de Ferréz seria uma versão contemporânea de “O Mulato” (Ciranda Cultural) e “O Cortiço” (Penguin), clássicos de Aluísio de Azevedo. Pelo lado erótico, a semelhança pode ser estendida para “A Carne”, romance de Júlio Ribeiro. Repare nas constantes comparações entre os atos das pessoas com os comportamentos dos animais feitas o tempo todo pelo narrador e pelas personagens de “Capão Pecado”. Em muitos momentos, a impressão que se tem é que as figuras retratadas no livro são guiadas unicamente pelos seus instintos animalescos (uma das principais características do Naturalismo). O grande mérito de Ferréz está em mostrar a pobreza, a violência e a precariedade da vida em seu bairro com charme e com uma linguagem revolucionária para os padrões da literatura convencional. Ainda no finalzinho do século XX era uma grande barreira inserir a oralidade e o texto coloquial em um romance. Se antes era inimaginável escrever dessa maneira, hoje em dia não se concebe o contrário. Felizmente, ninguém consegue escrever atualmente desprezando totalmente as marcas de oralidade, as gírias populares e a realidade da camada mais pobre da sociedade. Você até pode achar a história de “Capão Pecado” fraquinha e com muitos equívocos narrativos (como eu considerei), mas não se pode desprezar sua força e sua originalidade. Seu carisma junto ao público leitor brasileiro reside daí. A relevância literária deste romance está mais na proposta estética ousada assumida pelo seu autor do que pelo que é explicitado nas páginas da obra. Se você quiser ver um Ferréz mais maduro e com uma proposta narrativa mais encorpada, então leia seus últimos romances. Destaco “Manual Prático do Ódio”, “Deus Foi Almoçar” e “Os Ricos Também Morrem”. Não à toa, foram essas obras que tiveram mais traduções para outros idiomas, ganhando edições no exterior. Nelas, você verá um escritor extremamente talentoso e versátil. Em “Capão Pecado”, entretanto, você terá a essência de um artista mais intuitivo do que técnico (o que, para uma determinada análise, pode ser até mais interessante). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Premiações: Jabuti 2019 - Os vencedores pela Câmara Brasileira do Livro
No finalzinho de novembro, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) divulgou os vencedores da edição de 2019 do Prêmio Jabuti, o principal da literatura brasileira. Concorreram à premiação livros publicados no ano passado em nosso país. O Livro do Ano de 2019, a estatueta mais importante do prêmio, foi para “Uma História da Desigualdade: a Concentração de Renda entre os Ricos no Brasil 1926 - 2013” (Hucitec Editora), de Pedro Herculano Guimarães Ferreira de Souza. Esta obra também conquistou o prêmio de melhor ensaio sobre humanidades. Este livro foi fruto de uma pesquisa sociológica realizada por Ferreira de Souza, doutor em Sociologia e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), sobre a desigualdade e a pobreza em nosso país. Os resultados deste trabalho foram apresentados para a comunidade acadêmica em 2016 e mostram a série mais longa da evolução da concentração de renda da população mais rica do Brasil. Com 424 páginas, “Uma História da Desigualdade: a Concentração de Renda entre os Ricos no Brasil 1926 – 2013” foi publicado em livro em outubro do ano passado. O Prêmio Jabuti 2019 de melhor romance foi para “O Pai da Menina Morta” (Todavia), obra de estreia de Thiago Ferro nas narrativas longas. O autor e editor paulista, fundador da editora e-galáxia e da revista Peixe-Elétrico, além de colunista das revistas Cult e Piauí, utilizou-se de uma experiência pessoal traumática para construir o drama de seu livro: a morte da filha de 8 anos, em 2016. Com 176 páginas, “O Pai da Menina Morta” foi lançado em março de 2018 e possui uma narrativa fragmentada. O protagonista, uma espécie de alter ego do escritor, enfrenta a dor do luto e tenta reconstruir a vida a partir da tragédia familiar. As melhores coletâneas de contos e de crônicas foram, respectivamente, “Um Beijo por Mês” (Luna Parque), de Vilma Arêas, e “Pós-F: Para Além do Masculino e do Feminino” (Leya), de Fernanda Young. Curiosamente, as duas escritoras nasceram no estado do Rio de Janeiro. Enquanto Arêas recebe o Jabuti pela segunda vez - “A Terceira Perna” (Brasiliense), livro de contos, foi premiado em 1993 -, Young recebe o prêmio postumamente. Vale lembrar que Fernanda morreu em agosto de 2019 aos 49 anos. Lançado em março do ano passado e com 100 páginas, “Um Beijo por Mês” reúne histórias sobre a violência do Brasil atual e sobre as memórias do período mais tenso da Ditadura Militar brasileira. Por sua vez, “Pós-F: Para Além do Masculino e do Feminino” debate, em textos autobiográficos, as diferenças entre ser homem e ser mulher hoje em dia. Este livro possui 128 páginas e foi lançado em maio de 2018. “A Avó Amarela” (ÔZé Editora), de Júlia Medeiros (autora) e Elisa Carareto (ilustradora), foi eleito o melhor livro infantil do Jabuti 2019 e “Histórias Guardadas pelo Rio” (Edições SM), de Lúcia Hiratsuka (escritora e ilustradora), conquistou o prêmio de melhor obra infantojuvenil deste ano. Com 48 páginas, “A Avó Amarela” retrata o cotidiano e os hábitos da zelosa matriarca de uma família. Esta é a primeira publicação de Medeiros e Carareto. Já “Histórias Guardadas pelo Rio” aborda o drama de Pedro. Por mais que tente, o menino não consegue pescar histórias no rio de sua cidade. Ao invés de pegarem peixes, os pescadores recolhem historietas das águas e negociam suas “pescas” com os moradores e os visitantes do município. Além de “Histórias Guardadas pelo Rio”, Hiratsuka conquistou outro prêmio nesta edição: melhor ilustração com “Chão de Peixes” (Pequena Zahar). Fechando as principais categorias da premiação de 2019, “Jeremias - Pele” (Panini Comics), de Rafael Calça (escritor) e Jefferson Costa (ilustrador), conquistou o Jabuti de melhor história em quadrinhos, “Nuvens” (Editora 34), de Hilda Machado, ganhou o prêmio de melhor livro de poesias e “Jorge Amado - Uma Biografia” (Todavia), de Joselia Aguiar, foi eleito o melhor livro de Biografia, Documentário e Reportagem. “Jeremias - Pele” narra o drama de um garoto negro que precisa lidar, pela primeira vez na vida, com o preconceito por causa da cor de sua pele. Com 96 páginas, este romance gráfico foi lançado em abril de 2018. “Nuvens” é o primeiro livro de poemas de Hilda Machado, cineasta e pesquisadora fluminense da sétima arte. Escrito em 1997 e só publicado em março do ano passado, a obra chegou às livrarias nacionais onze anos após sua autora ter se suicidado. Ou seja, trata-se de mais uma premiação póstuma. “Nuvens” tem 96 páginas e apresenta uma vertente do trabalho de Machado até então pouco conhecida do grande público. E “Jorge Amado - Uma Biografia” é a mais completa biografia de um dos mais populares escritores brasileiros. Em 640 páginas, Joselia Aguiar esmiúça, através de extensa pesquisa documental e de relatos com familiares e amigos, a vida pessoal e profissional de Jorge Amado. Esta obra foi lançada em novembro de 2018 e demandou sete anos de pesquisas da autora baiana, conterrânea de Amado. O Prêmio Jabuti de 2019 apresentou grandes alterações em suas categorias e em seu sistema de premiação. As mudanças foram promovidas depois que o prêmio recebeu uma enxurrada de críticas em 2018, que culminou com a renúncia de Luiz Armando Bagolin, até então o curador do Jabuti. Nesta edição, o responsável pelo prêmio foi Pedro Almeida e os membros do conselho foram Mariana Diniz Mendes, Camile Mendrot, Cassius Medauar e Marcos Marcionilo. Pelo menos até agora, a nova equipe passou ilesa às críticas e às reclamações do mercado editorial. Ainda bem! Com 2.103 inscrições, o Jabuti de 2019 teve um aumento de 7% no número de participantes (uma sinalização positiva para um mercado que acumula, ano a ano, queda constante nas vendas). Os dez selecionados de cada categoria (1ª fase) foram divulgados em 3 de outubro. Os cinco finalistas de cada categoria (2ª fase) foram apresentados em 30 de outubro. E os premiados foram revelados em 28 de novembro, em uma cerimônia realizada no Auditório Ibirapuera - Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Os vencedores do Jabuti deste ano ganharam, além do troféu tradicional, um prêmio no valor de R$ 5 mil. No caso do Livro do Ano, o prêmio foi de R$ 100 mil. A escritora homenageada nesta edição foi Conceição Evaristo, escolhida como Personalidade Literária de 2019 por seu trabalho de conscientização sobre a discriminação racial, de gênero e de classe social. 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- Livros: Laika - A novela ilustrada de Nick Abadzis
Nesta semana, em uma passada rápida pela Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, encontrei uma obra curiosa na estante dos destaques do mês: “Laika” (Barricada). Esta novela ilustrada do britânico Nick Abadzis faz uma homenagem à cachorrinha mais famosa da história. Fiquei tão encantado com a proposta deste livro que não consegui deixá-lo na prateleira da biblioteca. Impulsivamente, acabei pegando-o emprestado. Li esta publicação na quarta-feira à noite e, de tão empolgado que fiquei com seu conteúdo, resolvi postar, hoje, sua análise crítica no Bonas Histórias. Para quem não sabe ou não se lembra, Laika foi a cadelinha soviética que estava abordo do Sputnik II, o primeiro foguete terráqueo a levar um ser vivo para o espaço. O feito aconteceu em outubro de 1957, um mês depois do lançamento do primeiro satélite artificial pelo Sputnik I e quatro anos antes da viagem pioneira de Yuri Gagarin no Vostok I. Vale a pena destacar que o final da década de 1950 e os primeiros anos da década de 1960 representaram o auge da Guerra Fria. E a União Soviética, naquele momento, liderava a Corrida Espacial, uma importante peça da propaganda ideológica do sistema comunista. A ideia de Nick Abadzis de reconstruir a trajetória de Laika em uma história em quadrinhos é, por si só, sensacional. Porém, tal projeto editorial exigiu do autor longas pesquisas biográficas e bibliográficas. O ilustrador que mora há tempos em Nova York precisou viajar inúmeras vezes para a Rússia e para a Europa para montar o quebra-cabeça da vida da cachorrinha e dos profissionais envolvidos no Programa Espacial Soviético. Esse trabalho documental levou alguns anos. Obviamente, Abadzis utilizou-se da sua imaginação e da sua criatividade para preencher as lacunas deixadas por sua pesquisa. O livro, portanto, mistura realidade e ficção. Publicado em 2007, justamente no aniversário do cinquentenário da viagem espacial do Sputnik II, “Laika” colecionou prêmios ao redor do mundo. Em 2008, a HQ de Abadzis conquistou o Prêmio Eisner de melhor novela gráfica infantojuvenil, além de ter sido indicada como melhor enredo baseado em fatos reais. No mesmo ano, “Laika” foi indicado ao Prêmio Harvey na categoria de melhor álbum gráfico original. Depois do sucesso nos Estados Unidos, as premiações passaram a vir do outro lado do Atlântico. Em 2009, na França, o livro ganhou o Festival do Livro de Borget na categoria melhor história e, na Itália, foi considerado o melhor romance gráfico em língua estrangeira no Napoli Comicon Awards. No Brasil, esta novela ilustrada foi publicada apenas em 2017, com dez anos de atraso em relação à edição norte-americana. Nick Abadzis nasceu em 1965. E, desde a primeira metade da década de 1980, trabalha como ilustrador de quadrinhos. Ao longo do tempo, ele assinou suas criações com vários pseudônimos. Em sua carreira, Abadzis atuou para as gigantes do HQ norte-americano: Marvel, Titan e DC. Aos vinte e um anos de idade, o britânico já era o mais jovem editor da história da Marvel, um feito que permanece intacto até hoje. Na Europa, Nick Abadzis coleciona passagens pelo Dargaud e Glénat e, no Japão, pelo Kodansha. Ele também foi colaborador dos jornais The Guardian, The Times e The Independent, além de ter sido roteirista do seriado televisivo The Doctor Who. Seu trabalho mais notável até agora é, indiscutivelmente, “Laika”. A trama de “Laika” começa em 1939, na Sibéria. O jovem Serguéi Pávlovitch Korolióv é solto do gulag onde fora condenado a trabalhos forçados. Ali, ele padeceu de fome, esgotamento físico e frio. Apesar do sofrimento pela condenação injusta, o rapaz ganhou, enfim, uma nova chance do governo soviético para retomar sua vida normalmente. Dezoito anos mais tarde, ainda em liberdade condicional, Korolióv é o engenheiro-chefe do Programa Espacial Soviético. Seu trabalho se tornou conhecido mundialmente em outubro de 1957. Nessa data, o Sputnik I levou para o espaço o primeiro satélite artificial da história. O feito virou notícia nos jornais nos quatro cantos do planeta e se tornou uma importante peça da propaganda soviética. Nesse período, Estados Unidos e União Soviética enfrentavam-se ideologicamente. Eram tempos de Guerra Fria. E o programa espacial de ambos indicava, segundo a concepção dos seus governantes, o quanto seu sistema econômico (capitalismo ou comunismo) era ou não superior ao do adversário. Ciente da repercussão positiva da proeza do Sputnik I, Nikita Khrushchov, líder soviético, convoca Serguéi Korolióv para uma reunião no Kremlin. A ordem do comandante do país é que o engenheiro-chefe realize um feito ainda mais extraordinário no quadragésimo aniversário da Revolução Russa. Korolióv pensa a respeito e lança a ideia: “E se eles enviassem o primeiro ser vivo para o espaço?”. Khrushchov adora a proposta e, imediatamente, Korolióv inicia o projeto do Sputnik II. O problema é que o aniversário da Revolução Russa será dali um mês. Ou seja, o engenheiro-chefe e sua equipe têm apenas 30 dias para enviar um foguete para o espaço com o primeiro terráqueo a bordo. Pelo tempo reduzido de trabalho e pelos riscos da missão, rapidamente os soviéticos descartam que o viajante pioneiro seja um homem. Assim, o primeiro cosmonauta será um cachorrinho. Esse é o encerramento da primeira parte da novela de Abadzis. No início da segunda parte de “Laika”, a história volta um pouco no tempo e sofre uma mudança sensível de foco narrativo. Deixamos de acompanhar Serguéi Korolióv e passamos a ver a história de Kudriávka. Em 1954, em Moscou, uma cachorrinha dá a luz a sete filhotes na casa de importantes figuras do governo federal. Cabe a Tatiana, a empregada, a tarefa de se livrar das crias da cadela. Afinal, uma residência tão conceituada como aquela não pode abrigar tantos cachorros. Com bom coração, Tatiana doa cada filhotinho para uma família. Kudriávka, a cachorrinha que a filha de Tatiana mais se afeiçoou, é dada para Mikhaih, um menino genioso e malcriado, cuidar. O garoto faz Kudriávka sofrer muito, trancando-a no quarto escuro e se esquecendo de dar água, comida e carinho. Cansado do bichinho, Mikhaih atira a pequena Kudriávka em um rio. Por sorte, a cadelinha sobrevive e passa a viver nas ruas de Moscou. Esperta, ela consegue fugir sempre da carrocinha. Dois anos mais tarde, entretanto, a cachorrinha, agora já crescida, é, enfim, capturada pela carrocinha. É o fim dos dias de liberdade nas ruas de Moscou. Pela sua esperteza, Kudriávka é levada para o Programa Espacial Soviético. Inicia-se, dessa maneira, a terceira parte da trama. Kudriávka é colocada aos cuidados de Elena Alexandrovna Dubrovskaia, veterinária-chefe do Instituto de Medicina da Aviação. É Elena quem nomeia a cachorrinha recém-chegada coincidentemente de Kudriávka, por causa do formato de seu rabinho. Curiosamente, esse é o mesmo nome que lhe tinha sido dado pela filha de Tatiana. Alguns meses depois, ao se destacar na equipe de cadelas de Elena Dubrovskaia nos exercícios de simulação de voo, Kudriávka recebe um novo nome: Laika. Dessa vez, quem é o responsável pela nomeação é o governo da União Soviética, interessado em transformar o animalzinho em peça de sua propaganda ideológica. Quando isso acontece, a cachorrinha já foi escolhida para tripular o Sputnik II, viagem essa que entraria para a história da humanidade. Sem saber o que o futuro lhe reserva, Kudriávka/Laika vê sua dona, Elena, padecer de sofrimento. A veterinária não suporta a ideia de se afastar da sua cachorrinha predileta. “Laika” é uma história em quadrinhos de leitura fácil, gostosa e rápida. Acho que concluí suas pouco mais de 200 páginas em uma hora e meia. É possível ler a obra de Nick Abadzis de uma só vez. Quem não consegue ficar tanto tempo concentrado lendo, opte por interromper a leitura no final das partes. São quatro. De maneira interessante, elas dividem muito bem a narrativa em momentos distintos e permitem ao leitor um respiro. O primeiro aspecto que chama a atenção neste livro é a composição histórica de sua trama. O trabalho de reconstituição dos acontecimentos da época da Guerra Fria e da vida na União Soviética entre as décadas de 1930 e 1950 é impecável. O leitor se sente realmente vivenciando os momentos históricos do século passado como se eles estivessem acontecendo hoje, agora. Os detalhes da Guerra Fria, o embate ideológico e político entre Estados Unidos e União Soviética, a burocracia estatal em Moscou, o drama dos engenheiros envolvidos no Programa Espacial Soviético, as particularidades dos poderosos e as preocupações das pessoas comuns transformam “Laika” em uma excelente novela histórica. Essa construção temporal é tão bem-feita que chegamos a acreditar em todos os fatos narrados, inclusive na biografia de Kudriávka/Laika. É claro que a trajetória de vida de uma cachorrinha não pode ser refeita com tantos detalhes como apresentados nesta novela. Nesse ponto da narrativa, Nick Abadzis usou e abusou de sua criatividade. Para o leitor, fica quase impossível saber onde começa a ficção e onde termina a realidade. Outra escolha muito feliz do autor foi o acréscimo de boas doses de dramaticidade à história. Em meio a feitos grandiosos da nação, o que encontramos de fato é uma coleção interminável de sofrimento pessoal (e animal). Desde o engenheiro-chefe e a veterinária até a menina pobre e sua cachorrinha abandonada nas ruas, todos são passíveis de padecer de muita dor. Os dias não são fáceis para ninguém. As injustiças, as violências e as maldades podem ser políticas de estado ou mesmo ações individuais. Prepare-se, portanto, para chorar (ou para segurar o choro) à medida que a novela se desenrola). Nesse sentido, as constantes trocas de foco narrativo (narrador em terceira pessoa muito próximo a diferentes personagens) ajudam a construir o tom dramático da história. Praticamente acompanhamos os momentos de maior drama de várias figuras: na primeira parte temos o sofrimento de Serguéi Korolióv, na segunda o de Tatiana, de sua filha e de Kudriávka, e nas duas partes finais vemos o padecimento de Elena Dubrovskaia e Kudriávka. Se por um lado, essas constantes mudanças de ponto de vista narrativo podem causar alguma estranheza para quem estuda Teoria Literária (em particular, os estudiosos do foco narrativo), por outro lado elas se encaixam perfeitamente na proposta de Abadzis. Com isso, temos uma história extremamente emocionante. Gostei também da composição das personagens. Há figuras redondas (como Serguéi Korolióv) e planas (como Elena Dubrovskaia). Há vilões (por exemplo, Mikhaih) e heróis (Kudriávka). Como narrativa, “Laika” é impecável. Juro que não consegui encontrar nenhum ponto falho nessa construção (a única exceção é a respeito do foco narrativo – já comentado no parágrafo anterior). Se a narrativa é excelente, as ilustrações do livro não ficam atrás. Nota-se o talento de Nick Abadzis para contar histórias tanto através de palavras quanto pelas imagens. Boa parte do conteúdo narrado em “Laika” se dá apenas visualmente. Repare na construção dos quadros da HQ. Seus tamanhos distintos e o acréscimo de imagens fora de ordem dão graça à trama e reforçam o seu apelo dramático. Quando insere elementos textuais, Nick Abadzis também consegue surpreender. Ele, por exemplo, dá voz aos latidos dos cachorros, um recurso ousado e interessante que aproxima ainda mais os leitores dos animaizinhos. “Laika” merece todos os prêmios conquistados e Nick Abadzis precisa continuar recebendo os elogios por esta produção. Fiquei tão encantado com esta novela ilustrada que, assim que devolvi o material emprestado na Biblioteca Mário de Andrade, passei na Livraria Cultura da Avenida Paulista para comprá-lo. Queria ter esta obra em minha biblioteca particular. Infelizmente, o título não estava à disposição na loja. Por isso, comprei-o, ontem à noite, pelo site. Agora estou aguardando chegar. Só vou sossegar quando ter “Laika” novamente em minhas mãos e o colocar na prateleira do meu quarto. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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