top of page

Sistema de Pesquisa

Resultados encontrados para busca vazia

  • Filmes: Um Dia de Chuva em Nova York - O bom e velho Woody Allen

    No final de novembro, estreou nos cinemas brasileiros o novo filme de Woody Allen. “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018) é a comédia romântica que marca a volta do cineasta norte-americano à sua cidade natal. Assim, temos um longa-metragem que mistura as características das produções de Allen das décadas de 1970 e 1980 com o estilo de suas produções mais recentes - fase internacional iniciada com “Ponto Final - Match Point” (Match Point: 2005). Quem é fã do diretor nova-iorquino (e deixa suas polêmicas em segundo plano) não pode perder “Um Dia de Chuva em Nova York”. Assisti ao filme no primeiro final de semana em cartaz, mas só agora consegui escrever uma crítica no Bonas Histórias. O lançamento de “Um Dia de Chuva em Nova York” foi, infelizmente, marcado por muitas polêmicas. Por causa do movimento #MeToo, que a partir de 2017 evidenciou os casos de abuso sexual no mundo artístico, Woody Allen teve que explicar mais uma vez um episódio nebuloso do seu passado. Em 2014, ele foi acusado de ter assediado a enteada, Dylan Farrow, quando ela era ainda uma criança. Dylan é filha de Mia Farrow, ex-esposa do cineasta. A jovem acusa o padrasto de tê-la assediado em 1992, quando ela tinha 7 anos de idade. A investigação da polícia norte-americana inocentou o diretor, mas o episódio voltou a ganhar os holofotes da mídia com o ápice do #MeToo. Muita gente do mundo artístico riscou o nome de Allen de sua agenda de amigos e de admiradores. Como consequência da revitalização do escândalo sexual, Woody Allen perdeu o recente contrato comercial que tinha assinado com a Amazon. A empresa de Jeff Bezos bancaria a produção de quatro filmes do cineasta. “Um Dia de Chuva em Nova York” seria o primeiro desta parceria. Mesmo sem o apoio da Amazon, que rompeu o contrato após a volta das notícias comprometedoras sobre Allen, o filme foi rodado. Contudo, na hora de lançá-lo, novos problemas apareceram. Nenhuma distribuidora se interessou em veicular o filme nos Estados Unidos. Parte do elenco também se colocou contrário às atitudes de Allen, se recusando a participar dos eventos de lançamento. Por tudo isso, “Um Dia de Chuva em Nova York” chegou aos cinemas internacionais muito atrasado (era para ter entrado em cartaz no ano passado) e bastante chamuscado. Polêmicas à parte, o novo longa-metragem é o quinquagésimo sétimo de Wood Allen. E ele é o primeiro totalmente ambientado em Nova York, uma das características da primeira fase da carreira do diretor (quando esta cidade era quase uma personagem de suas histórias), desde “Melinda e Melinda” (Melinda and Melinda: 2004). Estrelado por Timothée Chalament, Elle Fanning, Selena Gomez, Liev Schreiber, Jude Law e Diego Luna, “Um Dia de Chuva em Nova York” teve um orçamento na casa de US$ 25 milhões. A trama do longa-metragem inicia-se com Ashleigh Enright (interpretada por Elle Fanning) comunicando ao namorado a necessidade de realizar uma viagem de final de semana a Nova York. A jovem estuda jornalismo em uma pequena universidade do interior. Ela conseguiu marcar uma entrevista com o famoso cineasta Roland Pollard (Liev Schreiber). O material será usado em um trabalho da faculdade. Gatsby (Timothée Chalamet), o namorado de Ashleigh e seu colega na universidade interiorana, fica empolgado com a viagem. Como nova-iorquino e bon vivant, o rapaz irá junto e apresentará a cidade para a amada. O final de semana tem tudo para ser extremamente romântico, uma lua-de-mel informal do jovem casal de namorados. Ao chegar em Nova York, contudo, os planos de Ashleigh e Gatsby são seriamente alterados. A entrevista com Roland Pollard era para durar apenas uma hora, mas se estende muito (muito mesmo!). O diretor se sente atraído pela jovem jornalista e a convida para acompanhá-lo no final de semana. Ashleigh aceita prontamente a proposta tentadora. Assim, ela conhecerá Ted Davidoff (Jude Law), o roteirista dos filmes de Pollard, e Francisco Vega (Diego Luna), um conhecido galã espanhol de Hollywood. Todos parecem seduzidos pela moça, que rapidamente esquece do namorado. Entediado sem a presença de Ashleigh, Gatsby passa a flanar sozinho por Nova York, visitando seus lugares favoritos (normalmente estabelecimentos de boa música e que remetem ao charme das décadas de 1950 e 1960, as mais românticas segundo o jovem sonhador). O rapaz é viciado em jogo de Poker e em apostas a cavalos, é apaixonado por música antiga, se comporta como um hedonista inconsequente e possuí o espírito de um saudosista inveterado. Em meio às suas andanças pela metrópole, Gatsby reencontra Chan (Selena Gomez), a irmã caçula de uma antiga ex-namorada. Agora crescida, Chan é totalmente diferente de Ashleigh e do próprio Gatsby: ela é prática e antirromântica, não vendo a vida com a aura idílica do ex-namorado da irmã. A moça passa a desprezar Gatsby e até mesmo a ridicularizá-lo. Paradoxalmente, essa sua postura ácida os aproxima. Se o plano de Ashleigh e Gatsby era passar o final de semana grudados, eles conseguiram fazer exatamente o oposto. Os dias em Nova York serão a prova de fogo dos sentimentos dos namoradinhos. Será que eles (e, principalmente, seu relacionamento) conseguirão sair ilesos depois das aventuras caóticas pela Big Apple, que insiste em despejar água na cabeça dos moradores e visitantes? Com uma hora e meia de duração, “Um Dia de Chuva em Nova York” mistura um charme vintage com a acidez sutil das críticas amorosas de Woody Allen. Além disso, o cineasta norte-americano acrescenta no texto do roteiro pitadas de seu humor tragicômico, extraídas dos dramas cotidianos, da melancolia existencial e das angústias íntimas de suas personagens. Ou seja, não há nada mais woodyaliano do que isso, né? O primeiro elemento que chama a atenção da plateia em “Um Dia de Chuva em Nova York” é a volta de um protagonista-narrador com características autobiográficas (algo comum na primeira fase da carreira de Allen, mas que tinha sido totalmente esquecido na fase internacional). É inegável que Gatsby seja o alter ego do diretor. A personagem de vinte e poucos anos é uma versão juvenil de Woody Allen, incorporando os trejeitos, os gostos, as angústias e o humor negro do cineasta. Só faltaram os óculos grandes e as olhadas diretamente para a câmera. Por uma perspectiva mais objetiva, Gatsby soa extremamente inverossímil (como um jovem pode sentir saudades de uma época em que não viveu?). Por outro lado, quando pensamos em uma construção autobiográfica do cineasta, o protagonista do filme faz sentido. Como é típico do cinema woodyaliano, temos em “Um Dia de Chuva em Nova York” uma overdose de personagens melancólicas, solitárias, desajustadas socialmente e em crise existencial. Seus relacionamentos amorosos são tão frágeis que podem desmoronar em uma visita despretensiosa até a esquina. Hilário! As surpresas e as reviravoltas da trama também são uma constante do início ao fim do longa-metragem. Por mais negativa e amarga que seja a realidade pintada pelo diretor, suas narrativas ainda sim possuem um charme que cativa a plateia. Admiro o jeito descontraído, leve e aparentemente banal, mas ao mesmo tempo profundo, inteligente e intenso, de Allen em contar suas histórias. Seus desencontros amorosos são primorosos (e inigualáveis). É preciso citar a maneira magistral do diretor em construir a ambientação do seu novo filme. Nova York não é apenas uma personagem do longa-metragem. A cidade é quase uma das protagonistas. Filmada de uma perspectiva mais delicada, romântica e saudosa, a Big Apple se diferencia daquele lugar visitado normalmente pelos turistas. A cidade retratada na tela é aquela que habita o coração e a alma do cineasta. Incrível! Ambientar quase todo o filme sob uma chuva insistente (ora fina/garoa, ora forte/tempestade) escancara ainda mais o lado poético e sensível desta narrativa. Repare quando a chuva começa e quando ela termina (de uma forma sutil, a água despejada pelas nuvens indica algo relevante do sentimento do protagonista-narrador). Por falar em chuva, achei o desfecho de “Um Dia de Chuva em Nova York” simplesmente perfeito. Além de surpreendente, ele amarra todos os elementos da trama, sem necessariamente agradar a plateia (ou pelo menos, a grande parte dela). O desenlace do filme mistura o romantismo indolente e exacerbado de Gatsby, a ambição confusa e inconsequente de Ashleigh e a acidez prática e contraditória de Chan. É difícil até mesmo dizer se a narrativa cinematográfica termina com uma mensagem positiva ou negativa. Incrível. Outros pontos que merecem destaque é a trilha sonora maravilhosa e a excelente atuação da maioria dos atores (só Selena Gomez está um ou dois tons abaixo dos seus colegas). Dos jovens atores, Elle Fanning é o destaque absoluto. Ela está impecável como a caipira que fica deslumbrada com a metrópole e com o universo do show business. Se olharmos para Timothée Chalamet como uma representação de Woody Allen, o rapaz não desaponta. Por fim, note a forte intertextualidade cinematográfica em “Um Dia de Chuva em Nova York”. Algumas referências são mais diretas como a de Roman Polanski (chamado no filme de Roland Pollard) e Antonio Banderas (Francisco Vega na versão ficcional). Outras são mais sutis, exigindo algum repertório do público, como o caso do roteirista que se revolta com a traição da esposa, apesar de traí-la há anos com várias mulheres (chamado de Ted Davidoff no longa-metragem). É verdade que este não é o melhor filme de Woody Allen nas duas últimas décadas – posto ainda ocupado por “Blue Jasmine” (2013). Também não será o meu favorito deste período – “Vicky Cristina Barcelona” (2008) permanece insuperável. Também não pode ser apontado como o mais disruptivo dos últimos anos – “Ponto Final – Match Point” (Match Point: 2005) é maravilhoso nesse sentido. Mesmo assim, “Um Dia de Chuva em Nova York” é um filme ótimo que merece um lugar especial no portfólio gigantesco do diretor. Achei-o bem melhor, por exemplo, do que “Homem Irracional” (Irrational Man: 2015), que nem a presença dos incríveis Joaquin Phoenix e Emma Stone conseguiram salvar. Para os fãs de Allen, “Um Dia de Chuva em Nova York” é a produção que mistura aspectos da antiga fase com a nova (por isso, a repetição de temas e conflitos). Para o público em geral, que não acompanha tão atentamente os longas do norte-americano, temos um filme engraçado, bonito e dinâmico sobre os encontros e desencontros afetivos. Independentemente das polêmicas em torno do nome e do passado de Woody Allen, continuo admirando seu trabalho e o seu estilo cinematográfico. Além disso, é admirável que um cineasta com mais de 80 anos continue produzindo novas histórias e excelentes filmes todos os anos. Vale a pena lembrar que esse seu ritmo alucinante se mantém ininterrupto há mais de meio século. É preciso tirar o chapéu e enaltecer a força do seu trabalho. Assista, a seguir, ao trailer de “Um Dia de Chuva em Nova York”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinema #Filme #Cinemanorteamericano #ComédiaRomântica #Tragicomédia #WoodyAllen #TimothéeChalament #ElleFanning #SelenaGomez #LievSchreiber #JudeLaw #DiegoLuna #Drama

  • Livros: A Obscena Senhora D – A novela ousada de Hilda Hilst

    Neste final de semana, li “A Obscena Senhora D” (Globo), uma das novelas mais ousadas de Hilda Hilst. Escritora polêmica, instigante e à frente do seu tempo, Hilst se notabilizou pela produção poética. Versátil, ela escreveu também prosa, dramaturgia e crônica. Em vida, sua obra sempre ficou meio que à margem, um tanto ignorada pelo público leitor e desprezada pelo mercado editorial. Por muito tempo, a figura excêntrica da autora teve mais destaque na mídia do que seus trabalhos. Por isso mesmo, no ano passado, a FLIP homenageou Hilst e sua literatura. Era o ápice de um processo de retomada/releitura de uma, até então, subvalorizada escritora brasileira da segunda metade do século XX. Resolvi ler “A Obscena Senhora D” por indicação da Carol Zuppo Abed, minha ex-professora do Instituto Vera Cruz (beijo, Carolzinha!). No ano passado, quando perguntei se ela tinha algum livro para sugerir para o Talk Show Literário (tenho essa obsessão por questionar meus professores sobre isso), ela foi categórica em apontar a novela de Hilda Hilst como um bom material para ser trabalhado. Assim, hoje, apresento a análise crítica de “A Obscena Senhora D” neste post do Bonas Histórias. E no ano que vem, podem esperar, teremos Hillé, a protagonista desta trama, como uma das entrevistadas de Darico Nobar. O bate-papo com a personagem de Hilst integrará a quarta temporada dos Clássicos Brasileiros do Talk Show Literário. Escrito em 1981 e publicado em 1982, “A Obscena Senhora D” é a quinta narrativa em prosa da autora. Quando o livro chegou às livrarias brasileiras, Hilda Hilst já tinha 52 anos de idade e mais de 30 de carreira. Era, portanto, alguém em plena maturidade pessoal e profissional. Nesta época, ela tinha se separado a pouco do marido, o escultor Dante Casarini, e havia começado a participar do Programa do Artista Residente na UNICAMP. Se fossemos dividir a literatura de Hilst em estágios, podemos pontuar a primeira fase como poética (nas décadas de 1950 e 1960), a segunda como dramaturga (nos anos de 1960) e a terceira como prosa ficcional (depois de 1970). Obviamente, essas divisões são meramente simbólicas, pois Hilda continuou produzindo, por exemplo, poesia até o final da vida. Na fase da prosa ficcional, podemos ainda enxergar uma subdivisão. A autora começou produzindo, nas décadas de 1970 e 1980, narrativas sérias e com uma pegada filosófico-existencialista. Os melhores títulos desse momento são “Ficções” (Quiron), de 1977, e “Tu Não Te Moves de Ti” (Globo), de 1980. Depois, Hilda descambou, na década de 1990, para a pornografia e para os textos nem um pouco sérios. Os melhores exemplares desse estágio são “O Caderno Rosa de Lory Lamby” (Globo), de 1990, e “Cartas de um Sedutor” (Globo), de 1991. Assim, podemos dizer que “A Obscena Senhora D” faz parte da fase de prosa ficcional séria e filosófica da escritora (a minha favorita!). A protagonista da novela é Hillé, uma senhora de 60 anos de idade. Viúva e sem filhos, ela passa os dias sozinha dentro de sua casa. A morte do marido, Ehud, abalou-a consideravelmente. A impressão que se tem é que Hillé enlouqueceu. Ela anda pelada pela sua residência, indiferente aos olhares perplexos dos vizinhos. Ela gosta de ficar com as janelas fechadas para manter o ambiente interno o mais escuro possível. Quando algum garoto aparece para espiar o que se passa por lá, Hillé os espanta com caretas assustadoras. Ela também prefere habitar um local específico da residência: a parte de baixo das escadas. Esse é um cantinho em que a viúva guarda boas lembranças do marido. E por falar em Ehud, ele é presença constante na mente da esposa. Ela continua falando com o esposo, rememorando obsessivamente diálogos e situações do passado. Apesar de o quadro da protagonista ter piorado muito nos últimos anos, as excentricidades de Hillé começaram antes mesmo da viuvez. Ainda jovem, a mulher não parava de questionar Ehud sobre questões existencialistas: onde estaria Deus?; o que vem depois da morte?; qual a razão da vida humana?; o que seria pecado?; quanto tempo dura o amor?; etc. De tão bombardeado que era pelas perguntas da amada, Ehud dizia que não iria viver muito. Segundo sua crença, o interrogatório interminável que estava sujeito diariamente iria matá-lo antes que ele completasse 60 anos. Esse hábito de fazer perguntas profundamente reflexivas era uma mania de Hillé (o companheiro era apenas a principal vítima). Ela provocava situações embaraçosas quando questionava amigos, conhecidos, vizinhos e parentes sobre os assuntos que ninguém parava para pensar no dia a dia (e que causavam algum tipo de bate-boca quando suscitados). Por causa do comportamento melancólico, introspectivo e, principalmente, inquisitor da esposa, Ehud a apelidou de Senhora D. O D, nesse caso, significava derrelição: uma espécie de desamparo e abandono. A alma de Hillé buscava de forma doentia explicações para uma infinidade de questões filosóficas que não podiam ser esclarecidas facilmente pelo pobre do marido e pelas pessoas que estavam a sua volta. Enquanto Hillé não parava de fazer perguntas, tudo o que Ehud queria era que ela lhe fizesse um cafezinho. Ela nunca fez um cafezinho para ele. “A Obscena Senhora D” é um livro bem curtinho. Ele não tem mais do que 100 páginas. Além disso, sua diagramação é bastante generosa, com espaçamento duplo e margens com recuos longos. À primeira vista, o leitor pensa que é possível ler a obra inteira em aproximadamente uma hora. Ledo engano! A complexidade psicológica da trama e a polifonia narrativa exigem uma leitura atenta e, por consequência, lenta. Não se surpreenda se você gastar três ou quatro vezes mais tempo do que está habituado para percorrer essa quantidade de páginas. E também não estranhe se, ao final da leitura, você quiser recomeçá-la. A sensação de incompreensão é normal. Hilda Hilst faz parte do grupo de escritores que acredita na inteligência do seu leitor e, assim sendo, não entrega nada mastigadinho para ele. A primeira característica que chama a atenção neste livro é a sua polifonia. A multiplicidade e a mistura de vozes são intensas do início ao término da publicação. Praticamente não há um narrador exclusivo, mas várias personagens falando simultaneamente à trama. Nesse jogo intrincado de vozes ainda temos os pensamentos da protagonista embaralhando-se ao texto. O único ponto em comum entre o amontoado de debates (eles não são pontuados claramente, não sendo possível identificar facilmente quando começam e quando terminam) é a discussão sobre a personalidade inusitada de Hillé, a tal Senhora D. Assim, um dos maiores desafios do leitor é descobrir quem diz o quê. A miscelânea de vozes também inclui diferentes cenários e períodos de tempo distintos. Onde e quando os discursos são realizados representam outra preocupação do leitor. Se no começo esse recurso causa alguma confusão, depois de algumas páginas já é possível se acostumar com ele e, até mesmo, entender o que está acontecendo na narrativa. “A Obscena Senhora D” não é um monólogo, como se imagina no início, e sim uma longa e abrangente coleção de interlocuções. Não há nesta novela nenhuma divisão de capítulo. O texto é contínuo, o que confere a sensação de um fluxo de consciência. Essa opção narrativa dá mais dinamismo ao livro, porém o torna extremamente perigoso para um leitor desatento e/ou desinteressado em descobrir os caminhos sinuosos criados pela autora. Além disso, mais importante do que entender a história em si é vivenciar a experiência estética proposta por Hilda Hilst. E nisso, esta obra é espetacular. Em minha leitura de “A Obscena Senhora D”, entendi que a polifonia da novela não é algo externo à mente da protagonista e sim um processo interno (fluxo de consciência). Isso é o mais legal. As múltiplas vozes que ouvimos estão dentro da cabeça de Hillé. A narrativa seria, portanto, a exposição catártica dos meandros psicológicos (consciente ou inconsciente) da personagem principal. As conversas antigas com o marido, os diálogos entre os vizinhos que escaparam para os ouvidos da viúva, os xingamentos proferidos contra Hillé, tudo sai da mente perturbada da Senhora D. A impressão que tive é de estar mergulhando fundo na psicologia insana dessa personagem amargurada. E essa amargura é fruto das questões não respondidas que ela tanto anseia em descobrir e da ausência do companheiro de tantos anos. Outra questão forte em “A Obscena Senhora D” é o jeito desbocado da protagonista e, por consequência, da autora. A dupla Hillé/Hilst não tem pudor de falar de sexo e de ser escatológica. A mistura de elementos existencialistas com a linguagem chula e, por vezes, pornográfica dá um ar meio cômico à narrativa. Acho que o livro deve ter causado muita polêmica quando lançado, principalmente entre os leitores mais conservadores. De alguma maneira, esta novela de Hilda Hilst faz referências a algumas obras literárias marcantes: “Ulysses” (Penguin), de James Joyce, pela questão caótica da apresentação do fluxo de consciência, “Memórias do Subsolo” (Editora 34), de Fiódor Dostoièvski, pelo aspecto mórbido e transloucado do protagonista, “A Queda” (Record), de Albert Camus, pelo debate abertamente filosófico da trama, e “Anna Karenina” (Penguin), de Leon Tolstói, pela polêmica em relação à personalidade da personagem principal. Em alguns momentos, lembrei-me de tramas apimentadas de Nelson Rodrigues, apesar de Hilst usar temos chulos, algo que o pernambucano nunca fez. Admito ter gostado muito de “A Obscena Senhora D”. Esta leitura mistura os dois aspectos mais interessantes da prosa ficcional da escritora paulista: a reflexão existencialista e a narrativa escrachada. Para completar, Hilst enriquece a experiência de leitura ao propor uma inusitada viagem pela psicologia de uma das mais polêmicas personagens da literatura brasileira. Quem se interessou pela entrevista de Hillé no Talk Show Literário, saiba que o programa com a protagonista de “A Obscena Senhora D” está agendado para ir ao ar em julho de 2020, na quarta temporada dos Clássicos Brasileiros. Por isso, não perca as novidades do Bonas Histórias do próximo ano. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HildaHilst #Novela #Existencialismo #LiteraturaClássica #LiteraturaBrasileira

  • Celebrações: Blog Bonas Histórias - Quinto aniversário

    Hoje é um dia especial. O Bonas Histórias comemora cinco anos de vida. Em 1º de dezembro de 2014, começava o que é considerado atualmente um dos principais blogs de literatura, cultura e entretenimento do nosso país. De lá para cá, foram mais de 900 posts publicados (em 2020, chegaremos à marca icônica de 1.000 posts!). Novas colunas foram sendo incorporadas anualmente, deixando-o mais completo e variado. Assim, o Bonas Histórias foi se encorpando e, pouco a pouco, ganhando novos leitores. Agora, cinco mil pessoas acompanham mensalmente nosso conteúdo, o que nos enche de orgulho. É para vocês e por vocês que trabalhamos diariamente. Aproveito esta data festiva para anunciar novidades. Neste final de 2019, o blog foi totalmente reformulado. Temos, há algumas semanas, um visual mais clean e uma navegação mais intuitiva. Na certa, o novo layout ajudará os leitores nos momentos em que eles forem pesquisar seus conteúdos favoritos e quando eles forem ler os posts selecionados. Espero que todos tenham gostado da nova cara do Bonas Histórias. Os feedbacks que recebi até agora foram unânimes em apontar as melhorias. Além das seções literárias, o novo design permite aos internautas acompanhar o histórico de divulgação sobre Cinema, Música, Teatro, Gastronomia, Exposições, Passeios, etc. Mais do que um blog literário, o Bonas Histórias tem se tornado, mês a mês, um portal de análises aprofundadas de literatura, cultura e entretenimento. Essa evolução nos orgulha. Outra novidade de 2020 será a criação da coluna Historiografia Literária. Ela virá para complementar o estudo da Crítica Literária e da Teoria Literária. Assim, nossos leitores poderão conhecer as relações da arte textual com o processo histórico da nossa sociedade. As demais seções desta área (literatura) permanecerão iguais. No próximo ano, teremos um novo Desafio Literário. Mais oito autores serão estudados a partir de abril. Será a sexta temporada desta seção. O objetivo é descobrir os estilos literários de autores dos quatro cantos do planeta. Os selecionados do Desafio Literário de 2020 são: Jack Kerouac (Estados Unidos), Maria José Dupré (Brasil), Nadine Gordimer (África do Sul), Julio Cortázar (Argentina), Elena Ferrante (Itália), António Lobo Antunes (Portugal) e Chitra Banerjee Divakaruni (Índia). A quarta temporada do Talk Show Literário está confirmada. Mais 12 personagens clássicas da literatura nacional serão entrevistadas por Darico Nobar, o fictício apresentador do mais divertido programa da TV brasileira. Entre os nomes já definidos, temos: Alfredo de Lemos, de “Éramos Seis”, Lia Ribeiro, de “Pornopopéia”, Geraldo Viramundo, de “O Grande Mentecapto”, Edmundo, de “O Gênio do Crime”, Lia de Melo Schultz, de “As Meninas”, Doutor Camarinha, de “O Casamento”, Perilo Ambrósio Góes Farinha, de “Viva o Povo Brasileiro”, Hillé, de “A Obscena Senhora D”, Ângela Fantini, de “O Mistério do Cinco Estrelas” e Peri e Cecília Mariz, de “O Guarani”. Para os fãs das narrativas curtas, a coluna Contos & Crônicas ganhará uma nova temporada, a sexta. Só não sei ainda qual será o tema nem o gênero (conto ou crônica?). Entre janeiro e fevereiro de 2020 teremos uma definição neste sentido. O que é certeza absoluta é a continuação da coluna Mercado Editorial. Nesta seção, poderemos acompanhar as novidades do mercado editorial brasileiro. Não perca! Este é o novo Bonas Histórias: mais completo, dinâmico e bonito. Esperamos permanecer juntos com você durante o próximo ano. Que o sexto aniversário do blog chegue com muita literatura, cultura e entretenimento. É esse o nosso desejo. Parabéns para todos que fazem e acompanham o conteúdo do Bonas Histórias. Esta data é para vocês celebrarem com muita alegria. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #celebração #Aniversário #BonasHistórias

  • Contos: Diálogos Urbanos - Grupo do Whatsapp

    Desculpem-me, mas não vi o que vocês enviaram hoje. Celular é bom por isso: dá para deletar sem ver. O botão apagar mensagem é uma das maravilhas da tecnologia. Só tenho uma coisa para dizer: Deus me prometeu que antes de eu morrer, eu vou voltar a gritar É CAMPEÃO!!! Aí quero ver neguinho vir com gracinha besta no Whats. Enquanto minhas preces não são atendidas (João 8:12 - Ó minha alma, espera silenciosa somente em Deus, porque Dele vem a minha esperança), o que me resta é ignorar os comentários indesejáveis dos antis. E saibam que não brinco mais com vocês. Não escutei o que vocês mandaram e nunca mais verei nada que tiver como temática o futebol. Apaguei tudo (TUDO MESMO) e vou continuar deletando sempre. Não adianta enviar. Será perda de tempo. Também não quero saber se foi pênalti (NÃO FOI!) e se o juiz estava comprado (É CLARO QUE ESTAVA!). Perder uma decisão DE NOVO e dessa vez no finalzinho para o timinho da Marginal sem número é UM ABSURDO. Enquanto não tirarem essa diretoria safada do Morumbi, não ganharemos uma taça importante tão cedo (e para mim, Paulistinha não é troféu importante, tá). Sabe qual é a nossa diferença? Eu sou totalmente dedicado à minha família. A minha família é tudo para mim. Ela e Deus, é claro. Já fui de esquentar a minha cabeça com o tricolor, mas, graças a Deus, eu mudei. Quando falo que mudei, é porque eu mudei pra valer. O São Paulo pode perder de mil a zero, pode perder dos gambás, dos porcos, da peixada que eu não ligo. Eu quero que esse time se foda mesmo! Sabe por quê? Porque tem jogador, técnico, dirigente lá ganhando salário em milhão. E o que eu ganho torcendo para esse time de merda? Nada! E ainda passo a noite com a cabeça cheia desses falsos amigos que só pensam em tripudiar do nosso sofrimento. Ninguém pensa na minha aflição, né? Desgraçados! Vocês podem me ligar quantas vezes quiserem. Vou atendê-los da mesma forma, com a educação que Dona Sônia e Seu Jorge me ensinaram desde pequeno. E vou falar com vocês de sorriso no rosto, de boa. Sabem por quê? Porque hoje sei levar a vida de um jeito bem mais suave, sem me preocupar com coisas idiotas, bobas, infantis. Depois que me deu o problema no coração, naquele joguinho do Paulista, eu comecei a repensar muitas coisas na minha vida. E depois daquela briga em Piracicaba, eu decidi mudar pra sempre. Você sabe o que é ver sua mulher e seu filho chorarem porque tiveram que te buscar em uma delegacia no fim do mundo, hein? Prometi que nunca mais daria aquela vergonha para eles. Agora dou muito mais valor à minha vida. Ganhando ou perdendo, o que vale é a paz, a tranquilidade e o bem-estar dos meus familiares. E o São Paulo nunca foi a minha verdadeira família. Pergunto: quem foi me visitar no hospital depois do infarto? E quem foi me tirar da cadeia? Eu mesmo respondo aos senhores: não foram jogadores, torcedores nem os amigos de arquibancada. Foi a minha família que se preocupou comigo! O São Paulo é apenas um time que eu me simpatizo e mais nada. Agora morrer por ele, pelo amor de Deus! É muita burrice. De jeito nenhum a minha vida vale só isso. A vida é muito curta para a gente desperdiçar com bobagens. Deus é mais. Deus é tudo na minha vida. Eu acredito nas promessas dele e sei que essa fase é passageira. Ainda vou gritar é campeão muitas vezes. Vocês vão ver. Deus é maior do que tudo e não preciso de mais nada e de ninguém além Dele. Então agora tá todo mundo sabendo: eu não assisto mais futebol! Parei. Inclusive faz muito tempo que não vejo uma partida. A final desta tarde, acreditem, eu não vi. Fui à igreja e fiquei orando para a minha família e pela de vocês, seus ingratos. E se vocês quiserem continuar enchendo meu Whatsapp de mensagens, eu não vou ver nada. Nadinha. Fique com Deus. E boa noite (para quem conseguir dormir hoje). Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa #conto

  • Filmes: Morto Não Fala - O excelente terror nacional

    “Bacurau” (2019) pode ter sido o filme brasileiro de terror mais comentado do ano, mas o melhor longa-metragem nacional deste gênero em 2019 é sem dúvida nenhuma “Morto Não Fala” (2019). Arrisco-me a dizer que esta produção rivaliza com “Border” (Gräns: 2018) como o melhor terror que vi nos cinemas de janeiro para cá. Se o filme sueco ganha em suspense, em criatividade e em ousadia narrativa, o brasileiro é campeão em amedrontar a plateia e em criar um clima permanente de desespero. Se você é do tipo (como eu) que gosta de ficar arrepiado(a) e de sentir muito medo na sala de cinema, este título é imperdível. Confesso que saí de sua sessão um tanto atordoado (isso é positivo, tá?). Assisti a “Morto Não Fala” na última terça-feira, dia 12. Aproveitei a 20ª edição do Projeta Brasil da rede Cinemark, que exibe uma série de filmes nacionais por preço promocional, para colocar em dia as novidades do cinema brasileiro. Entre muitas comédias escrachadas, cinebiografias musicais, produções religiosas, documentários futebolísticos e filmes infantojuvenis de qualidade discutível, é possível achar algumas pérolas. Dos lançamentos recentes, “Morto Não Fala” é a melhor opção, ao lado de “Hebe - A Estrela do Brasil” (2019), “Simonal” (2019) e “Maria do Caritó” (2019). Dos clássicos disponíveis, “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” (1995) é a alternativa mais interessante. Em cartaz no circuito nacional desde a segunda semana de outubro, “Morto Não Fala” foi dirigido por Dennison Ramalho, de “O ABC da Morte 2” (2013), e foi roteirizado pelo próprio diretor, por Cláudia Jouvin e por Jorge Furtado. No elenco estão Daniel de Oliveira (um dos mais premiados atores do cinema brasileiro nas duas últimas décadas), Fabiula Nascimento, Bianca Comparato, Marco Ricca, Cauã Martins e Annalara Prates. O filme foi produzido pela Globo Filmes com o apoio da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre. “Morto Não Fala” é baseado em um conto de Marco de Castro, jornalista que trabalhou por muito tempo como repórter policial em São Paulo. Das suas visitas frequentes ao IML (Instituto Médico Legal) no final da década de 1990 e no início dos anos de 2000, surgiu a ideia de produzir uma trama em que o médico legista tivesse o dom paranormal de conversar com os mortos. Em 2004, Castro publicou sua história no blog Casa do Horror. A trama caiu rapidamente no gosto de Dennison Ramalho, cineasta fanático por narrativas de terror. Contudo, a dupla precisou esperar por uma década e meia até a Globo Filmes apoiar a adaptação do conto em roteiro cinematográfico e, depois, transformá-lo em um longa-metragem. O filme de Dennison Ramalho foi exibido no Festival do Rio e no Cinefantasy (Festival Internacional de Cinema Fantástico) deste ano. Além de sua estreia nos cinemas brasileiros, “Morto Não Fala” também foi lançado nas telas da Rússia e do México. Nesta trama, Stênio (interpretado por Daniel de Oliveira) é o assistente do médico legista do IML da cidade de São Paulo. Trabalhando no período da noite/madrugada, o rapaz tem a função de limpar os corpos e prepará-los para o velório e o enterro do dia seguinte. Quando o médico solicita, ele também auxilia na realização das autópsias. Naquele ambiente fúnebre, Stênio guarda um segredo que nunca compartilhou com ninguém. Ele possui o dom paranormal de ouvir os mortos. Dessa maneira, enquanto faz seu trabalho no IML, ele conversa com os defuntos. Ouvindo os lamentos dos mortos, o assistente sabe de segredos impublicáveis de criminosos da cidade e de pessoas comuns da periferia paulistana. Um dos que confidencia os pecados realizados em vida é Sujo, irmão de um perigoso traficante. O jovem diz que foi morto em uma emboscada encomendada por um bando rival. Por isso, Sujo pede que Stênio conte ao irmão criminoso quem foram os responsáveis pelo seu assassinato. Só assim, poderá ser vingado. Ciente de que não pode misturar os assuntos dos vivos com os dos mortos e não querendo se meter em confusão, Stênio recusa o pedido do falecido. Casado com Odete (Fabiula Nascimento), com quem tem dois filhos (interpretados por Cauã Martins e Annalara Prates), Stênio vive em constante atrito com a esposa. Na verdade, é ela quem briga sempre com ele. Odete acusa o marido de ter um trabalho nojento, de não ganhar o suficiente e de obrigar a família a viver de forma precária na periferia. A animosidade entre o casal só aumenta quando um amigo de infância de Stênio morre. Na conversa no IML, o falecido confidencia que Odete traí Stênio com Jaime (Marco Ricca), o dono da padaria do bairro. O assistente de legista, então, passa a seguir a esposa e descobre a traição. Com muita raiva de Jaime, Stênio tem uma ideia aparentemente genial para se vingar do homem que está transando com sua mulher. Ele sobe o morro para falar com o irmão de Sujo. Aí, ao invés de dedurar o bando rival pelo assassinato do irmão do traficante, conforme ocorreu de verdade, ele acusa o dono da padaria pelo crime. O irmão de Sujo e sua gangue partem ávidos para matar Jaime. O problema é que justamente na noite em que eles escolhem para cometer o assassinato, Odete está junto com o amante. Eles são mortos friamente no meio da rua, para horror dos vizinhos, amigos e parentes. No dia seguinte, os corpos de Jaime e Odete são levados ao IML. Stênio tem uma nova discussão com a esposa. Ela não o perdoa por ter sido o responsável por sua morte. E promete vingança. É o início do horror na casa do assistente de legista. O espírito da mulher de Stênio passa a persegui-lo incansavelmente. Odete está com tanta raiva que não poupará nem os próprios filhos. Ela não aceita a morte e, principalmente, que sua família viva feliz na sua ausência. Como um ótimo filme de terror, o principal mérito de “Morto Não Fala” está em assustar a plateia. Em quase duas horas de sessão, o clima de tensão e angústia é quase que constante. O público fica com os olhos grudados na tela e com o coração na mão na maior parte do tempo. Admito que cheguei a me arrepiar em algumas cenas mais fortes. Outra característica positiva deste longa-metragem é que ele traz boas reviravoltas na trama. A história tem um belo roteiro (bem amarrado e redondinho) e apresenta um conflito extremamente original, principalmente na sua primeira metade. É verdade que depois, na metade final da produção, a criatividade dá lugar à clássica narrativa de terror: um espírito persegue a família indefesa em uma casa mal-assombrada. Acho que já vi isso um milhão de vezes. Mesmo com cenas manjadas de Poltergeist, de perseguições de almas penadas e de confrontos com corpos possuídos, o resultado é espetacular. A união de uma pegada mais ousada no começo com elementos convencionais do gênero no desfecho mostra-se acertadíssima. Confesso que gostei dos efeitos especiais de “Morto Não Fala”. Como nunca vi um cadáver falar fora do cinema (e nem quero!), achei verossímeis (do ponto de vista visual/cinematográfico) as cenas em que os mortos conversam com o protagonista (a sensação de estranhamento é natural e é fruto mais da proposta ousada do enredo do que de possíveis equívocos na maquiagem e na inserção de elementos gráficos). Esse recurso ajuda substancialmente na criação do clima gore. Não faltam também sague, corpos em decomposição, cadáveres e órgãos por todos os lados. A fotografia do filme também é fundamental para a criação do clima de pavor. Filmado principalmente em ambientes fechados, quase claustrofóbicos, à noite, em takes próximos às personagens e com uma textura acinzentada, “Morto Não Fala” é uma produção bem acima da média. Se você olhar exclusivamente para a narrativa de “Morto Não Fala”, encontrará algumas boas surpresas. Por exemplo, quase todas as personagens do filme são figuras esféricas. Isso se aplica até mesmo aos filhos de Stênio e Odete e aos colegas de IML do assistente de legista. Incrível descobrir essa riqueza por trás das pessoas retratadas nesta trama. Ninguém é totalmente bonzinho e ninguém é completamente ruim. Todos são falíveis e têm seus lados mais obscuros. Apenas Lara (interpretada por Bianca Comparato) é uma personagem plana. E essa característica é totalmente justificada (diria até mesmo que necessária) dentro da história. A atuação dos atores merece nossos elogios. Daniel de Oliveira continua em uma fase exuberante. Se ele não for o principal ator brasileiro da atualidade, na certa estará entre os três melhores. Seu desempenho irretocável é acompanhado pelas ótimas e experientes Fabiula Nascimento e Bianca Comparato. Marco Ricca dá o tom certo para Jaime e os jovens Cauã Martins e Annalara Prates não comprometem (Martins chega até a surpreender positivamente em alguns momentos, roubando a cena). Gostei também do elenco de apoio. Várias personagens coadjuvantes entram e saem da trama o tempo inteiro e os atores secundários não prejudicam o ritmo e a narrativa da história. O único aspecto que chama a atenção pelo lado negativo é o excesso de sotaque gaúcho dos atores coadjuvantes. Mais da metade desses profissionais veio evidentemente do Rio Grande do Sul. Vale lembrar que a história se passa em São Paulo. Aí o expectador se pergunta no meio da sessão: teria havido uma invasão gaúcha na capital paulista nos últimos anos?! Falo sobre isso com a tranquilidade de quem morou mais de um ano no Rio Grande do Sul e de quem adora a cultura, o povo e o sotaque gaúcho. Porém, em uma trama como esta, essa opção causa um ruído desnecessário. “Por que tantas personagens do Rio Grande?”, pode-se questionar o público mais atento (sem encontrar uma justificativa para isso dentro da própria história). A explicação passa longe do conflito ficcional. Como a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre apoiou a produção da Globo Filmes, ela trouxe vários atores da sua cidade natal para gravar em São Paulo. Não teria sido melhor, então, ambientar o filme em Porto Alegre, hein? Aí faria mais sentido. Apesar dessa pequenina derrapada, “Morto Não Fala” é um longa-metragem de terror espetacular. Prepare-se para viver fortes emoções. Se você gosta do gênero e aguenta o tranco, não pode perder esse título. O filme permanece sendo exibido em algumas salas de cinema da cidade de São Paulo. Como já faz mais de um mês que foi lançado, não deve permanecer muito tempo em cartaz. Por isso, corra para vê-lo. Vale a pena assisti-lo mesmo fora da promoção do Projeta Brasil. Assista, a seguir, ao trailer de “Morto Não Fala”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Filme #Cinema #CinemaBrasileiro #Terror #Suspense #DennisonRamalho #MarcodeCastro #CláudiaJouvin #JorgeFurtado #DanieldeOliveira #FabiulaNascimento #BiancaComparato #MarcoRicca #CauãMartins #AnnalaraPrates

  • Filmes: A Odisseia dos Tontos – A Argentina nos tempos do Corralito

    Neste final de semana, assisti a “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), comédia argentina que estreou no circuito comercial brasileiro na última quinta-feira. O filme é uma adaptação de “La Noche de La Usina” (Alfaguara), romance de Eduardo Sacheri que conquistou o Prêmio Alfaguara de Novela de 2016. Para quem não se lembra de Sacheri, basta dizer que ele é o autor de “La Pregunta de Sus Ojos” (Punto de Lectura), romance de 2005 que foi adaptado, mais tarde, para o cinema e deu origem ao sensacional “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009). Com um drama impecável ambientado nos tempos de chumbo da ditadura militar portenha, “O Segredo dos Seus Olhos”, foi o segundo filme argentino a conquistar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. “A Odisseia dos Tontos” foi dirigido e roteirizado por Sebastián Borensztein, da excelente comédia “Um Conto Chinês” (Un Cuento Chino: 2011) e do drama “Kóblic” (2016). O próprio Eduardo Sacheri participou da montagem deste roteiro. Para o elenco do seu novo filme, Borensztein convocou mais uma vez Ricardo Darín, de “Relatos Selvagens” (Relatos Salvajes: 2014), “Neve Negra” (Nieve Negra: 2017) e “O Segredo dos Seus Olhos”. O ator participou de todas as produções cinematográficas do diretor nos últimos dez anos. Em “A Odisseia dos Tontos”, Darín tem a companhia do não menos talentoso Luis Brandoni, do divertidíssimo “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018). Completam o elenco, Verónica Llinás, Rita Cortese, Daniel Aráoz, Andrés Parra e Ailín Zaninovich, figuras do primeiro escalão do cinema e da televisão argentina. Quem é fã de Ricardo Darín, um dos atores sul-americanos mais famosos da atualidade, “A Odisseia dos Tontos” reserva uma grata surpresa. Chino Darín, filho de Ricardo (com Florencia Bas), tem um papel de destaque nesta produção. Chino interpreta justamente o filho da personagem de Ricardo. Apesar de já possuir alguns filmes no currículo, esta é a primeira vez que o jovem ator trabalha com seu pai em um longa-metragem de maior porte. Com um trio deste (Borensztein, Darín e Brandoni), é impossível não comprar o ingresso e entrar na próxima sessão. Curiosamente, eu fui ao cinema neste final de semana para ver “Desafio de Um Campeão” (Il Campione: 2019), produção italiana de Leonardo D’Agostini. Já estava na bilheteria do Espaço Itaú de Cinemas do Shopping Bourbon para assistir ao filme de D’Agostini quando vi, por acaso, os nomes da equipe de “A Odisseia dos Tontos” nas telas de divulgação do cinema. Aí, mudei de ideia na hora. E não me arrependi depois. O longa-metragem argentino é ótimo. E “Desafio de Um Campeão” pode muito bem esperar alguns dias para ser apreciado. Ambientado em um dos períodos mais difíceis da Argentina, a crise econômica da virada do século XX para o XXI, “A Odisseia dos Tontos” foi selecionado para integrar o Festival Internacional de San Sebastian e o Festival Internacional de Cinema de Toronto, ambos no segundo semestre de 2019. No Brasil, ele foi exibido no mês passado na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina escolheu o longa-metragem de Sebastián Borensztein para ser seu representante no Prêmio Goya e no Oscar de 2020 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Sucesso de público e crítica em seu país natal, este filme bateu alguns recordes de exibição na Argentina. “A Odisseia dos Tontos” começa em agosto de 2001. Em uma pequena cidade da zona rural da província de Buenos Aires, o casal Fermín (Ricardo Darín) e Lidia Perlassi (Verónica Llinás) tem uma ideia ousada. Eles querem comprar a La Metódica, propriedade agroindustrial que está há muitos anos desativada. Sem ter dinheiro suficiente para uma empreitada dessa magnitude, eles recorrem aos demais moradores do povoado para angariar recursos. A proposta é transformar a La Metódica em uma cooperativa, em que todo investidor será sócio da empresa. O primeiro a embarcar na ideia dos Perlassi é Antonio Fontana (Luis Brandoni), velho amigo do casal e dono de uma oficina mecânica. Fontana junta suas economias às de Fermín e Lidia e o grupo consegue seus primeiros punhados de dólares. Pelo fato de a economia argentina ser dolarizada (prática que se mantém até hoje), as famílias poupam guardando dólares em casa ou no banco. A moeda norte-americana sempre foi mais segura do que o peso argentino. A partir daí, o trio passa a apresentar a ideia da cooperativa para os demais moradores do povoado. E Fermín, Lidia e Antonio conseguem pouco a pouco vários investidores. A maioria é gente simples e humilde da região, que guardou suas economias por anos e anos e confia na reputação ilibada dos Perlassi. Mesmo com os esforços de três meses de arrecadação, o grupo não levantou dinheiro suficiente para comprar a La Metódica. Eles dependem ainda de um financiamento bancário. Para mostrar que sua ideia de montar a cooperativa é sólida, Fermín Perlassi segue a sugestão do gerente do banco e deposita o valor arrecadado em uma conta bancária. Segundo o funcionário da instituição financeira, com isso o empréstimo não deverá demorar muitos dias para sair. Contudo, já no dia seguinte, uma notícia bombástica choca os argentinos. Diante da grave crise financeira que o país atravessava, o governo do presidente Fernando de la Rúa decretou o Corralito. Com essa medida drástica para conter a evasão de dólares para o exterior, em dezembro de 2001, todos os investidores e poupadores foram proibidos de sacar suas economias depositadas nos bancos. De certa maneira, o Corralito é a versão argentina do Plano Collor, que congelou o saque das contas correntes e das cadernetas de poupança no Brasil em 1990. Assim, da noite para o dia, os companheiros de Perlassi viram naufragar seus planos de empreender. Para piorar ainda mais a já grave situação, o grupo foi vítima de um crime financeiro. O gerente do banco não efetuou o depósito da cooperativa, preferindo passar ilegalmente os dólares para um empresário local, Fortunato Manzi (Andrés Parra). A notícia caiu como uma bomba nos pequenos investidores da cooperativa. Eles foram enganados e estavam agora totalmente falidos (jamais teriam suas economias de volta). Fermín Perlassi é quem mais sentiu o golpe. Ele se considerava culpado pelas tragédias que se sucederam após a decretação do Curralito. Um ano depois, Antonio Fontana aparece com uma notícia surpreendente (e esperançosa). Ele conseguiu localizar o paradeiro de Manzi. E como ninguém é maluco de colocar seus dólares no banco, o criminoso deveria estar guardando sua fortuna em algum lugar. O sentimento de vingança une novamente os amigos para roubar (ou seria recuperar?) o dinheiro do empresário. O grupo de pessoas simples do interior monta, então, uma grande e complexa operação para descobrir onde está a grana e como pode fazer para afaná-la. Cada um coloca suas melhores habilidades em prol do coletivo. É iniciada a maior caça ao tesouro da pequena cidade do interior de Buenos Aires. É verdade que “A Odisseia dos Tontos” não está à altura de “Relatos Selvagens” nem de “O Segredo dos Seus Olhos”, dramas estes mais profundos e com narrativas mais complexas. Nem era essa minha expectativa. Mesmo assim, o filme de Sebastián Borensztein é excelente. Ele está mais para “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), ótimo longa-metragem argentino que conquistou a simpatia tanto da crítica quanto dos espectadores. Provavelmente, “A Odisseia dos Tontos” não ganhará o Oscar de 2020. Mesmo assim, dá para se divertir horrores em suas quase duas horas de sessão. O que mais gostei nesta produção é que ela congrega boas doses de comédia, drama, mistério e ação. E isso tudo em uma trama ancorada em episódios reais – pelo menos no quesito macroeconômico. O Corralito foi um dos períodos mais delicados da história recente da Argentina, que infelizmente se tornou especialista em reproduzir crises econômicas atrás de crises econômicas. Não dá para não gostar de “A Odisseia dos Tontos”. O filme reúne uma combinação cinematográfica (humor, suspense, aventura, tragédia, adrenalina) literalmente explosiva! O primeiro mérito deste filme está em seu roteiro. A história criada por Eduardo Sacheri é por si só incrível. E ela foi muito bem adaptada para o cinema. É verdade que há partes um tanto nebulosas nesta narrativa. Por exemplo, como um gerente de banco pode não efetuar os saques dos correntistas de uma cidade e sair impune?! E como a polícia nunca investigou as tramoias de Fortunato Manzzi, um criminoso de colarinho branco da pior espécie? Ignorando essas questões mal explicadas, o espectador encontrará no restante do filme uma história impecável. Como comédia, “A Odisseia dos Tontos” funciona muitíssimo bem. Há várias cenas em que a plateia gargalha de rir. E o humor aqui não é apenas do tipo pastelão. Na maioria das vezes, a comicidade está pautada em elementos sutis dos dramas dos protagonistas. Com isso, o filme adquire ares de uma tragicomédia sensível e inteligente. Nesse aspecto, destaque para as primeiras e últimas cenas, que conseguem representar muito bem esse espírito tragicômico (não saia da sala de cinema antes que todos os créditos tenham passado – do contrário, você corre o risco de perder algumas boas cenas). Se for vista como um longa-metragem dramático, de ação/aventura ou de mistério/suspense, esta nova produção de Sebastián Borensztein também não faz feio. O filme adquire, na metade final, uma pegada catártica, em que todos aqueles que sofreram golpes ou foram vítimas de injustiças se sentem representados na telona. A ideia é claramente de lavar a alma do espectador. Apesar de ser um recurso bastante apelativo, em “A Odisseia dos Tontos” ele é bem utilizado. Em “Bacurau” (2019), por exemplo, esse mesmo expediente tem efeito totalmente contrário, diminuindo a qualidade do filme brasileiro (sim, temos muito a aprender com os nossos vizinhos). Note o carisma das principais personagens deste filme. O grupo liderado por Fermín Perlassi/Ricardo Darín e Antonio Fontana/Luis Brandoni representa o povo pobre e desprotegido (os descamisados) da América do Sul que é feito de gato e sapato pelos governantes corruptos da região. Impossível não se solidarizar com eles (em muitos casos, acabamos nos enxergando neles). O grupo de amigos é uma espécie de gangue quixotesca que resolve buscar justiça pelas próprias mãos. E mesmo com a gana de vingança, eles ainda conservam a pureza e a honradez de caráter (seria essa mais uma justificativa para o termo “tonto” do título do longa-metragem?!). Nem mesmo o fato dessas personagens serem planas e muito caricatas estraga a relação delas com o público ou diminui sua força dentro da narrativa (o que seria do humor sem a caricatura, hein?). Olhando apenas para a narrativa do longa, gostei muitíssimo do seu espírito à la “Três Mosqueteiro” – Um por todos, todos por um. É a união sinérgica de figuras simples e aparentemente bobas que faz o grupo se tornar tão forte e poderoso. Incrível ver como o roteiro construiu essa relação entre os indivíduos e o coletivo. Cada personagem empresta uma habilidade excepcional (mas aparentemente banal quando inserida no cotidiano) para resolver um grande problema da operação de recuperação da fortuna escondida. “A Odisseia dos Tontos” é um desfile de atores e de atrizes de primeira grandeza do cinema argentino. Assisti-los é uma experiência única para quem adora a sétima arte. É impossível apontar uma atuação negativa neste elenco. Até mesmo Chino Darín, o mais novato do grupo, não compromete. Seu carisma o ajuda e o rapaz protagoniza boas cenas. E o que dizer das atuações das atrizes neste longa-metragem, hein? As três figuras femininas (Verónica Llinás, Rita Cortese e Ailín Zaninovich) conseguem roubar a atenção todas as vezes em que estão em cena. Mesmo sendo uma história com predomínio de personagens masculinas, são as atrizes que enchem a tela em cada aparição. Para completar, a trilha sonora do filme é ótima. Temos aqui o melhor do rock portenho. São as batidas fortes das canções que embalam boa parte das aventuras dos moradores da então pacata cidade interiorana. A responsabilidade pela parte musical desta produção de Borensztein ficou à cargo de Juan Federico Jusid, compositor e músico. Ele trabalhou, não por acaso, nos mais importantes longas-metragens argentinos dos últimos quinze anos. E aí, o que você está esperando para assistir a mais um grande sucesso do cinema argentino? Se você ainda não se convenceu da qualidade desta produção, então veja, a seguir, o trailer de “A Odisseia dos Tontos”. Quem sabe ele não dê indicativos mais fortes da qualidade deste longa-metragem: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinema #Filme #CinemaArgentino #Comédia #Ação #Suspense #Tragicomédia #EduardoSacheri #SebastiánBorensztein #RicardoDarín #LuisBrandoni #VerónicaLlinás #RitaCortese #DanielAráoz #AndrésParra #ChinoDarín #JuanFedericoJusid

  • Premiações: Nobel de Literatura de 2019 - Peter Handke

    No mês passado, a Academia de Letras da Suécia divulgou simultaneamente os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019. A iniciativa inédita teve como causa o adiamento da entrega da honraria do ano passado. Um grande escândalo de abuso sexual na comissão avaliadora em maio de 2018 impediu a escolha de um nome para o maior prêmio da literatura mundial. Assim, a definição do escritor premiado do ano passado ficou para agora. E sua apresentação ocorreu juntamente com a escolha do autor premiado de 2019. Os felizardos foram Olga Tokarczuk, polonesa de 57 anos (vencedora de 2018), e Peter Handke, austríaco de 76 anos (vencedor de 2019). Como já tratei, em outubro, na coluna Premiações do Bonas Histórias da escolha de Tokarczuk, vou usar o post de hoje para discutir exclusivamente a opção por Handke. Peter Handke é um nome extremamente polêmico da literatura contemporânea europeia. É evidente que a Academia sueca se baseou apenas em seus trabalhos como escritor para premiá-lo, deixando de lado sua vida pessoal e, principalmente, suas posições político-ideológicas. Contudo, os críticos foram impiedosos ao decretar que alguém com a personalidade e as crenças de Handke jamais poderia conquistar a maior honraria da literatura mundial. Afinal, quem está certo nesse debate? Para entender essa dissonância, vamos começar falando do aspecto literário do novo Nobel de Literatura. Nascido em 1942, no sul da Áustria, Peter Handke vem de uma família de origem eslovena. A admiração pela nacionalidade dos avós fez com que ainda pequeno ele quisesse aprender a língua e a cultura eslovacas. Depois de trabalhar por muitos anos como professor universitário e tradutor, Handke optou pela carreira de escritor. A partir daí, atuou como romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo e roteirista de cinema. Após viver em várias cidades da Áustria, Alemanha e França, decidiu fixar residência nos Estados Unidos, onde vive até hoje. Seus trabalhos mais importantes na literatura estão na ficção. “A Mulher Canhota” (Brasiliense), romance de 1976, é considerado sua obra-prima. “O Medo do Goleiro Diante do Pênalti” (Brasiliense) é a novela publicada em 1970 e que dois anos mais tarde seria adaptada para o cinema. “Desgraça” (Em inglês “A Sorrow Beyond Dreams” e em alemão “Wunschloses Unglück) é a novela semiautobiográfica de 1972 em que Peter Handke relata a traumática morte de sua mãe durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele era ainda uma criança. Curiosamente, a obra mais famosa de Handke para a maioria dos brasileiros não está na literatura, mas no cinema. Ele foi o roteirista de “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin: 1987), clássico franco-alemão do cineasta Wim Wenders. No teatro, os destaques são “Offending the Audience” (em alemão, Publikumsbeschimpfung), peça de 1966, e “The Hornets” (“Die hornissen” em alemão), outra peça de 1966. Nenhuma delas foi traduzida para o português. Com esse portfólio magnífico, alguém poderia questionar: “Então, o Nobel de 2019 acabou em boas mãos, hein?!”. É claro que sim, respondem aqueles que olham apenas para o trabalho artístico do agraciado. As críticas que Peter Handke recebe é pela sua postura fora do universo literário. O austríaco começou a queimar sua imagem internacionalmente por causa da Guerra da Bósnia. O conflito armado da primeira metade da década de 1990 representou o massacre de sérvios contra a população muçulmana da Bósnia e da Herzegovina, então regiões da antiga Iugoslávia (país comandado pela Sérvia). Surpreendentemente, Handke sempre se posicionou a favor dos sérvios (um povo eslavo). Essa postura não mudou até hoje. Ele inclusive foi ao enterro, em 2006, do tirano sérvio Slobodan Milosevic, incriminado como genocida pelo Tribunal Internacional das Nações Unidas. E lá, o escritor austríaco discursou a favor dos ataques sérvios nos anos de 1990. Para incredulidade da opinião pública, ele ainda negou o genocídio na Bósnia e na Herzegovina. Dessa maneira, para os olhos do mundo, Peter Handke adquiriu a imagem de um monstro, amigo de genocidas e defensor de massacres contra minorias indefesas. Sem se importar com a repercussão negativa, o autor permanece convicto de suas crenças e continua até hoje defendendo seu ponto de vista. Sob essa nova ótica, seria justo dar o principal prêmio da literatura mundial para uma figura tão polêmica? Há muita gente que responde negativamente a tal questão. A minha opinião é que o Nobel de Literatura deve ser dado para o(a) escritor(a) e não para o homem/mulher (pessoa física). É preciso saber diferenciar o lado profissional do lado particular. O prêmio deve ser baseado única e exclusivamente no trabalho artístico-literário do autor e não em suas crenças pessoais. O que ele ou ela faz fora da escrita não é papel da Academia de Letras da Suécia avaliar. Nesse sentido, apoio incondicionalmente a escolha de Peter Handke como Nobel de 2019. Ele realmente é um monstro de escritor e mereceu o prêmio. Por outro lado, é inegável que ele se mostre cada vez mais uma pessoa indigna de nossa admiração e dos nossos elogios. Quando olhamos suas crenças particulares e suas atitudes pessoais, vemos um escritor monstruoso. Durmamos com esse desconforto! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir ​a página do blog no Facebook. #Premiação #NobeldeLiteratura #PeterHandke #LiteraturaAustríaca

  • Mercado Editorial: Audiobook - O livro para ser ouvido

    Você já pensou em trocar a experiência de leitura pela audição de sua obra literária favorita?! Se alguém acha esse tipo de questionamento estranho ou mesmo um sacrilégio é porque ainda não embarcou na moda do audiobook. Sucesso nos Estados Unidos há alguns anos, a febre do livro para ser ouvido parece ter chegado com tudo ao mercado brasileiro. Vários títulos (impressos) já chegam às livrarias nacionais juntamente com sua versão em áudio. Incrível essa constatação! Uma publicação só está pronta para ser lançada oficialmente quando apresenta as seguintes extensões: material impresso (brochura), material eletrônico (ebook) e material em áudio (audiobook). É justamente sobre essa terceira perna do modelo de negócio das editoras, por ora a mais polêmica, que gostaria de discutir hoje na coluna Mercado Editorial do Bonas Histórias. Os audiobooks surgiram em 1932, nos Estados Unidos, como uma plataforma de inclusão das pessoas cegas. Tradicionalmente, esse tipo de produto era gravado em vinil em estúdios dos institutos voltados para os deficientes visuais e ficava à disposição de quem não podia enxergar. De certa maneira, era um complemento aos livros em braile. Algumas décadas depois, os audiobooks ganharam um verniz mais moderno e alcançaram um novo público. Hoje, eles são usados por quem deseja mergulhar na leitura, mas não tem tempo para ler. A visão (ou a falta dela) não é mais um problema. O novo inimigo dos leitores é a vida corrida das grandes cidades. Na esteira da febre dos podcasts, os audiobooks chegam para atender às pessoas que passam várias horas do dia dentro do carro indo e voltando do trabalho, no transporte público, na academia de ginástica, na fila do restaurante... O que fazer nesses momentos aparentemente pouco produtivos? Ler. Ou melhor, ouvir um livro já que ler se faz quase impossível em muitas dessas ocasiões. Em um país como o Brasil, onde a maioria das pessoas não tem o hábito da leitura (em muitos casos, são analfabetas funcionais), a tecnologia dá uma ajudinha. Ao invés de se dedicar à leitura propriamente dita, o indivíduo pode acompanhar o conteúdo editorial pelo som, uma experiência mais simples, rápida, passiva e que requer menos esforço intelectual. Se para os leitores inveterados essa sugestão parece um absurdo, pense naqueles que quase nunca leem. Para esse público, a audição do livro surge como um milagre que veio para resolver seus problemas mais imediatos. Independentemente se é para substituir a leitura ou se é para propiciar novas experiências de consumo das publicações editoriais, o audiobook vem conquistando mais e mais usuários. Esse é um fato concreto e contra ele não há questionamentos. Nos Estados Unidos, são lançados anualmente 44 mil títulos desse produto, o que já representa 6,5% do mercado de livros do país. Pode parecer pouco, mas seu crescimento é vertiginoso. No Brasil, quase todos os best-sellers já estão disponíveis nesse formato. Interessadas nesse filão, as maiores editoras nacionais criaram o Auti Book, plataforma que permite a audição de livros por meio de planos de assinatura. E ele não é o único. A UBook tem mais de 300 mil títulos entre livros e revistas em seu portfólio, a Storytel tem agora uma versão brasileira (a empresa é sueca) e a Tocalivros juntou-se ao Google Play Livros e à Kobo para aumentar seu volume de títulos. Para os especialistas do setor, trata-se de um caminho sem volta. A maioria dos usuários do audiobook faz suas audições paralelamente a outra atividade (refeição, caminhada, viagem de carro), seja dentro de casa ou fora dela. Em uma pesquisa realizada pela Auti Books, esse público é formado essencialmente por pessoas entre 25 e 44 anos. Não à toa, esta é a parcela da população que está mergulhada mais intensamente na rotina profissional e, portanto, tem menos tempo para a leitura. Faz sentido! Na concepção desses consumidores, eles precisam aproveitar cada momento do dia para realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo. Só assim, conseguirão fazer tudo ou boa parte do que desejam. Há quem diga, segundo estudos internacionais, que é impossível igualar o grau de aprendizado e de memorização de um livro ouvido ao de um livro lido (a leitura apresenta índices superiores à audição). Outras pesquisas, contudo, apontam que há pessoas com memória auditiva e pessoas com memória visual. Nesse caso, o grau de envolvimento com o livro impresso e com seu áudio mudam de acordo com o perfil do indivíduo. O que parece ser consenso é a impossibilidade de transmutar toda a experiência literária da leitura para a audição. Inevitavelmente, há coisas que só a leitura do livro original consegue transmitir para seu leitor. Para melhorar a experiência da audição, as editoras estão promovendo algumas inovações. Há, por exemplo, a escolha do tipo de voz que se adeque melhor ao perfil do livro (vozes aveludadas são ideais para as tramas românticas enquanto tons dramáticos são perfeitos para histórias de suspense) e a seleção de pessoas conhecidas para a narração (como já acontece atualmente em filmes de animação). Mais recentemente, os próprios autores, quando famosos, se dedicam a locução de suas obras (o que aumenta consideravelmente o interesse do público). Os audiobooks representariam, portanto, o fim dos livros tradicionais? Não acredito nessa hipótese. Para mim, a audição não compete diretamente com a leitura. Trata-se de públicos diferentes e de realidades totalmente distintas de uso. Quem gosta de ler um bom livro jamais trocará essa experiência por outra. Já quem prefere ouvir seus títulos prediletos não trocará essa praticidade. Há também situações em que uma ou outra atividade (leitura ou audição) são exclusivas (não permitindo a concorrência). Ou você consegue imaginar alguém correndo no parque ou dirigindo um veículo pela cidade enquanto lê? Obviamente que não. Nesses casos, a audição é a única opção possível. Para ser sincero, nunca li um audiobook. Ainda prefiro a boa e velha leitura. Contudo, não recrimino quem opte por esse novo formato. A falta de tempo e a dificuldade de leitura (leia-se analfabetismo e analfabetismo funcional) são empecilhos concretos em nosso país que, infelizmente, atrapalham em muito a experiência literária de milhões de brasileiros. Por isso, é melhor estar na companhia de um audiobook do que não conhecer o conteúdo de obras literárias e livros técnicos interessantíssimos. A questão que precisamos descobrir é se os audiobooks são uma moda passageira ou se são um fenômeno que veio para ficar. Sobre essa questão, confesso não ter a menor ideia. E aí, qual título você está lendo/ouvindo no momento?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Livros #Editora #Audiobook #Livrarias #MercadoEditorial

  • Gastronomia: Coxinharia Prime Taste – Delícias no Paraíso

    É indiscutível que a gastronomia de São Paulo é bem variada. É até difícil dizer qual é o prato típico da cidade. Seria o pastel? O pão na chapa? A pizza? A coxinha? O sanduíche de pernil? O sanduíche de mortadela? Ou o onipresente Bauru? Há quem aponte o tradicional Virado à Paulista como a receita típica da capital bandeirante. Independentemente da escolha, uma coisa é certa: sempre há um lugar determinado para provar esses quitutes. Por exemplo, pastel tem que ser o da feira livre (o da Praça Charles Miller é espetacular). Pão na chapa tem que ser na padoca. Pizza, obviamente, é na pizzaria. Os melhores sanduíches de pernil e de mortadela são encontrados, respectivamente, no Bar do Estadão e no Mercadão Municipal, ambos no Centro. Já o Bauru mais famoso da cidade é o do Ponto Chic, enquanto o Virado à Paulista tem que ser o do Sujinho. Não há polêmica até aqui. O problema surge quando falamos das coxinhas. Afinal, onde podemos comer uma coxinha gostosa? Alguém aí pode se lembrar do Bar do Veloso, na Vila Mariana, ou do Frangó, na Freguesia do Ó. Contudo, esses estabelecimentos são bares. O lugar da coxinha é no bar, então?! Muita gente poderá discordar. Não, dirão exaltados, coxinha boa é a da padaria. Será?! Para encerrar de uma vez por todas com essa polêmica paulistana, surgiu há dois anos um estabelecimento único no bairro do Paraíso. Trata-se da coxinharia. Sim, um local onde se vende apenas coxinha. Incrível, né? Como ninguém teve uma ideia assim antes? A Coxinharia Prime Taste foi inaugurada em 2017 com uma proposta extremamente inovadora – oferecer coxinhas gourmets de todos os tipos e sabores. Conheci esse lugar incrível nesta semana, no intervalo de um evento em que participei no Google Campus (que fica ali do lado). E achei fantástica a oportunidade de visitar uma coxinharia! Localizada em um sobrado simpático quase que na esquina da Rua Dr. Rafael de Barros com a Rua Coronel Oscar Porto, a Coxinharia Prime Taste é uma agradável experiência sinestésica. O primeiro sentido que o cliente tem aflorado é o visual. Com uma decoração interna impecável, aliando um estilo rústico a um ambiente elegante e colorido, somos acolhidos pela ambientação bem agradável. Na sequência, é a nossa audição que é aguçada. Repare no ótimo som ambiente do estabelecimento, com uma trilha sonora moderna e de gosto refinado. As surpresas não param por aí. Com um atendimento cortês e jovial, nos sentimos à vontade na casa. Todos os atendentes são simpáticos, bonitos e comunicativos. É difícil dizer qual é a melhor parte da coxinharia: o piso superior ou o piso térreo. Tive a impressão que o primeiro andar é mais calmo, ideal para quem quer aproveitar sua refeição de forma introspectiva. Já o andar de cima é para quem deseja conversar animadamente. Aberto do meio-dia às 21h30 durante a semana e das 13h às 22h aos sábados (no domingo a casa fica fechada), a Coxinharia Prime Taste tem um movimento mais forte no final da tarde e no começo da noite. Tive a impressão que pouca gente opta por almoçar por lá (algo que fiz e que não me arrependi). A boa carta de bebidas alcoólicas (principalmente cervejas artesanais e drinks) e de bebidas quentes (café premium, cappucino, chá, chocolate quente...) transformam o estabelecimento em uma ótima opção para quem deseja uma parada diferente no meio do dia ou para quem procura um point descolado para um happy hour. Se você já gostou da Coxinharia Prime Taste só pelas descrições iniciais, espere até provar seus pratos principais. As coxinhas de lá são realmente deliciosas. Com uma massa fininha e crocante e com muito recheio, elas desmancham na boca. Se você reclama da gordura de algumas coxinhas de padaria por aí, saiba que na coxinharia esse problema não acontece. Os quitutes são sequinhos, sem que isso prejudique seu sabor. Na minha visita dessa semana, fui literalmente no tradicional: a Clássica (coxinha com Catupiry). Uma delícia! O tamanho dela é igual ao que encontramos normalmente nas padocas. Se o tamanho é igual, o sabor é totalmente diferente (muito mais gostosa). O cardápio da Prime Taste é bem variado. Você encontra coxinha de todo tipo. Além da Clássica, há a Callabrês (calabresa, queijo gouda e Catupiry), Shimeji (Shimeji, molho Shoyo e cebolinha), Mineirinha (costela bovina, barbacue e provolone), Maiale (frango, bacon, cheddar, empanada no queijo parmesão), Paulistana (pernil, pimentões, azeitonas, cebola e torresmo), Mexicana (carne desfiada, pimenta, pimentões e coentro), Gormignon (filet mignon ao creme de gorgonzola), Serenada (carne seca e Catupiry) e Camuça (carne moída, muçarela, ovo cozido ralado e azeitona). Os preços variam de R$ 7 a R$ 9 a unidade. Todo dia uma coxinha é escolhida para a promoção (R$ 5,50). Quem gosta de coxinhas menores, tipo aperitivo, saiba que há opções de mini coxinhas: Clássica (coxinha tradicional), Party Taste (combinação de pepperonis, serenadas, gaúchas e caipiras) e CoxiCroc (frango e provolone empanado no macarrão cabelo de anjo temperado). Elas vêm, respectivamente, com 12, 16 e 6 unidades. Molhos acompanham todos os pedidos. Para quem sentir falta de uma batatinha frita como acompanhamento, há também esse item no cardápio. O inusitado é a variedade de coxinhas doces. Coxinhas doces?! Se essa foi sua surpresa, saiba que também tive essa reação de pânico ao analisar o cardápio do Prime Taste. As opções doces são: Sensação (chocolate e morango), Ovomaltine (brigadeiro Ovomaltine com recheio de Ovomaltine cremoso), Ninho Nut (brigadeiro de leite ninho com recheio de Nutella) e Dois Amores (chocolate meio amargo e beijinho de coco). Todos esses vêm no tamanho grande. Se você preferir, há também mini coxinhas doces. Aí as opções são: Coxurros (coxinhas de churros com recheio de doce de leite), Tropical (banana com recheio de mel), Coxilove (goiabada com queijo), Coxicafé (coxinha de café com recheio de doce de leite), Chocoxinha (chocolate com recheio de chocolate cremoso e uma bola de sorvete de creme). Confesso que não provei nenhuma coxinha doce. É muita modernidade para o meu paladar tão tradicional – ou careta, se você preferir. Admito que gostei muito desse estabelecimento (sugestão do Marcos, meu amigo de longa data que está em uma empreitada por terras italianas com sua esposa – abraço, Marquito!). Nota-se o cuidado com cada item do cardápio e, principalmente, com a produção das coxinhas. Elas são feitas na hora e fritas para irem diretamente à mesa (esqueça as massas congeladas ou os produtos guardados nas estufas). Por isso, não espere a rapidez das padarias (que tiram o produto da estufa e colocam em um pratinho para você comer). Em um dia bem calmo na Coxinharia Prime Taste, seu pedido não chega à mesa em menos de quinze minutos. Fiquei com vontade de voltar lá para provar os outros itens (salgados) do cardápio. Próximo da Avenida Paulista, não há desculpa para não dar uma passadinha na Coxinharia Prime Taste. Quem sabe daqui há alguns anos, esse tipo de casa não seja tão comum quanto as pizzarias, as pastelarias e os bares, hein? Tomara. Como fã de coxinhas, estou torcendo por isso. Agora, dizer que a coxinha da Coxinharia Prime Taste é melhor do que a do Veloso e do Frangó me parece uma avaliação um tanto exagerada. Vamos com calma, por favor. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook.

  • Livros: O Amor nos Tempos do Cólera - Gabriel García Márquez após o Nobel

    Neste final de semana, li “O Amor nos Tempos do Cólera” (Record), a vigésima publicação de Gabriel García Márquez. Este é o quinto livro do escritor colombiano que analisamos, neste mês, no Desafio Literário. A importância desta obra para a carreira de Gabo é que ela foi o primeiro romance publicado pelo autor após o recebimento do Nobel de Literatura, em 1982. Lançado em 1985, “O Amor nos Tempos do Cólera”, produzido no auge da maturidade pessoal e artística de seu autor, é apontado por muita gente (eu me incluo neste grupo) como o mais importante trabalho literário de García Márquez depois de “Cem Anos de Solidão” (Record), sua incontestável obra-prima. Não por acaso, este livro encerra a fase dourada da carreira de um dos principais autores do século XX. Apesar de publicar mais de uma dezena de livros posteriormente, nenhum teve tanto destaque. “O Amor nos Tempos do Cólera” começou a ser escrito em 1984, quando García Márquez foi morar em Cartagena das Índias. A estada ao norte da Colômbia tinha a finalidade de servir como um ano sabático, algo merecido para alguém que fora laureado há pouco com a maior honraria da literatura mundial. Entretanto, a beleza da cultura local, uma cidade de arquitetura colonial e com um passado admirável, encantou Gabriel García Márquez ao ponto de levá-lo a querer escrever uma história ambientada ali. Assim, surgia o romance histórico ambientado em Cartagena. Uma vez definido o ambiente de sua nova narrativa, o escritor precisava de uma trama forte que justificasse sua existência. E para isso, ele foi buscar na casa dos pais um conflito amoroso e verídico que poderia servir de inspiração deste romance. No século XIX, o jovem poeta Gabriel Elígio García, que mais tarde seria o pai do escritor, se apaixonou por Luíza Santiago Márquez, filha de um poderoso coronel. O Coronel Nicolas Márquez não deixou que a filha namorasse com o sujeitinho com quem não se simpatizara logo de cara. Vendo que Luiza parecia interessada no desqualificado pretendente, o pai mandou a jovem para uma longa viagem pelo interior do país. Empenhado em não perder o contato com a amada, Gabriel montou, com a ajuda de amigos telegrafistas, uma intrincada rede de comunicação que alcançava Luiza onde ela estivesse. Assim, os dois podiam conversar tranquilamente enquanto a moça estivesse ausente. Essa história real dos pais de Gabriel García Márquez serviu de mote para a produção ficcional. A partir daí, o escritor colombiano romanceou livremente o conflito amoroso (acrescentando pitadas de desencontros e intrigas afetivas) de suas personagens (Florentino Ariza e Fermina Daza) por Cartagena das Índias entre o final do século XIX e o início do século XX. Na construção desta trama, Gabo utilizou-se também de episódios reais que ocorreram na cidade: epidemia de cólera no final do século XIX e o naufrágio de um barco espanhol carregado de joias preciosas na costa do município. Há doze anos, a história de “O Amor nos Tempos do Cólera” era adaptada para a telona e estreava nos cinemas. O longa-metragem homônimo (Love in the Time of Cholera: 2007) foi dirigido pelo norte-americano Mike Newell, de “O Sorriso de Mona Lisa” (Mona Lisa Smile: 2002) e “Donnie Brasco” (1997), e foi estrelado por Javier Barden, Giovanna Mezzogiorno e Catalina Sandino Moreno. Orçado em US$ 45 milhões, os produtores do filme levaram três anos para convencer Gabriel García Márquez a vender os direitos de adaptação do seu livro. Gravado em Cartagena, na Colômbia, a produção cinematográfica teve em sua trilha sonora três músicas de Shakira, outra colombiana famosa internacionalmente. Em seu enredo literário, “O Amor nos Tempos do Cólera” apresenta Juvenal Urbino de la Calle. Aos 81 anos, o médico possui uma rotina metódica e tranquila. Professor da Escola de Medicina de sua cidade e grande mecenas cultural, o doutor é chamado normalmente para atender casos de pacientes desenganados. Rico e famoso, Juvenal é casado há muitas décadas com Fermina Daza, uma senhora de 72 anos. O casal de idosos tem dois filhos já adultos e leva seu matrimônio em banho-maria. Nota-se que ali não há amor genuíno. O casamento de Juvenal e Fermina é mais uma conveniência social e pessoal para ambos. Os cônjuges parecem ter se acostumado um com o outro ao longo dos anos e ter aprendido com o tempo a respeitar o espaço alheio, o que evita novas brigas e conflitos desnecessários. A calmaria na casa dos Urbino é abalada por um acidente doméstico. Ao subir em uma árvore para resgatar seu papagaio, que fugiu da gaiola, Juvenal cai da escada e morre. A perda do marido mexe consideravelmente com Fermina Daza. Apesar de não amar o médico como deveria, ela se acostumou com o marido ao seu lado por mais de quatro décadas. Por mais defeitos que tivesse, Juvenal Urbino era um bom homem e era merecedor do respeito da sua mulher. Por isso, a viúva vai às lagrimas de maneira sincera. Para surpresa de Fermina, durante o velório do marido, ela é abordada por Florentino Ariza, um senhor de 76 anos que preside a Companhia Fluvial do Caribe, empresa responsável pelo transporte aquático na região. Florentino foi prestar as condolências à viúva e aproveitou para se declarar para ela. Segundo suas palavras, ele estava esperando há 51 anos, 9 meses e 4 dias para dizer que a amava. Agora que a amada não tinha mais um marido, ele podia revelar seu segredo tão bem guardado sem problema. Entretanto, o comportamento afoito de Florentino não é bem interpretado por Firmina. Ela rechaça o visitante indecoroso do velório, querendo se ater aos trâmites fúnebres. Mesmo com a expulsão dele, ela não consegue mais se concentrar. As palavras de Florentino despertam lembranças do passado, quando os dois eram adolescentes e tiveram um namorico. Florentino Ariza conheceu Fermina Daza quando ele tinha dezessete anos e ela apenas treze. Na época, ele era um simples funcionário da empresa de telégrafos, enquanto ela estava na escola. Depois de muito postergar um contato mais direto com a menina por quem se apaixonara, Florentino começou a manter secretamente uma correspondência de cartas com ela. Seu lado poético (ele adorava poesia e as produzia intensamente), suas habilidades musicais (seu amor pela garota o fez compor canções românticas) e seu romantismo (muitas vezes exagerado) conquistaram Fermina, que também se apaixonou pelo moço que a cortejava de maneira tão idílica. O namoro avançou sem nunca sair da clandestinidade e sem que os namorados pudessem trocar muitas palavras entre si (a troca de cartas se mantinha como o único canal de comunicação entre eles). A rotina enamorada dos protagonistas sofreu um contratempo quando o pai de Fermina, Lorenzo Daza, descobriu as cartas da filha com o funcionário da Companhia de Telégrafos. Indignado com a pobreza do pretendente de Fermina, Lorenzo tratou de por fim àquela relação, proibindo-a terminantemente. Como não foi bem-sucedido na empreitada, resolveu viajar com a filha pelo interior do país por mais de um ano. Assim, esperava interromper de uma vez por todas o amor dos jovens pombinhos. Contudo, como funcionário dos Telégrafos, Florentino Daza conseguiu manter uma intensa correspondência com a namorada pelo longo período de ausência dela. Ao invés do relacionamento deles caducar, ele se intensificou. Os adolescentes ficaram noivos, sem que Lorenzo Daza soubesse (o noivado era secreto). O amor platônico de Fermina não resistiu à realidade concreta da vida. Ao regressar, a moça ficou desapontada ao ver seu noivo depois de muito tempo. Florentino era um rapaz feio, triste e atarracado. Pode-se dizer que foi decepção à primeira vista (ou teria sido à segunda vista?). Ela terminou o quanto antes o relacionamento entre eles, para desespero e incompreensão de Florentino. Por mais que Fermina tenha se esquecido rapidamente do primeiro namorado, o rapaz nunca se esqueceu do seu primeiro amor. Na cabeça dele, era questão de tempo para reconquistá-la. Tempos depois, Lorenzo Daza ficou encantado com a perspectiva da filha se casar com um jovem médico que acabara de chegar de Paris. Juvenal Urbino de la Calle era o genro que ele sempre sonhou em ter. Por isso, confabulou para que a filha passasse a ver com bons olhos as investidas do rico e famoso rapaz. Depois de muito resistir, Firmina acabou se casando com Juvenal. Com o coração despedaçado, Florentino prometeu jamais se casar com outra pessoa, esperando pacientemente a próxima oportunidade para ficar com a mulher da sua vida. “O Amor nos Tempos do Cólera” é a segunda obra mais parruda de Gabriel García Márquez que vamos analisar neste mês no Bonas Histórias. Este romance possui 6 capítulos e 432 páginas (contra 448 páginas de “Cem Anos de Solidão”, a mais extensa deste Desafio Literário). Digo que se trata de muitas páginas pois o comparo com “Relato de Um Náufrago” (Record), “Ninguém Escreve ao Coronel” (Record) e “Crônica de Uma Morte Anunciada” (Record). Essas três novelas têm juntas apenas 400 páginas. Ou seja, você demora mais para ler “O Amor nos Tempos do Cólera” do que outros três clássicos de García Márquez. Não à toa, a literatura do colombiano ficou caracterizada mais pelas obras enxutas do que pelos tijolões. Portanto, “Cem Anos de Solidão” e “O Amor nos Tempos do Cólera”, apesar de serem seus melhores livros, são exceções quanto ao volume grande de páginas. Quando digo que “O Amor nos Tempos do Cólera” é um livrão, estou me referindo também ao sentido qualitativo e não apenas na perspectiva quantitativa. Apesar de não gostar normalmente de tramas românticas melosas, esta obra consegue empolgar até mesmo os leitores mais reticentes (como eu). Mesmo tendo um pouco do romantismo que chamo de meloso (afinal, o sujeito ficou meio século esperando a mulher amada, né?), este dramalhão é embalado com muito humor (tire o cavalinho da chuva quem pensou que Florentino ficou aguardando Fermina de forma casta...), erotismo, palavrões, polêmicas, fantasias, reviravoltas e suspense. O resultado é uma mistura literária pouco usual: o relacionamento amoroso é ao mesmo tempo enaltecido como também é ridicularizado. Maravilhosa esta combinação, que dá um ar de galhofa e de sátira romântica à obra. Além disso, assistimos a uma bela narrativa histórica, com uma constituição saborosa de uma cidade caribenha com arquitetura colonial. Apesar de não ser mencionada explicitamente, percebe-se que a história do romance se passa em Cartagena. Afinal, os municípios (tanto o ficcional quanto o real) abrigaram o maior mercado de escravos africanos das Américas, foram residências do vice-rei do Novo Reino de Granada, viram afundar em seu litoral o navio San José, que levava para a Espanha uma carga avaliada em 500 bilhões de pesos em ouro puro e em pedras preciosas, e foram polos econômicos da Colômbia no século XVIII e XIX. A narrativa também se utiliza de vários acontecimentos reais: a epidemia de cólera, as guerras civis que se proliferaram pelo país depois da independência com a Espanha e a decadência de Cartagena no início do século XX. Sem dúvida nenhuma, depois de “Cem Anos de Solidão”, esta é a melhor obra de Gabriel García Márquez. E, não por acaso, um dos melhores títulos que li neste ano (olha aí um forte candidato para entrar na lista dos Melhores Livros do Ano de 2019 do Bonas Histórias!). Voltando um pouco a algumas características deste livro citadas no antepenúltimo parágrafo, é preciso destacar o humor corajoso do romance. Esta é a obra mais engraçada de Gabo. O escritor zomba com tudo e de todos. Ele é implacável ao ridicularizar o romantismo, a velhice, o marasmo da rotina matrimonial, o sexo e a dinâmica do corpo humano. Nada parece escapar ao olhar ácido de alguém que não se importa em se arriscar na busca pelo humor. Na quase totalidade dos casos, García Márquez acerta (mesmo assim, ainda acho que há muitas passagens politicamente incorretas, que hoje, precisariam obrigatoriamente ser revistas). Junto com cenas e situações cômicas, temos um texto que usa e abusa dos palavrões e da escatologia. Assim, o romance adquire ainda mais o tom de galhofa. O narrador em terceira pessoa e boa parte das personagens possuem discursos desbocados, que muitas vezes destoam do linguajar culto e elegante da narrativa (o que confere ainda mais graça ao texto). Tal característica também se aplica ao erotismo. As cenas de sexo são maravilhosamente ancoradas na realidade nua e crua da vida comum (algo nada glamouroso, convenhamos!). Isso fica mais perceptível no final da trama, quando se aborda a prática sexual entre idosos de maneira explícita e cômica (o que, por si só, é uma iniciativa ousada e pouco usual na literatura). Junto com o texto engraçado e apimentado, temos um bom suspense: Florentino ficará com Fermina no final das contas?! Essa dúvida permanece até o desfecho da obra, deixando o leitor curioso até as últimas páginas. Incrível! Por falar nisso, essa questão de Florentino Ariza esperar mais de 50 anos para ficar com a mulher que ama, me lembrou bastante o conflito de “Cândido” (L&PM Pocket), obra-prima de Voltaire. De certa maneira, Florentino Ariza e Fermina Daza seriam a versão caribenha e mais moderna do casal Cândido e Cunegundes. A diferença entre as obras é que Gabriel García Márquez detalhou o que se passa com os amantes depois de muitos anos de desencontros afetivos, algo que Voltaire deixou em aberto. Por falar em Florentino Ariza, ele é um herói romântico atípico. O que ele faz enquanto espera por Fermina Daza? A resposta é antirromântica: sexo com todas as mulheres que ele tem a oportunidade de transar. Sua preferência é pelas viúvas, consideradas mais fáceis de serem conquistadas. Se por um lado ele não se casa com ninguém (dizendo se guardar exclusivamente para Fermina), Florentino anota o nome de suas parceiras sexuais. Aí o funcionário da Companhia Fluvial do Caribe precisa de 25 cadernos para registrar a identidade das suas 622 companheiras, a maioria de relacionamentos ocasionais. Hilário! Florentino é o Renato Gaúcho colombiano! Além das viúvas, há vários tipos de mulher na lista do Sr. Ariza: amante do seu chefe, uma passageira do navio, sua secretária, uma maluca que saiu do hospício, a amiga de sua mãe, etc. Ele não perdoa ninguém! Entre esses relacionamentos sexuais do protagonista, há alguns extremamente polêmicos. Por exemplo, temos a citação de um caso de estupro de uma empregada. Florentino deu uma casa à moça para que ela abafasse o escândalo. E há um relacionamento pedófilo. Aos 76 anos, ele vai para a cama semanalmente com América Vicuña, uma menina de 14 anos. Florentino é tutor dela. O motorista do empresário retira todo sábado a garota do colégio interno onde ela reside e a leva para a casa do idoso. E ali os dois passam o dia transando. Por uma perspectiva bem objetiva, o herói romântico do livro é pouco a pouco convertido em anti-herói, sem que isso impeça que o leitor continue torcendo por ele (por mais assustadoras e polêmicas que sejam suas atitudes). Quem ficou encantado com os elementos fantásticos de “Cem Anos de Solidão”, “O Amor nos Tempos do Cólera” pode decepcionar um pouco. Afinal, são pouquíssimas as passagens sobrenaturais ou as cenas inexplicáveis de sua trama. A fantasia deste romance é bem sutil: papagaio que conversa com as pessoas (note que escrevi a palavra “conversa” e não o termo “repete o que lhe foi ensinado”), que aprende várias línguas e que fala o que quer e quando quer; a mulher morta que surge nas águas para alertar o comandante do navio para os perigos do rio; e a esposa que sabe exatamente o que o marido fez ao longo do dia pelo cheiro de sua roupa. O único ponto realmente negativo de “O Amor nos Tempos do Cólera” é que o livro demora um pouco para pegar (o termo “pegar” aqui tem o sentido de “conferir emoção”). Seu primeiro capítulo tarda muito para apresentar o conflito principal (até achei, por um instante, que essa parte inicial seria desnecessária!). Nas 70 páginas iniciais acompanhamos a melancólica rotina de Juvenal Urbino. Só vamos entender que sua morte precipitará algo entre Florentino Ariza e Fermina Daza lá pela página 68 (uma eternidade, hein?). Até chegar aí, o romance se arrasta. Por isso, não perca o interesse nesta parte inicial. Se você conseguir chegar ao final do primeiro capítulo, na certa você não se desgrudará mais desse livro (a partir daí, a trama se acelera e pega fogo!). Confesso que saí encantado da leitura de “O Amor nos Tempos do Cólera”. E para dar continuidade ao Desafio Literário de outubro, a próxima publicação de García Márquez que vamos analisar no Bonas Histórias é “Memória de Minhas Putas Tristes”. (Record). Lançado em 2004, esta novela foi a última criação ficcional do escritor colombiano. Confira o post deste livro no próximo sábado, dia 26. Na quarta-feira da semana que vem, dia 30, voltarei ao Desafio Literário para apresentar a conclusão do estudo sobre a literatura de Gabriel García Márquez. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Premiações: Nobel de Literatura de 2018 - Olga Tokarczuk

    Saiu o nome do Nobel de Literatura de 2018. Sim, você leu corretamente. Apenas em outubro de 2019 foi revelado(a) o(a) autor(a) premiado(a) do ano passado. A demora em doze meses tem uma explicação. Um grande escândalo de abuso sexual abalou a Academia de Letras da Suécia em maio de 2018. Por isso, a maior honraria da literatura precisou ser adiada no ano passado. E ela foi, enfim, entregue nesta semana. Antes tarde do que nunca já dizia o velho ditado... A escolha da Academia sueca recaiu sobre Olga Tokarczuk, escritora polonesa de 57 anos. Considerada uma das favoritas à medalha, Tokarczuk é formada em psicologia e tem quinze obras publicadas, entre coletâneas de poemas, romances, coleções de narrativas curtas e ensaios. Ela também já produziu roteiros cinematográficos. No ano passado, Olga Tokarczuk conquistou o Prêmio Internacional Man Booker, um dos mais importantes da ficção em língua inglesa, com o romance “Os Vagantes” (Tinta Negra). A obra foi publicada originalmente, em 2007, na Polônia com o nome “Bieguni”, mas sua versão em inglês, chamada de “Flights”, foi lançada apenas em 2017. Outros livros importantes de Tokarczuk são “The Books of Jacob” (em polonês, “Księgi Jakubowe”), romance épico de 2014, “Primaval and Other Times” (“Prawiek I Inne Czasy” em polonês), romance de 1996 que foi o primeiro grande sucesso da autora, e “Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead” (“Prowadź Swój Pług Przez Kości Umarłych” em polonês), romance de 2009. Infelizmente, nenhum desses títulos foi traduzido para o português, algo que deve mudar nos próximos anos com a condecoração do Nobel. Com esse portfólio, Olga Tokarczuk se tornou uma das mais respeitadas escritoras europeias da atualidade. Ela também é conhecida por sua postura ativa na promoção do feminismo e da alimentação vegetariana, além de se posicionar frequentemente sobre questões políticas do continente europeu como paz, democracia, desenvolvimento sustentável e pluralismo cultural. Como prêmio pelo Nobel de Literatura, Tokarczuk ganhou um diploma, uma medalha e cerca de nove milhões de coroas suecas, o equivalente a 3,7 milhões de reais. Juntamente com o Nobel de Literatura de 2018, a Academia de Letras da Suécia apresentou, nesta semana, o prêmio da edição de 2019. Ou seja, de uma tacada só o mundo conheceu os premiados de 2018 e 2019. O vencedor deste ano foi Peter Handke, escritor austríaco de 76 anos. Contudo, isso é tema para outro post da coluna Premiações do Bonas Histórias. Nas próximas semanas, retornarei ao blog para falar um pouco mais da premiação de Handke. Aguarde! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #OlgaTokarczuk #Premiação #NobeldeLiteratura #LiteraturaPolonesa

  • Filmes: Coringa - Meu favorito ao Oscar de 2020

    Ontem, fui ao Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompéia para ver a estreia nacional de “Coringa” (Joker: 2019), o filme do diretor Todd Phillips que promete ser a grande sensação da parte final da temporada cinematográfica de 2019. Pode apostar: não há título melhor do que este em cartaz hoje nos cinemas brasileiros. Estrelado por Joaquin Phoenix, o longa-metragem reconstrói a trajetória do principal vilão da série do Batman. O caráter de Arthur Fleck (Coringa é seu nome artístico) é apresentado de um ponto de vista totalmente original, ácido e realista. Assim, voltamos à época em que ele ainda era um pobre e desconhecido habitante de Gotham City. O resultado é espetacular! O filme conquistou o prêmio de melhor produção no Festival de Cinema de Veneza no mês passado. Phillips mostra uma nova faceta de Coringa, jamais vista nos quadrinhos, no cinema ou na televisão (e, talvez, inimaginável até mesmo para Bob Kane). O que surge na tela é um homem com sérios problemas psiquiátricos (a risada interminável é o principal reflexo desse descontrole emocional) e vítima tanto da sociedade violenta quanto de sua família desequilibrada. No fundo, temos um rapaz frágil que tenta ganhar a vida como palhaço (os trocados do salário servem para ele cuidar da mãe doente) e que sonha em ser um comediante de stand-up. Como alguém assim pode virar uma personagem tão maligna, hein?! É essa a pergunta intrigante que Todd Phillips pretende solucionar ao final das duas horas de sessão. Ao invés de ser uma produção recheada de super-heróis, de fantasia e de ação/luta (como é típico dos longas-metragens da Marvel e da D.C., normalmente com um tom profundamente infantojuvenil), “Coringa” traz um drama sensível, uma pegada de realismo adulto e um conflito de natureza psicológica. O mais célebre antagonista do homem morcego é agora colocado no papel de protagonista e sua vida é esmiuçada na frente da plateia. Aí, concluímos que a violência desta personagem é reflexo mais da conduta da própria sociedade, que não foi nada acolhedora com o aspirante a humorista, do que com a essência da personagem. Não é preciso dizer que temos aqui uma visão mais esquerdista do que direitista do problema da criminalidade. Se os Bolsonaro, os Crivella, os Doria e suas trupes assistirem ao filme, na certa vão querer proibir sua exibição. Gostei tanto desse filme que o escolhi, desde já, como meu favorito ao Oscar de 2020. Vou torcer para ele mesmo não sabendo quem serão seus rivais. O problema de Todd Phillips é que as minhas escolhas ao prêmio máximo do cinema norte-americano sempre perdem. Foi assim nos últimos cinco anos. “Bohemian Rhapsody” (2018), “Corra!” (Get Out: 2017), “La La Land: Cantando Estações” (La La Land: 2016), “O Regresso” (The Revenant: 2015), “Whiplash - Em Busca da Perfeição” (Whiplash: 2014) e “Boyhood: Da Infância à Juventude” (Boyhood: 2014) acabaram, no final das contas, preteridos pelos jurados da Academia de Cinema de Los Angeles. Ok, sei que sou pé-frio. O que posso fazer?! Ao menos minhas torcidas para melhor ator e melhor atriz não são tão azaradas assim. Vale lembrar que torci neste ano por Rami Malek e por Olivia Colman. Está pensando o quê? Não tenho uma pedra de gelo nos pés. Sorte de Joaquin Phoenix que teve uma atuação em “Coringa” digna de estatueta (e que ficará com a minha torcida em 2020!). Brincadeiras à parte, “Coringa” pode ser a primeira produção de super-heróis agraciada com o Oscar. O seu segredo: transformar o mundo mágico dos heróis dos quadrinhos em um drama extremamente factual e sensível. Por isso, não se engane com a roupagem desse longa-metragem aparentemente comercial. O filme de Phillips não é para adolescentes nem para os fãs tradicionais dos HQs (que normalmente superlotam as salas de cinema atrás de filmes dessa natureza). Na sessão de ontem, por exemplo, alguns grupinhos de jovens saíram no meio do filme, possivelmente insatisfeitos com o que estavam vendo na telona ou assustados com a violência desmedida da narrativa. Sim, há muita violência nesta produção. É preciso coragem e espírito muito forte para encarar a brutalidade nua e crua de suas cenas. Orçado em aproximadamente US$ 55 milhões, “Coringa” foi roteirizado pelo próprio Todd Phillips, cineasta mais conhecido pela trilogia “Se Beber Não Case” (The Hangover: 2009, 2011 e 2013), e por Scott Silver. Além de Joaquin Phoenix, o elenco tem Robert De Niro, Frances Conroy, Brett Culllen e Zazie Beetz. Apesar do bom trabalho geral, Phoenix é quem rouba a cena desde o início. Até eu que já era fã de seus trabalhos, “O Homem Irracional” (Irrational Man: 2015), “Ela” (Her: 2013) e “Gladiador” (Gladiator: 2000) são espetaculares, preciso reconhecer: agora ele chegou ao ápice da carreira. Juro que não consigo imaginar uma interpretação melhor do que essa. Se outros grandes atores (Cesar Romero, Jack Nicholson e Heath Ledger) já conseguiram deixar sua marca nesta personagem, será difícil olharmos outra vez para o Coringa sem lembrarmos da melancolia assustadora e doentia de Joaquin Phoenix. Gênio! “Coringa” se passa em Gotham City quando Bruce Wayne (Dante Pereira-Olson), que no futuro se transformará em Batman, é ainda uma criança. Paralelamente, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), por sua vez, o futuro Coringa, é um pé-rapado, vítima de piedade por parte dos espectadores. Arthur tem sérios problemas psiquiátricos que o fazem ter longas crises de riso. Sempre que fica nervoso, o protagonista do longa-metragem desata a rir sem parar. Para completar, ele não tem nenhum amigo e precisa cuidar da mãe doente, Penny Fleck (Frances Conroy). Seus sonhos são: ser um humorista famoso, a ponto de frequentar o talk show de Murray Franklin (Robert De Niro), seu ídolo, e conseguir uma namorada. Ele é apaixonado pela vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), que aparentemente não repara em sua existência. Contudo, o único emprego que Arthur Fleck consegue é de palhaço. E nessa profissão, o rapaz sofre violências físicas e emocionais de todos os lados. Ele é espancado na rua por jovens arruaceiros, é alvo de chacota dos colegas e é ameaçado pelo patrão. Em casa, descobre que a mãe sempre mentiu para ele. E até mesmo seu ídolo televisivo irá ridicularizá-lo em rede nacional. Parece que toda a sociedade o odeia. Fleck ainda terá seu atendimento psiquiátrico interrompido (o governo cortou as verbas da saúde pública), sofrerá mais violência nas ruas (ele está sempre se metendo em brigas apesar de seu comportamento pacífico) e será desprezado pelo “pai” que descobriu ter (que também o odeia). Depois de sofrer tanto, uma hora o herói do filme precisava reagir. Arthur Fleck, enfim, contra-ataca. E sua reação vem acompanhada da violência que até então ele guardava escondida dentro de si (provavelmente, ela era acumulada a medida em que ele era atacado). O novo Fleck, apelidado por ele mesmo de Coringa, torna-se um palhaço assassino. Sua frieza e sanguinolência assustam a todos. Inicia-se, assim, uma explosão de violência em Gotham City causada pelo palhaço sorridente. O que faz “Coringa” ser tão sensacional?! Em primeiro lugar, temos um drama profundo e fortíssimo. O novo Arthur Fleck que surge é fruto da violência social de sua cidade e de sua família. Coringa é muito mais produto do meio do que uma construção individual e isolada. Nesse sentido, o anti-herói conquista a simpatia do público, que entende seu radicalismo e sua postura catártica. Isso é o que incomoda mais os críticos do novo filme de Todd Phillips. “Onde já se viu glorificar o serial killer e a violência à sangue frio?”, bradam os inconformados. Para mim, que analiso um longa-metragem a partir da sua construção narrativa e pelo poder de seu conflito, o enredo de “Coringa” é fascinante. As polêmicas sobre a violência desmedida de “Coringa” se parecem muito com as tidas por “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange: 1971) e “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (Pulp Fiction: 1994), clássicos de Stanley Kubrick (baseado no romance homônimo de Anthony Burgess) e Quentin Tarantino, respectivamente. Se o público se assustou com o tipo de violência apresentado por Kubrick e Tarantino lá trás (agora algo corriqueiro), novamente temos aqui uma mudança de patamar. Sempre que há esse upgrade no cinema, a plateia e a crítica se sentem desconfortáveis. Curiosamente, essas três produções são protagonizadas por anti-heróis. A segunda sacada bem-sucedida de Todd Phillips foi tirar todos os elementos fantasiosos da história de Bob Kane, que lhe conferiam um ar extremamente pueril. Até mesmo os fãs mais assíduos das tramas de super-heróis vão concordar comigo: a narrativa na nova perspectiva é muito mais adulta e interessante. O nível de complexidade do conflito ganha uma dimensão muito mais psicológica e ácida. Se você não gosta de filmes de super-heróis (como eu), vá ver “Coringa” sem medo. O mundo criado por Bob Kane serve apenas de contexto para o enredo deste filme. Além disso, não é preciso nenhum conhecimento prévio do universo dos quadrinhos para se situar no drama proposto por Phillips (basta saber que Bruce Wayne é/será o Batman). Outros pontos positivos de “Coringa” são: a mistura de realidade e ficção (descobertas pelo espectador somente na parte final do longa-metragem) é totalmente condizente com o conflito psicológico do protagonista; a risada patológica de um Arthur Fleck magérrimo (Joaquin Phoenix emagreceu 23 quilos) é assustadora e, ao mesmo tempo, triste; a recriação de uma Gotham City suja, anárquica e violenta (bem parecida à criação original da cidade de Batman) nos lembra Nova York dos anos de 1980; o ritmo narrativo do filme é impecável do início ao fim (as duas horas da produção passam rapidinhas, rapidinhas); e a história ainda reserva certa intertextualidade cinematográfica (principalmente quanto aos personagens históricos protagonizados por Robert De Niro). Se Todd Phillips foi o responsável pela produção de um blockbuster recente da comédia (gostemos ou não, a série “Se Beber Não Case” é inovadora dentro do seu gênero), agora o cineasta norte-americano criou um drama digno de Oscar. Se ele vai ganhar a estatueta em fevereiro de 2020 não sei (é mais provável que Joaquin Phoenix leve a sua). O que sei é que este filme merece sim sair com alguns prêmios. Veja, a seguir, o trailer de “Coringa”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Cinemanorteamericano #SuperHeróis #HistóriaemQuadrinhos #Drama #Violência #ToddPhillips #JoaquinPhoenix #BobKane #ScottSilver #RobertDeNiro #FrancesConroy #BrettCulllen #ZazieBeetz

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento

bottom of page